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2 Sumário Capítulo 1. OS FILHOS DA PROMESSA Capítulo 2. CULTIVANDO A AMIZADE Capítulo 3. OS AMIGOS SE DISPERSAM Capítulo 4. A VOLTA AO LAR Capítulo 5. O REENCONTRO COM JESUS Capítulo 6. UM TOQUE AMIGO E RESTAURADOR Capítulo 7. EXERCENDO A DIACONIA Capítulo 8. LÁGRIMAS EM BETÂNIA Capítulo 9. A UNÇÃO DO MESSIAS Capítulo 10. SOLIDÁRIOS NA DOR E NA ALEGRIA Capítulo 11. A MAIOR PROVA DE AMIZADE REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 3 Capítulo 1 OS FILHOS DA PROMESSA No ano 19 a.C., quando Marta veio ao mundo, Roma dominava a maior parte da região do Mediterrâneo, inclusive a Palestina.1 Em 27 a.C., o novo imperador, Otaviano, assumiu o Império com o título de Augusto, e, com o seu reinado, a “pax romana” estendeu-se sobre todo o mundo. Iniciou-se, então, um período de paz para o Império, favorecendo também a Palestina, que, finalmente, depois de vários anos, não mais foi castigada por guerras. Contudo, essa paz que Roma trazia era paz de vitória para os romanos, enquanto para os vencidos era paz de submissão.2 De fato, quando um povo era conquistado após uma violenta campanha militar, o general vitorioso percorria as ruas de Roma conduzindo não só os ricos espólios da guerra, mas também os reis e generais derrotados, que desfilavam acorrentados para, depois, serem ritualmente executados. A glória dessas conquistas ficava perpetuada, depois, nas inscrições dos edifícios, nas moedas, na literatura, nos monumentos e, sobretudo, nos arcos do triunfo erguidos por todo o Império. Os principais instrumentos de coerção usados pelos dominadores eram, portanto, a violência do exército, uma forte propaganda ideológica e a cobrança de impostos.3 Herodes Magno adquiriu as boas graças do novo imperador, que o confirmou como rei dos judeus. Ele já havia tomado posse do trono em 37 a.C., após ter derrotado todos os seus inimigos. Príncipe de origem árabe, sem parentesco com a antiga família real dos asmoneus, Herodes não conseguiu conquistar a simpatia dos judeus piedosos. Era filho de um idumeu, Antipater, e de uma nabateia. Como os idumeus haviam sido obrigados a se judaizar, jamais foram considerados judeus de boa cepa; por isso, Herodes não podia exercer o cargo de sumo sacerdote, o que confiava a homens sem valor. Seu amor pela civilização grega se fazia sentir pelo seu gosto por grandes construções, jogos e espetáculos. Tendo falecido no ano 4 a.C., já próximo de completar 70 anos de idade, Herodes seria lembrado não só pela realização de grandes obras, como a cidade de Cesareia Marítima e o templo de Jerusalém, mas também por sua crueldade. Obcecado pelo temor de alguma conspiração, ordenou a morte de membros de sua própria família. Primeiro fez desaparecer seu cunhado Aristóbolo, afogado numa piscina de Jericó; depois, sua esposa Mariamne, acusada de adultério; sua sogra Alexandra e outros parentes. Três anos antes de sua morte, mandou estrangular seus filhos Alexandre e Aristóbulo e, mais tarde, mandou executar seu filho Herodes Antípatro. Para o Império Romano, porém, Herodes era o rei vassalo ideal, pois assegurava os objetivos de manter uma região estável entre a Síria e o Egito, e tirar o máximo rendimento daquelas terras por 4 meio de um rígido sistema de tributação. Marta era natural de Betânia, na Judeia, povoado situado na encosta oriental do Monte das Oliveiras, a 3 km de Jerusalém.4 Seu pai chamava-se Ezequiel, que significa “Deus fortalece”. Ele era sacerdote e servia no Templo de Jerusalém. Ezequiel gozava de grande consideração no meio do povo, pois os sacerdotes eram pessoas que podiam entrar em relação com Deus oferecendo sacrifícios, sobretudo os sacrifícios de expiação pelos pecados. Para Israel, só Deus é Santo, Puro, Separado e Perfeito. A natureza e o ser humano fazem parte do âmbito do profano, do impuro e do imperfeito. Pode-se comunicar a impureza, mas só Deus comunica a sua santidade a tudo o que dele se aproxima. Daí a necessidade de pessoas consagradas, para fazerem a mediação entre o povo e Deus. Essas funções litúrgicas eram totalmente proibidas às pessoas comuns, e a violação desse preceito poderia acarretar a pena de morte (cf. Nm 1,51; 3,38). Através dos ritos de separações, os sacerdotes sacrificavam uma vítima, tornando-a sagrada, santa.5 No holocausto diário (cf. Lv 6,1-6), a vítima era completamente queimada, e nos sacrifícios de comunhão (cf. Lv 7,11-15) queimavam-se apenas os rins e a gordura. O odor das vítimas queimadas subia até o céu, e se o sacrifício fosse aceito por Deus, ele, por sua vez, retribuía com seus favores, derramando sobre o povo as suas bênçãos. Nesse caso, restabelecia-se a harmonia (Shalom) seja entre o povo e Deus, como também nas relações comunitárias. Havia sacrifícios públicos e privados. Todos os dias, dois cordeiros de um ano, um de manhã e outro à tarde, eram imolados no Templo, como “sacrifício perpétuo” de Israel. O imperador romano também mandava sacrificar dois animais, um por ele e outro pelo Império. Os sacerdotes estavam subdivididos em 24 classes; sendo que cada classe, em torno de 300 deles, devia servir por uma semana, de sábado a sábado.6 Assim, eles podiam revezar-se no exercício de suas funções no Templo. Naquela época existiam, entre os judeus, aproximadamente oito mil sacerdotes que, juntamente com os levitas,7 constituíam um número ainda maior. Ao todo deviam existir aproximadamente 18.000, entre sacerdotes e levitas. A maioria deles vivia com suas famílias em pequenas aldeias, nas proximidades de Jerusalém (cf. Lc 1,3ss). O pai de Marta fazia parte da classe de Melquias (cf. 1Cr 24,9), cujo distrito situava-se em Betânia e nas suas proximidades. Suas funções cultuais no Templo achavam-se praticamente limitadas a duas semanas por ano e às três festas anuais de peregrinação: Páscoa, Pentecostes e Tendas. A elas todas as classes eram obrigadas a comparecer. Cada sacerdote, portanto, exercia seu sacerdócio durante cinco semanas por ano. A renda dos sacerdotes, constituída do dízimo e da parte retirada dos sacrifícios de cinco semanas, era insuficiente para que eles pudessem sustentar a si e suas famílias. 5 Por isso, eles eram obrigados a exercer uma profissão onde residiam. Ezequiel era comerciante de trigo, legumes e vinho, que ele vendia em Jerusalém, principalmente por ocasião das grandes festas. As terras da Judeia, no sul da Palestina, eram menos férteis do que as da Galileia, situada no norte. A agricultura existia, sobretudo, nas planícies da Galileia e, em escala menor, nos arredores de Jerusalém. O solo pedregoso dos montes da Judeia possibilitava principalmente a pecuária e a pastagem. Ali, criava-se gado de grande porte como bois e camelos, e de pequeno porte como ovelhas e cabras. Todavia, o solo calcário das cercanias de Jerusalém favorecia o cultivo de oliveiras e das vinhas. As azeitonas (óleo) e as uvas (vinho) eram os principais produtos da região. Ezequiel era proprietário de um pedaço de terra nos arredores de Betânia, onde cultivava trigo, cevada, legumes secos e algumas frutas. As principais eram: azeitonas, uvas, figos, tâmaras e frutos de sicômoro, árvore da família das moráceas. Durante o período das festas de peregrinação – principalmente da Páscoa –, devido ao elevado número de peregrinos, ele levava para o mercado de Jerusalém grande quantidade de legumes e determinados condimentos, entre eles: alface, chicória, agrião, bredo e ervas amargas, necessários à celebração ritual da ceia pascal. Nessa ocasião, comercializava vinho, pois o vinho, como bebida, fazia igualmente parte da refeição ritual; e mesmo os mais pobres tinham a obrigação de beber pelo menos quatro taças. Ezequiel possuía três servos que o ajudavam no cultivo das terras que herdara de seu pai. A esposa de Ezequiel chamava-se Ana, que significa “cheia de graça”. Ana fazia jus ao nome que possuía, pois era uma mulher virtuosa e dotada de muitos dons. Era filha de sacerdote e da descendência de Aarão (cf. Lc 1,5). Marta era fruto de sua primeira gravidez; e quando Ana concebeu pela segunda vez, esperava dar um herdeiroa seu marido, pois a dignidade sacerdotal era transmitida por herança. O nascimento do menino foi celebrado com uma grande festa, mas logo em seguida ele veio a falecer. Depois disso, Ana concebeu mais dois filhos que perdeu durante a gravidez, e ainda uma menina que morreu pouco antes de completar um ano.8 Ana afligia-se muito diante de todas essas tentativas frustradas, mas não perdia a esperança de poder, um dia, dar à luz o herdeiro desejado. A quinta gravidez de Ana ocorreu quando Marta tinha 12 anos. Antes disso, Ezequiel havia feito um voto de Nazireato, para que, finalmente, Javé lhe concedesse um filho que, mais tarde, pudesse assumir as suas funções sacerdotais. O voto de Nazireato (cf. Nm 6,1-21) era uma promessa que se fazia a Deus durante determinado período de tempo (cf. 1Mc 3,49; At 18,18; 21,23). O Nazireu deveria abster-se de vinho, inclusive de chupar uvas, e de cortar os cabelos. Deveria tomar cuidado para não ficar impuro tocando num cadáver, pois, se assim o fizesse, teria de recomeçar a promessa. 6 Terminado o período da promessa, Ezequiel cortou e queimou seus cabelos, e em seguida dirigiu-se a Jerusalém para oferecer sacrifícios no Templo, conforme o previsto na Lei. O Templo, cercado por sólidas muralhas de 150 pés de altura, situava-se na face leste, num retângulo que ocupava a quinta parte da superfície da cidade. Possuía espaçosos pátios e átrios: o átrio dos gentios, o pátio das mulheres, o pátio dos homens e o pátio dos sacerdotes, onde se localizava o altar dos holocaustos. O lugar mais sagrado era o Santo dos Santos, onde apenas o sumo sacerdote podia entrar uma vez por ano, para oferecer um sacrifício no dia da Expiação. Desde muito jovem, Marta demonstrava ser dotada de profunda piedade. Embora as mulheres estivessem dispensadas de recitar orações formais e de todo dever que implicasse regularidade de tempo, ela costumava acompanhar seu pai, com devoção, quando, todos os dias, ele recitava a oração da manhã, voltado para Jerusalém, onde se encontrava o Templo (cf. Sl 138,2; Dt 6,11). Ezequiel dava três passos em frente, para significar que se punha debaixo da Shekinah, a Presença do Eterno. De pé, com os braços estendidos e as mãos abertas, iniciava a oração com uma berakhá (bênção) cheia de luminosidade: Bendito sejais, Senhor Deus do Universo, criador da luz e das sombras, que dais a paz e criais tudo, que com misericórdia concedeis a lua à terra e a seus habitantes, e que cada dia renovais, para sempre, a primeira aurora do mundo...9 Depois que completou doze anos, Marta começou a acompanhar Ezequiel e Ana, quando todos os anos eles subiam à Cidade Santa para celebrar a Páscoa. No terceiro mês de gravidez, Ana desejou ir a Jerusalém para oferecer um sacrifício de ação de graças. Marta ficou feliz em acompanhar sua mãe, pois sentia grande alegria em ver a Capital Sagrada e penetrar nos átrios de seu esplendoroso Templo. As duas viajaram a pé, já que o caminho entre Betânia e Jerusalém podia ser percorrido em pouco mais de uma hora, a passo regular. Era o início do outono e as figueiras estavam carregadas de figos, prontos para serem colhidos. Aleias de vinhedos cresciam na colina ocidental do vale do Cedron, e a orla norte e noroeste da cidade apresentava extraordinária abundância de hortas e pomares. O calor tornara-se mais ameno, porém, por causa da ausência das chuvas,10 os caminhos estavam cobertos de uma poeira solta e ressequida. Grupos com asnos e alguns camelos transitavam nos dois sentidos da estrada que ligava Betânia a Jerusalém, transportando mercadorias. Alguns transportavam feixes de lenha e pesados e pontiagudos cântaros; outros tangiam rebanhos de cabras. A estrada era ladeada por olivas, cedros e sicômoros à esquerda; e palmeiras e figueiras à direita. Na entrada da cidade, caminhantes – a maioria deles peregrinos – iam e vinham; e uma patrulha romana, pertencente à guarnição de Jerusalém, regressava a seu quartel 7 na Fortaleza Antônia.11 Quando Ana e Marta entraram no Templo, encontraram um grande amigo de Ezequiel, chamado Zacarias. Zacarias era sacerdote. Ele e sua esposa Isabel moravam em Ain Karim, uma aldeia situada numa região montanhosa da Judeia, cerca de 6 km a oeste de Jerusalém (cf. Lc 1,5ss). No dia anterior, ainda antes do amanhecer, o arauto do templo havia convocado todos os sacerdotes da classe de Abias, da qual Zacarias fazia parte, proclamando em alta voz: “Sacerdotes, apresentai-vos para o vosso serviço”. Todos compareciam com grande presteza, e a sorte determinava qual a função que cada um deveria exercer. Zacarias estava feliz, pois havia sido sorteado para a função privilegiada da oferta do sacrifício dos perfumes. Esse ofício consistia em renovar as brasas e os aromas no altar do incenso, que se encontrava diante do local mais sagrado do templo, o Santo dos Santos (cf. Ex 30,6-8). Como a oferta do incenso realizava-se antes do sacrifício matutino e depois do vespertino (chamado tamîd, o “perfeito”), Zacarias havia sido sorteado para o sacrifício da tarde. Enquanto ele comparecia diante do Santuário, todo o povo permanecia do lado de fora, em oração. Ana e Marta encontravam-se no pátio das mulheres, situado na parte leste do átrio interior do Templo, pois a parte oeste estava reservada exclusivamente aos homens judeus, porque somente eles podiam participar do culto. Depois que Zacarias terminou suas funções, foi ao encontro das duas mulheres. Elas ficaram muito aflitas, pois perceberam que ele estava mudo e procurava falar- lhes através de sinais. Não compreendendo o que ele tentava dizer-lhes nem o que havia acontecido, imaginaram que, talvez, ele tivesse tido alguma visão. De fato, Zacarias havia sido favorecido com a promessa da parte de Deus, de que Isabel, sua esposa, que era estéril e de idade avançada, haveria de conceber um filho ao qual ele deveria dar o nome de João. Seis meses após esse acontecimento (cf. Lc 1,24), Marta e seus pais receberam a notícia de que Isabel estava grávida e muito se alegraram com o grande dom que o Senhor havia concedido a seus amigos. Nessa ocasião, Ana deu à luz um filho que, no oitavo dia, ao ser circuncidado, recebeu o nome de Lázaro, que significa “Deus ajudou”. O filho de Isabel veio ao mundo três meses depois e foi chamado de João, que tem o significado de “Javé é propício”. Ezequiel e Marta foram visitar os amigos e alegraram-se ao perceber que Zacarias havia recuperado a fala. Em Nazaré, situada nas montanhas da Baixa Galileia, morava uma prima de Isabel, chamada Maria. Logo que soube da gravidez de sua parente, Maria foi à sua casa em Ain Karim, para prestar-lhe ajuda (cf. Lc 1,39-56). Quando Marta e seu pai chegaram à casa de Zacarias, encontraram a jovem prima de Isabel. Maria era apenas dois anos mais velha do que Marta; e logo uma grande amizade surgiu entre as duas, apesar da diferença de temperamento que havia entre elas. Enquanto Marta era ativa e comunicativa, Maria era reservada e silenciosa. Parecia a Marta que algum mistério 8 pairava sobre sua jovem amiga, pois, apesar de ter tomado conhecimento, através de Isabel, de que ela estava grávida, Maria de modo algum falava sobre esse assunto. Naqueles dias, José, o esposo de Maria, veio à casa de Zacarias para encontrar-se com sua jovem esposa e levá-la de volta a Nazaré. Ezequiel e Marta logo fizeram amizade com José, que era muito cordial e de aparência extremamente agradável. Ofereceram, então, a hospitalidade da sua casa em Betânia, sempre que José e Maria fossem a Jerusalém. Na Palestina, como na maioria dos países orientais, a hospitalidade era uma das virtudes mais arraigadas no meio do povo. Negar hospitalidade constituía uma grave falta, como também o era recusar a hospitalidade oferecida. A hospitalidade incluía a saudação, o serviço, a proteção e a companhia do hóspede que era acolhido na casa. Tudo isso se fazia sem que houvesse um mandamento expresso na Lei a esse respeito, e sem que se esperasse em troca alguma recompensa. A hospitalidade abarcava qualquer pessoa, incluindoestrangeiros ou desconhecidos. José e Maria ficaram felizes com o convite que Ezequiel lhes havia feito. Passados alguns meses, a jovem prima de Isabel deu à luz o seu filho Jesus. Tendo que ir a Jerusalém depois de 40 dias, conforme a Lei de Moisés (cf. Lc 2,22ss), Maria, seu esposo José e o menino foram a Betânia, a fim de visitar os amigos. Seguiram a rota mais oriental. Para se protegerem de assaltos de beira de estrada, a viagem era feita em caravanas. Da Galileia até Jerusalém eram necessários três ou quatro dias de caminhada. Deixando Nazaré, o grupo caminhou ao longo do rio Jordão, e, depois de atravessar Jericó, seguiu a estrada que sobe pelo wadi Kelt até chegar ao monte das Oliveiras. A outra rota que cruzava o centro da Samaria não era recomendável, por causa dos contínuos choques entre os moradores da Judeia e da Galileia e os samaritanos, que eram desprezados pelos judeus por terem se misturado com povos pagãos e conservarem o seu local de culto no monte Garizim.12 Quando a família de Nazaré chegou a Betânia, os amigos daquela localidade os acolheram com alegria. Marta ficou extremamente feliz com aquela visita. Enquanto Ezequiel e José conversavam animadamente no pátio da casa e as duas mães amamentavam seus respectivos filhos, Marta preparou para os hóspedes bolos, doces e um delicioso guisado de lentilhas. Depois, segurou o filho de Maria em seus braços e percebeu que ele dormia placidamente; diferente de seu irmão Lázaro, que era um bebê inquieto e chorava o tempo todo. Assim, pela primeira vez, Jesus, recém-nascido, foi hóspede daquela casa, que, a partir desse dia, se tornou para ele um segundo lar. 1 A palavra “Palestina” significa País dos filisteus. Na época de Jesus, ocupava um lugar de importância vital, pois se encontrava entre a Síria, porta de acesso às riquezas da Ásia Menor, e o Egito, um dos “celeiros” mais importantes que abasteciam Roma. 2 Cf. Klaus WENGST, Pax Romana: pretensão e realidade, São Paulo, Paulus, 1991, p. 23. 3 Para Roma, a melhor maneira de obter a fides ou lealdade dos povos subjugados era utilizar o castigo e o 9 terror. A prática da crucificação, as degolas em massa, a captura de escravos, os incêndios das aldeias e os massacres das cidades não tinham outro propósito senão aterrorizar as pessoas. Alguns desses episódios foram relatados pelo historiador judeu Flávio Josefo, nas suas obras A guerra judaica e Antiguidades dos judeus, escritas em Roma pelos anos 90 d.C. 4 “Betânia” é uma palavra grega, de origem hebraica, que significa casa do pobre ou casa de Ananias. 5 A palavra “sacrifício”, do latim “sacrum facere”, significa tornar sagrado. 6 Cf. J. JEREMIAS, Jerusalém no tempo de Jesus, São Paulo, Paulus, 1983, p. 272-273. 7 Os levitas, descendentes de Levi, um dos doze patriarcas das tribos de Israel, eram inferiores aos sacerdotes e não participavam do serviço sacrifical. Eram encarregados somente da música do Templo e dos serviços anexos ao culto, entre eles o de porteiros e sacristãos. Constituíam também a polícia do Templo. Essa polícia era chamada para diversas operações policiais. Sob as ordens dos vigilantes do Templo, tinha autoridade para prender e, sob a orientação do guarda, levava à execução as penalidades infligidas. De acordo com Mc 14,43 parr e Jo 18,18, Jesus foi preso por essa polícia do Templo. 8 Na Palestina daquela época, a mortalidade infantil chegava a 30% e cerca de 60% morriam antes dos dezesseis anos. 9 Cf. Clodovis BOFF, O cotidiano de Maria de Nazaré, São Paulo, Salesiana, 2003, p. 26. 10 Na Palestina, o período das chuvas se estende de outubro a abril. 11 Situada ao norte do Templo, a fortaleza Antônia foi reformada por Herodes Magno e chamada por ele com esse nome, em homenagem ao seu protetor de então, Marco Antônio. Sob os procuradores romanos, havia sempre na Antônia uma guarnição romana que devia vigiar a esplanada do Templo. 12 Os samaritanos provinham da união entre os colonizadores assírios e as mulheres israelitas que não haviam sido deportadas para a Assíria após a destruição do reino do Norte em 721 a.C. Ao retornar do exílio da Babilônia em 537 a.C., os judeus os excluíram do “povo eleito”, devido à sua origem impura e à sua observância pouco estrita da religião judaica. A inimizade entre judeus e samaritanos era recíproca: os judeus procuravam mantê-los a distância e não se comunicavam com eles (cf. Jo 4,9), enquanto os samaritanos incomodavam os peregrinos judeus que iam a Jerusalém e passavam pelo seu território (cf. Lc 9,52-54). O ódio entre os dois povos cresceu quando, entre os anos 6 e 9 d.C., na véspera da festa da Páscoa, um grupo de samaritanos espalhou pelo Templo ossos de mortos, deixando-o impuro para qualquer celebração. 