FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
228 pág.

FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


DisciplinaHistória e Historiografia551 materiais4.430 seguidores
Pré-visualização50 páginas
reter ali mão-de-obra excedente para o latifún-
dio. Uma vez que este não podia absorver toda a mão-de-obra 
disponível, os desocupados procuravam outro meio de vida, 
nem que fossem os assaltos armados, entrando para um grupo 
de cangaceiros. Um dos perseguidores de Lampião, e que cer-
tamente possuía boas informações sobre a origem de seus ho-
mens, informa que "os celerados tinham os claros preenchidos 
pelos cangaceiros mansos, que eram considerados vaqueiros 
ou moradores" dos fazendeiros
8
. São, portanto, os jagunços ou 
capangas. E conta que tendo perguntado certa vez a Lampião 
por que não dera combate à Coluna Prestes, conforme se havia 
comprometido com os chefes de Juazeiro, embora a visse pas-
sar perto de uma serra onde se ocultava o bando, o famoso 
cangaceiro respondeu: "Ah! menino. Isto aqui é meio de vida. 
Se eu fosse atirar em todos os macacos que eu vejo, já teria 
desaparecido"
9
. 
Nem mais nem menos: para os componentes do bando, o 
cangaço é modalidade de ganhar a vida, como é possível ga-
nhá-la num ambiente onde impera a ferocidade do coronel, 
com toda a sua aparente mansidão, o seu falso humanismo, o 
seu apregoado paternalismo cristão. Pois, "quando às vezes 
comunicavam ao coronel Manuel Inácio, de Pernambuco, que 
seus cabras estavam se matando uns aos outros, como acon-
teceu no sítio Serecé [. . .] ele dizia a gaguejar: "Não tem 
 
7
 A. Montenegro, História do cangaceirismo, pág. 98. 
8
 O. Gueiros, ob. cit., pág. 32. 
9
 R. Nonato, Lampião, em Moçoró, Rio, 1955, pág. 266. 
64 
nada não, é isso mesmo, as cobras é para se engolirem umas às 
outras"
10
. 
Se o coronel tratava assim a seus cabras, se a explora-
ção no eito é brutal, se a emigração só lhes era facilitada nos 
anos de crise aguda, com o advento das calamidades climáti-
cas, não era de admirar que esses homens cheios de energia 
fossem parar nos bandos de cangaço e os considerassem co-
mo um meio de vida perfeitamente normal. O famigerado 
cangaceiro Jararaca, do bando de Lampião, ferido e preso no 
assalto à cidade de Moçoró, declara no seu depoimento que 
fora soldado de polícia, mas que exercia então a "profissão 
de cangaceiro"
11
. 
Mais do que meio de vida, meio de prover a subsistência, 
o cangaceirismo prolifera no Nordeste sobretudo nas épocas 
das grandes secas. Formando-se então os bandos, em geral, 
pequenos, de 3 a 10 homens no máximo. A maioria deles de-
saparece, uma vez passada a calamidade climática. Alguns 
remanescem e prolongam sua existência. Antônio Silvino, 
percorreu os sertões do Nordeste durante 18 anos, de 1896 a 
1914. Sucede-lhe, como num autêntico reinado, Virgulino 
Lampião, que bate todos os recordes de assaltos, em vinte 
anos de cangaço, devassando o Nordeste com uma rapidez in-
crível, de um a outro Estado, e constituindo o grupo mais nu-
meroso de todos. É verdade que seus efetivos variam sempre, 
segundo as circunstâncias, até mesmo as políticas. Permitia 
que seus cangaceiros "dessem baixa" quando quisessem, em-
bora advertindo-os de que seriam presa fácil da polícia, e mui-
tos o eram realmente, pagando não raro com a vida a temeri-
dade de ter abandonado o cangaço. Assim aconteceu com Jara-
raca (José Leite Santana), baleado e preso no dia seguinte ao 
assalto malogrado à cidade de Moçoró. Depois de prestar de-
poimento minucioso, é levado para o cemitério e aí assassina-
do pela polícia. Tinha 26 anos. A mesma sorte caberia a Mor-
maço (19 anos), que fora da Polícia Militar de Pernambuco e 
participara das perseguições à Coluna Prestes e, também, dos 
assédios a Lampião. Depois do frustrado ataque a Juazeiro, 
 
