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NÃO PODE FALTAR A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO GEOGRÁFICO Gabriel Pinto de Bairro Imprimir CONVITE AO ESTUDO Nesta primeira unidade de ensino, falaremos sobre os aspectos gerais do conhecimento geográ�co. Exploraremos como, historicamente, deu-se a construção do conhecimento geográ�co, as relações do homem (enquanto sociedade em geral) com o meio físico e como podemos pensar o Espaço Geográ�co no qual estamos inseridos, entendendo sua importância enquanto o objeto da Geogra�a. Todos os dias, realizamos nossas atividades circunscritos em uma realidade espacial, independentemente de sua escala. Se nosso objeto de estudo geográ�co é o espaço geográ�co – diferente do espaço da Física, por exemplo – precisamos compreender de que forma nossas interferências são produzidas e como produzem determinantes em nosso planeta, os quais in�uenciam diretamente nossa vida cotidiana. Se nossas relações produzem espaço geográ�co, torna-se necessário entender como podemos praticar ações que visem à sustentabilidade no planeta. 0 V e r a n o ta çõ e s Na sociedade em que vivemos atualmente, recebemos muitas informações, e todas elas apresentam um grau de di�culdade maior ou menor para a identi�cação dos processos de transformação do espaço geográ�co. Mas, como percebemos no ambiente em que estamos inseridos, existem diferenças entre os espaços geográ�cos produzidos. Por exemplo, uma cidade como São Paulo é diferente de uma cidade localizada no interior do Brasil, da mesma forma que também é diferente de uma metrópole como Nova Iorque. Isso se dá porque existem processos desiguais de construção espacial e contradições contidas em sua formação enquanto megacidades, pensando a primeira e a última. Desse modo, para pensar em sustentabilidade, é necessário entendermos como chegamos até aqui explorando o meio físico e os seus recursos, as relações que a Geogra�a possui com as Ciências Naturais e de que modo classi�camos os fenômenos espaciais e de construção do espaço geográ�co. Caminhemos juntos! PRATICAR PARA APRENDER Para que pudéssemos chegar a este ponto da história, nossa sociedade teve de se desenvolver de modo a se adaptar ao ambiente que a rodeava. Nesse primeiro momento, o meio físico era o que condicionava – ou seja, apresentava condições quase como leis – a sobrevivência do ser humano. Se observarmos o nosso redor, podemos perceber, nas mínimas coisas – desde o vestuário até a rua que passa em frente à nossa casa –, que o desenvolvimento das atividades humanas proporcionou um domínio sobre esse meio físico. Tal domínio prescinde de conhecimentos geográ�cos para localização no espaço geográ�co produzido pelos seres humanos, mas sempre esteve muito próximo e alinhado às Ciências Naturais. Os conhecimentos produzidos e desenvolvidos pela humanidade também 0 V e r a n o ta çõ e s são importantes atualmente para o desenvolvimento social e econômico. Se observarmos atentamente, é apenas a partir da mobilização de todos os conhecimentos construídos historicamente – incluídos aí os conhecimentos geográ�cos – que conseguiremos analisar e entender de que modo as tecnologias foram importantes para a apropriação do meio físico. Se nos atentarmos bem, notaremos que é do próprio meio físico – o qual nos fornece todos os recursos naturais de que precisamos para sobreviver – que desabrocha o desenvolvimento dessas técnicas e tecnologias. A Geogra�a contribuiu e ainda contribui muito para tal desenvolvimento, especialmente nas questões de localização espacial e de análises da construção do espaço geográ�co. Assim sendo, é muito importante que possamos estudar e analisar, através da Geogra�a, como se desenvolveu o conhecimento humano sobre as coisas e sobre o meio físico, paulatinamente apropriado e, além disso, transformado por nós. A questão da sobrevivência, antes determinada pelo meio físico, agora passa a ser determinada pelo ser humano, o qual produz as suas próprias condições de sobrevivência, explorando o meio que o rodeia. A �nalidade de nosso estudo nesta seção é entender como se desenvolveu a Geogra�a nos primórdios para percebermos que tudo ao nosso redor precisa dela para ser explicado em maior ou menor escala. E você pode observar em sua casa muitos dos itens que possibilitaram à sociedade contemporânea chegar aonde chegou. Um exemplo prático está numa simples lâmpada que você utiliza para ler este livro. Por trás de um interruptor que a acende e a apaga, está uma cadeia de conhecimentos sobre o espaço produzido pelo ser humano, os quais possibilitam a estruturação de uma rede de energia elétrica para proporcionar que, com um toque, “façamos a luz”! O ESPAÇO GEOGRÁFICO 0 V e r a n o ta çõ e s Imagine que você está conversando com um professor de Física, e ele diz que o espaço é o que de�ne a posição de um objeto em um determinado instante. Ele ainda complementa expondo que o espaço também é o espaço sideral, o qual considera o espaço das estrelas e de outros astros para além do planeta Terra. Porém, já sabemos que o desenrolar da história humana nos mostra que, para a Geogra�a, o espaço é algo construído por sociedades ao longo do tempo. Como podemos diferenciar, então, os dois espaços? Existe alguma aproximação entre o espaço da Geogra�a e as de�nições espaciais propostas por outras ciências? Qual o ponto de partida do espaço geográ�co? Pois bem, é para isso que precisamos saber as diferentes de�nições de espaço, e entender o que é o espaço geográ�co. Espaço geográ�co é o objeto de estudo especí�co da Geogra�a. É através dele que identi�camos as interfaces da sociedade humana com o meio físico e é ele que nos aproxima das Ciências Naturais, na medida em que, historicamente, foi preciso criar categorias e conceitos que pudessem dar conta das possibilidades de conexão entre as áreas. O espaço geográ�co de�ne-se, em linhas gerais, como o espaço apropriado e produzido pelo ser humano, resultado das suas interações com a natureza, que foi modi�cada de acordo com os seus interesses. Ou seja: o espaço é considerado como um produto de apropriação e de construção humana (constructo social) e não apenas um ponto no Universo. Para além de identi�car o lugar que um determinado objeto ocupa, o espaço geográ�co se preocupa com a historicidade deste objeto, observando onde e como ele foi produzido e modi�cado através do tempo. As transformações possíveis da sociedade humana (desde a agricultura até a invenção tecnológica e seu aprimoramento característico pelas sociedades modernas ao longo dos séculos) foram o que produziu, 0 V e r a n o ta çõ e s produz e produzirá aquilo que chamamos de espaço geográ�co. É por isso que não podemos partir de um espaço que apenas localize corpos, mas que entenda como esse espaço se modi�cou e foi produzido para comportar determinado corpo. Essa é uma diferença primordial entre o espaço geográ�co e o espaço da Física, por exemplo. Com isso, você poderá a�rmar que o espaço geográ�co pode analisar, além dos corpos e de suas localizações, a história de tudo aquilo que foi produzido pela humanidade. Isso não signi�ca que o espaço da Física esteja “errado” ou que ele não possa interpretar a realidade; mas é por causa da preocupação da Geogra�a em analisar o planeta Terra e suas questões relativas à modi�cação do meio físico e do social que pudemos nos diferenciar enquanto área do conhecimento cientí�co. E é por isso que, ao mesmo tempo, precisamos nos atentar às interfaces possíveis entre a Geogra�a e as Ciências Naturais, pois é através do conhecimento do meio físico que podemos observar e analisar as transformações históricas no espaço – para além de uma mera localização de pontos espaciais. Dito isso, podemos adiantar que uma possível solução para essa situação- problema é encontrar um meio termo entre as duas de�nições: a ideia de espaço geográ�co não exclui a localização de pontos no espaço, nem a extensão de fenômenos espaciais, tampoucoa observação e a orientação através de astros siderais. O espaço geográ�co agrega à de�nição de espaço da Física uma dimensão social. Por sua vez, a dimensão do meio físico acaba sendo um ponto de intersecção para o trabalho com o professor de Física, pois seria possível, em conjunto, por exemplo, encontrar a interdisciplinaridade através da extensão de uma chuva de granizo no espaço e suas implicações para a agricultura. O espaço geográ�co complementa as ações do espaço físico e, sem este, não pode existir. Mais uma demonstração da interdependência entre a Geogra�a e 0 V e r a n o ta çõ e s as Ciências Naturais. Espero que tenhamos sucesso em nossa caminhada nesta primeira seção do livro didático. Bons estudos e bom trabalho! CONCEITO-CHAVE Você sabia que é a partir do desenvolvimento da agricultura e da domesticação dos animais que o ser humano pôde se �xar em um determinado território para desenvolver suas atividades de subsistência? E que isso permitiu o desenvolvimento das técnicas e, posteriormente, o início das ciências, dentre elas, a Geogra�a? Nesta seção, falaremos sobre as importantes relações entre o ser humano e os fenômenos do meio físico, bem como os principais aspectos que possibilitaram não somente sua �xação em um determinado local, mas também o domínio sobre o meio físico que tornou possível nossa sobrevivência e nossa dominância sobre a natureza. Enquanto nômades, nossos hábitos estavam ligados à itinerância, ou seja, em a não nos �xarmos em determinados locais para constituir grandes grupos humanos. Isso fez com que as primeiras sociedades humanas estivessem mais ligadas a grupos menores de caçadores e de coletores. A agricultura, desenvolvida junto aos deltas férteis dos grandes rios e em locais adequados ao cultivo e ao manejo dessas terras férteis, proporcionaram um salto quantitativo populacional, bem como um avanço extremamente importante para a qualidade de vida humana: o aprimoramento das técnicas e das tecnologias para auxiliarem seu trabalho e sua sobrevivência. Para que isso tudo fosse possível, o homem precisou, em um primeiro momento, observar (e muito) a natureza que o rodeava. Entender o comportamento de uma determinada presa era importante, mas também foi importante saber como atacar e como conservar os alimentos obtidos. Importante também era compreender que determinadas condições eram 0 V e r a n o ta çõ e s mais favoráveis ao crescimento de certas plantas, as quais proporcionavam uma condição mais propícia ao desenvolvimento das sociedades humanas. Com isso, a partir da observação, o homem percebeu que poderia dominar a natureza se consolidasse conhecimentos a respeito dela. Os conhecimentos geográ�cos primordiais, nesse primeiro caminhar de nossa história, foram a localização e a orientação, que, em linhas gerais, deram-nos as bases para a consolidação social humana. As técnicas de localização e de orientação estiveram muito articuladas com o alto desenvolvimento de conhecimentos acumulados sobre o funcionamento do meio físico, o que coloca a Geogra�a lado a lado com o conhecimento das Ciências Naturais e da natureza como um todo. Vamos conhecer juntos um pouco mais sobre a história de nosso desenvolvimento social. OS FENÔMENOS DO MEIO FÍSICO E A SOBREVIVÊNCIA O começo de nossa discussão diz respeito aos primórdios da humanidade no planeta Terra, mais precisamente quando o ser humano inicia sua prática de �xação espacial (a qual é contrária ao nomadismo, prática itinerante humana) e a domesticação de animais, conjuntamente com a domesticação de plantas. Isso historicamente nos coloca por volta do ano 5000 a.C. quando passamos do período Paleolítico, também conhecido como Idade da Pedra Lascada, para o Neolítico, ou Idade da Pedra Polida, de modo que, já nas diferenças de nomenclatura, podemos inferir sobre o uso de novas técnicas humanas. Foi neste segundo período que a prática da agricultura se consolidou, tornando possível a �xação de grupos humanos em terras propícias ao desenvolvimento de culturas especialmente às margens de grandes rios. Como exemplos, temos o Rio 0 V e r a n o ta çõ e s Nilo e o Rio Amarelo (localizados na África e na Ásia, respectivamente), locais nos quais desenvolveram-se grandes sociedades e povos com vida sedentarizada – ao contrário da prática nômade de alguns povos. VOCABULÁRIO “Cultura”: do latim cultivare, aquilo que é cultivado em cada local, por cada povo, em cada tempo. Figura 1.1 | Representação da agricultura na sociedade egípcia Fonte: Shutterstock. O avanço histórico permitiu que os grupos humanos pudessem praticar a agricultura através de processos técnicos, que se tornaram so�sticados com o passar dos séculos. Esses processos tornaram o modo de vida humano paulatinamente mais sedentário, e o aumento da produção de alimentos a partir dessas técnicas fez surgir grandes sociedades em torno de terras férteis. Quanto mais o tempo avançava, mais as técnicas agrícolas se desenvolviam e ainda continuam se desenvolvendo na contemporaneidade. A história da humanidade, desse modo, está diretamente articulada com a observação dos fenômenos do meio físico que possibilitaram a 0 V e r a n o ta çõ e s sobrevivência humana. Sejam povos itinerantes, sejam sedentários, sua sobrevivência está diretamente atrelada ao domínio dos conhecimentos sobre o meio físico bem como ao entendimento dos fenômenos atribuídos às forças da natureza, através dos quais pode-se ter, minimamente, o controle do processo de construção de sua subsistência. É possível observar que a sedentarização ocorre a partir do entendimento dos fenômenos naturais aprendidos através, especialmente, da observação dos regimes de água dos grandes rios, por exemplo, em se tratando de agricultura. Vale lembrar, entretanto, que tal observação também é anterior à própria agricultura. O que faltava era o pontapé inicial para o surgimento de grandes aglomerados populacionais. REFLITA A história da humanidade se mistura com a história da agricultura. O desenvolvimento dos grupos humanos e dos conhecimentos sistematizados – que mais tarde formariam as ciências – foram possíveis graças à segurança alimentar iniciada com a �xação de grandes grupos humanos em torno das grandes parcelas de terra fértil. O domínio das técnicas de agricultura proporcionou o aumento populacional, e, com este, desenvolveram-se todas as atividades humanas, desde as mais simples até as mais complexas. A vida humana sedentária, diferentemente da nômade, garantiu segurança para o desenvolvimento da humanidade, assegurando sua sobrevivência e a dominância sobre o meio físico. LOCALIZAÇÃO E ORIENTAÇÃO 0 V e r a n o ta çõ e s O nomadismo humano precisava de um conhecimento que desse suporte à sua sobrevivência, que estabelecesse saberes rudimentares através da observação dos fenômenos naturais para orientar sua prática de vida. A rotina humana marcada, como vimos inicialmente, pelo domínio da natureza através da agricultura e da domesticação de animais propiciou a sedentarização do ser humano, e proporcionou a divisão social em trabalhadores produtores e não produtores diretos do meio de subsistência. A partir disso, com o passar dos séculos, a sociedade pôde criar um arcabouço teórico inicial sobre dois pressupostos básicos para a ciência geográ�ca: a localização e a orientação. A localização permitiu, não somente em tempos mais antigos, o reconhecimento dos territórios sobre os quais os homens poderiam plantar e caçar – garantindo, consequentemente, sua subsistência –, mas também posteriormente possibilitou o início de uma observação do sistema solar – o que ampliou os horizontes do conhecimento humano. É a localização que permite à humanidade o estabelecimento e o reconhecimento de si no mundo, determinando sua prática ao longo da história. Com o avançar das técnicas e com o consequente desenvolvimento de tecnologias rudimentares, ela permitiuo desenvolvimento de um sistema de coordenadas para localizar os pontos especí�cos no espaço. Tais horizontes ampliaram-se pela orientação, dada a partir da localização espacial de um determinado grupo social no mundo a partir de elementos que não necessariamente localizem-se no ambiente terrestre. Essa orientação tem como referência o local onde esses grupos sociais desenvolvem suas atividades. Na tentativa de relacionar sua posição à de outros lugares próximos de si, a orientação possibilitou sua expansão e consecutivo crescimento populacional. Além disso, ela se tornou extremamente útil ao ser humano quando da sua territorialização, 0 V e r a n o ta çõ e s pois o permitia realizar constructos sociais em torno de localizações no céu, utilizadas até hoje nas mais diversas atividades de aeronavegação, por exemplo. O produto de orientação mais utilizado é a rosa dos ventos, que permite ter o posicionamento de um determinado grupo social perante o espaço que a rodeia. Figura 1.2 | Bússola com os principais pontos cardeais e colaterais Fonte: Shutterstock. Figura 1.3 | Representação da constelação “Crux” conhecida como Cruzeiro do Sul Fonte: Shutterstock. 0 V e r a n o ta çõ e s Figura 1.4 | Pintura rupestre de caça, um dos principais usos da orientação pelos neandertais Fonte: Shutterstock. Figura 1.5 | Pintura rupestre análoga a um mapa do lugar habitado Fonte: Wikimedia Commons. 0 V e r a n o ta çõ e s Ambos articulados, localização e orientação, começam a tornar possíveis os processos de geolocalização no planeta Terra e dos seus povos. É o nascimento (ainda muito lento) daquilo que, séculos mais tarde, viria a se consolidar como uma das ciências mais importantes para o desenvolvimento humano: a Geogra�a. A EXPLORAÇÃO DO MEIO E A QUESTÃO DA SOBREVIVÊNCIA Para poder sobreviver, o ser humano precisou explorar o meio físico, o que ele somente pode fazer através do desenvolvimento técnico e de ferramentas para utilização tanto na caça como no plantio e no manejo de terras. Tais ferramentas signi�caram um salto qualitativo na evolução humana porque, além de possibilitarem um menor tempo de trabalho, também aumentaram a produtividade do ser humano. As “extensões ao corpo humano”, possibilitadas pelas ferramentas, �zeram com que as atividades de sobrevivência fossem aperfeiçoadas, inclusive aquelas não ligadas diretamente à produção de alimentos, mas à segurança desses grupos produtores. Podemos observar que a exploração do meio foi o que possibilitou nossa �xação em ambientes cada vez mais remotos e inóspitos. Tal exploração do meio está diretamente articulada à incorporação e ao desenvolvimento de técnicas diversas para a expansão dos horizontes geográ�cos humanos. Exemplos que podemos citar, a partir das técnicas agrícolas, são o arado de tração humana e animal, a enxada e, mais recentemente, as tecnologias de adaptação de sementes para plantios em regiões cada vez mais desa�adoras para a sobrevivência. O ser humano explora o meio a partir de suas próprias necessidades, as quais também extrapolam as demandas biofísicas (alimentares, por exemplo) e acabam tornando-se sociais. A exploração do meio coloca povos e culturas diferentes em interface e iminência de disputa territorial. Nesse sentido, os con�itos seculares dos povos antigos também foram 0 V e r a n o ta çõ e s fatores de adaptação e expansão de técnicas de sobrevivência e de exploração do meio físico que se apresentavam aos diferentes grupos humanos da Antiguidade. EXEMPLIFICANDO O desenvolvimento das tecnologias proporcionou um avanço nas comunicações entre as populações, o que expandiu os horizontes de ocupação humana nos mais vastos continentes. Podemos citar aqui o caso dos inuítes, pessoas que vivem nas terras gélidas do Círculo Polar Ártico, onde as temperaturas chegam a -70ºC no inverno. CONHECIMENTOS GEOGRÁFICOS E AS CIÊNCIAS NATURAIS Tendo em vista todo o processo de constituição da humanidade e de como os conhecimentos geográ�cos atravessam o tempo e acompanham o desenvolvimento do homem, é nítida a relação entre a Geogra�a e as Ciências Naturais. Desde os primórdios da humanidade, podemos observar a constituição de conhecimentos particularmente ligados à Terra. Retomando o período de desenvolvimento da agricultura e da �xação de grandes grupos humanos nos vales férteis dos rios, os conhecimentos sobre os ciclos de chuvas, bem como sobre o plantio e sobre as técnicas para cultivo e manejo de solos, e o reconhecimento do calendário lunar como especi�cidade cíclica de algumas das plantas domesticadas colocam em relação direta as Ciências Naturais e a Geogra�a, pois o desenvolvimento das primeiras também favoreceu a construção do conhecimento geográ�co e espacial. Os próprios con�itos humanos para expansão territorial não eram apenas rivalidades constituídas entre povos, mas eram também a necessidade de sua expansão sobre o meio físico. Tendo isso em vista, pode-se dizer que a adaptação da vida humana só se tornou possível a partir do entendimento das regras naturais que se apresentavam aos povos 0 V e r a n o ta çõ e s antigos, regras estas que foram sistematizadas pelas ciências irmãs da Geogra�a, mas que servem ao conhecimento geográ�co. Ora, de que adiantaria sabermos muito dos conceitos geográ�cos se não compreendermos o ciclo da água na natureza, tão importante para a Biologia e para a Ecologia? Do mesmo modo, os conhecimentos das Ciências Naturais estão na Geogra�a e in�uenciam o desenvolvimento desta enquanto ciência. A Geogra�a recorrentemente é tida como “a mais natural das Ciências Humanas” justamente por dar conta de explicar as interfaces do ser humano e do seu desenvolvimento social com os limites e as possibilidades que o meio físico lhe apresenta. De acordo com a necessidade humana, a Geogra�a foi se aproximando de outras áreas do conhecimento e adentrando-as, tanto para o conhecimento das potencialidades e dos recursos naturais como para o planejamento da ocupação e da apropriação (e exploração) do meio físico. A Geogra�a é irmã das Ciências Naturais porque possibilita a articulação de um pensamento amplo sobre a natureza e o meio que nos circunda. Atuando como uma ponte entre as Ciências Naturais e Ciências Humanas, a Geogra�a permite uma re�exão totalizante sobre nosso planeta, articulando aspectos desenvolvidos pelas Ciências Naturais com o que de melhor há nas Ciências Humanas. FOCO NA BNCC O desenvolvimento de competências da BNCC tanto para o ensino fundamental como para o ensino médio pressupõe a inter-relação entre áreas do conhecimento. Podemos citar dois exemplos entre a relação da Geogra�a e das Ciências Naturais contidas no documento da BNCC do ensino fundamental: 0 V e r a n o ta çõ e s Nesta seção, conhecemos um pouco mais sobre as relações da Geogra�a com as Ciências Naturais e vimos que nossa sociedade, ao longo do seu desenvolvimento, apropriou-se do meio físico enquanto desenvolveu técnicas para sua própria sobrevivência, que posteriormente foram sistematizadas nas diferentes áreas do conhecimento cientí�co – dentre elas a Geogra�a. A localização e a orientação, dessa forma, são dois dos principais conteúdos que precisamos ter em mente para iniciar nossa caminhada pela Geogra�a. É deles que se parte, são eles que nos acompanharão – em maior ou menor medida – sempre. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versa o�nal_site.pdf. Acesso em: 3 nov. 2021. KATUTA, A. M. O ensino e aprendizagem das noções, habilidades e conceitos de orientação e localização geográ�cas: algumas re�exões. Geogra�a, Londrina, v. 9, n. 1, p. 5-24, jan./jun. 2000. PEREIRA, R. da S. Geogra�a: contribuições para o ensino e para a aprendizagem da geogra�a escolar. São Paulo: Blucher, 2018. p. 19-29.E- book. SANTOS, M. A natureza do espaço. São Paulo: EDUSP, 2002. SOUSA, R. Geogra�a. Brasil Escola, [S. l., s. d.]. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/geogra�a. Acesso em: 8 mar. 2021. (EF03GE04) Explicar como os processos naturais e históricos atuam na produção e na mudança das paisagens naturais e antrópicas nos seus lugares de vivência, comparando-os a outros lugares” — BRASIL, 2018, p. 375“ (EF05GE03) Identi�car as formas e funções das cidades e analisar as mudanças sociais, econômicas e ambientais provocadas pelo seu crescimento” — BRASIL, 2018, p. 379).“ 0 V e r a n o ta çõ e s http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf https://brasilescola.uol.com.br/geografia 0 V e r a n o ta çõ e s NÃO PODE FALTAR AS RELAÇÕES HOMEM – MEIO FÍSICO Gabriel Pinto de Bairro Imprimir PRATICAR PARA APRENDER Olá, estudante! Como vimos na seção anterior, dadas as condições do avanço da história humana, o desenvolvimento das ciências tornou-se imprescindível para o progresso da sociedade. Novas formas de estruturar o debate entre as áreas do conhecimento �zeram com que todas elas pudessem estar dispostas a buscar pontos de aproximação entre si. Tudo em prol do avanço da sociedade humana sobre o meio físico. Pode-se dizer que a apropriação do meio físico não estava mais somente relacionada à questão da sobrevivência humana, como a centralidade tida pela agricultura e a domesticação de animais nos períodos anteriores da história humana, mas está, neste momento, também mais relacionada ao estabelecimento dessas sociedades que paulatinamente desenvolveram outras atividades para além daquelas que possibilitaram sua existência, sendo que tais transformações são perceptíveis até hoje. Dessa maneira, torna-se importante tratar das formas como o meio físico foi transformado pelos seres humanos e de que modo a exploração dos 0 V e r a n o ta çõ e s recursos naturais proporcionou a evolução das sociedades até a atualidade. Essas transformações passaram por diferentes estágios da humanidade e aprofundaram o desenvolvimento técnico e cientí�co de nossa sociedade. Tal exploração, evidentemente, causa impactos, os quais muitas vezes são conhecidos como a marca humana no planeta e os quais são, justamente, as consequências do desenvolvimento técnico e tecnológico humano ao longo do tempo. Por isso, eles devem sempre ser levados em consideração quando se analisam as transformações no meio físico e a exploração de recursos naturais. Por �m, chegamos àquilo que é o foco desta seção: os problemas ambientais e a exploração do meio. Todos sabemos que existem problemas relacionados à forma como nos relacionamos com o meio físico e o que essas relações ocasionam. Frequentemente ouvimos, nas ruas, nos meios de comunicação e até mesmo nas nossas conversas familiares, as constatações de que o avanço de nossa sociedade na história tem como principal marca os problemas que geramos no meio ambiente. Aqui, podemos citar não somente problemas típicos das cidades (como a poluição sonora e visual, por exemplo), mas também problemas relacionados às áreas rurais, como o desmatamento, a poluição e o assoreamento dos rios. Partilhemos nossos conhecimentos sobre esses temas para que possamos começar a entender as transformações no espaço realizadas pelos seres humanos e de que forma a Geogra�a pode nos auxiliar a entender todas essas características do espaço geográ�co. Ele, que está em constante transformação, ajuda-nos a analisar as marcas de nossa forma de vida no planeta Terra e de que modo podemos frear os impactos que causamos nele. Ainda que a Geogra�a seja a ciência que observa a constituição do espaço geográ�co, existem muitas outras categorias que surgem dentro dessa ciência e que nos auxiliam a interpretar esse tipo diferenciado de espaço 0 V e r a n o ta çõ e s que vimos anteriormente. Você já se imaginou em uma sala de aula tendo que explicar o que é paisagem para os alunos que estão no início de sua constituição enquanto estudantes de Geogra�a? Como conversar e elaborar em conjunto com os estudantes uma categoria tão profunda e importante para nossa área cientí�ca? Os caminhos e as entradas possíveis para abordar esse tópico são diversos, dada a natureza da prática educativa e as intencionalidades dos exercícios propostos pelo professor – assim como sua metodologia de ensino e a forma como isso in�uencia em sua prática. Desse modo, existe uma profusão de jogos, atividades, brincadeiras, simulações, diálogos, en�m, tudo de que podemos lançar mão em sala de aula para conseguir explicar e construir juntamente com nossos estudantes o conceito de paisagem. Porém, somente através de um bom planejamento prévio das atividades de aula e da organização conceitual – com o conhecimento adequado da área geográ�ca – é que podemos passar adiante as principais ideias sobre o que é paisagem. Paisagem é a composição dos elementos naturais e humanos no espaço, os quais nos tocam através de nossos sentidos e que se inter-relacionam no espaço geográ�co. A paisagem conta uma história, que é identi�cada no espaço através de diferentes elementos, como as construções humanas, antigas ou novas, ou elementos naturais que resistem e perduram em um determinado local a ser observado. É importante aqui atentar para as interfaces com outras áreas da ciência, pois a paisagem não é um conceito que aparece sozinho e que pode ser resolvido somente pela Geogra�a: ela envolve questões ambientais e biológicas, físico-químicas, sociais, políticas, entre outras. Existe uma série de exercícios que possibilitam o trabalho dos elementos da paisagem – sejam eles naturais, sejam culturais/humanos – em sala de 0 V e r a n o ta çõ e s aula, sendo eles uma das atividades que mais aproximam os estudantes do ensino fundamental da disciplina de Geogra�a na escola. Dessa forma, é importante, como asseveramos anteriormente, o domínio das categorias e dos conceitos da Geogra�a por parte dos professores, tendo em vista que somente a partir disso que se podem trabalhar aspectos como a paisagem e os elementos que a compõem. Bons estudos! O conhecimento geográ�co possibilita o entendimento de nossa sociedade! CONCEITO-CHAVE Todos os dias somos inundados com uma quantidade imensa de informações a respeito dos problemas do meio ambiente, mas são raras as vezes em que pensamos profundamente a respeito da origem desses problemas, sempre �cando mais atentos a tentar encontrar modos não que expliquem, mas que solucionem, na prática, tais falhas em nossa capacidade de nos apropriarmos do meio físico. Com isso, algumas questões surgem, em princípio, a respeito da relação da Geogra�a com outras áreas da ciência para além das Ciências Naturais. Você já se perguntou quais são as possíveis interfaces entre a Geogra�a e as outras ciências que compõem aquilo que chamamos de Ciências Humanas? E de que forma a Geogra�a se relaciona com elas? E sobre os problemas ambientais, já passou pela sua mente como as técnicas e as tecnologias auxiliaram no aprofundamento de nossa capacidade de exploração do meio físico? E, além disso, por que explorar o meio físico para além de nossa necessidade de sobrevivência? Vamos investigar essas veredas do conhecimento geográ�co? O CARÁTER RELACIONAL DA GEOGRAFIA 0 V e r a n o ta çõ e s Como vimos anteriormente, a Geogra�a tem relações com outras ciências da natureza, as quais não se limitam à análise ou ao intercâmbio entre conhecimentos com determinada área, mas demonstram a capacidade que o conhecimento geográ�co possui de ser uma “disciplina coringa” – e claramente interdisciplinar – em nosso trabalho escolar e social cotidiano. A Geogra�a apresenta essa característica por conseguir trabalhar articuladamente os conhecimentos cientí�cos de sua área com outras esferas do conhecimento. Isso �ca explícito, como vimos anteriormente, se observamos as relaçõesentre nossos estudos e os das Ciências Naturais, como a Física – importante para entendermos, por exemplo, os processos de localização e de orientação espacial – , a Química – no que tange às questões dos ciclos d’água – e da Biologia, ciência que permeia as análises geográ�cas quando levamos em conta as relações dos seres humanos com toda a vida em nosso planeta, seja ela advinda da fauna, seja da �ora do meio físico. É importante destacarmos, nesse sentido, a estreita relação com outras disciplinas cientí�cas e que também estão na escola, por exemplo a relação da Geogra�a com as disciplinas de Ciências Humanas, como História, Sociologia e Filoso�a. A relação entre Geogra�a e História se dá, em linhas gerais, para que possamos traçar um caminho o qual a sociedade atravessou em seu desenvolvimento especí�co ao longo dos anos. É através das relações estabelecidas no decorrer da história que conseguimos demarcar, pela Geogra�a, as mudanças geradas nas paisagens pelo uso e pela ocupação do meio físico pelo ser humano. A História é, assim, uma das Ciências Humanas que mais se relaciona com a Geogra�a por permitir associar as mudanças no espaço com o avanço do tempo histórico. Já a relação com a Sociologia se dá no seio da transformação social possibilitada pelo adensamento das sociedades humanas. A observação das relações entre os seres humanos permite veri�car aspectos como o 0 V e r a n o ta çõ e s desenvolvimento da política, das leis, das relações entre as classes sociais dentro de diferentes sociedades, por exemplo. A Sociologia empresta à Geogra�a suas categorias de análise (tais como gênero, personalidade, desenvolvimento social, etc.), possibilitando à Geogra�a as análises sobre a sociedade em si e como se podem pensar os diferentes desenvolvimentos humanos em espaços diferentes, a partir de suas leis, costumes próprios, cultura, entre outros. Não menos importante é a relação entre Geogra�a e Filoso�a. Sendo esta a base da construção do conhecimento humano e da constituição desse conhecimento, a Filoso�a permitiu o desenvolvimento das ciências dentro das sociedades. A Filoso�a é importante para a Geogra�a não somente na sua constituição enquanto ciência, mas também no que diz respeito à ação enquanto uma “ciência do conhecimento”, permitindo, através de categorias como a ética e a moral, o reconhecimento de sociedades antigas e contemporâneas e as formas como elas marcam o desenvolvimento social humano. REFLITA Sabemos que a Filoso�a começa a ser praticada na Grécia Antiga. Muitos pensadores que conhecemos hoje, tais como Aristóteles, Sócrates e Hipócrates, puderam elaborar seus trabalhos – assim como outros escritores e pensadores da Antiguidade – por pertencerem a classes sociais não subalternas. Desse modo, os pensadores gregos pertenciam à casta dos cidadãos, isto é, eram os que tinham acesso à polis grega, e não precisavam, dessa forma, trabalhar para cultivar seus alimentos, já que os escravos o faziam. Nesse sentido, sempre é importante re�etirmos o papel das divisões sociais do trabalho (o que pode ser obtido através da Sociologia, por exemplo) para entendermos como se dispunham geogra�camente as sociedades ao longo dos anos. 0 V e r a n o ta çõ e s Dito isso, agora podemos compreender o caráter relacional da Geogra�a, o qual pode ser de�nido como a capacidade que essa esfera do conhecimento tem de relacionar diferentes conceitos de sua área com aqueles desenvolvidos em outras áreas das ciências, sejam elas Naturais ou Humanas. Esse caráter relacional está estritamente conectado à proposta da ciência geográ�ca em analisar e compreender como as relações humanas se dão com o meio físico, observando de que modo, historicamente, os seres humanos se apropriam dele e como ele – o meio físico – também determina as ações humanas. Conforme vimos anteriormente, as condições que o meio físico apresentou para a história humana foram fundamentais para a localização e para a permanência humana nos crescentes férteis, o que, consequentemente, possibilitou o desenvolvimento social humano através da agricultura e de todas as outras esferas sociais que foram possíveis a partir da garantia da sobrevivência. A APROPRIAÇÃO DO MEIO FÍSICO Com o decorrer da história humana, a elaboração das técnicas, não somente na agricultura – como vimos – mas também em outras áreas do conhecimento, que puderam avançar devido à própria trajetória de desenvolvimento social, permitiu ao ser humano paulatinamente ampliar seu patamar e seu raio de ação no mundo. As tecnologias, imprescindíveis para o desenvolvimento social, são fruto do trabalho humano materializado nas ferramentas desenvolvidas ao longo da história. Essas ferramentas foram produzidas com o intuito de ampliar a apropriação do meio físico, como forma de organização e expansão dos seres humanos no planeta. Figura 1.6 | Roda produzida pelos humanos na Antiguidade 0 V e r a n o ta çõ e s Fonte: Shutterstock. Figura 1.7 | O uso de tecnologias remotas na sociedade contemporânea Fonte: Shutterstock. Como podemos perceber a partir da Figura 1.6 e da Figura 1.7, a evolução das tecnologias e de suas aplicações, desde a primeira roda até os dispositivos que nos conectam à internet, contém em si um emaranhado de técnicas e de tecnologias que nos permitem diferenciar as épocas e as transformações no espaço geográ�co entre si. 0 V e r a n o ta çõ e s ASSIMILE Técnica: conjunto de ações e de normas que guiam a produção de dispositivos, permitindo a apropriação do espaço pelo ser humano. Tecnologia: resultado do desenvolvimento das técnicas que, se forem articuladas em determinadas condições e espaços geográ�cos, possibilitam o entendimento da evolução da história humana. Ambos os conceitos pressupõem o entendimento de uma categoria essencial para o entendimento do ser humano, que é o trabalho, ou seja, a ação humana no planeta. Ao longo da história da humanidade, a apropriação do meio físico foi realizada de diferentes maneiras. Desde a agricultura, com suas técnicas – as quais se desenvolvem até hoje –, passando por diferentes etapas de construção de casas e suas tecnologias e pela organização do espaço local e mundial – o que gerou, em períodos posteriores, a organização por nações e países –, todas as ações humanas prescindem, em maior ou menor grau, do uso de técnicas e de tecnologias para apropriação do meio físico. Seja no desenvolvimento de computadores de alta performance, seja no uso de um telefone �xo com �o (tecnologia que pode ser considerada obsoleta nas últimas décadas devido ao surgimento dos aparelhos celulares e pela recente popularização de smartphones), todo desenvolvimento tecnológico prescinde de uma apropriação do meio físico, como já sabemos. Essa apropriação pode ser realizada de vários modos, mas o que temos de ter sempre em mente é que uma exploração necessita da transformação imediata de alguma matéria ou de algum elemento em algo que tenha sentido (ou propósito) e signi�cado para o ser humano, em um determinado momento de sua história. Dessa forma, a apropriação do meio físico é o que impulsiona, através do 0 V e r a n o ta çõ e s uso de técnicas e do emprego de tecnologias, a expansão do ser humano sobre o planeta, criando novos e transformando antigos espaços de ocupação de acordo com sua necessidade contemporânea. É possível veri�car, através de testemunhos espaciais, tempos anteriores da humanidade – dada a natureza, em algumas sociedades, de preservação de seu patrimônio histórico. EXEMPLIFICANDO Podemos observar os caminhos da apropriação do meio físico ao veri�carmos os centros das cidades brasileiras. Um bom exemplo é o centro antigo da cidade de São Paulo, que preserva, em seus prédios históricos, as marcas de tempos anteriores através de seus �xos espaciais. Outro exemplo possível, para além das áreas urbanas, são os monumentos de Stonehenge, na Inglaterra, ou asPirâmides do Egito, que demonstram as formas espaciais consolidadas através dos tempos, dando testemunho da expansão humana de civilizações anteriores. Esses espaços reservam ao olhar atento da Geogra�a uma importante fonte de pesquisa e de trabalho com os estudantes, observando as inter-relações entre as diferentes disciplinas escolares. TRANSFORMAÇÕES DO MEIO E A EXPLORAÇÃO DOS RECURSOS A partir do desenvolvimento de diversas técnicas e tecnologias, adentramos o que tange às transformações realizadas no meio pelo ser humano. Tais transformações acabam se aprofundando no século XVII, por exemplo, com a Primeira Revolução Industrial, a qual é considerada um salto qualitativo na história da humanidade por, dentre outras muitas razões, proporcionar uma ampliação na capacidade humana de intervenção no meio físico. 