10 Capítulo 2 CULTIVANDO A AMIZADE Maria, a irmã de Marta e de Lázaro, veio ao mundo três anos depois do nascimento de seu irmão. Nessa ocasião, Marta, que havia completado 15 anos, se casou com Joaquim, um jovem parente de Zacarias. Joaquim era filho de um dos chefes dos sacerdotes, que residiam em Jerusalém. Naquele tempo, as jovens se casavam muito cedo, geralmente com a idade de 12 ou 13 anos, e os rapazes com 18; e tudo era acertado pelos pais dos noivos. Marta e Joaquim haviam se encontrado pela primeira vez numa das viagens de Marta a Ain Karim, para visitar seus amigos Zacarias e Isabel. Nessa ocasião, o jovem Joaquim tinha sido recebido na aldeia como herói, por ter enfrentado com bravura a coorte militar de Arquelau, o filho de Herodes Magno. Arquelau havia assumido o governo da Judeia, logo após a morte de seu pai.13 Joaquim e outros representantes do meio do povo dirigiram-se a Arquelau, logo depois que este assumiu o trono, para pedir-lhe que baixasse as elevadas taxas de impostos, soltasse os prisioneiros políticos, substituísse o sumo sacerdote corrupto por outro que agisse mais de acordo com a lei e restaurasse a justiça, suspendendo as ações repressivas de Herodes, que, sem piedade, mandava executar brutalmente os líderes populares. Durante a festa da Páscoa, quando as multidões cresceram consideravelmente e se tornaram mais exigentes, Arquelau, numa demonstração de força, mandou massacrar 3.000 de seus súditos. Joaquim e alguns líderes dos protestos conseguiram escapar, dispersando-se pelas montanhas.14 A crueldade de Arquelau era tanta que, alguns anos mais tarde, ele foi destituído pelo imperador Augusto e exilado para a Gália. A Judeia, a Samaria e a Idumeia passaram, então, a ser governadas por um procurador romano (cf. Lc 3,1). Ao ouvir os comentários que se faziam na aldeia sobre o ocorrido em Jerusalém, Marta ficou bastante orgulhosa com a coragem e bravura de seu futuro esposo, e passou a amá-lo ainda mais. Joaquim, também, depois que conheceu Marta, sentiu-se atraído por seu belo e expressivo rosto, seu porte de princesa e, sobretudo, por suas virtudes, que eram muitas. Apesar do casamento dos dois ter sido arranjado por seus respectivos pais, com a convivência, eles passaram a se amar cada vez mais; e foram felizes durante todo o tempo em que viveram juntos. Sendo filho de chefe de sacerdote, Joaquim deveria assumir as funções de seu pai depois que ele morresse, pois os sacerdotes eram organizados através de uma hierarquia muito rígida. Desde o retorno do Exílio na Babilônia, em 537 a.C., não havendo mais reis, o sumo sacerdote assumiu o papel de maior destaque na sociedade judaica. Ele era 11 responsável pela Lei, pelo Templo, e presidia o Sinédrio.15 Era, portanto, hierarquicamente superior aos outros sacerdotes. Só ele podia celebrar os atos litúrgicos no dia de Yom Kippur, o dia da Expiação, que se realizava no outono. Nesse dia, ele entrava na parte mais santa do Santuário, o Santo dos Santos, e realizava o rito prescrito no capítulo 16 do livro do Levítico. Sacrificava primeiro um bode expiatório por seus próprios pecados. Depois, simbolicamente, colocava os pecados do povo em um segundo bode e o mandava para o deserto (cf. Hb 7,1-10.18). O pai de Joaquim e os outros chefes dos sacerdotes situavam-se abaixodo sumo sacerdote. A maioria deles pertencia ao partido dos saduceus.16 Eram proprietários de grandes extensões de terras, dos açougues, hospedarias e comércio, beneficiando- se, portanto, da função religiosa que exerciam. Eram eles: o comandante do Templo, que funcionava como vigário do sumo sacerdote, exercendo a supervisão do culto e o poder político sobre toda a área do Templo; os chefes das diversas classes sacerdotais; os inspetores do Templo e os tesoureiros. Constituíam, juntamente com o sumo sacerdote, a aristocracia sacerdotal.17 O sogro de Marta, além de exercer as funções sacerdotais, era comerciante de óleo e de vinho; possuía vários imóveis em Jerusalém, principalmente lojas, onde vendia os produtos que comercializava. Além disso, era proprietário de uma grande extensão de terra onde criava ovelhas e carneiros, que eram usados nos diversos rituais de sacrifícios no Templo. Logo depois de seu casamento com Marta, Joaquim foi residir em Betânia, no clã sacerdotal de Ezequiel, pois pretendia trabalhar em associação com o sogro.18 Joaquim levava os produtos que Ezequiel produzia, para serem vendidos nas lojas de seu pai em Jerusalém. Utilizava jumentos como animais de carga e, depois de pagar a taxa ao cobrador encarregado da alfândega do mercado de Jerusalém, encaminhava-se para o bazar correspondente à mercadoria que transportava. A casa de Ezequiel em Betânia situava-se um pouco afastada do núcleo principal da povoação. Era uma casa grande de dois pavimentos, e suas paredes caiadas com capricho haviam sido construídas com pedras lavradas. Ao lado da casa havia duas pequenas edificações. A da direita era usada como estrebaria e a da esquerda destinava-se ao depósito de apetrechos de lavoura, arreios e grades para arado. Nas proximidades da herdade, residiam cerca de cinco famílias aparentadas com Ezequiel, inclusive a de Marta. Todas elas compartilhavam um grande pátio retangular situado na frente da propriedade. Vários instrumentos encontrados ali eram de uso comum dessas famílias: o forno de pão, o pilão de esmagar olivas, o moinho doméstico de duas pedras, uma cisterna destinada a recolher água na época das chuvas e uma bacia de lavar roupa. Havia uma grande coesão social na família clânica de Ezequiel, e uma verdadeira lealdade entre seus membros. Todas as decisões importantes eram 12 tomadas de modo corporativo, envolvendo o clã inteiro. Marta ficou feliz por continuar morando em Betânia. Ela amava a herdade de seu pai e a considerava um lugar aprazível, e ali colocava todos os seus dons a serviço. Como o seu próprio nome indica,19 a “senhora”, desde muito cedo, sentiu-se a verdadeira administradora daquela casa. Além do encargo de seu próprio lar, auxiliava sua mãe nos trabalhos domésticos e a cuidar da sua irmã recém-nascida. Quando concebeu o primeiro filho, alegrou-se com o dom da maternidade. Ao todo, teve cinco filhos, três meninos e duas meninas. Como era extremamente ativa e diligente, ajudava seu marido no sustento da família, tecendo roupas de lã e linho que vendia aos inúmeros peregrinos que visitavam Jerusalém o ano inteiro. Dela, poder- se-ia dizer o mesmo que se diz, no livro dos Provérbios, sobre a mulher forte:20 Quem poderá encontrar a mulher forte? Ela vale muito mais do que pérolas. Seu marido confia nela e não deixa de encontrar vantagens. Ela traz para ele a felicidade e não a desgraça, em todos os dias de sua vida. Ela adquire lã e linho, e suas mãos trabalham com prazer. Ela é como navio mercante, que importa de longe a provisão (Pr 31,10-14).21 Quando Lázaro completou sete anos, a família de Betânia recebeu a visita da família de Nazaré, que tinha vindo a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa. Todos os anos, José e Maria costumavam ir a Jerusalém para celebrar a Páscoa (cf. Lc 2,41). Viajavam em caravanas; e nelas os parentes e conhecidos dos pais de Jesus também tomavam parte. Pouco antes do esperado acontecimento, tocadores de flauta e de tambores iam de aldeia em aldeia anunciando a santa ocorrência. No dia da partida, cada um calçava suas sandálias de peregrino, levava o indispensável bordão e preparava sua mochila colocando dentro dela pão para o caminho, uma muda de roupa e um pouco de dinheiro. Durante a longa caminhada, entoavam-se salmos relativos à peregrinação, os chamados “Cânticos das subidas” (Sl 120-134).22 Ao avistar a Cidade Santa, todos se alegravam, pois esta, cercada de muros, situava-se num planalto calcário circundado por vales profundos: no leste, o vale do Cedron, e no oeste e no sul, o vale de Enon. O planalto repartia-se em duas colinas de altura e estrutura desiguais, que, por sua vez, estavam divididas em diversos cumes por declives transversais, tornando o terreno do lugar muito acidentado. À medida que se aproximavam os Dias Santificados, as tendas de couro de cabra de alguns peregrinos começavam a ser erguidas ao redor da cidade, e pequenas fogueiras rubras podiam ser vistas por toda parte. Aos poucos, outra cidade de tendas surgia, abrigando os inúmeros peregrinos que para ali acorriam. José e Maria, juntamente com a caravana que vinha de Nazaré, acampavam nas proximidades de Betfagé, povoado situado bem próximo de Betânia, pois os peregrinos eram obrigados a passar, em Jerusalém, a noite pascal de 14 para 15 de nisan, mês que para nós corresponde a março-abril. Como a cidade propriamente dita 13 não comportava o grande afluxo de peregrinos, para facilitar a observância dessa prescrição, o distrito urbano tinha sido estendido a uma distância que englobava até mesmo Betfagé. Assim, os pais de Jesus aproveitavam para visitar os amigos de Betânia; e Jesus, como ainda não tinha idade para participar da festa da Páscoa, permanecia na casa deles, enquanto seus pais iam a Jerusalém para os festejos. Nessa ocasião, Jesus e Lázaro costumavam brincar no pátio da casa ou na praça do povoado, com os parentes de Lázaro e outras crianças das redondezas. Brincavam de cabra-cega, esconde-esconde, amarelinha, de jogos de tabuleiro, pião, de lançar e pegar bolas de pano ou de couro preenchidas com lã, penas ou pelos (cf. Is 22,18); de modelar objetos com punhados de argila, de divertir-se com chocalhos e dados, e de simular casamentos e funerais. Em relação a esta última brincadeira, de vez em quando havia desentendimento entre eles quando alguns se recusavam a tomar parte (cf. Mt 11,16-17).23 Jesus não gostava de brincar de cabra-cega, sobretudo quando seus olhos eram vendados, pois preferia enxergar as coisas às claras; mas quando se tratava de brincar de esconde-esconde, ninguém o suplantava: demonstrava grande esperteza em descobrir seus companheiros nos lugares mais improváveis. Lázaro apreciava brincar com caixas de madeira cheias de areia, onde ele escrevia, fazia mapas e desenhava os mais variados objetos. Jesus também o acompanhava nessa brincadeira, e divertiam-se competindo um com o outro sobre quem fazia o desenho mais bonito. Quando Jesus completou 12 anos, seus pais levaram-no pela primeira vez a Jerusalém para a festa da Páscoa (cf. Lc 2,42). Antes, porém, eles foram até Betânia; e Lázaro, como acabara de completar treze anos, foi juntamente com eles. Apenas quando alcançavam os treze anos, as crianças israelitas eram obrigadas a submeter-se aos mandamentos da Lei, entre eles o de peregrinar a Jerusalém por ocasião da Páscoa. A maioria dos pais, contudo, tinha o hábito de levar as crianças de doze anos às peregrinações, para habituá-las ao preceito que deveria ser seguido por elas a partir do ano seguinte. Jesus ficou extremamente feliz por ir a Jerusalém, pela primeira vez, na companhia de seu grande amigo Lázaro. Durante o tempo em que permaneceram na cidade, este ficou admirado com o interesse de Jesus pelos ensinamentos que os mestres da lei ministravam nos átrios do Templo. Como esse ensinamento dos rabinos, muitas vezes, assumia a forma de diálogo, Lázaro ficou ainda mais surpreso quando percebeu que Jesus participava do diálogo, e que suas perguntas e respostas causavam admiração aos doutoresda Lei (cf. Lc 2,41-52). À noite, os dois amigos voltavam a Betânia; e na manhã seguinte dirigiam-se ao local dos debates. O interesse que eles haviam despertado em Jesus era tão grande, que ele ficou em Jerusalém mesmo depois que seus pais partiram com a caravana para Nazaré. Após três dias, quando José e Maria o encontraram no Templo, Lázaro não 14 compreendeu a resposta que Jesus lhes deu, quando questionado por sua mãe por ter permanecido na cidade, em vez de ter retornado com eles a Nazaré: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?” (Lc 2,49). Pela primeira vez o amigo de Betânia ouviu Jesus chamar Deus de Abbá, palavra aramaica que as crianças usavam quando se dirigiam aos seus pais, e que significa “papai”. Mais tarde, Lázaro entendeu o verdadeiro sentido dessas palavras.24 Depois desse episódio, foi a vez de Ezequiel, Marta e Lázaro irem a Nazaré para visitar os amigos. O inverno aproximava-se e a temperatura tornara-se mais amena. Para os três viajantes, o percurso transcorreu agradável e sem contratempos. Ao chegarem à província de Jesus, logo constataram o quanto a Galileia era uma região exuberante. Constituía um território de uns 20.000km² e uma população de cerca de 150.000 habitantes, a maioria deles camponeses (80-90%), dispersos em 204 aldeias e povoados agrícolas. A extrema fertilidade da terra permitia que, nos vales de Jezrael e Bet Netofa, se cultivassem trigo de qualidade e também cevada, que, por causa de seu sabor amargo e difícil digestão, era o pão dos mais pobres. Vinhedos podiam ser vistos por toda parte, até nas encostas pouco escarpadas. Ali, se produzia um vinho de excelente qualidade de tipo egeu. Oliveiras, figueiras, romãzeiras e diversas árvores frutíferas cresciam nos arredores das aldeias ou no meio das vinhas. Em terrenos mais úmidos e sombreados cultivavam-se verduras e hortaliças. Nazaré, situada na região da tribo de Zabulon, a uns 340 metros de altitude, era uma vila cercada de rochas de gesso perfuradas de grutas, algumas naturais e outras artificiais. As casas da aldeia encontravam-se ao sul, disseminadas nas encostas mais ensolaradas. Ali perto, nos terraços construídos artificialmente, cultivavam-se videiras de uva preta; e na parte mais rochosa cresciam oliveiras das quais se colhiam azeitonas. Nos campos do sopé da colina cultivavam-se trigo, cevada e painço; e nos lugares mais sombreados do vale, verduras e legumes. Na extremidade ocidental, brotava um bom manancial. A casa da família de Jesus era uma casa pobre, uma espécie de casa-gruta, isto é, uma habitação cavada na rocha calcária, ampliada em sua frente por uma construção coberta. Essa parte era constituída de uma peça só, com chão de terra batida, paredes escuras de pedra, com telhado confeccionado com ramos secos e argila. A parte de trás servia tanto para o abrigo de animais domésticos como depósito para lenha e feno ou como despensa. Na gruta podia-se conservar também água, dentro de uma cisterna cavada no chão. José havia feito, sobre a parte avançada da habitação, um terraço com terra argilosa resistente e impermeável às águas da chuva. Na frente da casa, havia um pátio, um recinto fechado por meio de muro baixo. Esse pátio era compartilhado por quatro ou cinco famílias, que moravam nas proximidades e que constituíam o clã de José. Ali, elas tinham em comum o pequeno moinho onde as mulheres moíam os cereais e o forno onde assavam o pão. Ali também eram 15 depositados os instrumentos agrícolas. Ao entrarem no pátio, os três amigos de Betânia foram acolhidos com alegria. No dia seguinte bem cedo, Ezequiel e José foram ao campo colher azeitonas, enquanto Maria e Marta dirigiram-se à fonte da cidade para apanhar água. Jesus e Lázaro permaneceram na oficina de José, que ficava no pátio da casa, e, durante muito tempo, se divertiram construindo cidades e aldeias imaginárias, com cavacos, aparas e tacos de madeira. Mais tarde, Jesus levou Lázaro até o ponto mais alto da colina situada a noroeste de Nazaré. Enquanto para lá se dirigiam, Jesus confidenciou ao amigo que sempre sentira grande atração por montanhas e lugares altos e para ali costumava retirar-se, de vez em quando, a fim de orar. De fato, do alto da colina divisava-se um panorama magnífico: as neves do Hermon, o monte Carmelo, o Jordão e, nos dias claros, até as velas dos barcos que navegavam na costa do mar Mediterrâneo. A família de Nazaré, por sua vez, voltou várias vezes a Betânia, sempre que ia a Jerusalém não só na festa da Páscoa, mas também nas outras festas de peregrinação. Nessas ocasiões, Marta costumava preparar para Jesus o seu prato predileto: peixe assado com molho de alcaparras, acompanhado de torta de uvas-passas, cevadinha e figos secos. Jesus o saboreava com o apetite voraz de um adolescente que “crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). 13 Com a morte de Herodes Magno, em 4 a.C., o reino foi dividido pelos romanos entre os três filhos de Herodes. Arquelau passou a governar a Judeia, a Samaria e a Idumeia. Herodes Antipas recebeu a Galileia e a Pereia, na Transjordânia, e Filipe, a região da Transjordânia ao norte do reino. 14 Flávio Josefo assim descreve esse acontecimento: “ele lançou todo o seu exército contra eles, a infantaria numa coluna através da cidade e a cavalaria nos campos. Enquanto todos estavam ocupados com os sacrifícios, os soldados subitamente se precipitaram sobre as pessoas, matando cerca de 3.000 e dispersando o resto pelas montanhas adjacentes” (G.J. 2.12-13; ver também 2. 1-13; Ant. 17.200-18). 15 Sinédrio, do grego synédrion, significa “sentar-se junto”. Era a corte suprema de Israel. Como corte de justiça, julgava delitos contra a Lei, fixava a doutrina e controlava toda a vida religiosa. Compunha-se de 71 membros. 16 O partido dos saduceus, como o próprio nome indica, apesar de incluir aristocratas leigos, tinha suas raízes nas tradicionais famílias de sumos sacerdotes e seus adeptos. O hebraico saddûqîn muito provavelmente vem do nome de Sadoc (em hebraico sadôq), o sacerdote de Jerusalém que serviu aos reis Davi e Salomão. 17 Esses chefes dos sacerdotes, que ocupavam postos permanentes no Templo, e que por motivo dessas funções tinham voz ativa no Sinédrio, onde formavam um grupo bem definido, mais tarde, participaram do processo de Jesus e da sua condenação (cf. Mt 26,3-4). 18 Em geral, após o casamento, as jovens costumavam residir com a família do noivo até que este pudesse adquirir sua própria casa. 19 O nome Marta significa senhora, em aramaico. 20 Todas as citações de textos bíblicos foram tiradas da Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Paulus, 1985; exceto quando houver indicação em contrário. 21 “Bíblia Sagrada – Edição Pastoral”, São Paulo, Paulus, 1990. 22 Cf. Clodovis BOFF, op. cit., p. 88. 23 As crianças se dividiam em dois grupos. As meninas costumavam brincar de “enterro”: um grupo cantava cantos apropriados e outro chorava e se lamentava ao modo das carpideiras. Os meninos brincavam de “bodas”: uns tocavam algum instrumento e outros dançavam. A brincadeira se tornava impossível quando um dos grupos se negava a participar. 24 A língua materna de Jesus era o aramaico, e suas primeiras palavras para chamar seus pais foram abbá 16 (papai) e immá (mamãe). Foi nessa língua que ele anunciou sua mensagem, pois a população judaica, tanto da Galileia como da Judeia, falava o aramaico na vida diária. 17 Capítulo 3 OS AMIGOS SE DISPERSAM À medida que os anos se passavam, Lázaro manifestava um interesse cada vez maior pelo estudo da Torah, isto é, dos cinco primeiros livros da Bíblia. Ajudava seu pai a cultivar a terra, mas os seus dons intelectuais contribuíam para que fosse extremamente diligente e aplicado no conhecimento e aprofundamento das Escrituras. Sua irmã, Maria, manifestava o mesmo interesse, embora fosse negado às mulheres o direito de estudar a Lei. Lázaro, contudo, percebendo esse pendor intelectual da sua irmã, permitia que ela participasse de seus estudos intensivose gratificantes. Ele mesmo a havia ensinado a ler e escrever.25 Maria era bem diferente da sua irmã, Marta. Enquanto esta era extremamente prestativa, ativa e dinâmica, Maria era tímida, reservada e nada prática; possuindo grande curiosidade e interesse em aprender e pouca inclinação para os trabalhos domésticos. Sendo Marta serviçal e dotada de grande espírito de liderança, assumia com dedicação os ofícios mais variados. Maria, contudo, embora pouco ativa, possuía uma força interna serena que a tornava delicada, amável, cortês e terna. Ela era também bastante maternal, pois costumava cuidar com carinho de seus sobrinhos pequenos. Certa vez, Marta e Lázaro foram a Ain Karim para visitar seus amigos. Enquanto ali se encontravam, tiveram notícias de que João, o filho de Zacarias e Isabel, havia ido morar no deserto, situado a leste do Jordão, na região da Pereia, que estava sob a jurisdição de Herodes Antipas. Ficaram sabendo também que ele se vestia com uma pele de camelo, cingia-se com um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre. Tendo assumido o estilo de vida de um homem que habita no deserto, alimentando-se dos produtos espontâneos de uma terra não cultivada, João recordava ao povo a vida de Israel no deserto, antes da sua entrada na terra prometida. Ele proclamava um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados e anunciava o castigo iminente de Deus pela não observância da justiça da aliança (cf. Mc 1,4-6 parr).26 Somente através de uma mudança completa de orientação (arrependimento), de um retorno pleno a práticas sociais justas, de acordo com a aliança, as pessoas poderiam escapar da iminente ira de Deus. O batismo, que incluía o perdão de Deus, era, portanto, sinal e compromisso de uma conversão radical a Deus. Para João, a nova libertação de Israel precisava começar no deserto, ali onde havia começado. O povo deveria escutar a Deus, purificar-se nas águas do Jordão e entrar renovado na terra prometida. Marta recordava-se de que João sempre lhe parecera muito especial, mas ela 18 jamais imaginou que, um dia, ele pudesse assumir uma vida tão austera. Essa foi a última visita dos dois irmãos à casa de seus amigos de Ain Karim. Como ambos eram de idade bastante avançada, logo após esse acontecimento, caíram gravemente enfermos e, no intervalo muito curto de um para o outro, vieram a falecer. Quando Maria completou 15 anos, as duas famílias de Nazaré e Betânia planejaram realizar o casamento dela com Jesus, que nessa época tinha 18 anos e também estava na idade de se casar. Jesus não era de família sacerdotal, mas como era da ascendência real de Davi, a portadora das promessas messiânicas (cf. Mt 1,1), isso lhe conferia certa nobreza, que o tornava bem considerado e aceito no clã de Ezequiel. A par de suas qualidades intelectuais, Maria era uma jovem extremamente bela, sobretudo pela coloração de seus olhos expressivos e ligeiramente amendoados. Eles possuíam uma cor incomum, original e única; bem diferente da dos olhos escuros da maioria de seus conterrâneos. Eram da cor do mel. Essa originalidade conferia-lhe um encanto todo especial. Ezequiel se perguntava de quem Maria havia herdado aqueles belos olhos líquidos, profundos e originais; talvez de algum antepassado longínquo, pensava. Quando Ezequiel e Lázaro conversaram com Jesus sobre a possibilidade do casamento dele com Maria, logo perceberam que esse acontecimento jamais haveria de se realizar. Jesus tinha outros projetos em relação a seu futuro. Lázaro havia se dado conta de que Jesus sentia uma atração irresistível para com Deus, a quem ele chamava de Abbá, Pai. Costumava retirar-se a lugares desertos para orar (cf. Lc 5,16; 6,12) e, de vez em quando, falava do Pai com uma intimidade e familiaridade que os judeus jamais empregavam quando se dirigiam a Deus.27 Logo Lázaro compreendeu que Jesus havia escolhido o celibato como forma de vida, da mesma forma que o profeta Jeremias (cf. Jr 16,1-2). Contudo, mais tarde, Lázaro também se deu conta de que Jesus não era celibatário pela mesma razão de Jeremias. O motivo principal do celibato de Jeremias era contestar a situação de afastamento de Javé, em que o povo vivia. Jesus, porém, não pretendia contestar nada. O motivo fundamental do seu celibato era a entrega total à construção do Reino de Deus. Jesus optou pelo celibato, não por desprezo ao matrimônio e à sexualidade, mas porque estava tão profundamente fascinado pelo Reino, que investiu e condensou no seu anúncio todas as suas energias vitais, e todo o capital afetivo de seu ser. O celibato de Jesus, portanto, era a expressão da sua adesão total ao Pai e da sua entrega na construção do seu Reino. Manifestava-se como consequência desse investimento maciço em Deus, e dessa implicação pessoal e radical a serviço do Reino. Numa tarde quente de verão, Jesus encontrava-se em Betânia e aproveitava o tempo livre para debruçar-se sobre as Sagradas Escrituras. Embora o texto dos livros 19 em hebraico fosse guardado nas sinagogas, e ninguém tivesse algum livro em sua casa, conheciam-se muitos targumim ou comentários redigidos em aramaico, destinados a tornar inteligível o texto em hebraico. Nesse dia, Jesus lia um comentário popular do livro de Isaías, conhecido como Targum de Isaías. Parecia que lhe tocavam, de modo especial, os textos que anunciavam um mundo novo para os enfermos e os mais pobres. Sejam fortes! Não tenham medo! Vejam o Deus de vocês: ele vem (...) para salvar vocês. Então, os olhos dos cegos vão se abrir, e se abrirão também os ouvidos dos surdos; os aleijados saltarão como cervo e a língua do mudo cantará... Os pobres voltarão a se alegrar com Javé, e os indigentes da terra ficarão felizes com o Santo de Israel. Pois não haverá mais ditador... (Is 35,4-6; 29,19-20).28 Ezequiel e Lázaro estavam no campo, pois era a época das colheitas. Ana e Marta preparavam o pão para a ceia familiar, e Maria, no tear doméstico, tecia uma túnica de linho com habilidade e destreza. De vez em quando, Jesus interrompia sua leitura para observar com atenção o trabalho que suas amigas realizavam. Admirou-se com a pequena quantidade de fermento diluído em água, que Marta, após moer três medidas de farinha, havia colocado na massa. Porém, ficou ainda mais admirado quando, depois de algum tempo, a massa cresceu em proporções muito maiores do que ele podia imaginar. De repente, Maria interrompeu seu trabalho, pois os fios de linho que estavam enrolados no fuso tinham se acabado. Imediatamente Jesus se ofereceu para ir buscar os fios de linho, que costumavam guardar no terraço da casa. Quando voltou e entregou os fios de linho a Maria, admirou o belo trabalho que ela estava prestes a terminar: uma túnica tecida por