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1 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE Acidente Vascular Encefálico - AVE PROBLEMA 3 – Deixa que eu sei!! Paciente admitida na sala de emergência do Hospital com a seguinte anamnese: Identificação: VDM, 69 anos, do lar, aposentada, residente em São Paulo Queixa e duração: Perda da consciência e “boca torta” há 1 hora. HPMA: Pct trazida pelo SAMU ao PS acompanhada de esposo. Marido informa que a pct estava assistindo TV após o jantar e de forma abrupta apresentou perda da consciência com retomada espontânea em cerca de 3 minutos. Logo após a retomada da consciência apresentava o desvio de rima labial e confusão mental. Refere também que não conseguia ficar de pé e apresentou perda da força do lado contralateral ao desvio de rima. Hipertensa crônica em uso de Hidroclorotiazida 25 mg/dia e Captopril 150 mg/dia. Interrogatório sobre os diversos aparelhos (ISDA): nada digno de nota. Antecedentes familiares (AF): Pais e irmãos hipertensos e diabéticos. Irmão mais novo falecido por IAM Antecedentes pessoais (AP): diabética em uso de metformina, refere que há 2 anos apresentou um problema renal e que há 10 anos foi acomentida por um deslocamento de retina. Ao exame apresentava: REG, cianótica +/4+, anictérica, afebril, confusão. PA: 210 x 110 mmHg. FC: 110 bpm. Ausculta cardíaca: ritmo cardíaco, bulhas rítmicas hiperfonéticas, com sopro holossístólico pancardíaco +/4+. Ausculta Pulmonar: murmúrios vesiculares presentes sem ruidos adventícios. Acreditando tratar-se de uma Emergência Hipertensiva, o médico da emergência administra 2 ampolas de furosemida IV e encaminha pct para TC de crânio. Logo após a realização do exame a pct com PA de 100x60 mmHg apresenta parada cardiorrespiratória sendo encaminhada de urgência para sala de emergência contígua ao local da tomografia. Submetida às manobras de reanimação cardiovascular, retoma ritmo cardíaco em ventilação assistida e uso de drogas vasoativas porém apresentando-se sem sinais de resposta neurológica. Após 36 horas mantendo Glasgow 3 é iniciado protocolo de morte encefálica. Imagem da TC de crânio da Sra. VDM: Sumário Vascularização do SNC ....................................................................................................................................................... 2 NIVEIS DE CONSCIÊNCIA .................................................................................................................................................... 8 PRESSÃO INTRACRANIANA (PIC) ........................................................................................................................................ 8 AVE – Acidente Vascular Encefálico .................................................................................................................................. 9 AVE isquêmico ............................................................................................................................................................. 10 AVE hemorrágico ......................................................................................................................................................... 19 AVEh – Hemorragias Intraparenquimatosas............................................................................................................ 25 MORTE ENCEFÁLICA ........................................................................................................................................................ 28 Síndrome Metabólica ...................................................................................................................................................... 30 Objetivos da Tutoria: 1- Caracterizar o AVE, diferenciar o AVE isquêmico, hemorrágico e manejo medicamentoso 2-Caracterizar a síndrome metabólica 3- Definir diferentes níveis de consciência: coma hemorrágico 4-Descrever a PIC e correlacionar com a PAM 6- Analisar a importância dos exames complementares 7- Caracterizar morte encefálica e seu protocolo, aspectos éticos doação de órgãos 2 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE Vascularização do SNC IMPORTÂNCIA DA VASCULARIZAÇÃO DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL O sistema nervoso é formado de estruturas nobres e altamente especializadas que exigem, para seu metabolismo, um suprimento permanente e elevado de glicose e oxigênio. Com efeito, a atividade funcional do encéfalo depende de um processo de oxidação de carboidratos e não pode, mesmo temporariamente, ser sustentada por metabolismo anaeróbico. Assim, o consumo de oxigênio e glicose pelo encéfalo é muito elevado, o que requer um fluxo sanguíneo contínuo e intenso. Quedas na concentração de glicose e oxigênio no sangue circulante ou, por outro lado, a suspensão do afluxo sanguíneo ao encéfalo, não são toleradas atém de um período muito curto. A parada da circulação cerebral por mais de dez segundos leva o indivíduo à perda da consciência. Após cerca de cinco minutos, começam a aparecer lesões irreversíveis pois, como se sabe, a maioria das células nervosas não se regeneram. Isso acontece, por exemplo, como consequência de paradas cardíacas. Áreas diferentes do SNC são lesadas em tempos diferentes, tendo em vista que as áreas filogeneticamente mais recentes, como o neocórtex cerebral, são as que primeiro se alteram. A área lesada em último lugar é o centro respiratório situado no bulbo. Os processos patológicos que acometem os vasos cerebrais ocorrem com frequência cada vez maior com o aumento da vida média do homem moderno. São os acidentes vasculares encefálicos (AVE) hemorrágicos ou oclusivos, também denominados isquêmicos (tromboses e embolias). Eles interrompem a circulação de determinadas áreas encefálicas, causando necrose do tecido nervoso, e são acompanhados de alterações motoras, sensoriais ou psíquicas, que podem ser características para a área e a artéria lesada. Há poucas anastomoses entre artérias e arteríolas, o que torna cada região bastante dependente da circulação de determinada artéria. A prevenção, o diagnóstico e o tratamento de todos esses processos exigem um estudo da vascularização do SNC, considerando-se separadamente o encéfalo, a medula, a vascularização arterial e a venosa. Cabe lembrar que no SNCal não existe circulação linfática. VASCULARIZAÇÃO DO ENCÉFALO FLUXO SANGUINEO CEREBRAL O fluxo sanguíneo cerebral é muito elevado, sendo superado apenas pelo do rim e do coração. Embora o encéfalo represente apenas 2% da massa corporal, ele consome 20% do oxigênio disponível e recebe 15% do fluxo sanguíneo, refletindo a alta taxa metabólica do tecido nervoso. Calcula-se que em um minuto, circula pelo encéfalo uma quantidade de sangue aproximadamente igual ao seu próprio peso. O estudo dos fatores que regulam o fluxo sanguíneo é de grande importância clínica. O fluxo sanguíneo cerebral (FSC) é diretamente proporcional à diferença entre a pressão arterial (PA) e a pressão venosa (PV), e inversamente proporcional à resistência cerebrovascular (RCV). Assim temos: 𝑭𝑺𝑪 = 𝑷𝑨 − 𝑃𝑉 𝑹𝑪𝑽 (𝑟𝑒𝑠𝑖𝑠𝑡𝑒𝑛𝑐𝑖𝑎 𝑐𝑒𝑟𝑒𝑏𝑟𝑜𝑣𝑎𝑠𝑐𝑢𝑙𝑎𝑟) Como a pressão venosa cerebral varia muito pouco, a fórmula pode ser simplificada: 𝐹𝑆𝐶 = 𝑃𝐴 𝑅𝐶𝑉 , ou seja, o fluxo sanguíneo cerebral é diretamente proporcional à pressão arterial e inversamente proporcional à resistência cerebrovascular. A resistência cerebrovascular depende sobretudo dos seguintes fatores: a) Pressão intracraniana - cujo aumento, decorrente de condições diversas, eleva a resistência cerebrovascular; b) Condição da parede vascular - que pode estar alterada em certos processos patológicos, como as arterioscleroses, que aumentam consideravelmente a resistência cerebrovascular; c) Viscosidade do sangue; d) Calibre dos vasos cerebrais - regulado por fatores humorais e nervosos, estesúltimos representados por fibras do sistema nervoso autônomo, que se distribuem na parede das arteríolas cerebrais. Entre os fatores humorais, o mais importante é o C02, cuja ação vasodilatadora dos vasos cerebrais é muito grande. O consumo de oxigênio varia entre as diversas regiões cerebrais. Verificou-se que o fluxo sanguíneo é maior nas áreas mais ricas em sinapses, de tal modo que, na substância cinzenta, ele é maior do que na branca, o que obviamente está relacionado com a maior atividade metabólica da substância cinzenta. O fluxo sanguíneo de uma determinada área do cérebro varia com seu estado funcional no momento. Assim, medindo-se o fluxo sanguíneo na área visual do córtex de um animal, verifica-se que ele aumenta consideravelmente quando o animal é colocado diante de um foco luminoso, o que determina a chegada de impulsos nervosos no córtex visual, com aumento do metabolismo dos neurônios. É neste aumento regional do metabolismo e consequentemente do fluxo sanguíneo que se baseiam as modernas técnicas de neuroimagem funcional. Estas técnicas contribuíram muito para o estudo e a localização de diversas funções cerebrais por meio da avaliação do fluxo sanguíneo em áreas restritas do cérebro de um indivíduo em condições fisiológicas ou patológicas. O aumento da demanda nas regiões ativadas é proporcionado por ajustes locais realizados pelas próprias arteríolas, uma vez que não seria possível aumentar a pressão arterial e o fluxo cerebral, por risco de lesão do tecido nervoso. A atividade celular causa liberação de C02 e este aumenta o calibre vascular e o fluxo sanguíneo local em áreas cerebrais submetidas a maior solicitação funcional. O aumento do fluxo regional em resposta ao aumento da atividade neuronal é também mediado pela liberação de óxido nítrico pelos neurônios que, por ser um gás, se difunde com rapidez, atuando sobre o calibre dos vasos. 3 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE VASCULARIZAÇÃO ARTERIAL DO ENCÉFALO Peculiaridades da vascularização arterial do encéfalo O encéfalo é irrigado pelas artérias carótidas internas e vertebrais, originadas no pescoço, onde entretanto não dão nenhum ramo importante, sendo, pois, especializadas para a irrigação do encéfalo. Na base do crânio, estas artérias formam um polígono anastomótico, o polígono de Willis, de onde saem as principais artérias para a vascularização cerebral. Desse modo, a vascularização do encéfalo é peculiar, visto que, ao contrário da maioria das vísceras, não possui um hilo para a penetração dos vasos que entram no encéfalo em diversos pontos de sua superfície. Características das Artérias do SNC Túnica intima Membrana elástica interna Túnica média <fibras musculares Túnica adventícia + delgada, sem lamina elástica Do ponto de vista de sua estrutura, as artérias cerebrais são também peculiares. Elas têm, de modo geral, paredes finas, comparáveis às paredes de artérias de mesmo calibre situadas em outras áreas do organismo. Este é um fator que toma as artérias cerebrais especialmente propensas a hemorragias. A túnica média das artérias cerebrais tem menos fibras musculares, e a túnica elástica interna é mais espessa e tortuosa que a de artérias de outras áreas. Esse espessamento da túnica elástica interna constitui um dos dispositivos anatômicos que protegem o tecido nervoso, amortecendo o choque da onda sistólica responsável pela pulsação das artérias. Existem outros dispositivos anatômicos com a mesma finalidade. Além de mais tortuosas, as artérias que penetram no cérebro são envolvidas, nos milímetros iniciais, pelo liquor nos espaços perivasculares. Estes fatores permitem atenuar o impacto da pulsação arterial. Também contribuí para amortecer o choque da onda sistólica a tortuosidade que apresentam as artérias carótidas internas e as artérias vertebrais ao penetrar no crânio, bem como as artérias que saem do polígono de Willis (Figura 10.1 ). Neuropio (BHE): mediação do transporte de nutrientes do sistema vascular para o SNC No homem, ao contrário do que ocorre em outros mamíferos, há uma quase independência entre as circulações arteriais intracraniana e extracraniana. As poucas anastomoses existentes são, na maioria das vezes, incapazes de manter uma circulação colateral útil em caso de obstrução no território da carótida interna. A irrigação é realizada pelas artérias carótidas internas e vertebrais, que constituem, com as artérias basilares, os dois sistemas de irrigação encefálica: o sistema carotídeo interno e o sistema vértebro-basilar. Artéria carótida interna Ramo de bifurcação da carótida comum, a artéria carótida interna, após trajeto mais ou menos longo no pescoço, penetra na cavidade craniana pelo canal carotídeo do osso temporal, atravessa o seio cavernoso, no interior do