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1 Redação de textos empresariais e oficiais
1.1 Comunicação e linguagem
Comunicação
A comunicação é o ato de transmitir uma informação e ocorre quando interagimos com outras pessoas usando linguagem.
Linguagem
Linguagem é o processo comunicativo pelo qual as pessoas interagem entre si. É qualquer meio sistemático de comunicar ideias ou sentimentos através de signos convencionais, sonoros, gráficos, gestuais etc.
Linguagem verbal
A mensagem é constituída por meio de palavras.
Comunicações orais
A fala é o mais complexo, apurado e caracteristicamente humano meio de comunicação. É usada para transmitir informações a outrem, para responder a perguntas, relatar fatos, dar opiniões, influir no comportamento alheio por meio de instruções, ordens, persuasão, propaganda.
Comunicações escritas
Toda forma de transmissão de informações a outrem de forma escrita. Essa forma é usada para responder a perguntas, relatar fatos, dar opiniões, influir no comportamento alheio por meio de instruções, ordens, persuasão, propaganda. Há a utilização de um código, símbolos gráficos de representação, que devem ser do conhecimento do interlocutor.
Linguagem não verbal
No comportamento social humano, usa-se o canal verbal, primariamente, para transmitir informações, ao passo que se usa o canal não verbal para negociar atitudes interpessoais. Algumas formas para, comumente, estabelecermos comunicação não verbal com as demais pessoas:
Mímicas: São gestos das mãos, do corpo, da face, caretas.
Olhares: Os movimentos dos olhos desempenham importante papel para manter o fluxo da interação. Enquanto A está falando, ergue os olhos para obter “feedback” sobre como B está reagindo à sua fala, e termina uma longa fala com um olhar que diz a B que é sua vez de falar.
Posturas: A postura corporal pode comunicar importantes sinais sociais. Existem posturas claramente dominadoras ou submissas, amistosas ou hostis. Mediante a posição geral do corpo, pode uma pessoa revelar seu estado emotivo, de tensão, por exemplo, ou de “relax”. As pessoas apresentam também estilos gerais do comportamento expressivo, como se evidencia pelo modo como andam, ficam em pé, sentam-se, e assim por diante. A postura ou atitude física do corpo constitui uma mensagem da qual somos pouco conscientes.
Nutos: São atos de mover a cabeça para frente e para trás, quando se aprova.
Gestos: São os movimentos das mãos, pés ou outras partes do corpo. Alguns são insinuações sociais involuntárias que podem ser ou não interpretadas corretamente pelas outras pessoas. Emoções específicas produzem gestos particulares:
Agressão (cerrar os punhos);
Ansiedade (tocar o rosto, roer as unhas);
Autocensura (coçar);
Cansaço (limpar a testa).
Podem também completar o significado da fala, quando a pessoa move as mãos, o corpo e a cabeça continuamente e esses movimentos acham-se intimamente coordenados com a fala, fazendo parte da comunicação total.
Expressões Faciais: A expressão facial pode limitar-se a mudança nos olhos, na fronte, na boca e assim por diante. As emoções, em categorias amplas (agradáveis ou desagradáveis) podem ser identificadas através da expressão facial. Funciona como meio de propiciar realimentação, relativamente ao que alguém está dizendo.
Língua
É um instrumento de comunicação, gráfico ou sonoro, que pertence a um grupo social. Daí podemos dizer que as modificações que a língua sofre são concretizadas por um grupo e não por um indivíduo. Podemos dizer que a sociedade, um grupo de indivíduos, adota uma convenção de sinais (letras) sonoros ou escritos para que a comunicação aconteça.
Fala
É a maneira de cada componente da sociedade em particular empregar a língua de forma particular, pessoal. Segundo o dicionário Houaiss, fala é a faculdade que tem de expressar as ideias, emoções e experiências. É um ato individual, por oposição à língua (que é social em sua essência e independente do indivíduo), para o linguista Ferdinand Saussure (1857-1913).
O espaço geográfico, os fatores sociais, profissionais e situacionais são determinantes para o uso da língua. Note que existem variantes de um lugar para o outro, de uma classe social para outra, de um profissional para outro e, ainda, utilizamos de forma diferente a língua de acordo com o local e que estamos. Isso, há algum tempo, era considerado erro; hoje, trabalhamos com a ideia de variantes linguísticas.
Linguagem culta e linguagem coloquial
As estruturas gramaticais não são rigorosas quando conversamos com um amigo, um familiar, enfim, enquanto falamos. A essa descontração linguística chamamos linguagem coloquial. Ela é livre de preconceitos, varia bastante e não obedece às normas ditadas pela gramática. Observe os textos abaixo como exemplo de utilização da linguagem coloquial na forma escrita:
“(...) eu vinha pela rua, no sentido da BR 116, lá pelas 8 horas da manhã, do dia 12 de setembro de 2007, quando um caminhão de placa AKZ XXXX raspou a lateral inteira do pálio AMX XXXX, onde tive que jogar totalmente a direção do veículo pálio para o acostamento tendo que subir no meio-fio. O caminhão estava do lado esquerdo e o meu pálio do lado direito.”
Já a linguagem culta respeita o uso das normas gramaticais e notamos que dominar essas regras tem, também, relação com o nível de cultura e escolarização do falante. Verifiquemos a transcrição do trecho anterior:
“(...) dirigia-me ao trabalho pela BR 116, sentido Porto Alegre, aproximadamente às 8 horas do dia 12 de setembro de 2007, quando fui surpreendido pelo caminhão (marca e modelo), placa AKZ XXX, que, trafegando no mesmo sentido, porém na pista da esquerda, abruptamente passou para a pista da direita sem sinalizar, atingindo a lateral do veículo Pálio, placa AMX XXXX, em que eu trafegava. Fui obrigado a invadir o espaço reservado aos pedestres, sem causar danos a transeuntes, somente tendo para mim danos materiais.”
A linguagem pode ser profissional, técnica-científica, burocrática, publicitária ou, ainda, vulgar.
1.2 Emprego dos pronomes
Os pronomes são palavras que substituem ou acompanham os nomes (substantivos e adjetivos). Desempenham papéis sintáticos dentro das frases. Ou seja, são sujeitos, objetos diretos, objetos indiretos, complementos nominais, agente da passiva, predicativo, adjunto adnominal, ou, ainda, aposto.
Tabela 1 - Pronomes pessoais
Retos
Oblíquos
Átonos
Tônicos
1ª pessoa
eu
me
mim, comigo
Singular
2ª pessoa
tu
te
ti, contigo
3ª pessoa
ele, ela
o, a, se, lhe
ele, ela, si ,consigo
1ª pessoa
nós
nos
nos, conosco
Plural
2ª pessoa
vós
vos
vós, convosco
3ª pessoa
eles, elas
lhes
eles, elas, si, consigo
Não podemos nos esquecer de que os pronomes pessoais do caso oblíquo átono estão sempre ligados aos verbos e há diferenciação quanto ao uso dos pronomes em terceira pessoa.
Vejamos:
O(s)/a(s) = ele(s)/ela(s): usados para referir-se a objetos ou pessoas e desempenham o papel de objeto direto.
Lhe(s) = a eles(s)/a ela(s): usados somente para pessoas. Esses pronomes desempenham o papel de objeto indireto.
Observe que os pronomes sofrem pequenas alterações ao se unirem aos verbos:
Comprei a pasta. Comprei-a.
Compram a pasta. Compram-na.
Põem a pasta no escritório. Põe-na no escritório.
Pões a pasta no escritório. Põe-la no escritório.
Comprar o material. Comprá-lo.
Fazer a ata. Fazê-la.
Fazes a ata. Fazê-la. (Usamos a 2a pessoa do singular!)
Então, conclui-se que, se a terminação do verbo for:
Nasal - acrescenta-se um “n” aos pronomes “o(s)” e “a(s)”.
R, S ou Z - corta-se a terminação R, S ou Z e acrescenta-se um “l” aos pronomes “o(s)” e “a(s)”.
Tabela 2 - Pronomes X Preposições
Preposições
Correto
Incorreto
entre
entre mim e ele
entre ele e mim
entre mim e ti
entre eu e ele
entre ele e eu
entre eu e tu
sem
sem você e mim
sem elas e ti
sem você e eu
sem elas e tu
perante
perante mim e vós
perante eu e vós
contra
contraos alunos e mim
sobre eu e V.Sª
sobre
sobre eu e V.Sª
sobre eu e V.Sª
de
de alguns e mim
de alguns e eu
Perceba o uso de “para eu” e “para mim”!
É para eu fazer a ata da reunião.
É fácil para mim fazer a ata da reunião.
O pronome “eu” faz papel de sujeito do verbo “fazer”, enquanto a expressão “para mim” pode ser deslocada na frase.
Tabela 3 - Pronomes Possessivos
Singular
1ª pessoa
2ª pessoa
3ª pessoa
meu, minha, meus, minhas
teu, tua, teus, tuas
seu, sua, seus, suas
Plural
1ª pessoa
2ª pessoa
3ª pessoa
nosso, nossa, nossos, nossas
vosso, vossa, vossos, vossas
seu, sua, seus, suas
Não podemos utilizar os pronomes possessivos de segunda pessoa para dirigir-se à terceira.
Tu – teu, tua, teus, tuas.
Você/ele/ela – seu, sua, seus, suas.
Tabela 4 - Pronomes Indefinidos
variáveis
invariáveis
algum, alguma, alguns, algumas
nenhum, nenhuma, nenhuns, nenhumas
todo, toda, todos, todas
outro, outra, outros, outras
muito, muita, muitos, muitas
pouco, pouca, poucos, poucas
certo, certa, certos, certas
vário, vária, vários, várias
tanto, tanta, tantos, tantas
quanto, quanta, quantos, quantas
qualquer, quaisquer
alguém
ninguém
outrem
nada
cada
algo
quem
Tabela 5 - Pronomes Interrogativos
Variáveis
Invariáveis
qual, quais
quanto, quanta, quantos, quantas
que, quem
Tabela 6 - Pronomes Relativos
Estabelecem relação com um termo anteriormente citado.:
Que / o qual / a qual
Quem
Onde
Cujo (possuidor e possuído)
Nunca use nenhuma palavra entre o pronome cujo e o termo possuído.
Pronomes de Tratamento
Os pronomes de tratamento representam a terceira pessoa do singular ou do plural, sendo assim, deve-se sempre atentar para a concordância ao usá-los (assunto do qual trataremos em um dos nossos próximos encontros).
Alguns pronomes de tratamento para que já nos acostumemos à forma correta de nos dirigirmos às pessoas.
Tabela 7 - Pronomes de Tratamento
Abreviatura
Pronome
Singular
Plural
Emprego
Você
V.
tratamento familiar
Vossa Alteza
V.A
VV.AA
príncipes, princesas, duque
Vossa Eminência
V.Emª
V. Emas
cardeais
Vossa Excelência
V.Exª
nós
altas autoridades
Vossa Magnificência
V. Magª
V. Magas
reitores de universidades
Vossa Majestade
V.M
VV.MM
reis, imperadores
Vossa Meritíssima
usado por extenso
juízes de direito
Vossa Reverendíssima
V. Revma
V. Revma
sacerdotes
Vossa Senhoria
V. Sª
V. Sas
altas autoridades
(frequente na correspondência
comercial)
Vossa Santidade
V.S
papa
1.3 Colocação pronominal
Os pronomes oblíquos átonos (me, te, se, nos, vos, o, a, lhe, os, as, lhes) são colocados de três formas nas orações:
Próclise
A próclise é a colocação do pronome oblíquo átono antes do verbo. Ocorre quando há uma palavra atrativa, que é reconhecida por:
Em + gerúndio:
Em se querendo, faz-se o bem.
Advérbios:
Aqui se aprende.
Nunca se importou com isso.
Observe:
Aqui, aprende-se.
Aqui, nesta sala, aprende-se.
Pronomes Indefinidos:
Ninguém me avisou o horário.
Pronomes Interrogativos.
Quantos me disseram isso?
Pronomes Relativos.
O candidato que me questionou não está aqui.
Pronomes Demonstrativos.
Aquilo me incomodou.
Conjunções Subordinativas.
Quando me contaram a verdade, não quis acreditar.
Frases interrogativas, exclamativas e optativas (exprimem desejo).
Como se chama a secretária?
Mesóclise
A mesóclise é a colocação pronominal no meio do verbo. É usada quando o verbo estiver no futuro do presente ou futuro do pretérito, contanto que esses verbos não estejam precedidos de palavras que exijam a próclise.
Comprar-te-ei o material para o evento.
Ênclise
A ênclise é a colocação pronominal depois do verbo. É usada quando a próclise e a mesóclise não forem possíveis:
Quando o verbo estiver no imperativo afirmativo.
Calem-se!
Quando o verbo iniciar a oração.
Mandem-me o pedido, por favor.
Quando houver vírgula antes do verbo.
Quando me encontraram, falaram-me todas as verdades.
Quando o verbo estiver no gerúndio.
Saiu da sala, fazendo-se de desentendida.
Colocação pronominal em locução verbal e em período composto
Locução verbal = verbo auxiliar + verbo principal no infinitivo ou no gerúndio
Se não houver palavra atrativa, o pronome oblíquo virá depois do verbo auxiliar ou depois do verbo principal.
O amigo lhe queria agradecer a visita.
O amigo queria lhe agradecer a visita.
O amigo queria agradecer-lhe o presente.
O amigo o estava abraçando.
O amigo estava o abraçando.
O amigo estava abraçando-o.
Se houver palavra atrativa, o pronome poderá ser colocado antes do verbo auxiliar ou depois do verbo principal.
