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QUIMICA TECNOLÓGICA E CIÊNCIA DO AMBIENTE Germano Scarabeli Custódio Assunção OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar os princípios das reações de combustão. > Relacionar as variações ocorridas nas reações de combustão utilizando diferentes combustíveis. > Expressar os dois tipos de combustão (completa e incompleta) e medir seu rendimento energético por meio da entalpia de combustão. Introdução As máquinas térmicas são equipamentos que utilizam a energia de determinado fluido para produzir trabalho mecânico. Seu desenvolvimento inicial se deu a partir do uso do vapor, ao longo do século XVIII. Porém, com o surgimento do ciclo Otto (desenvolvido por Nikolaus August Otto e Eugen Langen em 1876) e do ciclo Diesel (desenvolvido por Rudolf Diesel, que registrou a patente desse tipo de motor em 1897), o petróleo e seus derivados ganharam protagonismo como fluido de trabalho. Ao se usar combustíveis, a energia necessária para gerar movimento nos equipamentos é proveniente da reação de combustão, que envolve a oxidação de determinado hidrocarboneto na presença de oxigênio. Essa reação química, chamada de reação exotérmica, libera alta quantidade de energia de forma ins- tantânea, que é aproveitada para produzir trabalho ou para gerar calor — que será usado para produzir vapor, para máquinas movidas a vapor, por exemplo. Neste capítulo, você vai estudar de forma mais detalhada o processo de com- bustão. Você vai compreender os fundamentos desse processo, os principais conceitos envolvidos para se classificar a combustão e os principais combustíveis utilizados, com ênfase na diferença de entalpia que a queima de cada um deles gera. Combustão Fundamentos da combustão Nos processos de reação química, as ligações das moléculas dos reagentes são quebradas, e os átomos e elétrons são reorganizados para formar os chamados produtos. O processo de combustão nada mais é que uma reação química, em que a rápida oxidação dos elementos químicos do combustível resulta na liberação de energia, à medida que a reação ocorre, e gera como produtos água, gás carbônico e outros gases. De forma simplificada, os dois elementos químicos presentes nos combus- tíveis comercialmente utilizados são o carbono e o hidrogênio, que originam o hidrocarboneto, termo que ouvimos rotineiramente. Esses elementos químicos são os principais reagentes das reações de combustão que movimentam diversos tipos de motores e equipamentos. O enxofre e outras substâncias químicas também são encontrados nas reações de combustão observadas em nosso cotidiano, mas em menor frequência e usualmente como um “efeito colateral” da reação. Os hidrocarbonetos são produtos provenientes de uma origem fóssil, o petróleo cru. Tal matéria-prima é desenvolvida em um processo que de- mora milhares de anos em condições geológicas específicas, com pressões e temperaturas adequadas. As características rochosas do ambiente em que o petróleo se desenvolve, bem como as demais características ambien- tais, vão influenciar a qualidade do material extraído durante a produção e interferir no processo de refino e, consequentemente, no combustível final (hidrocarboneto) produzido. Os exemplos mais comuns de hidrocarbonetos utilizados atualmente são gasolina, óleo diesel e gás natural. No estudo teórico da energia produzida por esses elementos, é comum representar os hidrocarbonetos em termos de sua fração mássica. Essa representação permite estimar a energia produzida a partir da combustão de determinado combustível em específico. A gasolina, por exemplo, é frequentemente modelada como octano, com as seguintes frações mássicas: C8H18. Já o óleo diesel é modelado como dodecano, C12H26, e o gás natural como metano, CH4. Conforme explicam Çengel e Boles (2013), embora os combustíveis em si sejam misturas de hidrocarbonetos diferentes, geralmente são considerados um só, com formulação geral CnHm por conve- niência, para facilitar a análise realizada. Combustão2 Dependendo da quantidade de carbono e hidrogênio presentes no com- bustível, diferentes quantidades de energia serão liberadas durante a queima. Neste contexto, o entendimento do conceito de combustão completa e incom- pleta se faz necessário. Diz-se que a combustão é completa quando todos os reagentes são complemente oxidados, enquanto, na combustão incompleta, parte dos reagentes disponíveis não são completamente oxidados, seja por falta de oxigênio, por avarias devido à falta de manutenção, por tempo de queima insuficiente ou devido a condições de projeto que não permitem