Prévia do material em texto
VARIANTES TEXTUAIS
DO NOVO TESTAMENTO
Análise e Avaliação do Aparato Crítico
de “O Novo Testamento Grego”
VARIANTES TEXTUAIS
DO NOVO TESTAMENTO
Análise e Avaliação do Aparato Crítico
de “O Novo Testamento Grego”
Adaptação do Comentário Textual de
Bruce M . M etzger
às necessidades de tradutores
e estudiosos da crítica textual
por
R oger L. O manson
Tradução e adaptação ao português
por
V1LSON SCHOLZ
Sociedade Bíblica
do Brasil
3c
3C
DEUTSCHE BIBELGESELLSCHAFT
Missão da Sociedade Bíblica do Brasil:
Promover a difusão da Bíblia e sua mensagem como instrumento de transfor-
mação espiritual, de fortalecimento dos valores éticos e morais e de incentivo ao
desenvolvimento humano, nos aspectos espiritual, educacional, cultural e social,
em âmbito nacional.
Omanson, Roger L.
Variantes textuais do Novo Testamento. Análise e avaliação do aparato
crítico de “O Novo Testamento Grego” / Roger L. Omanson; tradução
e adaptação de Vilson Scholz. Barueri, SP : Sociedade Bíblica
do Brasil, 2010.
624 p. : II. ; 16 x 23 cm
Título original: A Textual Guide to the Greek New Testament.
ISBN 978-85-3111245-4־
1. Novo Testamento. 2. Crítica Textual. 3. Variantes Textuais. I. Sociedade
Bíblica do Brasil.
CDD 220.9
Omanon, Roger, A Textual Guide to the Greek New Testament,
© 2006 Deutsche Bibelgesellschaft, Stuttgart. Usado com permissão.
Publicado no Brasil por Sociedade Bíblica do Brasil
© 2010 Sociedade Bíblica do Brasil
Αν. Ceei, 706 - Tamboré
Barueri, SP - CEP 06460-120
Cx. Postal 330 - CEP 06453-970
www.sbb.org.br - 0800-727-8888
Todos os direitos reservados
Tradução e adaptação ao português: Vilson Scholz
Revisão, edição e diagramação: Sociedade Bíblica do Brasil
Integralmente adaptado à reforma ortográfica.
Este livro foi escrito para ser usado em conjunto com O Novo Testamento Grego
(edição da Sociedade Bíblica do Brasil) ou a quarta edição do The Greek New
Testament (edição das Sociedades Bíblicas Unidas)
Impresso no Brasil
EA983VTNT - 5.000 - SBB - 2010
INDICE
Prefacio...............................................................................................................................vii
Introdução: A prática da crítica textual do Novo Testamento...................................xii
Bibliografía.................................................................................................................... xxxv
Abreviaturas.................................................................................................................xxxix
O Evangelho Segundo Mateus.......................................................................................... 1
O Evangelho Segundo Marcos........................................................................................56
O Evangelho Segundo Lucas......................................................................................... 107
O Evangelho Segundo João.......................................................................................... 163
Atos dos Apóstolos..........................................................................................................215
Carta de Paulo aos Romanos........................................................................................296
Primeira Carta de Paulo aos Corintios........................................................................ 331
Segunda Carta de Paulo aos Corintios........................................................................ 361
Carta de Paulo aos Gálatas........................................................................................... 382
Carta de Paulo aos Efésios............................................................................................ 393
Carta de Paulo aos Filipenses.......................................................................................412
Carta de Paulo aos Colossenses................................................................................... 422
Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses........................................................... 436
Segunda Carta de Paulo aos Tessalonicenses........................................................... 444
Primeira Carta de Paulo a Timoteo............................................................................ 449
Segunda Carta de Paulo a Timoteo.............................................................................457
Carta de Paulo a Tito..................................................................................................... 461
Carta de Paulo a Filemom............................................................................................. 466
Carta aos Hebreus...........................................................................................................469
Carta de Tiago................................................................................................................ 486
Primeira Carta de Pedro.............................................................................................. 499
Segunda Carta de Pedro...............................................................................................513
Primeira Carta de João................................................................................................ 523
Segunda Carta de João................................................................................................ 537
Terceira Carta de João................................................................................................... 539
Carta de Judas................................................................................................................ 540
Apocalipse de João.........................................................................................................547
PREFACIO
As notas que aparecem neste livro se baseiam na segunda edição de A Textual
Com m entary on the Greek New Testament, de Bruce M. Metzger (1994), obra que foi
traduzida para o espanhol por Moisés Silva e Alfredo Tepox e publicada em 2006
pelas Sociedades Bíblicas Unidas, com o título de Un Comentario Textual al Nuevo
Testamento Griego. Convém ressaltar que, para se 1er as notas do livro que o leitor
tem em mãos, não é necessário consultar o livro de Metzger. No entanto, é indis-
pensável ter diante de si o texto e as notas textuais (o aparato crítico) de O Novo
Testamento Grego, publicado pela Sociedade Bíblica do Brasil, ou, então, a quarta
edição do The Greek New Testament, publicado pelas Sociedades Bíblicas Unidas.
r A ideia deste livro surgiu alguns anos atrás, por ocasião de um dos encontros
trienais dos consultores de tradução das Sociedades Bíblicas Unidas. Os consultores
entenderam que era necessário revisar o Comentário Textual de Metzger. O que
se precisava era um texto mais acessível, um texto que pudesse ajudar tradutores
sem maior formação na área da crítica textual a entenderem por si mesmos e sem
maiores dificuldades os motivos por que determinadas variantes textuais do NT
têm mais chances de ser o texto original do que outras.
^״ ,As notas que aparecem neste livro não foram escritas para substituir as no-
tas originais de Bruce M. Metzger, mas apenas para simplificar e ampliar aquelas.
Um recurso usado nessa simplificação das notas foi omitir a citação da evidência
manuscrita (isto é, as siglas dos manuscritos) que apoia as diferentes variantes
textuais. Para isto, o leitor terá de consultar o aparato crítico de O Novo Testamento
Grego.
Desde que foi inicialmente publicado, em 1971, o Comentário Textual de Bruce
M. Metzger atendeu muito bem às necessidades daqueles que estão mais bem in-
formados a respeito das questões de natureza crítico-textual. O livro de Metzger,
com certeza, continuará a preencher essa lacuna. Além disso, a obra de Metzger
discute algumas centenas de outras variantes textuais que nãoforam incluídas no
aparato crítico de O Novo Testamento Grego. Devido à natureza deste Comentário,
essas notas foram omitidas.
As notas que integram este livro foram escritas tendo em mente que a língua
materna da maioria dos tradutores do NT não é o inglês, o português, ou qualquer
outra língua majoritária. Em função disto, assuntos técnicos foram explicados em
linguagem não técnica. Entretanto, não foi possível evitar por completo o uso de
termos e expressões técnicas. Por este motivo, no capítulo intitulado “A Prática da
Crítica Textual do Novo Testamento”, aparece um breve panorama da crítica tex-
tual, incluindo a explicação de termos importantes, uma história do texto e uma
descrição dos métodos que os críticos de texto empregam para chegarem às suas
conclusões.
Neste livro, as notas de Metzger foram ampliadas por meio de considerações
relativas à tradução das leituras variantes que se encontram no aparato crítico (veja,
por exemplo, Lc 4.17; At 2.37; 2C0 5.17). Num caso como 0 de ICo 4.17, por exemplo,
os tradutores não terão maiores dificuldades para compreender, a partir do aparato
crítico em O Novo Testam ento Grego, que o texto diz “em Cristo Jesus”, e que as va-
riantes são “em Cristo” e “no Senhor Jesus” Mas no caso de leituras variantes como
as de 1C0 7.34, talvez não fique claro quais sejam as diferenças de significado, por
isso as notas explicam como as diferentes variantes são interpretadas e traduzidas.
Ficará evidente que algumas das leituras variantes têm pouca ou nenhuma impor״
tância para a tradução do texto. As diferenças entre as leituras variantes podem ser
mera questão de estilo (Mt 20.31; 23.9), como o uso ou não de uma preposição diante
de um substantivo (Mc 1.8). Muitas vezes, variantes textuais desse tipo serão tradu-
zidas de forma idêntica na língua receptora. As variantes textuais podem, também,
ser sinônimos (Mt 9.8; 16.27; 28.11), consistir na presença ou ausência de um artigo
(Mc 10.31; 12.26) ou, então, no uso de um pronome de terceira pessoa para indicar
posse (Mt 19.10; Mc 6.41). É possível que a natureza da língua receptora exija que
variantes desse tipo sejam traduzidas da mesma maneira como se traduz a leitura que
aparece como texto e vice-versa. Existem outras variantes que, no caso de traduções
de equivalência funcional, não têm maior importância. Exemplos disso são variantes
relacionadas com formas diferentes de escrever o nome de certas pessoas (Mt 13.55)
ou a presença ou ausência do sujeito ou do objeto de um verbo (Mt 8.25; Mc 9.42).
As notas textuais abordam também algumas das mais importantes diferenças na
divisão e pontuação do texto, sempre que estas implicam diferença de significado
(veja “O Aparato de Segmentação do Discurso”, na Introdução de O Novo Testam ento
Grego), Edições modernas do Novo Testamento em grego, bem como as traduções,
às vezes divergem quanto à segmentação do texto. Isto se aplica de forma especial
à questão do início de parágrafos e de seções do texto. Entre as mais significativas
diferenças de segmentação do texto discutidas neste livro estão as seguintes:
• divisão ou separação entre parágrafos (lTm 3.1);
• divisão ou separação entre palavras e expressões (Mc 13.9; 2Co 8.3; Ef 1.4);
• uso ou não de aspas para indicar que se trata de discurso direto
(1C0 6.12-13; 7.1);
• início e final de citação direta (Jo 3.13,15,21; Gl 2.14);
• final de citação embutida em outra citação (Mt 21.3);
• existência de observações parentéticas (Lc 7.28; At 1.18);
• pontuação de frases como afirmativas ou interrogativas (ICo 6.19);
• uso de formato poético para indicar que se trata de material tradicional
(Fp 2.6; Cl 1.15);
• õtl visto como recitativo (introduzindo uma citação direta), introduzindo
uma citação indireta, ou introduzindo uma locução causai (Mc 8.16).
viii VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO
Recomenda-se que o leitor siga as leituras que aparecem em O N ovo T estam en to
Grego. Em outras palavras, é importante acompanhar o que se encontra no texto e
no aparato crítico (as informações ao pé da página) de O N ovo T estam en to Grego,
pois este livro é um comentário sobre o que lá se encontra. As notas textuais deste
livro com frequência dão a tradução tanto da leitura escolhida para ser o texto
quanto das variantes textuais incluídas no aparato crítico, para que se possa en-
tender melhor as diferenças de significado entre e texto e as variantes, e de uma
variante para a(s) outra(s), se este for o caso.
Muitas vezes, para ilustrar essas diferenças, são citadas algumas traduções mo-
dernas, principalmente em língua portuguesa, como ARA (Almeida Revista e Atua-
lizada, 1993); ARC (Almeida Revista e Corrigida, 2009); NTLH (Nova Tradução na
Linguagem de Hoje, 2000); BN (A Boa Nova — Tradução em Português Corrente,
1993); NVI (Nova Versão Internacional, 2001); TEB (Tradução Ecumênica da Bí-
blia, 1995); NBJ (Nova Bíblia de Jerusalém, 2002); CNBB (Bíblia Sagrada — Tradu-
ção da CNBB, 2a edição, 2002). (Para outras siglas, veja a lista de Abreviaturas.) O
propósito dessas citações não é recomendar a variante como tal ou a sua tradução,
mas unicamente ilustrar a mesma.
As notas que tratam das diferentes possibilidades de segmentação e de pontua-
ção não incluem nenhuma argumentação exegética a favor ou contra as diferentes
possibilidades, e também não recomendam umas em detrimento das outras. O pro-
pósito dessas notas é alertar os tradutores para o fato de que existem lugares onde
o significado e a tradução do texto podem ser diferentes, dependendo da divisão
que se faz entre palavras, locuções e frases do texto. Recomenda-se que, neste parti-
cular, os tradutores consultem bons comentários, alguns dos quais aparecem na lis-
ta das obras citadas que se encontra no final das notas referentes a cada livro do NT.
Ao longo desta obra, faz-se referência a comentários em língua inglesa que fo-
ram publicados recentemente, a maioria dos quais ainda está disponível no merca-
do internacional e aos quais se tem acesso em algumas bibliotecas. Para o estudo
do texto do NT, existem muitos livros e artigos de grande valor em outros idiomas,
como o francês e o alemão; entretanto, nesta obra, levando em conta os leitores que
originalmente se teve em vista, as referências incluem apenas livros e artigos em
língua inglesa.
PREFÁCIO ix
ROGER L. OMANSON
Sociedades Bíblicas Unidas
Consultor para Publicações Eruditas
INTRODUÇÃO: A PRÁTICA DA CRÍTICA
TEXTUAL DO NOVO TESTAMENTO
I- D efinição e propósito da crítica textual
A cr ítica tex tu a l do NT é o estudo dos textos bíblicos que aparecem nos ma-
nuscritos antigos, com o objetivo de recuperar uma forma de texto que se aproxime
o máximo possível do texto exato dos escritos originais (chamados de ״autógrafos״)
assim como estes se apresentavam antes de copistas introduzirem alterações e co-
meterem erros durante o processo de cópia. Como observa Michael W. Holmes, esta
tarefa envolve três aspectos principais:1
(1) A coleta e a organização do material ou da evidência; (2) o desenvolvimento
de um método que permita avaliar e determinar o significado e as implicações da
evidência, para que se possa determinar qual das variantes textuais tem mais chan-
ces de representar o texto original; e (3) a reconstrução da história da transmissão
do texto, na medida em que o material disponível permita tal reconstrução.
A crítica textual não se preocupa com a inspiração do Novo Testamento e não
trata da questão se os textos originais continham erros de conteúdo ou não. Os ma-
nuscritos originais não existem mais. Os únicos manuscritos de que dispomos hoje
são cópias de cópias. O manuscrito mais antigo de um trecho do NT é um fragmento
de papiro que contém uns poucos versículos do Evangelho de João. Este fragmento,
chamado de data de aproximadamente 125 d.C. Convém notarigualmente que,
embora a palavra ״crítica״ apareça muitas vezes, em linguagem corriqueira, num
sentido negativo, os eruditos a empregam num sentido positivo, como “avaliação
(da evidência a favor do texto)״.
Mesmo tradutores que nunca estudaram crítica textual do NT estão, em geral,
conscientes de que existem diferenças textuais nos manuscritos antigos, pois, em
traduções modernas, já se depararam com notas como O utros m a n u scrito s an tigos
têm , O utros m a n u scrito s a n tig o s acrescen tam , O utros m a n u scrito s an tigos não tra-
z e m , e M uitos m a n u scrito s o m ite m . Tomemos o exemplo de Gálatas: algumas tradu-
ções não trazem nenhuma nota indicando que existem problemas textuais; a REB
tem somente três notas textuais, e a NRSV tem sete. Assim, tradutores podem ficar
1 Michael W. Holmes, “Textual Criticism”, in Dictionary of Paul and His Letters (ed. Gerald F. Hawthorne, et
al.; Downers Grove, 111: InterVarsity Press, 1993), 927. Vários estudos recentes indicam que os eruditos
empregam a expressão “texto original” de modo um tanto ingênuo. Veja Eldon Jay Epp, “The Multiva-
lence of the Term Original Text’ in New Testament Textual Criticism”, Harvard Theological Review 92
(1999): 245-281. Num outro escrito, Epp afirma “que a expressão texto original, que muitas vezes é
entendida de forma simplista, tem sido fragmentada pelas realidades de como os escritos do Novo Testa*
mento se formaram e foram transmitidos, e, a partir disso, original precisa ser entendido como um termo
que designa diferentes camadas, níveis, ou significados...” (“Issues in New Testament Textual Criticism”,
in Rethinking New Testament Textual Criticism [ed. David Alan Black; Grand Rapids: Baker, 2002], 75).
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTOXII
surpresos ao descobrirem que o N ovo T estam en to Grego lista vinte e oito lugares
apenas em Gálatas onde os manuscritos antigos têm leituras diferentes. O N ovo Tes-
ta m en to Grego, publicado pela Sociedade Bíblica do Brasil, registra mais de 1.440
lugares em todo o NT onde ocorrem leituras variantes que têm implicações para a
tradução do texto. O texto grego dessa edição não reproduz o texto exato de nenhum
manuscrito específico. Ao contrário, com base no estudo dos muitos manuscritos
antigos, os editores se valeram de métodos (a serem apresentados abaixo) que per-
mitem reconstruir um texto que, à luz do conhecimento de que dispomos hoje, é o
que mais se aproxima dos textos originais (ou “autógrafos”).
Há milhares de variantes textuais nos manuscritos antigos, mas a maioria delas
não passa de erros de grafia ou de outros erros de cópia bem evidentes, não tendo,
portanto, nenhuma importância para a tradução. Entretanto, convém notar que até
mesmo entre as leituras que têm significado para a tradução, isto é, que afetam a
tradução, são poucas aquelas que são de fato significativas para a teologia. Consi-
dere, por exemplo, Mc 1.1, onde alguns manuscritos não têm as palavras υίοΰ 0eoí)
(Filho de Deus). No entanto, mesmo que estas palavras não sejam originais nessa
passagem, o autor com certeza acreditava que Jesus era o Filho de Deus (Mc 1.11;
3.11; 5.7; 15.39).
Muito se discute se é possível ou não determinar o texto exato dos escritos
originais. Por exemplo, Trebolle Barrera afirma: “Tentar criar um texto recebido
continua sendo um projeto marcado por certa arrogância, e encontrar o original
em casos discutíveis não passa de utopia”.2 Os manuscritos de papiro descobertos
na primeira metade no século vinte nos deram manuscritos que são pelo menos um
século mais antigos do que os manuscritos que eram conhecidos no século deze-
nove. Para alguns eruditos, esses manuscritos fornecem toda a evidência de que se
necessita para recuperar os textos originais. Para outros, os manuscritos de papiro
apenas nos levam até uma forma do texto que existia no terceiro século, mas não
necessariamente às formas originais do texto, isto é, o texto como se apresentava
antes que mudanças e erros fossem introduzidos nos manuscritos.
II. OS MATERIAIS DA CRÍTICA TEXTUAL
Como será detalhado nos parágrafos seguintes, existem três fontes que são utili-
zadas para reconstruir o texto original do NT. A mais importante dessas fontes são
os próprios manuscritos gregos. Existem vários milhares de manuscritos, que datam
desde o começo do segundo século até o século dezesseis. Igualmente importantes
são os manuscritos do NT em outras línguas. Por volta do final do segundo século e
começo do terceiro, o NT já havia sido traduzido para o latim e o siríaco. Um pouco
2 Julio Trebolle Barrera, The Jewish Bible and the Christian Bible: An Introduction to the History of the Bible
(Leiden: Brill/Grand Rapids: Eerdmans, 1997), 413.
INTRODUÇÃO
depois, foi traduzido para o copta e outras línguas antigas. Os críticos de texto se
referem a essas traduções como versões antigas. Uma terceira fonte para estudo são
os escritos de teólogos cristãos da Igreja Antiga, desde o segundo ao oitavo séculos,
que escreveram em grego e latim, e que citam trechos do Novo Testamento.
χίίί
M a n u scr ito s gregos
Esses manuscritos se dividem em dois grupos: (1) m a n u scr ito s d e tex to
con tín u o , que contêm o texto em ordem, por capítulos e livros, do começo ao fim;
e (2) m a n u scr ito s de le c io n á r io s , que contêm passagens de várias partes do
NT organizadas segundo a ordem em que aparecem na lista de leituras para os do-
mingos e dias festivos do calendário litúrgico ou eclesiástico. (Veja “Os Manuscritos
Gregos”, pp. xiv-xxiv na Introdução a O N ovo T estam en to Grego.)
Os mais antigos documentos foram copiados em papiro, um material feito da
medula da planta de papiro, que era cortada em tiras bem finas que, por sua vez,
eram prensadas umas sobre as outras para formar páginas nas quais se podia escre-
ver. A partir do quarto século d.C. aproximadamente, começou-se a fazer cópias em
p ergam in h o , um material feito de peles de animais. Fazer cópias desses escritos
era um processo caro, por duas razões: o custo elevado do material de escrita e o
tempo necessário para fazer a cópia de um só livro. Em média, para se fazer uma
cópia manuscrita do NT em pergaminho eram necessárias as peles de, pelo menos,
50 a 60 ovelhas ou cabras! O pergaminho foi usado até que começou a ser substituí-
do pelo papel no século doze.
Cada um dos manuscritos de papiro é identificado com a letra <p (para “papi-
ro”) e um número. Por exemplo, ^ 46 se refere a um manuscrito do terceiro século
que contém trechos das cartas paulinas. No começo do século vinte, sabia-se da
existência de apenas nove manuscritos de papiro. Hoje se conhece 116 manuscritos
de papiro, embora muitos sejam bastante fragmentários e contenham apenas uns
poucos versículos. Na Introdução de O N ovo T estam en to Grego aparece uma lista de
116 manuscritos de papiro, mas alguns manuscritos têm mais de um número. Por
exemplo, <p33 e *p58 são fragmentos de um mesmo manuscrito do sétimo século; e
y^>4 e çp67 s£0 fragmentos do mesmo manuscrito copiado por volta do ano 200 d.C.3
O tipo de escrita usada até o nono século era a escrita u n c ia l ou maiúscula.
Manuscritos copiados com esse tipo de letra são chamados de u n c ía is ou m aiús-
cu lo s. Existem 306 manuscritos uncíais, embora apenas um pouco mais do que
dois terços desses manuscritos tenham mais do que duas páginas de texto. Os ma-
nuscritos uncíais são identificados com uma letra do alfabeto hebraico, latino ou
3 T.C. Skeat, “The Oldest Manuscript of the Four Gospels?” New Testament Studies 43 (January 1997):
134־, argumenta, de forma bastante convincente, que deveria ser incluído, juntamente com fy64 e 67ןל,
num mesmo manuscrito. Em outras palavras, esses três fragmentos fariam parte de um só manuscrito.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTOXIVgrego, ou então com um algarismo arábico antecedido por um zero. Em alguns
casos, o manuscrito é conhecido por uma letra e um número. O Códice Vaticano,
por exemplo, é um manuscrito do quarto século que, quase com certeza, continha
originalmente toda a Bíblia grega.4 Geralmente ele chamado de Códice B, mas
tem também o número 03. Os uncíais eram copiados sem qualquer espaço entre as
palavras e frases. Esse tipo de escrita é chamada de scrip tio c o n tin u a (“escrita contí-
nua”). As divisões em capítulos que conhecemos e usamos hoje foram introduzidas
no texto por Estevão Langton, arcebispo de Cantuária, no século treze. A divisão
em versículos teve início em 1551, numa Bíblia impressa por Roberto Stephanus.
Desde o nono século até o tempo em que o NT passou a ser impresso, foi usada
a escrita m in ú s c u la (do latim m in u scu lu s , “bem pequeno”) ou cursiva. Manuscri-
tos que têm esse tipo de escrita são chamados de m in ú s c u lo s ou c u r s iv o s e são
identificados por algarismos arábicos. O Códice 33, por exemplo, é um manuscrito
do nono século que contém todo o NT, menos o livro do Apocalipse. A grande
maioria dos manuscritos gregos de que dispomos em nossos dias (o número chega
a 2 .856) são minúsculos, e a maioria deles data do período que vai do século onze
ao catorze.
Além dos mais de 3000 manuscritos de texto contínuo mencionados acima, exis-
tem 2403 manuscritos de lecionários. Esses manuscritos aparecem no aparato crí-
tico e são identificados pela letra l em itálico seguida de um número ou do símbolo
coletivo Lee (veja “Os lecionários gregos”, pp. xxiv-xxvi da Introdução a O N ovo
T estam en to Grego). A maioria dos manuscritos de lecionários representa o tipo de
texto bizantino (veja abaixo) e, em razão disso, são geralmente considerados menos
importantes na tentativa de reconstruir o texto original do NT.
Para uma discussão mais detalhada a respeito dos manuscritos gregos, incluin-
do os lecionários, veja os capítulos 1-4 (pp. 1 74־) da obra The T ext o f the N ew Testa-
m e n t in C o n tem p o ra ry Research , editada por Ehrman e Holmes.
Os responsáveis por edições modernas do Novo Testamento em grego costu-
mam agrupar as v a r ia n t e s t e x t u a is (isto é, as diferentes leituras que existem
em alguns manuscritos no mesmo lugar de determinado versículo) ao pé da página,
numa seção chamada de a p a r a to c r ít ic o . Em seguida eles listam os manuscritos
que apoiam as diferentes leituras pelas letras ou pelos números que os identificam.
Segundo a maioria dos críticos de texto, esses manuscritos gregos, em especial
os papiros e uncíais, são de grande importância para a tarefa de tentar recuperar
o texto original dos livros do NT. Entretanto, outros especialistas afirmam que os
manuscritos gregos somente nos fornecem a forma do texto que era conhecida no
4 O número de manuscritos gregos disponíveis hoje que continham, originalmente, todo o NT chega a 61,
mas o número dos que de fato contém hoje todo o NT se aproxima de 50 (veja Daryl D. Schmidt, “The
Greek New Testament as a Codex”, in The Canon Debate [ed. Lee Martin McDonald e James A. Sanders;
Peabody, Mass: Hendrickson, 2002], 469-471).
XVINTRODUÇÃO
terceiro século. Em outras palavras, os manuscritos gregos não dão acesso ao texto
anterior ao terceiro século. Segundo esses especialistas, para recuperar uma forma
mais antiga do texto do NT, que esteja mais próxima do original, também se precisa
de um estudo cuidadoso dos escritos dos Pais da Igreja (veja abaixo) e de um estudo
das antigas traduções do NT para o copta, siríaco e latim (veja abaixo, “Traduções
para outras línguas antigas”).
Escritos dos Pais da Igreja a n tig a
Importantes líderes da Igreja que viveram entre o segundo e o oitavo séculos e
que escreveram em grego e latim, com frequência citaram versículos do NT. Esses
líderes são muitas vezes chamados de P a is d a Ig r e ja ou, simplesmente, o s P a is ,
e o que eles escreveram recebe o nome de obras p a t r ís t ic a s (de p a te r , o termo
latino para “pai”). Os escritos dos Pais da Igreja têm valor especial para o estudo do
texto do NT. Como observa Ehrman, quando se trata de manuscritos gregos, ver-
sões antigas e escritos patrísticos, “apenas os escritos patrísticos podem ser datados
e localizados geograficamente com relativo grau de certeza”.5 Entretanto, muitas
vezes é difícil saber se os Pais estavam de fato citando um texto ao pé da letra ou se
estavam apenas fazendo alusão ao mesmo. E, se estavam citando, será que citaram
de memória (talvez de forma incorreta) ou a partir de uma cópia do NT que estava
aberta e ao alcance dos olhos deles? Além disso, as pessoas que copiavam as obras
dos Pais por vezes alteravam o texto durante o processo de cópia, fazendo com que
o texto bíblico citado concordasse com o texto que eles, os copistas, conheciam. Por
essas razões, nem sempre é fácil saber o que um Pai escreveu originalmente (veja
“O testemunho dos Pais da Igreja”, pp. xxx-xxxiv na Introdução a O N ovo T estam en-
to Grego).
Contudo, apesar das dificuldades ligadas ao uso dos escritos dos Pais da Igreja,
os eruditos entendem que o estudo dos escritos dos Pais da Igreja antiga contri*
bui para a recuperação do texto original do NT. A Sociedade de Literatura Bíblica
(SBL), por exemplo, patrocina uma série de estudos denominada “O Novo Testa-
mento nos Pais Gregos”. O primeiro volume foi publicado em 1986 e, até agora,
apenas os volumes referentes a uns poucos Pais estão disponíveis. No entanto, entre
outras coisas, cada volume traz uma lista completa das citações do NT feitas pelo
Pai da Igreja e indica se essas citações reproduzem ao pé da letra o que se encontra
no NT. Alguns eruditos argumentam que os papiros e manuscritos uncíais só nos
dão acesso ao texto conhecido no terceiro século e que “se ... realmente queremos...
reconstruir um texto ‘o mais próximo possível do original’, temos que nos valer das
5 Bart Ehrman, “The Use and Significance of Patristic Evidence for NT Textual Criticism”, in New Testament
Textual Criticism, Exegesis and Church History: A Discussion of Methods (ed. Barbara Aland e Joel Delobel;
Kampen, Netherlands: Kok Pharos, 1994), 118.
fontes patrísticas e levar a sério o te s te m u n h o dessas fo n te s . E, diferentemente dos
papiros, o uso da evidência patrística irá... alterar significativamente a configura-
ção do texto crítico”.6
Para uma discussão mais aprofundada a respeito do uso da evidência dos Pais
da Igreja no estudo do texto do NT, veja os capítulos 15-17 (pp. 299-359) em Epp
e Fee, S tu d ie s in the T h eo ry a n d M eth o d o f N ew T es ta m en t T ex tu a l C r itic ism ; e os
capítulos 12-14 (pp. 1 8 9 2 3 6 ־) em Ehrman e Holmes (editores), The T ex t o f the N ew
T esta m en t in C o n tem p o ra ry R esearch.
xvi VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO
III. H istó r ia da tran sm issão do texto do N ovo T estam ento
Nos primeiros tempos da Igreja cristã, depois que uma carta apostólica havia
sido enviada a uma congregação ou a um indivíduo, ou depois que um Evangelho
havia sido escrito para atender às necessidades de um determinado público alvo,
começava o processo de cópia desses textos. Esse processo tinha a finalidade de am-
pliar o âmbito de influência desses textos e permitir que mais pessoas se beneficias-
sem desses escritos. Essas cópias manuscritas certamente apresentariam diferenças
de texto em relação aos originais. Algumas cópias podiam apresentar um número
significativo de diferenças; outras, um número bem reduzido. A maioria dessas
diferenças se devia a erros de caráter involuntário, como a troca de uma letra ou
de uma palavra por outra que tinha um formato quase igual (veja, por exemplo, a
discussão em 2Pe 1.21).
Os copistas também cometiam erros por muitos outrosmotivos. Se duas linhas
de texto próximas uma da outra começavam ou terminavam com o mesmo conjunto
de letras, ou se duas palavras parecidas apareciam quase que lado a lado numa mes-
ma linha, era muito fácil para o copista saltar do primeiro conjunto de letras para
o segundo, fazendo com que omitisse o texto que estava entre esses dois conjuntos.
Esses erros recebem um nome técnico: “h o m eo a rcto n ” (as letras semelhantes
apareciam no início das palavras; veja a discussão de 2Pe 2.6) e h o m eo te leu to
(as letras semelhantes apareciam no final das palavras). Essas duas palavras, “ho-
m eo a rc to n ” e h o m eo te leu to , vêm do grego e significam “início sem elhante”
e “final sem elhante”. Outro tipo de erro ocorria quando o copista acidentalmente
voltava do segundo grupo de letras ou palavras parecidas para o primeiro grupo e,
equivocadamente, copiava uma ou mais letras, sílabas ou palavras duas vezes. O
termo técnico para isso é d ito g ra fía , que significa “escrito duas vezes”. O contrá-
rio da ditografía é a h ap logra fia , que designa a omissão acidental de uma ou mais
letras. Às vezes, os copistas faziam confusão entre letras ou sílabas que tinham
pronúncia idêntica ou parecida. O termo técnico para isso é io ta c ism o .
6 William L. Peterson, “What Text Can NT Textual Criticism Ultimately Reach?” in New Testament Textual
Criticism, Exegesis and Church History: A Discussion of Methods, 151.
Erros acidentais como esses são quase que inevitáveis quando trechos mais lon-
gos são copiados à mão. A probabilidade de que viessem a ocorrer aumentava se
o copista não enxergava direito, se era interrompido enquanto copiava, se estava
cansado ou não se concentrava suficientemente no seu trabalho. Além disso, como
lembra R. E. Brown, “também se deve contar com a possibilidade de uma leitura
mal feita pela pessoa que ditava o texto para os copistas”.
INTRODUÇÃO xvii
E xem plo de erro re su lta n te de “h o m eo a rc to n ”
Veja a discussão sobre Mc 10.7, onde é possível que as palavras m i
προσκολληθήσεται πρός την γυναίκα αυτοί) (“e se unirá com a sua mulher”) te-
nham sido omitidas porque o olhar do copista passou, acidentalmente, do καί (“e”)
que aparece no início dessa frase para ο καί (“e”) que ocorre no começo do v. 8.
E xem plo de erro re su lta n te de hom eo te leu to
Veja a discussão sobre lPe 3.14, onde as palavras μηόέ ταραχθήτε (“não fiqueis
alarmados”) foram acidentalmente omitidas porque o olhar do copista passou do
final da palavra φοβηθητε (“vos amedronteis”) para a palavra ταραχθήτε (“fiqueis
atemorizados”).
E xem plos de erros resu lta n tes de d ito g ra fia e hap lo g ra fia
Às vezes é difícil saber se uma letra foi acidentalmente repetida (ditografia) ou
acidentalmente omitida (haplografia). Veja, por exemplo, a discussão a respeito de
νήπιοι (“crianças”) e ήπιοι (“dóceis”), em lTs 2.7.
E xem plos de erros causados p o r io ta c ism o
Em grego coiné, as vogais η, 1 e υ, bem como os ditongos ει, οι e υι passaram a
ter a mesma pronúncia.7 8 Os copistas muitas vezes faziam confusão entre os prono-
mes plurais “nós” (ήμεΐς) e “vós” (υμείς) em suas várias formas declinadas, pois as
vogais iniciais destes pronomes eram pronunciadas de forma idêntica (ou seja, com
som de “i”). Veja, por exemplo, as observações a respeito de Cl 2.13. Na passagem
de 1C0 15.54, em alguns manuscritos o substantivo νΐκος (“vitória”) foi alterado,
7 Raymond E. Brown, An Introduction to the New Testament (Nova Iorque: Doubleday, 1997), 48, n. 3.
8 Chrys C. Caragounis, The Development of Greek and the New Testament: Morphology, Syntax, Phonology,
and Textual Criticism (Tübingen: Mohr Siebeck, 2004), mostrou, de forma bastante convincente, quejé
no quarto século d.C. essas vogais e esses ditongos tinham pronúncia idêntica, o mesmo acontecendo
com o e co, e com ε e o ditongo ai. Só no Evangelho de João, o copista de ty66 introduziu 492 erros de
grafía por causa desse fenômeno chamado de iotacismo (501515־).
por engano, para νεΐκος (“disputa”). Veja também a discussão a respeito de Ιδόντες
(“vendo”) e είδότες (“sabendo”), em lP e 1.8.
Também as vogais o e ω passaram a ter a mesma pronúncia. As vezes, a única
diferença gráfica entre um verbo no modo indicativo e o mesmo verbo no modo
subjuntivo é essa diferença entre as duas vogais. Veja, por exemplo, a discussão
sobre £χομεν (“tem os”) e εχωμεν (“tenham os”), em Rm 5.1.
Igualmente, a vogal s e o ditongo ol passaram a ter a mesma pronúncia. Em
função disso, às vezes os copistas faziam confusão entre a desinência verbal -σθε,
que é da segunda pessoa do plural, e a desinência -σθαι, que é do infinitivo. Veja,
por exemplo, 2Pe 1.10.
Os copistas desenvolveram um sistema de abreviaturas ou contrações para quin-
ze nomes sagrados (n o m in a sacra , em latim), como θεός (Deus), κύριος (Senhor),
Χριστός (Cristo), Ιησούς (Jesus), πατήρ (Pai), πνεύμα (Espírito), e σωτήρ (Salva-
dor). Essas contrações consistiam em escrever apenas a primeira e a última letra
da palavra, ou então a primeira e as duas últimas letras, colocando-se uma linha
horizontal por cima da combinação resultante. As letras de algumas dessas contra-
ções eram sem elhantes, o que às vezes levou os copistas a confundirem uma com a
outra. Veja, por exemplo, as discussões sobre ICo 1.14; ICo 4.17; lTm 3.16.
Num recente estudo sobre o <p13, Head e Warren demonstraram que, por vezes,
os copistas também cometiam erros involuntários devido ao fato de, constante-
mente, terem de reabastecer ou molhar a ponta do estilo ou ponteiro usado para
escrever. Esse fato contribuiu para que se distraíssem ou tivessem lapsos de visão
ou de memória.9
Além desses erros involuntários, algumas alterações eram deliberadas ou inten-
cionais. Os copistas procuravam corrigir a gramática ou polir o estilo de algumas
passagens, ou então esclarecer o sentido de palavras e expressões que eles conside-
ravam obscuras ou ambíguas. Às vezes um copista substituía ou acrescentava o que
parecia ser uma palavra ou forma gramatical mais adequada. Veja, por exemplo, as
observações sobre προπάτορα (“antepassado”) e πατέρα (“pai”), em Rm 4.1.
Às vezes, essas substituições ou acréscimos eram feitos para que a passagem
concordasse com um texto paralelo de outro livro do NT (veja, por exemplo, At
3.22; lTs 1.1 e a discussão sobre o Pai-Nosso em Lc 11.2-4) ou da S e p tu a g ín ta ,
que é uma tradução grega do AT (veja, por exemplo, os comentários a respeito de
At 2 .16 ,1819־). Essas mudanças introduzidas com o objetivo de fazer com que um
texto concorde com uma passagem paralela, seja do AT ou do NT, recebem o nome
técnico de h a r m o n iz a ç ã o ou a s s im ila ç ã o .
Houve momentos em que os copistas faziam modificações intencionais para “me-
lhorar” a teologia de certas passagens.10 Por exemplo, Lc 2 .4 1 4 3 ־ afirma que, quan
9 EM. Head e M. Warren, “Re-Inking the Pen: Evidence from P Ox. 657 (Sp13) Concerning Unintentional
Scribal Errors”, New Testament Studies 43 (July 1997): 466473־.
xviii VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO
do Jesus tinha doze anos de idade, ele ficou em Jerusalém após a festa da Páscoa, em
vez de voltar para casa com o grupo de peregrinos. Os melhores manuscritos dizem,
no v. 43, que ele ficou em Jerusalém sem que “os pais dele” soubessem disso. Uma
vez que José não era o pai biológico de Jesus, um copista mudou as palavras “os pais
dele” para “José e a mãe dele”, provavelmente para salvaguardar a doutrina de que
Jesus nasceu de uma virgem. (Veja também a nota a respeito de Mt 24.36).
Como os parágrafos anteriores dão a entender, durante os anos que se seguiram
à composição dos diferentes documentos que viriam a fazer parte do NT surgiram
centenas, mesmo milhares de leituras variantes ou variantes textuais.
INTRODUÇÃO xix
Traduções p a ra o u tras lín g u a s a n tig a s
Ainda outros tipos de diferenças surgiram quando os documentos do NT foram
traduzidos do grego para outras línguas. Durante o segundo e o terceiro séculos,
depois que o cristianismo havia sido levado para a Síria, para o Norte da África e
a Itália, bem como para o centro e o Sul do Egito, era natural que congregações e
pessoas quisessem ter uma cópia das Escrituras em suas próprias línguas. Assim,
surgiram versões para o siríaco, o latim, e vários dialetos coptas utilizados no Egito.
A partir do quarto século foram feitas outras traduções, para o armênio, georgiano,
etíope, árabe e núbio, no Oriente; e para o gótico, eslavo eclesiástico antigo, e (mais
tarde) para o anglo-saxão, no Ocidente. Os críticos de texto se referem às traduções
para essas línguas antigas como v e r sõ e s ou v e r sõ e s a n tig a s (veja “As versões
antigas”, pp. xxvi-xxix na Introdução a O N ovo T esta m en to Grego).
A precisão dessas traduções dependia diretamente de dois fatores: o conheci-
mento adequado, ou não, que o tradutor tinha da língua fonte (o grego) e da língua
receptora, e o cuidado com que o tradutor fez o seu trabalho. Não deveria nos
surpreender que muitas diferenças tenham surgido dentro dessas versões antigas.
Várias pessoas fizeram traduções diferentes a partir do que podem ter sido formas
ligeiramente diferentes do texto grego. Além disso, outros indivíduos, que copia-
vam essas traduções, por vezes faziam “correções” para que o texto concordasse
com uma forma diferente do texto conhecida por eles, que podia ser em grego ou
na língua receptora.
Para mais detalhes a respeito do uso das versões antigas no estudo do texto do
NT, veja os capítulos 5-11 (pp. 75-187) em Ehrman e Holmes (editores), The T ext o f
the N ew T esta m en t in C o n tem p o ra ry Research. 10
10 Bart Ehrman, The Orthodox Corruption of Scripture: The Effect of Early Christological Controversies on
the Text of the New Testament (Nova Iorque: Oxford University Press, 1993), mostra que muitas leituras
variantes se originaram quando, no contexto das controvérsias cristológicas do segundo e terceiro sé-
culos, escribas alteraram o texto para fundamentar pontos de vista “ortodoxos”. Veja também Wayne C.
Kannaday, Apologetic Discourse and the Scribal Tradition: Evidence of the Influence of Apologetic Interests
on the Text of the Canonical Gospels (Atlanta: Society of Biblical Literature, 2004).
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTOxx
O su rg im en to de “tex to s loca is” e tipos de tex to
Durante aqueles primeiros séculos de expansão da Igreja cristã, foram se for-
mando aos poucos os assim chamados “t e x t o s lo c a i s ” do NT. Congregações
recém-fundadas numa grande cidade ou nas suas proximidades, fosse Alexandria,
Antioquia, Constantinopla, Cartago ou Roma, recebiam cópias das Escrituras na
forma que era utilizada naquela região. À medida que se faziam mais cópias, o
número de leituras especiais e variantes era preservado e, até certo ponto, aumen-
tado, de modo que no final do processo havia surgido um tipo de texto que era
típico daquela localidade. Hoje é possível identificar o tipo de texto preservado em
manuscritos do NT pela comparação entre suas leituras características e as citações
dessas passagens nos escritos dos Pais da Igreja que atuaram naqueles importantes
centros eclesiásticos ou nas imediações dos mesmos.
Às vezes, porém, um texto local tendia a se tornar menos distinto, pois se mistu-
rava com outros tipos de texto. Por exemplo, um manuscrito do Evangelho de Mar-
cos, copiado em Alexandria, no Egito, pode ter sido levado mais tarde para Roma.
Esse manuscrito acabaria influenciando, até certo ponto, os escribas que copiavam
a forma do texto de Marcos que, àquele tempo, estava sendo utilizado em Roma.
Entretanto, em termos gerais, durante os primeiros séculos a tendência de se criar e
preservar um tipo de texto específico era mais forte do que a tendência no sentido
de criar uma mistura de tipos de texto. Assim, surgiram vários tipos distintos de
texto do NT.
Tipos de tex to
Através de um cuidadoso exame de centenas de manuscritos e milhares de erros
de cópia, os críticos de texto desenvolveram critérios para selecionar os manuscri-
tos e grupos de manuscritos que são mais confiáveis, reconhecendo que todos os
manuscritos têm alguns erros. A maioria dos manuscritos pode ser classificada em
três grupos ou t ip o s d e t e x to . Alguns manuscritos têm tanta concordância no que
diz respeito ao texto que são designados de fa m íl ia s . Por exemplo, a Família 1 é
feita de mais ou menos meia dúzia de manuscritos intimamente relacionados, e a
Família 13 consiste em mais de doze manuscritos que têm vinculação estreita. Mui-
tas vezes, esses manuscritos são listados no aparato crítico sob o símbolo coletivo f 1
e f 13. Os críticos de texto usam a designação técnica v a r ia n t e s t e x t u a is para se
referirem a diferentes leituras que ocorrem no mesmo lugar em determinado versí-
culo bíblico. Quando certos manuscritos concordam de forma consistente, tendo a
mesma variante ou forma textual em determinada u n id a d e d e v a r ia ç ã o , isto é,
um lugar onde os manuscritos apresentam duas ou mais variantes textuais, diz-se
que esses manuscritos pertencem ao mesmo tipo de texto.
Convém notar que alguns manuscritos têm um tipo de texto em uma parte ou
seção do NT, e outro tipo de texto em outra parte. Por exemplo, o Códice Alexan-
drino (A 02) representa o tipo de texto bizantino nos Evangelhos, mas um tipo de
texto alexandrino no restante do NT. No livro T he T ext o f th e N ew T es ta m en t, de K.
e B. Aland, pp. 1 5 9 1 6 2 ־, aparece uma tabela bastante prática, que agrupa os ma-
nuscritos por século e tipo de texto. Também Daniel Wallace, na p. 311 do capítulo
“The Majority Text Theory: History, Methods, and Critique״, traz uma tabela muito
útil, que classifica os manuscritos gregos por século e tipo de texto. Veja também a
seção V, abaixo, “Listas de Testemunhos Segundo o Tipo de Texto״
Os mais importantes tipos de texto são os seguintes:
INTRODUÇÃO xxi
Texto a lexa n d r in o
Westcott e Hort, críticos de texto británicos que viveram no século dezenove, deno־
minaram esse texto de tex to neu tro . Embora na maioria das vezes, hoje, seja chamado
de texto alexandrino, por vezes também é chamado de “texto B”. Geralmente é consi-
derado o melhor texto e aquele que, de forma mais fiel, preserva o original. A carac-
terística do texto alexandrino é o uso de poucas palavras desnecessárias. Isto significa
que, em geral, é um texto mais curto, se comparado com os outros tipos de texto, e
um texto que não revela o mesmo grau de polimento gramatical e estilístico que ca-
racteriza o tipo de texto bizantino. Até recentemente os dois principais representantes
do texto alexandrino eram o Códice Vaticano (B 03) e o Códice Sinaítico (01 א), dois
manuscritos de pergaminho copiados por volta da metade do quarto século. Entretan-
to, com a descoberta e publicação, em meados da década de 1950, dos p apiros de
Bodm er (^66 72 73 74 75^ em eSpecial de Vp66 e p 75, que foram produzidos por volta do
final do segundo século ou começo do terceiro, existe agora evidência que indica que
o tipo de texto alexandrino remonta ao começo do segundo século. As versões saídica
e boaírica, em língua copta (que aparecem, no aparato crítico, sob os símbolos copsa e
copbo), também trazem, com frequência, leituras tipicamente alexandrinas.
Texto ociden ta l
O fato de eruditos terem reconhecido, inicialmente, que essa forma de texto foi
usada na parte ocidental do mundo cristão fez com que essa forma de texto recebes-
se o nome de “ocidental״ (por vezes chamado também de “texto D”). Mas esse tipo
de texto se encontra também na igreja que usava a língua siríaca, no Oriente,bem
como no Egito. Ele remonta ao segundo século e foi amplamente utilizado na Itália
e na Gália, bem como no Norte da África e em outros lugares. Esse tipo de texto foi
usado por Marcião, Taciano, Irineu, Tertuliano e Cipriano. Sua presença no Egito
é confirmada pelo testemunho de $p38 (aproximadamente 300 d.C.) e de p^48 (mais
ou menos o final do terceiro século). Os mais importantes manuscritos gregos que
apresentam um tipo de texto “ocidental” são o Códice de Beza (D 05), do quinto
século (que contém os Evangelhos e Atos), o Códice Claromontano (D 06), do sexto
século (que contém as epístolas paulinas), e, no caso de Mc 1.1— 5.30, o Códice Wa-
shingtoniano (W 032), do quinto século. Além disso, as versões latinas antigas são
importantes testemunhos do tipo de texto ocidental. Essas versões latinas antigas
(cujos manuscritos são citados, no aparato crítico, pelo símbolo coletivo i t [que re-
presenta o latim í ta la ] seguido de símbolos em sobrescrito que identificam manus-
critos individuais) constituem três grupos principais: africano, italiano e hispânico.
Embora os críticos de texto muitas vezes empreguem a expressão “texto ocidental”,
convém notar que muitos pensam que, diante do fato de os testemunhos do texto
ocidental terem uma relação menos estreita no que diz respeito às suas leituras,
esse texto ocidental não forma um tipo de texto exatamente igual ao que se tem em
mente quando se fala dos tipos de texto alexandrino e bizantino.
A principal característica do texto ocidental é o gosto pela paráfrase. Com relati-
va liberdade, esse texto altera, omite ou insere palavras, locuções e até frases intei-
ras. As vezes a motivação parece ter sido a de harmonizar textos, ao passo que em
outros momentos parece ter sido o desejo de ampliar a narrativa, incluindo material
tradicional ou apócrifo. Algumas leituras têm a ver com mudanças bem pequenas,
para as quais não se encontra uma razão especial. Um dos aspectos enigmáticos do
texto ocidental (que, em geral, é mais longo do que os outros tipos de texto) é que,
no final de Lucas e em algumas outras passagens do NT, alguns testemunhos oci-
dentais omitem palavras e versículos que se encontram em outras formas de texto,
até mesmo no tipo de texto alexandrino. No final do século dezenove, alguns erudi-
tos tendiam a considerar essas leituras mais breves como originais. Entretanto, com
a descoberta dos papiros de Bodmer, muitos hoje tendem a ver essas leituras mais
breves como algo excêntrico no texto ocidental e, portanto, não originais.
No livro de Atos, o texto ocidental levanta questões bastante difíceis de respon-
der. Neste livro, o texto ocidental é aproximadamente dez por cento mais longo do
que a forma de texto que normalmente é considerada o texto original daquele livro
(para uma discussão a respeito do texto ocidental em Atos, veja a “Introdução a
Atos”, no início das notas relativas a esse livro, mais adiante nesta obra).
Para maiores detalhes a respeito do texto ocidental, veja Epp, “Western Text”; e
Petzer, “The History of the New Testament Text”, pp. 18-25.
xxü VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO
U m a fo r m a de tex to o rien ta l
Esta forma de texto, que, no passado, era conhecida como texto cesareense , está
representada, em maior ou menor escala, em vários manuscritos gregos (incluindo
Θ, 565, 700) e nas versões armênia e geórgica (citadas, no aparato crítico, sob o
símbolos coletivos arm e geo). Esse tipo de texto é por vezes chamado de “texto C”
e se caracteriza por uma mistura de leituras ocidentais e alexandrinas. Por mais
que, na pesquisa recente, se tenha questionado a existência de um tipo de texto
específicamente cesareense, permanece o fato de que cada um dos manuscritos
que, anteriormente, eram considerados membros desse grupo ainda é, por si só, um
importante testemunho textual.
Outro tipo de texto oriental, conhecido em Antioquia e seus arredores, foi pre-
servado principalmente em testemunhos siríacos antigos, a saber, nos manuscritos
sinaíticos e curetonianos dos Evangelhos (citados, no aparato crítico, como sir5 e
sir0) e nas citações bíblicas que aparecem nos escritos de Afraates e Efraim, líderes
da igreja síria no quarto século.
INTRODUÇÃO xxiii
Texto b iza n tin o
Esta forma de texto já recebeu, entre outras, as seguintes designações: “texto
s ír io ”, “texto co iné”, “tex to eclesiástico”, “tex to a n tio q u e n o ”, e “texto m a j o r i t á r i o Por
vezes é chamado de “texto A”, porque o Códice Alexandrino é, nos Evangelhos (e só
ali), o mais antigo representante desse texto. Em termos gerais, este é o mais recen-
te dos vários tipos de texto do NT e se caracteriza por sua tendência de ser completo
e apresentar clareza de estilo. Os editores desse texto trataram de eliminar toda e
qualquer aspereza de linguagem, combinar duas ou mais leituras variantes para
formar um texto expandido (um processo chamado de c o n f la ç ã o ) , bem como
fazer com que o texto de passagens paralelas concordasse entre si (um processo co-
nhecido como harmonização). Esse tipo de texto está representado, hoje, no Códice
Alexandrino (A 02, nos Evangelhos; no restante do NT, este manuscrito representa
outro tipo de texto), nos manuscritos unciais copiados mais recentemente, e na
grande massa dos manuscritos cursivos ou minúsculos. No aparato crítico, esses
manuscritos minúsculos são citados coletivamente através do símbolo B iz.
Essa forma de texto, criada possivelmente em Antioquia da Síria, foi levada
para Constantinopla e, dali, foi distribuída em larga escala por todo o Império
Bizantino. Mais ou menos oitenta por cento dos manuscritos minúsculos e quase
todos os lecionários trazem um tipo de texto bizantino. Assim sendo, no período
que vai mais ou menos do sexto ou sétimo século até à invenção da prensa de tipo
móvel (1450-1456 d.C.), o tipo de texto bizantino foi, em geral, visto como a forma
de texto que tinha autoridade e que, portanto, foi amplamente difundida e aceita. A
única exceção talvez tenha sido um ou outro manuscrito que preservou uma forma
de texto mais antiga.
Em torno do ano 200 d.C., manuscritos latinos eram utilizados na parte ociden-
tal do Império Romano; manuscritos coptas, no Egito; e manuscritos em siríaco, na
Síria. O grego ainda era usado principalmente na parte oriental do Império Romano.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTOXXIV
Na verdade, existem hoje mais de 8 mil manuscritos da Vulgata latina, um número
bem maior do que o conjunto de todos os manuscritos gregos que se conhece. No
final do século sete, o NT era lido em grego apenas numa área bem restrita da Igre-
ja, a Igreja Ortodoxa Grega, cujo patriarcado de maior destaque ficava na cidade
de Constantinopla. A forma de texto grego usada ali era o tipo de texto bizantino.
