FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


DisciplinaHistória e Historiografia551 materiais4.430 seguidores
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da Costa. Cada um no seu papel: o líder espiri-
tual completava o líder político. Juazeiro podia ser um foco de 
heresia; mas o perigo não estava nisso e sim na possibilidade 
de vir a ser uma ameaça à ordem estabelecida no terreno polí-
tico, econômico, e social. 
 
51 
 
 
 
5 
 
 
 
 
 
O "Fanatismo", 
Elemento de Luta 
 
 
 
 
 
ENQUANTO, EM FACE DE TODO UM 
sistema de exploração e opressão, entre as diferentes reações 
das massas rurais despossuídas, o cangaço é desde o início um 
elemento ativo, o misticismo surge como um elemento pas-
sivo. Manifesta-se sem fins agressivos. Mas, formado o grupa 
de místicos em torno de um beato, monge ou conselheiro, 
sua tendência é adotar métodos de ação que, gradativamente, 
vão entrando em choque com os da comunidade sertaneja. 
Colocado à parte, funciona como catalisador ou pólo de atra-
ção no meio ambiente. Em geral, desde seu aparecimento 
ostensivo, esse grupo passa a ser \u2022 hostilizado pela religião do-
minante, a religião católica. 
No caso de Antônio Conselheiro, em Canudos, partiu da 
Igreja o primeiro brado de alerta contra o "chefe fanático" que 
percorria, desde a década de 70 do século XIX, os sertões. do 
Nordeste,v na sua "romaria ininterrupta de vinte anos". Qua-
torze anos antes de deflagar a Campanha de Canudos, já em 
52 
1882, o arcebispo da Bahia expedira circular aos vigários do 
interior, alertando-os contra as atividades do Conselheiro, que 
estaria "perturbando as consciências e enfraquecendo, não 
pouco, a autoridade dos párocos destes lugares", e proibindo 
terminantemente que os paroquianos se reunissem para ouvir 
suas prédicas
1
. No ano que antecede a luta armada contra Ca-
nudos, é enviada ao lugarejo uma missão religiosa para tentar 
dissolver o ajuntamento, que já era bem numeroso. 
No caso do Contestado, o chefe espiritual também entra 
em choque com as autoridades da Igreja Católica e se recusa a 
cumprir seus ritos, enquanto "os ministros da Igreja [...], fron-
talmente e em seu próprio meio faziam desassombrado comba-
te a certas idéias propagadas pelos taumaturgos"
2
. 
Em Juazeiro, o Padre Cícero é suspenso de ordens pela 
Igreja e durante toda a sua longa vida jamais se reconciliou 
inteiramente com ela, pregando a seu modo a doutrina ca-
tólica. 
O Beato Lourenço, do Caldeirão, antes de ser atacado pe-
las forças repressivas, era objeto de denúncia por parte do cle-
ro do Cariri junto às autoridades civis e militares. 
A Igreja Católica desempenha, assim, o papel de polícia 
ideológica no meio rural, antecipando-se às forças repressivas. 
Prepara-lhes o caminho. Percebe, instintivamente, que a "he-
resia", o desvio das normas de conduta estabelecida pela reli-
gião dominante \u2014 a religião das classes dominantes \u2014 poderá 
evoluir até a rebeldia contra a ordem constituída. Uma vez re-
pelida pelos "crentes" ou "fanáticos" sua ação pacificadora, dá 
o brado de alarma. 
Deve ser este o primeiro abalo que sofrem os crentes ou 
fanáticos, depois de adotarem sua atitude de protesto incons-
ciente, e até então passivo, contra a ordem de coisas existente. 
E deve ser também o ponto de partida, a fase de transição, da 
atitude passiva para a atitude ativa. O momento da consciência 
de uma posição de revolta. 
A transição não se opera rápida e imediatamente. O 
 
