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Prévia do material em texto

Miguel Mahfoud (org)
Daniel Marinho Drummond
Juliana Mendanha Brandªo
John Keith Wood
Raquel Wrona Rosenthal
Roberta Oliveira e Silva
Vera Engler Cury
Walter Cautella Junior
Plantªo Psicológico:
novos horizontes
Todos os direitos desta ediçªo estªo reservados à
E D I T O R A C . I . L T D A .
Rua FlorinØia, 38 – ` gua Fria
02334-050 – Sªo Paulo – SP
Tele/fax: 11 6950-4683
LaPS – Laboratório de Psicologia Social/UFMG
' 1999 by Miguel Mahfoud
1“ ediçªo, outubro de 1999
 Revisªo Miguel Mahfoud
Daniel Marinho Drummond
Capa e Diagramaçªo
Na capa
Juliana de Souza Vaz
Paul Klee, Caminho Principal e Caminhos
SecundÆrios (1929) Coleçªo C. e A.
Vowinckel
Ediçªo do CD-ROM
Apoio tØcnico
Daniel Marinho Drummond
SUM`RIO
Autores ......................................................................................................... 5
PrefÆcio ......................................................................................................... 7
Introduçªo ................................................................................................. 11
Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes
Sapientiae: uma proposta de atendimento
aberto à comunidade
Raquel Wrona Rosenthal ............................................................... 15
Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia
 Miguel Mahfoud............................................................................ 29
Plantªo Psicológico na escola: presença que
mobiliza
Miguel Mahfoud, Daniel Marinho Drummond,
Juliana Mendanha Brandªo, Roberta Oliveira e
Silva .................................................................................................. 49
Pesquisar processos para aprender experiŒncias:
Plantªo Psicológico à prova
Miguel Mahfoud, Daniel Marinho Drummond,
Juliana Mendanha Brandªo, Roberta Oliveira e
Silva .................................................................................................. 81
Plantªo Psicológico em Hospital PsiquiÆtrico:
Novas Consideraçıes e desenvolvimento
Walter Cautella Junior.................................................................... 97
Plantªo Psicológico em Clínica-Escola
Vera Engler Cury ......................................................................... 115
Psicólogos de plantªo...
Vera Engler Cury ......................................................................... 135
5
AUTORES
Autores
Daniel Marinho Drummond Ø psicólogo, mestrando
no Programa de Pós-Graduçªo em Psicologia
da Universidade Federal de Minas Gerais.
John Keith Wood Ph.D. em Psicologia pelo The Union
Institute (E.U.A.), foi professor na California State
University em San Diego (E.U.A.) onde
tambØm fez plantªo psicológico no Hospital e
no Centro de Aconselhamento, e, no Brasil, foi
professor no Programa de Pós-Graduaçªo em
Psicologia Clínica da PUC-Campinas. Amigo
íntimo e colaborador direto de Carl Rogers por
quinze anos desenvolvendo uma Psicologia de
grandes grupos e vÆrios projetos internacionais.
Juliana Mendanha Brandªo Ø psicóloga pela
Universidade Federal de Minas Gerais, pós-
graduanda em Psicopedagogia pelo Centro
UniversitÆrio de Belo Horizonte.
6
Plantªo Psicológico: novos horizontes
Miguel Mahfoud Ø professor adjunto do Departamento
de Psicologia da Faculdade de Filosofia e
CiŒncias Humanas da Universidade Federal de
Minas Gerais, Doutor em Psicologia pela
Universidade de Sªo Paulo.
Raquel Wrona Rosenthal Ø psicóloga pela PUC-SP,
com Especializaçªo em Aconselhamento
Psicológico pela Universidade de Sªo Paulo e
Curso de Estudos Avançados da Abordagem
Centrada na Pessoa (Rosenberg/Wood).
Coordenadora do Curso de Especializaçªo em
Abordagem Centrada na Pessoa promovido
pelo Centro de Psicologia da Pessoa em Sªo
Paulo. Psicoterapeuta e facilitadora de grupos.
Roberta Oliveira e Silva Ø psicóloga pela Universidade
Federal de Minas Gerais.
Vera Engler Cury Ø professora do Instituto de
Psicologia e Fonoaudiologia da PUC-
Campinas, Coordenadora do Departamento de
Psicologia Clínica, Doutora em Psicologia pela
PUC-Campinas.
Walter Cautella Junior Ø psicólogo, mestrando pelo
Instituto de Psicologia da Universidade de Sªo
Paulo, Chefe do Departamento de Psicologia e
Psicoterapia da Casa de Saœde Nossa Senhora
de FÆtima, Coordenador e supervisor do
programa de estÆgios em psicologia institucional
e Presidente do Centro de Estudos daquela
mesma instituiçªo.
7
PrefÆcio
PREF`CIO
Este livro traz boas novas.
Primeiramente, apresenta evidŒncias de que o
Plantªo Psicológico Ø um serviço viÆvel para atender
adolescentes, estudantes universitÆrios e outros
membros da comunidade, abastados ou nªo.
O contato com esse serviço ajuda as pessoas
a lidarem efetivamente com os predicamentos da
vida, nªo os tratando como problemas que requerem
tratamento psiquiÆtrico. Por exemplo, uma pessoa
em uma “crise espiritual” nªo estÆ confrontando um
problema. Nªo estÆ tendo um comportamento
normal ou anormal. É um predicamento envolvendo
questıes filosóficas, buscando significados,
identidade.
O psicólogo Prof. Dr. Miguel Mahfoud ilustra
este ponto de vista em um relato sobre experiŒncias
em um colØgio. Plantªo seria “um espaço onde o
aluno pudesse buscar ajuda para rever, repensar e
refletir suas questıes”. Naturalmente, tal atividade
8
Plantªo Psicológico: novos horizontes
nªo Ø apenas uma conversa entre amigos. Em
situaçıes onde uma forma diferente de psicoterapia
Ø mais apropriada, a pessoa recebe a indicaçªo de
um(a) profissional competente.
Uma outra boa nova Ø que plantªo psicológico
pode promover uma experiŒncia de aprendizagem
eficaz para estagiÆrios(as). Confrontando a pessoa inteira
no contexto completo da sua existŒncia, o estagiÆrio(a)
necessariamente deve ampliar sua visªo do papel da
psicoterapia. O filósofo e matemÆtico inglŒs Alfred
North Whitehead observou que, “O conhecimento
de segunda-mªo do mundo instruído Ø o segredo da
sua mediocridade”. O tipo de problemas que as pessoas
enfrentam sªo, em geral, de primeira-mªo. A ajuda
que necessitam Ø de ordem prÆtica. Esta forma de
aprendizagem Ø prÆtica.
Assim, ambos os participantes – o plantonista
e o indagador(a) – participam e se beneficiam de uma
educaçªo intuitiva cujo objetivo Ø a auto-realizaçªo.
Em um encontro de pessoa a pessoa como este, onde
se procura dirigir a melhor parte de si mesmo à melhor
parte do outro com o propósito de curar a mente, o
corpo e a natureza, a essŒncia da psicoterapia estÆ, de
fato, sendo redefinida.
O mesmo observa Walter Cautella Junior,
descrevendo seu trabalho em um hospital
psiquiÆtrico: “A experiŒncia do plantªo psicológico
leva a instituiçªo a reformar sua visªo do indivíduo
institucionalizado”.
HÆ promessas de mais boas novas. A palavra
“plantªo” vem do francŒs planton, quando era aplicado
em linguagem militar para designar a pessoa que ocupa
uma posiçªo fixa, alerta dia e noite. Seu uso moderno
refere-se ao suporte, fora do horÆrio normal,
oferecido por mØdicos em hospitais ou, como aqui,
por um psicólogo. AlØm disso, sua relevância estÆ no
9
fato de que a origem da palavra planton vem do latin:
plantare, plantar.
Um significado dessa palavra refere-se a “planta
do pؔ. Assim, o plantªo psicológico pode ser visto
como tendo seus pØs no chªo. Sendo prÆtico.
Respondendo às necessidades imediatas dos clientes
(que poderªo ser psicológicas ou de qualquer outra
ordem).
O segundo sentido de “plantar,” Ø “meter um
organismo vegetal na terra para enraizar”. Essa Ø outra
característica do Plantªo Psicológico descrito neste
livro: estar plantado na cultura brasileira com suas
deficiŒncias e seus nutrientes. Principalmente, Ø um
organismo vivo e crescendo. Assim, como lembram
as palavras de Prof.a. Dr.a Vera E. Cury, “Uma Øtica
das relaçıes interpessoais, sutil mas poderosa, feita de
pequenos gestos e acenos suaves, simplese ainda assim
determinada, parece conduzir os projetos do Plantªo
Psicológico”.
Se for possível ficar imune e nªo se deixar
restringir por dogmas e modismos filosóficos poderÆ
continuar a se desenvolver efetivamente de acordo com
as necessidades da populaçªo desse tempo e lugar.
John Keith Wood
Jaguariœna, Agosto 1999
PrefÆcio
11
INTRODU˙ˆO
1
 MAHFOUD,
Miguel. A vivŒncia
de um desafio:
plantªo psicológico.
In: ROSENBERG,
Rachel Lea (Org.).
Aconselhamento
p s i c o l ó g i c o
centrado na
pessoa. Sªo Paulo:
EPU, 1987, p.75-83.
(SØrie Temas BÆsi-
cos de Psicologia,
Vol. 21)
Introduçªo
Frutos Maduros do Plantªo
Psicológico
Miguel Mahfoud
Desde a primeira sistematizaçªo – nos idos
de 1987
1
 – da inicial experiŒncia de Plantªo
Psicológico no Brasil, que se apresentava como
desafio a ser vivenciado, como semente que muda
de cor e se alastra no terreno de sempre com brotos
frÆgeis mas injetando a verde esperança que tudo
transforma, desde entªo a proposta de um
Aconselhamento Psicológico aberto às mudanças de
nosso tempo, de nossa cultura e de nossa realidade
social foi brotando e formando raízes.
Que solo seria o mais propício ao desenvolvimento
de algo que prometia vitalidade senªo o nosso próprio,
nossa terra, nossos desafios sociais, institucionais?
Aprender da experiŒncia a partir de um empenho com a
realidade assim como ela Ø para de dentro transformÆ-
la. Assim, em nosso solo brasileiro a experiŒncia de Plantªo
Psicológico tomou corpo de maneira original.
O presente livro quer comunicar a sistematizaçªo
de um exercício de aprendizagem a partir da experiŒncia
12
Plantªo Psicológico: novos horizontes
de empenho em diferentes contextos institucionais.
Diversas experiŒncias de Plantªo Psicológico que dªo
vida a uma modalidade de Aconselhamento Psicológico
que aceitou romper os limites estabelecidos pelo
descompromisso teorizado de tantas psicologias, pelo
reducionismo sentimental de algumas propostas de
psicologia que se querem humanistas.
Veremos aqui os desafios serem enfrentados em
novos horizontes. Tantos desafios permanecem os
mesmos para a psicologia desde muito: desafios sociais
como as dificuldades econômicas e de trabalho,
desafios educacionais, desafios de uma psicologia
humanista atuante dentro das instituiçıes... A novidade
vem da vitalidade da experiŒncia mesma de um
atendimento que aceita outros parâmetros para orientar
seu desenvolvimento. Os novos horizontes sªo
indicados pela própria aprendizagem significativa
sistematizada com rigor para acolher a vitalidade que
com surpresa emerge.
Queremos que o leitor possa entrar em contato
com a vitalidade da experiŒncia, e com a força
provocadora que algo acontecido de fato pode nos
comunicar: a força do possível. Mais do que modelos,
encontramos aqui provocaçıes.
Uma das provocaçıes significativas Ø a integraçªo
de trabalhos de base humanista inserido em instituiçıes.
Tantas vezes ouvimos o refrªo quase automaticamente
repetido de que as instituiçıes tŒm objetivos diversos
daqueles que movem a Psicologia Humanista jÆ que
esta quer acentuar a centralidade da pessoa e seus
processos autŒnticos. As experiŒncias aqui comunicadas
indicam uma possibilidade de trabalhos claramente de
base humanista que aceitam – com nossos próprios
sujeitos – o desafio de continuamente buscar, no
contexto assim como se apresenta, a afirmaçªo dos
interesses propriamente humanos. Se realmente fosse
impossível para nós, de que maneira poderíamos esperar
13
Introduçâo
que fosse possível para nossos clientes? Se nªo fosse
possível para nós, só nos restaria propor o atendimento
psicológico como espaço alternativo, e por isso
inevitavelmente alienante. Encontramos aqui
experiŒncias que podem abrir novos horizontes neste
sentido.
Em se tratando de uma novidade que estava
apenas brotando, por muitos anos a comunidade psi
acolheu a proposta de Plantªo Psicológico como algo
“alternativo”. No sentido que seria algo outro em
relaçªo ao estabelecido como campo seguro e próprio
do saber e da tØcnica psicológica. Desconfianças,
dœvidas, reticŒncias... cultivadas em compasso de
espera, atØ que os frutos amadurecessem e se pudesse
conhecer de fato esse Plantªo. O próprio Conselho
Federal de Psicologia chegou a se pronunciar em
documento oficial, classificando Plantªo Psicológico
dentre as tØcnicas alternativas emergentes. Alternativa
de maneira distinta daquelas de origem confusa ou
exotØrica, mas entendida como proposta inovadora, que
em certa medida rompe parâmetros estabelecidos por
tØcnicas tradicionais e que ainda estava aguardando uma
avaliaçªo mais rigorosa de sua eficÆcia pelas instituiçıes
de ensino superior e de pesquisa.
Pois bem, os frutos amadureceram e sªo aqui
oferecidos. Amadureceram no trabalho sistemÆtico, na
observaçªo atenta, na sistematizaçªo com rigor
metodológico com base em pesquisas de base
fenomenológica. Sªo esses frutos que agora, aqui, sªo
oferecidos à comunidade para que possamos promover
a experiŒncia de Plantªo Psicológico com uma
concepçªo clara, de maneira tal a possibilitar sua
correspondente avaliaçªo.
Neste sentido este livro dÆ um passo histórico.
JÆ nªo podemos falar em Plantªo Psicológico tØcnica
alternativa. O atual e crescente interesse documentado
pela presença de mesas redondas e/ou de comunicaçªo
14
Plantªo Psicológico: novos horizontes
de pesquisa sobre Plantªo Psicológico em
diversos congressos nacionais e regionais jÆ era um
indício dessa mudança. A apresentaçªo dessas
experiŒncias sistematizadas e pesquisadas colocam um
ponto final.
É claro que trata-se de um ponto final só no
carÆter de alternativo. Sabemos bem que estamos no
início. Plantªo tem ainda muito em que crescer para
exprimir toda sua potencialidade. Os primeiros frutos
maduros apresentam o Plantªo; e sabemos, agora mais
do que nunca, que vale a pena cultivÆ-lo, que hÆ terreno
propício, que hÆ horizonte amplo onde mirar.
Bom terreno, boas sementes, bons frutos... : bom
proveito!
15
O Plantªo Psicológico no Instituto Sedes Sapientiae
O Plantªo de Psicólogos no Instituto
Sedes Sapientiae: uma proposta de
atendimento aberto à comunidade
Raquel Wrona Rosenthal
No final da dØcada de 70, parte do grupo de
profissionais que antes se reunia como “Grupo de
Psicologia Humanista”, decide constituir no Instituto
Sedes Sapientiae, o Centro de Desenvolvimento da
Pessoa, CDP.
Estimulado pelo entusiasmo de Rachel Lea
Rosenberg, o CDP desenvolvia programas de estudos
teóricos, grupos de supervisªo e reflexªo sobre a
prÆtica clínica, promovia workshops abertos ao pœblico,
ciclos de encontros de profissionais paulistas e tambØm
encontros nacionais, constituindo-se em importante
referŒncia para os interessados em discutir e aprofundar
o conhecimento da ACP, Abordagem Centrada na
Pessoa.
Sempre atenta ao potencial transformador da
ACP, considerando tanto a dimensªo individual quanto
a social / comunitÆria, Dra. Rosenberg propıe a criaçªo
de um serviço de Plantªo de Psicólogos, inspirado
nas experiŒncias das walk-in clinics, surgidas nos Estados
16
Plantªo Psicológico: novos horizontes
1
 ROGERS, Car l
Ramson. As Condi-
çıes necessÆrias e
suficientes para a
mudança terapŒu-
tica da personali-
dade. In: WOOD,
John Keith et alii
(Org.s). Aborda-
gem centrada na
pessoa, Vitória:
Fundaçªo Ceciliano
Abel de Almeida /
Universidade Fede-
ral do Espírito San-
to, 1995, p.157-179.
2
 ROGERS, Car l
R a m s o n .
Psicoterapia e
consulta psico-
lógica , 1“
“
 ed . ,
Sªo Paulo: Martins
Fontes, 1987 (Cole-
çªo Psicologia e
Pedagogia), p.207-
208.
Unidos para prestar atendimento imediato à
comunidade. AtØ entªo o Serviço de Aconselhamento
Psicológico, no Instituto de Psicologia da USP, sob
sua coordenaçªo, jÆ vinha oferecendo o que chamava
“plantªo”, e que consistia, naquele caso,em uma
disponibilidade mais atenciosa de recepçªo aos clientes
que procuravam inscriçªo para atendimento regular
em aconselhamento psicológico. Daí surgiram as
primeiras reflexıes sobre as potencialidades de um
serviço de “Plantªo Psicológico”: o poder
transformador da escuta atenciosa, nªo diretiva,
centrada no cliente, confiante na tendŒncia ao
desenvolvimento das potencialidades inerentes à pessoa
(tendŒncia atualizante), e na possibilidade dessa
tendŒncia ser estimulada, mesmo atravØs de um œnico
encontro com o profissional, desde que este œltimo
possa oferecer sua presença inteira, atravØs de sua
própria congruŒncia, capacidade de empatia e aceitaçªo
incondicional do outro, atitudes pilares da ACP.
1
É de Carl Rogers, o criador a Abordagem
Centrada na Pessoa, a ponderaçªo:
“Se atendermos à complexidade da vida humana com
olhar justo, temos que reconhecer que Ø altamente
improvÆvel que possamos reorganizar a estrutura da
vida de um indivíduo. Se pudermos reconhecer este limite
e nos abstivermos de desempenhar o papel de Deus,
poderemos oferecer um tipo muito precioso de ajuda, de
esclarecimento, mesmo num curto espaço de tempo. Podemos
permitir ao cliente que exprima seus problemas e
sentimentos de forma livre, e deixÆ-lo com o reconhecimento
das questıes que enfrenta.” 2
Muitas pessoas, em determinada circunstância
de suas vidas, poderiam se beneficiar ao encontrar essa
interlocuçªo diferenciada, que lhes propiciasse uma
oportunidade tambØm de escutar a si mesmos,
17
O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
3
 INSTITUTO
S E D E S
SAPIENTIAE: Carta
de Princípios, s/d
(mineo.).
identificando e reconhecendo seus próprios
sentimentos e possibilidades de auto direçªo, no
momento em que enfrentam a dificuldade, sem que
necessariamente tenham que se submeter a atendimento
sistemÆtico, prolongado, como tradicionalmente
oferecem as psicoterapias.
Coube a mim a coordenaçªo e supervisªo do
Plantªo de Psicólogos do CDP, oferecido pela primeira
vez em agosto de 1980, como um dos chamados
“cursos de expansªo”do Instituto Sedes Sapientiae. O
curso tinha duraçªo semestral, e prestava, atravØs de seus
alunos, atendimento psicológico aberto à populaçªo.
O Instituto Sedes Sapientiae ou Sedes, como hoje
o chamamos, fundado em Sªo Paulo em 1975, Ø um
importante centro de prestaçªo de serviços, ensino e
pesquisa ligados às Æreas da Psicologia e da Educaçªo,
tendo como compromisso
“assumir sua parcela de responsabilidade na
transformaçªo qualitativa da realidade social, estimulando
todos os valores que acelerem o processo histórico no sentido
de justiça social, democracia, respeito aos direitos da pessoa
humana” 3
Feliz associaçªo de ideais, nosso Plantªo tinha
lugar certo para acontecer!
As atividades iniciaram-se pela seleçªo dos
plantonistas. Os critØrios adotados pediam que fossem
psicólogos, que conhecessem os fundamentos da ACP,
que tivessem experiŒncia mínima de um ano em
atendimento clínico e estivessem especialmente
sensibilizados pela natureza do serviço proposto.
ContÆvamos com um grupo de doze
plantonistas e uma supervisora e estabelecemos o
horÆrio das 20 às 22 horas, às segundas e quintas-feiras
18
Plantªo Psicológico: novos horizontes
4
 BELLAK, Leopold
& SMALL, Leonard.
Psicoterapia de
EmergŒncia e
P s i c o t e r a p i a
Breve, Porto Ale-
gre: Artes MØdicas,
1980.
para os atendimentos e nossas reuniıes. Dedicamos
aproximadamente um mŒs e meio ao planejamento e à
divulgaçªo do novo serviço, período em que pudemos
compartilhar nossas expectativas e fantasias, aplacando
nossa ansiedade, acentuada pela ausŒncia de bibliografia
específica sobre plantªo psicológico. Nªo havia
qualquer mençªo, nas diversas bibliotecas
especializadas que consultamos, às walk-in clinics das
quais Rachel Rosenberg nos falara.
Sabíamos que a possibilidade de psicoterapias
de curta duraçªo vinha sendo considerada por autores
que adotavam diferentes abordagens, como por
exemplo, os trabalhos de Bellak e Small, 
4
 de orientaçªo
psicanalítica. As Psicoterapias Breves vinham tendo,
desde a dØcada de 70, grande implemento e pesquisa,
mas nada de sistemÆtico havia sobre outras experiŒncias
de curta duraçªo ou mesmo de sessıes œnicas de
atendimento.
Dra.Rosenberg, ao refletir sobre variaçıes no
tempo de atendimento, apontava o carÆter preventivo
de uma intervençªo no momento oportuno:
“A duraçªo prevista para um atendimento
possivelmente eficaz em terapia tem sofrido
modificaçıes de vÆrias espØcies. Comprovaçıes
empíricas de resultados satisfatórios justificam o uso
de atendimentos com um nœmero prØ-determinado
ou mÆximo de horas. Cria-se uma metodologia
específica para este tipo de atendimento em linhas
teóricas variadas [...], o atendimento de curta duraçªo
se insere como aplicaçªo natural, bem sucedida e cada
vez mais utilizada. Mesmo no caso de problemas graves
ou dificuldades antigas, conclui-se que o princípio de
tudo-ou-nada — ou seja ,terapia profunda e
prolongada ou nenhuma assistŒncia psicoterÆpica —
nªo tem real validade. Especialmente em pontos
19
O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
5
 ROSENBERG,
Rachel Lea. Terapia
para Agora. In
ROGERS, Carl
Ramson &
R O S E N B E R G ,
Rachel Lea. A
Pessoa como
Centro, Sªo Paulo:
E.P.U., 1977, p.52.
6
 Madre Cristina,
nascida CØlia SodrØ
Dória, cônega de
Santo Agostinho,
educadora, psicó-
loga e fundadora do
Instituto Sedes
S a p i e n t i a e ,
personalidade ines-
quecível para a
Psicologia e para a
História brasileiras.
críticos do desenvolvimento ou da vivŒncia, uma
intervençªo adequada tem, alØm de efeitos terapŒuticos,
carÆter preventivo de conflitos maiores posteriores”.
5
Alguns alunos supunham que, devido ao carÆter
imediato do atendimento, certamente receberíamos
muitos clientes em crise emocional aguda e insistiam
na necessidade de contarmos com um psiquiatra
plantonista. Precisamos esclarecer que nossa proposta
nªo era criar um serviço para emergŒncias psiquiÆtricas
e sim oferecer escuta imediata, recebendo a pessoa no
momento da dificuldade, sem que necessariamente a
intensidade dessa dificuldade tivesse atingido um ponto
crítico que representasse ameaça iminente à sua
integridade ou à de outros; nªo era destinado ao suicida
em potencial, como sugeria a divulgaçªo recente do
CVV, Centro de Valorizaçªo da Vida, cuja equipe de
plantonistas era constituída por leigos em psicologia e
prestava atendimento inicial por telefone. Por
precauçªo, tratamos de pesquisar e organizar uma
relaçªo de instituiçıes e serviços particulares de
psiquiatria, caso viØssemos a necessitar.
A preocupaçªo de Madre Cristina 
6
 era de que
o novo serviço nªo viesse aumentar as jÆ enormes
filas de espera para psicoterapia naquela clínica, tªo
solicitada devido à tradicional qualidade dos serviços
prestados. Insistíamos em esclarecer que a intençªo nªo
era fazer triagem, embora pudØssemos, eventualmente,
realizar encaminhamentos. O Plantªo Psicológico nªo
foi concebido como uma alternativa “tampªo” para
acabar com filas de espera em serviços de assistŒncia
psicoterapŒutica, jÆ que nªo pretende substituir a
psicoterapia. Nªo acreditamos que uma œnica sessªo
seja capaz de resolver sØrios problemas emocionais
ou promover resultados reconstrutivos da
personalidade. Somente mais tarde Ø que viemos a
descobrir as possibilidades terapŒuticas do plantªo.
20
Plantªo Psicológico: novos horizontes
7
 um destes cartazes
e n c o n t r a - s e
digitalizado no CD-
ROM anexo ao livro.
Fizemos vÆrias reuniıes em torno de aspectos
Øticos das formas de divulgaçªo: tratava-se de uma
nova proposta e aberta à comunidade em geral. Como
divulgÆ-la, transmitindo sua originalidade e
acessibilidade, sem banalizÆ-la? Optamos pela
impressªo de cartazes
7
, que foram afixados em diversas
escolas, igrejas,hospitais, bibliotecas pœblicas e
faculdades com o destaque: “Psicólogos de Plantªo ”
e o texto:
“Somos um grupo de psicólogos prontos para ouvir, trocar
idØias, esclarecer dœvidas. Enfim, estar com vocŒ no
momento em que sentir que um psicólogo pode ajudar.”
Seguia-se o nome da psicóloga responsÆvel e
seu nœmero de inscriçªo no CRP, o endereço e horÆrios
do atendimento.
Os plantonistas visitaram as salas de aula do Sedes
onde se desenvolviam outros cursos, para anunciar o
atendimento e esclarecer dœvidas a respeito. Os
primeiros a nos procurar foram justamente alguns
alunos desses cursos, uns motivados por questıes
pessoais, outros, pelo interesse profissional em
conhecer melhor o Plantªo.
Houve uma divulgaçªo num programa da TV
Cultura, uma reportagem extensa que entrevistou
plantonistas e supervisora, e que, infelizmente, só foi
ao ar às vØsperas da interrupçªo do serviço devido às
fØrias. Este fator diminuiu o impacto de sua
repercussªo, pois os clientes que nos procuraram em
seguida à ediçªo do programa da TV nªo puderam
ser atendidos.
O jornal Folha de Sªo Paulo publicou reportagem
do jornalista Paulo SØrgio Scarpa sobre o Plantªo
Psicológico, destacando sua utilidade pœblica.
Interessante assinalar que a seçªo onde se inseriu a matØria
21
O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
8
 Estas matØrias se
encontram digita-
lizadas no CD-ROM
anexo ao livro.
intitulava-se “A Folha e as respostas da sociedade à
crise”(07/11/81). Outras mençıes ao serviço jÆ haviam
sido feitas por esse mesmo jornal, em ediçªo de 16/01/
81 e em seu caderno “Folhetim”, cuja ediçªo ,em 20/
09/81, era dedicada ao tema “Desemprego e
Insegurança”
8
. Hoje, passados 19 anos, podemos
reconhecer, com tristeza, a atualidade desses temas.
O primeiro grupo de doze plantonistas
trabalhou de agosto a dezembro de 1980, dividido
em sub-grupos de seis que se alternavam entre
atendimento e supervisªo: enquanto metade prestava
plantªo às segundas- feiras, a outra parte reunia-se para
supervisªo; às quintas-feiras, invertiam-se as funçıes.
