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Compêndio de análise institucional e outras           
correntes: teoria e prática
Gregorio F. Baremblitt 
 
5ª.ed. 
Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2) 
Baremblitt, Gregorio F. (2002) Compêndio de análise institucional e outras                   
correntes: teoria e prática, 5ed., Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari                     
(Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)
Copyright 1992 by Gregorio Baremblitt 1 ª edição: Editora Record, 1992
4 
 
SUMÁRIO 5
INTRODUÇÃO.............. 11 
CAPÍTULO I: O movimento institucionalista, a auto­análise e a autogestão..............13 
CAPÍTULO 11: Sociedades e instituições..............25 
CAPÍTULO III: As histórias..............37 
CAPÍTULO IV: O desejo e outros conceitos no institucionalismo..............53 
CAPÍTULO V: As tendências mais conhecidas do institucionalismo..............71 
CAPÍTULO VI: Roteiro para uma intervenção institucional padrão..............90 
CAPÍTULO VII: O institucionalismo na atualidade..............108 
GLOSSÁRIO..............133 
APÊNDICE..............174 
POST­SCRIPTUM..............195 
BIBLIOGRAFIA BÁSICA..............205 
BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA..............207 
AGRADECIMENTOS 
No referente à primeira edição deste livro, o autor dá aqui                     
testemunho de sua profunda gratidão: ao Dispositivo Instituinte de                 
Minas Gerais, Escola de Saúde Pública de Minas Gerais, João                   
Bosco Castro Teixeira, Cibele Ruas de MeIo, Alfredo Martin e                   
alunos do curso do qual o livro foi uma versão. 
Nesta quinta edição, o autor exprime seu agradecimento à                 
Margarete A. Amorim, que realizou inúmeras tarefas que pos                 
sibilitaram sua publicação e distribuição, assim como à Luisella                 
Ancis, que fez a tradução de novos capítulos, Nina Rosa                   
Magnani, que colaborou com a revisão, e Luciana Tonelli, que fez                     
a revisão final. O autor também agradece aos membros e                   
funcionários do Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte pelas                 
diversas contri buições. Todos eles aportaram sua ajuda               
generosamente. 
O autor é grato a todos os amigos: professores universi tários,                     
pesquisadores, profissionais, estudantes e militantes da autogestão             
que colaboraram na distribuição das diversas edições deste               
escrito. 
9▲
INTRODUÇÃO 
Este livro corresponde à versão escrita de um curso pro ferido em Belo Horizonte no decorrer de                                 
1990, organizado pelo Movimento Instituinte de Minas Gerais. Curso que, por sua vez, foi requerido para                               
atender ao crescente interesse pelo Movimento Institucionalista ou Instituinte no Brasil e facilitar o acesso                             
aos textos dos fundadores das diferentes correntes. Os seis primei ros capítulos correspondem às seis                             
aulas que compuseram o cur so, enquanto o último foi escrito como artigo independente, ain da inédito. 
O Movimento Institucionalista é um conjunto heterogê neo, heterológico e polimorfo de                       
orientações, entre as quais é possível se encontrar pelo menos uma característica comum: sua aspiração a                               
deflagrar, apoiar e aperfeiçoar os processos auto­ana líticos e autogestivos dos coletivos sociais. 
Essa vocação libertária, o estatuto epistemológico e jurí dico absolutamente singular e a infinita                           
variedade de tendências que compõem o Movimento tornam extremamente difícil a tare fa de ensiná­lo. Se                               
se deseja ser coerente com os valores do Mo vimento, sua Pedagogia exige uma originalidade da qual já                                   
exis tem muitas tentativas, mas que, ao mesmo tempo, ainda está para ser produzida. 
11▲
Este curso, proferido com uma metodologia tradicional, tem apenas o propósito de aproximar os                           
leitores das finalidades e recursos mais conhecidos e do panorama atual do Institucionalismo. Mais                           
informativo que formativo, foi inspira do pelo desejo de estender e facilitar um saber e um fazer com plexo                                     
e arriscado, mas, no meu entender,  importantíssimo para o povo brasileiro. 
Apesar da superficialidade e rapidez com que os densos temas são apresentados, acredito que                           
este livro seja estimulante, discretamente esclarecedor e ainda minimamente instrumental para os futuros                         
institucionalistas. Para quem decidir continuar, ou, sejamos realistas, começar verdadeiramente sua                     
formação nesta fascinante proposta, a bibliografia final, integrada predo minantemente por textos em                         
português e castelhano encontráveis no Brasil, proverá boa parte da diretriz indispensável para tal fim. 
Entre as escolas não­incluídas neste volume devido à sua proposta introdutória, devo destacar as                           
correntes latino­ameri canas de Pichón­Riéver, Bleger, Ulloa, Malfe, Bauleo, Kaminsky, Pavlovsky, De                       
Brasi, Matrajt, Scherzer e tantos outros aos quais me proponho a destinar, em algum momento, um livro                                 
especial. 
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Capítulo I 
O MOVIMENTO INSTITUINTE, A AUTO­ANÁLISE E A AUTOGESTÃO 
No início devemos esclarecer que esse livro não terá o nível que alguns esperariam, pois se                               
procura apresentar uma exposição de nível médio, para ser entendida pelo maior número possível de                             
pessoas. 
Vamos tratar do chamado Movimento Institucionalista ou Instituinte que, como o nome                       
aproximativamente indica, é um conjunto de escolas, um leque de tendências. Não existe nenhuma escola                             
ou tendência que possa dizer que encarna plenamente o ideário do Movimento Instituinte. Contudo,                           
pode­se encontrar em diversas dessas escolas algumas características em comum. E é a essas                           
características em comum que eu gostaria de referir­me agora, da maneira mais simples e mais didática                               
possível. Em capítulos sucessivos, teremos ocasião de complicar as coisas... Agora, a intenção é,                           
predominantemente, simplificá­las. 
Entre as características presentes em todas as tendências do Movimento Instituinte, há algumas                         
que são relativamente fáceis de se colocar. Eu diria que existe o que se chama de "ideais máximos" do                                     
Movimento. Podemos chamar a isto também de 
13 ▲
propósitos mais importantes, os objetivos mais ambiciosos dessas escolas. Os mesmos podem ser                         
enunciados através de duas palavras aparentemente simples, mas que são, como veremos depois, muito                           
complexas. 
As diferentes escolas do Movimento Instituinte se propõem a propiciar, apoiar e deflagrar nas                           
comunidades, nos coletivos e conjuntos de pessoas processos de auto­análise e de autogestão. O que                             
significam essas palavras? 
Depois, compreenderemos com mais detalhes que os processos de interação humana, os                       
processos de funcionamento social, têm sido sempre muito complexos. Mas em nossa civilização chamada                           
industrial, capitalista ou tecnológica, a complexidade da vida social atingiu seu máximo expoente em toda a                               
história da humanidade. Se compararmos, por exemplo, uma organização social dita "primitiva", ou uma                           
organização imperial, despótica, ou uma medieval com a nossa sociedade moderna, o graude                           
complexidade, de diversidade que as sociedades modernas atingem é infinitamente superior ao daquelas                         
civilizações, apesar delas não serem nada simples. Acontece, então, que nossa época, nossa civilização,                           
além de se caracterizar por uma grande diversidade, uma grande complicação interna, caracteriza­se                         
também por, de fato, ter produzido uma soma de saberes que propiciou, nesses últimos duzentos anos,                               
uma "evolução" maior do que a humanidade havia conseguido em dois mil anos; ou seja, houve um                                 
processo de produção de conhecimento e de aplicação do mesmo muito intenso. 
Esse saber, como ninguém ignora, resultou em aplicações tecnológicas que aceleraram o chamado                         
"progresso" em igual proporção. E o progresso trouxe uma grande complexidade. Além desses                         
conhecimentos produzidos pelas ciências da natureza, ciências formais, aplicações tecnológicas, existem                     
disciplinas que versam sobre a organização social em si mesma. Ou seja, nossa civilização tem produzido                               
um saber acerca de seu próprio funcionamento como objeto de estudo e tem gerado profissionais,                             
intelectuais, experts que são os conhecedores dessa estrutura e do processo dessa sociedade em si. Esses                               
conhecedores têm­se colocado, em geral, a serviço das entidades e das forças que são dominantes em                               
nossa sociedade. Por exemplo, a serviço daquela instituição que representa o máximo 
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da concentração de poder, o extremo de concentração de controle e de hegemonia sobre a sociedade,                               
que é o Estado. Além disso, por outro lado, já dentro da sociedade civil, esses experts têm­se colocado a                                     
serviço das grandes entidades proprietárias da riqueza, do poder, do saber e do prestígio, que são as                                 
organizações corporativas, as empresas nacionais e multinacionais etc. Essa situação, em que os "sábios",                           
os conhecedores da estrutura e do processo da vida social estão predominantemente a serviço do Estado                               
e das empresas, tem tido como conseqüência que os povos – em sentido amplo, a sociedade civil –                                   
têm­se visto despossuídos de um saber que tinham acumulado através de muitos anos acerca de sua                               
própria vida, de seu próprio funcionamento. Esse saber, criado e acumulado pelas comunidades sociais                           
durante tantos anos de experiência vital, a partir do surgimento do saber científico e tecnológico, fica                               
relegado, colocado em segundo plano, como se fosse rudimentar e inadequado. Tanto é assim que temos                               
técnicos que costumam chamá­lo de ideologia, num sentido vago, geral, visando a qualificá­lo como um                             
falso conhecimento, pobre, infundado ou, no melhor dos casos, insuficiente. Então, as comunidades de                           
cidadãos têm visto esse saber subordinado ao saber dos experts. Junto com seu saber, elas têm perdido o                                   
controle sobre suas próprias condições de vida, ficando alheias à espacidade de gerenciar sua própria                             
existência. Elas dependem, então, quase incondicionalmente, dos organismos do Estado, empresariais, do                       
saber e de serviços dos experts. E a quais experts refiro­me? Aos dos ramos produtivos, primários,                               
secundários e terciários, aos especialistas de produção de bens materiais, ou seja, comida, vestuário,                           
moradia, transporte: aqueles bens materiais indispensáveis à sobrevivência. Toda a produção desses bens                         
está dirigida, gerenciada por "especialistas". Mas noutro plano, refiro­me aos problemas de saúde, de                           
educação, aos assuntos familiares, aos psicológicos e subjetivos, em geral; às questões relativas ao lazer,                             
às que atingem a comunicação de massa, aos assuntos próprios da religião. Cada um desses campos, cada                                 
um dos serviços que se prestam nessas áreas, os bens que se produzem e administram nesses territórios,                                 
ou seja, sua quantidade, sua qualidade, sua necessidade, sua conveniência, tudo é decidido pelos experts,                             
é arbitrado por quem se supõe que saiba e conheça sobre o assunto. O mesmo acontece no plano de                                     
administração da justiça, nos tribunais, com os 
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advogados, despachantes, registros civis, leis: tudo isso feito por experts e administrado por eles. E o que                                 
falar do exercício da força, no sentido literal, porque todas essas outras entidades também usam da força,                                 
senão da força física, da força da persuasão, da força da sedução, mas o uso da força física está                                     
reservado a organizações como a polícia, as forças armadas, que também têm seus especialistas, oficiais,                             
delegados, guardas etc. É claro que os experts conhecem e decidem prevalentemente segundo os                           
interesses das classes, níveis hierárquicos e grupos dominantes aos quais pertencem parcialmente. Mas não                           
se deve sempre supor uma intenção deliberada dos técnicos nesse sentido. Acontece, como veremos, que                             
seu saber em si mesmo já está produzido por instrumentos e gera resultados que privilegiam os interesses e                                   
desejos citados. 
Então, o que acontece? 
Há um conceito básico que vamos ver depois, na Análise Institucional e em outras escolas do                               
Institucionalismo, que se chama demanda. É possível afirmar que as comunidades ou coletividades têm                           
necessidades básicas indiscutíveis e universais. Essas necessidades são colocadas diariamente através de                       
demandas espontâneas, através da exigência de produtos e de serviços correspondentes. Essa idéia é uma                             
das tantas que vai ser questionada pelo Institucionalismo, porque ele vai tentar mostrar que em todas as                                 
épocas da história, mas particularmente na nossa, não existem necessidades básicas "naturais"; não existem                           
demandas "espontâneas", pois em todas e em cada uma dessas organizações que acabamos de descrever,                             
a noção das necessidades é produzida, assim como a demanda é modulada; isto é, aquilo que os povos                                   
pensam que todos os membros de uma população e todos os povos do mundo precisam como "mínimo"                                 
não existe. Esse "mínimo" é gerado em cada sociedade e é diferente para cada segmento da mesma. Mas                                   
ainda dentro do condicionamento histórico, as comunidades que têm alguma noção vivencial acerca de                           
suas necessidades a perdem, de modo que já não sabem mais do que precisam e não demandam o que                                     
"realmente" aspiram, mas acham que necessitam daquilo que os experts dizem que elas necessitam e                             
acham que pedem o que querem e como querem, mas, na verdade, precisam, querem e pedem o que lhes                                     
inculcam que devem necessitar, desejar e solicitar. É, então, muito evidente que nossos coletivos estão, 
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atualmente, nas mãos de um enormeexército de experts que acumulam o saber que lhes permite fazer com                                   
o que as pessoas achem que precisam e solicitem aquilo que os experts dizem que precisam e que os                                     
grupos e as classes dominantes lhes concedem. Então, os coletivos têm perdido, têm alienado o saber                               
acerca de sua própria vida, a noção de suas reais necessidades, de seus desejos, de suas demandas, de                                   
suas limitações e das causas que determinam essas necessidades e essas limitações. Eles têm perdido um                               
certo grau de compreensão e o controle sobre que tipos de recursos e formas de organização devem                                 
dispor para colocar e resolver seus problemas. Mal podem organizar­se para resolver seus problemas se                             
não conseguem saber, com precisão, quais são seus verdadeiros problemas e o que se requer para                               
resolvê­los. 
Falei que poderíamos enunciar dois objetivos básicos do Institucionalismo, um deles seria a                         
auto­análise e o outro a autogestão. Agora já podemos explicar um pouco melhor em que consistiria o                                 
primeiro deles. A auto­análise consiste em que as comunidades mesmas, como protagonistas de seus                           
problemas, necessidades, interesses, desejos e demandas, possam enunciar, compreender, adquirir ou                     
readquirir um pensamento e um vocabulário próprio que lhes permita saber acerca de sua vida, ou seja:                                 
não se trata de que alguém venha de fora ou de cima para dizer­lhes quem são, o que podem, o que                                         
sabem, o que devem pedir e o que podem ou não conseguir. Este processo de auto­análise das                                 
comunidades é simultâneo ao processo de auto­organização, em que a comunidade se articula, se                           
institucionaliza, se organiza para construir os dispositivos necessários para produzir, ela mesma, ou para                           
conseguir os recursos de que precisa para a manutenção e o melhoramento de sua vida sobre a terra. Na                                     
medida em que essa organização é conseqüência e, ao mesmo tempo, um movimento paralelo com a                               
compreensão dada pela auto­análise, ela também não é feita de cima para baixo, nem de fora, mas                                 
elaborada no próprio seio heterogêneo do coletivo interessado. Essa auto­análise e essa autogestão não                           
significam necessariamente que os coletivos devam prescindir por completo dos experts porque, sem                         
dúvida, com sua disciplina e seus instrumentos, eles têm acumulada uma quantidade de conhecimento                           
importante e não inteiramente alienado, não necessariamente distorcido, ou seja: produtivo. Mas os                         
experts 
17 ▲
devem submeter seu saber, suas glórias, seus métodos, suas técnicas, suas inserções sociais como                           
profissionais a uma profunda crítica que os faça separar, dentro dessas teorias, métodos e técnicas, dentro                               
dos organismos aos quais pertencem, o que é produto de sua origem, de sua pertença ao bloco dominante                                   
das forças sociais e o que pode ser útil a uma auto­análise, a uma auto gestão, da qual os segmentos                                       
dominados e explorados sejam protagonistas. Para poderem efetuar essa autocrítica, os experts não                         
podem fazê­lo no seio de suas torres de marfim, não podem fazê­lo nas academias ou exclusivamente nos                                 
laboratórios experimentais. Eles têm que entrar em contato direto com esses coletivos que estão se                             
auto­analisando e autogestionando para incorporar­se a essas comunidades desde um estatuto diferente                       
daquele que tinham. Esse estatuto deve resultar de uma crítica das posições, postos, hierarquias que eles                               
têm dentro dos aparelhos acadêmicos ou jurídico­políticos do Estado, ou ainda das diretivas das grandes                             
empresas nacionais e multinacionais. Eles têm de reformular sua condição profissional, seu saber                         
específico. E só conseguirão reformulá­los numa gestão, num trabalho feito em conjunto com essas                           
comunidades e na mesma relação de horizontalidade com que qualquer membro dessa comunidade o faz.                             
Isso permitirá que, eventualmente, os experts, quando a comunidade conseguir organizar­se, tenham algum                         
lugar dentro das organizações específicas que a comunidade se deu a si mesma para esses fins. Então seu                                   
saber, sua capacidade e sua potência produtiva estarão plenamente integrados ao movimento de                         
auto­análise e auto gestão dessa comunidade. Eles poderão assim reformular, aprendendo e ensinando seu                           
saber e sua eficiência nessa nova e inédita situação. À parte dessa reinvenção de sua disciplina, os experts                                   
poderão aprender como eles serão capazes de propiciar outros movimentos autogestivos e auto­analíticos                         
quando forem chamados a participar. 
Esta é uma explicação sucinta dos propósitos fundamentais do Movimento Institucionalista que são                         
sistematicamente compartilhados por todas as tendências que o integram. Ao mesmo tempo em que são os                               
objetivos principais das propostas instituintes, eles são também os próprios meios para realizá­las. Por                           
isso, é importante que esses dois objetivos e meios sejam não apenas superficial, mas profundamente                             
conhecidos pelos leitores. 
18 ▲
É óbvio que autogestão e auto­análise são dois processos simultâneos e articulados. Por quê?                           
Porque auto­análise, para as comunidades, significa a produção de um saber, do conhecimento acerca de                             
seus problemas, de suas condições de vida, suas necessidades, demandas etc., e também de seus                             
recursos. Mas até para que a auto­análise seja praticada pelas comunidades, elas têm que construir um                               
dispositivo no seio do qual essa produção seja realizável. Elas têm que organizar­se em grupos de                               
discussão, em assembléias; elas têm que chamar experts aliados para colaborarem; elas têm que se dar                               
condições para produzir esse saber e para desmistificar o saber dominante. Ao mesmo tempo, tudo o que                                 
elas descobrirem neste processo de auto­conhecimento só terá uma finalidade: a de auto­organizar­se para                           
que possam operar as forças destinadas a transformar suas condições de existência, a resolver seus                             
problemas. Mas não pode haver uma organização sem um saber; não pode haver um saber sem uma                                 
organização. São dois processos diferenciados, mas eles são concomitantes, simultâneos, articulados. 
Costuma­se crer que os processos autogestivos implicam uma falta completa de denominações,                       
hierarquias, quadros, especificidades etc. Na realidade, é difícil pensar qualquer processo organizativo que                         
não inclua uma certa divisão do trabalho e que não implique uma certa hierarquia de decisão, de                                 
deliberação. Esses são funcionamentos inerentes a qualquer processo produtivo. Deverão, então, existirhierarquias, gerências. Mas a existência de hierarquia não implica diferença de poder; não equivale a                             
privilégio ou arbitrariedade na capacidade de decidir. Implica apenas uma certa especialização em algumas                           
tarefas, porque estes dispositivos estão feitos de tal maneira que as decisões de fundo são tomadas                               
coletivamente. Em todo caso, os quadros hierárquicos não são mais que expressão da vontade consensual.                             
São executores. Mas não são executores do mandato das elites mediatizado por organismos burocráticos,                           
por correias de transmissão. Na autogestão os coletivos mesmos deliberam e decidem. Eles têm maneiras                             
diretas de comunicar as decisões. Existem hierarquias moduladas pela potência, peculiaridades e                       
capacidade de produzir; mas não há hierarquias de poder, ou seja, a capacidade de impor a vontade de                                   
um sobre o outro. 
Contudo, é evidente que o Institucionalismo, tanto quanto os processos auto­analíticos, são                       
produtores de conhecimentos, 
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e que todo saber envolve, necessariamente, um poder, e ambos não são homogeneamente distribuídos.                           
Mas este saber é um saber coletivo, produzido, distribuído e exercitado na vida coletiva. Na topografia                               
deste saber, existem alguns elementos essenciais que são compartilhados por todo mundo. Então, quando                           
esse saber compartilhado é delegado a alguns que se especializam nessa questão, já não é um saber                                 
produzido fora dos interesses e desejos do coletivo, já não é um saber que vai cair de cima para baixo, de                                         
fora para dentro. É já uma delegação, porque foi produzido dentro, por alguns especialistas no assunto,                               
em estreita colaboração com os diretamente interessados nos benefícios que esse saber e suas aplicações                             
terão, uma vez realizados. 
Isso garante que esses especialistas são verdadeiramente "especiais": delega­se a eles um saber                         
que é a expressão dos interesses e das capacidades essenciais do coletivo. O coletivo conserva um saber                                 
básico acerca de seu campo que lhe permite julgar quando o especialista está exercitando o seu poder                                 
com sentido instituinte­organizante, e então a serviço do coletivo, ou, pelo contrário, de ambições de                             
segmentos individualistas etc. Vou dar um típico exemplo da medicina, embora haja mil exemplos, muitos                             
dos quais não poderemos mencionar aqui porque são muito complexos e extensos para expor. Quem                             
conhece a situação da saúde no Brasil sabe perfeitamente que nosso país não precisa prioritariamente de,                               
digamos, tomógrafos computadorizados, pelo menos a nível de sua problemática prevalente atual. O que o                             
Brasil precisa é de uma política de saúde que não começa nem acaba no campo da medicina. Seus                                   
problemas, que têm efeitos médicos, têm suas causas diretas nos problemas de habitação, alimentação,                           
vestuário e saneamento básico. Disso todos os experts sabem, o que não impede que a ênfase da política                                   
de saúde no Brasil esteja colocada na assistência e não na prevenção, principalmente se por prevenção                               
entende se algo que modifique radicalmente as condições de vida da população. Entretanto, há muitos                             
centros paulistas e cariocas que se orgulham de ter os mais modernos aparelhos para resolver ou                               
diagnosticar uma problemática altamente específica, circunscrita, que afeta 0,5% da população. Acontece                       
que o povo, as organizações de base, não podem questionar de maneira eficiente as políticas médicas do                                 
Brasil porque a primeira coisa 
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que lhes seria respondida é que não sabem. Mas o que acontece quando o coletivo revitaliza seu saber,                                   
revaloriza o saber espontâneo que ele tem acerca do que precisa? Os índios têm, as comunidades negras                                 
têm, as comunidades das montanhas têm, as comunidades da planície têm, todo mundo tem um saber                               
espontâneo acerca de quais são os sofrimentos, quais são as enfermidades e como devem ser tratadas,                               
pelo menos, basicamente. Assim, também eles sabem quais problemas devem ser abordados – mesmo                           
que não se exprimam em sofrimento, ou quando o sofrimento ainda não tenha se tornado doença, não                                 
devendo ser tratado como tal. Desde logo este saber também desconhece muita coisa, mas isso não pode                                 
afirmar­se a priori. Só que esse saber é permanentemente desqualificado pelo saber acadêmico, que atua                             
predominantemente a serviço de interesses estatais, nacionais e multinacionais dominantes – um saber                         
consubstancial com esses interesses. 
A primeira operação que as comunidades devem fazer é recuperar, revalorizar o saber espontâneo que                             
elas têm sobre seus problemas; a segunda operação deve ser feita em conjunto com os experts,                               
ajudando­os a criticar essa orientação – essa medula dominante reacionária­que o saber médico (nesse                           
caso) e suas técnicas têm. Sobretudo em termos de hierarquização de prioridades: o que vem primeiro e o                                   
que vem depois, o que é prioritário e o que é secundário. Uma vez que o expert, integrado à comunidade,                                       
demonstra a capacidade de contribuir, em pé de igualdade, para este trabalho de reformulação, pode­se                             
delegar a ele algumas áreas do saber com menos perigo de que ele o transforme em poder, e não numa                                       
potência de colaboração com o coletivo. Nesse caso, o coletivo já não está desqualificado – ele sabe                                 
julgar o que se faz e o que se acha que se sabe. Isso não descarta que possam acontecer novamente                                       
problemas de concentração de saber e de poder, porque este processo de auto­conhecimento e                           
autogestão é interminável. Provavelmente, haverá necessidade de muitas gerações autogestivas e                     
auto­analíticas para que o processo possa exercitar­se em sua plenitude. Se bem que este caminhar está                               
orientado por uma Utopia Ativa que não está colocada num futuro longínquo, senão em cada ato do                                 
cotidiano. Como já dissemos, existiram e existem numerosas tentativas auto­analíticas e autogestivas que                         
não apresentam o caráter purista que a gente pode imaginar em sentido abstrato. Por exemplo, as                               
comunidades 
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eclesiásticas de base: pode­se dizer que têm um espírito institucionalista complexamente integrado a                         
aspectos libertários do Cristianismo, embora limitados pelos processos burocráticos da Igreja Católica.                       
Isso abre um tema que eu teria gostado de tratar neste primeiro capítulo, mas acho que vai complicar um                                     
pouco as coisas, porque eu queria enfatizar os conceitos essenciais básicos. Mas, enfim, em que consiste o                                 
temaaqui levantado? O Movimento Institucionalista reconhece uma gênese histórico ­social e uma gênese                           
conceitual. A primeira é a história de todas as tentativas que houve na história da humanidade e as que                                     
hoje existem e exercitam um Institucionalismo espontâneo. Um desses movimentos é o das comunidades                           
eclesiásticas de base no Brasil e em outros países. Mas muitas iniciativas autogestivas já existiram, existem                               
e vão existir, e não precisam do Institucionalismo para se desenvolverem. O Institucionalismo é alguma                             
coisa assim como o resultado do ensinamento dessas iniciativas históricas sobre os próprios experts. Nós,                             
os experts – médicos, engenheiros, advogados, comunicólogos, psicólogos etc –, temos aprendido que                         
isso existe e que poderíamos colaborar para seu desenvolvimento a partir das experiências históricas que                             
já existiram neste sentido e das que estão existindo e se desenvolvem perfeitamente ou dificilmente sem a                                 
nossa participação. Por outro lado, a gênese conceitual refere­se ao campo das idéias, conceitos e                             
funções: todas aquelas teorias, conceitos, idéias, categorias que têm sido produzidas pela humanidade no                           
decorrer da história do conhecimento e podem contribuir para dar base, para fundamentar a proposta                             
institucionalista. 
Agora, gostaria de referir­me à última questão, muito importante. Os leitores compreenderão que                         
esses processos auto ­analíticos e autogestivos se dão em condições altamente desfavoráveis, severamente                         
contraproducentes. Por quê? Naturalmente porque os coletivos em questão não são donos do saber, não                             
são donos da riqueza, não são donos dos recursos que são propriedade e servem ao poder dos                                 
organismos e entidades de classe alta e grupos dominantes. Então, a consecução dos objetivos tem graves                               
impedimentos que vão desde a privação de recursos (que são propriedade a serviço do poder dos                               
organismos e entidades de classe dominante) até a morte física repressiva. Esses processos autogestivos e                             
auto­analíticos são, para a 
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organização do sistema, um câncer, uma peste. Não há nada que seja mais temido e mais odiado pelo                                   
sistema social, porque os movimentos instituintes têm esse intuito: que os coletivos presidam a definição de                               
problemas, a invenção de soluções, a colocação dos limites do que é possível, do que é impossível e do                                     
que é virtual, o que normalmente é feito pelas instituições, organizações e saberes de grupos e outros                                 
segmentos dominantes. Por isso a autogestão não é tarefa fácil: a prova está em que as iniciativas                                 
auto­analíticas e autogestivas não se caracterizam por seu sucesso. Elas têm aparecido muitas vezes na                             
história e muitas vezes têm sido destruídas ou sufocadas. E as que hoje insistem em existir lutam duramente                                   
contra um conjunto de imensas forças históricas que tentam destruí­las. E quando não conseguem                           
eliminá­las, tentam recuperá­las, incorporá­las. Isso faz com que os objetivos últimos do Institucionalismo                         
– a auto­análise e a autogestão – não sejam atingidos nunca de forma definitiva. Eles são atingidos sempre                                   
na base da tentativa, do ensaio, da procura. Em geral têm maiores ou menores graus de fracasso. Mas isso                                     
não quer dizer que não sejam possíveis ou inventáveis. Então, esta última afirmação que faço refere­se ao                                 
seguinte: as diferentes escolas do Institucionalismo se distinguem entre si pelas teorias, pelos métodos,                           
pelas técnicas com que elas tentam introduzir estes objetivos últimos, e pelo grau de realização com o qual                                   
se conformam. Quer dizer: há correntes, escolas" maximalistas", que buscam a instalação plena da                           
autogestão e da auto­análise. Há outras que se satisfazem com a introdução relativa de alguns mecanismos,                               
de alguns espaços, de alguns temas de auto­análise e autogestão. Ou seja, no Institucionalismo, como na                               
política, existem correntes reformistas e existem correntes ultra­revolucionárias. De qualquer maneira, nada                       
disso impede que as agrupemos em torno desses dois objetivos e recursos. Eles as diferenciam claramente                               
da enorme maioria das propostas políticas, tanto das extremistas quanto das propostas                       
social­democráticas. Provavelmente a tendência política tradicional que mais se aproxima das propostas                       
institucionalistas, e com a qual o Institucionalismo está mais que em dívida, seja a de certas orientações do                                   
anarquismo. 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO I 
1) Por que o Institucionalismo é um movimento e não uma ciência, uma disciplina ou uma tecnologia? 
2) O que aconteceu com o saber e o saber­fazer que as comunidades primitivas ou os povos e grupos                                     
leigos em geral produziram e acumularam durante sua experiência de vida? 
3) O que significa" divisão social e técnica do trabalho e do saber", e por que se diz que as ciências, as                                           
disciplinas e seus experts estão em geral a serviço das classes e grupos dominantes? 
4) Existem "necessidades mínimas naturais" cuja satisfação é demandada pelas populações, ou é a oferta                             
de bens e serviços que produz certas necessidades e desejos (e não outros) e modula as demandas? 
5) O que significa auto­análise e autogestão? 
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Capítulo II 
SOCIEDADES E INSTITUIÇÕES 
O Institucionalismo, à sua maneira, tem uma concepção própria do que é a Sociedade e do que é                                   
a História, a Sociedade como forma organizada de associação humana e a História como o devir da                                 
Sociedade no tempo. O Institucionalismo, sem considerar no momento as diferenças doutrinárias de escola                           
para escola, afirma que a sociedade é uma rede, um tecido de instituições. E que são as instituições? 
As instituições são lógicas, são árvores de composições lógicas que, segundo a forma e o grau de                                 
formalização que adotem, podem ser leis, podem ser normas e, quando não estão enunciadas de maneira                               
manifesta, podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos. Alguns autores sustentam que leis,                         
normas e costumes são objetificações de valores. As leis, em geral, estão escritas; as normas e os códigos                                   
também. Mas uma instituição não necessita de tal formalização por escrito: as sociedades ágrafas também                             
têm códigos, só que eles são transmitidos verbal ou praticamente, não figurando em nenhum documento. 
O que essas lógicas significam? Significam a regulação de uma atividade humana, caracterizam uma                           
atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela, esclarecendo 
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o que deve ser, o que está prescrito, e o que não deve ser, isto é, o que está proscrito, assim corno o queé indiferente. Essas lógicas, esses corpos discriminativos, são vários, e é curioso que os institucionalistas                             
têm dificuldades para chegar a um acordo acerca de quais e quantos são. 
Vamos examinar algumas ilustrações mais ou menos indiscutíveis. Um exemplo de urna instituição: a                           
instituição da' linguagem. Ela caberia nesta definição que formatamos quando a pensamos em termos                           
gramaticais. A gramática não é nada mais que um conjunto de leis, de normas que regem a combinatória                                   
de elementos fônicos, de unidades de significação na linguagem. Com a combinação desses elementos,                           
conforme indicado por essas leis, pode construir­se um infinito número de mensagens, de tal modo que                               
estas mensagens são compreensíveis para qualquer falante ou ouvinte dessa língua. Então, corno se pode                             
ver, no final das contas, urna gramática é urna instituição que explicita as opções de acordo com as quais                                     
se vão produzir mensagens, consideradas gramaticais ou agramaticais, os prescritos ou os proscritos. É                           
claro que, no caso da língua, não estarão estipulados também os prêmios e os castigos para quem usa de                                     
forma correta ou incorreta a língua, que é o que acontece em outros tipos de instituição. Mas o preço de                                       
seu desconhecimento ou transgressão é óbvio: a incomunicabilidade dentro do universo humano, pelo                         
menos dentro desse universo humano em particular. 
Outro exemplo são as instituições de regulamentação do parentesco, as que definem os lugares tais corno:                               
pai, mãe, filho, nora, genro etc. Elas são as que prescrevem entre quais membros dessa classificação                               
podem se dar uniões, entre quais membros não podem se dar uniões e que tipo, que característica de                                   
vínculo. de descendência e aliança relaciona cada uma destas posições com a outra. Isso também é um                                 
código que, formalizado ou não, regula a relação de parentesco e tem prescrições – o que é indicado; e                                     
também proscrições – o que é proibido; assim como o que é indiferente ou não abrangido por essa lógica.                                     
Outra instituição pouco discutível entre os institucionalistas é a da divisão do trabalho humano. O trabalho                               
humano está dividido segundo os momentos e as especificidades de cada tipo de produção e tarefa                               
(divisão técnica). Mas, por outro lado, essa divisão vem acompanhada de urna hierarquia que institui                             
diferenças de poder, 
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prestígio e lucro – não necessariamente justificadas pela importância produtiva daqueles que detêm esses                           
lugares (divisão social). Por exemplo: trabalho manual e intelectual, do campo e da cidade, assalariados e                               
autônomos, feminino e masculino etc. 
Há também as instituições da educação, isto é, aquelas leis, normas e pautas que prescrevem                             
corno se deve socializar, instruir um aspirante a membro de nossa comunidade para que ele possa                               
integrar­se à mesma com suas características efetivas. 
Ternos também a instituição da religião, que é a que regula as relações do homem com a                                 
divindade, divindade sobrenatural para uns ou imanente à vida terrena para outros, mas com respeito à                               
qual existe toda urna série de comportamentos indicados e toda urna série de comportamentos                           
contra­indicados. 
Ternos também as instituições de justiça, as instituições da administração da força, e assim por                             
diante. Em um plano formal, urna sociedade não é mais que isso: um tecido de instituições que se                                   
interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra                                     
e a relação entre os homens. Agora, entendidas assim, as instituições são entidades abstratas, por mais que                                 
possam estar registra das em escritos ou conservadas em tradições. 
Para vigorar, para cumprir sua função de regulação da vida humana, as instituições têm de                             
realizar­se, têm de "materializar­se". E em que elas se materializam? Em dispositivos concretos que são as                               
organizações. As organizações, então, são formas materiais muito variadas que compreendem desde um                         
grande complexo organizacional tal como um ministério Ministério da Educação, Ministério da Justiça,                         
Ministério da Fazenda etc. – até um pequeno estabelecimento. Ou seja, as organizações são grandes ou                               
pequenos conjuntos de formas materiais que concretizam as opções que as instituições distribuem e                           
enunciam. Isto é, as instituições não teriam vida, não teriam realidade social senão através das                             
organizações. Mas as organizações não teriam sentido, não teriam objetivo, não teriam direção se não                             
estivessem informadas como estão, pelas instituições. 
Por sua vez, urna organização (que, como insisti, costuma ser um complexo grande, vultoso) está                             
composta de unidades menores. Estas são de naturezas muito diversas e é difícil enunciá­las todas. Mas,                               
pelo menos, há algumas que são muito 
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características, como, por exemplo, os estabelecimentos. Estabelecimentos seriam as escolas, um                     
convento, uma fábrica, uma loja, um banco, um quartel. Há diversos tipos de estabelecimentos, de                             
características muito diferentes. Mas é um conjunto de estabelecimentos o que integra uma organização. 
Os estabelecimentos, em geral, incluem dispositivos técnicos cujos exemplos mais básicos são a                         
maquinaria, as instalações, arquivos, aparelhos. Isso recebe o nome de equipamento. O equipamento pode                           
ter uma realidade material que coincide com o estabelecimento, ou seja, as máquinas de um                             
estabelecimento – ou pode ter uma realidade muito mais ampla, de maneira que forme um grande sistema                                 
de máquinas, um grande equipamento. Isso é o que acontece, suponhamos, com os equipamentos das                             
organizações da comunicação de massa, que, por sua vez, são organizações que realizam as prescrições                             
de uma grande instituição que é a instituição da Comunicação Social. 
Instituição – Organização – Estabelecimento – Equipamento. Tudo isso, naturalmente, só adquire                       
dinamismo através dos agentes. Nada disso se mobiliza, nada disso pode operar senão através dos                             
agentes. Os agentes são "seres humanos", são os suportes e os protagonistas de toda essa parafernália. E                                 
os agentes protagonizam práticas. Práticas que podem ser verbais, não­verbais, discursivas ou não,                         
práticas teóricas, práticas técnicas, práticas cotidianas ou inespecíficas. Mas é nas ações que toda essa                             
parafernália acaba por operar transformações na realidade. Então, estas unidades (instituição –                       
organização – estabelecimento – equipamento – agente – práticas) não podem ser confundidas. Mas,                           
infelizmente, comfreqüência isso ocorre. E não são confundidas apenas pelos leigos, mas também pelos                             
institucionalistas. Então, quando se estuda uma escola institucionalista, esta escola pode chamar de                         
instituição às organizações; de organização a um estabelecimento. Isso não é nada recomendável porque a                             
primeira coisa a se fazer para se entender este complexo panorama é criar uma nomenclatura mais ou                                 
menos universal e compartilhada. A que proponho aqui é a que grande parte dos institucionalistas aceita. 
Isso não é apenas o exercício de um desafio, mas algo importante. Se começamos a dizer, por                                 
exemplo, que essa escola é uma instituição, o assunto se complica, pois essa escola não é 
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uma instituição, e sim um estabelecimento que faz parte de urna grande organização – provavelmente do                               
Ministério da Educação, que, por sua vez, realiza uma grande instituição: a instituição da Educação, que é                                 
uma lógica, uma série de prescrições ou leis. 
