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PDF OAB
Direito do
Consumidor
Capítulos 1 ao 6
MAT
ERIA
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PDF OAB
Direito do Consumidor
Capítulo 1
MAT
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Olá, aluno!
Bem-vindo ao estudo para o Exame de Ordem. Preparamos todo esse material para você
não só com muito carinho, mas também com muita métrica e especificidade, garantindo que
você terá em mãos um conteúdo direcionado e distribuído de forma inteligente.
Para isso, estamos constantemente analisando o histórico de provas anteriores com fins
de entender como a Banca costuma cobrar os assuntos do edital. Afinal, queremos que sua
atenção esteja focada nos assuntos que lhe trarão maior aproveitamento, pois o tempo é
escasso e o cronograma é extenso. Conte conosco para otimizar seu estudo sempre!
Ademais, estamos constantemente perseguindo melhorias para trazer um conteúdo
completo que facilite a sua vida e potencialize seu aprendizado. Com isso em mente, a
estrutura do PDF Ad Verum foi feita em capítulos, de modo que você possa consultar
especificamente os assuntos que estiver estudando no dia ou na semana. Ao final de cada
capítulo você tem a oportunidade de revisar, praticar, identificar erros e aprofundar o assunto
com a leitura de jurisprudência selecionada.
E mesmo você gostando muito de tudo isso, acreditamos que o PDF sempre pode ser
aperfeiçoado! Portanto pedimos gentilmente que, caso tenha quaisquer sugestões ou
comentários, entre em contato através do email pdf@cers.com.br. Sua opinião vale ouro para
a gente!
Racionalizar a preparação dos nossos alunos é mais que um objetivo para Ad Verum,
trata-se de uma obsessão. Sem mais delongas, partiremos agora para o estudo da disciplina.
Faça bom uso do seu PDF Ad Verum!
Bons estudos
mailto:pdfadverum@cers.com.br
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Abordaremos os assuntos da disciplina de Direito do Consumidor da seguinte forma:
RECORRÊNCIA
Como dito, sabemos que estudar de forma direcionada, com base nos assuntos
objetivamente mais recorrentes, é essencial. Afinal, uma separação planejada pode fazer toda
diferença. Pensando nisso, através de estudo realizado pelo nosso setor de inteligência com
base nas últimas provas, trouxemos os temas mais abordados nessa disciplina!
Da Defesa do
Consumidor em Juízo
17%
Dos Direitos do
Consumidor
49%
Das Práticas
Comerciais
17%
Contratos de
Consumo
17%
Da Defesa do Consumidor em Juízo
Dos Direitos do Consumidor
Das Práticas Comerciais
Contratos de Consumo
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CAPÍTULOS
Capítulo 1 – Direito do Consumidor e Código de Defesa do Consumidor.
Capítulo 2 – Princípios do Direito do Consumidor.
Capítulo 3 – Direitos Básicos do Consumidor e Convenção Coletiva de Consumo.
Capítulo 4 – Relação Jurídica de Consumo, e Aplicação do Código de Defesa do Consumidor e
Proteção Contratual do Consumidor.
Capítulo 5 – Práticas Comerciais, Responsabilidade Civil do Fornecedor e Bancos de Dados.
Capítulo 6 – Sanções Administrativas nas Relações de Consumo, Direito Penal do Consumidor
e Defesa do Consumidor em Juízo.
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SUMÁRIO
DIREITO DO CONSUMIDOR, Capítulo 1 .................................................................................................................. 3
1. Direito do Consumidor e Código de Defesa do Consumidor............................................................... 3
1.1 Introdução ao Estudo do Direito do Consumidor ............................................................................................. 3
1.2 Aspectos Introdutórios do Direito do Consumidor ........................................................................................... 4
1.3 Antecedentes Históricos do Direito do Consumidor ......................................................................................... 5
1.4 Direito do Consumidor no Brasil ...................................................................................................................... 8
1.5 Conceito de Direito do Consumidor ............................................................................................................... 10
1.6 Natureza Jurídica e Finalidade do Direito do Consumidor .............................................................................. 10
1.7 Fundamento Constitucional do Direito do Consumidor .................................................................................. 11
1.8 Competência ................................................................................................................................................. 15
1.9 Código de Defesa do Consumidor .................................................................................................................. 16
1.9.1 Introdução .................................................................................................................................................... 16
1.9.2 Posição Hierárquica do Código de Defesa do Consumidor.............................................................................. 18
1.9.3 Estrutura do Código de Defesa do Consumidor .............................................................................................. 20
1.9.4 Características do Código de Defesa do Consumidor...................................................................................... 22
1.9.5 Aplicabilidade ................................................................................................................................................ 26
1.9.6 Diálogo das Fontes ........................................................................................................................................ 26
1.9.7 Política Nacional das Relações de Consumo ................................................................................................... 29
QUADRO SINÓTICO ...................................................................................................................................................... 33
QUESTÕES COMENTADAS ........................................................................................................................................ 34
GABARITO ........................................................................................................................................................................... 45
LEGISLAÇÃO COMPILADA............................................................................................................................................ 49
JURISPRUDÊNCIA ............................................................................................................................................................. 50
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................................................. 62
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Olá, futuro advogado! Tudo bem?
Antes de começar o estudo, precisamos fazer algumas considerações a respeito da apostila de
nº 01 do nosso curso, tá?
Em primeiro turno, a introdução ao Direito do consumidor não costuma ser cobrado no exame
de ordem!
- Mas professora, por que incluí-lo nas apostilas, então?
Bom, como é de conhecimento geral, a banca examinadora tende a ser um pouco imprevisível,
e o nosso objetivo é deixar você preparado para exatamente qualquer coisa que aparecer na
prova!
Então, achamos pertinente abranger o máximo de conteúdo possível! 😊
Inclusive, ao final desta apostila, você encontrará questões de outras carreiras, para um maior
aproveitamento e assimilação de conteúdo, portanto, não deixe de respondê-las, tá?
Vamos juntos!
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DIREITO DO CONSUMIDOR
Capítulo 1
1. Direito do Consumidor e Código de Defesa do
Consumidor
1.1 Introdução ao Estudo do Direito do Consumidor
Antes de iniciarmos o estudo de fato da matéria Direito do Consumidor, é importante
destacarmos alguns pontos importantes para o seuestudo e sua preparação para as provas de
concursos públicos que trazem em seu conteúdo programático a disciplina do direito
consumerista.
Apesar de termos em nosso ordenamento jurídico a Lei 8.078, de 11 de setembro de
1990, conhecido como o Código de Defesa do Consumidor, e citado em obras jurídicas pela
sigla CDC, seus preceitos são em sua maioria principiológicos (como veremos no item 1.8 deste
capítulo).
A leitura dos artigos do Código de Defesa do Consumidor é essencial para a sua
aprovação, é fundamental que você conheça todos os artigos, mas é preciso ir além.
Por ser uma disciplina nova e de conteúdo dinâmico, o estudo da jurisprudência é
necessário para a sua aprovação e concursos públicos.
Logo, é preciso estar sempre atento aos informativos de jurisprudência do Superior
Tribunal de Justiça, em especial, bem como às súmulas em matéria consumerista (que serão
citadas e listadas ao longo dos capítulos).
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E, claro, a resolução de questões da disciplina de Direito do Consumidor é essencial na
sua rotina de estudos.
O Direito do Consumidor é um direito contratual e obrigacional e, para a sua preparação para
concursos públicos é preciso ir além do estudo do Código de Defesa do Consumidor, sendo
necessário o estudo da posição jurisprudencial acerca dos contratos das relações
consumeristas.
1.2 Aspectos Introdutórios do Direito do Consumidor
O Direito do Consumidor é um fenômeno recente em nossa sociedade. Seu nascimento
como ramo do direito se dá a partir da segunda metade do Século XX, antes disso era colocada
em dúvida a sua necessidade e a extrema proteção ao hipossuficiente da relação de consumo
que ele trazia.
Entretanto, no cenário atual chega a se mostrar insuficiente frente à complexidade da
sociedade de consumo na atualidade e no dinamismo das relações.
Apesar de hoje o Direito do Consumidor e suas características serem de fácil identificação
e conhecimento, apenas a partir da segunda metade do Século XX que se instalou uma
sociedade de consumo, sociedade está na qual ocorre um desequilíbrio de forças entre os que
são detentores dos meios de produção (os fornecedores) e os que dependem destes para a
obtenção e fruição de produtor e serviços (os consumidores).
Segundo o Dr. Fernando da Costa de Azevedo, “a sociedade (cultura) de consumo surgiu
na chamada “era moderna”, e foi impulsionada pelas transformações advindas da Revolução
Industrial, consolidando no Ocidente seu traço caracterizador: a massificação da produção e do
consumo de bens e serviços. Com efeito, a análise dessas transformações tipicamente
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“modernas” permite constatar que, em essência, as características gerais do atual modelo de
sociedade de consumo – a sociedade de consumo contemporânea, que tem início a partir da
segunda metade do século XX e se consolida nas três últimas décadas do século – representa
um desdobramento da sociedade de consumo moderna, com o incremento de alguns fatores
que, por suas peculiaridades, parecem exclusivos do tempo presente. A sociedade de consumo
contemporânea (“pós-moderna”), que apresenta desafios hermenêuticos e de efetividade ao
sistema jurídico, reúne, em resumo, quatro características básicas:
a) sociedade massificada;
b) sociedade moral e juridicamente pluralista;
c) sociedade da informação e;
d) sociedade globalizada”.
1.3 Antecedentes Históricos do Direito do Consumidor
Humberto Theodoro Júnior cita que já no Código de Hamurabi havia previsão de regras
de relacionadas ao consumo. Ainda que de forma indireta, algumas previsões do antigo código
visavam proteger o consumidor.
A título de exemplo, cita-se a Lei nº 233 que determinada que se um arquiteto construísse
uma casa cujas paredes mostrassem deficientes teria a obrigação de reconstruí-las ou consolidá-
las às suas próprias expensas.
Ainda nas citações de Humberto Theodoro Júnior, registra-se que na Grécia, extrai-se da
Constituição de Atenas, de Aristóteles, a preocupação com a defesa do consumidor: “são
também designados por sorteio os fiscais de mercado, cinco para o Pireu e cinco para a cidade;
as leis atribuem-lhes os encargos atinentes às mercadorias em geral, a fim de que os produtos
vendidos não contenham misturas nem sejam adulterados; são também designados por sorteio
os fiscais das medidas, cinco para a cidade e cinco para o Pireu; ficam a seu encargo as medidas
e os pesos em geral, a fim de que os vendedores utilizem os corretos; havia também os
guardiães do trigo; eles se encarregam, em primeiro lugar, de que o trigo em grão colocado no
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mercado seja vendido honestamente; depois, de que os moleiros vendam a farinha por um
preço correspondente ao da cevada, e de que os padeiros vendam os pães por um preço
correspondente ao do trigo e com o seu peso na medida por eles prescrita (com efeito, a lei
ordena que eles o fixem); são também designados por sorteio dez inspetores do comércio, aos
quais se atribuem os encargos mercantis, devendo eles obrigar os comerciantes a trazerem para
a cidade dois terços do trigo transportados para comercialização (...) o juro de uma dracma
incidente sobre o capital de uma mina implicava uma taxa de 1% ao mês ou 12% ao ano’’.
Avançando no tempo, chegando à época das revoluções modernas, em razão da
Revolução Industrial (do aço e do carvão) ocorreu a migração da população residente na área
rural para os grandes centros urbanos.
A população dos centros urbanos buscava o consumo de novos produtos e serviços, a
fim da satisfação das suas necessidades materiais.
Este novo modelo de sociedade que se formava, produtores, fabricantes e prestadores de
serviços variados estavam preocupados em atender à nova, e grande, demanda, mas deixavam
de lado o cuidado com a qualidade dos serviços e produtos.
A bilateralidade das relações de produção e prestação de serviços, em que as duas partes
contratantes discutiam e ajustavam as cláusulas do contrato, bem como a matéria privam ser
utilizada na relação na confecção do produto, passou a ser substituída pela unilateralidade da
produção em massa, na qual uma das partes – o fornecedor – ditava exclusivamente as regras
da relação de consumo, sem a participação do consumidor.
Cabia ao consumidor à época a adesão ao contrato (que era elaborado previamente pelo
fornecedor, um contrato de adesão).
Com essa nova prática de mercado começaram a surgir problemas, pois a partir do
momento em que o fornecedor estava mais preocupado com a quantidade do que com a
qualidade, o consumidor passou a deparar-se com produtos e serviços viciados ou com defeitos.
No final do século XIX, o movimento de defesa do consumidor, já sendo tratado com
essa denominação, ganhou força nos Estados Unidos em virtude do avanço do capitalismo.
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Surgia o mundo industrializado. Como marco inicial da defesa do consumidor tem-se
resumidamente o resultado da união de reivindicações trabalhistas tendo em vista a exploração
do trabalho das mulheres e crianças e pela atuação direta frente ao mercado de consumo,
realizada por meio de boicote a produtos como exigência do reconhecimento de direitos
enquanto trabalhadores e seres humanos.
No fim do Século XIX, o movimento de defesa do consumidor ganhou força nos Estados
Unidos, consequência do avanço do capitalismo.
A primeira organização de defesa do consumidor surgiu em 1891, liderada por
Josephine Lowel, a New York Consumers League, era formada por advogados de classe média
e média-alta, e visava melhorar as condições dos trabalhadores.
No início da década de 1960 foi criada a “International Organization of Consumers
Unions”, hoje denominada “Consumers International”, inicialmente composta por Austrália,
Bélgica, Estados Unidos, Holanda e Reino Unido.
Em 15 de março de 1962, John F. Kennedy, então presidente dos Estados Unidos,
encaminhou Congresso Nacional Americano mensagem emque enumerou os direitos básicos
do consumidor: direito à segurança, à informação, à escolha e a ser ouvido. Foi a primeira
referência expressa ao Direito do Consumidor, Kennedy considerou-os o grande desafio do
mercado.
Em 1964, nos Estados Unidos, a advogada Esther Peterson foi designada como assistente
do então Presidente Lyndon B. Johnson para assuntos de consumidores. Na mesma época o
advogado Ralph Nader iniciou um trabalho que culminou em denúncias que apontavam falhas
de segurança nos automóveis americanos. Em 1965, Nader publicou um livro sobre o assunto –
"Unsafe Any Speed".
Em 1972 realizou-se, em Estocolmo, a Conferência Mundial do Consumidor.
Em 1973, a Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU),
reconhece formalmente a existência de direitos universais e fundamentais do consumidor.
8
Em 1985, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) traçou, na
Resolução nº 39/248, as Diretrizes do Direito do Consumidor, reconhecendo a necessidade
de proteção do consumidor (agente econômico vulnerável), em suas relações frente aos
fornecedores.
1.4 Direito do Consumidor no Brasil
No Brasil, algumas legislações anteriores à Constituição Federal de 1988 já contemplavam,
em normas codificadas ou esparsas, alguns dispositivos de proteção aos Consumidores.
A exemplo, o Código Comercial de 1840, em seus artigos 629 a 632, estabeleceu direitos
e obrigações dos passageiros de embarcações. O Código Civil de 1916, em seu artigo 1.245,
estabelecia critérios de responsabilidade do fornecedor.
No ano de 1962 a Lei Delegada nº 4, revogada pela Lei nº 13.874 de 2019, tratava sobre
a intervenção no domínio econômico para assegurar a livre distribuição de produtos necessários
ao consumo do povo.
O chamado movimento consumerista brasileiro, surgiu no 1976, quando o então
governador paulista, Paulo Egydio Martins, designou comissão especialmente para estudar a
implantação do já aludido “sistema estadual de defesa do consumidor’’, de que resultou a Lei
nº 1.903/1978, e, concretamente, a instalação do Procon, então chamado de “Grupo Executivo
de Proteção ao Consumidor’’, hoje Fundação de Proteção ao Consumidor, órgão da Secretaria
de Estado de Justiça, em princípios de 1979.
Em 1985, por meio do Decreto nº 91.469, foi criado o Conselho Nacional de Defesa do
Consumidor, do qual fizeram parte associações de consumidores, Procons Estaduais, a Ordem
dos Advogados do Brasil, a Confederação da Indústria, Comércio e Agricultura, o Conselho de
Auto-Regulamentação Publicitária, o Ministério Público e representações do Ministério da
Justiça, Ministério da Agricultura, Ministério da Saúde, Ministério da Indústria e do Comércio e
Ministério da Fazenda, com o escopo de assessorar o Presidente da República na elaboração de
políticas de defesa do consumidor.
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Em outubro de 1985, no VI Encontro Nacional das Entidades de Defesa do Consumidor,
realizado no Rio de Janeiro, foram emitidas propostas concretas no sentido de se incluírem, no
texto constitucional então vigente (Emenda Constitucional nº 1, de 1969), mediante emenda,
dispositivos claros a respeito da defesa do consumidor, como dever do Estado e direito da
população.
A idealização do Código de Defesa do Consumidor teve início antes mesmo da
promulgação da Constituição Federal de 1988 (como veremos no tópico 1.8), por meio da
constituição de uma comissão formada no âmbito do Conselho Nacional de Defesa do
Consumidor, tem como finalidade a elaboração de um Anteprojeto de Código.
Em 1988, a proteção ao consumidor passou a ter assento constitucional, tendo em
vista a determinação do artigo 48 do ADCT, sobre a criação do Código de Defesa do
Consumidor. O Poder Constituinte Originário considerou o direito do consumidor como norma
de direito fundamental, expressa no artigo 5º, XXXII. O artigo 170 da Constituição Federal de
1988 expõe que o direito do consumidor é um princípio da ordem econômica, tendo em vista
que busca harmonizar as relações entre consumidor e fornecedor.
Após diversos trabalhos, discussões, audiência pública e criação de uma Comissão Mista,
foi apresentado um novo texto de Projeto de Código, que culminou na promulgação da Lei nº
8.078, de 11 de setembro de 1990.
Em 12 de setembro de 1990 foi publicada no Diário Oficial da União a Lei 8.078, conhecida
como Código de Defesa do Consumidor, sendo o grande marco na evolução da defesa do
consumidor brasileiro, uma lei de ordem pública e de interesse social com inúmeras inovações
inclusive de ordem processual.
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Brasil, 1988: a Constituição Federal dá ao Direito do Consumidor o status de norma de direito
fundamental.
Brasil, 1990: é sancionado o Código de Defesa do Consumidor.
1.5 Conceito de Direito do Consumidor
Para Landolfo Andrade, Direito do Consumidor “é o conjunto de normas e princípios
que regula a tutela de um sujeito especial de direitos, a saber, o consumidor, como agente
privado vulnerável, nas suas relações frente a fornecedores”.
O autor lembra que, no Brasil, adotou-se a terminologia Direito do Consumidor, em vez
de Direito de Consumo, como foi adotado em países como França e Itália. Isto ocorreu porque,
seguindo a CF/88 (art. 5º, inciso XXXII), o Código de Defesa do Consumidor é voltado à efetiva
proteção do consumidor.
1.6 Natureza Jurídica e Finalidade do Direito do Consumidor
A criação do Direito do Consumidor como uma disciplina autônoma tornou-se necessária,
em razão da crescente superioridade do fornecedor frente ao consumidor em suas relações.
Gustavo Tepedino diz que o Direito do Consumidor é um ramo do direito civil-
constitucional, já para Rizzato Nunes é um ramo autônomo do direito, de natureza mista, pública
e privada. Por fim, para Cláudia Lima Marques o Direito do Consumidor é um ramo do direito
privado, ao lado dos direitos civil e empresarial.
11
A doutrina majoritária, segundo Landolfo Andrade, entende que o Direito do Consumidor
é uma disciplina jurídica autônoma, assim sendo por possuir princípios e finalidades específicos,
que o diferencia das demais disciplinas.
É pacífico o entendimento de que a finalidade do Direito do Consumidor é conferir
proteção à classe dos consumidores - agente vulnerável -, reduzindo a desigualdade existente
entre ela e a dos fornecedores, restabelecendo o equilíbrio na relação de consumo.
1.7 Fundamento Constitucional do Direito do Consumidor
A defesa do consumidor no Brasil tem respaldo na Constituição Federal de 1988, que é a
origem normativa do Direito do Consumidor no país. Pela primeira vez a defesa do consumidor
aparece entre os Direitos e Garantias Fundamentais (art. 5º, inciso XXXII).
Quanto à competência para legislar sobre produção e consumo e a responsabilidade por
danos ao consumidor, são previstas no art. 24, incisos V e VIII da Constituição Federal de 1988.
No parágrafo 5º do art. 150 há determinação de que a lei deve estabelecer medidas para
esclarecimento aos consumidores acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e
produtos;
Em seguida, no art. 170, a defesa do consumidor foi incluída pelo legislador constituinte
como princípio geral da ordem econômica1.
Na sequência, no art. 175, a Constituição trata da proteção do consumidor como usuário
dos serviços públicos concedidos ou permitidos.
Por fim, no ADCT, foi fixado prazo para que o Congresso Nacional elaborasse o Código
de Defesa do Consumidor.
1 Vide questões 1, 2 e 3 desse material.
12
Art. 5º, inciso XXXII
Apresenta a defesa do consumidor como um direito fundamental;
Art. 24, incisos V e
VIII Competência.
Art. 150, § 5º
Determina que lei deve estabelecer medidas para esclarecimento aos
consumidores acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e
produtos;
Art. 170, caput e
incisoV
Estabelece a defesa do consumidor como um princípio da atividade
econômica;
Art. 175, inciso II
Usuário-consumidor de serviço público
Art. 48 do ADCT
Determinou a elaboração do Código de Defesa do Consumidor
Até a edição da Lei nº 12.741, de 8 de dezembro de 2012, que dispôs sobre as medidas
de esclarecimento ao consumidor, de que trata o § 5º do art. 150 da Constituição Federal de
1988, bem com alterou o inciso III do art. 6º e o inciso IV do art. 106 da Lei nº 8.078, de 11 de
setembro de 1990 (Código de Defesa do Consumidor), somente as empresas concessionárias e
permissionárias de serviços públicos essenciais – a título de exemplo as que fornecem serviços
de energia elétrica, gás e telefonia) é que já davam cumprimento a tal exigência constitucional.
A Lei nº 12.741, é fruto de iniciativa popular, conduzida pela Associação Comercial de São
Paulo, que instituiu o chamado Impostômetro (um enorme letreiro que exibia o
acompanhamento digital, em tempo real, de cada centavo cobrado por dia dos consumidores-
contribuintes pelas três órbitas tributárias do país - federais, estaduais e municipais).
Ao tratar da concessão ou permissão dos serviços públicos, impõe a Constituição Federal
que a lei disponha expressamente os direitos dos consumidores-usuários dos serviços prestados
pelas empresas concessionárias ou permissionárias dos que caberiam, primordialmente, ou em
forma de monopólio, ao Poder Público (art. 175, inciso II da Constituição Federal de 1988).
13
A Proteção do Consumidor Como Direito Fundamental
A essência do Direito Fundamental é a proteção e a promoção da dignidade da pessoa
humana, logo ao analisar o direito que o consumidor tem, deve-se levar em conta o Princípio
da Dignidade da Pessoa Humana, fundamento da República (art. 1º, inciso III, da CF/88).
Ainda no art. 1º, é relevante citar o fundamento do valor social da livre iniciativa (art.
1º, inciso IV, da CF/88).
O STJ decidiu, sobre o tema da Dignidade da Pessoa Humana que “À luz do Princípio da
Dignidade da Pessoa Humana, valor erigido como um dos fundamentos da República, impõe-
se a concessão dos medicamentos como instrumento de efetividade da regra constitucional que
consagrada o direito à saúde”. (STJ, REsp. 775.233, Rel. Min. Luiz Fux, 1ª T., p. 01/08/06).
A previsão da defesa do consumidor, no inciso XXXII, do art. 5º da CF/88, dá a ele o
status de cláusula pétrea, com base na vedação ao retrocesso, não se admite a edição de
normas que restrinjam o alcance da proteção ao consumidor.
Como decorrências desse status, tem-se: a) proteção pelo Estado como parte do núcleo
imodificável da CF; b) eficácia horizontal dos direitos fundamentais (fornecedor x consumidor:
direto privado constitucionalizado); c) força normativa da CF (norma executável e exigível).
Direito do
Consumidor na CF/88
Direito Fudamental
(art. 5º)
Princípio da Ordem
Econômica (art. 170)
14
Atualmente, os direitos fundamentais incidem nas relações privadas, sendo observados
os princípios constitucionais nas relações inter partes. É o que a doutrina chama de Teoria da
Eficácia Horizontal dos Direitos Fundamentais em contraposição à Eficácia Vertical dos Direitos
Fundamentais, em que se observa o respeito aos direitos fundamentais nas relações entre
indivíduo e Estado. O princípio constitucional fundamental da Dignidade da Pessoa Humana é
incompatível com disposições contratuais desiguais, em que não se observe a boa-fé objetiva,
a transparência e o equilíbrio nas relações contratuais e que coloca o consumidor em posição
de vulnerabilidade.
Se liga OABeiro! O Direito do Consumidor está inserido na 3ª “geração” ou “dimensão” dos
direitos fundamentais2. Inclusive, isso já foi objeto de cobrança em alguns concursos públicos,
como por exemplo as questões 04 e 05 do nosso material! Não deixe de respondê-las!
Direitos Fundamentais de Terceira Geração tiveram origem no final do Século XX, período
marcado por profundas mudanças na comunidade internacional e na sociedade (contratação
em massa, crescente desenvolvimento tecnológico e científico), com a finalidade de tutelar o
próprio gênero humano, surgiram os direitos considerados transindividuais, direitos de pessoas
consideradas coletivamente. São os direitos de fraternidade, de solidariedade, como o direito
ao meio ambiente equilibrado, à proteção dos consumidores etc.
A Proteção do Consumidor Como Princípio da Ordem Econômica
Em seu art. 170, inciso V, a Constituição Federal de 1988 prevê a defesa do consumidor
como um princípio da ordem econômica, legitimando a adoção de medidas para intervenção
estatal quando necessárias para assegurar a proteção prevista.
2 Vide questões 4 e 5 desse material.
15
Assim, o Estado poderá intervir na atividade econômica sempre que for necessário e tiver
por finalidade proteger os direitos dos consumidores.
Em relação a isto, os fornecedores devem exercer suas atividades em conformidade com
o princípio previsto no inciso V do art. 170 da CF/88, respeitando os direitos dos consumidores
Sob o aspecto dogmático-filosófico, a proteção do consumidor se funda no Princípio do
Favor Debilis ou Proteção do Mais Fraco, o que autoriza a intervenção do Estado nas relações
de consumo, para reequilibrar a relação jurídica, conferindo direitos ao consumidor vulnerável
e impondo deveres ao fornecedor, detentor do monopólio dos meios de produção (art. 170,
inciso V, da CF/88).
A desigualdade entre as partes contratantes nas relações contratuais de consumo, afinal,
é axioma de todo o sistema jurídico consumerista, que fundamenta o reconhecimento da
vulnerabilidade do consumidor.
A Proteção do Consumidor na Lei Infraconstitucional
Quando, no inciso XXXII do art. 5º da CF/88, o legislador constituinte dispôs que o Estado
promoverá a defesa do consumidor na forma da lei, determinava-se ali a elaboração de uma
lei que trouxesse em seu texto o conteúdo protecionista.
No art. 48, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), determinou-se
que o Congresso Nacional, dentro de cento e vinte dias, contados da promulgação da
Constituição Federal de 1988, deveria elaborar o Código de Defesa do Consumidor.
Assim, em cumprimento da determinação constitucional foi editada a Lei 8.078, de 1990,
conhecida como o Código de Defesa do Consumidor, organizando sistematicamente os normas
de proteção ao sujeito vulnerável da relação, trazendo princípios e regras específicas.
1.8 Competência
É prevista, no art. 24, inciso V, da CF/88 a competência concorrente da União, dos
Estados e do Distrito Federal de legislar sobre produção e consumo, assim como, no inciso
VIII, sobre responsabilidade por danos ao consumidor.
16
Logo, cabe à União a edição de normas gerais, e aos Estados-membros e ao Distrito
Federal a competência suplementar, para adequar a legislação federal às peculiaridades locais,
sem prejuízo da competência dos Municípios para legislar sobre assuntos de interesse local (art.
30, inciso I, da CF/88) - ex.: tempo máximo de espera na fila – STF, RE 432.789.
1.9 Código de Defesa do Consumidor
1.9.1 Introdução
O legislador constitucional ordinário impôs, no art. 48 do ADCT, a necessidade de
elaboração de um Código de Defesa do Consumidor, no prazo de 120 (cento e vinte) dias,
contados da promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
Tal prazo não foi cumprido, porém foi fundamental para que o Congresso Nacional
editasse a Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990: O Código de Defesa do Consumidor, que
teve vacatio legis de 180 (cento e oitenta) dias (art. 118, CDC).
Desta forma, a Lei nº 8.078/1990 está em vigor no Brasil desde 11 de março de 1991 e
tornou-se um modelo na América Latina, em especial por identificar em seu texto legal o
consumidorcomo verdadeiro sujeito dos direitos, reconhecendo-o como vulnerável e em
situação de desigualdade nas relações de consumo.
Competência
Legislativa Concorrente
União
Edição de Normas
Gerais
Estados e Distrito
Federal
Normas Suplementares
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O Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990) estabelece “normas de proteção e
defesa do consumidor, de ordem pública e interesse social” nos termos do art. 5º, inciso
XXXII e art. 170, inciso V da Constituição Federal, sendo a sua elaboração prevista no art. 48 do
ADCT (CDC, art. 1º).
Por ser uma norma de ordem pública, com fundamento constitucional, tendo
hierarquia constitucional e natureza de cláusula pétrea, o Código de Defesa do Consumidor
deve prevalecer diante de antinomias e traz como consequências:
A) A possibilidade de o juiz atuar de ofício, decretando a desconsideração da
personalidade jurídica, a abusividade do foro de eleição e invertendo o ônus da
prova;
B) A ausência de preclusão para a alegação de nulidade de pleno direito.
Antinomia: conflito de leis sobre o mesmo caso concreto.
Para que seja aplicável o Código de Defesa do Consumidor é necessário que existam na
relação determinados elementos. São alguns deles: que a relação seja entre um consumidor
(parte vulnerável da relação) e um fornecedor, bem como que haja a disponibilização de um
produto ou serviço.
Logo, e aplicável o Código de Defesa do Consumidor em relações jurídicas que consumo
nas quais podemos identificar a presença de elementos:
18
Inspirado em vários modelos de legislações estrangeiras, o Código de Defesa do
Consumidor recebeu diversas influencias, como a Resolução nº 39/248, de 9 de abril de 1985,
da Assembleia-Gera da Organização das Nações Unidas (ONU), resolução que fixou uma série
de normas internações para a proteção do consumidor, objetivando oferecer diretrizes aos
países a fim de que fossem utilizadas por estes na elaboração ou aperfeiçoamento das
legislações consumeristas.
A maior influência, segundo os autores do anteprojeto, veio do Projet de Code de la
Consommation, redigido sob a presidência do professor Jean Calais-Auloy. Foram também
importantes no processo de elaboração as leis gerais da Espanha (Ley General para la Defensa
de los Consumidores y Usuariosy Lei n° 26/1984), de Portugal (Lei n° 29/1981, de 22 de agosto),
do México (Lei Federal de Protección al Consumidor, de 5 de fevereiro de 1976) e de Quebec
(Loi sur la Protection du Consommateury, promulgada em 1979).
1.9.2 Posição Hierárquica do Código de Defesa do Consumidor
Como exposto anteriormente, o Código de Defesa do Consumidor é um Direito
Fundamental de Terceira Geração.
O CDC é tido pela doutrina como uma norma principiológica, em razão da proteção
constitucional dos consumidores, que consta, especialmente, do art. 5º, XXXII, da Constituição
Federal de 1988.
Pode-se dizer, então, que o Código de Defesa do Consumidor tem eficácia supralegal,
estando entre a Constituição Federal de 1988 e as leis ordinárias.
Elementos da Relação
de Consumo
Sujeito
Fornecedor
Consumidor
Objeto
Produto
Serviço
Elemento Finalístico Destinação Final
19
O professor Flávio Tartuce, posiciona-se no sentido de que o Código de Defesa do
Consumidor, por ser previsto na Constituição Federal de 1988 (art. 48, ADCT), está em uma zona
híbrida entre a Constituição Federal e a Legislação Ordinária.
Veja, na Pirâmide de Kelsen:
No sistema piramidal de Kelsen temos, no topo da pirâmide, a Constituição Federal de
1988, abaixo dela as normas infraconstitucionais e, por fim, as normas infralegais. O Código de
Defesa do Consumidor, por ter sua criação determinada no texto do Atos das Disposições
Constitucionais Transitórias, deve ser localizado entre a Constituição Federal e as Leis
Infraconstitucionais, sendo uma norma de eficácia supralegal, estando acima das leis ordinárias.
Pode-se citar o problema relativo à Convenção de Varsóvia e à Convenção de Montreal,
tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário e que preveem tarifação de indenização
no transporte aéreo internacional, nos casos de cancelamento e atraso de voos, bem como de
extravio de bagagem. Tais convenções internacionais colidem com o princípio da reparação
integral dos danos, previsto no art. 6º, inciso VI, da Lei nº 8.078/1990, que reconhece como
direito básico do consumidor a efetiva reparação dos danos patrimoniais e morais, individuais,
coletivos e difusos, afastando qualquer possibilidade de tabelamento ou tarifação de indenização
em desfavor dos consumidores. Neste caso, em razão da posição supralegal do Código de
Defesa do Consumidor, a norma consumerista deve prevalecer sobre as citadas fontes
internacionais.
É possível que em algum caso concreto de relação consumerista haja a possibilidade de
aplicação de várias normas, surgindo a figura da antinomia de normas jurídicas.
Constituição
Federal
Normas
Infraconstitucionais
Normas Infralegais
Código de Defesa do Consumidor como norma
supralegal, abaixo da Constituição e acima da
legislação ordinária.
20
Se liga, OABeiro! Caso surja um conflito aparente entre o Código de Defesa do Consumidor3
com o Código Civil, o conflito poderá ser resolvido pelas formas tradicionais de hermenêutica,
como os critérios do tempo de vigência da norma, da especialidade, da hierarquia, da
subsidiariedade etc.
1.9.3 Estrutura do Código de Defesa do Consumidor
Antes da promulgação da Constituição Federal de 1988, o então presidente do Conselho
Nacional de Defesa do Consumidor, Dr. Flávio Flores da Cunha Bierrenbach, constituiu uma
comissão, no âmbito do Conselho, com intuito de apresentar um anteprojeto de Código de
Defesa do Consumidor, previsto com essa denominação pela Assembleia Nacional Constituinte.
A comissão foi composta pelos juristas: Ada Pellegrini Grinover, Daniel Roberto Fink, José
Geraldo Brito Filomeno, Kazuo Watanabe e Zelmo Denari. A comissão contou com a assessoria
de Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin, Eliana Cáceres, Marcelo Gomes Sodré,
Mariângela Sarrubo, Nelson Nery Júnior e Régis Rodrigues Bonvicino. Contribuíram também
Promotores de Justiça do Estado de São Paulo e a comissão considerou trabalhos anteriores do
Conselho Nacional de Defesa do Consumidor, que havia contado com a colaboração de Fábio
Konder Comparato, Waldemar Mariz de Oliveira Júnior e Cândido Dinamarco.
Apresentado ao Ministro Paulo Brossad, o primeiro anteprojeto foi amplamente divulgado
e existiram debates em diversas capitais. Após a reformulação do anteprojeto por este trabalho
3 Vide questões 8, 9, 10, 11, 12 e 13 desse material.
21
conjunto, foi publicado no Diário Oficial, em 04 de janeiro de 1989, junto com o parecer da
comissão, justificando o acolhimento ou a rejeição das propostas recebidas.
Em sua elaboração, a Lei nº 8.078/1990, recebeu contribuição do que havia de mais
avançado no ordenamento jurídico internacional em relação à matéria de proteção e defesa do
consumidor. Os legisladores estavam preocupados com que o Código de Defesa do Consumidor
fosse uma lei permanente, por este motivo seus dispositivos são gerais e com grande carga
principiológica.
Houve também a preocupação com a estrutura do Código para que pudesse ser
facilmente compreendido por todos que ele lesse, em especial o Consumidor. Isto facilitaria a
aplicação e cumprimento das normas.
O Código de Defesa do Consumidor é, então, assim estruturado:
Índice Sistemático do Código de Defesa do Consumidor
TÍTULO I - DOS DIREITOS DO CONSUMIDOR (arts. 1º ao 60):
CAPÍTULO I - Disposições Gerais (arts. 1º ao 3º);
CAPÍTULO II - Da Política Nacional de Relações de Consumo (arts. 4º e 5º);
CAPÍTULO III - Dos Direitos Básicos do Consumidor (arts. 6º e 7º);
CAPÍTULO IV - Da Qualidade de Produtose Serviços, da Prevenção e da Reparação dos Danos
(arts. 8º ao 28):
Seção I - Da Proteção à Saúde e Segurança (arts. 8º ao 11);
Seção II - Da Responsabilidade pelo Fato do Produto e do Serviço (arts. 12 ao 17);
Seção III - Da Responsabilidade por Vício do Produto e do Serviço (arts. 18 ao 25);
Seção IV - Da Decadência e da Prescrição (arts. 26 e 27);
Seção V - Da Desconsideração da Personalidade Jurídica (art. 28)
CAPÍTULO V - Das Práticas Comerciais (arts. 29-45):
Seção I - Das Disposições Gerais (art. 29);
Seção II - Da Oferta (arts. 30 ao 35);
Seção III - Da Publicidade (arts. 36 ao 38);
Seção IV - Das Práticas Abusivas (arts. 39 ao 41);
Seção V - Da Cobrança de Dívidas (art. 42);
Seção VI - Dos Bancos de Dados e Cadastros de Consumidores (arts. 43 ao 45);
22
CAPÍTULO VI - Da Proteção Contratual (arts. 46-54):
Seção I - Disposições Gerais (arts. 46 ao 50);
Seção II - Das Cláusulas Abusivas (arts. 51 ao 53);
Seção III - Dos Contratos de Adesão (art. 54);
CAPÍTULO VII - Das Sanções Administrativas (arts. 55 ao 60).
TÍTULO II - DAS INFRAÇÕES PENAIS (arts. 61 ao 80).
TÍTULO III - DA DEFESA DO CONSUMIDOR EM JUÍZO (arts. 81 ao 104):
CAPÍTULO I - Disposições Gerais (arts. 81 ao 90);
CAPÍTULO II - Das Ações Coletivas para a Defesa de Interesses Individuais Homogêneos (arts.
91 ao 100);
CAPÍTULO III - Das Ações de Responsabilidade do Fornecedor de Produtos e Serviços (arts.
101 e 102);
CAPÍTULO IV - Da Coisa Julgada (arts. 103 e 104).
TÍTULO IV - DO SISTEMA NACIONAL DE DEFESA DO CONSUMIDOR (arts. 105 e 106).
TÍTULO V - DA CONVENÇÃO COLETIVA DE CONSUMO (arts. 107 e 108).
TÍTULO VI - DISPOSIÇÕES FINAIS (arts. 109 ao 119).
1.9.4 Características do Código de Defesa do Consumidor
O Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990), possui três características
principais:
É uma lei principiológica;
Com normas de ordem pública e de interesse social;
Formando um microssistema multidisciplinar.
O Código de Defesa do Consumidor como Lei Principiológica:
Por ser principiológico, o Código de Defesa do Consumidor é considerado um código
de diretriz, por normatizar as regras, não prevendo espécies específicas de contratos.
23
Nelson Nery Júnior, que participou da elaboração do anteprojeto o Código de Defesa do
Consumidor, diz que, por ser uma lei que fixa os princípios fundamentais das relações de
consumo, o Código de Defesa do Consumidor ocupa uma posição superior dentro do direito
positivo.
A eleição de certos princípios pelo legislador ordinário buscou, em última análise, o
reequilíbrio de uma relação jurídica que é muito desigual. Busca-se, então, a concretização da
igualdade material.
O Superior Tribunal de Justiça pacificou posicionamento no sentido de coibir práticas
abusivas de fornecedores no mercado de consumo quando violadoras de princípios do Código
de Defesa do Consumidor (REsp 1.073.595/MG, Rel. Ministra Nancy Andrighi, DJe 29.04.2011).
O Código de Defesa do Consumidor como Norma de Ordem Pública e de Interesse
Social:
O fato de o Código de Defesa do Consumidor ser norma de ordem pública e de
interesse social4 traz consequências jurídicas relevantes.
As decisões decorrentes de litígios que envolvem relações de consumo não se
limitam às partes envolvidas, repercutindo muitas vezes em interesses difusos,
coletivos ou individuais homogêneos;
As partes não poderão derrogar os direitos do consumidor, a autonomia da
vontade e a pacta sunt servanda foram mitigadas pelo Código de Defesa do
Consumidor (assim, sendo abusiva a cláusula de um contrato firmado entre o
consumidor e o fornecedor de um serviço, por exemplo, esta pode ser anulada,
não cabendo alegação de que o consumidor estava ciente quando da contratação);
O juiz pode reconhecer de ofício Direitos do Consumidor, declarar nulidade de
cláusula abusiva, por exemplo.
Estas são três as consequências jurídicas relevantes em razão do caráter de norma de
ordem pública e interesse social do CDC.
4 Vide questões 6 e 7 desse material.
24
O Código de Defesa do Consumidor como Microssistema Multidisciplinar:
Junto com os princípios que lhe são próprios, no âmbito da chamada ciência
consumerista, o Código de Defesa do Consumidor relaciona-se com outros ramos do Direito,
ao mesmo tempo em que atualiza e dá nova roupagem a antigos institutos jurídicos.
O Código de Defesa do Consumidor é considerado um microssistema multidisciplinar
porque engloba em seu conteúdo as mais diversas disciplinas jurídicas com o objetivo maior de
tutelar o consumidor.
Encontraremos no Código de Defesa do Consumidor normas de Direito Constitucional
(ex.: princípio da dignidade da pessoa humana), normas de Direito Civil (ex.: responsabilidade
do fornecedor), normas de Direito Processual Civil (ex.: ônus da prova), normas de Direito
Administrativo (ex.: proteção administrativa do consumidor), normas de Direito Penal (ex.:
infrações e sanções penais pela violação do CDC) etc.
Desta forma, a relação do CDC com outras fontes poderá ser exemplificada no seguinte
quadro (com adaptações), colhido da obra Direito Constitucional Esquematizado de Fabrício
Bolzan:
Direito
Constitucional
CDC, Art. 4º. A Política Nacional das Relações de Consumo tem por
objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à
sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses
econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a
transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os
seguintes princípios: (...)
Direito Civil
CDC, Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou
estrangeiro, e o importador respondem, independentemente da existência
de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por
defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem,
fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus
produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre
sua utilização e riscos.
25
Processo Civil
CDC — Art. 6º. São direitos básicos do consumidor:
(...)
VIII — a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do
ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for
verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras
ordinárias de experiências;
Direito
Administrativo
CDC — Art. 56. As infrações das normas de defesa do consumidor ficam
sujeitas, conforme o caso, às seguintes sanções administrativas, sem
prejuízo das de natureza civil, penal e das definidas em normas específicas:
I — multa;
II — apreensão do produto;
III — inutilização do produto;
IV — cassação do registro do produto junto ao órgão competente;
V — proibição de fabricação do produto;
VI — suspensão de fornecimento de produtos ou serviço;
VII — suspensão temporária de atividade;
(...)
Parágrafo único. As sanções previstas neste artigo serão aplicadas pela
autoridade administrativa, no âmbito de sua atribuição, podendo ser
aplicadas cumulativamente, inclusive por medida cautelar, antecedente ou
incidente de procedimento administrativo.
Direito Penal
CDC — Art. 61. Constituem crimes contra as relações de consumo
previstas neste código, sem prejuízo do disposto no Código Penal e leis
especiais, as condutas tipificadas nos artigos seguintes.
Microssistema Multidisciplinar: o Código de Defesa do Consumidor é considerado um
microssistema por possuir em seu bojo tanto normas de Direito Material, quanto de Direito
26
Processual e Direito Administrativo, assim, contém normas de variadas disciplinas jurídicas
(multidisciplinar), sendo um microssistema que regula as relações de consumo, dentro do
macrossistema do Código Civil.Principiológico: o Código de Defesa do Consumidor prevê em seu texto os direitos aos
Consumidores bem como os deveres aos Fornecedores, sem se ater a espécies específicas de
contrato, o que permite a sua incidência sobre toda e qualquer relação consumerista.
1.9.5 Aplicabilidade
Conforme entendimento firmado pelo STF e pelo STJ, não se aplicam as disposições do
Código de Defesa do Consumidor às situações ocorridas antes da sua entrada em vigor, exceto
nas contratações por prazo indeterminado/execução diferida e por prestação periódica (ex.:
plano de saúde), nas quais se permite a sua incidência quanto às parcelas a serem adimplidas
a partir do seu advento (março de 1991).
Não há retroatividade, mas apenas aplicação a relações de trato sucessivo, no tocante às
operações posteriores à sua vigência.
1.9.6 Diálogo das Fontes
Pela Teoria do Diálogo das Fontes, sustenta-se a possibilidade de que várias normas
protetivas do consumidor sejam aplicadas ao mesmo tempo, ainda que em conflito aparente,
uma vez que deve haver a ‘conformação das fontes protetivas ao consumidor’ (Erick Jayme e
Cláudia Lima Marques).