qual descreve, em plano vertical, uma dupla curva, formando um S, o sifão carotídeo, que aparece muito bem nas arteriografias da carótida (Figura 9.1). Em seguida, perfura a dura-máter e a aracnoide e, no início do sulco lateral, divide-se em seus dois ramos terminais: as artérias cerebrais média e anterior (Figura 9.2). Além de seus dois ramos terminais, a artéria carótida interna dá os seguintes ramos colaterais mais importantes: a) Artéria oftálmica - emerge da carótida quando esta atravessa a dura-máter, logo abaixo do processo clinoide anterior. Irriga o bulbo ocular e formações anexas (Figura 8.2); b) Artéria comunicante posterior (Figura 9.2) - anastomosa-se com a artéria cerebral posterior, ramo da basilar, contribuindo para a formação do polígono de Willis; c) Artéria carotídea anterior (Figura 9.2) - dirige-se para trás, ao longo do trato óptico, penetra no corno inferior do ventrículo lateral, irrigando os plexos corioides e parte da cápsula interna, os núcleos da base e o diencéfalo. As artérias cerebrais anteriores e médias se subdividem em ramos menores superficiais e profundos, rumo a estruturas internas. FIGURA 9.1 Arteriografia carotídea em incidência lateral. ACA = artéria cerebral anterior; RACM = ramos da artéria cerebral média (grupo silviano dos neuro- radiologistas); ACI = artéria carótida interna; SC = sifão carotídeo; AO = artéria occipital, ramo do carótida externa. Artérias vertebral e basilar As artérias vertebrais direita e esquerda destacam- se das artérias subclávias correspondentes, sobem no pescoço dentro dos forames transversos das vértebras cervicais, perfuram a membrana atlantoccipital, a dura- máter e a aracnoide, penetrando no crânio pelo forame magno. Percorrem, a seguir, a face ventral do bulbo (Figura 9.2) e, aproximadamente no nível do sulco bulbo-pontino, 4 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE fundem-se para constituir um tronco único, a artéria basilar (Figura 9.1). As artérias vertebrais dão origem às duas artérias espinhais posteriores e à artéria espinhal anterior que vascularizam a medula (Figura 9.2). Originam ainda as artérias cerebelares inferiores posteriores, que irrigam a porção inferior e posterior do cerebelo. A artéria basilar percorre geralmente o sulco basilar da ponte e termina anteriormente, bifurcando-se para formar as artérias cerebrais posteriores direita e esquerda. Neste trajeto, a artéria basilar emite os seguintes ramos mais importantes (Figura 9.1): a) Artéria cerebelar superior - nasce da basilar, logo atrás das cerebrais posteriores, distribuindo-se ao mesencéfalo e à parte superior do cerebelo; b) Artéria cerebelar inferior anterior - distribui-se à parte anterior da face inferior do cerebelo; c) Artéria do labirinto - penetra no meato acústico interno junto com os nervos facial e vestibulococlear, vascularizando estruturas do ouvido interno; d) Ramos pontinos. FIGURA 9.2 Artérias da base do encéfalo. Círculo arterial do cérebro (polígono de Willis). O círculoarterial do cérebro O círculo arterial do cérebro, ou polígono de Willis, é uma anastomose arterial de forma poligonal e está situado na base do cérebro, onde circunda o quiasma óptico e o túber cinéreo, relacionando-se ainda com a fossa interpeduncular (Figura 9.2). É formado pelas porções proximais das artérias cerebrais anterior, média e posterior, pela artéria comunicante anterior e pelas artérias comunicantes posteriores, direita e esquerda. A artéria comunicante anterior é pequena e anastomosa as duas artérias cerebrais anteriores adiante do quiasma óptico. As artérias comunicantes posteriores unem, de cada lado, as carótidas internas com as cerebrais posteriores correspondentes (Figura 9.3). Deste modo, elas anastomosam o sistema carotídeo interno ao sistema vertebral. Entretanto, esta anastomose é apenas potencial pois, em condições normais, não há passagem significativa de sangue do sistema vertebral para o carotídeo interno ou vice-versa. Do mesmo modo, praticamente não existe troca de sangue entre as metades esquerda e direita do círculo arterial. O círculo arterial do cérebro, em casos favoráveis, permite a manutenção de fluxo sanguíneo adequado em todo o cérebro, em casos de obstrução de uma (ou mais) das quatro artérias que o irrigam. É fácil entender que a obstrução, por exemplo, da carótida direita, determina queda de pressão em seu território, o que faz com que o sangue flua para aí através da artéria comunicante anterior e da artéria comunicante posterior direita. Entretanto, o círculo arterial do cérebro é sede de muitas variações, que tomam imprevisível o seu comportamento diante de um determinado quadro de obstrução vascular. Ademais, o estabelecimento de uma circulação colateral adequada, também aqui, como em outras áreas, depende de vários fatores, tais como a rapidez com que se instala o processo obstrutivo e o estado da parede arterial, o qual, por sua vez, depende da idade do paciente. As artérias cerebrais anterior, média e posterior dão ramos corticais e ramos centrais. Os ramos corticais destinam-se à vascularização do córtex e substância branca subjacente. Os ramos centrais emergem do círculo arterial do cérebro, ou seja, da porção proximal de cada uma das artérias cerebrais e das artérias comunicantes (Figura 9.2). Eles penetram perpendicularmente na base do cérebro e vascularizam o diencéfalo, os núcleos da base e a cápsula interna. Quando se retira a pia-máter, permanecem os orifícios de penetração destes ramos centrais, o que rendeu às áreas onde eles penetram a denominação de substância perfurada, anterior e posterior. São especialmente importantes, e recebem a denominação de artérias estriadas, os ramos centrais que se destacam da artéria cerebral média e penetram na substância perfurada anterior, vascularizando a maior parte do corpo estriado e da cápsula interna. Tendo em vista que pela cápsula interna passam quase todas as fibras de projeção do córtex, pode-se entender que lesões destas artérias são particularmente graves. 5 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE Classicamente, admitia-se que os ramos centrais do polígono de Willis não se anastomosavam. Sabemos hoje que estas anastomoses existem, embora sejam escassas, de tal modo que estas artérias comportam-se funcionalmente como artérias terminais. FIGURA 9 .3 Angiografia por RM. Circuito arterial do cérebro (polígono de Willis) Território cortical das três artérias cerebrais Ao contrário dos ramos profundos, os ramos corticais das artérias cerebrais possuem anastomoses, ao menos em seu trajeto na superfície do cérebro. Entretanto, estas anastomoses são em geral insuficientes para a manutenção de circulação colateral adequada em casos de obstrução de uma destas artérias ou de seus ramos mais calibrosos. Resultam pois, nestes casos, lesões de áreas mais ou menos extensas do córtex cerebral, com um quadro sintomatológico característico das síndromes das artérias cerebrais anterior, média e posterior. O estudo minucioso destas síndromes, objeto dos cursos de neurologia, exige conhecimento dos territórios corticais irrigados pelas três artérias cerebrais: a) Artéria cerebral anterior - um dos ramos de bifurcação da carótida interna, a artéria cerebral anterior dirige-se para diante e para cima (Figura 9.4), curva-se em tomo do joelho do corpo caloso e ramifica-se na face medial de cada hemisfério, desde o lobo frontal até o sulco parietoccipital. Distribui-se também à parte mais alta da face dorsolateral de cada hemisfério, onde se limita com o território da artéria cerebral média (Figura 9.5). A obstrução de uma das artérias cerebrais anteriores causa, entre outros sintomas, paralisia e diminuição da sensibilidade no membro inferior do lado oposto, decorrente da lesão de partes das áreas corticais motora e sensitiva, que correspondem à perna e se localizam na porção alta dos giros pré e pós-central (lóbulo paracentral). b) Artéria cerebral média - ramo principal da carótida interna, a artéria cerebral média percorre o sulco lateral em toda a sua extensão, distribuindo ramos que vascularizam a maior parte da face dorsolateral de cada hemisfério (Figura 9.5). Este território compreende áreas corticais importantes, como a área motora, a área somestésica, o centro da palavra falada e outras. Obstruções da artéria cerebral média, quando não são fatais, determinam sintomatologia muito rica, com paralisia e diminuição da sensibilidade do lado oposto do corpo em MMSS e face (exceto no MMII), podendo haver ainda graves distúrbios da linguagem. O quadro é especialmente grave se a obstrução atingir também ramos profundos da artéria cerebral média (artérias estriadas = FATAL) que vascularizam os núcleos da base e a cápsula interna. c) Artéria cerebral posterior - ramos de bifurcação da artéria basilar (Figuras 9.4 e 9.S), as artérias cerebrais posteriores dirigem-se para trás, contornam o pedúnculo cerebral e, percorrendo a face inferior do lobo temporal, ganham o lobo occipital. A artéria cerebral posterior irriga, pois, a área visual situada nos lábios do sulco calcarino e sua obstrução causa cegueira em uma parte do campo visual. FIGURA 9.4 Artérias da face medial e inferior do cérebro. FIGURA 9.5 Artérias da face dorsolateral do cérebro. 6 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE VASCULARIZAÇÃO VENOSA DO ENCÉFALO As veias do encéfalo, de modo geral, não acompanham as artérias, sendo maiores e mais calibrosas do que elas. Drenam para os seios da dura-máter, de onde o sangue converge para as veias jugulares internas, as quais recebem praticamente todo o sangue venoso encefálico. Os seios da dura-máter ligam-se também às veias extracranianas por meio de pequenas veias emissárias que passam através de pequenos forames no crânio. As paredes das veias encefálicas são muito finas e praticamente desprovidas de musculatura. Faltam, assim, os elementos necessários à regulação ativa da circulação venosa. Esta se faz sobretudo sob a ação de três forças: a) Aspiração da cavidade torácica, determinada pelas pressões subatmosféricas da cavidade torácica, mais evidente no início da inspiração; b) Força da gravidade, notando-se que o retomo sanguíneo do encéfalo se faz a favor da gravidade, o que toma desnecessária a existência de válvulas nas veias cerebrais; c) Pulsação das artérias, cuja eficácia é aumentada pelo fato de que se faz em uma cavidade fechada. Este fator é mais eficiente no seio cavernoso, cujo sangue recebe diretamente a força expansiva da carótida interna, que o atravessa. O leito venoso do encéfalo é muito maior que o arterial; consequentemente, a circulação venosa é muito mais lenta. A pressão venosa no encéfalo é muito baixa e varia muito pouco em razão da grande capacidade de distensão das veias e seios. Asprincipais veias do encéfalo que se dispõem em dois sistemas: o sistema venoso superficial e o sistema venoso profundo. Embora anatomicamente distintos, estes dois sistemas são unidos por numerosas anastomoses. Sistema venoso superficial É constituído por veias que drenam o córtex e a substância branca subjacente, anastomosam-se amplamente na superfície do cérebro, onde formam grandes troncos venosos, as veias cerebrais superficiais, que desembocam nos seios da dura-máter. Distinguem-se veias cerebrais superficiais superiores e inferiores. As veias cerebrais superficiais superiores (Figura 8.3) provêm da face medial e da metade superior da face dorsolateral de cada hemisfério, desembocando no seio sagital superior. As veias cerebrais superficiais inferiores provêm da metade interior da face dorsolateral de cada hemisfério e de sua face inferior, terminando nos seios da base (petroso superior e cavernoso) e no seio transverso. A principal veia superficial inferior é a veia cerebral média superficial que percorre o sulco lateral e termina, em geral, no seio cavernoso. Sistema venoso profundo Compreende veias que drenam o sangue de regiões situadas profundamente no cérebro, tais como: corpo estriado, cápsula interna, diencéfalo e grande parte do centro branco medular do cérebro. A mais importante veia deste sistema é a veia cerebral magna ou veia de Galeno, para a qual converge quase todo o sangue do sistema venoso profundo do cérebro. A veia cerebral magna é um curto tronco venoso ímpar e mediano, formado pela confluência das veias cerebrais internas, logo abaixo do esplênio do corpo caloso, desembocando no seio reto. Suas paredes muito finas são facilmente rompidas, o que às vezes ocorre em recém-nascidos como resultado de traumatismos da cabeça durante o parto. 