0 V e r a n o ta çõ e s A Primeira Revolução Industrial, iniciada no ano de 1760, na Inglaterra, tem como pano de fundo as acumulações primitivas dos países capitalistas durante a fase das grandes navegações do Capitalismo Mercantil, ocorrida especialmente entre os séculos XIV e XV. O desenvolvimento do sistema comercial mundial tornava obrigatória a organização de um sistema de navegação muito avançado, o que possibilitou a alguns países uma função um pouco mais especí�ca, cabendo, por exemplo, à Inglaterra acumular riqueza e, através de sua burguesia, iniciar a industrialização. Os avanços das técnicas e das tecnologias nesse período foram importantes para a exploração dos recursos do meio físico, imprescindíveis para o desenvolvimento desse novo conjunto de ações. Tal exploração de recursos pode ser de�nida, em linhas gerais, como a extração de recursos do meio físico, que modi�ca a natureza de acordo com a necessidade humana. Esses recursos podem ser subdivididos em recursos provenientes de fontes renováveis e de fontes não renováveis, sendo os primeiros de fontes inesgotáveis, como a energia da luz solar e dos ventos, por exemplo, e de fontes que, em algum momento, podem se esgotar, como é o caso do petróleo. De modo geral, podemos subdividir os recursos naturais – dadas suas condições de uso pelos seres humanos – em quatro grandes categorias: recursos biológicos (vegetais e animais), recursos energéticos (combustíveis), recursos minerais (elementos da natureza de ordem geológica, como argila, calcário, areia, ouro, diamante, ferro, dentre outros) e recursos hídricos (provenientes de cursos d’água de qualquer natureza, sejam eles subterrâneos, sejam super�ciais). Um poço artesiano é um exemplo de tecnologia empregada na obtenção de um recurso hídrico (água percolada no solo a nível freático ou subsuper�cial, por exemplo). Para poder extrair esses recursos da natureza, foram necessários 0 V e r a n o ta çõ e s inúmeros esforços para desenvolver esses conjuntos de técnicas e de tecnologias ao longo da história. Eles permitiram ao ser humano transformar a paisagem de acordo com suas necessidades, adaptando-as ao que seria necessário, no momento, à humanidade. Nesse sentido, é importante de�nirmos o que é paisagem para os seres humanos. A paisagem, uma das categorias mais importantes para a Geogra�a desde a sua constituição enquanto ciência, pode ser de�nida como o conjunto de elementos contidos no espaço e que permitem observar uma relação dinâmica entre os elementos do meio físico e da sociedade. A paisagem geográ�ca é tudo aquilo que, presente no espaço, podemos observar; ela contém tanto os elementos naturais (formados pela ação da natureza como montanhas, vegetação, rios, mares, entre outros), quanto os elementos culturais ou humanos (os que foram construídos pelo trabalho humano). Desse modo, a descrição de uma paisagem está diretamente relacionada à forma como uma pessoa pode interpretar a paisagem que observa. Também podemos nos atentar ao fato de que, em algumas paisagens, os elementos naturais estão mais presentes do que os elementos culturais e que, em outras, pode haver o movimento inverso. Contudo, os elementos da paisagem que compõem esses grupos não são derivados de meras subjetividades, podendo ser agrupadas em formas e funções diferentes de acordo com a análise gerada. As paisagens em que há predomínio de elementos humanos (culturais) são chamadas de paisagens humanizadas ou culturais (como cidades, áreas industriais e áreas agrícolas, arti�cialmente produzida pelo trabalho humano). Já as paisagens em que identi�camos o predomínio de elementos naturais, chamamos de paisagens naturais (onde a interferência dos seres humanos é pequena ou inexistente); em alguns casos, ela pode até ser considerada “intocada” pelo ser humano dado o seu baixo grau de modi�cação. Um exemplo clássico utilizado é o interior 0 V e r a n o ta çõ e s do continente antártico, sobre o qual sabemos muito pouco, ou o sul do Oceano Índico. Aliás, pouco sabemos sobre as profundidades dos nossos oceanos. Figura 1.8 | Exemplo de uma paisagem predominantemente natural Fonte: Wikimedia Commons. Figura 1.9 | Paisagem majoritariamente cultural Fonte: Shutterstock. 0 V e r a n o ta çõ e s Já a paisagem cultural ou humana (também chamada de arti�cial) pode ser descrita como uma paisagem que foi modi�cada e, em alguns casos, quase totalmente reformulada pelos seres humanos. Exemplos dela são a cidade de Las Vegas, nos Estados Unidos, e a cidade de Dubai, capital do Catar. Ambos os espaços tiveram transformações radicais na paisagem natural e mostram como a tecnologia funciona quando falamos das transformações do meio e da exploração dos recursos. FOCO NA BNCC A habilidade EF06GE01 da BNCC para o 6º ano do ensino fundamental possibilita o trabalho com imagens e a observação do espaço geográ�co. Sua proposta de comparar modi�cações das paisagens nos lugares de vivência e os usos desses lugares em diferentes tempos é uma das primeiras a serem trabalhadas e permite observar a evolução da paisagem em diferentes tempos. Normalmente, essas atividades permitem que o aluno identi�que características da paisagem que os façam entender a categoria paisagem, diferenciando os modos de sua produção (natural ou cultural/arti�cial). PROBLEMAS AMBIENTAIS E A EXPLORAÇÃO DO MEIO A exploração do meio, como conhecemos, acarreta problemas ambientais das mais variadas categorias. Os exemplos mais comuns dizem respeito às formas de exploração agressiva do meio ambiente, tais como: o assoreamento dos rios, a poluição dos cursos d’água, a poluição atmosférica (que retorna como poluição hídrica também), o desperdício de recursos não renováveis, a geração desenfreada e acúmulo exorbitante de lixo (articulados a um baixo índice, especialmente em países em desenvolvimento, de reciclagem de materiais), entre outros. Todos esses problemas se relacionam ao modo predatório com que as sociedades humanas, ao longo da história, apropriaram-se do meio e em 0 V e r a n o ta çõ e s como elas buscaram desenvolver-se sem pensar as consequências dessa exploração desenfreada. A grande maioria dos problemas ambientais que temos hoje são consequência dos atos humanos de apropriação do espaço através da exploração do meio. Sobretudo nas áreas de maior adensamento urbano, essas questões também derivam das infraestruturas da vida urbana – ou seja, produzidas pelo ser humano – tais como a poluição sonora e a visual. Dito isso, as consequências principais dessa ação não sustentável do ser humano em relação ao meio físico estão relacionadas ao dano ambiental causado pelas distintas sociedades. O século XXI e o aprofundamento das relações tecnológicas trouxeram a ampliação da capacidade de exploração do meio, ocasionando problemas como a aceleração de extinções de grande número de espécies da fauna e da �ora planetária. Esse fenômeno pode ocorrer devido à criação de uma área de inundação de barragem para construção de hidroelétricas em que haja o desequilíbrio de ecossistemas únicos em determinadolocal a serem impactados, por exemplo. Outro problema característico causado pela sociedade contemporânea é o consumo elevado de matérias-primas (articulado ao consumismo estimulado pelo sistema em que vivemos) e que, se somado à falta de atenção nos processos de reciclagem de materiais, podem tornar irreversíveis os danos feitos ao meio ambiente. Por isso, é sempre importante atentar-se para práticas ambientais socialmente responsáveis, como o consumo sustentável. Ainda que seja uma prática de remediação aos problemas ambientais, isso já contribui bastante para diminuir a “pegada ecológica” no planeta, isto é, o tamanho dos danos causados pela ação humana no meio ambiente, ocasionada pela exploração intensa do meio físico. Esperamos que tenha sido uma ótima travessia até aqui. Seguimos juntos e lembre-se: o processo do conhecimento é motivado pela vontade de saber. 0 V e r a n o ta çõ e s REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versa o�nal_site.pdf. Acesso em: 3 nov. 2021. FREITAS, E. de. O trabalho integrado da Geogra�a com outras disciplinas. Brasil Escola, [S. l., s. d.]. Disponível em: https://educador.brasilescola.uol.com.br/estrategias-ensino/o-trabalho- integrado-geogra�a-com-outras-disciplinas.htm. Acesso em: 2 abr. 2021. MAXIMIANO, L. A. Considerações sobre o conceito de paisagem. Revista RA’EGA, Curitiba, n. 8, p. 83-91, 2004. SANTOS, M. A natureza do espaço. São Paulo: EDUSP, 2002. SCHIER, R. A. Trajetórias do conceito de paisagem na Geogra�a. Revista Ra’E GA, Curitiba, n. 7, p. 79-85, 2003. WARNAVIN, L.; ARAUJO, W. M. de. Estudo das transformações da paisagem e do relevo. Curitiba: InterSaberes, 2016. p. 15-25. ZIMMERMANN, N. Os cinco maiores problemas ambientais do mundo e suas soluções. DW Brasil, [S. l.], 13 out. 2016. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/os-cinco-maiores-problemas-ambientais-do- mundo-e-suas-solu%C3%A7%C3%B5es/a-36024985. Acesso em: 2 abr. 2021. 0 V e r a n o ta çõ e s http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf https://educador.brasilescola.uol.com.br/estrategias-ensino/o-trabalho-integrado-geografia-com-outras-disciplinas.htm https://www.dw.com/pt-br/os-cinco-maiores-problemas-ambientais-do-mundo-e-suas-solu%C3%A7%C3%B5es/a-36024985 NÃO PODE FALTAR ESPAÇO GEOGRÁFICO: O OBJETO DA GEOGRAFIA Gabriel Pinto de Bairro Imprimir PRATICAR PARA APRENDER Caro estudante! Esta seção que encerra nossa primeira unidade é uma das que podemos considerar centrais para a continuidade de nossos estudos. Falamos das categorias geográ�cas e de como elas incidem na organização espacial, tópico extremamente importante para compreendermos a Geogra�a enquanto ciência. Dizemos isso para demonstrar a centralidade que as categorias de análise geográ�ca têm no estudo dessa área da ciência, pois é somente a partir delas que podemos analisar o espaço geográ�co, objeto de estudo da Geogra�a. As categorias atuam como uma espécie de lentes especiais que, quando aplicadas às relações em nosso objeto de estudo, mostram-se reveladoras das condições concretas sobre as quais o espaço geográ�co se produz e se reproduz ao longo do tempo. Para tanto, sempre é bom lembrarmos que a história possui uma importância central em nossas análises, porque nos apresenta o desenvolvimento do tempo histórico e as relações das ações humanas – a história social – como base para a 0 V e r a n o ta çõ e s ação concreta no espaço e, consequentemente, para a produção do espaço geográ�co. Com isso, trabalharemos com as quatro principais categorias da Geogra�a: paisagem, território, lugar e região. A partir disso, podemos avançar no entendimento dos fenômenos espaciais e da maneira como se constituem enquanto parte importante das análises sobre o espaço geográ�co. A diferenciação entre os tipos de fenômenos possibilita a compreensão das dinâmicas das atividades humanas e como estas afetam nossa percepção dos impactos dos fenômenos da natureza sobre a sociedade. A paisagem e o território, aqui, tornam-se centrais para analisarmos as características desses fenômenos. Ainda, os processos de construção do espaço tomam importante lugar em nosso aprendizado. Tal construção é resultado do acúmulo histórico de transformações humanas no espaço, que envolvem diretamente todos os atores sociais, e afeta também o modo como um determinado grupo de pessoas observa o que está em seu redor e como se apropria disso. Aqui, utilizaremos as categorias de lugar e de região para entendermos o processo de construção através de mudanças feitas pelo ser humano em seus lugares vividos. Como forma de �nalização de nossa seção e, consequentemente, de nossa unidade, trataremos das contradições que ocorrem no espaço e que decorrem dele, dadas todas as inter-relações que expusemos ao longo do conteúdo. Buscaremos identi�car como essas contradições saltam aos nossos olhos e de que forma a Geogra�a – com suas categorias e seu conhecimento cientí�co – podem nos ajudar não somente a identi�car contradições, mas também a propor alternativas e soluções para elas, observando os limites e as possibilidades da ação do geógrafo. Existe uma noção muito difundida hoje em dia de que o pro�ssional de Geogra�a necessita de um aprofundamento muito grande em 0 V e r a n o ta çõ e s atualidades. Isso se dá para que possa desenvolver bem uma aula da disciplina na escola, por exemplo, ou para que consiga identi�car fatores de modi�cação em uma paisagem observada através de mapas. Em todo caso, essa noção muitas vezes acaba afastando os professores e os geógrafos de seu objeto de estudo (o espaço geográ�co) na medida em que não conseguem se apropriar adequadamente das categorias geográ�cas. As principais são: paisagem, território, lugar e região. Como já visto, a Geogra�a é uma ciência que estabelece facilmente inter- relações – sendo uma disciplina por excelência, na escola, interdisciplinar. Através dela podemos observar as interações entre a sociedade humana e o meio físico, permitindo-se analisar o espaço geográ�co como um conjunto indissociável de sistemas de ações e de sistemas de objetos unidos pela técnica (SANTOS, 2002). Também nos permite observar que o espaço geográ�co é a síntese entre forma, estrutura e função, dada a partir do modo como a estrutura social molda o espaço ao qual pertence (LEFEBVRE, 1992). Para realizarmos tais análises, necessitamos nos apropriarmos das principais categorias geográ�cas com vistas ao entendimento do espaço enquanto um constructo das relações humanas de exploração e de adaptação do meio físico às suas necessidades. Desse modo, a materialização do espaço envolve uma síntese historicamente determinada pelas ações sociais de técnicas, tecnologias e ações humanas no espaço geográ�co. Imagine que você, enquanto professor de Geogra�a, depara-se com uma notícia trazida por um de seus estudantes sobre um deslizamento de terra na cidade em que vive e que, infelizmente, tirou a vida de moradores uma área de ocupação irregular estabelecida anteriormente pela prefeitura. Como você pode articular seus conhecimentos sobre as categorias geográ�cas para explicar aos estudantes os fatores geográ�cos componentes dessa notícia? E como você consegue trabalhar as 0 V e r a n o ta çõ e s contradições espaciais e o que as envolve a partir do fato ocorrido? Esperamos que o conteúdo desta seção seja de muito proveito para você. Vamos em frente e juntos para descobrirmos mais e mais sobre a ciência geográ�ca! CONCEITO-CHAVE Conforme viemos desenvolvendo desde nossa última seção, a paisagem é uma importante categoria para estudo da Geogra�a. Nela, é possível identi�car as ações humanas em diferentes ambientes mais ou menos afetados por esta atividade. Também já entendemos suas subdivisões em: paisagemnatural e paisagem arti�cial, sendo a primeira relacionada a ambientes menos modi�cados pelo ser humano e a segunda, a ambientes no qual o meio físico está modi�cado pela humanidade a partir de suas técnicas e do desenvolvimento de tecnologias para se apropriar dele. Contudo, existem outras formas de entender a paisagem de acordo com as análises a serem realizadas sobre ela. Nosso objetivo, a partir de agora, será o aprendizado das categorias e das dimensões do espaço geográ�co, das formas como podemos analisar os fenômenos espaciais e suas categorizações, os processos de construção do espaço e a identi�cação das contradições no espaço geográ�co, observando o modo como este também contribui para suas dimensões do conhecimento. CATEGORIAS E DIMENSÕES DO ESPAÇO GEOGRÁFICO É comum observarmos, na Geogra�a, por exemplo, o uso de conceitos como o de paisagem cultural – também conhecida como paisagem humanizada –, que deriva da divisão primeira da paisagem (natural e arti�cial), mas que é um conceito utilizado dada a modi�cação intensi�cada de determinados ambientes pelas práticas humanas. Contudo, a paisagem cultural (ou humanizada) não exclui a coexistência, 0 V e r a n o ta çõ e s em um mesmo espaço, com uma paisagem que remonte à paisagem natural. Nesse sentido, vale lembrar que a ação humana de criação de áreas protegidas em cidades, por exemplo, é também produção de paisagem arti�cial. O que queremos dizer aqui é que a paisagem natural, quando produzida pelo ser humano sob uma intencionalidade, pode ser considerada também arti�cial. Paisagem é um espectro analítico da Geogra�a que é visível e material (portanto, concreto) e que compreende as interfaces de relação social ao longo da história – ou seja, está em constante transformação. Outra categoria importante e cara para a Geogra�a é o território. Este exprime uma relação de apropriação do espaço geográ�co pela humanidade, marcada pelas delimitações criadas pela sociedade. O território, para a Geogra�a, pressupõe relações sociais de poder, nas quais diferentes sujeitos exercem suas vontades sobre uma determinada – e limitada – porção espacial. No início da consolidação da Geogra�a como ciência, a categoria paisagem dava conta da de�nição de território justamente por, a princípio, relacionar paisagem a um domínio estatal sobre uma porção espacial. Vale lembrar que esse período de consolidação da Geogra�a enquanto ciência – como veremos adiante – foi fortemente marcado pela consolidação dos Estados europeus, fato que in�uenciou uma produção geográ�ca voltada para a exaltação das qualidades nacionais dos Estados em formação. Atualmente, a de�nição de território, articulada com o poder sobre um espaço, ganha palco juntamente com análises sistêmicas que dizem respeito aos tipos de poder espacial. O território enquanto conceito permite, então, analisar um determinado lugar a partir de seus prismas especí�cos (criando de�nições como as de território cultural, território social, território político, etc.), mas que não podem, em nenhuma situação, afastar-se da totalidade da categoria território enquanto manifestação do poder no espaço. Diferentes territórios podem coexistir 0 V e r a n o ta çõ e s no espaço, contribuindo para a multidimensionalidade desse fenômeno, ou seja, um território não existe sozinho, pois o espaço geográ�co comporta a totalidade das manifestações de poder. Outra categoria importante para a Geogra�a é o lugar, de�nido como um ponto do espaço tal e qual o ser humano se relaciona com ele. Normalmente está articulado com a noção de local, sendo esta última mais atrelada à localização de um ponto no espaço, sem, necessariamente, haver uma percepção imediata do ser humano naquele espaço. O lugar está, desse modo, intrinsecamente relacionado a como uma sociedade percebe o espaço que a circunda (o qual evidentemente construiu e modi�ca a todo momento). Assim sendo, o lugar descreve a articulação entre as determinantes gerais do espaço em um ponto, constituindo a singularidade dos fenômenos que lhe são próprios. Essa categoria é importante na Geogra�a escolar, pois possui uma in�uência grande na consolidação primeira da disciplina Geogra�a. Por ser mais próxima aos sentidos humanos, pode ser trabalhada em ambiente escolar mais facilmente, em um primeiro momento. Ainda, pode-se dizer que a categoria região possui centralidade para a Geogra�a, centralidade esta tão grande que uma corrente geográ�ca esteve estabelecida sobre seus principais traços. A Geogra�a Regional – levada à cabo especialmente por Paul Vidal de La Blache na França – utilizou-se dessa categoria para descrever, delinear culturalmente e retratar as paisagens que compunham o território francês no século XIX. Região, desse modo, caracteriza a contiguidade – ou seja, a continuidade – de algum aspecto analisado no espaço geográ�co. Seu processo de análise – a regionalização – pressupõe uma base para que se possam veri�car os pontos de convergência entre as variáveis escolhidas no território. Por exemplo, podemos identi�car a região (e, consequentemente, regionalizar) o espaço em que habitam certos indígenas no interior da Floresta Amazônica, bem como podemos 0 V e r a n o ta çõ e s regionalizar a in�uência da língua portuguesa no continente sul- americano. Evidentemente, nos dois casos, extrapola-se a noção pura e simples da territorialização – o que nos dá pistas sobre as formas com as quais podemos trabalhar – integral e de modo integrado – todas as categorias de análise geográ�ca, sendo o espaço geográ�co aquele que nos aponta as categorias que “devem ser corretamente empregadas”. Isso quer dizer que não basta nos apropriarmos das categorias: precisamos ter a humildade e a inteligência de percebermos para onde o espaço geográ�co nos aponta, o que dele emerge e como nele podemos atuar. ASSIMILE Paisagem: conjunto de aspectos contidos no espaço que permitem observar uma relação dinâmica entre os elementos do meio físico e da sociedade. Território: relação de apropriação do espaço geográ�co pela humanidade marcada pelas delimitações criadas pela sociedade, pressupondo relações de poder. Lugar: percepção do que é imediato ao ser humano, dadas suas relações com o ambiente em que vive. Região: contiguidade espacial dada a partir de determinado prisma de análise. Podemos mencionar ainda as dimensões do espaço geográ�co – as quais tornaremos a abordar na sequência de nossos estudos. Tais dimensões encontram-se amarradas ao que se pretende trabalhar e ao que tentaremos identi�car no espaço e compõem a síntese das interrelações que podemos estabelecer entre as categorias geográ�cas. As redes que amarram as dimensões do espaço geográ�co dizem respeito a conexões espaciais que possibilitam a união dos pontos geográ�cos (entendidos através da categoria lugar) em sua articulação com a sociedade da informação, constituindo assim a nova morfologia das sociedades do 0 V e r a n o ta çõ e s capital (CASTELLS, 1999). Todos elas, as quais expusemos até aqui, são consideradas dimensões escalares da Geogra�a, pois permitem observar a espacialidade dos fenômenos. Essas dimensões são representadas na Geogra�a, de modo prático, pelas escalas geográ�cas, que se entrelaçam dadas as amplitudes dos fenômenos analisados, podendo ser divididas em micro, meso, ou macroescala, sendo um bom exemplo prático a cidade, o estado da federação e o país. Trataremos disso de modo mais especí�co adiante. O fato é que podemos perceber que as escalas geográ�cas prescindem das categorias de análise e do que se apresenta no concreto real, devido às construções da sociedade humana no curso da história. ANÁLISE DOS FENÔMENOS ESPACIAIS Para analisarmos os fenômenos espaciais, devemos nos atentar às dimensões do espaço geográ�co. Essas dimensões são as escalas de análise que utilizaremos tanto para representar os fenômenos (em representação cartográ�ca, por exemplo)quanto para dar amplitude ao que é observado. Fenômenos espaciais, como o próprio nome diz, são aqueles que se realizam no espaço, o qual, para nossa ciência, é o espaço geográ�co. Esses fenômenos ocorrem e podem ser subdivididos de acordo com sua natureza (fenômenos naturais e fenômenos arti�ciais, produzidos pelas relações humanas com o meio físico) e de acordo com sua extensão (locais, regionais ou mundiais). No grupo dos fenômenos naturais, encontram-se as manifestações da natureza perceptíveis pelo ser humano, como as chuvas, as tempestades, os furacões, as erupções vulcânicas, os maremotos, os terremotos, os deslizamentos de terra, etc. Já os fenômenos arti�ciais advêm especialmente da criação humana que se manifesta no espaço, como as cidades, a eletricidade, a roda, os automóveis, entre outros. Podemos observar a inter-relação de ambos ao 0 V e r a n o ta çõ e s observarmos a intensi�cação da ocorrência de fenômenos naturais em decorrência da ampliação da exploração do meio físico pelo ser humano. É comum ouvirmos e observarmos, em nosso dia a dia, que os fenômenos naturais são as causas de desastres para a humanidade. Figura 1.10 | Vulcão em erupção – exemplo de fenômeno natural Fonte: Shutterstock. Figura 1.11 | Destruição causada pelo Furacão Katrina nos EUA, em 2005 Fonte: Shutterstock. 0 V e r a n o ta çõ e s Devemos estar sempre atentos a algumas informações que nos são fornecidas diariamente, especialmente no que diz respeito aos fenômenos naturais e às tragédias causadas eventualmente por eles. As causas desse grupo de fenômenos não está no ser humano, isto é, não somos nós que os causamos, eles ocorrem independentemente da existência humana, por serem manifestações e fenômenos planetários da natureza. Mas, sim, estão relacionados aos impactos e às extensões pelas quais esses fenômenos são percebidos na paisagem e no território construído e constituído pela humanidade. Evidentemente que, como podemos observar, não se pode fazer nada contra os fenômenos e contra sua incidência e sua ocorrência – no sentido de controlar a sua existência –, mas se pode planejar a ocupação e a expansão territorial humana, bem como a construção da paisagem arti�cial, para que fenômenos naturais normalmente articulados a catástrofes afetem em menor escala nossa sociedade. EXEMPLIFICANDO Observamos os fenômenos naturais todos os dias em nosso cotidiano e podemos trabalhar com eles em sala de aula. Um dia chuvoso, por exemplo, pode ser o ponto de partida para se trabalhar com uma aula sobre planejamento urbano e sobre o acesso às infraestruturas da cidade ao demonstrarmos quais são os pontos principais de alagamento e onde os cursos d’água – normalmente localizados em áreas mais baixas chamadas fundos de vale – encontram-se. PROCESSOS DE CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO A construção do espaço, desse modo, observa os fenômenos naturais e lança mão de fenômenos arti�ciais e da produção da vida humana para modi�car o meio físico. Desde seus primórdios, a Geogra�a se preocupa com a transformação do espaço e com as formas por meio das quais 0 V e r a n o ta çõ e s diferentes sociedades se relacionam com o meio no qual estão inseridas. Assim, uma das primeiras tentativas de sistematizar processos de construção espacial na Geogra�a se pautou nas categorias lugar e região para produzir análises. A Geogra�a regional – sobretudo com as análises francesas do século XIX – buscou produzir quadros de análise do lugar que investigavam, buscando observar interfaces de transformação da paisagem – o que convencionalmente se entende por dinâmica da paisagem. Essa dinâmica diz respeito ao grau de modi�cação de um lugar e de uma região de acordo com a ação humana sobre o meio físico naquele determinado espaço. A diferença entre os modos de vida humana, sua historicidade e a cultura de um determinado povo afeta o grau e a velocidade da transformação da paisagem, sendo sua dinâmica mais ou menos veloz a depender de qual sociedade falamos. FOCO NA BNCC Para que possamos trabalhar os processos de construção do espaço, a BNCC do 7º ano do ensino fundamental traz como aspectos do mundo do trabalho a modi�cação espacial causada pela indústria. A habilidade EF07GE08 objetiva “estabelecer relações entre os processos de industrialização e inovação tecnológica com as transformações socioeconômicas do território brasileiro” (BRASIL, 2018, p. 387), o que permite ao professor trabalhar aspectos da construção do Espaço Geográ�co sob o prisma das transformações causadas pela indústria no Brasil. Os processos de construção espacial levam em conta a condição material das sociedades que se inseriram historicamente em um determinado lugar. As condições do meio físico encontradas pelo ser humano na sociedade europeia do século X, por exemplo, são diferentes das 0 V e r a n o ta çõ e s encontradas por sociedades americanas no mesmo período. O meio natural, ao mesmo tempo que determina, é também determinado pelo ser humano durante a produção do espaço geográ�co. Esses processos são ditados pelas técnicas e pelas tecnologias – e seus respectivos avanços históricos – em cada uma das porções territoriais que se analisam. A construção espacial, desse modo, depende do território a ser analisado, do grau de modi�cação da paisagem e da produção e da intensi�cação das técnicas e das tecnologias de uma sociedade em um período histórico analisado. CONTRADIÇÕES NO/DO ESPAÇO GEOGRÁFICO Como encaminhamento de nossa primeira unidade de estudos, propomos aqui resgatar os conceitos aprendidos especialmente nesta seção para compreendermos como se manifestam as contradições espaciais. Para além disso, buscaremos entender as contradições advindas do espaço geográ�co a partir de uma relação dialética (na qual ambas as partes se in�uenciam mutuamente) entre elas e, ao mesmo tempo, as contradições já consolidadas e consideradas, muitas vezes, como “inerentes” ao espaço: as contradições do espaço geográ�co. Nesta, exempli�caremos quais as principais contradições que o olhar geográ�co permite observar no espaço. Antes disso, vamos nos deter na análise de uma especi�cidade espacial sobre a qual, no sistema capitalista, as contradições no e do espaço geográ�co se manifestam: a desigualdade na Divisão Internacional do Trabalho (DIT) no capitalismo. A divisão do trabalho é inerente e comum a todas as sociedades humanas e pode se manifestar de diferentes formas: divisão sexual, classista, etária, por guetos e nichos sociais, etc. Sob a égide do capitalismo contemporâneo – o qual encontra-se cada vez mais mundializado e conecta – direta ou indiretamente – todos os lugares por meio de suas 0 V e r a n o ta çõ e s redes, a exploração do meio físico se intensi�cou muito mais e tem se aprofundado com o passar dos anos. Contudo, não é somente a exploração do meio físico que preocupa a Geogra�a no que tange à DIT. Esta submete os países e seus povos a uma condição de desigualdade social extrema e enraizada no modo de produção, o que aprofunda as contradições dos sistemas econômico, político e social que vivemos. Com isso, as divisões entre países ricos (também chamados de “primeiro mundo”) e países pobres (também chamados de “terceiro mundo” ou, em uma perspectiva positiva, de “países em desenvolvimento econômico”) estão relegadas a um aprofundamento constante, o qual, para a Geogra�a, manifesta-se nas contradições espaciais contidas no espaço geográ�co, as quais são aprofundadas pelas relações estabelecidas nele – neste último caso, as próprias contradições do espaço geográ�co. REFLITA Se observarmos as diferenças entre os países tidos como “modelo” no sistema capitalista, normalmente identi�cados na mídia e no nosso dia a dia como países de “primeiro mundo”, podemos entender que eles são os países que, historicamente, tiveram mais relações de exploração colonial do que outros. Atentemos para o caso dos países europeusda Europa Ocidental e Central: todos os países ricos dessas localizações foram, um dia, grandes centros coloniais ou estiveram envolvidos com etapas centrais para o desenvolvimento do capitalismo internacionalizado. Essas contradições normalmente se manifestam de modo mais intenso se observarmos países de diferentes pontas da Divisão Internacional do Trabalho. Tal divisão aprofunda a especialização do espaço geográ�co, dividindo tudo e todos como aqueles que possuem meios de produção e 0 V e r a n o ta çõ e s aqueles que apenas fornecem seus braços ao trabalho. Numa sociedade mundializada, nunca podemos analisar apenas um único fato ou um único local no planeta sem que esteja relacionado aos outros lugares com que estabelece suas conexões. Esse é o caráter relacional da Geogra�a, capaz de compreender os lugares conforme suas inter-relações com os outros. As contradições espaciais, portanto, desenvolvem-se segundo as condições sociais concretas. Tais contradições podem ser de ordem social – por exemplo, as condições de moradia precárias nas comunidades que habitam as periferias urbanas –, econômica – um país cuja diferença entre o mais rico e o mais pobre seja menor possui uma qualidade de vida melhor, sendo o contrário também verdadeiro – , natural – uma cidade com concentração maior de poluentes no ar –, entre outros. Assim, o modo com que essas contradições se apresentam é diverso, cabendo a nós as analisarmos sob o prisma da diferenciação primordial do sistema capitalista: a divisão entre detentores dos meios de produção e dos detentores apenas de sua própria força de trabalho. Tal divisão é inerente ao sistema em que vivemos – ainda que muitas pessoas neguem a questão de classe, ela existe na concretude – e aprofunda as contradições espaciais. Observando os países “de primeiro mundo” e os países “de terceiro mundo”, notamos que a diferença está enraizada na falta de capital e no fator explorador-explorado, primeiramente, o que insere algumas partes do mundo no mercado como fornecedores de matéria-prima e de mão de obra barata. A paisagem produzida nesses territórios é muito diferente das paisagens de primeiro mundo, dadas as condições de reprodução social naqueles lugares. As contradições escancaram, dentro dos próprios lugares, a diferenciação social das pessoas, basta que nos atentemos, por exemplo, aos condomínios de luxo que dividem a paisagem com as construções precárias dos trabalhadores urbanos. 0 V e r a n o ta çõ e s Figura 1.12 | Comparação entre as habitações de alto e de baixo padrão Fonte: Shutterstock. Terminamos aqui nossa primeira unidade de estudos. Esperamos que tenha sido proveitoso para você e que tenha servido para que seu conhecimento geográ�co seja aprofundado. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versa o�nal_site.pdf. Acesso em: 3 nov. 2021. CASTELLS, M. A sociedade em rede: A era da informação: economia, sociedade e cultura. Tradução de Roneide Venâncio Majer. São Paulo: Paz 0 V e r a n o ta çõ e s http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf e Terra, 1999. v. 1. HARVEY, D. O enigma do capital: e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011. p. 91-100. LEFEBVRE, H. A produção do espaço. Tradução de Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins. [S. l.: s. n.], 2006. 1ª versão. Título original: La production de l'espace. MOREIRA, R. A (Geogra�a da) sociedade do trabalho. Terra Livre – AGB, São Paulo, ano 29, v.1, n. 40, p. 131-142, jan.-jun. 2013. SANTOS, M. A natureza do espaço. São Paulo: EDUSP, 2002. TORO, M. A. R. S. A produção do espaço e suas contradições: possibilidades para a construção de novos caminhos. Revista Eletrônica História, Natureza e Espaço, Rio de Janeiro, v. 4, n. 1, 2015, p. 4. 