Claudia Lima Marques traz sua visão sobre os três tipos de diálogos possíveis entre
Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil:
A) Na aplicação simultânea das duas leis, uma lei pode servir de base conceitual para a
outra (diálogo sistemático de coerência), especialmente se uma lei é geral e a outra especial,
se uma é a lei central do sistema e a outra um microssistema específico, não completo
materialmente, apenas com completude subjetiva de tutela de um grupo da sociedade;
27
B) na aplicação coordenada das duas leis, uma lei pode complementar a aplicação da
outra, a depender de seu campo de aplicação no caso concreto (diálogo sistemático de
complementaridade e subsidiariedade em antinomias aparentes ou reais), a indicar a
aplicação complementar tanto de suas normas, quanto de seus princípios, no que couber, no
que for necessário ou subsidiariamente;
C) ainda há o diálogo das influências recíprocas sistemáticas, como no caso de uma
possível redefinição do campo de aplicação de uma lei (assim, por exemplo, as definições de
consumidor stricto sensu e de consumidor equiparado podem sofrer influências finalísticas do
Código Civil, uma vez que esta lei vem justamente para regular as relações entre iguais, dois
iguais - consumidores ou dois iguais -fornecedores entre si — no caso de dois fornecedores,
trata-se de relações empresariais típicas, em que o destinatário final fático da coisa ou do fazer
comercial é um outro empresário ou comerciante —, ou, como no caso da possível transposição
das conquistas do Richterrecht (direito dos juízes), alçadas de uma lei para a outra. É a influência
do sistema especial no geral e do geral no especial, um diálogo de double sens (diálogo de
coordenação e adaptação sistemática)”.
É necessário destacar que o diálogo das fontes poderá estabelecer-se não apenas entre
o Código Civil e o Código de Defesa do Consumidor, mas, ainda, entre o Diploma Consumerista
e outras leis especiais, tais como:
- CDC e Lei dos planos e seguros de assistência à saúde (Lei nº 9.656/1998);
- CDC e Lei das mensalidades escolares (Lei nº 9.870/199);
- CDC e Lei dos consórcios (Lei nº 11.795/2008).
O diálogo das fontes também vem sendo aplicado expressamente em alguns julgados do
Superior Tribunal de Justiça, conforme posicionamento insculpido no julgamento do Recurso
Especial 1.216.673/SP: “Deve ser utilizada a técnica do ‘diálogo das fontes’ para harmonizar a
aplicação concomitante de dois diplomas legais ao mesmo negócio jurídico; no caso, as normas
específicas que regulam os títulos de capitalização e o CDC, que assegura aos investidores a
28
transparência e as informações necessárias ao perfeito conhecimento do produto” (Rel. Ministro
João Otávio de Noronha, 4ª T., DJe 09.06.2011).
A título de aprofundamento, vale mencionar que o diálogo das fontes foi idealizado pelo
Professor Alemão Erik Jayme, professor da Universidade de Heidelberg, e trazida ao Brasil pela
notável Claudia Lima Marques, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Diálogo das Fontes (Cláudia Lima Marques):
a) diálogo sistemático de coerência: aproveita a base conceitual de uma lei pela outra;
b) diálogo sistemático de complementariedade e subsidiariedade: adota os princípios e regras
de um sistema, em caráter complementar, para melhor solução do caso concreto;
c) diálogo das influências recíprocas sistemáticas: considera que uma norma influencia na
interpretação de outra; ou seja, na influência do sistema especial no geral e do sistema geral no
especial.
O tema é fundamental para a compreensão do campo de incidência do Código de Defesa
do Consumidor.
A essência da teoria é de que as normas jurídicas não se excluem, mas se
complementam. No Brasil, a principal incidência da teoria se dá justamente na interação entre
o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil de 2002, em matérias como a
responsabilidade civil e o Direito Contratual.
Do ponto de vista legal, a tese está baseada no art. 7º do Código de Defesa do
Consumidor, que adota um modelo aberto de interação legislativa.
29
De acordo com tal comando, os direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor
não excluem outros decorrentes de tratados ou convenções internacionais de que o Brasil seja
signatário, da legislação interna ordinária, de regulamentos expedidos pelas autoridades
administrativas competentes, bem como dos que derivem dos princípios gerais do direito,
analogia, costumes e equidade.
Nesse contexto, é possível que a norma mais favorável ao consumidor esteja fora da
própria Lei Consumerista, podendo o intérprete fazer a opção por esse preceito específico.
É interessante analisarmos alguns julgados que aplicaram a Teoria do Diálogo das Fontes,
propondo uma interação entre o Código Civil de 2002 e o Código de Defesa do Consumidor.
Leia os julgados selecionados ao final deste capítulo.
1.9.7 Política Nacional das Relações de Consumo
Implementada pelo Código de Defesa do Consumidor, em seu art. 4º, que dispõe sobre
os objetivos e princípios que devem nortear o setor, a Política Nacional das Relações de
Consumo foi criada para proteger o consumidor, agente vulnerável das relações de consumo,
buscando uma harmonia entre consumidores e fornecedores, equilibrando a balança da relação.
Assim, se por um lado o Código e Defesa do Consumidor se preocupa com o atendimento
das necessidades básicas dos consumidores, por outro lado ele busca igualmente pacificar e
compatibilizar interesses que estejam em conflito.
Com efeito, o art. 4º do Código de Defesa do Consumidor visa a atender não apenas às
necessidades dos consumidores e respeito à sua dignidade – de sua saúde e segurança, proteção
de seus interesses econômicos, melhoria de sua qualidade de vida, como também à
imprescindível harmonia das relações de consumo.
O art. 4º é considerado uma norma narrativa (a doutrina também usa a expressão norma-
objeto para designar os dispositivos legais que estabelecem os resultados a serem alcançados,
isto é, definem os fins almejados), na expressão criada por Erik Jayme.
30
Tal artigo, por impor obrigações de resultado, é dotado de eficácia plena, designando
um programa de ação de interesse público, voltado à consecução de uma finalidade que é a
defesa do consumidor, imposta na Constituição Federal de 1988 (art. 5º, inciso XXXII).
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das
necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a
proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como
a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
I - reconhecimento da vulnerabilidade doconsumidor no mercado de consumo;
II - ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor:
a) por iniciativa direta;
b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas;
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade, segurança,
durabilidade e desempenho.
III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e
compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento
econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem
econômica (art. 170, da Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas
relações entre consumidores e fornecedores;
IV - educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos seus direitos e
deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo;
V - incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de qualidade e
segurança de produtos e serviços, assim como de mecanismos alternativos de solução de
conflitos de consumo;
VI - coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo,
inclusive a concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações industriais das
marcas e nomes comerciais e signos distintivos, que possam causar prejuízos aos
consumidores;
VII - racionalização e melhoria dos serviços públicos;
VIII - estudo constante das modificações do mercado de consumo.
Por vulnerabilidade, há de se entender a fragilidade dos consumidores, em face dos
fornecedores, quer no que diz respeito ao aspecto econômico e de poder aquisitivo, quer no
que diz respeito às chamadas informações disponibilizadas pelo próprio fornecedor ou ainda
31
técnica. Ora, referidas informações, que podem ser, por exemplo, verdadeiras ou falsas, ou então
desatenderem às expectativas dos consumidores, mediante oferta, publicidade ou apresentação
(embalagens, bulas de remédios, manuais de uso, cartazes e outros meios visuais),
apresentando-se, por conseguinte, na fase chamada pré-contratual.
A Política Nacional das Relações de Consumo, tem por fim garantir não apenas a defesa
do consumidor, mas, também, estimular uma relação sadia de consumo.
Essa Política tem por objetivo respeitar e assegurar aos consumidores: dignidade; saúde
e segurança; proteção de seus interesses econômicos; melhoria da sua qualidade de vida;
transparência e harmonia das relações de consumo.
Além disso, a Política Nacional das Relações de Consumo deve atender aos princípios da
vulnerabilidade e proteção efetiva do consumidor; harmonização dos interesses dos
participantes das relações de consumo; compatibilização da proteção do consumidor com a
necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico; educação e informação dos sujeitos
das relações de consumo; incentivo à criação de meios eficientes de controle de qualidade e
segurança dos produtos e serviços; ampliação dos meios de solução alternativa de conflitos de
consumo; repressão aos abusos praticados no mercado; racionalização e melhoria dos serviços
públicos; e do estudo constante das modificações do mercado de consumo.
A execução dessas políticas contará com os seguintes instrumentos previstos na lei:
Art. 5º Para a execução da Política Nacional das Relações de Consumo, contará o poder
público com os seguintes instrumentos, entre outros:
I – manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita para o consumidor carente;
II – instituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no âmbito do
Ministério Público;
III – criação de delegacias de polícia especializadas no atendimento de consumidores
vítimas de infrações penais de consumo;
32
IV – criação de Juizados Especiais de Pequenas Causas e Varas Especializadas para a
solução de litígios de consumo;
V – concessão de estímulos à criação e desenvolvimento das Associações de Defesa do
Consumidor.
33
Constituição
Federa
Código de Defesa
do Consumidor
Leis Ordinárias
Direito do
Consumidor
•Fenômeno
recente
•Sociedade de
Consumo
•Proteção da parte
vulnerával da
relação
No Mundo
•Revolução
Industrial do Aço
e do Carvão
•New York
Consumers
League
•John F. Kennedy
(12.03.1962)
•ONU, 1985 -
Resol. 39/248
(Diretrizes do
Direito do
Consumidor)
Brasil
•Movimento
Consumerista
Brasileiro (1976)
•Conselho
Nacional de
Defesa do
Consumidor
(1985)
•Constituição
Federal de 1988
•Lei 8.078/1990
(Código de Defesa
do Consumidor)
• Direito do Consumidor como Direito
Fundamental
CF, 5º, inciso XXXII
• Competência para legislar sobre
Direito do Consumidor
CF, 24, V e VIII
• Direito do Consumidor como princípio
da atividade econômica
CF, 170, V
QUADRO SINÓTICO
Direito do
Consumidor
Dieito de 3ª
Geração
Previsão
Constitucional
Proteção da
Parte mais
vulnerável
34
QUESTÕES COMENTADAS
Questão 1
(CESPE - 2012 - TJ-PA - Juiz) À luz do CDC, julgue a opção seguinte: A defesa do consumidor
é um princípio fundamental da ordem econômica.
CERTO
ERRADO
Comentário:
De acordo com o art. 170, inciso V, da CF/88, a ordem econômica, fundada na valorização
do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna,
conforme os ditames da justiça social, observados os alguns princípios, dentre eles, a defesa
do consumidor.
Questão 2
(CESPE - 2013 – DPE-TO – Defensor Público) “A defesa do consumidor é um direito
constitucional fundamental e também um dos princípios da atividade econômica”.
CERTO
ERRADO
35
Comentário:
A CF/88 traz a proteção ao consumidor como direito fundamental no inciso XXXII do art.
5º e insere no art. 170, inciso V como um princípio da atividade econômica.
Questão 3
(TC-DF - 2002 – TC-DF – Procurador) “A defesa do consumidor é tratada, na Constituição da
República de 1988, de duas formas: como direito fundamental e como princípio da ordem
econômica”.
CERTO
ERRADO
Comentário:
A CF/88 traz a proteção ao consumidor como direito fundamental no inciso XXXII do art.
5º e insere no art. 170, inciso V como um princípio da atividade econômica.
Questão 4
(CESPE - 2012 – DPE-AC – Defensor Público) “O direito do consumidor está inserido entre os
direitos fundamentais de segunda geração”.
CERTO
ERRADO
36
Comentário:
O Direito do Consumidor, direito fundamental previsto no inciso XXXII, do art. 5º, da CF/88
é um direito fundamental de terceira geração, sendo obrigação do Estado proteger o
consumidor.
Questão 5
(CESPE - 2007 – TJ-PI – Juiz) “A defesa do consumidor não é um princípio da ordem econômica,
mas, sim, um direito fundamental de terceira geração”.
CERTO
ERRADO
Comentário:
A defesa do consumidor, além de ser um princípio da ordem econômica, consagrado no
art. 170, V da CF/88, também é um direito fundamental de terceira geração que se funda
na coletividade com ideia de solidariedade e fraternidade.
Questão 6
(FCC — 2012 — TJ-GO — Juiz) O Código de Defesa do Consumidor:
a) estabelece normas de defesa e de proteção dos consumidores e fornecedores de produtos e
serviços, de ordem pública e de interesse social.
b) estabelece normas de defesa e de proteção do consumidor, de ordem pública e de interesse
social, regulamentando normas constitucionais a respeito.
c) prevê normas de interesse geral, dispositivas e de regulamentação constitucional.
37
d) prevê normas de defesa e de proteção ao consumidor, dispositivas e de interesse individual,
sem vinculação constitucional.
e) estabelece normas de interesse coletivo geral, de ordem pública e interesse social, sem
vinculação com normas constitucionais.
Comentário:
O Código de Defesa do Consumidor traz, de acordo com a ConstituiçãoFederal, normas
atinentes à regulação das relações de consumo, bem como normas-regras e normas-
princípios destinadas à proteção do sujeito mais vulnerável na relação de consumo: o
consumidor; visando equiparar partes da relação consumerista.
Assim, o Código de Defesa do Consumidor, em seu art. 1º, traz a sua natureza de norma
de ordem pública e voltada ao interesse social. Apesar de a alternativa “a” parece
verdadeira em uma primeira leitura desatenta, esta encontra-se em erro ao afirmar que o
Código de Defesa do Consumidor visa a proteção dos fornecedores de produtos e serviços,
contrariando exatamente sua suma ratio e finalidade.
A alternativa “c” mostra-se em erronia, vez que o Código de Defesa do Consumidor elenca
normas de ordem pública, devendo tais normas ser seguidas independentemente da
vontade das partes ou de estipulação expressa. Já a alternativa “d” comete o mesmo erro
da assertiva “c”, contrariando a normatividade pública do Código de Defesa do
Consumidor, além de errar ao afirmar que não possui fundamento constitucional tal
proteção. Por fim, a assertiva “e” contradiz também a existência de fundamentação
constitucional do Código de Defesa do Consumidor, o que vem expresso em seu art. 1º.
38
Questão 7
(CESPE — 2011 — IFB — Professor) Acerca dos princípios e direitos do consumidor, julgue os
itens seguintes. Doravante, considere que a sigla CDC, sempre que utilizada, refere-se ao Código
de Defesa do Consumidor. O CDC é uma lei de ordem pública econômica e de interesse social.
CERTO
ERRADO
Comentário:
O Código de Defesa do Consumidor é destinado a proteger o consumidor diante das
inúmeras ofensas a direitos, sofridas nas relações de consumo. Para atingir tal anseio, o
Código se desdobra como norma de ordem pública e interesse social (art. 1º), vistas a
amplitude de relações que visa atingir e a necessidade imperiosa de sua aplicação, sendo
ao mesmo tempo inegável que tais relações não possuam caráter econômico. Ademais,
vale lembrar que a defesa do consumidor é princípio da ordem econômica.
Questão 8
(VUNESP — 2008 — TJ - SP — Juiz - Adaptada) O Código de Defesa do Consumidor: c) é lei
de ordem pública e exclui outros dispositivos legais que tratem de direitos e deveres do
consumidor.
Comentário:
A assertiva erra ao dispor que o Código de Defesa do Consumidor afastará outras normas
sobre direitos e deveres do consumidor, por exemplo os tratados e convenções.
39
Questão 9
(CESPE — 2009 — ADAGRI - CE — Agente Estadual Agropecuário). Os direitos previstos no
CDC excluem expressamente os decorrentes de tratados ou convenções internacionais de que
o Brasil seja signatário.
CERTO
ERRADO
Comentário:
O Código de Defesa do Consumidor visa dar ao sujeito vulnerável da relação consumerista
ampla proteção, mesmo que para atingir este fim precípuo necessite aplicar outras normas
garantidoras de direitos ao consumidor, como os tratados ou convenções internacionais
do qual seja parte nosso país (art. 7º do Código de Defesa do Consumidor), podendo
inclusive se valer dos direitos que resultem de princípios gerais do direito, analogia,
costumes e equidade.
Questão 10
(CESPE — 2008 — PC-TO — Delegado de Polícia) A defesa do consumidor encontra
supedâneo na Constituição Federal ao estabelecer que o Estado, na forma da lei, promoverá a
defesa dos direitos do consumidor. Por sua vez, o Código de Defesa do Consumidor preconiza
que as normas de proteção e defesa são de ordem pública e interesse social. Sendo assim, as
referidas normas têm de ser observadas mesmo que contrariem a vontade das partes.
CERTO
40
ERRADO
Comentário:
Encontrada no art. 1º do Código de Defesa do Consumidor a clara fundamentação
constitucional da proteção especial conferida ao sujeito vulnerável da relação consumerista,
partindo de seu fundamento constitucional (art. 5º, inciso XXXII e art. 170, inciso V, ambos
da Constituição Federal de 1988 e art. 48 dos Atos das Disposições Constitucionais
Transitórias) até alcançar as normas infraconstitucionais protetivas. Assim, além de ter
fundamento na Constituição Federal, o Código de Defesa do Consumidor derroga a
vontade das partes toda vez que estas tentarem afastar suas normas, tendo então cunho
imperativo.
Questão 11
(CEPERJ — 2012 — PROCON -RJ — Agente de Proteção e Defesa do Consumidor) A defesa
do consumidor tem base constitucional que indica a necessidade de edição do seguinte Código:
a) Civil.
b) de Defesa do Consumidor.
c) Comercial.
d) Tributário.
e) Desportivo.
Comentário:
A proteção do consumidor, parte vulnerável da relação consumerista, possui fundamento
constitucional, sendo direito fundamental previsto no art. 5º, inciso XXXII, da Constituição
Federal de 1988, além de ser ao mesmo tempo um norte a Livre Iniciativa, atuando como
41
princípio da Ordem Econômica (art. 170, inciso V, Constituição Federal de 1988), o que
resultou em especial atenção do Constituinte, estipulando o prazo de 120 (cento e vinte)
dias ao Congresso Nacional para a elaboração de um Código de Defesa do Consumidor,
conforme previsão trazida no art. 48 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias.
Questão 12
(FCC - 2013 - TJ-PE – Juiz Substituto – Adaptada) No tocante às relações de consumo, as
normas consumeristas são de natureza dispositiva e de interesse individual dos consumidores.
CERTO
ERRADO
Comentário:
Uma vez estabelecido que as normas inseridas no Código de Defesa do Consumidor são
de ordem púbica e de interesse social, conforme preleciona do art. 1º do Código de Defesa
do Consumidor, o diploma consumerista passa a deter natureza de norma cogente,
provocando sua incidência independentemente da vontade das partes, o que permite sua
aplicação de ofício pelo juiz, além de impossibilitar, no caso concreto, a alteração das
situações jurídicas regulada por tal Código.
Questão 13
(FCC - 2018 - DPE-AM - Defensor Público) Por se tratarem de normas cogentes de ordem
pública e de inegável interesse social, os contratos firmados sob o pálio do Código de
Defesa do Consumidor ocasionam a:
42
a) impossibilidade de modulação dos efeitos das cláusulas contratuais, na fase de execução
do contrato, quando verificada a aplicação da teoria da quebra da base objetiva.
b) inversão do ônus da prova, benefício que não pode ser estendido às pessoas jurídicas
consumidoras, ainda quando reconhecida sua vulnerabilidade no caso concreto.
c) possibilidade, pelo julgador, de ofício, em reconhecer a nulidade de cláusulas abusivas,
com exceção daquelas previstas em contratos bancários.
d) declaração de nulidade de cláusula compromissória compulsória, salvo quando o
consumidor pessoa física não for hipossuficiente econômico.
e) responsabilidade objetiva do fabricante, distribuidor, montador, prestadores de serviços,
profissionais liberais e demais fornecedores de produto e/ou serviço, no descumprimento
contratual por vício do produto ou serviço.
Comentário:
O Art. 6º, inciso V do Código de Defesa do Consumidor não adota a Teoria da Imprevisão,
mas a Teoria da Base Objetiva do Negócio, o que quer dizer que o negócio deve ser revisto
se, objetivamente, estiver desequilibrado (ainda que anteriormente fosse previsível ou
mesmo previsto o desequilíbrio). Pela leitura do art. 6º, inciso V, basta a superveniência de
fato que determine desequilíbrio na relação contratual diferida ou continuada para que
seja possível a postulação de sua revisão ou resolução, em virtude da incidência da teoria
da base objetiva. O requisito de o fato não ser previsível nem extraordinário não é exigido
para a Teoria da Base Objetiva, mas tão somente a modificação nas circunstâncias
indispensáveis que existiam no momento da celebração do negócio, ensejando
onerosidadeou desproporção para uma das partes.
Com relação à assertiva “c” atente-se à Súmula nº 381 do STJ: Nos contratos bancários, é
vedado ao julgador conhecer, de ofício, da abusividade das cláusulas.
43
A alternativa “d” está incorreta frente ao art. 51, inciso VII, do Código de Defesa do
Consumidor, lembrando que temos duas formas de escolher a arbitragem: fazendo uma
"cláusula compromissória" (art. 4º da Lei de Arbitragem - Lei nº 9.307/1996) ou fazendo
um "compromisso arbitral" (art. 9º dessa mesma lei especial).
Já a alternativa “e” encontra-se incorreta por força do art. 14, parágrafo 4º, dó Código de
Defesa do Consumidor que diz que “A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais
será apurada mediante a verificação de culpa”.
Questão 14
(TRF 2 - 2014 - TRF - 2ª Região - Juiz Federal - Adaptada) Foram propostas algumas ações
em face da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT), pleiteando ressarcimento de danos oriundos
do extravio de grande quantidade de cartas e postagens, efetivamente ocorrida em certa
comunidade carente. Uma dessas ações é de natureza coletiva. A inversão do ônus da prova
depende de requerimento da parte, e não pode ser determinada ex officio pelo juiz.
Comentário:
Por ser o Código de Defesa do Consumidor uma norma de ordem pública e de interesse
social (art. 1º, do Código de Defesa do Consumidor), com previsão constitucional (art. 5º,
inciso XXXII da Constituição Federal de 1988 e art. 48 dos Atos das Disposições
Constitucionais Transitórias), a inversão do ônus da prova não depende de requerimento
da parte, e pode ser determinada ex officio pelo juiz.
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Questão 15
(CESPE – 2013 – TJBA - Titular de Serviços de Notas e de Registros – Adaptada) Considerando
a jurisprudência do STJ acerca das relações de consumo e dos direitos do consumidor, assinale
a opção correta: Por ser absoluta a proteção ao consumidor, a abusividade de cláusula inserida
em contrato bancário pode ser reconhecida de ofício pelo julgador.
CERTO
ERRADO
Comentário:
A assertiva é contrária a entendimento sumulado do STJ (Súmula 381, STJ).
45
GABARITO
Questão 1 - Certo
Questão 2 - Certo
Questão 3 - Certo
Questão 4 - Errada
Questão 5 - Errada
Questão 6 - B
Questão 7 - Certo
Questão 8 - Errada
Questão 9 - Errada
Questão 10 - Certo
Questão 11 - B
Questão 12 - Errada
Questão 13 - C
Questão 14 - Errada
Questão 15 - Errada
46
QUESTÃO DESAFIO
Comente acerca do diálogo das fontes no microssistema do CDC,
englobando tanto a legislação interna quanto à internacional.
Responda em até cinco linhas
47
GABARITO DA QUESTÃO DESAFIO
O artigo sétimo do CDC evidencia uma cláusula de abertura deste microssistema (CDC), isto
é, reconhece a possibilidade de aplicação simultânea de várias fontes legislativas. Assim, no
campo interno, destaca-se a relação do CDC com o CC. Já, no plano internacional, há a
Convenção de Varsóvia.
Você deve ter abordado necessariamente os seguintes itens em sua resposta:
Aplicação simultânea-múltiplas fontes legislativas
O diálogo das fontes é uma expressão criada para determinar a aplicação simultânea e coerente
de múltiplas fontes legislativas.
O Código de Defesa do Consumidor prevê expressamente a realização desse diálogo das fontes
ao afirmar em seu artigo sétimo que os direitos previstos no mencionado Código não excluem
outros decorrentes de Tratados ou Convenções Internacionais de que o Brasil seja signatário, da
legislação interna ordinária, bem como dos que derivem dos princípios gerais do direito,
analogia, costumes e equidade.
Assim, o CDC foi expresso ao ressaltar que a legislação apresentada nesse código não é
“fechada”, de modo que é possível a compatibilização das normas expressas com outras normas
protetoras. (GARCIA, Leonardo; Direito do Consumidor-Leis Especiais para Concurso; Ed.13;
Juspodivm).
Código Civil (contrato) - três diálogos
A principal conexão do CDC com a legislação interna ocorre com o Código Civil tendo em vista
a forte aproximação principiológica que existe entre ambos, sempre visando ampliar os direitos
e garantir os benefícios aos consumidores. Exemplo disso é a matéria de “contratos”, a qual é
primordial para definir o encargo contratual atribuído ao consumidor que seja considerado
abusivo.
48
Conforme os ensinamentos de Cláudia Lima Marques são três os diálogos possíveis entre o
Código Civil e o Consumidor: a) aplicação simultânea das duas leis (quando uma lei serve de
base conceitual para outra), b) aplicação coordenada das duas leis (quando uma lei pode
complementar a aplicação da outra), c) pelo diálogo das influências recíprocas (diálogo de
coordenação e adaptação sistemática).(GARCIA, Leonardo; Direito do Consumidor-Leis Especiais
para Concurso; Ed.13; Juspodivm).
Convenção de Varsóvia e Montreal-transporte interno
No plano internacional, é possível destacar o embate existente entre a Convenção de Varsóvia
e Montreal e o Código de Defesa do Consumidor na hipótese de ocorrência do extravio de
bagagem ocorrido em transporte internacional. No caso, o STF apresentou decisão no sentido
de que na ocorrência desse fato deverá ocorrer a indenização tarifada aplicada pela Convenção
de Varsóvia e não a reparação integral determinada pelo CDC, com fundamento na previsão
constitucional (art.178) a qual garante prevalência aos Tratados Internacionais no caso de viagem
internacional. (GARCIA, Leonardo; Direito do Consumidor-Leis Especiais para Concurso; Ed.13;
Juspodivm).
49
LEGISLAÇÃO COMPILADA
Tutela Constitucional do Direito do Consumidor:
CF/88: Arts. 5º, inciso XXXII, 150 §5º, 170, inciso V, e art. 48;
ADCT: Art. 48;
Direito do Consumidor:
CDC: Arts. 1º, 4º, 5º e 7º.
Súmula 381, STJ
Nos contratos bancários é vedado ao julgador conhecer de ofício, da abusividade das cláusulas.
Súmula 643, STF
O Ministério Público tem legitimidade para promover ação civil pública cujo fundamento seja a ilegalidade de
reajuste de mensalidades escolares.
50
JURISPRUDÊNCIA
Direito do Consumidor na Constituição Federal
STJ: HC 12547, Rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJ 12.02.2001
Princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. Direitos fundamentais de igualdade e liberdade. Cláusula
geral dos bons costumes e regra de interpretação da lei segundo seus fins sociais. Decreto de prisão civil da
devedora que deixou de pagar dívida bancária assumida com a compra de um automóvel-táxi, que se elevou, em
menos de 24 meses, de R$ 18.700,00 para R$ 86.858,24, a exigir que o total da remuneração da devedora, pelo
resto do tempo provável de vida, seja consumido com o pagamento dos juros. Ofensa ao princípio constitucional
da dignidade da pessoa humana, aos direitos de liberdade de locomoção e de igualdade contratual e aos
dispositivos da LICC sobre o fim social da aplicação da lei e obediência aos bons costumes.
STF: RE 201.819, Rel. Min. Ellen Gracie, Rel. para acórdão Min. Gilmar Mendes, DJ. 11.10.2005
SOCIEDADE CIVIL SEM FINS LUCRATIVOS. UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES. EXCLUSÃO DE SÓCIO SEM
GARANTIA DA AMPLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO. EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES
PRIVADAS. RECURSO DESPROVIDO. I. EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES PRIVADAS. As
violações a direitos fundamentais não ocorrem somente no âmbito das relações entre o cidadão e o Estado, mas
igualmente nas relações travadas entre pessoas físicas e jurídicas de direito privado. Assim, os direitos fundamentais
assegurados pela Constituição vinculam diretamente não apenas os poderes públicos, estando direcionados
também à proteção dos particulares em face dos poderes privados. II. OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS COMO
LIMITES À AUTONOMIA PRIVADA DAS ASSOCIAÇÕES.A ordem jurídico-constitucional brasileira não conferiu a
qualquer associação civil a possibilidade de agir à revelia dos princípios inscritos nas leis e, em especial, dos
postulados que têm por fundamento direto o próprio texto da Constituição da República, notadamente em tema
de proteção às liberdades e garantias fundamentais. O espaço de autonomia privada garantido pela Constituição
às associações não está imune à incidência dos princípios constitucionais que asseguram o respeito aos direitos
fundamentais de seus associados. A autonomia privada, que encontra claras limitações de ordem jurídica, não pode
ser exercida em detrimento ou com desrespeito aos direitos e garantias de terceiros, especialmente aqueles
positivados em sede constitucional, pois a autonomia da vontade não confere aos particulares, no domínio de sua
incidência e atuação, o poder de transgredir ou de ignorar as restrições postas e definidas pela própria Constituição,
cuja eficácia e força normativa também se impõem, aos particulares, no âmbito de suas relações privadas, em tema
51
de liberdades fundamentais. III. SOCIEDADE CIVIL SEM FINS LUCRATIVOS. ENTIDADE QUE INTEGRA ESPAÇO
PÚBLICO, AINDA QUE NÃO-ESTATAL. ATIVIDADE DE CARÁTER PÚBLICO. EXCLUSÃO DE SÓCIO SEM GARANTIA DO
DEVIDO PROCESSO LEGAL.APLICAÇÃO DIRETA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS À AMPLA DEFESA E AO
CONTRADITÓRIO. As associações privadas que exercem função predominante em determinado âmbito econômico
e/ou social, mantendo seus associados em relações de dependência econômica e/ou social, integram o que se
pode denominar de espaço público, ainda que não-estatal. A União Brasileira de Compositores – UBC, sociedade
civil sem fins lucrativos, integra a estrutura do ECAD e, portanto, assume posição privilegiada para determinar a
extensão do gozo e fruição dos direitos autorais de seus associados. A exclusão de sócio do quadro social da UBC,
sem qualquer garantia de ampla defesa, do contraditório, ou do devido processo constitucional, onera
consideravelmente o recorrido, o qual fica impossibilitado de perceber os direitos autorais relativos à execução de
suas obras. A vedação das garantias constitucionais do devido processo legal acaba por restringir a própria
liberdade de exercício profissional do sócio. O caráter público da atividade exercida pela sociedade e a dependência
do vínculo associativo para o exercício profissional de seus sócios legitimam, no caso concreto, a aplicação direta
dos direitos fundamentais concernentes ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa (art. 5º, LIV e
LV, CF/88). IV. RECURSO EXTRAORDINÁRIO DESPROVIDO.
STJ: REsp. 744.602, Rel. Min. Luiz Fux, j. 01/03/07, DJ 15.03.07. RECURSO ESPECIAL Nº 744.602 -
RJ (2005/0067467-0)
ADMINISTRATIVO. RECURSO ESPECIAL. APLICAÇÃO DE MULTA PECUNIÁRIA POR OFENSA AO CÓDIGO DE DEFESA
DO CONSUMIDOR. OPERAÇÃO DENOMINADA 'VENDA CASADA' EM CINEMAS. CDC, ART. 39, I. VEDAÇÃO DO
CONSUMO DE ALIMENTOS ADQUIRIDOS FORA DOS ESTABELECIMENTOS CINEMATOGRÁFICOS. 1. A intervenção
do Estado na ordem econômica, fundada na livre iniciativa, deve observar os princípios do direito do consumidor,
objeto de tutela constitucional fundamental especial (CF, arts. 170 e 5º, XXXII). 2. Nesse contexto, consagrou-se ao
consumidor no seu ordenamento primeiro a saber: o Código de Defesa do Consumidor Brasileiro, dentre os seus
direitos básicos “a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a
liberdade de escolha e a igualdade nas contratações” (art. 6º, II, do CDC). 3. A denominada ‘venda casada’, sob
esse enfoque, tem como ratio essendi da vedação a proibição imposta ao fornecedor de, utilizando de sua
superioridade econômica ou técnica, opor-se à liberdade de escolha do consumidor entre os produtos e serviços
de qualidade satisfatório e preços competitivos. 4. Ao fornecedor de produtos ou serviços, consectariamente, não
é lícito, dentre outras práticas abusivas, condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de
outro produto ou serviço (art. 39, § 2º, do CDC). 5. A prática abusiva revela-se patente se a empresa cinematográfica
permite a entrada de produtos adquiridos na suas dependências e interdita o adquirido alhures, engendrando por
via oblíqua a cognominada 'venda casada', interdição inextensível ao estabelecimento cuja venda de produtos
alimentícios constituiu a essência da sua atividade comercial como, verbi gratia, os bares e restaurantes. 6. O juiz,
na aplicação da lei, deve aferir as finalidades da norma, por isso que, in casu, revela-se manifesta a prática abusiva.
7. A aferição do ferimento à regra do art. 170, da CF é interditada ao STJ, porquanto a sua competência cinge-se
52
ao plano infraconstitucional. 8. Inexiste ofensa ao art. 535 do CPC, quando o Tribunal de origem, embora
sucintamente, pronuncia-se de forma clara e suficiente sobre a questão posta nos autos. Ademais, o magistrado
não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados
tenham sido suficientes para embasar a decisão. 9. Recurso especial improvido.
STF: RE 432.789, Rel. Min. Erus Grau, DJ 07.10.2005
Recurso Extraordinário. Constitucional. Consumidor. Instituição Bancária. Atendimento ao Público. Fila. Tempo de
espera. Lei Municipal. Norma de interesse local. Legitimidade. Lei Municipal 4.188/01. Banco. Atendimento ao
público e tempo máximo de espera na fila. Matéria que não se confunde com a atinente às atividades bancárias.
Matéria de interesse local e de proteção ao consumidor. Competência legislativa do Município. Recurso
extraordinário conhecido e provido.
Código de Defesa do Consumidor
STJ: 2ª Turma. REsp 1419557/SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 06/05/2014
PROCESSUAL CIVIL E DIREITO DO CONSUMIDOR. PREÇO DO PRODUTO OU SERVIÇO. INFRAÇÃO AO ART. 31 DO
CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. DOSIMETRIA DA SANÇÃO ADMINISTRATIVA. REEXAME DE PROVAS.
SÚMULA 7 DO STJ. NORMAS DE ORDEM PÚBLICA E INTERESSE SOCIAL. CONHECIMENTO EX OFFICIO5. 1. Verificar
se os produtos expostos na loja possuíam preços e se existe comissão permanente para elaboração, revisão e
atualização das normas infralegais no Estado de São Paulo esbarra em reexame do contexto fático-probatório da
lide, vedado ao STJ, nos termos de sua Súmula 7. 2. Aplicou-se multa à recorrente com base em dispositivos legais,
arts. 31, 56, I, e 57 do CDC, conforme se verifica do Auto de Infração em anexo (fl. 22, e-STJ). 3. As normas e
princípios do CDC são de ordem pública e interesse social, devendo ser aplicados imperativamente, inclusive pelo
juiz, por serem de conhecimento ex officio. 4. O preço representa elemento informativo essencial sem o qual se
usurpa do consumidor o mais básico dos seus direitos econômicos - a livre escolha no mercado. Onde falta preço
correto, claro, preciso, ostensivo e em moeda nacional, inexiste a rigor liberdade plena na relação de consumo,
pois inviabilizada a comparação com produtos e serviços similares. É grave atentado simultâneo a duas ordens
jurídicas: ao Direito do Consumidor e ao Direito da Concorrência. 5. Sanções administrativas apresentam, a um só
tempo, função punitiva (= repressiva) e função inibitória (= dissuasiva ou pedagógica), aquela destinada à
reprimenda por ato já praticado, esta com a finalidade de desencorajar comportamento ilícito futuro, do próprio
infrator (= dissuasão especial) ou de terceiros (= dissuasão geral). Haverão de ser fixadas em patamar que, no caso
concreto, respeite a razoabilidade, de modo a rechaçar ora o caráter exagerado ou confiscatório, ora, no outro
extremo, a irrisoriedade, que destrói a credibilidade da medida e permite ao infrator computá-la como "custo
normal e vão do negócio". Daí que no cálculo da multa amiúde se deve levar em conta o faturamento bruto do
fornecedor, e não o lucro específico com o ato ilícito em questão, poisdo contrário, na prática, se equiparam
5 Vide questões 14 e 15 desse material.
53
injustamente, pela via transversa, pequeno e grande empresário. 6. Recurso Especial não provido. (REsp 1419557/SP,
Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/05/2014, DJe 07/11/2016)
STF: Plenário RE 631111/GO, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 06 e 07/08/2014.
RECURSO ESPECIAL - AÇÃO CIVIL PÚBLICA AJUIZADA PELO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL NA DEFESA DE
INTERESSES DE BENEFICIÁRIOS DO SEGURO DPVAT - SUPERVENIENTE JULGAMENTO DE RECURSO
EXTRAORDINÁRIO SOB O RITO DO ARTIGO 543-B DO CPC - JUÍZO DE RETRATAÇÃO DO ACÓRDÃO DA SEGUNDA
SEÇÃO DISSONANTE DA NOVA ORIENTAÇÃO DO STF. Ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Estadual
em defesa de beneficiários do seguro DPVAT. Alegado pagamento a menor das indenizações devidas pela
seguradora. Acórdão estadual que, reformando a sentença extintiva do feito, reconheceu a legitimidade ativa ad
causam do Ministério Público. Recurso especial da seguradora anteriormente provido pela Segunda Seção,
considerada a ilegitimidade do parquet para, em substituição às vítimas de acidentes de trânsito, pleitear o
pagamento de diferenças atinentes à indenização securitária obrigatória (DPVAT). Interposto recurso extraordinário
pelo Ministério Público, cujo processamento foi sobrestado em razão da pendência de reclamo submetido ao rito
do artigo 543-B do CPC. Julgado o mérito, pelo STF, do RE 631.111/GO, os autos retornaram à apreciação da
Segunda Seção para exercício do juízo de retratação. 1. O Plenário do STF, quando do julgamento de recurso
extraordinário representativo da controvérsia (RE 631.111/GO, Rel. Ministro Teori Zavascki, julgado em 07.08.2014,
publicado em 30.10.2014), decidiu que o Ministério Público detém legitimidade para ajuizar ação coletiva em defesa
dos direitos individuais homogêneos dos beneficiários do seguro DPVAT (seguro obrigatório, por força da Lei
6.194/74, voltado à proteção das vítimas de acidentes de trânsito), dado o interesse social qualificado presente na
tutela dos referidos direitos subjetivos. 2. Súmula 470/STJ ("O Ministério Público não tem legitimidade para pleitear,
em ação civil pública, a indenização decorrente do DPVAT em benefício do segurado."). Exegese superada em razão
da superveniente jurisprudência do STF firmada sob o rito do artigo 543-B do CPC. 3. Juízo de retratação (artigo
543-B, § 3º, do CPC). 3.1. Recurso especial da seguradora desprovido, mantido o acórdão estadual que reconhecera
a legitimidade ativa ad causam do Ministério Público Estadual e determinara o retorno dos autos ao magistrado
de primeira instância para apreciação da demanda. 3.2. Cancelamento da Súmula 470/STJ (artigos 12, parágrafo
único, inciso III, e 125, §§ 1º e 3º, do Regimento Interno desta Corte). (REsp 858.056/GO, Rel. Ministro MARCO
BUZZI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 27/05/2015, DJe 05/06/2015) Ementa: CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL
CIVIL. AÇÃO CIVIL COLETIVA. DIREITOS TRANSINDIVIDUAIS (DIFUSOS E COLETIVOS) E DIREITOS INDIVIDUAIS
HOMOGÊNEOS. DISTINÇÕES. LEGITIMAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO. ARTS. 127 E 129, III, DA CF. LESÃO A
DIREITOS INDIVIDUAIS DE DIMENSÃO AMPLIADA. COMPROMETIMENTO DE INTERESSES SOCIAIS QUALIFICADOS.
SEGURO DPVAT. AFIRMAÇÃO DA LEGITIMIDADE ATIVA. 1. Os direitos difusos e coletivos são transindividuais,
indivisíveis e sem titular determinado, sendo, por isso mesmo, tutelados em juízo invariavelmente em regime de
substituição processual, por iniciativa dos órgãos e entidades indicados pelo sistema normativo, entre os quais o
Ministério Público, que tem, nessa legitimação ativa, uma de suas relevantes funções institucionais (CF art. 129, III).
2. Já os direitos individuais homogêneos pertencem à categoria dos direitos subjetivos, são divisíveis, tem titular
54
determinado ou determinável e em geral são de natureza disponível. Sua tutela jurisdicional pode se dar (a) por
iniciativa do próprio titular, em regime processual comum, ou (b) pelo procedimento especial da ação civil coletiva,
em regime de substituição processual, por iniciativa de qualquer dos órgãos ou entidades para tanto legitimados
pelo sistema normativo. 3. Segundo o procedimento estabelecido nos artigos 91 a 100 da Lei 8.078/90, aplicável
subsidiariamente aos direitos individuais homogêneos de um modo geral, a tutela coletiva desses direitos se dá
em duas distintas fases: uma, a da ação coletiva propriamente dita, destinada a obter sentença genérica a respeito
dos elementos que compõem o núcleo de homogeneidade dos direitos tutelados (an debeatur, quid debeatur e
quis debeat); e outra, caso procedente o pedido na primeira fase, a da ação de cumprimento da sentença genérica,
destinada (a) a complementar a atividade cognitiva mediante juízo específico sobre as situações individuais de cada
um dos lesados (= a margem de heterogeneidade dos direitos homogêneos, que compreende o cui debeatur e o
quantum debeatur), bem como (b) a efetivar os correspondentes atos executórios. 4. O art. 127 da Constituição
Federal atribui ao Ministério Público, entre outras, a incumbência de defender “interesses sociais”. Não se pode
estabelecer sinonímia entre interesses sociais e interesses de entidades públicas, já que em relação a estes há
vedação expressa de patrocínio pelos agentes ministeriais (CF, art. 129, IX). Também não se pode estabelecer
sinonímia entre interesse social e interesse coletivo de particulares, ainda que decorrentes de lesão coletiva de
direitos homogêneos. Direitos individuais disponíveis, ainda que homogêneos, estão, em princípio, excluídos do
âmbito da tutela pelo Ministério Público (CF, art. 127). 5. No entanto, há certos interesses individuais que, quando
visualizados em seu conjunto, em forma coletiva e impessoal, têm a força de transcender a esfera de interesses
puramente particulares, passando a representar, mais que a soma de interesses dos respectivos titulares, verdadeiros
interesses da comunidade. Nessa perspectiva, a lesão desses interesses individuais acaba não apenas atingindo a
esfera jurídica dos titulares do direito individualmente considerados, mas também comprometendo bens, institutos
ou valores jurídicos superiores, cuja preservação é cara a uma comunidade maior de pessoas. Em casos tais, a tutela
jurisdicional desses direitos se reveste de interesse social qualificado, o que legitima a propositura da ação pelo
Ministério Público com base no art. 127 da Constituição Federal. Mesmo nessa hipótese, todavia, a legitimação
ativa do Ministério Público se limita à ação civil coletiva destinada a obter sentença genérica sobre o núcleo de
homogeneidade dos direitos individuais homogêneos. 6. Cumpre ao Ministério Público, no exercício de suas funções
institucionais, identificar situações em que a ofensa a direitos individuais homogêneos compromete também
interesses sociais qualificados, sem prejuízo do posterior controle jurisdicional a respeito. Cabe ao Judiciário, com
efeito, a palavra final sobre a adequada legitimação para a causa, sendo que, por se tratar de matéria de ordem
pública, dela pode o juiz conhecer até mesmo de ofício (CPC, art. 267, VI e § 3.º, e art. 301, VIII e § 4.º). 7.
Considerada a natureza e a finalidade do seguro obrigatório DPVAT – Danos Pessoais Causados por Veículos
Automotores de Via Terrestre (Lei 6.194/74, alterada pela Lei 8.441/92, Lei 11.482/07 e Lei 11.945/09) -, há interesse
social qualificado na tutela coletiva dos direitos individuais homogêneos dos seus titulares, alegadamente lesados
de forma semelhante pela Seguradora no pagamento das correspondentes indenizações. A hipótese guarda
semelhança com outros direitos individuais homogêneos em relação aos quais - e não obstante sua natureza de
direitos divisíveis, disponíveis e com titular determinado ou determinável -, o Supremo TribunalFederal considerou
55
que sua tutela se revestia de interesse social qualificado, autorizando, por isso mesmo, a iniciativa do Ministério
Público de, com base no art. 127 da Constituição, defendê-los em juízo mediante ação coletiva (RE 163.231/SP, AI
637.853 AgR/SP, AI 606.235 AgR/DF, RE 475.010 AgR/RS, RE 328.910 AgR/SP e RE 514.023 AgR/RJ). 8. Recurso
extraordinário a que se dá provimento. (RE 631111, Relator(a): Min. TEORI ZAVASCKI, Tribunal Pleno, julgado em
07/08/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-213 DIVULG 29-10-2014 PUBLIC 30-10-
2014)
STF: RE 351.750-3/RJ – Rel. Min. Carlos Britto, j. 17.03.2009 – DJe 25.09.2009
Recurso extraordinário. Danos morais decorrentes de atraso ocorrido em voo internacional. Aplicação do Código
de Defesa do Consumidor. Matéria infraconstitucional. Não conhecimento. 1. O princípio da defesa do consumidor
se aplica a todo o capítulo constitucional da atividade econômica. 2. Afastam-se as normas especiais do Código
Brasileiro da Aeronáutica e da Convenção de Varsóvia quando implicarem retrocesso social ou vilipêndio aos direitos
assegurados pelo Código de Defesa do Consumidor. 3. Não cabe discutir, na instância extraordinária, sobre a
correta aplicação do Código de Defesa do Consumidor ou sobre a incidência, no caso concreto, de específicas
normas de consumo veiculadas em legislação especial sobre o transporte aéreo internacional. Ofensa indireta à
Constituição da República. 4. Recurso não conhecido.