7 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE ANGIOGRAFIA CEREBRAL Injetando-se contraste nas artérias vertebral ou carótida interna e tirando-se uma sequência de radiografias, é possível visualizar em tempos sucessivos as artérias (Figura 9.1), veias e seios do encéfalo. Esta técnica é usada para diagnóstico e localização de processos patológicos que acometem os vasos cerebrais, tais como aneurismas, tromboses, embolias, lesões traumáticas etc. Atualmente utiliza-se de preferência a angiografia por Ressonância Magnética (Figura 9.3), cuja vantagem é não usar contraste nem necessitar de punção arterial, sendo, portanto, um método não invasivo. VASCULARIZAÇÃO DA MEDULA A medula espinhal é irrigada pelas artérias espinhais anterior e posteriores, ramos da artéria vertebral, e pelas artérias radiculares, que penetram na medula com as raízes dos nervos espinhais. A artéria espinhal anterior é um tronco único formado pela confluência de dois curtos ramos recorrentes que emergem das artérias vertebrais direita e esquerda (Figura 9.2). Dispõe-se superficialmente na medula, ao longo da fissura mediana anterior até o cone medular. Emite as artérias sulcais, que se destacam perpendicularmente e penetram no tecido nervoso pelo fundo da fissura mediana anterior. As artérias espinhais anteriores vascularizam as colunas e os funículos anterior e lateral da medula. As artérias espinhais posteriores direita e esquerda emergem das artérias vertebrais correspondentes, dirigem- se dorsalmente, contornando o bulbo (Figura 9.2) e, em seguida, percorrem longitudinalmente a medula, medialmente aos filamentos radiculares das raízes dorsais dos nervos espinhais (Figura 4.3). As artérias espinhais posteriores vascularizam a coluna e o funículo posterior da medula. As artérias radiculares (Figura 4.3) derivam dos ramos espinhais das artérias segmentares do pescoço e do tronco (tireóidea inferior, intercostais, lombares e sacrais). Estes ramos penetram nos forames intervertebrais com os nervos espinhais e dão origem às artérias radiculares anterior e posterior; que ganham a medula com as correspondentes raízes dos nervos espinhais (Figura 4.3). As artérias radiculares anteriores anastomosam-se com a espinhal anterior, e as artérias radiculares posteriores com as espinhais posteriores. 8 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE NIVEIS DE CONSCIÊNCIA É a dimensão subjetiva da atividade psíquica do sujeito que se volta para a realidade. É a capacidade do indivíduo de entrar em contato com a realidade, perceber e conhecer os seus objetos. Tipos: alerta/acordado, sonolento/letárgico, torporoso, comatoso. Quando o nível da consciência está normal ou até aumentado, o parâmetro usado é o grau de vigilância. Denomina-se então por vigil o estado normal da consciência. O rebaixamento da consciência ocorre em três níveis: Obnubilação ou confusão mental Sopor ou estupor Quando o rebaixamento da consciência ocorre juntamente com alucinações e delírios, e chamado de: Delirium Confusão mental ou Obnubilação: Rebaixamento da consciência em grau leve ou moderado. Caracteriza-se: hipoprosexia: diminuição da modulação afetiva da fala (fala monótona); Desorientação no tempo e no espaço; Pensamento empobrecido; Dificuldade de compreensão e raciocínio Apatia e inibição psicomotora O paciente pode se apresentar levemente sonolento ou vigil. A obnubilação não tem no seu quadro clinico alucinações e delírios. Estupor, torpor ou sopor: É um estado de turvação da consciência, com sonolência marcante. A fala se apresenta com hipoprosódia e oligolalia (ou mutismo). O paciente só pode ser despertado por estímulos fortes ou até dolorosos. Coma: É o grau mais profundo de rebaixamento da consciência. Não é possível qualquer atividade voluntária consciente. Nenhum estímulo, por mais forte que seja, é capaz de evocar uma resposta. Delirium: Rebaixamento do nível da consciência; Desorientação temporo-espacial; Ansiedade, Agitação ou lentificação motora Ilusões e/ou alucinações visuais. PRESSÃO INTRACRANIANA (PIC) Pressão intracraniana (PIC) é aquela encontrada no interior da caixa craniana, tendo como referência a pressão atmosférica. A PIC tem uma variação fisiológica de 5 a 15 mmHg e reflete a relação entre o conteúdo da caixa craniana (cérebro, líquido cefalorraquidiano e sangue) e o volume do crânio, que pode ser considerado constante (Doutrina de Monroe-Kellie). O fluxo sangüíneo cerebral (FSC) é diretamente proporcional à pressão de perfusão cerebral (PPC) e inversamente proporcional à resistência vascular cerebral (RVC). A PPC é igual a pressão arterial média (PAM) menos a pressão venosa. Como, no homem, a pressão nos seios venosos é difícil de ser medida e ela corre paralela à PIC, considera-se a PPC igual à diferença entre a PAM e a PIC. Portanto, o FSC pode ser expresso na seguinte equação: A auto-regulação do FSC pode ser definida como a capacidade de aumento do FSC devido ao aumento da necessidade metabólica do cérebro e diminuição do fluxo com redução da demanda (auto-regulação metabólica) ou como a capacidade de manutenção do fluxo apesar do aumento ou da redução da pressão arterial sistêmica (auto- regulação pressórica). A auto-regulação funciona adequadamente na faixa de variação da PAM, de 50 a 160 mmHg, o que significa que, conforme a PAM diminui, os vasos de resistência dilatam até que atinjam um ponto máximo em resposta à redução da pressão. A partir de 50 mmHg, o FSC reduz abruptamente com quedas adicionais da PAM. O resultado dessa intensa vasodilatação é um quadro de vasoplegia capilar, que provoca ingurgitamento da microcirculação. Essa vasoplegia pode ser irreversível e, com o aumento progressivo, a PIC pode igualar-se à PAM, interrompendo o FSC. Com o aumento da PAM, os vasos contraem-se até que a PAM atinja 160 mmHg, nível em que a pressão quebra a resistência da vasoconstrição, causandodilatação passiva e um aumento no FSC. . 9 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE AVE – Acidente Vascular Encefálico DEFINIÇÃO AVE (AVC ou derrame cerebral): Lesão encefálica* secundária a um mecanismo vascular e não traumático, caracterizado pela instalação súbita de um déficit neurológico, geralmente focal, de rápida evolução (Agudo), de origem vascular com duração > que 24 horas (ou menor, quando leva o paciente à morte). *abrange todo o encéfalo, visto que estruturas do tronco cerebral, diencéfalo e cerebelo também podem sofrer esses eventos vasculares. INTRODUÇÃO EPIDEMIOLOGIA 2ª causa mais comum de óbito no mundo (atrás apenas da cardiopatia isquêmica, mostrando a predominância dos eventos vasculares como causas de morte), e é o distúrbio neurológico mais incapacitante. No Brasil, é a causa mais frequente de óbito da população adulta, e corresponde a grandes gastos anuais nos setores de saúde pública – portanto sua prevenção é de interesse não só para a saúde, mas para a economia nacional. Maior causa de incapacidade em adultos. 75% dos pcte tem idade > 65 anos e sua incidência dobra a cada década a partir dos 55 anos. Ligeiro predomínio no sexo masculino em < 75 anos. Incidência 2x maiores na população negra, quando comparada a brancos. Fatores de risco para o AVE podem ser divididos em:) e Modificáveis (prevenção) HAS DM Dislipidemia Obesidade e sedentarismo Cardiopatias Tabagismo, Etilismo Uso de anticoagulantes Metafetamina, cocaína Não modificáveis Idade avançada Etnia negra Sexo Fatores genético Os AVEs são classificados em relação ao processo fisiopatológico subjacente em isquêmicos (AVEi) ou hemorrágicos (AVEh), Acidente vascular encefálico isquêmico (AVEi) Os AVEi são os mais comuns, representando até 85% dos casos, e têm como fatores de risco principais a HAS e a fibrilação atrial (portanto, fatores de risco modificáveis). Obstrução ao fluxo sanguíneo cerebral Isquemia Acidente vascular encefálico hemorrágico (AVEh) Sangramento no parênquima encefálico Já os AVEh, correspondendo a 15% dos casos, têm como principais fatores de risco a HAS, angiopatia amilóide (condição comum em pacientes com idade avançada), má formações vasculares (MAV) e uso de drogas ilícitas, em especial a cocaína (principalmente após as primeiras 48 horas de uso). Emergência neurológica Cefaleia leve coma SE LIGA! A hipertensão arterial é o principal fator de risco para ambos os tipos de AVE, isso porque é importante causa de aterosclerose de artérias carótidas e vertebrais, causando o AVE isquêmico, além de ser um dos fatores responsáveis pela formação dos aneurismas de Charcot- Bouchard, pequenos aneurismas que promovem fragilidade vascular e contribuem para o AVE hemorrágico quando rompidos, em geral durante um pico hipertensivo. 10 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE AVE isquêmico Os AVEi são os mais comuns, representando até 85% dos casos, e têm como fatores de risco principais a HAS e a fibrilação atrial (portanto, fatores de risco modificáveis). Obstrução ao fluxo sanguíneo cerebral Isquemia EPIDEMIOLOGIA DO AVE ISQUÊMICO Corresponde a 85% DOS AVES AVE embólico – 45% dos casos AVE criptogênico – 30% AVE trombótico lacunar - 20% AVE trombótico de artéria de médio calibre – 5% O AVE isquêmico trombótico mais comum é o AVE lacunar! São pequenos infartos (< 2cm) causados pela oclusão das artérias cerebrais perfurantes – que nutrem tálamo, cápsula interna e gânglios da base – em razão do espessamento hialino da camada média dessas artérias (a chamada “lipo- hialinose”, que tem como um dos fatores de risco também a HAS!). O AVE isquêmico trombótico de artérias médias é mais raro, sendo o mais comum o AVE por trombose de artéria basilar, devendo ser suspeitado quando o déficit neurológico se instala de forma subaguda (é o chamado “AVE em evolução”). ETIOLOGIA - AVE isquêmico Doenças de grandes vasos (aterosclerose) Cardioembolia Doença de pequenos vasos (artérias perfurantes) Causas incomuns: Dissecção arterial; Vasculites; Trombofilias; Doenças genéticas; Hemoglobinopatias (anemia falciforme), Procedimentos (cirurgias) Dissecção arterial: (20% dos AVE) - O sangue lesa o endotélio e faz um falso trajeto na parede do vaso, acumulando um hematoma/ coagulo, podendo embolizar e obstruir vasos distais, ou obstruir o próprio vaso Investigação etiológica: Perfil lipídico VHS Sorologia para sífilis e Chagas FISIOPATOLOGIA O AVE isquêmico é causado por uma obstrução súbita do fluxo arterial encefálico, devido, na maioria das vezes, a uma causa embólica (trombo proveniente de circulação distante) ou, mais raramente, trombótica (o trombo é formado na própria artéria envolvida no AVE). Quando não é possível determinar a causa do AVE, o denominamos AVE criptogênico. O AVE criptogênico é responsável por grande partes dos AVEs. Embora não tenha fisiopatologia esclarecida, estudos sugerem que seja decorrente de embolia paradoxal através de um forame oval patente no coração, ou que seja causado por êmbolos provenientes de placas ateromatosas instáveis da aorta ascendente. Têm, em geral, quadro clínico semelhante aos AVEs isquêmicos embólicos! Interrupção do fluxo ↓ Privação neural de oxigênio e glicose ↓ Disfunção neuronal ↓ ←Não reversão do quadro Lesão irreversível Nas primeiras 24 horas após o AVE, métodos como o PET scan podem delimitar as áreas infartadas e as zonas de penumbra. A interrupção do fluxo sanguíneo subsequente gera isquemia, privando neurônios e células gliais de oxigênio e glicose, e causando disfunção neuronal (quando o fluxo cerebral de oxigênio cai abaixo de 20ml/100mg/ min). Caso essa não haja reversão dessa situação, acontece o infarto do núcleo isquêmico, a morte do tecido e uma lesão irreversível. Ao redor da região infartada, existe a zona de penumbra (pode permanecer até 18 hrs), onde um mecanismo de extração aumentada de oxigênio apesar do baixo fluxo permite que a lesão causada seja potencialmente reversível, contanto que o fluxo sanguíneo seja restaurado (por recanalização do vaso ocluído ou circulação colateral, altamente dependente da pressão arterial – por isso, é preciso ter cuidado no controle da PA na fase aguda do AVE isquêmico!). Embora o TTO inicial do AVEi se faz independente da etiologia, a definição da causa é essencial para reduxir o risco de recorrência. Existem 2 tipos de AVE isquêmico de causa embólica: Cardioembólico: (20% dos AVEi) o êmbolo é proveniente do coração, na maior parte das vezes formado em razão da fibrilação atrial (trombo no átrio esquerdo); seguido do IAM de parede anterior (trombo no VE) e pelas cardiomiopatias (trombos no átrio ou VE) Arterioembólico: típico em pct hipertensos, o êmbolo é proveniente de uma artéria – em geral, uma placa aterosclerótica