A supervisªo tambØm era acessível ao plantonista
durante o transcorrer de um atendimento, caso
precisasse dela. A duraçªo de uma sessªo de
atendimento poderia variar de uma a duas horas,
dependendo de haver ou nªo outros clientes à espera.
Dispœnhamos de sete salas, sendo seis destinadas
ao atendimento e uma para as reuniıes de supervisªo.
Madre Cristina, confiante na importância da
iniciativa, ofereceu-se para recepcionar os clientes. Assim,
quem procurava o Plantªo Psicológico, mesmo nas
noites mais frias do inverno, encontrava-a logo à
entrada do Sedes, sentada atrÆs de uma pequena mesa,
apoiada num travesseiro para respaldar suas costas,
que tªo vigorosamente suportaram, com coragem e
dignidade, as pressıes da luta por justiça social em
nosso país. Cabia a ela indicar ao cliente o andar e a
sala de atendimento, o que fazia com calor e firmeza,
jÆ despertando nele uma disposiçªo receptiva ao
encontro com o profissional.
No primeiro semestre de 1981 foi feita nova
seleçªo de plantonistas e alguns dos ex-alunos,
entusiasmados que estavam, se re-inscreveram.
22
Plantªo Psicológico: novos horizontes
Novamente, para o terceiro curso, no segundo
semestre de 1981, tivemos re-inscriçıes.
Em 1982 nªo foi renovada a proposta. A
supervisora, preparando-se para sua terceira gravidez,
embevecida que estava pelo novo, decidiu-se pela
dedicaçªo mais intensa às suas filhas, enquanto se
afastava do Sedes, levando muito para refletir a respeito
de seus plantıes e suas “ plantinhas”. Mais tarde, Ø
convidada a oferecer Plantªo Psicológico aos
funcionÆrios do mesmo instituto, atividade que
desenvolveu atØ dezembro de 97. Esse convite atesta
o reconhecimento da importância da proposta e a
repercussªo que o Plantªo Psicológico alcançou dentro
daquela instituiçªo .
Trataremos aqui de apresentar como foi
desenvolvido o Plantªo Psicológico aberto à
comunidade.
OS CLIENTES
Nos trŒs semestres do Plantªo de Psicólogos,
realizamos 145 atendimentos, sendo 28 retornos.
Tínhamos estabelecido trŒs retornos como possibilidade
mÆxima para cada cliente no mesmo semestre.
Entendíamos que, caso nos procurasse com maior
freqüŒncia, isto indicaria a conveniŒncia de encaminhÆ-
lo à psicoterapia. Tínhamos uma relaçªo de instituiçıes
que prestavam atendimento gratuito, como era nosso
caso, e tambØm uma relaçªo de psicoterapeutas
dispostos a trabalhar por honorÆrios simbólicos.
Das 117 pessoas que nos procuraram, 52% eram
mulheres e 48% homens. Predominaram os solteiros;
o nível de escolaridade dos clientes variou de semi-
alfabetizados a curso superior completo; 17% eram
profissionais liberais (advogado, economista, psicólogo,
fisioterapeuta), e o restante composto por outras
ocupaçıes (escriturÆrio, comerciÆrio, comerciante,
motorista, vendedor, feirante, office-boy, tØcnicos em
23
O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
serviços diversos). Procurou-nos tambØm uma pessoa
que declarou como ocupaçªo, ser “pedinte”. Meses
depois, a plantonista que o atendeu o encontraria num
dos ônibus urbanos, recolhendo esmolas entre os
passageiros.
Após cada atendimento, era solicitado ao cliente
que depositasse numa urna um comentÆrio escrito, sem
necessidade de se identificar. Dos 68 depoimentos
recolhidos, destacamos alguns, para ilustrar a
repercussªo imediata ao encontro:
“Eu nunca havia participado de uma entrevista com
psicólogos. Fiquei atØ com receio pois nªo sabia como
iria iniciar a conversa. Entretanto, foi mais fÆcil do que
imaginava. O ‘à vontade’ com que a psicóloga conduziu
o bate-papo propiciou-me externar praticamente tudo o
que vinha me inquietando, chegando mesmo a tirar
conclusıes ou elucidar dœvidas com o simples desabafo de
minhas preocupaçıes. Senti-me pois tªo satisfeita como
se tivesse recebido um presente de Natal ”.
“Nªo acho que o atendimento recebido tenha resolvido o
meu problema, mas tenho plena convicçªo de que abriu-
me algumas portas, deu-me algumas luzes e fez-me refletir.
Creio que agora estou mais apto a resolvŒ-lo e muito
otimista por saber que posso”.
“Acho que existem muitas pessoas que deveriam fazer
esta ‘prØ-anÆlise’ antes de se definir pelo terapeuta”.
“Nªo fez minha cabeça”.
“Como Ø bom ter e sentir que podemos sentar e conversar
com uma pessoa. Falar de nossos problemas sem pensar
que vamos ser censurados”.
24
Plantªo Psicológico: novos horizontes
“Achei ótima a idØia desse Plantªo. Psicólogos ouvindo
pessoas em casos de emergŒncia ‘emocional’. Deve continuar
e se expandir em vÆrios locais e ser divulgado e ‘ensinado’,
dado como curso nas escolas de Psicologia”.
“Acho essa iniciativa muito vÆlida e isso, acredito eu,
vem a ressaltar ainda mais o papel, ainda que às vezes
reprimido do psicólogo na sociedade. Acredito que mesmo
sendo um só encontro, estes 50 ou 60 minutos que sejam,
nossas 23 horas restantes e dias posteriores serªo
melhores”.
De maneira geral, os comentÆrios aludiam à
importância de ser ouvido, faziam referŒncias ao alívio
pelo desabafo, sugeriam que o atendimento deveria
ser pago, apontavam a necessidade de maior divulgaçªo
do serviço e a ampliaçªo dos horÆrios de atendimento
e alguns revelaram frustraçªo da expectativa de que
pudessem receber atendimento prolongado.
OS PLANTONISTAS
Os plantonistas se referiam com freqüŒncia à
sua experiŒncia como estagiÆrios durante o tempo da
faculdade, declarando o quanto “sofreram” ao se
desligar do cliente por ocasiªo da conclusªo do curso
de graduaçªo. Agora, a questªo do vínculo, a separaçªo
do cliente, a ansiedade em funçªo desse œnico encontro,
a imprevisibilidade quanto a outra oportunidade
(sessªo seguinte) para eventual “reparaçªo” de sua
atuaçªo, tudo era discutido sistematicamente nas
supervisıes. Suponho que uma das conseqüŒncias
dessas dificuldades dosalunos foi o nœmero de
encaminhamentos realizados e a quantidade de
intervençıes de natureza diretiva, com tendŒncia a
oferecer respostas e sugestıes.
Outra questªo diz respeito à superaçªo do
estereótipo de que uma relaçªo de ajuda psicológica
25
O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
deva se estender no tempo, de que profundidade e
intensidade sejam diretamente proporcionais à duraçªo
do atendimento. A possibilidade de que uma
intervençªo de natureza breve pudesse ser suficiente
para o cliente nªo era claramente percebida pelos
alunos, limitaçªo que podemos atribuir à formaçªo que
receberam nos cursos de Psicologia, onde a habilitaçªo
do psicólogo estava mais voltada para a atividade clínica
da psicoterapia ou do psicodiagnóstico atravØs de testes.
TambØm em relaçªo às intervençıes diretivas
observamos, muitas vezes, que o sentimento de
impotŒncia do plantonista diante de clientes de menor
poder aquisitivo, levou-os a adotar atitudes paternalistas
e, de certa forma, desvalorizantes para o cliente; houve
casos em que o aluno procurava encontrar soluçıes
imediatas, dar conselhos e sugestıes ou mesmo insistir
em encaminhamentos muitas vezes nªo percebidos
como necessÆrios pelo próprio cliente.
Liesel Lioret, psicóloga que pouco tempo
depois iniciaria tambØm como supervisora o
atendimento psicológico do tipo plantªo em postos
de saœde atravØs da Clínica das Faculdades Sªo
Marcos, fez a seguinte reflexªo sobre sua experiŒncia:
“A questªo dos valores do psicólogo Ø
importante em qualquer processo psicoterapŒutico, mas
quando se trata de sua ‘vontade de ajudar’ pessoas
com problemas de subsistŒncia, a visªo que ele tem
da ‘pobreza’ e de seu próprio lugar na sociedade modela
seus objetivos explícitos e implícitos e suas atitudes.
O psicólogo tem a tendŒncia a se preocupar mais com
o ‘como’ de sua atuaçªo do que com o ‘porquŒ”, ou
seja, com as implicaçıes pessoais e ideológicas de suas
intervençıes. Por exemplo, nªo terÆ a mesma postura
se acredita que uma tomada de consciŒncia individual
possa ser um fator de mudança, ou se acredita que
somente uma mudança social e política possa trazer
26
Plantªo Psicológico: novos horizontes
9
 Extraído de rela-
tório pessoal nªo
publicado (1982).
ParÆgrafo aqui
reproduzido sob
permissªo da
autora.
soluçıes para as situaçıes individuais.[...] Ele deve, mais
do que nunca, estar atento às incongruŒncias de seus
sentimentos com os pressupostos intelectuais: atØ que
ponto ele realmente confia nos recursos da pessoa para
enfrentar suas dificuldades e modificar seu mundo?”
9
O SERVI˙O E O CURSO
Quanto à estruturaçªo do serviço, que
acompanhava o calendÆrio dos cursos do Instituto
Sedes Sapientiae, percebemos que a proposta
semestral, com constantes interrupçıes devido às fØrias,
alØm de truncar o afluxo de clientes, tornava muito
curto o período de preparaçªo do plantonista,
preparaçªo que nos parece requerer bastante empenho,
especialmente no que diz respeito às bases conceituais
da Abordagem Centrada na Pessoa e aos valores
pessoais do profissional. Isto pôde ser confirmado
pelo nœmero de re-inscriçıes dos alunos para os
semestres seguintes, evidenciando que nªo só
reconheciam a relevância e efetividade do Plantªo
Psicológico, como tambØm a consciŒncia que tinham
da necessidade de aperfeiçoamento. O tempo breve
da relaçªo com o cliente talvez torne mais perceptível,
tanto para o supervisor como para o próprio aluno,
o grau de consistŒncia na adoçªo da ACP como
referencial para sua atuaçªo. A ausŒncia de solidez na
“atitude centrada na pessoa” prejudicarÆ a qualidade
da relaçªo de ajuda, gerando no plantonista
comportamentos incongruentes e condutas diretivas
ALGUMAS CONSIDERA˙ÕES SOBRE O PLANTˆO
Nossas próprias “descobertas” antecipam o que
diria mais tarde o rabino e escritor Nilton Bonder:
“A grande descoberta deste sØculo para as CiŒncias
Humanas Ø a descoberta terapŒutica da escuta. Nªo hÆ
melhor entendimento que alguØm possa nos prestar do
27
O Plantªo de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
10
 BONDER, Nilton –
Elul, O mŒs da
escuta, Kol – Boletim
Informativo da
Comunidade Judaica
do Brasil, Rio de
Janeiro, Ano III, n.7,
agosto 1998, p.1.
que servir-nos de ouvido para as falas baixas e quase
imperceptíveis de nossa existŒncia” 10.
Ouvir pode sugerir uma atitude passiva, mas nªo
Ø. Ouvir implica acompanhar, estar atento, estar presente.
Presença inteira. Que quer dizer “presença inteira”?
Todos sabemos o que significa presença “parcial”.
Quantas vezes duvidamos que nosso interlocutor esteja
realmente nos ouvindo? Mesmo que alguØm, ao ser
questionado “VocŒ estÆ ‘mesmo’ me ouvindo?” seja
capaz de repetir literalmente aquilo que acaba de ouvir,
a repetiçªo soarÆ vazia, oca de sentido, se sua presença
estiver cindida. Ser capaz de repetir neste caso nªo
significa ser bom ouvinte. É sutil, mas às vezes podemos
atØ perceber, sem mesmo ter consciŒncia de que
percebemos - pela própria “densidade” de olhar do
outro, pelo tipo de brilho desse olhar - a denœncia da
“parcialidade” da presença. Um olhar nosso ao olhar
do interlocutor poderÆ revelÆ-la. A repetiçªo, mesmo
quando se torne uma reproduçªo, isto Ø, quando procure
“re-produzir”, sintetizando o conteœdo daquilo que foi
ouvido, eventualmente em outras palavras, torna-se oca,
Ø apenas e simplesmente um eco.
Eco, a ninfa da mitologia grega, evitava a
companhia dos homens e dos deuses e nªo se importava
com o Amor. Pª, apaixonado por ela e irritado com sua
indiferença, fez que os pastores da regiªo a
despedaçassem, espalhando os despojos pelas
campinas. Eco, dispersada por muitos lugares, limita-
se a repetir os sons que se produzem por perto.
Ouvir realmente, e nªo apenas “ecoar”, requer
concentraçªo do plantonista (terapeuta, ouvinte etc.).
Nªo Ø possível ouvir estando disperso como Eco. E
nªo estou me referindo a concentraçªo apenas como
capacidade de focalizar a atençªo (no cliente ou na
fala do cliente), mas quero ressaltar a concentraçªo
do terapeuta em si mesmo.
28
Plantªo Psicológico: novos horizontes
Proponho refletirmos sobre “concentraçªo”
como “congruŒncia”. Parece estranho? CongruŒncia
pode ser entendida como o alinhamento de vÆrias
esferas sobre um mesmo eixo. Psicologicamente
falando, significaria ter as dimensıes do pensar, sentir
e agir, alinhadas em torno do mesmo eixo, ter “todos
os centros num mesmo centro”. CongruŒncia Ø
portanto con-centraçªo, tomar dentro de si como œnico
centro, o mesmo eixo de alinhamento. É alinhamento
interno, concentraçªo, presença inteira.
A Abordagem Centrada na Pessoa, enfatizando as
qualidades da relaçªo (aceitaçªo incondicional, empatia e
congruŒncia) como fator mobilizador do crescimento
(tendŒncia atualizante) se confirma como perfeito
referencial para o “Plantªo Psicológico”, modalidade de
atendimento que vem abrir tambØm novas perspectivas
de contribuiçªo social para o psicólogo.
Relembrando a expressªo tªo rica de sentidos
do Prof. Miguel Mahfoud, podemos confirmar o Plantªo
Psicológico como presença que mobiliza.
29
Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia
1
 O presente texto
foi originalmente
apresentado no VIII
Encuentro Latino-
americano del Enfo-
que Centrado en la
Persona, promovido
pela Universidade
Iberoamericana da
Cidade do MØxico e
pela Universidade
Autônoma de
Aguascalientes, em
Aguascal ientes ,
MØxico, em 1996,
com apoio da
FAPEMIG.
Plantªo Psicológico na escola: uma
experiŒncia
Miguel Mahfoud
O desempenho profissional Ø fruto possível
de raízes filosóficas, e Ø verdade que se conhece a
Ærvore pelos frutos. Mas se o fruto-desempenho
profissional nªo morrer, ficarÆ só; se morrer um pouco,
para uma reflexªo mais profunda e para se misturar
com o que dÆ vida, produzirÆ cem por um.
Por isso quero agradecer a possibilidade de
compartilhar experiŒncias1
, a oportunidade de pensar
um pouco mais no que faço; oportunidade de me
enriquecer pela consciŒncia de que tambØm eu fui
plantado e que tambØm eu sou Ærvore com raiz e fruto,
e oportunidade de comunicar. O sentido mais
profundo do fruto nªo Ø semear de novo?
A Educaçªo tem pedido tØcnicas à Psicologia.
Mas o risco Ø o de nªo se clarear a finalidade geral da
educaçªo, respondendo segundo objetivos precisos
mas inadequados a essa finalidade. Ou seja, o risco Ø o
de nªo explicitarmos (nem a nós mesmos) que a
30
Plantªo Psicológico: novos horizontes
finalidade da educaçªo Ø a formaçªo da pessoa, e
querermos responder a tantas demandas com diversos
objetivos definidos (aumento do rendimento escolar,
auxílio na expressªo verbal e escrita, aplacamento de
comportamentos anti-sociais...) que podem nos ocupar
muito, podemos atØ obter resultados, mas poderíamos
ainda assim nªo estar respondendo à verdadeira
finalidade da educaçªo. Se a explicitarmos, daremo-
nos a oportunidade de que ela ilumine objetivos,
mØtodos e tØcnicas. E, ainda mais importante, daremos
a nós mesmos a oportunidade de sermos educadores,
isto Ø, testemunhas de uma consciŒncia ampla possível,
que jÆ começa a ser uma rota de orientaçªo dentro da
desorientaçªo cultural em que vivemos, e que as nossas
crianças e adolescentes nªo tŒm como evitar.
É nesse sentido que um pouco ousadamente
evitei assumir uma funçªo psico-pedagógica na escola
em que trabalhei. É preciso salientar que ali tínhamos
uma condiçªo de trabalho incomum, nªo sendo
chamados a desempenhar as funçıes de orientaçªo
educacional, ou coordenaçªo pedagógica ou disciplinar
- funçıes estas exercidas por outros profissionais. Pude
entªo me preocupar com uma contribuiçªo
propriamente psicológica no âmbito escolar.
Devido à minha formaçªo marcada pela
Abordagem Centrada na Pessoa logo quis que tambØm
na escola a psicologia pudesse contribuir primeiramente
constituindo um espaço para o aluno como pessoa. Um
espaço onde se retomasse a finalidade da educaçªo atravØs
da formaçªo da pessoa naquele contexto, assim como Ø,
com todos os seus recursos e limites, jÆ. Em um contexto
institucional cristalizado e tantas vezes inevitavelmente
partícipe da desorientaçªo cultural que todos vivemos,
eu quis ser psicólogo e educador ao testemunhar o valor
e a potŒncia inovadora e criadora da pessoa que cresce
com consciŒncia de si e da realidade.
31
Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia
2
 Cf. MAHFOUD,
Miguel. A VivŒncia
de um Desafio:
Plantªo Psicoló-
gico. In Rosenberg,
R.L.(Org.), Acon-
selhamento Psi-
cológico Centra-
do na Pessoa,
Sªo Paulo: EPU,
1987, pp.75-83.
(SØrie Temas BÆsi-
cos de Psicologia,
Vol. 21)
Assumindo isso como finalidade, a tØcnica de
atendimento breve que tem sido chamada de “Plantªo
Psicológico” 
2
 serviu como mØtodo de presença entre
os alunos e professores.
Sabemos bem que a imagem de um Serviço de
psicologia dentro da escola Ø visto por todos como
algo muito diferente disso que propomos, e assim
quisemos afirmar essa nova ótica para todos, mas
principalmente - e a partir - dos alunos, a quem aquele
Serviço de psicologia queria servir. Preparamos, entªo,
folhetos de divulgaçªo da proposta, que penso possam
ajudar a explicar a vocŒs tambØm um pouco do que
vem a ser um Plantªo Psicológico na escola.
Aos alunos de nível colegial foi entregue um
folheto com trechos da mœsica “Quase sem querer”
do grupo Legiªo Urbana, e alguns comentÆrios
apresentando o Plantªo Psicológico. Trazia os seguintes
dizeres:
“Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso.
...
Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo mundo
Que eu nªo precisava
Provar nada pra ninguØm
...
Como um anjo caído
Fiz questªo de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira.
Mas nªo sou mais
Tªo criança a ponto de saber
Tudo.
...
32
Plantªo Psicológico: novos horizontes
3
 As i lustraçıes
dos panfletos
apresentados neste
capítulo sªo de
Durval Cordas, a
quem agradecemos
a autorizaçªo para
publicaçªo.
Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais sªo as palavras
Que nunca sªo ditas?”
de “Quase Sem Querer”
(Dado Villa-Lobos/ Legiªo Urbana)
PLANTˆO PSICOLÓGICO NO COLÉGIO
– uma ajuda para quem nªo quer viver
desperdiçando chances (com os amigos,
com a família, no colØgio...)
– um espaço para procurar ouvir em si as
palavras mais profundas e verdadeiras.
– uma possibilidade para todo aluno que nªo
quer viver “quase sem querer”.
Os pedidos de encontro com o
psicólogo podem ser feitos pessoalmente todas
as 3as e 6as feiras nos intervalos da manhª na
sala 45 (próximo à biblioteca e à informÆtica).
Ou por escrito, todos os dias deixando
na portaria do ColØgio um bilhete destinado
ao psicólogo Miguel Mahfoud contendo seu
nome, nœmero e classe, data e assinatura.
– Querendo, apareça!
JÆ o folheto preparado e entregue aos alunos
de nível ginasial foi o seguinte
3
:
33
Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia
34
Plantªo Psicológico: novos horizontes
35
Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia
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Plantªo Psicológico: novos horizontes
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Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia
38
Plantªo Psicológico: novos horizontes
A resposta dos alunos foi bastante positiva. No
início a curiosidade sobre minha pessoa e sobre o tipo
de atendimento era o mais marcante, e vagarosamente
foi se instalando como um espaço para as pessoas, mais
do que para os problemas. Isso fez com que mesmo
quando precisÆvamos chamar alguØm para conversar por
pedidos da coordenaçªo pedagógica ou disciplinar, ou
por pedido de algum professor, a disponibilidade de
tratar dos problemas era jÆ diferente, porque o interesse
era por ele, e nªo por suas notas ou comportamentos.
Entªo atØ suas notas e comportamentos eram discutidos;
suas queixas interminÆveis, ouvidas; mas sua pessoa
continuava a ser o centro, e a resposta à situaçªo assim
como Ø ainda cabe a ele, que pode agora ter alguØm a
quem se referir, com quem se avaliar, em quem se apoiar.
A consciŒncia ampla do educador ali frente ao aluno se
traduz tambØm em disponibilidade e cumplicidade para
que o aluno viva com realismo e com cuidado consigo
mesmo. De modo geral isso Ø mobilizado rapidamente
e o psicólogo permanece como referŒncia para o aluno
na escola, tambØm para outras ocasiıes mais tarde, e a
experiŒncia permanece como referŒncia dentro do aluno
- espero para sempre.
A consciŒncia de si e da realidade pede, antes
de mais nada, discriminaçªo. Quem Ø quem na escola?
Com quem vocŒ pode contar? Quais sªo os recursos
disponíveis na rede de relacionamentos?
Mas se provoco os alunos a estarem atentos à
realidade e ao cuidado consigo mesmos e à sua presença
na escola, Ø porque procuro fazer o mesmo ali. TambØm
eu preciso discriminar bem, e aprender a reconhecer as
diferentes contribuiçıes dos vÆrios professores e
coordenadores que convivem muito mais diretamente
com os alunos do que eu, e por isso podem ser um
contato importante para o meu trabalho e para diferentes
formas de ajuda a alunos em dificuldade. Eles podem
39
Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia
4
 Este fo lheto
encontra-se degita-
lizado no CD-ROM
que acompanha o
livro.
me dar feed-back de minhas intervençıes, podem cooperar
quando tambØm eles se abrem a um tipo de compreensªo
dos acontecimentos que considere o lado dos alunos e
as outras dimensıes normalmente deixadas à margem
da sala de aula.
Na verdade a manutençªo desse tipo de
proposta pede um empenho constante, e
disponibilidade a manter um diÆlogo continuamente
retomado – com os professores, com os alunos e
com o conjunto da instituiçªo - para se esclarecer a
linha do trabalho, e para que se tenha atençªo com o
sentido que o trabalho vai tomandopara a instituiçªo:
COM OS PROFESSORES
Quanto aos professores, Ø fÆcil que em um
primeiro momento eles sintam que somos “defensores”
dos alunos, e quase nos vejam como inimigos. Sentem-
se incompreendidos. ChamÆ-los a colaborar conosco na
atençªo com os alunos nem sempre Ø potente para
romper aquela impressªo. Às vezes Ø preciso que eles
vejam alguns passos que estªo sendo dados pelo aluno e
que se liguem diretamente a seu trabalho. Dedicar-se a
explicitÆ-los nem sempre Ø fÆcil, mas Ø sempre importante.
COM OS ALUNOS
Quanto aos próprios alunos, Ø importante
retomar a proposta de que eles próprios podem nos
procurar, e estar atentos às tensıes que nossa presença
suscita entre eles, para poder lidar com elas tambØm
enquanto escola no seu conjunto, alØm do âmbito de
atendimento individual ou de pequenos grupos.
Como exemplo, apresento a vocŒs um folheto
4
que lançamos quando uma outra psicóloga foi trabalhar
comigo no ColØgio, e aproveitamos para lidar tambØm
com a tensªo existente entre os alunos, ligada ao fato
de que alguns deles se encontravam conosco.
40
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Plantªo Psicológico: novos horizontes
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Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia
44
Plantªo Psicológico: novos horizontes
Assim, brincamos um pouco com a tensªo, e o
projeto foi re-proposto.
COM A INSTITUI˙ˆO
Quanto à necessidade de recolocar continuamente
a proposta, a nível institucional a questªo tambØm nªo Ø
simples. Às vezes nos sentimos um pouco “marcianos”.
Mas o trabalho vai sempre no sentido de responder às
demandas da instituiçªo retomando sempre o ponto
de partida da centralidade da pessoa. De fato, isso Ø
muito desafiador e criativo. Criamos mØtodos e
instrumentos novos ao procurar responder aos pedidos
e necessidades da instituiçªo retomando a finalidade da
educaçªo e as contribuiçıes da Psicologia.
Gostaria de citar dois exemplos:
1) O primeiro se refere a um pedido que a
direçªo da escola nos fez de nos ocuparmos de
Orientaçªo Profissional, sugerindo a aplicaçªo de testes.
Na nossa visªo, para aqueles alunos, o problema
se localizava no tema da escolha. Sendo alunos de classe
sócio-econômica “A”, poderiam escolher o que
quisessem - mas na verdade nªo podem escolher porque
nªo sabem o que querem, ou porque o caminho
profissional jÆ estÆ traçado por herança familiar (a
empresa da família, o consultório do pai...). Nªo
queríamos aplicar testes, porque nªo os ajudaria em nada
a enfrentar o problema de nªo se conhecerem, e o de
assumirem conscientemente um caminho para si na vida
e na sociedade. Nªo queríamos substituí-los nessa tarefa
de escolha que Ø tªo importante, e assinala uma passagem
para o mundo adulto.
A atençªo a isso nos deu criatividade para
utilizar, dentro de nossa abordagem, instrumentos
criados a partir de outros parâmetro teóricos.
Utilizamos textos da cultura brasileira, por exemplo o
da mœsica “Caçador de Mim” (SØrgio Magro/Luís
45
5
 Cf. MARTINS, C.R.
Psicologia do
Comportamento
Vocacional. Sªo
Paulo: EPU/EDUSP,
1978.
6
 FRANKL, V. E.
Psicoterapia e
sentido da vida:
fundamentos da
logoterapia e
anÆlise existen-
cial . Sªo Paulo:
Quadrante, 1973
Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia
Carlos SÆ) como imagem da busca de si que aquele
momento de escolha envolve; ou o poema “Que Ø o
Homem?” de Carlos Drummond de Andrade para abrir
espaço a uma pergunta sobre si e sobre o mundo num
horizonte amplo.
Mas desenvolvemos um novo mØtodo de
Orientaçªo Vocacional adaptando o MØtodo de História
de Vida apresentado por Julius Huizinga no IV Fórum
Internacional da Abordagem Centrada na Pessoa, no
Rio de Janeiro em 1989. Pedimos aos alunos para
desenharem o grÆfico de sua história de vida, assinalando
as experiŒncias mais significativas desde o nascimento
atØ o momento presente, avaliando-as como positivas
ou negativas em diferentes graus. Depois pedimos que
redijam um texto apresentando um dia comum no
futuro, cerca de 15 anos mais a frente. Desse trabalho Ø
possível extrair o critØrio pessoal com o qual cada um
deles olha, avalia e se engaja na própria vida. Entªo se
propıe enfrentar a questªo da escolha profissional com
aqueles critØrios pessoais, tendo em vista as profissıes
que mais favoreceriam a expressªo e o desenvolvimento
de suas características; ao invØs de perseguir a questªo
de onde ele deveria se encaixar para poder ser feliz -
questªo esta que parte de uma posiçªo alienada e
alienante. Só depois de explicitados esses critØrio e
mobilizado esse processo de busca Ø que utilizamos,
eventualmente, testes de personalidade (como o de
Pfister) e o Modelo de Holland
5
 de grupos profissionais
associados a características de personalidade. A proposta
Ø a de enriquecer e ampliar a reflexªo sobre si como
ser-no-mundo, œnico e irrepetível,
6
 ao invØs de esperar
daqueles instrumentos uma resposta.