uma mistura eficiente dos reagentes. O papel do ar na combustão No processo de combustão, o hidrocarboneto pode ter diferentes composições, conforme vimos. Entretanto, um reagente comumente observado em todos esses processos é o ar. Por sua abundância, o ar é o reagente responsável por oxidar o combustível, ou seja, fazer a reação acontecer de fato. De forma mais objetiva, o gás necessário para que a reação de combustão ocorra é o oxigênio (O2) presente no ar. Entretanto, o oxigênio puro somente é usado em condições em que o ambiente da queima deve ser controlado, como em processos de soldagem (para evitar contaminação das ligas), devido ao custo maior de sua obtenção. O ar por si só já é modelado de forma simplificada no processo de com- bustão. No ar, há água e micropartículas, além de diversos gases. No en- tanto, usualmente é modelado como ar seco (sem presença de umidade), e considera-se que existam somente dois gases nas seguintes proporções em base molar: 21% de oxigênio e 79% de nitrogênio. Assim, quando o ar seco fornece oxigênio em uma reação, cada mol de oxigênio está associado a 3,76 mol de nitrogênio. A equação (1) apresenta de forma esquemática o ar seco usualmente considerado na reação de combustão: 1 kmol O2 + 3,76 kmol N2 = 4,76 kmol ar seco (1) Combustão 3 A composição de uma mistura, como o ar atmosférico, é expressa de forma usual de duas diferentes maneiras: fração mássica e fração molar. A análise de fração mássica leva em consideração a porcentagem de massa de cada elemento em uma mistura. Matematicamente, é o quociente entre a massa de um determinado constituinte e a soma das massas de todos os constituintes da mistura. De forma similar, a fração molar é uma forma alternativa de expressar a concentração de um constituinte em uma mistura. Para cada constituinte, a fração molar é o número de mols do constituinte dividido pelo número total de mols na solução. Sendo que o número de mols depende da massa do constituinte e de sua massa molar (característica intrínseca de cada elemento químico). Moran et al. (2013) explicam que o nitrogênio, nesse caso, é considerado como gás inerte — ou seja, considera-se que ele não participa da reação química. Embora o nitrogênio se comporte como gás inerte, ele sempre é considerado no processo de reação da combustão, pelo fato de a sua conside- rável quantidade em proporção molar poder influenciar o balanço energético do sistema. Isso acontece porque o nitrogênio (juntamente com os demais gases presentes no ar seco) entra na câmara de combustão em grandes quantidades a uma baixa temperatura e sai com temperaturas relativamente altas (gases de exaustão), absorvendo na forma de calor sensível parte da energia química liberada durante o processo. Além disso, embora seja um gás inerte para a maioria das reações de combustão, em condições específicas, como altas temperaturas dos reagentes, o nitrogênio pode formar óxido nítrico e dióxido de nitrogênio, promovendo um aumento de probabilidade de a reação observada ser do tipo incompleta. O vapor de água, usualmente presente devido à umidade presente no ar e gerado como produto da reação de combustão, assim como o nitrogênio, usualmente também é considerado como gás inerte. Embora essa abordagem simplificadora seja satisfatória para a maioria dos casos, Çengel e Boles (2013) explicam que, caso os produtos da combustão se encontrem emtempera- turas muito altas, as moléculas de H2O presentes na forma de vapor podem se dissociar em H2, O2, H, O e OH, o que elimina a condição de gás inerte nesses casos. Além disso, caso a temperatura dos gases de exaustão fique abaixo do ponto de orvalho do vapor de água (na pressão correspondente), há a possibilidade de o vapor se condensar, o que é altamente danoso ao sistema, pois, combinado ao enxofre que pode estar presente como produto da combustão, forma ácido sulfúrico, que é corrosivo. Combustão4 Devido à complexidade de modelagem, as impurezas presentes no ar para a maioria das reações estudadas são desconsideradas no processo, embora, em projetos científicos mais específicos, tal variável não seja desconsiderada, por influenciar os resultados observados. Temperatura de ignição Para que o processo de combustão ocorra, além do elemento combustível e do agente oxidante, outro parâmetro importante deve ser satisfeito: a temperatura de ignição. O mero contato dos reagentes não é suficiente para causar a combustão, pois, para que isso ocorra, o combustível deve ter sua temperatura aumentada acima da chamada temperatura de ignição. A tem- peratura de ignição é, por definição, a