Em uma instituição podem­se distinguir duas vertentes importantes. Uma é a vertente do instituinte,                           
e outra a do instituído. Apesar de as origens das instituições serem muito difíceis de se determinar – ou                                     
seja, fazer a história de uma instituição, particularmente a de seu começo, é urna tarefa às vezes impossível,                                   
corno se costuma dizer, "perde­se no começo dos tempos". Inclusive há muitas instituições, como a                             
instituição da língua, das relações de parentesco, da religião e da divisão do trabalho, das quais não se                                   
pode dizer qual veio primeiro e qual veio depois. Mas podemos afirmar que para uma sociedade humana                                 
existir é preciso haver no mínimo essas quatro instituições humanas, ou seja, humanidade é sinônimo de                               
coletivo regido por essas instituições, e essas instituições são sinônimo de existência de um coletivo                             
humano. Então, é difícil saber como eram os coletivos antes que aparecessem essas instituições. É o                               
mesmo que perguntar como era o homem antes de ser homem, pelo menos como o entendemos. Então,                                 
situar a origem dessas instituições é muito difícil. Só se pode dizer que uma instituição supõe outra, precisa                                   
da outra, e o seu conjunto é o que constitui uma civilização ou uma sociedade humana. Agora, se                                   
freqüentemente não se pode dizer como essas grandes instituições começaram, sem dúvida se pode                           
distinguir nelas uma potência, um movimento de transformação constante que tende a modificar, a operar                             
mutações nas suas características. Em poucas ocasiões privilegiadas pode­se assistir historicamente ao                       
nascimento de uma grande instituição. Mas, em geral, não é isso o que acontece. O que se pode                                   
presenciar são grandes momentos históricos de revolução de uma instituição, de profundas transformações                         
de urna instituição. Então, a esses momentos de transformação institucional, a essas forças que tendem a                               
transformar as instituições ou também a estas forças que tendem a fundá­las (quando ainda não existem), a                                 
isso se chama o instituinte, forças instituintes. São as forças produtivas de lógicas institucionais. 
Este grande momento inicial do processo constante de produção, de criação de instituições, tem                           
um produto, geram 
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um resultado, e este é o instituído. O instituído é o efeito da atividade instituinte. Se vocês prestarem                                   
atenção a esses nomes, eles mesmos já estão dizendo alguma coisa com relação à diferença entre o                                 
instituinte e o instituído. O instituinte aparece como um processo, enquanto o instituído aparece como um                               
resultado. O instituinte transmite uma característica dinâmica; o instituído transmite uma característica                       
estática, estabilizada. Então, é evidente que o instituído cumpre um papel histórico importante, porque as                             
leis criadas, as normas constituídas ou os hábitos, os padrões, vigoram para regular as atividades sociais,                               
essenciais à vida da sociedade. Mas acontece que essa vida é um processo essencialmente cambiante,                             
mutante; então, para que os instituídos sejam funcionais na vida social, eles têm de estar acompanhando a                                 
transformação da vida social mesma para produzir cada vez mais novos instituídos que sejam apropriados                             
aos novos estados sociais. Tem­se que evitar uma leitura do tipo maniqueísta, que pensa que o instituinte é                                   
bom e o instituído é ruim, embora seja verdade que o instituído apresente, por natureza, uma tendência à                                   
resistência, uma disposição que se poderia chamar a persistir em seu ser, a não mudar, que quando se                                   
exacerba, se exagera, se conhece politicamente pelo nome de conservadorismo, reacionarismo. Pelo                       
contrário, o instituinte aparece como atividade revolucionária, criativa, transformadora por excelência. Na                       
realidade, não é exatamente assim, porque o instituinte careceria completamente de sentido se não se                             
plasmasse, se não se materializasse nos instituídos. Por outro lado, os instituídos não seriam efetivos, não                               
seriam funcionais, se não estivessem permanentemente abertos à potência instituinte. 
Por sua vez, o mesmo acontece a nível organizacional. Existe o organizante e o organizado. Há                               
uma atividade permanentemente crítica e transformadora, otimizadora das organizações – o organizante. E                         
há o organizado, que se pode ilustrar com o famoso organograma ou fluxograma, que é necessário, mas                                 
que tem uma tendência "natural" a cristalizar­se (entre aspas porque nada tem a ver com o natural), uma                                   
tendência histórica a esclerosar­se e a adotar uma série de vícios, entre os quais o mais conhecido é a                                     
burocracia, embora não seja o único. Então, é importante saber que a vida social – entendida como o                                   
processo em permanente transformação que deve tender ao aperfeiçoamento e visar a maior felicidade,                           
maior realização, 
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maior saúde e maior criatividade de todos os membros – só é possível quando ela é regulada por                                   
instituições e organizações e quando nessas instituições e organizações a relação e a dialética existentes                             
entre o instituinte e o instituído, entre o organizante e o organizado (processo de                           
institucionalização­organização) se mantêm permanentemente permeáveis, fluidas, elásticas. 
Outra maneira de referir­se a isso é dizer que nas instituições, organizações, estabelecimentos, agentes,                           
práticas, pode­se distinguir uma função e um funcionamento. Para poder entender essa terminologia,                         
tem­se que compreender que nas civilizações e nos conjuntos humanos, e na vida humana tomada num                               
sentido muito amplo, há a tendência a adquirir semprecaracterísticas históricas que comprometem este                           
objetivo utópico ativo. Essas características históricas, muito diferentes de uma sociedade para outra, de                           
uma fase histórica para outra, podem ser resumidas em três grandes situações viciosas conhecidas por                             
todo mundo: são os processos de exploração, de dominação e de mistificação (desinformação ou engano).                             
Essas são as deformações do percurso da vida social e de seus objetivos mais nobres, de suas finalidades                                   
mais altas, que cada sociedade coloca à sua maneira, e que são chamadas de utopias sociais: como uma                                   
sociedade tenta, deseja, deve chegar a ser. É claro que, à exceção de algumas sociedades em particular,                                 
desde que existem sociedades, as utopias sociais incluem diferentes formas de liberdade, diferentes formas                           
de igualdade, diferentes formas de veracidade e fraternidade, apesar de eu estar usando, para referir ­me a                                 
isso, a utopia da Revolução Francesa, chamada de revolução burguesa, que não é nem a única nem a                                   
melhor das utopias, mas é a mais conhecida por nós. Então, cada sociedade, em seus aspectos instituintes                                 
e organizantes, sempre tem uma utopia, uma orientação histórica de seus objetivos, que é desvirtuada ou                               
comprometida por uma deformação que se resume em: exploração de alguns homens pelos outros                           
(expropriação da potência e do resultado produtivo de uns por parte de outros); 
dominação, ou seja, imposição da vontade de uns sobre os outros e desrespeito à vontade coletiva,                               
compartilhada, de consenso; e mistificação, ou seja, uma administração arbitrária ou deformada do que se                             
considera saber e verdade histórica, que é substituída por diversas formas de mentira, engano, ilusão,                             
sonegação de informação etc. Assim, se se compreende esta oposição entre a 
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utopia, o aperfeiçoamento da vida social e suas deformações exploração, dominação, mistificação­, então                         
se pode compreender mais facilmente uma divisão que se estabelece entre função e funcionamento. O dito                               
não significa que as utopias sejam sempre inocentes e acabem traídas, mas em geral elas são mesmo                                 
traídas. 
As instituições, organizações, estabelecimentos, agentes e práticas desempenham uma função. Esta                     
função está sempre a serviço das formas históricas de exploração, dominação e mistificação que se                             
apresentam nesta sociedade. Toda instituição, toda organização, todo estabelecimento apresenta esta                     
função a serviço dos exploradores, dos domina dores, dos mistificadores. Só que esta função raramente se                               
apresenta como ela é, justamente por causa da questão da mistificação... A função apresenta­se                           
deformada, disfarça da, mostra­se como o objetivo natural, desejado e lógico das instituições e das                             
organizações. Isto é, não se manifesta claramente ao nível do instituído e do organizado. Ou seja, os                                 
instituídos e os organizados apresentam, predominantemente, freqüentemente, funções a serviço da                     
exploração, da dominação, da mistificação. E as exprimem de tal maneira que as fazem parecer "naturais",                               
desejáveis e eternas, ao passo que o instituinte e o organizante são sempre inspirados pela utopia, estão                                 
sempre a serviço dos objetivos que, provisoriamente, chamamos de Justiça, de Igualdade e Fraternidade.                           
Podem ser chamados de outra maneira. Essas forças, esses processos, recebem o nome de                           
funcionamento. Então, o funcionamento é sempre instituinte, é sempre transformador, é justiceiro e tende à                             
utopia': A função, ela é predominantemente reacionária, conservadora, a serviço da exploração, da                         
dominação e da mistificação, e se apresenta aos olhos não atentos como eterna, natural, desejável e                               
invariável. 
Agora, pode­se definir outros termos que temos aqui presentes. O instituído, o organizado,                         
enquanto produtivo, enquanto expressão apropriada, enquanto recurso operante o instituinte, é claro que é                           
necessário. Acontece que, rapidamente, tendem a cair fora do seu sentido de funcionamento para adotar a                               
característica da função, coisa que se compreenderá melhor quando se entender que a característica                           
essencial do instituinte, do organizante e dos seus produtos operantes é serem propícios à produção,                             
produção que é a geração do novo, daquilo que 
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almeja a utopia; funcionamento e produção são a mesma coisa. Função é sinônimo de reprodução: é a                                 
tentativa de reiterar o mesmo, de perpetuar o que já existe, aquilo que não é operativo para propiciar as                                     
transformações sociais. Então: instituinte e instituído, organizante e organizado, produção contra                     
reprodução, funcionamento contra função. 
Para concluir, exporemos definições que são um pouco áridas, abstratas, mas necessárias para                         
entender os passos seguintes que vamos dar: digamos em que consiste, como entender, como analisar                             
cada instituição, cada organização, e como intervir para favorecer a ação do instituinte e do organizante.                               
Não se pode fazer este trabalho sem ter claras estas definições. Para concluir, os instituintes­instituídos,                             
organizantes­ organizados que constituem a malha, a rede social, não atuam separadamente, mas sim em                             
conjunto. E essa atividade em conjunto pode ser enunciada com uma fórmula pedagógica: cada um deles                               
atua no outro, pejo outro, para o outro, desde o outro. Essa é uma tentativa de enunciar o entrelaçamento,                                     
a interpenetração que existe entre todos os instituintes e instituídos, entre todos os organizantes e                             
organizados. Esta interpenetração acontece ao nível da função e ao nível do funcionamento; ao nível da                               
produção e ao nível da reprodução; ao nível daquilo que funcionará a favor da utopia e ao nível daquilo                                     
que está contra. Então, essa interpenetração ao nível da função, do conservador, do reprodutivo,                           
chama­se atravessamento. Essa interpenetração ao nível do instituinte, do produtivo, do revolucionário, do                         
criativo chama­se transversalidade. Para dar apenas um exemplo, vou mostrar­lhes um caso de                         
atravessamento de funções a nível organizacional. Nós dizemos, por exemplo, que uma escola é um                             
estabelecimento das organizações do ensino, que por sua vez são uma realização da instituição da                             
educação. Acontece que uma escola não só alfabetiza, não só instrui, não só educa dentro dos objetivos                                 
manifestos do organizado e do instituído, mas também prepara força de trabalho (alienado), ou seja, uma                               
escola também é uma fábrica. Por outro lado, uma escola, de acordo com a concepção de ensino que elatenha, também consegue manter os alunos presos durante seis a oito horas por dia, e além de ensiná­los a                                     
ler e escrever, o que fundamentalmente lhes ensina é a obedecer, e o que basicamente lhes transmite é um                                     
sistema de prêmios e punições, especialmente 
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de punições. Neste sentido é que uma escola é também um cárcere. Mas, além disso, o que a escola                                     
ensina é uma série de valores do que deve ser construído, do que deve ser destruído, ensina formas de                                     
exercício da agressividade. Então, de alguma maneira, também se pode dizer que uma escola é um quartel                                 
ou uma delegacia de polícia. Então, vocês vão vendo como uma escola, ao nível do instituído, do                                 
organizado, ao nível da função, ao nível da reprodução, está atravessada pelas outras organizações. Existe                             
uma estreita colaboração na tarefa de reproduzir o que está, tal como está, e dessa maneira colaborar para                                   
a perpetuação da exploração, da dominação e da mistificação. Mas uma escola também é um âmbito onde                                 
se tem a ocasião de formar um agrupamento político­escolar,um clube estudantil; uma escola também é um                               
lugar onde se pode aprender a lutar pelos direitos; uma escola também é um lugar onde se pode integrar                                     
um sistema de ajuda mútua entre os alunos; uma escola também é um lugar onde se pode adquirir                                   
elementos para poder materializar as correntes instituintes, produtivas; numa escola também se pode                         
aprender a lutar contra a exploração, a dominação, a mistificação. Então, uma escola tem um lado                               
instituinte, um lado organizante. Neste sentido, a escola pode ser também, por exemplo, uma frente de luta                                 
revolucionária, de luta sindical, um lugar de doutrinamento para a revolução, um lugar de exercício da                               
solidariedade. Neste sentido é que uma escola tem também um funcionamento articulado, interpenetrado                         
com muitas outras organizações, instituições, com muitos outros instituintes e organizantes da sociedade                         
que atuam nela, através dela, para ela, por ela, e ela por outras, e ainda entre os diversos∙ quadros e                                       
segmentos desse mesmo estabelecimento. Essa interpenetração chama­se transversalidade. A                 
interpenetração ao nível da função, da reprodução, como já vimos, chama­se atravessamento. A                         
interpenetração a nível instituinte, produtivo, chama­se transversalidade, e esta se define também como                         
uma dimensão da vida social e organizacional que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade nem à                                   
ordem informal da horizontalidade. Os efeitos da transversalidade caracterizam­se por criar dispositivos                       
que não respeitam os limites das unidades organizacionais formalmente constituídas, gerando assim                       
movimentos e montagens alternativos, marginais e até clandestinos às estruturas oficiais e consagradas. 
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Com isso temos definida, até certo ponto, a concepção institucionalista da sociedade. A sociedade é uma                               
rede constituída pela interpenetração de forças e entidades reprodutivas e antiprodutivas cujas funções                         
estão a serviço da exploração, dominação e mistificação (atravessamento), assim como também está                         
constituída pela interpenetração das forças e entidades que estão a serviço da cooperação, da liberdade,                             
da plena informação, ou seja, da produção e da transformação afirmativa e ativa da realidade                             
(transversalidade). 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO II 
1) O que são, para o Institucionalismo, as sociedades? 
2) O que implica dizer que as instituições são lógicas e que podem estar formalizadas em leis ou normas ou                                       
que se manifestam em hábitos? 
3) Quais seriam exemplos de instituições? Que são as organizações, os estabelecimentos, equipamentos,                         
agentes e práticas? 
4) O que é o instituinte e o instituído, o organizante e o organizado, a função e o funcionamento, a                                       
produção, a reprodução e a antiprodução? 
5) O que é o atravessamento e a transversalidade? 
6) De que está composta a rede social? 
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Capítulo III 
AS HISTÓRIAS 
o que é para o Institucionalismo o termo "história"? Nós temos, empiricamente, alguma noção aproximada                             
do que é história. Numa primeira instância, é importante diferenciar História de Historiografia. A                           
historiografia é o registro dos fatos históricos que a gente encontra nos arquivos e, geralmente, é uma                                 
versão que foi conservada e foi publicada porque coincide com os interesses do Estado, das classes                               
dominantes, do instituído e do organizado, que têm recursos para resgatar e promover estes documentos.                             
Naturalmente, registram aquilo que lhes convém. Então, historiografia é esta versão que, em geral, se                             
apresenta como sendo objetiva, neutra, impessoal e que, a rigor, é apenas uma versão tão interesseira, tão                                 
tendenciosa quanto qualquer outra, mas que aparece como descritiva, como meramente narrativa. Agora,                         
História, propriamente, não é isso. 
Historiar é um processo de conhecimento que pretende reconstruir os acontecimentos nos tempos,                         
mas que o faz assumindo que qualquer reconstrução é feita desde uma perspectiva, que qualquer registro                               
inclui os desejos, os interesses, as tendências de quem faz História. Porque a versão que se tem da                                   
História é sumamente importante, enquanto justifica as ações 
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e paixões que se protagonizam no presente e, geralmente, justifica e propicia um projeto futuro para a vida                                   
social, ou seja, todos os movimentos sociais que se deflagram, que se impulsionam para chegar a este                                 
porvir. Algumas coisas que o Institucionalismo tem a dizer com respeito à História podem ser resumidas                               
em poucas palavras: 
Primeiro: o Institucionalismo afirma que a História não é, apenas, a reconstrução do que já                             
aconteceu e que já está, de alguma maneira, morto, obsoleto, definido – "o que foi, já foi"­, mas consiste                                     
em uma localização daquilo que, de alguma forma, começou, teve início em um passado. Mas o interesse                                 
da História institucionalista é o de reconstruir o passado enquanto ele está vivo no presente, enquanto ele                                 
está atuante e pode determinar ou já está determinando o futuro. Passado e futuro se constroem e                                 
reconstroem incessantemente desde os valores que inspiram a um presente crítico e revolucionário. 
Segundo: o Institucionalismo afirma que não existe uma História, uma História que seja como uma espécie                               
de mangueira, de modo que totalize todo o devir da vida social em um espaço e em um tempo só; mas diz                                           
que existem "histórias" – multiplicidades econômicas, culturais, ideológicas, do desejo, da afetividade, davontade, histórias raciais, histórias das gerações. Cada uma delas transcorre num tempo próprio que não                             
se pode uniformizar, que não se pode totalizar, globalizar em um tempo único; de modo que não se pode                                     
estudar uma época como se essa época fosse um corte transversal, que se faz num único fluxo da História,                                     
como se faria no fluxo de um rio. Trata­se de tentar articular os diferentes tempos dos diferentes processos                                   
históricos em alguns momentos, eras ou etapas, que são localizáveis como tais, cronológica ou                           
conceitualmente, no século XVI, no século XI, ou na Idade Antiga etc. Mas isso não significa que este seja                                     
o único tempo em que se transcorreram todos os processos. Quer dizer, os processos que constituem a                                 
História são processos policronológicos, cada um em sua duração, e é preciso ver como cada um se                                 
"adianta" ou se "atrasa" em relação aos outros. Outro aspecto importante da leitura institucionalista do                             
tempo é que não é o passado que engendra o presente, mas o passado está composto de uma série de                                       
potencialidades que o presente ativa, que o presente ilumina, que o presente deflagra. Não é o passado                                 
que gera o presente, e sim o presente que explora, que aproveita 
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ou atualiza as potencialidades do passado para construir um porvir. Por outro lado, a História não é uma                                   
série de etapas fatais, ou mais ou menos determinadas, cada uma das quais origina a seguinte, que                                 
começam do zero e vão acabar em dez, cem ou qualquer número final. Não existe uma progressão                                 
predeterminada das etapas históricas e, por conseguinte, não existe um apogeu final dos tempos. O                             
Institucionalismo não aceita a idéia de uma escatologia histórica, isto é, um final que pode ser entendido                                 
como final feliz – e que nesse caso confirme uma escatologia positiva, ou um final catastrófico ou                                 
apocalíptico. Não existe finalidade da História. O que pode ocorrer no dia­a­dia não está inteiramente                             
predeterminado no passado e nem é certo que vá acontecer no futuro. Segundo alguns institucionalistas, o                               
tempo, sempre policronológico, se produz, devém desde um presente em direção ao passado e ao futuro. 
Finalmente, outra afirmação importante que o Institucionalismo pode aportar à teoria da História é                           
que nós, com uma explicação claramente mecânica, baseada em paradigmas de ordem que se                           
desenvolveram do século XVII em diante – que têm como modelo a mecânica celeste com suas                               
trajetórias, suas parábolas, suas órbitas, e como correlato à máquina do relógio –, com este metamodelo                               
mecanicista, tendemos a pensar a História em função de suas leis, sendo que os enunciados legais                               
supostamente dão conta dos processos repetitivos que transcorrem na realidade. Somos levados a pensar                           
que a História se desenvolve segundo uma ordem de características mais ou menos maquinais, que tende a                                 
repetir­se e que, em todo caso, quando não se repete é porque tem conseguido produzir alguma diferença                                 
em relação a uma provável repetição do idêntico ou do igual. Então, esta concepção da História que faz                                   
da diferença uma variação análoga ou semelhante do igual, ou do idêntico, não é compartilhada pelo                               
Institucionalismo. O Institucionalismo diz que o que, predominantemente, retoma na História, não é o igual,                             
não é o idêntico, não é o regular, não é aquilo que se pode captar por leis típicas da mecânica física ou da                                             
mecânica celeste, do relógio ou do calendário, mas que o que se repete na História é a diferença, é o                                       
acaso, é o inesperado, o acontecimento, o imprevisível, o aleatório. E que são estes grandes ou pequenos                                 
momentos de repetição do diferente (por exemplo: do instituinte) que depois 
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vão tentar ser capturados pelo instituído, pelo organizado e repetidos como idênticos. 
Bem, esta concepção da História que estou sintetizando ao máximo, com contribuições de diferentes                           
tendências institucionalistas, não é apenas um exercício acadêmico, mas está estritamente relacionada com                         
a concepção da práxis, da atividade político­social desejante que o Institucionalismo tem, e com a utopia                               
ativa, quer dizer, o propósito, o objetivo, a finalidade e os recursos do Institucionalismo. Porque se bem o                                   
Institucionalismo interessa­se em estudar as leis do que tende a repetir­se, ele está mais implicado em                               
assumir uma práxis que propicie o advento do inesperado, do acontecimento, da inovação absoluta.                           
Então, trata­se de entender como a História é não apenas uma atividade ilustrativa, uma investigação                             
erudita, mas uma tentativa de reconstruir os grandes momentos de imprevisto, os grandes momentos de                             
acaso que transformaram o curso da humanidade, para a partir desses ensinamentos, produzir estratégias                           
que permitam propiciá­los novamente. A História se estuda para aprender como militar a favor da                             
transformação, não de uma transformação previsível, não de uma transformação pré­ figurada, mas da                           
transformação em direção ao radicalmente novo e, portanto, absolutamente desconhecido. Tentemos                     
agora definir outros conceitos importantes. 
O termo molar, outro termo que tínhamos de comentar e que se entende em contraposição ao                               
termo molecular, é uma contribuição feita por algumas escolas institucionalistas e que vou tentar explicar                             
brevemente. 
Para os institucionalistas não existe uma separação radical entre vida econômica, vida política, vida do                             
desejo inconsciente, vida biológica e natural. O que existe são imanências – isto é, a inerência, a posição                                   
intrínseca de cada um destes campos em relação aos outros, que só se podem separar de uma maneira                                   
artificial para a finalidade de seu estudo. A rigor funcionam sempre, por assim dizer, um "dentro" do outro,                                   
incluindo­se no outro. Então, dentro desta concepção da vida social como uma rede, em que os diversos                                 
processos são imanentes um ao outro, pode se distinguir o molar, que, dito de uma maneira simples, é                                   
aquilo que é grande, que é evidente, que tem formas objetais ou formas discursivas, visíveis e enunciáveis.                                 
Por outra parte temos o molecular, que é o que na física se costuma chamar micro, por 
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oposição a macro, isto é, o mundo atômico e subatômico, o mundo das partículas, enquanto o mundo                                 
macro por excelência seria, por oposição, o universo, o cosmos, que é composto de grandes corpos.                               
Então, tomando esses ensinamentos da microfísica, da microquímica, da microbiologia,da biologia                       
molecular, o Institucionalismo afirma que as grandes mudanças históricas, as macromudanças, são sempre                         
resultado de pequenas micromudanças, e que os grandes poderes em vigor na sociedade são apenas                             
forças resultantes de pequenas potências que se chocam e conectam em espaços microscópicos de uma                             
sociedade. Como até mesmo a física, a biologia e a química descobriram que as leis que regem os                                   
processos e as entidades macro não são capazes de dar conta da dinâmica que acontece nas micro. O                                   
macro é o lugar da ordem, é o lugar das entidades claras, dos limites precisos, é o lugar da estabilidade, da                                         
regularidade, da conservação. O micro, dito tanto no sentido físico, químico, biológico quanto no sentido                             
social, político, econômico e desejante, é o lugar das conexões anárquicas, insólitas, impensáveis. O macro                             
é o lugar da reprodução, e o micro é o lugar da produção; o macro é o lugar da conservação do antigo ou                                             
da propiciação do novo previsível, e o micro é o lugar da eclosão constante do novo; o macro é o lugar da                                           
regularidade e das leis, o micro é o lugar do aleatório e do imprevisível. Esta diferenciação também é                                   
importante porque, em geral, o Institucionalismo confia em analisar e propiciar as mudanças locais, as                             
transformações microscópicas, as conexões circunstanciais, porque espera delas efeitos à distância que, ao                         
generalizarem­se, resultam nas grandes metamorfoses, do instituído e do organizado, o detectável e                         
consagrado. Dito com outras palavras, o Institucionalismo pensa que as pequenas conexões locais são o                             
lugar do instituinte, e entendê­lo assim está estritamente relacionado com as estratégias de intervenção nos                             
âmbitos, nos espaços de atuação que o Institucionalismo vai tentar propiciar. Eles são os pequenos lugares                               
intersticiais da vida natural­social­técnica e subjetiva, e não os grandes blocos representativos dos                         
territórios constituídos. 
Finalmente, é importante definir o termo antiprodução. Se não me engano, já tentamos reiteradamente                           
definir e redefinir o termo produção. Produção é aquilo que processa tudo que existe, natural, técnica,                               
subjetiva e socialmente. É a permanente 
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geração, enquanto não se cristaliza; é o devir, é a metamorfose, é o que, com uma terminologia ainda                                   
religiosa, chamaríamos de criação. Mas no momento em que as forças produtivas entendidas de maneira                             
muito ampla, as forças instituintes ­organizantes, são capturadas em grandes organismos reprodutivos                       
como o Estado ou o mercado capitalista, vigora a antiprodução. Por exemplo, elas são voltadas contra si                                 
mesmas, de maneira que a produção, as energias não orientadas, as matérias produtivas ainda não                             
formadas são retidas pelos mecanismos, pelos equipamentos, pelos organismos e forças de toda ordem                           
que propiciam a reprodução do mesmo, o impedimento ou a destruição do novo, elas tornam­se                             
antiprodutivas, elas se destroem a si mesmas. É o que subjaz a grandes processos sociais como as guerras;                                   
é o que subjaz a célebres atitudes sociais como a de destruir os produtos porque o preço caiu no                                     
mercado; é o que subjaz à geração de enormes contingentes sociais que estão destinados a morrer, e que                                   
morrem não apenas por deficiência da provisão ou da organização, mas por atitudes ativas do poder                               
destinadas a destruí­los, como é o caso da marginalidade, da mortalidade infantil, dos preconceitos sexuais                             
e raciais, do alcoolismo, da tóxico­dependência, dos genocídios coloniais, neocoloniais e planetários                       
contemporâneos etc. Essas são potências, são forças singulares, produtivas, que a sociedade não está em                             
condições de incorporar porque não pode transformá­las em mercadoria, seres, bens, valores, serviços –                           
não pode assimilá­las à lógica do sistema. Então, ou as deixa morrer, ou as mata por meio de mecanismos                                     
mais ou menos deliberados, mais ou menos premeditados. Esse processo de autodestruição das forças                           
produtivas naturais, sociais, subjetivas e tecno­industriais que a sociedade faz chama­se antiprodução. Um                         
desses processos característicos é o problema ecológico, que só agora se está" descobrindo", enquanto já                             
era evidente desde meados do século passado com o processo produtivo industrial' mercantil baseado na                             
geração de mercadorias, de bens de troca e não de bens de uso, que vem destruindo o reservatório                                   
fundamental de matéria­prima e de vida que é a natureza. Agora, isso se torna moda; mas foi sempre                                   
assim, e é uma das expressões mais radicais da capacidade antiprodutiva do sistema dominante no mundo. 
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Para qualquer tendência sociológica, científica­política ou econômica clássica, já é completamente                     
evidente que não se pode pensar os processos característicos de cada área – não se pode conceber o que                                     
acontece em economia, em política ou sociologia – com independência do psiquismo dos homens,                           
prescindindo do que antigamente se chamava as almas dos homens. Ou seja, apesar de se poder acreditar                                 
que é o econômico que determina, em última instância, as características da vida e da morte social, ou que                                     
se possa supor que é o político o tal determinante, hoje se sabe, e ninguém pode negá­la, que por mais                                       
determinados, por mais submetidos às leis econômicas e políticas que estejam os homens, eles só entram                               
nesses processos de dominação, de exploração, de mistificação ou, pelo contrário, em processos                         
revolucionários, se estes, de algum modo, coincidem com suas crenças, representações, convicções                       
acerca da vida social. E também não entram se suas expectativas, suas vontades, seus desejos não se                                 
encaminham nessa direção. Isso é claríssimo. O Institucionalismo tende a não privilegiar a priori nenhuma                             
determinação mais que outra, isto é, são tão importantes as vontades, os desejos e as representações com                                 
que os homens entram nos processos históricos quanto as estruturas "materiais", econômicas, políticas ou                           
naturais que os determinam. Mas a isso temos de acrescentar que a partir da contribuição psicanalítica,                               
sabe­se que as vontades, os desejos mais potentes que dirigem a conduta ou a vida dos homens, são                                   
inconscientes, isto é, não fazem parte de seu saber, de seu querer deliberado. Em última instância, os                                 
homens entram nos processos históricos e sociais determinados por forças desejantes, por vontades queeles não controlam e não conhecem, mas que têm a ver com o prazer, que têm a ver com o sofrimento e                                           
têm a ver com vivências e mecanismos subjetivos ainda mais profundos. Hoje, por exemplo, está cada vez                                 
mais evidente para os economistas que o "melhor" plano econômico não funciona se não se consegue                               
mobilizar as forças desejantes dos integrantes de uma população, não só seus interesses, para provocar o                               
consenso dos agentes em torno deste plano; e ainda mais, que o "pior" dos planos é capaz de funcionar                                     
quando se consegue essa mobilização. E não se trata apenas de conseguir uma adesão consciente ou uma                                 
credibilidade voluntária, mas de mobilizar forças inconscientes às quais se apela, ainda passando por cima                             
das crenças e convicções dos agentes 
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sociais. Isso também não é novidade. Já a partir de Reich, o grande psicanalista marxista, nós nos                                 
interrogamos constantemente porque, em lugar de colocar­se o problema de que ocasionalmente os                         
operários estejam em greve ou que circunstancialmente os soldados se rebelem contra seus superiores,                           
não nos perguntamos porque os operários não estão sempre em greve, porque os soldados não se unem                                 
para executar definitivamente seus superiores. Por que os povos atuam contra seus reais interesses e                             
vontades? Então, não se trata apenas de dizer que o fazem por medo, porque os acontecimentos históricos                                 
demonstram que os povos quando se mobilizam, quando as forças inconscientes se ativam, não têm medo                               
de nada e têm como se fosse uma plena consciência de sua potência. Eles correm perigos tremendos ou –                                     
combatem lutas desiguais, mas eles operam as transformações sociais. Não se trata também de dizer                             
apenas que os povos são ignorantes, porque se é certo que o sistema se ocupa de manter os povos                                     
ignorantes ou erradamente informados, já se tem visto processos históricos em que os povos são capazes                               
de produzir um saber acerca de suas condições de existência que não precisa, passar pelo saber                               
transmitido pelos meios de divulgação, nem necessita submeter­se ao saber acadêmico. Os povos checam                           
seu próprio saber sobre suas condições de vida na luta cotidiana pela transformação desses campos de                               
existência e levam à frente movimentos de imenso poderio, de incalculável potência social, sem apelar para                               
os saberes instituídos e estabelecidos. Então, o importante a ser reconhecido é a existência dessas forças                               
inconscientes que o Institucionalismo denomina desejo, por ressonância ou por uma re­elaboração do                         
conceito de desejo inconsciente da Psicanálise. A diferença consiste em que o desejo inconsciente em                             
Psicanálise está sempre relacionado com uma estrutura chamada Complexo de Édipo: é um desejo que                             
atua primeiro na vida familiar, nas relações ou nas fantasias incestuosas ou parricidas do inconsciente                             
infantil e que, depois, se translada para a vida social com as mesmas características. O desejo segundo a                                   
Psicanálise é um impulso que tende a reconstituir estados perdidos a se realizarem em fantasmas                             
imaginários, é uma tendência reprodutiva, é um anseio que tende a restaurar o narcisismo, que                             
supostamente, em algum momento, foi o estado em que o proto­sujeito esteve integralmente. O desejo no                               
Institucionalismo não tem essas peculiaridades. O desejo do 
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Institucionalismo é imanente à produção, é (digamos provisoriamente) o aspecto subjetivo (mas não                         
apenas psíquico) da mesma força que no social é o instituinte. É uma força que tende a criar o novo,                                       
entendido como o imprevisível, é uma força de conexões insólitas, é uma força de invenção e não é uma                                     
força restauradora de estados antigos. Mas é inconsciente. Só que este inconsciente não se entende                             
exclusivamente como um inconsciente edipiano, familiarista, repetitivo, mas também como um inconsciente                       
pré­pessoal, pré­social e pré­cultural, objeto de um saber que toma elementos de todos saberes                           
existentes; trata ­se de matérias não­formadas e energias não­vetorizadas que são capazes de gerar                           
transformação. A força desse inconsciente não está submetida apenas por um recalque psíquico, mas por                             
um recalque complexo que é simultaneamente político, libidinal, semiótico etc. Então, para o                         
Institucionalismo não existe o que seria um homem universal, não existe uma estrutura, uma                           
essência­homem. Também não existe uma estrutura, uma essência­sujeito, um sujeito psíquico que seria o                           
mesmo em todas as sociedades, em todos os momentos históricos, em todas as classes sociais, em todas                                 
as raças etc. O que se passa é que esse sujeito psíquico, mesmo que se aceite como sendo universal, teria                                       
representações ou teria recursos que variariam segundo a sociedade, segundo a classe social ou o grupo a                                 
que pertencesse. Para o Institucionalismo não existe esse sujeito eterno e universal, apenas preenchido                           
com conteúdos históricos sociais variáveis. Para o Institucionalismo, o que existe são processos de                           
produção de subjetivação ou de subjetividade. Mais adiante explicarei em que consistem essas duas                           
denominações, mas essa produção é absolutamente contingente, é absolutamente própria de cada lugar,                         
de cada momento, de cada conjuntura histórica etc. Ou seja, produzem­se sujeitos em cada                           
acontecimento­devir­sujeitos para esse acontecimento­devir, sujeitos variavelmente protagonistas desse               
acontecimento, ou, se pode dizer, é o acontecimento­devir que os produz. E podem existir analogias,                             
podem existir semelhanças entre esses sujeitos. O que importa não é a produção das semelhanças ou de                                 
analogias entre os sujeitos, mas a produção de diferenças, a singularidade de cada sujeito produzido em                               
cada lugar, a cada momento. Então, quando nessa produção predomina o instituído, a reprodução de um                               
sujeito do desejo assujeitado aos interesses dominantes, aos 
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interesses exploradores, aos interesses mistificantes, ele adota as características de um sujeito mais ou                           
menos universal e eterno. A isto se chama produção de subjetividade assujeitada, subjetividade submetida.                           
Quando o que predomina neste processo é a geração do novo absoluto, de subjetivação absolutamente                             
original, absolutamente singular, absolutamente instituinte, absolutamente contingente, circunstancial e                 
gerada pelos eventos revolucionários, a isto se chama produção de subjetivação livre, não assujeitada,                           
primigênia, produtiva, revolucionária,em que o desejo se realiza em conexões locais, micro, e se efetua                               
gerando o novo, não se concretiza restituindo o antigo, processa­se não reproduzindo o instituído, o                             
organizado, o estabelecido, mas se realiza gerando o instituinte e o organizante. 
Por que esta discriminação é importante? Porque na leitura que o Institucionalismo vai fazer de                             
cada organização, de cada estabelecimento, movimento ou proposta, ele vai privilegiar a intelecção de                           
dispositivos que são capazes de produzir subjetivações. E não vai privilegiar, a não ser para denunciá­los,                               
a leitura de aparelhos ou equipamentos que estão destinados a produzir a reprodução de subjetividades                             
submetidas. O mesmo vai acontecer nas montagens técnicas, organizativas, políticas, com as formas de                           
militância, com a "maquinaria de guerra" que o Institucionalismo pretende propiciar em suas intervenções,                           
porque as mesmas têm de estar protagonizadas por novas produções de subjetivação, circunstanciais,                         
transitórias, capazes de encarar o sentido desejante e revolucionário e depois autodissolver­se para deixar                           
seu lugar a outras. Evidentemente, todas essas definições necessitariam de exemplos muito precisos que,                           
pela natureza elementar deste livro, não poderemos dar nesta exposição. Mas a discriminação que tem de                               
ficar claramente estabelecida é que o Institucionalismo, em geral, não .se propõe "pegar" um sujeito                             
reprodutivo que é sempre o mesmo, eterno e universal e invariável em todo tempo e lugar, e trabalhá­lo                                   
para torná­lo produtivo. O objetivo institucionalista é criar campos de leitura, de compreensão, de                           
intervenção para que cada processo produtivo desejante, revolucionário, seja capaz de gerar os "homens"                           
(ou sujeitos) de que precisa. Não ajeitá­los a partir de uma suposição de que já estão feitos, mas aceitar a                                       
idéia de que os novos homens se fazem a cada momento, em cada circunstância. 
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Essa exposição que se acaba de ler não segue ao pé da letra as teorias sistemáticas da                                 
Psicanálise, o Marxismo ou as psico­sociologias de cunho fenomenológico, positivista, culturalista ou                       
estrutural­funcionalista. Em muitas passagens, pode ficar sincrética ou imprecisa demais. A intenção não é                           
dar uma série de definições acadêmicas fiéis a seus textos de origem. Este é o caso, por exemplo, de                                     
quando falamos do inconsciente ou do desejo. O contexto em que falei dessa questão ainda é um espaço                                   
teórico algo clássico, que habitualmente se aborda com o nome de ideologia. É verdade que há uma certa                                   
definição de ideologia que a considera como uma série de representações erradas, de crenças, de                             
convicções acerca do mundo, que está animada pela ilusão, pela esperança e pelo medo. Costuma­se                             
reconhecer que existem ideologias dominantes que são as ideologias da classe dominante, ou seja, que são                               
ideologias conservadoras, reacionárias. Por outro lado, existem ideologias revolucionárias, que são                     
ideologias das classes, dos grupos que procuram uma drástica transformação social. Em geral fala­se                           
dessas ideologias como sinônimo de consciência falsa ou distorcida. São crenças, convicções ou                         
expectativas e desejos conscientes. Ademais, afirma­se que a ideologia dominante na sociedade é a                           
ideologia dos grupos dominantes, é uma ideologia que se impõe pela ignorância ou a distorção, apesar de                                 
ser contrária aos interesses da maioria. Então, costuma­se dizer que a maneira de reverter essa situação é                                 
instruir, é educar, é modificar essas representações, é criar outro tipo de expectativa ou vontade, é                               
conscientizar acerca dos limites da potência que tem a classe dominante, conscientizar acerca do potencial                             
de prazer, de gozo, de eliminação do sofrimento que teria uma transformação social protagonizada pela                             
classe dominada. Mas é importante recordar que desde um bom tempo atrás já existem pesquisas e                               
produções teóricas que mostram que não é apenas por medo ou esperança, por ignorância, informações                             
erradas ou manipuladas que as classes, os grupos e sujeitos submetem­ se aos interesses das classes                               
dominantes. Eu citava o célebre psicanalista Reich quando ele, estudando o movimento nazista da                           
Alemanha, afirmava que o povo alemão não estava desinformado; talvez estivesse incorretamente                       
informado, mas é difícil acreditar que o povo mais culto da Europa fosse capaz de acreditar nas asneiras                                   
que estavam sendo ditas; e também 
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não tinha tanto medo, porque era um povo muito orgulhoso, muito seguro de suas forças, com um                                 
proletariado muito politizado. E, sem dúvida, este povo acabou aderindo maciçamente ao projeto                         
nacional­socialista, um projeto de dominação do mundo, racista, machista, que reunira em si todos os                             
autoritarismos, todos os paternalismos, toda a capacidade antiprodutiva de uma sociedade moderna. Por                         
quê? O que W. Reich diz é que foi devido não apenas às circunstâncias históricas econômicas, políticas e                                   
ideológicas que todo mundo conhece, mas também a determinantes, digamos, histórico­eróticos, libidinais,                       
que fizeram com que este líder fosse capaz de mobilizar certos desejos inconscientes da massa e fazê­la                                 
participar de um projeto onipotente e sádico, uma maneira de realizar inconscientemente esses desejos,                           
desejos inconscientes de domínio, de exercício da crueldade, desejos inconscientes que, segundo Reich,                         
eram maneiras de restituir a cada um deles o estado utópico narcísico perdido. Reich já sabia que não é                                     
apenas com a consciência que se consegue dominar os povos, fazê­los operar contra seus potenciais e                               
interesses, mas com outro tipo de mobilização. O Institucionalismo vai recolher bastante de Reich, mas                             
reformulando­o segundo sua própria compreensão do desejo – que não é o desejo segundo a Psicanálise                               
de Reich; não é o desejo exclusivamente psíquico ou inconsciente (segundo o inconsciente edipiano da                             
Psicanálise), mas o desejo imanente a todas as forças materiais possíveis de potência produtiva. Não é um                                 
desejo que, por natureza, pretenda restituir alguma coisa perdida, mas é um desejo que, por substância, é                                 
revolucionário. Este tipo de desejo inconsciente, que tem de ser lido no campo da análise e mobilizado                                 
pelas intervenções, pelos dispositivos instituintes, para que opere historicamente segundo sua verdadeira                       
essência e não seja encaminhado a animar máquinas reprodutivas e antiprodutivas. 