O amigo não lhe queria agradecer a visita.
O amigo não queria agradecer-lhe a visita.
O amigo não o estava abraçando.
O amigo não estava abraçando-o.
Tempo Composto = verbo auxiliar + verbo principal no particípio.
O pronome oblíquo virá depois do verbo auxiliar.
A moça se tinha esquecido da bolsa.
A moça tinha-se esquecido da bolsa.
O uso do hífen, nesse caso, é obrigatório, uma vez que o particípio não aceita pronome oblíquo átono ligado a ele.
Se, antes do locução verbal, houver palavra atrativa, o pronome oblíquo ficará antes do verbo auxiliar.
A moça jamais se tinha esquecido da bolsa.
1.4 Regência verbal e nominal
Regência Verbal
A regência verbal é a relação de dependência entre o verbo e os seus complementos. Eles podem estar ou não ligados por meio de preposição, o que pode alterar ou não o sentido.
Regras Básicas
Os verbos podem ser:
VI – verbos intransitivos (sem necessidade de complemento) – Todos saíram.
VTD – verbos transitivos diretos (pedem OD, objeto direto) – Eles compraram todos os materiais necessários.
VTI – verbos transitivos indiretos (pedem OI, objetos indiretos, seguidos de preposição) – Visava a uma melhor condição de trabalho.
VTDI – verbos transitivos diretos e indiretos (pedem OD e OI) – Pediu um conselho ao amigo.
Há verbos com mais de uma regência e mudam de sentido:
Sua atitude não agradou ao coordenador. (causar sensação agradável).
A mãe agrada o filho que tanto ama. (acaricia)
Há verbos com mais de uma regência e mesmo sentido:
Informou o acidente ao guarda.
Informou o guarda sobre o acidente.
É importante você saber que verbos transitivos indiretos não podem ser usados na voz passiva. Exemplo:
Uma multidão assistiu ao espetáculo... Mas não: O espetáculo foi assistido por uma multidão. Dessa forma, o sentido fica alterado!
Principais Verbos
assistir – VTD: socorrer, ajudar – Um jovem médico assistiu os feridos.
VTI: ver, presenciar – Todos assistiram a um espetáculo deprimente.
aspirar – VTD: sorver, inalar – O homem urbano aspira um ar poluído.
VTI: desejar, querer – O garoto aspirava ao cargo de gerente da loja.
agradar – VTD: fazer carinho – A garotinha agradava o cãozinho.
VTI: contentar, satisfazer – Seu trabalho jamais agradava ao chefe.
preferir – VTDI: preferir uma coisa a outra (Jamais usar do que!) – Prefiro água a refrigerantes.
querer – VTD: desejar – Queria todos os bens que o dinheiro podia comprar.
VTI: querer bem, amar: O pai queria ao filho e por ele trabalhava.
visar – VTD: mirar, pôr visto: Visou o alvo, mas errou. Visou o cheque.
VTI: pretender: A lei, embora severa, visava ao bem de todos.
pagar/perdoar: – VTD: referindo-se à “coisa”; Pagou seus pecados; Perdoou a dívida.
VTI: referindo-se à pessoa: Pagou ao credor; Perdoou aos inimigos. VTDI: ambos: Perdoou o empréstimo ao amigo.
esquecer/lembrar: – VTD: Esqueceu meu nome. Lembrou os fatos anteriores. Esquecer-SE/lembrar-SE:
VTI: Esqueci-me do livro. Lembraram-se dos doces.
Os complementos de VTD são substituídos pelos pronomes O, A, OS, AS e suas formas variantes e os complementos dos VTI são substituídos pelos pronomes LHE e LHES ou A ELE(S).
Queria muito ao filho. = Queria-lhemuito.
Queria muito aquele carro. = Queria-o muito.
Regência Nominal
A regência nominal é a relação entre um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio) e um eventual complemento. Observe:
Tabela 1 - Alguns nomes mais comuns
alheio a
adepto de
ansioso para, por
apto a, para
aversão a, por
avesso a
ciente de
contente com, por, de
desprezo a, por
digno de
favorável a
feliz de, por, em, com
imune de, a
inofensivo a, para
junto a, de
livre de
paralelo a
próximo a, de
referente a
relativo a
simpatia a, por
tendência a, para
união com, entre, a
vazio de
vizinho a, de, com
1.5 Crase
Define-se como crase a fusão da preposição a com o artigo definido feminino a/as. Daí já se pode tirar algumas conclusões.
Não se usa crase diante de palavras masculinas, já que estas exigem artigos masculinos.
Há, sim, uma exceção quando se subentende a expressão “à moda de”: Vestia-se à Luiz XV.
Não se usa crase diante de verbos, já que esta é uma classe morfológica masculina e, se utilizarmos artigo diante dos verbos, transformamo-los em substantivos masculinos.
Andar faz bem. O andar da moça é elegante.
Não se usa crase diante de nomes de cidades, estados ou países que não aceitem o artigo definido feminino.
Chegou a Belém. Voltou de Belém. Trouxe presentes de Belém para mim.
Isso é diferente de: Veio à Bahia a passeio. Trouxe presentes da Bahia. Nasceu na Bahia.
Não se usa crase no meio de substantivos repetidos porque só há necessidade da colocação da preposição.
Ficou cara a cara com o bandido. A dor escorria gota a gota.
Pronomes que não possam ser precedidos do artigo definido feminino inclusive os de tratamento.
Trouxe dúvidas a ela. (Você também pode fazer a transformação para o masculino e notar que só há, realmente, a presença da preposição). Trouxe dúvidas a ele.
Não se usa crase quando já existe outra preposição, a não ser no caso da preposição ATÉ.
Estava perante a lei. A festa foi até às / as nove horas.
Não se usa crase quando a palavra feminina for dotada de sentido genérico, for nome de SANTA ou CELEBRIDADE HISTÓRICA.
Não daremos ouvidos a reclamações. (Note que o “a” está no singular e o substantivo está no plural – isso significa que não existe o artigo definido feminino!) Recorreu a Nossa Senhora Auxiliadora.
Não se usa crase diante das palavras CASA, TERRA e DISTÂNCIA se não vierem determinadas.
Vou a casa. Vou à casa de meus avós.
Observava o acidente a distância. Observava o acidente à distância de dois metros.
Os marinheiros voltaram a terra. Voltamos à terra de nossos antepassados.
Regra prática geral
Para que você tenha certeza do uso da crase, substitua a palavra antes da qual aparecerá ou não a crase por um vocábulo masculino (não há necessidade de se utilizar sinônimo, só deve ser da mesma classe morfológica). Se, ao trocar o vocábulo por um masculino, você observar que para completar a frase o “a” transformou-se em “ao” ou “aos”, existe crase; do contrário não.
1.6 Concordância verbal
A concordância verbal é a concordância do verbo com seu sujeito, em número e pessoa, ou seja, a relação entre sujeito e o verbo em uma oração. Sempre que você for conjugar um verbo, deve prestar atenção ao sujeito da oração a que pertence. O sujeito é quem determina a forma do verbo: pessoa ou número.
Sujeito composto anteposto: verbo no plural.
O sorriso e a fé fazem parte de nós.
Sujeito composto: verbo no plural ou núcleo mais próximo.
Fazem parte de nós o sorriso e a fé.
Faz parte de nós o sorriso e a fé.
Sujeito composto de pessoas gramaticais diferentes: plural da pessoa predominante.
Tu e eu seremos ainda mais amigos.
Sereis tu e eu ainda mais amigos.
Seremos tu e eu ainda mais amigos.
Serei eu e tu ainda mais amigos.
Que: verbo concorda com o termo antecedente.
Fomos nós que fizemos isso.
Quem: verbo na 3ª pessoa do singular ou antecedente.
Fui eu quem fez (fiz) isso?
Quais de vós/quantos de nós/poucos de nós: 3ª pessoa do plural ou pronome antecedente.
Quais de vós estarão/estareis fazendo prova?
Qual de nós/quem de vós/nenhum de vocês - verbo na 3ª pessoa do singular.
Nenhum de vocês estará desempregado.
Se: índice de indeterminação do sujeito / IIS + VI, VL, VTI (com preposição): verbo na 3a pessoa do singular.
Precisa-se de muitos bons secretários.
VTI IIS + OI
Se: partícula apassivadora
VTD + SE + SUJ. (verbo concorda com o sujeito).
Alugam-se salas para escritório.
VTD PA SUJ
= salas são alugadas.
Haver: no sentido de existir - verbo na 3ª pessoa do singular.
Havia muitas expectativas naquele momento.
Devia haver muitas pessoas ali.
Observação: Haver (no sentido de ter, possuir, obter) concorda com o sujeito.
Todos os candidatos houveram boas notas nos testes.
Era como se nós houvéssemos conseguido tudo.
Fazer: tempo decorrido e fenômenos climáticos - verbo na 3a pessoa do singular
Faz anos que nos conhecemos.
Vai fazer dez anos que estamos casados.
Aqui faz dias maravilhosos.
Ser
São oito horas da manhã.
Tudo foram motivos para se apostar nele.
Dez mil reais é muito dinheiro.
A criança é as alegrias do pai.
A criança eram dois olhos bem arregalados.
Os escolhidos fomos nós.
Parecer
As estrelas pareciam brilhar.
As estrelas parecia brilharem.
1.7 Concordância nominal
A concordância nominal é a harmonia, em gênero e número, entre o substantivo e seus determinantes: o adjetivo, o pronome adjetivo, o artigo, o numeral e o particípio.
Regra geral: Os substantivos, artigos, pronomes, adjetivos e numerais devem concordar em gênero e número com o substantivo a que se referem.
Concordância do adjetivo (adjunto adnominal) com os substantivos
Anteposto: concorda com o mais próximo:
Ele tinha delicadas roupas e sapatos.
Posposto: concorda com o mais próximo ou vai para o plural:
Ele tinha roupas e sapato novo/novos.
Observe que nos dois exemplos a seguir houve obediência à regra:
Ela tinha a mão e o braço machucado/machucados.
Ela tinha olhos e cabelo preto/pretos.
Concordância do adjetivo predicativo
Posposto: plural.
O professor e a diretora são dedicados.
Anteposto: plural ou singular com o mais próximo.
São dedicados o professor e a diretora.
É dedicado o professor e a diretora.
Mais de um adjetivo referindo-se a um substantivo
O substantivo fica no singular, repetindo-se o artigo antes do último adjetivo.
Eu falo a língua inglesa e a italiana.
O substantivo vai para o plural, não se repetindo o artigo.
Eu falo as línguas inglesa e italiana.
Numerais ordinais e substantivos
Há quatro concordâncias possíveis:
A primeira e a segunda colocada estavam aqui.
A primeira e a segunda colocadas estavam aqui.
As primeira e segunda colocadas estavam aqui.
As colocadas primeira e segunda estavam aqui.
Casos especiais
Anexo, obrigado, mesmo, incluso, quite, leso, alerta, junto.
Leio o texto anexo.
Recebi a informação anexa.
A aluna, ainda triste devido à situação, disse muito obrigada.
Elas mesmas tomaram as providências necessárias.
Nós estamos quites.
Foi condenado por atitudes de leso-patriotismo.
Permanecíamos alerta.
Bastante, caro, barato, meio, longe, alto.
São bastantes exercícios para fazer.
Essas roupas custam caro.
São motores caros demais.
Estou meio confusa.
É meio-dia e meia.
Estamos longe de casa. (distante)
Andei por longes caminhos.
É proibida, é necessário, é bom, é preciso.
É proibido entrada.
É proibida a entrada.
Água é bom.
A água não é boa.
Só/Sós/A sós
Gostaríamos de ficar sós. (sozinhos)
Fiquei só. (sozinho)
Ela tinha só aquelas bolsas. (apenas)
Queremos ficar a sós por um tempo.
Pseudo, menos
Eram pseudo professores.
Há menos calorias do que esperávamos.
1.8 Pontuação
A pontuação é um recurso para representar, além da entonação da leitura, a estrutura sintática dos períodos. A pontuação traduz a clareza da escrita. A seguir veremos os principais empregos de alguns sinais de pontuação.
Ponto Final ( . )
É utilizado na finalização de frases declarativas ou imperativas e também em abreviaturas.
Ele ficou com os papéis e o direito de receber por eles.
Ponto de Interrogação( ? )
É utilizado no fim de uma palavra, oração ou frase, indicando uma pergunta direta.
A quem foi entregue o presente?
Ponto de Exclamação ( ! )
É usado no final de frases exclamativas, depois de interjeições ou locuções.
Meus Deus! Isso é incrível!
Vírgula ( , )
É usada nos seguintes casos:
Para separar o nome de localidades das datas:.
São José da Boa Fé, 28 de dezembro de 2007.
Para separar vocativo:
Meus amigos, sintam-se à vontade.
Para separar aposto:
Joaquim, meu melhor amigo, é um sujeito camarada.
Para separar expressões explicativas ou retificativas, tais como: isto é, aliás, além, por exemplo, além disso, então.
Precisamos de uma boa ideia, isto é, que todos pensem muito.
Para separar orações coordenadas assindéticas:
Eu saí cedo, ele voltou tarde.
Para separar orações coordenadas sindéticas, (mas lembre-se de que as orações iniciadas pelas conjunções “e”, “ou” e “nem” não devem conter vírgulas).
Naquele restaurante cobram pouco, porém a comida saborosíssima.
Para separar orações adjetivas explicativas:
A moça, separada do namorado, chorava muito.
Para separar o adjunto adverbial:
Nas esquinas, as nossas ideias se encontravam.