0 V e r a n o ta çõ e s NÃO PODE FALTAR INTRODUÇÃO À CARTOGRAFIA Gabriel Pinto de Bairro Imprimir CONVITE AO ESTUDO Olá, estudante! Bem-vindo à nossa segunda unidade. Nesta parte de nossa caminhada, iremos versar sobre um dos mais importantes produtos da Geogra�a: os mapas e o estudo de como os confeccioná-los, dados através da Cartogra�a. É comum ouvirmos que a Geogra�a é a ciência dos mapas, e o geógrafo é o responsável por mapear e construir estes elementos tão importantes para nossa vida em sociedade. A�nal, os mapas estão presentes em nossas tecnologias mais do que aparentemente pensamos. Quem nunca se surpreendeu por um anúncio da internet direcionado para sua região ou para o local onde vive? Atualmente, também é muito difícil encontrarmos alguém que não tenha contato com os mapas e localizadores por satélite, os populares GPS (Sistemas de Posicionamento Global, no inglês) e que nos ajudam a chegar nos lugares que precisamos. Atravessaremos a história da Cartogra�a desde seus primórdios, mas não sem antes de�nirmos o que é e qual seu o objeto de estudo, e como a Cartogra�a mantém relações historicamente com a Geogra�a. Ainda, 0 V e r a n o ta çõ e s buscaremos observar quais as interfaces possíveis entre essas duas disciplinas do conhecimento, e como a Cartogra�a esteve incluída por muitos anos nos currículos de Geogra�a – e ainda estão, como podemos ver em nosso curso. Já que a competência que iremos desenvolver nesta unidade diz respeito à compreensão das relações entre o ser humano e o meio em que vive, temos na Cartogra�a um ótimo exemplo de como podemos classi�car as interferências antrópicas no meio para, possivelmente, buscarmos exercer a sustentabilidade em nossa prática de sala de aula com nossos alunos. Também analisaremos como que os produtos cartográ�cos possuem uma intencionalidade por detrás de suas confecções. Observaremos que a consolidação, por exemplo, de territórios está intrinsecamente representada nas relações de poder que os mapas possibilitam interpretar e conhecer. Veri�caremos, portanto, que os mapas possuem uma relação geopolítica e permitem observar, por meio da Cartogra�a, o poder que está incutido nas produções cartográ�cas. Por �m, buscaremos conhecer um pouco mais sobre como, na era da informação, os produtos cartográ�cos se desenvolvem. Dadas as tecnologias, vamos analisar um pouco o que são os Sistemas de Informação Geográ�ca (SIG) e sua importância para a confecção de produtos cartográ�cos digitais, como os bancos de dados são fundamentais para os SIG, assim como passaremos por alguns produtos cartográ�cos que permitem o avanço das tecnologias geográ�cas nos mapas e na Cartogra�a como um todo. Esperamos que os estudos sejam proveitosos e que seu interesse em nossa ciência cresça conforme formos avançando em nosso livro! PRATICAR PARA APRENDER 0 V e r a n o ta çõ e s Caro estudante! Como asseveramos, os mapas estão presentes em nosso dia a dia, mas eles não surgiram apenas com as tecnologias da informação. Muito antes de nos estabelecermos, como vimos em nossa primeira unidade de estudos, enquanto povos desenvolvedores de tecnologias para sobrevivermos pela agricultura – e o consequente estabelecimento em localidades de terras férteis no planeta – os desenhos e as pinturas de nossos antepassados já apresentavam as situações cotidianas dos hominídeos na Terra. Nossas tão conhecidas pinturas rupestres não apenas servem atualmente como documento histórico, mas também nos permitem pensar como era a organização do modo de vida de nossa espécie no planeta antes mesmo que nos estabelecêssemos enquanto sociedade. É através destas gravuras – muitas esculpidas e/ou confeccionadas em pedras e dentro de cavernas – que pudemos observar que havia, já neste período, uma divisão (ainda que não intencional como vemos hoje) do trabalho entre homens e mulheres, sendo os primeiros responsáveis pela caça e coleta de alimentos, e as segundas responsáveis pelo cuidado com os animais domesticadose dos �lhotes para a perpetuação de nossa sobrevivência. Estas “obras de arte” da história remota da humanidade nos fazem re�etir sobre a importância de conhecermos a história de como desenvolvemos uma série de desenhos e representações para mostrar aquilo que nossos olhos observavam. Deste modo, precisamos conhecer a Cartogra�a e sua história, buscando compreender as relações que nos permitem seguir representando a história humana por meio de mapas e esquemas cartográ�cos. A�nal, como poderemos transformar o mundo de modo sustentável se não conhecermos o modo como se estruturam as relações de poder territorial no planeta? Veremos que a Cartogra�a é uma base para a produção de mapas, sendo estes uma linguagem. Deste modo, vão para além das pinturas rupestres 0 V e r a n o ta çõ e s e de�nições sobre o cotidiano ou uma representação estética. Os mapas transmitem uma mensagem, pois são produzidos a partir de uma intencionalidade, com representações estéticas e normas próprias para produção. Somente um mapa que comunique bem – e explicitamente – aquilo que deseja demonstrar é um mapa que pode ser apropriado pelos povos que o utilizarem. E é um mapa que pode contar a história de relações de poder em um determinado período histórico. As próprias projeções cartográ�cas demonstram relações de poder – a depender do que é (e como é) representado. Esperamos que esta primeira seção deixe você empolgado para prosseguir com os estudos em Geogra�a! Seguimos juntos! Muitas vezes, nos deparamos com problemáticas geográ�cas que não necessariamente estejam articuladas às necessidades da Geogra�a em si – ou seja, com seus problemas internos, com as de�nições de suas categorias e de seus conceitos, entre outros. Um exemplo são as situações que derivam de conhecimentos construídos em correlação com outras áreas do conhecimento, mas que cabem, na escola, à disciplina de Geogra�a a explicação. Um bom exemplo disso é a Cartogra�a. Tida como a ciência de fazer mapas, este rol de conhecimentos se insere, na Geogra�a Escolar, enquanto uma importante forma de educar os estudantes a se alfabetizarem espacial e cartogra�camente. Isso quer dizer que o espaço da Cartogra�a na escola é tão importante que faz com que repensemos as correlações com os próprios conceitos e categorias da Geogra�a, e de que forma podemos utilizar nossa área da ciência para responder às questões postas essencialmente na fronteira destes dois conhecimentos distintos, porém intercalados. Imagine que você está trabalhando com seus alunos de 6º ano, recém- chegados do Ensino Fundamental I. Estes estudantes já conseguem construir visões espaciais a partir de seu corpo, mas sentem muita 0 V e r a n o ta çõ e s di�culdade em transpor a posição corporal para a localização espacial externa. Em outras palavras, eles conseguem se localizar a partir de sua observação, mas a �xação de pontos externos a si ainda é, na maioria das vezes, extremamente abstrata por se tratar de um momento de transição entre o “sujeito-eu” do primeiro ciclo do Ensino Fundamental para o “sujeito no mundo” na segunda parte do mesmo nível de ensino. Deste modo, existe uma série de questões essenciais colocadas neste momento para o professor de Geogra�a. Algumas delas colocamos como centralidade de nossa situação-problema: como posso ensinar Cartogra�a para crianças que são iniciantes no conhecimento espacial para além da localização no/do próprio corpo? Qual a importância da Cartogra�a na Geogra�a escolar? E como ela pode contribuir para proporcionarmos aos nossos estudantes uma visão para além dos limites do seu próprio corpo, conseguindo iniciá-los – e avançar, em alguns casos, que este processo já tenha tomado forma no nível de ensino anterior – no processo de alfabetização cartográ�ca? CONCEITO-CHAVE Como vimos, nossa segunda unidade de estudos se caracteriza pelo conhecimento da Cartogra�a, bem como o avanço das tecnologias para a produção cartográ�ca na ciência geográ�ca desde a consolidação da Geogra�a como uma área do conhecimento cientí�co. É comum ouvirmos de nossos professores e até mesmo de pessoas leigas no assunto que a Geogra�a é a “ciência dos mapas”. Na história, nos deparamos com a necessidade humana de representar o espaço no qual vive fazendo o uso de símbolos. Essas representações nem sempre foram feitas de modo ordenado, com uma convenção dos símbolos, para passar uma mensagem explícita sobre um modo de vida ou sobre a organização espacial de grupos humanos. Se nos atentarmos para as representações pré-históricas de alguns grupos em pinturas 0 V e r a n o ta çõ e s rupestres, por exemplo, podemos observar que para tais agrupamentos o importante estava em demonstrar atitudes de ações do cotidiano, mas sem necessariamente passar uma mensagem direta sobre aquilo que buscavam dizer. A motivação também não é muito compreensível, na medida em que esses desenhos (mormente) nas rochas das paredes de cavernas não possuíam convenções simbólicas, sendo apenas representações da cotidianidade de um determinado momento da história de um grupo humano. Com o avançar dos anos e especialmente a partir da consolidação da Geogra�a enquanto ciência, as convenções criadas para representar o espaço geográ�co – com todas as nuances que já conhecemos: político- territorial, subjetiva do lugar, dentre outras – facilitam o entendimento inclusive de gerações vindouras. Daí decorre a importância das convenções nos mapas: a sua possibilidade de comunicar uma mensagem de modo acessível por inteiro a outros grupos humanos. Deste modo, já partimos do pressuposto de que a Cartogra�a é um conhecimento cujo produto – os mapas – são uma linguagem, a qual necessariamente implica na construção de um “alfabeto” codi�cador, assim como de uma interpretação possível e correta daquilo que se pretende passar. FOCO NA BNCC Na BNCC do Ensino Fundamental, a linguagem cartográ�ca aparece como a quarta competência geral do ensino de Geogra�a. Desta forma, se faz necessária, como na sétima competência especí�ca da Geogra�a que consta no documento, a utilização de linguagem cartográ�ca para “[...] o desenvolvimento do raciocínio espaço-temporal relacionado à localização, distância, direção, duração, simultaneidade, sucessão, ritmo e conexão” (BRASIL, 2018, p. 357). 0 V e r a n o ta çõ e s Mas a�nal, qual a importância dos mapas – e da Cartogra�a em si – para nossa ciência? A Geogra�a é a “ciência dos mapas” ou os mapas são apenas uma parte do conhecimento geográ�co? Para começarmos a responder esta pergunta, precisamos compreender que a Cartogra�a é uma área da ciência que deriva dos conhecimentos geográ�cos. Na tentativa de irmos além das de�nições formais das áreas cientí�cas, delineamos a Cartogra�a como a ciência dos mapas, de modo geral. E que, enquanto ciência, possui um objeto de estudo, bem como uma estruturação linguística em torno deste objeto. A Cartogra�a surge da necessidade de representar o espaço geográ�co pelo ser humano a partir de convenções cientí�cas estabelecidas para comunicar de que modo o espaço analisado se organizou em um determinado período histórico. Em linhas gerais, podemos localizar a Cartogra�a e o desenvolvimento de mapas na história em consonância com os movimentos exploratórios e de navegação ainda no início do capitalismo mercantil no século XV, bem como podemos observar sua importância crescente no século XVII e XVIII na consolidação dos Estados- nação europeus, o que já denota uma das tônicas pelas quais os mapas são confeccionados: o da representação de um determinado território e, consequentemente, do poder de um determinado Estado sobre ele. O objeto de estudo da Cartogra�a, deste modo, é o espaço geográ�co, já que buscará representá-lo de modo mais idôneo de acordo com sua intencionalidade. Aliás, relação e intencionalidade são duas características importantes para se pensar a produção de mapas, conjuntamente com a categoriageográ�ca território – já conhecido por nós pela tentativa de consolidar e retratar, neste caso, relações de poder. Os mapas enquanto produtos da Cartogra�a – como explicitaremos adiante – prescindem de componentes essenciais para sua produção. O primeiro e até mesmo anterior à própria produção de um mapa é a projeção cartográ�ca a ser utilizada. Projeções cartográ�cas são modos 0 V e r a n o ta çõ e s diversos de tentar representar de modo bidimensional a tridimensionalidade do globo terrestre. Em outras palavras, corresponde a uma representação da superfície terrestre em um plano utilizando-se de coordenadas geográ�cas. Coordenadas estas que são linhas imaginárias e projetadas a partir dos polos terrestres e que dividem a terra em paralelos e meridianos, representados por linhas. Sendo assim, a Cartogra�a trabalha para cumprir objetivos de espacialização que também são comuns à Geogra�a, sendo os mais importantes a localização, a orientação e a organização espacial. Estas que são, em maior ou menor medida e de modo mais ou menos explícito, as principais motivações para produzir um produto cartográ�co. Portanto, qualquer que seja o mapa, ele comunica algo e faz parte de uma construção social de um determinado momento histórico e, por isso, é linguagem. E se é linguagem, necessita de determinados símbolos que são próprios de sua comunicação. Estes símbolos são: título (indica sobre o que o mapa versa); escala (tamanho da representação); orientação (sentido geográ�co por meio do qual está representada a área escolhida, de�nida no mapa a partir das coordenadas geográ�cas (latitude e longitude); legenda (símbolos para padronização de suas de�nições para o que representam no mapa); fonte (de onde foram coletados os dados e/ou quem os organizou); e projeção (o tipo de projeção utilizado para a representação). Estes são os principais conceitos geográ�cos utilizados na cartogra�a. ASSIMILE Título: tema tratado pelo mapa Escala: proporção numérica para representar em quantas vezes o espaço foi reduzido para caber no espaço da representação do mapa. Orientação: sentido geográ�co de representação de uma área de�nida pelas coordenadas geográ�cas (latitude e longitude) 0 V e r a n o ta çõ e s Legenda: padronização da linguagem utilizada no mapa, dada a partir das informações contidas nele. Fonte: de onde foram retiradas as informações, os dados e quem organizou o mapa e tratou os dados. Podemos deste modo, identi�car os principais modos de representação espacial desenvolvidos. Vale lembrar que nem todos estes são propostos pela Cartogra�a, mas sim dependem das escalas e da intencionalidade da reprodução espacial geográ�ca. As cartas são de�nidas como uma representação da superfície terrestre em uma escala normalmente grande. Deste modo, as cartas são mais adequadas quando se pretende retratar uma área mais ampla do espaço geográ�co – sem que se atenha a detalhes especí�cos destes lugares, dado seu baixo nível de detalhamento pela sua ampla área representada. Têm grande importância para a navegação marítima e aeroespacial. Podemos de�nir ainda as plantas geográ�cas, sendo estas projeções de objetos no espaço geográ�co. Normalmente conhecemos as plantas por meio da área da arquitetura, pois estas buscam representar um objeto e suas inter-relações locacionais com o espaço ao seu redor. Os croquis também ocupam um lugar de destaque na Geogra�a. Estes são de�nidos enquanto um esboço simples de um projeto ou de uma área. Em nosso caso, os croquis são esboços primários que são bastante utilizados na representação de paisagens quando estamos em trabalho de campo – quando saímos para observar o espaço geográ�co e precisamos esboçar uma característica que vemos naquele momento sem se utilizar de uma fotogra�a, por exemplo. Os croquis têm a vantagem de não terem compromisso formal com escalas e convenções cartográ�cas, por exemplo, sendo uma ferramenta de uso prático – e por isso utilizada em campo. Já um mapa, produto da Cartogra�a, pode ser de�nido enquanto uma 0 V e r a n o ta çõ e s linguagem geográ�ca semiótica, utilizada como representação do espaço geográ�co. Entre os exemplos de mapas que podem ser produzidos estão os mapas políticos – com a divisão entre os territórios dos países e continentes, apontando para a importância do território e sua relação de poder político no planeta –, geomorfológicos – com as características do relevo de determinados lugares –, mapas climáticos – com os tipos de clima e eventos climáticos em um determinado espaço analisado –, mapas biogeográ�cos – relacionando fauna e �ora, bem como o meio ambiente, a um determinado espaço geográ�co a ser representado –, mapa hidrográ�co – demonstrando os principais �uxos d’água em um espaço representado -, dentre outros tais como os mapas em anamorfose – deformações no desenho para dar ênfase em determinadas informações. REFLITA A grande quantidade de ilustrações e mapas em geral demonstra a profusão de informações que podemos comunicar gra�camente, sendo que este não é um fenômeno especí�co da sociedade contemporânea. Podemos observar que a intencionalidade de utilizar uma linguagem grá�ca para falar sobre o espaço sempre esteve bastante arraigada na história humana. E é com base nisto que podemos desenvolver com nossos estudantes a descoberta do mapa enquanto uma linguagem própria de representação do espaço, desenvolvendo o raciocínio espaço-temporal ao longo de sua escolarização. Entretanto, nem sempre estivemos articulados e/ou preocupados em registrar um tipo de linguagem para a Cartogra�a, sendo esta uma invenção pela necessidade de navegação do século XV. Os registros pré- históricos apresentaram muitas vezes retratos sobre o dia a dia humano, 0 V e r a n o ta çõ e s e em alguns momentos signi�caram também alguns caminhos e formas de executar ações do cotidiano, como rotas de caça e algumas representações locais, como algumas feitas por astecas ainda no apogeu de suas cidades. Cabe destacar, como exemplo, que os mapas astecas possuíam muita relevância no mundo antigo, retratando parte da fauna e �ora encontradas em seus territórios. Estas representações não retratavam o espaço geográ�co como um todo composto por partes inseparáveis (logo, em sua totalidade e complexidade). Elas buscavam analisar as localidades, mas sem uma preocupação de localizar um ponto dentro do espaço, retratando as ações humanas e seus espaços de vivência de maneira geral. Evidentemente existem registros cartográ�cos anteriores ao período de consolidação da Cartogra�a e da Geogra�a enquanto ciências. A produção anterior a este período demonstra que os primeiros mapas que se têm registro são os feitos pelos Sumérios por volta de 2.500 a.C. Este povo que habitava as terras próximas ao crescente fértil dos rios Tigre e Eufrates ao sul da Mesopotâmia (onde hoje localiza-se o Iraque) possuía uma forte cultura de navegação – vale lembrar que construíram um dos maiores portos do mundo antigo, o porto de Eridos. Tal mapa foi confeccionado em uma tábua de barro para localizar o sul do território sumério, representando o rio Tigre e suas terras férteis – justi�cando também o que já conhecemos sobre as ocupações dos primeiros grandes adensamentos humanos da história. Também existem registros de mapas feitos por outros povos do mundo antigo, como os Astecas, os Maias e os Incas, que produziam suas próprias representações cartográ�cas para comunicar seu espaço habitado, mas também o território sobre o qual exerciam poder. Figura 2.1 | Mapa em argila da cidade de Nippur, na Suméria 0 V e r a n o ta çõ e s Fonte: Wikimedia Commons. Observa-se que este mapa representa um espaço vivido por aquele povo, com seus principais pontos de interesse, suas rotas, seus rios e suas terras. Entretanto, é um mapa cujas representações podem ser apenas inferidas, pois não há como somente por ele compreender a complexidade derelações de poder ocorridas dentro daquela sociedade no momento de sua confecção. Em outras palavras, a linguagem cartográ�ca contida neste mapa ainda é bastante rudimentar, representando o que a grande maioria das representações do mundo antigo e do período pré-histórico possui: um desenho sobre um modo de vida ou sobre uma certa atividade de um povo, cuja interpretação necessita de elementos que estão além do próprio mapa. Outro exemplo que podemos obter avançando na cronologia histórica são os mapas dos Babilônios. Este povo também produziu mapas, como o “Imago Mundi”, datado do século VI a.C. Porém, com um diferencial 0 V e r a n o ta çõ e s importante para sua classi�cação enquanto mapa – e que por vezes faz com que este seja referenciado como o mais antigo do mundo: é aquele que apresenta uma maior complexidade de símbolos e busca comunicar, por meio de uma linguagem, uma interpretação do real que representava. Figura 2.2 | Mapa “Imago Mundi” representado em pedra conjuntamente com a escrita do povo babilônico Fonte: Wikimedia Commons. 0 V e r a n o ta çõ e s Podemos observar na imagem que a escrita babilônica, de estilo muito parecido com as escritas cuneiformes do mundo antigo, “traduz” a mensagem que o mapa representa. Isso já nos conduz à interpretação que este mapa é considerado “o mais antigo” justamente por ser um ótimo exemplo daquilo que atualmente se considera um mapa: uma ilustração que vai para além de uma imagem, possuindo símbolos próprios organizados em uma passível forma de interpretação não ligada diretamente ao sujeito que o interpreta, mas sim ao mensageiro produtor deste mapa. Merecem destaque também os mapas do geógrafo grego Claudius Ptolomeu, que viveu na Alexandria entre os séculos I e II. Os mapas e representações ptolomaicas merecem destaque pela sua originalidade: foram os primeiros mapas que tentaram articular a superfície terrestre numa forma mais próxima das representações que temos hoje, sobre uma superfície esférica. Mesmo sem uma grande precisão, o método ptolomaico de representação acompanhou a produção de mapas por muito tempo, dadas as suas características inovadoras. Ainda que se aponte Ptolomeu como o cartógrafo que produziu o primeiro atlas – em referência ao Titã Atlas, �gura mitológica grega condenada pelo deus grego Zeus a carregar o universo nas costas –, esta de�nição é imprecisa, já que as representações mundiais de Ptolomeu não abrangem toda a superfície do globo terrestre, mas sim algumas porções – majoritariamente próximas à Europa – e que poderiam ser articuladas para produzir uma observação ampliada das relações daquele continente e o oriente próximo. EXEMPLIFICANDO As projeções cartográ�cas podem ser usadas para a confecção de mapas a partir de suas especi�cidades. Um mapa com uma projeção cônica, por exemplo, é um dos mapas que mais �elmente representa territórios em altas latitudes. Deste 0 V e r a n o ta çõ e s modo, a depender da projeção utilizada, o mapa pode ampliar ou diminuir territórios – e, tendo em vista que o mapa é uma linguagem, pode representar uma maior ou menor esfera de in�uência de uma região sobre outras. Um exemplo clássico são alguns mapas produzidos para ilustrar o avanço do front de batalha aliado sobre as forças nazistas na Segunda Guerra Mundial, utilizando uma projeção cônica para dar a real dimensão dos territórios ainda dominados pelo nazifascismo e daqueles que já haviam sido libertados pelos aliados. Assim sendo, podemos observar que o avançar da história permite identi�car também a primeira coleção de mapas confeccionada pela humanidade. O Theatrum orbis terrarum – ou simplesmente Orbis terrarum, ou “O teatro mundial” – foi o primeiro atlas produzido na história da humanidade. Reunia, em sua primeira edição de 1570, mapas sobretudo dos países europeus e um mapa-múndi criado pelo geógrafo Abraham Ortelius, que viveu na Antuérpia, cidade �amenca da Bélgica. Figura 2.3 | Theatrum Orbis terrarum, o mapa-múndi de Ortelius, integrante do atlas de 1570 0 V e r a n o ta çõ e s Fonte: Wikimedia Commons. Antes deste, o primeiro mapa-múndi convencional que se tem notícia foi o mapa confeccionado por Martin Waldseemüller, em 1507. Waldseemüller foi o pioneiro em organizar cartogra�camente uma representação mundial de�nindo o nome do continente americano, por exemplo, sob a alcunha de América – em homenagem ao navegador Américo Vespúcio. Até a confecção do Orbis terrarum não eram muito comuns as representações mundiais e o uso de cienti�cidade para sua confecção. É comum nos depararmos com mapas ilustrativos na Idade Média, mas que não representavam muito além da cotidianidade de grupos localizados na Europa, sendo comuns representações pelo imaginário cristão da época. Outros povos também produziram cartogra�as neste período, mas que também descreviam o mundo e os ambientes habitados – ou a serem navegados – pelo ideário imaginativo daqueles que os representavam, muito próximos muitas vezes, das ilustrações realizadas em períodos anteriores da história humana. As preferências destas representações no 0 V e r a n o ta çõ e s período da Idade Média recaíam sobre aspectos de prioridades culturais, no sentido de que os mapas representavam, para além das práticas de poder sobre as quais já partimos do princípio de sua intencionalidade de produção, as crenças culturais de um determinado momento histórico. Era comum, neste momento, uma representação plana do planeta. As características do Orbis terrarum já demonstram os primeiros avanços nas representações do globo terrestre em um papel plano, transpondo a tridimensionalidade do planeta em um desenho bidimensional. A projeção utilizada por Ortelius foi a Projeção de Mercator, criada pelo geógrafo holandês Gerard Mercator. Vale lembrar a importância dos Países Baixos – em especial a Holanda – com suas frotas marítimas que dominaram as navegações a partir do século XVI. Diferentemente da projeção ptolomaica de Waldseemüller – na qual o globo era representado com grandes distorções polares numa perspectiva eurocentrista e sem considerar a grande dimensão do “Novo Mundo” “recém-descoberto” – o Orbis terrarum foi projetado em uma perspectiva que já abrangia os métodos de Mercator, observando aspectos importantes até hoje como a localização por paralelos e meridianos, auxiliar às navegações por bússolas naquele momento. ASSIMILE O mapa é uma representação grá�ca de uma parte do espaço geográ�co, produzido a partir de uma linguagem especí�ca a ele: a linguagem cartográ�ca. Ele tem por objetivo comunicar ao seu leitor como se deu tal organização no momento de sua confecção. Pode ter várias formas, comumente agrupadas sob o nome de “mapas temáticos”. Encerra-se aqui nossa breve introdução à Cartogra�a. Esperamos que o aprendizado que desenvolvemos em conjunto possa ser utilizado por você em suas atividades enquanto professor de Geogra�a. Continue 0 V e r a n o ta çõ e s estudando para que possamos sempre ampliar a complexidade de nossos conhecimentos! REFERÊNCIAS ALMEIDA, R. D de. Novos rumos da cartogra�a escolar: currículo, linguagem e tecnologia. São Paulo: Contexto, 2011. BARBOSA, R. S.; SANTOS, F. K. S. A cartogra�a e as correntes do pensamento geográ�co. Revista de Geogra�a (Recife), Recife, v. 34, n. 3, 2017. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular – Ensino Fundamental – Anos Finais. Brasília: MEC, 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular – Ensino Médio. Brasília: MEC, 2018. IBGE. Atlas escolar (online). 2021. Disponível em: https://bit.ly/3DWqd9J. Acesso em: 23 jun. 2021. MARTINELLI, M. Mapas da geogra�a e cartogra�a temática. São Paulo: Contexto, 2007. SANTOS, J. J. Ensino de geogra�a nos anos iniciais: leitura de mundo através de conceitos e mapas. Poiésis Pedagógica, v. 5/6, jan./dez. 2008. UNIVESP. A história da cartogra�a e aimportância dos mapas. 2015. Disponível em: https://bit.ly/3DWZeed. Acesso em: 3 dez. 2021. 0 V e r a n o ta çõ e s https://atlasescolar.ibge.gov.br/conceitos-gerais/o-que-e-cartografia/as-projec-o-es-cartogra-ficas.html https://univesp.br/noticias/a-historia-da-cartografia-e-a-importancia-dos-mapas NÃO PODE FALTAR OS PRODUTOS CARTOGRÁFICOS COMO REPRESENTAÇÕES DOS FENÔMENOS DA SUPERFÍCIE Gabriel Pinto de Bairro. Imprimir PRATICAR PARA APRENDER Olá novamente, estudante! Na primeira seção desta unidade, buscamos compreender como os mapas se fazem presentes em nosso dia a dia ao observarmos a história do desenvolvimento da Cartogra�a de modo geral. Dadas as condições de construção deste conhecimento, pudemos observar que todos os produtos desta ciência – assim como da ciência geográ�ca de maneira geral – são resultados de ações humanas em um determinado espaço em um determinado período. E, naturalmente, as análises sobre estes fenômenos também são localizadas temporalmente, até mesmo as análises que fazemos sobre tempos passados – ora, temos nossas 0 V e r a n o ta çõ e s próprias impressões sobre as coisas que nos circundam pois nos relacionamos com ela no período presente da história; logo, olhamos para o passado com a cabeça do (e no) presente. Por isso quando julgamos, por exemplo, as representações dos povos antigos como “primitivas”, o fazemos já considerando – mesmo que inconscientemente – todo o aparato criado ao longo da história da Geogra�a e da Cartogra�a, o conhecimento cientí�co humano moldado pela experiência da história e construído pelas relações sociais, etc. Pois agora, nesta seção, buscaremos avançar neste debate extenso pontuando algumas questões importantes para nos instrumentalizarmos quando �zermos uma análise do Espaço Geográ�co. Buscaremos, em um primeiro momento, compreender como podemos especializar as informações geográ�cas e de que forma isso é importante para conseguirmos considerar tudo o que vemos e lemos no Espaço Geográ�co. As informações geográ�cas não podem existir sem que observemos a materialidade – ou seja, a realidade concreta – da qual ela emana. Desta forma, começaremos um estudo sobre informações geográ�cas e de que forma podemos representá-las para compreender melhor as relações no todo geográ�co. Posteriormente, avançaremos para as representações e leituras dos fenômenos espaciais. Observaremos outras formas de representação cartográ�ca, na tentativa de entender como os acontecimentos no globo podem ser especializados por meio da Cartogra�a, e de que forma isso pode acontecer a depender do tipo de mapa que utilizamos. Em um terceiro momento, retomaremos a categoria território para observar que tipo de relações de poder – dados os interesses, objetivos e conceitos das representações espaciais – podemos observar e, com isso, atingiremos também um último momento desta seção ao analisarmos as relações entre Geopolítica e Cartogra�a ao longo da história dos mapas, e como isso se dá atualmente. 0 V e r a n o ta çõ e s Diariamente, nós e nossos alunos somos bombardeados com imagens – que supostamente se passam por mapas – que localizam a fonte de alguma notícia. Supostamente mapas porque já sabemos que um mapa precisa comunicar algo, e para isso possui uma linguagem especí�ca e com códigos e regras a serem seguidos. Estes compõem aquilo que denominamos de linguagem cartográ�ca, um dos componentes essenciais para o processo de Alfabetização Cartográ�ca, como já vimos anteriormente também. Esta falha na produção dos mapas pode ser observada, por exemplo, em infográ�cos de manchetes jornalísticas. Muitas vezes, as imagens colocadas nestes são referenciadas como “mapas” para localizar pontos em determinados territórios ou determinadas regiões como forma de argumentação e/ou localizar o leitor – na maioria dos casos, com esta segunda intencionalidade. Assim sendo, acabam sendo imagens por não apresentarem elementos característicos e especí�cos de um mapa, tais como orientação, escala e referencial de onde foram extraídos os dados de composição desta informação, por exemplo. Neste último caso em especí�co, é a partir dos dados que se obtêm as informações para produção dos mapas. Mapas estes que precisam ser pensados de acordo com um tipo de representação para começarem a ser produzidos, por exemplo. O uso de escala (seja ela numérica ou grá�ca) também é importante, pois é somente com a dimensão acertada de um território – feito evidentemente de modo proporcional – é que se pode observar a extensão do fenômeno que se deseja informar ou demonstrar, por exemplo. Imagine-se, então, como o professor responsável por ensinar em uma escola sobre os modelos de projeção possíveis para informar sobre um con�ito, como a Guerra na Síria. A primeira pergunta que aparece para você é: qual/quais o/os tipo/tipos de representação/ões que é/são mais importantes para ensinar em sala de aula para os estudantes? Existe uma 0 V e r a n o ta çõ e s representação que é mais importante ou mais assertiva do que outra? De que modo podemos trabalhar um mapa sobre determinado con�ito – neste caso, a Guerra na Síria – com nossos estudantes demonstrando a intencionalidade por detrás da produção de um mapa? Além disso, como podemos interpretar os mapas que vemos diariamente e somos bombardeados com eles em nossas casas e nos meios de comunicação? Essas questões são essenciais para que possamos compreender como um mapa é produzido, e observar que todo mapa possui uma intencionalidade, como veremos a seguir. CONCEITO-CHAVE Um mapa é, como vimos, uma ferramenta que desde os primórdios sociais da história humana se faz presente como linguagem. Ele comunica e representa algo importante para um determinado momento da história humana tendo como princípio representar uma cotidianidade, uma análise, um fato histórico de um determinado momento, ou até mesmo descrever uma paisagem, por exemplo. O que devemos ter em mente é: de que forma podemos conseguir representar um Espaço Geográ�co e uma ou mais de suas características, sem que consigamos organizar minimamente o modo de produzir tais informações? Em outras palavras, é possível organizar uma análise espacial a partir da cartogra�a sem que estejamos em posse de ferramentas que instrumentalizem a espacialização das informações? E quais são as intencionalidades de se produzir um mapa? Em um primeiro momento, devemos retomar a ideia de que se o mapa possui uma linguagem, precisamos conhecer esta linguagem. As principais formas que essa linguagem se apresenta na contemporaneidade para seu leitor são física e digitalmente. Porém, ambos os mapas, físicos e digitais possuem caracteres próprios para comunicar sua forma de contar o mundo. Tal como vimos, o Título, a 0 V e r a n o ta çõ e s Escala, a Orientação, a Legenda e a Fonte dos dados são os modos como essa linguagem cartográ�ca se estabelece e comunica algo a seus leitores. Vamos ao longo das próximas páginas tentar falar mais de coisas relacionadas às Fontes, ou seja: de onde vêm as informações que estão no mapa e como podemos realizar a representação espacial de informações. Observemos atentamente um mapa. Ele comunica algo a partir daquilo que busca retratar. Para isso, precisamos lançar mão de uma organização minuciosa e criteriosa das informações que queremos representar, para que estas não estejam contidas no mapa somente como “apêndices”. E para isso, lançaremos mão das principais técnicas da Cartogra�a Temática, uma área importante e imprescindível para a Geogra�a no entendimento de como podemos espacializar e articular as informações no espaço com aquilo que queremos representar. A Cartogra�a Temática é uma área de estudos que busca decifrar e estruturar racionalmente as informações do Espaço Geográ�co em mapas, representações grá�cas que dependem da intencionalidade que são produzidas e da organização destes dados para transformá-los eminformações (falaremos disso mais adiante). A produção de mapas temáticos também é realizada para tratar de determinados grupos de informação ao invés de tentar abarcar todas as informações obtidas no Espaço Geográ�co de uma só vez. Deste modo, a Cartogra�a Temática produz os mapas temáticos, produtos únicos ao tratarem de um recorte espacial e determinadas características elencadas intencionalmente pelo produtor do mapa, ao invés de tentar abarcar a totalidade. Esta área da Cartogra�a tem como um de seus principais objetivos o estudo de como as diversas propriedades visuais, grá�cas e textuais podem se articular em um mapa para que as informações que se pretende passar no mesmo sejam divulgadas da forma mais direta e explícita possível, sem que haja interpretações errôneas ocasionadas por 0 V e r a n o ta çõ e s eventuais falhas na produção cartográ�ca. É uma área relativamente nova no conhecimento geográ�co se observarmos a história da Cartogra�a como um todo, e ela toma corpo principalmente quando se consolida a busca por técnicas que melhorassem a visualização de um mapa, comunicando claramente aquilo que precisavam passar. Figura 2.4 | Mapa de Chichester, c. 1610 Fonte: Wikimedia Commons. Podemos observar na imagem anterior que em certos momentos da história os mapas estiveram relacionados às concepções artísticas e estéticas de um momento vivido pela sociedade. Haja vista o trabalho que demandava a produção de um mapa, estes “artistas da cartogra�a” precisavam comunicar ao seu leitor a representação de Espaço Geográ�co a partir da intencionalidade de quem encomendava seus estudos. Vale lembrar que em um primeiro momento os mapas eram 0 V e r a n o ta çõ e s encomendados e necessários para representar os reinos e as terras passiveis de exploração pelas coroas e pelos governos dos países. Dessa forma, as crenças e as articulações estatais promulgadas entre os reis e governantes com instituições tais como as de poder religioso produziram uma cartogra�a com elementos culturais bastante arraigados – quando também não buscavam representar a cotidianidade de um povo e/ou seus limites e suas crenças teóricas. Figura 2.5 | Mapa da Europa de 1939, já durante a Segunda Guerra Mundial Fonte: Wikimedia Commons. Avançando bastante no tempo, podemos observar que os mapas contemporâneos mostram explicitamente aquilo que pretendem passar. Para além de uma simples composição artística e estética que representasse o Espaço Geográ�co pela visão de quem o encomendava, o mapa temático hoje – possibilitado pelos estudos em Cartogra�a Temática – demonstram que esse espaço é produto das relações 0 V e r a n o ta çõ e s humanas, e é suporte para a reprodução social. Ainda, ele é um conjunto de múltiplas determinações da vida humana, que relega papéis sociais a determinados sujeitos em nossa sociedade. O mapa, enquanto linguagem, não está a serviço de uma variedade cultural interpretativa, mas sim de uma comunicação efetiva sobre o que se comunica, como se comunica, e de que forma o Espaço Geográ�co é entendido, tendo suas informações organizadas em um todo que faça sentido e tenha lógica para comunicar os efeitos da ação humana. Isso nos traz para a ideia de que existe uma Geopolítica para a confecção dos mapas. Podemos ler nos mapas e por meio deles as relações entre diferentes povos e como subentende-se historicamente os territórios e sua formação, e de que modo foram aceitas ou negadas as constatações dos “fatos territoriais”, acontecimentos que delimitaram o Espaço Geográ�co politicamente ao longo dos séculos. É comum observarmos as representações con�ituosas dos mapas, especialmente em tempos de con�itos armados. Um exemplo importante são os mapas das tentativas – bem-sucedidas – dos aliados e do Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial de romper e avançar sobre o território nazifascista na Europa. Comumente nestas representações, a centralidade não está em território da Europa Ocidental – sobretudo no inimigo comum, a Alemanha e a Itália – mas sim nos avanços conquistados