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EN
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Teoria do
Conhecimento
José Adir Lins Machado
Sergio de Goes Barboza
Maria Eliza Corrêa Pacheco
Teoria do Conhecimento
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
 Machado, José Adir Lins 
 
 ISBN 978-85-8482-168-6
 1. Teoria do conhecimento. I. Barboza, Sergio de Goes. 
II. Pacheco, Maria Eliza Correa. III. Título
 CDD 121
M149t Teoria do conhecimento / José Adir Lins Machado, 
Sergio de Goes Barboza, Maria Eliza Correa Pacheco. – 
Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S. A., 2015.
 192 p. : il.
© 2015 por Editora e Distribuidora Educacional S.A 
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida 
ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, 
incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e 
transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e 
Distribuidora Educacional S.A.
Presidente: Rodrigo Galindo
Vice-Presidente Acadêmico de Graduação: Rui Fava
Diretor de Produção e Disponibilização de Material Didático: Mario Jungbeck
Gerente de Produção: Emanuel Santana
Gerente de Revisão: Cristiane Lisandra Danna
Gerente de Disponibilização: Nilton R. dos Santos Machado
Editoração e Diagramação: eGTB Editora
2015
Editora e Distribuidora Educacional S. A. 
Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza
CEP: 86041 -100 — Londrina — PR
e-mail: editora.educacional@kroton.com.br 
Homepage: http://www.kroton.com.br/
Unidade 1 | Noções gerais acerca do conhecimento
Seção 1 - Noções Elementares e Tipos de Conhecimento
1.1 | Compreensão de conhecimento
Seção 2 - Conhecimento em Platão
2.1 | Platão e o conhecimento
Seção 3 - Conhecimento em Aristóteles
3.1 | Aristóteles
Seção 4 - Conhecimento Medieval e Renascentista
4.1 | Conhecimento medieval e renascentista
Unidade 3 | A contemporaneidade e o neopositivismo
Seção 1 - Contemporaneidade
1.1 | Os caminhos para os acontecimentos contemporâneos
Seção 2 - Metafísica
2.1 | Filosofia primeira ou teologia
Seção 3 - O Positivismo
3.1 | O Positivismo
Unidade 2 | Principais desdobramentos da epistemologia moderna
Seção 1 - O ceticismo moderno
1.1 | O abalo cético
1.2 | Ceticismo antigo
Seção 2 - Descartes e o racionalismo
2.1 | O código cartesiano
Seção 3 - O empirismo e a ciência moderna
3.1 | A modernidade e a guinada científica
3.2 | Francis Bacon: saber é poder
3.3 | John Locke: nascemos tábula rasa
3.4 | Hume – cético e empirista
Seção 4 - O criticismo kantiano
4.1 | Kant e a revolução copernicana
Sumário
7
11
11
19
19
27
27
35
35
57
61
61
62
69
69
83
83
85
88
91
97
97
109
113
113
121
121
125
125
3.2 | A metafísica do Positivismo de Comte
Seção 4 - Neopositivismo
4.1 | Neopositivismo
4.2 | A metafísica para os neopositivistas
4.3 | Atomismo lógico
4.4 | Rudolf Carnap
4.5 | As teorias de Karl Popper e a crítica ao positivismo lógico
Unidade 4 | As contribuições dos grandes pensadores
Seção 1 - René Descartes e o problema da evidência clara e distinta
1.1 | Introdução
Seção 2 - Karl Popper e Thomas Kuhn: a falseabilidade e a
ciência normal
2.1 | Introdução
Seção 3 - A virada linguística em Ludwig Wittgenstein
3.1 | Introdução
3.2 | A virada linguística em Ludwig Wittgenstein
Seção 4 - A virada histórica em Michel Foucault
4.1 | Introdução
149
153
153
161
161
169
169
170
177
177
126
129
129
132
136
138
139
Apresentação
Estudaremos, no transcorrer do nosso curso, alguns temas importantes 
relacionados à Teoria do Conhecimento e as contribuições de grandes pensadores 
que proporcionarão a você uma visão panorâmica dos diversos campos em que se 
desdobra a conduta do ser humano. Assim, na primeira unidade, o que se apresenta 
é a compreensão do conhecimento e suas diversas modalidades. 
Na segunda Unidade perpassaremos pelas questões epistemológicas 
deparando-nos com o desenvolvimento da antiga teoria do conhecimento, 
investigando os limites, as possibilidades, as origens e os tipos de conhecimentos, 
cujo objeto essencial a ser estudado será a ciência. 
As contribuições dos grandes pensadores da História nos faz ter uma nova forma de 
ver o mundo, portanto, a análise desta forma dialética do desenvolvimento do homem 
em sociedade é importante para uma visão ampla da nossa essência intelectual.
Refletir as mudanças ocorridas, as contribuições das ciências e de todas as 
dimensões que permeiam as ações humanas nos faz existir enquanto criadores da 
história, tanto como ser coletivo, quanto ser individual. 
Neste contexto, contemplando a interdisciplinaridade, estudaremos na terceira 
unidade a ação evolutiva do homem em seu momento atual. Neste sentido, 
você vai ser levado a compreender os fatores históricos que contribuíram para os 
acontecimentos contemporâneos. Nesta mesma perspectiva se pretende refletir 
sobre a carência de pensadores como os iluministas do Século XVI ao Século XVIII. 
Ou seja, a busca por uma racionalidade para a boa convivência do corpo social. 
Nesta leitura perpassaremos pelos estudos positivistas e neopositivistas, buscando 
compreender seus pensadores.
Na unidade quatro veremos os instrumentos incontornáveis para a sustentação da 
ciência moderna perpassando pelo pensamento cartesiano e positivista. Diante deste 
contexto, o que pretendemos é sensibilizar o leitor para uma forma de raciocínio lógico 
quanto à realidade com uma linguagem clara e simplificada para a compreensão 
adequada com relação aos objetivos propostos. Nestes aspectos contemplaremos as 
análises sociológicas, que os autores deste livro alvitram, numa condição não somente 
para o conhecimento, mas para a sua aplicabilidade na vida pessoal e profissional. 
Desejamos um excelente estudo aos nossos estudantes e leitores.
Prof. Sergio de Goes Barboza
Unidade 1
NOÇÕES GERAIS ACERCA 
DO CONHECIMENTO
Pretendemos expor o que se compreende por conhecimento e as 
suas diversas modalidades, bem como o valor pertinente a cada tipo de 
conhecimento; diferenciando conhecimento teórico e prático e apresentando 
a compreensão mítica, passando para a elaboração da filosofia nascente e 
resgatando os pressupostos básicos à visão de mundo do homem grego antigo.
Explanaremos as principais contribuições platônicas para a resolução do 
embate suscitado por Heráclito e Parmênides acerca da possibilidade ou não 
de conhecimento, principalmente ao que se refere à questão do ser e do 
devir; e o dualismo platônico com forte ênfase ao mundo inteligível, eterno, 
imutável e verdadeiro; valendo-se de modo significativo da compreensão 
epistemológica presente no Mito da Caverna, entre outros.
Seção 1 | Noções Elementares e Tipos de Conhecimento
Seção 2 | Conhecimento em Platão
Objetivos de aprendizagem: 
Possibilitar aos estudantes refletirem criticamente sobre a questão do 
conhecimento, compreendendo a sua natureza e alcance, a sua gênese e os 
seus desdobramentos, bem como suas diversas modalidades. Inteirar-se da 
contribuição dos gregos antigos (Heráclito, Parmênides, Platão e Aristóteles) 
acerca das possibilidades do conhecimento verdadeiro da realidade e das 
principais contribuições dos filósofos medievais e renascentistas, principalmente 
da contribuição de Galileu Galilei na construção da ciência moderna.
José Adir Lins Machado
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
8
Apresentaremos a teoria aristotélica e unicista de conhecimento, a qual 
enfatiza o mundo concreto – divergindo do dualismo platônico – e explica 
o movimento recorrendo à questão do ato e potência e das quatro causas; 
além de explanar as modalidades de conhecimento (teorética, prática e 
produtiva), com ênfase a um empirismo germinal.
Abordaremos a visão de conhecimento medieval fortemente marcada 
pelo cristianismo, pela visão bíblica e pela intolerância com visões de mundo 
divergentes; os primeiros questionamentos dos humanistas, com forte 
tendência antropocêntrica, indo até o renascimentoe a definitiva separação 
dos campos do conhecimento proporcionada pela contribuição galilaica.
Seção 3 | Conhecimento em Aristóteles
Seção 4 | Conhecimento Medieval e Renascentista
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
9
Introdução à unidade
Por vezes pode parecer que a filosofia seja uma disciplina estranha (e talvez 
realmente seja), pois indaga o óbvio, o comum. A filosofia questiona aquilo que 
parece natural, por exemplo, porque de uma semente de limão nunca nasce uma 
laranjeira? Você pode rir e achar tola a indagação, mas então explique o porquê. 
Existe uma resposta? Possivelmente sim, e os estudiosos da área se esforçarão em 
no-la apresentar. Quando os estudiosos correram atrás dessa resposta, eles estavam 
fazendo filosofia, pois estavam buscando o porquê. 
Questionar o óbvio implica deixar de lado tudo o que foi aprendido até então 
e tentar ver as coisas de um jeito novo, como se fosse a primeira vez que você 
vê aquilo que você sempre viu. Só assim conseguimos filosofar, pois o que temos 
em nossas mentes, na grande maioria das vezes, são informações, conhecimentos 
herdados ou adquiridos e não conhecimentos alcançados, conquistados.
Partindo dessa compreensão, podemos nos perguntar: o que é o conhecimento? 
Nós conhecemos muitas coisas, ou achamos que conhecemos; mas o que, 
necessariamente, é conhecer? Existem diferentes tipos de conhecimento?
Normalmente os filósofos entendem que conhecimento é um modo, uma 
maneira de compreender o mundo e explicá-lo atribuindo-lhe significado. Não nos 
referimos aos conhecimentos particulares, subjetivos; dos tipos: eu conheço tal 
pessoa, eu conheço tal cidade, por exemplo. Mas do conhecimento do mundo, da 
vida, da realidade como um todo, tal qual esse todo é. 
Entende-se que o propósito do conhecimento é conhecer a verdade e, 
novamente, poderíamos nos indagar: o que é a verdade? Muitos filósofos comungam 
da ideia de que a verdade é a plena adequação do mundo fora da nossa mente, 
com a representação ou ideia que dele temos em nossa mente. Essa é a chamada 
teoria correspondencialista da verdade. Aristóteles (384-322 a.C.) se referia a ela do 
seguinte modo: “dizer o que é do que é e o que não é do que não é, é verdade; dizer 
o que é do que não é e o que não é do que é, é falsidade”. 
Seria possível conhecer o mundo do jeito que ele é, ou só podemos conhecer a 
representação dele que os nossos sentidos nos permitem obter? Dito de outro modo: 
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
10
temos certeza de que todos nós vemos as coisas do jeito que elas são? Enxergamos 
as mesmas cores? Ouvimos os mesmos sons? E o som que nós ouvimos é o som 
que é emitido ou é apenas o som que o nosso ouvido consegue captar? Sentimos 
os mesmos gostos ou cada pessoa tem um paladar diferente? Se não sentimos os 
mesmos gostos, o gosto está nas coisas ou é atribuído às coisas por nossos órgãos 
sensoriais? Talvez nunca tenhamos respostas para essas perguntas.
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
11
Seção 1
Noções elementares e tipos de conhecimento
Nesta sessão, você terá oportunidade de conhecer os elementos bases da 
compreensão de conhecimento, desde a sua etimologia e tipos de conhecimento, 
até os diferentes modos de aplicação do mesmo, bem como a questão de valor do 
conhecimento em si ou em função da sua aplicabilidade.
1.1 Compreensão de conhecimento
O vocábulo “conhecimento” em grego se diz gnose (γνώση) e em latim se diz 
cognitio; e ambos nos remetem à ideia de noção, ter noção, estar ciente, ter ciência. 
O temo “aprender” em língua latina é cognoscebre, muito próximo, como se vê, do 
nosso verbo conhecer. Isso pode nos indicar que conhecimento é uma técnica para 
aprender, ou apreender, a realidade. Nesse sentido, também temos a descrição de 
conhecimento, segundo o dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, que nos diz 
que conhecimento é:
Em geral, uma técnica para a verificação de um objeto qualquer, ou a 
disponibilidade ou posse de uma técnica semelhante. Por técnica de 
verificação deve-se entender qualquer procedimento que possibilite 
a descrição, o cálculo ou a previsão controlável de um objeto; e por 
objeto deve-se entender qualquer entidade, fato, coisa, realidade ou 
Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/90/Espelho_dos_Jer%C3%B3nimos.
jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015.
Figura 1.1 | Teoria correspondencialista: pensamento e realidade como reflexo um do outro
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
12
propriedade. Técnica, nesse sentido, é o uso normal de um órgão do 
sentido tanto quanto a operação com instrumentos complicados de 
cálculo: ambos os procedimentos permitem verificações controláveis. 
(ABBAGNANO, 2003, p. 174).
Creio ter ficado claro que conhecimento tem a ver com o modo como apreendemos 
a realidade que nos circunda. Em geral, essa apreensão se dá pelos sentidos, os quais 
nos oferecem a matéria-prima para que o intelecto organize as impressões que temos 
do mundo. O problema paira sobre a possibilidade de os nossos sentidos serem fiéis 
nessa apreensão e do nosso intelecto organizar corretamente o material apreendido. 
É aqui que se distinguem o lúcido e o louco. E, por que não dizer, os homens dos 
animais, pois os animais têm os sentidos, e alguns muito melhores que os nossos, 
mas, a princípio, não organizam a experiência coletada.
Daí se entende que para um conhecimento poder ser considerado verdadeiro 
ele tem de passar pelo crivo da razão e, tanto quanto possível, ser demonstrado a 
sua veracidade de modo concreto, observável. Por isso, nos dias atuais, a ciência é 
considerada como uma das melhores formas de conhecimento em detrimento das 
demais modalidades. Contudo, é sempre bom ter presente que todas as formas de 
conhecimento são válidas e que não existe um conhecimento superior ao outro, 
embora existam conhecimentos que predominem mais em determinadas épocas e 
menos em outras.
Também é pertinente distinguirmos 
as concepções de conhecimento, 
inteligência e sabedoria, pois não 
raro as pessoas creem que as três 
são sinônimas. Ter, ou reter, muito 
conhecimento, ou muitas informações 
(salientamos que nem toda informação 
é conhecimento; só é conhecimento 
a informação que nós incorporamos, 
que nos apossamos dela), enfim, ser 
culto, está ligado à capacidade de 
armazenamento do cérebro. Têm 
pessoas de boa memória que retêm 
muitos e variados conhecimentos. 
Inteligência é uma capacidade, talvez 
natural, de compreender de modo 
correto e rápido a informação que nos 
é apresentada. Uma pessoa pode ter as 
duas, boa memória e inteligência, ou 
Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/
wikipedia/commons/0/09/Intelig%C3%AAncia_Coletiva.
jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015.
Figura 1.2 | Conhecimento, inteligência e 
sabedoria são distintos
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
13
uma apenas, ou nenhuma. Sabedoria é saber aplicar os conhecimentos obtidos, é 
saber viver, saber organizar a vida, saber conduzir-se na vida tratando bem as pessoas 
e a natureza toda. Uma pessoa pode ser sábia sem ser inteligente e sem ter boa 
memória, pois as três são independentes.
Entende-se que existem cinco tipos de conhecimento, sendo quatro deles teóricos 
ou abstratos e um prático ou concreto. Os quatro teóricos são: o senso comum, 
o mitológico-religioso, o filosófico e o científico. E o prático é a técnica. O senso 
comum é espontâneo, natural, subjetivo. É o conhecimento imediato que temos 
mesmo sem nenhum tipo de estudo; por vezes, se diz que é a nossa opinião. Os 
gregos chamavam-no de doxa ( ).
O senso comum, ao partir em busca de explicações para a realidade, acabou 
por originar o conhecimento mitológico. A palavra mito, mytheo ( ) em grego, 
significa narrativa, discurso; porém trata-se de uma narrativa fantasiosa; logo também 
significa narrativa, mas é uma narrativa mais plausível. Há quem defenda que o mito e 
a religião têm a mesma natureza (fantasiosa) e a partir disso dizem que se tratade um 
conhecimento mitológico-religioso ou mítico-teológico. 
Há, porém, quem defenda que do conhecimento mítico se originou de dois outros 
tipos de conhecimento, o religioso e o filosófico. O conhecimento filosófico teria sido 
o início do conhecimento racional e teria se originado no século VI a. C. nas colônias 
gregas, mais especificamente em Mileto, cidade situada no território que atualmente 
pertence à Turquia, mas que naquela época compunha a Magna Grécia e se chamava 
Jônia. Os primeiros filósofos são chamados de pré-socráticos e o primeiro deles é 
Tales de Mileto (625-558 a.C.). A preocupação deles era descobrir qual foi o elemento 
natural, físico, portanto, que originou tudo o que existe. Esse primeiro elemento, ou 
elemento primordial, em grego se diz arquê.
Os pressupostos para melhor compreendermos as bases do conhecimento grego são: 
1. Tudo se relaciona ao arquê (primeiro princípio).
2. A matéria (natureza, physis) é eterna, não houve o momento da criação.
3. O tempo é circular e cíclico.
4. Desaparecem os elementos míticos.
5. Há uma ordem (cosmos) no mundo, regida pelo logos (razão).
6. A composição do cosmos é unicamente de elementos naturais.
7. O homem é um microcosmo também regido pelo logos.
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
14
Os gregos não acreditavam em criação do mundo, para eles o mundo 
sempre existiu, não foi criado. A matéria é eterna e, de tempos em 
tempos, tudo se repete. Teoria essa conhecida como eterno retorno. 
Você pode achar uma ideia estranha, mas hoje em dia há cientistas 
que defendem que o universo já passou por diversos big-bangs e que o 
universo se expande e se contrai (big crunch) e explode de novo, ou seja, 
eterno retorno.
Na antiguidade filosofia era a totalidade do saber, mas a partir de certo momento 
as áreas específicas do conhecimento vão ganhando vida própria, vão se separando 
da filosofia. Possivelmente a primeira delas tenha sido a geografia, com Eratóstenes 
de Cirene (276-194 a.C.), bibliotecário da biblioteca de Alexandria, considerado o 
primeiro homem que mediu a circunferência do planeta. A emancipação das áreas 
do saber vai formando a ciência, em grego episteme, um modo ainda mais racional, 
verificável, constatável e convincente de explicar o mundo. Muito embora até hoje a 
ciência ainda não tenha conseguido atingir o seu intento, ela se coloca como uma 
das formas mais críveis de conhecimento, por demonstrar aquilo que afirma.
Por fim, existe o conhecimento prático, a técnica, em grego técne, ; palavra 
que foi traduzida por “arte”, pois se trata de uma modalidade de conhecimento que 
tem a ver com saber fazer, saber produzir. Arte aqui tem o sentido mais de artesanato 
do que propriamente belas artes. Hoje em dia é muito comum vincularmos a técnica 
com a tecnologia, mas certamente nem sempre foi assim, pois a tecnologia é bem 
recente. A técnica, ou arte, é um modo de conhecimento através da sensibilidade.
O educador brasileiro Paulo Freire constrói uma bela analogia para ilustrar o 
valor dos diversos tipos de conhecimento. É comum avaliarmos as modalidades de 
conhecimento comparando umas com as outras e, desse modo, julgarmos algumas 
mais valiosas. Para demonstrar que não existe um conhecimento mais importante que 
os outros, mas conhecimentos diferentes, vamos nos valer de uma anedota que Paulo 
Freire utilizava com esse intento. Conta-se que um homem vivia com o seu barquinho 
a fazer travessias de pessoas de um lado ao outro em um rio. Em um determinado dia 
subiram no seu barco uma professora, um advogado e um médico. Iniciada a travessia, 
quebrando o incômodo silêncio, a professora perguntou ao barqueiro se ele sabia ler. 
Diante da resposta negativa, a professora concluiu: é uma pena o senhor não saber 
ler, pois perdeu grande parte da sua vida por isso. O advogado aproveitou e perguntou 
se ele conhecia leis e sabia dos seus direitos, ao que o barqueiro respondeu também 
de forma negativa. Tal qual a professora, também o advogado sustentou que a falta 
de conhecimento das leis lhe ocasionou a perda de grande parte da sua vida. Por 
fim o médico quis saber como ele cuidava da saúde e percebendo que os cuidados 
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
15
eram mínimos acabou por concordar com os seus companheiros. O barqueiro quieto 
continuou o seu trabalho. No meio do rio o barco começou a ter problemas e na 
iminência de afundar o barqueiro teve de interpelar todos os tripulantes se acaso eles 
sabiam nadar ou não. Diante da negativa dos três, o barqueiro concluiu, é uma pena 
vocês acabam de perder a vida toda de vocês.
Nas próximas páginas buscaremos fazer um resgate da construção do 
conhecimento ao longo da história da humanidade, desde a Grécia antiga até o 
começo da modernidade ou, mais especificamente, até o final do renascimento. Para 
tanto, nos valeremos muito aproximativamente do nosso texto citado nas referências, 
de Machado (no prelo 2015), principalmente de Heráclito a Aristóteles.
Heráclito de Éfeso (540-470 a. C.) e a origem do problema
Ainda quando aos primeiros filósofos, os pré-socráticos, buscavam entender a 
ordem (cosmos, em grego) e encontrar o arquê (ώώώώ houve um filósofo 
que questionou a possibilidade do conhecimento. Segundo este filósofo, não seria 
possível conhecer nada de modo tão seguro como se supunha até então, pois o 
mundo está em constante transformação e essa transformação ocorre em função da 
luta dos contrários: o dia sucede à noite e vice-versa, o frio ao calor, o seco ao úmido 
etc. Segundo este filósofo, o homem poderia conhecer apenas a mudança, o devir 
(vir a ser), e jamais o ser, a essência das coisas. Estamos nos referindo ao filósofo pré-
socrático Heráclito de Éfeso, para quem o mundo era como um fogo que é sempre 
o mesmo e sempre outro, sempre diferente, a chama balança, aumenta, diminui, se 
esvai, é outra a cada segundo, mas enquanto durar, será o mesmo fogo. Entendia 
Heráclito que o conhecimento estava na mente, na capacidade de abstrair para 
além daquilo que é observado. Na capacidade que a mente tem de concatenar os 
acontecimentos isolados e atribuir-lhes significação como partes de um todo.
 Para ele:
Se um avião estivesse retornando dos Estados Unidos trazendo 
entre os passageiros um pós-doutor em física quântica e um 
índio analfabeto que retorna de um congresso e o avião caísse na 
selva amazônica, o conhecimento mais útil para a sobrevivência 
nesse momento e nesse local seria o do pós-doutor ou do índio 
analfabeto? Com base nisso, é possível afirmar que existem 
conhecimentos mais importantes do que outros?
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
16
a divergência e a contradição não só produzem a unidade 
do mundo, mas também a sua transformação. O mundo 
é um eterno fluir, como um rio; e é impossível banhar-se 
duas vezes na mesma água. Fluxo contínuo de mudanças, o 
mundo é como um fogo eterno, sempre vivo, e ‘nenhum deus, 
nenhum homem o fez’. Mas só se compreende isso quando, 
ao deixar de lado a ‘falsa sabedoria’ ditada pelos sentidos e 
pelas opiniões, chega-se ao logos, isto é, ao pensamento 
sensato. É o raciocínio adequado que abre as portas para o 
entendimento do princípio de todas as coisas. ‘Não de mim, 
mas do logos tendo ouvido é sábio homologar tudo é um’, diz 
um de seus aforismos. (ABRÃO, 1999, p. 31).
Em virtude deste modo de pensar, Heráclito é considerado um dos pais da dialética 
(embate de visões opostas), postura que terá influência sobre o pensamento de Platão 
(428-347 a.C.). Platão foi discípulo de Crátilo (século V a. C.) o qual fora discípulo de 
Heráclito.
Alguns filósofos radicalizaram ainda mais o pensamento de Heráclito e passaram 
a duvidar da possibilidade de se conhecer as coisas. Além de Crátilo, para quem 
o homem não entraria nem uma única vez em um rio, pois as águas estavam em 
constante renovação, destacam-se também os céticos Górgias de Leontini (480-371 
a.C.) – filósofo sofista que dizia que “o ser não existe; se existisse não poderíamos 
conhecê-lo;e se pudéssemos conhecê-lo não poderíamos comunicá-lo aos outros” – 
e também Pirro de Élis (360-270 a. C.), para o qual o homem não pode conhecer nada 
de modo seguro e jamais alcançará a certeza sobre as coisas (COTRIM, 2008, p. 58). 
Conta-se que no auge do seu ceticismo Pirro parou, inclusive, de falar e se contentava 
apenas em mexer a mão ou a cabeça. 
“Muitas vezes, na Metafísica, Aristóteles 
repisa o conceito de que quem nega 
o princípio supremo do ser, para ser 
coerente com essa negação, deveria 
calar e não expressar absolutamente 
nada. E tal é precisamente a conclusão a 
que Pirro chega, proclamando a ‘afasia’” 
(REALE, 1990, p. 270). Afasia é abster-se 
conscientemente de qualquer juízo, ou 
seja, tentar não pensar.
Apesar da insistência de muitos 
filósofos na impossibilidade de o ser 
humano atingir um conhecimento 
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/
Fire?uselang=pt-br#mediaviewer/File:Stort_b%C3%A5l_
sankthans.jpg>. Acesso em: 31 mar. 2015.
Figura 1.3 | O mundo é como um fogo ou 
como um rio, sempre o mesmo e sempre outro
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
17
inabalável da realidade, houve um 
filósofo que defendeu uma tese 
totalmente contrária e sustentou que a 
mudança que percebemos no mundo 
é ilusória, pois as coisas mudam só 
aparentemente, mantendo aquilo que 
lhes é essencial: um núcleo invariável 
que lhes confere identidade. Esta 
imutabilidade, contudo, não seria 
captada pelos sentidos, apenas pela 
razão. O principal defensor desta teoria 
foi Parmênides de Eléia (cerca de 530-
460 a. C.), o qual sustentava que o 
nada não gera coisa alguma (do nada, 
nada provém) e que a existência das 
coisas deve ter sido a partir de algo que 
sempre existiu e sempre existirá, este algo é o ser. O ser existe e todas as coisas foram 
geradas a partir dele. Daí a sua famosa afirmação “o ser é e o não ser não é”. Defendia 
que o Universo é uno e imutável, imperecível, ilimitado e indivisível e que a mudança é 
ilusão dos sentidos, por trás da mudança há uma realidade imutável.
Se aos olhos comuns esse conflito entre ser e devir parece banal, aos olhos críticos 
(ou filosóficos) ela é muito profunda, pois tem a ver com o sentido último da realidade e 
também com a possibilidade ou não do conhecimento verdadeiro, ou seja, da ciência. 
Note que toda pessoa idosa um dia foi um bebê e que ela permanece sendo a mesma 
pessoa, embora o seu corpo não tenha mais nenhuma célula que tinha algum tempo 
atrás. Este exemplo ilustra a questão do ser e do devir: houve mudança, mas o ser (a 
essência) permaneceu. Tente encontrar uma resposta para isto e você perceberá que 
ela é bastante complexa.
Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/
wikipedia/commons/7/7f/Mignard-Andromeda_and_Perseus.
jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015.
Figura 1.4 | A nossa mente não consegue pensar 
algo que não existe, consegue no máximo 
juntar coisas existentes separadamente. 
Exemplo: Pegasus
1. Sobre Heráclito acesse o link disponível em: <http://www.
mundodosfilosofos.com.br/heraclito.htm>. 
2. Sobre o ceticismo pirrônico acesse o link disponível em: <http://
www.recantodasletras.com.br/ensaios/2233233>.
Noções gerais acerca do conhecimento
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18
1. Aranha e Martins definem o senso comum como o “primeiro 
olhar sobre o mundo, ainda não crítico, a partir do qual as pessoas 
participam de uma comunhão de ideias e realizam as expectativas 
de comportamento dos grupos sociais a que pertencem”. 
(ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Temas de filosofia. 3. ed. 
rev. São Paulo: Moderna, 2005, p. 144). 
Sobre o senso comum, assinale o que for correto.
a) O senso comum é um conjunto de ideias cuja finalidade é a 
crítica ao saber estabelecido.
b) O senso comum é um conjunto de ideias e práticas cegas e 
incompatíveis com a verdade.
c) Todos os homens, intelectuais e analfabetos, participam do 
senso comum.
d) O senso comum confunde-se com as ideologias de uma 
classe ou de um grupo social.
2. “Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia / 
Tudo passa / Tudo sempre passará / [...] Tudo que se vê não é / 
Igual ao que a gente / Viu há um segundo / Tudo muda o tempo 
todo / No mundo” (Trecho da música Como uma onda, de Lulu 
Santos e Nelson Motta). 
A letra dessa canção lembra as ideias do filósofo grego Heráclito, 
que viveu no século VI a.C. e que usava uma linguagem poética para 
exprimir seu pensamento e o qual acreditava que, no mundo, tudo 
muda o tempo todo e nada permanece, tudo é um perpétuo fluir. 
Dentre as sentenças de Heráclito a seguir citadas, marque aquela 
da qual o sentido da canção de Lulu Santos mais se aproxima. 
a) Morte é tudo que vemos despertos, e tudo que vemos dormindo 
é sono. 
b) O homem tolo gosta de se empolgar a cada palavra. 
c) Ao se entrar num mesmo rio, as águas que fluem são outras.
d) Muita instrução não ensina a ter inteligência.
Noções gerais acerca do conhecimento
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19
Seção 2
Conhecimento em Platão
Nesta sessão, você terá oportunidade de ter contato com a compreensão 
de mundo, de homem e de ciência legada por Platão para a formação da cultura 
ocidental, bem como a influência dessa visão para a formação da nossa cultura e o 
vínculo que essa visão estabeleceu com a questão da religiosidade, entre outros.
2.1 Platão e o conhecimento
É bastante comum ouvirmos falar da briga, do confronto ou conflito entre 
Heráclito e Parmênides. Portanto, é bom que se diga que é quase certo que eles 
nunca se conheceram e que, possivelmente, nunca discutiram suas ideias. A 
referência que aqui se faz do embate ente ambos é uma referência a um embate 
figurativo, é apenas força de expressão.
Platão, cujo verdadeiro nome era Arístocles, foi um dos primeiros filósofos a buscar 
uma solução para o impasse suscitado pelas ideias de Heráclito e Parmênides, ou, 
mais especificamente, entre o ser e o devir. Para Platão, Heráclito tem razão quando 
diz que tudo muda, que nada permanece; e Parmênides também tem razão ao dizer 
que o ser não muda, que o ser é e não pode não ser e que a mudança é ilusão. Mas 
como é possível ambos estarem corretos? 
É possível porque, embora não consigamos perceber com muita clareza, não 
existe apenas um mundo, como normalmente supomos, mas dois mundos: o mundo 
sensível ou material (trata-se do mundo concreto percebido pelos nossos sentidos 
e onde as coisas mudam) e o mundo inteligível ou das ideias (trata-se do nosso 
pensamento, da nossa abstração e onde as coisas [leia-se conceitos] não mudam). 
O mundo das ideias é o mundo dos conceitos, das essências, as quais, uma vez 
compreendidas permanecem para sempre, são imutáveis. Se você sabe, se você 
tem ideia do que seja uma árvore, não importa se ela é pequena e nova ou se já é 
uma árvore enorme e quase morrendo, você irá entender quando alguém expressar 
a ideia de árvore.
Devemos prescindir dos acidentes (detalhes), ou seja, das qualidades não 
essenciais da árvore (alta/baixa, grossa/fina, nova/velha, feia/bonita etc.) e reterá 
Noções gerais acerca do conhecimento
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20
apenas o conceito de árvore, aquilo que constitui a sua essência (a “arvoridade”), sua 
razão de ser. O mesmo acontece quando falamos em cavalo, casa, homem etc. Os 
cavalos, casas e homens mudam, mas os conceitos que deles temos permanecem e 
nos possibilitam entender o que seja cada uma destas coisas as quais nos referimos. 
Tudo tem a sua essência: algo que é universal e vale para todos os objetos daquele 
tipo e nos permite a compreensão apesar da diferença nos detalhes (acidentes). 
Quando falo homem, todos entendem apesar de não haver dois homens iguais e 
apesar de cada um, poder pensar em um homem diferente. Por quê? Porque em 
termos de conhecimento, em termos de compreensão, o que importa é a ideia, o 
conceito de homem. É evidente que se me refiro a um homem em particular, então 
preciso caracterizá-lo ou identificá-lo para que o eu possa ser compreendido.
Há, contudo, ideias que não têm representação no mundo material, ou seja, não 
existemfisicamente, não são palpáveis; elas existem somente no nosso pensamento, 
só existem enquanto ideias. Assim, Platão sustenta que o mundo inteligível é superior 
ao mundo sensível. É o mundo inteligível que nos permite conhecer (compreender) 
o mundo sensível. Mas como se forma o mundo inteligível? Ou, de onde vêm nossas 
ideias? Segundo Platão, nós já nascemos com elas. Temos, portanto, ideias inatas. 
Mas então um recém-nascido já tem ideias em seu cérebro? Para Platão sim; porém 
ele as esqueceu e na medida em que vai vivendo e presenciando o mundo à sua volta, 
irá relembrando das ideias que um dia conheceu ou contemplou no hiperurânio. 
Platão termina a sua obra A República, narrando o Mito de Er, e através deste mito 
busca explicar como a alma adquire conhecimento, como o esquece e como o 
recobra. Er é o nome de um soldado que tendo morrido em combate foi recolhido 
dez dias depois em bom estado de conservação, quando iam lhe dar sepultura ele 
ressuscitou e narrou o que havia visto. 
Ele havia sido escolhido para narrar 
aos homens o que acontecia no 
hiperurânio. Lá a alma contemplava as 
ideias puras, as formas perfeitas; mas 
quando alguém estava para nascer, 
o Demiurgo (o deus que plasma a 
humanidade) se encarregava de juntar 
a alma ao corpo, antes, porém, a 
alma passava pela planície do Lethes 
(esquecimento, em grego) e tomava a 
água do rio Ameles e assim que a alma 
bebia desta água perdia a memória 
de tudo, esquecia tudo o que havia 
contemplado (Er foi dispensado de 
beber desta água para que pudesse se Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/nYIjst>. Acesso em: 31 
mar. 2015.
Figura 1.5 | Para Platão conhecer é reconhecer, 
recordar
Noções gerais acerca do conhecimento
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21
lembrar do que havia visto). 
E quando a alma se juntava ao corpo e a criança nascia, nascia sem lembrar-se 
de nada, por isto, para Platão conhecer é recordar, é reminiscência (despertar ideias 
remanescentes). Também se diz anamnese (em grego “ana” signfica trazer de novo; 
e “mnesis” é memória), algo como uma frágil recordação, uma tênue lembrança sem 
muita certeza e segurança. Platão seria, portanto, o primeiro racionalista (pessoa que 
sustenta que a verdade se encontra na razão, no logos, e é inata). Para os racionalistas 
não importa tanto o que é apreendido pelos sentidos, o importante é o que é processado 
pela razão, pois é nela que se encontra a fonte da verdade, da sabedoria e da ciência.
O mito da caverna
Outro mito narrado por Platão é o Mito da Caverna, com ensinamentos relevantes 
tanto para a teoria do conhecimento quanto para a política e até mesmo para a 
ética. Possivelmente este seja o ensinamento platônico mais conhecido e divulgado.
Ele fala de pessoas que se encontram no fundo de uma caverna desde o seu 
nascimento, com os pés e o pescoço acorrentados de modo a enxergar apenas 
o paredão dos fundos (se fosse hoje talvez Platão falasse de uma sala de cinema). 
Próximo da entrada da caverna há transeuntes carregando objetos, os quais são 
refletidos na parede e tomados pelos prisioneiros como sendo reais. 
O eco das vozes externas dá a impressão de que as sombras falam. E para se 
entreter os prisioneiros tentam advinhar a sequência da passagem dos objetos. 
Vivem assim até que um prisioneiro se liberta e se volta para a entrada da caverna e 
começa a escalar a difícil subida até a sua saída (o conhecimento é uma escalada 
difícil, pois temos de abandonar velhas e arraigadas convicções). 
À medida que se aproxima da claridade (a luz é a metáfora da sabedoria; luz em 
grego é phós [ e phós compõe a palavra sophós [ a qual significa 
sábio) seus ollhos doem. Então, ele protege os olhos com a mão e olha para baixo 
onde vê objetos refletidos na água. À noite ele consegue contemplar o céu com a 
lua e as estrelas. E quando o dia vai amanhecendo, a sua vista vai se acostumando 
com a claridade e, então, ele passa a contemplar os verdadeiros objetos e não 
mais as sombras ou reflexos. Por fim contempla o sol, emblema do bem, do belo 
e do verdadeiro. Lembrando-se dos demais prisioneiros, ele retorna à caverna para 
resgatá-los, mas os prisioneiros que lá ficaram estão numa posição cômoda e não 
querem deixar a caverna. 
Na interpretação deles, o prisioneiro libertado não tem mais a mesma acuidade 
visual para distinguir os objetos ou advinhar a sua sequência. Com base nisso 
julgam que a saída fez mal ao prisioneiro e, diante da insistência dele, para que os 
Noções gerais acerca do conhecimento
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22
demais deixem a caverna, os prisioneiros se revoltam e acabam por assassinar o 
prisineiro que retornou. Este mito traz muitos outros elementos importantes e seria 
interessante lê-lo na íntegra.
Entendendo o mito
A caverna representa o mundo material e sensível em que nós vivemos e as sombras 
dos objetos, as coisas materiais que percebemos pelos sentidos. O prisioneiro que 
se liberta da caverna, para Platão é o filósofo, o estudioso; o mundo fora da caverna 
representa o mundo das ideias verdadeiras ou da verdadeira realidade; a luz exterior 
do sol é a luz da verdade. O instrumento que liberta o filósofo é a dialética e a visão 
do mundo real iluminado é a Filosofia. Os prisioneiros zombam, espancam e matam 
o filósofo por entender que o mundo sensível é o verdadeiro, único e real.
Podemos perceber nesse mito diferentes níveis de conhecimento: 
1. Contemplar as sombras é o senso comum, a opinião, adoxa (a doxa 
prevalece no mundo sensível). 
2. Contemplar os objetos à luz da fogueira, segundo Platão, são as crenças, 
pisti em grego.
3. Contemplar as coisas reais (leia-se “ideais”) refletidas na água, no entender 
de Platão é a ciência, a episteme (a episteme prevalece no mundo inteligível). 
4. A decisão de sair da caverna corresponde ao senso crítico, a busca do 
conhecimento, o amor ao saber, que em grego se diz filosofia. Mais do que 
isso, a filosofia é o arremate final de tudo o que aconteceu e está acontecendo; 
é clara noção do que seja o mundo. 
Platão colocava a filosofia como último estágio do conhecimento, ou estágio 
mais alto, acima da ciência inclusive, porque entendia que a ciência explicava como 
as coisas funcionam, mas não explica o porquê do seu funcionamento. Além disso, 
é preciso lembrar que a ciência da época era rudimentar.
Caso queira conhecer o Mito da Caverna acesse o link disponível em: 
<http://zeadir.blogspot.com.br/2008/10/o-mito-da-caverna.html>. 
Noções gerais acerca do conhecimento
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Segundo Platão, o conhecimento não reside nas impressões advindas das 
sensações, mas no raciocínio acerca das mesmas. A única maneira para se atingir a 
essência e a verdade é o raciocínio, de outro modo isto é impossível, conforme afirma 
em Teeteto (186c), onde também apresenta a sua célebre definição de conhecimento 
como crença verdadeira e justificada (acompanhada de explicação racional).
No Mênon (98a), Platão afirma que
É por enfatizar o uso da razão que Platão pode ser considerado o primeiro dos 
racionalistas.
O esquema idealizado por Platão seria mais ou menos o seguinte:
Uma versão recente do Mito da Caverna foi veiculada pelas 
telas do cinema através do filme Matrix. Nesse filme há um 
entrelaçamento de realidade e sonho/pensamento, ou dito de 
outra forma, o pensamento tem o poder de criar a realidade 
e a realidade que se acredita viver não passa de impulsos 
eletromagnéticos enviados por computadores superpotentes. 
Fica o questionamento, será que a realidade que vivemos e cremos 
ser a mais genuína e perfeita, corresponde adequadamente à 
realidade tal qual ela é? Ou será que cada um de nós pode ver o 
mundo de um jeito?
As opiniões que são verdadeiras [...] são uma bela coisa e produzem 
todos os bens. Só que não se dispõem a ficar muito tempo, fogem 
da alma do homem, de modo que não são de muito valor, até que 
alguém as encadeie por um cálculo de causa. [...] e quando são 
encadeadas, em primeiro lugar, tornam-se ciências, em segundo 
lugar, estáveis. E é por isso que a ciência é de mais valor que a 
opiniãocorreta, e é pelo encadeamento que a ciência difere da 
opinião correta. (PLATÃO, 2001, p. 102).
Ao propor que o uso da razão, em vez da observação, é o único 
caminho para adquirir conhecimento, Platão lançou os alicerces 
para o racionalismo do século XVII. A influência platônica ainda 
sobrevive. O amplo leque de temas sobre os quais escreveu levou 
Alfred North Whitehead, lógico britânico do século XX, a dizer que 
toda a filosofia ocidental subsequente “consiste num conjunto de 
notas de rodapé a Platão”. (AA. VV., 2011, p. 55).
Noções gerais acerca do conhecimento
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Figura 1.6 | Os dois mundos platônicos
FONTE: AA. VV.(2011, p. 52)
1. Segundo Platão, Parmênides havia percebido que podemos 
conhecer pela razão e não pelos sentidos, contudo, se fazia 
necessário vincular o que se conhecia via razão com o objeto material 
que se torna conhecido. Desse modo, a Doutrina dos Dois Mundos 
ia, paulatinamente, ganhando consistência em seus pensamentos.
De acordo com o texto, como Platão se situa diante dessa relação 
sujeito cognoscente e objeto conhecido?
a) Colocando uma absoluta separação entre ambos.
b) Dando ênfase ao objeto e afirmando que o nosso conhecimento 
depende deles.
c) Concordando com o pensamento de Parmênides que via razão 
e sensação como inseparáveis.
d) Sustentando que apenas a razão consegue produzir 
conhecimento e não a sensação.
2. “Quando é, pois, que a alma atinge a verdade? Temos de um lado 
que, quando ela deseja investigar com a ajuda do corpo qualquer 
questão que seja, o corpo, é claro, a engana radicalmente.
Dizes uma verdade.
Noções gerais acerca do conhecimento
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– Não é, por conseguinte, no ato de raciocinar, e não de outro 
modo, que a alma apreende, em parte, a realidade de um ser?
– Sim.
[...] - E é este então o pensamento que nos guia: durante todo o 
tempo em que tivermos o corpo, e nossa alma estiver misturada 
com essa coisa má, jamais possuiremos completamente o objeto 
de nossos desejos! Ora, esse objeto é, como dizíamos, a verdade.”
(PLATÃO. Fédon. Trad. Jorge Paleikat e João Cruz Costa. São 
Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 66-67.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre a concepção de 
verdade em Platão, é correto afirmar:
a) O conhecimento inteligível, compreendido como verdade, está 
contido nas ideias que a alma possui.
b) A verdade reside na contemplação das sombras, refletidas pela 
luz exterior e projetadas no mundo sensível.
c) A verdade consiste na fidelidade, e como Deus é o único 
verdadeiramente fiel, então a verdade reside em Deus.
d) A principal tarefa da filosofia está em aproximar o máximo 
possível a alma do corpo para, dessa forma, obter a verdade.
Noções gerais acerca do conhecimento
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Noções gerais acerca do conhecimento
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Seção 3
Conhecimento em Aristóteles
Vamos, nesta sessão, buscar apresentar a discordância existente entre Platão e 
Aristóteles com relação ao modo como conhecemos o mundo e a saída apresentada 
pelo Estagirita à questão do movimento interno dos seres (nascer, crescer, viver e 
morrer), haja vista que para Aristóteles não existem dois mundos.
Apesar de todo o respeito e consideração que Aristóteles nutria por seu mestre, 
acabou por discordar dele em alguns assuntos, sendo um deles justamente a teoria do 
conhecimento. Em Ética a Nicômaco (1096a15), Aristóteles afirmou “a piedade exige 
de nós que honremos mais a verdade que os nossos amigos”, frase que se tornou 
célebre como provérbio latino “Amicus Platon, sed magis amica veritas”. (HELFERICH, 
2006, p. 40), que pode ser traduzido como “sou amigo de Platão, mas sou mais amigo 
da verdade”.
Podemos considerar como emblema dessa discordância o modo como os dois 
3.1 Aristóteles
Aristóteles não era grego, era macedônio, nasceu na cidade de Estagira e, 
por isso, também ficou conhecido como O Estagirita. Embora não fosse grego, 
Aristóteles viveu grande parte da sua vida em Atenas. Aos 17 anos de idade iniciou 
os seus estudos na Academia de Platão e lá permaneceu por 20 anos até a morte 
do seu mestre. Por ser aluno de maior destaque da Academia acreditou que poderia 
se tornar o novo escolasta (nome que se dava ao diretor), mas como os gregos são 
bastante nacionalistas, acabaram dando a direção da escola a Espeusipo, sobrinho 
de Platão. Isso entristeceu muito Aristóteles e o fez ir embora de Atenas.
Em 347 a. C, morrendo Platão, Aristóteles deixa Atenas e vai para 
Assos, na Ásia Menor, onde Hérmias, antigo escravo e ex-integrante 
da Academia, havia se tornado o governante. É possível que a escolha 
de Espeusipo, sobrinho de Platão, para substituir o mestre na direção 
da Academia, tenha decepcionado Aristóteles; sua destacada atuação 
naqueles vinte anos parecia apontá-lo como o mais apto a assumir a 
chefia. (ARISTÓTELES, 1987, p. 3).
Noções gerais acerca do conhecimento
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foram retratados no centro do quadro A Escola 
de Atenas, de Rafael de Sanzio (1483-1520): 
Platão apontando para o alto (e segurando em 
sua mão o livro Timeu) querendo indicar que 
o verdadeiro conhecimento se encontra no 
mundo das ideias e Aristóteles apontando para 
baixo (segurando em sua mão uma de suas 
obras mais conhecidas, Ética à Nicômaco) 
sinalizando que nós obtemos o verdadeiro 
conhecimento a partir do mundo concreto 
em que vivemos. 
Vejamos mais algumas discordâncias 
entre o pensamento dos dois: para Platão 
nascemos com ideias, para Aristóteles 
nascemos sem nada na mente. Para Platão 
existem dois mundos, para Aristóteles 
apenas um. Para Platão nascemos com 
virtude – embora encobertas, empanadas, 
adormecidas, devendo ser despertadas por 
nós – e para Aristóteles nascemos sem virtude 
e as adquirimos pelo hábito, pois o hábito é a 
nossa segunda natureza.
Tudo indica que inicialmente Aristóteles seguiu muito de perto os ensinamentos de 
Platão, mas depois acabou divergindo deste.
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.
org/wiki/File:Sanzio_01.jpg?uselang=pt-br>. Acesso 
em: 31 mar. 2015.
Figura 1.7 | Detalhe do quadro Escola 
de Atenas, mostrando a discordância 
entre Platão e Aristóteles
Segundo Will Durant (1996, p. 70), “os dois eram gênios; e 
é notório que os gênios combinam entre si com a mesma 
harmonia com que a dinamite combina com o fogo”. Platão 
teria se referido a Aristóteles como o Nous da Academia, a 
inteligência personificada. Aristóteles teria gasto muito 
dinheiro com livros manuscritos e formado uma biblioteca, 
e por isso Platão chamava a casa de Aristóteles de “a casa 
do leitor”. Aristóteles dá a entender que a sabedoria não iria 
morrer junto com Platão, e ele responde que Aristóteles se 
parece com o potro que escoiceia a mãe depois de beber todo 
o leite. (MACHADO, 2013, p. 16).
Grande parte das obras de Aristóteles sumiu (inclusive o enredo do filme O Nome 
da Rosa é um livro sumido de Aristóteles, Poética II) e outras ficaram desconhecidas 
por, aproximadamente, 1500 anos, pois estavam de posse dos árabes e apenas eles as 
conheciam. Há quem defenda que estas obras se encontravam na Casa da Sabedoria 
Noções gerais acerca do conhecimento
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de Bagdá, um dos maiores centros de conhecimento do mundo antigo.
Com a chegada dos muçulmanos à Europa, estas obras aos poucos foram sendo 
conhecidas.
Tudo leva a crer que Aristóteles não queria simplesmente se opor ao seu mestre, 
mas corrigir aquelas ideias onde ele percebia alguns equívocos, pois o pensamento 
aristotélico é devedor do platônico por ser dele oriundo.
Ato e potência
Segundo Aristóteles, o mundo inteligível concebido por Platão conseguia apenas 
explicar a imperfeição do mundo sensível e não como a mudança acontece e é 
captada pelos sentidos. Para Aristóteles o conhecimento começa pelos sentidos os 
quais captam o mundo sensível (ou material) em que vivemos. A partir disto o intelecto 
separa os aspectos acidentais (aquilo que não é essencial para a compreensão do 
objeto, não faz parte da sua essência e é apenas uma característica daquele objeto 
Os primeiros textos, de que se conhecemalguns fragmentos, são de 
forte influência platônica até no título (como O Banquete, O Sofista, 
O Político) [...]. A ruptura com o pensamento do mestre ocorre após 
a saída da Academia: a obra Sobre a Filosofia, desse período, contém 
a crítica da teoria das ideias. A partir daí Aristóteles desenvolveria seu 
próprio caminho. (ABRÃO, 1999, p. 55). 
Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/RhUp3M>; <http://goo.gl/tYBcB6>. Acesso em: 31 mar. 2015.
Figura 1.8 | Ato e potência: tudo está propenso a mudança, vide São Paulo em 1902 e 2002
Sobre Aristóteles acesse o link disponível em: <http://www.
mundodosfilosofos.com.br/aristoteles.htm>.
Noções gerais acerca do conhecimento
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individual, um detalhe que não afeta a sua estrutura) e esta separação chama-se 
abstração. “Para Aristóteles, o conhecimento é esse processo de abstração pelo qual 
o intelecto produz conceitos universais que, ao contrário das ideias de Platão, não 
existem separadamente das coisas e do intelecto”. (ABRÃO, 1999, p. 56).
Observando o mundo percebemos 
tudo se transforma continuamente. A 
mudança que percebemos nas coisas 
ocorre porque tudo o que existe está, 
neste momento em que percebo, em 
ato (o modo como o objeto se apresenta 
ao meu intelecto neste exato instante), 
mas tem a possibilidade de se alterar e 
tornar-se diferente daquilo que percebo. 
Esta possibilidade é a potência: o poder 
de se tornar algo que ainda não é, mas 
pode vir a ser. O ato é o estado atual 
(aqui e agora) do ser e a potência aquilo 
no qual o ser se transformará, mas sem 
deixar de ser aquilo que era. É como se a 
transformação ocorresse sobre uma base 
imutável. 
Uma semente em nossas mãos é, 
em ato, apenas uma semente, mas em 
potência é uma árvore ou talvez até uma 
floresta. A árvore saiu dali, de dentro 
da semente; ou seja, a semente foi se 
transformando até se tornar uma árvore, 
Você já percebeu que tudo nesse mundo realmente está 
em mudança? E que não adianta querermos parar esse 
movimento, pois ele parece ter vontade própria? Tente 
parar o seu pensamento por 10 segundos. Tente parar o seu 
envelhecimento. Tente parar as mudanças que ocorrem em 
sua cidade. E astronomicamente? Segundo os cientistas, o 
sol vai se apagar daqui há 4,5 bilhões de anos. A nossa galáxia 
está em rota de colisão com a galáxia de Andrômeda. O 
universo dá indícios de estar se desacelerando e esfriando. O 
que será de tudo isso daqui a bilhões de anos?
Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/
wikipedia/commons/c/c1/%27David%27_by_Michelangelo.
JPG?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015.
Figura 1.9 | Quatro Causas: o que é, do 
que é feito, quem fez e por que fez. David 
de Michelangelo
Noções gerais acerca do conhecimento
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31
mas não houve uma mudança brusca que permitiu, de um instante para o outro, que 
ela se tornasse algo totalmente diferente daquilo que era. Esta alteração é o modo 
como a potência vai se atualizando, o ser vai passando da potência ao ato. Diríamos, 
fica atualizado, ou seja, agora está em ato.
As quatro causas: material, formal, eficiente e final
Este movimento, esta passagem da potência para o ato ocorre por ser efeito de 
uma causa (para Aristóteles tudo tem causa, tudo tem motivo de ser; por isto se diz 
que o seu pensamento é teleológico [telos, em grego é motivo, finalidade]): a causa 
eficiente – aquela que faz com que o ser se transforme em algo diferente. Segundo o 
Estagirita tudo o que existe possui quatro causas. São elas:
- Causa material: aquilo do qual o objeto é feito.
- Causa formal: o formato que o objeto tem.
- Causa eficiente: aquela que age sobre o objeto; e
- Causa final: a razão de ser, a finalidade do objeto.
Se a semente é um bom exemplo para se compreender a questão do ato e 
potência, talvez a estátua o seja para se compreender as quatro causas. Imaginemos 
o Davi, de Michelangelo: o mármore de Carrara é a causa material (a matéria da qual a 
estátua é feita), um homem em pé é a causa formal (a forma que o mármore adquiriu), 
Michelangelo a causa eficiente (foi ele quem a fez) e a causa final é a finalidade, o 
motivo pelo qual ele esculpiu tal estátua, no caso, a encomenda feita pelos políticos 
florentinos. A causa final “é a mais importante: se a potência atualiza-se em ato, é 
sempre em vista de alguma finalidade”. (ABRÃO, 1999, p. 57).
A partir da teleologia, ou seja, da ideia de que tudo tem uma causa e que nada 
existe em vão, Aristóteles postulou a necessidade de uma causa primeira, também 
chamada por ele de motor imóvel, que não seria material, mas forma pura. Percebe-se 
então que Aristóteles conserva de Platão uma única forma transcendente (separada) 
correspondente à ideia de “Deus”, que diferentemente do que havia sido concebido 
por Platão, não cria e nem interfere no curso do mundo, mas é pensamento do 
Sobre ato e potência acesse o link disponível em: <http://www.
webartigos.com/artigos/ato-e-potencia-aristotelico/10066/>. 
Noções gerais acerca do conhecimento
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32
pensamento e conhecimento de si, é ato puro, um pensamento sempre em ato, 
espírito puríssimo.
Os tipos de conhecimento segundo Aristóteles
Com base na distinção entre ação e contemplação, Aristóteles classifica as ciências, 
ou saberes, do seu tempo em três tipos diferentes.
- Ciências produtivas: aquelas que têm por base o conhecimento sensível e 
estudam as práticas produtivas, as técnicas com o objetivo de produzir um objeto. São 
as ciências, os conhecimentos próprios dos artistas e artesãos. Também é chamado 
de poiesis (produção, em grego). Exemplos: medicina, arquitetura, agricultura e 
economia, entre outros. 
- Ciências práticas: objetiva possibilitar ao homem o acesso ao bem, ou seja, tornar 
melhor o homem (a vida) e a polis (a convivência). Quando tem por finalidade o bem 
individual chama-se ética; quanto tem por finalidade o bem coletivo chama-se política. 
Portanto, ética e política tem, para Aristóteles, a mesma finalidade: alcançar o bem. A 
finalidade da política é a vida boa, justa, bela e livre e é superior à ética, pois o bem 
comum antecede ao bem individual.
- Ciências teoréticas (ou contemplativas): são saberes vinculados à reflexão, ao 
entendimento intelectivo da realidade; estudam realidades que existem por si e não 
são resultado de obra humana. A física, a biologia e a meteorologia, por exemplo, 
estudam as realidades ligadas à natureza e submetidas às mudanças. A matemática 
estuda as coisas ligadas à natureza não submetidas às mudanças. A metafísica estuda 
o ser que deve haver em toda e qualquer realidade e a teologia estuda as coisas divinas. 
Acreditamos ter apresentado aqui as principais contribuições de Aristóteles à teoria 
do conhecimento. Aristóteles morreu em 322 a. C., um ano depois do seu discípulo 
Alexandre Magno (356-323 a. C.). Alexandre havia difundido pelo mundo conhecido o 
modo de vida dos gregos e isso ficou conhecido como helenismo. Aproximadamente 
70 anos depois vai surgir o Império Romano que, após contato com a cultura helênica, 
Figura 1.10 | O conhecimento aristotélico a partir do mundo físico
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
33
fará uma simbiose desta com a cultura romana, dando início à cultura greco-romana, 
um dos pilares da civilização ocidental.
O outro pilar formador da nossa cultura será a cultura judaico-cristã. Note 
que estamos falando de cultura e não de religião, pois tanto o judaísmo quanto o 
cristianismo, além de possibilitar uma visão religiosa do mundo também possibilitam 
um modo peculiar de ver e de agir no mundo gerando, assim, uma cultura. Essas 
quatro visões de mundo vão se encontrar em Roma, o centro político do mundo 
antigo. Contudo, não se encontram todos ao mesmo tempo, o helenismo chega a 
Roma mais ou menos pelo ano 300 a. C. e o cristianismo só chega (ou melhor, só é 
aceito), aproximadamente, no ano 400 d. C., pois só em 393 d. C. o cristianismo se 
torna religião oficial do Império e já estamos entrando em outro período da história.
1. Em sua obra intitulada Metafísica,Aristóteles afirma que “todos 
os homens, por natureza, desejam conhecer. Sinal disso é o prazer 
que nos proporciona os nossos sentidos; pois, ainda que não 
levemos em conta a sua utilidade, são estimados por si mesmos; 
e, acima de todos os outros, o sentido da visão [...] Por outro lado, 
não identificamos nenhum dos sentidos com a Sabedoria, se bem 
que eles nos proporcionem o conhecimento mais fidedigno do 
particular. Não nos dizem, contudo, o porquê de coisa alguma”.
De acordo com o texto, considere:
I. Entendia Aristóteles que sabedoria é conhecer as causas 
particulares dos eventos.
II. A aquisição da sabedoria plena pode ser considerada o mais alto 
grau de conhecimento.
III. O prazer que sentimos quando utilizamos os nossos sentidos 
pode ser considerado o grau mais elevado de conhecimento.
IV. Aristóteles entendia que os homens nascem com o desejo de 
conhecer as coisas.
Estão corretas apenas as afirmativas:
a) I e II.
b) II e IV.
c) I, II e III.
d) I, III e IV.
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
34
2. Para Aristóteles a ciência pode ocupar-se com quatro tipos de 
causas: material, formal, eficiente e final.
Assinale a alternativa em que as perguntas correspondem, 
respectivamente, às causas citadas.
a) Por que foi gerado? Do que é feito? O que é? Quem gerou?
b) O que é? Do que é feito? Por que foi gerado? Quem gerou?
c) Do que é feito? O que é? Quem gerou? Por que foi gerado?
d) Quem gerou? Por que foi gerado? O que é? Do que é feito?
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
35
Seção 4
Conhecimento medieval e renascentista
Apresentaremos, nessa sessão, como se deu a compreensão de conhecimento 
durante a Idade Média, conhecida como época das trevas, inclusive, justamente 
porque o conhecimento ficou estagnado; como o mundo era entendido e explicado 
nessa época e, por fim, como o Renascimento rompeu com essa visão e constitui a 
nova ciência.
4.1 Conhecimento medieval e renascentista
Segundo a divisão histórica, a Idade Média começou em 476 d. C. com a queda 
do Império Romano no ocidente e veio até 1453, com a queda do Império Romano 
no oriente (tomada de Constantinopla pelos Turcos Otomanos) ou, segundo outros, 
até 1492 com a descoberta da América.
A filosofia medieval não tem os limites tão bem demarcados como a história, 
mas entende-se que ela começou em 529 d.C. quando o imperador Justiniano 
determinou o fechamento de todas as escolas pagãs, entre elas a Academia de 
Platão (aberta em 387 a.C., funcionou por 916 anos) e o Liceu de Aristóteles (aberto 
em 335 a.C., funcionou por 864 anos) e veio até Guilherme de Ockham (1290-1349) 
sendo que, a partir de então, começa o Renascimento. É bom deixar claro, contudo, 
que não há muito consenso quanto a essas demarcações.
 Desse modo, podemos dizer que a filosofia medieval compreende um 
período de, aproximadamente, mil anos, indo, grosso modo, de 400 a 1400 e 
compreendendo uma época em que o poder mais bem organizado foi o poder 
eclesiástico. No ano 393, o imperador Teodósio tornou o cristianismo a religião 
oficial do Império. Oitenta anos depois o Império Romano estava ruindo sob as 
invasões bárbaras.
Como sabemos, quando os bárbaros ocuparam Roma, a cultura sucumbiu, pois 
a língua falada pelos bárbaros não era decifrável, e a escolas foram fechadas, sendo 
reabertas apenas no ano 781 por determinação do imperador Carlos Magno. Nessa 
época, a única instituição que estava coesa era a Igreja e, desse modo, ela acabou 
ficando com o poder espiritual e o poder temporal em suas mãos, mantendo escolas 
internas (monacais) em funcionamento e hospitais. Foi assim que a Igreja acabou se 
envolvendo em questões políticas, econômicas, artísticas, científicas etc., ou seja, o 
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
36
mundo era, conforme a Igreja dizia que ele era.
Para delimitar o que era ou não conhecimento verdadeiro a Igreja recorria ao 
livro dos livros, a Bíblia, pois acreditava que ali estava expressa a palavra de Deus 
e que tudo o que constava nela representava a verdade sobre o mundo. Hoje os 
teólogos sustentam que a Bíblia não é um livro de ciência, mas um livro de fé, pois 
ela narra a história de um povo interpretada á luz da crença em um ser superior. 
A bíblia é oriunda de um povo (judeu) e de uma época (antiguidade) e traz consigo 
uma cosmologia própria, entendendo que a terra é plana e está imóvel no centro 
do universo; ao seu redor giram a lua, o sol, os planetas e as demais estrelas. Apenas 
desse modo, faz sentido que Josué tenha feito o sol parar no Vale de Gabaon e a lua 
no Vale de Aiaon (Js 10, 12). Além disso, a Igreja se autodeclarou representante de 
Deus na terra e passou a interferir em assuntos políticos, econômicos (condenava a 
usura, por exemplo), artísticos, enfim, em todas as áreas da vida humana, conforme 
já assinalamos anteriormente.
Apesar da recomendação bíblica de cuidado em relação às vãs filosofias, descrita 
na Carta aos Colossenses (2, 6-8), onde se lê:
Já que vocês aceitaram Jesus Cristo como Senhor, vivam como 
Cristãos: enraizados nele, vocês se edificam sobre ele e se apoiam 
na fé que lhes foi ensinada, transbordando em ações de graças. 
Cuidado para que ninguém escravize vocês através de filosofias 
enganosas e vãs, de acordo com tradições humanas, que se 
baseiam nos elementos do mundo, e não em Cristo.
A Igreja, sobretudo, na pessoa de Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), fez 
uma releitura da filosofia de Platão e acabou por unir essas duas visões de mundo, 
construindo uma visão filosófica própria, a Filosofia Cristã. Vamos conhecer um pouco 
mais da teoria do conhecimento de Agostinho, um dos grandes expoentes de duas 
grandes áreas: filosofia e teologia.
Você consegue supor como será a ciência daqui a 200, 300 
ou 500 anos? Assim como percebemos lacunas no modo 
como a ciência foi feita antigamente, será que no futuro, os 
estudiosos também não vão rir da nossa ciência? Será que o 
mundo é e funciona conforme acreditamos hoje em dia?
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
37
Agostinho e a teoria da iluminação divina
 Agostinho, ou Santo Agostinho, é o maior nome da filosofia Patrística (nome 
originado do latim pater, que tem o sentido de padre e que se refere ao período em 
que os Santos Padres se dedicaram a purificar a religião cristã diante da ameaça das 
heresias). Os principais problemas que ele teve de enfrentar foram relacionados às 
formulações acerca da Trindade, da criação do mundo, da constituição da alma, 
da encarnação e ressurreição de Cristo e da relação entre liberdade e graça e entre 
fé e razão. Para a filosofia, o cristianismo se apresentava com muitos absurdos, 
por exemplo, Deus criar o Universo e os seres ex nihil (a partir do nada), morrer na 
cruz, amar o ser humano. E esse conjunto de absurdos foi terreno propício para 
o surgimento de muitas heresias, com destaque para: Gnosticismo, Donatismo, 
Maniqueísmo, Arianismo, Nestorianismo, Pelagianismo, Adocionismo, Apolinarismo, 
Docetismo, Monofisismo. Cada uma delas com uma compreensão diferente da 
mensagem cristã.
Uma das questões que mais incomodava Agostinho era: conhecemos a verdade? 
Como a conhecemos? Ele acabou concluindo que conhecemos com certeza o 
princípio de não contradição e a própria existência. Dizia que “ninguém pode duvidar 
da própria existência porque, neste caso, a dúvida é uma prova da existência: se me 
engano, existo”. (MONDIN, 1982, p. 137).
Sobre as heresias acesse o link disponível em: <http://zeadir.blogspot.
com.br/2015/01/principais-heresias.html>.
Fonte: Disponível em: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Educacion_en_la_nueva_espa%C3%B1a.jpg?uselang=pt-br. 
Acesso em: 31 mar. 2015.
Figura 1.11 | Com sua luz, Deus ilumina nossas mentes com as suas verdades
Noções gerais acerca do conhecimento
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38
Tenho plena certeza de existir, de conhecer-me e de amar-
me; e não temo os argumentos apresentados contra esta 
verdade pelos acadêmicos, que dizem: e se te enganas? Se me 
engano significa que sou, que existo.Uma vez, pois, que existo, 
se me engano, como posso enganar-me a respeito de minha 
existência, se é certo que existo pelo próprio fato de enganar-
me? Portanto, eu, que me enganaria, mas que existiria mesmo 
na hipótese de que me enganasse, inegavelmente não me 
engano no conhecer a mim mesmo. (CIDADE DE DEUS, XI, 26, 
apud, MONDIN, 1982, p. 137).
Agostinho acabou concluindo que o conhecimento se dava por três vias – 
os sentidos, a razão inferior (a ciência) e a razão superior (a fé) –, que apreendem 
respectivamente os objetos, as leis da natureza e as verdades eternas. Mesmo o 
conhecimento adquirido pelos sentidos depende, em última instância, da alma. O 
corpo recebe as impressões, mas é a alma que elabora o conhecimento. 
Segundo Agostinho, a alma recebe a imagem e não os objetos em si. A razão 
inferior se ocupa do conhecimento científico acerca do mundo corpóreo e de suas 
leis, bem como do processo de abstração. Por fim, a mais alta forma de conhecimento 
é o das verdades eternas a qual só é possível por meio da iluminação divina: “Deus 
irradia na mente humana as verdades absolutas, imutáveis”. (MONDIN, 1982, p. 139). 
Dizia ele que é preciso crer para compreender e compreender para crer.
Com relação ao movimento, Agostinho entende que ele está estruturalmente 
ligado com o tempo. Ao criar o mundo do nada, Deus criou também o tempo, por isso 
“não há movimento antes do mundo, só com o mundo” (REALE, 1990, p. 451). Tudo o 
que existe existiu primeiro na mente divina, pelo que as ideias têm um papel essencial 
na criação. Deus criou a matéria e todas as possibilidades de sua concretização, 
infundindo nelas as razões seminais de cada coisa, como se a natureza estivesse 
grávida e a evolução fosse esse movimento em direção ao parir. São como sementes 
que evoluem, amadurecem e concretizam aquilo para o qual foram projetadas. 
A questão do tempo em Agostinho é bastante intrigante, pois ele indaga acerca da 
sua existência. Primeiro diz que o passado existiu, mas não existe mais, não se pode 
medi-lo; depois afirma que o futuro ainda não existe, não chegou e também não se 
pode medi-lo; por fim diz que o presente é fugaz e quando tento medi-lo ele já se foi, 
virou passado (Confissões, livro XI), portanto, como não existe nem o passado, nem 
o presente e nem o futuro, conclui-se que o tempo não existe, ou, que o tempo não 
existe em si, apenas em nossa mente.
Como bom platônico, Agostinho prioriza mais o mundo inteligível que o mundo 
sensível e sustenta que as coisas exteriores são unicamente para conduzir o ser 
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
39
humano ao conhecimento de si mesmo e o ajudam a se elevar até Deus (ascese). A 
fé e a razão se complementam num processo intelectual que desemboca no amor. A 
inteligência prepara para a fé e ambas se conduzem ao amor, pois é só no amor que 
se encontra a verdade.
As universidades de Bolonha e de Paris estão entre as primeiras que 
surgiram e acabaram se tornando uma espécie de modelo para as 
demais. A universidade de Paris surgiu a partir de uma ampliação da 
escola da catedral de Nôtre-Dame. Uma das figuras mais importantes 
do início desta universidade foi Pedro Abelardo (1079 – 1142). [...] 
Naquela época a disciplina por excelência, além da teologia, era a 
lógica, pois era muito importante saber construir argumentos claros e 
convincentes e saber encontrar a verdade bíblica distinguindo o que é 
linguagem literal da linguagem figurativa, ou simbólica. Preocupados 
com a questão da linguagem e valendo-se da lógica e da dialética 
surgiram, inicialmente, debates acerca de questões relacionadas à 
alma e isto acabou desembocando na querela acerca da natureza dos 
universais. (MACHADO, 2013, p. 29).
A questão dos universais
Logo após a morte de Agostinho, em 430, 
entramos naquele período de estagnação do 
conhecimento, pois, como já mencionamos, 
as escolas deixaram de existir na Europa, sendo 
reabertas apenas no ano 781. Muito lentamente 
as escolas vão sendo difundidas pelo velho 
continente, funcionando, geralmente, junto 
aos palácios e por isso receberam o nome de 
Escolas Palatinas.
O currículo dessas escolas era o Trivium 
(três matérias: gramática, retórica e dialética) 
e o Quadrivium (quatro matérias: aritmética, 
geometria, música e astronomia). Já estamos entrando em um momento que ficou 
conhecido como Escolástica.
Próximo ao ano 1200 surge a primeira universidade do mundo – ao menos 
nos moldes atuais, pois já havia uma no Egito (Universidade de al-Azhar) e outra na 
Península Itálica (Universidade de Bolonha), a Universidade de Paris. Ela surgiu junto à 
Catedral de Nôtre-Dame. As aulas eram mais em forma de debates do que expositivas; 
e um dos temas recorrentes era a questão dos universais (conceitos gerais e abstratos. 
Por exemplo: casa, homem, pedra etc.).
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.
org/wiki/File:Pe%C3%B1alosa-tomas_aquino.
jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015.
Figura 1.12 | Escolástica: aulas debatidas 
com pouco material de estudo
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
40
Basicamente, a preocupação era perceber a relação que existe entre as palavras 
e as coisas, entre os conceitos e a realidade. Rosa, por exemplo, é um nome que 
sobrevive à morte da própria flor, o que indica que a palavra pode se referir até as 
coisas inexistentes. Será que as coisas existem por si mesmas, separadas dos objetos 
sensíveis? Para responder estas questões surgiram duas correntes: os nominalistas e 
os realistas.
Para os nominalistas, os universais são meras palavras, meros nomes, sem existência 
real. São abstrações feitas a partir da percepção de objetos individuais (este homem, 
este animal) (ABRÃO, 1999). O realismo se opõe a isto e defende que os universais têm 
existência efetiva. Uma existência anterior e separada das coisas, como ensinava Platão, 
ou a forma das coisas, como ensinava Aristóteles. Pedro Abelardo defende uma solução 
intermediária: “os universais só existem no intelecto, mas ao mesmo tempo, mantêm 
relação com as coisas particulares na medida em que lhes dão significado. Desse modo, 
é como significado que os universais subsistem às coisas”. (Ibidem, p. 108).
Mas o maior do nome da Filosofia Escolástica 
acabou sendo Tomás de Aquino (1225-1274). Ele 
teve o privilégio de ser um dos primeiros professores 
a ter contato com as obras de Aristóteles, até então, 
posse dos árabes, como já assinalamos.
Tomás de Aquino se apoiou no pensamento de 
Aristóteles para elaborar a sua doutrina filosófica 
do mesmo modo como Agostinho se baseou 
em Platão. E, como bom aristotélico, Tomás de 
Aquino também sustentou que nascemos tabula 
rasa (quadro vazio, sem nada na mente), sendo a 
experiência sensorial a fonte do conhecimento, que 
pode ocorrer de duas maneiras: pelas evidências 
fornecidas pela experiência no mundo que nos 
rodeia ou pela revelação divina, podendo ambos 
conduzir a Deus. Deste modo, Tomás acreditou 
demonstrar que o pensamento aristotélico não se 
Sobre a fundação das universidades e sobre a contribuição de Pedro 
Abelardo, assista ao filme “Em nome de Deus”. Cuidado, porém, porque 
existem dois filmes com esse nome. Veja na sinopse se o enredo é a 
história de Abelardo e Heloísa.
Outro filme que retrata a época aqui descrita é “O Nome da Rosa”, 
baseado no livro de Umberto Eco.
Fonte: Disponível em: <http://commons.
wikimedia.org/wiki/File:Mosteiro_de_
Santa_Maria_da_Vit%C3%B3ria,_Batalha,_
Portugal_(2720108018).jpg?uselang=pt-br>. 
Acesso em: 31 mar. 2015.
Figura 1.13 | Tomás de Aquino, 
expoente máximo da filosofia 
Escolástica.
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
41
contrapunha à teologia cristã.
Para o Aquinate, todo conhecimento ocorre por assimilação ou por união da coisa 
conhecida e do objeto cognoscente (conhecedor), dizia que o objeto conhecido está 
no cognoscente segundo a natureza do próprio cognoscente. Sob a influência de 
Aristóteles afirmou que conhecer é abstrair, sendo o universal abstraído do particulare 
a forma abstraída da matéria individual. 
Aquino buscou sintetizar a fé e a razão, pois entendia que não existem contradições 
entre a Filosofia e a fé cristã, visto que apenas a fé e a revelação cristã são capazes de 
atingir as puras verdades espirituais. Além destas, existem também as verdades naturais 
teológicas, que podem ser obtidas tanto por intermédio da fé e da revelação como 
pela razão e pelos sentidos. Um exemplo de verdade natural teológica é a busca de 
provas da existência de Deus.
Outra grande herança do aristotelismo foi a teoria das quatro causas, na qual, na 
interpretação de Tomás de Aquino, Deus é a causa primeira de todas as coisas. E, por 
fim, a filosofia cristã, a exemplo da grega, também se mantém essencialista (tudo tem 
uma essência, uma razão de ser), muito embora o enfoque na universalidade do ser 
humano passe a ser a “vontade de Deus”.
O Renascimento: Galileu Galilei e a nova ciência
O Renascimento é um período relativamente curto da história, mas com 
Tomás de Aquino era bastante gordo e calado e foi apelidado de Boi 
Mudo, pelos colegas de estudo. O mestre, Alberto Magno, em tom 
profético disse aos seus discípulos “respeitem esse que vocês chamam 
de Boi Mudo, pois quando ele mugir o mundo todo vai ouvi-lo”. Dizem 
que ele era tão gordo que, ao sentar-se à mesa, o seu braço não 
alcançava o prato; motivo pelo qual fizeram um semicírculo na mesa 
para ele poder chegar mais perto e se alimentar.
Sobre Tomás de Aquino acesse o link disponível em: <http://www.
mundodosfilosofos.com.br/aquino.htm>. 
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
42
contribuições substanciais em duas grandes 
áreas, na política (com Nicolau Maquiavel [1469-
1527]) e na ciência (com Galileu Galilei [1564-
1642]). Foram contribuições tão relevantes que 
mudaram para sempre a natureza dessas duas 
esferas.
Existe uma ciência antes de Galileu Galilei e 
outra depois dele. Portanto, a ciência que fazemos 
hoje é muito devedora ao Florentino, a tal ponto 
que ele é conhecido como o Pai da Ciência 
Moderna. E para termos uma ideia do que vai 
acontecer com a ciência a partir da contribuição 
de Galileu Galilei, talvez seja suficiente recordar a 
sua famosa frase: “A filosofia encontra-se escrita 
neste grande livro que continuamente se abre 
perante nossos olhos (isto é, o universo), que não 
se pode compreender antes de entender a língua 
e conhecer os caracteres com os quais está 
escrito. Ele está escrito em língua matemática...” 
(GALILEI, 1978, p. 119).
A frase acima nos remete ao pensamento de Pitágoras de Samos (570-497 a. C.) 
que já havia afirmado: “o mundo se reduz a números”. Contudo, mesmo assim, a 
ciência antiga foi feita apenas com razão e observação; Galileu Galilei acrescentou 
a experimentação (método desenvolvido por Francis Bacon [1561-1626]), o cálculo e 
a matemática. Desde então só será considerado ciência o conhecimento que puder 
ser provado, demonstrado, quantificado e mensurado. Poderíamos dizer que ele 
é o culpado por você ter, hoje em dia, que aprender fórmulas, pois a partir dele, o 
conhecimento tem de ser traduzido nessa linguagem. É difícil estudar assim?
Veja o que Galileu Galilei diz sobre a dificuldade de se conhecer as coisas:
Fonte: Disponível em: <http://commons.
wikimedia.org/wiki/File:Mosteiro_de_Santa_
Maria_da_Vit%C3%B3ria,_Batalha,_Portugal_
(2720108018).jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 
31 mar. 2015.
Figura 1.14 | O Renascimento foi 
um período curto, mas profundo, 
que deixou muitas marcas
Se raciocinar sobre um problema difícil fosse a mesma coisa 
que carregar pesos, então muitos cavalos carregariam mais 
sacos de trigo que um cavalo só, e eu concordaria mesmo que 
a opinião de muitos valesse mais do que a de poucos; mas o 
raciocinar é como o correr, e não como o carregar. Assim, um 
cavalo de corrida sozinho correrá sempre mais do que cem 
cavalos frisões. (GALILEI, 1978, p. 211).
Frase bem próxima, ou com o mesmo sentido, da frase de Schopenhauer (1788-
1860): “O intelecto não é uma grandeza extensiva, mas intensiva: sendo assim, um 
Noções gerais acerca do conhecimento
U1
43
único indivíduo pode tranquilamente opor-se a dez mil, e uma assembleia de mil 
imbecis não faz um único homem inteligente” (esta frase se encontra na obra A arte 
de insultar, no verbete Igualitarismo).
Galileu Galilei nasceu em 15 de fevereiro de 1564 na cidade italiana de Pisa. Aos 17 
anos começou estudar medicina, mas nela não satisfez o “seu gosto pela observação 
e pelo rigor do raciocínio” (ROVIGHI, 1999, p. 34), pois na época a medicina não era 
uma ciência tão rigorosa e baseava-se muito mais na autoridade dos clássicos do 
que na observação do corpo humano. Mesmo contrariando seus familiares passou a 
estudar matemática, concomitante com medicina e aos poucos abandonou a ciência 
de Hipócrates. Aos 25 anos tornou-se professor de matemática na Universidade de 
Pisa, mudando dois anos depois, para a Universidade de Pádua.
Em 1609, Galileu Galilei ficou sabendo que na Holanda havia sido construído um 
telescópio, buscou informações, aperfeiçoou este instrumento e começou a fazer 
observações astronômicas. Um ano depois escreveu um livro O mensageiro celeste, 
onde descreveu as montanhas da lua, quatro satélites de Júpiter, as fases de Vênus, 
as formas de Saturno e as manchas solares. Ao perceber que as manchas solares 
mudavam de posição, concluiu que isto só era possível porque a terra estava girando 
em torno do sol.
Em uma carta de 1610, Galileu Galilei afirmou que gostaria que lhe acrescentassem 
ao título de matemático também o de filósofo. É preciso lembrar que filósofo era 
aquele que estudava a natureza, os corpos e seus fenômenos. Diz ele ter “estudado 
mais anos de filosofia do que meses de matemática pura”. (ROVIGHI, 1999, p. 48). 
Galileu Galilei fez investigações em física, sobretudo em mecânica, tentando descrever 
os fenômenos em linguagem matemática, fato que provocou forte reação da 
ciência oficial, até então aristotélica. Contudo, aplicar matemática à física foi a maior 
contribuição de Galileu Galilei para a história das ideias (PESSANHA, 1978).
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Galileo_telescope_replica_(1).jpg?uselang=pt-br>. Acesso 
em: 31 mar. 2015.
Figura 1.15 | Réplica do telescópio (ou luneta) de Galileu Galilei.
Será que muitas vezes não julgamos que muitas pessoas juntas 
podem ter mais conhecimento do que uma única pessoa? Será 
que às vezes não somos levados a concordar com a maioria, 
simplesmente por ser maioria?
Noções gerais acerca do conhecimento
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44
Galileu tornou-se o criador da física moderna, quando enunciou 
as leis fundamentais do movimento; foi também um dos 
maiores astrônomos de todos os tempos, pelas observações 
pioneiras que fez com o telescópio. [...] Galileu é mais 
importante pelas contribuições que fez ao método científico 
do que propriamente pelas revelações físicas e astronômicas 
encontradas em suas obras (PESSANHA, 1978, p. 96).
processo pelo qual os intelectuais se desligam das justificativas 
baseadas na religião, que exigem adesão pela crença, para só 
Estruturou todo o conhecimento científico da natureza e 
abalou os alicerces que fundamentavam a concepção medieval 
de mundo. [...] Em lugar de conceber o mundo como dividido 
em duas partes, uma superior, constituída pelo céu, e a outro 
inferior, a terra em que vive o homem, mostrou que todos os 
objetos físicos devem ser concebidos como sendo da mesma 
natureza e tratados de modo idêntico, pelo menos por aqueles 
que desejam conhecer cientificamente o universo. [...] Mostrou 
que a natureza é fundamentalmente um conjunto de fenômenos 
mecânicos, tal como afirmou Demócrito na Antiguidade. [...] E 
mostrou, finalmente, que “o livro da natureza está escrito em 
caracteres matemáticos” e que ‘sem um conhecimento dos 
mesmos, os homens não poderão compreendê-lo’. (PESSANHA, 
1978, p. 97).
O método desenvolvido por Galileu foi uma revolução na ciência e consistia de três 
princípios: 1º- observação dos fenômenos sem influências religiosas ou extracientíficas; 
2º - experimentação: nenhuma afirmação, que se pretenda científica, deve prescindir 
da verificação de sua legitimidade; e 3º - que se descubra a regularidade matemática 
do evento estudado. 
Ao formular estes princípios, ele:
Ao mostrar que tanto Aristóteles quanto a Igreja, com sua fundamentação bíblica, 
continham erros do ponto de vista científico, Galileu Galilei não somente instaurou 
um novo modo de se fazer ciência como também relegou tudo o que implica 
autoridade e tradição à desconfiança e questionamentos. Este processo é chamado 
de secularização ou laicização do pensamento: um
Noções gerais acerca do conhecimento
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45
Portanto, com Galileu Galilei o mundo se transforma em números e a natureza 
deixa de ter causa final. “A noção geral de movimento muda de significado. Galileu o 
relativiza, definindo-o como ‘deslocamento de uma coisa em relação à outra’”. (ABRÃO, 
1999, p. 193). Mas ele não fez essas mudanças sem sofrimento, pois em 1610, Galilei foi 
aconselhado a manter silêncio sobre suas ideias e em 1616 suas obras foram incluídas 
no Índex de Livros Proibidos. Em 1623, um amigo seu se tornou papa (Urbano III) e ele 
acreditou que haveria mais liberdade e tolerância para com suas teorias. No entanto, em 
1632 foi intimado pela Inquisição e no ano seguinte foi obrigado a renegar suas ideias e 
sustentar que a terra está no centro do universo e que ela não se move. Logo após sua 
retratação dizem que falou em voz baixa “mas que se move, se move”. Foi condenado 
por heresia à prisão domiciliar e assim permaneceu até 1642 quando veio a falecer.
aceitar as conclusões derivadas da investigação racional, mediante 
argumentação. Daí a atenção dada ao método, ponto de partida de 
vários pensadores do século XVII [...] (ARANHA & MARTINS, 2008, p. 
188). [...] O cientista Galileu foi um dos mais importantes precursores 
do Iluminismo, a era de progresso racional que floresceu na Europa 
no séc. XVIII. Antes do Iluminismo, os pensadores tendiam a aceitar 
a autoridade de Aristóteles e da Igreja ao desenvolver suas teorias. 
Galileu rejeitou esses apelos à autoridade e pôs-se a aplicar suas 
próprias faculdades da razão e observação. Construiu um telescópio 
que lhe permitia observar tanto as montanhas da Lua quanto 
o movimento dos satélites de Júpiter, e com ele mostrou que 
Aristóteles estava errado ao afirmar que todos os corpos celestes são 
perfeitamente esféricos e giram em torno da terra. (LAW, 2008, p. 84). 
Sobre Galileu Galilei acesse o link disponível em: <http://www.
portalsaofrancisco.com.br/alfa/galileu-galilei/galileu-galilei-1.php>.
1. “O intelecto humano se põe no meio (entre os sentidos e 
o intelecto angélico): não é ato de um órgão corporal, mas 
é uma potência da alma, que é forma do corpo, como ficou 
Noções gerais acerca do conhecimento
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46
2. A ONU declarou 2009 o Ano Internacional da Astronomia pelos 
400 anos do uso do telescópio nas investigações astronômicas por 
Galileu Galilei. Essas investigações desencadearam descobertas e, 
por sua vez, uma nova maneira de compreender os fenômenos 
naturais. Além de suas descobertas, Galileu também contribuiu 
para a posteridade ao desenvolver o método experimental e a 
concepção de uma nova ciência física.
Com base nas contribuições metodológicas de Galileu Galilei, é 
correto afirmar:
a) A experiência espontânea e imediata da percepção dos 
sentidos desempenha, a partir de Galileu, um papel metodológico 
preponderante na nova ciência.
b) A observação, a experimentação e a explicação dos fenômenos 
físicos da natureza desenvolvidos por Galileu aprimoram o método 
lógico-dedutivo da filosofia aristotélica.
c) A observação controlada dos fenômenos na forma de 
experimentação, segundo o método galileano, consiste em 
interrogar metodicamente a natureza na linguagem matemática.
d) O método galileano reafirma o princípio de autoridade das 
interpretações teológico-bíblicas na definição do método para 
alcançar a verdade física.
demonstrado. Por isso, é sua propriedade conhecer a forma 
que existe individualizada em uma matéria corporal, mas 
não essa forma enquanto está em tal matéria. Ora, conhecer 
dessa maneira, é abstrair a forma da matéria individual, que as 
representações imaginárias significam”. (Tomás de Aquino. 
Suma teológica, I, q. 85, a. 1.).
I. O intelecto humano conhece por abstração porque 
II. A alma, da qual esse intelecto é potência, é forma do corpo. 
Considerando o trecho acima e as duas afirmações sobre a teoria 
da abstração em Tomás de Aquino:
a) I é verdadeira e II é falsa, e II não é condição para I. 
b) I é verdadeira e II é verdadeira, mas II não é condição para I. 
c) I é verdadeira e II é verdadeira, e II é condição para I.
d) I é verdadeira e II é verdadeira, e I é condição para II.
Noções gerais acerca do conhecimento
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Esperamos ter contribuído com seus estudos através desta pequena apresentação 
das principais correntes de pensamento ligadas à teoria do conhecimento, desde a 
Grécia antiga até o Renascimento. De modo sucinto, apresentamos as linhas mestras 
do que julgamos ser mais relevante para a sua formação. Quem tiver interesse pode 
aprofundar um pouco mais os seus estudos recorrendo à pesquisa e à conferência das 
dicas deixadas ao longo dos textos.
Entendemos que o papel da filosofia é instigar o aluno a questionar o mundo, a 
sociedade, a vida, enfim, mesmo que seja para chegar ao que já se sabe, mas que 
se chegue elaborando e construindo o próprio saber e não apenas assimilando sem 
criticidade as informações que são repassadas.
Foi esse o nosso intento desde o começo do texto, pois apresentamos as ideais, as 
descobertas, as teorias dos principais filósofos numa perspectiva de ajudá-lo a questionar 
o óbvio e de tentar descortinar um arcabouço de informações herdadas ao longo da 
história da humanidade, sobretudo, no que concerne à compreensão do mundo da 
vida, mas que, além disso, você mesmo possa obter a sua própria compreensão do 
mundo de modo crítico reflexivo.
A única forma de uma informação se tornar conhecimento é se dela nos 
apossarmos e fizermos com que ela passe a fazer parte inerente ao nosso repertório 
de ideias. Conhecimento é o que fica depois que incorporamos as informações 
recebidas. Recorrendo à linguagem da informática, podemos dizer que a informação 
fica na memória RAM e pode ser despejada quando houver necessidade de espaço para 
outros dados; enquanto o conhecimento fica gravado no disco rígido e sempre estará 
disponível para consulta.
Nessa unidade nós vimos que:
a) Os pré-socráticos buscam conhecer o mundo, a partir da 
descoberta do arquê, o elemento primordial que teria dado 
origem a tudo o que existe.
b) Heráclito diz não ser possível conhecer a origem do mundo 
e nem mesmo o mundo como tal, pois esse está sempre em 
mudança (devir).
c) Parmênides discorda de Heráclito e afirma que a mudança é 
aparente e que na essência (o núcleo do ser) as coisas não mudam.
Noções gerais acerca do conhecimento
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d) Platão busca contribuir e elabora a teoria dos dois mundos. Em 
um deles (o mundo sensível, material) as coisas mudam (nascem, 
crescem e morrem), mas no outro (mundo inteligível, das ideias) elas 
não mudam (os conceitos que formulamos permanecem conosco).
e) Aristóteles discorda de Platão e sustenta a existência de um único 
mundo onde todas as coisas existem em ato e potência e o movimento 
de atualização da potência se dá porque tudo o que existe é resultado 
de quatro causas: material, formal, eficiente e final.
f) O Cristianismo surge e traz uma nova maneira de se entender e 
explicar o mundo, misturando filosofia e religião.
g) Surgem as mais diversas heresias e com elas vêm a necessidade de 
se purificar a fé de muitos erros do ponto de vista teológico e filosófico. 
A Filosofia Patrística se propõe à tarefa de combater as heresias.
h) Agostinho, o maior expoente da Patrística, conhece as ideias de 
Platão ebusca conciliá-las com o cristianismo afirmando que a 
verdadeira luz do conhecimento vem de Deus: teoria da iluminação 
divina.
i) As escolas renascem e algum tempo depois surge a Filosofia 
Escolástica, inicialmente com o debate relacionado à questão dos 
universais, tendo de um lado os nominalistas e de outro os realistas.
j) Tomás de Aquino busca sintetizar Aristóteles ao cristianismo e 
defende que podemos conhecer pelas evidências percebidas no 
mundo ou pela revelação divina. Apenas a fé e a revelação nos 
permitem conhecer as verdades puras.
k) O Renascimento traz uma proposta de conhecimento laico, 
prescindindo das verdades bíblicas.
l) Galileu Galilei une ciência e matemática e passa a fazer uma ciência 
mais experimental e demonstrável, contrariando a forma de ciência 
adotada pela Igreja.
m) Galilei elabora um método científico que compreende três 
momentos: observação, experimentação e descoberta da regularidade.
n) A contribuição de Galilei ultrapassa o campo da ciência e chega a 
questionar o modo hierarquizado no qual o mundo está organizado.
Noções gerais acerca do conhecimento
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o) A ciência passa a ser laica, secular, e rompe definitivamente com a 
religião e a filosofia, ficando cada uma delas uma área distinta do saber, 
com método e objeto próprios.
De modo sucinto, porém objetivo, acreditamos ter apresentado 
a você as principais ideias concernentes aos desdobramentos da 
teoria do conhecimento na Antiguidade, na Idade Média e no 
Renascimento; apresentando-lhe desde o significado do termo 
conhecimento, os tipos de conhecimento; a origem do tema na 
Grécia antiga e as principais contribuições dos filósofos clássicos. 
Apresentamos também a contribuição dos teólogos medievais, 
sobretudo os dois grandes doutores da Igreja, Agostinho e 
Tomás de Aquino; a questão dos universais, muito presente no 
surgimento das primeiras universidades e, por fim, a grande 
guinada proporcionada por Galileu Galilei, quando separa 
Religião, Filosofia e Ciência e estabelece que a ciência tem que 
demonstrar, provar, as suas afirmações, recorrendo à experiência 
e permitindo, através da descoberta da regularidade, que 
experiências futuras também alcancem os mesmos resultados.
Esperamos ter contribuído para a sua formação e oferecido um 
tema que agregue valores aos seus conhecimentos.
1. Platão iniciou suas atividades cognitivas com um discípulo de 
Heráclito chamado Crátilo e foi influenciado pelo pensamento 
heraclitiano, principalmente pela dialética; mas também soube 
reconhecer a significativa contribuição do pensamento de 
Parmênides. Na tentativa de conciliar o pensamento dos dois, 
cria a teoria dos dois mundos. 
Sobre o mundo das ideias de Platão é correto afirmar que:
a) É tudo o que puder ser percebido pelos sentidos, pois é isso 
Noções gerais acerca do conhecimento
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2. Dado que dos hábitos racionais com os quais captamos 
a verdade, alguns são sempre verdadeiros, enquanto outros 
admitem o falso, como a opinião e o cálculo, enquanto o 
conhecimento científico e a intuição são sempre verdadeiros, e 
dado que nenhum outro gênero de conhecimento é mais exato 
que o conhecimento científico, exceto a intuição, e, por outro 
lado, os princípios são mais conhecidos que as demonstrações, e 
dado que todo conhecimento científico constitui-se de maneira 
argumentativa, não pode haver conhecimento científico dos 
princípios, e dado que não pode haver nada mais verdadeiro que 
o conhecimento científico, exceto a intuição, a intuição deve ter 
por objeto os princípios. (ARISTÓTELES. Segundos Analíticos, 
B 19, 100 b 5-17. In: REALE, G. História da Filosofia Antiga. São 
Paulo: Loyola, 1994.)
Considere as afirmativas a seguir a partir do conteúdo do texto 
acima.
I. Todo conhecimento discursivo depende de um conhecimento 
imediato.
II. A intuição é um hábito racional que é sempre verdadeiro.
III. Os princípios da ciência devem ser demonstrados 
cientificamente.
IV. O conhecimento científico e a opinião não admitem o falso.
Assinale a alternativa que contém todas as afirmativas corretas, 
mencionadas anteriormente.
a) I e II.
b) I e III.
c) II e IV.
d) I, III e IV.
e) II, III e IV.
que constitui a realidade que nos cerca.
b) É o verdadeiro mundo, eterno, belo, bom e imutável, diferente 
do mundo material em que vivemos.
c) Não é acessível ao homem, pois não podemos ter ideias 
verdadeiras sobre as coisas e a natureza, visto que tudo é 
sonho e ilusão.
d) Não devemos nos preocupar com o mundo das ideais e sim 
com as coisas passageiras e concretas do mundo.
Noções gerais acerca do conhecimento
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3. Agostinho de Hipona (354-430) foi quem traduziu as ideias de 
Platão para uma linguagem cristã e acresceu a compreensão de 
Plotino e Porfírio. Contudo, ele também difere do pensamento 
platônico em alguns pontos.
Em qual das sentenças a seguir encontramos divergência entre 
Agostinho e Platão?
a) Enquanto para Platão, conhecer é recordar, a alma apenas 
relembra as ideias que contemplou antes de nascer; para 
Agostinho o conhecimento surge a partir da iluminação divina.
b) Agostinho defendia a imortalidade da alma e para Platão ela não 
é imortal, pois sendo apenas a forma do corpo, morre com ele.
c) Segundo Platão, a verdade só existe no mundo das ideias, e 
para Agostinho tudo o que existe é apenas o mundo natural em 
que vivemos.
d) Agostinho afirmava que o homem pode sim adquirir 
conhecimento verdadeiro, e Platão dizia que a verdade não é 
acessível ao homem.
4. A importância do filósofo medieval Tomás de Aquino reside 
principalmente em seu esforço de valorizar a inteligência 
humana e sua capacidade de alcançar a verdade por meio da 
razão. Discorrendo sobre a “possibilidade de descobrir a verdade 
divina”, ele diz: “As verdades que professamos acerca de Deus 
revestem uma dupla modalidade. Com efeito, existem a respeito 
de Deus verdades que ultrapassam totalmente as capacidades 
da razão humana. Uma delas é, por exemplo, que Deus é trino 
e uno. Ao contrário, existem verdades que podem ser atingidas 
pela razão: por exemplo, que Deus existe, que há um só Deus 
etc. Estas últimas verdades, os próprios filósofos as provaram por 
meio de demonstração, guiados pela luz da razão natural”.
A partir dessa citação, identifique a opção que melhor expressa 
esse pensamento de Tomás de Aquino.
a) A Filosofia é capaz de alcançar todas as verdades acerca de 
Deus.
b) O ser humano só alcança o conhecimento graças à revelação 
da verdade que Deus lhe concede.
d) A fé é o único meio de o ser humano chegar à verdade.
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5. “[...] a solução é esta: que nós, de modo algum, admitimos 
que haja nomes universais quando, tendo sido destruídas as suas 
coisas, eles já não são predicáveis de vários, porquanto nem são 
comuns a quaisquer coisas, como o nome da rosa, quando já 
não há mais rosas, o qual, entretanto, ainda é então significativo 
em virtude do intelecto, embora careça de denominação, pois, 
de outra sorte, não haveria a proposição: nenhuma rosa existe.” 
(ABELARDO, Pedro. Lógica para principiantes. Petrópolis: Vozes).
Considerando o trecho acima, em que Abelardo trata do 
problema dos universais, assinale a opção correta.
a) A partir do momento em que não existam mais rosas, o nome 
universal “rosa” não mais subsiste, de forma nenhuma.
b) A função significativa de um nome universal permanece, 
mesmo não mais existindo a coisa real.
c) O que realmente existe é o indivíduo (por exemplo, esta rosa); 
quanto ao nome universal, ele nada mais é do que uma emissão 
fonética.
d) Se não for mais possível designar uma coisa, então também 
não é possível fornecer um conceito dela.
d) Mesmo limitada, a razão humana é capaz de alcançar por seus 
meios naturais certas verdades.
6. “[...] a maneira pela qual Galileu concebe um método científico 
correto implica uma predominância da razão sobre a simples 
experiência, a substituição de uma realidade empiricamente 
conhecida por modelos ideais (matemáticos),a primazia da 
teoria sobre os fatos. Só assim é que [...] um verdadeiro método 
experimental pôde ser elaborado. Um método no qual a 
teoria matemática determina a própria estrutura da pesquisa 
experimental, ou, para retomar os próprios termos de Galileu, 
um método que utiliza a linguagem matemática (geométrica) 
para formular suas indagações à natureza e para interpretar as 
respostas que ela dá.” (KOIRÉ, Alexandre. Estudos de história do 
pensamento científico. Trad. de Márcia Ramalho. 2. ed. Rio de 
d) Mesmo limitada, a razão humana é capaz de alcançar por seus 
meios naturais certas verdades.
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Janeiro: Forense Universitária, 1991. p. 74.)
Com base no texto, é correto afirmar que o método científico de 
Galileu:
a) É experimental e necessita de uma instância teórica que 
antecede a experiência.
b) É um método segundo o qual a experiência interpreta a 
natureza.
c) É independente da experiência, pois a razão está afastada da 
mesma.
d) É um método no qual há o predomínio da experiência sobre 
a razão.
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55
Referências
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ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 4. ed. Trad. Alfredo Bosi. São Paulo: 
Martins Fontes, 2003. 
ABRÃO, Bernadette Siqueira (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 
1999. 
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. 3. 
ed. São Paulo: Moderna, 2008.
ARISTÓTELES. Tópicos: dos argumentos sofísticos. Seleção de textos José Américo Motta 
Pessanha; Trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Nova Cultural, 1987. 
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia: História e grandes temas. 16. ed. São 
Paulo: Saraiva, 2008.
DURANT, Will. A história da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1996. 
GALILEI, Galileu. O Ensaiador. In: PESSANHA, José Américo Motta. Bruno, Galileu, 
Campanella. 2. ed. Trad. Helda Barraco, Nestor Deola e Aristides Lôbo. São Paulo: Abril 
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HELFERICH, Christoph. História da filosofia. Trad. Luiz Sérgio Repa, Maria Estela Heider 
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LAW, Stephen. Filosofia: guia ilustrado Zahar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
MACHADO, José Adir Lins. Filosofia: Ensino Médio – 1º ano. Londrina: Abril Educação, 2013.
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MONDIN, Battista. Curso de Filosofia: Os filósofos do Ocidente. 8. ed. Trad. Benoni 
Lemos. São Paulo: Paulus, 1982. 
PESSANHA, José Américo Motta. Galileu – Vida e obra. In: Bruno, Galileu, Campanella. 
2. ed. Trad. Helda Barraco, Nestor Deola e Aristides Lôbo. São Paulo: Abril Cultural, 
1978. (Coleção Os pensadores).
PLATÃO. Mênon. Trad. Maura Iglesias. Rio de Janeiro: Ed. PUC Rio/Loyola, 2001. 
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: Antiguidade e idade Média. 5. 
ed. São Paulo: Paulus, 1990.
ROVIGHI, Sofia Vanni. História da filosofia moderna: da revolução científica a Hegel. 
São Paulo: Loyola, 1999.
Unidade 2
PRINCIPAIS 
DESDOBRAMENTOS DA 
EPISTEMOLOGIA MODERNA
Abordaremos o ceticismo fazendo, a princípio, um resgate do 
ceticismo antigo, mas focando de modo especial o renascer do ceticismo 
na modernidade, diante dos desafios suscitados pelas descobertas 
geográficas, astronômicas e científicas, entre outras; apresentaremos os 
principais nomes do ceticismo moderno e demonstraremos a relevância 
deste posicionamento na gênese da epistemologia moderna.
Apresentaremos o pensamento de René Descartes e a sua contribuição 
na busca do estabelecimento de bases sólidas para o conhecimento 
verdadeiro, claro e distinto; partindo da dúvida cética à dúvida hiperbólica 
e metódica e vencendo a dúvida por meio da constituição de um método 
Seção 1 | O ceticismo moderno
Seção 2 | Descartes e o racionalismo
Objetivos de aprendizagem: 
Compreender como ocorre a formação do conhecimento, sobretudo nas 
modalidades pertinentes à filosofia e à ciência; a trajetória do conhecimento 
verdadeiro ao longo da história da humanidade, mas principalmente, o 
seu desenrolar na modernidade que foi o tema mais debatido. Estabelecer 
conexões entre os diversos tipos de conhecimento e, de modo especial, a 
ruptura do vínculo entre os conhecimentos filosóficos, científicos e religiosos, 
a partir de onde cada qual adquiriu autonomia e trilhou caminho próprio.
José Adir Lins Machado
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
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Estudaremos as principais características do empirismo moderno e a sua 
maneira de compreender e explicar o mundo baseado na crença de que a 
verdade vem pelos sentidos e de que nascemos sem ideias; elucidaremos 
como se dá a superação do ceticismo, na visão empírica e como essa 
visão se contrapõe ao racionalismo; veremos a contribuição dos principais 
nomes ligados ao empirismo moderno, desde Bacon a Hume.
Explanaremos a compreensão kantiana de conhecimento e a sua 
crítica aos racionalistas e empiristas, bem como a formulação dos juízos 
sintéticos a priori como condição de possibilidade de fundamentação 
do conhecimento verdadeiro e forma de superação das limitações da 
epistemologia moderna, principalmente a partir dos desafios suscitados 
pela filosofia de Hume.
Seção 3 | O empirismo e a ciência moderna
Seção 4 | O criticismo kantiano
e de regras que permitem a sua superação e na crença na possibilidade 
de se atingir a verdade inabalável recorrendo-se às ideias inatas.
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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Introdução à unidade
Alguma vez você já refletiu sobre quantas informações existem em sua mente 
das quais você não tem como constatar se são verdadeiras ou falsas, mas que 
mesmo assim você acredita que sejam como disseram ser? Disseram a você que 
nós estamos em um planeta redondo que gira em torno do sol, você não consegue 
constatar isso – a menos que saia fora do planeta e o veja de longe –, mas ainda 
assim você acredita que ele seja realmente redondo, e deve realmente ser, pois um 
avião voando em linha reta chega no mesmo local de onde saiu. 
Disseram a você que há dois mil anos passou por esse planeta um homem 
chamado Jesus Cristo fazendo milagres. Você acredita nisso mesmo sem poder 
verificar a ocorrência desse fato. Quem garante que as imagens transmitidas por 
televisão, por exemplo, realmente sejam como nos são transmitidas? Quem garante 
que a configuração dos continentes são como aparecem nos mapas? Note que as 
fronteiras dos países não existem e mesmo assim elas estão presentes em nossa 
mente. Norte e sul não existem, pois no universo não há em cima e embaixo, mas 
estão tão presentes em nossa mente que, a princípio, sempre visualizamos o mapa 
múndi como nos ensinaram, ou melhor, como colocaram em nosso cérebro.
E se nesse exato momento dessem um plantão em rede nacional dizendo que 
a ciência descobriu que o mundo é totalmente diferente do que se acreditava até 
então e que será necessário refazer todos os livros de ciência, física, astronomia 
etc., pois tudo o que se acreditava até então estava errado? Ou dito de outra 
forma: por quantas compreensões de mundo a história da humanidade já passou? 
Será que a nossa é a mais correta? Até quando explicaremos o mundo com base 
nas premissas subsumidas hoje em dia? As futuras gerações não vão rir do modo 
como vemos o mundo atualmente? Não rirão da nossa ciência?
Quando você começa a pensar assim, começa a aproximar-se da atitude que 
surgiu no início da filosofia moderna; ou seja, uma atitude de desconfiança e de 
receio de não conseguir atingir a verdade. Esse sentimento esteve presente em 
diversos momentos da história da humanidade, desde a Grécia antiga até aos 
nossos dias. Essa atitude, ou esse sentimento, chama-se ceticismo, que em língua 
grega significa “olhar cuidadoso”, mas que normalmentese traduz por dúvida, 
incredulidade, ou por desconfiança. E esse será o nosso primeiro assunto.
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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Seção 1
O ceticismo moderno
Nesta sessão vamos apresentar a guinada reflexiva ocorrida por ocasião do advento 
da modernidade, quando as concepções de mundo foram duramente questionadas 
repercutindo em mudanças radicais no conhecimento humano e gerando, desse 
modo, uma postura de desconfiança na possibilidade do conhecimento seguro 
sobre o mundo e o seu funcionamento. Instituições milenares foram duramente 
sacudidas e tudo o que parecia sólido cedeu o seu lugar ao questionamento e à 
dúvida cética.
1.1 O abalo cético
O problema do conhecimento foi o mais relevante, o mais presente e pertinente, 
na filosofia moderna, justamente por conta das incertezas quanto à possibilidade de 
se atingir, ou não, um conhecimento verdadeiro e inabalável. As verdades bíblicas 
passaram a ser questionadas e não demonstraram tanta firmeza, cientificamente 
falando, como se imaginava até então.
Até ao início da Idade Moderna, século XV e XVI, acreditava-se que a terra era 
plana e circundada pelos oceanos. Em algum ponto distante os oceanos quedavam 
em enormes cachoeiras que iam para a porção de águas abaixo da terra e que 
depois subiam em forma de vapor, formando as nuvens as quais caíam novamente 
em forma de chuva. Era perigoso navegar muito distante da crosta terrestre visível e 
por isso os europeus iam para as Índias contornando o continente africano, para não 
se afastar muito e correr riscos desnecessários.
A partir do momento em que a bússola e outras inovações permitiram navegar 
mais à vontade e, sobretudo, depois que se descobriu o novo continente chegando-
se à compreensão de que o planeta era muito maior do que se imaginava e que ele 
era, de fato, redondo, e que existiam muitos outros povos até então desconhecidos 
vivendo de modo bem diferente dos europeus; as crenças na ciência e na 
possibilidade de se alcançar a verdade acerca do mundo, começaram a ser abaladas.
Vale lembrar que havia quem sustentasse que a terra não podia ser redonda, pois 
se assim fosse, quem morava nas laterais (trópicos) do planeta andaria arqueado e 
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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quem morava embaixo correria o risco de despencar. E que a terra não podia estar 
em movimento, sendo prova disso o fato de arremessarmos um objeto para o alto 
e ele cair próximo de nós. Se a terra estivesse em movimento tal objeto cairia longe 
do local de onde foi arremessado. Tudo isso era ciência até então.
Que fique claro, portanto, que a ciência nunca teve, não tem e talvez nunca tenha 
respostas para todos os nossos questionamentos. Mas que fique ainda mais claro, 
que a ciência nos oferece a melhor explicação possível até o presente momento; 
e que nada impede que no futuro algumas teorias sejam corrigidas ou até mesmo 
descartadas. Podemos perceber, então, que talvez ninguém tenha a verdade sobre 
a realidade na qual estamos imersos.
Etimologicamente, o vocábulo cético vem do grego sképsis (σκεψις), que, além 
de ter o significado de olhar cuidadosamente, conforme já afirmamos anteriormente, 
também tem o sentido de buscar, investigar, procurar, examinar. Segundo a 
compreensão dos céticos, o homem não atinge a sabedoria conhecendo verdade, 
mas procurando-a; pois não temos acesso à verdade, somente podemos conhecer a 
maneira como as coisas se apresentam a nós, os fenômenos, as aparências. Apenas 
um ser superior conhece a verdade, ao homem cabe investigá-la. Disso resultam duas 
verdades: uma divina (o conhecimento) e outra humana). Você tem certeza das suas 
certezas? Talvez possamos considerar Heráclito de Éfeso (540-470 a. C. o primeiro 
cético do mundo, pois, de certo modo, ele rompe com a busca pelo arquê alegando 
que não podemos conhecernada devido ao fato de tudo estar sempre em mudança 
(devir). Na sequência vamos encontrar evidências do ceticismo no pensamento dos 
sofistas, pois para eles a verdade em si não existia, era apenas convenção humana. Mas 
o maior expoente do ceticismo antigo, notadamente, é Pirro de Élida (360-270 a.C.), 
um oficial de Alexandre, o qual nada escreveu e cujo pensamento foi conhecido e 
Naquela época o mundo passava por muitas transformações. 
Politicamente o Papado e o Império Romano Oriental 
sucumbiram enquanto Espanha, França, Inglaterra e Holanda 
surgiram como potências nacionais; governos constitucionais 
contestavam o absolutismo; economicamente começa surgir 
a indústria, a América é descoberta e intensifica-se o comércio. 
Também ocorrem mudanças científicas com a invenção 
do telescópio e do microscópio, da máquina a vapor e da 
imprensa. Socialmente surge uma nova classe, a burguesia. 
No campo religioso temos a reforma, contrarreforma e o 
surgimento de novas ordens religiosas. Na filosofia surge o 
antropocentrismo e o ceticismo. (MACHADO, 2015, p. 15).
1.2 Ceticismo antigo
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divulgado por um médico de Alexandria chamado 
Sexto Empírico, além do biógrafo dos filósofos 
antigos, Diógenes Laércio (200-250 d.C.).
Conta-se que Pirro, durante um tempo, foi ao 
extremo de contentar-se em apenas mover os 
dedos ou a cabeça sem proferir palavra alguma. 
Manifestava com isso que não era possível conhecer 
a verdade; se fosse possível conhecê-la, não seria 
possível comunicá-la e se fosse possível comunicá-
la, o outro não a compreenderia, por isso, tudo o 
que restava era calar-se. Desse modo, o pirronismo, 
ou ceticismo pirrônico, foi considerado a forma 
mais extrema do ceticismo grego, conforme 
aponta Abbagnano em seu Dicionário de Filosofia, 
no verbete Pirronismo.
FONTE: Disponível em: <http://commons.
wikimedia.org/wiki/File:Edinburgh_
Skeptics.jpeg?uselang=pt-br>. Acesso em: 
20 mar. 2015.
Figura 2.1 | Você tem certeza 
das suas certezas?
Contam também que, quando por causa de uma ferida se lhe 
aplicaram fármacos desinfetantes, incisões e cauterizações, nem 
piscou os olhos. Possidônio conta sobre ele também o seguinte: 
certa vez, quando os que com ele navegavam foram tomados pelo 
terror por causa de uma tempestade, ele, permanecendo calmo, 
recobrou a forças de ânimo, mostrando um porquinhoque sobre a 
nave continuava a comer e dizendo que o sapiente deve manter-
se em semelhante estado de imperturbabilidade. [...] Pirro afirmava 
que não existe nenhuma diferença entre vida a morte. Alguém Ihe 
perguntou: "Então, por que não morres?", e ele:"Porque não há 
nenhuma diferença", respondeu. (REALE, 2007, p. 309).
FONTE: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Michel_de_Montaigne_1.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 
20 mar. 2015.
Figura 2.2 | Michel de Montaigne – referência cética
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
64
Moralmente, os céticos também buscavam uma vida pautada na ataraxia e na 
apatia, ou seja, viver indiferente às paixões, buscando a paz interior, sem perturbações. 
A apatia pirrônica é a insensibilidade, ele não amava nada e não se irritava com nada. 
Certa vez, caminhando com o seu amigo Anaxarco, este caiu num pântano e Pirro 
continuou a caminhar indiferente, ao que Anaxarco o louvou por sua impassibilidade. 
Apresentamos o ceticismo antigo apenas para situá-lo melhor com relação a 
essa atitude filosófica, porém o ceticismo que nos interessa nesse momento é o 
ceticismo moderno, sobretudo aquele que antecede a filosofia moderna, ou, melhor 
dizendo, aquele que desperta essa filosofia, pois a modernidade se viu provocada 
a vencer o ceticismo e foi por essa razão que a epistemologia se pôs na pauta das 
principais discussões filosóficas. 
Ceticismo moderno
O sobrinho do filósofo Giovanni 
Pico della Mirandola (1463-1494), 
chamado Gianfrancesco Pico della 
Mirandola (1469-1533), parece ter 
sidoo primeiro, na idade moderna, a 
utilizar o ceticismo descrito por Sexto 
Empírico de modo sistemático. Fez 
isso em sua obra intitulada Exame das 
fatuidades das teorias dos pagãos e 
da verdade da doutrina cristã, datada 
do ano de 1520. Nessa obra, ele utiliza 
elementos céticos para demonstrar 
a insuficiência das teorias filosóficas 
e, portanto, da razão pura, e conclui 
que, para alcançarmos a verdade, é 
preciso a fé.
Também o mago Agrippa de 
Nettesheim (1486-1535) – cujo 
Supostamente, o maior bem das nossas vidas – ou um dos 
maiores – é a nossa felicidade. Mas será que existe um caminho 
para alcançá-la que possa ser válido para todas às pessoas?
FONTE: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/
File:Gnothi_seauton.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015.
Figura 2.3 | Gnothi Seauton, “Conhece-te”, 
inscrição do pórtico do templo de Delfos
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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65
Sexto Empírico havia sustentado que os céticos resolveram o problema da 
felicidade justamente ao renunciarem ao conhecimento da verdade. Ele se valia 
da alegoria do pintor Apeles para ilustrar esse fato. Contava-se que Apeles não 
conseguindo pintar de modo satisfatório a espuma sobre a boca de um cavalo, 
irritou-se e jogou contra a pintura uma esponja embebida em tintas. Aconteceu 
que a esponja deixou na tela uma mancha muito parecida com a espuma. A partir 
disso, Sexto Empírico afirmava que da mesma maneira que Apeles ao renunciar o 
seu objetivo acabou alcançando-o, também os céticos, ao renunciarem encontrar 
a verdade (ou seja, suspendendo o juízo), acabaram encontrando a tranquilidade.
nome verdadeiro era Heinrich Cornelius – refletindo sobre a mesma temática de 
Gianfrancesco Pico della Mirandola, em sua obra Incerteza e fatuidade das ciências 
e das artes (escrita em 1526 e publicada em 1530), sustenta que é apenas a fé que 
salva o homem e não as ciências e as artes humanas.
Porém o maior nome desse renascer do ceticismo na modernidade deve ter sido 
Michelde Montaigne (1533-1592), autor dos Ensaios (1580 e 1588), que são obras-
primas ainda hoje muito consideradas.Também em Montaigne o ceticismo convive 
com uma fé sincera e deve ser considerado fundamento de sabedoria.
Segundo Montaigne (1980), o ceticismo sendo atitude de desconfiança na razão, 
ele não põe a fé à prova, haja vista que se encontra em um plano diferente, estando 
desse modo livre dos ataques dos céticos. Escreve Montaigne "O ateísmo é [...] uma 
proposição quase contra a natureza e monstruosa, difícil também e inapta para 
fixar-se no espírito humano, por mais insolente e desregulado que ele possa ser". 
(MONTAIGNE apud REALE, 2005a, p. 62). Entretanto, a naturalidade (se é possível 
usar esse termo) do conhecimento de Deus depende inteira e exclusivamente da fé. 
O cético, portanto, só pode ser fideísta.
Mas o fideísmo de Montaigne não é o de místico. E o interesse dos 
Ensaios volta-se predominantemente para o homem e não para 
Deus. A antiga exortação contida na sentença inscrita no templo 
de Delfos, "homem, conhece-te a ti mesmo", da qual Sócrates e 
grande parte do pensamento antigo se apropriaram, torna-se para 
Montaigne o programa do autêntico filosofar. Mas nãosó isso: 
os filósofos antigos visavam ao conhecimentodo homem com o 
objetivo de alcançar a felicidade – e esse objetivo também está 
no centro dos Ensaios de Montaigne. A dimensão mais autêntica 
da filosofia é a da "sabedoria", que ensina como devemos viver 
para sermos felizes. [...] Mas como a razão cética, abraçada 
por Montaigne, pode alcançar esses objetivos, aquela mesma 
razão cética que propõe acima de todas as coisas a pergunta de 
advertência "o que sei eu?" (que sais-je?) (REALE, 2005a, p. 62).
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
66
A solução apontada por Montaigne inspira-se nessa alegoria, porém é muito 
mais rica e vai mais longe, pois é mais bem articulada e sofisticada, incluindo até 
contribuições epicuristas e estoicas. Desse modo, o "conhece-te a ti mesmo" não 
nos levará à compreensão da essência humana, mas somente das características do 
homem singular, do indivíduo.
Sendo que os homens são diferentes uns dos outros, não seria possível estabelecer 
os mesmos preceitos de modo universal. Seria preciso que cada um construísse 
uma sabedoria ao seu jeito. Cada um sendo sábio de sua própria sabedoria. O sábio, 
segundo Montaigne, deve saber dizer sim à vida, em qualquer circunstância, e 
aprender a aceitá-la e amá-la assim como é, sempre.
Em Ensaios, Livro Terceiro, capítulo III – 6 Montaigne diz:
Esse era o ambiente acadêmico europeu no século XV e XVI, sedento de respostas 
convincentes e de certezas, tanto quanto possível, inabaláveis. Esse é o terreno 
que dará condições de surgimento a duas grandes correntes de pensamento: o 
empirismo e o racionalismo.
Ainda que tudo o que sabemos do passado fosse certo, seria 
menos do que nada em relação ao ignorado. Quão pequeno 
e imperfeito é o conhecimento que mesmo os mais curiosos 
têm de nosso tempo! [...] Consideramos milagres as invenções 
da artilharia e da imprensa, quando outros já se serviam delas 
há mil anos na China. [...] Nada na natureza é único; e somente 
o é em face de nossos conhecimentos restritos, os quais 
constituem a base defeituosa que estabelecemos e nos levam 
a uma ideia muito falsa das coisas. (MONTAIGNE, 1980, p. 412).
Se toda a casa está desmoronando, isto é, se caem por terra a 
velha metafísica e a velha ciência, então o novo método deve se 
Sobre o ressurgimento do ceticismo na modernidade leia:
O capítulo 4, ponto III: Renascimento de uma forma moderada de 
Ceticismo. Páginas 61 a 66; da obra: REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. 
História da Filosofia – Do Humanismo a Descartes. Vol. III. 2 ed. São 
Paulo: Paulus, 2005.
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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67
O método dedutivo é aquele que a partir de uma ideia geral, deduz as questões 
particulares; enquanto o indutivo é o contrário: partindo de uma constatação, ou de 
várias constatações individuais, particulares, dela(s) infere uma ideia universal. 
A matemática é a ciência por excelência para os racionalistas justamente por 
prescindir da experiência, ela é basicamente racional; enquanto a física tem a 
mesma função para os empiristas, pois ela necessita da experiência e só admite 
como verdadeiro aquilo que pode ser provado, demonstrado, medido e pesado.
Vejamos rapidamente as principais diferenças entre racionalistas e empiristas.
apresentar como o início de novo saber, em condições de impedir 
que nos dispersemos em uma série desarticulada de observações 
ou caiamos em formas novas e mais refinadas de ceticismo. [...] 
Era urgente uma filosofia que justificasse a confiança comum na 
razão. Só era possível opor ao ceticismo desagregador uma razão 
metafisicamente fundada, capaz de se sustentar na busca da 
verdade, e um método universal e fecundo (REALE, 2005a, p 288).
Fonte: O autor
Quadro 2.1 | Principais diferenças entre racionalistas e empiristas
Racionalistas Empiristas
Origem do conhecimento Razão Experiência + sentidos
Origem das ideias Inatas Adquiridas
Método Dedutivo Indutivo
Ciência modelo/padrão Matemática Física
1. Ao contrário do que possa parecer em um primeiro momento, 
o ceticismo é uma atitude bastante sábia, pois não se trata de 
dúvida ingênua, mas de um questionamento profundo acerca da 
constituição da realidade. A dúvida difere da incerteza e da falsidade 
e se compromete com a busca constante de compreensão da 
mutabilidade do mundo.
Considere:
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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68
I – Para o cético a verdade não existe e tudo o que resta ao sábio 
é a suspensão do juízo.
II – O ceticismo, por sua atitude de dúvida, não tem contribuição 
significativa para o conhecimento.
III – A compreensão cética de sabedoria é que trata mais de busca 
do que propriamentede posse da verdade.
IV – O cético capta a mutabilidade como sendo a essência do 
mundo, daí a dificuldade de certezas inabaláveis. 
Estão corretas apenas as alternativas:
a) I e II.
b) II e III.
c) III e IV.
d) I e IV.
2. A filosofia moderna é precedida por um período de resgate da 
sabedoria dos antigos, o Renascimento, que valoriza o homem e 
suas potencialidades. Coerente a essa visão, o homem moderno se 
propõe a buscar respostas às questões sobre o mundo recorrendo 
apenas à razão, sendo a dúvida o primeiro passo dessa busca. 
De acordo com o texto acima e os seus conhecimentos sobre 
ceticismo, assinale a alternativa correta.
a) O ceticismo moderno em nada difere do antigo e se propõe a 
responder às mesmas questões propostas desde a Grécia antiga.
b) Na modernidade não houve ceticismo, de fato, pois os 
pensadores jamais conseguiram atingir a suspensão dos juízos, 
limitando-se a duvidar das afirmações religiosas tão somente.
c) O ceticismo pirrônico, na versão transmitida por Sexto Empírico 
foi o auge do ceticismo moderno.
d) Michel Montaigne pode ser considerado um dos maiores 
expoentes do ceticismo moderno, contudo, alega que a fé não é 
posta à prova pelos céticos.
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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69
Seção 2
Descartes e o racionalismo
Apresentaremos a vocês, nesta sessão, o modo como René Descartes se posiciona 
diante do ceticismo e do empirismo, defendendo a sua postura racionalista e as suas 
principais contribuições, além do método da dúvida metódica, criado por ele, como 
guia seguro em direção às verdades claras e distintas.
2.1 O código cartesiano
Como vimos, o ceticismo sustenta que não podemos atingir qualquer verdade 
no âmbito da ciência ou da filosofia, ou seja, não temos acesso à verdade objetiva, 
válida em todos os tempos e lugares. Atingimos apenas verdades subjetivas as quais 
não podem ser consideradas propriamente verdades, pois são simples impressões e 
não nos garantem a certeza. 
Sustentam os céticos que não podemos conhecer a essência das coisas, 
somente suas aparências e, por isto, o homem sábio deve se abster de emitir 
juízos. O probabilismo é a versão mais conhecida do ceticismo e nele se incentiva a 
permanente desconfiança em relação à verdade permanecendo aberto à hipótese 
da probabilidade apenas. O cético observa, desconfia, e espera o desenrolar dos 
fatos e só depois se pronuncia. Esta era a atitude reinante na filosofia no tempo de 
Descartes.
René Descartes nasceu em La Haye (hoje Descartes), na Touraine, França, no 
dia 31 de março de 1596. Seu pai se chamava Joachin Descartes e sua mãe Jeanne 
Brochard. Joachin possuía o título de conselheiro do rei no Parlamento da Bretanha. 
Jeanne faleceu quando Descartes tinha apenas um ano de idade e foi sua avó quem 
passou a cuidar dele, pois nessa época ele tinha uma saúde muito frágil. Aos dez anos 
de idade, em 1606, foi estudar no colégio jesuíta de La Fleche, criado em 1604. Esse 
colégio iria se tornar uma das mais renomadas escolas da Europa, e nele Descartes 
estudou por nove anos, até 1615.
Contudo, ao final dos estudos dirá Descartes:
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
70
Eu estava num dos mais célebres colégios da Europa, onde 
pensava que deveriam existir homens sábios, se eles existissem 
em algum lugar da terra. Alimentei-me de letras desde minha 
infância, e, devido ao fato de me terem persuadido de que por 
meio delas podia-se adquirir um conhecimento claro e seguro 
sobre tudo o que é útil à vida, tinha extremo desejo de aprendê-
las. Porém, assim que terminei todo esse curso de estudos, ao 
fim do qual costuma-se ser recebido na fileira de doutores, 
mudei inteiramente de opinião. (PESSANHA, 1999, p. 11).
Como se percebe, a decepção não foi com a equipe de professores ou com o 
sistema de ensino, mas com o conteúdo estudado, pois, segundo Descartes, eles 
“exprimiam uma cultura sem fundamentos racionalmente satisfatórios e vazia de 
interesse para a vida. [...] O que o decepcionou foram as próprias ‘letras’, as chamadas 
‘humanidades’” (Idem). 
Descartes sempre foi fascinado pela exatidão que 
se alcança com a matemática e ao desencantar-se 
com as humanidades o seu encanto pela matemática 
cresceu ainda mais, pois com ela consegue 
conferir a certeza e a evidência de suas razões. Ela 
permite exibir uma construção sólida e clara que se 
impõe universalmente por meio da força de suas 
demonstrações incontestáveis e inquestionáveis.
Ele viu na matemática a possibilidade de vitória 
sobre a força do ceticismo até então difundido e 
aceito. Contudo, mesmo apesar da exatidão da 
matemática, parecia que ela, ainda assim, ensinava 
pouco, ou quase nada, para a vida. Diante disso, 
Você já parou para pensar quanta coisa se aprende que 
nunca servirá para nada? Talvez não passe de cultura inútil, 
como dizemos. E a escola nos prepara para a vida ou apenas 
para o mercado de trabalho? O que realmente é importante 
conhecer para a vida? Ao descobrir isso, você descobrirá a 
diferença entre conhecimento e sabedoria.
FONTE: Disponível em: <http://
c o m m o n s . w i k i m e d i a . o r g /
w i k i / C a t e g o r y : M a t h e m a t i c a l _
f o r m u l a s ? u s e l a n g = p t -
br#mediaviewer/File:Equation.png>. 
Acesso em: 20 mar. 2015.
Figura 2.4 | A matemática 
encantava Descartes por sua 
exatidão
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
71
em 1619, depois de viajar bastante pela Europa, Descartes acabou entrando para a 
Ordem Rosa-Cruz. Segundo ele, essa confraria apresentava uma compreensão de 
mundo que ao mesmo tempo era mística e racional. 
Desde então, Descartes concluiu que a sua tarefa era reavivar o antigo ideal 
pitagórico – e de certo modo esse reavivamento já havia sido iniciado por Galileu 
Galilei – de desvelar a teia numérica que constitui a alma do mundo, abrindo a via 
para o conhecimento claro e seguro de todas as coisas.
O século XVI acarretou profundas 
transformações na visão de mundo para 
a civilização ocidental: antigas doutrinas 
filosóficas e científicas foram redescobertas 
pelos estudiosos; os valores da antiguidade 
greco-romana acabaram por renascer 
na Europa; a unidade política, espiritual e 
religiosa acabou sendo sacudida ou até 
mesmo destruída; as novas descobertas 
revelaram um planeta bem maior do que se 
imaginava, contendo outros povos e outras 
culturas.
Tais fatores que acabaram originando, 
conforme assinalamos no tópico anterior, 
um clima de ceticismo. Agrippa proclama a 
incerteza das ciências; Francisco Sanchez 
(1552-1632), médico português, adota a 
dúvida como recurso metodológico e 
conclui que o homem não pode conhecer 
Um lugarejo nas cercanias de Ulm, Alemanha, 1619. De 10 para 11 de 
novembro, René Descartes, jovem francês engajado nas tropas do 
Duque Maximiliano da Baviera, vive uma noite extraordinária. Depois 
de um período de febril atividade intelectual, o dia transcorrera em 
meio a grande exaltação e entusiasmo: afinal, parecia ter descoberto os 
fundamentos de uma “ciência admirável”. O arrebatamento prossegue 
durante o sono, atravessado por três sonhos sucessivos cujas imagens 
o próprio Descartes interpretará como símbolo da iluminação que 
recebera e, ao mesmo tempo, como indicação da missão a que deveria 
consagrar a vida. Essa missão era a de unificar todos os conhecimentos 
humanos a partir de bases seguras, construindo um edifício plenamente 
iluminado pela verdade e, por isso mesmo, todo feito de certezas 
racionais. (PESSANHA, 1999, p. 5).
FONTE: Disponível em: <http://commons.
wikimedia.org/wiki/Category:Scientific_
method?uselang=pt-br#mediaviewer/File:The_
Scientific_Method.png>. Acesso em: 20 mar. 2015.
Figura 2.5 | A fascinação por 
método é uma das características 
da filosofia moderna
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
72
nada com certeza; Montaigne busca demolir as superstições econclui que tudo o 
que há são opiniões e incertezas, e que o homem não pode saber nada por que o 
homem não é nada (PESSANHA, 1999).
Para reagir a esse ceticismo era necessário que se encontrasse um caminho 
seguro e certo, capaz de superar as armadilhas traiçoeiras do ceticismo e conduzir o 
conhecimento humano à descoberta de verdades firmes, inabaláveis e permanentes. 
Precisava-se achar um caminho, um método, para as ciências.
Em língua grega “caminho para” se diz método, daí a relevância desse termo para 
os filósofos renascentistas e modernos que se empenharam na busca das bases do 
conhecimento.
Foi aqui, portanto, diante do ceticismo que surgiram as duas grandes orientações 
metodológicas antagônicas. De um lado a corrente empirista, que só admite como 
conhecimento aquilo que procede da experiência e que chega até à nossa mente 
pelos sentidos; e de outro, o racionalismo que buscará na razão a recuperação da 
certeza científica.
Para melhor entender a tarefa que Descartes vai propor, imagine o seguinte: você 
é convidado para participar em um congresso sobre o conhecimento. O convite se 
deu porque os organizadores do congresso sabem que você tem uma teoria muito 
interessante sobre o assunto. Os organizadores do evento querem um congresso 
muito marcante e que faça bastante sucesso e por isso, além de você, convidam 
mais dois palestrantes que têm visões bem diferentes da sua, para que o debate seja 
realmente envolvente.
Todos os palestrantes estão plenamente convencidos de que a sua teoria é a 
melhor possível. O que significa dizer que quando você terminar de explanar o 
assunto vai ser bombardeado de perguntas e objeções. Você está muito ciente 
disso, mas aceita o desafio e quer aproveitar a oportunidade para selar de uma vez 
por todas a superioridade da teoria.
Palavra de origem grega importantíssima na etimologia 
matemática: metá (reflexão, raciocínio, verdade) + hódos 
(caminho, direção). Méthodes refere-se a um certo caminho 
que permite chegar a um fim. Em 1637 René Descartes publicou 
seu Discours de la Méthode, em que aponta o caminho para 
um novo raciocínio científico que deveria conduzir seu 
articulador aos segredos (principia) da natureza (phýsis ou 
natura). Com seu méthode, permitiria aos filósofos chegarem, 
descobrirem as leis que o Criador necessitou para a perfeita 
harmonia do universo (DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO, 2015).
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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73
1. Ele começou duvidando dos sentidos (aqui ele está se colocando contra os 
empiristas, pois para esses a verdade nos era fornecida pelos sentidos), mostrando 
que podem nos enganar, mas conclui que há coisas das quais não se pode 
sensatamente duvidar, a menos que se padeça de demência. 
2. Em seguida, Descartes passou para o argumento da imaginação: mas 
como posso ter certeza de que este conhecimento fornecido pelos sentidos está 
realmente acontecendo e que não é apenas fruto de um sonho? (Essa poderia ser a 
objeção de um empírico). Então Descartes responde: ainda que fosse um sonho, as 
imagens seriam tão reais que poderiam ser medidas e pesadas (Descartes apela para 
É mais ou menos isso que aconteceu com Descartes. Ele tem diante de si duas 
propostas de conhecimento, o ceticismo (o qual nós já conhecemos) e o empirismo. 
Ele sabe que ao apresentar os seus argumentos terá de vencer os argumentos das 
outras duas visões. Descartes então inicia a sua fala partindo da única alternativa que 
o cético admite, a dúvida.
Percebe Descartes que a dúvida pode ser vencida com suas próprias armas, ou 
seja, deve-se levar a dúvida ao extremo até chegar a uma verdade indubitável. Vai-se 
duvidando de tudo. Não é isso que o cético ensina? E foi isso que ele fez. Só que ele não 
ficou na dúvida cética, ou seja, ficar na dúvida acreditando que a dúvida em si mesma 
tem valor. Não. Descartes parte da dúvida e dela faz um “caminho para”, faz um método 
para se alcançar a verdade; portanto, a dúvida cartesiana é a dúvida metódica.
Ao contrário de muitos pensadores que tinham a dúvida como ponto de chegada, 
como ponto final do conhecimento (tudo o que resta são dúvidas), Descartes tem a 
dúvida como ponto de partida em busca de uma verdade. “A dúvida, em suma, é um 
meio para um fim, não um fim em si”. (CONTTINGHAM, 1995, p. 56). 
Os passos da dúvida metódica são os seguintes:
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:M%C3%BCnchen_-_BMW-Welt.jpg?uselang=pt-br>. Acesso 
em: 20 mar. 2015.
Figura 2.6 | A hipérbole é o dobrar-se exageradamente
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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74
a matemática, ela é racional, não precisa da experiência).
3. Aí veio o argumento das verdades matemáticas (como se fosse novamente 
um questionamento levantado pelos empiristas): e se os pesos e medidas fossem 
colocados em nossa mente por um deus enganador. Então Descartes sustenta que 
um deus enganador não pode existir, pois o enganar é contrário ao conceito de 
Deus. Mas (poderiam objetar os empíricos) e se fosse gênio maligno que gosta de 
nos enganar? 
4. E chegando a esse limite (a hipérbole, o exagero) Descartes reconhece a primeira 
verdade: mesmo que eu possa duvidar da minha existência real, não posso duvidar 
que duvido. Se duvido, penso; e se penso, existo: penso, logo existo. Ainda que seja 
a existência apenas e simplesmente enquanto pensamento, sem necessariamente ter 
certeza da existência do corpo; mas já se tem, contudo, a existência do pensamento e o 
pensamento é o eu pensante, é coisa pensante res cogitans, em latim e primeira verdade 
a que Descartes chega, recorrendo somente à razão, sem fazer experiência alguma.
 Diz ele na segunda meditação:
Mas existe alguém, não sei quem, enganador muito poderoso 
e astucioso, que dedica todo o seu empenho em enganar-me 
sempre. Não há, então, dúvida alguma de que existo, se ele 
me engana; e, por mais que me engane, nunca poderá fazer 
com que eu nada seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa. 
De maneira que, depois de haver pensado bastante nisto e 
analisado cuidadosamente todas as cosias, se faz necessário 
concluir e ter por inalterável que esta proposição, eu sou, eu 
existo, é obrigatoriamente verdadeira todas as vezes que a 
enunciou ou que a concebo em meu espírito. (DESCARTES, 
1999, p. 258).
Notemos que é justamente quando a dúvida atinge o seu limite, a chamada dúvida 
hiperbólica, ou seja, quando a dúvida exagera tanto que se dobra sobre ela mesma 
duvidando da própria dúvida (ela é apenas uma ferramenta filosófica, um recurso 
para o pensamento, pois ninguém em sã consciência duvida da própria existência) 
que ela começa ser superada, pois permite que se encontre uma certeza. Como se 
pode perceber, o pensamento é, para Descartes, uma atividade autofundante: sua 
existência resulta da sua própria atividade.
Sobre hipérbole acesse: <http://www.infoescola.com/linguistica/hiperbole/>.
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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Descartes vivia numa época em que a Igreja dizia o que era verdadeiro e o que 
era falso. Além disso, Descartes era conhecedor das retaliações impostas a Galileu 
Galilei e, como ele estudou em um colégio Jesuíta, tinha clara noção de quanto a 
cautela e a prudência eram necessárias para evitar complicações com as autoridades 
eclesiásticas. Por isso, inclusive, ele inicia a sua obra Meditações oferecendo-a “Aos 
Senhores Deão e Doutores da Sagrada Faculdade de Teologia de Paris”. 
Desse modo, entende-se que Descartes era ciente de que a ideia de Deus – Res 
Infinita – não podia ficar fora da reflexão acerca do conhecimento. E como ele já 
tinha feito uma revolução no pensamento, ao substituir a primeira verdade, a verdade 
indubitável, segundo a compreensão da Igreja – a existência de Deus –, por uma 
verdade subjetiva – a existência do eu – agora caberia fazer referência ao Criador. 
E, assim, partindo da primeira verdade, o pensamento,ele chega à segunda, a 
existência de Deus. Para Descartes essa ideia estaria na mente do homem como 
“a marca do artista impressa em sua obra”, o qual é a garantia da objetividade do 
conhecimento científico, o bom Deus, a Deusa-Razão. (PESSANHA, 1999, p. 24). 
Para Descartes Deus serviria de garantia para se vencer a dúvida em relação ao 
conhecimento dos corpos físicos – Res extensa – e assim nos dar acesso à terceira 
verdade, a existência do mundo físico, da realidade material onde nos encontramos. 
A existência do mundo exterior primeiro é possível, depois é provável e, por fim, é 
certa (Ibidem, p. 25). Porque Deus é bom, a imagem que o homem faz do mundo 
exterior não representa apenas uma ficção de sua mente. 
Na terceira meditação, Descartes se ocupa de provar a existência de Deus. Diz 
ele: afastar-me-ei de todos os sentidos ocupando-me somente comigo e com as 
formas de pensar que se encontram em mim. Engane-me quem puder; mesmo 
assim, nunca poderá fazer que eu nada seja enquanto pensar que sou algo. Nos 
meus pensamentos encontram-se ideias, vontades e juízos. Não posso julgar que 
seja falso que as ideais se encontram em minha mente, mas que elas correspondam 
plenamente às coisas que estão fora da minha mente já não é tão certo. 
Algumas ideias nasceram conosco e outras foram adquiridas. A questão é saber se 
Com base nas progressões matemáticas, em que se tendo os dois 
ou três primeiros termos é possível encontrar os demais, Descartes 
acreditou que era possível construir uma cadeia de razões em que o 
desconhecido seria descoberto a partir do já conhecido e como ele já 
tem uma primeira certeza – a existência do pensamento – agora já é 
possível levantar o edifício do saber. O importante é que só se considere 
como verdadeiro o que for intuível com clareza e precisão. (MACHADO, 
2013, p. 38).
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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as ideias adquiridas correspondem à verdade. Por vezes, é perceptível uma diferença 
entre a ideia e o objeto. As ideias
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:God?uselang=pt-br#mediaviewer/File:Wenceslas_
Hollar_-_Creation_of_sun_and_moon_(State_1).jpg>. Acesso em 20 mar. 2015.
Figura 2.7 | Deus é a garantia da existência do mundo físico
[...] que me representam substâncias são, sem dúvida, algo mais 
e contêm em si (por assim falar) mais realidade objetiva ou seja, 
participam, por representação, num maior número de graus de ser ou 
de perfeição do que aquelas que representam somente maneiras ou 
acidentes. Ademais, aquela pela qual eu concebo um Deus soberano, 
eterno, infinito, imutável, onisciente, onipotente e criador universal de 
todas as coisas que estão fora dele; aquela, digo, tem com certeza em si 
mais realidade objetiva do que aquelas pelas quais as substâncias finitas 
me são representadas. (DESCARTES, 1999, p. 276).
E Descartes prossegue afirmando que deve existir tanta realidade na causa 
eficiente quanto em seu efeito, pois o nada não poderia produzir coisa alguma e o 
que é mais perfeito não pode ser consequência do que é menos perfeito. Toda ideia 
é obra do espírito e por isso a natureza da ideia é tal que não exige de si nenhuma 
outra realidade formal. Se existe em nós alguma ideia que não tenha causa, diremos 
que ela tirou a sua causa do nada, mas como não se pode dizer que as ideias se 
originam do nada, então é necessário que a realidade esteja formalmente nas causas 
de minhas ideias. Se a realidade objetiva de minhas ideias não se encontra em mim, 
disso decorre que não existo sozinho no mundo, mas que há algo que é causa 
destas ideias.
Ao falar da marca impressa Descartes diz:
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sceau_Aubert.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015.
Figura 2.8 | Deus deixou sua marca impressa em nós: a ideia de um ser perfeito
Pelo nome de Deus entendo uma substância infinita, eterna, imutável, 
independente, onisciente, onipotente e pela qual eu próprio e todas as 
coisas que são (se é verdade que há coisas que existem) foram criados 
e produzidos. Ora, essas vantagens são tão grandes e tão importantes 
que, quanto mais cuidadosamente as considero, menos me convenço 
de que esta ideia possa haver-se originado apenas de mim. E, portanto, 
é necessário obrigatoriamente concluir, de tudo o que foi dito antes, 
que Deus existe; porque, mesmo que a ideia, da substância esteja em 
mim, pelo próprio fato de ser eu uma substância, não teria a ideia de 
uma substância infinita, eu que sou um ser finito, se ela não tivesse sido 
colocada em mim por alguma substância que fosse de fato infinita. 
(DESCARTES, 1999, p. 281). 
O argumento utilizado por Descartes para tentar provar a existência de Deus, 
parte do argumento único de Santo Anselmo de Aosta (1033-1109) (também 
conhecido como Anselmo de Cantuária), o qual posteriormente ficou conhecido 
como argumento Ontológico. O capítulo II do Proslógio, de Santo Anselmo é 
intitulado “Que Deus existe verdadeiramente” e com isso ele queria dar uma resposta 
ao estulto (ou insipiente, ou néscio) dos salmos 14 e 53 (ou 13 e 52 conforme a 
versão bíblica), onde se lê “o estulto diz em seu coração ‘Deus não existe’”.
Abaixo transcrevo o referido capítulo:
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
78
Então, ó Senhor, tu que nos concedeste a razão em defesa da fé, faze 
com que eu conheça, até quanto me é possível, que tu existes assim 
como acreditamos, e que és aquilo que acreditamos. Cremos, pois, 
com firmeza, que tu és um ser do qual não é possível pensar nada maior. 
Ou será que um ser assim não existe porque "o insipiente disse, em seu 
coração: Deus não existe"? Porém, o insipiente, quando eu digo: "o ser do 
qual não se pode pensar nada maior", ouve o que digo e o compreende. 
Ora, aquilo que ele compreende se encontra em sua inteligência, ainda 
que possa não compreender que existe realmente. Na verdade, ter a 
ideia de um objeto qualquer na inteligência, e compreender que existe 
realmente, são coisas distintas. Um pintor, por exemplo, ao imaginar 
a obra que vai fazer, sem dúvida, a possui em sua inteligência; porém, 
nada compreende da existência real da mesma, porque ainda não a 
executou. Quando, ao contrário, a tiver pintado, não a possuirá apenas 
na mente, mas também lhe compreenderá a existência, porque já 
a executou. O insipiente há de convir igualmente que existe na sua 
inteligência "o ser do qual não se pode pensar nada maior", porque ouve 
e compreende essa frase; e tudo aquilo que se compreende encontra-
se na inteligência. Mas "o ser do qual não é possível pensar nada maior" 
não pode existir somente na inteligência. Se, pois, existisse apenas na 
inteligência, poder-se-ia pensar que há outro ser existente também na 
realidade; e que seria maior. Se, portanto, "o ser do qual não é possível 
pensar nada maior" existisse somente na inteligência, este mesmo ser, 
do qual não se pode pensar nada maior, tornar-se-ia o ser do qual é 
possível, ao contrário, pensar algo maior: o que, certamente, é absurdo. 
Logo, "o ser do qual não se pode pensar nada maior" existe, sem dúvida, 
na inteligência e na realidade. (GRANDO, 2015).
No capítulo V das Meditações, Descartes faz uma reflexão que toma por base essa 
compreensão de Santo Anselmo e afirma que a existência de Deus determina o seu 
pensamento, pois não lhe é dada a liberdade de conceber um Deus sem existência, 
um ser supremamente perfeito sem uma suprema perfeição, que é a existência.
Sobre hipérbole, acesse: <http://educacao.uol.com.br/disciplinas/
filosofia/santo-anselmo-da-cantuaria-argumento-ontologico-provoca-
discussoes-ate-hoje.htm>.
Na segunda meditação, parafraseando Arquimedes de Siracusa (287-212 a. C.), 
o qual dizia “me deem uma alavanca, um ponto de apoio e eu moverei o mundo”; 
e sabendo que, na matemática, quando se tem um fator é possível encontrar os 
Principaisdesdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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79
demais. Descartes afirma “me deem uma única verdade e eu reconstruo o edifício 
do saber”. Descartes pede uma verdade, e chegou a três, portanto já é possível a 
edificação do saber. Quais são as três verdades?
As três verdades, na ordem de conhecimento, para Descartes são:
1º Res cogitans (coisa pensante), 
2º Res infinita (Deus) e 
3º Res extensa (coisa extensa, o mundo, os corpos físicos).
Os passos para que se atinja o conhecimento verdadeiro através do método 
cartesiano são os seguintes:
I – O preceito da evidência: só aceitar como verdade aquilo que for autoevidente, 
aquilo que não deixa margem alguma para a dúvida.
II – O preceito da análise: dividir cada uma das dificuldades em quantas partes for 
necessário para serem revolvidas.
III – O preceito da síntese: conduzir com ordem os pensamentos, começando 
dos mais fáceis indo até aos mais complexos. 
IV – O preceito da enumeração: realizar enumerações de modo a verificar que 
nada foi omitido.
Em 1649, Descartes vivia na Holanda e era conhecido internacionalmente, sendo 
louvado por uns e combatido por outros. No fim daquele ano, aceitou o convite da 
rainha Cristina da Suécia e se mudou para a corte de Estocolmo. A rainha se levantava 
muito cedo para fazer caminhadas e pediu a Descartes que a acompanhasse 
enquanto iam conversando, uma espécie de aula peripatética. Como Descartes 
tinha uma saúde frágil e o inverno nórdico é rigoroso, acabou por contrair uma 
pneumonia e falecendo em uma semana. Faleceu no dia 11 de fevereiro de 1650, 
poucos meses depois de sua chegada em Estocolmo (PESSANHA, 1999, p. 16). 
Algum tempo após a morte de Descartes, alguns amigos resolveram buscar o seu 
corpo para que ele ficasse na França, mas conta-se que o caixão levado era muito pequeno, 
razão pela qual acabaram por lhe cortar a cabeça e enterrá-la até que pudessem tomar 
outras providências. Enquanto preparavam o esquife o embaixador francês na Suécia 
resolveu cortar o dedo indicador direito de Descartes para guardá-lo como lembrança.
Posteriormente, um oficial do exército sueco desenterrou o crânio de Descartes 
e guardou-o como lembrança. Em seguida o crânio passou pelas mãos de muitos 
colecionadores até finalmente ser enterrado junto ao corpo em Paris.
Descartes ficou conhecido como o pai do racionalismo e também como o pai 
da Filosofia Moderna. Suas principais obras foram: Regras para a direção do espírito, 
de 1628; Sobre o movimento do coração, de 1629; Tratado do mundo, de 1635; 
Discurso do método, de 1637 e Meditações, de 1641.
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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1. “Mas logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim 
pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, 
que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade 
eu penso, logo existo era tão firme e tão certa que todas as 
mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes 
de a abalar, julguei que poderia aceitá-la, sem escrúpulo, como 
o primeiro princípio da Filosofia que procurava.” (DESCARTES, 
René. Discurso do método. Trad. de J. Guinsburg e Bento 
Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 92. Coleção 
Os Pensadores.)
De acordo com o texto e com os conhecimentos sobre o tema, 
assinale a alternativa correta.
a) Para Descartes não podemos conhecer nada com certeza, 
pois tudo quanto pensamos está sujeito à falsidade.
b) O “eu penso, logo existo” expressa uma verdade instável e 
incerta, o que fez Descartes ser vencido pelos céticos.
c) A expressão “eu penso, logo existo” representa a verdade firme 
e certa com a qual Descartes fundamenta o conhecimento e 
a ciência.
d) As “extravagantes suposições dos céticos” impediram 
Descartes de encontrar uma verdade que servisse como 
princípio para a filosofia.
2. “Tomemos [...] este pedaço de cera que acaba de ser tirado da 
colmeia: ele não perdeu ainda a doçura do mel que continha, 
retém ainda algo do odor das flores de que foi recolhido; 
sua cor, sua figura, sua grandeza, são patentes; é duro, é frio, 
tocamo-lo e, se nele batermos, produzirá algum som. Enfim, 
todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer 
um corpo encontram-se neste. Mas eis que, enquanto falo, 
é aproximado do fogo: o que nele restava de sabor exala-
se, o odor se esvai, sua cor se modifica, sua figura se altera, 
sua grandeza aumenta, ele torna-se líquido, esquenta-se, 
mal o podemos tocar e, embora nele batamos, nenhum som 
produzirá. A mesma cera permanece após essa modificação? 
Cumpre confessar que permanece: e ninguém o pode negar. 
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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81
O que é, pois, que se conhecia deste pedaço de cera com 
tanta distinção? Certamente não pode ser nada de tudo o 
que notei nela por intermédio dos sentidos, visto que todas 
as coisas que se apresentavam ao paladar, ao olfato, ou à 
visão, ou ao tato, ou à audição, encontravam-se mudadas e, 
no entanto, a mesma cera permanece.” (DESCARTES, René. 
Meditações. Trad. de Jacó Guinsburg e Bento Prado Júnior. 
São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 272.)
Com base no texto, é correto afirmar que para Descartes:
a) Os sentidos nos garantem o conhecimento dos objetos, 
mesmo considerando as alterações em sua aparência. 
b) A causa da alteração dos corpos se encontra nos sentidos, 
o que impossibilita o conhecimento dos mesmos.
c) A variação no modo como os corpos se apresentam 
aos sentidos revela que o conhecimento destes excede o 
conhecimento sensitivo.
d) A constante variação no modo como os corpos se 
apresentam aos sentidos comprova a inexistência dos 
mesmos.
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Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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Seção 3
O empirismo e a ciência moderna
Nesta sessão será apresentado como a ciência moderna passa por uma profunda 
revolução em sua estrutura e rompe com o modelo aristotélico-ptolomaico da 
antiguidade, constituindo-se sobre novas premissas que postulam a comprovação 
e a verificabilidade recorrendo ao dado empírico e ao método indutivo, sobretudo.
3.1 A modernidade e a guinada científica
De onde vêm nossas certezas de que o mundo fora da nossa mente corresponde 
exatamente ao modo como nós o captamos e o compreendemos? Será que o 
mundo é como o apreendemos por nossos sentidos? Será que a realidade externa 
a nós corresponde fielmente à ideia que dela temos? Pode parecer algo bobo, mas 
para a filosofia nada é tão bobo que não mereça ser analisado. Então pense: quem 
garante que quando eu vejo um objeto de cor azul, a pessoa ao meu lado não o 
vê verde; mas quando digo azul ela entende o que eu digo, mesmo que não veja 
como eu vejo? Quem garante que o som da letra 
“a” não chega ao ouvido da pessoa ao lado como 
“e”, mas toda vez que ela ouve “e” ela o entende 
tal qual eu entendo o “a”?
Para os racionalistas, essa certeza está na razão, 
ou, então, na intuição; mas para os empiristas, o 
homem só alcança tal certeza recorrendo aos 
sentidos. Para eles, os nossos sentidos captam a 
realidade, tal qual ela é, e a razão processa aquilo 
que foi captado, originando em nossas mentes 
o conhecimento, a certeza e a verdade. Mas os 
empiristas não confiam tanto na razão e acham 
que existe uma instância que precede à razão e 
fornece o material que será processado pela razão 
na busca pelo conhecimento e pela verdade.
Fonte: Disponível em: <http://
c o m m o n s . w i k i m e d i a . o r g / w i k i /
Category:Doubt#mediaviewer/File:Mr_Pipo_
Think_03.svg>. Acesso em: 20 mar. 2015.
Figura 2.9 | Todos captamos o 
mundo do mesmo modo?
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
84
O empirismo, segundo o Dicionário de Filosofia Abbagnano (2003, p. 326), pode 
ser descrito como a corrente filosófica para a qual a experiência é critério ou norma 
da verdade. Experiência é tudoaquilo que não é intuído, aquilo que ocorre no 
mundo material e que, de algum modo, presenciamos e captamos pelos sentidos. 
O empirismo se caracteriza pela negação do caráter absoluto da verdade ou, ao 
menos, da verdade acessível ao homem; também supõe o reconhecimentode 
que toda verdade pode e deve ser posta à prova, logo eventualmente modificada, 
corrigida ou abandonada.
Portanto, o empirismo não se 
opõe à razão ou não a nega, a não ser 
quando a razão pretende estabelecer 
verdades necessárias, que valham em 
absoluto, de tal forma que seria inútil ou 
contraditório submetê-las a controle. 
Foi desse modo que Sexto Empírico 
caracterizou o empirismo, e, com 
base nessas características, reconhecia 
o seu parentesco como ceticismo; 
essas características continuaram 
sendo fundamentais em todas as 
doutrinas posteriormente denominadas 
empíricas, quaisquer que fossem suas 
determinações peculiares.
Quem professa o empirismo desejará fazê-lo valer em toda a 
filosofia. Reconhecerá o dado da experiência, não apenas na 
teoria do conhecimento mas em todos os domínios possíveis, 
como ponto de partida e instância de controle de suas reflexões. 
Procurará satisfazer-se sempre que possível sem a vantagem 
de conceitos ou princípios apriorísticos [dados de antemão]. 
Avançará, como o cientista individual, do particular para o 
universal, e manifestará claras reservas diante da metafísica 
que se revela imediatamente no universal. Não sentirá muito 
respeito pela tradição filosófica, que muitas vezes não valoriza 
a experiência e pende para o conhecimento especulativo; 
confiará que a filosofia não precisa se esconder atrás das 
ciências se der uma séria guinada na direção da experiência. 
Quem considera o empirismo não como um dogma mas como 
um método não verá motivo para considerá-lo com perfeita 
vitalidade e capacidade de desenvolvimento. (GAWLICK, apud 
HELFERICH, 2006, p. 184).
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.
org/wiki/Category:Allegories_of_truth#mediaviewer/
F i l e : S a l l e _ R % C 3 % A 9 u n i o n _ T r i o m p h e _ d e _
la_v%C3%A9rit%C3%A9.jpg>. Acesso em: 20 mar. 2015.
Figura 2.10 | Quadro O triunfo da verdade
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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85
Sexto Empírico diz que o médico 
empírico, ou melhor, metódico, "nada 
afirma temerariamente acerca dos fatos 
obscuros, mas, sem pretender dizer se são 
compreensíveis ou não, acompanha os 
fenômenos e destes toma aquele que lhe 
parece útil, assim como fazem os céticos". 
E acrescenta: o que a medicina metódica 
e o ceticismo têm em comum é a falta 
de dogmas e a indiferença no uso das 
palavras, sendo comum também a regra 
de seguir as indicações da natureza e as 
fornecidas pelas necessidades do corpo.
Há quem considere Aristóteles 
o primeiro empirista, pois para ele o 
conhecimento verdadeiro era adquirido 
pela nossa vivência nesse mundo material 
e concreto onde nos encontramos, através 
daquilo que os nossos sentidos captam. 
Mas de um modo geral, a questão entre 
empiristas e racionalistas se faz presente de 
modo efetivo na modernidade, sobretudo 
após as contribuições de Francis Bacon 
(1561-1626) e Galileu Galilei (1564-1642). 
Bacon é o criador do método empírico e 
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.
org/wiki/File:Sample_Compression_Technology.
jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015.
Figura 2.11 | Bacon acrescenta a 
experimentação à ciência
Galilei é quem associa esse método ao modo de se fazer ciência e, a partir de então, 
nunca mais se fez ciência sem se recorrer à experiência. Galileu Galilei já nos é 
conhecido, vejamos agora os pensamentos de Francis Bacon.
Bacon nasceu em Londres no ano de 1561 e faleceu em 1626. Foi o oitavo filho 
de Nicholas Bacon e Anna Cook. Desde criança sofreu influências antagônicas. 
De um lado o seu pai era Guarda Selo e o seu tio foi ministro da Rainha Elizabeth 
por quarenta anos. Ou por anor, ou seja, nasceu com acesso facilitado à carreira 
diplomática e aprendeu as artimanhas dos bastidores políticos. De outro lado, sua 
mãe detinha extraordinária cultura e até traduzia obras religiosas de teologia e 
moral puritanas, impulsionando-o ao zelo pelas coisas corretas. Anna tinha especial 
preocupação por sua formação e suas companhias, até mesmo depois de adulto. 
A leitura bíblica diária era obrigação bem como a fervorosa participação nos cultos 
religiosos, fatos que deixarão marcas no estilo literário baconiano. Aos 12 anos entrou 
para o Trinity College da Universidade de Cambridge onde aprendeu filosofia antiga 
3.2 Francis Bacon: saber é poder
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
86
e escolástica. Entendeu que o conhecimento deveria visar mais a melhoria de vida, 
o bem-estar das pessoas. No Novum Organum (note que o título já é uma crítica ao 
Organon de Aristóteles), Bacon “expressará entusiasmo pela técnica, afirmando que 
as descobertas da pólvora, da imprensa e da agulha de marear (bússola) ‘mudaram o 
aspecto das coisas em todo o mundo’”. (ANDRADE, 1999, p. 7).
Na sequência, Francis Bacon foi jurista, parlamentar, guarda dos selos, chanceler, 
cavaleiro (Sir), Barão de Verulam e Visconde Saint-Albans. Pode ser considerado 
o primeiro dos filósofos modernos e pai do método experimental; o fundador da 
ciência moderna, ao lado de Galileu Galilei e pai do empirismo. Lutou durante toda 
a vida pelo progresso das ciências da natureza.
Entre as principais contribuições de Bacon à teoria do conhecimento, esperamos 
que você guarde duas: (1) foi o primeiro pensador a estabelecer vínculo entre ciência 
e técnica e (2) sustenta que as dificuldades que temos de adquirir conhecimento 
verdadeiro devem-se à presença de ídolos em nossas mentes. Inicialmente vejamos 
a primeira.
Até à época de Bacon a ciência se contentava em ser especulativa. Observava 
o mundo e o analisava racionalmente, mas não se preocupava tanto com o 
progresso com a evolução do conhecimento, mais em compreender a natureza 
e o seu funcionamento. A ciência era feita até então com dois elementos: razão e 
observação. Bacon acrescenta o terceiro elemento, a experimentação.
Entendeu Francis Bacon que apenas estudar o mundo não seria tão relevante 
quanto tentar melhorá-lo, ou, melhor dizendo, melhorar a vida das pessoas. Foi 
assim, como já dissemos, que ele acaba estabelecendo um vínculo entre ciência 
e técnica defendendo que o conhecimento só terá valor à medida que puder ser 
aplicado. Esta sua concepção está sintetizada em sua afirmação “saber é poder”. Se 
você sabe fazer algo que resultará em melhorias, então você pode fazer; você está 
autorizado a fazer.
Recentemente, com a ameaça de exploração desenfreada dos recursos naturais (e 
até mesmo o risco de extinção de muitas formas de vida) e da eminente necessidade 
de preservação do meio ambiente, as ideias de Bacon começaram a receber severas 
críticas e no lugar delas, hoje se fala em exploração sustentável, ou sustentabilidade.
A outra contribuição relevante de Bacon tem a ver com as nossas falsas noções, 
empecilhos para se chegar à verdade. Segundo ele, o conhecimento encontrava 
algumas barreiras psicológicas chamadas de “ídolos da mente”. Esses ídolos seriam 
de quatro tipos:
1. Ídolos da tribo: trata-se de uma tendência natural do ser humano, da tribo 
à qual pertencemos, faz parte da estrutura mesma da nossa espécie humana, em 
aceitar as evidências sensoriais sem pensar, sem questionar. Os erros derivam dessa 
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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nossa condição natural.
2. Ídolos da caverna: são ideias 
preconcebidas e sem exame acerca 
da natureza (de onde nasce, a origem) 
destas ideias; é o nosso modo individual 
de ver as coisas. Cada pessoa se 
configura, se constrói e por vezes 
nem percebe isso. Além, portanto, das 
aberrações de conhecimento herdadas 
da tribo ou da espécie, somam-se 
as próprias singularidades decada 
indivíduo, constituindo-se numa espécie 
de caverna pessoal.
3. Ídolos do foro (são também 
conhecidos por ídolos do mercado, ou 
da feira, ou da praça. Lembre-se sempre 
da ideia de convívio, de coisa pública): 
Trata-se das ambiguidades oriundas da 
compreensão equivocada das palavras, 
das relações estabelecidas, pois uma 
mesma palavra pode ter significados 
diferentes. Todo agrupamento gera um 
bloqueio ao pensar e as pessoas se levam 
pela fantasia e controvérsias inúteis. 
São as influências que recebemos das 
pessoas que nos cercam.
4. Ídolos do teatro: são erros que 
migram para dentro de cada ser 
humano pelo fato de crermos piamente 
em equívocos da ciência vigente, da 
filosofia dominante ou da tradição, 
da visão política por nós adotada, da 
nossa religiosidade, constituindo-se em 
invenções semelhantes às peças de 
teatro.
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.
org/wiki/Category:Idols?uselang=pt-br#mediaviewer/
File:Idolo_de_extremadura.jpg>. Acesso em: 20 mar. 
2015.
Figura 2.12 | Ídolos nos iludem
Naquela época, essas críticas pareceram muito duras, mas para Bacon o que 
importava era maximizar a possibilidade de se evitar os erros suscitados pelos ídolos. 
Para tanto, se fazia necessário recorrer ao método indutivo (ir do particular ao universal, 
ou seja, observar os fatos particulares e tirar conclusões válidas universalmente) e fazer 
uma rigorosa observação dos fenômenos naturais, pois a verdade nasce da experiência. 
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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Os passos necessários para se evitar esses ídolos ou esses erros, seriam: 
1. Observação.
2. Organização racional dos dados coletados.
3. Explicações gerais através de hipóteses.
4. Repetidas experimentações para comprovar as hipóteses. 
Esse método ficou conhecido como indutivo ou baconiano, e, por isso, como já 
dissemos, lhe valeu o título de pai do método experimental.“A influência de Bacon 
pôs em primeiro plano a experiência prática na ciência. No entanto, ele foi criticado 
por negligenciar a importância dos saltos imaginativos que impulsionam todo 
progresso científico”. (AA.VV, 2011, p. 111) e por não prever um sistema completo, 
a saber, indutivo-dedutivo, como Galileu, então genial para as ciências modernas e 
contemporâneas.
Sócrates disse “uma vida sem reflexão não merece ser 
vivida”. Vale a pena viver sem conhecer a verdade? Sem 
saber se estamos agindo certos ou errados? Sem saber o que 
acontecerá conosco e com o mundo? Sem saber porque 
estamos aqui?
Outro nome relevante na epistemologia empirista moderna é John Locke (1632-
1704), médico, filósofo e político britânico. A família de Locke era de burgueses 
ligados ao comércio na cidade de Bristol e foi ali próximo, em Wrington, que 
Locke nasceu. Estudou e, posteriormente, lecionou na Universidade de Oxford. Em 
virtude de seu descontentamento com o estudo de filosofia, dedicou-se também 
à medicina, física e à teologia. Seus interesses se voltaram principalmente para a 
epistemologia, política e religião.
Segundo Locke, é mediante a abstração que as ideias são extraídas dos seres 
particulares e se tornam representações gerais de todos os objetos daquela mesma 
espécie e os seus nomes se tornam nomes gerais, aplicáveis a tudo o que existe e 
que está em conformidade com tais ideias abstratas (ABBAGNANO, 2003, p. 5).
Uma das grandes dificuldades de Locke, na área do conhecimento, era admitir 
3.3 John Locke: nascemos tábula rasa
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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89
que os homens nascessem com ideias. Segundo ele, se nascêssemos com ideias, 
todas as pessoas das mais diversas culturas e das mais diversas épocas nasceriam 
com as mesmas ideias. Ele afirma: “se considerarmos atentamente as crianças 
recém-nascidas, temos poucas razões para crer que elas trazem consigo muitas 
ideias ao mundo”. Portanto, as ideias não são inatas, mas adquiridas.
Locke defendia que não nascemos com nenhuma ideia e nenhum princípio moral 
em nossas mentes, embora exista desde Platão a convicção do contrário. Ao invés 
disso Locke acredita que nascemos tabula rasa. “A mente de uma criança é igual a 
uma folha em branco, a um aposento vazio. Todas as palavras todos os conceitos 
universais, até então princípios abstratos, são adquiridos gradualmente” (HELFERICH, 
2006, p. 185). “Embora rejeitasse a doutrina das ideias inatas, Locke não refutou o 
conceito de que os seres humanos têm capacidades inatas. A posse de qualidades 
inatas, como a percepção e o raciocínio, é fundamental para sua explanação sobre 
o mecanismo do conhecimento e da compreensão humana” (AA. VV., 2011, p. 133).
Talvez uma boa maneira de ilustrar isso seja o relato histórico de Amala e Kamala, 
duas meninas encontradas na Índia em 1920, pelo reverendo Singh, vivendo em 
uma caverna junto com os lobos. Presumiu-se que Amala tivesse aproximadamente 
dois anos e Kamala oito. Foram então encaminhadas a um orfanato em Midnapore 
na tentativa de humanizá-las, pois as meninas se comportavam como os lobos. Não 
riam e nem choravam, uivavam para a lua, enxergavam melhor a noite do que de 
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Museo_Ebraico_-_Fausto_Levi_-_di_Soragna_empty_frame.
jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015.
Figura 2.13 | Nascemos sem nada na mente, como um quadro vazio
Platão desenvolveu o conceito de que todo conhecimento genuíno está 
essencialmente localizado dentro de nós, e que, quando morremos, 
nossas almas reencarnam em novos corpos e o choque do nascimento 
nos faz esquecer tudo. A educação não é, portanto, aprender fatos 
novos, mas “não esquecer”, e o educador não é um professor, mas um 
parteiro. (AA.VV., 2011, p. 131). 
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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dia, comiam carne crua colocada 
diretamente no chão, com a boca 
sem usar nem mesmo as mãos e 
andavam apoiadas nos joelhos e 
nos cotovelos os quais possuíam 
imensos calos. Um ano depois de 
encontradas Amala faleceu e foi o 
único momento em que Kamala, 
que ainda viveu por mais oito 
anos, manifestou pesar. Kamala 
aos poucos foi se humanizando. 
Demorou seis anos para aprender, 
ou reaprender, a andar ereta 
e aprendeu no máximo umas 
cinquenta palavras.
Diante disso poderíamos 
nos perguntar “como é possível 
sustentar que nascemos com ideias?”, se até mesmo as ideias que hoje temos 
podemos perdê-las, conforme vemos relatado também nas histórias da filósofa 
americana Helen Keller e do músico Ray Charles, os quais após ficarem cegos, 
relatam que aos poucos se esqueceram da imagem do mundo externo. Helen Keller, 
que ficou cega e surda com um ano e oito meses, nos demonstra mais claramente 
que nossas ideias são adquiridas, pois a mesma aprendeu a falar, e conferiu palestras 
em mais de sessenta países – inclusive no Brasil – apesar de não ouvir o som das 
palavras.
É claro que Locke não teve o privilégio de conhecer estas histórias para poder 
basear-se nelas, mas elas ilustram o seu pensamento, pois para ele todo o nosso 
“estoque” de ideias é proveniente das nossas vivências, das nossas experiências de 
vida. Ele entendia que não há nada em nossa mente que antes não tenha passado 
pelos nossos sentidos, pelas sensações.
Para Locke toda a matéria-prima dos nossos pensamentos, é originada apenas de 
duas fontes, ou da sensação ou da reflexão. A sensação é a percepção dos objetos 
no mundo exterior, à nossa volta; e a reflexão é a atividade do pensamento e do 
desejo, do entendimento e da vontade. Sensação e reflexão são como se fossem 
as duas árvores genealógicas do pensamento, ou das ideias. Dessas duas fontes 
se originarão as ideias simples (conceitos aos quais chegamos por intermédio da 
percepção direta) e ideias complexas (combinação, comparação ou abstração de 
várias ideias simples).
Embora não seja o nosso assunto aqui, gostaríamos apenas de lembrar que 
Locke também tem uma contribuição muito significativa na área da política,sendo, 
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/
File:Crepuscular_rays_with_reflection_in_GGP.jpg?uselang=pt-
br>. Acesso em: 20 mar.2015.
Figura 2.14 | Sensação e reflexão originam ideias
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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91
inclusive, considerado um dos pais do liberalismo político, o qual, posteriormente, 
em sua versão econômica – e com as contribuições de Adam Smith (1723-1790) 
e John Stuart-Mill (1806-1873) – possibilitará o surgimento do sistema capitalista. 
Locke é o teórico da burguesia e foi durante os últimos cem anos que antecederam 
a Revolução Francesa, um dos filósofos mais importantes e mais lidos.
David Hume nasceu na capital escocesa, Edimburgo, no ano de 1711. Sua família 
pertencia à pequena nobreza de proprietários de terra. Ele era uma criança prodígio 
e entrou para a Universidade com apenas doze anos de idade. Aos dezoito anos de 
idade intuiu um novo cenário de pensamento o qual originaria uma nova ciência 
da natureza humana, em outras 
palavras, uma nova visão filosófica. 
A partir disso o jovem Hume 
se entregou de corpo e alma aos 
estudos. Nascia a ideia do Tratado 
sobre a natureza humana, a sua 
obra-prima. Foram necessários 
cinco anos para que a obra ficasse 
pronta, indo de 1734 até 1739. “Em 1739, foram finalmente publicados em Londres os 
primeiros dois volumes do Tratado sobre a natureza humana e, em 1740, o terceiro 
volume, mas seus trabalhos não suscitaram nenhum interesse particular”. (REALE, 
2005b, p. 132).
A dedicação havia sido tanta que ele acabou indo da estafa à depressão, que 
exigiu um longo tratamento. Segundo Helferich (2006, p. 193),
3.4 Hume – cético e empirista
A dedicação cega só prejudica”. Com essa mesma ironia cordial, que 
ele dominava tão perfeitamente, se poderia consolar David Hume pelo 
fracasso de sua primeira obra. Ela traz o soberbo título A Treatise of 
Human Nature (Tratado da natureza humana, 1739-1740), tem soberbas 
900 páginas e deveria, como diz o subtítulo, repetir a obra de Newton 
no domínio das ciências humanas: Being an Attempt to introduce the 
Experimental Method of Reasoning into Moral Subjects, uma tentativa, 
portanto, de introduzir na ciência do homem o método experimental 
de investigação. O desprezo completo por sua obra foi um duro golpe 
para o jovem autor.
Segundo Hume (apud HELFERICH, 2006), a única fonte de conhecimento é a 
experiência e o objeto da experiência não são as coisas externas à nossa mente, 
mas a representação que delas temos em nossas mentes. Daí Hume sustentar 
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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que as representações, ou impressões, constituem o elemento base para o nosso 
conhecimento, pois não podemos conhecer nada além das nossas impressões. Desse 
modo, Hume acaba por transformar o empirismo numa espécie de fenomenalismo, 
indicando que o pensamento pode conhecer apenas a si mesmo e mais nada.
A consequência dessas afirmações de Hume será que não se pode conhecer de 
modo objetivo a existência, a substância e a causa das coisas, pois o objeto último 
do conhecimento, de acordo com o empirismo, são apenas as impressões e ideias 
que temos das coisas. O problema, então, vai recair sobre origem das ideias. E para 
descobri-las, Hume vai partir de uma distinção entre impressões e ideias.
As impressões são as percepções diretas, fortes e nítidas que gozamos quando o 
mundo marca nossos sentidos com vivacidade; além de sensações também podem 
ser paixões e emoções. E as ideias são as percepções fracas e apagadas, cópias 
menos vívidas das impressões. “As ideias são os conceitos e pensamentos de coisas 
que não estamos mais experimentando, mas somos capazes de evocar em nossas 
mentes”. (LAW, 2008, p. 290). Por exemplo, quando sentimos calor temos uma 
impressão, quando lembramos do calor que sentimos temos uma ideia. 
As ideias simples vêm das impressões simples e as complexas podem ser criadas 
em nossa mente. E é assim que vamos formando conceitos sobre aquilo que 
experimentamos, ou seja, as ideias dependem das impressões, pois estas são as 
causas daquelas e por isso não podemos imaginar algo que não experimentamos. 
Se tentarmos imaginar algo que não existe, possivelmente vamos apenas juntar 
algo que existe em separado. Desse modo, podemos afirmar que o conhecimento 
ocorre, segundo Hume (apud HELFERICH, 2006), pelo resultado da associação das 
ideias, de acordo com os princípios de: 
1. Semelhança: ideias parecidas se associam.
2. Contiguidade: uma ideia próxima evoca a outra.
3. Causalidade: relacionamos causa e efeito. 
Isso faz com que a razão humana associe as ideias com base nas relações de 
ideias ou nas questões de fato. Alguns juízos são demonstráveis (como as verdades 
matemáticas) e outros são apenas prováveis. Por exemplo: por termos vistos até hoje 
o Sol nascer todos os dias, criamos o hábito de esperar que ele nasça toda manhã 
e julgamos que isso ocorrerá, porém esse julgamento não obedece a nenhuma 
lógica, pois, apesar de muito improvável, é possível conceber que ele não nasça um 
dia. A crença no nascimento futuro do Sol não é empírica, pois ele ainda não nasceu, 
então, não temos um fundamento racional para a nossa crença, temos apenas o 
hábito que nos diz que é muito provável que isso aconteça, mas não nos dá garantia 
de que acontecerá, haja vista que não existe lei de causa e efeito, ou, não existe 
causalidade e a ciência se faz tendo por base a causalidade.
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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O resultado a que se chega 
a partir das ideias de Hume é de 
que não é possível obtermos uma 
fundamentação segura para a ciência e 
que, portanto, por coerência, devemos 
abandonar qualquer tentativa de emitir 
juízos, ou conhecimentos científicos. 
Se a ciência não se sustenta, não 
se fundamenta, então não pode 
haver conhecimento científico 
inquestionável. 
A certeza de que o sol voltará a 
nascer, por exemplo, surgiu da crença 
ou do hábito; e a ciência não pode ter 
bases não racionais como a crença 
e o hábito. Então, inevitavelmente, 
estamos diante de um ceticismo quanto à possibilidade do conhecimento científico. 
Daí a razão desse subtítulo: Hume é empirista com relação os nossos conhecimentos 
cotidianos, mas é cético com relação ao conhecimento científico. Contudo, segundo 
Hume, a certeza persiste mesmo não tendo bases racionais. Desse modo, parece 
que ele transforma o empirismo em fenomenalismo, ou seja, podemos perceber 
que o fenômeno ocorre, mas não temos garantia de que ele sempre ocorrerá.
Sobre David Hume acesse:
<http://www.mundodosfilosofos.com.br/hume.htm>.
1. Segundo Francis Bacon, “são de quatro gêneros os ídolos que 
bloqueiam a mente humana. Para melhor apresentá-los, lhes 
assinamos nomes, a saber: Ídolos da Tribo; Ídolos da Caverna; 
Ídolos do Foro e Ídolos do Teatro”. Fonte: BACON, F. Novum 
Organum. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: 
Nova Cultural, 1988, p. 21.
Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/
wiki/File:Naga_women_from_the_Patkoi_hills_Assam.
jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015.
Figura 2.15 | As nossas (pseudo) certezas 
nascem de hábitos e costumes
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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94
2. “Todas as ideias derivam da sensação ou reflexão. Suponhamos 
que a mente é, como dissemos, um papel em branco, desprovida 
de todos os caracteres, sem quaisquer ideias; como ela será 
suprida? [...] De onde apreende todos os materiais da razão e do 
conhecimento? A isso respondo, numa palavra, da experiência. 
Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva 
fundamentalmente o próprio conhecimento.” (LOCKE, John. 
Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural, 
1973, p. 165). 
Considere:
I – Para John Locke, embora nosso conhecimento se origine na 
experiência, nem todo ele deriva da experiência. No entendimento, 
existem ideiasinatas abstraídas das coisas pela reflexão.
II – John Locke é o iniciador da teoria do conhecimento em 
sentido estrito, pois se propôs, no Ensaio acerca do entendimento 
humano, a investigar explicitamente a natureza, a origem e o 
alcance do conhecimento humano.
III – Para John Locke, todo nosso conhecimento provém e se 
fundamenta na experiência. As impressões formam as ideias 
simples; a reflexão sobre as ideias simples, ao combiná-las, 
formam ideias complexas, como substância, Deus, alma etc.
IV – John Locke distingue as qualidades do objeto em qualidades 
primárias (solidez, extensão, movimento etc.) e qualidades 
secundárias (cor, odor, sabor etc.); as primeiras existem realmente 
nas coisas, as segundas são relativas e subjetivas.
Com base nos conhecimentos sobre Bacon, os Ídolos da Tribo 
são:
a) Aqueles provenientes do intercurso e da associação recíproca 
dos indivíduos.
b) Aqueles que imigraram para o espírito dos homens por meio 
das diversas doutrinas filosóficas.
c) Aqueles que chegam ao espírito humano por meio de regras 
viciosas de demonstração.
d) Aqueles fundados na própria natureza humana.
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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3. O principal argumento humeano contra a explicação da 
inferência causal pela razão era que este tipo de inferência dependia 
da repetição, e que a faculdade chamada “razão” padecia daquilo 
que se pode chamar uma certa “insensibilidade à repetição”, ou seja, 
uma certa indiferença perante a experiência repetida. Em completo 
contraste com isso, o princípio defendido por nosso filósofo, um 
princípio para designar o qual propôs os nomes de “costume ou 
hábito”, foi concebido como uma disposição humana caracterizada 
pela sensibilidade à repetição, podendo assim ser considerado 
um princípio adequado à explicação dos raciocínios derivados de 
experiências repetidas. (MONTEIRO, J. P. Novos Estudos Humeanos. 
São Paulo: Discurso Editorial, 2003, p. 41).
Com base no texto e nos conhecimentos sobre o empirismo, é 
correto afirmar que Hume
a) Atribui importância à experiência como fundamento do 
conhecimento dedutivo obtido a partir da inferência das relações 
causais na natureza.
b) Corrobora a afirmação de que a experiência é insuficiente sem 
o uso e a intervenção da razão na demonstração do nexo causal 
existente entre os fenômenos naturais.
c) Confere exclusividade à matemática como condição de 
fundamentação do conhecimento acerca dos fenômenos 
naturais, pois, empiricamente, constata que a natureza está escrita 
em caracteres matemáticos.
d) Demonstra que as relações causais obtidas pela experiência 
representam um conhecimento guiado por hábitos e costumes 
e, sobretudo, pela crença de que tais relações serão igualmente 
mantidas no futuro.
Estão corretas apenas as alternativas:
a) I, II e III.
b) II, III e IV.
c) I, II e IV.
d) I, III e IV.
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Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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Seção 4
O criticismo kantiano
Nesta sessão serão apresentadas as contribuições de Immanuel Kant à questão 
do conhecimento verdadeiro, buscando superar a visão racionalista e a empirista; 
mostrando as limitações de ambas e construindo uma visão baseada na análise rigorosa 
da capacidade da racionalidade humana, conhecidas como criticismo kantiano.
4.1 Kant e a revolução copernicana
Uma das características mais marcantes da 
personalidade de Immanuel Kant é o seu rigor. 
Como bom alemão ele era extremamente 
metódico e dificilmente saia da sua rotina. 
Nasceu em Königsberg, capital da Prússia, em 22 
de abril de 1724, sendo o quarto de nove filhos. 
Aos treze anos perdeu a sua mãe, aos dezesseis 
ingressou na Universidade de Königsberg onde 
estudou Filosofia, Física, Matemática e Teologia. 
Aos vinte e dois anos perdeu o seu pai. Depois 
de formado, para manter-se foi preceptor dos 
filhos de aristocratas. Somente aos 31 anos 
terminou o mestrado que havia adiado por 
questões financeiras e então passou a lecionar 
na instituição onde se formou, mas apenas aos 
46 anos tornou-se professor titular e lecionou 
por mais 12 anos, falecendo em 12 de fevereiro 
de 1804, na mesma cidade em que nasceu.
Até parece piada, mas conta-se que após 
o almoço fazia um passeio tão pontual que 
algumas pessoas passaram a acertar o relógio 
quando ele passava em frente suas casas. 
Fonte: Disponível em: <http://commons.
w i k i m e d i a . o r g / w i k i / I m m a n u e l _
Kant#mediaviewer/File:Kant_Kaliningrad.jpg>. 
Acesso em: 20 mar. 2015.
Figura 2.16 | Kant está entre os 
maiores filósofos
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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Também é curioso o fato dele ter-se tornado mundialmente conhecido mesmo 
sem jamais, durante toda a sua vida, ter se ausentado de sua terra natal e de não ser 
uma figura solene da época. Pode-se, a partir disso, imaginar o quão profundo foi o 
seu pensamento, motivo pelo qual é considerado o maior expoente do iluminismo 
alemão e um dos maiores filósofos de todos os tempos. Para falar de Kant, nos 
valeremos de nossa obra (2013, p. 50s).
Segundo Kant, os empiristas consideravam que o homem não tem nenhum 
conhecimento em sua mente que não tenha passado pela experiência através dos 
sentidos. Enquanto para os racionalistas, a capacidade que o homem tem de raciocinar 
é mais importante para o conhecimento do que a experiência, pois de nada valeria 
a experiência se o homem não conseguisse raciocinar sobre ela e compreendê-
la. Os animais têm sentido, mas mesmo presenciando uma experiência, dela nada 
concluem, pois não têm a capacidade do cérebro humano. Kant empenhou-se 
enormemente em resolver essa questão.
Para Kant, racionalistas e empiristas estariam parcialmente certos e, portanto, 
parcialmente errados também. Entendia ele que o surgimento de um novo método 
científico validou as observações empíricas, embora elas já existissem antes desse 
método. Dois elementos faziam parte desse novo método: primeiro, nele os 
conceitos podem ser descritos matematicamente; e, segundo, permite que os 
próprios conceitos sejam testados. A Física e demais ciências naturais estariam, 
desse modo, no caminho seguro. O grande desafio seria buscar a mesma segurança 
para as demais áreas do conhecimento.
Os racionalistas afirmam que nascemos com ideias e é possível descrever um 
objeto sem necessariamente ter de submetê-lo à experiência. Por exemplo: posso 
entender o enunciado “a reta é a menor distância entre dois pontos” mesmo sem 
fazer a experiência. O predicado está contido no sujeito, bastando apenas analisá-lo. 
São juízos universais (válidos em todos os lugares) e necessários (não podem ser de 
outro modo). Isso ficou conhecido como juízo analítico a priori (“antes”, em latim). 
Tal juízo não acrescenta nada ao sujeito ou objeto conhecido, limita-se apenas em 
descrevê-lo. Vale indagar, o que a mais se diz sobre “solteiro” quando se predica que 
ele “não é casado”, ou que “o quadrado tem quatro lados”? Solteiro é universal e 
necessariamente não casado, como “o quadrado tem quadro lados”.
Para os empiristas, nascemos com o cérebro vazio, sem ideia alguma. Entendem 
eles que os enunciados científicos são possíveis apenas depois de feita a experiência, 
a qual comprovaria tal enunciado. Ou seja, depois de se fazer a experiência, faz-se 
uma síntese daquilo que ficou comprovado. Por exemplo: estando-se ao nível do 
mar, esquenta-se a água e se percebe que, ao atingir 100º C, ela entra em ebulição. 
Depois de constatado, basta enunciar tal conhecimento. São juízos particulares 
(válidos apenas nestas circunstâncias e para este sujeito) e contingentes (podem 
ser diferentes). Então, o que se predica de algo, de um sujeito não está necessária e 
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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universalmente nele. Isso ficou conhecido como juízosintético a posteriori (“depois”, 
em latim), como o que se afirma em “os corpos movimentam-se”. De “corpos”, 
isoladamente, não sabemos se movimentam, a não ser depois do que se constata 
e se diz deles.
Dessa forma, dizer que a ciência se funda em juízos sintéticos a posteriori, implica 
aceitar que toda vez que se fizer um enunciado científico se faça antes a experiência 
e o resultado dessa experiência, segundo David Hume, apenas mostra que desta vez 
se obteve o resultado descrito, mas não garante que o mesmo resultado sempre será 
obtido. Diz Hume que não podemos afirmar com a mais absoluta certeza que das 
mesmas causas sempre se seguirão os mesmos efeitos, ou seja, não há causalidade. 
Diante disso, conclui Hume que as nossas crenças científicas têm por base, algo 
bastante frágil: o hábito. Estamos habituados desde que nascemos ver o dia nascer, o 
Sol iluminar a Terra, mas nada pode garantir que o sol iluminará eternamente o planeta.
Segundo Kant, para que a ciência seja possível devem existir juízos que tenham 
as características dos analíticos (universais, necessários e a priori) e que ao passarem 
por uma experiência bem feita possam chegar a conclusões que se tornem válidas 
para todas as demais experiências sem necessidade de serem sempre repetidas. 
Estes juízos são chamados por Kant de juízos sintéticos a priori. Essa contribuição 
inovadora de Kant para as possibilidades e o alcance do conhecimento ficou 
conhecida como sua “revolução copernicana”.
Se Hume estivesse vivo quando Kant criou os juízos sintéticos a 
priori, possivelmente haveria discordância entre ambos. E você, 
acredita na possibilidade de afirmações verdadeiras e conclusivas 
ou acredita que a ciência não é possível de modo conclusivo?
Uma das principais obras de Kant, a Crítica da razão pura, trata exatamente de 
como ocorrem os juízos sintéticos a priori na Matemática, na Física e na Metafísica. 
Em Matemática, esses juízos seriam possíveis graças à intuição a priori que temos do 
espaço e do tempo, os quais não existem em si, mas são formas de a nossa capacidade 
perceber as coisas. Espaço e tempo não são conceitos, são intuições que independem 
da experiência, são transcendentais. Transcendente significa aquilo que existe em si e 
por si, independentemente de mim, mas para Kant o termo “transcendental” significa 
formas da intuição ou a forma da objetividade. O sujeito somente conhece os objetos 
sensíveis graças às categorias não sensíveis de espaço e tempo.
Na Física, Kant afirma que ao conhecer um objeto, nós não o conhecemos em 
si, conhecemos apenas o modo como ele se apresenta à nossa mente. A “coisa 
em si”, para Kant chama-se noúmeno; e o modo como ela se apresenta chama-se 
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fenômeno. A nossa mente tem capacidade de conhecer apenas o fenômeno e jamais 
o noúmeno. Conhecer o fenômeno significa formular um juízo sobre dele. 
Para os metafísicos “existe na razão humana a possibilidade de um ato de apreensão 
cognitiva que recaia não sobre fenômenos, não sobre objetos a conhecer, submetidos 
ao espaço, ao tempo e às categorias, mas sobre coisas em si mesmas”. (MORENTE, 1976, 
p. 247). A Metafísica pretende conhecer aquilo que as coisas físicas e não físicas (alma 
e Deus, por exemplo) são em si mesmas e Kant já afirmou que somente conhecemos 
o modo como as coisas se apresentam aos nossos sentidos e, portanto, a Metafísica é 
impossível. As ideias metafísicas não se situam no espaço e no tempo e a nossa mente 
só as concebe graças ao seu poder sintetizador. A ideia de alma seria uma síntese de 
nossas vivências e a ideia de Deus seria a síntese das sínteses, “aquele ente metafísico no 
qual a mais plena realidade está unida à mais plena idealidade”. (MORENTE, 1976, p. 262). 
Dirá que “é absolutamente necessário que cada um se convença de que Deus existe; 
que sua existência deva ser demonstrada não é tão necessário”. (CAYGILL, 2000, p. 95). 
Mesmo não sendo possível provar a existência de Deus, Kant admite que a ideia de um 
ser superior é necessária para fundamentar a moralidade. 
Lembra-nos Jostein Gaarder (2007, p. 353) que para Kant “[...] Não podemos 
provar a existência de Deus com nossa razão [...]. Para a razão é tanto provável quanto 
improvável que Deus exista. [...] Justamente aquela zona à qual não conseguem chegar 
a nossa experiência, nem a nossa razão [...] pode ser preenchida pela fé religiosa. É 
moralmente necessário supor a existência de Deus”.
Sobre Kant acesse:
<http://www.mundodosfilosofos.com.br/kant.htm>.
1. “Em todos os juízos em que for pensada a relação de um sujeito 
com o predicado [...], essa relação é possível de dois modos. 
Ou o predicado B pertence ao sujeito A como algo contido 
(ocultamente) nesse conceito A, ou B jaz completamente fora 
do conceito A, embora esteja em conexão com o mesmo. No 
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2. Leia o texto a seguir.
A razão humana, num determinado domínio dos seus 
conhecimentos, possui o singular destino de se ver atormentada 
por questões, que não pode evitar, pois lhe são impostas pela 
sua natureza, mas às quais também não pode dar respostas por 
ultrapassarem completamente as suas possibilidades. (KANT, 
I. Crítica da Razão Pura (Prefácio da primeira edição, 1781). 
Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique 
Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, p. 3.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre Kant, o 
domínio destas intermináveis disputas chama-se:
a) Experiência.
b) Natureza.
c) Entendimento.
d) Metafísica.
primeiro caso, denomino o juízo analítico, no outro sintético”. 
(Fonte: KANT, I. Crítica da Razão Pura. Tradução de Valério 
Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Abril Cultural, 
1980, p.27).
Com base no texto e nos conhecimentos sobre a distinção 
kantiana entre juízos analíticos e sintéticos, assinale a 
alternativa que apresenta um juízo sintético a posteriori:
a) Todo corpo é extenso.
b) Todo corpo é pesado.
c) Tudo que acontece tem uma causa.
d) 7 + 5 = 12.
Nessa unidade nós vimos que:
a) A filosofia moderna começa muito marcada pelo ceticismo: 
não se acreditava ser possível à mente humana alcançar um 
conhecimento verdadeiro e inabalável, pois o mundo estaria 
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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sempre em mudança.
b) Diante do ceticismo surgem duas correntes: o empirismo, 
acreditando que os sentidos são confiáveis e a experiência pode 
garantir conhecimento verdadeiro; e o racionalismo, defendendo 
que há na nossa mente verdades inquestionáveis, como, por 
exemplo, os axiomas matemáticos.
c) Descartes vai buscar mostrar que o racionalismo é a garantia de 
se chegar à verdade, ideias claras e distintas, vence a dúvida cética 
pela força argumentativa da dúvida metódica e cria um método 
para se alcançar a verdade.
d) Bacon desenvolve o método empírico e alia a ciência à técnica, 
depois de demonstrar que os ídolos que temos na mente nos 
impedem de conhecer a verdade acerca do mundo.
e) Locke defende que nascemos sem ideias e que tudo o que temos 
na mente é apenas o que já passou por nossos sentidos.
f) David Hume vai negar o conhecimento científico alegando que 
o que ocorreu até hoje pode não ocorrer no futuro, haja vista que 
não existe lei de causalidade, tudo provém do hábito.
g) Kant é despertado do seu sono dogmático após conhecer o 
pensamento de Hume; e acredita que nem empiristas e nem 
racionalistas estão totalmente corretos, estão apenas parcialmente 
corretos. A partir daí, com o criticismo, Kant dá condições de 
possibilidade de conhecimentos científicos.
1. Os descobrimentos, entre outros fatores, abalaram a confiança 
nas certezas adquiridas e começaram a surgir as dúvidas acerca 
do funcionamento do mundo e o ceticismo ressurge fortalecido.
2. Descartes vê a essência do homem no pensamento o qual, 
no ato de duvidar pensa e se pensa existe; chega-se à primeira 
certeza:o eu dotado de razão (pensamento).
3. Os empiristas discordam de Descartes, pois para refletir a 
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
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razão necessita de dados fornecidos pela experiência e captados pelos 
sentidos, haja vista que o homem, segundo eles, nasce sem ideia 
alguma.
4. David Hume inviabiliza os juízos científicos ao sustentar que eles se 
fundamentam no hábito e que causalidade não existe.
5. Kant se sente desafiado a encontrar uma saída para esta disputa 
e postula a existência de juízos sintéticos a priori, os quais são 
considerados condição de possibilidade de enunciados científicos.
1. “E quando considero que duvido, isto é, que sou uma coisa 
incompleta e dependente, a ideia de um ser completo e 
independente, ou seja, de Deus, apresenta-se a meu espírito com 
igual distinção e clareza; e do simples fato de que essa ideia se 
encontra em mim, ou que sou ou existo, eu que possuo esta ideia, 
concluo tão evidentemente a existência de Deus e que a minha 
depende inteiramente dele em todos os momentos da minha 
vida, que não penso que o espírito humano possa conhecer algo 
com maior evidência e certeza”. (DESCARTES, René. Meditações. 
Trad. de Jacó Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova 
Cultural, 1996, p. 297-298.)
Com base no texto, é correto afirmar:
a) O espírito possui uma ideia obscura e confusa de Deus, o que 
impede que esta ideia possa ser conhecida como evidência.
b) A ideia da existência de Deus, como um ser completo e 
independente, é uma consequência dos limites do espírito 
humano.
c) A única certeza que o espírito humano é capaz de provar é a 
existência de si mesmo, enquanto um ser que pensa.
d) A existência de Deus, como uma ideia clara e distinta, é 
impossível de ser provada.
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2. Tendo por base o método cartesiano da dúvida, é correto 
afirmar que:
a) Este método visa a remover os preconceitos e opiniões 
preconcebidas e encontrar uma verdade indubitável.
b) Ao engendrar a dúvida hiperbólica, o objetivo de Descartes 
era provar que suas antigas opiniões, submetidas ao escrutínio 
da dúvida, eram verdadeiras.
d) Só podemos dar assentimento às opiniões respaldadas pela 
tradição.
e) A dúvida metódica surge, no espírito humano, 
involuntariamente.
3. “[...] Aristóteles estabelecia antes as conclusões, não consultava 
devidamente a experiência para estabelecimento de suas 
resoluções e axiomas. E tendo, ao seu arbítrio, assim decidido, 
submetia a experiência como a uma escrava para conformá-la 
às suas opiniões”. (BACON, Francis. Novum Organum. Trad. de 
José Aluysio Reis de Andrade. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 
1988, p. 33.)
Com base no texto, assinale a alternativa que apresenta 
corretamente a interpretação que Bacon fazia da filosofia 
aristotélica.
a) A filosofia aristotélica estabeleceu a experiência como o 
fundamento da ciência.
b) Aristóteles consultava a experiência para estabelecer os 
resultados e axiomas da ciência.
c) Aristóteles afirmava que o conhecimento teórico deveria 
submeter-se, como um escravo, ao conhecimento da 
experiência.
d) Aristóteles desenvolveu uma concepção de filosofia que tem 
como consequência a desvalorização da experiência.
e) Aristóteles valorizava a experiência, por considerá-la um 
caminho seguro para superar a opinião e atingir o conhecimento 
verdadeiro.
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
105
4. De acordo com a epistemologia Locke, considere:
I – As verdades matemáticas podem ser consideradas o 
fundamento da racionalidade humana.
II – Não nascemos com ideias, nascemos tabula rasa (quadro 
vazio).
III – Não há nada na mente humana que antes não tenha passado 
pelos sentidos.
IV – A ciência não é possível, pois não existe lei de causa e efeito.
Estão corretas apenas as alternativas:
a) I e II.
b) II e III.
c) III e IV.
d) I e IV.
5. Leia o texto a seguir:
Ao empreender a análise da estrutura e dos limites do 
conhecimento, Kant tomou a física e a mecânica celeste 
elaboradas por Newton como sendo a própria ciência. 
Entretanto, era preciso salvá-la do ceticismo de Hume quanto 
à impossibilidade de fundamentar as inferências indutivas e de 
alcançar um conhecimento necessário da natureza.
Com base no pensamento de David Hume acerca do 
entendimento humano, é correto afirmar:
a) Dentre os objetos da razão humana, as relações de ideias se 
originam das impressões associadas aos conceitos inatos dos 
quais obtém-se dedutivamente o entendimento dos fatos.
b) As conclusões acerca dos fatos obtidas pelo sujeito do 
conhecimento realizam-se sem auxílio da experiência, 
recorrendo apenas aos raciocínios abstratos a priori.
c) O postulado que afirma a inexistência de conhecimento 
para além daquele que possa vir a resultar do hábito funda-se 
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
106
6. Nos Princípios Matemáticos de Filosofia Natural, Newton 
afirmara que as leis do movimento, assim como a própria lei 
da gravitação universal, tomadas por ele como proposições 
particulares, haviam sido “inferidas dos fenômenos, e depois 
tornadas gerais pela indução”. Kant atribui a estas proposições 
particulares, enquanto juízos sintéticos, o caráter de leis a priori da 
natureza. Entretanto, ele recusa esta dedução exclusiva das leis da 
natureza e consequente generalização a partir dos fenômenos. 
Destarte, para enfrentar o problema sobre a impossibilidade de 
derivar da experiência juízos necessários e universais, um dos 
esforços mais significativos de Kant dirige-se ao esclarecimento 
das condições de possibilidade dos juízos sintéticos a priori. 
Com base no enunciado e nos conhecimentos acerca da teoria 
do conhecimento de Kant, é correto afirmar:
a) A validade objetiva dos juízos sintéticos a priori depende da 
estrutura universal e necessária da razão e não da variabilidade 
individual das experiências.
b) Os juízos sintéticos a priori enunciam as conexões universais 
e necessárias entre causas e efeitos dos fenômenos por meio de 
hábitos psíquicos associativos.
c) O sujeito do conhecimento é capaz de enunciar objetivamente 
a realidade em si das coisas por meio dos juízos sintéticos a priori.
d) Nos juízos sintéticos a priori, de natureza empírica, o predicado 
nada mais é do que a explicitação do que já esteja pensado 
realmente no conceito do sujeito.
na ideia metafísica de relação causal como conexão necessária 
entre os fatos.
d) O sujeito do conhecimento opera associações de suas 
percepções, sensações e impressões semelhantes ou sucessivas 
recebidas pelos órgãos dos sentidos e retidas na memória.
Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna
U2
107
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Anselmo. Abelardo. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Coleção Os Pensadores).
Principais desdobramentos da epistemologia moderna
Unidade 3
A CONTEMPORANEIDADE 
E O NEOPOSITIVISMO
Nesta seção estudaremos os retrospectos sobre o desenvolvimento 
da sociedade perpassando por uma breve análise dos acontecimentos 
históricos das Sociedades da Idade Média e Idade Moderna, tendo-
os como parâmetro para análise da sociedade Contemporânea. O 
objetivo, portanto, é perceber que no período que se inicia a partir da 
Revolução Francesa em (1789) até os dias atuais, os quais denominados 
contemporaneidade, há uma carência de pensadores como os iluministas 
do Século XVI ao Século XVIII, ou seja, a busca por uma racionalidade 
para a boa convivência do corpo social. 
Seção 1 | Contemporaneidade
Objetivos de aprendizagem: 
Nesta Unidade, você vai ser levado a compreender os fatores históricos 
que contribuíram para os acontecimentos contemporâneos provenientes 
das transformações ocorridas a partir do século XV. Essas transformações 
irão desencadear uma série de situações que definirão o século XVIII como 
um século explosivo. O objetivo, portanto, é perceber que no período que se 
inicia a partir da Revolução Francesa em (1789) até os dias atuais denominados 
contemporaneidade, há uma carência de pensadores como os iluministas do 
Século XVI ao Século XVIII, ou seja, a busca por uma racionalidade para a boa 
convivência do corpo social. Pretende-se consequentemente o estudo do 
Positivismo e Neopositivismo buscando compreender seus pensadores.
Sergio de Goes Barboza
Na segunda seção estudaremos a teoria de Aristóteles quanto ao termo 
Filosofia primeira ou teologia para introduzirmos a questão da metafísica. 
Portando, o objetivo é estudar a Metafísica em sua concepção original 
para compreender a incompatibilidade da filosofia primeira enquanto 
metafísica com relação à ciência particular, por esta não considerar o ser 
enquanto ser em geral. 
Nesta seção, iremos seguir a sequência cronológica das diversas fases 
referentes ao desenvolvimento do Positivismo até chegarmos ao Pós-
positivismo ou Neopositivismo, sendo três as fases da evolução. A primeira 
fase chamada de Positivismo Clássico; a segunda, o Empiriocriticismo de 
Avenarius (1843-1896) e Mach (1838-1916) e na terceira fase entraremos 
nas teorias neopositivistas, contemplando alguns dos principais autores 
considerados clássicos desta doutrina.
Na terceira seção o objetivo é compreender o olhar epistemológico do 
Círculo de Viena. Notadamente quanto ao verificacionismo pretendemos 
investigar preliminarmente, em breves linhas, algumas percepções 
fundantes do próprio positivismo. Neste sentido, perpassaremos por 
um breve histórico desta doutrina, observando a forma como se 
entende a metafísica e consequentemente apresentando algumas 
características positivistas como uma corrente filosófica que surgiu com 
o desenvolvimento do Iluminismo. 
Seção 2 | Metafísica
Seção 4 | Neopositivismo
Seção 3 | O Positivismo
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
111
Introdução à unidade
Se muitos foram os pensadores que refletiram a sociedade devido aos inúmeros 
problemas sociais que estavam aparecendo devido à industrialização iniciada no 
século XVIII, na Inglaterra, e, posteriormente, se estendendo às outras regiões, 
surgem com a nova realidade social, e com uma maior complexidade, autores 
mais clássicos que tentaram resolver esses mesmos problemas.
Nesta unidade, mostraremos uma síntese dos pensadores e um breve histórico 
dos acontecimentos na Idade Contemporânea que culminaram com os problemas 
sociais provenientes da Revolução Industrial Francesa. Portanto, com relação aos 
pensadores iluministas que lutavam por uma sociedade mais racional, mais justa, 
perpassaremos pela necessidade de uma nova ordem social, não no sentido 
comteano, ou algo imaginário como ocorria na mente de diversos filósofos da 
Idade Média, mas comparando aos acontecimentos históricos da linha do tempo, 
percebemos que o mundo, em determinado momento, precisou de um grande 
acontecimento para travar os comandos e desmandos das classes dominantes. 
Considerando que no âmbito da teoria e das leis, o cidadão tem direito de viver livre, 
em segurança, é necessário repensar a sociedade sendo que os cidadãos cada vez 
mais estão vivendo sob os contrastes de uma sociedade de aparências. Percebe-
se, neste sentido, a necessidade de um novo acontecimento, de conscientização 
e da participação da sociedade no desenvolvimento de todo corpo coletivo. Neste 
contexto se explica o estado patológico que se apresenta na sociedade através 
do mau exemplo de quem governa. Assim, o homem é forjado e influenciado 
conforme o meio em que vive. O que se propõe nesta unidade é uma reflexão 
da sociedade contemporânea cujos problemas são os mesmos do passado em 
que a sociedade atual clama por uma solução emergente e por justiça. Portanto, 
anunciamos a necessidade de resgatar os pensadores da época atual para eleger 
novamente a “razão” como grande instrumento de reflexão para que possamos ter 
instituições mais justas e funcionais.
Na primeira seção, portanto, perpassaremos por uma breve análise dos 
acontecimentos históricos das sociedades da Idade Média e Moderna, tendo-as 
como parâmetro para análise da sociedade contemporânea.
Na segunda seção, estudaremos a teoria de Aristóteles quanto ao termo Filosofia 
primeira ou teologia para introduzirmos a questão da metafísica. Consequentemente 
devemos começar o nosso estudo referente a um determinado tema com as 
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
112
coisas mais conhecidas por nós e chegar, em última análise, a um entendimento 
das coisas mais conhecidas em si mesmas.
Na terceira seção, o objetivo é compreender o olhar epistemológico do Círculo 
de Viena. Notadamente quanto ao verificacionismo pretendemos investigar 
preliminarmente, em breves linhas, algumas percepções fundantes do próprio 
Positivismo. Neste sentido, perpassaremos por um breve histórico do Positivismo 
que surgiu a partir da teoria de Auguste Comte, que pretendeu realizar por meio da 
ciência uma reforma social. Nesta perspectiva iremos compreender a metafísica 
na concepção deste autor.
Na quarta seção, seguindo a sequência cronológica das diversas fazes 
referentes ao desenvolvimento do Positivismo até chegarmos ao Pós-positivismo 
ou Neopositivismo, sendo três as fasesda sua evolução. A primeira, chamada 
Positivismo Clássico, a segunda, ao final do século XIX e princípio do século XX, o 
empiriocriticismo de Avenarius (1843-1896) e Mach (1838-1916). A terceira etapa 
denomina-se, Neopositivismo estreitamente vinculado ao Círculo de Viena.
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
113
Seção 1
Contemporaneidade
Nesta seção procuraremos compreender os diversos momentos da história em 
suas etapas de desenvolvimento, delineando os aspectos mais importantes cujas 
transformações vão direcionar as novas formas de explicar a natureza e a sociedade. 
Nesta perspectiva perpassaremos pela análise das patologias provenientes de 
ausência de normas e regras descumpridas pelos governantes. Neste sentido, 
demostraremos o distante consenso entre a teoria e a prática.
1.1 Os caminhos para os acontecimentos contemporâneos
As transformações ocorridas a partir do século XV estão todas vinculadas entre si 
e não podem ser entendidas de forma isolada. Vejamos alguns aspectos relevantes 
desta época, que se relacionaram com a construção de uma nova mentalidade.
Essas transformações vão direcionar as novas formas de explicar a natureza e 
a sociedade. Até então o povo europeu tinha uma concepção limitada de mundo, 
cujo conhecimento territorial baseava-se apenas no espaço local.
Com as grandes navegações, as novas descobertas, o povo europeu percebe 
um mundo muito mais amplo, com novos povos, novas culturas, novas especiarias. 
O modo de ver e de pensar vai exigir uma reformulação quanto à explicação da 
natureza e da sociedade.
Toda essa expansão territorial e comercial acelerou o desenvolvimento da 
economia monetária, com a acumulação de capitais pela burguesia comercial, mais 
tarde, terá uma importância decisiva na gestão do processo de industrialização da 
I) A expansão marítima.
II) As reformas protestantes.
III) A formação dos estados nacionais.
IV) As grandes navegações e o comércio ultramarino.
V) Desenvolvimento científico e tecnológico.
Fonte: O autor
Quadro 3.1 | Alguns dos aspectos relevantes
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
114
Europa. A Revolução Industrial e Francesa foram os acontecimentos mais relevantes 
no século XVIII, fatos estes que definiram o desaparecimento da sociedade feudal. 
De acordo com Tomazi et al. (2000, p. 4):
Assim como tudo se desenvolve e vai se adaptando, as ideologias das classes 
dominantes vão também tomando rumos estratégicos cada vez mais eficientes, onde a 
sociedade contemporânea precisa novamente de uma transformação principalmente 
no campo da moralidade.
Quando falamos de contemporaneidade estamos nos referindo ao período que se 
inicia a partir da Revolução Francesa em (1789 d.C.) até os dias atuais..
É um período que foi fortemente marcado pela corrente filosófica iluminista que vai 
do século XVI ao século XVIII em que se dava ênfase à razão. Neste período (iluministas) 
era defendida a criação de escolas para a educação da população, a liberdade religiosa 
e outras reivindicações. 
A contemporaneidade está carente de pensadores como os iluministas que se 
encontravam entre o século XVI ao século XVIII. Estes atacavam de forma sistemática 
tudo aquilo que era considerado 
contrário à busca da felicidade, da 
justiça e da igualdade. Neste sentido, as 
suas preocupações eram simplesmente 
denunciar a injustiça, a dominação 
e o poderio da igreja que tinha uma 
influência considerável em toda a 
estrutura social e política e que de certa 
forma dificultava o desenvolvimento 
da sociedade. Ao mesmo tempo o 
pensamento dogmático religioso era 
colocado como uma barreira entre 
Deus e o Homem.
Todas essas mudanças, somadas à herança cultural e 
intelectual do século XVII, irão definir o século XVIII como um 
século explosivo. Se no século anterior a Revolução Inglesa 
determina novas formas de organização política, é no século 
XVIII que se vê tanto a Revolução Americana como a Francesa 
alterando todo o quadro político mundial, bem como servindo 
de exemplo e parâmetro para as revoluções posteriores.
Fonte: COMMONS.WIKIMEDIA (2015)
Figura 3.1 | Pensamento dogmático religioso
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
115
Os pensadores iluministas criticavam também o estado absolutista e os privilégios 
dos homens de poder, que afastavam os cidadãos do seu direito natural à busca da 
felicidade. Para esses pensadores as sociedades que não se organizassem em torno 
da melhoria das condições de seus indivíduos conceberiam uma realidade incapaz 
de justificar, por argumentos lógicos sua própria existência. 
Se considerarmos o pensamento de Durkheim sobre duas questões básicas, 
sendo a primeira de que a sociedade prevalece sobre o indivíduo e de que sem 
normas e sem regras a sociedade não existiria como citado a seguir:
A pergunta que fica no ar é a que comportamento moral deve ser seguido numa 
sociedade cada vez mais corrupta em que aqueles que governam não dão exemplos 
desta moralidade. Considerando que a ética está no âmbito da teoria, portanto, 
escrevem ou legislam perante uma ética comum no conjunto do corpo social, porém, 
a prática é completamente dissociável, incompatível com a realidade proposta. 
A sociedade sem o comportamento racional como mencionado pelos iluministas 
do século XVIII acabam por elevar o desconforto além de uma patologia proveniente 
de ausência de normas e regras descumpridas pelos que legislam. Neste sentido, o que 
se aponta neste dilema é o distante consenso entre a teoria e a prática. Aquilo que se 
escreve não é aquilo que se pratica. Mais uma vez trazemos os clássicos para comparar 
à realidade social, muitos com base em suas crenças não entendem porque vivemos 
uma época comparada a uma barbárie, obviamente mais sofisticada e moderna. Na 
contemporaneidade essas são as questões somadas aos mesmos problemas do passado 
cuja sociedade clama por uma solução emergente e por uma sociedade mais justa.
Para o Sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), a sociedade 
prevalece sobre o indivíduo. A sociedade é, para esse autor, um conjunto 
de normas de ação, pensamento e sentimento que não existem apenas 
na consciência dos indivíduos, mas que são construídas exteriormente, 
isto é, fora das consciências individuais. Em outras palavras, na vida em 
sociedade o homem defronta com regras de conduta que não foram 
diretamente criadas por eles, mas que existem e são aceitas na vida 
em sociedade, devendo ser seguidas por todos. Sem essas regras, a 
sociedade não existiria, e é por isso que os indivíduos devem obedecer 
a elas. (TOMAZI, 2000, p. 17).
Com base no texto de Marx em que o homem interage com o meio 
e que o homem é forjado e influenciado conforme o meio em que 
vive. Neste sentido como poderíamos explicar o Brasil na atualidade?
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
116
Quando se questiona sobre a existência da sociedade, segue-se uma analogia 
sobre os parâmetros de uma sociedade coesa, cuja harmonia se refere à dignidade 
humana. No âmbito da teoria e das leis, o cidadão tem direito de viver livre, em 
segurança, mas o que se vê na atualidade, são os cidadãos cada vez mais vivendo 
sob os contrastes de uma sociedade de aparências.
Os que detêm o poder, além de grandes atores, protagonistas legislam e escrevem 
uma história de utopias. Certamente Platão os criticaria "como simples imitadores 
das aparências da virtude e dos outros assuntos de que tratam, mas que não atingem 
a verdade". (PLATÃO, 1997, p. 328). Provavelmente Auguste Comte classificaria a 
literatura das leis e da política atual, na teoria, no estado positivo, mas na prática, 
no estado teológico e metafísico conforme a sua célebre lei dos três estados. No 
âmbito da teologia o cidadão vive pela fé e coloca suas esperanças em Deus, faz 
milagre com o que tem para se viver acreditando muitas vezes nas utopias do poder 
político.
É cabível que a própria estrutura leve os homens de ciências a desacreditar de 
sua própria fé, é possível entender o que Marx queria dizersobre o fato da religião 
ser o ópio do povo. 
Fonte: O autor
Figura 3.2 | Sociedade/ Londrina-PR
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
117
É provável que se explique por que os homens e as ciências tanto ignoram a 
metafísica, pois esta está no âmbito dos questionamentos e num mundo dominado 
por ideologias de classes que estão no topo do poder, questionar é uma trava no 
desenvolvimento de seus interesses, alheios aos interesses coletivos.
Já no âmbito da metafísica as sociedades começam ser vistas em termos naturais, 
e não sobrenaturais. Passa a ser observada de forma abstrata, sai da imaginação e 
entra na argumentação. Para os positivistas o homem contemporâneo entrou no 
estado positivista, no ápice do conhecimento. Já para os neopositivistas o homem 
ainda não atingiu este estágio.
Para os positivistas a sociedade só pode ser reorganizada através de uma completa 
reforma intelectual do homem.
A sociedade contemporânea precisa resgatar pensadores dessa época para eleger 
novamente a “razão” como grande instrumento de reflexão para que sejam capazes 
de melhorar e empreender instituições mais justas e funcionais. O que precisa é a 
racionalização dos hábitos em todo corpo social. Considere-se aqui, a sociedade, 
as instituições públicas e privadas, a igreja e principalmente a esfera política que 
cada vez mais se afastam da razão e se infiltram num comportamento parecido ao 
estado natural em que imperava o egoísmo, os interesses, o uso do poder e da força. 
Desta maneira, os homens estão cada vez mais se afastando do seu direito natural 
referente à busca da felicidade.
A filosofia e os filósofos tiveram um papel preponderante na transformação da 
sociedade. A forma como eles buscaram compreender as coisas fez com que todos 
na idade contemporânea tivessem uma nova forma de olhar o mundo.
Os filósofos defendiam a existência de verdades absolutas, inspirados nas ciências 
naturais. Para eles a grande falha cometida quando se referem ao desenvolvimento 
da sociedade foi o afastamento dos homens de suas características originais, pois o 
conjunto de valores que possuíam, como a bondade, a liberdade e outros foram se 
ausentando aos poucos.
As instituições políticas contrárias a 
essa liberdade valorizaram as injustiças 
promovidas pelo Estado Absolutista. 
Tudo isso ocorreu contrariando o que 
deveria trazer melhorias à conduta 
humana.
Foi neste contexto, que o Iluminismo 
entrou em ação defendendo os direitos 
naturais, o respeito à diversidade 
de ideias, a justiça etc., motivando 
Fonte: COMMONS.WIKIMEDIA (2015)
Figura 3.3 | A história
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
118
consequentemente as revoluções burguesas e consequentemente o fim do regime 
feudal aparecendo as teorias liberais. Como toda estrutura tem a sua corrupção 
e suas contradições a contemporaneidade é o espaço para um novo momento 
de os filósofos, os intelectuais clamarem por uma nova mudança para a busca de 
liberdade. Neste novo sistema o que impera é a alienação das pessoas o que as 
tiram de suas características naturais, perdendo as suas próprias identidades tanto no 
âmbito individual como coletivo.
Em cada época é necessário um grande acontecimento para que a sociedade se 
livre da alienação e dos descontroles promovidos pelas classes dominantes. E em 
cada momento da história é preciso o grito de liberdade promovido pela sociedade 
e, em especial, pelos escritores intelectuais críticos denunciando os desfeches de 
uma realidade alienante e contraditória
Alienação é a condição psicossociológica de perda da 
identidade individual ou coletiva decorrente de uma situação 
global de falta de autonomia. Encerra, portanto uma dimensão 
objetiva – a realidade alienante – e a uma dimensão subjetiva 
– o sentimento do sujeito privado de algo que lhe é próprio. 
O conceito de alienação é comum a vários domínios do saber. 
Em psicologia e psiquiatria, fala-se de alienação para designar 
o estado mental da pessoa cuja ligação com o mundo 
circundante está enfraquecida. Em antropologia, a alienação 
é o estado de um povo forçado a abandonar seus valores 
culturais para assumir os do colonizador. Em sociologia e 
comunicação, discute-se a alienação que a publicidade e 
os meios de comunicação suscitam, dirigindo a vontade 
das massas, criando necessidades de consumo artificiais e 
desviando o interesse das pessoas para atividades passivas e 
não participativas. Em filosofia política, fala-se de alienação 
para designar a condição do trabalhador que, à semelhança 
de uma peça de engrenagem, integra a estrutura de uma 
unidade de produção sem ter nenhum poder de decisão 
sobre sua própria atividade nem direitos sobre o que produz. 
Transcendendo o âmbito da produção, a alienação se estende 
às decisões políticas sobre o destino da sociedade, das 
quais as grandes massas permanecem alijadas, e mesmo ao 
âmbito das vontades individuais, orientadas pela publicidade 
e pelos meios de comunicação de massas. (ESTUDANTE DE 
FILOSOFIA, 2012, p. 1).
A contemporaneidade e o neopositivismo
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Fonte: O autor
Figura 3.4 | Linha do tempo: Idade Contemporânea
Segundo o historiador Hobsbawm (1996, p. 17): “se a economia do 
mundo do século XIX foi tomada principalmente sob a influência da 
Revolução Industrial britânica, sua política e ideologia foram formadas 
fundamentalmente pela Revolução Francesa”.
1. As transformações ocorridas a partir do século XV estão todas 
vinculadas entre si e não podem ser entendidas de forma isolada. 
Aponte os principais acontecimentos responsáveis por essas 
transformações.
2. A contemporaneidade está carente de pensadores como os 
iluministas que se encontravam entre o século XVI ao século XVIII. 
Descreva as principais ações desses pensadores.
A contemporaneidade e o neopositivismo
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A contemporaneidade e o neopositivismo
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Seção 2
Metafísica
Nesta seção, o objetivo é refletir sobre a metafísica na sua origem através do 
filósofo Aristóteles para a compreensão de seu significado enquanto filosofia primeira 
ou teologia.
2.1 Filosofia primeira ou teologia
O que seria filosofia primeira ou teologia? Para 
entendermos vamos estudar as teorias de um 
grande pensador: o filósofo Aristóteles. É dele esta 
termologia. A filosofia primeira ou teologia equivale 
à metafísica. O que em sua concepção a metafísica 
estuda o “inteiro” do ser diferenciando, porém da 
ciência que estuda apenas “partes” específicas 
do ser. Portanto esta é a grande diferença entre a 
metafísica e a ciência, no que se refere aos objetos 
de estudo de cada um. Neste sentido, entende-se 
que aquilo que se identifica nas partes não pode ser 
identificado no inteiro.
Aristóteles descreveu seu assunto em diversas 
ou variadas formas com relação à filosofia primeira, 
ou neste caso, o estudo do ser enquanto ser.
O que significa a filosofia primeira? É o estudo das causas e princípios, mas não 
podemos interpretar tal termo na raiz da palavra, pois não significa que este ramo 
deva ser estudado em primeiro antes dos demais assuntos. O que significa é que 
os assuntos aqui em referência são os mais fundamentais ou no mais alto nível de 
generalidade.
Aqui identificamos duas questões básicas:
Fonte:COMMONS.WIKIMEDIA (2015)
Figura 3.5 | Aristóteles
A contemporaneidade e o neopositivismo
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Fonte: O autor
Figura 3.6 | Questões básicas
Para Aristóteles devemos começar o nosso estudo referente a um determinado 
tema com as coisas mais conhecidas por nós e chegar, em última análise, a um 
entendimento das coisas mais conhecidas em si mesmas. Isso significa dizer que 
saímos de uma situação do mundo físico, ou do senso comum para uma dimensão 
metafísica. Podemos conhecer muitas coisas nas suas generalidades, porém entramos 
na dimensão da metafísica quando começamos a especular e buscar conhecer mais 
especificamente a coisa em si mesma. Saímos da superficialidade para compreender 
com mais precisão. Portanto, a metafísica é todo tipo de especulação. A ciênciaquer 
compreender aquilo que é verificável perceptível, palpável. 
Foi no tratado de Aristóteles que surgiu o grande trabalho na história da filosofia 
com o título de Metafísica, embora, este título não foi necessariamente utilizado por 
ele, mas elaborada por um editor que reuniu seus escritos indicando o lugar dos 
temas abordados e colocando-os depois da física, daí o nome “metafísica”, que, 
como já vimos, significa “depois da física” ou “além da física”. Portanto, foi colocado 
após os tratados que explicam as questões da natureza. 
Há uma incompatibilidade da filosofia primeira se comparado à ciência particular, 
por esta não considerar o ser enquanto ser em geral. 
No conjunto de obras denominado: Metafísica, Aristóteles 
buscou investigar o “ser enquanto ser”. Significa que buscou 
compreender o que tornava as coisas o que elas são. Nesse 
sentido, as características das coisas apenas nos mostram como 
as coisas estão, mas não definem ou determinam o que elas são. 
É preciso investigar as condições que fazem as coisas existirem, 
aquilo que determina “o que” elas são e aquilo que determina 
“como” são. (MUNDO EDUCAÇÃO, 2015).
A contemporaneidade e o neopositivismo
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123
1. De acordo com o texto, explique o que é filosofia primeira ou 
teologia e qual a sua diferença com a ciência.
2. O que significa dizer, segundo Aristóteles, que devemos 
começar o nosso estudo referente a um determinado tema com 
as coisas mais conhecidas por nós e chegar, em última análise, a 
um entendimento das coisas mais conhecidas em si mesmas?
A contemporaneidade e o neopositivismo
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A contemporaneidade e o neopositivismo
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Seção 3
O positivismo
Esta seção tem como objetivo um breve estudo do positivismo a partir do 
filósofo Auguste Comte buscando compreender principalmente os aspectos sobre 
metafísica. Perpassaremos por esta teoria apresentando como uma primeira fase de 
desenvolvimento para a compreensão posterior do Neopositivismo. 
Para compreender o olhar epistemológico do Círculo de Viena, notadamente 
quanto ao verificacionismo, parece imperioso investigar, preliminarmente, em breves 
linhas gerais, algumas percepções fundantes do próprio Positivismo. 
Comecemos então, por um breve histórico do Positivismo que surgiu a partir da 
teoria de Auguste Comte, que pretendeu realizar por meio da ciência uma reforma 
social, afirmando que a Sociologia é a única ciência capaz de reformar a sociedade.
Auguste Comte (1798-1857) torna-se um republicano com ideias liberais e 
passa a desenvolver uma atividade política e literária que lhe permitirá elaborar uma 
proposta para resolver os problemas da sociedade de sua época, toda a sua obra 
está permeada pelos acontecimentos após as revoluções que ocorreram na França 
a partir do século XVIII. 
Nessa corrente de pensamento reconhecia-se que os princípios reguladores 
da sociedade humana deveriam ser estudados sob o mesmo método do mundo 
físico, pois, embora, eram diferentes em essência, a origem natural de ambos os 
aproximava.
Conforme afirma Giddens (2005, p. 28), Comte acreditava que a sociologia 
deveria aplicar os mesmos métodos científicos rigorosos ao estudo da sociedade 
que a física ou a química usam no estudo do mundo físico.
3.1 O Positivismo 
A contemporaneidade e o neopositivismo
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126
Aprenda mais sobre o Positivismo, de Auguste Comte, acessando o link 
a seguir:
<http://www.igrejapositivistabrasil.org.br>
Este site pertence à Igreja Positivista do Brasil:
Aqui você encontrará:
Tudo sobre a Igreja Positivista
O que é Positivismo
Características Gerais do Positivismo
Augusto Comte – Vida e Obras – Grandes Vultos do Positivismo (em 
quadrinhos) – 1958 etc.
Iluminismo: é uma atitude geral de pensamento e de ação. Ação de 
tornar o mundo melhor.
Empirismo: As teorias científicas devem ser baseadas na observação do 
mundo, em vez da intuição ou fé. 
Cognitivo: Ação de adquirir um conhecimento.
Algumas características do positivismo
I) É uma corrente filosófica, surgiu com o desenvolvimento do Iluminismo.
II) Afasta radicalmente a teologia e a metafísica; e ao negar a metafísica, 
supervaloriza o empirismo, dando preferência às ciências experimentais.
III) Com o Positivismo, Comte luta contra o emprego do método teológico na 
investigação científica, pois todos os fenômenos vitais devem ser, na sua concepção, 
explicados por suas causas sociológicas.
IV) Ao confiar nos conhecimentos dos fatos, afasta qualquer ato cognitivo que não 
tenha partido da observação; logo, o positivismo tem por base teórica a observação.
Para compreender os problemas sociais, Comte desenvolve uma filosofia da 
história. Todo grupo social passa, necessariamente, por três fases históricas de 
evolução: A lei dos três estados. Mas vamos procurar entender apenas a METAFÍSICA.
3.2 A metafísica do Positivismo de Comte
A contemporaneidade e o neopositivismo
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127
Segundo estágio: O estado metafísico ou abstrato – A sociedade começa ser vista 
em termos naturais, e não sobrenaturais como ocorria na fase teológica. É marcado 
pela busca da natureza dos fenômenos, da força essencial que os governa. Seria o caso 
do Renascimento e suas especulações filosóficas, no entender de Comte, divorciadas 
do concreto. Neste estágio, seriam ainda pequenas as possibilidades de entender 
como os fenômenos funcionam na prática, fato que limitaria o conhecimento.
Na obra de Comte, a metafísica não ocupa um papel central por ser apenas 
uma etapa de transição entre a teologia e o estado positivo. Faz uso das entidades 
abstratas (ou abstrações reificadas). Temos, portanto, na célebre lei dos três estados 
duas fases mais estáveis: a fase teológica e a fase positiva. A degradação da teologia 
assume a forma metafísica. No primeiro estágio ou estado teológico ou fictício, 
a sociedade é governada pelas forças sobrenaturais. As regras que organizam a 
sociedade são completamente submetidas à religião. 
No estado POSITIVO seriam abandonadas as tentativas de buscar a origem ou 
a natureza dos fenômenos para restringir-se à perseguição de leis universais que 
expliquem seu funcionamento. Isto porque, seguindo a lógica da lei dos três estados, 
a crise da nascente sociedade industrial seria causada pela transição dos estados 
teológico e metafísico para o estado positivo.
De acordo com Giddens (2005, p. 28) “O positivismo sustenta que a ciência 
deveria estar preocupada somente com entidades observáveis que são conhecidas 
diretamente pela experiência”.
Fonte: O autor
Figura 3.7 | Filosofia da história
1. Para compreender os problemas sociais, Comte desenvolve uma 
filosofia da história. Todo grupo social passa, necessariamente por 
três fases históricas de evolução: A lei dos três estados. Sobre esta 
teoria comente o segundo estágio: o estado metafísico ou abstrato.
2. Sobre a célebre Lei dos Três Estados comente a terceira fase: o 
estado positivo.
A contemporaneidade e o neopositivismo
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A contemporaneidade e o neopositivismo
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Seção 4
Neopositivismo
Nesta seção estudaremos o Neopositivismo (também conhecido como 
positivismo lógico) como um movimento desenvolvido por membros do círculo de 
Viena na Áustria e na Alemanha. Nestes aspectos perpassaremos pelas questões da 
metafísica, epistemologia e um breve histórico das teorias clássicas.
Desde o surgimento do positivismo passamos por diversas fases de evolução 
desta doutrina até chegarmos ao Pós-positivismo ou Neopositivismo. Triviños (1987, 
p. 33), distingue três momentos na evolução do positivismo:
4.1 Neopositivismo
Uma primeira fase, que é chamada de positivismo clássico, na qual, 
além do fundador Comte, sobressaem os nomes de Littré, Spencer 
e Mill. Em seguida, ao final do século 19 e princípios do século 
20, o empiriocriticismo de Avenarius (1843-1896) e Mach (1838-
1916). A terceira etapa denomina-se, em geral, Neopositivismo 
e compreende uma série de matizes, entre os quais se podem 
anotar o positivismo lógico, o empirismo lógico, estreitamentevinculado ao Círculo de Viena (Carnap, Schlick, Frank, Neurath 
etc.); o atomismo lógico (Russell, 1872-1970, e Wittgenstein 
1889-1951); a filosofia analítica (Wittgenstein e Ayer, n. 1910) que 
acham que a filosofia deve ter por tarefa elucidar as formas de 
linguagem em busca da essência dos problemas; o behaviorismo 
(Watson, 1878-1958) e o neobehaviorismo (Hull, 1884-1952, e 
Skinner, n. 1904). O neobehaviorismo tomou as ideias de Pavlov 
e substituiu a base materialista deste pelas concepções do 
positivismo lógico e do operacionalismo. O pragmatismo (James, 
1842-1910), irracionalista e empirista radical, e Dewey (1859-1952), 
A contemporaneidade e o neopositivismo
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130
primeiro seguidor dos pontos de vista de Hegel, em seguida do 
positivismo, para terminar criando uma nova escola, denominada 
instrumentalismo ou naturalismo humanista, de grande influência 
na filosofia norte-americana. Dewey influenciou na educação dos 
países da América Latina. Na política, desenvolveu os princípios 
da democracia liberal e do individualismo. Todos estes matizes do 
neopositivismo conservam os traços fundamentais do pensamento 
de Comte: os de serem idealistas e subjetivos. 
O Neopositivismo (também conhecido como 
positivismo lógico) foi um movimento desenvolvido 
por membros do círculo de Viena na Áustria e na 
Alemanha, (nesta prevalecia como reação à filosofia 
idealista e especulativa) durante os anos de 1920 a 
1930 na base do pensamento empírico tradicional e no 
desenvolvimento da lógica moderna. 
O Círculo de Viena foi um nome que ficou conhecido, 
onde um grupo de filósofos se reunia semanalmente 
para discutir assuntos referentes às novas descobertas 
científicas. As reuniões aconteciam na Universidade de 
Viena mais precisamente no período entre 1922 a 1936. 
O coordenador deste encontro era Moritz Schlick.
Fonte: COMMONS WIKIMEDIA (2010)
Figura 3.8 | Moritz Schlick
Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0b/Wien_schloss_belvedere_panorama.jpg>. 
Acesso em: 20 mar. 2015.
Figura 3.9 | Viena – Austrália
Este grupo procurava demonstrar as falsidades da metafísica, porém esta atividade 
foi dispersa com o assassinato de Moritz Schlick por um de seus alunos que era 
membro do nazismo. Diante da perseguição nazista os participantes do Círculo de 
Viena se dispersaram.
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
131
O sistema filosófico deste grupo ficou conhecido sob três termologias muito 
referenciadas com uma influência imensa no século XX, como por exemplo, 
“Positivismo Lógico”, “Empirismo Lógico” ou “Neopositivismo”. A atitude empírica 
estende-se a todos os domínios do pensamento. Para eles, o tratamento matemático 
e lógico dos fatos e a prova empírica são as fontes exclusivas do conhecimento 
científico. O método lógico seria aplicado para a compreensão científica do 
mundo, alheia a ideias éticas e a qualquer metafísica. Este movimento foi formado 
por homens da ciência e matemáticos. Portanto, nesta concepção, a observação 
é indispensável para o conhecimento do mundo. Tem-se aqui uma versão do 
racionalismo incorporado, construções e deduções em epistemologia.
Para os neopositivistas, os únicos enunciados que podem ser considerados 
científicos são os submetidos à verificação lógica e os que não podem ser submetidos 
à verificação lógica empírica são considerados sem sentido e absurdos.
Neste sentido, os neopositivistas valorizam as experiências, ou seja, somente o 
que passa pela verificação, o que é possível à observação clara, não se preocupando 
com o abstrato. Criticam a metafísica por esta não ter uma linguagem que identifique 
o que é verdadeiro ou falso, neste sentido, não era importante para aumentar o 
conhecimento. Os positivistas lógicos optavam pelas ciências formais e naturais 
assim como os positivistas tradicionais. Na concepção deste grupo de pensadores, 
Moritz Schlick foi a figura central do Positivismo Lógico e do Círculo 
de Viena. Nascido em Berlim numa abastada família, estudou física em 
Heidelberg, Lausana e na Universidade de Berlim, com Max Planck.
Sobre epistemologia:
Epistemologia significa ciência, conhecimento, é o estudo científico que 
trata dos problemas relacionados com a crença e o conhecimento, sua 
natureza e limitações. É uma palavra que vem do grego. A epistemologia 
estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento, 
e também é conhecida como teoria do conhecimento e relaciona-se 
com a metafísica, a lógica e a filosofia da ciência. É uma das principais 
áreas da filosofia, compreende a possibilidade do conhecimento, ou seja, 
se é possível o ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno, e 
da origem do conhecimento (SIGNIFICADOS.COM.BR, 2015).
A contemporaneidade e o neopositivismo
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132
a filosofia não é uma ciência, mas contribui fortemente para o progresso do 
conhecimento científico. O termo: “metafísica” surgiu casualmente:
Para Aristóteles a metafísica é, simultaneamente, ontologia, filosofia e teologia, 
na medida em que se ocupa do ser supremo dentro da hierarquia dos seres. Neste 
sentido, foi recolhida pela filosofia tradicional até Kant, que se interrogou sobre a 
possibilidade da metafísica como ciência.
A interpretação da metafísica como estudo do "sobrenatural" é de origem 
neoplatônica. A tradição escolástica identificou o objeto de estudo da metafísica 
com o da teologia, ainda que tenha distinguido as duas pelos métodos usados: para 
explicar Deus, a metafísica recorre à razão e a teologia à revelação.
Quando Andrônico de Rodes, cerca de duzentos e setenta 
anos após a morte do mestre, começou a preparar a primeira 
edição completa das obras que se conservaram, obviamente 
não sabia direito o que fazer com o conteúdo de uma estranha 
coleção constituída de catorze textos separados. Ele a inseriu 
depois da edição da Física, nomeando-a por isso de metà tà 
physikà. Somente na Antiguidade tardia se reinterpretou esse 
título no sentido de aquilo ‘que está além da natureza’ ou ‘que 
subjaz a ela’”. (HELFERICH, 2006, p. 44). Como se pode ver, 
o termo metafísica surgiu casualmente, não foi criado por 
Aristóteles, ele usava a expressão filosofia primeira ou teologia 
para referir-se aos conteúdos dessa disciplina (REALE, 1990, p. 
179 apud MACHADO, 2013, p. 18).
Ontologia significa “estudo do ser”. A palavra é formada através dos 
termos gregos “ontos” (ser) e “logos” (estudo, discurso). Consiste em uma 
parte da filosofia que estuda a natureza do ser, a existência e a realidade, 
procurando determinar as categorias fundamentais e as relações do “ser 
enquanto ser”. Engloba algumas questões abstratas como a existência de 
determinadas entidades, o que se pode dizer que existe, qual o significado 
do ser etc. (SIGNIFICADO DE ONTOLOGIA, 2015).
As palavras de Schilick (1975, p. 17), indicam, inicialmente, que o Positivismo a ser 
gestado na metade desse século será de alguma forma, outro, diferente daquele 
propugnado por Comte. No entanto, com relação à “metafísica”, embora ambos 
4.2 A metafísica para os neopositivistas
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
133
Antes de começarmos e explicar a metafísica segundo a concepção neopositivista, 
vamos entender um pouco sobre a metafísica como um importante ramo da filosofia.
Como vimos anteriormente, a palavra “metafísica” é de origem grega e tem como 
significado “meta”,“além de”, o que está para além da física. Como vimos é um 
ramo da filosofia que estuda a essência do mundo e do conhecimento. Portanto, 
é o estudo do ser ou da realidade que tem como objetivo buscar respostas para 
perguntas consideradas complexas, como por exemplo, o que é a realidade? O que 
é a vida? O que é o homem? O que é natural e o sobrenatural? Ou seja, perguntas 
que nos fazem essencialmente humanos. Qual é a nossa essência? Como surgimos, 
de onde viemos e para onde vamos? Neste sentido, a metafísica tem como função 
“o pensar” com clareza aquilo que nos parece abstrato num primeiro momento.
Considerandoque o ser humano prefere pensar a forma como se deve proceder 
ao fazer alguma coisa prática em detrimento de pensar o motivo pelo qual estão 
fazendo, neste sentido entendemos que as pessoas preferem perceber a vida por 
meio de dimensões práticas. Sendo assim a metafísica está no âmbito da abstração.
rejeitassem, encontramos diferenças.
O neopositivismo também rejeita a metafísica (TRIVIÑOS, p. 37), 
mas por razões diferentes das sustentadas por Comte: não acha 
que o conhecimento metafísico deva ser rejeitado porque seja 
falso, mas porque suas proposições carecem de significado. E 
esta é uma das muitas diferenças que se podem estabelecer entre 
o positivismo clássico e o neopositivismo, especialmente pelo 
que está representado pelo “Círculo de Viena”, o denominado 
positivismo lógico. TREVISAN (2006). 
A Metafísica – um dos mais antigos e importantes ramos da Filosofia 
– sobrepõe-se a outras grandes subdivisões, como a filosofia da 
mente e da religião, e é difícil defini-la precisamente. Talvez a melhor 
descrição da Metafísica seja que ela busca responder a questões 
fundamentais sobre a natureza da realidade”. (LAW, 2008, p. 75). 
Todas as ciências recortam uma parte da realidade para estudá-la, 
apenas a Metafísica se ocupa da realidade (ente) como um todo; 
do ente enquanto ente, procurando compreender todas as coisas 
existentes. É a ciência fundamental de todas as demais ao se ocupar 
das causas últimas. Ela é um ideal de conhecimento tipicamente 
grego, pois é teoria pura (contemplação), sem nenhuma finalidade 
prática e trata tanto dos princípios do pensar como dos princípios 
do ser. (MACHADO, 2013, p.18).
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
134
Diante deste pensamento entendemos também porque algumas áreas de 
conhecimento são mais consideradas que outras como, por exemplo, a política, a 
engenharia e a indústria, que seguindo este pensamento são mais naturais, práticas 
e concretas com relação à filosofia e áreas afins. 
Neste contexto vemos que a filosofia está interessada mais nos “porquês”, onde 
busca entender a existência das coisas. Por este caminho as respostas, muitas vezes, 
não são satisfatórias.
A linguagem científica evita considerações metafísicas, pois entende que só assim 
poderá dizer algo de certo sobre o conjunto da observação por isso para alcançar o 
conhecimento científico que os neopositivistas afirmam e pressupõem. 
Percebe-se, portanto, que o Neopositivismo é marcado por uma postura 
antimetafísica. Segundo eles, problemas como a existência de um mundo 
sobrenatural não tem significado, portanto, não sendo um objeto de estudo que 
apresente alguma relevância, neste sentido, não deveria ser investigado, pois por não 
ter nenhum significado, debater sobre eles seria totalmente inútil.
Vamos para um exemplo? Com base no critério verificacionista, os neopositivistas 
veem a inutilidade da metafísica. Por quê?
Os pseudoproblemas são as razões pelas quais os neopositivistas criticam 
a metafísica. Um exemplo é a 
existência de Deus. Se considerarmos 
a proposição “Deus existe” é possível 
perceber que é um termo que não é 
nem analítico e nem contraditório. Por 
não ser empiricamente verificável, para 
os neopositivistas esta proposição não 
tem significado.
Mas e o contrário desta proposição? 
Por exemplo: “Deus não existe”. 
Observaremos as mesmas condições, 
pois também não é verificável. O 
contrário também não tem como 
comprovar, portanto, também não 
é empiricamente verificável. Pela 
falta de verificação e comprovação 
empiricamente esses pseudoproblemas 
metafísicos não são importantes em 
suas concepções, portanto, não se 
prende a esta análise inverificável. 
Fonte: Wikimedia Commons (2015)
Figura 3.10 | Jesukristo gure Jaunaren irudia
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
135
Desse modo, consideremos dentro desta concepção a “existência de Deus” 
como um pseudoproblema, assim, deveria ser abandonado. Para essa escola de 
filósofos, a metafísica é uma rede de pseudoproblemas, inúteis, e inverificáveis.
Para os neopositivistas a filosofia tradicional não tem sentido, pois ela é abstrata 
sem sentido. A nova filosofia, a neopositivista que tem por objetivo apenas examinar, 
esclarecer a linguagem científica para eliminar os pseudoproblemas da filosofia, ou 
aquilo que podemos denominar de abstrato sem sentido, ou seja, eliminar os falsos 
problemas e diferenciar o que é empírico ou não para a ciência. 
Para o Neopositivismo a linguagem científica resume em si mesma e é responsável 
por resolver todos os problemas filosóficos evitando as considerações metafísicas. 
Neste sentido, poderá diferenciar o certo do errado com relação às observações na 
busca do conhecimento científico.
[...] parece válido destacar que o Neopositivismo lógico, assim como 
a tradição comteana antes referida, postulavam os mesmos ideais de 
segurança e precisão. Ocorre, porém, que a base empírica do Círculo 
de Viena pode se efetivar no plano lógico das proposições, o que 
não parece ser viável no empirismo anterior. Figuram com destacada 
importância as investigações sobre a linguagem empreendida por 
Wittgenstein durante a mesma ambiência histórica do período entre 
guerras, o que acabou por inserir, no contexto da produção teórica 
daquele momento específico, referenciais linguísticos muito fortes. A 
ciência, em várias áreas, não ficou imune a tais reflexões. A linguagem 
passava ser o parâmetro da cientificidade. A precisão e a certeza 
passavam a ser balizadas justamente pela constatação do que poderia 
ser efetivamente dito, mediante a verificabilidade lógica das proposições 
componentes da linguagem científica. (LUZ, 2003, p. 20). 
Empírico: Relativo ao empirismo; que se guia só pela experiência; que é 
fundado exclusivamente na experiência.
Empirismo: Origem grega. Que se dirige pela experiência. Pode 
significar ou a doutrina segundo a qual todas as ideias são fornecidas 
pela experiência (opondo-se ao racionalismo) ou o método que 
pretende fundar-se apenas na experiência (MARTINS, 2015).
A contemporaneidade e o neopositivismo
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136
Para o Neopositivismo Lógico, a linguagem é instrumento 
principal do saber científico e, além disso, é meio ou controle 
daqueles mesmos conhecimentos. Desta maneira, há 
duas características essenciais deste movimento: “1º. todo 
conhecimento fica circunscrito ao domínio do conhecimento 
empírico; “2º. a reivindicação do método da análise lógica da 
linguagem, como instrumento sistemático da reflexão filosófica”. 
Como foi dito, os Neopositivistas lógicos utilizavam a Semiótica 
para a análise da linguagem. Os estudos semióticos possuem 
três níveis de análise dos signos: a sintática (relação dos signos 
com signos), a semântica (relação do signo com o objeto que ele 
representa) e a pragmática (relação do signo com o emissor e o 
receptor da mensagem). (HONESKO, 2015, p. 165).
O Neopositivismo ou Pós-positivismo foi considerado em algum momento de 
sua história como uma evolução do Positivismo e ao mesmo tempo em outros 
momentos como críticos da filosofia positivista em desacordo com alguns dos 
teóricos desta doutrina.
Como já estudamos anteriormente o Neopositivismo refere-se a uma doutrina 
de matriz empirista cuja tarefa, segundo eles é a análise da linguagem. Neste 
sentido extinguiriam as causas sem sentido, abstratas, acabando assim, com os 
pseudoproblemas da filosofia. Isto significa dizer a ênfase dada à filosofia analítica. 
Sob os efeitos deste contexto, a importância desta ação recai sobre os modelos 
experimentais com teste de hipóteses e explicações das relações causais. 
Considerando a análise da linguagem, a maior característica do movimento 
neopositivista é valorizar a semiótica em relação à Epistemologia. Considerando 
a Teoria Geral dos Signos, a linguagem se torna um importante instrumento por 
excelência do saber científico.
Dois são os ramos da Filosofia Analítica: A Filosofia Linguística e o Positivismo Lógico.
Tanto o Positivismo Lógico como a Filosofia Linguísticatêm antecedentes 
importantes. O primeiro foi antecedido pelo Atomismo Lógico de Bertrand Russel 
e pela filosofia do jovem Ludwig Wittgenstein, representada pelo Tractatus Logico-
Philosophicus.
O Atomismo Lógico se origina no começo do século XX, tendo como principais 
expoentes Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein e Rudolf Carnap. O que defende 
esta teoria? Para eles o mundo consiste em “Fatos Lógicos” definidos. 
4.3 Atomismo lógico 
A contemporaneidade e o neopositivismo
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137
Para Russel nenhuma parte pode ser descoberta sem que o todo seja conhecido 
primeiro. Na verdade o que o autor estava fazendo era criticando o Idealismo absoluto.
O pensador Ludwing Wittgenstein foi também um grande pensador do século XX. 
Sua grande obra foi “Tratado Lógico-Filosófico”. Esta obra foi única, mas suficiente 
A concepção básica que preside à Filosofia do Atomismo Lógico é 
a concepção segundo a qual é possível e desejável fazer uma análise 
lógica da linguagem corrente de tal forma que se determinem quais 
os 'átomos' linguísticos, quais aqueles termos que são simples e já 
não mais analisáveis, que por sua vez correspondem a entidades, a 
'átomos', igualmente simples, no mundo extralinguístico. Dizíamos que 
esta análise é possível e desejável dado que a)- existe uma identidade 
estrutural entre a estrutura da nossa linguagem (quando completamente 
analisada) e a estrutura da realidade extralinguística que é suposta 
representar (o que explica a possibilidade da análise) e que b)- a realização 
da paráfrase da linguagem corrente numa linguagem logicamente 
perfeita – na qual consiste a análise – lança luz sobre a estrutura real, 
escondida por debaixo da estrutura aparente, da linguagem corrente 
(o que explica a desejabilidade da análise). Russell considera assim que 
a estrutura gramatical da linguagem que usamos todos os dias não 
coincide normalmente com a sua estrutura lógica e que, assim sendo, é 
necessário proceder-se à análise lógica da linguagem a qual é suposta 
tornar manifesta a verdadeira, real e profunda estrutura da linguagem 
que usamos para falar acerca do mundo. A estrutura gramatical de uma 
frase é então encarada como sendo enganadora, aparente e superficial, 
ao contrário da sua estrutura lógica, que se encontra após análise, e que 
é então, como dizíamos, verdadeira, real e profunda.
IDEALISMO ABSOLUTO
Tendência filosófica que reduz toda a existência ao pensamento. Opõe-
se ao realismo, que afirma a existência dos objetos independentemente 
do pensamento. No idealismo absoluto, o ser é reduzido à consciência. 
Ao longo da história da filosofia, ele aparece sob formas menos radicais 
– não nega categoricamente a existência dos objetos no mundo, mas 
reduz o problema à questão do conhecimento. O idealismo toma 
como ponto de partida para a reflexão o sujeito, não o mundo exterior. 
(SOCIOFILOSOFIA, 2015).
A contemporaneidade e o neopositivismo
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138
para produzir uma revolução na filosofia. Sua pretensão era acabar com tudo aquilo 
que estava desprovido de sentido. É um autor que embora nunca tenha pertencido 
ao Círculo de Viena teve uma enorme influência exercida sobre os pensadores desta 
escola e aos neopositivistas. Com as investigações filosóficas teve grande influência 
sobre a Filosofia Analítica em geral.
O Neopositivismo.
Os defensores mais qualificados dos neopositivistas são Wittgenstein, 
Carnap, e Russell. Os neopositivistas dividem as ciências em dois grandes 
ramos: as lógico-matemáticas e as experimentais.
As lógico-matemáticas: são constituídas por proposições analíticas, ou 
seja, tautológicas. As proposições lógicas e matemáticas, destituídas de 
conteúdo, não são mais do que regras para a utilização dos símbolos e a 
ordenação das proposições. 
As experimentais: são compostas por proposições fatuais. As 
experimentais ou fatuais são as empiricamente verificáveis: isto acontece 
se elas são traduzíveis em proposições de caráter empírico (PINEDO; 
PINEDO, 2015).
Rudolf Carnap mantém uma posição de severa crítica à filosofia tradicional e à 
metafísica. A aparência de verdade dos enunciados da metafísica é causada, porque 
a linguagem comum não é definida em adequação às exigências lógicas e a fins 
exclusivamente científicos, mas é usada para expressar atitudes de emoção em 
relação ao mundo.
Carnap, através de rigorosa análise dos enunciados das ciências naturais em 
contraste com enunciados metafísicos, procura formular critérios válidos para 
revelar os problemas lógicos da linguagem e criar critérios para a viabilidade lógica 
dos discursos científicos.
4.4 Rudolf Carnap
Rudolf Carnap foi um filósofo alemão que trabalhou na Europa central antes 
de 1935 e nos Estados Unidos posteriormente. Foi um dos principais membros 
do Círculo de Viena e um eminente defensor do positivismo lógico.
A contemporaneidade e o neopositivismo
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Na filosofia de Karl Popper o conhecimento 
científico não é algo descoberto através do que se 
observa empiricamente, mas é criado, construído, o 
desenvolvimento ocorre naturalmente perante esta 
essência de busca constante dos questionamentos e de 
se colocar sob crítica as teorias. Consequentemente isso 
vai permitir o aprimoramento do conhecimento científico.
Neste sentido, ao se preocupar com as questões 
relativas à teoria do conhecimento e à epistemologia, 
sua teoria se constituiu uma crítica ao positivismo lógico, 
ou seja, às teorias filosóficas do Círculo de Viena. Para 
Popper (1982, p. 321) “todo conhecimento é falível e 
corrigível, portanto, é provisório. A “explicação” é uma 
das tarefas das ciências, considerando os métodos e 
os diferentes tipos de explicações embora possam ser 
aceitáveis, consistem todos em uma dedução lógica”. Podem-se perceber em seu 
pensamento outras tarefas da ciência, como aquelas, por exemplo, que derivam de 
prenúncios, profecias etc. e aplicações técnicas. Para ele, estas tarefas também podem 
ser analisadas através do esquema lógico para a análise da explicação.
Popper também fala do problema da indução que foi um dos problemas da 
filosofia investigado por ele:
4.5 As teorias de Karl Popper e a crítica ao positivismo lógico
Fonte: VINCENTZ (2009)
Figura 3.11 | Rudolf Carnap
Fonte: Disponível em: <http://i1.minus.
com/iCEPLfVRWVq0s.jpg>. Acesso em: 
20 mar. 2015.
Figura 3.12 | Karl Popper
Não importando quantas confirmações de uma teoria tenham sido 
obtidas, é sempre logicamente possível que, no futuro, se derive uma 
conclusão que não venha a ser confirmada. Conforme o exposto na 
secção anterior é possível, de premissas falsas, obter-se conclusões 
verdadeiras. Outra razão contra a existência da lógica indutiva está 
em que um conjunto de fatos sempre é compatível com mais de 
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
140
uma generalização (rigorosamente com um número infinito de 
generalizações). Por exemplo, se todos os cisnes até hoje observados 
são brancos, algumas possíveis generalizações são as seguintes: Todos 
os cisnes são brancos. Todos os cisnes são brancos ou negros. Todos 
os cisnes são brancos ou vermelhos ou azuis. Qualquer enunciado que 
afirma o observado e um pouco mais (ou muito mais) será compatível 
com as observações ocorridas. Estes aspectos lógicos que contraditam 
a existência da lógica indutiva serão complementados nas secções 
seguintes com outros que se apoiam na história da ciência. A história 
da ciência mostra exemplos de teorias que passaram a corrigir os fatos 
que pretensamente teriam servido como base indutiva das mesmas (a 
mecânica newtoniana assim o fez). Além disso, há exemplos de teorias 
científicas que se originaram não em fatos, mas em teorias metafísicas 
(é o caso da teoria copernicana). Tendo Popper negado a possibilidade 
de uma solução positiva ao problema da indução, parte então para uma 
resposta à questão do método das ciências empíricas (física, química, 
biologia, psicologia, sociologia, etc.). SILVEIRA (1996, p. 200-201).
Portanto, Popper rejeita que as teorias científicas sejamconstruídas por um 
processo indutivo a partir de uma base neutra, e propõe que elas têm um caráter 
completamente conjuntural.
Uma vez proposta, uma teoria deve ser rigorosamente testada por observações 
e experimentos. Se falhar, deve ser sumariamente eliminada e substituída por outra 
capaz de passar nos testes em que a anterior falhou. Bem como em todos aqueles 
nos quais tenha passado. Assim a ciência avança por um processo de tentativas de 
erros, conjeturas e refutações.
1. Para os neopositivistas a filosofia tradicional não tem 
sentido, pois ela é abstrata sem sentido. A nova filosofia, a 
Neopositivista tem por objetivo apenas examinar, esclarecer 
a linguagem científica para eliminar os pseudoproblemas da 
filosofia, ou aquilo que podemos denominar de abstrato sem 
sentido, ou seja, eliminar os falsos problemas e diferenciar o 
que é empírico ou não para a ciência. Neste contexto, explique 
as termologias “empíricas” e “Empirismo”:
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
141
2. Disserte sobre IDEALISMO ABSOLUTO.
Perpassamos pelas teorias de Aristóteles, sobre a filosofia primeira 
ou teologia que equivale à Metafísica. O que em sua concepção 
a metafísica estuda o “inteiro” do ser diferenciando, porém da 
ciência que estuda apenas “partes” específicas do ser.
Buscando compreender a forma epistemológica de pensar 
os filósofos do Círculo de Viena quanto ao verificacionismo, 
começamos investigar, preliminarmente, em breves linhas gerais, 
algumas percepções fundantes do próprio positivismo clássico 
que surgiu a partir da teoria de Auguste Comte. Na obra de Comte, 
a metafísica não ocupa um papel central por ser apenas uma 
etapa de transição entre a teologia e o estado positivo. 
Para o Neopositivismo o tratamento matemático e lógico dos 
fatos e a prova empírica são as fontes exclusivas do conhecimento 
científico. O método lógico seria aplicado para a compreensão 
científica do mundo, alheia a ideias éticas e a qualquer metafísica. 
Para esses pensadores é verdadeiro somente aquilo que pode 
ser verificado pela experiência pelos sentidos e pela pesquisa, 
tudo mais é um enunciado filosófico. Os princípios lógicos e 
matemáticos embora alcançados imediatamente por intuição 
sem necessidade de verificação científica são aceitos pelos 
neopositivistas, pois alguns desses princípios lógicos são “o todo 
é maior que a parte” e duas quantidades iguais a uma terceira são 
iguais entre si. A ciência passa pela avaliação dos fenômenos e só 
poderá ser chamado de científico aquilo que for deles deduzido. 
Logo a lógica da pesquisa científica é indutiva, ou seja, aquela que 
parte do particular para o universal. Para eles a filosofia tradicional 
é abstrata, portanto é algo sem sentido, sendo desligada dos 
fenômenos particulares para o universal. Neste caso o que vai 
diferenciar do tradicional é a nova filosofia que terá como objetivo 
examinar, esclarecer a linguagem científica eliminando os falsos 
problemas. Por isso a nova filosofia será epistemológica e ao 
mesmo tempo filosofia da linguagem. Neste contexto, não se 
diferencia muito da filosofia positivista de Auguste Comte.
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
142
Dentre os pontos principais da doutrina neopositivista pode-se 
resumir da seguinte maneira: é verdadeiro somente aquilo que pode 
ser verificado pela experiência, pelos sentidos e pela pesquisa, tudo 
mais é um enunciado filosófico. Os princípios lógicos e matemáticos 
embora alcançados imediatamente por intuição sem necessidade de 
verificação científica são aceitos pelo neopositivistas. Alguns desses 
princípios lógicos são “o todo é maior que a parte” e duas quantidades 
iguais a uma terceira são iguais entre si. A ciência começa pela 
avaliação dos fenômenos e só poderá ser chamado de científico 
aquilo que for deles deduzido; logo a lógica da pesquisa científica é 
indutiva, ou seja, aquela que parte do particular para o universal. 
Para Popper que já foi um neopositivista e agora os criticando, a teoria 
ainda que seja por algumas expectativas ou uma teoria rudimentar 
sempre precede a observação cujo papel principal desta, assim como 
dos testes experimentais é mostrar a falsealidade de algumas de nossas 
teorias. Neste sentido estimula-se a produção de teoria melhores. 
Portanto, o que fica esclarecido por este autor é que partimos sempre 
de problemas que sejam práticos ou teoria com algumas dificuldades 
e nunca da observação como pregada pelos positivistas clássicos e os 
próprios neopositivistas.
A Contemporaneidade traz dentro de si um conjunto de grandes 
ideias que dialeticamente foram discutidas com o passar dos 
anos. Neste sentido, fazendo uma ideologia à própria teoria de 
Popper em que a teoria ainda que seja algumas expectativas ou 
uma teoria rudimentar sempre precede a observação cujo papel 
principal desta, assim como dos testes experimentais é mostrar 
a falsealidade de algumas de nossas teorias. Neste sentido, 
estimula-se a produção de teorias melhores. Neste mesmo 
entendimento, todas as ideias têm sua importância, pois mesmo 
aquelas consideradas utópicas, serviram para que outras teorias 
sobressaíssem, ou outras melhores se criassem a partir daquela 
sem sentido prático. Portanto, todos os caminhos percorridos 
serviram para se concretizar uma realidade que está sempre em 
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
143
constante análise dialética. 
Como estudamos, a contemporaneidade está carente de 
pensadores como os iluministas que se encontravam entre o século 
XVI ao século XVIII. Esses pensadores criticavam também o estado 
absolutista e os privilégios dos homens de poder que afastavam os 
cidadãos do seu direito natural à busca da felicidade. Semelhante 
aos dias atuais, o mundo está cheio de corrupção e a população 
perdendo sua segurança, sua liberdade e felicidade. Na vida em 
sociedade o homem defronta com regras de conduta, devendo ser 
seguidas por todos. Sem essas regras, a sociedade não existiria, e é 
por isso que os indivíduos devem obedecer a elas (TOMAZI, 2000, 
p. 17). Por outro lado vimos que o homem interage intensamente 
com o meio. Portanto, os membros da sociedade, quando em meio 
à barbárie generalizada, comportam-se como bárbaros. Isso porque 
o homem é forjado e influenciado conforme o meio em que vive. 
Como toda estrutura tem a sua corrupção e suas contradições, 
a contemporaneidade é o espaço para um novo momento de os 
filósofos e os intelectuais clamarem por uma nova mudança para a 
busca desta liberdade perdida.
1. As transformações ocorridas a partir do século XV estão todas 
vinculadas entre si e não podem ser entendidas de forma isolada. 
Encontramos alguns aspectos relevantes desta época, que se 
relacionaram com a construção de uma nova mentalidade. 
Essas transformações vão direcionar as novas formas de explicar 
a natureza e a sociedade. 
De acordo com o texto é certo entender que:
1. Até então o povo europeu tinha uma concepção limitada de 
mundo, cujo conhecimento territorial baseava-se apenas no 
espaço local.
2. Alguns dos aspectos relevantes do século XV trouxeram 
confrontos, porém favoreceram a construção de novos 
conhecimentos. 
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
144
3. Com as grandes navegações, as novas descobertas, o povo 
europeu percebe um mundo restrito à sua própria cultura.
4. O modo de ver e de pensar vai exigir uma reformulação 
quanto à explicação da natureza e da sociedade.
É correto apenas o que se apresenta em:
I) 1 e 3.
II) 1, 2 e 4.
III) 2 e 3.
IV) 1, 2, 3 e 4.
2. Assim como tudo se desenvolve e vai se adaptando, as ideologias 
das classes dominantes vão também tomando rumos estratégicos 
cada vez mais eficientes, onde a sociedade contemporânea 
precisa novamente de uma transformação principalmente no 
campo da moralidade. Quando falamos de contemporaneidade, 
estamos nos referindo ao período que se inicia a partir da 
Revolução Francesa em (1789 d.C.) até os dias atuais. Este período 
que foi fortemente marcado pela correntefilosófica iluminista que 
vai do século XVI ao século XVIII em que se dava ênfase à razão. 
Neste período (iluministas) era defendida a criação de escolas 
para a educação da população, a liberdade religiosa e outras 
reivindicações. A contemporaneidade está carente de pensadores 
como os iluministas que se encontravam neste período.
De acordo com o texto, analise as assertivas a seguir quanto ao 
período iluminista:
I) Estes atacavam de forma sistemática tudo aquilo que era 
considerado contrário à busca da felicidade, da justiça e da igualdade. 
II) A igreja tinha pouca influência com relação à estrutura social e 
política e que de certa forma por este motivo pouco interferia no 
desenvolvimento da sociedade. 
III) Os iluministas se preocupavam simplesmente em denunciar a 
injustiça, a dominação e o poderio da igreja.
IV) O pensamento dogmático religioso era colocado como uma 
barreira entre Deus e o homem.
É correto apenas a que se afirma em:
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
145
3. O que seria Filosofia primeira ou teologia? Para entendermos 
precisamos conhecer as teorias de um grande pensador: o 
filósofo Aristóteles. É dele esta termologia. Em sua concepção 
esta termologia estuda o “inteiro” do ser diferenciando, porém da 
ciência que estuda apenas “partes” específicas do ser. Portanto, 
esta é a grande diferença em contraponto com a ciência, no 
que se refere aos objetos de estudo de cada um. Neste sentido, 
entende-se que aquilo que se identifica nas partes não pode ser 
identificado no inteiro.
Sobre esta termologia “Filosofia primeira ou teologia” entende-se que:
I) Equivale à metafísica.
II) É o estudo das causas e princípios.
III) O estudo do ser enquanto ser.
IV) Refere-se à ciência.
É correto apenas o que se afirma em:
I) I, II e III.
II) II e IV.
III) II, III e IV.
IV) I, II, III e IV.
4. O Positivismo que surgiu a partir da teoria de Auguste Comte, 
que pretendeu realizar por meio da ciência uma reforma social, 
afirmando que a Sociologia é a única ciência capaz de reformar a 
sociedade. Auguste Comte (1798-1857) torna-se um republicano 
com ideias liberais e passa a desenvolver uma atividade política 
e literária que lhe permitirá elaborar uma proposta para resolver 
os problemas da sociedade de sua época, toda a sua obra 
está permeada pelos acontecimentos após as revoluções que 
ocorreram na França a partir do século XVIII. Nessa corrente 
de pensamento reconhecia-se que os princípios reguladores 
da sociedade humana deveriam ser estudados sob o mesmo 
método do mundo físico, pois, embora, fossem diferentes 
I) a e b.
II) b e c.
III) a, c e d.
IV) b, c e d.
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
146
em essência, a origem natural de ambos os aproximavam. Para 
compreender os problemas sociais, Comte desenvolve uma 
filosofia da história. Todo grupo social passa, necessariamente por 
três fases históricas de evolução: A lei dos três estados. 
Sobre o segundo estágio, o estado Metafísico ou abstrato, analise 
as assertivas a seguir:
I) A sociedade começa ser vista em termos naturais, e não 
sobrenaturais como ocorria na fase teológica. 
II) É marcado pela busca da natureza dos fenômenos, da força 
essencial que os governa. Seria o caso do Renascimento e suas 
especulações filosóficas, no entender de Comte, divorciadas do 
concreto.
III) Neste estágio são grandes as possibilidades de entender 
como os fenômenos funcionam na prática, fato que aumenta o 
conhecimento.
IV) Na obra de Comte a metafísica não ocupa um papel central por 
ser apenas uma etapa de transição entre a teologia e o estado positivo.
É correto apenas o que se afirma em:
I) I, II e III.
II) II, III e IV.
III) I e III.
IV) I, II e IV.
5. Desde o surgimento do Positivismo passamos por diversas 
fases de evolução desta doutrina até chegarmos ao Pós-
positivismo ou Neopositivismo. Triviños (1987, p. 33) distingue 
três momentos na evolução do positivismo. Assinale a alternativa 
CORRETA:
a) Positivismo Clássico, o Empiriocriticismo de Avenarius e 
Neopositivismo.
b) Positivismo Jurídico; Neopositivismo francês e o Marxismo 
alemão.
c) Positivismo de Comte, Funcionalismo Weberiano e 
Neopositivismo.
d) Empiriocriticismo de Avenarius, Empirismo, Neopositivismo.
A contemporaneidade e o neopositivismo
U3
147
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org/wikipedia/commons/7/73/Metodo_scientifico.png>. Acesso em: 26 mar. 2015.
AS CONTRIBUIÇÕES DOS 
GRANDES PENSADORES
Apresentaremos como o pensador francês hiperboliza a dúvida 
como instrumento incontornável para sustentar o alicerce da ciência 
moderna, mas deve diminuir esta mesma exigência ao fundamentar o 
conhecimento das qualidades secundárias dos objetos físicos.
Apresentaremos as contribuições destes autores em relação à 
fundamentação das teorias e dos métodos científicos no século XX. 
Assim como, sua crítica ao pensamento cartesiano e positivista.
Apresentaremos neste autor a noção de jogo de linguagem e sua 
importância na desconstrução da ideia do sujeito como fundamento 
do pensamento, e, com isso, lega para as ciências humanas e a filosofia 
outras bases de fundamentação do conhecimento.
Seção 1 | René Descartes e o problema da evidência clara 
e distinta
Seção 2 | Karl Popper e Thomas Kuhn: a falseabilidade e a 
ciência normal 
Seção 3 | A virada linguística em Ludwig Wittgenstein
Objetivos de aprendizagem: 
Compreender o pensamento de alguns dos mais importantes autores 
do século XX e sua crítica ao pensamento antecessor, principalmente no 
que tange à questão da subjetividade e a produção do conhecimento.
Maria Eliza Corrêa Pacheco
Unidade 4
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
150
Apresentaremos neste autor a historicidade do conhecimento e sua 
crítica ao sujeito cartesiano através da sua conceptualização das relações 
de poder.
Seção 4 | A virada histórica em Michel Foucault 
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
151
Introdução à unidade
Aprendemos, não sem razão de quem assim o explica, que a origem etimológica 
da palavra filosofia é amor à sabedoria. Isto faz do pensador e, mais amplamente, 
do ser humano um amigo do conhecimento, aquele que tem com este uma 
relação de reciprocidade – o pensador busca o conhecimento por amá-lo e este 
o realiza, como resposta agradecida do amado satisfeito e complacente, em suas 
condições mais essenciais. Nesse sentido, nossa educação nos faz entender que 
o conhecimento é parte essencial da nossa condição humana, criando, dessa 
forma, uma relação estreita e lisa entre a humanidade do homem e o processo de 
conhecimento, na qual o desenvolvimento deste pressupõe a realização daquela. 
O que nos é omitido é que esta forma de entender o homem e o conhecimento 
é apenas uma das imagens possíveis, que foi transformada em a única maneira 
de percebermos a produção e aprendizagem do saber. O século XX tentou 
romper, ou melhor, mostrar que é possível concebermos outras imagens desta 
relação. Nestas, o conhecimento deixa de ser visto como neutro, e muitas vezes 
é percebido como instrumento ligado à relação de poder; o homem não é mais 
fundamento a-histórico; ou seja, nestas outras imagens que veremos nesta unidade, 
tanto o homem, quanto o conhecimento se encontram imanentemente ligados 
às formas de vidas nas quais vivem e são produzidos. Logo, eles e sua relação 
são perspectivados pelas peripécias e eventos da história. Não há, portanto, mais 
aquela imagem limpa e lisa da relação homem/conhecimento, pois é próprio do 
que é histórico ser manchado e, por isso, míope para os olhos humanos. 
O conhecimento é, então, uma ferramenta com a qual podemos fazer as 
coisas mais belas, mas, também, as mais horríveis. Ele pode ser tanto meio para a 
alienação e a passividade, quanto meio para o esclarecimento. Eis,
Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos. 
Nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que 
escapa a si mesmo, ideias que fogem, que desaparecem em outras, que 
também não dominamos. [...] Perdemos sem cessar nossas ideias. É por 
isso que queremos tanto agarrar-nos a opiniões prontas. (DELEUZE, 
2008, p. 259).
Fugir do caos, que não significa vazio, mas desordem, eis o que procuramos 
a todo o momento ao buscar conhecer. Precisamos explicar, ordenar, iluminar, 
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
152
situar-nos como sujeitos para termos conforto, para não sofrer. A citação acima nos 
adverte – cuidado com as opiniões que nos são oferecidas prontas; cuidado com 
a comodidade – e nos transmite a seguinte atitude – tenha coragem de refletir as 
coisas para não aceitá-las meramente como dados naturais e perenes. Ou seja, ter 
cuidado com tudo o que nos é dito e passado como conhecimento verdadeiro é, 
por um lado, perceber que a verdade está intimamente ligada ao poder e, também, 
que é necessário refletir sobre ela, pensá-la para não meramente vivê-la como 
incontestável. Assim, produzir conhecimento é ponderação – cuidado com as 
opiniões, e criação do novo, na medida em que este só surge quando o tradicional 
é deslocado, é refletido e apresentado em seus limites.
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
153
Seção 1
René Descartes e o problema da evidência clara 
e distinta
1.1 Introdução
Apresentaremos como o pensador francês hiperboliza a dúvida como instrumento 
incontornável para sustentar o alicerce da ciência moderna, mas deve diminuir esta 
mesma exigência ao fundamentar o conhecimento das qualidades secundárias dos 
objetos físicos.
Pressupondo que o que chamamos modernidade aqui se refere às transformações 
que ocorreram a partir do final do século XV até, aproximadamente, o século XIX 
poderíamos afirmar que as grandes navegações, ou a expansão marítima ampliou 
consideravelmente a concepção de mundo dos europeus, pois seu modo de pensar 
foi reformulado após o contado com “novos” povos e, dessa forma, com “novas” 
culturas e maneiras de explicar as coisas. Ao descobrirem que o mundo não era só 
a Europa, nascia a possibilidade de um mercado muito mais amplo. Assim muitas 
colônias surgiram na Ásia, na África, na América, as quais mantinham “comércio” 
de novos produtos com as metrópoles e essas com outros países europeus. 
A exploração de metais, a mão de obra escrava, impulsionou o comércio que já 
não era mais monopolizado pelas cidades italianas. Esse “aumento” do tamanho 
do mundo e das relações comerciais exigia o desenvolvimento da economia 
monetária, modificações na estrutura política (a formação do Estado moderno) 
com a centralização da justiça, das forças armadas, da estrutura administrativa. 
Nesse processo, nos interessa as transformações em relação ao conhecimento. 
A procura agora é da maneira de evitar o erro (a questão do método). Filósofos 
como Descartes, Hume, Kant problematizaram a origem, essência e certeza do 
conhecimento humano. Na Idade Moderna, o polo de atenção vai se centralizar 
no sujeito do conhecimento. Esta nova prática de pensar (ciência moderna) deve 
sua razão de ser a Copérnico, Galileu, Bacon e Newton, ao afirmarem como suas 
bases a experimentação e a observação. Este novo mundo pode ser traduzido para 
a linguagem matemática, desde que se use um método correto de encontrar as leis 
que o constituem e, assim, elucidá-lo promovendo o progresso para o ser humano.
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
154
Fonte: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/
wiki/Ren%C3%A9_Descartes#/media/File:FransHals_-_
Portret_van_Ren%C3%A9_Descartes.jpg>. Acesso em: 
29 mar. 2015.
Figura 4.1 | René Descartes (1596-1650) Logo no início da primeira das suas seis 
meditações, Descartes afirma ser necessário 
estabelecer o fundamento, as bases sólidas 
para as ciências. Estes alicerces tal qual 
o autor francês os pensa não podem ser 
de qualquerordem, mas devem ser os 
pretendentes indubitavelmente únicos e 
verdadeiros, aqueles que utilizam qualquer 
planta científica que possa ser válida. 
Este empreendimento edificante precisa 
conjurar o erro, precisa pôr à prova do 
pensamento todos os princípios a partir 
dos quais se formam todas as opiniões, as 
crenças, desde as mais frágeis até as mais 
fortes.
Agora, pois, que meu espírito está livre de 
todos os cuidados, e que me proporcionei 
um repouso assegurado numa aprazível 
solidão, aplicar-me-ei seriamente e com 
liberdade a destruir em geral todas minhas 
antigas opiniões. (DESCARTES, 2005. p. 30). 
Este esforço de construção de si (espécie de conversão) e de construção da 
ciência moderna, cuja ferramenta é a dúvida, tem como um dos seus pontos 
fundamentais o argumento do gênio maligno. Com este, a dúvida é levada ao limite, 
na medida em que torna evidente que nenhuma representação ou pensamento traz 
em si garantias de ser verdadeiro, ele é uma espécie de ‘alarme interior’ para os casos 
em que o processo de pensamento ‘escorrega’ na facilidade do hábito de acreditar 
sem reflexão do senso comum. Ele funciona como regra de retidão que mantêm 
o pensamento em seu caminho da verdade, alertando-o sobre as ilusões, sobre os 
erros, sobre o que é escuro e indistinto, ou seja, para tudo aquilo que é necessário 
separar e desqualificar como perigoso. O argumento do gênio limpa o terreno 
impondo para o pensamento o fato de não poder tomar nada como verdadeiro, 
a não ser o seu próprio ato, mas em constante referência a ele, ou seja, o cogito 
precisa afirmar sua existência continuamente contra o gênio. Este é condição para 
que o puro ato de pensar ou o ser-pensamento-enquanto-pensa seja a primeira 
certeza inabalável e possa ser tomado como ground sobre o qual o conhecimento 
verdadeiro e a ciência se edifiquem.
Não há dúvida, então, de que eu sou, se ele me engana; e que 
me engana o quanto quiser, jamais poderá fazer com que eu 
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
155
não seja nada, enquanto eu pensar ser alguma coisa. [...] é preciso 
enfim concluir e ter por constante que esta proposição, Eu sou, eu 
existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a pronuncio 
ou que a concebo em meu espírito. (DESCARTES, 2005. p. 43).
Descartes afirma um limite para o argumento do gênio, qual seja: ele não 
interfere na liberdade de escolha, pois esta cabe à vontade, que é uma faculdade 
diferente do intelecto – “[...] e se, por esse meio, não está em meu poder alcançar o 
conhecimento de alguma verdade, pelo menos está em meu poder suspender meu 
juízo”. (DECARTES, ANO, p. 35)
Eis que é neste jogo descompassado entre intelecto e vontade que o erro ocorre, 
já que sua fonte não pode ser Deus. Segundo Descartes (2005), o erro é um defeito, 
tanto no sentido de falta de perfeição, quanto pela privação de algum conhecimento 
que parece que eu devia ter posse. Sua fonte se encontra na disputa entre o intelecto 
que é limitado – não é possuidor da totalidade de ideias que corresponderiam a 
infinidade de coisas existentes no mundo – e a vontade ilimitada - “[...] que 
experimento em mim ser tão grande que não concebo a ideia de nenhuma outra 
mais ampla e mais extensa”. (DESCARTES, 2005. p. 89), na medida em que a vontade 
tende a ultrapassar os limites que o intelecto impõe, ela tende a exceder o que o 
intelecto sabe ser claro e evidente e, nisto quebrar a regra do método (só tomar 
como verdadeiro o que é claro e evidente) estabelecida como ferramenta para evitar 
o erro. A saída apontada pelo autor francês é suspender o juízo quando ausente 
a clareza e a distinção, ou seja, deve-se calar quando esta regra não for atendida. 
Nesse sentido, afirma Descartes (2005), que é livre para escolher se manter no juízo 
correto e buscar, sempre, não errar (afirma a importância da reflexão, pois é com ela 
que há clareza da própria situação e, ao contrário, a confusão é fruto da aceitação 
‘ligeira’ do que a tradição nos lega). 
Normalmente, nossas opiniões têm amparo em provas ou 
as emitimos sem ter qualquer certeza de sua veracidade ou 
autenticidade? Em que medida a internet intensifica o problema 
de opiniões e conhecimentos desamparados de provas?
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
156
Texto: Princípio de causalidade, existência de Deus e existência de coisas 
externas. Disponível em: <http://www.cle.unicamp.br/cadernos/pdf/
Ethel%20Menezes%20Rocha.pdf>.
Dois esclarecimentos: a) Lembrando que Deus 
como ser perfeito conferiu ao homem o intelecto 
e o livre arbítrio. Sabemos, pelo exposto acima, 
que o bom uso (uso correto) da liberdade está no 
fato da determinação da vontade ser precedida de 
uma percepção intelectual, ou seja, para Descartes 
o uso correto do juízo se dá só, e somente se, se 
assentar sobre percepções claras e distintas (regra 
importante para a argumentação e para evitar o 
erro); b) Sabemos também que, antes da prova da 
existência e perfeição de Deus (terceira e quinta 
meditação) ele não pode dizer que o conhecimento 
das coisas externas é fruto de um “juízo certo e 
premeditado, mas somente um cego e temerário 
impulso”. (DESCARTES, 2005, p. 64).
É com este aparato que Descartes começa a 
sexta meditação e se pergunta: As coisas físicas 
existem? O pensamento tem acesso imediato somente às ideias e, estas são 
segundo o autor do Discurso do método de três tipos: criadas por mim, as inatas 
e as adventícias. Assim, o problema a ser resolvido é: as ideias das coisas materiais 
que possuo têm como sua causa as próprias coisas materiais? Vejamos como ele 
argumenta para provar isso e a mudança de status em relação ao erro. 
O cogito pode ser a causa das ideias dos sentidos? 
E, embora as ideias que recebo pelos sentidos não dependam de minha 
vontade, eu não pensava que por isso se devesse concluir que elas procediam de 
coisas diferentes de mim, uma vez que talvez possa encontrar-se em mim alguma 
faculdade (se bem que até aqui ela me seja desconhecida) que seja a causa delas 
e as produza. (DESCARTES, 2005, p. 117).
Para provar a existência das coisas materiais ‘Eu’ não posso ser a causa das ideias de 
coisas materiais. Ele tem que desfazer esta conexão feita nesta citação. Resumidamente, 
sabemos que para Descartes a causa deve ter tanta (ou mais) realidade formal quanto 
a realidade objetiva das ideias. Ora o intelecto não contém a realidade objetiva dos 
corpos formalmente. A confirmação disto se dá a partir da seguinte argumentação:
Fonte: Disponível em: <http://upload.
wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5e/
Meditationes_de_prima_philosophia_-_
Renatus_Cartesius.jpg>. Acesso em: 29 
mar. 2015.
Figura 4.2 | Descartes
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
157
Reconheço também em mim algumas faculdades, como as de mudar 
de lugar, de colocar-me em várias posturas [...] mas é muito evidente que 
tais faculdades, se é verdade que existem, devem estar ligadas a alguma 
substância corporal ou extensa, e não a uma substância inteligente, já 
que em seu conceito claro e distinto há mesmo algum tipo de extensão 
que se encontra contida, mas de forma alguma inteligência. Ademais, 
encontra-se em mim uma certa faculdade passiva de sentir [...]. Ora, essa 
faculdade ativa não pode existir em mim na medida em que sou apenas 
uma coisa que pensa, visto que ela não pressupõe pensamento [...] é 
preciso então necessariamente que ela exista em alguma substância 
diferente de mim, na qual toda realidade, que está objetivamente nas 
ideias que dela são produzidas, esteja contida formal ou eminentemente 
[...]. (DESCARTES, 2005, p. 119).
O problema não está resolvido na medida em que a causa dessas ideias pode 
ser Deus ou uma criatura superior ao homem. Descartes argumenta afirmando que 
como Deus não é enganador não me enviaria de forma imediata estas ideias e, 
muito menos, por meio de alguma criatura. Se Deus é perfeito não me criaria para 
errar me fazendo crer que as ideias de coisas materiais advém das próprias coisas 
se certamenteelas não adviessem – “E, portanto, é preciso confessar que as coisas 
corporais existem”. (DESCARTES, 2005, p. 120). 
O problema parece resolvido, mas logo no parágrafo seguinte Descartes diz: 
“talvez elas não sejam inteiramente tais como as percebemos pelos sentidos, pois 
esta percepção dos sentidos é muito obscura e confusa em várias coisas [...]”. 
(DESCARTES, 2005, p. 120). Disto resulta que o argumento acima não prova que 
corpos existem com qualidades secundárias (cor, sabor, odor), mas apenas com 
qualidades primárias (extensão, movimento). Resulta, também, algo estranho para 
um pensamento que afirmava clareza e distinção como regra para a certeza (sem 
exceção), qual seja: uma certa tendência natural a acreditar que coisas físicas existem 
(para quem afirmava que para fazer ciência era necessário não tomar as opiniões de 
forma não refletida). É claro que a saída cartesiana para esta tendência natural aceita 
é afirmar que “pela natureza, considerada em geral, agora não entendo outra coisa 
a não ser o próprio Deus” e “por minha natureza em particular, não entendo outra 
coisa a não ser a complexão ou a reunião de todas as coisas que Deus me deu” 
(DESCARTES, 2005, p. 121) e, dessa forma, já que Deus é perfeito (não é enganador) 
e, por isso, criador da minha natureza e da natureza em geral só pode haver alguma 
verdade na minha tendência natural (esta substitui a regra da clareza e distinção 
em relação à existência das coisas materiais) em acreditar na existência das coisas 
materiais – o fiador desta relação, aquele que elimina o estranhamento entre o 
pensamento e as coisas é o próprio.
Disto resulta algo extraordinariamente belo – o erro ocasional é inevitável. Não 
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
158
reconstituirei aqui a argumentação cartesiana (a propósito, fisiológica) acerca da 
impossibilidade de tomarmos a regra da clareza e distinção em relação ao fato 
de existirem corpos materiais em suas propriedades secundárias. Apenas cito um 
argumento:
Percebemos que em relação à existência dos corpos a partir de suas propriedades 
secundárias é necessário ‘diminuir’ a exigência metodológica, pois não é possível 
clareza e distinção, mais apenas certo conhecimento provável (“há pelo menos 
alguma verdade em tudo que a natureza me ensina”), cuja importância maior está 
no fato de me fazer “fugir das coisas que causam em mim o sentimento da dor e a 
dirigir-me àquelas que me comunicam algum sentimento de prazer” (DESCARTES, 
2005, p. 124) e evitar que o erro seja constante (mesmo que a dor não seja no 
pé é melhor que o espírito a sinta como se fosse, pois a outra opção é não saber 
o que me fere, por exemplo). Portanto, Descartes concede que ocasionalmente 
os sentidos são enganados e, por isso, pelo menos em relação ao conhecimento 
sensível das propriedades secundárias não podemos negar assentimento àquilo 
que é meramente duvidoso como negaria àquilo que é patentemente falso – pelo 
menos neste momento do edifício cartesiano há, mesmo que muito pequeno, um 
espaço para o erro.
E, da mesma forma, quando sinto dor no pé, a física me 
ensina que esse sentimento se comunica por meio dos nervos 
dispersos no pé, que, estudando esticados como cordas desde 
aí até o cérebro, quando são puxados no pé puxam também, 
ao mesmo tempo, o lugar do cérebro de onde vêm e no qual 
terminam e nele excitam um certo, que a natureza instituiu 
para fazer o espírito sentir dor, como se essa dor fosse no 
pé. [...] Ora, a experiência nos faz conhecer que todos os 
sentimentos que a natureza nos deu são tais como acabo de 
dizer; e, portanto, neles não se encontra nada que não faça 
aparecer a potência e a bondade do Deus que os produziu. 
(DESCARTES, 2005, p. 130-131).
1. “E quando considero que duvido, isto é, que sou uma coisa 
incompleta e dependente, a ideia de um ser completo e 
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
159
2. Leia com atenção a citação e, em seguida, analise as assertivas. 
"E, tendo notado que nada há no eu penso, logo existo, que 
me assegure de que digo a verdade, exceto que vejo muito 
claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei poder 
tomar por regra geral que as coisas que concebemos mui clara 
e mui distintamente são todas verdadeiras, havendo apenas 
alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos 
distintamente." (DESCARTES, Discurso do Método. São Paulo: 
Abril Cultural, 1973, p. 55. Coleção "Os Pensadores").
I- Este "eu" cartesiano é a alma e, portanto, algo mais difícil de 
ser conhecido do que o corpo. 
II- O "eu penso, logo existo" é a certeza que funda o primeiro 
princípio da filosofia de Descartes. 
III- O "eu", tal como está no Discurso do Método, é inteiramente 
distinto da natureza corporal. 
independente, ou seja, de Deus, apresenta-se a meu espírito 
com igual distinção e clareza; e do simples fato de que essa 
ideia se encontra em mim, ou que sou ou existo, eu que 
possuo esta ideia, concluo tão evidentemente a existência 
de Deus e que a minha depende inteiramente dele em 
todos os momentos da minha vida, que não penso que o 
espírito humano possa conhecer algo com maior evidência 
e certeza”. (DESCARTES, René. Meditações. Trad. de Jacó 
Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 
1996, p. 297-298).
Com base no texto, é correto afirmar: 
a) O espírito possui uma ideia obscura e confusa de Deus, 
o que impede que esta ideia possa ser conhecida como 
evidência. 
b) A ideia da existência de Deus, como um ser completo e 
independente, é uma consequência dos limites do espírito 
humano.
c) O conhecimento que o espírito humano possui de si 
mesmo é superior ao conhecimento de Deus. 
d) A única certeza que o espírito humano é capaz de provar é 
a existência de si mesmo, enquanto um ser que pensa. 
e) A existência de Deus, como uma ideia clara e distinta, é 
impossível de ser provada.
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
160
IV- Ao concluir com o "logo existo", fica evidente que o "eu 
penso" depende das coisas materiais. 
Assinale a alternativa cujas assertivas estejam corretas. 
a) II e IV. 
b) I, II, IV. 
c) III e IV. 
d) II e III.
e) Todas são corretas.
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
161
Seção 2
Karl popper e Thomas Kuhn: a falseabilidade e a 
ciência normal
2.1 Introdução
Apresentaremos as contribuições destes autores em relação à fundamentação das 
teorias e dos métodos científicos no século XX. Assim como, sua crítica ao pensamento 
cartesiano e positivista.
A pretensão do pensamento até o século XIX era o de colocar o conhecimento 
científico a serviço da humanidade, isto é, o emprego do saber como ferramenta à 
emancipação do homem. Com o século XX este otimismo passa a ser questionado e, 
por isso, ocorre uma transformação na maneira como o conhecimento é entendido 
e produzido. Vejamos algumas 
características dessa transformação: 
o parâmetro de legitimidade do 
conhecimento está em respostas 
satisfatórias e, não mais nas certezas 
indubitáveis. Para isso, busca-que 
produzir conhecimento e dar soluções 
com base na interdisciplinaridade e na 
consciência da relatividade do saber; o 
próprio racionalismo, que influenciou 
profundamente a ciência, começou a 
ser questionado com o conhecimento 
psicanalítico ao afirmar que a razão é 
perpassada por valorações subjetivas; a 
separação ou a relação simples e direta 
entre sujeito e objeto que era a base da 
ciência moderna passou a ser entendida 
a partir de um feixe complexo na qual há 
relação recíproca e, tanto sujeito, quanto 
Fonte: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/
wikipedia/commons/6/6c/Karl_Popper2.jpg>. Acesso em: 
29 mar. 2015.
Figura 4.3 | Karl Popper (1902 – 1994) e a 
falseabilidade científica
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
162
objeto, passam a ser entendidos fundamentados na linguagem, na história ou como 
formas lógicas; por fim, a relação otimista entre conhecimento e emancipação 
humana passa a ser questionada, na medida em que se afirma o conhecimentocomo instrumento que pode ser usado para fins negativos, tais como a exploração, 
a alienação e a destruição da natureza, do homem e da própria vida em geral. 
É neste contexto que aparecem as ideias de Karl Popper, Thomas Kuhn, Ludwig 
Wittgenstein e Michel Foucault.
Popper descrevia seu pensamento como Racionalismo Crítico, na medida em 
que não aceitava o empirismo e o positivismo anterior. É, nesse sentido, que sua 
argumentação mostraria a ciência como conhecimento sempre provisório e, por isso, 
não seria possível atestar a veracidade de uma teoria pela simples constatação dos 
resultados verificáveis de uma previsão efetuada. Assim, esse saber deveria ter apenas 
o estatuto de uma teoria, ainda, não contrariada ou refutada pela observação factual. 
Um conhecimento científico deve ser confrontado com as observações e 
experiências da realidade para que se encontrem provas dos seus limites, dos 
seus erros, da sua ‘falsidade’, ou seja, a experiência não tem por finalidade verificar 
a veracidade de uma hipótese científica, mas ao contrário, observar seus limites e 
provar a sua falsidade. Dessa forma, a legitimidade de uma teoria científica se dá até 
o momento em que se prove, via experimentação, a sua limitação e erros. Deve-se 
nestes casos deixá-la de lado e procurar outra teoria para explicar o fenômeno em 
questão. Noutras palavras, uma teoria científica pode ser falsificada por uma única 
observação negativa, mas nenhuma quantidade de observações positivas poderá 
garantir que a veracidade de uma teoria científica seja eterna e imutável.
Alguns consideram este aspecto fulcral para a definição da ciência, chegando a 
afirmar que "científico" é apenas aquilo que se sujeita a este confronto com os fatos, 
ou seja, afirmam que só é científica aquela teoria que possa ser falseável, que pode 
ser refutável.
Veja ensaios sobre o pensamento de Karl Popper. Disponível em: <http://
www.pucpr.br/arquivosUpload/1237436911338236651.pdf>.
Ao afirmar que toda teoria deve ser falseável, o pensamento de Popper sofreu 
algumas críticas que questionaram se a falseabilidade, também deveria ser aplicada 
a ele. Não entraremos nestes meandros, apenas afirmamos que o falsificacionismo 
popperiano não é princípio, atualmente, de exclusão, mas instrumento de atribuição 
de graus de confiança ao conhecimento passível de crivo científico. Nesse sentido, 
percebemos que a falseabilidade é um instrumento com o qual entendemos que 
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
163
o conhecimento da ciência é sempre provisório, não sendo, dessa forma, possível 
chegarmos a certezas absolutas, mas sendo, no entanto, possível e desejável nos 
aproximarmos da verdade por tentativas. 
A leitura de A estrutura das Revoluções científicas 
nos permite, dentre outras possibilidades, afirmar 
que o objetivo de Kuhn ao usar a metáfora do ‘jogo’ 
(Quebra-Cabeças) é, como insiste determinada 
filosofia analítica inglesa com base em Wittgenstein, 
to help thefly out ofthefly-bottle, ou seja, esclarecer 
o fenômeno da ciência, na medida em que se trata 
de afirmar como científicas aquelas teorias que uma 
comunidade de cientistas aceitou como modelo de 
resolução de quebra-cabeças. A argumentação de 
Kuhn, dessa forma, neste livro, caminha no sentido 
de que a ciência é determinada prática, determinada 
atividade exercida por um grupo específico de 
indivíduos com a finalidade de resolver enigmas 
empíricos e que, por isso, não se restringe às 
características próprias do grupo, nem mesmo à mera 
presença do paradigma (este é condição necessária, 
mas não suficiente). Assim, podemos perguntar qual 
é a lógica desta atividade ou, nos termos kuhnianos, 
qual é a lógica empregada pela prática científica 
madura denominada ‘ciência normal’?
A ciência é desempenhada tendo como 
Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/archive/8/87/20141206232804!Thomas_Kuhn.jpg>. Acesso 
em: 29 mar. 2015.
Figura 4.4 | Thomas Kuhn (1922 – 1996) e a ciência normal 
Fonte: Disponível em: <http://
upload.wikimedia.org/wikipedia/
commons/1/1b/Las_3_fases_
de_la_ciencia_thomas_kuhn.
png?uselang=pt-br>. Acesso em: 29 
mar. 2015.
Figura 4.5 | Fases científicas
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
164
pressupostos condições especiais (regras) derivadas do paradigma aceito pela 
comunidade científica em determinado momento histórico. O mais importante 
desses critérios diz respeito à solucionabilidade dos problemas, isto é, só são 
aceitos como problemas científicos aqueles que tiverem uma solução possível.
A racionalidade científica pressupõe a incorporação, pela educação, do cientista 
a comunidade da qual virá a fazer parte, de valores, de metodologias, de lugares 
do domínio empírico a ser privilegiados entre outras regras, ou seja, a lógica da 
atividade científica pressupõe a aplicação de modelos, de regras, aprendidas 
Resolver problemas significa, então, alcançar as possibilidades previstas, 
“alcançar o antecipado de uma nova maneira”, não produzir novidades; é aumentar 
as possibilidades e precisão do paradigma. Neste, aliás, que se pressupõem as 
regras que definem quais são os tipos de soluções possíveis e quais os caminhos 
necessários para alcançá-las. É, por estas razões, escreve Kuhn, que a ciência 
normal progride tão rapidamente. 
Estes argumentos da Estrutura nos levam ao entendimento de que a ciência 
é uma prática mais coletiva e institucionalizada do que individualista, na medida 
em que as crenças e os valores compartilhados afetam o comportamento das 
comunidades científicas e, nestas, há a adesão incondicional do cientista, que 
pode ser percebida pelo processo educacional recebido e pelo fato de que em 
períodos de ‘ciência normal’ nenhuma (ou quase) inovação é pretendida.
[...] O critério que estabelece a qualidade de um bom quebra-cabeças 
nada tem a ver com o fato de seu resultado ser intrinsecamente 
interessante ou importante. Ao contrário, os problemas realmente 
importantes em geral não são quebra-cabeças (veja-se o exemplo 
da cura do câncer ou o estabelecimento de uma paz duradoura), 
em grande parte porque não tenham nenhuma solução possível. 
(KUHN, 2011, p. 59).
[...] Em particular, confrontando o problema da escolha de teoria, 
a estrutura de minha resposta é mais ou menos a seguinte: 
tomemos um grupo com as pessoas mais dotadas disponíveis, 
com a motivação mais relevante; treinemos essas pessoas em 
alguma ciência e nas especialidades relevantes para a escolha em 
questão; façamo-las imbuídas do sistema de valores, da ideologia, 
comum em sua disciplina (e, em grande medida, também em 
outros campos científicos); e, finalmente, deixemos que elas 
façam a escolha. (KUHN, 2002, p. 131).
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
165
anteriormente, a casos ou, ainda, o reconhecimento de casos num esquema 
anteriormente dados pelo paradigma aceito pela comunidade científica (por isso a 
dificuldade de lidar com a novidade – as anomalias).
Caso não tenhamos um encaixe das regras temos uma anomalia. Dessa forma, 
o cientista não só assimila o significado das regras paradigmáticas, mas ele passa 
a generalizá-las para um número cada vez maior de casos e a eliminar problemas 
que não são redutíveis a quebra-cabeças (chamados problemas metafísicos, por 
exemplo). Segundo Kuhn (2011, 63):
Percebemos aqui mais um aspecto fundamental da ciência segundo Kuhn 
(2011): ela não é uma prática neutra. Resolver um quebra-cabeças não é meramente 
descrever um caso, mas relacioná-lo às regras definidas pelo paradigma que 
serve de modelo para as teorias científicas. Neste exemplo da Estrutura, “vemos 
as penas da cauda de uma ave aquática alimentando-se de alguma coisa no 
leito de uma piscina rasa. É um cisne ou um ganso?” (KUHN, 2011, p. 243), o que 
permite o conhecimento é o fato de que o paradigma fornece regras aprendidas 
anteriormente com as quais podemos afirmar cisne ou ganso.
Se aceitarmos uma utilização consideravelmente mais ampla do 
termo “regra” – identificando-oeventualmente com “ponto de vista 
estabelecido” ou “concepção prévia” – então os problemas acessíveis 
a uma determinada tradição de pesquisa apresentam características 
muito similares às dos quebra-cabeças. O indivíduo que constrói um 
instrumento para determinar o comprimento de ondas ópticas não 
se deve contentar com um equipamento que não faça mais do que 
atribuir números a determinadas linhas espectrais. Ele não é apenas um 
explorador ou medidor, mas, ao contrário, alguém que deve mostrar 
(utilizando a teoria óptica para analisar seu equipamento) que os 
números obtidos coincidem com aqueles que a teoria prescreve para 
os comprimentos de onda. (KUHN, 2011, p. 62).
[...] Enquanto são reconhecidos, tais enunciados auxiliam na formulação 
Texto: Kuhn, Wittgenstein e os paradigmas. Disponível em: 
< h t t p : / / w w w . p s i c a n a l i s e e f i l o s o f i a . c o m . b r / t e x t o s /
kuhnwittgensteinparadigmas.pdf>.
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
166
de quebra-cabeças e na limitação das soluções aceitáveis. Por exemplo, 
as leis de Newton desempenharam tais funções durante os séculos XVIII 
e XIX. Enquanto essa situação perdurou, a quantidade de matéria foi uma 
categoria antológica fundamental para os físicos e as forças que atuam 
entre pedaços de matéria constituíram-se num dos tópicos dominantes 
para a pesquisa.
O jovem cientista aprende a estender as regras a um número maior de casos 
e a limitá-los segundo elas, ou melhor, sua atividade tem como referência a 
comunidade científica que lhe aparece como tradição. Isto se complica um pouco 
quando Kuhn afirma que as regras não se identificam completamente com o 
paradigma, pois são representações aferidas dele – “A falta de uma interpretação 
comum ou de uma consensual redução a regras não vai impedir um paradigma de 
guiar a pesquisa” (KUHN, 2011, p. 69) e, por isso, elas “não podem por si mesmas 
especificar tudo aquilo que a prática desses especialistas tem em comum” (ibid.). 
O esclarecimento se dá, justamente, com o uso da metáfora da atividade científica 
como resolução de quebra-cabeças. Vejamos um exemplo: uma pessoa pode 
aprender a montar quebra-cabeças estudando as regras que os determinam, 
mas pode também aprendê-los simplesmente vendo outros montarem. Assim, 
entendemos que para Kuhn mesmo na ausência de regras o paradigma cumpre 
sua função de padronização da ciência. Eis o argumento:
A ciência normal é uma atividade altamente determinada, mas 
não precisa ser inteiramente determinada por regras. É por isso 
que, no início deste ensaio, introduzi a noção de paradigmas 
compartilhados, ao invés das noções de regras, pressupostos e 
pontos de vistas compartilhados como sendo fonte da coerência 
para as tradições da pesquisa normal. As regras, segundo minha 
sugestão, derivam de paradigmas, mas os paradigmas podem dirigir 
a pesquisa mesmo na ausência de regras. (KUHN, 2011, p. 66). 
É, por isso que a formação dos cientistas (exceto os cientistas sociais) ocorre 
menos através de conceitos abstratos, do que através da intensa resolução de 
problemas. E o que fazer caso encontrar uma atividade desconhecida? A resposta 
kuhniana é relativamente simples. Ele utiliza-se da metáfora ‘jogo’ para mostrar que 
podemos identificar numa atividade desconhecida uma série de características 
semelhantes com atividades anteriormente conhecidas, ou seja, Kuhn afirma que os 
casos compartilham características semelhantes constituindo uma rede, na qual as 
similaridades “se superpõem e se entrecruzam” e, por isso os modelos apreendidos 
garantem certo sucesso no aprendizado de um caso novo. Em suma, Kuhn utiliza-
se da noção “semelhança de famílias” cunhada por Wittgenstein para mostrar que 
o paradigma escapa e tem prioridade em relação às regras (diferentemente do 
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
167
autor de Da Certeza que se utiliza da metáfora ‘jogo’ para evitar a generalização e 
não subtrair as regras dos casos) e, nesse sentido, é aquele conhecimento prático, 
não representado em regras explícitas, constituído por uma hierarquia de valores 
culturalmente forjados, de modelos e exemplares fornecidos pela educação, de 
um conjunto de técnicas assimiladas pela convivência que garante a atividade 
científica. Alguém poderia dizer que é justamente está generalização da noção 
de paradigma que não me permite perceber semelhanças possíveis entre, por 
exemplo, um “pato” e um “coelho”. Para Kuhn aqui poderíamos ter uma anomalia, 
que só aparece justamente contra o pano de fundo do paradigma, pois os 
cientistas devem aprender a reconhecer os traços similares que marcam os casos 
que afirmam ser da mesma classe, isto é, terão de harmonizar os casos ao modelo 
fornecido. O paradigma ensina a ver sob um determinado aspecto. E é este que 
garante o sucesso da atividade científica em determinado momento histórico.
1. (UEL – 2005) “As experiências e erros do cientista consistem de 
hipóteses. Ele as formula em palavras, e muitas vezes por escrito. 
Pode então tentar encontrar brechas em qualquer uma dessas 
hipóteses, criticando-a experimentalmente, ajudado por seus 
colegas cientistas, que ficarão deleitados se puderem encontrar 
uma brecha nela. Se a hipótese não suportar essas críticas e 
esses testes pelo menos tão bem quanto suas concorrentes, será 
eliminada”. (POPPER, Karl. Conhecimento objetivo. Trad. de Milton 
Amado. São Paulo: Edusp & Itatiaia, 1975, p. 226)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre ciência e método 
científico, é correto afirmar:
a) O método científico implica a possibilidade constante de 
refutações teóricas por meio de experimentos cruciais.
b) A crítica no meio científico significa o fracasso do cientista que 
formulou hipóteses incorretas. 
c) O conflito de hipóteses científicas deve ser resolvido por quem 
as formulou, sem ajuda de outros cientistas. 
d) O método crítico consiste em impedir que as hipóteses 
científicas tenham brechas. 
e) A atitude crítica é um empecilho para o progresso científico.
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
168
2. “[...] quando os membros da profissão não podem mais 
esquivar-se das anomalias que subvertem a tradição existente da 
prática científica então começam as investigações extraordinárias 
que finalmente conduzem a profissão a um novo conjunto de 
compromissos, a uma nova base para a prática da ciência. (KUHN, 
T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: perspectiva, 
1975, p. 25).
A partir do texto acima e dos conhecimentos sobre as concepções 
de Kuhn acerca do desenvolvimento da ciência, assinale a 
afirmativa correta. 
a) A ciência normal é o período de desenvolvimento da ciência no 
qual vários paradigmas teóricos concorrentes são testados. 
b) A escolha de um entre os paradigmas científicos em 
competição, tal como nas revoluções políticas atuais, é realizada 
democraticamente pelos cientistas. 
c) As revoluções científicas são os episódios em que a ciência 
normal sofre abalos desintegradores da tradição na qual a prática 
científica rotineira está alicerçada.
d) Nos períodos de ciência normal, a educação profissional volta-
se para os episódios revolucionários constantes dos protocolos.
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
169
Seção 3
A virada linguística em Ludwig Wittgenstein
3.1 Introdução
Apresentaremos neste autor a noção de jogo de linguagem e sua importância 
na desconstrução da ideia do sujeito como fundamento do pensamento, e, com 
isso, lega para as ciências humanas e a filosofia outras bases de fundamentação do 
conhecimento.
O que nos dá o direito de tomar como universal a identidade designativa entre 
palavras e coisas? O que faz com que tomemos como único o caminho pelo qual 
buscamos desvelar a essência das coisas? O que garante a unidade e uniformidade 
substantiva das palavras? O que garante que no início está o verbo, a verdade em 
sua plenitude, não maculada pela lama das lutas, pela podridão do humano, pela 
sombra do poder, pela corrupção dacarne, pelo desejo insaciável da força? O que 
garante a história como encobrimento dessa luz inicial, o calar dessa palavra plena 
que iluminaria o mundo em sua plenitude? O que nos faz carregar o peso desse 
fardo inicial e a esperança de um mundo no qual essa luz possa iluminar novamente? 
O que garante a busca de um mundo livre no qual não haja muros para o verbo 
atingir o coração, o pó em seu mais puro ser? A filosofia fundamentaria essa imagem 
de mundo com a unidade das palavras que em essência lógica representariam a 
essência do mundo. Os vários usos de uma palavra teriam sua origem num único 
ponto, que constituiria a entidade que explicaria a sua unidade. Esta coisa original 
é o que garante a consistência da unidade da palavra nos mais variados contextos, 
pois a palavra significaria (representa) essa coisa. As palavras seriam nomes de coisas. 
A relação entre as palavras e os significados é entendida a partir do modelo objeto-
designação. As palavras significariam as coisas do mundo. O significado é fundido às 
palavras representando as coisas que elas (palavras) substituem. Esta relação entre 
palavras e coisas fundamenta as teorias denotativas da linguagem, segundo a qual 
apreendemos o significado de uma palavra ao pronunciarmo-la apontado para 
uma coisa que a ela é vinculada nessa atividade educativa. A filosofia buscaria essa 
identidade entre a essência lógica da linguagem e a essência das coisas.
As contribuições dos grandes pensadores 
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170
3.2 A virada linguística em Ludwig Wittgenstein
Logo no início das Investigações Filosóficas Wittgenstein apresenta o que chama 
de visão agostiniana de linguagem, veja:
Quando os adultos nomeavam um objeto qualquer voltando-
se para ele, eu o percebia e compreendia que o objeto era 
designado pelos sons que proferiam, uma vez que queriam 
chamar a atenção para ele. Deduzia isto, porém, de seus 
gestos, linguagem natural de todos os povos, linguagem 
que através da mímica e dos movimentos dos olhos, dos 
movimentos da alma, quando esta anseia por alguma coisa, ou 
segura, ou repele, ou foge. Assim, pouco a pouco eu aprendia 
a compreender o que designam as palavras que eu sempre de 
novo ouvia proferir nos seus devidos lugares, em diferentes 
sentenças. Por meio delas eu expressava os meus desejos, 
assim que minha boca se habituara a esses signos. (IF, §1).
a linguagem deve servir ao entendimento de um construtor 
A com um ajudante B. A constrói um edifício usando pedras 
de construção. Há blocos, colunas, lajes e vigas. B tem que 
Percebemos nessa passagem da autobiografia de Santo Agostinho esse modelo 
de linguagem que nos referíamos – qual seja: objeto-designação. É muito curioso 
nessa passagem a sentença – as palavras que eu sempre de novo ouvia proferir nos 
seus devidos lugares – se referindo a um significado estático, unívoco que as palavras 
trariam ao serem pronunciadas juntamente com o gesto de apontar para um objeto. 
A palavra tem como única função “dizer” o mundo que já está constituído, mas, com 
ela, é tornado efetivo. As palavras têm seus devidos lugares, quais sejam: elas figuram a 
coisa. Esse lugar perpassa qualquer contexto sendo (ele) o objetivo a ser buscado. Seja 
qual for a atuação só é válida quando medida por essa coisa em sua figuração. Não 
importam os contextos de peça, pois são todos reduzidos a representarem um fundo 
que é em si e, portanto, não é representação. As palavras são reduzidas à função: 
denominam objetos – as sentenças são liames de tais denominações. (IF §1).
 Não que essa forma de explicar o significado não seja legítima, o problema 
estaria nela ser tomada como única, ou melhor, na sua pretensão de universalidade. O 
problema surge diante de uma sentença mal pronunciada quando perguntamos – O 
que isso significa? A resposta afirmando que significa tal objeto é insuficiente. Isso é 
percebido no jogo de linguagem dos dois construtores, veja o jogo:
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
171
Esse pragmatismo de Wittgenstein fere as certezas filosóficas afirmando que são 
frutos de confusões, com isso, afirma que a visão representacionista da linguagem 
rotulada pela filosofia torna difícil entender essa própria função da linguagem, pois 
com ela a filosofia fica presa ao particular tornado universal. Nessa crença, uma 
das facetas de uso das palavras é tornada imagem de toda a linguagem perdendo-
se o fluxo histórico e a multiplicidade da vida. Ao abrir as palavras ao devir da vida 
Wittgenstein afirma que o modelo objeto-designação é apenas uma perspectiva de 
uso das palavras e que por isso já há um terreno preparado no qual esse uso fará 
sentido. A sequência QWE não tem significado a priori. Em si não significa nada. O 
significado se fará no uso que se dá em determinada linguagem. 
Não adianta perguntar – O que significa essa enciclopédia chinesa? Nem – 
Quando o construtor (A) grita para o ajudante (B) a palavra – “bloco”, ele pode 
nomear a pedra que fundará a construção; (mas) pode ordenar ou pedir a pedra para 
o ajudante; (mas) pode alertar o ajudante para que este saia e não seja atingido por 
um bloco que cai, ou seja, as palavras não são entidades fechadas em si que nomeiam 
os objetos e, portanto, o significado não é a coisa que ela substitui. Melhor ainda, as 
palavras exercem múltiplas funções e o seu significado é estabelecido pelo uso que 
delas se faz em determinado contexto (A palavra “Bloco” é múltipla em significados 
dependendo do contexto na qual é proferida). Não há unidade da palavra ou unidade 
linguística, pois o significado não é anterior ao falar. É esse o sentido para a sentença 
famosa de Wittgenstein – “o significado está no uso”. 
Com Wittgenstein somos levados a não esquecer a historicidade das palavras, pois 
ele as retira da neutralidade que elas teriam ao representar coisas simplesmente fora 
do contexto da vida. As palavras exercem várias funções na linguagem, por isso são 
meios, são em perspectiva, são maculadas pela forma de vida da qual fazem parte, são 
ferramentas cujo significado é expresso em seu uso, veja:
lhe passar as pedras na sequência em que A delas precisa. Para 
tal objetivo, eles se utilizam de uma linguagem constituída das 
palavras: “bloco”, “coluna”, “laje”, “viga”. A grita as palavras; - B traz 
a pedra que aprendeu a trazer ao ouvir esse grito. – conceba isto 
como uma linguagem primitiva completa. (IF, § 2).
Pense nas ferramentas dentro de uma caixa de ferramentas: encontram-
se aí um martelo, um alicate, uma serra, uma chave de fenda, um metro, 
uma lata de cola, cola, pregos e parafusos. – Assim como são diferentes 
as funções desses objetos, são diferentes as funções das palavras. (E há 
semelhanças aqui e ali.). (IF, §11).
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
172
qual fato significam essas frases? Os significados desse conjunto de palavras que 
ordenam milhões de sequências de máquina de escrever só podem ser apreendidos 
se tomamos parte da forma de vida da qual eles fazem parte. As palavras neste texto 
são pesadas, pois carregam todos os arranjos gramaticais possíveis que o fluxo vital 
do qual Borges faz parte possibilita. Da mesma maneira para apontarmos algo e 
associarmos essa coisa apontada à determinada palavra precisamos ser educados 
em determinada linguagem que possibilite esse uso.
É através do conceito de Jogos de Linguagem que Wittgenstein busca 
desembaraçar esses nós feitos pela filosofia essencialista. É através desse conceito 
que ele racha as palavras no devir da vida. As palavras não se fecham na função 
de nomear as coisas constituindo um quadro estático, uniforme e separado da 
vida. Como os filmes de Godard o quadro não pode ser separado da parede, está 
infectado pela vida, pois é vida. Só se compreendem os significados das palavras nos 
jogos de linguagem dos quais fazem parte, em seus usos efetivos, poliformes, em 
movimento perpétuo e não teleológicos.
Não cabe a pergunta – O que é um jogo de linguagem? No sentido de buscar a 
essência que as palavrassignificam. O conceito é usado justamente para sair desse 
estreito e confuso caminho da filosofia – Toshewtheway out ofthefly-bottle. O 
conceito significa no contexto em que nasceu, em outro contexto o significado é 
outro, retirado de qualquer contexto não significa nada, é puro clichê. No parágrafo 
7, Wittgenstein dá algumas indicações do que entende por jogo de linguagem, veja:
Em que medida os limites da linguagem são os limites do 
nosso mundo?
Na prática do uso da linguagem (2), uma parte grita as palavras, 
a outra age de acordo com elas; mas na instrução da linguagem 
vamos encontrar este processo: o aprendiz dá nome aos 
objetos. Isto é, ele diz a palavra quando o professor aponta 
para a pedra. – De fato, vai-se encontrar aqui um exercício 
ainda mais fácil: o aluno repete as palavras que o professor 
pronuncia – ambos, processos linguísticos semelhantes.
Podemos imaginar também que todo o processo de uso 
de palavras em (2) seja um dos jogos por meio dos quais as 
crianças aprendam sua língua materna. Quero chamar esses 
jogos de “jogos de linguagem”, e falar de uma linguagem 
As contribuições dos grandes pensadores 
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173
Percebemos que nomear os objetos é apenas um jogo de linguagem, mais 
ainda os diversos usos que se faz da linguagem são apenas jogos de linguagem. 
No parágrafo 23, Wittgenstein exemplifica a diversidade de jogos de linguagem – 
Ordenar, e agir segundo as ordens – Descrever um objeto de acordo com uma 
descrição (desenho) – Relatar um acontecimento – (nomear é apenas mais um). 
O conceito jogo de linguagem só pode ser compreendido em sua multiplicidade 
imanente, pois ele só tem significado no contexto no qual é constituído. Abre-se o 
caminho para a mosca presa em sua própria armadilha. Neste mesmo parágrafo, o 
autor das Investigações Filosóficas reforça essa abertura vital dos jogos de linguagem 
ao afirmar que eles estão em movimento.
Abre-se com o conceito jogo de linguagem o contexto vital no qual as proposições 
(empíricas ou gramáticas) são. Funde-se linguagem e vida, pois “falar uma língua 
é parte de uma atividade ou de uma forma de vida”. Determinada forma de vida 
é determinada linguagem constituída por inúmeros jogos de linguagem. Falar é 
fazer parte de uma forma de vida, por isso o que determina se compreendemos o 
significado de uma palavra ou uma sentença é a maneira como nos comportamos. 
Em última análise o que determina nossa compreensão ou consciência é o fato 
da manifestação dessa consciência ou compreensão ser aceita pelo contexto no 
qual ela é proferida, ou seja, o que demonstra a compreensão do significado de 
uma palavra é o fato de alguém agir de acordo com o esperado. Fica demonstrado 
que os jogos de linguagem são constituídos por regras, ou melhor, a linguagem é 
uma atividade governada por regras. São essas regras que determinam nossos usos 
linguísticos, promovendo com isso uma previsibilidade regulada de ação àqueles 
que fazem parte dessa forma de vida. Como nossas formas de vida são constituídas 
por jogos de linguagem diferentes a regra comporta um nível empírico dentro de 
cada jogo de linguagem e um nível gramatical que constitui o impensado da própria 
forma de vida, pois se contestado a põe em cheque. Nesse sentido, a oposição 
primitiva às vezes como de um jogo de linguagem.
E poder-se-ia chamar também de jogos de linguagem os 
processos de denominação das pedras e de repetição da palavra 
pronunciada. Pense em certo uso que se faz das palavras em 
brincadeiras de roda.
Chamarei de “jogo de linguagem”, também a totalidade 
formada pela linguagem e pelas atividades com as quais ela vem 
entrelaçada. (IF, §7).
Inúmeras espécies de emprego do que denominamos “signos”, 
“palavras”, “frases”. E essa variedade não é algo fixo, dado de uma vez 
por todas; mas, podemos dizer, novos tipos de linguagem, novos jogos 
de linguagem surgem, outros envelhecem e são esquecidos. (IF, § 23).
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
174
verdadeiro/falso não constitui o mais original no qual verdade é a realidade em si 
e o falso é a inversão deturpada desse em si. Verdade/falsidade passam a significar 
estar de acordo ou não com as regras que constituem a forma de vida e o jogo de 
linguagem do qual fazem parte. Sobre o conceito de jogo de linguagem escreve 
Giannotti (2015):
O fato de a linguagem ser guiada por regras afirma a característica pública da 
linguagem, ou seja, por ser práticas reguladas por regras pressupõe que é constituída 
por práticas comuns, por hábitos. Com esse registro Foucault se aproxima de 
Wittgenstein, ao afirmar que: “Em que ‘tábua’, segundo qual espaço de identidades, 
de similitudes, de analogias, adquirimos o hábito de distribuir tantas coisas diferentes 
e parecidas?” (FOUCAULT, 1999a, p. XV).
Esse registro compartilhado por esses dois autores afirma que o significado 
das palavras é determinado por regras, pois são estas que determinam o uso que 
fazemos daquelas em determinado contexto. Nós aprendemos essas regras na 
medida em que fazemos parte de uma forma de vida. Aprendemos o significado 
das palavras na medida em que habitualmente agimos de acordo com o esperado 
dentro do contexto que vivemos. Com Wittgenstein as palavras são recolocadas em 
seu devido lugar depois de terem sido rachadas para serem postas de molho tirando 
delas o ranço que as separava da vida onde elas foram criadas.
Um jogo de linguagem é composto por signos ligados às 
práticas de seus respectivos usos, as quais terminam por 
mostrar como os próprios signos estão servindo de critério 
para avaliar se a aplicação dessas regras simbólicas está sendo 
adequada ou não.
GIANNOTTI, J. A. Dois jogos de pensar. <http://www.scielo.br/pdf/nec/
n75/a04n75.pdf>. 
1. Com base na ideia de “jogos de linguagem” explorado por 
Ludwig Wittgenstein, analise os enunciados que seguem. 
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
175
2. Em relação à noção de jogos de linguagem em Ludwig 
Wittgenstein, assinale a alternativa correta. 
a) O significado da linguagem é determinado pelo seu uso no 
cotidiano.
b) O significado da linguagem é determinado pela consciência 
do sujeito.
c) O significado da linguagem é determinado somente pela 
denominação.
d) O significado da linguagem é universal e único para todas 
as formas de vida.
I. O significado de uma palavra é determinado pelas regras 
que governam seu uso em contextos linguísticos específicos. 
II. A linguagem espelha o mundo, pois ela funciona como 
uma moldura da realidade. 
III. Os jogos de linguagem estão imersos em formas de vida. 
Palavras só possuem significado no fluxo da vida. 
Com relação aos itens anteriores, é correto afirmar que as 
afirmativas
a) II e III dizem respeito à ideia de Jogos de Linguagem de 
Wittgenstein. 
b) I e II dizem respeito à teoria da figuração de Wittgenstein. 
d) I e III dizem respeito à ideia de Jogos de Linguagem de 
Wittgenstein.
e) II e III dizem respeito, respectivamente, à ideia de Jogos de 
Linguagem e da teoria da figuração.
As contribuições dos grandes pensadores 
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176
As contribuições dos grandes pensadores 
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177
Seção 4
A virada histórica em Michel Foucault
4.1 Introdução
Apresentaremos neste autor a historicidade do conhecimento e sua crítica ao 
sujeito cartesiano através da sua conceptualização das relações de poder.
O grande esforço foucaultiano em As palavras 
e coisas (1966) e A arqueologia do saber (1969) 
era mostrar que tudo é saber, por isso não há 
experiência que não seja dessa ordem, não há 
experiência selvagem ou bárbara. A partir da 
década 70 sua análise sofre algumas torções na 
medida em que as descrições das práticas de saber 
necessariamente são articuladas a estratégias de 
poder. Por causa dessa articulação se convencionou 
chamar o pensamento foucaultiano desse período 
de genealógico.
A questão genealógica não é meramente 
sobre o poder, mas sobre a relação entre poder 
e saber, ou melhor, a questão é sobre como 
são produzidos saberes a partir de relações de 
poder. Esta relaçãojá é bastante evidente no texto 
Nietzsche, a genealogia e a história (1998) e na 
primeira conferência do ciclo de conferências 
denominado A verdade e as formas jurídicas proferidas no Rio de Janeiro em 1973, 
nos quais Foucault diz ser o pensamento de Nietzsche “entre os modelos de que 
podemos lançar mão para as pesquisas que proponho, o melhor, o mais eficaz e 
o mais atual”. (FOUCAULT, 2009b, p. 13). A genealogia significa um encontro do 
pensamento foucaultiano com o pensamento do filósofo alemão, mas trata-se 
de um encontro no qual o pensamento deste último é instrumentalizado, usado, 
reelaborado, apropriado. Foucault deixa isso claro, veja:
Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.
org/wikipedia/commons/thumb/0/03/Michel_
Foucault.jpg/640px-Michel_Foucault.jpg>. 
Acesso em: 29 mar. 2015. 
Figura 4.6 | Michel Foucault
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
178
Podemos então dizer que a análise que em seguida é proposta 
tem como ponto de partida a questão do porquê. Seu 
objetivo não é principalmente descrever as compatibilidades 
e incompatibilidades entre saberes a partir da configuração 
de suas positividades; o que pretende é, em última análise, 
explicar o aparecimento de saberes a partir de condições 
de possibilidade externas aos próprios saberes, ou melhor, 
que imanentes a eles – pois não se trata de considerá-los 
como efeito ou resultante – os situam como elementos 
de um dispositivo de natureza essencialmente estratégica. 
(FOUCAULT, 1998, p. X).
A presença de Nietzsche é cada vez mais importante. Mas me cansa a atenção 
que lhe é dada para fazer sobre ele os mesmos comentários que se fez ou que se 
fará sobre Hegel ou Mallarmé. Quanto a mim, os autores que gosto, eu os utilizo. O 
único sinal de reconhecimento que se pode ter para com um pensamento como o 
de Nietzsche, é precisamente utilizá-lo, fazê-lo ranger, gritar. Que os comentadores 
digam se é ou não fiel, isto não tem o menor interesse (FOUCAULT, 1998, p. 143).
A apropriação da genealogia nietzschiana é usada por Foucault para pensar as 
relações entre poder e saber como constituídas e constituintes da história e, com 
isso, entender esta na efetividade dessas práticas. A palavra modelo utilizada na 
citação pode soar estranha para os seus leitores, mas refere-se a um procedimento 
bastante comum em sua filosofia ao instrumentalizar os textos que pesquisa, ou seja, 
ao apropriar-se, ao filiar-se ou ao diferenciar-se de alguma tradição do pensamento 
opera um “empobrecimento” dela, que nada mais é que uma desfetichização das suas 
relações, das suas operações, das suas formas, dos seus conceitos no sentido de 
multiplicar suas possibilidades, sua variabilidade e, com isso, provocar mudanças que 
implicam novos significados, novas práticas. É, então, como ferramentas que devem 
ser entendidas as expressões “modelo nietzschiano” ou “hipótese nietzschiana”, pois 
remetem a todo um instrumental de luta criado, modificado, posto em uso, renovado 
por Foucault para estabelecer a íntima relação entre poder e saber. São expressões 
que demonstram o lugar ao qual ele entende pertencer no pensamento ocidental, 
ou seja, faz referência a toda uma tradição do pensamento da qual Nietzsche faria 
parte conjuntamente com tantos outros, inúmeros anônimos inclusive, que buscaram 
maneiras diferentes de pensar do “modelo platônico” entendido como uma das 
primeiras tentativas de eliminar aquela relação. 
É, nesse sentido, que deve ser buscado seu esforço na arqueologia em definir uma 
formação histórica como um espaço do saber, ou seja, uma multiplicidade de relações 
discursivas e não discursivas (multiplicidade de regiões de dizibilidades e de visibilidades), 
intensificado, na genealogia, ao articulá-lo a relações de poder. Sua pretensão era 
As contribuições dos grandes pensadores 
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179
diferenciar-se de grande parte do pensamento ocidental que fazia da história: o 
encadeamento linear da história do sujeito que nesse movimento era tornado um 
monumento de glorificação do passado; a busca e o reconhecimento de uma origem 
da qual emanaria e pertenceria toda a história e que teria sido encoberta pelas peripécias 
falsificadoras do poder; uma análise do tipo comentário, cuja função seria reconstruir a 
verdade na medida em que estabeleceria relações entre sujeito e objeto. 
Por isso, para elucidarmos a crítica foucaultiana a esses modelos do pensamento 
ocidental que seriam, segundo ele, antípodas em relação ao modelo nietzschiano 
e, com isso, a sua noção de liberdade a partir da genealogia, faz-se necessário 
entendermos quais as inovações e diferenças em relação à tradição que Foucault 
estabelece ao problematizar o poder e a relação deste com o saber.
No final de A arqueologia do saber, Foucault comenta a difícil tarefa do pensamento 
em relação ao saber, ou seja, afirmava o árduo trabalho da análise para mostrar que 
a massa documental estudada era a materialização de relações de forças, efeito de 
relações de poder e não mera narrativa ou representação de fatos passados. Ele trouxe à 
tona a relação entre saber e poder, pois afirmava ser o saber a inscrição das lutas, marcas 
dos conflitos e, por isso, locus de inteligibilidade da história. Tal atitude novamente 
aparece no debate intitulado Sobre a história da sexualidade no qual Foucault define o 
que é um dispositivo:
Esta expressão é mais uma das ferramentas utilizadas por Foucault, cuja função lhe 
permite entender a história a partir de acontecimentos definidos como configurações de 
práticas de poder e saber. São estes enquanto objetos históricos que a análise genealógica 
busca descrever ao pensar dispositivos (da sexualidade, de normalização). Foucault 
GIACÓIA, O. Filosofia da cultura e escrita da história: nota sobre as 
relações entre os projetos de uma genealogia da cultura em Foucault 
e Nietzsche. In: O que nos faz pensar. Cadernos de filosofia da Puc/RJ. 
N: 3, 1990, p. 24-50.
Conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, 
instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, 
medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, 
morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do 
dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes 
elementos. (FOUCAULT, 1998, p. 244).
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
180
formula sua noção de acontecimento a 
partir da leitura de Lógica do sentido e 
La théorie desincorporelsdansl’anciensto
ïcisme (NALLI, 2000, p. 115), pois nestes 
textos Deleuze e Bréhier formulam outra 
concepção de acontecimento, diferente 
daquela formulada pela tradição tendo 
por base Platão e Aristóteles, a partir dos 
incorporais da teoria estoica.
Para os estoicos tudo o que existe é 
corpo, e estes são constituídos pelo princípio 
ativo (poder de afetar), que é o logos e pelo 
princípio passivo (poder de ser afetado), que 
é a matéria. O logos é causa imanente que 
constitui cada ser e ao universo como um 
todo, ou seja, é o princípio ativo universal 
que perpassa todos os seres promovendo 
ordenação e integração da realidade. 
Segundo Bréhier, (1928, p. 5):
Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.
o r g / w i k i p e d i a / c o m m o n s / t h u m b / 0 / 0 0 /
E p i c t e t i _ E n c h i r i d i o n _ L a t i n i s _ v e r s i b u s _
adumbratum_%28Oxford_1715%29_frontispiece.
jpg/640px-Epicteti_Enchiridion_Latinis_versibus_
adumbratum_%28Oxford_1715%29_frontispiece.
jpg>. Acesso em: 29 mar. 2015.
Figura 4.7 | Retrato de Epiteto (55 – 135 
a.C.) na capa de uma tradução inglesa de 
1751 do Manual de Epiteto)
Em todo caso, é indispensável que ela esteja ligada ao ser 
mesmo do qual ela constitui a causa, como a vida só pode estar 
no vivente. Ela determina a forma exterior do ser, seus limites, 
não ao modo de um escultor que faz uma estátua, mas como 
um germe que se desenvolve até certo ponto do espaço, e até 
a este ponto somente, suas capacidades latentes. A unidade 
da causa e do princípiose traduz na unidade do corpo que ela 
produz. Este princípio é também verdadeiro para o mundo, 
cuja unidade se prova, segundo Crisipo, pela unidade de seu 
princípio, que pelo menor dos seres particulares.
Percebemos na citação que o pensamento estoico é diferente do pensamento, 
tanto de Platão, quanto de Aristóteles, pois
Para estes, o problema era explicar nos seres o permanente, 
o estável, o que podia oferecer um ponto de apoio sólido ao 
pensamento por conceitos. Também a causa, que ela seja a Ideia 
ou o motor imóvel, é permanente como uma noção geométrica. 
As contribuições dos grandes pensadores 
U4
181
Os estoicos concebem uma nova concepção de causalidade, cuja característica é 
a univocidade entre causa e efeito, na medida em que o corpo tem imanente a si o 
princípio do seu movimento e, por isso, não sendo mera matéria passiva efeito de uma 
causa exterior, ou seja, o corpo é, ao mesmo tempo, causa e efeito. Sendo assim, é na 
relação entre os corpos que os estoicos entendiam que eles podiam se modificar, isso 
não significava que um corpo poderia atribuir a outrem propriedades novas, mas que a 
relação, a interpenetração entre eles produzia uma extensão comum, entendida como 
um novo atributo. Exemplifica Bréhier (1928, p. 11):
Essa extensão comum, o efeito da relação dos corpos é o incorporal, que é composto 
pelo vazio entre os corpos, pelo espaço e tempo determinados em que ocorre e pelo 
exprimível. Ele não é um corpo, mas é condição para que acorram as relações entre os 
corpos (sem o vazio entre os corpos não seria possível o encontro entre eles). Ele é o 
acontecimento. A curiosidade nesta forma de pensar está no fato de que o incorporal 
(acontecimento) é condição da causa sem ser ele mesmo uma causa, mas efeito. Isso 
se explica porque o acontecimento é um atributo, ou melhor, uma maneira de ser, 
cuja existência é determinada pela relação entre os corpos e persistirá nela, não uma 
qualidade natural como essência de um corpo primeiro.
Pelo movimento, o devir, a corrupção dos seres, no que eles têm de 
perpetuamente instável, eles decorrem não por uma causa ativa, mas 
por uma limitação desta causa, escapando por sua natureza de toda 
determinação e de todo pensamento. (BRÉHIER, 1928, p. 4-5).
[...] Assim, quando o escalpelo corta a carne, o primeiro corpo 
produz sobre o segundo não uma propriedade nova, mas um 
atributo novo, aquele de ser cortado. O atributo propriamente 
falando não designa alguma qualidade real; branco ou negro 
por exemplo não são atributos, nem em geral algum epíteto. O 
atributo é sempre ao contrário expresso por um verbo, o que 
quer dizer que ele é não um ser, mas uma maneira de ser [...] Esta 
maneira de ser se encontra de algum modo no limite, à superfície 
do ser, e ela não pode mudar sua natureza: ela não é, para dizer a 
verdade, nem ativa e nem passiva, pois a passividade suporia uma 
natureza corpórea que sofre uma ação. Ela é pura e simplesmente 
um resultado, um efeito que não é classificável entre os seres.
Texto: O estoicismo de Michel Foucault: uma análise a partir do 
conceito de acontecimento. Disponível em: <http://www.uern.br/
outros/trilhasfilosoficas/conteudo/N_02/I_2_art_9_Carmo.pdf>.
As contribuições dos grandes pensadores 
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182
A noção de acontecimento nos estoicos é fundamental, pois permite a Foucault 
entender o acontecimento a partir das relações de forças que o compõem, ou seja, 
lhe permite entendê-lo como relações entre práticas de poder e saber, ou seja, ele 
busca entender a história não como representação ou evolução progressiva de uma 
origem que a fundamentaria, mas como materialidade de práticas discursivas, nas 
quais se evidencia relações de poder, ou melhor, busca entendê-la como conjunto de 
dispositivos que traduzem compostos de práticas de poder e de saber. Dessa forma, a 
genealógica, enquanto história do acontecimento, ou melhor, dos dispositivos de poder 
e saber é uma história da mistura dos corpos e não do corpo considerado em si mesmo. 
Ela é, por isso, uma pesquisa que se opõe à pesquisa da “origem”. Segundo Foucault 
(1998, p. 17):
A recusa da origem pela genealogia tem por objetivo definir o acontecimento em 
sua emergência, demonstrar a sua proveniência e afirmá-lo como uma invenção. 
Em Nietzsche, A genealogia e a história, Foucault afirma que os termos Entstehung e 
Herkunft indicam melhor que Ursprung o que a genealogia devia estudar. Como afirma 
a citação acima, Ursprung remete a uma origem ideal, primeira, pura que fundamentaria 
o direito de tomar como universal a identidade designativa entre palavras e coisas; que 
significaria a essência das coisas; que garantiria a unidade e uniformidade substantiva 
das palavras; que garantiria o início como verdade plena, não maculada pela lama das 
lutas, pela podridão do humano, pela sombra do poder, pela corrupção da carne, pelo 
desejo insaciável da força; que faria da história o encobrimento dessa luz inicial, mas 
também busca frenética para encontrá-la novamente. É essa origem (Ursprung) que, 
segundo Foucault, a genealogia recusa preferindo em alguns casos entendê-la como 
Herkunft. Este sentido de origem remete ao “tronco de uma raça, é a proveniência; 
é o antigo pertencimento a um grupo – do sangue, da tradição, de ligação entre 
aqueles da mesma altura ou da mesma baixeza” (FOUCAULT, 1998a, p. 20), ou seja, 
a genealogia diferencia-se do tipo de análise que busca uma essência a-histórica ou 
características naturais que subsistem ao longo da história, fazendo desta mero episódio 
Por que Nietzsche genealogista recusa, pelo menos em 
certas ocasiões, a pesquisa da origem (Ursprung)? Porque, 
primeiramente, a pesquisa, nesse sentido, se esforça para 
recolher nela a essência exata da coisa, sua pura possibilidade, 
sua identidade cuidadosamente recolhida em si mesma, sua 
forma imóvel e anterior a tudo o que é externo, acidental, 
sucessivo. Procurar uma tal origem é tentar reencontrar “o 
que era imediatamente”, o “aquilo mesmo” de uma imagem 
exatamente adequada a si; é tomar por acidental todas as 
peripécias que puderam ter acontecido, todas as astúcias, 
todos os disfarces; é querer tirar todas as máscaras para 
desvelar enfim uma identidade primeira.
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de memorização, degradação, mascaramento, representações falsificadas que ocultam 
a verdade e embriagam a visão da realidade. Ao utilizar o termo Herkunft Foucault quer 
mostrar que a origem não se refere a uma unidade, mas
A origem também é entendida pela genealogia como Entstehung que designa o 
acontecimento na imanência da luta estabelecida pelas forças que o constituem. É a 
busca do efervescer das forças que entram em cena constituindo regras que satisfazem 
e significam o seu próprio domínio e demarcam o local da sua confrontação e de suas 
configurações. Com esta noção Foucault quer mostrar que a atualidade não é efeito 
de uma origem sempre idêntica a si, a qual teríamos que reconstituir“ como se o olho 
tivesse aparecido, desde o fundo dos tempos, para a contemplação, como se o castigo 
Para Foucault, a unidade é entendida como organização, como multiplicidade de 
forças em constante mutação, pois estão em constante combate. Isso significa que 
onde se reconhecia uma unidade estável, a genealogia reconhece o combate de 
forças, a organização belicosa de forças. Não há unidade estável que fundamenta a 
história ou o saber. Há forças em luta, em acordos temporários, pois só se efetivam 
em ação com outras forças. Nesse sentido, o que se via à primeira vista como unidade, 
como semelhante é evidenciado pela genealogia como organização de forças, sua 
multiplicidade e diferença constituindo e sendo constituída pela história. 
A pesquisa da proveniência é um processo de dissociação da unidade, pois visa a 
fazer surgir ou reencontrar os vários acontecimentos, as várias forças em jogo que a 
constituíram. A identidade é desnaturalizada, pois é forjada e só é como organização de 
forças exercendo seu domínio.Em vez de buscar o tradicional – O que sou eu? Busca 
dissociá-lo e mostrar que sua identidade foi forjada no campo de batalha das relações 
de forças. Deixa-se de buscar a continuidade estável. Buscam-se as lutas, os desvios, as 
dispersões, os conluios.
Lá onde a alma pretende se unificar, lá onde o Eu inventa para si 
uma identidade ou uma coerência, o genealogista parte em busca 
do começo – dos começos inumeráveis que deixam esta suspeita 
de cor, esta marca quase apagada que não saberia enganar um 
olho, por pouco histórico que seja; a análise da proveniência 
permite dissociar o Eu e fazer pulular nos lugares e recantos de 
sua síntese vazia, mil acontecimentos agora perdidos (FOUCAULT, 
1998, p. 20).
Se o conhecimento é uma invenção podemos afirmar que ele 
pode ser ferramenta de dominação?
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tivesse sempre sido destinado a dar o exemplo” (FOUCAULT, 1998, p. 23), ou seja, ele 
quer separar a genealogia das análises que fazem da origem causa perene (motor da 
história) ao longo da história tornando o atual efeito de espelho dela e, com isso, mostrar 
a singularidade de acontecimento do presente, pois é o teatro, no qual ocorrem os 
embates energéticos. Nas suas palavras:
Na primeira conferência proferida no Rio de Janeiro, Foucault afirma que o saber 
é invenção ao problematizar especificamente dois termos nietzschianos: Erfindung, 
cujo significado é invenção e Ursprung, como já mostrado, que significa origem. Os 
termos são antagonizados por Foucault, pois quando fala em invenção é para não falar 
em origem, ou seja, para ele, também para Nietzsche, o saber não é natural, mas é 
uma invenção determinada por relações de poder num espaço e tempo específicos. 
Segundo Foucault:
Em certo sentido, a peça representada nesse teatro sem lugar 
é sempre a mesma: é aquela que repetem indefinidamente 
os dominadores e os dominados. Homens dominam outros 
homens e é assim que nasce a diferença dos valores; classes 
dominam classes e é assim que nasce a ideia de liberdade; 
homens se apoderam de coisas das quais eles têm necessidades 
para viver, eles lhes impõem uma duração que elas não têm, 
ou eles as assimilam pela força – e é o nascimento da lógica. 
Nem a relação de dominação é mais uma ‘relação’, nem o 
lugar onde ela se exerce é um lugar. E é por isto precisamente 
que em cada momento da história a dominação se fixa em um 
ritual. (FOUCAULT, 1998, p. 25).
O conhecimento foi, portanto, inventado. Dizer que ele 
foi inventado é dizer que ele não tem origem. É dizer, de 
maneira mais precisa, por mais paradoxal que seja, que o 
conhecimento não está em absoluto na natureza humana. O 
conhecimento não constitui o mais antigo instinto do homem, 
ou, inversamente, não há no comportamento humano, no 
apetite humano, no instinto humano, algo como um germe 
do conhecimento. De fato, diz Nietzsche, o conhecimento 
tem relações com os instintos, mas não pode estar presente 
neles, nem mesmo por ser um instinto entre os outros; o 
conhecimento é simplesmente o resultado do jogo, do 
afrontamento, da junção, da luta e do compromisso entre 
os instintos. É porque os instintos se encontram, se batem 
e chegam, finalmente, ao término de suas batalhas, a um 
compromisso, que algo se produz. Este algo é o conhecimento. 
(FOUCAULT, 2009b, p. 16). 
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Com Erfindung, Foucault, busca não tomar um fundamento primeiro para o saber, 
tanto o mundo enquanto ente natural, quanto a natureza humana enquanto essência do 
homem, cujas representações se fariam pelo saber, mas mostrar que este é um “efeito 
de superfície, não delineado de antemão na natureza humana” (FOUCAULT, 2009b, p. 
17), ou melhor, é um espaço dispersivo de objetivações e subjetivações que “traduz um 
certo estado de tensão ou de apaziguamento entre os instintos” (FOUCAULT, 2009b, p. 
17), que é produzido por relações de poder e as induz. 
1. Segundo o pensamento estoico, o acontecimento pode ser 
definido como:
a) O fato tal qual aparece na história.
b) A coisa empírica ilustrada pela experiência.
c) O incorporal fruto do choque entre corpos.
d) A linguagem sem base material.
2. Segundo o pensamento de Michel Foucault sobre o 
conhecimento é correto afirmar que:
a) O conhecimento tem uma essência que é mascarada 
historicamente cabendo ao pensador alcançá-la e trazê-la à tona.
b) O conhecimento é fruto de um sujeito transcendental definido 
pela racionalidade humana.
c) O conhecimento é produzido historicamente e, por isso, uma 
invenção em constante mudança.
d) O conhecimento é o dado produzido pela experiência empírica 
ao analisar a realidade física.
Nesta unidade vimos que: 
a) René Descartes buscou fundamentar as bases da ciência 
moderna. 
b) Karl Popper buscou apresentar outra lógica para justificar 
a atividade científica baseada na falseabilidade e não na 
verificabilidade.
As contribuições dos grandes pensadores 
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c) Thomas Kuhn criou a noção de paradigma e de ciência normal 
que nos ajudaram a entender e a justificar a atividade científica em 
determinado momento histórico.
d) Ludwig Wittgenstein criou a noção de jogo de linguagem o que 
nos propiciou outras bases para pensar o conhecimento e a atividade 
do pensamento.
e) Michel Foucault historicizou o conhecimento tornando possível 
que estabelecêssemos outras bases para pensá-lo e produzi-lo.
Nesta unidade estudamos o pensamento de alguns dos maiores 
autores do ocidente. Com eles percebemos que as questões 
epistemológicas podem ser visualizadas e refletidas a partir de 
vários ângulos, ou seja, nossa relação com o conhecimento é 
extremamente complexa na medida em que ela pode ocorrer 
de várias formas dependendo do contexto histórico e social no 
qual ocorre. Nesse sentido, devemos ler estes textos buscando 
ferramentas para pensarmos nossa vida, a nossa atualidade e, 
com isto, abrir novas possibilidades para entendermos aquilo que 
nós somos enquanto singularidade histórica; devemos buscar, 
também, tentar dar nova vida à epistemologia, na medida em que 
estas ferramentas servem para repensarmos e, acima de tudo, 
para criarmos novas formas de pensar e de conhecer. Tendo 
este panorama em mente devemos entender que aprofundar 
os estudos, necessidade cada vez mais indispensável, é estar 
preparado para enfrentar os problemas que nos afligem e que 
se mostram cada vez mais complexos – por isso requerendo 
novas, múltiplas e complexas ferramentas conceituais; devemos 
sempre lembrar que os conceitos são o que tornam nossas 
ações esclarecidas, retirando-nos do estado de cegueira ou 
infantilidade e, com isso, nos tornando um pouco mais senhores 
do nosso destino. Portanto, espero que tenham um ótimo 
aprendizado e compartilhem, com esta que vos escreve, da 
magia da educação e da beleza do aprendizado, pois é com eles 
que podemos experimentar novas possibilidades e novas formas 
de viver, sem os quais temos um mundo desencantado, no qual 
tudo é reduzido ao mínimo da sobrevivência.
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1. “Dá-se o nome conhecimento à relação que se estabelece 
entre o sujeito cognoscente (ou uma consciência) e um objeto”. 
Essa afirmativa equivale a dizer que o conhecimento é:
a) Tudo que é revelado através dos instintos. 
b) Tudo que se enxerga através dos sentidos. 
c) Tudo que é revelado através dos sonhos.
d) Uma percepção que nasce da observação da natureza. 
e) O processo pelo qual o sujeito se coloca no mundo e, com ele, 
estabelece uma ligação.
2. Leia com atenção a citação e, em seguida, analise as assertivas. 
"E, tendo notado que nada há no eu penso, logo existo, que 
me assegure de que digo a verdade, exceto que vejo muito 
claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei poder 
tomar por regra geral que as coisas que concebemos mui clara 
e mui distintamente são todas verdadeiras, havendo apenas 
alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos 
distintamente." (DESCARTES, Discurso do Método.São Paulo: 
Abril Cultural, 1973, p. 55. Coleção "Os Pensadores").
I- Este "eu" cartesiano é a alma e, portanto, algo mais difícil de ser 
conhecido do que o corpo. 
II- O "eu penso, logo existo" é a certeza que funda o primeiro 
princípio da filosofia de Descartes. 
III- O "eu", tal como está no Discurso do Método, é inteiramente 
distinto da natureza corporal. 
IV- Ao concluir com o "logo existo", fica evidente que o "eu 
penso" depende das coisas materiais. 
Assinale a alternativa cujas assertivas estejam corretas. 
a) II e IV. 
b) I, II, IV. 
c) III e IV. 
d) II e III.
e) Todas são corretas.
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3. A filosofia da ciência contemporânea, ao contrário da tradição 
clássica e moderna, que acreditava no acúmulo linear do 
conhecimento, questionou a ideia de progresso e de neutralidade 
científica. Conceito como crise, anomalia, descontinuidade, 
ruptura e incomensurabilidade (entre paradigmas científicos), 
inauguram uma nova orientação epistemológica, voltada para 
a ideia de ciência construída, mais do que verdadeira ou fiel à 
natureza do mundo. Sobre a filosofia da ciência contemporânea, 
assinale o que for correto.
a) A validade de uma teoria científica está na maneira como 
explica um conjunto ilimitado de fenômenos.
b) As teorias científicas se completam mutuamente, aproximando-
se cada vez mais da ciência divina.
c) A prática científica é igual à do senso comum, pois não se 
ocupa com a verdade dos fatos. 
d) As teorias científicas não podem ser verificadas de ponta a 
ponta, possuindo elementos arbitrários na composição da teoria.
4. Leia o texto a seguir. 
[...] não exigirei que um sistema científico seja suscetível de ser 
dado como válido de uma vez por todas, em sentido positivo; 
exigirei, porém, que sua forma lógica seja tal que se torne possível 
validá-lo através de recurso a provas empíricas em sentido 
negativo [...]. (POPPER, K. A lógica da pesquisa científica. Trad. L. 
Hegenberg e O. S. da Mota. São Paulo: Cultrix, 1972, p. 42.)
Assinale a alternativa que corresponde ao critério de avaliação 
das teorias científicas empregadas por Popper.
a) Falseabilidade.
b) Organicidade.
c) Confiabilidade.
d) Dialeticidade.
e) Diferenciabilidade.
5. Consideremos o campo da epistemologia contemporânea; 
sob esse aspecto, podemos afirmar que a posição de Thomas 
Kuhn (1922-1996), em relação à ciência, se contrapôs à 
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concepção científica de Karl Popper (1902-1994)? Assinale a 
alternativa correta. 
a) Sim, Kuhn se contrapôs à teoria de Popper ao negar que o 
desenvolvimento da ciência se dê mediante o ideal de refutação. 
Ao contrário, Kuhn afirma que a ciência progride pela tradição 
intelectual representada pelo paradigma, que é a visão de mundo 
expressa numa teoria.
b) Não, Kuhn absorve a teoria da refutabilidade de Popper ao 
desenvolver sua concepção de paradigma científico. Para ambos, 
o que garante a verdade de um discurso científico é sua condição 
de justificação, ou seja, quando uma teoria é justificada ela é 
corroborada. 
c) Não, Kuhn argumentou que uma teoria, como paradigma, deve 
ser desenvolvida em vez de criticada, motivo pelo qual ele não 
poderia opor-se ao pensamento de Popper. Sua tentativa será outra: 
tentar harmonizar aqueles pontos de vista que divergem do seu. 
d) Sim, Kuhn cedo abandonou o empirismo, classificando-se 
como anarquista epistemológico. Dessa forma, opôs-se não 
apenas à concepção metodológica de Popper como também 
de outros contemporâneos seus, como Lakatos, por exemplo. 
Diferentemente de Popper, Kuhn anuncia que as teorias não são 
nem verdadeiras, nem falsas, mas úteis. 
e) Sim, diferentemente de Popper, para quem a física newtoniana 
era considerada a imagem verdadeira do mundo, tendo como 
pressupostos o mecanicismo e o determinismo, Kuhn estabelece 
como paradigma de sua concepção de ciência o irracionalismo de 
Heisenberg e seu princípio da incerteza.
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