instável principalmente em artérias carótidas ou vertebrais (logo, como vimos, a HAS é fator de risco para AVE isquêmico arterioembólico por causar aterosclerose nessas artérias!) Após o infarto neuronal, instala-se principalmente o edema citotóxico (intracelular, devido ao desbalanço da bomba de Na/K pela falta de ATP), mas o edema vasogênico também pode acontecer (mais raramente e principalmente nos estágios tardios do infarto, extracelular, por extravasamento do líquido dos vasos para o parênquima em razão da permeabilidade capilar aumentada), e têm seu pico de 3-4 dias após o AVE, podendo causar complicações como hipertensão intracraniana e herniação cerebral. Nas primeiras 48 horas após o AVE, há migração de neutrófilos e monócitos para a região infartada, contribuindo para a inflamação local e edema cerebral.Após cerca de 10 dias, o edema citotóxico é resolvido, e a zona infartada fica nítida na fotografia. Após esse período, 11 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE as células fagocitárias produzem necrose de liquefação nessa região, deixando um aspecto cístico pelo centro liquefeito. Figura 3: RM de crânio em corte axial demonstrando edema citotóxico em hemisfério esquerdo. Observe que o edema é difuso e não segue um percurso definido. Figura 4: RM de crânio em corte axial demonstrando edema vasogênico em hemisfério direito. Observe que o edema é delimitado e segue o percurso arterial. Fonte: radiopaedia O Ataque isquêmico transitório (AIT) é um evento também isquêmico, mas não pode ser considerado AVE visto que trata-se de um déficit neurológico focal reversível, transitório, e de duração inferior a 24 horas (na clínica < 2 hrs). Em geral, é proveniente de causas arterioembólicas, e um pequeno número de casos advém de trombose em evolução. Ausência de isquemia nos exames de imagem. Além de ter manifestações clínicas semelhantes ao AVE isquêmico, é também um fator de risco para o mesmo: Cerca de 25% dos AVEs isquêmicos são precedidos de ataques isquêmicos transitórios, muitas vezes não identificados. ABCD 2 Item Pontuação Idade > 60 anos 1 PAS > 140 ou PAD > 90 1 Clínica Hemiparesia unilateral 2 Distúrbio da fala isolado 1 Outros 0 Duração dos sintoma > 60 minutos 2 10 – 59 minutos 1 < 10 minutos 0 Diabetes 2 0-3: baixo risco investigação ambulatorial 4-5: moderado risco internação hospitalar 6-7: alto risco internação hospitalar Se o AIT do tipo sintomas transitórios com infarto (TSI) faz lesão irreversível, como diferenciá-lo do AVE isquêmico? Pelo tempo, visto que o AIT tem sintomas com tempo inferior a 24 horas. Além disso, a região infartada do TSI costuma ser bem inferior que a do AVE isquêmico. Entretanto, seu reconhecimento é importante por se tratar de uma condição com altíssimo risco para AVE isquêmico. Prevenção para AIT não evoluir para AVEi: AAS, clopidogrel CLÍNICA Devemos ter em mente que o AVE é uma doença tempo-dependente, ou seja, reconhecer precocemente seus sinais clínicos é de extrema importância para se agir rápido no tratamento e aumentar as chances de recuperação completa. Os sinais e sintomas dependem da área acometida do encéfalo; por isso, ter conhecimento da anatomia vascular encefálica e das suas regiões de irrigação é de extrema importância para a avaliação clínica. O encéfalo é irrigado por dois sistemas arteriais: um mais anterior (sistema carotídeo) e outro mais posterior (sistema vertebrobasilar). Figura 6: Anatomia da vascularização do encéfalo – Polígono de Willis. 12 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE A depender da região infartada no AVE isquêmico, diferentes manifestações clínicas podem ser observadas: Sistema carotídeo • Artéria oftálmica: Alterações visuais monoculares Amaurose fugaz: perda visual rápida que reverte espontaneamente e é ipsilateral a carótida acomentida) • Artéria cerebral anterior: (local frequente de Aneurismas) Sinais de frontalização, Déficit motor e sensitivo na região proximal do membro superior contralateral Hemiparesia e/ou hemi-hipoestesia (MMIIs) • Artéria cerebral média: (Mais afetada no AVi) Déficit motor; Perda sensorial em face ou MMSS; Afasia de Wernick (área da compreensão da fala) e Broca (área motora da fala) no hemisfério dominante; Negligência no hemisfério não dominante; Hemiplegia fascio-braquio-crural (por atingir cápsula interna); Síndrome piramidal contralateral (por interrupção da via corticoespinhal) Obs.: Síndrome do 1º neurônio motor: ocorre quando atinge as artéria perfurantes do sistema lentículo- estriado, que irriga a cápsula interna (local mais atingido no AVE lacunar!). O paciente apresenta sincinesias, sinal de Babinski, hiperreflexia, espasticidade e sinreflexias. Sistema vertebrobasilar Hemianopsia, agnosia visual, síndrome de Balint (apraxia oculomotora) e síndrome de Anton-Babinski (o paciente perde a visão mas afirma ser capaz de enxergar) • Artéria cerebral posterior: Cefaleia ipsilateral, Alterações de memória, Hemibalismo*, Alterações do campo visual (hemianopsia homônima contralateral), Rebaixamento do nível de consciência (RNC), Déficit sensitivo, Alterações de funções nervosas superiores *(Hemibalismo ou balismo (quando bilateral) é um distúrbio neuromotor raro caracterizado por movimentos involuntários abruptos e possivelmente violentos e envolve mais a musculatura proximal do que distal (especialmente nas extremidades dos membros superiores) • Artéria vertebral ou cerebelar póstero-inferior: Síndrome bulbar (vertigem central, disfagia, náuseas, vômitos, nistagmo e ataxia ipsilateral) e Síndrome de Horner ipsilateral (ptose palpebral, anisocoria, perda da sensibilidade térmica e dolorosa em face ipsilateral, disartria e nistagmo para o lado infartado). Dentre as causas do RNC (Rebaixamento do nível de consciência) associado ao AVE, podem estar: Edema cerebral Transformação hemorrágica do AVE isquêmico nas primeiras 48 horas Crises convulsivas Distúrbios hidroeletrolíticos (principalmente hiponatremia e hiperglicemia) Infecções de repercussão sistêmica A artéria mais afetada pelo AVEi é a cerebral média, afetando locais irrigados por essa artéria, enquanto as mais atingidas pelo AVEh são os ramos perfurantes. Se incluem nesse quadro paresias e parestesias plenas ou no lado contralateral à artéria afetada, alterações na visão, afasias, rebaixamento de nível de consciência, tontura e distúrbios de marcha (principalmente nos AVEs cerebelares), cefaléias súbitas (muito relacionadas à HSA), dentre outros. O chamado “AVC isquêmico maligno” ou “infarto maligno cerebral” é definido como o infarto de mais de 50% do território de irrigação da artéria cerebral média, representando grande parte do hemisfério cerebral, e têm mortalidade de 80% apesar do tratamento conservador adotado, sendo uma importante causa de morte encefálica A escala de Hunt-Hess é a principal utilizada para determinação clínica do prognóstico, e também como definidora de condutas. ESCALA DE HUNT-HESS I Assintomático ou cefaléia ou rigidez de nuca leves; ECG = 15 II Cefaléia ou rigidez de nuca moderadas a grave; possível acometimento de par craniano; ECG 13- 14 III Estado confusional; possível déficit focal leve; ECG 13-14 IV Torpor; possível hemiparesia moderada a grave; ECG 7-12 V Coma; com ou sem descerebração; ECG 3-6 DIAGNÓSTICO O diagnóstico de AVE depende fundamentalmente de uma anamnese acurada, obtida do próprio pct ou de seus familiares e acompanhentes. O AVE desse ser suspeitado nos casos em que ocorra déficit neurológico principalmente focal, de instalação súbita ou de rápida progressão (minutos a horas). • Escala FAST: É usada na triagem para reconhecimento rápido de sinais clínicos de AVE, baseada na escala de suspeita pré-hospitalar de Cincinnati, que se baseia em: Face (paralisia facial), Arms (fraqueza nos MMSS), Speech (alterações de fala) e Time (tempo dos sintomas). Déficit neurológico focal súbito > 15 minutos = internação e exame de imagem! Saber o tempo do início de sintomas é essencial, já que a janela terapêutica para se fazer uma trombólise intravenosa no caso de AVE isquêmico é de apenas 4,5 horas! 13 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE Figura 7: Escala pré-hospitalar de Cincinnati. • Escala NIH: A escala frequentemente utilizada para quantificar o déficit neurológico é a National Institute of Health (NIH), podendo ser executada de formarápida por uma ampla gama de profissionais da saúde. Ela avalia o déficit do AVE através da pontuação de 15 parâmetros, variando de 0 (sem déficit) a 42 (maior déficit). Os parâmetros são: nível de consciência observado, orientação no tempo (em relação a mês e idade), resposta a comandos, olhar, campo visual, movimento facial, função motora de membros superiores e inferiores, ataxia de membros, sensibilidade, linguagem, articulação da fala, e extinção ou desatenção durante o exame. NIH – Escala de AVE • Tomografia Computadorizada sem contraste: é o exame de imagem de escolha, por ser mais acessível e ter boa sensibilidade. Recomenda-se realizá-la em duas etapas: 1ª TC na chegada do paciente (importante na exclusão do AVEh e também diagnóstico de possíveis tumores, sangramentos meníngeos e intraparenquimatosos) A 1ª TC deve estar laudada em menos de 45 minutos para se proceder ao tratamento o mais rápido possível. Lembrando que este NÃO é o exame para diagnóstico de pequenos infartos corticais e subcorticais, ou daquelas lesões localizadas em fossa posterior. No AVEi a TC nas 1ªs horas é normal 2ª TC após 72 horas do início dos sintomas (TC de controle e definidora da anticoagulação do paciente no caso de AVE isquêmico). O escore ASPECTS é usado para avaliação do dano isquêmico na TC de crânio do AVE i, subdividindo o território de irrigação da artéria cerebral média (ACM) em 10 regiões que serão avaliadas em dois cortes: o primeiro na altura do tálamo e núcleos da base e o segundo acima dos núcleos da base. Figura 8: Regiões da ACM subdivididas pelo score aspects. A= circulação anterior; P = circulação posterior; C = lobo caudado; L = núcleo lentiforme; IC = cápsula interna; I = ínsula; MCA = artéria cerebral média; M1 = córtex anterior; M2 = córtex da ACM lateral à ínsula; M3 = córtex posterior da ACM; M4, M5 e M6 são territórios da ACM anterior, lateral e posterior, lateral e posterior imediatamente superiores a M1, M2 e M3, rostraisaos núcleos da base. 14 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE A TC normal corresponde a um escore ASPECTS de 10, e o escore 0 se refere à isquemia difusa de todo o território da ACM. Cada área hipodensa na TC sem contraste diminui um ponto no escore. Pacientes com escore < 7 têm um maior risco de transformação hemorrágica e pior evolução neurológica. Figura 9: TC de crânio: AVE isquêmico em hemisfério direito. (Área hipoatenuante - Acometimento da A. cerebral ½ direita) Figura 10: TC de crânio: Hematoma intraparenquimatoso secundário à AVE hemorrágico em hemisfério esquerdo. (Área hipertatenuante) Figura 11: TC de crânio: Hemorragia subaracnóidea. Em caso de suspeita de HSA e TC normal, devemos realizar uma punção liquórica – que apresentará sangue se nas primeiras 12 horas após o evento, e aspecto xantocrômico (amarelado, devido à conversão de hemoglobina em bilirrubina) após esse período. Exames a serem solicitados na Fase aguda: RM com difusão: mais sensível que a TC, diagnóstica área isquêmica muito precocemente, tendo mais acuracia que a TC no AVEi; porém, é um exame que demora e não tão acessível, é a TC é superior à RM na hemorragia subaracnoidea. Muito útil nos casos de dúvida se há AVE na TC, ou então nos pacientes com janela terapêutica desconhecida ou fora da janela, para se avaliar melhor a zona de penumbra. Além disso, é o exame de escolha para avaliação da fossa encefálica posterior, região que não pode ser bem avaliada na tomografia. Coagulograma: Devemos esperar seu resultado antes de realizar a trombólise (no caso de AVE isquêmico) caso haja história de uso de anticoagulantes ou suspeita de alterações. Tempo de protrombina e INR Outros exames laboratoriais: Uréia, Creatinina, Eletrólitos, hemograma completo, ferritina, Troponina, gasometria, marcadores de necrose miocárdica e ECG também devem ser realizados nesses pacientes. Não atrasam a trombólise! Para o diagnóstico etiológico, podemos utilizar de outros exames, como: Angiotomografia helicoidal Faz rápida análise dos grandes vasos intra e extracranianos e permite reconhecer obstruções e estenoses nos grandes vasos; quando comparada à angiografia cerebral, apresenta grande acurácia na identificação de obstrução de grandes vasos. Doppler transcraniano Determina a artéria intracraniana obstruída no AVEi Ecocardiograma Podemos verificar causas de AVE isquêmico, como aneurisma vorticular de ventrículo esquerdo, trombos, doença de chagas... Doppler de carótidas Permite verificar aterosclerose Em < 45 anos ou > 45 anos sem etiologia definida, investigar: ECO TE Holter 24 hrs Angiografia convencional Doenças autoimunes Exame toxicológico Líquor Pesquisa de trombofilias TRATAMENTO Objetiva preservar a vida, limitar o dano cerebral, diminuir as incapacidades e evitar repetição do AVE. O manejo na urgência é oposto em cada tipo de AVE: No AVEi, queremos desobstruir as artérias e permitir maior afluxo sanguíneo para o cérebro, No AVEh, precisamos controlar o sangramento. 