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Miguel Mahfoud (org) Daniel Marinho Drummond Juliana Mendanha Brandªo John Keith Wood Raquel Wrona Rosenthal Roberta Oliveira e Silva Vera Engler Cury Walter Cautella Junior Plantªo Psicológico: novos horizontes Todos os direitos desta ediçªo estªo reservados à E D I T O R A C . I . L T D A . Rua FlorinØia, 38 ` gua Fria 02334-050 Sªo Paulo SP Tele/fax: 11 6950-4683 LaPS Laboratório de Psicologia Social/UFMG ' 1999 by Miguel Mahfoud 1“ ediçªo, outubro de 1999 Revisªo Miguel Mahfoud Daniel Marinho Drummond Capa e Diagramaçªo Na capa Juliana de Souza Vaz Paul Klee, Caminho Principal e Caminhos SecundÆrios (1929) Coleçªo C. e A. Vowinckel Ediçªo do CD-ROM Apoio tØcnico Daniel Marinho Drummond SUM`RIO Autores ......................................................................................................... 5 PrefÆcio ......................................................................................................... 7 Introduçªo ................................................................................................. 11 Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae: uma proposta de atendimento aberto à comunidade Raquel Wrona Rosenthal ............................................................... 15 Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia Miguel Mahfoud............................................................................ 29 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza Miguel Mahfoud, Daniel Marinho Drummond, Juliana Mendanha Brandªo, Roberta Oliveira e Silva .................................................................................................. 49 Pesquisar processos para aprender experiŒncias: Plantªo Psicológico à prova Miguel Mahfoud, Daniel Marinho Drummond, Juliana Mendanha Brandªo, Roberta Oliveira e Silva .................................................................................................. 81 Plantªo Psicológico em Hospital PsiquiÆtrico: Novas Consideraçıes e desenvolvimento Walter Cautella Junior.................................................................... 97 Plantªo Psicológico em Clínica-Escola Vera Engler Cury ......................................................................... 115 Psicólogos de plantªo... Vera Engler Cury ......................................................................... 135 5 AUTORES Autores Daniel Marinho Drummond Ø psicólogo, mestrando no Programa de Pós-Graduçªo em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais. John Keith Wood Ph.D. em Psicologia pelo The Union Institute (E.U.A.), foi professor na California State University em San Diego (E.U.A.) onde tambØm fez plantªo psicológico no Hospital e no Centro de Aconselhamento, e, no Brasil, foi professor no Programa de Pós-Graduaçªo em Psicologia Clínica da PUC-Campinas. Amigo íntimo e colaborador direto de Carl Rogers por quinze anos desenvolvendo uma Psicologia de grandes grupos e vÆrios projetos internacionais. Juliana Mendanha Brandªo Ø psicóloga pela Universidade Federal de Minas Gerais, pós- graduanda em Psicopedagogia pelo Centro UniversitÆrio de Belo Horizonte. 6 Plantªo Psicológico: novos horizontes Miguel Mahfoud Ø professor adjunto do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e CiŒncias Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, Doutor em Psicologia pela Universidade de Sªo Paulo. Raquel Wrona Rosenthal Ø psicóloga pela PUC-SP, com Especializaçªo em Aconselhamento Psicológico pela Universidade de Sªo Paulo e Curso de Estudos Avançados da Abordagem Centrada na Pessoa (Rosenberg/Wood). Coordenadora do Curso de Especializaçªo em Abordagem Centrada na Pessoa promovido pelo Centro de Psicologia da Pessoa em Sªo Paulo. Psicoterapeuta e facilitadora de grupos. Roberta Oliveira e Silva Ø psicóloga pela Universidade Federal de Minas Gerais. Vera Engler Cury Ø professora do Instituto de Psicologia e Fonoaudiologia da PUC- Campinas, Coordenadora do Departamento de Psicologia Clínica, Doutora em Psicologia pela PUC-Campinas. Walter Cautella Junior Ø psicólogo, mestrando pelo Instituto de Psicologia da Universidade de Sªo Paulo, Chefe do Departamento de Psicologia e Psicoterapia da Casa de Saœde Nossa Senhora de FÆtima, Coordenador e supervisor do programa de estÆgios em psicologia institucional e Presidente do Centro de Estudos daquela mesma instituiçªo. 7 PrefÆcio PREF`CIO Este livro traz boas novas. Primeiramente, apresenta evidŒncias de que o Plantªo Psicológico Ø um serviço viÆvel para atender adolescentes, estudantes universitÆrios e outros membros da comunidade, abastados ou nªo. O contato com esse serviço ajuda as pessoas a lidarem efetivamente com os predicamentos da vida, nªo os tratando como problemas que requerem tratamento psiquiÆtrico. Por exemplo, uma pessoa em uma crise espiritual nªo estÆ confrontando um problema. Nªo estÆ tendo um comportamento normal ou anormal. É um predicamento envolvendo questıes filosóficas, buscando significados, identidade. O psicólogo Prof. Dr. Miguel Mahfoud ilustra este ponto de vista em um relato sobre experiŒncias em um colØgio. Plantªo seria um espaço onde o aluno pudesse buscar ajuda para rever, repensar e refletir suas questıes. Naturalmente, tal atividade 8 Plantªo Psicológico: novos horizontes nªo Ø apenas uma conversa entre amigos. Em situaçıes onde uma forma diferente de psicoterapia Ø mais apropriada, a pessoa recebe a indicaçªo de um(a) profissional competente. Uma outra boa nova Ø que plantªo psicológico pode promover uma experiŒncia de aprendizagem eficaz para estagiÆrios(as). Confrontando a pessoa inteira no contexto completo da sua existŒncia, o estagiÆrio(a) necessariamente deve ampliar sua visªo do papel da psicoterapia. O filósofo e matemÆtico inglŒs Alfred North Whitehead observou que, O conhecimento de segunda-mªo do mundo instruído Ø o segredo da sua mediocridade. O tipo de problemas que as pessoas enfrentam sªo, em geral, de primeira-mªo. A ajuda que necessitam Ø de ordem prÆtica. Esta forma de aprendizagem Ø prÆtica. Assim, ambos os participantes o plantonista e o indagador(a) participam e se beneficiam de uma educaçªo intuitiva cujo objetivo Ø a auto-realizaçªo. Em um encontro de pessoa a pessoa como este, onde se procura dirigir a melhor parte de si mesmo à melhor parte do outro com o propósito de curar a mente, o corpo e a natureza, a essŒncia da psicoterapia estÆ, de fato, sendo redefinida. O mesmo observa Walter Cautella Junior, descrevendo seu trabalho em um hospital psiquiÆtrico: A experiŒncia do plantªo psicológico leva a instituiçªo a reformar sua visªo do indivíduo institucionalizado. HÆ promessas de mais boas novas. A palavra plantªo vem do francŒs planton, quando era aplicado em linguagem militar para designar a pessoa que ocupa uma posiçªo fixa, alerta dia e noite. Seu uso moderno refere-se ao suporte, fora do horÆrio normal, oferecido por mØdicos em hospitais ou, como aqui, por um psicólogo. AlØm disso, sua relevância estÆ no 9 fato de que a origem da palavra planton vem do latin: plantare, plantar. Um significado dessa palavra refere-se a planta do pØ. Assim, o plantªo psicológico pode ser visto como tendo seus pØs no chªo. Sendo prÆtico. Respondendo às necessidades imediatas dos clientes (que poderªo ser psicológicas ou de qualquer outra ordem). O segundo sentido de plantar, Ø meter um organismo vegetal na terra para enraizar. Essa Ø outra característica do Plantªo Psicológico descrito neste livro: estar plantado na cultura brasileira com suas deficiŒncias e seus nutrientes. Principalmente, Ø um organismo vivo e crescendo. Assim, como lembram as palavras de Prof.a. Dr.a Vera E. Cury, Uma Øtica das relaçıes interpessoais, sutil mas poderosa, feita de pequenos gestos e acenos suaves, simplese ainda assim determinada, parece conduzir os projetos do Plantªo Psicológico. Se for possível ficar imune e nªo se deixar restringir por dogmas e modismos filosóficos poderÆ continuar a se desenvolver efetivamente de acordo com as necessidades da populaçªo desse tempo e lugar. John Keith Wood Jaguariœna, Agosto 1999 PrefÆcio 11 INTRODU˙ˆO 1 MAHFOUD, Miguel. A vivŒncia de um desafio: plantªo psicológico. In: ROSENBERG, Rachel Lea (Org.). Aconselhamento p s i c o l ó g i c o centrado na pessoa. Sªo Paulo: EPU, 1987, p.75-83. (SØrie Temas BÆsi- cos de Psicologia, Vol. 21) Introduçªo Frutos Maduros do Plantªo Psicológico Miguel Mahfoud Desde a primeira sistematizaçªo nos idos de 1987 1 da inicial experiŒncia de Plantªo Psicológico no Brasil, que se apresentava como desafio a ser vivenciado, como semente que muda de cor e se alastra no terreno de sempre com brotos frÆgeis mas injetando a verde esperança que tudo transforma, desde entªo a proposta de um Aconselhamento Psicológico aberto às mudanças de nosso tempo, de nossa cultura e de nossa realidade social foi brotando e formando raízes. Que solo seria o mais propício ao desenvolvimento de algo que prometia vitalidade senªo o nosso próprio, nossa terra, nossos desafios sociais, institucionais? Aprender da experiŒncia a partir de um empenho com a realidade assim como ela Ø para de dentro transformÆ- la. Assim, em nosso solo brasileiro a experiŒncia de Plantªo Psicológico tomou corpo de maneira original. O presente livro quer comunicar a sistematizaçªo de um exercício de aprendizagem a partir da experiŒncia 12 Plantªo Psicológico: novos horizontes de empenho em diferentes contextos institucionais. Diversas experiŒncias de Plantªo Psicológico que dªo vida a uma modalidade de Aconselhamento Psicológico que aceitou romper os limites estabelecidos pelo descompromisso teorizado de tantas psicologias, pelo reducionismo sentimental de algumas propostas de psicologia que se querem humanistas. Veremos aqui os desafios serem enfrentados em novos horizontes. Tantos desafios permanecem os mesmos para a psicologia desde muito: desafios sociais como as dificuldades econômicas e de trabalho, desafios educacionais, desafios de uma psicologia humanista atuante dentro das instituiçıes... A novidade vem da vitalidade da experiŒncia mesma de um atendimento que aceita outros parâmetros para orientar seu desenvolvimento. Os novos horizontes sªo indicados pela própria aprendizagem significativa sistematizada com rigor para acolher a vitalidade que com surpresa emerge. Queremos que o leitor possa entrar em contato com a vitalidade da experiŒncia, e com a força provocadora que algo acontecido de fato pode nos comunicar: a força do possível. Mais do que modelos, encontramos aqui provocaçıes. Uma das provocaçıes significativas Ø a integraçªo de trabalhos de base humanista inserido em instituiçıes. Tantas vezes ouvimos o refrªo quase automaticamente repetido de que as instituiçıes tŒm objetivos diversos daqueles que movem a Psicologia Humanista jÆ que esta quer acentuar a centralidade da pessoa e seus processos autŒnticos. As experiŒncias aqui comunicadas indicam uma possibilidade de trabalhos claramente de base humanista que aceitam com nossos próprios sujeitos o desafio de continuamente buscar, no contexto assim como se apresenta, a afirmaçªo dos interesses propriamente humanos. Se realmente fosse impossível para nós, de que maneira poderíamos esperar 13 Introduçâo que fosse possível para nossos clientes? Se nªo fosse possível para nós, só nos restaria propor o atendimento psicológico como espaço alternativo, e por isso inevitavelmente alienante. Encontramos aqui experiŒncias que podem abrir novos horizontes neste sentido. Em se tratando de uma novidade que estava apenas brotando, por muitos anos a comunidade psi acolheu a proposta de Plantªo Psicológico como algo alternativo. No sentido que seria algo outro em relaçªo ao estabelecido como campo seguro e próprio do saber e da tØcnica psicológica. Desconfianças, dœvidas, reticŒncias... cultivadas em compasso de espera, atØ que os frutos amadurecessem e se pudesse conhecer de fato esse Plantªo. O próprio Conselho Federal de Psicologia chegou a se pronunciar em documento oficial, classificando Plantªo Psicológico dentre as tØcnicas alternativas emergentes. Alternativa de maneira distinta daquelas de origem confusa ou exotØrica, mas entendida como proposta inovadora, que em certa medida rompe parâmetros estabelecidos por tØcnicas tradicionais e que ainda estava aguardando uma avaliaçªo mais rigorosa de sua eficÆcia pelas instituiçıes de ensino superior e de pesquisa. Pois bem, os frutos amadureceram e sªo aqui oferecidos. Amadureceram no trabalho sistemÆtico, na observaçªo atenta, na sistematizaçªo com rigor metodológico com base em pesquisas de base fenomenológica. Sªo esses frutos que agora, aqui, sªo oferecidos à comunidade para que possamos promover a experiŒncia de Plantªo Psicológico com uma concepçªo clara, de maneira tal a possibilitar sua correspondente avaliaçªo. Neste sentido este livro dÆ um passo histórico. JÆ nªo podemos falar em Plantªo Psicológico tØcnica alternativa. O atual e crescente interesse documentado pela presença de mesas redondas e/ou de comunicaçªo 14 Plantªo Psicológico: novos horizontes de pesquisa sobre Plantªo Psicológico em diversos congressos nacionais e regionais jÆ era um indício dessa mudança. A apresentaçªo dessas experiŒncias sistematizadas e pesquisadas colocam um ponto final. É claro que trata-se de um ponto final só no carÆter de alternativo. Sabemos bem que estamos no início. Plantªo tem ainda muito em que crescer para exprimir toda sua potencialidade. Os primeiros frutos maduros apresentam o Plantªo; e sabemos, agora mais do que nunca, que vale a pena cultivÆ-lo, que hÆ terreno propício, que hÆ horizonte amplo onde mirar. Bom terreno, boas sementes, bons frutos... : bom proveito! 15 O Plantªo Psicológico no Instituto Sedes Sapientiae O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae: uma proposta de atendimento aberto à comunidade Raquel Wrona Rosenthal No final da dØcada de 70, parte do grupo de profissionais que antes se reunia como Grupo de Psicologia Humanista, decide constituir no Instituto Sedes Sapientiae, o Centro de Desenvolvimento da Pessoa, CDP. Estimulado pelo entusiasmo de Rachel Lea Rosenberg, o CDP desenvolvia programas de estudos teóricos, grupos de supervisªo e reflexªo sobre a prÆtica clínica, promovia workshops abertos ao pœblico, ciclos de encontros de profissionais paulistas e tambØm encontros nacionais, constituindo-se em importante referŒncia para os interessados em discutir e aprofundar o conhecimento da ACP, Abordagem Centrada na Pessoa. Sempre atenta ao potencial transformador da ACP, considerando tanto a dimensªo individual quanto a social / comunitÆria, Dra. Rosenberg propıe a criaçªo de um serviço de Plantªo de Psicólogos, inspirado nas experiŒncias das walk-in clinics, surgidas nos Estados 16 Plantªo Psicológico: novos horizontes 1 ROGERS, Car l Ramson. As Condi- çıes necessÆrias e suficientes para a mudança terapŒu- tica da personali- dade. In: WOOD, John Keith et alii (Org.s). Aborda- gem centrada na pessoa, Vitória: Fundaçªo Ceciliano Abel de Almeida / Universidade Fede- ral do Espírito San- to, 1995, p.157-179. 2 ROGERS, Car l R a m s o n . Psicoterapia e consulta psico- lógica , 1“ “ ed . , Sªo Paulo: Martins Fontes, 1987 (Cole- çªo Psicologia e Pedagogia), p.207- 208. Unidos para prestar atendimento imediato à comunidade. AtØ entªo o Serviço de Aconselhamento Psicológico, no Instituto de Psicologia da USP, sob sua coordenaçªo, jÆ vinha oferecendo o que chamava plantªo, e que consistia, naquele caso,em uma disponibilidade mais atenciosa de recepçªo aos clientes que procuravam inscriçªo para atendimento regular em aconselhamento psicológico. Daí surgiram as primeiras reflexıes sobre as potencialidades de um serviço de Plantªo Psicológico: o poder transformador da escuta atenciosa, nªo diretiva, centrada no cliente, confiante na tendŒncia ao desenvolvimento das potencialidades inerentes à pessoa (tendŒncia atualizante), e na possibilidade dessa tendŒncia ser estimulada, mesmo atravØs de um œnico encontro com o profissional, desde que este œltimo possa oferecer sua presença inteira, atravØs de sua própria congruŒncia, capacidade de empatia e aceitaçªo incondicional do outro, atitudes pilares da ACP. 1 É de Carl Rogers, o criador a Abordagem Centrada na Pessoa, a ponderaçªo: Se atendermos à complexidade da vida humana com olhar justo, temos que reconhecer que Ø altamente improvÆvel que possamos reorganizar a estrutura da vida de um indivíduo. Se pudermos reconhecer este limite e nos abstivermos de desempenhar o papel de Deus, poderemos oferecer um tipo muito precioso de ajuda, de esclarecimento, mesmo num curto espaço de tempo. Podemos permitir ao cliente que exprima seus problemas e sentimentos de forma livre, e deixÆ-lo com o reconhecimento das questıes que enfrenta. 2 Muitas pessoas, em determinada circunstância de suas vidas, poderiam se beneficiar ao encontrar essa interlocuçªo diferenciada, que lhes propiciasse uma oportunidade tambØm de escutar a si mesmos, 17 O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae 3 INSTITUTO S E D E S SAPIENTIAE: Carta de Princípios, s/d (mineo.). identificando e reconhecendo seus próprios sentimentos e possibilidades de auto direçªo, no momento em que enfrentam a dificuldade, sem que necessariamente tenham que se submeter a atendimento sistemÆtico, prolongado, como tradicionalmente oferecem as psicoterapias. Coube a mim a coordenaçªo e supervisªo do Plantªo de Psicólogos do CDP, oferecido pela primeira vez em agosto de 1980, como um dos chamados cursos de expansªodo Instituto Sedes Sapientiae. O curso tinha duraçªo semestral, e prestava, atravØs de seus alunos, atendimento psicológico aberto à populaçªo. O Instituto Sedes Sapientiae ou Sedes, como hoje o chamamos, fundado em Sªo Paulo em 1975, Ø um importante centro de prestaçªo de serviços, ensino e pesquisa ligados às Æreas da Psicologia e da Educaçªo, tendo como compromisso assumir sua parcela de responsabilidade na transformaçªo qualitativa da realidade social, estimulando todos os valores que acelerem o processo histórico no sentido de justiça social, democracia, respeito aos direitos da pessoa humana 3 Feliz associaçªo de ideais, nosso Plantªo tinha lugar certo para acontecer! As atividades iniciaram-se pela seleçªo dos plantonistas. Os critØrios adotados pediam que fossem psicólogos, que conhecessem os fundamentos da ACP, que tivessem experiŒncia mínima de um ano em atendimento clínico e estivessem especialmente sensibilizados pela natureza do serviço proposto. ContÆvamos com um grupo de doze plantonistas e uma supervisora e estabelecemos o horÆrio das 20 às 22 horas, às segundas e quintas-feiras 18 Plantªo Psicológico: novos horizontes 4 BELLAK, Leopold & SMALL, Leonard. Psicoterapia de EmergŒncia e P s i c o t e r a p i a Breve, Porto Ale- gre: Artes MØdicas, 1980. para os atendimentos e nossas reuniıes. Dedicamos aproximadamente um mŒs e meio ao planejamento e à divulgaçªo do novo serviço, período em que pudemos compartilhar nossas expectativas e fantasias, aplacando nossa ansiedade, acentuada pela ausŒncia de bibliografia específica sobre plantªo psicológico. Nªo havia qualquer mençªo, nas diversas bibliotecas especializadas que consultamos, às walk-in clinics das quais Rachel Rosenberg nos falara. Sabíamos que a possibilidade de psicoterapias de curta duraçªo vinha sendo considerada por autores que adotavam diferentes abordagens, como por exemplo, os trabalhos de Bellak e Small, 4 de orientaçªo psicanalítica. As Psicoterapias Breves vinham tendo, desde a dØcada de 70, grande implemento e pesquisa, mas nada de sistemÆtico havia sobre outras experiŒncias de curta duraçªo ou mesmo de sessıes œnicas de atendimento. Dra.Rosenberg, ao refletir sobre variaçıes no tempo de atendimento, apontava o carÆter preventivo de uma intervençªo no momento oportuno: A duraçªo prevista para um atendimento possivelmente eficaz em terapia tem sofrido modificaçıes de vÆrias espØcies. Comprovaçıes empíricas de resultados satisfatórios justificam o uso de atendimentos com um nœmero prØ-determinado ou mÆximo de horas. Cria-se uma metodologia específica para este tipo de atendimento em linhas teóricas variadas [...], o atendimento de curta duraçªo se insere como aplicaçªo natural, bem sucedida e cada vez mais utilizada. Mesmo no caso de problemas graves ou dificuldades antigas, conclui-se que o princípio de tudo-ou-nada ou seja ,terapia profunda e prolongada ou nenhuma assistŒncia psicoterÆpica nªo tem real validade. Especialmente em pontos 19 O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae 5 ROSENBERG, Rachel Lea. Terapia para Agora. In ROGERS, Carl Ramson & R O S E N B E R G , Rachel Lea. A Pessoa como Centro, Sªo Paulo: E.P.U., 1977, p.52. 6 Madre Cristina, nascida CØlia SodrØ Dória, cônega de Santo Agostinho, educadora, psicó- loga e fundadora do Instituto Sedes S a p i e n t i a e , personalidade ines- quecível para a Psicologia e para a História brasileiras. críticos do desenvolvimento ou da vivŒncia, uma intervençªo adequada tem, alØm de efeitos terapŒuticos, carÆter preventivo de conflitos maiores posteriores. 5 Alguns alunos supunham que, devido ao carÆter imediato do atendimento, certamente receberíamos muitos clientes em crise emocional aguda e insistiam na necessidade de contarmos com um psiquiatra plantonista. Precisamos esclarecer que nossa proposta nªo era criar um serviço para emergŒncias psiquiÆtricas e sim oferecer escuta imediata, recebendo a pessoa no momento da dificuldade, sem que necessariamente a intensidade dessa dificuldade tivesse atingido um ponto crítico que representasse ameaça iminente à sua integridade ou à de outros; nªo era destinado ao suicida em potencial, como sugeria a divulgaçªo recente do CVV, Centro de Valorizaçªo da Vida, cuja equipe de plantonistas era constituída por leigos em psicologia e prestava atendimento inicial por telefone. Por precauçªo, tratamos de pesquisar e organizar uma relaçªo de instituiçıes e serviços particulares de psiquiatria, caso viØssemos a necessitar. A preocupaçªo de Madre Cristina 6 era de que o novo serviço nªo viesse aumentar as jÆ enormes filas de espera para psicoterapia naquela clínica, tªo solicitada devido à tradicional qualidade dos serviços prestados. Insistíamos em esclarecer que a intençªo nªo era fazer triagem, embora pudØssemos, eventualmente, realizar encaminhamentos. O Plantªo Psicológico nªo foi concebido como uma alternativa tampªo para acabar com filas de espera em serviços de assistŒncia psicoterapŒutica, jÆ que nªo pretende substituir a psicoterapia. Nªo acreditamos que uma œnica sessªo seja capaz de resolver sØrios problemas emocionais ou promover resultados reconstrutivos da personalidade. Somente mais tarde Ø que viemos a descobrir as possibilidades terapŒuticas do plantªo. 20 Plantªo Psicológico: novos horizontes 7 um destes cartazes e n c o n t r a - s e digitalizado no CD- ROM anexo ao livro. Fizemos vÆrias reuniıes em torno de aspectos Øticos das formas de divulgaçªo: tratava-se de uma nova proposta e aberta à comunidade em geral. Como divulgÆ-la, transmitindo sua originalidade e acessibilidade, sem banalizÆ-la? Optamos pela impressªo de cartazes 7 , que foram afixados em diversas escolas, igrejas,hospitais, bibliotecas pœblicas e faculdades com o destaque: Psicólogos de Plantªo e o texto: Somos um grupo de psicólogos prontos para ouvir, trocar idØias, esclarecer dœvidas. Enfim, estar com vocŒ no momento em que sentir que um psicólogo pode ajudar. Seguia-se o nome da psicóloga responsÆvel e seu nœmero de inscriçªo no CRP, o endereço e horÆrios do atendimento. Os plantonistas visitaram as salas de aula do Sedes onde se desenvolviam outros cursos, para anunciar o atendimento e esclarecer dœvidas a respeito. Os primeiros a nos procurar foram justamente alguns alunos desses cursos, uns motivados por questıes pessoais, outros, pelo interesse profissional em conhecer melhor o Plantªo. Houve uma divulgaçªo num programa da TV Cultura, uma reportagem extensa que entrevistou plantonistas e supervisora, e que, infelizmente, só foi ao ar às vØsperas da interrupçªo do serviço devido às fØrias. Este fator diminuiu o impacto de sua repercussªo, pois os clientes que nos procuraram em seguida à ediçªo do programa da TV nªo puderam ser atendidos. O jornal Folha de Sªo Paulo publicou reportagem do jornalista Paulo SØrgio Scarpa sobre o Plantªo Psicológico, destacando sua utilidade pœblica. Interessante assinalar que a seçªo onde se inseriu a matØria 21 O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae 8 Estas matØrias se encontram digita- lizadas no CD-ROM anexo ao livro. intitulava-se A Folha e as respostas da sociedade à crise(07/11/81). Outras mençıes ao serviço jÆ haviam sido feitas por esse mesmo jornal, em ediçªo de 16/01/ 81 e em seu caderno Folhetim, cuja ediçªo ,em 20/ 09/81, era dedicada ao tema Desemprego e Insegurança 8 . Hoje, passados 19 anos, podemos reconhecer, com tristeza, a atualidade desses temas. O primeiro grupo de doze plantonistas trabalhou de agosto a dezembro de 1980, dividido em sub-grupos de seis que se alternavam entre atendimento e supervisªo: enquanto metade prestava plantªo às segundas- feiras, a outra parte reunia-se para supervisªo; às quintas-feiras, invertiam-se as funçıes. A supervisªo tambØm era acessível ao plantonista durante o transcorrer de um atendimento, caso precisasse dela. A duraçªo de uma sessªo de atendimento poderia variar de uma a duas horas, dependendo de haver ou nªo outros clientes à espera. Dispœnhamos de sete salas, sendo seis destinadas ao atendimento e uma para as reuniıes de supervisªo. Madre Cristina, confiante na importância da iniciativa, ofereceu-se para recepcionar os clientes. Assim, quem procurava o Plantªo Psicológico, mesmo nas noites mais frias do inverno, encontrava-a logo à entrada do Sedes, sentada atrÆs de uma pequena mesa, apoiada num travesseiro para respaldar suas costas, que tªo vigorosamente suportaram, com coragem e dignidade, as pressıes da luta por justiça social em nosso país. Cabia a ela indicar ao cliente o andar e a sala de atendimento, o que fazia com calor e firmeza, jÆ despertando nele uma disposiçªo receptiva ao encontro com o profissional. No primeiro semestre de 1981 foi feita nova seleçªo de plantonistas e alguns dos ex-alunos, entusiasmados que estavam, se re-inscreveram. 