O emprego que aqui fizemos de uma verdadeiraproliferação de termos é uma peculiaridade do                             
caráter intertextual e descartável da terminologia institucionalista. É possível que seja um tanto confuso,                           
particularmente com relação ao léxico sistemático da Psicanálise ou do Materialismo Histórico. 
Eu me surpreenderia se estivesse claro. Afinal, tudo o que teria de ser dito sobre Psicanálise, o                                 
Édipo, a concepção psicanalítica do desejo e o Institucionalismo é muito mais amplo 
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do que a gente pode dizer aqui. Se alguém observa no meu relato restos da nomenclatura psicanalítica,                                 
isso pode ser até uma espécie de interpretação ou intervenção institucionalista sobre meu discurso, na                             
medida em que, por mais que a gente se envergonhe, a gente também é psicanalista. É evidente que                                   
chegamos ao Institucionalismo a partir de identidades diferentes. Há institucionalistas psicanalistas. Cada                       
um de nós tem de lutar contra constrições, restrições teóricas e técnicas e "práxicas" que a sua identidade                                   
prévia lhe impõe. Porque ser institucionalista implica uma tremenda transformação do aparelho teórico,                         
metodológico, técnico da atitude profissional e da atitude específica do especialista. Então, nesta função                           
que estou cumprindo agora, não me surpreende que eu tenha as minhas vacilações. Não sei se elas foram                                   
percebidas. Obviamente não são registradas por mim, que sou interessado e, portanto suspeito. Tenho a                             
impressão de que não é tanto assim: "Apenas por egossintonia." Mas o que aparece na mudança do                                 
caminho é o seguinte: o Institucionalismo é um saber intersticial, é um saber nômade, é um saber errático;                                   
então, ele pega algum elemento de cada campo do saber e do fazer e tenta agregá­lo a novos contextos                                     
para criar uma idéia nova. Em compensação, o Institucionalismo não é uma ciência, não é uma disciplina,                                 
não tem objeto específico, não tem aparelho teórico conceitual restrito, não tem um objeto formal abstrato.                               
Então, o que eu estava tentando explicar com referência ao desejo e ao inconsciente é que este é uma                                     
idéia repensada, porque o Institucionalismo não a toma emprestada, não a importa (como se diz em                               
epistemologia); o Institucionalismo "rouba" alguma coisa de cada corpo teórico e se sente com direito de                               
roubar, porque não respeita a propriedade intelectual privada nem específica. Por exemplo: O roubo que o                               
Institucionalismo fez da Psicanálise e do conceito clássico de essência do desejo inconsciente como força                             
capaz de gerar uma série de efeitos, como o valor do prazer e do desprazer no campo libidinal, no plano                                       
das "escolhas objetais". Mas o Institucionalismo vai transformar este conceito. O desejo inconsciente na                           
Psicanálise é uma força que insiste em restituir imaginariamente o narcisismo como estado inicial em que                               
coincidem investimento e identificação; então, como é que a Psicanálise atua? Ela o faz tentando impedir                               
que o desejo reatualize a unidade imaginária do ego do sujeito com o objeto narcísico por meio da                                   
castração 
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simbólica, orientando e fluidificando o desejo através do sistema simbólico. O desejo se mobiliza para                             
restituir imaginariamente o narcisismo. A intervenção psicanalítica o obriga (mais que lhe possibilita) a                           
animar o sistema simbólico, a representar, a significar, a sublimar. Por sua vez, o Institucionalismo não                               
acredita que a essência do desejo seja restitutiva, nem que deve ser capturado no sistema simbólico, nem                                 
obrigado a nada. Ele pensa que o desejo é espontaneamente produtivo, revolucionário, inventivo. Apenas                           
se deve criar condições para que ele possa animar dispositivos e máquinas revolucionárias capazes de                             
realizá­la em acontecimentos e devires. Para o inconsciente psicanalítico o desejo nunca se realiza, é da                               
característica do irrealizado, só pode imaginar­se e simbolizar­se. Para o Institucionalismo, o desejo                         
realiza­se sempre, apenas é preciso produzir condições históricas em que ele possa realizar­se                         
produtivamente. Isso inclui engendrar modos de subjetivação que co­protagonizem este processo. 
Para alguns institucionalistas, se é que eles aceitariam essa denominação genérica, o inconsciente e                           
o desejo são a substância mesma da realidade (como diria o filósofo Espinoza), da qual se diz que se                                     
repete como diferença, ou seja, que é o Ser do Devir sempre infinitamente diferente. Também se afirma                                 
que é a Vontade de Potência afirmativa e a ação das forças positivas (como postularia Nietzsche) que gera                                   
o inter­jogo de forças e a origem de tudo. Kant talvez diria que o desejo consiste em quantidades                                   
intensivas, que são prévias às quantidades e qualidades de tudo que existe. Bergson falaria das                             
virtualidades – que não existem, mas são reais, e só esperam sua atualização. Para certos institucionalistas,                               
o inconsciente é produzido em cada agenciamento, em cada dispositivo que se autogera para originar um                               
acontecimento e um sentido. Tais inconscientes não são causados por sujeitos nem por objetos, pelo                             
contrário, eles podem processar modos de subjetivação e objetivação que são necessários para as                           
novidades produtivas que os geraram em sua montagem. 
Não obstante, nos propomos voltar sobre o tema no capítulo seguinte. Apenas observemos que,                           
para certas correntes do Institucionalismo, o sujeito é uma organização por meio da qual se realizam muitas                                 
instituições. Assim entendido, o sujeito é produto de processos instituintes, organizantes, criadores, assim                         
como de outros repetitivos ou antiprodutivos. É por isso 
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que as diversas escolas institucionalistas tentam analisar e intervir sobre o sujeito­organização em suas                           
relações de atravessamento e de transversalidade com outras organizações: subjetivas ou não (ou seja: no                             
trabalho, na educação, na saúde etc.), outras correntes institucionalistas não dizem que o sujeito é apenas                               
uma peça do processo de produção de subjetividade alienada ou de subjetivação revolucionária. Esses                           
processos são imanentes a muitos outros e sua abrangência e produtos são muito mais amplos e                               
complexos do que aquilo que se entende por" sujeito". 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 
1. Que diferença existe entre História e Historiografia? 
2) Existe uma História que totaliza todos os percursos dos processos sociais­econômicos­subjetivos e                         
naturais? 
3) O que significa Molar e Molecular? 
4) O que se entende por produção, reprodução e antiprodução? 
5) Qual é o papel da repetição e da diferença, do acaso e das regularidadesna História? 
6) Qual é a diferença do modo de definir sujeito e desejo: na Psicanálise e no Institucionalismo? 
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Capítulo IV 
O DESEJO E OUTROS CONCEITOS NO INSTITUCIONALISMO 
Eu dizia, em uma passagem do capítulo anterior, que não me estranharia que muitos dos conceitos                               
do Institucionalismo não fossem fáceis de entender, assim como a essência mesma do Movimento. 
O filósofo Gaston Bachelard escreveu um livro chamado "Psicanálise do Espírito Científico". Na                         
realidade, não se tratava propriamente de Psicanálise e, por outro lado, se compreenderá que não se pode                                 
falar, em um sentido estrito, de "espírito científico" – só Sé pode aceitá­lo como uma metáfora. O                                 
mencionado texto tratava de caracterizar os principais hábitos do pensamento corrente que, por estarem                           
muito arraigados, produzem um efeito de convicção na "mente" de quem pretende formar­se como                           
cientista. Esses "vícios" do senso comum operam como obstáculos que dificultam ou impedem o estudioso                             
de assumir as peculiaridades de funcionamento dos diversos métodos científicos, cujas "verdades"                       
freqüentemente contrariam as evidências da opinião generalizada. Bachelard tentava um trabalho                     
epistemológico que operasse uma espécie de "cura" dessas crenças para conseguir, assim, a predisposição                           
dos 
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"espíritos" para a adoção de uma atitude tipicamente científica. 
Não ignoro que, devido às deficiências da formação geral e universitária da qual padecemos,                           
muitos ainda não podem estar certos de haver adquirido o mencionado" espírito", ou um outro melhor                               
ainda, por isso torna­se especialmente difícil exigir­lhes, neste momento, que comecem a aprender a                           
criticar­se enquanto "científicos", entendendo a singular proposta do lnstitucionalismo. Cabe aqui lembrar                       
que, a despeito do Institucionalismo nutrir­se em grande parte das contibuições mais revolucionárias das                           
ciências contemporâneas, tem com elas uma relação contraditória, polimorfa e complexa. 
Um típico problema que se apresenta quando se trata de ensinar alguma ciência em particular                             
passa­se devido ao fato de que, semanticamente falando, alguns termos teóricos que as ciências empregam                             
são idênticos aos utilizados na linguagem cotidiana. No entanto, sabemos que essas palavras, quando                           
importadas e processadas no seio de uma teoria científica, mudam radicalmente de sentido, não                           
conservando nenhuma das denotações e conotações (como diz certa lingüística) que tinham nos discursos                           
ou textos de origem. Contudo, ainda durante um longo período de sua aprendizagem, os jovens estudantes                               
de uma ciência continuam confundindo essas diferentes significações. 
As diversas correntes institucionalistas, por sua parte, podem empregar termos teóricos com                       
acepções idênticas às utilizadas pela ciência de onde um conceito foi tomado, ainda que invariavelmente o                               
façam isolando esse conceito do contexto sistemático no qual o mesmo foi enunciado e do qual recebe seu                                   
valor de origem. 
Em outros casos, o Institucionalismo procede adotando algum termo, mas o faz acrescentando­lhe                         
sentidos que se somam aos originais, sem descartá­las. Finalmente, o Institucionalismo pode também                         
transformar um conceito em uma categoria, ou em uma noção, ou até em uma alusão vaga, se considera                                   
que, em determinada conjuntura, torna­o revelador. 
Para concluir, cabe recordar que o Institucionalismo é a expressão, algo extremada, de um                           
questionamento da hegemonia do pensamento científico como tal e de suas diversas especificidades,                         
defendendo a fertilidade de todos os saberes, incluídos, por exemplo, os que existem em "estado prático"                               
nas 
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atividades leigas, artísticas, religiosas etc. 
Por isso, às vezes é duro, para quem se aproxima deste estudo, aceitar e entender a polissemia                                 
que adquirem semantemas provenientes, digamos, da Psicanálise (inconsciente, desejo etc.), ou outros                       
originários de algumas escolas do Materialismo Histórico (sobredeterminação e mais­valia, por exemplo). 
Agora, peço­lhes que se coloquem um pouco no lugar do docente. Estou tentando dar um curso                               
introdutório de um saber que não tem limites. Se os profissionais, especialistas de alguma disciplina,                             
queixam­se da incrível aceleração na produção de conhecimentos de cada saber, que faz com que os                               
experts não consigam acompanhar essa produção – em alguns ramos muito desenvolvidos, como a Física,                             
chega­se a afirmar que o expert só tem dez anos de vida útil, tendo se tornado descartável como os                                     
jogadores de futebol, pois depois de uma década já não consegue acompanhar o ritmo de produção                               
teórica e tecnológica de sua disciplina e não chega a atualizar­se. Imaginem vocês uma coisa como esta,                                 
que é um composto de todos os saberes de uma época, inclusive os saberes não­científicos, os artísticos,                                 
os populares; então a formação de um institucionalista realmente é interminável. 
Estou tentando dar uma visão panorâmica geral, muito pouco aprofundada e ambiciosa, de certos                           
conceitos, de certas idéias básicas e de algumas das principais correntes. Não nego que algumas                             
ampliações sejam essenciais, mas justamente porque o são, desenvolver esses temas, no caso de eu estar                               
capacitado para fazê­lo, levaria a outros tantos cursos. Este é um pequeno esclarecimento e uma desculpa                               
pelo tratamento que tentarei dar a várias questões, que terá de ser breve, para que eu possa desenvolver                                   
este capítulo coerentemente com o resto do texto. 
Comecemos por lembrar que não existe uma escola institucionalista, mas sim muitas, e existem                           
diferenças teóricas, metodológicas,. técnicas, políticas entre elas. O que há como característica comum é o                             
interesse pela produção nas organizações e instituições, assim como por um funcionamento auto­analítico e                           
autogestivo das mesmas. É o mínimo denominador comum que se consegue encontrar entre as várias                             
tendências. Agora, entre as muitas diferenças existentes de uma para a outra, está a definição dada a                                 
"desejo". Boa parte delas reconhece a existência do psiquismo como um campo 
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relativamente autônomo da realidade. A maioria delas aceita, dentro desse campo chamado psiquismo, a                           
existência de um espaço, de um sistema e de processos de caráter inconsciente que considera do campo                                 
das causas, da área dos motores do funcionamento psíquico, sendo que o comportamento, a conduta, as                               
vivências, as representações e afetos são do campo dos efeitos deste psiquismo. No entanto, a maioria                               
deles atribui à Psicanálise o mérito de ter descoberto esta instância determinante, que seria o inconscientecom seu processo primário e a força que anima essa instância, que é o desejo. Boa parte deles concorda                                     
com a definição de desejo que seria predominante à colocada em muitos textos freudianos. Em que                               
consiste esta definição de desejo? Seria uma força insistente, persistente, que procura restaurar, reeditar,                           
em último termo, um certo estado do "desenvolvimento" do psiquismo que se denomina narcisismo, em                             
que o ego e o objeto são um, em que não existe a separação sujeito­objeto – que a Psicanálise atribui ao                                         
Complexo de Castração. Então, a partir da ruptura desse estado, surge uma força que seria o desejo, que                                   
tenta reproduzi­lo. Quando a mesma é obrigada a passar por outras instâncias, outros dispositivos, outras                             
maquinarias do psiquismo, particularmente por certa ordem de representações, ela acaba gerando todos                         
os produtos chamados "normais" da vida psíquica, que são rendimentos, resultados dessa trajetória que o                             
desejo faz em lugar da sua realização meramente "alucinatória", ou seja, de sua tentativa de restauração                               
desse narcisismo inicial. Isso, como o leitor avaliará, inclui uma definição restitutiva do desejo; o desejo                               
tem uma natureza conservadora; ele parte de uma situação narcisística e tende a voltar a ela; ele torna­se                                   
produtivo apenas quando nesse caminho, nessa trajetória, é obrigado a elaborar, e a sublimar, devido à                               
sua subordinação à ordem simbólica, a lei ou a sua inscrição no processo secundário (como se queira                                 
chamá­lo). Muitos institucionalistas compartilham plenamente essa definição de . desejo e a aplicam à                           
compreensão dos aspectos psíquicos da vida organizacional, usando­a no entendimento do funcionamento                       
da subjetividade, assim definida nas organizações, particularmente em seus aspectos inconscientes. Um                       
exemplo característico de um autor institucionalista que é absolutamente fiel a esta definição freudiana de                             
desejo, embora tente articulá­la com uma teoria materialista­histórica da sociedade, da economia, 
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da política e das organizações, é Gerard Mendel, criador de uma corrente institucionalista chamada                           
Sociopsicanálise, à qual vamos nos referir mais adiante porque está contemplada em nosso programa. Já                             
uma definição menos fiel à freudiana é a de René Lourau, que recolhe a definição de desejo de uma forma                                       
menos ortodoxa. Mas se a gente estuda a obra freudiana com amplitude e detalhe, percebe setores da                                 
mesma em que essa definição de desejo, que explicamos anteriormente, mostra­se característica, por                         
exemplo, do capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos" e da chamada primeira tópica. Entretanto, existe                             
a possibilidade de outra definição baseada nas passagens freudianas em que o Id é pensado como um                                 
"caldeirão fervente" cheio de estímulos, no qual a pulsão de vida funciona segundo o processo primário.                               
Nesse caldeirão estão incluídos os impulsos libidinais e desejantes dessa "usina" – que têm por objetivo                               
não a restituição de estados perdidos, mas propiciar, de forma anárquica, estados permanentemente                         
novos; associar, cada vez mais amplamente, unidades vitais; processar o movimento como sendo a                           
essência da pulsão de vida e do desejo que dela emana. Justamente a partir dessa definição surgiu a                                   
plêiade de inúmeros autores que impugna a existência de uma pulsão de morte no psiquismo, assim como a                                   
exclusividade de um modo de ser do desejo em cujo extremo está a pulsão de morte que tenta restaurar                                     
um estado imaginário perdido, e com ele a imobilidade. Estamos vivendo uma situação cultural em que se                                 
está impondo a hegemonia de uma das leituras do desejo que Freud fez (a estruturalista). Estamos                               
assistindo, mundialmente, a uma certa fragilidade das proposições do marxismo ortodoxo, assim como a                           
de uma série de autores que partiam desse outro setor da obra freudiana para definir a pulsão e o desejo,                                       
como por exemplo, os freudo­ marxistas. Então, não é estranho que isto se apresente como uma                               
dificuldade para os interessados no assunto, porque este é um problema muito atual e de muita disputa                                 
teórica. No entanto, outros setores do Institucionalismo, particularmente Deleuze e Guattari – os criadores                           
desta orientação chamada Esquizoanálise, muito pouco conhecida e muito pouco implantada tanto em                         
nosso meio como rio mundo inteiro –, levam as proposições freudo­marxistas dessa outra definição do                             
desejo até extremos pós­freudianos e pós­marxistas baseados já em outras contribuições de disciplinas                         
atuais, como a filosofia, a macrofísica, 
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a microfísica, a biologia molecular e certos campos das ciências formais, por exemplo a matemática de                               
Rieman. Os "descobrimentos" desses saberes têm dado origem ao que se chama de uma mudança de                               
paradigma, uma transformação do modelo dominante no horizonte atual do conhecimento. Essa mudança,                         
em um de seus aspectos, consiste na promoção de certo poder criativo da desordem, na reivindicação da                                 
neguentropia, ou tendência à autopoiese, na defesa da produção, da vitalidade, inclusive na ma terialidade                             
psíquica e seus determinantes em última instância, que seriam a pulsão e o desejo. Então, Deleuze e                                 
Guattari, também apoiados na literatura, na arte, e ainda no discurso delirante, constroem uma definição de                               
desejo como sendo não apenas a força que anima o psiquismo, mas uma força essencialmente produtiva e                                 
criativa buscadora de encontros que, além de tudo, é imanente a outras forças animadoras do social, do                                 
histórico, do natural. O desejo não tem caráter restitutivo – tem caráter essencialmente produtivo­                           
revolucionário – e não é uma força separada das que animam a vida social e natural. Por isso há uma                                       
fórmula na Esquizoanálise, que afirma que a Esquizoanálise consiste em introduzir o desejo na produção e                               
a produção no desejo. Trata­se de aprender a pensar um desejo essencialmente produtivo e uma                             
produção, dita no sentido amplo, que não pode ser senão desejante – à medida que funciona como o                                   
processo primário inventado por Freud e considera as subjetivações essencialmente envolvidas nesses                       
processos produtivos, tanto quanto na natureza e nas máquinas técnicas e semióticas. 
Outra questão a ser abordada diz respeito à determinação em última instância. Bom, Marx afirma                             
que a vida social está estruturada como uma espécie de edifício, em que há os alicerces e há as paredessuperiores visíveis. O que Marx insiste em afirmar é que a vida social está finalmente determinada pela                                 
atividade econômica, isto é, por processos de produção de bens materiais indispensáveis para a produção                             
e a reprodução da vida humana sobre a terra. Dessa maneira, a chamada infra­estrutura determina a                               
superestrutura, apesar de que Marx nunca negou que a superestrutura retroaja sobre a infra­estrutura.                           
Assim, as resultantes desse processo complexo não são causadas, de forma alguma, exclusivamente pelo                           
econômico, não podendo ser entendidas dessa maneira. E também não seriam modificáveis 
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exclusivamente a partir do econômico. Um de seus seguidores, Louis Althusser, utilizando outro modelo de                             
formalização da estrutura social – modelo esse tomado da matemática dos conjuntos – representa a vida                               
social como uma composição de três subconjuntos que estão parcialmente intersecionados, de maneira                         
que algumas áreas desses subconjuntos têm autonomia relativa e outras são superpostas ou imanentes                           
entre si. Mas o conjunto total, o sistema, que Althusser chama "todo complexo articulado, diversificado e                               
sobredeterminado", funciona interpenetrado, de maneira tal que haverá um determinante em última                       
instância, que em todos os modos de produção é o econômico, uma instância dominante e uma instância                                 
decisória ou decisiva. O determinante em última instância é o que define o papel dos outros e da sua                                     
participação causal na determinação dos efeitos econômico ­sociais, mas não exclusivamente, e sim                         
mediatizado por aqueles. A instância chamada dominante é aquela fundamental para a reprodução do                           
modo de produção, para que o modo de produção se reproduza "idêntico" a si mesmo. A instância                                 
decisória é a fundamental no processo de transformação de um modo para sua passagem a outro. Essa é a                                     
determinação complexa pela qual todas as instâncias participam de todo e qualquer dos efeitos e                             
resultados. Althusser a denominou sobredeterminação, um modelo da causalidade que tomou da segunda                         
tópica freudiana, em que ld, Ego e Superego funcionam dessa mesma maneira para determinar qualquer                             
efeito no psiquismo: atos, formações do inconsciente etc. O lnstitucionalisrno, em alguns de seus ramos,                             
tem muito em comum com a proposta althusseriana, à medida que adota essa idéia de sobredeterminação.                               
Outros setores do Institucionalismo têm sua própria teoria da causalidade social. Por exemplo, no caso de                               
Deleuze e Guattari, não é uma teoria da sociedade formada por três subconjuntos que, por sua vez,                                 
formam o conjunto total, mas uma sociedade reticular formada por uma grade aberta, uma malha de                               
funcionamentos interpenetrados que são simultaneamente psíquicos, tecnológicos, econômicos, políticos,                 
semióticos e naturais e estão ordenados em três superfícies: de produção, de registro e de consumo.                               
Existem outras teorias da causalidade social próprias de outras tendências institucionalistas, mas todas elas                           
têm em comum a insistência em não separar as determinações psíquicas inconscientes das econômicas,                           
políticas, técnicas, naturais etc. 
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Quanto aos principais recursos teóricos do Institucionalismo, o primeiro a ser abordado será o                           
conceito de campo de análise. As diversas tendências do Institucionalismo podem constituir o que se                             
chama – em uma terminologia discutível – um "recorte" da vida social que pode ser desde pequeno até                                   
amplíssimo, desde um estabelecimento até, por exemplo, o que Deleuze e Guattari chamam o "Capitalismo                             
Planetário Integrado". Isso significa delimitar um objeto ou um campo e aplicar­lhe o aparelho conceitual                             
do Institucionalismo para entendê­lo, para saber como funciona, como estão colocadas e articuladas suas                           
determinações, suas causas, como se geram seus efeitos etc. Esse objeto pode estar constituído por                             
materiais. muito heterogêneos – por exemplo, as principais correntes do fluxo de capitais no mundo atual                               
–, e isso dará um estudo como aquele no qual participou recentemente Guattari, que se chama                               
"Contratempo". Campos de grande porte poderão produzir um livro como o que escreveu Lourau, que se                               
chama "O Estado e o Inconsciente", uma tentativa de analisar as diversas configurações que o Estado                               
adquire nos diferentes modos de produção no curso da história, nas diferentes civilizações e a forma como                                 
o Estado se implanta nos sujeitos a nível inconsciente. Esses campos de análise são terrivelmente amplos.                               
Mas podem ocorrer campos de análise infinitamente menores, como uma análise do significado da festa no                               
Brasil ou uma análise dos efeitos da comunicação de massa em Caruaru, ou o funcionamento dos                               
programas de estudo no vestibular, ou da múltipla escolha para o processo de seleção. Isso ainda não                                 
implica necessariamente uma intervenção concreta sobre esse campo assim delimitado; implica um                       
processo de compreensão, de inteligência dos determinantes desse campo. Por isso denomina­se campo                         
de análise. 
Outra coisa é o campo de intervenção, que é o "recorte", o espaço delimitado para planejar                               
estratégias, logísticas, táticas, técnicas para operar sobre este âmbito e transformá­lo realmente,                       
concretamente. É claro que o campo de intervenção é, em geral, infinitamente menor que o campo de                                 
análise, porque neste momento é demasiado utópico pensar o planejamento de uma intervenção a nível                             
nacional continental ou planetário, O máximo que se consegue delimitar são campos de análise                           
organizacionais. E óbvio, também, que em qualquer corrente de Institucionalismo, 
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a constituição de um campo de análise pode estar articulada com um campo de intervenção. Só que um                                   
campo de análise é pensável sem intervenção, mas um campo de intervenção é impensável sem um campo                                 
de análise. Pode­se compreender e não intervir, mas não se pode intervir sem alguma forma de                               
compreensão. Em geral quando os dois campos se constituem, eles estão articulados entre si: à medida                               
que se compreende, se intervém; e à medida que se intervém, se compreende. 
O ponto seguinte é a análise da oferta e da demanda, que também temos de tratar sinteticamente,                                 
particularmente dentro do enfoque da análise institucional ortodoxa, cujos autores mais notórios são                         
Lourau, Lapassade e o pessoal que os rodeia dentro de sua Sociedade Francesa de Análise Institucional.                               
Eles insistem em explicar que um passo importante para começar a compreenderinstitucionalmente a                           
dinâmica de uma organização é decifrar, analisar, esmiuçar o pedido que esta organização faz de uma                               
análise e de uma intervenção. Para dizê­la provisoriamente: quais são os aspectos conscientes, manifestos,                           
deliberados, voluntários deste pedido, e quais são seus aspectos inconscientes e/ou não­ditos. A isso                           
chamam análise de demanda, que é um dos primeiros passos para entender em que consiste a conflitiva,                                 
em que radica a problemática desta organização solicitante. Mas acontece que, para fazê­lo, o                           
Institucionalismo enfatiza a necessidade de se ter presente a idéia de que a demanda não é espontânea, a                                   
demanda não é o primeiro passo de um processo: ela é produzida, de tal modo que existe um passo                                     
anterior à demanda que é a oferta. A demanda não existe por si. Quando alguns psicanalistas falam hoje                                   
em análise da demanda como a expressão do desejo, eles não têm aparelho teórico para pensar que o                                   
processo não começa aí, que essa demanda de análise foi produzida pela oferta prévia de análise, e está                                   
marcada, modulada, determinada, desde o princípio, por esta oferta. De modo que para compreender a                             
demanda de análise institucional de uma organização é necessário, antes, incluir a auto­análise, a                           
compreensão de como a organização analítica gerou esta demanda; ou que relação existe entre a                             
publicidade, a divulgação científica ou não­científica, a proposição direta ou indireta dos serviços que a                             
organização analítica faz e que não pode não ser causante, geradora ou moduladora da demanda de                               
serviços que lhe é formulada. 
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Um institucionalista muito respeitável e, no meu modo de ver, injustamente pouco conhecido, o                           
paulista que se chama Guilhòn de Albuquerque, tem uma fórmula que não explica todas as situações, mas                                 
que é muito ilustrativa, e que gosto muito de usar com fins pedagógicos: ele diz que toda organização de                                     
prestação de serviços transmite um recado de maneira mais ou menos consciente ou inconsciente durante                             
o processo de oferta de suas prestações, que consiste aproximadamente em passar ao usuário uma                             
mensagem que diz: "Eu tenho o que te falta e, além disso, você não entende, não sabe em que consiste."                                       
Essa mensagem subjaz, está "por trás" de toda oferta de prestação de serviços e, provavelmente, também                               
de bens materiais. Então, quando essa oferta gera uma demanda, ela não pode estar modulada senão pela                                 
própria oferta. Quem demanda, demanda alguma coisa que já lhe fizeram acreditar que não tem e que o                                   
outro tem. Mas é tão complexa, tão sutil, tão técnica, que ele não sabe o que é. Portanto, para poder dar                                         
o primeiro passo em toda análise de intervenção institucional – que é analisar a demanda­, esta análise                                 
deve ser articulada com a forma em que foi produzida, ou seja, com a oferta. Isso exige por parte do                                       
coletivo analisante, o coletivo prestador de serviço, um severo processo de auto­análise de como produzir                             
a oferta de seus trabalhos. Entre a organização analisante, interveniente, e a organização analisada,                           
intervinda, vai­se produzir uma interseção que gera uma nova organização, que é o verdadeiro objeto de                               
análise. Não existe aqui, então, uma posição clássica de objetividade: não somos os experts que sabem e a                                   
organização­cliente não é um objeto passivo e ignorante. Mas juntos é que vamos tentar entender como é                                 
esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro. 
Outro termo fundamental dentro do Institucionalismo é analisador. A Psicanálise já classicamente,                       
concebeu o conceito de derivados do inconsciente, formações do inconsciente, formações transicionais ou                         
transacionais – todos esses termos são sinônimos e designam aqueles fenômenos, sejam eles pontuais ou                             
mais amplos, como sonhos, atos falhos, lapsus linguae, chistes, sintomas, delírios, que são elementos                           
privilegiados dentro do material que um paciente apresenta para ser analisado. Esses produtos não são                             
resultado linear de uma instância ou de um setor da personalidade, não são efeitos exclusivamente 
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conscientes, nem exclusivamente pré­conscientes, nem exclusivamente inconscientes. Não são dados                   
claramente efetuados pelo superego, nem pelo ego ou o id. São fenômenos resultantes de uma                             
combinação, de uma mistura, da articulação de uma transição ou de uma transação entre todas essas                               
instâncias. Por isso é que se chamam, segundo uma das denominações, efeitos transacionais ou formações                             
transacionais. Só que em Psicanálise estes efeitos têm por característica, pelo menos fenomênica ou                           
técnica, exprimir exclusivamente a problemática de um sujeito, manifestá­la, denunciá­la. O analisador, em                         
análise institucional, é um efeito ou fenômeno formalmente parecido com esses efeitos privilegiados do                           
material da Psicanálise. Mas as diferenças são as seguintes: 
Primeira: na materialidade fenomênica, na aparência desses fenômenos, não se privilegiam,                     
absolutamente, os efeitos verbais. Qualquer materialidade pode ser suporte de um analisador, ou seja, um                             
analisador não é necessariamente um discurso, mas pode ser um monumento, a forma como está                             
elaborada a planta arquitetônica da organização, pode ser uma característica dos modos de relação que                             
não está formalizada nem anunciada em parte alguma, ou seja, pode ser um costume e não uma norma,                                   
nem uma lei; pode ser um arquivo, isto é, a maneira como está organizada a memória de uma organização;                                     
pode ser uma distribuição do tempo ou do espaço na organização. E é claro que podem ser também                                   
formas escritas ou faladas do discurso organizacional. Por exemplo, os estatutos, os regulamentos, a carta                             
de princípios, o organograma, o fluxograma etc. E podem ser os relatos ou as mensagens verbalmente                               
proferidas pelos integrantes nas entrevistas, nos questionários ou em qualquer forma de comunicação                         
intersubjetiva. Os mitos, os rituais, o uso do dinheiro, do lazer, da sexualidade, do domínio e o cuidado de                                     
si, etc. Então, a materialidade expressiva de um analisador é totalmente heterogênea. Não é que em                               
Psicanálise não o seja, porque sabemos que em Psicanálise os comportamentos, as atitudes corporais, a                             
couraça caracterológica também são considerados formações do inconsciente; só que a Psicanálise tem                         
uma persistente predisposição a privilegiar os efeitos verbais como sendo os veículos predominantesdas                           
formações do inconsciente, e a. subordinar os outros à compreensão verbal. Isso é claro. Um analisador                               
não é assim. E essa é a primeira diferença. 
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Segunda: um analisador não é apenas um fenômeno cuja função específica é exprimir, manifestar,                           
declarar, evidenciar, denunciar. Ele mesmo contém os elementos para se auto entender, ou seja, para                             
começar o processo de seu próprio esclarecimento. Isto não é fácil de ser explicado. Uma formação do                                 
inconsciente é um produto a ser analisado (com uma maior ou menor intervenção do analista). Um                               
analisador é um produto que pode se auto­analisar. Existem grandes analisa dores e pequenos                           
analisadores. Um grande analisador é a Revolução Francesa, por exemplo, revolução burguesa, como                         
todo mundo sabe, produto de determinados encontros e fluxos de forças da decadência da monarquia e                               
da ascensão da burguesia média, de certo grau de migração do trabalhador do campo para a cidade,                                 
acumulação de capital mercantil e usurário etc. Mas esse analisador também produziu a inteligência de seu                               
próprio processo com os pensadores da Revolução Francesa e ele foi capaz de autoconduzir­se dentro de                               
certos limites à plenitude da realização de seu destino histórico, que foi marcar o fim do feudalismo e o                                     
início ou as preliminares do capitalismo incipiente e do socialismo real. Mas podem haver pequenos                             
analisadores, e esses podem ser um conflito dentro da organização, um determinado acidente numa usina                             
atômica (geograficamente pequeno, pelo menos) etc. Só que esse analisador, colocado em condições                         
propícias, tem a possibilidade de não apenas manifestar­se, mas também de se compreender; ele não                             
precisa ser analisado de fora, ele predsa que se lhe aportem condições para auto­analisar­se, sendo                             
assumido por seus protagonistas. E dessa maneira, não apenas é capaz de enunciar, como também de                               
resolver a situação da qual ele é emergente. Nesse sentido, existem os chamados analisadores naturais –                               
que é uma expressão inadequada, porque analisadores naturais são os terremotos, e, realmente, a análise                             
institucional nunca conseguiu compreender, pelo menos nos seus aspectos geológicos, este tipo de                         
fenômeno, não está preparada para isso. "Natural" quer dizer espontâneo, que também é uma má                             
expressão, porque espontâneos todos são. Então, a definição correta é dizer que são analisadores                           
históricos, ou seja, que a própria vida histórico­social­natural os produz por conta própria como resultado                             
de suas determinações. E existem analisadores artificiais ou construídos, que são dispositivos que os                           
analistas institucionais inventam, introduzem 
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nas organizações para propiciar o processo de explicitação dos conflitos e de resolução dos mesmos. É                               
importante enfatizar que os analistas institucionais na prática técnica, ao nível de produção de analisa dores                               
construídos, se valem de todo e qualquer recurso, seja de tipo artístico, cenográfico, dramático,                           
procedimentos de tipo ativista, político, montagens de tipo propriamente científico, experimental, lógico,                       
sociológico, antropológico e manobras do tipo" convivência prolongada", em que o analisador institucional                         
passa a fazer parte orgânica do conjunto que vai estudar, produzindo assim um artefato próximo à vida                                 
cotidiana. 
O passo seguinte será falar da análise da implicação. 
Felizmente já antecipamos um pouco sobre ela através da análise da oferta. A implicação se define como o                                   
processo que acontece na organização de analistas institucionais, na equipe de análise institucional, a raiz                             
de seu contato, de sua interseção com a organização analisada, intervinda. Também é um conceito que tem                                 
certa dívida com a chamada contra transferência da Psicanálise. Só que a contra transferência em                             
Psicanálise é a reação – consciente ou inconsciente – que o material do paciente produz no analista; e na                                     
análise institucional a implicação não é apenas um processo nem psíquico nem inconsciente, mas um                             
processo de materialidade múltipla, complexa e sobredeterminada, um processo econômico, político,                     
psíquico heterogêneo por natureza, que deve ser analisado em todas as dimensões. E não é apenas                               
reativo, ou seja, não é a resposta da equipe interventora e analisadora ao contato com seu objeto, pois é                                     
prévia a este contato; não começa no usuário: é recíproco, é simultâneo e é parte indissolúvel do processo                                   
de análise da organização, ou seja, é o contrário de uma análise "objetiva". É, como está claro nas ciências                                     
físicas, a análise da interação, da interpenetração destas duas organizações, uma análise variável da relação                             
entre o sujeito e o "objeto". Poder­se­ia dizer que não deixa de ser parecida com uma dás definições que                                     
Freud dá de contratransferência como transferência recíproca. Em continuação, veremos rapidamente                     
alguns termos, sendo que, de alguma forma, os retomaremos na exposição correspondente aos itens que                             
compõem o roteiro de uma intervenção institucional típica, que denominamos standard. Insistiremos uma                         
vez mais em que estas definições, cuja finalidade é basicamente transmitir noções introdutórias para os                             
principiantes interessados no movimento, 
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seguramente não serão nem exaustivas nem precisas. As mesmas estão armadas com sentidos diversos e                             
heterogêneos tomados de diferentes obras e autores, artificialmente extraídas dos contextos teóricos, mais                         
ou menos sistemáticos, em articulação com os quais adquirem seus significados prevalecentes. Sempre                         
será possível voltar sobre estas noções nos textos da bibliografia que lhes são mais específicos para                               
multiplicar e precisar suas acepções. 
No Institucionalismo denomina­se equipamentos a uma série de organizações, estabelecimentos,                   
aparatos, maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos, de grande, médio ou pequeno porte,                           
cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão, do registro ou do controle social.                                 
Uma das maneiras possíveis de classificá­los é referindo­se ao tipo e grau de violência que empregam para                                 
cumprir sua função, enfatizando, além do mais, que sua condição é mais propriamente determinada por                             
essa função que por sua materialidade, estrutura, forma etc. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos                           
são os que certa tradição marxista chamava de "aparatos". Estes cumprem funções eliminatórias,                         
segregacionistas oupunitivas (como por exemplo, as Forças Armadas, a Polícia, a censura cultural ou a                               
Psiquiatria supressiva). Outros apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação                         
da Religião, da Educação, da Comunicação de massas ou a Família). 
Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente, ou certa                       
modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico, assim também como técnicas de                                 
cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. O certo é que os                             
equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do Estado ou das entidades civis e                           
privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do                         
instituído­organizado. 
De um dispositivo pode, de alguma maneira, dizer­se que é o contrário de um equipamento.                             