menor temperatura que o vapor de combustível consegue queimar continuamente após entrar em contato com oxigênio e uma fonte externa de calor. Essa temperatura é também conhecida como ponto de inflamabilidade. A fonte externa de calor (como uma centelha, como observamos nos motores a gasolina) se faz necessária para fornecer a chamada energia de ativação. No estudo das reações químicas, a energia de ativação de uma reação é a energia mínima necessária para iniciar uma reação química. Essa energia pode ser entendida como a energia cinética que as moléculas possuem. Caso tenham energia cinética suficiente, os reagentes, ao colidirem, têm suas ligações rompidas, conduzindo para que a reação química ocorra de fato. A Figura 1 ilustra esquematicamente como ocorre uma reação de combustão em função da energia disponível para sua ativação. Figura 1. Balanço de energia em uma reação de combustão. Combustão 5 A temperatura de ignição não deve ser confundida com temperatura de autoignição. Essa última é a menor temperatura que o combustível em contato com oxigênio entra em combustão sem a necessidade de nenhuma fonte de calor externa. Na temperatura de autoignição, os reagentes já possuem energia suficiente para superar a energia de ativação da reação. De forma prática, a temperatura de ignição e autoignição é o que dife- rencia, por exemplo, o funcionamento dos motores a gasolina e a diesel. Os motores a gasolina funcionam seguindo o ciclo Otto. Nesses ciclos, a mistura ar e combustível é comprimida, aumentando a temperatura das misturas dos reagentes. Após o processo de compressão, uma centelha é produzida, iniciando o processo de combustão. Nos motores a diesel — ciclo Diesel —, a mistura ar e combustível é comprimida até que a temperatura de autoignição seja alcançada — ou seja, não há a presença da centelha (fonte de calor externa). Para que a autoignição ocorra, maiores taxas de compres- são devem ser realizadas nos motores a diesel, o que demanda uma rigidez estrutural maior e aumenta a quantidade de material utilizado, refletindo no aumento do seu peso, por exemplo. Combustíveis e a combustão De acordo com as características geológicas de onde o petróleo cru foi formado e do processo de refino que o hidrocarboneto sofreu, diferentes combustíveis — com diferentes composições químicas — podem ser obtidos. Conforme já discutido anteriormente, os principais combustíveis comercialmente utilizados são gasolina, óleo diesel e gás natural. As proporções de carbono e hidrogênio de cada combustível influenciarão diretamente no seu poder calorífico, ou seja, na energia gerada durante sua combustão. O Quadro 1 apresenta uma comparação energética entre alguns combustíveis rotineiramente utilizados, além dos três acima mencionados. Observando a coluna “Conteúdo de energia (kJ/L)”, nota-se que o diesel pesado é o hidrocarboneto que apresenta maior energia em sua queima, enquanto o gás natural comprimido (GNC) é o que libera menos energia na reação de combustão. Outra importante constatação feita a partir do Quadro 1 é que não é somente a proporção dos reagentes que interferirá na energia produzida na combustão, mas também a fase em que o hidrocarboneto se encontra, bem Combustão6 como as condições de temperatura e pressão. O GNC e o gás natural liquefeito (GNL), por exemplo, são compostos majoritariamente do mesmo elemento, mas em condições diferentes, o que altera a relação da energia gerada en- tre eles em aproximadamente 2,5 vezes. O GNC é usualmente encontrado em veículos, sendo armazenado em cilindros na fase gasosa, com pressões que variam entre 150 e 200 atm. Já o GNL se encontra na fase líquida, com temperaturas próximas de –160°C. Ambos são compostos principalmente por metano (além de outros elementos em menores concentrações, como etano, propano, hélio e vapor de água), mas, por se encontrarem em fases e condições de pressão e temperatura distintas, há considerável variação na energia liberada durante a combustão. Quadro 1. Energia de alguns combustíveis Combustível Conteúdo de energia (kJ/L) Equivalência da gasolina* (L/L-gasolina) Gasolina 31.850 1 Diesel leve 33.170 0,96 Diesel pesado 35.800 0,89 GLP (gás liquefeito de petróleo, principalmente propano) 23.410 1,36 Etanol (ou álcool etílico) 29.420 1,08 Metanol (ou álcool etílico) 18.210 1,75 GNC (gás natural comprimido, principalmente metano, a 200 atm) 8.080 3,94 GNL (gás natural liquefeito, principalmente metano) 20.490 1,55 *Quantidade de combustível cujo conteúdo de energia é igual ao conteúdo de energia de 1 L de gasolina. Fonte: Adaptado de Çengel e