A rigor, mais ou menos noventa por cento dos manuscritos que se conhece hoje
e que preservam um tipo de texto bizantino foram copiados depois que o uso do
grego na Igreja ficou restrito a Bizâncio (Constantinopla). Em outras regiões, onde
anteriormente se lia o NT em grego, agora se usava um Novo Testamento traduzido
para uma das línguas locais. Ppr exemplo, no Egito os manuscritos gregos com um
tipo de texto alexandrino foram aos poucos sendo substituídos por traduções para
diferentes dialetos da língua copta. Quando foi inventada a imprensa, no tempo de
Gutenberg, a única forma do texto do NT que ainda se usava era o texto bizantino.
Este último aspecto precisa ser bem enfatizado. Alguns eruditos de nossos dias,
baseados no fato de que os manuscritos gregos com um tipo de texto bizantino su-
peram em muito o número de manuscritos que têm um tipo de texto alexandrino,
ainda argumentam que 0 tipo de texto bizantino deve estar mais próximo dos escri-
tos originais do NT.11 A tese é a seguinte: Deus não teria permitido que as leiturascorretas fossem preservadas num tipo de texto (o alexandrino) que tem menos ma-
nuscritos gregos do que outro tipo de texto (o bizantino). Essa argumentação ignora
as condições históricas que fizeram com que, na maior parte do Império Romano, o
grego fosse substituído por línguas locais.
Com a invenção da prensa de tipo móvel, que fez com que a produção de livros
passasse a ser um processo mais rápido e barato em relação à produção de cópias
manuscritas, o texto padrão do NT em edições impressas passou a ser o texto bizan-
tino, de qualidade inferior. Essa situação, até certo ponto lamentável, não é de todo
surpreendente, uma vez que os manuscritos gregos do NT que os primeiros editores
e impressores tinham à mão eram manuscritos que continham o corrompido texto
bizantino.
Edições im pressas do N ovo T estam en to Grego
A primeira edição impressa do Novo Testamento Grego, lançada em Basiléia no
ano de 1516, foi preparada por Desidério Erasmo, um erudito humanista holandês.
Como não encontrava nenhum manuscrito que tivesse o NT em sua íntegra, Eras-
mo valeu-se de vários manuscritos para as diferentes seções ou divisões do NT. Na
11 Para uma breve argumentação a favor do texto bizantino, feita recentemente, veja Maurice A. Robin-
son, “The Case for Byzantine Priority”, em Rethinking New Testament Textual Criticism (ed. David Alan
Black; Grand Rapids: Baker, 2002), p. 125139־. Neste mesmo livro aparece uma convincente resposta à
argumentação de Robinson; veja Moisés Silva, “Response”, p. 141150־.
XXVINTRODUÇÃO
maior parte do seu texto, baseou-se em dois manuscritos de qualidade inferior,
copiados por volta do século doze, um para os Evangelhos e outro para Atos e as
Epístolas. Erasmo comparou esses manuscritos com dois ou três outros manuscritos
e, aqui e ali, inseriu, na cópia encaminhada ao impressor, correções nas margens
ou entre as linhas de texto.
Para o Apocalipse, Erasmo dispunha de um só manuscrito, datado do século
doze, que lhe foi emprestado por um amigo. Acontece que esse manuscrito não tinha
a última folha, onde haviam sido copiados os últimos seis versículos do Apocalipse.
Para esses versículos, Erasmo se baseou na Vulgata latina de Jerónimo, traduzindo
o texto latino para o grego. Como seria de se esperar no caso de um procedimento
desses, em vários momentos a reconstrução que Erasmo fez desses versículos inclui
algumas leituras que nunca foram encontradas em nenhum manuscrito grego, mas
que ainda hoje são reproduzidas em edições do assim chamado “T extu s R ecep tu s”
do Novo Testamento Grego. Em outras partes do NT, ocasionalmente Erasmo tam-
bém introduzia em seu texto grego material tirado da Vulgata latina, na forma em
que era conhecida naquele tempo. O irônico é que a Vulgata latina, que havia sido
traduzida onze séculos antes de Erasmo, por vezes tem um texto bem próximo do
original, pois é uma tradução que foi feita a partir de melhores manuscritos gregos.
A primeira edição do Novo Testamento Grego de Erasmo teve tanta aceitação
que logo estava esgotada, tornando necessária uma segunda edição. Essa segunda
edição, de 1519, na qual alguns (mas nem de perto a totalidade) dos muitos erros
tipográficos da primeira edição haviam sido corrigidos, foi utilizada por Martinho
Lutero e por William Tyndale, quando estes fizeram as suas traduções do NT para
o alemão, em 1522 (Lutero), e para o inglês, em 1525 (Tyndale).
Nos anos que se seguiram, muitos outros editores e impressores publicaram uma
variedade de edições do Novo Testamento em grego. Todas elas reproduziam, em
maior ou menor escala, o mesmo tipo de texto, isto é, aquele que foi preservado nos
manuscritos bizantinos, de produção mais recente. Mesmo quando um editor tinha
acesso a manuscritos mais antigos, fazia pouco ou nenhum uso dos mesmos, pois
estes eram por demais diferentes da forma de texto que havia sido padronizada nas
cópias mais recentes.
Entre as mais antigas edições do NT Grego estão duas de Robert Etienne (mais
conhecido como Robert Stephanus, que é a forma latinizada do nome dele). Trata-se
de um impressor parisiense que, mais tarde, se mudou para Genebra e se associou
aos protestantes daquela cidade. Em 1550, Stephanus publicou, em Paris, sua tercei-
ra edição. Este foi o primeiro NT Grego impresso que trazia um aparato crítico, ou
seja, uma lista de leituras variantes encontradas em diferentes manuscritos. Na mar-
gem interna das páginas dessa edição, Stephanus anotou leituras variantes encon-
tradas em catorze manuscritos gregos, bem como leituras que apareciam em outra
edição impressa, a Poliglota Complutense (publicada na Espanha em 15211522־). A
quarta edição de Stephanus (Genebra, 1551), que, além do texto grego, contém duas
versões latinas (a Vulgata e uma tradução de Erasmo), se destaca porque nela, pela
primeira vez, o texto do NT aparece dividido em versículos numerados.
Teodoro Beza, amigo e sucessor de Calvino em Genebra, chegou a publicar nove
edições do NT Grego, entre 1565 e 1604; uma décima edição apareceu em 1611,
após a morte dele. A obra de Beza é importante na medida em que as suas edições
ajudaram a popularizar e padronizar o texto que veio a ser denominado de tex tu s
recep tu s (que, muitas vezes, é chamado simplesmente de TR). Os tradutores da
Bíblia inglesa King James, de 1611, fizeram bastante uso das edições de Beza, pu-
blicadas em 1588-1589 e 1598.
A expressão te x tu s recep tus (“texto recebido”), aplicada ao texto do NT, se ori-
ginou a partir de uma formulação usada pelos irmãos Boaventura e Abraão Elzevir,
impressores da cidade de Leiden. No prefácio à segunda edição do NT Grego que
os irmãos Elzevir publicaram em 1633 aparece a seguinte afirmação latina: Tex-
turn ergo habes, n u n c ab o m n ib u s recep tum , in quo n ih il im m u ta tu m a u t co rru p tu m
d a m u s (“Portanto, tens [,amado leitor,] o texto que agora é recebido por todos, no
qual não apresentamos nada que tenha sido mudado ou corrompido”). Num certo
sentido, esta afirmação, que revela certa dose de orgulho, até se justificava, pois
aquela edição era, em grande parte, idêntica às mais ou menos 160 outras edições
do NT Grego impresso que haviam sido publicadas desde a primeira edição feita
por Erasmo, em 1516. Muitas vezes, em escritos menos técnicos, as expressões “tex-
to bizantino” e líte x tu s recep tu s” aparecem como se fossem sinônimas. Entretanto,
é preciso levar em conta que existem aproximadamente 1500 diferenças entre a
maioria das edições do te x tu s recep tus e a forma de texto bizantina.
A forma de texto bizantina, reproduzida em todas as primeiras edições impres-
sas do NT Grego, foi sendo descaracterizada, ao longo dos séculos, pela inclusão de
numerosas alterações feitas por copistas. Muitas dessas alterações não têm maior
significado ou importância, mas algumas fazem significativa diferença. Mas foi
essa forma de texto bizantina, corrompida, diga-se de passagem, que serviu de base
para quase todas as traduções do NT em línguas modernas, até o século dezenove.
Durante o século dezoito, eruditos reuniram uma grande gama de informações
extraídas de muitos manuscritos gregos, bem como das versões antigas e de fontes
patrísticas. Mas, exceção feita a umas três ou quatro edições que, de forma tímida,
corrigiram alguns dos erros mais evidentes do te x tu s receptus, foi esta forma cor-
rompida do NT que foi sendo reimpressa em sucessivas edições.
Muitos eruditos que viveram nesse período poderíam ser citados, mas um deles
merece destaque especial. Trata-se de Johann A. Bengel (1687-1752).12 Foi Bengel
quem começou a prática de agrupar os manuscritos em famílias a partir das leituras
xxvi VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO
12 Veja William Baird, History of New Testament Research. Volume One: From Deism to Tubingen (Min-
neapolis: Fortress, 1992),p. 69-74.
ou variantes que aparecem neles. Ele também elaborou critérios para avaliar as lei-
turas variantes, incluindo o princípio de que a leitura mais difícil tem mais chances
de ser o original. Bengel, que imprimiu o te x tu s recep tus, foi também o primeiro a
inserir, na margem, uma avaliação das variantes textuais: a indicava a leitura que
ele considerava original; β, uma leitura que era considerada melhor do que aquela
no texto; γ, uma leitura tão boa quanto aquela do texto; ô, uma leitura de valor infe-
rior àquela no texto; e ε, uma leitura sem valor nenhum. A obra de Bengel permitiu
aos eruditos “pesar” o valor dos manuscritos que apoiam determinada leitura, em
vez de simplesmente fazer a contagem dos manuscritos.
Foi somente na primeira metade do século dezenove (em 1831) que o alemão
Karl Lachmann, um estudioso dos clássicos, decidiu aplicar ao NT os critérios que
ele havia adotado na edição de textos clássicos, isto é, da literatura da antiga Grécia
e da antiga Rom a.13 Posteriormente, apareceram outras edições críticas, incluindo
as de Constantin von Tischendorf, cuja oitava edição (1869-1872) continua sendo
uma importante fonte de variantes textuais.14 A influente edição de B.F. Westcott e
F.J.A. Hort, dois eruditos de Cambridge, foi publicada em 1881.15 Foi ela que serviu
de ponto de partida para as edições das Sociedades Bíblicas Unidas e desta edição
da Sociedade Bíblica do Brasil. Durante o século vinte, com a descoberta de vários
manuscritos do NT que eram muito mais antigos do qualquer um dos outros que
se conhecia até então, foi possível fazer edições do NT que se aproximam cada vez
mais daquilo que se considera como o texto dos documentos originais.
No século vinte, tanto eruditos da Igreja Católica Romana (Vogeis, Bover e
Merk) quanto eruditos protestantes editaram Novos Testamentos em grego. Du-
rante a primeira metade do século vinte, as sete edições mais utilizadas foram as
editadas pelos seguintes eruditos:
(1) Tischendorf, 1841, 8a ed., 18692) ;1872־) Westcott-Hort, 1881; (3) von So-
den, 1902-1913; (4) Vogels, 1920; 4a ed., 1955; (5) Bover, 1943; 6a ed., 1981; (6)
Nestle (־Aland), 1898; 27a ed., 1993; e (7 ) Merk, 1933; 11a ed., 1992.
Uma comparação entre essas sete edições mostra que as de von Soden, Vogeis,
Merk e Bover concordam com o texto de tipo bizantino mais vezes do que as edições
de Tischendorf, Westcott-Hort e Nestle-Aland, que se aproximam mais dos manus-
critos que constituem o texto alexandrino. Entretanto, apesar dessas diferenças,
״essas sete edições do Novo Testamento Grego estão em total concordância... em
mais ou menos dois terços do texto do Novo Testamento, sendo que as únicas dife-
renças se devem a detalhes de caráter ortográfico (ou de grafia)”. 16
13 Veja Baird, History of New Testament Research. Volume One, p. 319322־.
14 Veja Baird, History of New Testament Research. Volume One, p. 322-328.
15 Veja William Baird, History of New Testament Research. Volume Two: From Jonathan Edwards to Ru-
dolf Bultmann (Minneapolis: Augsburg Fortress, 2003), p. 60-65.
1 6 Kurt e Barbara Aland, The Text of the New Testament (ed. rev.; Grand Rapids: Eerdmans, 1989), p. 29.
INTRODUÇÃO xxvi i
Um pequeno grupo de eruditos continua a defender a ideia de que o texto bi-
zantino está mais próximo dos escritos originais. Z.C. Hodges e A.L. Farstad, que
rejeitam os métodos e as conclusões de Westcott e Hort, editaram, em 1982, “O Novo
Testamento Grego segundo o Texto Majoritário” (The Greek N ew T estam en t A ccord ing
to the M a jo r ity Text), um texto baseado na tradição de texto bizantina. A maioria dos
manuscritos dessa tradição são manuscritos cursivos copiados no período que vai do
século onze ao século quinze e que correspondem aos manuscritos que Kurt e Bar-
bara Aland, em The T ex t o f the N ew T esta m en t [O Texto do N ovo T estam ento] (edição
revisada, pp. 159-162), denominam de Categoria v. Na maior parte do Novo Testamen-
to, essa edição de Hodges e Farstad apresenta, em cada página, umas três ou quatro
diferenças em relação ao texto publicado em O N ovo T estam en to Grego (edição SBB).
No Apocalipse, o número de diferenças por página é maior ainda.7 נ “O Novo Testa-
mento Grego segundo o Texto Majoritário” (edição de Hodges e Farstad) traz dois
aparatos críticos: o primeiro aponta para diferenças entre os próprios manuscritos
bizantinos; o segundo registra as diferenças entre o texto majoritário impresso por
Hodges e Farstad e o texto impresso na vigésima sexta edição de Nestle-Aland e na
terceira edição do The G reek N ew T esta m en t (o texto das Sociedades Bíblicas Unidas).
A maioria dos estudiosos do Novo Testamento discorda dos pressupostos e da
metodologia adotada por Hodges e Farstad.* 18 Portanto, Kurt e Barbara Aland têm
razão quando afirmam que “de certa forma pode-se pressupor que todos os que
hoje em dia trabalham com o Novo Testamento Grego estão usando ou uma cópia
do The G reek N ew T esta m en t das Sociedades Bíblicas Unidas em sua terceira edição
(GNT3, 1975 [a quarta edição saiu em 1993]), ou a vigésima sexta edição do N o v u m
T esta m en tu m Graece de Nestle-Aland (NA26, 1979 [a 27a edição saiu em 1993])”. 19
Entretanto, como observou Raymond Brown, o texto que aparece em todas as
edições impressas do Novo Testamento Grego consiste em leituras tiradas de di-
ferentes manuscritos. Isto significa que o texto das edições críticas “nunca existiu
como uma unidade no mundo antigo... Disso decorre que, por mais que os livros
do NT sejam canônicos, nenhum texto grego em particular deveria ser canonizado;
e o máximo que se pode reivindicar para uma edição crítica do NT Grego é que ela
goza de aceitação entre os eruditos”.20
1 7 Segundo Daniel B. Wallace, existem cerca de 6.500 diferenças textuais entre o texto grego editado
por Hodges e Farstad e o texto da vigésima sétima edição de Nestle-Aland (“The Textual Basis of New
Testament Translations”, in The Evangelical Parallel New Testament [ed. John R. Kohlenberger III; Nova
Iorque/Oxford: Oxford University Press, 2003], p. xxiv).
18 Veja a resenha sobre The Greek New Testament according to the Majority Text escrita por J.K. Elliott e
publicada em The Bible Translator 34 (July 1983), p. 340-344.
1 9 Kurt e Barbara Aland, The Text of the New Testament ( Ia edição inglesa, 1987), p. 218. Em 1959, Kurt
Aland fundou o Instituto para a Pesquisa Textual do Novo Testamento, em Münster, na Alemanha. Este
instituto está publicando uma edição crítica maior do Novo Testamento, que se chama Editio Critica
Maior. Até a presente data, foram publicados volumes avulsos de Tiago (1999), l-2Pedro (2000), IJoão
(2003), e 2-3João e Judas (2005).
xxviii VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO
Para mais detalhes a respeito de modernas edições críticas do Novo Testa-
mento Grego, veja o capítulo 18 (pp. 283-296) em Ehrman e Holmes (editores),
T he T ex t o f th e N ew T e s ta m e n t in C o n te m p o ra ry R esearch .
INTRODUÇÃO xxix
IV. C ritérios a do tad o s para escolher entre leituras conflitantes
EM TESTEMUNHOS DO N 0V 0 TESTAMENTO
Na seção anterior, o leitor terá notado como, durante m ais ou m enos catorze
séculos, quando o NT foi transm itido através de cópias feitas à mão, um gran-
de número de m odificações e acréscim os foram introduzidos no texto. Hoje
tem os mais ou m enos cinco mil m anuscritos gregos que contém uma parte ou
todo o NT, mas não existem dois m anuscritos que concordem exatam ente em
todos os detalhes. Confrontados com uma pluralidade de leituras divergentes,
os editores precisam decidir o que m erece ser incluído no texto e o que pre-
cisa ser colocado no aparato crítico. Embora, à prim eira vista , possa parecer
uma m issão quase im possível escolher o texto considerado original do m eio de
tantas variantes textuais,os eruditos elaboraram alguns critérios de avaliação
que são geralm ente aceitos e que facilitam esse processo de seleção. Como será
possível notar, essas considerações dependem de probabilidades e, às vezes, o
crítico de texto precisa optar entre dois conjuntos de probabilidades. Por mais
que os critérios que serão apresentados a seguir formem um esquem a mais ou
m enos ordenado, sua aplicação nunca poderá ser feita de m aneira m ecânica ou
im pensada. Devido ao âmbito e à com plexidade dos fatos textuais, é impossí-
vel aplicar uma série de regras bem ordenadas com rigor m atem ático e numa
ordem fixa. Cada uma das variantes precisa ser considerada individualm ente,
e não pode ser avaliada sim plesm ente a partir de uma regra pré-estabelecida.
O leitor deve dar-se conta de que a lista de critérios que será apresentada a
seguir é apenas uma descrição das considerações mais im portantes que foram
levadas em conta pela com issão editorial do T h e G reek N ew T e s ta m e n t (e, por
extensão, de O N o vo T e s ta m e n to G rego , edição SBB) quando da escolha entre
leituras variantes. 20
20 Brown, An Introduction to the New Testament, p. 52. Esse assunto, todavia, pode ser encarado de um
ponto de vista diferente. Segundo Epp, cada um dos mais de 5.300 manuscritos do NT Grego e dos 9.000
manuscritos de versões, dos quais não existem dois que sejam exatamente idênticos, “foram considerados
como tendo autoridade — e, portanto, vistos como sendo canônicos — e usados no culto e nas atividades
de instrução de uma ou mais das milhares de igrejas espalhadas pelo mundo” (“Issues in the Interrelation
of New Testament Textual Criticism and Cânon”, in The Canon Debate [ed. Lee Martin McDonald e James
A. Sanders; Peabody, Mass: Hendrickson, 2002], p. 514). Elliott disse algo semelhante: “os eruditos estão
cada vez mais se dando conta de que cada um dos manuscritos do Novo Testamento era a Escritura cano-
nica, utilizada e vivida por aqueles que possuíam aquela cópia — até mesmo leituras que não têm paralelo
ou que, segundo a erudição moderna, são consideradas secundárias, eram o texto bíblico daqueles cris-
tãos” (“The Case for Thoroughgoing Eclecticism”, in Rethinking New Testament Textual Cnticism , p. 124).
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTOXXX
Entre os critérios para a avaliação de leituras variantes, a mais importante é
a regra de que se deve “escolher a leitura que melhor explica a origem das outras
leituras”21 (veja, por exemplo, ITs 3.2). As principais categorias ou tipos de critérios
e considerações que ajudam a avaliar o valor relativo de variantes textuais são os
que têm a ver com
ev id ên c ia ex tern a , isto é, com os manuscritos em si, e com
ev id ên c ia in tern a , isto é, com dois tipos de considerações, a saber:
(A) aquelas que dizem respeito a p ro b a b ilid a d es d e tra n scr içã o
(isto é, que têm a ver com hábitos de cópia dos escribas) e
(B) aquelas que dizem respeito a p ro b a b ilid a d es in tr ín sec a s
(isto é, que estão relacionadas com o estilo do autor).22
E vidência ex te rn a , envo lvendo considerações que têm a ver com :
A . A idade e o ca rá te r dos te stem u n h o s: Em geral, manuscritos mais antigos têm
mais chances de estarem livres dos erros que resultam de sucessivas cópias. Entre-
tanto, mais importante do que a idade do manuscrito em si é a data e o caráter do
tipo de texto que ele representa, bem como o cuidado revelado pelo copista quando
produziu o manuscrito. Por exemplo, embora os manuscritos cursivos 33 e 1739
tenham sido copiados no século nono e décimo respectivamente, ambos preservam
um tipo de texto alexandrino nas cartas paulinas.
B. A d istr ib u içã o geográ fica dos te s tem u n h o s que ap o ia m a va ria n te : Quando,
por exemplo, manuscritos de Antioquia (na Síria), Alexandria (no Egito), e da Gá-
lia (que corresponde à França e Bélgica de nossos dias) concordam em seu apoio
a determinada leitura, este fato, deixando de lado considerações de outra ordem,
é mais significativo do que o testemunho de manuscritos que representam apenas
um centro de produção e distribuição de textos. Entretanto, é preciso ter certeza de
que manuscritos que estão geograficamente afastados não tenham, de fato, nenhu-
ma dependência entre si. Por exemplo, a concordância entre testemunhos latinos
antigos (Ita la ) e siríacos antigos pode ser resultante do fato de que todos foram
influenciados pelo Diatessarão de Taciano. (Veja “Diatessarão”, pp. xxxiv e xxxv, na
Introdução a O N ovo T estam en to Grego).
C. O r e la c io n a m e n to g en ea ló g ico e n tre te x to s e fa m í l ia s de m a n u sc r ito s : O
simples número de m anuscritos que apoiam determ inada variante não prova
necessariam ente a superioridade daquele texto. Por exem plo, se o texto “a” tem
o apoio de vinte m anuscritos e o texto “b”, o apoio de um só manuscrito, a re
21 Bruce M. Metzger, The Text of the New Testament (3a ed.; Oxford: Oxford University Press, 1992), p. 207.
2 2 Para um apanhado geral de estudos mais recentes nesta área, especialmente no que diz respeito ao
argumento de que a leitura mais breve é a melhor, veja Epp, “Issues in New Testament Textual Criticism”,
p. 20-34.
lativa vantagem numérica da variante “a” ficaria anulada, caso se descobrisse
que todos aqueles vinte m anuscritos são cópias de um mesmo manuscrito cujo
copista criou aquela variante “a”. Num caso assim, é preciso comparar aquele
um m anuscrito que tem a leitura “b” com o ancestral comum aos vinte manus-
critos que têm a variante “a”.
D . M a n u scr ito s d evem ser p esados, não con tados: Em outras palavras, o princí-
pio enunciado no parágrafo anterior precisa de uma formulação mais completa.
Em passagens onde é fácil identificar o texto ou a leitura original, percebe-se que,
em geral, alguns manuscritos são dignos de confiança. Esses são os manuscritos
aos quais deve-se dar maior peso ou valor na hora de resolver problemas textuais
que envolvem ambiguidade ou cuja solução é incerta ou complicada. Ao mesmo
tempo, no entanto, visto que o peso relativo dos diferentes tipos de evidência
não é sempre o mesmo, nunca se pode fazer uma mera avaliação m ecânica da
evidência textual.
INTRODUÇÃO xxx i
E vidência in te rn a , ligada a dois tipos de probab ilidade:
A . P robab ilidades de transcrição dependem de considerações relacionadas com
os hábitos dos copistas e com a maneira como as letras eram escritas nos manus-
critos.
(1) Em geral, deve-se preferir a leitura mais difícil, especialmente se, numa
leitura superficial, o texto parece não fazer sentido, mas, após um exame mais
cuidadoso, revela que é de fato o texto correto. (Neste caso, “mais difícil” significa
“mais difícil para o copista”, que seria tentado a alterar o texto. A maioria das mo-
dificações feitas pelos copistas se caracteriza por sua superficialidade. E claro que,
às vezes, se chega num ponto em que a leitura, de tão difícil que á, não pode ser
original, mas deve ter surgido como resultado de um erro do copista.)
(2) Em geral, deve-se preferir a leitura mais breve, exceção feita a casos em que
(a) pode ter havido erro de observação resultante de “homeoarcton” ou ho-
meoteleuto (ou seja, em que o copista, diante de palavras que têm a
mesma sequência de letras no começo ou no final, passou da primeira
para a segunda e omitiu o texto que ficava entre as duas); ou em que
(b) o copista pode ter omitido material que ele considerou desnecessário,
ofensivo ou contrário à piedade, ao uso litúrgico ou à prática da ascese.
(3) Visto que copistas tinham a tendência de harmonizar passagens paralelas
que apresentavam pequenas diferenças entre si, sempre que se trata de passagens
paralelas (seja citações do AT ou diferentes relatos do mesmo acontecimento ou
narrativa nos Evangelhos)deve-se, como regra geral, preferir a leitura que preserva
as diferenças verbais e não aquela que faz com que os relatos concordem entre si.
(4) Às vezes, os copistas tratavam de
(a) substituir uma palavra rara por um sinônimo mais familiar ou conhecido;
(b) alterar uma forma gramatical menos refinada ou uma formulação m e־
nos elegante, adaptando-as aos padrões do grego ático ou do estilo ati-
cista;23 ou
(c) acrescentar pronomes, conjunções, etc., para produzir um texto mais fluente.
B. P robab ilidades in tr ín seca s dependem de considerações daquilo que o autor, e
não o copista, provavelmente teria escrito. O crítico de texto leva em consideração:
(1) Em geral:
(a) O estilo e o vocabulário do autor em todo 0 livro;
(b) O contexto imediato; e
(c) concordância com o uso linguístico do autor em outros textos;
(2) Nos Evangelhos:
(a) o pano de fundo aramaico do ensino de Jesus;
(b) a prioridade do Evangelho segundo Marcos (ou seja, que Marcos foi es-
crito primeiro e que Mateus e Lucas tiveram acesso ao texto de Marcos
quando escreveram os seus Evangelhos); e
(c) a influência da comunidade cristã sobre a fraseologia e a transmissão do
texto em questão.
É claro que nem todos esses critérios serão usados em cada caso. O crítico de
texto precisa saber quando convém dar maior atenção a um critério e menos valor
a outro. Uma vez que a crítica textual é tanto ciência quanto arte, é inevitável que,
em alguns casos, diferentes especialistas façam diferentes avaliações do significado
da evidência textual. Essa divergência é praticamente inevitável quando, em casos
bem concretos, a situação é tão indefinida que, por exemplo, o texto mais difícil
aparece somente em manuscritos mais recentes, que, em geral, são menos confiá-
veis, ou o texto mais longo se encontra apenas em manuscritos mais antigos, que,
de modo geral, são mais confiáveis.
V . L istas de testem u n h o s seg u n do o tipo de texto
Uma lista bastante útil de testemunhos segundo o tipo de texto se encontra em
Um C om en ta rio T ex tu a l a l N uevo T estam en to Griego , de Bruce M. Metzger, pp. 15-16.
Igualmente valiosa é a lista organizada por século e categoria que aparece em K. e
B. Aland, The T ext o f the N ew T es ta m en t, pp. 159-162.
23 Em 1963, George D. Kilpatrick, um crítico de texto britânico, apresentou a sugestão de que, durante o
segundo século, escribas com uma boa formação linguística tinham a tendência de alterar o grego coiné
e, sob a influência de gramáticos neoaticistas, adaptaram esse grego ao estilo do grego ático. Para uma
extensa relação de artigos escritos por Kilpatrick e J.K. Elliott, bem como argumentos contrários ao ponto
de vista deles, veja Epp, “Issues in New Testament Textual Criticism”, p. 2527־.
xxxii VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO
V L R eferências a traduçõ es m o dernas
Nas notas sobre as variantes textuais que aparecem neste livro são citadas vá-
rias traduções modernas, em geral traduções portuguesas. Isto foi feito unicamente
para fins ilustrativos, e não deve ser interpretado como indício de que uma tra-
dução seja melhor do que a outra ou que se está recomendando a decisão textual
de determinada tradução quando a mesma é mencionada ou citada no contexto
de uma variante textual. Recomenda-se aos tradutores que sigam as leituras que
fazem parte do texto; mas quando uma tradução moderna como NBJ ou outra opta
pela variante, esta tradução é mencionada ou citada, em alguns casos, para que
tradutores de outras línguas possam entender melhor as diferenças entre a leitura
escolhida como texto e uma ou mais variantes que aparecem no aparato crítico.
INTRODUÇÃO xxxiii
BIBLIOGRAFIA
Aland, Barbara e Joél Delobel, editores. N ew T estam ent Textual C riticism , Exegesis
a n d Church H istory: A D iscussion o f M ethods. Kampen, Netherlands: Kok Pharos,
1994.
Aland, Kurt. “Textual Criticism, New Testament.” Revisado por Beate Kõster.
Páginas 546-551 do volume 2 de D ictionary o f Biblical In te rp re ta tio n . Editado
por John H. Hayes. 2 volumes. Nashville: Abingdon, 1999.
Aland, Kurt, e Barbara Aland. The Text o f the N ew Testam ent: A n In tro d u c tio n to
the Critical E d itions an d to the Theory a n d Practice o f M odern Textual Criticism .
2a edição revisada e ampliada. Tradução de Erroll F. Rhodes. Grand Rapids:
Eerdmans, 1989.
Birdsall, J. Neville. “The Recent History of New Testament Textual Criticism
(From Westcott and Hort, 1881, to the Present),” A u fstieg u n d N iedergang der
rom ischen W elt. (1992) 11:26.1: 99-197.
_. ‘Versions, Ancient (Survey).” Páginas 7 8 7 7 9 3 ־ no volume 6 de The A nchor
Bible D ictionary. Editado por David Noel Freedman. 6 volumes. Nova Iorque:
Doubleday, 1992.
Black, David Alan, editor. R e th in k in g N ew T estam en t Textual C riticism . Grand
Rapids: Baker, 2002.
Brown, Raymond E. A n In troduction to th e N ew Testam ent. Nova Iorque: Doubleday,
1997.
Clarke, Kent D. Textual O p tim ism : A C ritique o f the U nited B ible Societies' Greek N ew
T estam ent. JSNT Supplement Series 138. Sheffield: Sheffield Academic Press,
1997.
Denaux, Adelbert, editor. N ew T estam en t Textual C riticism a n d Exegesis: Festschrift J.
Delobel. Leuven: University Press, 2002.
Ehrman, Bart D. The O rthodox C orruption o f Scripture: The E ffect o f Early
Christological Controversies on the Text o f the N ew Testam ent. Nova Iorque:
Oxford, 1993.
״Textual Criticism of the New Testament.” Páginas 127-145 em H earing the
N ew Testam ent: S tra teg ies f o r In te rp re ta tio n . Editado por Joel B. Green. Grand
Rapids: Eerdmans, 1995.
“The Use and Significance of Patristic Evidence for NT Textual Criticism.”
Páginas 1 1 8 1 3 5 ־ em N ew T estam ent Textual C n tic ism , Exegesis a n d Church
H istory: A D iscussion o f M ethods. Editado por Barbara Aland e Joel Delobel.
Kampen, Netherlands: Kok Pharos, 1994.
e Michael W. Holmes, editores. The Text o f the N ew T estam ent in C on tem porary
Research: Essays on the S ta tu s Q uaestionis. A Volum e in H o n o r o f Bruce M.
M etzger. Studies and Documents 46. Grand Rapids: Eerdmans, 1995.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTOXXXV!
Elliott, Keith. “The Case for Thoroughgoing Eclecticism.” Páginas 101-124 em
R e th in k in g N ew T estam en t Textual C riticism . Editado por David Alan Black.
Grand Rapids: Baker, 2002.
e Ian Moir. M anuscrip ts a n d th e Text o f th e N ew Testam ent: A n In tro d u ctio n fo r
English Readers. Edinburgh: T&T Clark, 1995.
Epp, Eldon Jay. “Ancient Texts and Versions of the New Testament.” Páginas 1 1 1 ־
em The N ew In terpreter's B ible. Volume 8. Editado por Leander Keck. Nashville:
Abingdon Press, 1995.
_. “Issues in New Testament Textual Criticism.” Páginas 17-76 em R e th in k in g N ew
T estam en t Textual C riticism . Editado por David Alan Black. Grand Rapids: Baker,
2002.
_. “Issues in the Interrelation of New Testament Textual Criticism and Canon.”
Páginas 485-515 em The C anon D ebate. Editado por Lee Martin McDonald e
James A. Sanders. Peabody, Mass.: Hendrickson, 2002.
“Textual Criticism.” Páginas 75-126 em The N ew Testam ent an d Its M odern
Interpreters. Editado por E. J. Epp e G. W. MacRae. Atlanta: Scholars Press, 1989.
_. “Textual Criticism (NT).” Páginas 412-435 no volume 6 de The A n ch o r Bible
D ictionary. Editado por David Noel Freedman. 6 volumes. Nova Iorque:
Doubleday, 1992.
_. “Western Text.” Páginas 909-912 no volume 6 de The A n ch o r Bible D ictionary.
Editado por David Noel Freedman. 6 volumes. Nova Iorque: Doubleday, 1992.
e Gordon D. Fee. S tud ies in the Theory an d M eth o d o f N ew T estam en t Textual
Criticism . S tud ies an d D ocum ents 4 5 . Grand Rapids: Eerdmans, 1993.Greenlee, J. Harold. In tro d u c tio n to N ew T estam ent Textual C riticism . Edição revista.
Peabody, Mass.: Hendrickson, 1995.
Holmes, M achad W. “Textual Criticism.” Páginas 927-932 em D ictionary o f Paul
an d H is Letters. Editado por Gerald F. Hawthorne, et al. Downers Grove, 111.:
InterVarsity, 1993.
_. “Textual Criticism.” Páginas 4 6 7 3 ־ em In terpre ting the N ew Testam ent:
H erm eneu tica l Issues, Trends, an d M ethods. Editado por David A. Black e David
S. Dockery. Nashville: Broadman and Holman, 2001.
Metzger, Bruce M. The Early Versions o f the N ew Testam ent: Their O rigin,
Transm ission , a n d L im ita tio n s. Oxford: Clarendon, 1977.
The Text o f the N ew Testam ent: Its Transm ission , C orruption , a n d R estora tion . 3a
edição ampliada. Nova Iorque e Oxford: Oxford University Press, 1992.
_, e Bart D. Ehrman. The Text o f the N ew Testament: Its Transm ission , Corruption , and
Restoration. 4a edição. Nova Iorque e Oxford: Oxford University Press, 2005.
Omanson, Roger L. “The Text of the New Testament.” Páginas 1 3 5 1 5 3 ־ em
D iscover the B ible. Editado por Roger L. Omanson. Miami: United Bible
Societies, 2001.
BIBLIOGRAFIA xxxvii
Parker, David C. The L iving Text o f the Gospels. Cambridge: Cambridge University
Press, 1997.
“The New Testament.” Páginas 110-133 em The O xford Illu stra ted H isto ry o f the
B ib le . Editado por John Rogerson. Oxford: Oxford University Press, 2001.
Peterson, William L. “What Text Can NT Textual Criticism Ultimately Reach?”
Páginas 136-152 em N ew T estam en t Textual Criticism , Exegesis a n d Church
H istory: A D iscussion o f M ethods. Editado por Barbara Aland e Joel Delobel.
Kampen, Netherlands: Kok Pharos, 1994.
Petzer, Jacobus H. “The History of the New Testament — Its Reconstruction,
Significance and Use in New Testament Textual Criticism.” Páginas 1 1 3 6 ־ em
N ew T estam en t Textual Criticism , Exegesis a n d Church H istory: A D iscussion o f
M eth o d s . Editado por Barbara Aland e Joel Delobel. Kampen, Netherlands: Kok
Pharos, 1994.
Piñero, Antonio, e Jesús Peláez. The S tu d y o f the N ew Testam ent: A C om prehensive
In tro d u c tio n . Traduzido por David E. Oston e Paul Ellingworth. Leiden: Deo,
2003.
Schmidt, Daryl D. “The Greek New Testament as a Codex.” Páginas 4 6 9 4 8 4 ־ em
The C anon D ebate. Editado por Lee Martin McDonald e James A. Sanders.
Peabody, Mass.: Hendrickson, 2002.
Schnabel, Eckhard, J. “Textual Criticism: Recent Developments.” Páginas 59-75 em
The Face o f N ew T estam ent S tudies: A Su rvey o f R ecent Research. Editado por Scot
McKnight e Grant R. Osborne. Grand Rapids: Baker Academic, 2004.
Trebolle Barrera, Julio. The Jew ish Bible a n d the C hristian Bible: A n In tro d u c tio n to
the H isto ry o f the Bible. Leiden: Brill/Grand Rapids: Eerdmans, 1997.
Vaganay, Léon, e Christian-Bernard Amphoux. A n In tro d u c tio n to N ew T estam ent
Textual C riticism . 2a edição. Cambridge 1991; original francês de 1986.
Wallace, Daniel. “The Majority Text Theory: History, Methods, and Critique.
Páginas 2 9 7 3 2 0 ־ em The Text o f the N ew T estam ent in C on tem porary Research:
Essays on the S ta tu s Q uaestionis. A Volum e in H onor o f Bruce M. Metzger. Editado
por Bart D. Ehrman e Michael W. Holmes. Grand Rapids: Eerdmans, 1995.
ABREVIATURAS
AB Anchor Bible
AD Apostoliki Diakonia (isto é, a edição do Novo Testamento de B. Anto-
niadis, 1988)
ANTC Abingdon New Testament Commentaries
ARA Almeida Revista e Atualizada
ARC Almeida Revista e Corrigida
BDAG Bauer, W., F.W. Danker, W.F. Arndt, e F.W. Gingrich. G reek-E nglish Le-
x ico n o f th e N ew T es ta m en t a n d O th er E a rly C h ris tia n L itera tu re . 3a ed.
Chicago: University of Chicago Press, 2000.
BECNT Baker Exegetical Commentary on the New Testament
BN A Boa Nova — Bíblia Sagrada: Tradução em Português Corrente
BNTC Black’s New Testament Commentary
CEV Contemporary English Version
CNBB Bíblia Sagrada — Tradução da CNBB
ESV English Standard Version
FC Tradução francesa em linguagem de hoje (La B ib le en F rançais Cou-
ra n t)
GNB Tradução alemã em linguagem de hoje (G ute N a ch r ich t B ib e l)
Goodspeed The Bible: An American Translation
HCSB Holman Christian Standard Bible
HNTC Harper’s New Testament Commentaries
ICC International Critical Commentary
KJV King James Version
LXX A Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento)
Merk Novum Testamentum Graece et Latine
Moffatt The Moffatt Translation of the Bible
NAB New American Bible
NBJ Nova Bíblia de Jerusalém
NCB New Clarendon Bible
NICNT New International Commentary on the New Testament
NIGTC New International Greek Testament Commentary
NJB New Jerusalem Bible
NIV New International Version
NVI Nova Versão Internacional
NLT New Living Translation
NRSV New Revised Standard Version
REB Revised English Bible
RSV Revised Standard Version
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTOxl
Seg Segond (tradução em francês)
SP Sacra Pagina
TEV Today’s English Version
TILH Tradução italiana em linguagem de hoje (Parola del Signore: La Bibbia
Traduzione Interconfessionale in Lingua Corrente)
TNIV Today’s New International Version
TEB Tradução Ecumênica da Bíblia
TR Textus Receptus
UBS The G reek N ew T esta m en t (edição das Sociedades Bíblicas Unidas)
VP Tradução espanhola em linguagem de hoje (Dios Habla Hoy, Versión
Popular)
WBC Word Biblical Commentary
WH Westcott-HortMc
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
Para uma breve, porém informativa, discussão sobre o texto de Mateus, veja
Boring, “The Gospel of M atthew”, p. 91.
1.7 8 ־ Χσάφ, Xσάφ (Asafe, Asafe) {B}
Os nomes que aparecem na genealogia, do v. 6b ao v. 11, são tirados de ICr
3.5,10-17. Segundo ICr 3.10 (também IRs 15.9-24), o nome do reí era Asa. No en-
tanto, está claro que a forma mais antiga de texto preservada nos manuscritos do
NT é “Asafe” (assim na FC). Isto porque manuscritos de diferentes familias e tipos
de texto têm o mesmo texto, a saber, “Asafe” Além da evidência dos manuscritos,
há que considerar o seguinte: é bastante provável que os copistas se deram conta
de que “Asafe” era o nome de um salmista (confira os títulos de SI 50; 73— 83),
levando-os a alterar o nome para “Asa”, rei de Judá. Manuscritos mais recentes,
bem como o te x tu s receptus, têm Χσά (Asa) (veja também a nota sobre o v. 10).
Alguns intérpretes entendem que é muito pouco provável que o autor desse
Evangelho tenha anotado essa lista de nomes sem consultar os nomes dos reis no
AT. Assim, pensam que o nome “Asafe” deve ser um antigo erro de cópia, feito por
um copista que colocou o nome “Asafe” em lugar de “Asa”. Mas é possível que o es-
critor do Evangelho tenha usado uma lista genealógica na qual já constava esse erro
de escrita. Em traduções modernas, o nome “Asa” aparece em RSV, REB, NVI, NBJ,
TEB, ARC, ARA, CNBB, NTLH, BN e Seg. NTLH optou pelo nome “Asa”, porque
segue o princípio de consistência entre o Antigo e Novo Testamento, quando se faz
referência à mesma pessoa. Tradutores que seguem esse mesmo princípio colocarão
no texto da língua receptora o nome de “Asa”, mesmo que aceitem como original o
texto que traz o nome de Xoáqp.
1.10 Αμώς, Αμώς (Amós, Amós) {B}
O apoio textual para “Am ós” é praticamente o mesmo que existe para “Asa-
fe”, nos vs. 7-8. Com base nesse maciço apoio de manuscritos, “Am ós” tem tudo
para ser o texto original. No entanto, “Am ós” é um erro, aparecendo em lugar de
“Amom”, o nome do rei de Judá. Em ICr 3.14, a maioria dos manuscritos gregos
traz o nome correto: Χμών ou Άμμών, embora Αμώς apareça em alguns poucos
manuscritos. No relato sobre o rei Amom, em 2Rs 21.18-19,23-25; 2Cr 33.20-25,
vários manuscritos gregos têm a forma incorreta, Αμώς. Assim, embora o texto(hebraico) massorético tenha sempre o nome “Amom”, nos manuscritos da Septua-
ginta existe uma alternância entre os nomes “Amom” e “Amós”.
Segu n d o D avies e A llison (A C r i t ic a l a n d E x e g e t ic a l C o m m e n ta r y on
th e G o sp e l A c c o r d in g to S a i n t M a t t h e w , vo l. I, p. 177), o nom e A m ós “pode
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO2
representar uma corrupção textu al presente na fonte usada por M ateus ou na
tradição textu al posterior a M ateus. Ou, talvez, M ateus sim plesm ente com eteu
um erro. N este caso, poderia ser algo intencional, uma m odificação que tem
por objetivo inserir um elem ento profético — da m esm a forma com o a altera-
ção de Asa para Asafe poderia dar a entender um interesse na esperança do
salm ista”.
Algumas traduções modernas têm “Amos” (RSV, NRSV, NAB); outras, “Amom”
(REB, NVI, NBJ, TEB, FC, Seg, ARC, ARA, CNBB, NTLH, BN). NTLH optou pelo
nome “Amom”, porque segue o princípio de consistência entre o Antigo e o Novo
Testamento, quando se faz referência à mesma pessoa. Tradutores que seguem esse
mesmo princípio colocarão no texto da língua receptora o nome de “Amom”, mesmo
que aceitem como original o texto que traz o nome de Αμώς.
1.11 έγέννησεν (gerou [ou, foi pai de]) {A}
Segundo o texto, Josias foi pai de Jeconias (isto é, Joaquim). Mas, na verda-
de, Josias foi pai de Jeoaquim e avô de Jeconias. Para fazer com que o texto de
Mateus concorde com a genealogia de ICr 3.15-16, diversos manuscritos uncíais
mais recentes, bem como vários outros documentos acrescentaram as palavras xòv
Ίωακίμ, Ίωακίμ όέ έγέννησεν (Joaquim, e Joaquim foi pai de). Embora não se
possa excluir a possibilidade de um copista ter, acidentalmente, omitido essas pala-
vras, o testemunho dos manuscritos favorece o texto mais breve. Além disso, caso
se acrescentar o nome Ίωακίμ, o número de gerações desde o tempo de Davi até o
exílio sobe para quinze, em vez de ficar em catorze.
1.16 τον ανόρα Μαρίας, έξ ής έγεννήθη ,Ιησούς ό λεγόμενος Χριστός
(ο marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo) {A}
Existem três variantes principais: (1) “E Jacó gerou José, o marido de Maria,
da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo”; (2) “e Jacó gerou José, de quem sendo
noiva a virgem Maria deu à luz Jesus, que se chama Cristo”, e (3) “Jacó gerou José;
José, de quem Maria, a virgem, era noiva gerou Jesus, que é chamado de Cristo”.
Das traduções modernas, apenas a de Moffatt segue a terceira opção: “Jacó, o pai
de José, e José (de quem a virgem Maria era noiva), o pai de Jesus, que é chamado
de ‘Cristo”’.
A primeira opção tem um grande apoio dos manuscritos. A segunda opção tal-
vez tenha surgido porque um copista pensou que a locução “o marido de Maria”
poderia levar o leitor a pensar, erroneamente, que os pais humanos ou físicos de
Jesus eram Maria e o marido dela, José. Diante disso, o texto foi alterado para
“sendo noiva”, em concordância com o verbo μνηστεύεσθαι (ser noivo), no v. 18.
3O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
Quanto à opção três, aparece unicam ente num manuscrito siríaco do quarto sé-
culo. Provavelmente é resultado do fato de um copista ter, sem maior cuidado,
seguido o padrão típico que aparece nas genealogias, em que os nomes são repe-
tidos.
1 .18 Ιησού Χρίστου (de Jesus Cristo) {B}
A grande maioria dos manuscritos traz “Jesus Cristo”. Outras variantes são: (1)
“Cristo Jesus”; (2) “Jesus”; e (3) “Cristo”. É difícil decidir qual é o texto original. De
um lado, os manuscritos dão um expressivo apoio à leitura “Jesus Cristo”. Por outro
lado, no NT não é muito comum que o artigo definido του apareça diante do nome
“Jesus Cristo”, 0 que parece sugerir que “Jesus Cristo” não é o texto original. Além
do mais, os copistas muitas vezes ampliavam os nomes “Jesus” e “Cristo”, acrescen-
tando outras palavras. Aqui, entretanto, a leitura “Cristo”, em alguns manuscritos,
pode ter surgido por influência das palavras έως τού Χριστού (até Cristo), no v. 17.
E a leitura “Jesus” pode ter surgido por influência do v. 21, onde diz: “lhe porás o
nome de Jesus”.
Caso os tradutores queiram seguir uma das leituras que traz o nome Χριστού,
precisarão decidir se esse termo é usado, neste texto, como um nome próprio ou
um título. A presença do artigo definido τού, combinada com a ênfase de Mateus
sobre Jesus como o Filho de Davi, faz com que alguns intérpretes entendam que,
neste caso, Χριστού faz a vez de um título. Confira a tradução da NRSV: “Ora, o
nascimento de Jesus, o Messias, foi assim”.
1.18 γένεσις (nascimento) {B}
Tanto γενεσις quanto a leitura variante γέννησις significam “nascimento”, mas
γένεσις pode também significar “criação”, “geração”, e “genealogia” (confira o v. 1).
A palavra γέννησις significa “geração” ou “nascimento”, e veio a ser a palavra que,
em escritos cristãos posteriores, foi usada para designar a Natividade. É fácil de
entender por que os copistas fizeram confusão entre essas duas palavras, pois são
semelhantes na escrita e na pronúncia.
Aqui, no v. 18, manuscritos antigos de vários tipos de texto apoiam a leitura
que aparece com o texto em O N o vo T es ta m en to Grego. Além disso, a tendência
dos copistas teria sido colocar a palavra γέννησις, com seu sentido mais espe-
cializado, em lugar de γένεσις, que havia sido empregada em outro sentido, de
“genealogia” (ou “relato do nascim ento”), no v. 1. Uma vez que, neste versículo,
γένεσις deveria ser traduzido por “nascim ento” (diferentem ente do que acontece
no v. 1), tanto γένεσις como γέννησις terão, neste caso, tradução idêntica na
língua alvo.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO4
1.25 υιόν (um filho) {A}
O te x tu s recep tu s , seguindo vários manuscritos uncíais e a maioria dos mi-
núsculos, insere o artigo τόν diante de υ ιόν e acrescenta a locução αυτής τον
πρωτότοκον (seu filho primogênito), que foi extraída de Lc 2.7.
2.4 Segm en tação
Caso se fizer uma pausa depois do pronome αυτών, as quatro palavras seguin-
tes podem ser grafadas como uma pergunta, a exemplo do que ocorre em TEV:
"... e perguntaram a eles: Onde vai nascer o M essias”?
2.18 κλαυθμός (choro) {B}
A leitura mais longa, θρήνος καί κλαυθμός (uma canção de lamentação e
choro), parece ser o acréscimo de um copista, cuja finalidade é fazer com que as
palavras se aproximem mais do texto grego da Septuaginta em Jr 38.15 (que, no
texto hebraico, é Jr 31.15). O texto mais longo está no te x tu s recep tus e aparece na
tradução da King James Version e também em ARC: “lamentação, choro e grande
pranto”.
3.16 [αύτώ] ([para ele]) {C}
A leitura sem o pronom e αύτώ tem o apoio com binado de m anuscritos gre-
gos, versões antigas e Pais da Igreja, sendo, tam bém , adotada por RSV, NVI,
REB, NBJ, TEB, Seg, NTLH, BN, CNBB. Por outro lado, é possível que o prono-
me tenha estado no texto, mas foi om itido por copistas que pensaram que era
supérfluo. O pronom e αύτώ tanto pode enfatizar que apenas Jesus teve essa
visão, como pode enfatizar que a visão foi para o benefício dele. Para indicar
incerteza quanto ao caráter original desse pronome, ele aparece, no texto, en-
tre colchetes.
3.16 [καί] ερχόμενον ([e] vindo) {C}
A leitura que tem a conjunção καί é apoiada por diversos grupos ou tipos de
texto e, em razão disso, é colocada no texto. Mas, uma vez que καί não aparece
em manuscritos antigos do tipo de texto alexandrino e do tipo de texto ocidental,
talvez não seja original. Para indicar essa incerteza, καί aparece entre colchetes.
O sentido é o mesmo, independentem ente da leitura adotada. Trata-se de uma
simples diferença de estilo.
5O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
4.10 ύπαγε (Vai em bora) {A}
Se as palavras όπ ίαω μου (para trás de m im) tivessem estado orig inalm ente no
texto, fica difícil encon trar um a justificativa plausível para a suaom issão. Por outro
lado, se não constavam no texto original, é bem possível que foram acrescentadas
por copistas que lem braram as palavras que Jesus disse a Pedro, em Mt 16.23:
ύπαγε όπ ίσω μου. Σατανά (Vai para trás de m im , Satanás).
4.17 μετανοείτε, ήγγικεν γάρ (arrependei-vos, pois está próximo) {A}
As palavras μετανοείτε (arrependei-vos) e γάρ (pois) não aparecem em um a
versão siríaca antiga e em um m anuscrito da A ntiga Latina. É possível que essas
palavras não fizessem parte do original, m as foram acrescentadas por influência
de um a form ulação sem elhante em Mt 3.2. E ntretanto , os m anuscritos gregos, bem
como a unan im idade das dem ais versões antigas e dos Pais da Igreja indicam que o
texto m ais longo tem tudo para ser o original.
5 .4 5 ־ μ ακάρ ιο ι,... παρακληθήσονται. (5) μακάριοι ... την γην.
(Bem -aventurados ... serão consolados. [5] Bem -aventurados ... a terra.) {B}
Se, originalm ente, o v. 5 tivesse vindo logo após o v. 3, estabelecendo um contras-
te entre céu (v. 3) e terra (v. 5), é pouco provável que um copista teria colocado o v. 4
en tre essas duas bem -aventuranças. Por outro lado, já no segundo século d.C. alguns
copistas inverteram a ordem das bem -aventuranças nos vs. 4-5, para criar o contraste
entre céu e terra e para colocar lado a lado os πτω χοί (pobres) e os πραεΐς (mansos).