Ponto e vírgula ( ; )
Indicam ponto e vírgula indicam uma pausa mais longa que a vírgula, porém mais breve que o ponto final.
Utilizado:
Para itens de uma enumeração:
Há que se perceber a presença da pontuação em:
orações coordenadas;
orações subordinadas;
topônimos.
Dois pontos ( : )
São empregados nos seguintes casos:
Para iniciar uma enumeração.
Devem-se seguir as seguintes regras:
iniciar a frase com letra maiúscula;
pontuar, a partir da estrutura sintática.
Antes de uma citação:
Como já alertara o autor: “Ler é ainda um remédio para a alma.”
Para iniciar a fala de uma pessoa, personagem.
O marido disse: - Estou disposto a ajudá-la.
Reticências ( ... )
Indicam uma interrupção ou suspensão na sequência normal da frase. Usam-se:
Para indicar suspensão ou interrupção do pensamento.
Quando eu abri a porta...
Para indicar dúvida ou surpresa na fala de alguém.
Querido, você... já é vovô!
Aspas ("")
São usadas nos seguintes casos:
Na representação de nomes de livros e legendas.
Você não deve deixar o “Grande Sertão Veredas” assim, jogado.
Nas citações ou transcrições e estrangeirismos.
"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
Clarice Lispector
Parênteses ( )
São usados nos seguintes casos:
Na separação de qualquer indicação de ordem explicativa.
O mundo moderno é capaz de transformar pessoas em milionários no espaço de uma geração (Bill Gates acumulou sua fortuna entre os 30 e 40 anos).
1.9 Novo acordo ortográfico
O Novo Acordo Ortográfico entrou em vigor em 2009, com a finalidade de uniformizar a grafia das palavras dos países que possuem o português como língua oficial. Nós, brasileiros, tivemos quatros anos para nos adequarmos às novas regras que foram acordadas. Desde 01 de janeiro de 2013, somente a nova grafia é considerada adequada.
Tabela 1- Alfabeto
Nova Regra
Regra Antiga
Nova Regra
O alfabeto é agora formado por
26 letras (com K, Y, W)
O alfabeto era formado por
23 letras
Essas letras serão usadas em siglas, símbolos,
nomes próprios, palavras estrangeiras e
seus derivados. Exemplos: km, watt, Byron,
byroniano
Tabela 2 - Trema
Nova Regra
Regra Antiga
Nova Regra
Não existe mais o trema em língua
portuguesa. Apenas em casos de
nomes próprios e seus derivados, por
exemplo: Müller, mülleriano
agüentar, conseqüência, cinqüenta,
qüinqüênio, freqüência, freqüente,
eloqüência, eloqüente, argüição,
delinqüir, pingüim, tranqüilo, lingüiça
aguentar, consequência, cinquenta,
quinquênio, frequência, frequente,
eloquência, eloquente, arguição,
delinquir, pinguim, tranquilo, linguiça.
Tabela 3 - Acentuação
Nova Regra
Regra Antiga
Nova Regra
Ditongos abertos (ei, oi) não são mais
acentuados em palavras paroxítonas
assembléia, platéia,
idéia, colméia, boléia,
panacéia, Coréia, hebréia,
bóia, paranóia, jibóia,
apóio, heróico,
paranóico
assembleia, plateia,
ideia colmeia, boleia,
panaceia, Coreia, hebreia,
boia, paranoia, jiboia,
apoio, heroico,
paranoico
Obs.: nos ditongos abertos de palavras oxítonas e monossílabas o acento continua: herói, constrói, dói, anéis, papéis.
Obs.2: o acento no ditongo aberto 'eu' continua: chapéu, véu, céu, ilhéu.
O hiato 'oo' não é mais acentuado
enjôo, vôo, corôo, perdôo, côo,
môo, abençôo, povôo
enjoo, voo, coroo, perdoo, coo,
moo, abençoo, povoo
O hiato 'ee' não é mais acentuado
crêem, dêem, lêem, vêem,
descrêem, relêem, revêem
creem, deem, leem, veem,
descreem, releem, reveem
Não existe mais o acento diferencial em
palavras homologas
pára (verbo), péla (substantivo e verbo), pêlo (substantivo), pêra (substantivo),
péra (substantivo), pólo (substantivo)
para (verbo), pela
(substantivo e verbo), pelo (substantivo), pera (substantivo) , pera (substantivo),
polo (substantivo)
Obs.: o acento diferencial ainda permanece no verbo 'poder' (3ª pessoa do Pretérito Perfeito do Indicativo - 'pôde') e no verbo 'pôr' para diferenciar da preposição 'por'
Não se acentua mais a letra 'u' nas formas verbais rizotônicas, quando precedido de 'g' ou 'q' e antes de 'e' ou 'i'(gue, que, gui, qui)
argúi, apazigúe, averigúe,
enxágüe, enxagüemos, obliqúe
argui, apazigue, averigue,
enxague, enxaguemos, oblique
Não se acentua mais 'i' e 'u' tônicos em
paroxítonas quando precedidos de ditongo
baiúca, boiúna, feiúra, feiúme
baiuca, boiuna, feiura, feiume
Tabela 4 - Hífen
Nova Regra
Regra Antiga
Nova Regra
O hífen não é mais utilizado em O hífen não é mais utilizado em palavras formadas de prefixos (ou falsos prefixos) terminados em vogal + palavras iniciadas por 'r' ou 's', sendo que essas devem ser dobradas
ante-sala, ante-sacristia, auto-retrato, anti-social, anti-rugas, ante-sala, ante-sacristia, auto-retrato, anti-social, anti-rugas, arqui-românti co, arqui-rivalidade, auto-regulamen tação, auto-sugestão, contra-senso, contra-regra, contra-senha, extra- -regimento, extra-sístole, extra-seco, infra-som, ultra-sonografia, semi-real, semi-sintético, supra-renal, supra- -sensível
antessala, antessacristia, autorretra to, antissocial, antirrugas, antessala, antessacristia, autor retrato, antissocial, antirrugas, arquirromântico, arquirrivalidade, autorregulamentação, contrasse nha, extrarregimento, extrassístole, extrasseco, infrassom, inrarrenal, ultrarromântico, ultrassonografia, suprarrenal, suprassensível
antessala, antessacristia, autorretrato, antissocial, antirrugas, arquirromântico, arquirrivalidade, autorregulamenta ção, contrassenha, extrarregimento, extrassístole, extrasseco, infrassom, inrarrenal, ultrarromântico, ultrassonografia, suprarrenal, suprassensível
O hífen não é mais utilizado em palavras formadas de prefixos (ou falsos prefixos) terminados em vogal + palavras iniciadas por outra vogal
auto-afirmação, auto-ajuda, auto-aprendizagem, auto-escola, auto-estrada, auto-instrução, contra- -exemplo, contra-indicação, contra- -ordem, extra-escolar, extra-oficial, infra-estrutura, intra-ocular, intra- -uterino, neo-expressionista, neo- -imperialista, semi-aberto, semi-árido, semi-automático, semi-embriagado, semi-obscuridade, supra-ocular, ultra-elevado
autoafirmação, autoajuda, autoaprendizabem, autoescola, autoestra da, autoinstrução, contraexemplo, contraindicação, contraordem, extraescolar, extraoficial, infraestrutura, intraocular, intrauterino, neoexpressionista, neoimperialista, semiaberto, semiautomático, semiárido, semiembriagado, semiobscurida de, supraocular, ultraelevado
Obs.: esta nova regra vai uniformizar algumas exceções já existentes antes: antiaéreo, antiamericano, socioeconômico etc.
Obs.2: esta regra não se encaixa quando a palavra seguinte iniciar por'h': anti-herói, anti-higiênico, extra-humano, semi-herbáceo etc
Agora utiliza-se hífen quando a palavra é formada por um prefixo (ou falso prefixo) terminado em vogal + palavra iniciada pela mesma vogal.
antiibérico, antiinflamatório, antiinfla cionário, antiimperialista, arquiini migo, arquiirmandade, microondas, microônibus, microorgânico
anti-ibérico, anti-inflamatório,
anti-inflacionário, anti-imperialista, arqui-inimigo, arqui-irmandade, micro-ondas, micro-ônibus, micro- -orgânico
Obs.: esta regra foi alterada por conta da regra anterior: prefixo termina com vogal + palavra inicia com vogal diferente = não tem hífen; prefixo termina com vogal + palavra inicia com mesma vogal = com hífen.
Obs.2: uma exceção é o prefixo 'co'. Mesmo se a outra palavra inicia-se com a vogal 'o', NÃO utiliza-se hífen.
Não usamos mais hífen em compos tos que, pelo uso, perdeu-se a noção de composição
manda-chuva, pára-quedas, pára-quedista, pára-lama, pára-brisa, pára-choque, pára-vento
mandachuva, paraquedas, paraquedista, paralama, parabrisa, pára- -choque, paravento
Obs.: o uso do hífen permanece em palavras compostas que não contêm elemento de ligação e constitui unidade sintagmática e semântica, mantendo o acento próprio, bem como naquelas que designam espécies botânicas e zoo- lógicas: ano-luz, azul-escuro, médico-cirurgiã o, conta-gotas, guarda-chuva, segunda-feira, tenente-coronel, beija-flor, couve-flor, erva-doce, mal-me-quer, bem-te-vi etc.
Tabela 5 - Observações gerais
O uso do hífen permanece
Exemplos
Em palavras formadas por prefixos 'ex', 'vice',
'soto'
ex-marido, vice-presidente, soto-mestre
Em palavras formadas por prefixos 'circum' e 'pan'
+ palavras iniciadas em vogal, M ou N
pan-americano, circum-navegação
Em palavras formadas com prefixos 'pré', 'pró' e
'pós' + palavras que tem significado próprio
pré-natal, pró-desarmamento, pós-graduação
Em palavras formadas pelas palavras 'além',
'aquém', 'recém', 'sem'
além-mar, além-fronteiras, aquém-oceano, recém-nascidos,
recém-casados, sem-número, sem-teto
Não existe mais hífen
Exemplos
Exceções
Em locuções de qualquer tipo (substantivas,
adjetivas, pronominais, verbais, adverbiais, prepositivas
ou conjuncionais)
cão de guarda, fim de semana, café
com leite, pão de mel, sala de jantar,
cartão de visita, cor de vinho, à
vontade, abaixo de, acerca de etc.
água-de-colônia, arco-
-da-velha, cor-de-rosa,
mais-que-perfeito, pé-
-de-meia, ao-deus-dará,
à queima-roupa
1.10 Aspectos estéticos do texto
Vamos conferir alguns aspectos importantes a serem observados no momento de uma produção textual?
Não se usa a forma combinada de parênteses para escrever um texto em primeira ou terceira pessoas do singular ou plural. Com a tecnologia de que dispomos hoje, é possível alterar a pessoa a que se destina o texto de maneira bastante rápida, sem a necessidade de redigitação total do texto. Usar um só destinatário confere qualidade ao texto.
Por isso, evite: recebi(emos), pagarei(emos). Opte por reescrever essas formas de acordo com cada documento enviado.
Quase não se usa a translineação, porém se isso for necessário, use o hífen ao lado da sílaba a ser separada, não sublinhe letras.
Assim: adminis-
tração
Há muitas maneiras de se destacar palavras ou expressões nos textos, porém não se deve usar mais de uma forma de destaque. Não faça uso de negrito e itálico, ao mesmo tempo: palavra em destaque. Isso é exagero e afeta a estética do texto. Você pode:
Sublinhar palavras: palavra em destaque;
Colocar as palavras entre aspas: “palavra em destaque”;
Fazer espaçamento entre letras: p a l a v r a e m d e s t a q u e;
Empregar caracteres maiúsculos: PALAVRA EM DESTAQUE;
Empregar cores diferente: palavra em destaque.
Mesmo que as palavras estejam no título, em caracteres escritos com caixa alta, os acentos devem ser respeitados.
Os pronomes de tratamento podem ser abreviados quando seguidos de nome próprio, do contrário, melhor escrevê-los por extenso.
As palavras estrangeiras devem vir escritas entre aspas, sublinhadas ou, ainda, podem ser escritas em negrito. Somente utilize uma das formas citadas. Opte por termos da Língua Portuguesa, somente use estrangeirismos quando não houver termo correspondente em nossa língua mãe.
Como grafar datas
Não se usa ponto para separar os algarismos do ano. Use sempre 2008 e nunca 2.008;
Não se usa pontos para colocar datas abreviadas. Use/ou -, assim: 15/10/2008 ou 15-10-2008;
O uso do 0 (zero) antes das unidades de datas é facultativo; geralmente se faz uso para evitar fraudes, no entanto nenhuma regra direciona o uso; o nome dos meses do ano deve ser escrito com letra minúscula.
Para que se faça a abreviação dos meses do ano, usam-se as três primeiras letras do nome do mês. Assim: jan./fev./mar./abr./jun./jul./ago./set./out./nov./dez. Observe a exceção: maio não se abrevia por questões de não economia na troca de uma letra por um ponto. Se você grafar os nomes dos meses do ano com letras maiúsculas JAN/FEV/MAR/ABR/JUN/JUL/AGO/ SET/OUT/NOV/DEZ não há necessidade de se colocar o ponto final.
Outros exemplos:
A grafia do número de horas não se dá com dois pontos, o correto é obedecer aos seguintes padrões:
Para horas inteiras: 15 horas ou 15h;
Para horas e minutos: 15h15min, 15h02min.
Há aqueles que utilizam outras formas para designar número de horas, porém somente essas mencionadas acima estão corretas. Não erre, nada de escrever 15hs, ou pior 0hs, como se o zero fosse compreendido no plural.