no front ocidental (cuja centralidade era a Inglaterra e o Canal da Mancha, base de muitos con�itos aéreos) ou no front oriental (cuja centralidade era o avanço da URSS sobre as tropas fascistas). Atualmente, podemos observar relações de poder nos mapas inclusive tecnológicos. A plataforma Google Earth, por exemplo, não possui visões das ruas de cidades da Coreia do Norte e de alguns pontos da Rússia e das regiões con�ituosas do mundo – o que signi�ca que a produção da Cartogra�a Digital também é afetada, mesmo com a produção comum de imagens de satélite, como veremos na próxima seção. Deste modo, a 0 V e r a n o ta çõ e s Geopolítica precisa ser analisada pela Geogra�a e pela Cartogra�a como pano de fundo da produção dos mapas, tendo uma área especí�ca para estudar as relações políticas nos mesmos: a Geopolítica dos Mapas. REFLITA A intencionalidade de produção dos mapas re�ete o período histórico que se vive. Porém, graças à consolidação de um conjunto de signos e signi�cados da linguagem da Cartogra�a é que podemos observar mensagens intencionais explícitas de quem produz um mapa – diferentemente de outros momentos da história humana nos quais os mapas comunicavam não necessariamente o que quem o confeccionava queria, senão o que quem encomendava e tinha um viés direcionado em suas análises, pressupunha. Precisamos aqui realizar a diferenciação entre dado, informação e o que compõe a informação. Um dado, de modo geral, é algo que é observável na realidade e pode ser visto e sentido pela experiência sensorial de cada indivíduo. Por exemplo, a chuva é um dado da natureza que podemos observar nela de forma contemplativa. Porém, em alguns momentos podemos sentir a necessidade de organizar estes dados de forma a observar os fenômenos a partir de um “prisma separado” da realidade, mas sem desvincular-se dela. Assim surge a informação: ela é organizada a partir dos dados de acordo com aquilo que se pretende entender. Logo, a produção de informações possui uma intencionalidade prévia – o que também nos induz a concluir que a elaboração de todo e qualquer mapa que utilize das de�nições de Cartogra�a que vimos no capítulo anterior também possua, no caso de espacializar informações. Um exemplo prático bastante difundido em nossa ciência é a diferença entre o ser humano e a máquina na questão dos dados e das 0 V e r a n o ta çõ e s informações: a máquina processa dados sem intencionalidade própria. Quem dá a intencionalidade para o processamento destes dados é o ser humano, e a organização destes depende do usuário da máquina. O produto �nal desta interação homem-máquina é a informação, um conjunto de dados estruturados intencionalmente. E tal intencionalidade depende – e varia – de realidade para realidade, de indivíduo para indivíduo. Porém, os dados são fatos, somente sua interpretação é que varia. Espacializar a informação geográ�ca, então, demanda um trabalho minucioso de pesquisa e necessita de clareza nos objetivos demandados pela confecção dos mapas. É somente com objetividade e preciosismo com a coleta e com o tratamento de informações espaciais que se constrói uma Cartogra�a para tomada de ações, uma Cartogra�a interessada em interpretar uma realidade objetiva, por meio da qual as pessoas munidas de categorias e conceitos geográ�cos podem efetivamente atuar em seus espaços vividos para melhorar sua qualidade de vida. As informações e os dados podem ter vários modos e serem obtidas por meio de variados modelos. Porém, podem ser organizadas em grandes grupos de componentes informacionais: a) informações relativas ao comprimento/extensão dos fenômenos; b) forma e variação espacial dos fenômenos; e c) continuidade temporal (ou seja, historicidade dos acontecimentos). Todas estas informações articuladas gerarão um signi�cado para interpretarmos os componentes da realidade –os dados – para �nalmente produzirmos informações. ASSIMILE É necessário o tratamento das informações espaciais, a �m de conseguirmos trabalhar adequadamente com elas. Também é preciso dominar as categorias necessárias para análise geográ�ca dos fenômenos a serem tratados no mapa. 0 V e r a n o ta çõ e s Diferentemente dos dados, as informações são obtidas com a �nalidade de compreender um fenômeno da realidade para além de sua observação, possibilitando a tomada de decisões. Ao longo do tempo, as tecnologias avançaram e nos possibilitaram obter uma maior fonte de dados, como veremos adiante com os Sistemas de Informação Geográ�ca (SIG). Porém, antes de compreendermos a história e como elaboramos os SIG, precisamos compreender de que forma a Cartogra�a Temática trabalha os fenômenos espaciais em sua área do conhecimento. Para isso, façamos uma viagem através dos componentes principais da linguagem grá�ca, cujos desdobramentos podem ser observados nos mapas- produto desta área do conhecimento tão importante para a Geogra�a. A representação e leitura dos fenômenos espaciais está intimamente ligada à intencionalidade através da qual se representa um determinado tipo de atividade e/ou território. Reaparece, desta forma, a categoria território, importante para a Geogra�a quando pensamos as relações possíveis entre representações cartográ�cas e sua leitura. As representações podem ser, como vimos anteriormente, de três tipos: cilíndrica, cônica, e plana – também conhecida como polar ou azimutal. Essas três projeções formam, como também já sabemos, uma representação distorcida da realidade. Representação esta que possui correlação com o tipo de leitura que se pretende fazer na realidade. Já estudamos também os modelos das representações na seção anterior, sendo que conhecemos os dois tipos mais comuns de projeção: a de Mercator e de Peters. Evidentemente que existem outros tipos de projeção e elas podem ser convencionadas a partir de consensos internacionais ou locais de Cartogra�a. Porém, o que é mais comum para nosso estudo Geográ�co são estas duas projeções, as quais tiveram bastante importância na história das representações do mundo e que 0 V e r a n o ta çõ e s representam duas visões de produção cartográ�ca que se desdobram nas propriedades de representação: uma que mantém as distâncias e outra que preza pelas análises sociopolíticas dos lugares. Lembremos que não se deve preterir uma ou outra: as duas têm sua importância no estudo geográ�co e podem ser utilizadas a depender do tipo de representação que se necessita. Avancemos no estudo destas representações, pois delas é que se derivam os tipos principais de confecção de mapas e que se desdobram em mapas temáticos. Observemos agora as propriedades das representações, que são pensadas em Cartogra�a para reduzir as distorções causadas pela escolha de projeção realizada anteriormente. Elas são divididas em quatro grandes grupos: a) projeções conformes: com pouca ou nenhuma deformação dos ângulos da projeção escolhida, porém com deformação de área representada – ou seja, o tamanho é afetado em detrimento da preservação do sistema de localização cartográ�ca; b) projeções equidistantes: sem deformidades lineares – característica esta que mantém as distâncias entre os territórios, mas que deforma áreas e ângulos da projeção; c) projeções equivalentes: deformidades nos pontos que estão na periferia da representação, mas que buscam por objetivo ter uma representação �el do que está em sua centralidade – é a representação que produz a menor deformação de área, mas deforma ângulos; e d) projeção a�lática ou disforme: não preservam nenhuma propriedade mas suas deformações são mínimas em todas elas – enquanto as outras distorcem muito, esta distorce tudo, mas em menor quantidade. Com isso, podemos compreender o porquê das relações de interesse por trás da produção dos mapas. Todo mapa representa, já na escolha do tipo de representação, nas propriedades da projeção, e no modelo de projeção escolhido, uma intencionalidade. E o mapa apresenta, a partir destas intencionalidades, um objetivo para representação daquela área. 0 V e r a n o ta çõ e s Deste modo, precisamos retomar a categoria Território da Geogra�a. É dela que podemos inferir que o mapa, para além de representar porções de terra maiores ou menores, também representa a esfera de in�uência que a cultura do autor do mapa possui ao transpor o seu entendimento de territorialidade no mapa que produz. EXEMPLIFICANDO Podemos observar a categoria território em plena manifestação quando veri�camos a centralidade dos países e dos continentes nos diferentes mapas. Nos mapas orientais, por exemplo, é comum ver a China e o Japão no centro da representação, enquanto o continente americano é representado na parte direita do mapa e a Europa à esquerda. Isso também representa como que diferentes mapas enviesam suas leituras para a questão política – ainda que não seja este o seu objetivo primordial. Logo, mesmo que o mapa “só possua a intenção de localizar” um território, a escolha pela projeção pode sim signi�car um intento político. Num primeiro momento, buscava-se espacializar o espaço vivido, o cotidiano próximo, as formas de espacialização representadas primitivamente. As relações de poder estavam centradas na ação humana especí�ca dos lugares – o que foi abandonado na expansão da circunavegação europeia, cujos mapas produzidos traziam a Península Ibérica como centralidade de representação. Posteriormente, os avanços da ciência cartográ�ca possibilitaram uma maior amplitude de considerações, dados os avanços nas representações (tanto em tamanho do globo terrestre, passando pela extensão de territórios para além do local representado, como na própria forma de representação tendo como embasamento diferentes tipos de projeção cartográ�ca). Tais representações hoje observam relações de poder 0 V e r a n o ta çõ e s diversas para a confecção dos mapas, sendo possíveis relações entre países, blocos econômicos, comunidades locais, estados e regiões de um país e/ou regiões autônomas, com suas representações e intencionalidades de relação para representar o território que julgam ser seu e que, de fato, habitam e desenvolvem a vida. FOCO A segunda competência especí�ca da BNCC para o Ensino Médio nas Ciências Humanas e Suas Tecnologias explicita que os estudantes precisam aprender a analisar a formação de territórios e fronteiras em diferentes tempos e espaços, observando territorialidades e a geopolítica relativa aos Estados-nação mundiais. Com isso, a Geogra�a pode contribuir com a análise de mapas produzidos em diferentes regiões do mundo e como isso in�uencia na produção da Cartogra�a mundial, observando em cada uma das temporalidades e dos espaços as diferentes representações dos territórios. Encerramos aqui nossa segunda seção, aprendendo a importância dos mapas, suas principais propriedades e uma introdução sobre o desenvolvimento da Cartogra�a Temática. Avancemos posteriormente na Cartogra�a Digital e as suas possibilidades atuais com o advento das tecnologias da informação. Seguimos em frente! REFERÊNCIAS Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Nunc semper venenatis libero a fringilla. 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Como características principais desse movimento, destacamos os quatro grandes temas geradores dos conteúdos de nossa discussão doravante: o Sensoriamento Remoto, os Sistemas de Informação Geográ�ca (SIG) e a criação dos Bancos de Dados com as informações necessárias para se fazer um mapa, o Geoprocessamento utilizado para tais composições e que compõem, como um todo, a Cartogra�a Digital mediante a Infraestrutura de Dados Digitais (IDE) 0 V e r a n o ta çõ e s Deste modo, buscaremos estudar todos estes componentes essenciais para a composição de uma Cartogra�a do século XXI, acompanhada pelas nuances tecnológicas e seus avanços ao longo da história. Com isso, compreenderemos não somente como os mapas são elaborados, mas que outros produtos para além dos mapas também são objetos de estudo da Geogra�a e da Cartogra�a como um todo. Podemos citar o exemplo das imagens de satélite, as quais mesmo que não componham como produto �nal um mapa bidimensional, auxiliam na compreensão de fenômenos que ocorrem na Terra, tais como as cartas sinóticas e/ou as imagens de satélites cujas imagens formam as previsões do tempo, que temos contato diariamente nos meios de comunicação. Com isso, buscaremos ampliar o entendimento do que são os mapas a partir das possibilidades obtidas com as tecnologias e com as imagens proporcionadas pelos satélites e outros produtos possíveis dadas as ampliações dos horizontes pela tecnologia. Também observaremos a importância de consolidar os Bancos de Dados de informações geográ�cas de modo a espacializar os produtos com objetividade, respeitando os itens cartográ�cos e a linguagem cartográ�ca como um todo. Esperamos que esta segunda unidade de nosso livro tenha sido de ótimo proveito e grande aprendizado. Até a Unidade 3! É cada vez mais comum ouvirmos que as tecnologias estão presentes em nosso dia a dia, e isso é extremamente fácil de constatarmos. Desde a hora que acordamos até a hora que vamos dormir, somos dependentes de tecnologias muito apuradas e que nos auxiliam a dar conta de tarefas que outrora eram bastante trabalhosas e algumas sendo até mesmo impossíveis em tempos não muito longínquos de nossa sociedade. Um exemplo de uma atividade trabalhosa é o ato de lavar roupas, que nas grandes cidades facilmente é substituído por uma máquina – mais ou menos complexa – que automatiza as ações humanas. Esta máquina é 0 V e r a n o ta çõ e s produzida e possui sistemas automatizados extremamente complexos se pensarmos uma sociedade de 50 ou 60 anos atrás, e que hoje possibilitam, por exemplo, a digitalização de documentos acessíveis em qualquer lugar do mundo e na palma de nossas mãos. É comum observarmos também que essas tecnologias estão cada vez mais – em maior ou menor medida – popularizadas no planeta, conectando também formas sociais diferentes e culturas diversas ao redor do mundo. O tempo do relógio – e o biológico, porque não – foi profundamente alterado pelo tempo das máquinas e dos computadores, culminando em um modelo econômico-social – o capitalismo neoliberal da contemporaneidade – no qual tudo está conectado ao mesmo tempo, independentemente do que “a natureza lá fora” nos diga. Com esse acesso mais profundo das tecnologias, é inevitável que elas invadam as salas de aula nos mais diversos contextos sociais. É comum que hoje vejamos cada vez mais smartphones, tablets, entre outros materiais tecnológicos na sala de aula não somente do lado dos estudantes, como também dos professores – como lousas interativas. Com a de�agração da pandemia por COVID-19 no primeiro semestre de 2020, pudemos observar a transposição quase que direta das aulas presenciais para o modelo on-line. Apesar de todas as di�culdades para lidar com essa adaptação feita às pressas em âmbito geral (e mundial, inclusive), pudemos ter contato com diferentes plataformas que disponibilizaram recursos nunca antes utilizados como meio única e exclusivamente para o trabalho docente. Estes recursos foram transformados em pedagógicos pelos professores, como num “aprender- fazendo”, de fato, lidando no dia a dia de sala de aula (remota) com os limites e as possibilidades de aprendizagem propostos por estas tecnologias. Desta forma, a questão que passa a ser colocada é a forma que os professores teriam capacidade para se adaptar ao uso destas novas 0 V e r a n o ta çõ e s tecnologias na sala de aula. Sendo assim, quais são as possibilidades de uso destas – aproveitando seu amplo alcance – para ensinar cartogra�a em sala de aula? Ou seja: como que podemos aproveitar toda a tecnologia que se coloca disposta para nós em consonância com o trabalho docente – sabendo que podemos ter diferenças de acesso tecnológico, por exemplo, entre os próprios alunos? CONCEITO-CHAVE Como antecipamos no �nal da seção anterior, no fechamento desta Unidade de Estudos avançaremos nos conceitos que compõem e dão base para a Cartogra�a Digital. Também falaremos sobre as possibilidades de se fazer Cartogra�a Digital e seus principais usos dado o advento da tecnologia da informação. Mas para isso é preciso falar um pouco sobre como a tecnologia – especialmente a telemática e o desenvolvimento dos softwares e das redes tecnológicas a partir da segunda metade do século XX – possibilitaram os avanços na Cartogra�a e na Geogra�a como um todo. É necessário que lembremos da condição concreta da produção de nossa sociedade: uma sociedade tida como “A Sociedade da Informação” necessita de elementos que deem margem para a sua consolidação enquanto tal. E estes elementos passam a ser construídos a partir da ideia de integrar o todo-mundial em um mesmo momento a partir de redes computadorizadas e de distribuição das informações em tempo real a partir de elementos cada vez mais complexos. Estas são as características básicas para falarmos de um Espaço Geográ�co integrado, complexo e que prescinde de um desenvolvimento técnico e cientí�co muito apurado, para que a circulação de informações – e de, evidentemente, capital – se torne instantânea e seja capaz de integrar todos os lugares ao mesmo tempo. A�nal, quem de nós nunca ouviu a célebre frase “tempo é dinheiro”, não é mesmo?! 0 V e r a n o ta çõ e s E se “tempo é dinheiro”, de fato, precisamos nos atentar como a tecnologia computadorizada e as tecnologias da informação se apoderaram de nosso dia a dia e estamos cada vez mais dependentes de seu funcionamento para podermos nos relacionar com o mundo que nos rodeia. Apesar de ainda mantermos nossas necessidades humanas – e assim nos aproximarmos de nossos antepassados que ainda desenhavam mapas sem qualquer pretensão de sistematizar um conhecimento cartográ�co – inventamos a necessidade do computador e do consumo a todo momento, possibilitado graças à conexão dos mercados através de uma ferramenta-chave neste processo: a internet, uma rede mundial que integra todos os computadores conectados nela ao mesmo tempo, e que está paulatinamente mais presente em nossas atividades cotidianas. Feito este panorama inicial e breve sobre as tecnologias da informação e a sociedade informacional no século XXI, voltemos ao tema de nossa seção com uma pergunta: como a Cartogra�a acompanhou essa virada do século XX para o século XXI e o franco desenvolvimento das redes informacionais, assim como a integração instantânea de informações entre os mais diferentes lugares e regiões do planeta Terra? O desenvolvimento da Cartogra�a no �nal do século XX advém da necessidade de transformação tecnológica com os avanços da informatização e da consolidação da rede mundial de computadores, a internet.As possibilidades abertas com estas plataformas deram margem para que todo o constructo do conhecimento humano naquele momento em diante passasse a ser produzido através das novas tecnologias que surgiram. Deste modo, a Geogra�a e a área da Cartogra�a levaram a cabo uma série de mudanças em sua organização estrutural para que pudessem se adaptar aos novos tempos informatizados, mas que mantém sua estrutura analítica dos momentos anteriores da história. Podemos entender, assim, que a tecnologia veio para aumentar o alcance da Cartogra�a e a potencialidade de produzir mapas, expandindo as 0 V e r a n o ta çõ e s fronteiras do mapeamento remoto por meio de importantes ferramentas desenvolvidas pela humanidade. Para falar destas ferramentas, precisamos falar de como se consolidou o Sensoriamento Remoto na história da humanidade, e de sua importância para a Geogra�a e para o mapeamento do mundo de modo geral. Simpli�cando sua de�nição, o Sensoriamento Remoto consiste em uma área da ciência cujo objetivo prático é proporcionar, mediante o uso de sensores, o conhecimento do Espaço Geográ�co. Estes sensores produzem dados a respeito da realidade para que possamos analisar, mesmo que distantes, as características de um determinado lugar do espaço. Deste modo, esse tipo de mapeamento tornou possível o conhecimento do planeta Terra como um todo, inclusive de regiões mais isoladas, dadas as possibilidades de coleta remota de dados, para produzir informações mesmo que os analistas de dados não estejam coletando estas amostras especi�camente do lugar de origem. Como características principais do Sensoriamento Remoto, podemos destacar o uso de sensores – dispositivos que podem receber estímulos energéticos em geral (como magnéticos ou de luz, por exemplo) e são capazes de transmitir um impulso correspondente – para detectar e adquirir informações sobre um objeto físico sem que se entre diretamente em contato com ele. Ou seja: tanto o cientista quanto a ferramenta tecnológica (o sensor, neste caso) não estão em contato físico direto com o fenômeno analisado. Deste modo, a área de atuação do Sensoriamento Remoto é a da tecnologia espacial, limitando-se ao uso de sensores para medir perturbações energéticas magnéticas no espaço. EXEMPLIFICANDO O Sensoriamento Remoto tem aplicações diversas em nossa sociedade, e temos contato diário com os produtos derivados desta área do conhecimento. Por exemplo, é por meio de dados obtidos por sensores que se produzem as informações 0 V e r a n o ta çõ e s da previsão do tempo, por exemplo, ou que se medem abalos sísmicos. O sensor serve, deste modo, para medir um estímulo e captar os dados que este estímulo lhe fornece. Figura 2.6 | Satélite LANDSAT-8 lançado em 2013, o mais recente da série LANDSAT (desde os anos 1970 em operação) Fonte: Flickr. Desta forma, já podemos perceber que os dados são de suma importância para o Sensoriamento Remoto. Os sensores e seus estímulos precisam ser interpretados para que se produzam informações – como vimos na diferença entre informação e dado em nossa última seção de estudos. Mas, como podemos imaginar, a produção de informações pelos sensores é atualizada imediatamente, com uma intensidade e profusão imensa, sendo quase impossível que tenhamos uma análise completa, total e homogênea de todos os dados que os sensores emitem momentaneamente. Por este motivo é que dependemos dos Bancos de Dados, os quais têm por função principal o armazenamento e a consolidação de lugares seguros para reter essas informações primárias – 0 V e r a n o ta çõ e s ou seja, sem uma análise cientí�ca consolidada fortemente e que necessita do auxílio – assim como a Geogra�a – de outras áreas do conhecimento para se consolidar. REFLITA Assim como a Geogra�a e sua área do conhecimento como um todo estão sempre conectados com outros saberes provenientes de outros campos cientí�cos, todo o conhecimento produzido em suas subáreas também possui esta mesma característica. Vimos anteriormente o exemplo da Cartogra�a e sua dependência de outras áreas do conhecimento como a Matemática para determinar as coordenadas geográ�cas. Também no Georreferenciamento e para a consolidação de toda a estrutura dos Sistemas de Informação Geográ�ca (SIG) necessitamos de um conhecimento amplo e sistemático advindo de outras ciências, para estruturarmos uma análise de dados que faça sentido e que emane da concretude analisada. Os Bancos de dados são importantes não somente para o Sensoriamento Remoto, mas também para os Sistemas de Informação Geográ�ca, os SIG. Estes são, por de�nição, uma quantidade de dados especí�cos que são coletados a partir da observação e aferição dos fenômenos da realidade. Eles podem possuir algum tipo de tema (como dados climáticos, sísmicos, geológicos, pluviométricos, antropológicos, de ocupação de terra, etc.) e terem uma classi�cação ou um ordenamento interno primário – como a separação de dados momentâneos e dados históricos. Mas o que interessa para nós, neste momento, é que os Bancos de Dados permitem o armazenamento de informações da realidade; informações que por meio dos SIG podemos estruturar e apresentar análises que sejam condizentes com a realidade observada em algum lugar e os fenômenos 0 V e r a n o ta çõ e s determinantes para sua construção. Os Bancos de Dados podem ser de ordem primária – ou seja, quando os dados são obtidos diretamente da realidade, sem passar por nenhum crivo ou �ltro – ou de ordem secundária – quando já recebem tratamento dos próprios equipamentos, como exemplo o aperfeiçoamento automático de imagens de satélite para reduzir as interferências da radiação re�etida pelo planeta. Mas ambos são importantes estruturas para o funcionamento de um SIG. São os Bancos de dados que, como dissemos, estruturam os SIG. Talvez você já tenha percebido que deixamos um pouco de lado a Cartogra�a para falarmos sobre Bancos de Dados e SIG de maneira geral. Isso porque os SIG não servem à Geogra�a somente na via de articulação com a Cartogra�a, mas sim para construir modelos da realidade. A representação cartográ�ca, desta forma, é um modelo de explicação da realidade, mas não pode ser compreendido como único. O que importa aos SIG é viabilizar essa observação do real, e não simplesmente a espacialização de informações em um mapa. Mas é evidente que com o auxílio destas tecnologias organizadoras de dados é que podemos produzir efetiva e rapidamente uma cartogra�a que auxilie na tomada de decisões. Os SIG, pelo seu Banco de Dados organizados, articulam e analisam os dados capturados de uma localização. Estes sistemas e sua nomenclatura advêm do tratamento dado pela informática destas informações espaciais, articulando-os com características geométricas do espaço. Com o aumento da capacidade de armazenarmos e produção de informações geográ�cas, os SIG proporcionam o aumento na velocidade de processamento dos dados, construindo uma análise sistemática da realidade. Os SIG também possuem a vantagem de integrar análises espaciais, articulando dados por exemplo relativos à localização e à população, buscando uma visão totalizante do Espaço Geográ�co e de 0 V e r a n o ta çõ e s seus fenômenos. Atualmente, os principais usos dos SIG estão articulados com a organização do Espaço Geográ�co – justamente pela capacidade de integração entre Bancos de Dados diferentes, formando um só grande Banco de Dados. Os produtos normalmente são os mapas – articulados à cartogra�a – mas também pode ser a consolidação de modelos matemáticos (tabelas, grá�cos, organogramas, etc.) ou mesmo de visualização de novos Bancos de Dados. Tais dados podem ser representados pelas matrizes vetoriais ou matriciais dentro dos SIG, os quais compõem uma representação do Espaço Geográ�co para além dos mapas analógicos que compuseram, até então, a Cartogra�a. Ambas matrizes possuem vantagens e desvantagens, que devem serpesadas antes de serem compostas enquanto representações da realidade pelos SIG. É pelo uso dos SIG que se realiza o Geoprocessamento, sendo este literalmente o processamento de dados Geográ�cos. As ferramentas de SIG proporcionam tal análise na medida em que integram, em conjunto, dados de localização com dados obtidos por meio de �ltros colocados sobre a realidade. O Georreferenciamento compõe uma representação espacial de uma determinada parte do Espaço Geográ�co que pode ser feita por dados matemáticos (como as coordenadas) ou pelas imagens de satélite, sendo articuladas nos programas de geoprocessamento destes dados. Os melhores SIG são aqueles que possibilitam a integração de diferentes categorias dos dados espaciais, que permitem observar a realidade em sua complexidade, mas de modo a estruturar um pensamento geográ�co em sua totalidade. Ou seja: mesmo que observemos apenas uma parte do espaço (um local, por menor que seja), ela representa uma complexidade de relações no Espaço Geográ�co. Uma foto aérea ou uma imagem de satélite permite, por exemplo, falar de uso e ocupação do solo em uma área, mas também de desigualdade social, 0 V e r a n o ta çõ e s quando observamos uma imagem de uma grande propriedade de terra. Desta maneira, o Geoprocessamento possui essa característica de integrar o todo e sua complexidade em uma representação da realidade. Existem muitas formas de obter informações da realidade, por exemplo, por meio de topogra�as de terreno, censos populacionais, etc., mas é papel do Geoprocessamento integrar tais análises para compreensão do todo. FOCO NA BNCC O Geoprocessamento aparece na BNCC nos temas tratados dentro da Geogra�a, sendo possível trabalhar a temática com os estudantes em praticamente todas as habilidades – já que a Geogra�a versa sobre o Espaço Geográ�co. Para além do trabalho nas temáticas de Cartogra�a, a competência EF05GE08 propõe “analisar transformações de paisagens nas cidades, comparando sequência de fotogra�as, fotogra�as aéreas e imagens de satélite de épocas diferentes”. Isso já demonstra como o trabalho de SIG pode ser desenvolvido ainda no início do Ensino Fundamental, observando fotos aéreas para observar transformações nas paisagens. Por �m, falemos então da Cartogra�a Digital, a cartogra�a possibilitada pelos desenvolvimentos dos Sistemas de Informação Geográ�ca, os SIG. Esta cartogra�a torna-se possível, conforme estudamos e observamos em nosso dia a dia, pelo desenvolvimento da informática e dos sistemas tecnológicos do século XXI. O avançar da técnica informacional na vida humana fez com que fosse possível o trabalho com as tecnologias de modo a produzir informações sobre o Espaço Geográ�co de modo a organizar as sociedades humanas. 0 V e r a n o ta çõ e s Figura 2.7 | Mapa analógico do século XVI com as conquistas do Império Japonês à época. Nota-se a centralidade do Japão no mapa Fonte: Wikimedia Commons. Figura 2.8 | Mapa com parte da Região Metropolitana de São Paulo, obtido digitalmente. Escala 1cm:3km Fonte: OpenStreetMap. 0 V e r a n o ta çõ e s Deste modo, a Cartogra�a Digital é uma cartogra�a que articula o conhecimento da informática com os conhecimentos para a produção de mapas, desenvolvidos ao longo da história humana. Seu principal papel é o de melhorar as formas como observa-se o Espaço Geográ�co, possibilitando uma compreensão mais assertiva e próxima do real do que as representações cartográ�cas anteriores possibilitavam. Ela busca automatizar os processos de produção de representações espaciais, sendo uma parte importante dos SIG. A Cartogra�a Digital é uma seção daquilo que é conhecido por Computer Aided Design (CAD), um conjunto de sistemas que torna possível uma plataforma digital. Neste caso, para produzir mapas fazendo uso de imagens com a transformação de linhas, polígonos e formas geométricas das mais variadas articuladas em um produto cartográ�co. ASSIMILE Cartogra�a Digital: Cartogra�a articulada com os sistemas informatizados, sendo uma importante parte dos SIG. Seus mapas são as formas mais acuradas de se produzir uma representação do Espaço Geográ�co, haja vista a sua proximidade e assiduidade no trato com o real. A evolução dos CAD dentro da Cartogra�a Digital permite o surgimento de uma estrutura articulada entre os Bancos de Dados, que possibilitam armazenar uma complexidade de dados para além daqueles obtidos por uma ou mais variáveis. A eles damos o nome de Infraestrutura de Dados Digitais (IDE) sendo estes os Bancos de Dados organizados especi�camente para a produção da Cartogra�a Digital. Estes tipos especí�cos de dados da IDE possuem uma característica importante que muitos dos Bancos de Dados analógicos – ou até mesmo alguns dos digitalizados – não possuem, que é a capacidade de compartilhamento e monitoramento possibilitado em redes complexas de Tecnologias da 0 V e r a n o ta çõ e s Informação (TI). Em uma sociedade cada vez mais marcada pelo compartilhamento e articulação de análises dos dados espaciais, é importante que as Infraestruturas de Dados Digitais sejam compartilhadas, mas que também tenham sua segurança garantida para evitar invasões e roubos de informações indevidos, como temos visto cotidianamente em nossas redes sociais, por exemplo. Chegamos ao �m de nossa segunda unidade de estudos. Esperamos que tenha sido de bom proveito e que agora possamos compreender como a história da Cartogra�a e seus produtos auxiliam a Geogra�a em seus estudos a respeito do espaço produzido pelos seres humanos – o Espaço Geográ�co. Bons estudos e até nossa próxima unidade! REFERÊNCIAS EOS. Organização e sistemas. O que é banco de dados geográ�cos? Disponível em: https://bit.ly/3oSPM7k. Acesso em: 31 jul. 2021. FERNANDES, J. C. L. Canaltech. Meios de comunicação e o avanço da internet. Disponível em: https://bit.ly/33knGcH. Acesso em: 31 jul. 2021. FLORENZANO, T. G. Iniciação em sensoriamento remoto. 3. ed. São Paulo: O�cina de textos, 2011. HARLEY, B. Mapas, saber e poder. Con�ns (online). n. 5, 2009. Disponível em: https://bit.ly/3m9iwHf. Acesso em: 5 dez. 2021. LACOSTE, Y. A Geogra�a – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. São Paulo: Papirus Editora, 1988, pp. 21-31. OPENSTREETMAP. Disponível em: https://bit.ly/3ysk2cg. Acesso em: 30 jul. 2021. 