FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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do latifúndio oceânico, devorador de todas 
as suas energias, monopolizador de todos os privilégios, dita-
dor das piores torpezas, que fazer, senão revoltar-se? Pega em 
armas, sem objetivos claros, sem rumos certos, apenas para 
sobreviver no meio que é o seu. 
Então, espantados, os homens das classes dominantes não 
sabem explicar por que ele se revoltou. Ele, sempre tão corda-
 
1
 Os sertões, 13.ª ed., pág. 141. 
36 
to e humilde mesmo, que não falava ao senhor sem tirar da ca-
beça o largo chapéu de palha ou de couro, toma de uma arma, 
torna-se cangaceiro, arregimenta companheiros de infortúnio e 
forma um grupo \u2014 um bando. Por que? 
As tentativas de explicação dos fatores do cangaço da-
tam, talvez, do início mesmo do fenômeno. Mas vejamos opi-
niões de alguns autores que estudaram o processo em sua ple-
na florescência. Euclides da Cunha, sabe-se, atribui-o ao fator 
racial, atavismos étnicos, "o meio físico dos sertões em todo o 
vasto território que se alonga do Vasa-Barris ao Parnaíba, no 
ocidente", e ao que chama de "estigmas degenerativos de três 
raças"
2
. Euclides da Cunha baseia-se, entre outros autores, em 
Nina Rodrigues. As teses deste cientista baiano parecem ter 
sido a fonte de inúmeras opiniões errôneas sobre as causas do 
cangaceirismo e do misticismo sertanejos. Nina Rodrigues 
afirmava que "a criminalidade do mestiço brasileiro [está] li-
gada às más condições antropológicas da mestiçagem no Bra-
sil"
3
. Vários autores nordestinos, sem dar atenção às causas 
econômicas e sociais, recorrem à explicação, para eles a mais 
fácil, adotada por um cientista: a mestiçagem. Era uma atitude 
fatalista. Como a mestiçagem constituía um fato irremovível, 
seus resultados no Nordeste \u2014 o cangaço e fenômenos corre-
latos \u2014 jamais teriam remédio... 
Esse ponto de vista ainda iria influenciar, muitos anos 
mais tarde, o autor de um dos livros de maior repercussão so-
bre o Juazeiro e o Padre Cícero, Lourenço Filho. Considera 
ele, depois da visita que fez ao Cariri, na década de 20, que 
"certas condições biológicas levam ao banditismo"
4
. E para 
anomalias como o Juazeiro, aconselhava (em 1926): "Os re-
médios estão aos olhos de todos, e eles se resumem, numa pa-
lavra, em maior liberdade política aos escravizados Estados do 
Norte, em distribuição de justiça e educação". 
É interessante observar como até mesmo conhecedores da 
situação local, homens nascidos e criados ali, narram fatos e 
 
2
 Idem, pág. 93 s. 
3
 As raças humanas e a responsabilidade Penal no Brasil, Salvador, 1957, 
pág. 158. 
4
 O Juazeiro do padre Cícero, 2.ª ed., São Paulo, s/d., pág. 162. 
37 
episódios diante dos quais se supõe que tirarão as conclusões 
lógicas \u2014 e no entanto a conclusão é contrária à própria reali-
dade descrita. É o caso, entre outros, de Xavier de Oliveira, fi-
lho do Cariri. Reconhece ele textualmente: "o homem honesto 
e trabalhador de outrora é um bandido agora, por causa de uma 
questão de terra"
5
. Acrescentava quanto às condições de traba-
lho: "No Cariri, em certa cidade, há o que se chama feira de 
trabalhadores. Centenas de homens, reunidos em praça públi-
ca, enxada ao ombro, prontos para o trabalho. Chega o fazen-
deiro, escolhe os mais robustos (é como se escolhesse bois pa-
ra o corte) e os leva à roça. Os outros, em número de centenas, 
ficam sem trabalhar, e sem comer, eles, suas mulheres e seus 
filhos"
6
. Dá o testemunho de sua própria experiência pessoal: 
"Esta mão que ora traça essas linhas, muitas vezes, vai para 
doze anos, aos que tinham a ventura de se empregar, pagou 
quinhentos réis ($500) por dia inteiro de trabalho!..." E "eram 
onze horas de trabalho"
7
. 
Estes homens \u2014 é a conclusão lógica \u2014 tinham forçosa-
mente que ser revoltados. Sem terra, sem ocupação certa, a 
mais brutal exploração de seu trabalho, revoltar-se-iam qual-
quer que fosse a dosagem de seu sangue, sua origem racial, o 
meio físico que atuasse sobre seu organismo. Mas Xavier de 
Oliveira concluía pedindo... a ajuda do Exército para ex-
terminar o cangaço. Fez desta reivindicação uma cruzada du-
rante sua vida. Nos principais focos de banditismo \u2014 opinava 
ele \u2014 desde Pajeú de Flores até Riacho do Navio, dos sertões 
de Pernambuco ao Cariri, deviam instalar-se regiões militares 
\u2014 e tudo estaria resolvido. 
Para outro nordestino, Gustavo Barroso, o cangaço seria 
extinto nos sertões com estes remédios: "comunicações, trans-
portes, instrução e justiça"
8
. E um jurista eminente, originário 
também da região onde atuavam os cangaceiros, ensinava uma 
terapêutica, em geral, justa, mas sem indicar como devia ser 
 