Trata­se de uma montagem (termo que freqüentemente se utiliza em cinematografia, teatro ou nas artes                             
plásticas) de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir "pedaços" sociais, naturais,                     
tecnológicos e até subjetivos. Um dispositivo caracteriza­se pelo seu funcionamento, sempre simultâneo a                         
sua formação e sempre 
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a serviço da produção, do desejo, da vida, do novo. Um dispositivo forma­se da mesma maneira e ao                                   
mesmo tempo em que funciona, gerando acontecimentos insólitos, revolucionários e transformadores.                     
Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o compõem, têm a                               
peculiaridade de nascer, operar e extinguir­se enquanto seu objetivo de metamorfose e subversão histórica                           
se realizam. Um dispositivo em geral não respeita, para sua montagem e funcionamento, os territórios                             
estabelecidos e os meios consagrados; pelo contrário, os faz explodirem e os atravessa, conectando                           
singularidades cuja relação era insuspeitável e imprevisível. Gera, assim, o que se denomina linhas de fuga                               
do desejo, da produção e da liberdade, acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas.                           
Nesse sentido é óbvio que os dispositivos, também chamados agenciamentos, têm a ver com a                             
transversalidade (conceito que já antecipamos e que definiremos mais adiante) e, num sentido restrito, com                             
o instituinte­organizante. 
Um grupo político sujeito (quer dizer, que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de seus fins                                   
e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário), uma obra artística, um                             
descobrimento científico, um pensador original e libertário, um inovador dos costumes sexuais ou das                           
convicções éticas podem constituir­se num dispositivo, assim como podem sê­lo certa arrumação de                         
máquinas técnicas (como as rádios livres) ou de defesa da natureza (como os movimentos ecológicos). Por                               
último, digamos que um dispositivo não é a obra de indivíduos ou sujeitos, ele os inclui, os constitui e os                                       
"maquina" para concretizar suas realizações. 
Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção, os                         
institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura, dinâmica,                         
processos, contradições principais e secundárias, opositivas e antagônicas, conflitos, defesas, mecanismos,                     
magnitudes de produção, reprodução e antiprodução, analisa dores, potências, poderes, territórios, linhas                       
de fuga, equipamentos, dispositivos da área ou organização intervinda. O diagnóstico é importante para                           
justamente instituir, organizar, planejar, antecipar, decidir os passos que comentaremos em seguida, tais                         
como contrato, estratégia, logística, táticas, técnicas: Isso sem esquecer que boa parte do percurso é                             
imprevisível. 
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Os institucionalistas, para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções, precisam fazer                         
acordos, pactos, convênios (ou como se queira chamá­los) com as organizações, estabelecimentos ou,                         
simplesmente, com os coletivos de usuários "clientes". A estes acordos costuma­se denominar contrato.                         
Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se explicitam os respectivos deveres e direitos das                               
partes interessadas. Em muitos aspectos o contrato institucionalista é semelhante a qualquer outro de                           
prestação de serviços. Trata principalmente de tempo (duração total, freqüência dos trabalhos), honorários                         
ou outro tipo de retribuição, delimitação de objetivos e autorização de acesso aos materiais de                             
investigação, promessa de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação etc. Como veremos, é                             
importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato representa um acordo com a totalidade do                                   
coletivo intervindo, mas com certos segmentos do mesmo. Por outro lado, tem especial significação qual é                               
a relação jurídica (emprego, serviço profissional independente, solidariedade militante etc.) que fundamenta                       
o contrato. Mas o essencial a recordar é que o contrato no Institucionalismo não é uma operação                                 
comercial externa ao processo que a intervenção como serviço deflagra. Os diversos aspectos do                           
contrato: tempo, dinheiro, contratantes, objetivos, expectativas, são analisadores, emergentes da                   
problemática a ser pesquisada. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção. 
Designa­se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças, habilidades,                           
elementos, recursos etc. de que se dispõe ao começar uma intervenção; quer dizer, com que se pode                                 
contar a favor e contra para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de possibilidades de                                 
realização. 
A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é a                           
auto­análise e autogestão do coletivo intervindo), assim como a progressão das manobras, dos espaços e                             
territórios que se colocarão, a previsão de vicissitudes, opções, alternativas, avanços, retrocessos etc. 
As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõe a estratégia. Para dar um exemplo                             
bélico, totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação, de fronteiras, punitiva                             
ou de extermínio parcial; se essa guerra se dará por terra, mar ou ar, quais serão os aliados, simpatizantes, 
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neutros e inimigos etc. As táticas referem­se a batalhas circunscritas, à área onde se desenvolvem, à                                 
participação da infantaria, cavalaria, o horário, os movimentos de tropas etc. As técnicas, prosseguindo                           
com a metáfora, aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis, morteiros, granadas etc. 
No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística, a estratégia e as técnicas docampo bélico ao campo da intervenção, sem tomá­las ao pé da letra. É interessante enfatizar                             
drasticamente que no Institucionalismo, uma vez que se adquira uma base de entendimento do panorama                             
de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um contrato e diagnóstico provisórios,                             
enquanto já se têm, baseados nisso, esboços de uma logística, estratégia geral e primeiras táticas, a eleição                                 
de técnicas é consideravelmente livre. Quer dizer; será ditada pela inspiração e o treinamento, assim como                               
pelas predisposições pessoais da equipe operadora, objetivo geral e imediato perseguido e momento e                           
peculiaridades do coletivo em pauta. 
Procedimentos interpretativos, informativos, esclarecedores, de sensibilização, de expressão, de             
discussão, agenciamentos artísticos, desportivos, convivenciais, lúdicos, praticados em grupos e em                     
assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias. 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 
1) Qual é o sentido dos termos sujeito, desejo e sobredeterminação em suas teorias de origem e no                                   
lnstitucionalismo? 
2) Que diferença existe entre os conceitos de campo de análise e campo de intervenção? 
3) O que significa dizer que a análise da oferta deve preceder a da demanda? 
4) O que é análise da implicação? 
5) O que são: analisador, equipamento, dispositivo, logística, estratégia, táticas e técnicas? 
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Capítulo V 
AS TENDÊNCIAS MAIS CONHECIDAS DO INSTITUCIONALISMO 
Tentarei resumir três modalidades de Institucionalismo que não são as únicas, nem necessariamente                         
as mais importantes, mas são as que mais notoriedade têm atingido. São também as mais difundidas,                               
particularmente aqui no Brasil. Terei de ser muito esquemático. Tentarei uma espécie discutível de                           
classificação, de graduação entre essas três tendências. 
Em termos, digamos, políticos, eu diria que da primeira enunciada – a Sociopsicanálise de Gérard                             
Mendel – à útima – a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari –, existe uma graduação à medida que Mendel                                     
articula uma concepção mais ou menos tradicional da Psicanálise com uma igualmente ortodoxa do                           
Materialismo Histórico. Produz, assim, uma forma de abordagem das organizações e das instituições que,                           
poderíamos dizer, é politicamente moderada, se é que tal termo exprime alguma coisa. Já a Análise                               
Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari, eu diria, são propostas                               
políticas mais subversivas, mais enérgicas, mais ativas, com certos matizes diferenciais entre elas, que                           
podemos tratar de caracterizar nesta exposição. Então, contar com certo conhecimento de 
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Psicanálise e do Materialismo Histórico (entre outros saberes) é necessário para podermos explicar isto de                             
forma breve, introduzindo­os nesta teoria, metodologia e técnica sociopsicanalíticas. 
A Psicanálise é uma disciplina que foi exigida pela prática clínica. Ela se ocupa da psicopatologia                               
com uma expectativa de cura, mas, no seu percurso e desenvolvimento, Freud criou também uma teoria da                                 
estrutura e do funcionamento do psiquismo "normal". Nesta teoria distinguem­se, na constituição do                         
psiquismo, duas séries assim chamadas: a série disposicional e a série desencadeante. Essas séries                           
denominam­se complementares. Tudo que acontece na vida psíquica, tudo que se pode considerar                         
fenômenos ou efeitos da estrutura do psiquismo é determinado pela articulação entre estas duas séries. A                               
série disposicional é composta pelos elementos heredogenéticos que um sujeito psíquico tem e que lhe são                               
legados por seus progenitores, ou seja, pelos sujeitos psíquicos que o geraram. Acrescente­se a isso as                               
experiências da infância precoce. Então, o hereditário mais as experiências tidas durante a gestação, mais                             
as correspondentes ao parto e primeira infância, tudo isso fica registrado e organiza o psiquismo segundo                               
uma das séries: a série disposicional. Mas com essa série disposicional e a partir de quando começa a                                   
chamada latência, isto é, com o fim do complexo de Édipo (classicamente entre os cinco e seis anos de                                     
idade), o sujeito se incorpora plenamente à vida social, adquire contato com os grupos chamados                             
secundários, grupos de jogos, de estudo, de educação, grupos sociáveis no sentido amplo. Seu Superego                             
está instalado e com ele o sistema de valores consciente e inconsciente que vai classificar seu mundo de                                   
significações. As marcas que têm deixado nele as experiências libidinais e dolorosas prévias adquirem                           
retroativamente sentidos morais. Suas representações são secundariamente recalcadas e estão prestes a                       
retornar do recalcado. Em seguida, continuam sucessivas incursões nas atividades e grupos sociais que                           
fazem com que o sujeito atravesse uma situação diferente atrás da outra, e que tenha de enfrentar essas                                   
circunstâncias com a bagagem disposicional que traz. Essas eventualidades vão exigir de seu aparelho                           
psíquico uma série de movimentos e de adaptações, de criação e de transformação. Algumas dessas                             
situações são altamente tensionantes, intensamente pressionantes para o 
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psiquismo. Quando a série dessas experiências, constituída pelas situações da vida, atua sobre a série                             
disposicional que o sujeito traz, pode resultar numa falha do sujeito no processo de simbolização e reação                                 
produtiva diante dessas exigências situacionais. E isso resultará na doença psíquica, em sintomas. Então o                             
adoecer psíquico – e também a "normalidade" – são produtos desta articulação entre a série disposicional                               
e a série desencadeante; pode efetuar­se em comportamentos ativamente adaptativos, sublimatórios, ou                       
pode ser causante de processos patológicos. Outra forma de referir­se à série disposicional é qualificá­la                             
de acordo com o grau em que o sujeito conseguiu, durante sua primeira infância, resolver, elaborar – ou                                   
não – o chamado Complexo de Édipo, que constitui o núcleo central de sua série disposicional. Se não                                   
resolver, então esse desenvolvimento vai ficar afetado por "pontos de fixação". Então, quando a série                             
desencadeante atua sobre a disposicional, gera no psiquismo um processo de regressão a esses pontos de                               
fixação. O psiquismo vai funcionar de uma maneira primária, arcaica, e isto é que vai resultar no retorno do                                     
recalcado como sintoma. Logicamente, cada sujeito é singular, único, irrepetível, e as configurações da                           
série desencadeante – que podem gerar patologia, atuando sobre a série disposicional – são totalmente                             
variáveis. É por isso que uma situação que desencadeia uma patologia para um sujeito(porque atua sobre                                 
determinada série disposicional), não é patologizante para outro sujeito (que tem uma série disposicional                           
diferente). No entanto, a Psicanálise costuma dizer que existe uma maneira de sistematizar, de universalizar                             
quais são os traços das situações desencadeantes capazes de produzir patologia em geral. Essas são                             
experiências de frustração, experiências de privação, e experiências daquilo que em Psicanálise se chama                           
castração. Apesar de não podermos desenvolver agora, é importante assinalar que entre frustração,                         
privação e castração existem diferenças. Privação refere­se à falta de subsídios para necessidades                         
biológicas, concretas; castração refere­se a um tipo de falta de caráter libidinal (a castração é castrâção do                                 
desejo), ao passo que a frustração é um desengano de amor. Ou seja, são exigências diferentes, faltas                                 
diferentes cuja elaboração ou não gera efeitos diferentes. Elas, em geral, atuam em conjunto. De um ponto                                 
de vista mais amplo, sociopsicanaliticamente falando, poderíamos resumir esses três 
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tipos de carências, esses três tipos de falta, em uma experiência de impotência, em uma experiência de                                 
incapacidade, porque se trata de um sujeito relativamente indefeso, em estado de menos valia, exigido por                               
situações que o tornam carente. A carência, por sua vez, é produto da regressão ao estado de                                 
dependência e de impotência iniciais do sujeito. Então, o que lhe fazem sentir é sua impotência para                                 
resolver essas situações. Isso é o que desencadeia o processo regressivo a um ponto de fixação, atuando                                 
sobre a série disposicional, e assim gerando a patologia, os sintomas e os quadros das doenças. O sujeito                                   
se refugia em soluções imaginárias e fantasmáticas que eram as únicas de que dispunha no seu estado de                                   
criança indefesa. 
Até agora ficamos restritos ao campo estritamente psicanalítico. Agora, acontece que as                       
formulações da Psicanálise são elaboradas para os sujeitos "individuais", para os sujeitos enquanto                         
"pessoas" isoladas. Apesar da Psicanálise nunca ter pretendido negar que os sujeitos psíquicos não vivem                             
isolados, porque se relacionam sempre com um'outro – e é do outro que vem a frustração, a castração e a                                       
privação­, na verdade, nem o sujeito nem o outro são pensados como coletivo real, não são concebidos                                 
como grandes conjuntos humanos, cuja existência depende de uma obrigada e necessária associação. Por                           
isso é que Mendel tenta acrescentar ou articular as postulações psicanalíticas com as postulações clássicas                             
do Materialismo Histórico. Uma das primeiras afirmações do Materialismo Histórico é que para produzir e                             
reproduzir, ou seja, manter a vida humana sobre o planeta, os homens tiveram que associar­ se, que                                 
estabelecer uma aliança entre si para, fundamentalmente, dominar a natureza e colocá­la a seu serviço.                             
Isso porque a natureza não é espontaneamente benévola com o homem. Ela o agride e lhe nega muitos dos                                     
elementos de que ele precisa para sobreviver. Então o homem desenvolveu, nessa associação coletiva, um                             
processo de trabalho que é um procedimento de transformação, de domínio da natureza para que ela se                                 
lhe tornasse propícia. Todos sabemos que o homem, como animal biológico, é particularmente fraco: ele                             
não tem pêlo, não tem couro, não tem garras nem dentes fortes; é lento, frágil. Inclusive, no momento do                                     
nascimento, o homem é dos animais mais particularmente indefesos e incapazes, tanto que seu processo de                               
gestação tem de completar­se depois de seu nascimento, 
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através de uma longa criação totalmente dependente, que leva pelo menos dois ou três anos. Então o                                 
homem compensou, e em parte piorou, essa sua fraca defensividade, com seu processo histórico de                             
associação coletiva para trabalhar em conjunto com a finalidade de dominar a natureza. Digo que em parte                                 
compensou porque isso foi o que o transformou naquilo que pitorescamente se chama "o Rei da Criação".                                 
Também em parte piorou porque na dimensão em que o homem se transforma, por sua associação, em                                 
uma espécie poderosíssima, cada um de seus membros nasce cada vez biologicamente mais fraco. Na                             
medida em que se desenvolvem as máquinas e os elementos técnicos, nossa dotação biológica está cada                               
vez pior. Talvez acabaremos tendo uma" grande cabeça" e nada mais. Neste processo associativo, então,                             
o homem tem de lutar não apenas contra os imensos poderes da natureza (que ele tem chegado a controlar                                     
em alta proporção, mas que está longe de controlar em sua plenitude), mas tem de aprimorar o                                 
desenvolvimento da palavra, da linguagem e outras formas de comunicação inter ­humana, o                         
desenvolvimento da inteligência, do processo de pensamento do cérebro humano, o desenvolvimento das                         
máquinas – que em princípio podem ser pensadas como enormes extensões ou ampliações dos membros e                               
dos sentidos humanos. O gênero humano adquiriu um grande poder, mas ele não controla totalmente as                               
forças naturais. Elas o ameaçam sempre. Não apenas as forças naturais externas a seu corpo, como                               
também aquelas internas a seu corpo, que forma parte da natureza. A natureza é brava, e o corpo é frágil.                                       
Mas o homem tem outro inimigo perigoso, que são os problemas gerados pela própria organização que ele                                 
tem de se dar para se converter numa entidade coletiva. Então, segundo a versão tradicional, o homem,                                 
para poder associar­se e formar essas fortes civilizações, teve de aceitar muitas restrições, teve de                             
submeter­se e privar­se de muitas coisas para atingir esse poder coletivo. Ou seja, o homem teve de                                 
dar­se leis, instituições, organizações, aparelhos, tais como descrevemos, para preservar esta união, que é                           
difícil, exige muito sacrifício de seus integrantes. Mas o pior de tudo é que nunca funciona bem, geralmente                                   
é imperfeita. E isso traz como conseqüência o fato de que a associação entre os homens não é eqüitativa,                                     
fraterna nem justa, e que a distribuição dos sacrifícios, dos esforços e dos benefícios é desigual entre eles.                                   
Isso dá lugar 
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a fenômenos que podemos detectar como universais e onipresentes na história da humanidade, que são a                               
exploração de um setor da humanidade por outro, a dominação de um setor da humanidade pelo outro, a                                   
mistificação e a manutenção da ignorância de um setor da humanidade poroutro. Isso faz com que as                                   
ameaças da natureza e do corpo se somem às ameaças da organização social, da injustiça ou do fracasso                                   
da ordem civilizatória. Cada organização histórica, cada civilização, cada modo de produção da vida                           
humana sobre a terra tem suas modalidades de dominação, de exploração e de mistificação. Mas o modo                                 
de produção capitalista é o modo de produção que atingiu o maior grau de extensão e de universalidade                                   
sobre o planeta. É também o modo de produção em que esta associação humana tem­se tornado mais                                 
poderosa e mais capaz de dominar a natureza, produzir riqueza e elevar o padrão de vida dos seres                                   
humanos. O muito conhecido filósofo Marcuse diz que chegamos à era da abundância, porque temos                             
adquirido um poder produtivo inédito na história da humanidade. Mas nem por isso, sabemos muito bem,                               
temos conseguido superar os fenômenos da exploração, dominação e mistificação que no capitalismo                         
adquirem características muito próprias. Então, o que acontece? Os homens associados, cuja principal                         
potência é a capacidade de trabalho coletivo, encontram­se diante do fato de que o fruto de seu trabalho                                   
não lhes retorna na medida em que eles deveriam ser seus legítimos proprietários. O poder sobre a                                 
natureza, o poder sobre o controle dos fenômenos da vida, também é injusta e desigualmente repartido.                               
Com o saber acontece a mesma coisa. A imensa maioria dos; homens que trabalham reunidos vivem uma                                 
situação de impotência, e não é apenas a fragilidade perante a natureza, frente à condição mortal e frágil de                                     
seu próprio corpo, mas a incapacidade devido à desigual distribuição da riqueza, do poder, do prestígio e                                 
do conhecimento. Então, de uma forma ou de outra, poderíamos dizer que se tomamos a formulação                               
psicanalítica de uma impotência fundamental, que se converte no elemento central da série desencadeante,                           
e a articulamos com o Materialismo Histórico, podemos dizer que, no sentido coletivo, a experiência                             
universal de impotência, que gera os processos patológicos, é produto dessa desigual distribuição da                           
riqueza, do resultado do trabalho, do poder e do prestígio, que faz com que quem gera esses valores, ou                                     
seja, a imensa maioria da 76 ▲
 
humanidade que trabalha, não desfrute dos resultados deste esforço. Então, o que Mendel vai afirmar é                               
que, se isso é verdade (e é difícil admitir que não o seja), o lugar onde deve ser estudada a experiência                                         
essencial da impotência e o desencadeamento dos processos patológicos é o "lugar natural" em que os                               
homens se associam para exercer sua potência, ou seja, nos âmbitos de trabalho. Para Mendel, as                               
vicissitudes individuais dessa experiência de impotência não serão nunca compreendidas se não forem                         
analisadas num sentido coletivo e no lugar pertinente onde elas acontecem, que é no lugar de produção. O                                   
que Mendel diz é que isso deve ser abordado nas organizações de trabalho, entendendo o trabalho num                                 
sentido muito amplo, não apenas trabalho industrial, mas também trabalho escolar, médico, comercial, ou                           
seja, não apenas produção de bens de consumo, mas também produção de serviços; e assim por diante.                                 
Mendel diz que quando se abordam os coletivos que formam parte dessas organizações, é fácil ver que                                 
esses conjuntos vivenciam, de mil maneiras diferentes, essa experiência de impotência devido às condições                           
do trabalho alienado no capitalismo. E essa experiência de impotência gera neles, incidindo sobre a série                               
disposicional de cada um deles, um processo regressivo. Só que esta regressão não deve ser pensada                               
como sendo da ordem individual, mas da ordem coletiva. Por isso, a regressão que se produz é uma                                   
regressão de um funcionamento psíquico que Mendel chama psico­social ou psico­institucional a um outro,                           
chamado funcionamento psico­familiar. Isso consiste num processamento psíquico em que o imaginário e o                           
inconsciente já não estão em relação de retificação com o real, ou seja, recai­se num funcionamento em                                 
que os sujeitos vivem uma vida fantasmática – e não uma vida simbólica, adequada às circunstâncias                               
concretas que os rodeiam, com um conhecimento simbolizado do que está acontecendo na realidade. Esta                             
experiência de impotência gera uma regressão do psico­institucional ao psico­familiar, no sentido em que                           
os sujeitos vão definir esse campo real em que estão como se fosse uma situação familiar arcaica pela qual                                     
já passaram, quando se estava construindo sua série disposicional. Ou seja, eles vão viver a situação de                                 
trabalho, a situação organizacional como se essa fosse uma situação familiar arcaica. E as figuras                             
determinantes reais dessa situação atual vão transformar­se para eles nas figuras imaginárias de sua                           
situação familiar. Em 
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conseqüência, reagirão de uma maneira irreal e fantástica, como acontecia na sua infância, em que,                             
objetivamente, eles eram pequenos, sós e impotentes, e não tinham outra forma de solucionar essa                             
situação senão refugiando­se num mundo de fantasia. Devido a essa regressão que mencionamos, o                           
coletivo institucional como um todo faz uma regressão arcaica, familiar, e também se refugia no mundo da                                 
fantasia. Tenta solucionar seus problemas de impotência mediante saídas mágicas, imaginárias, como                       
sintomas, atuações, inibições, delírios, somatizações, enfim, como tudo quanto constitui a patologia                       
biopsico­social. Então, se isso está mais ou menos entendido, a proposta de Mendel é a de deflagrar                                 
dentro dessa classe institucional um processo de auto­análise, feito em colaboração com uma equipe                           
interveniente, que permita aos integrantes deste coletivo fazer a crítica e obter a compreensão da regressão                               
que os afeta, chegando à ressignificação simbólica de sua regressão imaginária, para poder ter de novo um                                 
acesso ao real atual, que estão negando, desconhecendo. Dessa maneira, recuperarão uma definição                         
correta das circunstâncias que lhes permitirão assumir seu verdadeiro poder como classe institucional,                         
porque, afinal de contas, eles são os produtores da riqueza, eles são os geradores do poder e eles são os                                       
que merecem prestígio. 
Este processo opera teoricamente, como já dissemos, com pontos de vista e postulações                         
perfeitamente clássicas da Psicanálise e do Materialismo Histórico. A metodologia de intervençãoconserva muitas das características da intervenção psicanalítica, sobretudo o recurso interpretativo. É                       
preciso apenas sublinhar que o conceito de "cura" não é individual, mas coletivo, e não passa                               
exclusivamente pela tomada de consciência e pela supressão dos sintomas, mas exige um movimento                           
coletivo concreto de recuperação da margem de poder possível, que se tem perdido devido à regressão                               
do âmbito psico­institucional ao psicofamiliar. 
Agora resumiremos a posição de Lourau, Lapassade e seus companheiros – que são, senão os                             
criadores exclusivos, pelo menos os que desenvolveram esta proposta que se chama Análise Institucional.                           
Tentando outra vez uma síntese, que por tratar de ser clara pode resultar empobrecedora, digamos o                               
seguinte: 
Para a Análise Institucional, uma sociedade está ordenada por um conjunto aberto – quer dizer,                             
não totalizável – de 
78 ▲ 
 
instituições. Uma instituição é um sistema lógico de definições de uma realidade social e de                             
comportamentos humanos aos quais classifica e divide, atribuindo­lhes valores e decisões, algumas                       
prescritas (indicadas), outras proscritas (proibidas), outras apenas permitidas e algumas, ainda,                     
indiferentes. Essas lógicas podem estar formalizadas em leis, em normas escritas ou discursivamente                         
transmitidas, ou podem ainda operar como costumes, quer dizer, como hábitos não­explicitados. As                         
citadas lóÓgicas se concretizam ou se realizam socialmente em formas materiais ou "corporificadas" que,                           
segundo sua amplitude, podem ser: organizações, estabelecimentos, agentes, usuários e práticas. Cada                       
instituição é universal, ou seja, indispensável para toda e qualquer sociedadet mas para realizar­se em suas                               
formas concretas passa por um momento de particularidade e outro de singularidade única e irrepetível. 
Se bem que cada momento da instituição seja positivo (digamos: é como ela sabe ser em si                                 
mesma), também tem uma relação.de negatividade consigo mesmo, com referência aos outros e em                           
relação ao sistema global que as instituições integram e que, ainda que seja de maneira aberta, as engloba.                                   
Essa característica faz com que quando se analisa uma instituição, como por exemplo, uma norma universal                               
(digamos as relações de parentesco), uma modalidade particular do matrimônio poligâmico, ou um caso                           
singular do casamento de um casal em uma colônia de mórmons norte­americanos, a partir da organização                               
positiva e visível em que essas relações se concretizam, tende­se a atribuir­lhe funções inteiramente claras,                             
eficientes e em geral consideradas necessárias, indispensáveis, úteis etc. Assim consideradas, essas                       
entidades, tanto para o saber espontâneo de seus agentes sociais quanto para os experts que as                               
descrevem, ocultam funcionamentos divergentes, contraditórios e antagônicos que só se evidenciam                     
quando se decifra ou se entende as maneiras em que, como dizíamos, cada uma é negada pela outra ou                                     
pelo sistema integral. Em palavras diferentes, é preciso considerar como cada uma destas instâncias está                             
ausente no seio das demais, e essa ausência é registrada como um não­saber, que é parte do saber                                   
espontâneo ou técnico que se tem de cada uma delas. 
A Análise Institucional não é, então, um super­saber ou um meta­saber absoluto que poderia dar                             
conta de todos estes 
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desconhecimentos, positivando de uma vez por todas o tecido social. Pelo contrário: trata­se de uma                             
investigação permanente, sempre lacunar e circunscrita de como o não­saber e a negatividade operam em                             
cada conjuntura. 
Por exemplo, no caso das organizações do trabalho, a Análise Institucional parte da idéia de que,                               
devido ao processo que se chama "divisão técnica e social do trabalho", cada coletivo de uma organização                                 
está alienado no não­saber, no não conhecer quais são as condições reais em que está trabalhando. É                                 
vítima, digamos assim, de um desconhecimento que, em parte, é um desconhecimento devido à                           
desinformação e à estrutura e funções mesmas de instituições e organizações; é a ausência de um                               
conhecimento que nunca foi adquirido. Mas, em parte, é vítima de um processo de doutrinamento ativo                               
por parte das classes dominantes que lhe transmitem uma definição do mundo, uma noção do processo de                                 
trabalho, dos objetivos da vida, dos valores, do sentido da existência e uma definição da função das                                 
organizações que lhe é profundamente desfavorável e que o faz compactuar com o poder, com as classes                                 
dominantes. É o que o Marxismo chamava, classicamente, de Ideologia. Sobretudo é o aspecto alienado                             
da Ideologia, entendida num sentido menos amplo e mais restrito às organizações, que o mesmo Marxismo                               
não sabe decifrar. Isto é, esse mesmo processo de impotência, ao qual se referia Mendel, existe nas                                 
organizações, porque quem é o proprietário dos meios de produção, dos meios de decisão, também é                               
proprietário de um saber. E cada saber envolve um poder: a propriedade de um saber possibilita o                                 
exercício do poder tanto nas organizações capitalistas quanto nas socialistas. Esse poder é entendido                           
como a imposição da vontade das classes ou setores dominantes sobre as classes ou setores dominados,                               
das classes ou setores exploradores sobre as classes ou setores explorados. Isso gera, em todas as                               
organizações, o fato, como diria Mendel, da classe institucional trabalhadora, tanto nas suas bases como                             
nos estratos que lhe são próximos, desconhecer os principais vetores que ordenam a organização na qual                               
está inserida. Ela considera indiscutivelmente indispensável o papel do capital como "criador de fontes de                             
trabalho", ela considera absolutamente necessária a organização da produção destinada a gerar                       
mercadorias (e não a gerar bens de uso), ou destinada à produção de armamentos exigidos pela belicracia                                 
de Estado. Ela 
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considera necessária a existência de hierarquia técnica e burocrática em que uma posição de maior saber                               
dá, "naturalmente", uma posição de maior poder. E não teria de ser assim, forçosamente. E assim apenas                                 
porque a divisão técnica do trabalho se faz coincidir com uma divisão social. Mas a divisão técnica não                                   
deveria implicar nenhum privilégio social. Então, trata­se de criar um dispositivo no qual os coletivos                             
possam analisar cada um dos fenômenos de mal­estar, de conflito, de impotência, de disfunção que                             
aparece devido a toda esta divisão injusta e perversa do trabalho. Isso constituiparte do não­dito                               
institucional. Em um sentido amplo, o não­dito compreende a relação de não­saber que cada momento da                               
instituição guarda com respeito ao outro e o não­saber que cada saber contém pelo fato de ser específico. 
Esses analisadores são muitos, como já dissemos anteriormente. Alguns deles são" espontâneos",                       
outros são construídos pelos interventores institucionais. Mas os que podem delimitar­se com maior                         
freqüência são, por exemplo, o analisa dor "dinheiro", o analisador "sexo", o analisador "prestígio", o                             
analisador "poder". São fenômenos conflitivos, são vivências sofridas, são acontecimentos mais ou menos                         
explosivos, são lugares de atrito que estouram nas organizações devido ao fato de elas estarem destinadas                               
a um trabalho que produza não apenas um produto cujo resultado não seja planejado e reassumido por                                 
aqueles que o produzem, mas também uma série de relações humanas distorcidas, monstruosas, que                           
geram essa experiência de impotência. Então, essas contradições vão estourar em fenômenos como o do                             
absenteísmo, como o da diminuição da produção, incidência do alcoolismo, da tóxico­dependência, de                         
acidentes de trabalho, conflitos, brigas, incomunicabilidade, rebeldia e revolta estéril, arbitrariedades que                       
as classes dominantes da organização costumavam, e ainda costumam, solucionar drasticamente, com                       
medidas disciplinares; tudo isso as classes institucionais dominadas podem também tentar solucionar com                         
certo tipo de respostas individualistas, desordenadas ou autodestrutivas. Então as classes e grupos                         
dominantes, na modernidade, descobriram uma disciplina que hoje se pode chamar de diversas maneiras –                             
Recursos Humanos, ou Psicologia Organizacional, ou Relações Públicas, ou Relações Humanas –, que se                           
destina a transformar toda essa problemática em uma 
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simples questão de negociação ou comunicação. Trata­se de colocar os quadros em contato para que                             
solucionem esse assunto conversando, negociando ou vivenciando, relaxando­se, mas sem sair da lógica                         
do sistema, sem que se tome consciência de como as determinantes básicas da alienação são as                               
causadoras dessa problemática. O que a Análise Institucional propõe é a criação de dispositivos para que                               
o coletivo se reúna e discuta, exaustivamente, esses fenômenos, e descubra a maneira como esses efeitos                               
antiprodutivos são a expressão, a conseqüência, tanto do não­saber das contradições da estrutura e da                             
função do sistema, como um desvio das forças críticas, das forças revolucionárias, das forças subversivas.                             
Trata­se de criar condições para que possam, dessa maneira, correlacionar esses analisa dores com suas                             
causas e dar conta delas – de forma a adquirir consciência de que não vão poder solucionar esses                                   
fenômenos sem uma ampla reformulação da estrutura e do processo produtivo em si mesmo, mas nas                               
formas peculiares que este adquire em seu caso singular. 
O objetivo, pode­se ver, é parecido com o de Mendel. Em todos os dois há certa semelhança,                                 
mas também diferenças. O objetivo último é propiciar a auto­análise e a autogestão, ou seja, a                               
recuperação do poder de organização e do autogerenciamento do processo produtivo, eliminando as                         
situações de burocracia, de imposição, de dissociação – não a diferenciação técnica, que é necessária­,                             
mas a dissociação e hierarquização social do trabalho. Mas a Análise Institucional é mais crítica com a                                 
Psicanálise e o Materialismo Histórico que a Psico­Socioanálise. 
Um dos aspectos importantes desta postura é a afirmação de que a equipe interventora também é                               
uma organização e que ela também pode sofrer os efeitos desta divisão técnica e social do trabalho. E que                                     
também existe para ela um certo desconhecimento de como as características gerais do sistema incidem no                               
trabalho coletivo que ela está realizando; a isso se chama "implicação". Então, a equipe interveniente                             
também vai integrar­se com a organização intervinda numa organização compartilhada, na qual vão poder                           
analisar os fenômenos de alienação de uma e de outra. De modo que esse processo autogestivo e                                 
auto­analítico, que vai tentar deflagrar na organização intervinda, vai ser ocasião de poder analisar também                             
os seus próprios conflitos da mesma natureza. Finalmente, cabe 
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esclarecer que uma intervenção pode fazer­se "a frio", quando se pratica sobre uma organização                           
circunscrita, com uma conflitiva mais ou menos moderada, ou "a quente", quando se opera no seio de                                 
processos ativíssimos que ocorrem dentro de uma tentativa de transformação autogestiva generalizada de                         
uma sociedade inteira. 
Tentarei agora introduzir a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari, tratando de caracterizar algumas                         
diferenças essenciais. Creio que elas poderiam passar pela questão de que a Sociopsicanálise de Gérard                             
Mendel e a Análise Institucional de Lapassade e Lourau, em última instância – apesar de sua franca                                 
inspiração libertária, de sua enérgica vocação revolucionária – são prestações de serviço mais ou menos                             
tradicionais. Isto é, a demanda, o requerimento de uma análise de uma intervenção institucional ou do tipo                                 
sócio­analítico, é feita por alguns setores ou pela totalidade de um coletivo organizado a outro coletivo                               
organizado, que oferece seus serviços de uma maneira mais ou menos tradicional, como prestação de                             
serviço profissional. Isto é, os sociopsicanalistas e os analistas institucionais, apesar da rigorosa autocrítica                           
que exercitam, apesar de uma vocação militante que têm no seu trabalho, não deixam de ser experts, não                                   
deixam de ser técnicos, científicos; não deixam de estar agrupados neste tipo de organização característica                             
dos experts profissionais. Por exemplo: o grupo de Mendel, que se chama Degenettes, trabalha em muitos                               
lugares do mundo, mas tem uma espécie de central em Paris. Pode­se, então, ir até lá e solicitar seus                                     
serviços. Isso gera, entre a organização solicitante e a organização solicitada, todo um processo de                             
diagnóstico, prognóstico e indicação, e um contrato de trabalho. Então, apesar de todas as ressalvas, auto                               
críticas e análise da implicação, trata se de uma prestação profissional de serviço, na qual se discutem                                 
honorários, tempo e demais coisas. Além disso, é geralmente um serviço apresentado por um coletivo                             
organizado a outro coletivo organizado, dentro de um marco mais ou menos convencional, ou seja, a uma                                 
escola, a um sindicato,hospital, fábrica, convento, quartel etc. Isso, como já dissemos, se denomina"                             
autogestão a frio", enquanto a" autogestão a quente" é a gerada numa situação revolucionária mais ou                               
menos generalizada. 
Deixando momentaneamente de lado as características teóricas da Esquizoanálise de Deleuze e                       
Guattari, que são muito 
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sofisticadas e complicadas, digamos que a relação de Deleuze e Guattari com a Psicanálise e com o                                 
Materialismo Histórico é muito mais complexa que a de Lourau e infinitamente mais distante que a de                                 
Mendel. A posição de Deleuze e Guattari é muito mais crítica com respeito a todos os grandes                                 
monumentos ocidentais do conhecimento que a dos outros autores das outras orientações. Eu diria que de                               
Mendel a Deleuze e Guattari existe, politicamente, todo um abandono paulatino do Liberalismo e da Social                               
Democracia e até do Marxismo, para se aproximar muito mais do Anarquismo. Então, uma diferença                             
técnica central é que para Deleuze e Guattari não existe, necessariamente, essa prestação de serviços                             
convencionais. A Esquizoanálise pode ser feita por qualquer pessoa e em qualquer lugar. É considerada                             
não como uma ciência ou como uma disciplina, mas basicamente como uma nova forma de pensar, um                                 
modo de ser, ou uma maneira de viver. Propõe algo assim como um processo de análise permanente,                                 
generalizado e ubíquo, presente por toda parte, em qualquer momento, e protagonizado por qualquer                           
pessoa que tenha, naturalmente, interiorizados os princípios teóricos desta concepção – que não se reduz a                               
nenhuma das que a precederam. Não implica, necessariamente, uma relação de contratação. Não é,                           
indispensavelmente, desempenhada por experts nem por profissionais. Não implica um lugar nem tempo                         
determinado. Não é necessariamente uma atividade coletiva, senão que pode ser dual ou individual.                           
Sequer implica um trabalho de um agente sobre um usuário, mas que pode ser um trabalho feito por um                                     
sujeito sobre si mesmo. Mas que tem também um aspecto analítico, ou seja, a compreensão de como as                                   
determinações alienantes do sistema, responsáveis pela dominação, pela exploração e pela mistificação,                       
estão presentes em cada uma de nossas atividades vitais, as afetivas, as sentimentais, as econômicas, as                               
políticas, as artísticas, as relações com os outros e as relações conosco mesmos. Eu diria que é uma                                   
posição maximalista ou extremista dentro do Institucionalismo. Além disso, que não tem técnica nem                           
metodologia própria – características das duas posições anteriores. Para ela, são os princípios teóricos de                             
compreensão que dão um entendimento que permite localizar a alienação e propiciar, per se, a invenção                               
de uma metodologia e de técnicas, táticas e estratégias absolutamente singulares para cada caso, para                             
cada situação, e que não podem ser sistematizadas 
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nem transladadas para outra oportunidade. 
Então, poderia­se perguntar: essa teoria da Esquizoanálise se aproximaria mais da filosofia, é uma                           
doutrina, uma ideologia, uma crença? A rigor, apesar de um de seus produtores ser considerado o maior                                 
filósofo contemporâneo, na nossa opinião não se trata de filosofia. É alguma coisa que está além da                                 
filosofia porque é um entendimento do mundo, da história, da vida, do psiquismo, que pretende ser um                                 
novo gênero, não enquadrável, nem como uma ciência, nem como ideologia, mas, na versão dos autores,                               
como uma proposta radicalmente nova, que não é redutível a nenhum dos gêneros de saber anteriores. 