Os nomes de rua e números devem ser grafados dessa forma:
Rua Cândido de Abreu, 5000.
Rua Cândido de Abreu, nº. 5000.
Rua Cândido de Abreu, nº. 5000, bloco 5, apto. 500.
Os números de caixa postal e telefone devem ser grafados assim:
Telefone 9999-9999.
Caixa Postal 999.
Os artigos de um ato oficial são grafados por algarismos ordinais do primeiro ao nono; do décimo em diante são grafados em algarismos cardinais. Não se deve iniciar uma frase com algarismos, deve-se usar um artigo antes de se colocar o algarismo, mesmo que esse seja escrito por extenso.
Não se usam pontos para grafar algarismos romanos, os quais sempre são escritos com letra maiúscula. Por exemplo: Capítulo X, destaque-o para verificação. Lembre-se de não colocar ponto abreviativo em medidas e símbolos, como kg, l, g, dm, cm. Para se evitar fraudes ou mal-entendidos, escreva os números por extenso nos documentos. Exceção é aberta para horas (15h), distâncias (15km), datas (15 de outubro de 2010) e porcentagens (15%).
Quando você for se utilizar de parágrafos numerados, use o símbolo §. Na escrita de documentos, usa-se o espaçamento 1,5 ou 2 para documentos empresariais e 1,5 para oficiais entre órgãos do governo.
Hoje não se usa mais o traço para assinatura, a não ser em alguns contratos para determinar melhor quem os assina.
Carimbos não devem ser usados em documentos como a carta comercial uma vez que as folhas, geralmente, vêm timbradas, deixe-os para cartórios e repartições públicas.
1.12 Como redigir: bilhete e correio eletrônico (e-mail)
O que é específico na redação de textos empresariais e oficiais?
Esses tipos de escrita são atividades com formas de atuação e objetivos bastante específicos, têm estilos e características próprias, o que as distingue sobremaneira de redações literárias. A linguagem da redação de documentos considera, principalmente, a objetividade, a eficácia e a exatidão dos informes.
Usa-se para tal a linguagem denotativa (sentido real das palavras), estrutura simples, paragrafação clara e objetiva. Isso não quer dizer que não devamos preocupar-nos com a estética tanto da linguagem quanto do documento em geral, pelo contrário, isso é primordial para uma boa comunicação. Quando alguém recebe uma comunicação por nós enviada, está também recebendo uma imagem de nós mesmos por aquilo que escrevemos.
É bastante comum as empresas ofertarem treinamento para os funcionários responsáveis pela confecção de comunicação. Essa atitude mostra preocupação com a imagem daempresa, pois as pessoas responsáveis pela escrita não podem cometer erros de gramática, de vocabulário ou de estrutura textual.
Redação empresarial
A redação empresarial é um meio de se estabelecer comunicação entre pessoas por meio de papéis, cartas ou outros documentos. É o conjunto de instrumentos de comunicação escrita: cartas, bilhetes, memorandos, ofícios, requerimentos, contratos. Esse tipo de comunicação é utilizado por empresas, indústria e comércio, com o objetivo de iniciar, manter ou encerrar transações.
A redação empresarial e a correspondência ou redação oficial, às vezes, confundem-se porque se inter-relacionam e unem os objetivos e interesses do comércio, indústria e bancos. Daí pode-se denominar de empresarial ou oficial a reunião dessas comunicações (comerciais, empresariais e bancárias).
Correspondência oficial ou redação oficial?
A correspondência oficial é o meio de que as pessoas se utilizam para manter as relações de serviço na administração pública direta ou indireta, nos âmbitos federal, estadual ou municipal. Assim, redação oficial é a maneira de redigir a correspondência dos mais diversificados objetos de serviços, nos órgãos públicos.
Como redigir
As palavras integram a maior parte das situações que vivemos e, geralmente, expressam o que sentimos. Daí a importância de uma escrita clara e objetiva, ainda mais quando o nosso objeto é a redação empresarial ou oficial. A partir deste encontro, vamos aprender a produzir alguns gêneros textuais que circulam nas esferas sociais de empresas privadas e públicas, para ilustração de sua linguagem e características. Perceba em cada um deles sua finalidade, o perfil de seus interlocutores, sua estrutura e, ainda, o suporte no qual pode ou deve ser veiculado.
Comecemos, então, a nossa produção textual por dois gêneros de uso habitual na comunicação empresarial e oficial: o bilhete e o correio eletrônico ou e-mail.
Bilhete
É um gênero usado para comunicações breves; atualmente, está sendo substituído pelo e-mail. De uma forma ou de outra, há que se ter atenção para ser utilizado o padrão culto da língua. Não se deve esquecer o destinatário e a assinatura no bilhete. É um gênero textual que pode ter significados diversos, pois pode ser um tipo de documento de valor comprovado, ou um breve recado escrito para alguém.
Alguns podem ter código de barras ou uma tarja magnética para armazenar dados nele contidos.
Exemplos:
Bilhete de loteria, que dá direito a concorrer a sorteios;
Bilhete ferroviário, que é impresso e dá direito a viajar em transportes coletivos;
Bilhete rodoviário, que comprova a efetuação de pagamento;
Bilhete escolar;
Bilhete (ingresso).
Correio eletrônico ou e-mail
O correio eletrônico ("e-mail"), por seu baixo custo e celeridade, transformou-se na principal forma de comunicação para transmissão de documentos. Um dos atrativos de comunicação por correio eletrônico é sua flexibilidade. Assim, não interessa definir forma rígida para sua estrutura. Entretanto, deve-se evitar o uso de linguagem incompatível com uma comunicação empresarial.
O campo assunto do formulário de correio eletrônico (mensagem) deve ser preenchido de modo a facilitar a organização documental tanto do destinatário quanto do remetente. Para os arquivos anexados à mensagem deve ser utilizado, preferencialmente, o formato Rich Text. A mensagem que encaminha algum arquivo deve trazer informações mínimas sobre seu conteúdo.
Sempre que disponível, deve-se utilizar recurso de confirmação de leitura. Caso não seja disponível, deve constar na mensagem o pedido para confirmação de recebimento. Nos termos da legislação em vigor, para que a mensagem de correio eletrônico tenha valor documental, e, para que possa ser aceito como documento original, é necessário existir certificação digital que ateste a identidade do remetente, na forma estabelecida em lei.
1.13 Mala direta e release
Mala Direta
É um tipo de correspondência que atinge um número grande de pessoas. Deve ter linguagem simples, clara e objetiva, pois se destina a públicos diferentes, de diferentes classes sociais, objetivos e campos de atuação.
Exemplo de Mala Direta
Figura 1- Mala Direta
Fonte: Site Ferwdi
Release
O release é um material informativo distribuído entre jornalistas antes de eventos, solenidades, entrevistas, lançamento de filmes, livros, etc. Normalmente, traz informações sobre fatos, programas ou assuntos para os quais se quer atenção da mídia.
Exemplo de release
Sala de Imprensa
Release
Refletir sobre dados abertos e democracia na era digital é uma das metas do IV Consegi. Evento convoca representantes de governos, movimentos sociais, hackativistas, pesquisadores e estudantes para o encontro gratuito, em maio.
A onda de abertura de dados governamentais e debates sobre o direito do acesso à informação pública pelo mundo já chegou ao Brasil e movimenta poder público, hackativistas, profissionais de tecnologia, comunidades e pesquisadores. Para reunir essas peças chaves e especialistas nacionais e internacionais, o IV Congresso Internacional Software Livre e Governo Eletrônico (Consegi) oferecerá palestras, oficinas e debates, de 11 a 13 de maio, na Escola de Administração Fazendária (Esaf), em Brasília.
Entre os destaques do evento, está confirmada a participação do professor Nigel Shadbolt, da Universidade de Southampton, no Reino Unido, que liderou com Tim Berners-Lee (um dos criadores da Web) o desenvolvimento do data.gov.uk, projeto do governo britânico para abrir quase todos os dados do setor público, desde estatísticas de tráfego a números de crimes para livre reutilização. O modelo é apontado como um dos mais avançados do mundo, junto com iniciativas dos Estados Unidos (data.gov), Espanha, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
A programação do Consegi 2011 divide-se em oito eixos temáticos, terá mais de 100 palestras e 70 oficinas. As inscrições pelo sítio www.consegi.gov.br já estão abertas e são gratuitas. Neste ano, são esperadas mais inscrições do que no ano passado, quando foram 6,5 mil inscritos incluindo 600 estudantes dos cursos de tecnologia de Institutos e Universidades Federais e Estaduais. As caravanas poderão acampar no Jardim Botânico de Brasília,que fica ao lado da Esaf, com infraestrutura disponibilizada pelo Consegi. Os interessados em organizar caravanas devem fazer a reserva, até 4 de abril, pelo e-mail caravanas. consegi@serpro.gov.br.
Eixos temáticos
A tônica da programação continua sendo o software livre e a evolução do governo eletrônico, assim como a cooperação e compartilhamento de conhecimento entre entes da Administração Pública, comunidades e países vizinhos. As oito trilhas temáticas abordam, além de dados abertos, assuntos como gestão de Tecnologia da Comunicação e Informação (TIC), e-democracia, multimídia, mobilidade, interoperabilidade, políticas de desenvolvimento tecnológico, educação e inclusão digital.
...
Consegi 2011
O Consegi é uma realização conjunta do Ministério da Fazenda e Esaf, com patrocínio do Serpro, Itaipu Binacional, BNDES, Caixa Econômica Fe deral, Banco do Brasil e Sebrae, além de parceria com a Presidência da Re pública, Ministério das Relações Exteriores (MRE), Ministério da Educação (MEC), Telebrás, Governo do Distrito Federal e outras instituições públicas.
Informações para Imprensa:
Jornalista: João da Silva
Telefone: (xx) xxxx-xxxx email: release@release.gov.b
Fonte: www.consegi.gov.br
1.14 Convite e convocação
Convite
O convite é um meio de comunicação pelo qual podemos pedir o comparecimento de alguém a alguma cerimônia. A convocação, em última instância, passa a ser outro instrumento de comunicação, que parece mais formal do que o convite e, de certa forma, exige a presença do convidado. Quando usar a formalidade? A quem se dirigir?
Essas são algumas das questões que formulamos quando pensamos em fazer um convite ou convocação. O convite é menos formal, enquanto a convocação pede formalidade. No segundo caso, quem recebe a mensagem não se deve desobrigar do comparecimentoao evento (reunião). O convite é de livre aceitação.
Exemplo de convite
Figura 1 - Exemplo de convite
Fonte: Site Judice
Exemplo de convocação
CONVOCAÇÃO DE ELEIÇÃO PARA REPRESENTANTES DOS EMPREGADOS NA CIPA
Ficam convocados os empregados desta Empresa para eleição dos membros da “Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – CIPA”, de acordo com a Norma Regulamentadora – NR 05 atual, baixada pelo Ministério do Trabalho, a ser realizada, em escrutínio secreto, no dia _______ às _______ horas, no _____________________(local).
Apresentaram-se e, serão votados os seguintes candidatos: ..........(nome dos candidatos da cédula de votação).
Data ______________
(assinatura e carimbo do empregador)
ou
(Comissão Eleitoral)
Fonte: www.seconci-pr.com.br
1.15 Carta comercial
A carta comercial é um instrumento de comunicação de que se valem as empresas ou pessoas no relacionamento comercial. É, também, a imagem de quem a representa. Portanto, não basta que transmita um conteúdo, mas que o faça de maneira que impressione bem, por isso é necessário que sua apresentação cause uma impressão de ordem, organização e competência.
Como em qualquer comunicação, a clareza é uma qualidade imprescindível, pois não se podem esclarecer as dúvidas de imediato. Além da perda de tempo, pode haver como consequência, sérios prejuízos financeiros decor rentes de interpretação errônea motivada pela obscuridade do texto. Então, o mínimo exigido de uma carta é que ela seja inteligível.
Deve-se, também, usar um vocabulário simples, atual, com os termos bem estruturados nas frases. No mundo empresarial, tempo é dinheiro; tempo de quem redige e de quem lê. A carta tem de ser, portanto, concisa, ou seja, deve ter a informação completa com o menor número de palavras, sem se alongar em introduções ou encerramentos já em desuso há muito tempo.
A correção gramatical é importante: é necessário tomar cuidado com o emprego dos pronomes de tratamento que deve ser uniforme, sem que se misture a terceira pessoa gramatical com a segunda, como já estudamos em uma das aulas anteriores.
Exemplo de carta comercial
Lojas RPDP
Goiânia, 22 de março de 2011.
Senhor diretor:
Confirmamos o recebimento de uma reivindicação de depósito no valor de três mil reais referente ao mês de fevereiro. Informamos que o valor foi depositado no dia 1o de março, na agência 0003, conta corrente 3225, Banco dos empresários. Por favor, solicitamos a verificação do depósito e que o senhor nos comunique a efetivação do pagamento. Pedimos desculpa, por não termos feito o depósito anteriormente, porém não possuíamos a sua nova conta bancária.
Agradecemos a sua compreensão e aguardamos o contato.
Atenciosamente,
Amélia de Sousa
Gerente comercial
RPDP e Cia. Ltda.
Empresa de Comércio
Av. Brasil, 1200
Goiânia - GO
Fonte: Adaptado de https://brasilescola.uol.com.br/
1.16 Aviso e circular
Aviso
Usado para manter a comunicação social em uma empresa, comunica com objetividade e eficácia a Rescisão de Contrato de Trabalho (aviso prévio), por exemplo.