Das traduções m odernas, a NJB, a TEB, e a NBJ invertem a ordem dos vs. 4-5.
5.11 [ψευόόμενοι] ([m entindo]) {C}
E difícil decidir se o participio ψευόόμενοι faz parte do tex to ou não. De um
lado, se fosse original, a ausência desse participio na trad ição ocidental poderia ser
explicada como um a alteração in tencional dos copistas, para fazer o texto concor-
dar com a bem -aventurança em Lc 6.22. Por outro lado, se o participio não fosse
original, os copistas teriam sido ten tados a inserir ψευδόμενοι, para restring ir um
pouco o alcance generalizado das palavras de Jesus, e para deixar explícito o que
era visto como implícito no texto (confira lP e 4.15-16), a saber, que os cristãos não
são bem -aventurados quando as pessoas têm bons m otivos para falarem m al deles.
M orris (The Gospel According to M atthew , p. 102, n.36) com enta que ψευόόμενοι
fica implícito, “pois o que o inim igo dissesse não seria, de fato, m au, caso fosse
verdadeiro”. Para indicar que não se sabe ao certo se copistas acrescen taram ou
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO6
om itiram o participio, o m esm o foi incluído en tre colchetes. REB, Seg, NTLH e BN
adotam o tex to m ais breve.
5.22 αυτού (dele/seu) {B}
E pouco provável que copistas tenham om itido a palavra είκή (sem motivo),
após αυτού, caso tivesse estado no texto original. Por m ais que a le itu ra com είκή
tenha am pla distribuição geográfica e seja encontrada a p a rtir do segundo século, é
m uito m ais provável que copistas tenham acrescentado essa palavra, para ab randar
o rigor daquilo que Jesus está exigindo.
5.32 και ος εάν άπολελυμένην γαμήση, μοιχ&ται (e qualquer que casar
com um a m ulher repudiada divorciada, com ete adultério) {B}
O texto que aparece no m anuscrito B (o ... γαμήσας [aquele que casar ...]) pare-
ce ter sido in troduzido em lugar do texto aceito como original para fazer com que o
m esm o se aproxim asse da construção gram atical que aparece no início do versículo,
a saber, ό άπολΰω ν (aquele que repud iar ...). O fato de καί ος εάν άπολελυμένην
γαμήση, μοιχάται não aparecer em alguns m anuscritos pode ser explicado como
om issão deliberada de copistas que ju lgaram esse texto supérfluo ou desnecessário.
Em outras palavras, se “todo aquele que m andar a sua esposa em bora, a não ser
em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adú ltera [quando ela casar
de novo]”, en tão é óbvio que “qualquer um que casar com um a m ulher divorciada
[também] com ete adu ltério”.
A diferença en tre ος εάν γαμήση e ό γαμήσας é, basicam ente, um a diferença
de estilo, e não de significado (Hagner, M atthew 1-13, p. 122, n.b.). Na tradução,
independentem ente do texto que se adote, é preciso levar em conta a g ram ática e
o estilo na língua alvo.
5.44 άγαπατε τούς εχθρούς υμώ ν καί προσεύχεσθε υπέρ τω ν όιωκόντιον υμάς
(am ai os vossos inim igos e orai por aqueles que vos perseguem ) {A}
M anuscritos copiados em data m ais recente am pliam o texto, inserindo expres-
sões tiradas do relato paralelo em Lc 6.27-28. Se expressões como “bendizei os
que vos am aldiçoam , fazei o bem aos que vos odeiam ” tivessem estado, original-
m ente, no texto do Serm ão do M onte em M ateus, ficaria m uito difícil explicar por
que foram om itidos em antigos m anuscritos das tradições a lexandrina, ocidental e
egípcia. Esses acréscim os aparecem em diferentes lugares nos vários m anuscritos
gregos e a form ulação não é sem pre a m esm a, 0 que sugere que se tra ta de acrésci-
mos posteriores feitos por copistas.
7O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
5.47 εθνικοί (gentios/pagãos) {Β}
Em m anuscritos m ais recentes, bem como no textus receptus, a palavra τελώ ναι
(cobradores de impostos) parece ter sido colocada no lugar de εθνικοί, para fazer
com que o tex to se aproxim e m ais do que é dito no v. 46. A versão arm ênia ju n ta o
term o τελώ ναι à form a do texto que aparece em Lc 6.32-34, resu ltando τελώ ναι καί
οί αμαρτω λοί (cobradores de im postos e pecadores).
6.4 σοι (te /a ti) {B}
A locução εν τώ (f ανερώ (em público) não aparece nos m anuscritos m ais antigos
dos tipos de texto a lexandrino , ocidental e egípcio. Tudo indica que se tra ta de um
acréscim o feito pelos copistas, com a finalidade de criar um paralelism o com a 10-
cução anterior, έν τώ κρύπτω (em secreto). E ntretanto , o que se quer en fa tizar nes-
se texto não é tan to o caráter público da recom pensa do Pai, m as sua superioridade
em relação a um a simples aprovação hum ana (confira os vs. 6,18).
6.6 σοι (te /a ti) {B}
Veja a nota referente ao v. 4.
6.8 ό πατήρ υμώ ν (o vosso Pai) {A}
O texto m ais longo ό θεός ό πατήρ υμών (Deus, vosso Pai) não ocorre em ne-
nhum a ou tra passagem em M ateus, e é um acréscim o que reflete a justaposição de
“D eus” e “Pai” nas cartas de Paulo. A form a ό πατήρ υμών ό ουράνιος (vosso Pai
celeste), que se encontra em alguns m anuscritos m ais recentes, é, com certeza, um
acréscim o que tem por objetivo fazer com que o texto concorde com a form ulação
encontrada nos vs. 9,14. A ocorrência do pronom e de prim eira pessoa ημών (nosso)
em vários m anuscritos se deve a um erro de copista, pois, a p a rtir de certo momen-
to, não se fazia m ais d istinção de pronúncia en tre as vogais gregas η e υ. FC tem
“Deus, vosso Pai”, m as não fica claro se isso se deve a um a decisão de ordem tex tual
ou é apenas decorrência dos princípios de tradução adotados pela comissão.
6.13 πονηρού, (do M aligno/do mal.) {A}
Segundo o testem unho de im portantes e antigos m anuscritos alexandrinos, oci-
dentais, etc., bem como de com entários sobre o Pai-Nosso escritos por Pais da Igreja
antiga, o Pai-Nosso term ina com a palavra πονηρού (v. 13). Para adap tar essa oração
ao uso litúrgico na Igreja antiga, copistas acrescentaram vários finais diferentes, com
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO8
destaque para os seguintes: (a) “pois teu é o reino, e o poder, e a glória para sempre.
Amém”; (b) “pois teu é o reino e a glória para sempre. Amém”; e (c) “pois teu é o
reino e o poder e a glória do Pai e do Filho e do Espírito Santo para sempre. Amém”.
6.15 άνθροοποις (aos hom ens) {C}
Em muitos m anuscritos, após a palavra άνθρώ ποις aparecem as palavras τά
παραπτώ ματα αυτώ ν (as ofensas deles), de sorte que resulta o seguinte texto: “per-
doardes aos hom ens as ofensas deles”. Essas palavras podemser originais, m as fo-
ram om itidas por copistas que as ju lgaram desnecessárias, já que ocorrem no v. 14.
Ou, τα παραπτώ ματα αυτώ ν pode ter sido acrescentado por copistas, para criar um
certo equilíbrio com o v. 14a. No Evangelho de Marcos, copistas acrescentaram um
versículo após Me 11.25, sob a influência desta passagem em Mateus; e, visto que as
palavras τα παραπτώ μ ατα αυτώ ν não aparecem nesse acréscim o em Marcos, pro-
vavelm ente tam bém não são originais em Mateus. Por mais que se deveria ado tar o
texto breve, talvez seja necessário, em algum as traduções, explicitar o conteúdo de
τα παραπτώ ματα αυτών. No caso da NIV, não está claro se houve opção pelo texto
m ais longo ou se as palavras “os pecados deles” (their sins) foram incluídas por razões
ligadas a princípios de tradução.
6.18 σοι (te /a ti) {A}
Veja a no ta referente ao v. 4.
6.25 [ή τ ί πίητε] ([ou o que bebereis]) {C}
De um lado, a leitura que não traz as palavras η τί πίητε pode ser original e essas
palavras podem ter sido acrescentadas para fazer com que o texto concorde com o v.
31. TEB, NBJ, e Seg adotam o texto mais breve. Por outro lado, essas palavras podem
ser originais, tendo sido om itidas acidentalm ente por um copista cujo olhar passou do
final do verbo φάγητε (comereis) para o final do verbo πίητε. Uma vez que existe equi-
líbrio, ou seja, am bas as leituras têm expressivo apoio, as palavras foram colocadas,
no texto, entre colchetes, para indicar que se tem dúvidas quanto à sua originalidade.
6.28 αύξάνουσιν ου κοπιώ σιν ουδέ νήθουσιν
(crescem; não traba lham nem fiam) {B}
A leitura original do Códice Sinaítico (א) parece ser “eles não cardam (lã), nem
fiam , nem traba lham ”. (“C ardar lã” é pen tear ou desenredar a lã com um a car-
da.) Alguns in térpretes pensam que este é o texto original, m as tudo indica que se
9O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
tra ta de um erro de copista (a colocação de ξένουσιν [= ξαινουσιν] em lugar de
αύξάνουσιν), que foi quase que im ediatam ente corrigido. Alguns outros m anuscritos
invertem a ordem dos verbos “trab a lh a r” e “fiar”.
Entretanto , na m aioria dos m anuscritos, a diferença m ais sensível é en tre form as
do singular e do plural, no caso dos verbos “crescer”, “trab a lh a r” e “fiar”. Os verbos
do texto estão no plural. O substantivo κρίνα (flores, em bora a tradução tradicional
seja “lírios”) é um neutro plural, e form as de neutro plural, em grego, vêm acompa-
nhadas de verbos no singular. Assim, as form as de singular parecem ser um a corre-
ção por razões de natu reza gram atical. Trata-se de um a diferença de estilo, não de
significado. Em razão disso, os tradutores terão que usar a form a verbal apropriada
na língua alvo.
6.33 την βασιλείαν [τού θεόν] καί την δ ικα ιοσύνην αύτού
(ο reino [de Deus] e a justiça dele) {C}
Alguns m anuscritos têm “o reino de Deus e a sua justiça”, ou “o reino dos céus
(των ουρανών) e sua justiça”. Outros, “o reino e a sua justiça”. A leitura m ais breve,
“o reino e a sua justiça”, é a que m elhor explica o surgim ento das variantes, pois os
copistas teriam a tendência de acrescentar “de Deus” ou “dos céus”, e é pouco prová-
vel que om itiríam essas palavras, caso estivessem no texto original. Entretanto , Ma-
teus raram ente se refere ao “reino” sem qualificá-lo. Logo, a ausência de um a quali-
ficação como “de Deus” ou “dos céus” em vários m anuscritos pode ser resultan te de
um a om issão acidental (veja Davies e Allison, A C ritica l a n d E xegetica l C o m m e n ta ry
on th e G ospel A cco rd in g to S a in t M a tth ew , vol. I, p. 660, n.25). Para indicar que exis-
tem dúvidas quanto ao texto original, as palavras τού θεού estão en tre colchetes.
Mesmo que, por razões de natu reza crítico-textual, se prefira o texto m ais curto,
a inda assim os tradutores podem seguir o exem plo de NBJ, BN e NTLH e explicitar
que “o reino” é “o reino de Deus” ou, então, que se tra ta do “seu reino” (NJB e NIV).
7.11 S eg m en ta çã o
Este versículo pode ser traduzido como um a exclam ação (a exem plo do que
ocorre em m uitas traduções m odernas), como um a afirm ação (TEB, seguindo a
pontuação de O N ovo T esta m en to G rego), ou como um a pergun ta (retórica). Veja
tam bém Lc 11.13.
7.13 πλατεία ή πύλη (larga [é] a porta) {B}
As palavras ή πύλη (a porta), no v. 13, não aparecem em vários m anuscritos e Pais
da Igreja. NBJ, seguindo a variante, traduz por “entrai pela porta estreita, porque
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO10
largo e espaçoso é o cam inho que conduz à perdição” É possível que ή πύλη não seja
original, tendo sido introduzido no texto para com pletar o paralelism o com o v. 14.
Mas a evidência externa que apoia o texto mais longo é im pressionante. Provável-
m ente, as palavras ή πύλη, nos vs. 13-14, foram om itidas por alguns copistas que não
se deram conta de que a im agem que se tem em vista é a de um a estrada que leva
para um portão.
7.14 τι (como!) {B}
O pronom e interrogativo τι tem am plo apoio de m anuscritos. M uitas vezes é tra-
duzido por “qual”? ou “o quê”?, m as, neste caso, rep resen ta a exclam ação sem ítica
ה מ (“como!”). No entanto , copistas, não com preendendo esse uso pouco comum,
substitu íram xí pela conjunção òxi (porque/pois), que aparece no v. 13. A Bíblia da
CNBB expressa o sentido exclam ativo desse pronom e: “Como é estreita a po rta e
apertado o cam inho ...!”
7.14 ή πύλη (a porta) {A}
Veja o com entário sobre o v. 13.
7.24 όμοκοθήσεται (será to rnado igual a) {B}
A varian te tex tual tem pouca im portância para a tradução, pois a d iferença é
m ais de estilo do que de significado. A form a do fu tu ro passivo tem o apoio de bons
m anuscritos de diferentes tipos de texto. E provável que copistas se lem braram da
forma desse dito de Jesus em Lc 6.47 (“eu vos m ostrarei a quem é sem elhante”) e tro-
caram o fu turo passivo pela p rim eira pessoa do singular do fu turo ativo, ομοιώ σω
αυτόν (vou compará-lo).
8.7 Segmentação
A resposta de Jesus ao cen turião pode ser in te rp re tada como um a afirm ação
(“eu irei curá-lo”), a exem plo de O Novo Testamento Grego e a m aioria das tradu-
ções m odernas. Visto como afirm ação, o que Jesus disse era um a prom essa de que
ele iria cu ra r o servo daquele hom em . Mas a resposta de Jesus tam bém pode ser
pon tuada como um a pergun ta , em que o pronom e έγο) (eu) é enfático. TEB, por
exemplo, traduz: “Irei eu curá-lo?” Como pergun ta , as palavras de Jesus são, ou um
desejo positivo de ajudar, ou um a expressão de leve con trariedade ou resistência ao
pedido feito por um gentio. Seria sem elhante ao que acontece na história da m ulher
siro-fenícia (1 5 .2128־).
11O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
8.10 παρ ' ούόενί τοσαύτην π ίσ τιν έν τφ 'Ισραήλ εΰρον
(em [junto a] n inguém em Israel ta l fé eu encontrei) {B}
A varian te tex tual ουδέ έν τφ 'Ισραήλ τοσαύτην π ίστιν εΰρον (nem m esm o em
Israel encontrei tal fé) é m ais clara e m ais fácil do que a le itu ra que aparece como
texto em O Novo Testamento Grego. A varian te parece um a ten tativa de m elhorar
o estilo e fazer com que o tex to concorde com a form ulação no paralelo em Lc 7.9.
A om issão de έν τφ 'Ισραήλ (em Israel), em alguns poucos m anuscritos, provável-
m ente se deve a falta de cuidado na hora de copiar. A RSV e a Bíblia de Alm eida
traduzem a varian te (“nem m esm o em Israel achei fé como esta”). Já a NRSV e a
Bíblia da CNBB traduzem o que aparece como texto em O Novo Testamento Grego:
“em ninguém em Israel encontrei tan ta fé”. A diferença de significado é m ínim a,
pois “tan ta fé” subentende as palavras “em ninguém ”.
8.18 ο /λ ο ν (um a m ultidão) {C}
A leitura que aparece como texto tem pouco apoiode m anuscritos, mas as lei-
tu ras “um a grande m ultidão” (CNBB), “m ultidões” e “grandes m ultidões” (NRSV,
TEB, NBJ) podem todas ser explicadas como acréscim os feitos por copistas, para
en fa tizar o tam anho da m ultidão que estava ao redor de Jesus.
8.21 τώ ν μαθητών [α υτοΰ] (dos discípulos [dele]) {C}
O peso dos m anuscritos sugere, de form a enfática, que se om ita o pronom e
αυτοί). No en tanto , neste caso, tudo indica que o pronom e seja original e que foi
om itido por copistas, para que os leitores não fossem induzidos a pensar que o es-
criba m encionado no v. 19 era um dos discípulos de Jesus. Como existem argum en-
tos para os dois lados, o pronom e αΰτου aparece entre colchetes, para indicar que
se tem dúvidas quanto ao texto original. Visto que esse discípulo é, com certeza, um
discípulo de Jesus, o tradu to r pode explicitar isso, m esm o que aceite como original
o tex to m ais breve, sem o pronom e. Em algum as línguas, não há como não explici-
ta r ou incluir o pronom e possessivo na tradução.
8.25 προσελθόντες (indo eles/ap rox im ando־se eles) {B}
A leitu ra que aparece como texto em O Novo Testamento Grego tem o apoio de
m anuscritos do tipo de texto alexandrino e do tipo de texto ocidental. As leituras
m ais longas (“aproxim ando-se os discípulos”, “aproxim ando-se os seus discípulos”,
“aproxim ando-se dele os seus discípulos”) são acréscim os posteriores que expli-
citam o que o texto quer dizer. O significado é sem pre o m esm o no caso de todas
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO12
essas variantes. Na tradução, talvez seja necessário, dada a característica da língua,
explicitar o sujeito do particip io προσελθόντες.
8.25 σώσον (salva) {B}
O im perativo σώσον não tem objeto d ireto especificado. Uma vez que o verbo
“salvar” raram en te aparece no NT sem um objeto, o pronom e ήμάς (“nos”) passou,
desde cedo, a ser acrescentado ao texto, num a grande variedade de m anuscritos.
Se esse pronom e fosse original, dificilm ente teria sido om itido. Na hora de traduzir,
em m uitas línguas será bastan te na tu ra l acrescen tar o pronom e “nos”.
8.28 Γαδαρηνών (dos gadarenos) {C}
A cura dos endem oninhados é re la tada nos três Evangelhos Sinópticos, e em
cada relato existem três varian tes principais relativas ao lugar onde ocorreu o mi-
lagre: Γαδαρηνών, Γερασηνών (dos gerasenos), e Γεργεσηνών (dos gergasenos). A
leitura que tem m aior apoio de m anuscritos, aqui em M ateus, é Γαδαρηνών. Gada-
ra era um a cidade que ficava uns oito quilôm etros a sudeste do lago da Galileia.
Mesmo estando um pouco afastada do lago da Galileia, m oedas daquele tem po que
trazem o nom e da G adara têm , em m uitos casos, o desenho de um barco im presso
nelas. Além disso, Josefo, o h isto riador judeu do prim eiro século, fez referência
ao fato de que o territó rio de G adara se estendia até ao lago da Galileia. A leitura
Γερασηνών, que aparece som ente em versões antigas, é um a alteração feita por
copistas para harm on izar o texto com Mc 5.1 e /ou Lc 8.26,37. O nom e Γεργεσηνών
é um a correção, possivelm ente baseada num a sugestão feita por Orígenes, no ter-
ceiro século d.C.
9.4 καί ίδώ ν (e vendo) {B}
Aqui existem dois problem as textuais: (1) se a conjunção orig inal é και ou δέ;
(2) se o participio orig inal é ίδώ ν (vendo) ou είδώ ς (sabendo). O testem unho dos
m anuscritos favorece καί em detrim ento de δέ. Q uanto ao participio, tudo indica
que os copistas en tenderam que “ver” os pensam entos de alguém era algo m enos
apropriado do que “conhecer” esses pensam entos. Além disso, o uso do participio
επ ιγνούς (conhecendo), nos relatos paralelos de Mc 2.8 e Lc 5.22, pode ter levado
os copistas a substitu ir o verbo “ver” por “conhecer”, aqui em Mateus.
Provavelm ente, a diferença en tre essas varian tes não tenha m aior im portância
para os tradu to res do Novo Testam ento. O verbo grego que aparece na form a do
particip io ίδώ ν (vendo) é m uitas vezes usado no sentido figurado de “dar-se conta
de”, “en tender”. Por isso, tan to ίδώ ν como είδώ ς serão, provavelm ente, traduzidos
13O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
por um verbo que significa “saber” ou “dar-se conta de” Q uanto à conjunção καί,
ela é, por vezes, usada para expressar contraste. Portanto , neste contexto será tra-
duzida de form a idêntica à conjunção όέ.
9.8 έφοβήθησαν (ficaram com medo) {A}
O verbo que está no texto tem o apoio de m anuscritos antigos e que represen tam
os tipos de texto a lexandrino e ocidental. Muitos m anuscritos têm έθαύμασαν (eles
se ad m iraram /fica ram espantados), m as tudo indica que copistas escreveram este
verbo porque não en tenderam o verdadeiro sentido de έφοβήθησαν, no contexto
de Mt 9.8. O m edo, neste caso, se refere a espanto, um tipo de m edo e respeito que
resu lta de um a dem onstração de poder e autoridade. NRSV, NVI, CNBB dizem que
a m ultidão “ficou cheia de tem or”. BN tem “o povo ... ficou im pressionado” Assim,
provavelm ente, o verbo έφοβήθησαν será traduzido, neste caso, como se fora um
sinônim o de έθαύμασαν, em bora algum as traduções prefiram “ficaram com m edo”
(NBJ), “foram tom ados de tem or” (TEB), e “ficou com m edo” (NTLH). TEV, FC e
Seg têm algo nessa m esm a linha.
9.14 νηστεύομεν [πολλά] (jejuam os [m uito/m uitas vezes]) {C}
A leitura νηστεύομεν πυκνά (jejuam os m uitas vezes) é um a m odificação intro-
duzida por um copista, para fazer o tex to concordar com a passagem paralela em
Lc 5.33. O texto m ais breve, sem πολλά, pode ser original, pois alguns im portan tes
m anuscritos têm apenas o verbo νηστεύομεν, sem acom panham ento de advérbio.
Por outro lado, o adjetivo πολλά (que aqui é usado como um advérbio) não consta
do paralelo em Mc 2.18, de sorte que M ateus não copiou πολλά do Evangelho de
Marcos. Por m ais que não se saiba ao certo se M ateus acrescentou essa palavra, ou
se um copista tratou de acrescentá-la posteriorm ente, deveria ser dado preferência
à le itu ra que não tem paralelo em Marcos. E ntretanto , visto que vários im portan-
tes m anuscritos om item πολλά, esta palavra aparece en tre colchetes, para m ostrar
que existem dúvidas quanto a seu caráter original. As traduções m odernas não são
unânim es. A lgum as seguem a leitu ra no texto (NRSV, TEV, FC, NTLH, BN); outras,
a varian te , isto é, o texto sem o advérbio (RSV, REB, NBJ, NVI, CNBB, TEB, Seg).
9.34 inclusão do versículo {B}
O testem unho dos m anuscritos é altam ente favorável à inclusão do v. 34. Esta
afirm ação p repara o terreno para 10.25, onde Jesus afirm a: “Se cham aram Belzebu
ao dono da casa ...” Apenas uns poucos m anuscritos ocidentais, seguidos pela REB,
om item esse versículo. E ntretanto , visto que a acusação dos fariseus não é retom ada
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO14
na continuação da narra tiva , a lguns in térp retes en tendem que esse versículo foi
tirado de Mt 12.24 ou Lc 11.15 e inserido neste lugar, em Mt 9.34.
10.3 Θ αόόαΐος (Tadeu) {B}
É difícil de saber se o texto orig inal é Θ αόόα ΐος ou Λ εββαΐος (Lebeu). Dá-se pre-
ferência ao nom e Θ αόόαΐος, porque tem o apoio de m anuscritos antigos dos tipos
de texto alexandrino , ocidental e egípcio. As form as de texto m ais longas, “Tadeu,
cham ado Lebeu” e “Lebeu, cham ado Tadeu”, são c laram ente leituras posteriores
que com binam as duas form as m ais breves. O nom e Θ αόόαΐος não aparece na lista
de apóstolos em Lucas (Lc 6 .1 4 1 6 ־; At 1.13), que tem “Judas, filho de Tiago”. A leitu-
ra Judas, filh o de Tiago, que aparece em um m anuscrito da antiga tradução siríaca,
pode te r sido im portada do paralelo em Lc 6. De m odo sem elhante, o nom e Judas
Zelotes, que aparece em vários m anuscritos da A ntiga Latina, pode ter sido criado a
p a rtirde “Simão, cham ado Zelote”, que aparece na lista de Lucas.
Alguns in térpretes en tendem que Tadeu deveria ser identificado com Judas, fi-
lho de Tiago, e que, talvez, o nom e Tadeu foi dado “a fim de que houvesse apenas
um Judas no grupo dos doze” (Hagner, M atthew 1-13, p. 266). Mesmo que os tradu-
tores aceitem que Tadeu e Judas, filho de Tiago, são a m esm a pessoa, isso deveria
ser indicado como um a possibilidade, num a nota, e não incorporado no texto.
10.23 έτέραν (outro) {C}
Aqui existem dois problem as tex tuais distintos.
(1) Alguns manuscritos têm o adjetivo έτέραν e outros têm o adjetivo άλλην (outro). A
leitu ra έτέραν se encontra nos m anuscritos a lexandrinos. E porque este tipo de tex-
to é em geral superior aos dem ais, é adotado, neste caso. A distinção en tre έτέραν
(outro de um tipo diferente) e άλλην (outro do m esm o tipo) nem sem pre é m antida
no NT. No contexto de Mt 10.23, as duas form as do texto terão a m esm a tradução
em línguas m odernas.
(2) A lguns m anuscritos têm o seguinte acréscim o: “e se vos perseguirem na
ou tra [cidade], fugi para um a ou tra [cidade]”. É possível que essas palavras tenham
sido om itidas por acidente, quando o copista saltou do prim eiro “ou tro” para o
segundo “ou tro” e om itiu as palavras que ficavam no meio. E ntretanto , é m ais pro-
vável que essas palavras tenham sido acrescentadas, para explicar a afirm ação que
segue: “não acabareis de percorrer as cidades de Israel”.
O sentido do tex to m ais breve não é que os discípulos deveríam fugir apenas
para um a ou tra cidade. Ao contrário , como o texto m ais longo deixa bem claro, eles
deveríam fugir de toda e qualquer cidade em que seriam perseguidos, indo para
outras cidades. A NBJ, que ado ta a varian te , expressa isso m uito bem: “Q uando
15O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
vos perseguirem num a cidade, fugí para outra. E se vos perseguirem nesta, to rnai
a fugir para terceira”.
11.2 ò ià τω ν μαθητών αύτου (por in term édio de seus discípulos) {B}
Em lugar de ò ià τω ν μαθητών αύτου, um a leitura que tem am plo apoio de
m anuscritos antigos de diferentes tipos de texto, a m aioria dos m anuscritos traz
δύο τώ ν μαθητώ ν αύτου (dois dos seus discípulos). Esta varian te resu lta de urna
m odificação feita para harm on izar o texto com o relato paralelo em Le 7.18 (7.19 na
ARC), que tem “dois (δύο) dos seus discípulos”.
A es tru tu ra de algum as línguas exige que os tradu to res indiquem se João enviou
todos os seus discípulos ou se enviou alguns, m as não todos. O sentido que se tem
em vista é, provavelm ente, que ele m andou “alguns dos seus discípulos” (NTLH,
BN, FC). Em outras línguas talvez seja necessário indicar se João m andou “uns
poucos” ou “m uitos” discípulos. Nessas línguas, pode-se seguir a varian te com o
δύο (dois).
11.7 S eg m en ta çã o
Este versículo tem duas perguntas. Conform e o texto, a p rim eira p ergun ta ter-
m ina com o verbo θεάσασθαι (ver): “Que fostes ver no deserto”? Tam bém é possível
fazer um corte antes do verbo θεάσασθαι e e s tru tu ra r o texto assim: “Por que fostes
ao deserto? Para ver ...”? A observação de Davies e Allison (A C ritica l a n d Exege-
tica l C o m m e n ta ry on th e G ospel A cco rd in g to S a in t M a tth e w , vol. II, p. 247, n.50) é
correta: “O sentido não m uda”.
11.8 S eg m en ta çã o
A exem plo do que ocorre no versículo anterior, a p rim eira pergun ta pode term i-
n a r com 0 verbo ίδεΐν (ver), como está no texto: “Que saístes a ver”? Mas tam bém
é possível fazer um corte antes do verbo ίδεΐν: “Sim, por que saístes? Para ver ...”
(assim a RSV).
11.9 ίδεΐν; προφήτην (a ver? Um profeta) {B}
Assim como no versículo anterior, a p rim eira pergun ta pode term inar com o
verbo ίδεΐν, como consta do texto, ou, então, pode te rm in ar com o verbo έξήλθατε
(saístes). A coisa se complica com o fato de alguns m anuscritos terem as palavras
num a ordem diferente, a saber, προφήτην ίδεΐν, que só pode ser traduzido por “Por
que, então, saístes? Para ver um profeta?” A leitu ra que aparece como texto em O
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO16
Novo Testamento Grego é am bígua e tem tudo para ser original, pois a varian te tex-
tua l elim ina a am biguidade.
11.15 ώτα (ouvidos) {B}
A locução m ais longa, ώτα άκούειν (ouvidos para ouvir), ocorre com frequên-
cia em outras passagens do NT (Mc 4.9,23; 7.16; Lc 8.8; 14.35), de sorte que não
su rp reende que copistas tenham inserido o infinitivo άκούειν aqui, em Mt 11.15 (e
tam bém em Mt 13.9,43). Se o infinitivo fizesse parte do texto original, fica difícil de
explicar por que teria sido om itido em im portan tes m anuscritos. O significado das
duas form as de texto é o mesmo.
11.17 έθρηνήσαμεν (entoamos lam entações/cantam os músicas de sepultam ento) {B}
Um grande núm ero de m anuscritos diz έθρηνήσαμεν ύμΐν (nós vos entoam os
lam entações). A varian te não m uda o sentido, apenas to rna explícito o que está
implícito na leitura aceita como texto. E possível que copistas acrescen taram o pro-
nom e ύμΐν para criar um paralelo com ο ηύλήσαμεν ύμΐν (nós vos tocam os flauta),
da linha anterior. Se o pronom e fosse original, é pouco provável que os copistas o
teriam om itido. Além do m ais, o texto m ais curto , que aparece em quase todas as
traduções, é apoiado por rep resen tan tes de diferentes tipos de texto.
11.19 ά πό τω ν έργων (por suas obras) {B}
A leitura άπό τω ν τέκνων (por seus filhos), que tem apoio de um a gam a de m anus-
critos, provavelm ente foi criada por um copista sob a influência da passagem paralela
em Lc 7.35, que tem o substantivo τέκνων. Também as leituras com o adjetivo πάντω ν
(todos) foram criadas sob a influência do texto de Lucas, que tem esse adjetivo.
11.23 μή έως ουρανού ύψωθήση (será que serás exaltada até ao céu) {B}
Os m ais antigos m anuscritos, que represen tam todos os tipos de texto pré-
-bizantinos, apoiam a leitu ra que é o tex to de O Novo Testamento Grego. E ntretanto ,
a lguns m anuscritos têm ή έως ούρανού ύψωθεΐσα (a que é elevada até ao céu), e
a inda outros têm ή έως ουρανού ύψώθης (que foste elevada até ao céu). Depois de
terem copiado o nom e Καφαρναούμ, os copistas, ao que parece, om itiram a primei-
ra le tra da palavra μή, sendo que, a p a rtir daí, a le tra h foi in te rp re tada como sendo
o artigo definido fem inino ή ou, então, o pronom e relativo ή.
A opção aceita como texto é, ao que tudo indica, um a pergun ta retórica. Em al-
gum as línguas, é m elhor transfo rm ar essa pergun ta num a afirm ação enfática, como
17O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
“Tu podes te exaltar até ao céu, m as . . Caso for aceita urna das variantes, como
acontece na KJV e ARC (“E tu, C afarnaum , que te ergues até aos céus ...”), as pala-
vras de Jesus deveriam ser tom adas como irônicas, e não como a afirm ação de um
fato real. Em razão disso, a leitura aceita como texto e as duas variantes têm , essen-
cialm ente, o mesmo significado. Os tradutores terão de levar em conta a form a que
m elhor com unica o sentido na língua alvo.
11.23 καταβήση (tu [Cafarnaum ] descerás) {C}
Não se tem certeza se o verbo deveria ser “descerás” (καταβήση) ou “serás rebai-
xada” (καταβιβασθήση). De um lado, o verbo καταβιβασθήση pode ter sido alterado
para καταβήση, para levar o texto a concordar com Is 14.15, que form a o paño de fun-
do das palavras de Jesus. Por outro lado, a leitura no texto é preferida, porque tem o
apoio de m anuscritos antigos tan to do tipo de texto alexandrino quanto do ocidental.
Q ualquer que seja a leitura adotada, talvez seja adequado traduzir assim: “Deus te re-
baixará” (N ew m an e Stine, A Translator's Handbook on the Gospel o f Matthew, p. 349).
11.27 τον υ ιόν ... όν ιο ς (o filho ... o filho) {A}
O texto aceito como original diz: “e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e nin-
guém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho [o] quiser revelar”. Talvez
não seja de estranhar que alguns copistas alteraram a ordem das palavras para “e nin-
guém conhece o Pai, senão o Filho; e ninguém conhece o Filho, senão o Pai e aquele
a quem o Filho [o] revelar”. Essa alteração pode ter sido provocada pela presença da
palavra πατρός (Pai) um pouco antes, no mesmo versículo. Essas duas versões do tex-
to ainda aparecem , em alguns m anuscritos, com pequenas variações de formulação.
12.4 scf αγον (com eram ) {C}
A form a da terceira pessoa do plural tem o apoio de apenas uns poucos m anus-
critos, m as tudo indica que copistas trocaram a form a do plural pelo singular εφαγεν
(ele [Davi] comeu), para fazer o verbo concordar com a form a verbal no singular,
que aparece em Mc 2.26 e Lc 6.4. Algum as traduções m odernas (NIV, TEV, NBJ,
TEB, FC, ARA, CNBB, BN) colocam o verbo no plural, enquanto outras (RSV, NRSV,
REB, Seg, ARC, NVI) preferem o singular.
12.15 [οχλοι] πολλοί (grandes [m ultidões]) {C}
A lguns m anuscritos têm “grandes m ultidões”; outros, sim plesm ente “m uitos”
(πολλοί). A le itu ra m ais breve tem o apoio de antigos m anuscritos a lexandrinos e
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO18
ocidentais. Provavelmente, copistas, influenciados pela conhecida locução “gran-
des m ultidões” ou “numerosas m ultidões” (por exemplo, 4.25; 8.1; 13.2; 15.30;
19.2), acrescentaram a palavra δχλοι. É possível, embora pouco provável, que a
palavra οχλοι seja original, tendo sido omitida acidentalm ente, quando o copis-
ta cometeu um erro de observação, passando do final da palavra οχλοι para o
final sem elhante do adjetivo πολλοί. Para indicar que não se tem certeza quanto
ao texto original, a palavra οχλοι foi colocada entre colchetes. Algumas tradu-
ções modernas adotam a leitura mais breve (RSV, NBJ, REB, ARA: “m uitos”),
enquanto outras preferem a leitura mais longa, que está no texto (NRSV: “muitas
m ultidões”; ARC: “uma grande multidão de gente”). Em algumas línguas, inde-
pendentem ente do texto adotado, será necessário colocar um substantivo ao lado
do adjetivo “m uitos/m uitas”.
12.25 είδώς δέ (M as/e conhecendo) {C}
A grande maioria dos manuscritos diz είδώς δέ ó Ίησοΰς (Jesus, porém, co-
nhecendo), mas o nome “Jesus” não é original, neste versículo. Era até natural que
copistas acrescentassem ό ’Ιησούς, pensando que isso era necessário para deixar o
texto mais claro. Porém, se o nome tivesse estado originalmente no texto, ninguém
teria, de propósito, optado por sua omissão. Na tradução, é possível que se tenha de
explicitar o sujeito. NVI, TEV, NTLH, BN, CNBB, entre outras, trazem o nome “Je-
sus”, talvez mais por causa dos princípios de tradução adotados do que por estarem
seguindo a variante textual. Quanto à outra variante, ίδών (vendo), que aparece em
alguns poucos manuscritos, veja o comentário a 9.4. Embora είδώς seja um partid־
pio, várias traduções modernas, além de explicitarem o sujeito, preferem um verbo
finito. E o caso de NTLH: “Mas Jesus conhecia os pensamentos deles”.
12.47 [inclusão do versícu lo] {C}
Ao que tudo indica, o texto do v. 47, que parece ser necessário para o sentido dos
versículos seguintes, foi omitido acidentalmente quando o copista saltou do infini-
tivo λαλήσαι (falar), no final do v. 46, para o infinitivo λαλήσαι, no final do v. 47.
Por outro lado, manuscritos antigos de vários tipos de texto omitem esse versículo.
O texto aparece entre colchetes, para indicar que se tem dúvidas quanto à sua ori-
ginalidade. Algumas traduções modernas (RSV, NJB, NBJ) omitem esse versículo;
a maioria o inclui.
13.9 ώτα (ouvidos) {B}
Veja o comentário sobre a mesma variante textual em 11.15.
1 9O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
13.11 Segmentação
A conjunção ότι pode in troduzir um a frase que responde à questão por que
Jesus fala por parábolas (v. 10), a saber, “Porque [οτι] a vós foi dado ...” (NBJ).
Tam bém é possível tom ar οτι como um a m aneira de in troduzir um a citação ou dis-
curso direto (a exem plo de NRSV). Neste caso, equivale a aspas e o tex to pode ser
traduzido assim: “A vós foi dado ...”
13.13 οτι βλέποντες ον βλέπονσιν καί άκονοντες ονκ άκονουσιν ουδέ συνίουσιν
(porque, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem, nem entendem ) {B}
Sob a influência das passagens paralelas em Mc 4.12 e Lc 8.10, vários m anuscri-
tos do tipo de texto ocidental, ao lado de outros, trocaram a palavra ότι (porque)
por iva (para que). Essa alteração exigiu, ainda, que os verbos fossem passados do
m odo indicativo para o m odo subjuntivo. Vários m anuscritos ainda acrescentam , a
p a rtir de M arcos (ou Is 6.10), και μή σννιώ σιν (e não entendam ).
13.35 διά τον προφήτου (por in term édio do profeta) {C}
Alguns m anuscritos trazem o nom e do profeta; outros, não. A evidência externa
favorece a leitura sem 0 nome. Além disso, se orig inalm ente não havia nenhum
nom e no texto, vários copistas poderíam ter inserido o nom e de um profeta conhe-
cido. Foi o que, de fato, aconteceu em outras passagens (veja os com entários sobre
1.22; 2.5; 21.4; At 7.48). Tam bém é possível que um leitor, notando que a citação
vem de SI 78.2, inseriu o nom e de Asafe (Xoáq). Outros leitores, por nunca terem
ouvido falar de um profeta com esse nom e, teriam colocado um nom e m ais fam iliar,
como Isaías (Ή σαΐον). Embora nenhum dos m anuscritos disponíveis traga o nom e
de Asafe, Jerónim o, 0 tradu to r da Vulgata latina, conhecia alguns m anuscritos que
tinham esse nom e no texto.
Por outro lado, quanto ao texto m ais longo, é preciso no tar que alguns im portan-
tes m anuscritos têm δ ιά Ή α α ΐον τον προφήτου (por interm édio de Isaías, o profeta).
Esta leitura é mais difícil do que a leitura que aparece como texto em O Novo Testa-
mento Grego, e não é difícil de im aginar que um erro tão evidente como este (atribuir
um texto de SI 78.2 ao profeta Isaías) teria sido corrigido pelos copistas (confira 27.9;
Me 1.2). NEB traduziu o texto m ais longo, mas a REB adota o texto m ais breve.
13.35 ά πό καταβολής [κόσμον] (desde a fundação [do m undo]) {C}
Visto que só uns poucos m anuscritos om item o substantivo κόσμου (do m undo),
a palavra foi incluída no texto. Por outro lado, a favor do tex to m ais breve é preciso
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO2 0
dizer que κόσμου não aparece em m anuscritos que represen tam os tipos de texto
alexandrino , ocidental e oriental. Essa palavra pode ter sido incluída por copistas
que conheciam um a form ulação sem elhante (“a fundação do m undo”), que apare-
ce em Mt 25.34. Como não se tem certeza quanto ao que é original, a palavra foi
colocada en tre colchetes. E ntretanto , m esm o que κόσμου não seja parte do texto
original, está implícito no sentido da passagem , como observa M orris (The Gospel
According to M atthew , p. 355, n.90). Na m aioria das línguas, não se pode dizer
apenas “ocultas desde a fundação”; será necessário acrescentar: “desde a fundação
do m undo” (TEB, NBJ), “desde a criação do m undo” (FC, NTLH, NVI, CNBB), ou
“desde que o m undo foi feito” (REB).
13.43 ώ τα (ouvidos) {B}
Veja o com entário sobre a m esm a varian te tex tual em 11.15.
13.55 ,Ιωσήφ (José) {B}
A lguns m anuscrito s têm o nom e Ίω σ ή ς (ou Ίω σ ή ), que rep re se n ta a pro-
núnc ia ga lile ia (יס ו י ) da form a heb ra ica co rre ta (ף ס ו י). Essa fo rm a do nom e
parece te r sido in se rid a no tex to de M ateus a p a r t ir de Me 6.3. A substitu ição
por Ιω ά ν ν η ς (João) resu ltou de fa lta de cu idado da p a rte dos escribas, ligada
às frequen tes referênc ias, em o u tras passagens, a T iago e João , os filhos deZ ebedeu. A le itu ra Ιω ά ν ν η ς καί Ίω σ ή ς (João e Joses), que ap arece em a lguns
poucos m anuscrito s , é c la ram en te um a com binação de duas le itu ras d is tin ta s , e
não é o rig ina l. Caso os trad u to re s ad o ta rem o p rincíp io de u sa r sem pre a m esm a
g ra fia quando se tra ta do nom e da m esm a pessoa, en tão , neste caso, a form a
do nom e se rá igual à de Mc 6.3, pouco im p o rtan d o que le itu ra é ace ita como
o rig inal.
14.3 Φ ιλ ίππου (de Filipe) {A}
M ateus seguiu o tex to o rig in a l de Mc 6.17, onde consta que o nom e do
p rim e iro m arido de H erod ias era Filipe. E n tre ta n to , em vário s m anuscrito s
oc id en ta is , o nom e Φ ιλ ίπ π ο υ é om itido aqui em M ateus, em conco rdânc ia com
o tex to de Lc 3.19, onde tam b ém não ap arece nom e nen h u m . A situação se
com plica a p a r t i r de in fo rm ações p re s tad a s pelo h is to ria d o r ju d e u do p rim e iro
sécu lo ch am ad o Josefo , que diz que Filipe e ra casado com Salom é, filha de
H erod ias. In d ep en d en tem en te de com o se reso lva esse p rob lem a h istó rico e
exegético , não há dúv ida n en h u m a de que o tex to o rig in a l, n este caso, inclu i o
nom e de Filipe.
21O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
14.9 λυπηθείς ό βασιλεύς δ ιά (en tristecendo־se o rei por causa de) {B}
O texto, apoiado pelos principais m anuscritos do tipo de texto alexandrino e do
tipo de texto ocidental, é este: “E, entristecido, o rei, por causa dos ju ram en tos e
dos que estavam sentados à m esa com ele, ordenou [que a cabeça] fosse dada” Esse
texto é am bíguo, pois perm ite duas in terpretações: (1 ) por causa dos juram entos,
o rei estava entristecido; ou, (2) por causa dos ju ram entos, o rei ordenou que a ca-
beça de João fosse entregue. Os copistas resolveram isso, m udando o texto p a ra o
seguinte: “E o rei ficou triste; m as (δε) por causa dos ju ram entos e dos que estavam
sentados à m esa com ele, ordenou ...” Assim, a am biguidade foi elim inada: o rei
ordenou que a cabeça fosse en tregue por causa do ju ram en to que havia feito. Quase
todas as traduções reproduzem a segunda in terpretação (2 ), concordando com os
copistas antigos, que e lim inaram a am biguidade.
14.24 σταδίους πολλούς α πό τής γης άπεΐχεν
(muitos estádios da te rra [o barco] estava afastado) {C}
A leitu ra aceita como texto em O N ovo T estam en to G rego é a que m elhor explica
o surgim ento das variantes. Em alguns m anuscritos, o verbo άπεΐχεν (estava afasta-
do) foi trocado de lugar, e, em outros m anuscritos, a palavra ικανούς (num erosos)
aparece em lugar de πολλούς. Estas, no en tanto , são diferenças estilísticas, que
não afetam o significado. Alguns m anuscritos trazem ήν τό πλο ΐον εν μέσο) τής
θαλάσσης (ο barco estava no meio do lago), mas esta varian te é sim plesm ente um a
ten tativa de acom odar o texto de M ateus ao texto de Me 6.47.
Um estádio era urna m edida grega de distância equivalente a 185 m etros. “Mui-
tos estádios afastado da te rra” ou “no m eio do lago” estão longe de serem m edidas
exatas; apenas indicam que o barco estava afastado da m argem do lago. (A pala-
vra “estád io” deveria ser evitada, pois o leitor ignora seu valor.) Por isso, qualquer
locução que expresse esse significado de afastam ento da m argem será um a fiel
tradução do texto (N ew m an e Stine, A T ransla tor's H a n d b o o k on th e G ospel o f M at-
th ew y p. 481). A NRSV traduz assim: “estava d istan te da te rra ”. NVI tem “já estava
a considerável d istância da te rra ”. A Bíblia da CNBB traduz por “já longe da te rra ”.
A NTLH, por sua vez, tem “já estava no meio do lago”, m as isto se deve m ais aos
princípios de tradução adotados do que a um a preferência pela varian te tex tual.
14.29 καί ήλθεν (e foi) {B}
A leitu ra καί ήλθεν (Pedro andou por sobre as águas e f o i te r com Jesus) parecia
e sta r d izendo dem ais. Em razão disso, foi a lterada para o infinitivo έλθεΐν (Pedro
andou por sobre as águas p a r a ir te r com Jesu s). O uso de dois verbos para expressar
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO2 2
um a só e a m esm a ação (“andou e foi te r com”) é típico do grego sem itizado do NT.
A ênfase pode estar no começo da ação e o texto pode ser traduzido por “começou a
an d ar em cim a da água, em direção a Jesus” (NTLH, NAB, FC). Sendo assim , existe
pouca diferença de significado en tre a le itu ra aceita como texto e a varian te tex tual
que está no aparato crítico.
14.30 άνεμον [ισχυρόν] (vento [forte]) {C}
O conjunto dos m anuscritos que om item o adjetivo ισχυρόν (forte) é impressio-
nante. É possível que copistas tenham inserido ισχυρόν para intensificar a dram a-
ticidade da história. A leitura “um vento muito forte”, que aparece no m anuscrito
W, reflete essa tendência dos copistas. Mas, visto que os m anuscritos que om item
ισχυρόν são todos do mesmo tipo de texto (alexandrino), é m ais provável que o adje-
tivo seja original e tenha sido om itido acidentalm ente no ancestral desse tipo de tex-
to. Além do mais, o adjetivo ισχυρόν parece necessário para explicar por que Pedro
estava ficando com m ais m edo ainda. Para indicar que não se tem certeza quanto
ao texto original, a palavra ισχυρόν aparece entre colchetes, no texto. Algum as tra-
duções m odernas dizem apenas “o vento” (RSV, NVI, NBJ, TEB, FC, CNBB); outras
trazem “a força do vento” (ARA, NTLH) ou “que o vento era muito forte” (BN).
15.4 ο γάρ θεός εΐπεν (pois Deus disse) {B}
A presença da locução την εντολήν του θεού (ο m andam ento de Deus), no v. 3,
provavelm ente levou copistas a trocarem “pois Deus disse” por “pois Deus ordenou,
d izendo’’ (ο γάρ θεός ένετειλατο λέγων). Se ένετειλατο λεγιυν (ordenou, dizendo)
tivesse estado no texto original, fica difícil de explicar por que teria sido alterado
para εΐπεν (disse), que é um a form a bem m enos expressiva. No paralelo em Mc 7.10,
o sujeito de εΐπεν é Moisés. Em algum as línguas, a tradução m ais na tu ra l desse tex-
to, em seu contexto, é “ordenou”, m esm o que, para tan to , não se necessite aceitar
a varian te como original (N ew m an e Stine, A Translator's Handbook on the Gospel
o f M atthew, p. 495).
15.6 τον πα τέρα αύτοΰ (o seu pai) {C}
Muitos m anuscritos acrescentam as palavras “ou a sua m ãe”. As diferenças en tre
τον πατέρα αύτοΰ ή την μητέρα (ο seu pai ou a mãe), τον πατέρα ή την μητέρα
αύτοΰ (ο pai ou a m ãe dele), e τον πατέρα αύτοΰ ή την μητέρα αύτοΰ (ο pai dele ou
a m ãe dele) são apenas diferenças estilísticas que não afetam o significado.
De um lado, pode-se a rgum en ta r que copistas acrescen taram a locução “ou a
sua m ãe”, pois nos versículos an terio res são m encionados o pai e a m ãe. Por outro
23O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
lado, copistas podem ter om itido as palavras “ou a sua m ãe” por engano. Tam bém
poderíam tê-las om itido in tencionalm ente, por en tenderem que se tra ta de um a
repetição desnecessária. Preferiu-se o texto m ais breve por ser apoiado pelos me-
lhores m anuscritos. A rigor, não existe d iferença de significado en tre o texto e as
varian tes (veja v. 4a e H agner, M a tth e w 1 4 -2 8 , p. 428). Traduções em linguagem
com um , como a GNB em alem ão e a NTLH em português, traduzem por “os seus
pais”. Não está claro se o texto que aparece na NBJ, “não está obrigado a hon rar pai
ou m ãe”, se baseia na varian te tex tual ou apenas reproduz o sentido do texto, como
acontece em traduções em linguagem comum.
15.6 τον λόγον (a palavra) {B}
E evidente que a locução την εντολήν (o m andam ento) foi inserida para que
o texto concordasse com o v. 3, m as é m ais difícil decidir se a le itu ra orig inal era
τον λόγον ou τον νόμον (a lei), τον λόγον tem um apoiom ais consistente dos ma-
nuscritos. Além do m ais, o fato de estar sendo citado um m andam ento específico
poderia ter levado os copistas a colocar την εντολήν ou τον νόμον em lugar de τον
λόγον. É possível, em bora pouco provável, que copistas tenham colocado λόγον em
lugar de νόμον, para fazer o texto concordar com Mc 7.13. Nesse contexto, tan to
“palavra” como “lei” servem como sinônim os de “m andam ento” (N ew m an e Stine,
A T ra n s la to r’s H a n d b o o k on th e G ospel o f M a tth e w , p. 497), e o texto pode ser tradu-
zido por “o m andam ento de D eus” (TEV, CNBB) ou “a m ensagem de Deus” (NTLH).
15.14 τυφλοί eioiv οδηγοί [τυφλών] (cegos são guias [de cegos]) {C}
Em alguns m anuscritos, as palavras “eles são guias cegos” vêm acom panhadas
pela palavra τυφλώ ν (de cegos). Existe tam bém variação na ordem das palavras
em vários m anuscritos, m as essas são diferenças de estilo, não de significado (veja
M orris, The G ospel A cco rd in g to M a tth e w , p. 397, n.27). As leituras que m elhor ex-
plicam a origem das dem ais são τυφλοί είσιν οδηγοί τυφ λώ ν e οδηγοί είσιν τυφλοί
τυφλών. Por outro lado, ο fato de tan to o m anuscrito B quanto o D apoiarem a lei-
tu ra sem o τυφλώ ν dá um considerável peso ao texto m ais breve (adotado em REB,
NIV, NVI, NTLH, FC). Para indicar incerteza quanto ao tex to original, a palavra
τυφ λώ ν aparece, no texto, en tre colchetes.
15.15 την παραβολήν [ταυτην] ([esta] parábola) {C}
O texto adotado em O N ovo T esta m en to G rego, que inclui a palavra ταυτην, tem
o apoio de um a am pla gam a de m anuscritos. Provavelm ente, copistas om itiram
ταυτην por ju lgarem inapropriado usar essa palavra, visto que a parábola não é o
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO24
conteúdo dos vs. 12-14, e sim o que aparece no v. 11. Por outro lado, é im pressionan-
te a com binação de m anuscritos que dão suporte ao texto m ais breve, sem ο ταυτην.
Para indicar incerteza quanto ao texto original, a palavra ταυτην foi colocada, no
texto, en tre colchetes.