inteiro, como uma peça só, de alto a baixo, sem costuras. Desse modo, ele aprendia, com suas amigas de Betânia, as lições que mais tarde haveria de ensinar ao povo: O Reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e pôs em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado (Mt 13,33). Aprendei dos lírios do campo, como crescem e não trabalham nem fiam. E, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em toda sua glória, se vestiu como um deles (Mt 6,28-29). Depois da tentativa frustrada de Ezequiel de realizar o casamento da sua filha com Jesus, Maria se casou com um grande amigo de seu pai, chamado Ananias. Ananias era um homem muito rico e bastante influente em Jerusalém. Havia deixado Betânia para ir residir em Alexandria, e ali tinha prosperado comercializando tecidos tingidos. Possuía também um pedaço de terra nos arredores de Betânia, que ele havia confiado a meeiros. Ele era levita, da classe dos levitas cantores, e em vez de assumir suas funções no Templo, o que ninguém se via obrigado a fazer, tinha se tornado um judeu da diáspora.29 Os levitas, embora não participassem do serviço sacrifical, ocupavam-se de outras questões ligadas ao culto. Eles eram proibidos, sob pena de morte, de penetrar no 20 edifício mais importante do Templo e chegar até o altar (cf.Nm 18,3). Havia dois grupos de levitas: os cantores e os músicos, que animavam as liturgias com seu canto e seus instrumentos; e os serventes do Templo, que se incumbiam dos serviços anexos ao culto. Estes eram porteiros, que controlavam o acesso aos diferentes círculos de santidade, mantinham limpo o Templo – com exceção do pátio dos sacerdotes – e garantiam o policiamento e a guarda do Santuário. Ananias havia ficado viúvo sem que sua mulher lhe tivesse dado um filho homem, e tinha ido a Betânia para adquirir uma esposa que lhe garantisse a pureza da sua descendência. Como a dignidade de sacerdote e de levita transmitia-se por herança, estes procuravam casar-se com mulher de igual condição de pureza legal. Em relação a isso, havia restrições especiais. De acordo com Lv 21,7, os sacerdotes não podiam tomar como esposa uma mulher que tivesse se prostituído, ou que tivesse sido repudiada pelo marido. Também não podiam se casar com viúvas, a não ser que elas fossem viúvas de sacerdotes (cf. Ex 44,22). Por isso, quando um sacerdote ou um levita cantor se casavam, era necessário examinar a genealogia da esposa, a fim de que um nascimento legítimo garantisse aos descendentes a dignidade sacerdotal ou levítica.30 Sendo filha de sacerdote, Maria era de puro sangue israelita, e Ananias ficou feliz quando ela aceitou casar-se com ele. Apesar de Ananias ter cerca de vinte anos mais do que ela, e de ter de morar longe de sua família, Maria também se alegrou com a ideia desse casamento. Ananias era um homem bom e justo, e ela certamente haveria de ser feliz com ele. O casamento foi realizado em Betânia com uma grande festa, na qual Jesus também tomou parte. Havia música, alegria, dança, e naturalmente muito vinho. Foi a última vez que os quatro amigos se encontraram, antes de se dispersarem. Maria foi morar em Alexandria com seu esposo, e Marta, em Jerusalém, pois, com a morte do pai de seu marido, este teve que assumir as funções permanentes que eram dele, no Templo. Sendo filho primogênito, Joaquim também herdou uma dupla parte da herança de seu pai (cf. Dt 21,15-17). Pouco tempo depois desse acontecimento, Jesus e Lázaro foram a Jerusalém para participar da festa das Tendas, que era celebrada em setembro, na época das vindimas. Durava cerca de oito dias (cf. Lv 23,33-44; Nm 29,12-39). Nessa ocasião, o povo evocava a ação salvífica de Deus no decurso do Êxodo, e cada família construía nos arredores de Jerusalém uma cabana de folhagens, relembrando os antepassados que moravam em tendas quando saíram do Egito. O outono havia começado. As figueiras, macieiras e romãzeiras apresentavam-se carregadas de frutos; as noites tornavam-se cada vez mais frias e o céu cobria-se de nuvens escuras e espessas. Havia um forte cheiro de uvas frescas e maduras no ar; o vinho era abundante e os camponeses enchiam-se de gratidão pelas colheitas do ano. Do coração de todos brotava este hino de louvor a Deus: 21 Bendize a Javé, ó minha alma! Javé, Deus meu, como és grande: vestido de esplendor e majestade. De tuas altas moradas regas os montes, e a terra se sacia com o fruto de tuas obras (Sl 104,1.13). Ao aproximarem-se de Jerusalém, Jesus e Lázaro dirigiram-se para o sudeste e chegaram ao curso inferior do vale do Cedron. Havia água no vale apenas no inverno, mas durante o ano inteiro ele era inundado por um afluxo artificial: o sangue das vítimas que descia do Templo. A esplanada do Templo, calçada, era ligeiramente inclinada, a fim de que os sacerdotes pudessem lavar o sangue das vítimas. Junto ao altar, encontrava-se o canal que o escoava. Nele jogava-se diretamente o sangue dos animais impróprios para os sacrifícios. Esse canal de escoamento subterrâneo chegava até o vale do Cedron. Jesus e Lázaro experimentaram um sentimento de perturbação e mal-estar, diante daquele rio de sangue que transformava o Templo num verdadeiro açougue.31 No caminho do Getsêmani, encontraram alguns leprosos pedindo esmolas, pois a entrada na Cidade Santa era-lhes proibida. Costumavam se proteger das intempéries, sentando-se sob as portas das muralhas, consideradas como ainda não fazendo parte da cidade propriamente dita.32 Na verdade, a palavra “lepra” servia para nomear todas as doenças de pele, as mais visíveis, de eczemas a micoses, que, quando se estendiam por todo o corpo, tornavam-se repugnantes e eram associadas à impureza espiritual (cf. Lv 13-14).33 Essa associação entre doença e impureza inquietava Jesus, sobretudo, porque os doentes eram discriminados, e, além disso, para se curar tinham que pagar taxas e oferecer sacrifícios no Templo, favorecendo a elite religiosa de Jerusalém. No vértice sul das muralhas, os dois amigos se depararam com um reservatório de águas marrons, a piscina de Siloé. Ao entrar na cidade, dirigiram-se ao Templo. A brilhante cúpula do majestoso edifício, que correspondia ao santuário, resplandecia como uma montanha coberta de neve. No átrio dos Gentios, encontraram um comércio florescente de animais para os sacrifícios. Tratava-se de “vendedores de bois, de ovelhas e de pombos” (Jo 2,14). Como era ilícito entrar no Templo portando qualquer moeda que apresentasse a imagem de um ser humano ou animal, os peregrinos deveriam trocar suas moedas por moedas judaicas fabricadas em Tiro, que não continham qualquer efígie. Daí ser necessária a presença de cambistas. Esse comércio tinha desvirtuado de tal modo o culto no Templo, que ele deixara de ser “casa de oração para todos os povos” (Is 57,7), e se transformara num “covil de ladrões” (Mt 21,13). Os dois amigos experimentaram um grande desgosto e uma verdadeira aversão por esse tipo de comércio, pela riqueza e o fausto excessivo do Templo, pela presença dos ocupantes romanos e a conivência servil das autoridades religiosas judaicas com o Império. O sistema jurídico e religioso do Templo tinha se tornado instrumento de opressão, sobretudo para os mais pobres, que, de acordo com Jesus, necessitavam antes de compaixão, solidariedade e justiça. 22 Em Jerusalém, Jesus e Lázaro hospedaram-se na casa de Joaquim e Marta. Nessa ocasião, os filhos de Marta já estavam crescidos, e assim ela podia dedicar grande parte de seu tempo a atividades assistenciais para com os pobres da cidade. Essas atividades consistiam em ajudar a preparar e fornecer alimento e roupa para os inúmeros mendigos que pediam esmola nas imediações do Templo, sobretudo no período do inverno (cf. Jo 5,2-3; Mt 21,14; At 3,2-8).34 Durante os dias que ali passou, Jesus pôde admirar as virtudes com as quais Marta era dotada. Para ele, a melhor descrição que se podia fazer dela encontrava-se no livro dos Provérbios: Ela abre as mãos para o pobre e estende o braço para o indigente. Ela fabrica tecidos para vender, e fornece cinturões para os comerciantes. Ela se veste de força e dignidade, e sorri para o futuro. Ela abre a boca com sabedoria, e sua língua ensina com bondade. Ela supervisiona o andamento da casa, e seu alimento é fruto do seu trabalho. Seus filhos se levantam para cumprimentá-la, e seu marido a elogia: muitas mulheres são fortes, mas você superou a todas elas! (Pr 31,20.24-29).35 Depois de terem participado dos oito dias de festa, Lázaro e Jesus voltaram para Betânia. Havia, no jardim situado na frente do pátio da casa de Ezequiel, uma frondosa figueira, cuja sombra abrigava um banco de pedra onde os dois amigos costumavam sentar-se para conversar e trocar confidências a respeito do futuro próximo que os aguardava. Para Lázaro, aquela foi uma tarde inesquecível. Dentro de dois anos, ele atingiria a idade canônica de vinte anos, que lhe permitiria assumir as funções sacerdotais no Templo. Estava, porém, bastante questionado em relação a isso e, naquela ocasião, abriu seu coração ao seu amigo Jesus. Confidenciou-lhe que, como contestação ao culto em Jerusalém, desejava partir para o deserto à margem do mar Morto, para ingressar na comunidade dos santos e eleitos de Israel. Os essênios, como eram denominados os membros desse grupo, afastavam-se radicalmente do resto do povo,a fim de viver em comunidade uma vida conforme a Lei. Seu nome deriva do aramaico ch’asajja, que significa os piedosos. Tendo nascido do círculo dos fariseus, contudo, distinguiam-se deles por uma obediência ainda mais rígida da Lei, praticando rigorosamente o sábado e a pureza legal, através de abluções diárias. Recusavam o culto no Templo, que, segundo eles, deveria ser realizado pelo sacerdócio legítimo segundo os ritos e um calendário de festas conforme o ano solar, e não pelo que era organizado em Jerusalém, segundo o curso da lua. Queriam, portanto, voltar à pureza da Aliança com Deus e da organização sacerdotal. Não tendo sido aceitos pelos chefes dos sacerdotes dominantes, tinham se afastado de Jerusalém com o seu fundador, o Mestre da Justiça, para viver na solidão do deserto. Além disso, esperavam a irrupção do tempo messiânico, num futuro muito próximo. Para eles a “guerra dos filhos da luz contra os filhos das trevas” se desencadearia em breve, com a ajuda de Deus e dos exércitos celestes. O importante era estar continuamente preparado para aquele dia vindouro. Assemelhavam-se a uma 23 comunidade de monges, com disciplina muito rígida; viviam sob a orientação de chefes cujas instruções todos tinham de seguir; e costumavam partilhar todos os seus bens pessoais, que se tornavam propriedade da comunidade. Trabalhavam como agricultores, oleiros e escribas, e obtinham alguns rendimentos vendendo manuscritos da Bíblia, peixes, sal e asfalto do mar Morto. Muitos deles, a grande maioria, permaneciam celibatários, pois achavam que desta maneira estariam vivendo melhor a pureza sacerdotal.36 Jesus apoiou a decisão de Lázaro, embora ele mesmo tivesse outros projetos a respeito do seu futuro. Confidenciou ao amigo que, como estavam sobrecarregados com o peso dos impostos, ele e José pretendiam trabalhar na reconstrução da cidade de Séforis. 37 José e Jesus exerciam a profissão de artesãos do tipo tékton (cf. Mt 13,55).38 Eram construtores, pois, além de madeira, lidavam com pedra e ferro. Na oficina de Nazaré, trabalhavam com madeira fabricando modestos baús, alqueires, banquinhos, prateleiras e outros objetos simples. Como construtores, consertavam os telhados feitos de ramos e argila danificados pelas chuvas do inverno, fixavam as vigas das casas, mas também faziam de tudo o que era relacionado à construção: muros, portas e janelas. Certamente reparavam terraços para o cultivo de vinhas, cavavam na rocha algum lagar para pisar a uva ou construíam alguma casa para um novo casal. Desde cedo Jesus aprendeu a profissão de seu pai, como era o costume da época, e passou a ser conhecido como um técton (Mc 6,3), palavra que pode também significar “biscateiro”, no sentido de um operário que faz os mais diversos serviços manuais. Ele, embora não possuísse terras, fez certamente a experiência de trabalhar no campo, como a maioria de seus conterrâneos, ajudando seus parentes, sobretudo na época do plantio e das colheitas. Quando Jesus confidenciou ao amigo que iria trabalhar em Séforis, na companhia de José, Lázaro ficou bastante surpreso com a sua decisão. A presença de Herodes Antipas naquela cidade, como aliado dos romanos, era um insulto para a população da Galileia, e gerava ressentimentos; sobretudo, pela enorme carga tributária que pesava sobre os agricultores pobres da região. Diante disso, Jesus teve que dar explicações ao amigo. Séforis, situada a menos de seis quilômetros a noroeste de Nazaré, havia sido tomada por Herodes Magno no inverno de 39/38 a.C., que a manteve como um quartel general no norte do seu reino. Com a morte de Herodes, no ano 4 a.C., a região da Palestina entrou num período de grande instabilidade. Diversas rebeliões populares nacionalistas estouraram por toda parte. O povo tinha a esperança de se libertar da forte opressão dos romanos e da dinastia herodiana. Judas, filho de Ezequias, comandou uma revolta dos habitantes de Séforis, que o governador romano 24 da Síria, Quintilio Varo, esmagou com sangue e fogo. A cidade foi saqueada e queimada por soldados romanos, e grande parte da sua população foi vendida como escrava. Herodes Antipas, logo depois de ter herdado a Galileia e a Pereia após a morte de seu pai, começou a reconstruir a cidade, que foi sede do seu governo até que fosse construída a cidade de Tiberíades, no ano 17 d.C. A reconstrução de Séforis durou vários anos. Para muitos dos habitantes daquela região, a reconstrução da cidade, que, segundo Josefo, era considerada “o ornamento de toda a Galileia” (Antiguidades 18.2.1), fazia parte dos movimentos de resistência, e era uma contestação à prepotência e crueldade do exército romano. Jesus certamente concordava com esses movimentos. Lázaro também compreendeu que a decisão de Jesus de trabalhar em Séforis significava que ele era tão pobre como a maioria dos galileus de seu tempo. Embora não estivesse no degrau mais baixo da escala social e econômica como a dos escravos e a dos mendigos, que percorriam as aldeias pedindo ajuda, não experimentava a segurança que ele mesmo e outros camponeses possuíam de cultivar suas próprias terras. Sua vida parecia-se mais com a dos diaristas que procuravam trabalho quase todos os dias. Do mesmo modo que eles, Jesus também se via obrigado a deslocar-se para encontrar alguém que contratasse seus serviços.39 Assim, dois anos depois desse encontro dos dois amigos em Betânia, eles se separaram: Jesus começou a trabalhar em Séforis na companhia de José,40 e Lázaro ingressou na comunidade de Qumrã, às margens do mar Morto. 25 Embora houvesse um dito rabínico que dizia: “Quem ensina à sua filha a Torá, ensina-lhe a libertinagem, pois ela fará mau uso do que aprendeu”, havia outros ditos que animavam os pais a ensinar a Torá também às filhas (cf. José Antônio PAGOLA, Jesus, aproximação histórica, Petrópolis, Vozes, 2010, p. 259.) 26 A abreviação “par (ou parr)” depois de uma referência bíblica indica “e o texto (ou textos) paralelo(s)”. 27 Para Jesus, chamar a Deus de Abbá indica carinho, intimidade e proximidade, mas não exclui o respeito e a obediência. 28 “Bíblia Sagrada – Edição Pastoral”, São Paulo, Paulus, 1990. 29 Essa palavra significa dispersão e designa a presença de minorias judaicas em regiões fora da Palestina. No tempo de Jesus, eram entre seis a oito milhões e formavam mais de 150 colônias, algumas de grande importância: Babilônia, Antioquia, Alexandria, Roma, Éfeso, Esmirna, Damasco. 30 No Templo de Jerusalém havia uma espécie de arquivo onde as genealogias do clero eram sempre atualizadas. 31 Desde a reforma cultual de Josias, em 621 a.C., somente em Jerusalém se podia imolar o cordeiro pascal. Josefo fala de 255.600 (outra vez: 256.500) vítimas pascais (cf. JEREMIAS, op. cit., p. 84). 32 Cf. idem, ibidem, p. 166. 33 Quem lê a Bíblia sem atentar para esse detalhe tem a impressão errônea de que, na época de Jesus, existia uma verdadeira epidemia de lepra, conhecida na medicina como “hanseníase” ou “mal de Hansen” (descobridor do mycobacterium leprae em 1868). Por causa desse erro, os leprosos sofreram preconceito e foram segregados por séculos como portadores de uma doença impura e terrível. 34 De acordo com JEREMIAS, op. cit., p. 184-185, havia em Jerusalém instituições beneficentes, dedicadas a assistir os pobres. 35 “Bíblia Sagrada – Edição Pastoral”, São Paulo, Paulus, 1990. 36 Cf. Eduard LOHSE, Contexto e ambiente do Novo Testamento, São Paulo, Paulinas, 2004, p. 77-80. 25 37 Séforis, em hebraico zippori, significa passarinho. Recebeu este nome porque era uma cidade situada sobre uma colina na forma de um pássaro, a 286 metros acima do nível do mar. Dali avistava-se o vale de Bet Netofa e a estrada que unia o mar da Galileia com Ptolemaida e a costa mediterrânea. 38 O trabalho de José e de Jesus não correspondia ao do carpinteiro de hoje. O termo grego tektón deve ser traduzido como “construtor”, pois designa um artesão que trabalha com diversos materiais como a madeira, a pedra e o ferro. 39 Cf. J. Antônio PAGOLA, op. cit., p. 80-81.40 Sendo Séforis muito próxima da cidade deles, José e Jesus, enquanto ali trabalhavam, continuaram residindo em Nazaré. 26 Capítulo 4 A VOLTA AO LAR Um ano depois de seu casamento com Ananias, Maria deu à luz um filho que, no oitavo dia, ao ser circuncidado, recebeu o nome de João. Já que seus pais residiam em Alexandria, mais tarde ele assumiu o cognome romano de Marcos, que significa servo de Marte. Ananias ficou extremamente feliz com a vinda do herdeiro tão desejado. João Marcos era uma criança forte e saudável, mas sua mãe, algum tempo depois de seu nascimento, foi acometida de uma hemorragia intermitente que a deixava permanentemente impura. De acordo com a Lei, “quando uma mulher tiver um fluxo de sangue e que seja fluxo de sangue do seu corpo, permanecerá durante sete dias na impureza das suas regras” (Lv 15,19). Além disso, essa impureza da mulher, durante a menstruação, era vista como símbolo de pecado (cf. Ez 36,17). No caso de Maria, porém, tratando-se de uma enfermidade, a Lei dizia que, “quando uma mulher tiver um fluxo de sangue de diversos dias, fora do tempo das suas regras, ou se suas regras se prolongarem, estará, durante toda a duração do fluxo, no mesmo estado de impureza” (Lv 15,25). A questão da pureza e impureza era elemento fundamental na vivência e no relacionamento dos judeus, assim como costumava ocorrer em todas as religiões e culturas da época. Não apenas em Israel, mas também nas demais religiões e culturas conhecidas da Antiguidade, a morte, a doença, a menstruação, a ejaculação, as relações sexuais e os nascimentos eram considerados fontes de impureza. Para os judeus, o sangue é símbolo da vida, e tudo o que se refere à vida, como a fecundidade e a reprodução, tinha um caráter misterioso e sagrado. Essas leis são da época da volta do povo do exílio na Babilônia, quando, sob a coordenação do sacerdote Esdras, o judaísmo se organizou sobre novos pilares, com ênfase muito grande na lei de pureza (cf. Lv 12,1-8; 15,19-30). Elas são categorias de uma cosmovisão mágica e têm suas raízes em tabus. Mais tarde, Jesus questionaria essa legislação opressora e hipócrita que colocava a pureza fora do coração e não dentro dele (cf. Mt 7,1-23). Essa enfermidade transformou a vida de Maria num verdadeiro tormento; sobretudo, por ela pertencer a uma família sacerdotal. Tudo o que ela tocava, o lugar onde se sentava ou deitava, tornava-se impuro. E, se alguém a tocasse ou tocasse esses lugares, também se tornava impuro. Ela sentia-se ferida em todas as suas dimensões: física, emocional, intelectual, social e religiosa. Durante mais de três anos, Ananias procurou os melhores médicos de Alexandria para tratar de Maria, mas sem nenhum resultado. Como ela não se curava, ao 27 contrário, parecia que piorava cada vez mais, resolveu dar-lhe uma carta de divórcio e enviou-a de volta a Betânia para a casa de seu pai.41 Maria sofreu intensamente por ter que se separar de seu filho pequeno, pois, quando um homem se divorciava de sua mulher, os filhos ficavam com o pai. João Marcos ficou sob os cuidados de uma escrava pagã, chamada Rode – nome grego que significa Rosa –, que Ananias havia adquirido no mercado de escravos de Jerusalém. Os escravos pagãos, de ambos os sexos, eram comprados ou então nascidos nas casas das famílias. O preço variava de acordo com a idade, o sexo, as qualidades ou defeitos físicos e espirituais. Os mercadores de escravos traziam sua “mercadoria” principalmente da Síria, passando por Tiro, e em Jerusalém eram expostos numa pedra para a venda pública. Apesar de os escravos pagãos serem considerados propriedade total do seu senhor, pois não podiam possuir bem algum, aliás, o amo era dono da renda do seu trabalho e até dos seus próprios filhos, eles eram tratados de forma mais humana do que em outros lugares do mundo antigo. Havia leis que os protegiam, pois, de acordo com Ex 21,26-27, certas mutilações causadas pelo senhor no seu escravo na presença de testemunhas acarretavam a sua libertação. Além disso, quando os escravos pagãos passavam a ser propriedade de um judeu, eram obrigados a tomar um banho ritual. Se fosse mulher, esse banho significava a conversão ao judaísmo, enquanto os homens, além do banho, eram obrigados a se circuncidar. Rosa gozava de grande consideração na família de Ananias, pois tratava João Marcos com carinho e afeto, mas ele nunca deixou de amar sua verdadeira mãe. Costumava visitá-la em Betânia, sempre que viajava a Jerusalém. Nessas ocasiões, o maior sofrimento de Maria era não poder tocar no próprio filho, para não contaminá- lo. Em Betânia, Maria vivia segregada na casa de seu pai. A convivência com Ezequiel havia se tornado insuportável, principalmente quando se aproximavam os dias em que ele teria que assumir suas funções sacerdotais no Templo. Ela se esforçava ao máximo para não ser para ele fonte de impureza, pois, do contrário, ele não poderia celebrar o culto em Jerusalém. Maria sofria terrivelmente com essa situação, e costumava dirigir ardentes súplicas a Javé, para que Ele a curasse: Até quando me esquecerás, Javé? Para sempre? Até quando esconderás de mim a tua face? Até quando terei sofrimento dentro de mim e tristeza no coração, dia e noite? Até quando vai triunfar meu inimigo? Atenta, Javé meu Deus! Responde-me! (Salmo 13 [12]) Algum tempo depois da chegada de Maria a Betânia, Marta ficou viúva e Maria foi morar com ela em Jerusalém, a fim de livrar seu pai desse relacionamento que se tornara extremamente difícil e problemático. De acordo com a sociedade patriarcal da época, as mulheres não tinham direito a herança, mas apenas os filhos homens. Em Jerusalém, porém, era costume prever, por 28 testamento, que a viúva continuaria morando na casa de seu marido durante a viuvez, e viver dos bens por ele deixados. Essa medida social tornou-se um direito para as viúvas israelitas, que poderiam desfrutá-lo mesmo que não existisse uma disposição testamentária expressa.42 Marta herdou de seu marido a casa em que morava e algumas lojas, onde continuou vendendo as roupas de lã e linho que tecia com as próprias mãos. Ela