Pode ser fixado em local visível ao público ou ser publicado em jornal de grande circulação.
O aviso pode ser:
· De cientificação, notícia, ordem ou prevenção, de texto e formato variados, transmitida direta ou indiretamente ao destinatário;
· Tipo de correspondência, semelhante ao ofício, assinado por ministro de Estado e dirigido a altas autoridades em assunto de serviço;
· Expediente pelo qual um ministro de Estado dá conhecimento, em sua área, de suas decisões de caráter administrativo e de ordem geral, caso em que o documento não traz destinatário expresso nem, logicamente, fecho com expressão de cortesia. (BELTRÃO. 2005)
Atualmente, os avisos são divididos em três tipos distintos:
· O tradicional, de caráter geral e feito através da imprensa ou afixado em quadro próprio, nos locais onde funcionam os serviços públicos (correspondência multidirecional);
· O ministerial, individual ou circular, com aspecto de ofício (correspondência uni ou multidirecional);
· Em fórmula, individual, igual ao utilizado nos escritórios comerciais, industriais e bancários (correspondência unidirecional). (BELTRÃO. 2005)
Quando com um aviso não se obtiver retorno, entrará em ação a carta, gênero que estudamos na aula anterior.
Exemplo de aviso - 1
“A aposentadoria do servidor regido pela C.L.T., rompe o vínculo empregatício a partir do recebimento pela Unidade de Ensino do comunicado de concessão do benefício pelo INSS, deixando de assinar o ponto, assim como praticar atos pertinentes às atribuições da função que exercia, não podendo o Diretor da Unidade de Ensino, como chefe imediato, permitir que ocorra a continuidade do exercício da função.”
Tendo esta Unidade de Ensino recebido, em ___/___/___,o Comprovante de Concessão de Aposentadoria expedido pelo INSS, com data de ___/___/___, estamos rescindindo a partir desta última, o Contrato de Trabalho existente entre o CEETEPS e Vossa Senhoria.
Atenciosamente,
Diretor
Exemplo de aviso - 2
Senhor(a) _____________________(nome do funcionário ou funcionária) _____________________, pelo presente o notificamos que a partir da data subsequente da entrega deste, não mais serão utilizados os seus serviços, pela nossa firma e, por isso, vimos avisá-lo, nos termos e para efeitos do disposto no art. 487 item II - cap. VI - título IV, do decreto lei n.º 5.452, de primeiro de maio de 1943, (consolidação das leis do trabalho).
Observações: aviso prévio indenizado
Saudações
Cuiabá,_______de ______________de ______.
Empresa:
CNPJ:
Assinatura
Circular
A circular é um documento noticioso remetido a diferentes pessoas, órgãos ou entidades. São objetos de circulares as notícias relativas à empresa, de uma forma geral. É toda comunicação reproduzida em vias, cópias, como documento. Destina-se a ordenar, avisar ou instruir.
Exemplo de circular
CIRCULAR Nº _______, _______ DE _______ DE _______.
Senhor Secretário:
Comunico a Vossa Excelência que, por determinação do Senhor Governador do Estado do Paraná, no dia 28 do mês em pauta, dia do Servidor Público, o expediente será normal nas repartições públicas do Estado. Porém, será considerado ponto facultativo o dia 1° de novembro, segunda-feira. A medida não abrangerá serviços que, por sua natureza, não admitem paralisação.
Atenciosamente,
Nome,
Cargo do signatário.
Ao senhor
Nome,
Secretário de Estado _____________________,
Nesta Capital.
Fonte: Site Arquivo Público
1.17 Ofício e procuração
Ofício
O ofício é um documento expedido entre os órgãos de serviços públicos. Entidades civis, religiosas ou comerciais se utilizam deste termo “ofício” para renomear a carta. É um documento público expedido por alguém superior para troca de informações de subalternos e entre a administração e empresas particulares, em caráter oficial.
De acordo com o Manual de Redação da Presidência da República, se considerarmos o aviso oficial e o ofício, ambos:
São modalidades de comunicação oficial praticamente idênticas. A única diferença entre eles é que o aviso é expedido exclusivamente por Ministros de Estado, para autoridades de mesma hierarquia, ao passo que o ofício é expedido para e pelas demais autoridades. Ambos têm como finalidade o tratamento de assuntos oficiais pelos órgãos da Administração Pública entre si e, no caso do ofício, também com particulares. (MENDES, 2002)
Quais as partes que compõem o ofício?
Cabeçalho ou timbre
Índice e número
Data
Vocativo
Introdução
Explanação
Fecho (despedida e assinatura)
Anexo
Destinatário
Iniciais (redator e datilógrafo/digitador)
Exemplo de Ofício
Prefeitura de Manaus
Rua São Luis, nº 416
CEP 81000-600
(92) 5543-0050
OFÍCIO N.º 3536/2010
Manaus, 20 de julho de 2010.
Senhor Presidente,
Em atenção ao Ofício nº 026/2010, de 26/05/2010, informamos a Vossa Senhoria, conforme posicionamento da Subsecretaria de Logística desta Secretaria de Administração, que os serviços serão programados em possível Termo Aditivo, previsto para o segundosemestre de 2010.
Atenciosamente,
José Almeida
Secretário Municipal de Administração
Ao
Senhor
Antônio Monteiro Cavalcante
Presidente da Associação dos Moradores do Conjunto Habitacional Santa Clara
Rodovia Torquato, s/nº, Conjunto Santa Clara – Bairro Paz
Procuração
Instrumento pelo qual uma pessoa recebe de outra poderes para, em nome dela, praticar atos ou administrar bens.
A procuração pode ser:
· pública: se lavrada em cartório;
· particular: se passada de próprio punho pela pessoa que a dá. Mesmo assim esta deve subordinar-se a certas regras formais para que se identifique como ato perfeito.
Quem passa a procuração é o mandante, constituinte ou outorgante; e quem recebe o mandato é o mandatário, procurador ou outorgado.
· Substabelecer: nomear como substituto; transferir a outrem a procuração recebida de alguém.
· Outorgar: conceder, dar; declarar em escritura pública.
Exemplo de Procuração
Na procuração, deve ficar claro o objeto, ou seja, deve-se colocar todas as atribuições do outorgado para que problemas futuros sejam evitados.
Eu,_________________________ portador da RG n.o _____________ órgão emissor ________, Brasileiro, solteiro e domiciliado na rua ________________________, no ____, apto____, bairro _________________________, na cidade de _____________________, estado do (a)___________, nomeio e constituo o meu bastante procurador ____________
_______________, portador da RG no ____________, órgão emissor _______, Brasileiro, solteiro residente e domiciliado na rua _________________________, bairro ____________________, n.o_____, apto____, na cidade de ______________________, no estado do(a)______________, para______________ junto ao __________________.
Cidade , ____/____/____
Ass.________________________________________________________.
1.18 Ata
O que é uma ata?
É um documento em que se registram as ocorrências de uma reunião. É um ato de registro. A ata pode ser manuscrita em livro próprio ou digitada em folhas numeradas.
Como fazer uma ata?
A ata pode ser manuscrita em livro próprio ou digitada em folhas numeradas. Todas as folhas devem ser rubricadas pelos participantes e pelo presidente da reunião. É importante que se saiba da obrigatoriedade da assinatura do secretário e do presidente, os demais participantes da reunião assinam a ata se for o caso.
O texto deve ser escrito em linhas corridas, sem rasuras e emendas. Se isso ocorrer, deve-se escrever "digo" e em seguida grafa-se o termo exato. "Aos dezessete de julho, digo, junho, de 2006...".
Abre-se somente o parágrafo inicial. Não se devem utilizar números, a escrita deve ser feita por extenso. O tempo verbal a ser usado é o pretérito perfeito do indicativo (ontem). Deve-se ser objetivo. Se o secretário for nomeado no momento da reunião, deve-se usar o termo "ad hoc", que significa que o secretário só o é para aquela ocasião. Se, por um acaso, a ata contiver um erro e este só for observado após a digitação ou o término da grafia, deve-se, antes de se encerrar a ata com assinatura do presidente da reunião, colocar a expressão "em tempo: onde se lê... leia-se..."
Termo de abertura
Este livro contém X folhas numeradas e rubricadas por mim, (nome do secretário), e destina-se ao registro de Atas das reuniões de (colocar o nome condomínio, empresa).
Termo de encerramento
Eu, (nome do secretário), Secretário de (colocar o nome do condomínio, empresa), declaro encerrado este livro de atas/declaro encerrada esta ata de reunião.
Exemplo de ata formal
Ata da Décima Reunião da Diretoria da Empresa ABC
Aos dezenove dias do mês de outubro de dois mil e dez, às oito horas, na sala de reuniões da Empresa ABC, sito na Avenida Batel, número quinhentos e trinta, Curitiba, Estado do Paraná, sob a presidência da Srta. Meire Santos, estando presentes as sócias Andresa Pereira, Mara Lucia Bin e Silvana Vasconcelos. A Srta. Meire Santos abriu os trabalhos solicitando a Srta. Andresa Pereira que secretariasse a reunião e, de imediato lesse a ata da reunião anterior, que foi aprovada sem ressalvas. Pauta: A) Projeto de marketing para 2005. Em seguida a Srta. Andressa Dellabona leu o projeto de marketing para o ano de 2005, que foi aprovado e assinado pelos membros presentes. B) Relatório de custos de setembro. Após a Srta. Andresa Dellabona apresentou relatório de custos referente o mês de setembro de 2004. C) Contratação de funcionários. A gerente de RH Srta. Silvana Vasconcelos solicitou a contratação de mais uma secretária, aprovada a contratação por unanimidade. D) Orçamento para festa de encerramento do ano 2004. A Srta. Mara Lucia Bin apresentou orçamento para realização da festa de fim de ano que será no dia dezoito de dezembro de dois mil e quatro, no restaurante Toscana em Santa Felicidade. O orçamento foi aprovado e assinado pelos membros presentes. Sendo assim, e nada mais havendo a tratar, foi encerrada a reunião, e eu, Andresa Pereira, secretária ad hoc, lavrei a presente ata, que, após lida e aprovada, será assinada por todos os presentes. Curitiba, dezenove de outubro de dois mil e dez. (Seguem-se as assinaturas).
Meire Santos – Presidente
Andressa Pereira – Secretária
Exemplo de ata informal
Ata da Reunião da Diretoria da Reality
Ata número: 101 do dia 23-11-2010 às 10h30.
Local: Av. Batel, 50 – Batel – Curitiba – PR
Presidente: Maria Barth Secretária: Andressa Dos Santos
Presentes: Mara Lúcia Bin, Joana da Silva, Carmem de Souza
Pauta e deliberações:
1. Apresentação do projeto para jornal informativo. O modelo apresentado ficou sob a responsabilidade da Sra. Mara Lúcia Bin, que fará as devidas alterações.
2. Compra de dois computadores. A Sra. Carmem solicitou a compra de dois computadores, um para o setor de marketing e outro para a recepção. Aprovada a compra dos dois equipamentos. A compra será feita pelosetor do CPD através de três orçamentos.
Encerramento: 11h30 do dia 23-11-2010.
Assinaturas:
1.19 Contrato
Documento por meio do qual se estabelecem acordos entre pessoas ou entidades. A partir de um contrato existe algum direito ou obrigação entre as partes interessadas.
Quando se faz um contrato?
Quando da compra e venda de bilhetes de loteria ou passagem, em caso de matrícula em uma instituição de ensino, casamentos, prestação de serviços, compra e venda em gera, locações etc.
O que deve constar em um contrato?
O que gerou a negociação? Detalhes
Quais os direitos e deveres dos contratantes?
Quais as penalidades, se o contrato for quebrado?
Quais os prazos de pagamento, entrega, juros?
Onde residem os contratantes?
Qual o foro para esclarecimento de dúvidas?
Quando e onde foi firmado o contrato?
Quem assina?
Precisa de registro em cartório?
Quanto à forma, um contrato pode ser:
· Solene: de acordo com a forma prescrita na lei. Exemplo: testamento, casamento.
· Não solene: quando não segue uma forma de existir prescrita na lei. Exemplo: contrato de compra e venda.
Quanto ao modo de existir, um contrato pode ser:
· Principal: não depende de outro para existir. Exemplo: contrato de locação.
· Acessório: depende de outro para existir. Exemplo: contrato de fiança.
Quanto à natureza, um contrato pode ser:
· Gratuito ou unilateral: quando a despesa acontece somente para um dos contratantes. Exemplo: doação, empréstimo.
· Oneroso ou bilateral: quando gera gastos para ambas as partes. Exemplo: compra de um imóvel.
Exemplo de Contrato
CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS PROFISSIONAIS
Pelo presente instrumento particular, ________________ CGC ______________ estabelecida _____________________________, e aqui denominada CONTRATADA e _______________________, CPF/CGC: ______________________, RG/IE: ________________, estabelecido a ______________________________, aqui denominado CONTRATANTE, têm entre si justo e contratado o seguinte:
I – DO OBJETO DO CONTRATO
O presente contrato tem como objeto a formulação do conjunto de páginas eletrônicas e gráficas, aqui denominado simplesmente por ”SITE” ou “HOME PAGE”, para uso exclusivo na Internet, com referência institucionais da CONTRATANTE, demonstrando os seus produtos,serviços e tecnologia. Também incluso a prestação de serviço referente à manutenção deste “SITE”.