0 V e r a n o ta çõ e s https://www.eosconsultores.com.br/o-que-e-um-banco-de-dados-geograficos/ http://confins.revues.org/index5724.html https://www.openstreetmap.org/#map=12/-23.5341/-46.6277 NÃO PODE FALTAR HISTÓRIA DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO Gabriel Pinto de Bairro Imprimir CONVITE AO ESTUDO Bem-vindo, estudante! Comecemos nossa jornada sobre as análises geográ�cas. Começaremos agora nossa unidade de ensino. Nela, aprofundaremos as categorias geográ�cas que aprendemos nos capítulos anteriores, em busca de uma maior densidade em suas de�nições, usos e práticas. Já vimos que estas categorias são importantes para que a ciência geográ�ca possa não somente se de�nir – distinguindo suas análises das de outras ciências – mas também levar adiante seu trabalho principal: desvendar as análises do objeto de estudo geográ�co – como também já vimos e estudamos, o Espaço Geográ�co. Nosso objetivo principal aqui será o de nos apropriar destas categorias geográ�cas mais profundamente de forma a conseguirmos, com base nos dados e informações espaciais derivadas deles – garantir a solução de problemas que nos circundam diariamente e ocorrem neste Espaço Geográ�co. 0 V e r a n o ta çõ e s Na primeira seção de estudos versaremos sobre uma parte importante da Geogra�a e que, muitas vezes, não é valorizada e estudada a fundo pelos pro�ssionais da área: a história da construção da ciência geográ�ca. Conhecendo as principais ideias das escolas geográ�cas é que podemos observar o desenvolvimento e a maturação das categorias e dos conceitos (derivados delas) da Geogra�a, tendoem mente o acúmulo histórico de discussões que chegaram até nós. Também falaremos ao longo desta unidade, em nossa segunda seção de estudos, das categorias da Geogra�a, mas de uma forma mais profunda, observando suas transformações ao longo da história e seus possíveis alinhamentos e suas interfaces com as áreas do pensamento geográ�co. Aprofundaremos para que possamos nos apropriar destes conhecimentos e observar de que forma podemos analisar mais apuradamente as questões que nos circundam no dia a dia. Na terceira seção, falaremos sobre as Escalas Geográ�cas – local, regional e global, e suas in�exões geográ�cas de acordo com as formas de pensar o Espaço Geográ�co. Discutiremos, ainda, sua importância para organizar os acontecimentos e proporcionar análises mais aprofundadas e assertivas da realidade. Esperamos que esta unidade seja bastante proveitosa para você e seu professor. Ela contém uma parte essencial para que possamos entender o desenvolvimento da Geogra�a como ciência, mas também proporcionará um entendimento mais próximo da realidade quando de nossa apropriação conjunta das categorias e dos conceitos que destrincham destas e estão desmembrados nas mais diversas áreas da Geogra�a, quais sejam: urbana, rural, regional, do Brasil, da saúde, escolar, etc. PRATICAR PARA APRENDER 0 V e r a n o ta çõ e s Iniciando a nossa seção de estudos, falaremos sobre uma das centralidades da Geogra�a que, infelizmente, é deixada de lado em muitos casos pelos pro�ssionais de nossa área, estejam ou não dentro da sala de aula. A história do pensamento geográ�co (comumente referenciada enquanto HPG) é uma área de estudos dentro da Geogra�a que proporciona o estabelecimento de relações entre as categorias geográ�cas e o desenvolvimento da Geogra�a mundial ao longo do tempo. Tal e qual uma história contada ao longo de gerações, a história do pensamento geográ�co proporciona ao geógrafo a possibilidade de viajar no tempo e observar como as categorias geográ�cas principais puderam se manifestar, tendo em vista os principais períodos de desenvolvimento geográ�co desde seu estabelecimento enquanto ciência no século XVIII. Estes períodos são, em grande medida, quatro: a Geogra�a Tradicional – quando do início de nossa ciência, ainda nas grandes navegações europeias –, a Geogra�a Quantitativa – uma Geogra�a que buscou obter dados e informações do Espaço Geográ�co cada vez mais apurada na tentativa de desenvolver análises numéricas sobre o espaço –, a Geogra�a Crítica – surgida da necessidade da ciência Geográ�ca se desenvolver enquanto um marco de resistência no e pelo Espaço Geográ�co, buscando desenvolver uma teoria que servisse para a explicação crítica dele – e a Geogra�a da Percepção – vinculada à Fenomenologia e que busca observar as sensações individuais e como elas reverberam nos sujeitos que compõem as sociedades. Evidentemente que estas quatro periodizações não são estanques, o que quer dizer que elas possuem uma demarcação formal de tempo histórico (início e �m), mas que não necessariamente deixaram de contribuir para o desenvolvimento do pensamento espacial e geográ�co ao longo dos anos seguintes. A periodização destas teorias busca tornar didático seu surgimento, e não limitar seu espectro de ação, sendo estas linhas 0 V e r a n o ta çõ e s desenvolvidas de forma bastante única e conjunta – já que, lembrando de nossas seções anteriores, a Geogra�a é uma ciência de conexões e interdisciplinaridade. Vamos juntos! As portas nunca se fecham para quem busca conhecimento! Quando nos deparamos com nossa pro�ssão, muitas vezes nos aplicamos nos questionamentos mais latentes de nosso trabalho. Numa “situação real” privilegia-se a resolução de problemas em detrimento da re�exão sobre estes problemas, suas causas e consequências diretas e indiretas para as pessoas. Podemos ter como exemplo o bombardeio de índices e estatísticas que inundam noticiários televisivos todos os dias, ou até mesmo as re�exões imediatistas – e cada vez mais intensi�cadas – causadas pelas redes sociais. É cada vez mais comum que nos deparemos com informações produzidas por fontes duvidáveis, ou que não estejam tão articuladas com a concretude quanto pensamos. Para além dos problemas das já tão bem conhecidas por nós (as “fake news”), temos ainda a di�culdade – devido muitas vezes à falta de tempo em sala de aula com nossos alunos – de promover re�exões mais aprofundadas das questões que nos rodeiam e que chegam até nosso conhecimento. O saber, cada vez mais difundido na sociedade da informação (como vimos anteriormente), transformou-se num aglomerado sem crítica de muitas informações, cujas interpretações podem ser feitas por dados que não são con�áveis – ou de fontes, inclusive, forjadas. A par disso, vamos imaginar uma situação pro�ssional que todos nós, professores de Geogra�a ou não, nos deparamos a todo momento, especialmente no momento de preparação de atividades e conteúdos a serem ensinados para nossos estudantes. Sempre bate aquela dúvida entre qual conteúdo ensinar, quando ensinar, como ensinar, se é 0 V e r a n o ta çõ e s pertinente ensinar, quais informações utilizar, entre tantas outras indagações que temos ao longo de nossa pro�ssão. Porém, mesmo que nos atentemos para tais questionamentos, nunca fazemos diretamente o questionamento de qual matriz do conhecimento geográ�co – ou se preferir, vertente do pensamento geográ�co – partimos. Ou até mesmo como o trabalho docente na escola que trabalhamos está moldado – haja vista que as matrizes de pensamento cientí�co reverberam em todas as ciências em maior ou menor intensidade. Um exemplo disso está nos currículos que nos induzem – cada vez mais – a pensar nossa estrutura de aulas pautadas na experiência dos estudantes. Pensando nisso, como podemos resolver a questão sobre qual matriz do pensamento geográ�co devemos utilizar para planejar nosso trabalho docente? Existe uma corrente ou �liação teórica da Geogra�a que seja melhor ou mais utilizada do que as outras? Alguma corrente que privilegie o conhecimento do aluno ou que “ensine melhor” a Geogra�a que precisamos transmitir aos estudantes? CONCEITO-CHAVE A Geogra�a, como qualquer ciência e organização do pensamento a partir dos paradigmas cientí�cos, precisou de tempo para se desenvolver plenamente enquanto uma ciência única e com um objeto de estudo bem delineado. Desta forma, observamos ao longo da história do desenvolvimento da Geogra�a que o Espaço Geográ�co se consolidou enquanto objeto de estudo desta ciência, porém, para que tal ação fosse possível, houveram muitas ações para desenvolver categorias e conceitos geográ�cos que chegam para nossas análises até os dias de hoje. Deste modo, precisamos observar o desenvolvimento da Geogra�a conjuntamente com a ciência. Destaca-se aqui que o seu surgimento enquanto ciência é localizado ainda no século XVIII quando do desenvolvimento da ciência positivista de modo geral. As “ciências do 0 V e r a n o ta çõ e s homem” – que comumente conhecemos enquanto “ciências humanas” – demoraram a se desenvolver neste paradigma pois o positivismo valorizava signi�cações matemáticas – quando do desenvolvimento das ciências exatas ainda no século XVII. As humanidades, outrossim, precisaram de um desenvolvimento histórico dentro desta perspectiva, o que justi�cou a criação de suas bases em um primeiro momento, muito parecidas com as bases das ciências naturais e exatas. A GEOGRAFIA TRADICIONAL A par disso, podemos observar o surgimento da Geogra�a Tradicional – também reconhecida como a Geogra�a Clássica. Ela está muito próxima dos estudos naturalistas, quando do processo das identi�cações da Geogra�a enquanto ciência muito consolidada sob os auspícios do positivismo. Esta, é marcadamente herdeira da tradição das grandes navegações dos séculos XV e XVI na Europa, cujo favorecimento de alguns países devido à acumulação primitivade capitais, a posição geográ�ca e formação primitiva de suas burguesias nacionais possibilitou a saída para o mar. Os naturalistas – cientistas que buscavam compor um rol de conhecimentos sobre a natureza, partindo de princípios da botânica e da biologia como um todo – compuseram os primeiros estudos de Geogra�a que podemos ter notícia. O primeiro destes aventureiros que se tem notícia é Alexander von Humboldt, alemão nascido em 1769 em Berlim, ainda no reino da Prússia. Humboldt é um exemplo bastante concreto sobre como operavam as expedições dos primeiros naturalistas, sendo considerado o “pai da Geogra�a moderna” desde que a ciência se consolidou enquanto tal, bem como também sendo o fundador da Biogeogra�a. Seus trabalhos eram �nanciados por burgueses e integrantes da nobreza a �m de reconhecer territórios longínquos com potencialidades para serem explorados por 0 V e r a n o ta çõ e s meio da colonização de exploração. Muitos destes aventureiros – já superado o momento de descoberta – buscavam somar uma enorme quantidade de conhecimentos dos lugares que viajavam, constituindo algumas observações utilizadas até hoje, especialmente no que diz respeito às paisagens e ao meio natural. Figura 3.1 | Alexander von Humboldt, o pai da Geogra�a moderna 0 V e r a n o ta çõ e s Fonte: Wikimedia Commons. 0 V e r a n o ta çõ e s Neste momento a importância dos croquis geográ�cos da paisagem era fundamental para a representação do espaço – mesmo que não consolidados ainda enquanto uma ciência. Avançando um pouco no tempo, temos no século XIX o encaixe da Geogra�a Tradicional com a consolidação da Geogra�a enquanto ciência. Deste modo, a observação e descrição das paisagens começa a �car um pouco mais complexa, constituindo duas grandes escolas de observação das dinâmicas do e no Espaço Geográ�co. A primeira escola é a Escola Alemã, depositária dos conhecimentos dos naturalistas. Porém, ao veri�carmos a história e a consolidação dos Estados-nação ainda no início do século referido, observamos que havia a necessidade da uni�cação dos territórios germânicos. Vale lembrar que a Alemanha, até a segunda metade do século XIX, ainda não estava consolidada enquanto fronteiras territoriais, estando ainda em 1870 subdividida em territórios independentes (ducados). Deste modo, a Escola Alemã se caracteriza especialmente por análises Geopolíticas do território (cujos expoentes são Humboldt e Carl Ritter) pautadas no determinismo geográ�co para de�nir o território alemão – necessidade latente naquele momento. É de Humboldt a primeira ideia de que a Geogra�a articula os conhecimentos do que é “orgânico com o que é inorgânico”; ou seja: do meio natural e das in�uências da sociedade sobre ele, consolidando o Espaço Geográ�co. Já a Escola Francesa se caracteriza pelo estudo maior das paisagens e o seu aprofundamento na teoria da regionalização – o que nos faz considerar esta Geogra�a enquanto uma Geogra�a Regional, cujo principal expoente é Paul Vidal de La Blache, o pai da Geogra�a Regional e da Teoria da Regionalização, sendo o primeiro a organizar regiões – contiguidades espaciais, como vimos anteriormente – a partir das paisagens semelhantes do território francês. É esta Geogra�a, a de Escola Francesa, que foi fundante dos cursos de 0 V e r a n o ta çõ e s Geogra�a no Brasil. No início do século XX, professores de universidades francesas como Pierre Mombeig e Pierre De�ontaines fundaram o curso de Geogra�a da Universidade de São Paulo (USP), consolidando a tradição da análise por regiões no Brasil. REFLITA Se o desenvolvimento da ciência fosse realizado de modo estanque – ou seja, se ele encerrasse em si mesmo – toda vez que um período histórico se encerrasse, os avanços da sociedade não seriam levados em conta. Deste modo, é importante pensarmos na integração dos conhecimentos cientí�cos como um desenvolvimento atemporal da ciência, sem que �quem encerrados em suas próprias temporalidades. A GEOGRAFIA QUANTITATIVA Posteriormente podemos identi�car, no avançar do século XX, o movimento de produzir uma Geogra�a que justi�casse a ciência geográ�ca dentro do paradigma de produção de uma ciência positivista. O contexto dessa produção cientí�ca – não só na Geogra�a, mas das ciências de modo geral – é o de uma ciência pautada pela exatidão das informações e dos conhecimentos produzidos. Essa ciência buscava se identi�car enquanto uma ciência neutra – qual seja, uma ciência que não se comprometia com análises para além daquelas que os índices e os números indicavam. Produzir uma ciência neutra fazia sentido, neste momento, no Brasil, tendo em vista que o desenvolvimento desta Geogra�a – por aqui denominada de Geogra�a Teorética – se deu no período da ditadura militar no país. Caía como uma luva uma ciência que apenas demonstrasse dados, independente das análises que tais dados poderiam possibilitar. E, evidentemente, as informações que os números podem apresentar têm, de fato, interferências daqueles que as produzem. 0 V e r a n o ta çõ e s Para além dos questionamentos de ser impossível fazer ciência neutra – seja lá qual ciência for, ela é produzida com intencionalidades –, a Geogra�a Teorética brasileira consolida um importante momento de mapeamento e uso de tecnologias ainda incipientes para conhecer o território. É por meio dessa Geogra�a que o Brasil consegue produzir análises espaciais acuradas de uma expansão territorial a ser pensada para integrar o território brasileiro. Suas principais características eram a consideração do Espaço Geográ�co enquanto um “espaço matricial” – no sentido de ser passível de ser explicado por números e pelos índices os quais, apresentados por si só, dariam a dimensão daquilo que se queria mostrar. Um espaço padronizado pelos números, buscando a explicação numérica para os fenômenos espaciais – e o desenvolvimento da sociedade. ASSIMILE A Geogra�a Quantitativa se difere da Geogra�a Tradicional por tentar abranger o conhecimento do Espaço Geográ�co por conta das estatísticas e informações obtidas por meio de dados numéricos. O modo de fazer Geogra�a anterior formulava as categorias que utilizamos até hoje, e preocupava- se com a observação dos fenômenos e sua explicação mediante o desenvolvimento de tais categorias. Porém, os avanços dessa Geogra�a Teorética causaram uma abstração no pensamento espacial e no pensamento geográ�co, na medida em que consolidavam análises numéricas da realidade. A natureza também é entendida, neste momento, sob a ótica de uma potencialidade, um mero apanhado de recursos a serem explorados. Entretanto, vale destacar a importância do Instituto Brasileiro de Geogra�a e Estatística (IBGE) que abre alas para a consolidação de profundas análises e séries temporais de produção de dados organizados sobre o Brasil, seu território e suas 0 V e r a n o ta çõ e s populações. Importante destacar que a expansão da Geogra�a Teorética no Brasil coincide com as tentativas mais bem-sucedidas – até então – de expansão territorial e escolar no país. Desta forma, as pedagogias novas em franco desenvolvimento dentro do Brasil desde a década de 1940 tomam força e moldam a Geogra�a Escolar no período com base na Geogra�a Teorética. Até hoje é comum ouvirmos que a Geogra�a “serve para decorar” capitais e estados brasileiros e capitais e localizações mundiais. Muito dessa opinião amplamente divulgada se deve ao fato de a Geogra�a Escolar brasileira ter se desenvolvido e sido ampliada neste período de uma Geogra�a acrítica, cujas estatísticas e toponímias eram mais importantes do que uma análise crítica e bem embasada do território e da sociedade brasileira em geral. A GEOGRAFIA CRÍTICA Mesmo com o avanço da Geogra�a Teorética no Brasil, havia ecos críticos na medida do possível. A Geogra�a mundial – quantitativa e baseada na elaboração e nos sistemas e modelos matemáticos para tentar explicar o Espaço Geográ�co– passa a ser contestada em todos os lugares, especialmente na segunda metade do século XX no período pós-Segunda Guerra Mundial. Com a instauração do período de Guerra Fria desde os anos de 1960, a cisão mundial entre países conjuntos ao bloco socialista e ao bloco capitalista instaurou um período de decisões e de demarcações – destas que a ciência não pôde escapar ilesa. O desenvolvimento tecnológico dado pela corrida espacial possibilitou, como vimos em na unidade anterior, o avanço ao espaço orbital e a partir dele, ampliar as ferramentas para conhecer o planeta de forma remota, em partes e lugares nunca visitados pelo ser humano – somente imaginados. Pois, com isso, a importância da Geogra�a não estava mais em apenas 0 V e r a n o ta çõ e s exempli�car os lugares e estudá-los com base em sua localização e/ou a partir de dados e modelos matemáticos. Se fazia necessária uma crítica aos conhecimentos produzidos, minimamente para pensar como e por que (e por quem) eram elaborados. Quem são os sujeitos históricos que produzem o conhecimento geográ�co e a ciência, de modo geral? Assim, nasce o movimento da Geogra�a Crítica, o qual toma força na década de 1970 e 1980 no Brasil, permanecendo até hoje como um importante eixo de desenvolvimento geográ�co no país. Como características principais, essa Geogra�a Crítica possuía forte análise política e das relações sociais, buscando compreender o Espaço Geográ�co enquanto um conjunto total cuja in�uência humana era desigual no mundo inteiro, criando o que Milton Santos – importante geógrafo brasileiro nascido na Bahia em 1926 – chamou de “regiões do mandar” e “regiões do fazer”, na esteira das de�nições de outros cientistas que buscavam compreender as desigualdades sociais entre os territórios. Outra característica importante da Geogra�a Crítica é a sua aproximação bastante intensi�cada com movimentos sociais, dado seu entendimento de que o Espaço Geográ�co manifesta as desigualdades e que, para além de apenas manifestá-las, é possível mudar as relações nele. Figura 3.2 | Milton Santos, grande expoente da Geogra�a Crítica no Brasil, reconhecido mundialmente por sua obra Fonte: Wikimedia Commons. 0 V e r a n o ta çõ e s Desta forma, essa Geogra�a Crítica se colocava de modo a contestar a Geogra�a Quantitativa feita anteriormente, buscando explicar as relações espaciais como fruto dos con�itos humanos – evidentemente sem abandonar as análises do meio físico. Neste momento, a integração dos fatores sociais para a transformação do meio toma um importante destaque, mas sem abandonar os avanços realizados anteriormente pela ciência geográ�ca. EXEMPLIFICANDO É importante que se faça a crítica dos conceitos e das informações espaciais obtidas, pensando sempre em utilizar categorias e conceitos que deem conta da realidade. Uma representação espacial, por exemplo, que não busque observar os pontos que podem ser melhorados em um determinado lugar analisado é uma representação fadada à criação de índices e estatísticas puristas – as quais muitas vezes deixam de lado o fator humano e as condições de vida das pessoas. A Geogra�a Crítica acompanha as discussões de sua época questionando o princípio da neutralidade cientí�ca, promulgada pela Geogra�a Quantitativa, e apoiada em um desenvolvimento cientí�co de uma ciência pautada pelo marxismo. É uma Geogra�a que toma partido das discussões e decisões humanas, sendo assim uma Geogra�a interessada no modo de fazer político humano. A GEOGRAFIA DA PERCEPÇÃO Mais recentemente, na virada do século XXI, a Geogra�a passa por uma nova rede�nição. Acompanhando as teorias que buscavam a superação da modernidade – e pautadas nas relações dos indivíduos com o mundo que os rodeia – surge um modo de conceber a Geogra�a a partir da 0 V e r a n o ta çõ e s percepção que as pessoas possuem, enquanto indivíduos, do mundo que os rodeia. Seu nome não poderia ser outro: Geogra�a da Percepção. Esta Geogra�a, por princípio, busca superar a crítica realizada pela Geogra�a anterior na medida em que assimila as formas diferentes de perceber o mundo pelos indivíduos. Deste modo acaba, intencionalmente ou não, privilegiando categorias geográ�cas que possuem mais relação com as individualidades, e não com uma análise do todo. A Geogra�a da Percepção procura interfaces nas teorias da Fenomenologia em busca do entendimento de como os sujeitos assimilam a sociedade que são membros. As teorias que dão base à Geogra�a da Percepção possuem o desejo de superação do período da modernidade – e por isso ouvimos falar que fazem parte das teorias pós-modernas. Essa tentativa de superação da modernidade é também uma busca de superar as teorias da modernidade – consideradas ultrapassadas para compreender o mundo das redes que vivemos na contemporaneidade. Contudo, carregam o fardo de serem responsáveis – diretamente – por uma tentativa de superação do marxismo, a teoria revolucionária da modernidade. As principais características da Geogra�a da Percepção compreendem seu apoio na percepção dos sujeitos, o desenvolvimento teórico e metodológico a partir do local (o “espaço vivido” e vivenciado pelos indivíduos), na tentativa de assegurar as expressões de todos nos territórios. Assenta-se na subjetividade, nos simbolismos, na cultura local, e na percepção de mundo pelo sujeito por meio de suas experiências sensoriais. FOCO NA BNCC A proposta dos Itinerários Formativos da BNCC do Ensino Médio busca desenvolver uma Geogra�a pautada nos sujeitos. Deste modo, é importante atentar para as formulações da Geogra�a da Percepção, e de que forma mesmo com sua 0 V e r a n o ta çõ e s especi�cidade, o professor de Geogra�a pode desenvolver o pensamento espacial para além da percepção imediata do estudante, dadas as condições de sua apropriação do Espaço Geográ�co e de suas categorias de análise. Assim sendo, é importante atentarmos para a percepção na Geogra�a. Sua exacerbação pode gerar análises que privilegiem apenas as experiências dos sujeitos em sua realidade imediata, o que prejudica a construção de um conhecimento enquanto mediação por meio de categorias de entendimento do Espaço Geográ�co. Em outras palavras, se a experiência dos sujeitos for o foco e a �nalidade de sua educação, a educação pode estar condenando o conhecimento e a construção do conhecimento destes sujeitos às suas experiências de mundo, relegando suas ações ao seu próprio espaço, sem que haja uma efetiva transformação sobre a vida destes sujeitos. O conhecimento seja ele geográ�co ou não – e partindo da premissa de que é integrado e compõe uma esfera de maior dimensão humana, o conhecimento cientí�co – possui uma potencialidade que é ativa na escola: a de transformação da sociedade e da realidade dos estudantes. Deste modo, não pode o professor limitar a experiência de acesso aos conhecimentos do estudante desenvolvendo apenas uma Geogra�a pautada nas experiências individuais dos sujeitos, colocando sua formação humana em risco ao exacerbar apenas aquilo que o rodeia, sem articular o pensamento e a história do desenvolvimento dos conhecimentos humanos em sua totalidade. Encerramos aqui nossa primeira seção de estudos da terceira unidade de nosso livro. Gostaríamos sempre de lembrar que o papel do professor é o de ensinar, e para que isso seja possível, precisamos sempre estudar – que é o que nós estamos fazendo juntos em nosso material. Até a próxima seção! Bons estudos. 0 V e r a n o ta çõ e s REFERÊNCIAS BOMFIM, N. R. A geogra�a da percepção e a percepção da geogra�a na escola. Periódico GEOGRAFIA, Rio Claro, v. 23(1), abril/1998. FIALHO, L. M. F.; MACHADO, C. J. dos S.; SALES, J. A. M. de. As correntes do pensamento geográ�co e a geogra�a ensinada no ensino fundamental: objetivos, objeto de estudo e a formação dos conceitos geográ�cos. Educação em Foco, [s. l.], v. 17, n. 23, p. 203–224, 2014. Disponível em: https://bit.ly/3dR7RMz.GEORGE, P. A ação do homem. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1971. LACOSTE, Y. A geogra�a: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Campinas: Papirus, 1988. MOREIRA, R. O pensamento geográ�co brasileiro. v. 1: as matrizes clássicas originárias. São Paulo: Contexto, 008. MOREIRA, R. O pensamento geográ�co brasileiro. v. 2: as matrizes da renovação. São Paulo: Contexto, 2009. MOREIRA, R. O pensamento geográ�co brasileiro. v. 3: as matrizes brasileiras. São Paulo: Contexto, 2010. MOREIRA, R. Para onde vai o pensamento geográ�co? por uma epistemologia crítica. São Paulo: Contexto, 2011 SPOSITO, E. Geogra�a e �loso�a. São Paulo: Editora Unesp, 2004. 0 V e r a n o ta çõ e s https://revista.uemg.br/index.php/educacaoemfoco/article/view/432 NÃO PODE FALTAR CATEGORIAS DA GEOGRAFIA Gabriel Pinto de Bairro Imprimir PRATICAR PARA APRENDER Seja bem-vindo à nossa segunda seção de estudos da terceira unidade do livro. Nesta seção vamos aprofundar bastante nossos conhecimentos sobre as Categorias da Geogra�a, buscando observar as suas interfaces com os conceitos geográ�cos das diferentes áreas da ciência geográ�ca. Vamos procurar, em um primeiro momento, explicar as diferenças entre categorias e conceitos e como eles in�uenciam na produção da ciência geográ�ca. Isso será importante para o segundo momento de nossa seção, que buscará aprofundar os conhecimentos que já começamos a trabalhar anteriormente. Este aprofundamento será realizado de modo a observar como que cada uma das categorias se desdobra em uma série de conceitos que estão localizados dentro de cada área do conhecimento geográ�co, e como podemos organizar o entendimento sobre estes conceitos de modo a ter possibilidade de ensiná-los em sala de aula. Assim sendo, nosso aprofundamento nas categorias da Geogra�a – 0 V e r a n o ta çõ e s conforme proposto como título desta seção – será feito dadas algumas características conceituais que julgamos ser importantes de se fazer dentro das subáreas de nossa ciência. Essas diferenciações são muitas, e aqui optou-se por buscar aquelas que recorrentemente aparecem na literatura e também de�nem centralmente algumas das áreas geográ�cas que mais temos contato quando estamos em sala de aula. Um exemplo é a categoria Região que pode se desdobrar em Geogra�a Urbana, por exemplo, em região metropolitana – uma forma de analisar também os processos de conurbação entre as cidades em uma região concentrada de um determinado território. Deste modo, convidamos você a entender, de maneira geral – dados os limites de nosso singelo material – os desdobramentos conceituais nas categorias, entendendo que dentro do pensamento geográ�co e suas correntes – que como vimos na seção anterior, não se encerram em um determinado período histórico e, assim, in�uenciam nos períodos posteriores – as categorias se realizam pelos conceitos, criados – como veremos – com a marca histórica de seu próprio tempo. Sugerimos a leitura do livro didático tendo em mente que não conseguiremos esgotar todas as questões relativas às categorias da Geogra�a. Por isso, é fundamental que você tenha em mente que as questões postas pelo professor em sala de aula serão essenciais para o entendimento de tal aprofundamento das categorias em conceitos nas subáreas da Geogra�a – incluída aí a Geogra�a Escolar. Vamos começar! Boa leitura e bons estudos! Todos os dias entramos em contato com informações diversas a respeito das regiões brasileiras e suas características, sejam elas políticas, econômicas, territoriais, sociais, etc. Sabemos que, devido à extensão territorial do Brasil, estas regiões são organizadas a �m de pensar a estruturação do território brasileiro, na medida em que o compartimentam dadas as aproximações entre si tendo por base alguma 0 V e r a n o ta çõ e s característica física e/ou social. A este processo denominamos de regionalização, ou seja: dividir um território em porções menores dadas as suas características comuns. Essas regionalizações podem também ir além das fronteiras de um país, como no caso da região amazônica, que não está restrita somente às fronteiras de nosso país, como também possui importância para os países vizinhos como Peru e Colômbia, por exemplo. Vale lembrar que a nascente do Rio Amazonas – conhecido como Mar Doce pelos colonizadores espanhóis do século XV e XVI – está localizado dentro das fronteiras territoriais do Peru, a 5.500 m de altitude. E muitas vezes nos lembramos disso apenas quando abrimos os atlas geográ�cos, pois normalmente nos referimos ao Rio Amazonas como o grande rio brasileiro, dando a impressão que ele se localiza por inteiro em seus limites territoriais. Dadas estas impressões, podemos começar a pensar em quais são os limites e as possibilidades das regionalizações e das próprias regiões – sendo que estas últimas sofrem resistência dentro de algumas áreas do saber geográ�co por serem entendidas especialmente pelo viés puramente econômico, sem que se tenha se considerado em muitos momentos da história outros aspectos senão os de interesse do capital. Deste modo é necessário que selecionemos, dentro da profusão de informações geográ�cas, que podemos obter das fronteiras territoriais brasileiras, os saberes essenciais para o entendimento da região, da regionalização e como estas duas importantes características do Espaço Geográ�co se relacionam com a categoria Território. Sendo assim, imagine que você é o professor de uma turma de 7º ano do Ensino Fundamental e precisa trabalhar os aspectos da regionalização do Brasil, apresentando dados espaciais sobre como o território brasileiro está dividido nas cinco regiões. Durante a apresentação destes dados, os estudantes começam a se perguntar, entre outras coisas, sobre as 0 V e r a n o ta çõ e s diferenciações no espaço brasileiro a partir de suas regiões. Como devemos trabalhar a questão da diferenciação regional brasileira? Sob quais aspectos devemos observar as contradições do e no espaço geográ�co do Brasil? Como desenvolver durante nossas aulas de Geogra�a, as questões de região e território brasileiros a partir de questões contraditórias, baseando-se no princípio de que estas regiões são bastante diferentes entre si? CONCEITO-CHAVE Já que a Geogra�a é uma área do conhecimento cientí�co e faz parte, assim, produz ciência, precisamos estar com nosso objeto de estudo e as nossas categorias “na ponta da língua” para conseguir ensinar Geogra�a aos nossos alunos. Nas unidades anteriores, nos estendemos bastante na de�nição e na análise do objeto de estudo da Geogra�a – o Espaço Geográ�co – e nas categorias da ciência geográ�ca – Paisagem, Lugar, Território e Região. Mas, antes de passarmos para os conteúdos propriamente ditos da segunda seção desta unidade, precisamos em um primeiro momento fazer uma distinção que nos acompanha desde os primeiros passos da consolidação da Geogra�a enquanto uma área do conhecimento cientí�co. Distinção esta que, sem ela, não podemos nos aprofundar na Geogra�a, pois é o que diferencia as áreas do conhecimento geográ�co dentro da própria ciência da Geogra�a, e que nos embasa historicamente na produção de conhecimentos cientí�cos dentro de nossa área de estudos. Essa distinção é entre categorias e conceitos, sendo bastante complexa de ser feita e podendo ser executada de várias formas, de acordo com a visão do autor que a faz. Para alguns, nem deve haver distinção entre categoria e conceito, dado que o desdobramento das segundas é resultado da de�nição das primeiras. Estes conceitos são importantes 0 V e r a n o ta çõ e s porque eles se diferenciam e ajudam a diferenciar as diferentes (e muitas) áreas do conhecimento geográ�co, como a Geogra�a Escolar, a Geogra�a Urbana, a Geogra�a Rural, a Climatologia, etc. Dentro de todas essas áreas do saber geográ�co, se desenvolvem os conceitos advindos das categorias do pensamento geográ�co.Entretanto, precisamos observar que categorias e conceitos são distintos – até porque, evidentemente, recebem nomenclaturas diferentes. E a sua diferença primordial e que será abordada aqui em nossos estudos diz respeito ao caráter histórico e historicizante – ou seja, a forma como atribui e faz a história – dos conceitos. De modo bastante simpli�cador, podemos de�nir que todo conceito é uma forma histórica de uma categoria em um determinado período analisado. Isso signi�ca dizer que o conceito precisa estar localizado em um período histórico e ele mudará, necessariamente, de acordo com a concretude da análise geográ�ca realizada em um determinado período histórico da humanidade. Um exemplo bastante concreto é pensar que uma categoria atravessa todos os períodos da história humana sem sofrer alterações essenciais – paisagem é paisagem desde que nos estruturamos enquanto seres pensantes e conseguimos organizar nossos conhecimentos e estruturá-los na forma de conhecimento cientí�co. Porém, em cada período histórico, essas categorias são pensadas para responderem às questões próprias de seu tempo. E por isso são denominadas de conceitos, pois eles têm validade e comprovação histórica na concretude analisada. Por exemplo, a paisagem arti�cial do capitalismo é um conceito por estar atrelada às transformações do meio físico pelo ser humano em um determinado momento da história – o capitalismo, iniciado no período após a Idade Média. Pensando nisso, num primeiro momento podemos pensar que os conceitos são estanques porque as categorias também o são. É aí que reside a confusão entre categoria e conceito. Para começar, nenhum dos 0 V e r a n o ta çõ e s dois é estanque, pois sua interpretação é passível de conhecimento historicamente produzido pela humanidade. Em um segundo momento, precisamos considerar que os conceitos são signi�cados no tempo, e que esse tempo é histórico. Sendo assim, existirão momentos históricos que alguns conceitos serão criados – e/ou utilizados de outras épocas, adaptando-os à realidade do momento – deixando de lado o uso de algumas categorias. Podemos observar, como exemplo, o aumento de conceitos ligados à categoria Lugar quando a Geogra�a da Percepção tem início na virada do século XXI. Isso não signi�ca de modo algum que as outras três categorias (Paisagem, Território e Região) tenham �cado no esquecimento, e nem que o objeto de estudo da Geogra�a (o Espaço Geográ�co) tenha sido abandonado. A�nal, se abandonarmos o Espaço Geográ�co, não estamos analisando geogra�camente o espaço, confundindo-se com as outras áreas do conhecimento cientí�co que o analisam, como vimos no primeiro capítulo. Dito isto, analisemos e nos aprofundemos nas categorias e em alguns dos seus principais conceitos ao longo do tempo. Advertimos, todavia, que não conseguiremos nos deter detalhadamente em todos os conceitos e que eventualmente nos escaparão algumas de�nições. Umas por se tratar de sinônimos ou traduções de nomenclaturas, outras dadas o limite da proposta deste livro de aprendizado dos fundamentos da Geogra�a. Para iniciarmos nossa discussão no aprofundamento das categorias, partiremos do prisma de análise das áreas da Geogra�a, importantes para o desenvolvimento da ciência não somente como separação dos conhecimentos geográ�cos. As suas principais e/ou grandes áreas (Física, Humana, Agrária/Rural, Urbana, Escolar, Ambiental e Cartográ�ca) se desdobram em muitas que estão relacionadas a uma ou relacionam mais do que uma destas grandes subdivisões cientí�cas. Podemos citar como 0 V e r a n o ta çõ e s exemplo a Geogra�a da Saúde, que articula conhecimentos de Geogra�a Urbana e Agrária/Rural com os conhecimentos de Geogra�a Física, ou até mesmo de Geogra�a Cultural que relaciona aspectos da Geogra�a Humana com outras áreas do conhecimento como a Sociologia. Vamos agora sobrevoar conceitos em cada uma das quatro categorias, aprofundando seus modos de ser a partir deles e buscando conhecer mais ainda suas aplicações. Para a categoria Paisagem, destacamos os principais conceitos que emergem desta categoria, quais sejam: paisagem geográ�ca, paisagem orográ�ca, paisagem natural, paisagem arti�cial (segundo espaço e espaço social, em algumas vezes (MOREIRA, 2008), entre outros. A categoria paisagem se desdobra em arranjo e con�guração espacial, podendo ser combinados entre si, formando juntamente com a noção de Espaço e Território, outras formas de observação da totalidade espacial. Na Geogra�a Tradicional – a Geogra�a dos Estados, cujas principais escolas são a escola francesa e a alemã – a Paisagem emergia como primeiro ponto de análise e que, enquanto a divisão essencial, gerava apenas duas grandes áreas do conhecimento: a Geogra�a Humana e a Geogra�a Física. A primeira cuidava dos aspectos relacionados ao ser humano, e a segunda dos aspectos relacionados ao meio físico no qual emergia a sociedade. Assim sendo, a Geogra�a era uma relação entre ser humano e meio físico a partir da transformação proporcionada pelo planejamento estatal por meio da paisagem e da ação no Espaço. ASSIMILE A Geogra�a Tradicional (ou Geogra�a dos Estados) articulava a Paisagem ao Espaço, articulando principalmente as ideias de localização, distância e extensão – com maior ênfase à primeira – para observar o planejamento a ser realizado dentro de uma determinada área territorial. Esta Geogra�a, vale lembrar, é 0 V e r a n o ta çõ e s uma Geogra�a bastante calcada nas observações dos naturalistas clássicos, que construíam quadros especí�cos de observação espacial. Posteriormente, com a ascensão da Geogra�a Crítica, essa categoria da Paisagem passa a ser entendida a partir de três prismas enquanto arranjos espaciais de ordem jurídica, econômico-social e ideológica. Este arranjo parte do pressuposto que a organização não é pura e simplesmente de ordem política (ou seja, vinda diretamente do Estado), mas sim do conjunto de relações sociais que o sistema capitalista pressupõe. Dadas estas condições de organização espacial pela paisagem, podemos fazer a sua leitura sob os prismas dos conceitos e munidos de uma estrutura do pensamento geográ�co que nos faz indagar quais os tipos de relações e articulações territoriais que fundam as relações no Espaço Geográ�co. Se for desconsiderado o fator humano desta análise – ou se analisarmos separadamente a Geogra�a Humana da Geogra�a Física, como se as áreas fossem independentes por completo – não conseguimos chegar na totalidade do Espaço Geográ�co, o que não só prejudica nossa análise espacial como também faz com que nosso objeto de estudo se dilua na interpretação purista e estatística dos fenômenos espaciais. Passando à categoria Lugar, precisamos analisar e compreender efetivamente que a relação entre ela e a ideia de Identidade não é a forma fundante para esta categoria. Os conceitos que emergem da ideia de lugar também podem prescindir outras relações para além da identidade caso analisemos, por exemplo, os lugares de trabalho de coletivos proletariados e suas condições de reprodução social em distintos momentos históricos – tema recorrente de pesquisa da Geogra�a do Trabalho. 0 V e r a n o ta çõ e s Se pensarmos na identidade como a forma de identi�cação de um sujeito por si e por meio de sua relação com a sociedade em que se vive, precisamos partir de um pressuposto fundamental na localização desta relação na História do Pensamento Geográ�co, como observamos na seção anterior. A ideia é que se partirmos de como o sujeito se identi�ca com o lugar a partir de si – ou seja, tomando como base a sua percepção individual como sujeito – aproximamo-nos da observação dos fatos a partir da Geogra�a da Percepção, mais preocupada com a forma que os indivíduos experienciam o mundo ao seu redor. Um exemplo de conceitos que emergem desta categoria, por exemplo, são os conceitos de lugar vivido e lugar de fala, bastante difundidos em outrasáreas da ciência como a Sociologia e a Filoso�a, e que se desdobram na Geogra�a dadas as análises por exemplo da Geogra�a Urbana ou da Geogra�a Rural com as percepções dos sujeitos históricos em sua forma de ver o mundo. Geralmente o trabalho com estes conceitos a partir desta perspectiva geográ�ca é bastante difícil, dadas as múltiplas interpretações possíveis sobre um mesmo território e que se diferencia inclusive dentro de um mesmo recorte, haja vista que as percepções de mundo são exclusivas de cada um dos sujeitos, cabendo ao pesquisador observar os pontos de interface possíveis entre essas falas, numa espécie de “generalização das falas”. Existem outros modos de conceber a relação entre lugar e identidade, e algumas delas se pautam na identidade coletiva que um lugar possui. Estas relações têm como base a relação dialética – simpli�cadamente entendida como o agir mútuo entre os objetos observados, que determinam e são determinados entre si – dos sujeitos com o lugar que habitam. Estas análises privilegiam os modos de vida não a partir das sensações e experiências individuais dos sujeitos, mas buscam identi�car as múltiplas determinações que emergem da totalidade social e que determinam a vida social destas pessoas – a qual evidentemente também 0 V e r a n o ta çõ e s in�uencia nestas determinações, possibilitando mudá-las se alguns passos históricos forem seguidos. Portanto, aqui as determinações não são estanques, mas sim possibilidades de transformação a partir do coletivo, e a essa identidade observamos estar atrelada à construção coletiva de signi�cados para os objetos espaciais. EXEMPLIFICANDO Perceba que as categorias são inerentes à corrente geográ�ca que se segue; isto é: não é porque uma forma de pensar a Geogra�a é utilizada que ela vai possuir categorias especí�cas para o seu desenvolvimento. Porém, em alguns casos, pode ser que os conceitos sejam especí�cos de uma determinada ação no Espaço Geográ�co. A isto damos o nome de diferenças de ordem ontológica, e estas são facilmente observadas em nosso cotidiano dadas as diferenças do modo em que se concebem os princípios básicos sobre os fenômenos do espaço. Deste modo, os conceitos dependem da forma como se faz ciência e sofrem in�uência da corrente do pensamento geográ�co escolhido, e podem ou não ser exclusivas deste modo de pensar. Portanto, lugar e identidade se desdobram como análise em microescala daquilo que os sujeitos observam (experienciam) ou de como as múltiplas determinantes espaciais in�uenciam em sua vida, passíveis ou não de interpretação. A identidade dos sujeitos ora se constrói individualmente, ora se faz por meio de suas relações sociais. Porém, a análise que será feita deste amálgama que compõe o sujeito social dependerá do modo como o pesquisador – e o professor em sala de aula – compreendem a sociedade e a forma de organização social de seu próprio tempo. Para pensarmos como a Região se desdobra nas áreas do conhecimento geográ�co, podemos pensar na teoria da regionalização ainda advinda da 0 V e r a n o ta çõ e s escola francesa. Como vimos, a ideia de regionalizar parte do princípio de estabelecer relações entre os lugares dadas as suas características. Deste modo, uma região é um conjunto de lugares que expressam uma ou mais características semelhantes, podendo conter um ou mais territórios dentro de sua contiguidade. A ideia de regionalização parte do princípio de organizar o Espaço Geográ�co em regiões, e isso pode ocorrer de modos bastante variados, tais como as observações de contiguidade da paisagem realizadas por Vidal de La Blache na Geogra�a francesa do século XX. Contudo, para que a categoria Região seja desmembrada em conceitos dentro das diferentes áreas da Geogra�a, é necessário que se de�nam seus critérios a partir de um prisma analítico, levando em conta a extensão dos fenômenos, sua localização e especialmente a obrigatoriedade de uma contiguidade espacial. Esta ideia permaneceu e perpassou discussões geográ�cas que ocorrem até hoje, estando em alguns momentos da História do Pensamento Geográ�co ligadas à representação espacial com heranças históricas enquanto uma síntese harmoniosa das relações entre os lugares, e em outros momentos sendo contestada como uma categoria exclusivamente para controlar os territórios por, resumidamente, aprisionar suas fronteiras e a capacidade de integração do todo-mundial nas contiguidades regionais. Deste modo, a região passou a ser tratada por alguns pensadores como uma contradição do sistema capitalista, já que a ideia de território já concebia os limites de sua categorização. Entretanto, com o avançar dos debates, foi possível observar que a categoria Região pode se articular com o conhecimento das Redes, articulando juntamente com o conceito de espaço vivido e de identidade regional – também utilizadas na categoria Lugar, como vimos anteriormente. Deste modo, para se entender uma Região, seria necessário viver as experiências dela, tal e qual o lugar. 