22 Plantªo Psicológico: novos horizontes Novamente, para o terceiro curso, no segundo semestre de 1981, tivemos re-inscriçıes. Em 1982 nªo foi renovada a proposta. A supervisora, preparando-se para sua terceira gravidez, embevecida que estava pelo novo, decidiu-se pela dedicaçªo mais intensa às suas filhas, enquanto se afastava do Sedes, levando muito para refletir a respeito de seus plantıes e suas plantinhas. Mais tarde, Ø convidada a oferecer Plantªo Psicológico aos funcionÆrios do mesmo instituto, atividade que desenvolveu atØ dezembro de 97. Esse convite atesta o reconhecimento da importância da proposta e a repercussªo que o Plantªo Psicológico alcançou dentro daquela instituiçªo . Trataremos aqui de apresentar como foi desenvolvido o Plantªo Psicológico aberto à comunidade. OS CLIENTES Nos trŒs semestres do Plantªo de Psicólogos, realizamos 145 atendimentos, sendo 28 retornos. Tínhamos estabelecido trŒs retornos como possibilidade mÆxima para cada cliente no mesmo semestre. Entendíamos que, caso nos procurasse com maior freqüŒncia, isto indicaria a conveniŒncia de encaminhÆ- lo à psicoterapia. Tínhamos uma relaçªo de instituiçıes que prestavam atendimento gratuito, como era nosso caso, e tambØm uma relaçªo de psicoterapeutas dispostos a trabalhar por honorÆrios simbólicos. Das 117 pessoas que nos procuraram, 52% eram mulheres e 48% homens. Predominaram os solteiros; o nível de escolaridade dos clientes variou de semi- alfabetizados a curso superior completo; 17% eram profissionais liberais (advogado, economista, psicólogo, fisioterapeuta), e o restante composto por outras ocupaçıes (escriturÆrio, comerciÆrio, comerciante, motorista, vendedor, feirante, office-boy, tØcnicos em 23 O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae serviços diversos). Procurou-nos tambØm uma pessoa que declarou como ocupaçªo, ser pedinte. Meses depois, a plantonista que o atendeu o encontraria num dos ônibus urbanos, recolhendo esmolas entre os passageiros. Após cada atendimento, era solicitado ao cliente que depositasse numa urna um comentÆrio escrito, sem necessidade de se identificar. Dos 68 depoimentos recolhidos, destacamos alguns, para ilustrar a repercussªo imediata ao encontro: Eu nunca havia participado de uma entrevista com psicólogos. Fiquei atØ com receio pois nªo sabia como iria iniciar a conversa. Entretanto, foi mais fÆcil do que imaginava. O à vontade com que a psicóloga conduziu o bate-papo propiciou-me externar praticamente tudo o que vinha me inquietando, chegando mesmo a tirar conclusıes ou elucidar dœvidas com o simples desabafo de minhas preocupaçıes. Senti-me pois tªo satisfeita como se tivesse recebido um presente de Natal . Nªo acho que o atendimento recebido tenha resolvido o meu problema, mas tenho plena convicçªo de que abriu- me algumas portas, deu-me algumas luzes e fez-me refletir. Creio que agora estou mais apto a resolvŒ-lo e muito otimista por saber que posso. Acho que existem muitas pessoas que deveriam fazer esta prØ-anÆlise antes de se definir pelo terapeuta. Nªo fez minha cabeça. Como Ø bom ter e sentir que podemos sentar e conversar com uma pessoa. Falar de nossos problemas sem pensar que vamos ser censurados. 24 Plantªo Psicológico: novos horizontes Achei ótima a idØia desse Plantªo. Psicólogos ouvindo pessoas em casos de emergŒncia emocional. Deve continuar e se expandir em vÆrios locais e ser divulgado e ensinado, dado como curso nas escolas de Psicologia. Acho essa iniciativa muito vÆlida e isso, acredito eu, vem a ressaltar ainda mais o papel, ainda que às vezes reprimido do psicólogo na sociedade. Acredito que mesmo sendo um só encontro, estes 50 ou 60 minutos que sejam, nossas 23 horas restantes e dias posteriores serªo melhores. De maneira geral, os comentÆrios aludiam à importância de ser ouvido, faziam referŒncias ao alívio pelo desabafo, sugeriam que o atendimento deveria ser pago, apontavam a necessidade de maior divulgaçªo do serviço e a ampliaçªo dos horÆrios de atendimento e alguns revelaram frustraçªo da expectativa de que pudessem receber atendimento prolongado. OS PLANTONISTAS Os plantonistas se referiam com freqüŒncia à sua experiŒncia como estagiÆrios durante o tempo da faculdade, declarando o quanto sofreram ao se desligar do cliente por ocasiªo da conclusªo do curso de graduaçªo. Agora, a questªo do vínculo, a separaçªo do cliente, a ansiedade em funçªo desse œnico encontro, a imprevisibilidade quanto a outra oportunidade (sessªo seguinte) para eventual reparaçªo de sua atuaçªo, tudo era discutido sistematicamente nas supervisıes. Suponho que uma das conseqüŒncias dessas dificuldades dosalunos foi o nœmero de encaminhamentos realizados e a quantidade de intervençıes de natureza diretiva, com tendŒncia a oferecer respostas e sugestıes. Outra questªo diz respeito à superaçªo do estereótipo de que uma relaçªo de ajuda psicológica 25 O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae deva se estender no tempo, de que profundidade e intensidade sejam diretamente proporcionais à duraçªo do atendimento. A possibilidade de que uma intervençªo de natureza breve pudesse ser suficiente para o cliente nªo era claramente percebida pelos alunos, limitaçªo que podemos atribuir à formaçªo que receberam nos cursos de Psicologia, onde a habilitaçªo do psicólogo estava mais voltada para a atividade clínica da psicoterapia ou do psicodiagnóstico atravØs de testes. TambØm em relaçªo às intervençıes diretivas observamos, muitas vezes, que o sentimento de impotŒncia do plantonista diante de clientes de menor poder aquisitivo, levou-os a adotar atitudes paternalistas e, de certa forma, desvalorizantes para o cliente; houve casos em que o aluno procurava encontrar soluçıes imediatas, dar conselhos e sugestıes ou mesmo insistir em encaminhamentos muitas vezes nªo percebidos como necessÆrios pelo próprio cliente. Liesel Lioret, psicóloga que pouco tempo depois iniciaria tambØm como supervisora o atendimento psicológico do tipo plantªo em postos de saœde atravØs da Clínica das Faculdades Sªo Marcos, fez a seguinte reflexªo sobre sua experiŒncia: A questªo dos valores do psicólogo Ø importante em qualquer processo psicoterapŒutico, mas quando se trata de sua vontade de ajudar pessoas com problemas de subsistŒncia, a visªo que ele tem da pobreza e de seu próprio lugar na sociedade modela seus objetivos explícitos e implícitos e suas atitudes. O psicólogo tem a tendŒncia a se preocupar mais com o como de sua atuaçªo do que com o porquŒ, ou seja, com as implicaçıes pessoais e ideológicas de suas intervençıes. Por exemplo, nªo terÆ a mesma postura se acredita que uma tomada de consciŒncia individual possa ser um fator de mudança, ou se acredita que somente uma mudança social e política possa trazer 26 Plantªo Psicológico: novos horizontes 9 Extraído de rela- tório pessoal nªo publicado (1982). ParÆgrafo aqui reproduzido sob permissªo da autora. soluçıes para as situaçıes individuais.[...] Ele deve, mais do que nunca, estar atento às incongruŒncias de seus sentimentos com os pressupostos intelectuais: atØ que ponto ele realmente confia nos recursos da pessoa para enfrentar suas dificuldades e modificar seu mundo? 9 O SERVI˙O E O CURSO Quanto à estruturaçªo do serviço, que acompanhava o calendÆrio dos cursos do Instituto Sedes Sapientiae, percebemos que a proposta semestral, com constantes interrupçıes devido às fØrias, alØm de truncar o afluxo de clientes, tornava muito curto o período de preparaçªo do plantonista, preparaçªo que nos parece requerer bastante empenho, especialmente no que diz respeito às bases conceituais da Abordagem Centrada na Pessoa e aos valores pessoais do profissional. Isto pôde ser confirmado pelo nœmero de re-inscriçıes dos alunos para os semestres seguintes, evidenciando que nªo só reconheciam a relevância e efetividade do Plantªo Psicológico, como tambØm a consciŒncia que tinham da necessidade de aperfeiçoamento. O tempo breve da relaçªo com o cliente talvez torne mais perceptível, tanto para o supervisor como para o próprio aluno, o grau de consistŒncia na adoçªo da ACP como referencial para sua atuaçªo. A ausŒncia de solidez na atitude centrada na pessoa prejudicarÆ a qualidade da relaçªo de ajuda, gerando no plantonista comportamentos incongruentes e condutas diretivas ALGUMAS CONSIDERA˙ÕES SOBRE O PLANTˆO Nossas próprias descobertas antecipam o que diria mais tarde o rabino e escritor Nilton Bonder: A grande descoberta deste sØculo para as CiŒncias Humanas Ø a descoberta terapŒutica da escuta. Nªo hÆ melhor entendimento que alguØm possa nos prestar do 27 O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae 10 BONDER, Nilton Elul, O mŒs da escuta, Kol Boletim Informativo da Comunidade Judaica do Brasil, Rio de Janeiro, Ano III, n.7, agosto 1998, p.1. que servir-nos de ouvido para as falas baixas e quase imperceptíveis de nossa existŒncia 10. Ouvir pode sugerir uma atitude passiva, mas nªo Ø. Ouvir implica acompanhar, estar atento, estar presente. Presença inteira. Que quer dizer presença inteira? Todos sabemos o que significa presença parcial. Quantas vezes duvidamos que nosso interlocutor esteja realmente nos ouvindo? Mesmo que alguØm, ao ser questionado VocŒ estÆ mesmo me ouvindo? seja capaz de repetir literalmente aquilo que acaba de ouvir, a repetiçªo soarÆ vazia, oca de sentido, se sua presença estiver cindida. Ser capaz de repetir neste caso nªo significa ser bom ouvinte. É sutil, mas às vezes podemos atØ perceber, sem mesmo ter consciŒncia de que percebemos - pela própria densidade de olhar do outro, pelo tipo de brilho desse olhar - a denœncia da parcialidade da presença. Um olhar nosso ao olhar do interlocutor poderÆ revelÆ-la. A repetiçªo, mesmo quando se torne uma reproduçªo, isto Ø, quando procure re-produzir, sintetizando o conteœdo daquilo que foi ouvido, eventualmente em outras palavras, torna-se oca, Ø apenas e simplesmente um eco. Eco, a ninfa da mitologia grega, evitava a companhia dos homens e dos deuses e nªo se importava com o Amor. Pª, apaixonado por ela e irritado com sua indiferença, fez que os pastores da regiªo a despedaçassem, espalhando os despojos pelas campinas. Eco, dispersada por muitos lugares, limita- se a repetir os sons que se produzem por perto. Ouvir realmente, e nªo apenas ecoar, requer concentraçªo do plantonista (terapeuta, ouvinte etc.). Nªo Ø possível ouvir estando disperso como Eco. E nªo estou me referindo a concentraçªo apenas como capacidade de focalizar a atençªo (no cliente ou na fala do cliente), mas quero ressaltar a concentraçªo do terapeuta em si mesmo. 28 Plantªo Psicológico: novos horizontes Proponho refletirmos sobre concentraçªo como congruŒncia. Parece estranho? CongruŒncia pode ser entendida como o alinhamento de vÆrias esferas sobre um mesmo eixo. Psicologicamente falando, significaria ter as dimensıes do pensar, sentir e agir, alinhadas em torno do mesmo eixo, ter todos os centros num mesmo centro. CongruŒncia Ø portanto con-centraçªo, tomar dentro de si como œnico centro, o mesmo eixo de alinhamento. É alinhamento interno, concentraçªo, presença inteira. A Abordagem Centrada na Pessoa, enfatizando as qualidades da relaçªo (aceitaçªo incondicional, empatia e congruŒncia) como fator mobilizador do crescimento (tendŒncia atualizante) se confirma como perfeito referencial para o Plantªo Psicológico, modalidade de atendimento que vem abrir tambØm novas perspectivas de contribuiçªo social para o psicólogo. Relembrando a expressªo tªo rica de sentidos do Prof. Miguel Mahfoud, podemos confirmar o Plantªo Psicológico como presença que mobiliza. 29 Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia 1 O presente texto foi originalmente apresentado no VIII Encuentro Latino- americano del Enfo- que Centrado en la Persona, promovido pela Universidade Iberoamericana da Cidade do MØxico e pela Universidade Autônoma de Aguascalientes, em Aguascal ientes , MØxico, em 1996, com apoio da FAPEMIG. Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia Miguel Mahfoud O desempenho profissional Ø fruto possível de raízes filosóficas, e Ø verdade que se conhece a Ærvore pelos frutos. Mas se o fruto-desempenho profissional nªo morrer, ficarÆ só; se morrer um pouco, para uma reflexªo mais profunda e para se misturar com o que dÆ vida, produzirÆ cem por um. Por isso quero agradecer a possibilidade de compartilhar experiŒncias1 , a oportunidade de pensar um pouco mais no que faço; oportunidade de me enriquecer pela consciŒncia de que tambØm eu fui plantado e que tambØm eu sou Ærvore com raiz e fruto, e oportunidade de comunicar. O sentido mais profundo do fruto nªo Ø semear de novo? A Educaçªo tem pedido tØcnicas à Psicologia. Mas o risco Ø o de nªo se clarear a finalidade geral da educaçªo, respondendo segundo objetivos precisos mas inadequados a essa finalidade. Ou seja, o risco Ø o de nªo explicitarmos (nem a nós mesmos) que a 30 Plantªo Psicológico: novos horizontes finalidade da educaçªo Ø a formaçªo da pessoa, e querermos responder a tantas demandas com diversos objetivos definidos (aumento do rendimento escolar, auxílio na expressªo verbal e escrita, aplacamento de comportamentos anti-sociais...) que podem nos ocupar muito, podemos atØ obter resultados, mas poderíamos ainda assim nªo estar respondendo à verdadeira finalidade da educaçªo. Se a explicitarmos, daremo- nos a oportunidade de que ela ilumine objetivos, mØtodos e tØcnicas. E, ainda mais importante, daremos a nós mesmos a oportunidade de sermos educadores, isto Ø, testemunhas de uma consciŒncia ampla possível, que jÆ começa a ser uma rota de orientaçªo dentro da desorientaçªo cultural em que vivemos, e que as nossas crianças e adolescentes nªo tŒm como evitar. É nesse sentido que um pouco ousadamente evitei assumir uma funçªo psico-pedagógica na escola em que trabalhei. É preciso salientar que ali tínhamos uma condiçªo de trabalho incomum, nªo sendo chamados a desempenhar as funçıes de orientaçªo educacional, ou coordenaçªo pedagógica ou disciplinar - funçıes estas exercidas por outros profissionais. Pude entªo me preocupar com uma contribuiçªo propriamente psicológica no âmbito escolar. Devido à minha formaçªo marcada pela Abordagem Centrada na Pessoa logo quis que tambØm na escola a psicologia pudesse contribuir primeiramente constituindo um espaço para o aluno como pessoa. Um espaço onde se retomasse a finalidade da educaçªo atravØs da formaçªo da pessoa naquele contexto, assim como Ø, com todos os seus recursos e limites, jÆ. Em um contexto institucional cristalizado e tantas vezes inevitavelmente partícipe da desorientaçªo cultural que todos vivemos, eu quis ser psicólogo e educador ao testemunhar o valor e a potŒncia inovadora e criadora da pessoa que cresce com consciŒncia de si e da realidade. 31 Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia 2 Cf. MAHFOUD, Miguel. A VivŒncia de um Desafio: Plantªo Psicoló- gico. In Rosenberg, R.L.(Org.), Acon- selhamento Psi- cológico Centra- do na Pessoa, Sªo Paulo: EPU, 1987, pp.75-83. (SØrie Temas BÆsi- cos de Psicologia, Vol. 21) Assumindo isso como finalidade, a tØcnica de atendimento breve que tem sido chamada de Plantªo Psicológico 2 serviu como mØtodo de presença entre os alunos e professores. Sabemos bem que a imagem de um Serviço de psicologia dentro da escola Ø visto por todos como algo muito diferente disso que propomos, e assim quisemos afirmar essa nova ótica para todos, mas principalmente - e a partir - dos alunos, a quem aquele Serviço de psicologia queria servir. Preparamos, entªo, folhetos de divulgaçªo da proposta, que penso possam ajudar a explicar a vocŒs tambØm um pouco do que vem a ser um Plantªo Psicológico na escola. Aos alunos de nível colegial foi entregue um folheto com trechos da mœsica Quase sem querer do grupo Legiªo Urbana, e alguns comentÆrios apresentando o Plantªo Psicológico. Trazia os seguintes dizeres: Tenho andado distraído, Impaciente e indeciso E ainda estou confuso. ... Quantas chances desperdicei Quando o que eu mais queria Era provar pra todo mundo Que eu nªo precisava Provar nada pra ninguØm ... Como um anjo caído Fiz questªo de esquecer Que mentir pra si mesmo É sempre a pior mentira. Mas nªo sou mais Tªo criança a ponto de saber Tudo. ... 32 Plantªo Psicológico: novos horizontes 3 As i lustraçıes dos panfletos apresentados neste capítulo sªo de Durval Cordas, a quem agradecemos a autorizaçªo para publicaçªo. Sei que às vezes uso Palavras repetidas Mas quais sªo as palavras Que nunca sªo ditas? de Quase Sem Querer (Dado Villa-Lobos/ Legiªo Urbana) PLANTˆO PSICOLÓGICO NO COLÉGIO uma ajuda para quem nªo quer viver desperdiçando chances (com os amigos, com a família, no colØgio...) um espaço para procurar ouvir em si as palavras mais profundas e verdadeiras. uma possibilidade para todo aluno que nªo quer viver quase sem querer. Os pedidos de encontro com o psicólogo podem ser feitos pessoalmente todas as 3as e 6as feiras nos intervalos da manhª na sala 45 (próximo à biblioteca e à informÆtica). Ou por escrito, todos os dias deixando na portaria do ColØgio um bilhete destinado ao psicólogo Miguel Mahfoud contendo seu nome, nœmero e classe, data e assinatura. Querendo, apareça! JÆ o folheto preparado e entregue aos alunos de nível ginasial foi o seguinte 3 : 33 Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia 34 Plantªo Psicológico: novos horizontes 35 Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia 36 Plantªo Psicológico: novos horizontes 37 Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia 38 Plantªo Psicológico: novos horizontes A resposta dos alunos foi bastante positiva. No início a curiosidade sobre minha pessoa e sobre o tipo de atendimento era o mais marcante, e vagarosamente foi se instalando como um espaço para as pessoas, mais do que para os problemas. Isso fez com que mesmo quando precisÆvamos chamar alguØm para conversar por pedidos da coordenaçªo pedagógica ou disciplinar, ou por pedido de algum professor, a disponibilidade de tratar dos problemas era jÆ diferente, porque o interesse era por ele, e nªo por suas notas ou comportamentos. Entªo atØ suas notas e comportamentos eram discutidos; suas queixas interminÆveis, ouvidas; mas sua pessoa continuava a ser o centro, e a resposta à situaçªo assim como Ø ainda cabe a ele, que pode agora ter alguØm a quem se referir, com quem se avaliar, em quem se apoiar. A consciŒncia ampla do educador ali frente ao aluno se traduz tambØm em disponibilidade e cumplicidade para que o aluno viva com realismo e com cuidado consigo mesmo. De modo geral isso Ø mobilizado rapidamente e o psicólogo permanece como referŒncia para o aluno na escola, tambØm para outras ocasiıes mais tarde, e a experiŒncia permanece como referŒncia dentro do aluno - espero para sempre. A consciŒncia de si e da realidade pede, antes de mais nada, discriminaçªo. Quem Ø quem na escola? Com quem vocŒ pode contar? Quais sªo os recursos disponíveis na rede de relacionamentos? Mas se provoco os alunos a estarem atentos à realidade e ao cuidado consigo mesmos e à sua presença na escola, Ø porque procuro fazer o mesmo ali. TambØm eu preciso discriminar bem, e aprender a reconhecer as diferentes contribuiçıes dos vÆrios professores e coordenadores que convivem muito mais diretamente com os alunos do que eu, e por isso podem ser um contato importante para o meu trabalho e para diferentes formas de ajuda a alunos em dificuldade. Eles podem 39 Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia 4 Este fo lheto encontra-se degita- lizado no CD-ROM que acompanha o livro. me dar feed-back de minhas intervençıes, podem cooperar quando tambØm eles se abrem a um tipo de compreensªo dos acontecimentos que considere o lado dos alunos e as outras dimensıes normalmente deixadas à margem da sala de aula. Na verdade a manutençªo desse tipo de proposta pede um empenho constante, e disponibilidade a manter um diÆlogo continuamente retomado com os professores, com os alunos e com o conjunto da instituiçªo - para se esclarecer a linha do trabalho, e para que se tenha atençªo com o sentido que o trabalho vai tomandopara a instituiçªo: COM OS PROFESSORES Quanto aos professores, Ø fÆcil que em um primeiro momento eles sintam que somos defensores dos alunos, e quase nos vejam como inimigos. Sentem- se incompreendidos. ChamÆ-los a colaborar conosco na atençªo com os alunos nem sempre Ø potente para romper aquela impressªo. Às vezes Ø preciso que eles vejam alguns passos que estªo sendo dados pelo aluno e que se liguem diretamente a seu trabalho. Dedicar-se a explicitÆ-los nem sempre Ø fÆcil, mas Ø sempre importante. COM OS ALUNOS Quanto aos próprios alunos, Ø importante retomar a proposta de que eles próprios podem nos procurar, e estar atentos às tensıes que nossa presença suscita entre eles, para poder lidar com elas tambØm enquanto escola no seu conjunto, alØm do âmbito de atendimento individual ou de pequenos grupos. Como exemplo, apresento a vocŒs um folheto 4 que lançamos quando uma outra psicóloga foi trabalhar comigo no ColØgio, e aproveitamos para lidar tambØm com a tensªo existente entre os alunos, ligada ao fato de que alguns deles se encontravam conosco. 40 Plantªo Psicológico: novos horizontes 41 Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia 42 Plantªo Psicológico: novos horizontes 43 Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia 44 Plantªo Psicológico: novos horizontes Assim, brincamos um pouco com a tensªo, e o projeto foi re-proposto. COM A INSTITUI˙ˆO Quanto à necessidade de recolocar continuamente a proposta, a nível institucional a questªo tambØm nªo Ø simples. Às vezes nos sentimos um pouco marcianos. Mas o trabalho vai sempre no sentido de responder às demandas da instituiçªo retomando sempre o ponto de partida da centralidade da pessoa. De fato, isso Ø muito desafiador e criativo. Criamos mØtodos e instrumentos novos ao procurar responder aos pedidos e necessidades da instituiçªo retomando a finalidade da educaçªo e as contribuiçıes da Psicologia. Gostaria de citar dois exemplos: 1) O primeiro se refere a um pedido que a direçªo da escola nos fez de nos ocuparmos de Orientaçªo Profissional, sugerindo a aplicaçªo de testes. Na nossa visªo, para aqueles alunos, o problema se localizava no tema da escolha. Sendo alunos de classe sócio-econômica A, poderiam escolher o que quisessem - mas na verdade nªo podem escolher porque nªo sabem o que querem, ou porque o caminho profissional jÆ estÆ traçado por herança familiar (a empresa da família, o consultório do pai...). Nªo queríamos aplicar testes, porque nªo os ajudaria em nada a enfrentar o problema de nªo se conhecerem, e o de assumirem conscientemente um caminho para si na vida e na sociedade. Nªo queríamos substituí-los nessa tarefa de escolha que Ø tªo importante, e assinala uma passagem para o mundo adulto. A atençªo a isso nos deu criatividade para utilizar, dentro de nossa abordagem, instrumentos criados a partir de outros parâmetro teóricos. Utilizamos textos da cultura brasileira, por exemplo o da mœsica Caçador de Mim (SØrgio Magro/Luís 45 5 Cf. MARTINS, C.R. Psicologia do Comportamento Vocacional. Sªo Paulo: EPU/EDUSP, 1978. 6 FRANKL, V. E. Psicoterapia e sentido da vida: fundamentos da logoterapia e anÆlise existen- cial . Sªo Paulo: Quadrante, 1973 Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia Carlos SÆ) como imagem da busca de si que aquele momento de escolha envolve; ou o poema Que Ø o Homem? de Carlos Drummond de Andrade para abrir espaço a uma pergunta sobre si e sobre o mundo num horizonte amplo. Mas desenvolvemos um novo mØtodo de Orientaçªo Vocacional adaptando o MØtodo de História de Vida apresentado por Julius Huizinga no IV Fórum Internacional da Abordagem Centrada na Pessoa, no Rio de Janeiro em 1989. Pedimos aos alunos para desenharem o grÆfico de sua história de vida, assinalando as experiŒncias mais significativas desde o nascimento atØ o momento presente, avaliando-as como positivas ou negativas em diferentes graus. Depois pedimos que redijam um texto apresentando um dia comum no futuro, cerca de 15 anos mais a frente. Desse trabalho Ø possível extrair o critØrio pessoal com o qual cada um deles olha, avalia e se engaja na própria vida. Entªo se propıe enfrentar a questªo da escolha profissional com aqueles critØrios pessoais, tendo em vista as profissıes que mais favoreceriam a expressªo e o desenvolvimento de suas características; ao invØs de perseguir a questªo de onde ele deveria se encaixar para poder ser feliz - questªo esta que parte de uma posiçªo alienada e alienante. Só depois de explicitados esses critØrio e mobilizado esse processo de busca Ø que utilizamos, eventualmente, testes de personalidade (como o de Pfister) e o Modelo de Holland 5 de grupos profissionais associados a características de personalidade. A proposta Ø a de enriquecer e ampliar a reflexªo sobre si como ser-no-mundo, œnico e irrepetível, 6 ao invØs de esperar daqueles instrumentos uma resposta. 