costumava guardar suas economias, pois uma grande preocupação havia tomado conta dela. Após a morte de seu pai, Lázaro seria o único herdeiro da propriedade de Betânia e, de acordo com as constituições da comunidade de Qumrã, ela passaria a pertencer àquela comunidade. Assim, a família de Betânia perderia a posse da herdade que, durante muitos anos, pertencera aos seus antepassados. Em Jerusalém, Maria consultou os melhores médicos e com eles gastou todos os seus bens, sem obter nenhum resultado. Esses bens consistiam no mohar (o preço da noiva), quantia que o noivo entregava ao pai da noiva por ocasião de seu casamento, e que voltava a pertencer à mulher em caso de divórcio;43 e no dinheiro que nessa ocasião ela havia recebido de seu marido, de acordo com o contrato matrimonial. Mais tarde, ao escrever seu evangelho, seu filho, João Marcos, foi o único evangelista a fazer menção desse aspecto econômico da enfermidade de sua mãe, pois ele estava bem inteirado do quanto ela havia sofrido nas suas frustradas tentativas para obter a cura. Aliás, Marcos foi também o único evangelista a descrever a situação da “mulher hemorroíssa” de maneira emotiva e dramática em vários aspectos: econômico, psicológico, físico, social e religioso (cf. Mc 5,24-34). Depois de alguns anos da estadia de Maria em Jerusalém, Ezequiel veio a falecer. Diante disso, Marta, para impedir que a propriedade de Betânia passasse a pertencer à comunidade de Qumrã, vendeu sua casa em Jerusalém e as lojas que havia herdado de seu marido e, juntamente com as suas economias, comprou de Lázaro a herdade a que ele tinha direito. Lázaro entregou o dinheiro da venda da propriedade aos membros da comunidade à qual pertencia. Ana faleceu pouco tempo depois da morte de Ezequiel; e Marta, juntamente com Maria, se mudou para Betânia. Assim, as duas irmãs ficaram morando na casa que fora do pai delas. Marta assumiu a administração de toda apropriedade e continuou empregando os três servos que cultivavam as terras que haviam pertencido aos seus antepassados. Comercializava óleo, vinho, alguns legumes e frutas, que vendia em Jerusalém. Logo os negócios prosperaram, e a herdade de Betânia voltou a florescer de tal maneira, que esta é a melhor descrição que se podia fazer de sua proprietária: Ela se levanta ainda quando é noite, para alimentar a família e dar ordens às empregadas. Ela examina um terreno e o compra, e com o ganho do seu trabalho planta uma vinha. Ela se prepara para o trabalho com disposição, e põe em ação a força dos seus braços. Ela sabe dar valor ao seu trabalho, e mesmo de noite sua lâmpada não se apaga. Ela estende a mão ao fuso e com os dedos sustenta a roca (Pr 31,15- 19).44 29 Não demorou muito para Lázaro se juntar às duas irmãs, retornando a Betânia. Ele era de saúde frágil, e os rigorosos jejuns e a disciplina rígida da comunidade de Qumrã fizeram-no cair gravemente enfermo.45 Voltou então para Betânia e foi tratado por Marta com desvelos de mãe. Logo recobrou a saúde e compreendeu que suas condições físicas não lhe permitiriam assumir a vida naquela comunidade por muito tempo. Resolveu então permanecer em Betânia, na companhia de suas irmãs. Assim, os três irmãos retornaram ao lar, teatro de sua infância, onde haviam vivido momentos felizes e inesquecíveis. Em Betânia, Lázaro passou a ajudar Marta na administração das terras que tinham sido de seu pai, mas a propriedade, para todos os efeitos, pertencia à sua irmã. A “senhora” era a verdadeira dona daquela casa (cf. Lc 10,38). Depois que José e Jesus começaram a trabalhar em Séforis, muita coisa mudou em relação ao Império. O imperador Augusto faleceu no ano 14 d.C., com a idade de 76 anos, e seu filho adotivo Tibério logo assumiu o trono. Originalmente, Augusto não o havia escolhido como seu sucessor, mas, sem alternativas finalmente o indicou. Com essa mudança de governo, os povos dominados passaram a ter esperança de melhores dias; porém, logo se desiludiram ao compreender que Tibério era um personagem tenebroso e fechado. Continuou sistemática e conscientemente a política de seu antecessor, como administrador da herança recebida. No ano 26 d.C., nomeou Pôncio Pilatos como prefeito da Judeia e da Samaria.46 Durante o tempo em que trabalhou em Séforis, Jesus teve contato com uma cultura diferente da do meio rural em que vivia. Esse contato, porém, não o transformou num cosmopolita sofisticado, fazendo-o se esquecer das tradições judaicas para assumir os valores urbanos greco-romanos. Jesus não costumava frequentar as grandes cidades helenistas, como Séforis e Tiberíades. O seu mundo continuou sendo o das pequenas aldeias e vilarejos do povo. Contudo, o contato que teve com a cidade de Séforis foi o suficiente para fazê-lo adquirir um pouco de cultura urbana, que mais tarde se manifestou na sua pregação. Assim, o termo “hipócrita”, que ele empregava com frequência, lembrava o teatro grego que existia em Séforis. A palavra hupokrites significa “ator”, aquele que fala usando uma máscara teatral. Este termo tinha um sentido positivo tanto na filosofia grega como no teatro. No judaísmo, contudo, passou a ter um sentido negativo, pois conotava falsidade e decepção diante de Deus. Outros resquícios da influência de Séforis na vida de Jesus, também, estão presentes no seu ministério. A ideia de se obter juros através de “minas” pode aludir ao banco que havia naquela cidade (cf. Lc 19,23); do mesmo modo que o tribunal a que Jesus se refere no Sermão da Montanha, para resolver pendências judiciárias (cf. Mt 5,25- 26). Enquanto Jesus e José trabalhavam em Séforis, este caiu gravemente enfermo. Depois da morte de José, Jesus teve que trabalhar duro, para prover a sobrevivência 30 dele e de sua mãe. Apenas quando seus parentes puderam se encarregar do sustento de Maria, ele pôde partir para dedicar-se inteiramente à missão que o Pai lhe havia confiado. Jesus nunca mais retornou a Betânia, pois julgava que seus amigos tinham se dispersado, cada um seguindo o seu próprio caminho. 41 Naquela época, por qualquer motivo o marido podia repudiar sua mulher (cf. Dt 24,1-3). Discutia-se muito sobre o motivo alegado em Dt 24,1: “se ele encontrou nela algo de inconveniente”. A escola rabínica de Shamai não admitia como motivo senão a má conduta ou o adultério da mulher, mas a de Hillel admitia razões mais fúteis: bastava que a mulher tivesse preparado mal uma refeição ou que tivesse cessado de agradar ao marido. Para ser legal, o divórcio deveria ser autenticado por um certificado oficial, para que a mulher pudesse casar-se de novo sem incorrer em adultério (Dt 24,1.3; Jr 3,8; Is 50,1). 42 Cf. JEREMIAS, op. cit., p. 189. 43 O presente de casamento era dado pelo noivo ao pai da noiva, provavelmente como compensação pelo trabalho que, de outra forma, a filha continuaria a prestar para a casa dos pais, já que a maior parte das mulheres vigiava o rebanho, trabalhava no campo, cozinhava e tecia. A soma paga era determinada pelo status da família da noiva (cf. 1Sm 18,23ss). Dt 22,29 estipula cinquenta siclos de prata, porém a soma usual podia ser menor. O pai da noiva tinha o direito a seu rendimento, mas o capital voltava para a moça quando o pai morria, ou se ela ficasse viúva ou fosse repudiada pelo marido. 44 “Bíblia Sagrada – Edição Pastoral”, São Paulo, Paulus, 1990. 45 “Cada membro da comunidade era situado em determinado grau ou categoria, o que definia seu comportamento. Quem infringisse a ordem da comunidade havia de esperar severos castigos. Mesmo pequenas infrações eram severamente castigadas.” LOHSE, op. cit., p. 94. Alguns exemplos de determinações penais derivadas da “Regra da seita”, encontrada em Qumrã: Um ano de exclusão da comunidade e redução a um quarto da ração de comida pela vida toda, nos casos de declaração falsa de bens, na entrada na comunidade. Meio ano de exclusão, nos casos de mentira, de raiva contra algum membro da comunidade, ou quando alguém andasse nu em público. Um mês de exclusão por falta de disciplina nas assembleias da comunidade, quando alguém, por exemplo, se retira sem autorização, cospe na assembleia ou ri alto. Dez dias de exclusão, quando alguém adormece ou agita a mão esquerda (cf. 1QS VI,24-VII,25). 46 Pilatos foi prefeito da Judeia e da Samaria de 26 a 36 d.C. Pertencia à pequena nobreza da ordem equestre, não à classe senatorial mais aristocrática (praefectus até Tibério, procurator no tempo de Cláudio). Residia em Cesareia Marítima, a uns 100km de Jerusalém, mas, durante as festas judaicas mais importantes, subia à frente de suas tropas auxiliares até a Cidade Santa para controlar a situação. O prefeito ou procurador dependia do governador comandante da província da Síria, residente em Antioquia. 31 Capítulo 5 O REENCONTRO COM JESUS Algum tempo depois de seu retorno a Betânia, Lázaro desejou ter notícias de Jesus. Tendo ouvido dizer que João, o filho de Zacarias e Isabel, estava pregando no deserto do outro lado do Jordão, foi ao seu encontro, para ouvir sua pregação. João dizia às multidões que vinham para ser batizadas por ele: Eu vos batizo com água, mas vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com o fogo (Lc 3,16). Lázaro ficou sabendo, através de João, que Jesus, depois de ter sido batizado por ele e permanecido algum tempo no meio dos discípulos do Batista, havia retornado à Galileia. Depois que João foi preso por Herodes Antipas, por ter censurado o tetrarca por causa do seu casamento com Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe (cf. Mc 6,17ss parr), Lázaro resolveu ir à Galileia, à procura de Jesus. Ele ouvira dizer que Jesus percorria toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda e qualquer doença ou enfermidade do povo (Mt 4,23). Nessa ocasião Jesus se encontrava em Cafarnaum, cidade situada às margens do lago de Genesaré e cujo nome significa “aldeia deNaum”. Por algum tempo, esta foi centro dos trabalhos missionários de Jesus e funcionava como apoio para ele anunciar a Boa-Nova, indo a todas as aldeias e povoados da província. Ele a havia escolhido como lugar estratégico onde podia desenvolver sua atividade de pregador itinerante. Cafarnaum, apesar de ser muito modesta diante de Séforis ou Tiberíades, tinha sua importância, por ser base militar do exército de Antipas, equipado e adestrado ao estilo dos romanos, e centro de arrecadação de impostos. Além disso, era ponto de junção do grande caminho do mar, percorrido pelas caravanas que se dirigiam de Damasco ao Mediterrâneo ou ao Egito. Naquele dia, Jesus pregava na sinagoga de Cafarnaum, pois havia se mudado de Nazaré para essa cidade (cf. Mt 4,13). Quando Lázaro chegou àquele local, percebeu que uma grande multidão se aglomerava do lado de fora, de tal maneira que era impossível aproximar-se de Jesus. Resolveu permanecer ali na esperança de poder entrar, depois que todo o povo se dispersasse. De repente, ele viu quatro homens que transportavam um paralítico numa maca, e que também não podiam chegar até Jesus por causa da multidão (cf. Mc 2,1- 12). O coração de Lázaro encheu-se de compaixão pelo enfermo. Ele então se dirigiu aos homens que transportavam o paralítico, e que certamente eram seus familiares ou amigos. Sugeriu a eles que subissem ao teto do edifício, abrissem nele um buraco à altura do lugar onde Jesus se encontrava, e baixassem até ele o leito em que jazia o 32 paralítico. Os quatro homens assim o fizeram, e Lázaro os ajudou nesse empreendimento. Tiveram que amarrar o leito com cordas, que Lázaro pediu emprestadas a um pescador cujo barco se encontrava às margens do lago de Genesaré. Lázaro não desceu até onde Jesus estava, mas ouviu tudo o que se passou no interior do edifício. Quando Jesus disse ao paralítico: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 2,5), ele compreendeu que aquele homem estava duplamente acorrentado: pela culpa e pela paralisia física. Não que a sua doença fosse consequência dos seus pecados, mas, para Jesus, ele precisava primeiro ser libertado da culpa que o aprisionava, para que a sua cura fosse completa e integral. Pois Jesus, movido pela compaixão, não apenas curava fisicamente, mas reintegrava e dignificava os doentes numa perspectiva holística e total. Sendo assim, ele disse aos doutores da Lei que, sentados em torno dele, o acusavam de blasfêmia: O que é mais fácil dizer ao paralítico: “Os teus pecados estão perdoados”, ou dizer: “Levanta-te, toma o teu leito e anda?” Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem poder de perdoar pecados na terra, eu te ordeno – disse ele ao paralítico – levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa (Mc 2, 9-11). Lázaro compreendeu, então, que perdoar pecados e fazer um paralítico andar constituem coisas igualmente difíceis, e que só podem ser realizadas por Deus. Se Jesus assim o fazia, era porque Deus havia lhe confiado a capacidade de libertar as pessoas do fardo das transgressões e de livrá-las da deficiência física. O coração de Lázaro foi tomado por um sentimento de admiração por seu amigo de infância, que havia recebido de Deus tal poder. Compreendeu também que, se Jesus curava com uma palavra e perdoava com uma palavra, era porque nele atuava o Criador, que, com a palavra original da criação, havia feito bem todas as coisas: “e assim se fez – e Deus viu que tudo era bom” (Gn 1,9.31). Apesar de alegrar-se pelo amigo, Lázaro não pôde deixar de experimentar grande apreensão, ao perceber que a atividade de Jesus em perdoar os pecados e curar os doentes, pois isso representava uma forma de contestação à prática oficial ligada ao Templo e aos sacerdotes. Como a doença estava associada à impureza, para se curar o doente era preciso pagar taxas e oferecer sacrifícios a Deus. Por isso, aquele gesto de Jesus constituía uma ação radicalmente subversiva, pois desafiava o poder dos sacerdotes ligados à atividade no Templo. Através dessa prática, ele incomodava a maioria dos grupos judaicos da sua época, que logo o colocaram à margem do judaísmo palestino. Após esse episódio, Lázaro não conseguiu chegar até Jesus, pois este deixou a casa onde se encontrava sempre cercado por uma grande multidão. Lázaro, no entanto, se propôs ir à procura do amigo no dia seguinte. Nessa mesma ocasião, em Betânia, as irmãs de Lázaro passavam por um grande sofrimento. O filho primogênito de Marta chamava-se José. Com a morte de seu pai, 33 José havia assumido as funções que eram de Joaquim, no Templo de Jerusalém. Certo dia, José ficou sabendo que o governador Pôncio Pilatos, numa atitude de grande provocação para com o povo, tinha ordenado retirar fundos do tesouro sagrado do templo, a fim de pagar a construção de um aqueduto para levar água a Jerusalém. Milhares de judeus indignados, entre eles o filho de Marta, reuniram-se diante do tribunal do prefeito romano para protestar. Pilatos, tendo previsto esse protesto, mandou colocar no meio da multidão uma tropa de soldados disfarçados em vestes civis. Ordenou aos soldados que não usassem espadas, mas que batessem nos agitadores com porretes. Quando começou a pancadaria, muitos dos manifestantes fugiram e morreram pisoteados; outros foram espancados pelos soldados, entre eles José, que ficou gravemente ferido.47 Ao saber do ocorrido, Marta, profundamente aflita e temendo pela vida de seu filho, subiu a Jerusalém. Durante vários dias, permaneceu à cabeceira de José, tratando dos seus ferimentos. Aos poucos, ele foi melhorando, e, somente quando ele estava totalmente recuperado, ela voltou para casa. O conflito em Jerusalém havia chegado aos ouvidos de todos na Galileia. As duas irmãs enviaram um mensageiro a Lázaro, levando notícias de seu sobrinho. Todos estavam consternados com o acontecido. A partir de então, Pilatos passou a ser visto ainda com mais desconfiança por todo o povo. Em Cafarnaum, Jesus pregava à beira do lago de Genesaré. O verão chegara ao fim e a temperatura tornara-se menos abrasadora. Uma brisa suave embalava os barcos sobre o lago, que se apresentava sereno e tranquilo. Suas águas límpidas e cristalinas refletiam os raios do sol, fazendo-os dançar na superfície como luzes prateadas. Todo o ambiente ao redor formava uma unidade de rara beleza. O azul do lago contrastava com o verde das colinas e a cor escura dos rochedos. Não era sem razão que o lago tinha recebido esse nome, pois, no passado, havia florescido naquela região uma importante cidade chamada Kinnere, de onde deve ter surgido o nome Genesaré, uma vez que a margem do lago tinha a forma de uma lira, kinnor, em hebraico. De fato, o lago constituía uma bênção para todos os que habitavam ao seu redor, pela abundância de peixes que ali se reproduziam. Dele, os pescadores da região tiravam o sustento para suas vidas e de suas famílias. Jesus tinha subido numa barca, enquanto a multidão se aglomerava na praia para ouvir sua palavra. Lázaro colocou-se no meio do povo e ouvia Jesus, que falava em parábolas. Logo ele compreendeu que Jesus não utilizava a linguagem dos escribas para dialogar com o povo. Também não sabia falar com o estilo solene dos sacerdotes de Jerusalém. Recorria à linguagem dos poetas: inventava imagens, concebia belas metáforas e sugeria comparações. Falava repetidamente de compaixão, de perdão, de acolhida aos perdidos, de ajuda aos necessitados, pois essa era sua linguagem de profeta do Reino. Seu objetivo não era transmitir novas ideias, mas pôr as pessoas em 34 sintonia com experiências que elas conheciam em sua própria vida, e que podiam ajudá-las a abrir-se ao Reino de Deus. Através das parábolas, Jesus “tornava presente” Deus, irrompendo na vida de seus ouvintes. Aqueles que entram nas parábolas e se deixam transformar por sua força já estão “entrando” no Reino de Deus.48 As palavras de Jesus ecoavam no coração de Lázaro como o murmúrio argentino de fontes cristalinas: Com que compararemos o Reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? É como um grãode mostarda, o qual, quando é semeado na terra – sendo a menor de todas as sementes da terra –, quando é semeado, cresce e torna-se maior que todas as hortaliças, e deita grandes ramos, a tal ponto que as aves do céu se abrigam à sua sombra (Mc 4,30-32). Ao ouvir essas palavras, Lázaro transportou-se aos primórdios de sua infância. Um dia, encontrando-se em Betânia, Jesus tomou uma minúscula semente de mostarda e desejou plantá-la na horta, situada atrás da casa. Lázaro cavou um buraco na terra, e Jesus lançou nele a semente de mostarda com a reverência e o cuidado de quem realiza um ato criador. Cada vez que ele retornava a Betânia, admirava-se com o fato de uma semente tão pequena poder, aos poucos, ir se transformando numa árvore tão frondosa. Lázaro recordou-se de que certa vez todos estavam sentados à mesa, para tomar a ceia, a refeição mais importante do dia. Nessa ocasião havia pão, legumes, azeitonas, cebolas, verduras temperadas com sal, vinagre e óleo; e frutas frescas e secas. Como bebida, Eleazar havia providenciado vinho e shekhar, espécie de cerveja de cevada e painço. Sendo as visitas de Jesus consideradas acontecimentos importantes, Marta tinha preparado frango assado com mostarda, em vez do peixe salgado habitual. Durante a refeição, todos riram quando Ezequiel disse, de maneira meio jocosa, que aquela mostarda tinha um sabor especial, pois havia sido plantada por Jesus, regada por Lázaro, colhida por Marta e admirada pela jovem Maria, que costumava sentar-se à sombra da frondosa hortaliça, para contemplar os pássaros do céu, que se aninhavam em seus ramos. Depois que terminou seu discurso, Jesus retirou-se daquele lugar com os seus discípulos e discípulas. Lázaro o seguiu e, aproximando-se dele, perguntou-lhe: “Mestre, onde moras?” (Jo 1,38). Jesus, voltando-se para ele, disse: “Venha e veja” (Jo 1,39). Imediatamente Jesus o reconheceu, e os dois amigos se abraçaram alegres e felizes pelo reencontro. Lázaro acompanhou-o até sua casa e permaneceu com ele aquele dia. Depois de uma ausência tão prolongada, tinham muita coisa para conversar um com o outro. Lázaro contou-lhe tudo o que havia ocorrido durante os anos em que estiveram separados, menos sobre a enfermidade de Maria, pois sabia o quanto ela era discreta e reservada em relação a isso. Por outro lado, Jesus prometeu que, da próxima vez que subisse a Jerusalém, haveria de fazer-lhes uma visita. 35 Quando Lázaro retornou a Betânia, Marta já se encontrava ali; e as duas irmãs ficaram extremamente felizes por tudo o que ouviram a respeito de Jesus. Maria sentiu emergir de dentro dela a firme convicção de que Jesus haveria de curá-la de seu mal, e se propôs ir ao encontro dele, logo que houvesse uma oportunidade para isso. 47 Assim Josefo descreve este acontecimento: “Em certo momento, Pilatos, de sua cátedra de juiz, deu o sinal combinado; mas, quando de repente começou a pancadaria, muitos judeus pereceram sob os golpes; muitos outros foram pisoteados pelos próprios companheiros ao tentarem a fuga. Apavorados com a sorte dos mortos, o povo emudeceu” (G.J. 2.176-77; Ant. 18.60-62). 48 Cf. J. Antônio PAGOLA, op. cit., p. 145-151. 