15 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE AVE isquêmico Medidas de suporte: • Suporte respiratório: não necessitam de suplementação de oxigênio, exceto em casos em que a oximetria de pulso indicar uma saturação < 92%. • Temperatura: a temperatura corporal deve ser monitorada e mantida dentro da faixa normal, próxima aos 36,5 °C, isso leva a uma redução na morbimortalidade dos pacientes com AVCI. Já a hipertermia aumenta a liberação de radicais livres no tecido isquêmico, eleva a atividade metabólica neuronal, além de alterar a atividade de alguns neurotransmissores. • Monitorização cardíaca: é obrigatória nas primeiras 24 horas, pois as arritmias cardíacas geralmente estão presentes no período pós-AVEI, e algumas delas são causadoras de eventos isquêmicos. • Pressão arterial: Se hipertensão arterial: não baixar no primeiro dia. Exceto quando PA > 220 x 120 mmHg; Droga de escolha: Nitroprussiato de Sódio (0,5 mcg/ kg/min) 24 horas após Trombolítico se PA > 185 x 110 mmHg. Nos pacientes não submetidos à trombólise, somente administrar anti-hipertensivos se PA > 220x120mmHg. Sem trombolise < 220 x 110 Antes da trmbólise < 185 X 110 Após trombólise < 180 X 105 • Glicemia: deve ser monitorada de 6/6 horas; Deve-se descartar a hipoglicemia, que isoladamente já causa lesão cerebral. Se hiperglicemia, iniciar insulina se glicemia > 140- 185 mg/dL nas primeiras 24 horas, pois indicam pior desfecho clínico, sendo necessária intervenção terapêutica para hiperglicemia. Outras medidas: Paciente deve permanecer deitado com a cabeceira do leito elevada a 30º Manter nutrição adequada: a dieta deve ser iniciada nas primeiras 48 horas. Monitorizar: Natremia (diariamente, normal 135- 145 mEq/l) e Hidratação (se necessário, usa-se ringer lactato) Deve-se evitar a hiper-hidratação e o uso de soro glicosado (pelo risco de hiponatremia dilucional e hiperglicemia) Medidas específicas: • Antiagregante plaquetário: o ácido acetilsalicílico (AAS) é a droga de escolha no AVE, podendo ser usado em pacientes sem indicação de rtPA e como forma de prevenção de recidiva, na posologia 100 a 325mg/dia VO nas 48 horas iniciais) • Heparina: Deve ser usada na dose profilática para tromboembolismo venoso, e não a heparinização plena. Usa-se HNF 5000 UI 8-12h ou HBPM (enoxaparina 40mg SC/ dia). O anticoagulante oral de escolha é a warfarina sódica. • Trombolítico: Devemos considerar a possibilidade de terapia trombolítica endovenosa (TEV) com ativador de plasminogênio tecidual recombinante (rtPA) se os pacientes preencherem os critérios de inclusão e não tiverem contra-indicações absolutas. O mais utilizado é o Alteplase,na posologia 0,9mg/ kg EV, 10% em bolo e o restante em 1 hora. Ela diminui as sequelas, mas não reduz a mortalidade, quando iniciada até 4,5 horas do início dos sintomas. Critérios de inclusão da TEV: Critérios principais de indicação da terapia trombolítica endovenosa Idade > 18 anos; Diagnóstico de ACVI em qualquer território cerebral; Evolução < de 4,5 horas até a infusão do trombolítico; TC de crânio sem evidências de hemorragias; Possibilidade de se estabelecer precisamente o horário do início dos sintomas; Paciente ou familiar responsável capacitado a assinar termo de consentimento informado Critérios de exclusão da TEV: Alguns dos principais critérios de exclusão da indicação da terapia trombolítica endovenosa. Uso de anticoagulantes orais ou TP > 15 segundos (INR > 1,7); uso de heparina nas últimas 48 horas e PTTa elevada; AVC ou traumatismos cranioencefálicos (TCE) grave nos últimos 3 meses; História pregressa de alguma forma de hemorragia cerebral (HSA, AVEh); TC de crânio mostrando evidências de hemorragias ou edema cerebral em desenvolvimento; PAS > 185 mmHg ou PAD > 110 mmHg (medidas em 3 ocasiões, com 10 minutos de intervalo); Sintomas melhorando rapidamente; Défcits neurológicos leves ou isolados; Cirurgia de grande porte ou procedimento invasivo dentro das últimas 2 semanas; Hemorragia geniturinária ou gastrointestinal nas últimas 3 semanas; Punção arterial não compressível ou biópsia na última semana; Coagulopatia com TAP, PTTa elevados, ou plaquetas < 100.000/mm³; Glicemia < 50 md/dL ou > 400 mg/dL; Crise convulsiva precedente ou durante a instalação do AVE; Evidência de pericardite ativa, endocardite, êmbolos sépticos, gravidez recente, doença inflamatória intestinal, ou lactação; abuso de álcool ou drogas. 16 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE Após verificar os critérios de inclusão e exclusão, é necessário: 2 acessos venosos periférico. Controle rigoroso de PA (PA < 180 x 105 mmHg nas 24 horas após trombolítico). Evitar acesso venoso central ou punção arterial antes da trombólise até 24 após. Evitar sondagem vesical ante e após 30 minutos da trombólise. Evitar sonda nasogástrica antes e nas 24 horas após a trombólise. Trombólise: uso de rt-PA (ativador de plasminogênio tecidual recombinante) Alteplase com dose total = 0,9 mg/kg, até no máximo de 90 mg, sendo 10% da dose em bolus EV e 90% em 60 minutos, de preferência em bomba de infusão. • Cuidados pós trombólise: Manter a cabeceira a 0º nas primeiras 24 horas, e depois a 30º; PA e NIHSS a cada 15 min por 2h, depois a cada 30 min por 6h, depois a cada 1h por 24h (objetivo é manter PA < 6h; Idade ≥ 18; Oclusão de carótida interna ou ramo M1 da artéria cerebral média; NIHSS ≥ 6. Trombectomia mecânica: (Através de um cateter na femoral faz a retirada do trombo) A trombectomia mecânica está indicada em pacientes com AVEI agudo que apresentam oclusão de artéria carótida interna ou artéria cerebral média proximal (M1) com até 6 horas do início dos sintomas, - idade ≥ 18 anos, - pontuação ≥ 6 na Escala de AVC do NIH, - TC de crânio com pontuação ≥ 6 na Escala ASPECTS e pontuação 0-1 na Escala de Rankin modificada (mRS) antes do AVC atual (mRS pré-AVC). O tratamento trombolítico intravenoso não deve ser prescindido em favor do tratamento endovascular quando o tempo de evolução estiver dentro da janela terapêutica para o uso da alteplase. Pacientes com AVCI e tempo de evolução avançado (6-24 horas) podem ser elegíveis para trombectomia primária se adequadamente selecionados pelos seguintes critérios: TTO do AVEi ↓ Avaliar a possibilidade de trombólise ↓ ↓ Suporte clínico Prevenção de complicações Pesquisar mecanismo do AVEi Idade > 18 anos? Diagnóstico clínico de AVEi? Tempo de início do déficit até o início da trombolise EV < 4,5 horas? ↓ NÃO ↓ AAS Unidade de AVE Monitorização ↑ SIM para todos ↓ Existe contraindicação? SIM NÃO ↓ Usar bom senso e prescrever T-PA (*nenhum anticoagulante ou aspirina nas primeiras 24 hrs) Cirurgia descompressiva: Existem estudos que mostram benefício da craniectomia descompressiva precoce, quando realizada até 48 horas da instalação do AVE, em pacientes com infarto maligno da ACM, idade < 60 anos, e pacientes que apresentam condições clinicas; o que propiciou redução da mortalidade e um número maior de pacientes com evolução favorável. Tratamento das principais complicações agudas Edema cerebral: O tratamento inicial começa com algumas medidas também profiláticas, como o controle de PA e a elevação da cabeceira. Em casos em que a hipertensão intracraniana é uma urgência (PIC>20mmHg), medidas como o uso de diuréticos osmóticos e descompressão cirúrgica podem ser adotadas. Transformação hemorrágica: o uso precoce do AAS pode aumentar o risco dessa complicação, além de ser influenciada por fatores como localização da isquemia, tamanho e mecanismo. Eventos petequiais pequenos não têm importância clínica em comparação aos hematomas parenquimatosos, que evoluem com deterioração neurológica. 17 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE Convulsões: em geral, acontecem nas primeiras 24 horas após o AVEi. Hoje, a profilaxia anticonvulsivante com fenitoína está indicada apenas se secundária. PROGNÓSTICO Após um AVE, o resultado do quadro é influenciado por vários fatores, mas dentre eles existem dois principais: a natureza e a gravidade do déficit neurológico resultante. Idade do paciente, etiologia do AVE e comorbidades também são fatores importantes. De forma geral, 80% desses pacientes sobrevivem pelo menos um mês após o episódio, mas apenas 35% têm um prognóstico superior a 10 anos. Grande fator de piora é a recidiva do AVE, que acontece em 25% desses pacientes nos 5 anos subsequentes, e costuma deixar sequelas mais debilitantes que o primeiro episódio. A recuperação neurológica completa ocorre em apenas 10% dos pacientes, e a maioria dos déficits que permanecem após 12 meses é permanente. Porém, um fator de esperança é a neuroplasticidade cerebral: os primeiros 3 meses após o AVE são os mais importantes para o cérebro reaprender antigas atividades e funções, mostrando a importância do tratamento correto e atividades fisioterápicas para a recuperação e reabilitação pós-AVE. REABILITAÇÃO Todos os pacientes internados com diagnóstico de AVC recente devem ser avaliados por uma equipe de profissionais de reabilitação com prazo de até 24 horas do momento da internação, com atenção na deglutição (em jejum) e nos aspectos motores e respiratórios, respectivamente pelo acionamento automático das equipes de fonoaudiologia e fisioterapia. A avaliação protocolar inicial da equipe de reabilitação inclui a aplicação das escalas funcionais Rankin modificada (mRS) para todos os pacientes com diagnóstico de AVC e Barthel para os pacientes diagnosticados e em acompanhamento com a equipe de fisioterapia da instituição. As escalas de avaliação funcional devem ser aplicadas no período inicial e final da internação hospitalar e, a partir delas, deve ser elaborado um plano de reabilitação individualizado para cada paciente, que poderá incluir a avaliação de outros profissionais de reabilitação. Os resultados da aplicação do plano de reabilitação devem ser periodicamente avaliados por cada profissional da reabilitação para os devidos ajustes no mesmo. Deve ser considerado o encaminhamento do paciente para o Centro de Reabilitação do HSL, visando recursos tecnológicos e ambientais adicionais com o objetivo de potencializar a reabilitação frente à avaliação do médico fisiatra e em concordânciacom a equipe médica responsável. O paciente deve receber educação referente aos cuidados de reabilitação, incluindo orientações sobre sua doença, fatores de risco relacionados e a continuidade do tratamento de reabilitação no período após a alta hospitalar. Prevenção 2ªria Controle dos fatores de risco Doença de grandes vasos Clínico: antiagregação plaquetária + estatina Cirurgico/endovascular: estenose de carótida Sintomática: grau de estenose (AVE nos últimos 6 meses) Assintomática: TTO conforme grau de estenose - <50% TTO clínico - 50-69%: Homem – intervenção, mulheres – TTO clínico ou intervenção - 70 – 99%: intervenção Intervenção: Endarterectomia, se alto risco cirúrgico Endovascular (cateterismo) Cardioembolia Anticoagulante oral Fatores de risco: Fibrilação atrial Trombo intracavitário Acinesia de parede ventricular Baixa Fração de ejeção Doença de pequenos vasos AAS + estatina 18 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE Ações de prevenção 2ª em pacientes com AVE Antiagregação plquetária Todo pct com hstória de AVE isquêmico deve receber AAS 100-300 mg/dia ou clopidogrel 75 mg/dia Estatinas Adm estatina independente do colesterol LDL basal para pct com AIT ou AVEi de origem aterosclerótica. Recomenda-se atorvastatina (80 mg) ou sinvastatina (40 mg). Controle da PAS Para TTO de fase aguda/hiperaguda, evitar administrar anti-hipertensico antes que o pct chegue ao serviço de emergência; considerar apenas se PAS > 180 ou PAD >. Após a fase aguda, o alvo a ser atingido é 120/80 mmHg. A 1ª escolha de anti-hipertensivo pós AVE é diurético ou a combinação de diurético e IECA Controle do diabetes Alvo de hemoglobina glicosilada em torno de 7%, porém é importante evitar