Algum as traduções m odernas adotam a variante , traduzindo por “a parábola”
(NBJ). A m aioria das traduções não deixa claro que “essa parábola” ou “a parábola”
se refere ao dito do v. 11, como fica claro pela explicação nos vs. 1 7 2 0 ־. Ao contrário,
dão a im pressão de que “essa parábola” se refere ao conteúdo do v. 14. Por esta razão,
o texto pode ser traduzido assim: “Explique para nós aquilo que o senhor disse ao
povo” (N ew m an e Stine, A Translator's Handbook on the Gospel o f Matthew, p. 503).
15.31 κω φούς λαλοΰντας, κυλλούς υγιείς
(mudos falando, aleijados sendo curados) {C}
A leitu ra que consta do texto é apoiada por um a am pla gam a de m anuscritos.
O utros m anuscritos têm diferenças consideráveis quanto à ordem dos grupos que
foram curados, bem como os grupos que estão incluídos. No en tan to , a m aior di-
ferença é que alguns m anuscritos om item as palavras κυλλούς υγιείς (aleijados
sendo curados). É possível que as palavras κυλλούς υγιείς não façam parte do ori-
ginal, tendo sido acrescentadas para com pletar a série de quatro grupos m encio-
nados no v. 30. E ntretanto , é m ais provável que essas palavras fizessem parte do
orig inal, m as foram om itidas por copistas que ju lgaram desnecessário dizer que
tan to “aleijados estavam sendo curados” quanto “coxos estavam andando” (χω λούς
περ ιπα τοΰντα ς). A palavra grega κωφός pode significar tan to “incapaz de fa la r”
quanto “incapaz de ouvir”, e isto explica a variação, nos m anuscritos, en tre os par-
ticípios λαλοΰντας (falando) e ακούοντας (ouvindo).
15.39 Μ αγαδάν (M agadã) {C}
Os m elhores m anuscritos apoiam o topónim o Μ αγαδάν. Mas não se sabe ao cer-
to onde ficava esse lugar, e até se duvida que tenha existido. A passagem paralela
em Mc 8.10 traz “as regiões de D alm anuta”, que tam bém é um nom e e um lugar
desconhecido. Muitos m anuscritos trazem , em lugar de Μ αγαδάν ou Δαλμανουθά
(D alm anuta), a palavra Μ αγδαλά[ν], que é um a transliteração para o grego da bem
conhecida palavra sem ítica para “to rre”. Veja tam bém o com entário sobre Mc 8.10.
1 6 .2 3 ־ [όψίας γενομένης ... ού δύνασθε;] [a tarde chegando ... não podeis?] {C}
Im pressiona o testem unho dos m anuscritos que não trazem esse texto. E pos-
sível que copistas tenham acrescentado essas palavras, que foram tiradas de um a
25O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
fonte sem elhante a Lc 1 2 .5 4 5 6 ־, ou da própria passagem de Lucas, com alguns
pequenos ajustes. Por outro lado, é possível a rg u m en ta r que essas palavras eram
originais e foram om itidas por copistas que viviam em regiões como o Egito onde
um céu m atinal de coloração verm elha não significa a chegada de chuva. Como
existem argum entos para os dois lados, esses versículos foram incluídos no texto,
m as os colchetes indicam que não se tem certeza quanto à sua orig inalidade. A REB
om ite os vs. 2-3.
16.3 S eg m en ta çã o
No texto, a ú ltim a frase do v. 3 aparece na form a de um a pergun ta . Tam bém
se pode en tender esse texto como um a afirm ação, a exem plo do que faz a NRSV:
“Vocês sabem como in te rp re ta r a aparência do céu, m as não conseguem in te rp re tar
os sinais dos tem pos”. O utras traduções, como BN, NBJ e CNBB colocam isso na
form a de um a exclam ação. Caso se op tar pela pontuação no texto, isto é, a form a
de pergun ta , será preciso lem brar que se tra ta de um a p ergun ta retórica.
16.7 S eg m en ta çã o
A conjunção οτι pode in troduzir um a citação d ire ta , como no texto , sendo que,
nesse caso, não é traduzida. É o que acontece, por exem plo, na RSV: “E eles dis-
cu tiam o assunto en tre si, dizendo: 1Não trouxem os pão’”. Ou, οτι pode in troduzir
um a cláusula causal, como na NTLH: “os discípulos com eçaram a d izer uns aos ou-
tros: Ele está d izendo isso porque [οτι] não trouxem os pão”. Se õ n for visto como
causai, “os discípulos pressupõem que a advertência do Senhor con tra o ferm ento
dos fariseus tem algo a ver com o fato de eles não terem com ida suficiente, como
se ele estivesse aconselhando a que tivessem cuidado para não com prarem pão
envenenado” (Allen, A C ritic a l a n d E x eg e tica l C o m m e n ta ry on the G ospel A cco rd in g
to S t. M a tth e w , p. 174).
16.12 των άρτω ν (de pães) {C}
Existe, aqui, um a v aried ad e de v a rian te s tex tu a is , m as a le itu ra que aparece
com o tex to é a que tem bom apoio de m anuscrito s . A lguns m anuscrito s d izem
“o ferm en to de p ã es” (των άρτω ν). O utros trazem “o ferm en to do p ão ” (του
άρτου), “o ferm en to dos fa riseus e saduceus”, “o ferm en to dos fa rise u s”, e “o
fe rm en to ”. É com preensível que a lguns cop istas, in fluenciados pelo tex to nos
vs. 6, 1 1 , ten h a m a lte rad o “o ferm en to do p ão ” p a ra “o ferm en to dos fariseus
e saduceus”. É possível que a le itu ra m ais breve, “o fe rm en to ”, seja o rig in a l, e
to d as as dem ais re su lta ram de acréscim os feitos por copistas. Mas tam b ém é
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO26
possível que cop istas om itiram as locuções ιώ ν ά ρ τω ν ou του άρτου , po r en-
ten d e rem que n ad a acrescen tavam ao sen tido . O p lu ra l “de p ã es” faz p ara le lo
com o p lu ra l “dos fa riseus e saduceus”, que aparece no fina l do versículo , m as
não existe , neste caso, d iferença de sign ificado e n tre as form as do sin g u la r e do
p lu ra l de ά ρ το ς (pão), com o tam bém não ex iste d iferença en tre “o fe rm en to do
pão” e “o fe rm en to ”.
16.13 Τίνα λέγουσιν οί ά νθρω ποι είναι τον υ ιόν του άνθριυπου (Quem dizem os
hom ens ser o Filho do Homem?) {B}
Dois fatores indicam que as leituras que trazem o pronom e με (m e/amim) não
são originais: (1 ) O pronom e με aparece em diferentes lugares nos m anuscritos que o
incluem, o que sugere que vários copistas acrescentaram με a um texto que não tinha
esse pronom e; (2) o pronom e aparece nos relatos paralelos em Mc 8.27 e Lc 9.18, de
m odo que, provavelm ente, copistas o tenham inserido aqui sob a influência daque-
les textos. Seg adota a varian te com ο με e traduz assim: “Q uem os hom ens dizem
que eu [με], o Filho do Hom em, sou?”
16.20 ό Χ ριστός (o Cristo) {B}
Alguns m anuscritos inserem o nom e 'Ιησούς (Jesus) d iante de ό Χ ριστός, en-
quanto outros colocam esse nom e após ό Χ ριστός. E ntretanto , a leitura m ais breve,
que aparece no texto, tem o apoio de m anuscritos de vários tipos de texto. Além
disso, o que estava em discussão não era se as pessoas reconheciam o nom e de Je-
sus, m as se reconheciam que ele era o Messias (ό Χ ριστός).
16.27 την πρά ξιν (o procedim ento) {B}
A leitu ra την πρά ξιν tem ο apoio de um a variedade de m anuscritos e v isualiza a
obra de um a pessoa ou o procedim ento dela como um todo, razão por que se usa o
singu lar πρ ά ξιν em lugar do plural (veja M orris [The Gospel According to M atthew ,
p. 434, η .65], que afirm a que, com την πράξιν, “não se tem em m ente nenhum a
obra em particu lar, m as a som a final de todas as obras de um a pessoa”). E ntretanto ,
os copistas de vários m anuscritos gregos e de várias traduções antigas preferiram
a expressão m ais conhecida τά έργα (as obras), que en trou , tam bém , no textus re-
ceptus. Em bora, em alguns contextos, possa haver um a pequena diferença de pers-
pectiva en tre esses dois substantivos, neste caso eles parecem ser sinônim os, e a
tradução resu ltan te será a m esm a. A NBJ diz: “re tribu irá a cada um de acordo com
o seu com portam ento”, e a NVI traz: “e então recom pensará a cada um de acordo
com o que ten h a feito”.
270 EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
17.2 το φ ω ς (a luz) {A}
A leitu ra τό φ ώ ς tem sólido apoio de m anuscritos que represen tam todos os
tipos de texto. E ntretanto , vários m anuscritos ocidentais divergem disso, e compa-
ram as vestes de Jesus com a neve (χιών), a exem plo de Mt 28.3. A lgum as traduções
m odernas e lim inam essa com paração com a luz, preferindo dizer que “as roupas
dele ficaram de um branco b rilh an te” (NRSV e tam bém TEV).
17.4 ποιήσω (06ε (farei aqui) {B}
Em lugar da leitura que apresen ta Pedro se dispondo a fazer três tendas, os co-
pistas da m aioria dos m anuscritos colocaram o verbo na prim eira pessoa do plural,
ποιήσω μεν (façamos), harm onizando o texto com os paralelos de Mc 9.5 e Lc 9.33.
Alguns m anuscritos têm o fu turo do indicativo ποιήσομεν ώόε (farem os aqui), e
a lguns m anuscritos a inda om item o advérbio ώόε (aqui).
17.11 Segmentação
Conform e a pontuação no texto, a resposta de Jesus é um a afirm ação de que
Elias de fato havería de v ir e res tau ra r todas as coisas. No aparato crítico da vigési-
m a sétim a edição de Nestle-Aland, aparece um a ou tra possibilidade de pontuação,
em que a resposta de Jesus tom a a form a de um a pergunta.
17.20 όλιγοπ ιστίαν (pequena fé) {A}
A palavra όλιγοπιστίαν aparece som ente aqui, em todo o Novo Testam ento (em-
bora o adjetivo ολιγόπιστος ocorra quatro vezes em Mateus), m as tem excelente
apoio de m anuscritos. Visto que ά π ισ τος (sem fé/incrédulo) ocorre no v. 17, é m ais
provável que copistas trocaram όλιγοπιστίαν por α π ισ τία ν (que ocorre 1 1 vezes, no
NT). Supor que tenha ocorrido o processo inverso é m enos provável.
17.21 omissão do versículo {A}
Não existe razão suficiente que poderia te r levado copistas a om itir esse versí-
culo num a variedade tão g rande de m anuscritos, caso fosse, o rig inalm ente , pa rte
do texto de M ateus. Com frequência, copistas inseriam num Evangelho m ateria l
que se encon tra em outro. Neste caso, parece que o acréscim o de “Mas esse tipo
não sai senão por m eio de oração e je jum ”, que aparece na m aioria dos m anuscri-
tos, foi tirado do para lelo em Mc 9.29 (veja com entário ali). TEB inclui o v. 21 no
texto.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO28
17.22 συστρεφόμενω ν (reunidos eles) {B}
E provável que copistas e stran h aram a presença do participio συστρεφόμενω ν
e, por isso, a lte ra ram o m esm o para o participio άναστρεφομένω ν (estando e les/
achando-se eles), que parecia m ais apropriado nesse contexto. O verbo συστρέφειν,
que, aqui, pode ter o significado de “enquanto eles estavam se agrupando (ao redor
de Jesus)”, ou “Eles estavam andando ju n to s” (REB e Seg), ocorre som ente duas ve-
zes na m aioria dos m anuscritos do NT (aqui e em At 28.3). A m aioria das traduções
tem “enquanto eles se reun iam ” (NRSV, NAB) ou algo assim . Não está claro quem é
o sujeito do participio. Poderíam ser os doze, os doze m ais os outros discípulos, ou
os discípulos jun tam en te com os de fora. A lgum as traduções dizem “os discípulos”
(TEV, FC, NTLH, CNBB), m as a m aioria retém a am biguidade, como, por exemplo,
a NRSV e a TEB.
17.26 ε ίπ όντος δε (mas ele disse) {B}
A le itu ra que aparece como texto em O Novo Testamento Grego é a que m elhor
explica o su rg im ento das varian tes. D iante do fato de que o particip io ε ίπ ό ντο ς
não tem sujeito, a lguns copistas acrescen taram o nom e “Pedro”. Em alguns ma-
nuscritos, o partic ip io foi a lterado p a ra o verbo finito λέγει (diz). Todas as varían-
tes são m eras d iferenças de estilo , que não afe tam o significado. Na tradução ,
talvez a m elhor opção seja exp licitar o sujeito, como em ARA: “R espondendo
Pedro ...”
18.11 omissão do versículo {B}
As palavras “pois o Filho do Hom em veio (para buscar e) para salvar o perd ido”
não constam dos m ais antigos m anuscritos que represen tam diferentes tipos de
texto (alexandrino, egípcio, antioqueno) e foram extra ídas de Lc 19.10. A parente-
m ente, essas palavras foram acrescentadas para fazer a conexão en tre o v. 10 e os
vs. 12-14.
18.14 υμώ ν (vosso) {C}
E difícil decidir se o orig inal é “vosso Pai” (NRSV e a m aioria das traduções)
ou “m eu Pai” (RSV). “Meu Pai” tem a seu favor um bom apoio dos m anuscritos,
m as provavelm ente reflete a influência de του πα τρ ός μου (de m eu Pai), no v. 10
(confira tam bém o v. 35). A le itu ra ημών (nosso), em alguns poucos m anuscritos,
provavelm ente resultou da confusão en tre as letras υ (ípsilon) e η (eta), que, no
grego m ais recente, passaram a ter pronúncia sem elhante.
29O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
18.15 άμαρτήση [εις σέ] (pecar [contra ti]) {C}
É possível que as palavras εις οέ (contra ti) sejam um acréscim o que desde cedo
en trou no texto original, talvez tirado do uso de εις εμέ (contra mim) no v. 21.
E ntretanto , tam bém é possível que essas palavras sejam originais e foram om itidas
posteriorm ente. A om issão podería ser in tencional, para fazer com que a passagem
se aplique a pecados em geral, como poderia tam bém ser acidental, resu ltan te do
fato de, em grego m ais recente, η, η e 81 terem pronúncia m uito parecida. Para indi-
car que não se tem certeza quanto à form a do texto original, as palavras “contra ti”
aparecem , no texto, en tre colchetes. A leitu ra m ais breve é ado tada por REB, NBJ,
TEB e Seg.
18.19 πά λιν [αμήν] λέγω (novam ente [em verdade] digo) {C}
E difícil saber se a presença das palavras αμήν λέγω, no versículo anterior, levou
copistas a acrescen tar um άμήν d iante de λέγω, no começo deste versículo, ou fez
com que om itissem a palavra άμήν, por ju lgarem que a m esm a era desnecessária.
Para indicar que existe incerteza quanto ao tex to orig inal, a palavra άμήν aparece
en tre colchetes. A lgum as traduções seguem o tex to m aisbreve, sem ο άμήν (RSV,
REB, BN, CNBB), ao passo que outras seguem o texto m ais longo (NRSV, “verdadei-
ram en te”; ARA, “Em verdade”).
18.26 λέγων (dizendo) {A}
A m aioria dos m anuscritos acrescenta a palavra κύριε (Senhor) após o participio
λέγων. A RSV faz o mesmo. E ntre tan to , im pressiona a com binação de m anuscritos
que dão apoio à le itu ra m ais breve. É provável que copistas inseriram a palavra
״Senhor”, para dar ao tex to um a in terpretação cristológica. Tam bém é possível,
em bora m enos provável, que κύριε fizesse parte do original, m as foi om itido para
fazer com que o tex to concordasse com a form ulação do v. 29.
19.4 0 κτίσας (o que criou /o Criador) {B}
E m ais fácil supor que copistas m udaram o participio κτίσας, que tem o apoio de
vários m anuscritos de excelente qualidade, para o participio ποιήσας (o que fez), do
que supor o processo inverso. É provável que os copistas in troduziram essa altera-
ção para fazer o texto concordar com Gn 1.27, que tem a palavra ποιήσας. É m enos
provável que os copistas tenham trocado ποιήσας por κτίσας, para fazer o texto
concordar com o verbo hebraico usado em Gn 1.27 (א ר ב , que significa “criou”).
Q ualquer que seja o texto adotado, o sentido é o mesmo.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO30
19.7 άπολΰσαι [αυτήν] (repudiar [a ela]) {C}
Não é fácil decidir se o pronom e αυτήν foi acrescentado para deixar claro qual
é o objeto que está implícito ou se o pronom e foi om itido para fazer a passagem
concordar com o paralelo de Mc 10.4, onde não aparece nenhum objeto direto após
o verbo. As palavras την γυναίκα (a m u lher/sua m ulher), que aparecem em alguns
m anuscritos, são um esclarecim ento acrescentado por copistas. Para indicar a in-
certeza, o pronom e foi colocado en tre colchetes. Q ualquer que seja o texto adotado,
em m uitas línguas será necessário explicitar o objeto do verbo no tex to da tradução.
19.9 μή επ ί πορνεία και γαμήοη άλλην μοιχάται (não sendo por causa de relações
sexuais ilícitas, e casar com ou tra m ulher, com ete adultério) {B}
No relato do ensino de Jesus sobre o divórcio, em M ateus, a “cláusula de exce-
ção” ou “cláusula restritiva” aparece em duas form as: παρεκτός λόγου πορνεία ς
(exceto por m otivo de relações sexuais ilícitas) e μή επί πορνεία (não sendo por
causa de relações sexuais ilícitas). Entre os m anuscritos que têm a p rim eira form a
de texto se encontram bons represen tan tes de vários tipos de texto, m as é provável
que essa form a de tex to tenha sido criada por influência do texto sem elhante que
se encontra em Mt 5.32. A rigor, não existe diferença de significado en tre essas
duas varian tes tex tuais (Hagner, M atthew 14-28, p. 549). Além disso, em vários
m anuscritos aparecem as palavras πο ιε ί αυτήν μοιχευθήναι (a expõe a tornar-se
adúltera [isto é, caso ela casar de novo]), tiradas de Mt 5.32, em lugar da expressão
καί γαμήση άλλην μοιχάται.
Em bora o significado das duas form as de tex to seja o m esm o, os in térpretes
não são unânim es quanto ao que seja esse significado, como m ostram as seguintes
traduções: “não sendo por causa de prostitu ição” (ARC), “não sendo por causa de
relações sexuais ilícitas” (ARA; veja tam bém RSV, NRSV, REB, NVI), “exceto em
caso de infidelidade conjugal” (NIV; veja tam bém TEV, NTLH, FC, Seg), “exceto em
caso de un ião ilegal” (NAB, TEB), “fora o caso de união ilícita” (CNBB), “exceto por
m otivo de 1fornicação”’ (NBJ).
19.9 μοιχάται (comete adultério) {B}
Após o verbo μοιχάται, vários m anuscritos acrescentam καί ό άπολελυμένην
γαμώ ν (ou γαμήσας) μοιχάται (e aquele que casa com um a m ulher divorciada co-
m ete adultério). E possível que essas palavras tenham sido om itidas por acidente,
ou seja, a dupla ocorrência do verbo μοιχάται fez com que um copista om itisse o
m aterial que fica en tre essas duas palavras. E ntre tan to , é m ais provável que se tra te
de um acréscim o posterior, para aproxim ar o texto da form ulação em Mt 5.32.
31O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
19.10 μαθηταί [αυτού] ([seus] discípulos) {C}
Cham a a atenção o conjunto de m anuscritos que não tem o pronom e αύτου. Por
outro lado, é possível que copistas om itiram ο αυτού, por ju lgarem -no desnecessá-
rio, um a vez que o pronom e α ύ τφ (a e le /lhe) aparece no contexto im ediatam ente
anterior. Para indicar incerteza quanto ao texto original, o pronom e αυτού aparece
en tre colchetes. Q ualquer que seja o tex to escolhido, em m uitas línguas será neces-
sário d izer “seus discípulos”. O utro m otivo para dizer “seus discípulos” é ev itar a
im pressão errônea de que os fariseus (v. 3) foram cham ados de discípulos.
19.11 τον λόγον [τούτον] ([esta] palavra) {C}
Visto que copistas geralm ente tinham a tendência de acrescen tar palavras, para
to rn ar o texto m ais explícito — por exem plo, acrescentando pronom es dem onstra ti־
vos como τούτον — o texto m ais breve, sem o τούτον, pode ser original. Além disso,
o tex to m ais curto tem bom apoio de m anuscritos. E ntretanto , a lguns copistas po-
dem ter om itido o pronom e τούτον por ser am bíguo, pois pode se referir ao ensino
de Jesus sobre o casam ento, nos vs. 3 9 ־, especialm ente o v. 6, como tam bém pode se
referir à observação dos discípulos no v. 10. Para indicar incerteza quanto ao texto
original, τούτον aparece, no texto, en tre colchetes.
A lgum as traduções, pa rtindo do pressuposto de que “es ta /e s te ” se refere ao
ensino de Jesus e não à observação feita pelos discípulos, deixam isso explícito no
texto. É o caso da NTLH: “Este ensinam ento não é para todos” (tam bém TEV e FC).
19.16 διδάσκαλε (M estre) {A}
A palav ra αγαθέ (bom ), que não aparece em an tigos e bons rep resen tan tes
dos tex tos a lexandrino e ocidental, foi inserida no tex to a p a rtir dos paralelos
em Mc 10.17 e Lc 18.18. “A m odificação de M ateus [em relação a Marcos] ... desvia
a ‘atenção da bondade de Jesus para o quanto é bom obedecer à lei (Davies
e Allison, A C ritica l a n d E xegetica l C o m m e n ta ry on the Gospel A ccord ing to S a in t
M a tth ew , vol. Ill, p. 42, citando R obert H. Gundry, M a tth ew : A C o m m e n ta ry on his
L itera ry a n d Theological A r t [1982], p. 385) (veja tam bém o com entário sobre a
próxim a variante).
19.17 τί με έρω τας περ ί τού αγαθού; εις έστιν ό αγαθός (Por que me pergun tas
acerca do que é bom? Um só existe que é bom.) {A}
M uitos dos m anuscritos que acrescen tam αγαθέ (bom ), no v. 16, tam bém apre-
sen tam alterações no v. 17, substitu indo o relato carac terístico de M ateus pelas
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO32
seguin tes pa lavras, tirad as dos relatos para lelos em Mc 10.18 e Lc 18.19: τι με
λέγεις αγαθόν: ουόείς αγαθός εί μή εις 6 θεός (Por que me cham as bom? Nin-
guém é bom senão um só, que é Deus). Se essa form a de tex to tivesse estado,
o rig inalm ente , em M ateus, não haveria como explicar por que copistas a teriam
alterado , criando um tex to m ais difícil. Além disso, é preciso dizer, a favor da
le itu ra escolhida como texto , que os copistas com frequência a lteravam a form u־
lação num dos Evangelhos p a ra fazer com que ela concordasse com o que aparece
nos dem ais Evangelhos Sinóticos.
19.20 έψύλαξα (tenho observado /tenho obedecido) {A}
M ateus identifica o in terlocutor de Jesus como um νεανίσκος (jovem ou moço),
nos vs. 20,22. A pesar disso, em alguns m anuscritos o texto foi a lterado pelo acrésci-
mo das palavras έκ νεότητός μου (desde a m inha juventude) ou έκ νεότητος (desde
a juventude) após o verbo έφυλαξα, para harm on izar o texto com os paralelos em
Mc 10.20 eL c 18.21.
19.24 κάμηλον (camelo) {A}
Em lugar de κάμηλον, a lguns poucos m anuscritos gregosm ais recentes trazem
κάμιλον, que significa “corda”, “cabo de um barco”. As duas palavras chegaram a ter
a m esm a pronúncia, na h istória m ais recente da língua grega.
19.29 πατέρα η μητέρα (pai ou mãe) {C}
A presença do substantivo γυναίκα (m ulher) depois de πατέρα ή μητέρα em
m uitos m anuscritos (um a leitu ra ado tada em Seg) parece resu ltar da ação de copis-
tas que harm onizaram o texto com Lc 18.29. A substituição de πατέρα η μητέρα por
γονείς (pais), que aparece em outros m anuscritos, pode ser resultado da influên-
cia da m esm a passagem em Lucas ou, então, trata-se de um a alteração feita por
copistas para sim plificar a redação do texto. A ausência das palavras πατέρα ή em
D e em vários m anuscritos da Antiga Latina parece resu lta r do fato de um copista
ter, por acidente, passado por cim a de palavras que term inam com letras ou sílabas
sem elhantes (hem eoteleuto).
19.29 έκατονταπλασίονα (cem vezes mais) {B}
A leitu ra ado tada como texto tem sólido apoio de m anuscritos. Além do mais,
concorda com o texto de Mc 10.30. E, como M ateus seguiu Marcos, é provável que
M ateus tenha escrito έκατονταπλασίονα . A leitu ra πολλαπλασ ίονα (m uitas vezes
33O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
mais) provavelm ente se deriva da passagem para le la em Lc 18.30. Esta varian te foi
ado tada em TEB: “receberá m uito m ais״ (tam bém em REB e ARA).
20.10 [rò] àvu όηνύριον καί αυτοί ([o] denário cada um tam bém eles) {C}
Para dar m aior ênfase, copistas deslocaram a locução καί αυτοί (tam bém eles)
para im ediatam ente após o verbo ελαβον (receberam ). O artigo definido τό pode
ter sido original, tendo sido om itido por copistas que ju lgaram sua presença des-
necessária. Por outro lado, o fato de não estar nos m anuscritos B e D sugere que
pode não ser original. Esse artigo aparece en tre colchetes, para indicar que se tem
dúvidas quanto à sua originalidade.
As varian tes tex tuais refletem diferenças de estilo, e não a lteram o significado
do texto. M uitas traduções m odernas não transliteram δηνάρίον, preferindo tradu-
zir por “cada um deles tam bém recebeu apenas a d iária” (CNBB; confira NRSV),
“receberam o m esm o pagam ento dos dem ais” (REB), “receberam um a m oeda de
p rata cada um ” (NTLH, TEB, BN, TEV, FC).
20.15 [ή] ([ou]) {C}
Existe equilíbrio no que diz respeito à evidência ex terna favorável à presença
ou ausência da partícu la disjuntiva fj, no começo do v. 15, pois m anuscritos que
rep resen tam os tipos de tex to alexandrino , ocidental, etc. se encontram dos dois
lados. Visto que, em grego m ais recente, ο η e o oi tin h am pronúncia idêntica, é
provável que copistas tenham , de form a não in tencional, om itido a partícu la ή de-
pois do pronom e ooi (a ti), no final do v. 14. Para ind icar incerteza quanto ao texto
orig inal, η foi colocado en tre colchetes.
V árias traduções m odernas não rep roduzem essa p a rtícu la . NBJ, por exem -
pio, diz “Não ten h o o d ire ito de fazer o que quero com o que é m eu?” (tam bém
NRSV e TEB). Não fica c laro se essas traduções deixam de trad u z ir a p a rtícu la
ή por esta rem seguindo a v a rian te ou se o fazem por razões de estilo da língua
alvo.
20.16 έσχατοι, (últim os.) {A}
As palavras πολλοί γάρ είσιν κλητοί, ολίγοι δέ εκλεκτοί (porque m uitos são
cham ados, m as poucos escolhidos) foram , provavelm ente, adicionadas ao final
desse versículo por copistas que se lem braram de ou tra parábo la que te rm in a com
as m esm as palavras (veja 22.14). E possível, m as pouco provável, que essas pala-
v ras sejam p arte do orig inal e foram om itidas aciden talm en te por um copista que
foi enganado pelo final idêntico das palavras έσχατοι e εκλεκτοί.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO34
20.17 τούς δώδεκα [μαθητάς] (os doze [discípulos]) {C}
O substantivo μαθητάς (discípulos) aparece en tre colchetes para indicar que se
tem dúvidas quanto à sua originalidade. Por um lado, copistas m uitas vezes acres-
centavam a palavra “discípulos” à locução oi δίόδεκα (os doze), como em 26.20,
e este poderia ser o caso aqui tam bém . Por outro lado, é possível que a palavra
μαθητάς fizesse parte do original, m as foi om itida para harm onizar o texto com os
paralelos em Mc 10.32 e Lc 18.31, onde se lê apenas “os doze”. A leitura que traz
αύτού (seus) e que aparece em vários m anuscritos m inúsculos e em versões antigas
é claram ente um a adição posterior ao texto.
Para m ostrar que “os doze” se refere a um grupo específico de hom ens, algum as
traduções dizem “os Doze” (NBJ e REB). Mas o uso de um a inicial m aiúscula não
ajuda em nada aqueles que apenas ouvem o texto ser lido. Por isso, para efeitos de tra-
dução, a m elhor opção talvez seja dizer “os doze discípulos”, mesmo que, por razões
de crítica textual, se adote o texto mais breve.
2 0 .2 2 πίνειν. (beber.) {A}
A frase ή το βάπτισμα ... βαπτισθήναι (ou ser batizados com o batism o com que
eu sou batizado) não aparece em im portantes m anuscritos antigos que representam
vários tipos de texto. Essas palavras foram acrescentadas por copistas que tra ta ram
de harm onizar o texto com a passagem paralela em Mc 1 0 .3 8 3 9 ־.
2 0 .2 3 ovk έστιν έμόν [τούτο] δούνα ι (não me com pete [isto] conceder) {C}
O objeto direto τούτο (isto) aparece entre colchetes, para indicar que não se tem
certeza se é parte do texto original ou se é um acréscim o posterior. Por um lado, essa
palavra não consta de bons m anuscritos amigos. Além do mais, aparece em diferen-
tes lugares em alguns m anuscritos, o que parece indicar que não fazia parte do origi-
nal, mas teria sido acrescentada em diferentes lugares no texto, por diferentes copis-
tas. Por outro lado, visto que τούτο não faz parte do relato paralelo em Marcos, não
se tem , aqui, um caso de harm onização. Logo, τούτο poderia ser original. Q ualquer
que seja o texto aceito como original, considerações de ordem gram atical e estilística
podem levar os tradutores a inserir um objeto direto para o verbo “conceder”. É o que
acontece, por exemplo, em ARA, NBJ e TEB.
2 0 .2 6 εσται (será) {B}
A evidência externa claram ente favorece a form a verbal fu tu ra εσται. Mas έστιν,
que é a form a do presente, tem o significativo apoio dos m anuscritos B e D. A m esma
variação ocorre tam bém no paralelo de Mc 10.43. Embora o tem po futuro tenha tudo
para ser o original, não se tra ta sim plesm ente de um a referência ao que vai acontecer
no futuro. Segundo Blass, Debrunner, Funk, A Greek Grammar o f the New Testament
(1961) § 362, o fu turo do indicativo é usado, por vezes, em ordens categóricas, e
“M ateus faz uso m ais frequente desse fu turo do que os outros evangelistas”. A m elhor
m aneira de expressar isso é dizer: “Entre vós isso não deve ocorrer” ou “Entre vós não
deverá ser assim ” (NBJ).
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 35
2 0 .3 0 Έ λεησον ημάς, [κύριε,] (Tem com paixão de nós, [Senhor,]) {C}
O substantivo κύριε (Senhor/senhor) foi colocado entre colchetes para indicar que
não se sabe ao certo se essa palavra é parte do original ou foi acrescentada poste-
nórm ente por escribas. Uma vez que as passagens paralelas em Mc 10.47 e Lc 18.38
trazem o nom e Ιησού (Jesus), é provável que as leituras que incluem esse nome,
aqui em M ateus, sejam acréscimos posteriores. Também se poderia argum entar que
o texto mais curto, sem ο κύριε, é original (assim na REB), e que as leituras mais
longas são acréscimos feitos por copistas. Além do mais, o fato de κύριε aparecer em
diferentes posições em alguns m anuscritos poderia sugerir que não fazia parte do
original, mas foi acrescentado em diferentes lugares do texto por diferentes copistas.
Entretanto, é mais provável que κύριε seja original e que foi omitido por copistas que
tra taram de criar um paralelo exato com a passagem sem elhante em Mt 9.27, onde se
lê apenas Έλε'ησον ήμας.
20.31 Έ λεησον ημάς, κύριε (Tem com paixão de nós, Senhor) {C}
Alguns manuscritos trazem a palavra κύριε depois da locução “Tem compaixão de
nós” (como aparece no texto), ao passo que outros trazem κύριε antes dessa locução. O
testem unho dos m anuscritos favorece mais a segunda forma do texto. No entanto, a lei-
tu ra que aparece como texto tem mais chances de ser original. Isto porque, ao que tudo
indica, copistas teriam alterado a ordem das palavras para “Senhor, tem misericórdia
de nós”, fazendo com que o texto concordasse com a forma de texto conhecida e usada
no culto da Igreja. Um bom núm ero de traduções m odernas adota a ordem das palavras
que aparece na variante, mas não fica claro se isso se deve a razões de natureza crítico-
-textual ou por questão de estilo da língua alvo. Recomenda-se aos tradutores que ado-
tem a ordem de palavras que fique mais natural na língua para a qual estão traduzindo.
21.3 Segmentação
Neste versículo aparece um a citação em butida, isto é, um a citação dentro de
ou tra citação, e não se sabe ao certo onde term ina essa citação em butida. As quatro
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO36
últimas palavras deste versículo podem ser entendidas de duas maneiras diferentes:
(1) Podem ser vistas como parte da citação embutida, ou seja, são palavras que os
dois discípulos deveríam dizer a alguém da aldeia à qual Jesus os estava enviando.
Neste caso, o sujeito do verbo άποστελεΐ (enviará ou devolverá) é ό κύριος (o Se-
nhor, isto é, Jesus). Esta é a opção da NBJ: “E se alguém vos disser alguma coisa,
respondereis que o Senhor precisa deles, mas logo os devolverá”.
(2) Por outro lado, a citação embutida pode ser encerrada com o verbo έχει
(precisa), fazendo com que as quatro últimas palavras desse versículo passem a ser
palavras que Jesus dirigiu aos discípulos. Caso se entender que a citação embutida
termina com o verbo έχει, o sujeito do verbo άποστελεΐ passará a ser o dono dos
animais. Esta é a opção da RSV, TEV, NTLH, e a maioria das outras traduções. A
NRSV, por exemplo, traduz mais ou menos assim: “Se alguém lhes disser alguma
coisa, simplesmente digam isto: Ό Senhor precisa deles’. E ele logo os enviará”.
21.12 ιερόν (templo) {B}
Em muitos manuscritos, as palavras του θεοΰ (de Deus) aparecem depois de
ιερόν. A leitura mais breve tem apoio maciço dos manuscritos e, além disso, os co-
pistas não teriam omitido τού θεού, caso tivesse estado no original. Tal acréscimo
da parte dos copistas era algo bastante natural, e visava dar ênfase ao fato de que
se estava profanando um lugar sagrado. Por outro lado, uma vez que os relatos pa-
ralelos em Mc 11.15 e Lc 19.45 (veja também Jo 2.14) não têm as palavras τού θεού,
seria possível argumentar que essas palavras são originais em Mateus e que foram
omitidas por copistas, com a intenção de harmonizar o texto de Mateus com o texto
dos outros Evangelhos.
2 1 . 2 9 3 1 ־ ου θέλω, ύστερον όέ μεταμεληθείς άπήλθεν ... έτέρω
... εγώ, κύριε* καί ούκ άπήλθεν ... ό πρώτος
(não quero; depois, arrependido, foi ...
ao outro ... Sim, senhor; porém não foi ... o primeiro) {C}
Nesses três versículos, há muitas diferenças entre os manuscritos, sendo que as
principais delas são as seguintes:
(1) Em alguns manuscritos, o primeiro filho diz “Não”, mas depois se arrepen-
de e vai trabalhar na vinha. O segundo filho diz “Sim”, mas não vai trabalhar. A
pergunta que é feita é esta: “Qual dos dois fez a vontade do pai”? A resposta é: “o
primeiro”. Esta leitura, adotada por quase todas as traduções, tem tudo para ser
original, pelas seguintes razões: (a) Faz sentido que, no momento em que o primei-
ro filho disse “não”, o pai tenho pedido ao segundo filho para que fosse, (b) Essa
leitura tem um apoio de manuscritos levemente superior ao das outras variantes.
37O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
(2) Em alguns outros m anuscritos, o prim eiro filho diz “sim ”, m as depois se re-
cusa a ir trab a lh a r na vinha. O segundo filho diz “não”, m as posteriorm ente se arre-
pende e vai trabalhar. "Qual dos dois fez a vontade do pai”? Esses m anuscritos têm
as seguintes respostas diferentes: “O últim o” (ó ύστερος), “O últim o” (ο έσχατος),
“O segundo” (ô δεύτερος), e “O prim eiro״ (ó πρώ τος). E ntretanto , esta le itu ra não
faz tan to sentido quanto a anterior, apresen tada acim a (1). Se o prim eiro filho dis-
se “sim ”, não havería por que o pai solicitar ao segundo filho que fosse trabalhar.
Provavelm ente, esta leitura reflete o esforço dos copistas para fazer com que a or-
dem cronológica, no texto, coincidisse com os acontecim entos históricos. Em outras
palavras, o prim eiro filho é visto como represen tan te dos judeus em geral, ou, m ais
d iretam ente , dos principais sacerdotes e anciãos (v. 23) e o segundo filho é visto
como sendo os gentios ou os cobradores de im postos e as p rostitu tas (v. 31). REB,
M offatt, Goodspeed e ARA seguem esta variante .
(3) Em alguns outros m anuscritos, o prim eiro filho diz “não”, m as depois se ar-
repende e vai trab a lh a r na vinha. O segundo filho diz “sim ”, m as não vai trabalhar.
“Qual dos dois fez a vontade do pai”? A resposta é: “o ú ltim o”. Alguns in térpretes
entendem que, por ser a m ais difícil, esta le itu ra é a original, e que os copistas te-
riam alterado o texto para as form ulações que aparecem em (1) e (2). E ntretanto ,
esta leitura é tão difícil que, no contexto, não faz sentido nenhum .
21.39 αντόν έςεβαλον ε'ςεο τον άμπελώ νος και άπέκτειναν
(a ele, lançaram -no fora da vinha e o m ataram ) {A}
M anuscritos que represen tam o tipo de texto ocidental deste versículo concor-
dam com a ordem dos acontecim entos em Mc 12.8, onde o filho é m orto e só então
lançado fora da vinha. Em M ateus e Lucas (20.15), o filho é lançado fora da v inha
antes de ser m orto, um a ordem que, talvez, reflita o fato de que Jesus foi crucifica-
do fora da cidade (Jo 19.17,20; Hb 13.12-13).
2 1 .4 4 [Καί ... αντόν.] ([E ... a ele.]) {C}
Muitos eruditos de nossos dias en tendem que este versículo, que aparece na
m aioria dos m anuscritos gregos de M ateus, seja um acréscim o baseado em Lc 20.18
e que teria sido inserido no texto de M ateus bem no início da transm issão do texto.
Esse versículo é om itido em REB, TEV e na New Jerusalem Bible (em bora conste da
NBJ). E ntretanto , este versículo pode ser original, pois as palavras em M ateus não
são as m esm as que aparecem em Lucas. Além disso, se tivessem sido acrescentadas,
um lugar m ais adequado teria sido após o v. 42. Sendo parte do original, essas pala-
vras podem ter sido om itidas quando o copista foi enganado pela sem elhança entre
ο αντής, no final do v. 43, e ο αύτόν, no final do v. 44. Embora, provavelm ente, esse
versículo seja um acréscim o posterior ao texto de M ateus, é m antido no texto, a inda
que en tre colchetes, devido à sua an tiguidade e im portância na trad ição textual.
38 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO
22.10 ό γάμος (o salão de festas) {B}
A le itu ra ό νυμ φ ώ ν (que aqui significa “a sala nupcial”) parece ser um a cor-
reção, in troduzida nos m anuscritos do tipo de tex to a lexandrino, que resultou do
fato de os copistas en tenderem que era um tan to inadequado u sar o term o ό γάμος
(casam ento, festa de casam ento) em conexão com o verbo “ficou cheio” (έπλήσθη).
A tradução do texto será sem pre a m esm a, pouco im portando que varian te é con-
siderada orig inal, porque, neste caso, ό γάμος é usado no sentido m etafórico de “o
salão de festas” (veja Davies e Allison, A C ritica l a n d E xegetica l C o m m en ta ry on the
Gospel A cco rd in g to S a in t M a tth ew , vol. Ill,p. 203; e BDAG, pp. 188-189).
22.23 Σ αδδουκα ιο ι, λέγοντες (saduceus, dizendo) {B}
Segundo as palavras que aparecem no texto, os saduceus, no início de seu diá-
logo com Jesus, afirm am sua descrença na ressurreição dos m ortos. No entanto,
alguns m anuscritos têm o artigo definido oi diante do participio λέγοντες, o que
significa que essas palavras constatam aquilo que os saduceus acreditam (ou não
acreditam ), a saber, “saduceus, que dizem não haver ressurreição”. É possível que
o artigo definido seja original e que foi acidentalm ente om itido por copistas que o
confundiram com o final da palavra Σ αδδουκαΐοι, que tem as m esm as vogais do
artigo definido. No entanto , é m ais provável que os copistas tenham acrescentado o
artigo, com o intuito de harm onizar o texto com os paralelos em Mc 12.18 e Lc 20.27.
Além disso, na m edida em que M ateus não costum a fornecer esse tipo de inform ação
a respeito de coisas relacionadas com o judaísm o, é pouco provável que, neste caso,
ele esteja explicando que os saduceus são aqueles que não acreditam na ressurreição
dos m ortos.
As traduções m odernas não são unânim es. Seguindo a le itu ra aceita como texto,
a NTLH traduz: “Naquele m esm o dia chegaram perto de Jesus alguns saduceus,
afirm ando que ninguém ressuscita” (tradução sem elhante aparece em NRSV, NAB
e TEV). Seguindo a varian te , CNBB traduz: “Naquele dia, aproxim aram -se dele uns
saduceus, os quais afirm am que não há ressurreição”. Um texto sem elhante aparece
em REB, RSV, ARA, NVI, NBJ, TEB, FC, Seg.
22.30 άγγελοι (anjos) {B}
A m aioria dos m anuscritos, seguidos por Seg, tem o acréscim o de θεού ou του
θεού (de Deus) depois do substantivo άγγελοι. Em bora poucos m anuscritos tenham
39O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
essa form a de texto m ais breve, ela tem o apoio de im portan tes m anuscritos que
represen tam os tipos de texto a lexandrino e ocidental. A crescentar a locução του
θεοΰ era algo bem na tu ra l para os copistas, ao passo que a sua om issão é difícil de
explicar, caso tivesse estado orig inalm ente no texto. Em algum as línguas, talvez os
tradu tores tenham que usar um term o para “anjo” que já contenha a noção de que
se tra ta de anjos “de Deus”. Por exem plo, “anjo” pode ser traduzido por “m ensageiro
de Deus”. Em situações como essa, não haverá diferença en tre a tradução da leitu ra
aceita como texto e a da variante .
2 2 .3 2 εστιν [ό] θεός (ele é [o] Deus) {C}
A leitu ra que aparece como texto diz: “Ele não é o Deus dos m ortos, m as dos
vivos”. Contudo, para deixar o texto m ais exato, copistas acrescen taram um según-
do θεός (Pois Deus não é um Deus dos m ortos, m as dos vivos), que aparece num a
form a m ais recente do texto. Q uanto ao artigo definido 0, não se sabe com certeza
se copistas o deixaram fora em analogia ao texto paralelo em Mc 12.27, ou se copis-
tas inseriram o artigo no texto, influenciados pelas quatro ocorrências de ό θεός no
contexto im ediatam ente anterior. No texto, o artigo aparece en tre colchetes, para
sinalizar que não se tem certeza quanto ao texto original.
A parentem ente, a NTLH traduz a variante: “Deus não é Deus dos m ortos e sim
dos vivos”. O mesmo acontece na REB. Na verdade, não existe real d iferença de sig-
nificado en tre a le itu ra que está no tex to e a le itu ra que tem a repetição do θεός. Em
m uitas línguas, a presença ou ausência do artigo definido será determ inada pelas
exigências ou características da língua para a qual se está traduzindo.
2 2 .3 5 [νομικός] ([um in térp rete da lei]) {C}
Por um lado, a inclusão ou presença da palavra νομικός tem um im pressionante
apoio da parte dos m anuscritos, o que sugere que ela estava orig inalm ente no texto.
Por ou tro lado, νομικός não aparece nos m anuscritos da fam ília 1 ( /1), tam pouco
em versões antigas e em textos de Pais da Igreja de um a grande variedade de luga-
res. Essa om issão é significativa, pois em nenhum a ou tra passagem de M ateus se
usa a palavra νομικός. Assim sendo, é possível que copistas inseriram essa palavra
no texto a p a rtir da passagem paralela em Lc 10.25. Para sinalizar que existem dú-
vidas quanto à form a do tex to original, νομικός aparece, no texto, en tre colchetes.
A TEB (bem como a ARA, NTLH, NRSV, NIV, TEV, TEB, FC, Seg) segue o texto
m ais longo: “E um deles, um legista, perguntou-lhe para o pôr à prova”. O utras
traduções de νομικός são “perito na lei” (NVI), “m estre da Lei” (NTLH), e “doutor
da Lei” (BN). A NBJ adota o tex to m ais breve: “e um deles — a fim de pô-lo à prova
— perguntou-lhe” (a REB faz de m odo sem elhante).
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO40
2 3 .4 βαρέα [καί δυσβάστακτα] (pesados [e difíceis de carregar]) {C}
Alguns poucos m anuscritos, bem como REB, NVI, NBJ, TEB, NTLH, FC e Seg,
om item as palavras καί δυσβάστακτα (e difíceis de carregar), m as a leitura m ais lon-
ga, adotada por RSV, NRSV, TEV, CNBB, tem sólido apoio dos m anuscritos. Se essas
palavras estavam no texto original, é possível que copistas as om itiram de form a
acidental, passando do και que aparece depois de βαρέα para ο καί que vem depois
de δυσβάστακτα. Tam bém é possível que copistas tenham om itido essas palavras
por razões de estilo. Por outro lado, existe a possibilidade de essa locução não ser
original, tendo sido in troduzida em M ateus a p a rtir do paralelo em Lc 11.46. Para
indicar que existem dúvidas a respeito da form a exata do original, a locução καί
δυσβάστακτα foi colocada entre colchetes.
23.9 πατέρα μή καλέσητε υμώ ν (não cham eis vosso pai) {B}
Em lugar do prim eiro υμών (vosso) que aparece neste versículo, vários m anuscri-
tos do tipo ocidental colocam o pronom e ύμΐν (para vós), e alguns m anuscritos gregos
m ais recentes om item o pronom e, por considerá-lo desnecessário. As diferenças entre
essas variantes são apenas questão de estilo e não de significado. Mais do que as
questões de natureza crítico-textual, o que os tradutores terão de levar em conta ao
traduzirem esse texto são as características da língua para a qual estão traduzindo.
23.14 omissão do versículo {A}
O v. 14 não faz parte do texto nos m ais antigos e m elhores m anuscritos dos
tipos de texto a lexandrino e ocidental. Não há dúvida de que copistas ex tra íram
esse texto de Mc 12.40 ou Lc 20.47 e o inseriram aqui, em M ateus. Esta conclusão
é confirm ada pelo fato de que alguns copistas colocaram esse texto antes do v. 13,
ao passo que outros o colocaram após o v. 13.
23.19 τυφ λοί (cegos) {B}
A parentem ente, as palavras μωροί καί (tolos e), que aparecem no v. 17, foram
inseridas por a lguns copistas neste lugar. Isto porque não existe um a razão que pu-
desse ju stificar a om issão dessas palavras, caso elas tivessem feito parte do original.
2 3 .2 3 ά φ ιένα ι (omitir) {C}
O infinitivo aoristo άφεΐναι, que se encontra em alguns textos alexandrinos em
lugar do infinitivo presente άφιέναι, é um a pequena correção de natureza gramatical.
41O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
Se houver algum a diferença de significado em vista, poderia ser a seguinte: o infinitivo
presente enfatiza um pouco mais o caráter contínuo da ação que está sendo descrita.
2 3 .2 5 άκρασίας (falta de dom ínio próprio) {A}
A palavra άκρασίας tem sólido apoio de m anuscritos antigos e de boa qualidade.
No en tan to , seu uso ao lado de αρπαγής (rapina) deve ter sido visto como inapro-
priado, o que levou vários copistas a substitu ir άκρασίας por outros substantivos,
como άδικ ίας (injustiça), άκαθαρσίας (im pureza), ou πονη ρ ιά ς (m aldade).
2 3 .2 6 του ποτηριού ... xò εκτός α υ το ί1 (do copo ... o ex terior dele) (D)
A leitura aceita como texto cita apenas o copo (του ποτηριού), por mais que exista
um bom testem unhode m anuscritos que favorecem o texto m ais longo, que inclui a
locução καί τής παροψ ίδος (e do prato). Esse texto mais longo é adotado por RSV,
NIV, NVI, NBJ, e Seg. A m aioria dos m anuscritos tem o seguinte texto: “Limpa pri-
m eiro o interior do copo e do prato, para que tam bém o exterior deles (αύτών) fique
limpo”. Mas o fato de alguns m anuscritos terem o pronom e singular, “Limpa prim eiro
o interior do copo e do prato, para que tam bém o exterior dele (αύτου) fique lim po”,
dá a entender que no texto original não constavam as palavras καί τής παροψ ίδος.
Se estas palavras não faziam parte do original, foram acrescentadas por copistas,
provavelm ente a pa rtir do v. 25. Alguns m anuscritos trazem έξιυθεν em lugar de
έκτος, mas essas duas palavras são sinônim as neste contexto e serão traduzidas de
forma idêntica.
23.31 S eg m en ta çã o
Segundo a pontuação que se encontra no texto, existe um a pausa m aior no final
do v. 31, e as palavras καί υμείς (e vós), que aparecem no início do v. 32, form am
um a unidade com o que se segue no v. 32. E ntretanto , a vigésim a sétim a edição de
Nestle-Aland dá conta, no aparato crítico, de que existe um a pontuação alternati-
va em alguns m anuscritos antigos, a saber, o ponto final é colocado depois de καί
υμείς e não no final do v. 31. Segundo essa pontuação alternativa , as palavras καί
υμείς são enfáticas, e a tradução do texto passa a ser a seguinte: “Vocês testificam
contra si m esmos que são os filhos dos que m ataram os profetas, 32 tam bém vocês”.
2 3 .3 7 S eg m en ta çã o
Este versículo pode ser en tendido como um a afirm ação, a exem plo do que é feito
nesta edição do tex to grego e na quase to talidade das traduções m odernas. Pode
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO42
tam bém ser escrito na form a de um a pergun ta , como em TR e WH. O utra opção,
seguida por m uitas traduções m odernas, é ver aí um a exclam ação. Caso se ju lgar
que se tra ta de um a pergun ta , essa pergun ta deveria ser en tendida como retórica.
23.38 έρημος (deserta) {B}
O ad je tivo έρημ ος e s tá au sen te em a lg u n s m anuscrito s , m as aqueles que
o incluem dão considerável apoio p a ra que se considere o m esm o com o sen-
do o rig ina l. E provável que a lg u n s cop istas o m itiram esse ad jetivo , porque o
co n sid e ra ram red u n d a n te logo após o verbo άηΤεται (é ab an d o n ad a). E m enos
provável que o tex to m ais breve seja o rig in a l. Em o u tras p a lav ras , é pouco
provável que cop istas ten h a m in se rid o o te rm o έρημος sob in flu ên c ia do tex to
g rego de J r 22 .5 (onde a p a la v ra ap arece na fo rm a de um verbo), ao qual Jesus
e s tá fazendo a lusão .
A le itu ra aceita como tex to pode ser trad u z id a por “Deus deixou o Templo de
vocês, e ele ficou vazio” (p artin d o do pressuposto de que ό ο ίκ ο ς é o Templo, e
não Je ru sa lém ; p ara um a d iscussão em to rno do significado de ό ο ίκος n esta pas-
sagem , veja Davies e A llison, A C ritica l a n d E xeg e tica l C o m m e n ta ry on th e G ospel
A cco rd in g to S a in t M a tth e w , vol. Ill, p. 322). Para efeitos de tradução , ta lvez a
m elhor opção, em a lgum as línguas, seja com binar as noções de “ab an d o n ad o ” e
“d ese rto ”, a exem plo do que acontece na CEV: “E agora o tem plo de vocês ficará
d e se rto ”.
24.6 γενέσθαι (ser/acontecer) {B}
A le itu ra que aparece como tex to é apoiada por um a g rande variedade de ma-
nuscritos antigos. E n tre tan to , copistas tra ta ra m de fazer acréscim os, bastan te na-
tu rá is , ao texto: “todas as coisas [πάντα] precisam acontecer”, “essas coisas [ταΰτα]
precisam acon tecer”, ou “todas essas coisas [πάντα ταΰτα] precisam acontecer”. Se
qualquer um a dessa palavras tivesse constado do original, não ex istiria nenhum
m otivo satisfatório que pudesse te r levado os copistas a om iti-la.