STJ: REsp 1.073.595/MG, Rel. Ministra Nancy Andrighi, DJe 29.04.2011
RECURSO ESPECIAL - NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL - OMISSÃO - NÃO-OCORRÊNCIA - AÇÃO DE
OBRIGAÇÃO DE FAZER - CONTRATO DE SEGURO DE VIDA - RESILIÇÃO UNILATERAL - IMPOSIÇÃO PARA
READAPTAÇÃO A NOVAS PROPOSTAS - ABUSIVIDADE DA CLÁUSULA - OCORRÊNCIA, NA ESPÉCIE - PRECEDENTE
DA SEGUNDA SEÇÃO DO STJ - RECURSO IMPROVIDO. I - Não se verifica a alegada violação do artigo 535 do
Código de Processo Civil, porquanto a questão relativa à licitude da cláusula contratual que contempla a não
renovação do contrato de seguro de vida foi apreciada de forma clara e coerente, naquilo que pareceu relevante
à Turma Julgadora a quo; II - A pretensão da seguradora de modificar abruptamente as condições do seguro, não
renovando o ajuste anterior sob as mesmas bases, ofende os princípios da boa fé objetiva, da cooperação, da
confiança e da lealdade que deve orientar a interpretação dos contratos que regulam relações de consumo; III -
Recurso especial improvido.
STJ: AgRg no AgRg nos EDcl no REsp 323.519/MT, Rel. Ministro Raul Araújo, julgado em
28/08/2012, DJe 18/09/2012
AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. CDC. APLICAÇÃO RETROATIVA. IMPOSSIBILIDADE. OBRIGAÇÃO DE
TRATO SUCESSIVO. RENOVAÇÃO DO CONTRATO NA VIGÊNCIA DO CDC. INCIDÊNCIA DA LEGISLAÇÃO
CONSUMERISTA. 1. O Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90) não é aplicável aos contratos celebrados
antes da sua vigência. 2.- Embora o CDC não retroaja para alcançar efeitos presentes e futuros de contratos
celebrados anteriormente a sua vigência, a legislação consumerista regula os efeitos presentes de contratos de
trato sucessivo e que, por isso, foram renovados já no período de sua vigência. 3. A discussão posta nos autos,
56
incidência do CDC, foi objeto do devido prequestionamento no acórdão recorrido, não havendo óbice a sua
apreciação nesta Corte. Para se examinar se o caso é, ou não, de aplicação do CDC foi submetida a esta Corte a
análise das questões pertinentes ao deslinde do incidente, entre as quais a ocorrência de renovação do contrato,
bem como a existência de obrigação de trato sucessivo, aspectos devidamente suscitados nas contrarrazões ao
especial. 4. Agravo regimental não provido.
STJ: REsp 1.060.515/DF, Rel. Des. Conv. Honildo Amaral de Mello Castro – j. 04.05.2010 – DJe
24.05.2010
Ação civil pública. Contrato de arrendamento mercantil – leasing. Cláusula de seguro. Abusividade. Inocorrência. 1.
Não se pode interpretar o Código de Defesa do Consumidor de modo a tornar qualquer encargo contratual
atribuído ao consumidor como abusivo, sem observar que as relações contratuais se estabelecem, igualmente,
através de regras de direito civil. 2. O CDC não exclui a principiologia dos contratos de direito civil. Entre as normas
consumeristas e as regras gerais dos contratos, insertas no Código Civil e legislação extravagante, deve haver
complementação e não exclusão. É o que a doutrina chama de Diálogo das Fontes. 3. Ante a natureza do contrato
de arrendamento mercantil ou leasing, em que pese a empresa arrendante figurar como proprietária do bem, o
arrendatário possui o dever de conservar o bem arrendado, para que ao final da avença, exercendo o seu direito,
prorrogue o contrato, compre ou devolva o bem. 4. A cláusula que obriga o arrendatário a contratar seguro em
nome da arrendante não é abusiva, pois aquele possui dever de conservação do bem, usufruindo da coisa como
se dono fosse, suportando, em razão disso, riscos e encargos inerentes a sua obrigação. O seguro, nessas
circunstâncias, é garantia para o cumprimento da avença, protegendo o patrimônio do arrendante, bem como o
indivíduo de infortúnios. 5. Rejeita-se, contudo, a venda casada, podendo o seguro ser realizado em qualquer
seguradora de livre escolha do interessado 6. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, provido”
STJ: REsp 1009591/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 13.04.2010 – DJe 23.08.2010
Consumidor e civil. Art. 7º do CDC. Aplicação da lei mais favorável. Diálogo de fontes. Relativização do princípio
da especialidade. Responsabilidade civil. Tabagismo. Relação de consumo. Ação indenizatória. Prescrição. Prazo. O
mandamento constitucional de proteção do consumidor deve ser cumprido por todo o sistema jurídico, em diálogo
de fontes, e não somente por intermédio do CDC. Assim, e nos termos do art. 7º do CDC, sempre que uma lei
garantir algum direito para o consumidor, ela poderá se somar ao microssistema do CDC, incorporando-se na
tutela especial e tendo a mesma preferência no trato da relação de consumo. Diante disso, conclui-se pela
inaplicabilidade do prazo prescricional do art. 27 do CDC à hipótese dos autos, devendo incidir a prescrição
vintenária do art. 177 do CC/1916, por ser mais favorável ao consumidor. Recente decisão da 2ª Seção, porém,
pacificou o entendimento quanto à incidência na espécie do prazo prescricional de 5 anos previsto no art. 27 do
CDC, que deve prevalecer, com a ressalva do entendimento pessoal da Relatora. Recursos especiais providos.
STJ: REsp 1.321.614-SP, Rel. originário Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Rel. para acórdão Min.
Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 16/12/2014, DJe 3/3/2015.
57
RECURSO ESPECIAL. CIVIL. AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO DE COMPRA E VENDA. DÓLAR AMERICANO.
MAXIDESVALORIZAÇÃO DO REAL. AQUISIÇÃO DE EQUIPAMENTO PARA ATIVIDADE PROFISSIONAL. AUSÊNCIA DE
RELAÇÃO DE CONSUMO. TEORIAS DA IMPREVISÃO. TEORIA DA ONEROSIDADE EXCESSIVA. TEORIA DA BASE
OBJETIVA. INAPLICABILIDADE. 1. Ação proposta com a finalidade de, após a maxidesvalorização do real em face
do dólar americano, ocorrida a partir de janeiro de 1999, modificar cláusula de contrato de compra e venda, com
reserva de domínio, de equipamento médico (ultrassom), utilizado pelo autor no exercício da sua atividade
profissional de médico, para que, afastada a indexação prevista, fosse observada a moeda nacional. 2. Consumidor
é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza, como destinatário final, produto ou serviço oriundo de um
fornecedor. Por sua vez, destinatário final, segundo a teoria subjetiva ou finalista, adotada pela Segunda Seção
desta Corte Superior, é aquele que ultima a atividade econômica, ou seja, que retira de circulação do mercado o
bem ou o serviço para consumi-lo, suprindo uma necessidade ou satisfação própria, não havendo, portanto,a
reutilização ou o reingresso dele no processo produtivo. Logo, a relação de consumo (consumidor final) não pode
ser confundida com relação de insumo (consumidor intermediário). Inaplicabilidade das regras protetivas do Código
de Defesa do Consumidor. 3. A intervenção do Poder Judiciário nos contratos, à luz da teoria da imprevisão ou da
teoria da onerosidade excessiva, exige a demonstração de mudanças supervenientes das circunstâncias iniciais
vigentes à época da realização do negócio, oriundas de evento imprevisível (teoria da imprevisão) e de evento
imprevisível e extraordinário (teoria da onerosidade excessiva), que comprometa o valor da prestação, demandando
tutela jurisdicional específica. 4. O histórico inflacionário e as sucessivas modificações no padrão monetário
experimentados pelo país desde longa data até julho de 1994, quando sobreveio o Plano Real, seguido de período
de relativa estabilidade até a maxidesvalorização do real em face do dólar americano, ocorrida a partir de janeiro
de 1999, não autorizam concluir pela imprevisibilidade desse fato nos contratos firmados com base na cotação da
moeda norte-americana, em se tratando de relação contratual paritária. 5. A teoria da base objetiva, que teria sido
introduzida em nosso ordenamento pelo art. 6º, inciso V, do Código de Defesa do Consumidor - CDC, difere da
teoria da imprevisão por prescindir da previsibilidade de fato que determine oneração excessiva de um dos
contratantes. Tem por pressuposto a premissa de que a celebração de um contrato ocorre mediante consideração
de determinadas circunstâncias, as quais, se modificadas no curso da relação contratual, determinam, por sua vez,
consequências diversas daquelas inicialmente estabelecidas, com repercussão direta no equilíbrio das obrigações
pactuadas, atingido por fatos que comprometessem as circunstâncias intrínsecas à formulação do vínculo contratual,
ou seja, sua base objetiva. 6. Em que pese sua relevante inovação, tal teoria, ao dispensar, em especial, o requisito
de imprevisibilidade, foi acolhida em nosso ordenamento apenas para as relações de consumo, que demandam
especial proteção. Não se admite a aplicação da teoria do diálogo das fontes para estender a todo direito das
obrigações regra incidente apenas no microssistema do direito do consumidor, mormente com a finalidade de
conferir amparo à revisão de contrato livremente pactuado com observância da cotação de moeda estrangeira. 7.
Recurso especial não provido.
STJ: REsp 1599535, Rel. Ministra Nancy Andrighi, julgado em 14/03/2017
58
CONSUMIDOR E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. CORRETAGEM DE VALORES E TÍTULOS MOBILIÁRIOS.
OMISSÃO, CONTRADIÇÃO OU OBSCURIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. RELAÇÃO DE CONSUMO. INCIDÊNCIA DO CDC.
- Recurso especial interposto em 16/12/2015 e distribuído a este gabinete em 25/08/2016. - Cinge-se a controvérsia
à incidência do CDC aos contratos de corretagem de valores e títulos mobiliários. - Na ausência de contradição,
omissão ou obscuridade, não existe violação ao art. 535, II, do CPC/73. - O valor operação comercial envolvida em
um determinado contrato é incapaz de retirar do cidadão a natureza de consumidor a ele conferida pela legislação
consumerista. - É incabível retirar a condição de consumidor de uma determinada pessoa em razão da presunção
de seu nível de discernimento comparado ao da média dos consumidores. - Impõe-se reconhecer a relação de
consumo existente entre o contratante que visa a atender necessidades próprias e as sociedades que prestam de
forma habitual e profissional o serviço de corretagem de valores e títulos mobiliários. - Recurso especial conhecido
e provido.
STF: RE 201819/RJ, Rel. Min. Ellen Gracie, Rel. p/ o acórdão Min. Gilmar Mendes, j. 11/10/2005).
SOCIEDADE CIVIL SEM FINS LUCRATIVOS. UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES. EXCLUSÃO DE SÓCIO SEM
GARANTIA DA AMPLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO. EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES
PRIVADAS. RECURSO DESPROVIDO. I. EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES PRIVADAS. As
violações a direitos fundamentais não ocorrem somente no âmbito das relações entre o cidadão e o Estado, mas
igualmente nas relações travadas entre pessoas físicas e jurídicas de direito privado. Assim, os direitos fundamentais
assegurados pela Constituição vinculam diretamente não apenas os poderes públicos, estando direcionados
também à proteção dos particulares em face dos poderes privados. II. OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS COMO
LIMITES À AUTONOMIA PRIVADA DAS ASSOCIAÇÕES. A ordem jurídico-constitucional brasileira não conferiu a
qualquer associação civil a possibilidade de agir à revelia dos princípios inscritos nas leis e, em especial, dos
postulados que têm por fundamento direto o próprio texto da Constituição da República, notadamente em tema
de proteção às liberdades e garantias fundamentais. O espaço de autonomia privada garantido pela Constituição
às associações não está imune à incidência dos princípios constitucionais que asseguram o respeito aos direitos
fundamentais de seus associados. A autonomia privada, que encontra claras limitações de ordem jurídica, não pode
ser exercida em detrimento ou com desrespeito aos direitos e garantias de terceiros, especialmente aqueles
positivados em sede constitucional, pois a autonomia da vontade não confere aos particulares, no domínio de sua
incidência e atuação, o poder de transgredir ou de ignorar as restrições postas e definidas pela própria Constituição,
cuja eficácia e força normativa também se impõem, aos particulares, no âmbito de suas relações privadas, em tema
de liberdades fundamentais. III. SOCIEDADE CIVIL SEM FINS LUCRATIVOS. ENTIDADE QUE INTEGRA ESPAÇO
PÚBLICO, AINDA QUE NÃO-ESTATAL. ATIVIDADE DE CARÁTER PÚBLICO. EXCLUSÃO DE SÓCIO SEM GARANTIA DO
DEVIDO PROCESSO LEGAL.APLICAÇÃO DIRETA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS À AMPLA DEFESA E AO
CONTRADITÓRIO. As associações privadas que exercem função predominante em determinado âmbito econômico
e/ou social, mantendo seus associados em relações de dependência econômica e/ou social, integram o que se
pode denominar de espaço público, ainda que não-estatal. A União Brasileira de Compositores - UBC, sociedade
59
civil sem fins lucrativos, integra a estrutura do ECAD e, portanto, assume posição privilegiada para determinar a
extensão do gozo e fruição dos direitos autorais de seus associados. A exclusão de sócio do quadro social da UBC,
sem qualquer garantia de ampla defesa, do contraditório, ou do devido processo constitucional, onera
consideravelmente o recorrido, o qual fica impossibilitado de perceber os direitos autorais relativos à execução de
suas obras. A vedação das garantias constitucionais do devido processo legal acaba por restringir a própria
liberdade de exercício profissional do sócio. O caráter público da atividade exercida pela sociedade e a dependência
do vínculo associativo para o exercício profissional de seus sócios legitimam, no caso concreto, a aplicação direta
dos direitos fundamentais concernentes ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa (art. 5º, LIV e
LV, CF/88). IV. RECURSO EXTRAORDINÁRIO DESPROVIDO.
STJ: HC nº 12547, Rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJ 12/02/2001
HABEAS CORPUS. Prisão civil. Alienação fiduciária em garantia. Princípio constitucional da dignidade da pessoa
humana. Direitos fundamentais de igualdade e liberdade. Cláusula geral dos bons costumes e regra de interpretação
da lei segundo seus fins sociais. Decreto de prisão civil da devedora que deixou de pagar dívida bancária assumida
com a compra de um automóvel-táxi, que se elevou, em menos de 24 meses, de R$ 18.700,00 para R$ 80.858,24,
a exigir que o total da remuneração da devedora, pelo resto do tempo provável de vida, seja consumido com o
pagamento dos juros. Ofensa ao princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, aos direitos de liberdade
de locomoçãoe de igualdade contratual e aos dispositivos da LICC sobre o fim social da aplicação da lei e
obediência aos bons costumes. Arts. 1º, III, 3º, I, e 5º, caput, da CR. Arts. 5º e 17 da LICC. DL 911/67. Ordem
deferida.
STJ: REsp1307032/PR, Rel. Ministro Raul Araújo, DJe 01/08/2013
RECURSO ESPECIAL. CIVIL. RESPONSABILIDADE CIVIL. PRESCRIÇÃO. NÃO CONFIGURAÇÃO. FUGA DE PACIENTE
MENOR DE ESTABELECIMENTO HOSPITALAR. AGRAVAMENTO DA DOENÇA. MORTE SUBSEQUENTE. NEXO DE
CAUSALIDADE. CONCORRÊNCIA DE CULPAS. RECONHECIMENTO. REDUÇÃO DA CONDENAÇÃO. RECURSO
PARCIALMENTE PROVIDO. 1. Não incidem as normas do Código de Defesa do Consumidor, porquanto o evento
danoso ocorreu em data anterior à sua vigência. Ficam, assim, afastadas a responsabilidade objetiva (CDC, art. 14)
e a prescrição quinquenal (CDC, art. 27), devendo ser a controvérsia dirimida à luz do Código Civil de 1916. 2.
Aplica-se o prazo prescricional de natureza pessoal de que trata o art. 177 do Código Civil de 1916 (vinte anos),
em harmonia com o disposto no art. 2.028 do Código Civil de 2002, ficando afastada a regra trienal do art. 206, §
3º, V, do CC/2002. 3. Na aferição do nexo de causalidade, a doutrina majoritária de Direito Civil adota a teoria da
causalidade adequada ou do dano direto e imediato, de maneira que somente se considera existente o nexo causal
quando o dano é efeito necessário e adequado de uma causa (ação ou omissão). Essa teoria foi acolhida pelo
Código Civil de 1916 (art. 1.060) e pelo Código Civil de 2002 (art. 403). 4. As circunstâncias invocadas pelas instâncias
ordinárias levaram a que concluíssem que a causa direta e determinante do falecimento do menor fora a omissão
do hospital em impedir a evasão do paciente menor, enquanto se encontrava sob sua guarda para tratamento de
60
doença que poderia levar à morte. 5. Contudo, não se pode perder de vista sobretudo a atitude negligente dos
pais após a fuga do menor, contribuindo como causa direta e também determinante para o trágico evento danoso.
Está-se, assim, diante da concorrência de causas, atualmente prevista expressamente no art. 945 do Código Civil
de 2002, mas, há muito, levada em conta pela doutrina e jurisprudência pátrias. 6. A culpa concorrente é fator
determinante para a redução do valor da indenização, mediante a análise do grau de culpa de cada um dos
litigantes, e, sobretudo, das colaborações individuais para confirmação do resultado danoso, considerando a
relevância da conduta de cada qual. O evento danoso resulta da conduta culposa das partes nele envolvidas,
devendo a indenização medir-se conforme a extensão do dano e o grau de cooperação de cada uma das partes à
sua eclosão. 7. Recurso especial parcialmente provido.
61
ESTUDO COMPLEMENTAR
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62
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Adriano. MASSON, Cleber. ANDRADE, Landolfo. Interesses difusos e coletivos esquematizado. 6. ed. Método: São
Paulo, 2016.
BOLZAN, Fabrício. Direito do consumidor esquematizado. 2. ed. Saraiva: São Paulo, 2014.
CAVALCANTI, Márcio André Lopes. Vade mecum de jurisprudência. Juspodivm: Salvador, 2019.
FILOMENO, José Geraldo Brito. Direitos do consumidor. 15. ed. Atlas: São Paulo, 2018.
GARCIA, Leonardo de Medeiros. Código de defesa do consumidor comentado artigo por artigo. 13. ed. Juspodivm: Salvador,
2016.
GOMES, Nathália Stivalle. Direito do consumidor. Juspodvum: 2019.
GOUVEIA, Mila. Informativos em frase. Juspodivm: Salvador, 2017.
MIRAGEM, Bruno. Curso de direito do consumidor. 6. ed. Revista dos Tribunais: São Paulo, 2016.
NETO, Felipe Peixoto Braga. Manual de direito do consumidor. Juspodvim: Salvador, 2015.
NUNES, Rizzatto. Curso de direito do consumidor. 12. ed. Saraiva Educação: São Paulo, 2018.
TARTUCE, Flávio. NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de direito do consumidor: direito material e processual. 7. ed.
Método: São Paulo, 2018.
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Direitos do consumidor. 9. ed. Forense: Rio de Janeiro, 2017.
PDF OAB
Direito do Consumidor
Capítulo 2
MAT
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L
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AR
1
SUMÁRIO
DIREITO DO CONSUMIDOR .......................................................................................................................................... 3
2. Princípios do Direito do Consumidor ............................................................................................................... 3
2.1 Os Princípios............................................................................................................................................................ 3
2.2 Princípio do Protecionismo do Consumidor ............................................................................................. 5
2.3 Princípio da Vulnerabilidade ............................................................................................................................ 7
2.4 Princípio da Defesa do Consumidor pelo Estado ................................................................................ 10
2.5 Princípio da Harmonização ............................................................................................................................ 10
2.6 Princípio da Boa-fé Objetiva ......................................................................................................................... 11
2.7 Princípio do Dever de Informar ou da Transparência ....................................................................... 14
2.8 Princípio da Educação e Informação ......................................................................................................... 15
2.9 Princípio da Precaução .................................................................................................................................... 16
2.10 Princípio da Facilitação da Defesa dos Direitos do Consumidor .................................................. 17
2.11 Princípio do Equilíbrio ...................................................................................................................................... 20
2.12 Princípio da Confiança (ou da Proteção da Confiança ou da Transparência)......................... 21
2.13 Princípio do Combate ao Abuso ................................................................................................................. 21
2.14 Princípio da Modificação e da Revisão Contratual ............................................................................. 22
2.15 Princípio da Responsabilidade Objetiva ................................................................................................... 23
2.16 Princípio da Reparação Integral dos Danos ........................................................................................... 23
2.16.1 Dano Material ...................................................................................................................................................... 24
2.16.2 Dano Moral ...........................................................................................................................................................25
2.16.3 Dano Estético ....................................................................................................................................................... 27
2.16.4 Dano Social ........................................................................................................................................................... 27
2
2.16.5 Dano Pela Perda de Uma Chance .............................................................................................................. 28
2.17 Princípio da Solidariedade ............................................................................................................................. 29
2.18 Princípio da Interpretação mais favorável ao Consumidor (Artigo 47 do CDC) .................... 30
2.19 Princípio da Vinculação Contratual da Publicidade ............................................................................ 30
2.20 Princípio da Veracidade Publicidade ......................................................................................................... 30
2.21 Princípio da Não Abusividade da Publicidade ...................................................................................... 31
2.22 Princípio da Função Social do Contrato .................................................................................................. 31
QUADRO SINÓTICO ...................................................................................................................................................... 33
QUESTÕES COMENTADAS ........................................................................................................................................ 36
GABARITO ........................................................................................................................................................................... 44
QUESTÃO DESAFIO ......................................................................................................................................................... 45
GABARITO DA QUESTÃO DESAFIO.......................................................................................................................... 46
LEGISLAÇÃO COMPILADA............................................................................................................................................ 47
JURISPRUDÊNCIA ............................................................................................................................................................. 48
ESTUDO COMPLEMENTAR .......................................................................................................................................... 57
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................................................. 58
3
Olá, futuro advogado! Tudo bem?
Antes de começar o estudo, precisamos fazer algumas considerações a respeito da apostila de
nº 02 do nosso curso, tá?
Em primeiro turno, Os princípios gerais do Direito do Consumidor não costumam ser cobrados
no exame de ordem!
-Mas professora, por que incluí-lo nas apostilas, então?
Bom, como é de conhecimento geral, a banca examinadora tende a ser um pouco imprevisível,
e o nosso objetivo é deixar você preparado para exatamente qualquer coisa que aparecer na
prova!
Então, achamos pertinente abranger o máximo de conteúdo possível! 😊
Inclusive, ao final desta apostila, você encontrará questões de outras carreiras, para um maior
aproveitamento e assimilação de conteúdo, portanto, não deixe de respondê-las, tá?
Vamos juntos!
3
DIREITO DO CONSUMIDOR
Capítulo 2
2. Princípios do Direito do Consumidor
2.1 Os Princípios
Os princípios estão previstos expressamente ou implicitamente no ordenamento jurídico.
Possuem força valorativa, assim, além de vincular, servem de vetor interpretativo às demais
normas.
Segundo Miguel Reale, “princípios são, pois verdades ou juízos fundamentais, que servem
de alicerce ou de garantia de certeza a um conjunto de juízos, ordenados em um sistema de
conceitos relativos à dada porção da realidade. Às vezes também se denominam princípios
certas proposições, que apesar de não serem evidentes ou resultantes de evidências, são
assumidas como fundantes da validez de um sistema particular de conhecimentos, como seus
pressupostos necessários”.
Nos dizeres de Luís Roberto Barroso, princípios "são o conjunto de normas que espelham
a ideologia da Constituição, seus postulados básicos e seus fins. Dito de forma sumária, os
princípios constitucionais são as normas eleitas pelo constituinte como fundamentos ou
qualificações essenciais da ordem jurídica que institui".
Os princípios previstos no Código de Defesa do Consumidor incidem não só sobre suas
próprias regras, mas também sobre aquelas previstas em leis especiais, desde que relativas às
relações de consumo.
Cabe aqui diferenciar princípios de cláusulas gerais. Landolfo Andrade explica que as
cláusulas gerais “são disposições normativas que utilizam, no enunciado, uma linguagem de
4
tessitura intencionalmente aberta, fluída e vaga, a ser preenchida pelo magistrado quando da
análise de um caso concreto”.
Quanto à distinção entre princípios e normas, Humberto Ávila destaca:
“As regras são normas imediatamente descritivas, primariamente retrospectivas e com
pretensão de decidibilidade e abrangência, para cuja aplicação se exige a avaliação da
correspondência, sempre centrada na finalidade que lhes dá suporte ou nos princípios que lhes
são axiologicamente sobrejacentes, entre a construção conceitual da descrição e a construção
conceitual dos fatos.
Os princípios são normas imediatamente finalísticas, primariamente prospectivas e com
pretensão de complementariedade e de parcialidade, para cuja aplicação se demanda uma
avaliação da correlação entre o estado de coisa a ser promovida e os efeitos decorrentes da
conduta havida como necessária à sua promoção”.
Pedro Lenza esquematiza as distinções entre regras e princípios desta forma:
REGRAS PRINCÍPIOS
Dimensão da validade, especificidade e
vigência.
Dimensão da importância, peso e valor.
Conflito entre regras (uma das regras em
conflito ou será afastada pelo princípio da
especialidade, ou será declarada inválida –
cláusula de exceção, que também pode ser
entendida como “declaração parcial de
invalidade”).
Colisão entre princípios (não haverá
declaração de invalidade de qualquer dos
princípios em colisão. Diante das condições
do caso concreto, um princípio prevalecerá
sobre o outro.
“tudo ou nada” Ponderação, balanceamento, sopesamento
entre princípios colidentes.
Mandamentos ou mandados de definição. Mandamentos ou mandados de otimização.
Como visto no capítulo anterior, o Código de Defesa do Consumidor é uma norma
principiológica, logo o estudo dos princípios é essencial na sua preparação para as provas. Nas
5
palavras de Flávio Tartuce, “O estudo dos princípios consagrados pelo Código de Defesa do
Consumidor é um dos pontos de partida para a compreensão do sistema adotado pela Lei
Consumerista como norma protetiva dos vulneráveis negociais. Como é notório, a Lei 8.078/1990
adotou um sistema aberto de proteção, baseado em conceitos legais indeterminados e
construções vagas, que possibilitam uma melhor adequação dos preceitos às circunstâncias do
caso concreto”.
INTEGRAÇÃO DO SISTEMA NORMATIV-JURÍDICO DE PROTEÇÃO DO CONSUMIDOR
Nas palavras de Lucas de Souza Lehfeld, o Código de Defesa do Consumidor é “um texto
aberto, pois determina que os direitos nele previsto “não excluem outros decorrente de tratados
ou convenções internacionais de que o Brasil seja signatário, da legislação interna ordinária, de
regulamentos expedidos pelas autoridades administrativas competentes, bem como dos que
derivemdos princípios gerais do direito, analogia, costumes e equidade” (artigo 7º)”.
No artigo 4º do Código de Defesa do Consumidor, que institui a Política Nacional das
Relações de Consumo, identificamos a preocupação do legislador em orientar os princípios e
direcionamentos que devem conduzir a relação consumerista. Percebe-se que a preocupação
com as necessidades dos consumidores, com a sua dignidade, saúde e segurança, bem como a
melhoria da sua qualidade de vida são o norte que está impregnado no Código de Defesa do
Consumidor.
Neste capítulo estudaremos os Princípios do Direito do Consumidor, atentando que a
nomenclatura utilizada e a quantidade de princípios variam de doutrina para doutrina.
Abordaremos aqui os princípios mais importantes segundo as doutrinas de Direito do
Consumidor e os de maior incidência em provas de concursos públicos.
2.2 Princípio do Protecionismo do Consumidor
Previsto no artigo 1º, do Código de Defesa do Consumidor e previsto nos artigos 5º,
inciso XXXII e 170, inciso III, da Constituição Federal de 1988, assim como no artigo 48, do Atos
das Disposições Constitucionais Transitórias, o Princípio do Protecionismo estabelece que o
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Código de Defesa do Consumidor é uma norma cogente de ordem pública e interesse social
e que deve ser observada por todos na proteção do consumidor.
Além disso, um dos fundamentos da ordem econômica brasileira é exatamente a proteção
ao consumidor.
Art. 1° O presente código estabelece normas de proteção e defesa do consumidor, de
ordem pública e interesse social, nos termos dos arts. 5°, inciso XXXII, 170, inciso V, da
Constituição Federal e art. 48 de suas Disposições Transitórias.
Nos ensinamentos de Flávio Tartuce encontramos que o Princípio do Protecionismo do
Consumidor reune algumas consequências, exemplificando:
A) As regras do Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990) não podem ser
afastadas por convenção entre as partes, sob pena de nulidade absoluta.
Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao
fornecimento de produtos e serviços que:
XV - estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor;
B) Caberá sempre a intervenção do Ministério Público em questões envolvendo demandas
de relações consumeristas. Assim enuncia a Constituição Federal:
Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público:
III - promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio
público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos;
C) A proteção constante no Código de Defesa do Consumidor deve ser conhecida de
ofício pelo juiz, caso da nulidade de eventual cláusula abusiva.
Flávio Tartuce lembra que, a natureza de norma de ordem pública e interesse social
justifica plenamente o teor da Lei 12.291/2010, que torna obrigatória a exibição de um exemplar
do Código de Defesa do Consumidor em todos os estabelecimentos comerciais do País, sob
pena de imposição de multa.
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2.3 Princípio da Vulnerabilidade
É uma norma de caráter material, com presunção absoluta, em consequência do
desequilíbrio entre as partes da relação consumerista, dando proteção especial ao consumidor,
visando garantir a igualdade material entre as partes na relação consumerista.
Landolfo Andrade define este princípio como “o fundamento de existência do direito do
consumidor, é o ponto de partida da aplicação de todas as suas normas de proteção e esse
sujeito especial de direitos, vulnerável em suas relações frente aos fornecedores”.
O Código de Defesa do Consumidor estabelece a presunção absoluta da vulnerabilidade
do consumidor - pessoa física - no mercado de consumo. Parte da premissa de que o
consumidor se encontra em posição de desvantagem na relação consumerista e prevê
medidas para garantir a ele uma igualdade formal e material).
O reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor pode ser presumido diante do
fato de ser ele o destinatário final dos produtos e serviços disponibilizados pelo fornecedor no
mercado de consumo.
O Princípio da Vulnerabilidade está previsto no art. 4º, inciso I, do Código de Defesa do
Consumidor:
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das
necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção
de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a
transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
I - reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo;
O reconhecimento da vulnerabilidade decorre do princípio constitucional da isonomia.
O Princípio da Isonomia (art. 5º, da Constituição Federal) confere tratamento desigual aos
desiguais. A intenção é tratar de maneira desigual os sujeitos da relação consumerista pois
estes, no momento da contratação, estão em situações diferentes (o fornecedor, que possui
8
capacidade técnica maior do que o consumidor e o consumidor, sujeito vulnerável da relação),
com o intuito de equipará-las, equilibrando a relação jurídica.
A vulnerabilidade do consumidor constitui presunção absoluta (jure et de juris), seja qual
for a relação de consumo, a situação de vulnerabilidade do consumidor frente ao fornecedor é
presumida ope legis.
Atente-se ao fato de que a vulnerabilidade do consumidor pessoa jurídica deve ser
demonstrada no caso concreto, à luz da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça1, em
determinadas hipóteses, a pessoa jurídica adquirente de um produto ou serviço pode ser
equiparada à condição de consumidora por apresentar frente ao fornecedor alguma
vulnerabilidade.
Importante atentar-se ao fato de que a vulnerabilidade não se confunde com a
hipossuficiência, que é regra de direito processual. A hipossuficiência será aferida pelo juiz e,
se presente na relação, poderá fundamentar a inversão do ônus da prova2. É regra de
procedimento, logo deve ser definida até a decisão de saneamento. Todo consumidor é
vulnerável por força de lei, porém nem todo consumidor é hipossuficiente, pois a
hipossuficiência é uma noção processual3.
VULNERABILIDADE HIPOSSUFICIÊNCIA
Fenômeno do direito material. Fenômeno do direito processual.
Presunção absoluta. Deve ser analisado segundo a casuística.
A hipossuficiência é princípio previsto no artigo 6º, inciso VIII, do Código de Defesa do
Consumidor, que estabelece como instrumento facilitador da defesa do consumidor em juízo a
inversão do ônus da prova:
1 Vide Questão 01 e Questão 04.
2 Vide Questão 03.
3 Vide Questão 05.
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Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova,
a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou
quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências;
Atente-se a esta observação trazida por Flávio Tartuce e que ajuda você a recordar que
vulnerabilidade e hipossuficiência não são sinônimos:
“Todo consumidor é vulnerável, mas nem todo consumidor é hipossuficiente”.
A doutrina elenca as espécies de vulnerabilidade, sendo as principais, listadas por
Landolfo Andrade a vulnerabilidade técnica, a jurídica e a fática (ou econômica):
TÉCNICA
Ausência de conhecimentos específicos sobre o produto ou
serviço que o consumidor adquire ou utiliza. Refere-se a
conhecimentos acerca das características e utilidade do
produto ou serviço adquirido pelo consumidor.
JURÍDICA
Falta de conhecimento, pelo consumidor, dos direitos e
deveres inerentes à relação de consumo. Decorrente da
inexperiência do consumidor quanto ao mercado e da
ausência de assessoria jurídica e contábil quanto aos termos
da contratação.
FÁTICA (OU ECONÔMICA)Condição de fragilidade do consumidor frente ao fornecedor
que, por sua posição de monopólio, fático ou jurídico, por
seu forte poderio econômico ou em razão da essencialidade
do serviço que fornece, impõe sua superioridade a todos que
com ele contratam. Decorrente das circunstâncias de fato que
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levam o fornecedor a ser superior financeira, social e
culturalmente.
Cláudia Lima Marques ainda cita a vulnerabilidade informacional: impossibilidade de o
consumidor acompanhar as inovações tecnológicas.
2.4 Princípio da Defesa do Consumidor pelo Estado
Tal princípio está previsto no art. 4º, inciso II, do Código de Defesa do Consumidor:
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento
das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a
proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como
a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
II - ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor:
a) por iniciativa direta;
b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas;
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade,
segurança, durabilidade e desempenho
O Estado deve agir efetivamente na defesa dos interesses dos consumidores, adotando
medidas concretas e determinadas de proteção.
Consagrada na Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, inciso XXXII, a defesa do
consumidor é um princípio fundamental, tendo o Estado o dever de defender esse direito, sendo
este direito uma ação afirmativa (ou positiva) do Estado em favor dos consumidores.
2.5 Princípio da Harmonização
Tal princípio está previsto no art. 4º, inciso III, do Código de Defesa do Consumidor:
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Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento
das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a
proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como
a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e
compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento
econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem
econômica (art. 170, da Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio
nas relações entre consumidores e fornecedores;
Há necessidade de harmonização dos interesses daqueles que participam da relação de
consumo (consumidor e fornecedor).
Segundo Landolfo Andrade: “A proteção do consumidor deve ser na exata medida do
necessário para compatibilizar o desenvolvimento econômico e tecnológico do qual necessita
toda a sociedade e harmonizar as relações entre consumidores e fornecedores”.
2.6 Princípio da Boa-fé Objetiva
Princípio previsto expressamente no art. 4º, inciso III do Código de Defesa do Consumidor:
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento
das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a
proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como
a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e
compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento
econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem
econômica (art. 170, da Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio
nas relações entre consumidores e fornecedores;
12
Impõe ao fornecedor e ao consumidor a prática dos atos da relação de consumo pautados
pela boa-fé, de acordo com preceitos éticos e morais.
Encontra-se consagrado, também, implicitamente, na dignidade da pessoa humana e no
dever de solidariedade dela decorrente (Constituição Federal, art. 1º, inciso III e art. 3º, inciso I)
e, explicitamente, no Código Civil, nos artigos 113, 187 e 422).
Segundo Flávio Tartuce, “nesse contexto, nas relações negociais consumeristas deve estar
presente o justo equilíbrio, em uma correta harmonia entre as partes, em todos os momentos
relacionados com a prestação e o fornecimento”.
Para Landolfo Andrade, o Princípio da Boa-fé objetiva “compreende um modelo de
comportamento social, verdadeiro standard jurídico ou regra de conduta. Traduz-se no dever
de agir em conformidade com determinados padrões sociais de ética, honestidade, lealdade e
correção, de modo a não frustrar as legítimas expectativas da outra parte”.
Veja a seguir as diferenças entre a boa-fé objetiva (princípio consagrado no Código de
Defesa do Consumidor) e a boa-fé subjetiva4:
BOA-FÉ SUBJETIVA BOA-FÉ OBJETIVA
Plano psicológico dos agentes na relação
jurídica.
Plano concreto da atuação humana.
Restringe-se à intenção do sujeito na relação
negocial.
Concretização da vontade dos sujeitos da
relação no mundo exterior por meio de suas
condutas.
Claudia Lima Marques, Herman Benjamin e Bruno Miragem lecionam que a boa-fé
objetiva tem três funções básicas: função criadora, função limitadora e função interpretativa.
FUNÇÃO CRIADORA
Servir como fonte de novos deveres especiais de conduta
durante o vínculo contratual, os denominados deveres
anexos.
FUNÇÃO LIMITADORA Construir uma causa limitadora do exercício, antes lícito, hoje
abusivo, dos direitos subjetivos.
4 LEHFED, Lucas de Souza, Revisaço magistratura estadual. 7. ed. Juspodivm: Salvador, 2019.
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FUNÇÃO INTEPRETATIVA
(critério hermenêutico)
Ser utilizada como concreção e interpretação dos contratos,
de modo que, ao aplicar o direito do consumidor, deve-se
optar, entre as diversas interpretações possíveis de um
contrato, por aquela que tenha maior relação com os critérios
de lealdade, honestidade e correção das partes.
Ainda, é necessário estar atento ao fato de que o Código de Defesa do Consumidor
adotou a concepção ética (objetiva) da boa-fé e não a concepção individual (subjetiva),
devendo-se analisar a abusividade das condutas dos sujeitos da relação de consumo em
comparação à sociedade como um todo.
O dever de boa-fé independe da vontade das partes, assim, ainda que a cláusula abusiva
tenha sido conscientemente aceita deverá ser afastada.
A boa-fé é cláusula geral serve como fonte de:
Interpretação Teleológica/Finalística - teoria da confiança e lealdade nas relações;
Obrigações e Responsabilidade, pré-negocial e de deveres anexos;
Controle ou Limitação de Direitos, evitando abusos.
Portanto, nas relações consumeristas, a boa-fé deve ser analisada no seu aspecto externo,
conforme as regras de conduta.
Dessa boa-fé decorrem deveres anexos (também chamados de laterais ou secundários),
que devem ser observados tanto pelo fornecedor quanto pelo consumidor e cujo
descumprimento implica ilícito civil: violação positiva do contrato.
São deveres anexos:
DEVER DE
INFORMAÇÃO
O fornecedor conhece todos os aspectos do produto ou serviço,
logo, a informação ao consumidor deve ser clara (de fácil
compreensão) e adequada (deve alcançar a finalidade pretendida),
bem como as condições, consequências e riscos da contratação.
DEVER DE
COOPERAÇÃO
As partes contratantes devem agir de modo que seja possível o
cumprimento das obrigações contratadas.
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DEVER DE PROTEÇÃO
OU DE CUIDADO
O consumidor deve ser alertado pelo fornecedor sobre qualquer
nocividade ou lesividade do produto ou serviço. Assim, deve o
consumidor adotar medidas protetivas, voltadas à prevenção de
danos patrimoniais e pessoasdo consumidor.
Com relação à boa-fé objetiva, cabe tratar dos contratos relacionais ou contratos cativos
de longa duração, que traduzem relações jurídicas complexas, de longa duração, cuja
caraterística principal é a catividade e a dependência dos consumidores com relação à sua
manutenção (como por exemplo os planos de saúde).
Nessa espécie de contratos, com base no princípio da confiança, vedam-se os aumentos
abruptos de mensalidades, exigindo-se que eventual restabelecimento do equilíbrio da relação
negocial se dê de forma gradual, após cientificação prévia do consumidor.
Lucas de Souza Lehfeld destaca que, conforme Enunciado 25 do Conselho da Justiça
Federal, o Princípio da Boa-fé objetiva poderá ser aplicado pelo julgador nas fases pré-contratual
e pós-contratual. Tal enunciado reitera que a boa-fé objetiva é exigência de um comportamento
de lealdade dos sujeitos da relação negocial, em todas as fases.
2.7 Princípio do Dever de Informar ou da Transparência
É dever das partes envolvidas em uma relação consumerista de assegurar a transparência
nas relações de consumo, dando todas as informações essenciais do contrato, com observância
da boa-fé objetiva.
Conforme o STJ no REsp acesso à informação 1073595, o aumento abrupto das
mensalidades do seguro de vida ofende a boa-fé objetiva.
O princípio da informação tem duas projeções: a primeira diz respeito ao acesso à
informação e a segunda à compreensão da informação, pois de nada adianta cumprir o
requisito inicial, se o consumidor não dispõe de conhecimentos técnicos para compreender o
que buscou esclarecer o fornecedor.
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Novidade legislativa de outubro de 2017. Segundo o art. 8º, §1º, do CDC:
Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as informações a que se refere este
artigo, através de impressos apropriados que devam acompanhar o produto.
Foi acrescentado, ainda, ao mesmo artigo, o §2º, segundo o qual:
O fornecedor deverá higienizar os equipamentos e utensílios no fornecimento de produtos ou
serviços, ou colocados à disposição do consumidor, e informar de maneira ostensiva e adequada,
quando for o caso, sobre o risco de contaminação.
Estabelece, este princípio, então, o dever de o fornecedor informar de modo claro e
adequado acerca das características, usos, riscos e preço dos produtos e, bem assim de dar
explicações sobre eles, em todas as fases da relação: pré-contratual, contratual e pós-contratual.
2.8 Princípio da Educação e Informação
Princípio previsto expressamente no art. 4º, inciso IV do Código de Defesa do
Consumidor5:
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento
das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a
proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como
a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
IV - educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos seus direitos e
deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo;
5 Vide Questão 02.
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Impõe o dever de informar fornecedores e consumidores quanto a seus direitos e
obrigações, com vistas à melhoria do mercado de consumo.
Abrange tanto a educação formal (em escolas e instituições de ensino), quanto a informal
(através dos meios de comunicação e dos órgãos de defesa do consumidor, como o MP e os
PROCONs).
2.9 Princípio da Precaução
Segundo Landolfo Andrade, “consiste na orientação de se imprimir um elevado nível de
proteção à vida e à saúde do consumidor, nas hipóteses em que há incerteza científica sobre
os reais riscos que determinados bens oferecidos no mercado podem representar à
incolumidade físico-psíquica dos consumidores”.
Assim, tal princípio obriga o fornecedor a adotar todas as medidas cabíveis para evitar
qualquer tipo de dano ao consumidor, seja ele conhecido ou não.
São decorrências do Princípio da Precaução:
A) O dever de informação ostensiva dos perigos e forma de uso de produtos (art. 8º e
art. 9º do Código de Defesa do Consumidor);
B) Proibição de venda de produto ou serviço que o fornecedor sabe ou deveria saber de
alto grau de periculosidade ou nocividade – Teoria do Risco do Negócio (art. 10 do
Código de Defesa do Consumidor);
C) Dever de comunicar às autoridades competentes e aos consumidores, via anúncios
publicitários, o perigo ulteriormente conhecido, efetivando-se recall, com recolhimento
do produto nocivo ou perigosos pra correção do vício que apresenta (art. 10, §1º do
Código de Defesa do Consumidor).
Impõe ainda à União, aos Estados, DF e Municípios o dever de informar os consumidores,
sempre que tiverem conhecimento de produtos ou serviços dotados de periculosidade à saúde
ou segurança.
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2.10 Princípio da Facilitação da Defesa dos Direitos do
Consumidor
Este princípio estabelece que normas de direito material e processual devem visar à
facilitação da defesa dos direitos consumeristas, tendo como consequências práticas:
A) A manutenção pelo Estado da Assistência Jurídica Gratuita, promotorias, delegacias e
juizados específicos à defesa do consumidor, conforme o art. 5º do Código de Defesa do
Consumidor.
Art. 5° Para a execução da Política Nacional das Relações de Consumo, contará o poder
público com os seguintes instrumentos, entre outros:
I - manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita para o consumidor carente;
II - instituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no âmbito do
Ministério Público;
III - criação de delegacias de polícia especializadas no atendimento de consumidores
vítimas de infrações penais de consumo;
IV - criação de Juizados Especiais de Pequenas Causas e Varas Especializadas para a
solução de litígios de consumo;
V - concessão de estímulos à criação e desenvolvimento das Associações de Defesa do
Consumidor.
§ 1º (Vetado).
§ 2º (Vetado).
B) A responsabilidade objetiva do fornecedor, conforme os artigos 12 e 18 do Código de
Defesa do Consumidor.
Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador
respondem, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos
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causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção,
montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos,
bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.
§ 1º O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se
espera, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - sua apresentação;
II - o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi colocado em circulação.
§ 2º O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade ter
sido colocado no mercado.
§ 3º O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será responsabilizado
quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem
solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou
inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como por
aqueles decorrentes da disparidade, com a indicações constantes do recipiente, da
embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes
de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
§ 1º Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o consumidor exigir,
alternativamente e à sua escolha:
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I - asubstituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de
uso;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de
eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 2º Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo previsto no
parágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem superior a cento e oitenta dias.
Nos contratos de adesão, a cláusula de prazo deverá ser convencionada em separado,
por meio de manifestação expressa do consumidor.
§ 3º O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1º deste artigo sempre
que, em razão da extensão do vício, a substituição das partes viciadas puder comprometer
a qualidade ou características do produto, diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto
essencial.
§ 4º Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do § 1º deste artigo, e não
sendo possível a substituição do bem, poderá haver substituição por outro de espécie,
marca ou modelo diversos, mediante complementação ou restituição de eventual
diferença de preço, sem prejuízo do disposto nos incisos II e III do § 1º deste artigo.
§ 5º No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável perante o
consumidor o fornecedor imediato, exceto quando identificado claramente seu produtor.
§ 6º São impróprios ao uso e consumo:
I - os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos;
II - os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados, falsificados, corrompidos,
fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou, ainda, aqueles em desacordo com as
normas regulamentares de fabricação, distribuição ou apresentação;
III - os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequados ao fim a que se
destinam.