0 V e r a n o ta çõ e s A formulação das teorias que concebem as redes como regionalização também possuía uma segunda formulação: a de que as redes de interconexão dos espaços geográ�cos em suas diferentes escalas e constituem relações sociais diferentes a depender do Espaço Geográ�co no qual se instituem. Para estas interpretações, a região signi�ca o resultado do desenvolvimento desigual do sistema capitalista, sendo um movimento diferencial de acumulação do capital e que prescinde uma divisão territorial (e desigual) do trabalho no mundo. E desta divisão advém a ideia de regionalizar o Espaço Geográ�co, distribuído entre regiões mais ricas e que formulam as diretrizes como se constituirá o todo-espacial, e regiões que obedecem às divisões e fornecem os insumos para o desenvolvimento das regiões mais ricas. Milton Santos – grande geógrafo crítico da Geogra�a brasileira nos anos de 1980, como vimos anteriormente – atribuiu à tal divisão regional as alcunhas de “regiões do mandar” e “regiões do fazer” geográ�co. Deste modo, a região e a regionalização ganham importância na Geogra�a Econômica, por exemplo, ao observarem as divisões espaciais a partir do desenvolvimento do sistema capitalista. FOCO NA BNCC A Região aparece na BNCC como uma importante centralidade para o trabalho do professor de Geogra�a. Destacamos aqui o trabalho com as diferenciações regionais do Brasil e suas possibilidades de trabalhar no 7º ano com a interpretação de dados socioeconômicos das regiões brasileiras (EF07G10) e suas possíveis diferenciações regionais a partir da desigualdade regional dentro de nosso território. Por �m, pensemos a ideia de poder a partir da categoria Território, e como esta se desdobra nas diferentes áreas do conhecimento geográ�co. Podemos dizer que a principal área da Geogra�a que analisa as relações 0 V e r a n o ta çõ e s de poder nos territórios é a Geogra�a Política, que busca entender as diversas relações entre as fronteiras estabelecidas entre os humanos e os países que se inter-relacionam nestas áreas limites do território. Convém lembrar aqui que quando denominamos países não necessariamente se fala de Estados-nação, mas sim da mais ampla formulação sobre o território – ainda que as fronteiras formais interterritoriais não estejam formalmente estabelecidas, como no caso do território palestino não consolidado ainda no século XXI. REFLITA Não podemos observar somente as divisões entre os Estados- nação para determinarmos a extensão territorial de um povo. Tal divisão foi realizada historicamente como uma determinante política e que ocasiona questões mal resolvidas até hoje, como no caso da uni�cação da Alemanha, que deixou de fora das fronteiras atuais daquele país muitos dos povos que compartilhavam a língua germânica. Também existem povos que lutam pelo seu próprio território dentro dos próprios estados, como os indígenas sul-americanos– cujas demarcações de terra são ameaçadas constantemente na contemporaneidade brasileira. Assim sendo, aprofundemo-nos no conceito de territorialidade, bastante usado pela Geogra�a da Percepção, também para aferir como os indivíduos absorvem as formulações experienciais para de�nir o território que habitam. Porém esta noção de territorialidade abarca uma �exibilidade territorial sustentada a partir das redes enquanto sinônimo de �exibilidade e, acima de tudo, mobilidade, o que é considerado em alguns casos como uma falha ao analisar as determinantes sociais que formulam a concepção da categoria território. Território é o meio pelo qual os seres humanos se apropriam do meio físico que os rodeiam – 0 V e r a n o ta çõ e s numa concepção muito próxima ao objeto de estudo da Geogra�a, o Espaço Geográ�co – sendo as territorialidades importantes para pensar os modos que se apropriam e se delimitam os territórios. Emerge disso, por exemplo, o conceito de território usado, que é utilizado na Geogra�a Urbana para observar como se habita o espaço dentro de uma área urbana. Deste modo, é um conceito que já apreende as relações entre sociedade e meio físico, indo além e adentrando questões sobre a política do espaço urbano, por exemplo. Assim encerramos nossa segunda seção de estudos. Até a próxima! REFERÊNCIAS LACOSTE, Y. A geogra�a: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Campinas: Papirus, 1988. MOREIRA, R. Pensar e ser em geogra�a: ensaios de história, epistemologia e ontologia do espaço geográ�co. São Paulo: Contexto, 2008. SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2008. SANTOS, M. Por uma geogra�a nova: da crítica da geogra�a a uma geogra�a crítica. São Paulo: Edusp, 2008. 0 V e r a n o ta çõ e s NÃO PODE FALTAR ESCALAS GEOGRÁFICAS Gabriel Pinto de Bairro. Imprimir PRATICAR PARA APRENDER Bem-vindo! Chegamos ao �nal de mais uma Unidade de Estudos Vimos ao longo de nosso percurso até aqui os aspectos fundamentais das categorias geográ�cas e de que forma elas se transformam em conceitos – ou seja: como elas são entendidas ao adentrarem as áreas especí�cas da Geogra�a. Deste modo, podemos entender que os conceitos são aprofundamentos dos estudos geográ�cos, podendo ser entendidos não como meras abstrações sobre o concreto, mas sim como uma possibilidade de se alcançar o concreto de forma mais desejável e real. Também vimos que precisamos dominar as de�nições das categorias para ter uma maior acuidade quando de�nirmos os conceitos, pois estes são os desdobramentos das primeiras. Nesta seção da terceira unidade, versaremos sobre as Escalas Geográ�cas as quais, em linhas gerais, têm por objetivo nos auxiliar a identi�car os fenômenos ocorridos e já observados através das categorias e conceitos geográ�cos dadas as suas qualidades de extensão. Já versamos brevemente sobre a Escala quando falamos, em nossa segunda unidade, dos aspectos principais da Cartogra�a. Aquela escala cartográ�ca se referia às formas de representação espacial (ou seja, da 0 V e r a n o ta çõ e s tridimensionalidade) em uma superfície plana e/ou reduzida. Isso quer dizer que aquela Escala está muito mais vinculada aos aspectos grá�cos da representação cartográ�ca – compondo uma importante parte da linguagem cartográ�ca sem a qual não é possível compreender como que os fenômenos ocorrem no Espaço Geográ�co – do que de fato com a observação concreta da realidade. Deste modo, as Escalas Geográ�cas observam que todo fenômeno é passível de representação – e é de�nido dentro da representação que contém uma Escala Cartográ�ca – e que estes podem ser divididos a partir de sua extensão. A relação de proporção entre a Escala Cartográ�ca e a Geográ�ca é inversamente proporcional. Ou seja: quanto maior a Escala Geográ�ca, menor a Escala Cartográ�ca, e vice-versa. Veremos ao longo desta seção as três principais Escalas Geográ�cas: a microescala (cuja principal categoria é o lugar, mas também existe a análise das outras categorias da Geogra�a de modo integrado), a mesoescala (escala intermediária), e a macro escala, a qual serve para representar eventos de magnitude continental ou até mesmo global, a depender do caso. Bom trabalho e bons estudos! Esperamos que esta unidade tenha sido de bastante estudo e com bons resultados para você! Todos os dias somos bombardeados por informações a respeito dos acontecimentos mundiais ou nacionais. Uma enxurrada de notícias invade nossas casas das mais variadas formas: pelas nossas redes sociais, da televisão, do rádio, do jornal ou da revista de nossa preferência, etc. Não importa a plataforma, estamos sempre conectados com o mundo e seus lugares por meio da informação que é produzida, desde o local que ela é obtida até o seu tratamento para ser divulgado. Em tempos de aumento das notícias falsas, precisamos pensar que toda informação – seja ela espacial ou não – precisa ser embasada em dados realísticos. Vimos um pouco disso quando discutimos sobre a estrutura 0 V e r a n o ta çõ e s dos bancos de dados em nossa segunda unidade. Além disso, como podemos perceber, as informações sempre são datadas – ou seja, possuem uma historicidade porque contam uma história, descrevem um fato sobre alguma coisa, seja uma coisa banal – como uma notícia sobre a vida de uma pessoa famosa – ou seja, de uma descoberta cientí�ca que nos aproxima de uma mudança de paradigmas em nossa sociedade. Assim, sempre é necessário que nós, professores, consigamos observar de que modo estas notícias são divulgadas, produzidas e pensadas para que possamos trabalhar com os dados e as informações que são produzidos a partir deles da melhor forma possível com nossos estudantes, estimulando-os a seguir os processos de veri�cação e análise que tomamos para também os ajudar a compreender a realidade. Dito isto, vamos pensar uma situação-hipotética na qual você é um professor de Geogra�a no Ensino Médio, e você precisa discutir algum tema relacionado a um evento geopolítico muito importante e recente. A extensão dos fenômenos ainda não é evidente a todas as pessoas, e o raciocínio espacial em um primeiro momento ainda não consegue dar conta de todas as relações passíveis de ocorrerem na concretude a partir deles. Por exemplo, vamos pensar em um evento climático de grandes proporções, mas que não afete diretamente o local onde você e seus estudantes habitam, como um furacão nos Estados Unidos. Este furacão é bastante recente e ocorreu um dia antes de vocês terem uma aula na qual você trabalharia a habilidade EM13CHS201 da BNCC, que propõe a caracterização da dinâmica das populações, das mercadorias e do capital nos continentes, buscando dar ênfase na movimentação de pessoas em função de eventos naturais, políticos econômicos, sociais, religiosos e culturais, buscando estimular o pensamento crítico de seus estudantes frente a tais processos. 0 V e r a n o ta çõ e s Assim, como podemos analisar as componentes espaciais e a extensão do fenômeno a partir da Escala Geográ�ca? Quais são as suas interfaces possíveis com as áreas da Geogra�a?. CONCEITO-CHAVE A escala na Geogra�a é uma categoria que permeia discussões sobre as representações e as extensões dos eventos que ocorrem no Espaço Geográ�co. Sua conceituação em Escala Cartográ�ca e Escala Geográ�ca – sendo também identi�cada na literatura um terceiro conceito chamado de Escala Operacional, que abarca a relação temporal dos fenômenos e sua extensão no espaço – geralmente não costuma ser complexo. Porém, em um primeiro momento, precisamos diferenciar o que são as Escalas Cartográ�cas e o que são as Escalas Geográ�cas. As Escalas Cartográ�cas dizem respeito, de modo geral, à quantidade de vezes em que foi reduzido o real para caber em uma representação – seja ela bidimensional ou tridimensional. Esta compõe, deste modo, uma relação de semelhança com o real, representando uma transposiçãogeométrica, conforme vimos na Unidade 2 com a Cartogra�a. Falando nisso, pudemos observar que na segunda unidade, quando dizíamos a respeito da Cartogra�a, nos detemos em alguns momentos para identi�car os cinco principais atributos de um mapa. E um deles era a Escala, que agora podemos identi�car como sendo a Escala Cartográ�ca. Esta escala possui uma relação inversa com a quantidade de espaço representada em seus planos. Isto quer dizer que uma escala maior produz uma informação espacial maior no sentido de detalhamento de informações. Logo, quanto maior a escala, menor a área representada e maior seu nível de detalhamento espacial. Sua relação com a Geogra�a decorreu, historicamente, da necessidade de buscar representar o Espaço Geográ�co conhecido pelos seres humanos, bem como mostrar suas relações históricas com este espaço. Vimos 0 V e r a n o ta çõ e s anteriormente que na história da Cartogra�a, os mapas possuíam usos diversos para diferentes culturas, sendo que em nossa cultura ocidental tiveram (e ainda têm) uma importância bastante legitimada pelo reconhecimento do Espaço Geográ�co, assim como para o estabelecimento de rotas, observação e delineamento das fronteiras dos territórios, estudos sobre impactos climáticos e suas extensões, etc. A�nal, quem nunca precisou utilizar um sistema de posicionamento (como o GPS) para se localizar no espaço, não é mesmo? Ou até mesmo um mapa impresso para se locomover em certas distâncias. Já para de�nirmos o papel da Escala Geográ�ca, precisamos nos atentar para a necessidade de representar a extensão dos fenômenos espaciais para além de sua localização, buscando integrar também na análise até onde vai sua “zona de in�uência” sobre o Espaço Geográ�co. Desta forma, a Escala Geográ�ca é importante para a observação da extensão dos fenômenos, buscando a integração entre eles e a Escala Cartográ�ca a ser representada. As propriedades dos fenômenos ocorrem muito pela necessidade não somente de representar, mas também de localizar espacialmente tais fenômenos, buscando com isso o entendimento do Espaço Geográ�co e daquilo que se apresenta como suas principais categorias. Seus usos principais são feitos para observar atentamente como os fenômenos espaciais in�uenciam as pessoas que vivem nos locais afetados por eles, e quais as relações possíveis com as áreas vizinhas e com áreas que não estão necessariamente contíguas a que está sendo analisada em um determinado tipo de pesquisa. Assim sendo, temos a necessidade de observar que os fenômenos, ainda que ocorram em um local, podem afetar áreas para além de um simples ponto no Espaço Geográ�co. Basta observar, por exemplo, que as cidades grandes possuem uma esfera de in�uência sobre cidades pequenas, cuja zona de in�uência como chamamos na Geogra�a Urbana pode se ampliar até por 0 V e r a n o ta çõ e s centenas de quilômetros a depender do quão remota esta cidade está de outras grandes cidades. Assim sendo, há a necessidade de compreender que a Escala Geográ�ca também é um instrumento importante para o Planejamento Regional, Urbano e Rural, dada a sua centralidade na veri�cação das zonas de in�uência entre os fenômenos. Também é importante ressaltar a ideia que tais zonas de in�uência também são analisadas como zonas de impacto nos fenômenos climáticos, como a extensão de uma frente fria, que abarca uma porção maior de territórios e Espaço Geográ�co – num sentido geral – do que uma chuva localizada no litoral, por exemplo. Portanto, em um primeiro momento, precisamos veri�car que a microescala está conectada ao que chamaremos de Fenômenos Locais, fenômenos que ocorrem em uma área pequena do Espaço Geográ�co – e que precisaremos, portanto, de uma Escala Cartográ�ca maior para sua representação, pois precisamos de um maior nível de detalhamento. Já a mesoescala está ligada ao que denominaremos de Fenômenos Regionais, que ocorrem em um interstício entre o local e o global. Estes fenômenos podem determinar relações entre países, por exemplo, assim como territórios que se estendem por áreas menores que um continente, mas que impactam a vida de muitas pessoas. FOCO NA BNCC Na BNCC do Ensino Fundamental é possível trabalhar as Escalas Cartográ�cas a partir do ensino de Cartogra�a, e desde este momento articular a diferenciação e o entendimento do que são também as Escalas Geográ�cas. Por exemplo a Competência 2, que diz respeito do estabelecimento de conexões entre diferentes temas do conhecimento geográ�co e do uso da natureza ao longo da história, e a Competência 5 0 V e r a n o ta çõ e s de desenvolver e utilizar processos, práticas e procedimentos de investigação para compreensão do mundo pode trabalhar articuladamente o que são ambas as Escalas. E, por �m, mas não menos importante – dada sua centralidade na Sociedade da Informação – a macro escala, cujos fenômenos estão classi�cados como Fenômenos Globais ou até mesmo Fenômenos Continentais. Sua de�nição simpli�cada é a de que são acontecimentos que in�uenciam a vida das pessoas em uma grande área do Espaço Geográ�co, mas que também podem modi�car a dinâmica dos acontecimentos fora dela. Vejamos agora alguns exemplos sobre como os fenômenos espaciais podem ser localizados de forma articulada entre estas escalas. Lembrando que fenômenos espaciais – sejam eles Locais, Regionais ou Globais – não necessariamente são fenômenos naturais ou arti�ciais (ou seja, provocados pelo ser humano) – sendo em alguns momentos uma exclusividade de um fator (natural ou social) ou até mesmo de uma mistura dos dois (como o assoreamento de um rio ocasionado por extrativismo desenfreado de minerais de suas margens). Os Fenômenos Locais, como vimos, podem ser de�nidos por aqueles acontecimentos tratados a nível do lugar, normalmente vinculado a uma área mais restrita do Espaço Geográ�co. Estes fenômenos são de múltiplas ordens cujas determinações nem sempre estão no próprio local. Podemos pensar, por exemplo, que os fenômenos globais e regionais in�uenciam nos fenômenos locais, de modo que quando observamos o local, também podemos observar o regional e o global agindo em sua concretude. É interessante pensar que nem sempre os fenômenos – sejam eles locais, regionais ou globais – possuem interrelações contíguas, sendo que podem prescindir de uma análise mais ou menos estruturada de acordo 0 V e r a n o ta çõ e s com as necessidades do pesquisador. À estas análises damos o nome de Conexões Geográ�cas, possíveis a partir da observação da hierarquia dos lugares e como estas constituem redes passíveis de análise nas mais variadas situações geográ�cas. EXEMPLIFICANDO Conexões Geográ�cas são aquelas estruturações que amarram as redes entre as localidades, podendo articular os fenômenos em escala local, regional ou global. Desta forma, são modos de entender estes fenômenos observando as interfaces possíveis entre eles. Por exemplo, uma frente fria pode ter reverberações no global (dada sua extensão grande do efeito climático), no regional (observadas as condições e diferenças entre os biomas e os efeitos dessa frente fria neles) e local (por exemplo, se observarmos como as políticas públicas pensam a proteção do frio de pessoas em situação de rua). Vamos a um exemplo típico de um Fenômeno Local, mas que pode ter implicações também regionais a depender de sua extensão. Figura 3.3 | Esquematização da formação de chuva ácida Fonte: Wikimedia Commons. Figura 3.4 | Efeitos da chuva ácida em estátuas 0 V e r a n o ta çõ e s Fonte: Wikimedia Commons. Como podemos observar, a chuva ácida é um fenômeno local, porque é formada em uma área que emite muitos gases poluentes para a atmosfera ao ponto de, quando eles entram em contato com as gotículas de água em formação, atuam como um corrosivo a estruturas diversas, dada a natureza de sua composição química. A chuva ácida é bastante comum em centros urbanos europeus cuja concentraçãode poluentes é bastante grande, assim como em algumas megacidades chinesas. No Brasil, já houveram episódios de chuva ácida em áreas com grande adensamento industrial – como São Paulo, Cubatão e Rio de Janeiro – em especial na década de 1970 e 1990. Deste modo, são fenômenos com características mais isoladas, que necessitam normalmente de uma especi�cidade do espaço bastante comum para sua ocorrência. Também podemos citar as chuvas orográ�cas localizadas, sendo estas as chuvas que ocorrem nas encostas de serra quando a umidade da evapotranspiração das matas aliada às nuvens do litoral, acabam por se chocar com a barreira física natural dos morros, ocasionando a precipitação. Normalmente quando ouvimos falar 0 V e r a n o ta çõ e s das chuvas nas regiões montanhosas próximas ao litoral, é deste Fenômeno Local que se referem as reportagens. Essas chuvas, no Brasil, são recorrentes e têm ação ampliada durante o verão, quando o aumento das temperaturas ocasiona em certos pontos, chuvas torrenciais ao longo de escarpas montanhosas, chegando inclusive a causar deslizamento de terra em alguns momentos. Já os Fenômenos Regionais são aqueles que possuem uma dimensão mais ampliada das localidades, podendo abarcar regiões inteiras. Ou seja: estes fenômenos possuem uma abrangência maior do Espaço Geográ�co no que tange à área e aos seus impactos na dinâmica dos processos naturais e humanos. Um exemplo pode ser observado se analisarmos o mapa das linhas de trem-bala que ligam as cidades de Tóquio, Nagoya e Osaka, no Japão. Estas três cidades formam uma megalópole – denominada Tokkaido, a maior do mundo, com mais de 80 milhões de pessoas que vivem entre estas três cidades, sendo a megalópole também uma representação de um fenômeno regional – e precisam ser interligadas por trens de alta velocidade, o que representam um adensamento de infraestrutura técnica (trilhos especializados) para receber estes veículos extremamente tecnológicos. Deste modo, este pode ser considerado um Fenômeno Regional, por interligar estas três cidades e abrir espaço para discussões sobre os adensamentos urbanos – vale lembrar que entre 80 e 90% da população japonesa vive nesta megalópole. Podemos citar também como Fenômeno Regional a expansão da fronteira agrícola na Região Amazônica no Brasil, que abrange vários estados brasileiros, e preocupa no que tange às questões de preservação ambiental do bioma amazônico. Este fenômeno tem início ainda na década de 1960 com a ocupação do Centro-Oeste por latifundiários – especialmente oriundos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina – que buscaram novas oportunidades de terra na região Centro-Oeste para 0 V e r a n o ta çõ e s cultivar monoculturas, em especial a da soja. Com a expansão da fronteira agrícola, se destrói áreas inteiras do bioma amazônico para substituir por agriculturas monocultoras e outros cultivos, como o de gado de corte em alguns locais. Este Fenômeno Regional necessita de bastante atenção, sendo bastante sensível aos assuntos político-sociais brasileiros: de um lado, a expansão do principal setor da economia do país; e de outro, a problemática em se destruir boa parte de um bioma que em sua grande maioria se encontra dentro das fronteiras brasileiras. REFLITA A questão da preservação dos biomas brasileiros é bastante sensível a todos nós. Veri�ca-se, como falamos, o con�ito entre o interesse econômico e o interesse social, na medida em que se expandem as fronteiras agrícolas, forçando o meio físico a se adaptar frente às adaptações do próprio ser humano. Precisamos pensar se os modos de desenvolvimento – até mesmo se o próprio conceito de “desenvolvimento sustentável” – que temos até aqui é su�ciente para garantir a preservação da biota brasileira e mundial. Por �m, falemos dos Fenômenos Globais, estes que podem combinar ações dos Fenômenos Locais e Regionais, os quais, quando abrangem uma grande área maior do que o lugar e do que uma região, expandem- se por grandes áreas e porções de terra – ou mesmo de água, caso ocorram por exemplo no mar, como os grandes maremotos. Estes Fenômenos Globais correm numa escala ampla, sendo passíveis de análise através das categorias Região e Território, dadas as suas extensões. Podemos citar como exemplos o comércio exterior dos países e a formação dos blocos econômicos como o Mercosul ou a União Europeia. Estes blocos envolvem um conglomerado de países que muitas vezes 0 V e r a n o ta çõ e s podem não ser contíguos geogra�camente, mas são integrados mediante conexões geográ�cas estabelecidas entre os seus membros. Outro exemplo possível de um Fenômeno Global é o superaquecimento global (também erroneamente chamado de “aquecimento global”, pois o planeta se aquece e se resfria em ciclos, sendo o problema relacionado ao superaquecimento ocasionado pelos seres humanos e a queima de combustíveis fósseis e a diminuição da diversidade de fauna e �ora no planeta, por exemplo). Este problema altera os ritmos de vida não somente dos animais e plantas, mas também dos seres humanos, os quais in�uenciam o clima do planeta ao longo dos anos e têm causado problemas a cada ano que se passa. Por exemplo, no ano de 2019 e 2020 houve registro de recordes de temperatura em países da Europa Ocidental como a Alemanha e a França, bem como em 2021 os termômetros no Canadá chegaram aos 49,5 ºC, sendo o recorde histórico para aquele país. ASSIMILE Fenômenos Locais: ocorrem na escala do lugar, e podem ser pensados por meio desta categoria e da categoria paisagem. Possuem maior Escala Cartográ�ca. Fenômenos Regionais: ocorrem em uma escala intermediária entre o lugar e o mundo. Pode ser pensado pelas categorias de território e lugar. Possui uma Escala Geográ�ca menor que a dos Fenômenos Locais, mas maior do que a dos Fenômenos Globais. Fenômenos Globais: ocorrem na escala-mundo, possuindo a menor escala dentre os tipos de fenômenos analisados. Geralmente afetam a existência humana como um todo, sem exceção. Comumente são pensadas por meio das categorias território e região. 0 V e r a n o ta çõ e s Você já deve ter percebido que as subdivisões das Escalas Geográ�cas apresentadas anteriormente têm por trás delas todas as categorias que estudamos (Paisagem, Lugar, Região, Território) assim como também possuem conceitos especí�cos das áreas da ciência geográ�ca (território de manejo, território para cultivo, região metropolitana, megalópole, frente fria, etc.). Também podemos observar o caráter interdisciplinar de nossa ciência ao observarmos conceitos que também são inerentes às análises de outras áreas do conhecimento, como a monocultura e o latifúndio. Com os Fenômenos Globais não é diferente, sendo estes analisados através das categorias e conceitos geográ�cos. Deste modo, é importante atentarmos para a importância das categorias e conceitos geográ�cos na análise do objeto de estudo da Geogra�a – o Espaço Geográ�co. Apenas munidos destes conhecimentos e dessas categorias que nós e nossos estudantes conseguiremos fazer a análise do que nos permeia e daquilo que se coloca diante de nossos olhos e ouvidos o dia todo. Para que a educação na Geogra�a seja efetiva, se faz necessário dominar categorias e conceitos de nossa ciência, como trabalharemos na próxima e última unidade de nosso livro didático. Esperamos que tenha sido de bom proveito este material. Até logo! REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular – Ensino Fundamental – Anos Finais. Brasília, 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular – Ensino Médio. Brasília, 2018. KOLAVIK, D. Jornalistas livres. A Síria tem sido de fato o local de uma guerra mundial. Uma guerra mundial ocorre na Síria, o voto do povo sírio pela paz e contra a interferência estrangeira deve ser respeitado. 2021. Disponível em: https://bit.ly/3yrSx2B. Acesso em: 20 set. 2021. 0 V e r a n o ta çõ e s https://jornalistaslivres.org/a-siria-tem-sido-de-fato-o-local-de-uma-guerra-mundial/TOMAZELA, J. M. Deslizamentos e chuvas causam interdições em rodovias e ferrovia de acesso ao litoral de SP. 2019. Disponível em: https://bit.ly/3ITQc5e. Acesso em: 18 set. 2021. 0 V e r a n o ta çõ e s https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades/deslizamentos-e-chuvas-causam-interdicoes-em-rodovias-e-ferrovia-de-acesso-ao-litoral-de-%20sp,1e29a6b90de0395732e66087257e0d83stvuxfxl.html NÃO PODE FALTAR TRAJETÓRIAS DO ENSINO DE GEOGRAFIA Gabriel Pinto de Bairro Imprimir CONVITE AO ESTUDO Seja muito bem-vindo à unidade �nal de nosso livro. Chegamos até aqui perpassando pelas principais correntes teóricas da Geogra�a, buscando observar o modo como o conhecimento geográ�co se desenvolveu ao longo da história. Analisamos, através das categorias e conceitos dessa área cientí�ca extremamente interdisciplinar, como a geogra�a pôde atravessar, com as análises de seu objeto de estudo especí�co – o Espaço Geográ�co – a história da ciência, contribuindo nas Ciências Humanas ao sintetizar as relações sociais e sua forma de manifestação no meio físico, determinando os caminhos e sendo determinado também por eles. Passamos, também, pelas especi�cidades do conhecimento geográ�co, observando como a Cartogra�a – uma das principais contribuições da Geogra�a na história – se desenvolveu no tempo. Vimos, ainda, como a História da Geogra�a analisa as relações humanas no Espaço Geográ�co, e como podemos entender as categorias geográ�cas ao longo do tempo, �xadas nos conceitos em cada período histórico. 0 V e r a n o ta çõ e s Chegamos, portanto, nesta unidade, para consolidar os estudos sobre as principais perspectivas do ensino de Geogra�a. Vamos buscar compreender como o desenvolvimento da Geogra�a, enquanto um componente curricular na escola, foi possível, a partir de suas bases teórico-metodológicas, buscando estudar brevemente como as bases metodológicas e o raciocínio geográ�co pode desenvolver-se na escola. Esta unidade está dividida em três seções, sendo a primeira uma tentativa breve de entendimento sobre a trajetória do ensino de Geogra�a na escola, buscando observar as origens da Geogra�a enquanto um componente curricular e sua consolidação enquanto uma disciplina escolar no Brasil. Ainda nesta primeira seção observaremos e entenderemos sobre a importância da especi�cidade da área geográ�ca na escola quando observarmos a relação da Geogra�a na disciplina de Estudos Sociais na educação brasileira, veri�cando que a interdisciplinaridade é importante, porém, sem que se perca de vista sua especi�cidade enquanto ciência – o que sintetiza a importância do conhecimento das categorias e conceitos geográ�cos. Na segunda seção falaremos sobre as novas perspectivas para o ensino de Geogra�a, passando por concepções teóricas e metodológicas da Geogra�a no mundo contemporâneo; além de estudar como a Geogra�a se relaciona com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) nas séries �nais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio (uma etapa em que ela perde a sua especi�cidade enquanto disciplina, mas ganha em potência quando analisada em sua interdisciplinaridade); e entender quais são os principais desa�os para desenvolver tal atividade articulada em uma grande área. Por �m, o encerramento de nossa última unidade busca apresentar alguns recursos metodológicos do ensino de Geogra�a, com o objetivo de entendermos de que forma a Geogra�a contribui para uma formação ampla do ser humano, e como podemos desenvolver o trabalho 0 V e r a n o ta çõ e s enquanto professores e professoras em sala de aula. Agradecemos a sua leitura e pelos estudos que pudemos compartilhar ao longo do nosso livro. Esperamos que nossa caminhada tenha contribuído – ainda que de forma singela – para a sua formação inicial em Geogra�a. PRATICAR PARA APRENDER Olá, estudante! Seja bem-vindo à nossa primeira seção desta Unidade 4. Iniciemos o encerramento de nosso livro com o intuito de compreender quais as relações e os papeis históricos da Geogra�a enquanto disciplina escolar. Muitas vezes ouvimos falar que a Geogra�a é uma das matérias escolares que compõem as Ciências Humanas. Porém, para isso, é necessário constatar que nossa disciplina é importante para compor uma base para as inter-relações possíveis dentro da área-maior das Ciências Humanas, pois é a Geogra�a que analisa as relações entre os seres humanos e o meio físico em que vivemos, fazendo as pontes entre a sociedade e a natureza em nosso planeta ao analisar o objeto especí�co de nossa área cientí�ca – o Espaço Geográ�co. Em outras palavras, é a Geogra�a que possibilita mostrar quem somos, o que fazemos e como nossas atitudes impactam o nosso dia a dia e o nosso planeta ao longo do tempo. Em um primeiro momento, vamos analisar como a Geogra�a se consolida enquanto uma área do conhecimento necessária para a educação – ou seja, quais são as origens da Geogra�a enquanto Componente Curricular, e quais são as suas especi�cidades enquanto Geogra�a escolar, ou seja: uma área especí�ca para ensinar Geogra�a para crianças através de transposições teórico-metodológicas das categorias e conhecimentos dessa área cientí�ca. Isso se dá de forma bastante intensi�cada, sobretudo a partir do estabelecimento das instituições de ensino superior no Brasil ainda no início do século passado (XX), e que �rmaram o campo do saber cientí�co da Geogra�a enquanto importante para a composição 0 V e r a n o ta çõ e s do conhecimento das Ciências Humanas no Brasil. Para além disso, é a partir dessa consolidação dos cursos superiores de Geogra�a que a ciência geográ�ca – e, consequentemente, suas categorias e conceitos – passam a ter importância e especi�cidade na escola, especialmente dadas com o início de cursos de formação de professores (ora especí�cos, ora gerais) de Geogra�a no Brasil – que hoje conhecemos de modo amplo como licenciaturas. Posteriormente, observaremos os percursos e as especi�cidades da Geogra�a já enquanto uma disciplina escolar estabelecida, ao observar os caminhos, limites e possibilidades ao longo da história escolar brasileira dessa área do conhecimento. A Geogra�a perpassa, enquanto matéria da escola, por muitos períodos da educação brasileira, ao ponto de estar ora agregada com outras disciplinas – muito devido ao seu caráter interdisciplinar – ora separada em suas especi�cidades, contudo, sempre com o olhar atrelado e articulado para a interdisciplinaridade, especialmente quando observamos as interfaces possíveis do ensino de Geogra�a nas escolas de nosso país. CONCEITO-CHAVE Vamos continuar com a nossa trajetória de estudos sobre os fundamentos da Geogra�a nas Ciências Humanas. Com nossos percursos até aqui, pudemos observar a Geogra�a e a sua história enquanto uma ciência especí�ca, cujas categorias e conceitos a tornaram muito prestigiada nas Ciências Humanas. Esse fato se realizou, como vimos, dadas as condições constatadas pelos cientistas no momento da consolidação da Geogra�a enquanto ciência e por sua característica enquanto uma ciência interdisciplinar por excelência. Ou seja, as relações estabelecidas pela Geogra�a frente aos outros campos do conhecimento – para além, até mesmo, das Ciências Humanas – �zeram com que ela pudesse ser não somente respeitada, 0 V e r a n o ta çõ e s mas que ela pudesse se desenvolver reunindo conhecimentos de várias áreas, a �m de desabrochar, no seio de suas teorias, constatações centrais para o entendimento de seu objeto de estudo. Até agora, você observou a história da Geogra�a enquanto uma área da ciência, cujo conhecimento cientí�co foi possível para a realização e consolidação de um campo de estudo que pudesse articular os conhecimentos sobre a sociedade e o modo de desenvolvimento delas em relação ao meio físico. Sabemos que essa relação é con�ituosa, mas que ela produz algo extremamente necessário para darmos um nome, um signi�cado à Geogra�a enquanto área. E sabemos que essa relação, quandoobservada sob o prisma da interdisciplinaridade, ajudou a desenvolver outras áreas do conhecimento, necessárias para a explicação, para o conhecimento e para o mapeamento do Espaço Geográ�co, sendo uma delas a Cartogra�a. Se nos atentarmos para o que temos chamado de essência da Geogra�a – logo, seu objeto de estudo especí�co –, podemos constatar que ele é derivado das análises de como o espaço tridimensional é transformado e de como se transforma a partir das relações entre os seres humanos e toda a natureza – já alterada ou não – que os permeiam. O Espaço Geográ�co, objeto típico de estudo da Geogra�a e representado espacialmente pela Cartogra�a e sua linguagem própria, poderia ser interpretado dadas as diferentes correntes �losó�cas e teóricas levadas à cabo pela ciência. Vimos que na história do pensamento geográ�co, são elas que possibilitaram o desenvolvimento da Geogra�a enquanto uma Ciência Humana, consolidando-a ao longo dos anos a partir dos seus diferentes modos de pensar. ASSIMILE Se a Geogra�a, enquanto especi�cidade, tem por objeto de estudo o Espaço Geográ�co, é através de seu objeto de estudo que se procura as interfaces entre o meio físico e a sociedade. 