2) Outro exemplo, para nós muito significativo,
foi quanto à dificuldade da instituiçªo em trabalhar
explicitamente a questªo das drogas, que preocupa
muito a todos - direçªo, professores, pais e alunos.
46
Plantªo Psicológico: novos horizontes
8
 MAHFOUD, Miguel
& BRANDˆO, Sílvia
Regina. Educaçªo
Afetiva. In. I Con-
gresso Interno
do Instituto de
Psicologia da
USP, Sªo Paulo,
1991, p. Z6.
7
 Cf. CARLINI, E.A.;
CARLINI-COTRIN,
B. & SILVA FILHO,
A.R., Sugestıes
para programas
de prevençªo ao
abuso de drogas
no Brasil, Sªo
Paulo: CEBRID,
1990.
Frente à necessidade de um trabalho de
prevençªo ao uso de drogas e frente às dificuldades
institucionais de tratar do tema, nos pareceu mais
adequado procurar utilizar o mØtodo que vem sendo
chamado de Educaçªo Afetiva
7
, que procura modificar
fatores pessoais considerados disponentes à utilizaçªo
de drogas (como auto-estima, identidade, resistŒncia a
pressªo de grupo etc.) sem necessariamente enfocar o
tema drogas.
Assim, Sílvia Regina Brandªo e eu elaboramos
o primeiro material brasileiro de Educaçªo Afetiva
8
,
sempre retomando a questªo da centralidade da pessoa,
e abordando principalmente o tema da identidade a
partir da existŒncia, do ser-no-mundo e o tema da
conjugaçªo entre desejo e limite.
SITUA˙ˆO DESAFIADORA
Para terminar, eu nªo seria verdadeiro comigo
mesmo se nªo citasse uma situaçªo que para mim tem
sido muito difícil e desafiadora: trata-se da situaçªo de
morte de alunos, em particular quando hÆ suspeita de
suicídio. Por um lado retomo com muita força a
questªo da finalidade da educaçªo no que se refere à
formaçªo da pessoa e à formaçªo de uma consciŒncia
ampla de si e da realidade. Uma morte assim nos coloca
em xeque, tolhe a possibilidade de lutar e de construir
com aquela pessoa, significa que ela nªo aceitou a
referŒncia que quisemos propor e evidencia o mistØrio
da liberdade do homem.
Mas tambØm nesse momento a nossa
contribuiçªo de adultos, educadores e psicólogos passa
pela consciŒncia ampla que podemos testemunhar. E
consciŒncia ampla nesse momento significa poder ficar
frente ao mistØrio da vida e da morte, perplexos, ao
lado dos adolescentes desorientados. E isso só Ø
possível para nós adultos se com eles retomamos a
œltima frase do caderno Educaçªo Afetiva: “retomar
47
Plantªo Psicológico na escola: uma experiŒncia
sempre o que Ø importante para mim, me ajuda a fazer
escolhas, me ajuda a verificar as pessoas e os grupos
que mais podem me ajudar a nunca deixar de desejar e
batalhar para ser feliz”.
Isso nªo Ø dado por nenhuma identidade social,
por nenhuma formaçªo universitÆria e por poder
algum. Isso só pode ser dado por uma companhia
viva, de horizonte de vida amplo, à qual cada um de
nós pode ou nªo aceitar pertencer.
Passa por aí o sentido do nosso trabalho, que
nªo serÆ dado pela instituiçªo em que trabalhamos,
mas aocontrÆrio, serÆ a instituiçªo que crescerÆ com
sentido se o carregarmos conosco ao vivermos ali.
Parafraseando a introduçªo do caderno
Educaçªo Afetiva, quero desejar a cada um de vocŒs o
mesmo que desejo àqueles com quem trabalho: que
tambØm o seu trabalho “ajude a encontrarmos caminhos
sempre novos - para cada um e para a convivŒncia
entre nós - na constante batalha para ser feliz!”.
49
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
1
 Expressamos o
reconhecimento dos
plantonistas que
colaboraram em
uma primeira siste-
matizaçªo desta
e x p e r i Œ n c i a :
Alessandra R.
Alvarenga, Ivana
Carla B. C. Santos,
Lil ian Rocha da
Silva, Romina
Magalhªes, Ronnara
Kelles Ribeiro e
Tânia Coelho de
Alcântara.
Plantªo Psicológico na escola:
presença que mobiliza
Miguel Mahfoud
Daniel Marinho Drummond
Juliana Mendanha Brandªo
Roberta Oliveira e Silva
Comunicar uma experiŒncia1, explicitar seu
mØtodo, ressaltar a potencialidade de uma proposta, dar
visibilidade a um processo real: sªo objetivos do presente
capítulo. Impactar-se com a força do possível que emerge
de uma experiŒncia: eis a motivaçªo destas pÆginas.
ExperiŒncia, Ø claro, se dÆ em tempo, espaço e
contexto social determinados; e da compreensªo de seus
elementos fundamentais depende a continuidade de sua
presença mobilizadora ao longo do tempo. Na verdade,
se assim nªo fosse, nem ao menos poderíamos chamÆ-la
de experiŒncia. Procuramos, entªo, aqui, explicitar o
palmilhar de um percurso feito. Compartilhado o
caminho com o leitor, a continuidade da experiŒncia jÆ
serÆ objeto de atençªo de todos nós, cada qual em seu
tempo, espaço e contexto social.
TEMPO, ESPA˙O E CONTEXTO SOCIAL
Relatamos aqui a implantaçªo de um Serviço de
Plantªo Psicológico em uma escola pœblica de segundo
50
Plantªo Psicológico: novos horizontes
2
 A experiŒncia aqui
relatada se deu em
1997.
3
 Confira o capítulo
“Plantªo Psicoló-
gico na escola: uma
experiŒncia”, de
Miguel Mahfoud,
neste mesmo livro.
grau num bairro operÆrio na periferia de Belo Horizonte
(MG)
2
, estabelecendo um campo de estÆgio da
disciplina “Aconselhamento Escolar: Plantªo
Psicológico” no curso de Psicologia da Universidade
Federal de Minas Gerais, a partir da proposta de Plantªo
Psicológico no contexto escolar elaborada pelo
professor
3
.
Trata-se de uma aplicaçªo original – cunhada
em comum entre professor e estagiÆrios – iniciada e
levada a cabo com atençªo a potencializar os recursos
pessoais e materiais que aquele grupo e aquela instituiçªo
apresentavam. Trata-se, entªo, nªo de aplicaçªo
mecânica de um novo modelo, mas de atualizaçªo de
uma atençªo viva às pessoas que compunham a equipe,
de maneira tal que atentas à própria experiŒncia se
colocassem no contexto escolar mobilizando a mesma
atençªo; de maneira tal que disponíveis ao encontro
com o novo se inserissem na escola despertando o
desejo de encontro e de crescimento que constitui todo
homem; de maneira tal que atentos aos movimentos
de transformaçªo e crescimento se desenrolando entre
nós da equipe, se dispusessem a observar, acolher e
facilitar, com curiosa e discreta abertura, cada
movimento promovido no contexto institucional.
Aquela escola específica foi escolhida por estar
inserida em uma comunidade muito ativa em termos
de movimentos sociais, comunitÆrios e culturais. A
própria escola foi idealizada e construída pela
comunidade local (construída enquanto instituiçªo mas
tambØm enquanto espaço físico). Poder contar com
esse perfil dinâmico e mobilizador da comunidade para
o desenvolvimento do nosso trabalho foi uma das
intençıes, de maneira tal que as relaçıes entre o
atendimento individual, a instituiçªo e a comunidade
em que estªo inseridos fossem objeto de atençªo; de
maneira tal que o atendimento aos alunos dentro
daquela escola pudesse concretamente contribuir –
51
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
ainda que de maneira simples – com um movimento
social mais amplo que, por posicionamento político e
cultural, valorizamos.
Estabelecemos um contrato com a escola,
atravØs de sua diretora, oferecendo um Serviço de
atendimento em Plantªo Psicológico nas dependŒncias
da escola, nos horÆrios normais de aulas, para receber
alunos que solicitassem ajuda psicológica. Em
contrapartida, a escola garantiria alguns aspectos
fundamentais para o andamento do trabalho: espaço
físico adequado para acomodaçªo dos estagiÆrios onde
pudessem ser feitos os atendimentos; autorizaçªo aos
alunos para saírem de sala de aula para procurar o
Serviço; o nªo encaminhamento dos alunos ao Plantªo
Psicológico por parte de professores e direçªo.
Uma vez que para atingir nossos objetivos de
mobilizar os alunos era fundamental abrir para eles
um espaço em que a busca por ajuda pudesse ser livre
de qualquer imposiçªo ou limitaçªo de horÆrios por
parte da escola, era fundamental que eles tivessem a
liberdade de procurar-nos no momento que fizesse
mais sentido para eles, do modo que achassem melhor,
para falar sobre o que desejassem.
A diretoria da escola recebera de bom grado a
proposta e sentia-se honrada em ser o pœblico nœmero
um de um projeto piloto em Belo Horizonte, em
conjunto com a nossa universidade.
PREPARAR: DA APREENSˆO À ATITUDE DE ESCUTA PROFUNDA
Habitualmente, ao se pensar em presença de
psicólogos no contexto escolar emergem duas
concepçıes: a da intervençªo psico-sociológica
tradicionalmente considerada – com planejamento a
partir de uma leitura diagnóstica da instituiçªo – e a da
intervençªo de base clínica, voltada a favorecer a
superaçªo de dificuldades localizadas no aluno, em seu
desenvolvimento e/ou saœde mental. Essas concepçıes
52
Plantªo Psicológico: novos horizontes
se apresentam insistentemente a quem se dispıe a
adentrar aquele contexto, e a proposta de um modelo
outro, baseado em acolher as demandas dos alunos
enquanto pessoas – normalmente desconhecidas antes
que se inicie o trabalho – e que procura acompanhar
as ressonâncias institucionais de mobilizaçıes pessoais
– que se verificarªo só a partir da intervençªo – nªo
pode deixar de provocar apreensªo.
A proposta de Plantªo Psicológico em si mesma
jÆ requer uma abertura ao nªo-planejado; quando se
acrescenta a vinculaçªo institucional a ser delineada no
decorrer do processo, a exigŒncia de disponibilidade
a acompanhar um processo sem um planejamento
prØvio Ø ainda maior. Frente à inevitÆvel apreensªo,
uma sugestªo: observar atentamente para conhecer;
ouvir profundamente para facilitar a expressªo do que
de mais significativo serÆ trazido a nós; estar realmente
presente, disponível, e atentar à mobilizaçªo que pode
nascer daí.
Contato com literatura especializada e relatos
de experiŒncias de intervençıes nessa modalidade de
Aconselhamento Psicológico (cf. Mahfoud, 1987, 1989,
1992; Mahfoud, Morato & Eisenlohr, 1993), ajudaram
que se estabelecesse uma posiçªo de ativo empenho
com a proposta – que Ø mesmo um tanto
desconcertante –, respaldados tambØm na literatura
fundamental acerca da Abordagem Centrada na Pessoa
elaborada por Rogers.
A proposta era disponibilizar-se em termos de
tempo e de escuta. Ou seja, os estagiÆrios comporiam
uma equipe sempre presente na escola: estariam
literalmente de plantªo ali à disposiçªo dos alunos,
cobrindo todos os horÆrios de funcionamento daquela
instituiçªo, disponíveis ao atendimento à pessoa do aluno
no momento em que ele estivesse precisando de ajuda,
nªo sendo assim necessÆrio marcar horÆrio com
antecedŒncia e nªo estaria implicada necessariamente
53
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
uma continuidade de atendimento. O que dirige o
percurso Ø a necessidade da pessoa, garantida a
permanŒncia da disponibilidade da equipe de plantonistas
e contando com a iniciativa dos próprios alunos
buscarem atendimento quando fizer sentidopara eles.
Mas afinal o que estaríamos oferecendo neste
serviço? Um espaço onde o aluno pudesse buscar ajuda
para rever, repensar e refletir suas questıes. O objetivo
era possibilitar aos alunos a oportunidade de se cuidar,
de estarem atentos ao que Ø realmente importante para
eles naquele momento, e entªo de se posicionarem
diante disso. O psicólogo neste tipo de serviço nªo
estÆ ali atento a solucionar algum problema mas
procura estar presente acolhendo a pessoa e escutando-
a ativamente, possibilitando com isso que ela se
mobilize frente à sua situaçªo; procura estar centrado
na pessoa mais do que no problema.
 Esse momento de preparaçªo fora fundamental
do ponto de vista do mØtodo, pois pôde ficar claro
que ouvir – escuta ativa, profunda – Ø uma intervençªo,
e que aquilo que verbalizamos para a pessoa, aquilo
que pontuamos ou refletimos devolvendo para ela Ø
uma intervençªo complementar à escuta, vem como
que acoplada. A escuta, enquanto postura bÆsica, Ø
saber ouvir o outro, estar preparado e disponível para
receber a vivŒncia que estiver trazendo, tomando-a em
sua complexidade original, em seus mœltiplos
horizontes, de maneira tal a facilitar que a pessoa examine
com cuidado as diversas facetas de sua experiŒncia.
Essa escuta solicita de nós uma atençªo a uma
multiplicidade de perspectivas, mas sobretudo requer
uma atençªo à perspectiva que aquela pessoa escolhe
– ou pode –no momento examinar para adentrar sempre
mais profundamente na própria experiŒncia; e isso
requer mais respeito ao caminho empreendido pela
própria pessoa do que qualquer habilidade preditiva
por parte do plantonista. Abertura ao novo
54
Plantªo Psicológico: novos horizontes
incansavelmente emergente em cada pessoa que
examina sua vivŒncia; abertura maravilhada diante do
mistØrio da liberdade de cada ser humano, e daquele
ali em particular: Ø o primeiro passo para entrar em
contato com a realidade das pessoas.
Nos permitimos entrar em contato com o ouvir
nªo só do ponto de vista teórico (cf. Rogers, 1983;
Amatuzzi, 1990) mas reconhecendo nossa experiŒncia,
sabendo que estÆ em nós o recurso fundamental para
facilitar que o outro se escute a si próprio.
Reconhecemos, entªo, o fundamento do Plantªo
Psicológico naquela atitude que propicia a facilitaçªo
de um processo que Ø do cliente, e portanto a funçªo
do psicólogo nªo Ø conduzir esse processo mas
acompanhÆ-lo.
Mas, na prÆtica, o que seria ouvir? O que
representaria esse tipo de atençªo para com o outro
ali diante de mim? Preocupaçªo primÆria e fonte de
ansiedade para os iniciantes em atendimento
psicológico, mas preocupaçªo e ansiedade em outra
medida sempre presente tambØm para quem, por anos
a fio, busca se colocar diante do outro com a abertura
confiante necessÆria para que se dŒ um processo na
direçªo do crescimento e da mobilizaçªo, para que se
dŒ um processo de mudança em funçªo do sentido
tªo próprio àquele que pede ajuda.
E na supervisªo nªo poderia ser diferente:
atentar para os recursos ali presentes, enquanto pessoa,
e acolhŒ-los, sobretudo para que cada estagiÆrio pudesse
descobrir-se como terapeuta no decorrer do contato
com o outro, mobilizando seus próprios recursos
afetivos e intelectuais. Todos nós, diante desse tipo de
escuta, livres de interpretaçıes, generalizaçıes e prØ-
concepçıes, estaríamos mais propícios a nos perceber
e perceber o outro. O grande segredo Ø o aprendizado
com a própria experiŒncia. E esse segredo se revela
efetivamente só com o decorrer do próprio trabalho.
55
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
CONTATOS INICIAIS
Nos primeiros contatos de toda a equipe do
Plantªo Psicológico com a escola confirmamos, da
parte deles, o interesse e a disponibilidade em colaborar.
PorØm, jÆ de início eram perceptíveis as expectativas
da instituiçªo quanto ao trabalho: a de que
responderíamos a demandas prØ-definidas por eles,
ligadas ao que consideravam ser os problemas mais
graves, recorrentes e emergenciais como, por exemplo,
abuso de Ælcool e gravidez na adolescŒncia.
Nos parecia natural que frente à novidade da
proposta, surgisse na escola – juntamente à
disponibilidade e abertura – alguma dificuldade em
colocar-se numa perspectiva diferente, centrada no
aluno e a partir de um posicionamento diverso por
parte da Psicologia. Demo-nos conta de que nªo era
preciso que a escola entendesse, imediatamente, tudo
o que iríamos fazer ali: o fundamental naquele momento
Ø que aceitasse o desafio e possibilitasse nossa atuaçªo.
Afinal, quem de nós sabia o que estava por vir? Era o
início de nossa presença ali; e sabíamos que clarificar,
continuamente, nossa proposta era mesmo parte de
nosso trabalho. No vivo da interaçªo com a instituiçªo
íamos repropondo e reafirmando os princípios e os
fundamentos. Era imprescindível que fôssemos firmes
em nossa proposta assim como nas exigŒncias
necessÆrias para colocÆ-la em prÆtica. E entªo, melhor
do que argumentar seria mostrar a que viemos.
APRESENTANDO A PROPOSTA
Organizamos uma apresentaçªo da equipe de
plantonistas e de nossa proposta para os alunos – que
sabíamos ser œtil a todo o quadro da escola. Evitamos
passar de sala em sala, ou reunir a todos para explicar o
que Ø Plantªo Psicológico. A apresentaçªo da proposta
ao pœblico interessado precisava ter impacto para marcar
nossa presença e nosso trabalho entre eles, sem deixar
56
Plantªo Psicológico: novos horizontes
tambØm de explicitar com clareza nosso objetivo. AlØm
do quŒ, era preciso desmistificar a Psicologia, aproximÆ-
la da realidade daqueles adolescentes, mostrando a eles
que psicólogo nªo Ø “pra doido”, como muitas pessoas
costumam pensar, mas para todos que tenham interesse
em se conhecer melhor, olhar para si e se reconhecer em
suas vivŒncias, cuidar para vivŒ-las de um modo mais
saudÆvel e consciente; era preciso afirmar que estaríamos
ali disponíveis para acompanhÆ-los em sua experiŒncia.
Para alcançar tal objetivo elaboramos uma
apresentaçªo que fosse clara e próxima dos alunos,
procurando utilizar uma linguagem própria da idade
deles e que pudesse abarcar ao mÆximo a realidade em
que vivem. Utilizamos recursos musicais e teatrais pois,
alØm de provocar certo impacto, era uma maneira em
que nos sentíamos muito à vontade. EstÆvamos
lançando mªo de nossos próprios recursos, oferecendo
nossa disponibilidade, cada um podendo se colocar
com o que tem para oferecer tornando o grupo uma
equipe coesa e disponível, cada um com suas diferenças,
facilitando assim que as diversidades se aproximassem.
Essa forma de se apresentar aconteceu nos trŒs
turnos, aproveitando o horÆrio do recreio, por
considerarmos ser o momento em que poderíamos estar
mais próximos dos alunos e para passar a mensagem que
estÆvamos propondo um espaço realmente voltado a eles
na escola. Preparamo-nos sem que os alunos soubessem;
apenas a diretoria estava ciente do que iríamos fazer.
Quando tocou o sinal para o recreio e os alunos
começaram a sair das salas e se dirigirem para o pÆtio nós
começamos a tocar uma mœsica e iniciamos a apresentaçªo,
distribuímos panfletos com a letra de uma mœsica
composta por nós e no verso uma explicaçªo do que
seria o Plantªo Psicológico. Utilizamos algumas mœsicas
jÆ conhecidas, com temÆtica bem jovem e atual, que traziam
questıes propícias a se mobilizar em direçªo a se cuidar,
como por exemplo as de Legiªo Urbana, Kid Abelha,
57
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
Lulu Santos, Ultraje a Rigor. Criamos tambØm algumas
mœsicas-paródia e atØ compusemos “O Rap do Plantªo”.
Seguem alguns exemplos:
Rap do Plantªo
Cheguei em casa da escola tô cansado de estudar
Meu pai nªo me entende nªo adianta conversar
Minha mªe me repreende nªo tenho com quem falar
Liguei pra namorada e ela nªo estava lÆ
Procurei por meus amigos
Me disseram: Sai pra lÆ!
NinguØm
Quer me entender
NinguØm
Quer me responder
Emminha cabeça tudo roda e eu nªo sei o que fazer
Quem sou?
De onde vim?
Pra onde vou?
O que fazer, o que fazer?
Nªo consigo esclarecer tÆ difícil de entender
Nªo consigo me acalmar tÆ difícil de aguentar
Mil problemas me esquentam
Mil questıes me atormentam
E os outros no meu pØ
Cada um com seu palpite
Minha cabeça dÆ um nó
E nªo hÆ quem acredite
E eu?
O que que eu faço desta vida?
E eu?
Qual vai ser a minha história?
E eu?
58
Plantªo Psicológico: novos horizontes
Reggae do Plantªo
(Paródia de “Pensamento”, do grupo Cidade Negra)
Eu preciso falar do que se passa aqui dentro
Vou procurar o plantªo
Preciso de alguØm que me escute e me entenda
PrÆ eu tambØm me entender
É este mundo
É minha vida
Quero mudar
Quero aproveitar
Quem nªo se cuida
Nªo curte a vida
Fica parado sem sair do lugar
Exibem poesia as palavras de um rei
Faça sua parte
Que eu te ajudarei
Twist do Plantªo
(Paródia de “Twist and Shout”)
 Vou conversar no Plantªo (no Plantªo)
 Nªo sei se tem soluçªo (soluçªo)
 É um espaço pra mim (para mim)
 É disto que eu tô afim.
 Ah... Ah... Ah... Ah... Ah...
Melô do Plantªo
No plantªo falar Ø “bªo”
Muito “bªo” (Repete 3x)
Muito “bªo”.
No plantªo falar Ø “bªo”.
59
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
4
 Uma breve ediçªo
em vídeo de filma-
gens feitas durante
estas apresenta-
çıes estÆ incluída
no CD-ROM anexo
ao livro. As mœsicas
tambØm podem ser
ouvidas jÆ integra-
das ao vídeo ou
atravØs de um CD-
player convencio-
nal (faixas 2, 3, 4, e
5)
Pretendíamos criar um momento de
apresentaçªo em que eles se reconhecessem e
pudessem estar mais atentos à explicaçªo que iríamos
dar posteriormente sobre o Serviço.
Elaboramos uma dramatizaçªo que pudesse
representar bem a vivŒncia de um adolescente
incompreendido em sua própria casa e que por fim
resolve buscar ajuda no Plantªo Psicológico como meio
de pensar e refletir sobre suas questıes.
De início os alunos pareciam espantados e aos
poucos foram se ambientando, começaram a interagir
conosco cantando as mœsicas e batendo palmas, e atØ
mesmo dançando. Nos entremeios de uma mœsica e
outra e o teatro íamos falando de forma espontânea
quem Øramos nós e o que estÆvamos fazendo ali.
Procuramos tocÆ-los no que diz respeito à vivŒncia
de ser adolescente cheio de questıes, dœvidas, inquietaçıes
e à dificuldade de contar com alguØm que possa estar
junto com ele acompanhando-o nessa experiŒncia.
EstÆvamos propondo a eles que uma maneira “legal” de
se cuidar, de manter-se bem em meio aos problemas e
dificuldades, Ø dar-se a oportunidade de falar dessas coisas,
pensando sobre elas e sobre como eles podem estar
vivendo de forma consciente cada situaçªo, podendo atØ
passar a vŒ-la de modo diferente. Divulgamos assim o
Serviço de forma descontraída sem perder a seriedade
do nosso compromisso com a proposta.
4
OS ATENDIMENTOS E AS DEMANDAS
No dia seguinte à apresentaçªo da proposta aos
alunos, os estagiÆrios começaram a ficar de plantªo, na
sala disponibilizada pela escola, e imediatamente os
atendimentos começaram. Os estagiÆrios se dividiam
pelos trŒs turnos de aulas, de segunda a sexta-feira, e
tambØm no sÆbado de manhª, o que fazia com que sempre
houvesse um ou dois estagiÆrios na sala do Plantªo,
disponíveis para os alunos.
60
Plantªo Psicológico: novos horizontes
Nos atendimentos procurÆvamos acompanhar a
organizaçªo própria dos alunos, pois era centrando na
experiŒncia destes que descobríamos como proceder.
Esta atençªo ao movimento que os alunos faziam ao
buscar o Plantªo Psicológico nos indicava como
responder à este movimento. Sendo assim, o nœmero
de alunos que participava de uma sessªo, a duraçªo desta,
a marcaçªo de uma nova, e o próprio andamento de
cada sessªo acompanhavam a necessidade do momento
e nªo uma regra prØ-estabelecida. O que mantínhamos
firme sempre era nossa disponibilidade para ouvi-los,
ajudÆ-los a examinar sua experiŒncia, e a proposta de
que o Plantªo Psicológico era para qualquer aluno que
quisesse ‘se cuidar’. Atendemos entªo indivíduos e
grupos, em uma ou mais de uma sessªo, que duraram
de quinze minutos a uma hora e meia.
Nos casos em que os alunos voltavam, sendo
atendidos diversas vezes, e se percebia uma necessidade
de ajuda que ia alØm da proposta de atendimento em
Plantªo Psicológico (ver abaixo a categoria “Incômodo
com a maneira de ser e de reagir à situaçıes”), nós os
encaminhÆvamos para Serviços ou clínicas sociais que
oferecessem psicoterapia a um baixo custo ou
gratuitamente. Foram poucos os casos encaminhados,
jÆ que na maioria nªo houve esta necessidade.
Ao final do primeiro semestre, realizados
atendimentos no período de abril a junho, havíamos
atendido 11,9% do total de alunos da escola (124 de
um total de 1035), em 134 sessıes (ver tabela I na
próxima pÆgina). Note que o nœmero de alunos
atendidos e de sessıes Ø diferente, jÆ que um aluno
pode ter sido atendido em mais de uma sessªo e vÆrios
alunos, em grupo, podem ter sido atendidos em uma
œnica sessªo. Para chegarmos a este total de alunos
atendidos contabilizamos as sessıes efetivas, (ou seja,
aquelas em que os alunos haviam se movimentado
frente à alguma questªo) deixando de lado, para efeito
61
Plantªo Psicológico na escola: presença que m
obiliza
TABELA I
Dados quantitativos sobre cada turno
ALUNOS MATRICULADOS
Nœmero de
alunos
matriculados
em cada
turno
% de alunos
matriculados
em relaçªo
ao nœmero
total de
alunos da
escola
Nœmero de
pessoas
atendidas no
turno
Manhª
ALUNOS ATENDIDOS ATENDIMENTOS (SESSÕES)
% de pessoas
atendidas no
turno em
rela-çªo ao
total de
alunos ma-
triculados no
mesmo turno
% de pessoas
atendidas no
turno em re-
laçªo ao
total de
pessoas
atendidos na
escola
Nœmero de
atendimentos
no turno
% de
atendimentos
no turno em
relaçªo ao
total de
atendimentos
na escola
423 40,9% 31 7,3% 25 36 26,9
Tarde 126 12,2% 46 36,5% 37,1 14 10,4
Noite 486 46,9% 47 9,7% 37,9 84 62,7
Total 1035 100% 134 100% 100% 124 100%
62
Plantªo Psicológico: novos horizontes
de contagem, as situaçıes em que os alunos passavam
rapidamente pela sala do Plantªo Psicológico para dizer
olÆ, espiar, ou fazer um comentÆrio, e aquelas em que
os alunos permaneciam conosco por algum tempo
conversando “fiado” ou querendo saber mais sobre
nossa proposta, fazendo perguntas do tipo “O que Ø
mesmo o Plantªo?”. Vale dizer que algumas situaçıes
como estas serviram como via de acesso à ajuda, ou
seja, o aluno chegava como quem nªo quer nada para
logo em seguida, jÆ ambientado, conseguir falar de si,
transformando a “visita” em um atendimento, que era
entªo contabilizado.