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C) As ações coletivas para a defesa de interesses dos consumidores.
D) A possibilidade de inversão do ônus da prova.
2.11 Princípio do Equilíbrio
A base do Código de Defesa do Consumidor é a proteção do sujeito vulnerável da relação
de consumo, o objetivo do Direito do Consumidor é proteger esse sujeito, eliminando injustiças
e desigualdades entre ele e o fornecedor, reestabelecendo o equilíbrio da relação de consumo.
Logo, deve haver sempre a busca pela relação equilibrada. Para alcançar esse objetivo,
são vedadas obrigações abusivas.
Princípio previsto expressamente no art. 4º, inciso III do Código de Defesa do Consumidor:
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento
das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a
proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como
a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e
compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento
econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem
econômica (art. 170, da Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio
nas relações entre consumidores e fornecedores;
Segundo o STJ: “Se a economia globalizada não tem mais fronteiras rígidas e estimula e
favorece a livre concorrência, imprescindível que as leis de proteção ao consumidor ganhem
maior expressão em sua exegese, na busca do equilíbrio que deve reger as relações de
consumo”, REsp. 63.891.
Impõe um dever de equilíbrio entre fornecedor e consumidor, tanto no plano material
quanto no plano processual, ou seja, o Código de Defesa do Consumidor visa romper o
desequilíbrio entre os polos da relação de consumo, limitando direitos e impondo deveres aos
fornecedores e conferindo prerrogativas aos consumidores.
21
De outro lado, busca também uma harmonização, garantindo o livre exercício da atividade
econômica, sem paternalismos excessivos.
2.12 Princípio da Confiança (ou da Proteção da Confiança ou
da Transparência)
Este princípio não está previsto de maneira expressa no Código de Defesa do Consumidor,
mas é um princípio implícito, que se desdobra do Princípio da Boa-fé Objetiva (ex.:
responsabilidade dos estabelecimentos que fornecem estacionamento pela segurança dos
veículos estacionados por seus clientes).
Determina tal princípio que o fornecedor deve respeitar as legítimas expectativas que
o consumidor deposita na relação de consumo. Esse respeito abrange tanto o conteúdo do
contrato quanto o bem de consumo.
2.13 Princípio do Combate ao Abuso
Princípio previsto expressamente no art. 4º, inciso VI do Código de Defesa do Consumidor:
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento
das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a
proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como
a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
VI - coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de
consumo, inclusive a concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações
industriais das marcas e nomes comerciais e signos distintivos, que possam causar
prejuízos aos consumidores;
Deve-se prevenir e punir qualquer espécie de abuso praticado no mercado de consumo.
22
2.14 Princípio da Modificação e da Revisão Contratual
Consagra o direito de alteração das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações
desproporcionais, bem como o direito de revisão destas em razão de fatos supervenientes que
as tornem excessivamente onerosas (art. 6º, inciso V, do Código de Defesa do Consumidor.
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais
ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas;
O direito de modificação tem incidências em normas que já nasceram com desproporção
ou que são abusivas por natureza. Já o direito de revisão incide sobre as normas que eram
proporcionais em sua essência, mas, ao longo na relação, por fato superveniente tornaram-se
desproporcionais.
DIREITO DE MODIFICAÇÃO DIREITO DE REVISÃO
Incide sobre as cláusulas que já nasceram
desproporcionais ou abusivas.
Incide sobre as cláusulas que nasceram
proporcionais, mas se tornaram
excessivamente onerosas por fato
superveniente.
O direito de revisão do Código de Defesa do Consumidor é mais amplo que o previsto
no Código Civil, uma vez que dispensa a extraordinariedade e a imprevisibilidade do fato
superveniente para a alteração contratual.
DIREITO DE REVISÃO NO
CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR
DIREITO DE REVISÃO NO
CÓDIGO CIVIL
Fato superveniente Fato superveniente, extraordinário e
imprevisível
E onerosidade excessiva E onerosidade excessiva
Teoria do rompimento da base objetiva do
negócio
Teoria da Imprevisão
23
2.15 Princípio da Responsabilidade Objetiva
Estabelece que o fornecedor responde independentemente de culpa pelos danos
causados aos consumidores, só se eximindo se provar:
a) que não colocou o produto no mercado;
b) que o produto ou serviço não é defeituoso;
c) a culpa exclusiva da vítima ou de terceiros.
Consagra a norma a socialização dos danos causados ao consumidor, pois seu custo
será embutido no preço da mercadoria, partilhando-se entre toda a sociedade.
Destaque-se, porém, que a responsabilidade pessoal dos profissionais liberais deve ser
apurada mediante culpa (art. 14, §4º do Código de Defesa do Consumidor), ou seja, é subjetiva.
2.16 Princípio da Reparação Integral dos Danos
Conforme disposição do Código Civil, todo aquele que causa um dano é obrigado a
repará-lo. Causado um dano ao consumidor, a reparação deve englobar todo o prejuízo,
abrangendo todas as espécies de dano: material, moral, estético, coletivos(em sentido amplo),
social.
Impõe a reparação de todos os danos causados ao consumidor, sejam eles patrimoniais
ou morais, individuais, difusos ou coletivos, conforme art. 6º, inciso VI, do Código de Defesa do
Consumidor.
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos
e difusos;
Vale destacar aqui o Enunciado 456, do Conselho da Justiça Federal:
24
Enunciado 456. A expressão "dano" no art. 944 abrange não só os danos individuais,
materiais ou imateriais, mas também os danos sociais, difusos, coletivos e individuais
homogêneos a serem reclamados pelos legitimados para propor ações coletivas.
No âmbito do Direito do Consumidor, é possível a reparação de danos materiais, morais,
estéticos, coletivos, sociais e ainda danos pela perda de uma chance.
Não são aceitas nas relações de consumo, cláusulas de irresponsabilidade ou de não
indenização, nem mesmo as que meramente atenuem a responsabilidade do fornecedor.
Entretanto, há uma exceção prevista no artigo 51, inciso I, do Código de Defesa do
Consumidor, quando o consumidor for pessoa jurídica, a indenização poderá ser limitada, em
situações justificáveis:
Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao
fornecimento de produtos e serviços que:
I - impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios de
qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem renúncia ou disposição de
direitos. Nas relações de consumo entre o fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a
indenização poderá ser limitada, em situações justificáveis;
2.16.1 Dano Material
Abrange os danos emergentes - o que efetivamente se perdeu - e os lucros cessantes
- o que razoavelmente se deixou de lucrar.
Atente-se ao texto da Súmula 37 do Superior Tribunal de Justiça:
SÚMULA 37-STJ. São cumuláveis as indenizações por dano material e moral oriundos do
mesmo fato.
A princípio, na fixação do quantum da reparação dos danos materiais, vedava-se qualquer
forma de tabelamento. Deve-se observar, contudo, que, em recurso sujeito à repercussão geral,
o Supremo Tribunal Federal decidiu que a Convenção de Varsóvia prevalece sobre o Código de
25
Defesa do Consumidor nos contratos de transporte internacional, por força do art. 178 da
Constituição Federal de 1988, que prevê que “a lei disporá sobre a ordenação dos transportes
aéreo, aquático e terrestre, devendo, quanto à ordenação do transporte internacional, observar
os acordos firmados pela União, atendido o princípio da reciprocidade”.
Isso não se aplica, porém, aos contratos de transporte interno, tampouco à fixação do
dano moral. Nos termos do art. 178 da Constituição da República, as normas e os tratados
internacionais limitadores da responsabilidade das transportadoras aéreas de passageiros,
especialmente as Convenções de Varsóvia e Montreal, têm prevalência em relação ao Código
de Defesa do Consumidor (STF, RE 636.331 e ARE 766.618).
2.16.2 Dano Moral
São lesões extrapatrimoniais aos direitos da personalidade. Sua compensação não
significa a determinação de um preço para a dor ou sofrimento, mas configura meio para
atenuar as consequências de um prejuízo imaterial, o que traz o conceito de lenitivo, derivativo
ou sucedâneo.
Atente-se ao Enunciado 445, do Conselho da Justiça Federal:
Enunciado 445. O dano moral indenizável não pressupõe necessariamente a verificação
de sentimentos humanos desagradáveis como dor ou sofrimento.
Por exemplo, há danos morais sofridos pela pessoa jurídica, conforme o texto da Súmula
227 do STJ:
SÚMULA 227-STJ. A pessoa jurídica pode sofrer dano moral.
Por outro lado, o dano moral não se caracteriza quando há mero aborrecimento
inerente a prejuízo material.
Veja o Enunciado 159 do Conselho da Justiça Federal:
Enunciado 159. O dano moral, assim compreendido todo dano extrapatrimonial, não se
caracteriza quando há mero aborrecimento inerente a prejuízo material.
26
A mera quebra ou descumprimento contratual, por exemplo, não gera dano moral (STJ,
AgRg 303.129), salvo se envolver valor fundamental protegido pela Constituição Federal de 1988,
como no caso de negativa de pagamento por seguradora e a negativa de custeio de despesas
por plano de saúde (STJ, REsp 811.617 e REsp 880.035).
Veja o Enunciado 411, do Conselho da Justiça Federal:
Enunciado 411. O descumprimento de contrato pode gerar dano moral quando envolver
valor fundamental protegido pela Constituição Federal de 1988.
Embora parte da doutrina sustente a sua natureza puramente compensatória ou
puramente punitiva (punitive damages), prevalece que a indenização por dano moral tem um
caráter principal compensatório e um caráter disciplinador acessório, voltado à coibição de novas
condutas lesivas.
A indenização do dano moral possui, pois, uma dupla função:
a) punir o ofensor, para que não volte a reincidir (caráter punitivo ou inibitório: exemplary
ou punitive damages);
b) reparar o prejuízo causado à vítima (caráter compensatório) (STJ, REsp 715.320 e STF,
AI 455.846).
Prevalece no Superior Tribunal de Justiça que a utilização critério bifásico para fixar o
dano moral (REsp 959.780).
Em relação ao dano moral, continua sendo vedado o tabelamento, devendo a
indenização ser fixada com base no princípio da reparação integral, inclusive tratando-se de
transporte aéreo internacional.
DANO MORAL COLETIVO
Modalidade de dano que atinge, ao mesmo tempo, vários direitos da personalidade, de
pessoas determinadas ou determináveis (danos morais somados ou acrescidos). Atingem direitos
individuais homogêneos e coletivos em sentido estrito:
27
DIREITO INDIVIDUAIS
HOMOGÊNEOS
Decorrentes de origem comum, sendo possível identificar os
direitos dos prejudicados.
DIREITOS COLETIVOS EM
SENTIDO ESTRITO
Transindividuais e Indivisíveis, de que seja titular grupo,
categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte
contrária por uma relação jurídica base.
O Superior Tribunal de Justiça estabelece dois requisitos para a sua configuração:
a) razoável significância do fato transgressor;
b) repulsa social
O Superior Tribunal de Justiça fixou 11 teses em Repercussão Geral nº 125 sobre o Dano
Moral. Os entendimentos foram extraídos de julgados publicados até o dia 26/04/2019.
2.16.3 Dano Estético
Danos estéticos são considerados uma terceira modalidade de dano extrapatrimonial,
consistente na lesão à beleza física, à harmonia das formas externas de alguém.
Não se confunde com o dano moral, pois o primeiro causa “alteração morfológica de
formação corporal que agride a visão, causando desagrado e repulsa”, enquanto o segundo
configura “um sofrimento mental – dor da mente psíquica, pertencente ao foro íntimo” (STJ,
REsp 65.393).
Sobre o tema, veja a Súmula 387 do Superior Tribunal de Justiça:
SUMULA 387-STJ. É lícita a cumulação das indenizações de dano estético e dano moral.
2.16.4 Dano Social
São danos difusos, pois envolvem situações em que as vítimas são indeterminadas ou
indetermináveis.
Por serem as vítimas indeterminadas, nessa hipótese, a indenização deve ser destinada a
um fundo de proteção, de acordo com os direitos atingidos, ou para uma instituição de caridade,
a critério do juiz.
28
Para que haja condenação por dano social, é indispensável que haja pedido expresso, sob
pena de violar os princípios da demanda, da inércia e, fundamentalmente, da
adstrição/congruência, o qual exige a correlação entre o pedido e o provimento judicial a ser
exarado pelo Judiciário (STJ, Rcl 12.062).
Na visão do Superior Tribunal de Justiça a condenação por danos sociais somente pode
ocorrer em demandas coletivas e, portanto, apenas os legitimados para a propositura dessas
ações poderiam pleitear danos sociais. Assim, não é possíveldiscutir danos sociais em ação
individual.
DANOS MORAIS COLETIVOS DANOS SOCIAIS
Vários direitos da personalidade são atingidos Causam rebaixamento no nível de vida da
coletividade
Vítimas determinadas ou determináveis Vítimas indeterminadas
Direitos individuais homogêneos ou coletivos
em sentido estrito
Direito difusos
Indenização destinada às próprias vítimas Indenização destinada ao fundo de defesa do
consumidor
2.16.5 Dano Pela Perda de Uma Chance
A perda de uma chance está caracterizada quando a pessoa vê frustrada uma expectativa,
uma oportunidade futura que, dentro da lógica do razoável, ocorreria se as coisas seguissem o
seu curso normal.
Sobre o tema, veja o Enunciado 444 do Conselho da Justiça Federal:
Enunciado 444. A responsabilidade civil pela perda de chance não se limita à categoria
de danos extrapatrimoniais, pois, conforme as circunstâncias do caso concreto, a chance
perdida pode apresentar também a natureza jurídica de dano patrimonial. A chance deve
ser séria e real, não ficando adstrita a percentuais apriorísticos.
29
2.17 Princípio da Solidariedade
Estabelece que, tendo mais de um autor a ofensa aos direitos consumeristas, todos
responderão solidariamente, independentemente da existência de culpa (art. 7º, parágrafo único
do Código de Defesa do Consumidor).
Art. 7º Os direitos previstos neste código não excluem outros decorrentes de tratados ou
convenções internacionais de que o Brasil seja signatário, da legislação interna ordinária,
de regulamentos expedidos pelas autoridades administrativas competentes, bem como
dos que derivem dos princípios gerais do direito, analogia, costumes e equidade.
Parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão solidariamente
pela reparação dos danos previstos nas normas de consumo.
Logo, o consumidor pode optar por quem figurará no polo passivo da ação indenizatória,
ressalvando-se àquele que cumprir a obrigação por inteiro o direito de regresso em face dos
demais coobrigados.
Na responsabilidade por fato ou defeito do produto, no entanto, o comerciante não
responde solidariamente ao fabricante do objeto causador do acidente de consumo. Só será
responsável, subsidiariamente, se o fabricante não puder ser identificado, se o produto for
fornecido sem identificação clara do seu fabricante ou se não conservar adequadamente os
produtos perecíveis.
A solidariedade também está relacionada à responsabilidade aos danos causados aos
consumidores. Cabe ao fornecedor responder por quaisquer vícios ou fatos relativos ao produto
ou serviço.
30
2.18 Princípio da Interpretação mais favorável ao Consumidor
(Artigo 47 do CDC)
Todos os contratos serão interpretados de maneira mais favorável ao consumidor. No
mesmo sentido, se houver cláusula ambígua nos contratos de adesão, devem ser interpretadas
de forma mais favorável ao aderente.
Tal princípio está previsto no art. 47 do Código de Defesa do Consumidor:
Art. 47. As cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao
consumidor.
Vale salientar que este princípio será aplicável não apenas às cláusulas contratuais, mas
também em relação às leis em geral, ou seja, havendo conflito, aplica-se a lei ou a cláusula que
melhor atenda aos interesses do consumidor.
2.19 Princípio da Vinculação Contratual da Publicidade
A publicidade é uma oferta, assim como a informação. Sendo elas precisas, vinculam o
fornecedor. Elas integram o contrato de consumo, bastando que o consumidor aceite.
Este princípio está previsto no art. 30 do Código de Defesa do Consumidor.
Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer
forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou
apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o
contrato que vier a ser celebrado.
2.20 Princípio da Veracidade Publicidade
É a vedação à publicidade falsa ou enganosa, tendo previsão no art. 37, parágrafo §1º,
do Código de Defesa do Consumidor.
31
Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
§ 1º É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter
publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por
omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características,
qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre
produtos e serviços.
2.21 Princípio da Não Abusividade da Publicidade
Tem previsão no art. 37, parágrafo §2º, do Código de Defesa do Consumidor.
Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
§ 2º É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que
incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de
julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz
de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou
segurança.
Veda a publicidade discriminatória, ou que incite a violência.
2.22 Princípio da Função Social do Contrato
O Direito Civil prega a ideia da força obrigatória dos contratos (pacta sunt servanda).
Porém, no direito do consumidor, há que se analisar a função social do contrato, não podendo
se aceitar cláusulas draconianas e prejudiciais aos consumidores, naturalmente vulneráveis ante
os fornecedores.
Assim, em oposição a esta força obrigatória dos contratos, tem-se a Teoria da
Imprevisão, consubstanciada na cláusula rebus sic standibus, segundo a qual é possível se
relativizar a força obrigatória dos contratos na esfera do Direito do Consumidor.
É um direito básico previsto no artigo 6º, inciso V, do CDC:
32
Art. 6º. São direitos básicos do consumidor:
V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais
ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas;
33
QUADRO SINÓTICO
Princípio do Protecionismo
do Consumidor
Código de Defesa do Consumidor como norma cogente de
ordem pública e interesse social (art. 1º, do CDC).
Princípio da Vulnerabilidade Norma de caráter material e presunção absoluta. Igualdade
material entre as partes na relação consumerista.
Princípio da Defesa do
Consumidor pelo Estado
O Estado deve agir efetivamente na defesa dos interesses dos
consumidores, adotando medidas concretas e determinadas
de proteção (art. 4º, inciso II, do CDC).
Princípio da Harmonização Há necessidade de harmonização dos interesses daqueles que
participam da relação de consumo (consumidor e fornecedor)
(art. 4º, inciso III, do CDC).
Princípio da Boa-fé Objetiva
Impõe ao fornecedor e ao consumidor a prática dos atos da
relação de consumo pautados pela boa-fé, de acordo com
preceitos éticos e morais (art. 4º, inciso III, do CDC).
Princípio do Dever de
Informar ou da
Transparência
O dever de o fornecedor informar de modo claro e adequado
acerca das características, usos, riscos e preço dos produtos e,
bem assim de dar explicações sobre eles, em todas as fases
da relação: pré-contratual, contratual e pós-contratual.
Princípio da Educação e
Informação
Impõe o dever de informar fornecedores e consumidores
quanto a seus direitos e obrigações, com vistas à melhoria do
mercado de consumo (art. 4º, inciso IV, do CDC).
Princípio da Precaução
Precaução na orientação de se imprimir um elevado nível de
proteção à vida e à saúde do consumidor, nas hipóteses em
que há incerteza científica sobre os reais riscos que
determinados bens oferecidos no mercado podem representar
à incolumidade físico-psíquica dos consumidores.
34
Princípio da Facilitação da
Defesa dos Direitos do
Consumidor
Este princípio estabeleceque normas de direito material e
processual devem visar à facilitação da defesa dos direitos
consumeristas.
Princípio do Equilíbrio
Impõe um dever de equilíbrio entre fornecedor e consumidor,
tanto no plano material quanto no plano processual (art. 4º,
inciso III, do CDC).
Princípio da Confiança (ou
da Proteção da Confiança
ou da Transparência)
Princípio implícito. O fornecedor deve respeitar as legítimas
expectativas que o consumidor deposita na relação de
consumo.
Princípio do Combate ao
Abuso
O fornecedor deve respeitar as legítimas expectativas que o
consumidor deposita na relação de consumo (art. 4º, inciso VI,
do CDC).
Princípio da Modificação e
da Revisão Contratual
O direito de alteração das cláusulas contratuais que
estabeleçam prestações desproporcionais, bem como o direito
de revisão destas em razão de fatos supervenientes que as
tornem excessivamente onerosas (art. 6º, inciso V, do CDC).
Princípio da
Responsabilidade Objetiva
Estabelece que o fornecedor responde independentemente de
culpa pelos danos causados aos consumidores.
Princípio da Reparação
Integral dos Danos
Causado um dano ao consumidor, a reparação deve englobar
todo o prejuízo, abrangendo todas as espécies de dano:
material, moral, estético, coletivos (em sentido amplo), social
(art. 6º, inciso VI, do CDC).
Princípio da Solidariedade
Tendo mais de um autor a ofensa aos direitos consumeristas,
todos responderão solidariamente, independentemente da
existência de culpa (art. 7º, parágrafo único, do CDC).
Princípio da Interpretação
mais favorável ao
Consumidor
Todos os contratos serão interpretados de maneira mais
favorável ao consumidor. No mesmo sentido, se houver
cláusula ambígua nos contratos de adesão, devem ser
interpretadas de forma mais favorável ao aderente (art. 47, do
CDC).
Princípio da Vinculação
Contratual da Publicidade
A publicidade é uma oferta, assim como a informação. Sendo
elas precisas, vinculam o fornecedor. Elas integram o contrato
de consumo, bastando que o consumidor aceite (art. 30, do
CDC).
35
Princípio da Veracidade
Publicidade
É a vedação à publicidade falsa ou enganosa, tendo previsão
no art. 37, parágrafo §1º, do Código de Defesa do Consumidor.
Princípio da Não
Abusividade da Publicidade
Tem previsão no art. 37, parágrafo §2º, do Código de Defesa
do Consumidor. Veda a publicidade discriminatória, ou que
incite a violência.
Princípio da Função Social
do Contrato
É um direito básico previsto no artigo 6º, inciso V, do CDC. É
possível se relativizar a força obrigatória dos contratos na
esfera do Direito do Consumidor
36
QUESTÕES COMENTADAS
Questão 1
(CESPE - 2015 - TJ-PB - Juiz Substituto) A vulnerabilidade, pressuposto de aplicação do CDC,
é presumida para o consumidor pessoa física, ao passo que, para a pessoa jurídica, tal situação
deve ser demonstrada e aferida casuisticamente.
Comentário:
Há entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça no sentido de que a
vulnerabilidade da pessoa jurídica deve ser demonstrada e analisada no caso concreto,
segundo a casuística (RE 1.010.843/GO), assim, comprovada a vulnerabilidade da pessoa
jurídica a Teoria Finalista deve ser mitigada, aplicando-se as regras do Código de Defesa
do Consumidor à pessoa jurídica.
Questão 2
(VUNESP - 2019 – TJ-AC – Juiz de Direito Substituto) A Política Nacional das Relações
de Consumo é regida pelo seguinte princípio, dentre outros:
A) racionalização e melhoria dos serviços públicos e privados.
B) harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e compatibilização
da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento socioeconômico do
Brasil.
C) coibição e repressão de abusos praticados no mercado de consumo que possam causar
prejuízo aos consumidores e fornecedores.
37
D) educação e informação de consumidores e fornecedores quanto aos seus direitos e
deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo.
Comentário:
O erro da assertiva “A” está na menção a serviços privados, pois não estão previstos no
art. 4º, inciso VII, do Código de Defesa do Consumidor.
O erro da assertiva “B” é a previsão de desenvolvimento socioeconômico do Brasil, ao
passo em que o inciso III do art. 4º do Código de Defesa do Consumidor traz a expressão
desenvolvimento econômico e tecnológico.
O erro da assertiva “C” está na previsão que possam causar prejuízos aos consumidores e
fornecedores, pois o inciso VI do art. 4º do Código de Defesa do Consumidor não traz a
figura dos fornecedores nesse tocante.
A alternativa “D” apresenta a literalidade do inciso IV do art. 4º do Código de Defesa do
Consumidor: “IV - educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos
seus direitos e deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo”.
Questão 3
(TRF 3 - 2018 – TRF 3 – Juiz Federal Substituto) Sobre a disciplina da relação de consumo e
a aplicabilidade de normas e princípios do Código de Defesa do Consumidor, conforme a
interpretação que vem sendo dada na jurisprudência, assinale a alternativa INCORRETA:
A) contratos relativos ao Programa de Arrendamento Residencial – PAR, previstos na Lei nº
10.188/2001, estando voltados ao atendimento de necessidade de moradia de população
de baixa renda, submetem-se à disciplina do Código de Defesa do Consumidor.
B) contratos de abertura de crédito para financiamento estudantil (FIES), ao constituírem
programa de governo em benefício dos estudantes, ficam excluídos da disciplina
consumerista.
38
C) em ocorrendo saques fraudulentos em conta bancária, o correntista não pode ser
obrigado a provar o fato negativo, ou seja, que não efetuou os referidos saques, razão
pela qual é cabível a inversão do ônus da prova, nos termos do artigo 6º, VIII, do CDC.
D) eventual conflito do sistema interno consumerista com a disciplina internacional, em
particular, as Convenções de Varsóvia e de Montreal, relativo a controvérsias envolvendo
extravio de bagagens de passageiros em transporte aéreo internacional, deve ser
solucionado com prevalência aos tratados internacionais.
Comentário:
A alterativa “A” apresenta erronia e, por tanto, é o gabarito da questão que dá o comando
para que o avaliado marque a alternativa incorreta. O Código de Defesa do Consumidor
não encontra aplicação para os contratos de empreitada celebrados entre a Caixa
Econômica Federal, na condição de operacionalizadora do Programa de Arrendamento
Residencial-PAR, e a empresa contratada para construir as residências que serão
posteriormente objeto de contrato de arrendamento entre a mesma instituição financeira
e as pessoas de baixa renda, para as quais o programa se destina. (STJ, REsp 1073962/2012,
3ª TURMA).
Quanto a alternativa “B”, a jurisprudência do STJ está assentada no sentido de que os
contratos firmados no âmbito do Programa de Financiamento Estudantil (FIES) não se
submetem às regras encartadas no Código de Defesa do Consumidor. (STJ, REsp
1155684/2010, 1ª SEÇÃO, Recurso Repetitivo).
Quanto a alternativa “C”, o ônus de provar a autoria de saque em conta bancária, efetuado
mediante cartão magnético, quando o correntista, apesar de deter a guarda do cartão,
nega a autoria dos saques, em observância ao art. 6º, inciso VIII, do Código de Defesa do
Consumidor, com vistas a garantir o pleno exercício do direito de defesa do consumidor,
estabelece que a inversão do ônus da prova será deferida quando a alegação por ele
apresentada seja verossímil ou quando for constatada a sua hipossuficiência. Reconhecida
a hipossuficiência técnica do consumidor, em ação que versa sobre a realização de saques
39
não autorizados em contas bancárias, mostra-se imperiosa a inversão do ônus probatório.
(STJ, REsp 1155770/2011, 3ª TURMA).
Por fim, a alternativa“D”, nos termos do art. 178 da Constituição Federal de 1988, as
normas e os tratados internacionais limitadores da responsabilidade das transportadoras
aéreas de passageiros, especialmente as Convenções de Varsóvia e Montreal, têm
prevalência em relação ao Código de Defesa do Consumidor. (STF, RE 636331/2017,
Repercussão Geral).
Questão 4
(NUCEPE - 2018 – PC-PI – Delegado de Polícia Civil) Segundo o Código de Defesa do
Consumidor, a Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das
necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de
seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e
harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
A) contraditório, ampla defesa e proteção;
B) socialidade, equidade e boa-fé;
C) equidade, racionalização e melhoria dos serviços públicos;
D) educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos seus direitos e
deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo e eficácia da prestação de
serviços públicos em geral;
E) reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo e estudo
constante das modificações do mercado de consumo.
Comentário:
A alternativa “D” estaria correta se não tivesse acrescentado em seu texto a expressão “e
eficácia da prestação de serviços públicos em geral”. Desta forma, a alternativa a ser
assinalado pelo examinado seria a alternativa “E”, que traz o texto literal dos incisos I e VIII
do art. 4º do Código de Defesa do Consumidor. Quanto as demais alternativas, a alternativa
40
“A” está incorreta pois contraditório e ampla defesa são princípios processuais; a alternativa
“B” está incorreta porque apenas o princípio da boa-fé é princípio do direito consumerista
e a alternativa “C” está incorreta por não apresentar princípios do Direito do Consumidor.
Questão 5
(FCC - 2015 – TJ-SE – Juiz Substituto) O Código de Defesa do Consumidor se utiliza das
expressões “vulnerabilidade e “hipossuficiência" nos seus artigos. A respeito deste tema, é
correto afirmar:
A) O juiz somente pode inverter o ônus da prova no processo civil quando estiverem
presentes dois requisitos: hipossuficiência e verossimilhança da alegação do consumidor.
B) São expressões sinônimas, uma vez que ambas definem a situação de fraqueza do
consumidor perante o fornecedor.
C) São sinônimas, mas hipossuficiência é a expressão utilizada quando se trata de aplicar o
direito processual civil.
D) A vulnerabilidade deve ser declarada pelo juiz para fins de aplicação das normas mais
protetivas do consumidor.
E) A vulnerabilidade é uma condição pressuposta nas relações de consumo e a
hipossuficiência deve ser constatada no caso concreto.
Comentário:
As expressões “vulnerabilidade” e “hipossuficiência” não são sinônimas. A vulnerabilidade
do consumidor é um princípio de direito material (ope legis), com presunção absoluta (jure
et de juris), enquanto a hipossuficiência é um princípio de ordem processual e deve ser
analisado de acordo com a casuística.
Questão 6
41
(CESPE — 2012 — TJ-PA — Juiz) Com base nos princípios relacionados ao direito do
consumidor, assinale a opção correta.
A) A prevenção e a reparação dos danos dizem respeito apenas aos direitos dos
consumidores individuais, conforme previsão legal.
B) O CDC autoriza a intervenção direta do Estado no domínio econômico, para garantir a
proteção efetiva do consumidor.
C) Apesar de não estar expressamente previsto no CDC, o dever de informação é um
princípio fundamental nas relações de consumo.
D) Práticas abusivas que, adotadas pelo fornecedor, atinjam exclusivamente direitos
subjetivos do consumidor não são consideradas ilícitas pela legislação que regula as
relações de consumo.
E) Em razão da natureza jurídica da relação de consumo, a desproporcionalidade entre as
prestações enseja rescisão do contrato, não sendo possível a revisão de cláusulas
contratuais.
Comentário:
A questão exige conhecimento sobre os Princípios do Direito do Consumidor, política
nacional das relações de consumo, práticas abusivas e direitos básicos do consumidor.
Na alternativa “A” encontramos o erro quando o enunciado traz a palavra restritiva
“apenas”, visto que, de acordo com o art. 6º, inciso VI do Código de Defesa do Consumidor,
a prevenção e a reparação dos danos se referem também aos direitos difusos e coletivos.
Quanto a alternativa “B”, a intervenção direta do Estado está prevista no art. 4º, inciso II,
do Código de Defesa do Consumidor e visa à proteção efetiva o consumidor, buscando
assegurar a ele o acesso aos produtos e serviços essenciais e garantir a qualidade e
adequação dos produtos e serviços.
No tocando a alternativa “C”, o dever de informação está previsto no Código de Defesa
do Consumidor no art. 6º inciso II que, com o princípio da transparência, previsto no caput
do art. 4º do mesmo Código deu nova formatação aos produtos e serviços disponibilizados
42
no mercado. Está previsto também, o dever de informação, no art. 31 do Código de Defesa
do Consumidor.
As práticas abusivas per si, que trata a alternativa “D” são ilícitas independentemente de
lesaram o consumidor.
Por fim, quanto a alternativa “E”, o art. 6º, inciso V, do Código de Defesa do Consumidor,
prevê como direito básico “a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam
prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as
tornem excessivamente onerosas”.
Questão 7
(XVI EXAME DE ORDEM – FGV – 2015) A responsabilidade civil dos fornecedores de
serviços e produtos, estabelecida pelo Código do Consumidor, reconheceu a relação
jurídica qualificada pela presença de uma parte vulnerável, devendo ser observados os
princípios da boa-fé, lealdade contratual, dignidade da pessoa humana e equidade.
A respeito da temática, assinale a afirmativa correta.
A) A responsabilidade civil subjetiva dos fabricantes impõe ao consumidor a comprovação
da existência de nexo de causalidade que o vincule ao fornecedor, mediante comprovação
da culpa, invertendo que tange ao resultado danoso suportado.
B) A responsabilidade civil do fabricante é subjetiva e subsidiária quando o comerciante é
identificado e encontrado para responder pelo vício ou fato do produto, cabendo ao
segundo a responsabilidade civil objetiva.
C) A responsabilidade civil objetiva do fabricante somente poderá ser imputada se houver
demostração dos elementos mínimos que comprovem o nexo de causalidade que justifique
a ação proposta, ônus esse do consumidor.
43
D) A inversão do ônus da prova nas relações de consumo é questão de ordem pública e de
imputação imediata, cabendo ao fabricante a carga probatória frente ao consumidor, em razão
da responsabilidade civil objetiva
Comentário:
Como é sabido, nas hipóteses de responsabilidade objetiva cabe à vítima provar o dano e
o nexo causal. Nesses casos, a defesa limita-se à demonstrar excludentes do nexo de
causalidade, quais sejam o caso fortuito, a força maior, o fato exclusivo de terceiros e o
fato exclusivo da vítima. Ressalte-se que, em alguns casos, apenas algumas das excludentes
podem ser arguidas, como ocorre com o fato exclusivo de animais, casos estes
considerados pela doutrina como uma responsabilidade objetiva mais grave (art. 936,
NCC/02. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar
culpa da vítima ou força maior).
44
GABARITO
Questão 1 - Certo
Questão 2 - D
Questão 3 - A
Questão 4 - E
Questão 5 - E
Questão 6 - B
Questão 7 - C
45
QUESTÃO DESAFIO
No direito consumerista temos dois conceitos importantes:
vulnerabilidade e hipossuficiência. Um destes conceitos diz respeito
ao aspecto material e se tratade uma presunção absoluta. Estamos
falando de qual conceito?
Responda em até cinco linhas
46
GABARITO DA QUESTÃO DESAFIO
Trata-se do Princípio da Vulnerabilidade.
Você deve ter abordado necessariamente os seguintes itens em sua resposta:
Vulnerabilidade
POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO
I - reconhecimento da vulnerabilidade (e não hipossuficiência) do consumidor no mercado de
consumo;
OBS:
VULNERABILIDADE = Material, Presunção Absoluta.
HIPOSSUFICIÊNCIA = Processual, Análise Casuística.
OBS:
HIPERVULNERABILIDADE – Min. Herman Benjamin – Resp. 931.513/RS – Doença Física ou Mental,
Gravidez, Turista, Analfabeto, Crianças, Idosos etc = Proteção Social!
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LEGISLAÇÃO COMPILADA
Princípios do Direito do Consumidor:
CDC: Art. 4º, Art. 6º.
Súmula 37-STJ. São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos
do mesmo fato.
Súmula 227-STJ. A pessoa jurídica pode sofrer dano moral.
Súmula 387-STJ. É lícita a cumulação das indenizações de dano estético e dano moral.
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JURISPRUDÊNCIA
Princípio da Vulnerabilidade
TJDFT: Acórdão n. 813514, Relator Des. Alfeu Machado - 1ª Turma Cível, Julgamento: 21/8/2014,
DJe: 29/8/2014
PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. DIREITO OBRIGACIONAL. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. ART.
6°, VIII, DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. VEROSSIMILHANÇA DAS ALEGAÇÕES OU VULNERABILIDADE
NÃO DEMONSTRADAS PELO AGRAVANTE. AUSÊNCIA DO EFEITO DE OBRIGAR A PARTE CONTRÁRIA A ARCAR
COM AS CUSTAS DA PROVA REQUERIDA PELO INTERESSADO. CONSEQUÊNCIAS PROCESSUAIS ADVINDAS DE SUA
NÃO PRODUÇÃO. NECESSIDADE DE DILAÇÃO PROBATÓRIA. RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO. DECISÃO
MANTIDA.
1. A aplicação da inversão do ônus da prova, nos termos do art. 6°, VIII, do CDC – Lei Nº 8078/90, não é automática,
cabendo ao magistrado a quo analisar as condições de verossimilhança da alegação e de hipossuficiência, conceitos
intrinsecamente ligados ao conjunto fático-probatório demonstrado nos autos.
2. A vulnerabilidade do consumidor pessoa física é presumida pela lei, a da pessoa jurídica deve ser
demonstrada no caso concreto.
3. A inversão do ônus da prova não tem o efeito de obrigar a parte contrária a arcar com as custas da prova
requerida pelo interessado, no entanto sofre as consequências processuais advindas de sua não produção.
4. Nexo causal é pressuposto indispensável da responsabilização civil, havendo, por outro lado, necessidade de
apuração de todo o alegado com a produção das provas necessárias na fase processual adequada por especialista.
5. Nega-se provimento ao agravo de instrumento que se insere no contexto de matéria que está a depender de
ampla dilação probatória somente possível na ação principal sob o pálio do contraditório e da ampla defesa.
6.Recurso conhecido e não provido.
STJ: EDcl no Ag 1371143/PR, Rel. Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 07/03/2013,
DJe 17/04/2013
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EMBARGOS DE DECLARAÇÃO RECEBIDOS COMO AGRAVO REGIMENTAL. CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR.
INCIDÊNCIA. TEORIA FINALISTA. DESTINATÁRIO FINAL. NÃO ENQUADRAMENTO. VULNERABILIDADE. AUSÊNCIA.
REEXAME DE FATOS E PROVAS. RECURSO ESPECIAL. SÚMULA 7/STJ.
1. Embargos de declaração recebidos como agravo regimental em face do nítido caráter infringente das razões
recursais. Aplicação dos princípios da fungibilidade e da economia processual.
2. Consoante jurisprudência desta Corte, o Código de Defesa do Consumidor não se aplica no caso em que o
produto ou serviço é contratado para implementação de atividade econômica, já que não estaria configurado o
destinatário final da relação de consumo (teoria finalista ou subjetiva).
3. Esta Corte tem mitigado a aplicação da teoria finalista quando ficar comprovada a condição de hipossuficiência
técnica, jurídica ou econômica da pessoa jurídica.
4. Tendo o Tribunal de origem assentado que a parte agravante não é destinatária final do serviço, tampouco
hipossuficiente, é inviável a pretensão deduzida no apelo especial, uma vez que demanda o reexame do conjunto
fático-probatório dos autos, o que se sabe vedado em sede de recurso especial, a teor da Súmula 7 desta Corte.
5. Agravo regimental a que se nega provimento.
STJ: RE 1.010.843/GO (2007/0283503-8) – Ral. Min. Nancy Andrighi
PROCESSO CIVIL E CONSUMIDOR. CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE MÁQUINA DE BORDAR. FABRICANTE.
ADQUIRENTE. VULNERABILIDADE. RELAÇÃO DE CONSUMO. NULIDADE DE CLÁUSULA ELETIVA DE FORO.
1. A Segunda Seção do STJ, ao julgar o REsp 541.867/BA, Rel. Min. Pádua Ribeiro, Rel. p/ Acórdão o Min. Barros
Monteiro, DJ de 16/05/2005, optou pela concepção subjetiva ou finalista de consumidor.
2. Todavia, deve-se abrandar a teoria finalista, admitindo a aplicação das normas do CDC a determinados
consumidores profissionais, desde que seja demonstrada a vulnerabilidade técnica, jurídica ou econômica.
3. Nos presentes autos, o que se verifica é o conflito entre uma empresa fabricante de máquinas e fornecedora de
softwares, suprimentos, peças e acessórios para a atividade confeccionista e uma pessoa física que adquire uma
máquina de bordar em prol da sua sobrevivência e de sua família, ficando evidenciada a sua vulnerabilidade
econômica.
4. Nesta hipótese, está justificada a aplicação das regras de proteção ao consumidor, notadamente a nulidade da
cláusula eletiva de foro.
5. Negado provimento ao recurso especial.
STJ: REsp 1.324.712-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 24/9/2013
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DIREITO DO CONSUMIDOR. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. ATENDIMENTO POR PLANO DE SAÚDE.
COBRANÇA OU ADMISSÃO, POR PARTE DO HOSPITAL, DE QUE SEJA COBRADO POR EMPREGADO E/OU
PREPOSTO, EM TRATAMENTO MÉDICO-HOSPITALAR COBERTO POR PLANO DE SAÚDE, DE ADICIONAL REFERENTE
À SUPLEMENTAÇÃO DOS HONORÁRIOS MÉDICOS, RELATIVA À ALEGADA MAJORAÇÃO IMPOSTA PELA
PRESTAÇÃO DE SERVIÇO EM DETERMINADOS HORÁRIOS. IMPOSSIBILIDADE. CUSTO QUE DEVE ESTAR PRESENTE
NO PREÇO COBRADO, NA AVENÇA MERCANTIL, PELO HOSPITAL DA OPERADORA DO PLANO DE SAÚDE.
DESCABIMENTO DE SUA IMPOSIÇÃO, EM PREVALECIMENTO SOBRE A FRAGILIDADE DO CONSUMIDOR. EXIGÊNCIA
DE CAUÇÃO PARA ATENDIMENTOS EMERGENCIAIS. INVIABILIDADE. CONDUTA VEDADA PELOS ARTS. 1º E 2º DA
LEI N. 12.653/2012.
1."O ponto de partida do CDC é a afirmação do Princípio da Vulnerabilidade do Consumidor, mecanismo que visa
a garantir igualdade formal-material aos sujeitos da relação jurídica de consumo, o que não quer dizer compactuar
com exageros que, sem utilidade real, obstem o progresso tecnológico, a circulação dos bens de consumo e a
própria lucratividade dos negócios". (REsp 586316/MG, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA,
julgado em 17/04/2007, DJe 19/03/2009)
2. Independentemente do exame da razoabilidade/possibilidade de cobrança de honorários médicos majorados
para prestação de serviços fora do horário comercial - desnecessário para a solução da demanda e sequer discutida
pelas instâncias ordinárias -, salta aos olhos que se trata de custos que incumbem ao hospital. Estes, por
conseguinte, deveriam cobrar por seus serviços diretamente das operadoras de plano de saúde, e não dos
particulares/consumidores.
3. Com efeito, cuida-se de iníqua cobrança, em prevalecimento sobre a fragilidade do consumidor, de custo que
está ou deveria estar coberto pelo preço cobrado da operadora de saúde - negócio jurídico mercantil do qual não
faz parte o consumidor usuário do plano de saúde -, caracterizando-se como conduta manifestamente abusiva, em
violação à boa-fé objetiva e ao dever de probidade do fornecedor, vedada pelos arts. 39, IV, X e 51, III, IV, X, XIII,
XV, do CDC e 422 do CC/2002.
4. Na relação mercantil existente entre o hospital e as operadoras de planos saúde, os contratantes são empresários
- que exercem atividade econômica profissionalmente-, não cabendo ao consumidor arcar com os
ônus/consequências de eventual equívoco quanto à gestão empresarial.
5. Antes mesmo da vigência da Lei n. 12.653/2012 - que trouxe ao ordenamento jurídico norma vedando
expressamente a exigência de caução e de prévio preenchimento de formulário administrativo para a prestação de
atendimento médico-hospitalar premente -, este Colegiado, por ocasião do julgamento do REsp 1.256.703/SP, havia
manifestado que, em se tratando de atendimento médico emergencial, é dever do estabelecimento hospitalar, sob
pena de responsabilização cível e criminal, da sociedade empresária e prepostos, prestar o pronto atendimento
médico-hospitalar.
6. Recurso especial provido para restabelecer a sentença.
51
Princípio da Boa-fé Objetiva
STJ: Recurso Especial nº 1.105.483-MG 2008/0255833-4, Rel. Ministro Massami Uyeda
RECURSO ESPECIAL. CIVIL. SEGURO DE VIDA EM GRUPO (OURO VIDA - APÓLICE 40). NÃO RENOVAÇÃO PELA
SEGURADORA. AUSÊNCIA DE ABUSIVIDADE. NATUREZA DO CONTRATO (MUTUALISMO E TEMPORARIEDADE).
EXISTÊNCIA DE CLÁUSULA CONTRATUAL. NOTIFICAÇÃO DO SEGURADO EM PRAZO RAZOÁVEL.
1. A Segunda Seção deste Tribunal Superior, quando do julgamento do REsp nº 880.605/RN (DJe 17/9/2012), firmou
o entendimento de não ser abusiva a cláusula contratual que prevê a possibilidade de não renovação automática
do seguro de vida em grupo por qualquer dos contratantes, desde que haja prévia notificação em prazo razoável.
Essa hipótese difere da do seguro de vida individual que foi renovado ininterruptamente por longo período, situação
em que se aplica o entendimento firmado no REsp nº 1.073.595/MG (DJe 29/4/2011).
2. O exercício do direito de não renovação do seguro de vida em grupo pela seguradora, na hipótese de ocorrência
de desequilíbrio atuarial, com o oferecimento de proposta de adesão a novo produto, não fere o princípio da boa-
fé objetiva, mesmo porque o mutualismo e a temporariedade são ínsitos a essa espécie de contrato.
3. Recurso especial da FENABB não conhecido; recurso especial da Companhia de Seguros Aliança do Brasil S.A.
provido e recurso especial da ABRASCONSEG prejudicado.
Princípio do Equilíbrio
STJ, Recurso Especial nº 63.981-SP (1995/0018349-8) Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira,
Julgamento 11.04.2000.
DIREITO DO CONSUMIDOR. FILMADORA ADQUIRIDA NO EXTERIOR. DEFEITO DA MERCADORIA.
RESPONSABILIDADE DA EMPRESA NACIONAL DA MESMA MARCA (“PANASONIC”). ECONOMIA GLOBALIZADA.
PROPAGANDA. PROTEÇÃO AO CONSUMIDOR. PECULIARIDADES DA ESPÉCIE. SITUAÇÕES A PONDERAR NOS
CASOS CONCRETOS. NULIDADE DO ACÓRDÃO ESTADUAL REJEITADA, PORQUE SUFICIENTEMENTE
FUNDAMENTADO. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO NO MÉRITO, POR MAIORIA.