36 Capítulo 6 UM TOQUE AMIGO E RESTAURADOR Certo dia, Maria disse a Marta e a Lázaro que iria a Cafarnaum, para visitar alguns parentes de Ezequiel que residiam naquela cidade. Nenhum dos dois irmãos desconfiou do súbito interesse de sua irmã por aqueles parentes longínquos. Maria partiu, então, para a Galileia, e em Cafarnaum hospedou-se na casa de um primo de seu pai. Enquanto ali estava, ela procurou saber notícias de Jesus. Ouvindo dizer que ele se encontrava na cidade, foi à sua procura. Dentro do seu coração, ecoavam estas palavras: “Avisa-me, amado de minha alma,49 onde apascentas, onde descansas o rebanho ao meio-dia, para que eu não vague perdida entre os rebanhos dos teus companheiros”. E parecia ouvir uma voz que lhe dizia: “Se não o sabes, ó mais bela das mulheres, segue o rastro das ovelhas...” (Ct 1,7-8). Assim Maria o fez: seguiu a multidão que ia ao encontro de Jesus. Ele pregava nas proximidades de Cafarnaum. Era o início do verão; as folhas das oliveiras reluziam, as romãzeiras estavam férteis e viçosas e as figueiras carregadas de frutos.50 Jesus encontrava-se de pé, à sombra de uma alfarrobeira frondosa, e uma grande multidão de pessoas, vindas de vários lugares, o ouvia com atenção. Maria colocou-se no meio do povo, e dali ouvia sua palavra: Que vos parece? Se um homem possui cem ovelhas e uma delas se extravia, não deixa ele as noventa e nove nos montes e vai à procura da extraviada? Se consegue achá-la, em verdade vos digo, terá maior alegria com ela do que com as noventa e nove que não se extraviaram. Assim também, não é da vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca (Mt 18,12-14). Maria de Betânia não via Jesus já havia cerca de quinze anos. Ele lhe pareceu mais amadurecido e extremamente sedutor. Usava uma túnica de linho (chitôn) de cor clara, e um manto (himation) de um discreto, mas aveludado azul-celeste, confeccionado à mão com lã das montanhas da Judeia. Seus cabelos longos e escuros estavam impregnados com gotas de óleo perfumado que os deixava mais suaves e sedosos (cf. Mt 6,17; 26,7; Lc 7,46).51 A barba, que constituía o principal ornamento masculino, embelezava seu rosto. Havia um brilho profundo no seu olhar; e sua voz, grave e atraente, ecoava com firmeza e convicção. Maria permaneceu no meio da multidão, até que todo o povo se dispersasse. Depois de ouvir Jesus e presenciar alguns milagres operados por ele, foi tomada por uma fé inabalável de que ele haveria de curá-la. Mas como dizer a Jesus que era 37 portadora de uma enfermidade que a segregava, discriminava e deixava profundamente envergonhada? Pela situação em que se encontrava, não ousaria encará-lo de frente e pedir-lhe a cura. Além disso, Maria de Betânia era tímida e reservada; seu temperamento jamais lhe permitiria revelar a Jesus a causa de todo o sofrimento que, durante cerca de doze anos, havia transformado a sua vida num verdadeiro tormento. Logo, porém, compreendeu que poderia obter a cura permanecendo no anonimato. Sua fé no poder divino de salvar que se manifestava em Jesus era tão grande, que acreditava que bastaria tocar nas suas vestes para ficar curada (cf. Mc 5,24-34). Havia uma crença popular segundo a qual de certas pessoas emanava uma força misteriosa capaz de curar. Os doentes mais arrojados tocavam Jesus ou suas vestes ou mesmo a orla de seu manto, e os que o tocavam com fé ficavam curados (cf. Mc 6,56; Lc 6,19). Essa crença tem como base as experiências elementares do sagrado ou do santo. Nesse contexto, os milagres são entendidos como o efeito da presença do sagrado no mundo. É sagrado ou santo aquele ou aquilo que pertence totalmente a Deus, e Jesus era considerado “o Santo de Deus” (Mc 1,24). Nele atuava o poder de Deus que cura, liberta e salva. No dia seguinte, Jesus atravessou o lago de barco e desembarcou nas proximidades de Cafarnaum. Logo uma numerosa multidão o cercou. Essa multidão, normalmente numerosa, que cercava, ouvia, acompanhava Jesus, era na sua maioria formada de pessoas humildes, sem nome, sem identidade, empobrecidas e sem prestígio. Sofriam de doenças, de preconceitos; eram excluídas não só social como culturalmente, e também estigmatizadas como impuras pelo ritualismo religioso da época. Jesus havia se tornado para elas força, apoio, acolhimento, compreensão e lenitivo nos sofrimentos. Maria colocou-se, então, no meio do povo, procurando manter-se escondida e afastada de Jesus. Usava um véu colorido e bordado, que lhe caía até a cintura e lhe ocultava totalmente o rosto. Vestia uma túnica de linho simples, ketoneth, bordada nas franjas e no peito, e que a cobria quase até os tornozelos. Estava cingida pelo kishurim, uma faixa para a cintura feita de tecido. Usava também uma capa ampla,52 de uso obrigatório em público. Vestida assim de modo completo, esperava permanecer no anonimato. Depois de desembarcarà beira-mar, Jesus ali se deteve sempre cercado pela multidão. Foi então que um dos chefes da sinagoga, cujo nome era Jairo, aproximou- se dele e pediu-lhe que fosse até sua casa, para curar sua filha que estava à morte. Jesus o acompanhou, e a multidão o seguiu apertando-o e comprimindo-o de todos os lados. Maria percebeu que aquele era o momento oportuno para aproximar-se de Jesus e tocar nas suas vestes. Foi rompendo caminho no meio do povo, e chegou até ele. Por detrás, tocou no seu manto, que é o mesmo que tocar na sua própria pessoa. 38 Imediatamente sentiu no seu corpo que estava curada, pois “logo estancou a hemorragia” (Mc 5,29). Jesus também sentiu em seu corpo “uma força que dele saíra” (Mc 5,30). Essa força, que dele emanava, era uma força que renovava, curava, reintegrava e salvava inteiramente.53 O contato corporal criou uma relação profunda entre Jesus e Maria, pois o nosso corpo é o território onde se dá o encontro. É através do corpo que sentimos, comunicamos nossos sentimentos e entramos em relação com outros corpos. E uma vez que não existe qualquer possibilidade de se dividir o ser humano em corpo e alma, a corporeidade é o patamar no qual se desenrola e se torna palpável a salvação. Ao ser tocado por Maria, Jesus sentiu que a força do Espírito, dynamis, que nele atuava havia se manifestado, provocada pela fé de alguém do meio do povo. É pela fé que se pode entrar na área da força onipotente de Deus, que é amor, fonte de vida e saúde. Essa exigência é indispensável, e coloca a pessoa em contato com a onipotência divina. Os milagres de Jesus pressupõem a fé. Esta não é consequência do milagre, mas justamente uma parte do próprio acontecimento miraculoso, a parte que o ser humano tem de apresentar e sem a qual não pode haver milagre.54 Jesus então: voltou-se para a multidão e disse: “Quem tocou minhas roupas?”. Os discípulos disseram-lhe: “Estás vendo a multidão que te comprime e perguntas: ‘Quem me tocou?’”. Jesus olhava em torno de si para ver quem havia feito aquilo (Mc 5,30-32). Para Jesus, porém, ao contrário do que pensavam os discípulos, aquele não era o toque comum, impessoal, anônimo, da multidão, ao qual ele estava acostumado. Para ele, aquele toque era um toque diferente e especial. Era o toque amigo, familiar e único, da pessoa amada que ele ansiava encontrar. Aquele toque havia provocado nele uma atitude de busca e de procura, que ele manifestava intensamente de maneira não verbal com o olhar: Pomba minha, que se aninha nos vãos do rochedo, pela fenda dos barrancos... deixa-me ver tua face, deixa-me ouvir tua voz (Ct 2,14). De repente, o olhar de Jesus encontrou o olhar de Maria e ele a reconheceu. Ela foi traída pela cor dos seus olhos, que Jesus vislumbrou escondidos sob o véu. Aqueles olhos límpidos, profundos, da cor do mel eram únicos no mundo. Como és bela, minha amada, como és bela!... São pombas teus olhos escondidos sob o véu (Ct 4,1). Maria então saiu do anonimato. Ela não era mais uma estranha, uma desconhecida; era a pessoa querida e amada que ele desejava encontrar. Sentia-se feliz por revê-la depois de tanto tempo e alegrava-se por tê-la reencontrado. Maria de Betânia, contudo, ao ver-se assim descoberta, sentiu emergir de dentro dela um grande temor, que a deixava toda trêmula. Temia ser censurada e recriminada 39 por Jesus, pela maneira como havia obtido a sua cura. Certamente tinha cometido um grave erro, aproximando-se dele de modo furtivo e sorrateiro, como um ladrão que rouba algo que não lhe pertence, sem o consentimento do dono. Além disso, foi acometida de um sentimento de culpa, que a fazia sentir-se profundamente envergonhada. Parecia-lhe que havia transgredido a Lei, sendo merecedora de castigo. Pois, por causa da sua condição de segregada, era-lhe proibido misturar-se com a multidão, e, de modo especial, tocar em Jesus, contaminando-o com a sua impureza. Só lhe restava cair aos pés dele e confessar-lhe a sua culpa: Então a mulher, amedrontada e trêmula, sabendo o que lhe tinha sucedido, foi e caiu-lhe aos pés e contou-lhe toda a verdade (Mc 5,33). Jesus, então, erguendo Maria com suas mãos cálidas e acolhedoras, disse-lhe com ternura e afeto: Minha filha, a tua fé te salvou; vai em paz e estejas curada desse teu mal (Mc 5,34). Para Maria de Betânia aquelas palavras soavam como um bálsamo, afugentando todo o medo; pois “não há temor no amor; ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor” (1Jo 4,18). Experimentou, então, uma paz profunda, shalom. Jesus, em vez de recriminá-la, elogiava-a pela sua fé, coragem e ousadia, tornando-se assim parceiro da ação perpetrada por ela. Ele manifestava explicitamente de quem era o mérito da cura: “tua fé te salvou”. A fé de Maria havia operado a sua cura e salvação, pois há uma relação íntima entre salvação e saúde. Jesus quis tornar público o que ela realizara, a fim de prestigiá-la e valorizá-la, colocando-a em evidência diante da multidão. Ao dirigir-se a ela usando a expressão “minha filha”, Jesus demonstrava afeto, carinho, compreensão, amizade, intimidade e relação de proximidade. Maria sentiu-se profundamente amada por ele, pois “curar é uma forma de amar”.55 E a paz, shalom, que ela experimentava e que Jesus lhe assegurava com as palavras: “vai em paz”, significava inteireza, saúde, integridade, harmonia e realização plena. Maria de Betânia sentiu que havia recobrado não só a saúde física, mas também a psíquica. Ao erguer-se da sua humilhação, havia sido curada da sua timidez. A sua confissão pública foi um passo decisivo para isso. Agora ela podia encarar o futuro com autoconfiança, determinação, coragem e destemor. Finalmente, Jesus assumiu de maneira consciente a cura de Maria quando lhe disse: “estejas curada desse teu mal”. Assim, sua cura não era mais o resultado de um ato furtivo, realizado sem o consentimento dele. Ele assegurava-lhe que desejava, queria, consentia e se alegrava com sua cura. Através dela, ele rompia o preconceito que pesava sobre todas as mulheres. Seu gesto profético demonstrava que o Reino de Deus significa vida plena, e que a fé e a santidade não estão em contradição com as funções biológicas da sexualidade feminina. 40 Em seguida, Maria retornou a Betânia e cumpriu os ritos prescritos na Lei para a sua reintegração no convívio social (cf. Lv 15,28-30). Quando mais tarde, seu filho, João Marcos, escrevendo o seu Evangelho, narrou a cura de sua mãe, ele o fez de tal maneira, que preservou o desejo dela de permanecer no anonimato. Ninguém jamais suspeitou que aquela mulher hemorroíssa fosse Maria de Betânia. Marcos, porém, se traiu apenas num detalhe: na medida em que seu texto se desdobra, a relação entre Jesus e a mulher vai se revelando a relação de uma grande amizade. 49 Os termos “amor”, “amado”, “amada” que aparecem nos textos do livro do Cântico dos Cânticos aqui citados, referem-se ao amor amizade, philia, em grego, que ama e respeita o outro em todas as suas dimensões. 50 As figueiras produziam figos duas vezes por ano: em junho e no final de agosto. 51 Essa era uma necessidade social, devida ao forte calor da Palestina. 52 A capa, além da sua função social, servia também para proteger do frio e era usada como cobertor, durante as noites frias do Oriente. 53 A energia que se manifestava em Jesus era ação do Espírito, que podia agir independentemente da sua vontade, mas da qual ele tinha consciência (cf. Is 61,1-2). 54 Cf. Klaus BERGER, É possível acreditar em milagres? São Paulo, Paulinas, 2004, p. 50-54. 55 Cf. M. BAUTISTA, Jesus: sadio, saudável e terapeuta, São Paulo, Paulinas, 1997, p. 9. 41 Capítulo 7 EXERCENDO A DIACONIA Quando Maria voltou a Betânia depois de ter sido curada por Jesus, seus irmãos exultaram de alegria com o que lhe havia acontecido. A notícia da sua cura se espalhou por todos os povoados e aldeias vizinhas. A partir de então, muitos desejavam encontrar-se com Jesus, para ouvir sua palavra e ser libertados de suas enfermidades. Certo dia, Jesus e seus seguidores e seguidoras foram a Jerusalémpara participar da festa de Pentecostes (cf. Jo 5,1). Esta era a segunda das três festas em que todo israelita tinha que comparecer diante de Javé (cf. Ex 34,23; Dt 16,16). Celebrava-se na época das colheitas, cinquenta dias após a Páscoa, recordando a Aliança que Deus fizera com o seu povo no monte Sinai. Nas grandes festas, vários peregrinos confluíam a Jerusalém, e Jesus aproveitava essa ocasião para anunciar-lhes a Boa- Nova do Reino de Deus. Enquanto ali se encontrava, Jesus foi a Betânia para visitar seus amigos. Nessa ocasião os trabalhadores no campo haviam iniciado a sega. Tomavam as hastes do trigo ou da cevada com a mão direita, e com a outra as cortavam a curta distância da base das espigas. Para isso, utilizavam foices fabricadas com pequenas folhas recurvas de ferro, solidamente engastadas com rebites a um cabo de madeira. As mulheres carregavam os feixes e espalhavam-nos no solo; depois separavam os grãos da palha com as mãos ou com a ajuda de bois. Os homens passavam sobre os grãos as debulhadoras puxadas pelos bois. As mais comuns eram feitas com uma tábua plana, cuja face inferior tinha incrustados pequenos pedaços de pederneira. Outras eram simples rodas, também de madeira. Seguiam-se outras operações, até que as mulheres guardassem os grãos em sacos. Depois, o produto era transportado para a aldeia, em jumentos e carrinhos de mão; e transladado a silos ou grandes dornas de barro, para ser comercializado. A família de Betânia acolheu Jesus com grande alegria. Ao chegar ao pátio da casa, ele foi saudado pelos três irmãos com o beijo da paz. Na Palestina, o beijo era um costume que permeava as relações entre parentes próximos e entre amigos; entre marido e mulher, entre anfitrião e hóspede, entre um rabino e outro, entre mestre e discípulo. O filho costumava saudar sua mãe, beijando- lhe as mãos e dizendo: “Paz sobre tuas mãos”.56 Ao saudar o mestre, o discípulo deveria pôr-se de joelhos e beijar-lhe as mãos ou os pés (cf. Mt 26,48-49; Lc 17,16). Depois dessa calorosa acolhida, Jesus e os três amigos entraram numa sala onde, de acordo com o costume da época, seria realizado o outro gesto de boas-vindas (cf. 42 Lc 7,44ss). Ao cruzar os umbrais do compartimento, Jesus foi tomado por uma forte emoção. Sentiu seu coração bater num ritmo mais acelerado, ao ver-se assaltado por um turbilhão de recordações. Ali naquela sala retangular e familiar, tinham transcorrido alguns dos momentos mais aprazíveis de sua vida. Tratava-se de uma espécie de salão-refeitório, cujo solo era rebocado com argamassa. Duas janelas estreitas e elevadas abriam-se na parede oposta à porta, por onde entrava um pouco de claridade. Numa cavidade da parede, podia-se ver uma lamparina que deveria ser mantida acesa dia e noite, com a dupla vantagem de iluminar o recinto e de sempre proporcionar fogo vivo disponível. No centro do cômodo, encontrava-se uma mesa grande de pinho e alguns banquinhos de madeira, dispostos ao seu redor. Em quase todas as paredes havia prateleiras, onde se alinhavam diversos utensílios: pratos e copos de madeira, peneiras, colheres, travessas, alguidares, jarras e outras vasilhas; a maioria feita de barro ou bronze. Algumas peles de cabra forravam o piso, e o teto, situado a dois metros do chão, era cruzado por seis vigas de madeira provavelmente coníferas, muito abundantes naquela região. Num dos cantos do aposento, uma lareira servia de calefação durante o inverno e, algumas vezes, para o preparo das refeições. Em geral, os trabalhos domésticos eram realizados no pátio, onde se encontravam os instrumentos que serviam a todo o clã. Para lá, as duas irmãs costumavam transportar um pequeno fogão portátil de barro com duas bocas para o fogo e uma placa de argila, onde cozinhavam os alimentos em potes de cerâmica ou em marmitas de cobre. Elas também dispunham de outro fogãozinho portátil semelhante ao primeiro e, quando necessário, sobretudo quando recebiam alguma visita, utilizavam um fogão maior feito de pedras, que era comum aos parentes que partilhavam o pátio. Por causa do clima quente da Palestina, a família de Betânia, como todas as famílias do Oriente, preferia trabalhar ao ar livre; sendo a sala usada apenas para as refeições. Depois que entrou no recinto, Jesus sentou-se num dos tamboretes de quatro pés e assento de vime que rodeavam a mesa. As duas irmãs saíram em direção ao pátio e, alguns minutos depois, entraram novamente no aposento. Marta trazia um alguidar de barro vazio, e do seu antebraço esquerdo pendia uma toalha. Maria seguia-a, carregando uma jarra de bronze cheia de água. Aproximaram-se de Jesus, que havia desatado os cordões das suas sandálias e começaram a lavar-lhe os pés. Enquanto Maria derramava a água da jarra no alguidar, Marta banhava os pés de Jesus, empoeirados e doloridos pela longa caminhada que havia feito. A água, levemente aquecida, proporcionava uma reconfortante sensação de bem-estar. Em seguida, a “senhora” enxugou os pés de Jesus com a toalha que tinha enrolado na cintura. Enquanto o fazia, Maria tirou da faixa, kishurim, com que estava cingida, e que continha algumas aberturas que serviam de bolsa, alguns diminutos grânulos em forma de lágrimas. Tratava-se de mirra, uma substância de aspecto gomo-resinoso, 43 com a qual friccionou os pés e as mãos de Jesus. Perfumes preciosos fabricados com mirra, bálsamo, cássia, aloés, e outros mais simples feitos de lírios ou jasmins macerados eram consumidos profusamente pelo povo judeu não só para aromatizar os ambientes, mas principalmente no asseio pessoal. Estes perfumes eram apreciados, sobretudo, pelas mulheres de classe média e alta que costumavam trazer sob a túnica diversas bolsinhas com mirra, o que lhes proporcionava uma permanente e agradável fragrância. Terminado o ritual de acolhimento, as duas irmãs serviram a ceia, e os quatro amigos puderam banquetear-se com as iguarias preparadas por elas. As refeições, como costumam acontecer no Oriente, eram momentos privilegiados de intimidade, comunhão e partilha de vida. Para Jesus e os três irmãos de Betânia, aquele foi um dia inesquecível. Em seus corações ecoavam estas palavras: Um amigo fiel é um poderoso refúgio, quem o descobriu, descobriu um tesouro. Um amigo fiel não tem preço, é imponderável o seu valor. Um amigo fiel é um bálsamo vital e os que temem o Senhor o encontrarão. Aquele que teme ao Senhor faz amigos verdadeiros, pois tal como ele é, assim é seu amigo (Eclo 6,14-17). Depois desse acontecimento, Jesus e suas discípulas e discípulos retornaram várias vezes a Betânia (cf. Lc 10,38-42; Mt 21,17; Mc 11,12), e a casa de Marta, Lázaro e Maria tornou-se ponto de apoio para a atividade missionária de Jesus em Jerusalém e em seus arredores; assim como a casa de Pedro, em Cafarnaum, servia de base para os trabalhos de evangelização na Galileia. O movimento de Jesus contava, pois, para seu sustento e expansão, com a combinação do radicalismo itinerante e com as pequenas comunidades locais e estáveis que davam suporte à sua missão. Havia os que deixavam suas casas e suas famílias para acompanhar o Mestre, e comunidades locais que acolhiam Jesus e seus seguidores. Os irmãos de Betânia eram discípulos e discípulas de Jesus, mesmo sem assumir uma vida itinerante; e como discípulos e discípulas exerciam a diaconia na propagação da Boa-Nova do Reino de Deus. “Diaconia” tem sua origem nas palavras gregas diakoneo e diakonia, que significam “servir” e “serviço”, respectivamente. No grego profano, diakoneo (servir) é usado em sentido negativo e significa o trabalho de servir à mesa, realizado pelos escravos e escravas. Tem, portanto, uma conotação de sujeição pessoal considerada indigna e desonrosa para uma pessoa livre. Jesus inverteu o significado de servir como algo desprezível, indigno e opressivo; e o serviço passou a ser a atitude do discípulo e da discípula do Mestre que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). Essa atitude de Jesus em relação à dignidade do servir é, portanto,revolucionária e constitui um aspecto importante de todo e qualquer seguimento dele. Contudo, a palavra diakonia não se restringe ao 44 serviço prestado à mesa durante as refeições, mas sintetiza todo o ministério de Jesus e dos seus seguidores e seguidoras, que devem exercer a liderança não como dominação, mas como serviço, isto é, como renúncia ao querer ser grande e a dominar (cf. Mc 10,35-45). Os irmãos de Betânia exerciam a diaconia quando participavam ativamente do movimento de Jesus, prestando serviços diversos em prol do anúncio do Reino de Deus. Acolhiam e hospedavam o Mestre e seus seguidores e seguidoras. Emprestavam sua casa para ser local de reunião para o povo sofrido, doentes e empobrecidos, que acorria até ele para escutar sua palavra. Sempre que Jesus ali se encontrava, várias pessoas das cidades e povoados vizinhos vinham até Betânia, ao encontro dele. Nessas ocasiões, antes mesmo do amanhecer, uma numerosa multidão chegava àquele local e Jesus costumava pregar para ela. Dirigia-se ao jardim situado na frente do pátio e dali falava ao povo. Muito cedo, Lázaro saía para comprar pão e peixe, para oferecer àqueles que tinham vindo de lugares mais distantes. Maria ia buscar água na fonte que ficava no centro do povoado, e distribuía às pessoas que tinham sede. Marta segurava as crianças pequenas no colo, para que as mães pudessem ter um pouco de descanso, e ajudava aos doentes que necessitavam de cuidados especiais. Um dia, Jesus veio a Betânia na companhia de alguns de seus discípulos. Era a época das vindimas, que ocorriam em meados de setembro até outubro. Lázaro estava no campo, pois nessa ocasião os trabalhos redobravam. Maria tinha despertado antes do alvorecer, para adiantar o serviço do preparo da refeição dos hóspedes, pois pretendia estar mais livre para ouvir a pregação do Mestre. Este se dirigiu ao jardim e, tendo-se sentado no banco de pedra situado debaixo da figueira, dali pregava ao povo. Alguns permaneciam de pé, enquanto outros tinham-se sentado na grama verde, em torno dele. Maria foi até o jardim e, numa atitude de discípula diante do Mestre, sentou-se aos pés de Jesus, para ouvir sua palavra (cf. Lc 10,38-42). Do mais profundo do seu ser, brotava este poema: Macieira entre as árvores do bosque é meu amado entre os jovens; à sua sombra eu quis assentar-me com seu doce fruto na boca (Ct 2,3). O fruto que Maria saboreava era a Palavra de Jesus, que lhe parecia mais doce do que o mel (cf. Sl 119,103; Jr 15,16); e cujas sementes caíam no seu coração como em terra boa, com a promessa de produzirem muitos frutos (cf. Mc 4,1ss parr). Marta, porém, estava preocupada com a muita diaconia. Ela foi ao pomar colher algumas frutas que pretendia oferecer a Jesus e seus discípulos. Havia figos, tâmaras, amêndoas, maçãs, romãs, e uvas maduras em profusão. Enquanto executava sua tarefa, entoava alegremente esta canção: Desperta, vento norte, aproxima-te vento sul, soprai no meu jardim para espalhar seus perfumes. Entre o 45 meu amado em seu jardim e coma de seus frutos saborosos! (Ct 4,16). Depois de ter colhido as frutas, ocorreu a Marta que ela bem que poderia, além de servi-las frescas e secas, preparar uma torta de tâmaras com amêndoas, muito apreciada por Jesus e seus discípulos. E, quem sabe, apressando-se, talvez houvesse tempo de providenciar, para seus hóspedes, suco de frutas fermentado. Dirigiu-se, então, com presteza até a despensa, onde apanhou três medidas de grãos de trigo, moendo-os em seguida. Picou uma porção de tâmaras em pequenos pedaços, e depois moeu algumas amêndoas que seriam usadas como ingredientes juntamente com as tâmaras. Em seguida foi ao poleiro, de onde trouxe alguns ovos que misturou à massa com um pouco de óleo. Adoçou tudo com mel. De repente lembrou-se de que precisava pedir emprestado aos parentes vizinhos (cf. Lc 11,5) um dedo de aromas (hortelã ou canela), já que estes ingredientes não estavam disponíveis na casa. Além disso, era necessário ir ao campo apanhar um feixe de lenha, pois a que havia num canto do pátio não era suficiente para alimentar o fogo. Diante de tantas tarefas, Marta sentiu-se sobrecarregada. Se ao menos sua irmã Maria estivesse ali para ajudá- la, tudo seria mais fácil e tranquilo. No meio da sua azáfama, resolveu então sair à procura da irmã. Parando, por fim, disse: “Senhor, a ti não importa que minha irmã me deixe assim sozinha a fazer o serviço? Dize-lhe, pois, que me ajude”. O Senhor, porém, respondeu: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10,40-42). Marta acolheu as palavras de Jesus não como uma repreensão ou reprimenda, pois ela bem sabia o quanto ele apreciava a sua diaconia; mas como um convite para que também assumisse a atitude de discípula. Compreendeu que, se o seu serviço não fosse qualificado pela Palavra, que renova todas as coisas, ele se transformaria em ativismo estéril e vazio. Apenas a Palavra nos diz o que fazer e como fazer de maneira nova, correta e sensata. Por isso, para Jesus, o discipulado de Maria era “a melhor parte”. Compreendeu também que havia sucumbido à sua mania de perfeição, em achar que as coisas deviam ser sempre melhores e mais bem-feitas. Diante do Absoluto de Deus e da sua Palavra, muita coisa se torna relativa. Para Maria, as palavras de Jesus tinham outro significado. Ela compreendeu que Jesus questionava o papel restrito ao mundo doméstico que a sociedade impõe à mulher. Para ele, ela também tem direito de sentar-se aos pés do Mestre para ouvir- lhe os ensinamentos, tornando-se discípula; privilégio esse reservado aos homens. Desse modo, ele inaugurava o tempo novo que irrompia com o Reino de Deus. Enquanto Marta terminava de exercer a sua diaconia, Maria permanecia aos pés do Mestre, escutando a sua palavra. Dos corações de ambas, emergiam estes versos: Meu amado desceu ao seu jardim, aos terrenos das balsameiras, foi pastorear nos jardins e colher açucenas. Eu sou do meu amado, e meu amado é meu, o pastor das açucenas! (Ct 6,2-3). 