2) Outro exemplo, para nós muito significativo, foi quanto à dificuldade da instituiçªo em trabalhar explicitamente a questªo das drogas, que preocupa muito a todos - direçªo, professores, pais e alunos. 46 Plantªo Psicológico: novos horizontes 8 MAHFOUD, Miguel & BRANDˆO, Sílvia Regina. Educaçªo Afetiva. In. I Con- gresso Interno do Instituto de Psicologia da USP, Sªo Paulo, 1991, p. Z6. 7 Cf. CARLINI, E.A.; CARLINI-COTRIN, B. & SILVA FILHO, A.R., Sugestıes para programas de prevençªo ao abuso de drogas no Brasil, Sªo Paulo: CEBRID, 1990. Frente à necessidade de um trabalho de prevençªo ao uso de drogas e frente às dificuldades institucionais de tratar do tema, nos pareceu mais adequado procurar utilizar o mØtodo que vem sendo chamado de Educaçªo Afetiva 7 , que procura modificar fatores pessoais considerados disponentes à utilizaçªo de drogas (como auto-estima, identidade, resistŒncia a pressªo de grupo etc.) sem necessariamente enfocar o tema drogas. Assim, Sílvia Regina Brandªo e eu elaboramos o primeiro material brasileiro de Educaçªo Afetiva 8 , sempre retomando a questªo da centralidade da pessoa, e abordando principalmente o tema da identidade a partir da existŒncia, do ser-no-mundo e o tema da conjugaçªo entre desejo e limite. SITUA˙ˆO DESAFIADORA Para terminar, eu nªo seria verdadeiro comigo mesmo se nªo citasse uma situaçªo que para mim tem sido muito difícil e desafiadora: trata-se da situaçªo de morte de alunos, em particular quando hÆ suspeita de suicídio. Por um lado retomo com muita força a questªo da finalidade da educaçªo no que se refere à formaçªo da pessoa e à formaçªo de uma consciŒncia ampla de si e da realidade. Uma morte assim nos coloca em xeque, tolhe a possibilidade de lutar e de construir com aquela pessoa, significa que ela nªo aceitou a referŒncia que quisemos propor e evidencia o mistØrio da liberdade do homem. Mas tambØm nesse momento a nossa contribuiçªo de adultos, educadores e psicólogos passa pela consciŒncia ampla que podemos testemunhar. E consciŒncia ampla nesse momento significa poder ficar frente ao mistØrio da vida e da morte, perplexos, ao lado dos adolescentes desorientados. E isso só Ø possível para nós adultos se com eles retomamos a œltima frase do caderno Educaçªo Afetiva: retomar 47 Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia sempre o que Ø importante para mim, me ajuda a fazer escolhas, me ajuda a verificar as pessoas e os grupos que mais podem me ajudar a nunca deixar de desejar e batalhar para ser feliz. Isso nªo Ø dado por nenhuma identidade social, por nenhuma formaçªo universitÆria e por poder algum. Isso só pode ser dado por uma companhia viva, de horizonte de vida amplo, à qual cada um de nós pode ou nªo aceitar pertencer. Passa por aí o sentido do nosso trabalho, que nªo serÆ dado pela instituiçªo em que trabalhamos, mas aocontrÆrio, serÆ a instituiçªo que crescerÆ com sentido se o carregarmos conosco ao vivermos ali. Parafraseando a introduçªo do caderno Educaçªo Afetiva, quero desejar a cada um de vocŒs o mesmo que desejo àqueles com quem trabalho: que tambØm o seu trabalho ajude a encontrarmos caminhos sempre novos - para cada um e para a convivŒncia entre nós - na constante batalha para ser feliz!. 49 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza 1 Expressamos o reconhecimento dos plantonistas que colaboraram em uma primeira siste- matizaçªo desta e x p e r i Œ n c i a : Alessandra R. Alvarenga, Ivana Carla B. C. Santos, Lil ian Rocha da Silva, Romina Magalhªes, Ronnara Kelles Ribeiro e Tânia Coelho de Alcântara. Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza Miguel Mahfoud Daniel Marinho Drummond Juliana Mendanha Brandªo Roberta Oliveira e Silva Comunicar uma experiŒncia1, explicitar seu mØtodo, ressaltar a potencialidade de uma proposta, dar visibilidade a um processo real: sªo objetivos do presente capítulo. Impactar-se com a força do possível que emerge de uma experiŒncia: eis a motivaçªo destas pÆginas. ExperiŒncia, Ø claro, se dÆ em tempo, espaço e contexto social determinados; e da compreensªo de seus elementos fundamentais depende a continuidade de sua presença mobilizadora ao longo do tempo. Na verdade, se assim nªo fosse, nem ao menos poderíamos chamÆ-la de experiŒncia. Procuramos, entªo, aqui, explicitar o palmilhar de um percurso feito. Compartilhado o caminho com o leitor, a continuidade da experiŒncia jÆ serÆ objeto de atençªo de todos nós, cada qual em seu tempo, espaço e contexto social. TEMPO, ESPA˙O E CONTEXTO SOCIAL Relatamos aqui a implantaçªo de um Serviço de Plantªo Psicológico em uma escola pœblica de segundo 50 Plantªo Psicológico: novos horizontes 2 A experiŒncia aqui relatada se deu em 1997. 3 Confira o capítulo Plantªo Psicoló- gico na escola: uma experiŒncia, de Miguel Mahfoud, neste mesmo livro. grau num bairro operÆrio na periferia de Belo Horizonte (MG) 2 , estabelecendo um campo de estÆgio da disciplina Aconselhamento Escolar: Plantªo Psicológico no curso de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais, a partir da proposta de Plantªo Psicológico no contexto escolar elaborada pelo professor 3 . Trata-se de uma aplicaçªo original cunhada em comum entre professor e estagiÆrios iniciada e levada a cabo com atençªo a potencializar os recursos pessoais e materiais que aquele grupo e aquela instituiçªo apresentavam. Trata-se, entªo, nªo de aplicaçªo mecânica de um novo modelo, mas de atualizaçªo de uma atençªo viva às pessoas que compunham a equipe, de maneira tal que atentas à própria experiŒncia se colocassem no contexto escolar mobilizando a mesma atençªo; de maneira tal que disponíveis ao encontro com o novo se inserissem na escola despertando o desejo de encontro e de crescimento que constitui todo homem; de maneira tal que atentos aos movimentos de transformaçªo e crescimento se desenrolando entre nós da equipe, se dispusessem a observar, acolher e facilitar, com curiosa e discreta abertura, cada movimento promovido no contexto institucional. Aquela escola específica foi escolhida por estar inserida em uma comunidade muito ativa em termos de movimentos sociais, comunitÆrios e culturais. A própria escola foi idealizada e construída pela comunidade local (construída enquanto instituiçªo mas tambØm enquanto espaço físico). Poder contar com esse perfil dinâmico e mobilizador da comunidade para o desenvolvimento do nosso trabalho foi uma das intençıes, de maneira tal que as relaçıes entre o atendimento individual, a instituiçªo e a comunidade em que estªo inseridos fossem objeto de atençªo; de maneira tal que o atendimento aos alunos dentro daquela escola pudesse concretamente contribuir 51 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza ainda que de maneira simples com um movimento social mais amplo que, por posicionamento político e cultural, valorizamos. Estabelecemos um contrato com a escola, atravØs de sua diretora, oferecendo um Serviço de atendimento em Plantªo Psicológico nas dependŒncias da escola, nos horÆrios normais de aulas, para receber alunos que solicitassem ajuda psicológica. Em contrapartida, a escola garantiria alguns aspectos fundamentais para o andamento do trabalho: espaço físico adequado para acomodaçªo dos estagiÆrios onde pudessem ser feitos os atendimentos; autorizaçªo aos alunos para saírem de sala de aula para procurar o Serviço; o nªo encaminhamento dos alunos ao Plantªo Psicológico por parte de professores e direçªo. Uma vez que para atingir nossos objetivos de mobilizar os alunos era fundamental abrir para eles um espaço em que a busca por ajuda pudesse ser livre de qualquer imposiçªo ou limitaçªo de horÆrios por parte da escola, era fundamental que eles tivessem a liberdade de procurar-nos no momento que fizesse mais sentido para eles, do modo que achassem melhor, para falar sobre o que desejassem. A diretoria da escola recebera de bom grado a proposta e sentia-se honrada em ser o pœblico nœmero um de um projeto piloto em Belo Horizonte, em conjunto com a nossa universidade. PREPARAR: DA APREENSˆO À ATITUDE DE ESCUTA PROFUNDA Habitualmente, ao se pensar em presença de psicólogos no contexto escolar emergem duas concepçıes: a da intervençªo psico-sociológica tradicionalmente considerada com planejamento a partir de uma leitura diagnóstica da instituiçªo e a da intervençªo de base clínica, voltada a favorecer a superaçªo de dificuldades localizadas no aluno, em seu desenvolvimento e/ou saœde mental. Essas concepçıes 52 Plantªo Psicológico: novos horizontes se apresentam insistentemente a quem se dispıe a adentrar aquele contexto, e a proposta de um modelo outro, baseado em acolher as demandas dos alunos enquanto pessoas normalmente desconhecidas antes que se inicie o trabalho e que procura acompanhar as ressonâncias institucionais de mobilizaçıes pessoais que se verificarªo só a partir da intervençªo nªo pode deixar de provocar apreensªo. A proposta de Plantªo Psicológico em si mesma jÆ requer uma abertura ao nªo-planejado; quando se acrescenta a vinculaçªo institucional a ser delineada no decorrer do processo, a exigŒncia de disponibilidade a acompanhar um processo sem um planejamento prØvio Ø ainda maior. Frente à inevitÆvel apreensªo, uma sugestªo: observar atentamente para conhecer; ouvir profundamente para facilitar a expressªo do que de mais significativo serÆ trazido a nós; estar realmente presente, disponível, e atentar à mobilizaçªo que pode nascer daí. Contato com literatura especializada e relatos de experiŒncias de intervençıes nessa modalidade de Aconselhamento Psicológico (cf. Mahfoud, 1987, 1989, 1992; Mahfoud, Morato & Eisenlohr, 1993), ajudaram que se estabelecesse uma posiçªo de ativo empenho com a proposta que Ø mesmo um tanto desconcertante , respaldados tambØm na literatura fundamental acerca da Abordagem Centrada na Pessoa elaborada por Rogers. A proposta era disponibilizar-se em termos de tempo e de escuta. Ou seja, os estagiÆrios comporiam uma equipe sempre presente na escola: estariam literalmente de plantªo ali à disposiçªo dos alunos, cobrindo todos os horÆrios de funcionamento daquela instituiçªo, disponíveis ao atendimento à pessoa do aluno no momento em que ele estivesse precisando de ajuda, nªo sendo assim necessÆrio marcar horÆrio com antecedŒncia e nªo estaria implicada necessariamente 53 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza uma continuidade de atendimento. O que dirige o percurso Ø a necessidade da pessoa, garantida a permanŒncia da disponibilidade da equipe de plantonistas e contando com a iniciativa dos próprios alunos buscarem atendimento quando fizer sentidopara eles. Mas afinal o que estaríamos oferecendo neste serviço? Um espaço onde o aluno pudesse buscar ajuda para rever, repensar e refletir suas questıes. O objetivo era possibilitar aos alunos a oportunidade de se cuidar, de estarem atentos ao que Ø realmente importante para eles naquele momento, e entªo de se posicionarem diante disso. O psicólogo neste tipo de serviço nªo estÆ ali atento a solucionar algum problema mas procura estar presente acolhendo a pessoa e escutando- a ativamente, possibilitando com isso que ela se mobilize frente à sua situaçªo; procura estar centrado na pessoa mais do que no problema. Esse momento de preparaçªo fora fundamental do ponto de vista do mØtodo, pois pôde ficar claro que ouvir escuta ativa, profunda Ø uma intervençªo, e que aquilo que verbalizamos para a pessoa, aquilo que pontuamos ou refletimos devolvendo para ela Ø uma intervençªo complementar à escuta, vem como que acoplada. A escuta, enquanto postura bÆsica, Ø saber ouvir o outro, estar preparado e disponível para receber a vivŒncia que estiver trazendo, tomando-a em sua complexidade original, em seus mœltiplos horizontes, de maneira tal a facilitar que a pessoa examine com cuidado as diversas facetas de sua experiŒncia. Essa escuta solicita de nós uma atençªo a uma multiplicidade de perspectivas, mas sobretudo requer uma atençªo à perspectiva que aquela pessoa escolhe ou pode no momento examinar para adentrar sempre mais profundamente na própria experiŒncia; e isso requer mais respeito ao caminho empreendido pela própria pessoa do que qualquer habilidade preditiva por parte do plantonista. Abertura ao novo 54 Plantªo Psicológico: novos horizontes incansavelmente emergente em cada pessoa que examina sua vivŒncia; abertura maravilhada diante do mistØrio da liberdade de cada ser humano, e daquele ali em particular: Ø o primeiro passo para entrar em contato com a realidade das pessoas. Nos permitimos entrar em contato com o ouvir nªo só do ponto de vista teórico (cf. Rogers, 1983; Amatuzzi, 1990) mas reconhecendo nossa experiŒncia, sabendo que estÆ em nós o recurso fundamental para facilitar que o outro se escute a si próprio. Reconhecemos, entªo, o fundamento do Plantªo Psicológico naquela atitude que propicia a facilitaçªo de um processo que Ø do cliente, e portanto a funçªo do psicólogo nªo Ø conduzir esse processo mas acompanhÆ-lo. Mas, na prÆtica, o que seria ouvir? O que representaria esse tipo de atençªo para com o outro ali diante de mim? Preocupaçªo primÆria e fonte de ansiedade para os iniciantes em atendimento psicológico, mas preocupaçªo e ansiedade em outra medida sempre presente tambØm para quem, por anos a fio, busca se colocar diante do outro com a abertura confiante necessÆria para que se dŒ um processo na direçªo do crescimento e da mobilizaçªo, para que se dŒ um processo de mudança em funçªo do sentido tªo próprio àquele que pede ajuda. E na supervisªo nªo poderia ser diferente: atentar para os recursos ali presentes, enquanto pessoa, e acolhŒ-los, sobretudo para que cada estagiÆrio pudesse descobrir-se como terapeuta no decorrer do contato com o outro, mobilizando seus próprios recursos afetivos e intelectuais. Todos nós, diante desse tipo de escuta, livres de interpretaçıes, generalizaçıes e prØ- concepçıes, estaríamos mais propícios a nos perceber e perceber o outro. O grande segredo Ø o aprendizado com a própria experiŒncia. E esse segredo se revela efetivamente só com o decorrer do próprio trabalho. 55 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza CONTATOS INICIAIS Nos primeiros contatos de toda a equipe do Plantªo Psicológico com a escola confirmamos, da parte deles, o interesse e a disponibilidade em colaborar. PorØm, jÆ de início eram perceptíveis as expectativas da instituiçªo quanto ao trabalho: a de que responderíamos a demandas prØ-definidas por eles, ligadas ao que consideravam ser os problemas mais graves, recorrentes e emergenciais como, por exemplo, abuso de Ælcool e gravidez na adolescŒncia. Nos parecia natural que frente à novidade da proposta, surgisse na escola juntamente à disponibilidade e abertura alguma dificuldade em colocar-se numa perspectiva diferente, centrada no aluno e a partir de um posicionamento diverso por parte da Psicologia. Demo-nos conta de que nªo era preciso que a escola entendesse, imediatamente, tudo o que iríamos fazer ali: o fundamental naquele momento Ø que aceitasse o desafio e possibilitasse nossa atuaçªo. Afinal, quem de nós sabia o que estava por vir? Era o início de nossa presença ali; e sabíamos que clarificar, continuamente, nossa proposta era mesmo parte de nosso trabalho. No vivo da interaçªo com a instituiçªo íamos repropondo e reafirmando os princípios e os fundamentos. Era imprescindível que fôssemos firmes em nossa proposta assim como nas exigŒncias necessÆrias para colocÆ-la em prÆtica. E entªo, melhor do que argumentar seria mostrar a que viemos. APRESENTANDO A PROPOSTA Organizamos uma apresentaçªo da equipe de plantonistas e de nossa proposta para os alunos que sabíamos ser œtil a todo o quadro da escola. Evitamos passar de sala em sala, ou reunir a todos para explicar o que Ø Plantªo Psicológico. A apresentaçªo da proposta ao pœblico interessado precisava ter impacto para marcar nossa presença e nosso trabalho entre eles, sem deixar 56 Plantªo Psicológico: novos horizontes tambØm de explicitar com clareza nosso objetivo. AlØm do quŒ, era preciso desmistificar a Psicologia, aproximÆ- la da realidade daqueles adolescentes, mostrando a eles que psicólogo nªo Ø pra doido, como muitas pessoas costumam pensar, mas para todos que tenham interesse em se conhecer melhor, olhar para si e se reconhecer em suas vivŒncias, cuidar para vivŒ-las de um modo mais saudÆvel e consciente; era preciso afirmar que estaríamos ali disponíveis para acompanhÆ-los em sua experiŒncia. Para alcançar tal objetivo elaboramos uma apresentaçªo que fosse clara e próxima dos alunos, procurando utilizar uma linguagem própria da idade deles e que pudesse abarcar ao mÆximo a realidade em que vivem. Utilizamos recursos musicais e teatrais pois, alØm de provocar certo impacto, era uma maneira em que nos sentíamos muito à vontade. EstÆvamos lançando mªo de nossos próprios recursos, oferecendo nossa disponibilidade, cada um podendo se colocar com o que tem para oferecer tornando o grupo uma equipe coesa e disponível, cada um com suas diferenças, facilitando assim que as diversidades se aproximassem. Essa forma de se apresentar aconteceu nos trŒs turnos, aproveitando o horÆrio do recreio, por considerarmos ser o momento em que poderíamos estar mais próximos dos alunos e para passar a mensagem que estÆvamos propondo um espaço realmente voltado a eles na escola. Preparamo-nos sem que os alunos soubessem; apenas a diretoria estava ciente do que iríamos fazer. Quando tocou o sinal para o recreio e os alunos começaram a sair das salas e se dirigirem para o pÆtio nós começamos a tocar uma mœsica e iniciamos a apresentaçªo, distribuímos panfletos com a letra de uma mœsica composta por nós e no verso uma explicaçªo do que seria o Plantªo Psicológico. Utilizamos algumas mœsicas jÆ conhecidas, com temÆtica bem jovem e atual, que traziam questıes propícias a se mobilizar em direçªo a se cuidar, como por exemplo as de Legiªo Urbana, Kid Abelha, 57 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza Lulu Santos, Ultraje a Rigor. Criamos tambØm algumas mœsicas-paródia e atØ compusemos O Rap do Plantªo. Seguem alguns exemplos: Rap do Plantªo Cheguei em casa da escola tô cansado de estudar Meu pai nªo me entende nªo adianta conversar Minha mªe me repreende nªo tenho com quem falar Liguei pra namorada e ela nªo estava lÆ Procurei por meus amigos Me disseram: Sai pra lÆ! NinguØm Quer me entender NinguØm Quer me responder Emminha cabeça tudo roda e eu nªo sei o que fazer Quem sou? De onde vim? Pra onde vou? O que fazer, o que fazer? Nªo consigo esclarecer tÆ difícil de entender Nªo consigo me acalmar tÆ difícil de aguentar Mil problemas me esquentam Mil questıes me atormentam E os outros no meu pØ Cada um com seu palpite Minha cabeça dÆ um nó E nªo hÆ quem acredite E eu? O que que eu faço desta vida? E eu? Qual vai ser a minha história? E eu? 58 Plantªo Psicológico: novos horizontes Reggae do Plantªo (Paródia de Pensamento, do grupo Cidade Negra) Eu preciso falar do que se passa aqui dentro Vou procurar o plantªo Preciso de alguØm que me escute e me entenda PrÆ eu tambØm me entender É este mundo É minha vida Quero mudar Quero aproveitar Quem nªo se cuida Nªo curte a vida Fica parado sem sair do lugar Exibem poesia as palavras de um rei Faça sua parte Que eu te ajudarei Twist do Plantªo (Paródia de Twist and Shout) Vou conversar no Plantªo (no Plantªo) Nªo sei se tem soluçªo (soluçªo) É um espaço pra mim (para mim) É disto que eu tô afim. Ah... Ah... Ah... Ah... Ah... Melô do Plantªo No plantªo falar Ø bªo Muito bªo (Repete 3x) Muito bªo. No plantªo falar Ø bªo. 59 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza 4 Uma breve ediçªo em vídeo de filma- gens feitas durante estas apresenta- çıes estÆ incluída no CD-ROM anexo ao livro. As mœsicas tambØm podem ser ouvidas jÆ integra- das ao vídeo ou atravØs de um CD- player convencio- nal (faixas 2, 3, 4, e 5) Pretendíamos criar um momento de apresentaçªo em que eles se reconhecessem e pudessem estar mais atentos à explicaçªo que iríamos dar posteriormente sobre o Serviço. Elaboramos uma dramatizaçªo que pudesse representar bem a vivŒncia de um adolescente incompreendido em sua própria casa e que por fim resolve buscar ajuda no Plantªo Psicológico como meio de pensar e refletir sobre suas questıes. De início os alunos pareciam espantados e aos poucos foram se ambientando, começaram a interagir conosco cantando as mœsicas e batendo palmas, e atØ mesmo dançando. Nos entremeios de uma mœsica e outra e o teatro íamos falando de forma espontânea quem Øramos nós e o que estÆvamos fazendo ali. Procuramos tocÆ-los no que diz respeito à vivŒncia de ser adolescente cheio de questıes, dœvidas, inquietaçıes e à dificuldade de contar com alguØm que possa estar junto com ele acompanhando-o nessa experiŒncia. EstÆvamos propondo a eles que uma maneira legal de se cuidar, de manter-se bem em meio aos problemas e dificuldades, Ø dar-se a oportunidade de falar dessas coisas, pensando sobre elas e sobre como eles podem estar vivendo de forma consciente cada situaçªo, podendo atØ passar a vŒ-la de modo diferente. Divulgamos assim o Serviço de forma descontraída sem perder a seriedade do nosso compromisso com a proposta. 4 OS ATENDIMENTOS E AS DEMANDAS No dia seguinte à apresentaçªo da proposta aos alunos, os estagiÆrios começaram a ficar de plantªo, na sala disponibilizada pela escola, e imediatamente os atendimentos começaram. Os estagiÆrios se dividiam pelos trŒs turnos de aulas, de segunda a sexta-feira, e tambØm no sÆbado de manhª, o que fazia com que sempre houvesse um ou dois estagiÆrios na sala do Plantªo, disponíveis para os alunos. 