I Se a economia globalizada não mais tem fronteiras rígidas e estimula e favorece a livre concorrência,
imprescindível que as leis de proteção ao consumidor ganhem maior expressão em sua exegese, na busca do
equilíbrio que deve reger as relações jurídicas, dimensionando se, inclusive, o fator risco, inerente à competitividade
do comércio e dos negócios mercantis, sobretudo quando em escala internacional, em que presentes empresas
poderosas, multinacionais, com filiais em vários países, sem falar nas vendas hoje efetuadas pelo processo
tecnológico da informática e no forte mercado consumidor que representa o nosso País.
52
II O mercado consumidor, não há como negar, vê se hoje "bombardeado" diuturnamente por intensa e hábil
propaganda, a induzir a aquisição de produtos, notadamente os sofisticados de procedência estrangeira, levando
em linha de conta diversos fatores, dentre os quais, e com relevo, a respeitabilidade da marca.
III Se empresas nacionais se beneficiam de marcas mundialmente conhecidas, incumbe lhes responder também
pelas deficiências dos produtos que anunciam e comercializam, não sendo razoável destinar se ao consumidor as
consequências negativas dos negócios envolvendo objetos defeituosos.
IV Impõe se, no entanto, nos casos concretos, ponderar as situações existentes.
V Rejeita se a nulidade arguida quando sem lastro na lei ou nos autos.
Princípio da Confiança (ou da Proteção da Confiança ou da
Transparência)
STJ: STJ – REsp 1.181.066/RS – Rel. Des. Conv. Vasco Della Giustina – j. 15.03.2011
CONSUMIDOR. DIREITO À INFORMAÇÃO. A questão posta no REsp cinge-se em saber se, a despeito de existir
regulamento classificando como ‘sem álcool’ cervejas que possuem teor alcoólico inferior a meio por cento em
volume, seria dado à sociedade empresária recorrente comercializar seu produto, possuidor de 0,30g/100g e
0,37g/100g de álcool em sua composição, fazendo constar do seu rótulo a expressão ‘sem álcool’. A Turma negou
provimento ao recurso, consignando que, independentemente do fato de existir norma regulamentar que classifique
como sendo ‘sem álcool’ bebidas cujo teor alcoólico seja inferior a 0,5% por volume, não se afigura plausível a
pretensão da fornecedora de levar ao mercado cerveja rotulada com a expressão ‘sem álcool’, quando essa
substância encontra-se presente no produto. Ao assim proceder, estaria ela induzindo o consumidor a erro e,
eventualmente, levando-o ao uso de substância que acreditava inexistente na composição do produto e pode
revelar-se potencialmente lesiva à sua saúde. Destarte, entendeu-se correto o tribunal a quo, ao decidir que a
comercialização de cerveja com teor alcoólico, ainda que inferior a 0,5% em cada volume, com informação ao
consumidor, no rótulo do produto, de que se trata de bebida sem álcool vulnera o disposto nos arts. 6º e 9º do
CDC ante o risco à saúde de pessoas impedidas do consumo.
Princípio do Dever de Informar ou da Transparência
STJ: REsp: 1073595-MG (2008/0150187-7) - Rel. Min. Nancy Andrighi. Julgamento: 23.03.2011 -
DJe: 29.04.2011.
DIREITO DO CONSUMIDOR. CONTRATO DE SEGURO DE VIDA, RENOVADO ININTERRUPTAMENTE POR DIVERSOS
ANOS. CONSTATAÇÃO DE PREJUÍZOS PELA SEGURADORA, MEDIANTE A ELABORAÇÃO DE NOVO CÁLCULO
ATUARIAL. NOTIFICAÇÃO, DIRIGIDA AO CONSUMIDOR, DA INTENÇÃO DA SEGURADORA DE NÃO RENOVAR O
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CONTRATO, OFERECENDO-SE A ELE DIVERSAS OPÇÕES DE NOVOS SEGUROS, TODAS MAIS ONEROSAS.
CONTRATOS RELACIONAIS. DIREITOS E DEVERES ANEXOS. LEALDADE, COOPERAÇÃO, PROTEÇÃO DA SEGURANÇA
E BOA FÉ OBJETIVA. MANUTENÇÃO DO CONTRATO DE SEGURO NOS TERMOS ORIGINALMENTE PREVISTOS.
RESSALVA DA POSSIBILIDADE DE MODIFICAÇÃO DO CONTRATO, PELA SEGURADORA, MEDIANTE A
APRESENTAÇÃO PRÉVIA DE EXTENSO CRONOGRAMA, NO QUAL OS AUMENTOS SÃO APRESENTADOS DE
MANEIRA SUAVE E ESCALONADA.
1. No moderno direito contratual reconhece-se, para além da existência dos contratos descontínuos, a existência
de contratos relacionais, nos quais as cláusulas estabelecidas no instrumento não esgotam a gama de direitos e
deveres das partes.
2. Se o consumidor contratou, ainda jovem, o seguro de vida oferecido pela recorrida e se esse vínculo vem se
renovando desde então, ano a ano, por mais de trinta anos, a pretensão da seguradora de modificar abrutamente
as condições do seguro, não renovando o ajuste anterior, ofende os princípios da boa fé objetiva, da cooperação,
da confiança e da lealdade que deve orientar a interpretação dos contratos que regulam relações de consumo.
3. Constatado prejuízos pela seguradora e identificada a necessidade de modificação da carteira de seguros em
decorrência de novo cálculo atuarial, compete a ela ver o consumidor como um colaborador, um parceiro que a
tem acompanhado ao longo dos anos. Assim, os aumentos necessários para o reequilíbrio da carteira têm de ser
estabelecidos de maneira suave e gradual, mediante um cronograma extenso, do qual o segurado tem de ser
cientificado previamente. Com isso, a seguradora colabora com o particular, dando-lhe a oportunidade de se
preparar para os novos custos que onerarão, ao longo do tempo, o seu seguro de vida, e o particular também
colabora com a seguradora, aumentando suaparticipação e mitigando os prejuízos constatados.
4. A intenção de modificar abruptamente a relação jurídica continuada, com simples notificação entregue com
alguns meses de antecedência, ofende o sistema de proteção ao consumidor e não pode prevalecer.
5. Recurso especial conhecido e provido.
Dano Material
STFJ: RE 63.331-RJ, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento 25.02.2017
1. Recurso extraordinário com repercussão geral. 2. Extravio de bagagem. Dano material. Limitação. Antinomia.
Convenção de Varsóvia. Código de Defesa do Consumidor. 3. Julgamento de mérito. É aplicável o limite
indenizatório estabelecido na Convenção de Varsóvia e demais acordos internacionais subscritos pelo Brasil, em
relação às condenações por dano material decorrente de extravio de bagagem, em voos internacionais. 5.
Repercussão geral. Tema 210. Fixação da tese: "Nos termos do art. 178 da Constituição da República, as normas e
os tratados internacionais limitadores da responsabilidade das transportadoras aéreas de passageiros,
especialmente as Convenções de Varsóvia e Montreal, têm prevalência em relação ao Código de Defesa do
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Consumidor". 6. Caso concreto. Acórdão que aplicou o Código de Defesa do Consumidor. Indenização superior ao
limite previsto no art. 22 da Convenção de Varsóvia, com as modificações efetuadas pelos acordos internacionais
posteriores. Decisão recorrida reformada, para reduzir o valor da condenação por danos materiais, limitando-o ao
patamar estabelecido na legislação internacional. 7. Recurso a que se dá provimento.
Dano Moral – Teses de Repercussão Geral 125 STJ
1) A fixação do valor devido à título de indenização por danos morais deve considerar o método bifásico, que
conjuga os critérios da valorização das circunstâncias do caso e do interesse jurídico lesado, e minimiza
eventual arbitrariedade ao se adotar critérios unicamente subjetivos do julgador, além de afastar eventual
tarifação do dano. Acórdãos relacionados: AgInt no REsp 1533342/PR, Rel. Ministro PAULO DE TARSO
SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado em 25/03/2019, DJe 27/03/2019 AgInt no AREsp 900932/MG, Rel.
Ministro MOURA RIBEIRO, TERCEIRA TURMA, julgado em 25/02/2019, DJe 27/02/2019 REsp 1771866/DF, Rel.
Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em 12/02/2019, DJe 19/02/2019 AgInt no REsp
1719756/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 15/05/2018, DJe 21/05/2018 REsp
1669680/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 20/06/2017, DJe 22/06/2017 RCDESP
no REsp 362532/PB, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA, julgado em 07/08/2012, DJe
20/08/2012
2) O dano moral coletivo, aferível in re ipsa, é categoria autônoma de dano relacionado à violação injusta e
intolerável de valores fundamentais da coletividade. Acórdãos relacionados: REsp 1737428/RS, Rel. Ministra
NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 12/03/2019, DJe 15/03/2019 REsp 1726270/BA, Rel. Ministra
NANCY ANDRIGHI, Rel. p/ Acórdão Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em
27/11/2018, DJe 07/02/2019 AgInt no AREsp 100405/GO, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado
em 16/10/2018, DJe 19/10/2018 AgInt no AREsp 1312148/SP, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA
TURMA, julgado em 17/09/2018, DJe 20/09/2018 AgInt no AREsp 1113260/RJ, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO,
SEGUNDA TURMA, julgado em 16/08/2018, DJe 27/08/2018 REsp 1517973/PE, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO,
QUARTA TURMA, julgado em 16/11/2017, DJe 01/02/2018.
3) É lícita a cumulação das indenizações de dano estético e dano moral. (Súmula n. 387/STJ). Acórdãos
relacionados: REsp 1722505/ES, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/03/2018, DJe
22/11/2018 REsp 1637884/SC, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 20/02/2018, DJe
23/02/2018 AgInt no AREsp 958765/RO, Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado
em 21/09/2017, DJe 25/09/2017 AgInt no AREsp 1026481/ES, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA
TURMA, julgado em 02/05/2017, DJe 08/05/2017 AgInt no AREsp 445267/PR, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA
TURMA, julgado em 17/11/2016, DJe 07/12/2016 AgRg no AREsp 101930/RJ, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE
NORONHA, TERCEIRA TURMA, julgado em 12/05/2015, DJe 18/05/2015.
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4) A legitimidade para pleitear a reparação por danos morais é, em regra, do próprio ofendido, no entanto,
em certas situações, são colegitimadas também aquelas pessoas que, sendo muito próximas afetivamente à
vítima, são atingidas indiretamente pelo evento danoso, reconhecendo-se, em tais casos, o chamado dano
moral reflexo ou em ricochete. Acórdãos relacionados: AgInt no AREsp 1290597/RJ, Rel. Ministro LÁZARO
GUIMARÃES (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TRF 5ª REGIÃO), QUARTA TURMA, julgado em 20/09/2018, DJe
26/09/2018 AgInt no AREsp 1099667/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em
24/04/2018, DJe 02/05/2018 REsp 1119632/RJ, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em
15/08/2017, DJe 12/09/2017 AgRg no REsp 1212322/SP, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA
TURMA, julgado em 03/06/2014, DJe 10/06/2014 AgRg no Ag 1413481/RJ, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS
CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em 13/03/2012, DJe 19/03/2012 REsp 1119933/RJ, Rel. Ministra NANCY
ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 01/03/2011, DJe 21/06/2011
5) Embora a violação moral atinja apenas os direitos subjetivos do falecido, o espólio e os herdeiros têm
legitimidade ativa ad causam para pleitear a reparação dos danos morais suportados pelo de cujus. Acórdãos
relacionados: AgInt no AREsp 85987/SP, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 05/02/2019, DJe
12/02/2019 AgInt no AgInt nos EDcl no AREsp 1112079/PR, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA,
julgado em 21/08/2018, DJe 24/08/2018 REsp 1185907/CE, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA,
julgado em 14/02/2017, DJe 21/02/2017 AgRg no AREsp 326485/SP, Rel. Ministro SIDNEI BENETI, TERCEIRA TURMA,
julgado em 25/06/2013, DJe 01/08/2013 REsp 1071158/RJ, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA,
julgado em 25/10/2011, DJe 07/11/2011 AgRg nos EREsp 978651/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, CORTE ESPECIAL,
julgado em 15/12/2010, DJe 10/02/2011
10) A pessoa jurídica pode sofrer dano moral, desde que demonstrada ofensa à sua honra objetiva. Acórdãos
relacionados: AgRg no AREsp 454848/RS, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado
em 01/04/2019, DJe 10/04/2019 AgInt no REsp 1742291/MG, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA
TURMA, julgado em 10/12/2018, DJe 19/12/2018 REsp 1726984/SP, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA
TURMA, julgado em 08/05/2018, DJe 19/11/2018 AgRg no AREsp 426244/RS, Rel. Ministro MARCO BUZZI, QUARTA
TURMA, julgado em 04/10/2018, DJe 11/10/2018 AgInt no AREsp 1256777/SP, Rel. Ministro MOURA RIBEIRO,
TERCEIRA TURMA, julgado em 26/06/2018, DJe 02/08/2018 AgInt no AgInt no REsp 1455454/PR, Rel. Ministro LUIS
FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 17/04/2018, DJe 20/04/2018
11) A pessoa jurídica de direito público não é titular de direito à indenização por dano moral relacionado à
ofensa de sua honra ou imagem, porquanto, tratando-se de direito fundamental, seu titular imediato é o
particular e o reconhecimento desse direito ao Estado acarreta a subversão da ordem natural dos direitos
fundamentais. Acórdãos relacionados: REsp 1731782/MS, Rel. Ministra REGINA HELENA COSTA, PRIMEIRA TURMA,
julgado em 04/12/2018, DJe 11/12/2018 AgInt no REsp 1653783/SP, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES,
SEGUNDA TURMA, julgado em 24/10/2017, DJe 30/10/2017 REsp 1505923/PR, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN,
56
SEGUNDA TURMA, julgado em 21/05/2015, DJe 19/04/2017 REsp 1258389/PB, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO,
QUARTA TURMA, julgado em 17/12/2013, DJe 15/04/201457
ESTUDO COMPLEMENTAR
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58
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Adriano. MASSON, Cleber. ANDRADE, Landolfo. Interesses difusos e coletivos esquematizado. 6. ed. Método: São
Paulo, 2016.
ÁVILA, Humberto. Teoria Geral dos Princípios da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 4. Ed. Malheiros Editores: São
Paulo, 2004.
BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da Constituição: fundamentos de uma dogmática constitucional
transformadora. São Paulo, Saraiva, 1999.
BOLZAN, Fabrício. Direito do consumidor esquematizado. 2. ed. Saraiva: São Paulo, 2014.
CAVALCANTI, Márcio André Lopes. Vade mecum de jurisprudência. Juspodivm: Salvador, 2019.
CUNHA, Rogério Sanches e outros. Revisaço magistratura estadual. 7. ed. Juspodivm: Salvador, 2019.
FILOMENO, José Geraldo Brito. Direitos do consumidor. 15. ed. Atlas: São Paulo, 2018.
GARCIA, Leonardo de Medeiros. Código de defesa do consumidor comentado artigo por artigo. 13. ed. Juspodivm: Salvador,
2016.
GOMES, Nathália Stivalle. Direito do consumidor. Juspodvum: 2019.
GOUVEIA, Mila. Informativos em frase. Juspodivm: Salvador, 2017.
LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. 21. ed. Saraiva: São Paulo, 2017.
MIRAGEM, Bruno. Curso de direito do consumidor. 6. ed. Revista dos Tribunais: São Paulo, 2016.
NETO, Felipe Peixoto Braga. Manual de direito do consumidor. Juspodvim: Salvador, 2015.
NUNES, Rizzatto. Curso de direito do consumidor. 12. ed. Saraiva Educação: São Paulo, 2018.
REALE, Miguel. Filosofia do Direito. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 1986.
TARTUCE, Flávio. NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de direito do consumidor: direito material e processual. 7. ed.
Método: São Paulo, 2018.
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Direitos do consumidor. 9. ed. Forense: Rio de Janeiro, 2017.
PDF OAB
Direito do Consumidor
Capítulo 3
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1
SUMÁRIO
DIREITO DO CONSUMIDOR ................................................................................................................... 3
3. Direitos Básicos do Consumidor e Convenção Coletiva de Consumo .................................. 3
3.1 Introdução ...................................................................................................................................................... 3
3.2 Direito à Proteção da Vida, Saúde e Segurança ................................................................................................ 6
3.3 Direito à Educação........................................................................................................................................... 8
3.4 Direito à Informação Adequada e Clara ........................................................................................................... 9
3.5 Direito à Proteção Contra Práticas Comerciais Abusivas................................................................................... 9
3.6 Direito à Preservação do Contrato e Revisão das Cláusulas Contratuais ......................................................... 12
3.7 Direito à Efetiva Prevenção e Reparação de Danos ........................................................................................ 14
3.8 Direito ao Acesso à Justiça, à Facilitação da Defesa de Direitos e à Inversão do Ônus da Prova ...................... 15
3.9 Direito ao Recebimento de Serviços Adequados e Eficazes ............................................................................ 19
3.10 Convenção Coletiva de Consumo ................................................................................................................... 21
3.10.1 Conceito ........................................................................................................................................................ 21
3.10.2 Obrigatoriedade ............................................................................................................................................ 22
QUADRO SINÓTICO .............................................................................................................................. 25
QUESTÕES COMENTADAS ................................................................................................................... 27
GABARITO ............................................................................................................................................... 44
QUESTÃO DESAFIO ................................................................................................................................ 45
GABARITO DA QUESTÃO DESAFIO .................................................................................................... 46
LEGISLAÇÃO COMPILADA .................................................................................................................... 48
JURISPRUDÊNCIA ..................................................................................................................................... 49
ESTUDO COMPLEMENTAR ................................................................................................................... 82
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................................................... 83
2
E ai, OABeiro! Tudo certinho?
A apostila de número 03 do nosso curso de Direito Do Consumidor tratará sobre Direitos
Básicos do Consumidor, matéria que já foi objeto de várias questões no Exame de Ordem ao
decorrer desses anos! De acordo com a nossa equipe de inteligência, esse assunto esteve
presente apenas 2 VEZES nos últimos 3 anos, sendo considerado um assunto de média
relevância!
Aqui, a banca costuma seguir o seu padrão: Apresentar um caso hipotético, pelo qual a
resposta é respaldada na legislação vigente. Por isso, recomendamos a leitura atenta da letra
seca da lei e entendimentos jurisprudenciais, e sempre em companhia de alguma doutrina à
sua escolha.
Lembre-se: A resolução de questões é a chave para a aprovação!
Vamos juntos!
3
DIREITO DO CONSUMIDOR
Capítulo 3
3. Direitos Básicos do Consumidor e Convenção Coletiva de
Consumo
3.1 Introdução
Os direitos básicos do consumidor que estudaremos neste capítulo estão previstos no
art. 6º do Código de Defesa do Consumidor.
Os direitos elencados no art. 6º do Código de Defesa do Consumidor são estabelecidos
em prol do consumidor, não podendo ser invocados em pelo fornecedor a seu favor.
DIREITOS BÁSICOS DO CONSUMIDOR (ART. 6º, CDC)
Proteção da vida,
saúde e segurança
I - a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos
provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços
considerados perigosos ou nocivos;
Educação
II - a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos
produtos e serviços, asseguradas a liberdade de escolha e a
igualdade nas contratações;
Informação
III - a informação adequada e clara sobre os diferentes
produtos e serviços, com especificação correta de quantidade,
características, composição, qualidade, tributos incidentese
preço, bem como sobre os riscos que apresentem; (Redação dada
pela Lei nº 12.741, de 2012)
Proteção contra IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva,
4
práticas comerciais
abusivas
métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra
práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de
produtos e serviços;
Preservação do
Contrato e Revisão das
Cláusulas Contratuais
V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam
prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos
supervenientes que as tornem excessivamente onerosas;
Efetiva Prevenção e
Reparação de Danos
VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e
morais, individuais, coletivos e difusos;
Acesso à Justiça
VII - o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com
vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais,
individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção Jurídica,
administrativa e técnica aos necessitados;
Facilitação da Defesa
de Direitos e Inversão
do Ônus da Prova
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a
inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil,
quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando
for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de
experiências;
Recebimento de
Serviços Adequados e
Eficazes
X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em
geral.
Importante destacar quanto ao Direito à Informação que, em 2015, o Estatuto da Pessoa
com Deficiência (Lei 13.146, de 6 de julho de 2015), incluiu no art. 6º o parágrafo único no
sentido de que a informação “deve ser acessível à pessoa com deficiência”.
Quando falamos em direitos básicos do consumidor, falamos em valores e preceitos
fundamentais que devem ser observados em uma relação consumerista. São os direitos
mínimos que colocam o consumidor em posição de igualdade na relação.
A Resolução 39/248 da Organização das Nações Unidas (ONU), de 16 de abril de 1985,
documento que estabeleceu as Diretrizes das Nações Unidas para a Proteção do Consumidor,
5
foi a fonte de inspiração dos direitos básicos elencados no art. 6º do Código de Defesa do
Consumidor. A Resolução de 1985, além dos direitos em si, traz diretrizes para a cooperação
jurídica internacional em matéria de consumo.
A Resolução 39/248 da Organização das Nações Unidas (ONU) prevê:
(a) a proteção dos consumidores contra os riscos para a sua saúde e segurança;
(b) a promoção e proteção dos interesses económicos dos consumidores;
(c) o acesso dos consumidores a informações adequadas que lhes permitam fazer
escolhas informadas de acordo com os desejos e necessidades individuais;
(d) a educação do consumidor;
(e) a disponibilidade de efetivo a reparação dos consumidores;
(f) a liberdade para formar grupos de consumidores e outros relevantes ou organizações
e a oportunidade de tais organizações apresentarem as suas observações por processos que
lhes digam respeito de tomada de decisão.
Importante destacar, ainda, que o rol do art. 6º é exemplificativo, ou seja, numerus
apertus, justificado pelo caráter principiológico do Código de Defesa do Consumidor, logo o
rol não exclui outros direitos básicos decorrentes de tratados ou convenções internacionais, da
legislação interna ou de atos normativos, também não afastando os direitos básicos que
derivem dos princípios gerais do direito, analogia, costumes e equidade, conforme dispõe o
próprio art. 7º do Código de Defesa do Consumidor.
Art. 7° Os direitos previstos neste código não excluem outros decorrentes de tratados
ou convenções internacionais de que o Brasil seja signatário, da legislação interna
ordinária, de regulamentos expedidos pelas autoridades administrativas competentes,
bem como dos que derivem dos princípios gerais do direito, analogia, costumes e
equidade.
6
Parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão solidariamente
pela reparação dos danos previstos nas normas de consumo.
Como veremos ao longo deste capítulo, cada direito básico do consumidor enumerado
no art. 6º do Código de Defesa do Consumidor é tratado mais detalhadamente em outros
dispositivos do Código. Por exemplo, o direito básico à saúde à vida, previsto no art. 6º, inciso
I, do Código de Defesa do Consumidor é também previsto nos artigos 8º, 9º e 10.
O artigo 6º do Código de Defesa do Consumidor é, então, índice do mesmo, sendo que
todos os demais artigos - sejam dispositivos de natureza material, processual, criminal ou
administrativa – dele decorrem.
3.2 Direito à Proteção da Vida, Saúde e Segurança
O Direito básico de proteção à vida, à saúde e à segurança do consumidor está
previsto no inciso I, do art. 6º, do Código de Defesa do Consumidor1.
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
I - a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no
fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos;
Vale frisar que a proteção à vida, saúde e segurança são, também, direitos fundamentais
previstos constitucionalmente.
É grande a preocupação do Código de Defesa do Consumidor com a vida, a saúde e a
segurança, assim, o Código possui várias normas de proteção contra os riscos que os
produtos e serviços perigosos ou nocivos podem provocar ao consumidor.
O Capítulo IV do Código de Defesa do Consumidor trata “Da Qualidade de Produtos e
Serviços, da Prevenção e da Reparação dos Danos” e tem uma seção apenas para trazer
comandos sobre a Proteção à Saúde e Segurança.
1 Vide Questão 3.
7
Art. 8° Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão
riscos à saúde ou segurança dos consumidores, exceto os considerados normais e
previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores, em
qualquer hipótese, a dar as informações necessárias e adequadas a seu respeito.
§ 1º Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as informações a
que se refere este artigo, através de impressos apropriados que devam acompanhar o
produto. (Redação dada pela Lei nº 13.486, de 2017)
§ 2º O fornecedor deverá higienizar os equipamentos e utensílios utilizados no
fornecimento de produtos ou serviços, ou colocados à disposição do consumidor, e
informar, de maneira ostensiva e adequada, quando for o caso, sobre o risco de
contaminação. (Incluído pela Lei nº 13.486, de 2017)
Art. 9° O fornecedor de produtos e serviços potencialmente nocivos ou perigosos à
saúde ou segurança deverá informar, de maneira ostensiva e adequada, a respeito da
sua nocividade ou periculosidade, sem prejuízo da adoção de outras medidas cabíveis
em cada caso concreto.
Art. 10. O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço
que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à
saúde ou segurança.
§ 1º O fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua introdução no
mercado de consumo, tiver conhecimento da periculosidade que apresentem, deverá
comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores,
mediante anúncios publicitários.
§ 2° Os anúncios publicitários a que se refere o parágrafo anterior serão veiculados na
imprensa, rádio e televisão, às expensas do fornecedor do produto ou serviço.
§ 3° Sempre que tiverem conhecimento de periculosidade de produtos ou serviços à
saúde ou segurança dos consumidores, a União, os Estados, o Distrito Federal e os
Municípios deverão informá-los a respeito.
8
Em decorrência desse direito previsto no inciso I do art. 6º do Código de Defesa do
Consumidor é que o fornecedor deve informar, nas embalagens, rótulos ou publicidade, sobre
os riscos do produto à saúde do consumidor, por exemplo.Assim, impõe-se ao fornecedor o dever de segurança, de modo que seus produtos e
serviços somente poderão estar no mercado de consumo se estiverem dentro dos patamares
da razoabilidade, informado o consumidor de forma ostensiva e adequada.
E, ao lado do direito do consumidor de proteção de sua integridade física, tem-se o
correspondente dever imposto aos fornecedores em zelar pela qualidade-segurança dos
produtos e serviços postos no mercado de consumo.
3.3 Direito à Educação
O Direito básico à Educação está previsto no inciso II, do art. 6º, do Código de Defesa
do Consumidor.
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
II - a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços,
asseguradas a liberdade de escolha e a igualdade nas contratações;
O consumidor tem o direito de receber orientação sobre o consumo adequado e
correto dos produtos e serviços, bem como escolher o produto ou serviço que achar melhor.
A obrigatoriedade da informação e educação dos consumidores de seus direitos, incide,
inclusive, nos níveis fundamentais de ensino.
O dever de informação pode afastar a vinculação do consumidor do contrato de
consumo, se desrespeitado. A violação a esse direito pode gerar dano moral (STJ, REsp
1.144.840).
9
3.4 Direito à Informação Adequada e Clara
O Direito básico à informação está previsto no inciso III, do art. 6º, do Código de
Defesa do Consumidor2.
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com
especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade, tributos
incidentes e preço, bem como sobre os riscos que apresentem;
Todo produto deve trazer informações claras sobre sua quantidade, peso, composição,
preço, riscos que apresenta e sobre o modo de utilizá-lo.
Antes de contratar um serviço o consumidor tem direito à todas as informações de que
necessitar.
Uma aplicação prática do direito à informação é a decisão do STJ (EREsp 1.515.895-MS,
de 20.09.2017) que decidiu que o fornecedor de alimentos deve complementar a informação-
conteúdo "contém glúten" com a informação-advertência de que o glúten é prejudicial à
saúde dos consumidores com doença celíaca.
Atenção a este assunto, OABeiro! O direito à Informação é o queridinho da FGV quando
se trata dos direitos básicos do consumidor! A título de exemplo, as questões 01 e 02 da
nossa apostila tratam sobre o referido tema!
3.5 Direito à Proteção Contra Práticas Comerciais Abusivas
O Direito básico à proteção contra práticas comerciais abusivas está previsto no inciso
IV, do art. 6º, do Código de Defesa do Consumidor3.
2 Vide Questões 01, 02, 06 e 08.
3 Vide Questão 12.
10
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais
coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no
fornecimento de produtos e serviços;
O consumidor tem o direito de exigir que tudo o que for anunciado seja cumprido.
Se o que foi prometido no anúncio não for cumprido, o consumidor tem direito de cancelar o
contrato e receber a devolução da quantia que havia pago.
A publicidade enganosa e a abusiva são proibidas pelo Código de Defesa do
Consumidor e são consideradas por ele crime, conforme previsão do art. 67.
Art. 67. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser enganosa ou
abusiva:
Pena - Detenção de 3 (três) meses a 1 (um) ano e multa.
Parágrafo único. (Vetado).
A palavra abuso/abusivo/abusiva, muito utilizada pelo Código de Defesa do
Consumidor, na doutrina e na jurisprudência, diz respeito à característica de quem extrapola o
exercício de um direito, uma faculdade, ultrapassando os limites da normalidade, do costume
e do bom senso.
Tem como consequência do inciso IV do art. 6º do Código de Defesa do Consumidor, a
possibilidade de revisão contratual diante de práticas abusivas (prestações desproporcionais),
alterando-se seus termos para garantir a equidade.
Importante diferenciar publicidade é de propaganda. Propaganda visa à propagação de
uma mensagem, a difusão de uma ideia ou até mesmo a disseminação de um ideal, podendo
ser considerada a propaganda como gênero de informação. Já a publicidade visa ao lucro,
ganhar dinheiro com bem de consumo que está sendo divulgado. Por este fato é que o
Código de Defesa do Consumidor utiliza o termo “publicidade”.
11
A legislação consumerista conferiu ao consumidor o direito básico à proteção contra a
publicidade enganosa ou abusiva, consolidando, desse modo, o entendimento de que o
princípio da boa-fé espalha seus efeitos às práticas que antecedem o início de qualquer
relação jurídica de consumo.
A publicidade pode ser lícita, quando deriva da engenhosidade humana, quando é
expressão artística que atrai o consumidor ao produto ou serviço. Mas, a publicidade pode ser
ilícita quando é enganosa, abusiva ou enganosa por omissão.
O art. 37 do Código de Defesa do Consumidor delimita o que é publicidade enganosa
e o que é publicidade abusiva.
Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
§ 1º É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter
publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por
omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características,
qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre
produtos e serviços.
§ 2º É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que
incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de
julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz
de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde
ou segurança.
§ 3º Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão quando
deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço.
§ 4º (Vetado).
Na publicidade enganosa (art. 37, § 1º, do Código de Defesa do Consumidor), o
consumidor é induzido a erro. Na publicidade abusiva o medo do consumidor é explorado,
12
desrespeitando valores ambientais ou até mesmo faz com que o consumidor venha a se
comportar de forma prejudicial à sua integridade.
3.6 Direito à Preservação do Contrato e Revisão das Cláusulas
Contratuais
O Direito básico à preservação do contrato e revisão das cláusulas contratuais está
previsto no inciso V, do art. 6º, do Código de Defesa do Consumidor4.
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações
desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem
excessivamente onerosas;
Para Flávio Tartuce “Existem claras diferenças entre essa revisão contratual e a
consagrada pelo Código Civil de 2002. Isso porque a codificação privada exige o fator
imprevisibilidade para a revisão contratual por fato superveniente, tendo consagrado, segundo
o entendimento majoritário, a teoria da imprevisão, com origem na antiga cláusula rebus sic
standibus”.
O artigo 317 do Código Civil estabelece que a modificação contratual apenas ocorrerá
por motivos imprevisíveis:
Art. 317. Quando, por motivos imprevisíveis, sobrevier desproporção manifesta entre o
valor da prestação devida e o do momento de sua execução, poderá o juiz corrigi-lo, a
pedido da parte, de modo que assegure, quanto possível, o valor real da prestação.
O Direito Civil aplica a força obrigatória dos contratos (pacta sunt servanda). Porém, no
Direito do Consumidor, é necessário que analisar a função social do contrato, não podendo se
4 Vide Questão 11.13
aceitar cláusulas draconianas e prejudiciais aos consumidores, naturalmente vulneráveis ante
os fornecedores.
Assim, adota o Código de Defesa do Consumidor a Teoria da Imprevisão,
consubstanciada na cláusula rebus sic standibus, segundo a qual é possível se relativizar a
força obrigatória dos contratos na esfera do Direito do Consumidor.
É DIREITO DO CONSUMIDOR
Modificar cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais;
Rever cláusulas contratuais em razão de fatos supervenientes que as tornaram excessivamente
onerosas.
As cláusulas abusivas são aquelas que geram desvantagem ou prejuízo para o
consumidor, em benefício do fornecedor. Essas cláusulas são nulas, podendo o consumidor
requerer ao juiz que cancele essas cláusulas do contrato
O Código de Defesa do Consumidor permite a revisão das cláusulas contratuais em
razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas, com vistas a
assegurar o equilíbrio da relação.
Em decisão recente, o Superior Tribunal de Justiça analisou hipótese onde um
consumidor pleiteou a revisão do contrato em razão da maxidesvalorização do real.
O Superior Tribunal de Justiça, no REsp 1321614/SP, pacificou o entendimento no
sentido que:
a) Se a relação é configurada como como consumerista, cabe a revisão do contrato,
uma vez que se aplica o disposto no artigo 6º, inciso V, do Código de Defesa do Consumidor;
b) Se a relação é estritamente civilista, não cabe a alegação da onerosidade excessiva
superveniente, haja vista as considerações contratuais estipuladas quando da celebração do
negócio;
14
3.7 Direito à Efetiva Prevenção e Reparação de Danos
O Direito à efetiva prevenção e reparados de danos está previsto no inciso VI, do art.
6º, do Código de Defesa do Consumidor, concretizando o Princípio da Reparação Integral
(restitutio ad integrum).
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais,
coletivos e difusos;
Quando for prejudicado, o consumidor tem o direito de ser indenizado por quem lhe
vendeu o produto ou lhe prestou o serviço, inclusive por danos morais.
O direito à indenização é um dos fundamentos da vida em sociedade e assegura a
todos que o Estado promoverá, na forma da lei, que o causador de um dano o recompense
obrigatoriamente, caso ele não cumpra sua obrigação espontaneamente.
O dano passível de ser indenizado pode decorrer do descumprimento de um contrato,
por exemplo, ou em situação na qual o autor do dano não tenha relação anterior com a
pessoa atingida, como nos casos de registros irregulares em entidades de proteção ao crédito.
Os danos mencionados pelo inciso VI do Código de Defesa do Consumidor são
relacionados ao patrimônio do consumidor (danos materiais) e aos abalos que vier a sofrer
quando agredido em sua personalidade (danos morais).
O dano provocado pelo fornecedor pode atingir apenas um consumidor (dano
individual), vários consumidores determináveis (dano coletivo) ou um número indeterminado
de consumidores (dano difuso).
Um mesmo fato pode gerar danos tanto materiais como morais ou apenas um ou
outro. O Superior Tribunal de Justiça tem entendimento sumulado no sentido que “são
cumuláveis as indenizações por dano material e moral oriundos do mesmo fato” (Súmula 37-
STJ).
15
Para garantir ao consumidor a efetiva prevenção e reparação de danos, o Código de
Defesa do Consumidor instituiu moderno e avançado sistema de responsabilidade civil,
estabelecendo a responsabilidade objetiva - independentemente de culpa - para o fornecedor
de produtos e serviços, trazendo em seu Capítulo IV a Seção II que trata da Responsabilidade
pelo Fato do Produto e do Serviço (arts. 12 a 17).
O Princípio da Reparação Integral é excepcionado pelo inciso I do art. 51 do Código
de Defesa do Consumidor, que permite a limitação da indenização nos casos em que a
relação de consumo for travada entre fornecedor e consumidor pessoa jurídica, desde que
haja situação justificável.
Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao
fornecimento de produtos e serviços que:
I - impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios
de qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem renúncia ou disposição de
direitos. Nas relações de consumo entre o fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a
indenização poderá ser limitada, em situações justificáveis;
Este direito básico decorre do direito de acesso à justiça e da instalação das
Defensorias Públicas com assistência jurídica gratuita, instrumentos da execução da Política
Nacional das Relações de Consumo.
3.8 Direito ao Acesso à Justiça, à Facilitação da Defesa de
Direitos e à Inversão do Ônus da Prova
O Direito ao acesso à Justiça, à facilitação da defesa de direitos e à inversão do ônus
da prova está previsto no inciso VII, do art. 6º, do Código de Defesa do Consumidor. O
consumidor que tiver os seus direitos violados pode recorrer à Justiça5.
5 Vide Questão 05.
16
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
VII - o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção ou
reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada
a proteção Jurídica, administrativa e técnica aos necessitados;
Prevê o acesso aos órgãos judiciários e administrativos, com vistas à prevenção ou
reparação de danos, assegurada a proteção jurídica, administrativa e técnica aos necessitados.
O Código de Defesa do Consumidor adotou a Teoria da Distribuição Dinâmica do
Ônus da Prova que consiste em retirar o peso da carga da prova de quem se encontra em
evidente debilidade de suportá-lo (consumidor), impondo-o sobre quem se encontra em
melhores condições de produzir a prova essencial ao deslinde do litígio (fornecedor).
O que significa a inversão do ônus da prova? Em regra, quem alega os fatos tem que
provar. Em determinada causa judicial, o autor da ação deve provar a existência dos fatos que
alegou - por documentos, testemunhas, perícias, etc. A inversão do ônus da prova é a
possibilidade de o magistrado considerar provados os fatos alegados pelo consumidor, desde
que as afirmações sejam verossímeis ou ficar evidente a dificuldade de produzir determinada
prova. Caberá ao fornecedor, para não perder a causa, demonstrar o contrário, ou seja, que os
fatos não ocorreram como alegado pelo consumidor na ação.
A inversão do ônus da prova não é automática (ope legis), pois depende de decisão
judicial (ope judices) para a sua aplicação, exceto no que concerne à veracidade da
publicidade, cujo ônus cabe a quem a patrocina.
Assim, a inversão do ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor pode ocorrer
de forma convencional (art. 51, VI – nesse caso, é nula a cláusula contratual que preveja a
inversão do ônus da prova em desfavor do consumidor; só se permite a cláusula que, desde
Inversão do Ônus
da Prova
Verossimilhança
das alegações ou
Hipossuficiência
17
já, estipule a inversão do ônus da prova em favor do consumidor), “legal/ope legis” (art. 12, §
3º; art. 14, § 3º e art. 38) ou “judicial/ope judicis” (art. 6º, VIII).
INVERSÃO OPE JUDICES INVERSÃO OPE LEGIS
É a regra É exceção
Decretada a critério do juiz Decorre de imposição legal
Pode ser decretada de ofício É automática, não se sujeita à análise
subjetiva do juiz
Critério: verificação de verossimilhança ou
hipossuficiência
.
CRITÉRIOS PARA A INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA
1. A verossimilhança da impossibilidade ou dificuldade de produzir a prova;
2. A melhor condição do fornecedor de produzi-la;
3. O fumus boni juris.
Quanto ao momento da sua realização da inversão do ônus da prova, entende-se que
deva ocorrer até a fase de saneamentodo processo, por se tratar de regra de instrução
processual (STJ, REsp 802.832).
É pacífico no STJ o entendimento segundo o qual o Ministério Público, no âmbito de ação
consumerista, faz jus à inversão do ônus da prova, a considerar que o mecanismo previsto no
art. 6º, inc. VIII, do CDC busca concretizar a melhor tutela processual possível dos direitos
difusos, coletivos ou individuais homogêneos e de seus titulares — na espécie, os
18
consumidores —, independentemente daqueles que figurem como autores ou réus na ação.
(STJ. 2ª Turma. REsp 1253672/RS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 2/8/2011)6.
Quanto à facilitação de acesso ao poder Judiciário, um importante instrumento previsto
na legislação consiste na possibilidade de o consumidor, querendo, propor uma demanda no
foro do seu domicílio (art. 101, inciso I, do Código de Defesa do Consumidor).
Art. 101. Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos e serviços, sem
prejuízo do disposto nos Capítulos I e II deste título, serão observadas as seguintes
normas:
I - a ação pode ser proposta no domicílio do autor;
Assim, ainda que eventual dano ao consumidor ocorra em local ou estado distinto, é
facultado ao consumidor litigar judicialmente no foro de seu domicílio.
O Superior Tribunal de Justiça já decidiu que a norma do Código de Defesa do
Consumidor que possibilita que o consumidor proponha a ação em seu domicílio foi
construída em seu favor.
Isso significa que não se trata de obrigação do consumidor demandar em seu domicílio,
podendo, caso prefira, optar por ajuizar a ação no domicílio do réu (AgRg no Conflito de
Competência nº 129.294/DF).
E quanto à facilitação do acesso aos órgãos da Administração Pública, importante a
citação do Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (PROCON), que é órgão do Poder
Executivo dos Estados, Municípios ou Distrito Federal, destinados à proteção e defesa dos
direitos e interesses dos consumidores, cumprindo-lhes acompanhar as relações de consumo e
desempenhar atividades de natureza fiscalizatória, para garantir o respeito e a efetividade das
normas consumeristas.
6 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Inversão do ônus da prova existe também quando o MP é o autor da ação defendendo os
consumidores. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:
<https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/67d16d00201083a2b118dd5128dd6f59>. Acesso em:
06/02/2020
19
É importante relembrarmos que hipossuficiência e vulnerabilidade não são sinônimos, sendo
a primeira uma situação de direito processual e relacional, ou seja, pode ser que não se
apresente no caso concreto, e a segunda uma situação de fato, na qual todos os
consumidores se encontram.
3.9 Direito ao Recebimento de Serviços Adequados e Eficazes
O direito básico ao recebimento de serviços públicos adequados e eficazes está
previsto no inciso X, do art. 6º do Código de Defesa do Consumidor7.
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.
São exemplos de serviços públicos os que fornecem água, luz, gás, o transporte
público, o serviço de tratamento de esgoto etc.
Este inciso abrange também o bom atendimento do consumidor pelos órgãos públicos
ou empresas concessionárias desses serviços.
O art. 6º, X, do Código de Defesa do Consumidor determina que os Serviços Públicos
sejam prestados de maneira eficaz e de maneira adequada, e quanto aos essenciais serão
prestados de forma contínua. Este tema é tratado no caput do art. 22, do Código de Defesa
do Consumidor.
Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias
ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços
adequados, eficientes, seguros e, quanto aos essenciais, contínuos.
7 Vide Questões 04, 07 e 09.
20
Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial, das obrigações
referidas neste artigo, serão as pessoas jurídicas compelidas a cumpri-las e a reparar os
danos causados, na forma prevista neste código.
Quanto aos serviços públicos essenciais, remetemos ao art. 10 da Lei da Greve (Lei
7.783/1989) para poder indicar como norte o que seriam serviços essenciais, considerando
normalmente água, luz, esgoto.
Art. 10. São considerados serviços ou atividades essenciais:
I - tratamento e abastecimento de água; produção e distribuição de energia elétrica,
gás e combustíveis;
II - assistência médica e hospitalar;
III - distribuição e comercialização de medicamentos e alimentos;
IV - funerários;
V - transporte coletivo;
VI - captação e tratamento de esgoto e lixo;
VII - telecomunicações;
VIII - guarda, uso e controle de substâncias radioativas, equipamentos e materiais
nucleares;
IX - processamento de dados ligados a serviços essenciais;
X - controle de tráfego aéreo e navegação aérea; (Redação dada pela Lei nº 13.903, de
2019)
XI - compensação bancária.
XII - atividades médico-periciais relacionadas com o regime geral de previdência social
e a assistência social; (Incluído pela Lei nº 13.846, de 2019)
21
XIII - atividades médico-periciais relacionadas com a caracterização do impedimento
físico, mental, intelectual ou sensorial da pessoa com deficiência, por meio da
integração de equipes multiprofissionais e interdisciplinares, para fins de
reconhecimento de direitos previstos em lei, em especial na Lei nº 13.146, de 6 de julho
de 2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência); e (Incluído pela Lei nº 13.846, de 2019)
XIV - outras prestações médico-periciais da carreira de Perito Médico Federal
indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade. (Incluído
pela Lei nº 13.846, de 2019)
Destaque-se que não é todo serviço público que se submete ao Código de Defesa
do Consumidor, apenas os serviços realizados mediante contraprestação ou remuneração
direta feita pelo consumidor ao fornecedor.
O serviço custeado com a receita tributária, que é prestado diretamente pelo Estado a
toda a coletividade não é regido pelo Código de Defesa do Consumidor, pois não há nessa
relação, propriamente, um consumidor, mas sim um contribuinte.
Para o Superior Tribunal de Justiça, somente os serviços uti singuli, prestados pelo
Estado via delegação e remunerados por tarifas ou preço público, são regidos pelo Código de
Defesa do Consumidor. Os serviços uti universi, próprios, que não custeados pela receita
tributária são regulados pelo direito administrativo (REsp 793.422).
3.10 Convenção Coletiva de Consumo
3.10.1 Conceito
A convenção coletiva de consumo constitui o instrumento jurídico através do qual os
entes legitimados, quais sejam as entidades civis de consumidores e as associações de
fornecedores ou sindicatos que os representam acordam de forma escrita sobre aspectos
22
concernentes a produtos e serviços, podendo também pactuar a solução de conflitos
judicializados ou não8.
Estão previstas no art. 107 do Código de Defesa do Consumidor:
Art. 107. As entidades civis de consumidores e as associações de fornecedores ou
sindicatos de categoria econômica podem regular, por convenção escrita, relações de
consumo que tenham por objeto estabelecer condições relativas ao preço, à qualidade,
à quantidade, à garantia e características de produtos e serviços, bem como à
reclamação e composição do conflito de consumo.
§ 1º A convenção tornar-se-á obrigatória a partir do registro do instrumento no cartório
de títulos e documentos.
§ 2º A convenção somente obrigará os filiados às entidades signatárias.
§ 3º Não se exime de cumprir a convenção o fornecedor que se desligar da entidade
em data posterior ao registro do instrumento.
3.10.2 Obrigatoriedade
Aconvenção tornar-se-á obrigatória a partir do registro do instrumento no cartório de
títulos e documentos (art. 107, §1º do Código de Defesa do Consumidor), mas somente aos
filiados às entidades signatárias. Não se exime de cumpri-la, porém, o fornecedor que se
desligar da entidade em data posterior ao registro do instrumento.