Durante todo o semestre os atendimentos eram
discutidos nos encontros semanais de supervisªo. Para
cada sessªo ou atendimento era feito um relatório
escrito. Nestes encontros, alØm dos atendimentos,
conversÆvamos tambØm sobre a instituiçªo em seus
diferentes âmbitos, ou seja, falÆvamos dos professores,
da diretoria, dos turnos, do que observÆvamos
enquanto estÆvamos na escola.
Queríamos estar atentos para as repercussıes
que nossa presença estava tendo na escola. Isto tambØm
era parte de nossa proposta de Plantªo Psicológico.
Ao escutar os alunos, estÆvamos intervindo tambØm
na instituiçªo, ajudando estes a se dar conta de suas
necessidades frente à escola, o que poderia mobilizÆ-
los a atuar nesta para transformÆ-la. Ao escutar a
instituiçªo em cada um de seus âmbitos estÆvamos
tambØm intervindo, pois surgiam entªo respostas que
poderiam ser dadas ao grupo.
Um exemplo disto foi nossa atuaçªo
diferenciada em relaçªo à características singulares que
o turno da tarde tinha em relaçªo aos outros turnos:
No turno da tarde funcionavam trŒs turmas,
todas do primeiro ano do segundo grau, totalizando
cento e vinte e seisalunos. No início do trabalho, os
alunos deste turno nªo procuraram o Plantªo
63
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
Psicológico, diferenciando-se dos outros turnos onde
a procura foi imediata, acontecendo jÆ no primeiro dia
de funcionamento do Serviço. AtravØs de observaçıes
que os estagiÆrios haviam feito enquanto aguardavam
atendimento e de conversas informais com os alunos,
principalmente no horÆrio do recreio, levantamos
algumas características específicas deste turno que
poderiam explicar a nªo-procura pelos atendimentos
naquele turno. Concluímos que a procura poderia estar
sendo dificultada por:
- um maior controle sobre os alunos, por parte
de quem ocupava a direçªo da escola naquele
período, no sentido de evitar que os alunos
ficassem fora de sala de aula no horÆrio letivo;
- um maior controle dos alunos sobre os
próprios alunos. Neste turno haviam poucas
turmas, o que fazia cada aluno estar mais
exposto. Todos eles eram novatos na escola –
jÆ que eram turmas de 1
a
 sØrie do científico – e
estavam provavelmente tentando se ‘enturmar’,
fazer amigos, e a busca por um Serviço de
atendimento psicológico poderia atuar
negativamente neste sentido, pela imagem
tradicional do psicólogo como alguØm que
atende ‘loucos’. De fato os alunos que falavam
em procurar o Plantªo Psicológico eram
caçoados pelos colegas.
Entendemos que precisÆvamos intervir
diferenciadamente neste turno para facilitar o acesso à
ajuda. Criamos para isto uma estória em quadrinhos
que foi colocada em um cartaz bem visível aos alunos
deste turno. Essa estória retratava a situaçªo de um
aluno que queria ir ao Plantªo Psicológico mas se
intimidava pois os colegas caçoavam quando
expressava esta vontade. Ele conversa entªo com um
outro colega que havia ido mas que se recusa a explicar
o que havia acontecido lÆ, dizendo que ‘No plantªo falar
64
Plantªo Psicológico: novos horizontes
Ø bªo’, com uma expressªo muito satisfeita, indicando
que este deveria descobrir por si mesmo. O aluno
decide entªo ir ao Plantªo Psicológico. Com este cartaz
estÆvamos espelhando a situaçªo dos alunos para eles
mesmos. Era jÆ uma escuta.
Uma outra intervençªo desse gŒnero foi a de
uma estagiÆria, que envolveu um grupinho de alunos,
convidando-os para a ajudarem a confeccionar um
cartaz onde foi escrito ‘Plantªo Psicológico’ para ser
colocado na porta de nossa sala. Buscava com isso
aproximar mais os alunos do nosso espaço de
atendimento, desmistificando tambØm o psicólogo
como distante e como ‘coisa para doido’.
A resposta a estas intervençıes foi imediata. No
dia seguinte à fixaçªo da estória em quadrinhos num
corredor da escola, um grupo de alunos apareceu para
conversar. Os atendimentos começaram entªo a
acontecer tambØm no turno da tarde, no qual foram
atendidos 46 alunos, ou seja, 37,1% do total de alunos
atendidos na escola. O nœmero de atendimentos neste
turno foi de 14, que corresponde a 10,4% dos
atendimentos realizados na escola. A diferença entre o
nœmero de atendimentos e o de alunos atendidos Ø
grande pois houveram vÆrios atendimentos em grupo
neste turno. Esta ‘preferŒncia’ dos alunos pelos grupos,
e o fato dos atendimentos terem acontecido geralmente
no horÆrio do recreio ou quando algum professor nªo
comparecia para dar aula, pode ser entendida: se Ø o
grupo que comparece, diminui o controle individual
que as características de contexto descritas mais acima
exerciam sobre os alunos.
Os turnos da manhª e da noite tinham um
nœmero bem próximo de alunos matriculados, sendo
423 no da manhª e 486 no da noite. Nestes dois turnos
os alunos procuravam o Plantªo Psicológico em
qualquer horÆrio, ou seja, no recreio ou durante as aulas,
quando queriam ser atendidos. No turno da manhª,
65
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
foram atendidos 31 alunos (7,3% do total de alunos
atendidos na escola), em 36 atendimentos (26,9% do
total de atendimentos realizados na escola). Houveram
atendimentos em grupo, embora nªo tantos quanto no
turno da tarde. O turno da noite se diferencia neste
aspecto pois quase nªo houveram atendimentos em
grupo. Neste turno ocorreram a maior parte dos
atendimentos realizados na escola (62,7% do total),
sendo atendidos 47 alunos (37,9% do total). Quanto à
porcentagem de pessoas atendidas em cada turno em
relaçªo ao total de alunos naquele mesmo turno, os
turnos da manhª e da tarde se assemelham, com
respectivamente 7,3% e 9,7% de seus alunos atendidos.
JÆ o turno da tarde se destaca pois teve 36,5% dos
seus alunos atendidos, geralmente em grupos, como jÆ
foi dito.
Após passarmos pela experiŒncia de um
primeiro semestre atendendo em Plantªo Psicológico,
surgiu a necessidade de organizar essa experiŒncia,
buscando entender com clareza as necessidades
daqueles sujeitos que nos procuravam. Essa
organizaçªo nos daria, atravØs de uma leitura mais
sistematizada das demandas dos alunos, um maior
conhecimento sobre os sujeitos que atendíamos e,
conseqüentemente, uma ajuda para o entendimento da
dinâmica da instituiçªo escolar e atØ para nossas
intervençıes ali. AlØm disso, seria importante para o
retorno que daríamos à escola sobre nosso trabalho e,
de forma mais geral, sobre as questıes mais discutidas
pelos alunos. Esse retorno, por sua vez, poderia levar
a escola a rever sua visªo e sua posiçªo frente aos alunos.
Deste modo, passamos um semestre atendendo
em Plantªo Psicológico, ouvindo cada pessoa enquanto
pessoas œnicas, com demandas próprias, que iam, à
medida em que eram escutadas e se escutavam, fazendo
seu movimento em direçªo à mudança (cf. Mahfoud,
1989). Mas a singularidade do movimento de cada
66
Plantªo Psicológico: novos horizontes
um nªo ocultava que muitos alunos ali atendidos vinham
falar de coisas que às vezes eram comuns a outros. E
foi em busca do que fosse comum que fizemos uma
categorizaçªo das demandas que os alunos da escola
traziam, a partir dos relatórios dos atendimentos que
eram escritos pelos plantonistas.
É importante frisar que as categorias de
demandas nªo foram criadas antes de examinarmos
atentamente os relatórios, para que tentÆssemos
encaixar nelas os “problemas jÆ-categorizados” dos
alunos, pois se fizØssemos assim, correríamos o risco
certeiro de distorcer a experiŒncia do aluno
enquadrando-o em “prØ-suposiçıes” nossas. Ao
contrÆrio, optando por uma metodologia
fenomenológica, deixamos que as categorias
“emergissem”, fossem “des-cobertas”, após discussıes
concentradas sobre os diversos casos.
Assim, discutimos qual o tema central de cada
atendimento, qual a principal demanda que ali se
sobressaía como uma questªo importante para o aluno,
na perspectiva dele. Nªo tentamos ver o que estava
“por trÆs” do que ele dizia e nem nos guiar em direçªo
daquilo que mais se chocava aos nossos olhos – mais
que aos deles – como a violŒncia, que por vezes
permeava suas realidades.
Algumas vezes, a questªo principal de um sujeito
só aparecia ao final de um atendimento, após serem
discutidos outros assuntos ou mesmo problemas. Mas
o momento em que o tema central aparecia era aquele
em que a demanda tornava-se nítida, atravØs de indícios
como uma maior emoçªo, atençªo, entusiasmo,
constrangimento, “brilhos no olhar” ou atØ a revelaçªo
da própria pessoa dizendo que aquela era sua demanda
principal, era o principal motivo pelo qual estava ali.
As diversas questıes principais “descobertas”
eram comparadas entre si a fim de se descobrir
semelhanças entre elas. Questıes que envolviam um
67
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
mesmo tipo de dificuldade, incômodo ou mesmo busca
foram, entªo, agrupadas sob uma mesma expressªo que
as abarcasse todas.
Desta forma, elaboramos 15 categorias, alØm de
uma chamada “demanda indeterminada”. Quando uma
pessoa vinha ao Plantªo Psicológico e durante o
atendimento vÆrias questıes apareciam comoigualmente
importantes para ela, o atendimento era considerado
“demanda indeterminada”. TambØm dentro desta
categoria foram incluídos os casos em que nªo foi
identificada nenhuma demanda claramente ou aqueles
em grupo em que cada pessoa trazia uma diferente
questªo, aparecendo entªo uma multiplicidade de
demandas principais na mesma sessªo. Essa
impossibilidade de se identificar a demanda se deveu
em alguns casos a relatórios mais interpretativos do que
descritivos que, dando mais Œnfase na visªo do plantonista
do que na fala do aluno atendido, nos impossibilitou de
identificar sua demanda principal. Perceber essa falha
nos relatórios foi uma indicaçªo valiosa para futuros
relatos de atendimentos e atØ para atendimentos em si,
nos quais se corre o risco de abandonar a atençªo
centrada na pessoa que busca o Plantªo Psicológico para
voltÆ-la para elocubraçıes que a ultrapassam.
A escola tinha expectativas quanto às questıes
que mais seriam abordadas pelos seus alunos.
Esperavam, por exemplo, que os alunos falassem de
gravidez na adolescŒncia, de seus professores e
diretoras e ainda de abuso de Ælcool. Nós mesmos
esperÆvamos que o tema “violŒncia” aparecesse
enquanto uma categoria isolada, jÆ que essa questªo
foi muito abordada nos atendimentos. Notamos, no
entanto, que esses temas eram na maior parte das vezes,
“apenas” subjacentes àquilo que mais os incomodava.
Como se fosse um cenÆrio às particulares histórias dos
vÆrios sujeitos que procuravam atendimento ou mesmo
mais uma contingŒncia difícil de suas vidas.
68
Plantªo Psicológico: novos horizontes
Foi muito importante entender que, muitas
vezes, o que era atordoante para os plantonistas – como
a violŒncia sexual, familiar e de rua – e que talvez por
isso esperÆvamos que fosse o mais importante e
atordoante tambØm para a pessoa que nos procurava,
às vezes, podia nªo se apresentar assim. Desse modo,
percebemos que, atendendo pessoas que vivem uma
realidade diferente da nossa e categorizando esses
atendimentos segundo suas demandas, devíamos
cuidar para que nossa atençªo centrada na pessoa e
em sua perspectiva nªo fosse abandonada em funçªo
de nossos próprios valores.
Entre as categorias de cujo aparecimento havia
alguma expectativa de nossa parte, apenas a demanda
“dificuldade com drogas”(4) foi realmente
categorizada. No entanto, surgiu apenas um caso em
que essa demanda, enquanto principal, foi apresentada.
De um modo geral, em nossa categorizaçªo, a
questªo da “violŒncia” apareceu associada a outras,
incluídas na categoria “insatisfaçªo com as atribuiçıes
e contingŒncias” (11). As pessoas cujos atendimentos
foram aí categorizados queixavam-se de insatisfaçªo
com as condiçıes externas a elas, o que as
incomodavam, mas que independiam de suas açıes. O
que se poderia fazer, entªo, era quase que suportar tal
realidade e se colocar em relaçªo a ela de maneira
diferente. Um exemplo de um caso incluído nesta
categoria seria aquele em que o aluno queixa-se de sua
mªe que Ø alcoólatra, de seu pai violento e foi
“atribuído” a ele, cuidar dos irmªos mais novos. Tudo
isso, sªo contingŒncias de sua vida que o incomodam
com as quais tem que lidar e que lhe foram impostas
por outros, no caso, o pai e a mªe.
Na categoria “preocupaçªo com conseqüŒncias
de açıes ou decisıes passadas” (14), foram agrupados
os casos em que havia uma ansiedade acerca de
decisıes ou atos jÆ realizados, como o da aluna com
69
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
medo de estar grÆvida ou do rapaz preocupado com as
implicaçıes de ter montado um trailler e como conciliaria
isto com seus estudos. Uma outra categoria, “dificuldade
em fazer escolhas”(6), foi criada para aqueles casos
em que uma pessoa tinha diante de si opçıes entre as
quais deveria escolher uma, a qual poderia mudar o
rumo de sua vida. Incluímos, nessa categoria, as
demandas de orientaçªo profissional e tambØm
demandas relacionadas a outras decisıes a serem
tomadas na vida pessoal.
Os casos em que sujeitos tinham que aprender
a lidar com alguma perda que haviam sofrido
configuraram a categoria “elaboraçªo de perdas”(7)
que incluiu perdas por morte ou por separaçªo, como
tØrmino de relacionamento amoroso.
JÆ a categoria “arrependimento e culpa” (1)
abarcou os casos em que as repercussıes de atos e
decisıes jÆ efetuados levavam a estes sofrimentos
especificados. Havia um questionamento relacionado
à adequaçªo de tais açıes e decisıes jÆ tomadas,
fazendo com que sentimentos de culpa ligados a
valores pessoais e sociais emergissem. Um exemplo
dessa categoria seria o da aluna que se sentia
arrenpendida e culpada por ter feito um aborto. Esta
categoria se diferencia da categoria “preocupaçªo com
as conseqüŒncias de açıes passadas” pelo fato de que
nesta, havia uma ansiedade (uma prØ-ocupaçªo) em
torno das açıes jÆ realizadas, como que um medo de
sofrer pelas conseqüŒncias, e na categoria
“arrependimento e culpa”, a conseqüŒncia de um ato
jÆ estÆ causando sofrimento.
As demandas ligadas à categoria “sexualidade”
eram, em sua maioria, associadas a uma necessidade
de discussªo, por parte de alunas, a respeito de
virgindade, valores da sociedade sobre a sexualidade,
a posiçªo e idØias de cada aluna frente ao assunto.
Todos os atendimentos dessa categoria foram feitos
70
Plantªo Psicológico: novos horizontes
em grupo e no turno da tarde, no qual, talvez pela
idade dos alunos (eram mais novos que os dos outros
turnos), tais assuntos despertassem maior interesse.
Uma outra categoria: “dificuldades com a
escola”(5) englobou os assuntos relacionados à vida
escolar dos alunos, desde dificuldades com um
determinado professor atØ problemas de atençªo, notas
e aprendizagem.
Na categoria “busca de reconhecimento”,
agrupamos os casos em que os alunos nos procuravam
para nos contar como estavam lidando bem com os
desafios que lhes eram colocados pela vida. Eles jÆ
haviam tomado uma decisªo, gostavam da própria
maneira de ser e precisavam apenas de alguØm que, de
certa forma, poderia os deixar mais seguros sobre o
que estavam fazendo ou sobre seu próprio jeito de ser.
Ao nosso ver, o aparecimento da demanda
“busca de reconhecimento” em nossa categorizaçªo Ø
um sinal do diferencial que uma proposta como o
Plantªo Psicológico em Escola representa, em relaçªo
a outras propostas de atendimentos psicológicos em
instituiçıes de ensino. Isso porque, ao situar o psicólogo
em um espaço tambØm para o que Ø saudÆvel, para o
“se cuidar” e nªo apenas para o “se tratar”, o Plantªo
Psicológico abre um caminho para o sujeito que estÆ
bem se expressar de maneira total, obtendo uma escuta
aberta ao seu modo de viver sua própria vida.
Uma outra categoria – “incômodo com a maneira
de ser e de reagir às situaçıes”(10) – abarcou justamente
os casos opostos à œltima categoria explicada. As
pessoas que entraram nessa categoria queixavam-se de
nªo estarem felizes com algo no seu jeito de ser, como
nervosismo, timidez, solidªo, ou com a forma como
sempre reagiam a situaçıes específicas. Um exemplo
deste caso, seria o da mulher que sempre chorava
quando o marido se atrasava. Ela nªo gostava desta
sua própria reaçªo ao marido, jÆ que nªo a ajudava em
71
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
nada. Este tipo de sofrimento, um sofrimento que só
dependia do próprio sujeito para que pudesse ser
alterado, foi o que mais demandou atendimentos
(totalizaram 24 sessıes) e sobre o qual mais pessoas se
queixaram (14 pessoas com essa demanda). AtravØs da
relaçªo entre o nœmero de pessoas nessa categoria e o
nœmero de sessıes, podemos ver que, para este tipo
de demanda Ø necessÆrio, na maior parte das vezes,
que uma mesma pessoa seja atendida mais de uma vez.
Por causa das características desta demanda,
cujos atendimentos visam uma mudança estrutural na
maneira de ser de uma pessoa, e do tempo maior
necessÆrio para que isso aconteça,começamos a pensar
na possibilidade de encaminhar os sujeitos com essa
demanda para uma psicoterapia, o que fizemos em
alguns casos. Isso nªo quer dizer que o espaço do
Plantªo Psicológico nªo seja suficiente para que uma
mudança estrutural aconteça, pois vimos que ela
ocorreu em alguns atendimentos. PorØm, Ø uma
proposta de atendimento por Aconselhamento
Psicológico, especialmente adequado a mobilizar
mudanças situacionais, ligadas a questıes que os
sujeitos trazem em um determinado momento, causadas
por algo que os aflige ou acontece agora. Essas
questıes situacionais se adaptam muito bem ao espaço
dinâmico do Plantªo Psicológico. As mudanças
estruturais podem ser trabalhadas mais calmamente
atravØs da psicoterapia com atendimentos mais
regulares, mais “garantidos” (porque haverÆ menos
chance de outra pessoa estar com o psicólogo no
momento da procura) e dentro de um processo que
pode ser mais longo e contínuo (bem maior que o
período letivo ao qual o Plantªo Psicológico na escola
estÆ atrelado). O encaminhamento de pessoas com
essas demandas para uma psicoterapia ainda possibilita
que mais pessoas com as outras demandas sejam
atendidas no Plantªo Psicológico.
72
Plantªo Psicológico: novos horizontes
Quatro categorias de demandas dizem respeito
a relacionamentos:
A primeira delas – “desconfiança nos
relacionamentos”(3) – relacionada a relacionamentos
em geral: amorosos, de amizade, familiares etc.
Compreende os casos em que o aluno tem uma pessoa
de quem gosta e por quem se empenha, essa pessoa
parece tambØm agir dessa forma, mas o aluno desconfia
da legitimidade dos sentimentos dos outro para com
ele. Essa desconfiança vem muitas vezes acompanhada
de insegurança.
JÆ a categoria “insatisfaçªo nos relacionamentos
com a família”(12) envolve as dificuldades que o aluno
pode ter com qualquer membro de sua família, exceto o
cônjuge, que podem se modificar dependendo de como
se coloca frente a elas. Isso Ø, basicamente, o que difere
essa categoria da “insatisfaçªo com atribuiçıes e
contingŒncias”, na qual as dificuldades existem
independentemente do aluno, como algo realmente
externo a ele. Um exemplo para essa categoria 12, seria o
do filho que nªo consegue conversar e ser mais próximo
do pai, embora este se mostre bastante disponível.
As outras categorias que envolvem
relacionamentos – “falta de correspondŒncia nos rela-
cionamentos amorosos”(8) e “falta de reciprocidade nos
relacionamentos jÆ estabelecidos”(9) – tŒm uma diferença
bÆsica que Ø justamente o jÆ-estabelecimento ou nªo do
relacionamento amoroso. A primeira categoria citada Ø
aquela na qual os relacionamentos ainda nªo estªo
estabelecidos e uma frase que a explicaria seria: “eu
gosto de alguØm que nªo gosta de mim”. JÆ no segundo
caso, jÆ hÆ um compromisso “firmado”, de namoro,
casamento, noivado etc, pressupondo-se que duas
pessoas pelo menos se gostam. No entanto, ocorre que
o empenho das duas neste relacionamento nªo Ø
recíproco. Um se empenha mais que o outro e essa
falta do outro Ø que traz o sofrimento. É interessante
73
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
colocar aqui que todas as pessoas aí categorizadas foram
mulheres que se queixam dos relacionamentos com os
companheiros.
Por fim, resta falar da categoria “obter opiniªo
profissional”(13) que abarca os casos em que a pessoa
procura o Plantªo Psicológico realmente para obter
opiniªo profissional sobre assuntos diversos, como
educaçªo de filhos, escolha de nomes para eles,
psicopatologias de membros da família etc. O assunto
de tais atendimentos nªo vai se tornando mais pessoal
ou profundo, embora os atendimentos possam durar
mais de 40 minutos. Nestes atendimentos, às vezes,
temos a impressªo, que estas pessoas tŒm uma outra
questªo ou incômodo embutidos no que expressam.
A sessªo poderia ter um desenvolvimento baseado
nisso, porØm, em todos aqueles casos isso nªo
aconteceu, talvez porque a demanda principal dos
sujeitos fosse realmente obter informaçªo.
Era claro que as pessoas que nos procuravam
com esta demanda queriam de nós uma resposta às
suas indagaçıes. Nesses momentos, nos firmÆvamos
em nossa posiçªo de escuta aberta, empÆtica e centrada
na pessoa, mas sem nos esquecer de que seria ela
própria quem deveria encontrar seus próprios recursos
para lidar com suas dœvidas e angœstias. TentÆvamos
sempre remetŒ-las a si mesmas, aos seus sentimentos
em relaçªo ao seu “dilema” e à sua capacidade de
resolvŒ-lo, o que às vezes era bem difícil de se fazer e
caíamos na tentaçªo de dar respostas. A maior parte
das pessoas que procurou o Plantªo Psicológico com
essa demanda obteve a informaçªo que buscava.
Algumas voltaram para outros atendimentos jÆ com
outras demandas.
ACEITA˙ˆO DA PROPOSTA E MOBILIZA˙ÕES
Partindo da consideraçªo de que nosso trabalho
Ø uma proposta inovadora, ou pelo menos desconhecida,
74
Plantªo Psicológico: novos horizontes
tivemos um retorno positivo; as pessoas mostraram ter
entendido a proposta e mais do que isso a aceitaram,
colocando-se à disposiçªo para que ela funcionasse, e
apostaram nisso. Nªo foi necessÆrio esperar o tØrmino
do trabalho para constatar essas evidŒncias: a resposta à
nossa presença apareceu durante o decorrer deste.
Algumas mudanças perceptíveis mostraram isso.
Um fato muito interessante aconteceu: a vice-
diretora nos procurou pedindo ajuda psicológica, disse
que gostaria de conversar com um dos estagiÆrios sobre
as questıes que a incomodavam naquele momento de
sua vida e que influenciavam seu trabalho na escola.
Comentou que ao ver ao alunos se mobilizando para
buscar atendimento deu-se conta de que ela tambØm
tinha aquela necessidade mas nªo estava podendo
reconhecŒ-la atØ entªo. Diante desse pedido nos
mantivemos firmes à proposta de prestar atendimento
apenas aos alunos. Mas nªo deixamos de pontuar –
tambØm consonantes à proposta – que era muito
importante que ela estivesse procurando ajuda nesse
momento que ela julgava crucial, e que a iniciativa de
se cuidar era valorizada e reconhecida por nós. A vice-
diretora pediu licença na escola e iniciou psicoterapia.
Trata-se da mesma pessoa que tínhamos identificado
como um fator determinante quanto ao controle sobre
os alunos tªo diferenciado no turno da tarde. Ao
retornar no segundo semestre estava sensivelmente
diferente, em seu modo de agir e inclusive na aparŒncia,
estava mais cuidadosa e flexível no relacionamento
com os alunos e consigo mesma. Vimos esse fato como
resultante da nossa presença propícia à mobilizaçªo
em direçªo à mudança. Nossa escuta em relaçªo à nªo
-procura dos alunos do turno da tarde por atendimento,
levando-nos a intervir com os cartazes, e a ter como
resposta a estes a procura pelo Serviço, Ø indício de
que podemos mobilizar tambØm o grupo com uma
açªo pontual e eficaz.
75
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
No final do primeiro semestre fizemos um
momento musical para anunciar o encerramento de
nosso trabalho na escola, para um período de fØrias.
Alguns alunos, do turno da manhª ao nos verem
tocando e cantando, se aproximaram e pediram para
tocar e cantar ao microfone. A princípio ficamos surpre-
sos, mas acolhemos essa iniciativa e o resultado foi uma
grande integraçªo entre nossa equipe e os alunos. Nos
turnos da tarde e noite, devido ao resultado da manhª,
resolvemos convidar os alunos para ocupar tambØm
aquele espaço de expressªo. Alguns alunos timidamente
foram se apresentando e expondo seus dotes artísticos.
A participaçªo dos alunos dos trŒs turnos nos fez ficar
atentos para como o Plantªo Psicológico vinha susci-
tando neles a iniciativa de se expressarem, de se
mostrarem sujeitos, alØm do espaço da “salinha” Plantªo.
Foi surpreendente ver a repercussªo que esse momento
teve entre os professores. Um aluno que era margina-
lizado pelos colegas e desqualificado pelos professores,
por nªo ter um bom desempenhoescolar, e que dizia
tocar vÆrios instrumentos musicais – o que alguns nªo
acreditavam – teve sua imagem mudada, a partir desse
dia, ao se aproximar de nossa equipe, no “palco”
improvisado, e tocar algumas mœsicas ao teclado. Todos
se impressionaram com seu dote artístico e o aplaudiram
e elogiaram muito. A partir de entªo, pelo menos os
professores, passaram a vŒ-lo como uma pessoa, dotada
de outras capacidades, alØm de ser mais um aluno dentre
os outros. Em uma reuniªo do corpo docente, no início
do segundo semestre, foi discutida e muito valorizada
essa forma de expressªo dos alunos, o que inclusive
deu margem à iniciativa de criar um momento musical,
em periodicidade regular, em que a participaçªo dos
alunos se tornasse efetiva, podendo vir no futuro a ser
assumida por eles próprios. Percebemos nesses profes-
sores um movimento de reconhecimento da pessoa do
aluno, com quem eles interagiam no dia-a-dia em sala
76
Plantªo Psicológico: novos horizontes
de aula, e da importância de se permitir que esse aluno
se expresse enquanto tal. Essa mudança de atitude,
tambØm dos professores, documenta o quanto a nossa
presença na escola Ø mobilizadora.