60 Plantªo Psicológico: novos horizontes Nos atendimentos procurÆvamos acompanhar a organizaçªo própria dos alunos, pois era centrando na experiŒncia destes que descobríamos como proceder. Esta atençªo ao movimento que os alunos faziam ao buscar o Plantªo Psicológico nos indicava como responder à este movimento. Sendo assim, o nœmero de alunos que participava de uma sessªo, a duraçªo desta, a marcaçªo de uma nova, e o próprio andamento de cada sessªo acompanhavam a necessidade do momento e nªo uma regra prØ-estabelecida. O que mantínhamos firme sempre era nossa disponibilidade para ouvi-los, ajudÆ-los a examinar sua experiŒncia, e a proposta de que o Plantªo Psicológico era para qualquer aluno que quisesse se cuidar. Atendemos entªo indivíduos e grupos, em uma ou mais de uma sessªo, que duraram de quinze minutos a uma hora e meia. Nos casos em que os alunos voltavam, sendo atendidos diversas vezes, e se percebia uma necessidade de ajuda que ia alØm da proposta de atendimento em Plantªo Psicológico (ver abaixo a categoria Incômodo com a maneira de ser e de reagir à situaçıes), nós os encaminhÆvamos para Serviços ou clínicas sociais que oferecessem psicoterapia a um baixo custo ou gratuitamente. Foram poucos os casos encaminhados, jÆ que na maioria nªo houve esta necessidade. Ao final do primeiro semestre, realizados atendimentos no período de abril a junho, havíamos atendido 11,9% do total de alunos da escola (124 de um total de 1035), em 134 sessıes (ver tabela I na próxima pÆgina). Note que o nœmero de alunos atendidos e de sessıes Ø diferente, jÆ que um aluno pode ter sido atendido em mais de uma sessªo e vÆrios alunos, em grupo, podem ter sido atendidos em uma œnica sessªo. Para chegarmos a este total de alunos atendidos contabilizamos as sessıes efetivas, (ou seja, aquelas em que os alunos haviam se movimentado frente à alguma questªo) deixando de lado, para efeito 61 Plantªo Psicológico na escola: presença que m obiliza TABELA I Dados quantitativos sobre cada turno ALUNOS MATRICULADOS Nœmero de alunos matriculados em cada turno % de alunos matriculados em relaçªo ao nœmero total de alunos da escola Nœmero de pessoas atendidas no turno Manhª ALUNOS ATENDIDOS ATENDIMENTOS (SESSÕES) % de pessoas atendidas no turno em rela-çªo ao total de alunos ma- triculados no mesmo turno % de pessoas atendidas no turno em re- laçªo ao total de pessoas atendidos na escola Nœmero de atendimentos no turno % de atendimentos no turno em relaçªo ao total de atendimentos na escola 423 40,9% 31 7,3% 25 36 26,9 Tarde 126 12,2% 46 36,5% 37,1 14 10,4 Noite 486 46,9% 47 9,7% 37,9 84 62,7 Total 1035 100% 134 100% 100% 124 100% 62 Plantªo Psicológico: novos horizontes de contagem, as situaçıes em que os alunos passavam rapidamente pela sala do Plantªo Psicológico para dizer olÆ, espiar, ou fazer um comentÆrio, e aquelas em que os alunos permaneciam conosco por algum tempo conversando fiado ou querendo saber mais sobre nossa proposta, fazendo perguntas do tipo O que Ø mesmo o Plantªo?. Vale dizer que algumas situaçıes como estas serviram como via de acesso à ajuda, ou seja, o aluno chegava como quem nªo quer nada para logo em seguida, jÆ ambientado, conseguir falar de si, transformando a visita em um atendimento, que era entªo contabilizado. Durante todo o semestre os atendimentos eram discutidos nos encontros semanais de supervisªo. Para cada sessªo ou atendimento era feito um relatório escrito. Nestes encontros, alØm dos atendimentos, conversÆvamos tambØm sobre a instituiçªo em seus diferentes âmbitos, ou seja, falÆvamos dos professores, da diretoria, dos turnos, do que observÆvamos enquanto estÆvamos na escola. Queríamos estar atentos para as repercussıes que nossa presença estava tendo na escola. Isto tambØm era parte de nossa proposta de Plantªo Psicológico. Ao escutar os alunos, estÆvamos intervindo tambØm na instituiçªo, ajudando estes a se dar conta de suas necessidades frente à escola, o que poderia mobilizÆ- los a atuar nesta para transformÆ-la. Ao escutar a instituiçªo em cada um de seus âmbitos estÆvamos tambØm intervindo, pois surgiam entªo respostas que poderiam ser dadas ao grupo. Um exemplo disto foi nossa atuaçªo diferenciada em relaçªo à características singulares que o turno da tarde tinha em relaçªo aos outros turnos: No turno da tarde funcionavam trŒs turmas, todas do primeiro ano do segundo grau, totalizando cento e vinte e seisalunos. No início do trabalho, os alunos deste turno nªo procuraram o Plantªo 63 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza Psicológico, diferenciando-se dos outros turnos onde a procura foi imediata, acontecendo jÆ no primeiro dia de funcionamento do Serviço. AtravØs de observaçıes que os estagiÆrios haviam feito enquanto aguardavam atendimento e de conversas informais com os alunos, principalmente no horÆrio do recreio, levantamos algumas características específicas deste turno que poderiam explicar a nªo-procura pelos atendimentos naquele turno. Concluímos que a procura poderia estar sendo dificultada por: - um maior controle sobre os alunos, por parte de quem ocupava a direçªo da escola naquele período, no sentido de evitar que os alunos ficassem fora de sala de aula no horÆrio letivo; - um maior controle dos alunos sobre os próprios alunos. Neste turno haviam poucas turmas, o que fazia cada aluno estar mais exposto. Todos eles eram novatos na escola jÆ que eram turmas de 1 a sØrie do científico e estavam provavelmente tentando se enturmar, fazer amigos, e a busca por um Serviço de atendimento psicológico poderia atuar negativamente neste sentido, pela imagem tradicional do psicólogo como alguØm que atende loucos. De fato os alunos que falavam em procurar o Plantªo Psicológico eram caçoados pelos colegas. Entendemos que precisÆvamos intervir diferenciadamente neste turno para facilitar o acesso à ajuda. Criamos para isto uma estória em quadrinhos que foi colocada em um cartaz bem visível aos alunos deste turno. Essa estória retratava a situaçªo de um aluno que queria ir ao Plantªo Psicológico mas se intimidava pois os colegas caçoavam quando expressava esta vontade. Ele conversa entªo com um outro colega que havia ido mas que se recusa a explicar o que havia acontecido lÆ, dizendo que No plantªo falar 64 Plantªo Psicológico: novos horizontes Ø bªo, com uma expressªo muito satisfeita, indicando que este deveria descobrir por si mesmo. O aluno decide entªo ir ao Plantªo Psicológico. Com este cartaz estÆvamos espelhando a situaçªo dos alunos para eles mesmos. Era jÆ uma escuta. Uma outra intervençªo desse gŒnero foi a de uma estagiÆria, que envolveu um grupinho de alunos, convidando-os para a ajudarem a confeccionar um cartaz onde foi escrito Plantªo Psicológico para ser colocado na porta de nossa sala. Buscava com isso aproximar mais os alunos do nosso espaço de atendimento, desmistificando tambØm o psicólogo como distante e como coisa para doido. A resposta a estas intervençıes foi imediata. No dia seguinte à fixaçªo da estória em quadrinhos num corredor da escola, um grupo de alunos apareceu para conversar. Os atendimentos começaram entªo a acontecer tambØm no turno da tarde, no qual foram atendidos 46 alunos, ou seja, 37,1% do total de alunos atendidos na escola. O nœmero de atendimentos neste turno foi de 14, que corresponde a 10,4% dos atendimentos realizados na escola. A diferença entre o nœmero de atendimentos e o de alunos atendidos Ø grande pois houveram vÆrios atendimentos em grupo neste turno. Esta preferŒncia dos alunos pelos grupos, e o fato dos atendimentos terem acontecido geralmente no horÆrio do recreio ou quando algum professor nªo comparecia para dar aula, pode ser entendida: se Ø o grupo que comparece, diminui o controle individual que as características de contexto descritas mais acima exerciam sobre os alunos. Os turnos da manhª e da noite tinham um nœmero bem próximo de alunos matriculados, sendo 423 no da manhª e 486 no da noite. Nestes dois turnos os alunos procuravam o Plantªo Psicológico em qualquer horÆrio, ou seja, no recreio ou durante as aulas, quando queriam ser atendidos. No turno da manhª, 65 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza foram atendidos 31 alunos (7,3% do total de alunos atendidos na escola), em 36 atendimentos (26,9% do total de atendimentos realizados na escola). Houveram atendimentos em grupo, embora nªo tantos quanto no turno da tarde. O turno da noite se diferencia neste aspecto pois quase nªo houveram atendimentos em grupo. Neste turno ocorreram a maior parte dos atendimentos realizados na escola (62,7% do total), sendo atendidos 47 alunos (37,9% do total). Quanto à porcentagem de pessoas atendidas em cada turno em relaçªo ao total de alunos naquele mesmo turno, os turnos da manhª e da tarde se assemelham, com respectivamente 7,3% e 9,7% de seus alunos atendidos. JÆ o turno da tarde se destaca pois teve 36,5% dos seus alunos atendidos, geralmente em grupos, como jÆ foi dito. Após passarmos pela experiŒncia de um primeiro semestre atendendo em Plantªo Psicológico, surgiu a necessidade de organizar essa experiŒncia, buscando entender com clareza as necessidades daqueles sujeitos que nos procuravam. Essa organizaçªo nos daria, atravØs de uma leitura mais sistematizada das demandas dos alunos, um maior conhecimento sobre os sujeitos que atendíamos e, conseqüentemente, uma ajuda para o entendimento da dinâmica da instituiçªo escolar e atØ para nossas intervençıes ali. AlØm disso, seria importante para o retorno que daríamos à escola sobre nosso trabalho e, de forma mais geral, sobre as questıes mais discutidas pelos alunos. Esse retorno, por sua vez, poderia levar a escola a rever sua visªo e sua posiçªo frente aos alunos. Deste modo, passamos um semestre atendendo em Plantªo Psicológico, ouvindo cada pessoa enquanto pessoas œnicas, com demandas próprias, que iam, à medida em que eram escutadas e se escutavam, fazendo seu movimento em direçªo à mudança (cf. Mahfoud, 1989). Mas a singularidade do movimento de cada 66 Plantªo Psicológico: novos horizontes um nªo ocultava que muitos alunos ali atendidos vinham falar de coisas que às vezes eram comuns a outros. E foi em busca do que fosse comum que fizemos uma categorizaçªo das demandas que os alunos da escola traziam, a partir dos relatórios dos atendimentos que eram escritos pelos plantonistas. É importante frisar que as categorias de demandas nªo foram criadas antes de examinarmos atentamente os relatórios, para que tentÆssemos encaixar nelas os problemas jÆ-categorizados dos alunos, pois se fizØssemos assim, correríamos o risco certeiro de distorcer a experiŒncia do aluno enquadrando-o em prØ-suposiçıes nossas. Ao contrÆrio, optando por uma metodologia fenomenológica, deixamos que as categorias emergissem, fossem des-cobertas, após discussıes concentradas sobre os diversos casos. Assim, discutimos qual o tema central de cada atendimento, qual a principal demanda que ali se sobressaía como uma questªo importante para o aluno, na perspectiva dele. Nªo tentamos ver o que estava por trÆs do que ele dizia e nem nos guiar em direçªo daquilo que mais se chocava aos nossos olhos mais que aos deles como a violŒncia, que por vezes permeava suas realidades. Algumas vezes, a questªo principal de um sujeito só aparecia ao final de um atendimento, após serem discutidos outros assuntos ou mesmo problemas. Mas o momento em que o tema central aparecia era aquele em que a demanda tornava-se nítida, atravØs de indícios como uma maior emoçªo, atençªo, entusiasmo, constrangimento, brilhos no olhar ou atØ a revelaçªo da própria pessoa dizendo que aquela era sua demanda principal, era o principal motivo pelo qual estava ali. As diversas questıes principais descobertas eram comparadas entre si a fim de se descobrir semelhanças entre elas. Questıes que envolviam um 67 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza mesmo tipo de dificuldade, incômodo ou mesmo busca foram, entªo, agrupadas sob uma mesma expressªo que as abarcasse todas. Desta forma, elaboramos 15 categorias, alØm de uma chamada demanda indeterminada. Quando uma pessoa vinha ao Plantªo Psicológico e durante o atendimento vÆrias questıes apareciam comoigualmente importantes para ela, o atendimento era considerado demanda indeterminada. TambØm dentro desta categoria foram incluídos os casos em que nªo foi identificada nenhuma demanda claramente ou aqueles em grupo em que cada pessoa trazia uma diferente questªo, aparecendo entªo uma multiplicidade de demandas principais na mesma sessªo. Essa impossibilidade de se identificar a demanda se deveu em alguns casos a relatórios mais interpretativos do que descritivos que, dando mais Œnfase na visªo do plantonista do que na fala do aluno atendido, nos impossibilitou de identificar sua demanda principal. Perceber essa falha nos relatórios foi uma indicaçªo valiosa para futuros relatos de atendimentos e atØ para atendimentos em si, nos quais se corre o risco de abandonar a atençªo centrada na pessoa que busca o Plantªo Psicológico para voltÆ-la para elocubraçıes que a ultrapassam. A escola tinha expectativas quanto às questıes que mais seriam abordadas pelos seus alunos. Esperavam, por exemplo, que os alunos falassem de gravidez na adolescŒncia, de seus professores e diretoras e ainda de abuso de Ælcool. Nós mesmos esperÆvamos que o tema violŒncia aparecesse enquanto uma categoria isolada, jÆ que essa questªo foi muito abordada nos atendimentos. Notamos, no entanto, que esses temas eram na maior parte das vezes, apenas subjacentes àquilo que mais os incomodava. Como se fosse um cenÆrio às particulares histórias dos vÆrios sujeitos que procuravam atendimento ou mesmo mais uma contingŒncia difícil de suas vidas. 68 Plantªo Psicológico: novos horizontes Foi muito importante entender que, muitas vezes, o que era atordoante para os plantonistas como a violŒncia sexual, familiar e de rua e que talvez por isso esperÆvamos que fosse o mais importante e atordoante tambØm para a pessoa que nos procurava, às vezes, podia nªo se apresentar assim. Desse modo, percebemos que, atendendo pessoas que vivem uma realidade diferente da nossa e categorizando esses atendimentos segundo suas demandas, devíamos cuidar para que nossa atençªo centrada na pessoa e em sua perspectiva nªo fosse abandonada em funçªo de nossos próprios valores. Entre as categorias de cujo aparecimento havia alguma expectativa de nossa parte, apenas a demanda dificuldade com drogas(4) foi realmente categorizada. No entanto, surgiu apenas um caso em que essa demanda, enquanto principal, foi apresentada. De um modo geral, em nossa categorizaçªo, a questªo da violŒncia apareceu associada a outras, incluídas na categoria insatisfaçªo com as atribuiçıes e contingŒncias (11). As pessoas cujos atendimentos foram aí categorizados queixavam-se de insatisfaçªo com as condiçıes externas a elas, o que as incomodavam, mas que independiam de suas açıes. O que se poderia fazer, entªo, era quase que suportar tal realidade e se colocar em relaçªo a ela de maneira diferente. Um exemplo de um caso incluído nesta categoria seria aquele em que o aluno queixa-se de sua mªe que Ø alcoólatra, de seu pai violento e foi atribuído a ele, cuidar dos irmªos mais novos. Tudo isso, sªo contingŒncias de sua vida que o incomodam com as quais tem que lidar e que lhe foram impostas por outros, no caso, o pai e a mªe. Na categoria preocupaçªo com conseqüŒncias de açıes ou decisıes passadas (14), foram agrupados os casos em que havia uma ansiedade acerca de decisıes ou atos jÆ realizados, como o da aluna com 69 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza medo de estar grÆvida ou do rapaz preocupado com as implicaçıes de ter montado um trailler e como conciliaria isto com seus estudos. Uma outra categoria, dificuldade em fazer escolhas(6), foi criada para aqueles casos em que uma pessoa tinha diante de si opçıes entre as quais deveria escolher uma, a qual poderia mudar o rumo de sua vida. Incluímos, nessa categoria, as demandas de orientaçªo profissional e tambØm demandas relacionadas a outras decisıes a serem tomadas na vida pessoal. Os casos em que sujeitos tinham que aprender a lidar com alguma perda que haviam sofrido configuraram a categoria elaboraçªo de perdas(7) que incluiu perdas por morte ou por separaçªo, como tØrmino de relacionamento amoroso. JÆ a categoria arrependimento e culpa (1) abarcou os casos em que as repercussıes de atos e decisıes jÆ efetuados levavam a estes sofrimentos especificados. Havia um questionamento relacionado à adequaçªo de tais açıes e decisıes jÆ tomadas, fazendo com que sentimentos de culpa ligados a valores pessoais e sociais emergissem. Um exemplo dessa categoria seria o da aluna que se sentia arrenpendida e culpada por ter feito um aborto. Esta categoria se diferencia da categoria preocupaçªo com as conseqüŒncias de açıes passadas pelo fato de que nesta, havia uma ansiedade (uma prØ-ocupaçªo) em torno das açıes jÆ realizadas, como que um medo de sofrer pelas conseqüŒncias, e na categoria arrependimento e culpa, a conseqüŒncia de um ato jÆ estÆ causando sofrimento. As demandas ligadas à categoria sexualidade eram, em sua maioria, associadas a uma necessidade de discussªo, por parte de alunas, a respeito de virgindade, valores da sociedade sobre a sexualidade, a posiçªo e idØias de cada aluna frente ao assunto. Todos os atendimentos dessa categoria foram feitos 70 Plantªo Psicológico: novos horizontes em grupo e no turno da tarde, no qual, talvez pela idade dos alunos (eram mais novos que os dos outros turnos), tais assuntos despertassem maior interesse. Uma outra categoria: dificuldades com a escola(5) englobou os assuntos relacionados à vida escolar dos alunos, desde dificuldades com um determinado professor atØ problemas de atençªo, notas e aprendizagem. Na categoria busca de reconhecimento, agrupamos os casos em que os alunos nos procuravam para nos contar como estavam lidando bem com os desafios que lhes eram colocados pela vida. Eles jÆ haviam tomado uma decisªo, gostavam da própria maneira de ser e precisavam apenas de alguØm que, de certa forma, poderia os deixar mais seguros sobre o que estavam fazendo ou sobre seu próprio jeito de ser. Ao nosso ver, o aparecimento da demanda busca de reconhecimento em nossa categorizaçªo Ø um sinal do diferencial que uma proposta como o Plantªo Psicológico em Escola representa, em relaçªo a outras propostas de atendimentos psicológicos em instituiçıes de ensino. Isso porque, ao situar o psicólogo em um espaço tambØm para o que Ø saudÆvel, para o se cuidar e nªo apenas para o se tratar, o Plantªo Psicológico abre um caminho para o sujeito que estÆ bem se expressar de maneira total, obtendo uma escuta aberta ao seu modo de viver sua própria vida. Uma outra categoria incômodo com a maneira de ser e de reagir às situaçıes(10) abarcou justamente os casos opostos à œltima categoria explicada. As pessoas que entraram nessa categoria queixavam-se de nªo estarem felizes com algo no seu jeito de ser, como nervosismo, timidez, solidªo, ou com a forma como sempre reagiam a situaçıes específicas. Um exemplo deste caso, seria o da mulher que sempre chorava quando o marido se atrasava. Ela nªo gostava desta sua própria reaçªo ao marido, jÆ que nªo a ajudava em 71 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza nada. Este tipo de sofrimento, um sofrimento que só dependia do próprio sujeito para que pudesse ser alterado, foi o que mais demandou atendimentos (totalizaram 24 sessıes) e sobre o qual mais pessoas se queixaram (14 pessoas com essa demanda). AtravØs da relaçªo entre o nœmero de pessoas nessa categoria e o nœmero de sessıes, podemos ver que, para este tipo de demanda Ø necessÆrio, na maior parte das vezes, que uma mesma pessoa seja atendida mais de uma vez. Por causa das características desta demanda, cujos atendimentos visam uma mudança estrutural na maneira de ser de uma pessoa, e do tempo maior necessÆrio para que isso aconteça,começamos a pensar na possibilidade de encaminhar os sujeitos com essa demanda para uma psicoterapia, o que fizemos em alguns casos. Isso nªo quer dizer que o espaço do Plantªo Psicológico nªo seja suficiente para que uma mudança estrutural aconteça, pois vimos que ela ocorreu em alguns atendimentos. PorØm, Ø uma proposta de atendimento por Aconselhamento Psicológico, especialmente adequado a mobilizar mudanças situacionais, ligadas a questıes que os sujeitos trazem em um determinado momento, causadas por algo que os aflige ou acontece agora. Essas questıes situacionais se adaptam muito bem ao espaço dinâmico do Plantªo Psicológico. As mudanças estruturais podem ser trabalhadas mais calmamente atravØs da psicoterapia com atendimentos mais regulares, mais garantidos (porque haverÆ menos chance de outra pessoa estar com o psicólogo no momento da procura) e dentro de um processo que pode ser mais longo e contínuo (bem maior que o período letivo ao qual o Plantªo Psicológico na escola estÆ atrelado). O encaminhamento de pessoas com essas demandas para uma psicoterapia ainda possibilita que mais pessoas com as outras demandas sejam atendidas no Plantªo Psicológico. 72 Plantªo Psicológico: novos horizontes Quatro categorias de demandas dizem respeito a relacionamentos: A primeira delas desconfiança nos relacionamentos(3) relacionada a relacionamentos em geral: amorosos, de amizade, familiares etc. Compreende os casos em que o aluno tem uma pessoa de quem gosta e por quem se empenha, essa pessoa parece tambØm agir dessa forma, mas o aluno desconfia da legitimidade dos sentimentos dos outro para com ele. Essa desconfiança vem muitas vezes acompanhada de insegurança. JÆ a categoria insatisfaçªo nos relacionamentos com a família(12) envolve as dificuldades que o aluno pode ter com qualquer membro de sua família, exceto o cônjuge, que podem se modificar dependendo de como se coloca frente a elas. Isso Ø, basicamente, o que difere essa categoria da insatisfaçªo com atribuiçıes e contingŒncias, na qual as dificuldades existem independentemente do aluno, como algo realmente externo a ele. Um exemplo para essa categoria 12, seria o do filho que nªo consegue conversar e ser mais próximo do pai, embora este se mostre bastante disponível. As outras categorias que envolvem relacionamentos falta de correspondŒncia nos rela- cionamentos amorosos(8) e falta de reciprocidade nos relacionamentos jÆ estabelecidos(9) tŒm uma diferença bÆsica que Ø justamente o jÆ-estabelecimento ou nªo do relacionamento amoroso. A primeira categoria citada Ø aquela na qual os relacionamentos ainda nªo estªo estabelecidos e uma frase que a explicaria seria: eu gosto de alguØm que nªo gosta de mim. JÆ no segundo caso, jÆ hÆ um compromisso firmado, de namoro, casamento, noivado etc, pressupondo-se que duas pessoas pelo menos se gostam. No entanto, ocorre que o empenho das duas neste relacionamento nªo Ø recíproco. Um se empenha mais que o outro e essa falta do outro Ø que traz o sofrimento. É interessante 73 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza colocar aqui que todas as pessoas aí categorizadas foram mulheres que se queixam dos relacionamentos com os companheiros. Por fim, resta falar da categoria obter opiniªo profissional(13) que abarca os casos em que a pessoa procura o Plantªo Psicológico realmente para obter opiniªo profissional sobre assuntos diversos, como educaçªo de filhos, escolha de nomes para eles, psicopatologias de membros da família etc. O assunto de tais atendimentos nªo vai se tornando mais pessoal ou profundo, embora os atendimentos possam durar mais de 40 minutos. Nestes atendimentos, às vezes, temos a impressªo, que estas pessoas tŒm uma outra questªo ou incômodo embutidos no que expressam. A sessªo poderia ter um desenvolvimento baseado nisso, porØm, em todos aqueles casos isso nªo aconteceu, talvez porque a demanda principal dos sujeitos fosse realmente obter informaçªo. Era claro que as pessoas que nos procuravam com esta demanda queriam de nós uma resposta às suas indagaçıes. Nesses momentos, nos firmÆvamos em nossa posiçªo de escuta aberta, empÆtica e centrada na pessoa, mas sem nos esquecer de que seria ela própria quem deveria encontrar seus próprios recursos para lidar com suas dœvidas e angœstias. TentÆvamos sempre remetŒ-las a si mesmas, aos seus sentimentos em relaçªo ao seu dilema e à sua capacidade de resolvŒ-lo, o que às vezes era bem difícil de se fazer e caíamos na tentaçªo de dar respostas. A maior parte das pessoas que procurou o Plantªo Psicológico com essa demanda obteve a informaçªo que buscava. Algumas voltaram para outros atendimentos jÆ com outras demandas. ACEITA˙ˆO DA PROPOSTA E MOBILIZA˙ÕES Partindo da consideraçªo de que nosso trabalho Ø uma proposta inovadora, ou pelo menos desconhecida, 74 Plantªo Psicológico: novos horizontes tivemos um retorno positivo; as pessoas mostraram ter entendido a proposta e mais do que isso a aceitaram, colocando-se à disposiçªo para que ela funcionasse, e apostaram nisso. Nªo foi necessÆrio esperar o tØrmino do trabalho para constatar essas evidŒncias: a resposta à nossa presença apareceu durante o decorrer deste. Algumas mudanças perceptíveis mostraram isso. Um fato muito interessante aconteceu: a vice- diretora nos procurou pedindo ajuda psicológica, disse que gostaria de conversar com um dos estagiÆrios sobre as questıes que a incomodavam naquele momento de sua vida e que influenciavam seu trabalho na escola. Comentou que ao ver ao alunos se mobilizando para buscar atendimento deu-se conta de que ela tambØm tinha aquela necessidade mas nªo estava podendo reconhecŒ-la atØ entªo. Diante desse pedido nos mantivemos firmes à proposta de prestar atendimento apenas aos alunos. Mas nªo deixamos de pontuar tambØm consonantes à proposta que era muito importante que ela estivesse procurando ajuda nesse momento que ela julgava crucial, e que a iniciativa de se cuidar era valorizada e reconhecida por nós. A vice- diretora pediu licença na escola e iniciou psicoterapia. Trata-se da mesma pessoa que tínhamos identificado como um fator determinante quanto ao controle sobre os alunos tªo diferenciado no turno da tarde. Ao retornar no segundo semestre estava sensivelmente diferente, em seu modo de agir e inclusive na aparŒncia, estava mais cuidadosa e flexível no relacionamento com os alunos e consigo mesma. Vimos esse fato como resultante da nossa presença propícia à mobilizaçªo em direçªo à mudança. Nossa escuta em relaçªo à nªo -procura dos alunos do turno da tarde por atendimento, levando-nos a intervir com os cartazes, e a ter como resposta a estes a procura pelo Serviço, Ø indício de que podemos mobilizar tambØm o grupo com uma açªo pontual e eficaz. 75 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza No final do primeiro semestre fizemos um momento musical para anunciar o encerramento de nosso trabalho na escola, para um período de fØrias. Alguns alunos, do turno da manhª ao nos verem tocando e cantando, se aproximaram e pediram para tocar e cantar ao microfone. A princípio ficamos surpre- sos, mas acolhemos essa iniciativa e o resultado foi uma grande integraçªo entre nossa equipe e os alunos. Nos turnos da tarde e noite, devido ao resultado da manhª, resolvemos convidar os alunos para ocupar tambØm aquele espaço de expressªo. Alguns alunos timidamente foram se apresentando e expondo seus dotes artísticos. A participaçªo dos alunos dos trŒs turnos nos fez ficar atentos para como o Plantªo Psicológico vinha susci- tando neles a iniciativa de se expressarem, de se mostrarem sujeitos, alØm do espaço da salinha Plantªo. Foi surpreendente ver a repercussªo que esse momento teve entre os professores. Um aluno que era margina- lizado pelos colegas e desqualificado pelos professores, por nªo ter um bom desempenhoescolar, e que dizia tocar vÆrios instrumentos musicais o que alguns nªo acreditavam teve sua imagem mudada, a partir desse dia, ao se aproximar de nossa equipe, no palco improvisado, e tocar algumas mœsicas ao teclado. Todos se impressionaram com seu dote artístico e o aplaudiram e elogiaram muito. A partir de entªo, pelo menos os professores, passaram a vŒ-lo como uma pessoa, dotada de outras capacidades, alØm de ser mais um aluno dentre os outros. Em uma reuniªo do corpo docente, no início do segundo semestre, foi discutida e muito valorizada essa forma de expressªo dos alunos, o que inclusive deu margem à iniciativa de criar um momento musical, em periodicidade regular, em que a participaçªo dos alunos se tornasse efetiva, podendo vir no futuro a ser assumida por eles próprios. Percebemos nesses profes- sores um movimento de reconhecimento da pessoa do aluno, com quem eles interagiam no dia-a-dia em sala 76 Plantªo Psicológico: novos horizontes de aula, e da importância de se permitir que esse aluno se expresse enquanto tal. Essa mudança de atitude, tambØm dos professores, documenta o quanto a nossa presença na escola Ø mobilizadora. Ainda no primeiro semestre, no encerramento, resolvemos colher informaçıes com os alunos sobre o Plantªo Psicológico. Distribuímos folhetos com a seguinte pergunta: O que vocŒ achou do Plantªo Psicológico? DŒ sua opiniªo mesmo que vocŒ nªo tenha ido., e pedimos que eles respondessem e colocassem em uma urna no pÆtio. Queríamos saber como os alunos estavam entendendo nosso trabalho, nossa proposta e ter uma idØia de como estÆvamos sendo vistos por eles. Após a leitura de cada resposta acabamos por criar categorias que facilitassem o levantamento de um perfil do que seriam o reconhecimento, a aceitaçªo e a adesªo à proposta do Plantªo Psicológico. Algumas respostas continham o que eles reconheciam como características do Plantªo, como por exemplo disponibilidade dos atendentes a qualquer hora que eles precisassem; a possibilidade de expressar-se naquele espaço, falando de si e de suas questıes; a eficÆcia do serviço que possibilita um resultado efetivo; o Plantªo Psicológico como transformador, proporcionando mudanças de atitude etc. AlØm dessa percepçªo do Plantªo Psicológico, falaram do uso que fizeram dele, revelando processos pessoais, ou seja, a tomada de consciŒncia de sua postura diante do problema, e reconhecendo a repercussªo do Serviço no âmbito coletivo, citando mudanças e transformaçıes entre grupos de colegas e atØ na relaçªo com a instituiçªo. AtØ mesmo os alunos que nªo foram atendidos se expressaram com uma avaliaçªo positiva elogiando o Plantªo Psicológico. Alguns destes disseram pretender procurar o serviço no segundo semestre. Dentre esses alunos apareceram tambØm algumas categorias que foram citadas pelos alunos atendidos. 