hipoglicemiante (tanto no evento agudo quanto após) Terapia antitrombótica na fibrilação atrial Devido ao risco de sangramento do tecido isquêmico, o tempo para iniciar anticoagulação após o AVE não está bem estabelecido. Em AVE de pequena extensão, pode ser iniciada imediatamente, Em AVE de extensão moderada, deve ser iniciado após 5 a 7 dias Em AVE de grande extensão deve-se aguardar cerca de 2 semanas Anticoagulação com Varfarina, visando RNI entre 2 e 3. Lembrar que a idade avançada isoladamente não deve ser contraindicação ao uso: - Pct com contraindicação social ou dificuldade em aderir ao controle do RNI, prescrever: Dupla antiagregação (AAS 100 mg + clopidogrel 74 mg) Novos anticoagulantes: - dabigatem 150 mg/2x dia; ou - Rivaroxabam 20 mg 1x/dia (Contraindicado em insuficiência renal, hepática ou doença valvar cardíaca) - Pct com contraindicação à anticoagulação por risco de sangramento cerebral (AVEh prévio) prescrever: AAS 300 mg Estenose de carótida em AVE em território arterial ipsilateral (doença carotídea sintomática) Estenose carotídea > 70%: endarterectomia em todos os pacientes em até 6 meses, de preferencia nas primeiras 2 semanas do envento; Estenose carotídea entre 50 a 69%: indicação deve ser individualizada: Idade > 75 anos Sexo masculino Comorbidades Gravidade dos sintomas Estenose carotídea < 50%: TTO clínico de fatores de risco Estenose de carótida em AVE em território arterial contralateral (doença carotídea assintomática) Estenose entre 60 a 99%: benefícios de endarterectomia discutível, apenas em casos muito selecionados Estenose carotídea < 60%: TTO clínico de fatores de risco 19 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE AVE hemorrágico Sangramento no parênquima encefálico Os AVEh, correspondendo a 15% dos casos, têm como principais fatores de risco a HAS, angiopatia amilóide (condição comum em pacientes com idade avançada), má formações vasculares (MAV) e uso de drogas ilícitas, em especial a cocaína (principalmente após as primeiras 48 horas de uso). Emergência neurológica Cefaleia leve coma Epidemiologia 1/3 dos pcts morre em até 30 dias Maiores custos de internação Apenas 20% apresentam independência funcional em 6 meses 4 milhões de pessoas por ano no mundo Maior incidência em países em desenvolvimento Fisiopatolofia No AVE hemorrágico ocorre pela ruptura de estruturas vasculares cerebrais, fazendo compressão das estruturas encefálicas e causando isquemia secundária e edema. Pode ser devido a uma: Hemorragia Intraparenquimatosa (HIP), quando o sangramento acontece dentro do parênquima cerebral, principalmente devido à fragilidade da parede vascular e rompimento dos aneurismas de Charcot-Bourchard (causados pela adaptação do vaso à HAS); Causando uma elevação aguda da PIC, já que ocorre o edema vasogênico ao redor da lesão, organização do coágulo e compressão dos tecidos adjacentes. O hematoma pode aumentar de tamanho nas próxima 12-36 horas, contribuindo para uma piora neurológica. Possui alta letalidade (aprox. 50%) levando a óbito por HIC (hipertensão intracraniana) que leva a herniação cerebral) Ou devido a uma Hemorragia Subaracnóidea (HSA), quando o sangramento ocorre entre as meninges aracnóide e pia- máter, principalmente pelo rompimento de aneurismas saculares. O sangue no espaço subaracnoide produz uma meningite química, que geralmente aumenta a PIC durante dias ou semanas. Os vasoespasmo subsequente pode produzir isquemia cerebralfocal. Cerca de 25% dos pct desenvolvem sinais de AIT ou AVEi. O edema cerebral é máximo e o risco de vasoespasmo e infarto subsequente é maior entre 72h e 10 dias. A hidrocefalia aguda 2ª também é comum. As vezes ocorre uma 2ª ruptura (ressangramento), em geral em um período de até 7 dias. Figura 5: Diferença entre hemorragia intraparenquimatosa e hemorragia subaracnóidea. AVCh primário Hipertensivo Angiopatia amiloide AVCh secundário Coagulopatia Discrasias sanguíneas (12 – 14% dos casos): anticoagulantes, insuficiência hepática, renal Malformações vasculares (MAV, aneurisma, cavernomas) Trombose venosa cerebral Neoplasias Endocardite (aneurisma micóticos) O tipo mais comum de AVE hemorrágico é o hipertensivo! Fisiopato: diferença de pressão entre os vasos (grande e perfurantes), levando a uma necrose fibrinoide da parede do vaso (lipo-hialinose). Causado pelo rompimento dos aneurismas de Charcot-Bouchard, durante um pico hipertensivo, principalmente nas artérias perfurantes (as mesmas acometidas pelo AVE isquêmico lacunar). O acúmulo de sangue no parênquima cerebral ou no espaço subaracnóide (por compressão) eleva agudamente a PIC, em razão do edema vasogênico causado em volta do hematoma pelo rompimento vascular. Localizações típicas: Não Núcleos da base Tem Tálamo Pressão Ponte Controlada Cerebelo 20 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE Angiopatia Amiloide - Deposição de proteínas β-amiloide na parede dos vasos, deixando-os frágeis e propensos a sangramento O β-42 nos neurônios leva ao Alzheimer O β-40 pode se acumular na parede dos vasos - Ocorre apenas nos vasos das leptomeninges (corticais), gerando hemorragias lobares. - Comum em idosos. Quanto maior a extensão do sangramento e o volume do hematoma, maior será a hipertensão intracraniana e pior será o prognóstico. Além disso, outros fatores podem piorar esse prognóstico, como a presença de sangue nos ventrículos (hemoventrículo) ou hemorragia subaracnóidea. Esses parâmetros são analisados na Escala de Fisher modificada, criada inicialmente para análise seletiva de hemorragias subaracnóideas mas hoje utilizada para mensurar prognóstico de qualquer AVE hemorrágico. O hematoma aumenta de tamanho nas 12-36 horas seguintes ao AVE, pela inflamação local, contribuindo para a piora clínica e para o pior desfecho.ESCALA DE FISHER MODIFICADA Observe que a presença de sangramento intraparenquimatoso, independente de sangue nos ventículos ou no espaço subaracnóideo, já classifica Fisher 4. Grau 0 Ausência de sangramentos Grau 1 HSA < 1mm, sem HIP ou sangue nos ventrículos Grau 2 HSA < 1mm, com sangue nos ventrículos laterais, sem HIP Grau 3 HSA > 1mm, sem HIP ou sangue nos ventrículos Grau 4 HSA > 1mm, com sangue nos ventrículos laterais OU HIP (HIP) Hemorragia Intraparenquimatosa (HSA) Hemorragia Subaracnóidea Ao comprimir as estruturas encefálicas que contém os neurônios do sistema reticular ascendente, (responsáveis pela vigília), como o tálamo e mesencéfalo, o sangramento provoca rebaixamento do nível de consciência e até coma. SE LIGA! A letalidade da hemorragia intraparenquimatosa (HIP) é extremamente alta, em torno de 50%. O paciente vai a óbito, em geral, por consequências da hipertensão intracraniana, como a herniação cerebral (que causa compressão do tronco encefálico por protusão de estruturas cerebrais para além de seu limite anatômico) CLÍNICA No AVE hemorrágico, os sintomas aparecerão de acordo com o local em que a hemorragia esteja concentrada. Déficit neurológico focal: Hemiparesia, hemi-hipoestesia, disartria, afasia, ataxia, Alterações de nervos cranianos, alterações visuais. Quadro clínico clássico Cefaleia súbita - forte intensidade Náuseas, vômitos Rebaixamento do nível de consciência Os locais mais acometidos na Hemorragia Intraparenquimatosa (HIP) são: Putâmen – 30 a 50% dos casos Tálamo – 15 a 20% Cerebelo – 10 a 30% Ponte – 10 a 15% Hemorragia Intraparenquimatosa (HIP) • Hemorragia no putâmen: (30 a 70%) Costuma atingir a cápsula interna, cursando com quadro súbito de hemiplegia fasciobraquiaquicrural contralateral. Desvio do olhar conjugado contrário à hemiplegia também pode ocorrer. Aqui, a hemorragia pode se estender e causar hemoventrículo. • Hemorragia talâmica: Também atinge a cápsula interna, gerando os mesmos sintomas da hemorragia no putâmen, associada a hemianestesia para todas as sensibilidades. Pela extensão da hemorragia ao hipotálamo e teto do mesencéfalo, são comuns: desvio dos olhos em direção ao nariz, ou para o lado da hemiplegia; pupilas mióticas; anisocoria com pupila menor ao lado da hemorragia (síndrome de Horner) e afasia talâmica. É comum a hemorragia se estender ao terceiro ventrículo. • Hemorragia de cerebelo: gera quadro idêntico ao AVE isquêmico cerebelar (náuseas, vertigem central, vômitos e ataxia cerebelar aguda). Têm grande efeito expansivo, podendo comprimir o IV ventrículo e levar à hidrocefalia obstrutiva, piora da HIC e coma. A complicação mais temível é a herniação através do forame magno e conseqüente compressão de estruturas como amígdalas cerebelares e bulbo, levando à apnéia súbita e morte. • Hemorragia de ponte: Tem um quadro muito característico: quadriplegia súbita, coma e pupilas mióticas e fototorregentes, além de perda dos reflexos oculocefálicos. Decerebração, hiperpneia e hiperidrose são achados comuns, e a letalidade é alta: quase 90% dos casos. A hemorragia lobar (ou seja, dos lobos frontal, parietal, temporal e occipital) é um tipo de HIP que acomete principalmente os idosos, em razão de sua causa: a angiopatia amilóide que ocorre nesta idade, a rotura de microvasos subcorticais cujas paredes contém depósitos amilóides. Os pacientes com doença de Alzheimer são, portanto, ainda mais propensos a esta condição! Já na Hemorragia Subaracnóidea (HSA), o quadro clínico é caracterizado por uma súbita cefaléia holocraniana de forte intensidade (a “pior da vida”), do tipo “tunderclap” ou em “trovoadas”, podendo evoluir com síncope, vômitos, rigidez de nuca e sinais de meningismo e associada ou não a 21 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE déficit neurológico focal – o principal é a paralisia do nervo oculomotor, gerando anisocoria (diâmetro desigual das pupilas), diplopia e estrabismo divergente. Crises convulsivas são uma complicação frequente nestes casos. A mesma ocorre por ruptura de aneurismas saculares intracranianos. È uma situação extremamente grave, levando a morte em 32% a 6&% dos casos. Esses aneurismas ocorrem em bifurcações arteriais ao polígono de Willis, como na artéria comunicante anterior, A. comunicante posterior e na A. cerebral ½. DIAGNÓSTICO História + exame físico + exames Hemograma TAP (INR), TTPa Eletrólitos Função renal e hepática Exame toxicológico TC TC: presença de hiperatenuação no parênquima cerebral Hemorragia pontinha TC; Sangramento Lobar, típico na Angiopatia Amiloide RNM – SWI: microssangramentos nos vasos superficiais decorrente da deposição de peptídeo β-40 na parede endotelial (deposito de hemosiderina e ferritina) TC sem contraste - Apresenta um “emaranhado de vasos” TC com contraste - Emaranhado de vasos, corresponde a uma má-formação arterio-venosa RNM: sinais de fluxo e arteriografia Estratificação de Risco- Escala AVEh Escore ICH Mortalid ade em 30 dias Dado clínico Achado Pontos Glasgow de admissão 3-4 2 0 0% 5-12 1 13-15 0 1 13% Idade >80 anos 1 2 25% <80 anos 0 Local do hematoma Infratentorial 1 3 72% Supratentorial 0 Volume do hematoma >30ml 1 4 97% <30 ml 0 Hemoventrí culo Sim 1 5 100% Não 0 6 Escore ICH: 0-6 pontos V I G I L Volume Idade Glasgow Inundação ventricular Localização do hematoma 22 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE TRATAMENTO Objetiva preservar a vida, limitar o dano cerebral, diminuir as incapacidades e evitar repetição do AVE. O manejo na urgência é oposto em cada tipo de AVE: No AVEi, queremos desobstruir as artérias e permitir maior afluxo sanguíneo para o cérebro, No AVEh, precisamos controlar o sangramento. AVE hemorrágico A – Vias aéreas B- Ventilação C - Circulação Exame físico geral e neurológico direcionado: Hemograma Função Renal Função hepática Coagulograma Eletrólitos TC de crânio - Definir localização - Volume - Presença de acometimento ventricular Devemos aproveitar a “golden hour”, ou seja, a 1ª hora depois do AVE, para promover cuidados intensivos e avaliar a necessidade de cirurgia. Para parar o sangramento, temos que: Fazer controle rígido da PA Reverter possíveis coagulopatias. A avaliação de um neurocirurgião também é necessária, embora as indicações de reversão cirúrgica ainda sejam restritas e pouco estabelecidas. Hemorragia intraparenquimatosa (HIP) O tratamento da HIP é basicamente de suporte: pacientes com RNC devem ser intubados, suportados por ventilação mecânica, bem como monitorização hemodinâmica com cateter de PA invasiva e, na maioria das vezes, um cateter ventricular para a monitorização da PIC (pressão intracraniana). 