0 V e r a n o ta çõ e s Desse modo, a Geogra�a é central para o desenvolvimento das Ciências Humanas, por conseguir articular análises sobre o Espaço Geográ�co produzido em diferentes tempos históricos, além de observar as relações sociais com a natureza, através de suas categorias especí�cas. Porém, falta-nos, então, estudar de que forma a Geogra�a sai de um ambiente estritamente acadêmico – pautado pelas inovações, descobertas e usos diversos, indo desde a navegação à localização por satélites complexos colocados na órbita de nosso planeta – e passa a ser levada para uma instituição que desenvolveria a sua forma mais importante, se considerarmos sua relevância e sua capacidade interdisciplinar. A escola, lugar por excelência da constituição, transmissão e assimilação do conhecimento cientí�co através das transposições didáticas realizadas por todas as áreas da ciência, faz com que se crie uma necessidade para a Geogra�a: a necessidade de se escolarizar. Vejamos como se deu, em linhas gerais, tal escolarização da Geogra�a, desde a sua consolidação enquanto um componente curricular, até a sua história no Brasil enquanto uma área do conhecimento e do saber escolar. Depois, vamos olhar como a Geogra�a se desenvolveu historicamente em seu fator interdisciplinar no passado e como isso tem se dado na contemporaneidade escolar brasileira, observando suas possibilidades de modo geral. Para que possamos analisar as formas do desenvolvimento da Geogra�a enquanto um Componente Curricular, primeiro precisamos observar com precisão o momento exato que foi constatada a importância do acesso aos conhecimentos advindos da Geogra�a por parte da população em geral no Brasil. Esse fato é importante, pois o acúmulo de discussões da Geogra�a mundial, já no �nal do século XIX – acompanhando os ritmos das outras ciências como um todo –, abriu margens, junto das mudanças 0 V e r a n o ta çõ e s dos paradigmas sociais de desenvolvimento do sistema capitalista, para a abertura de um novo século, cuja ciência seria importante para a sociedade e para o seu entendimento de relações entre diferentes povos, lugares, territórios, e das inter-relações entre sociedade e meio físico. Ainda no início do século XIX já houve um fato importante que ressalta a centralidade da Geogra�a no currículo nacional. Ainda sob os auspícios do Imperador Dom Pedro II, o Colégio Pedro II no Rio de Janeiro teve implantado em seu currículo a cadeira de Geogra�a, a qual ensinava, sobretudo, conhecimentos em astrofísica e sobre a terra de modo geral. Utilizava-se largamente, nessa época, materiais didáticos (como livros didáticos) importados da França, ou feitos por autores brasileiros que estavam na França para imprimir os exemplares dos livros. Livros esses que, nesse momento, eram elaborados muitas vezes a partir das aulas de professores renomados na área. Nesse momento, o principal objetivo não somente da Geogra�a enquanto componente curricular, mas de toda a instituição escolar brasileira, era o de ensinar apenas uma parte da população considerada “apta” para estudar. Esta parcela da população – propositalmente ou não – fazia parte da elite, podendo dar continuidade em seus estudos fora do Brasil nas instituições superiores europeias. Desde esse primeiro momento de sua consolidação enquanto um componente curricular, a Geogra�a possui uma característica de reconhecimento dos diferentes territórios e regiões do Brasil. Ora buscando um reconhecimento do território, ora inclinado ao patriotismo e à uni�cação territorial, ora buscando compreender e desenvolver novas formas diferenciadas de desenvolvimento regional e inter-regional. A Geogra�a, por muito tempo nesse formato, permaneceu como uma ciência regional, o que seria reforçado pela concretização – como veremos adiante – de uma matriz geográ�ca francesa no Brasil no momento da implantação dos cursos de Geogra�a nacionais. Desse modo, a ciência Geográ�ca adentra o século XX com um objetivo 0 V e r a n o ta çõ e s bastante especí�co e que, em grande parte, acompanhou as discussões cientí�cas da virada para o século passado na educação de maneira geral: a ampliação do acesso à escola, com base em propostas advindas essencialmente de movimentos como a Escola Nova. O movimento foi fundado na década de 1930 por educadores cujos objetivos eram a democratização do acesso ao conhecimento, por exemplo. A importância da Escola Nova foi, para além de uma pretensa (e errônea) superação de uma Pedagogia Tradicional suplantada por uma Pedagogia Nova focada essencialmente no estudante, a de tentar democratizar a educação, justamente por trazer também o aluno para o centro do processo de ensino-aprendizagem. REFLITA A Geogra�a, assim como toda a educação, sempre esteve relacionada aos objetivos sociais de seu tempo. Isso signi�ca que não se pode, por exemplo, remover a especi�cidade da ciência em prol de uma educação “acertada” para um determinado tempo histórico, mas sim observar as possíveis interfaces do conhecimento geográ�co – através de suas categorias e conceitos – em um determinado momento. Assim, podemos iniciar um diálogo com os estudantes, motivando-os a entender os porquês de aprender Geogra�a. No que diz respeito à Geogra�a, é na mesma década de 1930 que – coincidentemente – são consolidados os primeiros cursos de Ensino Superior de Geogra�a no Brasil, alocados nas Faculdades de Filoso�a, Ciências Humanas e Letras, de modo amplo. Em um primeiro momento, os cursos de Geogra�a não preparavam diretamente os professores – o que só ocorreu mais tarde com a implantação das licenciaturas plenas e especí�cas nas áreas do conhecimento –, mas eles foram importantes para o desenvolvimento da teoria da Geogra�a dentro do Brasil. 0 V e r a n o ta çõ e s Um exemplo importante é o da fundação do curso de Geogra�a na Universidade de São Paulo (USP), no ano de 1934, o que apresentou à sociedade brasileira uma proposta de inovação a partir da própria Geogra�a nacional. Isso signi�cava que os geógrafos que aqui estavam eram, em sua grande maioria, formados no exterior, havendo uma necessidade de ampliar a formação de pro�ssionais no próprio Brasil. EXEMPLIFICANDO A ampliação e o aprofundamento da formação pro�ssional se davam pelo contexto educacional da época. Era importante, por exemplo, que se ampliasse a educação para que o Brasil pudesse alavancar o crescimento de suas cidades – impulsionado pelo êxodo rural brasileiro – e dos trabalhadores que necessitavam de empregos. Desse modo, a democratização ao acesso à escola também atendeu aos interesses de classe estabelecidos naquele momento. Assim sendo, a Geogra�a que serviu, em um primeiro momento, para sincronizar os interesses do Estado frenteao reconhecimento e à exaltação da ideia de nação, aos poucos passa a corresponder às noções de região e território, buscando o reconhecimento do povo brasileiro e acompanhando as teorias regionais francesas – tendo em vista a base reconhecidamente francesa da Geogra�a brasileira nos cursos superiores. Uma maneira de constatar isso é observando os nomes dos professores que compuseram os primeiros cursos de Geogra�a no país, como Pierre De�ontaines e Pierre Mombeig, renomados geógrafos franceses. Evidentemente que a Geogra�a brasileira, como vimos, desenvolver-se-ia posteriormente, produzindo sua própria teoria “adaptada aos trópicos”. É importante também destacar, nesse contexto, a fundação do Instituto Brasileiro de Geogra�a e Estatística, em 1937, contribuindo para o contexto de formação e consolidação da Geogra�a 0 V e r a n o ta çõ e s brasileira. Entretanto, como você pode observar até aqui, as pontes possíveis para a democratização do conhecimento da Geogra�a – ou seja, para a criação de uma Geogra�a escolar efetiva – pautavam-se por um conhecimento geográ�co fragmentário, pois a Geogra�a feita nesse primeiro momento estava voltada para a produção de um conhecimento academicista. Esse conhecimento – também chamado de “Geogra�a dos Professores” por Yves Lacoste, geógrafo francês – estava embasado em uma Geogra�a do decorar (mnemônica), ou seja, por muitos e muitos anos, sabia Geogra�a na escola quem melhor decorava topônimos, lugares e números, sem que houvesse uma construção crítica do conhecimento naquele momento. Esse movimento perdurou ainda no período da ditadura militar brasileira, com um agravante de que a Geogra�a, nesse momento, perderia sua especi�cidade com a introdução da disciplina de Estudos Sociais na matriz educacional nacional. Essa disciplina signi�cou, no período citado, uma junção entre as disciplinas de História e Geogra�a, deixando Filoso�a e Sociologia diluídas esparsamente em seus conteúdos. Se a proposta com a organização disciplinar dos Estudos Sociais era a de buscar uma integração entre disciplinas do currículo, reforçando e otimizando os conteúdos importantes para fortalecer a ordem moral e cívica estabelecida no país, sua consolidação comprometeu a especi�cidade das ciências que nela estiveram inclusas. A ideia de consolidar disciplinas sob o mesmo item da organização curricular também favoreceu a criação de um novo tipo de professor, cuja versatilidade permitia falar e dar conta de todos os conteúdos que a nova disciplina criada trazia em seu escopo. Desse modo, sua formação geral não favorecia ao aprofundamento, em sua formação, de pro�ssionais completamente apropriados das categorias e conceitos geográ�cos. E, quanto muito o faziam justo das categorias e conceitos especí�cos da história e das outras disciplinas que compunham os Estudos Sociais, não 0 V e r a n o ta çõ e s o faziam com um aprofundamento crítico – muito também devido ao momento histórico que a sociedade brasileira atravessava. Os Estudos Sociais permaneceram no currículo ainda em momentos posteriores, porém, com as especi�cidades das ciências já retomadas no Ensino Fundamental e Médio já nos anos 1980 e 1990. Essa disciplina perpetuou a ideia de uma Geogra�a dos números – que, como já vimos na história do pensamento geográ�co, se estabeleceu no Brasil enquanto uma Geogra�a Teorética ou Quantitativa, pautada por análises numéricas. REFLITA A forma como a BNCC se apresenta enquanto interdisciplinaridade necessita de atenção quando pensarmos as formas como se consolidaram os Estudos Sociais no Brasil nas décadas de 1960 a 1980. Agregar as disciplinas em um grande rol maior em prol de uma redução na carga horária, tornando-se optativa em muitos casos, poderá acarretar problemas na formação dos estudantes no sentido de comprometer a especi�cidade dos conhecimentos das disciplinas, bem como na formação estrita/especializada a partir dos seus interesses próprios. Como também vimos anteriormente, a reformulação da Geogra�a enquanto ciência foi transformada a partir da ascensão da Geogra�a Crítica, o que também transformou a Geogra�a Escolar, especialmente na década de 1980. Com isso, a Geogra�a volta a ter a sua especi�cidade resgatada, dada especialmente pela forma de tratamento dos conteúdos de modo articulado ao seu objeto de estudo. As categorias geográ�cas buscavam observar as intersecções possíveis entre sociedade e meio físico, sendo desenvolvidas também na escola algumas divisões especí�cas entre Geogra�a Física e Humana – dicotomia que já estava em 0 V e r a n o ta çõ e s curso dentro dos conteúdos escolares, mas que se tornou mais explícita a partir desse momento. A criticidade da Geogra�a de base marxista, de uma Nova Geogra�a, portanto, dissolveu-se na disputa entre a importância das duas áreas do conhecimento geográ�co – agora e paulatinamente mais dicotomizado. Mais recentemente, com as novas discussões sobre o papel da escola, sobretudo na formação e na inclusão de pessoas no mercado de trabalho, alguns movimentos têm se colocado na vanguarda com argumentos que estendem o sentido educacional para um serviço técnico, indo de encontro às propostas que entendem a escola como o lócus por excelência em nossa sociedade do desenvolvimento do conhecimento cientí�co. Para além da discussão do papel da escola, é necessário reconhecer que nos últimos anos, dada a necessidade de uma Geogra�a plural e de sua consolidação geográ�ca em múltiplos campos e entendimentos próximos da percepção, a Geogra�a tem se aproximado de outras áreas de pesquisa, no intuito de se fazer presente na interdisciplinaridade. Cabe a nós, portanto, realizar as pontes da Geogra�a com outras áreas do conhecimento cientí�co, sem que se perca sua especi�cidade. FOCO NA BNCC A interdisciplinaridade é importante para o desenvolvimento do conhecimento geográ�co, como temos visto. A BNCC já no Ensino Fundamental II identi�ca o princípio de conexão dos fenômenos enquanto um dos pilares do desenvolvimento do raciocínio geográ�co, estabelecendo conexões entre os conhecimentos e os elementos que compõem o Espaço Geográ�co. Isso também é passível de veri�cação na de�nição de Geogra�a no documento, que coloca o pensamento 0 V e r a n o ta çõ e s espacial da Geogra�a como uma articulação de conhecimentos integrados, visando a solução de problemas observados no Espaço Geográ�co. Nesse sentido, é importante não somente resgatar a especi�cidade da Geogra�a, como observar de que modo essa ciência pode contribuir para a interdisciplinaridade nas Ciências Humanas e para além delas. A construção do conhecimento geográ�co perpassa não somente as questões especí�cas dessa ciência, mas também a construção de um raciocínio espacial integrado, buscando as interfaces possíveis em outras ciências a partir dos princípios da Geogra�a. Observando a BNCC, por exemplo, podemos considerar que os princípios de conexão e diferenciação dos fenômenos a partir de suas variações na superfície terrestre estão interligados com outras áreas da ciência, como a Biologia – no que diz respeito ao meio ambiente e aos biomas, por exemplo. Dessa forma, o modo de ensinar Geogra�a na escola atual signi�ca uma maior interface com outras áreas do conhecimento, sem simplesmente apropriar-se daquilo que é necessário para desenvolver o raciocínio espacial e geográ�co, mas buscando se aproximar das outras áreas, contribuindo com os conceitos geográ�cos para o entendimento da realidade, e desenvolvendo as categorias da Geogra�a junto dos estudantes, na medida em que o raciocínio geográ�co se desenvolve neles. Para que esse raciocínio seja desenvolvido, é necessário que seus sete princípios (analogia, conexão, diferenciação, distribuição, extensão, localização e ordem, tal e qual se apresentam na BNCC) estejam articulados dentro da ciência geográ�ca para fornecer e desenvolver junto dos estudantes a base da interpretação darealidade, apropriando- se dos conceitos geográ�cos mais importantes nesta ciência. Veremos na 0 V e r a n o ta çõ e s próxima seção desta Unidade 4 como esses conceitos aparecem na BNCC e como podem ser articulados para dar base ao trabalho do professor na escola. Com a popularização da tecnologia, hoje podemos ter acesso às informações de todo lugar do mundo a qualquer momento do dia. A sincronia possibilitada pela difusão global das interfaces de tecnologia deu ao mundo uma sincronicidade nunca vista, e que foi massivamente ampliada nos momentos de crise, como a da Pandemia de COVID-19, de�agrada ainda no ano de 2020. As tecnologias são importantes para o mundo atual e estão presentes em todos os lugares – até mesmo onde não podemos reconhecê-las imediatamente. Por exemplo, podemos reconhecer a tecnologia na produção de peças de vestuário – com o emprego de maquinários de alta tecnologia nas confecções têxteis e até mesmo no cultivo das matérias primas –; no sistema de transporte de mercadorias – que possibilita a informação sobre oferta e demanda de produtos em tempo real no planeta, viabilizando um planejamento a longo prazo de remessa desses produtos para qualquer lugar do mundo –; e até mesmo na alimentação humana, se nos atentarmos para o uso de tecnologias para planejamento do uso do sol. Esse último exemplo do uso das tecnologias vem se desenvolvendo de forma bastante ampla nos últimos anos, e a Geogra�a tem um papel importante junto a ele, pois é a partir dos conceitos e categorias da Geogra�a – bem como nas interfaces possibilitadas pela interdisciplinaridade dessa ciência – que podemos observar quão importante é a construção do raciocínio geográ�co a partir das categorias e conceitos da Geogra�a, articulados numa perspectiva multidisciplinar. Imagine, portanto, que você é o professor de uma turma no �nal do Ensino Fundamental II, e que precisa estimular o pensamento integrado dos estudantes numa perspectiva interdisciplinar, pois a escola solicitou que os professores organizassem projetos temáticos para realizar uma 0 V e r a n o ta çõ e s feira do conhecimento na escola. Essa feira será realizada em um �nal de semana e será bastante simples, tendo o objetivo principal de integrar a comunidade escolar (responsáveis pelos estudantes e comunidade em seu entorno) ressaltando a importância da escola para a realidade local. De que modo a Geogra�a pode contribuir para a integração dos conhecimentos nessa feira? Como as interfaces das outras ciências se relacionam com a Geogra�a? Qual o papel do professor de Geogra�a, no sentido de possibilitar o reconhecimento por parte dos estudantes da importância e centralidade da Geogra�a nas análises do Espaço Geográ�co? FAÇA VALER A PENA Questão 1 A Geogra�a, especi�camente, busca compreender as relações entre o meio físico e a sociedade, buscando observar as formas como os seres humanos se relacionam com o que os permeia. Isso pode ser feito de variadas formas, partindo-se de princípios para seu estudo – ou seja, os métodos. Esses métodos precisam estar alinhados à visão de mundo daquele que realiza esses estudos, pois a depender de sua visão de mundo, algumas questões da Geogra�a podem estar resolvidas ou não para essas pessoas. Um exemplo disso são as possíveis interpretações a respeito da ocupação espacial das sociedades ocidentais, que para algumas pessoas não é um fato consolidado, enquanto para outras que observam a partir do método materialista, isso se consolida dado o avanço da tecnologia de Sensoriamento Remoto, por exemplo. Assinale a alternativa que apresente CORRETAMENTE o objeto de estudo da Geogra�a e uma de suas linguagens próprias e importantes para seu desenvolvimento: a. Espaço Geográ�co e Cartogra�a. b. Espaço Geográ�co e cultura. 0 V e r a n o ta çõ e s c. Espaço Físico e Cartogra�a. d. Espaço Físico e cultura. e. Espaço Geográ�co e apropriação cultural. Questão 2 O aparecimento da Geogra�a enquanto ciência ocorreu posteriormente à consolidação das ciências do positivismo, o que trouxe para o campo da Geogra�a e das Ciências Humanas em geral muitos aspectos de “ciência exata” para suas elucubrações. A Geogra�a empreendeu, desde então, não somente uma luta por seu posicionamento enquanto ciência – em busca de sua especi�cidade de estudo – mas, também, como um componente curricular importante para constar nos currículos escolares. Assinale a alternativa que apresente CORRETAMENTE o período de implementação da Geogra�a enquanto componente curricular no Brasil: a. Início do Século XIX, por ordem do presidente brasileiro. b. Século XVIII, com a ascensão do Iluminismo português. c. Século XV, com a chegada dos portugueses ao país. d. Meados do Século XXI, na rede pública de educação. e. Início do Século XIX no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Questão 3 A ideia inicial de abarcar todas as disciplinas das Ciências Humanas foi, em um primeiro momento, bem recebida por parte das autoridades educacionais. Elas olhavam com boas intenções para a nova disciplina criada, capaz de abarcar estudos de Geogra�a e História, articulados com as matérias recém-criadas no período ditatorial brasileiro: Educação Moral e Cívica e Ordem Social e Política Brasileira (OSPB, que acabou por substituir a sociologia). Dentre os educadores contrários à proposta, os argumentos eram preocupados especialmente no que dizia respeito ao 0 V e r a n o ta çõ e s REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2013. LIBANEO, J. C. Didática. 2. ed. Cortez, 2013. SAVIANI, D. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2013. argumentos eram preocupados especialmente no que dizia respeito ao controle social gerado por ideias totalitárias do sistema político-social brasileiro naquele momento, bem como a perda de especi�cidade das disciplinas dentro de uma disciplina maior. Assinale a alternativa que apresente CORRETAMENTE o nome da disciplina descrita no texto-base da questão: a. Estudos nacionais. b. Estudos políticos. c. Estudos sociais. d. Estudos populares. e. Estudos estatais. 0 V e r a n o ta çõ e s NÃO PODE FALTAR NOVAS PERSPECTIVAS PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA Gabriel Pinto de Bairro Imprimir PRATICAR PARA APRENDER O mundo atual é feito de transformações e de movimentos em todos os lugares. Essa percepção tida pela sociedade se dá pelo modo como se consolida a sincronia dos tempos na contemporaneidade – que incide, entre outros fatores, em uma consolidação de um espaço mundial no qual todos os lugares estão integrados. Com isso, todas as ciências precisaram se reinventar, especialmente em sua forma de ensinar os conhecimentos na escola. As formas de organização escolar em disciplinas já são contestadas, à medida que o mundo contemporâneo solidi�ca análises que transcendem as fronteiras das disciplinas – a já conhecida interdisciplinaridade. A Geogra�a, dada sua característica interdisciplinar, como temos observado ao longo de nossas unidades de estudo, apresenta-se como uma importante potencialidade para desenvolvimento de atividades com o intuito de integração entre as disciplinas. Isso pode ser observado nas 0 V e r a n o ta çõ e s tendências dos documentos curriculares contemporâneos, os quais desde seu desenvolvimento enquanto proposta já apontavam para uma maior interrelação entre as disciplinas de uma mesma área do conhecimento. Isso pode ser constatado, dentro de nossa disciplina, pela BNCC do ensino médio (BRASIL, 2018a). O documento já pressupõe – como também discutimos anteriormente – contemplar em uma grande área todos os conhecimentos das áreas, com o intuito de promover tal trabalho interdisciplinar. Nesse caso, a BNCC do ensino médio divide-se basicamente em: Linguagens e Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias, Ciências da Naturezae suas Tecnologias e (não menos importante), as Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, onde estão alocadas as competências e habilidades especí�cas da Geogra�a juntas das outras disciplinas como História, Sociologia e Filoso�a. O desa�o maior para o professor de Geogra�a, nesse caso, equivale a uma retomada da Ciência Geográ�ca e, por isso mesmo, ao longo deste livro demos ênfase ao processo de conhecimento das categorias e conceitos da Geogra�a, pois no entendimento de suas diferenças é que se coloca a forma como a Geogra�a entende seu objeto de estudo especí�co – o Espaço Geográ�co. Se aqui precisamos colocar ênfase nos fundamentos sobre os quais se formam os professores de Geogra�a, temos a chance, agora, nesta unidade, e particularmente em nossa segunda seção, de perceber de que modo podemos colocar a Geogra�a em pauta em nossas aulas, para que possamos atuar de forma geográ�ca na leitura do espaço. Como pode o professor de Geogra�a trabalhar no ensino fundamental e médio tendo por base o documento legal da BNCC? Tentaremos fundamentar essa discussão ao longo das próximas páginas. CONCEITO-CHAVE 0 V e r a n o ta çõ e s Os princípios colocados para a Geogra�a estão articulados na Base Nacional Comum Curricular – a tão famosa BNCC, em discussão desde antes de sua implantação – enquanto um apanhado de ideias fundamentadas sobre suas principais categorias e conceitos. Porém, antes de entendermos como a Geogra�a se manifesta na BNCC, é preciso retomarmos algumas perspectivas de análise desse documento, sobretudo a partir de uma contextualização básica e rápida da sua produção, e de que forma ela afeta – especialmente no nível de ensino médio – a produção do conhecimento cientí�co e escolar. A BNCC é um documento homologado – ou seja, pronto para ser utilizado e reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC) – desde 2018. Porém, a sua história remonta à Constituição Brasileira de 1988 (BRASIL, 2020), a famosa “Constituição Cidadã”, prevista para funcionar enquanto um documento norteador para a retomada da democracia brasileira no período posterior à ditadura militar. Fundamentada nos princípios básicos da Lei 9.394/1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) de educação universal e, principalmente, na educação de qualidade em todo o território nacional, a BNCC apresenta um plano de uni�cação da educação nacional através de uma proposta curricular que se apresente de modo ampliado e comum a todas as unidades federativas. Suas discussões iniciaram-se dez anos antes, em 2008, com propostas de melhoria nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN e PCN+, para o Ensino Médio), para integrar em um único documento toda a perspectiva educacional do ensino básico. Em 2011, fundamentam-se as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para, entre outras questões, iniciar um ciclo educacional de nove anos, sendo do 1º ao 5º ano o ensino fundamental I e do 6º ao 9º ano o ensino fundamental II. Após uma série de congressos e acúmulo de discussões sobre a educação brasileira, na primeira década do século XXI, em 2015, consolidou-se um grupo de trabalho com especialistas de todas as áreas 0 V e r a n o ta çõ e s da educação para começar a elaboração daquilo que seria o documento- base da BNCC. No segundo semestre do mesmo ano é lançada a primeira versão desse documento, sendo rati�cada sua segunda versão – com as contribuições dos pro�ssionais e da sociedade brasileira – já em 2016. Por �m, a terceira e mais atual versão da BNCC para o ensino fundamental foi lançada em 2017, e em 2018 foi lançada a primeira versão da BNCC para o ensino médio, sendo homologadas para uso ambas as bases em dezembro do mesmo ano. Desse modo, a BNCC apresenta-se como um documento balizador das discussões educacionais brasileiras, buscando a padronização do currículo a partir da consolidação de uma única forma de conceber a educação no país, através dele mesmo. Figura 4.1 | Capa da terceira versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – Ensino fundamental I e II Fonte: Brasil (2018b, [s.p.]). Figura 4.2 | Capa da primeira versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – Ensino médio Fonte: Brasil (2018a, [s.p.]). 0 V e r a n o ta çõ e s Esse documento parte do pressuposto de que deveria haver uma estandartização do que é ensinado no país, na tentativa de buscar uma equiparação dos ensinos em diferentes escolas no Brasil. Ele ainda propõe uma ascensão o�cializada das metodologias que coloquem os estudantes como partícipes e protagonistas não somente dos movimentos educativos em sala de aula, mas também daquilo que julgam ser necessário para o seu desenvolvimento ulterior. A essas metodologias damos o nome de metodologias ativas, as quais envolvem, entre outras coisas, o protagonismo dos estudantes frente àquilo que estudam nas disciplinas escolares. ASSIMILE Metodologias ativas, em linhas gerais, são de�nidas por um conjunto de ações que determinam atividades pensadas para proporcionar uma maior autonomia para os estudantes no processo de ensino-aprendizagem. Em outras palavras, a ideia das metodologias ativas é articular o conjunto de conhecimentos das disciplinas com o avanço das tecnologias na contemporaneidade, que implicam no abandono de métodos tradicionais de ensino (nos quais o professor era o centro do conhecimento) para lançar mão de um papel ativo do estudante, o qual torna o processo educativo quase que um processo de pesquisa do estudante, que deverá explicar o conteúdo para seus companheiros em maior ou menor escala. Entre as principais formas de se trabalhar com as metodologias ativas estão algumas práticas que facilitam o trabalho docente em sala de aula, como a sala de aula invertida, na qual o professor possui pouco tempo para explicar o que será ensinado, sendo o protagonismo do estudante relegado a um trabalho de pesquisa ativa sobre os conteúdos a serem ensinados naquele momento. Essa metodologia auxilia os alunos a 0 V e r a n o ta çõ e s desenvolverem independência e autonomia no processo de aprendizagem, sendo completamente ativos. Outra metodologia ativa que tem sido bastante utilizada é o ensino híbrido, que mistura as modalidades presencial e on-line, fazendo com que o estudante seja responsável por grande parte do seu processo de aprendizagem à medida que se torna independente do local que aprende. Essa metodologia ativa também é importante para desenvolver o senso de autonomia e disciplina para aprender, pois a parte presencial de sua aprendizagem também depende de seu próprio trabalho individual durante o período que não está tendo aulas dentro de sua instituição de ensino de modo presencial. Muitos estudantes de todos os níveis tiveram contato com o ensino remoto durante a pandemia de COVID-19, entre os anos de 2020 e 2021, fazendo com que se levantasse a possibilidade de atuação dessa metodologia em todos os níveis de ensino, a partir do retorno às aulas presenciais. Outra metodologia bastante difundida é a do uso de jogos e tecnologias de modo articulado, conhecido como gami�cação (palavra surgida do inglês gaming). Nessa metodologia ativa, o professor traz propostas para serem utilizadas em sala de aula que envolvam jogos e que os estudantes participem ativamente, seja enquanto protagonistas do jogo – o que também estimula sua capacidade de auto-organização e autogestão a partir das decisões tomadas individual e coletivamente – ou como partícipes coletivos das ações de um jogo. Opções para essa metodologia ativa têm crescido bastante nos últimos anos, sendo utilizadas em maior ou menor escala. Um exemplo é o Kahoot!, plataforma que pode ser utilizada para composição de questionários a serem respondidos individual ou coletivamente. Particularmente, para a Geogra�a, além de jogos mais especí�cos como os de adivinhar bandeiras e/ou capitais dos países – em uma perspectiva até mesmo mnemônica, caso não se tenha o cuidado necessáriopara 0 V e r a n o ta çõ e s utilizar os jogos –, existe o Geoguessr, jogo pago que pode ser utilizado para o reconhecimento de perspectivas locais e para trabalhar, por exemplo, questões a respeito do determinismo geográ�co que se possui sobre determinado país e/ou região. Esse jogo, apesar de ser pago, pode ser um diferencial na medida em que é uma porta de entrada para o professor de Geogra�a trabalhar os conceitos e categorias básicas da ciência geográ�ca, conforme também trabalha articuladamente aspectos culturais e históricos numa perspectiva interdisciplinar. REFLITA As metodologias ativas são importantes para o protagonismo do estudante, porém, é sempre importante discutir o papel do professor no processo de ensino-aprendizagem. Da mesma forma que se pode trabalhar com tecnologias e jogos em sala de aula, não se pode perder a dimensão do professor formador e do seu papel de mediador dos conhecimentos junto aos estudantes, devendo a relação de sala de aula ser estritamente voltada, ao menos enquanto �nalidade, às relações desenvolvidas entre os fatores humanos envolvidos (ou seja, professores e estudantes). Para isso, o professor deve estar sempre interessado não somente nas novas metodologias, mas também em estudar e se aprofundar em sua própria ciência, uma vez que mesmo não sendo o protagonista, seu papel ainda deve constar como de alguém que possui um conhecimento coerente com a organização cientí�ca daquilo que ensina. Desse modo, podemos pensar as formas como a Geogra�a pode trabalhar com estas metodologias ativas. É bastante comum que sejam utilizadas – especialmente por professores inexperientes – a ideia de sala de aula invertida, pois o protagonismo da “produção de um 0 V e r a n o ta çõ e s conhecimento” (através de uma pesquisa) está �xado no estudante, relegando ao professor uma tarefa de orientação sobre as etapas de pesquisa. Evidentemente que as críticas sobre esse procedimento recaem sobre a necessária diferenciação entre ensino e pesquisa, pois ainda que estejam articulados, o passo a passo do ensinar – no qual é necessário um trabalho de estudo e dedicação dos estudantes para se apropriarem das categorias e conceitos que cada teoria cientí�ca dispõe em sua estruturação lógica – ainda precisa ser mantido em diferenciação à pesquisa, momento no qual os estudantes, já em posse das categorias e conceitos cientí�cos, podem fazer uma aplicação na realidade daquilo que aprenderam de forma teórica. Porém, é importante ressaltar que a sala de aula invertida é muito boa para utilizar-se na Geogra�a no que tange à análise de mapas e/ou debates iniciados pelos estudantes para iniciar um processo de estabelecimento de uma discussão – ou �o condutor – sobre um fato geográ�co que se identi�ca no espaço. Isso faz com que os estudantes possam se interessar nas formas de utilização das categorias da Geogra�a para compreensão dos fenômenos espaciais, à medida que seu interesse pelo entendimento de algo que observam no Espaço Geográ�co necessita de explicação conforme os conhecimentos são articulados por esses estudantes para a resolução de problemas ou até mesmo para o entendimento do que ocorre na materialidade. Isso faz com que a realidade do aluno esteja próxima da teoria (e vice-versa), tendo o professor a responsabilidade de conduzir seus debates de modo a inserir os conceitos e categorias geográ�cas em suas discussões para uma melhor compreensão do mundo que os rodeia. Outra metodologia ativa bastante utilizada na Geogra�a nos últimos anos é a gami�cação. Como explicamos anteriormente, trata-se de uma metodologia que articula tecnologia e conhecimento por meio do estabelecimento de interfaces de jogos para que os estudantes comecem 0 V e r a n o ta çõ e s a se adaptar aos conhecimentos a serem construídos coletivamente, estimulando, também, o exercício de sua autonomia e autogestão frente aos problemas individuais e coletivos. Em nossa ciência, de modo especí�co, a gami�cação pode ser utilizada de forma analógica – com o uso de jogos de tabuleiro para a constatação de conexões, o conhecimento de projeções cartográ�cas e a visualização geopolítica do mundo, por exemplo – mas principalmente nos jogos que possibilitam a aprendizagem histórico-geográ�ca. O já citado Geoguessr é uma plataforma interessante que articula os estudantes a também pesquisarem fatos sobre determinados lugares, conforme eles buscam localizar em que parte do mundo estão as fotos que aparecem no jogo. EXEMPLIFICANDO É pela gami�cação que o professor pode trazer para suas aulas até mesmo os estudantes mais introvertidos, estabelecendo funções como a de organizar ou anotar os debates dentro dos jogos promovidos pelo seu grupo, ou a de pensar uma estratégia a ser adotada por seu grupo para solução de um determinado problema encontrado dentro do jogo – colocado tanto pelo professor como por outro grupo de estudantes. As disciplinas na BNCC estão cada vez menos encaixadas apenas em seus próprios conteúdos, categorias e conceitos. Sob o argumento de que na contemporaneidade o conhecimento é �uido e sem fronteiras o�ciais que balizem o conhecimento escolar, os principais argumentistas da BNCC buscam enfatizar o caráter interdisciplinar para ultrapassar as barreiras do conhecimento estanque (ou “em caixinhas”, como costumamos dizer), dos períodos anteriores. Esse conhecimento da contemporaneidade estaria moldado por um conjunto de conhecimentos que se desdobram em competências e habilidades para a solução dos problemas da (pós)- modernidade. 