O infinitivo γενέσθαι não tem um sujeito explícito, m as fica im plícito que o que
precisa acontecer são guerras e rum ores de guerra . Por isso, m esm o sem e n tra r na
questão crítico-textual, talvez em algum as línguas seja necessário ou conveniente
in se rir um a locução como “essas coisas”, “esses acontecim entos” ou “essas guer-
ras”, para serv ir de sujeito do verbo acontecer. As diferenças en tre essas varian tes
são estilísticas e não chegam a a lte ra r o significado. Confira, po r exem plo, as se-
guin tes traduções: “Essas coisas têm de acontecer” (BN e REB), “É necessário que
tais coisas aconteçam ” (NVI), “Tudo isso vai acon tecer” (NTLH), e “é preciso que
essas coisas aconteçam ” (NBJ e CNBB).
43O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
24.7 λιμοί καί σεισμοί (fomes e terrem otos) {Β}
Em bora seja possível que a locução καί λοιμοί (e epidem ias) tenha sido om itida
acidentalm ente, por te r um final idêntico ao das palavras λιμοί e σεισμοί, é m ais
provável que essa locução tenha sido acrescentada em diferentes lugares por co-
pistas que conheciam o texto de Lc 21.11, onde se fala sobre fomes, terrem otos e
epidem ias.
24.31 σάλπιγγος (trom beta /toque de trom beta) {B}
A expressão σάλπιγξ μεγάλη (uma grande trom beta = um som forte de trom be-
ta) ocorre som ente aqui em todo o NT, em bora a expressão φωνή μεγάλη (um som
ou um a voz forte) ocorra diversas vezes. Ao que parece, copistas acrescen taram a
palavra φωνής ou a locução καί φωνής ao texto de Mt 24.31, talvez influenciados
pelo relato de Ex 19.16. E m enos provável que φωνής seja original e que tenha sido
om itido porque os copistas ju lgaram essa palavra desnecessária.
Visto que, neste contexto, σάλπ ιγγος se refere não à trom beta em si, m as ao som
da trom beta , não existe real d iferença de significado en tre a varian te e a leitura
aceita como texto. Não existe diferença m aior en tre a tradução “Ele enviará seus
anjos com um a grande trom beta” (CNBB) e a tradução “E ele env iará os seus anjos,
com grande clangor de trom beta” (ARA; tam bém KJV e NVI), que parece baseada
na varian te textual.
2 4 .3 6 ουδέ ό υ ιός (nem o Filho) {B}
Os m elhores rep resen tan tes dos tipos de texto a lexandrino e ocidental contêm
as palavras ουδέ ό υ ιός, e a sintaxe do texto sugere que essas três palavras sejam
originais. Mas elas não aparecem na m aioria dos m anuscritos de M ateus, incluindo
o texto bizantino, de origem m ais recente. Copistas om itiram essas palavras por
causa da dificuldade dou trinária envolvida na afirm ação de que o Filho não sabia
quando o Filho do Hom em viria. É m uito pouco provável a hipótese de que o texto
m ais breve seja orig inal e que as palavras ουδέ ό υ ιός tenham sido inseridas a par-
tir de Mc 13.32.
2 4 .3 8 [έκείναίς] ([naqueles]) {C}
Existe sólido apoio de m anuscritos para a le itu ra “Pois assim como naqueles
(έκείναίς) dias an tes do dilúvio”. É possível que a palavra έκείναίς tenha sido omi-
tida, acidentalm ente, porque as palavras ήμέραις, έκείναίς, e τα ΐς term inam todas
com as m esm as letras. Mas, como existe tam bém bom apoio de m anuscritos para a
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO44
le itu ra m ais breve, sem ο έκείναις, esta palavra aparece, no texto, en tre colchetes,
para indicar que se tem dúvidas quanto à sua orig inalidade. A rigor, não existe dife-
rença de significado en tre “Pois assim como, naqueles dias antes do dilúvio” (TEB,
NRSV, NBJ, BN) e “Nos dias an tes do dilúvio” (REB, ARA, NTLH, CNBB).
2 4 .4 2 ήμερα (dia) {B}
Em lugar de ήμερα, que tem excelente apoio em m anuscritos, o textus receptus e
a m aioria dos m anuscritos trazem topa (hora), um term o extraído do v. 44. Q ualquer
que seja a leitura escolhida, o significado é o mesmo e o texto pode ser traduzido por
“não sabeis quando” ou “não sabeis em que m omento”.
25.1 τού νυμ φ ίου (o noivo) {B}
Alguns m anuscritos antigos têm του νυμφ ίου καί τής νύμφης (ο noivo e a noiva).
No entanto, tudo indica que as palavras καί τής νύμφης não sejam originais. Devem
ter sido acrescentadas por copistas, pois a prática usual era que 0 noivo viesse para
a casa dele acom panhado da noiva, para o casam ento. Além disso, a favor do texto
m ais breve está a constatação de que, nos versículos seguintes, se fala unicam ente a
respeito do noivo. Por outro lado, se as palavras καί τής νύμφης faziam parte do origi-
nal, podem ter sido om itidas por copistas que se deram conta de que tais palavras não
se encaixavam no quadro em que se apresenta Cristo, o noivo, voltando para buscar
a sua noiva, a igreja. Em outras palavras, se Cristo vem para buscar a noiva dele, a
noiva não poderia estar vindo em sua com panhia.
25.13 ώραν (hora) {A}
A leitura que aparece como texto tem sólido apoio de manuscritos. A frase έν ή ό
υ ιός του άνθρώ που έρχεται (em que ο Filho do Homem virá) foi acrescentada, ao final
desse versículo, por copistas que se lem braram de um a afirm ação sem elhante em Mt
24.44. O sentido das palavras “porque não sabeis o dia nem a hora” fica claro a partir do
que é dito em Mt 24.36—25.12. Entretanto, deixando de lado a questão crítico-textual,
um tradutor pode muito bem optar por deixar isso bem claro, acrescentando algo como
“em que o Filho do Homem virá” ou “quando o reino de Deus será estabelecido”. A CEV
traduz assim: “Vocês não sabem o dia nem a hora em que tudo isso vai acontecer”.
2 5 . 1 5 1 6 ־ άπεόήμησεν. ευθέως πορευθείς (ele partiu . Im ediatam ente saindo) {B}
São poucos os m anuscrito s que apo iam a le itu ra que aparece com o tex to ,
m as eles são de boa qua lidade . M ais im p o rtan te do que isto é o fato de que essa
45O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
é a le itu ra que explica o su rg im en to das dem ais. Não fica c laro se o advérbio
ευθέω ς (im ed ia tam en te ) se liga ao que vem an tes ou ao que vem depois. Ou
seja, o tex to tan to pode sign ificar que o senho r p a rtiu im ed ia tam en te quan to
pode sign ificar que o servo que recebeu cinco ta len to s saiu im ed ia tam en te . Para
e lim in a r essa am bigu idade , cop istas in tro d u z ira m a p a lav ra όέ em d ife ren tes
lugares do tex to . Visto que όέ aparece quase sem pre com o a seg u n d a pa lav ra de
um a frase , isto é, nunca ap arece no início dela , a posição desse όέ d e te rm in a
ou estabelece o significado. (1) άπεόήμησεν. ευθέω ς όέ π ο ρ ευ θ ε ίς (ele p a rtiu .
E sa indo im ed ia tam en te ) significa que o que servo saiu logo. (2) άπεόήμησεν
ευθέω ς, πο ρ ευ θείς όέ (ele p a rtiu im ed ia tam en te . E saindo) significa que o se ־
n ho r p a rtiu im ed ia tam en te .
Uma vez que, em outros contextos de M ateus, as palavras ευθέως ou ευθύς sem-
pre se ligam ao que segue, o texto foi im presso com um ponto final após o verbo
άπεόήμησεν. Convém no tar que o participio aoristo do verbo πορεύομα ι é usado,
m uitas vezes, para d inam izar a narra tiva , sem que se esteja dando ênfase à ideia de
andar ou viajar. Assim sendo, o texto pode ser traduzido por “Aquele que recebeu
os cinco talentos logo se pôs a negociar com eles”.
Igualm ente se deveria n o tar que, visto um participio aoristo m uitas vezes de-
n o tar um a ação an terio r à do verbo principal, o significado podería ser o seguinte:
o servo partiu e, depois disso, começou a negociar com os talentos. A CEV, por sua
vez, segue a pontuação do texto, m as entende que o sujeito de πορευθείς é o senhor,
e não o servo. Disso resu lta a seguinte tradução: “ ... Então ele deixou o país. 16
Tão logo o hom em tinha ido em bora, o servo com as cinco mil m oedas usou esse
d inheiro para g an h ar outras cinco m il m oedas”.
2 5 .2 6 S eg m en ta çã o
As palavras que o senhor dirige ao servo podem ser in te rp re tadas e pontuadas
como um a pergun ta , a exem plo do que é feito no texto, ou, então, podem ser toma-
das como um a afirm ação. Caso forem entendidas como um a pergun ta , devem ser
vistas como um a pergun ta retórica. Em algum as línguas, a m elhor opção é reestru -
tu ra r o tex to na form a de um a afirm ação.
2 6 .2 0 μετά των όώόεκα (com os doze) {C}
Alguns m anuscritos trazem μετά τω ν όώόεκα μαθητών (com os doze discípu-
los); outros, μετά τω ν μαθητών (com os discípulos). A exem plo de Mt 20.17, não se
tem certeza se μαθηταί faz parte do texto, com plem entando a locução ο ί όώόεκα
(os doze). Neste versículo, a evidência ex terna, isto é, o testem unho dos m anuscri-
tos, parece favorecer a le itu ra m ais breve.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO46
A lgum as tra d u ç õ e s , com o a NBJ, TEB, NVI, e CNBB, g ra fa m a p a la v ra
Doze com u m a in ic ia l m a iú scu la , p a ra s in a liz a r que se t r a ta de um g ru p o es-
pecífico de hom ens. E n tre ta n to , e ssa in ic ia l m a iú scu la de n a d a a d ia n ta p a ra
quem a p en a s ouve o te x to sen d o lido. Por essa razão , ta lv ez seja m e lh o r tra -
d u z ir o tex to po r “os doze d isc íp u lo s”, com o aco n tece na NTLH. ARA e REB,
ao tra d u z ire m p o r “os doze d isc íp u lo s”, a p a re n te m e n te e s tão se g u in d o a va-
r ia n te te x tu a l.
2 6 .2 7 ποτήρ ιον (um cálice) {B}
M uitos m anuscrito s têm o a rtig o defin ido d ian te do substan tivo , ou seja, “o
cálice”. E n tre tan to , a ten d ên c ia dos cop istas e ra , p rovavelm ente , a c rescen ta r
o a rtig o ao invés de om iti-lo, p a ra fazer re fe rênc ia específica à q u e le cálice, a
saber, o cálice da ú ltim a ceia. Além de decisões que d izem respeito ao tex to
o rig ina l, trad u to re s p rec isam levar em conta tam bém o que fica m ais n a tu ra l na
lín g u a p a ra a qual e stão traduz indo .
2 6 .2 8 διαθήκης (aliança) {B}
A paren tem en te , a p a lav ra καινής (nova) foi in tro d u z id a a p a r t i r da passagem
p a ra le la em Lc 22 .20 . Se καινής tivesse constado do tex to o rig ina l, não haveria
razão que ju s tific asse sua om issão por p a rte de copistas.
2 6 .4 1 Segm en tação
Caso se fizer um co rte , ou seja, in se rir um a v írg u la após o verbo προσεύχεσθε
(orai), a con junção iva pode e x p re ssa r o p ropósito ou objetivo do v ig ia r e o rar:
p a ra que os d isc ípu los não en tre m em ten taç ão (veja Davies e A llison, A C ritica i
a n d E x e g e tic a l C o m m e n ta r y on th e G ospel A c c o rd in g to S a in t M a tth e w , vol. Ill,
p. 499). Caso, po rém , não se fizer n en h u m co rte após o verbo, iva pode in tro -
d u z ir o con teúdo da o ração , a saber, “v ig ia i, e o ra i p a ra que não e n tre is em
te n ta ç ã o ” (N ew Je ru sa le m Bible).
2 6 .4 4 Segm en tação
C aso se f iz e r um co rte , em fo rm a de v írg u la , após a p r im e ira o co rrên -
c ia da p a la v ra π ά λ ιν (n o v am en te ), a tra d u ç ã o se rá se m e lh a n te à de ARA:
“D e ix an d o -o s n o v a m e n te , foi o r a r ”. Caso, p o rém , se f iz e r u m a p a u sa a n te s
de π ά λ ιν , a tra d u ç ã o se rá se m e lh a n te à TEB: “Ele os d e ix o u , a fa s to u -se de
novo, e o ro u ”.
47O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
No final do versícu lo , o tex to de O N o vo T e s ta m e n to Grego faz um corte após a
segunda oco rrência de πάλιν. C onfira a NBJ: e orou pela te rc e ira vez, d izen-
do de novo as m esm as p a la v ra s”. Caso, porém , se fizer um co rte an tes do πάλιν,
en tão o adverbio π ά λ ιν se liga ao que segue, no v. 45, e o sen tido passa a ser o
segu in te : E ntão, voltou o u tra vez p a ra os d isc ípu los”.
2 6 . 4 5 S e g m e n ta ç ã o
As p a lavras Κ αθενόετε [τό] λ ο ιπ ό ν καί ά ναπαύεσθε (ainda e sta is dorm indo
e descansando) podem ser in te rp re ta d a s com o um a a firm ação (a exem plo de
Seg), um a ordem (assim na TEB e NBJ), ou um a p e rg u n ta (com o em RSV, ARA
e CNBB). Caso se en ten d er essas p a lav ras com o um a a firm ação ou um a ordem ,
fica im plícito que Jesus aceitou o fato de seus d iscípulos não te rem pod ido v ig ia r
e orar. N este caso, as p a lav ras de Jesus “podem a p o n ta r sim plesm ente p a ra a
rea lid ad e da resignação fina l de Jesus e sua aceitação daqu ilo que a in d a estava
por v ir” (H agner, M a tth e w 1 4 -2 8 , p. 784). V istas com o um a p e rg u n ta , as pala-
v ras de Jesus podem su g erir um a ce rta su rp re sa e desaprovação.
2 6 . 5 0 S e g m e n ta ç ã o
O significado e a pon tuação das palav ras de Jesus 'Ε τα ίρε, éq ’ ô πά ρ ει são
assun to de controvérsia (veja Davies e A llison, A C ritica l a n d E xege tica l C om m en-
ta r y on th e G ospel A c co rd in g to S a in t M a tth e w , vol. Ill, pp. 509-10). Podem ser
pon tu ad as com o um a afirm ação ou um a ordem , a exem plo d esta ed ição do tex to
grego. Nesse caso, talvez se ten h a de in se rir um a form a im perativa do verbo
“fazer”: “Amigo, o que você vai fazer faça ag o ra” (NTLH; tam bém NRSV, REB e
TEB: “Meu am igo, faze a tu a obra!”). Tam bém podem ser p o n tu ad as com o um a
p e rg u n ta . C onfira a ARA: “Amigo, p a ra que v ies te”? M esmo que essas palav ras
sejam tom adas como um a p e rg u n ta , e s ta parece ser um a p e rg u n ta um tan to
re tó rica . Em o u tras pa lavras, Jesus não estava ped indo n en h u m a inform ação,
pois ele sabia com que finalidade Ju d as tin h a v indo (H agner, M a tth e w 14— 2 8 ,
p. 789).
2 6 . 5 5 S e g m e n ta ç ã o
As p a lav ras de Jesus, “Saístes com espadas e p o rre te s p a ra p render-m e, como
a um lad rã o ”, aparecem , no tex to grego, em form a de p e rg u n ta . Tam bém é
possível ver nesse tex to um a afirm ação , que expressa cen su ra . Caso se tom ar
o tex to com o um a p e rg u n ta , essa p e rg u n ta p rec isa se r v ista com o re tó rica . Em
a lgum as línguas, a m elhor opção é tra d u z ir o tex to com o um a afirm ação .
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO48
2 6 .6 4 S eg m en tação
A m aioria dos in térpretes en tende que as palavras de Jesus, Σύ εΐπας, devem
ser vistas como um a afirm ação: “Tu o d isseste” (ARA e NRSV). Mas essas duas pa-
lavras gregas tam bém podem ser in terp retadas como um a pergun ta , a exem plo do
que ocorre em alguns m anuscritos antigos, conform e um a no ta de pontuação alter-
nativa na vigésim a sétim a edição de Nestle-Aland. Davies e Allison (A C ritica l an d
E xegetical C o m m en ta ry on the Gospel A ccord ing to S a in t M a tth ew , vol. III, p. 528),
que defendem o sentido afirm ativo, escrevem : “Aqueles que defendem o ponto de
v ista contrário geralm ente pensam no Jesus histórico, não em M ateus”.
2 6 .7 1 οΰτος (este) {B}
A leitu ra και ουτος (este tam bém ) parece te r sido in troduzida no texto de Ma-
teus a p a rtir do paralelo em Lc 22.59. A leitu ra que aparece no texto tem sólido
apoio dos m elhores m anuscritos a lexandrinos, ocidentais, e siríacos antigos.
2 7 .2 ΓΙιλάτω (Pilatos) {B}
M uitos m anuscritos trazem o nom e Π οντίφ Π ιλάτψ (Pôncio Pilatos). E ntretan-
to, se o rig inalm ente Π οντίφ tivesse estado no texto , não haveria razão suficiente
que justificasse sua om issão. Por ou tro lado, te ria sido algo n a tu ra l para os copistas
acrescen tar “Pôncio” ao nom e do governador na prim eira passagem em que esse
nom e ocorre nos Evangelhos. O nom e com pleto aparece tam bém em Lc 3.1; At
4.27; lTm 6.13. Na Igreja, depois do tem po dos apóstolos, era com um usar o nom e
completo: “Pôncio P ilatos”. Talvez nesta passagem os tradu to res queiram colocar o
nom e com pleto, “Pôncio P ilatos”, para identificar o governador rom ano através de
seu nom e com pleto, na p rim eira vez que o m esm o aparece no NT. M uitas traduções
em linguagem com um to rnam explícito, neste caso, que Pilatos era um governador
rom ano (TEV, FC, GNB, TILH).
2 7 .4 άθώ ον (inocente) {A}
Na Septuagin ta, α ΐμα άθώ ον (sangue inocente) aparece quinze vezes; αίμα
δ ίκα ιον (sangue justo), quatro vezes; e α ΐμα άνα ίτιον (sangue sem culpa), quatro
vezes. Visto que αΐμα δ ίκα ιον era um a expressão rara , em com paração com αΐμα
άθώον, seria possível a rg u m en ta r que α ΐμα δ ίκα ιον é original, m as foi a lterado
p ara α ΐμα άθώον, que é um a expressão m ais comum. Por outro lado, os m anuscri-
tos dão m ais sustentação à le itu ra α ΐμα άθώον, e o adjetivo δ ίκα ιον pode ter sido
in troduzido por copistas a p a rtir de 23.35.
490 EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
Em m uitas línguas, talvez seja m elhor não traduzir essa expressão hebraica ao
pé da letra. Tam bém as locuções “um hom em ju sto” “um hom em inocente” e “ um
hom em sem culpa” talvez tenham a m esm a tradução em algum as línguas. Assim,
independentem ente da decisão crítico-textual que se tom ar, a tradução pode depen-
der daquilo que soa ou fica m ais na tu ra l na língua para a qual se está traduzindo.
27 .9 Ίερεμ ίου (Jerem ias) {A}
O nom e Ίερεμ ίου tem a seu favor o testem unho de bons m anuscritos de um a
variedade de tipos de texto. E ntre tan to , o fato de a passagem citada não se encon-
tra r em Jerem ias, m as parece te r sido tirad a de Zc 11 .1213־, explica por que em
vários m anuscritos foi inserido o nom e Ζ αχαρίου, ao passo que outros m anuscritos
om item o nom e por completo. Dois m anuscritos trazem “Isaías”, talvez por ser ele
o profeta que m ais vezes é citado no NT (veja o com entário sobre õ iá , em 13.35).
Para possíveis razões que teriam levado M ateus a escrever “Jerem ias” em lugar de
“Zacarias”, veja Davies e Allison, A C ritica l a n d E xegetica l C o m m en ta ry on the Gos-
pel A ccord ing to S a in t M a tth ew , vol. Ill, pp. 568-569.
2 7 .10 εόωκαν (deram ) {B}
Em lugar do verbo plural έόιυκαν, que tem a seu favor o peso dos m anuscritos,
alguns m anuscritos têm a p rim eira pessoa do singular εδωκα (dei). E difícil d izer
se o v (ni) final en trou no texto porque a palavra seguinte (αυτά) com eça com um a
vogal, ou se aquela letra foi e lim inada para que a palavra passasse a ser um a form a
de prim eira pessoa. Essa m odificação podería ter sido causada pela presença do
pronom e μοι (me) m ais para o final do v. 10.
27.11 S eg m en tação
A resposta de Jesus, Σύ λέγεις (tu dizes), é, geralm ente, escrita como um a afir-
m ação, a exem plo do que é feito nesta edição do texto grego, m as tam bém se pode-
ria in terpretá-la como um a pergun ta (veja o com entário sobre 26.64).
2 7 .16 [Ίησοΰν] Βαραββαν ([Jesus] Barrabás) (C)
27 .17 [Ίησοΰν τον] Βαραββάν ([Jesus] Barrabás) {C}
O apo io de m an u sc rito s p a ra o nom e “Je su s B a rra b á s” não é exp ress ivo .
E n tre ta n to , é p rováve l que o nom e se ja p a r te do te x to o rig in a l. A m a io ria
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO50
dos copistas decid iu om itir esse nom e, para evitar que um crim inoso fosse
cham ado de “Jesu s”. No terceiro sécu lo , O rígenes escreveu em seu com entá-
rio: “Em m uitas cópias não diz que Barrabás era tam bém cham ado de Jesus,
e talvez [a om issão] seja a coisa certa a se fazer”. Ele tam bém escreveu que
o nom e m ais longo, inclu indo Jesus, não poderia estar correto, porque “no
âm bito de todas as Escrituras não aparece n inguém que, sendo pecador, é
cham ado de Jesu s”.
No v. 17, é possível que o acréscim o ou a om issão do nome Ίησονν (Jesus)se
tenha dado de forma acidental, uma vez que o nome Ίησονν era abreviado para
FÑ e, neste caso, vinha im ediatam ente após o pronome νμ ΐν (a vós): (ן μινΓν ).
Em alguns m anuscritos, no v. 17, aparece o artigo definido τόν antes do nome
Βαραββαν, o que dá sustentação à tese de que, originalm ente, o texto continha
o nome Ίησοϋν, ou seja, “Jesus, o [que se chama] Barrabás”. Uma vez que o
apoio de m anuscritos para o texto mais longo não é expressivo, o nome Ίησονν
aparece, no texto, entre colchetes, para indicar que se tem dúvidas quanto à sua
originalidade. A lgum as traduções modernas adotam o texto com o nome “Je-
sus” (NRSV, REB, TEV, TEB, FC, NTLH, BN), enquanto outras om item o “Jesus”
(RSV, ARA, NIV, NVI, NBJ, CNBB, Seg).
2 7 ,2 4 του αίματος τούτον (deste sangue, ou do sangue deste homem) {B}
Os m elhores m anuscritos dos textos alexandrino e ocidental não trazem o
adjetivo “justo”, que aparece em muitos manuscritos. A locução του δίκαιου
(justo) se encontra em diferentes lugares numa série de m anuscritos, o que
sugere que se trata de acréscim os feitos por copistas piedosos de uma época
posterior, na intenção de enfatizar que Pilatos reconheceu que Jesus era ino-
cente. Confira a variante textual em Mt 27.4. No entanto, Davies e Allison (A
C r i t i c a l a n d E x e g e t í c a l C o m m e n t a r y on the G ospe l A c c o r d i n g to S a i n t M a t t h e w ,
vol. Ill, p. 590, n. 52) optam pelo texto mais longo, pois “é possível que se trate
de om issão resultante de um salto dos copistas”, isto é, saltaram do τον para o
final do adjetivo δικαίου. Caso se preferir o texto mais longo, o sentido será um
dos seguintes: “este sangue justo” ou “o sangue deste justo” (Seg).
2 7,28 έκδύσαντες αυτόν (tendo-o despido) {B}
Em vez de dizerem que os soldados tiraram a roupa de Jesus, alguns manus-
critos dizem que eles o vestiram (ένδυσαντες). Aparentem ente, um copista alte-
rou εκδύσαντες para a variante textual ένδυσαντες, porque deduziu, de forma
incorreta, que Jesus havia sido despido no v. 26, ao ser açoitado, e que, agora,
os soldados puseram em Jesus (ένδυσαντες) o manto escarlate.
ו5O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
27.29 ένέπ α ιξα ν (esca rn eceram /caço aram ) {B}
A com binação de m anuscrito s que trazem o aoristo ένέπ α ιξα ν dá sólido
apoio à le itu ra esco lh ida com o tex to . E n tre tan to , a m aio ria dos m anuscrito s tem
o im perfeito ένέπ α ιζο ν (estavam esca rn ecen d o /e s tav am caçoando). O im perfei-
to pode ser fru to da ação de um copista que a lte ro u a fo rm a do aoristo p a ra o
im perfeito , com o propósito de fazer essa fo rm a verba l conco rdar com o tem po
im perfeito de ετυ π το ν (estavam batendo), que aparece no v. 30.
M uitas versões ing lesas trad u zem ta n to o ao ris to do v. 29 qu an to o im per-
feito do v. 30 p o r um a form a de p re té rito perfeito : “zom baram d e le” e “b a te ram
ne le”. Na m aio ria das traduções p o rtu g u esas , por sua vez, ap arece um tex to
que parece ser a trad u ção do im perfeito : “e sca rn ec iam ” (ARA), “com eçaram ...
a caço a r” (NTLH), “d iz iam -lhe, caço an d o ” (NBJ), “zom bavam ” (NVI). Não fica
c laro se isso se deve a um a p refe rênc ia pela v a ria n te ένέπ α ιζο ν ou se é apenas
um a e s tra tég ia de trad u ção , in flu en c iad a , ta lvez, pe la p resença do im perfeito
ετυ π το ν no versícu lo segu in te .
27.35 κλήρον (a sorte) {A}
Logo após as p a lav ras “tira n d o a so rte”, o textus receptus , segu indo os ma-
nuscritos lis tados no ap a ra to crítico , a crescen ta o segu in te texto: ΐνα πληρω θή
το ρηθέν υ π ό του προφήτου* Δ ιεμ ερ ίσ α ντο τά ίμ ά τ ιά μου έα υτο ις καί επ ί τον
ιμ α τισ μ όν μου έβαλον κλήρον (p ara que se cum prisse o que foi d ito pelo pro-
feta: R ep artiram e n tre si as m in h as vestes, e sobre a m in h a tú n ic a lan çaram
sortes), que é tirad o de SI 22.18. Existe a possib ilidade de que esse tex to seja
o rig ina l, tendo sido om itido por ac iden te , quando o cop ista , sem querer, passou
do p rim eiro κλήρον p ara o segundo κλήρον e deixou de cop iar o tex to que fica-
va no m eio. E n tre tan to , v isto que essas p a lav ras não aparecem em m anuscrito s
an tigos dos tipos de tex to a lex an d rin o e oc iden ta l, é m ais provável que copistas,
in fluenciados pela passagem p a ra le la em Jo 19.24, in se riram a c itação do AT no
tex to de M ateus. Além disso, a lte ra ra m a in tro d u ção p a ra τό ρηθέν υπό (ou ò ià)
του π ρ οφ ή του (o que foi escrito pelo p ro feta), que é a form a no rm al u sad a por
M ateus p a ra in tro d u z ir um a c itação b íblica.
27.40 [καί] ([e]) {C}
De um lado, a te rc e ira oco rrência de καί neste versículo pode te r sido omi-
tid a ac id en ta lm en te porque o o lh ar do cop ista passou do com eço dessa pa lav ra
p a ra o com eço da p a lav ra segu in te , κατάβηθι (desce). De ou tro lado, um copista
pode te r in serido a pa lav ra και, supondo que as p a lav ras ει υ ιό ς ει του θεού (se
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO52
és o Filho de Deus) se ligam ao que vem antes, e não ao que vem depois, ou seja,
que o texto deveria ser en tendido como “salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus” e
não como “se és Filho de Deus, desce da cruz”. Se καί foi acrescentado ao texto, isso
foi feito para estabelecer um paralelo en tre os verbos “salva-te” e “desce” A palavra
καί aparece, no texto, en tre colchetes, para indicar que se tem dúvidas quanto à sua
originalidade.
A le itu ra adotada como texto é reproduzida pela REB (tam bém pela ARA, NBJ,
TEV, TEB), que traduz assim: “Então você é aquele que iria destru ir o tem plo e
reconstrui-lo em três dias! Se você é de fato o Filho de Deus, salve-se a si m esm o e
[καί] desça da cruz”. Traduções como a NVI (tam bém a RSV, NRSV, NIV, BN e Seg)
seguem a varian te textual: “Você que destrói o tem plo e o reidifica em três dias,
salve-se! Desça da cruz, se é Filho de Deus!”
27.42 S eg m en ta çã o
No texto e na m aioria das traduções, aquilo que povo diz, “salvou os outros, m as
a si m esm o não pode salvar”, é in terpretado como um a afirm ação. No entanto , tam -
bém se pode entender isso como um a pergunta, conform e sugestão que aparece em
nota de rodapé na NRSV: “Ele salvou os outros; será que ele não pode salvar a si mes-
mo?” Se essas palavras forem entendidas como um a pergunta, trata-se de um a per-
gunta feita para zom bar de Jesus, e não de um a pergun ta que espera um a resposta.
27.42 βασιλεύς (rei) {B}
Q uando as pessoas disseram a respeito de Jesus, “Ele é o Rei de Israel; desça da
cruz agora m esm o”, estavam zom bando dele, e não dizendo que ele era, de fato, o
rei de Israel. No en tanto , alguns copistas não perceberam a ironia dessas palavras
e acrescen taram a palavra ei (se), influenciados pela presença da m esm a no v. 40,
onde se lê: “se és o Filho de Deus”. Se εί tivesse estado, orig inalm ente, no texto, fica
difícil explicar por que algum copista teria ju lgado necessário om itir essa palavra.
Os tradu tores precisam verificar se essas palavras serão entendidas como irô-
nicas na língua para a qual estão traduzindo. Do contrário , talvez seja necessário
trad u z ir por algo assim: “Se de fato é o rei de Israel, ele que desça da cruz!” Confira
a NTLH (tam bém FC): “Ele salvou os outros, m as não pode salvar a si mesmo! Ele é
o rei de Israel, não é? Se descer agora m esm o da cruz, nós crerem os nele!”
27.49 αυτόν, (a ele.) {B}
Ao final desse versículo, a lguns im portan tes m anuscritos acrescen tam as se-
gu in tes palavras: “E ou tro , pegando um a lança, lhe abriu o lado, e logo saiu água
53O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
e sangue”. Mas estas pa lav ras precisam ser consideradas um acréscim o feito bem
no início da transm issão do tex to , a p a r tir de um rela to sem elhan te em Jo 19.34. É
provável que um leito r se lem brou de palavras sem elhan tes no Evangelho de João
e anotou o que se lem brava à m argem do tex to de M ateus. Mais ta rde , um copista
inseriu essas pa lavras no próprio texto. D iversas traduções m odernas, como RSV
e NRSV, reg is tram essa v arian te em no ta de rodapé, e M offatt incluiu a m esm a
no tex to da sua tradução . Davies e A llison (A C ritica l a n d E xegetica l C o m m e n ta ry
on th e G ospel A cco rd in g to S a in t M a tth e w , vol. Ill, p. 627, n. 81) observam que a
inclusão dessas palavras no tex to de M ateus “faria com que Jesus desse um grito
(v. 50) por causa do ferim ento da lança, o que poderia rep re sen ta r um a ped ra
de tropeço. Estam os quase inclinados a p en sar que essas pa lav ras são o rig ina is”.
2 8 .1 S eg m en tação
Q uase to d as as trad u çõ es ligam as p a lav ras Ό ψ έ δέ σ α ββά τω ν (depois do
sábado) às p a lav ras que seguem , no v. 1, re su lta n d o u m a trad u ç ão sem elh an te
à da NRSV: “D epois do sábado , quand o o p rim e iro d ia da sem an a estav a des-
p o n ta n d o ”. O advérb io όψέ sign ifica “ta rd e ”, e o tex to pa rece e s ta r d izendo:
“T arde no sábado , quando o p rim e iro d ia da sem an a estava d e sp o n ta n d o ”. No
e n tan to , com o o sábado te rm in a v a ao pôr do sol do p róp rio sábado , e não ao
a m a n h ec e r do dom ingo , quase todas as trad u çõ es en ten d em que, neste caso,
que é ra ro , όψέ faz a vez de um a p reposição , s ign ificando “depo is d e”. No en-
tan to , a v igésim a sé tim a ed ição de N estle-A land reg is tra um a p o n tu ação alter-
na tiva , que se en co n tra em a lg u n s m an u scrito s an tig o s, em que essa locução é
ligada ao final de 27.66. Essa m an e ira de g ra fa r o tex to re su lta na seg u in te tra-
dução: “2 7 .6 6 Assim , eles fo ram com a esco lta e p u se ram um selo de seg u ran ça
na p e d ra ta rd e [όψέ] no sábado 2 8 .1 Q uando o p rim e iro d ia da sem an a estava
d e sp o n ta n d o ...” (P a ra m ais d e ta lh es a resp e ito desse tex to com plicado, veja
D avies e A llison, A C r itic a l a n d E x eg e tica l C o m m e n ta ry on th e G ospel A c c o rd in g
to S a in t M a tth e w , vol. Ill, pp. 663-664).
2 8 .7 Segm en tação
Este versículo contém um a citação den tro de ou tra citação, ou seja, as palavras
do anjo aparecem nos vs. 5-7, m as no v. 7 se encontra a m ensagem do anjo que as
m ulheres deveriam transm itir aos discípulos. Segundo a m aioria das traduções, as
m ulheres devem dar o seguinte recado: “Ele foi ressuscitado dos m ortos e, de fato,
vai ad ian te de vós para a Galileia; ali o vereis” (assim a NRSV). Com esta segm en-
tação, o pronom e “vós” não inclui as m ulheres. Mas tam bém é possível encerra r a
citação em butida com as palavras τω ν νεκρώ ν (dos m ortos). E o que acontece na
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO5 4
TEB, que traduz como segue: “ide depressa dizer a seus discípulos: ‘Ele ressuscitou
dos m ortos’, e eis que vos precede na Galileia; lá é que o vereis”. Segundo esta pon-
tuação, o pronom e “vos” inclui as m ulheres.
2 8 .8 άπελθοΰσαι (retirando-se elas) {B}
O participio άπελθοΰσαι tem sólido apoio de um a am pla gam a de m anuscritos.
Copistas, porém , substitu íram essa palavra pelo participio έξελθοΰσαι, harm oni-
zando o texto com Mc 16.8. A varian te pode ser traduzida por “afastando-se de”
ou, então, “saindo de” No contexto de Mt 28.8, a varian te tem , provavelm ente, o
m esm o significado de άπελθοΰσαι.
28 .9 και ίόοΰ (e eis) {A}
Muitos m anuscritos trazem a le itu ra m ais longa ώς δέ έπορεΰοντο άπαγγειλα ι
το ΐς μαθηταις αύτοΰ καί ίόοΰ (quando estavam saindo para dar a noticia aos dis-
cípulos dele e eis). No en tan to , os m ais antigos e m elhores m anuscritos dos textos
alexandrino e ocidental não têm essas palavras adicionais. São um a am pliação na-
tu ra l do tex to a p a rtir do que é dito no versículo anterior. E possível, em bora pouco
provável, que o texto m ais longo seja original, e que essas palavras foram om itidas
acidentalm ente quando o copista saltou das palavras το ΐς μαθηταις αΰτοΰ (aos
discípulos dele), no final do v. 8, para as m esm as palavras no v. 9, om itindo tudo
que ficava no meio.
28.11 άπήγγειλαν (contaram ) {B}
O verbo απήγγειλαν tem bom apoio de m anuscritos e suas chances de ser origi-
nal são m aiores do que as do verbo ανήγγειλαν (relataram ), que não é usado nenhu-
m a vez no texto de M ateus. Trata-se de um a diferença en tre sinônim os (veja BDAG,
p. 59). Em versão para línguas m odernas, os dois verbos podem ser traduzidos de
form a idêntica.
28.15 [ημέρας] ([dia]) {C}
De um lado, existem bons m anuscritos de diferentes tipos de tex to que apoiam
a inclusão do substantivo ημέρας. Por outro lado, em form ulações sem elhantes em
ou tras passagens de M ateus (11.23; 27.8), σήμερον (hoje) aparece sem o acréscim o
de ημέρας. Para indicar que existem dúvidas quanto à form a do texto original,
ημέρας aparece, no texto, en tre colchetes. Q ualquer que seja o texto adotado, o
significado não m uda.
55O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
28.20 α ίώ νος. (século.) {A}
No te x tu s receptus, que segue a m aioria dos m anuscritos, o Evangelho term ina
com um αμήν (amém) depois de α ίώ νος. Este acréscim o reflete o uso do texto no
culto da Igreja. Se αμήν tivesse constado do texto orig inalm ente, fica difícil de ex-
plicar sua ausência dos m anuscritos de m elhor qualidade que represen tam os tipos
de texto a lexandrino e ocidental.
OBRAS CITADAS
Allen, W illoughby C. A Critical a n d Exegetical C o m m en ta ry on the Gospel A ccording
to S t M a tth e w . 3a edição. ICC. Edinburgh: T & T Clark, 1912.
Bauer, W., E W. Danker, W. E Arndt, e E W. Gingrich. G reek-English Lexicon o f
the N ew T estam ent a n d O ther Early C hristian L itera ture. 3a edição. Chicago:
University of Chicago Press, 2000 (citado como BDAG).
Blass, E, A. Debrunner, e R. W. Funk. A Greek G ram m ar o f the N ew T estam ent and
O ther E arly C hristian L itera ture. Chicago: University of Chicago Press, 1961.
Boring, Eugene M. “The Gospel of M atthew.” Páginas 87-505 em The N ew
In terpreter's B ible, volum e VIII. Editado por Leander E. Keck. Nashville:
Abingdon, 1995.
Davies, W. D., e Dale C. Allison, Jr. A C ñtica l an d Exegetical C o m m en ta ry on the
Gospel A ccording to S a in t M a tth ew , 3 volumes. ICC. Edinburgh: T & T Clark,
1988, 1991, 1997.
Hagner, Donald A. M a tth ew 1-13 : M a tth ew 14 -28 . WBC 33a, 33b. Dallas, Tex.:
Word, 1993, 1995.
Morris, Leon. The Gospel According to M a tth ew . The Pillar New Testam ent
Commentary. Grand Rapids: Eerdm ans, 1992.
Newm an, Barclay M., e Philip C. Stine. A T ransla tor’s H a n d b o o k on the Gospel o f
M a tth ew . Nova Iorque: United Bible Societies, 1988.
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
A respeito do tex to de M arcos, veja Taylor, T he G ospel A c c o rd in g to S t. M a r k ,
pp. 3 3 4 3 ־; e Evans, M a rk 8 .2 7 — 1 6 .2 0 , pp. lviii-lx.
1.1 Χ ριστού [υιού θεού] (Cristo [Filho de Deus]) {C}
E difícil d izer se as palavras υ ιού θεού (Filho de Deus) são originais ou são um
acréscim o posterior, pois a evidência está dividida e há argum entos para os dois
lados. Por um lado, é possível que fizessem parte do texto original, m as foram ,
sem querer, om itidas por um copista. Visto que as palavras Χ ριστού e θεού eram
abreviadas como χ γ e θγ, um copista podia facilm ente ser enganado por essaseme-
lhança, saltando da prim eira palavra para a segunda e om itindo a locução “Filho de
Deus”. A com binação de m anuscritos que apoia o texto m ais longo é m uito significa-
tiva e eloquente. Por outro lado, o texto m ais breve é um a leitu ra antiga, e os copis-
tas m uitas vezes am pliavam os títulos de livros. Para indicar que não se tem certeza
quanto ao texto original, as palavras υ ιού θεού aparecem , no texto, en tre colchetes.
1.1 S e g m e n ta ç ã o
Muito se discute o relacionam ento en tre o v. 1 e aquilo que segue (veja a dis-
cussão em Guelich, M a rk 1:1— 8:26 , pp. 6 -7 ).1 Quem entende que o v. 1 é um títu lo
p ara todo o livro ou p ara a p rim eira seção do livro (vs. 2-8? 2-11? 2-13? 2-15?), fará
um corte ou um a pausa m aior no final do v. 1. Caso, porém , o v. 1 for lido em con-
jun to com os vs. 2 3 ־, o sentido será que a boa nova de Jesus Cristo começou como
(ou de acordo com aquilo que) Isaías, o profeta, escreveu. Uma tradução que reflete
claram ente a conexão en tre o v. 1 e os vs. 2-3 é a seguinte: “1 A boa notícia de Jesus,
o Ungido, com eça 2 com algo que o p rofeta Isaías escreveu: ...” (R obert J. Miller,
ed., The C om plete Gospels, p. 13).
1 .2 έν τώ ,Η σαΐα τώ πρ οφ ή τη (em Isaías, o p rofeta) {A}
A citação nos vs. 2 3 ־ foi ex tra ída de dois textos diferentes do AT. A prim eira
parte foi tirada de MI 3.1, e a segunda, de Is 40.3. Portanto , é fácil de en tender por
que copistas teriam trocado as palavras “em Isaías, o profeta” pela form ulação m ais
genérica “nos profetas” (εν το ΐς προψ ήτα ις). Segundo France (The Gospel o f M ark ,
1 Os problemas textuais e exegéticos de Marcos 1.13־ possibilitaram muitas interpretações diferentes desse
texto. Mais recentemente, J. K. Elliott chegou até a sugerir que esses três versículos foram acrescentados
a uma versão de Marcos cujo início original se havia perdido. (J. K. Elliott, “Mark 1.1-3 — A Later Addi־
tion to the Gospel,” New Testament Studies 46 [October 2000]: 584-588.)
57O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
p. 60), esta é “uma ‘correção’ óbvia”. A leitura adotada como texto em O N ovo Tes-
ta m en to Grego tem o apoio dos mais antigos manuscritos que representam os tipos
de texto alexandrino e ocidental.
1.3 Segm en tação
Caso se fizer uma pausa maior no final do v. 3, os vs. 2-3 podem ser entendidos
como indicando que o começo do evangelho estava em concordância com a profe-
cia das Escrituras. Caso, porém, se colocar uma vírgula no final do v. 3, os vs. 2-3
podem ser entendidos como um comentário parentético. Nesse caso, o v. 4 se liga
diretamente com o v. 1 e o sentido passa a ser que o evangelho começou quando
João Batista apareceu no deserto. Joel Marcus (M ark 1— 8, p.145) prefere esta se-
gunda interpretação e explica: “Gramaticalmente, 1.2-3 tem as características de
um parêntese, pois o verdadeiro ‘começo das boas novas’ se dá em 1.4, com o apa-
recimento de João, que prepara o caminho de Jesus; 1.2-3, de forma parentética,
deixa claro que essa manifestação de João cumpre a profecia das Escrituras”.
1.4 [ο] βαπτίζων εν τη έρήμω καί ([ο] Batista no deserto e) {C}
Alguns manuscritos omitem o artigo definido ô e outros manuscritos omitem a
conjunção καί (e). Uma vez que os Evangelhos Sinópticos geralmente se referem a
João como “o Batista”, parece mais provável que copistas tenham inserido o artigo
definido, neste caso, para ajustar o texto à formulação tradicional. Como os copis-
tas passaram a entender a locução ό βαπτίζων como um título, alguns omitiram
a palavra *caí. (Ficava estranho dizer “João, o Batista, apareceu no deserto e [καί]
pregando”) O artigo aparece, no texto, entre colchetes, para indicar que existem
dúvidas quanto a sua originalidade.
Com o artigo, o participio βαπτίζων é um título, e a tradução será: “João Ba-
tista apareceu no deserto e estava pregando”. Sem o artigo, o participio se refere
à atividade de João, e a tradução passa a ser “João estava batizando no deserto e
pregando”. Em algumas línguas, inclusive o inglês, caso o participio βαπτίζων for
entendido como um título, significando “Batista”, será necessário inserir um artigo
no texto da tradução (João, o Batizador), pouco importando se, no texto grego, o
artigo é original ou não.
1.6 τρίχας (pelos) {A}
Quase todos os manuscritos dizem “pelos de camelo”, e não “pele de camelo”
(δέρριν). É possível que um copista tenha colocado a palavra “pele” em lugar da
palavra “pelos” por influência de Zc 13.4, onde diz que profetas se vestirão de
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO58
“peles com pelos”. Em algum as culturas, um a tradução literal desse texto pode ser
m al-entendida, pois um casaco feito à base de pelos de cam elo é considerado um a
peça bem elegante. A REB, por exemplo, traduz assim: “João usava um a vestim enta
rústica feita de pelos de cam elo”. A NJB (inglesa) segue a varian te textual: “João
usava um a roupa feita de pele de cam elo”.
1·8 υδατι (em /com água) {B}
No texto original provavelm ente não constava a preposição έν (em /com ), e a
tendência dos copistas deve ter sido inserir a preposição d iante da palavra υδατι,
porque este é o texto nas passagens paralelas de Mt 3.11 e Jo 1.26. A diferença pode
ser um a simples questão de estilo, em grego, sem qualquer diferença de significado.
Conform e consta em BGAD (p. 3 2 6 3 3 0 ־), a preposição έν pode indicar um local
(“em ”) como pode indicar m eio ou instrum ento (“com ”). A presença ou ausência da
preposição no texto original não a ltera a tradução do texto, assim que as exigências
ou norm as gram aticais da língua receptora ou língua alvo é que vão de term inar
como o texto será traduzido.
1.11 έγένετο εκ των ουρανώ ν (veio dos céus) {B}
Alguns poucos testem unhos om item o verbo έγένετο. Isso pode ter ocorrido de
form a acidental, m as pode tam bém ser um a alteração intencional, para harm oni-
zar o texto com o paralelo em Mt 3.17, onde se lê: καί ίδοϋ φωνή εκ των ουρανώ ν
λέγουαα (e eis um a voz dos céus dizendo). A leitu ra εκ τών ουρανώ ν ήκοΰσθη (dos
céus foi ouvida) é um a reform ulação do texto, para m elhor, feita a p a rtir de qual-
quer um a das outras duas leituras ou form as do texto.
Em algum as línguas, talvez soe estranho dizer que “veio um a voz”. Assim, na
hora de traduzir, talvez se tenha que dizer algo como “foi ouvida um a voz do céu”
ou “um a voz do céu disse”. Tam bém pode ser necessário usar um verbo, na tradu-
ção, m esm o que se aceite como original o texto m ais breve, sem ο έγένετο. Como
observa Joel M arcus (Mark 1— 8, p. 161), “... m esm o que, orig inalm ente, esse verbo
[έγένετο] não fizesse parte do texto, o leitor precisa pressupor ou suprir um verbo
assim ”.
1.14 εύαγγέλιον (boa notícia) {A}
É óbvio que copistas inseriram as palavras τής βασιλείας (do reino) no texto,
para aproxim ar a insólita form ulação que aparece em Marcos da expressão “o reino
de Deus”, que é m uito m ais frequente nos Evangelhos e que aparece no versículo
seguinte (Mc 1.15).
59O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
1 .2 4 Segmentação
No texto de O Novo Testamento Grego, as palavras ήλθες άπολεσαι ήμάς (vieste
para nos destruir) aparecem na form a de um a pergunta . E ntretanto , podem tam -
bém ser en tendidas em sentido afirm ativo: “Vieste para nos d estru ir”. Neste caso,
“revelam conhecim ento adicional da parte do espírito im undo. Se forem entendidas
como pergun ta ... essas palavras revelam medo, além de conhecim ento adicional”
(Gundry, Mark: A Com m entary on His Apology fo r the Cross, p. 76).
1 .2 7 τι έστιν τούτο: ó iò a /ή καινή κατ' εξο υ σ ία ν καί
(Ο que é isso? Um novo ensinam ento com autoridade; até) {B}
A leitura que aparece como texto em O Novo Testamento Grego é apoiada por
apenas uns poucos m anuscritos, m assão m anuscritos im portantes. Além do mais,
essa leitura é que m elhor explica o surgim ento das dem ais variantes, que são todas
elas ten tativas de m elhorar o texto ou polir o estilo do grego. A lgum as das varian tes
revelam que copistas ten taram m elhorar o estilo, in troduzindo alterações deriva-
das do texto paralelo em Lc 4.36. France (The Gospel o f M ark, p. 99) observa, com
razão, que os elem entos fundam entais, διδαχή καινή e κατ' εξουσίαν, aparecem em
todos os testem unhos, “de sorte que o sentido básico não é afe tado”.
1 .2 7 Segmentação
Se a locução κατ’ εξουσίαν (segundo/com autoridade) é ligada ao que vem
antes, como acontece no texto de O Novo Testamento Grego (e tam bém na NRSV,
TEB, e NTLH), a tradução passa a ser: “O que é isso? Um novo ensinam ento com
autoridade! Ele m anda até nos espíritos m aus”. E n tre tan to , caso se fizer um corte
an tes de κατ’ εξουσίαν (assim na RSV e na ARA), a tradução será: “O que é isso?
Um novo ensinam ento! Com au to ridade ele m anda até nos espíritos m aus”. Ou
seja, a au to ridade de Jesus é ligada a seu poder sobre espíritos m aus, e não a seu
ensino.
1 .2 9 εκ τής συναγεογής έξελθόντες ήλθον
(da sinagoga tendo [eles] saído, en traram ) {B}
Em bora, neste caso, ex ista um a série de va rian tes tex tua is , a d iferença m aior
reside en tre a le itu ra que tem o partic ip io e o verbo no p lu ra l (έξελθόντες e
ήλθον) e aquelas que têm o partic ip io e o verbo no s in g u lar (έξελθών e ήλθεν),
com Jesus como sujeito. A form a do p lural, que aparece como tex to em O Novo
Testamento Grego, é a que m elho r explica a origem das ou tras le itu ras. C opistas
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO6 0
seriam ten tados a a lte ra r o tex to do p lu ra l p a ra o singular, p a ra d a r m aior aten-
ção a Jesus; h a rm o n iza r o tex to com os para le los em Mt 8.14 e Lc 4.38, onde os
verbos estão no singu lar; e p rov idenciar um an teceden te para o pronom e αύτω
(a ele), no v. 30. Caso se ad o ta r a le itu ra que aparece como texto , o significado
será este: “Tão logo sa íram da sinagoga, e n tra ram na casa de Sim ão e A ndré,
com Tiago e Jo ão ” (NRSV).
As le itu ras com o partic ip io e o verbo no singu lar têm expressivo apoio de
m anuscritos. Além disso, parece e s tran h o d izer que “e n tra ram ... com Tiago e
Jo ão ”, como se Tiago e João não estivessem incluídos no verbo “e n tra ra m ”. Por
esses m otivos, a lgum as traduções m odernas, inclu indo a RSV, NAB, NBJ, BN,
op tam pelas va rian tes tex tua is . A BN, por exem plo, trad u z assim : “Depois disto,
Jesus saiu da casa de oração e foi com Tiago e João p a ra a casa de Sim ão Pedro
e A ndré”.
1.34 αυτόν (a ele) {A}
M arcos concluiu o texto com αυτόν, m as copistas fizeram vários acréscim os,
tirados, provavelm ente, do paralelo em Lc 4.41, onde diz ότι ηδεισαν τον Χ ριστόν
αυτόν είναι (pois sabiam ser ele o Messias). Se qualquer um a das le itu ras m ais
longas tivesse estado orig inalm ente no texto de Marcos, não haveria como explicar
por que teria sido a lterada ou elim inada.
Mesmo não sendo original, a le itu ra m ais longa é um a in te rp retação correta do
significado, a saber, os dem ônios sabiam que Jesus era o Messias. Não se está que-
rendo dizer que os dem ônios sabiam que aquele era Jesus e não um a ou tra pessoa.
1.39 ηλθεν (foi) {B}
Em lugar do verbo ηλθεν, m uitos m anuscritos têm ην (estava). O uso de ην com
um particip io (neste caso, κηρύσσων [pregando]) form a um a construção gram a-
tical que dá um pouco de ênfase, e esse tipo de construção é com um em Marcos.
Mas o verbo ηλθεν é necessário para dar continuidade à ideia de έςήλθον (vim), no
versículo anterior. Além disso, o verbo ην foi, provavelm ente, inserido no tex to por
copistas que conheciam a passagem para le la de Lc 4.44.