77 Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza De um modo geral, vÆrios indícios nos mostraram a efetividade dessa proposta, tanto no decorrer do trabalho quanto no encerramento do primeiro semestre. Pudemos perceber nas opiniıes que os alunos deixaram escritas: nos folhetos de avaliaçªo final; no próprio retorno que eles nos davam do atendimento quando vinham nos contar como haviam resolvido sua questªo, ou como lidavam com ela agora; na fala dos professores e da diretora em uma reuniªo com eles no fim do primeiro semestre, em que disseram ter notado mudanças em alguns alunos no decorrer do tempo em que o Plantªo Psicológico funcionou; na nossa percepçªo subjetiva no momento do atendimento, em que estÆvamos acompanhando o movimento do aluno durante o percurso da sessªo. Nossa presença de escuta atenta nos permitiu distinguir que hÆ tanto pessoas que apoiam quanto aquelas que nªo vªo se dispor a colaborar, podendo inclusive boicotar, prejudicando o trabalho. A experiŒncia nos ensinou que Ø fundamental identificar as pessoas com quem podemos contar. Apostar no contato com essas pessoas Ø mais favorÆvel para manter a proposta, bem como efetivÆ-la. Estar consciente que Ø possível haver resistŒncias faz parte do trabalho, estar atento para identificÆ-las e atuar de modo a mostrar-lhes o benefício dos resultados Ø mais eficaz do que lutar contra elas. Por isso Ø necessÆrio repropor continuamente a proposta. Mesmo que algumas pessoas dŒem indícios de que jÆ entenderam, outras podem continuar insistindo numa compreensªo errada da mesma, como por exemplo alunos pedindo nossa interferŒncia direta quanto a problemas com professores ou direçªo, e professores ou diretoria pedindo nossa ajuda para aqueles que julgam ser alunos-problema. Ter firme uma postura que confir- me e reafirme a proposta inicial Ø elemento fundamental para mantŒ-la, alØm de intervir diretamente, quando necessÆrio, para explicitÆ-la de modo claro e eficiente. 78 Plantªo Psicológico: novos horizontes REFER˚NCIAS BIBLIOGR`FICAS AMATUZZI, Mauro Martins. O que Ø ouvir?. Estudos de Psicologia / Instituto de Psicologia da PUCCAMP, v. X, n. 2, Campinas: `tomo, Agosto/Dezembro 1990, p.86-97. MAHFOUD, Miguel. A vivŒncia de um desafio: plantªo psicológico. In: ROSENBERG, Rachel Lea (Org.). Aconselhamento psicológico centrado na pessoa. Sªo Paulo: EPU, 1987, p.75-83. (SØrie Temas BÆsicos de Psicologia, Vol. 21) MAHFOUD, Miguel. O Eu, o Outro e o Movimento em Formaçªo. Anais da XIX Reuniªo Anual da Sociedade de Psicologia de Ribeirªo Preto, Ribeirªo Preto: SPRP, 1989, p.545-549. MAHFOUD, Miguel & BRANDˆO, Sílvia Regina. Educaçªo Afetiva. Resumos I Congresso Interno do Instituto de Psicologia da USP, Sªo Paulo, 1991, p.Z6. MAHFOUD, Miguel. 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MAHFOUD, Miguel, ALC´NTARA, Tânia Coelho de, ALVARENGA, Alessandra R., BATISTA, Matilde Agero, BRANDˆO, Juliana Mendanha, DRUMMOND, Daniel Marinho, MAGA- LHˆES, Romina, RIBEIRO, Ronnara Kelles, SANTOS, Ivana Carla B. C., SILVA, Lilian Rocha da, SILVA, Roberta Oliveira e. Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza. V Encontro Estadual de Clínicas-Escola. Caderno de Resumos, Sªo Paulo: Universidade Sªo Judas, 1997, p.68. MAHFOUD, Miguel, BRANDˆO, Juliana Mendanha, DRUMMOND, Daniel Marinho, SILVA, Roberta Oliveira e. Plantªo Psicológico na Escola: facilitando o acesso a ajuda e o surgimento de demandas. VII Semana de Iniciaçªo Científica Caderno de Resumos, Belo Horizonte: UFMG, 1998, p.371 MAHFOUD, Miguel & DRUMMOND, Daniel Marinho. Site Plantªo Psicológico: mensagens recebidas, necessidades explicitadas. VII Semana de Iniciaçªo Científica Caderno de Resumos, Belo Horizonte: UFMG, 1998, p.371 ROGERS, Carl R. Um jeito de ser. Sªo Paulo: EPU, 1983. Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza 81 Pesquisar processos para apreender experiŒncias Pesquisar processos para apreender experiŒncias: Plantªo Psicológico à prova Miguel Mahfoud Daniel Marinho Drummond Juliana Mendanha Brandªo Roberta Oliveira e Silva No capítulo anterior relatamosnossa experiŒncia em Plantªo Psicológico em uma escola de Belo Horizonte, Minas Gerais, onde apresentamos evidŒncias da eficÆcia da proposta de Plantªo em contexto escolar e identificamos nossa presença como mobilizadora. Buscando uma leitura abrangente, consideramos nªo apenas os resultados no âmbito individual, entre os alunos que atendemos, como tambØm no âmbito coletivo, ou seja, como a instituiçªo recebeu e respondeu à nossa presença. EstÆvamos, no entanto, interessados em compreender melhor como ocorriam os atendimentos, em cada sessªo, com cada pessoa que nos procurou. Queríamos entender o processo em si de cada atendimento, apreender o movimento do que acontecia no momento em que a pessoa estava diante de nós (cf. Mahfoud, 1989). Buscamos identificar no atendimento clínico, propriamente dito, quais as suas 82 Plantªo Psicológico: novos horizontes fases, as mudanças de rumo e o movimento que a pessoa realizava durante a sessªo. Sabíamos que nossa presença era mobilizadora no sentido de fazer a pessoa entrar em contato consigo mesma e pensar mais claramente acerca da questªo trazida, explorando mais amplamente seu problema e assumindo uma posiçªo diante dele. Segundo a Abordagem Centrada na Pessoa o nosso papel era o de um ouvinte ativo, a pessoa era quem conduzia o próprio processo e nós apenas a acompanhÆvamos, o que nªo quer dizer que seja pouco. Um olhar minucioso sobre o processo poderia nos informar quais movimentos a pessoa fazia no decorrer do atendimento, permitindo-nos visualizar passo a passo o que existia nesse tipo de atendimento. Partimos, entªo, para uma investigaçªo mais detalhada do processo de atendimento. DESCRI˙ˆO INICIAL Como nosso material de pesquisa utilizamos relatórios escritos pelos estagiÆrios que haviam realizado os atendimentos, que descreviam como tinham transcorrido as sessıes. À medida em que líamos os relatórios, buscÆvamos identificar fases que emergiam destes, correspondentes ao movimento do cliente em relaçªo à sua demanda. Se por exemplo, o aluno contasse porque estava procurando nossa ajuda e em seguida começasse a falar sobre formas como jÆ tinha agido frente à sua questªo, identificaríamos duas fases. Os relatórios que nªo nos permitiam ter uma visªo do processo do atendimento, desta movimentaçªo do aluno, foram excluídos da anÆlise, para que tivØssemos um maior rigor na pesquisa. Ficamos entªo com 56 relatórios de sessıes, que descreviam 37 casos de alunos atendidos. Destes 37 casos, 27 consistiram de uma œnica sessªo e 10 de mais de uma (entre 2 e 6 sessıes). 83 Pesquisar processos para apreender experiŒncias DE DESCRI˙ˆO DE CASOS A APREENSˆO DE FASES DO PROCESSO Inicialmente, as fases que íamos identificando, eram descritas como no exemplo seguinte: 1. lança dœvida: deixar ou nªo a escola devido às dificuldades com matemÆtica. 2. diz que jÆ havia conversado com a professora sobre a dificuldade e esta deu sugestıes que ele nªo seguiu. 3. diz que trabalha e da dificuldade de organizar seu tempo (nªo estuda em casa). 4. ...etc Este tipo de descriçªo parecia-nos um resumo do atendimento, apresentando demasiadamente o conteœdo específico da questªo trazida por aquele aluno em particular. Para atingirmos nosso objetivo, era-nos interessante encontrar uma mesma expressªo que fosse capaz de descrever fases similares em atendimentos diferentes, mesmo que o conteœdo específico fosse outro. O aluno podia ter procurado o Plantªo Psicológico por estar triste com a morte de alguØm ou porque nªo sabia se deveria sair da casa dos pais ou nªo; em qualquer destes casos ele estava falando do motivo que o havia levado a buscar ajuda. Para este momento buscamos encontrar uma expressªo. Assim colocamos lado a lado as fases que havíamos encontrado em cada relatório, buscando expressıes que fossem capazes de abarcar momentos similares com conteœdos diversos. Assim, a expressªo 1 do exemplo acima foi classificada como AQ Apresenta a Questªo. As expressıes 2 e 3 foram classificadas em conjunto como EQ Explora a Questªo. Reunimos um conjunto destas expressıes, que à medida em que eram criadas substituíam as frases que havíamos separado em cada relatório. 84 Plantªo Psicológico: novos horizontes A primeira fase, na maioria dos atendimentos, foi a que chamamos AQ apresenta a questªo na qual o aluno diz porque veio, qual Ø o seu problema ou dificuldade e às vezes diz o que espera dos plantonistas. Um exemplo: Raquel chegou dizendo que queria mostrar algumas coisas aos plantonistas. Queria saber se podiam dar uma opiniªo. Tirou vÆrios documentos da bolsa, enquanto explicava o caso de seu irmªo que havia desaparecido. Após apresentar a questªo, o sujeito geralmente apresenta a história (da questªo) AH ou explora a questªo ExQ. Na apresentaçªo da história, o sujeito conta os precedentes de sua questªo atØ o momento atual, temporalmente e, na exploraçªo, ele mostra vÆrios âmbitos atuais da questªo, explorando-os, explicando- os. No exemplo de Raquel, esta, após o AQ, passou a explorar o assunto do desaparecimento do irmªo, dizendo que apesar de provas policiais de que ele estaria morto e da família acreditar nisto, ela nªo acreditava e tentava provar para a polícia que ele estava vivo. Se ao invØs de explorar a questªo, apresentasse a história da questªo, ela poderia contar vÆrios acontecimento desde o desaparecimento atØ o momento presente. Alguns clientes nªo apresentaram uma œnica questªo. Quando o aluno apresentou mais de uma, quase que simultaneamente, utilizamos a expressªo AV apresenta vÆrias questıes. Se este entªo passou a se debruçar mais sobre uma questªo específica dentre as que havia trazido, categorizamos como ElQ elege questªo. Em outros casos, alunos que jÆ haviam apresentado uma questªo (AQ) apresentavam uma nova, seja após explorar a questªo inicial (ExQ) ou mudar de perspectiva (MP ver abaixo) em relaçªo a esta. Para estes casos a expressªo OQ outra questªo foi atribuída. Uma outra possibilidade encontrada refere-se aos casos em que após apresentar uma questªo (AQ) o aluno a ampliou, ou seja, manteve a 85 Pesquisar processos para apreender experiŒncias mesma questªo mas englobava novos aspectos de sua realidade nesta: chamamos de AmQ amplia a questªo. Outras expressıes que utilizamos, para nomear fases foram: PI pede informaçªo a questªo do aluno era um pedido de informaçªo do tipo Se eu der para o meu filho o nome do meu marido faz mal?. Estes pedidos de informaçªo terminaram sempre com a obtençªo da informaçªo OI. RA reafirma atitude quando o aluno reafirma a atitude que tinha frente ao problema, ou à nova atitude que havia assumido em uma sessªo anterior. NC nªo comparece o aluno marca uma sessªo, falta e retorna para uma nova sessªo. É diferente do caso em que o aluno marca, falta e nªo retorna mais, o que encerraria o processo, pois nos casos aqui incluídos entendemos o nªo-comparecimento como parte do processo. RQR relata como a questªo se resolveu se aplica aos casos em que entre uma sessªo e outra ocorre uma mudança na situaçªo do aluno, mudança esta que resolve para este a questªo que ele tinha. Um exemplo Ø o caso do aluno que namorava uma garota mas estava ficando com outra e se preocupava pois havia uma possibilidade da namorada oficial estar grÆvida. Ele retorna ao Plantªo Psicológico para uma nova sessªo dizendo que a namorada nªo estava grÆvida, ou seja, esta questªo estava resolvida e nªo havia por que se preocupar. Mas este fato nªo eliminou sua questªo em relaçªo a estar com as duas pessoas, o que o faz retomar esta questªo, jÆ discutida em um atendimento anterior. Este tipo de retomada foi chamado RQ - retoma questªo. RQ retoma questªo (explicaçªo dada no exemplo acima). RCA relata como agiu após o aluno tercomparecido a uma sessªo ele retorna para contar como agiu 86 Plantªo Psicológico: novos horizontes frente à questªo colocada. Estes casos aconteceram após um DA decide agir, uma MP mudança de perspectiva ou após um PR propıe-se a refletir. PR propıe-se a refletir esta categoria foi usada na situaçªo que ocorre ao tØrmino de uma sessªo quando o aluno disse que ia pensar sobre o que havia conversado com o plantonista. Em todos estes casos os alunos retornaram para uma nova sessªo. AP apresenta possibilidades quando os alunos apresen- tavam uma ou vÆrias maneiras possíveis para lidar com sua situaçªo ou resolver seu problema, utiliza- mos esta expressªo. FASES DE ENCERRAMENTO DO PROCESSO Quanto aos encerramentos de atendimentos, identificamos uma tríade de fases bastante indicativa do desfecho do movimento percorrido pelo sujeito ao longo do processo. Sªo elas: MP mudança de perspectiva, ANA - assume nova atitude e DA - decide agir. a) MP - mudança de perspectiva: A primeira diz respeito a uma mudança na forma de enxergar a questªo apresentada que passa a ser vista sob outro prisma, outra perspectiva; muda a idØia que o sujeito tem sobre sua questªo. Nesta fase, a Œnfase estÆ na questªo, que passa a ser vista de outra forma. No exemplo de Raquel apresentado anteriormente, ocorreu a MP após uma I - intervençªo decisiva do plantonista (note-se que isto nªo Ø uma regra, embora aconteça em alguns casos). A aluna discutia se o irmªo estava vivo ou morto mas tambØm falava de como ele era importante na vida dela. O plantonista interviu dizendo que independente do fato do irmªo estar vivo ou morto, pelo que falava ele fazia uma falta muito grande na vida dela, jÆ que nªo estava mais com ela. Neste momento a conversa mudou de rumo e a questªo nªo era mais se ele estava vivo ou nªo. Como todo o processo de atendimento pode 87 Pesquisar processos para apreender experiŒncias ser considerado uma intervençªo, apenas denominamos com a letra I aquelas intervençıes que haviam sido bem marcantes, jÆ que após estas a sessªo mudou de rumo. As outras intervençıes que nªo tinham esta característica específica tambØm podem ter feito parte do processo e ajudado. b) ANA - assume nova atitude: Assumir nova atitude jÆ acarreta lidar com a questªo de forma diferente, assumir uma atitude diferente diante do problema. A Œnfase estÆ no sujeito diante de sua questªo. A aluna Raquel, nessa fase, logo após a MP, disse que se o irmªo estivesse vivo, um dia iria aparecer pois quem tÆ vivo sempre aparece o que nos leva a pensar que ela estÆ considerando que, no momento, ela deveria aceitar sua ausŒncia e que ela poderia chegar a saber se ele estava vivo se ele voltasse algum dia. c) A fase de decide agir Ø observada quando o sujeito expressa sua intençªo de agir em relaçªo àquela questªo de modo a tentar resolvŒ-la. A Œnfase estÆ na açªo que o sujeito expressa. DA Ø comum em demandas que exijam açªo para serem resolvidas como dificuldades em fazer escolhas/decisªo ou dificuldade nos relacionamentos e mais raras em demandas de elaboraçªo de perdas nas quais, às vezes, assumir nova atitude jÆ Ø suficiente para a elaboraçªo de uma questªo. Nosso exemplo, apesar de ser da demanda elaboraçªo de perdas, mostra essa fase quando a cliente disse que nªo iria mais ficar procurando a polícia e questionando-a sobre o desaparecimento do irmªo, como fazia antes. UM PROCESSO: UMA SEQÜ˚NCIA DE FASES A seguir apresentamos um caso ilustrativo da seqüŒncia de fases AH-AQ-ExQ-MP-ANA-DA. 1 : Uma aluna chega apresentando a história de sua questªo (AH). Conta que namorava um primo quando morava em Sªo Paulo e que a mªe nªo gostava dele. 1 É importante assi- nalar que só porque este caso estava suf ic ientemente detalhado e bem descrito em um relatório de aten- dimentos, de acordo com a ordem crono- lógica em que os fatos foram sendo relatados, Ø que essa anÆlise por fases pôde ser feita. 88 Plantªo Psicológico: novos horizontes Veio para Belo Horizonte pensando que iria ficar mais fÆcil o namoro à distância. Namoraram durante trŒs anos dessa forma e diz nªo saber como conseguiu. Logo conclui que foi porque eles terminaram muitas vezes neste período. Sofreu muito por sua causa (ele pisou muito). Um vez ele esteve em sua cidade num final de semana e só ligou para falar que estava ali: nªo quis se encontrar com ela, nªo ligou novamente e foi embora. Após todo esse relato a aluna apresenta sua questªo (AQ): no início da semana (em que foi feito o atendimento) ele havia ligado dizendo que estava precisando da ajuda dela e que queria vir à Belo Horizonte para falar-lhe. Pediu que ela pensasse e telefonasse para dar a resposta. Nªo sabia o que fazer. Essa Ø uma demanda classificada como dificuldade em fazer escolhas/decisªo 2 . A seguir, a aluna passa a explorar a questªo (ExQ): Fala que contou o caso para muitas pessoas e só uma sugeriu que ela o deixasse vir. A princípio, ela diz que nªo sabe se quer que ele venha; estÆ hÆ um mŒs namorando um outro rapaz que estuda em sua escola e estÆ percebendo o quanto Ø bom ter um namorado por perto. Antes nªo ia a festas, pois todos iam acompanhados e ela ficaria sozinha. Quando perguntavam se ela tinha namorado, dizia que sim e que ele morava em Sªo Paulo. Durante o atendimento, ela passou a dizer que quer dar um tempo naquele relacionamento e que em Sªo Paulo, existe muita gente a quem ele pode pedir ajuda, e que se ele estiver com um problema pessoal ela nªo quer saber. AlØm disso, disse temer que a vinda dele atrapalhasse o namoro com o atual namorado. A partir dessa exploraçªo da questªo, a aluna consegue mudar a perspectiva (MP): diz que nªo sabe o que fazer, mas sabe que nªo quer encontrar o ex- namorado agora. Acha que o que ele estÆ querendo Ø 2 Confira classifi- caçªo de demandas no capítulo Plantªo Psicológico na es- cola: presença que mobiliza, dos mes- mos autores do presente capítulo, neste livro. 89 Pesquisar processos para apreender experiŒncias voltar pra ela, o que ela nªo deseja porque nªo tem nada para dar certo e porque ela estÆ com outro namorado. Com essa nova perspectiva, a aluna consegue assumir nova atitude diante da questªo (ANA), a atitude de quem nªo quer encontrar o ex-namorado por trŒs motivos que ela consegue explicitar: a possibilidade de atrapalhar o novo namoro, no qual ela quer investir; se o ploblema do ex-namorado for pessoal e nªo tiver relaçªo com ela, que ele procure outra pessoa para ajudÆ-lo; ela quer interromper o relacionamento deles. Neste exemplo, as fases MP e ANA sªo muito ligadas e, na verdade, elas quase coincidem jÆ que, a atitude da aluna foi imediatamente transformada quando ela mudou a perspectiva de sua questªo. Lembramos que a maneira de se distinguir as duas fases estÆ no foco central do movimento do sujeito: na fase MP, o foco Ø a questªo, vista sob outra perspectiva, e em ANA, o foco Ø o sujeito com uma nova atitude frente à questªo. A œltima fase desse atendimento Ø a do decide agir na qual a aluna expressa que iria ligar para o ex- namorado dizendo que iria viajar no final de semana (como sua madrinha havia sugerido) e que, na segunda- feira, ligaria novamente dizendo que nªo queria que ele viesse procurÆ-la e diria os trŒs motivos. BUSCANDO UM PADRˆO Após categorizarmos todas as fases dos processos passamos a buscar algum padrªo na seqüŒncia em que essas fases apareciam. Ao se examinar o conjunto dos casos que tínhamos com as fases categorizadas, vimos que existem algumas que aparecem com a primeira dos atendimentos que se repetem para a grande parte de casos, como as fases AQ, AH ou AV. Vimos tambØm que, ao final dos atendimentos cujas questıes estavam sendo mais bem 90 Plantªo Psicológico: novos horizontes adnameD saossePsadidnetA seısseS -asilanA sad aossePadaCedossecorP -nemidneperrA.1 apluceot 2 2 QxE-QA.1 AD-QxE-QA-HA.2 edacsuB.2 otnemicehnocer 2 3 AR.1 .2 à QR-QxE-ACR à QxE-QR açnaifnocseD.3 -anoicalerson sotnem 0 0 - edadlucifiD.4 sagordmoc 1 4 QxE-HA-QA.1 à QxE-ACR à AR QxE- à PM à ACR edadlucifiD.5 alocsemoc 0 0 - meedadlucifiD.6 oªsiced/sahlocse 4 11 RP-QxE-QmA-I-QA-HA.1 à QO-PM-ACR à PA-QR-RQR à QxE-ACR à QxE-QO à -I-QR AD-PM QxE-HA-QA.2 AD-ANA-PM-QxE-HA-QA.3 RP-PM-QxE-HA-QA.4 à -PA AD-PM edoªçarobalE.7 sadrep 4 4 PA-QO-PA-I-QO-PA-I-QA.1 ANA-QI-PM-QR-I-QxE-QA.2 AD-ANA-PM-I-QxE-QA.3 ANA-PM-I-HA-QA.4 edatlaF.8 aicnŒdnopserroc -anoicalerson sosoromasotnem 1 1 I-PM-QR-QO-HA-QA.1 edatlaF.9 sonedadicorpicer sotnemanoicaler Æjsosoroma sodicelebatse 6 9 PM-QxE-QR-PA-HA.1 à AR ANA-QxE-HA-QA.2 QA.3 AD-I-PA-QxE-HA-QA.4 à AD-ANA-QxE-PM-ACR à AR AD-PM-I-QlE-VA.5 à aunitnoc 3osac,21adnamedan PM-QxE-QlE-I-VA.6 TABELA I 91 Pesquisar processos para apreender experiŒncias adnameD saosseP sadidnetA seısseS -asilanA sad aossePadaCedossecorP odomôcnI.01 edarienamamoc sàrigaereres seıçautis 9 11 PA-I-QA.1 PA-HA-QA.2 QO-QxE-QA.3 AD-PM-QxE-QR-QO-QA.4 RP-PA-HA-QA.5 à -PM-ACR QxE-QO à PA AD-PM-QxE-QA.6 VA.7 I-QlE-PM-I-QmA-QxE-QO-QA.8 PM-QxE-QA-HA-PA-I-VA.9 oªçafsitasnI.11 samoc eseıçiubirta saicnŒgnitnoc 2 2 PA-QVA.1 I-QO-PA-QA-HA.2 oªçafsitasnI.21 -anoicaleron amocotnem ailímaf 4 6 ANA-PA-I-QA.1 AD-PA-QxE-HA-QA.2 à CN 2osac,2adnamedanaunitnocàACR .3 à AD-PA-QO-ACR HA-QA.4 à PM-ACR oªiniporetbO.31 lanoissiforp 2 2 I-QxE-I-QA.1 IO-IP.2 oªçapucoerP.41 -nŒüqesnocmoc uoseıçaedsaic sadassapseısiced 0 0 - edadilauxeS.51 0 0 - adnameD.61 adanimretedni 1 1 PA-I-QmA-QA.1 TABELA I - Continuaçªo 92 Plantªo Psicológico: novos horizontes r esolvidas, apareciam as fases MP, ANA e DA nessa ordem, mesmo se alguma delas nªo estivesse presente. Fora estas fases comuns nos inícios e nos finais de atendimento, cada um parecia ter uma história própria, um percurso particular que nªo se assemelhava a um nœmero significativo de outros casos. Fizemos entªo uma organizaçªo dos casos segundo as categorias de demandas. Vimos com isso que, dentro de cada categoria, os processos dos casos que estªo ali sªo mais semelhantes, percebendo-se neles um padrªo de forma mais clara do que ao olharmos todo o conjunto de casos independentemente das demandas. Em algumas categorias nªo pudemos descrever nenhum padrªo particular em virtude do pequeno nœmero de casos. Algumas categorias sªo bem ilustrativas desses padrıes (ver tabela I na pÆgina anterior) Nota-se ali como Ø comum que os sujeitos iniciem seus atendimentos no que chamamos de apresenta a questªo(AQ) e passem logo ao apresenta a história(AH) e/ou explora a questªo(ExQ). Pode-se perceber tambØm que à medida em que o sujeito vai resolvendo sua questªo, ocorre a mudança de perspectiva (MP), ele assume nova atitude(ANA) e, quando Ø possível uma açªo, ele decide agir(DA). Essa tríade final - MP-ANA-DA - Ø bastante indicativa de que o processo pelo qual o sujeito passou, atravØs do atendimento no Plantªo Psicológico, foi transformador e bem sucedido. Indica que o sujeito saiu do atendimento tendo mudado sua visªo em relaçªo ao que trazia, sua posiçªo para lidar com a questªo e ainda a decisªo de agir de uma nova maneira. É interessante notar que, nos casos da demanda elaboraçªo de perdas, Ø comum que nªo haja a fase decide agir no desfecho dos atendimentos. 