II - DAS OBRIGAÇÕES DA CONTRATADA
A CONTRATRADA se obriga a desenvolver o objeto deste contrato da maneira mais adequada e dinâmica, dando ênfase a marca e a qualidade dos produtos e serviços da CONTRATANTE. Faz parte ainda os seguintes serviços a serem executados pela CONTRATADA:
· Elaboração do projeto gráfico e fluxo das informações;
· Programação das páginas em HTML;
· Programação das páginas em ASP;
· Programação dos bancos de dados necessários;
· Manutenção do “SITE” assim que as partes acharem necessário.
III - DAS OBRIGAÇÕES DO CONTRATANTE
Ficará sobre responsabilidade da CONTRATANTE, a entrega de todo o material necessário para execução dos trabalhos ora tais como:
· Fotos e imagens a serem adicionadas nas páginas;
· Textos descritivos;
· Logotipo.
O CONTRATANTE deverá efetuar corretamente os pagamentos à CONTRATADA, segundo item V.
IV - DA MANUTENÇÃO DOS SERVIÇOS
A CONTRATADA através da manutenção dos serviços, sendo Preventivo e/ou Corretivo, manterá o “SITE” em condições de navegabilidade, efetuando os necessários ajustes, configurações e reparos visuais.
1º. Somente os técnicos da CONTRATADA poderão executar serviços técnicos preventivos e ou corretivos, a que se refere esta cláusula.
2º. A manutenção dos serviços aqui contratados não incluem:
· Os serviços adicionais aos mencionados neste contrato;
· Elaboração e construção de bancos de dados extras;
· Produção de fotos;
· Produção de vídeos;
· Configuração de estação de usuário da Internet;
· Problemas apresentados nos equipamentos de comunicação, tais como modems e cabos de redes;
· Problemas apresentados em consequência da presença de vírus no equipamento;
· Problemas apresentados em consequência de software defeituosos, mal instalados ou mal configurados;
· Criação de novas páginas ou alterações de layout diferenciado para o “SITE” do CONTRATANTE;
Problemas que não estão ligados diretamente à ___________________(nome da empresa contratada).
3º. A CONTRATADA se reserva no direto de inserir uma pequena imagem de aproximadamente 70x40 pixels na página principal da CONTRATANTE com a seguinte descrição:
“____________________”.
4º. A CONTRATADA se compromete a cadastrar o “SITE” do CONTRATANTE nos principais “SITES” de busca nacionais e internacionais.
V - PREÇO E FORMA DE PAGAMENTO
Para os serviços de construção, manutenção e inclusão do “SITE”, objeto deste contrato, ora estipulado terá um custo no valor de:
- Construção: R$ ____________
Uma vez que a CONTRATADA cumpra todos os requisitos, o CONTRATANTE efetuará o pagamento do serviço prestado de construção do “SITE” da seguinte forma:
(forma de pagamento)
- Manutenção: R$ ____________________, a serem pagos da seguinte forma:
- (forma de pagamento)
VI - DA RESCISÃO DO CONTRATUAL
O presente contrato poderá ser rescindido pelo CONTRATANTE, sem ônus algum, quando:
· A CONTRATADA não executar os serviços solicitados pelo CONTRATANTE, e que estejam de acordo com as ANOTAÇÕES cláusulas deste contrato.
· Quando a CONTRATADA descumprir alguma das cláusulas deste contrato.
O presente contrato poderá ser rescindido pela CONTRATADA, quando:
O CONTRATANTE na hipótese de inadimplência das obrigações ora assumidas, devendo a parte inocente notificar a parte culpada a sanar sua falha no prazo de 30 dias, após isso, não sanada a dívida, a CONTRATADA não efetuará qualquer tipo de trabalho para o CONTRATANTE.
VII - PRAZO DE VIGÊNCIA DO PRESENTE CONTRATO
Com exceção dos serviços de implantação do sistema o presente contrato vigorará por prazo determinado de 1 (um) ano, podendo ser renovado posteriormente. E, por assim estarem justos e contratados, firmam o presente contrato em duas vias de igual teor e forma,
São Paulo, ____ de ________ de _____.
Assinam CONTRATADA e CONTRATANTE.
1.20 Edital
Esta comunicação tem a finalidade de convocar, avisar ou informar. Deve ser afixado em local visível e publicado em jornais de grande circulação, pois se trata de um documento cujo teor não se pode desconhecer.
Pode ser dividido em:
· Edital de concorrência;
· Edital de concurso;
· Edital de convocação;
· Edital de leilão.
Como é um Edital de Convocação?
Exemplo de Convocação
EDITAL DE CONVOCAÇÃO DE ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA PARA ELEIÇÃO DA DIRETORIA DA APAE DE ----------------------
A APAE de ____________________, com sede nesta cidade, na rua ______________, no ______, bairro ____________, através de sua Diretoria Executiva, devidamente representada por seu Presidente Sr. (a) ________________________, CONVOCA através do presente edital, todos os associados contribuintes e pais de alunos da APAE, para Assembleia Geral Ordinária, que será realizada na sede da APAE, às __________ horas, do dia __de __________de 2007, com a seguinte ordem do dia:
1- Apreciação e aprovação do relatório de atividades da gestão 2005/2007.
2- Apreciação e aprovação das contas dos exercícios 2005/2007, mediante parecer do Conselho Fiscal.
3- Eleição da Diretoria Executiva, Conselho de Administração e Conselho.
EDITAL DE CONVOCAÇÃO DE ASSEMBLÉIA GERAL ORDINÁRIA PARA ELEIÇÃO DA DIRETORIA DA APAE DE ----------------------
A APAE de ____________________, com sede nesta cidade, na rua ______________, no ______, bairro ____________, através de sua Diretoria Executiva, devidamente representada por seu Presidente Sr. (a) ________________________, CONVOCA através do presente edital, todos os associados contribuintes e pais de alunos da APAE, para Assembleia Geral Ordinária, que será realizada na sede da APAE, às __________ horas, do dia __de __________de 2007, com a seguinte ordem do dia: Fiscal da APAE de ___________, em cumprimento ao disposto no artigo 18, “c” e 19 do Estatuto da APAE de ____________.
4- A inscrição das chapas candidatas deverá ocorrer na Secretaria da APAE até 20 dias antes da eleição, que se realizará dentre as chapas devidamente inscritas e homologadas pela comissão eleitoral. (art. 48, § 1º , do Estatuto) .
5- Somente poderão integrar as chapas os concorrentes associados da APAE há pelo menos 1 (um) ano, preferencialmente com experiência diretiva no Movimento Apaeano, quites com suas obrigações junto à tesouraria da APAE. (art. 48, § 2º , do Estatuto) .
6- É vedada a participação de funcionários da APAE na Diretoria Executiva, Conselho de Administração e Conselho Fiscal, ainda que cedidos ou com vínculo empregatício direto ou indireto. (art. 48, § 6º , do Estatuto)
7- A Assembleia Geral instalar-se-á em primeira convocação às ________horas, com a presença da maioria dos associados e, em segunda convocação, com qualquer número, meia hora depois, não exigindo a lei quorum especial (art.17, §2º , do Estatuto).
__________________, _____________, de 2007.
_________________________
(Presidente da APAE)
Fonte: site Apae Brasil
Atente para a linguagem coloquial utilizada no texto, característica marcante da internet.
Análise do edital do concurso do STJ (Superior Tribunal de Justiça)
Com a palavra Tiago Gomes
O edital começa com balde de água fria em todos os concurseiros, assim diz: “O STJ... torna pública a realização de concurso público para formação de cadastro reserva...”. É o fim para muitos. Acreditem, muitos bons candidatos deixam de fazer um concurso desses por conta de uma frase como essa. O que muitos não sabem é que corre um projeto de lei no Congresso Nacional para a criação de 121 vagas no STJ, além disso, no último concurso o número de convocados foi muito grande. O STJ, historicamente, chama muita gente (509 para TJAA, 409 para AJAJ...) em seus concursos. Portanto, concurseiro tem que ter o pé no chão, ser realista, mas não pode ser bobo em cair na “pegadinha” do cadastro reserva.
Mais embaixo, no item 1.3 mais uma bomba: “O concurso será realizada no Distrito Federal.”. Infelizmente ainda não temos uma lei que obriga que concursos para órgãos federais tenham prova, pelo menos, nas capitais dos Estados. Então, o candidato que veio fazer o concurso do STF e não foi tão bem pensa assim: “Brasília novamente?Para ter um resultado desprezível? Pra gastar o dinheiro que não tenho?”. Pronto, aqui vai mais meio mundo de gente bem preparada. Acontece que o pensamento negativo existe e está por aí pra pôr medo em quem o deixa chegar e se apoderar da mente. Você que se encontra nesta situação, vai uma dica: Faça o concurso do STJ! Cada prova é uma prova, cada dia é um dia. Faça um esforço e não perca essa oportunidade.
O Item 2 do Edital fala sobre os cargos, seus requisitos, descrição das atividades, remuneração e jornada de trabalho. Este é um ponto importante do Edital, é aqui que o concurseiro tem a oportunidade de saber quais são as atividades que desempenhará se aprovado, a duração do trabalho e o salário que irá receber. Este ponto será mais bem analisado junto com o respectivo conteúdo programático.
ATENÇÃO!!! Para o cargo de Analista Judiciário – Apoio Especializado – Informática poderá prestar também o candidato que tenha diploma de curso superior em QUALQUER área, desde que acrescido de certificado em nível de pós- graduação na área de informática de, no mínimo, 360 horas. Ou seja, aqueles que não são formados na área mas têm uma pós-graduação em informática, poderão prestar o concurso para este cargo.
O item 3 fala sobre as vagas destinadas aos candidatos portadores de deficiência. Apesar da Lei n. 8.112/90 afirmar que até 20% das vagas poderão ser destinadas aos candidatos portadores de deficiência, o Edital em seu item 3.1 afirma que apenas 5% das vagas serão providas por estes candidatos. Podendo, em caso de fracionamento, ser elevado ao primeiro número inteiro subsequente, desde que não ultrapasse 20% das vagas.
O Edital traz uma série de informações para estes candidatos que necessitam de um cuidado especial antes, durante e depois da prova. Nada mais certo, uma vez que a oportunidade é para todos independente de se ter ou não uma deficiência. Tanto é que o edital é claro em seu item 3.1.2: “O candidato que se declarar portador de deficiência, concorrerá em igualdade de condições com os demais candidatos.”.
ATENÇÃO!!! O portador de deficiência deve atentar ao prazo para a entrega dos laudos médico que será até o dia 27/08/2008, das 8h às 19 horas, exceto sábado, domingo e feriado. Também poderá mandá-lo via SEDEX ou carta registrada, não esquecendo que deverá postar até a data limite. O item 4 traz uma curiosidade. Vocês sabiam que é um requisito básico para a investidura no cargo ter sido aprovado no concurso? Nada mais óbvio não é verdade. Ironias à parte, este item nos revela os requisito para a investidura. Além dos já mencionados na lei 8.122/90, constam os requisitos:1) Apresentar os documentos necessários na ocasião da posse; e 2) Cumprir as determinações deste edital. Também bastante óbvios.
Fonte: Site Concurseiro Solitário
1.21 Convênio
Um convênio é firmado para atender a interesses recíprocos. É um ajuste ou acordo entre duas ou mais pessoas, ou ainda, entre empresas para a prática de determinadas ações. São firmados pelas empresas convênios de assistên cia médico-odontológica, por exemplo.
Exemplo de convênio
Convênio que entre si celebram a UNIÃO, representada pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, e o Estado de ..., representado pela sua Secretaria de Fazenda, objetivando a integração dos cadastros e o intercâmbio de informações entre o Cadastro Sincronizado Nacional (CadSinc) e o sistema aplicativo de integração estadual.
A UNIÃO, por intermédio da Secretaria da Receita Federal do Brasil, órgão do Ministério da Fazenda, doravante denominada RFB, CNPJ no 00.394.460/0058-87, neste ato representada pelo Secretário, Senhor Otacílio Dantas Cartaxo, portador da Carteira de Identidade (CI) no 1.283.258 (SSP/ PE) e do CPF no 050.619.384-53, e o Estado de ..., por intermédio da Secretaria de Fazenda, doravante denominada Sefaz, inscrita no CNPJ sob o no..., neste ato representada por seu Secretário, Senhor ________________, portador da Carteira de Identidade (CI) no ___ (SSP/__) e do CPF no__________, com fulcro no art. 37, inciso XXII, da Constituição Federal, no Protocolo de Cooperação 01/2004 – I ENAT, de 17 de julho de 2004, no Protocolo de Cooperação 01/2005 – II ENAT, de 27 de agosto de 2005, no Protocolo de Cooperação 05/2006 – III ENAT, de 10 de novembro de 2006, no Protocolo de Cooperação 04/2007 – IV ENAT, de 7 de dezembro de 2007, e na Instrução Normativa RFB no 1.005, de 8 de fevereiro de 2010, resolvem celebrar, por seus representantes legais, o presente Convênio que se regerá pelas seguintes cláusulas:
CLÁUSULA PRIMEIRA - O presente Convênio tem por objeto o desenvolvimento de programa de cooperação técnico-administrativa visando à integração dos cadastros, ao intercâmbio de informações entre o Cadastro Sincronizado Nacional (CadSinc) e o sistema aplicativo de integração estadual, e à disponibilização das respectivas bases de dados cadastrais dos contribuintes em geral, para fins de agilização da obtenção, pelos contribuintes, do seu cadastramento junto à RFB, à Sefaz, aos demais órgãos estaduais e aos Municípios do Estado de ___________ que aderirem ao presente Convênio, com a mínima exigência possível de documentos em papel.