Boles (2013). Combustão 7 De forma global, observa-se na coluna “Equivalência da gasolina (L/L-gasolina)”, na Figura 2, que gasolina, diesel leve e etanol liberam apro- ximadamente a mesma quantidade de energia. Embora possuam diferentes proporções de carbono e hidrogênio em sua formação, uma característica comum entre esses três combustíveis é que eles se encontram na forma líquida. Os combustíveis líquidos são frequentemente derivados de óleo cru, por meio de processos de destilação e de craqueamento, conforme explicam Moran et al. (2013). Além dos combustíveis líquidos, são comuns os combustíveis na forma de hidrocarbonetos gasosos ou sólidos. O já citado GNC é um exemplo de hidrocarbonetos gasosos, que são obtidos em poços de gás natural ou são produzidos sinteticamente por meio de processos químicos. O carvão é um exemplo de combustível sólido e, assim como os demais, sua composição varia consideravelmente conforme o local em que foi extraído. No processo de modelagem e análise da combustão de diferentes com- bustíveis, um parâmetro usado para indicar de forma padronizada a quantidade de ar e combustível presente na combustão é a razão ar-combustível. A razão ar-combustível, conforme o nome diz, é a razão entre a quantidade de ar e a quantidade de combustível presentes em uma reação. Tal razão pode consi- derar tanto a base mássica (AC) quanto a base molar ( ); seus cálculos são realizados seguindo as equações (2) e (3), respectivamente: (2) (3) onde m representa a massa e n a quantidade de mols. Desenvolvendo as equações (2) e (3), é possível encontrar a relação entres ambas as variáveis como sendo: (4) Combustão8 onde Mar representa a massa molar do ar (28,97 kg/kmol) e Mcombustível representa a massa molar do combustível (que vai depender do hidrocarboneto utilizado). É comum encontrar também em alguns manuais e handbooks a recíproca da razão ar-combustível, que é a razão combustível-ar. Esse parâmetro é obtido apenas invertendo-se as equações (2), (3) e (4). No estudo da relação ar-combustível em uma reação, outro conceito impor- tante surge: o ar teórico. A quantidadede ar teórico representa a quantidade mínima necessária para que a combustão completa apresentada na equação (1) aconteça para determinado hidrocarboneto. Nessa situação, conforme ressaltam Potter e Somerton (2017), nenhuma quantidade de oxigênio livre aparece nos produtos. O exemplo a seguir demonstra como fazer o balanço estequiométrico da combustão completa do octano (usualmente considerado como gasolina) e como obter a razão ar-combustível. Determine a razão teórica ar-combustível em base mássica para a combustão completa de octano (C8H18) com quantidade teórica de ar. Solução: � Como há a quantidade teórica de ar, pode-se considerar que o octano é completamente queimado. Dessa forma, conforme apresenta a equação (1), os produtos da combustão serão dióxido de carbono, água e nitrogênio: C8H18 + a(O2 + 3,76N2) → b(CO2) + c(H2O) + dN2 � Com base nesse equacionamento e aplicando-se o princípio da conservação de massa (o número total de átomos de cada elemento do reagente se conserva durante uma reação), determina-se que: a = 12,5, b = 8, c = 9 e d = 47. Dessa forma, a equação ficará balanceada da seguinte maneira: C8H18 + 12,5(O2 + 3,76N2) → 8(CO2) + 9(H2O) + 47N2 Combustão 9 � Usando a equação balanceada, é possível calcular a AC da seguinte maneira: Observe que o valor da massa molar do ar foi informado previamente no texto, e os valores das massas molares do carbono e do hidrogênio podem ser rapidamente obtidos por meio de uma tabela periódica. Os valores dos mols utilizados são obtidos a partir da equação balanceada. Note que o valor obtido para a mistura ar-combustível se encontra próximo dos valores usualmente observados em carros populares movidos a gasolina, que apresentam valores aproximados de razão ar-combustível de 14 kg(ar)/ kg(combustível). Considerando que a gasolina comercialmente utilizada é uma mistura com os mais diversos hidrocarbonetos, e não somente octano, e que o processo de combustão no motor automotivo não ocorre de forma completa, podemos concluir que a análise teórica se mostrou bastante satisfatória para uma análise global da combustão da gasolina. Balanço energético da combustão Conforme visto de forma prévia nas seções anteriores, a combustão pode ser dividida em combustão completa e incompleta. No caso da combustão completa, todo o carbono presente no combustível forma dióxido de carbono, todo o hidrogênio gera água, o enxofre (quando presente) produz dióxido de enxofre, e todos os demais elementos