93 Pesquisar processos para apreender experiŒncias Provavelmente isso se deve ao fato de que após uma perda de alguØm, principalmente se a causa for a morte, o que se pode fazer Ø aprender a lidar com essa nova questªo, assumindo uma nova atitude diante dela que cause menos sofrimento. Assim, para essa demanda pode-se considerar um bom desfecho. JÆ a demanda incômodo com a maneira de ser e de reagir às situaçıes mostrou-se diferente em relaçªo às outras justamente pela falta de semelhança entre seus casos, estes em um nœmero suficiente para que pudesse configurar um padrªo. No entanto, pensamos que, por ser esta uma demanda que pede uma mudança mais estrutural na vida da pessoa e nªo apenas situacional, seu processo serÆ mais dependente das particularidades de cada sujeito com sua maneira de ser e mais difícil de ser resolvido em apenas um ou poucos atendimentos. Mais do que apontar para limites do Plantªo Psicológico, isso parece indicar uma delimitaçªo de campos onde psicoterapia e Plantªo Psicológico nªo substituem um a outro. CONCLUINDO Relatamos aqui uma atividade de pesquisa que busca olhar com precisªo o desenvolvimento dos processos de atendimento em Plantªo Psicológico (neste caso específico, em contexto escolar), chegando a identificar fases que nos permitam apreender os diversos movimentos de que esse processo Ø constituído, de maneira a poder chegar a uma avaliaçªo rigorosa do resultado de nossas intervençıes. Sabemo-nos assim estar na esteira das preocupaçıes de sistematizaçªo do conhecimento advindo da experiŒncia que Rogers (1995, 1995a) com muita clareza realizou, propôs e esperou que fosse continuada. Trata-se de uma tentativa de continuar a sistematizar a experiŒncia subjetiva advertida em seus processos apreensíveis, registrÆveis e mensurÆveis 94 Plantªo Psicológico: novos horizontes objetivamente, buscando nªo perder de vista a especificidade propriamente humana do processo estudado. E sabemos estar em companhia de outros pesquisadores brasileiros que com rigor tŒm se empenhado nesse Ærduo e gratificante desafio (cf. Amatuzzi, 1993) Para alØm da possibilidade de uma avaliaçªo bastante positiva das intervençıes empreendidas, o que nos parece mais importante e indicativo de um grande potencial do Plantªo Psicológico baseado na escuta profunda Ø o fato de podermos chegar a delinear um processo de características semelhantes segundo o tipo genØrico de demanda, quando os conteœdos dos atendimentos sªo profundamente diversos. É ainda mais impressionante se atentamos para o fato de que tambØm o grupo de plantonistas Ø grande, com profundas diferenças internas de temperamentos e de experiŒncias, supervisionados por quem dÆ Œnfase na descoberta da maneira própria de conduzir o processo - e ainda assim produz-se processos semelhantes! Longe da tentativa de identificar padrıes rígidos que tornasse previsível o processo que permanece sempre misterioso, a identificaçªo de padrıes por demanda em um contexto de equipe tØcnica tªo diversificada leve-nos a confiar sempre mais no processo que com surpresa vemos se desenrolar diante de nós durante o atendimento em Plantªo Psicológico. Que possamos dar crØdito sempre maior à liberdade do cliente em sua busca, com a alegria profunda e simples de participar como testemunha de um processo que se desenvolve muito alØm de nós mesmos. Que possamos oferecer sempre mais confiantes nossa escuta profunda para que cada cliente possa dizer sua palavra própria e autŒntica (Amatuzzi, 1989), e entªo, assim que lhe seja concedida a oportunidade, crescer por rumo seguro. 95 Pesquisar processos para apreender experiŒncias REFER˚NCIAS BIBLIOGR`FICAS AMATUZZI, Mauro Martins. O resate da fala autŒntica: filosofia da psicoterapia e da educaçªo. Campinas: Papirus, 1989 AMATUZZI, Mauro Martins. Etapas do processo terapŒutico: um estudo exploratório. Psicologia: Teoria e Pesquisa. Vol. 9, n.1, 1993, p.1-21. MAHFOUD, Miguel. O Eu, o Outro e o Movimento em Formaçªo. Anais da XIX Reuniªo Anual da Sociedade de Psicologia de Ribeirªo Preto, Ribeirªo Preto: SPRP, 1989, p.545-549. ROGERS, Carl Ransom. A equaçªo do processo da psicoteraia. In: WOOD, John Keith et alii (Org.s).Abordagem Centrada na Pessoa. 2 a Ed., Vitória: Editora Fundaçªo Ceciliano Abel de Almeida / Universidade Federal do Espírito Santo, 1995, p.95- 122. ROGERS, Carl Ransom. Pessoa ou ciŒncia? Uma questªo filosófica. In: WOOD, John Keith et alii (Org.s). Abordagem Centrada na Pessoa. 2 a Ed., Vitória: Editora Fundaçªo Ceciliano Abel de Almeida / Universidade Federal do Espírito Santo, 1995a, p.123- 153. 97 Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico: Novas Consideraçıes e desenvolvimento Walter Cautella Junior A intençªo deste trabalho Ø abordar os desdobramentos que uma experiŒncia de plantªo psicológico bem sucedida gerou em um hospital psiquiÆtrico. Tais mudanças nªo afetaram somente a rotina hospitalar, mas tambØm a forma de conceber o fazer psicológico em condiçıes tªo específicas. Na verdade, a experiŒncia do plantªo psicológico levou a instituiçªo a reformular sua visªo do indivíduo institucionalizado. Para que melhor possamos compreender a amplitude da experiŒncia e seus desenvolvimentos, considero importante fazer uma breve descriçªo da instituiçªo e dos moldes de funcionamento do departamento de psicologia antes do plantªo psicológico. Trata-se de um hospital de porte mØdio e de curta permanŒncia que atende pacientes do sexo feminino em quadro agudo de doença mental. Conta com duas equipes terapŒuticas compostas por: 98 Plantªo Psicológico: novos horizontes psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, recreacionistas e enfermeiros. O serviço de psicologia começou a funcionar em 1988 e utilizava exclusivamente grupos psicoterÆpicos e atendimentos individuais em psicoterapia breve/focal para atender a demanda da clientela. Com o passar do tempo, percebíamos certas limitaçıes de tais procedimentos quando utilizadas em situaçıes com características tªo específicas. Como foi descrito anteriormente, este Ø um hospital de curta permanŒncia, o que acarreta à intervençªo psicoterÆpica uma sØria dificuldade, pois estabelece um limite externo concreto para o processo. AlØm disto, sua populaçªo possui características bastante peculiares por tratar-se de pessoas em quadro agudo de doença com diferentes níveis de contato com a realidade. HÆ uma dificuldade maior para o processo se comparado a pessoas que mantŒm um padrªo neurótico. Resumidamente, possuíamos pouco tempo para abordagem psicológica e a nossa clientela era muito heterogŒnea, pois em um mesmo setor do hospital temos vÆrias patologias, tais como: neuroses, psicoses, toxicofilias etc. Ambas as tØcnicas utilizadas exigem certos prØ requisitos para que o indivíduo possa tirar proveito da intervençªo psicológica. A abordagem de grupo exige certo tempo para que a pessoa se integre à dinâmica e assuma uma identidade grupal. Antes disso, a açªo psicoterÆpica Ø superficial e limita-se aos sintomas. Percebíamos que as pessoas que participavam de tais grupos, muitas vezes, compareciam mobilizadas por uma demanda institucional e nªo por uma demanda pessoal. Entende-se por demanda institucional a pressªo exercida pela instituiçªo para que as pessoas se vinculem a psicoterapia. A instituiçªo vŒ essa necessidade e acredita nas conseqüŒncias positivas que o processo pode trazer. A partir disso, tenta vincular os internos sem o cuidado de que esse 99 Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico 1 FIORINI, Hector J. Teoria e TØc- nica de Psicote- rapias. 9“ ediçªo. Sªo Paulo: Fran- cisco Alves Editora, 1980 2 Grifo do Autor processo tenha um significado no quadro referencial do cliente. Se alguØm procura ajuda Ø porque sente algo e nªo se considera apto para resolver sozinho. Sabemos que o trabalho psicológico só Ø eficiente quando o indivíduo identifica sua demanda e se propıe a trabalhar com suas questıes. Comparecer ao grupo por pressªo do mØdico ou da enfermagem, cria um clima ansiógeno e persecutório que nªo ajuda no processo psicoterÆpico, mesmo que a intençªo seja boa. A composiçªo dos grupos tornava-se extremamente complicada, visto que a populaçªo variava muito em termos de nível intelectual, capacidade de elaboraçªo e de simbolizaçªo etc. Apesar da heterogeneidade na composiçªo dos grupos poder ser benØfica pela diversidade de experiŒncias, o pouco tempo de intervençªo nos levava a tentar potencializar ao mÆximo a açªo psicoterÆpica. Se a açªo priorizava os pacientes delirantes ou deficitÆrios do ponto de vista cognitivo, com certeza parte da populaçªo era colocada à margem do processo. Por outro lado, priorizando nossa atuaçªo em integrantes com maior capacidade de elaboraçªo e menos comprometidos privaríamos a maioria da populaçªo. Os atendimentos individuais tambØm sofriam suas limitaçıes. A tØcnica da psicoterapia breve determina que o psicoterapeuta estabeleça um foco para ser abordado em um tempo prØ determinado. Segundo Fiorini 1 , o terapeuta deve se colocar frente ao paciente, primeiro, em seu próprio terreno, aceitando provisoriamente 2 seus pontos de vista sobre o problema, e só mais tarde depois de se orientar sobre os motivos reais do paciente hÆ de procurar utilizar esses motivos para fomentar os objetivos terapŒuticos que possam parecer de possível realizaçªo. O curto espaço de tempo que os psicoterapeutas dispunham para eleger o foco dos atendimentos podiam levar a uma escolha errônea. Durante nossa prÆtica percebíamos que muitas 100 Plantªo Psicológico: novos horizontes 3 ROGERS, Carl R. T o r n a - s e Pessoa. 381“ ediçªo. Sªo Paulo: Editora Francisco Alves, 1977. ROGERS, Carl R & STEVENS B. De Pessoa para Pessoa: O Pro- blema do Ser Humano: Uma Nova TendŒncia da Psicologia. Sªo Paulo: Pionei- ra, 1976. ROGERS, Carl R. e Outros. Em Busca de Vida: De Te- rapia Centrada no Cliente à A b o r d a g e m Centrada na Pessoa. Sªo Paulo: Summus, 1983. WOOD, John K. e Outros (Org.). A b o r d a g e m Centrada na Pessoa. Vitória: Editora Fundaçªo Ceciliano Abel de Almeida / Univer- sidade Federal do Espirito Santo, 1994. vezes o foco eleito pelo psicoterapeuta nªo era o mesmo que o cliente gostaria de abordar. Com o tempo o cliente conseguia abandonar o foco adotado pelo psicoterapeuta e assumir sua verdadeira demanda, porØm este movimento levava tempo. Em uma internaçªo de curto prazo, o tempo Ø um bem precioso e que nªo pode ser desperdiçado. Frente a essas dificuldades geradas pelas características da populaçªo e da própria instituiçªo, fomos levados a procurar alternativas terapŒuticas eficientes. Nesse momento, o plantªo psicológico nos pareceu uma possibilidade bastante atraente. No entanto, ficava o desafio de utilizar uma tØcnica terapŒutica que nunca havia sido testada em tais condiçıes. No ano de 1992 desenvolvemos o primeiro plantªo psicológico em hospital psiquiÆtrico. O procedimento consistia em colocar à disposiçªo da clientela um psicólogo preparado para o atendimento, em um lugar prØ estabelecido, e por um tempo prØ determinado. O referencial teórico adotado Ø amplamente influenciado pelo existencialismo e a fenomenologia e tem como linha teórica principal a abordagem centrada no cliente 3 . A populaçªo alvo foi amplamente avisada da disponibilidade do profissional e da facilidade de acesso atravØs de cartazes e informaçıes dadas pelos outros profissionais. Previamente foi feito um trabalho de sensibilizaçªo com esses profissionais para que pudessem ter um entendimento bÆsico da tØcnica e do referencial teórico adotado e, a partir disso, pudessem falar da disponibilidade do serviço. Aos poucos, foram se aproximando e aprenderam como utilizar esse novo instrumento. Na verdade foram estabelecidos vÆrios horÆrios, em locais diferenciados, uma vez que o hospital possui vÆrios setores. O plantªo psicológico conseguiu colocar-se aberto a demandada clientela e trabalhar no sentido de 101 Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico potencializar os recursos desta. Pelas suas características e referencial teórico conseguiu ser eficiente frente a heterogeneidade da populaçªo, uma vez que centra-se na experiŒncia do cliente. Sendo assim, Ø possível atender a demanda do psicótico, do neurótico, do deficiente e do paciente cronificado, pois tal tØcnica nªo precisa que o cliente possua certos prØ requisitos. Com a premissa bÆsica de colocar-se disponível frente às necessidades do cliente no momento do encontro e com a peculiaridade deste poder ser œnico, conseguimos uma abordagem terapŒutica eficiente em curto espaço de tempo, visto que o nível de ansiedade, irritabilidade e agitaçªo dos internos diminuiu significantemente após o plantªo psicológico. Após a implantaçªo do serviço, começamos a perceber mudanças significativas nas abordagens psicoterÆpicas que jÆ existiam (psicoterapia de grupo e psicoterapia individual). As pessoas que participavam dos grupos psicoterÆpicos nªo mais compareciam mobilizados por uma demanda alheia (pressªo institucional). Utilizando-se do plantªo psicológico, os internos conseguiam identificar melhor a sua demanda e isto levava a um salto qualitativo no seu desempenho no grupo psicoterÆpico. Os atendimentos individuais tambØm foram influenciados pelo plantªo psicológico. Atualmente, o processo psicoterÆpico individual inicia-se frente ao pedido do cliente. Geralmente, ele procurou o plantªo psicológico, conseguiu identificar sua demanda, estabeleceu o foco do seu trabalho psicológico e preferiu abordÆ-lo de maneira mais sistematizada na psicoterapia individual, embora muitas das demandas acabem se resolvendo no próprio plantªo. Outras vantagens secundÆrias ficaram evidentes após a implantaçªo do serviço. Ficou muito mais fÆcil fazer os encaminhamentos internos. Após comparecer ao plantªo, sabemos com clareza em qual setor e em 102 Plantªo Psicológico: novos horizontes 4 EY, Henry e outros. Manual de Psiquiatria. 5a ediçªo. Rio de Janeiro: Editora Masson do Brasil Ltda, 1981. qual grupo psicoterÆpico determinada pessoa terÆ melhor benefício. Os encaminhamentos externos tambØm tornaram-se mais eficientes na medida em que temos maior conhecimento da demanda pessoal. O plantªo psicológico, apesar de sua grande eficiŒncia, experimenta algumas limitaçıes no âmbito hospitalar psiquiÆtrico. Pessoas em quadro delirante grave, que estªo rompidos com a lógica alheia e submersos em sua realidade paralela, raramente procuram o plantªo. Colocar-se em contato com o outro Ø submeter-se à lógica geral. Conseqüentemente, isto leva a ineficÆcia da estrutura delirante como mØtodo defensivo. Pacientes em quadro maníaco podem atØ procurar o plantªo, porØm, pela aceleraçªo dos seus processos psíquicos 4 , geralmente, nªo conseguem se deter frente as intervençıes. Nesse caso, o carÆter terapŒutico Ø estabelecer um limite externo para a aceleraçªo, visto que o interno nªo Ø eficiente nesse momento. Quadros de depressªo profunda, tambØm, nªo procuram o plantªo psicológico, assim como quadros catatoniformes. A resposta positiva dos internos provou a eficÆcia deste mØtodo interventivo, e nos levou a pensar a possibilidade de utilizÆ-lo em outras situaçıes dentro da rotina hospitalar. A instituiçªo evidenciava certas demandas que pareciam ser da alçada do psicólogo. Tais como: o atendimento à família e à própria instituiçªo. Atualmente parece ser de senso comum que uma açªo terapŒutica nªo pode se restringir somente ao indivíduo institucionalizado. Uma das formas de entendermos a doença mental Ø considerÆ-la como fruto de um jogo de tensıes dentro de um campo social, onde um membro dessa sociedade nªo tem condiçıes de lidar com as vicissitudes desse jogo e acaba rompendo em um surto psicótico ou uma descompensaçªo neurótica. Este enfoque nos leva a 103 Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico considerar que doente nªo Ø somente aquele que apresenta os sintomas, mas sim, todo o contexto a qual pertence, no caso a família. Aquele que manifesta a doença Ø internado e o hospital cumpre a sua funçªo terapŒutica, no entanto, quando este Ø devolvido para a família, Ø, novamente, inserido no jogo de tensıes que permanece inalterado. HÆ uma grande possibilidade de novos surtos surgirem atØ o momento que o indivíduo possa elaborar definitivamente sua posiçªo nesse campo de tensıes. É importante salientarmos que a família age de maneira defensiva, nªo identificando, ou identificando com grandes dificuldades, a responsabilidade no processo de adoecimento do internado. É menos ansiógeno para a família depositar a doença em um œnico membro, pois sendo assim, sente-se imune, saudÆvel e protegida. Desta forma, podemos inferir que hÆ um movimento inconsciente da família, e muitas vezes consciente, no intuito de perpetuar a doença naquele que manifesta o sintoma. Tal psicodinâmica explicaria em parte o alto nível de reinternaçıes e cronificaçıes psicológicas, pois, nesta breve conceituaçªo, nªo estamos considerando bases orgânicas para a doença mental. O setor de psicologia trabalha com a hipótese de que o indivíduo institucionalizado, atravØs do trabalho psicológico na instituiçªo, pode se dar conta dessa intrincada psicodinâmica e nªo mais ocupar o lugar de representante simbólico da doença social. Nªo se trata de negar a fragilidade ou os aspectos individuais como pode parecer, pois se este nªo suportou as tensıes sociais Ø devido, tambØm, a aspectos internos de desenvolvimento pessoal. O indivíduo abandonando esse papel de doente irÆ gerar um desequilíbrio na psicodinâmica estabelecida e isso abrirÆ espaço para um trabalho elaborativo familiar, ou para que outro membro manifeste patologicamente o conflito mal resolvido. 104 Plantªo Psicológico: novos horizontes 5 BATESON, Gregory e Outros. Hacia una Teoría de La Esquizofrenia.In: SLUZKI, Carlos E. (org.). Interacción Familiar: Aportes Fundamenta les sobre Teoría y TØcnica. Buenos Aires: Editorial Tiempo Contempo- rÆneo S.A. , 1971. p. 19-56. 6 LIDZ, Theodore e Outros. El Medio Intrafamiliar Del Paciente Esquizo- frØnico: La Trans- misión de la Irracio- nalidad. In: SLUZKI, Carlo E. (org.). I n t e r a c c i ó n Familiar. Aportes Fundamenta les sobre Teoría y TØcnica. Buenos Aires: Editorial Tiempo Contempo- rÆneo S.A. , 1971. p. 81-110. 7 LAING, R. D. e ESTERSON A. Cordura, Loucura y Família: Famí- lias de Esquizo- frenicos. Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1967. (Biblioteca de Psico- logia y PsicoanÆlisis). VÆrios autores de vÆrias linhas do pensamento psicológico abordaram o papel da família e do jogo social no processo de adoecimento, evidenciando certa unanimidade neste ponto. Dentre eles, podemos citar Bateson 5 , Lidz 6 , Laing 7 e principalmente Harold F. Searles em seu artigo The effort to drive the other person crazy On element in the aetiology and psychotherapy of schizophrenia 8 . A prÆtica clínica na instituiçªo, embasada nessa maneira de conceber a psicodinâmica da doença mental, tem gerado efeitos bastante positivos, visto que o nœmero de pacientes que percebem o seu lugar dentro da dinâmica familiar e que pedem atendimento tambØm para a família, vem aumentando progressivamente. A percepçªo do lugar que ocupam, e a nªo mais aceitaçªo de todas as responsabilidades projetadas e depositadas sobre estes, levam a uma desorganizaçªo familiar caracterizada pelo surgimento de uma angœstia generalizada. Tais sintomas foram comprovados atravØs do aumento do nœmero de famílias que pediam para ser atendidas pelo serviço de psicologia atravØs do serviço social, recepçªo, funcionÆrios etc. Com o aumento da demanda, fez-se necessÆrio estruturar um espaço onde a angœstia familiar pudesse ser contidae trabalhada. AlØm disso, estÆvamos otimizando o tratamento psicológico realizado na instituiçªo abarcando de maneira mais abrangente o fenômeno patológico. Frente ao acima relatado, quatro anos depois da criaçªo do plantªo psicológico, introduzimos um serviço semelhante voltado exclusivamente para os familiares dos internos. Foi aberto um espaço onde a família Ø recebida como cliente. Nªo temos a pretensªo de acreditar que todas as famílias aceitam esse lugar tranqüilamente. Geralmente, o membro da família chega atØ o serviço com o seu discurso voltado ao elemento institucionalizado, e cabe ao plantonista fazer uma 105 Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico 8 SEARLES, Harold F. The Effort to Drive the Other Person Crazy On Element in the Aetiology and Psychotherapy of Schizophrenia. In: C o l l e c t e d Papers on S c h i z o p h r e n i a and Reality Subjects. Nova York: New York I n t e r n a t i o n a l Universities , 1975. p. 254-283. escuta centrada e seletiva na angœstia desse familiar que buscou o serviço. O atendimento familiar desenvolvido pelo setor de psicologia Ø bastante diferente dos atendimentos realizados pelo serviço social e corpo mØdico. No plantªo psicológico a família Ø colocada como cliente. JÆ no atendimento mØdico-familiar o intuito Ø obter dados e aprimorar a compreensªo da estrutura da doença atravØs da história do paciente inserido no contexto familiar. Portanto, nªo hÆ, prioritariamente, uma açªo terapŒutica voltada à família. O cliente Ø aquele que estÆ internado. Quanto ao serviço social, a sua açªo visa o bem-estar do indivíduo internado e a readaptaçªo deste à sociedade de uma maneira menos traumÆtica. Novamente, o foco encontra-se no paciente internado. Ambos os atendimentos sªo imprescindíveis e de grande importância para o processo terapŒutico porØm, nªo abordam de maneira a provocar mudanças na psicodinâmica familiar. A utilizaçªo do plantªo psicológico se justifica pelas características da situaçªo e da populaçªo alvo. Geralmente, surge uma demanda que estava reprimida pela impossibilidade de encontrar um espaço próprio para que pudesse se manifestar. Na doença o foco recai sempre naquele que manifesta os sintomas. O plantªo psicológico abre um espaço para que a família manifeste seu mal-estar e suas questıes. As características de tal procedimento parecem-nos facilitar o trabalho com esta situaçªo emergencial, imprevisível e desorganizadora que Ø o adoecimento. AtravØs do plantªo psicológico tentamos aproveitar o momento de ruptura que a doença mental gera na dinâmica familiar e na vida de quem adoece e, a partir disso, proporcionar uma experiŒncia mais saudÆvel. HÆ ainda certos dados de realidade que reforçam a aplicabilidade do plantªo familiar nessa situaçªo. A grande maioria da populaçªo alvo (família) 106 Plantªo Psicológico: novos horizontes possui pouco acesso a situaçıes que permitam uma relaçªo de ajuda. Isso ocorre por vÆrios motivos: falta de conhecimento de sua própria demanda; desinformaçªo sobre os serviços disponíveis (psicoterapia individual, familiar, etc.); carŒncia de recursos pœblicos nessa Ærea; e finalmente, indisponibilidade financeira da maioria daqueles que procuram. O plantªo psicológico consegue, de certa forma, diminuir a distância dessas pessoas a uma relaçªo de ajuda eficaz. Outra justificativa para a utilizaçªo do plantªo recai na crença fortemente difundida nos plantonistas que nem toda demanda precisa ser suprida pela psicoterapia. Todo indivíduo possui uma tendŒncia inerente para o progresso e uma vez que a situaçªo de impedimento possa ser abordada, e uma nova vivŒncia possa surgir, o cliente estÆ livre para seguir seu rumo, atØ sentir nova necessidade de parar e se redirecionar. É evidente que muitas vezes a demanda Ø para psicoterapia, nesse caso Ø feito um encaminhamento para serviços externos. Colocando a família como foco, estamos tambØm contribuindo indiretamente com o bem estar do indivíduo institucionalizado e complementando o trabalho psicológico que Ø realizado durante a internaçªo. Para que o plantªo pudesse ocorrer, foram abertos horÆrios dentro da programaçªo, que coincidiam com os horÆrios de atendimento familiar realizado pelos outros membros da equipe. Desta forma, na medida em que os membros da família vŒm manter contato com o mØdico, assistente social ou visitar o paciente internado, se desejarem, poderªo ter acesso ao atendimento psicológico. Percebe-se que os mØtodos e tØcnicas adotadas sªo muito semelhantes ao que ocorre para os clientes internados nesta casa. Essa estrutura de atendimento tem vantagens para alcançar nossos objetivos. 