PARÁGRAFO PRIMEIRO - O programa de cooperação técnico-administrativa compreenderá o aperfeiçoamento, a organização e a uniformização de procedimentos para coleta, tratamento e armazenamento de dados cadastrais.
PARÁGRAFO SEGUNDO - A Sefaz, os demais órgãos estaduais e os Municípios que aderirem ao presente Convênio, no âmbito do programa, adotarão o número de inscrição no CNPJ como identificador cadastral.
PARÁGRAFO TERCEIRO - Para consecução dos objetivos previstos nesta cláusula, os convenentes e os partícipes que aderirem ao presente Convênio manterão independentes suas bases de dados cadastrais, observando o sincronismo das informações.
CLÁUSULA SEGUNDA – A adesão dos Municípios do Estado de __________ ao presente Convênio será formalizada pela assinatura de Termo de Adesão conforme minuta referencial constante do Anexo.
PARÁGRAFO ÚNICO – A Sefaz comunicará à RFB a relação dos Municípios que aderirem ao presente Convênio.
CLÁUSULA TERCEIRA – A Sefaz poderá repassar a outros órgãos do Estado de ________, bem como aos Municípios do Estado de _________ que tenham formalizado a adesão a este Convênio, informações exclusivamente cadastrais, relativas a pessoas jurídicas e físicas, obtidas junto à RFB, quando indispensáveis aos procedimentos de registro e legalização de empresas e negócios.
CLÁUSULA QUARTA - A execução das atividades do presente Convênio ficará a cargo de comissão paritária, incumbida de praticar todos os atos relativos à atuação conjunta com vistas à consecução dos objetivos do Convênio.
PARÁGRAFO PRIMEIRO - A comissão será composta por quatro servidores, dois de cada convenente, indicados pelos respectivos representantes mediante comunicação escrita no prazo de trinta dias, contado da data de assinatura deste Convênio.
PARÁGRAFO SEGUNDO - Sem prejuízo das incumbências previstas nesta cláusula, a comissão poderá propor aos representantes:
1. adoção de projeto técnico de sistema eletrônico;
2. alteração de atos legais ou normativos;
3. alteração ou complementação dos termos do presente Convênio; e
4. alteração ou implementação de procedimentos técnicos ou administrativos.
CLÁUSULA QUINTA - Os convenentes e os partícipes que aderirem ao presente Convênio aceitam as limitações normativas impostas pelo seu respectivo Ente Federativo no que concerne a atos reguladores de coleta, tratamento e armazenamento de dados cadastrais.
CLÁUSULA SEXTA - As informações de interesse recíproco dos convenentes e dos partícipes que aderirem ao presente Convênio serão solicitadas às respectivas prestadoras de serviço ou aos setores responsáveis que mantêm suas bases de dados, por qualquer meio ou solução adotado de comum acordo, observados os procedimentos legais e normativos para sua obtenção.
CLÁUSULA SÉTIMA - Os convenentes e os partícipes que aderirem ao presente Convênio se comprometem a utilizar os dados que lhes forem fornecidosem decorrência da execução do presente Convênio somente nas atividades que, em virtude de lei, lhes compete exercer, não podendo transferi-los a terceiros, seja a título oneroso ou gratuito, ou de qualquer outra forma divulgá-los, sob pena de extinção imediata deste Convênio.
PARÁGRAFO ÚNICO - Os convenentes e os partícipes que aderirem ao presente Convênio poderão celebrar convênios com outros órgãos ou entidades, com a finalidade de assegurar a veracidade dos dados coletados, sem prejuízo da obrigação descrita nesta cláusula.
CLÁUSULA OITAVA - Cada convenente e cada partícipe que aderir ao presente Convênio responsabilizar-se-ão pela remuneração devida aos respectivos servidores designados para as atividades previstas neste Convênio, bem assim pelas despesas, no respectivo âmbito de atuação, com desenvolvimento e implementação de projeto, que deverão correr à conta de dotações orçamentárias próprias, ficando claro que este Convênio não envolverá a aplicação de recursos específicos ou ônus financeiro adicional para qualquer dos partícipes, tampouco envolverá transferência de recursos financeiros.
PARÁGRAFO PRIMEIRO – A RFB, a Sefaz, os demais órgãos estaduais e os Municípios que aderirem ao presente Convênio não arcarão com custos referentes ao acesso, por qualquer meio, às informações que lhes sejam disponibilizadas pelo outro partícipe, cabendo o ônus ao convenente ou ao partícipe aderente que estiver na posição de fornecedor das informações.
PARÁGRAFO SEGUNDO – A RFB será responsável pelo custo da disponibilização das informações até o sistema aplicativo de integração estadual.
CLÁUSULA NONA - O presente Convênio terá vigência por prazo indeterminado, a partir da data de sua assinatura, e poderá ser alterado, por consenso e formalizado em termo aditivo, ou denunciado por qualquer dos partícipes, mediante comunicação escrita, reputando-se extinto cento e vinte dias após o recebimento da comunicação por qualquer dos convenentes, sem que disso resulte ao partícipe denunciado o direito a reclamação ou indenização pecuniárias.
CLÁUSULA DÉCIMA - As eventuais dúvidas, omissões e controvérsias oriundas deste Convênio serão dirimidas pelos partícipes, de comum acordo, mediante proposta de solução a ser apresentada pela comissão paritária de que trata a cláusula quarta.
PARÁGRAFO ÚNICO - As eventuais controvérsias que não puderem ser dirimidas de comum acordo entre os partícipes serão submetidas ao Juízo da Justiça Federal, Seção Judiciária do Distrito Federal.
CLÁUSULA DÉCIMA-PRIMEIRA - A RFB e a Sefaz providenciarão a publicação deste Convênio, em extrato, respectivamente, no Diário Oficial da União no Diário Oficial do Estado de _____________.
E, por estarem de acordo os partícipes, foi lavrado o presente Convênio, em duas vias de igual teor e forma, assinadas pelos respectivos representantes, destinada uma para cada convenente.
Brasília, __ de ___________ de _______
Otacílio Dantas Cartaxo
Secretário da Receita Federal Brasil
____________________________________
Secretário de Fazenda do Estado de ______
Testemunhas:
1) Nome:
CPF: _____._____._____-___ e assinatura: ____________________
2) Nome:
CPF: _____._____._____-___ e assinatura: ___________________.
Fonte: Site Receita Federal
2 Legislação Escolar
2.1 Percurso histórico
A sociedade contemporânea inaugura-se com o advento da Revolução Francesa de 1789. Você deve estar lembrado dos efeitos dessa revolução, estudados no módulo “Educação, Sociedade e Trabalho” do bloco pedagógico, que influenciam a humanidade até o presente.
Se, por um lado, a “grande revolução”, como ficou conhecida a Revolução Francesa, aboliu os privilégios de nascimento e de fortuna do clero e da nobreza - segmentos sociais que não tinham nenhuma atividade produtiva -, por outro, o programa burguês vitorioso não atendia a todos, mas somente a uma minoria privilegiada que dominava os meios de produção e a própria burguesia.
Pintura representando a Revolução, com destaque para uma mulher armada erguendo a bandeira francesa em meio a homens armados.
Figura 1 - Quadro “A liberdade guiando o povo”, de Delacroix
Fonte: site História do mundo
Desta forma, os ideais de democracia – liberdade, igualdade e fraternidade, que conduziram a burguesia ao poder há mais de dois séculos são ainda perseguidos pela maioria dos povos, o que traz ao centro do debate o controle político da estrutura social. A história mostrou, com a citada revolução burguesa, que, mais importante do que tomar o poder, é ter clareza sobre quais princípios fundamentarão a reconstrução social dali em diante.
Nesta perspectiva de rearranjo social, o Estado moderno configurou-se a partir da busca do entendimento da correlação das forças presentes na sociedade. Do confronto de interesses dos diversos segmentos sociais. Um jogo de poder a partir do qual são estabelecidos os contratos de convivência, que se materializam nas leis estabelecidas e dos quais emerge a constituição como Carta Magna, lei maior do Estado e principal elemento ordenador da vida em sociedade.
Assim, o maior “contrato” de um país é sua Constituição, considerada por alguns juristas como a certidão de nascimento de uma nação.
Sendo assim, nem tudo que está escrito está garantido. A lei, muitas vezes, refere-se a um desejo, à vontade de superação de um determinado contexto ou prática social inadequados a uma sociedade que se pretende democrática. A efetividade das leis depende da mobilização da sociedade em torno de seus anseios, de participação e vigilância permanentes na garantia de direitos já consagrados na legislação.
O conturbado nascimento da França republicana trouxe um debate acalorado sobre a extensão de direitos ao conjunto da sociedade. Um desses direitos, que causou controvérsias e foi objeto de debate na elaboração da Constituição francesa, foi o direito à educação, pois os intelectuais do liberalismo divergiam entre si quanto à universalização da educação. Locke e Voltaire, por exemplo, não defendiam a extensão da educação escolar às massas. Acreditavam que todos têm liberdade para se educar, mas esta liberdade não precisa ser acompanhada da igualdade de condições devido às diferenças de ordem econômica e social das diversas classes dentro da sociedade burguesa, levando à existência de escolas e instruções diferenciadas.
Já Diderot, Condorcet, Lepelletier e Horace Mann eram ardorosos defensores da educação como dever do Estado. Para esses intelectuais, a educação estatal tinha de garantir os meios para que todos tivessem acesso à escola, assegurando uma mesma e igual instrução a todos, independentemente de sua origem social, concretizando uma verdadeira equalização de oportunidades.
No decorrer do século XIX, não só na França, mas em boa parte dos países europeus, devido às pressões das massas e à necessidade da modernização tecnológica, instituíram-se sistemas educacionais que garantiam instrução a todos os cidadãos. Na prática, as diferenças sociais persistentes conduziram à existência de escolas e currículos distintos, segundo a origem dos indivíduos.
Aos filhos da burguesia, destinava-se a preparação para ocupar cargos de direção no Estado e na sociedade; aos do proletariado, salvo raras exceções, estavam reservados os trabalhos técnicos e braçais. Essas foram contradições presentes na sociedade ocidental do século XIX, nos países estruturados sob a égide dos ditames capitalistas.
2.2 Legislação no Brasil império
E no Brasil, como se deu o tratamento à educação nas suas diversas Constituições? Esta é a questão à qual nos dedicaremos agora, procurando enfatizar os contextos nos quais se encontram fundamentados os debates e as concepções de educação defendidas e aprovadas.
Diferentemente dos movimentos de independência das demais colônias europeias na América, que tiveram a decisiva participação do povo, nossa libertação da metrópole foi negociada. Os interesses da elite lusitana residente na então ex-colônia foram preservados, bem como os dos grandes fazendeiros. No Brasil, mantiveram-se o sistema monárquico,com um imperador filho do rei de Portugal, e a estrutura social oligárquica apoiada no trabalho escravo e no latifúndio.
Esta é a questão à qual nos dedicaremos agora, procurando enfatizar os contextos nos quais se encontram fundamentados os debates e as concepções de educação defendidas e aprovadas. Diferentemente dos movimentos de independência das demais colônias europeias na América, que tiveram a decisiva participação do povo, nossa libertação da metrópole foi negociada. Os interesses da elite lusitana residente na então ex-colônia foram preservados, bem como os dos grandes fazendeiros. No Brasil, mantiveram-se o sistema monárquico, com um imperador filho do rei de Portugal, e a estrutura social oligárquica apoiada no trabalho escravo e no latifúndio.
Sendo extensão deste processo de independência, a constituinte de 1823, encarregada de elaborar a primeira carta constitucional brasileira, viveu o embate pelo poder no Brasil independente. De um lado, os monarquistas defensores do poder imperial supremo e paralelo à constituinte, segundo seus interesses pessoais, da manutenção das relações coloniais com Portugal. De outro, embora não declaradamente republicanos, os que esperavam, por meio da Constituição, limitar os poderes imperiais e as regalias de que gozavam os lusitanos em território brasileiro.
Os debates constituintes, alimentados pelos ideais liberais e positivistas que aportaram no Brasil com o retorno dos estudantes brasileiros egressos da Europa, especialmente da França, promoveram pouca mudança no rumo das coisas, principalmente na educação. A disputa entre monarquistas e republicanos foi decidida com a dissolução, pelo imperador, da Assembleia Constituinte após cerca de seis meses de trabalhos e a Constituição, outorgada em 1824, foi elaborada por uma comissão de juristas, da confiança de D. Pedro I. Contudo, ocorreram influências filosóficas e políticas vindas do continente europeu.
A carta constitucional de 1824 apresentava alguns avanços no que tange aos direitos civis, sendo considerada, à época, legislação avançada. Os liberais, que defendiam a instrução pública como fator de desenvolvimento das nações, influenciaram na definição da educação primária gratuita como direito de todos os cidadãos, avanço social inigualável. No contraponto, as forças conservadoras limitaram a cidadania aos homens livres, excluindo do direito à educação as mulheres e os escravos. E organizaram a educação de maneira uniforme sob o controle central do Estado.
A Constituição Política do Império do Brasil, outorgada em março de 1824, definia o Brasil como uma monarquia centralista e hereditária e estabelecia os Poderes Legislativo, Executivo (Imperador e seus ministros), Judicial (juízes e jurados) e Moderador (Imperador). O Poder Legislativo era delegado à Assembleia Geral (composta pelo Senado e Câmara dos Deputados) com a sanção do Imperador.
A discussão sobre a oferta e controle legal da educação escolar no território brasileiro não cessou com a promulgação da Constituição de 1824. Pelo contrário, pode-se afirmar que a discussão da comissão constituinte, embora embargada pelo poder imperial, foi apenas o começo.