46 56 Assim, Jesus costumava saudar sua mãe, Maria (cf. BOFF, op. cit., p. 39). 47 Capítulo 8 LÁGRIMAS EM BETÂNIA Certo dia, Jesus foi a Jerusalém com seus discípulos e discípulas, para participar da festa da Dedicação do Templo (cf. Jo 10,22ss). Os três amigos de Betânia também os acompanharam. Essa festa chamava-se hanukká, consagração, e era celebrada no dia 25 de dezembro, mês de Kislew. Durava cerca de oito dias. Nessa ocasião, comemorava-se a restauração e a nova dedicação do Templo, que se seguiram à vitória de Judas Macabeu sobre Antíoco IV, em 164 a.C. (cf. 1Mc 4,36-59; 2Mc 10,1- 8). Era conhecida como “festa das luzes”, devido às grandes tochas que eram acesas e ao espírito nacionalista que a permeava. Jesus aproveitava a grande afluência de peregrinos a Jerusalém durante as grandes festas, para anunciar-lhes a Boa-Nova do Reino de Deus. Costumava pregar no Templo, no pórtico de Salomão. Enquanto ali se encontrava, alguns chefes dos sacerdotes e membros do partido dos saduceus aproximaram-se dele, exigindo uma definição clara e pública do caráter messiânico de sua missão: Até quando nos manterás em suspenso? Se és o Cristo, dize-nos abertamente (Jo 10,24). Eles tinham a intenção de apanhá-lo em alguma palavra, para poder denunciá-lo aos romanos como agitador político. Percebendo a hostilidade das autoridades judaicas em relação ao amigo, os três irmãos de Betânia ficaram muito apreensivos. Eles compreendiam que o projeto de Jesus encontrava resistência por parte do sumo sacerdote Caifás e da classe sacerdotal de Jerusalém. Jesus era um galileu sem importância, um camponês pobre, um profeta escatológico, que prometia o advento do Reino de Deus, em conflito permanente com a aristocracia da cidade, cujo interesse principal era a manutenção do status quo. Mas, sobretudo, ele era um leigo ligado à religião de tipo familiar, marcada pela bênção e não pelo sacrifício,e que parecia ameaçar o poder ao qual se agarrava o grupo de sacerdotes. Diante da insistência de seus adversários, Jesus definiu sua condição de enviado do Pai, mostrando que suas ações comprovavam que era Deus quem agia nele: As obras que faço em nome de meu Pai dão testemunho de mim. Eu e o Pai somos um (Jo 10,25.30). Os políticos saduceus e os chefes dos sacerdotes apanharam, então, pedras para apedrejá-lo dizendo: Não te lapidamos por causa de uma boa obra, mas por blasfêmia, porque, sendo apenas homem, tu te fazes Deus (Jo 10,33). Nesse momento, Lázaro, percebendo o perigo a que o amigo estava exposto, procurou protegê-lo com o seu próprio corpo, interpondo-se entre Jesus e os seus 48 adversários. Desse modo, Jesus escapou das mãos de seus opositores, saiu do Templo e retornou a Betânia. Em Betânia, os três irmãos procuraram convencer Jesus a se afastar da Judeia. Ele resolveu, então, aceitar o conselho dos amigos, e partiu com suas seguidoras e seus seguidores para a região da Pereia, situada do outro lado do Jordão; precisamente ao lugar onde João Batista ministrara seu batismo de conversão. Ali pretendia permanecer durante algum tempo (cf. Jo 10,40-42). Era inverno, estação das chuvas e época em que se realizava o plantio. As primeiras chuvas, yôreh ou môreh, ocorriam de meados de outubro a meados de novembro; e preparavam a terra que no verão havia ficado seca e dura, para ser novamente trabalhada. As chuvas mais pesadas caíam de dezembro a fevereiro, e eram elas que enchiam as provisões de água, levando os produtos da erosão para os vales onde formavam terra fértil. O tempo do plantio começava entre esses dois períodos e se estendia até o mês de fevereiro. As chuvas tardias, mâlkôs, que ocorriam de março a abril, eram indispensáveis para a colheita, pois se revezavam com o sol. Naquele ano, a agricultura estava sendo abençoada com chuvas oportunas e dos corações de todos brotava este hino de louvor a Javé: Ó Deus, tu mereces um hino em Sião. Nós viemos aqui pagar as promessas, porque tu ouves as súplicas. Cuidas da terra e a regas, e sem medida a enriqueces. O riacho de Deus está cheio d’água, e preparas assim os trigais: regando os sulcos, aplainando os torrões, amolecendo com chuviscos a terra, abençoando seus brotos... Salmo 65 (64). Em Betânia, Lázaro estava feliz em poder cultivar a terra e dedicou-se inteiramente a essa tarefa. Além do trigo, semeou cevada para garantir o pão de cada dia. Ele também aproveitou para plantar legumes: lentilhas, fava, cebola, alho; e verduras: alface, chicória e salsa. Marta cultivou, na horta, plantas medicinais e aromáticas, boas inclusive para tempero: anis, cominho, orégano, açafrão, coentro, alcaparra, endro, funcho, mostarda, camomila, arruda, hortelã ou menta. O amigo de Jesus esforçou-se tanto na realização desses trabalhos que, no final de fevereiro, caiu gravemente enfermo. Diante da gravidade da doença, suas irmãs chamaram os melhores médicos não só do povoado, mas também de Jerusalém. Naquele tempo, a profissão médica era considerada artesanal, e o médico era tido como um artífice, um artista, um sangrador, um cirurgião. Em Jerusalém, eles concentravam-se na chamada parte baixa da cidade, juntamente com os outros artesãos que trabalhavam sentados em oficinas que davam para a rua. A cidade dividia-se em duas partes que o vale do Tiropeon separava: a oeste, a cidade alta; e a leste, a cidade baixa. Na cidade alta e na cidade baixa encontravam-se os dois bazares principais. Cada profissão era localmente agrupada, e tais agrupamentos profissionais resultavam de certa organização corporativa. Os médicos de Jerusalém tinham seus métodos pessoais de assistência aos doentes, que consistiam desde a cirurgia até a 49 circuncisão, passando por receitas de ervas medicinais, até a extração de dentes.57 Apesar dos cuidados de suas irmãs e das prescrições dos sangradores, como eram chamados os médicos vindos de Jerusalém, o mal que havia acometido Lázaro foi se agravando cada vez mais. Marta e Maria resolveram então enviar um mensageiro até Jesus, para rogar-lhe que curasse seu amigo. A mensagem consistia simplesmente nessas palavras: Senhor, aquele a quem amas está doente (Jo 11,3). A fé que elas tinham em Jesus era tão grande, que nem solicitavam a sua presença. Acreditavam que bastaria apenas uma palavra dele para que seu irmão fosse curado. Quando recebeu a mensagem, Jesus ficou bastante aflito, pois “amava Marta e sua irmã e Lázaro” (Jo 11,5). Sentiu que precisava partir imediatamente para Betânia, mesmo arriscando a própria vida ao aproximar-se de Jerusalém. Seu amor pelo amigo era tanto, que desejou ardentemente estar ao lado dele naqueles momentos difíceis. No seu coração ecoavam estas palavras: “Há amigos mais queridos do que um irmão” (Pr 18,24b). Os discípulos tentaram dissuadi-lo da ideia de ir para a Judeia, dizendo-lhe:“Rabi, há pouco os judeus procuravam apedrejar-te e vais outra vez para lá?” (Jo 11,8). Jesus, porém, estava firme na sua decisão de ir ao encontro de Lázaro. Contudo, não pôde fazê-lo senão depois de dois dias, pois, como o rio Jordão havia transbordado com as chuvas torrenciais dos últimos dias, era impossível fazer a travessia na altura de Jericó. Além disso, as estradas estavam intransitáveis, já que haviam se transformado num verdadeiro lamaçal. Jesus foi então obrigado a se deter naquele local, esperando que o tempo melhorasse e as águas do rio baixassem para poder atravessá-lo. A viagem entre o lugar onde Jesus se encontrava e Betânia durava cerca de um dia. Por isso, quando ali chegou, já havia mais de quatro dias que as duas irmãs haviam lhe enviado a mensagem sobre o estado de saúde de Lázaro. Antes mesmo de entrar no povoado, Jesus recebeu a notícia de que o amigo havia falecido e estava sepultado há quatro dias. Marta e Maria se encontravam em casa, cercadas por parentes, amigos e muita gente da vizinhança, que ali acorrera para solidarizar-se com elas. Quando alguém morria, um grande número de pessoas se aglomerava na casa do falecido (cf. Mt 9,23-25). Como o enterro se fazia cerca de oito horas depois por causa do forte calor do Oriente, o morto era logo embalsamado com mirra e aloés. Se a família tinha condições, contratava carpideiras profissionais e flautistas (cf. Mc 5,38; Mt 9,23). Os parentes manifestavam sua dor, colocando pó e cinza sobre a cabeça e rasgando as vestes. As mulheres desgrenhavam os cabelos, e os homens cortavam a barba. Se o morto era pobre, ele era colocado numa rede e carregado em procissão pelo povo, que o acompanhava em altos lamentos (cf. Lc 7,11-17). 50 Tratando-se de pessoa de condição, ele era envolvido num lençol de linho e colocado numa sepultura escavada na rocha (cf. Lc 23,53).58 Submersas no sofrimento que havia tomado conta delas, as duas irmãs aguardavam com ansiedade a vinda de Jesus de tal maneira que suspiravam por ela: Antes que a brisa sopre e as sombras se debandem, volta! Sê como um gamo, amado meu, um filhote de gazela pelas montanhas de Beter (Ct 2,17). Ao saber que Jesus se aproximava do povoado, Marta correu ao seu encontro; enquanto Maria permanecia sentada, em casa, lamentando a morte do irmão. O diálogo que aconteceu entre Jesus e Marta manifestava um grau de intimidade tão grande, que só era possível entre amigos. Com toda a franqueza, transparência e serenidade, ela disse a Jesus: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas ainda agora eu sei: tudo o que pedires a Deus, ele te concederá”. Jesus disse: “Seu irmão vai ressuscitar”. Marta disse: “Eu sei que ele vai ressuscitar na ressurreição, no último dia”. Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e acredita em mim, não morrerá para sempre. Você acredita nisso?” Ela respondeu: “Sim, Senhor. Eu acredito que tu és o Messias, o Filho de Deus que devia vir a este mundo” ( Jo 11,21-27).59 Quando Marta terminou de fazer a sua profissão de fé em Jesus, este sentiu falta da presença deMaria e, ao saber que ela havia ficado em casa, pediu à “senhora” que fosse à procura da irmã. Jesus havia decidido ver Maria antes de ir ao encontro de Lázaro. Permaneceu, portanto, à espera de Maria no mesmo lugar em que estava: à sombra de um frondoso sicômoro, situado na entrada do povoado. Julgando que talvez Jesus desejasse encontrar-se com Maria sem a presença de tantos curiosos, Marta aproximou-se da irmã e, com toda discrição, disse baixinho ao seu ouvido: O Mestre está aqui e te chama! (Jo 11,28). Ao ouvir essas palavras, o coração de Maria saltou de alegria, e ela correu ao encontro do amigo. Muitos dos presentes, porém, sem entender o que havia acontecido, resolveram acompanhá-la. Ao ver Jesus, Maria caiu aos pés dele chorando copiosamente e dizendo: Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido (Jo 11,32). Os parentes e amigos de Lázaro, que ali se encontravam, prorromperam em grandes lamentos. Diante daquela cena, Jesus encheu-se de compaixão e ficou profundamente comovido. Ergueu Maria e abraçou-a com carinho e afeto, procurando consolá-la. Foi então que, se sentindo solidário com o sofrimento das duas irmãs, começou a chorar juntamente com elas (cf. Jo 11,33-36). Suas lágrimas manifestavam 51 o quanto seu coração estava partido pela perda de um ente querido, um amigo muito amado, a tal ponto que todos exclamaram diante da sua dor: “Vejam como ele o amava!” (Jo 11,36). Em seguida, Jesus desejou ir ao encontro do amigo e perguntou onde o haviam colocado. Conduziram-no, pois, até o sepulcro de Lázaro, que ficava num local fora do povoado. Era um túmulo escavado numa rocha e fechado com uma pedra redonda. Alguns sacerdotes e levitas, que ali se encontravam, ficaram a distância para não se contaminarem, tornando-se legalmente impuros. Jesus aproximou-se do túmulo com as duas irmãs e alguns parentes e amigos do morto. Percebia-se que estava tomado por forte emoção, pois algumas lágrimas continuavam rolando-lhe pelas faces contraídas. Procurou então se conter e, inclinando a cabeça, permaneceu em silêncio como se estivesse em profunda oração. Ouvia-se apenas o sussurro do vento insinuando-se por entre as folhas verde-brancas das oliveiras, que havia ao redor. Depois de alguns instantes, Jesus pediu que retirassem a pedra do sepulcro. Alguns dos presentes relutaram em fazê-lo, pois julgavam aquela atitude insensata, já que, depois de quatro dias, o cadáver devia estar em adiantado processo de decomposição. Jesus, porém, continuou insistindo; e finalmente resolveram obedecer- lhe. Depois que retiraram a pedra, Jesus ordenou com voz forte: “Lázaro, vem para fora” (Jo 11,43). Imediatamente o morto saiu do túmulo com os braços e as pernas enfaixados e o rosto coberto com um sudário. Todos, maravilhados com o que presenciavam, correram até ele para desamarrá-lo. Lázaro, surpreso, sem compreender o que estava acontecendo, olhava em torno de si como se despertasse de um sono profundo. As duas irmãs, tomadas de grande alegria, correram para abraçá- lo, enquanto Jesus, erguendo os olhos para o céu, proclamava em voz alta esta oração: Pai, eu te dou graças porque me ouviste. Eu sei que sempre me ouves (Jo 11,41b-42a). Em seguida, aproximando-se do amigo, abraçou-o calorosa e efusivamente com afeição. Depois que Lázaro voltou para casa, experimentou tamanha força e vigor, que jamais havia experimentado antes. Sentindo-se plenamente saudável, retomou os trabalhos no campo com redobrado entusiasmo. Naquele ano, as colheitas foram abundantes. 57 Cf. JEREMIAS, op. cit., p. 29-34. 58 Cf. Clodovis BOFF, op. cit., p. 102-104. 59 “Bíblia Sagrada – Edição Pastoral”, São Paulo, Paulus, 1990. 52 Capítulo 9 A UNÇÃO DO MESSIAS Quando as autoridades judaicas de Jerusalém, lideradas por Caifás que era sumo sacerdote naquele ano,60 souberam que Jesus havia ressuscitado Lázaro, reuniram o Sinédrio e decretaram a sentença de morte contra ele (cf. Jo 11,45-53). Sentiam-se ameaçadas pela sua popularidade. Para elas, Jesus era um agitador político que provocava perturbações, e, por isso, precisava ser eliminado para assegurar a tranquilidade da ordem pública. Diziam: Esse homem realiza muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão nele e os romanos virão, destruindo o nosso lugar santo e a nação (Jo 11,47b-48). Ao tomar conhecimento desse fato, os irmãos de Betânia temeram pela segurança do amigo e instaram com ele para que se afastasse de Jerusalém. Jesus resolveu, então, ir com seus discípulos e discípulas para uma localidade chamada Efraim, situada cerca de 20km a noroeste da Capital, nos confins do deserto. Ali, porém, não se demorou por muito tempo. Ele estava decidido a ir a Jerusalém por ocasião da Páscoa, cumprindo a missão que o Pai lhe confiara de anunciar o Reino de Deus a um público que, de outra forma, ele não poderia atingir. Por isso, como a festa se aproximava, logo retornou a Betânia, de onde pretendia preparar a sua entrada na Cidade Santa. Os irmãos de Betânia haviam tomado conhecimento de que Lázaro também estava correndo perigo de vida, já que as autoridades judaicas tinham decretado a sua morte; pois, por causa do seu testemunho, muitos tinham passado a acreditar em Jesus (cf. Jo 12,10-11). Lázaro, porém, não se intimidou com essa notícia e resolveu acompanhar Jesus na sua viagem a Jerusalém. Marta e Maria decidiram ir com eles. Havia em Betfagé, aldeia próxima a Betânia, um parente dos amigos de Jesus que possuía um jumentinho. Jesus pediu o animal emprestado para montar, enquanto entrava na cidade (cf. Mc 11,1-11 parr). Betfagé era um conglomerado de pequenas casas de um pavimento, de cobertura extremamente leve à base de ramos cobertos de argila, sem janelas ou frestas. Algumas possuíam terraço, e havia nos seus arredores uma grande quantidade de figueiras e pequenas hortas.61 Logo que montou no jumentinho, Jesus foi cercado pelos peregrinos que o aclamavam como um grande profeta. Alguns cortavam qualquer ramo ou folhagem verde que cresciam junto ao caminho e outros estendiam seus mantos para ornamentar o seu caminho. Ao entrar na cidade, contagiados pelo clima festivo da 53 Páscoa e inflamados pela expectativa da iminente chegada do Reino de Deus, os peregrinos que lá se encontravam juntaram-se aos que o acompanhavam (cf. Jo 12,12-14) e o saudaram dizendo: “Hosana! Bendito aquele que vem em nome do Senhor!”. Diante desse gesto simbólico, os irmãos de Betânia compreenderam que Jesus estava buscando um reino de paz e justiça para todos e não um império construído com violência e opressão. Diferente dos generais romanos, que entravam nas cidades montados em seus cavalos de guerra, Jesus anunciava uma nova ordem, oposta à de Roma. Esse era um gesto extremamente perigoso, pois, para as autoridades romanas, qualquer pretendente messiânico deveria ser eliminado como perturbador da ordem pública. E, assim, aclamado pelo povo, Jesus entrou em Jerusalém dirigindo-se ao Templo. Ali ele permaneceu por pouco tempo. Olhou tudo ao redor, e como já era tarde, voltou para Betânia, onde passou a noite. No dia seguinte, Jesus e seus discípulos e discípulas voltaram novamente a Jerusalém. Quando se aproximavam do Lugar Sagrado, os três irmãos de Betânia notaram que a fisionomia de Jesus parecia mais séria e concentrada do que o habitual. Logo se deram conta de que ele estava planejando alguma coisa. Ficaram profundamente apreensivos, pois eles sabiam o quanto Jesus corria perigo, pois o centro do poder político e religioso queria eliminá-lo. De fato, assim que entrou no Templo, começou a expulsar os vendedores e os compradores que ali estavam; virou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, e não permitia que ninguém carregasse objetos através do Templo. E ensinava-lhes, dizendo: “Não está escrito: ‘Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos’? Vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões!” (Mc 11,15ss parr). Deparando com aquela cena, os três amigos de Jesus temeram que, diante da sua ação profética, os sumos sacerdotes tomassemalguma atitude drástica em relação a ele (cf. Mc 11,18). Compreendiam que Jesus estava investindo contra o poder político e econômico representado pelo Templo. Isso constituía um ato subversivo, sobretudo, porque ele não estava pregando a reforma do Templo, mas a sua destruição. Para Jesus, o culto no Templo havia perdido a sua função, pois tinha se corrompido e se tornado um instrumento de exploração e opressão, principalmente para os mais pobres do meio do povo. A partir de então, Jesus cumpria a sua missão de pregar todos os dias no Templo, durante o período que antecedia a festa da Páscoa. Como ele sabia que as autoridades de Jerusalém temiam prendê-lo durante o dia por causa da reação do povo, sentia-se seguro cercado pela multidão que o ouvia. À noite, porém, por medida de segurança, ele saía da cidade e dirigia-se a Betânia (cf. Mc 11,11; Mt 21,17-18). Maria, contudo, diante do risco que Jesus corria permanecendo em Jerusalém e nas suas proximidades, intuiu que, em breve, ele haveria de ser preso e executado. Antes, porém, que isso acontecesse, resolveu prestar-lhe uma última homenagem, ungindo-o 54 como Messias. A palavra “messias” provém do termo hebraico mashiah, que significa “ungido”. Seu equivalente grego é “cristo” (christos). Em Israel, o sentido da unção feita com azeite era comunicar à pessoa ungida qualidades sobre-humanas, que a colocavam acima das outras. A unção fazia parte do rito de coroação dos reis (cf. 2Sm 2,21; 14,2). A ideia de Messias estava, portanto, ligada à vinda de um personagem régio, que seria sinal de salvação para o povo, num momento de crise insuperável para as forças humanas. Naquele tempo, a figura do Messias tornara-se muito difusa e até ambígua. A maioria via nele um descendente da família real de Davi, que haveria de restaurar a monarquia em Israel, libertando-o e levando-o a uma vida de esplendor glorioso. Para os essênios, o Messias seria um sacerdote escatológico que reuniria o povo liberto da impureza e do pecado. Outros acreditavam que ele seria o verdadeiro profeta ou o Moisés redivivo. Os que abraçavam as ideias apocalípticas esperavam o Messias como Filho do Homem, um personagem sobrenatural, que haveria de descer do céu nos últimos dias para realizar o julgamento final e conduzir os justos à felicidade eterna. A ideia de um Messias vivenciada e cultivada pelos movimentos revolucionários populares também estava presente no meio do povo. Apesar da diversidade das versões sobre o Messias, todas elas tinham em comum a aparição do Ungido de Deus como regente e juiz, que poria termo à humilhação de Israel, expulsaria os pagãos e fundaria o reino da glória. Certo dia, bem cedo, Maria resolveu sair de casa para ir a Jerusalém. Ela desejava dar a Jesus o melhor que possuía: Antes que sopre a brisa e as sombras se debandem, vou ao monte da mirra, à colina do incenso (Ct 4,6). Era um dia ensolarado de primavera. O céu azul sem nuvens reluzia, e o caminho poeirento que ligava os povoados de Betânia e Betfagé a Jerusalém estava tomado por transeuntes, a maioria deles peregrinos, que iam e vinham nos dois sentidos da estrada. O monte das Oliveiras, repleto de árvores que lhe deram esse nome, estendia- se paralelamente à grande muralha leste da cidade. Dali se podia contemplar Jerusalém como um conglomerado de casas e ruelas branco-acinzentadas, onde se destacavam a Fortaleza Antônia, o palácio de Herodes e, sobretudo, a cúpula e as muralhas do Templo. Ao entrar em Jerusalém e deixar para trás os cento e noventa e cinco metros do muro exterior do hipódromo, Maria dirigiu-se à cidade alta, onde eram comercializados os artigos de luxo; pois cada profissão tinha suas lojas num mesmo quarteirão e ali explorava o seu bazar, sûq. Às portas da cidade, encontrava-se o beco dos alfaiates, e na cidade nova achavam-se o bazar dos comerciantes de lã e o bazar dos ferreiros. 