0 V e r a n o ta çõ e s A Geogra�a no ensino fundamental tem como principais competências e habilidades a resolução de problemas ligados à organização espacial e o conhecimento da linguagem cartográ�ca como a principal forma de retratar esse espaço geogra�camente. As concepções teórico- metodológicas do ensino de Geogra�a no ensino fundamental na contemporaneidade envolvem a compreensão das metodologias ativas como a principal forma de ensinar e aprender Geogra�a, envolvendo também teorias pós-modernas para iniciar o processo que se consolida na BNCC do ensino médio de integrar as Ciências Humanas em um rol interdisciplinar. Como principais competências para o ensino fundamental, temos a articulação entre sociedade e natureza, a conexão entre os diferentes temas da Geogra�a ao longo da história, o desenvolvimento de autonomia e senso crítico – assim como do pensamento espacial pelas linguagens da Cartogra�a. Ainda estão como competências da Geogra�a a instituição de procedimentos e práticas de investigação para compreensão da articulação e desenvolvimento da sociedade e da natureza na contemporaneidade, o uso de informações geográ�cas para atuar no espaço para promover a cidadania e agir com respeito e determinação sobre os lugares. Esses fatores são desdobramentos do que é colocado como princípios do raciocínio geográ�co no documento. São sete princípios que se articulam entre si do menor para o mais complexo: analogia, conexão, diferenciação, distribuição, extensão, localização e ordem. Esses princípios são as formas através das quais se ensina a geogra�a, estimulando a representação espacial e o raciocínio geográ�co por meio de uma interpretação permanente dos fatos observáveis no Espaço Geográ�co. Já no ensino médio, o panorama transforma-se de disciplinas do conhecimento propriamente ditas para uma organização do conhecimento em grandes áreas. Isso faz com que, como discutimos 0 V e r a n o ta çõ e s anteriormente, as especi�cidades das ciências estejam sacri�cadas em prol de uma interdisciplinaridade constante e imperativa, de modo que se apresenta para o professor um novo desa�o: a formação ampla em uma grande área, mas que sacri�ca, por um lado, as especi�cidades de área e, por outro, a própria constituição que identi�ca as ciências em geral, abrindo mão de suas categorias e conceitos especí�cos em prol de umainterdisciplinaridade como princípio, e não como meio. Deste modo, as competências e habilidades que se apresentam na BNCC no Ensino Médio estão vinculadas à forma como se produz conhecimento nas Ciências Humanas e Sociais, tendo por base uma ideia de aplicação no nome da grande área (Ciências Humanas e Sociais Aplicadas). A ideia de aplicação conduz a re�exões sobre como aplicar cienti�camente os conceitos e categorias das ciências se a interdisciplinaridade está colocada anteriormente às apropriações conceituais e categoriais. Porém, nos limitaremos aqui a pensar de que forma a Geogra�a se inclui – e contribui, notoriamente – para a consolidação das competências e habilidades das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas da BNCC – Ensino médio. Aqui podemos citar como potencialmente geográ�cas as competências que dizem respeito às formas de trabalhar formações territoriais em diferentes tempos, as relações entre sociedade e natureza em diferentes âmbitos, articuladas às escalas geográ�cas (local, regional e global) e às atividades econômicas. Também articuladas a elas estão as competências que estão articuladas à interdisciplinaridade, como o desenvolvimento de um raciocínio crítico e articulado sobre a realidade social e ambiental em todas as escalas geográ�cas. FOCO NA BNCC Grande parte da justi�cativa da BNCC sobre interdisciplinaridade reside na composição de análises integradas a respeito da contemporaneidade. Especialmente 0 V e r a n o ta çõ e s permeados pela aceleração do tempo e seus impactos sobre o mundo do trabalho, a interdisciplinaridade no ensino médio recai sobre a necessidade dos estudantes de articularem suas análises sobre as diversas realidades do mundo. Porém, seria de real interesse para eles a manutenção das especi�cidades das áreas do conhecimento organizadas em disciplinas, mantendo, contudo, a interdisciplinaridade como opção de integração nas grandes áreas. Esperamos que nossa caminhada até aqui tenha sido bastante proveitosa e que você possa ter aproveitado bastante dessa revisão sobre as formas de ensinar Geogra�a na BNCC. Vemos a todo momento nas redes sociais, nas agências de notícias – e até mesmo nas ruas e em nossas conversas cotidianas – constatações de que é necessário viver com a tecnologia e (principalmente) nos adaptar ao seu avanço cada vez maior em nossas vidas. Muitas vezes, esse discurso está atrelado à uma perspectiva fatalista, nos levando a acreditar que chegará um momento na humanidade que seremos reféns das tecnologias e que sem elas não conseguiremos nos reproduzir enquanto seres humanos. Muito disso ocorreu com o trabalho do professor na pandemia de COVID- 19. Não foi difícil termos contato com artigos e análises (especialmente de quem observa a educação do lado de fora dos muros das escolas, sem conhecer a especi�cidade educacional e a demanda real dos estudantes dentro das instituições de ensino) dizendo que o “professor tradicional” que não embarcasse nas aventuras da tecnologia se tornaria mais rapidamente, nesse período, um pro�ssional defasado. Contudo, nós, que estamos diariamente nas escolas e somos formados para trabalhar como pro�ssionais da educação, entendemos que a educação é uma relação humana, no sentido de que sua perspectiva está para além do próprio processo de ensino-aprendizagem. Também 0 V e r a n o ta çõ e s sabemos que a carga de responsabilidade formativa do professor, no Brasil, está além da formação intelectual, atuando o professor (mesmo que informalmente, nas suas relações interpessoais com os estudantes) como um “gestor de emoções”, no sentido de que as demandas que aparecem diariamente na escola retratam uma realidade desconhecida pela maioria das pessoas. Especialmente por esses que julgam ser o professor apenas um mediador das tecnologias em sala de aula, e que a tendência é de que o estudante se autonomize cada vez mais do processo de aprendizagem, sem que existam outras relações dentro da escola. Para além das discussões amplas sobre a escola, observemos como a tecnologia se insere nos currículos, atualmente. Ela aparece como uma aliada de suma importância para a preparação dos estudantes em sua vida acadêmica e social, pois, na contemporaneidade, grande parte das ações humanas está vinculada ao seu uso e em como utilizar isso para que seja algo positivo em sua vida e em sua formação. Sendo assim, podemos entender que um currículo como a BNCC, que se propõe a articular uma formação para a contemporaneidade – indo além das tecnologias –, demanda uma integração dos conhecimentos. Porém, a questão que �ca para nós, professores, – dentre tantas outras, evidentemente – é sobre como integrar os conhecimentos da Geogra�a através de uma perspectiva interdisciplinar, mas mantendo as características da ciência geográ�ca. Dessarte, de que forma podemos ensinar Geogra�a no ensino médio sem que se perca a especi�cidade de suas categorias e conceitos dentro da grande área de formação contida na BNCC? FAÇA VALER A PENA Questão 1 As metodologias compõem um campo que para as Ciências Humanas, sobretudo para a educação, possui essencial importância. Sua principal função é articular os saberes do professor (cientí�cos) com os do 0 V e r a n o ta çõ e s estudante, de modo a compor um rol de práticas de sala de aula a serem utilizadas nos momentos de aula. Essas metodologias na contemporaneidade receberam uma nova integrante, cuja perspectiva de realização se faz a partir do aluno, retomando questões como o protagonismo do estudante, bastante importantes nas discussões educacionais do Século XX. Porém, seu principal trunfo e especialidade reside na utilização e incorporação de tecnologias da informação nas suas aulas, o que a coloca como uma das principais – se não, a mais utilizada – metodologia da atualidade. Assinale a alternativa que apresente CORRETAMENTE o nome da metodologia descrita no texto-base da questão: a. Metodologias ativas. b. Metodologias do ensinar. c. Metodologias do saber. d. Metodologias tecnológicas. e. Metodologias escolares. Questão 2 A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi homologada pelo Ministério da Educação (MEC) ainda em 2018, quando estabelecida a terceira versão do documento e os passos �nais para o estabelecimento de sua primeira versão voltada para o ensino médio. Os princípios básicos da BNCC estão pautados pelo desenvolvimento educacional para a contemporaneidade, mas também são embasados por atributos legais, uma vez que se faz necessária a garantia dos direitos fundamentais na educação também na construção dos currículos nacionais. Assinale a alternativa que apresente CORRETAMENTE a lei que embasa os princípios da BNCC: a Lei 8 069/1990 0 V e r a n o ta çõ e s REFERÊNCIAS a. Lei 8.069/1990. b. Lei 9.424/1996. c. Lei 11.494/2007. d. Lei 10.172/2001. e. Lei 9.394/1996. Questão 3 Este é um dos tipos mais importantes de metodologias ativas para a Geogra�a, pois ela proporciona ao estudante um contato direto e lúdico com a tecnologia. Por meio de plataformas digitais especializadas, o professor pode organizar jogos para que os estudantes tenham contato com a realidade observada na Geogra�a, mobilizando conhecimentos para a realização plena das atividades escolares. Porém, essa é uma prática inovadora quando articulada com a tecnologia, pois já possuía um uso anterior analógico, no qual o professor trazia os jogos para a realidade dos estudantes na tentativa de colocá-los em contato com os conhecimentos geográ�cos. Assinale a alternativa que apresenta CORRETAMENTE o nome da metodologia ativa descrita no texto-base da questão: a. Ludicização. b. Modernização. c. Gami�cação. d. Sala de aula invertida. e. Debates estruturados. 0 V e r a n o ta çõ e s APPLE, M. W. As Políticas do Conhecimento O�cial: faz sentido a ideia de um Currículo Nacional? In: APPLE, M. W. Políticas Culturais e Educação. Porto: PortoEditora, 1999, pp. 49-68. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2020]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 11 dez. 2021. BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 11 dez. 2021. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 11 dez. 2021. BRASIL. Lei nº 10.172, de 9 de janeiro de 2001. Aprova o Plano Nacional de Educação e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2001. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10172.htm. Acesso em: 11 dez. 2021. BRASIL. Lei nº 11.494, de 20 de junho de 2007. Brasília, DF: Presidência da República, 2007. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/lei/l11494.htm. Acesso em: 11 dez. 2021. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2013. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: ensino médio. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018a. 0 V e r a n o ta çõ e s http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10172.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/lei/l11494.htm BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: ensino fundamental – anos �nais. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018b. MORAES, J. V.; CASTELLAR, S. M. V. Metodologias ativas para o ensino de Geogra�a: um estudo centrado em jogos. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias, v. 17, n. 2, pp. 422-436, 2018. 0 V e r a n o ta çõ e s NÃO PODE FALTAR RECURSOS METODOLÓGICOS PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA Gabriel Pinto de Bairro Imprimir PRATICAR PARA APRENDER Durante todo o nosso livro e nossa caminhada de aprendizados, buscamos aproximar nossa linguagem geográ�ca ao dia a dia da escola, sempre na perspectiva de mostrar como os conhecimentos geográ�cos podem contribuir para a interdisciplinaridade do mundo contemporâneo. Mundo este no qual o avanço das tecnologias fez com que todas as áreas repensassem suas metodologias anteriores, numa constante evolução e busca por resultados melhores na aprendizagem dos estudantes em sala de aula. Na história, o papel do professor de Geogra�a, especi�camente, acompanhou o desenrolar e o desenvolvimento das diferentes estratégias e correntes pedagógicas da educação. No caso brasileiro, essas correntes se misturam e se entrecortam em diferentes momentos, repetindo-se muitas vezes em princípios e essência do sentido formativo. Os dias atuais não são diferentes: se observarmos a BNCC como está colocada, 0 V e r a n o ta çõ e s conseguimos observar momentos pedagógicos diferentes em sua composição, desde uma perspectiva do estudante como protagonista do ensino – potencializado atualmente sob o uso independente e individual das tecnologias em sala de aula – até ao observarmos seus desdobramentos em competências e habilidades especí�cas de cada área do conhecimento, constituindo um �o analítico que ultrapassa as necessidades categóricas de cada uma das disciplinas escolares. Desse modo, preferimos ao longo de nosso livro chamar a atenção às categorias e conceitos geográ�cos, para que pudéssemos avançar sobre a discussão de que a interdisciplinaridade não deve ser imposta e/ou colocada aos professores ao ponto de dissolver as especi�cidades cientí�cas. A interdisciplinaridade deve estar posta como um meio de trabalho, como uma ação coletiva em prol de uma conexão dos saberes, sem que as áreas do conhecimento sejam “estanques” em suas próprias aulas de alguns (às vezes poucos) minutos de duração. Assim sendo, precisamos observar como as metodologias de ensino têm sido desenvolvidas ao longo do tempo na Geogra�a, e como que estão se adaptando à nova realidade formativa. Deste modo, nossa última seção de trabalhos buscará apresentar algumas metodologias utilizadas para o ensino de Geogra�a, como o Estudo do Meio – bastante utilizado historicamente na �xação das categorias geográ�cas articuladas à observação, descrição e análise espacial – e os Recursos Educacionais Abertos, os quais reúnem as tecnologias que podem ser utilizadas para o ensino de Geogra�a e como o professor pode lançar mão delas. Além disso, serão apresentadas algumas formas de trabalho com fontes diversas, de buscaremos apresentar o trabalho articulado entre Geogra�a, Cinema e Literatura. Como podemos trabalhar com essas metodologias e materiais? Como 0 V e r a n o ta çõ e s podemos selecionar, de modo adequado aos nossos propósitos educacionais, as fontes diversas para o trabalho com a Geogra�a? Essas serão algumas das questões que abordaremos ao longo deste trabalho. CONCEITO-CHAVE Chegamos à esta última seção de trabalhos com o objetivo de apresentar a vocês algumas das metodologias que podem ser utilizadas para o Ensino de Geogra�a. Concebemos a Seção como uma forma de estruturar uma lógica de trabalho para que, com a apropriação das metodologias principais para cumprir tal proposta de ensinar Geogra�a na escola, você seja capaz de articular os conhecimentos da Geogra�a com as formas de ensino dessa ciência tão importante. Em um primeiro momento, falaremos sobre o Estudo do Meio, bastante importante para a Geogra�a e desenvolvido ao longo de décadas nas escolas brasileiras, perdurando até os dias atuais. Com relação ao Estudo do Meio – nosso ponto de partida nesta Seção – identi�ca-se a um primeiro olhar como uma relação entre o que está disposto e colocado na paisagem (seja ela urbana ou rural) para o estudante, porém, a sua importância está também na consolidação dos conceitos principais das subáreas da Geogra�a, conforme o Estudo do Meio objetiva não só a observação do Espaço Geográ�co, mas também a identi�cação e construção dos conceitos por parte dos estudantes. Isso possibilita o desenvolvimento pleno da sua expressão espacial, na medida em que seu olhar geográ�co está orientado não só na percepção do local observado ou de onde habita, mas também na articulação complexa de conhecimentos que são ou serão aprofundados em sala de aula. Esse recurso educacional para a Geogra�a é bastante importante quando falamos de como as categorias geográ�cas se inserem no que os estudantes podem ver nos horizontes que se apresentam diante dos seus olhos, ouvidos e corpo como um todo. Sua principal ideia é a de tornar 0 V e r a n o ta çõ e s palpável/observável/audível etc., para o estudante, todas as propriedades espaciais que diariamente ele já vivencia. Porém, como falamos, a sua principal perspectiva vai além da observação. Em uma escala ampla de tempo, os estudantes podem trabalhar com o Estudo do Meio em várias etapas de sua aprendizagem, pois a observação e descrição espaciais que essa metodologia de ensino proporciona para a Geogra�a remonta à sua origem enquanto ciência. Foram a partir de tais observações iniciais que os primeiros Geógrafos – como vimos, os naturalistas e grandes viajantes que observavam o comportamento da natureza e das sociedades – puderam, através da observação, descrever aquilo que compunha o Espaço Geográ�co. Como podemos observar, o Estudo do Meio nasce dessa necessidade de explicar o Espaço Geográ�co a partir das transformações humanas, ou de investigar como o objeto de estudo da Geogra�a se apresentava enquanto meio físico a serapropriado pela humanidade. Porém, o Estudo do Meio vai além dessa necessidade de descrição e observação espacial, Figura 4.3 | Trabalho humano no Espaço Geográ�co Fonte: Wikipedia Commons. Figura 4.4 | Como se apresentam as alterações da natureza a partir do trabalho humano Fonte: Wikipedia Commons. 0 V e r a n o ta çõ e s na medida em que o Espaço Geográ�co é um organismo que se apresenta complexamente, em relações que a todo momento são modi�cadas e se modi�cam entre si e com relação aos outros lugares. Dessa forma, para além da contemplação do espaço vivido pelos estudantes, é importante atentar para duas ações fundamentais no Estudo do Meio: a historicidade dos lugares e as múltiplas relações dele com ele mesmo e com outros lugares através das escalas geográ�cas. Com isso, queremos dizer que o Estudo do Meio – tão articulado às práticas de “saída da escola” e “passeio escolar” – está para a Geogra�a situado, além da saída escolar em si. ASSIMILE O Estudo do Meio enquanto metodologia de ensino na Geogra�a tem como dever ultrapassar a observação e simples descrição do Espaço Geográ�co. A ideia principal dele é observar a história dos lugares e apreender suas relações a partir das escalas geográ�cas (local, regional, global). Em uma ideia de complexi�cação do conhecimento geográ�co, é necessário relacionar com o que os estudantes vivem (o espaço vivido do local) indo para além dele, à medida que se identi�cam problemáticas espaciais a �m de observar como se pode pensar o Estudo do Meio efetivamente dialógico e investigativo para que os estudantes se apropriem de fato das categorias e conceitos da Geogra�a ao trabalharem com/no Espaço Geográ�co. Dito isso, é preciso estruturar como o Estudo do Meio ocorre. A estruturação dele necessita basicamente de quatro passos que se articulam – assim como uma aula – de forma dialética: 1) acúmulo teórico anterior à saída de campo; 2) a fase do planejamento do trabalho de campo; 3) a saída de campo para o Estudo do Meio; 4) a estruturação do 0 V e r a n o ta çõ e s conhecimento articulando teoria e prática, retomando os passos anteriores e sintetizando o saber produzido durante o trabalho de campo. Esses passos possuem certas especi�cidades, especialmente quando se observa o seu segundo passo – o planejamento. Por exemplo, é necessário que se planeje este trabalho coletivamente: assim como o professor conduz o raciocínio para a estruturação desse trabalho, os estudantes precisam estar minimamente apropriados das categorias e conceitos da Geogra�a para que possam levar à cabo o trabalho de observação do Espaço Geográ�co. Isso faz com que os próprios estudantes também se organizem para o planejamento do trabalho de campo. Também é preciso, nesse planejamento, os objetivos, as formas de trabalho (observação, registros documentais e fotográ�cos etc.), assim como se apresenta aos estudantes o Caderno de Campo, uma das principais fontes primárias para a saída de campo. Falando ainda sobre o Caderno de Campo, ele pode ser uma ótima ferramenta de trabalho para o professor de Geogra�a. Especi�camente é nele que estão contidos os principais pensamentos dos estudantes de Geogra�a nos trabalhos de campo, como croquis primários, desenhos da paisagem, formas de interpretação textuais e/ou composições artísticas etc. Sua importância reside especialmente na percepção individual dos participantes do trabalho de campo, que posteriormente poderá ser articulada para mostrar como os diferentes sujeitos podem observar o mesmo Espaço Geográ�co, e como ele pode signi�car e mostrar diferentes fatores para esses sujeitos. EXEMPLIFICANDO O Caderno de Campo pode fornecer, por exemplo, uma interface para a interdisciplinaridade com a área do conhecimento da Gramática/Português na escola. As composições individuais e/ou coletivas dos estudantes podem servir como ponte para um trabalho que integre os 0 V e r a n o ta çõ e s conhecimentos sobre escrita/leitura dos estudantes, assim como seu trabalho como fonte documental, tendo também importância para o aprendizado de outras áreas do conhecimento. Além disso, o Caderno de Campo pode ser uma ótima ferramenta para integrar os pais dos estudantes na escola, à medida que podem ser organizadas mostras dos resultados dos trabalhos de campo em feiras escolares, por exemplo. Assim sendo, o Estudo do Meio vai além das perspectivas curriculares que colocam o professor como mero reprodutor do conhecimento, observando o potencial que esse pro�ssional possui na construção das suas aulas e signi�cando o aprendizado do estudante de forma bastante rica. Estudante este que se torna protagonista ao desenvolver as categorias e conceitos importantes para o entendimento do Espaço Geográ�co a partir da Geogra�a, e entre eles já estabelecer relações com as outras áreas do conhecimento. Desse modo, o Estudo do Meio é potencialmente uma forma de integrar os conhecimentos – como asseveramos – e ele faz com que os estudantes também estejam em contato com as diferentes realidades do e no Espaço Geográ�co. Para estruturação do Estudo do Meio, desse modo, é importante atentar- se sempre se os conteúdos que serão abordados durante o trajeto a ser percorrido no mesmo estão em consonância com o trabalho do professor adequado àquele momento, para que o professor não seja um mero reprodutor dos conhecimentos, mas permita que os alunos construam suas percepções e ideias sobre o Espaço Geográ�co a partir dele mesmo. FOCO NA BNCC É importante destacar que o Estudo do Meio na BNCC é considerado uma prática especial e central para o desenvolvimento do raciocínio geográ�co nos anos iniciais do 0 V e r a n o ta çõ e s ensino fundamental. Ou seja: é importante que o trabalho de campo esteja integrado ao desenvolvimento das atividades escolares desde o início para que, com isso, os estudantes já comecem a se apropriar desde cedo das estruturas espaciais para que posteriormente consigam se apropriar das categorias e conceitos geográ�cos. Inclusive de modo a retornar aos mesmos locais visitados para ampliar seu aprofundamento conceitual. Com base no que falamos sobre Estudo do Meio, é possível abordarmos dois outros tópicos de nossa seção. Primeiramente falemos sobre as fontes documentais – tão importantes para a organização do planejamento do Estudo do Meio – mas numa perspectiva mais ampla como metodologia de ensino da Geogra�a. Essas diversas fontes documentais, sejam elas escritas ou produções audiovisuais e artísticas de maneira geral, estão atreladas ao desenvolvimento geográ�co do espaço, e envolvem essencialmente uma visão humana sobre o Espaço Geográ�co o qual – ao menos – observou e registrou seus interesses. As fontes documentais são importantes para o enriquecimento das aulas de Geogra�a conforme tornam-se, para além de exemplos, concretizações históricas e cristalizações da sociedade no meio físico. Todavia, o professor de Geogra�a deve sempre estar atento à �liação da fonte, pois todo recurso utilizado em sala de aula – seja ele produzido diretamente para ela ou não – assume caráter humano de intencionalidade. Em outras palavras, queremos dizer que qualquer documento e registro sobre o Espaço Geográ�co, verse ele sobre o meio físico ou a sociedade, ou até mesmo sobre as relações sociais e interfaces com o meio físico, é produzido intencionalmente e possui, assim sendo, suas próprias formas de “enxergar o mundo”. Importantes bases para o estudo do Espaço Geográ�co, as fontes 0 V e r a n o ta çõ e s documentais são in�uenciadas, como vimos, pela historicidade social, já que são produzidas com intencionalidade e de acordo com o seu contexto. Isso sempre deve estar em voga e em constante discussão entre os professores e estudantes. O contato com as fontes documentais enriquece o conhecimento dos estudantes por os colocar em contato com a cultura de um povo, mas sem esquecer-se de que a cultura é umainferência social humana, sem que esteja articulada com um modo totalitário de ver o Espaço Geográ�co. A análise das fontes documentais históricas e geográ�cas necessita dessas observações para que também possa – como você já deve ter percebido – possibilitar uma interface interdisciplinar ampla e segura com o ensino de História e Sociologia, por exemplo, na escola. Dessa forma, podemos a�rmar que a pesquisa e o trabalho com fontes documentais é uma das formas mais integradoras da Geogra�a com as outras áreas do conhecimento das Ciências Humanas, tendo em vista sua possibilidade de articular os conhecimentos da História, da Sociologia, da Filoso�a, das Artes, da Gramática etc. Cabe ao professor de Geogra�a não somente possibilitar tais vias de comunicação, mas organizar suas aulas de modo adequado a cada nível de ensino e turma, levando em conta seus aspectos de desenvolvimento cognitivo como o entendimento e domínio da língua a ser apresentada documentalmente. As imagens e iconogra�as históricas são aliadas neste momento, assim como o trabalho com a Cartogra�a, possibilitando não somente o desenvolvimento do conhecimento cartográ�co, mas também a alfabetização cartográ�ca. Duas das principais fontes documentais que possuímos bastante acesso e horizontalidade para trabalhar na Geogra�a são o Cinema e a Literatura. Ambos também podem se desdobrar dentro das metodologias de ensino da Geogra�a, à medida que entregam ao professor diferentes formas lúdicas para seu trabalho e, especialmente, são potencialmente 0 V e r a n o ta çõ e s integradoras e compõem a interdisciplinaridade com outras áreas do conhecimento escolar, em especial com as artes e com a literatura. Observemos um pouco mais de perto – e brevemente – como se desenvolvem metodologias de ensino articuladas ao Cinema e à Literatura. É importante atentarmos para o fato de que ambos – Cinema e Literatura – compõem um rol de trabalho que está próximo, em maior ou menor medida, da realidade cultural dos estudantes. Atualmente com o acesso aos meios de comunicação bastante ampli�cados – especialmente a televisão – �ca mais próximo da realidade das pessoas, até certa medida, as grandes produções Cinematográ�cas e até mesmo as adaptações literárias para o Cinema, numa mistura entre ambos em certos casos. O Cinema pode ajudar a descrever o espaço na medida em que atua como uma ferramenta para discussão em sala de aula sobre o próprio Espaço Geográ�co, buscando atuar com o olhar categórico e crítico da Geogra�a as diferentes realidades representadas nos �lmes. Desse modo, o Cinema alcança e expõe uma linguagem de amplo alcance, mas que deve ser utilizada sempre em relação direta com a intencionalidade do professor. Assim, o �lme escolhido deve estar adequado à linguagem apropriada e à classi�cação etária dos estudantes, para contribuir com o entendimento do mundo e articular com os conhecimentos já desenvolvidos pelo estudante. Também devemos evitar �lmes estereotipados de alguma forma, tendo em mente que a tentativa é a de utilizar uma fonte documental e não reforçar alguma impressão e/ou estereótipo que os estudantes podem vir a ter sobre determinado tema, desmisti�cando e reconhecendo as categorias e conceitos geográ�cos nos �lmes. Já no que diz respeito à literatura, ela é importantíssima para estimular o processo interdisciplinar, contribuindo para a construção de uma metodologia didática do/no espaço e conjuntamente com a obra literária, 0 V e r a n o ta çõ e s permeada de aspectos sociais diversos, inclusos aí a Geogra�a. Seu principal aspecto de trabalho está relacionado com a forma de se realizar e interpretar criticamente o Espaço Geográ�co, a partir das categorias e conceitos da Geogra�a, numa abordagem bastante similar a das outras fontes documentais. REFLITA Especialmente devido à sua ampla descrição dos lugares da narrativa, a obra literária é rica em elementos que fazem os estudantes re�etirem sobre o Espaço Geográ�co retratado nela. Desse modo, a ideia não é somente identi�car os conceitos e categorias, mas analisar de que modo se faz a construção ideológica entre o discurso social e a descrição do espaço em uma determinada obra, sem que se compreenda o Espaço Geográ�co em si, mas de forma articulada com os elementos naturais e sociais. Por �m, falemos dos Recursos Educacionais Abertos (REA) para o Ensino de Geogra�a, e de que forma podemos nos apropriar deles para enriquecer cada vez mais nosso trabalho em sala de aula. É importante retomar, em um primeiro momento, que esses REA, na contemporaneidade, estão muito articulados à tecnologia e à forma como trabalhamos e nos apropriamos dela em nosso trabalho. Os REA envolvem o uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) em sala de aula, na tentativa de inserir o uso das TICs em sala de aula. O uso dessas tecnologias também está descrito na BNCC, dadas as descrições de algumas competências gerais sobre o uso e apropriação de tecnologias por parte dos estudantes em todas as práticas sociais. Como o próprio nome diz, esses recursos são abertos, ou seja, possuem uma licença de trabalho e criação coletiva, no sentido de que não precisam ser pagas para serem acessadas, o que facilita a utilização por pessoas que 0 V e r a n o ta çõ e s não desenvolveram o sistema. Desse modo, os REA facilitam a comunicação do estudante com as bases de dados de aprendizagem através das escalas geográ�cas, articulando o tempo para além da sala de aula do estudante em torno do aprendizado ampli�cado. Os REA também são importantes para a democratização no acesso ao conhecimento estruturado, reduzindo o tempo de pesquisa dos estudantes e auxiliando-os em sua autonomia, aproximando-os também de outras culturas e realidades mundiais. Isso acaba bene�ciando o estudante na medida em que ele consegue observar de forma interativa e próxima, muitas vezes, de sua realidade, através da tecnologia, o espaço como um todo, buscando um entendimento mais amplo dos alunos, tanto nas aulas de Geogra�a como para além delas. Esperamos que a sua caminhada até aqui tenha sido bastante proveitosa e de rico aprendizado. Desejamos todo o sucesso em sua futura pro�ssão, e que você seja feliz em sala de aula, entendendo as realidades diferentes dos estudantes, em busca da construção de um mundo melhor, com menos desigualdades sociais. Em nosso dia a dia, é comum observarmos que a Geogra�a está articulada com muitas das notícias que vemos nas mais variadas mídias, e nos deparamos com o uso da Geogra�a também em nossas atividades cotidianas. Como já falamos em outras seções, utilizamo-nos dos conhecimentos geográ�cos em muitas instâncias, sejam elas para resolver questões simples de localização e/ou locomoção entre dois pontos do espaço, seja para planejar uma atividade humana cotidiana ou falar sobre um acontecimento que vimos na TV. A Geogra�a é bastante �uida em nossas conversas, porque sempre que contamos alguma coisa a alguém, costumamos sempre contar onde o fato aconteceu, localizando nosso interlocutor com o rumo que nossa conversa terá, bem como demonstrando para ele que somos capazes de identi�car na conversa aquilo que entendemos como importante espacialmente para de�nição 0 V e r a n o ta çõ e s dos fatos que iremos abordar. De�nitivamente as tecnologias, além de terem “chegado para �car”, facilitam esse trabalho de localização, seja para dar uma explicação de uma instrução para se chegar a algum lugar, seja para demonstrar onde as coisas estão localizadas. Por muitas vezes, somos capazes de visitar virtualmente lugares distantes do mundo através de nossos aparelhos tecnológicos, o que também con�gura um ótimo exercício lúdico a se fazer em sala de aula com nossos estudantes. Através dos conhecimentos geográ�cos e das tecnologias, podemos nos transportar para espacialidades que podem muitas vezes não ser acessíveis para nossos estudantes in loco, mas que podemser vistas através das tecnologias, por exemplo. Mas a Geogra�a é a ciência de estudo do Espaço Geográ�co, seu objeto e seu mote para desenvolvimento enquanto ciência. E de nada adiantaria somente conhecer algo virtualmente, pois a experiência dos lugares está para além da contemplação utilizando apenas alguns de nossos estímulos sensoriais como a visão, a audição ou o olfato, quando possível. Desse modo, é necessário que estimulemos a ação externa à escola com nossos estudantes, para que eles possam vivenciar em sua prática o exercício da Geogra�a, de modo a articular os conhecimentos construídos coletivamente em sala de aula. Como planejar uma saída de campo, dessa forma? De que forma podemos abordar e construir o conhecimento geográ�co de modo conjunto com os estudantes para além de suas percepções imediatas do Espaço Geográ�co, interpretando-o de modo geográ�co e histórico? FAÇA VALER A PENA Questão 1 Ambas as práticas constituem formas bastante interessantes para incentivar a interdisciplinaridade na Geogra�a. Suas linguagens representam uma importante interface com o ensino de Artes e 0 V e r a n o ta çõ e s Português, podendo produzir trabalhos coletivos interessantes durante a prática docente. As formas diversi�cadas de expressão também garantem aos estudantes uma forma ampla de expressar os conhecimentos geográ�cos, os quais através das categorias e conceitos da Geogra�a representam uma transposição da realidade observada no Espaço Geográ�co para uma produção individual e/ou coletiva sobre ele. São importantes para que o professor garanta outros modos de expressar os conhecimentos geográ�cos durante suas aulas, resultando em produtos mais próximos da realidade dos estudantes, aproximando-os da realidade e do uso das tecnologias. Assinale a alternativa que apresente CORRETAMENTE duas práticas que correspondem à descrição do texto-base da questão: a. Cinema e Literatura. b. Cinema e Tecnologias. c. Literatura e Análise de mapas. d. Análise topográ�ca e Literatura. e. Linguagem acadêmica e produção cultural. Questão 2 Na sociedade da informação, o uso das tecnologias está integrado ao saber-cientí�co de sua produção, tornando-se essencial para todos os que habitam as sociedades humanas integradas ao seu uso, o conhecimento e a operação dentro de sua lógica sistematizada. Dessa forma, é importante que a escola estimule o uso das tecnologias em sala de aula, porém, de modo responsável de forma a cumprir uma integração do conhecimento aprendido e construído coletivamente com aquilo que se tornou cotidiano para o uso em nossa sociedade da informação, 0 V e r a n o ta çõ e s mediada pelas ferramentas tecnológicas. Assinale a alternativa que apresente CORRETAMENTE uma motivação para o uso de Recursos Educacionais Abertos (REA) na Geogra�a: a. A relação entre os REA e o Ensino de Geogra�a deve levar em conta apenas o desenvolvimento dos conteúdos por parte do professor, sendo o aluno um usuário passivo das TICs em sala de aula. b. O uso dos REA nas aulas de Geogra�a possibilita o contato com a tecnologia para muitos alunos, mas sem levar em conta o tempo de aprendizado dos estudantes, que aprendem fora da sala de aula. c. Os REA compõem uma parte importante do ensino de Geogra�a apenas nas áreas que utilizam tecnologias na ciência geográ�ca, como o Sensoriamento Remoto. d. Os REA compõem uma parte importante do Ensino de Geogra�a e são utilizados em todas as áreas do conhecimento geográ�co, sem que haja controle de seu uso em sala de aula. e. O uso dos REA nas aulas de Geogra�a possibilita um aprendizado dinâmico e integrado, dada a inserção das TICs nas aulas para a apropriação dela pelos estudantes. Questão 3 O trabalho de campo para a Geogra�a deve ser observado e pensado enquanto uma ferramenta para mediação – através das interfaces produzidas em sala de aula – entre a teoria e a prática observada no próprio objeto de estudo da Geogra�a, o Espaço Geográ�co. Nele, podem ser vistas todas as materializações dos constructos sociais humanos no espaço, dispondo aos estudantes diante de seus olhos todas as contradições e organizações da sociedade na qual estão inseridos. O professor, desse modo, precisa estar ciente dos locais nos quais se propõem os trabalhos de campo, indo além da ideia de “passeio” pela cidade, buscando exempli�car através do Espaço Geográ�co aquilo que está posto na teoria geográ�ca que é aprendida e construída em sala de aula. Assinale a alternativa que apresente CORRETAMENTE uma síntese sobre o trabalho de campo para a Geogra�a: a. O trabalho de campo é algo relativamente novo na Geogra�a, sendo estimulado na contemporaneidade dada a profusão de informações produzidas por nossas sociedades, que transformam o Espaço Geográ�co a todo momento 0 V e r a n o ta çõ e s REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria do Ensino Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Geogra�a. Brasília: MEC/SEF, 1998. GIORDANI, A. C. C; FERREIRA, D. S.; TONETTO, E. P. Recursos Educacionais Abertos: potencialidades da cibercultura. In: COLÓQUIO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA, 1., 2018. Anais [...]. Maceió, 2018. OLIVEIRA, L. M. P; ALMEIDA, D. A.; PEREIRA, A. P. G. Recursos Educacionais Abertos e as tecnologias digitais de informação e comunicação: formação e práxis em escolas ribeirinhas. Revista Docência e Cibercultura (ReDoC), v. 5, n. 1. Rio de Janeiro, Jan/Ago 2021, pp. 58-79. transformam o Espaço Geográ�co a todo momento. b. A história dos lugares é uma parte pequena do trabalho de campo, pois seu principal objetivo é o estabelecimento do pensamento geográ�co através de suas categorias e conceitos, observáveis e consolidados no Espaço Geográ�co. c. Esse modal de aula contribui para a referenciação das categorias e conceitos da Geogra�a no Espaço Geográ�co, possibilitando a síntese dos conhecimentos por parte dos estudantes a partir de sua coleta de dados na observação do local escolhido. d. A condução do trabalho de campo necessita de uma organização prévia teórica, não sendo necessário a visitação anterior dos lugares pelo professor, haja vista que a teoria ao ser aplicada na prática enriquece o conhecimento dos estudantes. e. A forma de condução do trabalho de campo remonta a Geogra�a Clássica, pois as categorias e conceitos fundamentais de serem trabalhados em uma saída de campo são as de localização e orientação, respectivamente. 0 V e r a n o ta çõ e s