107 Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico As pessoas que procuram o plantªo psicológico nªo o fazem porque foram convocadas. Portanto, podemos inferir que hÆ uma mobilizaçªo interna que gerou essa busca. Tal mobilizaçªo Ø fator primordial para que ocorra mudanças. A convocaçªo para essa forma de atendimento parece-nos pouco eficiente, embora possa ocorrer se for de extrema importância para o trabalho psicológico realizado com o indivíduo institucionalizado. Desta forma, a família deixa de ocupar o lugar de cliente e a açªo centra-se no indivíduo institucionalizado. Neste ponto percebemos outra diferença em relaçªo ao atendimento mØdico e ao de serviço social. Estes nªo perdem a eficÆcia pela convocaçªo, pois nªo colocam a família como cliente da mesma forma que colocamos. O plantªo psicológico, com sua característica bÆsica de abarcar o cliente naquele momento, possibilita um trabalho psicológico breve, embora, tambØm, haja a possibilidade de um trabalho mais longo se houver a necessidade. O plantonista e o cliente podem decidir pela sessªo œnica, projeto terapŒutico (quatro sessıes aproximadamente) ou pelo encaminhamento desse membro familiar ou família para um processo mais longo de psicoterapia familiar (fora da instituiçªo). A equipe e a instituiçªo foram instruídas para favorecer a aproximaçªo dos familiares a este serviço psicológico. O acesso da clientela mantØm-se o menos burocratizado possível. Foram colocados na recepçªo e demais dependŒncias sociais do hospital, cartazes informativos sobre a existŒncia do serviço, disponibilidade do psicólogo, local de atendimento etc. Em trŒs anos de funcionamento o nœmero de atendimentos foi aumentando progressivamente. De um ano para o outro tivemos um aumento superior a 100% no nœmero de clientes. A carŒncia de suporte externo para os familiares gerou uma situaçªo atípica. O plantªo psicológico 108 Plantªo Psicológico: novos horizontes 9 BLEGER, JosØ. Temas em Psico- logia . Buenos Aires: Nueva Vision, 1980. familiar Ø uma estrutura montada prioritariamente para dar conta das questıes familiares durante o período de internaçªo. No entanto, percebemos o aumento significativo da procura do serviço mesmo após a alta do cliente principal. Isso acaba gerando uma sobrecarga do serviço. Temos como norma bÆsica nªo recusar o atendimento dessas pessoas, porØm tentamos encaminhÆ-las para serviços externos. Tal procura acaba reforçando a consolidaçªo desse espaço de continŒncia. No futuro temos o intuito de desenvolver um ambulatório para dar conta dessa demanda na própria instituiçªo, porØm, para isso, precisaremos aumentar a equipe de plantonistas. FiØis à idØia de uma açªo abrangente do doente mental, começamos a pensar a instituiçªo como um cliente em potencial. Atualmente fica difícil pensarmos em uma açªo terapŒutica eficiente, sem inserirmos no processo aquele que se propıe a tratar. Abordando o hospital com a visªo da psicologia institucional, o entendemos como um organismo vivo que reage frente a sua populaçªo alvo. Desenvolve-se uma relaçªo dialØtica entre a instituiçªo e a clientela. As açıes desta, assim como as reaçıes, vªo interferir diretamente no andamentodo processo terapŒutico. A importância da sanidade institucional sempre foi amplamente discutida e valorizada. Se consideramos o processo terapŒutico pessoal do profissional de saœde mental como fundamental para a eficÆcia da abordagem, nada mais razoÆvel que utilizarmos os mesmos parâmetros quando falamos da instituiçªo de saœde mental. JosØ Bleger 9 abordou com precisªo a intrincada psicodinâmica institucional no ato terapŒutico. Segundo ele, hÆ a tendŒncia da instituiçªo em se burocratizar na sua açªo terapŒutica. Este processo surge como defesa. As estruturas das instituiçıes sªo as mesmas de seu objeto de trabalho. Sendo assim, para trabalharmos com 109 Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico 10 BLEGER, JosØ. Psico-Higiene e P s i c o l o g i a I n s t i t u c i o n a l . Porto Alegre: Edi- tora Artes MØdicas, 1984. doentes mentais em instituiçıes hÆ a necessidade de tratarmos concomitantemente a instituiçªo. Trabalharmos com a instituiçªo implica em oferecermos aos seus integrantes condiçıes para falar de suas questıes, assim como, de sua relaçªo com esta. Buscamos abordar o coletivo atravØs do individual. Frente ao acima citado tornou-se fundamental oferecer aos profissionais da casa de saœde um espaço de continŒncia. Nªo somente para abarcar a instituiçªo, mas tambØm para fornecer subsídios ao funcionÆrio que vive em contato direto com a doença mental. Quadros psicóticos tendem a ser ameaçadores para aqueles que nªo estªo preparados psiquicamente. A desorganizaçªo do psicótico tende a ameaçar a ordem interna de quem convive com estes. Isto Ø prejudicial para a saœde psíquica do funcionÆrio e acaba refletindo na instituiçªo, uma vez que irÆ utilizar-se de mecanismos defensivos que prejudicarªo a dinâmica institucional. Como exemplo destes mecanismos podemos citar a indisponibilidade e a irritabilidade no trato com o cliente, faltas ao serviço, grande rotatividade da equipe de apoio etc. AlØm de tais manifestaçıes, havia uma demanda explícita por grande parte dos funcionÆrios que nos procuravam com a necessidade de falar de suas experiŒncias no cotidiano hospitalar e reorganizÆ- las de maneira mais saudÆvel. Oferecer atendimento aos funcionÆrios trazia uma sØrie de questıes. Primeiramente havia a dificuldade de montar uma equipe para atender essa nova clientela. Parecia-nos pouco eficiente que os plantonistas da própria instituiçªo atendessem a este pœblico. Tal atitude seria tªo incoerente quanto um psicoterapeuta desenvolver uma auto-terapia. Sabíamos da impossibilidade de abarcar a instituiçªo fazendo parte dela. Bleger conceituou com precisªo as diferenças entre o psicólogo institucional e o psicólogo na instituiçªo 10 . Para que fosse viÆvel, 110 Plantªo Psicológico: novos horizontes trouxemos um plantonista de fora da instituiçªo. Isto resolveu os provÆveis conflitos de interesse que surgiriam se fossem utilizados os profissionais da instituiçªo. AlØm disso, a isençªo deste plantonista propiciou maior liberdade para que o funcionÆrio abordasse suas questıes. A própria estrutura do plantªo facilitou o acesso ao serviço. Contamos com a disponibilidade da instituiçªo para que os funcionÆrios pudessem procurar o serviço durante o período de trabalho. Isto gerou a necessidade de reestruturar as grades de horÆrios, acarretando maior trabalho das chefias. No entanto, as experiŒncias anteriores bem sucedidas com o plantªo facilitaram a superaçªo de tais transtornos. Embora a intençªo bÆsica nªo seja esta, o plantªo ao funcionÆrio tambØm pode ser como porta de entrada para outras modalidades de atendimento e suporte se for necessÆrio. Assim como com os internos e seus familiares, o funcionÆrio pode ser atendido na própria instituiçªo em esquema de psicoterapia breve e focal, se o caso. Se a demanda for para uma psicoterapia de longo curso, este serÆ encaminhado para instituiçıes ou consultórios fora do hospital. Paralelamente, montamos grupos operativos para que as questıes relacionais e operacionais pudessem ser abordadas. Consolidou-se novo espaço dentro da rotina hospitalar. A experiŒncia vem nos mostrando que se a instituiçªo passa por períodos mais críticos, com sobrecarga de trabalho, diminuiçªo de funcionÆrios ou qualquer outra tensªo, a procura pelo plantªo aumenta. Sendo assim, alØm do carÆter terapŒutico, o plantªo oferece elementos para que o plantonista tenha uma visªo relativamente precisa da saœde psíquica da instituiçªo. Após a implantaçªo deste serviço, diminuiu significativamente os problemas de relacionamento 111 Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico entre os funcionÆrios, conseqüentemente, criou-se um ambiente terapŒutico mais eficiente. AtØ entªo foram relatadas as mudanças operacionais que as vÆrias experiŒncias com o plantªo psicológico geraram na rotina hospitalar. Sem dœvida, passou de tØcnica coadjuvante a um lugar central no funcionamento do serviço de psicologia. No entanto, a amplitude das mudanças geradas pelo plantªo psicológico nªo recai somente no aspecto operacional. Acredito que a principal mudança seja subjetiva e sutil. Como foi dito nas primeiras linhas deste texto, o plantªo psicológico propiciou uma reformulaçªo na visªo institucional do indivíduo institucionalizado. Existem diferenças significativas na forma de entender e abordar o doente mental entre os vÆrios profissionais da saœde. Apesar da proximidade e das Æreas de justaposiçªo, a formaçªo teórica e o embasamento filosófico dos vÆrios profissionais levam a esta discrepância na abordagem do doente. Os vÆrios profissionais podem utilizar os mesmos conceitos de doença mental, porØm a postura frente ao cliente acaba sendo muito diferente. Cada profissional, munido de seus conhecimentos científicos e de sua concepçªo de homem e mundo, vai colocar-se frente ao outro de maneira particular na tentativa de promover saœde. Entre a psicologia e a medicina nªo Ø diferente. HÆ divergŒncias significativas entre as abordagens. O mØdico na sua formaçªo, recebe forte influŒncia das ciŒncias naturais. A visªo naturalista determina que o observador de um dado fenômeno tente se manter isento neste processo para nªo influenciÆ-lo. A partir dessa premissa, o mØdico quando se coloca frente ao doente procura manter-se afastado para que possa observar com isençªo. Esta isençªo darÆ segurança para a escolha da terapŒutica necessÆria. Nesta intervençªo estÆ implícito que o cliente nªo sabe sobre si e espera 112 Plantªo Psicológico: novos horizontes 11 FREUD, Sigmund. A História do M o v i m e n t o P s i c a n a l í t i c o : Artigos sobre Metapsicologia . 1“ ediçªo. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1974. (Ediçªo Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, volume XIV). 12 PIAGET, J. e INHELDER, B. A Psicologia da Criança. Sªo Paulo: Difel, 1974. 13 ROGERS, Carl R. T o r n a - s e Pessoa. 381“ ediçªo. Sªo Paulo: Editora Francisco Alves, 1977. que o outro, no caso o mØdico, realize uma açªo sobre ele. Considero a palavra paciente, termo muito utilizado por este profissional, bastante esclarecedora e típica dessa relaçªo. O paciente Ø aquele que espera pacientemente a açªo de outro para a soluçªo de um desequilíbrio. Sua principal característica Ø a resignaçªo e a conformaçªo. É aquele que espera passivamente um resultado. Todo organismo possui uma tendŒncia inerente ao equilíbrio. VÆrios autores abordaram em diferentes momentos esta tendŒncia. Freud aborda o princípio de constância nos seus artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos 11 . Piaget aborda o princípio da equilibraçªo 12 . Rogers quando fala sobre a tendŒncia atualizadora parece-nos ressaltar essa tendŒncia inerente do indivíduo a procurar um equilíbrio satisfatório 13 . A própria biologia usa este princípio como regra geral. Caso ele nªo consigachegar a esta homeostase por seus próprios meios, recorre a outros no intuito que este atue de maneira tØcnica para promover o equilíbrio. Percebe-se que nesta forma de intervençªo o mØdico adota a postura de tØcnico. O psicólogo tambØm atua no sentido de ajudar o outro a equilibrar-se, porØm a postura pode ser outra quando sua açªo Ø influenciada pela fenomenologia. Enquanto a medicina promove uma açªo direta sobre seu paciente, acreditamos que atravØs de uma relaçªo terapŒutica com características específicas, podemos facilitar para que nosso cliente se equilibre. Desta forma, nªo atuamos sobre o mesmo, porØm acompanhamos como instrumento facilitador para este equilíbrio. Mesmo em casos graves, onde a tendŒncia da pessoa em estabilizar-se em um modo saudÆvel de funcionamento parece estar irremediavelmente comprometido, a postura frente a ele, enfatizando seu aspecto saudÆvel e seu potencial, costuma trazer respostas positivas. Acreditamos que o psicoterapeuta deva oferecer-se como ferramenta ao seu cliente. A 113 Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico 14 BASSIT, W. e Sonenreich C. O Conceito de Ps icopato log ia . Sªo Paulo, Manole, 1979. experiŒncia do plantªo em hospital psiquiÆtrico mostra que por maior que seja o comprometimento afetivo, cognitivo, intelectual e relacional do cliente, a disponibilidade do plantonista acaba deflagrando um movimento saudÆvel do cliente. O plantonista serve como estímulo para a busca de níveis mais saudÆveis de integraçªo psíquica (deixamos de ver o cliente como receptor passivo de uma açªo terapŒutica e o colocamos no lugar de autor no seu processo de aprimoramento e crescimento). O homem se desenvolve a partir de sua experiŒncia e a funçªo do plantonista Ø proporcionar condiçıes para que o indivíduo possa experienciar, na relaçªo com este, situaçıes que evidenciam características novas e desconhecidas no seu modo de funcionar, experiŒncias diferentes daquelas conhecidas anteriormente e marcadas pela ineficiŒncia e patologia. Com esta concepçªo, aquele que procura ajuda psicológica, mesmo dentro de um hospital psiquiÆtrico, perde a marca de paciente e adquire o status de agente, pois apropria-se de seus rumos. O corpo clínico do hospital considera a doença mental como a patologia da liberdade 14 . Segundo este conceito, doente mental Ø o indivíduo que perdeu a capacidade de fazer opçıes. Ele mostra-se incapaz de estabelecer regras para si, sendo assim, fica prisioneiro de seus sintomas. Como exemplo, podemos pensar no sujeito fóbico que restringe sua vida com medo de encontrar o objeto de sua fobia, ou o obsessivo, que apesar de perceber a incoerŒncia de seus pensamentos obsessivos ou de seus rituais mÆgicos, sente-se impotente frente a eles. Podemos citar o delirante que interage com o mundo de maneira restrita a partir das suas convicçıes delirantes. Este Ø um conceito mØdico, no entanto, ele pode ser muito eficiente orientando a açªo psicológica em um hospital psiquiÆtrico. Se considerarmos a doença mental como um cerceamento à liberdade, toda a açªo terapŒutica e o 114 Plantªo Psicológico: novos horizontes ambiente hospitalar devem levar ao livre arbítrio. A partir desta premissa, o plantªo psicológico passa a ser um instrumento fundamental para promoçªo da saœde pelas suas características . A resposta positiva dos clientes (internos, famílias e funcionÆrios) levou a instituiçªo a mudar a concepçªo de doente mental. Este deixou de ser visto como um receptor passivo da açªo alheia, e foi alçado a condiçªo de agente de seu processo de mudanças. O interno adquiriu a possibilidade de desejar e de trabalhar no sentido de viabilizar seus desejos. Esta nova concepçªo adquirida pela instituiçªo, criou um ambiente mais propício para que os internos façam suas escolhas. Abrindo espaço para que este se posicione e tome posse de suas experiŒncias, propiciamos o resgate da cidadania do indivíduo institucionalizado. Percebemos portanto, que a experiŒncia do plantªo nªo modifica somente aquele que Ø alvo da intervençªo, mas tambØm, todos os envolvidos indiretamente. O sistema de idØias que sustenta a prÆtica do plantªo psicológico acaba por impregnar o ambiente onde ocorre a experiŒncia. Sendo assim, o plantªo psicológico adquire a característica de catalisador de mudanças. Mudança Ø essencial para o desenvolvimento. 115 Plantªo Psicológico em Clínica-Escola Plantªo Psicológico em Clínica- Escola Vera Engler Cury A cada novo plantªo aprendemos um pouco mais sobre as afliçıes de nossa comunidade e perdemos o medo de enfrentar nossas próprias angœstias, ao tentarmos entrar em contato com o mundo do outro a partir de sua urgŒncia. Depoimentos como este fazem parte dos encontros semanais de um grupo de supervisªo de orientaçªo humanista, e mais especificamente centrada no cliente, da Clínica-Escola do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, localizada na regiªo central da cidade. O serviço de pronto-atendimento psicológico foi implantado em 1994, a partir do projeto de dois alunos do Curso de Especializaçªo em Psicoterapias Institucionais do Departamento de Psicologia Clínica. O oferecimento desta modalidade de atendimento clínico-psicológico efetivou-se como decorrŒncia da constataçªo de um alto índice de desistŒncia por parte da clientela que busca ajuda naquela instituiçªo, frente às longas filas de espera para psicoterapia e tambØm pela observaçªo de que algumas pessoas procuram a clínica numa situaçªo de emergŒncia. Em ambos os casos verificava-se a impossibilidade de o sistema atender à solicitaçªo 116 Plantªo Psicológico: novos horizontes imediata do cliente. O Plantªo Psicológico viabiliza um atendimento de tipo emergencial - compreendido como um serviço que privilegia a demanda emocional imediata do cliente - e que funciona sem necessidade de agendamento, destinado a pessoas que a ele recorrem, espontaneamente, em busca de ajuda para problemas de natureza emocional. Operacionalmente, os períodos cobertos pelos plantonistas ainda sªo restritos, pois nem todos os grupos de supervisªo que atuam na Clínica-Escola participam desta prÆtica. A divulgaçªo Ø feita atravØs de cartazes distribuídos internamente na própria universidade e tambØm em postos de saœde, hospitais, escolas e centros comunitÆrios. Cabe às recepcionistas da clínica psicológica controlar o fluxo de pessoas para nªo sobrecarregar os horÆrios do plantªo e elas o fazem encaminhando os clientes que nªo terªo condiçıes de ser atendidos naquele plantªo para o próximo. Cada período perfaz quatro horas com a presença de dois plantonistas. HÆ flexibilidade quanto à duraçªo de cada sessªo, levando-se em conta as idiossincrasias dos clientes e tambØm as limitaçıes que advŒm da inexperiŒncia dos estagiÆrios; procurase, no entanto, manter como parâmetro a hora terapŒutica de cinqüenta minutos. Estabeleceu-se como rotina a possibilidade de um retorno, em casos em que isto se fizer necessÆrio e mediante uma tomada de decisªo do próprio plantonista. Embora os clientes atendidos durante os plantıes possam ser encaminhados à triagem da própria clínica - escola para atendimento psicoterÆpico, grande parte dos encaminhamentos tem sido externo, frente a significativa e crônica demanda que congestiona e dÆ origem às filas de espera da instituiçªo. No entanto, o objetivo primordial do plantªo Ø o de constituirse num serviço alternativo às psicoterapias tradicionais, especificamente voltado àqueles que por inœmeras razıes nªo se beneficiariam (ou nªo estariam 117 Plantªo Psicológico em Clínica-Escola disponíveis) de um atendimento clínico a mØdio ou longo prazo. Em termos institucionais, o Plantªo Psicológico compıe o elenco das prÆticas clínicas sob responsabilidade dos estagiÆrios do œltimo ano do Curso de Psicologia, juntamentecom o serviço de triagem, psicoterapias individuais, grupais e de casal, assim como grupos de espera, sob supervisªo de docentes com diferentes abordagens teóricas Os plantonistas, sendo alunos do œltimo ano do curso de Formaçªo de Psicólogos, tambØm sªo responsÆveis por outros atendimentos psicoterÆpicos - individuais ou grupais - nos moldes tradicionais, jÆ que optaram pelo campo de estÆgio em clínica-escola como parte de sua formaçªo. Historicamente, o serviço de plantªo psicológico da PUC-Campinas inspirou-se no modelo desenvolvido pelo Setor de Aconselhamento Psicológico do Instituto de Psicologia da USP de Sªo Paulo (cf. Mahfoud, 1987) na dØcada de oitenta, no entanto, apresenta um carÆter inovador, representado pela participaçªo de supervisores com abordagens teóricas diferentes - cognitivista e centrada no cliente - numa mesma modalidade de relaçªo de ajuda psicológica. Esta posiçªo coincide com uma perspectiva de integraçªo, proposta e defendida em relaçªo ao conceito de Clínica-Escola que une estes docentes-supervisores. Compreendem que a vocaçªo de uma instituiçªo como esta Ø a de enfrentar o desafio de um atendimento psicológico compatível com as necessidades da comunidade alvo e tambØm voltado para a formaçªo clínica do aluno, priorizando a relaçªo interpessoal que possibilita o diÆlogo cliente-estagiÆrio. Insere-se aqui uma tomada de posiçªo mais ampla sobre a concepçªo de atendimento clínico, soltando o das amarras de um viØs que tradicionalmente o atrelou à psicoterapia como œnica via para a intervençªo e com esta a uma temporalidade 118 Plantªo Psicológico: novos horizontes estabelecida a priori - quanto mais longo o processo terapŒutico, maior sua eficÆcia. Contrariando esta visªo, o trabalho em equipe desenvolvido para a implantaçªo do serviço de plantªo psicológico, buscou transcender e subordinar as diferenças teóricas a um objetivo comum: a flexibilizaçªo das prÆticas de intervençªo clínica institucional jÆ existentes em prol de uma ajuda psicológica que se mostrasse mais empÆtica aos apelos da comunidade, neste contexto e Øpoca. Manteve-se, no entanto, a autonomia de cada supervisor quanto às estratØgias clínicas para efetivaçªo do atendimento. Para os plantonistas que atendem nos moldes da Abordagem Centrada na Pessoa, esta experiŒncia tem sido considerada fundamental ao lançÆ-los num tipo de relacionamento interpessoal de ajuda psicológica em que suas atitudes e crenças sªo postas à prova de maneira dramÆtica (vide anexo). Questionam-se sobre a efetividade da ajuda prestada aos clientes, jÆ que o parâmetro de continuidade da intervençªo que os amparava num processo psicoterÆpico tradicional nªo estÆ disponível: o tempo conspira de forma a exigir deles uma disponibilidade emocional para o encontro com o outro imediata e genuína; preservar a autonomia emocional do cliente, e ainda assim, ativamente, facilitar-lhe o desenvolvimento de um processo gerador de alternativas à angœstia vivenciada, eis o desafio revisitado a cada novo atendimento. A Œnfase na ativaçªo de um processo experiencial de carÆter intersubjetivo colabora para que o plantonista nªo transforme o atendimento numa relaçªo de natureza autoritÆria ou filantrópica, face à seduçªo exercida pela aparente fragilidade do cliente. Wood (1995) enfatizou: esta abordagem se realiza quando alguØm dirige a melhor parte de si mesmo à melhor parte do outro e, assim, pode emergir algo de inestimÆvel valor que nenhum dos dois faria sozinho. 119 Plantªo Psicológico em Clínica-Escola A experiŒncia acumulada desde a implantaçªo do serviço tem se mostrado decisiva para uma transformaçªo, tanto dos supervisores envolvidos quanto dos estagiÆrios e quiçÆ da própria populaçªo atendida, gerando pesquisas que poderªo alicerçar novos rumos para as clínicas-escola de Psicologia. Do ponto de vista tØcnico, o plantonista recorre a atitudes e estratØgias clínicas que objetivam o acolhimento adequado ao cliente de forma a possibilitar a explicitaçªo da demanda emocional que o aflige, no exato momento em que busca uma relaçªo de ajuda psicológica. Considera-se como cliente aquele que se apresenta, nªo importando se a queixa refere-se a uma terceira pessoa, pois o atendimento Ø de carÆter imediato e nªo visa necessariamente o encaminhamento a processos psicoterÆpicos. Ancona-Lopez (1996), em sua tese de doutorado, corrobora esta posiçªo: quando o cliente vem à procura de um psicólogo, ele quer ser atendido em suas necessidades, pouco importando sob que nome este atendimento se efetue. Na prÆtica, no entanto, o que acontece com freqüŒncia Ø que, por nomear sua prÆtica, o psicólogo deixa de fazer a sua parte, postergando sua intervençªo e empobrecendo um encontro rico de possibilidades. (p.15) Abre-se, portanto, uma ampla gama de possibi- lidades quanto ao desenvolvimento da relaçªo cliente- plantonista, embora esta seja breve. Cabe salientar que a eficÆcia do serviço prestado nªo utiliza como critØrio o grau de resolutibilidade do problema, isto Ø, nªo se prioriza como foco do atendimento a queixa em si, considerada como algo objetivÆvel e despida dos significados que lhe sªo atribuídos, mas sim a pessoa, compreendida como um todo que se revela em suas formas características de expressªo, matizes de comportamento, atitudes e emoçıes, visando conferir-lhe autonomia. TambØm facilitandolhe a reflexªo, na busca de maneiras ou caminhos possíveis 120 Plantªo Psicológico: novos horizontes para transpor as dificuldades que vivencia. Eventualmente, cabe ao plantonista orientar o cliente, prestando-lhe as informaçıes necessÆrias para compreender a instituiçªo e suas alternativas frente a ela, alØm de abrir-lhe outras possibilidades quanto aos recursos disponíveis na comunidade. Deve-se evitar, no entanto, que o entusiasmo nos leve a considerar o plantªo como panacØia para todos os males. As limitaçıes existem, jÆ que obviamente nªo se pode pretender que uma alternativa de intervençªo clínica venha a suprir as inœmeras carŒncias de nosso sistema de Saœde Mental a nível pœblico. Ao possibilitar a explicitaçªo da demanda emocional do cliente, o plantonista depara-se com a escassez dos recursos institucionais da comunidade para acolher estas necessidades que muitas vezes brotam do solo fØrtil das desigualdades sociais e financeiras. O desemprego avoluma-se de maneira assustadora nas grandes cidades, destruindo as esperanças de milhares de famílias que assistem impotentes aos descaminhos de seus filhos mais jovens seduzidos pelo ouro falso do trÆfico de drogas e dos assaltos. As escolas de periferia parecem andar à deriva frente a realidade avassaladora de uma violŒncia urbana que desdenha seus cânones e nªo acredita mais na educaçªo como possibilidade de ascensªo social. Cabe aos plantonistas, sensibilizar-se com este quadro insólito e transformar o contexto das clínicas-escola no sentido de uma aproximaçªo com um modelo mais comunitÆrio, revertendo a tendŒncia anacrônica de reproduzir os consultórios particulares, ao flexibilizar o elenco de serviços oferecidos à populaçªo dando-lhe voz e credibilidade pelo desenvolvimento da autonomia emocional. No âmbito teórico, representa um avanço na medida em que diferentes abordagens psicoterÆpicas poderªo desenvolver pesquisas sobre a eficÆcia da adoçªo de novos modelos, quanto à relaçªo interpessoal de ajuda psicológica. 121 Plantªo Psicológico em Clínica-Escola A VIV˚NCIA DO PLANTˆO PSICOLÓGICO COMO TEMA DE PESQUISA Numa pesquisa recentemente concluída (cujos resultados parciais foram apresentados durante o VI Encontro Estadual de Clínicas-Escola, ocorrido em Itatiba, SP, em agosto de1998) sobre as condiçıes desta implantaçªo, buscou-se caracterizar o modelo de prontoatendimento psicológico oferecido à comunidade. Adotando uma metodologia fenomenológica, desenvolveu-se um estudo de tipo qualitativoque constou da anÆlise de depoimentos colhidos junto aos supervisores, plantonistas e funcionÆrios da Clínica-Escola da PUC-Campinas, a partir dos passos propostos por Amedeo Giorgi (1994). O objetivo principal foi o de descrever a vivŒncia do plantªo para aqueles que se responsabilizam por sua efetivaçªo institucional. O contato com os diversos sujeitos constou de entrevistas abertas, em nœmero suficiente para contemplar o critØrio de saturaçªo, isto Ø, a coleta dos depoimentos foi interrompida quando nªo se observou mais nenhum elemento novo no conteœdo das falas dos sujeitos pesquisados sobre o tema em questªo. Duas questıes bÆsicas nortearam este estudo: a)O serviço de pronto-atendimento psicológico oferecido à comunidade pela Clínica-Escola da PUC-Campinas constitui-se, efetivamente, numa alternativa de relaçªo de ajuda psicológica? b)Quanto à formaçªo do futuro psicólogo, a participaçªo como plantonista representa uma oportunidade de ampliaçªo da experiŒncia clínica? As entrevistas foram gravadas e realizadas individualmente, desenvolvendo-se a partir de algumas perguntas que focalizavam o tema da pesquisa, quais sejam: 122 Plantªo Psicológico: novos horizontes * Consulte o anexo Plantªo Psicoló- gico: vivŒncia dos plantonistas no final deste capítulo. 1) O que Ø para vocŒ plantªo psicológico? 2) VocŒ vŒ algum tipo de contribuiçªo do plantªo para a formaçªo do aluno? 3) Em relaçªo aos pacientes desta clínica, vocŒ percebe algum tipo de contribuiçªo do plantªo à comunidade? 