Novamente imagino que os que já ouviram falar de certas idéias de Deleuze e Guattari, como, por                                 
exemplo, aquela das máquinas desejantes, se perguntaram qual é a definição de desejo em cada uma                               
dessas escolas do Institucionalismo. É uma pergunta justa que vai ter uma resposta pobre: em Mendel, a                                 
concepção do desejo, eu poderia dizer, é rigorosamente freudiana: é a que Freud dá nas formas que,                                 
segundo uma epistemologia clássica, são as mais amadurecidas de sua obra. Em Lourau – apesar de ele                                 
considerar muitas propostas freudianas, ele não dá muita ênfase a essa categoria e a esse conceito. Não                                 
lhe interessa, particularmente, a participação do desejo, embora reconheça a existência de um inconsciente                           
institucional e organizacional, mas não é um inconsciente particularmente relacionado com o desejo e sim                             
um inconsciente relacionado com o não­dito e não­sabido, da vida organizacional, por referência não                           
apenas à instituição familiar, senão à do dinheiro e outras. Em Deleuze e Guattari, a coisa já muda                                   
radicalmente, porque eles consideram a definição freudiana do desejo; mas para eles a questão se altera                               
por completo. Para Freud, o desejo é uma força inconsciente que anima o psiquismo, mas é uma força                                   
pertencente a esse domínio, a esse campo completamente diferente das forças naturais e das forças                             
sociais, entendendo por sociais as forças políticas e as econômicas. Inclusive, se aceitamos que na                             
civilização moderna a esfera das máquinas mecânicas, elétricas, eletrônicas etc. já forma como que uma                             
terceira natureza, podemos dizer que existe a "natureza ecológica", a "natureza humana", a "natureza                           
social", a "natureza psíquica" e a "natureza maquínica" – a esfera maquínica; só que essa esfera do mundo                                   
maquínico também tem suas forças animantes. Para Deleuze e Guattari, não se trata de
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domínios nem de esferas separadas, isoladas entre si, mas entre suas formas molares; no nível molecular, a                                 
produção e o desejo são uma e a mesma coisa. É a mesma natureza com uma diferença de regime. A                                       
proposta deles é introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. Equivale a dizer que a                                   
substância ou a matéria última de todo o real – do real social, do real psíquico, do real natural e do real                                           
maquínico – é a produção, é o produzir. Não a produtividade, que é a produção já deformada pelo                                   
capitalismo, mas a produção como processo de geração constante do novo. Então, eles dizem que se                               
consideramos o conceito marxista de produção, tal conceito não consegue englobar todas as formas de                             
produção possíveis. Ao passo que, se tomamos o conceito freudiano de desejo – ele, especificamente                             
psíquico, como dizíamos, é restitutivo, e tenta esterilmente repetir um estado anterior –, esses autores                             
dizem que se se junta o conceito de produção com o conceito de desejo, que são imanentesentre si,                                     
vai­se gerar uma nova categoria de produção, que abrange todas as formas materiais corporais e                             
incorporais de geração possíveis, e com essa característica de gerar sempre o diferente e em todas as                                 
atividades possíveis, incluída a psíquica. Ou seja, para eles o desejo não é restitutivo, o desejo é                                 
produtivo. A produção não é apenas produção mecânica social ou natural, mas é também produção                             
desejante, segundo as características do processo primário. 
Mais ou menos essas são as diferenças. Baseando­nos nelas, para concluir, digamos que, por                           
exemplo, em Mendel, é claro que o desejo e seus produtos devem ser decifrados. Para quê? Para que,                                   
uma vez interpretados, os sujeitos possam controlá­los, dominá­los e utilizá­los no sentido de ganhar uma                             
margem de poder possível. Para Deleuze e Guattari não há nada para decifrar, porque as representações                               
não interessam tanto quanto as forças; o que se tem de fazer é liberar, propiciar, deflagrar a potência da                                     
produção, do desejo e da diferença. Tudo isso justamente por causa da natureza última do desejo que eles                                   
supõem; no caso de Mendel, por exemplo, o desejo é, de uma natureza conservadora que pode ser                                 
encaminhada para a revolução e para a produção, enquanto em Deleuze e Guattari, ele tem uma natureza                                 
intrinsecamente revolucionária, que só precisa ser veiculada, liberada de suas constrições. 
Para Deleuze e Guattari, a realidade está composta por 
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três superfícies imanentes entre si: a da Produção, a do Registro Controle_e a do Consumo­Consumação.                             
Cada superfície (termo tomado dos filósofos estóicos) tem uma energia própria: Superfície de produção =                             
Libido; Superfície de Registro = Númen; Superfície de Consumo = Voluptas. A Superfície de Produção                             
está, por sua vez, integrada pelo Corpo sem Órgãos e pelas Máquinas Desejantes. O Corpo sem Órgãos                                 
é o contrário de um organismo, ou seja, compõe­se de matérias não­formadas e energias ainda                             
não­vetorizadas como forças. Em si mesmo o Corpo sem Órgãos é o grau zero de Intensidades, mas                                 
quando ele é ajeitado como um Plano de Consistência de um Dispositivo ou Agenciamento revolucionário,                             
desejante­produtivo, as Intensidades circulam por ele configurando as Máquinas Desejantes e suas                       
conexões criativas, geradoras de tudo quanto é novo. Este conceito compreende o de Instituinte e o                               
amplia. O Corpo sem Órgãos assim povoado se transforma numa Nova Terra, enquanto que, em                             
condições desfavoráveis, quando os experimentos do Plano de Consistência fracassam, pode­se tornar um                         
buraco negro ao acelerar­se ao infinito e levar à morte ou à demência. O nível de funcionamento da                                   
Superfície de Produção é sub­microscópico ou molecular. 
Na Superfície de Registro, o Corpo sem Órgãos e suas intensidades e máquinas desejantes são                             
capturados como entidades molares (que correspondem aproximadamente aos instituídos­órganizados:                 
Estado, Igreja, empresas, bancos, dinheiro, organismos, representações e estruturas edipianas). A este                       
nível cristalizam­se em territórios. É o lugar das identidades e dos controles e da repressão generalizada.                               
Também a ele pertencem as pessoas, os indivíduos, os sujeitos, os códigos, sobrecódigos e axiomáticas                             
que quadriculam a vida biopsico­sociotécnica. O Corpo sem Órgãos torna­se Corpo Cheio e adquire um                             
órgão centralizador e hierarquizado que, segundo se trate das formações primitivas, asiáticas ou                         
capitalistas, será respectivamente o Corpo da Terra, do Déspota ou do Capital­Dinheiro, ao qual                           
"milagrosamente" se atribui ser a causa da produção. 
Os dispositivos ou agenciamentos produtivo­desejante­ revolucionários gerados por encontros ao                   
acaso das intensidades, ou máquinas desejantes, são capazes de desestruturar os estratos e territórios da                             
Superfície de Registro, 
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propiciando desterritorializações e linhas de fuga pelas quais o desejo e a produção se plasmam em                               
novidades radicais. Toda entidade tem uma textura molar e outra molecular, um pólo paranóide                           
(capturante a antiprodutivo) e outro esquizóide (produtivo­desejante­revolucionário). 
Como se vê, apenas podemos enunciar estes conceitos porque sua proliferação nessa teoria torna                           
impossível defini­los em detalhe. Para tentar enriquecer um pouco essas definições, sugiro consultar o                           
glossário deste livro, assim como a bibliografia incluída ao final do mesmo. 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO V 
1) O que se entende pela Sociopsicanálise de Gêrard Mendel? 
2) O que se entende pela Análise Institucional de Renê Lourau e Georges Lapassade? 
3) O que se entende pela Esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari? 
4) Qual ê a relação entre estas três tendências, a Psicanálise e o Materialismo Histórico? 
5) Com que movimentos políticos poderia­se relacionar predominantemente cada uma das tendências do                         
Institucionalismo descritas neste capítulo? 
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Capítulo VI 
ROTEIRO PARA UMA INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PADRÃO 
Vamos tra tar de um roteiro para uma intervenção institucional do tipo standard, isto é, a mais                                 
habitual, a mais corriqueira, a mais conspícua. Antes de começar, no entanto, eu gostaria de fazer uma                                 
breve classificação – que, seguramente, será muito incompleta e esquemática – de algumas formas                           
diferentes de intervenção, pois me parece que, metodológica e tecnicamente, é uma questão que não estou                               
seguro de ter conseguido transmitir no percurso destes capítulos. É um assunto importante, porque quando                             
não fica claro, permanece nas pessoas uma dúvida enorme no tocante à condição de contratação deste                               
tipo de serviço. Então eu gostaria de, pelo menos, mencionar algumas delas. 
Tendo em vista a divisão já mencionada dentro do lnstitucionalismo entre a configuração de um                             
campo de análise e um campo de intervenção, é evidente que o campo de análise consiste apenas num                                   
espaço conceitual ou nocional. Em outras palavras, é um tema do qual o institucionalista quer se ocupar.                                 
Esse tema pode ser abstrato ou concreto; pode ser contemporâneo, passado ou futuro. E pode ser muito                                 
vasto ou mais restrito. Mas 
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é um processo de produção de conhecimento com respeito a esse campo e não implica necessariamente                               
uma intervenção técnica; envolve apenas o fato de que o institucionalista vai tentar entendê­lo. Aliás, isso                               
pode abranger até mesmo um tipo de material que não é propriamente histórico­social, no sentido das                               
formas institucionalizadas­organizadas: pode ser um texto literário ou uma obra arquitetônica, por exemplo. 
Agora, o campo de intervenção, como já foidito, pressupõe um campo de análise, porque se                               
pode entender sem intervir, mas não se pode intervir sem entender, embora durante a intervenção iremos                               
entendendo cada vez mais. O campo de análise pode não coincidir, em termos empíricos, com o campo                                 
de intervenção. Ou seja, pode­se escolher como campo concreto de intervenção uma fábrica, uma                           
indústria. Mas pode­se delimitar um campo de análise que não compreenda unicamente o entendimento                           
dessa fábrica, e resolver estudar o processo histórico de implantação desse tipo de indústria no Brasil,                               
para poder saber como funciona essa organização concreta, fabril, escolhida como campo de intervenção. 
Partindo, pois, dessa discriminação entre campos de análise e campo de intervenção, digamos que                           
as modalidades de intervenção podem ser variadas. Uma modalidade de intervenção – aquela a que                             
vamos nos referir de forma predominante quando repassarmos este roteiro standard, tradicional – é um                             
serviço oferecido desde posições mais ou menos clássicas, convencionais, habituais, dentro do panorama                         
social. É o que se dá como serviço oferecido na condição de profissional liberal ou autônomo, na condição                                   
de sociedade cientifica – uma sociedade científica de Análise Institucional que oferece trabalhos, por                           
exemplo; é o exercício oferecido por um estabelecimento de prestação de serviços privados, um instituto                             
de Análise Institucional que pode ser uma sociedade anônima de responsabilidade limitada ou uma                           
microempresa; é o que pode ser oferecido por um departamento especial de uma faculdade, um                             
departamento de Análise lnstitucional numa universidade. 
Outra modalidade possível de prestação deste serviço pode ser feita por parte de uma equipe que                               
integra, que é interna à organização na qual se vai intervir. É o famoso caso, por exemplo, do                                   
departamento de Recursos Humanos de uma empresa, que tem de fazer uma intervenção dentro de sua                               
empresa mesma, 
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ou um departamento de acompanhamento institucional de urna universidade. 
Outra possibilidade é a de uma prestação de serviços feita de uma maneira parecida com esta                               
anterior, que acabamos de expor, mas menos caracterizada burocrática e profissionalmente. Por exemplo,                         
é o caso de um sindicato ou de um partido político que, nos seus quadros, tem institucionalistas que são                                     
militantes formais. Então, esse sindicato ou esse partido político pede a seus militantes institucionalistas                           
urna intervenção em um setor, em um segmento, em urna frente, em um espaço da vida e da atividade                                     
partidária, trabalho esse que pode ser ou não pago, contanto que seja considerado corno parte da vida                                 
militante. Mas, em todo caso, é um acordo muito definido, pois se trata de uma oferta e uma solicitação                                     
formais, em que se reconhece no militante institucionalista um saber" específico", e ele é procurado nesta                               
condição. 
Urna outra possibilidade é aquela pela qual um institucionalista – que não se caracteriza corno tal e                                 
não oferece seus serviços corno tal – infiltra­se em urna organização, à qual ele pode pertencer                               
organicamente ou não, e o faz sob um rótulo, na condição de qualquer outra coisa que faça parte dos                                     
papéis formais existentes nessa organização, mas que não seja o de institucionalista. É o caso, por                               
exemplo, de um morador numa associação de bairro, em que ninguém sabe que seja institucionalista,                             
ninguém está informado de que ele oferece serviços institucionalistas, mas que, dentro de seu papel de                               
morador, opera corno institucionalista, sem explicitar essa condição. 
Existe urna última possibilidade dentro desse espectro esquemático que ainda é pobre, limitado,                         
que consiste numa variação dessa última possibilidade. Urna variação que parece a menos comprometida                           
e, sem dúvida, é a mais difícil de todas: é a daquele que pratica o Institucionalismo na convivência                                   
cotidiana. Ou seja: é aquele que nem oferece serviços corno institucionalista, nem é solicitado corno tal,                               
nem se infiltra sob outra condição não formal, mas simplesmente é um "cristão", isto é, é um próximo que,                                     
tendo assimilado princípios teóricos, formas técnicas de operar, vive dessa maneira, convive dessa forma                           
e, então, pratica o Institucionalismo com sua mulher, com os filhos, com os companheiros, com os                               
adversários. Em outras 
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palavras: é aquele que tem. do mundo urna concepção institucionalista e urna maneira de viver de acordo                                 
com esses princípios. Isso inclui o seu âmbito de trabalho, mas é principalmente na coexistência, na                               
colaboração cotidiana com seus companheiros, que ele se comporta corno institucionalista. 
Essa esquemática sistematização requer um tratamento, uma explicitação e uma abordagem muito                       
detalhados e complexos das peculiaridades que adquire cada uma dessas inserções possíveis, o que não                             
faremos por várias razões; em primeiro lugar, porque ela não foi exaustivamente feita em texto algum – e                                   
suspeito que jamais será feita, porque é demasiadamente ampla, heterogênea, complexa, inclusive por                         
causa da pretensão institucionalista de que cada intervenção tem de ser singular, tem de ter uma                               
característica de originalidade, de irrepetibilidade, o que torna a sistematização dessas diferenças                       
eventualidades muito difíceis e improváveis. Mas, em todo caso, o importante é reter isso, a amplitude de                                 
possibilidades, amplitude essa que produz um efeito contraditório nos jovens institucionalistas, porque                       
esses novatos são formados dentro de uma orientação disciplinar: querem ser essecialistas, querem ser                           
profissionais e querem ter um corpo de saber e de prescrições, de estratégias e de táticas, claro, simples,                                   
limitado e preciso. Querem saber quem são, que direitos têm, que deveres têm, qual o seu estatuto                                 
científico, qual sua condição profissional, e querem ter uma teoria simples, clara, assim corno opções                             
técnicas não demasiadamente numerosas para poderem saber, com toda facilidade, o que devem fazer em                             
cada conjuntura. E nisso consiste a formação disciplinar que tende a produzir – técnicos e, em muitas                                 
ocasiões, embora não em todas, à condição de técnico se acrescenta a de funcionário ou de burocrata. 
Felizmente ou não, o lnstitucionalismo não é assim; não é isso o que ele propõe, apesar de que, em                                     
algumas ocasiões infelizes, possa vir a cair nisso. Então, essa amplitude gera nos jovens agentes uma                               
angústia, um mal­estar que pode derivar numarecusa, que pode levá­los a adotar uma atitude depreciativa                               
que os conduz a dizer: "Isso é muito vago, muito complicado, muito impreciso; não faço; deixe­me                               
tranqüilo corno médico, corno advogado, algo tradicional e não demasiadamente autocrítico." É o famoso                           
problema de focalizar isso de maneira otimista ou pessimista. A maneira pessimista é dizer que é muito 
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complicado, muito impreciso, há demasiadas opções. A maneira otimista é dizer: "Graças a Deus, há tantas                               
possibilidades e tantas margens para a invenção... " 
O que vamos desenvolver agora é apenas uma dessas formas de intervenção, que é a intervenção                               
institucional standard, a qual: 1) não é a única (o que espero, tenha ficado claro); 2) nem sempre é a                                       
melhor – apesar de costumar ser a mais clara e a mais sistematizada; e 3) muito freqüentemente não é                                     
possível, porque as características da demanda não a propiciam. Então, deve­se ter cuidado, porque se a                               
gente se prende a esse tipo de intervenção, se se apega a esse modo de operar, corre o risco de pensar                                         
que quando ele não é possível, não existem outros que, pelo menos, deixaremos esboçados. 
Ora, a intervenção apresenta uma série de passos que têm de ficar bem explicitados. São passos                               
ideais, aos quais deveríamos prestar atenção, tratar em separado a cada um deles durante a intervenção,                               
se houvesse tempo, se houvesse calma, se houvesse dinheiro, se houvesse todas as condições necessárias                             
para fazer as coisas de maneira confortável. Em geral essas condições não existem, então pulam­se e                               
misturam­se passos, e age­se, mais ou menos, "como é possível". Se vocês querem um exemplo                             
corriqueiro, conhecer esses passos e executá­los é como em algumas épocas gloriosas da etiqueta,                           
quando nos ensinavam a caminhar de maneira elegante e, então, se nos diziam: calcanhar planta­ponta,                             
calcanhar­planta­ponta... Ora, ninguém caminha assim. Mas acontece que caminhar assim resulta num                       
andar elegante. Depois, a gente não vai mesmo pensar nisso, e simplesmente caminha mais ou menos, tão                                 
elegantemente como pode. Ou como quando a gente aprende a nadar, que consiste primeiro em levar o                                 
braço direito, depois o braço esquerdo, e bater as pernas coordenadamente, e a cabeça se volta para esse                                   
ou aquele lado... Quando a gente nada assim, só pensando nessas regras, se afoga, apesar de ser a                                   
maneira mais correta de fazê ­lo... 
O primeiro passo consiste em fazer a análise da produção da demanda. Isso, em um sentido                               
particular, consiste no cuidadoso exame que a organização ou a pessoa que está para fazer a intervenção                                 
institucional faz da maneira como ela ofereceu os serviços; ou seja, o estudo da forma como ela produziu a                                     
demanda que lhe é feita. Temos enfatizado muito que correntes 
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atuais, tanto de Marketing quanto de Psicanálise, ou de Psicanálise e Marketing (que não estão nada                               
separados), têm insistido bastante na questão da demanda do usuário: o usuário demanda isso, mas não                               
sabe que, na verdade, demanda outra coisa. Sistematicamente se esquece, nessas leituras, nessas                         
investigações, que não existe demanda espontânea, que toda demanda é produzida, é gerada, e que existe                               
um cruzamento na natureza da demanda, de tal maneira que não é necessariamente a organização que                               
oferece um serviço a única responsável pela produção de demanda desse serviço. Muitas vezes, a                             
produção da demanda de um serviço, por exemplo, um serviço de saude, é. "naturalmente", em princípio,                               
produzida pelos estabelecimentos de saúde que oferecem seus serviços. Mas ela é produzida, igualmente,                           
pela falência, por exemplo, de outras ofer,tas de outras organizações e dos serviços dessas organizações                             
que são incompletos, que são distorcidos, que são anacrônicos e que geram demanda de serviços de                               
saúde porque não resolvem bem os problemas da sua especificidade.Em outras palavras: como as                           
organizações responsáveis pela demanda urbanística, de moradia, realizam mal e resolvem mal sua oferta,                           
elas produzem uma demanda à qual não respondem. Isso traz conseqüências em saúde; os problemas                             
sanitários, por exemplo. Então, quem é que gerou a demanda do serviço de saúde? Não foram apenas os                                   
estabelecimentos de saúde. Foram também os estabelecimentos de urbanização, não por geração de uma                           
demanda de saúde coerente, racional e consciente, articulada com a oferta, mas pela inconsciência e pela                               
falência de sua oferta. Mas esse exemplo que acabo de dar é insignificante, porque, devido às questões de                                   
atravessamento e às questões de transversalidade, isso se torna um complexo mecanismo no qual a gente                               
só consegue averiguar algumas das determinantes cruzadas da produção de demanda com a oferta... e em                               
geral se perdem muitas. É importante que isso fique claro. Mas, em todo caso, o mínimo que podemos                                   
saber sobre isso é que não existe demanda espontânea e natural, nem universal, nem eterna, mas, pelo                                 
contrário, ela é produzida pela oferta. Portanto, a primeira coisa a ser feita ao nível de um campo de                                     
análise é uma pesquisa, a mais ampla possível, de como produzimos a demanda de serviços. Nesse caso,                                 
a demanda de Análise Institucional é, como o leitor compreenderá, nem mais nem menos que o começo da 
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análise da implicação. Porque se a análise da implicação é a análise do compromisso                           
sócio­econômico­político­libidinal que a equipe analítica interventora, consciente ou não, tem com sua                       
tarefa, ela começa pela análise da implicação existente na oferta, ou sefa, na produção da demanda. 
Na oferta ou produção de demanda há muitas características que não podemos detalhar aqui                           
porque excede nossos propósitos. Mas há uma que temos de revelar, ter presente, e eu gostaria de                                 
descrevê­la de maneira pitoresca, para que seja mais lembrada pelos leitores. Há uma piada famosa que                               
se passa num forte militar, numa dessas guarnições que ficam lá na fronteira. Um oficial pede a um soldado                                     
que suba na torre de controle para ver se os índios estão vindo ou não. É um forte americano, em território                                         
índio. Então, o vigia sobe, olha e diz: 
"Sim, os índios estão vindo... São muitos; vêm correndo." O oficial pergunta: "Mas esses índios são amigos                                 
ou inimigos?" Ao que o soldado responde: "Olhe, devem ser amigos, porque estão vindo todos juntos... "                                 
Se a gente se lembra desta piada, fica mais fácil lembrar que a realidade com que trabalhamosvem toda                                     
junta. A divisão em especialidades, profissões, só existe dentro da classe ou da equipe, mas não nos                                 
usuários. A realidade "vem toda junta": as divisões que fazemos são totalmente produzidas. Mas a                             
realidade vem junta e nós não estamos juntos; o mais que conseguimos, às vezes, é estar próximos, um ao                                     
lado do outro. E o que acontece é que cada especialidade, cada profissão, acha que os problemas da                                   
realidade são problemas de seu campo. Isso não é maldade dos agentes; pode ser uma desonestidade, e                                 
muitas vezes é, mas não freqüentemente. Acontece que o aparelho científico disciplinar e a condição                             
profissional estão estruturados para isso, para encarar qualquer problema da realidade e estar, em                           
princípio, convencido de que o problema é nosso: de cada um, do especialista, do profissional. Então, um                                 
senhor ou uma organização vem consultar­nos sobre um problema de saúde. Eu sou especialista em saúde.                               
Além disso, sou profissional. Vivo disso. Adquiri uma série de conhecimentos nos quais confio porque eles                               
têm­se demonstrado eficazes. Cabe lembrar que obtenho todo o meu dinheiro, todo o meu poder social e                                 
todo o meu prestígio através disso que eu faço. Então não tenho culpa de nada. Se alguém me consulta                                     
por um problema de saúde, certamente ele tem saúde ou não tem saúde e isso é da minha 
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alçada. Então: "Venha que esse problema é comigo... " Quantos profissionais, quantos cientistas vocês                           
conhecem que, após ouvirem cuidadosamente alguma demanda, concluem que esse problema não é para                           
eles resolverem, e encaminham a alguma organização ou a outra especialidade? Não se conhecem muitos                             
profissionais assim... Existem poucos. Às vezes há quem diga: "Sim, o problema é meu, mas seria                               
conveniente fazer uma consulta a um especialista em tal ou qual área." Isso já é muito, é difícil de se ouvir.                                         
O que é absolutamente improvável de se ouvir é uma resposta do tipo: "Permita­me dizer­lhe que esse                                 
problema não é privativo de nenhuma especialidade. Esse problema tem de ser resolvido com seus                             
amigos, seus companheiros, seus colaboradores ou sozinho." Estou tratando de ser simples. O problema                           
fundamental é esse: quando a gente recebe uma demanda, a primeira coisa que ocorre é que a gente tende                                     
a pensar que não tem nada a ver com a crítica dessa demanda; se o sujeito está demandando em primeira                                       
instância, somos levados a aceitar que é porque já sabe o que está demandando. E se me procura, estou a                                       
seu dispor. Procura­me porque algum lado do problema tem a ver com o que faço, e então o atendo,                                     
esquecendo­me de que, se ele me procura, é porque me ofereci. Não necessariamente me ofereci a essa                                 
pessoa que me procura; pode ser uma oferta vasta, ampla, cruzada. Mas se eu não me oferecer, ninguém                                   
me procura. Se eu não me constituo num lugar científico, profissional, se não vendo o que faço, ninguém"                                   
compra". 
Então, o que tenho de fazer é analisar, com cuidado, como foi que vendi isso, para que foi que                                     
"vendi", que coisas, realmente, posso solucionar, que coisas posso solucionar parcialmente e que coisas                           
não devo solucionar, devo encaminhar noutra direção ou devo devolver, dar de volta ao usuário o que ele                                   
solicita de mim. Essa é a análise da implicação na produção da demanda, ou seja, na oferta. Essa análise                                     
tem aspectos conscientes e pré­conscientes formuláveis assim: "Companheiros de equipe, vamos ver como                         
foi que convencemos este fulano a nos procurar." Mas tem aspectos inconscientes, ou seja: que fiz eu, sem                                   
me dar conta, o que foi que fizemos nós sem dar­nos conta, para" capturar este peixe"? Mas é claro que                                       
essa pergunta não tem uma resposta reflexiva e voluntária. A primeira coisa a ser feita para isso é                                   
despojar­se da convicção de que a oferta de nossos serviços é lícita, válida, resolutiva etc., porque, pelo                                 
contrário, o que 
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vivemos fazendo é lutar pela legitimação, pela autorização e pelo reconhecimento social de nosso serviço. 
O passo seguinte é a tentativa de análise do encaminhamento, isto é: quais foram os passos                               
intennediá;ios que conectaram o usuário­demandante conosco? Há muitos, mas para dar um exemplo                         
simples: qual foi o cliente que, definindo nossos serviços como eficientes, chegou à conclusão de que seu                                 
próximo se beneficiaria também com esse serviço? Quais são as razões válidas e as razões inconfessáveis,                               
ou as razões recalcadas pelas quais ele fez esta recomendação? O que acontece quando quem fez esta                                 
recomendação é um congênere, isto é, não é exatamente um colega, mas outro profissional e outro                               
especialista que resolveu fazer a concessão de nos encaminhar alguém? São passos intermediários da                           
conexão entre a oferta e a demanda. São as famosas fórmulas: consulta a organização tal ou o fulano de tal                                       
porque "é o melhor"; consulta porque "é caro"; consulta porque" é bara to"; consulta porque ele é "dos                                   
nossos". É preciso ver o que significa cada um desses atributos: qual é o problema que agIu tina a quem                                       
solicita. Consulta porque" é daqui", ou porque "vem de fora". Tudo isso modula a demanda, e o faz com                                     
elementos conscientes e inconscientes no usuário, na mesma proporção neles e em nós, que ofertamos o                               
serviço. 
O passo seguinte é a análise da gestão parcial. Isto é: qual foi o setor da organização que assumiu                                     
o papel de vir consultar nos ou fazer o contato? É o setor de direção? É o setor administrativo? É o setor                                           
financeiro? São os quadros intermediários? São as bases? É o proprietário? Ou seja: a gestão parcial da                                 
demanda de serviços é protagonizada por diferentes. segmentos da organização. E isto é muito importante,                             
porque nos pode dar toda uma antecipação dos motivos desta consulta, os interesses em jogo, os desejos                                 
em pauta e, sobretudo, o grau de consenso, de unanimidade que motiva os protagonistas dessa solicitação.                               
Não é a mesma coisa ser solicitado pela direção ou pelos proprietários e ser solicitado pelas bases.                                 
Costuma ser, para os institucionalistas, infinitamente melhor serem solicitados pelas bases do que pela                           
direção ou pelos proprietários. Isso, sem dúvida, não é nenhuma garantia, porque as bases não são                               
homogeneamente revolucionárias, nem homogeneamente progressistas, nem homogeneamentesinceras.               
Coisa que se constata claramente naquela célebre frase que diz: “A ideologia 
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dominante é a ideologia das classes dominantes." Então, as bases são, em geral, originais, singulares,                             
solidárias etc., mas estão infiltradas pelos interesses e desejos dos setores dominantes. Então, ser                           
solicitado por elas não é garantia de uma intenção transparente. Isso também tem de ser analisado. 
O grupo que protagoniza a gestão parcial em geral não contém todas as partes, mas apenas uma                                 
delas. Estamos falando de uma situação ideal em que, geralmente, vem apenas um segmento (apenas uma                               
parte faz a demanda). Por outro lado, uma organização numerosa nunca virá toda para fazer uma                               
solicitação. Vem um setor, que dá uma visão absolutamente parcial da realidade. A compreensão da                             
determinação dessa parcialidade é importante, pois o fato de você considerar o parcial é que vai lhe                                 
permitir imaginar a existência de uma totalidade complexa, contraditória, desigual, conflitiva. Isso, claro,                         
sabendo que uma organização nunca é integralmente totalizável. 
Então, a análise da gestão diz respeito a isso: como foi que esse grupo resolveu consultar e como                                   
foi que consultou. O passo' seguinte é a análise do encargo. 
Na análise do encargo há um problema terminológico que seria interessante que ficasse claro para                             
os leitores. Há uma discriminação muito importante que se estabelece entre demanda e encargo. Nessa                             
terminologia, demanda é a solicitação formal, consciente, deliberada, que nunca coincide com o encargo,                           
que é um pedido que envolve os três níveis da discriminação que fizemos entre má­fé, desconhecimento e                                 
recalque. A diferença entre demanda e encargo pode passar por esses três tipos de determinações. A                               
demanda nunca coincide com o encargo. Mas não coincide por quê? Por má­fé? Pode ser. É claro que as                                     
pessoas estão solicitando uma coisa, mas o que elas querem obter é outra. Pode­se dar um exemplo                                 
clássico, mas não único, nem exclusivo: à solicitação de intervenção institucional, na medida em que a                               
Análise lnstitucional está cada vez mais em moda e que crescentemente ocupa lugares formais, é uma                               
solicitação consciente que, em geral, passa pela idéia confusa de que um serviço de Análise Institucional                               
forma parte da parafernália de serviços característicos do progresso, da tecnologia moderna em relações                           
humanas. Então, a demanda é geralmente uma demanda do tipo: "Bom, veja, viemos consultá­lo porque                             
sabemos da importância desta disciplina e queremos melhorar o ambiente 
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dos operários, da direção, ou queremos melhorar o clima entre professores e alunos, a comunicação, o                               
entendimento, a negociação etc." Por quê? Porque já se sabe que existe uma tecnologia modernista que                               
conhece do assunto e vai se ocupar disso. Ora, acontece que o encargo pode não ter nada a ver com isso.                                         
O encargo pode ter a ver, por exemplo, com algo que acontece quando, na organização, está surgindo um                                   
grave conflito por problemas de condições de trabalho, por problemas de nível de salário, por problemas                               
de autoritarismo na liderança, todo tipo de atritos mais ou menos explícitos. Então, há uma demanda, num                                 
plano manifesto, de uma intervenção profilática, progressista, melhoradora. O encargo, no entanto, é:                         
"Olhe, veja se acaba com esta revolta, localiza os líderes, me aconselha como desmontar este movimento,                               
como desmobilizar, como fragmentar, como paralisar isto, ou como aumentar a produtividade sem tocar                           
na questão do salário." Isso pode ser feito com plena consciência e com má­fé. Muitas vezes o interventor                                   
solicitado tem uma trajetória que permite que lhe seja solicitado isso com toda clareza, porque é um                                 
corrupto ou porque é um reacionário. Há especialistas em fazer essas coisas. Agora, quem tem fama de                                 
institucionalista dificilmente será solicitado abertamente para isso, porque já se tem uma vaga idéia de que                               
se ele não é revolucionário, pelo menos é democrata ou humanista. Então não se lhe pede isso                                 
diretamente. Mas pode­se perceber, perfeitamente, que se diz uma coisa e se está pedindo outra. 
Mas a diferença entre a demanda e o encargo pode não passar pela má­fé. Pode ser fruto do                                   
desconhecimento, ou seja, você pode perfeitamente ter uma impotência sexual psíquica, e procurar um                           
urologista, que não sabe uma palavra sobre isso. O urologista irá receitar, então, cloridrato de ioimbina ou                                 
viagra, e se isso não funcionar, vai acabar implantando uma prótese peniana para ver se opera, quando,                                 
simplificando humoristicamente, trata se de algum conflito com a "mamãe"... Não é comum isso? Trata­ se,                               
pois, de um problema de ignorância. O usuário não tem como saber qual é o lugar e o expert adequado                                       
(?) para a consulta. 
Mas pode ser, finalmente, um problema recalcado, inconsciente, de quem vem consultar alguém                         
que tenha reprimido (em um sentido amplo) qual seja a diferença entre sua demanda e o encargo                                 
recalcado, entre o que ele pede e o que ele inconscientemente espera conseguir. 
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Agora cabe aclarar uma coisa importante. Quando se simplificou isso, anteriormente, no tocante à                           
diferença entre a demanda e o encargo, em termos de má­fé, de desconhecimento ou de recalque, falou­se                                 
no caso de quadros de proprietários ou de quadros diretivos que pedem um serviço. Mas se os quadros                                   
são de base, pode acontecer exatamente o mesmo: o pedido pode ser fruto de má­fé, de                               
desconhecimento ou de recalque, porque os quadros de base podem fazer essa solicitação, por exemplo,                             
porque não querem trabalhar, descartado o fato de que todo trabalho é alienado, que sempre existe uma                                 
extração de mais valia, e que sempre há dominação etc. Mas vocês devem ter ouvido, com freqüência,                                 
estes grandes "protestos revolucionários", porque não se quer estudar, não se quer trabalhar. Então                           
solicita­se alguma reivindicação, mas tem­se outro pedido como encargo: "Dê um jeito para que a gente                               
não trabalhe." Já tenho recebido demandas dramáticas, heróicas, pelo fato de ter sido colocado o cartão                               
de ponto. É claro, numa sociedade onde o trabalho é alienado, o cartão de ponto quer dizer muita coisa, e                                       
a maioria delas não é boa. Mas também quer dizer que você tem um horário de trabalho que odeia                                     
cumprir, ou um estudo que não tem vontade de 'encarar, ou uma autocrítica que não consegue suportar.                                 
Sem dúvida estedesagrado pelo trabalho ou o estudo não é produto de uma "natureza ruim", ou de uma                                     
essência "vadia". Os determinantes do "desprazer ocupacional" na nossa sociedade são reais e                         
espantosamente complexos. Freqüentemente a "resistência" à tarefa é uma tática de luta que exprime o fato                               
de que trabalhamos por dever ou forçados pela sobrevivência. Mas, em todo caso, é bom que tais                                 
manobras fiquem claras para o institucionalista e para o demandante. 
Já dissemos do que se trata a análise de encargo parcial. Já sabemos o que é encargo, e também                                     
análise da demanda parcial. Na realidade, não se podem separar esses dois pontos. Entendendo a                             
demanda parcial e sua diferença em relação ao encargo parcial – são dois pólos de uma unidade, não se                                     
pode entender um sem o outro –, então temos de caracterizar os analisadores "naturais". Vocês se                               
lembram do que é analisador .natural: é um fenômeno (dito em termos clássicos, incorretos e ilustrativos)                               
mais ou menos similar ao que Pichon Rivière chama de emergente, que é o que surge como resultante de                                     
toda uma 
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série de forças contraditórias que se articulam neste fenômeno. E são "naturais", porque não foram                             
fabricados por um interventor institucional. Então, suponhamos um analisador chamado natural (criticamos                       
a palavra natural porque nada é "natural"): um analisador natural seria um terremoto, e nunca nos                               
chamaram para analisar um terremoto porque temos pouco para dizer a respeito disso, pelo menos                             
enquanto acontecimento geológico. Então, não existem analisadores naturais propriamente ditos. Na                     
verdade os analisadores são espontâneos ou históricos. Qual seria um analisador desse tipo? Grande,                           
pequeno ou médio, poderia ser uma greve, a morte de um operário, o aumento das doenças de trabalho,                                   
uma grande briga: esses são analisadores chamados naturais. Então, temos de caracterizá­los, delimitar                         
quais são. E quando tivermos feito tudo isso, poderemos chegar ao que se chama diagnóstico provisório.                               
Um primeiro entendimento sobre o que está acontecendo lá na organização. Só que esse diagnóstico                             
provisório é o que os médicos costumam chamar de "presuntivo", que é uma hipótese ainda especulativa                               
sobre o quadro. Mas então, temos de fazer, a esta altura, um contrato de diagnóstico. Este contrato já                                   
implica a construção de dispositivos para ouvir todas as partes. O contrato de diagnóstico é um acerto, é                                   
um convênio feito para poder construir um dispositivo no qual possamos ouvir todas as partes. Porque só                                 
ouvimos uma, aquela que fez a demanda parcial. Só que é bom fazer este novo acordo, porque ele implica                                     
que o diagnóstico já é uma operação de intervenção Então já tem de ser autorizado, legitimado e, no caso                                     
de existirem honorários, já devem ser pagos, Senão, o que acontece? Toda a intervenção pode acabar aí,                                 
no entanto não é valorizada pelos usuários. Por isso, se entre outras coisas o institucionalista vive disso, é                                   
interessante receber os honorários, e também porque um contrato de diagnóstico lhe dá direito a                             
credenciais para poder ter acesso aos lugares que têm de ser diagnosticados. Senão, se vai lá, entra­se                                 
para diagnosticar e o segurança te manda embora. Depois do contrato de diagnóstico, cria­se dispositivos                             
para recolher todo o materiaI necessário. Então, tenta­se analisar, fundamentalmente, as defesas, isto é,                           
quais foram as resistências que se levantaram nos outros setores que se foi ouvir. Com esse contrato,                                 
assegura­se o respeito geral necessário, pelo fato de que, em primeira instância, o institucionalista foi                             
solicitado por um setor, por um segmento qualquer, e não por todo o coletivo. 
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O passo seguinte consiste em, a partir desse diagnóstico provisório, poder planejar uma política,                           
uma estratégia, uma tônica e técnicas para começar sua intervenção. Mas não foi concluído ainda o                               
diagnóstico provisório. Ainda é um presuntivo já mais elaborado, mas não é sequer o diagnóstico                             
provisório. Então vai­se criar analisadores construídos, ou dispositivos para poder recolher todos os                         
dados do didgnóstico provisório. Por enquanto, só se ouviu os setores distintamente. Ouviu­se                         
passivamente, mas não se criou condições para cutucar o não dito que queremos investigar, 
Mas será que quando crio instrumentos de investigação, de indagação, não estou deixando de ser                             
institucionalista no sentido de que faço averiguações ativas sob a minha ótica? Posso correr este risco? Sim                                 
e não. Evidentemente é um procedimento ativo e não é "natural"; é "artificial" – já fizemos a diferença entre                                     
analisadores naturais e analisadores artificiais. Mas talvez isso se possa entender um pouco melhor                           
simplificando esses dispositivos e analisddores construídos. Eles não são tão indutivos assim, porque se                           
trata simplesmente de propor. Vamos dar um exemplo fácil. Depois que se fez a investigação passiva,                               
resolve­se que o analisador artificial que vai agitar o ambiente e que vai dar­nos o material mais profundo,                                   
mais crítico, mais comprometido, é uma reunião de cineclube. Cheguei à conclusão de que vou propor a                                 
projeção de um filme e uma discussão sobre o mesmo, e importante, porque é indireto, desloca a                                 
problemática da situação espontaneamente referida. Por outro lado, não é demasiadamente indutivo,                       
porque o interventor não está baixando regras, mas está propondo um dispositivo agitador, um                           
agenciamento ativador. Os usuários podem aceitar ou não. Se não aceitam, teremos que pensar em outras                               
alternativas. Uma vez aceito, pode dar certo ou não. Pode ter um resultado rico ou pode não dar em nada.                                       
Também se pode propor outra coisa bem interessante: um laboratório prolongado de fim de semana em                               
um espaço diferente do habitual: vamos nos reunir todos em um lugar e vamos conviver durante estes dois                                   
dias e permitir­nos observar o que acontece nessa convivência. É muito recomendável e não é nada                               
autoritário, nada impositivo. 