Ainda no primeiro semestre, no encerramento,
resolvemos colher informaçıes com os alunos sobre o
Plantªo Psicológico. Distribuímos folhetos com a
seguinte pergunta: “O que vocŒ achou do Plantªo
Psicológico? DŒ sua opiniªo mesmo que vocŒ nªo tenha
ido.”, e pedimos que eles respondessem e colocassem
em uma urna no pÆtio. Queríamos saber como os alunos
estavam entendendo nosso trabalho, nossa proposta e
ter uma idØia de como estÆvamos sendo vistos por eles.
Após a leitura de cada resposta acabamos por criar
categorias que facilitassem o levantamento de um perfil
do que seriam o reconhecimento, a aceitaçªo e a adesªo
à proposta do Plantªo Psicológico. Algumas respostas
continham o que eles reconheciam como características
do Plantªo, como por exemplo disponibilidade dos
atendentes a qualquer hora que eles precisassem; a
possibilidade de expressar-se naquele espaço, falando
de si e de suas questıes; a eficÆcia do serviço que
possibilita um resultado efetivo; o Plantªo Psicológico
como transformador, proporcionando mudanças de
atitude etc. AlØm dessa percepçªo do Plantªo
Psicológico, falaram do uso que fizeram dele, revelando
processos pessoais, ou seja, a tomada de consciŒncia de
sua postura diante do problema, e reconhecendo a
repercussªo do Serviço no âmbito coletivo, citando
mudanças e transformaçıes entre grupos de colegas e
atØ na relaçªo com a instituiçªo. AtØ mesmo os alunos
que nªo foram atendidos se expressaram com uma
avaliaçªo positiva elogiando o Plantªo Psicológico.
Alguns destes disseram pretender procurar o serviço
no segundo semestre. Dentre esses alunos apareceram
tambØm algumas categorias que foram citadas pelos
alunos atendidos.
77
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
De um modo geral, vÆrios indícios nos
mostraram a efetividade dessa proposta, tanto no
decorrer do trabalho quanto no encerramento do
primeiro semestre. Pudemos perceber nas opiniıes que
os alunos deixaram escritas: nos folhetos de avaliaçªo
final; no próprio retorno que eles nos davam do
atendimento quando vinham nos contar como haviam
resolvido sua questªo, ou como lidavam com ela agora;
na fala dos professores e da diretora em uma reuniªo
com eles no fim do primeiro semestre, em que disseram
ter notado mudanças em alguns alunos no decorrer
do tempo em que o Plantªo Psicológico funcionou;
na nossa percepçªo subjetiva no momento do
atendimento, em que estÆvamos acompanhando o
movimento do aluno durante o percurso da sessªo.
Nossa presença de escuta atenta nos permitiu
distinguir que hÆ tanto pessoas que apoiam quanto
aquelas que nªo vªo se dispor a colaborar, podendo
inclusive boicotar, prejudicando o trabalho. A experiŒncia
nos ensinou que Ø fundamental identificar as pessoas
com quem podemos contar. Apostar no contato com
essas pessoas Ø mais favorÆvel para manter a proposta,
bem como efetivÆ-la. Estar consciente que Ø possível
haver resistŒncias faz parte do trabalho, estar atento
para identificÆ-las e atuar de modo a mostrar-lhes o
benefício dos resultados Ø mais eficaz do que lutar
contra elas. Por isso Ø necessÆrio repropor continuamente
a proposta. Mesmo que algumas pessoas dŒem indícios
de que jÆ entenderam, outras podem continuar insistindo
numa compreensªo errada da mesma, como por exemplo
alunos pedindo nossa interferŒncia direta quanto a
problemas com professores ou direçªo, e professores
ou diretoria pedindo nossa ajuda para aqueles que julgam
ser alunos-problema. Ter firme uma postura que confir-
me e reafirme a proposta inicial Ø elemento fundamental
para mantŒ-la, alØm de intervir diretamente, quando
necessÆrio, para explicitÆ-la de modo claro e eficiente.
78
Plantªo Psicológico: novos horizontes
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Psicológico na escola: a psicologia em campo e as respostas
da comunidade. 1” Encontro das Escolas de
Psicologia de Belo Horizonte. Programa e
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MG, 1997, p.41-42.
MAHFOUD, Miguel, ALC´NTARA, Tânia Coelho
de, ALVARENGA, Alessandra R., BATISTA,
Matilde Agero, BRANDˆO, Juliana Mendanha,
DRUMMOND, Daniel Marinho, MAGA-
LHˆES, Romina, RIBEIRO, Ronnara Kelles,
SANTOS, Ivana Carla B. C., SILVA, Lilian
Rocha da, SILVA, Roberta Oliveira e. Plantªo
Psicológico na escola: presença que mobiliza. V
Encontro Estadual de Clínicas-Escola.
Caderno de Resumos, Sªo Paulo: Universidade
Sªo Judas, 1997, p.68.
MAHFOUD, Miguel, BRANDˆO, Juliana Mendanha,
DRUMMOND, Daniel Marinho, SILVA,
Roberta Oliveira e. Plantªo Psicológico na Escola:
facilitando o acesso a ajuda e o surgimento de demandas.
VII Semana de Iniciaçªo Científica –
Caderno de Resumos, Belo Horizonte: UFMG,
1998, p.371
MAHFOUD, Miguel & DRUMMOND, Daniel
Marinho. Site Plantªo Psicológico: mensagens recebidas,
necessidades explicitadas. VII Semana de Iniciaçªo
Científica – Caderno de Resumos, Belo
Horizonte: UFMG, 1998, p.371
ROGERS, Carl R. Um jeito de ser. Sªo Paulo: EPU, 1983.
Plantªo Psicológico na escola: presença que mobiliza
81
Pesquisar processos para apreender experiŒncias
Pesquisar processos para
apreender experiŒncias: Plantªo
Psicológico à prova
Miguel Mahfoud
Daniel Marinho Drummond
Juliana Mendanha Brandªo
Roberta Oliveira e Silva
No capítulo anterior relatamosnossa
experiŒncia em Plantªo Psicológico em uma escola
de Belo Horizonte, Minas Gerais, onde
apresentamos evidŒncias da eficÆcia da proposta de
Plantªo em contexto escolar e identificamos nossa
presença como mobilizadora. Buscando uma leitura
abrangente, consideramos nªo apenas os resultados
no âmbito individual, entre os alunos que
atendemos, como tambØm no âmbito coletivo, ou
seja, como a instituiçªo recebeu e respondeu à nossa
presença.
EstÆvamos, no entanto, interessados em
compreender melhor como ocorriam os
atendimentos, em cada sessªo, com cada pessoa que
nos procurou. Queríamos entender o processo em si
de cada atendimento, apreender o movimento do que
acontecia no momento em que a pessoa estava diante
de nós (cf. Mahfoud, 1989). Buscamos identificar no
atendimento clínico, propriamente dito, quais as suas
82
Plantªo Psicológico: novos horizontes
fases, as mudanças de rumo e o movimento que a
pessoa realizava durante a sessªo.
Sabíamos que nossa presença era mobilizadora no
sentido de fazer a pessoa entrar em contato consigo mesma
e pensar mais claramente acerca da questªo trazida,
explorando mais amplamente seu problema e assumindo
uma posiçªo diante dele. Segundo a Abordagem Centrada
na Pessoa o nosso papel era o de um ouvinte ativo, a
pessoa era quem conduzia o próprio processo e nós
“apenas” a acompanhÆvamos, o que nªo quer dizer que
seja pouco. Um olhar minucioso sobre o processo poderia
nos informar quais movimentos a pessoa fazia no decorrer
do atendimento, permitindo-nos visualizar passo a passo
o que existia nesse tipo de atendimento. Partimos, entªo,
para uma investigaçªo mais detalhada do processo de
atendimento.
DESCRI˙ˆO INICIAL
Como nosso material de pesquisa utilizamos
relatórios escritos pelos estagiÆrios que haviam realizado
os atendimentos, que descreviam como tinham
transcorrido as sessıes.
À medida em que líamos os relatórios,
buscÆvamos identificar fases que emergiam destes,
correspondentes ao movimento do cliente em relaçªo
à sua demanda. Se por exemplo, o aluno contasse
porque estava procurando nossa ajuda e em seguida
começasse a falar sobre formas como jÆ tinha agido
frente à sua questªo, identificaríamos duas fases. Os
relatórios que nªo nos permitiam ter uma visªo do
processo do atendimento, desta movimentaçªo do
aluno, foram excluídos da anÆlise, para que tivØssemos
um maior rigor na pesquisa.
Ficamos entªo com 56 relatórios de sessıes,
que descreviam 37 casos de alunos atendidos. Destes
37 casos, 27 consistiram de uma œnica sessªo e 10 de
mais de uma (entre 2 e 6 sessıes).
83
Pesquisar processos para apreender experiŒncias
DE DESCRI˙ˆO DE CASOS A APREENSˆO DE FASES
DO PROCESSO
Inicialmente, as fases que íamos identificando,
eram descritas como no exemplo seguinte:
1. lança dœvida: deixar ou nªo a escola devido às
dificuldades com matemÆtica.
2. diz que jÆ havia conversado com a professora
sobre a dificuldade e esta deu sugestıes que ele
nªo seguiu.
3. diz que trabalha e da dificuldade de organizar
seu tempo (nªo estuda em casa).
4. ...etc
Este tipo de descriçªo parecia-nos um resumo
do atendimento, apresentando demasiadamente o
conteœdo específico da questªo trazida por aquele aluno
em particular. Para atingirmos nosso objetivo, era-nos
interessante encontrar uma mesma expressªo que fosse
capaz de descrever fases similares em atendimentos
diferentes, mesmo que o conteœdo específico fosse
outro. O aluno podia ter procurado o Plantªo
Psicológico por estar triste com a morte de alguØm
ou porque nªo sabia se deveria sair da casa dos pais
ou nªo; em qualquer destes casos ele estava falando
do motivo que o havia levado a buscar ajuda. Para
este momento buscamos encontrar uma expressªo.
Assim colocamos lado a lado as fases que havíamos
encontrado em cada relatório, buscando expressıes
que fossem capazes de abarcar momentos similares
com conteœdos diversos. Assim, a expressªo 1 do
exemplo acima foi classificada como ‘AQ – Apresenta
a Questªo’. As expressıes 2 e 3 foram classificadas em
conjunto como ‘EQ – Explora a Questªo’.
Reunimos um conjunto destas expressıes, que
à medida em que eram criadas substituíam as frases
que havíamos separado em cada relatório.
84
Plantªo Psicológico: novos horizontes
A primeira fase, na maioria dos atendimentos,
foi a que chamamos ‘AQ – apresenta a questªo’ na qual o
aluno diz porque veio, qual Ø o seu problema ou
dificuldade e às vezes diz o que espera dos plantonistas.
Um exemplo: Raquel chegou dizendo que queria
mostrar algumas coisas aos plantonistas. Queria saber
se podiam dar uma opiniªo. Tirou vÆrios documentos
da bolsa, enquanto explicava o caso de seu irmªo que
havia desaparecido.
Após apresentar a questªo, o sujeito geralmente
‘apresenta a história (da questªo) – AH’ ou ‘explora a questªo
– ExQ’. Na apresentaçªo da história, o sujeito conta os
precedentes de sua questªo atØ o momento atual,
temporalmente e, na exploraçªo, ele mostra vÆrios
âmbitos atuais da questªo, explorando-os, explicando-
os. No exemplo de Raquel, esta, após o AQ, passou a
explorar o assunto do desaparecimento do irmªo,
dizendo que apesar de provas policiais de que ele estaria
morto e da família acreditar nisto, ela nªo acreditava e
tentava provar para a polícia que ele estava vivo. Se ao
invØs de explorar a questªo, apresentasse a história da
questªo, ela poderia contar vÆrios acontecimento desde
o desaparecimento atØ o momento presente.
Alguns clientes nªo apresentaram uma œnica
questªo. Quando o aluno apresentou mais de uma,
quase que simultaneamente, utilizamos a expressªo ‘AV
– apresenta vÆrias questıes’. Se este entªo passou a se
debruçar mais sobre uma questªo específica dentre as
que havia trazido, categorizamos como ‘ElQ – elege
questªo’. Em outros casos, alunos que jÆ haviam
apresentado uma questªo (AQ) apresentavam uma
nova, seja após explorar a questªo inicial (ExQ) ou
mudar de perspectiva (MP – ver abaixo) em relaçªo a
esta. Para estes casos a expressªo ‘OQ – outra questªo’
foi atribuída. Uma outra possibilidade encontrada
refere-se aos casos em que após apresentar uma
questªo (AQ) o aluno a ampliou, ou seja, manteve a
85
Pesquisar processos para apreender experiŒncias
mesma questªo mas englobava novos aspectos de sua
realidade nesta: chamamos de ‘AmQ – amplia a questªo’.
Outras expressıes que utilizamos, para nomear
fases foram:
‘PI – pede informaçªo’ – a questªo do aluno era um pedido
de informaçªo do tipo ‘Se eu der para o meu filho
o nome do meu marido faz mal?’. Estes pedidos
de informaçªo terminaram sempre com a ‘obtençªo
da informaçªo – OI’.
‘RA – reafirma atitude’ – quando o aluno reafirma a atitude
que tinha frente ao problema, ou à nova atitude que
havia assumido em uma sessªo anterior.
‘NC – nªo comparece’ – o aluno marca uma sessªo, falta
e retorna para uma nova sessªo. É diferente do caso
em que o aluno marca, falta e nªo retorna mais, o
que encerraria o processo, pois nos casos aqui
incluídos entendemos o nªo-comparecimento
como parte do processo.
‘RQR – relata como a questªo se resolveu’ – se aplica aos
casos em que entre uma sessªo e outra ocorre uma
mudança na situaçªo do aluno, mudança esta que
resolve para este a questªo que ele tinha. Um
exemplo Ø o caso do aluno que namorava uma
garota mas estava “ficando” com outra e se
preocupava pois havia uma possibilidade da
namorada ‘oficial’ estar grÆvida. Ele retorna ao
Plantªo Psicológico para uma nova sessªo dizendo
que a namorada nªo estava grÆvida, ou seja, esta
questªo estava resolvida e nªo havia por que se
preocupar. Mas este fato nªo eliminou sua questªo
em relaçªo a estar com as duas pessoas, o que o faz
retomar esta questªo, jÆ discutida em um
atendimento anterior. Este tipo de retomada foi
chamado ‘ RQ - retoma questªo’.
‘RQ – retoma questªo’ (explicaçªo dada no exemplo acima).
‘RCA – relata como agiu’ – após o aluno tercomparecido
a uma sessªo ele retorna para contar como agiu
86
Plantªo Psicológico: novos horizontes
frente à questªo colocada. Estes casos aconteceram
após um ‘DA – decide agir’, uma ‘MP – mudança de
perspectiva’ ou após um ‘PR – propıe-se a refletir’.
‘PR – propıe-se a refletir’ – esta categoria foi usada na
situaçªo que ocorre ao tØrmino de uma sessªo
quando o aluno disse que ia pensar sobre o que
havia conversado com o plantonista. Em todos estes
casos os alunos retornaram para uma nova sessªo.
‘AP – apresenta possibilidades’ – quando os alunos apresen-
tavam uma ou vÆrias maneiras possíveis para lidar
com sua situaçªo ou resolver seu problema, utiliza-
mos esta expressªo.
FASES DE ENCERRAMENTO DO PROCESSO
Quanto aos encerramentos de atendimentos,
identificamos uma tríade de fases bastante indicativa
do desfecho do movimento percorrido pelo sujeito
ao longo do processo. Sªo elas: ‘MP – mudança de
perspectiva’, ‘ANA - assume nova atitude’ e ‘DA - decide agir’.
a) ‘MP - mudança de perspectiva’: A primeira diz respeito a
uma mudança na forma de enxergar a questªo
apresentada que passa a ser vista sob outro prisma,
outra perspectiva; muda a idØia que o sujeito tem
sobre sua questªo. Nesta fase, a Œnfase estÆ na
questªo, que passa a ser vista de outra forma. No
exemplo de Raquel apresentado anteriormente,
ocorreu a MP após uma ‘I - intervençªo’ decisiva do
plantonista (note-se que isto nªo Ø uma regra, embora
aconteça em alguns casos). A aluna discutia se o
irmªo estava vivo ou morto mas tambØm falava de
como ele era importante na vida dela. O plantonista
interviu dizendo que independente do fato do irmªo
estar vivo ou morto, pelo que falava ele fazia uma
falta muito grande na vida dela, jÆ que nªo estava
mais com ela. Neste momento a conversa mudou
de rumo e a questªo nªo era mais se ele estava vivo
ou nªo. Como todo o processo de atendimento pode
87
Pesquisar processos para apreender experiŒncias
ser considerado uma intervençªo, apenas
denominamos com a letra I aquelas intervençıes
que haviam sido bem marcantes, jÆ que após estas a
sessªo mudou de rumo. As outras intervençıes que
nªo tinham esta característica específica tambØm
podem ter feito parte do processo e ajudado.
b) ‘ANA - assume nova atitude’: Assumir nova atitude jÆ
acarreta lidar com a questªo de forma diferente,
assumir uma atitude diferente diante do problema. A
Œnfase estÆ no sujeito diante de sua questªo. A aluna
Raquel, nessa fase, logo após a MP, disse que se o
irmªo estivesse vivo, um dia iria aparecer pois “quem
tÆ vivo sempre aparece” o que nos leva a pensar que
ela estÆ considerando que, no momento, ela deveria
aceitar sua ausŒncia e que ela poderia chegar a saber
se ele estava vivo se ele voltasse algum dia.
c) A fase de ‘decide agir’ Ø observada quando o sujeito
expressa sua intençªo de agir em relaçªo àquela
questªo de modo a tentar resolvŒ-la. A Œnfase estÆ
na açªo que o sujeito expressa. ‘DA’ Ø comum em
demandas que exijam açªo para serem resolvidas
como ‘dificuldades em fazer escolhas/decisªo’ ou
dificuldade nos relacionamentos e mais raras em
demandas de ‘elaboraçªo de perdas’ nas quais, às
vezes, ‘assumir nova atitude’ jÆ Ø suficiente para a
elaboraçªo de uma questªo. Nosso exemplo, apesar
de ser da demanda ‘elaboraçªo de perdas’, mostra
essa fase quando a cliente disse que nªo iria mais
ficar procurando a polícia e questionando-a sobre
o desaparecimento do irmªo, como fazia antes.
UM PROCESSO: UMA SEQÜ˚NCIA DE FASES
A seguir apresentamos um caso ilustrativo da
seqüŒncia de fases AH-AQ-ExQ-MP-ANA-DA.
1
:
Uma aluna chega apresentando a história de sua
questªo (AH). Conta que namorava um primo quando
morava em Sªo Paulo e que a mªe nªo gostava dele.
1
 É importante assi-
nalar que só porque
este caso estava
suf ic ientemente
detalhado e bem
descrito em um
relatório de aten-
dimentos, de acordo
com a ordem crono-
lógica em que os
fatos foram sendo
relatados, Ø que
essa anÆlise por
fases pôde ser feita.
88
Plantªo Psicológico: novos horizontes
Veio para Belo Horizonte pensando que iria ficar
mais fÆcil o namoro à distância. Namoraram durante
trŒs anos dessa forma e diz nªo saber como conseguiu.
Logo conclui que foi porque eles terminaram muitas
vezes neste período. Sofreu muito por sua causa (“ele
pisou muito”). Um vez ele esteve em sua cidade num
final de semana e só ligou para falar que estava ali: nªo
quis se encontrar com ela, nªo ligou novamente e foi
embora.
Após todo esse relato a aluna apresenta sua
questªo (AQ): no início da semana (em que foi feito o
atendimento) ele havia ligado dizendo que estava
precisando da ajuda dela e que queria vir à Belo
Horizonte para falar-lhe. Pediu que ela pensasse e
telefonasse para dar a resposta. Nªo sabia o que fazer.
Essa Ø uma demanda classificada como ‘dificuldade
em fazer escolhas/decisªo’
2
.
A seguir, a aluna passa a explorar a questªo
(ExQ): Fala que contou o caso para muitas pessoas e
só uma sugeriu que ela o deixasse vir. A princípio, ela
diz que nªo sabe se quer que ele venha; estÆ hÆ um mŒs
namorando um outro rapaz que estuda em sua escola
e estÆ percebendo o quanto Ø bom ter um namorado
por perto. Antes nªo ia a festas, pois todos iam
acompanhados e ela ficaria sozinha. Quando
perguntavam se ela tinha namorado, dizia que sim e
que ele morava em Sªo Paulo. Durante o atendimento,
ela passou a dizer que quer “dar um tempo” naquele
relacionamento e que em Sªo Paulo, existe muita gente
a quem ele pode pedir ajuda, e que se ele estiver com
um problema pessoal ela nªo quer saber. AlØm disso,
disse temer que a vinda dele atrapalhasse o namoro
com o atual namorado.
A partir dessa exploraçªo da questªo, a aluna
consegue mudar a perspectiva (MP): diz que nªo sabe
o que fazer, mas sabe que nªo quer encontrar o ex-
namorado agora. Acha que o que ele estÆ querendo Ø
2
 Confira classifi-
caçªo de demandas
no capítulo “Plantªo
Psicológico na es-
cola: presença que
mobiliza”, dos mes-
mos autores do
presente capítulo,
neste livro.
89
Pesquisar processos para apreender experiŒncias
voltar pra ela, o que ela nªo deseja porque nªo “tem
nada para dar certo” e porque ela estÆ com outro
namorado.
Com essa nova perspectiva, a aluna consegue
assumir nova atitude diante da questªo (ANA), a
atitude de quem nªo quer encontrar o ex-namorado
por trŒs motivos que ela consegue explicitar: a
possibilidade de atrapalhar o novo namoro, no qual
ela quer investir; se o ploblema do ex-namorado for
pessoal e nªo tiver relaçªo com ela, que ele procure
outra pessoa para ajudÆ-lo; ela quer interromper o
relacionamento deles. Neste exemplo, as fases MP e
ANA sªo muito ligadas e, na verdade, elas quase
coincidem jÆ que, a atitude da aluna foi imediatamente
transformada quando ela mudou a perspectiva de sua
questªo. Lembramos que a maneira de se distinguir as
duas fases estÆ no foco central do movimento do
sujeito: na fase MP, o foco Ø a questªo, vista sob outra
perspectiva, e em ANA, o foco Ø o sujeito com uma
nova atitude frente à questªo.
A œltima fase desse atendimento Ø a do ‘decide
agir’ na qual a aluna expressa que iria ligar para o ex-
namorado dizendo que iria viajar no final de semana
(como sua madrinha havia sugerido) e que, na segunda-
feira, ligaria novamente dizendo que nªo queria que
ele viesse procurÆ-la e diria os trŒs motivos.
BUSCANDO UM PADRˆO
Após categorizarmos todas as fases dos
processos passamos a buscar algum padrªo na
seqüŒncia em que essas fases apareciam. Ao se examinar
o conjunto dos casos que tínhamos com as fases
categorizadas, vimos que existem algumas que
aparecem com a primeira dos atendimentos que se
repetem para a grande parte de casos, como as fases
AQ, AH ou AV. Vimos tambØm que, ao final dos
atendimentos cujas questıes estavam sendo mais bem
90
Plantªo Psicológico: novos horizontes
adnameD saossePsadidnetA
seısseS
-asilanA
sad
aossePadaCedossecorP
-nemidneperrA.1
apluceot
2 2
QxE-QA.1
AD-QxE-QA-HA.2
edacsuB.2
otnemicehnocer
2 3
AR.1
.2 à QR-QxE-ACR à QxE-QR
açnaifnocseD.3
-anoicalerson
sotnem
0 0 -
edadlucifiD.4
sagordmoc
1 4
QxE-HA-QA.1 à QxE-ACR à AR
QxE- à PM à ACR
edadlucifiD.5
alocsemoc
0 0 -
meedadlucifiD.6
oªsiced/sahlocse
4 11
RP-QxE-QmA-I-QA-HA.1 à
QO-PM-ACR à PA-QR-RQR à
QxE-ACR à QxE-QO à -I-QR
AD-PM
QxE-HA-QA.2
AD-ANA-PM-QxE-HA-QA.3
RP-PM-QxE-HA-QA.4 à -PA
AD-PM
edoªçarobalE.7
sadrep
4 4
PA-QO-PA-I-QO-PA-I-QA.1
ANA-QI-PM-QR-I-QxE-QA.2
AD-ANA-PM-I-QxE-QA.3
ANA-PM-I-HA-QA.4
edatlaF.8
aicnŒdnopserroc
-anoicalerson
sosoromasotnem
1 1 I-PM-QR-QO-HA-QA.1
edatlaF.9
sonedadicorpicer
sotnemanoicaler
Æjsosoroma
sodicelebatse
6 9
PM-QxE-QR-PA-HA.1 à AR
ANA-QxE-HA-QA.2
QA.3
AD-I-PA-QxE-HA-QA.4 à
AD-ANA-QxE-PM-ACR à AR
AD-PM-I-QlE-VA.5 à aunitnoc
3osac,21adnamedan
PM-QxE-QlE-I-VA.6
TABELA I
91
Pesquisar processos para apreender experiŒncias
adnameD saosseP sadidnetA
seısseS
-asilanA
sad
aossePadaCedossecorP
odomôcnI.01
edarienamamoc
sàrigaereres
seıçautis
9 11
PA-I-QA.1
PA-HA-QA.2
QO-QxE-QA.3
AD-PM-QxE-QR-QO-QA.4
RP-PA-HA-QA.5 à -PM-ACR
QxE-QO à PA
AD-PM-QxE-QA.6
VA.7
I-QlE-PM-I-QmA-QxE-QO-QA.8
PM-QxE-QA-HA-PA-I-VA.9
oªçafsitasnI.11
samoc
eseıçiubirta
saicnŒgnitnoc
2 2
PA-QVA.1
I-QO-PA-QA-HA.2
oªçafsitasnI.21
-anoicaleron
amocotnem
ailímaf
4 6
ANA-PA-I-QA.1
AD-PA-QxE-HA-QA.2 à CN
2osac,2adnamedanaunitnocàACR
.3 à AD-PA-QO-ACR
HA-QA.4 à PM-ACR
oªiniporetbO.31
lanoissiforp
2 2
I-QxE-I-QA.1
IO-IP.2
oªçapucoerP.41
-nΟqesnocmoc
uoseıçaedsaic
sadassapseısiced
0 0 -
edadilauxeS.51 0 0 -
adnameD.61
adanimretedni
1 1 PA-I-QmA-QA.1
TABELA I - Continuaçªo
92
Plantªo Psicológico: novos horizontes
r esolvidas, apareciam as fases MP, ANA e DA nessa
ordem, mesmo se alguma delas nªo estivesse presente.
Fora estas fases comuns nos inícios e nos finais de
atendimento, cada um parecia ter uma história própria,
um percurso particular que nªo se assemelhava a um
nœmero significativo de outros casos.
Fizemos entªo uma organizaçªo dos casos
segundo as categorias de demandas. Vimos com isso
que, dentro de cada categoria, os processos dos casos
que estªo ali sªo mais semelhantes, percebendo-se
neles um padrªo de forma mais clara do que ao
olharmos todo o conjunto de casos independentemente
das demandas. Em algumas categorias nªo pudemos
descrever nenhum padrªo particular em virtude do
pequeno nœmero de casos.
Algumas categorias sªo bem ilustrativas desses
padrıes (ver tabela I na pÆgina anterior)
Nota-se ali como Ø comum que os sujeitos
iniciem seus atendimentos no que chamamos de
“apresenta a questªo”(AQ) e passem logo ao “apresenta a
história”(AH) e/ou “explora a questªo”(ExQ). Pode-se
perceber tambØm que à medida em que o sujeito vai
resolvendo sua questªo, ocorre a “mudança de perspectiva”
(MP), ele “assume nova atitude”(ANA) e, quando Ø
possível uma açªo, ele “decide agir”(DA). Essa tríade
final - MP-ANA-DA - Ø bastante indicativa de que o
processo pelo qual o sujeito passou, atravØs do
atendimento no Plantªo Psicológico, foi transformador
e bem sucedido. Indica que o sujeito saiu do
atendimento tendo mudado sua visªo em relaçªo ao
que trazia, sua posiçªo para lidar com a questªo e ainda
a decisªo de agir de uma nova maneira.