8 Fonte:
https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:npx1qNFS5mEJ:https://portalseer.ufba.br/index.php/CEPEJ/article/d
ownload/22341/14412+&cd=3&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br Acessado em 06.02.2020.
https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:npx1qNFS5mEJ:https://portalseer.ufba.br/index.php/CEPEJ/article/download/22341/14412+&cd=3&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:npx1qNFS5mEJ:https://portalseer.ufba.br/index.php/CEPEJ/article/download/22341/14412+&cd=3&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
23
Este tema foi cobrado no concurso de 2013, em uma prova discursiva para o cargo de Juiz de
Direito Substituto do TJDFT9. Veja a questão e o padrão resposta: Discorra sobre a convenção
coletiva de consumo, abordando os seguintes aspectos: i) conceito (0,20); ii) objeto e finalidade
do instituto (0,25); iii) possibilidade da previsão de restrição pontual de direitos e garantias
previstos no CDC (0,25); iv) a exigência de forma para a convenção e o início de sua eficácia
(0,20). *Utilização correta do idioma oficial e capacidade de exposição ‐ item 8.4 do edital
(0,10). PADRÃO DE RESPOSTA: i) Conceito: a convenção coletiva de consumo é um
instrumento, previsto no CDC (art. 107), que busca a antecipação de eventuais conflitos nas
relações de consumo, regulando sua solução e estabelecendo condições para a sua
composição. Trata-se de um meio de solução de conflitos coletivos, em que fornecedores e
consumidores, por suas entidades representativas, estabelecem, de forma antecipada,
condições para certos elementos da relação de consumo, que terão incidência nos contratos
individuais que serão celebrados (0,20). ii) Segundo dispõe o CDC, a convenção coletiva pode
ter por objeto o estabelecimento de condições relativas ao preço, à qualidade, à quantidade,
à garantia e características de produtos e serviços, bem como à reclamação e composição do
conflito de consumo. A sua finalidade precípua é a de buscar solucionar, de forma antecipada
e coletiva, eventuais conflitos que possam advir dos contratos futuros, individualmente
firmados entre os filiados às entidades de representação signatárias da convenção (0,25). iii)
Os direitos e garantias previstos no CDC constituem normas regidas por princípios de ordem
pública, de tal forma que não podem ser suprimidos ou restringidos por força de ajuste entre
as partes signatárias do instrumento coletivo. A convenção coletiva de consumo não pode ter
por objeto qualquer cláusula que impeça ou importe em restrição, ainda que indireta, aos
direitos previstos no CDC. Somente pode haver, por meio da convenção, a ampliação das
9
http://www.cespe.unb.br/concursos/TJDFT_13_JUIZ/arquivos/DIREITO_DO_CONSUMIDOR_PADR__O_DE_RESPOSTAS_DEFINITI
VO.PDF Acesso em 06.02.2020
http://www.cespe.unb.br/concursos/TJDFT_13_JUIZ/arquivos/DIREITO_DO_CONSUMIDOR_PADR__O_DE_RESPOSTAS_DEFINITIVO.PDF
http://www.cespe.unb.br/concursos/TJDFT_13_JUIZ/arquivos/DIREITO_DO_CONSUMIDOR_PADR__O_DE_RESPOSTAS_DEFINITIVO.PDF
24
garantias e direitos, nunca a sua diminuição (0,25). iv) Nos termos do que reza o artigo 107,
caput, do CDC, exige-se que a convenção coletiva observe, para a elaboração do instrumento
respectivo, a forma escrita. Nos termos do parágrafo primeiro do art. 107, a convenção se
torna obrigatória, e, portanto, eficaz, a partir do registro do instrumento em cartório de títulos
e documentos (0,20).
Autores indicados na fundamentação: GRINOVER, Ada Pellegrini et al. Código brasileiro de
defesa do consumidor comentado pelos autores do anteprojeto. 6.ed. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2000. RIZZATTO NUNES, Luiz Antônio. Comentários ao código de defesa do
consumidor. 6.ed. São Paulo: Saraiva, 2011. OLIVEIRA, James Eduardo. Código de defesa do
consumidor: anotado e comentado: doutrina e jurisprudência. São Paulo: Atlas, 2004.
25
QUADRO SINÓTICO
DIREITOS BÁSICOS DOS CONSUMIDORES (ART. 6º, CDC)
Proteção da vida, saúde e
segurança
I - a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos
provocados por práticas no fornecimento de produtos e
serviços considerados perigosos ou nocivos;
Educação
II - a educação e divulgação sobre o consumo adequado
dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade de escolha
e a igualdade nas contratações;
Informação
III - a informação adequada e clara sobre os diferentes
produtos e serviços, com especificação correta de
quantidade, características, composição, qualidade, tributos
incidentes e preço, bem como sobre os riscos que
apresentem; (Redação dada pela Lei nº 12.741, de 2012)
Proteção contra práticas
comerciais abusivas
IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva,
métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como
contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no
fornecimento de produtos e serviços;
Preservação do Contrato e
Revisão das Cláusulas
Contratuais
V - a modificação das cláusulas contratuais que
estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão
em razão de fatos supervenientes que as tornem
excessivamente onerosas;
Efetiva Prevenção e
Reparação de Danos
VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais
e morais, individuais, coletivos e difusos;
Acesso à Justiça
VII - o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com
vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e
morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a
proteção Jurídica, administrativa e técnica aos necessitados;
26
Facilitação da Defesa de
Direitos e Inversão do Ônus
da Prova
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com
a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil,
quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou
quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias
de experiências;
Recebimento de Serviços
Adequados e Eficazes
X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em
geral.
CONVENÇÃO COLETIVA DE CONSUMO, segundo a banca CESPE: é um
instrumento, previsto no art. 107 do Código de Defesa do Consumidor, que
busca a antecipação de eventuais conflitos nas relações de consumo,
regulando sua solução e estabelecendo condições para a sua composição.
Trata-se de um meio de solução de conflitos coletivos, em que fornecedores e
consumidores, por suas entidades representativas, estabelecem, de forma
antecipada, condições para certos elementos da relação de consumo, que terão
incidência nos contratos individuais que serão celebrados.
27
QUESTÕES COMENTADAS
Questão 1
(XXIX EXAME DE ORDEM – FGV - 2019) Antônio é deficiente visual e precisa do auxílio de
amigos ou familiares para compreender diversas questões da vida cotidiana, como as contas
de despesas da casa e outras questões de rotina. Pensando nessa dificuldade, Antônio procura
você, como advogado(a), para orientá-lo a respeito dos direitos dos deficientes visuais nas
relações de consumo.
Nesse sentido, assinale a afirmativa correta.
A) O consumidor poderá solicitar às fornecedoras de serviços, em razão de sua deficiência
visual, o envio das faturas das contas detalhadas em Braille.
B) As informações sobre os riscos que o produto apresenta, por sua própria natureza, devem
ser prestadas em formatos acessíveis somente às pessoas que apresentem deficiência visual.
C) A impossibilidade operacionalimpede que a informação de serviços seja ofertada em
formatos acessíveis, considerando a diversidade de deficiências, o que justifica a dispensa de
tal obrigatoriedade por expressa determinação legal.
D) O consumidor poderá solicitar as faturas em Braille, mas bastará ser indicado o preço,
dispensando-se outras informações, por expressa disposição legal.
Comentário:
Art. 43. O consumidor, sem prejuízo do disposto no art. 86, terá acesso às informações
existentes em cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de consumo arquivados sobre ele,
bem como sobre as suas respectivas fontes.
28
§ 6 Todas as informações de que trata o caput deste artigo devem ser disponibilizadas
em formatos acessíveis, inclusive para a pessoa com deficiência, mediante solicitação do
consumidor.
Questão 2
(XXII EXAME DE ORDEM – FGV - 2017). Mário firmou contrato de seguro de vida e acidentes
pessoais, apontando como beneficiários sua esposa e seu filho. O negócio foi feito via
telemarketing, com áudio gravado, recebendo informações superficiais a respeito da cobertura
completa a partir do momento da contratação, atendido pequeno prazo de carência em caso
de morte ou invalidez parcial e total, além do envio de brindes em caso de contratação
imediata. Mário contratou o serviço na mesma oportunidade por via telefônica, com posterior
envio de contrato escrito para a residência do segurado. Mário veio a óbito noventa dias após
a contratação. Os beneficiários de Mário, ao entrarem em contato com a seguradora, foram
informados de que não poderiam receber a indenização securitária contratada, que ainda
estaria no período de carência, ainda que a operadora de telemarketing, que vendeu o seguro
para Mário, garantisse a cobertura. Verificando o contrato, os beneficiários perceberam o
engano de compreensão da informação, já que estava descrito haver período de carência para
o evento morte “nos termos da lei civil”. Com base na hipótese apresentada, assinale a
afirmativa correta.
A) A informação foi clara por estar escrita, embora mencionada superficialmente pela
operadora de telemarketing, e o período de carência é lícito, mesmo nas relações de
consumo.
B) A fixação do período de carência é lícita, mesmo nas relações de consumo. Todavia, a
informação prestada quanto ao prazo de carência, embora descrita no contrato, não foi clara
o suficiente, evidenciando, portanto, a vulnerabilidade do consumidor.
C) A falta de informação e o equívoco na imposição de prazo de carência não são admitidas
nas relações de consumo, e sim nas relações genuinamente civilistas.
29
D) O dever de informação do consumidor foi respeitado, na medida em que estava descrito
no contrato, sendo o período de carência instituto ilícito, por se tratar de relação de consumo.
Comentário:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com
especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade, tributos
incidentes e preço, bem como sobre os riscos que apresentem;
Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer
forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou
apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato
que vier a ser celebrado.
Art. 31. A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações
corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características,
qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre
outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos
consumidores.
Questão 3
(VUNESP - 2019 – TJ-RO – Juiz de Direito Substituto) No que diz respeito a proteção à
saúde e segurança do consumidor, relativamente aos produtos e serviços existentes no
mercado de consumo brasileiro para comercialização, nos termos da Codificação
Consumerista, assinale a alternativa correta.
A) Os produtos colocados no mercado de consumo, em hipótese alguma, poderão acarretar
riscos à saúde ou segurança dos consumidores.
30
B) O fornecedor de serviços que, posteriormente à sua introdução no mercado de consumo,
tiver conhecimento da periculosidade que apresente, deverá comunicar o fato imediatamente
aos seus pontos de venda, para eximir-se de responsabilidade.
C) Sempre que o Estado tiver conhecimento da periculosidade de produtos à saúde dos
consumidores, deverá, prefacialmente, notificar o fornecedor para informar os adquirentes a
respeito; e caso haja omissão do fabricante, o órgão público o fará diretamente.
D) O fornecedor deverá higienizar os equipamentos e utensílios utilizados no fornecimento de
serviços, e informar, de maneira ostensiva e adequada, quando for o caso, sobre o risco de
contaminação.
E) Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as informações quanto ao
seu correto manuseio, através de indicação na embalagem, de sítio na rede mundial de
computadores existente para tanto.
Sobre a disciplina da relação de consumo e a aplicabilidade de normas e princípios do Código
de Defesa do Consumidor, conforme a interpretação que vem sendo dada na jurisprudência,
assinale a alternativa INCORRETA:
Comentário:
A alternativa “A” apresenta erro na expressão “em hipótese alguma”, pois, segundo o
caput do art. 8º do Código de Defesa do Consumidor, há produtos e serviços que são
considerados normas e previsíveis os riscos, em decorrência de sua natureza e fruição,
porém os fornecedores são obrigados, em qualquer hipótese, a dar as informações
necessárias e adequadas a seu respeito.
A alternativa “B” quando afirma que “deverá comunicar o fato imediatamente aos seus
pontos de venda, para eximir-se de responsabilidade”, pois segundo o §1º do art. 10 do
Código de Defesa do Consumidor, “o fornecedor de produtos e serviços que,
posteriormente à sua introdução no mercado de consumo, tiver conhecimento da
periculosidade que apresentem, deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades
competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários”, mas este não se
exime da culpa.
31
A alternativa “C” está incorreta. O §3º do art. 10, do Código de Defesa do Consumidor,
traz que “Sempre que tiverem conhecimento de periculosidade de produtos ou serviços à
saúde ou segurança dos consumidores, a União, os Estados, o Distrito Federal e os
Municípios deverão informá-los a respeito”.
A alternativa “D” está correta, é o comendo do §2º do art. 8º do Código de Defesa do
Consumidor: “O fornecedor deverá higienizar os equipamentos e utensílios utilizados no
fornecimento de produtos ou serviços, ou colocados à disposição do consumidor, e
informar, de maneira ostensiva e adequada, quando for o caso, sobre o risco de
contaminação”.
A alternativa “E” está incorreta. O texto do §1º, do art. 8º do Código de Defesa do
Consumidor é o seguinte: “Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe
prestar as informações a que se refere este artigo, através de impressos apropriados que
devam acompanhar o produto”.
Questão 4
(CESPE - 2019 - TJ-BA - JUIZ DE DIREITO SUBSTITUTO) O corte de energia elétrica pela
administração pública é:
A) admissível em razão do inadimplemento contemporâneo do consumidor, desde que haja o
aviso prévio de suspensão e que sejam respeitados o contraditório e a ampla defesa.
B) admissível em detrimento do novo morador, por débito pretérito pelo qual este não era
responsável, uma vez que a dívida é propter rem.
C) admissível sem prévio aviso na hipótese de detecção de fraude no medidor cometida pelo
consumidor.
D) admissível em razão de fraude no medidor pelo consumidor, desde que o débito seja
relativo ao período máximo de sessenta dias anteriores à constataçãoda fraude.
E) inadmissível caso a dívida derivada de fraude no medidor cometida pelo consumidor seja
relativa a período anterior a noventa dias precedentes à constatação da fraude.
32
Comentário:
A alternativa “A” está incorreta, pois prescinde de ampla defesa e contraditório, assim é
legítimo o corte no fornecimento de serviços públicos essenciais quando inadimplente o
usuário, desde que precedido de notificação.
Quanto à alternativa “B” esta está incorreta, pois o Superior Tribunal de Justiça pacificou
entendimento de que "a obrigação de pagar por serviço de natureza essencial, tal como
água e energia, não é propter rem, mas pessoal, isto é, do usuário que efetivamente se
utiliza do serviço (AgRg no AREsp 45.073/MG).
A alternativa “C” está incorreta, pois há necessidade de prévio aviso.
O erro da alternativa “D” está no prazo, que é de noventa dias e não de sessenta como
trouxe a alternativa.
A alternativa “E” é o gabarito da questão. De acordo com o Superior Tribunal de Justiça
são requisitos para a suspensão do fornecimento de energia elétrica em caso de fraude
do medidor praticada pelo consumidor a constatação da fraude e do débito respeitando
os princípios do contraditório e da ampla defesa, o aviso prévio ao consumidor, a
existência de débitos no período de até noventa dias anteriores à constatação da fraude
no medido e a suspensão da energia em até noventa dias do vencimento do débito
calculado (STJ, REsp 1680318/SP)..
Questão 5
(IADES - 2019 - AL-GO – PROCURADOR) No que concerne aos direitos básicos dos
consumidores, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor, assinale a alternativa
correta.
A) O direito à informação adequada e clara quanto aos diferentes produtos e serviços não
engloba a especificação correta dos riscos que apresentem.
33
B) A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais é apurada mediante a verificação de
culpa.
C) O reconhecimento da nulidade de uma cláusula contratual abusiva invalida o contrato.
D) O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe
ao consumidor.
E) A estipulação, em contrato de adesão, de instituição compulsória de arbitragem, é lícita
desde que a respectiva redação seja clara e de fácil entendimento. Nessas hipóteses, em face
do brocardo pacta sunt servanda, não será possível discutir a eventual abusividade do
contrato em juízo.
Comentário:
A alternativa “A” está incorreta, pois, segundo o inciso III, do art. 6º do Código de Defesa
do Consumidor, o direito à informação adequada e clara quanto aos diferentes produtos
e serviços engloba a especificação correta dos riscos que apresentem.
A alternativa “B” está correta com base no §4º do art. 14 do Código de Defesa do
Consumidor.
A alternativa “C” está incorreta, pois segundo o §2º do art. 51, do Código de Defesa do
Consumidor, a nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato,
exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer ônus
excessivo a qualquer das partes.
A alternativa “D” está incorreta. O art. 38 do Código de Defesa do Consumidor, o ônus
da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a
quem as patrocina.
Por fim, a alternativa “E” está incorreta porque, segundo o art. 51 do Código de Defesa
do Consumidor, estipular, em contrato de adesão, a instituição compulsória de
arbitragem, acarreta nulidade:
34
Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais
relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:
VII - determinem a utilização compulsória de arbitragem;
Questão 6
([VUNESP - 2019 - TJ-AC - JUIZ DE DIREITO SUBSTITUTO) Almerinda da Silva foi a uma loja
de eletrodomésticos e comprou um smartphone importado. Ao chegar em casa verificou que
o manual de instruções estava redigido em inglês e por não conhecer a língua, não conseguiu
sequer ligar o aparelho. Essa situação indica a violação do seguinte direito básico do
consumidor, nos termos do CDC:
A) Educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços, assegurando
liberdade de escolha.
B) Proteção contra a publicidade enganosa e abusiva no fornecimento de produtos e serviços.
C) Efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais.
D) Informação adequada e clara sobre diferentes produtos e serviços.
Comentário:
No caso da questão não houve um dano e sim uma falta de informação que levou o
consumidor a não poder usar o produto. Assim, observou-se o não atendimento do
direito básico de informação, previsto no art. 6º, inciso III, do Código de Defesa do
Consumidor. Assim, o gabarito da questão é a alternativa “D”.
Questão 7
(FCC - 2019 - SANASA CAMPINAS - PROCURADOR JURÍDICO) A ideia de que os serviços
essenciais prestados pelo estado ou por suas concessionárias ou permissionárias devem ser
35
fornecidos de forma contínua, como prevê o art. 22 do Código de Defesa do Consumidor,
gerou muita controvérsia quanto às hipóteses de cabimento do corte em seu fornecimento.
Nessa linha, a jurisprudência sistematizada do STJ consolidou-se no sentido de que é:
A) ilegítimo o corte no fornecimento de serviços públicos essenciais quando a inadimplência
do usuário decorrer de débitos pretéritos, uma vez que a interrupção pressupõe o
inadimplemento de conta regular, relativa ao mês do consumo.
B) legítimo o corte no fornecimento de serviços públicos essenciais por débitos de usuário
anterior, em razão da natureza impessoal da dívida.
C) ilegítimo o corte no fornecimento de serviços públicos essenciais por razões de ordem
técnica ou de segurança das instalações, ainda que precedido de notificação.
D) ilegítimo o corte no fornecimento de serviços públicos essenciais quando inadimplente
pessoa jurídica de direito público.
E) legítimo o corte no fornecimento de serviços públicos essenciais quando o débito decorrer
de irregularidade no hidrômetro apurada unilateralmente pela concessionária.
Comentário:
É possível, em regra, que a concessionária de serviço público interrompa a prestação do
serviço, em caso de inadimplemento do usuário, desde que haja aviso prévio, é o que
prevê o art. 6º, § 3º, da Lei nº 8.987/1995):
Art. 6º Toda concessão ou permissão pressupõe a prestação de serviço
adequado ao pleno atendimento dos usuários, conforme estabelecido nesta
Lei, nas normas pertinentes e no respectivo contrato.
[...]
§ 3º Não se caracteriza como descontinuidade do serviço a sua interrupção em
situação de emergência ou após prévio aviso, quando:
I - motivada por razões de ordem técnica ou de segurança das instalações; e,
II - por inadimplemento do usuário, considerado o interesse da coletividade.
36
Há, entretanto, situações em que a concessionária de serviço público não poderá
suspender o fornecimento de água ou energia, mesmo havendo atraso no pagamento. O
Superior Tribunal de Justiça na Edição nº 1310 de Jurisprudência em Teses, publicado em
21.04.2014, listou entendimento sobre o “Corte no Fornecimento de Serviços Públicos
Essenciais” e nesta questão de prova você encontra vários destes entendimentos. Observe
que este tema é bastante cobrado em provas.
A alternativa “A” está correta, conforme a Tese nº 6: “6) É ilegítimo o corte no
fornecimento de serviços públicos essenciais quando a inadimplência do usuário decorrer
de débitos pretéritos, uma vez que a interrupção pressupõe o inadimplemento de conta
regular, relativa ao mês do consumo”. Julgado: AgRg no AREsp 484166/RS, Rel. Ministro
NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 24/04/2014.
Já a alternativa “B” está incorreta, visto que prevê a Tese nº 7: “É ilegítimo o corte no
fornecimento de serviços públicos essenciais por débitos de usuário anterior, em razão
da natureza pessoal da dívida”. Julgado: AgRg no AREsp196374/SP, Rel. Ministro
NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 22/04/2014.
Incorreta a alternativa “C” pois, de acordo com a Tese nº 2: “É legítimo o corte no
fornecimento de serviços públicos essenciais por razões de ordem técnica ou de
segurança das instalações, desde que precedido de notificação”. Julgado: AgRg no REsp
1090405/RO, Rel. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, PRIMEIRA TURMA, julgado em
17/04/2012.
A alternativa “D” está em desacordo com a Tese nº 4: “É legítimo o corte no
fornecimento de serviços públicos essenciais quando inadimplente pessoa jurídica de
direito público, desde que precedido de notificação e a interrupção não atinja as
unidades prestadoras de serviços indispensáveis à população. Julgado: AgRg no AgRg no
AREsp 152296/AP, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA,
julgado em 15/08/2013, DJe 11/12/2013.
10
http://www.stj.jus.br/internet_docs/jurisprudencia/jurisprudenciaemteses/Jurisprud%C3%AAncia%20em%20Teses%2013%20-
%20Corte%20nos%20servi%C3%A7os.pdf Acessado em: 06.02.2020.
http://www.stj.jus.br/internet_docs/jurisprudencia/jurisprudenciaemteses/Jurisprud%C3%AAncia%20em%20Teses%2013%20-%20Corte%20nos%20servi%C3%A7os.pdf
http://www.stj.jus.br/internet_docs/jurisprudencia/jurisprudenciaemteses/Jurisprud%C3%AAncia%20em%20Teses%2013%20-%20Corte%20nos%20servi%C3%A7os.pdf
37
Por fim, está incorreta a alternativa “E” pois está em desacordo com a Tese nº 9: “É
ilegítimo o corte no fornecimento de serviços públicos essenciais quando o débito
decorrer de irregularidade no hidrômetro ou no medidor de energia elétrica, apurada
unilateralmente pela concessionária. Julgado: AgRg no AREsp 346561/PE, Rel. Ministro
SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 25/03/2014, DJe 01/04/2014. “D”.
Questão 8
(FCC - 2019 - MPE-MT - PROMOTOR DE JUSTIÇA SUBSTITUTO) O dever de informação na
oferta de produtos ou serviços:
A) não viola o interesse coletivo do grupo de consumidores, caso transgredido.
B) admite a subinformação.
C) exige comportamento positivo do fornecedor.
D) não é assegurado pela Lei n° 8.078/1990.
E) exige do fornecedor que informe apenas o preço.
Comentário:
O Superior Tribunal de Justiça decidiu expressamente que "o dever de informação exige
comportamento positivo e ativo, pois o CDC afasta a regra do caveat emptor e não
aceita que o silêncio equivalha à informação, caracterizando-o, ao contrário, como
patologia repreensível, que só é relevante em desfavor do fornecedor, inclusive como
oferta e publicidade enganosa por omissão, punida civil, administrativa e criminalmente
no CDC. Comportamento positivo e ativo quer dizer que o microssistema de proteção do
consumidor não se coaduna com meia-informação, semi-informação, proto-informação
ou informação parcial, qualquer que seja o termo que se escolha. Informação ou é
prestada de forma completa, ou não é informação no sentido jurídico (e prático) que lhe
atribui o CDC" (REsp nº 586.316/MG). Logo, a alternativa correta é a “C”.
38
Questão 9
(VUNESP - 2019 - PREFEITURA DE FRANCISCO MORATO/SP – PROCURADOR) A empresa
concessionária responsável pelo fornecimento de água e tratamento de esgoto que abastece o
município de Francisco Morato, por falta de manutenção, faz a cidade ficar uma semana sem
tal serviço, dado o rompimento de uma importante tubulação. Nesse caso, é correto afirmar:
A) não se aplica a legislação consumerista, tendo em vista se tratar de um serviço de natureza
universal e não singular.
B) mesmo se tratando de serviço essencial, a empresa poderia ter suspendido o serviço, pois o
caso é de força maior.
C) pode ser promovida ação civil pública para discutir tais prejuízos, pela afronta a um direito
exclusivamente individual homogêneo.
D) a legislação consumerista se aplica ao caso pois serviços públicos podem ser objeto da
relação de consumo.
E) somente os munícipes diretamente afetados pela falha no sistema de abastecimento de
água são considerados consumidores, mesmo que tal problema afete municípios vizinhos e
cidadãos de outras localidades.
Comentário:
Correta a alternativa “D”.
O art. 22, do Código de Defesa do Consumidor prevê:
Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias,
permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são
obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quanto aos
essenciais, contínuos.
O Superior Tribunal de Justiça, em 08.02.2017, publicou a Edição nº 74 da Jurisprudência
em Teses e tratou do assunto na Tese nº 1: “A relação entre concessionária de serviço
público e o usuário final para o fornecimento de serviços públicos essenciais é
39
consumerista, sendo cabível a aplicação do Código de Defesa do Consumidor”. Julgado:
REsp 1595018/RJ, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em
18/08/2016.
Questão 10
(VUNESP - 2018 - PREFEITURA DE SÃO BERNARDO DO CAMPO/SP - ASSISTENTE
JURÍDICO) Sob o prisma dos direitos básicos do consumidor, assinale a alternativa que traz
uma hipótese de ofensa clara à liberdade de escolha.
A) A consumidora que teve negado um exame de ecocardiografia fetal, mas prova que outra
pessoa com o mesmo plano se submeteu ao mesmo procedimento na mesma clínica, sendo
que sem justificativa o plano de saúde recusa atendimento a ela nessa clínica credenciada.
B) Uma empresa de cosméticos que faz campanha de produto de beleza que induz os
consumidores a acreditarem que usando um creme facial desaparecerão imediatamente as
rugas.
C) Juiz que indefere a inversão do ônus da prova mesmo diante da clara impossibilidade de o
consumidor realizar a comprovação de fatos que são relevantes para o esclarecimento da
causa.
D) Empresa que insere uma cláusula contratual em contrato de adesão que a exonera de
qualquer ressarcimento de prejuízos que venha causar ao consumidor.
E) Um banco que só aceita contratar determinado financiamento, no qual estão previstos juros
mais baixos, se o consumidor se submeter a adquirir também o seguro através da seguradora
de seu grupo econômico.
Comentário:
O caso previsto na alternativa “A” representa uma hipótese de ofensa ao princípio da
igualdade, previsto no inciso II do art. 6º do Código de Defesa do Consumidor
40
A hipótese trazida na alternativa “B” tem relação com o direto à proteção contra a
publicidade enganosa, prevista no inciso IV, do art. 6º do Código de Defesa do
Consumidor.
O caso previsto na alternativa “C” é um caso de ofensa ao princípio da hipossuficiência,
logo ofende o direito básico à facilitação da defesa dos direitos do consumidor, previsto
no inciso VIII, do art. 6º do Código de Defesa do Consumidor.
A alternativa “D” relata um caso de ofensa ao inciso IV do art. 6º do Código de Defesa
do Consumidor.
Por fim, a alternativa “E”, gabarito da questão, trata do direito básico do consumidor à
educação e à liberdade de escolha, assegurado no inciso II, do art. 6º do Código de
Defesa do Consumidor.
Questão 11
(IF-MT - 2018 - IF-MT – DIREITO) No que diz respeito aos direitos básicos do consumidor,
analise as proposições abaixo e assinale a alternativa incorreta:
A) É permitido facilitar a defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a
seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for
ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências.
B) Garantir a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais
coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no
fornecimento de produtos e serviços.
C) É defeso modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações
desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem
excessivamente onerosas.
D) Garantira efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais,
coletivos e difusos.
41
E) Ter acesso à informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com
especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade, tributos incidentes
e preço, bem como sobre os riscos que apresentem.
Comentário:
A questão traz os direitos básicos do consumidor, previstos no art. 6º do Código de
Defesa do Consumidor, e exigia do candidato o conhecimento da literalidade dos incisos
do artigo. Além disso, preste atenção ao comanda da questão, que pede a marcação da
alternativa INCORRETA.
A alternativa “A” apresenta redação correta, de acordo com o inciso VIII, que trata da
facilitação da defesa dos direitos do consumidor.
A alternativa “B” trata da proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, prevista no
inciso IV, portanto esta alternativa também não apresenta erro.
A alternativa “C” é o gabarito, pois está em desacordo com o inciso V, o que faz a
redação da alternativa ser incorreta. Veja:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações
desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as
tornem excessivamente onerosas;
A alternativa “D” está de acordo com o inciso VI, que trata da efetiva prevenção e
reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos.
Por fim, a alternativa “E” está de acordo com o inciso III, que trata do direito de
informação.
42
Questão 12
(FCC - 2018 - CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL - CONSULTOR LEGISLATIVO -
CONSTITUIÇÃO E JUSTIÇA) Em relação à publicidade no Código de Defesa do Consumidor
(CDC):
A) O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe
a quem as patrocina.
B) É abusiva qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário,
inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de
induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade,
propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.
C) É enganosa, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à
violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e
experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o
consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.
D) A publicidade enganosa ou abusiva é sempre comissiva, inexistindo as figuras omissivas a
respeito dos produtos ou serviços.
E) Nada impede que a publicidade se insira em jornais ou revistas na forma de notícias, não
havendo necessidade de se esclarecer sua real natureza se destinadas a pessoas maiores e
capazes e não ao público infanto-juvenil.
Comentário:
A alternativa “A” é o gabarito da questão, pois está de acordo com o art. 38 do Código
de Defesa do Consumidor.
Art. 38. O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou
comunicação publicitária cabe a quem as patrocina.
A alternativa “B” está incorreta, pois está em desacordo com o §1º, do art. 37, do Código
de Defesa do Consumidor, pois, na verdade, diferente do que traz a alternativa, é
enganosa – e não abusiva - qualquer modalidade de informação ou comunicação de
43
caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo
por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza,
características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros
dados sobre produtos e serviços.
Já a alternativa “C” está incorreta pois é abusiva e não enganosa a publicidade
discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a
superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança,
desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se
comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança, conforme §2º do
art. 37 do Código de Defesa do Consumidor.
A alternativa “D” está em desacordo com o §3º do art. 37 que foi assim redigido: “§ 3º
Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de
informar sobre dado essencial do produto ou serviço”.
Por fim, a alternativa “E” está incorreta por ir contra a redação do art. 36 do Código de
Defesa do Consumidor, visto que é necessário que a publicidade seja de fácil
entendimento a todos os consumidores.
Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil
e imediatamente, a identifique como tal.
44
GABARITO
Questão 1 - A
Questão 2 - B
Questão 3 - D
Questão 4 - E
Questão 5 - B
Questão 6 - D
Questão 7 - A
Questão 8 - C
Questão 9 - D
Questão 10 - E
Questão 11 - C
Questão 12 - A
45
QUESTÃO DESAFIO
Dentro da temática “direitos básicos do consumidor”, apresente a
distinção entre “lesão” e a “onerosidade excessiva”, destacando o
conceito de “Teoria do rompimento da base objetiva do negócio”.
Responda em até cinco linhas
46
GABARITO DA QUESTÃO DESAFIO
A lesão e a onerosidade excessiva são hipóteses que autorizam a modificação do
contrato. A primeira ocorre em virtude de prestações desproporcionais impostas, já a
segunda em decorrência de fatos supervenientes. Fundamenta essa modificação a teoria
do rompimento objetivo, dispensa imprevisibilidade.
Você deve ter abordado necessariamente os seguintes itens em sua resposta:
Rompimento objetivo: não imprevisível-alter. Contratual
A teoria adotada para justificar a imposição da revisão contratual em decorrência das
hipóteses apresentadas no enunciado é a teoria do rompimento objetivo, a qual não exige
que o evento ocorrido tenha sido imprevisível, o que realmente interessa é se o fato
superveniente alterou objetivamente as bases pelas quais as partes contrataram.
Distingue-se, pois, da Teoria da Imprevisão adotada pelo Código Civil para justificar a
resolução do contrato em decorrência de uma prestação tornar-se excessivamente onerosa,
com extrema vantagem para a outra parte em virtude de um fato imprevisível. Assim, ao
contrário da Teoria da Base Objetiva do negócio jurídico, a teoria da imprevisão exige os
requisitos da imprevisibilidade e da extrema vantagem para o credor. (GARCIA, Leonardo;
Direito do Consumidor-Leis Especiais para Concurso; Ed.13; Juspodivm.
Lesão: prestação desproporcional. OE: Fato superv.
O artigo sexto do Código de Defesa do Consumidor apresenta o rol exemplificativo dos
direitos básicos do consumidor, dentre eles, é preciso destacar o previsto no inciso V, o qual
determina que “a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações
desproporcionais ou sua revisão em razão de fato supervenientes que as tornem
excessivamente onerosas”.
Nesse contexto, surgem duas formas de provocar a modificação ou a extinção do contrato: a
lesão e a onerosidade excessiva. A lesão promove a modificação das cláusulas contratuais em
decorrência de prestações desproporcionais que foram impostas. Desse modo, é possível
47
afirmar que ocorre a quebra do sinalagma da relação contratual, isto é, a relação de equilíbrio
entre as partes dispostas no contrato.
Para a aplicação da lesão e a consequente promoção da modificação contratual não é
necessário a demonstração da necessidade ou inexperiência do consumidor, é suficiente que
se demonstre a quebra da comutividade. A onerosidade excessiva, por sua vez, exige a revisão
contratual em decorrência de fatos supervenientes.
(GARCIA, Leonardo; Direito do Consumidor-Leis Especiais para Concurso; Ed.13; Juspodivm).
48
LEGISLAÇÃO COMPILADA
DireitosBásicos do Consumidor:
CDC: Art. 6º, Art. 7º, Art. 8º, Art. 9º, Art. 10, Art. 22, Art. 37, Art. 51, Art. 67, Art. 101.
Convenção Coletiva de Consumo:
CDC: Art. 107.
49
JURISPRUDÊNCIA
Direito à Vida, à Saúde e à Segurança
STJ. Corte Especial. EREsp 1515895-MS, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 20/09/2017
PROCESSO CIVIL. PROCESSO COLETIVO. DIREITO DO CONSUMIDOR. AÇÃO COLETIVA. DIREITO À INFORMAÇÃO.
DEVER DE INFORMAR. ROTULAGEM DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. PRESENÇA DE GLÚTEN. PREJUÍZOS À SAÚDE
DOS DOENTES CELÍACOS. INSUFICIÊNCIA DA INFORMAÇÃO-CONTEÚDO "CONTÉM GLÚTEN". NECESSIDADE DE
COMPLEMENTAÇÃO COM A INFORMAÇÃO-ADVERTÊNCIA SOBRE OS RISCOS DO GLÚTEN À SAÚDE DOS
DOENTES CELÍACOS. INTEGRAÇÃO ENTRE A LEI DO GLÚTEN (LEI ESPECIAL) E O CÓDIGO DE DEFESA DO
CONSUMIDOR (LEI GERAL).
1. Cuida-se de divergência entre dois julgados desta Corte: o acórdão embargado da Terceira Turma que
entendeu ser suficiente a informação "contém glúten" ou "não contém glúten", para alertar os consumidores
celíacos afetados pela referida proteína; e o paradigma da Segunda Turma, que entendeu não ser suficiente a
informação "contém glúten", a qual deve ser complementada com a advertência sobre o prejuízo do glúten à
saúde dos doentes celíacos.
2. O CDC traz, entre os direitos básicos do consumidor, a "informação adequada e clara sobre os diferentes
produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade e preço,
bem como sobre os riscos que apresentam" (art. 6º, inciso III).
3. Ainda de acordo com o CDC, "a oferta e a apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações
corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade,
composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que
apresentam à saúde e segurança dos consumidores" (art. 31).
4. O art. 1º da Lei 10.674/2003 (Lei do Glúten) estabelece que os alimentos industrializados devem trazer em seu
rótulo e bula, conforme o caso, a informação "não contém glúten" ou "contém glúten", isso é, apenas a
informação-conteúdo. Entretanto, a superveniência da Lei 10.674/2003 não esvazia o comando do art. 31, caput,
do CDC (Lei 8.078/1990), que determina que o fornecedor de produtos ou serviços deve informar "sobre os riscos
que apresentam à saúde e segurança dos consumidores", ou seja, a informação-advertência.
50
5. Para que a informação seja correta, clara e precisa, torna-se necessária a integração entre a Lei do Glúten (lei
especial) e o CDC (lei geral), pois, no fornecimento de alimentos e medicamentos, ainda mais a consumidores
hipervulneráveis, não se pode contentar com o standard mínimo, e sim com o standard mais completo possível.
6. O fornecedor de alimentos deve complementar a informação-conteúdo "contém glúten" com a informação-
advertência de que o glúten é prejudicial à saúde dos consumidores com doença celíaca.
Embargos de divergência providos para prevalecer a tese do acórdão paradigma no sentido de que a
informação-conteúdo "contém glúten" é, por si só, insuficiente para informar os consumidores sobre o prejuízo
que o alimento com glúten acarreta à saúde dos doentes celíacos, tornando-se necessária a integração com a
informação-advertência correta, clara, precisa, ostensiva e em vernáculo: "CONTÉM GLÚTEN: O GLÚTEN É
PREJUDICIAL À SAÚDE DOS DOENTES CELÍACOS".
(EREsp 1515895/MS, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, CORTE ESPECIAL, julgado em 20/09/2017, DJe
27/09/2017)
Direito à Informação Adequada e Clara
STJ. Corte Especial. EREsp 1515895-MS, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 20/09/2017
PROCESSO CIVIL. PROCESSO COLETIVO. DIREITO DO CONSUMIDOR. AÇÃO COLETIVA. DIREITO À
INFORMAÇÃO. DEVER DE INFORMAR. ROTULAGEM DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. PRESENÇA DE GLÚTEN.
PREJUÍZOS À SAÚDE DOS DOENTES CELÍACOS. INSUFICIÊNCIA DA INFORMAÇÃO-CONTEÚDO "CONTÉM
GLÚTEN". NECESSIDADE DE COMPLEMENTAÇÃO COM A INFORMAÇÃO-ADVERTÊNCIA SOBRE OS RISCOS DO
GLÚTEN À SAÚDE DOS DOENTES CELÍACOS. INTEGRAÇÃO ENTRE A LEI DO GLÚTEN (LEI ESPECIAL) E O CÓDIGO
DE DEFESA DO CONSUMIDOR (LEI GERAL).
1. Cuida-se de divergência entre dois julgados desta Corte: o acórdão embargado da Terceira Turma que
entendeu ser suficiente a informação "contém glúten" ou "não contém glúten", para alertar os consumidores
celíacos afetados pela referida proteína; e o paradigma da Segunda Turma, que entendeu não ser suficiente a
informação "contém glúten", a qual deve ser complementada com a advertência sobre o prejuízo do glúten à
saúde dos doentes celíacos.
2. O CDC traz, entre os direitos básicos do consumidor, a "informação adequada e clara sobre os diferentes
produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade e preço,
bem como sobre os riscos que apresentam" (art. 6º, inciso III).
3. Ainda de acordo com o CDC, "a oferta e a apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações
corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade,
composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que
apresentam à saúde e segurança dos consumidores" (art. 31).
51
4. O art. 1º da Lei 10.674/2003 (Lei do Glúten) estabelece que os alimentos industrializados devem trazer em seu
rótulo e bula, conforme o caso, a informação "não contém glúten" ou "contém glúten", isso é, apenas a
informação-conteúdo. Entretanto, a superveniência da Lei 10.674/2003 não esvazia o comando do art. 31, caput,
do CDC (Lei 8.078/1990), que determina que o fornecedor de produtos ou serviços deve informar "sobre os riscos
que apresentam à saúde e segurança dos consumidores", ou seja, a informação-advertência.
5. Para que a informação seja correta, clara e precisa, torna-se necessária a integração entre a Lei do Glúten (lei
especial) e o CDC (lei geral), pois, no fornecimento de alimentos e medicamentos, ainda mais a consumidores
hipervulneráveis, não se pode contentar com o standard mínimo, e sim com o standard mais completo possível.
6. O fornecedor de alimentos deve complementar a informação-conteúdo "contém glúten" com a informação-
advertência de que o glúten é prejudicial à saúde dos consumidores com doença celíaca.
Embargos de divergência providos para prevalecer a tese do acórdão paradigma no sentido de que a
informação-conteúdo "contém glúten" é, por si só, insuficiente para informar os consumidores sobre o prejuízo
que o alimento com glúten acarreta à saúde dos doentes celíacos, tornando-se necessária a integração com a
informação-advertência correta, clara, precisa, ostensiva e em vernáculo: "CONTÉM GLÚTEN: O GLÚTEN É
PREJUDICIAL À SAÚDE DOS DOENTES CELÍACOS".
STJ: STJ. 3ª Turma. REsp 1315822-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 24/3/2015
RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. AÇÃO DESTINADA A IMPOR À INSTITUIÇÃO FINANCEIRA
DEMANDADA A OBRIGAÇÃO DE ADOTAR O MÉTODO BRAILLE NOS CONTRATOS BANCÁRIOS DE ADESÃO
CELEBRADOS COM PESSOA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA VISUAL. 1. FORMAÇÃO DE LITISCONSÓRCIO PASSIVO
NECESSÁRIO. DESCABIMENTO, NA HIPÓTESE. 2. DEVER LEGAL CONSISTENTE NA UTILIZAÇÃO DO MÉTODO
BRAILLE NAS RELAÇÕES CONTRATUAIS BANCÁRIAS ESTABELECIDAS COM CONSUMIDORES PORTADORES DE
DEFICIÊNCIA VISUAL. EXISTÊNCIA. NORMATIVIDADE COM ASSENTO CONSTITUCIONAL E LEGAL. OBSERVÂNCIA.
NECESSIDADE. 3. CONDENAÇÃO POR DANOS EXTRAPATRIMONIAIS COLETIVOS. CABIMENTO. 4. IMPOSIÇÃO DE
MULTA DIÁRIA PARA O DESCUMPRIMENTO DAS DETERMINAÇÕES JUDICIAIS. REVISÃO DO VALOR FIXADO.
NECESSIDADE, NA ESPÉCIE. 5. EFEITOS DA SENTENÇA EXARADA NO BOJO DE AÇÃO CIVIL PÚBLICA DESTINADA
À TUTELA DE INTERESSES COLETIVOS STRICTO SENSU. DECISÃO QUE PRODUZ EFEITOS EM RELAÇÃO A TODOS
OS CONSUMIDORES PORTADORES DE DEFICIÊNCIAVISUAL QUE ESTABELECERAM OU VENHAM A FIRMAR
RELAÇÃO CONTRATUAL COM A INSTITUIÇÃO FINANCEIRA DEMANDADA EM TODO O TERRITÓRIO NACIONAL.
INDIVISIBILIDADE DO DIREITO TUTELADO. ARTIGO 16 DA LEI N. 7.347/85. INAPLICABILIDADE, NA ESPÉCIE.
PRECEDENTES. 7. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE PROVIDO.
1. A instituição financeira demandada, a qual se imputa o descumprimento de um dever legal, não mantém com
as demais existentes no país (contra as quais nada se alega) vínculo jurídico unitário e incindível, a exigir a
conformação de litisconsórcio passivo necessário. A existência, por si, de obrigação legal a todas impostas não as
une, a ponto de, necessariamente, serem demandadas em conjunto. In casu, está-se, pois, diante da defesa
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coletiva de interesses coletivos stricto sensu, cujos titulares, grupo determinável de pessoas (consumidores
portadores de deficiência visual), encontram-se ligados com a parte contrária por uma relação jurídica base
preexistente à lesão ou à ameaça de lesão. E, nesse contexto, os efeitos do provimento judicial pretendido terão
repercussão na esfera jurídica dos consumidores portadores de deficiência visual que estabeleceram, ou venham
a firmar relação contratual com a instituição financeira demandada, exclusivamente.
2. Ainda que não houvesse, como de fato há, um sistema legal protetivo específico das pessoas portadoras de
deficiência (Leis ns. 4.169/62, 10.048/2000, 10.098/2000 e Decreto n. 6.949/2009), a obrigatoriedade da utilização
do método braille nas contratações bancárias estabelecidas com pessoas com deficiência visual encontra lastro,
para além da legislação consumerista in totum aplicável à espécie, no próprio princípio da Dignidade da Pessoa
Humana.
2.1 A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência impôs aos Estados signatários a
obrigação de assegurar o exercício pleno e equitativo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais
pelas pessoas portadoras de deficiência, conferindo-lhes tratamento materialmente igualitário (diferenciado na
proporção de sua desigualdade) e, portanto, não discriminatório, acessibilidade física e de comunicação e
informação, inclusão social, autonomia e independência (na medida do possível, naturalmente), e liberdade para
fazer suas próprias escolhas, tudo a viabilizar a consecução do princípio maior da Dignidade da Pessoa Humana.
2.2 Valendo-se das definições trazidas pelo Tratado, pode-se afirmar, com segurança, que a não utilização do
método braille durante todo o ajuste bancário levado a efeito com pessoa portadora de deficiência visual
(providência, é certo, que não importa em gravame desproporcional à instituição financeira), impedindo-a de
exercer, em igualdade de condições com as demais pessoas, seus direitos básicos de consumidor, a acirrar a
inerente dificuldade de acesso às correlatas informações, consubstancia, a um só tempo, intolerável discriminação
por deficiência e inobservância da almejada "adaptação razoável".