Depois que se executam os dispositivos do diagnóstico provisório, reúne­se a equipe interventora                         
e parte­se para analisar toda a colheita, fazendo­se a análise da demanda e do encargo 
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definitivo. Da mesma maneira que ativamos esse coletivo ou mobilizamos e o colocamos em condições de                               
manifestar­se muito mais livremente, muito mais ricamente, também somo's mobilizados, somos igualmente                       
ativados, temos umavivência de contato diferente. Então, temos de voltar a fazer uma auto­análise da                               
implicação: o que foi que isso acordou, despertou em nós, que não tínhamos percebido em todos os                                 
passos anteriores? Particularmente o material inconsciente. Por exemplo, depois de todo esse novo exame,                           
temos adquirido solidariedade ou cumplicidade inconscientes com segmentos organizacionais? Isso agitou                     
em nós ambições e desejos que não tínhamos e agora percebemos? Por exemplo, quando se mantém uma                                 
convivência prolongada, pode­se chegar à conclusão que dessa intervenção podem ter origem dezenas de                           
outras intervenções, porque essa agência faz parte de uma cadeia nacional de agências e que se a equipe                                   
fez uma boa intervenção aqui, vai conseguir outras intervenções noutros lados. É possível não se dar conta                                 
de que essa ambição acordou­se nos interventores. Então, a análise da implicação significa pesquisar,                           
exaustivamente, no coletivo interventor, quais foram os inconfessáveis e imperceptíveis ou recalcados que                         
foram ativados. Nova análise da implicação. Por que é importante? Porque o passo seguinte é o                               
diagnóstico definitivo e o planejamento da intervenção definitiva. Nova política, novas estratégias, táticas,                         
técnicas definitivas, analisadores definitivos e um passo seguinte fundamental: proposta de intervenção e                         
novo contrato. 
Esse contrato definitivo, que envolve maior compromisso e requer mais retribuição, exige ter muito                           
claro aquilo com que se está lidando e quais foram as ressonâncias inconscientes que isso. despertou na                                 
equipe interventora. Também será preciso definir qual a orientação geral que vai ser dada ao processo,                               
será necessário precisar quais são as estratégias, os movimentos fundamentais para conseguir os                         
propósitos políticos; será necessário desenhar as táticas, os espaços onde se vai dar essa "guerra", a                               
ordem dos mesmos, a importância dos mesmos e as técnicas, os procedimentos: psicodrama, técnicas                           
expressivas, qualquer técnica, mas pensada anteriormente; uma festa, um cineclube, uma guerra simulada,                         
um quebra­cabeça coletivo, toda técnica é boa, sempre que a tática, a estratégia e a política estejam bem                                   
claras e resultem do diagnóstico definitivo e do entendimento da implicação. 
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Depois temos a autogestão do contrato de intervenção, isto é, vamos fazer uma proposta de                             
contrato definitivo, mas não vamos impor nenhum dos termos e deixaremos que o coletivo proponha se                               
quer pagar quanto quer pagar, por que quer pagar, que tempo pensa destinar ao trabalho, que poderes                                 
quer nos dar e porque, o que será muito ilustrativo do significado que a intervenção tem para cada                                   
segmento. O interventor institucional nunca faz uma declaração assim: "Eu quero um contrato por tanto                             
tempo, eu cobro tanto e quero que se me autorize produzir tais e quais transformações na organização ou                                   
introduzir tais mudanças." Primeiro quero saber o que o coletivo propõe nesse sentido, e porque. Isso é                                 
completamente diferente das prestações de serviço profissionais habituais, em que o profissional diz:                         
"Minha hora custa tanto, o tratamento vai durar tanto tempo, e quero que você se deite e me deixe                                     
examinar seu ouvido esquerdo com este aparelho. Se não for assim, não atendo." Não é esta a idéia. Os                                     
temas a investigar são: Como você concebe este serviço? Quanto tempo você acha que vai durar? Quanto                                 
dinheiro você acha que deve ser pago? E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que                                   
deve pagar e por quê? Quais são os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar                                     
aqui todos os dias? Podemos acompanhar o trabalho hora após hora? Podemos estar nas reuniões                             
reservadas? Podemos ver os livros contábeis da organização? É claro que, depois de analisar a proposta,                               
o institucionalista pode fazer uma contráproposta e fundamentá­la, para chegar a um acordo consciente. 
Depois vem a execução da intervenção, tal como foi planejada. Logo vêm as avaliações                           
periódicas, que são momentos de parada para qualificar os resultados e voltar a analisar a implicação que                                 
se vai gerando na equipe durante o processo. Consideração dos índices de transferência, resistência,                           
produção, antiprodução, atravessamento, transversalidade, todos os conceitos que explicamos durante o                     
curso e que agora não poderemos tratar em detalhes. 
Quando acaba a intervenção temos de fazer um prognóstico, que poderemos ou não comunicar ao                             
coletivo. Poderemos ou não propiciar a implantação de um dispositivo de auto­análise coletiva                         
permanente; ou seja, no momento em que saímos da organização, ficará uma disposição e uma 
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instrumentação de dispositivos para que esse coletivo continue fazendo, de forma permanente, o processo                           
de auto­análise e o processo de autogestão que induzimos, que introduzimos como hetero. Nós saímos, e                               
o trabalho continua. Podemos fazer um acordo de acompanhamento, de intervenções periódicas de                         
atualização. E, finalmente, já por nossa conta, temos de discutir, profunda e exaustivamente, como vamos                             
elaborar todo o material, como vamos teorizá­lo e o que vamos fazer com ele, se vamos publicá­lo ou se                                     
vamos obter algum tipo de benefício com ele: o coletivo no qual intervimos está alheio, mas a implicação e                                     
os problemas éticos, políticos e econômicos continuam sendo importantíssimos, sobretudo porque é um                         
material que nos pertence muito relativamente: é propriedade do coletivo considerado. Nossa decisão                         
deverá ser submetida a ele. 
A intervenção standard que tentei explicar tem milhares de variações, tanto que se pode dizer que                               
a regra são as exceções. Mas, em todo caso, é um esquema para se considerar e omitir os passos que não                                         
sejam possíveis, que não sejam recomendáveis, condensar tantos outros etc. Em todo caso, é importante                             
que cada interventor possa inventar um procedimento sui generis para cada situação. 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO VI 
1) Que modalidades de intervenção institucional você conhece? 
2) Qual é a vantagem do roteiro standard de intervenção institucional?
3) Repasse cada um dos itens do roteiro standard. 
4) Que diferença existe entre um analisador "natural" e um construído? 
5) Qual é a importância da autogestão do contrato? 
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Capítulo VII 
o INSTITUCIONALISMO NA ATUALIDADE 
f) O Institucionalismo e suas vicissitudes 
Convencionamos denominar o Movimento Instituciona lista, ou Antiinstitucionalista, ou Instituinte,                   
ou simplesmente Institucionalismo, a um conjunto abertoe internamente diversificado de correntes que                         
mostram certos valores em comum, bem como marcadas diferenças. 
Não é nossa intenção enumerá­las e caracterizá­las todas, não só porque este propósito excede                           
em muito os limites deste livro, mas também porque supomos que este universo seja não totalizável. O                                 
mesmo se incrementa incessantemente com discursos e práticas originais que podem diferir marcadamente                         
dos que cada um considera os mais notáveis e respeitáveis desta agrupação. 
Basta dizer que compreende numerosos saberes e fazeres que tomam por objeto os coletivos                           
sociais no que se refere às lógicas que os regem, às formas concretas em que essas se "materializam", às                                     
finalidades que perseguem e à medida que as alcançam, assim como aos recursos que empregam para                               
obtê­las. Em outras palavras: ocupam­se das instituições, organizações, estabelecimentos e equipamentos,                     
assim como dos agentes e práticas que estes protagonizam. 
Essa abordagem tem o que poderíamos chamar em geral, e não sem ressalvas, uma vocação                             
crítica, que tenta conceituar de diferentes maneiras. Podemos eleger uma, insistindo que não 
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será necessariamente compartilhada. Trata­se de diferenciar em cada uma destas entidades sua função ou                           
funcionalidade de seu funcionamento. 
A função remete a fins e meios declaradamente universais e necessários para o suposto "bem                             
comum". O funcionamento remete à virtualidade que essas entidades detêm de um potencial                         
transformador, a serviço, principalmente, da produção de novas formas libertárias da vida. Essa vaga                           
descrição introdutória permite reconhecer que o espectro de propostas dos diversos "institucionalismos" é                         
classificável em uma escala que vai desde posições relativamente conservadoras, seguindo por outras                         
crescentemente reformistas, até chegar a concepções e ações alternativas, marginais, clandestinas,                     
revolucionárias e, até talvez caiba dizer, extremistas. 
Muito sumariamente mencionada, a gênese social desse Movimento pode relacionar­se, em seus                       
aspectos conservadores ou reformistas, com uma longa série de tentativas históricas de regular                         
racionalmente a existência das coletividades. Arbitrária e muito simplificadamente, proporíamos as grandes                       
balizas da Revolução Francesa, o Iluminismo e o Enciclopedismo como acontecimentos importantes                       
pioneiros deste tipo. Pelo contrário, em suas versões mais drásticas, o Institucionalismo tem parentesco                           
com todos os ensaios libertários que as culturas e civilizações tenham pensado ou experimentado, desde a                               
tribalidade primitiva e nômade até as tentativas autogestivas modernas da Iugoslávia, Argélia e, sobretudo,                           
da República durante a Guerra Civil Espanhola. 
Quanto à gênese conceitual, sabe­se que o Instituciona lismo nutre­se de linhas teóricas                         
contrastantes, na medida em que estas não são homogêneas. Por um lado, não pode deixar de se inspirar                                   
na filosofia mais ou menos "oficial" do Ocidente: Sócrates, Platão, Aristóteles, os Escolásticos, Descartes,                           
Kant, Hegel e Heidegger. Por outro, adere com muito mais entusiasmo ao espírito dos materialistas                             
pré­socráticos, assim como aos sofistas, megáricos, epicuros, estóicos, Espinosa, Nietzsche, Hume,                     
Bergson, Kierkegaard e Sartre. Algo similar ocorre com os pensadores políticos e jurídicos cuja                           
nomeação resultaria demasiado extensa. Basta mencionar a preferência do Institucionalismo pelos                     
utopistas como Tomas Morus, Campanella, Rabelais, Fourier e, à sua maneira, por Marx, Bakunin e                             
outros. 
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Se é permitido falar­se de uma gênese operacional, é sabido que as origens do Movimento podem                               
fazer­se partir de três grandes campos da práxis, a saber: o da Educação, o da Saúde Pública                                 
(especialmente a mental) e o da Indústria. Poder­se­ia acrescentar toda aquela atividade vinculada aos                           
Serviços Sociais, os problemas da Urbanização e Demografia, e assim por diante. Simultânea ou                           
consecutivamente, esses limites se ampliaram a quase todo tipo de organizações e estabelecimentos                         
(comerciais, financeiros, partidários, sindicais, eclesiásticos e até militares). Essa difusão culminou com uma                         
conflituosa incorporação (crítica ou não) dos recursos institucionalistas ao "planismo" em grande escala,                         
quer dizer, às grandes campanhas estatais para o gerenciamento e a administração das sociedades civis e                               
das populações em geral. 
As bases teórico­técnicas mais específicas do Institucionalismo são surpreendentemente                 
numerosas e compreendem não só contribuições de ciências constituídas Sociologia, Psicologia, História,                       
Economia, Semiótica e Antropologia –, como também de disciplinas como a Pedagogia e a Medicina, ou                               
interdisciplinas formal­tecnológicas como a Teoria da Comunicação, dos Sistemas, dos Jogos etc. Cada                         
um desses setores do conhecimento, obviamente, não é homogêneo, e nem sua herança institucionalista o                             
é. Encontramos, assim, influências predominantes de várias correntes, por exemplo: Comportamentalismo,                     
Rogerianismo ou Psicanálise (em Psicologia), Funcionalismo, Estruturalismo ou Materialismo Histórico (em                     
Sociologia e Economia Política) e assim por diante. 
Desde logo, todas essas influências estão moduladas segundo matrizes filosóficas, ideológicas e                       
políticas assumidas expressamente ou não pelos teóricos e praticantes institucionalistas, entre os quais                         
encontramos, como mínimo, liberais, marxistas e anarquistas. Sem contar que boa parte entende que o                             
Institucionalismo é uma visão política integral do mundo em si mesmo e que não pode reduzir­se a                                 
nenhuma das posições políticas reconhecidas. 
Quanto ao estatuto gnosiológico pretendido por cada orientação para a sua práxis, a gama abarca                             
desde as escolas que, aspiram a títulos de cientificidade (de acordo, está claro, com a definição de ciência                                   
que sustentem as epistemologias às quais respectivamente subscrevam) até as que se postulam como 
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afazeres artesanais militantes ou ainda não enquadráveis em qualquer categoria que não seja uma nova                             
concepção da convivência cotidiana. 
Conseqüentemente, essa heterogeneidade não pode mais que desembocar em uma quase Torre de                         
Babel, no que tange a uma certa unificação de termos indispensável para a produção teórica (coerência,                               
consistência, precisão, convalidação, verificação etc.). Como veremos mais adiante, o mesmo ocorre com                         
as convicções requeridas para a articulação de uma Ética, Estratégia e Tática do Movimento. Se o                               
instrumental teórico, método e objeto de estudo são tão proteiformes e problemáticos, o que esperar                             
acerca do arsenal técnico, oqual se desdobra entre as ferramentas clássicas da Sociologia (pesquisas de                               
opinião e atitude, análise de conteúdo, entrevistas livres ou dirigidas, assembléias, workshops etc.),                         
passando pelos procedimentos informativos, dramáticos, sugestivos ou interpretativos das psicoterapias                   
até chegar à doutrinação ou à agitação política segundo padrões mais ou menos tradicionais. 
Em síntese: esta "evolução", "progressão" ou, mais neutramente dizendo, este "percurso" de sua                         
gênese social, conceitual e operativa, coloca ao Movimento agudos problemas pertinentes a seu estatuto                           
ético, jurídico­político, gnosiológico e profissional. 
Esses temas costumam aparecer no Institucionalismo em torno de polêmicas sobre a cientificidade                         
e a profissionalidade. Com a cientificidade joga­se o reconhecimento e a autorização das comunidades                           
científicas e acadêmicas (diplomas, títulos, carreiras, publicações etc.). Com a profissionalidade o que está                           
em jogo é a legitimidade, legalidade, ou o que quer que se queira chamá­lo, do Institucionalismo, com                                 
relação aos códigos jurídicos nos quais se enquadra e aos normativos a que se atém... e suas óbvias                                   
conseqüências econômico­políticas (operações de oferta, demanda e contratação de serviços,                   
possibilidade de confissão dos objetivos reais da intervenção, avaliação de eficácia, questões de                         
neutralidade­abstinência ou imparcialidade­indução). 
Essa conflitiva do Movimento nas dimensões da especificidade (cientificidade) e da                     
profissionalidade já é incômoda mesmo para as modalidades mais conservadoras e reformistas na escala                           
de correntes. Certas orientações como a denominada "Desenvolvimento Organizacional" ou a "Cibernética                       
Social" são 
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vistas pelos setores acadêmicos ou pelos mais politizados como "penetras", mercantilistas e adaptativas;                         
isso não impede que existam e às vezes alcancem um êxito mercadológico e efetivo entre seus usuários.                                 
Mas a questão de fundo que se coloca é como o "devir" das posições no fazer e saber institucionalista foi                                       
se pronunciando: 
a. Quanto à especificidade, sobre uma crítica radical das cumplicidades das leituras e intervenções                         
científico­ tecnológicas com os sistemas e setores dominantes; 
b. Quanto à profissionalidade, sobre uma impugnação extremada do papel de certas prestações de                         
serviços, cujos privilégios corporativos e condições mercantis contratuais seriam reprodutores                   
flagrantes da divisão técnico­social do trabalho e da alienação­dependência do saber­poder dos                       
coletivos de usuários. 
No extremo, e coerentemente, as formas mais marginais, alternativas ou revolucionárias do                       
Movimento costumam compartilhar uma utopia quase insurrecional de ampliação e generalização da                       
análise e da intervenção em grandes situações em escala regional, nacional e até planetária. 
Os setores tradicionais do Movimento, de acordo com os países onde se desenvolvem,                         
conseguiram uma considerável aceitação e até uma consagração que os incorpora (mais de fato que de                               
direito) à tecnologia da human engineering (Psico­Sociologia das Relações Humanas, Treinamento em                       
Recursos Humanos etc.). Pelo contrário, a faixa mais subversiva do Movimento, impulsionada por uma                           
clara perseguição aos objetivos de coletivização e generalização da auto­análise, da autogestão e da                           
autodeterminação das comunidades, afasta­se cada vez mais dos parâmetros epistemológicos e legais que                         
regem as prestações convencionais das quais partiu no início do Movimento. 
Durante esse trajeto, as orientações mais radicais produziram "instrumentos" teórico­técnicos                   
valiosos sob todos os prismas, tais como: implicação, analisador, demanda, encargo, efeitos: Mulhman,                         
Lukács, Weber, frio­quente, centro­periferia etc. (ver glossário), que atendem à autocrítica dos valores da                           
equipe de prestadores de serviços e da reconquista, por parte dos coletivos, das potencialidades acima                             
apontadas. Contudo, as expectativas de mudanças substanciais e duradouras nas comunidades de usuários                         
não foram inteiramente satisfeitas, e 
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muito menos as de propagação da utopia transformadora a vastas unidades sociais. Como veremos mais                             
adiante, o complexo panorama do mundo atual nos mostra coletivos brutalmente submetidos, ou                         
persuadidos ao participacionismo, ou totalmente apáticos e dispersos. Isso tudo acontecendo em um                         
estado coisas objetivo de injustiça social que exigiria mais que nunca uma ação conjunta decidida. 
Parece que o Institucionalismo avançado, e mais ainda o "maximalista", que não simpatiza com as                             
formas políticas "progressistas" e/ou revolucionárias convencionais (tais como partidos ou vanguardas                     
elitistas), não foi capaz de deflagrar por si mesmo sólidos processos, pontuais ou amplos, de mudança                               
libertária. A rigor, não é seguro que seja isso o que o Institucionalismo avançado pretende. Mais                               
corretamente, a idéia consiste em encontrar canais de conexão, formais ou não, com as iniciativas                             
históricas circunscritas ou massivas que se encontram já em andamento, para contribuir com as mesmas                             
para a plena vigência das modalidades gestionárias singulares que necessitem e decidam dar­se. 
Mas é justamente este um dos pontos nos quais se coloca para o institucionalista avançado o mais                                 
duro desafio, radicado na elaboração dos citados canais de cooperação. Se por um lado os                             
procedimentos habituais de produção de demanda de serviços lhe estão dificultados ou impedidos pela                           
peculiaridade de seus ideais, por outro as célebres categorias de inserção nos movimentos e lutas, tais                               
como as de integrante, colaborador, aliado ou simpatizante lhe são insuficientes. 
Diante dessa perspectiva, o agente institucionalista com inquietações militantes encontra dilemas                     
excruciantes, nem sempre realistas, que se em um sentido podem constituir fatores de propulsão ao                             
aperfeiçoamento de seus recursos, em outro, ameaçam submergi­lo em uma certa paralisia. René Lourau                           
tratou lucidamente desses impasses em dois capítulos memoráveis seu livro "El Estado y el Inconsciente"                             
(Ed. Kairos, Barcelona, 1980). Na segunda parte do citado texto, os capítulos V e VI intitulam­se: "El                                 
Estado en el Analisis Institucional" e "El Analisis Institucional en el Estado". Resume­se aí o drama                               
Institucionalismo: definindo o Estado, soma do instituído, uma maneira vasta e diversificada como "o                           
inimigo principal" (a expressão é nossa), o autor tenta sistematizar os obstáculos, 
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possibilidades e impossibilidades que a onipresença do "Leviatã" impõe ao Movimento em todos os                           
campos de sua provável atuação. Mas não deixa de assinalar o peso das mortíferas determinaçõesestatais                               
imanentes ao próprio seio do Movimento. Remetemos o leitor a essa leitura obrigatória porque queremos                             
partir dela para enfatizar alguns inconvenientes, não por acreditarmos que não tenham sido                         
abundantemente tratados neste e em outros escritos, senão no tangente à nossa experiência particular. O                             
primeiro refere­se ao fato de que o lnstitucionalismo avançado e até o "maximalista" não são                             
suficientemente conhecidos devido à sua pouca difusão, de modo que os pequenos grupos e organizações                             
não sabem de sua existência. Por outra parte, a maioria dos grandes experimentos "revolucionários"                           
massivos atuais não sustenta integralmente os ideais libertários antes mencionados, sendo pouco provável                         
que solicite a colaboração de um institucionalista, mesmo supondo que conheça sua proposta. 
Isso reduz as demandas de trabalho àquelas apresentadas por organizações de pequena e média                           
envergaduras, que na maioria das vezes confundem o serviço que procuram com qualquer uma das                             
variedades "normativizantes" anteriormente descritas. 
Também devido à pouca divulgação do Movimento, o Institucionalismo se vê forçado a recrutar                           
quase exclusivamente seus adeptos praticantes nos estabelecimentos de formação acadêmica de                     
especialistas e profissionais. 
As duas dificuldades, a de uma demanda errada e a de uma procedência logocêntrica e                             
corporativa dos agentes, contribuem para o aggiornamento da corrente no sentido das orientações mais                           
adaptacionistas ou reformistas. Contudo, segundo nossa experiência na América Latina, algumas regiões                       
da Europa e (por referências) nos Estados Unidos, proliferam cada vez mais movimentos, espaços e                             
correntes idiossincráticos (de singularidades etárias, sexuais, raciais, religiosas e até trabalhistas)                     
"naturalmente" predispostas a coletivizações autônomas, senão à autogestão generalizada "a quente". Em                       
cada um desses âmbitos ou nos interstícios de outros mais "oficiais", abrem­se para o institucionalista                             
outras tantas oportunidades para reinventar sua "maestria". Trata­se, mediante a auto­análise da implicação                         
despertada pelo encontro com a singularidade do 
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coletivo intervindo, de expurgar os emergentes de profissionalismo e especialismo que se levantam como                           
impedimentos para a plena realização produtiva da intervenção como acontecimento. Fazem­se imperiosos                       
para o Institucionalismo estudos cuidadosos e particularizados da estrutura e estratégias do Estado                         
(entendido como ubíquo, inconsciente e "contínuo") em cada formação social. Essa falência também foi                           
indicada por Lourau e outros; enquanto essa não for remediada por um extenso sistema de intercâmbio e                                 
acumulação de informações (chame­se, por exemplo, "Praxiologia", como sugerem alguns), o                     
Institucionalismo estará condenado a uma série de apreensivas apostas, sobre algumas das quais                         
voltaremos ulteriormente. 
Sem pretender sequer introduzir o tema de uma "Estatologia Diferencial Institucionalista", queremos                       
apenas observar que as sociedades opulentas (em especial as sociais democracias européias), por um                           
lado, parecem propícias ao Institucionalismo devido à sua permissividade e tecnologização dos sistemas de                           
controle social, ao elevado nível de padrão de vida e de instrução pública e à preocupação generalizada                                 
com a ameaça atômica e a deterioração ecológica. No entanto, por outro lado, os Estados gerentes                               
pseudo­exitosos, modernos e eficientes administradores de enormes riquezas, persuadiram as populações                     
com benefícios concretos ou imaginários, levando­as a uma atitude de "conservadorismo crispado"                       
(segundo F. Guattari) ou de indiferença complacente (que alguns entendem como formas de resistência                           
passiva). 
Nos capitalismos tardios latino­americanos (por exemplo) ocorre algo diferente. As massas                     
extremamente depauperadas, as burguesias nacionais retrógradas (aquelas por total falta de opções reais                         
de sobrevivência, estas por quase absoluto desinteresse pelo cuidado com a força de trabalho e o cultivo                                 
do mercado interno), não são propensas às propostas institucionalistas. Ao mesmo tempo, o brutal                           
contraste entre o discurso, estrutura e recursos estatais (essencialmente demagogos, insuficientes,                     
incompetentes e corruptos) e o trágico nível de carência dos coletivos fazem com que o "planismo" seja um                                   
ostensivo fracasso. Como conseqüência, o Estado precisa urgentemente de otimizar sua gestão e as                           
comunidades, profundamente decepcionadas com suas expectativas acerca do 
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providencialismo estatal, começam, penosamente, a dar­se soluções próprias. Esta superfície mostra                     
algumas brechas para o Institucionalismo, se tal coisa existe, para certo trabalho "no Estado" e "com a                                 
sociedade civil". Nesses empreendimentos, contudo, a reformulação das características do agente e de sua                           
práxis se faz imperiosa: a precariedade de meios de remuneração e a violência repressiva – como a                                 
cooptativa, sempre pronta a desencadear­se sobre o institucionalista e seu cliente – impõem estratégias e                             
táticas infinitamente sutis e cautelosas. 
Essas questões não são, de maneira alguma, novas para o Movimento. Deu­se para elas respostas                             
já célebres que levam nomes tão aceitos como vituperados pelos diferentes segmentos do                         
Institucionalismo: empresarização, entrismo, maquiavelismo, infiltracionismo, distorção da demanda,               
marginalismo, clandestinismo, ressingularização das práticas são alguns dos termos usados para designar                       
manobras de contato e entrada nos coletivos de usuários. Consagrados e repudiados, esses modi                           
operandi, como muitos outros referentes a uma diversidade de assuntos do Movimento, expressam a                           
permanente tensão e oscilação que ocorre entre a conveniência de associar as diversas correntes do                             
Institucionalismo e seu horror à totalização. Em geral, o estado incipiente dos intercâmbios teóricos e                             
casuísticos gera uma exacerbação da crítica fundamentalista operante em uma espécie de "vazio". 
Ao perigo de paralisia ao qual se aludiu anteriormente, causado basicamente pelo poderio, a                           
ubiqüidade e flexibilidade das forças reativas atuais, acrescentam­se certos agravantes que iremos apenas                         
esboçar aqui. Freqüentemente o institucionalista, calouro ou experiente, mais ou menos acostumado a                         
suportar as limitações de sua tarefa e a crítica exógena ao Movimento, sofre sérias pressões resultantes da                                 
crítica endógena, ou seja, da crítica que nasce da luta entre as correntes internas (conservadoras,                             
reformistas, alternativas, revolucionárias e até "terroristas")da corrente. 
Não é nada estranho que assim seja; em outras palavras: não há nada de inesperado no fato de                                   
haver dissidências em um Movimento que possui a estranha virtude de ter produzido, em pouquíssimo                             
tempo e com mínima repercussão "pragmática", uma rica e profunda autocrítica. Ela afeta tanto as                             
disciplinas teórico­técnicas, das quais as tendências institucionalistas se 
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originaram, quanto elas mesmas, independente do grau de desenvolvimento que chegaram a alcançar. 
Essa crítica disseca, metaforicamente falando, cada uma das células, vísceras, tecidos, sistemas,                       
organismos e funções que as integram. Mas esse trabalho é feito habitualmente em abstrato e não sobre o                                   
que alguns denominam uma "clínica ampla" do Movimento. Tanto é assim que capítulos fundamentais, tais                             
como o da logística (avaliação de disponibilidades ou resultados) ou, seguindo com a metáfora, a genética                               
(estrutura e dinâmica da reprodução e mutação), a biotipia (taxonomia de perfis) e a eugenesia (replicação                               
de perfis ótimos) ainda não foram escritos. Cabe aqui acrescentar a ressalva de que, segundo certo                               
conjunturalismo ou improvisacionismo extremado de alguns institucionalistas, talvez não seja necessário                     
escrevê­los senão como curiosidades museológicas, na medida em que tais registros só seriam                         
reconstrutivos de experiências consumadas. Essas, triunfantes ou falidas, teriam uma singularidade tal que                         
careceriam de qualquer valor prescritivo ou prospectivo generalizável. 
A problemática que esboçamos tem, como uma de suas áreas mais sensíveis, a da sistematização                             
de uma "Pedagogia Institucionalista". Se se admite que o Institucionalismo é, em última instância, uma                             
modalidade de viver coletivamente, adquire sentido a afirmação (um tanto esnobe) de que "não se ensina".                               
Dito de outra maneira, a proposta é que cada coletivo construa as condições para se autoconhecer,                               
autodeliberar e autodecidir a forma sui generis, única e irrepetível, que deseje dar­se para existir. Este                               
processo prioriza a crítica e a dissolução das formas alienadas das quais padece, incluindo entre elas boa                                 
porção dos conceitos com os quais as lê e as avalia. Nesta reelaboração, as figuras do profissional e do                                     
técnico "em fazer isso" são forçosamente demolidas e, junto com elas, as dos "que ensinam a fazer isso",                                   
especialmente se o fazem para formar "experts em fazer isso". 
Mas se não se admite um "especialista em autogestão", deve­se necessariamente conceber (pelo                         
menos doutrinária e provisoriamente) procedimentos de inspiração autogestionária para formar diversos                     
especialistas, fazendo, no possível, uma clara discriminação entre especificidade e especificismo. A                       
redistribuição do saber e do fazer nas gestões autônomas cria 
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condições para surpreendentes descobertas e resultados protagonizados por participantes ou grupos dos                       
quais "menos se poderia esperar". Mas isso não implica que se tenha obrigatoriamente de reinventar tudo e                                 
que não exista alguma divisão operacional e vocacional do trabalho, assim como tampouco descarta que                             
alguém que "passou por muitas gestões" possa participar de outras nas diversas qualidades que acima                             
confessamos não havermos conseguido classificar. Aludimos, é claro, ao que há algumas décadas se                           
denominava "acumulação social do saber". 
O assunto torna­se mais nítido no caso de coletivos de estudantes de alguma disciplina que                             
desejam aprender sua matéria no marco de uma experiência institucionalista e, mais claro ainda, quando se                               
trata de disciplinas diretamente aparentadas com as origens do Institucionalismo, tais como Sociologia,                         
Psico­Sociologia, Ciências Políticas etc. A nota em comum, que configura estas comunidades como tais, é                             
a de associar­se com a finalidade de gestionar uma forma coletiva e autônoma para adquirir o manejo de                                   
certas contribuições teóricas e operativas dos saberes constitutivos da prática geral do Movimento. Que a                             
organização e procedimentos adotados sejam "não­diretivos", "permanentes", "co­gestivos", não é tão                     
importante quanto parece. Tampouco o é o tanto que a iniciativa seja parcialmente autogestiva (em âmbito                               
ideológico, pedagógico e político) ou integralmente autogestiva. O ponto crucial é que o projeto esteja                             
decididamente encaminhado, em cada um de seus dispositivos, a uma articulação e disseminação do                           
Institucionalismo com e em outros coletivos atuantes. Esse objetivo, quando é claramente assumido, exige                           
ou não a autodissolução do agenciamento pedagógico, mas pressupõe a firme disposição dos agentes                           
formadores à autodissolução e recolocação de sua "identidade" segundo os novos paradigmas nos quais se                             
insiram. Completando a idéia: impõe a não­ reprodução do equipamento e do modelo pedagógico que o                               
gerou. É evidente que dispositivos desse tipo só se justificam, e dão modestos frutos, enquanto a "frieza"                                 
do contexto social que os contém não permite senão uma discreta transversalização do ensinamento com                             
as forças instituintes "pesadas" do Trabalho ou da Grande Política. Só alguns extraviados fanáticos ou                             
duvidosamente intencionados "puristas" confundem o que é 
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"deixar aprender" Análise Institucional ou Sócio­Análise em um estabelecimento ou curso isolado, "a frio",                           
com o que é tentá­lo numa autogestão social generalizada. No primeiro caso, o máximo que se                               
autodissolverá, e só até certo ponto, será a assimetria educacional entre professores e aprendizes. No                             
segundo, ambos deverão dissolver­se em uníssono, assim como sua organização mesma, nas práxis dos                           
coletivos que lhes ensinaram "em ato" como e para quê fazê­lo. Enfim: como dissemos, resulta                             
perfeitamente compreensível e ainda indispensável que os processos de auto exame e transformação                         
constante do Movimento se exerçam sem pausa nem concessão alguma. Mas se essa implacabilidade tem                             
efeitos inequívocos sobre as formas radicais antecedentes ou pioneiras do Institucionalismo, eles não são                           
tão límpidos quando se opera com indiscriminada dureza sobre a infinita variedade de propostas                           
institucionalistas contemporâneas. 
Tensionado entre a necessidade de sobrevivência, a de "autorização" e o desejo produtivo, de um                             
lado, e os duros limites do Estado e das forças reativas do outro, o institucionalista deve ainda enfrentar a                                     
crítica interna. Por isso, não é nada infreqüente encontrá­lo decepcionado, culpado, onipotente ou, o que é                               
mais comum, perplexo. Frente a esse difícil panorama, três deformaçõestocaiam o agente institucionalista,                           
como outras tantas soluções de compromisso do conflito que o dilacera. 
Um primeiro caminho é o regressivo. O agente retrocede às modalidades mercantis,                       
adaptacionistas, burocráticas e corporativas do Movimento. Entre elas destacam­se o empresarismo, o                       
funcionalato e o academicismo. Só que essas adoções se realizam" em nome do Institucionalismo", e com                               
um verniz mais ou menos progressista e declamatório. Os profissionais mais propensos a esse destino são                               
os psicólogos de empresa, administradores, comunicólogos e psicanalistas, assim como professores                     
universitários. 
Uma segunda vicissitude é a que resulta de uma espécie de falsa aceleração pela qual o agente se                                   
lança às formas clássicas da militância política, sejam as reformistas e eleitoreiras, os ativismos messiânicos                             
ou as vanguardas intelectuais contestatórias meramente discursivas. Sem que pretendamos condenar a                       
pertinência conjuntural dessas estratégias, urge se fazer constar que, em sua assunção, todo e qualquer                             
"espírito" 
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próprio do Institucionalismo se perde nas estratificações partidárias, sectárias ou facciosas. 
Uma terceira escolha, tão engenhosa quanto discutível, é a que pedimos licença para denominar                           
com a pitoresca metáfora de "Tática do Tero". O tero é uma ave da planície Argentina que, segundo a                                     
tradição gaúcha, "grita em um lugar e põe os ovos em outro", para assim protegê­las da voracidade das                                   
espécies predadoras. Tentamos ilustrar assim a prática dissociada de alguns institucionalistas, que obtêm                         
subsídios e apoio em estabelecimentos e serviços ostensivos nos quais ensinam, publicam ou intervêm,                           
segundo versões híbridas, circunscritas e moderadas do Movimento. Ao mesmo tempo, colaboram ou                         
protagonizam, clandestinamente ou não, mas em real condição de implicados nos eventos e                         
empreendimentos mais puristas aos que têm ocasião de incorporar­se. Não nos parece que esta                           
composição seja das piores, mas sim que é uma saída desgastante, inevitável, às vezes, devido às                               
limitações no desenvolvimento da doutrina e do Movimento antes apresentados. 
Como quer que seja, e em referência a esse terceiro tipo de agente, muito nos importa esclarecer                                 
que não deve ser confundido com outro, que cremos conhecer muito bem e que é urgente desmascarar.                                 
Aludimos a certos "pseudo institucionalistas" que, sabendo das características dispersivas, erráteis e                       
libertárias que definem para alguns setores (provavelmente os mais criativos) a essência do Movimento, as                             
usam com os fins mais espúrios que se possa imaginar. Inteirados nominalmente de um punhado de noções                                 
da corrente, as brandem como slogans para empreender um agitacionismo fanático: do "antiautoritarismo"                         
(que desvirtua toda autoridade fundada), da "desordem produtiva" (que inviabiliza qualquer organização e                         
eficácia), da "novidade radical" (que impossibilita qualquer regularidade operacional) da provocação­auto­                     
heterodissolvente (que hipostasia a negatividade e carece de propostas construtivas), do saber ex­nihilo                         
(que proscreve o estudo e prescreve um intuicionismo inconseqüente) etc. Como notas secundárias                         
caracterológicas, estes "anarquistas de bar" costumam glorificar "a paixão" (que confundem com um                         
sentimentalismo raso), a "liberdade sexual" (que para eles é uma promiscuidade confusa e obscena), o                             
"hedonismo" (que consiste em um consumismo alcoólico, drogadito e parasitário) etc. 
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Variedades da marginalidade desocupada ou subempregada, originada da lumpenização das faixas médias                         
urbanas universitárias, tais "revoltosos", líderes, acólitos ou franco­ atiradores, não só "não passam" como                           
também "nem chegam" a encarnar essas célebres figuras que a militância ortodoxa qualificava de                           
esquerdosos festivos. Em termos institucionalistas: desviantes organizacionais, libidinais ou ideológicos                   
incapazes de produção. Sua triste história consiste em que uma vez tenham destruído e saqueado,                             
brandindo "palavras" instituintes, qualquer iniciativa que os tirou do anonimato, dedicam­se a dar rédeas                           
soltas a sua "vontade de nada", ou melhor, a reproduzir caricaturalmente os vícios (sem as virtudes) da                                 
"imperfeita" entidade de origem. Nem Eros, nem Teros, nem Ananké; em resumo: ladrões de galinhas. 
II) O Institucionalismo e seus valores 
Se as aproximações até aqui esboçadas foram ilustrativas, cabe concluir, no mínimo, que restam                           
muitas questões sem esclarecimento no Institucionalismo. Essa óbvia constatação não é proclamada aqui                         
apenas por pruridos éticos, consciência epistemológica ou autocomiseração sentimental. O motivo                     
fundamental é estratégico e tende a propor e demonstrar a possibilidade e conveniência de algumas                             
medidas a serem adotadas pelo Movimento. Política, logística, estratégia, táticas, técnicas, modalidades de                         
divulgação, implantação, desenvolvimento, transmissão, autorização, contratação, avaliação de resultados,                 
alianças, morfologia organizacional devem ser revistos no Institucionalismo. E isso não significa                       
exclusivamente que esses conhecimentos devam ser produzidos, mas que muitos deles precisam ser                         
apenas comunicados, intercambiados e elaborados coletivamente. Para tal, o Movimento deve dar­se                       
dispositivos formais, amplos e fortes, com respeito aos quais tem uma proverbial desconfiança. Será                           
procedente diagnosticar nesta encruzilhada algo assim como uma "enfermidade infantil do                     
Institucionalismo"? 
Alguns textos que conhecemos procuraram uma abordagem de conjunto de pelo menos parte                         
desta problemática. Muitos pontos incertos são tocados e soluções interessantes colocadas com rigor e                           
vigor. Experientes institucionalistas exortam 
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seus colegas a um certo ecumenismo bem­entendido, assim como à subscrição de convenções                         
normativizadas e inteligíveis para a socialização da experiência das inúmeras tendências do Movimento.                         