É interessante notar que, nos casos da demanda
“elaboraçªo de perdas”, Ø comum que nªo haja a fase
“decide agir” no desfecho dos atendimentos.
93
Pesquisar processos para apreender experiŒncias
Provavelmente isso se deve ao fato de que após uma
perda de alguØm, principalmente se a causa for a morte,
o que se pode fazer Ø aprender a lidar com essa nova
questªo, assumindo uma nova atitude diante dela que
cause menos sofrimento. Assim, para essa demanda
pode-se considerar um bom desfecho.
JÆ a demanda “incômodo com a maneira de ser
e de reagir às situaçıes” mostrou-se diferente em
relaçªo às outras justamente pela falta de semelhança
entre seus casos, estes em um nœmero suficiente para
que pudesse configurar um padrªo. No entanto,
pensamos que, por ser esta uma demanda que pede
uma mudança mais estrutural na vida da pessoa e nªo
apenas situacional, seu processo serÆ mais dependente
das particularidades de cada sujeito com sua maneira
de ser e mais difícil de ser resolvido em apenas um ou
poucos atendimentos. Mais do que apontar para limites
do Plantªo Psicológico, isso parece indicar uma
delimitaçªo de campos onde psicoterapia e Plantªo
Psicológico nªo substituem um a outro.
CONCLUINDO
Relatamos aqui uma atividade de pesquisa que
busca olhar com precisªo o desenvolvimento dos
processos de atendimento em Plantªo Psicológico
(neste caso específico, em contexto escolar), chegando
a identificar fases que nos permitam apreender os
diversos movimentos de que esse processo Ø
constituído, de maneira a poder chegar a uma avaliaçªo
rigorosa do resultado de nossas intervençıes.
Sabemo-nos assim estar na esteira das
preocupaçıes de sistematizaçªo do conhecimento
advindo da experiŒncia que Rogers (1995, 1995a) com
muita clareza realizou, propôs e esperou que fosse
continuada. Trata-se de uma tentativa de continuar a
sistematizar a experiŒncia subjetiva advertida em seus
processos apreensíveis, registrÆveis e mensurÆveis
94
Plantªo Psicológico: novos horizontes
objetivamente, buscando nªo perder de vista a
especificidade propriamente humana do processo
estudado. E sabemos estar em companhia de outros
pesquisadores brasileiros que com rigor tŒm se
empenhado nesse Ærduo e gratificante desafio (cf.
Amatuzzi, 1993)
Para alØm da possibilidade de uma avaliaçªo
bastante positiva das intervençıes empreendidas, o
que nos parece mais importante e indicativo de um
grande potencial do Plantªo Psicológico baseado na
escuta profunda Ø o fato de podermos chegar a
delinear um processo de características semelhantes
segundo o tipo genØrico de demanda, quando os
conteœdos dos atendimentos sªo profundamente
diversos. É ainda mais impressionante se atentamos
para o fato de que tambØm o grupo de plantonistas Ø
grande, com profundas diferenças internas de
temperamentos e de experiŒncias, supervisionados por
quem dÆ Œnfase na descoberta da maneira própria de
conduzir o processo - e ainda assim produz-se
processos semelhantes!
Longe da tentativa de identificar padrıes rígidos
que tornasse previsível o processo que permanece
sempre misterioso, a identificaçªo de padrıes por
demanda em um contexto de equipe tØcnica tªo
diversificada leve-nos a confiar sempre mais no
processo que com surpresa vemos se desenrolar diante
de nós durante o atendimento em Plantªo Psicológico.
Que possamos dar crØdito sempre maior à liberdade
do cliente em sua busca, com a alegria profunda e
simples de participar como testemunha de um
processo que se desenvolve muito alØm de nós
mesmos. Que possamos oferecer sempre mais
confiantes nossa escuta profunda para que cada cliente
possa dizer sua palavra própria e autŒntica (Amatuzzi,
1989), e entªo, assim que lhe seja concedida a
oportunidade, crescer – por rumo seguro.
95
Pesquisar processos para apreender experiŒncias
REFER˚NCIAS BIBLIOGR`FICAS
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Sociedade de Psicologia de Ribeirªo Preto,
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psicoteraia. In: WOOD, John Keith et alii (Org.s).Abordagem Centrada na Pessoa. 2
a
 Ed., Vitória:
Editora Fundaçªo Ceciliano Abel de Almeida /
Universidade Federal do Espírito Santo, 1995, p.95-
122.
ROGERS, Carl Ransom. Pessoa ou ciŒncia? Uma
questªo filosófica. In: WOOD, John Keith et alii (Org.s).
Abordagem Centrada na Pessoa. 2
a
 Ed., Vitória:
Editora Fundaçªo Ceciliano Abel de Almeida /
Universidade Federal do Espírito Santo, 1995a, p.123-
153.
97
Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico
Plantªo Psicológico em hospital
psiquiÆtrico: Novas Consideraçıes e
desenvolvimento
Walter Cautella Junior
A intençªo deste trabalho Ø abordar os
desdobramentos que uma experiŒncia de plantªo
psicológico bem sucedida gerou em um hospital
psiquiÆtrico. Tais mudanças nªo afetaram somente a
rotina hospitalar, mas tambØm a forma de conceber
o fazer psicológico em condiçıes tªo específicas. Na
verdade, a experiŒncia do plantªo psicológico levou a
instituiçªo a reformular sua visªo do indivíduo
institucionalizado.
Para que melhor possamos compreender a
amplitude da experiŒncia e seus desenvolvimentos,
considero importante fazer uma breve descriçªo da
instituiçªo e dos moldes de funcionamento do
departamento de psicologia antes do plantªo
psicológico.
Trata-se de um hospital de porte mØdio e de
curta permanŒncia que atende pacientes do sexo
feminino em quadro agudo de doença mental. Conta
com duas equipes terapŒuticas compostas por:
98
Plantªo Psicológico: novos horizontes
psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais,
assistentes sociais, recreacionistas e enfermeiros.
O serviço de psicologia começou a funcionar
em 1988 e utilizava exclusivamente grupos
psicoterÆpicos e atendimentos individuais em
psicoterapia breve/focal para atender a demanda da
clientela. Com o passar do tempo, percebíamos certas
limitaçıes de tais procedimentos quando utilizadas em
situaçıes com características tªo específicas. Como foi
descrito anteriormente, este Ø um hospital de curta
permanŒncia, o que acarreta à intervençªo psicoterÆpica
uma sØria dificuldade, pois estabelece um limite externo
concreto para o processo. AlØm disto, sua populaçªo
possui características bastante peculiares por tratar-se
de pessoas em quadro agudo de doença com diferentes
níveis de contato com a realidade. HÆ uma dificuldade
maior para o processo se comparado a pessoas que
mantŒm um padrªo neurótico. Resumidamente,
possuíamos pouco tempo para abordagem psicológica
e a nossa clientela era muito heterogŒnea, pois em um
mesmo setor do hospital temos vÆrias patologias, tais
como: neuroses, psicoses, toxicofilias etc.
Ambas as tØcnicas utilizadas exigem certos prØ
requisitos para que o indivíduo possa tirar proveito
da intervençªo psicológica. A abordagem de grupo
exige certo tempo para que a pessoa se integre à
dinâmica e assuma uma identidade grupal. Antes disso,
a açªo psicoterÆpica Ø superficial e limita-se aos
sintomas. Percebíamos que as pessoas que participavam
de tais grupos, muitas vezes, compareciam
mobilizadas por uma demanda institucional e nªo por
uma demanda pessoal. Entende-se por demanda
institucional a pressªo exercida pela instituiçªo para
que as pessoas se vinculem a psicoterapia. A instituiçªo
vŒ essa necessidade e acredita nas conseqüŒncias
positivas que o processo pode trazer. A partir disso,
tenta vincular os internos sem o cuidado de que esse
99
Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico
1
 FIORINI, Hector
J. Teoria e TØc-
nica de Psicote-
rapias. 9“ ediçªo.
Sªo Paulo: Fran-
cisco Alves Editora,
1980
2
 Grifo do Autor
processo tenha um significado no quadro referencial
do cliente. Se alguØm procura ajuda Ø porque sente
algo e nªo se considera apto para resolver sozinho.
Sabemos que o trabalho psicológico só Ø eficiente
quando o indivíduo identifica sua demanda e se propıe
a trabalhar com suas questıes. Comparecer ao grupo
por pressªo do mØdico ou da enfermagem, cria um
clima ansiógeno e persecutório que nªo ajuda no
processo psicoterÆpico, mesmo que a intençªo seja
boa. A composiçªo dos grupos tornava-se
extremamente complicada, visto que a populaçªo
variava muito em termos de nível intelectual,
capacidade de elaboraçªo e de simbolizaçªo etc. Apesar
da heterogeneidade na composiçªo dos grupos poder
ser benØfica pela diversidade de experiŒncias, o pouco
tempo de intervençªo nos levava a tentar potencializar
ao mÆximo a açªo psicoterÆpica. Se a açªo priorizava
os pacientes delirantes ou deficitÆrios do ponto de
vista cognitivo, com certeza parte da populaçªo era
colocada à margem do processo. Por outro lado,
priorizando nossa atuaçªo em integrantes com maior
capacidade de elaboraçªo e menos comprometidos
privaríamos a maioria da populaçªo.
Os atendimentos individuais tambØm sofriam suas
limitaçıes. A tØcnica da psicoterapia breve determina
que o psicoterapeuta estabeleça um foco para ser
abordado em um tempo prØ determinado. Segundo
Fiorini
1
, “o terapeuta deve se colocar frente ao paciente,
primeiro, em seu próprio terreno, aceitando
provisoriamente
2
 seus pontos de vista sobre o problema,
e só mais tarde – depois de se orientar sobre os motivos
reais do paciente – hÆ de procurar utilizar esses motivos
para fomentar os objetivos terapŒuticos que possam
parecer de possível realizaçªo”. O curto espaço de
tempo que os psicoterapeutas dispunham para eleger
o foco dos atendimentos podiam levar a uma escolha
errônea. Durante nossa prÆtica percebíamos que muitas
100
Plantªo Psicológico: novos horizontes
3
 ROGERS, Carl R.
T o r n a - s e
Pessoa. 381“
ediçªo. Sªo Paulo:
Editora Francisco
Alves, 1977.
ROGERS, Carl R &
STEVENS B. De
Pessoa para
Pessoa: O Pro-
blema do Ser
Humano: Uma
Nova TendŒncia
da Psicologia.
Sªo Paulo: Pionei-
ra, 1976.
ROGERS, Carl R. e
Outros. Em Busca
de Vida: De Te-
rapia Centrada
no Cliente à
A b o r d a g e m
Centrada na
Pessoa. Sªo
Paulo: Summus,
1983.
WOOD, John K. e
Outros (Org.).
A b o r d a g e m
Centrada na
Pessoa. Vitória:
Editora Fundaçªo
Ceciliano Abel de
Almeida / Univer-
sidade Federal do
Espirito Santo,
1994.
vezes o foco eleito pelo psicoterapeuta nªo era o
mesmo que o cliente gostaria de abordar. Com o tempo
o cliente conseguia abandonar o foco adotado pelo
psicoterapeuta e assumir sua verdadeira demanda,
porØm este movimento levava tempo. Em uma
internaçªo de curto prazo, o tempo Ø um bem precioso
e que nªo pode ser desperdiçado.
Frente a essas dificuldades geradas pelas
características da populaçªo e da própria instituiçªo,
fomos levados a procurar alternativas terapŒuticas
eficientes. Nesse momento, o plantªo psicológico nos
pareceu uma possibilidade bastante atraente. No entanto,
ficava o desafio de utilizar uma tØcnica terapŒutica que
nunca havia sido testada em tais condiçıes.
No ano de 1992 desenvolvemos o primeiro
plantªo psicológico em hospital psiquiÆtrico. O
procedimento consistia em colocar à disposiçªo da
clientela um psicólogo preparado para o atendimento,
em um lugar prØ estabelecido, e por um tempo prØ
determinado.
O referencial teórico adotado Ø amplamente
influenciado pelo existencialismo e a fenomenologia
e tem como linha teórica principal a abordagem centrada
no cliente
3
. A populaçªo alvo foi amplamente avisada
da disponibilidade do profissional e da facilidade de
acesso atravØs de cartazes e informaçıes dadas pelos
outros profissionais. Previamente foi feito um trabalho
de sensibilizaçªo com esses profissionais para que
pudessem ter um entendimento bÆsico da tØcnica e do
referencial teórico adotado e, a partir disso, pudessem
falar da disponibilidade do serviço. Aos poucos, foram
se aproximando e aprenderam como utilizar esse novo
instrumento. Na verdade foram estabelecidos vÆrios
horÆrios, em locais diferenciados, uma vez que o
hospital possui vÆrios setores.
O plantªo psicológico conseguiu colocar-se
aberto a demandada clientela e trabalhar no sentido de
101
Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico
potencializar os recursos desta. Pelas suas características
e referencial teórico conseguiu ser eficiente frente a
heterogeneidade da populaçªo, uma vez que centra-se
na experiŒncia do cliente. Sendo assim, Ø possível atender
a demanda do psicótico, do neurótico, do deficiente e
do paciente cronificado, pois tal tØcnica nªo precisa que
o cliente possua certos prØ requisitos.
Com a premissa bÆsica de colocar-se disponível
frente às necessidades do cliente no momento do
encontro e com a peculiaridade deste poder ser œnico,
conseguimos uma abordagem terapŒutica eficiente em
curto espaço de tempo, visto que o nível de ansiedade,
irritabilidade e agitaçªo dos internos diminuiu
significantemente após o plantªo psicológico.
Após a implantaçªo do serviço, começamos a
perceber mudanças significativas nas abordagens
psicoterÆpicas que jÆ existiam (psicoterapia de grupo
e psicoterapia individual). As pessoas que participavam
dos grupos psicoterÆpicos nªo mais compareciam
mobilizados por uma demanda alheia (pressªo
institucional). Utilizando-se do plantªo psicológico, os
internos conseguiam identificar melhor a sua demanda
e isto levava a um salto qualitativo no seu desempenho
no grupo psicoterÆpico.
Os atendimentos individuais tambØm foram
influenciados pelo plantªo psicológico. Atualmente, o
processo psicoterÆpico individual inicia-se frente ao
pedido do cliente. Geralmente, ele procurou o plantªo
psicológico, conseguiu identificar sua demanda,
estabeleceu o foco do seu trabalho psicológico e
preferiu abordÆ-lo de maneira mais sistematizada na
psicoterapia individual, embora muitas das demandas
acabem se resolvendo no próprio plantªo.
Outras vantagens secundÆrias ficaram evidentes
após a implantaçªo do serviço. Ficou muito mais fÆcil
fazer os encaminhamentos internos. Após comparecer
ao plantªo, sabemos com clareza em qual setor e em
102
Plantªo Psicológico: novos horizontes
4
 EY, Henry e
outros. Manual
de Psiquiatria.
5a ediçªo. Rio de
Janeiro: Editora
Masson do Brasil
Ltda, 1981.
qual grupo psicoterÆpico determinada pessoa terÆ
melhor benefício. Os encaminhamentos externos
tambØm tornaram-se mais eficientes na medida em que
temos maior conhecimento da demanda pessoal.
O plantªo psicológico, apesar de sua grande
eficiŒncia, experimenta algumas limitaçıes no âmbito
hospitalar psiquiÆtrico. Pessoas em quadro delirante
grave, que estªo rompidos com a lógica alheia e
submersos em sua realidade paralela, raramente
procuram o plantªo. Colocar-se em contato com o
outro Ø submeter-se à lógica geral. Conseqüentemente,
isto leva a ineficÆcia da estrutura delirante como
mØtodo defensivo. Pacientes em quadro maníaco
podem atØ procurar o plantªo, porØm, pela aceleraçªo
dos seus processos psíquicos
4
, geralmente, nªo conseguem
se deter frente as intervençıes. Nesse caso, o carÆter
terapŒutico Ø estabelecer um limite externo para a
aceleraçªo, visto que o interno nªo Ø eficiente nesse
momento. Quadros de depressªo profunda, tambØm,
nªo procuram o plantªo psicológico, assim como
quadros catatoniformes.
A resposta positiva dos internos provou a
eficÆcia deste mØtodo interventivo, e nos levou a
pensar a possibilidade de utilizÆ-lo em outras situaçıes
dentro da rotina hospitalar. A instituiçªo evidenciava
certas demandas que pareciam ser da alçada do
psicólogo. Tais como: o atendimento à família e à
própria instituiçªo.
Atualmente parece ser de senso comum que
uma açªo terapŒutica nªo pode se restringir somente
ao indivíduo institucionalizado. Uma das formas de
entendermos a doença mental Ø considerÆ-la como
fruto de um jogo de tensıes dentro de um campo
social, onde um membro dessa sociedade nªo tem
condiçıes de lidar com as vicissitudes desse jogo e
acaba rompendo em um surto psicótico ou uma
descompensaçªo neurótica. Este enfoque nos leva a
103
Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico
considerar que doente nªo Ø somente aquele que
apresenta os sintomas, mas sim, todo o contexto a qual
pertence, no caso a família.
Aquele que manifesta a doença Ø internado e o
hospital cumpre a sua funçªo terapŒutica, no entanto,
quando este Ø devolvido para a família, Ø, novamente,
inserido no jogo de tensıes que permanece inalterado.
HÆ uma grande possibilidade de novos surtos surgirem
atØ o momento que o indivíduo possa elaborar
definitivamente sua posiçªo nesse campo de tensıes.
É importante salientarmos que a família age de maneira
defensiva, nªo identificando, ou identificando com
grandes dificuldades, a responsabilidade no processo
de adoecimento do internado. É menos ansiógeno para
a família depositar a doença em um œnico membro,
pois sendo assim, sente-se imune, saudÆvel e protegida.
Desta forma, podemos inferir que hÆ um movimento
inconsciente da família, e muitas vezes consciente, no
intuito de perpetuar a doença naquele que manifesta o
sintoma. Tal psicodinâmica explicaria em parte o alto
nível de reinternaçıes e “cronificaçıes psicológicas”,
pois, nesta breve conceituaçªo, nªo estamos
considerando bases orgânicas para a doença mental.
O setor de psicologia trabalha com a hipótese
de que o indivíduo institucionalizado, atravØs do
trabalho psicológico na instituiçªo, pode se dar conta
dessa intrincada psicodinâmica e nªo mais ocupar o
lugar de representante simbólico da doença social. Nªo
se trata de negar a fragilidade ou os aspectos individuais
como pode parecer, pois se este nªo suportou as
tensıes sociais Ø devido, tambØm, a aspectos internos
de desenvolvimento pessoal.
O indivíduo abandonando esse papel de doente
irÆ gerar um desequilíbrio na psicodinâmica estabelecida
e isso abrirÆ espaço para um trabalho elaborativo
familiar, ou para que outro membro manifeste
patologicamente o conflito mal resolvido.
104
Plantªo Psicológico: novos horizontes
5
 BATESON, Gregory
e Outros. Hacia una
Teoría de La
Esquizofrenia.In:
SLUZKI, Carlos E.
(org.). Interacción
Familiar: Aportes
Fundamenta les
sobre Teoría y
TØcnica. Buenos
Aires: Editorial
Tiempo Contempo-
rÆneo S.A. , 1971. p.
19-56.
6
 LIDZ, Theodore e
Outros. El Medio
Intrafamiliar Del
Paciente Esquizo-
frØnico: La Trans-
misión de la Irracio-
nalidad. In: SLUZKI,
Carlo E. (org.).
I n t e r a c c i ó n
Familiar. Aportes
Fundamenta les
sobre Teoría y
TØcnica. Buenos
Aires: Editorial
Tiempo Contempo-
rÆneo S.A. , 1971. p.
81-110.
7
 LAING, R. D. e
ESTERSON A.
Cordura, Loucura
y Família: Famí-
lias de Esquizo-
frenicos. Mexico:
Fondo de Cultura
Económica, 1967.
(Biblioteca de Psico-
logia y PsicoanÆlisis).
VÆrios autores de vÆrias linhas do pensamento
psicológico abordaram o papel da família e do jogo
social no processo de adoecimento, evidenciando certa
unanimidade neste ponto. Dentre eles, podemos citar
Bateson
5
 , Lidz
6
, Laing
7
 e principalmente Harold F.
Searles em seu artigo The effort to drive the other person
crazy – On element in the aetiology and psychotherapy of
schizophrenia
8
.
A prÆtica clínica na instituiçªo, embasada nessa
maneira de conceber a psicodinâmica da doença
mental, tem gerado efeitos bastante positivos, visto
que o nœmero de pacientes que percebem o seu lugar
dentro da dinâmica familiar e que pedem atendimento
tambØm para a família, vem aumentando
progressivamente. A percepçªo do lugar que ocupam,
e a nªo mais aceitaçªo de todas as responsabilidades
projetadas e depositadas sobre estes, levam a uma
desorganizaçªo familiar caracterizada pelo surgimento
de uma angœstia generalizada. Tais sintomas foram
comprovados atravØs do aumento do nœmero de
famílias que pediam para ser atendidas pelo serviço
de psicologia atravØs do serviço social, recepçªo,
funcionÆrios etc. Com o aumento da demanda, fez-se
necessÆrio estruturar um espaço onde a angœstia familiar
pudesse ser contidae trabalhada. AlØm disso, estÆvamos
otimizando o tratamento psicológico realizado na
instituiçªo abarcando de maneira mais abrangente o
“fenômeno patológico”.
Frente ao acima relatado, quatro anos depois
da criaçªo do plantªo psicológico, introduzimos um
serviço semelhante voltado exclusivamente para os
familiares dos internos. Foi aberto um espaço onde a
família Ø recebida como cliente. Nªo temos a pretensªo
de acreditar que todas as famílias aceitam esse lugar
tranqüilamente. Geralmente, o membro da família chega
atØ o serviço com o seu discurso voltado ao elemento
institucionalizado, e cabe ao plantonista fazer uma
105
Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico
8
 SEARLES, Harold
F. The Effort to
Drive the Other
Person Crazy – On
Element in the
Aetiology and
Psychotherapy of
Schizophrenia. In:
C o l l e c t e d
Papers on
S c h i z o p h r e n i a
and Reality
Subjects. Nova
York: New York
I n t e r n a t i o n a l
Universities , 1975.
p. 254-283.
escuta centrada e seletiva na angœstia desse familiar
que buscou o serviço.
O atendimento familiar desenvolvido pelo setor
de psicologia Ø bastante diferente dos atendimentos
realizados pelo serviço social e corpo mØdico. No
plantªo psicológico a família Ø colocada como cliente.
JÆ no atendimento mØdico-familiar o intuito Ø obter
dados e aprimorar a compreensªo da estrutura da
doença atravØs da história do paciente inserido no
contexto familiar. Portanto, nªo hÆ, prioritariamente,
uma açªo terapŒutica voltada à família. O cliente Ø
aquele que estÆ internado. Quanto ao serviço social, a
sua açªo visa o bem-estar do indivíduo internado e a
readaptaçªo deste à sociedade de uma maneira menos
traumÆtica. Novamente, o foco encontra-se no paciente
internado. Ambos os atendimentos sªo imprescindíveis
e de grande importância para o processo terapŒutico
porØm, nªo abordam de maneira a provocar mudanças
na psicodinâmica familiar. A utilizaçªo do plantªo
psicológico se justifica pelas características da situaçªo
e da populaçªo alvo. Geralmente, surge uma demanda
que estava reprimida pela impossibilidade de encontrar
um espaço próprio para que pudesse se manifestar.
Na doença o foco recai sempre naquele que manifesta
os sintomas. O plantªo psicológico abre um espaço
para que a família manifeste seu mal-estar e suas
questıes. As características de tal procedimento
parecem-nos facilitar o trabalho com esta situaçªo
emergencial, imprevisível e desorganizadora que Ø o
adoecimento. AtravØs do plantªo psicológico tentamos
aproveitar o momento de ruptura que a doença mental
gera na dinâmica familiar e na vida de quem adoece e,
a partir disso, proporcionar uma experiŒncia mais
saudÆvel.
HÆ ainda certos dados de realidade que
reforçam a aplicabilidade do plantªo familiar nessa
situaçªo. A grande maioria da populaçªo alvo (família)
106
Plantªo Psicológico: novos horizontes
possui pouco acesso a situaçıes que permitam uma
relaçªo de ajuda. Isso ocorre por vÆrios motivos: falta
de conhecimento de sua própria demanda;
desinformaçªo sobre os serviços disponíveis
(psicoterapia individual, familiar, etc.); carŒncia de
recursos pœblicos nessa Ærea; e finalmente,
indisponibilidade financeira da maioria daqueles que
procuram. O plantªo psicológico consegue, de certa
forma, diminuir a distância dessas pessoas a uma
relaçªo de ajuda eficaz.
Outra justificativa para a utilizaçªo do plantªo
recai na crença fortemente difundida nos plantonistas
que nem toda demanda precisa ser suprida pela
psicoterapia. Todo indivíduo possui uma tendŒncia
inerente para o progresso e uma vez que a situaçªo de
impedimento possa ser abordada, e uma nova vivŒncia
possa surgir, o cliente estÆ livre para seguir seu rumo,
atØ sentir nova necessidade de parar e se redirecionar.
É evidente que muitas vezes a demanda Ø para
psicoterapia, nesse caso Ø feito um encaminhamento
para serviços externos.
Colocando a família como foco, estamos
tambØm contribuindo indiretamente com o bem estar
do indivíduo institucionalizado e complementando o
trabalho psicológico que Ø realizado durante a internaçªo.
Para que o plantªo pudesse ocorrer, foram
abertos horÆrios dentro da programaçªo, que
coincidiam com os horÆrios de atendimento familiar
realizado pelos outros membros da equipe. Desta
forma, na medida em que os membros da família
vŒm manter contato com o mØdico, assistente social
ou visitar o paciente internado, se desejarem, poderªo
ter acesso ao atendimento psicológico.
Percebe-se que os mØtodos e tØcnicas adotadas
sªo muito semelhantes ao que ocorre para os clientes
internados nesta casa. Essa estrutura de atendimento
tem vantagens para alcançar nossos objetivos.
107
Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico
As pessoas que procuram o plantªo psicológico
nªo o fazem porque foram convocadas. Portanto,
podemos inferir que hÆ uma mobilizaçªo interna que
gerou essa busca. Tal mobilizaçªo Ø fator primordial
para que ocorra mudanças. A convocaçªo para essa
forma de atendimento parece-nos pouco eficiente,
embora possa ocorrer se for de extrema importância
para o trabalho psicológico realizado com o indivíduo
institucionalizado. Desta forma, a família deixa de
ocupar o lugar de cliente e a açªo centra-se no
indivíduo institucionalizado. Neste ponto percebemos
outra diferença em relaçªo ao atendimento mØdico e
ao de serviço social. Estes nªo perdem a eficÆcia pela
convocaçªo, pois nªo colocam a família como cliente
da mesma forma que colocamos.
O plantªo psicológico, com sua característica
bÆsica de abarcar o cliente naquele momento, possibilita
um trabalho psicológico breve, embora, tambØm, haja
a possibilidade de um trabalho mais longo se houver
a necessidade. O plantonista e o cliente podem decidir
pela sessªo œnica, projeto terapŒutico (quatro sessıes
aproximadamente) ou pelo encaminhamento desse
membro familiar ou família para um processo mais
longo de psicoterapia familiar (fora da instituiçªo).
A equipe e a instituiçªo foram instruídas para
favorecer a aproximaçªo dos familiares a este serviço
psicológico. O acesso da clientela mantØm-se o menos
burocratizado possível. Foram colocados na recepçªo
e demais dependŒncias sociais do hospital, cartazes
informativos sobre a existŒncia do serviço,
disponibilidade do psicólogo, local de atendimento etc.