químicos são complemente oxidados. A equação (5) apresenta de forma esquemática o que acontece em uma reação de combustão completa. Caso uma destas condições não aconteça, a combustão é designada como combustão incompleta. Combustível(hidrocarboneto) + ar → xCO2 + yH2O + zN2 (5) Combustão10 De forma prática, embora o estudo da combustão completa seja funda- mental para determinar as premissas básicas de projeto, é mais comum se observar a combustão incompleta nos diversos equipamentos que envolvem o uso da combustão (motores, turbinas aeronáuticas, caldeiras, etc.). Isso acontece pelo fato de a combustão ser um processo de difícil controle e a instantaneidade da reação fazer com que nem todos os reagentes sejam utilizados em sua completude, gerando produtos que não são observados na combustão completa. Assim, uma pergunta natural a ser feita é: se usualmente observamos a combustão incompleta, por que estudar as teorias envolvendo combustão completa? Os três principais motivos para isso são: 1. com a análise das reações químicas da combustão completa, é possível estimar a energia produzida por determinado hidrocarboneto; 2. a reação completa é mais simples de ser analisada, permitindo uma avaliação inicial da situação estudada sem grandes desafios de balanço estequiométrico; 3. como a combustão incompleta ocorre sem controle, é impraticável equacionar as reações químicas que estão ocorrendo. Dessa forma, é comum no estudo da combustão incompleta estimar os reagentes em excesso e, assim, prever os subprodutos da combustão. Entre- tanto, essa abordagem não gera resultados 100% confiáveis. Tal informação será somente confirmada a partir de uma análise experimental, com medição in loco dos produtos gerados. A diferença dessa reação para a combustão incompleta é a proporção dos reagentes e os tipos de produtos formados. Durante o processo de combustão, as ligações que ligam os átomos das moléculas dos reagentes são quebradas e novas ligações são produzidas, gerando os produtos. Entretanto, a energia necessária para gerar as ligações das moléculas dos produtos usualmente é menor do que a energia liberada na queima dos reagentes. Essa diferença provoca um balanço positivo de energia no sistema — ou seja, energia é liberada durante esse processo. Esse tipo de reação é chamado de ligação exotérmica. Além dessa variação de energia devido às ligações químicas, mudanças de fase também podem interferir no balanço energético, bem como variações de energias cinética, potencial e nuclear. Entretanto, essas variações de energia pontuadas usualmente são desprezadas no estudo de combustão, seja pela ordem de grandeza consideravelmente menor do que a energia química (no caso das energias potencial e cinética), seja pelo fato de não serem usualmente observadas (energia devido à mudança de fase ou energia nuclear). Combustão 11 Assim, de forma prática, para quantificar a energia liberada durante uma determinada reação química, basta calcular a diferença de entalpia entre os produtos e os reagentes. A entalpia, nesse caso, representa a energia das ligações químicas envolvidas. Como essa variação de entalpia é diferente para diferentes reações, é comum na combustão se usar o conceito de entalpia de combustão (hc). Trata-se da diferença entre a entalpia dos produtos (Hprod) e a dos reagentes (Hreag) em um processo de combustão em regime permanente, quando 1 kmol (ou 1 kg) de combustível é queimado a pressão e temperatura especificadas. A equação (6) sintetiza essa informação: hc = Hprod – Hreag (6) De forma prática, o que se faz é estabelecer um estado em que determinada substância exista no ambiente de referência padrão de forma estável. O N2, O2, H2 e C, por exemplo, existem de forma estável no ambiente de referência padrão e, para esses casos, possuem a chamada entalpia de formação zero (h̅f = 0). Assim, a entalpia de formação pode ser vista como a entalpia de uma substância em um estado especificado devido à sua composição química. Para quantificar a variação de energia devido ao balanço das ligações químicas, usualmente se usa uma condição de referência comum a todas as substâncias. O ambiente de referência padrão de determinada substân- cia é baseado na temperatura de 25°C e na pressão de 1 atm. Caso os reagentes ou os produtos estejam fora dessa condição (e de fato usualmente estão), basta fazer a diferença entre a entalpia ou a energia interna do estado especificado da entalpia e a energia interna nessas condições padrão (h° e u°). No processo de formação do CO2, por exemplo, como C e O2 são estáveis a 25°C e 1 atm, Hreag nesse