3 pilares do manejo do Hematoma intraparenquimatoso Correção de discrasias sanguineas Controle da PA TTP cirurgico Controle da PA: Busca manter PAS < 140mmHg e PAM <130mmHG; Uso: labetalol e nitroprussiato de sódio. O controle glicêmico deve ser realizado tal como o AVE isquêmico. Se a causa da hemorragia intracraniana for um distúrbio da hemostasia, este deve ser tratado o mais rápido possível, com transfusão de hemocomponentes (plasma, plaquetas etc.). Se o paciente estiver em uso de anticoagulante ou antiplaquetário, esses devem ser descontinuados e os efeitos revertidos com antídotos. TTO: Tratar a causa base Reversão de coagulopatias: É direcionada de acordo com a causa base, e realizada reversão quando RNI > 1,4. Aqui, é essencial saber as medicações de uso do paciente e quando foi a última dose, visto que muda a conduta de acordo com o uso de antiagregantesou anticoagulantes! Tabela 7: Antídotos utilizados para as principais medicações anticoagulantes de uso contínuo. MEDICAÇÕES DE USO REVERSÃO DE COAGULOPATIA Varfarina Vitamina K (10mg, IV) + PFC (plasma freco congelado)/ CCP Antiagregantes plaquetários Desmopressina (0,4mcg/kg, IV) Dabigatrana (Praxada ®) Idarucizumab Rivaroxabana (Xarelto ®) Apixabana (Eliquis ®) Sem antídotos disponíveis Pode usar complexo protrombínico Alteplase Crioprecipitado Paquetopenia Transfusão de plaquetas se <100 mil Novos anticoagulantes Inibidor + carvão ativado (se uso < 2h) ou PFC/CCP Heparinas Protamina (1mg/100U, max: 50mg) se HNF<2h e HBPM<8h A neurocirurgia de drenagem do hematoma pode ser necessária se: Hematoma cerebelar > 3 cm ou entre 1-3 cm com repercussão neurológica; Hematoma lobar ou putaminal volumoso, com extensão para a periferia e repercussões clínicas Obs.: A instalação de uma derivação ventricular externa (DVE) está indicada na presença de hidrocefalia com repercussão clínica. 23 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE Contraindicação no AVEh: Corticoides Droga antiepilética profilática Hemorragia subaracnóidea - HSA Assim dado o diagnóstico, o paciente deve ser internado na UTI e avaliado por um neurocirurgião. Se estiver dentro das primeiras 72 horas após o início dos sintomas e tiver pontuação < III na escala de Hunt-Hess, o exame padrão ouro a ser realizado é a arteriografia cerebral, para localizar o aneurisma. Após constatação do aneurisma, a cirurgia de clipagem aneurismática é a primeira escolha (já que é a medida mais eficaz para prevenir ressangramento, a complicação com maior letalidade da HSA). Uma outra abordagem possível para o aneurisma é a terapia endovascular com embolização. Se houver RNC, uma monitorização invasiva da PIC deve ser realizada (o procedimento de escolha é o cateter intraventricular, já que tem caráter diagnóstico e terapêutico, permitindo a drenagem do LCR). Se o aneurisma não for clipado, a PA sistólica deve ser mantida entre 140 - 150mmHg, com o uso de nitroprussiato de sódio. A manutenção de altos níveis pressóricos traz elevado risco de ressangramento, enquanto uma PA muito baixa aumenta o risco de vasoespasmo. O uso de anticonvulsivantes, como a fenitoína 100mg IV a cada 8 horas, hoje está indicado apenas se o paciente apresentou crise convulsiva em algum momento. O uso de nimodipino 60mg via enteral a cada 4h é indicado pois há a prevenção de sequela neurológica do vasoespasmo, e seu uso deve ser mantido até o 14º dia após o evento. O vasoespasmo é uma das principais complicações da HSA e é reconhecido pelo surgimento de novo déficit focal a partir do 3º dia. O tratamento dessa condição baseia- se nos “3 Hs”: hemodiluição hipervolêmica (com 3l de soro fisiológico isotônico) e hipertensão (se o aneurisma já foi clipado, pode se deixar a PAS chegar a níveis até 200mmHg). PROGNÓSTICO Após um AVE, o resultado do quadro é influenciado por vários fatores, mas dentre eles existem dois principais: a natureza e a gravidade do déficit neurológico resultante. Idade do paciente, etiologia do AVE e comorbidades também são fatores importantes. O prognóstico de AVEs hemorrágicos é pior do que AVEs isquêmicos, e depende de alguns fatores principais, dentre eles: Tamanho do hematoma intraparenquimatoso (> 30cm³), Presença de hemoventrículo, Nível de consciência (glasgow < 8), Idade (>80 anos), Localização (infratentorial tem pior prognóstico) E uso prévio de anticoagulantes. Pacientes com sinais de herniação trasntentorial dificilmente sobrevivem. De forma geral, 80% desses pacientes sobrevivem pelo menos um mês após o episódio, mas apenas 35% têm um prognóstico superior a 10 anos. Grande fator de piora é a recidiva do AVE, que acontece em 25% desses pacientes nos 5 anos subsequentes, e costuma deixar sequelas mais debilitantes que o primeiro episódio. A recuperação neurológica completa ocorre em apenas 10% dos pacientes, e a maioria dos déficits que permanecem após 12 meses é permanente. Porém, um fator de esperança é a neuroplasticidade cerebral: os primeiros 3 meses após o AVE são os mais importantes para o cérebro reaprender antigas atividades e funções, mostrando a importância do tratamento correto e atividades fisioterápicas para a recuperação e reabilitação pós-AVE. AVE Clínica Escala pré- hospitalar Cincinatti: Sorria Abrace Musica Urgência – Ligue 192 Déficit neurológico focal súbito: Hemiparesia Heminopsia Afasia Hipoestesia Diagnóstico Afastar Stoke mimics Neuroimagem Conduta Medidas gerais Calculo NIHSS Glicemia TC sem contraste ↓ Presença de sangramento Tratamento AVEh Manter PAS: 140 mmHg Controle HIC Avaliação cirúrgica AVEi > 4,5 horas: Controle pressórico Medidas de suporte < 4,5 horas: Candidato a trombolise - controle PA: 180x 110 mmhg - afastar contraindicações absolutas - Rt- PA 0,9 mg/Kg (máx 90 mg) 10% em bolus e 90% em 1 hora em BIC 24 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE 25 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE AVEh – Hemorragias Intraparenquimatosas Introdução e Epidemiologia A hemorragia intracraniana parenquimatosa (HIP) é uma emergência médica caracterizada pela presença de sangramento agudo, espontâneo e não traumático dentro do parênquima encefálico. Representa de 10 a 15% de todos os acidentes vasculares encefálicos (AVE), sendo o subtipo mais frequente dos AVEs hemorrágicos. Possui incidência global de 12-31 casos a cada 100 mil pessoas/ano, aumentando com a idade e duplicando sua ocorrência a cada 10 anos após os 35 anos de idade. Costuma ser mais frequente em asiáticos e afrodescendentes. Os estudos não encontraram diferença em relação à incidência entre homens e mulheres. Apresenta altas taxas de morbidade e mortalidade hospitalar: mais que 1/3 dos pacientes morre em 30 dias e apenas 1/5 recupera independência funcional após 06 meses. Etiologia, Fatores de Risco e Fisiopatologia A causa mais comum de HIP é a vasculopatia hipertensiva e ocorre principalmente, no território das artérias penetrantes. A suscetibilidade maior ocorre porque essas artérias são expostas a pressões sanguíneas mais elevadas vindas das artérias de maior calibre sem uma diminuição gradual no calibre do vaso. Locais mais cometidos pela vasculopatia hipertensiva Putâmen 30-50% Tálamo 15-20% Cerebelo 10-30% Ponte 10-15% Cronicamente, a HAS gera hiperplasia da camada íntima com hialinose na parede do vaso, predispondo a necrose focal e formação de "pseudoaneurismas" (aneurismas de Charcot-Bouchard). O rompimento desses aneurismas se deve, geralmente, a um pico hipertensivo ou alteração da coagulação sanguínea, por uso de medicamentos anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários. Outra causa bastante comum de AVE hemorrágico intraparenquimatoso no idoso é a angiopatia amiloide cerebral. Ocorre deposição de material amiloide nos vasos sanguíneos, fragilizando a parede e os tornando propensos a sangramentos. Geralmente se manifesta como hemorragia lombar espontânea, o que ajuda a distinguir da HIP de causa hipertensiva. Diversos mecanismos podem causar alteração cerebral decorrente da HIP, incluindo lesões mecânicas diretas ao parênquima devido ao coágulo em expansão e edema citotóxico, adjacente à lesão. Tanto o volume do coágulo, quanto o edema contribuem para o efeito de massa e aumentam a pressão intracraniana (PIC), que, por sua vez, pode causar redução da perfusão cerebral e lesão isquêmica. Fatores de risco para HIP HAS Idade > 55 anos Uso excessivo de álcool Colesterol total < 160 mg/dLAngiopatia amiloide cerebral Tabagismo Uso de cocaína Terapia antitrombótica Quadro Clínico Algumas HIPs de etiologia hipertensiva podem ser desencadeadas pelo esforço ou estresse emocional. No entanto, a maioria dos casos ocorre durante atividades de rotina, espontaneamente. Os sinais e sintomas neurológicos geralmente aumentam gradualmente ao longo de minutos a horas, diferente da hemorragia subaracnoidea, em que os sinais e sintomas se instalam de forma mais súbita. Cefaleia, vômitos e rebaixamento do nível de consciência se desenvolvem quando a hemorragia se torna suficientemente grande. Os sinais e sintomas da HIP variam de acordo com a localização e tamanho da hemorragia. Quadro clínico clássico Cefaleia súbita - forte intensidade Déficit neurológico focal Rebaixamento do nível de consciência Hemorragia do putâmen: hemiplegia fasciobraquiocrural e déficit sensitivo contralaterais, disartria e desvio do olhar conjugado contrário à hemiplegia. Hemorragia talâmica: hemiplegia fasciobraquiocrural e hemianestesia contratalerais. São comuns alterações pupilares e da oculomotricidade: desvio dos olhos para baixo e para dentro ou para o lado da hemiplegia, anisocoria, síndrome de Horner (pupila menor do lado da hemorragia) e afasia talâmica. Hemorragia do cerebelo: idêntico ao infarto cerebelar – vertigem, náuseas, vômitos e ataxia cerebelar aguda podendo ser uni ou bilateral. Pode comprimir o IV ventrículo e levar à hidrocefalia obstrutiva, hipertensão intracraniana (HIC) e estado comatoso. A compressão do bulbo pelas 26 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE amígdalas cerebelares e herniação através do forame magno leva à apneia súbita e óbito. Hemorragia de ponte: ocorre quadriplegia súbita, coma e pupilas puntiformes e fotorreagentes. Achados comuns são: descerebração, hiperpneia e hiperidrose. Reflexos óculo- cefálico e óculo-vestibular são perdidos. Hemorragia lobar: crises convulsivas e déficit neurológico focal, a depender da região acometida. Exames Complementares A suspeita clínica de HIP baseia-se no aparecimento de sinais e sintomas (cefaleia, vômitos, hipertensão arterial grave e diminuição do nível de consciência ou coma) que se iniciam subitamente e pioram gradualmente, agravando o déficit neurológico. Porém, a distinção entre hemorragia cerebral e isquemia não pode ser feita com base apenas nas características clínicas, sendo necessário um exame de imagem. A tomografia computadorizada de crânio (TCC) ou ressonância magnética de crânio (RMC) é obrigatória para confirmar o diagnóstico de HIP, afastar AVE isquêmico ou possíveis causas que mimetizam o AVE. Além dos exames de imagem, o laboratório recomendado para pacientes com HIP inclui: hemograma, eletrólitos, ureia, creatinina, glicose, tempo de protrombina (com RNI) e tempo de tromboplastina parcial ativado. Tanto a TCC quanto a RMC são consideradas opções de imagem de primeira escolha para o diagnóstico de emergência e avaliação da HIP. A TCC não contrastada é o estudo mais amplamente utilizado e disponível. Pode definir o tamanho, a localização da hemorragia e fornece informações sobre a extensão para o sistema ventricular, a presença de edema circundante e alterações no conteúdo cerebral (hérnia). A RMC pode detectar com precisão hemorragia parenquimatosa hiperaguda com sequências de pulso sensíveis ao T2, com sensibilidade e precisão de até 100% por leitores experientes. Uma vez que a HIP foi confirmada pela TCC ou RMC, a avaliação adicional para determinar a causa da hemorragia varia com o cenário clínico. A angiotomografia computadorizada (ATC) ou a angiorressonância magnética (ARM) da circulação intracraniana são exames de rastreamento úteis para malformações vasculares e aneurismas. A angiografia pode ser necessária para pacientes com ATC ou ARM sugestiva de malformação vascular e para pacientes com imagem não invasiva negativa, quando houver suspeita clínica de aneurismas infectados (micóticos). Tratamento e Prognóstico O tratamento a nível pré-hospitalar é voltado para a manutenção das vias aéreas, suporte cardiovascular e o transporte rápido para a unidade hospitalar mais próxima com suporte de imagem e neurovascular. No departamento de emergência o foco está na avaliação e estabilização clínica, nos estudos diagnósticos e em seguida, transferência para Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Após confirmação da HIP através