55 Maria carregava consigo um adereço de grande valor, chamado “Jerusalém de ouro”. Tratava-se de um enfeite feminino de alto preço, um adorno de cabeça, espécie de diadema crenado, que era fabricado na cidade.62 Sendo o pai de João Marcos, um próspero comerciante de Alexandria, ela ganhara esse presente de seu filho, numa das últimas visitas que ele havia feito à sua mãe. Maria pretendia vendê-lo e, com o produto da venda, comprar um frasco de alabastro – um recipiente feito de um material translúcido – contendo perfume de nardo precioso com o qual ungiria a cabeça de Jesus.63 Depois de vender o adereço de ouro numa das lojas da cidade alta, Maria comprou um vaso de alabastro, contendo trezentos gramas de nardo puro, que custara cerca de 300 denários; 64 o equivalente ao salário de um ano de um operário agrícola (cf. Mt 20,2). O nardo era um óleo aromatizado, fabricado com as raízes e folhas de uma planta herbácea da família das valerianáceas, cultivada em jardins e procedente da Índia. Depois de realizar essa transação comercial, Maria voltou para casa. Aguardava com ansiedade o momento oportuno para ungir Jesus com o óleo perfumado. Dois dias antes da Páscoa, Jesus encontrava-se em Betânia, quando foi convidado a tomar refeição na casa de Simão, o leproso (cf. Mc 14,1ss). Simão era um dos homens mais ricos de Betânia. Possuía rebanhos de ovelhas que forneciam uma grande quantidade de lã, que era comercializada em Jerusalém. Ele havia sido acometido de uma doença de pele e, sendo de família sacerdotal, havia se tornado inapto para o culto. Por causa da sua enfermidade, Simão recebera o apelido de leproso, que conservou mesmo depois de ter sido curado por Jesus. Simão era amigo de Lázaro e de suas irmãs; e, por isso, eles também foram convidados a participar do banquete que seria oferecido a Jesus. Logo que tomou conhecimento desse fato, Maria compreendeu que aquela seria a oportunidade que esperava para realizar o seu gesto profético. Jesus estava reclinado à mesa, pois, para as refeições solenes, os convidados ficavam deitados em divãs, à moda grega. Maria entrou então na sala, carregando o frasco de alabastro que continha o precioso perfume de nardo. Aproximou-se de Jesus e, quebrando o gargalo do frasco, derramou todo o seu conteúdo sobre a cabeça dele, num gesto de amor e amizade de quem oferecia o melhor de si, com grande generosidade: Enquanto o rei está em seu divã, meu nardo difunde seu perfume. Meu amado é para mim um cacho de cipro florido entre as vinhas de Engadi (Ct 1,12.14). Maria de Betânia, a discípula fiel e atenta à Palavra, realizava a ação simbólica e profética de ungir o Mestre como Messias. Assim como os profetas do Antigo Testamento ungiam a cabeça dos reis de Israel, ela ungia a cabeça de Jesus 56 nomeando-o como Messias, o Ungido, o Cristo, realizando desse modo o primeiro ato de fé completo e inequívoco no destino de sofrimento e ressurreição de Jesus. Nem mesmo a profissão de fé de Pedro alcançou o verdadeiro sentido do messianismo de Jesus, quanto o gesto profético de Maria (cf. Mc 8,27-33 parr). A sala encheu-se então de perfume; e Jesus, colocando a mão direita sobre a cabeça de Maria, que havia se ajoelhado a seus pés em sinal de respeito para com o Mestre, acolhia aquele gesto com ternura e afeto: És toda bela, minha amada, e não tens um só defeito! Teus amores são melhores do que o vinho, mais fino que os outros aromas é o odor dos teus perfumes (Ct 4,7.10b). Diante dessa cena incomum, a reação de alguns discípulos e convidados era de indignação. Começaram então a murmurar entre si: “Para que esse desperdício de perfume? Pois poderia ser vendido esse perfume por mais de trezentos denários e distribuído aos pobres”. E a repreendiam. Mas Jesus disse: “Deixai-a. Por que a aborreceis? Ela praticou uma boa ação para comigo. Na verdade, sempre tereis os pobres convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes o bem, mas a mim nem sempre tereis. Ela fez o que podia: antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura” (Mc 14,4-8). Na situação em que Jesus se encontrava, condenado à morte por comprometer-se e solidarizar-se com os pobres, tambémpodia ser identificado com eles. Além disso, o gesto profético realizado por Maria era uma “boa ação”; pois, para a religião judaica, preparar os mortos para a sepultura era uma obra de misericórdia tão recomendável quanto a esmola.65 Maria de Betânia, ungindo Jesus como Messias, agia como verdadeira ministra e profeta. Por isso, pode ser considerada o primeiro cristão já que foi a primeira pessoa a crer na ressurreição de Jesus. Ela intuiu que Jesus estava para ser preso e executado e, simbolicamente, preparou o seu corpo para a sepultura. Ela também acreditava na sua ressurreição, pois, sendo ele o Messias, não poderia ser entregue ao poder da morte. Quando mais tarde o seu filho, João Marcos, narrou esse episódio, ele procurou respeitar o desejo de sua mãe de permanecer no anonimato. O evangelista João, contudo, deixou muito claro que aquela mulher anônima era Maria de Betânia (cf. Jo 12,1-8). Marcos, porém, não se esqueceu de dizer que, no seu relacionamento com Maria, Jesus sempre procurava valorizá-la, elogiá-la e colocá-la em evidência: Em verdade vos digo que, onde quer que venha a ser proclamado o Evangelho, em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória (Mc 14,9). 60 Caifás foi sumo sacerdote de 18 a 36 d.C. 61 A palavra “Betfagé” significa “casa dos figos verdes”. 62 Naquela época, discutia-se para saber se as mulheres judias, aos sábados, podiam usar tais enfeites. 63 Jerusalém preparava bálsamo e resinas e, além de artigos de uso diário, fabricava produtos de luxo como unguentos e mercadorias semelhantes. 64 O denário era uma moeda romana de prata, equivalente à dracma grega. 57 65 Enquanto, na teologia rabínica, a esmola é classificada como um “ato de justiça”, digno de louvor, o cuidado do enterro é considerado um “ato de caridade”, classe alta de boas obras. 58 Capítulo 10 SOLIDÁRIOS NA DOR E NA ALEGRIA Todos os anos, a Páscoa dos judeus era celebrada nos dias 14 e 15 de Nisan, para eles o primeiro mês do ano. No dia 14 à tarde, último dia antes da lua cheia que se segue ao equinócio da primavera, entre 14h30min e 17h, os cordeiros que seriam consumidos na Ceia Pascal – chamada hagaddah e hoje seder – eram imolados no Templo pelas mãos dos sacerdotes, sobre o altar (cf. Ex 12,1-14). Só depois, cada família podia levar para casa o cordeiro que havia comprado, a fim de prepará-lo para ser assado e comido durante a ceia. O cordeiro, ou cabrito, era guarnecido com uma série de verduras igualmente obrigatórias; tudo sem ferver nem cozinhar como mandava a Lei. Os comensais deviam também comer pães sem fermento e beber, no mínimo, quatro copos de vinho. A Ceia realizava-se à noite depois do pôr do sol, no interior da cidade de Jerusalém ou na região que lhe era circunscrita, em família ou em grupos de dez a vinte pessoas. Já que os judeus começavam a contagem dos dias à tarde, a Ceia Pascal era celebrada no dia 15 de Nisan. Desde o anoitecer do dia 14 (para nós, ao anoitecer da véspera, dia 13), todo fermento devia ser excluído das casas, e o uso de pão fermentado era proibido durante sete dias (cf. Ex 12,15-20). Iniciava-se a festa dos Ázimos ou Pães sem fermento. Embora suas origens fossem diversas, a festa da Páscoa e a dos Pães Ázimos estavam ligadas entre si, a ponto de praticamente se identificarem (cf. Dt 16,1-8). A Páscoa recordava a antiga libertação do povo da escravidão do Egito e atualizava os benefícios de Deus, na esperança da salvação messiânica. Para os judeus, era a maior festa do ano, atraindo numerosos peregrinos a Jerusalém. Naquele ano, 30 d.C., o dia 14 de Nisan cairia numa sexta-feira. Nesse dia, os três amigos de Jesus preparavam-se para ir a Jerusalém celebrar a festa juntamente com João Marcos, o filho de Maria, que acabara de chegar à Cidade Santa. Eles, porém, ficaram surpresos com a aparição súbita e inesperada do jovem Marcos em Betânia. Ele parecia demonstrar certa urgência, pois tinha vindo a cavalo. Depois de saudar seus parentes, João Marcos contou-lhes tudo o que tinha se passado na véspera, desde o momento da sua chegada à cidade. Nessa época, o filho de Maria de Betânia era um jovem de 16 anos, que estava chegando a Jerusalém para estudar numa das famosas escolas rabínicas da cidade, preparando-se, assim, para ingressar na classe dos escribas. Os escribas adquiriam uma grande erudição estudando as Escrituras e, por isso, eram chamados de sábios, rabis, professores da Lei ou mestres. A estima do povo por eles era motivada pela 59 importante tarefa que desempenhavam. Já que a Lei determinava todas as dimensões da vida do povo, eles eram encarregados de interpretá-la resolvendo questões do dia a dia como: qual o alcance da proibição do trabalho no sábado ou como se devia fazer um contrato matrimonial. Havia entre eles alguns sacerdotes, membros de famílias nobres; mas havia também pessoas de outras classes do povo: comerciantes, artesãos e até prosélitos.66 João Marcos preparava-se para assumir longos anos de estudo, pois quem queria ser escriba tinha de passar por um estudo sólido e prolongado. Somente quando o aluno terminava seu estudo com sucesso, o mestre declarava-o “escriba”, impondo- lhe as mãos para sua ordenação. A partir daí, era tratado pelo honroso título de “rabi” (cf. Mt 23,7ss) e podia usar a longa veste dos escribas (cf. Mc 12,38 par).67 O pai de João Marcos era um dos poucos judeus da diáspora que possuía casa própria em Jerusalém, onde costumava se hospedar, quando viajava para lá a negócios ou por ocasião das grandes festas. Quando o filho de Maria de Betânia entrou na Cidade Santa, para ali se dirigiu. Era uma casa grande e espaçosa, situada na cidade alta, não muito longe da casa do sumo sacerdote Caifás, que ficava a uns trezentos passos da residência do seu sogro, Anás.68 Logo que chegou, João Marcos ficou sabendo que Jesus estava em Jerusalém e alegrou-se com esta notícia, pois há muito desejava encontrar-se com ele, para agradecer tudo o que Jesus tinha realizado em favor de sua mãe. Enviou, então, um servo para informar-se sobre o paradeiro do Mestre e, como estava extremamente fatigado pela longa viagem que acabara de empreender, resolveu dormir um pouco. Tirou a túnica, chaluk, e deitou-se numa cama apenas com o saq, calção ou tanga em forma de envoltório, que era usada como roupa de baixo.69 Em geral, sendo as noites no Oriente muito frias, o jovem Marcos cobriu-se com um lençol de linho. Mal havia adormecido, quando foi despertado pelo servo que lhe trazia a notícia de que, naquela noite, Jesus e seus discípulos encaminhavam-se em direção ao Monte das Oliveiras. Não querendo perder a oportunidade de encontrar-se com Jesus e com receio de perdê-lo de vista, João Marcos saiu apressadamente, apenas enrolado com o lençol com o qual estava coberto. Ele seguiu Jesus e seus discípulos pelas ruas solitárias do bairro baixo em direção à Porta das Fontes, até uma propriedade chamada Getsêmani, que quer dizer “lagar de azeite”, situada no vale do Cedron, ao pé do Monte das Oliveiras (cf. Mc 14,32ss parr). A noite estava fria e um vento insistente sibilava como um lúgubre presságio, por entre os ramos tortuosos dos olivais. Quando o vento amainava, o silêncio era quebrado apenas pelo leve rumor de asas de libélulas. A lua quase cheia, solitária entre milhares de estrelas, brilhava com todo o seu esplendor. Sua luz prateada 60 banhava Jesus e seus discípulos, que tinham se detido numa clareira no meio do jardim. João Marcos colocou-se atrás do tronco robusto de uma oliveira frondosa, e dali observava o que se passava à sua frente, aguardando um momento oportuno para aproximar-se de Jesus. Todavia, a cena que viu em seguida deixou-o surpreso, e ele permaneceu escondido, sem compreender o que estava acontecendo. O homem que julgava ser Jesus parecia extremamente angustiado. Adiantou-se com três de seus discípulos e prostrou-se por terra, como se estivesse em oração. João Marcos não podia ouvir o que ele dizia, mas sua fisionomia, iluminada pela claridade do luar, manifestava umaprofunda agonia. De repente ele avistou numerosas tochas em movimento, subindo pela encosta situada à margem esquerda do escuro olival. Era um grupo de homens armados, à frente dos quais caminhava alguém que parecia conduzi-los em direção ao local onde Jesus se encontrava com os seus discípulos. Ao aproximarem-se, João Marcos percebeu que se tratava de cerca de 50 policiais do Templo, armados de espadas, bastões e maças com cravos, seguidos por vários empregados do sumo sacerdote, que carregavam tochas. Quando chegaram perto de Jesus, o homem que liderava o grupo aproximou-se dele e saudou-o com um beijo, forma usual de saudação entre Mestre e discípulo. Imediatamente, um dos guardas, que levava nas mãos uma corda, agarrou os braços de Jesus, amarrando seus pulsos pelas costas. Foi então que um dos discípulos de Jesus, tomando uma espada, decepou a orelha direita do servo do sumo sacerdote. Os guardas do Templo tentaram prendê-lo, mas ele e seus companheiros, abandonando o Mestre, fugiram pela encosta que conduzia ao vale do Cedron. Nesse momento, o jovem Marcos, sentindo que alguém tentava agarrá-lo pelos ombros, desvencilhou-se do lençol com o qual estava enrolado e fugiu nu, embrenhando-se no meio dos olivais (cf. Mc 14,51-52). Ao chegar à sua casa, João Marcos vestiu a túnica e saiu apressadamente à procura do paradeiro de Jesus. Tendo sido informado de que ele se encontrava no palácio de Anás, dirigiu-se para lá. Porém, ao alcançar a casa do ex-sumo sacerdote, percebeu que Jesus estava sendo conduzido à residência do sumo sacerdote Caifás, e o seguiu. Como seu pai e ele eram muito conhecidos do sumo sacerdote, João Marcos entrou na casa juntamente com Jesus. Ao passar pelo portão, notou que um dos discípulos de Jesus – o mesmo que havia decepado a orelha do servo do sumo sacerdote – estava do lado de fora procurando entrar. Foi então até o portão, falou com a porteira e introduziu Pedro na casa (cf. Jo 18,15-16). A residência de Caifás era uma propriedade que contava com uma construção na entrada, onde havia um pequeno pátio. Mais adiante havia uma construção maior, com um grande pátio interno. João Marcos e Pedro se sentaram ali, no grande pátio, com vários servos do sumo sacerdote, que se aqueciam ao redor de uma fogueira. 61 Pedro usava uma túnica de cor clara e amplas mangas, que lhe cobria quase até os tornozelos. Um manto de lã acinzentado cingia-lhe o tórax. As extremidades do manto caíam sobre seus ombros largos e poderosos de pescador afeito ao trabalho braçal. Possuía lábios finos e nariz comprido, ligeiramente proeminente. Os olhos escuros eram vivos e irrequietos, e a pele curtida e bronzeada pelo sol. Os habitantes da Judeia logo percebiam que ele era galileu, pois, ao abrir a boca, fazia ressoar seu aramaico incorreto, com um acento típico daquela região. Enquanto ali se encontravam, uma das criadas do sumo sacerdote aproximou-se de Pedro e, fitando atentamente o seu rosto, disse: “Também tu estavas com Jesus Nazareno”. Ele, porém negou, dizendo: “Não sei nem compreendo o que dizes” (Mc 14,67b-68a). Pedro então se levantou e foi para o pequeno pátio, que ficava na construção anterior na entrada da casa. João Marcos o acompanhou. Nesse momento, um galo cantou; e a criada, seguindo-os, começou de novo a dizer aos presentes: “Este é um deles!” Ele negou de novo! Pouco depois os presentes novamente disseram a Pedro: “De fato, és um deles; pois és galileu”. Ele, porém, começou a maldizer e a jurar: “Não conheço esse homem de quem falais!” E, imediatamente, pela segunda vez, o galo cantou. E Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe havia dito: “Antes que o galo cante duas vezes, me negarás três vezes”. E começou a chorar (Mc 14 69b-72). O jovem Marcos aproximou-se então de Pedro, que chorava copiosa e amargamente, e sentou-se ao lado dele. Colocou seu braço direito ao redor dos ombros do discípulo de Jesus, procurando consolá-lo. A partir desse momento, uma grande amizade surgiu entre os dois, a ponto de mais tarde o Apóstolo referir-se a João Marcos nesses termos: “o meu filho” (1Pd 5,13). Percebendo que Pedro corria perigo de vida permanecendo naquele local, o filho de Maria de Betânia insistiu com ele para que o acompanhasse à sua residência. Ali Pedro passou a noite e ficou até o dia seguinte. Em seguida, reuniu-se aos outros discípulos, que estavam escondidos numa sala do andar de cima da mesma casa onde, no dia anterior, haviam celebrado a ceia com Jesus. Depois que contou aos seus parentes tudo o que havia acontecido, João Marcos voltou a Jerusalém com os três amigos de Jesus. Quando ali chegaram, Jesus, que acabara de ser entregue por Pilatos para ser crucificado, iniciava a sua dolorosa caminhada, carregando a cruz, rumo ao monte situado a noroeste, fora dos muros da cidade.70 Uma grande multidão o acompanhava, e os três irmãos, juntamente com o filho de Maria, acercaram-se dela. Apesar do perigo que estavam correndo, procuravam uma oportunidade para aproximar-se de Jesus.71 De repente ele caiu sob o peso de sua cruz. Então, os soldados romanos se detiveram tentando encontrar alguém no meio do povo que pudesse ajudá-lo a 62 carregá-la. Enquanto os soldados conversavam com certo Simão Cireneu, que passava por ali vindo do campo (cf. Mc 15,21), os três irmãos aproximaram-se do amigo. Submersos na dor que se abatera sobre eles, traziam em seus corações estas palavras: Grava-me, como um selo em teu coração, como um selo em teu braço; pois o amor é forte, é como a morte! Cruel como o abismo é a paixão; suas chamas são chamas de fogo, uma faísca de Iahweh! (Ct 8,6). Marta enxugou, com uma toalha, o rosto de Jesus, desfigurado pelos maus-tratos que havia recebido, e Maria, aproximando dos lábios do Mestre uma espécie de cantil contendo água, deu-lhe de beber. Lázaro segurou-o em seus braços, tentando reerguê- lo; e Jesus, sentindo-se reconfortado com a presença dos amigos, fitava-os com o olhar agradecido. Logo, porém, percebendo o que estava acontecendo, os soldados romanos os afastaram com rispidez. Jesus seguiu, então, o seu caminho. Mesmo de longe, João Marcos e os três irmãos de Betânia ficaram ao lado do amigo até o fim. Sentiam-se solidários, presentes, unidos a ele, compartilhando do seu sofrimento. Naquelas circunstâncias, nada podiam fazer por ele, a não ser se entregarem nas mãos de Deus. Depois da morte de Jesus e de seu sepultamento, Marta, Lázaro e Maria permaneceram em Jerusalém para celebrar a Páscoa. Também participaram de outras cerimônias que se realizavam no Templo, pois, sendo sábado o dia seguinte, só puderam retornar a Betânia no primeiro dia da semana.72 João Marcos ficou na Cidade Santa e, depois de alguns dias, foi à procura de Pedro. Quando Pedro e João Marcos se encontraram, este recebeu a alegre notícia de que Jesus havia ressuscitado e se manifestado primeiro às mulheres discípulas, que tinham ido ao sepulcro para prestar-lhe homenagem (cf. Jo 20; Mc 16,1-8 parr). Depois, ele apareceu aos Onze, no local onde eles estavam reunidos. Imediatamente, o jovem Marcos partiu para Betânia, para comunicar a seus parentes o que havia acontecido. A notícia trazida por João Marcos se espalhou pelos povoados e aldeias vizinhas como rastilho de pólvora, de tal maneira que uma multidão de cerca de quinhentas pessoas se aglomerou em frente à casa. A primavera havia irrompido com pujança e esplendor, e tudo parecia inundado de luz. O jardim da herdade de Betânia apresentava-se particularmente belo. Tulipas, jasmins, jacintos e narcisos vicejavam por toda parte. Botões de açucenas brancas surgiam entre folhas; e vermelhos botões de rosas entre espinhos. Os ciprestes e palmeiras exibiam brilhantes variações de verde; e as oliveiras, na sua exuberância, pareciam alegrar-se com o canto dos pássaros, que se aninhavam nos seus ramos. Enquanto os três irmãos falavam ao povo, o próprio Jesus apareceu no meio deles (cf. 1Cor 15,6). Mostrou-lhes as mãos e o lado e, ao vê-lo, todos ficaram cheios de 63 alegria. Jesus lhes disse: “A paz estejaconvosco! Como o Pai me enviou também eu vos envio”. Dizendo isso, soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,21-22). A partir desse dia, todos os presentes se sentiram confirmados na fé e enviados para testemunhar a ressurreição de Jesus. Lázaro, Marta e Maria tornaram-se missionários e exerceram intensa atividade apostólica em toda parte por onde andaram. Ao contemplá-lo, os três amigos de Jesus exultaram de alegria diante da sua glória, beleza e esplendor. Do íntimo de seus corações brotava este poema: O meu amado... se destaca entre dez mil. Sua cabeça é ouro puro, uma copa de palmeira seus cabelos, negros como o corvo. Seus olhos... são pombas à beira de águas correntes: elas se banham no leite e repousam na margem. Suas faces são canteiros de bálsamo, colinas de ervas perfumadas. Seus lábios são lírios com mirra que flui e se derrama. Seu aspecto é o do Líbano altaneiro, como um cedro. Assim é o meu amigo, assim o meu amado, ó filhas de Jerusalém (Ct 5,10-13.15b.16b). 73 Alguns dias depois desse acontecimento, os três irmãos estavam reunidos em torno da mesa grande de pinho para tomar o desjejum, que geralmente se fazia no fim da manhã, quando Lázaro não saía cedo para trabalhar no campo. De maneira geral, essa primeira refeição era frugal. Havia algumas rodelas de pão, um pote de azeitonas e algumas frutas: maçã, figo, uva ou romã. Havia também manteiga, e às vezes queijo ou ricota. Bebia-se normalmente leite de cabra ou de ovelha, e muito raramente de vaca. De repente, ouviram passos no interior do pátio. A saudação que se fez ouvir pareceu aos ouvidos dos moradores de Betânia bastante familiar. Tratava-se da Mãe de Jesus, que acabara de chegar, na companhia do discípulo João. Tinham vindo da parte dos apóstolos para convocar os amigos de Jesus para um encontro que se realizaria no Templo, no pórtico de Salomão.74 Ali eles pretendiam reunir todos os discípulos e discípulas que se encontravam em Jerusalém e nos seus arredores. Tratariam da eleição do substituto de Judas, e desejavam que um grande número de seguidores e seguidoras de Jesus ali estivesse presente (cf. At 1,15-26). Depois de uma calorosa acolhida por parte dos três irmãos, a Mãe de Jesus e João sentaram-se à mesa para partilhar da refeição que estavam iniciando. Antes, porém, de acordo com o costume da época, os dois homens lavaram as mãos até o cotovelo (cf. Mc 7,3; Mt 15,2), enquanto as mulheres traziam as travessas, umas de madeira e outras de cerâmica, contendo os alimentos. Num clima alegre e festivo, todos conversavam a respeito dos últimos acontecimentos ocorridos em Jerusalém: as diversas aparições de Jesus Ressuscitado, e a recomendação que ele dera a seus discípulos e discípulas de que permanecessem na cidade até serem revestidos da força do Alto (cf. Lc 24,49). A Mãe de Jesus escutava mais do que falava, permanecendo a 64 maior parte do tempo, numa atitude silenciosa e contemplativa. Seu rosto transmitia paz e serenidade: saboreava a presença do Filho e se sentia em perfeita comunhão com ele. Naquele dia o calor era intenso, sobretudo por causa dos ventos quentes que sopravam: o siroco, do lado do deserto, a leste; e o simum, que vinha do sudoeste. Por isso, logo depois da refeição, Lázaro e João subiram ao terraço para fazer a sesta, descansando à sombra de uma tenda, enquanto as mulheres carregavam as tigelas, pratos e vasos para serem lavados no pátio. Marta os mergulhava numa gamela de madeira com um pouco de sódio de cinza, e a Mãe de Jesus segurava uma bilha contendo água, que, aos poucos, derramava dentro do recipiente. Maria de Betânia punha ordem no recinto. Enquanto conversavam, Maria de Nazaré, que costumava repassar os acontecimentos da vida de Jesus, meditando-os em seu coração (cf. Lc 1,19.51), recordava, em retrospectiva, os momentos felizes que vivera com seu Filho, na companhia de seus amigos de Betânia. E compreendia o quanto essa experiência de amizade tinha sido importante na vida dele, contribuindo para que o acontecimento da irrupção do Mistério de Deus na história fosse vivido na sua plenitude. 