caso é zero. Como a variação de entalpia da reação de formação do CO2 (C + O2 → CO2) a 25°C e 1 atm é de aproximadamente − 393 kJ/mol, é comum dizer que a entalpia de formação do CO2 é: Combustão12 O sinal negativo apenas indica que a energia para manter a ligação do CO2 é menor do que a energia química para manter as ligações de C e de O2. Assim, quando essa reação ocorre, energia é liberada, deixando o sistema na forma de calor (reação exotérmica). Os valores de entalpia de formação de diferentes compostos são usual- mente tabelados. Assim, sabendo esses valores e utilizando a equação (6), é possível calcular a energia liberada durante o processo de combustão de determinado hidrocarboneto. Note que esse cálculo não fica restrito a con- dições de combustão completa. Se as proporções dos produtos em reações incompletas são devidamenteestabelecidas, a entalpia de combustão pode também ser calculada. Dentro desse contexto de balanço energético das reações, outro conceito importante é o poder calorífico do combustível. O poder calorífico nada mais é que o valor absoluto da entalpia de combustão de determinado combustí- vel. Entretanto, conforme explicam Çengel e Boles (2013), o poder calorífico depende da fase da H2O nos produtos. O poder calorífico é chamado de poder calorífico superior (PCS) quando a H2O dos produtos está na forma líquida, e poder calorífico inferior (PCI) quando a H2O dos produtos está na forma de vapor. Ambos os poderes caloríficos são relacionados por meio da equação (7): PCS = PCI + (mhlv)H2O (7) Onde m é a massa de H2O dos produtos e hlv é a entalpia de vaporização da água em uma temperatura específica. A Figura 2 apresenta PCS e PCI para os principais combustíveis comercialmente utilizados. Tais valores são deter- minados a partir da entalpia de formação de cada dos compostos envolvidos. De forma geral, podemos entender os valores observados na Figura 2 como a energia por unidade de massa liberada na combustão de determinado combustível; quanto maior, maior a energia liberada. Há casos em que os dados da entalpia de formação não estão disponíveis para consulta, assim, os equacionamentos apresentados são impraticáveis. Para essas situações, os valores da energia liberada na queima são obtidos por meio de calorímetros. Ou seja, para esses casos em específico, as infor- mações são obtidas experimentalmente. Combustão 13 Figura 2. Propriedades combustíveis comumente usadas. Fonte: Adaptada de Çengel e Boles (2013). Temperatura adiabática de chama No processo de combustão, a energia liberada devido à reação exotérmica usualmente é aproveitada na forma de trabalho — por exemplo, nos pistões dos motores de combustão, que geram a potência dos carros e caminhões. Nesse contexto de uso prático da energia da combustão, um conceito importante surge: a temperatura teórica de chama ou temperatura adiabática de chama. Caso não haja interações de trabalho e variações das energias cinética e potencial, a energia química liberada é inteiramente na forma de calor. Quanto mais termicamente isolado for o sistema, menos calor é perdido para a vizinhança e maiores são as variações de temperatura dos produtos da combustão. Caso o sistema em estudo seja adiabático, toda a energia liberada na combustão é usada para o aumento da temperatura dos produtos, para que atinjam a temperatura máxima possível. Essa temperatura é chamada de temperatura adiabática de chama. Combustão14 Matematicamente, a temperatura adiabática de chama ocorre quando Hprod = Hreag. A determinação dessa temperatura é importante, pois permite es- timar a temperatura máxima a que determinado material será submetido. Uma das propriedades mais importantes que devem ser consideradas na seleção do material usado no processo construtivo de determinado componente é a temperatura a que ele resiste. A temperatura adiabática de chama serve como condição basilar para essa seleção, sendo uma estimativa conservadora, uma vez que a combustão, em geral, é incompleta, há trabalho sendo realizado e as condições não são adiabáticas. Isso altera sensivelmente a temperatura real a que o material será submetido, podendo o valor observado ser centenas de graus abaixo da temperatura adiabática de chama. Referências ÇENGEL, Y. A.; BOLES, M. A. Termodinâmica. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. MORAN, M. J. et al. Princípios de termodinâmica para engenharia. 7. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2013. POTTER, M. C.; SOMERTON, C. W. Termodinâmica para engenheiros. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2017. Combustão 15