4) Que tipos de pacientes vocŒ encaminharia ao plantªo? As perguntas acima serviram apenas como um roteiro para a entrevistadora; caso o conteœdo, espontaneamente, jÆ incluísse os principais aspectos referentes ao tema da pesquisa, elas nªo eram formuladas. Cada depoimento foi transcrito, textualizado (etapa que corresponde a transformaçªo da transcriçªo em texto escrito) e procedeuse, entªo, a uma anÆlise das unidades de significado de forma a obterse a compreensªo psicológica de cada uma delas. Finalmente, após terem sido estabelecidas algumas categorias a partir das sínteses específicas dos 12 (doze) depoimentos,* compôs-se a síntese geral, ou seja, a estrutura do vivido em relaçªo ao tema. AN`LISE DOS RESULTADOS: Categorias extraídas das Sínteses Específicas: Conceito sobre o plantªo psicológico: consiste num tipo de ajuda, ou atendimento profissional imediato, aberto às pessoas da comunidade que se sentem desesperadas, com problemas ou em crise; caracteriza-se por fornecer alívio, orientaçªo e apoio em situaçıes de urgŒncia. Contribuiçªo para a formaçªo do estagiÆrio: possibilita o acesso a uma diversidade de pessoas e problemas, levando a um contato direto com o inesperado, criando impacto emocional, desenvolvendo uma escuta diferenciada e promovendo um raciocínio 123 Plantªo Psicológico em Clínica-Escola clínico mais rÆpido e preciso. TambØm promove um senso de responsabilidade ampliado, ao retirar o aluno de uma situaçªo de aprendizagem mais protegida. Quanto aos benefícios aos pacientes: sentem- se acolhidos no momento mesmo em que surge uma necessidade de ajuda, ao estarem desorientados, com um problema muito sØrio, ou simplesmente quando precisam desabafar com alguØm. O atendimento oferecido pelo plantonista ajuda a diminuir a ansiedade, permite uma compreensªo do problema, oferece uma perspectiva e uma visªo mais realista do trabalho do psicólogo, como alguØm que sabe ouvir e estÆ ali na hora exata da procura. Tipos de pacientes que encaminhariam ao plantªo: pessoas desorientadas, que chegam aos prantos, que precisam de alguØm naquele momento, mªes desesperadas, pessoas que esperam por uma vaga para fazer psicoterapia, ou aquelas que apenas querem conversar para tirar dœvidas e receber informaçıes sobre o trabalho do psicólogo e as formas de atendimento da instituiçªo. No processo de interpretaçªo (terceira etapa a compor uma anÆlise fenomenológica dos dados, posterior à descriçªo e à compreensªo) destacaram-se alguns elementos do vivido, obtidos a partir das sínteses específicas dos depoimentos de estagiÆrios e supervisores, enquanto representantes da equipe de tØcnicos da instituiçªo. Visando trazer ao leitor uma compreensªo mais particularizada destas vivŒncias, passamos a transcrevŒ-las abaixo: EstagiÆrios: inicialmente, ansiedade frente aos períodos de espera pela chegada de clientes e; dificuldade em confiar em si mesmo(a), frente ao inesperado; frustraçªo pela ausŒncia de uma equipe interdis- ciplinar para dar suporte aos atendimentos; 124 Plantªo Psicológico: novos horizontes após alguns atendimentos, desenvolvimento de autoconfiança e iniciativa; sentimentos de solidariedade e respeito pela comunidade; amadurecimento pessoal e profissional como decorrŒncia de uma escuta empÆtica aos clientes; Supervisores: entusiasmo frente ao amadurecimento do grupo de estagiÆrios pela inclusªo de plantªo psicológico como uma alternativa de atendimento; desenvolvimento de confiança nos recursos internos dos plantonistas; necessidade de maior entrosamento com outros supervisores; frustraçªo frente à ausŒncia de uma retaguarda psiquiÆtrica; satisfaçªo pela possibilidade ampliada de reflexıes e discussıes sobre a prÆtica clínica institucional nos grupos de supervisªo; grande interesse em dar continuidade a este tipo de serviço, tanto em funçªo dos benefícios à populaçªo, quanto pelos objetivos pedagógicos; Como o Plantªo Psicológico Ø apreendido pelas pessoas que se responsabilizam por este serviço na Clínica-Escola da PUC-Campinas: Supervisores, estagiÆrios e funcionÆrios compreendem o Plantªo Psicológico como um tipo de relaçªo de ajuda imediata, que fornece alívio, orientaçªo e apoio em situaçıes de emergŒncia às pessoas da comunidade que se sentem desesperadas ou com problemas muito sØrios. Elas parecem gratas por terem sido acolhidas no momento em que buscaram ajuda psicológica, ou quando precisavam muito desabafar com alguØm. Este tipo de atendimento parece ajudÆ-las no sentido de diminuir a ansiedade, 125 Plantªo Psicológico em Clínica-Escola permitindo uma compreensªo do problema, oferecendo novas perspectivas e uma visªo mais realista do psicólogo como aquele que sabe ouvir e estÆ ali na hora exata da procura. O estagiÆrio, por sua vez, torna- se mais acessível e menos rígido, dando a impressªo de ter amadurecido, pois jÆ nªo se espanta tanto com o inesperado e movimenta-se com mais desenvoltura pela clínica, relacionando-se de maneira mais espontânea com os clientes e os funcionÆrios. Os supervisores, cujos alunos participam do Plantªo Psicológico, sentem que o grupo amadurece e que os encontros tornam-se uma oportunidade para gratificantes discussıes sobre a comunidade, seus problemas, as possibilidades de ajuda, as frustraçıes frente aos próprios limites, assim como para a construçªo de uma cumplicidade repleta de idealismo e de promessas que aumenta a confiança mœtua. Aqueles que nªo participam do serviço, mostram-se receosos quanto à falta de uma retaguarda psiquiÆtrica na instituiçªo e à inexperiŒncia dos estagiÆrios em lidar com situaçıes mais complicadas, principalmente com a possibilidade de clientes em surto psicótico. Alguns chegam a alertar para os riscos de um atendimento deste tipo para o agravamento de uma patologia, jÆ que o acolhimento poderia mascarar o quadro pela reduçªo dos sintomas. As funcionÆrias de um modo geral mostram-se otimistas em relaçªo à existŒncia do Plantªo Psicológico, pois este parece aliviar-lhes da Ærdua tarefa de lidar com aquelas pessoas confusas, que chegam à instituiçªo sem saber o que vieram buscar, ou com as que parecem tªo desamparadas e sofridas que chegam a comovŒ-las. Esta pesquisa coincide com uma linha de interesse profissional mais recente da autora com Œnfaseno desenvolvimento de prÆticas clínicas institucionais . Neste sentido, Macedo(1986) jÆ preconizara a necessidade de que o psicólogo clínico 126 Plantªo Psicológico: novos horizontes fosse levado, desde a sua formaçªo, a refletir criticamente e conscientizar-se do ponto de vista social e político, para ser capaz de desenvolver uma definiçªo ideológica norteadora numa busca por modelos alternativos mais adequados à extensªo dos serviços psicológicos a toda populaçªo, desvinculando-os do estereótipo de uma prÆtica específica para as classes privilegiadas. Identificada com a mesma intençªo, a motivaçªo que tem nos conduzido nesta direçªo origina-se de um questionamento: qual a relevância de se adotar o enfoque existencial-humanista como um posicionamento teórico-filosófico e como perspectiva de atuaçªo clínica numa sociedade como a brasileira? O fato de a Abordagem Centrada na Pessoa submeter a importância dos conhecimentos teóricos e das habilidades tØcnicas ao desenvolvimento de um tipo de relaçªo interpessoal em que os potenciais humanos de autodeterminaçªo possam ser liberados e promovidos, requer que o profissional preste-se a um mergulho corajoso em situaçıes da vida cotidiana, acabando por quebrar modelos e estilos tradicionais, aventurando-se em novos contextos, rompendo certos limites ou, simplesmente, imprimindo visıes pessoais a velhos problemas. O respeito pelas pessoas, o reconhecimento do outro como totalidade e unicidade, a intolerância frente às manifestaçıes de valores deterministas que tendem a enfocar o ser humano genericamente, o compromisso com o devir humano, sªo denominadores comuns das vÆrias linhas de teoria e psicoterapia com esta inspiraçªo (Cury, 1993). A psicologia humanista com uma visªo que prioriza os aspectos saudÆveis do ser humano, assim como as possibilidades de crescimento, e a Abordagem Centrada na Pessoa com sua Œnfase na tendŒncia formativa (Rogers, 1980), tŒm muito a contribuir para a formaçªo do psicólogo clínico, na medida em que permitem uma 127 Plantªo Psicológico em Clínica-Escola forma de abordar os fenômenos da realidade pautada pela noçªo de que o ato de compreender jÆ se constitui em um tipo de intervençªo. Restitui ao encontro inter- pessoal seu carÆter transformador que numa escala mais ampla implica em considerar que a evoluçªo de uma sociedade depende das condiçıes existentes para que as pessoas, individualmente ou em grupo, possam enga- jar-se em rituais institucionalizados que lhes garantam a oportunidade e o contexto apropriado para compartilhar suas vivŒncias, sentindo-se respeitadas e valorizadas. A Œnfase desta pesquisa incide sobre a Ærea da Saœde Mental ComunitÆria e a inserçªo do psicólogo clínico nas prÆticas institucionais. A sistematizaçªo de tais prÆticas faz-se necessÆria e urgente na medida em que no Brasil estÆ em andamento uma reestruturaçªo das políticas em relaçªo à saœde pœblica e, como decorrŒncia, das instituiçıes responsÆveis pelos programas de saœde mental, tanto em níveis de prevençªo e promoçªo de saœde, quanto no que concerne à atençªo secundÆria e terciÆrio (Campos, 1992), priorizando o desenvolvimento de intervençıes contextualizadas, interdisciplinares e flexíveis. Numa perspectiva mais ampla: o objetivo historicamente mais recente da higiene mental jÆ nªo se refere tªo somente à doença ou à sua profilaxia e sim tambØm à promoçªo de um maior equilíbrio, de um melhor nível de saœde na populaçªo. Desta maneira jÆ nªo interessa somente a ausŒncia de doença e sim o desenvolvimento pleno dos indivíduos e da comunidade total. A Œnfase da higiene mental translada-se, assim, da doença à saœde e, com isto, à atençªo sobre a vida cotidiana dos seres humanos. E, isto Ø, para nós, de vital importância e interesse.(Bleger, 1984, p.22). A proposta para a aplicaçªo de esforços no sentido de uma prÆtica clínica coerente com o 128 Plantªo Psicológico: novos horizontes posicionamento teórico-filosófico da Abordagem Centrada na Pessoa contida neste texto, necessita da adoçªo de uma metodologia de pesquisa, cuja interpretaçªo dos dados (intervençıes clínicas) contemple uma descriçªo e compreensªo dos mesmos enquanto fenômenos interpessoais, que emergem ao longo de um processo dinâmico de vivŒncias com significado próprio e intransferível. O reconhecimento de nossa contribuiçªo serÆ decorrŒncia direta de nossa competŒncia para comunicar e discutir cientificamente de maneira a confirmar uma prÆtica referendada e substanciada na realidade sócio-cultural e num modelo de intervençªo clínica efetivo. O verdadeiro pesquisar em Psicologia Ø aquele que busca resgatar o que de mais íntimo e pessoal pertence a cada um, legitimando estes significados como um bem coletivo. Nas palavras de Carl Rogers (1980): Minha confiança Ø no processo pelo qual a verdade Ø descoberta, alcançada e aproximada. Nªo Ø uma confiança na verdade jÆ conhecida ou formulada. Finalmente, a experiŒncia vivida e os resultados do estudo sugerem que o Plantªo Psicológico representa uma flexibilizaçªo quanto às formas de atendimento clínico oferecido à populaçªo, podendo levar, tambØm, a uma economia para o sistema, na medida em que promove encaminhamentos internos e externos. De maneira geral, proporciona, efetivamente, uma relaçªo de ajuda suficiente, reduzindo as listas de espera junto ao próprio serviço de triagem. Quanto ao estagiÆrio-plantonista, desenvolve uma compreensªo mais abrangente da comunidade, amplia sua capacidade diagnóstica pela diversidade de casos atendidos num espaço de tempo relativamente curto, e aprende a estabelecer um contato emocional com os clientes a partir de uma escuta empÆtica que precisa ocorrer de 129 Plantªo Psicológico em Clínica-Escola imediato. TambØm vivencia um processo de amadurecimento pessoal que confere maior autonomia a sua prÆtica clínica. Os clientes, da forma como sªo apreendidos pela instituiçªo, beneficiam-se da oportunidade de um atendimento psicológico que se configura no momento em que hÆ uma demanda emocional, diminuindo o nível de ansiedade e viabilizando o surgimento de recursos pessoais para a busca de soluçıes para a problemÆtica vivida. A despeito do Plantªo Psicológico ser caracterizado pelos cØpticos como apenas mais um tipo de intervençªo a dois, breve demais para produzir qualquer mudança duradoura, diríamos que este serviço tem contribuído para nos aproximar da verdade sofrida que confere realismo ao suor e às lÆgrimas de nosso povo, mas paradoxalmente tem tambØm aumentado nossa fØ no processo dos relacionamentos interpessoais, pelos quais transita e Ø intensificada a possibilidade de recuperaçªo da dignidade humana em sua mais nobre acepçªo. Quanto às instituiçıes em geral, e às Clínicas- Escola em particular, deixemos de atribuir a seu andar paquidØrmico todas as culpas: as limitaçıes quanto ao âmbito dos serviços prestados à populaçªo decorrem com mais freqüŒncia da facilidade com que se faz uso delas para justificar atitudes conformistas e vícios profissionais e menos da eficiŒncia de seus entraves administrativos. Anexo: Plantªo Psicológico: vivŒncia dos plantonistas Uma coisa Ø por idØias arranjadas, outra Ø lidar com pessoas, de carne e sangue, e mil e tantas misØrias. Guimarªes Rosa Grande Sertªo Veredas 130 Plantªo Psicológico: novos horizontes A experiŒncia de atender no plantªo psicológico Ø uma oportunidade desafiadora, tanto para a formaçªo acadŒmica quanto para o desenvolvimento pessoal. Quando um aluno se propıe a ser plantonista, Ø necessÆrio que ele tenha disponibilidade para lidar com situaçıes imprevisíveis, acolhendo pessoas. Independente de quem sejam. Na verdade, quando nos sentamos frente a alguØm no plantªo, nªo sabemos nada sobre essa pessoa, quais os motivos pelos quais ela estÆ ali, suas angœstias, medos, necessidades, expectativas etc. No desenrolardo atendimento, entramos em contato com a pessoa, da forma como ela se apresenta. A partir desta œnica interaçªo, buscamos ser empÆticos, tentamos proporcionar um clima psicológico facilitador para que ela possa expressar-se livremente, entrar em contato com seus sentimentos, e, na medida do possível, possa aliviar a tensªo e um pouco da dor pela qual estÆ passando. Muitas vezes, o motivo da procura pelo Plantªo Psicológico nªo se refere apenas a angœstias ou medos, mas sim, pessoas que vŒm em busca de um espaço para se expressar, alguØm para ouvi- las, ou mesmo, uma busca por outras alternativas, como por exemplo: soluçªo para problemas de familiares ou terceiros, encaminhamento para outros profissionais etc. Ressalta-se que, no Plantªo Psicológico, o fator tempo Ø fundamental, pois, busca-se equacionar a demanda das pessoas, com os recursos que o plantonista e a instituiçªo dispıem, em uma œnica sessªo. Essa proposta cria uma situaçªo peculiar: o plantonista nªo acompanha o desenrolar do processo. A oportunidade de experiŒnciar o atendimento no Plantªo Psicológico, traz em si a possibilidade de entrar em contato com diferentes experiŒncias de interaçªo: quanto a faixa etÆria, nível sócio- econômico e cultural, queixas, etc. Conseqüentemente, amplia a vivŒncia clínica do aluno de 5o ano. A experiŒncia como plantonista possibilita ainda, uma plasticidade quanto às perspectivas profissionais, no sentido de viabilizar futuras aplicaçıes deste modelo de pronto atendimento em outros contextos. 131 Plantªo Psicológico em Clínica-Escola Tem sido um desafio constante, praticar o que aprendemos durante o estÆgio. A experiŒncia de aprender nessa abordagem, tem me mostrado caminhos que antes pareciam mais obstÆculos. Atender na Abordagem, mostrou-me o que Ø estar genuinamente com alguØm, considerando-se todas as peculiaridades. Requer que vocŒ esteja inteiro, pois, todo o trabalho desenvolve- se a partir desta relaçªo. Acreditar na capacidade de crescimento do ser humano Ø o primeiro passo para o atendimento na Abordagem Rogeriana, que com certeza deve permear todo o processo terapŒutico. Propicia uma nova visªo do atendimento clínico particularmente no que se refere ao poder do terapeuta no processo, pois hÆ Œnfase na capacidade que o próprio indivíduo tem para o crescimento. No início foi difícil atender na Abordagem Rogeriana e compreender qual seria o meu papel frente às colocaçıes do cliente e muitas dœvidas surgiram, mas estas foram ficando mais claras à medida em que eu experienciava a relaçªo terapŒutica e observava as conseqüŒncias de minhas atitudes. HÆ muito tempo, eu desejava atuar na Abordagem Rogeriana, finalmente, este ano pude concretizar minhas aspiraçıes. E, confesso, tem sido melhor do que eu imaginava. Rogers Ø mesmo incrível... As situaçıes de aprendizado e crescimento sªo constantes, seja nas supervisıes, nas discussıes dos textos, no atendimento, no progresso do cliente, etc. Passamos por momentos inesquecíveis e de valor inestimÆvel . A oportunidade de participar de um grupo em que abrimos uma roda e compartilhamos o estudo e o atendimento clínico na perspectiva rogeriana, foi uma experiŒncia valiosa, por diversas razıes. Em especial, pela possibilidade de aprender da compreensªo teórica e clínica de Rogers em um espaço que podemos ouvir e dizer as histórias reais de que passamos a fazer parte quando somos psicoterapeutas . 132 Plantªo Psicológico: novos horizontes BIBLIOGRAFIA: ANCONA-LOPEZ, S. A Porta de Entrada: da entrevista de triagem à consulta psicológica. Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica de Sªo Paulo, SP, 1996. BLEGER, J. Psico-Higiene e Psicologia Institucional. Porto Alegre: Artes MØdicas, 1984. CAMPOS, G.W.S. Reforma da reforma; repensando a saœde. Sªo Paulo: Huicitec, 1992. CURY, Vera E. Abordagem Centrada na Pessoa: um estudo sobre as implicaçıes dos trabalhos com grupos intensivos para a terapia centrada no cliente. Tese de Doutorado. Faculdade de CiŒncias MØdicas da Universidade Estadual de Campinas, 1993 GIORGI, Amedeo A phenomenological perspective on certain qualitative research methods. Journal of Phenomenological Psychology, 25 (2): 190-220, 1994. MACEDO, R. M.(org.) Psicologia e Instituiçªo: novas formas de atendimento. Sªo Paulo : Cortez, 1986. MAHFOUD, Miguel. A vivŒncia de um desafio: plantªo psicológico. IN: ROSENBERG, R.L. (org.). Aconse- lhamento Psicológico Centrado na Pessoa. Sªo Paulo: EPU, 1987, p.75-83 (SØire Temas BÆsicos de Psicologia, vol. 21). ROGERS, C. R. A Way of Being. Boston, Massachusetts: Houghton Mifflin Company, 1980. 133 Plantªo Psicológico em Clínica-Escola ROSENBERG, Rachel L. (Org.). Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. Sªo Paulo: EPU, 1987 (SØrie Temas BÆsicos de Psicologia, Vol. 21) WOOD, J.K. et alii (Org.s) Abordagem Centrada na Pessoa. 2“ ed., Vitória: Editora Fundaçªo Ceciliano Abel de Almeida / Universidade Federal do Espírito Santo, 1995. 135 Psicólogos de plantªo... Psicólogos de plantªo... Vera Engler Cury Um conjunto de atitudes ao abordar os problemas de natureza emocional desenvolvido pela Abordagem Centrada na Pessoa em suas mœltiplas aplicaçıes - desde a psicoterapia individual, passando pelos pequenos grupos intensivos atØ os surpreendentes encontros de comunidade - gerou tambØm esta perspectiva de pronto atendimento psicológico que ao longo destes capítulos compartilhamos. E Ø esta mesma vinculaçªo aos pressupostos teórico-filosóficos da Psicologia Humanista, atravØs de um de seus mais ilustres expoentes, Dr. Carl Ransom Rogers, que tem possibilitado um processo genuíno de troca de experiŒncias, gerando afinidades, a despeito das diferenças quanto a contextos e propostas numa realidade sócio-cultural que nos instiga, a despeito de toda a perplexidade. Respeitosamente, os plantonistas aguardam por seus clientes, sem saber quem serªo, o que os trarÆ, 136 Plantªo Psicológico: novos horizontes como ajudÆ-los... Quando chegam, repete-se um encontro feito de apertos de mªo, olhares, conversas... e assim, despretensiosamente, atitudes simples de acolhimento trazem de volta a magia dos rituais: de homens primitivos ao redor de fogueiras ancestrais atØ a comovida cumplicidade destes momentos refazem- se os elos históricos de nossa humanidade em processo de vida. Estas sªo horas solenes porque nos tornam a todos mais humanos e este mesmo ritual que ao ser reencenado perpetua valores e crenças, paradoxalmente tem o dom de transformÆ-los. E desta mesma sociedade exaurida por inœmeros conflitos, sacudida por atos violentos, por vezes tªo injusta com as minorias e tªo complacente com os tiranos, surgem ainda ideais, sonhos de um mundo mais livre e de uma psicologia mais justa. Cabe-nos como psicólogos neste novo sØculo que se anuncia a difícil convivŒncia com a AIDS, com a misØria da alienaçªo, com a dor suprema da perda de contato do homem com seus vizinhos - em nome de uma absurda supremacia Øtnica; porØm Ø nosso tambØm o prazer de uma intimidade ímpar e a indescritível alegria de compartilhar a retomada da consciŒncia e da autonomia. Desdenhamos as bolas de cristal, pois Ø pobre adivinhar quando se pode chegar bem perto e ao ouvir o outro sentir os ecos de uma empatia revisitada, bebendo da própria fonte. A verdadeira sabedoria nªo reside no domínio dos fatos, mas sim no incrível mistØrio de compartilhar com as pessoas a jornada que as levarÆ ao encontro consigo mesmas e da qual emergem fortalecidas. Nªo podemos nos omitir ante uma AmØrica Latina atormentada por tantas dificuldades. Para tarefa tªo complexa, nosso compromisso enquanto profissionais e cidadªos faz-se urgente e imprescindível, jÆ que a Psicologia Ø por excelŒncia a ciŒncia que privilegia os afetos, os vínculos, a integraçªo 137 Psicólogosde plantªo... do indivíduo com o contexto sócio-cultural que o coletiviza e lhe confere o sentido de pertinŒncia. Num cenÆrio em que sanidade e loucura parecem nªo ter fronteiras definidas, ainda Ø nossa a tarefa de criar encontros que sejam mais do que simples trocas de palavras; cabe-nos a missªo de transformar o mundo atravØs de trabalhos empreendidos em salas de aula, consultórios de psicoterapia, empresas, centros comunitÆrios, presídios, favelas, hospitais, centros de saœde, ou atØ mesmo nas ruas. HÆ, por outro lado, questionamentos de ordem Øtica que incidem sobre os atendimentos institucionais: em toda a Ærea de saœde mental questionam-se hoje os objetivos e os efeitos verdadeiros do atendimento institucional. Trata-se de definir, para alØm dos limites explícitos, a quem, ou ao que, interessam os procedimentos que sªo oferecidos ao pœblico para seu bem-estar. A uma anÆlise cuidadosa, muitos fatos se revelam servindo antes à manutençªo da própria instituiçªo do que aos seus usuÆrios. (Rosenberg,1987). Nªo devemos ingenuamente negligenciar tal alerta; o psicólogo-plantonista deve responsabilizar-se pela forma como as diversas instituiçıes compreendem e inserem o serviço do Plantªo Psicológico, mantendo para tanto a necessÆria lucidez quanto à ideologia vigente e impedindo que esta prÆtica sirva aos interesses daqueles que pretendem pela multiplicidade de mode- los de atendimento, apenas mascarar as diferenças e ludibriar a populaçªo, substituindo a necessidade real de tratamentos psicológicos pelo oferecimento de serviços e tØcnicas de carÆter amadorístico e sem emba- samento teórico. O risco estÆ em nos aliarmos a uma visªo poderosamente discriminadora que vincula a quan- tificaçªo dos atendimentos à eficiŒncia do modelo institucional. 138 Plantªo Psicológico: novos horizontes Os mestres que nos precederam Abe Maslow, Carl Rogers, Rachel Rosenberg, tinham em comum a coragem para superar os dogmas e o entusiasmo para buscar o inØdito. As teorias sªo necessÆrias mas, com o tempo, tornam-se mistificadas; retomar os questionamentos, redescobrir seus significados, atualizar seus objetivos, impedi-las de cristalizar, eis o maior empreendimento do pesquisador, pois como sabemos toda cronificaçªo Ø um obstÆculo ao crescimento. O conhecimento nªo Ø algo linear, a aprendizagem só ocorre quando nos interessamos profundamente pelo objeto de estudo. E que estranho objeto Ø o nosso: mergulhamos no outro para emergirmos mais conscientes de nós mesmos. Confiar em nossos clientes nos ensina a ter fØ na possibilidade de um mundo mais humano. Pessoas desrespeitadas tornam-se violentas, mas aquelas a quem foi outorgado o privilØgio de uma escuta respeitosa geram novos ventos para atitudes mais solidÆrias e altruístas. A despeito de tudo isto, estamos de plantªo, de maneira ativa e pertinaz! Esta parece ser uma alternativa suficientemente contemporânea para levar nossos estagiÆrios ao encontro desta que nos cabe como realidade, neste tempo e neste país. JÆ nªo se pode mais esperar pelas revoluçıes silenciosas que embalaram os sonhos do compenetrado Carl. Uma Øtica das relaçıes interpessoais, sutil mas poderosa, feita de pequenos gestos e acenos suaves, simples e ainda assim determinada, parece conduzir os projetos do Plantªo Psicológico aqui comunicados. Que esta conversa-diÆlogo, por onde transitam nossos testemunhos e crenças, possa contar a vocŒ, leitor, um pouco de nossa alma de aventureiros, crØdulos demais para desacreditar da dignidade humana, irremediavelmente psicólogos para dar de ombros quando as instituiçıes criadas para ajudar pessoas jÆ nªo sabem mais reconhecer seus apelos. 139 REFER˚NCIA BIBLIOGR`FICA ROSENBERG, Rachel L. (Org.) Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. Sªo Paulo: EPU, 1987 (SØrie Temas BÆsicos de Psicologia, Vol. 21) Psicólogos de plantªo...