1
 Os sertões, pág. 174. 
2
 O. R. Cabral, João Maria, interpretação da campanha ao contestado, 
Sáo Paulo, 1960, págs. 18 e 197. 
53 
ajuntamento de insubmissos vacila, a princípio, admite a in-
tervenção das autoridades eclesiásticas, mas até certo limite, 
pois o rompimento já houve com a própria formação do ajun-
tamento de místicos. Refeito do primeiro choque, reage. 
Foi o que aconteceu em Canudos. A missão religiosa en-
cabeçada por Frei Monte Marciano é suspensa, não pela inter-
venção do chefe espiritual local, Antônio Conselheiro, que de 
início tenta conciliar seus próprios seguidores. Quem intervém 
ante a crise surgida pela reação negativa dos fanáticos a um 
sermão do sacerdote católico é um chefe "leigo", João Abade. 
É este quem arregimenta os conselheiristas e os conduz à casa 
em que se abrigam os clérigos, reclamando sua saída do povo-
ado. A missão é suspensa e os sacerdotes católicos expulsos. 
Em Juazeiro não foi diferente, no essencial. O heresiarca 
era um padre, um sacerdote católico. É interpelado, pressio-
nado de todos os modos por seus superiores hierárquicos para 
que retroceda. Intransigente, enviam-no, como último recurso, 
à Santa Sé, para explicar-se perante o Papa. O resultado é con-
traproducente. Mas esse período de pressão, interpelação, in-
quéritos eclesiásticos, corresponde, aqui, ao da missão religio-
sa em Canudos: à admissão da intromissão externa. Também 
em Juazeiro os "afilhados" do Padre Cícero ficam em guarda, 
assumem um estado de ânimo de desafio aberto à religião do-
minante, ao lado de seu "padrinho". Não arredam pé de Juazei-
ro até a sua volta, e então seu prestígio, aumenta considera-
velmente. 
Está preparada, assim, a passagem à segunda fase, a fase 
ativa da heresia. 
Em Canudos, esta fase corresponde a um acréscimo da 
autoridade de João Abade como chefe civil. Já o era, uma es-
pécie de prefeito, "comandante de rua", como ficou conhecido 
entre os habitantes de Canudos. Mas daí por diante é ele o che-
fe leigo de fato, inconteste, é quem decide na prática os desti-
nos daquela coletividade, enquanto o Conselheiro ficará como 
simples chefe espiritual, quase simbólico. Sua importância é 
mínima para o caso de deflagrar uma luta armada. E nesta, 
como veremos, ele se apaga. 
Sem se conhecer os detalhes da intromissão da Igreja Ca-
tólica no Contestado, sabe-se que malogrou também, e a se-
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guir, no primeiro assalto das tropas do Governo contra os "fa-
náticos", em 22 de outubro de 1912, no Irani, morre o "mon-
ge" José Maria. Mas, não faria nenhuma falta, pois a luta pros-
segue e é comandada por chefes civis, entre os quais se desta-
cam os Doze Pares de França, chefes leigos, talvez uma espé-
cie de colegiado dos mais prestigiosos dirigentes da comuni-
dade. O monge fica apenas como um símbolo, uma entidade 
quase mitológica, tanto assim que ninguém consegue distin-
guir em certos aspectos a individualidade dos João Maria ou a 
destes e de José Maria, sacrificado ao iniciar-se luta armada. A 
confusão, neste ponto, é geral. O fato irrefutável é que o mon-
ge não marca com a sua presença e a sua atuação bélica o ce-
nário da luta armada, não tem qualquer papel importante nesta 
luta, e no entanto, ela se trava por três longos anos, empe-
nhando o Governo federal fortes contingentes do Exército. 
Em Juazeiro, o marco divisório entre o período ativo e o 
passivo da insubmissão não ocorre imediatamente depois do 
regresso do Padre Cícero de sua viagem a Roma. Há como que 
uma pausa para meditação do próprio sacerdote, certa vacila-
ção de sua parte em relação à Igreja Católica e da Igreja Cató-
lica em relação a ele. O rompimento definitivo ocorre quando, 
depois que é suspenso de ordens, deflagra a primeira luta ar-
mada em que se empenham alguns romeiros, a luta pela posse 
da suposta mina de cobre do Coxa, que o Padre havia compra-
do e estava em litígio. Naturalmente, quem comanda os jagun-
ços, para assinalar à bala a posse da área ocupada pela mina, 
não é o Padre. É um representante, seu, Floro Bartolomeu da 
Costa. Depois da luta, o nome de Floro projeta-se com resso-
nância entre os romeiros do sacerdote fazedor de milagres. A 
partir desse momento, o Padre se obscurece como chefe do 
povo e projeta-se Floro Bartolomeu. O Padre, daí por diante, 
teria o papel de guia espiritual, mas o comando efetivo dos 
romeiros se transfere a Floro Bartolomeu. É ele o chefe civil