66 Os prosélitos eram homens que, sem ser judeus de nascença, tinham se agregado ao povo eleito não somente observando a Lei, mas também aceitando a circuncisão. 67 Cf. LOHSE, op. cit., p. 106-108. 68 Anás exerceu a função de Sumo Sacerdote durante os anos de 6 a 15 d.C. Deposto pelos romanos, continuou exercendo grande influência, pois a maior parte dos sumos sacerdotes que o sucederam pertencia à sua família. 69 Tal como podemos ver nas atuais representações de Jesus na cruz. 70 Esse monte era conhecido como Gulgutha, forma aramaica do hebreu Gulgoleth, que significa crânio. O termo grego é Gólgotha e a versão latina Calvarium, daí a denominação final de Calvário. 71 Quando alguém era executado pelos romanos como agitador político, qualquer comportamento que fizesse reconhecer a pertença ao seu grupo constituía um perigoso ato de solidariedade. Esse ato poderia resultar igualmente em crucificação para as pessoas que o praticassem. Por isso, Pedro negou Jesus, e a maioria dos discípulos fugiu. 72 A distância que os judeus podiam percorrer num dia de sábado, sem violar a lei do repouso, foi reduzida pelo costume a cerca de mil metros. 73 “Bíblia Sagrada – Edição Pastoral”, São Paulo, Paulus, 1990. 74 Os cristãos de Jerusalém costumavam se reunir nesse local (cf. At 3,11; 5,12). 65 Capítulo 11 A MAIOR PROVA DE AMIZADE À medida que os dias se passavam, os irmãos de Betânia se tornavam verdadeiros ministros e missionários, anunciando Jesus ressuscitado nas cidades e aldeias da Judeia. A casa deles se transformou em igreja doméstica; lugar onde os cristãos se reuniam para orar, celebrar a Ceia do Senhor e ouvir a Palavra de Deus. Aos poucos, Marta foi assumindo grande liderança na igreja que se reunia na sua casa. Era nomeada com o título de diakonos (cf. Rm 16,1) que significava servidor, ministro e missionário, e com o título de apóstola (cf. Rm 16,7). Como diakonos, Marta exercia a função de um missionário a quem se confiava pregar e cuidar de igrejas. O título de apóstola designava que ela fazia parte do grupo privilegiado de homens e mulheres que haviam visto o Senhor, isto é, que haviam testemunhado a sua ressurreição e tinham sido enviados por ele para pregar e fundar igrejas. Tratava-se do grupo de liderança dos responsáveis pela missão cristã (cf. 1Cor 12,28). A casa de Betânia tornou-se então centro de irradiação da pregação do Evangelho para toda a Judeia, e diversas comunidades cristãs surgiram por toda aquela região (cf. At 9,31). Depois de ter exercido essa profícua atividade missionária em Betânia, Maria mudou-se para Jerusalém. Com a morte de Ananias, o jovem Marcos herdou a casa que era de seu pai, e Maria foi morar com ele. Logo que ali chegou, Maria assumiu a direção da residência e transformou-a numa igreja doméstica. Nesse local, a igreja de Jerusalém costumava reunir-se para orar e celebrar a Ceia do Senhor (cf. At 12,12). Maria de Betânia, juntamente com seu filho, participava ativamente da vida da comunidade. Lucas descreve com detalhes como viviam esses primeiros cristãos: Eles mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. De todos eles apossava-se o temor, pois numerosos eram os prodígios e sinais que se realizavam por meio dos apóstolos. Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um. Dia após dia, unânimes, mostravam-se assíduos no Templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e gozavam da simpatia de todo o povo. E o Senhor acrescentava cada dia ao seu número os que seriam salvos (At 2,44-47). Havia em Chipre um parente dos irmãos de Betânia, cujo pai tinha migrado para lá, tornando-se um judeu da diáspora. Ele era levita e costumava visitar seus parentes sempre que viajava à Cidade Santa.Chamava-se José e era muito versado nas Escrituras, possuindo grande erudição, pois tinha estudado durante vários anos numa das escolas rabínicas de Jerusalém. Havia duas escolas famosas: a de Hillel, mais 66 liberal, e a de Shamai, mais tradicional. Frequentando a escola de Hillel, José foi aluno do rabi Gamaliel, que desfrutava de alta consideração no Sinédrio (cf. At 5,34- 39). A ele o apóstolo Paulo atribuía a sua formação no farisaísmo (cf. At 22,3). Naquela época, Lázaro e José eram grandes amigos, e Lázaro desejava ardentemente que seu primo conhecesse Jesus. Certo dia, estando Jesus pregando no Templo, por ocasião da sua última viagem a Jerusalém, Lázaro levou seu parente para encontrar-se com ele. Tendo ouvido a discussão de Jesus com alguns saduceus (cf. Mc 12,18-27), José aproximou-se dele e perguntou: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” Jesus respondeu: “O primeiro é: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor, e amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento, e com toda a tua força. O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não existe outro mandamento maior do que esses” (Mc 12,28b-31). Ao ouvir Jesus falar, o primo de Lázaro compreendeu que Jesus estabelecia uma estreita conexão entre o amor a Deus e o amor ao próximo. Para ele, estes dois mandamentos são inseparáveis, pois não é possível amar a Deus e desinteressar-se dos irmãos e irmãs. Por outro lado, Jesus não confundia o amor a Deus e o amor ao próximo, como se fossem uma mesma coisa. Para ele, o amor a Deus tem uma primazia absoluta. Primeiro é preciso amar a Deus: buscar sua vontade, entrar em seu reino, confiar em seu perdão. Porém, o amor a Deus que exclui o próximo converte- se em mentira. Isso não significa que o próximo seja um meio ou uma ocasião para se praticar o amor a Deus. Jesus é concreto e realista: o próximo deve ser amado por si mesmo. Para isso é necessária uma atitude de compaixão, isto é, pôr em prática “a regra de ouro”: “Tratai os outros como quereis que eles vos tratem” (Lc 6,31; Mt 7,12). Amar o próximo “como a ti mesmo” significa, portanto, nos colocarmos na situação do outro e nos perguntarmos: o que quereríamos para nós? A “regra de ouro” nos põe a buscar o bem de todos de maneira incondicional. Jesus pensa em relações novas regidas não pelo interesse próprio ou pela utilização dos outros, mas pelo serviço concreto ao que mais sofre. Para ele, construir a vida como Deus a quer só é possível se se fizer do amor um imperativo absoluto.75 José ficou tão impressionado com a resposta do Mestre, que afirmou que ele havia respondido bem; pois amar a Deus de todo o coração, de toda a inteligência e com toda a força, e amar ao próximo como a si mesmo valia mais do que todos os holocaustos e sacrifícios. Então Jesus, fixando nele o olhar, replicou: “Tu não estás longe do Reino de Deus” (Mc 12,34). De fato, algum tempo depois desse acontecimento, José, ao ouvir a pregação de Pedro no dia de Pentecostes, pediu que fosse batizado em nome de Jesus. Tornou-se, então, um grande apóstolo e missionário. Ele recebeu o cognome de Barnabé, que significa “filho da consolação”. Vendeu um campo que possuía nos arredores de 67 Betânia e, com grande generosidade, foi depositar o dinheiro aos pés dos apóstolos (cf. At 4,36-37). Nessa ocasião, desencadeou-se uma violenta perseguição por parte das autoridades judaicas, contra a igreja de Jerusalém. Estêvão, um dos líderes da comunidade, foi apedrejado. Depois da sua morte, vários membros da comunidade se dispersaram (cf. At 11,19-21). Barnabé e seu primo Lázaro foram para Chipre. Ali, os dois exerceram uma intensa atividade apostólica. João Marcos e sua mãe Maria viajaram para Alexandria, onde fundaram a igreja daquela cidade (cf. História Eclesiástica 2,16,1;21,1). Alexandria era uma cidade helenista situada na extremidade oeste do delta do Nilo, na estreita península entre o mar Mediterrâneo e o lago de Mareótis, diante da ilha de Faro. Fundada em 331/332 a.C. por Alexandre Magno, era um centro comercial entre Oriente e Ocidente, residência dos Ptolomeus e sede das ciências helenísticas e judaicas. Sua população era extremamente mista e nela havia grande número de judeus. Em Alexandria, Maria e João Marcos instruíram um judeu chamado Apolo “no caminho do Senhor e no fervor do espírito” (At 18,25). Porém, como logo retornaram a Jerusalém, por causa dos estudos de João Marcos, a instrução de Apolo ficou incompleta. Apolo conhecia apenas o batismo de João, até sua instrução ser completada, mais tarde, na cidade de Éfeso, pelo casal cristão Priscila e Áquila (cf. At 18,24-28). Em Jerusalém, Maria de Betânia e seu filho Marcos retomaram as atividades apostólicas naquela comunidade. Sua casa voltou a ser centro de irradiação de toda a igreja daquela localidade. Ali os apóstolos se hospedavam quando vinham à Cidade Santa. Barnabé, como era primo dos donos da casa (cf. Cl 4,10), levou Paulo para lá, quando este foi a Jerusalém para ser apresentado aos apóstolos. Pedro também costumava reunir-se com os discípulos e discípulas de Jesus na casa de Maria, para orar e celebrar a Ceia do Senhor. Certo dia, durante a Páscoa, os cristãos de Jerusalém foram tomados de grande apreensão com a notícia de que Pedro havia sido preso pelo rei Herodes Agripa.76 Todos se reuniram na casa de Maria para orar e interceder por ele (cf. At 12,1-18). Enquanto estava na prisão, Pedro foi solto por uma intervenção miraculosa da parte de Deus e, logo em seguida, dirigiu-se à casa dos amigos. Quando bateu à porta, a criada Rosa, tendo ido atender, reconheceu Pedro. Ficou tão alegre e ao mesmo tempo tão assustada com a inesperada aparição do Apóstolo, que, em vez de abrir a porta, correu para anunciar aos discípulos e discípulas que Pedro estava diante do portão. Todos ficaram estupefatos com essa notícia e custaram a acreditar no que ouviam. Pedro, porém, continuou a bater; e quando lhe abriram a porta, ele narrou- lhes como o Senhor o havia libertado da prisão. Todos exultaram de alegria e 68 prorromperam em hinos de louvor e ação de graças a Deus pelo que havia acontecido. Maria, então, insistiu com Pedro para que tomasse algum alimento. Serviu-lhe pão, queijo, figos secos, tâmaras, mel e uma terrina de leite de cabra. Em seguida, João Marcos conduziu o amigo a um dos cômodos do piso superior, para que ele pudesse repousar um pouco. Pedro, porém, não se demorou ali por muito tempo; logo partiu, retomando suas atividades missionárias. Depois da fundação da igreja de Antioquia, a comunidade daquela cidade enviou Paulo e Barnabé em missão a Chipre e outras localidades (cf. At 13,1ss). Os dois apóstolos tinham se encontrado pela primeira vez, na época em que haviam estudado com Gamaliel, em Jerusalém. Barnabé resolveu, então, levar com eles o seu primo João Marcos. Depois de desembarcarem em Perge, na Panfília, o jovem Marcos recebeu uma mensagem da parte de sua mãe, comunicando-lhe que a criada Rosa estava gravemente enferma. Rosa, que se tornara cristã, gozava de grande consideração entre os membros da comunidade de Jerusalém. João Marcos dedicava- lhe afeição especial, pois, quando ele mais precisara, ela havia cuidado dele com desvelos de mãe. De fato, considerava-a como sua segunda mãe. Resolveu então retornar à Cidade Santa, para estar ao lado dela nos seus últimos momentos. Paulo não compreendeu essa decisão do jovem filho de Maria, pois, para ele, naquela ocasião, a missão era mais importante do que os laços de família. Mais tarde, Paulo e Barnabé resolveram partir para uma segunda viagem missionária (cf. At 15,37-40). Barnabé queria levar novamente João Marcos com eles, mas Paulo não concordou com essa ideia. Ele “exigia que não se levasse aquele que os deixara desde a Panfília e não os acompanhara no trabalho” (15,38). O desacordo entre Paulo e Barnabé foi tal, que tiveram que se separar. Barnabé embarcou com João Marcos para Chipre; e Paulo, escolhendo Silas como companheiro, partiu com ele parasua nova missão.77 Quando Barnabé e João Marcos embarcaram para Chipre, Maria foi juntamente com eles. Chipre é uma ilha situada no mar Mediterrâneo. Conquistada pelos romanos, tornou-se primeiro província imperial e depois senatorial, sendo governada, portanto, por um procônsul (cf. At 13,4-12). Ali havia vários judeus, e consequentemente sinagogas em todas as cidades. Em Chipre, Barnabé, Maria e João Marcos dedicaram-se a uma intensa atividade missionária, juntamente com Lázaro, que estava na ilha já havia algum tempo. Visitaram Salamina, Pafos e várias outras localidades. Ali Lázaro exercia grande liderança com o título de epíscopo, que em grego significa supervisor ou vigilante.78 Certa vez, estando em Salamina, Lázaro entrou na sinagoga e começou a pregar para os judeus que Jesus era o Messias. Repleto do Espírito Santo, testemunhava a ressurreição de Jesus com grande convicção. Os judeus, porém, ao ouvirem sua 69 pregação, ficaram enfurecidos e rangeram os dentes contra ele. Do mesmo modo como haviam feito em relação a Estêvão, precipitaram-se sobre ele dando grandes gritos, arrastaram-no para fora da cidade e o apedrejaram. Alguns discípulos, que ali se encontravam, levaram Lázaro gravemente ferido para a casa de seus parentes. Maria, Barnabé e João Marcos ficaram ao lado dele até o fim. Maria lembrava-se do dia em que Jesus o havia ressuscitado e, segurando as mãos lívidas do irmão, compreendia que dessa vez a sua ressurreição seria definitiva. Lázaro recordava-se das palavras de Jesus, quando ele dissera: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Alegrava-se por estar dando a maior prova de amor: entregando a vida pelo Amigo e testemunhando com coragem a sua ressurreição. Parecia-lhe ouvir a voz de Jesus, que lhe dizia: Sob a macieira te despertei, lá onde tua mãe te concebeu, concebeu e te deu à luz (Ct 8,5b). E o amigo de infância de Jesus respondia com convicção: As águas da torrente jamais poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo. Quisesse alguém dar tudo o que tem para comprar o amor... Seria tratado com desprezo (Ct 8,7). Depois do martírio de Lázaro, Barnabé partiu para colaborar com Paulo nas suas atividades missionárias. Maria e João Marcos foram para Roma, onde se encontraram com o apóstolo Pedro e exerceram intenso trabalho apostólico naquela cidade. Em Roma, Marcos era discípulo de Pedro, e dele aprendeu muito do que sabia sobre Jesus e que, mais tarde, registrou no seu evangelho. A maior parte dos seus conhecimentos, porém, ele o adquiriu da sua própria mãe. Maria de Betânia transmitiu ao filho tudo o que lembrava sobre Jesus e sobre a amizade dele para com sua família. De modo especial, relatou a Marcos a sua cura e a unção de Jesus como Messias. Em Roma, Maria trabalhou ativamente na evangelização dos pagãos daquela cidade. Por ter convivido muito de perto com Jesus e ser testemunha da sua ressurreição, era nomeada com o título de apóstola. Paulo, não esquecendo a colaboração que ela havia dado, referiu-se a ela nesses termos quando escreveu sua carta aos romanos: “Saudai Maria, que muito fez por vós” (Rm 16,6). Em Betânia, Marta continuou exercendo a diaconia até os últimos dias da sua vida. Dedicava-se ao anúncio do Evangelho e ao serviço dos pobres e doentes. Um dia, porém, caiu gravemente enferma e preparou-se para o encontro definitivo com Jesus. Lembrava-se de que costumava esperar as visitas do Mestre com grande ansiedade, e do quanto se esmerava em colocar-se a serviço do Reino anunciado por ele. Agora, enquanto aguardava a chegada do Amigo, que estava às portas, parecia- lhe ouvir a sua voz: A voz do meu amado! Vejam: vem correndo pelos montes, saltitando nas colinas! Como um gamo é meu amado... um filhote de gazela. Ei-lo postando-se atrás da nossa 70 parede, espiando pelas grades, espreitando da janela (Ct 2,8-9). Assim, a “senhora”, depois de uma vida longa e profícua dedicada ao serviço do Evangelho, entregou sua alma a Deus. No ano 54 d.C., o Imperador Cláudio foi envenenado por sua esposa, Agripina, que o assassinou para entronizar seu filho Nero. Quando assumiu o poder, Nero tornou-se um homem sem escrúpulos, mandando matar todas as pessoas que se opunham a ele, inclusive membros de sua própria família. Em 64 d.C., houve um incêndio de grandes proporções em Roma, e como correu um boato de que o próprio Nero havia ordenado o incêndio, ele acusou os cristãos, condenando à pena de morte todos os que eram presos. Essa primeira grande perseguição resultou no martírio dos apóstolos Pedro e Paulo, mais ou menos em 67 d.C. No ano seguinte, Nero se suicidou. Durante esses anos de perseguição, João Marcos e sua mãe partiram numa viagem missionária às comunidades da Ásia Menor, retornando a Roma depois da morte de Nero. Foi durante esse período, entre os anos 65 e 70 d.C., que Marcos escreveu seu Evangelho. Maria de Betânia viveu em Roma até os últimos dias da sua vida. Costumava dizer ao seu filho que, desde o dia em que ungira Jesus como Messias, suas mãos gotejavam perfume por onde andava, pois procurava viver de acordo com as palavras do apóstolo Paulo: Graças sejam dadas a Deus, que nos faz participar do seu triunfo em Cristo e que, através de nós, espalha o perfume do seu conhecimento no mundo inteiro. De fato, diante de Deus nós somos o bom perfume de Cristo (2Cor 2,14-15a).79 Assim vigilante, com sua lâmpada acesa (cf. Mt 25,1-13), Maria de Betânia aguardava a chegada do Amigo: Eu dormia, mas meu coração velava e ouvi o meu amado que batia: “Abre, minha irmã, minha amada, pomba minha sem defeito! Tenho a cabeça orvalhada, meus cabelos gotejam sereno!” Meu amado põe a mão pela fenda da porta: as entranhas me estremecem, minha alma, ouvindo-o, se esvai. Ponho-me de pé para abrir ao meu amado: minhas mãos gotejam mirra, meus dedos são mirra escorrendo na maçaneta da fechadura (Ct 5,2.4-5). Depois da partida de sua mãe, João Marcos foi morar em Alexandria, onde exerceu intensa atividade missionária. Ao escrever seu evangelho, ele pouco se referiu à amizade de Jesus com seus parentes. É que ele tinha a intenção de escrever outro evangelho, narrando o relacionamento de Jesus com seus amigos de Betânia (cf. Mc 1,1). Porém, Marcos não teve tempo de fazê-lo, pois morreu mártir em Alexandria antes de concluir a sua obra. Certamente, se ele pudesse ler estas páginas, haveria de alegrar-se com elas, pois manifestam o verdadeiro sentido das palavras de Jesus, quando ele, referindo-se aos seus discípulos e discípulas e a todos aqueles que 71 um dia haveriam de ser suas seguidoras e seus seguidores, disse: Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o quanto ouvi de meu Pai (Jo 15,15). 75 Cf. PAGOLA, op. cit., p. 305-310. 76 Herodes Agripa I era chamado “rei” para distingui-lo de seu tio, o tetrarca Herodes Antipas. Recebeu o título real do imperador Calígula em 37 d.C., mas na realidade foi rei da Judeia e da Samaria apenas de 41 a 44 d.C, quando morreu. Foi ele quem mandou matar à espada o apóstolo Tiago, irmão de João (cf. At 12,1-2). 77 Mais tarde, João Marcos colaborou com Paulo nas suas viagens missionárias (cf. Cl 4,10; Filemon 24; 2Tm 4,11), e Barnabé ajudou Paulo na evangelização de Corinto (cf. 1Cor 9,6). 78 Os epíscopos, que ainda não eram bispos na acepção rigorosa do termo, exerciam funções de dirigentes na comunidade. Eram encarregados não apenas da administração temporal, mas também do ensino e do governo, com a responsabilidade de um pastor para com o seu rebanho (cf. At 20,28; 1Tm 3,2-5; Tt 1,7-9). 79 “Bíblia Sagrada – Edição Pastoral”, São Paulo, Paulus, 1990. 72 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUTISTA, M. Jesus: sadio, saudável e terapeuta. São Paulo: Paulinas, 1997. BERGER, K. É possível acreditar em milagres? São Paulo: Paulinas, 2004. BÍBLIA DE JERUSALÉM. Notas de rodapé e introduções. São Paulo: Paulus, 1985. BÍBLIA SAGRADA – Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. BÍBLIA TEB. Notasde rodapé e introduções. São Paulo: Loyola, 1994. BOFF, C. O cotidiano de Maria de Nazaré. São Paulo: Salesiana, 2003. BORN, A. Van Den (org.). Dicionário Enciclopédico da Bíblia. 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Série. 13-02510 CDD-232 Índices para catálogo sistemático: 1. Amizade na vida de Jesus Cristo: Narrativa romanceada: Cristianismo 232 © PAULUS – 2013 Rua Francisco Cruz, 229 04117-091 São Paulo (Brasil) Fax (11) 5579-3627 Tel. (11) 5087-3700 www.paulus.com.br dir.editorial@paulus.com.br eISBN 978-85-349-3655-2 74 75 Scivias de Bingen, Hildegarda 9788534946025 776 páginas Compre agora e leia Scivias, a obra religiosa mais importante da santa e doutora da Igreja Hildegarda de Bingen, compõe-se de vinte e seis visões, que são primeiramente escritas de maneira literal, tal como ela as teve, sendo, a seguir, explicadas exegeticamente. Alguns dos tópicos presentes nas visões são a caridade de Cristo, a natureza do universo, o reino de Deus, a queda do ser humano, a santifi cação e o fi m do mundo. Ênfase especial é dada aos sacramentos do matrimônio e da eucaristia, em resposta à heresia cátara. Como grupo, as visões formam uma summa teológica da doutrina cristã. No fi nal de Scivias, encontram-se hinos de louvor e uma peça curta, provavelmente um rascunho primitivo de Ordo virtutum, a primeira obra de moral conhecida. Hildegarda é notável por ser capaz de unir "visão com doutrina, religião com ciência, júbilo carismático com indignação profética, e anseio por ordem social com a busca por justiça social". Este livro é especialmente significativo para historiadores e teólogas feministas. Elucida a vida das mulheres medievais, e é um exemplo impressionante de certa forma especial de espiritualidade cristã. 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A sua palavra deixou-me em paz; repousei tranquilamente: 'Pois bem, o sacrifício foi feito'. Deixou-me. Quem poderia descrever em detalhes quão bela, quão querida é a Mãe celeste? Não, certamente não existe comparação. Quando terei a felicidade de vê-la novamente? Compre agora e leia 78 http://www.mynextread.de/redirect/Amazon+%28BR%29/3036000/9788534936552/9788534945714/4ae0abea261a624b9d63efb4806d5450 http://www.mynextread.de/redirect/Amazon+%28BR%29/3036000/9788534936552/9788534945714/4ae0abea261a624b9d63efb4806d5450 79 DOCAT Youcat, Fundação 9788534945059 320 páginas Compre agora e leia Dando continuidade ao projeto do YOUCAT, o presente livro apresenta a Doutrina Social da Igreja numa linguagem jovem. Esta obra conta ainda com prefácio do Papa Francisco, que manifesta o sonho de ter um milhão de jovens leitores da Doutrina Social da Igreja, convidando-os a ser Doutrina Social em movimento. 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CULTIVANDO A AMIZADE 11 Capítulo 3. OS AMIGOS SE DISPERSAM 18 Capítulo 4. A VOLTA AO LAR 27 Capítulo 5. O REENCONTRO COM JESUS 32 Capítulo 6. UM TOQUE AMIGO E RESTAURADOR 37 Capítulo 7. EXERCENDO A DIACONIA 42 Capítulo 8. LÁGRIMAS EM BETÂNIA 48 Capítulo 9. A UNÇÃO DO MESSIAS 53 Capítulo 10. SOLIDÁRIOS NA DOR E NA ALEGRIA 59 Capítulo 11. A MAIOR PROVA DE AMIZADE 66 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 73 85 Capítulo 1. OS FILHOS DA PROMESSA Capítulo 2. CULTIVANDO A AMIZADE Capítulo 3. OS AMIGOS SE DISPERSAM Capítulo 4. A VOLTA AO LAR Capítulo 5. O REENCONTRO COM JESUS Capítulo 6. UM TOQUE AMIGO E RESTAURADOR Capítulo 7. EXERCENDO A DIACONIA Capítulo 8. LÁGRIMAS EM BETÂNIA Capítulo 9. A UNÇÃO DO MESSIAS Capítulo 10. SOLIDÁRIOS NA DOR ENA ALEGRIA Capítulo 11. A MAIOR PROVA DE AMIZADE REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS