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U N O PA R TEO RIA D O CO N H EC IM EN TO Teoria do Conhecimento José Adir Lins Machado Sergio de Goes Barboza Maria Eliza Corrêa Pacheco Teoria do Conhecimento Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Machado, José Adir Lins ISBN 978-85-8482-168-6 1. Teoria do conhecimento. I. Barboza, Sergio de Goes. II. Pacheco, Maria Eliza Correa. III. Título CDD 121 M149t Teoria do conhecimento / José Adir Lins Machado, Sergio de Goes Barboza, Maria Eliza Correa Pacheco. – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S. A., 2015. 192 p. : il. © 2015 por Editora e Distribuidora Educacional S.A Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Presidente: Rodrigo Galindo Vice-Presidente Acadêmico de Graduação: Rui Fava Diretor de Produção e Disponibilização de Material Didático: Mario Jungbeck Gerente de Produção: Emanuel Santana Gerente de Revisão: Cristiane Lisandra Danna Gerente de Disponibilização: Nilton R. dos Santos Machado Editoração e Diagramação: eGTB Editora 2015 Editora e Distribuidora Educacional S. A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041 -100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Unidade 1 | Noções gerais acerca do conhecimento Seção 1 - Noções Elementares e Tipos de Conhecimento 1.1 | Compreensão de conhecimento Seção 2 - Conhecimento em Platão 2.1 | Platão e o conhecimento Seção 3 - Conhecimento em Aristóteles 3.1 | Aristóteles Seção 4 - Conhecimento Medieval e Renascentista 4.1 | Conhecimento medieval e renascentista Unidade 3 | A contemporaneidade e o neopositivismo Seção 1 - Contemporaneidade 1.1 | Os caminhos para os acontecimentos contemporâneos Seção 2 - Metafísica 2.1 | Filosofia primeira ou teologia Seção 3 - O Positivismo 3.1 | O Positivismo Unidade 2 | Principais desdobramentos da epistemologia moderna Seção 1 - O ceticismo moderno 1.1 | O abalo cético 1.2 | Ceticismo antigo Seção 2 - Descartes e o racionalismo 2.1 | O código cartesiano Seção 3 - O empirismo e a ciência moderna 3.1 | A modernidade e a guinada científica 3.2 | Francis Bacon: saber é poder 3.3 | John Locke: nascemos tábula rasa 3.4 | Hume – cético e empirista Seção 4 - O criticismo kantiano 4.1 | Kant e a revolução copernicana Sumário 7 11 11 19 19 27 27 35 35 57 61 61 62 69 69 83 83 85 88 91 97 97 109 113 113 121 121 125 125 3.2 | A metafísica do Positivismo de Comte Seção 4 - Neopositivismo 4.1 | Neopositivismo 4.2 | A metafísica para os neopositivistas 4.3 | Atomismo lógico 4.4 | Rudolf Carnap 4.5 | As teorias de Karl Popper e a crítica ao positivismo lógico Unidade 4 | As contribuições dos grandes pensadores Seção 1 - René Descartes e o problema da evidência clara e distinta 1.1 | Introdução Seção 2 - Karl Popper e Thomas Kuhn: a falseabilidade e a ciência normal 2.1 | Introdução Seção 3 - A virada linguística em Ludwig Wittgenstein 3.1 | Introdução 3.2 | A virada linguística em Ludwig Wittgenstein Seção 4 - A virada histórica em Michel Foucault 4.1 | Introdução 149 153 153 161 161 169 169 170 177 177 126 129 129 132 136 138 139 Apresentação Estudaremos, no transcorrer do nosso curso, alguns temas importantes relacionados à Teoria do Conhecimento e as contribuições de grandes pensadores que proporcionarão a você uma visão panorâmica dos diversos campos em que se desdobra a conduta do ser humano. Assim, na primeira unidade, o que se apresenta é a compreensão do conhecimento e suas diversas modalidades. Na segunda Unidade perpassaremos pelas questões epistemológicas deparando-nos com o desenvolvimento da antiga teoria do conhecimento, investigando os limites, as possibilidades, as origens e os tipos de conhecimentos, cujo objeto essencial a ser estudado será a ciência. As contribuições dos grandes pensadores da História nos faz ter uma nova forma de ver o mundo, portanto, a análise desta forma dialética do desenvolvimento do homem em sociedade é importante para uma visão ampla da nossa essência intelectual. Refletir as mudanças ocorridas, as contribuições das ciências e de todas as dimensões que permeiam as ações humanas nos faz existir enquanto criadores da história, tanto como ser coletivo, quanto ser individual. Neste contexto, contemplando a interdisciplinaridade, estudaremos na terceira unidade a ação evolutiva do homem em seu momento atual. Neste sentido, você vai ser levado a compreender os fatores históricos que contribuíram para os acontecimentos contemporâneos. Nesta mesma perspectiva se pretende refletir sobre a carência de pensadores como os iluministas do Século XVI ao Século XVIII. Ou seja, a busca por uma racionalidade para a boa convivência do corpo social. Nesta leitura perpassaremos pelos estudos positivistas e neopositivistas, buscando compreender seus pensadores. Na unidade quatro veremos os instrumentos incontornáveis para a sustentação da ciência moderna perpassando pelo pensamento cartesiano e positivista. Diante deste contexto, o que pretendemos é sensibilizar o leitor para uma forma de raciocínio lógico quanto à realidade com uma linguagem clara e simplificada para a compreensão adequada com relação aos objetivos propostos. Nestes aspectos contemplaremos as análises sociológicas, que os autores deste livro alvitram, numa condição não somente para o conhecimento, mas para a sua aplicabilidade na vida pessoal e profissional. Desejamos um excelente estudo aos nossos estudantes e leitores. Prof. Sergio de Goes Barboza Unidade 1 NOÇÕES GERAIS ACERCA DO CONHECIMENTO Pretendemos expor o que se compreende por conhecimento e as suas diversas modalidades, bem como o valor pertinente a cada tipo de conhecimento; diferenciando conhecimento teórico e prático e apresentando a compreensão mítica, passando para a elaboração da filosofia nascente e resgatando os pressupostos básicos à visão de mundo do homem grego antigo. Explanaremos as principais contribuições platônicas para a resolução do embate suscitado por Heráclito e Parmênides acerca da possibilidade ou não de conhecimento, principalmente ao que se refere à questão do ser e do devir; e o dualismo platônico com forte ênfase ao mundo inteligível, eterno, imutável e verdadeiro; valendo-se de modo significativo da compreensão epistemológica presente no Mito da Caverna, entre outros. Seção 1 | Noções Elementares e Tipos de Conhecimento Seção 2 | Conhecimento em Platão Objetivos de aprendizagem: Possibilitar aos estudantes refletirem criticamente sobre a questão do conhecimento, compreendendo a sua natureza e alcance, a sua gênese e os seus desdobramentos, bem como suas diversas modalidades. Inteirar-se da contribuição dos gregos antigos (Heráclito, Parmênides, Platão e Aristóteles) acerca das possibilidades do conhecimento verdadeiro da realidade e das principais contribuições dos filósofos medievais e renascentistas, principalmente da contribuição de Galileu Galilei na construção da ciência moderna. José Adir Lins Machado Noções gerais acerca do conhecimento U1 8 Apresentaremos a teoria aristotélica e unicista de conhecimento, a qual enfatiza o mundo concreto – divergindo do dualismo platônico – e explica o movimento recorrendo à questão do ato e potência e das quatro causas; além de explanar as modalidades de conhecimento (teorética, prática e produtiva), com ênfase a um empirismo germinal. Abordaremos a visão de conhecimento medieval fortemente marcada pelo cristianismo, pela visão bíblica e pela intolerância com visões de mundo divergentes; os primeiros questionamentos dos humanistas, com forte tendência antropocêntrica, indo até o renascimentoe a definitiva separação dos campos do conhecimento proporcionada pela contribuição galilaica. Seção 3 | Conhecimento em Aristóteles Seção 4 | Conhecimento Medieval e Renascentista Noções gerais acerca do conhecimento U1 9 Introdução à unidade Por vezes pode parecer que a filosofia seja uma disciplina estranha (e talvez realmente seja), pois indaga o óbvio, o comum. A filosofia questiona aquilo que parece natural, por exemplo, porque de uma semente de limão nunca nasce uma laranjeira? Você pode rir e achar tola a indagação, mas então explique o porquê. Existe uma resposta? Possivelmente sim, e os estudiosos da área se esforçarão em no-la apresentar. Quando os estudiosos correram atrás dessa resposta, eles estavam fazendo filosofia, pois estavam buscando o porquê. Questionar o óbvio implica deixar de lado tudo o que foi aprendido até então e tentar ver as coisas de um jeito novo, como se fosse a primeira vez que você vê aquilo que você sempre viu. Só assim conseguimos filosofar, pois o que temos em nossas mentes, na grande maioria das vezes, são informações, conhecimentos herdados ou adquiridos e não conhecimentos alcançados, conquistados. Partindo dessa compreensão, podemos nos perguntar: o que é o conhecimento? Nós conhecemos muitas coisas, ou achamos que conhecemos; mas o que, necessariamente, é conhecer? Existem diferentes tipos de conhecimento? Normalmente os filósofos entendem que conhecimento é um modo, uma maneira de compreender o mundo e explicá-lo atribuindo-lhe significado. Não nos referimos aos conhecimentos particulares, subjetivos; dos tipos: eu conheço tal pessoa, eu conheço tal cidade, por exemplo. Mas do conhecimento do mundo, da vida, da realidade como um todo, tal qual esse todo é. Entende-se que o propósito do conhecimento é conhecer a verdade e, novamente, poderíamos nos indagar: o que é a verdade? Muitos filósofos comungam da ideia de que a verdade é a plena adequação do mundo fora da nossa mente, com a representação ou ideia que dele temos em nossa mente. Essa é a chamada teoria correspondencialista da verdade. Aristóteles (384-322 a.C.) se referia a ela do seguinte modo: “dizer o que é do que é e o que não é do que não é, é verdade; dizer o que é do que não é e o que não é do que é, é falsidade”. Seria possível conhecer o mundo do jeito que ele é, ou só podemos conhecer a representação dele que os nossos sentidos nos permitem obter? Dito de outro modo: Noções gerais acerca do conhecimento U1 10 temos certeza de que todos nós vemos as coisas do jeito que elas são? Enxergamos as mesmas cores? Ouvimos os mesmos sons? E o som que nós ouvimos é o som que é emitido ou é apenas o som que o nosso ouvido consegue captar? Sentimos os mesmos gostos ou cada pessoa tem um paladar diferente? Se não sentimos os mesmos gostos, o gosto está nas coisas ou é atribuído às coisas por nossos órgãos sensoriais? Talvez nunca tenhamos respostas para essas perguntas. Noções gerais acerca do conhecimento U1 11 Seção 1 Noções elementares e tipos de conhecimento Nesta sessão, você terá oportunidade de conhecer os elementos bases da compreensão de conhecimento, desde a sua etimologia e tipos de conhecimento, até os diferentes modos de aplicação do mesmo, bem como a questão de valor do conhecimento em si ou em função da sua aplicabilidade. 1.1 Compreensão de conhecimento O vocábulo “conhecimento” em grego se diz gnose (γνώση) e em latim se diz cognitio; e ambos nos remetem à ideia de noção, ter noção, estar ciente, ter ciência. O temo “aprender” em língua latina é cognoscebre, muito próximo, como se vê, do nosso verbo conhecer. Isso pode nos indicar que conhecimento é uma técnica para aprender, ou apreender, a realidade. Nesse sentido, também temos a descrição de conhecimento, segundo o dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, que nos diz que conhecimento é: Em geral, uma técnica para a verificação de um objeto qualquer, ou a disponibilidade ou posse de uma técnica semelhante. Por técnica de verificação deve-se entender qualquer procedimento que possibilite a descrição, o cálculo ou a previsão controlável de um objeto; e por objeto deve-se entender qualquer entidade, fato, coisa, realidade ou Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/90/Espelho_dos_Jer%C3%B3nimos. jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.1 | Teoria correspondencialista: pensamento e realidade como reflexo um do outro Noções gerais acerca do conhecimento U1 12 propriedade. Técnica, nesse sentido, é o uso normal de um órgão do sentido tanto quanto a operação com instrumentos complicados de cálculo: ambos os procedimentos permitem verificações controláveis. (ABBAGNANO, 2003, p. 174). Creio ter ficado claro que conhecimento tem a ver com o modo como apreendemos a realidade que nos circunda. Em geral, essa apreensão se dá pelos sentidos, os quais nos oferecem a matéria-prima para que o intelecto organize as impressões que temos do mundo. O problema paira sobre a possibilidade de os nossos sentidos serem fiéis nessa apreensão e do nosso intelecto organizar corretamente o material apreendido. É aqui que se distinguem o lúcido e o louco. E, por que não dizer, os homens dos animais, pois os animais têm os sentidos, e alguns muito melhores que os nossos, mas, a princípio, não organizam a experiência coletada. Daí se entende que para um conhecimento poder ser considerado verdadeiro ele tem de passar pelo crivo da razão e, tanto quanto possível, ser demonstrado a sua veracidade de modo concreto, observável. Por isso, nos dias atuais, a ciência é considerada como uma das melhores formas de conhecimento em detrimento das demais modalidades. Contudo, é sempre bom ter presente que todas as formas de conhecimento são válidas e que não existe um conhecimento superior ao outro, embora existam conhecimentos que predominem mais em determinadas épocas e menos em outras. Também é pertinente distinguirmos as concepções de conhecimento, inteligência e sabedoria, pois não raro as pessoas creem que as três são sinônimas. Ter, ou reter, muito conhecimento, ou muitas informações (salientamos que nem toda informação é conhecimento; só é conhecimento a informação que nós incorporamos, que nos apossamos dela), enfim, ser culto, está ligado à capacidade de armazenamento do cérebro. Têm pessoas de boa memória que retêm muitos e variados conhecimentos. Inteligência é uma capacidade, talvez natural, de compreender de modo correto e rápido a informação que nos é apresentada. Uma pessoa pode ter as duas, boa memória e inteligência, ou Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/ wikipedia/commons/0/09/Intelig%C3%AAncia_Coletiva. jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.2 | Conhecimento, inteligência e sabedoria são distintos Noções gerais acerca do conhecimento U1 13 uma apenas, ou nenhuma. Sabedoria é saber aplicar os conhecimentos obtidos, é saber viver, saber organizar a vida, saber conduzir-se na vida tratando bem as pessoas e a natureza toda. Uma pessoa pode ser sábia sem ser inteligente e sem ter boa memória, pois as três são independentes. Entende-se que existem cinco tipos de conhecimento, sendo quatro deles teóricos ou abstratos e um prático ou concreto. Os quatro teóricos são: o senso comum, o mitológico-religioso, o filosófico e o científico. E o prático é a técnica. O senso comum é espontâneo, natural, subjetivo. É o conhecimento imediato que temos mesmo sem nenhum tipo de estudo; por vezes, se diz que é a nossa opinião. Os gregos chamavam-no de doxa ( ). O senso comum, ao partir em busca de explicações para a realidade, acabou por originar o conhecimento mitológico. A palavra mito, mytheo ( ) em grego, significa narrativa, discurso; porém trata-se de uma narrativa fantasiosa; logo também significa narrativa, mas é uma narrativa mais plausível. Há quem defenda que o mito e a religião têm a mesma natureza (fantasiosa) e a partir disso dizem que se tratade um conhecimento mitológico-religioso ou mítico-teológico. Há, porém, quem defenda que do conhecimento mítico se originou de dois outros tipos de conhecimento, o religioso e o filosófico. O conhecimento filosófico teria sido o início do conhecimento racional e teria se originado no século VI a. C. nas colônias gregas, mais especificamente em Mileto, cidade situada no território que atualmente pertence à Turquia, mas que naquela época compunha a Magna Grécia e se chamava Jônia. Os primeiros filósofos são chamados de pré-socráticos e o primeiro deles é Tales de Mileto (625-558 a.C.). A preocupação deles era descobrir qual foi o elemento natural, físico, portanto, que originou tudo o que existe. Esse primeiro elemento, ou elemento primordial, em grego se diz arquê. Os pressupostos para melhor compreendermos as bases do conhecimento grego são: 1. Tudo se relaciona ao arquê (primeiro princípio). 2. A matéria (natureza, physis) é eterna, não houve o momento da criação. 3. O tempo é circular e cíclico. 4. Desaparecem os elementos míticos. 5. Há uma ordem (cosmos) no mundo, regida pelo logos (razão). 6. A composição do cosmos é unicamente de elementos naturais. 7. O homem é um microcosmo também regido pelo logos. Noções gerais acerca do conhecimento U1 14 Os gregos não acreditavam em criação do mundo, para eles o mundo sempre existiu, não foi criado. A matéria é eterna e, de tempos em tempos, tudo se repete. Teoria essa conhecida como eterno retorno. Você pode achar uma ideia estranha, mas hoje em dia há cientistas que defendem que o universo já passou por diversos big-bangs e que o universo se expande e se contrai (big crunch) e explode de novo, ou seja, eterno retorno. Na antiguidade filosofia era a totalidade do saber, mas a partir de certo momento as áreas específicas do conhecimento vão ganhando vida própria, vão se separando da filosofia. Possivelmente a primeira delas tenha sido a geografia, com Eratóstenes de Cirene (276-194 a.C.), bibliotecário da biblioteca de Alexandria, considerado o primeiro homem que mediu a circunferência do planeta. A emancipação das áreas do saber vai formando a ciência, em grego episteme, um modo ainda mais racional, verificável, constatável e convincente de explicar o mundo. Muito embora até hoje a ciência ainda não tenha conseguido atingir o seu intento, ela se coloca como uma das formas mais críveis de conhecimento, por demonstrar aquilo que afirma. Por fim, existe o conhecimento prático, a técnica, em grego técne, ; palavra que foi traduzida por “arte”, pois se trata de uma modalidade de conhecimento que tem a ver com saber fazer, saber produzir. Arte aqui tem o sentido mais de artesanato do que propriamente belas artes. Hoje em dia é muito comum vincularmos a técnica com a tecnologia, mas certamente nem sempre foi assim, pois a tecnologia é bem recente. A técnica, ou arte, é um modo de conhecimento através da sensibilidade. O educador brasileiro Paulo Freire constrói uma bela analogia para ilustrar o valor dos diversos tipos de conhecimento. É comum avaliarmos as modalidades de conhecimento comparando umas com as outras e, desse modo, julgarmos algumas mais valiosas. Para demonstrar que não existe um conhecimento mais importante que os outros, mas conhecimentos diferentes, vamos nos valer de uma anedota que Paulo Freire utilizava com esse intento. Conta-se que um homem vivia com o seu barquinho a fazer travessias de pessoas de um lado ao outro em um rio. Em um determinado dia subiram no seu barco uma professora, um advogado e um médico. Iniciada a travessia, quebrando o incômodo silêncio, a professora perguntou ao barqueiro se ele sabia ler. Diante da resposta negativa, a professora concluiu: é uma pena o senhor não saber ler, pois perdeu grande parte da sua vida por isso. O advogado aproveitou e perguntou se ele conhecia leis e sabia dos seus direitos, ao que o barqueiro respondeu também de forma negativa. Tal qual a professora, também o advogado sustentou que a falta de conhecimento das leis lhe ocasionou a perda de grande parte da sua vida. Por fim o médico quis saber como ele cuidava da saúde e percebendo que os cuidados Noções gerais acerca do conhecimento U1 15 eram mínimos acabou por concordar com os seus companheiros. O barqueiro quieto continuou o seu trabalho. No meio do rio o barco começou a ter problemas e na iminência de afundar o barqueiro teve de interpelar todos os tripulantes se acaso eles sabiam nadar ou não. Diante da negativa dos três, o barqueiro concluiu, é uma pena vocês acabam de perder a vida toda de vocês. Nas próximas páginas buscaremos fazer um resgate da construção do conhecimento ao longo da história da humanidade, desde a Grécia antiga até o começo da modernidade ou, mais especificamente, até o final do renascimento. Para tanto, nos valeremos muito aproximativamente do nosso texto citado nas referências, de Machado (no prelo 2015), principalmente de Heráclito a Aristóteles. Heráclito de Éfeso (540-470 a. C.) e a origem do problema Ainda quando aos primeiros filósofos, os pré-socráticos, buscavam entender a ordem (cosmos, em grego) e encontrar o arquê (ώώώώ houve um filósofo que questionou a possibilidade do conhecimento. Segundo este filósofo, não seria possível conhecer nada de modo tão seguro como se supunha até então, pois o mundo está em constante transformação e essa transformação ocorre em função da luta dos contrários: o dia sucede à noite e vice-versa, o frio ao calor, o seco ao úmido etc. Segundo este filósofo, o homem poderia conhecer apenas a mudança, o devir (vir a ser), e jamais o ser, a essência das coisas. Estamos nos referindo ao filósofo pré- socrático Heráclito de Éfeso, para quem o mundo era como um fogo que é sempre o mesmo e sempre outro, sempre diferente, a chama balança, aumenta, diminui, se esvai, é outra a cada segundo, mas enquanto durar, será o mesmo fogo. Entendia Heráclito que o conhecimento estava na mente, na capacidade de abstrair para além daquilo que é observado. Na capacidade que a mente tem de concatenar os acontecimentos isolados e atribuir-lhes significação como partes de um todo. Para ele: Se um avião estivesse retornando dos Estados Unidos trazendo entre os passageiros um pós-doutor em física quântica e um índio analfabeto que retorna de um congresso e o avião caísse na selva amazônica, o conhecimento mais útil para a sobrevivência nesse momento e nesse local seria o do pós-doutor ou do índio analfabeto? Com base nisso, é possível afirmar que existem conhecimentos mais importantes do que outros? Noções gerais acerca do conhecimento U1 16 a divergência e a contradição não só produzem a unidade do mundo, mas também a sua transformação. O mundo é um eterno fluir, como um rio; e é impossível banhar-se duas vezes na mesma água. Fluxo contínuo de mudanças, o mundo é como um fogo eterno, sempre vivo, e ‘nenhum deus, nenhum homem o fez’. Mas só se compreende isso quando, ao deixar de lado a ‘falsa sabedoria’ ditada pelos sentidos e pelas opiniões, chega-se ao logos, isto é, ao pensamento sensato. É o raciocínio adequado que abre as portas para o entendimento do princípio de todas as coisas. ‘Não de mim, mas do logos tendo ouvido é sábio homologar tudo é um’, diz um de seus aforismos. (ABRÃO, 1999, p. 31). Em virtude deste modo de pensar, Heráclito é considerado um dos pais da dialética (embate de visões opostas), postura que terá influência sobre o pensamento de Platão (428-347 a.C.). Platão foi discípulo de Crátilo (século V a. C.) o qual fora discípulo de Heráclito. Alguns filósofos radicalizaram ainda mais o pensamento de Heráclito e passaram a duvidar da possibilidade de se conhecer as coisas. Além de Crátilo, para quem o homem não entraria nem uma única vez em um rio, pois as águas estavam em constante renovação, destacam-se também os céticos Górgias de Leontini (480-371 a.C.) – filósofo sofista que dizia que “o ser não existe; se existisse não poderíamos conhecê-lo;e se pudéssemos conhecê-lo não poderíamos comunicá-lo aos outros” – e também Pirro de Élis (360-270 a. C.), para o qual o homem não pode conhecer nada de modo seguro e jamais alcançará a certeza sobre as coisas (COTRIM, 2008, p. 58). Conta-se que no auge do seu ceticismo Pirro parou, inclusive, de falar e se contentava apenas em mexer a mão ou a cabeça. “Muitas vezes, na Metafísica, Aristóteles repisa o conceito de que quem nega o princípio supremo do ser, para ser coerente com essa negação, deveria calar e não expressar absolutamente nada. E tal é precisamente a conclusão a que Pirro chega, proclamando a ‘afasia’” (REALE, 1990, p. 270). Afasia é abster-se conscientemente de qualquer juízo, ou seja, tentar não pensar. Apesar da insistência de muitos filósofos na impossibilidade de o ser humano atingir um conhecimento Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/ Fire?uselang=pt-br#mediaviewer/File:Stort_b%C3%A5l_ sankthans.jpg>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.3 | O mundo é como um fogo ou como um rio, sempre o mesmo e sempre outro Noções gerais acerca do conhecimento U1 17 inabalável da realidade, houve um filósofo que defendeu uma tese totalmente contrária e sustentou que a mudança que percebemos no mundo é ilusória, pois as coisas mudam só aparentemente, mantendo aquilo que lhes é essencial: um núcleo invariável que lhes confere identidade. Esta imutabilidade, contudo, não seria captada pelos sentidos, apenas pela razão. O principal defensor desta teoria foi Parmênides de Eléia (cerca de 530- 460 a. C.), o qual sustentava que o nada não gera coisa alguma (do nada, nada provém) e que a existência das coisas deve ter sido a partir de algo que sempre existiu e sempre existirá, este algo é o ser. O ser existe e todas as coisas foram geradas a partir dele. Daí a sua famosa afirmação “o ser é e o não ser não é”. Defendia que o Universo é uno e imutável, imperecível, ilimitado e indivisível e que a mudança é ilusão dos sentidos, por trás da mudança há uma realidade imutável. Se aos olhos comuns esse conflito entre ser e devir parece banal, aos olhos críticos (ou filosóficos) ela é muito profunda, pois tem a ver com o sentido último da realidade e também com a possibilidade ou não do conhecimento verdadeiro, ou seja, da ciência. Note que toda pessoa idosa um dia foi um bebê e que ela permanece sendo a mesma pessoa, embora o seu corpo não tenha mais nenhuma célula que tinha algum tempo atrás. Este exemplo ilustra a questão do ser e do devir: houve mudança, mas o ser (a essência) permaneceu. Tente encontrar uma resposta para isto e você perceberá que ela é bastante complexa. Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/ wikipedia/commons/7/7f/Mignard-Andromeda_and_Perseus. jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.4 | A nossa mente não consegue pensar algo que não existe, consegue no máximo juntar coisas existentes separadamente. Exemplo: Pegasus 1. Sobre Heráclito acesse o link disponível em: <http://www. mundodosfilosofos.com.br/heraclito.htm>. 2. Sobre o ceticismo pirrônico acesse o link disponível em: <http:// www.recantodasletras.com.br/ensaios/2233233>. Noções gerais acerca do conhecimento U1 18 1. Aranha e Martins definem o senso comum como o “primeiro olhar sobre o mundo, ainda não crítico, a partir do qual as pessoas participam de uma comunhão de ideias e realizam as expectativas de comportamento dos grupos sociais a que pertencem”. (ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Temas de filosofia. 3. ed. rev. São Paulo: Moderna, 2005, p. 144). Sobre o senso comum, assinale o que for correto. a) O senso comum é um conjunto de ideias cuja finalidade é a crítica ao saber estabelecido. b) O senso comum é um conjunto de ideias e práticas cegas e incompatíveis com a verdade. c) Todos os homens, intelectuais e analfabetos, participam do senso comum. d) O senso comum confunde-se com as ideologias de uma classe ou de um grupo social. 2. “Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia / Tudo passa / Tudo sempre passará / [...] Tudo que se vê não é / Igual ao que a gente / Viu há um segundo / Tudo muda o tempo todo / No mundo” (Trecho da música Como uma onda, de Lulu Santos e Nelson Motta). A letra dessa canção lembra as ideias do filósofo grego Heráclito, que viveu no século VI a.C. e que usava uma linguagem poética para exprimir seu pensamento e o qual acreditava que, no mundo, tudo muda o tempo todo e nada permanece, tudo é um perpétuo fluir. Dentre as sentenças de Heráclito a seguir citadas, marque aquela da qual o sentido da canção de Lulu Santos mais se aproxima. a) Morte é tudo que vemos despertos, e tudo que vemos dormindo é sono. b) O homem tolo gosta de se empolgar a cada palavra. c) Ao se entrar num mesmo rio, as águas que fluem são outras. d) Muita instrução não ensina a ter inteligência. Noções gerais acerca do conhecimento U1 19 Seção 2 Conhecimento em Platão Nesta sessão, você terá oportunidade de ter contato com a compreensão de mundo, de homem e de ciência legada por Platão para a formação da cultura ocidental, bem como a influência dessa visão para a formação da nossa cultura e o vínculo que essa visão estabeleceu com a questão da religiosidade, entre outros. 2.1 Platão e o conhecimento É bastante comum ouvirmos falar da briga, do confronto ou conflito entre Heráclito e Parmênides. Portanto, é bom que se diga que é quase certo que eles nunca se conheceram e que, possivelmente, nunca discutiram suas ideias. A referência que aqui se faz do embate ente ambos é uma referência a um embate figurativo, é apenas força de expressão. Platão, cujo verdadeiro nome era Arístocles, foi um dos primeiros filósofos a buscar uma solução para o impasse suscitado pelas ideias de Heráclito e Parmênides, ou, mais especificamente, entre o ser e o devir. Para Platão, Heráclito tem razão quando diz que tudo muda, que nada permanece; e Parmênides também tem razão ao dizer que o ser não muda, que o ser é e não pode não ser e que a mudança é ilusão. Mas como é possível ambos estarem corretos? É possível porque, embora não consigamos perceber com muita clareza, não existe apenas um mundo, como normalmente supomos, mas dois mundos: o mundo sensível ou material (trata-se do mundo concreto percebido pelos nossos sentidos e onde as coisas mudam) e o mundo inteligível ou das ideias (trata-se do nosso pensamento, da nossa abstração e onde as coisas [leia-se conceitos] não mudam). O mundo das ideias é o mundo dos conceitos, das essências, as quais, uma vez compreendidas permanecem para sempre, são imutáveis. Se você sabe, se você tem ideia do que seja uma árvore, não importa se ela é pequena e nova ou se já é uma árvore enorme e quase morrendo, você irá entender quando alguém expressar a ideia de árvore. Devemos prescindir dos acidentes (detalhes), ou seja, das qualidades não essenciais da árvore (alta/baixa, grossa/fina, nova/velha, feia/bonita etc.) e reterá Noções gerais acerca do conhecimento U1 20 apenas o conceito de árvore, aquilo que constitui a sua essência (a “arvoridade”), sua razão de ser. O mesmo acontece quando falamos em cavalo, casa, homem etc. Os cavalos, casas e homens mudam, mas os conceitos que deles temos permanecem e nos possibilitam entender o que seja cada uma destas coisas as quais nos referimos. Tudo tem a sua essência: algo que é universal e vale para todos os objetos daquele tipo e nos permite a compreensão apesar da diferença nos detalhes (acidentes). Quando falo homem, todos entendem apesar de não haver dois homens iguais e apesar de cada um, poder pensar em um homem diferente. Por quê? Porque em termos de conhecimento, em termos de compreensão, o que importa é a ideia, o conceito de homem. É evidente que se me refiro a um homem em particular, então preciso caracterizá-lo ou identificá-lo para que o eu possa ser compreendido. Há, contudo, ideias que não têm representação no mundo material, ou seja, não existemfisicamente, não são palpáveis; elas existem somente no nosso pensamento, só existem enquanto ideias. Assim, Platão sustenta que o mundo inteligível é superior ao mundo sensível. É o mundo inteligível que nos permite conhecer (compreender) o mundo sensível. Mas como se forma o mundo inteligível? Ou, de onde vêm nossas ideias? Segundo Platão, nós já nascemos com elas. Temos, portanto, ideias inatas. Mas então um recém-nascido já tem ideias em seu cérebro? Para Platão sim; porém ele as esqueceu e na medida em que vai vivendo e presenciando o mundo à sua volta, irá relembrando das ideias que um dia conheceu ou contemplou no hiperurânio. Platão termina a sua obra A República, narrando o Mito de Er, e através deste mito busca explicar como a alma adquire conhecimento, como o esquece e como o recobra. Er é o nome de um soldado que tendo morrido em combate foi recolhido dez dias depois em bom estado de conservação, quando iam lhe dar sepultura ele ressuscitou e narrou o que havia visto. Ele havia sido escolhido para narrar aos homens o que acontecia no hiperurânio. Lá a alma contemplava as ideias puras, as formas perfeitas; mas quando alguém estava para nascer, o Demiurgo (o deus que plasma a humanidade) se encarregava de juntar a alma ao corpo, antes, porém, a alma passava pela planície do Lethes (esquecimento, em grego) e tomava a água do rio Ameles e assim que a alma bebia desta água perdia a memória de tudo, esquecia tudo o que havia contemplado (Er foi dispensado de beber desta água para que pudesse se Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/nYIjst>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.5 | Para Platão conhecer é reconhecer, recordar Noções gerais acerca do conhecimento U1 21 lembrar do que havia visto). E quando a alma se juntava ao corpo e a criança nascia, nascia sem lembrar-se de nada, por isto, para Platão conhecer é recordar, é reminiscência (despertar ideias remanescentes). Também se diz anamnese (em grego “ana” signfica trazer de novo; e “mnesis” é memória), algo como uma frágil recordação, uma tênue lembrança sem muita certeza e segurança. Platão seria, portanto, o primeiro racionalista (pessoa que sustenta que a verdade se encontra na razão, no logos, e é inata). Para os racionalistas não importa tanto o que é apreendido pelos sentidos, o importante é o que é processado pela razão, pois é nela que se encontra a fonte da verdade, da sabedoria e da ciência. O mito da caverna Outro mito narrado por Platão é o Mito da Caverna, com ensinamentos relevantes tanto para a teoria do conhecimento quanto para a política e até mesmo para a ética. Possivelmente este seja o ensinamento platônico mais conhecido e divulgado. Ele fala de pessoas que se encontram no fundo de uma caverna desde o seu nascimento, com os pés e o pescoço acorrentados de modo a enxergar apenas o paredão dos fundos (se fosse hoje talvez Platão falasse de uma sala de cinema). Próximo da entrada da caverna há transeuntes carregando objetos, os quais são refletidos na parede e tomados pelos prisioneiros como sendo reais. O eco das vozes externas dá a impressão de que as sombras falam. E para se entreter os prisioneiros tentam advinhar a sequência da passagem dos objetos. Vivem assim até que um prisioneiro se liberta e se volta para a entrada da caverna e começa a escalar a difícil subida até a sua saída (o conhecimento é uma escalada difícil, pois temos de abandonar velhas e arraigadas convicções). À medida que se aproxima da claridade (a luz é a metáfora da sabedoria; luz em grego é phós [ e phós compõe a palavra sophós [ a qual significa sábio) seus ollhos doem. Então, ele protege os olhos com a mão e olha para baixo onde vê objetos refletidos na água. À noite ele consegue contemplar o céu com a lua e as estrelas. E quando o dia vai amanhecendo, a sua vista vai se acostumando com a claridade e, então, ele passa a contemplar os verdadeiros objetos e não mais as sombras ou reflexos. Por fim contempla o sol, emblema do bem, do belo e do verdadeiro. Lembrando-se dos demais prisioneiros, ele retorna à caverna para resgatá-los, mas os prisioneiros que lá ficaram estão numa posição cômoda e não querem deixar a caverna. Na interpretação deles, o prisioneiro libertado não tem mais a mesma acuidade visual para distinguir os objetos ou advinhar a sua sequência. Com base nisso julgam que a saída fez mal ao prisioneiro e, diante da insistência dele, para que os Noções gerais acerca do conhecimento U1 22 demais deixem a caverna, os prisioneiros se revoltam e acabam por assassinar o prisineiro que retornou. Este mito traz muitos outros elementos importantes e seria interessante lê-lo na íntegra. Entendendo o mito A caverna representa o mundo material e sensível em que nós vivemos e as sombras dos objetos, as coisas materiais que percebemos pelos sentidos. O prisioneiro que se liberta da caverna, para Platão é o filósofo, o estudioso; o mundo fora da caverna representa o mundo das ideias verdadeiras ou da verdadeira realidade; a luz exterior do sol é a luz da verdade. O instrumento que liberta o filósofo é a dialética e a visão do mundo real iluminado é a Filosofia. Os prisioneiros zombam, espancam e matam o filósofo por entender que o mundo sensível é o verdadeiro, único e real. Podemos perceber nesse mito diferentes níveis de conhecimento: 1. Contemplar as sombras é o senso comum, a opinião, adoxa (a doxa prevalece no mundo sensível). 2. Contemplar os objetos à luz da fogueira, segundo Platão, são as crenças, pisti em grego. 3. Contemplar as coisas reais (leia-se “ideais”) refletidas na água, no entender de Platão é a ciência, a episteme (a episteme prevalece no mundo inteligível). 4. A decisão de sair da caverna corresponde ao senso crítico, a busca do conhecimento, o amor ao saber, que em grego se diz filosofia. Mais do que isso, a filosofia é o arremate final de tudo o que aconteceu e está acontecendo; é clara noção do que seja o mundo. Platão colocava a filosofia como último estágio do conhecimento, ou estágio mais alto, acima da ciência inclusive, porque entendia que a ciência explicava como as coisas funcionam, mas não explica o porquê do seu funcionamento. Além disso, é preciso lembrar que a ciência da época era rudimentar. Caso queira conhecer o Mito da Caverna acesse o link disponível em: <http://zeadir.blogspot.com.br/2008/10/o-mito-da-caverna.html>. Noções gerais acerca do conhecimento U1 23 Segundo Platão, o conhecimento não reside nas impressões advindas das sensações, mas no raciocínio acerca das mesmas. A única maneira para se atingir a essência e a verdade é o raciocínio, de outro modo isto é impossível, conforme afirma em Teeteto (186c), onde também apresenta a sua célebre definição de conhecimento como crença verdadeira e justificada (acompanhada de explicação racional). No Mênon (98a), Platão afirma que É por enfatizar o uso da razão que Platão pode ser considerado o primeiro dos racionalistas. O esquema idealizado por Platão seria mais ou menos o seguinte: Uma versão recente do Mito da Caverna foi veiculada pelas telas do cinema através do filme Matrix. Nesse filme há um entrelaçamento de realidade e sonho/pensamento, ou dito de outra forma, o pensamento tem o poder de criar a realidade e a realidade que se acredita viver não passa de impulsos eletromagnéticos enviados por computadores superpotentes. Fica o questionamento, será que a realidade que vivemos e cremos ser a mais genuína e perfeita, corresponde adequadamente à realidade tal qual ela é? Ou será que cada um de nós pode ver o mundo de um jeito? As opiniões que são verdadeiras [...] são uma bela coisa e produzem todos os bens. Só que não se dispõem a ficar muito tempo, fogem da alma do homem, de modo que não são de muito valor, até que alguém as encadeie por um cálculo de causa. [...] e quando são encadeadas, em primeiro lugar, tornam-se ciências, em segundo lugar, estáveis. E é por isso que a ciência é de mais valor que a opiniãocorreta, e é pelo encadeamento que a ciência difere da opinião correta. (PLATÃO, 2001, p. 102). Ao propor que o uso da razão, em vez da observação, é o único caminho para adquirir conhecimento, Platão lançou os alicerces para o racionalismo do século XVII. A influência platônica ainda sobrevive. O amplo leque de temas sobre os quais escreveu levou Alfred North Whitehead, lógico britânico do século XX, a dizer que toda a filosofia ocidental subsequente “consiste num conjunto de notas de rodapé a Platão”. (AA. VV., 2011, p. 55). Noções gerais acerca do conhecimento U1 24 Figura 1.6 | Os dois mundos platônicos FONTE: AA. VV.(2011, p. 52) 1. Segundo Platão, Parmênides havia percebido que podemos conhecer pela razão e não pelos sentidos, contudo, se fazia necessário vincular o que se conhecia via razão com o objeto material que se torna conhecido. Desse modo, a Doutrina dos Dois Mundos ia, paulatinamente, ganhando consistência em seus pensamentos. De acordo com o texto, como Platão se situa diante dessa relação sujeito cognoscente e objeto conhecido? a) Colocando uma absoluta separação entre ambos. b) Dando ênfase ao objeto e afirmando que o nosso conhecimento depende deles. c) Concordando com o pensamento de Parmênides que via razão e sensação como inseparáveis. d) Sustentando que apenas a razão consegue produzir conhecimento e não a sensação. 2. “Quando é, pois, que a alma atinge a verdade? Temos de um lado que, quando ela deseja investigar com a ajuda do corpo qualquer questão que seja, o corpo, é claro, a engana radicalmente. Dizes uma verdade. Noções gerais acerca do conhecimento U1 25 – Não é, por conseguinte, no ato de raciocinar, e não de outro modo, que a alma apreende, em parte, a realidade de um ser? – Sim. [...] - E é este então o pensamento que nos guia: durante todo o tempo em que tivermos o corpo, e nossa alma estiver misturada com essa coisa má, jamais possuiremos completamente o objeto de nossos desejos! Ora, esse objeto é, como dizíamos, a verdade.” (PLATÃO. Fédon. Trad. Jorge Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 66-67.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre a concepção de verdade em Platão, é correto afirmar: a) O conhecimento inteligível, compreendido como verdade, está contido nas ideias que a alma possui. b) A verdade reside na contemplação das sombras, refletidas pela luz exterior e projetadas no mundo sensível. c) A verdade consiste na fidelidade, e como Deus é o único verdadeiramente fiel, então a verdade reside em Deus. d) A principal tarefa da filosofia está em aproximar o máximo possível a alma do corpo para, dessa forma, obter a verdade. Noções gerais acerca do conhecimento U1 26 Noções gerais acerca do conhecimento U1 27 Seção 3 Conhecimento em Aristóteles Vamos, nesta sessão, buscar apresentar a discordância existente entre Platão e Aristóteles com relação ao modo como conhecemos o mundo e a saída apresentada pelo Estagirita à questão do movimento interno dos seres (nascer, crescer, viver e morrer), haja vista que para Aristóteles não existem dois mundos. Apesar de todo o respeito e consideração que Aristóteles nutria por seu mestre, acabou por discordar dele em alguns assuntos, sendo um deles justamente a teoria do conhecimento. Em Ética a Nicômaco (1096a15), Aristóteles afirmou “a piedade exige de nós que honremos mais a verdade que os nossos amigos”, frase que se tornou célebre como provérbio latino “Amicus Platon, sed magis amica veritas”. (HELFERICH, 2006, p. 40), que pode ser traduzido como “sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade”. Podemos considerar como emblema dessa discordância o modo como os dois 3.1 Aristóteles Aristóteles não era grego, era macedônio, nasceu na cidade de Estagira e, por isso, também ficou conhecido como O Estagirita. Embora não fosse grego, Aristóteles viveu grande parte da sua vida em Atenas. Aos 17 anos de idade iniciou os seus estudos na Academia de Platão e lá permaneceu por 20 anos até a morte do seu mestre. Por ser aluno de maior destaque da Academia acreditou que poderia se tornar o novo escolasta (nome que se dava ao diretor), mas como os gregos são bastante nacionalistas, acabaram dando a direção da escola a Espeusipo, sobrinho de Platão. Isso entristeceu muito Aristóteles e o fez ir embora de Atenas. Em 347 a. C, morrendo Platão, Aristóteles deixa Atenas e vai para Assos, na Ásia Menor, onde Hérmias, antigo escravo e ex-integrante da Academia, havia se tornado o governante. É possível que a escolha de Espeusipo, sobrinho de Platão, para substituir o mestre na direção da Academia, tenha decepcionado Aristóteles; sua destacada atuação naqueles vinte anos parecia apontá-lo como o mais apto a assumir a chefia. (ARISTÓTELES, 1987, p. 3). Noções gerais acerca do conhecimento U1 28 foram retratados no centro do quadro A Escola de Atenas, de Rafael de Sanzio (1483-1520): Platão apontando para o alto (e segurando em sua mão o livro Timeu) querendo indicar que o verdadeiro conhecimento se encontra no mundo das ideias e Aristóteles apontando para baixo (segurando em sua mão uma de suas obras mais conhecidas, Ética à Nicômaco) sinalizando que nós obtemos o verdadeiro conhecimento a partir do mundo concreto em que vivemos. Vejamos mais algumas discordâncias entre o pensamento dos dois: para Platão nascemos com ideias, para Aristóteles nascemos sem nada na mente. Para Platão existem dois mundos, para Aristóteles apenas um. Para Platão nascemos com virtude – embora encobertas, empanadas, adormecidas, devendo ser despertadas por nós – e para Aristóteles nascemos sem virtude e as adquirimos pelo hábito, pois o hábito é a nossa segunda natureza. Tudo indica que inicialmente Aristóteles seguiu muito de perto os ensinamentos de Platão, mas depois acabou divergindo deste. Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia. org/wiki/File:Sanzio_01.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.7 | Detalhe do quadro Escola de Atenas, mostrando a discordância entre Platão e Aristóteles Segundo Will Durant (1996, p. 70), “os dois eram gênios; e é notório que os gênios combinam entre si com a mesma harmonia com que a dinamite combina com o fogo”. Platão teria se referido a Aristóteles como o Nous da Academia, a inteligência personificada. Aristóteles teria gasto muito dinheiro com livros manuscritos e formado uma biblioteca, e por isso Platão chamava a casa de Aristóteles de “a casa do leitor”. Aristóteles dá a entender que a sabedoria não iria morrer junto com Platão, e ele responde que Aristóteles se parece com o potro que escoiceia a mãe depois de beber todo o leite. (MACHADO, 2013, p. 16). Grande parte das obras de Aristóteles sumiu (inclusive o enredo do filme O Nome da Rosa é um livro sumido de Aristóteles, Poética II) e outras ficaram desconhecidas por, aproximadamente, 1500 anos, pois estavam de posse dos árabes e apenas eles as conheciam. Há quem defenda que estas obras se encontravam na Casa da Sabedoria Noções gerais acerca do conhecimento U1 29 de Bagdá, um dos maiores centros de conhecimento do mundo antigo. Com a chegada dos muçulmanos à Europa, estas obras aos poucos foram sendo conhecidas. Tudo leva a crer que Aristóteles não queria simplesmente se opor ao seu mestre, mas corrigir aquelas ideias onde ele percebia alguns equívocos, pois o pensamento aristotélico é devedor do platônico por ser dele oriundo. Ato e potência Segundo Aristóteles, o mundo inteligível concebido por Platão conseguia apenas explicar a imperfeição do mundo sensível e não como a mudança acontece e é captada pelos sentidos. Para Aristóteles o conhecimento começa pelos sentidos os quais captam o mundo sensível (ou material) em que vivemos. A partir disto o intelecto separa os aspectos acidentais (aquilo que não é essencial para a compreensão do objeto, não faz parte da sua essência e é apenas uma característica daquele objeto Os primeiros textos, de que se conhecemalguns fragmentos, são de forte influência platônica até no título (como O Banquete, O Sofista, O Político) [...]. A ruptura com o pensamento do mestre ocorre após a saída da Academia: a obra Sobre a Filosofia, desse período, contém a crítica da teoria das ideias. A partir daí Aristóteles desenvolveria seu próprio caminho. (ABRÃO, 1999, p. 55). Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/RhUp3M>; <http://goo.gl/tYBcB6>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.8 | Ato e potência: tudo está propenso a mudança, vide São Paulo em 1902 e 2002 Sobre Aristóteles acesse o link disponível em: <http://www. mundodosfilosofos.com.br/aristoteles.htm>. Noções gerais acerca do conhecimento U1 30 individual, um detalhe que não afeta a sua estrutura) e esta separação chama-se abstração. “Para Aristóteles, o conhecimento é esse processo de abstração pelo qual o intelecto produz conceitos universais que, ao contrário das ideias de Platão, não existem separadamente das coisas e do intelecto”. (ABRÃO, 1999, p. 56). Observando o mundo percebemos tudo se transforma continuamente. A mudança que percebemos nas coisas ocorre porque tudo o que existe está, neste momento em que percebo, em ato (o modo como o objeto se apresenta ao meu intelecto neste exato instante), mas tem a possibilidade de se alterar e tornar-se diferente daquilo que percebo. Esta possibilidade é a potência: o poder de se tornar algo que ainda não é, mas pode vir a ser. O ato é o estado atual (aqui e agora) do ser e a potência aquilo no qual o ser se transformará, mas sem deixar de ser aquilo que era. É como se a transformação ocorresse sobre uma base imutável. Uma semente em nossas mãos é, em ato, apenas uma semente, mas em potência é uma árvore ou talvez até uma floresta. A árvore saiu dali, de dentro da semente; ou seja, a semente foi se transformando até se tornar uma árvore, Você já percebeu que tudo nesse mundo realmente está em mudança? E que não adianta querermos parar esse movimento, pois ele parece ter vontade própria? Tente parar o seu pensamento por 10 segundos. Tente parar o seu envelhecimento. Tente parar as mudanças que ocorrem em sua cidade. E astronomicamente? Segundo os cientistas, o sol vai se apagar daqui há 4,5 bilhões de anos. A nossa galáxia está em rota de colisão com a galáxia de Andrômeda. O universo dá indícios de estar se desacelerando e esfriando. O que será de tudo isso daqui a bilhões de anos? Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/ wikipedia/commons/c/c1/%27David%27_by_Michelangelo. JPG?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.9 | Quatro Causas: o que é, do que é feito, quem fez e por que fez. David de Michelangelo Noções gerais acerca do conhecimento U1 31 mas não houve uma mudança brusca que permitiu, de um instante para o outro, que ela se tornasse algo totalmente diferente daquilo que era. Esta alteração é o modo como a potência vai se atualizando, o ser vai passando da potência ao ato. Diríamos, fica atualizado, ou seja, agora está em ato. As quatro causas: material, formal, eficiente e final Este movimento, esta passagem da potência para o ato ocorre por ser efeito de uma causa (para Aristóteles tudo tem causa, tudo tem motivo de ser; por isto se diz que o seu pensamento é teleológico [telos, em grego é motivo, finalidade]): a causa eficiente – aquela que faz com que o ser se transforme em algo diferente. Segundo o Estagirita tudo o que existe possui quatro causas. São elas: - Causa material: aquilo do qual o objeto é feito. - Causa formal: o formato que o objeto tem. - Causa eficiente: aquela que age sobre o objeto; e - Causa final: a razão de ser, a finalidade do objeto. Se a semente é um bom exemplo para se compreender a questão do ato e potência, talvez a estátua o seja para se compreender as quatro causas. Imaginemos o Davi, de Michelangelo: o mármore de Carrara é a causa material (a matéria da qual a estátua é feita), um homem em pé é a causa formal (a forma que o mármore adquiriu), Michelangelo a causa eficiente (foi ele quem a fez) e a causa final é a finalidade, o motivo pelo qual ele esculpiu tal estátua, no caso, a encomenda feita pelos políticos florentinos. A causa final “é a mais importante: se a potência atualiza-se em ato, é sempre em vista de alguma finalidade”. (ABRÃO, 1999, p. 57). A partir da teleologia, ou seja, da ideia de que tudo tem uma causa e que nada existe em vão, Aristóteles postulou a necessidade de uma causa primeira, também chamada por ele de motor imóvel, que não seria material, mas forma pura. Percebe-se então que Aristóteles conserva de Platão uma única forma transcendente (separada) correspondente à ideia de “Deus”, que diferentemente do que havia sido concebido por Platão, não cria e nem interfere no curso do mundo, mas é pensamento do Sobre ato e potência acesse o link disponível em: <http://www. webartigos.com/artigos/ato-e-potencia-aristotelico/10066/>. Noções gerais acerca do conhecimento U1 32 pensamento e conhecimento de si, é ato puro, um pensamento sempre em ato, espírito puríssimo. Os tipos de conhecimento segundo Aristóteles Com base na distinção entre ação e contemplação, Aristóteles classifica as ciências, ou saberes, do seu tempo em três tipos diferentes. - Ciências produtivas: aquelas que têm por base o conhecimento sensível e estudam as práticas produtivas, as técnicas com o objetivo de produzir um objeto. São as ciências, os conhecimentos próprios dos artistas e artesãos. Também é chamado de poiesis (produção, em grego). Exemplos: medicina, arquitetura, agricultura e economia, entre outros. - Ciências práticas: objetiva possibilitar ao homem o acesso ao bem, ou seja, tornar melhor o homem (a vida) e a polis (a convivência). Quando tem por finalidade o bem individual chama-se ética; quanto tem por finalidade o bem coletivo chama-se política. Portanto, ética e política tem, para Aristóteles, a mesma finalidade: alcançar o bem. A finalidade da política é a vida boa, justa, bela e livre e é superior à ética, pois o bem comum antecede ao bem individual. - Ciências teoréticas (ou contemplativas): são saberes vinculados à reflexão, ao entendimento intelectivo da realidade; estudam realidades que existem por si e não são resultado de obra humana. A física, a biologia e a meteorologia, por exemplo, estudam as realidades ligadas à natureza e submetidas às mudanças. A matemática estuda as coisas ligadas à natureza não submetidas às mudanças. A metafísica estuda o ser que deve haver em toda e qualquer realidade e a teologia estuda as coisas divinas. Acreditamos ter apresentado aqui as principais contribuições de Aristóteles à teoria do conhecimento. Aristóteles morreu em 322 a. C., um ano depois do seu discípulo Alexandre Magno (356-323 a. C.). Alexandre havia difundido pelo mundo conhecido o modo de vida dos gregos e isso ficou conhecido como helenismo. Aproximadamente 70 anos depois vai surgir o Império Romano que, após contato com a cultura helênica, Figura 1.10 | O conhecimento aristotélico a partir do mundo físico Noções gerais acerca do conhecimento U1 33 fará uma simbiose desta com a cultura romana, dando início à cultura greco-romana, um dos pilares da civilização ocidental. O outro pilar formador da nossa cultura será a cultura judaico-cristã. Note que estamos falando de cultura e não de religião, pois tanto o judaísmo quanto o cristianismo, além de possibilitar uma visão religiosa do mundo também possibilitam um modo peculiar de ver e de agir no mundo gerando, assim, uma cultura. Essas quatro visões de mundo vão se encontrar em Roma, o centro político do mundo antigo. Contudo, não se encontram todos ao mesmo tempo, o helenismo chega a Roma mais ou menos pelo ano 300 a. C. e o cristianismo só chega (ou melhor, só é aceito), aproximadamente, no ano 400 d. C., pois só em 393 d. C. o cristianismo se torna religião oficial do Império e já estamos entrando em outro período da história. 1. Em sua obra intitulada Metafísica,Aristóteles afirma que “todos os homens, por natureza, desejam conhecer. Sinal disso é o prazer que nos proporciona os nossos sentidos; pois, ainda que não levemos em conta a sua utilidade, são estimados por si mesmos; e, acima de todos os outros, o sentido da visão [...] Por outro lado, não identificamos nenhum dos sentidos com a Sabedoria, se bem que eles nos proporcionem o conhecimento mais fidedigno do particular. Não nos dizem, contudo, o porquê de coisa alguma”. De acordo com o texto, considere: I. Entendia Aristóteles que sabedoria é conhecer as causas particulares dos eventos. II. A aquisição da sabedoria plena pode ser considerada o mais alto grau de conhecimento. III. O prazer que sentimos quando utilizamos os nossos sentidos pode ser considerado o grau mais elevado de conhecimento. IV. Aristóteles entendia que os homens nascem com o desejo de conhecer as coisas. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I e II. b) II e IV. c) I, II e III. d) I, III e IV. Noções gerais acerca do conhecimento U1 34 2. Para Aristóteles a ciência pode ocupar-se com quatro tipos de causas: material, formal, eficiente e final. Assinale a alternativa em que as perguntas correspondem, respectivamente, às causas citadas. a) Por que foi gerado? Do que é feito? O que é? Quem gerou? b) O que é? Do que é feito? Por que foi gerado? Quem gerou? c) Do que é feito? O que é? Quem gerou? Por que foi gerado? d) Quem gerou? Por que foi gerado? O que é? Do que é feito? Noções gerais acerca do conhecimento U1 35 Seção 4 Conhecimento medieval e renascentista Apresentaremos, nessa sessão, como se deu a compreensão de conhecimento durante a Idade Média, conhecida como época das trevas, inclusive, justamente porque o conhecimento ficou estagnado; como o mundo era entendido e explicado nessa época e, por fim, como o Renascimento rompeu com essa visão e constitui a nova ciência. 4.1 Conhecimento medieval e renascentista Segundo a divisão histórica, a Idade Média começou em 476 d. C. com a queda do Império Romano no ocidente e veio até 1453, com a queda do Império Romano no oriente (tomada de Constantinopla pelos Turcos Otomanos) ou, segundo outros, até 1492 com a descoberta da América. A filosofia medieval não tem os limites tão bem demarcados como a história, mas entende-se que ela começou em 529 d.C. quando o imperador Justiniano determinou o fechamento de todas as escolas pagãs, entre elas a Academia de Platão (aberta em 387 a.C., funcionou por 916 anos) e o Liceu de Aristóteles (aberto em 335 a.C., funcionou por 864 anos) e veio até Guilherme de Ockham (1290-1349) sendo que, a partir de então, começa o Renascimento. É bom deixar claro, contudo, que não há muito consenso quanto a essas demarcações. Desse modo, podemos dizer que a filosofia medieval compreende um período de, aproximadamente, mil anos, indo, grosso modo, de 400 a 1400 e compreendendo uma época em que o poder mais bem organizado foi o poder eclesiástico. No ano 393, o imperador Teodósio tornou o cristianismo a religião oficial do Império. Oitenta anos depois o Império Romano estava ruindo sob as invasões bárbaras. Como sabemos, quando os bárbaros ocuparam Roma, a cultura sucumbiu, pois a língua falada pelos bárbaros não era decifrável, e a escolas foram fechadas, sendo reabertas apenas no ano 781 por determinação do imperador Carlos Magno. Nessa época, a única instituição que estava coesa era a Igreja e, desse modo, ela acabou ficando com o poder espiritual e o poder temporal em suas mãos, mantendo escolas internas (monacais) em funcionamento e hospitais. Foi assim que a Igreja acabou se envolvendo em questões políticas, econômicas, artísticas, científicas etc., ou seja, o Noções gerais acerca do conhecimento U1 36 mundo era, conforme a Igreja dizia que ele era. Para delimitar o que era ou não conhecimento verdadeiro a Igreja recorria ao livro dos livros, a Bíblia, pois acreditava que ali estava expressa a palavra de Deus e que tudo o que constava nela representava a verdade sobre o mundo. Hoje os teólogos sustentam que a Bíblia não é um livro de ciência, mas um livro de fé, pois ela narra a história de um povo interpretada á luz da crença em um ser superior. A bíblia é oriunda de um povo (judeu) e de uma época (antiguidade) e traz consigo uma cosmologia própria, entendendo que a terra é plana e está imóvel no centro do universo; ao seu redor giram a lua, o sol, os planetas e as demais estrelas. Apenas desse modo, faz sentido que Josué tenha feito o sol parar no Vale de Gabaon e a lua no Vale de Aiaon (Js 10, 12). Além disso, a Igreja se autodeclarou representante de Deus na terra e passou a interferir em assuntos políticos, econômicos (condenava a usura, por exemplo), artísticos, enfim, em todas as áreas da vida humana, conforme já assinalamos anteriormente. Apesar da recomendação bíblica de cuidado em relação às vãs filosofias, descrita na Carta aos Colossenses (2, 6-8), onde se lê: Já que vocês aceitaram Jesus Cristo como Senhor, vivam como Cristãos: enraizados nele, vocês se edificam sobre ele e se apoiam na fé que lhes foi ensinada, transbordando em ações de graças. Cuidado para que ninguém escravize vocês através de filosofias enganosas e vãs, de acordo com tradições humanas, que se baseiam nos elementos do mundo, e não em Cristo. A Igreja, sobretudo, na pessoa de Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), fez uma releitura da filosofia de Platão e acabou por unir essas duas visões de mundo, construindo uma visão filosófica própria, a Filosofia Cristã. Vamos conhecer um pouco mais da teoria do conhecimento de Agostinho, um dos grandes expoentes de duas grandes áreas: filosofia e teologia. Você consegue supor como será a ciência daqui a 200, 300 ou 500 anos? Assim como percebemos lacunas no modo como a ciência foi feita antigamente, será que no futuro, os estudiosos também não vão rir da nossa ciência? Será que o mundo é e funciona conforme acreditamos hoje em dia? Noções gerais acerca do conhecimento U1 37 Agostinho e a teoria da iluminação divina Agostinho, ou Santo Agostinho, é o maior nome da filosofia Patrística (nome originado do latim pater, que tem o sentido de padre e que se refere ao período em que os Santos Padres se dedicaram a purificar a religião cristã diante da ameaça das heresias). Os principais problemas que ele teve de enfrentar foram relacionados às formulações acerca da Trindade, da criação do mundo, da constituição da alma, da encarnação e ressurreição de Cristo e da relação entre liberdade e graça e entre fé e razão. Para a filosofia, o cristianismo se apresentava com muitos absurdos, por exemplo, Deus criar o Universo e os seres ex nihil (a partir do nada), morrer na cruz, amar o ser humano. E esse conjunto de absurdos foi terreno propício para o surgimento de muitas heresias, com destaque para: Gnosticismo, Donatismo, Maniqueísmo, Arianismo, Nestorianismo, Pelagianismo, Adocionismo, Apolinarismo, Docetismo, Monofisismo. Cada uma delas com uma compreensão diferente da mensagem cristã. Uma das questões que mais incomodava Agostinho era: conhecemos a verdade? Como a conhecemos? Ele acabou concluindo que conhecemos com certeza o princípio de não contradição e a própria existência. Dizia que “ninguém pode duvidar da própria existência porque, neste caso, a dúvida é uma prova da existência: se me engano, existo”. (MONDIN, 1982, p. 137). Sobre as heresias acesse o link disponível em: <http://zeadir.blogspot. com.br/2015/01/principais-heresias.html>. Fonte: Disponível em: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Educacion_en_la_nueva_espa%C3%B1a.jpg?uselang=pt-br. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.11 | Com sua luz, Deus ilumina nossas mentes com as suas verdades Noções gerais acerca do conhecimento U1 38 Tenho plena certeza de existir, de conhecer-me e de amar- me; e não temo os argumentos apresentados contra esta verdade pelos acadêmicos, que dizem: e se te enganas? Se me engano significa que sou, que existo.Uma vez, pois, que existo, se me engano, como posso enganar-me a respeito de minha existência, se é certo que existo pelo próprio fato de enganar- me? Portanto, eu, que me enganaria, mas que existiria mesmo na hipótese de que me enganasse, inegavelmente não me engano no conhecer a mim mesmo. (CIDADE DE DEUS, XI, 26, apud, MONDIN, 1982, p. 137). Agostinho acabou concluindo que o conhecimento se dava por três vias – os sentidos, a razão inferior (a ciência) e a razão superior (a fé) –, que apreendem respectivamente os objetos, as leis da natureza e as verdades eternas. Mesmo o conhecimento adquirido pelos sentidos depende, em última instância, da alma. O corpo recebe as impressões, mas é a alma que elabora o conhecimento. Segundo Agostinho, a alma recebe a imagem e não os objetos em si. A razão inferior se ocupa do conhecimento científico acerca do mundo corpóreo e de suas leis, bem como do processo de abstração. Por fim, a mais alta forma de conhecimento é o das verdades eternas a qual só é possível por meio da iluminação divina: “Deus irradia na mente humana as verdades absolutas, imutáveis”. (MONDIN, 1982, p. 139). Dizia ele que é preciso crer para compreender e compreender para crer. Com relação ao movimento, Agostinho entende que ele está estruturalmente ligado com o tempo. Ao criar o mundo do nada, Deus criou também o tempo, por isso “não há movimento antes do mundo, só com o mundo” (REALE, 1990, p. 451). Tudo o que existe existiu primeiro na mente divina, pelo que as ideias têm um papel essencial na criação. Deus criou a matéria e todas as possibilidades de sua concretização, infundindo nelas as razões seminais de cada coisa, como se a natureza estivesse grávida e a evolução fosse esse movimento em direção ao parir. São como sementes que evoluem, amadurecem e concretizam aquilo para o qual foram projetadas. A questão do tempo em Agostinho é bastante intrigante, pois ele indaga acerca da sua existência. Primeiro diz que o passado existiu, mas não existe mais, não se pode medi-lo; depois afirma que o futuro ainda não existe, não chegou e também não se pode medi-lo; por fim diz que o presente é fugaz e quando tento medi-lo ele já se foi, virou passado (Confissões, livro XI), portanto, como não existe nem o passado, nem o presente e nem o futuro, conclui-se que o tempo não existe, ou, que o tempo não existe em si, apenas em nossa mente. Como bom platônico, Agostinho prioriza mais o mundo inteligível que o mundo sensível e sustenta que as coisas exteriores são unicamente para conduzir o ser Noções gerais acerca do conhecimento U1 39 humano ao conhecimento de si mesmo e o ajudam a se elevar até Deus (ascese). A fé e a razão se complementam num processo intelectual que desemboca no amor. A inteligência prepara para a fé e ambas se conduzem ao amor, pois é só no amor que se encontra a verdade. As universidades de Bolonha e de Paris estão entre as primeiras que surgiram e acabaram se tornando uma espécie de modelo para as demais. A universidade de Paris surgiu a partir de uma ampliação da escola da catedral de Nôtre-Dame. Uma das figuras mais importantes do início desta universidade foi Pedro Abelardo (1079 – 1142). [...] Naquela época a disciplina por excelência, além da teologia, era a lógica, pois era muito importante saber construir argumentos claros e convincentes e saber encontrar a verdade bíblica distinguindo o que é linguagem literal da linguagem figurativa, ou simbólica. Preocupados com a questão da linguagem e valendo-se da lógica e da dialética surgiram, inicialmente, debates acerca de questões relacionadas à alma e isto acabou desembocando na querela acerca da natureza dos universais. (MACHADO, 2013, p. 29). A questão dos universais Logo após a morte de Agostinho, em 430, entramos naquele período de estagnação do conhecimento, pois, como já mencionamos, as escolas deixaram de existir na Europa, sendo reabertas apenas no ano 781. Muito lentamente as escolas vão sendo difundidas pelo velho continente, funcionando, geralmente, junto aos palácios e por isso receberam o nome de Escolas Palatinas. O currículo dessas escolas era o Trivium (três matérias: gramática, retórica e dialética) e o Quadrivium (quatro matérias: aritmética, geometria, música e astronomia). Já estamos entrando em um momento que ficou conhecido como Escolástica. Próximo ao ano 1200 surge a primeira universidade do mundo – ao menos nos moldes atuais, pois já havia uma no Egito (Universidade de al-Azhar) e outra na Península Itálica (Universidade de Bolonha), a Universidade de Paris. Ela surgiu junto à Catedral de Nôtre-Dame. As aulas eram mais em forma de debates do que expositivas; e um dos temas recorrentes era a questão dos universais (conceitos gerais e abstratos. Por exemplo: casa, homem, pedra etc.). Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia. org/wiki/File:Pe%C3%B1alosa-tomas_aquino. jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.12 | Escolástica: aulas debatidas com pouco material de estudo Noções gerais acerca do conhecimento U1 40 Basicamente, a preocupação era perceber a relação que existe entre as palavras e as coisas, entre os conceitos e a realidade. Rosa, por exemplo, é um nome que sobrevive à morte da própria flor, o que indica que a palavra pode se referir até as coisas inexistentes. Será que as coisas existem por si mesmas, separadas dos objetos sensíveis? Para responder estas questões surgiram duas correntes: os nominalistas e os realistas. Para os nominalistas, os universais são meras palavras, meros nomes, sem existência real. São abstrações feitas a partir da percepção de objetos individuais (este homem, este animal) (ABRÃO, 1999). O realismo se opõe a isto e defende que os universais têm existência efetiva. Uma existência anterior e separada das coisas, como ensinava Platão, ou a forma das coisas, como ensinava Aristóteles. Pedro Abelardo defende uma solução intermediária: “os universais só existem no intelecto, mas ao mesmo tempo, mantêm relação com as coisas particulares na medida em que lhes dão significado. Desse modo, é como significado que os universais subsistem às coisas”. (Ibidem, p. 108). Mas o maior do nome da Filosofia Escolástica acabou sendo Tomás de Aquino (1225-1274). Ele teve o privilégio de ser um dos primeiros professores a ter contato com as obras de Aristóteles, até então, posse dos árabes, como já assinalamos. Tomás de Aquino se apoiou no pensamento de Aristóteles para elaborar a sua doutrina filosófica do mesmo modo como Agostinho se baseou em Platão. E, como bom aristotélico, Tomás de Aquino também sustentou que nascemos tabula rasa (quadro vazio, sem nada na mente), sendo a experiência sensorial a fonte do conhecimento, que pode ocorrer de duas maneiras: pelas evidências fornecidas pela experiência no mundo que nos rodeia ou pela revelação divina, podendo ambos conduzir a Deus. Deste modo, Tomás acreditou demonstrar que o pensamento aristotélico não se Sobre a fundação das universidades e sobre a contribuição de Pedro Abelardo, assista ao filme “Em nome de Deus”. Cuidado, porém, porque existem dois filmes com esse nome. Veja na sinopse se o enredo é a história de Abelardo e Heloísa. Outro filme que retrata a época aqui descrita é “O Nome da Rosa”, baseado no livro de Umberto Eco. Fonte: Disponível em: <http://commons. wikimedia.org/wiki/File:Mosteiro_de_ Santa_Maria_da_Vit%C3%B3ria,_Batalha,_ Portugal_(2720108018).jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.13 | Tomás de Aquino, expoente máximo da filosofia Escolástica. Noções gerais acerca do conhecimento U1 41 contrapunha à teologia cristã. Para o Aquinate, todo conhecimento ocorre por assimilação ou por união da coisa conhecida e do objeto cognoscente (conhecedor), dizia que o objeto conhecido está no cognoscente segundo a natureza do próprio cognoscente. Sob a influência de Aristóteles afirmou que conhecer é abstrair, sendo o universal abstraído do particulare a forma abstraída da matéria individual. Aquino buscou sintetizar a fé e a razão, pois entendia que não existem contradições entre a Filosofia e a fé cristã, visto que apenas a fé e a revelação cristã são capazes de atingir as puras verdades espirituais. Além destas, existem também as verdades naturais teológicas, que podem ser obtidas tanto por intermédio da fé e da revelação como pela razão e pelos sentidos. Um exemplo de verdade natural teológica é a busca de provas da existência de Deus. Outra grande herança do aristotelismo foi a teoria das quatro causas, na qual, na interpretação de Tomás de Aquino, Deus é a causa primeira de todas as coisas. E, por fim, a filosofia cristã, a exemplo da grega, também se mantém essencialista (tudo tem uma essência, uma razão de ser), muito embora o enfoque na universalidade do ser humano passe a ser a “vontade de Deus”. O Renascimento: Galileu Galilei e a nova ciência O Renascimento é um período relativamente curto da história, mas com Tomás de Aquino era bastante gordo e calado e foi apelidado de Boi Mudo, pelos colegas de estudo. O mestre, Alberto Magno, em tom profético disse aos seus discípulos “respeitem esse que vocês chamam de Boi Mudo, pois quando ele mugir o mundo todo vai ouvi-lo”. Dizem que ele era tão gordo que, ao sentar-se à mesa, o seu braço não alcançava o prato; motivo pelo qual fizeram um semicírculo na mesa para ele poder chegar mais perto e se alimentar. Sobre Tomás de Aquino acesse o link disponível em: <http://www. mundodosfilosofos.com.br/aquino.htm>. Noções gerais acerca do conhecimento U1 42 contribuições substanciais em duas grandes áreas, na política (com Nicolau Maquiavel [1469- 1527]) e na ciência (com Galileu Galilei [1564- 1642]). Foram contribuições tão relevantes que mudaram para sempre a natureza dessas duas esferas. Existe uma ciência antes de Galileu Galilei e outra depois dele. Portanto, a ciência que fazemos hoje é muito devedora ao Florentino, a tal ponto que ele é conhecido como o Pai da Ciência Moderna. E para termos uma ideia do que vai acontecer com a ciência a partir da contribuição de Galileu Galilei, talvez seja suficiente recordar a sua famosa frase: “A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática...” (GALILEI, 1978, p. 119). A frase acima nos remete ao pensamento de Pitágoras de Samos (570-497 a. C.) que já havia afirmado: “o mundo se reduz a números”. Contudo, mesmo assim, a ciência antiga foi feita apenas com razão e observação; Galileu Galilei acrescentou a experimentação (método desenvolvido por Francis Bacon [1561-1626]), o cálculo e a matemática. Desde então só será considerado ciência o conhecimento que puder ser provado, demonstrado, quantificado e mensurado. Poderíamos dizer que ele é o culpado por você ter, hoje em dia, que aprender fórmulas, pois a partir dele, o conhecimento tem de ser traduzido nessa linguagem. É difícil estudar assim? Veja o que Galileu Galilei diz sobre a dificuldade de se conhecer as coisas: Fonte: Disponível em: <http://commons. wikimedia.org/wiki/File:Mosteiro_de_Santa_ Maria_da_Vit%C3%B3ria,_Batalha,_Portugal_ (2720108018).jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.14 | O Renascimento foi um período curto, mas profundo, que deixou muitas marcas Se raciocinar sobre um problema difícil fosse a mesma coisa que carregar pesos, então muitos cavalos carregariam mais sacos de trigo que um cavalo só, e eu concordaria mesmo que a opinião de muitos valesse mais do que a de poucos; mas o raciocinar é como o correr, e não como o carregar. Assim, um cavalo de corrida sozinho correrá sempre mais do que cem cavalos frisões. (GALILEI, 1978, p. 211). Frase bem próxima, ou com o mesmo sentido, da frase de Schopenhauer (1788- 1860): “O intelecto não é uma grandeza extensiva, mas intensiva: sendo assim, um Noções gerais acerca do conhecimento U1 43 único indivíduo pode tranquilamente opor-se a dez mil, e uma assembleia de mil imbecis não faz um único homem inteligente” (esta frase se encontra na obra A arte de insultar, no verbete Igualitarismo). Galileu Galilei nasceu em 15 de fevereiro de 1564 na cidade italiana de Pisa. Aos 17 anos começou estudar medicina, mas nela não satisfez o “seu gosto pela observação e pelo rigor do raciocínio” (ROVIGHI, 1999, p. 34), pois na época a medicina não era uma ciência tão rigorosa e baseava-se muito mais na autoridade dos clássicos do que na observação do corpo humano. Mesmo contrariando seus familiares passou a estudar matemática, concomitante com medicina e aos poucos abandonou a ciência de Hipócrates. Aos 25 anos tornou-se professor de matemática na Universidade de Pisa, mudando dois anos depois, para a Universidade de Pádua. Em 1609, Galileu Galilei ficou sabendo que na Holanda havia sido construído um telescópio, buscou informações, aperfeiçoou este instrumento e começou a fazer observações astronômicas. Um ano depois escreveu um livro O mensageiro celeste, onde descreveu as montanhas da lua, quatro satélites de Júpiter, as fases de Vênus, as formas de Saturno e as manchas solares. Ao perceber que as manchas solares mudavam de posição, concluiu que isto só era possível porque a terra estava girando em torno do sol. Em uma carta de 1610, Galileu Galilei afirmou que gostaria que lhe acrescentassem ao título de matemático também o de filósofo. É preciso lembrar que filósofo era aquele que estudava a natureza, os corpos e seus fenômenos. Diz ele ter “estudado mais anos de filosofia do que meses de matemática pura”. (ROVIGHI, 1999, p. 48). Galileu Galilei fez investigações em física, sobretudo em mecânica, tentando descrever os fenômenos em linguagem matemática, fato que provocou forte reação da ciência oficial, até então aristotélica. Contudo, aplicar matemática à física foi a maior contribuição de Galileu Galilei para a história das ideias (PESSANHA, 1978). Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Galileo_telescope_replica_(1).jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 31 mar. 2015. Figura 1.15 | Réplica do telescópio (ou luneta) de Galileu Galilei. Será que muitas vezes não julgamos que muitas pessoas juntas podem ter mais conhecimento do que uma única pessoa? Será que às vezes não somos levados a concordar com a maioria, simplesmente por ser maioria? Noções gerais acerca do conhecimento U1 44 Galileu tornou-se o criador da física moderna, quando enunciou as leis fundamentais do movimento; foi também um dos maiores astrônomos de todos os tempos, pelas observações pioneiras que fez com o telescópio. [...] Galileu é mais importante pelas contribuições que fez ao método científico do que propriamente pelas revelações físicas e astronômicas encontradas em suas obras (PESSANHA, 1978, p. 96). processo pelo qual os intelectuais se desligam das justificativas baseadas na religião, que exigem adesão pela crença, para só Estruturou todo o conhecimento científico da natureza e abalou os alicerces que fundamentavam a concepção medieval de mundo. [...] Em lugar de conceber o mundo como dividido em duas partes, uma superior, constituída pelo céu, e a outro inferior, a terra em que vive o homem, mostrou que todos os objetos físicos devem ser concebidos como sendo da mesma natureza e tratados de modo idêntico, pelo menos por aqueles que desejam conhecer cientificamente o universo. [...] Mostrou que a natureza é fundamentalmente um conjunto de fenômenos mecânicos, tal como afirmou Demócrito na Antiguidade. [...] E mostrou, finalmente, que “o livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos” e que ‘sem um conhecimento dos mesmos, os homens não poderão compreendê-lo’. (PESSANHA, 1978, p. 97). O método desenvolvido por Galileu foi uma revolução na ciência e consistia de três princípios: 1º- observação dos fenômenos sem influências religiosas ou extracientíficas; 2º - experimentação: nenhuma afirmação, que se pretenda científica, deve prescindir da verificação de sua legitimidade; e 3º - que se descubra a regularidade matemática do evento estudado. Ao formular estes princípios, ele: Ao mostrar que tanto Aristóteles quanto a Igreja, com sua fundamentação bíblica, continham erros do ponto de vista científico, Galileu Galilei não somente instaurou um novo modo de se fazer ciência como também relegou tudo o que implica autoridade e tradição à desconfiança e questionamentos. Este processo é chamado de secularização ou laicização do pensamento: um Noções gerais acerca do conhecimento U1 45 Portanto, com Galileu Galilei o mundo se transforma em números e a natureza deixa de ter causa final. “A noção geral de movimento muda de significado. Galileu o relativiza, definindo-o como ‘deslocamento de uma coisa em relação à outra’”. (ABRÃO, 1999, p. 193). Mas ele não fez essas mudanças sem sofrimento, pois em 1610, Galilei foi aconselhado a manter silêncio sobre suas ideias e em 1616 suas obras foram incluídas no Índex de Livros Proibidos. Em 1623, um amigo seu se tornou papa (Urbano III) e ele acreditou que haveria mais liberdade e tolerância para com suas teorias. No entanto, em 1632 foi intimado pela Inquisição e no ano seguinte foi obrigado a renegar suas ideias e sustentar que a terra está no centro do universo e que ela não se move. Logo após sua retratação dizem que falou em voz baixa “mas que se move, se move”. Foi condenado por heresia à prisão domiciliar e assim permaneceu até 1642 quando veio a falecer. aceitar as conclusões derivadas da investigação racional, mediante argumentação. Daí a atenção dada ao método, ponto de partida de vários pensadores do século XVII [...] (ARANHA & MARTINS, 2008, p. 188). [...] O cientista Galileu foi um dos mais importantes precursores do Iluminismo, a era de progresso racional que floresceu na Europa no séc. XVIII. Antes do Iluminismo, os pensadores tendiam a aceitar a autoridade de Aristóteles e da Igreja ao desenvolver suas teorias. Galileu rejeitou esses apelos à autoridade e pôs-se a aplicar suas próprias faculdades da razão e observação. Construiu um telescópio que lhe permitia observar tanto as montanhas da Lua quanto o movimento dos satélites de Júpiter, e com ele mostrou que Aristóteles estava errado ao afirmar que todos os corpos celestes são perfeitamente esféricos e giram em torno da terra. (LAW, 2008, p. 84). Sobre Galileu Galilei acesse o link disponível em: <http://www. portalsaofrancisco.com.br/alfa/galileu-galilei/galileu-galilei-1.php>. 1. “O intelecto humano se põe no meio (entre os sentidos e o intelecto angélico): não é ato de um órgão corporal, mas é uma potência da alma, que é forma do corpo, como ficou Noções gerais acerca do conhecimento U1 46 2. A ONU declarou 2009 o Ano Internacional da Astronomia pelos 400 anos do uso do telescópio nas investigações astronômicas por Galileu Galilei. Essas investigações desencadearam descobertas e, por sua vez, uma nova maneira de compreender os fenômenos naturais. Além de suas descobertas, Galileu também contribuiu para a posteridade ao desenvolver o método experimental e a concepção de uma nova ciência física. Com base nas contribuições metodológicas de Galileu Galilei, é correto afirmar: a) A experiência espontânea e imediata da percepção dos sentidos desempenha, a partir de Galileu, um papel metodológico preponderante na nova ciência. b) A observação, a experimentação e a explicação dos fenômenos físicos da natureza desenvolvidos por Galileu aprimoram o método lógico-dedutivo da filosofia aristotélica. c) A observação controlada dos fenômenos na forma de experimentação, segundo o método galileano, consiste em interrogar metodicamente a natureza na linguagem matemática. d) O método galileano reafirma o princípio de autoridade das interpretações teológico-bíblicas na definição do método para alcançar a verdade física. demonstrado. Por isso, é sua propriedade conhecer a forma que existe individualizada em uma matéria corporal, mas não essa forma enquanto está em tal matéria. Ora, conhecer dessa maneira, é abstrair a forma da matéria individual, que as representações imaginárias significam”. (Tomás de Aquino. Suma teológica, I, q. 85, a. 1.). I. O intelecto humano conhece por abstração porque II. A alma, da qual esse intelecto é potência, é forma do corpo. Considerando o trecho acima e as duas afirmações sobre a teoria da abstração em Tomás de Aquino: a) I é verdadeira e II é falsa, e II não é condição para I. b) I é verdadeira e II é verdadeira, mas II não é condição para I. c) I é verdadeira e II é verdadeira, e II é condição para I. d) I é verdadeira e II é verdadeira, e I é condição para II. Noções gerais acerca do conhecimento U1 47 Esperamos ter contribuído com seus estudos através desta pequena apresentação das principais correntes de pensamento ligadas à teoria do conhecimento, desde a Grécia antiga até o Renascimento. De modo sucinto, apresentamos as linhas mestras do que julgamos ser mais relevante para a sua formação. Quem tiver interesse pode aprofundar um pouco mais os seus estudos recorrendo à pesquisa e à conferência das dicas deixadas ao longo dos textos. Entendemos que o papel da filosofia é instigar o aluno a questionar o mundo, a sociedade, a vida, enfim, mesmo que seja para chegar ao que já se sabe, mas que se chegue elaborando e construindo o próprio saber e não apenas assimilando sem criticidade as informações que são repassadas. Foi esse o nosso intento desde o começo do texto, pois apresentamos as ideais, as descobertas, as teorias dos principais filósofos numa perspectiva de ajudá-lo a questionar o óbvio e de tentar descortinar um arcabouço de informações herdadas ao longo da história da humanidade, sobretudo, no que concerne à compreensão do mundo da vida, mas que, além disso, você mesmo possa obter a sua própria compreensão do mundo de modo crítico reflexivo. A única forma de uma informação se tornar conhecimento é se dela nos apossarmos e fizermos com que ela passe a fazer parte inerente ao nosso repertório de ideias. Conhecimento é o que fica depois que incorporamos as informações recebidas. Recorrendo à linguagem da informática, podemos dizer que a informação fica na memória RAM e pode ser despejada quando houver necessidade de espaço para outros dados; enquanto o conhecimento fica gravado no disco rígido e sempre estará disponível para consulta. Nessa unidade nós vimos que: a) Os pré-socráticos buscam conhecer o mundo, a partir da descoberta do arquê, o elemento primordial que teria dado origem a tudo o que existe. b) Heráclito diz não ser possível conhecer a origem do mundo e nem mesmo o mundo como tal, pois esse está sempre em mudança (devir). c) Parmênides discorda de Heráclito e afirma que a mudança é aparente e que na essência (o núcleo do ser) as coisas não mudam. Noções gerais acerca do conhecimento U1 48 d) Platão busca contribuir e elabora a teoria dos dois mundos. Em um deles (o mundo sensível, material) as coisas mudam (nascem, crescem e morrem), mas no outro (mundo inteligível, das ideias) elas não mudam (os conceitos que formulamos permanecem conosco). e) Aristóteles discorda de Platão e sustenta a existência de um único mundo onde todas as coisas existem em ato e potência e o movimento de atualização da potência se dá porque tudo o que existe é resultado de quatro causas: material, formal, eficiente e final. f) O Cristianismo surge e traz uma nova maneira de se entender e explicar o mundo, misturando filosofia e religião. g) Surgem as mais diversas heresias e com elas vêm a necessidade de se purificar a fé de muitos erros do ponto de vista teológico e filosófico. A Filosofia Patrística se propõe à tarefa de combater as heresias. h) Agostinho, o maior expoente da Patrística, conhece as ideias de Platão ebusca conciliá-las com o cristianismo afirmando que a verdadeira luz do conhecimento vem de Deus: teoria da iluminação divina. i) As escolas renascem e algum tempo depois surge a Filosofia Escolástica, inicialmente com o debate relacionado à questão dos universais, tendo de um lado os nominalistas e de outro os realistas. j) Tomás de Aquino busca sintetizar Aristóteles ao cristianismo e defende que podemos conhecer pelas evidências percebidas no mundo ou pela revelação divina. Apenas a fé e a revelação nos permitem conhecer as verdades puras. k) O Renascimento traz uma proposta de conhecimento laico, prescindindo das verdades bíblicas. l) Galileu Galilei une ciência e matemática e passa a fazer uma ciência mais experimental e demonstrável, contrariando a forma de ciência adotada pela Igreja. m) Galilei elabora um método científico que compreende três momentos: observação, experimentação e descoberta da regularidade. n) A contribuição de Galilei ultrapassa o campo da ciência e chega a questionar o modo hierarquizado no qual o mundo está organizado. Noções gerais acerca do conhecimento U1 49 o) A ciência passa a ser laica, secular, e rompe definitivamente com a religião e a filosofia, ficando cada uma delas uma área distinta do saber, com método e objeto próprios. De modo sucinto, porém objetivo, acreditamos ter apresentado a você as principais ideias concernentes aos desdobramentos da teoria do conhecimento na Antiguidade, na Idade Média e no Renascimento; apresentando-lhe desde o significado do termo conhecimento, os tipos de conhecimento; a origem do tema na Grécia antiga e as principais contribuições dos filósofos clássicos. Apresentamos também a contribuição dos teólogos medievais, sobretudo os dois grandes doutores da Igreja, Agostinho e Tomás de Aquino; a questão dos universais, muito presente no surgimento das primeiras universidades e, por fim, a grande guinada proporcionada por Galileu Galilei, quando separa Religião, Filosofia e Ciência e estabelece que a ciência tem que demonstrar, provar, as suas afirmações, recorrendo à experiência e permitindo, através da descoberta da regularidade, que experiências futuras também alcancem os mesmos resultados. Esperamos ter contribuído para a sua formação e oferecido um tema que agregue valores aos seus conhecimentos. 1. Platão iniciou suas atividades cognitivas com um discípulo de Heráclito chamado Crátilo e foi influenciado pelo pensamento heraclitiano, principalmente pela dialética; mas também soube reconhecer a significativa contribuição do pensamento de Parmênides. Na tentativa de conciliar o pensamento dos dois, cria a teoria dos dois mundos. Sobre o mundo das ideias de Platão é correto afirmar que: a) É tudo o que puder ser percebido pelos sentidos, pois é isso Noções gerais acerca do conhecimento U1 50 2. Dado que dos hábitos racionais com os quais captamos a verdade, alguns são sempre verdadeiros, enquanto outros admitem o falso, como a opinião e o cálculo, enquanto o conhecimento científico e a intuição são sempre verdadeiros, e dado que nenhum outro gênero de conhecimento é mais exato que o conhecimento científico, exceto a intuição, e, por outro lado, os princípios são mais conhecidos que as demonstrações, e dado que todo conhecimento científico constitui-se de maneira argumentativa, não pode haver conhecimento científico dos princípios, e dado que não pode haver nada mais verdadeiro que o conhecimento científico, exceto a intuição, a intuição deve ter por objeto os princípios. (ARISTÓTELES. Segundos Analíticos, B 19, 100 b 5-17. In: REALE, G. História da Filosofia Antiga. São Paulo: Loyola, 1994.) Considere as afirmativas a seguir a partir do conteúdo do texto acima. I. Todo conhecimento discursivo depende de um conhecimento imediato. II. A intuição é um hábito racional que é sempre verdadeiro. III. Os princípios da ciência devem ser demonstrados cientificamente. IV. O conhecimento científico e a opinião não admitem o falso. Assinale a alternativa que contém todas as afirmativas corretas, mencionadas anteriormente. a) I e II. b) I e III. c) II e IV. d) I, III e IV. e) II, III e IV. que constitui a realidade que nos cerca. b) É o verdadeiro mundo, eterno, belo, bom e imutável, diferente do mundo material em que vivemos. c) Não é acessível ao homem, pois não podemos ter ideias verdadeiras sobre as coisas e a natureza, visto que tudo é sonho e ilusão. d) Não devemos nos preocupar com o mundo das ideais e sim com as coisas passageiras e concretas do mundo. Noções gerais acerca do conhecimento U1 51 3. Agostinho de Hipona (354-430) foi quem traduziu as ideias de Platão para uma linguagem cristã e acresceu a compreensão de Plotino e Porfírio. Contudo, ele também difere do pensamento platônico em alguns pontos. Em qual das sentenças a seguir encontramos divergência entre Agostinho e Platão? a) Enquanto para Platão, conhecer é recordar, a alma apenas relembra as ideias que contemplou antes de nascer; para Agostinho o conhecimento surge a partir da iluminação divina. b) Agostinho defendia a imortalidade da alma e para Platão ela não é imortal, pois sendo apenas a forma do corpo, morre com ele. c) Segundo Platão, a verdade só existe no mundo das ideias, e para Agostinho tudo o que existe é apenas o mundo natural em que vivemos. d) Agostinho afirmava que o homem pode sim adquirir conhecimento verdadeiro, e Platão dizia que a verdade não é acessível ao homem. 4. A importância do filósofo medieval Tomás de Aquino reside principalmente em seu esforço de valorizar a inteligência humana e sua capacidade de alcançar a verdade por meio da razão. Discorrendo sobre a “possibilidade de descobrir a verdade divina”, ele diz: “As verdades que professamos acerca de Deus revestem uma dupla modalidade. Com efeito, existem a respeito de Deus verdades que ultrapassam totalmente as capacidades da razão humana. Uma delas é, por exemplo, que Deus é trino e uno. Ao contrário, existem verdades que podem ser atingidas pela razão: por exemplo, que Deus existe, que há um só Deus etc. Estas últimas verdades, os próprios filósofos as provaram por meio de demonstração, guiados pela luz da razão natural”. A partir dessa citação, identifique a opção que melhor expressa esse pensamento de Tomás de Aquino. a) A Filosofia é capaz de alcançar todas as verdades acerca de Deus. b) O ser humano só alcança o conhecimento graças à revelação da verdade que Deus lhe concede. d) A fé é o único meio de o ser humano chegar à verdade. Noções gerais acerca do conhecimento U1 52 5. “[...] a solução é esta: que nós, de modo algum, admitimos que haja nomes universais quando, tendo sido destruídas as suas coisas, eles já não são predicáveis de vários, porquanto nem são comuns a quaisquer coisas, como o nome da rosa, quando já não há mais rosas, o qual, entretanto, ainda é então significativo em virtude do intelecto, embora careça de denominação, pois, de outra sorte, não haveria a proposição: nenhuma rosa existe.” (ABELARDO, Pedro. Lógica para principiantes. Petrópolis: Vozes). Considerando o trecho acima, em que Abelardo trata do problema dos universais, assinale a opção correta. a) A partir do momento em que não existam mais rosas, o nome universal “rosa” não mais subsiste, de forma nenhuma. b) A função significativa de um nome universal permanece, mesmo não mais existindo a coisa real. c) O que realmente existe é o indivíduo (por exemplo, esta rosa); quanto ao nome universal, ele nada mais é do que uma emissão fonética. d) Se não for mais possível designar uma coisa, então também não é possível fornecer um conceito dela. d) Mesmo limitada, a razão humana é capaz de alcançar por seus meios naturais certas verdades. 6. “[...] a maneira pela qual Galileu concebe um método científico correto implica uma predominância da razão sobre a simples experiência, a substituição de uma realidade empiricamente conhecida por modelos ideais (matemáticos),a primazia da teoria sobre os fatos. Só assim é que [...] um verdadeiro método experimental pôde ser elaborado. Um método no qual a teoria matemática determina a própria estrutura da pesquisa experimental, ou, para retomar os próprios termos de Galileu, um método que utiliza a linguagem matemática (geométrica) para formular suas indagações à natureza e para interpretar as respostas que ela dá.” (KOIRÉ, Alexandre. Estudos de história do pensamento científico. Trad. de Márcia Ramalho. 2. ed. Rio de d) Mesmo limitada, a razão humana é capaz de alcançar por seus meios naturais certas verdades. Noções gerais acerca do conhecimento U1 53 Janeiro: Forense Universitária, 1991. p. 74.) Com base no texto, é correto afirmar que o método científico de Galileu: a) É experimental e necessita de uma instância teórica que antecede a experiência. b) É um método segundo o qual a experiência interpreta a natureza. c) É independente da experiência, pois a razão está afastada da mesma. d) É um método no qual há o predomínio da experiência sobre a razão. Noções gerais acerca do conhecimento U1 54 Noções gerais acerca do conhecimento U1 55 Referências AA. VV. O livro da filosofia. Trad. Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 4. ed. Trad. Alfredo Bosi. São Paulo: Martins Fontes, 2003. ABRÃO, Bernadette Siqueira (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2008. ARISTÓTELES. Tópicos: dos argumentos sofísticos. Seleção de textos José Américo Motta Pessanha; Trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Nova Cultural, 1987. COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia: História e grandes temas. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. DURANT, Will. A história da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1996. GALILEI, Galileu. O Ensaiador. In: PESSANHA, José Américo Motta. Bruno, Galileu, Campanella. 2. ed. Trad. Helda Barraco, Nestor Deola e Aristides Lôbo. 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História da filosofia moderna: da revolução científica a Hegel. São Paulo: Loyola, 1999. Unidade 2 PRINCIPAIS DESDOBRAMENTOS DA EPISTEMOLOGIA MODERNA Abordaremos o ceticismo fazendo, a princípio, um resgate do ceticismo antigo, mas focando de modo especial o renascer do ceticismo na modernidade, diante dos desafios suscitados pelas descobertas geográficas, astronômicas e científicas, entre outras; apresentaremos os principais nomes do ceticismo moderno e demonstraremos a relevância deste posicionamento na gênese da epistemologia moderna. Apresentaremos o pensamento de René Descartes e a sua contribuição na busca do estabelecimento de bases sólidas para o conhecimento verdadeiro, claro e distinto; partindo da dúvida cética à dúvida hiperbólica e metódica e vencendo a dúvida por meio da constituição de um método Seção 1 | O ceticismo moderno Seção 2 | Descartes e o racionalismo Objetivos de aprendizagem: Compreender como ocorre a formação do conhecimento, sobretudo nas modalidades pertinentes à filosofia e à ciência; a trajetória do conhecimento verdadeiro ao longo da história da humanidade, mas principalmente, o seu desenrolar na modernidade que foi o tema mais debatido. Estabelecer conexões entre os diversos tipos de conhecimento e, de modo especial, a ruptura do vínculo entre os conhecimentos filosóficos, científicos e religiosos, a partir de onde cada qual adquiriu autonomia e trilhou caminho próprio. José Adir Lins Machado Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 58 Estudaremos as principais características do empirismo moderno e a sua maneira de compreender e explicar o mundo baseado na crença de que a verdade vem pelos sentidos e de que nascemos sem ideias; elucidaremos como se dá a superação do ceticismo, na visão empírica e como essa visão se contrapõe ao racionalismo; veremos a contribuição dos principais nomes ligados ao empirismo moderno, desde Bacon a Hume. Explanaremos a compreensão kantiana de conhecimento e a sua crítica aos racionalistas e empiristas, bem como a formulação dos juízos sintéticos a priori como condição de possibilidade de fundamentação do conhecimento verdadeiro e forma de superação das limitações da epistemologia moderna, principalmente a partir dos desafios suscitados pela filosofia de Hume. Seção 3 | O empirismo e a ciência moderna Seção 4 | O criticismo kantiano e de regras que permitem a sua superação e na crença na possibilidade de se atingir a verdade inabalável recorrendo-se às ideias inatas. Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 59 Introdução à unidade Alguma vez você já refletiu sobre quantas informações existem em sua mente das quais você não tem como constatar se são verdadeiras ou falsas, mas que mesmo assim você acredita que sejam como disseram ser? Disseram a você que nós estamos em um planeta redondo que gira em torno do sol, você não consegue constatar isso – a menos que saia fora do planeta e o veja de longe –, mas ainda assim você acredita que ele seja realmente redondo, e deve realmente ser, pois um avião voando em linha reta chega no mesmo local de onde saiu. Disseram a você que há dois mil anos passou por esse planeta um homem chamado Jesus Cristo fazendo milagres. Você acredita nisso mesmo sem poder verificar a ocorrência desse fato. Quem garante que as imagens transmitidas por televisão, por exemplo, realmente sejam como nos são transmitidas? Quem garante que a configuração dos continentes são como aparecem nos mapas? Note que as fronteiras dos países não existem e mesmo assim elas estão presentes em nossa mente. Norte e sul não existem, pois no universo não há em cima e embaixo, mas estão tão presentes em nossa mente que, a princípio, sempre visualizamos o mapa múndi como nos ensinaram, ou melhor, como colocaram em nosso cérebro. E se nesse exato momento dessem um plantão em rede nacional dizendo que a ciência descobriu que o mundo é totalmente diferente do que se acreditava até então e que será necessário refazer todos os livros de ciência, física, astronomia etc., pois tudo o que se acreditava até então estava errado? Ou dito de outra forma: por quantas compreensões de mundo a história da humanidade já passou? Será que a nossa é a mais correta? Até quando explicaremos o mundo com base nas premissas subsumidas hoje em dia? As futuras gerações não vão rir do modo como vemos o mundo atualmente? Não rirão da nossa ciência? Quando você começa a pensar assim, começa a aproximar-se da atitude que surgiu no início da filosofia moderna; ou seja, uma atitude de desconfiança e de receio de não conseguir atingir a verdade. Esse sentimento esteve presente em diversos momentos da história da humanidade, desde a Grécia antiga até aos nossos dias. Essa atitude, ou esse sentimento, chama-se ceticismo, que em língua grega significa “olhar cuidadoso”, mas que normalmentese traduz por dúvida, incredulidade, ou por desconfiança. E esse será o nosso primeiro assunto. Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 60 Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 61 Seção 1 O ceticismo moderno Nesta sessão vamos apresentar a guinada reflexiva ocorrida por ocasião do advento da modernidade, quando as concepções de mundo foram duramente questionadas repercutindo em mudanças radicais no conhecimento humano e gerando, desse modo, uma postura de desconfiança na possibilidade do conhecimento seguro sobre o mundo e o seu funcionamento. Instituições milenares foram duramente sacudidas e tudo o que parecia sólido cedeu o seu lugar ao questionamento e à dúvida cética. 1.1 O abalo cético O problema do conhecimento foi o mais relevante, o mais presente e pertinente, na filosofia moderna, justamente por conta das incertezas quanto à possibilidade de se atingir, ou não, um conhecimento verdadeiro e inabalável. As verdades bíblicas passaram a ser questionadas e não demonstraram tanta firmeza, cientificamente falando, como se imaginava até então. Até ao início da Idade Moderna, século XV e XVI, acreditava-se que a terra era plana e circundada pelos oceanos. Em algum ponto distante os oceanos quedavam em enormes cachoeiras que iam para a porção de águas abaixo da terra e que depois subiam em forma de vapor, formando as nuvens as quais caíam novamente em forma de chuva. Era perigoso navegar muito distante da crosta terrestre visível e por isso os europeus iam para as Índias contornando o continente africano, para não se afastar muito e correr riscos desnecessários. A partir do momento em que a bússola e outras inovações permitiram navegar mais à vontade e, sobretudo, depois que se descobriu o novo continente chegando- se à compreensão de que o planeta era muito maior do que se imaginava e que ele era, de fato, redondo, e que existiam muitos outros povos até então desconhecidos vivendo de modo bem diferente dos europeus; as crenças na ciência e na possibilidade de se alcançar a verdade acerca do mundo, começaram a ser abaladas. Vale lembrar que havia quem sustentasse que a terra não podia ser redonda, pois se assim fosse, quem morava nas laterais (trópicos) do planeta andaria arqueado e Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 62 quem morava embaixo correria o risco de despencar. E que a terra não podia estar em movimento, sendo prova disso o fato de arremessarmos um objeto para o alto e ele cair próximo de nós. Se a terra estivesse em movimento tal objeto cairia longe do local de onde foi arremessado. Tudo isso era ciência até então. Que fique claro, portanto, que a ciência nunca teve, não tem e talvez nunca tenha respostas para todos os nossos questionamentos. Mas que fique ainda mais claro, que a ciência nos oferece a melhor explicação possível até o presente momento; e que nada impede que no futuro algumas teorias sejam corrigidas ou até mesmo descartadas. Podemos perceber, então, que talvez ninguém tenha a verdade sobre a realidade na qual estamos imersos. Etimologicamente, o vocábulo cético vem do grego sképsis (σκεψις), que, além de ter o significado de olhar cuidadosamente, conforme já afirmamos anteriormente, também tem o sentido de buscar, investigar, procurar, examinar. Segundo a compreensão dos céticos, o homem não atinge a sabedoria conhecendo verdade, mas procurando-a; pois não temos acesso à verdade, somente podemos conhecer a maneira como as coisas se apresentam a nós, os fenômenos, as aparências. Apenas um ser superior conhece a verdade, ao homem cabe investigá-la. Disso resultam duas verdades: uma divina (o conhecimento) e outra humana). Você tem certeza das suas certezas? Talvez possamos considerar Heráclito de Éfeso (540-470 a. C. o primeiro cético do mundo, pois, de certo modo, ele rompe com a busca pelo arquê alegando que não podemos conhecernada devido ao fato de tudo estar sempre em mudança (devir). Na sequência vamos encontrar evidências do ceticismo no pensamento dos sofistas, pois para eles a verdade em si não existia, era apenas convenção humana. Mas o maior expoente do ceticismo antigo, notadamente, é Pirro de Élida (360-270 a.C.), um oficial de Alexandre, o qual nada escreveu e cujo pensamento foi conhecido e Naquela época o mundo passava por muitas transformações. Politicamente o Papado e o Império Romano Oriental sucumbiram enquanto Espanha, França, Inglaterra e Holanda surgiram como potências nacionais; governos constitucionais contestavam o absolutismo; economicamente começa surgir a indústria, a América é descoberta e intensifica-se o comércio. Também ocorrem mudanças científicas com a invenção do telescópio e do microscópio, da máquina a vapor e da imprensa. Socialmente surge uma nova classe, a burguesia. No campo religioso temos a reforma, contrarreforma e o surgimento de novas ordens religiosas. Na filosofia surge o antropocentrismo e o ceticismo. (MACHADO, 2015, p. 15). 1.2 Ceticismo antigo Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 63 divulgado por um médico de Alexandria chamado Sexto Empírico, além do biógrafo dos filósofos antigos, Diógenes Laércio (200-250 d.C.). Conta-se que Pirro, durante um tempo, foi ao extremo de contentar-se em apenas mover os dedos ou a cabeça sem proferir palavra alguma. Manifestava com isso que não era possível conhecer a verdade; se fosse possível conhecê-la, não seria possível comunicá-la e se fosse possível comunicá- la, o outro não a compreenderia, por isso, tudo o que restava era calar-se. Desse modo, o pirronismo, ou ceticismo pirrônico, foi considerado a forma mais extrema do ceticismo grego, conforme aponta Abbagnano em seu Dicionário de Filosofia, no verbete Pirronismo. FONTE: Disponível em: <http://commons. wikimedia.org/wiki/File:Edinburgh_ Skeptics.jpeg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.1 | Você tem certeza das suas certezas? Contam também que, quando por causa de uma ferida se lhe aplicaram fármacos desinfetantes, incisões e cauterizações, nem piscou os olhos. Possidônio conta sobre ele também o seguinte: certa vez, quando os que com ele navegavam foram tomados pelo terror por causa de uma tempestade, ele, permanecendo calmo, recobrou a forças de ânimo, mostrando um porquinhoque sobre a nave continuava a comer e dizendo que o sapiente deve manter- se em semelhante estado de imperturbabilidade. [...] Pirro afirmava que não existe nenhuma diferença entre vida a morte. Alguém Ihe perguntou: "Então, por que não morres?", e ele:"Porque não há nenhuma diferença", respondeu. (REALE, 2007, p. 309). FONTE: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Michel_de_Montaigne_1.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.2 | Michel de Montaigne – referência cética Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 64 Moralmente, os céticos também buscavam uma vida pautada na ataraxia e na apatia, ou seja, viver indiferente às paixões, buscando a paz interior, sem perturbações. A apatia pirrônica é a insensibilidade, ele não amava nada e não se irritava com nada. Certa vez, caminhando com o seu amigo Anaxarco, este caiu num pântano e Pirro continuou a caminhar indiferente, ao que Anaxarco o louvou por sua impassibilidade. Apresentamos o ceticismo antigo apenas para situá-lo melhor com relação a essa atitude filosófica, porém o ceticismo que nos interessa nesse momento é o ceticismo moderno, sobretudo aquele que antecede a filosofia moderna, ou, melhor dizendo, aquele que desperta essa filosofia, pois a modernidade se viu provocada a vencer o ceticismo e foi por essa razão que a epistemologia se pôs na pauta das principais discussões filosóficas. Ceticismo moderno O sobrinho do filósofo Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494), chamado Gianfrancesco Pico della Mirandola (1469-1533), parece ter sidoo primeiro, na idade moderna, a utilizar o ceticismo descrito por Sexto Empírico de modo sistemático. Fez isso em sua obra intitulada Exame das fatuidades das teorias dos pagãos e da verdade da doutrina cristã, datada do ano de 1520. Nessa obra, ele utiliza elementos céticos para demonstrar a insuficiência das teorias filosóficas e, portanto, da razão pura, e conclui que, para alcançarmos a verdade, é preciso a fé. Também o mago Agrippa de Nettesheim (1486-1535) – cujo Supostamente, o maior bem das nossas vidas – ou um dos maiores – é a nossa felicidade. Mas será que existe um caminho para alcançá-la que possa ser válido para todas às pessoas? FONTE: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Gnothi_seauton.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.3 | Gnothi Seauton, “Conhece-te”, inscrição do pórtico do templo de Delfos Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 65 Sexto Empírico havia sustentado que os céticos resolveram o problema da felicidade justamente ao renunciarem ao conhecimento da verdade. Ele se valia da alegoria do pintor Apeles para ilustrar esse fato. Contava-se que Apeles não conseguindo pintar de modo satisfatório a espuma sobre a boca de um cavalo, irritou-se e jogou contra a pintura uma esponja embebida em tintas. Aconteceu que a esponja deixou na tela uma mancha muito parecida com a espuma. A partir disso, Sexto Empírico afirmava que da mesma maneira que Apeles ao renunciar o seu objetivo acabou alcançando-o, também os céticos, ao renunciarem encontrar a verdade (ou seja, suspendendo o juízo), acabaram encontrando a tranquilidade. nome verdadeiro era Heinrich Cornelius – refletindo sobre a mesma temática de Gianfrancesco Pico della Mirandola, em sua obra Incerteza e fatuidade das ciências e das artes (escrita em 1526 e publicada em 1530), sustenta que é apenas a fé que salva o homem e não as ciências e as artes humanas. Porém o maior nome desse renascer do ceticismo na modernidade deve ter sido Michelde Montaigne (1533-1592), autor dos Ensaios (1580 e 1588), que são obras- primas ainda hoje muito consideradas.Também em Montaigne o ceticismo convive com uma fé sincera e deve ser considerado fundamento de sabedoria. Segundo Montaigne (1980), o ceticismo sendo atitude de desconfiança na razão, ele não põe a fé à prova, haja vista que se encontra em um plano diferente, estando desse modo livre dos ataques dos céticos. Escreve Montaigne "O ateísmo é [...] uma proposição quase contra a natureza e monstruosa, difícil também e inapta para fixar-se no espírito humano, por mais insolente e desregulado que ele possa ser". (MONTAIGNE apud REALE, 2005a, p. 62). Entretanto, a naturalidade (se é possível usar esse termo) do conhecimento de Deus depende inteira e exclusivamente da fé. O cético, portanto, só pode ser fideísta. Mas o fideísmo de Montaigne não é o de místico. E o interesse dos Ensaios volta-se predominantemente para o homem e não para Deus. A antiga exortação contida na sentença inscrita no templo de Delfos, "homem, conhece-te a ti mesmo", da qual Sócrates e grande parte do pensamento antigo se apropriaram, torna-se para Montaigne o programa do autêntico filosofar. Mas nãosó isso: os filósofos antigos visavam ao conhecimentodo homem com o objetivo de alcançar a felicidade – e esse objetivo também está no centro dos Ensaios de Montaigne. A dimensão mais autêntica da filosofia é a da "sabedoria", que ensina como devemos viver para sermos felizes. [...] Mas como a razão cética, abraçada por Montaigne, pode alcançar esses objetivos, aquela mesma razão cética que propõe acima de todas as coisas a pergunta de advertência "o que sei eu?" (que sais-je?) (REALE, 2005a, p. 62). Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 66 A solução apontada por Montaigne inspira-se nessa alegoria, porém é muito mais rica e vai mais longe, pois é mais bem articulada e sofisticada, incluindo até contribuições epicuristas e estoicas. Desse modo, o "conhece-te a ti mesmo" não nos levará à compreensão da essência humana, mas somente das características do homem singular, do indivíduo. Sendo que os homens são diferentes uns dos outros, não seria possível estabelecer os mesmos preceitos de modo universal. Seria preciso que cada um construísse uma sabedoria ao seu jeito. Cada um sendo sábio de sua própria sabedoria. O sábio, segundo Montaigne, deve saber dizer sim à vida, em qualquer circunstância, e aprender a aceitá-la e amá-la assim como é, sempre. Em Ensaios, Livro Terceiro, capítulo III – 6 Montaigne diz: Esse era o ambiente acadêmico europeu no século XV e XVI, sedento de respostas convincentes e de certezas, tanto quanto possível, inabaláveis. Esse é o terreno que dará condições de surgimento a duas grandes correntes de pensamento: o empirismo e o racionalismo. Ainda que tudo o que sabemos do passado fosse certo, seria menos do que nada em relação ao ignorado. Quão pequeno e imperfeito é o conhecimento que mesmo os mais curiosos têm de nosso tempo! [...] Consideramos milagres as invenções da artilharia e da imprensa, quando outros já se serviam delas há mil anos na China. [...] Nada na natureza é único; e somente o é em face de nossos conhecimentos restritos, os quais constituem a base defeituosa que estabelecemos e nos levam a uma ideia muito falsa das coisas. (MONTAIGNE, 1980, p. 412). Se toda a casa está desmoronando, isto é, se caem por terra a velha metafísica e a velha ciência, então o novo método deve se Sobre o ressurgimento do ceticismo na modernidade leia: O capítulo 4, ponto III: Renascimento de uma forma moderada de Ceticismo. Páginas 61 a 66; da obra: REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia – Do Humanismo a Descartes. Vol. III. 2 ed. São Paulo: Paulus, 2005. Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 67 O método dedutivo é aquele que a partir de uma ideia geral, deduz as questões particulares; enquanto o indutivo é o contrário: partindo de uma constatação, ou de várias constatações individuais, particulares, dela(s) infere uma ideia universal. A matemática é a ciência por excelência para os racionalistas justamente por prescindir da experiência, ela é basicamente racional; enquanto a física tem a mesma função para os empiristas, pois ela necessita da experiência e só admite como verdadeiro aquilo que pode ser provado, demonstrado, medido e pesado. Vejamos rapidamente as principais diferenças entre racionalistas e empiristas. apresentar como o início de novo saber, em condições de impedir que nos dispersemos em uma série desarticulada de observações ou caiamos em formas novas e mais refinadas de ceticismo. [...] Era urgente uma filosofia que justificasse a confiança comum na razão. Só era possível opor ao ceticismo desagregador uma razão metafisicamente fundada, capaz de se sustentar na busca da verdade, e um método universal e fecundo (REALE, 2005a, p 288). Fonte: O autor Quadro 2.1 | Principais diferenças entre racionalistas e empiristas Racionalistas Empiristas Origem do conhecimento Razão Experiência + sentidos Origem das ideias Inatas Adquiridas Método Dedutivo Indutivo Ciência modelo/padrão Matemática Física 1. Ao contrário do que possa parecer em um primeiro momento, o ceticismo é uma atitude bastante sábia, pois não se trata de dúvida ingênua, mas de um questionamento profundo acerca da constituição da realidade. A dúvida difere da incerteza e da falsidade e se compromete com a busca constante de compreensão da mutabilidade do mundo. Considere: Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 68 I – Para o cético a verdade não existe e tudo o que resta ao sábio é a suspensão do juízo. II – O ceticismo, por sua atitude de dúvida, não tem contribuição significativa para o conhecimento. III – A compreensão cética de sabedoria é que trata mais de busca do que propriamentede posse da verdade. IV – O cético capta a mutabilidade como sendo a essência do mundo, daí a dificuldade de certezas inabaláveis. Estão corretas apenas as alternativas: a) I e II. b) II e III. c) III e IV. d) I e IV. 2. A filosofia moderna é precedida por um período de resgate da sabedoria dos antigos, o Renascimento, que valoriza o homem e suas potencialidades. Coerente a essa visão, o homem moderno se propõe a buscar respostas às questões sobre o mundo recorrendo apenas à razão, sendo a dúvida o primeiro passo dessa busca. De acordo com o texto acima e os seus conhecimentos sobre ceticismo, assinale a alternativa correta. a) O ceticismo moderno em nada difere do antigo e se propõe a responder às mesmas questões propostas desde a Grécia antiga. b) Na modernidade não houve ceticismo, de fato, pois os pensadores jamais conseguiram atingir a suspensão dos juízos, limitando-se a duvidar das afirmações religiosas tão somente. c) O ceticismo pirrônico, na versão transmitida por Sexto Empírico foi o auge do ceticismo moderno. d) Michel Montaigne pode ser considerado um dos maiores expoentes do ceticismo moderno, contudo, alega que a fé não é posta à prova pelos céticos. Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 69 Seção 2 Descartes e o racionalismo Apresentaremos a vocês, nesta sessão, o modo como René Descartes se posiciona diante do ceticismo e do empirismo, defendendo a sua postura racionalista e as suas principais contribuições, além do método da dúvida metódica, criado por ele, como guia seguro em direção às verdades claras e distintas. 2.1 O código cartesiano Como vimos, o ceticismo sustenta que não podemos atingir qualquer verdade no âmbito da ciência ou da filosofia, ou seja, não temos acesso à verdade objetiva, válida em todos os tempos e lugares. Atingimos apenas verdades subjetivas as quais não podem ser consideradas propriamente verdades, pois são simples impressões e não nos garantem a certeza. Sustentam os céticos que não podemos conhecer a essência das coisas, somente suas aparências e, por isto, o homem sábio deve se abster de emitir juízos. O probabilismo é a versão mais conhecida do ceticismo e nele se incentiva a permanente desconfiança em relação à verdade permanecendo aberto à hipótese da probabilidade apenas. O cético observa, desconfia, e espera o desenrolar dos fatos e só depois se pronuncia. Esta era a atitude reinante na filosofia no tempo de Descartes. René Descartes nasceu em La Haye (hoje Descartes), na Touraine, França, no dia 31 de março de 1596. Seu pai se chamava Joachin Descartes e sua mãe Jeanne Brochard. Joachin possuía o título de conselheiro do rei no Parlamento da Bretanha. Jeanne faleceu quando Descartes tinha apenas um ano de idade e foi sua avó quem passou a cuidar dele, pois nessa época ele tinha uma saúde muito frágil. Aos dez anos de idade, em 1606, foi estudar no colégio jesuíta de La Fleche, criado em 1604. Esse colégio iria se tornar uma das mais renomadas escolas da Europa, e nele Descartes estudou por nove anos, até 1615. Contudo, ao final dos estudos dirá Descartes: Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 70 Eu estava num dos mais célebres colégios da Europa, onde pensava que deveriam existir homens sábios, se eles existissem em algum lugar da terra. Alimentei-me de letras desde minha infância, e, devido ao fato de me terem persuadido de que por meio delas podia-se adquirir um conhecimento claro e seguro sobre tudo o que é útil à vida, tinha extremo desejo de aprendê- las. Porém, assim que terminei todo esse curso de estudos, ao fim do qual costuma-se ser recebido na fileira de doutores, mudei inteiramente de opinião. (PESSANHA, 1999, p. 11). Como se percebe, a decepção não foi com a equipe de professores ou com o sistema de ensino, mas com o conteúdo estudado, pois, segundo Descartes, eles “exprimiam uma cultura sem fundamentos racionalmente satisfatórios e vazia de interesse para a vida. [...] O que o decepcionou foram as próprias ‘letras’, as chamadas ‘humanidades’” (Idem). Descartes sempre foi fascinado pela exatidão que se alcança com a matemática e ao desencantar-se com as humanidades o seu encanto pela matemática cresceu ainda mais, pois com ela consegue conferir a certeza e a evidência de suas razões. Ela permite exibir uma construção sólida e clara que se impõe universalmente por meio da força de suas demonstrações incontestáveis e inquestionáveis. Ele viu na matemática a possibilidade de vitória sobre a força do ceticismo até então difundido e aceito. Contudo, mesmo apesar da exatidão da matemática, parecia que ela, ainda assim, ensinava pouco, ou quase nada, para a vida. Diante disso, Você já parou para pensar quanta coisa se aprende que nunca servirá para nada? Talvez não passe de cultura inútil, como dizemos. E a escola nos prepara para a vida ou apenas para o mercado de trabalho? O que realmente é importante conhecer para a vida? Ao descobrir isso, você descobrirá a diferença entre conhecimento e sabedoria. FONTE: Disponível em: <http:// c o m m o n s . w i k i m e d i a . o r g / w i k i / C a t e g o r y : M a t h e m a t i c a l _ f o r m u l a s ? u s e l a n g = p t - br#mediaviewer/File:Equation.png>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.4 | A matemática encantava Descartes por sua exatidão Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 71 em 1619, depois de viajar bastante pela Europa, Descartes acabou entrando para a Ordem Rosa-Cruz. Segundo ele, essa confraria apresentava uma compreensão de mundo que ao mesmo tempo era mística e racional. Desde então, Descartes concluiu que a sua tarefa era reavivar o antigo ideal pitagórico – e de certo modo esse reavivamento já havia sido iniciado por Galileu Galilei – de desvelar a teia numérica que constitui a alma do mundo, abrindo a via para o conhecimento claro e seguro de todas as coisas. O século XVI acarretou profundas transformações na visão de mundo para a civilização ocidental: antigas doutrinas filosóficas e científicas foram redescobertas pelos estudiosos; os valores da antiguidade greco-romana acabaram por renascer na Europa; a unidade política, espiritual e religiosa acabou sendo sacudida ou até mesmo destruída; as novas descobertas revelaram um planeta bem maior do que se imaginava, contendo outros povos e outras culturas. Tais fatores que acabaram originando, conforme assinalamos no tópico anterior, um clima de ceticismo. Agrippa proclama a incerteza das ciências; Francisco Sanchez (1552-1632), médico português, adota a dúvida como recurso metodológico e conclui que o homem não pode conhecer Um lugarejo nas cercanias de Ulm, Alemanha, 1619. De 10 para 11 de novembro, René Descartes, jovem francês engajado nas tropas do Duque Maximiliano da Baviera, vive uma noite extraordinária. Depois de um período de febril atividade intelectual, o dia transcorrera em meio a grande exaltação e entusiasmo: afinal, parecia ter descoberto os fundamentos de uma “ciência admirável”. O arrebatamento prossegue durante o sono, atravessado por três sonhos sucessivos cujas imagens o próprio Descartes interpretará como símbolo da iluminação que recebera e, ao mesmo tempo, como indicação da missão a que deveria consagrar a vida. Essa missão era a de unificar todos os conhecimentos humanos a partir de bases seguras, construindo um edifício plenamente iluminado pela verdade e, por isso mesmo, todo feito de certezas racionais. (PESSANHA, 1999, p. 5). FONTE: Disponível em: <http://commons. wikimedia.org/wiki/Category:Scientific_ method?uselang=pt-br#mediaviewer/File:The_ Scientific_Method.png>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.5 | A fascinação por método é uma das características da filosofia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 72 nada com certeza; Montaigne busca demolir as superstições econclui que tudo o que há são opiniões e incertezas, e que o homem não pode saber nada por que o homem não é nada (PESSANHA, 1999). Para reagir a esse ceticismo era necessário que se encontrasse um caminho seguro e certo, capaz de superar as armadilhas traiçoeiras do ceticismo e conduzir o conhecimento humano à descoberta de verdades firmes, inabaláveis e permanentes. Precisava-se achar um caminho, um método, para as ciências. Em língua grega “caminho para” se diz método, daí a relevância desse termo para os filósofos renascentistas e modernos que se empenharam na busca das bases do conhecimento. Foi aqui, portanto, diante do ceticismo que surgiram as duas grandes orientações metodológicas antagônicas. De um lado a corrente empirista, que só admite como conhecimento aquilo que procede da experiência e que chega até à nossa mente pelos sentidos; e de outro, o racionalismo que buscará na razão a recuperação da certeza científica. Para melhor entender a tarefa que Descartes vai propor, imagine o seguinte: você é convidado para participar em um congresso sobre o conhecimento. O convite se deu porque os organizadores do congresso sabem que você tem uma teoria muito interessante sobre o assunto. Os organizadores do evento querem um congresso muito marcante e que faça bastante sucesso e por isso, além de você, convidam mais dois palestrantes que têm visões bem diferentes da sua, para que o debate seja realmente envolvente. Todos os palestrantes estão plenamente convencidos de que a sua teoria é a melhor possível. O que significa dizer que quando você terminar de explanar o assunto vai ser bombardeado de perguntas e objeções. Você está muito ciente disso, mas aceita o desafio e quer aproveitar a oportunidade para selar de uma vez por todas a superioridade da teoria. Palavra de origem grega importantíssima na etimologia matemática: metá (reflexão, raciocínio, verdade) + hódos (caminho, direção). Méthodes refere-se a um certo caminho que permite chegar a um fim. Em 1637 René Descartes publicou seu Discours de la Méthode, em que aponta o caminho para um novo raciocínio científico que deveria conduzir seu articulador aos segredos (principia) da natureza (phýsis ou natura). Com seu méthode, permitiria aos filósofos chegarem, descobrirem as leis que o Criador necessitou para a perfeita harmonia do universo (DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO, 2015). Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 73 1. Ele começou duvidando dos sentidos (aqui ele está se colocando contra os empiristas, pois para esses a verdade nos era fornecida pelos sentidos), mostrando que podem nos enganar, mas conclui que há coisas das quais não se pode sensatamente duvidar, a menos que se padeça de demência. 2. Em seguida, Descartes passou para o argumento da imaginação: mas como posso ter certeza de que este conhecimento fornecido pelos sentidos está realmente acontecendo e que não é apenas fruto de um sonho? (Essa poderia ser a objeção de um empírico). Então Descartes responde: ainda que fosse um sonho, as imagens seriam tão reais que poderiam ser medidas e pesadas (Descartes apela para É mais ou menos isso que aconteceu com Descartes. Ele tem diante de si duas propostas de conhecimento, o ceticismo (o qual nós já conhecemos) e o empirismo. Ele sabe que ao apresentar os seus argumentos terá de vencer os argumentos das outras duas visões. Descartes então inicia a sua fala partindo da única alternativa que o cético admite, a dúvida. Percebe Descartes que a dúvida pode ser vencida com suas próprias armas, ou seja, deve-se levar a dúvida ao extremo até chegar a uma verdade indubitável. Vai-se duvidando de tudo. Não é isso que o cético ensina? E foi isso que ele fez. Só que ele não ficou na dúvida cética, ou seja, ficar na dúvida acreditando que a dúvida em si mesma tem valor. Não. Descartes parte da dúvida e dela faz um “caminho para”, faz um método para se alcançar a verdade; portanto, a dúvida cartesiana é a dúvida metódica. Ao contrário de muitos pensadores que tinham a dúvida como ponto de chegada, como ponto final do conhecimento (tudo o que resta são dúvidas), Descartes tem a dúvida como ponto de partida em busca de uma verdade. “A dúvida, em suma, é um meio para um fim, não um fim em si”. (CONTTINGHAM, 1995, p. 56). Os passos da dúvida metódica são os seguintes: Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:M%C3%BCnchen_-_BMW-Welt.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.6 | A hipérbole é o dobrar-se exageradamente Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 74 a matemática, ela é racional, não precisa da experiência). 3. Aí veio o argumento das verdades matemáticas (como se fosse novamente um questionamento levantado pelos empiristas): e se os pesos e medidas fossem colocados em nossa mente por um deus enganador. Então Descartes sustenta que um deus enganador não pode existir, pois o enganar é contrário ao conceito de Deus. Mas (poderiam objetar os empíricos) e se fosse gênio maligno que gosta de nos enganar? 4. E chegando a esse limite (a hipérbole, o exagero) Descartes reconhece a primeira verdade: mesmo que eu possa duvidar da minha existência real, não posso duvidar que duvido. Se duvido, penso; e se penso, existo: penso, logo existo. Ainda que seja a existência apenas e simplesmente enquanto pensamento, sem necessariamente ter certeza da existência do corpo; mas já se tem, contudo, a existência do pensamento e o pensamento é o eu pensante, é coisa pensante res cogitans, em latim e primeira verdade a que Descartes chega, recorrendo somente à razão, sem fazer experiência alguma. Diz ele na segunda meditação: Mas existe alguém, não sei quem, enganador muito poderoso e astucioso, que dedica todo o seu empenho em enganar-me sempre. Não há, então, dúvida alguma de que existo, se ele me engana; e, por mais que me engane, nunca poderá fazer com que eu nada seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa. De maneira que, depois de haver pensado bastante nisto e analisado cuidadosamente todas as cosias, se faz necessário concluir e ter por inalterável que esta proposição, eu sou, eu existo, é obrigatoriamente verdadeira todas as vezes que a enunciou ou que a concebo em meu espírito. (DESCARTES, 1999, p. 258). Notemos que é justamente quando a dúvida atinge o seu limite, a chamada dúvida hiperbólica, ou seja, quando a dúvida exagera tanto que se dobra sobre ela mesma duvidando da própria dúvida (ela é apenas uma ferramenta filosófica, um recurso para o pensamento, pois ninguém em sã consciência duvida da própria existência) que ela começa ser superada, pois permite que se encontre uma certeza. Como se pode perceber, o pensamento é, para Descartes, uma atividade autofundante: sua existência resulta da sua própria atividade. Sobre hipérbole acesse: <http://www.infoescola.com/linguistica/hiperbole/>. Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 75 Descartes vivia numa época em que a Igreja dizia o que era verdadeiro e o que era falso. Além disso, Descartes era conhecedor das retaliações impostas a Galileu Galilei e, como ele estudou em um colégio Jesuíta, tinha clara noção de quanto a cautela e a prudência eram necessárias para evitar complicações com as autoridades eclesiásticas. Por isso, inclusive, ele inicia a sua obra Meditações oferecendo-a “Aos Senhores Deão e Doutores da Sagrada Faculdade de Teologia de Paris”. Desse modo, entende-se que Descartes era ciente de que a ideia de Deus – Res Infinita – não podia ficar fora da reflexão acerca do conhecimento. E como ele já tinha feito uma revolução no pensamento, ao substituir a primeira verdade, a verdade indubitável, segundo a compreensão da Igreja – a existência de Deus –, por uma verdade subjetiva – a existência do eu – agora caberia fazer referência ao Criador. E, assim, partindo da primeira verdade, o pensamento,ele chega à segunda, a existência de Deus. Para Descartes essa ideia estaria na mente do homem como “a marca do artista impressa em sua obra”, o qual é a garantia da objetividade do conhecimento científico, o bom Deus, a Deusa-Razão. (PESSANHA, 1999, p. 24). Para Descartes Deus serviria de garantia para se vencer a dúvida em relação ao conhecimento dos corpos físicos – Res extensa – e assim nos dar acesso à terceira verdade, a existência do mundo físico, da realidade material onde nos encontramos. A existência do mundo exterior primeiro é possível, depois é provável e, por fim, é certa (Ibidem, p. 25). Porque Deus é bom, a imagem que o homem faz do mundo exterior não representa apenas uma ficção de sua mente. Na terceira meditação, Descartes se ocupa de provar a existência de Deus. Diz ele: afastar-me-ei de todos os sentidos ocupando-me somente comigo e com as formas de pensar que se encontram em mim. Engane-me quem puder; mesmo assim, nunca poderá fazer que eu nada seja enquanto pensar que sou algo. Nos meus pensamentos encontram-se ideias, vontades e juízos. Não posso julgar que seja falso que as ideais se encontram em minha mente, mas que elas correspondam plenamente às coisas que estão fora da minha mente já não é tão certo. Algumas ideias nasceram conosco e outras foram adquiridas. A questão é saber se Com base nas progressões matemáticas, em que se tendo os dois ou três primeiros termos é possível encontrar os demais, Descartes acreditou que era possível construir uma cadeia de razões em que o desconhecido seria descoberto a partir do já conhecido e como ele já tem uma primeira certeza – a existência do pensamento – agora já é possível levantar o edifício do saber. O importante é que só se considere como verdadeiro o que for intuível com clareza e precisão. (MACHADO, 2013, p. 38). Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 76 as ideias adquiridas correspondem à verdade. Por vezes, é perceptível uma diferença entre a ideia e o objeto. As ideias Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:God?uselang=pt-br#mediaviewer/File:Wenceslas_ Hollar_-_Creation_of_sun_and_moon_(State_1).jpg>. Acesso em 20 mar. 2015. Figura 2.7 | Deus é a garantia da existência do mundo físico [...] que me representam substâncias são, sem dúvida, algo mais e contêm em si (por assim falar) mais realidade objetiva ou seja, participam, por representação, num maior número de graus de ser ou de perfeição do que aquelas que representam somente maneiras ou acidentes. Ademais, aquela pela qual eu concebo um Deus soberano, eterno, infinito, imutável, onisciente, onipotente e criador universal de todas as coisas que estão fora dele; aquela, digo, tem com certeza em si mais realidade objetiva do que aquelas pelas quais as substâncias finitas me são representadas. (DESCARTES, 1999, p. 276). E Descartes prossegue afirmando que deve existir tanta realidade na causa eficiente quanto em seu efeito, pois o nada não poderia produzir coisa alguma e o que é mais perfeito não pode ser consequência do que é menos perfeito. Toda ideia é obra do espírito e por isso a natureza da ideia é tal que não exige de si nenhuma outra realidade formal. Se existe em nós alguma ideia que não tenha causa, diremos que ela tirou a sua causa do nada, mas como não se pode dizer que as ideias se originam do nada, então é necessário que a realidade esteja formalmente nas causas de minhas ideias. Se a realidade objetiva de minhas ideias não se encontra em mim, disso decorre que não existo sozinho no mundo, mas que há algo que é causa destas ideias. Ao falar da marca impressa Descartes diz: Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 77 Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sceau_Aubert.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.8 | Deus deixou sua marca impressa em nós: a ideia de um ser perfeito Pelo nome de Deus entendo uma substância infinita, eterna, imutável, independente, onisciente, onipotente e pela qual eu próprio e todas as coisas que são (se é verdade que há coisas que existem) foram criados e produzidos. Ora, essas vantagens são tão grandes e tão importantes que, quanto mais cuidadosamente as considero, menos me convenço de que esta ideia possa haver-se originado apenas de mim. E, portanto, é necessário obrigatoriamente concluir, de tudo o que foi dito antes, que Deus existe; porque, mesmo que a ideia, da substância esteja em mim, pelo próprio fato de ser eu uma substância, não teria a ideia de uma substância infinita, eu que sou um ser finito, se ela não tivesse sido colocada em mim por alguma substância que fosse de fato infinita. (DESCARTES, 1999, p. 281). O argumento utilizado por Descartes para tentar provar a existência de Deus, parte do argumento único de Santo Anselmo de Aosta (1033-1109) (também conhecido como Anselmo de Cantuária), o qual posteriormente ficou conhecido como argumento Ontológico. O capítulo II do Proslógio, de Santo Anselmo é intitulado “Que Deus existe verdadeiramente” e com isso ele queria dar uma resposta ao estulto (ou insipiente, ou néscio) dos salmos 14 e 53 (ou 13 e 52 conforme a versão bíblica), onde se lê “o estulto diz em seu coração ‘Deus não existe’”. Abaixo transcrevo o referido capítulo: Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 78 Então, ó Senhor, tu que nos concedeste a razão em defesa da fé, faze com que eu conheça, até quanto me é possível, que tu existes assim como acreditamos, e que és aquilo que acreditamos. Cremos, pois, com firmeza, que tu és um ser do qual não é possível pensar nada maior. Ou será que um ser assim não existe porque "o insipiente disse, em seu coração: Deus não existe"? Porém, o insipiente, quando eu digo: "o ser do qual não se pode pensar nada maior", ouve o que digo e o compreende. Ora, aquilo que ele compreende se encontra em sua inteligência, ainda que possa não compreender que existe realmente. Na verdade, ter a ideia de um objeto qualquer na inteligência, e compreender que existe realmente, são coisas distintas. Um pintor, por exemplo, ao imaginar a obra que vai fazer, sem dúvida, a possui em sua inteligência; porém, nada compreende da existência real da mesma, porque ainda não a executou. Quando, ao contrário, a tiver pintado, não a possuirá apenas na mente, mas também lhe compreenderá a existência, porque já a executou. O insipiente há de convir igualmente que existe na sua inteligência "o ser do qual não se pode pensar nada maior", porque ouve e compreende essa frase; e tudo aquilo que se compreende encontra- se na inteligência. Mas "o ser do qual não é possível pensar nada maior" não pode existir somente na inteligência. Se, pois, existisse apenas na inteligência, poder-se-ia pensar que há outro ser existente também na realidade; e que seria maior. Se, portanto, "o ser do qual não é possível pensar nada maior" existisse somente na inteligência, este mesmo ser, do qual não se pode pensar nada maior, tornar-se-ia o ser do qual é possível, ao contrário, pensar algo maior: o que, certamente, é absurdo. Logo, "o ser do qual não se pode pensar nada maior" existe, sem dúvida, na inteligência e na realidade. (GRANDO, 2015). No capítulo V das Meditações, Descartes faz uma reflexão que toma por base essa compreensão de Santo Anselmo e afirma que a existência de Deus determina o seu pensamento, pois não lhe é dada a liberdade de conceber um Deus sem existência, um ser supremamente perfeito sem uma suprema perfeição, que é a existência. Sobre hipérbole, acesse: <http://educacao.uol.com.br/disciplinas/ filosofia/santo-anselmo-da-cantuaria-argumento-ontologico-provoca- discussoes-ate-hoje.htm>. Na segunda meditação, parafraseando Arquimedes de Siracusa (287-212 a. C.), o qual dizia “me deem uma alavanca, um ponto de apoio e eu moverei o mundo”; e sabendo que, na matemática, quando se tem um fator é possível encontrar os Principaisdesdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 79 demais. Descartes afirma “me deem uma única verdade e eu reconstruo o edifício do saber”. Descartes pede uma verdade, e chegou a três, portanto já é possível a edificação do saber. Quais são as três verdades? As três verdades, na ordem de conhecimento, para Descartes são: 1º Res cogitans (coisa pensante), 2º Res infinita (Deus) e 3º Res extensa (coisa extensa, o mundo, os corpos físicos). Os passos para que se atinja o conhecimento verdadeiro através do método cartesiano são os seguintes: I – O preceito da evidência: só aceitar como verdade aquilo que for autoevidente, aquilo que não deixa margem alguma para a dúvida. II – O preceito da análise: dividir cada uma das dificuldades em quantas partes for necessário para serem revolvidas. III – O preceito da síntese: conduzir com ordem os pensamentos, começando dos mais fáceis indo até aos mais complexos. IV – O preceito da enumeração: realizar enumerações de modo a verificar que nada foi omitido. Em 1649, Descartes vivia na Holanda e era conhecido internacionalmente, sendo louvado por uns e combatido por outros. No fim daquele ano, aceitou o convite da rainha Cristina da Suécia e se mudou para a corte de Estocolmo. A rainha se levantava muito cedo para fazer caminhadas e pediu a Descartes que a acompanhasse enquanto iam conversando, uma espécie de aula peripatética. Como Descartes tinha uma saúde frágil e o inverno nórdico é rigoroso, acabou por contrair uma pneumonia e falecendo em uma semana. Faleceu no dia 11 de fevereiro de 1650, poucos meses depois de sua chegada em Estocolmo (PESSANHA, 1999, p. 16). Algum tempo após a morte de Descartes, alguns amigos resolveram buscar o seu corpo para que ele ficasse na França, mas conta-se que o caixão levado era muito pequeno, razão pela qual acabaram por lhe cortar a cabeça e enterrá-la até que pudessem tomar outras providências. Enquanto preparavam o esquife o embaixador francês na Suécia resolveu cortar o dedo indicador direito de Descartes para guardá-lo como lembrança. Posteriormente, um oficial do exército sueco desenterrou o crânio de Descartes e guardou-o como lembrança. Em seguida o crânio passou pelas mãos de muitos colecionadores até finalmente ser enterrado junto ao corpo em Paris. Descartes ficou conhecido como o pai do racionalismo e também como o pai da Filosofia Moderna. Suas principais obras foram: Regras para a direção do espírito, de 1628; Sobre o movimento do coração, de 1629; Tratado do mundo, de 1635; Discurso do método, de 1637 e Meditações, de 1641. Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 80 1. “Mas logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade eu penso, logo existo era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que poderia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da Filosofia que procurava.” (DESCARTES, René. Discurso do método. Trad. de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 92. Coleção Os Pensadores.) De acordo com o texto e com os conhecimentos sobre o tema, assinale a alternativa correta. a) Para Descartes não podemos conhecer nada com certeza, pois tudo quanto pensamos está sujeito à falsidade. b) O “eu penso, logo existo” expressa uma verdade instável e incerta, o que fez Descartes ser vencido pelos céticos. c) A expressão “eu penso, logo existo” representa a verdade firme e certa com a qual Descartes fundamenta o conhecimento e a ciência. d) As “extravagantes suposições dos céticos” impediram Descartes de encontrar uma verdade que servisse como princípio para a filosofia. 2. “Tomemos [...] este pedaço de cera que acaba de ser tirado da colmeia: ele não perdeu ainda a doçura do mel que continha, retém ainda algo do odor das flores de que foi recolhido; sua cor, sua figura, sua grandeza, são patentes; é duro, é frio, tocamo-lo e, se nele batermos, produzirá algum som. Enfim, todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo encontram-se neste. Mas eis que, enquanto falo, é aproximado do fogo: o que nele restava de sabor exala- se, o odor se esvai, sua cor se modifica, sua figura se altera, sua grandeza aumenta, ele torna-se líquido, esquenta-se, mal o podemos tocar e, embora nele batamos, nenhum som produzirá. A mesma cera permanece após essa modificação? Cumpre confessar que permanece: e ninguém o pode negar. Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 81 O que é, pois, que se conhecia deste pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada de tudo o que notei nela por intermédio dos sentidos, visto que todas as coisas que se apresentavam ao paladar, ao olfato, ou à visão, ou ao tato, ou à audição, encontravam-se mudadas e, no entanto, a mesma cera permanece.” (DESCARTES, René. Meditações. Trad. de Jacó Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 272.) Com base no texto, é correto afirmar que para Descartes: a) Os sentidos nos garantem o conhecimento dos objetos, mesmo considerando as alterações em sua aparência. b) A causa da alteração dos corpos se encontra nos sentidos, o que impossibilita o conhecimento dos mesmos. c) A variação no modo como os corpos se apresentam aos sentidos revela que o conhecimento destes excede o conhecimento sensitivo. d) A constante variação no modo como os corpos se apresentam aos sentidos comprova a inexistência dos mesmos. Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 82 Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 83 Seção 3 O empirismo e a ciência moderna Nesta sessão será apresentado como a ciência moderna passa por uma profunda revolução em sua estrutura e rompe com o modelo aristotélico-ptolomaico da antiguidade, constituindo-se sobre novas premissas que postulam a comprovação e a verificabilidade recorrendo ao dado empírico e ao método indutivo, sobretudo. 3.1 A modernidade e a guinada científica De onde vêm nossas certezas de que o mundo fora da nossa mente corresponde exatamente ao modo como nós o captamos e o compreendemos? Será que o mundo é como o apreendemos por nossos sentidos? Será que a realidade externa a nós corresponde fielmente à ideia que dela temos? Pode parecer algo bobo, mas para a filosofia nada é tão bobo que não mereça ser analisado. Então pense: quem garante que quando eu vejo um objeto de cor azul, a pessoa ao meu lado não o vê verde; mas quando digo azul ela entende o que eu digo, mesmo que não veja como eu vejo? Quem garante que o som da letra “a” não chega ao ouvido da pessoa ao lado como “e”, mas toda vez que ela ouve “e” ela o entende tal qual eu entendo o “a”? Para os racionalistas, essa certeza está na razão, ou, então, na intuição; mas para os empiristas, o homem só alcança tal certeza recorrendo aos sentidos. Para eles, os nossos sentidos captam a realidade, tal qual ela é, e a razão processa aquilo que foi captado, originando em nossas mentes o conhecimento, a certeza e a verdade. Mas os empiristas não confiam tanto na razão e acham que existe uma instância que precede à razão e fornece o material que será processado pela razão na busca pelo conhecimento e pela verdade. Fonte: Disponível em: <http:// c o m m o n s . w i k i m e d i a . o r g / w i k i / Category:Doubt#mediaviewer/File:Mr_Pipo_ Think_03.svg>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.9 | Todos captamos o mundo do mesmo modo? Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 84 O empirismo, segundo o Dicionário de Filosofia Abbagnano (2003, p. 326), pode ser descrito como a corrente filosófica para a qual a experiência é critério ou norma da verdade. Experiência é tudoaquilo que não é intuído, aquilo que ocorre no mundo material e que, de algum modo, presenciamos e captamos pelos sentidos. O empirismo se caracteriza pela negação do caráter absoluto da verdade ou, ao menos, da verdade acessível ao homem; também supõe o reconhecimentode que toda verdade pode e deve ser posta à prova, logo eventualmente modificada, corrigida ou abandonada. Portanto, o empirismo não se opõe à razão ou não a nega, a não ser quando a razão pretende estabelecer verdades necessárias, que valham em absoluto, de tal forma que seria inútil ou contraditório submetê-las a controle. Foi desse modo que Sexto Empírico caracterizou o empirismo, e, com base nessas características, reconhecia o seu parentesco como ceticismo; essas características continuaram sendo fundamentais em todas as doutrinas posteriormente denominadas empíricas, quaisquer que fossem suas determinações peculiares. Quem professa o empirismo desejará fazê-lo valer em toda a filosofia. Reconhecerá o dado da experiência, não apenas na teoria do conhecimento mas em todos os domínios possíveis, como ponto de partida e instância de controle de suas reflexões. Procurará satisfazer-se sempre que possível sem a vantagem de conceitos ou princípios apriorísticos [dados de antemão]. Avançará, como o cientista individual, do particular para o universal, e manifestará claras reservas diante da metafísica que se revela imediatamente no universal. Não sentirá muito respeito pela tradição filosófica, que muitas vezes não valoriza a experiência e pende para o conhecimento especulativo; confiará que a filosofia não precisa se esconder atrás das ciências se der uma séria guinada na direção da experiência. Quem considera o empirismo não como um dogma mas como um método não verá motivo para considerá-lo com perfeita vitalidade e capacidade de desenvolvimento. (GAWLICK, apud HELFERICH, 2006, p. 184). Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia. org/wiki/Category:Allegories_of_truth#mediaviewer/ F i l e : S a l l e _ R % C 3 % A 9 u n i o n _ T r i o m p h e _ d e _ la_v%C3%A9rit%C3%A9.jpg>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.10 | Quadro O triunfo da verdade Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 85 Sexto Empírico diz que o médico empírico, ou melhor, metódico, "nada afirma temerariamente acerca dos fatos obscuros, mas, sem pretender dizer se são compreensíveis ou não, acompanha os fenômenos e destes toma aquele que lhe parece útil, assim como fazem os céticos". E acrescenta: o que a medicina metódica e o ceticismo têm em comum é a falta de dogmas e a indiferença no uso das palavras, sendo comum também a regra de seguir as indicações da natureza e as fornecidas pelas necessidades do corpo. Há quem considere Aristóteles o primeiro empirista, pois para ele o conhecimento verdadeiro era adquirido pela nossa vivência nesse mundo material e concreto onde nos encontramos, através daquilo que os nossos sentidos captam. Mas de um modo geral, a questão entre empiristas e racionalistas se faz presente de modo efetivo na modernidade, sobretudo após as contribuições de Francis Bacon (1561-1626) e Galileu Galilei (1564-1642). Bacon é o criador do método empírico e Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia. org/wiki/File:Sample_Compression_Technology. jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.11 | Bacon acrescenta a experimentação à ciência Galilei é quem associa esse método ao modo de se fazer ciência e, a partir de então, nunca mais se fez ciência sem se recorrer à experiência. Galileu Galilei já nos é conhecido, vejamos agora os pensamentos de Francis Bacon. Bacon nasceu em Londres no ano de 1561 e faleceu em 1626. Foi o oitavo filho de Nicholas Bacon e Anna Cook. Desde criança sofreu influências antagônicas. De um lado o seu pai era Guarda Selo e o seu tio foi ministro da Rainha Elizabeth por quarenta anos. Ou por anor, ou seja, nasceu com acesso facilitado à carreira diplomática e aprendeu as artimanhas dos bastidores políticos. De outro lado, sua mãe detinha extraordinária cultura e até traduzia obras religiosas de teologia e moral puritanas, impulsionando-o ao zelo pelas coisas corretas. Anna tinha especial preocupação por sua formação e suas companhias, até mesmo depois de adulto. A leitura bíblica diária era obrigação bem como a fervorosa participação nos cultos religiosos, fatos que deixarão marcas no estilo literário baconiano. Aos 12 anos entrou para o Trinity College da Universidade de Cambridge onde aprendeu filosofia antiga 3.2 Francis Bacon: saber é poder Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 86 e escolástica. Entendeu que o conhecimento deveria visar mais a melhoria de vida, o bem-estar das pessoas. No Novum Organum (note que o título já é uma crítica ao Organon de Aristóteles), Bacon “expressará entusiasmo pela técnica, afirmando que as descobertas da pólvora, da imprensa e da agulha de marear (bússola) ‘mudaram o aspecto das coisas em todo o mundo’”. (ANDRADE, 1999, p. 7). Na sequência, Francis Bacon foi jurista, parlamentar, guarda dos selos, chanceler, cavaleiro (Sir), Barão de Verulam e Visconde Saint-Albans. Pode ser considerado o primeiro dos filósofos modernos e pai do método experimental; o fundador da ciência moderna, ao lado de Galileu Galilei e pai do empirismo. Lutou durante toda a vida pelo progresso das ciências da natureza. Entre as principais contribuições de Bacon à teoria do conhecimento, esperamos que você guarde duas: (1) foi o primeiro pensador a estabelecer vínculo entre ciência e técnica e (2) sustenta que as dificuldades que temos de adquirir conhecimento verdadeiro devem-se à presença de ídolos em nossas mentes. Inicialmente vejamos a primeira. Até à época de Bacon a ciência se contentava em ser especulativa. Observava o mundo e o analisava racionalmente, mas não se preocupava tanto com o progresso com a evolução do conhecimento, mais em compreender a natureza e o seu funcionamento. A ciência era feita até então com dois elementos: razão e observação. Bacon acrescenta o terceiro elemento, a experimentação. Entendeu Francis Bacon que apenas estudar o mundo não seria tão relevante quanto tentar melhorá-lo, ou, melhor dizendo, melhorar a vida das pessoas. Foi assim, como já dissemos, que ele acaba estabelecendo um vínculo entre ciência e técnica defendendo que o conhecimento só terá valor à medida que puder ser aplicado. Esta sua concepção está sintetizada em sua afirmação “saber é poder”. Se você sabe fazer algo que resultará em melhorias, então você pode fazer; você está autorizado a fazer. Recentemente, com a ameaça de exploração desenfreada dos recursos naturais (e até mesmo o risco de extinção de muitas formas de vida) e da eminente necessidade de preservação do meio ambiente, as ideias de Bacon começaram a receber severas críticas e no lugar delas, hoje se fala em exploração sustentável, ou sustentabilidade. A outra contribuição relevante de Bacon tem a ver com as nossas falsas noções, empecilhos para se chegar à verdade. Segundo ele, o conhecimento encontrava algumas barreiras psicológicas chamadas de “ídolos da mente”. Esses ídolos seriam de quatro tipos: 1. Ídolos da tribo: trata-se de uma tendência natural do ser humano, da tribo à qual pertencemos, faz parte da estrutura mesma da nossa espécie humana, em aceitar as evidências sensoriais sem pensar, sem questionar. Os erros derivam dessa Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 87 nossa condição natural. 2. Ídolos da caverna: são ideias preconcebidas e sem exame acerca da natureza (de onde nasce, a origem) destas ideias; é o nosso modo individual de ver as coisas. Cada pessoa se configura, se constrói e por vezes nem percebe isso. Além, portanto, das aberrações de conhecimento herdadas da tribo ou da espécie, somam-se as próprias singularidades decada indivíduo, constituindo-se numa espécie de caverna pessoal. 3. Ídolos do foro (são também conhecidos por ídolos do mercado, ou da feira, ou da praça. Lembre-se sempre da ideia de convívio, de coisa pública): Trata-se das ambiguidades oriundas da compreensão equivocada das palavras, das relações estabelecidas, pois uma mesma palavra pode ter significados diferentes. Todo agrupamento gera um bloqueio ao pensar e as pessoas se levam pela fantasia e controvérsias inúteis. São as influências que recebemos das pessoas que nos cercam. 4. Ídolos do teatro: são erros que migram para dentro de cada ser humano pelo fato de crermos piamente em equívocos da ciência vigente, da filosofia dominante ou da tradição, da visão política por nós adotada, da nossa religiosidade, constituindo-se em invenções semelhantes às peças de teatro. Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia. org/wiki/Category:Idols?uselang=pt-br#mediaviewer/ File:Idolo_de_extremadura.jpg>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.12 | Ídolos nos iludem Naquela época, essas críticas pareceram muito duras, mas para Bacon o que importava era maximizar a possibilidade de se evitar os erros suscitados pelos ídolos. Para tanto, se fazia necessário recorrer ao método indutivo (ir do particular ao universal, ou seja, observar os fatos particulares e tirar conclusões válidas universalmente) e fazer uma rigorosa observação dos fenômenos naturais, pois a verdade nasce da experiência. Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 88 Os passos necessários para se evitar esses ídolos ou esses erros, seriam: 1. Observação. 2. Organização racional dos dados coletados. 3. Explicações gerais através de hipóteses. 4. Repetidas experimentações para comprovar as hipóteses. Esse método ficou conhecido como indutivo ou baconiano, e, por isso, como já dissemos, lhe valeu o título de pai do método experimental.“A influência de Bacon pôs em primeiro plano a experiência prática na ciência. No entanto, ele foi criticado por negligenciar a importância dos saltos imaginativos que impulsionam todo progresso científico”. (AA.VV, 2011, p. 111) e por não prever um sistema completo, a saber, indutivo-dedutivo, como Galileu, então genial para as ciências modernas e contemporâneas. Sócrates disse “uma vida sem reflexão não merece ser vivida”. Vale a pena viver sem conhecer a verdade? Sem saber se estamos agindo certos ou errados? Sem saber o que acontecerá conosco e com o mundo? Sem saber porque estamos aqui? Outro nome relevante na epistemologia empirista moderna é John Locke (1632- 1704), médico, filósofo e político britânico. A família de Locke era de burgueses ligados ao comércio na cidade de Bristol e foi ali próximo, em Wrington, que Locke nasceu. Estudou e, posteriormente, lecionou na Universidade de Oxford. Em virtude de seu descontentamento com o estudo de filosofia, dedicou-se também à medicina, física e à teologia. Seus interesses se voltaram principalmente para a epistemologia, política e religião. Segundo Locke, é mediante a abstração que as ideias são extraídas dos seres particulares e se tornam representações gerais de todos os objetos daquela mesma espécie e os seus nomes se tornam nomes gerais, aplicáveis a tudo o que existe e que está em conformidade com tais ideias abstratas (ABBAGNANO, 2003, p. 5). Uma das grandes dificuldades de Locke, na área do conhecimento, era admitir 3.3 John Locke: nascemos tábula rasa Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 89 que os homens nascessem com ideias. Segundo ele, se nascêssemos com ideias, todas as pessoas das mais diversas culturas e das mais diversas épocas nasceriam com as mesmas ideias. Ele afirma: “se considerarmos atentamente as crianças recém-nascidas, temos poucas razões para crer que elas trazem consigo muitas ideias ao mundo”. Portanto, as ideias não são inatas, mas adquiridas. Locke defendia que não nascemos com nenhuma ideia e nenhum princípio moral em nossas mentes, embora exista desde Platão a convicção do contrário. Ao invés disso Locke acredita que nascemos tabula rasa. “A mente de uma criança é igual a uma folha em branco, a um aposento vazio. Todas as palavras todos os conceitos universais, até então princípios abstratos, são adquiridos gradualmente” (HELFERICH, 2006, p. 185). “Embora rejeitasse a doutrina das ideias inatas, Locke não refutou o conceito de que os seres humanos têm capacidades inatas. A posse de qualidades inatas, como a percepção e o raciocínio, é fundamental para sua explanação sobre o mecanismo do conhecimento e da compreensão humana” (AA. VV., 2011, p. 133). Talvez uma boa maneira de ilustrar isso seja o relato histórico de Amala e Kamala, duas meninas encontradas na Índia em 1920, pelo reverendo Singh, vivendo em uma caverna junto com os lobos. Presumiu-se que Amala tivesse aproximadamente dois anos e Kamala oito. Foram então encaminhadas a um orfanato em Midnapore na tentativa de humanizá-las, pois as meninas se comportavam como os lobos. Não riam e nem choravam, uivavam para a lua, enxergavam melhor a noite do que de Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Museo_Ebraico_-_Fausto_Levi_-_di_Soragna_empty_frame. jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.13 | Nascemos sem nada na mente, como um quadro vazio Platão desenvolveu o conceito de que todo conhecimento genuíno está essencialmente localizado dentro de nós, e que, quando morremos, nossas almas reencarnam em novos corpos e o choque do nascimento nos faz esquecer tudo. A educação não é, portanto, aprender fatos novos, mas “não esquecer”, e o educador não é um professor, mas um parteiro. (AA.VV., 2011, p. 131). Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 90 dia, comiam carne crua colocada diretamente no chão, com a boca sem usar nem mesmo as mãos e andavam apoiadas nos joelhos e nos cotovelos os quais possuíam imensos calos. Um ano depois de encontradas Amala faleceu e foi o único momento em que Kamala, que ainda viveu por mais oito anos, manifestou pesar. Kamala aos poucos foi se humanizando. Demorou seis anos para aprender, ou reaprender, a andar ereta e aprendeu no máximo umas cinquenta palavras. Diante disso poderíamos nos perguntar “como é possível sustentar que nascemos com ideias?”, se até mesmo as ideias que hoje temos podemos perdê-las, conforme vemos relatado também nas histórias da filósofa americana Helen Keller e do músico Ray Charles, os quais após ficarem cegos, relatam que aos poucos se esqueceram da imagem do mundo externo. Helen Keller, que ficou cega e surda com um ano e oito meses, nos demonstra mais claramente que nossas ideias são adquiridas, pois a mesma aprendeu a falar, e conferiu palestras em mais de sessenta países – inclusive no Brasil – apesar de não ouvir o som das palavras. É claro que Locke não teve o privilégio de conhecer estas histórias para poder basear-se nelas, mas elas ilustram o seu pensamento, pois para ele todo o nosso “estoque” de ideias é proveniente das nossas vivências, das nossas experiências de vida. Ele entendia que não há nada em nossa mente que antes não tenha passado pelos nossos sentidos, pelas sensações. Para Locke toda a matéria-prima dos nossos pensamentos, é originada apenas de duas fontes, ou da sensação ou da reflexão. A sensação é a percepção dos objetos no mundo exterior, à nossa volta; e a reflexão é a atividade do pensamento e do desejo, do entendimento e da vontade. Sensação e reflexão são como se fossem as duas árvores genealógicas do pensamento, ou das ideias. Dessas duas fontes se originarão as ideias simples (conceitos aos quais chegamos por intermédio da percepção direta) e ideias complexas (combinação, comparação ou abstração de várias ideias simples). Embora não seja o nosso assunto aqui, gostaríamos apenas de lembrar que Locke também tem uma contribuição muito significativa na área da política,sendo, Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Crepuscular_rays_with_reflection_in_GGP.jpg?uselang=pt- br>. Acesso em: 20 mar.2015. Figura 2.14 | Sensação e reflexão originam ideias Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 91 inclusive, considerado um dos pais do liberalismo político, o qual, posteriormente, em sua versão econômica – e com as contribuições de Adam Smith (1723-1790) e John Stuart-Mill (1806-1873) – possibilitará o surgimento do sistema capitalista. Locke é o teórico da burguesia e foi durante os últimos cem anos que antecederam a Revolução Francesa, um dos filósofos mais importantes e mais lidos. David Hume nasceu na capital escocesa, Edimburgo, no ano de 1711. Sua família pertencia à pequena nobreza de proprietários de terra. Ele era uma criança prodígio e entrou para a Universidade com apenas doze anos de idade. Aos dezoito anos de idade intuiu um novo cenário de pensamento o qual originaria uma nova ciência da natureza humana, em outras palavras, uma nova visão filosófica. A partir disso o jovem Hume se entregou de corpo e alma aos estudos. Nascia a ideia do Tratado sobre a natureza humana, a sua obra-prima. Foram necessários cinco anos para que a obra ficasse pronta, indo de 1734 até 1739. “Em 1739, foram finalmente publicados em Londres os primeiros dois volumes do Tratado sobre a natureza humana e, em 1740, o terceiro volume, mas seus trabalhos não suscitaram nenhum interesse particular”. (REALE, 2005b, p. 132). A dedicação havia sido tanta que ele acabou indo da estafa à depressão, que exigiu um longo tratamento. Segundo Helferich (2006, p. 193), 3.4 Hume – cético e empirista A dedicação cega só prejudica”. Com essa mesma ironia cordial, que ele dominava tão perfeitamente, se poderia consolar David Hume pelo fracasso de sua primeira obra. Ela traz o soberbo título A Treatise of Human Nature (Tratado da natureza humana, 1739-1740), tem soberbas 900 páginas e deveria, como diz o subtítulo, repetir a obra de Newton no domínio das ciências humanas: Being an Attempt to introduce the Experimental Method of Reasoning into Moral Subjects, uma tentativa, portanto, de introduzir na ciência do homem o método experimental de investigação. O desprezo completo por sua obra foi um duro golpe para o jovem autor. Segundo Hume (apud HELFERICH, 2006), a única fonte de conhecimento é a experiência e o objeto da experiência não são as coisas externas à nossa mente, mas a representação que delas temos em nossas mentes. Daí Hume sustentar Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 92 que as representações, ou impressões, constituem o elemento base para o nosso conhecimento, pois não podemos conhecer nada além das nossas impressões. Desse modo, Hume acaba por transformar o empirismo numa espécie de fenomenalismo, indicando que o pensamento pode conhecer apenas a si mesmo e mais nada. A consequência dessas afirmações de Hume será que não se pode conhecer de modo objetivo a existência, a substância e a causa das coisas, pois o objeto último do conhecimento, de acordo com o empirismo, são apenas as impressões e ideias que temos das coisas. O problema, então, vai recair sobre origem das ideias. E para descobri-las, Hume vai partir de uma distinção entre impressões e ideias. As impressões são as percepções diretas, fortes e nítidas que gozamos quando o mundo marca nossos sentidos com vivacidade; além de sensações também podem ser paixões e emoções. E as ideias são as percepções fracas e apagadas, cópias menos vívidas das impressões. “As ideias são os conceitos e pensamentos de coisas que não estamos mais experimentando, mas somos capazes de evocar em nossas mentes”. (LAW, 2008, p. 290). Por exemplo, quando sentimos calor temos uma impressão, quando lembramos do calor que sentimos temos uma ideia. As ideias simples vêm das impressões simples e as complexas podem ser criadas em nossa mente. E é assim que vamos formando conceitos sobre aquilo que experimentamos, ou seja, as ideias dependem das impressões, pois estas são as causas daquelas e por isso não podemos imaginar algo que não experimentamos. Se tentarmos imaginar algo que não existe, possivelmente vamos apenas juntar algo que existe em separado. Desse modo, podemos afirmar que o conhecimento ocorre, segundo Hume (apud HELFERICH, 2006), pelo resultado da associação das ideias, de acordo com os princípios de: 1. Semelhança: ideias parecidas se associam. 2. Contiguidade: uma ideia próxima evoca a outra. 3. Causalidade: relacionamos causa e efeito. Isso faz com que a razão humana associe as ideias com base nas relações de ideias ou nas questões de fato. Alguns juízos são demonstráveis (como as verdades matemáticas) e outros são apenas prováveis. Por exemplo: por termos vistos até hoje o Sol nascer todos os dias, criamos o hábito de esperar que ele nasça toda manhã e julgamos que isso ocorrerá, porém esse julgamento não obedece a nenhuma lógica, pois, apesar de muito improvável, é possível conceber que ele não nasça um dia. A crença no nascimento futuro do Sol não é empírica, pois ele ainda não nasceu, então, não temos um fundamento racional para a nossa crença, temos apenas o hábito que nos diz que é muito provável que isso aconteça, mas não nos dá garantia de que acontecerá, haja vista que não existe lei de causa e efeito, ou, não existe causalidade e a ciência se faz tendo por base a causalidade. Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 93 O resultado a que se chega a partir das ideias de Hume é de que não é possível obtermos uma fundamentação segura para a ciência e que, portanto, por coerência, devemos abandonar qualquer tentativa de emitir juízos, ou conhecimentos científicos. Se a ciência não se sustenta, não se fundamenta, então não pode haver conhecimento científico inquestionável. A certeza de que o sol voltará a nascer, por exemplo, surgiu da crença ou do hábito; e a ciência não pode ter bases não racionais como a crença e o hábito. Então, inevitavelmente, estamos diante de um ceticismo quanto à possibilidade do conhecimento científico. Daí a razão desse subtítulo: Hume é empirista com relação os nossos conhecimentos cotidianos, mas é cético com relação ao conhecimento científico. Contudo, segundo Hume, a certeza persiste mesmo não tendo bases racionais. Desse modo, parece que ele transforma o empirismo em fenomenalismo, ou seja, podemos perceber que o fenômeno ocorre, mas não temos garantia de que ele sempre ocorrerá. Sobre David Hume acesse: <http://www.mundodosfilosofos.com.br/hume.htm>. 1. Segundo Francis Bacon, “são de quatro gêneros os ídolos que bloqueiam a mente humana. Para melhor apresentá-los, lhes assinamos nomes, a saber: Ídolos da Tribo; Ídolos da Caverna; Ídolos do Foro e Ídolos do Teatro”. Fonte: BACON, F. Novum Organum. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 21. Fonte: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/ wiki/File:Naga_women_from_the_Patkoi_hills_Assam. jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.15 | As nossas (pseudo) certezas nascem de hábitos e costumes Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 94 2. “Todas as ideias derivam da sensação ou reflexão. Suponhamos que a mente é, como dissemos, um papel em branco, desprovida de todos os caracteres, sem quaisquer ideias; como ela será suprida? [...] De onde apreende todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, numa palavra, da experiência. Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o próprio conhecimento.” (LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 165). Considere: I – Para John Locke, embora nosso conhecimento se origine na experiência, nem todo ele deriva da experiência. No entendimento, existem ideiasinatas abstraídas das coisas pela reflexão. II – John Locke é o iniciador da teoria do conhecimento em sentido estrito, pois se propôs, no Ensaio acerca do entendimento humano, a investigar explicitamente a natureza, a origem e o alcance do conhecimento humano. III – Para John Locke, todo nosso conhecimento provém e se fundamenta na experiência. As impressões formam as ideias simples; a reflexão sobre as ideias simples, ao combiná-las, formam ideias complexas, como substância, Deus, alma etc. IV – John Locke distingue as qualidades do objeto em qualidades primárias (solidez, extensão, movimento etc.) e qualidades secundárias (cor, odor, sabor etc.); as primeiras existem realmente nas coisas, as segundas são relativas e subjetivas. Com base nos conhecimentos sobre Bacon, os Ídolos da Tribo são: a) Aqueles provenientes do intercurso e da associação recíproca dos indivíduos. b) Aqueles que imigraram para o espírito dos homens por meio das diversas doutrinas filosóficas. c) Aqueles que chegam ao espírito humano por meio de regras viciosas de demonstração. d) Aqueles fundados na própria natureza humana. Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 95 3. O principal argumento humeano contra a explicação da inferência causal pela razão era que este tipo de inferência dependia da repetição, e que a faculdade chamada “razão” padecia daquilo que se pode chamar uma certa “insensibilidade à repetição”, ou seja, uma certa indiferença perante a experiência repetida. Em completo contraste com isso, o princípio defendido por nosso filósofo, um princípio para designar o qual propôs os nomes de “costume ou hábito”, foi concebido como uma disposição humana caracterizada pela sensibilidade à repetição, podendo assim ser considerado um princípio adequado à explicação dos raciocínios derivados de experiências repetidas. (MONTEIRO, J. P. Novos Estudos Humeanos. São Paulo: Discurso Editorial, 2003, p. 41). Com base no texto e nos conhecimentos sobre o empirismo, é correto afirmar que Hume a) Atribui importância à experiência como fundamento do conhecimento dedutivo obtido a partir da inferência das relações causais na natureza. b) Corrobora a afirmação de que a experiência é insuficiente sem o uso e a intervenção da razão na demonstração do nexo causal existente entre os fenômenos naturais. c) Confere exclusividade à matemática como condição de fundamentação do conhecimento acerca dos fenômenos naturais, pois, empiricamente, constata que a natureza está escrita em caracteres matemáticos. d) Demonstra que as relações causais obtidas pela experiência representam um conhecimento guiado por hábitos e costumes e, sobretudo, pela crença de que tais relações serão igualmente mantidas no futuro. Estão corretas apenas as alternativas: a) I, II e III. b) II, III e IV. c) I, II e IV. d) I, III e IV. Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 96 Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 97 Seção 4 O criticismo kantiano Nesta sessão serão apresentadas as contribuições de Immanuel Kant à questão do conhecimento verdadeiro, buscando superar a visão racionalista e a empirista; mostrando as limitações de ambas e construindo uma visão baseada na análise rigorosa da capacidade da racionalidade humana, conhecidas como criticismo kantiano. 4.1 Kant e a revolução copernicana Uma das características mais marcantes da personalidade de Immanuel Kant é o seu rigor. Como bom alemão ele era extremamente metódico e dificilmente saia da sua rotina. Nasceu em Königsberg, capital da Prússia, em 22 de abril de 1724, sendo o quarto de nove filhos. Aos treze anos perdeu a sua mãe, aos dezesseis ingressou na Universidade de Königsberg onde estudou Filosofia, Física, Matemática e Teologia. Aos vinte e dois anos perdeu o seu pai. Depois de formado, para manter-se foi preceptor dos filhos de aristocratas. Somente aos 31 anos terminou o mestrado que havia adiado por questões financeiras e então passou a lecionar na instituição onde se formou, mas apenas aos 46 anos tornou-se professor titular e lecionou por mais 12 anos, falecendo em 12 de fevereiro de 1804, na mesma cidade em que nasceu. Até parece piada, mas conta-se que após o almoço fazia um passeio tão pontual que algumas pessoas passaram a acertar o relógio quando ele passava em frente suas casas. Fonte: Disponível em: <http://commons. w i k i m e d i a . o r g / w i k i / I m m a n u e l _ Kant#mediaviewer/File:Kant_Kaliningrad.jpg>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 2.16 | Kant está entre os maiores filósofos Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 98 Também é curioso o fato dele ter-se tornado mundialmente conhecido mesmo sem jamais, durante toda a sua vida, ter se ausentado de sua terra natal e de não ser uma figura solene da época. Pode-se, a partir disso, imaginar o quão profundo foi o seu pensamento, motivo pelo qual é considerado o maior expoente do iluminismo alemão e um dos maiores filósofos de todos os tempos. Para falar de Kant, nos valeremos de nossa obra (2013, p. 50s). Segundo Kant, os empiristas consideravam que o homem não tem nenhum conhecimento em sua mente que não tenha passado pela experiência através dos sentidos. Enquanto para os racionalistas, a capacidade que o homem tem de raciocinar é mais importante para o conhecimento do que a experiência, pois de nada valeria a experiência se o homem não conseguisse raciocinar sobre ela e compreendê- la. Os animais têm sentido, mas mesmo presenciando uma experiência, dela nada concluem, pois não têm a capacidade do cérebro humano. Kant empenhou-se enormemente em resolver essa questão. Para Kant, racionalistas e empiristas estariam parcialmente certos e, portanto, parcialmente errados também. Entendia ele que o surgimento de um novo método científico validou as observações empíricas, embora elas já existissem antes desse método. Dois elementos faziam parte desse novo método: primeiro, nele os conceitos podem ser descritos matematicamente; e, segundo, permite que os próprios conceitos sejam testados. A Física e demais ciências naturais estariam, desse modo, no caminho seguro. O grande desafio seria buscar a mesma segurança para as demais áreas do conhecimento. Os racionalistas afirmam que nascemos com ideias e é possível descrever um objeto sem necessariamente ter de submetê-lo à experiência. Por exemplo: posso entender o enunciado “a reta é a menor distância entre dois pontos” mesmo sem fazer a experiência. O predicado está contido no sujeito, bastando apenas analisá-lo. São juízos universais (válidos em todos os lugares) e necessários (não podem ser de outro modo). Isso ficou conhecido como juízo analítico a priori (“antes”, em latim). Tal juízo não acrescenta nada ao sujeito ou objeto conhecido, limita-se apenas em descrevê-lo. Vale indagar, o que a mais se diz sobre “solteiro” quando se predica que ele “não é casado”, ou que “o quadrado tem quatro lados”? Solteiro é universal e necessariamente não casado, como “o quadrado tem quadro lados”. Para os empiristas, nascemos com o cérebro vazio, sem ideia alguma. Entendem eles que os enunciados científicos são possíveis apenas depois de feita a experiência, a qual comprovaria tal enunciado. Ou seja, depois de se fazer a experiência, faz-se uma síntese daquilo que ficou comprovado. Por exemplo: estando-se ao nível do mar, esquenta-se a água e se percebe que, ao atingir 100º C, ela entra em ebulição. Depois de constatado, basta enunciar tal conhecimento. São juízos particulares (válidos apenas nestas circunstâncias e para este sujeito) e contingentes (podem ser diferentes). Então, o que se predica de algo, de um sujeito não está necessária e Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 99 universalmente nele. Isso ficou conhecido como juízosintético a posteriori (“depois”, em latim), como o que se afirma em “os corpos movimentam-se”. De “corpos”, isoladamente, não sabemos se movimentam, a não ser depois do que se constata e se diz deles. Dessa forma, dizer que a ciência se funda em juízos sintéticos a posteriori, implica aceitar que toda vez que se fizer um enunciado científico se faça antes a experiência e o resultado dessa experiência, segundo David Hume, apenas mostra que desta vez se obteve o resultado descrito, mas não garante que o mesmo resultado sempre será obtido. Diz Hume que não podemos afirmar com a mais absoluta certeza que das mesmas causas sempre se seguirão os mesmos efeitos, ou seja, não há causalidade. Diante disso, conclui Hume que as nossas crenças científicas têm por base, algo bastante frágil: o hábito. Estamos habituados desde que nascemos ver o dia nascer, o Sol iluminar a Terra, mas nada pode garantir que o sol iluminará eternamente o planeta. Segundo Kant, para que a ciência seja possível devem existir juízos que tenham as características dos analíticos (universais, necessários e a priori) e que ao passarem por uma experiência bem feita possam chegar a conclusões que se tornem válidas para todas as demais experiências sem necessidade de serem sempre repetidas. Estes juízos são chamados por Kant de juízos sintéticos a priori. Essa contribuição inovadora de Kant para as possibilidades e o alcance do conhecimento ficou conhecida como sua “revolução copernicana”. Se Hume estivesse vivo quando Kant criou os juízos sintéticos a priori, possivelmente haveria discordância entre ambos. E você, acredita na possibilidade de afirmações verdadeiras e conclusivas ou acredita que a ciência não é possível de modo conclusivo? Uma das principais obras de Kant, a Crítica da razão pura, trata exatamente de como ocorrem os juízos sintéticos a priori na Matemática, na Física e na Metafísica. Em Matemática, esses juízos seriam possíveis graças à intuição a priori que temos do espaço e do tempo, os quais não existem em si, mas são formas de a nossa capacidade perceber as coisas. Espaço e tempo não são conceitos, são intuições que independem da experiência, são transcendentais. Transcendente significa aquilo que existe em si e por si, independentemente de mim, mas para Kant o termo “transcendental” significa formas da intuição ou a forma da objetividade. O sujeito somente conhece os objetos sensíveis graças às categorias não sensíveis de espaço e tempo. Na Física, Kant afirma que ao conhecer um objeto, nós não o conhecemos em si, conhecemos apenas o modo como ele se apresenta à nossa mente. A “coisa em si”, para Kant chama-se noúmeno; e o modo como ela se apresenta chama-se Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 100 fenômeno. A nossa mente tem capacidade de conhecer apenas o fenômeno e jamais o noúmeno. Conhecer o fenômeno significa formular um juízo sobre dele. Para os metafísicos “existe na razão humana a possibilidade de um ato de apreensão cognitiva que recaia não sobre fenômenos, não sobre objetos a conhecer, submetidos ao espaço, ao tempo e às categorias, mas sobre coisas em si mesmas”. (MORENTE, 1976, p. 247). A Metafísica pretende conhecer aquilo que as coisas físicas e não físicas (alma e Deus, por exemplo) são em si mesmas e Kant já afirmou que somente conhecemos o modo como as coisas se apresentam aos nossos sentidos e, portanto, a Metafísica é impossível. As ideias metafísicas não se situam no espaço e no tempo e a nossa mente só as concebe graças ao seu poder sintetizador. A ideia de alma seria uma síntese de nossas vivências e a ideia de Deus seria a síntese das sínteses, “aquele ente metafísico no qual a mais plena realidade está unida à mais plena idealidade”. (MORENTE, 1976, p. 262). Dirá que “é absolutamente necessário que cada um se convença de que Deus existe; que sua existência deva ser demonstrada não é tão necessário”. (CAYGILL, 2000, p. 95). Mesmo não sendo possível provar a existência de Deus, Kant admite que a ideia de um ser superior é necessária para fundamentar a moralidade. Lembra-nos Jostein Gaarder (2007, p. 353) que para Kant “[...] Não podemos provar a existência de Deus com nossa razão [...]. Para a razão é tanto provável quanto improvável que Deus exista. [...] Justamente aquela zona à qual não conseguem chegar a nossa experiência, nem a nossa razão [...] pode ser preenchida pela fé religiosa. É moralmente necessário supor a existência de Deus”. Sobre Kant acesse: <http://www.mundodosfilosofos.com.br/kant.htm>. 1. “Em todos os juízos em que for pensada a relação de um sujeito com o predicado [...], essa relação é possível de dois modos. Ou o predicado B pertence ao sujeito A como algo contido (ocultamente) nesse conceito A, ou B jaz completamente fora do conceito A, embora esteja em conexão com o mesmo. No Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 101 2. Leia o texto a seguir. A razão humana, num determinado domínio dos seus conhecimentos, possui o singular destino de se ver atormentada por questões, que não pode evitar, pois lhe são impostas pela sua natureza, mas às quais também não pode dar respostas por ultrapassarem completamente as suas possibilidades. (KANT, I. Crítica da Razão Pura (Prefácio da primeira edição, 1781). Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, p. 3.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre Kant, o domínio destas intermináveis disputas chama-se: a) Experiência. b) Natureza. c) Entendimento. d) Metafísica. primeiro caso, denomino o juízo analítico, no outro sintético”. (Fonte: KANT, I. Crítica da Razão Pura. Tradução de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Abril Cultural, 1980, p.27). Com base no texto e nos conhecimentos sobre a distinção kantiana entre juízos analíticos e sintéticos, assinale a alternativa que apresenta um juízo sintético a posteriori: a) Todo corpo é extenso. b) Todo corpo é pesado. c) Tudo que acontece tem uma causa. d) 7 + 5 = 12. Nessa unidade nós vimos que: a) A filosofia moderna começa muito marcada pelo ceticismo: não se acreditava ser possível à mente humana alcançar um conhecimento verdadeiro e inabalável, pois o mundo estaria Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 102 sempre em mudança. b) Diante do ceticismo surgem duas correntes: o empirismo, acreditando que os sentidos são confiáveis e a experiência pode garantir conhecimento verdadeiro; e o racionalismo, defendendo que há na nossa mente verdades inquestionáveis, como, por exemplo, os axiomas matemáticos. c) Descartes vai buscar mostrar que o racionalismo é a garantia de se chegar à verdade, ideias claras e distintas, vence a dúvida cética pela força argumentativa da dúvida metódica e cria um método para se alcançar a verdade. d) Bacon desenvolve o método empírico e alia a ciência à técnica, depois de demonstrar que os ídolos que temos na mente nos impedem de conhecer a verdade acerca do mundo. e) Locke defende que nascemos sem ideias e que tudo o que temos na mente é apenas o que já passou por nossos sentidos. f) David Hume vai negar o conhecimento científico alegando que o que ocorreu até hoje pode não ocorrer no futuro, haja vista que não existe lei de causalidade, tudo provém do hábito. g) Kant é despertado do seu sono dogmático após conhecer o pensamento de Hume; e acredita que nem empiristas e nem racionalistas estão totalmente corretos, estão apenas parcialmente corretos. A partir daí, com o criticismo, Kant dá condições de possibilidade de conhecimentos científicos. 1. Os descobrimentos, entre outros fatores, abalaram a confiança nas certezas adquiridas e começaram a surgir as dúvidas acerca do funcionamento do mundo e o ceticismo ressurge fortalecido. 2. Descartes vê a essência do homem no pensamento o qual, no ato de duvidar pensa e se pensa existe; chega-se à primeira certeza:o eu dotado de razão (pensamento). 3. Os empiristas discordam de Descartes, pois para refletir a Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 103 razão necessita de dados fornecidos pela experiência e captados pelos sentidos, haja vista que o homem, segundo eles, nasce sem ideia alguma. 4. David Hume inviabiliza os juízos científicos ao sustentar que eles se fundamentam no hábito e que causalidade não existe. 5. Kant se sente desafiado a encontrar uma saída para esta disputa e postula a existência de juízos sintéticos a priori, os quais são considerados condição de possibilidade de enunciados científicos. 1. “E quando considero que duvido, isto é, que sou uma coisa incompleta e dependente, a ideia de um ser completo e independente, ou seja, de Deus, apresenta-se a meu espírito com igual distinção e clareza; e do simples fato de que essa ideia se encontra em mim, ou que sou ou existo, eu que possuo esta ideia, concluo tão evidentemente a existência de Deus e que a minha depende inteiramente dele em todos os momentos da minha vida, que não penso que o espírito humano possa conhecer algo com maior evidência e certeza”. (DESCARTES, René. Meditações. Trad. de Jacó Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 297-298.) Com base no texto, é correto afirmar: a) O espírito possui uma ideia obscura e confusa de Deus, o que impede que esta ideia possa ser conhecida como evidência. b) A ideia da existência de Deus, como um ser completo e independente, é uma consequência dos limites do espírito humano. c) A única certeza que o espírito humano é capaz de provar é a existência de si mesmo, enquanto um ser que pensa. d) A existência de Deus, como uma ideia clara e distinta, é impossível de ser provada. Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 104 2. Tendo por base o método cartesiano da dúvida, é correto afirmar que: a) Este método visa a remover os preconceitos e opiniões preconcebidas e encontrar uma verdade indubitável. b) Ao engendrar a dúvida hiperbólica, o objetivo de Descartes era provar que suas antigas opiniões, submetidas ao escrutínio da dúvida, eram verdadeiras. d) Só podemos dar assentimento às opiniões respaldadas pela tradição. e) A dúvida metódica surge, no espírito humano, involuntariamente. 3. “[...] Aristóteles estabelecia antes as conclusões, não consultava devidamente a experiência para estabelecimento de suas resoluções e axiomas. E tendo, ao seu arbítrio, assim decidido, submetia a experiência como a uma escrava para conformá-la às suas opiniões”. (BACON, Francis. Novum Organum. Trad. de José Aluysio Reis de Andrade. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 33.) Com base no texto, assinale a alternativa que apresenta corretamente a interpretação que Bacon fazia da filosofia aristotélica. a) A filosofia aristotélica estabeleceu a experiência como o fundamento da ciência. b) Aristóteles consultava a experiência para estabelecer os resultados e axiomas da ciência. c) Aristóteles afirmava que o conhecimento teórico deveria submeter-se, como um escravo, ao conhecimento da experiência. d) Aristóteles desenvolveu uma concepção de filosofia que tem como consequência a desvalorização da experiência. e) Aristóteles valorizava a experiência, por considerá-la um caminho seguro para superar a opinião e atingir o conhecimento verdadeiro. Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 105 4. De acordo com a epistemologia Locke, considere: I – As verdades matemáticas podem ser consideradas o fundamento da racionalidade humana. II – Não nascemos com ideias, nascemos tabula rasa (quadro vazio). III – Não há nada na mente humana que antes não tenha passado pelos sentidos. IV – A ciência não é possível, pois não existe lei de causa e efeito. Estão corretas apenas as alternativas: a) I e II. b) II e III. c) III e IV. d) I e IV. 5. Leia o texto a seguir: Ao empreender a análise da estrutura e dos limites do conhecimento, Kant tomou a física e a mecânica celeste elaboradas por Newton como sendo a própria ciência. Entretanto, era preciso salvá-la do ceticismo de Hume quanto à impossibilidade de fundamentar as inferências indutivas e de alcançar um conhecimento necessário da natureza. Com base no pensamento de David Hume acerca do entendimento humano, é correto afirmar: a) Dentre os objetos da razão humana, as relações de ideias se originam das impressões associadas aos conceitos inatos dos quais obtém-se dedutivamente o entendimento dos fatos. b) As conclusões acerca dos fatos obtidas pelo sujeito do conhecimento realizam-se sem auxílio da experiência, recorrendo apenas aos raciocínios abstratos a priori. c) O postulado que afirma a inexistência de conhecimento para além daquele que possa vir a resultar do hábito funda-se Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 106 6. Nos Princípios Matemáticos de Filosofia Natural, Newton afirmara que as leis do movimento, assim como a própria lei da gravitação universal, tomadas por ele como proposições particulares, haviam sido “inferidas dos fenômenos, e depois tornadas gerais pela indução”. Kant atribui a estas proposições particulares, enquanto juízos sintéticos, o caráter de leis a priori da natureza. Entretanto, ele recusa esta dedução exclusiva das leis da natureza e consequente generalização a partir dos fenômenos. Destarte, para enfrentar o problema sobre a impossibilidade de derivar da experiência juízos necessários e universais, um dos esforços mais significativos de Kant dirige-se ao esclarecimento das condições de possibilidade dos juízos sintéticos a priori. Com base no enunciado e nos conhecimentos acerca da teoria do conhecimento de Kant, é correto afirmar: a) A validade objetiva dos juízos sintéticos a priori depende da estrutura universal e necessária da razão e não da variabilidade individual das experiências. b) Os juízos sintéticos a priori enunciam as conexões universais e necessárias entre causas e efeitos dos fenômenos por meio de hábitos psíquicos associativos. c) O sujeito do conhecimento é capaz de enunciar objetivamente a realidade em si das coisas por meio dos juízos sintéticos a priori. d) Nos juízos sintéticos a priori, de natureza empírica, o predicado nada mais é do que a explicitação do que já esteja pensado realmente no conceito do sujeito. na ideia metafísica de relação causal como conexão necessária entre os fatos. d) O sujeito do conhecimento opera associações de suas percepções, sensações e impressões semelhantes ou sucessivas recebidas pelos órgãos dos sentidos e retidas na memória. Principais desdobramentos da epistemologia moderna Principais desdobramentos da epistemologia moderna U2 107 Referências AA. VV. O livro da filosofia. Trad. Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 4. ed. Trad. Alfredo Bosi. São Paulo: Martins Fontes, 2003. ABRÃO, Bernadette Siqueira (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores). ANDRADE, José Aluysio Reis de. Vida e Obra. In: Francis Bacon. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores). CAYGILL, Howard. Dicionário Kant. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. COTTINGHAM, John. Dicionário Descartes. Trad. Helena Martins. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995. COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia – História e grandes temas. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. DESCARTES, RENÉ. Meditações. In: PESSANHA, José Américo Motta (Org.). Descartes: vida e obra. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores). 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Principais desdobramentos da epistemologia moderna Unidade 3 A CONTEMPORANEIDADE E O NEOPOSITIVISMO Nesta seção estudaremos os retrospectos sobre o desenvolvimento da sociedade perpassando por uma breve análise dos acontecimentos históricos das Sociedades da Idade Média e Idade Moderna, tendo- os como parâmetro para análise da sociedade Contemporânea. O objetivo, portanto, é perceber que no período que se inicia a partir da Revolução Francesa em (1789) até os dias atuais, os quais denominados contemporaneidade, há uma carência de pensadores como os iluministas do Século XVI ao Século XVIII, ou seja, a busca por uma racionalidade para a boa convivência do corpo social. Seção 1 | Contemporaneidade Objetivos de aprendizagem: Nesta Unidade, você vai ser levado a compreender os fatores históricos que contribuíram para os acontecimentos contemporâneos provenientes das transformações ocorridas a partir do século XV. Essas transformações irão desencadear uma série de situações que definirão o século XVIII como um século explosivo. O objetivo, portanto, é perceber que no período que se inicia a partir da Revolução Francesa em (1789) até os dias atuais denominados contemporaneidade, há uma carência de pensadores como os iluministas do Século XVI ao Século XVIII, ou seja, a busca por uma racionalidade para a boa convivência do corpo social. Pretende-se consequentemente o estudo do Positivismo e Neopositivismo buscando compreender seus pensadores. Sergio de Goes Barboza Na segunda seção estudaremos a teoria de Aristóteles quanto ao termo Filosofia primeira ou teologia para introduzirmos a questão da metafísica. Portando, o objetivo é estudar a Metafísica em sua concepção original para compreender a incompatibilidade da filosofia primeira enquanto metafísica com relação à ciência particular, por esta não considerar o ser enquanto ser em geral. Nesta seção, iremos seguir a sequência cronológica das diversas fases referentes ao desenvolvimento do Positivismo até chegarmos ao Pós- positivismo ou Neopositivismo, sendo três as fases da evolução. A primeira fase chamada de Positivismo Clássico; a segunda, o Empiriocriticismo de Avenarius (1843-1896) e Mach (1838-1916) e na terceira fase entraremos nas teorias neopositivistas, contemplando alguns dos principais autores considerados clássicos desta doutrina. Na terceira seção o objetivo é compreender o olhar epistemológico do Círculo de Viena. Notadamente quanto ao verificacionismo pretendemos investigar preliminarmente, em breves linhas, algumas percepções fundantes do próprio positivismo. Neste sentido, perpassaremos por um breve histórico desta doutrina, observando a forma como se entende a metafísica e consequentemente apresentando algumas características positivistas como uma corrente filosófica que surgiu com o desenvolvimento do Iluminismo. Seção 2 | Metafísica Seção 4 | Neopositivismo Seção 3 | O Positivismo A contemporaneidade e o neopositivismo U3 111 Introdução à unidade Se muitos foram os pensadores que refletiram a sociedade devido aos inúmeros problemas sociais que estavam aparecendo devido à industrialização iniciada no século XVIII, na Inglaterra, e, posteriormente, se estendendo às outras regiões, surgem com a nova realidade social, e com uma maior complexidade, autores mais clássicos que tentaram resolver esses mesmos problemas. Nesta unidade, mostraremos uma síntese dos pensadores e um breve histórico dos acontecimentos na Idade Contemporânea que culminaram com os problemas sociais provenientes da Revolução Industrial Francesa. Portanto, com relação aos pensadores iluministas que lutavam por uma sociedade mais racional, mais justa, perpassaremos pela necessidade de uma nova ordem social, não no sentido comteano, ou algo imaginário como ocorria na mente de diversos filósofos da Idade Média, mas comparando aos acontecimentos históricos da linha do tempo, percebemos que o mundo, em determinado momento, precisou de um grande acontecimento para travar os comandos e desmandos das classes dominantes. Considerando que no âmbito da teoria e das leis, o cidadão tem direito de viver livre, em segurança, é necessário repensar a sociedade sendo que os cidadãos cada vez mais estão vivendo sob os contrastes de uma sociedade de aparências. Percebe- se, neste sentido, a necessidade de um novo acontecimento, de conscientização e da participação da sociedade no desenvolvimento de todo corpo coletivo. Neste contexto se explica o estado patológico que se apresenta na sociedade através do mau exemplo de quem governa. Assim, o homem é forjado e influenciado conforme o meio em que vive. O que se propõe nesta unidade é uma reflexão da sociedade contemporânea cujos problemas são os mesmos do passado em que a sociedade atual clama por uma solução emergente e por justiça. Portanto, anunciamos a necessidade de resgatar os pensadores da época atual para eleger novamente a “razão” como grande instrumento de reflexão para que possamos ter instituições mais justas e funcionais. Na primeira seção, portanto, perpassaremos por uma breve análise dos acontecimentos históricos das sociedades da Idade Média e Moderna, tendo-as como parâmetro para análise da sociedade contemporânea. Na segunda seção, estudaremos a teoria de Aristóteles quanto ao termo Filosofia primeira ou teologia para introduzirmos a questão da metafísica. Consequentemente devemos começar o nosso estudo referente a um determinado tema com as A contemporaneidade e o neopositivismo U3 112 coisas mais conhecidas por nós e chegar, em última análise, a um entendimento das coisas mais conhecidas em si mesmas. Na terceira seção, o objetivo é compreender o olhar epistemológico do Círculo de Viena. Notadamente quanto ao verificacionismo pretendemos investigar preliminarmente, em breves linhas, algumas percepções fundantes do próprio Positivismo. Neste sentido, perpassaremos por um breve histórico do Positivismo que surgiu a partir da teoria de Auguste Comte, que pretendeu realizar por meio da ciência uma reforma social. Nesta perspectiva iremos compreender a metafísica na concepção deste autor. Na quarta seção, seguindo a sequência cronológica das diversas fazes referentes ao desenvolvimento do Positivismo até chegarmos ao Pós-positivismo ou Neopositivismo, sendo três as fasesda sua evolução. A primeira, chamada Positivismo Clássico, a segunda, ao final do século XIX e princípio do século XX, o empiriocriticismo de Avenarius (1843-1896) e Mach (1838-1916). A terceira etapa denomina-se, Neopositivismo estreitamente vinculado ao Círculo de Viena. A contemporaneidade e o neopositivismo U3 113 Seção 1 Contemporaneidade Nesta seção procuraremos compreender os diversos momentos da história em suas etapas de desenvolvimento, delineando os aspectos mais importantes cujas transformações vão direcionar as novas formas de explicar a natureza e a sociedade. Nesta perspectiva perpassaremos pela análise das patologias provenientes de ausência de normas e regras descumpridas pelos governantes. Neste sentido, demostraremos o distante consenso entre a teoria e a prática. 1.1 Os caminhos para os acontecimentos contemporâneos As transformações ocorridas a partir do século XV estão todas vinculadas entre si e não podem ser entendidas de forma isolada. Vejamos alguns aspectos relevantes desta época, que se relacionaram com a construção de uma nova mentalidade. Essas transformações vão direcionar as novas formas de explicar a natureza e a sociedade. Até então o povo europeu tinha uma concepção limitada de mundo, cujo conhecimento territorial baseava-se apenas no espaço local. Com as grandes navegações, as novas descobertas, o povo europeu percebe um mundo muito mais amplo, com novos povos, novas culturas, novas especiarias. O modo de ver e de pensar vai exigir uma reformulação quanto à explicação da natureza e da sociedade. Toda essa expansão territorial e comercial acelerou o desenvolvimento da economia monetária, com a acumulação de capitais pela burguesia comercial, mais tarde, terá uma importância decisiva na gestão do processo de industrialização da I) A expansão marítima. II) As reformas protestantes. III) A formação dos estados nacionais. IV) As grandes navegações e o comércio ultramarino. V) Desenvolvimento científico e tecnológico. Fonte: O autor Quadro 3.1 | Alguns dos aspectos relevantes A contemporaneidade e o neopositivismo U3 114 Europa. A Revolução Industrial e Francesa foram os acontecimentos mais relevantes no século XVIII, fatos estes que definiram o desaparecimento da sociedade feudal. De acordo com Tomazi et al. (2000, p. 4): Assim como tudo se desenvolve e vai se adaptando, as ideologias das classes dominantes vão também tomando rumos estratégicos cada vez mais eficientes, onde a sociedade contemporânea precisa novamente de uma transformação principalmente no campo da moralidade. Quando falamos de contemporaneidade estamos nos referindo ao período que se inicia a partir da Revolução Francesa em (1789 d.C.) até os dias atuais.. É um período que foi fortemente marcado pela corrente filosófica iluminista que vai do século XVI ao século XVIII em que se dava ênfase à razão. Neste período (iluministas) era defendida a criação de escolas para a educação da população, a liberdade religiosa e outras reivindicações. A contemporaneidade está carente de pensadores como os iluministas que se encontravam entre o século XVI ao século XVIII. Estes atacavam de forma sistemática tudo aquilo que era considerado contrário à busca da felicidade, da justiça e da igualdade. Neste sentido, as suas preocupações eram simplesmente denunciar a injustiça, a dominação e o poderio da igreja que tinha uma influência considerável em toda a estrutura social e política e que de certa forma dificultava o desenvolvimento da sociedade. Ao mesmo tempo o pensamento dogmático religioso era colocado como uma barreira entre Deus e o Homem. Todas essas mudanças, somadas à herança cultural e intelectual do século XVII, irão definir o século XVIII como um século explosivo. Se no século anterior a Revolução Inglesa determina novas formas de organização política, é no século XVIII que se vê tanto a Revolução Americana como a Francesa alterando todo o quadro político mundial, bem como servindo de exemplo e parâmetro para as revoluções posteriores. Fonte: COMMONS.WIKIMEDIA (2015) Figura 3.1 | Pensamento dogmático religioso A contemporaneidade e o neopositivismo U3 115 Os pensadores iluministas criticavam também o estado absolutista e os privilégios dos homens de poder, que afastavam os cidadãos do seu direito natural à busca da felicidade. Para esses pensadores as sociedades que não se organizassem em torno da melhoria das condições de seus indivíduos conceberiam uma realidade incapaz de justificar, por argumentos lógicos sua própria existência. Se considerarmos o pensamento de Durkheim sobre duas questões básicas, sendo a primeira de que a sociedade prevalece sobre o indivíduo e de que sem normas e sem regras a sociedade não existiria como citado a seguir: A pergunta que fica no ar é a que comportamento moral deve ser seguido numa sociedade cada vez mais corrupta em que aqueles que governam não dão exemplos desta moralidade. Considerando que a ética está no âmbito da teoria, portanto, escrevem ou legislam perante uma ética comum no conjunto do corpo social, porém, a prática é completamente dissociável, incompatível com a realidade proposta. A sociedade sem o comportamento racional como mencionado pelos iluministas do século XVIII acabam por elevar o desconforto além de uma patologia proveniente de ausência de normas e regras descumpridas pelos que legislam. Neste sentido, o que se aponta neste dilema é o distante consenso entre a teoria e a prática. Aquilo que se escreve não é aquilo que se pratica. Mais uma vez trazemos os clássicos para comparar à realidade social, muitos com base em suas crenças não entendem porque vivemos uma época comparada a uma barbárie, obviamente mais sofisticada e moderna. Na contemporaneidade essas são as questões somadas aos mesmos problemas do passado cuja sociedade clama por uma solução emergente e por uma sociedade mais justa. Para o Sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), a sociedade prevalece sobre o indivíduo. A sociedade é, para esse autor, um conjunto de normas de ação, pensamento e sentimento que não existem apenas na consciência dos indivíduos, mas que são construídas exteriormente, isto é, fora das consciências individuais. Em outras palavras, na vida em sociedade o homem defronta com regras de conduta que não foram diretamente criadas por eles, mas que existem e são aceitas na vida em sociedade, devendo ser seguidas por todos. Sem essas regras, a sociedade não existiria, e é por isso que os indivíduos devem obedecer a elas. (TOMAZI, 2000, p. 17). Com base no texto de Marx em que o homem interage com o meio e que o homem é forjado e influenciado conforme o meio em que vive. Neste sentido como poderíamos explicar o Brasil na atualidade? A contemporaneidade e o neopositivismo U3 116 Quando se questiona sobre a existência da sociedade, segue-se uma analogia sobre os parâmetros de uma sociedade coesa, cuja harmonia se refere à dignidade humana. No âmbito da teoria e das leis, o cidadão tem direito de viver livre, em segurança, mas o que se vê na atualidade, são os cidadãos cada vez mais vivendo sob os contrastes de uma sociedade de aparências. Os que detêm o poder, além de grandes atores, protagonistas legislam e escrevem uma história de utopias. Certamente Platão os criticaria "como simples imitadores das aparências da virtude e dos outros assuntos de que tratam, mas que não atingem a verdade". (PLATÃO, 1997, p. 328). Provavelmente Auguste Comte classificaria a literatura das leis e da política atual, na teoria, no estado positivo, mas na prática, no estado teológico e metafísico conforme a sua célebre lei dos três estados. No âmbito da teologia o cidadão vive pela fé e coloca suas esperanças em Deus, faz milagre com o que tem para se viver acreditando muitas vezes nas utopias do poder político. É cabível que a própria estrutura leve os homens de ciências a desacreditar de sua própria fé, é possível entender o que Marx queria dizersobre o fato da religião ser o ópio do povo. Fonte: O autor Figura 3.2 | Sociedade/ Londrina-PR A contemporaneidade e o neopositivismo U3 117 É provável que se explique por que os homens e as ciências tanto ignoram a metafísica, pois esta está no âmbito dos questionamentos e num mundo dominado por ideologias de classes que estão no topo do poder, questionar é uma trava no desenvolvimento de seus interesses, alheios aos interesses coletivos. Já no âmbito da metafísica as sociedades começam ser vistas em termos naturais, e não sobrenaturais. Passa a ser observada de forma abstrata, sai da imaginação e entra na argumentação. Para os positivistas o homem contemporâneo entrou no estado positivista, no ápice do conhecimento. Já para os neopositivistas o homem ainda não atingiu este estágio. Para os positivistas a sociedade só pode ser reorganizada através de uma completa reforma intelectual do homem. A sociedade contemporânea precisa resgatar pensadores dessa época para eleger novamente a “razão” como grande instrumento de reflexão para que sejam capazes de melhorar e empreender instituições mais justas e funcionais. O que precisa é a racionalização dos hábitos em todo corpo social. Considere-se aqui, a sociedade, as instituições públicas e privadas, a igreja e principalmente a esfera política que cada vez mais se afastam da razão e se infiltram num comportamento parecido ao estado natural em que imperava o egoísmo, os interesses, o uso do poder e da força. Desta maneira, os homens estão cada vez mais se afastando do seu direito natural referente à busca da felicidade. A filosofia e os filósofos tiveram um papel preponderante na transformação da sociedade. A forma como eles buscaram compreender as coisas fez com que todos na idade contemporânea tivessem uma nova forma de olhar o mundo. Os filósofos defendiam a existência de verdades absolutas, inspirados nas ciências naturais. Para eles a grande falha cometida quando se referem ao desenvolvimento da sociedade foi o afastamento dos homens de suas características originais, pois o conjunto de valores que possuíam, como a bondade, a liberdade e outros foram se ausentando aos poucos. As instituições políticas contrárias a essa liberdade valorizaram as injustiças promovidas pelo Estado Absolutista. Tudo isso ocorreu contrariando o que deveria trazer melhorias à conduta humana. Foi neste contexto, que o Iluminismo entrou em ação defendendo os direitos naturais, o respeito à diversidade de ideias, a justiça etc., motivando Fonte: COMMONS.WIKIMEDIA (2015) Figura 3.3 | A história A contemporaneidade e o neopositivismo U3 118 consequentemente as revoluções burguesas e consequentemente o fim do regime feudal aparecendo as teorias liberais. Como toda estrutura tem a sua corrupção e suas contradições a contemporaneidade é o espaço para um novo momento de os filósofos, os intelectuais clamarem por uma nova mudança para a busca de liberdade. Neste novo sistema o que impera é a alienação das pessoas o que as tiram de suas características naturais, perdendo as suas próprias identidades tanto no âmbito individual como coletivo. Em cada época é necessário um grande acontecimento para que a sociedade se livre da alienação e dos descontroles promovidos pelas classes dominantes. E em cada momento da história é preciso o grito de liberdade promovido pela sociedade e, em especial, pelos escritores intelectuais críticos denunciando os desfeches de uma realidade alienante e contraditória Alienação é a condição psicossociológica de perda da identidade individual ou coletiva decorrente de uma situação global de falta de autonomia. Encerra, portanto uma dimensão objetiva – a realidade alienante – e a uma dimensão subjetiva – o sentimento do sujeito privado de algo que lhe é próprio. O conceito de alienação é comum a vários domínios do saber. Em psicologia e psiquiatria, fala-se de alienação para designar o estado mental da pessoa cuja ligação com o mundo circundante está enfraquecida. Em antropologia, a alienação é o estado de um povo forçado a abandonar seus valores culturais para assumir os do colonizador. Em sociologia e comunicação, discute-se a alienação que a publicidade e os meios de comunicação suscitam, dirigindo a vontade das massas, criando necessidades de consumo artificiais e desviando o interesse das pessoas para atividades passivas e não participativas. Em filosofia política, fala-se de alienação para designar a condição do trabalhador que, à semelhança de uma peça de engrenagem, integra a estrutura de uma unidade de produção sem ter nenhum poder de decisão sobre sua própria atividade nem direitos sobre o que produz. Transcendendo o âmbito da produção, a alienação se estende às decisões políticas sobre o destino da sociedade, das quais as grandes massas permanecem alijadas, e mesmo ao âmbito das vontades individuais, orientadas pela publicidade e pelos meios de comunicação de massas. (ESTUDANTE DE FILOSOFIA, 2012, p. 1). A contemporaneidade e o neopositivismo U3 119 Fonte: O autor Figura 3.4 | Linha do tempo: Idade Contemporânea Segundo o historiador Hobsbawm (1996, p. 17): “se a economia do mundo do século XIX foi tomada principalmente sob a influência da Revolução Industrial britânica, sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela Revolução Francesa”. 1. As transformações ocorridas a partir do século XV estão todas vinculadas entre si e não podem ser entendidas de forma isolada. Aponte os principais acontecimentos responsáveis por essas transformações. 2. A contemporaneidade está carente de pensadores como os iluministas que se encontravam entre o século XVI ao século XVIII. Descreva as principais ações desses pensadores. A contemporaneidade e o neopositivismo U3 120 A contemporaneidade e o neopositivismo U3 121 Seção 2 Metafísica Nesta seção, o objetivo é refletir sobre a metafísica na sua origem através do filósofo Aristóteles para a compreensão de seu significado enquanto filosofia primeira ou teologia. 2.1 Filosofia primeira ou teologia O que seria filosofia primeira ou teologia? Para entendermos vamos estudar as teorias de um grande pensador: o filósofo Aristóteles. É dele esta termologia. A filosofia primeira ou teologia equivale à metafísica. O que em sua concepção a metafísica estuda o “inteiro” do ser diferenciando, porém da ciência que estuda apenas “partes” específicas do ser. Portanto esta é a grande diferença entre a metafísica e a ciência, no que se refere aos objetos de estudo de cada um. Neste sentido, entende-se que aquilo que se identifica nas partes não pode ser identificado no inteiro. Aristóteles descreveu seu assunto em diversas ou variadas formas com relação à filosofia primeira, ou neste caso, o estudo do ser enquanto ser. O que significa a filosofia primeira? É o estudo das causas e princípios, mas não podemos interpretar tal termo na raiz da palavra, pois não significa que este ramo deva ser estudado em primeiro antes dos demais assuntos. O que significa é que os assuntos aqui em referência são os mais fundamentais ou no mais alto nível de generalidade. Aqui identificamos duas questões básicas: Fonte:COMMONS.WIKIMEDIA (2015) Figura 3.5 | Aristóteles A contemporaneidade e o neopositivismo U3 122 Fonte: O autor Figura 3.6 | Questões básicas Para Aristóteles devemos começar o nosso estudo referente a um determinado tema com as coisas mais conhecidas por nós e chegar, em última análise, a um entendimento das coisas mais conhecidas em si mesmas. Isso significa dizer que saímos de uma situação do mundo físico, ou do senso comum para uma dimensão metafísica. Podemos conhecer muitas coisas nas suas generalidades, porém entramos na dimensão da metafísica quando começamos a especular e buscar conhecer mais especificamente a coisa em si mesma. Saímos da superficialidade para compreender com mais precisão. Portanto, a metafísica é todo tipo de especulação. A ciênciaquer compreender aquilo que é verificável perceptível, palpável. Foi no tratado de Aristóteles que surgiu o grande trabalho na história da filosofia com o título de Metafísica, embora, este título não foi necessariamente utilizado por ele, mas elaborada por um editor que reuniu seus escritos indicando o lugar dos temas abordados e colocando-os depois da física, daí o nome “metafísica”, que, como já vimos, significa “depois da física” ou “além da física”. Portanto, foi colocado após os tratados que explicam as questões da natureza. Há uma incompatibilidade da filosofia primeira se comparado à ciência particular, por esta não considerar o ser enquanto ser em geral. No conjunto de obras denominado: Metafísica, Aristóteles buscou investigar o “ser enquanto ser”. Significa que buscou compreender o que tornava as coisas o que elas são. Nesse sentido, as características das coisas apenas nos mostram como as coisas estão, mas não definem ou determinam o que elas são. É preciso investigar as condições que fazem as coisas existirem, aquilo que determina “o que” elas são e aquilo que determina “como” são. (MUNDO EDUCAÇÃO, 2015). A contemporaneidade e o neopositivismo U3 123 1. De acordo com o texto, explique o que é filosofia primeira ou teologia e qual a sua diferença com a ciência. 2. O que significa dizer, segundo Aristóteles, que devemos começar o nosso estudo referente a um determinado tema com as coisas mais conhecidas por nós e chegar, em última análise, a um entendimento das coisas mais conhecidas em si mesmas? A contemporaneidade e o neopositivismo U3 124 A contemporaneidade e o neopositivismo U3 125 Seção 3 O positivismo Esta seção tem como objetivo um breve estudo do positivismo a partir do filósofo Auguste Comte buscando compreender principalmente os aspectos sobre metafísica. Perpassaremos por esta teoria apresentando como uma primeira fase de desenvolvimento para a compreensão posterior do Neopositivismo. Para compreender o olhar epistemológico do Círculo de Viena, notadamente quanto ao verificacionismo, parece imperioso investigar, preliminarmente, em breves linhas gerais, algumas percepções fundantes do próprio Positivismo. Comecemos então, por um breve histórico do Positivismo que surgiu a partir da teoria de Auguste Comte, que pretendeu realizar por meio da ciência uma reforma social, afirmando que a Sociologia é a única ciência capaz de reformar a sociedade. Auguste Comte (1798-1857) torna-se um republicano com ideias liberais e passa a desenvolver uma atividade política e literária que lhe permitirá elaborar uma proposta para resolver os problemas da sociedade de sua época, toda a sua obra está permeada pelos acontecimentos após as revoluções que ocorreram na França a partir do século XVIII. Nessa corrente de pensamento reconhecia-se que os princípios reguladores da sociedade humana deveriam ser estudados sob o mesmo método do mundo físico, pois, embora, eram diferentes em essência, a origem natural de ambos os aproximava. Conforme afirma Giddens (2005, p. 28), Comte acreditava que a sociologia deveria aplicar os mesmos métodos científicos rigorosos ao estudo da sociedade que a física ou a química usam no estudo do mundo físico. 3.1 O Positivismo A contemporaneidade e o neopositivismo U3 126 Aprenda mais sobre o Positivismo, de Auguste Comte, acessando o link a seguir: <http://www.igrejapositivistabrasil.org.br> Este site pertence à Igreja Positivista do Brasil: Aqui você encontrará: Tudo sobre a Igreja Positivista O que é Positivismo Características Gerais do Positivismo Augusto Comte – Vida e Obras – Grandes Vultos do Positivismo (em quadrinhos) – 1958 etc. Iluminismo: é uma atitude geral de pensamento e de ação. Ação de tornar o mundo melhor. Empirismo: As teorias científicas devem ser baseadas na observação do mundo, em vez da intuição ou fé. Cognitivo: Ação de adquirir um conhecimento. Algumas características do positivismo I) É uma corrente filosófica, surgiu com o desenvolvimento do Iluminismo. II) Afasta radicalmente a teologia e a metafísica; e ao negar a metafísica, supervaloriza o empirismo, dando preferência às ciências experimentais. III) Com o Positivismo, Comte luta contra o emprego do método teológico na investigação científica, pois todos os fenômenos vitais devem ser, na sua concepção, explicados por suas causas sociológicas. IV) Ao confiar nos conhecimentos dos fatos, afasta qualquer ato cognitivo que não tenha partido da observação; logo, o positivismo tem por base teórica a observação. Para compreender os problemas sociais, Comte desenvolve uma filosofia da história. Todo grupo social passa, necessariamente, por três fases históricas de evolução: A lei dos três estados. Mas vamos procurar entender apenas a METAFÍSICA. 3.2 A metafísica do Positivismo de Comte A contemporaneidade e o neopositivismo U3 127 Segundo estágio: O estado metafísico ou abstrato – A sociedade começa ser vista em termos naturais, e não sobrenaturais como ocorria na fase teológica. É marcado pela busca da natureza dos fenômenos, da força essencial que os governa. Seria o caso do Renascimento e suas especulações filosóficas, no entender de Comte, divorciadas do concreto. Neste estágio, seriam ainda pequenas as possibilidades de entender como os fenômenos funcionam na prática, fato que limitaria o conhecimento. Na obra de Comte, a metafísica não ocupa um papel central por ser apenas uma etapa de transição entre a teologia e o estado positivo. Faz uso das entidades abstratas (ou abstrações reificadas). Temos, portanto, na célebre lei dos três estados duas fases mais estáveis: a fase teológica e a fase positiva. A degradação da teologia assume a forma metafísica. No primeiro estágio ou estado teológico ou fictício, a sociedade é governada pelas forças sobrenaturais. As regras que organizam a sociedade são completamente submetidas à religião. No estado POSITIVO seriam abandonadas as tentativas de buscar a origem ou a natureza dos fenômenos para restringir-se à perseguição de leis universais que expliquem seu funcionamento. Isto porque, seguindo a lógica da lei dos três estados, a crise da nascente sociedade industrial seria causada pela transição dos estados teológico e metafísico para o estado positivo. De acordo com Giddens (2005, p. 28) “O positivismo sustenta que a ciência deveria estar preocupada somente com entidades observáveis que são conhecidas diretamente pela experiência”. Fonte: O autor Figura 3.7 | Filosofia da história 1. Para compreender os problemas sociais, Comte desenvolve uma filosofia da história. Todo grupo social passa, necessariamente por três fases históricas de evolução: A lei dos três estados. Sobre esta teoria comente o segundo estágio: o estado metafísico ou abstrato. 2. Sobre a célebre Lei dos Três Estados comente a terceira fase: o estado positivo. A contemporaneidade e o neopositivismo U3 128 A contemporaneidade e o neopositivismo U3 129 Seção 4 Neopositivismo Nesta seção estudaremos o Neopositivismo (também conhecido como positivismo lógico) como um movimento desenvolvido por membros do círculo de Viena na Áustria e na Alemanha. Nestes aspectos perpassaremos pelas questões da metafísica, epistemologia e um breve histórico das teorias clássicas. Desde o surgimento do positivismo passamos por diversas fases de evolução desta doutrina até chegarmos ao Pós-positivismo ou Neopositivismo. Triviños (1987, p. 33), distingue três momentos na evolução do positivismo: 4.1 Neopositivismo Uma primeira fase, que é chamada de positivismo clássico, na qual, além do fundador Comte, sobressaem os nomes de Littré, Spencer e Mill. Em seguida, ao final do século 19 e princípios do século 20, o empiriocriticismo de Avenarius (1843-1896) e Mach (1838- 1916). A terceira etapa denomina-se, em geral, Neopositivismo e compreende uma série de matizes, entre os quais se podem anotar o positivismo lógico, o empirismo lógico, estreitamentevinculado ao Círculo de Viena (Carnap, Schlick, Frank, Neurath etc.); o atomismo lógico (Russell, 1872-1970, e Wittgenstein 1889-1951); a filosofia analítica (Wittgenstein e Ayer, n. 1910) que acham que a filosofia deve ter por tarefa elucidar as formas de linguagem em busca da essência dos problemas; o behaviorismo (Watson, 1878-1958) e o neobehaviorismo (Hull, 1884-1952, e Skinner, n. 1904). O neobehaviorismo tomou as ideias de Pavlov e substituiu a base materialista deste pelas concepções do positivismo lógico e do operacionalismo. O pragmatismo (James, 1842-1910), irracionalista e empirista radical, e Dewey (1859-1952), A contemporaneidade e o neopositivismo U3 130 primeiro seguidor dos pontos de vista de Hegel, em seguida do positivismo, para terminar criando uma nova escola, denominada instrumentalismo ou naturalismo humanista, de grande influência na filosofia norte-americana. Dewey influenciou na educação dos países da América Latina. Na política, desenvolveu os princípios da democracia liberal e do individualismo. Todos estes matizes do neopositivismo conservam os traços fundamentais do pensamento de Comte: os de serem idealistas e subjetivos. O Neopositivismo (também conhecido como positivismo lógico) foi um movimento desenvolvido por membros do círculo de Viena na Áustria e na Alemanha, (nesta prevalecia como reação à filosofia idealista e especulativa) durante os anos de 1920 a 1930 na base do pensamento empírico tradicional e no desenvolvimento da lógica moderna. O Círculo de Viena foi um nome que ficou conhecido, onde um grupo de filósofos se reunia semanalmente para discutir assuntos referentes às novas descobertas científicas. As reuniões aconteciam na Universidade de Viena mais precisamente no período entre 1922 a 1936. O coordenador deste encontro era Moritz Schlick. Fonte: COMMONS WIKIMEDIA (2010) Figura 3.8 | Moritz Schlick Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0b/Wien_schloss_belvedere_panorama.jpg>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 3.9 | Viena – Austrália Este grupo procurava demonstrar as falsidades da metafísica, porém esta atividade foi dispersa com o assassinato de Moritz Schlick por um de seus alunos que era membro do nazismo. Diante da perseguição nazista os participantes do Círculo de Viena se dispersaram. A contemporaneidade e o neopositivismo U3 131 O sistema filosófico deste grupo ficou conhecido sob três termologias muito referenciadas com uma influência imensa no século XX, como por exemplo, “Positivismo Lógico”, “Empirismo Lógico” ou “Neopositivismo”. A atitude empírica estende-se a todos os domínios do pensamento. Para eles, o tratamento matemático e lógico dos fatos e a prova empírica são as fontes exclusivas do conhecimento científico. O método lógico seria aplicado para a compreensão científica do mundo, alheia a ideias éticas e a qualquer metafísica. Este movimento foi formado por homens da ciência e matemáticos. Portanto, nesta concepção, a observação é indispensável para o conhecimento do mundo. Tem-se aqui uma versão do racionalismo incorporado, construções e deduções em epistemologia. Para os neopositivistas, os únicos enunciados que podem ser considerados científicos são os submetidos à verificação lógica e os que não podem ser submetidos à verificação lógica empírica são considerados sem sentido e absurdos. Neste sentido, os neopositivistas valorizam as experiências, ou seja, somente o que passa pela verificação, o que é possível à observação clara, não se preocupando com o abstrato. Criticam a metafísica por esta não ter uma linguagem que identifique o que é verdadeiro ou falso, neste sentido, não era importante para aumentar o conhecimento. Os positivistas lógicos optavam pelas ciências formais e naturais assim como os positivistas tradicionais. Na concepção deste grupo de pensadores, Moritz Schlick foi a figura central do Positivismo Lógico e do Círculo de Viena. Nascido em Berlim numa abastada família, estudou física em Heidelberg, Lausana e na Universidade de Berlim, com Max Planck. Sobre epistemologia: Epistemologia significa ciência, conhecimento, é o estudo científico que trata dos problemas relacionados com a crença e o conhecimento, sua natureza e limitações. É uma palavra que vem do grego. A epistemologia estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento, e também é conhecida como teoria do conhecimento e relaciona-se com a metafísica, a lógica e a filosofia da ciência. É uma das principais áreas da filosofia, compreende a possibilidade do conhecimento, ou seja, se é possível o ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno, e da origem do conhecimento (SIGNIFICADOS.COM.BR, 2015). A contemporaneidade e o neopositivismo U3 132 a filosofia não é uma ciência, mas contribui fortemente para o progresso do conhecimento científico. O termo: “metafísica” surgiu casualmente: Para Aristóteles a metafísica é, simultaneamente, ontologia, filosofia e teologia, na medida em que se ocupa do ser supremo dentro da hierarquia dos seres. Neste sentido, foi recolhida pela filosofia tradicional até Kant, que se interrogou sobre a possibilidade da metafísica como ciência. A interpretação da metafísica como estudo do "sobrenatural" é de origem neoplatônica. A tradição escolástica identificou o objeto de estudo da metafísica com o da teologia, ainda que tenha distinguido as duas pelos métodos usados: para explicar Deus, a metafísica recorre à razão e a teologia à revelação. Quando Andrônico de Rodes, cerca de duzentos e setenta anos após a morte do mestre, começou a preparar a primeira edição completa das obras que se conservaram, obviamente não sabia direito o que fazer com o conteúdo de uma estranha coleção constituída de catorze textos separados. Ele a inseriu depois da edição da Física, nomeando-a por isso de metà tà physikà. Somente na Antiguidade tardia se reinterpretou esse título no sentido de aquilo ‘que está além da natureza’ ou ‘que subjaz a ela’”. (HELFERICH, 2006, p. 44). Como se pode ver, o termo metafísica surgiu casualmente, não foi criado por Aristóteles, ele usava a expressão filosofia primeira ou teologia para referir-se aos conteúdos dessa disciplina (REALE, 1990, p. 179 apud MACHADO, 2013, p. 18). Ontologia significa “estudo do ser”. A palavra é formada através dos termos gregos “ontos” (ser) e “logos” (estudo, discurso). Consiste em uma parte da filosofia que estuda a natureza do ser, a existência e a realidade, procurando determinar as categorias fundamentais e as relações do “ser enquanto ser”. Engloba algumas questões abstratas como a existência de determinadas entidades, o que se pode dizer que existe, qual o significado do ser etc. (SIGNIFICADO DE ONTOLOGIA, 2015). As palavras de Schilick (1975, p. 17), indicam, inicialmente, que o Positivismo a ser gestado na metade desse século será de alguma forma, outro, diferente daquele propugnado por Comte. No entanto, com relação à “metafísica”, embora ambos 4.2 A metafísica para os neopositivistas A contemporaneidade e o neopositivismo U3 133 Antes de começarmos e explicar a metafísica segundo a concepção neopositivista, vamos entender um pouco sobre a metafísica como um importante ramo da filosofia. Como vimos anteriormente, a palavra “metafísica” é de origem grega e tem como significado “meta”,“além de”, o que está para além da física. Como vimos é um ramo da filosofia que estuda a essência do mundo e do conhecimento. Portanto, é o estudo do ser ou da realidade que tem como objetivo buscar respostas para perguntas consideradas complexas, como por exemplo, o que é a realidade? O que é a vida? O que é o homem? O que é natural e o sobrenatural? Ou seja, perguntas que nos fazem essencialmente humanos. Qual é a nossa essência? Como surgimos, de onde viemos e para onde vamos? Neste sentido, a metafísica tem como função “o pensar” com clareza aquilo que nos parece abstrato num primeiro momento. Considerandoque o ser humano prefere pensar a forma como se deve proceder ao fazer alguma coisa prática em detrimento de pensar o motivo pelo qual estão fazendo, neste sentido entendemos que as pessoas preferem perceber a vida por meio de dimensões práticas. Sendo assim a metafísica está no âmbito da abstração. rejeitassem, encontramos diferenças. O neopositivismo também rejeita a metafísica (TRIVIÑOS, p. 37), mas por razões diferentes das sustentadas por Comte: não acha que o conhecimento metafísico deva ser rejeitado porque seja falso, mas porque suas proposições carecem de significado. E esta é uma das muitas diferenças que se podem estabelecer entre o positivismo clássico e o neopositivismo, especialmente pelo que está representado pelo “Círculo de Viena”, o denominado positivismo lógico. TREVISAN (2006). A Metafísica – um dos mais antigos e importantes ramos da Filosofia – sobrepõe-se a outras grandes subdivisões, como a filosofia da mente e da religião, e é difícil defini-la precisamente. Talvez a melhor descrição da Metafísica seja que ela busca responder a questões fundamentais sobre a natureza da realidade”. (LAW, 2008, p. 75). Todas as ciências recortam uma parte da realidade para estudá-la, apenas a Metafísica se ocupa da realidade (ente) como um todo; do ente enquanto ente, procurando compreender todas as coisas existentes. É a ciência fundamental de todas as demais ao se ocupar das causas últimas. Ela é um ideal de conhecimento tipicamente grego, pois é teoria pura (contemplação), sem nenhuma finalidade prática e trata tanto dos princípios do pensar como dos princípios do ser. (MACHADO, 2013, p.18). A contemporaneidade e o neopositivismo U3 134 Diante deste pensamento entendemos também porque algumas áreas de conhecimento são mais consideradas que outras como, por exemplo, a política, a engenharia e a indústria, que seguindo este pensamento são mais naturais, práticas e concretas com relação à filosofia e áreas afins. Neste contexto vemos que a filosofia está interessada mais nos “porquês”, onde busca entender a existência das coisas. Por este caminho as respostas, muitas vezes, não são satisfatórias. A linguagem científica evita considerações metafísicas, pois entende que só assim poderá dizer algo de certo sobre o conjunto da observação por isso para alcançar o conhecimento científico que os neopositivistas afirmam e pressupõem. Percebe-se, portanto, que o Neopositivismo é marcado por uma postura antimetafísica. Segundo eles, problemas como a existência de um mundo sobrenatural não tem significado, portanto, não sendo um objeto de estudo que apresente alguma relevância, neste sentido, não deveria ser investigado, pois por não ter nenhum significado, debater sobre eles seria totalmente inútil. Vamos para um exemplo? Com base no critério verificacionista, os neopositivistas veem a inutilidade da metafísica. Por quê? Os pseudoproblemas são as razões pelas quais os neopositivistas criticam a metafísica. Um exemplo é a existência de Deus. Se considerarmos a proposição “Deus existe” é possível perceber que é um termo que não é nem analítico e nem contraditório. Por não ser empiricamente verificável, para os neopositivistas esta proposição não tem significado. Mas e o contrário desta proposição? Por exemplo: “Deus não existe”. Observaremos as mesmas condições, pois também não é verificável. O contrário também não tem como comprovar, portanto, também não é empiricamente verificável. Pela falta de verificação e comprovação empiricamente esses pseudoproblemas metafísicos não são importantes em suas concepções, portanto, não se prende a esta análise inverificável. Fonte: Wikimedia Commons (2015) Figura 3.10 | Jesukristo gure Jaunaren irudia A contemporaneidade e o neopositivismo U3 135 Desse modo, consideremos dentro desta concepção a “existência de Deus” como um pseudoproblema, assim, deveria ser abandonado. Para essa escola de filósofos, a metafísica é uma rede de pseudoproblemas, inúteis, e inverificáveis. Para os neopositivistas a filosofia tradicional não tem sentido, pois ela é abstrata sem sentido. A nova filosofia, a neopositivista que tem por objetivo apenas examinar, esclarecer a linguagem científica para eliminar os pseudoproblemas da filosofia, ou aquilo que podemos denominar de abstrato sem sentido, ou seja, eliminar os falsos problemas e diferenciar o que é empírico ou não para a ciência. Para o Neopositivismo a linguagem científica resume em si mesma e é responsável por resolver todos os problemas filosóficos evitando as considerações metafísicas. Neste sentido, poderá diferenciar o certo do errado com relação às observações na busca do conhecimento científico. [...] parece válido destacar que o Neopositivismo lógico, assim como a tradição comteana antes referida, postulavam os mesmos ideais de segurança e precisão. Ocorre, porém, que a base empírica do Círculo de Viena pode se efetivar no plano lógico das proposições, o que não parece ser viável no empirismo anterior. Figuram com destacada importância as investigações sobre a linguagem empreendida por Wittgenstein durante a mesma ambiência histórica do período entre guerras, o que acabou por inserir, no contexto da produção teórica daquele momento específico, referenciais linguísticos muito fortes. A ciência, em várias áreas, não ficou imune a tais reflexões. A linguagem passava ser o parâmetro da cientificidade. A precisão e a certeza passavam a ser balizadas justamente pela constatação do que poderia ser efetivamente dito, mediante a verificabilidade lógica das proposições componentes da linguagem científica. (LUZ, 2003, p. 20). Empírico: Relativo ao empirismo; que se guia só pela experiência; que é fundado exclusivamente na experiência. Empirismo: Origem grega. Que se dirige pela experiência. Pode significar ou a doutrina segundo a qual todas as ideias são fornecidas pela experiência (opondo-se ao racionalismo) ou o método que pretende fundar-se apenas na experiência (MARTINS, 2015). A contemporaneidade e o neopositivismo U3 136 Para o Neopositivismo Lógico, a linguagem é instrumento principal do saber científico e, além disso, é meio ou controle daqueles mesmos conhecimentos. Desta maneira, há duas características essenciais deste movimento: “1º. todo conhecimento fica circunscrito ao domínio do conhecimento empírico; “2º. a reivindicação do método da análise lógica da linguagem, como instrumento sistemático da reflexão filosófica”. Como foi dito, os Neopositivistas lógicos utilizavam a Semiótica para a análise da linguagem. Os estudos semióticos possuem três níveis de análise dos signos: a sintática (relação dos signos com signos), a semântica (relação do signo com o objeto que ele representa) e a pragmática (relação do signo com o emissor e o receptor da mensagem). (HONESKO, 2015, p. 165). O Neopositivismo ou Pós-positivismo foi considerado em algum momento de sua história como uma evolução do Positivismo e ao mesmo tempo em outros momentos como críticos da filosofia positivista em desacordo com alguns dos teóricos desta doutrina. Como já estudamos anteriormente o Neopositivismo refere-se a uma doutrina de matriz empirista cuja tarefa, segundo eles é a análise da linguagem. Neste sentido extinguiriam as causas sem sentido, abstratas, acabando assim, com os pseudoproblemas da filosofia. Isto significa dizer a ênfase dada à filosofia analítica. Sob os efeitos deste contexto, a importância desta ação recai sobre os modelos experimentais com teste de hipóteses e explicações das relações causais. Considerando a análise da linguagem, a maior característica do movimento neopositivista é valorizar a semiótica em relação à Epistemologia. Considerando a Teoria Geral dos Signos, a linguagem se torna um importante instrumento por excelência do saber científico. Dois são os ramos da Filosofia Analítica: A Filosofia Linguística e o Positivismo Lógico. Tanto o Positivismo Lógico como a Filosofia Linguísticatêm antecedentes importantes. O primeiro foi antecedido pelo Atomismo Lógico de Bertrand Russel e pela filosofia do jovem Ludwig Wittgenstein, representada pelo Tractatus Logico- Philosophicus. O Atomismo Lógico se origina no começo do século XX, tendo como principais expoentes Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein e Rudolf Carnap. O que defende esta teoria? Para eles o mundo consiste em “Fatos Lógicos” definidos. 4.3 Atomismo lógico A contemporaneidade e o neopositivismo U3 137 Para Russel nenhuma parte pode ser descoberta sem que o todo seja conhecido primeiro. Na verdade o que o autor estava fazendo era criticando o Idealismo absoluto. O pensador Ludwing Wittgenstein foi também um grande pensador do século XX. Sua grande obra foi “Tratado Lógico-Filosófico”. Esta obra foi única, mas suficiente A concepção básica que preside à Filosofia do Atomismo Lógico é a concepção segundo a qual é possível e desejável fazer uma análise lógica da linguagem corrente de tal forma que se determinem quais os 'átomos' linguísticos, quais aqueles termos que são simples e já não mais analisáveis, que por sua vez correspondem a entidades, a 'átomos', igualmente simples, no mundo extralinguístico. Dizíamos que esta análise é possível e desejável dado que a)- existe uma identidade estrutural entre a estrutura da nossa linguagem (quando completamente analisada) e a estrutura da realidade extralinguística que é suposta representar (o que explica a possibilidade da análise) e que b)- a realização da paráfrase da linguagem corrente numa linguagem logicamente perfeita – na qual consiste a análise – lança luz sobre a estrutura real, escondida por debaixo da estrutura aparente, da linguagem corrente (o que explica a desejabilidade da análise). Russell considera assim que a estrutura gramatical da linguagem que usamos todos os dias não coincide normalmente com a sua estrutura lógica e que, assim sendo, é necessário proceder-se à análise lógica da linguagem a qual é suposta tornar manifesta a verdadeira, real e profunda estrutura da linguagem que usamos para falar acerca do mundo. A estrutura gramatical de uma frase é então encarada como sendo enganadora, aparente e superficial, ao contrário da sua estrutura lógica, que se encontra após análise, e que é então, como dizíamos, verdadeira, real e profunda. IDEALISMO ABSOLUTO Tendência filosófica que reduz toda a existência ao pensamento. Opõe- se ao realismo, que afirma a existência dos objetos independentemente do pensamento. No idealismo absoluto, o ser é reduzido à consciência. Ao longo da história da filosofia, ele aparece sob formas menos radicais – não nega categoricamente a existência dos objetos no mundo, mas reduz o problema à questão do conhecimento. O idealismo toma como ponto de partida para a reflexão o sujeito, não o mundo exterior. (SOCIOFILOSOFIA, 2015). A contemporaneidade e o neopositivismo U3 138 para produzir uma revolução na filosofia. Sua pretensão era acabar com tudo aquilo que estava desprovido de sentido. É um autor que embora nunca tenha pertencido ao Círculo de Viena teve uma enorme influência exercida sobre os pensadores desta escola e aos neopositivistas. Com as investigações filosóficas teve grande influência sobre a Filosofia Analítica em geral. O Neopositivismo. Os defensores mais qualificados dos neopositivistas são Wittgenstein, Carnap, e Russell. Os neopositivistas dividem as ciências em dois grandes ramos: as lógico-matemáticas e as experimentais. As lógico-matemáticas: são constituídas por proposições analíticas, ou seja, tautológicas. As proposições lógicas e matemáticas, destituídas de conteúdo, não são mais do que regras para a utilização dos símbolos e a ordenação das proposições. As experimentais: são compostas por proposições fatuais. As experimentais ou fatuais são as empiricamente verificáveis: isto acontece se elas são traduzíveis em proposições de caráter empírico (PINEDO; PINEDO, 2015). Rudolf Carnap mantém uma posição de severa crítica à filosofia tradicional e à metafísica. A aparência de verdade dos enunciados da metafísica é causada, porque a linguagem comum não é definida em adequação às exigências lógicas e a fins exclusivamente científicos, mas é usada para expressar atitudes de emoção em relação ao mundo. Carnap, através de rigorosa análise dos enunciados das ciências naturais em contraste com enunciados metafísicos, procura formular critérios válidos para revelar os problemas lógicos da linguagem e criar critérios para a viabilidade lógica dos discursos científicos. 4.4 Rudolf Carnap Rudolf Carnap foi um filósofo alemão que trabalhou na Europa central antes de 1935 e nos Estados Unidos posteriormente. Foi um dos principais membros do Círculo de Viena e um eminente defensor do positivismo lógico. A contemporaneidade e o neopositivismo U3 139 Na filosofia de Karl Popper o conhecimento científico não é algo descoberto através do que se observa empiricamente, mas é criado, construído, o desenvolvimento ocorre naturalmente perante esta essência de busca constante dos questionamentos e de se colocar sob crítica as teorias. Consequentemente isso vai permitir o aprimoramento do conhecimento científico. Neste sentido, ao se preocupar com as questões relativas à teoria do conhecimento e à epistemologia, sua teoria se constituiu uma crítica ao positivismo lógico, ou seja, às teorias filosóficas do Círculo de Viena. Para Popper (1982, p. 321) “todo conhecimento é falível e corrigível, portanto, é provisório. A “explicação” é uma das tarefas das ciências, considerando os métodos e os diferentes tipos de explicações embora possam ser aceitáveis, consistem todos em uma dedução lógica”. Podem-se perceber em seu pensamento outras tarefas da ciência, como aquelas, por exemplo, que derivam de prenúncios, profecias etc. e aplicações técnicas. Para ele, estas tarefas também podem ser analisadas através do esquema lógico para a análise da explicação. Popper também fala do problema da indução que foi um dos problemas da filosofia investigado por ele: 4.5 As teorias de Karl Popper e a crítica ao positivismo lógico Fonte: VINCENTZ (2009) Figura 3.11 | Rudolf Carnap Fonte: Disponível em: <http://i1.minus. com/iCEPLfVRWVq0s.jpg>. Acesso em: 20 mar. 2015. Figura 3.12 | Karl Popper Não importando quantas confirmações de uma teoria tenham sido obtidas, é sempre logicamente possível que, no futuro, se derive uma conclusão que não venha a ser confirmada. Conforme o exposto na secção anterior é possível, de premissas falsas, obter-se conclusões verdadeiras. Outra razão contra a existência da lógica indutiva está em que um conjunto de fatos sempre é compatível com mais de A contemporaneidade e o neopositivismo U3 140 uma generalização (rigorosamente com um número infinito de generalizações). Por exemplo, se todos os cisnes até hoje observados são brancos, algumas possíveis generalizações são as seguintes: Todos os cisnes são brancos. Todos os cisnes são brancos ou negros. Todos os cisnes são brancos ou vermelhos ou azuis. Qualquer enunciado que afirma o observado e um pouco mais (ou muito mais) será compatível com as observações ocorridas. Estes aspectos lógicos que contraditam a existência da lógica indutiva serão complementados nas secções seguintes com outros que se apoiam na história da ciência. A história da ciência mostra exemplos de teorias que passaram a corrigir os fatos que pretensamente teriam servido como base indutiva das mesmas (a mecânica newtoniana assim o fez). Além disso, há exemplos de teorias científicas que se originaram não em fatos, mas em teorias metafísicas (é o caso da teoria copernicana). Tendo Popper negado a possibilidade de uma solução positiva ao problema da indução, parte então para uma resposta à questão do método das ciências empíricas (física, química, biologia, psicologia, sociologia, etc.). SILVEIRA (1996, p. 200-201). Portanto, Popper rejeita que as teorias científicas sejamconstruídas por um processo indutivo a partir de uma base neutra, e propõe que elas têm um caráter completamente conjuntural. Uma vez proposta, uma teoria deve ser rigorosamente testada por observações e experimentos. Se falhar, deve ser sumariamente eliminada e substituída por outra capaz de passar nos testes em que a anterior falhou. Bem como em todos aqueles nos quais tenha passado. Assim a ciência avança por um processo de tentativas de erros, conjeturas e refutações. 1. Para os neopositivistas a filosofia tradicional não tem sentido, pois ela é abstrata sem sentido. A nova filosofia, a Neopositivista tem por objetivo apenas examinar, esclarecer a linguagem científica para eliminar os pseudoproblemas da filosofia, ou aquilo que podemos denominar de abstrato sem sentido, ou seja, eliminar os falsos problemas e diferenciar o que é empírico ou não para a ciência. Neste contexto, explique as termologias “empíricas” e “Empirismo”: A contemporaneidade e o neopositivismo U3 141 2. Disserte sobre IDEALISMO ABSOLUTO. Perpassamos pelas teorias de Aristóteles, sobre a filosofia primeira ou teologia que equivale à Metafísica. O que em sua concepção a metafísica estuda o “inteiro” do ser diferenciando, porém da ciência que estuda apenas “partes” específicas do ser. Buscando compreender a forma epistemológica de pensar os filósofos do Círculo de Viena quanto ao verificacionismo, começamos investigar, preliminarmente, em breves linhas gerais, algumas percepções fundantes do próprio positivismo clássico que surgiu a partir da teoria de Auguste Comte. Na obra de Comte, a metafísica não ocupa um papel central por ser apenas uma etapa de transição entre a teologia e o estado positivo. Para o Neopositivismo o tratamento matemático e lógico dos fatos e a prova empírica são as fontes exclusivas do conhecimento científico. O método lógico seria aplicado para a compreensão científica do mundo, alheia a ideias éticas e a qualquer metafísica. Para esses pensadores é verdadeiro somente aquilo que pode ser verificado pela experiência pelos sentidos e pela pesquisa, tudo mais é um enunciado filosófico. Os princípios lógicos e matemáticos embora alcançados imediatamente por intuição sem necessidade de verificação científica são aceitos pelos neopositivistas, pois alguns desses princípios lógicos são “o todo é maior que a parte” e duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si. A ciência passa pela avaliação dos fenômenos e só poderá ser chamado de científico aquilo que for deles deduzido. Logo a lógica da pesquisa científica é indutiva, ou seja, aquela que parte do particular para o universal. Para eles a filosofia tradicional é abstrata, portanto é algo sem sentido, sendo desligada dos fenômenos particulares para o universal. Neste caso o que vai diferenciar do tradicional é a nova filosofia que terá como objetivo examinar, esclarecer a linguagem científica eliminando os falsos problemas. Por isso a nova filosofia será epistemológica e ao mesmo tempo filosofia da linguagem. Neste contexto, não se diferencia muito da filosofia positivista de Auguste Comte. A contemporaneidade e o neopositivismo U3 142 Dentre os pontos principais da doutrina neopositivista pode-se resumir da seguinte maneira: é verdadeiro somente aquilo que pode ser verificado pela experiência, pelos sentidos e pela pesquisa, tudo mais é um enunciado filosófico. Os princípios lógicos e matemáticos embora alcançados imediatamente por intuição sem necessidade de verificação científica são aceitos pelo neopositivistas. Alguns desses princípios lógicos são “o todo é maior que a parte” e duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si. A ciência começa pela avaliação dos fenômenos e só poderá ser chamado de científico aquilo que for deles deduzido; logo a lógica da pesquisa científica é indutiva, ou seja, aquela que parte do particular para o universal. Para Popper que já foi um neopositivista e agora os criticando, a teoria ainda que seja por algumas expectativas ou uma teoria rudimentar sempre precede a observação cujo papel principal desta, assim como dos testes experimentais é mostrar a falsealidade de algumas de nossas teorias. Neste sentido estimula-se a produção de teoria melhores. Portanto, o que fica esclarecido por este autor é que partimos sempre de problemas que sejam práticos ou teoria com algumas dificuldades e nunca da observação como pregada pelos positivistas clássicos e os próprios neopositivistas. A Contemporaneidade traz dentro de si um conjunto de grandes ideias que dialeticamente foram discutidas com o passar dos anos. Neste sentido, fazendo uma ideologia à própria teoria de Popper em que a teoria ainda que seja algumas expectativas ou uma teoria rudimentar sempre precede a observação cujo papel principal desta, assim como dos testes experimentais é mostrar a falsealidade de algumas de nossas teorias. Neste sentido, estimula-se a produção de teorias melhores. Neste mesmo entendimento, todas as ideias têm sua importância, pois mesmo aquelas consideradas utópicas, serviram para que outras teorias sobressaíssem, ou outras melhores se criassem a partir daquela sem sentido prático. Portanto, todos os caminhos percorridos serviram para se concretizar uma realidade que está sempre em A contemporaneidade e o neopositivismo U3 143 constante análise dialética. Como estudamos, a contemporaneidade está carente de pensadores como os iluministas que se encontravam entre o século XVI ao século XVIII. Esses pensadores criticavam também o estado absolutista e os privilégios dos homens de poder que afastavam os cidadãos do seu direito natural à busca da felicidade. Semelhante aos dias atuais, o mundo está cheio de corrupção e a população perdendo sua segurança, sua liberdade e felicidade. Na vida em sociedade o homem defronta com regras de conduta, devendo ser seguidas por todos. Sem essas regras, a sociedade não existiria, e é por isso que os indivíduos devem obedecer a elas (TOMAZI, 2000, p. 17). Por outro lado vimos que o homem interage intensamente com o meio. Portanto, os membros da sociedade, quando em meio à barbárie generalizada, comportam-se como bárbaros. Isso porque o homem é forjado e influenciado conforme o meio em que vive. Como toda estrutura tem a sua corrupção e suas contradições, a contemporaneidade é o espaço para um novo momento de os filósofos e os intelectuais clamarem por uma nova mudança para a busca desta liberdade perdida. 1. As transformações ocorridas a partir do século XV estão todas vinculadas entre si e não podem ser entendidas de forma isolada. Encontramos alguns aspectos relevantes desta época, que se relacionaram com a construção de uma nova mentalidade. Essas transformações vão direcionar as novas formas de explicar a natureza e a sociedade. De acordo com o texto é certo entender que: 1. Até então o povo europeu tinha uma concepção limitada de mundo, cujo conhecimento territorial baseava-se apenas no espaço local. 2. Alguns dos aspectos relevantes do século XV trouxeram confrontos, porém favoreceram a construção de novos conhecimentos. A contemporaneidade e o neopositivismo U3 144 3. Com as grandes navegações, as novas descobertas, o povo europeu percebe um mundo restrito à sua própria cultura. 4. O modo de ver e de pensar vai exigir uma reformulação quanto à explicação da natureza e da sociedade. É correto apenas o que se apresenta em: I) 1 e 3. II) 1, 2 e 4. III) 2 e 3. IV) 1, 2, 3 e 4. 2. Assim como tudo se desenvolve e vai se adaptando, as ideologias das classes dominantes vão também tomando rumos estratégicos cada vez mais eficientes, onde a sociedade contemporânea precisa novamente de uma transformação principalmente no campo da moralidade. Quando falamos de contemporaneidade, estamos nos referindo ao período que se inicia a partir da Revolução Francesa em (1789 d.C.) até os dias atuais. Este período que foi fortemente marcado pela correntefilosófica iluminista que vai do século XVI ao século XVIII em que se dava ênfase à razão. Neste período (iluministas) era defendida a criação de escolas para a educação da população, a liberdade religiosa e outras reivindicações. A contemporaneidade está carente de pensadores como os iluministas que se encontravam neste período. De acordo com o texto, analise as assertivas a seguir quanto ao período iluminista: I) Estes atacavam de forma sistemática tudo aquilo que era considerado contrário à busca da felicidade, da justiça e da igualdade. II) A igreja tinha pouca influência com relação à estrutura social e política e que de certa forma por este motivo pouco interferia no desenvolvimento da sociedade. III) Os iluministas se preocupavam simplesmente em denunciar a injustiça, a dominação e o poderio da igreja. IV) O pensamento dogmático religioso era colocado como uma barreira entre Deus e o homem. É correto apenas a que se afirma em: A contemporaneidade e o neopositivismo U3 145 3. O que seria Filosofia primeira ou teologia? Para entendermos precisamos conhecer as teorias de um grande pensador: o filósofo Aristóteles. É dele esta termologia. Em sua concepção esta termologia estuda o “inteiro” do ser diferenciando, porém da ciência que estuda apenas “partes” específicas do ser. Portanto, esta é a grande diferença em contraponto com a ciência, no que se refere aos objetos de estudo de cada um. Neste sentido, entende-se que aquilo que se identifica nas partes não pode ser identificado no inteiro. Sobre esta termologia “Filosofia primeira ou teologia” entende-se que: I) Equivale à metafísica. II) É o estudo das causas e princípios. III) O estudo do ser enquanto ser. IV) Refere-se à ciência. É correto apenas o que se afirma em: I) I, II e III. II) II e IV. III) II, III e IV. IV) I, II, III e IV. 4. O Positivismo que surgiu a partir da teoria de Auguste Comte, que pretendeu realizar por meio da ciência uma reforma social, afirmando que a Sociologia é a única ciência capaz de reformar a sociedade. Auguste Comte (1798-1857) torna-se um republicano com ideias liberais e passa a desenvolver uma atividade política e literária que lhe permitirá elaborar uma proposta para resolver os problemas da sociedade de sua época, toda a sua obra está permeada pelos acontecimentos após as revoluções que ocorreram na França a partir do século XVIII. Nessa corrente de pensamento reconhecia-se que os princípios reguladores da sociedade humana deveriam ser estudados sob o mesmo método do mundo físico, pois, embora, fossem diferentes I) a e b. II) b e c. III) a, c e d. IV) b, c e d. A contemporaneidade e o neopositivismo U3 146 em essência, a origem natural de ambos os aproximavam. Para compreender os problemas sociais, Comte desenvolve uma filosofia da história. Todo grupo social passa, necessariamente por três fases históricas de evolução: A lei dos três estados. Sobre o segundo estágio, o estado Metafísico ou abstrato, analise as assertivas a seguir: I) A sociedade começa ser vista em termos naturais, e não sobrenaturais como ocorria na fase teológica. II) É marcado pela busca da natureza dos fenômenos, da força essencial que os governa. Seria o caso do Renascimento e suas especulações filosóficas, no entender de Comte, divorciadas do concreto. III) Neste estágio são grandes as possibilidades de entender como os fenômenos funcionam na prática, fato que aumenta o conhecimento. IV) Na obra de Comte a metafísica não ocupa um papel central por ser apenas uma etapa de transição entre a teologia e o estado positivo. É correto apenas o que se afirma em: I) I, II e III. II) II, III e IV. III) I e III. IV) I, II e IV. 5. Desde o surgimento do Positivismo passamos por diversas fases de evolução desta doutrina até chegarmos ao Pós- positivismo ou Neopositivismo. Triviños (1987, p. 33) distingue três momentos na evolução do positivismo. Assinale a alternativa CORRETA: a) Positivismo Clássico, o Empiriocriticismo de Avenarius e Neopositivismo. b) Positivismo Jurídico; Neopositivismo francês e o Marxismo alemão. c) Positivismo de Comte, Funcionalismo Weberiano e Neopositivismo. d) Empiriocriticismo de Avenarius, Empirismo, Neopositivismo. A contemporaneidade e o neopositivismo U3 147 Referências COMMONS.WIKIMEDIA. Rex-Regis_corona.jpg. Disponível em: <http://commons. wikimedia.org/wiki/File:Rex-Regis_corona.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 26 mar. 2015. COMMONS.WIKIMEDIA. Dia Del historiador.jpg. 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Apresentaremos neste autor a noção de jogo de linguagem e sua importância na desconstrução da ideia do sujeito como fundamento do pensamento, e, com isso, lega para as ciências humanas e a filosofia outras bases de fundamentação do conhecimento. Seção 1 | René Descartes e o problema da evidência clara e distinta Seção 2 | Karl Popper e Thomas Kuhn: a falseabilidade e a ciência normal Seção 3 | A virada linguística em Ludwig Wittgenstein Objetivos de aprendizagem: Compreender o pensamento de alguns dos mais importantes autores do século XX e sua crítica ao pensamento antecessor, principalmente no que tange à questão da subjetividade e a produção do conhecimento. Maria Eliza Corrêa Pacheco Unidade 4 As contribuições dos grandes pensadores U4 150 Apresentaremos neste autor a historicidade do conhecimento e sua crítica ao sujeito cartesiano através da sua conceptualização das relações de poder. Seção 4 | A virada histórica em Michel Foucault As contribuições dos grandes pensadores U4 151 Introdução à unidade Aprendemos, não sem razão de quem assim o explica, que a origem etimológica da palavra filosofia é amor à sabedoria. Isto faz do pensador e, mais amplamente, do ser humano um amigo do conhecimento, aquele que tem com este uma relação de reciprocidade – o pensador busca o conhecimento por amá-lo e este o realiza, como resposta agradecida do amado satisfeito e complacente, em suas condições mais essenciais. Nesse sentido, nossa educação nos faz entender que o conhecimento é parte essencial da nossa condição humana, criando, dessa forma, uma relação estreita e lisa entre a humanidade do homem e o processo de conhecimento, na qual o desenvolvimento deste pressupõe a realização daquela. O que nos é omitido é que esta forma de entender o homem e o conhecimento é apenas uma das imagens possíveis, que foi transformada em a única maneira de percebermos a produção e aprendizagem do saber. O século XX tentou romper, ou melhor, mostrar que é possível concebermos outras imagens desta relação. Nestas, o conhecimento deixa de ser visto como neutro, e muitas vezes é percebido como instrumento ligado à relação de poder; o homem não é mais fundamento a-histórico; ou seja, nestas outras imagens que veremos nesta unidade, tanto o homem, quanto o conhecimento se encontram imanentemente ligados às formas de vidas nas quais vivem e são produzidos. Logo, eles e sua relação são perspectivados pelas peripécias e eventos da história. Não há, portanto, mais aquela imagem limpa e lisa da relação homem/conhecimento, pois é próprio do que é histórico ser manchado e, por isso, míope para os olhos humanos. O conhecimento é, então, uma ferramenta com a qual podemos fazer as coisas mais belas, mas, também, as mais horríveis. Ele pode ser tanto meio para a alienação e a passividade, quanto meio para o esclarecimento. Eis, Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo, ideias que fogem, que desaparecem em outras, que também não dominamos. [...] Perdemos sem cessar nossas ideias. É por isso que queremos tanto agarrar-nos a opiniões prontas. (DELEUZE, 2008, p. 259). Fugir do caos, que não significa vazio, mas desordem, eis o que procuramos a todo o momento ao buscar conhecer. Precisamos explicar, ordenar, iluminar, As contribuições dos grandes pensadores U4 152 situar-nos como sujeitos para termos conforto, para não sofrer. A citação acima nos adverte – cuidado com as opiniões que nos são oferecidas prontas; cuidado com a comodidade – e nos transmite a seguinte atitude – tenha coragem de refletir as coisas para não aceitá-las meramente como dados naturais e perenes. Ou seja, ter cuidado com tudo o que nos é dito e passado como conhecimento verdadeiro é, por um lado, perceber que a verdade está intimamente ligada ao poder e, também, que é necessário refletir sobre ela, pensá-la para não meramente vivê-la como incontestável. Assim, produzir conhecimento é ponderação – cuidado com as opiniões, e criação do novo, na medida em que este só surge quando o tradicional é deslocado, é refletido e apresentado em seus limites. As contribuições dos grandes pensadores U4 153 Seção 1 René Descartes e o problema da evidência clara e distinta 1.1 Introdução Apresentaremos como o pensador francês hiperboliza a dúvida como instrumento incontornável para sustentar o alicerce da ciência moderna, mas deve diminuir esta mesma exigência ao fundamentar o conhecimento das qualidades secundárias dos objetos físicos. Pressupondo que o que chamamos modernidade aqui se refere às transformações que ocorreram a partir do final do século XV até, aproximadamente, o século XIX poderíamos afirmar que as grandes navegações, ou a expansão marítima ampliou consideravelmente a concepção de mundo dos europeus, pois seu modo de pensar foi reformulado após o contado com “novos” povos e, dessa forma, com “novas” culturas e maneiras de explicar as coisas. Ao descobrirem que o mundo não era só a Europa, nascia a possibilidade de um mercado muito mais amplo. Assim muitas colônias surgiram na Ásia, na África, na América, as quais mantinham “comércio” de novos produtos com as metrópoles e essas com outros países europeus. A exploração de metais, a mão de obra escrava, impulsionou o comércio que já não era mais monopolizado pelas cidades italianas. Esse “aumento” do tamanho do mundo e das relações comerciais exigia o desenvolvimento da economia monetária, modificações na estrutura política (a formação do Estado moderno) com a centralização da justiça, das forças armadas, da estrutura administrativa. Nesse processo, nos interessa as transformações em relação ao conhecimento. A procura agora é da maneira de evitar o erro (a questão do método). Filósofos como Descartes, Hume, Kant problematizaram a origem, essência e certeza do conhecimento humano. Na Idade Moderna, o polo de atenção vai se centralizar no sujeito do conhecimento. Esta nova prática de pensar (ciência moderna) deve sua razão de ser a Copérnico, Galileu, Bacon e Newton, ao afirmarem como suas bases a experimentação e a observação. Este novo mundo pode ser traduzido para a linguagem matemática, desde que se use um método correto de encontrar as leis que o constituem e, assim, elucidá-lo promovendo o progresso para o ser humano. As contribuições dos grandes pensadores U4 154 Fonte: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/ wiki/Ren%C3%A9_Descartes#/media/File:FransHals_-_ Portret_van_Ren%C3%A9_Descartes.jpg>. Acesso em: 29 mar. 2015. Figura 4.1 | René Descartes (1596-1650) Logo no início da primeira das suas seis meditações, Descartes afirma ser necessário estabelecer o fundamento, as bases sólidas para as ciências. Estes alicerces tal qual o autor francês os pensa não podem ser de qualquerordem, mas devem ser os pretendentes indubitavelmente únicos e verdadeiros, aqueles que utilizam qualquer planta científica que possa ser válida. Este empreendimento edificante precisa conjurar o erro, precisa pôr à prova do pensamento todos os princípios a partir dos quais se formam todas as opiniões, as crenças, desde as mais frágeis até as mais fortes. Agora, pois, que meu espírito está livre de todos os cuidados, e que me proporcionei um repouso assegurado numa aprazível solidão, aplicar-me-ei seriamente e com liberdade a destruir em geral todas minhas antigas opiniões. (DESCARTES, 2005. p. 30). Este esforço de construção de si (espécie de conversão) e de construção da ciência moderna, cuja ferramenta é a dúvida, tem como um dos seus pontos fundamentais o argumento do gênio maligno. Com este, a dúvida é levada ao limite, na medida em que torna evidente que nenhuma representação ou pensamento traz em si garantias de ser verdadeiro, ele é uma espécie de ‘alarme interior’ para os casos em que o processo de pensamento ‘escorrega’ na facilidade do hábito de acreditar sem reflexão do senso comum. Ele funciona como regra de retidão que mantêm o pensamento em seu caminho da verdade, alertando-o sobre as ilusões, sobre os erros, sobre o que é escuro e indistinto, ou seja, para tudo aquilo que é necessário separar e desqualificar como perigoso. O argumento do gênio limpa o terreno impondo para o pensamento o fato de não poder tomar nada como verdadeiro, a não ser o seu próprio ato, mas em constante referência a ele, ou seja, o cogito precisa afirmar sua existência continuamente contra o gênio. Este é condição para que o puro ato de pensar ou o ser-pensamento-enquanto-pensa seja a primeira certeza inabalável e possa ser tomado como ground sobre o qual o conhecimento verdadeiro e a ciência se edifiquem. Não há dúvida, então, de que eu sou, se ele me engana; e que me engana o quanto quiser, jamais poderá fazer com que eu As contribuições dos grandes pensadores U4 155 não seja nada, enquanto eu pensar ser alguma coisa. [...] é preciso enfim concluir e ter por constante que esta proposição, Eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a pronuncio ou que a concebo em meu espírito. (DESCARTES, 2005. p. 43). Descartes afirma um limite para o argumento do gênio, qual seja: ele não interfere na liberdade de escolha, pois esta cabe à vontade, que é uma faculdade diferente do intelecto – “[...] e se, por esse meio, não está em meu poder alcançar o conhecimento de alguma verdade, pelo menos está em meu poder suspender meu juízo”. (DECARTES, ANO, p. 35) Eis que é neste jogo descompassado entre intelecto e vontade que o erro ocorre, já que sua fonte não pode ser Deus. Segundo Descartes (2005), o erro é um defeito, tanto no sentido de falta de perfeição, quanto pela privação de algum conhecimento que parece que eu devia ter posse. Sua fonte se encontra na disputa entre o intelecto que é limitado – não é possuidor da totalidade de ideias que corresponderiam a infinidade de coisas existentes no mundo – e a vontade ilimitada - “[...] que experimento em mim ser tão grande que não concebo a ideia de nenhuma outra mais ampla e mais extensa”. (DESCARTES, 2005. p. 89), na medida em que a vontade tende a ultrapassar os limites que o intelecto impõe, ela tende a exceder o que o intelecto sabe ser claro e evidente e, nisto quebrar a regra do método (só tomar como verdadeiro o que é claro e evidente) estabelecida como ferramenta para evitar o erro. A saída apontada pelo autor francês é suspender o juízo quando ausente a clareza e a distinção, ou seja, deve-se calar quando esta regra não for atendida. Nesse sentido, afirma Descartes (2005), que é livre para escolher se manter no juízo correto e buscar, sempre, não errar (afirma a importância da reflexão, pois é com ela que há clareza da própria situação e, ao contrário, a confusão é fruto da aceitação ‘ligeira’ do que a tradição nos lega). Normalmente, nossas opiniões têm amparo em provas ou as emitimos sem ter qualquer certeza de sua veracidade ou autenticidade? Em que medida a internet intensifica o problema de opiniões e conhecimentos desamparados de provas? As contribuições dos grandes pensadores U4 156 Texto: Princípio de causalidade, existência de Deus e existência de coisas externas. Disponível em: <http://www.cle.unicamp.br/cadernos/pdf/ Ethel%20Menezes%20Rocha.pdf>. Dois esclarecimentos: a) Lembrando que Deus como ser perfeito conferiu ao homem o intelecto e o livre arbítrio. Sabemos, pelo exposto acima, que o bom uso (uso correto) da liberdade está no fato da determinação da vontade ser precedida de uma percepção intelectual, ou seja, para Descartes o uso correto do juízo se dá só, e somente se, se assentar sobre percepções claras e distintas (regra importante para a argumentação e para evitar o erro); b) Sabemos também que, antes da prova da existência e perfeição de Deus (terceira e quinta meditação) ele não pode dizer que o conhecimento das coisas externas é fruto de um “juízo certo e premeditado, mas somente um cego e temerário impulso”. (DESCARTES, 2005, p. 64). É com este aparato que Descartes começa a sexta meditação e se pergunta: As coisas físicas existem? O pensamento tem acesso imediato somente às ideias e, estas são segundo o autor do Discurso do método de três tipos: criadas por mim, as inatas e as adventícias. Assim, o problema a ser resolvido é: as ideias das coisas materiais que possuo têm como sua causa as próprias coisas materiais? Vejamos como ele argumenta para provar isso e a mudança de status em relação ao erro. O cogito pode ser a causa das ideias dos sentidos? E, embora as ideias que recebo pelos sentidos não dependam de minha vontade, eu não pensava que por isso se devesse concluir que elas procediam de coisas diferentes de mim, uma vez que talvez possa encontrar-se em mim alguma faculdade (se bem que até aqui ela me seja desconhecida) que seja a causa delas e as produza. (DESCARTES, 2005, p. 117). Para provar a existência das coisas materiais ‘Eu’ não posso ser a causa das ideias de coisas materiais. Ele tem que desfazer esta conexão feita nesta citação. Resumidamente, sabemos que para Descartes a causa deve ter tanta (ou mais) realidade formal quanto a realidade objetiva das ideias. Ora o intelecto não contém a realidade objetiva dos corpos formalmente. A confirmação disto se dá a partir da seguinte argumentação: Fonte: Disponível em: <http://upload. wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5e/ Meditationes_de_prima_philosophia_-_ Renatus_Cartesius.jpg>. Acesso em: 29 mar. 2015. Figura 4.2 | Descartes As contribuições dos grandes pensadores U4 157 Reconheço também em mim algumas faculdades, como as de mudar de lugar, de colocar-me em várias posturas [...] mas é muito evidente que tais faculdades, se é verdade que existem, devem estar ligadas a alguma substância corporal ou extensa, e não a uma substância inteligente, já que em seu conceito claro e distinto há mesmo algum tipo de extensão que se encontra contida, mas de forma alguma inteligência. Ademais, encontra-se em mim uma certa faculdade passiva de sentir [...]. Ora, essa faculdade ativa não pode existir em mim na medida em que sou apenas uma coisa que pensa, visto que ela não pressupõe pensamento [...] é preciso então necessariamente que ela exista em alguma substância diferente de mim, na qual toda realidade, que está objetivamente nas ideias que dela são produzidas, esteja contida formal ou eminentemente [...]. (DESCARTES, 2005, p. 119). O problema não está resolvido na medida em que a causa dessas ideias pode ser Deus ou uma criatura superior ao homem. Descartes argumenta afirmando que como Deus não é enganador não me enviaria de forma imediata estas ideias e, muito menos, por meio de alguma criatura. Se Deus é perfeito não me criaria para errar me fazendo crer que as ideias de coisas materiais advém das próprias coisas se certamenteelas não adviessem – “E, portanto, é preciso confessar que as coisas corporais existem”. (DESCARTES, 2005, p. 120). O problema parece resolvido, mas logo no parágrafo seguinte Descartes diz: “talvez elas não sejam inteiramente tais como as percebemos pelos sentidos, pois esta percepção dos sentidos é muito obscura e confusa em várias coisas [...]”. (DESCARTES, 2005, p. 120). Disto resulta que o argumento acima não prova que corpos existem com qualidades secundárias (cor, sabor, odor), mas apenas com qualidades primárias (extensão, movimento). Resulta, também, algo estranho para um pensamento que afirmava clareza e distinção como regra para a certeza (sem exceção), qual seja: uma certa tendência natural a acreditar que coisas físicas existem (para quem afirmava que para fazer ciência era necessário não tomar as opiniões de forma não refletida). É claro que a saída cartesiana para esta tendência natural aceita é afirmar que “pela natureza, considerada em geral, agora não entendo outra coisa a não ser o próprio Deus” e “por minha natureza em particular, não entendo outra coisa a não ser a complexão ou a reunião de todas as coisas que Deus me deu” (DESCARTES, 2005, p. 121) e, dessa forma, já que Deus é perfeito (não é enganador) e, por isso, criador da minha natureza e da natureza em geral só pode haver alguma verdade na minha tendência natural (esta substitui a regra da clareza e distinção em relação à existência das coisas materiais) em acreditar na existência das coisas materiais – o fiador desta relação, aquele que elimina o estranhamento entre o pensamento e as coisas é o próprio. Disto resulta algo extraordinariamente belo – o erro ocasional é inevitável. Não As contribuições dos grandes pensadores U4 158 reconstituirei aqui a argumentação cartesiana (a propósito, fisiológica) acerca da impossibilidade de tomarmos a regra da clareza e distinção em relação ao fato de existirem corpos materiais em suas propriedades secundárias. Apenas cito um argumento: Percebemos que em relação à existência dos corpos a partir de suas propriedades secundárias é necessário ‘diminuir’ a exigência metodológica, pois não é possível clareza e distinção, mais apenas certo conhecimento provável (“há pelo menos alguma verdade em tudo que a natureza me ensina”), cuja importância maior está no fato de me fazer “fugir das coisas que causam em mim o sentimento da dor e a dirigir-me àquelas que me comunicam algum sentimento de prazer” (DESCARTES, 2005, p. 124) e evitar que o erro seja constante (mesmo que a dor não seja no pé é melhor que o espírito a sinta como se fosse, pois a outra opção é não saber o que me fere, por exemplo). Portanto, Descartes concede que ocasionalmente os sentidos são enganados e, por isso, pelo menos em relação ao conhecimento sensível das propriedades secundárias não podemos negar assentimento àquilo que é meramente duvidoso como negaria àquilo que é patentemente falso – pelo menos neste momento do edifício cartesiano há, mesmo que muito pequeno, um espaço para o erro. E, da mesma forma, quando sinto dor no pé, a física me ensina que esse sentimento se comunica por meio dos nervos dispersos no pé, que, estudando esticados como cordas desde aí até o cérebro, quando são puxados no pé puxam também, ao mesmo tempo, o lugar do cérebro de onde vêm e no qual terminam e nele excitam um certo, que a natureza instituiu para fazer o espírito sentir dor, como se essa dor fosse no pé. [...] Ora, a experiência nos faz conhecer que todos os sentimentos que a natureza nos deu são tais como acabo de dizer; e, portanto, neles não se encontra nada que não faça aparecer a potência e a bondade do Deus que os produziu. (DESCARTES, 2005, p. 130-131). 1. “E quando considero que duvido, isto é, que sou uma coisa incompleta e dependente, a ideia de um ser completo e As contribuições dos grandes pensadores U4 159 2. Leia com atenção a citação e, em seguida, analise as assertivas. "E, tendo notado que nada há no eu penso, logo existo, que me assegure de que digo a verdade, exceto que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei poder tomar por regra geral que as coisas que concebemos mui clara e mui distintamente são todas verdadeiras, havendo apenas alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos distintamente." (DESCARTES, Discurso do Método. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 55. Coleção "Os Pensadores"). I- Este "eu" cartesiano é a alma e, portanto, algo mais difícil de ser conhecido do que o corpo. II- O "eu penso, logo existo" é a certeza que funda o primeiro princípio da filosofia de Descartes. III- O "eu", tal como está no Discurso do Método, é inteiramente distinto da natureza corporal. independente, ou seja, de Deus, apresenta-se a meu espírito com igual distinção e clareza; e do simples fato de que essa ideia se encontra em mim, ou que sou ou existo, eu que possuo esta ideia, concluo tão evidentemente a existência de Deus e que a minha depende inteiramente dele em todos os momentos da minha vida, que não penso que o espírito humano possa conhecer algo com maior evidência e certeza”. (DESCARTES, René. Meditações. Trad. de Jacó Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 297-298). Com base no texto, é correto afirmar: a) O espírito possui uma ideia obscura e confusa de Deus, o que impede que esta ideia possa ser conhecida como evidência. b) A ideia da existência de Deus, como um ser completo e independente, é uma consequência dos limites do espírito humano. c) O conhecimento que o espírito humano possui de si mesmo é superior ao conhecimento de Deus. d) A única certeza que o espírito humano é capaz de provar é a existência de si mesmo, enquanto um ser que pensa. e) A existência de Deus, como uma ideia clara e distinta, é impossível de ser provada. As contribuições dos grandes pensadores U4 160 IV- Ao concluir com o "logo existo", fica evidente que o "eu penso" depende das coisas materiais. Assinale a alternativa cujas assertivas estejam corretas. a) II e IV. b) I, II, IV. c) III e IV. d) II e III. e) Todas são corretas. As contribuições dos grandes pensadores U4 161 Seção 2 Karl popper e Thomas Kuhn: a falseabilidade e a ciência normal 2.1 Introdução Apresentaremos as contribuições destes autores em relação à fundamentação das teorias e dos métodos científicos no século XX. Assim como, sua crítica ao pensamento cartesiano e positivista. A pretensão do pensamento até o século XIX era o de colocar o conhecimento científico a serviço da humanidade, isto é, o emprego do saber como ferramenta à emancipação do homem. Com o século XX este otimismo passa a ser questionado e, por isso, ocorre uma transformação na maneira como o conhecimento é entendido e produzido. Vejamos algumas características dessa transformação: o parâmetro de legitimidade do conhecimento está em respostas satisfatórias e, não mais nas certezas indubitáveis. Para isso, busca-que produzir conhecimento e dar soluções com base na interdisciplinaridade e na consciência da relatividade do saber; o próprio racionalismo, que influenciou profundamente a ciência, começou a ser questionado com o conhecimento psicanalítico ao afirmar que a razão é perpassada por valorações subjetivas; a separação ou a relação simples e direta entre sujeito e objeto que era a base da ciência moderna passou a ser entendida a partir de um feixe complexo na qual há relação recíproca e, tanto sujeito, quanto Fonte: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/ wikipedia/commons/6/6c/Karl_Popper2.jpg>. Acesso em: 29 mar. 2015. Figura 4.3 | Karl Popper (1902 – 1994) e a falseabilidade científica As contribuições dos grandes pensadores U4 162 objeto, passam a ser entendidos fundamentados na linguagem, na história ou como formas lógicas; por fim, a relação otimista entre conhecimento e emancipação humana passa a ser questionada, na medida em que se afirma o conhecimentocomo instrumento que pode ser usado para fins negativos, tais como a exploração, a alienação e a destruição da natureza, do homem e da própria vida em geral. É neste contexto que aparecem as ideias de Karl Popper, Thomas Kuhn, Ludwig Wittgenstein e Michel Foucault. Popper descrevia seu pensamento como Racionalismo Crítico, na medida em que não aceitava o empirismo e o positivismo anterior. É, nesse sentido, que sua argumentação mostraria a ciência como conhecimento sempre provisório e, por isso, não seria possível atestar a veracidade de uma teoria pela simples constatação dos resultados verificáveis de uma previsão efetuada. Assim, esse saber deveria ter apenas o estatuto de uma teoria, ainda, não contrariada ou refutada pela observação factual. Um conhecimento científico deve ser confrontado com as observações e experiências da realidade para que se encontrem provas dos seus limites, dos seus erros, da sua ‘falsidade’, ou seja, a experiência não tem por finalidade verificar a veracidade de uma hipótese científica, mas ao contrário, observar seus limites e provar a sua falsidade. Dessa forma, a legitimidade de uma teoria científica se dá até o momento em que se prove, via experimentação, a sua limitação e erros. Deve-se nestes casos deixá-la de lado e procurar outra teoria para explicar o fenômeno em questão. Noutras palavras, uma teoria científica pode ser falsificada por uma única observação negativa, mas nenhuma quantidade de observações positivas poderá garantir que a veracidade de uma teoria científica seja eterna e imutável. Alguns consideram este aspecto fulcral para a definição da ciência, chegando a afirmar que "científico" é apenas aquilo que se sujeita a este confronto com os fatos, ou seja, afirmam que só é científica aquela teoria que possa ser falseável, que pode ser refutável. Veja ensaios sobre o pensamento de Karl Popper. Disponível em: <http:// www.pucpr.br/arquivosUpload/1237436911338236651.pdf>. Ao afirmar que toda teoria deve ser falseável, o pensamento de Popper sofreu algumas críticas que questionaram se a falseabilidade, também deveria ser aplicada a ele. Não entraremos nestes meandros, apenas afirmamos que o falsificacionismo popperiano não é princípio, atualmente, de exclusão, mas instrumento de atribuição de graus de confiança ao conhecimento passível de crivo científico. Nesse sentido, percebemos que a falseabilidade é um instrumento com o qual entendemos que As contribuições dos grandes pensadores U4 163 o conhecimento da ciência é sempre provisório, não sendo, dessa forma, possível chegarmos a certezas absolutas, mas sendo, no entanto, possível e desejável nos aproximarmos da verdade por tentativas. A leitura de A estrutura das Revoluções científicas nos permite, dentre outras possibilidades, afirmar que o objetivo de Kuhn ao usar a metáfora do ‘jogo’ (Quebra-Cabeças) é, como insiste determinada filosofia analítica inglesa com base em Wittgenstein, to help thefly out ofthefly-bottle, ou seja, esclarecer o fenômeno da ciência, na medida em que se trata de afirmar como científicas aquelas teorias que uma comunidade de cientistas aceitou como modelo de resolução de quebra-cabeças. A argumentação de Kuhn, dessa forma, neste livro, caminha no sentido de que a ciência é determinada prática, determinada atividade exercida por um grupo específico de indivíduos com a finalidade de resolver enigmas empíricos e que, por isso, não se restringe às características próprias do grupo, nem mesmo à mera presença do paradigma (este é condição necessária, mas não suficiente). Assim, podemos perguntar qual é a lógica desta atividade ou, nos termos kuhnianos, qual é a lógica empregada pela prática científica madura denominada ‘ciência normal’? A ciência é desempenhada tendo como Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/archive/8/87/20141206232804!Thomas_Kuhn.jpg>. Acesso em: 29 mar. 2015. Figura 4.4 | Thomas Kuhn (1922 – 1996) e a ciência normal Fonte: Disponível em: <http:// upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/1/1b/Las_3_fases_ de_la_ciencia_thomas_kuhn. png?uselang=pt-br>. Acesso em: 29 mar. 2015. Figura 4.5 | Fases científicas As contribuições dos grandes pensadores U4 164 pressupostos condições especiais (regras) derivadas do paradigma aceito pela comunidade científica em determinado momento histórico. O mais importante desses critérios diz respeito à solucionabilidade dos problemas, isto é, só são aceitos como problemas científicos aqueles que tiverem uma solução possível. A racionalidade científica pressupõe a incorporação, pela educação, do cientista a comunidade da qual virá a fazer parte, de valores, de metodologias, de lugares do domínio empírico a ser privilegiados entre outras regras, ou seja, a lógica da atividade científica pressupõe a aplicação de modelos, de regras, aprendidas Resolver problemas significa, então, alcançar as possibilidades previstas, “alcançar o antecipado de uma nova maneira”, não produzir novidades; é aumentar as possibilidades e precisão do paradigma. Neste, aliás, que se pressupõem as regras que definem quais são os tipos de soluções possíveis e quais os caminhos necessários para alcançá-las. É, por estas razões, escreve Kuhn, que a ciência normal progride tão rapidamente. Estes argumentos da Estrutura nos levam ao entendimento de que a ciência é uma prática mais coletiva e institucionalizada do que individualista, na medida em que as crenças e os valores compartilhados afetam o comportamento das comunidades científicas e, nestas, há a adesão incondicional do cientista, que pode ser percebida pelo processo educacional recebido e pelo fato de que em períodos de ‘ciência normal’ nenhuma (ou quase) inovação é pretendida. [...] O critério que estabelece a qualidade de um bom quebra-cabeças nada tem a ver com o fato de seu resultado ser intrinsecamente interessante ou importante. Ao contrário, os problemas realmente importantes em geral não são quebra-cabeças (veja-se o exemplo da cura do câncer ou o estabelecimento de uma paz duradoura), em grande parte porque não tenham nenhuma solução possível. (KUHN, 2011, p. 59). [...] Em particular, confrontando o problema da escolha de teoria, a estrutura de minha resposta é mais ou menos a seguinte: tomemos um grupo com as pessoas mais dotadas disponíveis, com a motivação mais relevante; treinemos essas pessoas em alguma ciência e nas especialidades relevantes para a escolha em questão; façamo-las imbuídas do sistema de valores, da ideologia, comum em sua disciplina (e, em grande medida, também em outros campos científicos); e, finalmente, deixemos que elas façam a escolha. (KUHN, 2002, p. 131). As contribuições dos grandes pensadores U4 165 anteriormente, a casos ou, ainda, o reconhecimento de casos num esquema anteriormente dados pelo paradigma aceito pela comunidade científica (por isso a dificuldade de lidar com a novidade – as anomalias). Caso não tenhamos um encaixe das regras temos uma anomalia. Dessa forma, o cientista não só assimila o significado das regras paradigmáticas, mas ele passa a generalizá-las para um número cada vez maior de casos e a eliminar problemas que não são redutíveis a quebra-cabeças (chamados problemas metafísicos, por exemplo). Segundo Kuhn (2011, 63): Percebemos aqui mais um aspecto fundamental da ciência segundo Kuhn (2011): ela não é uma prática neutra. Resolver um quebra-cabeças não é meramente descrever um caso, mas relacioná-lo às regras definidas pelo paradigma que serve de modelo para as teorias científicas. Neste exemplo da Estrutura, “vemos as penas da cauda de uma ave aquática alimentando-se de alguma coisa no leito de uma piscina rasa. É um cisne ou um ganso?” (KUHN, 2011, p. 243), o que permite o conhecimento é o fato de que o paradigma fornece regras aprendidas anteriormente com as quais podemos afirmar cisne ou ganso. Se aceitarmos uma utilização consideravelmente mais ampla do termo “regra” – identificando-oeventualmente com “ponto de vista estabelecido” ou “concepção prévia” – então os problemas acessíveis a uma determinada tradição de pesquisa apresentam características muito similares às dos quebra-cabeças. O indivíduo que constrói um instrumento para determinar o comprimento de ondas ópticas não se deve contentar com um equipamento que não faça mais do que atribuir números a determinadas linhas espectrais. Ele não é apenas um explorador ou medidor, mas, ao contrário, alguém que deve mostrar (utilizando a teoria óptica para analisar seu equipamento) que os números obtidos coincidem com aqueles que a teoria prescreve para os comprimentos de onda. (KUHN, 2011, p. 62). [...] Enquanto são reconhecidos, tais enunciados auxiliam na formulação Texto: Kuhn, Wittgenstein e os paradigmas. Disponível em: < h t t p : / / w w w . p s i c a n a l i s e e f i l o s o f i a . c o m . b r / t e x t o s / kuhnwittgensteinparadigmas.pdf>. As contribuições dos grandes pensadores U4 166 de quebra-cabeças e na limitação das soluções aceitáveis. Por exemplo, as leis de Newton desempenharam tais funções durante os séculos XVIII e XIX. Enquanto essa situação perdurou, a quantidade de matéria foi uma categoria antológica fundamental para os físicos e as forças que atuam entre pedaços de matéria constituíram-se num dos tópicos dominantes para a pesquisa. O jovem cientista aprende a estender as regras a um número maior de casos e a limitá-los segundo elas, ou melhor, sua atividade tem como referência a comunidade científica que lhe aparece como tradição. Isto se complica um pouco quando Kuhn afirma que as regras não se identificam completamente com o paradigma, pois são representações aferidas dele – “A falta de uma interpretação comum ou de uma consensual redução a regras não vai impedir um paradigma de guiar a pesquisa” (KUHN, 2011, p. 69) e, por isso, elas “não podem por si mesmas especificar tudo aquilo que a prática desses especialistas tem em comum” (ibid.). O esclarecimento se dá, justamente, com o uso da metáfora da atividade científica como resolução de quebra-cabeças. Vejamos um exemplo: uma pessoa pode aprender a montar quebra-cabeças estudando as regras que os determinam, mas pode também aprendê-los simplesmente vendo outros montarem. Assim, entendemos que para Kuhn mesmo na ausência de regras o paradigma cumpre sua função de padronização da ciência. Eis o argumento: A ciência normal é uma atividade altamente determinada, mas não precisa ser inteiramente determinada por regras. É por isso que, no início deste ensaio, introduzi a noção de paradigmas compartilhados, ao invés das noções de regras, pressupostos e pontos de vistas compartilhados como sendo fonte da coerência para as tradições da pesquisa normal. As regras, segundo minha sugestão, derivam de paradigmas, mas os paradigmas podem dirigir a pesquisa mesmo na ausência de regras. (KUHN, 2011, p. 66). É, por isso que a formação dos cientistas (exceto os cientistas sociais) ocorre menos através de conceitos abstratos, do que através da intensa resolução de problemas. E o que fazer caso encontrar uma atividade desconhecida? A resposta kuhniana é relativamente simples. Ele utiliza-se da metáfora ‘jogo’ para mostrar que podemos identificar numa atividade desconhecida uma série de características semelhantes com atividades anteriormente conhecidas, ou seja, Kuhn afirma que os casos compartilham características semelhantes constituindo uma rede, na qual as similaridades “se superpõem e se entrecruzam” e, por isso os modelos apreendidos garantem certo sucesso no aprendizado de um caso novo. Em suma, Kuhn utiliza- se da noção “semelhança de famílias” cunhada por Wittgenstein para mostrar que o paradigma escapa e tem prioridade em relação às regras (diferentemente do As contribuições dos grandes pensadores U4 167 autor de Da Certeza que se utiliza da metáfora ‘jogo’ para evitar a generalização e não subtrair as regras dos casos) e, nesse sentido, é aquele conhecimento prático, não representado em regras explícitas, constituído por uma hierarquia de valores culturalmente forjados, de modelos e exemplares fornecidos pela educação, de um conjunto de técnicas assimiladas pela convivência que garante a atividade científica. Alguém poderia dizer que é justamente está generalização da noção de paradigma que não me permite perceber semelhanças possíveis entre, por exemplo, um “pato” e um “coelho”. Para Kuhn aqui poderíamos ter uma anomalia, que só aparece justamente contra o pano de fundo do paradigma, pois os cientistas devem aprender a reconhecer os traços similares que marcam os casos que afirmam ser da mesma classe, isto é, terão de harmonizar os casos ao modelo fornecido. O paradigma ensina a ver sob um determinado aspecto. E é este que garante o sucesso da atividade científica em determinado momento histórico. 1. (UEL – 2005) “As experiências e erros do cientista consistem de hipóteses. Ele as formula em palavras, e muitas vezes por escrito. Pode então tentar encontrar brechas em qualquer uma dessas hipóteses, criticando-a experimentalmente, ajudado por seus colegas cientistas, que ficarão deleitados se puderem encontrar uma brecha nela. Se a hipótese não suportar essas críticas e esses testes pelo menos tão bem quanto suas concorrentes, será eliminada”. (POPPER, Karl. Conhecimento objetivo. Trad. de Milton Amado. São Paulo: Edusp & Itatiaia, 1975, p. 226) Com base no texto e nos conhecimentos sobre ciência e método científico, é correto afirmar: a) O método científico implica a possibilidade constante de refutações teóricas por meio de experimentos cruciais. b) A crítica no meio científico significa o fracasso do cientista que formulou hipóteses incorretas. c) O conflito de hipóteses científicas deve ser resolvido por quem as formulou, sem ajuda de outros cientistas. d) O método crítico consiste em impedir que as hipóteses científicas tenham brechas. e) A atitude crítica é um empecilho para o progresso científico. As contribuições dos grandes pensadores U4 168 2. “[...] quando os membros da profissão não podem mais esquivar-se das anomalias que subvertem a tradição existente da prática científica então começam as investigações extraordinárias que finalmente conduzem a profissão a um novo conjunto de compromissos, a uma nova base para a prática da ciência. (KUHN, T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: perspectiva, 1975, p. 25). A partir do texto acima e dos conhecimentos sobre as concepções de Kuhn acerca do desenvolvimento da ciência, assinale a afirmativa correta. a) A ciência normal é o período de desenvolvimento da ciência no qual vários paradigmas teóricos concorrentes são testados. b) A escolha de um entre os paradigmas científicos em competição, tal como nas revoluções políticas atuais, é realizada democraticamente pelos cientistas. c) As revoluções científicas são os episódios em que a ciência normal sofre abalos desintegradores da tradição na qual a prática científica rotineira está alicerçada. d) Nos períodos de ciência normal, a educação profissional volta- se para os episódios revolucionários constantes dos protocolos. As contribuições dos grandes pensadores U4 169 Seção 3 A virada linguística em Ludwig Wittgenstein 3.1 Introdução Apresentaremos neste autor a noção de jogo de linguagem e sua importância na desconstrução da ideia do sujeito como fundamento do pensamento, e, com isso, lega para as ciências humanas e a filosofia outras bases de fundamentação do conhecimento. O que nos dá o direito de tomar como universal a identidade designativa entre palavras e coisas? O que faz com que tomemos como único o caminho pelo qual buscamos desvelar a essência das coisas? O que garante a unidade e uniformidade substantiva das palavras? O que garante que no início está o verbo, a verdade em sua plenitude, não maculada pela lama das lutas, pela podridão do humano, pela sombra do poder, pela corrupção dacarne, pelo desejo insaciável da força? O que garante a história como encobrimento dessa luz inicial, o calar dessa palavra plena que iluminaria o mundo em sua plenitude? O que nos faz carregar o peso desse fardo inicial e a esperança de um mundo no qual essa luz possa iluminar novamente? O que garante a busca de um mundo livre no qual não haja muros para o verbo atingir o coração, o pó em seu mais puro ser? A filosofia fundamentaria essa imagem de mundo com a unidade das palavras que em essência lógica representariam a essência do mundo. Os vários usos de uma palavra teriam sua origem num único ponto, que constituiria a entidade que explicaria a sua unidade. Esta coisa original é o que garante a consistência da unidade da palavra nos mais variados contextos, pois a palavra significaria (representa) essa coisa. As palavras seriam nomes de coisas. A relação entre as palavras e os significados é entendida a partir do modelo objeto- designação. As palavras significariam as coisas do mundo. O significado é fundido às palavras representando as coisas que elas (palavras) substituem. Esta relação entre palavras e coisas fundamenta as teorias denotativas da linguagem, segundo a qual apreendemos o significado de uma palavra ao pronunciarmo-la apontado para uma coisa que a ela é vinculada nessa atividade educativa. A filosofia buscaria essa identidade entre a essência lógica da linguagem e a essência das coisas. As contribuições dos grandes pensadores U4 170 3.2 A virada linguística em Ludwig Wittgenstein Logo no início das Investigações Filosóficas Wittgenstein apresenta o que chama de visão agostiniana de linguagem, veja: Quando os adultos nomeavam um objeto qualquer voltando- se para ele, eu o percebia e compreendia que o objeto era designado pelos sons que proferiam, uma vez que queriam chamar a atenção para ele. Deduzia isto, porém, de seus gestos, linguagem natural de todos os povos, linguagem que através da mímica e dos movimentos dos olhos, dos movimentos da alma, quando esta anseia por alguma coisa, ou segura, ou repele, ou foge. Assim, pouco a pouco eu aprendia a compreender o que designam as palavras que eu sempre de novo ouvia proferir nos seus devidos lugares, em diferentes sentenças. Por meio delas eu expressava os meus desejos, assim que minha boca se habituara a esses signos. (IF, §1). a linguagem deve servir ao entendimento de um construtor A com um ajudante B. A constrói um edifício usando pedras de construção. Há blocos, colunas, lajes e vigas. B tem que Percebemos nessa passagem da autobiografia de Santo Agostinho esse modelo de linguagem que nos referíamos – qual seja: objeto-designação. É muito curioso nessa passagem a sentença – as palavras que eu sempre de novo ouvia proferir nos seus devidos lugares – se referindo a um significado estático, unívoco que as palavras trariam ao serem pronunciadas juntamente com o gesto de apontar para um objeto. A palavra tem como única função “dizer” o mundo que já está constituído, mas, com ela, é tornado efetivo. As palavras têm seus devidos lugares, quais sejam: elas figuram a coisa. Esse lugar perpassa qualquer contexto sendo (ele) o objetivo a ser buscado. Seja qual for a atuação só é válida quando medida por essa coisa em sua figuração. Não importam os contextos de peça, pois são todos reduzidos a representarem um fundo que é em si e, portanto, não é representação. As palavras são reduzidas à função: denominam objetos – as sentenças são liames de tais denominações. (IF §1). Não que essa forma de explicar o significado não seja legítima, o problema estaria nela ser tomada como única, ou melhor, na sua pretensão de universalidade. O problema surge diante de uma sentença mal pronunciada quando perguntamos – O que isso significa? A resposta afirmando que significa tal objeto é insuficiente. Isso é percebido no jogo de linguagem dos dois construtores, veja o jogo: As contribuições dos grandes pensadores U4 171 Esse pragmatismo de Wittgenstein fere as certezas filosóficas afirmando que são frutos de confusões, com isso, afirma que a visão representacionista da linguagem rotulada pela filosofia torna difícil entender essa própria função da linguagem, pois com ela a filosofia fica presa ao particular tornado universal. Nessa crença, uma das facetas de uso das palavras é tornada imagem de toda a linguagem perdendo- se o fluxo histórico e a multiplicidade da vida. Ao abrir as palavras ao devir da vida Wittgenstein afirma que o modelo objeto-designação é apenas uma perspectiva de uso das palavras e que por isso já há um terreno preparado no qual esse uso fará sentido. A sequência QWE não tem significado a priori. Em si não significa nada. O significado se fará no uso que se dá em determinada linguagem. Não adianta perguntar – O que significa essa enciclopédia chinesa? Nem – Quando o construtor (A) grita para o ajudante (B) a palavra – “bloco”, ele pode nomear a pedra que fundará a construção; (mas) pode ordenar ou pedir a pedra para o ajudante; (mas) pode alertar o ajudante para que este saia e não seja atingido por um bloco que cai, ou seja, as palavras não são entidades fechadas em si que nomeiam os objetos e, portanto, o significado não é a coisa que ela substitui. Melhor ainda, as palavras exercem múltiplas funções e o seu significado é estabelecido pelo uso que delas se faz em determinado contexto (A palavra “Bloco” é múltipla em significados dependendo do contexto na qual é proferida). Não há unidade da palavra ou unidade linguística, pois o significado não é anterior ao falar. É esse o sentido para a sentença famosa de Wittgenstein – “o significado está no uso”. Com Wittgenstein somos levados a não esquecer a historicidade das palavras, pois ele as retira da neutralidade que elas teriam ao representar coisas simplesmente fora do contexto da vida. As palavras exercem várias funções na linguagem, por isso são meios, são em perspectiva, são maculadas pela forma de vida da qual fazem parte, são ferramentas cujo significado é expresso em seu uso, veja: lhe passar as pedras na sequência em que A delas precisa. Para tal objetivo, eles se utilizam de uma linguagem constituída das palavras: “bloco”, “coluna”, “laje”, “viga”. A grita as palavras; - B traz a pedra que aprendeu a trazer ao ouvir esse grito. – conceba isto como uma linguagem primitiva completa. (IF, § 2). Pense nas ferramentas dentro de uma caixa de ferramentas: encontram- se aí um martelo, um alicate, uma serra, uma chave de fenda, um metro, uma lata de cola, cola, pregos e parafusos. – Assim como são diferentes as funções desses objetos, são diferentes as funções das palavras. (E há semelhanças aqui e ali.). (IF, §11). As contribuições dos grandes pensadores U4 172 qual fato significam essas frases? Os significados desse conjunto de palavras que ordenam milhões de sequências de máquina de escrever só podem ser apreendidos se tomamos parte da forma de vida da qual eles fazem parte. As palavras neste texto são pesadas, pois carregam todos os arranjos gramaticais possíveis que o fluxo vital do qual Borges faz parte possibilita. Da mesma maneira para apontarmos algo e associarmos essa coisa apontada à determinada palavra precisamos ser educados em determinada linguagem que possibilite esse uso. É através do conceito de Jogos de Linguagem que Wittgenstein busca desembaraçar esses nós feitos pela filosofia essencialista. É através desse conceito que ele racha as palavras no devir da vida. As palavras não se fecham na função de nomear as coisas constituindo um quadro estático, uniforme e separado da vida. Como os filmes de Godard o quadro não pode ser separado da parede, está infectado pela vida, pois é vida. Só se compreendem os significados das palavras nos jogos de linguagem dos quais fazem parte, em seus usos efetivos, poliformes, em movimento perpétuo e não teleológicos. Não cabe a pergunta – O que é um jogo de linguagem? No sentido de buscar a essência que as palavrassignificam. O conceito é usado justamente para sair desse estreito e confuso caminho da filosofia – Toshewtheway out ofthefly-bottle. O conceito significa no contexto em que nasceu, em outro contexto o significado é outro, retirado de qualquer contexto não significa nada, é puro clichê. No parágrafo 7, Wittgenstein dá algumas indicações do que entende por jogo de linguagem, veja: Em que medida os limites da linguagem são os limites do nosso mundo? Na prática do uso da linguagem (2), uma parte grita as palavras, a outra age de acordo com elas; mas na instrução da linguagem vamos encontrar este processo: o aprendiz dá nome aos objetos. Isto é, ele diz a palavra quando o professor aponta para a pedra. – De fato, vai-se encontrar aqui um exercício ainda mais fácil: o aluno repete as palavras que o professor pronuncia – ambos, processos linguísticos semelhantes. Podemos imaginar também que todo o processo de uso de palavras em (2) seja um dos jogos por meio dos quais as crianças aprendam sua língua materna. Quero chamar esses jogos de “jogos de linguagem”, e falar de uma linguagem As contribuições dos grandes pensadores U4 173 Percebemos que nomear os objetos é apenas um jogo de linguagem, mais ainda os diversos usos que se faz da linguagem são apenas jogos de linguagem. No parágrafo 23, Wittgenstein exemplifica a diversidade de jogos de linguagem – Ordenar, e agir segundo as ordens – Descrever um objeto de acordo com uma descrição (desenho) – Relatar um acontecimento – (nomear é apenas mais um). O conceito jogo de linguagem só pode ser compreendido em sua multiplicidade imanente, pois ele só tem significado no contexto no qual é constituído. Abre-se o caminho para a mosca presa em sua própria armadilha. Neste mesmo parágrafo, o autor das Investigações Filosóficas reforça essa abertura vital dos jogos de linguagem ao afirmar que eles estão em movimento. Abre-se com o conceito jogo de linguagem o contexto vital no qual as proposições (empíricas ou gramáticas) são. Funde-se linguagem e vida, pois “falar uma língua é parte de uma atividade ou de uma forma de vida”. Determinada forma de vida é determinada linguagem constituída por inúmeros jogos de linguagem. Falar é fazer parte de uma forma de vida, por isso o que determina se compreendemos o significado de uma palavra ou uma sentença é a maneira como nos comportamos. Em última análise o que determina nossa compreensão ou consciência é o fato da manifestação dessa consciência ou compreensão ser aceita pelo contexto no qual ela é proferida, ou seja, o que demonstra a compreensão do significado de uma palavra é o fato de alguém agir de acordo com o esperado. Fica demonstrado que os jogos de linguagem são constituídos por regras, ou melhor, a linguagem é uma atividade governada por regras. São essas regras que determinam nossos usos linguísticos, promovendo com isso uma previsibilidade regulada de ação àqueles que fazem parte dessa forma de vida. Como nossas formas de vida são constituídas por jogos de linguagem diferentes a regra comporta um nível empírico dentro de cada jogo de linguagem e um nível gramatical que constitui o impensado da própria forma de vida, pois se contestado a põe em cheque. Nesse sentido, a oposição primitiva às vezes como de um jogo de linguagem. E poder-se-ia chamar também de jogos de linguagem os processos de denominação das pedras e de repetição da palavra pronunciada. Pense em certo uso que se faz das palavras em brincadeiras de roda. Chamarei de “jogo de linguagem”, também a totalidade formada pela linguagem e pelas atividades com as quais ela vem entrelaçada. (IF, §7). Inúmeras espécies de emprego do que denominamos “signos”, “palavras”, “frases”. E essa variedade não é algo fixo, dado de uma vez por todas; mas, podemos dizer, novos tipos de linguagem, novos jogos de linguagem surgem, outros envelhecem e são esquecidos. (IF, § 23). As contribuições dos grandes pensadores U4 174 verdadeiro/falso não constitui o mais original no qual verdade é a realidade em si e o falso é a inversão deturpada desse em si. Verdade/falsidade passam a significar estar de acordo ou não com as regras que constituem a forma de vida e o jogo de linguagem do qual fazem parte. Sobre o conceito de jogo de linguagem escreve Giannotti (2015): O fato de a linguagem ser guiada por regras afirma a característica pública da linguagem, ou seja, por ser práticas reguladas por regras pressupõe que é constituída por práticas comuns, por hábitos. Com esse registro Foucault se aproxima de Wittgenstein, ao afirmar que: “Em que ‘tábua’, segundo qual espaço de identidades, de similitudes, de analogias, adquirimos o hábito de distribuir tantas coisas diferentes e parecidas?” (FOUCAULT, 1999a, p. XV). Esse registro compartilhado por esses dois autores afirma que o significado das palavras é determinado por regras, pois são estas que determinam o uso que fazemos daquelas em determinado contexto. Nós aprendemos essas regras na medida em que fazemos parte de uma forma de vida. Aprendemos o significado das palavras na medida em que habitualmente agimos de acordo com o esperado dentro do contexto que vivemos. Com Wittgenstein as palavras são recolocadas em seu devido lugar depois de terem sido rachadas para serem postas de molho tirando delas o ranço que as separava da vida onde elas foram criadas. Um jogo de linguagem é composto por signos ligados às práticas de seus respectivos usos, as quais terminam por mostrar como os próprios signos estão servindo de critério para avaliar se a aplicação dessas regras simbólicas está sendo adequada ou não. GIANNOTTI, J. A. Dois jogos de pensar. <http://www.scielo.br/pdf/nec/ n75/a04n75.pdf>. 1. Com base na ideia de “jogos de linguagem” explorado por Ludwig Wittgenstein, analise os enunciados que seguem. As contribuições dos grandes pensadores U4 175 2. Em relação à noção de jogos de linguagem em Ludwig Wittgenstein, assinale a alternativa correta. a) O significado da linguagem é determinado pelo seu uso no cotidiano. b) O significado da linguagem é determinado pela consciência do sujeito. c) O significado da linguagem é determinado somente pela denominação. d) O significado da linguagem é universal e único para todas as formas de vida. I. O significado de uma palavra é determinado pelas regras que governam seu uso em contextos linguísticos específicos. II. A linguagem espelha o mundo, pois ela funciona como uma moldura da realidade. III. Os jogos de linguagem estão imersos em formas de vida. Palavras só possuem significado no fluxo da vida. Com relação aos itens anteriores, é correto afirmar que as afirmativas a) II e III dizem respeito à ideia de Jogos de Linguagem de Wittgenstein. b) I e II dizem respeito à teoria da figuração de Wittgenstein. d) I e III dizem respeito à ideia de Jogos de Linguagem de Wittgenstein. e) II e III dizem respeito, respectivamente, à ideia de Jogos de Linguagem e da teoria da figuração. As contribuições dos grandes pensadores U4 176 As contribuições dos grandes pensadores U4 177 Seção 4 A virada histórica em Michel Foucault 4.1 Introdução Apresentaremos neste autor a historicidade do conhecimento e sua crítica ao sujeito cartesiano através da sua conceptualização das relações de poder. O grande esforço foucaultiano em As palavras e coisas (1966) e A arqueologia do saber (1969) era mostrar que tudo é saber, por isso não há experiência que não seja dessa ordem, não há experiência selvagem ou bárbara. A partir da década 70 sua análise sofre algumas torções na medida em que as descrições das práticas de saber necessariamente são articuladas a estratégias de poder. Por causa dessa articulação se convencionou chamar o pensamento foucaultiano desse período de genealógico. A questão genealógica não é meramente sobre o poder, mas sobre a relação entre poder e saber, ou melhor, a questão é sobre como são produzidos saberes a partir de relações de poder. Esta relaçãojá é bastante evidente no texto Nietzsche, a genealogia e a história (1998) e na primeira conferência do ciclo de conferências denominado A verdade e as formas jurídicas proferidas no Rio de Janeiro em 1973, nos quais Foucault diz ser o pensamento de Nietzsche “entre os modelos de que podemos lançar mão para as pesquisas que proponho, o melhor, o mais eficaz e o mais atual”. (FOUCAULT, 2009b, p. 13). A genealogia significa um encontro do pensamento foucaultiano com o pensamento do filósofo alemão, mas trata-se de um encontro no qual o pensamento deste último é instrumentalizado, usado, reelaborado, apropriado. Foucault deixa isso claro, veja: Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia. org/wikipedia/commons/thumb/0/03/Michel_ Foucault.jpg/640px-Michel_Foucault.jpg>. Acesso em: 29 mar. 2015. Figura 4.6 | Michel Foucault As contribuições dos grandes pensadores U4 178 Podemos então dizer que a análise que em seguida é proposta tem como ponto de partida a questão do porquê. Seu objetivo não é principalmente descrever as compatibilidades e incompatibilidades entre saberes a partir da configuração de suas positividades; o que pretende é, em última análise, explicar o aparecimento de saberes a partir de condições de possibilidade externas aos próprios saberes, ou melhor, que imanentes a eles – pois não se trata de considerá-los como efeito ou resultante – os situam como elementos de um dispositivo de natureza essencialmente estratégica. (FOUCAULT, 1998, p. X). A presença de Nietzsche é cada vez mais importante. Mas me cansa a atenção que lhe é dada para fazer sobre ele os mesmos comentários que se fez ou que se fará sobre Hegel ou Mallarmé. Quanto a mim, os autores que gosto, eu os utilizo. O único sinal de reconhecimento que se pode ter para com um pensamento como o de Nietzsche, é precisamente utilizá-lo, fazê-lo ranger, gritar. Que os comentadores digam se é ou não fiel, isto não tem o menor interesse (FOUCAULT, 1998, p. 143). A apropriação da genealogia nietzschiana é usada por Foucault para pensar as relações entre poder e saber como constituídas e constituintes da história e, com isso, entender esta na efetividade dessas práticas. A palavra modelo utilizada na citação pode soar estranha para os seus leitores, mas refere-se a um procedimento bastante comum em sua filosofia ao instrumentalizar os textos que pesquisa, ou seja, ao apropriar-se, ao filiar-se ou ao diferenciar-se de alguma tradição do pensamento opera um “empobrecimento” dela, que nada mais é que uma desfetichização das suas relações, das suas operações, das suas formas, dos seus conceitos no sentido de multiplicar suas possibilidades, sua variabilidade e, com isso, provocar mudanças que implicam novos significados, novas práticas. É, então, como ferramentas que devem ser entendidas as expressões “modelo nietzschiano” ou “hipótese nietzschiana”, pois remetem a todo um instrumental de luta criado, modificado, posto em uso, renovado por Foucault para estabelecer a íntima relação entre poder e saber. São expressões que demonstram o lugar ao qual ele entende pertencer no pensamento ocidental, ou seja, faz referência a toda uma tradição do pensamento da qual Nietzsche faria parte conjuntamente com tantos outros, inúmeros anônimos inclusive, que buscaram maneiras diferentes de pensar do “modelo platônico” entendido como uma das primeiras tentativas de eliminar aquela relação. É, nesse sentido, que deve ser buscado seu esforço na arqueologia em definir uma formação histórica como um espaço do saber, ou seja, uma multiplicidade de relações discursivas e não discursivas (multiplicidade de regiões de dizibilidades e de visibilidades), intensificado, na genealogia, ao articulá-lo a relações de poder. Sua pretensão era As contribuições dos grandes pensadores U4 179 diferenciar-se de grande parte do pensamento ocidental que fazia da história: o encadeamento linear da história do sujeito que nesse movimento era tornado um monumento de glorificação do passado; a busca e o reconhecimento de uma origem da qual emanaria e pertenceria toda a história e que teria sido encoberta pelas peripécias falsificadoras do poder; uma análise do tipo comentário, cuja função seria reconstruir a verdade na medida em que estabeleceria relações entre sujeito e objeto. Por isso, para elucidarmos a crítica foucaultiana a esses modelos do pensamento ocidental que seriam, segundo ele, antípodas em relação ao modelo nietzschiano e, com isso, a sua noção de liberdade a partir da genealogia, faz-se necessário entendermos quais as inovações e diferenças em relação à tradição que Foucault estabelece ao problematizar o poder e a relação deste com o saber. No final de A arqueologia do saber, Foucault comenta a difícil tarefa do pensamento em relação ao saber, ou seja, afirmava o árduo trabalho da análise para mostrar que a massa documental estudada era a materialização de relações de forças, efeito de relações de poder e não mera narrativa ou representação de fatos passados. Ele trouxe à tona a relação entre saber e poder, pois afirmava ser o saber a inscrição das lutas, marcas dos conflitos e, por isso, locus de inteligibilidade da história. Tal atitude novamente aparece no debate intitulado Sobre a história da sexualidade no qual Foucault define o que é um dispositivo: Esta expressão é mais uma das ferramentas utilizadas por Foucault, cuja função lhe permite entender a história a partir de acontecimentos definidos como configurações de práticas de poder e saber. São estes enquanto objetos históricos que a análise genealógica busca descrever ao pensar dispositivos (da sexualidade, de normalização). Foucault GIACÓIA, O. Filosofia da cultura e escrita da história: nota sobre as relações entre os projetos de uma genealogia da cultura em Foucault e Nietzsche. In: O que nos faz pensar. Cadernos de filosofia da Puc/RJ. N: 3, 1990, p. 24-50. Conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos. (FOUCAULT, 1998, p. 244). As contribuições dos grandes pensadores U4 180 formula sua noção de acontecimento a partir da leitura de Lógica do sentido e La théorie desincorporelsdansl’anciensto ïcisme (NALLI, 2000, p. 115), pois nestes textos Deleuze e Bréhier formulam outra concepção de acontecimento, diferente daquela formulada pela tradição tendo por base Platão e Aristóteles, a partir dos incorporais da teoria estoica. Para os estoicos tudo o que existe é corpo, e estes são constituídos pelo princípio ativo (poder de afetar), que é o logos e pelo princípio passivo (poder de ser afetado), que é a matéria. O logos é causa imanente que constitui cada ser e ao universo como um todo, ou seja, é o princípio ativo universal que perpassa todos os seres promovendo ordenação e integração da realidade. Segundo Bréhier, (1928, p. 5): Fonte: Disponível em: <http://upload.wikimedia. o r g / w i k i p e d i a / c o m m o n s / t h u m b / 0 / 0 0 / E p i c t e t i _ E n c h i r i d i o n _ L a t i n i s _ v e r s i b u s _ adumbratum_%28Oxford_1715%29_frontispiece. jpg/640px-Epicteti_Enchiridion_Latinis_versibus_ adumbratum_%28Oxford_1715%29_frontispiece. jpg>. Acesso em: 29 mar. 2015. Figura 4.7 | Retrato de Epiteto (55 – 135 a.C.) na capa de uma tradução inglesa de 1751 do Manual de Epiteto) Em todo caso, é indispensável que ela esteja ligada ao ser mesmo do qual ela constitui a causa, como a vida só pode estar no vivente. Ela determina a forma exterior do ser, seus limites, não ao modo de um escultor que faz uma estátua, mas como um germe que se desenvolve até certo ponto do espaço, e até a este ponto somente, suas capacidades latentes. A unidade da causa e do princípiose traduz na unidade do corpo que ela produz. Este princípio é também verdadeiro para o mundo, cuja unidade se prova, segundo Crisipo, pela unidade de seu princípio, que pelo menor dos seres particulares. Percebemos na citação que o pensamento estoico é diferente do pensamento, tanto de Platão, quanto de Aristóteles, pois Para estes, o problema era explicar nos seres o permanente, o estável, o que podia oferecer um ponto de apoio sólido ao pensamento por conceitos. Também a causa, que ela seja a Ideia ou o motor imóvel, é permanente como uma noção geométrica. As contribuições dos grandes pensadores U4 181 Os estoicos concebem uma nova concepção de causalidade, cuja característica é a univocidade entre causa e efeito, na medida em que o corpo tem imanente a si o princípio do seu movimento e, por isso, não sendo mera matéria passiva efeito de uma causa exterior, ou seja, o corpo é, ao mesmo tempo, causa e efeito. Sendo assim, é na relação entre os corpos que os estoicos entendiam que eles podiam se modificar, isso não significava que um corpo poderia atribuir a outrem propriedades novas, mas que a relação, a interpenetração entre eles produzia uma extensão comum, entendida como um novo atributo. Exemplifica Bréhier (1928, p. 11): Essa extensão comum, o efeito da relação dos corpos é o incorporal, que é composto pelo vazio entre os corpos, pelo espaço e tempo determinados em que ocorre e pelo exprimível. Ele não é um corpo, mas é condição para que acorram as relações entre os corpos (sem o vazio entre os corpos não seria possível o encontro entre eles). Ele é o acontecimento. A curiosidade nesta forma de pensar está no fato de que o incorporal (acontecimento) é condição da causa sem ser ele mesmo uma causa, mas efeito. Isso se explica porque o acontecimento é um atributo, ou melhor, uma maneira de ser, cuja existência é determinada pela relação entre os corpos e persistirá nela, não uma qualidade natural como essência de um corpo primeiro. Pelo movimento, o devir, a corrupção dos seres, no que eles têm de perpetuamente instável, eles decorrem não por uma causa ativa, mas por uma limitação desta causa, escapando por sua natureza de toda determinação e de todo pensamento. (BRÉHIER, 1928, p. 4-5). [...] Assim, quando o escalpelo corta a carne, o primeiro corpo produz sobre o segundo não uma propriedade nova, mas um atributo novo, aquele de ser cortado. O atributo propriamente falando não designa alguma qualidade real; branco ou negro por exemplo não são atributos, nem em geral algum epíteto. O atributo é sempre ao contrário expresso por um verbo, o que quer dizer que ele é não um ser, mas uma maneira de ser [...] Esta maneira de ser se encontra de algum modo no limite, à superfície do ser, e ela não pode mudar sua natureza: ela não é, para dizer a verdade, nem ativa e nem passiva, pois a passividade suporia uma natureza corpórea que sofre uma ação. Ela é pura e simplesmente um resultado, um efeito que não é classificável entre os seres. Texto: O estoicismo de Michel Foucault: uma análise a partir do conceito de acontecimento. Disponível em: <http://www.uern.br/ outros/trilhasfilosoficas/conteudo/N_02/I_2_art_9_Carmo.pdf>. As contribuições dos grandes pensadores U4 182 A noção de acontecimento nos estoicos é fundamental, pois permite a Foucault entender o acontecimento a partir das relações de forças que o compõem, ou seja, lhe permite entendê-lo como relações entre práticas de poder e saber, ou seja, ele busca entender a história não como representação ou evolução progressiva de uma origem que a fundamentaria, mas como materialidade de práticas discursivas, nas quais se evidencia relações de poder, ou melhor, busca entendê-la como conjunto de dispositivos que traduzem compostos de práticas de poder e de saber. Dessa forma, a genealógica, enquanto história do acontecimento, ou melhor, dos dispositivos de poder e saber é uma história da mistura dos corpos e não do corpo considerado em si mesmo. Ela é, por isso, uma pesquisa que se opõe à pesquisa da “origem”. Segundo Foucault (1998, p. 17): A recusa da origem pela genealogia tem por objetivo definir o acontecimento em sua emergência, demonstrar a sua proveniência e afirmá-lo como uma invenção. Em Nietzsche, A genealogia e a história, Foucault afirma que os termos Entstehung e Herkunft indicam melhor que Ursprung o que a genealogia devia estudar. Como afirma a citação acima, Ursprung remete a uma origem ideal, primeira, pura que fundamentaria o direito de tomar como universal a identidade designativa entre palavras e coisas; que significaria a essência das coisas; que garantiria a unidade e uniformidade substantiva das palavras; que garantiria o início como verdade plena, não maculada pela lama das lutas, pela podridão do humano, pela sombra do poder, pela corrupção da carne, pelo desejo insaciável da força; que faria da história o encobrimento dessa luz inicial, mas também busca frenética para encontrá-la novamente. É essa origem (Ursprung) que, segundo Foucault, a genealogia recusa preferindo em alguns casos entendê-la como Herkunft. Este sentido de origem remete ao “tronco de uma raça, é a proveniência; é o antigo pertencimento a um grupo – do sangue, da tradição, de ligação entre aqueles da mesma altura ou da mesma baixeza” (FOUCAULT, 1998a, p. 20), ou seja, a genealogia diferencia-se do tipo de análise que busca uma essência a-histórica ou características naturais que subsistem ao longo da história, fazendo desta mero episódio Por que Nietzsche genealogista recusa, pelo menos em certas ocasiões, a pesquisa da origem (Ursprung)? Porque, primeiramente, a pesquisa, nesse sentido, se esforça para recolher nela a essência exata da coisa, sua pura possibilidade, sua identidade cuidadosamente recolhida em si mesma, sua forma imóvel e anterior a tudo o que é externo, acidental, sucessivo. Procurar uma tal origem é tentar reencontrar “o que era imediatamente”, o “aquilo mesmo” de uma imagem exatamente adequada a si; é tomar por acidental todas as peripécias que puderam ter acontecido, todas as astúcias, todos os disfarces; é querer tirar todas as máscaras para desvelar enfim uma identidade primeira. As contribuições dos grandes pensadores U4 183 de memorização, degradação, mascaramento, representações falsificadas que ocultam a verdade e embriagam a visão da realidade. Ao utilizar o termo Herkunft Foucault quer mostrar que a origem não se refere a uma unidade, mas A origem também é entendida pela genealogia como Entstehung que designa o acontecimento na imanência da luta estabelecida pelas forças que o constituem. É a busca do efervescer das forças que entram em cena constituindo regras que satisfazem e significam o seu próprio domínio e demarcam o local da sua confrontação e de suas configurações. Com esta noção Foucault quer mostrar que a atualidade não é efeito de uma origem sempre idêntica a si, a qual teríamos que reconstituir“ como se o olho tivesse aparecido, desde o fundo dos tempos, para a contemplação, como se o castigo Para Foucault, a unidade é entendida como organização, como multiplicidade de forças em constante mutação, pois estão em constante combate. Isso significa que onde se reconhecia uma unidade estável, a genealogia reconhece o combate de forças, a organização belicosa de forças. Não há unidade estável que fundamenta a história ou o saber. Há forças em luta, em acordos temporários, pois só se efetivam em ação com outras forças. Nesse sentido, o que se via à primeira vista como unidade, como semelhante é evidenciado pela genealogia como organização de forças, sua multiplicidade e diferença constituindo e sendo constituída pela história. A pesquisa da proveniência é um processo de dissociação da unidade, pois visa a fazer surgir ou reencontrar os vários acontecimentos, as várias forças em jogo que a constituíram. A identidade é desnaturalizada, pois é forjada e só é como organização de forças exercendo seu domínio.Em vez de buscar o tradicional – O que sou eu? Busca dissociá-lo e mostrar que sua identidade foi forjada no campo de batalha das relações de forças. Deixa-se de buscar a continuidade estável. Buscam-se as lutas, os desvios, as dispersões, os conluios. Lá onde a alma pretende se unificar, lá onde o Eu inventa para si uma identidade ou uma coerência, o genealogista parte em busca do começo – dos começos inumeráveis que deixam esta suspeita de cor, esta marca quase apagada que não saberia enganar um olho, por pouco histórico que seja; a análise da proveniência permite dissociar o Eu e fazer pulular nos lugares e recantos de sua síntese vazia, mil acontecimentos agora perdidos (FOUCAULT, 1998, p. 20). Se o conhecimento é uma invenção podemos afirmar que ele pode ser ferramenta de dominação? As contribuições dos grandes pensadores U4 184 tivesse sempre sido destinado a dar o exemplo” (FOUCAULT, 1998, p. 23), ou seja, ele quer separar a genealogia das análises que fazem da origem causa perene (motor da história) ao longo da história tornando o atual efeito de espelho dela e, com isso, mostrar a singularidade de acontecimento do presente, pois é o teatro, no qual ocorrem os embates energéticos. Nas suas palavras: Na primeira conferência proferida no Rio de Janeiro, Foucault afirma que o saber é invenção ao problematizar especificamente dois termos nietzschianos: Erfindung, cujo significado é invenção e Ursprung, como já mostrado, que significa origem. Os termos são antagonizados por Foucault, pois quando fala em invenção é para não falar em origem, ou seja, para ele, também para Nietzsche, o saber não é natural, mas é uma invenção determinada por relações de poder num espaço e tempo específicos. Segundo Foucault: Em certo sentido, a peça representada nesse teatro sem lugar é sempre a mesma: é aquela que repetem indefinidamente os dominadores e os dominados. Homens dominam outros homens e é assim que nasce a diferença dos valores; classes dominam classes e é assim que nasce a ideia de liberdade; homens se apoderam de coisas das quais eles têm necessidades para viver, eles lhes impõem uma duração que elas não têm, ou eles as assimilam pela força – e é o nascimento da lógica. Nem a relação de dominação é mais uma ‘relação’, nem o lugar onde ela se exerce é um lugar. E é por isto precisamente que em cada momento da história a dominação se fixa em um ritual. (FOUCAULT, 1998, p. 25). O conhecimento foi, portanto, inventado. Dizer que ele foi inventado é dizer que ele não tem origem. É dizer, de maneira mais precisa, por mais paradoxal que seja, que o conhecimento não está em absoluto na natureza humana. O conhecimento não constitui o mais antigo instinto do homem, ou, inversamente, não há no comportamento humano, no apetite humano, no instinto humano, algo como um germe do conhecimento. De fato, diz Nietzsche, o conhecimento tem relações com os instintos, mas não pode estar presente neles, nem mesmo por ser um instinto entre os outros; o conhecimento é simplesmente o resultado do jogo, do afrontamento, da junção, da luta e do compromisso entre os instintos. É porque os instintos se encontram, se batem e chegam, finalmente, ao término de suas batalhas, a um compromisso, que algo se produz. Este algo é o conhecimento. (FOUCAULT, 2009b, p. 16). As contribuições dos grandes pensadores U4 185 Com Erfindung, Foucault, busca não tomar um fundamento primeiro para o saber, tanto o mundo enquanto ente natural, quanto a natureza humana enquanto essência do homem, cujas representações se fariam pelo saber, mas mostrar que este é um “efeito de superfície, não delineado de antemão na natureza humana” (FOUCAULT, 2009b, p. 17), ou melhor, é um espaço dispersivo de objetivações e subjetivações que “traduz um certo estado de tensão ou de apaziguamento entre os instintos” (FOUCAULT, 2009b, p. 17), que é produzido por relações de poder e as induz. 1. Segundo o pensamento estoico, o acontecimento pode ser definido como: a) O fato tal qual aparece na história. b) A coisa empírica ilustrada pela experiência. c) O incorporal fruto do choque entre corpos. d) A linguagem sem base material. 2. Segundo o pensamento de Michel Foucault sobre o conhecimento é correto afirmar que: a) O conhecimento tem uma essência que é mascarada historicamente cabendo ao pensador alcançá-la e trazê-la à tona. b) O conhecimento é fruto de um sujeito transcendental definido pela racionalidade humana. c) O conhecimento é produzido historicamente e, por isso, uma invenção em constante mudança. d) O conhecimento é o dado produzido pela experiência empírica ao analisar a realidade física. Nesta unidade vimos que: a) René Descartes buscou fundamentar as bases da ciência moderna. b) Karl Popper buscou apresentar outra lógica para justificar a atividade científica baseada na falseabilidade e não na verificabilidade. As contribuições dos grandes pensadores U4 186 c) Thomas Kuhn criou a noção de paradigma e de ciência normal que nos ajudaram a entender e a justificar a atividade científica em determinado momento histórico. d) Ludwig Wittgenstein criou a noção de jogo de linguagem o que nos propiciou outras bases para pensar o conhecimento e a atividade do pensamento. e) Michel Foucault historicizou o conhecimento tornando possível que estabelecêssemos outras bases para pensá-lo e produzi-lo. Nesta unidade estudamos o pensamento de alguns dos maiores autores do ocidente. Com eles percebemos que as questões epistemológicas podem ser visualizadas e refletidas a partir de vários ângulos, ou seja, nossa relação com o conhecimento é extremamente complexa na medida em que ela pode ocorrer de várias formas dependendo do contexto histórico e social no qual ocorre. Nesse sentido, devemos ler estes textos buscando ferramentas para pensarmos nossa vida, a nossa atualidade e, com isto, abrir novas possibilidades para entendermos aquilo que nós somos enquanto singularidade histórica; devemos buscar, também, tentar dar nova vida à epistemologia, na medida em que estas ferramentas servem para repensarmos e, acima de tudo, para criarmos novas formas de pensar e de conhecer. Tendo este panorama em mente devemos entender que aprofundar os estudos, necessidade cada vez mais indispensável, é estar preparado para enfrentar os problemas que nos afligem e que se mostram cada vez mais complexos – por isso requerendo novas, múltiplas e complexas ferramentas conceituais; devemos sempre lembrar que os conceitos são o que tornam nossas ações esclarecidas, retirando-nos do estado de cegueira ou infantilidade e, com isso, nos tornando um pouco mais senhores do nosso destino. Portanto, espero que tenham um ótimo aprendizado e compartilhem, com esta que vos escreve, da magia da educação e da beleza do aprendizado, pois é com eles que podemos experimentar novas possibilidades e novas formas de viver, sem os quais temos um mundo desencantado, no qual tudo é reduzido ao mínimo da sobrevivência. As contribuições dos grandes pensadores U4 187 1. “Dá-se o nome conhecimento à relação que se estabelece entre o sujeito cognoscente (ou uma consciência) e um objeto”. Essa afirmativa equivale a dizer que o conhecimento é: a) Tudo que é revelado através dos instintos. b) Tudo que se enxerga através dos sentidos. c) Tudo que é revelado através dos sonhos. d) Uma percepção que nasce da observação da natureza. e) O processo pelo qual o sujeito se coloca no mundo e, com ele, estabelece uma ligação. 2. Leia com atenção a citação e, em seguida, analise as assertivas. "E, tendo notado que nada há no eu penso, logo existo, que me assegure de que digo a verdade, exceto que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei poder tomar por regra geral que as coisas que concebemos mui clara e mui distintamente são todas verdadeiras, havendo apenas alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos distintamente." (DESCARTES, Discurso do Método.São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 55. Coleção "Os Pensadores"). I- Este "eu" cartesiano é a alma e, portanto, algo mais difícil de ser conhecido do que o corpo. II- O "eu penso, logo existo" é a certeza que funda o primeiro princípio da filosofia de Descartes. III- O "eu", tal como está no Discurso do Método, é inteiramente distinto da natureza corporal. IV- Ao concluir com o "logo existo", fica evidente que o "eu penso" depende das coisas materiais. Assinale a alternativa cujas assertivas estejam corretas. a) II e IV. b) I, II, IV. c) III e IV. d) II e III. e) Todas são corretas. As contribuições dos grandes pensadores U4 188 3. A filosofia da ciência contemporânea, ao contrário da tradição clássica e moderna, que acreditava no acúmulo linear do conhecimento, questionou a ideia de progresso e de neutralidade científica. Conceito como crise, anomalia, descontinuidade, ruptura e incomensurabilidade (entre paradigmas científicos), inauguram uma nova orientação epistemológica, voltada para a ideia de ciência construída, mais do que verdadeira ou fiel à natureza do mundo. Sobre a filosofia da ciência contemporânea, assinale o que for correto. a) A validade de uma teoria científica está na maneira como explica um conjunto ilimitado de fenômenos. b) As teorias científicas se completam mutuamente, aproximando- se cada vez mais da ciência divina. c) A prática científica é igual à do senso comum, pois não se ocupa com a verdade dos fatos. d) As teorias científicas não podem ser verificadas de ponta a ponta, possuindo elementos arbitrários na composição da teoria. 4. Leia o texto a seguir. [...] não exigirei que um sistema científico seja suscetível de ser dado como válido de uma vez por todas, em sentido positivo; exigirei, porém, que sua forma lógica seja tal que se torne possível validá-lo através de recurso a provas empíricas em sentido negativo [...]. (POPPER, K. A lógica da pesquisa científica. Trad. L. Hegenberg e O. S. da Mota. São Paulo: Cultrix, 1972, p. 42.) Assinale a alternativa que corresponde ao critério de avaliação das teorias científicas empregadas por Popper. a) Falseabilidade. b) Organicidade. c) Confiabilidade. d) Dialeticidade. e) Diferenciabilidade. 5. Consideremos o campo da epistemologia contemporânea; sob esse aspecto, podemos afirmar que a posição de Thomas Kuhn (1922-1996), em relação à ciência, se contrapôs à As contribuições dos grandes pensadores U4 189 concepção científica de Karl Popper (1902-1994)? Assinale a alternativa correta. a) Sim, Kuhn se contrapôs à teoria de Popper ao negar que o desenvolvimento da ciência se dê mediante o ideal de refutação. Ao contrário, Kuhn afirma que a ciência progride pela tradição intelectual representada pelo paradigma, que é a visão de mundo expressa numa teoria. b) Não, Kuhn absorve a teoria da refutabilidade de Popper ao desenvolver sua concepção de paradigma científico. Para ambos, o que garante a verdade de um discurso científico é sua condição de justificação, ou seja, quando uma teoria é justificada ela é corroborada. c) Não, Kuhn argumentou que uma teoria, como paradigma, deve ser desenvolvida em vez de criticada, motivo pelo qual ele não poderia opor-se ao pensamento de Popper. Sua tentativa será outra: tentar harmonizar aqueles pontos de vista que divergem do seu. d) Sim, Kuhn cedo abandonou o empirismo, classificando-se como anarquista epistemológico. Dessa forma, opôs-se não apenas à concepção metodológica de Popper como também de outros contemporâneos seus, como Lakatos, por exemplo. Diferentemente de Popper, Kuhn anuncia que as teorias não são nem verdadeiras, nem falsas, mas úteis. e) Sim, diferentemente de Popper, para quem a física newtoniana era considerada a imagem verdadeira do mundo, tendo como pressupostos o mecanicismo e o determinismo, Kuhn estabelece como paradigma de sua concepção de ciência o irracionalismo de Heisenberg e seu princípio da incerteza. As contribuições dos grandes pensadores U4 190 As contribuições dos grandes pensadores U4 191 Referências BRÉHIER, E. A teoria dos incorporais no antigo estoicismo. Trad. Marcos Nalli. Texto inédito. BORGES, J. L. El idioma analítico de John Wilkins. Disponível em: <http://sololiteratura. com/bor/borelidioma.htm>. Acesso em: 29 mar. 2015. BRUNI, J. C. Foucault: o silêncio dos sujeitos. In: Tempo social. São Paulo: USP, 1989. DELEUZE, G. Conversações. 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