Dá­nos a impressão, contudo, de que (até onde sabemos) essas sugestões ainda não reconhecem nem                             
aproveitam devidamente os adiantamentos, em alguns casos admiráveis, que a crítica produtiva de outros                           
institucionalistas já gerou, justamente sobre os valores e recursos em nome dos quais se põem em marcha                                 
tais entendimentos. Por outra parte, e até há pouquíssimo tempo, não havíamos percebido colocação                           
alguma para uma estruturação internacional do Movimento, apesar da lucidez que os institucionalistas                         
avançados e experientes demonstram acerca da onda de integração planetária de todos os processos                           
sociais. 
Um tema exemplar para compreender essa curiosacombinação de falta de experiência elaborada                         
com uma espécie de puritanismo ético encontra­se no capítulo sobre as modalidades de contrato e                             
enquadre das prestações de serviços. É óbvio que para os institucionalistas mais "profissionalistas" e                           
"especificistas" este ponto não significa problema algum enquanto já está regulado por leis ou normas                             
ditadas por organismos acadêmicos, trabalhistas ou jurídicos externos ao Movimento. Já para alguns, se                           
bem que esses requisitos sejam indispensáveis, só se exige que suas condições sejam rigorosamente                           
autogestadas pelos coletivos de usuários, compartilhadas pelas equipes intervenientes e tomadas por                       
ambos como analisadores construídos a serem cuidadosamente analisados. Entretanto, para as correntes                       
puristas, todo setting seria um aparato ou equipamento no qual se cristalizariam, como tecnologia                           
falsamente "neutra", as forças mais reativas do "especificismo" e "profissionalismo". Afirmam que se toda                           
intervenção está encaminhada a propiciar a inventiva e a auto­invenção dos coletivos, instituir um ponto                             
de partida contratual instauraria uma espécie de "repressão primária" inaugural cujos conteúdos                       
permaneceriam opacos para sempre aos "oficiantes" de tais "cerimoniais". Constituir­se­ia assim um                       
núcleo cego, e portanto repetitivo, que tenderia a reiterar­se como reprodução ou fabricação do mesmo.                             
Em outras palavras: da racionalidade, do poder, do lucro e do prestígio, do saber e fazer disciplinar que                                   
dessa maneira ritual se funda. Essa limitação, extremada no 
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caso de abordagens assumidamente interiores às ciências "humanas" e "sociais" (Psicologia Social,                         
Sociologia das Organizações, Psicanálise Aplicada etc.), existiria ainda nos convênios de serviços da                         
Análise Institucional "Clássica" ou da Psico­Socioanálise. 
Via esta questão restrita do contrato e do enquadre, nos introduzimos em uma contradição aguda e                               
geral do Institucionalismo. Por uma parte, recordemos a verdade de Perogrullo, de que a autogestão não                               
se decreta nem se concede, que não existe uma prescritiva para a invenção e que, como dizia Bakunin, "só                                     
a liberdade engendra a liberdade". Por outra parte, tenhamos presente que em quase todos os casos em                                 
que um institucionalista "é chamado" a intervir, isso ocorre porque os coletivos não conseguem aproveitar                             
as condições de liberdade de que dispõem para produzir (inventar), com a autogestão como meio e como                                 
fim, aquela liberdade que desejam. 
Consideremos um coletivo que decidiu dar­se uma forma autogestiva de funcionamento. Se a                         
mesma é integral, ou seja, se compreende os aspectos econômicos, políticos, "culturais" e libidinais de sua                               
práxis (e enquanto a tentativa estiver sendo exitosa), não se vê porque um companheiro institucionalista iria                               
ser convocado a participar. Pode acontecer que já pertença "naturalmente" ao coletivo em questão, caso                             
este que parece não criar problema algum, porquanto seu saber e fazer serão entendidos como                             
pertencentes ao tesouro do conjunto e espontaneamente utilizados. 
No limite, cabe perfeitamente colocar­se o modelo ideal de um coletivo autogerido de analistas                           
institucionais, o que tornaria difícil, ainda que não impossível, imaginá­lo solicitando os serviços de colegas                             
para catalisar uma intervenção sobre si mesmos. 
Por outro lado, uma iniciativa autogerida sólida e assumida não teria por que privar­se do                             
emprego crítico de qualquer recurso tecnológico contemporâneo. E claro que ninguém ignora a distância                           
que separa as aplicações da física à computação, por exemplo, da human engeneering.Mas se aceita­se                               
que o paradoxal "expert" em autogestão tem muito que dizer sobre a implicação institucional dessas duas                               
disciplinas (além da própria), não se entende por que não apelar a ele em caso de necessidade ou ainda                                     
de "luxo", e menos ainda porque seu trabalho não haveria 
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de ser pago. 
O que está em jogo neste ponto, como em qualquer dos outros, é uma questão                             
político­epistemológica de fundo no Institucionalismo. Deve­se ter presente que o Movimento afirma,                       
como um de seus mais essenciais fundamentos, a convicção de que os coletivos das sociedades modernas                               
são muito mais vítimas que beneficiários da divisão técnico­social­libidinal do trabalho. O vertiginoso                         
avanço das ciências e técnicas nos últimos cem anos, produtor de seus detentores, a casta privilegiada dos                                 
tecno burocratas, e reforçador ao infinito de seus "padrões" dominantes – o Grande Capital e o Estado                                 
administrador­gerente – submergiu os povos em um grau de dependência inédito na História Universal. As                             
comunidades, cujas necessidades, demandas, hábitos de consumo e soluções são integralmente                     
produzidas pelas elites cientificistas e os equipamentos de poder, ficaram substancialmente despossuídas                       
de toda possibilidade de protagonismo no conhecimento das determinações que as constringem, assim                         
como de seu levantamento pelos recursos que poderiam gerar por si mesmas. O único recurso que restaria                                 
às populações seria aceitar as requisições do participacionismo, quando não do colaboracionismo, que os                           
centros oraculares de poder se vêem obrigados a lançar, quando a mesma entropia de sua arbitrária                               
gestão os enfrenta com a ineficácia dos "planos" e a resistência passiva dos usuários. Mas a certeza do                                   
Institucionalismo, acerca de que toda desalienação deve passar atualmente pela recuperação do saber e                           
fazer dos coletivos sobre seu destino, não consegue especificar os modos e graus em que a riqueza                                 
científico­tecnológica já produzida deve ser reapropriada pelos movimentos autogestivos. 
Félix Guattari, a quem se atribui fundamentadamente o título de criador do termo "Análise                           
Institucional" e de cuja vocação autogestiva se torna difícil duvidar, escreveu: "A autogestão como consigna                             
pode servir para qualquer coisa. De Lapassade a De Gaulle, da CFDT aos anarquistas: Autogestão de quê? Referir­se                                   
à autogestão em si, independentemente do contexto, é uma mistificação. Converte­se em algo assim como um princípio                                 
moral, um solene compromisso de que será em si mesmo, por si mesmo, que se administrará o que é de si mesmo, de tal                                               
ou qual grupo ou empresa. A eficácia de tal consigna depende, sem dúvida, de seu efeito de auto­sedução. A 
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determinação, em cada situação, do objeto institucional correspondente é um critério que deveria permitir esclarecer                               
a questão. A autogestão não pode ser senão uma consigna de agitaçãotransitória que, em definitivo, corre o risco de                                       
criar bastante confusão se não estiver articulada numa perspectiva revolucionária coerente... Se 'impugna', no                           
imaginário, a hierarquia. A autogestão, tomada como consigna política, não é um fim em si mesmo. O problema                                   
consiste em definir, em cada nível de organização, o tipo de relação, de formas que devem estimular­se, e o tipo de                                         
poder a instituir. A consigna da autogestão pode converter­se em uma fachada se substitui massivamente as respostas                                 
diferenciadas pelos níveis e setores diferentes em função de sua complexidade real... Não há uma 'filosofia geral' da                                   
autogestão que a torne aplicável em todas as partes e em toda situação... " ("Psicanálise e Transversalidade", Ed.                                   
Siglo XXI, México). 
Poder­se­ia argumentar que essa citação foi tomada de um texto antigo e que a evolução posterior                               
deste autor o conduziu cada vez mais ao espontaneísmo radical e polimorfo que parece caracterizar o que                                 
me permitirei chamar a modalidade mais extremista do Institucionalismo, quer dizer, a "Esquizoanálise". De                           
qualquer maneira, e considerando a complexidade do desenvolvimento dessa concepção, assim como a                         
infinita diversidade de suas estratégias, ela não fez mais que contribuir para a pluralização da morfologia                               
das iniciativas autogestionárias e o questionamento da autogestão como valor unitário e abstrato. Além do                             
mais, não descarta o apoio de tecnologia alguma, pelo contrário. Guattari é um de seus mais ardentes                                 
defensores. O conceito de autogestão que acabamos de comentar sucintamente não é mais que um caso                               
de quantas categorias o Institucionalismo maneja. Nenhuma corrente, mesmo as mais drásticas do                         
Movimento, assume que seus termos teóricos não sejam apenas instrumentos formais, mas também, no                           
sentido mais forte do vocábulo, valores. 
Na tendência esquizoanalítica que antes mencionávamos, assim como em muitas outras, os                       
máximos valores promovidos predicam­se como: Produção (oposto à Reprodução), Invenção (oposto à                       
Fabricação), Afirmação da Singularidade, Diferença, Potência, Ser do Devir etc. (opostos à                       
Generalidade, Negatividade, Identidade­Repetição, Reatividade, Ser como 
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Permanência etc.) A essas categorias podem­se acrescentar as de: Agenciamento, Dispositivo, Desejo,                       
Máquina de Guerra, Acontecimento, Simulacro, que têm a ver com o Instituinte e os Bons Encontros                               
(opostos às Formações de Soberania, Objetivações das Idéias Puras ou Modelos, como sinônimo do                           
Instituído, dos Maus Encontros etc.). Toda a História Universal (a das Formações Econômico­Sociais,                         
Civilizações, Subjetividades e ainda a do Pensamento e a da Natureza) estaria atravessada pela                           
miscigenação entre modos sedentários (territorializados) e modos nômades (desterritorializados) do Ser e                       
do Existir, pensáveis com os critérios mencionados anteriormente. 
Uma análise genealógico­epistemológica de tais conceitos­ valores seria uma tarefa colossal e                       
apaixonante, que supera por completo as fronteiras de nossa capacidade e deste trabalho. Se os                             
repassamos aqui é apenas para referir­nos a certas confusões que sua polissemia propicia e que levam a                                 
que sejam usados com fins e resultados totalmente alheios a seus propósitos e, não poucas vezes,                               
diametralmente contrários a eles. 
Não estamos falando do arsenal nem das estratégias manifestas e "molares" (como se chama na                             
"Esquizoanálise") do Capital, do Estado, da Lei, da Igreja, da Família ou da Corporação. Já a Teoria                                 
Crítica Clássica do Marxismo e do Funcionalismo conseguiu que os aparatos, equipamentos e manobras                           
capitalistas, fascistas ou "democráticas" nos resultem cada vez mais definidos e visíveis. O Institucionalismo                           
(particularmente com os estudos de Foucault, Deleuze, Guattari, Lourau e outros) contribuiu para detectar                           
as formas "micro" desta rede, tornando­a ostensiva. 
Tampouco nos referimos aos célebres mecanismos de recaptura com os quais o Sistema                         
reincorpora à torrente da reprodução e do consumo, assim como ao tabuleiro do registro e da dominação,                                 
as invenções dos movimentos produtivo­ libertários. Nós os temos muito em conta, pelo menos em tese,                               
para precisar invocá­las novamente neste contexto... a não ser que se considere recapturas os efeitos de                               
entorpecimento e antiprodução que se geram no seio dos grupos, organizações e práticas institucionalistas:                           
é a estes que queremos nos referir. 
No capítulo anterior esboçamos uma qualificação crítica das correntes adaptacionistas e                     
"pseudo­ultra" do espectro de posições dentro do Institucionalismo e descrevemos algumas de suas                         
características contraproducentes. Talvez tenhamos deixado 
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a impressão de que se trata de setores patentemente definidos que seriam simples de localizar e até                                 
personalizar. Desde logo, existem casos em que isso é possível, mas aqui nos interessa destacar estes                               
perfis como tendências imanentes a todos e a cada um dos segmentos (incluída a subjetividade dos                               
agentes) de qualquer corrente institucionalista. Convém precisar com respeito a suas propostas teóricas e                           
sua atuação política e técnica, que da mesma forma que não cabe esperar nada de uma "Filosofia Geral da                                     
Autogestão", tampouco corresponde fazer uma "Demonologia Geral Abstrata" desses desvios.                   
Naturalmente, não se trata de fomentá­las nem de privilegiá­las, mas sim de permanecer abertos aos                             
inesperados efeitos revulsivo­produtivos que uma intervenção assim conduzida pode causar, como notável                       
independência dos princípios que a guiam e que, eventualmente, pode fazê­la preferível a outras mais                             
tecno­burocráticas, ou mais dissolventes ainda. Ninguém deve escandalizar­se frente à aparente                     
contradição entre o postulado de um juízo preciso classificatório de uma corrente e a recomendação de                               
uma abertura expectante no tocante a tolerar sua atuação e observar seus resultados. Basta compreender                             
que as séries opositivas de valores que antes enumeramos, cujos primeiros termos seriam essenciais a uma                               
estimativa institucionalista, não são nem axiomas, nem evidências. Não são axiomas justamente porque o                           
Institucionalismo insistiu, desde diversos ângulos, em dessacralizar o tradicional estatuto da Teoria em sua                           
práxis, e mais ainda da Teoria baseada em parti pris formalizados. Pelo contrário, insistiu em uma                               
reivindicação da singularidade das práticas, para as quais as Teorias funcionam apenas como uma frouxa                             
orientação, quandonão se limitam a prover certa intelecção pos' facto. 
Por outra parte, os valores mencionados não são evidências, pois apesar da predileção do                           
Institucionalismo pelos atos e transformações concretas que sejam percebíveis como tais para técnicos e                           
usuários, sem misteriosas avaliações de seita, a amplitude e ambição que caracterizam a utopia ativa fazem                               
com que o Movimento distingua­se bastante de todo positivismo, empirismo, pragmatismo ou                       
"intuicionismo". 
Como quer que seja, compreende­se que em um Movimento, no qual não se pode apelar ao                               
veredicto de uma Teoria específica nem ao de uma evidência fulgurante, os conflitos 
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e discordâncias serão dirimidos em função de parâmetros marcadamente sutis, processuais e conjunturais.                         
Tudo isso se torna particularmente delicado, algo assim como um artesanato militante cujos princípios são                             
depuradamente contrários aos dominantes. 
Como já expressamos mais acima, o Institucionalismo tem, hipoteticamente, inúmeros aliados nos                       
coletivos subjugados e explorados, mas quem impera atual e universalmente (embora não sem                         
contradições) são seus poderosos e ubíquos adversários e inimigos. Procede enfatizar que o                         
Institucionalismo não é somente opositivo ao Capitalismo e suas formas históricas                     
econômico­político­culturais (tais como os totalitarismos de Estado ou as democracias burguesas), mas                       
também à maioria das tendências e organizações críticas contrárias a esses sistemas. Por outro lado, ocupa                               
similar posição de antagonismo relativo em referência às sociedades "em transição" ao Socialismo. 
Frente a um panorama tão desfavorável, o Institucionalismo exige que suas decisões de condução                           
sejam, no possível, exaustivamente deliberadas e exclusivamente consensuais, o que torna sua gestão                         
insuperavelmente coesa e homogeneamente revolucionária quanto às transformações de fundo e a longo                         
prazo. Não obstante, resulta notório que esse principismo sui generis, que se nega a separar meios de                                 
fins, não facilita as resoluções e execuções táticas imediatas, diante de contendedores tão ágeis, fortes e                               
onipresentes. É no campo dessas dificuldades (e de outras que antes mencionamos) que recrudescem os                             
conflitos, inerentes a todo Movimento, que os próprios institucionalistas contribuíram tanto para                       
sistematizar. Em algumas de suas formas típicas esses conflitos podem ser descritos assim: 
1) As pressões que o mercado competitivo exerce sobre as organizações institucionalistas sobre­exigem                         
o tempo e os esforços destinados à implantação, sobrevivência e crescimento, digamos, vegetativo ou                           
infra­estrutural das iniciativas. 
2) Os poderes oficiais, acadêmicos, corporativos ou simplesmente profissionalistas desencadeiam                   
campanhas repressivas, injuriosas ou recuperadoras sobre a ação ou imagem dos institucionalistas. Entre                         
essas manobras destaca­se o que ironicamente podemos chamar "desvanecimento e usurpação de                       
patente". Tudo é "Análise Institucional", logo, "nada o é". 
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3) Em conseqüência do dito nas alíneas 1 e 2, exacerba­se, no seio das organizações e dos sujeitos­agentes                                   
institucionalistas, a designação de recursos de todo tipo, para a luta pela obtenção, apropriação e "inflação"                               
de "identidade", "legalização", "legitimação", "reconhecimento", "autorização", "prestígio", "solvência               
financeira" etc., valores estes que insensivelmente fazem derivar até a luta pelo "poder", o "lucro", a                               
"primazia" etc. Ou mesmo, até um suposto contrário: o matiz "beneficente", "caritativo" ou "filantrópico" das                             
prestações de serviços. 
4) Em função de tudo isso, começa um questionamento obsessivo quotidiano da "ética" da práxis, das                               
estratégias e táticas externas, assim como das relações internas, de modo que estas se enrijecem                             
estatutariamente, se "assembleízam" deliberativamente ou se "vertiginizam" ativisticamente. O organograma                   
e o fluxograma internos se "piramidalizam" e se dispersam. O regime das alianças tende a uma regressão                                 
filiativa. Em resumo: "paranoidiza­se" a verticalidade, "perversifica­se" a horizontalidade e "extravia­se" a                       
transversalidade. 
5) Fica preparado, então, o ambiente para que o Movimento degenere para as diversas direções do                               
vanguardismo segregacionista e do sectarismo hipercrítico, em suas modalidades de protopaternalismo,                     
fraternidade do terror e, finalmente, a serialidade. No plano da produção de subjetividades, isso se registra                               
como uma edipianização geral com suas reterritorializações neuróticas e "psicossomáticas", perversas ou                       
psicóticas. Na terminologia organizacional: amadurecem as condições para a eclosão de certas figuras                         
clássicas tais como a cisão de grupos dissidentes e a burocratização – que às vezes derivam para a                                   
empresarização ou para uma morfologia política convencional que, não por ser "menos pior", é a mais                               
desejável: o centralismo democrático. No nível grupal dessas configurações surgem as tradicionais                       
lideranças "autocráticas" ou laíssez­faíre e os papéis de "bode expiatório", "sabotador" etc. 
6) Em resumo: cedo ou tarde, tais deformações (que no espaço da subjetividade podem reduzir­se aos                               
efeitos do "narcisismo das pequenas diferenças") conduzem, pelo caminho do famoso "individualismo                       
pequeno burguês", à atomização do Movimento. Este foi caracterizado por perfis que talvez ainda não seja                               
hora de descartar como obsoletos: o ativismo, o 
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voluntarismo, o imediatismo, o oportunismo, o utilitarismo, ou a corrupção franca. Toda uma vasta                           
produção bibliográfica atual tratou com maior ou menor propriedade dessa problemática do                       
individualismo moderno (L. Rozitchner, D. Riesman, C. Lasch, R. Sennett, L. Dumont) e pós­moderno                           
(D. Bell, G. Lipovetsky, J. Baudrillard, P. Virilio e outros). Se os primeiros enfatizam a fragmentação                               
pulverizante e competitiva do Capitalismo Industrial, os últimos sublinham a subjetivação indiferente e                         
abúlica das sociedades pós­industriais. Coincidem, no entanto, em constatar a decadência da res publica                           
e de quase todas as formas de solidariedade orgânica "a la Weber, Durkheim ou Marx". 
7) Em outro escrito resumimos esta tendência dos coletivos no conceito de "compulsão à autodissolução"                             
("A Compulsão à Dissolução", publicações internas do Ibrapsi, Rio, 1988). Seguimos acreditando que se                           
trata de uma força reativa, como diria Nietzsche, a ter muito em conta nas vicissitudes do Movimento                                 
Institucionalista. A rigor, trata­se de uma curiosa exacerbação do que a teoria postula como um requisito                               
dos grupos revolucionários, quer dizer, a capacidade deles de prever sua própria morte e de decidir suaextinção quando deixam de ser estritamente necessários para o processo transformador que lhes dá                           
sentido. 
8) Se se repassa o exposto, especialmente o referente à "compulsão à autodissolução", os "desviantes                             
ideológicos, organizacionais e libidinais" e os vícios provenientes do uso exacerbado da autogestão como                           
consigna abstrata e descontextuada com finalidade de oposicionismo demagógico, teremos uma imagem                       
ilustrativa das deformações que emboscam o Movimento Institucionalista. 
9) Uma observação mais demorada que compare estas distorções com a breve enumeração que fizemos                             
dos valores promovidos pelo Institucionalismo permitirá constatar que as primeiras são com freqüência                         
(como diriam Deleuze e Guattari) "coartações" ou "acelerações ao infinito" dos processos que os                           
segundos infundem e orientam. Em outras palavras: freqüentemente os vícios do Movimento são uma                           
caricatura de suas virtudes. 
10) Para fins de síntese e conclusão, digamos que se tivéssemos de escolher alguma dessas virtudes do                                 
Movimento 
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Institucionalista na qual se apoiar para construir "o presente futuro de sua ilusão" (no sentido de êxito da                                   
Utopia Ativa), seria a afirmação de sua positividade. Se se mostou indubitavelmente que tanto teórica quanto                               
estratégica, tática e tecnicamente o lnstitucionalismo é uma práxis transversal, heterogênea, diversificada,                       
intersticial e não – totalizável, qual pode ser sua condição ontológica, axiológica e epistemológica? 
Ontologicamente, em que pode consistir sua "identida que não seja viver na nebulosa das "puras                             
diferenças", quer dizer no "simulacro" das entidades estabelecidas para forçá­las até seu limite, para                           
cavalgá­las, incrementando seu pólo progressivo, para mimetizá­las, parodizá­las, infiltrá­las, recortá­las por                     
linhas clivagem bizarras, dividi­las até o infinito, refluidificá­las, fazê­las proliferar, "alternativizar", diluir­se,                       
rachar, etc.? 
Axiologicamente, que ética pode reger esta atividade não enquadrável, mais que tudo, um "modo de                             
viver" que atravessa qualquer "forma de vida" indiferente à "vida das formas", tentando exclusivamente                           
propiciar que "nova vida" se forme? Como enunciar os postulados dessa ética além de exortações como                               
"desejar o acontecimento" ou "intensificar a singularidade", segundo a vontade de potência produtiva, em todo                             
tempo e lugar? Uma ética que prescreve gerar as próprias leis para que cada vez mais do realvirtual se torne                                       
atualizável.
Epistemologicamente, parece indiscutível que o Institucionalismo, longe de orientar­se por critérios de                       
Verdade, sejam estes revelados, especulativos ou experimentais, dedica­se a genealogizar suas formas                       
históricas de produção para expor manifestamente os poderes que as envolvem. Que outro recurso lhe                             
compete além da construção de "verossímeis", "simulações", "efeitos especiais", indecidíveis, indemonstráveis,                     
mas realizados? Como pensar o radicalmente novo senão com uma "nova maneira de pensar", um                             
pensamento "sem fundamento", ou melho,  "não­fundamentalista"? 
Quando sustentamos que a principal virtude do Institucionalismo deve ser a afirmação da sua                           
positividade, queremos indicar sua capacidade de apropriar­se de todo e qualquer fragmento de código,                           
discurso, organização, estatuto ou prática, incluídas aí as específicas e profissionais, e remetê ­las a funcionar                               
segundo se produzam, e a produzi­las segundo funcionem. Por conseguinte, ao Institucionalismo não deve 
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interessar muito a negatividade crítica e a "superação" dos instituídos dentro do marco dos próprios                             
cânones dos mesmos. Melhor dedicar­se a pinçar neles cada elemento produtivo, tudo que "abra",                           
"possibilite" e "conecte", agenciá­la de acordo com a lógica de seus "princípios" e intensificá­la até gerar                               
um acontecimento. 
Nada impede, pois, ao institucionalista, "devir" (que embora lúdica não deixa de ser                         
revolucionariamente) sociólogo, economista, psicanalista, engenheiro de sistemas, profissional liberal ou                   
funcionário, sempre que o faça (como diriam Deleuze e Guattari) "à moda" de um bárbaro, um artista ou                                   
uma criança. 
Se isso está correto, boa parte dos pruridos, assim como os purismos e desviacionismos internos                             
ao Movimento que mais acima descrevíamos, são passíveis de ser analisados, avaliados e resgatados para                             
um fortalecimento geral do Institucionalismo que precisa cada vez mais de dispositivos fortes, amplos e                             
numerosos. 
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GLOSSÁRIO 
Elaborado por Gregorio F Baremblitt com a participação de Cibele Ruas de MeIo 
Advertências para a leitura deste Glossário 
Devido ao caráter introdutório deste livro, este glossário tem por objetivo apenas informar acerca da existência                               
de alguns dos termos mais empregados pelo Institucionalismo, bem como da diferente acepção que tomam outros,                               
advindos de áreas onde seu uso foi consagrado de forma diferente. Embora este propósito não baste para explicar as                                     
limitações do texto, nós, os autores, fazemos questão de explicitá­las mais detalhadamente: 
1) A autoria das definições e suas referências bibliográficas não estão citadas literalmente, pois esse requisito                               
excederia as aspirações e possibilidades deste livro. 
2) Os autores crêem ter sido fiéis aos significados mais aceitos dos termos, mas se responsabilizam por toda e                                     
qualquer omissão ou distorção que as definições impliquem. 
3) De forma coerente com o exposto anteriormente, e como desculpa por qualquer injustiça cometida com a                                 
paternidade ou a precisão dos conceitos, os autores renunciam a qualquer pretensão de originalidade, ou seja, de                                 
propriedade intelectual dos mesmos. 
4) E desnecessário dizer que este glossário, assim como o volume do qual forma parte, não pretende haver dado                                     
conta nem da maioria dos autores nem dos termos que, segundo a definição ampla dada do Movimento, deveriam estar                                     
nele incluídos. 
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5) Em alguns casos, como por exemplo no da Esquizoanálise, os autores estão cientes de haver incluído e definido                                     
termos que não estão suficientemente esclarecidos. Êspera­se que o leitor compreenda o dilema que termos pertencentes                               
a teorias tão vastas apresentam para os glossaristas: ou se renuncia por completo a mencioná­las, o que empobreceria                                   
demais esta leitura, que pretende ser panorâmica, ou se os inclui e define de uma forma sumária e provisória. Esta última                                         
opção está destinada a motivar o leitor a procurar a bibliografia de origem para entendê­los e aprofundá­los. 
ACASO: modo de devir que se caracteriza por ser aleatório, imprevisível e incontrolável. Freqüentemente se                             
equipara estetermo ao que é casual, contingente, insólito etc., apesar de os sentidos destes vocábulos serem variados.                                   
Nos paradigmas ou modelos que partem da ordem, o acaso é considerado como uma vicissitude probabilisticamente                               
possível, mas em geral indesejável. Com o auge contemporâneo dos paradigmas ou modelos da" desordem", este é                                 
considerado o modo de ser do devir dos processos, e se procura maneiras de pensar e atuar que incluam a "desordem" e                                           
sua potência produtiva. No lnstitucionalismo (ver Movimento Institucionalista *), de modo geral, a" desordem" e o                               
acaso que caracterizam os processos são considerados fontes de produção* e essência do desejo*, geradores da                               
transformação e da novidade nos sistemas. Em um sentido estrito do instituído*, o organizado*, o estabelecido tentam a                                   
repetição do mesmo (ver Repetição*), são conservadores, enquanto o lnstitucionalismo se interessa por propiciar a ação                               
do instituinte*­organizante*, através da liberação do acaso­radical, deflagrador da diferença, do novo absoluto. 
ACONTECIMENTO: ato, processo e resultado da atividade afirmativa do acaso*. É o momento de aparição do                               
novo absoluto, da diferença e da singularidade. Estes atos, processos e resultados, conseqüências de conexões insólitas                               
que escapam das constrições do instituído*­organizado*, estabelecido, são o substrato de transformações de pequeno                           
ou grande porte que revolucionam a História* em todos os seus níveis e âmbitos. O acontecimento atualiza as                                   
virtualidades, cuja essência não coincide com as possibilidades. O virtual não existe, mas faz parte da realidade. 
ADAPTAÇÃO: termo tomado da Biologia Evolucionista segundo o qual um órgão modifica­se, tornando­se mais                           
apto para sua função. Usa­se também para referir­se às mudanças que uma espécie animal adota para sobreviver, como                                   
reação a diversos fatores que obstaculizam ou favorecem seu desenvolvimento. Nas chamadas Ciências Humanas, essa                             
noção foi empregada com freqüência, mas é muito criticada por evocar uma transformação dependente, apesar de que                                 
freqüentem ente se lhe adicione o qualificativo "ativa". No lnstitucionalismo*, o vocábulo adaptação costuma ser                             
sinônimo de adequação ao instituido* – organizado* e implica acomodação. 
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AGENCIAMENTO OU DISPOSITIVO: é uma montagem ou artifício produtor de inovações que gera                           
acontecimentos* e devires, atualiza virtualidades e inventa o novo radical. Em um dispositivo, a meta a alcançar e o                                     
processo que a gera são imanentes (ver imanência*) entre si. Um dispositivo compõe­se de uma máquina semiótica e uma                                     
pragmática e se integra coneetando elementos e forças (multiplicidades, singularidades, intensidades) heterogêneos que                         
ignoram os limites formalmente constituídos das entidades molares (estratos, territórios, instituídos* etc.). Os                         
dispositivos, geradores da diferença absoluta, produzem realidades alternativas e revolucionárias que transformam o                         
horizonte considerado do real, do possível e do impossível. 
AGENTE: indivíduo­pessoa­sujeito protagonista das práticas* que se desenvolvem no complexo instituído* –                       
organizado* – estabelecido e seus equipamentos*. Entendido como produção de subjetivação*, o agente pode ser peça                               
especia lmen te gerada para formar parte de um dispositivo (ver agenciamento ou dispositivo*) transformador. De todas                                 
as maneiras, o agente, no lnstitucionalismo, funciona mais como engrenagem ou efeito dos processos, e não como                                 
causa dos mesmos. 
ALIENAÇÃO: no sentido filosófico, designa um processo pelo qual um ser perde sua identidade ou seus atributos                                 
essenciais, "alienando­se" ou "transbordando­se" no outro, ou em um "fora de si". No lnstitucionalismo a significação                               
deste termo é próxima à da Sociologia: os homens, ::''TUPOS ou classes sociais alienam suas potencialidades,                               
atribuindo­as a entidades sobrenaturais (os Deuses), como disse Feuerbach, ou a uma classe social que, por ser a                                   
proprietária dos meios de produção, se apropria do valor da força de trabalho não remunerada da classe produtora. Em                                     
geral isso lhe permite também acumular poder político e prestígio. 
ALTERNATIVA: designa­se assim as idéias, pessoas, organizações, movimentos e práticas que supõem uma opção                           
para seus simétricos oficiais, reconhecidos e consagrados. Se bem as propostas alternativas possam reunir a condição                               
de opositoras, dissidentes e marginais, não chegam a ser consideradas clandestinas, subversivas ou revolucionárias.                           
As forças e entidades dominantes desaprovam ou desqualificam as alternativas, mas em ge~al as toleram ou as ignoram.                                   
Excepcionalmente, as recuperam. 
ANALISADOR ARTIFICIAL OU CONSTRUÍDO: dispositivo* inventado e implantado pelos analistas institucionais                     
para propiciar a explicitação dos conflitos e sua resolução. Para tal fim, pode­se valer de qualquer recurso                                 
(procedimentos artísticos, políticos, dramáticos, científicos etc.), qualquer montagem que torne manifesto o jogo de                           
forças, os desejos, interesses e fantasmas dos segmentos organizacionais. 
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ANALISADOR "ESPONTÂNEO" OU "NATURAL': analisado r de fato, produzido" espontaneamente" pela própria vida                         
histórico­social­libidinal e natural, como resultado de suas determinações e da sua margem de liberdade. 
ANÁLISE DA DEMANDA: é a análise e deciframento que se faz do pedido de intervenção por parte de uma                                     
organização. É o primeiro e um importante passo para que se comece a compreender institucionalmente a dinâmica dessa                                   
organização. É o material de acesso inicial que já contém valiosos aspectos conscientes, manifestos, deliberados, assim                               
como todo um filâo de aspectos inconscientes e não­ditos* que remetem a um esboço inicial da conflitiva e problemática                                     
da organização solicitante. A demanda tem conotação especial para o lnstitucionalismo, particularmente a de que é                               
produzida pela oferta (ver Análise de Oferta") de bens e serviços. 
ANÁLISE DA IMPLICAÇÃO: a implicação define­se como o processo que ocorre na organização analítica, em sua                               
equipe, como resultado de seu contato com a organização analisada. É um termo que tem certa semelhança com o                                     
conceito psicanalítico de contratransferência (reaçâo – consciente e inconsciente – que o material do paciente produz                               
no analista), só que no lnstitucionalismo a implicação não é um processo apenas psíquico, nem inconsciente, mas de                                   
uma materialidade múltipla e variada, complexa e sobredeterminada (ver Sobredeterminação"). É ao mesmo tempo, um                             
processo político, econômico, social, etnológico heterogêneo que deve ser examinado em todas as suasdimensões. Por                               
outra parte, não é apenas uma reação da equipe interventora ao contato com o objeto de análise. Ela pode até ser prévia                                           
a qualquer contato. Não começa no "cliente" e é, isso sim, uma interinfluência recíproca, simultânea, que faz parte                                   
integrante do processo de análise da organização. Análise de implicação é a compreensão da interação, da                               
interpenetração dessas duas organizações, enfatizando a parte que cabe à intervinda. 
ANÁLISE DA OFERTA: é um exercício de auto­análise" ao qual a organização analítica tem de se submeter para                                   
deslindar sua implicação no tocante à geração da demanda. A publicidade, a divulgação (científica ou não), a proposta                                   
direta u indireta dos serviços da organização analítica têm necessariamente uma relação de causalidade (geração ou                               
modulação) no referente à formulação da demanda de seus serviços. A toda oferta de prestação de serviços subjaz a                                     
duvidosa mensagem que consiste na suposição de se saber e se ter o que o ou tro precisa, que por sua vez não sabe                                               
que não tem e não entende o que é porque é complexo, sutil, técnico. A análise da demanda* deve estar                                       
necessariamente articulada com a análise da produção desta demanda – ou seja, a análise da oferta, que forma parte da                                       
implicação dos interventores. 
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ANÁLISE INSTlTUClONAL: seus fundadores e principais expoentes são G. Lapassade e R. Lourau, apesar de a                               
denominação ter sido criada por F. Guattari. Esta corrente institucionalista, uma das mais coerentes e empenhadas,                               
reconhece como seus antecessores a Psico­Sociologia, a Dinâmica de Grupos, a Psicoterapia e a Pedagogia                             
lnstitucionais, assim como a Socioanálise de Van Bockstaele. Contudo, a Análise lnstitucional superou amplamente                           
esses precursores no sentido de uma radicalização de suas teorias, modos de intervenção e objetivos últimos.                               
Impossível resumir aqui suas contribuições, bastará dizer que se propõe a propiciar os processos auto­analíticos (ver                               
Auto­Análise*) e autogestivos (ver Autogestão*) circunscritos (se for o caso), mas tendendo sempre a que se                               
expandam até conseguir um alcance generalizado e revolucionário. 
O lnstitucionalismo deve a esta orientação conceitos tais como insti tuin te* instituído", institucionalização,                           
analisadores históricos e construídos", demanda­encargo*, efeitos" Mulhman, Lukács etc. A Análise lnstitucional                       
insistiu particularmente na análise da implicação*, ou seja, nas resistências econômico­político­ideológico­libidinais dos                       
agentes analistas aos processos autogestivos durante as intervenções (crítica da Sociologia abstrata e "neutra"). A                             
Análise Institucional considera a prática de seus agentes como uma militância, e propõe para eles o perfil de um                                     
intelectual implicado, à diferença do intelectual orgânico (partidário) ou engajado (freqüentemente um tanto                         
especulativo). Como dispositivo* de intervenção, inclina­se pela Assembléia Geral Permanente, na qual os não­ditos*                           
institucionais são forçados a expressar­se a té suas últimas conseqüências transformadoras. 
ANSIEDADES: correntes institucionalistas, tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot                         
Jacques, Pichon Rivière, Bleger e outros), subscrevem, de diversas formas, a tese de que as organizações são" sistemas                                   
de defesa contra a ansiedade". O conceito de ansiedade deve ser entendido, nessas teorias, como similar ao cunhado                                   
por Melanie Klein para sua concepção da personalidade psíquica, particularmente para sua descrição do "mundo                             
interno" ou "self inconsciente" dos sujeitos. As posições esquizoparanóides e depressivas, que são as configurações                             
que adquirem os variados elementos que compõem o self (pulsões, objetivos, defesas, fantasias) no curso do                               
desenvolvimento, são acompanhadas de vivências características denom.inadas ansiedades. Assim se fala de                       
ansiedades paranóides, depressivas, confusionais etc., sendo que as defesas que se arbitram contra elas (dissociação,                             
projeção, idealização, negação etc.) podem tomar os elementos institucionais e organizacionais (contratos, organograma,                         
regulamentos) como suportes. 
ANTlPEDAGOGIA: a partir das idéias questionadoras de Rousseau, diversos pedagogos procuraram reformar, liberalizar                         
ou revolucionar as instituições" e sistemas de ensino. Métodos como os de Montessori, 
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Pestalozzi, Freinet e outros deram origem a várias tentativas de desburocratizar (ver – cracias') e tornar a Pedagogia                                   
menos autoritária, dando aos alunos um maior ou menor protagonismo e liberdade na gesti10 do processo pedagógico.                                 
Tais tentativas replicam, ao nível da aprendizagem, os exemplos anarquistas, marxistas e liberais de democratizaçiío (ver                               
cracias *) ou franca libertação do trabalho. Segundo sua diferente inspiração e seu grau de radicalidade, surgiram as                                   
experiências de Makarenko na União Soviética, o Plano Dalton e as propostas de Lewin e Rogers nos Estados Unidos,                                     
assim como a Pedagogia Institucional de F Oury, A. Vasquez, M. Labat, e outros, na França. Generalizando, pode­se                                   
dizer que são tentativas antipedagógicas que pretendem modificar ou destruir a instituição do ensino, substituindo­a por                               
opções participativas ou co­gestivas (ver Co­ Gestão*). Entretanto, é possível que seja a proposta de G. Lapassade e R.                                     
Lourau de uma autogestão* pedagógica (primeiro parcialmente, como contra­instituição, e depois generalizada) a forma                           
mais conspícua de antipedagogia que se possa conceber, na qual os alunos assumem integralmente o curso da                                 
institucionalização da aprendizagem. 
ANTIPRODUÇÃO: as potências produtivas de todo tipo – naturais, psíquicas e sociais (em especial as instituintes*) –,                                 
são capturadas pelas grandes entidades de controle e reprodução* (por exemplo: o Estado, o Capital etc.) e suas forças                                     
são voltadas contra si mesmas, levando­as à repetição estéril ou autodestruição. As potências singulares, que o sistema                                 
dominante não está em condições de assimilar para transformar em bens, serviços ou valores alienados (mercadorias) e                                 
incorporá­las à sua lógica, são alvos dos mecanismos repressivos que eliminam mais ou menos deliberadamente as que                                 
não conseguem capturar. 