A d iferença en tre as duas le itu ras é m ais um a questão de perspec tiva do que
de significado. A fo rm ulação ην κηρύσσων apon ta p a ra “a a tiv idade co rriq u e ira
à qual Jesus passou a se ded icar a p a r tir daquele m om ento ...” (F rance, The Gos-
pel o f M ark, p. 113). Segundo o tex to , Jesus “foi por toda a G alileia, p regando
nas sinagogas deles e expu lsando dem ôn ios”. Segundo a le itu ra v a rian te , Jesus
“estava p regando nas sinagogas deles por toda a G alileia e expu lsando dem o-
n io s”.
61O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
1.40 [καί γονυπετώ ν] ([e a joelhando־se]) {C}
É bastante sólido o testem unho de um a combinação de m anuscritos que apoia
a leitura mais breve, sem as palavras καί γονυπετών. Por outro lado, as passagens
paralelas de Mt 8.2 e Lc 5.12 dizem que o leproso se ajoelhou (embora com palavras
diferentes das que aparecem em Marcos). Isso parece dar suporte à ideia de que a
referência ao ajoelhar-se fazia parte do relato de Marcos (partindo do pressuposto de
que tanto Mateus como Lucas se valeram de Marcos ao escreverem seus Evangelhos).
Se καί γονυπετώ ν αυτόν (e ajoelhando-se diante dele) é parte do texto original, a
leitura mais breve pode ter surgido quando um copista cometeu um erro de obser-
vação e passou de αυτόν (que vem logo após o participio παρακαλών) para ο αυτόν
que vem depois de γονυπετών. Para indicar que existem dúvidas quanto à form a do
texto original, a palavras καί γονυπετώ ν foram incluídas, no texto, entre colchetes.
1.41 σπλαγχνισθείς (movido de compaixão) {B}
Em lugar do participio σπλαγχνισθείς, alguns m anuscritos têm o participio
όργισθείς (irado). Por ser a leitura m ais difícil, alguns in térpretes en tendem que ela
é original. Entre as traduções m odernas, a NBJ (bem como a REB) segue a varian te
textual: “Irado, estendeu a m ão”. Exegetas que adotam a varian te tex tual sugerem
diferentes razões por que Jesus teria ficado irado (veja Guelich, M ark 1:1— 8:26,
p. 74) ou por que a varian te tem m ais chances de ser original (veja M arcus, Mark
1— 8, p. 206). Em tem pos recentes, quem se levantou a favor da varian te tex tual foi
Bart E hrm an (“A Leper in the Hands of an Angry Jesus”, p. 7 7 9 8 ־).
E ntretanto , a qualidade e a diversidade dos m anuscritos que apoiam a leitura
adotada como texto são im pressionantes. Além disso, em duas outras passagens de
Marcos (3.5; 10.14) nas quais se diz que Jesus ficou irado não houve ten tativa de
copistas no sentido de corrigir o texto. Portanto, é m uito pouco provável que neste
caso copistas tenham alterado όργισθείς para σπλαγχνισθείς, em bora France [The
Gospel o f Mark, p. 115] cham e a atenção para o fato de que, em 3.5; 10.14, havia
motivos óbvios para Jesus ficar irado. Talvez a presença da palavra έμβριμησάμενος
(advertindo severam ente), no v. 43, tenha levado um copista a trocar “m ovido de
com paixão” por “ficando irado”. Tam bém é possível que a sem elhança en tre as pa-
lavras aram aicas para “ter com paixão” (ethraham ) e “ficar furioso” (ethra‘em) tenha
causado algum a confusão na hora de traduzir o texto para o grego.
1.44 Segmentação
Caso se fizer um corte ou um a pausa (vírgula) após o nom e de Moisés (Μ ωϋσής),
a exemplo do texto de O Novo Testamento Grego, a locução εις μαρτυρ ιον αύτοΐς
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO62
(como um testem unho a eles) se relaciona m ais de perto com a ação do leproso. Ou
seja, o leproso deve m ostrar-se ao sacerdote como um testem unho para (ou, contra)
eles (αύτοΐς, que pode ser tan to o povo como os sacerdotes). Essa in terpretação
transparece claram ente na NTLH (e tam bém na TEV e FC), que tom a αύτοΐς no
sentido de todos: “m as vá pedir ao sacerdote que exam ine você. Depois, a fim de
provar a todos que você está curado, vá oferecer o sacrifício que Moisés ordenou”.
Caso, porém , não se fizer um a pausa antes dalocução εις μαρτύριον αύτοΐς, es-
sas palavras, então, podem ser conectadas com a ação de Moisés, e o sentido passa
a ser que o leproso deveria fazer o que Moisés havia ordenado como um principio
ou urna lei para o povo de Israel (αύτοΐς) [veja Lv 14]. Nesse caso, a palavra grega
μαρτύριον significa “m andam ento” ou “lei”, como às vezes acontece na Septuagin-
ta, e o pronom e αύτοΐς se refere ao povo judeu. Caso se ado tar esta segm entação
do texto, a segunda m etade do versículo poderá ser traduzida assim: “m as vai,
m ostra-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés prescreveu como
lei para eles”.
2 .4 προσενέγκαι (levar a) {B}
O texto grego diz: “E não podendo levar a ele [Jesus]”. O leitor espera encontrar,
após o infinitivo προσενέγκαι, o pronom e αύτόν, que indica o objeto direto (levá-
-10), ou seja, “não podendo levá-lo [isto é, levar o paralítico] a Jesus”. No entanto ,
como esse objeto direto não aparece no texto, copistas tra ta ram de substitu ir o in-
finitivo προσενέγκαι pelos infinitivos προσεγγίσαι (aproxim ar-se de) e προσελθεΐν
(vir a ou ir até). F izeram ־no por razões gram aticais, pois nenhum desses dois infi-
nitivos exige um objeto direto.
Talvez seja necessário, na tradução, inserir um objeto direto após o verbo “le-
v a r” (levá-Zo), ou, então, usar um verbo como “aproxim ar-se”, por m ais que se aceite
como original o texto im presso em O Novo Testamento Grego. Confira a BN: “como
eles não conseguiam levá-lo até jun to de Jesus” e ARA: “não podendo aproxim ar-se
dele”.
2 .5 άφ ίεντα ι ([teus pecados] estão perdoados) {B}
No texto im presso em O Novo Testamento Grego, o verbo está no tem po presente,
e isso foi seguido por M ateus (Mt 9.2). O tem po perfeito άφεω νται (foram perdoa-
dos) encontra bom apoio de m anuscritos, m as parece ter sido in troduzido por copis-
tas que conheciam o relato paralelo em Lc 5.20.
O tem po presente é, neste caso, um exem plo do que os gram áticos cham am de
“presente aorístico”. Isto significa que a ação é v ista como um acontecim ento que
se dá no m om ento em que a pessoa está falando: “Teus pecados estão perdoados
63O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
neste exato m om ento”. O verbo no tem po presente não deveria ser traduzido por
um presente progressivo ou contínuo: “estão sendo perdoados”.
2.9 άφ ίεντα ι ([teus pecados] estão perdoados) {B}
Veja o com entário sobre o v. 5.
2.14 Λευίν (Levi) {A}
O nom e Αευί, que aparece em alguns m anuscritos, é apenas um a form a diferen-
te de escrever o nom e que aparece como texto em O Novo Testamento Grego. Levi
não faz parte da lista dos doze discípulos em Lucas (Lc 6.13-16; At 1.13) e Marcos
(3.14-19). O nom e 'Ιάκω βον (Tiago), que aparece em m anuscritos do tipo ocidental,
deve ter sido incluído por influência de Mc 3.18, onde Ιά κ ω β ο ν xòv τον Ά λφαίου
(Tiago, filho de Alfeu) aparece entre os doze (tam bém em Lc 6.15 e At 1.13).
2.15 Segmentação
Caso se fizer um corte (em form a de ponto) após a locução και ήκολούθουν
αύτφ (e o seguiam ), como acontece no texto de O Novo Testamento Grego, o sentido
é o seguinte: “tam bém m uitos cobradores de im postos e pecadores estavam assen-
tados com Jesus e seus discípulos — pois eram m uitos os que o seguiam ” (NRSV).
Provavelm ente, esse “m uitos o seguiam ” é um a observação entre paréntesis que se
refere aos discípulos de Jesus, m as que pode tam bém estar se referindo aos cobra-
dores de im postos e pecadores.
Caso, porém , se fizer um corte antes da locução καί ήκολούθουν αύτφ , como
acontece em alguns m anuscritos antigos, essa locução se conectará com o v. 16 e o
sentido passará a ser que alguns escribas seguiam Jesus: “15 ... Muitos cobradores
de im postos e pecadores estavam assentados com Jesus e seus discípulos, pois eram
muitos. 16 E até m esmo os escribas que eram fariseus o seguiam . [Os escribas]
vendo Jesus com er ...” (Veja o com entário sobre a varian te seguinte.)
2 . 1 5 1 6 ־ αύτφ . (16) καί oi γραμματείς των Φ αρισακυν ίδόντες
(a ele. [16] Ε os escribas dos fariseus, vendo) {C>
Aqui, existem dois problem as textuais: (1) Em lugar da inusitada locução “os
escribas dos fariseus”, a m aioria dos m anuscritos traz a locução m ais com um “os
escribas e os fariseus” (oi γραμματείς καί oi Φ αρισαίοι). (2) Uma vez que, nos
Evangelhos, o verbo “seguir” é usado quando se fala dos discípulos de Jesus, e
nunca quando se fala daqueles que se opõem a ele, o ponto final deve ser colocado
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO6 4
após o pronom e αύτψ, no final do v. 15, como aparece no texto. No entanto , alguns
copistas colocaram o ponto depois da palavra πολλοί (muitos). Essa m odificação
fez com que se inserisse a palavra καί antes do participio ίδόντες (vendo). A varían-
te tex tual diz o seguinte: “E os escribas dos (ou, e os) fariseus o seguiam , e [καί]
vendo-o com er ...” (Veja o com entário sobre a segm entação do v. 15, acima.)
2.16 έσθίει (come) {B}
O acréscim o das palavras καί πίνει (e bebe) parece um a inserção feita natural-
m ente por alguns copistas, talvez por influência da passagem paralela de Lc 5.30,
onde se lê: “Por que comeis e bebeis?” O texto m ais breve, que aparece como texto,
foi seguido por M ateus (9.11), que ainda acrescentou as palavras ó διδάσκαλος
υμώ ν (o vosso M estre). Este acréscim o de M ateus foi, por sua vez, inserido por al-
guns copistas em diferentes lugares de Mc 2.16.
2 .2 2 άπόλλυται καί oi άσκοί ([o vinho] se perde e os odres) {C}
A leitura que m elhor explica a origem das varian tes é aquela que aparece como
texto, ou seja, “o vinho rom perá os odres e se perde o vinho e os odres”. Uma vez
que a locução “e os odres” parece exigir um verbo, os copistas de alguns m anus-
critos colocaram o verbo άπόλλυται depois do substantivo oi άσκοί e a ltera ram a
pessoa do verbo, passando-a do singular para o plural: άπολοΰντα ι (se perdem ).
Além disso, influenciados pelos textos paralelos de Mt 9.17 e Lc 5.37, copistas inse-
riram o verbo έκχεΐται (se derram a), por en tenderem que este era um verbo m ais
apropriado do que άπόλλυται para descrever o que acontece com o vinho.
A prim eira varian te , que diz respeito a acrescentar ou não um verbo que acom-
panhe o substantivo oi άσκοί, é um a simples questão de estilo, em grego. As tradu-
ções terão que levar em conta aspectos estilísticos das línguas m odernas. A decisão
quanto a que verbo usar na tradução tam bém vai depender daquilo que fica m ais
na tu ra l na língua para a qual se está traduzindo. NBJ, por exemplo, diz “e tan to o
vinho como os odres ficam inutilizados”. ARA traz “e tan to se perde o vinho como
os odres”. A NTLH traduz por “o vinho se perde, e os odres ficam estragados”.
2 .2 2 άλλα οίνον νέον εις άσκούς καινούς (mas vinho novo em odres novos) {C}
As palavras “se ele fizer isso, o v inho rom perá os odres, o vinho se perde, e os
odres ficam estragados” (εί δε μή, ... oi άσκοί) form am um paréntesis. O verbo da
parte final do v. 22 é o verbo βάλλει (põe), que aparece bem no início do v. 22. Omi-
tindo o trecho que form a o paréntesis, o texto fica assim: “E ninguém põe (βάλλει)
v inho novo em odres velhos ... mas [põe] v inho novo em odres novos”. Ao que
65O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
parece, alguns copistas não se deram conta de que o verbo βάλλει fica implícito no
final do versículo, levando-os a acrescen tar βλητεον (deve ser posto [de Le 5.38]) ou
βάλλουσιν (põem [de Mt 9.17]). A om issão de άλλα οίνον νέον εις άσκούς καινούς
em alguns m anuscritos pode ter sido intencional, pois, sem um verbo, essa locução
não fazia sentido. Ou, a om issão pode ter sido acidental, decorrente da repetição
dos substantivos οίνος e ασκός.
Ao se traduzir, questões de estilo e gram ática da língua alvopodem ser m ais
im portantes do que as diferenças entre βάλλει, βλητεον, e βάλλουσιν.
3 .7 8 ־ [ήκολούθησεν]. καί από τής Ίο υ δα ία ς καί άπό 'Ιεροσολύμων
([seguia], e da Judeia e de Jerusalém ) {C}
Existe, aqui, um grande núm ero de variantes, e não se sabe ao certo qual é o
texto original. Os m aiores problem as são os seguintes: (1) se o verbo “seguir” é sin-
guiar (ήκολούθησεν) ou plural (ήκολούθησαν); (2) se o pronom e αύτω (a ele) deve
estar no texto, logo depois do verbo; e (3) se o próprio verbo faz parte do texto.
Existe, tam bém , algum a variação na sequência das palavras: “Judeia e Jerusa lém ”
ou “Jerusalém e Judeia”.
Segundo Joel M arcus (Mark 1— 8, p. 257), provavelm ente as variações e omis-
sões se devem à estranha colocação do verbo ήκολούθησεν, “que in terrom pe a des-
crição das localidades e é reiterado pela locução ‘veio ter com ele’, em 3 .8”. A leitura
aceita como texto parece ser a que m elhor explica a origem das dem ais leituras ou
variantes. Essas diferenças não terão m aior im portância para a tradução do texto,
pois questões de estilo da língua alvo vão determ inar se é necessário inserir um
verbo, se esse verbo precisa ser singular ou plural, e se esse verbo precisa de um
com plem ento pronom inal. O verbo ήκολούθησεν aparece, no texto, en tre colchetes,
para indicar que existem dúvidas quanto à sua originalidade.
3.8 πλήθος πολύ (uma grande m ultidão) {A}
O fato de πλήθος πολύ não aparecer em alguns poucos m anuscritos se deve, pro-
vavelm ente, a um retoque estilístico, feito para evitar a repetição dessas palavras,
que já aparecem no v. 7.
3.14 δώδεκα, [ούς καί αποστόλους ώνόμασεν] ϊνα ώσιν μετ' αυτού
(doze, [que tam bém cham ou de apóstolos,] para estarem com ele) {C}
A evidência externa favorece a leitura aceita como texto em O Novo Testamento
Grego, mas tam bém é possível que as palavras entre colchetes não façam parte do
texto original, tendo sido acrescentadas por influência de Le 6.13, que tem as palavras
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO6 6
οΰς καί άποστόλους ώνόμασεν. Para m ostrar que não se tem certeza quanto ao texto
original, essas palavras foram colocadas entre colchetes. Algumas traduções moder-
nas om item as palavras entre colchetes (por exemplo, REB, TEB, NBJ, CNBB).
3.16 [καί έποιησεν τούς δώδεκα.] καί ([e designou os doze,] e) {C}
Um grande núm ero de m anuscritos não traz as palavras entre colchetes, mas elas
parecem necessárias para retom ar o assunto do v. 14, que havia sido interrom pido
pelo com entário parentético ΐνα ... δα ιμόνια (para estarem com ele, e para os en-
v iar a pregar e a exercer a autoridade de expulsar demonios). Por outro lado, essas
palavras podem ter entrado no texto quando, por acidente, copistas repetiram essas
palavras, que aparecem no início do v. 14. Para indicar incerteza quanto ao texto
original, as palavras καί έποιησεν τούς δώδεκα foram colocadas entre colchetes.
A variante πρώ τον Σ ίμωνα καί (primeiro Simão, e deu a Simão o nome de Pedro)
foi, provavelm ente, criada por um copista que queria m elhorar a redação de um
texto esquisito ou complicado, além de harm onizá-lo com o paralelo em Mt 10.2. A
variante καί περ ιάγοντας κηρύσσειν τό εύαγγέλιον (e andando por aí a proclam ar o
evangelho), que aparece no m anuscrito W, tem poucas chances de ser original, pois
esse m anuscrito tam bém insere τό εύαγγέλιον (ο evangelho) após κηρύσσειν, no v. 14
(esta variante não foi incluída no aparato crítico do v. 14).
3.18 καί Θ αδδα ιον (e Tadeu) {A}
A colocação de Λ εββαΐον (Lebeu) em lugar de Θ αδδα ιον ocorre, em m anuscri-
tos ocidentais, tam bém em Mt 10.3, onde m uitos docum entos com binam as duas
leituras (veja o com entário sobre Mt 10.3). A om issão de Θ αδδα ιον no m anuscrito
W deve ter sido acidental, pois som ente onze pessoas são m encionadas, em vez de
doze. Um m anuscrito latino antigo, que tam bém om ite Tadeu, acrescenta ludas
(Judas) depois de Bartolom eu.
3 .2 0 έρχεται (chega) {B}
O verbo no singular, que aparece em m anuscritos antigos dos tipos de texto ale-
xandrino e ocidental, foi alterado, na m aioria dos testem unhos, para a form a plural
έρχονται (chegam), que é o texto m ais fácil, na sequência dos vs. 1719־.
3.21 άκοΰσαντες οί παρ αύτού (quando seus am igos ouviram ) {A}
A parentem ente, o texto orig inal oi παρ ' αύτού (“seus am igos” ou “seus paren-
tes”) era tão ofensivo ou chocante que, em vários m anuscritos, foi m udado para
67O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
“quando 05 escribas e os outros ouviram a respeito dele, saíram para o prender,
porque diziam : ‘Está fora de si’.” (Quanto ao significado das palavras οί π α ρ ’ αυτοί),
veja France, The Gospel o f M ark, p. 166.)
3 .2 9 άμαρτήματος (pecado) {B}
O substantivo αμάρτημα (pecado) aparece, nos quatro Evangelhos, apenas aqui
e no v. 28. No restan te do NT, aparece som ente três vezes. Em alguns m anuscritos,
os copistas fizeram um a troca por άμαρτίας (pecado), que é palavra m ais conhe-
cida. O utros copistas acrescentaram κρίσεως (juízo) ou κολάσεως (castigo), para
am enizar a dificuldade decorrente da inusitada expressão “réu de pecado e te rno”.
3.3 2 οί άδελφοί σου [και a i άδελφαί σου] (teus irm ãos [e tuas irm ãs]) {C}
A m aioria dos m anuscritos não traz a locução καί a i άδελφαί σου (e tuas irmãs).
Tudo indica, porém , que essas palavras são originais. Devem ter sido om itidas, de
m odo acidental, quando o copista passou do prim eiro pronom e σου ao segundo
pronom e σου. O utra possibilidade é que se tra te de om issão intencional, visto que
as irm ãs não aparecem no v. 31 nem no v. 34. Além disso, se essas palavras não
fossem originais, e sim um acréscim o feito por um copista, seria m ais lógico que
fossem inseridas no v. 31, e não aqui, no v. 32. No entanto , o texto m ais breve tem
um sólido apoio de m anuscritos, o que faz com que a locução καί αί άδελφαί σου
apareça, no texto, en tre colchetes, para indicar que há dúvidas quanto ao texto ori-
ginal. REB, TEB, NVI, BN e NTLH adotam o texto m ais breve, om itindo a locução
“e tuas irm ãs”.
4 .8 και αυξανόμενα (e crescendo) {C}
A leitura que m elhor explica o surgim ento das dem ais é o participio nom inativo
neutro plural αυξανόμενα, que concorda com o sujeito neutro plural άλλα (“outras
[sementes] caíram em terra boa, e, crescendo e aum entando, p roduziram fruto;
e p roduziram ”). Alguns copistas en tenderam m al o participio άναβαίνοντα (eres-
cendo), supondo que m odificava o substantivo m asculino singular καρπόν (fruto),
e não o neutro plural άλλα. Em função disso, havia um a forte tendência no sen-
tido de a ltera r o neutro plural αυξανόμενα para o participio m asculino singular
αύξανόμενον ou para αΰξάνοντα (que pode ser m asculino singular ou neutro plu-
ral), que podem se referir tan to ao fruto quanto às sem entes. O utro fator que con-
tribuiu para que o participio fosse alterado foi a troca do plural άλλα pelo singular
άλλο, feita em alguns m anuscritos para que o texto concordasse com o singular
άλλο nos vs. 5,7.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO68
As varian tes talvez não tenham m aior im portância na hora de traduzir, pois o
significado é basicam ente o mesmo, pouco im portando se era o fruto ou a sem ente
que estava crescendo e aum entado. Em algum as línguas, talvez não soe bem dizer
que a sem ente, e não o fruto, estava “crescendo” e “aum en tando”.
4 .8 εν ... εν ... εν (um a ... ou tra ... outra) {C}
Esta variante tem pouca im portância para a tradução. Não existe diferença de
significado entre as leituras εν e εις. A m aioria dos m anuscritos traz εν, que tanto
podería ser a preposição εν quanto o num eral εν. Nos m anuscritos uncíais, em que as
palavras aparecem sem acentuação,os dois (a preposição e o num eral) são escritos do
mesmo jeito. Caso se optar por êv (em), essa preposição precisa ser entendida como
indicando um a proporção. O mais provável é que o original seja εν, refletindo influên-
cia do aram aico, onde o num eral “um ” (ד ח ) é um sinal de m ultiplicação (“vezes”).
4 .1 5 εις αυτούς (neles) {C}
Essa unidade de variação tem pouco significado para a tradução do texto. Em
vários m anuscritos, a form ulação é suavizada pela colocação do dativo εν αύτοΐς
(neles) em lugar do acusativo εις αυτούς, m as a d iferença tem a ver com estilo, não
com o significado. Em outros m anuscritos, o texto foi a lterado para ficar m ais pró-
ximo da fraseologia εν τη καρδία αύτού (em seu coração), que aparece em Mt 13.19.
Por fim, alguns poucos m anuscritos têm um texto que foi a lterado para concordar
com άπό τής καρδίας αύτώ ν (do coração deles) em Lc 8.12. Mesmo seguindo a
le itu ra que aparece como texto, em m uitas línguas não será possível d izer simples-
m ente “neles”; será preciso dizer “no coração deles” (confira a NTLH).
4 .2 0 εν ... εν ... εν (um a ... ou tra ... outra) {C}
Veja o com entário sobre o v. 8.
4 .2 4 καί προστεθήσεται ύμΐν (e m ais vos será acrescentado) {A}
As palavras καί προστεθήσεται ύμΐν foram om itidas em alguns m anuscritos, tal-
vez de form a acidental, na m edida em que o copista foi enganado pela sem elhança
en tre μετρηθβσβΤλίγΜίΝ e προστεθΗσβΤλίγΜίΝ. As palavras τοΐς άκούουσιν (aos
que ouvem) parecem um com entário acrescentado por um copista para explicar a
conexão en tre essas palavras e βλέπετε τί άκούετε (tende cuidado com o que ouvis),
que aparece no começo do versículo. Um m anuscrito latino e a versão gótica têm o
seguinte texto: “será acrescentado a vós que credes”.
69O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
4 .2 8 πλήρη[ς] σίτον (grão bem maduro) {C}
As v a r ia n te s não têm n e n h u m a im p o r tâ n c ia p a ra a t ra d u ç ã o , po is não
p a ssa m de d ife re n ç a s de e s t i lo na l ín g u a g reg a que não m u d a m o s ign if ica-
do. A le i tu ra que t r a z o caso a cu sa t iv o , πλήρη σ ίτον , é g rego clássico . Em
g rego h e le n ís t ic o , que e ra c o m u m e n te fa la d o n u m p e r ío d o m ais re c e n te ,
u sav a -se , m u ita s vezes, a p e n a s a fo rm a n o m in a t iv a do ad je tivo π λ ή ρ η ς , in-
d e p e n d e n te m e n te do caso g ra m a t ic a l do su b s ta n t iv o que e ra q u a lif ic ad o .
A fo rm a n o m in a t iv a π λ ή ρ η ς é a que m e lh o r ex p lica a o r ig em das o u t ra s
le i tu ra s . No e n ta n to , d ia n te da im p re s s io n a n te co m b in aç ão de m a n u s c r i to s
que a p o ia m πλήρη , o s igm a f ina l a p a re c e e n tre co lch e tes no tex to de O Novo
Testamento Grego.
4 .4 0 τί δειλοί έστε; οίλπω έχετε πίστιν
(Por que estais com medo? Ainda não tendes fé?) {A}
A le i tu ra que ap a rece com o tex to em O Novo Testamento Grego é a que tem ,
de longe, o m ais sólido apoio de m an u sc r i to s . A le i tu ra π ώ ς ούκ (“Como é que
não ten d es fé?”) pa rece ser re su l ta d o de um a te n ta t iv a de suav izar , em p a r te ,
as p a la v ra s du ras que Jesus d ir ig iu a seus d isc ípu los. Em lu g a r de ο υ π ω (ain-
da não), a lguns m an u sc r i to s têm ο ύ τω ς (a s s im /d e ssa m an e ira ) , que se liga
ao que vem an tes no tex to , a saber, τί δε ιλο ί έστε. Assim sendo , em lu g a r de
“a in d a não (οΰπεο) ten d es fé?”, o tex to passa a ser “po r que e s ta is assim com
m ed o ? ”
5.1 Γερασηνών (dos gerasenos) {C}
Das várias leituras, Γερασηνών é a que tem o m elhor apoio de m anuscritos
(antigos rep resen tan tes de dois tipos de texto, a lexandrino e ocidental). A lei-
tu ra Γαδαρηνών (dos gadarenos) é um a correção para ha rm on iza r o texto com
Mt 8.28, e Γεργεσηνών (dos gergasenos) é um a correção que, pelo que pare-
ce, foi o rig inalm ente sugerida por Orígenes (veja o com entário sobre Mt 8.28).
Γεργυστηνών, que aparece no Códice W, é um a le itura esquisita que tem pouco
apoio de m anuscritos.
A cidade de G erasa ficava a uns v in te qu ilôm etros do lago de G enesaré . Fran-
ce (The Gospel o f Mark, p. 227) talvez ten h a razão, ao sugerir que Γερασηνών
“provavelm ente rep resen ta ou um uso pouco preciso do te rm o p a ra designar
toda a região de Decápolis ..., da qual G erasa era a cidade m ais im portan te , ou
sim plesm ente um a confusão en tre nom es sem elhan tes , sendo que a cidade m ais
bem conhecida aparece em lugar da obscura G ergasa”.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO7 0
5 .2 1 του ,Ιησού [έν τω πλοίω] (Jesus [no barco]) {C}
As palavras έν τω πλο ίψ encontram apoio no texto alexandrino bem como em
outros tipos de texto; não aparecem em alguns m anuscritos, seja por om issão invo-
lun tária , seja por influência do texto paralelo em Lc 8.40, que não traz essas pala-
vras. Pensar que essas palavras não são originais, m as foram acrescentadas por um
copista a p a rtir do que fica implícito no contexto, é um a hipótese pouco provável.
Como não se tem certeza quanto ao texto original, essas palavras aparecem , no tex-
to, en tre colchetes. Mesmo que se considere original o texto m ais breve, a locução
έν τω πλο ίω com certeza expressa o sentido que se tem em vista.
5 .3 6 παρακοΰσας (não dando im portância ou ouvindo sem querer) {B}
O significado do participio παρακούσας é am bíguo, o que fez com que, em mui-
tos m anuscritos, fosse substituído por άκούσας (ouvindo), que aparece no texto
paralelo de Lc 8.50. NRSV segue o texto e traduz o participio por “ouvindo sem
querer”. Tam bém a NVI segue o texto, m as prefere a ou tra tradução possível desse
participio: “não fazendo caso”. Guelich CMark 1:1— 8:26, p. 291, n. 1) afirm a: “A
discussão é irrelevante, pois as palavras que Jesus dirigiu ao chefe da sinagoga
m ostram que, m esm o 4ouvindo sem querer’, ele fez pouco caso da m ensagem que
havia sido tran sm itida”.
6 .2 και αί δυνάμεις ... γ ινόμενοι (e as m aravilhas ... sendo feitas) {C}
As varian tes não têm m aior im portância para a tradução, pois as diferentes lei-
tu ras são diferenças de estilo que não afetam o significado. A leitu ra aceita como
texto, que rep resen ta o tipo de texto alexandrino, é a m ais difícil do ponto de vista
gram atical e a que m elhor explica a origem das dem ais variantes. Muitos m anuscri-
tos têm o verbo γίνοντα ι ou γ ίνω ντα ι (este últim o precedido por iva), que resu lta
num estilo m ais elegante do que o texto com o participio γινόμενοι.
6 .3 τέκπων, ό υ ιός (carpinteiro, ο filho) {A}
Todos os uncíais, m uitos cursivos, bem como im portan tes traduções antigas têm
o seguinte texto: “Não é este o carpinteiro , filho de M aria”? Logo no início da his-
tória da Igreja, alguns não cristãos rid icularizavam o cristianism o, dizendo que seu
fundador era um simples carpinteiro . Essa pode ter sido a razão por que, em vários
m anuscritos, o texto foi harm onizado com Mt 13.55 e alterado para “não é este o fi-
Iho do carpinteiro , o filho de M aria”? Tam bém a versão siríaca palestina evita d izer
que Jesus é carpinteiro , om itindo as palavras ò τέκτων (o carpinteiro).
71O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
6 .3 και Ίω σήτος (e Joses) {B}
Essas varian tes não têm m aior im portância para tradu tores que adotam o prin-
cípio de escrever sem pre da m esm a m aneira o nom e ou os nom es de um a m esm a
pessoa. Sendo assim , neste caso a form a do nom e será idêntica àquela de Mt 13.55,
independentem ente da leitu ra que é aceita como original.
A leitu ra Ίω σήτος tem expressivo apoio de um a com binação de m anuscritos
alexandrinos e ocidentais,além de outros im portantes m anuscritos. Vários outros
m anuscritos têm o nom e Ίοχτήφ, que aparece no texto de Mt 13.55. O nom e Ίω σή,
que aparece em alguns m anuscritos, rep resen ta a pronúncia galileia (יס וי) do he-
braico ףס וי (“Ioséf”).
6.14 m i ελεγον (e diziam ) {B}
A form a da terceira pessoa do plural ελεγον parece ser o texto original. Copistas
a lteraram isso para a terceira pessoa do singular ελεγεν (ele dizia), em concordân-
cia com ήκουσεν ([Herodes] ouviu). Acontece que os copistas não se deram conta
da e stru tu ra desse texto, ou seja, as palavras “H erodes ouviu” são in terrom pidas
para que se in troduza, de form a parentética, três opiniões que as pessoas tinham a
respeito de Jesus (καί ελεγον ... άλλοι δε ελεγον ... άλλοι δε ελεγον). Só então, no
ν. 16, o escritor rela ta aquilo que Herodes ouviu.
6 .2 0 πολλά ήπόρει, καί (ficou muito perplexo/confuso, e) {C}
Alguns eruditos entendem que a leitura ήπόρει é um a correção baseada em
Lc 9.7, onde se diz que Herodes estava “m uito perplexo” (διηπόρει). Mas a leitu ra
aceita como texto tem sólido apoio de m anuscritos. Além disso, o uso do adjetivo
πολλά como advérbio, no sentido de “m uito” ou “b astan te”, condiz com o estilo de
Marcos. Embora m uitos e variados m anuscritos gregos e versões antigas tragam a
leitura πολλά έποίει (ele fazia m uitas coisas) em lugar de πολλά ήπόρει, não faz
m aior sentido dizer, nesse contexto, que Herodes “fazia m uitas coisas”. Segundo
Hooker (The Gospel According to Saint M ark , ρ. 161), πολλά, neste caso, talvez sig-
nifique “m uitas vezes”, no sentido de que Herodes, depois de ouvir João falar, fazia
isso m uitas vezes.
6.2 2 θυγατρός αύτου *Hpqjõiáôoç (sua filha Herodias) {C}
Nenhum a das leituras chega a ser satisfatória. A leitura aceita como texto tem o me-
lhor apoio dos manuscritos, mas o sentido é complicado (complicado demais, segundo
Edwards [The Gospel According to Mark, ρ. 187, η. 27], que afirm a que essa leitura “é
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO72
tão confusa a ponto de não ter sentido nenhum ”, e France, The Gospel of Mark, p. 258).
Segundo a leitura com ο αύτοϋ, a moça é descrita como filha de Herodes Antipas e se
cham a Herodias, que é o mesmo nome da segunda esposa de Herodes Antipas. Mas, se-
gundo o v. 24, ela é a filha de Herodias. Fontes extrabíblicas dizem que o nome dela era
Salomé e que Herodes Antipas era o tio dela. A leitura θυγατρός αυτής τής Ήρίρόιάδος
deve significar algo do tipo “a filha da própria Herodias”. Ou o pronome αυτής pode
refletir um a característica do aram aico em que o pronome antecipa um substantivo, ou
seja, “e quando a filha Herodias entrou”. A leitura θυγατρός τής Ήρίρόιάδος (filha de
Herodias) é a mais fácil de todas e parece ter surgido a partir da omissão involuntária
do pronome αυτής. (Para um a discussão a respeito desses problemas históricos e tex-
tuais, veja Guelich, Mark 1:1— 8:26, p. 332; e Joel Marcus, Mark 1— 8, p. 396.)
As traduções divergem quanto ao texto que adotam . Confira as seguintes: “Quan-
do veio Herodias, a filha dele” (NRSV), “a filha dela veio” (REB), “A filha desta
H erodíades veio” (TEB).
6 .2 3 αυτή [πολλά] (a ela [com veem ência]) {C}
Faz parte do estilo de Marcos usar o adjetivo πολλά em sentido adverbial (=
“m uito, com veem ência, insisten tem ente”), como em 1.45; 3.12; 5.10,23,38,43;
6.20; 9.26; 15.3. Assim, é possível que πολλά seja original, neste caso, tendo sido
om itido acidentalm ente por algum copista. Por outro lado, a g rande qualidade dos
m anuscritos que não trazem πολλά sugere que esta palavra pode não ser original.
Para indicar que não se tem certeza quanto ao texto original, πολλά foi inserido no
texto entre colchetes.
6 .2 3 õ τι (aquilo que) {C}
A varian te tex tual m ais im portan te , neste caso, não tem m aior significado para
a tradução do texto. A leitu ra aceita como texto traz o pronom e relativo indefinido
neu tro ó τι. Visto em conjunto com εάν e um verbo no subjuntivo, pode ser tradu-
zido por “tudo o que”. Assim, õ τι εάν με αίτησης pode ser traduzido por “qualquer
coisa que me ped ires”.
No entanto , alguns copistas se equivocaram , tom ando οτι pela conjunção δτι,
que é usada para sinalizar o início de um a citação d ireta, equivalente a dois pontos
e aspas. Assim, acharam que era necessário acrescen tar o pronom e relativo ó, para
dar inicio ao texto seguinte. Visto que, neste caso, ότι equivale a dois pontos e aspas
e não é traduzido, e visto que o pronom e relativo ó tem , neste caso, o m esm o signi-
ficado do pronom e relativo indefinido ó τι, a varian te em nada difere do significado
da leitu ra ado tada como texto. As dem ais leituras rep resen tam varian tes próprias e
típicas de alguns poucos m anuscritos.
73O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
6 .3 3 έκεΐ και προήλθον αυτούς (e chegaram lá antes deles) {B}
A leitura aceita como texto tem sólido apoio de m anuscritos. E provável que
copistas a lteraram προήλθον, uns para προσήλθον (foram até lá) e outros para
συνήλθον (foram com), porque ju lgavam que um a m ultidão a pé não podería ter
chegado àquele lugar mais rapidam ente do que as pessoas que estavam no barco.
A leitura que aparece no textus receptus, em concordância com alguns uncíais e
grande núm ero de cursivos, é um a com binação de duas leituras d istintas: εκεί και
προήλθον αυτούς e συνήλθον προς αύτόν (ae ali chegaram prim eiro do que eles, e
aproxim aram -se dele״, KJV e ARC).
6.41 μαθηταΐς [αύτού] (discípulos [dele]) {C}
Esta variante tex tual pode não ter m aior im portância para tradu tores, um a vez
que, em m uitas línguas, é m ais na tu ra l e até m esm o necessário dizer “seus disci-
pulos” em vez de “os discípulos”. France (The Gospel o f M ark, p. 260) tem razão ao
dizer que a presença ou ausência do pronom e não afeta o significado. A evidência
ex terna está m ais ou m enos dividida, com um a m etade apoiando a le itu ra com o
pronom e αύτού, e outra m etade apoiando a leitura sem o pronom e. N orm alm ente,
Marcos diz “seus discípulos”, sendo que “os discípulos” é um a form ulação m ais rara.
Portanto, o estilo de Marcos favorece a leitura μαθηταΐς αύτού. Por outro lado, ma-
nuscritos do tipo de texto a lexandrino om item o pronom e. Visto que, em geral, se
prefere como texto original as leituras m ais breves que têm apoio do texto alexan-
drino, é possível que o pronom e não seja original. Para sinalizar que existem dúvi-
das quanto ao texto original, o pronom e aparece entre colchetes. RSV, REB, NBJ,
TEB, CNBB, BN, ARA e NTLH seguem o texto m ais breve (“deu-os aos discípulos”);
a NVI traduz o texto m ais longo (“entregou-os aos seus discípulos”).
6 .4 4 [τούς άρτους] ([os pães]) {C}
A varian te tex tual pode não ter m aior im portância ao se traduzir o texto para
línguas em que o verbo “com er” sem pre é transitivo — isto é, em que o verbo exige
um objeto direto. Nesses casos, a tradução seria igual, m esm o que se optasse pelo
texto grego mais breve, isto é, sem o objeto direto.
Q uanto ao apoio de m anuscritos, existe um equilíbrio entre os que incluem as pa-
lavras τούς άρτους e os que om item estas palavras. Além disso, vários docum entos
(como D W sir5) que frequentem ente têm um texto m ais longo, neste caso têm um
texto m ais breve, o que parece sugerir que a leitura mais breve é original. Por outro
lado, é mais provável que copistas tenham sido tentados a om itir as palavras τούς
άρτους do que a inseri-las no texto (caso lá não estivessem), pois se perguntavam
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO74
por que motivo os pães eram m encionados e os peixes, não. Para indicar incerteza
quanto ao texto original, as palavras τούς άρτους foram colocadas entre colchetes.
6 .4 5 εις xò πέραν (para o outro lado /p ara a outra m argem ) {A}
A locução εις τό πέραν não aparece em vários testem unhos, sem dúvida por
causa de dificuldades de ordem geográfica. Segundo Lc 9.10, Jesus a lim entou a
m ultidão de cinco mil hom ens em Betsaida, que ficava nos dom ínios do te trarca
Filipe, a leste do rio Jordão. Portanto , causa estranheza que em Marcos se diga que,
após o m ilagre dos pães e dos peixes, os discípulos tenham ido “para o outro lado,
a Betsaida” (ARA) ou “a Betsaida, no lado leste do lago” (NTLH). A NVI não traduz
εις τό πέραν. Para um a discussão a respeito das dificuldades de ordem geográfica,
veja France, The Gospel o f Mark, pp. 264-265.
6 .4 7 ήν (estava) {B}
Em vários docum entos de peso, o expressivo term o πάλα ι (que, norm alm ente,
significa “há m uito” ou “an tigam ente”, m as que, neste caso, tem que significar “já ”,
“por um bom tem po”, ou “naquele m om ento”) aparece logo após o verbo ην. Seria
possível a rgum en tar que M ateus (que escreve τό όέ πλο ΐον ήδη ...14.24) pode ter
tido acesso a um a cópia de M arcos que incluía πάλαι. Agora, se πάλαι tivesse es-
tado orig inalm ente no texto de Marcos, fica difícil de explicar sua ausência num a
variedade tão grande de testem unhos. A REB opta pelo texto m ais longo: “Era tarde
e o barco já (πάλαι) estava bem longe sobre as águas”.
6 .5 1 λίαν [εκ περισσού] εν έαυτοΐς (muito [por demais] den tro deles) {C}
O duplo superlativo λίαν εκ περισσού é característico do estilo de Marcos. Além
disso, tem o apoio de um a variedade de testem unhos com am pla distribuição geo-
gráfica. No entanto , visto que im portantes docum entos não trazem a locução εκ
περισσού, ela aparece entre colchetes, para indicar dúvida quanto à sua origina-
lidade. A diferença en tre as duas leituras pode ser assim expressa: “ficaram total-
m ente espan tados” e “ficaram espan tados”.
6 .5 1 έξίσταντο (ficaram espantados) {B}
Muitos m anuscritos têm um texto mais longo έξίσταντο καί έθαύμαζον (ficaram
espantados e se m aravilhavam ; confira ARC). A leitura mais breve deve ser preferida,
pois o texto mais longo soa como um a tentativa dos copistas de aum entar a dram a-
ticidade da narrativa. Seja como for, o texto mais longo apenas “dá mais ênfase, sem
75O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
afetar o significado” (France, The Gospel o f Mark, p. 269). É possível que os copistas
tenham sido influenciados por At 2.7, onde os mesmos verbos aparecem lado a lado.
7.3 πυγμή (com o punho) {A}
Num contexto em que se explica abluções cerim oniais dos judeus, fica difícil de
en tender o significado de πυγμή (literalm ente, “com [o] punho”). Por causa dessa
dificuldade, alguns copistas om itiram πυγμή. Outros colocaram em lugar de πυγμή
um a palavra que faz m ais sentido, como πυκνά (m uitas vezes ou bem) ou momento
(num instante), ou prim o (prim eiro). (Estas duas últim as, em m anuscritos latinos.)
Os estudiosos já ap resen taram várias explicações para esse “com o punho”.
Hooker (The Gospel According to Saint Mark, p. 175) sugere três significados possí־
veis: (1) “com um punhado de água”; (2) “até o punho”; e (3) “fazendo um a concha
com as m ãos”, e afirm a que “qualquer que seja o significado exato, parece que
o objetivo era lim par as mãos com a m enor quantidade possível de água (já que
água era escassa)”. (Para um a discussão m ais aprofundada, veja Guelich, M ark
1:1— 8:26, pp. 3 6 4 3 6 5 ־.) Em todo caso, é im portante saber que “M arcos está des-
crevendo um a purificação ritual, e não um a lavagem para fins de hig iene” (France,
The Gospel o f Mark, p. 282).
Das traduções m odernas, a RSV indica, num a nota de rodapé, que um a palavra
grega de significado incerto não foi traduzida. NRSV, ARA, TEB, e NTLH pare-
cem seguir um a das leituras variantes: “não comem sem lavar cuidadosam ente as
m ãos”. Alguns exegetas en tendem que, nesse contexto, πυγμή significa “até o co-
tovelo”, e esta in terpretação fundam enta a tradução que aparece em NBJ e CNBB:
“não comem sem lavar o braço até o cotovelo”.
7.4 αγοράς (do m ercado) {A}
O estilo da prim eira parte do v. 4 é um tan to quanto rude: “e do m ercado se
não lavam não com em ”. Para polir o texto, vários m anuscritos acrescentam όταν
ελθωσιν (quando voltam do m ercado, não comem sem se lavarem ).
A locução άπ* άγοράς pode significar “quando voltam do m ercado”. Se isto for
assim , a varian te apenas estaria to rnando explícito o significado implícito de α π ’
άγοράς. Se este é o sentido que se tem em vista, então Marcos está explicando
que os fariseus lavavam as mãos porque existia a possibilidade de, no m ercado,
en tra rem em contato, a inda que acidental, com pessoas cerim onialm ente im puras
(Hooker, The Gospel According to Saint Mark, p. 175). Mas tam bém se pode enten-
der άπ* άγοράς no sentido de “e tudo do m ercado” e βαπτίσοηπα ι no sentido de
“eles lavam ” e não no sentido de “eles se lavam ”. Confira a NTLH (bem como a
NRSV): “E, antes de comer, lavam tudo o que vem do m ercado”.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO76
7 .4 βα πτίσω ντα ι (lavam) {B}
É possível que o texto alexandrino tenha preservado o verbo original ραντίσω νται
(aspergem) e que copistas tenham feito a troca por βαπτίσω νται, um verbo m ais co-
nhecido. E ntretanto, é muito m ais provável que copistas alexandrinos tenham feito
a substituição dos verbos, talvez com a intenção de fazer com que o uso do verbo
βαπτίζειν (batizar) ficasse restrito à prática cristã. Mais provável, porém , é que fize-
ram a m odificação porque en tenderam a locução ά π ’ άγοράς no sentido de “qualquer
coisa do m ercado” e, assim, consideraram o verbo ραντίσω νται m ais apropriado do
que βαπτίσω νται, para expressar o seguinte significado: “sem aspergirem [aquilo
que vem] do m ercado, não [o] com em ”. A NBJ segue a variante textual, m as inter-
p reta o verbo no sentido de “se asperg ir”, e não no sentido de “aspergir a com ida
que vem do m ercado”. A tradução resultan te é: “não comem sem antes se asperg ir”.
7.4 καί χαλκίων [καί κλινών] (e vasos de m etal [e camas]) {C}
É difícil decidir se as palavras καί κλινών (e cam as) foram acrescentadas por
copistas influenciados pelas leis de Lv 15, ou se essas palavras foram om itidas. Se
houve om issão, pode ter ocorrido acidentalm ente porque, ao ler o texto, o copista
passou do final de χαλκίω ν para o final de κλινών; por outro lado, pode tam bém
ter ocorrido deliberadam ente, porque a noção de lavar ou aspergir cam as não fazia
sentido para o copista. Tanto o texto como a varian te têm sólido apoio de m anus-
critos. Para m ostrar que não se tem certeza quanto ao texto original, καί κλινών
aparece entre colchetes. A lgum as traduções m odernas preferem o texto m ais breve
e om item καί κλινών (por exemplo, NRSV, REB, NBJ, BN).
7.7-8 άνθρώπων. άφέντες ... άνθρώπων. (de homens. Abandonando .. .dos homens.) {A}
A variante textual, traduzida na Alm eida Revista e Corrigida (“como o lavar
dos jarros e dos copos, e fazeis m uitas outras coisas sem elhantes a estas”), não se
encontra nos m ais antigos e m elhores docum entos. Trata-se, com certeza, de um
acréscim o, feito por um copista, a p a rtir do v. 4. O fato de esse texto m ais longo
aparecer em dois lugares diferentes — em alguns docum entos, no início do v. 8; em
outros, no final do v. 8 — ajuda a m ostrar que se tra ta de algo que foi acrescentado
posteriorm ente ao texto original.
7.9 στήσητε (m anter/estabelecer) {D}
É muito difícil decidir se o texto original é στήσητε ou se é τηρήσητε (guardar).
Copistas podem ter achado que στήσητε era o verbo m ais adequado nesse contexto
77O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
e decidiram colocar esse verbo no lugar de τηρήσητε (guardar). De outro lado, por
descuido, copistas podem ter sido inconscientemente influenciados pela locução την
εντολήν του θεού (ο m andam ento de Deus), que aparece no contexto anterior, e co-
locado τηρήσητε no lugar de στήσητε. A segunda opção é a m ais provável. Algum as
traduções m odernas seguem o texto (“m an ter” ou “estabelecer”; BN e NVI [em nota
de rodapé]); outras traduzem a variante (“observar” ou “g u ard ar”; NBJ, TEB, NVI).
7.16 omissão do versículo {A}
Na m aioria dos docum entos, este versículo faz parte do texto, m as não aparece
em im portantes docum entos do tipo de texto alexandrino. Tem tudo para ser um
com entário feito por um copista (que extra iu esse m ateria l de 4.9 ou 4.23), que se
encaixa m uito bem no texto, considerando-se o que é dito no v. 14.
7.19 καθαριζω ν (purificando/declarando puros) {A}
É im pressionante o peso dos m anuscritos que trazem a palavra καθαριζων, um a
form a de participio m asculino singular do verbo καθαρίζω . A dificuldade de enten-
der o que esse term o significa dentro do contexto em que se encontra levou copistas
a ten ta r várias correções e m elhorias, trocando o participio m asculino por um par-
ticípio neu tro ou um a form a verbal de terceira pessoa. Veja o com entário a respeito
da segm entação, na nota seguinte.
7.19 Segmentação
As palavras καθαρίζουν πάντα τά βρώματα (declarando puros todos os alimen-
tos) podem ser entendidas de diferentes m aneiras. A dificuldade de ordem gram atical
é que “essa construção de participio fica como que pendurada no ar, sem qualquer
conexão sintática que seja óbvia” (Guelich, Mark 1:1— 8:26, p. 378). Uma vez que o
participio καθαρίζουν é m asculino singular, o sujeito do participio pode ser Jesus (da
m esm a m aneira como Jesus é o sujeito oculto do verbo λέγει [diz], no v. 18) e o texto
pode ser visto como um com entário parentético do evangelista Marcos, destacando o
significado daquilo que Jesus disse. Confira a NBJ: 19 ‘“porque nada disso entra no
coração, mas no ventre, e sai para a fossa?’ (Assim, ele declarava puros todos os ali-
m entos.)”. Visto como parte de um com entário parentético de Marcos, καθαριζων será
traduzido por “declarando puros”, com o “sentido de declarar que não mais devem ser
considerados cerim onialm ente ‘im puros’” (France, The Gospel o f Mark, p. 291).
Caso se ado tar a leitura varian te , ou seja, o participio neu tro καθαρίζον, o su-
jeito do participio não será m ais Jesus, m as passará a ser ο παν (tudo) do v. 18, e o
texto será entendido como a continuação das palavras de Jesus. Confira ARC: 19
“porque não en tra no seu coração, mas no ventre e é lançado fora, ficando puras
todas as com idas?”
78 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO
7 .2 4 Τύρου (de Tiro) {B}
As palavras καί Σ ιδώ νος (e de Sidom) parecem um acréscim o, feito para har-
m onizar o texto com os paralelos em Mt 15.21 e Mc 7.31. Caso tivesse constado no
original, não há motivo que explique por que teria sido om itido por algum copista.
Entre os testem unhos que apoiam o texto m ais breve se encontram represen tan tes
do texto ocidental, bem como de outros tipos de texto.
7 .2 8 κύριε (Senhor) {B}
O m esm o que foi dito a respeito da varian te do v. 24 se aplica a esta varian te .
Ao que parece, a palavra vai (sim), que ocorre oito vezes em M ateus, quatro vezes
em Lucas, e nunca em Marcos, foi inserida aqui a p a rtir da passagem para le la
em Mt 15.27. ARA e NVI traduzem a variante: “Sim, Senhor, m as até os cachorri-
n h o s ...”. France (The Gospel o f M ark, p. 295), que aceita a varian te como original,
tem razão ao afirm ar que essa le itu ra com vai não deveria ser in te rp re tada como
se a m ulher estivesse docilm ente aceitando o que Jesus tinha acabado de dizer; ao
contrário , de form a bem decidida ela rejeita o que ele acabara de dizer.
7.31 ήλθεν διά Σ ιδώ νος (passou por Sidom) {A}
Segundo o texto, que tem o apoio dos m elhores represen tan tes alexandrinos e
ocidentais, bem como de outros testem unhos ou docum entos im portantes, Jesus fez
um a volta, passando por Sidom, uns quinze quilôm etros ao norte de Tiro, seguindo
na direção sudeste, atravessando o rio Leontes, passando por Cesareia de Filipe
m ais ao sul, descendo pela m argem leste do rio Jordão e aproxim ando-se, assim, do
lago da Galileia pelo lado oriental, dentro do territó rio de Decápolis.
A leitu ra καί Σ ιδώ νος ήλθεν (e de Sidom, foi [em direção ao lago da Galileia]) é
um a m odificação feita por copistas, que tan to pode ter sido acidental (por influên-
cia da típica expressão “Tiro e Sidom”), como pode ter sido intencional (porque o
roteiro seguido por Jesus parecia dem asiadam ente circular). ARC reflete a variante
textual: “to rnando a sair dos territórios de Tiro e de Sidom, foi ...”
7 .3 5 καί [ευθέως] (e [!m ediatam ente]) {C}
A predileção de M arcos pelo advérbio ευθύς (que, por vezes, é escrito como
ευθέως em vários m anuscritos) aum enta as chances de originalidade desse advér-
79O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
bio no presente versículo. Por outro lado, é im pressionante a com binação de tes-
tem unhos que não têm ευθέως, o que sugere que o advérbio não é original. Para
indicar que não se tem certeza quanto ao texto original, ευθέως foi colocado entre
colchetes. NVI segue o texto mais breve, ao passo que ARA traduz o texto mais
longo.