2.3 A adoção do método braille nos ajustes bancários com pessoas portadoras de deficiência visual encontra
lastro, ainda, indiscutivelmente, na legislação consumerista, que preconiza ser direito básico do consumidor o
fornecimento de informação suficientemente adequada e clara do produto ou serviço oferecido, encargo, é certo,
a ser observado não apenas por ocasião da celebração do ajuste, mas também durante toda a contratação. No
caso do consumidor deficiente visual, a consecução deste direito, no bojo de um contrato bancário de adesão,
somente é alcançada (de modo pleno, ressalta-se), por meio da utilização do método braille, a facilitar, e mesmo
a viabilizar, a integral compreensão e reflexão acerca das cláusulas contratuais submetidas a sua apreciação,
especialmente aquelas que impliquem limitações de direito, assim como dos extratos mensais, dando conta dos
serviços prestados, taxas cobradas, etc.
2.4 O Termo de Ajustamento de Conduta, caso pudesse ser conhecido, o que se admite apenas para argumentar,
traz em si providências que, em parte convergem, com as pretensões ora perseguidas, tal como a obrigação de
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envio mensal do extrato em braille, sem prejuízo, é certo, de adoção de outras medidas destinadas a conferir
absoluto conhecimento das cláusulas contratuais à pessoa portadora de deficiência visual. Aliás, a denotar mais
uma vez o comportamento contraditório do recorrente, causa espécie a instituição financeira assumir uma série
de compromissos, sem que houvesse - tal como alega - lei obrigando-a a ajustar seu proceder.
3. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça tem perfilhado o posicionamento de ser possível, em tese, a
configuração de dano extrapatrimonial coletivo, sempre que a lesão ou a ameaça de lesão levada a efeito pela
parte demandada atingir, sobremodo, valores e interesses fundamentais do grupo, afigurando-se, pois, descabido
negar a essa coletividade o ressarcimento de seu patrimônio imaterial aviltado.
3.1 No caso, a relutância da instituição financeira demandada em utilizar o método Braille nos contratos
bancários de adesão estabelecidos com pessoas portadoras de deficiência visual, conferindo-se-lhes tratamento
manifestamente discriminatório, tem o condão de acirrar sobremaneira as inerentes dificuldades de acesso à
comunicação e à informações essenciais dos indivíduos nessa peculiar condição, cuja prática, para além de
consubstanciar significativa abusividade contratual, encerrar verdadeira afronta à dignidade do próprio grupo,
coletivamente considerado.
4. Não obstante, consideradas: i) a magnitude dos direitos discutidos na presente ação, que, é certo, restaram,
reconhecidamente vilipendiados pela instituição financeira recorrente; ii) a reversão da condenação ao Fundo de
Defesa de Direitos Difusos, a ser aplicado em políticas que fulminem as barreiras de comunicação e informação
enfrentadas pelas pessoas portadoras de deficiência visual, o que, em última análise, atende ao desiderato de
reparação do dano; iii) o caráter propedêutico da condenação; e iv) a capacidade econômica da demandada;
tem-se que o importe da condenação fixado na origem afigura-se exorbitante, a viabilizar a excepcional
intervenção desta Corte de Justiça.
5. A fixação a título de astreintes, seja de montante ínfimo ou exorbitante, tal como se dá na hipótese dos autos,
importa, inarredavelmente, nas mesmas consequências, quais sejam: Prestigiar a conduta de recalcitrância do
devedor em cumprir as decisões judiciais, além de estimular a utilização da via recursal direcionada a esta Corte
Superior, justamente para a mensuração do valor adequado. Por tal razão, devem as instâncias ordinárias, com
vistas ao consequencialismo de suas decisões, bem ponderar quando da definição das astreintes.
6. A sentença prolatada no bojo da presente ação coletiva destinada a tutelar direitos coletivos stricto sensu -
considerada a indivisibilidade destes - produz efeitos em relação a todos os consumidores portadores de
deficiência visual que litigue ou venha a litigar com a instituição financeira demandada, em todo o território
nacional. Precedente da Turma.
7. Recurso especial parcialmente provido.
STJ. 3ª Turma. REsp 1582318-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 12/9/2017
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RECURSO ESPECIAL. CIVIL. PROMESSA DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL EM CONSTRUÇÃO. ATRASO DA OBRA.
ENTREGA APÓS O PRAZO ESTIMADO. CLÁUSULA DE TOLERÂNCIA. VALIDADE. PREVISÃO LEGAL.
PECULIARIDADES DA CONSTRUÇÃO CIVIL. ATENUAÇÃO DE RISCOS. BENEFÍCIO AOS CONTRATANTES. CDC.
APLICAÇÃO SUBSIDIÁRIA. OBSERVÂNCIA DO DEVER DE INFORMAR. PRAZO DE PRORROGAÇÃO. RAZOABILIDADE.
1. Cinge-se a controvérsia a saber se é abusiva a cláusula de tolerância nos contratos de promessa de compra e
venda de imóvel em construção, a qual permite a prorrogação do prazo inicial para a entrega da obra.
2. A compra de um imóvel "na planta" com prazo epreço certos possibilita ao adquirente planejar sua vida
econômica e social, pois é sabido de antemão quando haverá a entrega das chaves, devendo ser observado,
portanto, pelo incorporador e pelo construtor, com a maior fidelidade possível, o cronograma de execução da
obra, sob pena de indenizarem os prejuízos causados ao adquirente ou ao compromissário pela não conclusão
da edificação ou pelo retardo injustificado na conclusão da obra (arts. 43, II, da Lei nº 4.591/1964 e 927 do
Código Civil).
3. No contrato de promessa de compra e venda de imóvel em construção, além do período previsto para o
término do empreendimento, há, comumente, cláusula de prorrogação excepcional do prazo de entrega da
unidade ou de conclusão da obra, que varia entre 90 (noventa) e 180 (cento e oitenta) dias: a cláusula de
tolerância.
4. Aos contratos de incorporação imobiliária, embora regidos pelos princípios e normas que lhes são próprios (Lei
nº 4.591/1964), também se aplica subsidiariamente a legislação consumerista sempre que a unidade imobiliária
for destinada a uso próprio do adquirente ou de sua família. 5. Não pode ser reputada abusiva a cláusula de
tolerância no compromisso de compra e venda de imóvel em construção desde que contratada com prazo
determinado e razoável, já que possui amparo não só nos usos e costumes do setor, mas também em lei especial
(art. 48, § 2º, da Lei nº 4.591/1964), constituindo previsão que atenua os fatores de imprevisibilidade que afetam
negativamente a construção civil, a onerar excessivamente seus atores, tais como intempéries, chuvas, escassez de
insumos, greves, falta de mão de obra, crise no setor, entre outros contratempos.
6. A cláusula de tolerância, para fins de mora contratual, não constitui desvantagem exagerada em desfavor do
consumidor, o que comprometeria o princípio da equivalência das prestações estabelecidas. Tal disposição
contratual concorre para a diminuição do preço final da unidade habitacional a ser suportada pelo adquirente,
pois ameniza o risco da atividade advindo da dificuldade de se fixar data certa para o término de obra de grande
magnitude sujeita a diversos obstáculos e situações imprevisíveis.
7. Deve ser reputada razoável a cláusula que prevê no máximo o lapso de 180 (cento e oitenta) dias de
prorrogação, visto que, por analogia, é o prazo de validade do registro da incorporação e da carência para
desistir do empreendimento (arts. 33 e 34, § 2º, da Lei nº 4.591/1964 e 12 da Lei nº 4.864/1965) e é o prazo
máximo para que o fornecedor sane vício do produto (art. 18, § 2º, do CDC).
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8. Mesmo sendo válida a cláusula de tolerância para o atraso na entrega da unidade habitacional em construção
com prazo determinado de até 180 (cento e oitenta) dias, o incorporador deve observar o dever de informar e os
demais princípios da legislação consumerista, cientificando claramente o adquirente, inclusive em ofertas,
informes e peças publicitárias, do prazo de prorrogação, cujo descumprimento implicará responsabilidade civil.
Igualmente, durante a execução do contrato, deverá notificar o consumidor acerca do uso de tal cláusula
juntamente com a sua justificação, primando pelo direito à informação.
9. Recurso especial não provido.
STJ. 3ª Turma. REsp 1613644-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 20/9/2016
RECURSO ESPECIAL. CIVIL. PLANO DE SAÚDE. HOSPITAL CREDENCIADO. ONCOLOGIA. ESPECIALIDADE COBERTA.
EXECUÇÃO DO SERVIÇO. INSTITUIÇÃO PARCEIRA. FALTA DE CREDENCIAMENTO. IRRELEVÂNCIA. ENTIDADE
HOSPITALAR CONVENIADA SEM RESSALVAS. DIVULGAÇÃO DO ROL AO CONSUMIDOR. LEGÍTIMA EXPECTATIVA.
USUÁRIO DE BOA-FÉ. CONTRATO RELACIONAL. PRESERVAÇÃO DA CONFIANÇA.
1. Cinge-se a controvérsia a saber se determinada especialidade médica, no caso, a de oncologia, disponibilizada
em hospital credenciado por plano de saúde, mas cujo serviço é prestado por instituição parceira não
credenciada, está abrangida pela cobertura contratual de assistência à saúde.
2. Por determinação legal, as operadoras de planos de saúde devem ajustar com as entidades conveniadas,
contratadas, referenciadas ou credenciadas, mediante instrumentos formais, as condições de prestação de
serviços de assistência à saúde. Assim, conforme o art.
17-A da Lei nº 9.656/1998, devem ser estabelecidos com clareza, em tais contratos, os direitos, as obrigações e as
responsabilidades das partes, bem como todas as condições para a sua execução, incluídos o objeto, a natureza
do ajuste, o regime de atendimento e a descrição dos serviços contratados.
3. A operadora, ao divulgar e disponibilizar ao usuário a lista de prestadores conveniados, deve também
providenciar a descrição dos serviços que cada um está apto a executar - pessoalmente ou por meio de terceiros
-, segundo o contrato de credenciamento formalizado.
4. Se a prestação do serviço (hospitalar, ambulatorial, médico-hospitalar, obstétrico e de urgência 24h) não for
integral, deve ser indicada a restrição e quais especialidades oferecidas pela entidade não estão cobertas, sob
pena de se considerar todas incluídas no credenciamento, principalmente em se tratando de hospitais, já que são
estabelecimentos de saúde vocacionados a prestar assistência sanitária em regime de internação e de não
internação, nas mais diversas especialidades médicas.
5. O credenciamento, sem restrições, de hospital por operadora abrange, para fins de cobertura de plano de
assistência à saúde, todas as especialidades médicas oferecidas pela instituição, ainda que prestadas sob o
sistema de parceria com instituição não credenciada.
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6. Eventual divergência de índole administrativa entre operadora e prestador quanto aos serviços de atenção à
saúde efetivamente cobertos no instrumento jurídico de credenciamento não pode servir de subterfúgio para
prejudicar o consumidor de boa-fé, que confiou na rede conveniada e nas informações divulgadas pelo plano de
saúde. As partes, nas relações contratuais, devem manter posturas de cooperação, transparência e lealdade
recíprocas, de modo a respeitar as legítimas expectativas geradas no outro, sobretudo em contratos de longa
duração, em que a confiança é elemento essencial e fonte de responsabilização civil.
7. Recurso especial não provido.
STJ. 2ª Turma. REsp 1364915-MG, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 14/5/2013
ADMINISTRATIVO. CONSUMIDOR. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. VÍCIO DE QUANTIDADE. VENDA DE
REFRIGERANTE EM VOLUME MENOR QUE O HABITUAL. REDUÇÃO DE CONTEÚDO INFORMADA NA PARTE
INFERIOR DO RÓTULO E EM LETRAS REDUZIDAS. INOBSERVÂNCIA DO DEVER DE INFORMAÇÃO. DEVER
POSITIVO DO FORNECEDOR DE INFORMAR. VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DA CONFIANÇA. PRODUTO ANTIGO NO
MERCADO. FRUSTRAÇÃO DAS EXPECTATIVAS LEGÍTIMAS DO CONSUMIDOR. MULTA APLICADA PELO PROCON.
POSSIBILIDADE. ÓRGÃO DETENTOR DE ATIVIDADE ADMINISTRATIVA DE ORDENAÇÃO. PROPORCIONALIDADE
DA MULTA ADMINISTRATIVA. SÚMULA 7/STJ. ANÁLISE DE LEI LOCAL, PORTARIA E INSTRUÇÃO NORMATIVA.
AUSÊNCIA DE NATUREZA DE LEI FEDERAL. SÚMULA 280/STF. DIVERGÊNCIA NÃO DEMONSTRADA. REDUÇÃO DO
"QUANTUM" FIXADO A TÍTULO DE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. SÚMULA 7/STJ.
1. No caso, o Procon estadual instaurou processo administrativo contra a recorrente pela prática da infração às
relações de consumo conhecida como "maquiagem de produto" e "aumento disfarçado de preços", por alterar
quantitativamente o conteúdo dos refrigerantes "Coca Cola", "Fanta", "Sprite" e "Kuat" de 600 ml para 500 ml,
sem informar clara e precisamente aos consumidores, porquanto a informação foi aposta na parte inferior do
rótulo e em letras reduzidas. Na ação anulatória ajuizada pela recorrente, o Tribunal de origem, em apelação,
confirmou a improcedência do pedido de afastamento da multa administrativa, atualizada para R$ 459.434,97, e
majorou os honorários advocatícios para R$ 25.000,00.
2. Hipótese, no cível, de responsabilidade objetiva em que o fornecedor (lato sensu)responde solidariamente
pelo vício de quantidade do produto.
3. O direito à informação, garantia fundamental da pessoa humana expressa no art. 5°, inciso XIV, da Constituição
Federal, é gênero do qual é espécie também previsto no Código de Defesa do Consumidor.
4. A Lei n. 8.078/1990 traz, entre os direitos básicos do consumidor, a "informação adequada e clara sobre os
diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade e
preço, bem como sobre os riscos que apresentam" (art. 6º, inciso III).
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5. Consoante o Código de Defesa do Consumidor, "a oferta e a apresentação de produtos ou serviços devem
assegurar informações corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características,
qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como
sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores" (art. 31), sendo vedada a publicidade
enganosa, "inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em
erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e
quaisquer outros dados sobre produtos e serviços" (art. 37).
6. O dever de informação positiva do fornecedor tem importância direta no surgimento e na manutenção da
confiança por parte do consumidor. A informação deficiente frustra as legítimas expectativas do consumidor,
maculando sua confiança.
7. A sanção administrativa aplicada pelo Procon reveste-se de legitimidade, em virtude de seu poder de polícia
(atividade administrativa de ordenação) para cominar multas relacionadas à transgressão da Lei n. 8.078/1990,
esbarrando o reexame da proporcionalidade da pena fixada no enunciado da Súmula 7/STJ.
8. Leis locais, portarias e instruções normativas refogem ao conceito de lei federal, não podendo ser analisadas
por esta Corte, ante o óbice, por analogia, da Súmula 280/STF.
9. Os honorários advocatícios fixados pela instância ordinária somente podem ser revistos em recurso especial se
o "quantum" se revelar exorbitante, em respeito ao disposto na Súmula 7/STJ.
Recurso especial a que se nega provimento.
STJ. 3ª Turma. REsp 1443268-DF, Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 3/6/2014
DIREITO CIVIL. DIREITO DO CONSUMIDOR. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. VEÍCULO NOVO. VÍCIO DO PRODUTO.
INCOMPATIBILIDADE ENTRE O DIESEL COMERCIALIZADO NO BRASIL E AS ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS DO
PROJETO. PANES REITERADAS. DANOS AO MOTOR. PRAZO DE TRINTA DIAS PARA CONSERTO. RESTITUIÇÃO DO
VALOR PAGO. DANO MORAL. CABIMENTO.
1.- Configura vício do produto incidente em veículo automotor a incompatibilidade, não informada ao
consumidor, entre o tipo de combustível necessário ao adequado funcionamento de veículo comercializado no
mercado nacional e aquele disponibilizado nos postos de gasolina brasileiros. No caso, o automóvel
comercializado, importado da Alemanha, não estava preparado para funcionar adequadamente com o tipo de
diesel ofertado no Brasil.
2.- Não é possível afirmar que o vício do produto tenha sido sanado no prazo de 30 dias, estabelecido pelo
artigo 18, § 1º, caput, do Código de Defesa do Consumidor, se o automóvel, após retornar da oficina, reincidiu
no mesmo problema, por diversas vezes. A necessidade de novos e sucessivos reparos é indicativo suficiente de
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que o veículo, embora substituídas as peças danificadas pela utilização do combustível impróprio, não foi posto
em condições para o uso que dele razoavelmente se esperava.
3.- A jurisprudência do STJ orienta-se no sentido de ser cabível indenização por dano moral quando o
consumidor de veículo zero quilômetro necessita retornar à concessionária por diversas vezes, para reparos.
4.- Recurso Especial provido.
STJ. 3ª Turma. REsp 1330174-MG, Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 22/10/2013
DIREITO DO CONSUMIDOR. "REESTILIZAÇÃO" LÍCITA DE PRODUTO. VEÍCULO 2007 COMERCIALIZADO COMO
MODELO 2008. LANÇAMENTO NO ANO DE 2008 DE PRODUTO REFORMULADO, COMO SENDO MODELO 2009.
PRÁTICA COMERCIAL ABUSIVA E PROPAGANDA ENGANOSA NÃO VERIFICADAS.
1.- Lícito ao fabricante de veículos antecipar o lançamento de um modelo meses antes da virada do ano, prática
usual no mercado de veículos.
2.- Não há falar em prática comercial abusiva ou propaganda enganosa quando o consumidor, no ano de 2007,
adquire veículo modelo 2008 e a reestilização do produto atinge apenas os de modelo 2009, ou seja, não
realizada no mesmo ano. Situação diversa da ocorrida no julgamento do REsp 1.342.899 - RS (Rel. Ministro
SIDNEI BENETI, TERCEIRA TURMA, julgado em 20/08/2013, DJe 09/09/2013 3.- No caso, a alegação de que o
consumidor deveria ter sido advertido, no momento da compra, quanto à alteração das características do
produto em futuro próximo, tendo em vista o direito de ampla informação, não foi enfrentada pelo Tribunal de
origem. Ausência de prequestionamento.
4.- Recurso Especial a que se nega provimento.
Direito à Educação
STJ: 3ª Turma. REsp 1144840-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgamento 20.03.2012
CONSUMIDOR. PLANO DE SAÚDE. REDE CONVENIADA. ALTERAÇÃO. DEVER DE INFORMAÇÃO ADEQUADA.
COMUNICAÇÃO INDIVIDUAL DE CADA ASSOCIADO. NECESSIDADE.
1. Os arts. 6º, III, e 46 do CDC instituem o dever de informação e consagram o princípio da transparência, que
alcança o negócio em sua essência, na medida em que a informação repassada ao consumidor integra o próprio
conteúdo do contrato. Trata-se de dever intrínseco ao negócio e que deve estar presente não apenas na
formação do contrato, mas também durante toda a sua execução.
2. O direito à informação visa a assegurar ao consumidor uma escolha consciente, permitindo que suas
expectativas em relação ao produto ou serviço sejam de fato atingidas, manifestando o que vem sendo
denominado de consentimento informado ou vontade qualificada. Diante disso, o comando do art. 6º, III, do
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CDC, somente estará sendo efetivamente cumprido quando a informação for prestada ao consumidor de forma
adequada, assim entendida como aquela que se apresenta simultaneamente completa, gratuita e útil, vedada,
neste último caso, a diluição da comunicação efetivamente relevante pelo uso de informações soltas, redundantes
ou destituídas de qualquer serventia para o consumidor.
3. A rede conveniada constitui informação primordial na relação do associado frente à operadora do plano de
saúde, mostrando-se determinante na decisão quanto à contratação e futura manutenção do vínculo contratual.
4. Tendo em vista a importância que a rede conveniada assume para a continuidade do contrato, a operadora
somente cumprirá o dever de informação se comunicar individualmente cada associado sobre o
descredenciamento de médicos e hospitais.
5. Recurso especial provido.
Direito à Proteção Contra Práticas Comerciais Abusivas
STJ. 2ª Turma. REsp 1469087-AC, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 18/8/2016
CONSUMIDOR. CONCESSÃO DE SERVIÇOS AÉREOS. RELAÇÃO HAVIDA ENTRE CONCESSIONÁRIA E
CONSUMIDORES. APLICAÇÃO DO CDC. ILEGITIMIDADE DA ANAC. TRANSPORTE AÉREO. SERVIÇO ESSENCIAL.
EXIGÊNCIA DE CONTINUIDADE. CANCELAMENTO DE VOOS PELA CONCESSIONÁRIA SEM RAZÕES TÉCNICAS OU
DE SEGURANÇA. PRÁTICA ABUSIVA. DESCUMPRIMENTO DA OFERTA.
1. A controvérsia diz respeito à prática, no mercado de consumo, de cancelamento de voos por concessionária
sem comprovação pela empresa de razões técnicas ou de segurança.
2. Nas ações coletivas ou individuais, a agência reguladora não integra o feito em litisconsórcio passivo quando
se discute a relação de consumo entre concessionária e consumidores, e não a regulamentação emanada do ente
regulador.
3. O transporte aéreo é serviço essencial e, como tal, pressupõe continuidade. Difícil imaginar, atualmente, serviço
mais "essencial" do que o transporte aéreo, sobretudo em regiões remotasdo Brasil.
4. Consoante o art. 22, caput e parágrafo único, do CDC, a prestação de serviços públicos, ainda que por pessoa
jurídica de direito privado, envolve dever de fornecimento de serviços com adequação, eficiência, segurança e, se
essenciais, continuidade, sob pena de ser o prestador compelido a bem cumpri-lo e a reparar os danos advindos
do descumprimento total ou parcial.
5. A partir da interpretação do art. 39 do CDC, considera-se prática abusiva tanto o cancelamento de voos sem
razões técnicas ou de segurança inequívocas como o descumprimento do dever de informar o consumidor, por
escrito e justificadamente, quando tais cancelamentos vierem a ocorrer.
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6. A malha aérea concedida pela ANAC é oferta que vincula a concessionária a prestar o serviço nos termos dos
arts. 30 e 31 do CDC. Independentemente da maior ou menor demanda, a oferta obriga o fornecedor a cumprir
o que ofereceu, a agir com transparência e a informar adequadamente o consumidor. Descumprida a oferta, a
concessionária viola os direitos não apenas dos consumidores concretamente lesados, mas de toda a coletividade
a quem se ofertou o serviço, dando ensejo à reparação de danos materiais e morais (inclusive, coletivos).
7. Compete ao Poder Judiciário fiscalizar e determinar o cumprimento do contrato de concessão celebrado entre
poder concedente e concessionária, bem como dos contratos firmados entre concessionária e consumidores
(individuais e plurais), aos quais é assegurada proteção contra a prática abusiva em caso de cancelamento ou
interrupção dos voos.
Recurso especial da GOL parcialmente conhecido e, nesta parte, improvido.
STJ. 4ª Turma. REsp 1365609-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 28/4/2015
DIREITO DO CONSUMIDOR. RECURSO ESPECIAL. VÍCIO DO PRODUTO. AUTOMÓVEIS SEMINOVOS. PUBLICIDADE
QUE GARANTIA A QUALIDADE DO PRODUTO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. USO DA MARCA. LEGÍTIMA
EXPECTATIVA DO CONSUMIDOR. MATÉRIA FÁTICO-PROBATÓRIA. SÚM. 7/STJ.
1. O Código do Consumidor é norteado principalmente pelo reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor e
pela necessidade de que o Estado atue no mercado para minimizar essa hipossuficiência, garantindo, assim, a
igualdade material entre as partes. Sendo assim, no tocante à oferta, estabelece serem direitos básicos do
consumidor o de ter a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços (CDC, art. 6°, III) e o
de receber proteção contra a publicidade enganosa ou abusiva (CDC, art. 6°, IV).
2. É bem verdade que, paralelamente ao dever de informação, se tem a faculdade do fornecedor de anunciar seu
produto ou serviço, sendo certo que, se o fizer, a publicidade deve refletir fielmente a realidade anunciada, em
observância à principiologia do CDC. Realmente, o princípio da vinculação da oferta reflete a imposição da
transparência e da boa-fé nos métodos comerciais, na publicidade e nos contratos, de forma que esta exsurge
como princípio máximo orientador, nos termos do art. 30.
3. Na hipótese, inequívoco o caráter vinculativo da oferta, integrando o contrato, de modo que o fornecedor de
produtos ou serviços se responsabiliza também pelas expectativas que a publicidade venha a despertar no
consumidor, mormente quando veicula informação de produto ou serviço com a chancela de determinada marca,
sendo a materialização do princípio da boa-fé objetiva, exigindo do anunciante os deveres anexos de lealdade,
confiança, cooperação, proteção e informação, sob pena de responsabilidade.
4. A responsabilidade civil da fabricante decorre, no caso concreto, de pelo menos duas circunstâncias: a) da
premissa fática incontornável adotada pelo acórdão de que os mencionados produtos e serviços ofertados eram
avalizados pela montadora através da mensagem publicitária veiculada; b) e também, de um modo geral, da
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percepção de benefícios econômicos com as práticas comerciais da concessionária, sobretudo ao permitir a
utilização consentida de sua marca na oferta de veículos usados e revisados com a excelência da GM.
5. Recurso especial não provido.
STJ. 3ª Turma. REsp 1331948/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 14/06/2016.
RECURSO ESPECIAL. PROCESSO CIVIL. DIREITO DO CONSUMIDOR. ART. 39, I, DO CDC. VENDA CASADA. VENDA
DE ALIMENTOS. ESTABELECIMENTOS CINEMATOGRÁFICOS. LIBERDADE DE ESCOLHA. ART. 6º, II, DO CDC.
VIOLAÇÃO. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS EM OUTRO LOCAL. VEDAÇÃO. TUTELA COLETIVA. ART. 16 DA LEI Nº
7.347/1985. SENTENÇA CIVIL. DIREITOS INDIVIDUAIS HOMOGÊNEOS. EFICÁCIA ERGA OMNES. LIMITE
TERRITORIAL. APLICABILIDADE.
1. A venda casada ocorre em virtude do condicionamento a uma única escolha, a apenas uma alternativa, já que
não é conferido ao consumidor usufruir de outro produto senão aquele alienado pelo fornecedor.
2. Ao compelir o consumidor a comprar dentro do próprio cinema todo e qualquer produto alimentício, o
estabelecimento dissimula uma venda casada (art. 39, I, do CDC), limitando a liberdade de escolha do
consumidor (art. 6º, II, do CDC), o que revela prática abusiva.
3. A restrição do alcance subjetivo da eficácia erga omnes da sentença proferida em ação civil pública
envolvendo direitos individuais homogêneos aos limites da competência territorial do órgão prolator, constante
do art. 16 da Lei nº 7.347/1985, está plenamente em vigor.
4. É possível conceber, pelo caráter divisível dos direitos individuais homogêneos, decisões distintas, tendo em
vista a autonomia de seus titulares.
5. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, provido.
Direito à Preservação do Contrato e Revisão das Cláusulas
STJ. 4ª Turma. REsp 1155395-PR, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 1º/10/2013
CIVIL E CONSUMIDOR. RECURSO ESPECIAL. CONTRATO DE PENHOR. JOIAS. FURTO. FORTUITO INTERNO.
RECONHECIMENTO DE ABUSO DE CLÁUSULA CONTRATUAL QUE LIMITA O VALOR DA INDENIZAÇÃO EM FACE
DE EXTRAVIO DOS BENS EMPENHADOS. VIOLAÇÃO AO ART. 51, I, DO CDC. OCORRÊNCIA DE DANOS MATERIAIS
E MORAIS. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.
1. No contrato de penhor é notória a hipossuficiência do consumidor, pois este, necessitando de empréstimo,
apenas adere a um contrato cujas cláusulas são inegociáveis, submetendo-se à avaliação unilateral realizada pela
instituição financeira. Nesse contexto, deve-se reconhecer a violação ao art. 51, I, do CDC, pois mostra-se abusiva
a cláusula contratual que limita, em uma vez e meia o valor da avaliação, a indenização devida no caso de
extravio, furto ou roubo das joias que deveriam estar sob a segura guarda da recorrida.
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2. O consumidor que opta pelo penhor assim o faz pretendendo receber o bem de volta, e, para tanto, confia
que o mutuante o guardará pelo prazo ajustado. Se a joia empenhada fosse para o proprietário um bem
qualquer, sem valor sentimental, provavelmente o consumidor optaria pela venda da joia, pois, certamente,
obteria um valor maior.
3. Anulada a cláusula que limita o valor da indenização, o quantum a título de danos materiais e morais deve ser
estabelecido conforme as peculiaridades do caso, sempre com observância dos princípios da razoabilidade e da
proporcionalidade.
4. Recurso especial provido.
STJ: REsp 1321614/SP, Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, Rel. p/ Acórdão Ministro
RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em 16/12/2014, DJe 03/03/2015
RECURSO ESPECIAL. CIVIL. AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO DE COMPRA E VENDA. DÓLAR AMERICANO.
MAXIDESVALORIZAÇÃO DO REAL. AQUISIÇÃO DE EQUIPAMENTO PARA ATIVIDADE PROFISSIONAL. AUSÊNCIA
DE RELAÇÃO DE CONSUMO. TEORIAS DA IMPREVISÃO. TEORIA DA ONEROSIDADE EXCESSIVA. TEORIA DA BASE
OBJETIVA. INAPLICABILIDADE.
1. Ação proposta com a finalidade de, após a maxidesvalorização do real em face do dólar americano, ocorrida a
partir de janeiro de 1999, modificar cláusula de contrato de compra e venda, com reserva de domínio, de
equipamento médico (ultrassom), utilizado pelo autor noexercício da sua atividade profissional de médico, para
que, afastada a indexação prevista, fosse observada a moeda nacional.
2. Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza, como destinatário final, produto ou serviço
oriundo de um fornecedor. Por sua vez, destinatário final, segundo a teoria subjetiva ou finalista, adotada pela
Segunda Seção desta Corte Superior, é aquele que ultima a atividade econômica, ou seja, que retira de circulação
do mercado o bem ou o serviço para consumi-lo, suprindo uma necessidade ou satisfação própria, não havendo,
portanto, a reutilização ou o reingresso dele no processo produtivo. Logo, a relação de consumo (consumidor
final) não pode ser confundida com relação de insumo (consumidor intermediário). Inaplicabilidade das regras
protetivas do Código de Defesa do Consumidor
3. A intervenção do Poder Judiciário nos contratos, à luz da teoria da imprevisão ou da teoria da onerosidade
excessiva, exige a demonstração de mudanças supervenientes das circunstâncias iniciais vigentes à época da
realização do negócio, oriundas de evento imprevisível (teoria da imprevisão) e de evento imprevisível e
extraordinário (teoria da onerosidade excessiva), que comprometa o valor da prestação, demandando tutela
jurisdicional específica.
4. O histórico inflacionário e as sucessivas modificações no padrão monetário experimentados pelo país desde
longa data até julho de 1994, quando sobreveio o Plano Real, seguido de período de relativa estabilidade até a
maxidesvalorização do real em face do dólar americano, ocorrida a partir de janeiro de 1999, não autorizam
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concluir pela imprevisibilidade desse fato nos contratos firmados com base na cotação da moeda norte-
americana, em se tratando de relação contratual paritária.
5. A teoria da base objetiva, que teria sido introduzida em nosso ordenamento pelo art. 6º, inciso V, do Código
de Defesa do Consumidor - CDC, difere da teoria da imprevisão por prescindir da previsibilidade de fato que
determine oneração excessiva de um dos contratantes. Tem por pressuposto a premissa de que a celebração de
um contrato ocorre mediante consideração de determinadas circunstâncias, as quais, se modificadas no curso da
relação contratual, determinam, por sua vez, consequências diversas daquelas inicialmente estabelecidas, com
repercussão direta no equilíbrio das obrigações pactuadas. Nesse contexto, a intervenção judicial se daria nos
casos em que o contrato fosse atingido por fatos que comprometessem as circunstâncias intrínsecas à
formulação do vínculo contratual, ou seja, sua base objetiva.
6. Em que pese sua relevante inovação, tal teoria, ao dispensar, em especial, o requisito de imprevisibilidade, foi
acolhida em nosso ordenamento apenas para as relações de consumo, que demandam especial proteção. Não se
admite a aplicação da teoria do diálogo das fontes para estender a todo direito das obrigações regra incidente
apenas no microssistema do direito do consumidor, mormente com a finalidade de conferir amparo à revisão de
contrato livremente pactuado com observância da cotação de moeda estrangeira.
7. Recurso especial não provido.
STJ. 2ª Seção. REsp 1578553-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 28/11/2018
RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. TEMA 958/STJ. DIREITO BANCÁRIO. COBRANÇA POR SERVIÇOS DE TERCEIROS,
REGISTRO DO CONTRATO E AVALIAÇÃO DO BEM. PREVALÊNCIA DAS NORMAS DO DIREITO DO CONSUMIDOR
SOBRE A REGULAÇÃO BANCÁRIA. EXISTÊNCIA DE NORMA REGULAMENTAR VEDANDO A COBRANÇA A TÍTULO
DE COMISSÃO DO CORRESPONDENTE BANCÁRIO. DISTINÇÃO ENTRE O CORRESPONDENTE E O TERCEIRO.
DESCABIMENTO DA COBRANÇA POR SERVIÇOS NÃO EFETIVAMENTE PRESTADOS. POSSIBILIDADE DE CONTROLE
DA ABUSIVIDADE DE TARIFAS E DESPESAS EM CADA CASO CONCRETO.
1. DELIMITAÇÃO DA CONTROVÉRSIA: Contratos bancários celebrados a partir de 30/04/2008, com instituições
financeiras ou equiparadas, seja diretamente, seja por intermédio de correspondente bancário, no âmbito das
relações de consumo.
2. TESES FIXADAS PARA OS FINS DO ART. 1.040 DO CPC/2015:
2.1. Abusividade da cláusula que prevê a cobrança de ressarcimento de serviços prestados por terceiros, sem a
especificação do serviço a ser efetivamente prestado;
2.2. Abusividade da cláusula que prevê o ressarcimento pelo consumidor da comissão do correspondente
bancário, em contratos celebrados a partir de 25/02/2011, data de entrada em vigor da Res.-CMN 3.954/2011,
sendo válida a cláusula no período anterior a essa resolução, ressalvado o controle da onerosidade excessiva;
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2.3. Validade da tarifa de avaliação do bem dado em garantia, bem como da cláusula que prevê o ressarcimento
de despesa com o registro do contrato, ressalvadas a:
2.3.1. abusividade da cobrança por serviço não efetivamente prestado; e a
2.3.2. possibilidade de controle da onerosidade excessiva, em cada caso concreto.
3. CASO CONCRETO.
3.1. Aplicação da tese 2.2, declarando-se abusiva, por onerosidade excessiva, a cláusula relativa aos serviços de
terceiros ("serviços prestados pela revenda").
3.2. Aplicação da tese 2.3, mantendo-se hígidas a despesa de registro do contrato e a tarifa de avaliação do bem
dado em garantia.
4. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE PROVIDO.
Direito à Efetiva Prevenção e Reparação de Danos
STJ: 4ª Turma. REsp 606.382-MS, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, julgado em 04.04.2004
RESPONSABILIDADE CIVIL. INDENIZAÇÃO. DANOS MORAIS. INTERRUPÇÃO SERVIÇO TELEFÔNICO. MERO
DISSABOR. O mero dissabor não pode ser alçado ao patamar do dano moral, mas somente aquela agressão que
exacerba a naturalidade dos fatos da vida, causando fundadas aflições ou angústias no espírito de quem ela se
dirige. Recurso especial conhecido e provido.
STJ: 2ª Turma. REsp 1057274/RS, Rel. Ministra Eliana Calmon, DJe 26.02.2010
ADMINISTRATIVO - TRANSPORTE - PASSE LIVRE - IDOSOS - DANO MORAL COLETIVO - DESNECESSIDADE DE
COMPROVAÇÃO DA DOR E DE SOFRIMENTO - APLICAÇÃO EXCLUSIVA AO DANO MORAL INDIVIDUAL -
CADASTRAMENTO DE IDOSOS PARA USUFRUTO DE DIREITO - ILEGALIDADE DA EXIGÊNCIA PELA EMPRESA DE
TRANSPORTE - ART. 39, § 1º DO ESTATUTO DO IDOSO - LEI 10741/2003 VIAÇÃO NÃO PREQUESTIONADO.
1. O dano moral coletivo, assim entendido o que é transindividual e atinge uma classe específica ou não de
pessoas, é passível de comprovação pela presença de prejuízo à imagem e à moral coletiva dos indivíduos
enquanto síntese das individualidades percebidas como segmento, derivado de uma mesma relação jurídica-
base."
2. O dano extrapatrimonial coletivo prescinde da comprovação de dor, de sofrimento e de abalo psicológico,
suscetíveis de apreciação na esfera do indivíduo, mas inaplicável aos interesses difusos e coletivos.
3. Na espécie, o dano coletivo apontado foi a submissão dos idosos a procedimento de cadastramento para o
gozo do benefício do passe livre, cujo deslocamento foi custeado pelos interessados, quando o Estatuto do
Idoso, art. 39, § 1º exige apenas a apresentação de documento de identidade.
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4. Conduta da empresa de viação injurídica se considerado o sistema normativo.
5. Afastada a sanção pecuniária pelo Tribunal que considerou as circunstancias fáticas e probatória e restando
sem prequestionamento o Estatuto do Idoso, mantém-se a decisão.
5. Recurso especial parcialmente provido.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.656.614-SC, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 23.05.2017
DIREITO DO CONSUMIDOR. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANO MATERIAL E COMPENSAÇÃO POR DANO
MORAL. ACIDENTE DE TRÂNSITO. SEGURANÇA. GRAVES LESÕES. FUNDAMENTO DO ACÓRDÃO NÃO
IMPUGNADO. SÚMULA 283/STF. INTERESSE RECURSAL. QUESTÕES RESOLVIDAS PELO TRIBUNAL DE ORIGEM.
AUSÊNCIA. REEXAME DE FATOS E PROVAS. INADMISSIBILIDADE. MECANISMO DE SEGURANÇA. RISCO INERENTE.
PRODUTO DEFEITUOSO. EXCESSO. REVISÃO DO VALOR DA COMPENSAÇÃO.
1. Ação de indenização por dano material e compensação por danomoral ajuizada em 17.03.2009. Recurso
especial atribuído ao gabinete em 25.08.2016. Julgamento: CPC/73.
2. O propósito recursal consiste em afastar a responsabilidade objetiva da Mitsubishi Motors Corporation
decorrente de alegado dano ocasionado por fato de produto.
3. A existência de fundamento do acórdão recorrido não impugnado - quando suficiente para a manutenção de
suas conclusões - impede a apreciação do recurso especial.
4. Ausência de interesse recursal da recorrente em questões já deferidas pelo Tribunal de origem.
5. O reexame de fatos e provas em recurso especial é inadmissível.
6. Considera-se o produto como defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor dele se espera,
levando-se em consideração a época e o modo em que foi prestado, e no que mais importa para a espécie, os
riscos inerentes a sua regular utilização.
7. O fato da utilização do air bag, como mecanismo de segurança de periculosidade inerente, não autoriza que as
montadoras de veículos se eximam da responsabilidade em ressarcir danos fora da normalidade do "uso e os
riscos que razoavelmente dele se esperam" (art. 12, §1º, II do CDC).
8. É clara a necessidade de se arbitrar valor proporcional e estritamente adequado à compensação do prejuízo
extrapatrimonial sofrido e ao desestímulo de práticas lesivas. Por outro ângulo, a compensação financeira
arbitrada não pode representar o enriquecimento sem causa da vítima.
9. Recurso especial parcialmente conhecido, e nessa parte, parcialmente provido para fixar definitivamente neste
julgamento o valor da compensação pelo dano moral.
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Direito ao Acesso à Justiça, à Facilitação da Defesa de Direitos e à
Inversão do Ônus da Prova
STJ: 2ª Turma. REsp 1279622-MG, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 06.08.2015
ADMINISTRATIVO. CONSUMIDOR. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. PLANO "NET VIRTUA". CLÁUSULAS
ABUSIVAS. TRANSFERÊNCIA DOS RISCOS DA ATIVIDADE AO CONSUMIDOR. PROCON. ATIVIDADE
ADMINISTRATIVA DE ORDENAÇÃO. AUTORIZAÇÃO PARA APLICAÇÃO DE SANÇÕES VIOLADORAS DO CDC.
CONTROLE DE LEGALIDADE E INTERPRETAÇÃO DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS. ATIVIDADE NÃO EXCLUSIVA DO
JUDICIÁRIO. FUNDAMENTAÇÃO SUCINTA. POSSIBILIDADE. DIVERGÊNCIA INCOGNOSCÍVEL. SÚMULA 83/STJ.
REDUÇÃO DA PROPORCIONALIDADE DA MULTA ADMINISTRATIVA. SÚMULA 7/STJ.
1. O Código de Defesa do Consumidor é zeloso quanto à preservação do equilíbrio contratual, da equidade
contratual e, enfim, da justiça contratual, os quais não coexistem ante a existência de cláusulas abusivas.
2. O art. 51 do CDC traz um rol meramente exemplificativo de cláusulas abusivas, num conceito aberto que
permite o enquadramento de outras abusividades que atentem contra o equilíbrio entre as partes no contrato de
consumo, de modo a preservar a boa-fé e a proteção do consumidor.
3. O Decreto n. 2.181/1997 dispõe sobre a organização do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor - SNDC e
estabelece as normas gerais de aplicação das sanções administrativas, nos termos do Código de Defesa do
Consumidor (Lei n. 8.078/1990).
4. O art. 4º do CDC (norma principiológica que anuncia as diretivas, as bases e as proposições do referido
diploma) legitima, por seu inciso II, alínea "c", a presença plural do Estado no mercado, tanto por meios de
órgãos da administração pública voltados à defesa do consumidor (tais como o Departamento de Proteção e
Defesa do Consumidor, os Procons estaduais e municipais), quanto por meio de órgãos clássicos (Defensorias
Públicas do Estado e da União, Ministério Público Estadual e Federal, delegacias de polícia especializada, agências
e autarquias fiscalizadoras, entre outros).
5. O PROCON, embora não detenha jurisdição, pode interpretar cláusulas contratuais, porquanto a Administração
Pública, por meio de órgãos de julgamento administrativo, pratica controle de legalidade, o que não se confunde
com a função jurisdicional propriamente dita, mesmo porque "a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário
lesão ou ameaça a direito" (art. 5º, XXXV, da CF).
6. A motivação sucinta que permite a exata compreensão do decisum não se confunde com motivação
inexistente.
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7. A sanção administrativa aplicada pelo PROCON reveste-se de legitimidade, em virtude de seu poder de polícia
(atividade administrativa de ordenação) para cominar multas relacionadas à transgressão da Lei n. 8.078/1990,
esbarrando o reexame da proporcionalidade da pena fixada no enunciado da Súmula 7/STJ.
8. "Não se conhece do recurso especial pela divergência, quando a orientação do Tribunal se firmou no mesmo
sentido da decisão recorrida" (Súmula 83/STJ).
Recurso especial conhecido em parte e improvido.
STJ: REsp: 802.832-MG, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino. DJe: 21.09.2011
RECURSO ESPECIAL. CONSUMIDOR. RESPONSABILIDADE POR VÍCIO NO PRODUTO (ART. 18 DO CDC). ÔNUS DA
PROVA. INVERSÃO 'OPE JUDICIS' (ART. 6º, VIII, DO CDC). MOMENTO DA INVERSÃO. PREFERENCIALMENTE NA
FASE DE SANEAMENTO DO PROCESSO.
I. A inversão do ônus da prova pode decorrer da lei ('ope legis'), como na responsabilidade pelo fato do produto
ou do serviço (arts. 12 e 14 do CDC), ou por determinação judicial ('ope judicis'), como no caso dos autos,
versando acerca da responsabilidade por vício no produto (art. 18 do CDC).
II. Inteligência das regras dos arts. 12, § 3º, II, e 14, § 3º, I, e. 6º, VIII, do CDC.
III. A distribuição do ônus da prova, além de constituir regra de julgamento dirigida ao juiz (aspecto objetivo),
apresenta-se também como norma de conduta para as partes, pautando, conforme o ônus atribuído a cada uma
delas, o seu comportamento processual (aspecto subjetivo). Doutrina.
IV. Se o modo como distribuído o ônus da prova influi no comportamento processual das partes (aspecto
subjetivo), não pode a a inversão 'ope judicis' ocorrer quando do julgamento da causa pelo juiz (sentença) ou
pelo tribunal (acórdão).
V. Previsão nesse sentido do art. 262, §1º, do Projeto de Código de Processo Civil.
VI. A inversão 'ope judicis' do ônus probatório deve ocorrer preferencialmente na fase de saneamento do
processo ou, pelo menos, assegurando-se à parte a quem não incumbia inicialmente o encargo, a reabertura de
oportunidade para apresentação de provas.
VII. Divergência jurisprudencial entre a Terceira e a Quarta Turma desta Corte.
VIII. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO
STJ: AgRg no CC 129.294/DF, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, SEGUNDA SEÇÃO,
julgado em 24/9/2014, DJe 1º/10/2014)
BANCÁRIO. AÇÃO REVISIONAL PROPOSTA PELO CONSUMIDOR. DOMICÍLIO DO RÉU. POSSIBILIDADE.
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1. A jurisprudência sedimentada da Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça é firme no sentido de que é
facultado ao consumidor, quando autor da ação, eleger, dentro das limitações impostas pela lei, a comarca que
melhor atende seus interesses.
2. A competência, em casos tais, deve ser tida por relativa, somente podendo ser alterada caso o réu apresente, a
tempo e modo oportunos, exceção de incompetência, não sendo possível sua declinação de ofício nos moldes da
Súmula nº 33/STJ.
3. A norma protetiva, erigida em benefício do consumidor, não o obriga a demandar em seu domicílio, sendo-lhe
possível renunciar ao direito que possui de ali demandar e ser demandado, optando por ajuizar a ação no foro
do domicilio do réu, com observância da regra geral de fixação de competência do art. 94 do CPC.
4. Agravo regimental não provido.
STJ. 2ª Turma. REsp 1253672/RS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 2/8/2011
PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. OFENSA AO ART. 535 DO CPC. INOCORRÊNCIA. AÇÃO CIVIL PÚBLICA.