Em trŒs anos de funcionamento o nœmero de
atendimentos foi aumentando progressivamente. De
um ano para o outro tivemos um aumento superior a
100% no nœmero de clientes.
A carŒncia de suporte externo para os familiares
gerou uma situaçªo atípica. O plantªo psicológico
108
Plantªo Psicológico: novos horizontes
9
 BLEGER, JosØ.
Temas em Psico-
logia . Buenos
Aires: Nueva
Vision, 1980.
familiar Ø uma estrutura montada prioritariamente para
dar conta das questıes familiares durante o período
de internaçªo. No entanto, percebemos o aumento
significativo da procura do serviço mesmo após a alta
do cliente principal. Isso acaba gerando uma sobrecarga
do serviço. Temos como norma bÆsica nªo recusar o
atendimento dessas pessoas, porØm tentamos
encaminhÆ-las para serviços externos. Tal procura acaba
reforçando a consolidaçªo desse espaço de continŒncia.
No futuro temos o intuito de desenvolver um
ambulatório para dar conta dessa demanda na própria
instituiçªo, porØm, para isso, precisaremos aumentar a
equipe de plantonistas.
FiØis à idØia de uma açªo abrangente do doente
mental, começamos a pensar a instituiçªo como um
cliente em potencial. Atualmente fica difícil pensarmos
em uma açªo terapŒutica eficiente, sem inserirmos no
processo aquele que se propıe a “tratar”.
Abordando o hospital com a visªo da psicologia
institucional, o entendemos como um organismo vivo
que reage frente a sua populaçªo alvo. Desenvolve-se
uma relaçªo dialØtica entre a instituiçªo e a clientela. As
açıes desta, assim como as reaçıes, vªo interferir
diretamente no andamentodo processo terapŒutico. A
importância da sanidade institucional sempre foi
amplamente discutida e valorizada. Se consideramos o
processo terapŒutico pessoal do profissional de saœde
mental como fundamental para a eficÆcia da abordagem,
nada mais razoÆvel que utilizarmos os mesmos
parâmetros quando falamos da instituiçªo de saœde
mental. JosØ Bleger
9
 abordou com precisªo a intrincada
psicodinâmica institucional no ato terapŒutico. Segundo
ele, hÆ a tendŒncia da instituiçªo em se burocratizar na
sua açªo terapŒutica. Este processo surge como defesa.
As estruturas das instituiçıes sªo as mesmas de seu
objeto de trabalho. Sendo assim, para trabalharmos com
109
Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico
10
 BLEGER, JosØ.
Psico-Higiene e
P s i c o l o g i a
I n s t i t u c i o n a l .
Porto Alegre: Edi-
tora Artes MØdicas,
1984.
doentes mentais em instituiçıes hÆ a necessidade de
“tratarmos” concomitantemente a instituiçªo.
Trabalharmos com a instituiçªo implica em
oferecermos aos seus integrantes condiçıes para falar
de suas questıes, assim como, de sua relaçªo com esta.
Buscamos abordar o coletivo atravØs do individual.
Frente ao acima citado tornou-se fundamental
oferecer aos profissionais da casa de saœde um espaço
de continŒncia. Nªo somente para abarcar a instituiçªo,
mas tambØm para fornecer subsídios ao funcionÆrio
que vive em contato direto com a doença mental.
Quadros psicóticos tendem a ser ameaçadores para
aqueles que nªo estªo preparados psiquicamente. A
desorganizaçªo do psicótico tende a ameaçar a ordem
interna de quem convive com estes. Isto Ø prejudicial
para a saœde psíquica do funcionÆrio e acaba refletindo
na instituiçªo, uma vez que irÆ utilizar-se de mecanismos
defensivos que prejudicarªo a dinâmica institucional.
Como exemplo destes mecanismos podemos citar a
indisponibilidade e a irritabilidade no trato com o
cliente, faltas ao serviço, grande rotatividade da equipe
de apoio etc. AlØm de tais manifestaçıes, havia uma
demanda explícita por grande parte dos funcionÆrios
que nos procuravam com a necessidade de falar de
suas experiŒncias no cotidiano hospitalar e reorganizÆ-
las de maneira mais saudÆvel.
Oferecer atendimento aos funcionÆrios trazia
uma sØrie de questıes. Primeiramente havia a
dificuldade de montar uma equipe para atender essa
nova clientela. Parecia-nos pouco eficiente que os
plantonistas da própria instituiçªo atendessem a este
pœblico. Tal atitude seria tªo incoerente quanto um
psicoterapeuta desenvolver uma “auto-terapia”.
Sabíamos da impossibilidade de abarcar a instituiçªo
fazendo parte dela. Bleger conceituou com precisªo
as diferenças entre o psicólogo institucional e o
psicólogo na instituiçªo
10
. Para que fosse viÆvel,
110
Plantªo Psicológico: novos horizontes
trouxemos um plantonista de fora da instituiçªo. Isto
resolveu os provÆveis conflitos de interesse que
surgiriam se fossem utilizados os profissionais da
instituiçªo. AlØm disso, a isençªo deste plantonista
propiciou maior liberdade para que o funcionÆrio
abordasse suas questıes. A própria estrutura do plantªo
facilitou o acesso ao serviço. Contamos com a
disponibilidade da instituiçªo para que os funcionÆrios
pudessem procurar o serviço durante o período de
trabalho. Isto gerou a necessidade de reestruturar as
grades de horÆrios, acarretando maior trabalho das
chefias. No entanto, as experiŒncias anteriores bem
sucedidas com o plantªo facilitaram a superaçªo de
tais transtornos.
Embora a intençªo bÆsica nªo seja esta, o
plantªo ao funcionÆrio tambØm pode ser como porta
de entrada para outras modalidades de atendimento e
suporte se for necessÆrio. Assim como com os internos
e seus familiares, o funcionÆrio pode ser atendido na
própria instituiçªo em esquema de psicoterapia breve
e focal, se o caso. Se a demanda for para uma
psicoterapia de longo curso, este serÆ encaminhado
para instituiçıes ou consultórios fora do hospital.
Paralelamente, montamos grupos operativos para que
as questıes relacionais e operacionais pudessem ser
abordadas.
Consolidou-se novo espaço dentro da rotina
hospitalar. A experiŒncia vem nos mostrando que se a
instituiçªo passa por períodos mais críticos, com
sobrecarga de trabalho, diminuiçªo de funcionÆrios
ou qualquer outra tensªo, a procura pelo plantªo
aumenta. Sendo assim, alØm do carÆter terapŒutico, o
plantªo oferece elementos para que o plantonista tenha
uma visªo relativamente precisa da saœde psíquica da
instituiçªo.
Após a implantaçªo deste serviço, diminuiu
significativamente os problemas de relacionamento
111
Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico
entre os funcionÆrios, conseqüentemente, criou-se um
ambiente terapŒutico mais eficiente.
AtØ entªo foram relatadas as mudanças
operacionais que as vÆrias experiŒncias com o plantªo
psicológico geraram na rotina hospitalar. Sem dœvida,
passou de tØcnica coadjuvante a um lugar central no
funcionamento do serviço de psicologia. No entanto,
a amplitude das mudanças geradas pelo plantªo
psicológico nªo recai somente no aspecto operacional.
Acredito que a principal mudança seja subjetiva e sutil.
Como foi dito nas primeiras linhas deste texto,
o plantªo psicológico propiciou uma reformulaçªo
na visªo institucional do indivíduo institucionalizado.
Existem diferenças significativas na forma de
entender e abordar o doente mental entre os vÆrios
profissionais da saœde. Apesar da proximidade e das
Æreas de justaposiçªo, a formaçªo teórica e o
embasamento filosófico dos vÆrios profissionais levam
a esta discrepância na abordagem do doente. Os vÆrios
profissionais podem utilizar os mesmos conceitos de
doença mental, porØm a postura frente ao cliente acaba
sendo muito diferente. Cada profissional, munido de
seus conhecimentos científicos e de sua concepçªo de
homem e mundo, vai colocar-se frente ao outro de
maneira particular na tentativa de promover saœde.
Entre a psicologia e a medicina nªo Ø diferente.
HÆ divergŒncias significativas entre as abordagens. O
mØdico na sua formaçªo, recebe forte influŒncia das
ciŒncias naturais. A visªo naturalista determina que o
observador de um dado fenômeno tente se manter
isento neste processo para nªo influenciÆ-lo. A partir
dessa premissa, o mØdico quando se coloca frente ao
doente procura manter-se afastado para que possa
observar com isençªo. Esta isençªo darÆ segurança para
a escolha da terapŒutica necessÆria. Nesta intervençªo
estÆ implícito que o cliente nªo sabe sobre si e espera
112
Plantªo Psicológico: novos horizontes
11
 FREUD, Sigmund.
A História do
M o v i m e n t o
P s i c a n a l í t i c o :
Artigos sobre
Metapsicologia .
1“ ediçªo. Rio de
Janeiro: Imago
Editora, 1974.
(Ediçªo Standard
Brasileira das
Obras Psicológicas
Completas, volume
XIV).
12
 PIAGET, J. e
INHELDER, B. A
Psicologia da
Criança. Sªo
Paulo: Difel, 1974.
13
 ROGERS, Carl R.
T o r n a - s e
Pessoa. 381“
ediçªo. Sªo Paulo:
Editora Francisco
Alves, 1977.
que o outro, no caso o mØdico, realize uma açªo sobre
ele. Considero a palavra “paciente”, termo muito utilizado
por este profissional, bastante esclarecedora e típica dessa
relaçªo. O paciente Ø aquele que espera “pacientemente”
a açªo de outro para a soluçªo de um desequilíbrio. Sua
principal característica Ø a resignaçªo e a conformaçªo.
É aquele que espera passivamente um resultado. Todo
organismo possui uma tendŒncia inerente ao equilíbrio.
VÆrios autores abordaram em diferentes momentos esta
tendŒncia. Freud aborda o “princípio de constância” nos
seus artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos
11
.
Piaget aborda o princípio da equilibraçªo
12
. Rogers
quando fala sobre a tendŒncia atualizadora parece-nos
ressaltar essa tendŒncia inerente do indivíduo a procurar
um equilíbrio satisfatório
13
. A própria biologia usa este
princípio como regra geral. Caso ele nªo consigachegar
a esta homeostase por seus próprios meios, recorre a
outros no intuito que este atue de maneira tØcnica para
promover o equilíbrio. Percebe-se que nesta forma de
intervençªo o mØdico adota a postura de tØcnico.
O psicólogo tambØm atua no sentido de ajudar
o outro a equilibrar-se, porØm a postura pode ser outra
quando sua açªo Ø influenciada pela fenomenologia.
Enquanto a medicina promove uma açªo direta sobre
seu paciente, acreditamos que atravØs de uma relaçªo
terapŒutica com características específicas, podemos
facilitar para que nosso cliente se equilibre. Desta forma,
nªo atuamos sobre o mesmo, porØm acompanhamos
como instrumento facilitador para este equilíbrio.
Mesmo em casos graves, onde a tendŒncia da
pessoa em estabilizar-se em um modo saudÆvel de
funcionamento parece estar irremediavelmente
comprometido, a postura frente a ele, enfatizando seu
aspecto saudÆvel e seu potencial, costuma trazer
respostas positivas. Acreditamos que o psicoterapeuta
deva oferecer-se como ferramenta ao seu cliente. A
113
Plantªo Psicológico em hospital psiquiÆtrico
14
 BASSIT, W. e
Sonenreich C. O
Conceito de
Ps icopato log ia .
Sªo Paulo, Manole,
1979.
experiŒncia do plantªo em hospital psiquiÆtrico mostra
que por maior que seja o comprometimento afetivo,
cognitivo, intelectual e relacional do cliente, a
disponibilidade do plantonista acaba deflagrando um
movimento saudÆvel do cliente. O plantonista serve
como estímulo para a busca de níveis mais saudÆveis
de integraçªo psíquica (deixamos de ver o cliente como
receptor passivo de uma açªo terapŒutica e o colocamos
no lugar de autor no seu processo de aprimoramento e
crescimento). O homem se desenvolve a partir de sua
experiŒncia e a funçªo do plantonista Ø proporcionar
condiçıes para que o indivíduo possa experienciar, na
relaçªo com este, situaçıes que evidenciam
características novas e desconhecidas no seu modo de
funcionar, experiŒncias diferentes daquelas conhecidas
anteriormente e marcadas pela ineficiŒncia e patologia.
Com esta concepçªo, aquele que procura ajuda
psicológica, mesmo dentro de um hospital psiquiÆtrico,
perde a marca de “paciente” e adquire o status de agente,
pois apropria-se de seus rumos.
O corpo clínico do hospital considera a doença
mental como a “patologia da liberdade”
14
. Segundo este
conceito, doente mental Ø o indivíduo que perdeu a
capacidade de fazer opçıes. Ele mostra-se incapaz de
estabelecer regras para si, sendo assim, fica prisioneiro
de seus sintomas. Como exemplo, podemos pensar no
sujeito fóbico que restringe sua vida com medo de
encontrar o objeto de sua fobia, ou o obsessivo, que
apesar de perceber a incoerŒncia de seus pensamentos
obsessivos ou de seus rituais mÆgicos, sente-se impotente
frente a eles. Podemos citar o delirante que interage com
o mundo de maneira restrita a partir das suas convicçıes
delirantes. Este Ø um conceito mØdico, no entanto, ele
pode ser muito eficiente orientando a açªo psicológica
em um hospital psiquiÆtrico.
Se considerarmos a doença mental como um
cerceamento à liberdade, toda a açªo terapŒutica e o
114
Plantªo Psicológico: novos horizontes
ambiente hospitalar devem levar ao livre arbítrio. A
partir desta premissa, o plantªo psicológico passa a ser
um instrumento fundamental para promoçªo da saœde
pelas suas características .
A resposta positiva dos clientes (internos,
famílias e funcionÆrios) levou a instituiçªo a mudar a
concepçªo de doente mental. Este deixou de ser visto
como um receptor passivo da açªo alheia, e foi alçado
a condiçªo de agente de seu processo de mudanças. O
interno adquiriu a possibilidade de desejar e de trabalhar
no sentido de viabilizar seus desejos. Esta nova
concepçªo adquirida pela instituiçªo, criou um ambiente
mais propício para que os internos façam suas escolhas.
Abrindo espaço para que este se posicione e tome
posse de suas experiŒncias, propiciamos o resgate da
cidadania do indivíduo institucionalizado. Percebemos
portanto, que a experiŒncia do plantªo nªo modifica
somente aquele que Ø alvo da intervençªo, mas tambØm,
todos os envolvidos indiretamente. O sistema de idØias
que sustenta a prÆtica do plantªo psicológico acaba
por impregnar o ambiente onde ocorre a experiŒncia.
Sendo assim, o plantªo psicológico adquire a
característica de catalisador de mudanças. Mudança Ø
essencial para o desenvolvimento.
115
Plantªo Psicológico em Clínica-Escola
Plantªo Psicológico em Clínica-
Escola
Vera Engler Cury
“A cada novo plantªo aprendemos um pouco mais sobre
as afliçıes de nossa comunidade e perdemos o medo de
enfrentar nossas próprias angœstias, ao tentarmos entrar
em contato com o mundo do outro a partir de sua
urgŒncia.”
Depoimentos como este fazem parte dos
encontros semanais de um grupo de supervisªo de
orientaçªo humanista, e mais especificamente “centrada
no cliente,” da Clínica-Escola do Instituto de Psicologia
da Pontifícia Universidade Católica de Campinas,
localizada na regiªo central da cidade. O serviço de
pronto-atendimento psicológico foi implantado em 1994,
a partir do projeto de dois alunos do Curso de
Especializaçªo em Psicoterapias Institucionais do
Departamento de Psicologia Clínica.
O oferecimento desta modalidade de
atendimento clínico-psicológico efetivou-se como
decorrŒncia da constataçªo de um alto índice de
desistŒncia por parte da clientela que busca ajuda naquela
instituiçªo, frente às longas filas de espera para
psicoterapia e tambØm pela observaçªo de que
algumas pessoas procuram a clínica numa situaçªo de
emergŒncia. Em ambos os casos verificava-se a
impossibilidade de o sistema atender à solicitaçªo
116
Plantªo Psicológico: novos horizontes
imediata do cliente. O Plantªo Psicológico viabiliza
um atendimento de tipo emergencial - compreendido
como um serviço que privilegia a demanda emocional
imediata do cliente - e que funciona sem necessidade
de agendamento, destinado a pessoas que a ele
recorrem, espontaneamente, em busca de ajuda para
problemas de natureza emocional.
Operacionalmente, os períodos cobertos pelos
plantonistas ainda sªo restritos, pois nem todos os
grupos de supervisªo que atuam na Clínica-Escola
participam desta prÆtica. A divulgaçªo Ø feita atravØs
de cartazes distribuídos internamente na própria
universidade e tambØm em postos de saœde, hospitais,
escolas e centros comunitÆrios. Cabe às recepcionistas
da clínica psicológica controlar o fluxo de pessoas para
nªo sobrecarregar os horÆrios do plantªo e elas o fazem
encaminhando os clientes que nªo terªo condiçıes de
ser atendidos naquele plantªo para o próximo. Cada
período perfaz quatro horas com a presença de dois
plantonistas. HÆ flexibilidade quanto à duraçªo de cada
sessªo, levando-se em conta as idiossincrasias dos
clientes e tambØm as limitaçıes que advŒm da
inexperiŒncia dos estagiÆrios; procura–se, no entanto,
manter como parâmetro a hora terapŒutica de cinqüenta
minutos. Estabeleceu-se como rotina a possibilidade
de um retorno, em casos em que isto se fizer necessÆrio
e mediante uma tomada de decisªo do próprio
plantonista. Embora os clientes atendidos durante os
plantıes possam ser encaminhados à triagem da própria
clínica - escola para atendimento psicoterÆpico, grande
parte dos encaminhamentos tem sido externo, frente a
significativa e crônica demanda que congestiona e dÆ
origem às filas de espera da instituiçªo. No entanto, o
objetivo primordial do plantªo Ø o de constituir–se
num serviço alternativo às psicoterapias tradicionais,
especificamente voltado àqueles que por inœmeras
razıes nªo se beneficiariam (ou nªo estariam
117
Plantªo Psicológico em Clínica-Escola
disponíveis) de um atendimento clínico a mØdio ou
longo prazo.
Em termos institucionais, o Plantªo Psicológico
compıe o elenco das prÆticas clínicas sob
responsabilidade dos estagiÆrios do œltimo ano do Curso
de Psicologia, juntamentecom o serviço de triagem,
psicoterapias individuais, grupais e de casal, assim como
grupos de espera, sob supervisªo de docentes com
diferentes abordagens teóricas Os plantonistas, sendo
alunos do œltimo ano do curso de Formaçªo de
Psicólogos, tambØm sªo responsÆveis por outros
atendimentos psicoterÆpicos - individuais ou grupais -
nos moldes tradicionais, jÆ que optaram pelo campo de
estÆgio em clínica-escola como parte de sua formaçªo.
Historicamente, o serviço de plantªo
psicológico da PUC-Campinas inspirou-se no modelo
desenvolvido pelo Setor de Aconselhamento
Psicológico do Instituto de Psicologia da USP de Sªo
Paulo (cf. Mahfoud, 1987) na dØcada de oitenta, no
entanto, apresenta um carÆter inovador, representado
pela participaçªo de supervisores com abordagens
teóricas diferentes - cognitivista e centrada no cliente -
numa mesma modalidade de relaçªo de ajuda
psicológica. Esta posiçªo coincide com uma
perspectiva de integraçªo, proposta e defendida em
relaçªo ao conceito de Clínica-Escola que une estes
docentes-supervisores. Compreendem que a vocaçªo
de uma instituiçªo como esta Ø a de enfrentar o desafio
de um atendimento psicológico compatível com as
necessidades da comunidade alvo e tambØm voltado
para a formaçªo clínica do aluno, priorizando a relaçªo
interpessoal que possibilita o diÆlogo cliente-estagiÆrio.
Insere-se aqui uma tomada de posiçªo mais ampla
sobre a concepçªo de atendimento clínico, soltando–
o das amarras de um viØs que tradicionalmente o
atrelou à psicoterapia como œnica via para a
intervençªo e com esta a uma temporalidade
118
Plantªo Psicológico: novos horizontes
estabelecida a priori - quanto mais longo o processo
terapŒutico, maior sua eficÆcia.
Contrariando esta visªo, o trabalho em equipe
desenvolvido para a implantaçªo do serviço de plantªo
psicológico, buscou transcender e subordinar as
diferenças teóricas a um objetivo comum: a
flexibilizaçªo das prÆticas de intervençªo clínica
institucional jÆ existentes em prol de uma ajuda
psicológica que se mostrasse mais empÆtica aos apelos
da comunidade, neste contexto e Øpoca. Manteve-se,
no entanto, a autonomia de cada supervisor quanto às
estratØgias clínicas para efetivaçªo do atendimento.
Para os plantonistas que atendem nos moldes
da Abordagem Centrada na Pessoa, esta experiŒncia
tem sido considerada fundamental ao lançÆ-los num
tipo de relacionamento interpessoal de ajuda psicológica
em que suas atitudes e crenças sªo postas à prova de
maneira dramÆtica (vide anexo). Questionam-se sobre
a efetividade da ajuda prestada aos clientes, jÆ que o
parâmetro de continuidade da intervençªo que os
amparava num processo psicoterÆpico tradicional nªo
estÆ disponível: o tempo conspira de forma a exigir
deles uma disponibilidade emocional para o encontro
com o outro imediata e genuína; preservar a autonomia
emocional do cliente, e ainda assim, ativamente,
facilitar-lhe o desenvolvimento de um processo gerador
de alternativas à angœstia vivenciada, eis o desafio
revisitado a cada novo atendimento. A Œnfase na
ativaçªo de um processo experiencial de carÆter
intersubjetivo colabora para que o plantonista nªo
transforme o atendimento numa relaçªo de natureza
autoritÆria ou filantrópica, face à seduçªo exercida pela
aparente fragilidade do cliente. Wood (1995) enfatizou:
“esta abordagem se realiza quando alguØm dirige a melhor
parte de si mesmo à melhor parte do outro e, assim, pode emergir
algo de inestimÆvel valor que nenhum dos dois faria sozinho”.
119
Plantªo Psicológico em Clínica-Escola
A experiŒncia acumulada desde a implantaçªo do
serviço tem se mostrado decisiva para uma transformaçªo,
tanto dos supervisores envolvidos quanto dos estagiÆrios
e quiçÆ da própria populaçªo atendida, gerando pesquisas
que poderªo alicerçar novos rumos para as clínicas-escola
de Psicologia. Do ponto de vista tØcnico, o plantonista
recorre a atitudes e estratØgias clínicas que objetivam o
acolhimento adequado ao cliente de forma a possibilitar
a explicitaçªo da demanda emocional que o aflige, no
exato momento em que busca uma relaçªo de ajuda
psicológica. Considera-se como cliente aquele que se
apresenta, nªo importando se a queixa refere-se a uma
terceira pessoa, pois o atendimento Ø de carÆter imediato
e nªo visa necessariamente o encaminhamento a processos
psicoterÆpicos. Ancona-Lopez (1996), em sua tese de
doutorado, corrobora esta posiçªo:
“quando o cliente vem à procura de um psicólogo, ele
quer ser atendido em suas necessidades, pouco importando
sob que nome este atendimento se efetue. Na prÆtica, no
entanto, o que acontece com freqüŒncia Ø que, por nomear
sua prÆtica, o psicólogo deixa de fazer a sua parte,
postergando sua intervençªo e empobrecendo um encontro
rico de possibilidades.” (p.15)
Abre-se, portanto, uma ampla gama de possibi-
lidades quanto ao desenvolvimento da relaçªo cliente-
plantonista, embora esta seja breve. Cabe salientar que a
eficÆcia do serviço prestado nªo utiliza como critØrio o
grau de resolutibilidade do problema, isto Ø, nªo se prioriza
como foco do atendimento a queixa em si, considerada
como algo objetivÆvel e despida dos significados que lhe
sªo atribuídos, mas sim a pessoa, compreendida como
um todo que se revela em suas formas características de
expressªo, matizes de comportamento, atitudes e emoçıes,
visando conferir-lhe autonomia. TambØm facilitandolhe
a reflexªo, na busca de maneiras ou caminhos possíveis
120
Plantªo Psicológico: novos horizontes
para transpor as dificuldades que vivencia.
Eventualmente, cabe ao plantonista orientar o cliente,
prestando-lhe as informaçıes necessÆrias para
compreender a instituiçªo e suas alternativas frente a ela,
alØm de abrir-lhe outras possibilidades quanto aos recursos
disponíveis na comunidade.
Deve-se evitar, no entanto, que o entusiasmo nos
leve a considerar o plantªo como panacØia para todos
os males. As limitaçıes existem, jÆ que obviamente nªo
se pode pretender que uma alternativa de intervençªo
clínica venha a suprir as inœmeras carŒncias de nosso
sistema de Saœde Mental a nível pœblico. Ao possibilitar
a explicitaçªo da demanda emocional do cliente, o
plantonista depara-se com a escassez dos recursos
institucionais da comunidade para acolher estas
necessidades que muitas vezes brotam do solo fØrtil
das desigualdades sociais e financeiras. O desemprego
avoluma-se de maneira assustadora nas grandes cidades,
destruindo as esperanças de milhares de famílias que
assistem impotentes aos descaminhos de seus filhos mais
jovens seduzidos pelo ouro falso do trÆfico de drogas e
dos assaltos. As escolas de periferia parecem andar à
deriva frente a realidade avassaladora de uma violŒncia
urbana que desdenha seus cânones e nªo acredita mais
na educaçªo como possibilidade de ascensªo social. Cabe
aos plantonistas, sensibilizar-se com este quadro insólito
e transformar o contexto das clínicas-escola no sentido
de uma aproximaçªo com um modelo mais comunitÆrio,
revertendo a tendŒncia anacrônica de reproduzir os
consultórios particulares, ao flexibilizar o elenco de
serviços oferecidos à populaçªo dando-lhe voz e
credibilidade pelo desenvolvimento da autonomia
emocional. No âmbito teórico, representa um avanço na
medida em que diferentes abordagens psicoterÆpicas
poderªo desenvolver pesquisas sobre a eficÆcia da
adoçªo de novos modelos, quanto à relaçªo interpessoal
de ajuda psicológica.
121
Plantªo Psicológico em Clínica-Escola
A VIV˚NCIA DO PLANTˆO PSICOLÓGICO COMO TEMA
DE PESQUISA
Numa pesquisa recentemente concluída (cujos
resultados parciais foram apresentados durante o “VI
Encontro Estadual de Clínicas-Escola”, ocorrido em
Itatiba, SP, em agosto de1998) sobre as condiçıes desta
implantaçªo, buscou-se caracterizar o modelo de
pronto–atendimento psicológico oferecido à
comunidade. Adotando uma metodologia
fenomenológica, desenvolveu-se um estudo de tipo
qualitativoque constou da anÆlise de depoimentos
colhidos junto aos supervisores, plantonistas e
funcionÆrios da Clínica-Escola da PUC-Campinas, a
partir dos passos propostos por Amedeo Giorgi
(1994). O objetivo principal foi o de descrever a
vivŒncia do plantªo para aqueles que se responsabilizam
por sua efetivaçªo institucional. O contato com os
diversos sujeitos constou de entrevistas abertas, em
nœmero suficiente para contemplar o critØrio de
saturaçªo, isto Ø, a coleta dos depoimentos foi
interrompida quando nªo se observou mais nenhum
elemento novo no conteœdo das falas dos sujeitos
pesquisados sobre o tema em questªo. Duas questıes
bÆsicas nortearam este estudo:
a)O serviço de pronto-atendimento psicológico
oferecido à comunidade pela Clínica-Escola da
PUC-Campinas constitui-se, efetivamente, numa
alternativa de relaçªo de ajuda psicológica?
b)Quanto à formaçªo do futuro psicólogo, a participaçªo
como plantonista representa uma oportunidade de
ampliaçªo da experiŒncia clínica?