8 .7 εύλογήσας αυτά (abençoando-os [=abençoando os peixes]) {B}
Em a lgum as línguas, as v a rian te s tex tu a is não te rão m aior im p o rtân c ia , pois
soará e s tran h o d izer que a lguém abençoou peixes. Isto porque, n o rm alm en te , o
sujeito do verbo “a b en ç o ar” é Deus. Nessas línguas, ta lvez seja m ais adequado
d izer que Jesus “deu graças a Deus por e les” (como na NTLH), por m ais que se
aceite como orig ina l a le itu ra que aparece como tex to em O Novo Testamento
Grego. E pouco provável que M arcos tivesse em v ista qua lquer d ife rença de sig-
n ificado en tre o partic ip io εύ /α ρ ισ τή σ α ς, no v. 6, e o partic ip io εύλογήσας, aqui
no v. 7.
A leitu ra aceita como texto tem a seu favor os m elhores m anuscritos. A le itu ra
εύχαριστήσας (dando graças) parece ter surgido por influência do v. 6. Vários
testem unhos om item o pronom e neu tro plural αυτά. É possível que copistas julga-
ram que esse pronom e era dispensável, um a vez que o pronom e ταϋτα, que apa-
rece logo a seguir, tam bém se refere aos peixes. Ou, om itiram o pronom e porque
pensaram que não era apropriado dizer que Jesus abençoou os peixes, em vez de
“abençoar” a Deus, isto é, dar graças a Deus.
8.10 τά μέρη Δαλμανουθά (as regiões de D alm anuta) {B}
Aqui existem dois grupos de varian tes tex tuais, em bora o prim eiro não afete
a tradução do texto. A le itu ra τά μέρη (litera lm en te , “as p a rte s”; aqui, porém ,
no sentido de “regiões em volta de um a cidade”) tem o apoio de quase todos
os m anuscritos uncíais, de m uitos im portan tes m anuscritos cursivos e, em razão
disso, tem tudo para ser o orig inal. As dem ais opções, isto é, a locução sinônim a
τά õ p ia (as regiões), que aparece no tex to paralelo de Mt 15.39, e as va rian tes τα
όρη (os m ontes) e τό ορος (o m onte), carecem de um apoio m ais expressivo de
m anuscritos.
D alm anuta (que aparece em todos os m anuscritos uncíais, exceção feita a D) é
um lugar que não se sabe ao certo onde ficava. Sem saber o que fazer com essa pa-
lavra, que não aparece em nenhum outro lugar do NT, copistas a substitu íram por
Μαγεόά(ν) (M agadã) ou Μ αγόαλά (M agdala), que são leituras que aparecem no
texto paralelo de Mt 15.39. Q uanto a ten tativas de identificar D alm anuta, confira
Strange, “D alm anutha”.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO80
8 .1 5 Ή ρ ψ δο υ (de Herodes) {A}
A leitura των Ή ρ ω δ ια νώ ν (dos Herodianos), daqual já se tem registro nos
séculos terceiro e quarto é, com certeza, um a alteração que foi in troduzida por
influência de 3.6; 12.13.
8 .1 6 Segmentação
Uma vez que εχουσιν (têm) é um a form a verbal de terceira pessoa, δτι pode ser
visto como um a form a de apresen tar o assunto sobre o qual os discípulos estavam
conversando e a tradução poderá ser como esta: “Assim com eçaram a falar entre
si a respeito do fato de não terem pão” (REB). No entanto , é possível en tender δτι
como um a conjunção que in troduz um a frase que dá o motivo por que os discípu-
los com eçaram a conversar en tre si. Neste caso, a tradução de δτι será “porque”,
ou seja, “Assim com eçaram a falar en tre si porque não tinham pão”. Joel M arcus
(Mar/c 1— 8, p. 506—7) acrescenta as palavras “que ele havia dito isso”, para que o
contexto faça algum sentido: “E eles estavam discorrendo entre si que ele havia dito
isso porque eles não tinham pão”.
O textus receptus, em concordância com m uitos m anuscritos, traz a p rim eira
pessoa do plural έχομεν (temos). Caso se ado tar essa varian te , δτι passa a ser reci-
tativo (equivalente a dois pontos e aspas) e não tem tradução. Nesse caso, o texto é
traduzido por “Assim com eçaram a dizer uns aos outros: ‘Não tem os pão’”. Muitas
traduções m odernas apresen tam as palavras dos discípulos como um a citação dire-
ta. Provavelm ente, porém , isso se deve m ais a questões estilísticas da língua para a
qual se está traduzindo do que a um a preferência pela varian te textual.
8 .2 6 μηδέ εις την κώμην είσέλθης (nem m esm o en tres no povoado) {B}
Parece que as principais variantes textuais se desenvolveram na seguinte sequência:
(1) μηδέ εις την κώμην είσέλθης (nem m esm o en tres no povoado)
(2) μηδενί εϊπης εν τη κώμη (não fales com ninguém no povoado)
(3) μηδέ εις την κώμην είσέλθης μηδέ ειπης τινί εν τη κώμη
(não en tres no povoado nem m esm o fales com alguém no povoado)
(4) ύπαγε εις τον οΐκόν σου καί μηδενί εϊπης (vai para a tua casa
e não fales com ninguém )
(4a) καί + εάν εις την κώμην είσέλθης (e + se en trares no povoado)
(4b) εϊπης + εις την κώμην (fales + para den tro do povoado)
(4c) εϊπης + εν τη κώμη (fales + no povoado)
(4d) καί 4- μηδέ εις την κώμην είσέλθης μηδέ εϊπης τινί εν τη κώμη
(e + não entres no povoado nem fales com ninguém no povoado)
81O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
A leitura (1), que é apoiada por antigos representantes dos tipos de texto alexandri-
no, oriental e egipcio, parece ser a forma mais antiga do texto. A leitura (2) surgiu com
a intenção de esclarecer o significado de (1), e a leitura (3) é, certam ente, urna m istura
de (1) e (2). A leitura (4), que amplia o texto de (2) por meio de urna frase introdutória,
parece ter dado origem a várias outras alterações que se encontram em testem unhos
ocidentais bem como em outros testemunhos. A leitura adotada como texto parece
significar que o homem m orava fora do povoado e que Jesus lhe pediu que fosse direta-
mente para casa, sem entrar no povoado para contar às pessoas o que havia acontecido
(Hooker, The Gospel According to Saint Mark, p. 199).
8 .3 8 λόγους (palavras) {B}
Se λόγους não fosse original, fica difícil de explicar sua presença num a tão grande
variedade de diferentes tipos de texto. A leitura mais breve faz sentido (“qualquer que se
envergonhar de mim e dos meus [seguidores]״), mas λόγους tem tudo para ser original e
foi omitido acidentalmente, por causa do final semelhante das palavras έμούς e λόγους.
8 .3 8 μετά (com) {A}
A leitura que tem ο καί (e) em lugar de μετά parece ter surgido por descuido de
um copista, ou porque, de forma intencional, se tratou de harm onizar o texto com o
paralelo em Lc 9.26 (“quando vier na sua glória e na do Pai e dos santos anjos”).
9.10 Segmentação
Caso a locução προς έαυτοΰς (uns aos outros/entre si) for ligada ao que vem antes,
no v. 10, o significado é este: “Assim, eles guardaram [¿κράτησαν] o assunto entre si, per-
guntando o que seria esse ressuscitar dentre os mortos” (NRSV). O verbo ¿κράτησαν tem
o significado de “guardaram na mente”. Evans (Mark 8:27—16:20, p. 42) comenta: “Fica
implícito que não compartilharam isso nem mesmo com os outros discípulos”. Caso, po-
rém, se fizer o corte após προς εαυτους, estas palavras se ligam ao que segue e ¿κράτησαν
passa a significar “observaram” ou “obedeceram”. NBJ traduz: “Eles observaram a reco-
mendação perguntando-se o que significaria ‘ressuscitar dos mortos’”. NTLH traduz: “Eles
obedeceram à ordem, mas discutiram entre si sobre o que queria dizer essa ressurreição”.
9.14 έλθόντες ... είόον (chegando ... viram ) {B}
A leitura que tem as formas verbais no singular, a saber, έλθών ... εΐδεν, dá des-
taque a Jesus, ao passo que o plural requer que se faça distinção entre “eles” (ou seja,
Jesus, Pedro, Tiago e João, retornando do m onte da transfiguração) e “os discípulos”
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO82
(isto é, os outros nove que haviam ficado na planície). A leitura com os verbos no plu-
ral tem sólido apoio de m anuscritos. Além disso, é m ais provável que copistas dariam
um destaque m aior a Jesus e trocariam o plural pelo singular, para que Pedro, Tiago
e João não fossem excluídos do grupo cham ado de “os discípulos”. Visto que tam bém
Pedro, Tiago e João eram discípulos, talvez seja conveniente, em algum as línguas,
dizer “quando eles se aproxim aram dos outros discípulos”. Confira a NTLH: “Q uando
eles chegaram perto dos outros discípulos”.
9 .2 3 τό 81 δύνη (se podes) {B}
O artigo τό é um a indicação de que se tra ta de um a citação. Ao dizer “se podes”,
Jesus, atônito, ecoa as palavras daquele pai (Hooker, The Gospel According to Saint
M ark , ρ. 224). Jesus repete as palavras daquele pai, v isando a desafiar as pessoas:
2 2 “... se podes algum a coisa, tem pena de nós e ajuda-nos. 2 3 E Jesus lhe respon-
deu: ‘Se podes!’ (τό εί δύνη) Tudo é possível para quem tem fé”.
Alguns copistas, não entendendo que Jesus estava repetindo as palavras do pai
do m enino, inseriram um πιστεύσαι (crer) no texto, fazendo com que o sujeito do
verbo “poder” não seja m ais Jesus, e sim o pai do m enino. Ou seja, se faz referência
à capacidade do pai para crer. Disso resultou que aquele τό ficou m ais esquisito
ainda, levando à sua omissão, em m uitos m anuscritos.
9 .2 4 πα ιδ ιού (do m enino) {A}
Em m anuscritos m ais recentes, copistas e corretores inseriram a locução μετά
δακρύω ν (com lágrim as), para aum entar a dram aticidade da narra tiva . Caso essa
locução tivesse estado no texto, não há como explicar por que teria sido om itida.
9 .2 9 προσευχή (com oração) {A}
À luz da crescente ênfase dada ao jejum , na Igreja Antiga, é com preensível que
um copista tenha acrescentado ao texto, em form a de com entário, a locução καί
νηστεία (e com jejum ), que acabou por fazer parte do texto da m aioria dos testem u-
nhos. Entre aqueles que se opuseram a esse acréscim o estão im portantes represen-
tan tes dos tipos de texto alexandrino e ocidental.
9 .3 8 καί έκωλύομεν αυτόν, ότι ούκ ήκολούθει ήμΐν
(e nós lho proibim os, porque não estava nos seguindo) {B}
Em meio a m uitas variações de m enor im portância, aparecem três leituras prin-
cipais, que não chegam a afe tar a tradução do texto, pois são m ais diferenças de
83O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
estilo do que de significado: (1) ae nós lho proibim os, porque não estava nos seguin-
do”; (2) “que não estava nos seguindo, e lho proibim os”; e (3) “que não estava nos
seguindo, e nós lho proibim os, porque não estava nos seguindo”. Esta ú ltim a leitu ra
é um a com binação das duas prim eiras e pressupõe a existência daquelas.
Prefere-se a leitura (1) por dois motivos: (a) é apoiada pelos m elhores testem u-
nhos, e (b) porque, na segunda leitura,os copistas reescreveram o texto, fazendo
com que a locução “que não estava nos seguindo” aparecesse im ediatam ente após
“alguém que, em teu nome, expelia dem ônios” (um a alteração que exigiu, tam bém ,
que a conjunção oil [porque] fosse substitu ída pelo pronom e relativo ός [que].)
A leitura (2) tem o apoio de vários testem unhos ocidentais e, em função disso,
não surpreende que a NBJ tenha preferido esse texto (“que não nos segue ... e o
im pedim os porque não nos seguia”). Embora esta leitura inicie com um a cláusula
relativa (“que não nos segue”), o sentido é claram ente este: os discípulos o impedi-
ram , porque ele não os estava seguindo.
9.41 έν όνόματι ότι (com base no fato de que/porque) {A}
A expressão έν όνόματι ότι (literalm ente, “em nom e porque”), por m ais estra-
nha que seja, é perfeitam ente aceitável, em grego (veja BDAG, p. 714, § 3). Mas pa-
rece que alguns copistas estran h aram essa expressão, levando-os a alterá-la para έν
όνόματι μου (em m eu nome) ou έν τω όνόματι μου (em nom e de mim). Segundo a
leitura aceita como texto, alguém dá ao seguidor de Jesus um copo de água porque a
pessoa que está com sede pertence a Jesus. Segundo as varian tes textuais, a pessoa
que dá o copo de água faz isso em nom e de Jesus, ou seja, pelo respeito que a pessoa
que dá essa água tem pela pessoa de Jesus.
9.42 πιστευόντω ν [εις έμέ] (que creem [em mim]) {C}
A variante textual pode não ter m uita im portância para um tradutor pois, em
algum as línguas, o verbo “crer” precisa vir seguido por um objeto. Nesses casos, é
na tu ra l acrescentar “em m im ”, mesmo que não se aceite a variante como original. As
palavras εις έμέ têm sólido apoio de m anuscritos. Por outro lado, um a com binação de
im portantes testem unhos omite essa locução. Além disso, εις έμέ pode ter sido inse-
rido no texto de Marcos por influência do paralelo em Mt 18.6. Para indicar que não
se tem certeza quanto ao texto original, as palavras εις έμέ aparecem entre colchetes.
9 .4 4 omissão do versículo {A}
As palavras όπου ó σκώληξ ... ού σβέννυται, que não aparecem em im portantes
testem unhos antigos, foram acrescentadas por copistas a p a rtir do v. 48.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO84
9 .4 5 εις την γέενναν (no inferno) {A}
Influenciados pelo paralelo no v. 43, copistas foram estim ulados a acrescentar
diversos qualificativos ao texto, como ano fogo que não se apaga”. O texto tem ótimo
apoio de representantes dos tipos de texto alexandrino, ocidental, oriental, e egípcio.
9 .4 6 omissão do versículo {A}
Veja o com entário sobre o v. 44.
9 .4 9 πα ς γάρ πυρ ί άλισθήσεται (pois cada um será salgado com fogo) {B}
As palavras iniciais desse versículo foram transm itidas em três form as princi-
pais:
(1) πα ς γάρ πυρ ί άλισθήσεται (“pois cada um será salgado com fogo״);
(2) πάσα γάρ θυσία άλί άλισθήσεται (“pois cada sacrifício será salgado
com sal״); e
(3) πα ς γάρ πυρ ί άλισθήσεται καί πάσα θυσία άλί άλισθήσεται (“pois cada
um será salgado com fogo, e cada sacrifício será salgado com sal”).
A h isto ria do texto parece ser a seguinte: Num período bem rem oto, um co-
p ista viu em Lv 2.13 (“com todas as tuas ofertas oferecerás sal”) urna pista para a
com preensão dessa estran h a afirm ação de Jesus e anotou essa passagem do AT à
m argem de sua cópia de Marcos. Mais tarde, outros copistas substitu íram o texto
por esse com entário na m argem , criando a le itu ra (2), ou acrescentaram o comen-
tário m arg inal ao texto, criando a leitura (3). Entre as outras alterações estão as
seguintes: πυρ ί άναλωθήσεται (será consum ido pelo fogo), θυσία άναλωθήσεται
(sacrifício será consum ido), εν πυρ ί δοκιμασθήσεται (será testado pelo fogo), πάσα
δέ ουσία άναλω θήσεται (e toda substância [deles] será destruída).
Um com entarista bíblico escreveu que pelo m enos quinze diferentes in terpreta-
ções desse versículo já foram propostas. A explicação de Hooker (The Gospel Accor-
ding to Saint Mark, p. 233) teria am pla aceitação en tre os in térpretes. Ela afirm a
que, neste caso, o verbo “sa lgar” deveria ser entendido como “purificar”.
Parece que a chave para o uso que M arcos faz desse ditado neste contexto é o
paradoxo de ser “salvo pelo fogo” (1C0 3.15). Assim como o fogo, o sal é um agente
purificador (Ez 16.4; 43.24); pode, tam bém , trazer desolação e destruição (Jz 9.45;
Sf 2.9). Porém , d iferentem ente do fogo, o sal é um a fonte de vida (2Rs 2.19-22);
pode ser usado para ev itar que a com ida apodreça. Portanto , m esm o se tra tan d o de
urna m etáfora m ista, a noção de que hom ens podem ser salgados com fogo resum e
m uito bem a m ensagem dos vs. 43,45,47: o processo de purificação pode destruir,
m as pode tam bém preservar.
85O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
Mesmo que se adote a le itu ra que aparece como texto, não é recom endável fazer
um a tradução literal. Seria m elhor colocar na tradução o sentido provável desse
texto e, num a nota, explicar que não se tem certeza quanto ao sentido desse texto.
Confira a NTLH: “Pois todas as pessoas serão purificadas pelo fogo, assim como os
sacrifícios são purificados pelo sal”.
10.1 ficai] πέραν τού *Iopòávou ([e] além do Jordão) {C}
M orna Hooker descreve m uito bem a dificuldade ligada a esse versículo (The
Gospel According to Saint Mark, p. 235): “Jesus inicia sua viagem para o Sul, rum o
a Jerusalém , m as o roteiro dele não fica claro. Muitos judeus atravessavam o rio
Jordão e en travam na Pereia, para não terem que passar por Sam aria, m as a afir-
m ação de que Jesus foi para as regiões da Judeia e o outro lado do Jordão (ou seja,
a Pereia) inverte a ordem na tu ra l e isso, é claro, deixou os prim eiros copistas per-
plexos”.
A leitura διά του πέραν τού Τορόάνου (através da região do Jordão), que foi
seguida pelo textus receptus em concordância com vários uncíais e a m aioria dos
cursivos, é um a correção feita por um copista que não sabia o que fazer com as di-
ficuldades geográficas encontradas em leituras m ais antigas. O texto a lexandrino
traz καί πέραν, e os textos ocidental e antioqueno têm πέραν. A leitu ra πέραν tem
bom apoio de m anuscritos de vários tipos de texto, mas é possível que ο καί tenha
sido om itido para harm onizar o texto com o paralelo em Mt 19.1. Para indicar que
não se tem certeza quanto ao texto original, καί aparece, no texto, en tre colchetes.
Não se sabe com certeza o que significam essas d iferentes leituras. (1) Segundo
a leitura aceita como texto (“na região da Judeia e além do Jo rdão”), Jesus pode ter
ido prim eiram ente da Galileia para a Judeia e, tendo chegado à Judeia, atravessou
para a Pereia (Transjordânia), no lado leste do rio Jordão. Confira a NVI: “Então
Jesus saiu dali e foi para a região da Judeia e para o outro lado do Jo rdão”. Mas a
leitura no texto pode, tam bém , ser en tendida como se, em algum m om ento duran te
sua viagem iniciada na Galileia, Jesus tenha atravessado para a Pereia, no lado leste
do rio Jordão, e tenha en trado na Judeia a p a rtir do lado leste do rio. Em outras
palavras, não fica claro se Jesus passou pela Pereia enquanto estava a cam inho da
Judeia, ou se foi para a Pereia depois que tinha chegado à Judeia. (2) Segundo a lei-
tu ra πέραν (“o território da Judeia, além do Jo rdão”), Jesus pode ter ido da Galileia
para o lado leste do rio Jordão (a Transjordânia), sem ter ido à Judeia como tal. Ou,
o significado pode ser o seguinte: ele foi rum o ao Sul pelo lado leste do rio Jordão
e então en trou na Judeia. (3) Segundo a leitura que aparece no textus receptus (“na
região da Judeia através da região do Jo rdão”), Jesus foi da Galileia para a Judeia,
dirigindo-se ao Sul através da Pereia, no lado leste do Jordão (e não passou por
Sam aria, indo rum o aoSul).
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO86
1 0 .2 καί προσελθόντες Φ αρισαίοι (e fariseus tendo chegado/aproxim ando־se) {B}
O principal problema apresentado pelas variantes tem a ver com a presença ou
ausência das palavras προσελθόντες (oi) Φαρισαίοι. Será que o texto original (apoiado
principalm ente pelo tipo de texto ocidental) trazia apenas o verbo έπηρώτων, um a
forma impessoal da terceira pessoa do plural (“as pessoas lhe perguntaram ” ou “foi-lhe
perguntado”), e a referência aos fariseus foi acrescentada em muitos testem unhos por
influência da passagem paralela em Mt 19.3? Tal explicação faz sentido, mas o paralelo
em Mateus não é totalm ente paralelo (προσήλθον αύτω Φαρισαίοι [fariseus vieram
até ele]), e a leitura mais longa tem amplo e impressionante apoio de manuscritos.
Das traduções m odernas, a REB segue a leitura mais breve: “Perguntaram -lhe: Έ
lícito um hom em divorciar-se da sua m ulher’”? Entre os m anuscritos que têm o texto
m ais longo, alguns trazem o artigo definido oí diante do substantivo Φ αρισαίοι, mas
a leitura sem o artigo tem os m elhores m anuscritos do seu lado. Sem o artigo, o sig-
nificado é “alguns fariseus” (ARA, NTLH, NBJ, NVI).
10.6 αυτούς (os/a eles) {B}
Alguns testem unhos omitem o pronom e αυτούς, que é o objeto direto, por julgá-lo
desnecessário, mas os m anuscritos favorecem a sua presença no texto. Muitos ma-
nuscritos contêm o sujeito ό θεός (Deus) para o verbo έποίηοεν (fez), mas ό θεός foi,
provavelmente, acrescentado por copistas que queriam evitar um m al-entendido, ou
seja, que leitores pensassem que o sujeito de έποίηοεν era Moisés, m encionado no v. 4.
Caso, na língua alvo, não fique claro quem é o sujeito do verbo “fez”, o tradutor
deveria acrescentar a palavra “Deus”, mesmo que se aceite como original o texto que
aparece em O Novo Testam ento Grego. Confira a NTLH: “Deus os fez hom em e m ulher”.
1 0 .7 μητέρα [και προσκολληθήσεται προς την γυναίκα αύτοΰ]
(mãe [e se un irá com a sua m ulher]) {C}
Será que as palavras καί προσκολληθήσεται προς την γυναίκα αύτού foram
acrescentadas na m aioria dos m anuscritos, para fazer a citação concordar com a for-
m a m ais longa que aparece em Mt 19.5 (e Gn 2.24)? Essas palavras não aparecem
em bons m anuscritos do tipo de texto alexandrino. Ou será que foram om itidas sem
querer, quando um copista passou do καί que abre essa frase ao καί que aparece no
início do v. 8? Parece que essas palavras são necessárias, pois, do contrário, οι δύο
(os dois), no v. 8, podería ser entendido como um a referência ao pai e à mãe! Como
existem argum entos para os dois lados, essas palavras fazem parte do texto, só que
aparecem entre colchetes. A NBJ prefere o texto m ais breve: “7 Por isso 0 hom em
deixará 0 seu p a i e a sua m ãe , 8 e os dois serão u m a só carne”. Dentro da leitura mais
87O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
longa, προς την γυναίκα é preferível a τη γυναΐκι, que é, claram ente, um a correção
para m elhorar o estilo. O significado destas duas leituras é o mesmo.
10.13 oí όέ μαθηταί έπετίμησαν αύτοίς (e os discípulos os repreenderam ) {A}
As variantes podem não ter m aior im portância para a tradução do texto, pois é pos-
sível que o tradutor prefira usar um substantivo em lugar de um pronome, caso o pro-
nome resultar ambíguo. Confira a NTLH: “algum as pessoas levaram as suas crianças
a Jesus para que ele as abençoasse, mas os discípulos repreenderam aquelas pessoas”.
O pronom e αύτοις poderia ser entendido como um a referência às próprias crian-
ças, e não aos adultos que as levaram a Jesus. Para evitar qualquer am biguidade
quanto ao alvo da repreensão dos discípulos, alguns copistas substituíram o pronom e
αύτοις (os/a eles) por τοΐς προσφέρουσιν (aqueles que estavam apresentando) ou
τοΐς φέρουσιν (aqueles que estavam trazendo). A leitura aceita como texto tem exce-
lente apoio de m anuscritos. Além disso, os textos paralelos em Mt 19.13 e Lc 18.15,
que têm o pronom e “os”, dão a entender que Mateus e Lucas encontraram no texto de
Marcos o pronom e αύτοις, ao escreverem os seus Evangelhos.
10.19 μή άποστερήσης (não defraudarás/enganarás) {A}
O m andam ento “não defraudarás” traz à m em ória o texto de Êx 20.17 ou Dt 24.14,
segundo a fraseologia encontrada em alguns m anuscritos da Septuaginta. Porém,
muitos copistas devem ter entendido que esse m andam ento não deveria aparecer
num a lista que traz vários dos Dez M andam entos, e optaram por omiti-lo. Mateus
(19.18) e Lucas (18.20) fizeram o mesmo, ao seguirem o texto de Marcos, na compo-
sição de seus Evangelhos.
10.21 δεύρο άκολούθει μοι (vem, segue-me) {A}
O textus receptus, a exemplo de muitos m anuscritos cursivos, acrescenta αρας
τον σταυρόν (toma a tua cruz), tirado de 8.34. O texto m ais breve tem excelente
apoio de m anuscritos. Além disso, a ausência das palavras αρας τον σταυρόν nos
relatos paralelos de Mt 19.21 e Lc 18.22 dá a en tender que essas palavras, original-
m ente, não faziam parte do texto de Marcos.
10.24 έστιν (é) {B}
Copistas tra taram de abrandar o rigor das palavras de Jesus a respeito de quão
difícil é en tra r no reino de Deus, inserindo várias qualificações que restring iram
sua aplicação em term os tão amplos e ligaram essas palavras m ais d iretam ente ao
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO8 8
contexto. Assim, em alguns m anuscritos se encontra τούς πεπο ιθότας επί χρήμασιν
(os que confiam em riquezas), em outros se lê πλούσιον (um rico), e um m anuscrito
cursivo traz oi τά χρήματα έ /ρντες (os que têm posses).
10.25 κάμηλον (camelo) {A}
Veja o com entário sobre Mt 19.24.
10.26 προς εαυτούς (uns aos ou tros/en tre si) {B}
A leitura προς αυτόν (a ele) parece ser um a correção alexandrina de έαυτούς, que
tem do seu lado um bom apoio de m anuscritos. Uns poucos m anuscritos trocaram o
pronom e reflexivo έαυτούς pelo recíproco άλλήλους (uns aos outros). Alguns outros
m anuscritos não têm pronom e nenhum , mas é possível que copistas tenham omitido
o pronom e para harm onizar o texto com os paralelos em Mt 19.25 e Lc 18.26, onde
não aparece nenhum pronom e. A RSV traduziu a varian te “a ele”, m as a m aioria das
traduções m odernas segue a leitura que aparece como texto em O Novo Testamento
Grego.
10.31 [01] ([os]) {C}
Esta varian te não tem m aior im portância para tradu to res do NT, pois u sar ou
não usar o artigo vai depender das características e exigências da língua para a
qual se está traduzindo. De um lado, o peso dos m anuscritos favorece a om issão
do artigo definido oi. Mas, por outro lado, é possível que copistas tenham om itido
o artigo, neste caso para harm onizar o texto com o paralelo em Mt 19.30, onde o
artigo não aparece.
10.34 μετά τρεις ημέρας (depois de três dias) {A}
A locução μετά τρεις ημέρας é típica de Marcos, ocorrendo tam bém em Mc 8.31
e Mc 9.31. Afora isso, aparece, em referência à ressurreição de Jesus, apenas em Mt
27.63. Copistas trocaram essa locução por τή τρίτη ημέρα (ao terceiro dia), que é
um a expressão m uito m ais frequen te no NT. Confira os paralelos em Mt 20.19 e
Lc 18.33, onde aparece τή τρίτη ημέρα.
Se as locuções μετά τρεις ήμέρας e τή τρίτη ημέρα têm ο m esm o significado,
é um assunto que divide as opiniões dos estudiosos. Caso μετά τρεις ήμέρας sig-
nifique “no terceiro dia depois deste”, ou seja, “o dia depois de am anhã”, as duas
locuções são sinônim as e podem ter a m esm a tradução (veja Taylor, The Gospel
According to St. Mark, p. 378, para evidências de que as duas locuções têm o m esmo
8 9O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
significado). Caso, porém , a locução “depois de três d ias”, em M arcos, signifique
“no quarto d ia”, então o texto de M arcos não deveria ser traduzido de form a idénti-
ca aos paralelos em M ateus e Lucas.10.36 τι θέλετε [με] ποιήσω (que quereis que [eu] faça) {C}
As variantes, neste caso, não afetam a tradução, pois são m eras diferenças es-
tilísticas: τί θέλετε με ποιήσαι (que quereis que eu faça?) e τί θέλετε ποιήσω (que
quereis que faça?). A leitu ra que m elhor explica a origem das varian tes é aquela que
aparece como texto, em que o pronom e acusativo με é seguido de um subjuntivo de-
liberativo, e não do infinitivo ποιήσαι, como seria de se esperar. Na verdade, m uitos
m anuscritos m ais recentes trazem o infinitivo em lugar do subjuntivo. É possível
que, neste caso, copistas tenham sido levados a fazer alterações por causa de um a
pergun ta sem elhante no v. 51.
10.40 άλλ' οις (mas para aqueles/m as para os quais) {A}
Várias das versões antigas in te rp re ta ram o grego aaaoic como sendo urna só
palavra αλλοις (a outros). A leitu ra aceita como texto significa que Jesus não tem o
direito de conceder lugares de honra (a ninguém ); é Deus quem vai dar esses luga-
res àquelas pessoas para as quais ele os preparou. Na Igreja Antiga, alguns cristãos
se apegaram a esse texto para defender a ideia de que, por conseguinte, Jesus es-
tava subordinado a Deus e não era igual a Deus. A alteração para αλλοις pode ter
sido intencional, para rejeitar tal noção a respeito de Cristo, pois a varian te tex tual
significa: “Não com pete a m im conceder (a vós, os discípulos) m as (compete a m im
conceder) a outros [αλλοις], para os quais foi p reparado”.
10.40 ήτοίμασται (está preparado) {A}
Esta varian te pode não ter m aior significado para tradutores, pois, em m uitas
línguas, o agente do verbo ήτοίμασται será explicitado, independentem ente do tex-
to que se está seguindo. Confira a NTLH: “Pois foi Deus quem preparou esses luga-
res e ele os dará a quem quiser”. A presença da locução υπό (ou παρά) του πατρός
μου (por m eu Pai) em vários testem unhos, alguns deles antigos, é um a inserção
feita a p a rtir do paralelo em Mt 20.23.
10.43 έστιν (é) {A}
A parentem ente, um copista colocou a form a do fu turo έσται (será) em lugar do
presente, para ab randar um pouco o tom das palavras de Jesus. Essa leitu ra com
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO90
o verbo no fu turo tem o apoio de vários uncíais e da m aioria dos m inúsculos. A
form a com o fu turo pode tam bém ter surgido por influência de εσται, que aparece
na linha seguinte.
O presente pode ser entendido como um presente que constata um fato, e não
como um a ordem ou um a afirm ação com respeito ao futuro. Em outras palavras,
“não é assim que é en tre vós”. Por outro lado, alguns verbos gregos, inclusive o ver-
bo “ser”, podem ser usados no tem po presente com um a referência a ação fu tura.
Q uando form as do presente e do fu turo aparecem em sequência, como neste versí-
culo, a form a do presente dá m ais ênfase ou expressa m aior grau de certeza do que
o verbo no tem po futuro . Isto significa que a d iferença en tre έστιν e εσται pode ser
de ênfase, não de tem po.
1 1 .3 αυτόν άποστέλλει πάλιν (o m anda ou tra vez/o m anda de volta) {B}
O tem po fu turo άποστελεΐ (m andará), que é m ais b rando do que o presente
αποστέλλει, parece ser um a correção feita por copista. A varian te m ais significativa
diz respeito à presença ou ausência do advérbio πάλιν (novam ente, ou tra vez). A
leitu ra sem ο πάλιν precisa ser en tend ida no sentido de que a pessoa que recebe o
recado de Jesus a tendería aquele pedido, m andando im ediatam ente o jum en tinho
até Jesus (Hooker, The Gospel According to Saint M ark , ρ. 259). É possível argu-
m en tar que o advérbio não é original, m as foi acrescentado por copistas que se
p reocuparam com o que seria do anim al. Iria Jesus m andá-lo de volta? Mas, urna
vez que copistas não acrescen taram πάλιν no paralelo em Mt 21.3, é provável que o
próprio Marcos, e não copistas posteriores, tenha escrito πάλιν. Além disso, m anus-
critos tan to do tipo de texto alexandrino quanto do tipo de texto ocidental apoiam
a leitu ra m ais longa, com o advérbio.
A m aioria das traduções entende todo esse texto, a saber, “O Senhor precisa
dele e ele (= Jesus) logo o m andará de volta para aqui”, como a m ensagem que os
dois discípulos deveríam transm itir ao dono do jum entinho . No entan to , tam bém é
possível traduzir assim: “Dizei: Ό Senhor precisa dele’. E ele (= o dono) im ediata-
m ente o m andará de volta para cá” (Seg). Veja o com entário sobre a segm entação
do versículo paralelo de Mt 21.3.
1 1 .1 9 έξεπορεύοντο έξω τής πόλεω ς (saíram da cidade) {C}
Em bora exista a possibilidade de o verbo no singular έξεπορεύετο (ele saiu)
ser original, tendo sido trocado pelo plural, para concordar com o participio plural
παραπορευόμ ενο ι e o verbo plural εΐδον do versículo seguinte, o peso da evidência
tende a apoiar a form a do plural. A om issão do verbo no Códice L é resultado de
um erro de cópia.
91O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
A NBJ adota a varian te textual: “Ao entardecer, ele se dirigiu para fora da ci-
dade”. Caso se preferir a le itu ra que aparece como texto, talvez seja m elhor d izer
“Jesus e os discípulos sa íram ” (NTLH), e não sim plesm ente “eles sa íram ”, pois, do
contrário , os leitores poderíam pensar que “eles” se refere aos principais sacerdotes
e escribas, m encionados no v. 18.
11.22 'Έχετε π ίστιν (Tende fé) {B}
A leitu ra aceita como texto é um a exortação a que os discípulos tenham fé em
Deus. Alguns m anuscritos, todavia, trazem εί εχετε πίστιν. Essa varian te pode ser
en tendida como um a condicional, ou seja, “se tendes fé”. Ou, εί pode ser entendido
como partícu la in terrogativa que in troduz um a pergunta , a saber, “Tendes fé?” A
leitu ra εί εχετε π ίστιν exige que as palavras que seguem no v. 23, “em verdade vos
afirm o”, form em a oração principal dessa construção (“se tendes fé em Deus, então
em verdade eu vos afirm o”). No entanto , em outras passagens dos Evangelhos, as
palavras άμήν λεγιο νμΐν sem pre aparecem no início de um a frase e não são pre-
cedidas por um a oração condicional. E provável que essa varian te ten h a surgido
quando um copista alterou o texto, fazendo-o concordar com as palavras de Jesus
em Lc 17.6: “Se tiverdes fé como um grão de m ostarda” (veja tam bém Mt 21.21).
11.24 έλάβετε (recebestes) {A}
Neste caso, as variantes podem não ter m aior im portância para tradutores, pois
as d iferentes form as verbais não expressam necessariam ente diferenças de signi-
ficado. O tem po aoristo (“passado”) έλάβετε rep resen ta o uso sem ítico do perfeito
profético. (Este perfeito profético expressa a certeza de um a ação fu tura. Em outras
palavras, no AT os profetas às vezes se referiam a eventos futuros com tan ta certe-
za, que falavam deles como se já tivessem acontecido.) Copistas a lteraram o texto
para o tem po presente λαμβάνετε (recebeis), ou, influenciados pelo paralelo em
Mt 21.22, para o tem po fu turo λήμψεσθε (recebereis). Em algum as línguas, caso o
aoristo έλάβετε for traduzido por um verbo no pretérito perfeito, talvez não fique
claro o sentido do perfeito profético. Portanto, a m elhor opção talvez seja usar o
futuro , como em "crede que o recebereis”.
11.26 omissão do versículo {A}
A ausência desse versículo em testem unhos antigos que represen tam todos os
tipos de texto indica que existe g rande probabilidade de que essas palavras foram
inseridas por copistas a p a rtir do texto de Mt 6.15. É m enos provável a hipótese de
que as palavras do v. 26 sejam parte do texto original, m as foram acidentalm ente
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO92
om itidas porque um copista passou, sem querer, das palavras τά πα ραπτώ μ ατα
υμών, que aparecem ao final do v. 25, para as m esm as palavras ao finaldo v. 26,
om itindo, assim , o conteúdo do v. 26.
1 2 .2 3 έν τη άναστάσει [όταν άναστώσιν]
(na ressurreição [quando eles ressuscitarem ]) {C}
As variantes, neste caso, têm pouca im portância para tradutores, pois são m ais
diferenças de estilo do que de significado. O uso de palavras que, a rigor, são des-
necessárias faz parte do estilo de Marcos, m as copistas, provavelm ente por não se
darem conta deste detalhe, om itiram όταν άναστώσιν (quando eles ressuscitarem ),
por ju lgarem isso um acréscim o desnecessário (M ateus e Lucas tam bém om itiram
essas palavras ao fazerem uso de M arcos, provavelm ente pela m esm a razão.) Vis-
to que é difícil im aginar que um copista tenha pensado ser necessário fazer um
com entário a respeito da locução έν τη άναστάσει, as palavras όταν άναστώσιν
podem m uito bem ser originais. Todavia, um a vez que os testem unhos que om item
essas palavras são, em geral, testem unhos confiáveis no que diz respeito ao texto
original, as palavras όταν άναστώσιν aparecem , no texto, en tre colchetes, para
indicar incerteza quanto ao texto original.
Para indicar com m ais clareza que o v. 23 constitu i o cerne da questão, copistas
inseriram οΰν (portanto) em diferentes lugares, em vários testem unhos.
Q ualquer que seja a opção dos tradu tores, o texto m ais longo, com όταν
άναστώσιν, ou o texto m ais breve, sem esta locução, um a tradução literal do texto
pode não ser a m elhor opção. Na verdade, tan to o texto como a varian te podem re-
su ltar na m esm a tradução. Confira a NTLH: ano dia da ressurreição, quando todos
os m ortos to rnarem a viver, de qual dos sete a m ulher vai ser esposa?” Q uanto à
conjunção οΰν, tradu to res têm que usar conjunções de acordo com as necessidades
da língua alvo, sem levar em consideração as discussões em torno do texto original.
1 2 .2 6 [ó] θεός ... [ό] θεός ([o] Deus ... [o] Deus) {C}
As varian tes não têm im portância nenhum a para tradutores, pois o uso ou não
do artigo definido com o substantivo “D eus” depende das características da língua
para a qual se está traduzindo. France (The Gospel o f Mark, p. 470) tem razão, ao
d izer que “a questão é m ais de ordem estilística do que exegética”. Quase todos os
testem unhos têm o artigo o d iante das três vezes em que ocorre o substantivo θεός
nesta citação de Êx 3.6. Alguns poucos, en tre tan to , om item o artigo na segunda
e terceira ocorrência, e a com binação desses testem unhos dá considerável apoio
à hipótese de que o texto m ais breve é original. Para indicar que existem dúvidas
quanto ao texto original, o artigo aparece duas vezes, no texto, en tre colchetes.
93O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
12 .3 4 [αυτόν] ([o/a ele]) {C}
Esta varian te não tem m aior significado para tradu to res, pois na m aioria das
línguas a form a do grego não será seguida lite ra lm en te . Partindo-se do pressu-
posto de que o pronom e αυτόν é o rig inal, não é de su rp reen d er que m uitos co-
p istas o ten h am om itido, por razões de estilo. O pronom e in terrom pe a sequência
do texto. Em vez de d izer aJesus, vendo que ele havia respondido sab iam en te”, o
tex to diz uJesus, vendo־o, que ele havia respondido sab iam en te”. Por ou tro lado,
é notável o peso dos m anuscritos que apoiam a om issão do pronom e. Para ind icar
incerteza quanto ao que o rig inalm ente constava no texto , o pronom e aparece
en tre colchetes.
1 2.36 ύποκάτω (debaixo) {C}
A citação no v. 36 vem de SI 110.1, conform e o texto da Septuaginta (na LXX,
nosso SI 110 é SI 109), onde se lê: ύ π ο πόδ ιον των ποδώ ν σου (como um estrado
para os teus pés). O fato de tam bém Mt 22.44 ter υποκάτω, e não ύποπόδιον, dá
a en tender que M ateus tenha seguido um texto de M arcos que traz ia a palavra
υποκάτω . Uma vez que citações desse Salmo em Lc 20.43 e At 2.35 têm o substan-
tivo ύποπόδιον, a tendência dos copistas teria sido a ltera r o texto de M arcos p ara
harm onizá-lo com a form ulação encontrada na Septuaginta. ARC segue a varian te
textual: “até que eu ponha os teus inim igos por escabelo dos teus pés” (o m esm o na
New Jerusalem Bible).
12.41 καθίσας κατέναντι τού γαζοψυλακίου
(tendo-se assentado diante da caixa de ofertas) {B}
A m aioria das varian tes não tem significado m aior para a tradução. A leitu ra que
m elhor explica a origem das dem ais é aquela que aparece como texto. A probabili-
dade de copistas inserirem ó ‘Ιησούς (Jesus), para explicitar o sujeito do participio
καθίσας (tendo-se assentado) e do verbo έθεώρει (observava), é m aior do que a
probabilidade de om itirem essa locução. Em outras passagens, M arcos em prega
κατέναντι (11.2; 13.3), m as nunca άπέναντι (defronte de /peran te).
Tradutores que iniciam um a nova seção no v. 41 fariam bem em inserir o nom e
“Jesus” por questão de clareza, qualquer que seja o texto original. As palavras
κατέναντι e άπέναντι são sinônim as e podem ter a m esm a tradução na língua alvo.
A variante que faz diferença na tradução é o participio έστώς (parado ou de pé),
que tom a o lugar de καθίσας em vários m anuscritos. Ao que parece, alguns copistas
en tenderam que seria m ais apropriado que Jesus estivesse parado no Templo, em
vez de sentado, mas essa le itu ra tem apoio lim itado de m anuscritos.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO94
1 3 .2 ώδε λίθος επί λίθον (aqui pedra sobre pedra) {B}
Essas varian tes têm pouca im portânc ia para a tradução . A le itu ra aceita como
texto tem sólido apoio de m anuscritos. A varian te λίθος επί λίθίο (pedra sobre pe-
dra) não passa de variação estilística que não afeta o significado e provavelm ente
reflita um a influência de Lc 21.6. A varian te que não traz o advérbio ώδε (aqui)
tem o m esm o significado do texto, que tem o advérbio.
1 3 .8 έσονται λιμοί (haverá fomes) {B}
É possível que as pa lavras m i τα ρ α /α ί (e tum ultos) sejam orig inais e que um
copista ac iden talm en te as ten h a om itido, por causa da sem elhança com a palavra
άρχή (princípio), que vem logo a seguir. Mais provável, porém , é que o tex to m ais
longo seja exem plo de um texto em expansão, aum en tado de d iferen tes form as
pelos copistas. A lguns m anuscritos têm λιμοί καί λοιμοί και ταραχα ί (fomes e
epidem ias e tum ultos), provavelm ente por in fluência de Lc 21.11.
1 3 .9 Segmentação
Caso se fizer um corte ou um a pausa após εις σ υ νέδρ ια , o sen tido será o
segu in te : “po rque vos e n tre g a rã o aos tr ib u n a is [εις συνέδρ ια ]; e sereis açoi-
tados nas [εις] sinagogas; e co m parecere is p e ra n te governado res e reis, po r
m in h a causa, p a ra lhes se rv ir de te s te m u n h o ”. É possível, tam bém , fazer um
corte depois de εις συναγιογάς, e não depois de εις σ υ νέδρ ια , de so rte que
as duas locuções vão com o verbo π α ρ α δ ώ σ ο υ σ ιν (en treg arão ). N este caso, o
sen tido passa a ser: “Vos en tre g a rã o aos tr ib u n a is e às [εις] sinagogas, sereis
m oídos de pan cad as, com parecere is p e ra n te governado res e reis po r m in h a
causa: n isso eles te rão um te s te m u n h o ” (TEB) (veja a d iscussão em Evans,
M ark 8:27— 16:20 , p. 309).
Caso se fizer um corte ao final do v. 9, depois de εις μ α ρ τυρ ιον α ύ το ΐς (como
um tes tem unho a eles), o v. 10 dá início a um a nova sentença: “E prim eiro é ne-
cessário que a todas as nações [τά έθνη] o evangelho seja p roc lam ado”. A lguns
testem unhos antigos, todav ia, fazem um a pausa den tro do v. 10, depois de καί
εις π ά ντα τα έθνη (e a todas as nações), e não depois das palav ras εις μ α ρτυρ ιον
α ύτο ΐς , no final do v. 9. A m aioria desses m anuscritos tam bém traz δε δει (mas
é necessário) depois de π ρ ώ το ν (prim eiro). Caso se ado tasse esta segm entaçãoa lte rna tiva , o sentido p assa ria a ser o seguin te: “9 ... com parecereis p e ran te go-
vernadores e reis por m inha causa, como um testem unho aos judeus [αύτοΐς] 10
e aos gentios [καί εις π ά ντα τά έθνη]. Mas prim eiro é necessário [πρώ τον δέ δει]
que ο evangelho seja p roc lam ado” (veja a discussão em Evans, p. 310).
95O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
13.33 άγρυπνειτε (vigiai) {B}
A inserção das palavras καί προσεύχεσθε (e orai) é o tipo de acréscim o que
m uitos copistas provavelm ente fariam sem que um estivesse dependendo do ou-
tro, em parte , talvez, por influência de 14.38. Se essas palavras tivessem constado
orig inalm ente no texto, fica difícil explicar sua om issão no testem unho com binado
de vários m anuscritos que rep resen tam os tipos de texto a lexandrino e ocidental.
14.5 επάνω (acima de/sobre) {A}
Aqui, o advérbio έπάνεο é usado de form a coloquial, em referência ao núm ero
300, ou seja, “Pois este perfum e poderia ser vendido por acim a de (= m ais de) tre-
zentos denários”. Possivelm ente alguns copistas teriam om itido o advérbio porque
tinham objeções a esse uso coloquial. Ou, talvez, om itiram -no porque foram influen-
ciados pelo relato paralelo em Jo 12.5, onde o advérbio não é usado. É m uito forte
o apoio que os m anuscritos dão ao texto m ais longo, isto é, ao texto com o advérbio.
14.24 τής διαθήκης (da aliança) {A}
A leitura que aparece como texto tem considerável apoio de m anuscritos. Se
καινής (nova) fosse original, não há como explicar por que teria sido om itido. É
m uito m ais provável que um copista tenha acrescentado a palavra καινής por in-
fluência do relato paralelo em Lc 22.20; 1C0 11.25. Ao se traduzir, talvez seja bom
explicitar que se tra ta da aliança de Deus. Confira a BN (o sangue da a liança de
Deus) e a NTLH (o sangue que garante a aliança feita por Deus). A Bíblia da CNBB,
que segue a Nova Vulgata, traduz a variante: “o m eu sangue da nova A liança”.
14.25 ούκετι ον μή πύο (não m ais beberei) {C}
A ausência de ούκετι (não mais) em bom núm ero de m anuscritos é, provável-
m ente, fruto da ação de um copista que om itiu essa palavra para harm onizar o
texto com a passagem paralela de Mt 26.29, que não tem esse ούκετι. O uso do
verbo προστιθεναι (acrescentar) com o infinitivo πειν ou π ιεΐν (beber) em alguns
m anuscritos reflete influência sem ítica ou hebraica, em que se usa o verbo “acres-
cen tar” para expressar a ideia de “outra vez”. Essa expressão sem ítica constitui um a
diferença form al que não altera o significado.
14.30 ή όίς ¿λέκτορα μιονήσαι (antes que o galo cante duas vezes) {C}
Alguns copistas m udaram a posição da palavra όίς (duas vezes), colocando-a
após o infinitivo μιονήσαι, mas isso é um a simples diferença estilística que não vai
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO96
se refle tir na m aioria das traduções. Outros copistas om itiram òíç por completo, pro-
vavelm ente influenciados pelos relatos paralelos em Mt 26.34; Lc 22.34; Jo 13.36.
1 4 .3 8 Segm en tação
Caso for ado tada a segm entação que aparece no texto de O Novo T estam ento
Grego, o sentido é o que aparece na m aioria das traduções: “Vigiai e orai, para que
não sejais ten tados”. Caso, porém , se fizer um corte após γρηγορειτε (vigiai), ocorre
um a leve m udança de sentido, pois as palavras “para que não sejais ten tados” se
ligam m ais d iretam ente ao segundo verbo. A REB traduz assim: “Estejam atentos,
todos vocês; e orem para que vocês não sejam subm etidos ao tes te”. Nessa m aneira
de en tender o texto, a conjunção iva não expressa propósito, mas indica o conteúdo
da oração (= orem , pedindo que não sejam tentados).
1 4 .3 9 τον αύτόν λόγον είπώ ν (a(s) mesma(s) palavra(s) dizendo) {A}
Tudo indica que um copista acidentalm ente om itiu essas palavras. Talvez for-
m assem um a “linha de significado” num antigo ancestral do Códice de B e z a r Me-
nos provável é a hipótese de que um copista tenha acrescentado essas palavras
que, depois, en tra ram em todos os tipos de texto, com exceção do ocidental. A REB
adota o texto m ais breve: “Mais um a vez ele se afastou e orou”. A presença dessas
palavras “enfatiza a intensidade do conflito de Jesus” (Hooker, The Gospel Accor-
d in g to S a in t M ark , p. 349).
1 4 .4 1 Segm en tação
As palavras de Jesus aos discípulos, Καθευδετε το λο ιπόν και άναπαυεσθε (ain-
da [το λοιπόν] estais dorm indo e descansando), podem ser en tendidas como um a
exclam ação ou afirm ação (ARA, Seg), um a ordem (TEB, NBJ), ou um a pergun ta
(NRSV, NTLH, BN, NVI). Em tom afirm ativo, as palavras de Jesus podem ser en-
tendidas como um a acusação. Como pergun ta , podem revelar sua decepção. Se
entendidas como um a ordem , essas palavras são, em geral, vistas como irônicas
ou expressando irritação e contrariedade. Tam bém é possível en tender as palavras
de Jesus como autorização a que os discípulos durm am , pois ele term inou de orar
2 Textos eram, por vezes, divididos em linhas significativas de locuções ou frases, para ajudar o leitor a dar
a entonação correta e fazer as pausas no lugar adequado. Todos os livros do NT, com exceção do Apoca-
lipse, eram, por vezes, copiados na forma de linhas de significado. O Códice de Beza (quinto século) é o
mais antigo manuscrito do NT que traz o texto disposto na forma de linhas de significado. Veja Metzger,
Manuscripts of the Greek Bible: An Introduction to Paleaeography, p. 39-40; e Metzger, The Text of the New
Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration, p. 29-30.
97O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
e não m ais precisa que vigiem com ele. Neste caso, porém , as palavras seguintes,
“levantai-vos, vam os!”, parecem não se encaixar m uito bem (é o que constata Fran-
ce, The G ospel o f M a rk , p. 588). A TEB, por exemplo, traduz assim: “Continuai a
dorm ir e descansai! Acabou-se”. Veja tam bém Evans, M a rk 8 :2 7 — 16:20 , p. 416; e o
com entário sobre Mt 26.45.
14.41 απέχει* ήλθεν ή copa (Basta! Chegou a hora) {B}
A dificuldade de in terpretação do uso im pessoal do verbo άπέχει neste con-
texto fez com que copistas introduzissem um a série de alterações. Talvez influen-
ciados por Lc 22.37, vários testem unhos, especialm ente ocidentais, acrescentaram
το τέλος depois de απέχει (significando, talvez, “o fim definitivam ente chegou”).
A lguns testem unhos om item άπέχει. Existem m uitas incertezas quanto à tradução
de απέχει. Pode significar “basta!” (ARA, NTLH, NRSV, NVI, REB), referindo-se ao
sono dos discípulos. Tam bém pode significar “já chega”, referindo-se à censura que
Jesus dirigiu aos discípulos em form a de pergunta . Para um a discussão m ais apro-
fundada a respeito dos possíveis significados de άπέχει, veja Evans, M a rk 8 :2 7 —
16:20 , p. 407, n. k, e pp. 416-17; tam bém France, The G ospel o f M a rk , pp. 5 8 8 5 8 9 ־.
14.48 S eg m en ta çã o
As palavras de Jesus podem ser vistas como um a pergunta , a exem plo do texto,
ou, então, como um a afirm ação. A TEB, por exemplo, traduz isso por um a excla-
m ação (“saístes ... para apoderar-vos de m im !”). Se o texto grego é in terpretado
como um a pergunta , deveria ser vista como pergun ta retórica. Q ualquer que seja a
solução, se afirm ação ou pergunta , as palavras de Jesus são um protesto contra a
m aneira como estava sendo preso. Veja o com entário sobre Mt 26.55.