10
 Ulisses Lins, Um sertanejo e o sertão, Rio, 1957, pág. 37. 
11
 R. Nonato, ob. cit., pág. 266. 
65 
resolve abandonar o grupo, prestando vários e pormenorizados 
depoimentos sobre suas atividades. "Juntamente com Bronze-
ado e mais dois presos da Justiça que se encontravam na ca-
deia de Moçoró, foi levado para a estrada de Natal e morto 
com os outros
12
. Certa vez, perseguido o bando de Silvino por 
uma volante da polícia, são-lhe aprisionados 11 cangaceiros, 
\u2014 ou 18, segundo Rodrigues de Carvalho \u2014 e todos sangra-
dos pela tropa pernambucana
13
. 
Havia como que o propósito de fechar os caminhos à 
possibilidade de recuperação dos bandoleiros. Como que se 
tentava intimidar os cangaceiros de forma a impedir sua de-
serção do bando. Mas as flutuações nos efetivos dos grupos 
continuavam a depender principalmente das épocas de fome, 
sem excluir o fator prestígio do chefe cangaceiro. Assim,, 
quando em 1926 Lampião visita o Padre Cícero, em Juazeiro, 
é provido de grande quantidade de armas, munições e até 
mesmo fardas, seu bando crescendo logo em seguida. Um de 
seus homens, Gato Bravo, capturado depois, informa: "Saímos 
de Juazeiro com 22 homens e ao chegarmos a Pernambuco tí-
nhamos mais de 100"
14
. No ano seguinte, ao atacar a cidade 
de Moçoró, Lampião e seu bando perfazem 53 ho-
mens
15
. 
Vários pequenos grupos juntavam-se eventualmente a 
Lampião ou atuavam em íntima ligação com ele. Um desses 
foi o de Massilon, que, segundo todos os depoimentos, exer-
ceu influência decisiva sobre o Rei do Cangaço para o assalto 
a Moçoró. Outro grupo entrosado com o de Lampião era o de 
Corisco (o Diabo Louro) que, parece, o integrava, mas atuava 
separadamente, por tática. O grupo de Corisco não seria sur-
preendido no esconderijo da fazenda Angicos (Sergipe), quan-
do Lampião e mais uma dezena de cangaceiros foram mortos 
pela polícia militar de Alagoas (28-7-1938). No entanto, pou-
cos dias depois, ao ter conhecimento da tragédia que acabara 
com o "governador do Sertão", Corisco não vacila um instan-
 
12
 Idem, ibidem 
13
 Ulisses Lins, ob. cit., pág. 341 e Rodrigues de Carvalho, Serrote preto, 
Rio, 1961, pág. 370. 
14
 Melquíades da Rocha, Bandoleiro das caatingas, Rio, s. d., pág. 79 
15
 R. Nonato, ob. cit., pág. 269. 
66 
te: vai com seu bando ao lugar fatídico e, à exceção de um ve-
lho, que deixa "para contar a história", mata toda a família do 
vaqueiro que tomava conta da fazenda. Inclusive duas mulhe-
res \u2014 "para vingar a morte de Maria Bonita e Enedina" \u2014 te-
ria dito, pois haviam denunciado à polícia o esconderijo de 
Lampião. 
Vale salientar aqui este fato de real importância: o can-
gaceirismo se tornara um fenômeno tão significativamente 
social que não foi pequeno o número de mulheres que par-
ticiparam de suas ações na fase do apogeu. Das mulheres, a 
mais famosa é Maria Bonita, mas se contam, entre outras, 
Enedina, abatida juntamente com ela, Inacinha, mulher de 
Gato, Sebastiana, mulher de Moita Brava e Dada, mulher de 
Corisco. Em 1935, quando Lampião penetra na localidade de 
Forquilha, vem "acompanhado de oito cangaceiros e três mu-
lheres"
16
. 
Algumas características de Lampião são mais ou menos 
comuns a outros cangaceiros e chefes de bando. Desde o início 
de suas atividades, o grupo ataca de preferência grandes pro-
priedades, aquelas onde sabe que poderá obter melhores pro-
ventos. Quando o coronel não mora na fazenda e é, por exem-
plo, um comerciante na cidade guarnecida onde Lampião não 
pode penetrar, reclama este sua presença, para conversarem 
sobre dinheiro. Exige-lhe então o cangaceiro determinada 
quantia, mediante a condição, muitas vezes expressa em car-
tas, das quais se conhecem vários exemplares, de que sua pro-
priedade será poupada e nada sofrerá, mesmo por parte de "ou-
tros cangaceiros". A carta, um simples bilhete, é uma espécie 
de salvo-conduto para o fazendeiro. Em geral, o coronel aten-
dia-o, pois sabia antecipadamente que, do