ANTIPSIQU1ATRIA: nascido junto à grande corrente de crítica cultural e politica dos anos 60 nos Estados Unidos e                                   
Europa, este Movimento, mais ou me nos radical, de impugnação do objeto (doença mental) assim como das teorias e                                     
métodos da Psiquiatria e da Psicopatologia, impulsionou umaprofunda revolução nesse campo. Seus máximos                           
representantes – Thomas Szasz e I. Goffman nos Estados Unidos, Michel Foucault, Félix Guattari e R. Castel na França,                                     
Ronald Laing e D. Cooper na Inglaterra, F. Basaglia na Itália e E. Pichon Rivière na Argentina – insistiram na idéia de que                                             
as qualificações" científicas" da loucura e da parafernália de recursos variavelmente violentos destinados a tratá­la não                               
seriam senão eufemismos da alienação política, econômica e cultural da sociedade moderna. A maioria desses autores,                               
que estiveram reunidos em um Congresso no Rio de Janeiro, em 1978, foram mentores ou participantes do Movimento                                   
Institucionalista *. 
ATRAVESSAMENTO: a rede social do instituído*­organizado* estabelecido, cuja função prevalente é a reprodução do                           
sistema, atua em 
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conjunto. Cada uma dessas entidades opera na outra, pela outra, para a outra, desde a outra. Esse entrelaçamento,                                   
interpenetração e articulação de orientação conservadora, serve à exploração*, dominação* e mistificação*,                       
apresentando­as como necessárias e benéficas. 
AUTO­ANÁLISE: processo de produção e re­apropriação, por parte dos coletivos autogestionários (ver Autogestão*),                         
de um saber acerca de si mesmos, suas necessidades, desejos, demandas, problemas, soluções e limites. Esse saber se                                   
acha em geral apagado, desqualificado e subordinado pelos saberes científico­disciplinários, que não só estão em boa                               
medida a serviço das entidades dominantes (Estado, CapitaL Raça ete.), como também operam com critérios de Verdade e                                   
Eficiência, que são imanentes aos valores de tais entidades. A auto­análise possibilita aos coletivos o conhecimento e a                                   
enunciação das causas de sua alienação*. 
AUTO DISSOLUÇÃO: O lnstitucionalismo* enfatiza que os grupos, organizações* e movimentos instituintes* (em outra                           
terminologia: revolucionário­produtivo­desejantes) devem constituir morfologias sociais estritamente funcionais,               
subordinadas e coerentes com suas utopias ativas*. Um dispositivo* instituinte ou um grupo­sujeito*, protagonista de                             
um processo transformador, deve ter sempre presente sua natureza transitória e "finita". Tal consciência é precondição                               
para seu bom funcionamento, que implica conjurar os riscos de cristalização do instituído. Quando um conjunto                               
instituinte cumpriu todos os seus objetivos, ou quando constata que não está mais conseguindo isso com a                                 
"identidade" que se deu, deve ser capaz de autodissolver­se para não se perpetuar como uma finalidade em si mesma. 
AUTOGESTÃO: é, ao mesmo tempo, o processo e o resultado da organização independente que os coletivos se dão                                   
pora gerenciar sua vida. As comunidades instituem­se, organizam­se e se estabelecem de maneiras livres e originais,                               
dando­se os dispositivos* necessários para gerenciar suos condições e lnodos de existência. Todo processo                           
instituinte*­organizante* implica uma certa divisão técnica do trabalho, assim como alguma especialização nas                         
operações de planejamento, decisão e execução. Essas diferenças podem implicar hierarquias, mas as mesmas não                             
envolvem escalas de poder. Os conhecimentos essenciais são compartilhados e as decisões importantes tomadas                           
coletivamente. As hierarquias correspondem a diferenças de potência, peculiaridades e capacidades produtivas que                         
visam sempre ser funcionais para a vontade comunitária. 
CAMPO DE ANÁLISE: é o perímetro escolhido como objeto para aplicar o aparelho conceitual disponível destinado a                                 
entender o campo de intervenção*: a inteligência acerca de como ele funciona, a articulação de 
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suas determinações, a forma como são gerados seus efeitos etc. Este aparelho conceitual pode constituir­se de materiais                                 
teóricos muito heterogêneos, dependendo da sua eficiência para fazer a "leitura" do campo de intervenção*. O campo de                                   
análise não está delimitado segundo um perímetro que coincida com a definição empírica ou "oficial" (instituída e                                 
organizada) de um segmento social. Quanto mais amplo o campo de análise, mais possibilidades existem de                               
entendimento do campo de intervenção, por mais aparentemente pequeno que este seja. 
CAMPO DE INTERVENÇÃO: é o perímetro que delimitará o espaço dentro do qual se planejarão e executarão                                 
estratégias *, logísticas *, táticas * e técnicas * que, por sua vez, deverão operar neste âmbito específico para                                     
transformá­lo de acordo com as metas propostas. Está em estreita dependência do campo de análise*, desde o qual será                                     
compreendido, pensado. Só se intervém quando se compreende, sendo que posteriormente se compreende à medida                             
que se intervém. O campo de intervenção pode ser muito amplo ou restrito a um estabelecimento ou organização (escola,                                     
sindicato, empresa etc.). 
CAPTURA E RECUPERAÇÃO: o instituído*­organizado*­estabelecido, em especial o Estado, o grande Capital, as                         
classes e grupos dominantes, procuram detectar, classificar e apropriar­se de toda e qualquer singularidade e força                               
produ tiva. Quando o conseguem, as incorporam à lógica acumulativa do Sistema, fundamentalmente transformando as                             
linhas de fuga revolucionário­desejantes e seus produtos (ver Desejo*) em mercadorias. Quando o aparato de captura e                                 
recuperação falha, as mencionadas entidades operam de forma repressiva ou supressiva, inibindo ou destruindo as                             
forças produtivas, em especial as instituintes*. 
CLANDESTINIDADE: remete a modos de existência social cuja característica principal é serem sigilosos, ocultos ou                             
secretos. As idéias, pessoas, organizações ou movimentos deste tipo podem somar a condição de opositores,                             
dissidentes ou marginais, mas sua característica essencial consiste em que sua relação delinqüencial, subversiva ou                             
revolucionária com a ordem dominante os torna indesejáveis, ameaçadores ou francamente perigosos para o                           
instituído­organizado. Reciprocamente, a clandestinidade costuma ser condição de possibilidade de existência para                       
idéias ou segmentos sociais frente às forças e recursos repressivos ou eliminatórios que o sistema no qual atuam pode                                     
mobilizar contra eles. 
CLASSE INSTlTUCIONAL: a Sociopsicanálise de G. Mendel designa o estatuto do conjunto de agentes que são                               
igualmente responsáveis por uma etapa ou um nível dentro do processo de produção de um produto ou serviço. Tal                                     
participação fica evidenciada quando a classe institucional se retira do trabalho, interrompendo o curso do processo                               
produtivo em um 
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ponto determinado. As classes institucionais de uma organização* são despossuídas da parte do poder* que lhescorresponde pela classe suprajacente e despossuem, por sua vez, à classe subjacente. A classe institucional é o                                 
segmento organizacional indicado como objeto de intervenção sociopsicanalítica e não se deve misturar seus                           
integrantes com os menlbros de outros segmentos. 
CO­GESTAO: dá­se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual diferentes segmentos – por exemplo, de um                                     
estabelecimento – cuja posição formal no organograma implica hierarquias e poderes diversos e, portanto, relações de                               
subordinação em última instância, elaboram um pacto ou acordo de trabalho ou administração conjunto para realizar uma                                 
tarefa, sem mnunciar às categorias antes mencionadas. 
COLABORACIONISMO: costuma­se denominar assim as atitudes e comportamentos de setores oprimidos, explorados e                         
mistificados que prestam subserviência, apoio ou cumplicidade às forças ou t'ntidades que os subordinam ou submetem. 
COMUNIDADE: este temo é usado com uma grande variedade de sentidos nas ciências naturais e humanas. Em geral                                   
refere­se a um conjunto de indivíduos (pequeno, médio ou grande) que está vinculado por algum traço, característica ou                                   
atividade compartilhada. Esta peculiaridade pode ser de espécie, gênero, classe, categoria, sexo, idade, raça, lugar,                             
tempo, valores etc. O importante é que atribui uma singularidade e/ou identidade, assumida ou não pelos integrantes                                 
que, de uma forma ou de outra, lhes confere uma certa coesão e solidariedade. Para a Sociologia Clássica, é fundamental                                       
que essa solidariedade seja orgânica (organizada, diversifica da, hierarquizada e articulada), e não apenas mecânica. J. P.                                 
Sartre distingue uma associação serial ou aglutinada da resultante de uma fraternidade do terror, e esta de uma em                                     
processo de institucionalização que se vai fazendo a si mesmo. Para o lnstitucionalismo, é essencial que as unificações e                                     
totalizações das comunidades sejam invenções provisórias e mutantes, subordinadas às forças instituintes* e                         
organizantes'" durante o curso da institucionalização. 
CONFLITO: entendendo por conflito a oposição e luta dos contrários (dito em um sentido muito amplo), para algumas                                   
tendências do Institucionalismo a contradição é a fonte de todos os transtomos e, ao mesmo tempo, o único motor da                                       
mudança nos sujeitos, organizações*, movimentos, sociedades* e civilizações. Todas as forças, estruturas, instâncias e                           
mecanismos que compõem a realidade biossocial­libidinal funcionam de forma conflitiva, e da cristalização ou da                             
resolução de sua dialética * depende o destino produtivo, reprodutivo ou antiprodutivo (ver Produção*, 
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Reprodução* e Antiprodução*) dos processos históricos. 
Essa formulação recolhe, entre tantas outras origens teóricas, Os princípios e fundamentos da Psicanálise e do                               
Materialismo Histórico e Dialético, até incluir certas raízes nietzschianas e existencialistas do pensamento                         
institucionalista. Os conflitos entre instituinte* – instituído*, centro­periferia, exploradores­explorados,                 
dominadores­dominados são apenas alguns exemplos da série interminável que se pode imaginar. Contudo, para outras                             
correntes, os conflitos, sua paralisação dilemática ou sua resolução dialética não são do nível determinante do real,                                 
porque a substância da realidade é a pura afirmação produtivo­desejante. 
CÓPIAS: dentro do que interessa ao Institucionalismo, as cópias (segundo o pensamento platônico) são as almas que,                                 
havendo tido, nos tempos míticos, uma proximidade, imagem e semelhança com as Idéias Puras* ou Modelos, perderam                                 
a semelhança e só conservaram a imagem, esquecendo se dessa "queda". A maiêutica socrática consistiria em um                                 
procedimento pelo qual, mediante o raciocínio, se conseguiria que as almas recuperassem a memória, e com ela o acesso                                     
às Idéias Puras. O método platônico da clivisão em gêneros, espécies (etec.) seria uma forma de seleção para cliferenciar                                     
as "boas" das "más" cópias, sendo que as primeiras estariam aptas para recuperar sua semelhança com as Idéias Puras.                                     
As cópias são sinônimos de "representações". Para a interpretação institucionalista desse pensamento, ver Idéias                           
puras*. 
­CRACIAS: ARISTOCRACIA, BUROCRACIA, LOGOCRAClA, SEXOCRACIA, TEOCRACIA, TECNOCRACIA:             
optamos por agrupar e tratar em conjunto estes termos porque, com a finalidade de explicitar seu interesse para o                                     
Institucionalismo, esta abordagem permitirá resumir a exposição. O sufixo cracia significa governo de ou poder de:                               
aristo (elite supostamente integrada pelos melhores membros de uma sociedade, cuja condição de superioridade está                             
dada por uma linhagem hereditária); buro (categoria ou classe que se ocupa da administração, com freqüência                               
supostamente "científica" das organizações); tecno (categoria ou classe que detém e exercita um saber habitualmente de                               
cunho científico); pluto (alude a classes ou grupos economicamente opulentos); logo (alude aos possuidores da razão                               
como saber discursivo); sexo (alude a uma definição sexual em detrimento das outras);e teo (alude aos supostos                                 
representantes da clivindade ou à divindade mesma, "encarnada" em um indivíduo ou grupo). Aqui vale acrescentar a                                 
palavra "nepotismo", em que nepo, em sentido restrito, alude aos filhos naturais dos Papas, eufemisticamente                             
denominados "sobrinhos". Em sua acepção ampla, refere­se à designação de parentes de um governante para cargos                               
oficiais. 
Para o Institucionalismo, que postula o autogoverno dos coletivos (sistema que só admite lideranças provisórias                             
baseadas no afeto, prestígio e 
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exemplaridade), nenhuma dessas condições e seus respectivos governos são aceitáveis, configurando vícios de                         
condução que são, por sua vez, causa e efeito da impossibilidade ou incapacidade para uma democracia au togestiva. 
CRISE: em sua origem grega e segundo os campos de atividade nos quais era empregada, a palavra krisis significava:                                     
interpretação (por exemplo, dos sonhos), seleção (por exemplo, das vítimas de um sacrifício), juízo (por exemplo,                               
procedimento para chegar a um veredicto), momento crucial das vicissitudes ou do metabolé (por exemplo, cena de                                 
apogeu numa tragédia), fase de definição, no sentido da melhoria ou da piora do curso de uma enfermidade.                                   
Provavelmente por extensão da noção médica, o conceito de crise aplica­se a processos de qualquer natureza, nos quais,                                   
dentro de um andamento relativamente regular, chega­se a um ponto de desequilíbrio (desorganização, desordem) mais                             
ou menos imprevisível na sua aparição e em seu desenlace. Esse estado de crise ocorre, segundoalguns, por caducidade                                     
dos mecanismos e recursos vigentes, devido a seu desgaste e/ ou à incidência de forças e acontecimentos positivos ou                                     
negativos acidentais, contingentes, circunstanciais, extraordinários ete. As crises são etapas de mudanças para o bem                             
ou para o mal, mas em geral aceleradas e radicais. Alguns atribuem as crises à exacerbação das contradições de um                                       
sistema ou ao acúmulo de mudanças quantitativas que desembocam em uma transformação qualitativa. Outros                           
sustentam que são períodos ou espaços de transição entre tempos e lugares precisos e conhecidos, enquanto há os que                                     
pensam que se trata dos prolegômenos do surgimento do absolutamente novo. 
Para certos autores (por exemplo, Marx), o Capitalismo é um sistema histórico que existe em crise permanente, posto que                                     
incorporou essa condição a seu modo normal de transcurso. Para o Institucionalismo, tanto enquanto campo de análise*                                 
como de intervenção (ver campo de intervenção*), os estados de crise são considerados fecundos, na medida em que                                   
envolvem a falência do instituído* – organizado* e a emergência do instituinte* – organizante* no seio da "desordem                                   
criadora". Alguns institucionalistas, como Lapassade, tentam intervenções deflagradoras de crise grupal ou                       
organizacional (provocação institucional), e a maioria prefere intervir nos momentos críticos, melhor ainda se                           
generalizados a grandes segmentos ou à sociedade inteira. 
DEFESAS: para as correntes institucionalistas tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana                           
(Elliot Jacques, Pichon Rivière, Bleger e outros), as posições esquizoparanóides e depressivas – as configurações                             
adquiridas pelos variados elementos que compõem o self (pulsões, objetos, fantasmas) no curso do desenvolvimento­,                             
vêm acompanhadas de vivências características denominadas ansiedades * . Assim 
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se fala de ansiedades paranóides, depressivas, confusionais etc. Os mecanismos que se erguem contra elas                             
(dissociação, projeção, idealização, negação etc.) denominam­se defesas e podem tomar como suportes os elementos                           
institucionais e organizacionais (contratos, organograma, regulamentos etc.). Por isso se diz que as instituições são                             
"sistemas de defesa contra a ansiedade*". Descritivamente falando, isso explica os quadros psicóticos que muitos                             
agentes* desenvolvem quando suas organizações entram em crise ou os expulsam. 
DESEJO: a Psicanálise demonstrou que os sujeitos psíquicos estão determinados por uma força inconsciente sobre a                               
qual não têm conhecimento nem controle voluntário. Essa força se origina, por sua vez, das pulsões, e tende à busca do                                         
prazer e à evitação do desprazer. A Psicanálise postula que o desejo é uma força do tipo conservador ou repetitivo, que                                         
procura restituir um estado arcaico perdido, prévio à constituição do sujeito: o narcisismo. Durante esses incessantes                               
ensaios, o desejo, que carece do objeto real, se "satisfaz" ou "realiza" animando fantasmas (montagens de                               
representações imaginárias inconscientes que transcorrem em "outra cena"). Em última instância, o desejo persegue o                             
gozo absoluto, quer dizer, sua própria extinção definitiva, na qual se encontra com a pulsão de morte. O Complexo de                                       
Castração, que instaura a lei no psiquismo, constitui o desejo, ao mesmo tempo em que lhe permite simbolizar­se e servir                                       
aos objetivos de vida. O desejo, para a Psicanálise, gesta­se no seio do Complexo de Édipo; no início do                                     
desenvolvimento, atua exclusivamente na dramática da vida familiar, e só posteriormente induz os sujeitos psíquicos a                               
entrarem nos processos sociais amplos. 
Algumas correntes do Institucionalismo compartilham a definição psicanalítica de desejo (Sociopsicanálise). Para outras                         
(por exemplo, a Esquizoanálise), o desejo é essencial e imanentemente produtivo, gera e é gerado no processo mesmo de                                     
invenção, metamorfose ou "criação" do novo. Sua essência não é exclusivamente psíquica, pois participa de todo o real.                                   
Corresponde aproximadamente ao que Nietzsche denominou "Vontade de Potência", ao que Espinoza chamava                         
"Substância" e os estóicos "Acontecimento Incorporal", que resulta do encontro entre os corpos (devir). Igualmente o                               
desejo (assim entendido) tem afinidade com o "virtual" bergsoniano, com as "quantidades intensivas" em Kant e com as                                   
"impressões intensivas" em Hume. Esse desejo atua em todo e qualquer âmbito do real, não carece do objeto, ignora a                                       
lei e não precisa ser simbolizado porque se processa sempre de fomla inconsciente. Não tende à morte porque constitui                                     
a essência da vida como "Eterno Retomo das Diferenças Absolutas". Assim entendido, o desejo também está                               
parcialmente submetido a entidades repressivas, mas estas não são exclusivamente psíquicas, e sim um complexo                             
conjunto ao mesmo tempo político, econômico, comunicacional etc. Na Esquizoanálise de Deleuze e Guattari, o desejo é                                 
imanente à produção, daí o conceito de produção desejante. 
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DESVIANTE: nas organizações e movimentos podem surgir sujeitos, grupos ou tendências que questionam o                             
instituído* – organizado, através de diversos discursos, atitudes e comportamentos. Protagonizam, assim, um desvio ou                             
afastamento da linha condutora hegemônica da organização. Sua dissidência* ou discordância pode ser mais ou menos                               
enérgica, mas em geral é predominantemente reativa, quer dizer, se bem impugna e denuncia os defeitos do                                 
instituído­organizado, não consegue fazê­lo com consciência suficiente e estratégia adequada para gerar uma real                           
alternativa ou uma mudança profunda.O segmento desviante pode ser ideológico (quando propõe uma divergência ou                             
oposição teórica ou dou trinária), organizacional (quando altera a estrutura ou a dinâmica do organograma e fluxograma)                                 
ou libidinal (quando apresenta opções na definição sexual ou outras vinculadas a eleições idiossincráticas em torno do                                 
prazer, da moral etc.). A proposta e ação desviante podem, eventualmente, tornar­se o gérmen de um processo                                 
produtivo­desejante­revolucionário. 
DIALÉTICA: é um método para pensar e discutir as realidades materiais e metafísicas cujas diferentes versões estão                                 
presentes em todo saber ocidental, desde a Antiguidade até a época contemporânea. É um pensamento que concebe a                                   
realidade material e a espiritual em permanente movimento e transformação, devido a sua essência intrinsecamente                             
contraditória. Opõe se a todas as concepções que supõem o ser como estático e invariável,sendo as mudanças que se                                       
apresentam apenas superficiais, ilusórias ou aparentes. A dialética atinge sua maior sistematização com Hegel, que a                               
postula como método para pensar o movimento do "Espírito Absoluto", essência de todo o real. Karl Marx, o fundador                                     
do Materialismo Dialético e Histórico, de alguma forma conserva a concepção hegeliana do movimento dialético, mas o                                 
atribui à matéria em suas várias qualidades, e não ao espírito. 
A dialética sustenta que o movimento é regido por três leis: 1) Negação da negação; 2) Passagem da quantidade à                                       
qualidade; e 3) Coexistência dos opostos em cada unidade. Isso implica uma total refutação das leis da Lógica Formal                                     
Clássica, pois os princípios de identidade, contradição e terceiro excluído perdem vigência. Outro aspecto importante da                               
dialética refere­se aos denominados "momentos" de análise da realidade, que pode ser examinada como "universal",                             
"geral, particular" e "singular". Como nas leis do devir, cada momento nega o anterior, o supera e ao mesmo tempo o                                         
conserva. O conhecimento da essência de toda e qualquer realidade circunscrita deve ter em conta esse "trabalho do                                   
negativo" que não é diretamente apreendido pela consciência. 
Algumas correntes do Institucionalismo incorporam recursos da concepção dialética (Análise Institucional*), outras                       
entendem que a dialética ainda é uma maneira conservadora de pensar e conceber o real (a negação da negação supera,                                       
mas também conserva o superado), postulando, em troca, uma idéia do ser como puro devir no qual retornam                                   
exclusivamente as 
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diferenças (Esquizoanálise*). 
DISPOSITIVO: ver Agenciamento. 
DISSIDÊNCIA: costuma­se empregar este termo para referir­se à posição de setores discordantes ou divergentes de uma                               
organização ou movimento, sendo que tal divergência afeta principalmente a linha teólica ou ideológica. As tendências                               
dissidentes podem manter­se no interior da organização­ movimento ou separar­se dele. 
DISSOCIAÇÃO INSTRUMENTAL: denomina­se assim na Psicanálise, no Grupalismo e no Institucionalismo a operação                         
pela qual o analista, a equipe interveniente ou outros segmentos organizacionais conseguem simultaneamente                         
protagonizar os processos plenamente implicados neles e distanciar­se o suficiente para poder analisá­los e                           
compreendê­los (ver Análise da Implicação*). 
DISTORÇÃO DA DEMANDA: alguns institucionalistas consideram que certas demandas de intervenção, que                       
expressam claramente uma falta de vontade instituinte*, ou mais ainda, um apreciável encargo repressivo ou                             
ligeiramente reformista, podem ser atendidas. O analista inicia a análise e a intervenção sobre essas bases, confiando em                                   
que durante o curso do processo poderá reverter o equilíbrio de forças e encaminhar o andamento em direção à                                     
autogestão* e à auto­análise * . 
DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO: todo processo de produção, particularmente de bens materiais e serviços, exige                             
um trabalho, e este, por sua vez, consome força de trabalho. Os processos de trabalho complexos, em todas as                                     
sociedades da História e especialmente na modernidade industrial, estão diversificados em diferentes tarefas                         
articuladas entre si. Essa composição conferiu à produção uma rapidez e eficácia jamais igualadas. Contudo, devido à                                 
propriedade privada dos meios de produção e à compra e venda injusta de força de trabalho nos sistemas capÍtalistas                                     
(extração de mais­valia), à divisão técnica do trabalho se superpõe uma divisão social. Determinadas tarefas são                               
consideradas privilegiadas e fundam hierarquias que outorgam riqueza, poder e prestígio. Coisa similar Ocorre em                             
outros sistemas de produção pela extração dos mesmos e dos outros tipos de mais­valia ("Socialismo Real"). Para o                                   
Institucionalismo, a divisão técnica e social do trabalho é importante porque causa muitos dos conflitos a serem                                 
analisados e intervindos. As divisões sociais do trabalho mais clássicas são as que separam e subordinam a produção                                   
manual intelectual, do campo­cidade, masculina­feminina etc. 
DOMINAÇÃO: imposição, por diversos meios (dentro de um espectro de
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violência que vai desde a sedução até a destruição física), da vontade de indivíduos, grupos ou classes sobre outros. Os                                       
instituídos* – organizados* estabelecidos, em especial o Estado e o grande Capital, mantêm seus privilégios dominando                               
a vontade coletiva ou majoritária. A dominação é simultaneamente política, econômica, jurídica, semiótica, Iibidinal ete., e                               
freqüentemente consegue contar com a passividade e também com a colaboração dos dominados (servidão voluntária). 
ECRO: conceito da Psicologia Social de Pichon Rivière que é a sigla de "esquema conceitual referencial e operativo".                                   
Refere­se, em primeira instância, às teorias, logísticas, estratégias, táticas e técnicas que um coordenador de grupo ou                                 
um psicólogo social empregam para pensar e intervir sobre seus objetos' de trabalho. Contudo, o ECRO é muito mais que                                       
o até aqui mencionado, porque inclui também tudo quanto seja acervo de vivências, experiências, afetos e outros                                 
elementos que compõem a personalidade de todos os participantes. Por outra parte, a idéia do esquema denota o caráter                                     
provisório e marcadamente conjuntural do dispositivo* teórico­técnico utilizado. 
EFEITOS: várias correntes do Movimento Institucionalista* sustentam que a gênese teórica dos conceitos é inseparável                             
de sua gênese social. Em outras palavras: que a produção do conhecimento sobre as leis que dão conta dos fatos                                       
sociais está sempre ligada aos acontecimentos concretos que possibilitaram e exigiram sua formulação. Se bem esta                               
afirmação não refute o caráter universal e omnivalente das grandes leis das ciências chamadas "humanas" (por exemplo,                                 
a Lei do Valor, no Materialismo Histórico), o Institucionalismo enfatiza o momento "formal concreto" do conhecimento,                               
ressaltando suas características singulares devido à condição única, irrepetível e contingente do fato em questão. Por                               
isso prefere qualificar esses acontecimentos como "efeitos", seguindo uma orientação das ciências físicas, enquanto                           
esse termo designa processos e fenômenos com um alcance menos geral e mais local ou circunstancial. A lista de efeitos                                       
que podem ser propostos é, por definição, interminável, mas mencionaremos aqui os mais conhecidos: 
Efeito Weber: tem o nome do grande sociólogo Max Weber. Refere­se ao fato de que quanto mais" desenvolvida" e                                     
complexa se torna uma sociedade* e quanto mais saberes especializados produz acerca de simesma, mais ela se torna                                     
opaca (incompreensível) em seu conjunto para os agentes* sociais que a integram. 
Efeito Lukács: recebe o nome do filósofo Georg Lukács. Refere­se à constatação de que o não­saber de uma sociedade                                     
acerca de si mesma é conseqüência do progresso da ciência. Quanto mais formalizada, rigorosa 
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e quantificada aparece uma ciência, e quanto mais perde de vista as condições sociais de seu nascimento e                                   
desenvolvimento (ou seja, quanto mais profundamente realiza seu "corte epistemológico"), mais satisfaz as exigências                           
cientificistas e mais contribui para o não­saber de um conjunto social acerca de sua própria existência. 
Efeito Heisemberg: o físico Werner Heisemberg sustentava que o que torna questionável a Teoria da Causalidade a nível                                   
subatômico é a impossibilidade física de se medir objetivamente valores exatos, como, por exemplo, precisar                             
simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula. Nos experimentos da mecânica quântica, sujeito e objeto                                 
constituiriam uma unidade inseparável no seio da qual se produziria o fenômeno. Essa constatação pode conduzir a um                                   
irracionalismo (ou seja, a uma renúncia a um tratamento sistemático da determinação desses fenômenos), ou, pelo                               
contrário, à concepção de outras modalidades da causalidade. O lnstitucionalismo aproveitou essa idéia para abordar a                               
problemática da implicação, quer dizer, do intrincamento que se produz não só entre a equipe interventora e a                                   
organização intervinda, mas também na construção que o analista institucional faz de seu objeto de estudo e intervenção                                   
e a desconstrução analítica que faz do mesmo Em todos esses casos, cada um dos elementos mencionados é um                                     
"resultante" do campo que assim se configura. 
Efeito Frio­Quente: é óbvio que a história das sociedades mostra períodos de estabilidade e "congelamento" da ordem                                 
constituída, assim como outros de agitação, mobilização e grandes transformações. Alguns antropólogos pretenderam,                         
erroneamente, que as sociedades chamadas primitivas, por oposição às modernas, seriam "estáticas", quer dizer, que                             
careceriam de história. O lnstitucionalismo sustenta que é nos períodos "frios" da história que se consolida a produção                                   
do conhecimento social científico, e, portanto, o não­saber de uma sociedade acerca de suas capacidades instituintes e                                 
a "naturalização" de seus instituídos*. Em ou tras palavras: a separação entre a "consciência ingênua" e o "saber                                   
científico". Nessas fases, a análise e as intervenções institucionais só podem ser contratadas e circunscritas. Já nas                                 
etapas "quentes", em que todo o saber social está em ebulição, ocorre o contrário: as experiências sociais se                                   
multiplicam, as informações circulam por fora dos canais formais e criam­se condições para a apropriação crítica por                                 
parte dos coletivos do saber acadêmico. Também se afirma a verdade dos saberes espontâneos e a vontade de aplicar                                     
de imediato todo o apreendido na ação instituinte. Quer dizer: geram­se processos de auto análise* e autogestão*                                 
espontâneos e generalizados. 
Efeito Mülhman: este sociólogo das religiões descreveu um processo através do qual os movimentos messiânicos,                             
inspirados por uma profecia libertária, 
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chegam a um ponto de seu desenvolvimento em que alguns dos segmentos que os integram considera­os                               
"fracassados". Essa "função de fracasso" é capaz de provocar a cisão do movimento e a saída ou a expulsão de facções                                         
dissidentes. Isso permite aos setores remanescentes institucionalizar o movimento e capturar as forças vivas e o                               
potencial de origem em estruturas e normas organizacionais "oficiais" e burocráticas rígidas. O lnstitucionalismo                           
constata que desfechos similares acontecem em todos os movimentos, especialmente nos políticos. 
Outros Efeitos: Lefevre, Einstein, Reich, Artaud, centro­contra­periferia etc. 
EMERGENTE: na Psicologia Social de Pichon Rivière, denomina­se "Emergente" a todo e qualquer efeito (suportado em                               
materialidades diversas: "mentais"," corporais" e "sociais") resultante da composição de forças e elementos presentes e                             
atuantes que integram uma situação e um campo vital. Um emergente pode manifestar­se através de um indivíduo, um                                   
grupo ou uma organização, sendo que o efetivador" escolhido" pelas forças em conflito expressa, por sua vez, as                                   
tendências mais patológicas e as mais sadias do conjunto. Em nosso entender, a idéia de emergente tem uma                                   
similaridade com a de analisador*, mas provém de uma tradição filosófica existencialista ("o Ser como presença" ou "a                                   
Verdade que se revela") e não enfatiza a capacidade do analisador de analisar­se a si mesmo. 
ENCARGO: no Institucionalismo*, a noção de encargo recebe definições e sinônimos diversos que tornam difícil                             
precisar seu significado. Em gerat pode­se dizer que este termo alude aos sentidos não explícitos, não­manifestos,                               
dissimulados, ignorados ou reprimidos, e que comporta uma demanda de bens ou serviços. Em uma acepção ampla,                                 
refere­se a uma solicitude ou exigência de soluções imaginárias ou de ações destinadas a restaurar a ordem constituída                                   
quando a mesma está ameaçada. O encargo nunca coincide com a demanda e deve ser decifrado a partir dela, sendo que                                         
seu sentido varia segundo o segmento organizacional que a formula. De acordo com o contexto discursivo de que se                                     
trate, o encargo pode admitir como sinônimos: demanda latente, pedido, encomenda etc. 
ESPECIFICIDADE: a modernidade tem como pré­requisito e como conseqüência o auge da racionalida de científica e de                                 
suas aplicações tecnológicas, que possibilitaram o desenvolvimento da sociedade industrial. A modalidade do saber                           
dominante durante este processo é a do conhecimento científico, cujo procedimento é, por definição, analítico. Cada                               
ciência, que num sentido acadêmico denomina­se disciplina, tem seu próprio objeto, teoria, método e técnicas, sendo que                                 
freqüentemente se subdivide, por sua vez, em um número crescente de especialidades. Essa 
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fragmentação do saber, articulada com a Divisão Técnica e Social do Trabalho*, consagrou a especificidade – a                                 
delimitação taxativa da correspondência entre cada domínio teórico e um território da realidade que lhe é procedente –                                   
como o valor cognoscitivo mais importante de nossa cultura. 
O Institucionalismo estuda criticamente os efeitos distorsivos e alienantes (ver Alienação*) que essa cultura da                             
especificidade radical tem sobre a reconstrução gnosiológica de um mundo humano integrado. Sobretudo se interessasobre o efeito do não­saber ou do desconhecimento que instaura em cada disciplina a ausência das outras e, em todas                                       
elas, a desvalorização dos saberes não­qualificados (saber artístico, popular, da loucura etc.). 
ESPECIFIClDADE (OU ESPECIALIDADE, OU ESPECIALIZAÇÃO): num sentido muito amplo, é o que corresponde a                           
uma espécie de forma exclusiva ou prevalente. Em termos sociais e epistemológicos, tem a ver com a divisão das                                     
condições e atividades humanas em geral e do trabalho em particular. Essas diferenciações, à medida que reduzem o                                   
campo de atuação de cadél agente social, possibilitam o incremento de sua competência e eficiência, resultando no                                 
aumento espetacular de sua produtividade. Por outra parte, redundam na fragmentação, dispersão e perda da visão                               
crítica e do sentido de conjunto das práticas que pode conduzir à "alienação", ou seja, à incapacidade de julgar e                                       
conduzir seu andamento. 
No caso das ciências e disciplinas, sua circunscrição teórica e sua aplicação tecnológica irrestrita tornaram­se valores de                                 
nossa civilização, erigindo a "verdade" e a" eficiência" científicas como metas dominantes e indiscutíveis. Isso levou a                                 
deformações tais como o operacionalismo, pragmatismo e utilitarismo irreflexivos que acabam sendo incondicionalmente                         
funcionais à lógica acumulativa e concentradora do Capitalismo Planetário Integrado. As diversas modalidades do                           
Movimento Inslitucionalista, além de insistirem na crítica global desses efeitos, pretendem resgatar os valores                           
instituintes* e organizantes*, em resumo, revolucionários, das contribuições científicas. Mas, por outra parte, também                           
visa produzir uma abordagem intersticial que dê conta do não­sabido de cada ciência (enquanto as outras estão ausentes                                   
nela), assim como seu conjunto teórico­técnico carece do aporte de outras formas do saber e do fazer (particularmente do                                     
saber e fazer dos coletivos populares de usuários e consumidores). 
EQUIPAMENTO: conglomerados complexos, montagens de diversas materialidades (mais especialmente de recursos                     
técnicos), prevalentemente a serviço da exploração, dominação e mistificação. Os equipamentos podem pertencer ao                           
Estado* ou às entidades dominantes da sociedade civil (empresas, corporações). Podem ser de grande porte (por                               
exemplo, os instrumentos da comunicação de massas) ou de pequena dimensão (por exemplo, arquivos, impressoras,                             
relógios de ponto etc.). 
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ESQUlZOANÁLISE: soma não totalizável de saberes e afazeres praticáveis por qualquer agente, em qualquer tempo ou                                 
lugar. Inventada por Gilles Deleuze e Félix Guattari e exposta pela primeira vez de maneira singularmente sistemática no                                   
livro "O Anti­Edipo" (1972), essa corrente não é enquadrável nos gêneros de pensamento e ação até agora conhecidos.                                   
Qualquer tentativa de resumir essa amplíssima leitura da realidade natural­histórico­social­libidinal e tecnológica seria                         
estéril. Mencionaremos apenas que, para essa concepção, tais materialidades são imanentes (quer dizer, consubstanciais                           
ou inseparáveis uma da outra), e mais ainda, estão" precedidas" por um campo de materialidades "puras", puras                                 
diferenças intensivas. 
A essência do real é a "produção desejante", ou seja, a incessante metamorfose geradora de diferenças inovadoras que                                   
se originam ao acaso*. Nesse sentido, o real é constante e integralmente produzido, podendo­se distinguir nele uma                                 
produção de produção, uma de "registro­controle" e uma de "consumo­voluptuosidade". O processo produtivo de                           
produção pode ser pensado segundo a lógica que caracteriza o funcionamento da esquizofrenia (não como patologia,                               
mas como ser do devir), a microfísica e a biologia molecular. Trata­se de um funcionamento absolutamente livre, infinito e                                     
imprevisível que consiste em conexões e cortes de fluxos energéticos entre unidades intensivas denominadas "máquinas                             
desejantes", cada uma das quais é uma pura e irrepetível singularidade*. As máquinas desejantes dispõem­se e agenciam                                 
sobre uma matriz de gradientes energéticos denominada "corpo sem órgãos". Mas a produção de produção de                               
novidades é capturada pelos estratos, territórios e equipamentos da produção de controle­registro que tende à repetição                               
do mesmo, colocada a serviço de uma entidade centralizadora, totalizante, concentradora e acumulativa, que varia                             
segundo o modo de organização histórica da produção de que se trate ("Corpo Cheio da Terra", "do Déspota" ou do                                       
"Capital­Dinheiro"). Na atividade de controle­registro predominam a reprodução e a anti­produção. Uma dessas formas é                             
o que a Psicanálise chama Pulsão de Morte. 
Segundo a entendemos, a Esquizoanálise compreende toda e qualquer atividade intelectual ou prática que procura liberar                               
o processo produtivo ­desejante­revolucionário, demolindo as constrições da parafernália de controle­registro. Esse                       
conjunto não­totalizável de práxis singulares configura a "Micropolítica", em cujo âmbito as inúmeras revoluções são                             
feitas não apenas por necessidade ou dever, mas pelo desejo. Entendida como procedimento para pensar e compreender                                 
o real, a Esqllizoanálise compõe­se de tarefas negativas de crítica e desconexão de valores dominantes e outras positivas,                                   
destinadas a propiciar o livre fluir da .produção e do desejo na vida biológica, psíquica, comunicacional, política,                                 
ecológica etc. A Esquizoanálise também é definida com outras denominações, tais como "Pragmática Universal",                           
"Análise Nômade" etc. 
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ESTADO: Conglomerado complexo de instituídos*­organizados*­estabelecidos, agente e instrumento de persuasão,                   
repressão, coerção e até eliminação social a serviço prevalentemente das classes, grupos e idiossincrasias dominantes.                             
Opera principalmente através da captura e recuperação* de singularidades e forças produtivas de toda natureza,                             
reinvestindo­as na lógica do sistema ou suprimindo­as. Seu principal instrumento é o Direito, corpo estabelecido de leis*                                 
que regulam as relações sociais a favor dos setores privilegiados, apresentando­se aparentemente como expressão da                             
vontade majoritária. Existem muitos diferentes tipos de Estado, mas o Estado moderno precisa de reconhecimento e                               
legitimação, que obtém por meio de sua concordância com a Lei. O Estado não se compõe apenas de grandes                                     
organismos, mas também de microagências instaladas no corpo biológico e no psiquismo (Estado contínuo;                           
micropoderes do Estado). Não é que o Institucionalismo negue a existência de forças e processos instituintes                               
organizantes

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