de TCC ou RMC, todos os anticoagulantes e antiplaquetários devem ser descontinuados e o efeito anticoagulante deve ser revertido imediatamente com agentes apropriados. Vitamina K intravenosa, concentrado de complexo protrombínico de quatro fatores, se disponível, plasma fresco congelado e outros fatores podem ser necessários em pacientes que sofrem uma HIP em uso de antagonistas da vitamina K, como a warfarina. Para os pacientes em uso de heparina está recomendado o sulfato de protamina. Para pacientes que necessitam de anticoagulação, as diretrizes da American Heart Association/ American Stroke Association (AHA/ASA) de 2015 sugerem atraso no uso de anticoagulantes orais por pelo menos quatro semanas após diagnóstico da HIP. A pressão arterial (PA) grave está associada a crescimento do hematoma e piores resultados. Nos pacientes com HIP aguda que se apresentam com pressão arterial sistólica (PAS) entre 150 e 220mmHg e sem contraindicação para tratamento pressórico, deve-se reduzir para 140mmHg. Naqueles com PAS>220mmHg, recomenda se redução mais agressiva da PA com anti-hipertensivos venosos e monitoramento frequente (a cada cinco minutos). Os anti-hipertensivos mais recomendados são: labetalol, esmolol ou nicardipina. A presença de desvio da linha média na TCC é um sinal indireto de HIC e deve indicar a terapia com hiperventilação (manter PaCO2 entre 26-30mmHg por curto período – isto é, até as demais medidas terapêuticas serem instituídas), manitol (1 g/kg de ataque e 0,25-0,5 g/kg a cada 6h). Proceder ao coma barbitúrico (em caso de não melhora com o manitol) e cabeceira elevada. Os objetivos primários são: pressão intracraniana (PIC) < 20cmH2O e pressão de perfusão cerebral (PPC) entre 50-60mmHg. No entanto, não há dados de alta qualidade mostrando que a monitorização ou o controle da PIC elevada melhora os resultados em pacientes com HIC. A hiperglicemia e a hipoglicemia devem ser prontamente tratadas. Sugere-se tratar a febre em pacientes com HIP, apesar da manutenção da normotermia possuir benefício duvidoso. Anticonvulsivantes profiláticos não estão recomendados, mas na presença de convulsões, estas devem ser tratadas imediatamente. A neurocirurgia de drenagem do hematoma pode ser necessária se: hematoma cerebelar > 3 cm ou entre 1- 3cm com repercussão neurológica (ex.: hidrocefalia obstrutiva, coma, compressão do tronco cerebral com arritmia respiratória); hematoma lobar ou putaminal volumoso, com extensão para a periferia e repercussões clínicas. A instalação de uma derivação ventricular externa (DVE) está indicada na presença de hidrocefalia com repercussão clínica. Em relação ao prognóstico, pode-se afirmar que depende do tamanho do hematoma (>30 cm3), da presença ou não de hemoventrículo (pior se este estiver presente), do 27 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE nível de consciência (Glasgow < 12), da idade (> 80 anos), da localização (infratentorial) e do uso prévio de anticoagulante. A Intracerebral Hemorrhage Score (ICH) é a escala validada e mais utilizada internacionalmente. Escore ICH para Hemorragia intracraniana (HIC) Estratificação de Risco- Escala AVEh Escore ICH Mortali dade em 30 dias Dado clínico Achado Pontos Glasgow de admissão 3-4 2 0 0% 5-12 1 13-15 0 1 13% Idade >80 anos 1 2 25% <80 anos 0 Local do hematoma Infratentorial 1 3 72% Supratentorial0 Volume do hematoma >30ml 1 4 97% <30 ml 0 Hemoventr ículo Sim 1 5 100% Não 0 6 Escore ICH: 0-6 pontos V I G I L Volume Idade Glasgow Inundação ventricular Localização do hematoma 28 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE MORTE ENCEFÁLICA Morte encefálica é a definição legal de morte. É a completa e irreversível parada de todas as funções do cérebro. Isto significa que, como resultado de severa agressão ou ferimento grave no cérebro, o sangue que vem do corpo e supre o cérebro é bloqueado e o cérebro morre. O diagnóstico de ME é obrigatório e a notificação é compulsória para a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO), representada pela Central Estadual de Transplantes (CET). Para tanto, deve ser aberto o protocolo para todos os pacientes com suspeita de ME, independentemente da possibilidade de doação ou não de órgãos e/ou tecidos. FISIOATOLOGIA: A ME geralmente decorre da associação do aumento da PIC, diminuição do fluxo sanguíneo cerebral e hipóxia do tecido encefálico. Isso acontece porque a maioria das causas que levam a ME induzem a descompensação do equilíbrio entre os componentes intracranianos (cérebro, liquor e sangue) responsáveis pela manutenção da PIC. Aumentos da PIC causam diminuição do fluxo sanguíneo cerebral e consequentemente, hipóxia tecidual. Há lesão irreversível da célula nervosa, por alteração da permeabilidade celular e distúrbios eletrolíticos no interior da célula. Com a destruição progressiva do cérebro e tronco encefálico, várias funções vitais ficam comprometidas. Ocorre o descontrole da temperatura corporal, com tendência à hipertermia mantida e, mais frequentemente, à hipotermia. Também é comum a labilidade hemodinâmica. Numa fase inicial, há a tempestade autonômica, com liberação maciça de neurotransmissores e hormônios, que podem levar a hipertensão e taquicardia. Na sequência, pode haver hipotensão arterial com necessidade de drogas vasoativas. A depleção do hormônio antidiurético (ADH ou vasopressina) induz distúrbios do sódio, como a diabetes insipidus. Há risco de hipernatremia e depleção do espaço extracelular. Pode haver também perda dos níveis adequados dos hormônios da tireóide e do cortisol. PROTOCOLO ABERTURA: Para iniciar um protocolo de ME, o paciente deve preencher alguns critérios bem estabelecidos. É essencial que o paciente esteja em Glasgow 3, sem incursões ventilatórias voluntárias e sem condições confundidoras para o coma, como uso de sedação e bloqueadores neuromusculares, hipotermia ou distúrbios metabólicos graves. Além disso, todo paciente com suspeita de ME deve ter comprovada por exame de imagem (tomografia ou ressonância de crânio) uma lesão estrutural encefálica suficientemente grave para justificar o exame neurológico encontrado. A temperatura deve estar acima de 32˚C, idealmente acima de 35˚C. O protocolo deve ser adiado até a correção da hipotermia moderada. É muito importante atentar para a suspensão de drogas sedativas, hipnóticas e bloqueadores neuromusculares. O tempo de suspensão deve levar em conta a meia-vida das drogas, forma de infusão, presença de insuficiência renal e hepática. O ideal seria a dosagem dos níveis séricos das drogas, principalmente em pacientes com disfunção renal e hepática, mas essa opção não é amplamente disponível. Medicamentos potencialmente depressores do Sistema Nervoso Central utilizados em doses terapêuticas usuais (ex.: fenobarbital enteral, fenitoína, clonidina, dexmedetomidina, morfina) não contraindicam a abertura do protocolo de morte encefálica. Apenas em casos de intoxicação exógena ou abuso por essas drogas, é recomendável aguardar o tempo de suspensão de 5 meias- vidas para iniciar o protocolo. Nessas situações, deve-se optar por uma prova gráfica de fluxo sanguíneo cerebral como exame complementar. EXAMES COMPLEMENTARES: O protocolo de morte encefálica, atualmente, contempla a execução de 2 exames clínicos, um teste de apneia e um exame complementar comprobatório. A avaliação clínica deve confirmar que o paciente está em coma aperceptivo (ausência de resposta motora após compressão do leito ungueal – ausência de resposta supra-espinhal), ausência dos reflexos de tronco e de incursões respiratórias aparentes. A impossibilidade de realizar um dos reflexos, como nos casos de perfuração timpânica ou lesão grave do globo ocular, inviabiliza o prosseguimento do protocolo. A presença de reatividade infra-espinhal pode ocorrer em pacientes com ME e decorre da atividade reflexa de medula. Reflexos osteotendinosos, cutâneo plantar em flexão ou extensão, cremastérico, ereção peniana, arrepios, sinal de Lazarus e opistótono podem ocorrer, mas sua presença não afasta o diagnóstico de ME. Fig 2. Reflexos testados no diagnóstico de morte encefálica 29 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE Os exames clínicos devem ser realizados por médicos diferentes, com intervalo mínimo de tempo entre eles. A tabela a seguir demonstra o tempo mínimo entre os testes de acordo com a idade do paciente. Fig 3. Intervalo entre os testes clínicos de acordo com a faixa etária do potencial doador. TESTE DE APNÉIA: O centro respiratório está localizado no bulbo e é estimulado com altos níveis de gás carbônico. O teste de apneia verifica o estímulo do centro respiratório à hipercapnia e seu objetivo é avaliar a integridade da região pontobulbar. É uma etapa de execução médica e que requer monitorização e cuidados, a fim de garantir a segurança do paciente durante o teste. De forma ideal, o paciente que será submetido ao teste de apneia deve estar hemodinamicamente compensado, sem arritmias, sem hipóxia, com temperatura normal e controle metabólico adequado. 1. Oxigenar o paciente com O2 a 100% por 10 minutos – garante a saturação completa da hemoglobina circulante e diminui o risco de hipóxia; 2. Coletar uma gasometria arterial inicial – deve demonstrar hiperóxia e pCO2 entre 35 e 45 mmHg; 3. Desconectar o ventilador e inserir um cateter de oxigênio com fluxo de 6-8 l/min na traqueia ao nível da carina; 4. Observar atentamente a presença de movimentos respiratórios por 10 minutos; 5. Coletar a gasometria arterial final – deve demonstrar pCO2 igual ou acima de 55 mmHg; 6. Reconectar o paciente à ventilação mecânica. O teste será considerado positivo para ME caso não existam quaisquer movimentos respiratórios e a gasometria final demonstre pCO2 igual ou acima de 55 mmHg. O teste deve ser interrompido imediatamente caso existam movimentos respiratórios – teste negativo para ME. Caso o paciente apresente sinais de instabilidade como hipotensão arterial (PAS < 90 mmHg), hipóxia (Saturação de oxigênio < 90%) ou arritmias, o teste deve ser interrompido e o paciente reconectado ao ventilador. Nesse caso, o teste é considerado inconclusivo. Caso existam condições, a gasometria final pode ser coletada imediatamente antes da reconecção do paciente instável, independentemente do tempo de teste decorrido. Caso os níveis de pCO2 atinjam 55 mmHg, o teste também será considerado positivo. EXAME COMPLEMENTAR: Pode ser realizado após a abertura do protocolo ou após a segunda avaliação clínica. Sua indicação é de demonstrar de forma inequívoca a ausência de atividade elétrica ou metabólica cerebral ou ausência de perfusão sanguínea cerebral. A indicação do tipo de exame e da necessidade de sua repetição é dependente da faixa etária, conforme exposto na tabela a seguir. Para paciente com idade acima de 2 anos, não existe indicação específica de tipo de exame e apenas um exame é suficiente. Fig 4. Exame complementar de acordo com a faixa etária do potencial doador Fig 5. Fluxograma da conduta após diagnóstico de morte encefálica CONDUTA PÓS TERMINO DO PROTOCOLO:Após a realização de todas as etapas do protocolo (2 exames clínicos + teste de apneia + exame complementar), é feito o diagnóstico de ME. Nesse momento, o paciente é legalmente declarado morto e o termo de declaração de morte encefálica (TDME) deve ser preenchido e enviado para a Central Estadual de Transplantes (CET). 30 Letícia M. Dutra - 7ª Etapa - Distúrbios sensoriais, motores e da consciência - AVE Síndrome Metabólica Fisiopatologia Adipócito visceral: ↓ capacidade de armazenar ácidos graxos e ↑ secreção de citocinas inflamatórias Excesso de ácidos graxos livres ↓ Hipertrigliceridemia Execsso de citocinas. Obesidade central ↓ ↑ da sensibilidade ao sal, ativação neuro-hormonal ↓ HAS Estimula gliconeogênse ↓ Hiperglicemia/resistência insulinica Critérios Para diagnóstico: presença de 3 ou mais critérios Obesidade central H > 102 cm e M > 88 cm Hipertrigliceridemia TG > 150 HDL baixo H < 40 e M < 50 88 Glicemia de jejum >100 ou diagnóstico de DM HAS PA > 130 x 85 ou TTO antihipertensivo Fatores associados Sd. dos ovários policísticos Microalbuminúria Doença hepática gordurosa não alcólica LDL-c aumentado Disfunção endotelial Hiperuricemia Acantose nigricans Estados pró-trombolíticos e inflamatórios Tratamento AAS continuo em pacientes com médio e alto risco CV pelo escore de Framingham TTO da HAS meta: <130 x 80 mmHg Perda de peso 7 – 10% no primeiro ano; depois, até alcançar IMC < 25 Exercício físico pelo menos 30 min/dia (aeróbico) TTO da dislipidemia – calcular meta pelo escore de Framingham TTO da DM HBA 1c < 7%