ABUSIVIDADE NA COMERCIALIZAÇÃO DE COMBUSTÍVEIS. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA A FAVOR DO
MINISTÉRIO PÚBLICO. POSSIBILIDADE. TUTELA DE DIREITOS E DE SEUS TITULARES, E NÃO PROPRIAMENTE DAS
PARTES DA AÇÃO.
1. Trata-se, na origem, de ação civil pública movida pelo recorrido em face da recorrente em que se discute
abusividadena comercialização de combustíveis. Houve, em primeiro grau, inversão do ônus da prova a favor do
Ministério Público, considerando a natureza consumerista da demanda. Esta conclusão foi mantida no agravo de
instrumento interposto no Tribunal de Justiça.
2. Nas razões recursais, sustenta a recorrente ter havido violação aos arts. 535 do Código de Processo Civil (CPC),
ao argumento de que o acórdão recorrido é omisso, e 6º, inc. VIII, do Código de Defesa do Consumidor (CDC),
pois o Ministério Público não é hipossuficiente a fim de que lhe se permita a inversão do ônus da prova. Quanto
a este último ponto, aduz, ainda, haver dissídio jurisprudencial a ser sanado.
3. Em primeiro lugar, é de se destacar que os órgãos julgadores não estão obrigados a examinar todas as teses
levantadas pelo jurisdicionado durante um processo judicial, bastando que as decisões proferidas estejam devida
e coerentemente fundamentadas, em obediência ao que determina o art. 93, inc. IX, da Constituição da República
vigente. Isto não caracteriza ofensa ao art. 535 do CPC.
Precedentes.
4. Em segundo lugar, pacífico nesta Corte Superior o entendimento segundo o qual o Ministério Público, no
âmbito de ação consumerista, faz jus à inversão do ônus da prova, a considerar que o mecanismo previsto no art.
6º, inc. VIII, do CDC busca concretizar a melhor tutela processual possível dos direitos difusos, coletivos ou
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individuais homogêneos e de seus titulares - na espécie, os consumidores -, independentemente daqueles que
figurem como autores ou réus na ação. Precedentes.
5. Recurso especial não provido.
STJ. 2ª Seção. EREsp 422778-SP, Rel. para o acórdão Min. Maria Isabel Gallotti (art. 52, IV, b, do
RISTJ), julgados em 29/2/2012.
EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. LEI
8.078/90, ART. 6º, INC. VIII. REGRA DE INSTRUÇÃO. DIVERGÊNCIA CONFIGURADA.
1. O cabimento dos embargos de divergência pressupõe a existência de divergência de entendimentos entre
Turmas do STJ a respeito da mesma questão de direito federal. Tratando-se de divergência a propósito de regra
de direito processual (inversão do ônus da prova) não se exige que os fatos em causa no acórdão recorrido e
paradigma sejam semelhantes, mas apenas que divirjam as Turmas a propósito da interpretação do dispositivo
de lei federal controvertido no recurso.
2. Hipótese em que o acórdão recorrido considera a inversão do ônus da prova prevista no art. 6º, inciso VIII, do
CDC regra de julgamento e o acórdão paradigma trata o mesmo dispositivo legal como regra de instrução.
Divergência configurada.
3. A regra de imputação do ônus da prova estabelecida no art. 12 do CDC tem por pressuposto a identificação
do responsável pelo produto defeituoso (fabricante, produtor, construtor e importador), encargo do autor da
ação, o que não se verificou no caso em exame.
4. Não podendo ser identificado o fabricante, estende-se a responsabilidade objetiva ao comerciante (CDC, art.
13). Tendo o consumidor optado por ajuizar a ação contra suposto fabricante, sem comprovar que o réu foi
realmente o fabricante do produto defeituoso, ou seja, sem prova do próprio nexo causal entre ação ou omissão
do réu e o dano alegado, a inversão do ônus da prova a respeito da identidade do responsável pelo produto
pode ocorrer com base no art. 6º, VIII, do CDC, regra de instrução, devendo a decisão judicial que a determinar
ser proferida "preferencialmente na fase de saneamento do processo ou, pelo menos, assegurando-se à parte a
quem não incumbia inicialmente o encargo, a reabertura de oportunidade" (RESP 802.832, STJ 2ª Seção, DJ
21.9.2011).
5. Embargos de divergência a que se dá provimento.
STJ. 3ª Turma. REsp 1510697-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 9/6/2015
RECURSO ESPECIAL. CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. PLANO DE SAÚDE COLETIVO. AÇÃO REVISIONAL. VALIDADE DE
CLÁUSULA CONTRATUAL. REAJUSTE DE MENSALIDADES. USUÁRIO. LEGITIMIDADE ATIVA AD CAUSAM.
NATUREZA JURÍDICA DA RELAÇÃO CONTRATUAL COM A OPERADORA. ESTIPULAÇÃO EM FAVOR DE TERCEIRO.
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INTERESSE JURIDICAMENTE PROTEGIDO. DEMONSTRAÇÃO. DESTINATÁRIO FINAL DOS SERVIÇOS DE
ASSISTÊNCIA À SAÚDE.
1. Discute-se a legitimidade ativa ad causam do usuário de plano de saúde coletivo para postular contra a
operadora a revisão judicial de cláusulas contratuais.
2. A legitimidade exigida para o exercício do direito de ação depende, em regra, da relação jurídica de direito
material havida entre as partes; em outras palavras, a ação tem como condição a titularidade de um direito ou
interesse juridicamente protegido.
3. O plano de saúde coletivo é aquele contratado por uma empresa ou por pessoas jurídicas de caráter
profissional, classista ou setorial, como conselhos, sindicatos e associações profissionais, junto à operadora de
planos de saúde para oferecer assistência médica e/ou odontológica às pessoas vinculadas às mencionadas
entidades bem como a seus dependentes.
4. No plano de saúde coletivo, o vínculo jurídico formado entre a operadora e o grupo de usuários caracteriza-se
como uma estipulação em favor de terceiro. Por seu turno, a relação havida entre a operadora e o estipulante é
similar a um contrato por conta de terceiro. Já para os usuários, o estipulante é apenas um intermediário, um
mandatário, não representando a operadora de plano de saúde.
5. Na estipulação em favor de terceiro, tanto o estipulante (promissário) quanto o beneficiário podem exigir do
promitente (ou prestador de serviço) o cumprimento da obrigação (art. 436, parágrafo único, do CC). Assim, na
fase de execução contratual, o terceiro (beneficiário) passa a ser também credor do promitente.
6. Os princípios gerais do contrato amparam tanto o beneficiário quanto o estipulante, de modo que havendo no
contrato cláusula abusiva ou ocorrendo fato que o onere excessivamente, não é vedado a nenhum dos
envolvidos pedir a revisão da avença, mesmo porque as cláusulas contratuais devem obedecer a lei.
7. O usuário de plano de saúde coletivo tem legitimidade ativa para ajuizar individualmente ação contra a
operadora pretendendo discutir a validade de cláusulas do contrato, a exemplo do critério de reajuste das
mensalidades, não sendo empecilho o fato de a contratação ter sido intermediada por estipulante.
8. Recurso especial provido.
STJ. 3ª Turma. REsp 1133338-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 2/4/2013
RECURSO ESPECIAL. DIREITO DO CONSUMIDOR. SEGURO DE SAÚDE. ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO DE
DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS. INVIABILIDADE. INCLUSÃO DE DEPENDENTE. INAPLICABILIDADE DO § 5º DO
ART. 35 DA LEI 9.656/98. OPORTUNIDADE DE ADAPTAÇÃO AO NOVO SISTEMA. NÃO CONCESSÃO. CLÁUSULA
CONTRATUAL. POSSIBILIDADE DE INCLUSÃO DE QUALQUER PESSOA COMO DEPENDENTE. EXCLUSÃO DE
COBERTURA DE LESÕES DECORRENTES DE MÁ-FORMAÇÃO CONGÊNITA. EXCEÇÃO. FILHO DE SEGURADA
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NASCIDO NA VIGÊNCIA DO SEGURO. INTERPRETAÇÃO MAIS FAVORÁVEL AO CONSUMIDOR ADERENTE.
ABUSIVIDADE DA NEGATIVA DE COBERTURA DE SITUAÇÃO DE URGÊNCIA.
1. A análise de suposta violação de dispositivo constitucional é vedada nesta instância especial, sob pena de
usurpação da competência atribuída ao Supremo Tribunal Federal.
2. Inaplicabilidade da regra do § 5º do art. 35 da Lei n. 9.656/98 quando ao consumidor não foi dada a
oportunidade de optar pela adaptação de seu contrato de seguro de saúde ao novo sistema.
3. Afastada a restrição legal à inclusão de dependentes, permanece em plena vigência a cláusula contratual que
prevê a possibilidade de inclusão de qualquer pessoa como dependente em seguro de saúde.
4. Obrigação contratual da seguradora de oferecer cobertura às lesões decorrentes de má-formação congênita
aos filhos das seguradas nascidos na vigência do contrato.
5. Cláusulas contratuais devem ser interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor, mormente quando se
trata de contratode adesão. Inteligência do art. 47 do CDC.
6. Cobertura que não poderia, de qualquer forma, ser negada pela seguradora, por se tratar de situação de
urgência, essencial à manutenção da vida do segurado, sob pena de se configurar abusividade contratual.
7. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.
Direito ao Recebimento de Serviços Adequados e Eficazes
STJ: 2ª Turma. REsp 793.422/RS, Rel. Min. Eliana Calmon, j. 03/08/2006, p. DJ 17/08/2006
ADMINISTRATIVO – SERVIÇO PÚBLICO CONCEDIDO – ENERGIA ELÉTRICA – INADIMPLÊNCIA.
1. Os serviços públicos podem ser próprios e gerais, sem possibilidade de identificação dos destinatários. São
financiados pelos tributos e prestados pelo próprio Estado, tais como segurança pública, saúde, educação, etc.
Podem ser também impróprios e individuais, com destinatários determinados ou determináveis. Neste caso, têm
uso específico e mensurável, tais como os serviços de telefone, água e energia elétrica.
2. Os serviços públicos impróprios podem ser prestados por órgãos da administração pública indireta ou,
modernamente, por delegação, como previsto na CF (art. 175). São regulados pela Lei 8.987/95, que dispõe sobre
a concessão e permissão dos serviços públicos.
3. Os serviços prestados por concessionárias são remunerados por tarifa, sendo facultativa a sua utilização, que é
regida pelo CDC, o que a diferencia da taxa, esta, remuneração do serviço público próprio.
4. Os serviços públicos essenciais, remunerados por tarifa, porque prestados por concessionárias do serviço,
podem sofrer interrupção quando há inadimplência, como previsto no art. 6º, § 3º, II, da Lei 8.987/95. Exige-se,
72
entretanto, que a interrupção seja antecedida por aviso, existindo na Lei 9.427/97, que criou a ANEEL, idêntica
previsão.
5. A continuidade do serviço, sem o efetivo pagamento, quebra o princípio da igualdade das partes e ocasiona o
enriquecimento sem causa, repudiado pelo Direito (arts. 42 e 71 do CDC, em interpretação conjunta).
6. Hipótese em que não há respaldo legal para a suspensão do serviço, pois tem por objetivo compelir o usuário
a pagar multa por suposta fraude no medidor e diferença de consumo apurada unilateralmente pela Cia de
Energia.
7. Recurso especial improvido.
STJ. 3ª Turma. AgRg no Ag 1389181/SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em
26/06/2012.
AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO ESPECIAL. RESPONSABILIDADE CIVIL - DANOS
MORAIS E MATERIAIS. ASSALTO À MÃO ARMADA EM VAGÃO DE TREM. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DA
EMPRESA TRANSPORTADORA. INEXISTÊNCIA. FUNDAMENTOS DO NOVO RECURSO INSUFICIENTES PARA
REFORMAR A DECISÃO AGRAVADA.
1. "Constitui causa excludente da responsabilidade da empresa transportadora o fato inteiramente estranho ao
transporte em si, como é o assalto ocorrido no interior do coletivo. Precedentes." (REsp 435865/RJ, 2º Seção, Rel.
Min. Barros Monteiro, DJ 12.05.2003).
2. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.
STJ. 4ª Turma. REsp 1183121-SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 24/2/2015 (Info
559).
RESPONSABILIDADE CIVIL. CÓDIGO DO CONSUMIDOR. BANCO POSTAL. SERVIÇO PRESTADO PELA ECT.
ATIVIDADE DE CORRESPONDENTE BANCÁRIO. INCIDÊNCIA DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR.
ATIVIDADE QUE TRAZ, EM SUA ESSÊNCIA RISCO À SEGURANÇA. ASSALTO NO INTERIOR DE AGÊNCIA. FORTUITO
INTERNO. DANOS MORAIS E MATERIAIS DEVIDOS.
1. Visando conferir efetividade e socialidade ao Programa Nacional de Desburocratização do Governo Federal,
ampliando o acesso da população brasileira a alguns serviços prestados por instituições financeiras, foi criada a
figura do correspondente bancário, cuja atividade é regulamentada por diversas resoluções do Banco Central do
Brasil.
2. O objetivo da atividade de correspondente é justamente o de levar os serviços e produtos bancários mais
elementares à população de localidades desprovidas de referidos benefícios, proporcionando a inclusão social e
acesso ao sistema financeiro, conferindo maior capilaridade ao atendimento bancário, nada mais sendo do que
uma longa manus das instituições financeiras que não conseguem atender toda a sua demanda.
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3. Ao realizar a atividade de banco postal, contrato de finalidade creditícia, a ECT buscou, no espectro da
atividade econômica, aumentar os seus ganhos e proventos, pois, por meio dessa relação, o correspondente tira
proveito de recursos ociosos, utilizando a marca do banco para atrair clientes, fidelizar consumidores, acessar
serviços e produtos do sistema financeiro, agregando diferencial competitivo ao negócio.
4. Nesse ramo, verifica-se serviço cuja natureza traz, em sua essência, risco à segurança, justamente por tratar de
atividade financeira com guarda de valores e movimentação de numerário, além de diversas outras ações
tipicamente bancárias, apesar de o correspondente não ser juridicamente uma instituição financeira para fins de
incidência do art. 1°, § 1°, da Lei n. 7.102/1983, conforme já decidido pelo STJ.
5. É assente na jurisprudência do STJ que nas discussões a respeito de assaltos dentro de agências bancárias,
sendo o risco inerente à atividade bancária, é a instituição financeira que deve assumir o ônus desses infortúnios,
sendo que "roubos em agências bancárias são eventos previsíveis, não caracterizando hipótese de força maior,
capaz de elidir o nexo de causalidade, requisito indispensável ao dever de indenizar" (REsp 1093617/PE, Rel.
Ministro João Otávio de Noronha, 4ª Turma, DJe 23/03/2009).
6. Além de prestar atividades tipicamente bancárias, a ECT oferece publicamente esses serviços (equipamentos,
logomarca, prestígio etc), de forma que, ao menos de forma aparente, de um banco estamos a tratar; aos olhos
do usuário, inclusive em razão do nome e da prática comercial, não se pode concluir de outro modo, a não ser
pelo fato de que o consumidor efetivamente crê que o banco postal (correspondente bancário) nada mais é do
que um banco com funcionamento dentro de agência dos Correios.
7. As contratações tanto dos serviços postais como dos serviços de banco postal oferecidos pelos Correios
revelam a existência de contrato de consumo, desde que o usuário se qualifique como "destinatário final" do
produto ou serviço.
8. Na hipótese, o serviço prestado pelos Correios foi inadequado e ineficiente porque descumpriu o dever de
segurança legitimamente esperado pelo consumidor, não havendo falar em caso fortuito para fins de exclusão da
responsabilidade com rompimento da relação de causalidade, mas sim fortuito interno, porquanto incide na
proteção dos riscos esperados da atividade empresarial desenvolvida.
9. De fato, dentro do seu poder de livremente contratar e oferecer diversos tipos de serviços, ao agregar a
atividade de correspondente bancário ao seu empreendimento, acabou por criar risco inerente à própria
atividade das instituições financeiras, devendo por isso responder pelos danos que esta nova atribuição tenha
gerado aos seus consumidores, uma vez que atraiu para si o ônus de fornecer a segurança legitimamente
esperada para esse tipo de negócio.
10. Recurso especial não provido.
STJ. 3ª Turma. REsp 1280372-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 7/10/2014
(Info 550).
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RECURSO ESPECIAL. DIREITO DO CONSUMIDOR. AÇÃO INDENIZATÓRIA. COMPANHIA AÉREA. CONTRATO DE
TRANSPORTE. OBRIGAÇÃO DE RESULTADO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. DANOS MORAIS. ATRASO DE VOO.
SUPERIOR A QUATRO HORAS. PASSAGEIRO DESAMPARADO. PERNOITE NO AEROPORTO. ABALO PSÍQUICO.
CONFIGURAÇÃO. CAOS AÉREO. FORTUITO INTERNO. INDENIZAÇÃO DEVIDA.
1. Cuida-se de ação por danos morais proposta por consumidor desamparado pela companhia aérea
transportadora que, ao atrasar desarrazoadamente o voo, submeteu o passageiro a toda sorte de humilhações e
angústias em aeroporto, no qual ficou sem assistência ou informação quanto às razões do atraso durante toda a
noite.
2. O contrato de transporte consiste em obrigaçãode resultado, configurando o atraso manifesta prestação
inadequada.
3. A postergação da viagem superior a quatro horas constitui falha no serviço de transporte aéreo contratado e
gera o direito à devida assistência material e informacional ao consumidor lesado, independentemente da causa
originária do atraso.
4. O dano moral decorrente de atraso de voo prescinde de prova e a responsabilidade de seu causador opera-se
in re ipsa em virtude do desconforto, da aflição e dos transtornos suportados pelo passageiro.
5. Em virtude das especificidades fáticas da demanda, afigura-se razoável a fixação da verba indenizatória por
danos morais no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais).
6. Recurso especial provido.
STJ. 4ª Turma. REsp 1354369-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 5/5/2015
RESPONSABILIDADE CIVIL. RECURSO ESPECIAL. TRANSPORTE INTERESTADUAL DE PASSAGEIROS. USUÁRIO
DEIXADO EM PARADA OBRIGATÓRIA. CULPA EXCLUSIVA DO CONSUMIDOR.
1. A responsabilidade decorrente do contrato de transporte é objetiva, nos termos do art. 37, § 6º, da
Constituição da República e dos arts. 14 e 22 do Código de Defesa do Consumidor, sendo atribuído ao
transportador o dever reparatório quando demonstrado o nexo causal entre o defeito do serviço e o acidente de
consumo, do qual somente é passível de isenção quando houver culpa exclusiva do consumidor ou uma das
causas excludentes de responsabilidade genéricas (arts. 734 e 735 do Código Civil).
2. Deflui do contrato de transporte uma obrigação de resultado que incumbe ao transportador levar o
transportado incólume ao seu destino (art. 730 do CC), sendo certo que a cláusula de incolumidade se refere à
garantia de que a concessionária de transporte irá empreender todos os esforços possíveis no sentido de isentar
o consumidor de perigo e de dano à sua integridade física, mantendo-o em segurança durante todo o trajeto,
até a chegada ao destino final.
75
3. Ademais, ao lado do dever principal de transladar os passageiros e suas bagagens até o local de destino com
cuidado, exatidão e presteza, há o transportador que observar os deveres secundários de cumprir o itinerário
ajustado e o horário marcado, sob pena de responsabilização pelo atraso ou pela mudança de trajeto.
4. Assim, a mera partida do coletivo sem a presença do viajante não pode ser equiparada automaticamente à
falha na prestação do serviço, decorrente da quebra da cláusula de incolumidade, devendo ser analisadas pelas
instâncias ordinárias as circunstâncias fáticas que envolveram o evento, tais como, quanto tempo o coletivo
permaneceu na parada; se ele partiu antes do tempo previsto ou não; qual o tempo de atraso do passageiro; e
se houve por parte do motorista a chamada dos viajantes para reembarque de forma inequívoca.
5. O dever de o consumidor cooperar para a normal execução do contrato de transporte é essencial, impondo-
se-lhe, entre outras responsabilidades, que também esteja atento às diretivas do motorista em relação ao tempo
de parada para descanso, de modo a não prejudicar os demais passageiros (art. 738 do CC).
6. Recurso especial provido.
STJ. 2ª Turma. REsp 1292875-PR, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 15/12/2016
RECURSO ESPECIAL. ACÓRDÃO RECORRIDO. PUBLICAÇÃO ANTERIOR À VIGÊNCIA DO CPC/2015. REQUISITOS DE
ADMISSIBILIDADE. CPC/1973. ART. 535 DO CPC/1973. AUSÊNCIA DE OFENSA ADAPTAÇÃO DO TRANSPORTE
COLETIVO.
ACESSSIBILIDADE. VIOLAÇÃO DOS ARTS. 5º, § 2º, DA LEI 10.048/2000 E 38, §§ 2º, 3º E 5º, DO DECRETO
5.296/2004. NÃO CONFIGURADA. ART. 16 DA LEI 10.098/2000.
1. Os Recursos Especiais impugnam acórdão publicado na vigência do CPC de 1973, sendo exigidos, pois, os
requisitos de admissibilidade na forma prevista naquele código de ritos, com as interpretações dadas, até então,
pela jurisprudência desta Corte, conforme o Enunciado Administrativo 2, aprovado pelo Plenário do Superior
Tribunal de Justiça em 9.3.2016.
2. Trata-se na origem de Ação Civil Pública proposta pelo Instituto Constituição Viva - Conviva visando à
condenação do recorrente em promover a adaptação dos terminais de acesso e de todos os veículos de
transporte coletivo intramunicipal de Ponta Grossa às pessoas com deficiência bem como a indenizá-las por
danos morais sofridos decorrentes do impedimento ou da dificuldade de acesso ao transporte coletivo por falta
de adaptação técnica.
3. Em segundo grau a apelação do ora recorrente foi parcialmente provida para dilatar o prazo de adaptação dos
veículos para as pessoas com deficiência física para um ano ao invés dos seis meses fixados na sentença.
4. A solução integral da controvérsia, com fundamento suficiente, não caracteriza ofensa ao art. 535 do CPC.
5. Não há ofensa aos arts. 5º, § 2º, da Lei 10.048/2000 e 38, §§ 2º, 3º e 5º, do Decreto 5.296/2004.
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6. Impossível acolher a tese do recorrente de que embora a Lei 10.048/2000 tenha fixado prazo de 180 dias a
contar de sua regulamentação, apenas em 3.12.2004, data da publicação do Decreto 5.296/2004, é que tal
regulamentação ocorreu, com a fixação de prazo de 10 anos para efetivação de todas as adaptações do veículos
de trasnporte coletivo para as pessoas com deficiência.
7. Admitir esse entendimento significa aceitar que a lei fique subordinada a seu regulamento. Ademais, o
Decreto, ao prorrogar, por dez anos, a efetividade da garantia de acessibilidade às pessoas com deficiência,
concebida para produzir efeitos o quanto antes, mostra-se ilegal, já frusta o escopo da norma.
8. Ademais, embora a Lei 10.048/2000 tenha fixado prazo de 180 dias a contar de sua regulamentação, que que
se deu com a edição do Decreto 5.296/2004, o fato é que o citado prazo foi modificado com a edição da citada
Lei 10.098/200.
9. Com o advento da Lei 10.098/2000, a discussão sobre o prazo para adaptação dos veículos de transporte
coletivo para pessoas deficientes perdeu a razão de ser, pois a referida norma, publicada em 20.12.200,
disciplinou a matéria em seu art. 16.
10. A regulamentação exigida pela Lei 10.048/2000 deixou de ser necessária, pois a Lei 10.098/2000 remeteu tal
providência para as normas técnicas. Existem diversas normas regulamentares sobre a acessibilidade dos
transportes coletivos editadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Especificamente acerca do
transporte rodoviário existe a NBR 14022/1997, posteriormente substitui da pela Portaria 260/2007 do Imetro.
11. Portanto, desde a edição da Lei nº. 10.098/2000, a adaptação dos veículos de transporte coletivo foi
suficientemente regulamentada, não havendo razão em se falar em inexistência de mora do recorrente.
12. Recurso Especial não provido.
STJ. 4ª Turma. REsp 1611915-RS, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 06/12/2018
RECURSO ESPECIAL - AÇÃO CONDENATÓRIA - ACESSIBILIDADE EM TRANSPORTE AÉREO - CADEIRANTE
SUBMETIDO A TRATAMENTO INDIGNO AO EMBARCAR EM AERONAVE - AUSÊNCIA DOS MEIOS MATERIAIS
NECESSÁRIOS AO INGRESSO DESEMBARAÇADO NO AVIÃO DO DEPENDENTE DE TRATAMENTO ESPECIAL -
RESPONSABILIDADE DA PRESTADORA DE SERVIÇOS CONFIGURADA - REDUÇÃO DO QUANTUM INDENIZATÓRIO
IMPROCEDENTE. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO.
Hipótese: Trata-se de ação condenatória cuja pretensão é o reconhecimento da responsabilidade civil da
companhia aérea por não promover condições dignas de acessibilidade de pessoa cadeirante ao interior da
aeronave. 1. Recurso sujeito aos requisitos de admissibilidade do Código de Processo Civil de 1973, conforme
Enunciado Administrativo 2/2016 do STJ.
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2. Não há violação ao art. 535 do CPC/73 quando não indicada a omissão e a demonstrada a importância da
análise da matéria para a resolução da controvérsia. Na hipótese de fundamentação genérica incide a regra da
Súmula 284 do STF.
3. O Brasil assumiu no plano internacional compromissos destinados à concretização do convívio social de forma
independente da pessoa portadora de deficiência, sobretudo por meioda garantia da acessibilidade,
imprescindível à autodeterminação do indivíduo com dificuldade de locomoção.
3.1. A Resolução n. 9/2007 da Agência Nacional de Aviação Civil, cuja vigência perdurou de 14/6/2007 até
12/1/2014, atribuiu às empresas aéreas a obrigação de assegurar os meios para o acesso desembaraçado da
pessoa com deficiência no interior da aeronave, aplicando-se, portanto, aos fatos versados na demanda.
4. Nos termos do art. 14, caput, da Lei n. 8.078/90, o fornecedor de serviços responde, objetivamente, pela
reparação dos danos causados ao consumidor, em razão da incontroversa má-prestação do serviço por ela
fornecido, o que ocorreu na hipótese.
4.1. O fato de terceiro, excludente da responsabilidade do transportador, é aquele imprevisto e que não tem
relação com a atividade de transporte, não sendo o caso dos autos, uma vez que o constrangimento, previsível
no deslocamento coletivo de pessoas, decorreu da própria relação contratual entre os envolvidos e,
preponderantemente, da forma que o serviço foi prestado pela ora recorrente.
5. A indenização por danos morais fixada em quantia sintonizada aos princípios da razoabilidade e
proporcionalidade não enseja a interposição do recurso especial, dada a necessidade de exame de elementos de
ordem fática, cabendo sua revisão apenas em casos de manifesta excessividade ou irrisoriedade do montante
arbitrado.
Incidência da Súmula 7 do STJ. Verba indenizatória mantida em R$ 15.000,00 (quinze mil reais).
6. Recurso parcialmente conhecido e, nessa extensão, desprovido.
STJ. 1ª Seção. REsp 1412433-RS, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 25/04/2018
ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543-C DO
CPC/1973 (ATUAL 1.036 DO CPC/2015) E RESOLUÇÃO STJ 8/2008. SERVIÇOS PÚBLICOS. FORNECIMENTO DE
ENERGIA ELÉTRICA. FRAUDE NO MEDIDOR DE CONSUMO. CORTE ADMINISTRATIVO DO SERVIÇO. DÉBITOS DO
CONSUMIDOR. CRITÉRIOS. ANÁLISE DA CONTROVÉRSIA SUBMETIDA AO RITO DO ART. 543-C DO CPC/1973
(ATUAL 1.036 DO CPC/2015)
1. A concessionária sustenta que qualquer débito, atual ou antigo, dá ensejo ao corte administrativo do
fornecimento de energia elétrica, o que inclui, além das hipóteses de mora do consumidor, débitos pretéritos
relativos à recuperação de consumo por fraude do medidor. In casu, pretende cobrar débito oriundo de fraude
em medidor, fazendo-o retroagir aos cinco anos antecedentes.
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TESE CONTROVERTIDA ADMITIDA
2. Sob o rito do art. 543-C do CPC/1973 (atualmente 1036 e seguintes do CPC/2015), admitiu-se a seguinte tese
controvertida: "a possibilidade de o prestador de serviços públicos suspender o fornecimento de energia elétrica
em razão de débito pretérito do destinatário final do serviço".
PANORAMA GERAL DA JURISPRUDÊNCIA DO STJ SOBRE CORTE DE ENERGIA POR FALTA DE PAGAMENTO
3. São três os principais cenários de corte administrativo do serviço em decorrência de débitos de consumo de
energia elétrica por inadimplemento: a) consumo regular (simples mora do consumidor); b) recuperação de
consumo por responsabilidade atribuível à concessionária; e c) recuperação de consumo por responsabilidade
atribuível ao consumidor (normalmente, fraude do medidor).
4. O caso tratado no presente recurso representativo da controvérsia é o do item "c" acima, já que a apuração de
débitos pretéritos decorreu de fato atribuível ao consumidor: fraude no medidor de consumo.
5. Não obstante a delimitação supra, é indispensável à resolução da controvérsia fazer um apanhado da
jurisprudência do STJ sobre a possibilidade de corte administrativo do serviço de energia elétrica.
6. Com relação a débitos de consumo regular de energia elétrica, em que ocorre simples mora do consumidor, a
jurisprudência do STJ está sedimentada no sentido de que é lícito o corte administrativo do serviço, se houver
aviso prévio da suspensão. A propósito: REsp 363.943/MG, Rel. Ministro Humberto Gomes de Barros, Primeira
Seção, DJ 1º.3.2004, p. 119; EREsp 302.620/SP, Rel. Ministro José Delgado, Rel. p/ Acórdão Ministro Franciulli
Netto, Primeira Seção, DJ 3.4.2006, p. 207; REsp 772.486/RS, Rel. Ministro Francisco Falcão, Primeira Turma, DJ
6.3.2006, p. 225; AgRg no Ag 1.320.867/RJ, Rel. Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, DJe 19.6.2017; e
AgRg no AREsp 817.879/SP, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 12.2.2016.
7. Quanto a débitos pretéritos, sem discussão específica ou vinculação exclusiva à responsabilidade atribuível ao
consumidor pela recuperação de consumo (fraude no medidor), há diversos precedentes no STJ que estipulam a
tese genérica de impossibilidade de corte do serviço: EREsp 1.069.215/RS, Rel. Ministro Herman Benjamin,
Primeira Seção, DJe 1º.2.2011; EAg 1.050.470/SP, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Seção, DJe 14.9.2010;
REsp 772.486/RS, Rel. Ministro Francisco Falcão, Primeira Turma, DJ 6.3.2006, p. 225; AgRg nos EDcl no AREsp
107.900/RS, Rel. Ministro Ari Pargendler, Primeira Turma, DJe 18.3.2013; AgRg no REsp 1.381.468/RN, Rel. Ministro
Arnaldo Esteves Lima, Primeira Turma, DJe 14.8.2013; AgRg no REsp 1.536.047/GO, Rel. Ministro Humberto
Martins, Segunda Turma, DJe 15.9.2015; AgRg no AREsp 273.005/ES, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda
Turma, DJe 26.3.2013; AgRg no AREsp 257.749/PE, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 8.2.2013;
AgRg no AREsp 462.325/RJ, Rel. Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, DJe 15.4.2014; AgRg no AREsp
569.843/PE, Rel. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, DJe 11.11.2015; AgRg no AREsp
484.166/RS, Rel. Ministro Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, DJe 8.5.2014; EDcl no AgRg no
AREsp 58.249/PE, Rel. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, DJe 25.4.2013; AgRg no AREsp
79
360.286/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 11.9.2013; AgRg no AREsp 360.181/PE,
Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, DJe 26.9.2013; AgRg no AREsp 331.472/PE, Rel. Ministro
Benedito Gonçalves, Primeira Turma, DJe 13.9.2013; AgRg no AREsp 300.270/MG, Rel. Ministro Sérgio Kukina,
Primeira Turma, DJe 24.9.2015; AgRg no REsp 1.261.303/RS, Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe
19.8.2013; EDcl no REsp 1.339.514/MG, Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe 5.3.2013; AgRg no AREsp
344.523/PE, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 14.10.2013; AgRg no AREsp 470/RS, Rel. Ministro
Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, DJe 4.10.2011; e AgRg no Ag 962.237/RS, Rel. Ministro Castro Meira,
Segunda Turma, DJe 27.3.2008.
CORTE ADMINISTRATIVO POR FRAUDE NO MEDIDOR
8. Relativamente aos casos de fraude do medidor pelo consumidor, a jurisprudência do STJ veda o corte quando
o ilícito for aferido unilateralmente pela concessionária. A contrario sensu, é possível a suspensão do serviço se o
débito pretérito por fraude do medidor cometida pelo consumidor for apurado de forma a proporcionar o
contraditório e a ampla defesa. Nesse sentido: AgRg no AREsp 412.849/RJ, Rel. Ministro Humberto Martins,
Segunda Turma, DJe 10.12.2013; AgRg no AREsp 370.548/PE, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma,
DJe 4.10.2013; AgRg no REsp 1.465.076/SP, Rel. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, DJe
9.3.2016; REsp 1.310.260/RS, Rel. Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, DJe 28.9.2017; AgRg no AREsp
187.037/PE, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 8.10.2012; AgRg no AREsp 332.891/PE,
Relator Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 13.8.2013; AgRg no AREsp 357.553/PE, Rel. Ministro
Benedito Gonçalves, Primeira Turma, DJe 26.11.2014; AgRg no AREsp 551.645/SP, Rel. Ministro Benedito
Gonçalves, Primeira Turma, DJe 3.10.2014; AgInt no AREsp 967.813/PR, Rel. Ministra Assusete Magalhães, Segunda
Turma, DJe 8.3.2017; AgInt no REsp 1.473.448/RS, Rel. Ministra Assusete Magalhães, Segunda Turma, DJe
1º.2.2017; AgRg no AREsp 345.130/PE,Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe 10.10.2014; AgRg no
AREsp 346.561/PE, Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe 1º.4.2014; AgRg no AREsp 448.913/PE, Rel.
Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, DJe 3.9.2015; AgRg no AREsp 258.350/PE, Rel. Ministro Gurgel de
Faria, Primeira Turma, DJe 8.6.2016; AgRg no REsp 1.478.948/RS, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma,
DJe 20.3.2015; AgRg no AREsp 159.109/SP, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 18.4.2013; AgRg no
AREsp 295.444/RS, Rel. Ministra Marga Tessler (Desembargadora Federal Convocada do TRF/4ª Região), Primeira
Turma, DJe de 17.4.2015; AgRg no AREsp 322.763/PE, Rel. Ministra Diva Malerbi (Desembargadora Federal
Convocada do TRF/3ª Região), Segunda Turma, DJe 23.8.2016; e AgRg AREsp 243.389/PE, Rel. Ministro Arnaldo
Esteves Lima, Primeira Turma, DJe 4.2.2013.
RESOLUÇÃO DA CONTROVÉRSIA
9. Como demonstrado acima, em relação a débitos pretéritos mensurados por fraude do medidor de consumo
causada pelo consumidor, a jurisprudência do STJ orienta-se no sentido do seu cabimento, desde que verificada
com observância dos princípios do contraditório e da ampla defesa.
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10. O não pagamento dos débitos por recuperação de efetivo consumo por fraude ao medidor enseja o corte do
serviço, assim como acontece para o consumidor regular que deixa de pagar a conta mensal (mora), sem deixar
de ser observada a natureza pessoal (não propter rem) da obrigação, conforme pacífica jurisprudência do STJ.
11. Todavia, incumbe à concessionária do serviço público observar rigorosamente os direitos ao contraditório e à
ampla defesa do consumidor na apuração do débito, já que o entendimento do STJ repele a averiguação
unilateral da dívida.
12. Além disso, o reconhecimento da possibilidade de corte de energia elétrica deve ter limite temporal de
apuração retroativa, pois incumbe às concessionárias o dever não só de fornecer o serviço, mas também de
fiscalizar adequada e periodicamente o sistema de controle de consumo.
13. Por conseguinte e à luz do princípio da razoabilidade, a suspensão administrativa do fornecimento do serviço
- como instrumento de coação extrajudicial ao pagamento de parcelas pretéritas relativas à recuperação de
consumo por fraude do medidor atribuível ao consumidor - deve ser possibilitada quando não forem pagos
débitos relativos aos últimos 90 (noventa) dias da apuração da fraude, sem prejuízo do uso das vias judiciais
ordinárias de cobrança.
14. Da mesma forma, deve ser fixado prazo razoável de, no máximo, 90 (noventa) dias, após o vencimento da
fatura de recuperação de consumo, para que a concessionária possa suspender o serviço.
TESE REPETITIVA
15. Para fins dos arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015, fica assim resolvida a controvérsia repetitiva: Na hipótese
de débito estrito de recuperação de consumo efetivo por fraude no aparelho medidor atribuída ao consumidor,
desde que apurado em observância aos princípios do contraditório e da ampla defesa, é possível o corte
administrativo do fornecimento do serviço de energia elétrica, mediante prévio aviso ao consumidor, pelo
inadimplemento do consumo recuperado correspondente ao período de 90 (noventa) dias anterior à constatação
da fraude, contanto que executado o corte em até 90 (noventa) dias após o vencimento do débito, sem prejuízo
do direito de a concessionária utilizar os meios judiciais ordinários de cobrança da dívida, inclusive antecedente
aos mencionados 90 (noventa) dias de retroação.
RESOLUÇÃO DO CASO CONCRETO
16. Na hipótese dos autos, o Tribunal Estadual declarou a ilegalidade do corte de energia por se lastrear em
débitos não relacionados ao último mês de consumo.
17. Os débitos em litígio são concernentes à recuperação de consumo do valor de R$ 9.418,94 (nove mil,
quatrocentos e dezoito reais e noventa e quatro centavos) por fraude constatada no aparelho medidor no
período de cinco anos (15.12.2000 a 15.12.2005) anteriores à constatação, não sendo lícita a imposição de corte
81
administrativo do serviço pela inadimplência de todo esse período, conforme os parâmetros estipulados no
presente julgamento.
18. O pleito recursal relativo ao cálculo da recuperação de consumo não merece conhecimento por aplicação do
óbice da Súmula 7/STJ.
19. Recurso Especial não provido. Acórdão submetido ao regime dos arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015.
Convenção Coletiva de Consumo
STJ: Recurso Especial nº 1.105.483-MG
RECURSO ESPECIAL. CIVIL. SE
82
ESTUDO COMPLEMENTAR
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83
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Adriano. MASSON, Cleber. ANDRADE, Landolfo. Interesses difusos e coletivos esquematizado. 6. ed. Método: São
Paulo, 2016.
ÁVILA, Humberto. Teoria Geral dos Princípios da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 4. Ed. Malheiros Editores: São
Paulo, 2004.
BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da Constituição: fundamentos de uma dogmática constitucional
transformadora. São Paulo, Saraiva, 1999.
BOLZAN, Fabrício. Direito do consumidor esquematizado. 2. ed. Saraiva: São Paulo, 2014.
CAVALCANTI, Márcio André Lopes. Vade mecum de jurisprudência. Juspodivm: Salvador, 2019.
CUNHA, Rogério Sanches e outros. Revisaço magistratura estadual. 7. ed. Juspodivm: Salvador, 2019.
FILOMENO, José Geraldo Brito. Direitos do consumidor. 15. ed. Atlas: São Paulo, 2018.
GARCIA, Leonardo de Medeiros. Código de defesa do consumidor comentado artigo por artigo. 13. ed. Juspodivm: Salvador,
2016.
GOMES, Nathália Stivalle. Direito do consumidor. Juspodvum: 2019.
GOUVEIA, Mila. Informativos em frase. Juspodivm: Salvador, 2017.
LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. 21. ed. Saraiva: São Paulo, 2017.
MIRAGEM, Bruno. Curso de direito do consumidor. 6. ed. Revista dos Tribunais: São Paulo, 2016.
NETO, Felipe Peixoto Braga. Manual de direito do consumidor. Juspodvim: Salvador, 2015.
NUNES, Rizzatto. Curso de direito do consumidor. 12. ed. Saraiva Educação: São Paulo, 2018.
REALE, Miguel. Filosofia do Direito. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 1986.
TARTUCE, Flávio. NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de direito do consumidor: direito material e processual. 7. ed.
Método: São Paulo, 2018.
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Direitos do consumidor. 9. ed. Forense: Rio de Janeiro, 2017.
PDF OAB
Direito do Consumidor
Capítulo 4
MAT
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1
SUMÁRIO
DIREITO DO CONSUMIDOR, Capítulo 4 ............................................................................................. 3
1. Relação Jurídica de Consumo, Práticas Comerciais e Aplicação do Código de Defesa do
Consumidor ............................................................................................................................................... 3
1.1 Relação Jurídica de Consumo ........................................................................................................................................... 3
1.2 Elemento Objetivo das Relações Jurídicas de Consumo ......................................................................................4
1.2.1 Produto ........................................................................................................................................................................................ 4
1.2.2 Serviço .......................................................................................................................................................................................... 7
1.3 Elemento Subjetivo das Relações Jurídicas de Consumo ..................................................................................... 8
1.3.1 Consumidor................................................................................................................................................................................ 9
1.3.2 Fornecedor ...............................................................................................................................................................................14
1.4 Aplicação do Código de Defesa do Consumidor ...................................................................................................15
1.4.1 Serviço Público .......................................................................................................................................................................15
1.4.2 Outras Situações em que incide o Código de Defesa do Consumidor .......................................................18
1.5 Práticas Comerciais ...............................................................................................................................................................20
1.5.1 Oferta ..........................................................................................................................................................................................20
1.5.2 Publicidade ...............................................................................................................................................................................24
1.5.3 Práticas Abusivas ...................................................................................................................................................................30
1.6 Proteção Contratual do Consumidor ...........................................................................................................................31
1.6.1 Princípios ...................................................................................................................................................................................32
1.6.2 Revisão Contratual ................................................................................................................................................................33
1.6.3 Cláusulas Abusivas ................................................................................................................................................................33
1.6.4 Contratos de Adesão ...........................................................................................................................................................36
1.6.5 Teoria da base objetiva do negócio jurídico ............................................................................................................38
1.6.6 Multas Moratórias e Juros ................................................................................................................................................38
2
1.6.7 Liquidação Antecipada do Débito .................................................................................................................................39
QUADRO SINÓTICO ...................................................................................................................................................... 40
QUESTÕES COMENTADAS ........................................................................................................................................ 44
GABARITO ............................................................................................................................................... 61
LEGISLAÇÃO COMPILADA .................................................................................................................... 65
JURISPRUDÊNCIA ..................................................................................................................................... 67
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................................................... 77
3
E ai, OABeiro! Como vai?
A apostila de número 04 do nosso curso de Direito do Consumidor trata sobre as Relações
jurídicas de Consumo, Aplicação do CDC, das Práticas Comerciais e Proteção Contratual do
consumidor.
Agora, vamos as nossas considerações:
1- “Relações jurídicas de Consumo” é um assunto de média relevância no Exame de Ordem,
tendo a incidência de apenas 3 vezes nos últimos 3 anos! Contudo, como sabemos que a FGV
costuma ser imprevisível, todo cuidado é pouco, não é mesmo? As questões 01 a 03 da nossa
apostila tratam sobre esse tema. Não deixe de respondê-las!
2- “Aplicação do CDC” é considerado um assunto de média recorrência no Exame de Ordem,
estando presente 3 VEZES nos últimos 3 anos! As questões de 04 a 06 versam sobre o referido
assunto!
3- “Práticas Comerciais” é considerado um assunto de alta recorrência no Exame de Ordem,
estando presente 4 VEZES nos últimos 3 anos! As questões de 07 a 10 versam sobre o referido
assunto!
4- Por fim, “Proteção Contratual” é considerado um assunto de média recorrência no Exame
de Ordem, estando presente 3 VEZES nos últimos 3 anos! As questões de 11 a 13 versam sobre
o referido assunto!
Vamos juntos!
3
DIREITO DO CONSUMIDOR
Capítulo 4
4. Relação Jurídica de Consumo, Práticas Comerciais e
Aplicação do Código de Defesa do Consumidor
4.1 Relação Jurídica de Consumo
Relação jurídica de consumo é a relação formada entre fornecedor e consumidor, tendo
como objeto a aquisição de um produto ou à contratação de um serviço.
O Código de Defesa do Consumidor somente é aplicável às hipóteses em que se configure
a relação de consumo ou naquelas em que o próprio diploma equipare pessoas a consumidores.
Para que uma relação jurídica seja identificada como de consumo, devem estar presentes
os três elementos1:
Elemento Subjetivo A existência de um fornecedor e de um consumidor, isto é, os
sujeitos da relação de consumo.
Elemento Objetivo Diz respeito ao objeto sobre o qual recai a relação de consumo,
isto é, a existência de um produto ou serviço.
Elemento Finalístico
Refere-se à finalidade com a qual o consumidor adquire um
produto ou contrata um serviço, ou seja, a aquisição de um
produto ou serviço como destinatário final.
Importante destacar que esses elementos são inter-relacionais, logo só há relação de
consumo se presentes, simultaneamente, consumidor, fornecedor e produto ou serviço.
1 GOMES, Nathália Stivalle. Direito do Consumidor. Juspodvum: Salvador, 2019.
4
No Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990) os conceitos de consumidor,
fornecedor, produto e serviço estão interligados, o que significa dizer que, para se identificar
um consumidor em uma determinada relação, também se faz necessária a identificação do
fornecedor, bem como do produto ou do serviço2.
Logo, só existirá um consumidor se também existir, na mesma relação, um fornecedor e
um produto ou serviço, por isso afirma a doutrina que os conceitos de consumidor, fornecedor,
produto e serviços são relacionados.
4.2 Elemento Objetivo das Relações Jurídicas de Consumo
Com relação aos produtos e serviços, o Código de Defesa do Consumidor usou termos
amplos, para não limitar a incidência da legislação consumerista, deixando a possibilidade de
interpretação