As entrevistas foram gravadas e realizadas
individualmente, desenvolvendo-se a partir de algumas
perguntas que focalizavam o tema da pesquisa, quais
sejam:
122
Plantªo Psicológico: novos horizontes
* Consulte o anexo
“Plantªo Psicoló-
gico: vivŒncia dos
plantonistas” no
final deste capítulo.
1) O que Ø para vocŒ plantªo psicológico?
2) VocŒ vŒ algum tipo de contribuiçªo do plantªo para
a formaçªo do aluno?
3) Em relaçªo aos pacientes desta clínica, vocŒ percebe
algum tipo de contribuiçªo do plantªo à comunidade?
4) Que tipos de pacientes vocŒ encaminharia ao plantªo?
As perguntas acima serviram apenas como um
roteiro para a entrevistadora; caso o conteœdo,
espontaneamente, jÆ incluísse os principais aspectos
referentes ao tema da pesquisa, elas nªo eram
formuladas.
Cada depoimento foi transcrito, textualizado
(etapa que corresponde a transformaçªo da transcriçªo
em texto escrito) e procedeu–se, entªo, a uma anÆlise
das unidades de significado de forma a obter–se a
compreensªo psicológica de cada uma delas.
Finalmente, após terem sido estabelecidas algumas
categorias a partir das sínteses específicas dos 12 (doze)
depoimentos,* compôs-se a síntese geral, ou seja, a
estrutura do vivido em relaçªo ao tema.
AN`LISE DOS RESULTADOS:
Categorias extraídas das Sínteses Específicas:
Conceito sobre o plantªo psicológico: consiste
num tipo de ajuda, ou atendimento profissional
imediato, aberto às pessoas da comunidade que se
sentem desesperadas, com problemas ou em crise;
caracteriza-se por fornecer alívio, orientaçªo e apoio
em situaçıes de urgŒncia.
Contribuiçªo para a formaçªo do estagiÆrio:
possibilita o acesso a uma diversidade de pessoas e
problemas, levando a um contato direto com o
inesperado, criando impacto emocional, desenvolvendo
uma escuta diferenciada e promovendo um raciocínio
123
Plantªo Psicológico em Clínica-Escola
clínico mais rÆpido e preciso. TambØm promove um
senso de responsabilidade ampliado, ao retirar o aluno
de uma situaçªo de aprendizagem mais protegida.
Quanto aos benefícios aos pacientes: sentem-
se acolhidos no momento mesmo em que surge uma
necessidade de ajuda, ao estarem desorientados, com
um problema muito sØrio, ou simplesmente quando
precisam desabafar com alguØm. O atendimento
oferecido pelo plantonista ajuda a diminuir a ansiedade,
permite uma compreensªo do problema, oferece uma
perspectiva e uma visªo mais realista do trabalho do
psicólogo, como alguØm que sabe ouvir e estÆ ali na
hora exata da procura.
Tipos de pacientes que encaminhariam ao plantªo:
pessoas desorientadas, que chegam aos prantos, que
precisam de alguØm naquele momento, mªes
desesperadas, pessoas que esperam por uma vaga para
fazer psicoterapia, ou aquelas que apenas querem
conversar para tirar dœvidas e receber informaçıes sobre
o trabalho do psicólogo e as formas de atendimento da
instituiçªo.
No processo de interpretaçªo (terceira etapa a
compor uma anÆlise fenomenológica dos dados, posterior
à descriçªo e à compreensªo) destacaram-se alguns
elementos do vivido, obtidos a partir das sínteses específicas
dos depoimentos de estagiÆrios e supervisores, enquanto
representantes da equipe de tØcnicos da instituiçªo. Visando
trazer ao leitor uma compreensªo mais particularizada destas
vivŒncias, passamos a transcrevŒ-las abaixo:
EstagiÆrios:
– inicialmente, ansiedade frente aos períodos de espera
pela chegada de clientes e;
– dificuldade em confiar em si mesmo(a), frente ao
inesperado;
– frustraçªo pela ausŒncia de uma equipe interdis-
ciplinar para dar suporte aos atendimentos;
124
Plantªo Psicológico: novos horizontes
– após alguns atendimentos, desenvolvimento de
autoconfiança e iniciativa;
– sentimentos de solidariedade e respeito pela
comunidade;
– amadurecimento pessoal e profissional como
decorrŒncia de uma escuta empÆtica aos clientes;
Supervisores:
– entusiasmo frente ao amadurecimento do grupo de
estagiÆrios pela inclusªo de plantªo psicológico como
uma alternativa de atendimento;
– desenvolvimento de confiança nos recursos internos
dos plantonistas;
– necessidade de maior entrosamento com outros
supervisores;
– frustraçªo frente à ausŒncia de uma retaguarda
psiquiÆtrica;
– satisfaçªo pela possibilidade ampliada de reflexıes
e discussıes sobre a prÆtica clínica institucional nos
grupos de supervisªo;
– grande interesse em dar continuidade a este tipo de
serviço, tanto em funçªo dos benefícios à populaçªo,
quanto pelos objetivos pedagógicos;
Como o Plantªo Psicológico Ø apreendido pelas
pessoas que se responsabilizam por este serviço na
Clínica-Escola da PUC-Campinas:
Supervisores, estagiÆrios e funcionÆrios
compreendem o Plantªo Psicológico como um tipo
de relaçªo de ajuda imediata, que fornece alívio,
orientaçªo e apoio em situaçıes de emergŒncia às
pessoas da comunidade que se sentem desesperadas
ou com problemas muito sØrios. Elas parecem gratas
por terem sido acolhidas no momento em que buscaram
ajuda psicológica, ou quando precisavam muito
desabafar com alguØm. Este tipo de atendimento parece
ajudÆ-las no sentido de diminuir a ansiedade,
125
Plantªo Psicológico em Clínica-Escola
permitindo uma compreensªo do problema, oferecendo
novas perspectivas e uma visªo mais realista do
psicólogo como aquele que sabe ouvir e estÆ ali na
hora exata da procura. O estagiÆrio, por sua vez, torna-
se mais acessível e menos rígido, dando a impressªo
de ter amadurecido, pois jÆ nªo se espanta tanto com o
inesperado e movimenta-se com mais desenvoltura pela
clínica, relacionando-se de maneira mais espontânea
com os clientes e os funcionÆrios.
Os supervisores, cujos alunos participam do
Plantªo Psicológico, sentem que o grupo amadurece e
que os encontros tornam-se uma oportunidade para
gratificantes discussıes sobre a comunidade, seus
problemas, as possibilidades de ajuda, as frustraçıes
frente aos próprios limites, assim como para a construçªo
de uma cumplicidade repleta de idealismo e de promessas
que aumenta a confiança mœtua. Aqueles que nªo
participam do serviço, mostram-se receosos quanto à
falta de uma retaguarda psiquiÆtrica na instituiçªo e à
inexperiŒncia dos estagiÆrios em lidar com situaçıes mais
complicadas, principalmente com a possibilidade de
clientes em surto psicótico. Alguns chegam a alertar
para os riscos de um atendimento deste tipo para o
agravamento de uma patologia, jÆ que o acolhimento
poderia mascarar o quadro pela reduçªo dos sintomas.
As funcionÆrias de um modo geral mostram-se
otimistas em relaçªo à existŒncia do Plantªo Psicológico,
pois este parece aliviar-lhes da Ærdua tarefa de lidar
com aquelas pessoas confusas, que chegam à instituiçªo
sem saber o que vieram buscar, ou com as que parecem
tªo desamparadas e sofridas que chegam a comovŒ-las.
Esta pesquisa coincide com uma linha de
interesse profissional mais recente da autora com
Œnfaseno desenvolvimento de prÆticas clínicas
institucionais . Neste sentido, Macedo(1986) jÆ
preconizara a necessidade de que o psicólogo clínico
126
Plantªo Psicológico: novos horizontes
fosse levado, desde a sua formaçªo, a refletir
criticamente e conscientizar-se do ponto de vista social
e político, para ser capaz de desenvolver uma definiçªo
ideológica norteadora numa busca por modelos
alternativos mais adequados à extensªo dos serviços
psicológicos a toda populaçªo, desvinculando-os do
estereótipo de uma prÆtica específica para as classes
privilegiadas. Identificada com a mesma intençªo, a
motivaçªo que tem nos conduzido nesta direçªo
origina-se de um questionamento: qual a relevância
de se adotar o enfoque existencial-humanista como
um posicionamento teórico-filosófico e como
perspectiva de atuaçªo clínica numa sociedade como
a brasileira?
O fato de a Abordagem Centrada na Pessoa
submeter a importância dos conhecimentos teóricos e
das habilidades tØcnicas ao desenvolvimento de um
tipo de relaçªo interpessoal em que os potenciais
humanos de autodeterminaçªo possam ser liberados e
promovidos, requer que o profissional preste-se a um
mergulho corajoso em situaçıes da vida cotidiana,
acabando por quebrar modelos e estilos tradicionais,
aventurando-se em novos contextos, rompendo certos
limites ou, simplesmente, imprimindo visıes pessoais
a velhos problemas. O respeito pelas pessoas, o
reconhecimento do outro como totalidade e unicidade,
a intolerância frente às manifestaçıes de valores
deterministas que tendem a enfocar o ser humano
genericamente, o compromisso com o devir humano,
sªo denominadores comuns das vÆrias linhas de teoria
e psicoterapia com esta inspiraçªo (Cury, 1993). A
psicologia humanista com uma visªo que prioriza os
aspectos saudÆveis do ser humano, assim como as
possibilidades de crescimento, e a Abordagem Centrada
na Pessoa com sua Œnfase na tendŒncia formativa
(Rogers, 1980), tŒm muito a contribuir para a formaçªo
do psicólogo clínico, na medida em que permitem uma
127
Plantªo Psicológico em Clínica-Escola
forma de abordar os fenômenos da realidade pautada
pela noçªo de que o ato de compreender jÆ se constitui
em um tipo de intervençªo. Restitui ao encontro inter-
pessoal seu carÆter transformador que numa escala mais
ampla implica em considerar que a evoluçªo de uma
sociedade depende das condiçıes existentes para que
as pessoas, individualmente ou em grupo, possam enga-
jar-se em rituais institucionalizados que lhes garantam a
oportunidade e o contexto apropriado para compartilhar
suas vivŒncias, sentindo-se respeitadas e valorizadas.
A Œnfase desta pesquisa incide sobre a Ærea da
Saœde Mental ComunitÆria e a inserçªo do psicólogo
clínico nas prÆticas institucionais. A sistematizaçªo de
tais prÆticas faz-se necessÆria e urgente na medida em
que no Brasil estÆ em andamento uma reestruturaçªo
das políticas em relaçªo à saœde pœblica e, como
decorrŒncia, das instituiçıes responsÆveis pelos
programas de saœde mental, tanto em níveis de
prevençªo e promoçªo de saœde, quanto no que
concerne à atençªo secundÆria e terciÆrio (Campos,
1992), priorizando o desenvolvimento de intervençıes
contextualizadas, interdisciplinares e flexíveis. Numa
perspectiva mais ampla:
“o objetivo historicamente mais recente da higiene mental
jÆ nªo se refere tªo somente à doença ou à sua profilaxia
e sim tambØm à promoçªo de um maior equilíbrio, de um
melhor nível de saœde na populaçªo. Desta maneira jÆ
nªo interessa somente a ausŒncia de doença e sim o
desenvolvimento pleno dos indivíduos e da comunidade
total. A Œnfase da higiene mental translada-se, assim, da
doença à saœde e, com isto, à atençªo sobre a vida
cotidiana dos seres humanos. E, isto Ø, para nós, de vital
importância e interesse.”(Bleger, 1984, p.22).
A proposta para a aplicaçªo de esforços no
sentido de uma prÆtica clínica coerente com o
128
Plantªo Psicológico: novos horizontes
posicionamento teórico-filosófico da Abordagem
Centrada na Pessoa contida neste texto, necessita da
adoçªo de uma metodologia de pesquisa, cuja
interpretaçªo dos dados (intervençıes clínicas)
contemple uma descriçªo e compreensªo dos mesmos
enquanto fenômenos interpessoais, que emergem ao
longo de um processo dinâmico de vivŒncias com
significado próprio e intransferível. O reconhecimento
de nossa contribuiçªo serÆ decorrŒncia direta de nossa
competŒncia para comunicar e discutir cientificamente
de maneira a confirmar uma prÆtica referendada e
substanciada na realidade sócio-cultural e num modelo
de intervençªo clínica efetivo. O verdadeiro pesquisar
em Psicologia Ø aquele que busca resgatar o que de
mais íntimo e pessoal pertence a cada um, legitimando
estes significados como um bem coletivo. Nas palavras
de Carl Rogers (1980):
“Minha confiança Ø no processo pelo qual a verdade Ø
descoberta, alcançada e aproximada. Nªo Ø uma confiança
na verdade jÆ conhecida ou formulada.”
Finalmente, a experiŒncia vivida e os resultados
do estudo sugerem que o Plantªo Psicológico
representa uma flexibilizaçªo quanto às formas de
atendimento clínico oferecido à populaçªo, podendo
levar, tambØm, a uma economia para o sistema, na
medida em que promove encaminhamentos internos e
externos. De maneira geral, proporciona, efetivamente,
uma relaçªo de ajuda suficiente, reduzindo as listas de
espera junto ao próprio serviço de triagem. Quanto ao
estagiÆrio-plantonista, desenvolve uma compreensªo
mais abrangente da comunidade, amplia sua capacidade
diagnóstica pela diversidade de casos atendidos num
espaço de tempo relativamente curto, e aprende a
estabelecer um contato emocional com os clientes a
partir de uma escuta empÆtica que precisa ocorrer de
129
Plantªo Psicológico em Clínica-Escola
imediato. TambØm vivencia um processo de
amadurecimento pessoal que confere maior autonomia
a sua prÆtica clínica. Os clientes, da forma como sªo
apreendidos pela instituiçªo, beneficiam-se da
oportunidade de um atendimento psicológico que se
configura no momento em que hÆ uma demanda
emocional, diminuindo o nível de ansiedade e
viabilizando o surgimento de recursos pessoais para a
busca de soluçıes para a problemÆtica vivida.
A despeito do Plantªo Psicológico ser
caracterizado pelos cØpticos como apenas mais um
tipo de intervençªo a dois, breve demais para produzir
qualquer mudança duradoura, diríamos que este
serviço tem contribuído para nos aproximar da verdade
sofrida que confere realismo ao suor e às lÆgrimas de
nosso povo, mas paradoxalmente tem tambØm
aumentado nossa fØ no processo dos relacionamentos
interpessoais, pelos quais transita e Ø intensificada a
possibilidade de recuperaçªo da dignidade humana em
sua mais nobre acepçªo.
Quanto às instituiçıes em geral, e às Clínicas-
Escola em particular, deixemos de atribuir a seu andar
paquidØrmico todas as culpas: as limitaçıes quanto ao
âmbito dos serviços prestados à populaçªo decorrem
com mais freqüŒncia da facilidade com que se faz uso
delas para justificar atitudes conformistas e vícios
profissionais e menos da eficiŒncia de seus entraves
administrativos.
Anexo: Plantªo Psicológico:
vivŒncia dos plantonistas
“Uma coisa Ø por idØias arranjadas,
outra Ø lidar com pessoas, de carne e
sangue, e mil e tantas misØrias”.
Guimarªes Rosa
Grande Sertªo Veredas
130
Plantªo Psicológico: novos horizontes
A experiŒncia de atender no plantªo psicológico Ø uma
oportunidade desafiadora, tanto para a formaçªo acadŒmica quanto
para o desenvolvimento pessoal.
Quando um aluno se propıe a ser plantonista, Ø necessÆrio
que ele tenha disponibilidade para lidar com situaçıes imprevisíveis,
acolhendo pessoas. Independente de quem sejam. Na verdade, quando
nos sentamos frente a alguØm no plantªo, nªo sabemos nada sobre
essa pessoa, quais os motivos pelos quais ela estÆ ali, suas angœstias,
medos, necessidades, expectativas etc.
No desenrolardo atendimento, entramos em contato com a
pessoa, da forma como ela se apresenta. A partir desta œnica
interaçªo, buscamos ser empÆticos, tentamos proporcionar um clima
psicológico facilitador para que ela possa expressar-se livremente,
entrar em contato com seus sentimentos, e, na medida do possível,
possa aliviar a tensªo e um pouco da dor pela qual estÆ passando.
Muitas vezes, o motivo da procura pelo Plantªo Psicológico
nªo se refere apenas a angœstias ou medos, mas sim, pessoas que
vŒm em busca de um espaço para se expressar, alguØm para ouvi-
las, ou mesmo, uma busca por outras alternativas, como por exemplo:
soluçªo para problemas de familiares ou terceiros, encaminhamento
para outros profissionais etc.
Ressalta-se que, no Plantªo Psicológico, o fator tempo Ø
fundamental, pois, busca-se equacionar a demanda das pessoas, com
os recursos que o plantonista e a instituiçªo dispıem, em uma œnica
sessªo. Essa proposta cria uma situaçªo peculiar: o plantonista nªo
acompanha o desenrolar do processo.
A oportunidade de experiŒnciar o atendimento no Plantªo
Psicológico, traz em si a possibilidade de entrar em contato com
diferentes experiŒncias de interaçªo: quanto a faixa etÆria, nível sócio-
econômico e cultural, queixas, etc. Conseqüentemente, amplia a
vivŒncia clínica do aluno de 5o ano.
A experiŒncia como plantonista possibilita ainda, uma
plasticidade quanto às perspectivas profissionais, no sentido de
viabilizar futuras aplicaçıes deste modelo de pronto atendimento em
outros contextos.
131
Plantªo Psicológico em Clínica-Escola
“Tem sido um desafio constante, praticar o que aprendemos
durante o estÆgio. A experiŒncia de aprender nessa abordagem, tem
me mostrado caminhos que antes pareciam mais obstÆculos”.
“Atender na Abordagem, mostrou-me o que Ø ‘estar
genuinamente com alguØm’, considerando-se todas as peculiaridades.
Requer que vocŒ esteja “inteiro”, pois, todo o trabalho desenvolve-
se a partir desta relaçªo”.
“Acreditar na capacidade de crescimento do ser humano Ø o
primeiro passo para o atendimento na Abordagem Rogeriana, que
com certeza deve permear todo o processo terapŒutico”.
“Propicia uma nova visªo do atendimento clínico
particularmente no que se refere ao poder do terapeuta no processo,
pois hÆ Œnfase na capacidade que o próprio indivíduo tem para o
crescimento”.
“No início foi difícil atender na Abordagem Rogeriana e
compreender qual seria o meu papel frente às colocaçıes do cliente
e muitas dœvidas surgiram, mas estas foram ficando mais claras à
medida em que eu experienciava a relaçªo terapŒutica e observava
as conseqüŒncias de minhas atitudes”.
“HÆ muito tempo, eu desejava atuar na Abordagem Rogeriana,
finalmente, este ano pude concretizar minhas aspiraçıes. E, confesso,
tem sido melhor do que eu imaginava. Rogers Ø mesmo incrível... As
situaçıes de aprendizado e crescimento sªo constantes, seja nas
supervisıes, nas discussıes dos textos, no atendimento, no progresso
do cliente, etc. Passamos por momentos inesquecíveis e de valor
inestimÆvel” .
“A oportunidade de participar de um grupo em que “abrimos
uma roda” e compartilhamos o estudo e o atendimento clínico na
perspectiva rogeriana, foi uma experiŒncia valiosa, por diversas
razıes. Em especial, pela possibilidade de aprender da compreensªo
teórica e clínica de Rogers em um espaço que podemos ouvir e
dizer as histórias reais de que passamos a fazer parte quando
somos psicoterapeutas” .
132
Plantªo Psicológico: novos horizontes
BIBLIOGRAFIA:
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de triagem à consulta psicológica. Tese de Doutorado.
Pontifícia Universidade Católica de Sªo Paulo, SP,
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sobre as implicaçıes dos trabalhos com grupos intensivos
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Faculdade de CiŒncias MØdicas da Universidade
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GIORGI, Amedeo A phenomenological perspective on certain
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Psicologia, vol. 21).
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Massachusetts: Houghton Mifflin Company, 1980.
133
Plantªo Psicológico em Clínica-Escola
ROSENBERG, Rachel L. (Org.). Aconselhamento
Psicológico Centrado na Pessoa. Sªo Paulo: EPU,
1987 (SØrie Temas BÆsicos de Psicologia, Vol. 21)
WOOD, J.K. et alii (Org.s) Abordagem Centrada na
Pessoa. 2“ ed., Vitória: Editora Fundaçªo Ceciliano
Abel de Almeida / Universidade Federal do
Espírito Santo, 1995.
135
Psicólogos de plantªo...
Psicólogos de plantªo...
Vera Engler Cury
Um conjunto de atitudes ao abordar os
problemas de natureza emocional desenvolvido pela
Abordagem Centrada na Pessoa em suas mœltiplas
aplicaçıes - desde a psicoterapia individual, passando
pelos pequenos grupos intensivos atØ os
surpreendentes encontros de comunidade - gerou
tambØm esta perspectiva de pronto atendimento
psicológico que ao longo destes capítulos
compartilhamos. E Ø esta mesma vinculaçªo aos
pressupostos teórico-filosóficos da Psicologia
Humanista, atravØs de um de seus mais ilustres
expoentes, Dr. Carl Ransom Rogers, que tem
possibilitado um processo genuíno de troca de
experiŒncias, gerando afinidades, a despeito das
diferenças quanto a contextos e propostas numa
realidade sócio-cultural que nos instiga, a despeito de
toda a perplexidade.
Respeitosamente, os plantonistas aguardam por
seus clientes, sem saber quem serªo, o que os trarÆ,
136
Plantªo Psicológico: novos horizontes
como ajudÆ-los... Quando chegam, repete-se um
encontro feito de apertos de mªo, olhares, conversas...
e assim, despretensiosamente, atitudes simples de
acolhimento trazem de volta a magia dos rituais: de
homens primitivos ao redor de fogueiras ancestrais atØ
a comovida cumplicidade destes momentos refazem-
se os elos históricos de nossa humanidade em processo
de vida. Estas sªo horas solenes porque nos tornam a
todos mais humanos e este mesmo ritual que ao ser
reencenado perpetua valores e crenças, paradoxalmente
tem o dom de transformÆ-los. E desta mesma sociedade
exaurida por inœmeros conflitos, sacudida por atos
violentos, por vezes tªo injusta com as minorias e tªo
complacente com os tiranos, surgem ainda ideais,
“sonhos de um mundo mais livre e de uma psicologia
mais justa”.
Cabe-nos como psicólogos neste novo sØculo
que se anuncia a difícil convivŒncia com a AIDS, com
a misØria da alienaçªo, com a dor suprema da perda de
contato do homem com seus vizinhos - em nome de
uma absurda supremacia Øtnica; porØm Ø nosso tambØm
o prazer de uma intimidade ímpar e a indescritível alegria
de compartilhar a retomada da consciŒncia e da
autonomia. Desdenhamos as bolas de cristal, pois Ø
pobre adivinhar quando se pode chegar bem perto e
ao ouvir o outro sentir os ecos de uma empatia revisitada,
bebendo da própria fonte. A verdadeira sabedoria nªo
reside no domínio dos fatos, mas sim no incrível
mistØrio de compartilhar com as pessoas a jornada que
as levarÆ ao encontro consigo mesmas e da qual
emergem fortalecidas.
Nªo podemos nos omitir ante uma AmØrica
Latina atormentada por tantas dificuldades. Para tarefa
tªo complexa, nosso compromisso enquanto
profissionais e cidadªos faz-se urgente e
imprescindível, jÆ que a Psicologia Ø por excelŒncia a
ciŒncia que privilegia os afetos, os vínculos, a integraçªo
137
Psicólogosde plantªo...
do indivíduo com o contexto sócio-cultural que o
coletiviza e lhe confere o sentido de pertinŒncia. Num
cenÆrio em que sanidade e loucura parecem nªo ter
fronteiras definidas, ainda Ø nossa a tarefa de criar
encontros que sejam mais do que simples trocas de
palavras; cabe-nos a missªo de transformar o mundo
atravØs de trabalhos empreendidos em salas de aula,
consultórios de psicoterapia, empresas, centros
comunitÆrios, presídios, favelas, hospitais, centros de
saœde, ou atØ mesmo nas ruas.
HÆ, por outro lado, questionamentos de ordem
Øtica que incidem sobre os atendimentos institucionais:
“em toda a Ærea de saœde mental questionam-se hoje os
objetivos e os efeitos verdadeiros do atendimento
institucional. Trata-se de definir, para alØm dos limites
explícitos, a quem, ou ao que, interessam os procedimentos
que sªo oferecidos ao pœblico para seu bem-estar. A uma
anÆlise cuidadosa, muitos fatos se revelam servindo antes
à manutençªo da própria instituiçªo do que aos seus
usuÆrios.” (Rosenberg,1987).
Nªo devemos ingenuamente negligenciar tal
alerta; o psicólogo-plantonista deve responsabilizar-se
pela forma como as diversas instituiçıes compreendem
e inserem o serviço do Plantªo Psicológico, mantendo
para tanto a necessÆria lucidez quanto à ideologia vigente
e impedindo que esta prÆtica sirva aos interesses
daqueles que pretendem pela multiplicidade de mode-
los de atendimento, apenas mascarar as diferenças e
ludibriar a populaçªo, substituindo a necessidade real
de tratamentos psicológicos pelo oferecimento de
serviços e tØcnicas de carÆter amadorístico e sem emba-
samento teórico. O risco estÆ em nos aliarmos a uma
visªo poderosamente discriminadora que vincula a quan-
tificaçªo dos atendimentos à eficiŒncia do modelo
institucional.
138
Plantªo Psicológico: novos horizontes
Os mestres que nos precederam Abe Maslow,
Carl Rogers, Rachel Rosenberg, tinham em comum a
coragem para superar os dogmas e o entusiasmo para
buscar o inØdito. As teorias sªo necessÆrias mas, com o
tempo, tornam-se mistificadas; retomar os
questionamentos, redescobrir seus significados,
atualizar seus objetivos, impedi-las de cristalizar, eis o
maior empreendimento do pesquisador, pois como
sabemos toda cronificaçªo Ø um obstÆculo ao
crescimento. O conhecimento nªo Ø algo linear, a
aprendizagem só ocorre quando nos interessamos
profundamente pelo objeto de estudo. E que estranho
objeto Ø o nosso: mergulhamos no outro para
emergirmos mais conscientes de nós mesmos. Confiar
em nossos clientes nos ensina a ter fØ na possibilidade
de um mundo mais humano. Pessoas desrespeitadas
tornam-se violentas, mas aquelas a quem foi outorgado
o privilØgio de uma escuta respeitosa geram novos
ventos para atitudes mais solidÆrias e altruístas.
A despeito de tudo isto, estamos de plantªo, de
maneira ativa e pertinaz! Esta parece ser uma alternativa
suficientemente contemporânea para levar nossos
estagiÆrios ao encontro desta que nos cabe como
realidade, neste tempo e neste país. JÆ nªo se pode
mais esperar pelas “revoluçıes silenciosas” que
embalaram os sonhos do compenetrado Carl. Uma
Øtica das relaçıes interpessoais, sutil mas poderosa,
feita de pequenos gestos e acenos suaves, simples e
ainda assim determinada, parece conduzir os projetos
do Plantªo Psicológico aqui comunicados.
Que esta conversa-diÆlogo, por onde transitam
nossos testemunhos e crenças, possa contar a vocŒ,
leitor, um pouco de nossa alma de aventureiros,
crØdulos demais para desacreditar da dignidade
humana, irremediavelmente psicólogos para dar de
ombros quando as instituiçıes criadas para ajudar
pessoas jÆ nªo sabem mais reconhecer seus apelos.
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REFER˚NCIA BIBLIOGR`FICA
ROSENBERG, Rachel L. (Org.)
Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa.
Sªo Paulo: EPU, 1987 (SØrie Temas BÆsicos de
Psicologia, Vol. 21)
Psicólogos de plantªo...

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