5
 Beatos e cangaceiros, Rio, 1920, pág. 24. 
6
 Idem, págs. 28-29. 
7
 Idem, pág. 29. (Para termo de comparação: em 1912, um kg de 
carne, em Fortaleza, custava de 600 a 800 réis, e um litro de feijão, 400 
réis). 
8
 Cit. por A. Montenegro, História do cangaceirismo, pág. 22. 
38 
aplicada: "Os meios preventivos \u2014 escrevia Clóvis Bevi-
lacqua \u2014 que consistem na criação de um ambiente desfavo-
rável à germinação desta planta nociva, o que se obterá me-
lhorando as condições de vida das classes desprovidas de bens 
materiais, difundindo a instrução, sobretudo a educação moral; 
e assegurando a justiça a todos"
9
. 
Mas, como criar esse ambiente ideal? 
E a coisa chega ao anedótico. Um dos perseguidores de 
Lampião em Pernambuco, oficial da Polícia Militar daquele 
Estado, ofereceu uma idéia bastante original da existência do 
cangaço. Diz ele textualmente: "A zona do Nordeste é privi-
legiada pela natureza. Ali não existem, em quantidade avas-
saladora e mortífera, os insetos dos outros Estados \u2014 o carra-
pato, muriçocas, berne, piolho-de-mocó, maruim, em quanti-
dade tão grande que desesperam até os próprios animais sel-
vagens, apesar de suas defesas naturais. Esses insetos, se fos-
sem abundantes em nossos sertões, como o são noutros Esta-
dos, estou certo de que nunca teria existido nenhum grupo de 
cangaceiros na vasta parte onde serve de palco aos mesmos" 
(sic)
10
 
Portanto, o remédio era disseminar insetos mordedores e 
mortíferos \u2014 e os cangaceiros se acabariam... 
Estas são algumas das inúmeras opiniões sobre as causas 
próximas ou remotas do cangaço (como dos surtos de "fana-
tismo"). Vê-se que predominam simples efeitos de causas pro-
fundas: ausência de justiça, analfabetismo, precariedade de 
comunicações e transportes, baixos salários. Quando tudo isto 
já resultava da tremenda desigualdade social, do débil desen-
volvimento do capitalismo, do lentíssimo incremento das for-
ças produtivas, da concentração da propriedade da terra, que 
dava poder econômico ilimitado a uma insignificante minoria 
de latifundiários. A grande massa dos habitantes da região não 
dispunha de recursos normais para viver, nem mesmo a possi-
bilidade de vender com segurança sua força de trabalho. 
Quando o conseguia era em condições tais que correspondiam 
à semi-servidão. 
 
9
 Idem, ibidem. 
10
 Optato Gueiros, Lampião, 2." ed., São Paulo, 1953, pág. 10. 
39 
Como poderia haver justiça, simples recursos jurídicos, 
sem falar em justiça social, para explorados e oprimidos em 
tais condições? O aparelho judiciário estava sob o controle di-
reto dos sobas locais, o juiz lhes era um dependente, muitas 
vezes menos do que isso, um lado
11
. Diz Xavier de Oliveira, 
em 1919: "No sertão não há lei, não há direitos, não há justiça 
[...] Quanta vez, ali, não é removido de uma para outra comar-
ca, um juiz que proferiu uma sentença contra um político