14.64 S eg m en ta çã o
As palavras ήκονσατε τής βλασφημίας (ouvistes a blasfêm ia) podem ser inter-
pretadas como um a afirm ação, a exemplo do texto, ou como um a pergun ta (WH).
Tanto a frase an terio r como a que segue esse texto são perguntas. Mesmo que o
texto grego seja entendido como um a pergunta , será com certeza um a pergun ta
retórica, que em m uitas línguas precisa ser traduzida como um a afirm ação.14.65 αντώ (nele) {A}
Em vez de dizer que alguns cuspiram nele (αντώ), vários testem unhos dos tipos
de tex to o c id en ta l e o rien ta l, c e rta m e n te in flu en c iad o s pelo re la to p a ra le lo em
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO98
Mt 26.67, substitu íram o pronom e αύτφ por αυτόν τώ προσώπου (no rosto dele).
Veja tam bém a nota sobre a varian te seguinte.
14.65 προερήτευσον (Profetiza!) {B}
A leitura aceita como texto é apoiada pelo texto alexandrino e por várias tradu-
ções antigas, e é a que m elhor explica o surgim ento das variantes. O texto mais longo,
incluindo a pergunta τις έστιν ó παισας σε (quem é que te bateu?), parece um a adição
com o propósito de harm onizar o texto de Marcos com Mt 26.68 ou Le 22.64. Algu-
m as das leituras mais longas incluem tam bém as palavras “agora para nós” (νυν
ήμΐν) e “M essias” (Χριστέ).
14.68 [καί αλέκτωρ έφώνησεν] ([e o galo cantou]) {C}
É difícil decidir se essas palavras foram acrescentadas ou excluídas do texto ori-
ginal. É fácil explicar seu acréscim o ao texto: copistas teriam sido tentados a inserir
as palavras para en fatizar o cum prim ento literal da profecia de Jesus, em Mc 14.30.
É possível que copistas tenham tam bém concluído que Pedro não podería saber que
o galo estava cantando a segunda vez, se não houvesse um a referência ao fato de
que ele havia cantado antes.
Tam bém é fácil explicar a om issão dessas palavras: copistas quiseram harm oni-
zar o texto de M arcos, que fala de duas vezes em que o galo cantou, com o texto dos
três outros Evangelhos, que rela tam apenas um m om ento em que o galo cantou. E
possível que copistas tenham tam bém se pergun tado por que Pedro não se arrepen-
deu logo que ouviu o galo can tar a p rim eira vez.
Uma vez que essas duas m aneiras de in te rp re ta r as evidências fazem sentido, e
d ian te do fato de que tan to o texto como a varian te têm sólido apoio de m anuscri-
tos, essas palavras foram deixadas no texto, só que en tre colchetes, para indicar que
não se tem certeza quanto à sua genuinidade. TEB e NVI, bem como RSV e REB,
op taram pelo texto m ais breve.
14.72 έκ δευτέρου (pela segunda vez) {B}
Alguns testem unhos om item έκ δευτέρου, provavelm ente para harm onizar o
texto de M arcos com o relato dos outros Evangelhos (Mt 26.74; Lc 22.60; Jo 18.27);
veja tam bém o com entário sobre 14.68.
14.72 ότι Πριν αλέκτορα φωνήσαι δ ίς τρ ις με άπαρνήση (Antes que o galo cante
duas vezes, três vezes me negarás) {B}
99O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
A lgum as dessas v a rian te s aqui não têm m aior significado p a ra o trad u to r.
A le itu ra aceita com o tex to é a que m elho r explica a origem das dem ais. A po-
sição dos advérbios δ ίς (duas vezes) e τρ ις (três vezes) foi a lte ra d a em a lguns
m anuscrito s, p a ra m elh o ra r o estilo e a sonoridade do tex to , p a ra um a le itu ra
em voz a lta . Essas d iferenças, porém , não serão perceb idas em trad u çõ es p a ra
línguas m odernas. A lguns m anuscrito s om item o advérbio δ ίς pelas m esm as
razões m encionadas na d iscussão a respeito do núm ero de vezes que o galo can-
tou , em Mc 14.30 e Mc 14.68.
14.72 καί επ ιβαλώ ν εκλαιεν (e caiu em si e chorou) {B}
O significado do partic ip io επ ιβαλώ ν neste contexto não está claro. Já foi in-
te rp re tad o no sentido de “pensou a respeito d isso” [= ele pensou a respeito da
profecia de Jesus], “cobriu a cabeça”, “se jogou no chão”, e “com eçou”. É um a
le itu ra difícil, que levou copistas de vários m anuscritos ocidentais a substitu ir
o partic ip io pelo verbo ήρξατο (ele com eçou). Em alguns testem unhos, o im per-
feito εκλαιεν (chorava) foi substitu ído pelo aoristo έκλαυσεν (chorou), talvez por
in fluência das passagens para le las em Mt 26.75 e Lc 22.62. Se neste contexto
επ ιβαλώ ν significa “com eçou”, en tão não existe d iferença de significado en tre
επ ιβαλώ ν εκλαιεν e ήρςατο κλαίειν. BDAG (p. 368) afirm a: “Tanto ‘com eçou a
ch o ra r’ (REB, [NBJ, BN, NVI]) quanto ‘caiu em si e chorou’ (NRSV, [ARA, NTLH])
rep roduzem o sen tido”.
15.2 Segmentação
As palavras Σύ λέγεις (Tu [o] dizes) podem ser in te rp re tadas como urna afir-
m ação, a exem plo do texto, ou como um a pergun ta . Se for um a afirm ação, en tão o
pronom e enfático " tu ” podería sugerir que Jesus concorda, em bora dê a en tender
que teria se expressado um pouco d iferente daquilo que Pilatos tin h a acabado de
dizer. Como pontuação alternativa , WH reg istra a possibilidade de fazer disso um a
pergun ta . O sentido acabaria sendo o mesmo, pois, em se tra tan d o de pergun ta ,
seria um a pergun ta retórica.
15.8 άναβάς ό ο /λ ο ς (vindo/subindo a m ultidão) {B}
A leitu ra άναβάς ό ο /λ ο ς tem sólido apoio de m anuscritos. O significado po-
deria ser que a m ultidão “subiu” ou foi até a residência de Pilatos, na fortaleza
Antonia. E ntretanto , como se pode perceber nas passagens de 2Sm 23.9; 2Rs 3.21
e Os 8.9 no texto da Septuaginta, copistas às vezes faziam confusão en tre os ver-
bos ά ναβα ίνεiv (subir) e άναβοάν (clam ar/gritar). Esse tipo de confusão é a m ais
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO1 00
provável explicação para a le itu ra άναβοήσας ό ο /λ ο ς (a m ultidão gritou), que
aparece na m aioria dos m anuscritos. A lguns m anuscritos acrescentam o adjetivo
δλος (toda), para dar m aior d ram atic idade à narra tiva .
15.12 [θέλετε] ποιήσω ([quereis] que eu faça) {C}
A m aio ria dos m an u scrito s apo ia a le itu ra que aparece com o tex to . Existe
a possib ilidade de o verbo θέλετε (quereis) ser o rig in a l, havendo sido om itido
por cop istas que tra ta ra m de h a rm o n iz a r o tex to de M arcos com o p a ra le lo em
Mt 27.22, onde esse verbo não aparece . Por ou tro lado, a le itu ra sem o verbo
θέλετε é apo iada por bons m anuscrito s . E é possível que θέλετε não seja origi-
na l, m as te n h a sido ac rescen tad o por in flu ên c ia do v. 9, que tem esse verbo,
ou po r in flu ên c ia das passagens p a ra le la s em Mt 27 e Lc 23 (na form a de um
partic ip io ), que tam b ém têm o verbo “q u e re r”. O verbo θέλετε aparece e n tre
co lchetes, no tex to , p a ra in d ica r in ce rteza qu an to à le itu ra o rig ina l.
A lguns poucos m anuscritos têm outro texto: θέλετε ΐνα ποιήσω (quereis para
que eu faça), que, na verdade, é apenas um a diferença estilística no grego. Se o
texto diz “Que quereis que eu faça ...? ” (NRSV, NTLH, CNBB) ou “Que farei ...?”
(REB, ARA, TEB, NBJ, NVI, BN), o sentido é basicam ente o mesmo.
15.12 [ôv λέγετε] ([este a quem cham ais]) {C}
A fraseología d iferente que aparece na passagem paralela em M ateus parece
sugerir que o autor de M ateus conhecia o texto m ais longo no Evangelho de Marcos
(sem pre pressupondo que o autor de M ateus fez uso de Marcos quando escreveu seu
Evangelho). No entanto , a om issão dessas duas palavras tem sólido apoio de m anus-
critos. Não sendo parte do texto original, é possível que tenham sido acrescentadas
com a intenção de a tribu ir aos principais sacerdotes a responsabilidade pelo título
“O Rei dos Judeus”. Como não se tem certeza de que essas palavras fazem parte do
original, elas aparecem entre colchetes.
O texto m ais longo aparece na m aioria das traduções (ARA, NTLH, NBJ, NVI,
TEB, BN). A varian te foi traduzida na Bíblia da CNBB: “Que quereis que eu faça,
então, com o Rei dos Judeus?”
15.28 omissão do versículo {A}
Os m ais antigos e m elhores m anuscritos dos tipos de texto a lexandrino e oci-
den tal não trazem o v. 28, que diz: “E cum priu-se a Escritura que diz: Έ ele foi
contado com m alfeitores”’. Se o v. 28 tivesse estado orig inalm ente no texto, não há
como explicar por que teriasido om itido. M arcos raram ente faz citações d iretas do
101O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
AT. A citação, neste caso, é de Is 53.12, e todo esse versículo foi, provavelm ente,
inserido no texto de M arcos a p a rtir de Lc 22.37.
15.34 εις 11 έγκατέλιπές με (por que me abandonaste?) {B}
A leitura aceita como texto tem sólido apoio de m anuscritos. Parece provável
que copistas a lteraram a ordem das palavras para με έγκατέλιπες, com o objetivo
de fazer com que o texto apresentasse a m esm a ordem encontrada em Mt 27.46.
É m enos provável que με έγκατέλιπες seja original, m as teria sido alterado para
έγκατέλιπες με, com o objetivo de fazer com que o texto tivesse a m esm a ordem
das palavras encontrada no texto de SI 22.2, conform e a Septuaginta. T irante o que
poderia ser um a pequena diferença de ênfase no pronom e “m e”, o significado das
duas leituras é essencialm ente o m esmo e não haverá diferença de tradução entre
am bas na m aioria das línguas.
O m anuscrito D, com o apoio de alguns m anuscritos da A ntiga Latina, traz εις
τί ώ νείδ ισάς με (por que me u ltra jaste /in juriaste?). Pode ser que um copista tenha
criado essa varian te porque não conseguia en tender como Deus podia ter abando-
nado Cristo na cruz.
15.39 δτι ούτω ς έξέπνευοεν (que assim ele havia expirado) {C}
A leitura que aparece como texto tem o apoio de m anuscritos do tipo de texto ale-
xandrino. No entanto, um núm ero expressivo de m anuscritos, representando urna
variedade de tipos de texto e áreas geográficas, tem o participio κράξας (dando um
grito) diante do verbo έξέπνευσεν. E provável que o texto m ais breve seja original,
pois copistas provavelm ente acrescentaram o participio κράξας influenciados pelo
texto paralelo em Mt 27.50. Neste contexto, o acréscim o não chega realm ente a alte-
ra r o sentido do texto (Hooker, The Gospel According to Saint Mark, p. 378).
15.44 εί πάλαι (se fazia muito tem po) {B}
E possível que copistas ju lgaram inapropriado usar, nesse contexto, a palavra
πάλα ι (fazia m uito tem po) e em razão disso trocaram πάλα ι por ήδη. Em bora exista
expressivo apoio de m anuscritos para εί ήδη (se já) em lugar de εί πάλαι, é pouco
provável que ήδη seja original e que tenha sido trocado por πάλα ι para ev itar a
repetição de ήδη, que aparece um pouco antes no m esmo versículo.
O significado da leitura que aparece como texto é que Pilatos cham ou o cen-
tu rião e perguntou “se fazia muito tem po que Jesus havia m orrido” (NTLH). O
sentido da varian te εί ήδη é este: “C ham ando o centurião, perguntou-lhe se Jesus
já tinha m orrido” (NVI). Convém observar que, em bora πά λα ι norm alm ente signi-
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO102
fique “por um bom tem po”, pode tam bém significar “já ” (como parece ser o caso
aqui). Se for assim , πά λα ι e ήδη são sinônim os e a tradução dos dois term os será
idêntica. BDAG (p. 751) afirm a que πάλα ι, quando em pregado no sentido de “já ”,
refere-se a um período de tem po “um pouco m ais longo do que o período de tem po
sugerido pelo uso de ήδη”.
16.1 διαγενομένου του σαββάτου ... καί Σαλώμη
(Depois que term inou o sábado ... e Salomé) {A}
A leitu ra aceita como texto tem um im pressionante apoio da parte de m anus-
critos. O m anuscrito D e um m anuscrito da Antiga Latina om item os nom es das
três m ulheres. Tal om issão se dá, com certeza, no interesse de sim plificar o texto.
Além disso, D e alguns m anuscritos da Antiga Latina om item tam bém as palavras a
respeito da passagem do sábado. Essa om issão abre espaço para a com pra dos per-
fum es na sexta-feira, em concordância com Lc 23.56. A REB registra essa varian te
em nota de rodapé. Uma tradução da varian te , com eçando em 15.47, ficaria assim:
“M aria M adalena e M aria, m ãe de Joses, v iram onde o corpo foi colocado. E foram
e com praram perfum es para irem ungir o corpo”.
16.2 άνατείλαντος του ήλιου (tendo despontado o sol) {A}
Em vários m anuscritos do tipo de texto ocidental, o participio aoristo
άνατείλαντος foi substituído pelo participio presente άνατέλλοντος (quando nas-
cia); isto para harm on izar o texto com os relatos paralelos em Mt 28.1, Lc 24.1 e Jo
20.1, que m ostram que as m ulheres foram ao túm ulo antes do nascer do sol.
16.920־ O final ou os finais de M arcos
São bastan te complicados os problem as tex tuais e literários relacionados com o
final de Marcos. (Para discussões m ais aprofundadas a respeito de final de Marcos,
veja Bratcher e Nida, A Translator’s Handbook on the Gospel o f Mark, pp. 506-507,
5 1 7 5 2 2 ־; Evans, M ark 8:27—16:20, pp. 540-551; Edwards, The Gospel According
to M ark, pp. 497-504; e France, The Gospel o f Mark, pp. 6 8 5 6 8 8 ־.) Os m anuscritos
trazem quatro finais d iferentes para Marcos.
(1) Os doze últim os versículos do texto de M arcos com um ente aceito não apa-
recem nos dois m ais antigos m anuscritos gregos (א e B), no m anuscrito Bobiense
da A ntiga Latina (itk), no m anuscrito da siríaca sinaítica, em m ais ou m enos cem
m anuscritos arm ênios, e nos dois m ais antigos m anuscritos georgianos. Clem ente
de A lexandria e Orígenes (segundo e terceiro séculos) não dão m ostras de que sa-
biam da existência desses doze versículos. Além disso, Eusébio e Jerónim o (quarto
103O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
e quinto séculos) afirm am que esses versículos estavam ausentes de quase todas
as copias gregas de M arcos que eles conheciam . Vários m anuscritos que contêm
esses versículos trazem notas de copistas dando conta de que copias gregas m ais
antigas não tinham esse texto. Em outros m anuscritos, essa passagem traz sinais
que os copistas colocavam no texto para indicar que se tra tava de um acréscim o ao
docum ento.
(2) Vários m anuscritos, inclusive quatro m anuscritos gregos de escrita uncial,
têm um final m ais breve, antes dos vs. 9 2 0 ־. Veja, abaixo, o com entário sobre O
Final Mais Breve de Marcos.
(3) O final trad icional de M arcos, tão conhecido a p a rtir da King Jam es Version
e de outras traduções do textus receptus (inclusive a de Almeida), se encontra na
grande m aioria dos m anuscritos. Os m ais antigos Pais da Igreja que revelam conhe-
cim ento de parte ou de todo esse final longo são Irineu e o D iatessarão de Taciano
(segundo século). Não fica claro se Justino M ártir (segundo século) conhecia esse
texto. Em sua Apologia (1.45), ele inclui cinco palavras que ocorrem , em ordem
diferente, em Mc 16.20.
O vocabulário e o estilo desse final m ais longo diferem do resto do Evangelho de
Marcos, e isto sugere que os vs. 9 2 0 ־ não são originais. Existem certas incoerências
en tre os vs. 1 8 ־ e os vs. 9 2 0 ־. Exemplos disso são a reapresentação de M aria Ma-
dalena, no v. 9, ela que acabara de ser m encionada em 15.47; 16.1, e o fato de não
se m encionar as outras m ulheres que aparecem nos vs. 1-8. É provável que o final
longo tenha sido tom ado de outro docum ento, escrito talvez na prim eira m etade do
segundo século, e colocado logo após os vs. 1-8, para dar ao Evangelho um final
m ais apropriado.
4. No quarto século, segundo um testem unho preservado por Jerónim o, circu-
lava tam bém um a versão expandida do final tradicional (1 6 .9 2 0 ־), preservada hoje
no Códice W ashingtoniano (W). Veja, abaixo, a discussão sobre os vs. 1 4 1 5 ־.
Visto que o final m ais longo de M arcos é im portante na tradição tex tual do
Evangelho, ele foi incluído no texto. E ntretanto , aparece entre colchetes duplos,
para indicar que não é original.
O FINAL MAIS BREVE DE MARCOS
Vários m anuscritos, inclusive quatro m anuscritos gregos uncíais dos séculos sete,
oito e nove, trazem , após o v. 8, o seguinte texto (com algum as pequenas variações):
“Elas n arra ram brevem ente a Pedro e seuscom panheiros o que lhes havia
sido anunciado. E, depois dessas coisas, o próprio Jesus enviou por meio
deles, do O riente ao Ocidente, a sagrada e incorruptível proclam ação da
salvação eterna. Am ém .”
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO104
Todos os m anuscritos que têm este final m ais breve, com exceção de um ma-
nuscrito da Antiga Latina, acrescentam tam bém os vs. 9 2 0 ־. Alguns m anuscritos
dizem: “E, depois dessas coisas, o próprio Jesus apareceu [έφάνη] e enviou”. Um
pequeno núm ero de m anuscritos traz: aO próprio Jesus apareceu a eles [έφάνη
α ΰ το ΐς]”. E ntretanto , estas variações são acréscim os posteriores. A palavra “am ém ”
provavelm ente fazia parte desse final m ais breve desde o início, mas, posteriorm en-
te, quando foram acrescentados os vs. 9 2 0 ־, acabou sendo om itida.
O FINAL MAIS LONGO DE MARCOS ־ VARIANTES DENTRO DE MARCOS 1 6 .9 2 0 ־
Visto que os vs. 9 2 0 ־ estão faltando nos m anuscritos m ais antigos e de me-
lhor qualidade que, norm alm ente, são usados para identificar tipos de texto, nem
sem pre é fácil decidir en tre as varian tes que ocorrem nesse trecho. Em todo caso,
deve ficar claro que os d iferentes graus de certeza ({A}, {B}, {C}) não querem dar
a en tender que qualquer um a dessas varian tes é original ao Evangelho de Marcos.
Ao contrário , essas letras se referem a graus de certeza no que diz respeito ao que é
original a este acréscim o posterior ao Evangelho de Marcos.
16.1415־ έπίστευσαν. καί εΐπεν αύτοΐς (acreditaram . Ε disse-lhes) {A}
Segundo o testem unho de Jerónim o, no quarto século se conhecia um a versão
expandida do final trad icional de Marcos (1 6 .9 2 0 ־), que hoje está preservada em
um único m anuscrito grego. O Códice W ashingtoniano (W) inclui o seguinte, após
o v. 14:
“E eles alegaram em sua defesa: ‘Este tem po de iniquidade e incredulidade
está sob o dom ínio de Satanás, que não perm ite que a verdade e o poder de
Deus prevaleçam sobre as coisas im puras dos espíritos [ou, que não perm ite
que quem está sob o poder dos espíritos im undos apreenda a verdade e o
poder de Deus]. Por isso, revela agora a tu a ju stiça ’. Foi o que disseram a
Cristo, e Cristo lhes respondeu: Ό fim dos anos do poder de Satanás se cum-
priu, m as outros acontecim entos terríveis se aproxim am . E eu fui en tregue à
m orte por aqueles que pecaram , para que retornem à verdade e não pequem
m ais, a fim de que sejam herdeiros da glória de justiça espiritual e incorrup-
tível que está no céu.”
O testem unho de m anuscritos favorável a esse final que aparece no Códice W
é ex trem am ente reduzido, e esse final inclui várias palavras e expressões que não
fazem p arte do vocabulário de M arcos ao longo do Evangelho. Provavelm ente esse
final foi redigido por um copista do segundo ou terceiro século que quis ab randar
um pouco a severa condenação dos onze discípulos em Mc 16.14.
105O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
16.17 γλώσσαις λαλήσουοιν καιναΐς (falarão novas línguas/novos idiomas) {B}
A m aioria dos m anuscritos tem o adjetivo καιναις (novas). É provável que esse
adjetivo seja original e que tenha sido om itido acidentalm ente, quando um copista
passou por cim a dele, traído que foi pela sem elhança en tre essa palavra e as três
prim eiras palavras do v. 18. O significado de καιναις, neste caso, é quase com cer-
teza “estranhas para quem as fala”, e não “novas” no sentido de línguas que até
então não se conheciam . Por essa razão, a REB traduz assim: “e falar em línguas
e s tran h as”.
16.18 [καί έν ra le χερσίν] õcpetc ([e nas mãos] serpentes) {C}
As palavras και έν τα ΐς χερσίν (e nas mãos) foram colocadas en tre colchetes
para indicar que não se tem certeza se são originais, ou se são um acréscim o pos-
terior. De um lado, aparecem em m anuscritos do tipo de texto a lexandrino , e em
função disso podem ser originais. De outro lado, podem ter sido acrescentadas
por copistas influenciados pelo relato de At 2 8 .3 6 ־. Além disso, se o rig inalm ente
faziam parte do texto, fica difícil de explicar sua ausência num a gam a tão am pla
de m anuscritos.
16.19 κύριος ‘Ιησούς (Senhor Jesus) {C}
Em lugar da le itu ra que aparece como texto , ou tros m anuscrito s trazem “o
Senhor Jesus C risto”, “o S en h o r”, e “Je su s”. E ntre os vários títu lo s que a Igreja
deu a Jesus, o uso isolado de κύρ ιος (Senhor), sem n ada que o acom panhe, pa-
rece um desenvolv im ento m ais recen te , um a form a m ais solene do que κύρ ιος
’Ιησούς.
16.20 σημείων, (sinais.) {B}
Sobre o acréscim o de άμήν (amém) na m aioria dos m anuscritos, veja o comen-
tário sobre Mt 28.20.
OBRAS CITADAS
Bauer, W , F. W. Danker, W. F. Arndt, and F. W. Gingrich. Greek-English Lexicon o f
the New Testament and Other Early Christian Literature. 3a edição. Chicago:
University of Chicago Press, 2000 (citado como BDAG).
Bratcher, Robert G., e Eugene A. Nida. A Translator’s Handbook on the Gospel o f Mark.
Leiden: E. J. Brill, 1961.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO106
Edwards, Jam es R. The Gospel According to Mark. The Pillar New Testam ent
Commentary. Grand Rapids: Eerdm ans, 2002.
Ehrm an, Bart D. UA Leper in the Hands of an Angry Jesus.״ Páginas 77-98 em New
Testament Greek and Exegesis: Essays in Honor o f Gerald E Hawthorne. Ed. Amy
M. Donaldson e Tim othy B. Sailors. Grand Rapids: Eerdm ans, 2003.
Evans, Craig A. M ark 8:27— 16:20. WBC 34b. Nashville: Nelson, 2001.
France, R. T. The Gospel o f Mark: A Commentary on the Greek Text. NIGTC. Grand
Rapids: Eerdm ans, 2002.
Guelich, Robert A. Mark 1:1—8:26. WBC 34a. Dallas, Tex.: Word, 1989.
Gundry, Robert H. Mark: A Commentary on His Apology fo r the Cross. Grand Rapids:
Eerdm ans, 1993.
Hooker, M orna D. The Gospel According to Saint Mark. BNTC. Peabody, Mass:
Hendrickson, 1991.
Marcus, Joel. M ark 1— 8. AB 27. Nova Iorque: Doubleday, 2000.
Metzger, Bruce M. Manuscripts o f the Greek Bible: An Introduction to Palaeography.
Oxford: Oxford University Press, 1981.
Metzger, Bruce M. The Text o f the New Testament: Its Transmission, Corruption, and
Restoration. 3a edição, am pliada. Oxford: Oxford University Press, 1992.
Miller, Robert J., ed. The Complete Gospels: Annotated Scholars Version. Sonoma,
California: Polebridge Press, 1992.
Strange, Jam es E. “D alm anutha.” Página 4 no volum e 2 de The Anchor Bible
Dictionary. Ed. David Noel Freedm an. 6 volumes. Nova Iorque: Doubleday,
1992.
Taylor, Vincent. The Gospel According to St. Mark. 2a edição. Londres: Macmillan,
1966.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS
A respeito do texto de Lucas, veja Fitzmyer, The Gospel According to Luke I—IX,
pp. 128-133, e Bock, Luke 1:1— 9:50, pp. 1 9 2 0 ־.
1 .8 Segm entação
Caso se fizer um corte ou um a pausa ao final do v. 8, as palavras κατά τό έθος
τής ίερατείας (segundo ο costum e do sacerdócio), no início do v. 9, se conectam
ao que segue, a saber, “coube-lhe por sorte, segundo o costum e sacerdotal” (ARA).
Caso, porém , se fizer um a pausa após κατά τό έθος τής ίερατείας, e não ao final
do v. 8, o sentido passa a ser “ele estava exercendo diante de Deus o sacerdócio no
turno de sua classe, segundo o costume sacerdotal”.
1 .2 8 σου ([conjtigo) {A}
Um amplo espectro de testem unhos antigos apoia a leitura que aparece como
texto. Entretanto, muitos testem unhos acrescentam , após o “contigo”, as palavras
ευλογημένη σύ έν γυναιξίν (bendita és tu entre as m ulheres). Essa form a mais
extensa de texto aparece no te x tu s receptus. Se, porém, o texto mais longo fosse
original, não há como explicar ao certo por que copistas teriam sido levados a omiti-
-lo em tantos testem unhos antigos. Provavelmente essas palavras foram inseridas
neste contexto por um copista que conhecia esse texto a partir do v. 42.
1 .3 5 τό γεννώμενογ(o que há de nascer) {A}
As palavras εκ σου (de ti) são, ao que parece, um acréscimo feito bem no início
da história da transm issão do texto por um copista que queria fazer com que essa
parte do versículo tivesse a mesma forma das duas linhas anteriores (no mesmo
versículo), as quais term inam cada qual com o pronom e de segunda pessoa (σε e
σοι). O texto mais longo teve am pla aceitação na Igreja Antiga por influência do
Diatessarão de Taciano. Para efeitos de tradução, talvez seja conveniente em de-
term inadas línguas acrescentar as palavras “de ti”, tornando explícito o que está
apenas implícito no texto grego.
1 .4 6 Μαριάμ (Maria) {A}
Quem disse as palavras do assim cham ado M agn ifica t (vs. 46-55)? Todos os tes-
tem unhos gregos e a quase totalidade das versões antigas e do testem unho patrísti-
co dão conta de que foi Maria. Por outro lado, segundo m eia dúzia de testem unhos,
m orm ente latinos, essas palavras foram ditas por Isabel.
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO108
Existem três m aneiras de se avaliar esses dados: (1) O texto original dizia ape-
nas Και ειπεν, Μ εγαλύνει... (e disse: Engrandece...), e os copistas tra taram de
explicitar o sujeito do verbo είπεν, uns colocando Maria, outros, Isabel. (2) Origi-
nalm ente constava o nome de Isabel, mas por questões de ordem doutrinária liga-
das à veneração da Virgem, a m aioria dos copistas teria colocado “M aria” em lugar
de Isabel. (3) O riginalm ente o texto trazia o nome de Maria, mas vários copistas,
partindo do pressuposto de que o M agnificat estava incluído no assunto do έπλήσθη
πνεύματος άγιου (ficou repleta do Espírito Santo), no v. 41, e dando-se conta do
uso de συν αυτή (com ela [Isabel]), no v. 56, colocaram “Isabel” no lugar de Maria.
É possível que no texto original não houvesse nome nenhum . Mas, diante do
fato de a esm agadora m aioria dos m anuscritos apoiar a inclusão do nome de Maria,
prefere-se o texto com Μ αριάμ.
1.66 χειρ κυρίου ήν (a mão do Senhor estava) {A}
A últim a frase deste versículo (E a mão do Senhor estava [ήν] com ele) é um a
observação que o autor faz para seu leitor, ou seja, a citação d ireta term ina com
τούτο εσται (este vai ser). Tais observações são típicas de Lucas (confira 2.50; 3.15;
7.39; 16.14; 20.20; 23.12). Alguns copistas, porém , se equivocaram , pensando que
essas palavras faziam parte da pergunta daqueles que ouviram falar de Zacarias.
Assim sendo, om itiram o verbo ήν e criaram a leitura que aparece em vários teste-
m unhos ocidentais: “e todos os que ouviram essas coisas guardavam -nas no cora-
ção, dizendo: Ό que será que esse m enino vai ser, pois a mão do Senhor está com
ele?’”
1.74 εκ χειρός εχθρών (da mão de inimigos) {B}
As variantes textuais não têm m aior im portância para a tradução. A inserção do
pronom e ημώ ν (nossos) é um acréscim o até n a tu ra l, espec ia lm en te porque o
v. 71 diz εξ εχθρών ημών (de nossos inimigos). As leituras com τών (dos) e πάντω ν
(de todos) são obviam ente acréscimos posteriores ao texto. Na hora de traduzir, em
m uitas línguas será algo bem natu ra l inserir tanto o artigo “dos” quanto o pronom e
“nossos”. Confira “da mão dos nossos inim igos” (NVI, NBJ, RSV) e “das mãos dos
nossos inim igos” (TEB, NRSV).
1.78 επισκέψεται (fará b rilhar/v isitará) {B}
Tudo indica que o futuro έπισκέψεται, apoiado por um a variedade de testemu-
nhos antigos, foi trocado pelo aoristo έπεσκέψατο (fez brilhar/visitou) para harm o-
nizar o tem po verbal com a form a do aoristo que aparece no v. 68 e que ARA traduz
109O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS
por “[Deus] visitou”. É provável que algum copista tenha pensado que a coisa mais
certa a fazer era concluir o cântico profético de Zacarias da mesma m aneira como
havia começado, a saber, com um verbo no aoristo. Em conexão com o problem a
textual, não fica claro se u0 sol nascente das a ltu ras” se refere a João, que já tinha
vindo, ou à vinda de Jesus como o Messias. A TEB traduziu por “nos visitou o astro
nascente vindo do alto”, mas a m aioria das traduções prefere, neste caso, usar o
tem po futuro.
2.2 Segmentação
Caso se fizer um a pausa após a palavra προ.)τη (primeiro), o sentido é o se-
guinte: “Este foi o prim eiro recenseam ento desse tipo; foi feito quando Q uirino
era governador da Síria” (REB). Caso, porém , não se fizer pausa nesse lugar, o
sentido passa a ser aquele expresso em m uitas outras traduções e tam bém em nota
de rodapé na REB: “Este foi o prim eiro recenseam ento realizado quando Q uirino
era governador da Síria”. Sem elhante é a tradução da NVI: “Este foi o prim eiro
recenseam ento feito quando Quirino era governador da Síria”. Fica implícito, nesta
segunda m aneira de organizar o texto, que mais tarde Quirino fez um segundo
recenseam ento. Alguns in térpretes entendem que, neste contexto, πρώτη significa
“an tes” e traduzem por “Este recenseam ento foi realizado antes de Q uirino ser
governador”.
A interpretação e segm entação desse versículo estão interligadas com questões
históricas. Segundo o historiador judaico Josefo e vários outros escritos daquela
época, Quirino fez esse recenseam ento em 6 ou 7 d.C., tendo sido o prim eiro do
gênero naquela região. Acontece, porém, que esta data coloca o nascim ento de
Jesus após a m orte de Herodes, o Grande, em 4 a.C. Diante disso, alguns exegetas
sugerem que Quirino governou a Síria em duas oportunidades, a prim eira delas
durante o reinado de Herodes, o Grande. Quirino teria, então, realizado um “pri-
meiro recenseam ento” no tem po de Herodes, e um segundo recenseam ento entre
6 e 7 d.C., durante seu segundo m andato de governador. (Para um a análise mais
detalhada dos problemas de interpretação e tradução deste versículo, veja Fitzmyer,
Luke I— IX, pp. 4 0 0 4 0 5 ־; M arshall, The Gospel of Luke, pp. 98-104; e Nolland, Luke
1— 9.20, pp. 99-102. Veja tam bém Potter, “Q uirinius”.)
2.9 καί άγγελος (e um anjo) {B}
A leitura mais breve tem o apoio de um a variedade de bons m anuscritos. Além
disso, é difícil im aginar por que ióov teria sido omitido caso estivesse, originalm en-
te, no texto. Por outro lado, a leitura και lôov (e eis) concorda com o estilo solene
de Lucas nos capítulos 1—2 (onde ióoú aparece dez vezes).
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO110
2.11 Χ ριστός κύριος (o Messias, o Senhor) {A}
Parece que Lucas usou de propósito a combinação Χ ριστός κύριος, que não apa-
rece em nenhum outro lugar do NT, e não a form ulação Χριστός κυρίου (Messias
do Senhor), que é muito mais frequente. Era de se esperar que copistas estranhas-
sem essa inusitada combinação e introduzissem várias alterações, nenhum a das
quais tem significativo apoio de m anuscritos.
2.14 εν άνθρώ ποις εύόοκίας (entre hom ens de [a] boa vontade) {A}
A diferença entre ARC,
“Glória a Deus nas alturas,
paz na terra,
boa vontade para com os hom ens”,
e ARA,
“Glória a Deus nas m aiores alturas,
e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem ”
é mais do que simplesmente um a questão de interpretação do significado do texto
grego. Tem a ver, antes de mais nada, com o estabelecim ento do texto original.
Esse Cântico dos Anjos term ina com ευδοκία (boa vontade) ou ευδοκίας (da boa
vontade [de Deus])?
A palavra no caso genitivo, que é ευδοκίας, é a leitura mais difícil (do ponto
de vista dos copistas) e tem o apoio dos mais antigos representantes dos tipos de
texto alexandrino e ocidental. O texto no caso nom inativo, que é ευδοκία, pode ter
surgido como um a tentativa de m elhorar o sentido da passagem. Pode, tam bém ,
ser resultado de um descuido no processo de cópia, pois, no final de um a linha, a
diferença entre ευδοκίας e ευδοκία seria unicam ente a presença de um m inúsculo
sigma em form a de meia-lua: eyA 0K 1A c.
O sentido parece ser não que a paz divina apenaspode ser dada onde já exista
boa vontade hum ana, mas que, com o nascim ento do Salvador, a paz de Deus re-
pousa sobre aqueles que ele escolheu segundo a sua boa vontade. A locução “entre
hom ens de [sua] boa vontade” aparece em vários hinos hebraicos que estão entre as
descobertas de Q um ran, bem como num fragm ento aram aico descoberto na m esma
localidade de Q um ran. A expressão semítica “da boa vontade de Deus” significa
“ser colocado num relacionam ento favorável com Deus, em que se experim enta
sua m isericórdia e seu poder através de sua fidelidade à aliança” (Nolland, Luke
1— 9:20, p. 109). Nos prim eiros dois capítulos de Lucas aparece um grande núm ero
de expressões semíticas, inclusive a locução “entre hom ens a quem ele quer bem ”.
111O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS
2.33 ό πατήρ αυτού καί ή μήτηρ (ο pai dele e a mãe) {B}
Para salvaguardar a doutrina de que Jesus nasceu de um a virgem, em vários
m anuscritos, alguns deles antigos, ό πατήρ foi substituído pelo nome ,Ιωσήφ (José).
Outros testem unhos acrescentam o pronom e αύτοΰ (dele) depois de μήτηρ (mãe),
por razões estilísticas, isto é, para com binar com ό πατήρ αυτού ou, então, por
transferência, quando não mais se precisava do pronom e no início dessa frase, por-
que o nome “José” foi colocado em lugar de “0 pai dele”. Além de algum as leituras
que aparecem em apenas uns poucos m anuscritos, a leitura ,Ιωσήφ ό πατήρ αυτού
καί ή μήτηρ αυτού (José, ο pai dele, e a mãe dele) é claram ente um a combinação
de leituras anteriores ou mais antigas.
2.38 ,Ιερουσαλήμ (Jerusalém) {A}
A leitura ,Ιερουσαλήμ é a que m elhor explica 0 surgim ento das demais leituras.
A inserção da preposição εν (em) elim ina a am biguidade gram atical quanto a tratar-
-se de um a referência à “redenção de Jerusalém ” ou à “redenção em Jerusalém ”. A
substituição por Ισραήλ (Israel) realça as implicações teológicas desse texto. O ter-
mo ,Ιερουσαλήμ deveria ser visto como sinônimo de Israel, no v. 25 (Johnson, The
Gospel o f Luke, p. 56). ‘Ιερουσαλήμ é usado, aqui, como um a sinédoque (uma figura
de linguagem em que um a parte é usada para falar do todo) para Israel (Marshall,
The Gospel o f Luke, p. 124).
3.22 Σύ εί ό υιός μου ό αγαπητός, εν σοί ευδόκησα
(Tu és ο meu Filho amado, contigo estou plenam ente satisfeito) {B}
A leitura que aparece no texto ocidental, “Tu és o meu filho; eu, hoje, te gerei”, e
que é adotada em NBJ e TEB, era am plam ente conhecida nos três prim eiros séculos
da era cristã. No entanto, parece um a leitura de origem mais recente, baseada em
SI 2.7. O uso da terceira pessoa (“Este é ... com ele”), que aparece em uns poucos
testem unhos, é certam ente um a alteração para que o texto combine com a forma
dessas palavras em Mt 3.17.
3.32 Σαλά (Salá) {B}
O nom e do pai de Boaz não é sem pre o m esm o nos testem unhos antigos.
Parece que o texto o rig inal é Σαλά, que copistas posterio res a lte ra ram para
Σαλμώ ν (Salmom), em concordância com o paralelo em Mt 1 .4 5 ־ e o tex to de
lC r 2.11, na Septuag in ta . O utros copistas tro caram o nom e por Σαλμάν (Sal-
m ã), um a le itu ra que aparece no m anuscrito B em Rt 4.20-21. Tendo em vista a
an tiga trad ição de que Lucas era um sírio de A ntioquia, talvez seja significativo
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO112
que a form a Σαλά parece concordar com um a trad ição síria p reservada em vá-
rias versões siríacas.
E ntre as traduções m odernas, a lgum as p referem “Salá” (RSV, NRSV, ARA,
NBJ, TEB, NTLH), ou tras , “Salm om ” (NVI, TEV, Seg). A REB traz “S alm a”. A
TEV usa o nom e “Salm om ” devido ao princíp io de consistência en tre o AT e
o NT quando se faz re fe rênc ia à m esm a pessoa. (Como diz Bock, “Caso Σαλά
for o rig ina l ... e s ta rá se re fe rindo à m esm a pessoa que se tem em v ista com
o nom e Σ α λ μ ώ ν” [Luke 1:1— 9:50, p. 361.]) Se trad u to res p a ra ou tras línguas
ado tam o m esm o princíp io de consistência , o nom e dessa pessoa será o mes-
mo em todo o AT e NT, pouco im p o rtan d o que p a lav ra é ace ita como o rig ina l
neste caso.
3.33 του Άμιναόάβ του Χδμιν του Αρνί
(filho de Am inadabe, filho de Admim, filho de Arni) {C}
Aqui existe um a confusão de le itu ras varian tes. No en tan to , aquela que apa-
rece no texto, ado tada pela m aioria das traduções, parece a m ais satisfatória ,
além de ser o texto que era conhecido na igreja a lexand rina em tem pos bem
antigos. Os nom es de Adm im e A rni não aparecem no AT, o que fazia com que
copistas se sentissem ten tados a om iti-los por com pleto. A le itu ra του Α μιναόάβ
του Αράμ (filho de A m inadabe, filho de Ram), ado tada pela NVI, tem o apoio de
um im pressionante espectro de testem unhos. E n tre tan to , com um a le itu ra que
tem três nom es, a exem plo da que é aceita como texto, a genealogia de Jesus
em Lucas form a um cuidadoso padrão artístico , bem m ais e laborado até do que
a genealogia em M ateus (veja Mt 1.17). Na genealogia de Lucas, de Adão até
Abraão, as gerações são 3 x 7; de Isaque a Davi, 2 x 7; de N atã a Salatiel (pré-
-exílico), as gerações são 3 x 7; de Zorobabel (pós-exílico) até Jesus, 3 x 7, o que
dá um to ta l de 11 x 7, ou 77 gerações desde Adão até Jesus. A tradução “filho
de A m inadabe, filho de A rn i”, que aparece na REB, parece um a conjectura que
não se baseia em um só m anuscrito sequer (veja tam bém a discussão em Bock,
Luke 1:1— 9:50, pp. 361-362).
4.4 άνθρω πος (hom em /ser hum ano) {B}
A leitu ra m ais breve, que tem apoio de m anuscritos antigos e de boa qualida-
de, tem tudo para ser original. As form as m ais longas do texto são m odificações
in troduzidas por copistas na intenção de fazer o texto concordar com o paralelo
em Mt 4.4 ou com o texto de Dt 8.3, conform e a Septuaginta. Essa concordância
podia ser palavra por palavra ou, então, segundo o sentido daquelas passagens.
Se qualquer um a dessas leituras m ais longas fosse original, ficaria difícil de expli-
113O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS
car por que não aparecem num a com binação de testem unhos tão valiosos quanto
aqueles que trazem o texto m ais breve.
4.17 άναπτΰξας (tendo desenrolado) {B}
Nas sinagogas, as cópias disponíveis dos livros do AT tinham a form a de rolos.
Portanto, Lucas está correto, ao dizer que Jesus “desenrolou” (άναπτΰξας) o rolo.
Porém, visto que copistas cristãos estavam acostum ados com livros em form a de
códice (ou livro), trocaram o verbo άναπτΰξας (que ocorre som ente aqui, no NT)
pelo verbo άνο ιξης (tendo aberto).
É possível, em bora menos provável, que άνοίξας seja original. Neste caso, um
copista teria trocado o verbo άνοίξας por άναπτΰξας, aqui no v. 17, para fazer a
ação inicial de desenrolar corresponder mais de perto com a ação final de fechar ou
enrolar, descrita no v. 20 com o verbo πτΰξας (enrolou).
Em algum as línguas, a única palavra disponível para “rolo” ou “livro” se refe-
re a um volum e com páginas em form a de livro. Nessas línguas, soaria estranho
falar sobre “d esen ro la r” um livro. Em razão disso, talvez se tenha que dizer, na
língua alvo, que Jesus “abriu” o livro. As traduções que dizem que Jesus “de-
senrolou o rolo” (NRSV, NIV, NBJ, TEV, TEB, FC) estão seguindo o que aparece
como texto em O Novo Testamento Grego. O utras, que dizem que ele “abriu o rolo”
(REB) ou “abriu o livro” (RSV, ARA, NTLH, NVI, CNBB, BN), provavelm ente se
baseiam em ά να πτΰξα ς (desenrolou), mas preferem o verbo “ab rir” pela m esm a
razão que levou os copistas antigos a c ria r a varian te tex tual άνοίξας.
4.18 άπέσταλκέν με (ele me enviou) {A}
Logo após άπέσταλκέν με, vários m anuscritos acrescentam as palavras
ίάσασθαι τους συντετρ ιμμένους την καρόίαν (a cu rar os quebran tados de co-
ração). Trata-se de um evidente acréscim o feitopor copistas para fazer o texto
concordar m ais de perto com a passagem de Is 61.1, conform e a Septuaginta.
4.34 Segmentação
As palavras ήλθες άπολεσαι ήμάς são pontuadas, no texto, como um a pergun-
ta, ou seja, “Vieste para nos d estru ir?” (CNBB). E ntretanto , podem tam bém ser
vistas como um a afirm ação: “Vieste para nos p e rd e r” (TEB).
4.44 εις τάς συναγωγάς τής Τουόαίας (nas sinagogas da Judeia) {B}
Tendo em vista a referência anterior (Lc 4.14) ao início do m inistério de Jesus
na Galileia, a leitura τής Τουόαίας é, com certeza, o texto mais difícil e é adotado
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO114
na m aioria das traduções. Copistas alteraram isso para τής Γαλιλαίος (da Galileia),
em concordância com os paralelos em Mt 4.23 e Mc 1.39, e essa leitura é adotada
por Seg. Outros copistas tra taram de contornar essa dificuldade substituindo τής
Ίου δα ία ς por των ,Ιουδαίων (dos judeus).
A lguns in té rp re tes en tendem que, neste caso, “Jude ia” se refere a toda a
te rra de Israel, inclu indo a Galileia, como acontece tam bém em 1.5; 6.17; 7.17;
23.5. Ou seja, a referência não se restringe à p a rte sul, conhecida como Judeia
(Fitzm yer, The Gospel according to Luke I— IX, pp. 5 5 7 5 5 8 ־; M arshall, The Gospel
o f Luke, pp. 198-199; N olland, Luke 1— 9:20, p. 216). Por essa razão, BN diz “E
pregava por todo o país ñas casas de o ração” (tam bém NTLH e FC), e a tradução
alem ã em linguagem com um (Gute Nachricht Bibel) traz “nas sinagogas da te rra
dos ju d eu s”.
5.17 οΐ ήσαν έληλυθότες (que tinham vindo) {B}
A leitura aceita como texto, reproduzida na m aioria das traduções, tem o apoio
da esm agadora m aioria dos testem unhos. É a leitura mais difícil, pois dá a entender
que em cada aldeia havia fariseus e m estres da Lei, que, agora, tinham vindo até Je-
sus. O texto pode ser traduzido assim: “achavam -se ali sentados fariseus e doutores
da Lei, vindos de todos os povoados da Galileia, da Judeia e de Jerusalém ” (NBJ).
Alguns testem unhos omitem o artigo οΐ e outros o substituem por δέ, de sorte que
são os doentes (e não os líderes) que vêm de todos os lugares para serem curados.
A variante pode ser traduzida assim: “Fariseus e m estres da Lei estavam sentados
ao redor dele. Pessoas tinham vindo de todos os povoados da Galileia, da Judeia e
de Jerusalém ” (REB).
5.17 εις τό ιάσθαι αυτόν (para ele curar) {A}
Copistas não se deram conta de que κυρίου (do Senhor) se refere a Deus, e não a
Jesus, e que o pronom e αυτόν é o sujeito e não o objeto de τό ιάσθαι (curar). Assim,
substituíram αυτόν por um a forma plural, como αΰτους (a eles), πάντας (todos),
αυτούς πάντας (a eles todos) ou τούς άσθενούντας (os enfermos). BN (bem como
TEV, NTLH e FC) coloca o nome de Jesus em lugar do pronom e “ele”, para elim inar
a ambiguidade: “O poder do Senhor estava com Jesus para curar os doentes”.
5.33 οι μαθηταί (os discípulos) {B}
Copistas que se lem bravam do relato paralelo em Mc 2.18 colocaram as pala-
vras δια τί (por quê?) diante de οι μαθηταί (os discípulos), transform ando aquela
afirm ação em pergunta.
115O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS
5·38 βλητέον (deve ser posto) {B}
A palavra βλητέον é o único adjetivo verbal term inado em -τέος em todo o
NT. Em alguns testem unhos, foi substituído pelo verbo βάλλουσιν (põem), por in-
fluência da passagem paralela de Mt 9.17. A variante não tem m aior im portância
para o tradutor, pois o sentido não m uda. Em alguns testem unhos, tam bém foram
acrescentadas, a partir de Mateus, as palavras m l άμφότεροι συντηρούνται (ou
τηρούνται) (e ambos se conservam [ou são guardados]).
5.39 inclusão do versículo {A}
E praticam ente incontestável o testem unho dos m anuscritos que favorecem a
inclusão do v. 39 no texto. Sua omissão em vários m anuscritos ocidentais pode ser
resultado da influência de Marcião, que rejeitou essa afirm ação, por entender que
a mesma confirm ava a autoridade do AT. (Marcião, que foi influente na prim eira
m etade do segundo século, rejeitou o AT e acreditava que o Deus de Jesus não era
idêntico ao Deus do AT.)
5.39 [καί] ([e]) {C}
Existe tanto equilíbrio na argum entação a favor e contra a presença de καί no
texto que o mesmo foi colocado entre colchetes, para indicar que não se tem certeza
quanto ao texto original. Sem a conjunção καί, o estilo é menos polido, mas o sen-
tido é essencialm ente o mesmo.
5.39 χρηστός (bom) {A}
Copistas trocaram o adjetivo “bom ” pelo mesmo adjetivo em grau comparativo
(χρηστότερος, melhor), ao que parece para to rnar mais clara a com paração entre
beber vinho velho e vinho novo. Entretanto, a lição do texto é que certas pessoas,
por causa de seus pressupostos, não querem nem mesmo provar o novo (o evange-
lho), porque estão satisfeitas com o fato de que o velho (a lei) é bom. As traduções
não são unânim es: algum as seguem o texto (RSV, NRSV, NBJ, REB, Seg); outras
preferem a variante (NVI, TEV, TEB, CNBB, BN, FC).
6.1 εν σαββάτω (num sábado) {C}
Após o substantivo σαββάτω, muitos m anuscritos acrescentam δευτεροπρώτος
(literalm ente, “segundo-prim eiro”), palavra que não ocorre em nenhum outro lugar
na literatura grega. Provavelmente essa palavra tenha surgido devido a um erro
VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO116
de cópia. É possível que um copista tenha acrescentado ao texto a palavra πρώτω
(primeiro), pois, no v. 6, se faz referência a “outro sábado” (εν ετέρου σαββάτω).
Depois, outro copista, notando que um sábado já havia sido mencionado em 4.31,
escreveu δεύτερα) (segundo) e deletou πρώτου, colocando pontos por cima das letras
desta palavra, pois essa era a m aneira usada para indicar que certa palavra não
fazia parte do texto. Um copista posterior não percebeu aqueles pontos por cima da
palavra προυτω e, por engano, combinou δευτέρου e πρώτω num a única palavra, que
foi inserida no texto.
Outra explicação, apresentada por T. C. Skeat (Novum Testamentum, XXX (1988),
pp. 103106־), é que um copista tenha repetido por engano as letras βατω, depois de
copiar σαββάτου. Um copista posterior interpretou ο β de βατω como δευτέρω (se-
gundo) e o a, como προυτου (primeiro), e viu no του um a indicação de que o adjetivo
deveria concordar em caso gram atical (dativo) com σαββάτω. Qualquer que seja a
explicação, praticam ente todas as traduções ficam com a leitura impressa como tex-
to (veja tam bém Bock, Luke 1:1— 9:50, p. 534-535).
Se a palavra δευτεροπρώτος for original, o significado pode ser algo como “um
segundo (sábado) depois de um prim eiro”, referindo-se, talvez, ao segundo sábado
depois da festa dos pães asmos, sendo que o prim eiro sábado poderia ser o que ocor-
reu durante a sem ana da festa propriam ente. TEB preferiu a variante, traduzindo
por “Ora, num segundo sábado do prim eiro m ês”. Uma nota, incluída em algum as
edições da TEB, explica que “o segundo sábado do primeiro mês do ano judaico fica
perto do período da colheita (Lv 23.5-14). Nessa data, a lei de Moisés proíbe comer
os grãos da nova colheita”.
6.4 και έδωκεν τοΐς μετ’ αυτού (e deu [os pães] aos que com ele estavam) {A}
Esta variante não tem m aior im portância para a tradução, pois o acréscimo de
καί (também) apenas esclarece o significado: Davi deu os pães também aos que es-
tavam com ele, que tam bém deles comeram. O acréscimo de καί após έδωκεν em א
(Códice Sinaítico), A (Códice Alexandrino) e outros m anuscritos dá mais força à ar-
gum entação (e ele deu [os pães] tam bém aos que com ele estavam). Mas esse acrés-
cimo parece ter sido feito por copistas que talvez, mas não necessariam ente, estives-
sem harm onizando o texto com o paralelo em Mc 2.26, que tem a palavra “tam bém ”
(και έδωκεν καί). Se “tam bém ” tivesse estado originalm ente no texto, não há razão
que justifique por que teria sido excluído do texto,