Gravura da Primeira Constituição do Brasil, de 1824 ao lado da pintura de Dom Pedro I.
Figura 1 - Foto da Constituição de 1824
Fonte: Ideg
Apesar das dificuldades de efetivar uma educação nacional, dada a falta, entre outras coisas, de professores preparados e de espaços adequados à educação básica, em 1826, a educação foi estruturada em quatro níveis: a pedagogia, que se referia à instrução primária; os liceus, onde se desenvolvia o ensino secundário; os ginásios, também de ensino secundário, porém com maior aprofundamento científico; e as academias, voltadas ao ensino superior.
Em 1827, a Comissão de Instrução Pública aprovou projeto de lei, que de certa forma complementava o texto constitucional, criando Escolas de Primeiras Letras em “todas as cidades, vilas e lugares mais populosos” (FÁVERO, 2005, p.88), abolia os castigos físicos nas escolas, estabelecia a admissão de professores na forma de exame em caráter vitalício e estabelecia piso para a remuneração docente. Por esta Lei, de 15 de outubro, estendeu-se a educação às meninas e admitiram- -se, para elas, mestras do sexo feminino, com salários iguais aos dos professores.
Entre outras coisas esta legislação desceu a detalhes referentes ao conteúdo a ser ministrado pelas escolas. Daí o currículo centralizado, que vigora até hoje.
Nelas os professores ensinariam a ler e escrever, as quatro operações de aritmética, práticas de quebrados, decimais e proporções, as noções mais gerais de geometria prática, a gramática de língua nacional e os princípios da moral cristã e da doutrina da religião católica romana, proporcionadas à compreensão dos meninos; preferindo para as leituras a constituição do império e a história do Brasil (Art. 6) (FÁVERO, 2005, p. 58).
A abdicação de D. Pedro I, em 1831, deixou aberto o caminho para as propostas de cunho liberal que, contrárias à centralização estabelecida em 1824, propunham imediata reforma da constituição brasileira. A proposta apresentada à Câmara, de nítida influência norte-americana, praticamente criava “uma república presidida por um imperador” (FÁVERO, 2005, p.60), uma vez que não reconhecia o poder moderador exercido pelo monarca e, além de outras medidas de cunho republicano, dava à Assembleia Geral o poder de vetar as decisões do poder executivo.
Após os debates no Senado, nos quais as propostas de reforma constitucional foram duramente criticadas, as modificações foram enfim promulgadas pelo Ato Adicional de 1834. Conferiu-se maior autonomia às províncias, abolindo-se o Conselho de Estado e instituindo as Assembleias Legislativas nas províncias, com poderes para deliberarem sobre a instrução pública, o que descentralizava também a educação primária, inclusive seu financiamento.
Apesar de várias discussões propostas pelos liberais, visando à ampliação da oferta da educação, esta se manteve restrita aos setores privilegiados economicamente. No final do Império, menos de 30% das crianças eram escolarizadas e o ensino secundário nos liceus e ateneus públicos não passava de vinte estabelecimentos no país inteiro.
Referência:
FÁVERO, Osmar. (org). A educação nas constituintes brasileiras: 1823-1988. 3. ed. São Paulo: Autores Associados, 2005. (Coleção Memória da Educação).
2.3 Legislação Brasil república
Proclamada a República e a Educação
A proclamação da república significou, para o campo educacional, a consolidação dos ideais liberais da constituinte de 1823 e a ampliação da atuação dos setores privados na educação e dos poderes da aristocracia rural. Mesmo sem amparo constitucional a educação foi objeto de deliberações governamentais.
Pintura de uma praça, onde soldados montados a cavalo e com canhões se reunem para a Proclamar a República no Brasil.
Figura 1 - Quadro Proclamação da República, de Benedito Calixto
Fonte: site Guia do Estudante
Foram criados a Secretaria da Instrução Pública, o Instituto Nacional, que atuava como uma espécie de ministério, o Pedagógium, com funções análogas a um centro de estudos e pesquisa, e o Conselho de Instrução Superior. A instrução pública foi descentralizada, como competência dos estados e permitido o funcionamento de escolas particulares religiosas.
Embora não explicitada, a obrigação estatal com a educação estava clara nas atitudes da União, assim como as influências da luta pelo controle político entre positivistas e liberais, com franca vantagem para os últimos.
Aspectos da Constituição republicana de 1891 centralizavam a legislação educacional básica no governo federal, mas descentralizavam para os estados sua implementação, ambiguidade que caracterizará a legislação educacional brasileira até os dias atuais, com suas raízes e explicações fincadas na forma pela qual o movimento republicano centralizador positivista, que culminou no golpe militar da Proclamação da República (FÁVERO, 2005), assimilou os ideais liberais deredução dos poderes estatais, que vinham bem a calhar com a defesa dos interesses das oligarquias regionais.
Neste cenário, não se pode dizer que a educação foi ignorada pela Carta Constitucional de 1891. Porém, diante do aprofundamento das práticas e ideais liberais que davam autonomia às unidades da federação (na prática ampliação da autonomia das oligarquias locais), não podemos afirmar a existência de avanços na educação primária enquanto obrigação estatal.
De fato, ainda na condição de provisório, o governo republicano estabelecia a educação pública como competência dos agora entes federados, o que de fato desobrigava a União do cuidado com a instrução pública e resultou em certo atraso em relação à organização da educação nacional, pois mesmo reconhecida como um direito, não havia garantias de sua gratuidade, tampouco se buscou a implementação de uma rede mínima de escolas nos estados.
Tal cenário legal deixava a tarefa de educar à mercê dos interesses e dos jogos políticos locais, nos quais as classes populares não tinham representatividade, nem poder para debater e reivindicar seus direitos.
Como se pode ver, embora ampliasse e até mesmo consolidasse os direitos civis, a primeira Carta Constitucional republicana pouco avançou em termos de educação. Limitou-se a confirmar as tendências liberais de inserção dos setores privados no setor educacional e de minimização do Estado em favor das oligarquias regionais.
2.4 A educação nas constituições do século XX
O século XX no Brasil, pelo menos no seu nascedouro, pode ser entendido como um período de fortalecimento estatal, como defendiam os positivistas, e da iniciativa privada, ao gosto dos princípios liberais. E, nesta toada, caracterizada pela ambiguidade de princípios, o governo central tomava para si as atribuições referentes à organização estatal no plano legal, assumindo postura centralizadora, e mostra-se descentralizador ao conceder espaços a particulares em áreas antes privativas do Estado. No caso da educação, esta ambiguidade se revela quando:
(...) iniciativas mostram ações indicadoras de descentralização, embora com direção oficial (não obrigatória) advinda do regulamento do Pedro II e outros institutos oficiais da União e no Distrito Federal. Mantinha-se o ensino oficial, mas também indicava-se a manutenção do ensino livre, com liberdade para abertura de escolas particulares religiosas. Quanto ao ensino religioso, desde logo o Estado procurou promover a laicização no âmbito das escolas públicas. Mas não há, em âmbito nacional, a imposição da obrigatoriedade ou da gratuidade nas escolas oficiais (CURY, 2005, p. 73).
Os cenários político e social, tanto internacionais quanto internos, eram de mudanças. Os ideais comunistas e a participação política da classe operária culminaram na criação, em 1922, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, estabelecendo no plano político e econômico internacional um contraponto à proposta liberal de ordenamento estatal.
Internamente, os brasileiros vivenciavam a luta por melhores salários e condições de trabalho e afirmação cultural. Mobilização demarcada pela greve dos trabalhadores de 1917 em São Paulo, que apesar de duramente combatida, findou num acordo com elevação dos salários; e pela Guerra do Contestado, envolvendo tropas da União e trabalhadores rurais que perdiam seus empregos e terras nos estados do Paraná e de Santa Catarina. Em 1922, ocorreu o que entraria para a história como sendo o maior evento artístico do país, a Semana de Arte Moderna, uma espécie de grito de independência cultural brasileiro.
O país, contudo, era conduzido política e economicamente pelas oligarquias cafeeiras e pecuaristas, paulistas e mineiras. Um acordo político de apoio mútuo entre estes fazendeiros – controladores dos votos em suas regiões – e os candidatos ao governo, denominado Política dos Governadores, garantia o revezamento na Presidência da República. Ora se teria um presidente representante dos paulistas, ora dos mineiros. Havia então uma troca de apoio. Não se obstruía a posse dos candidatos eleitos apadrinhados dos fazendeiros e estes latifundiários garantiam, pelas formas de manipulação mais diversas, votos aos candidatos ao governo do estado e à Presidência da República.
Este jogo de cartas marcadas, também conhecido como política café com leite não agradava aos setores oligárquicos de outros estados como Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul e Pernambuco, dos quais resultou forte oposição. Neste período, as relações com as forças armadas também se tornaram conturbadas. Jovens oficiais do exército reivindicavam maior participação política e questionavam o controle civil dos fazendeiros e o uso das forças armadas na manutenção de uma ordem constitucional que se ancorava em condutas fraudulentas e corruptas. O tenentismo, como ficou conhecido o movimento militar, desdobrou-se na Coluna Prestes, marcha liderada por Luiz Carlos Prestes, que cruzou o país combatendo o poder oligárquico.
A marcha da Coluna Prestes é uma das maiores já promovidas na história da humanidade e um dos movimentos mais significativos da história da luta pela construção de uma sociedade mais justa e da cidadania no Brasil.
Mapa do Brasil com a indicação do percurso de 25.000 km de marcha da Coluna Prestes em 2 anos e meio com mais de 50 batalhas.
Figura 1 - Trajeto da marcha da Coluna Prestes
Fonte: site Câmara dos deputados
No campo educacional, em 1926, a recém-fundada Associação Brasileira de Educação (ABE), promoveu congresso com calorosos debates sobre os rumos da educação brasileira. Ali, a intelectualidade, de liberais a positivistas, discutiu a temática, já antiga, sobre o papel do Estado na Educação. Contudo, essas refregas tinham um novo ingrediente: a maneira como o ensino era desenvolvido, para a qual se propunham modernizações. A década de 1920 findaria com uma mudança no cenário econômico internacional que favoreceria sobremaneira as mudanças por que passava a sociedade brasileira. A quebra da bolsa de Nova York revelaria a fragilidade do sistema econômico agroexportador vigente, inviabilizando no Brasil a política protecionista que favorecia abertamente a oligarquia cafeeira.
Os liberais tinham mais uma vez a oportunidade de evidenciar a necessidade de modernização e de industrialização do país. E de colocar a importância da configuração de um sistema educacional também moderno, mais adequado à preparação da mão de obra necessária à inserção da nação brasileira no mundo industrializado. Assim, em 1932, foi lançado o “Manifesto dos Pioneiros”, conjunto de princípios e fundamentações de uma educação mais moderna, que privilegiava o debate, a descoberta e a maior interação entre a escola e a sociedade. Era o movimento da Escola Nova, de influência norte- -americana, de orientação francamente liberal, que aportava no Brasil colocando a educação escolar na pauta das discussões sociais, políticas e econômicas.
Mesmo antes de se iniciar os trabalhos constituintes de 1933/1934, no plano educacional tudo estava muito agitado. Em 1930 fora criado o Ministério da Educação e Saúde e promovidas a reestruturação da educação e a instalação do Conselho Nacional da Educação – Reforma Francisco Campos. Em 1931, foram estabelecidos os objetivos do ensino superior no país, com o Estatuto da Universidade Brasileira. Promoveu-se a reforma do ensino secundário e do ensino comercial que formava técnicos nas áreas administrativa e contábil. E, em 1934, era fundada a Universidade de São Paulo – USP.
A queda do poder oligárquico rural - Revolução de 1930 - não foi suficiente para forjar leis que reduzissem de maneira drástica o poder deste grupo, mas certamente contribuiu sobremaneira para o fortalecimento do poder central, pelo menos no tocante à educação. Na Carta Constitucional de 1934 estava claro o poder que havia acumulado o governo central em relação aos entes federados (estados) e aos municípios.
A União passava a ser instância responsável pela definição das diretrizes de um plano nacional para a educação,que seria organizado pelo Conselho Nacional de Educação. Aos estados caberia apenas a complementação legal necessária ao atendimento às suas peculiaridades que, por estarem vinculadas ao contexto local, escapavam à regra geral.
No entanto, se as oligarquias estavam em baixa, os liberais e seus pensamentos privatistas encontravam-se a todo vapor na defesa da redução do poder estatal, em favor da iniciativa privada na educação. Uma das formas dessa presença da iniciativa privada, além das escolas confessionais já autorizadas por legislações anteriores, era a obrigatoriedade (art. 139) de as empresas com mais de cinquenta funcionários assumirem a educação primária gratuita de seus empregados e respectivos filhos.
Ainda sobre este avanço dos interesses privatistas na educação, deve- -se atentar para a sutileza da letra da lei. A redação do Art. 150, no item “d”, da expressão “estabelecimentos particulares”, sugere interpretações a favor da legalidade da ação de instituições não estatais no setor educacional, pois subentende a existência de pelo menos dois tipos de instituições educacionais, as particulares e as não particulares, sendo as segundas as mantidas pelo Estado, as públicas.
O texto da Constituição de 1934 apresenta o poder central orientando uma descentralização de suas ações. Assim, ao tempo em que se garantia à União a prerrogativa exclusiva de “traçar as diretrizes da educação nacional” (Art. 5º, Inciso XIV), no § 3º deste mesmo artigo, ele admitia “legislação estadual supletiva ou complementar sobre as mesmas matérias”. Previa ainda avanço da organização da educação nos Estados ao permitir-lhes manter conselhos de educação próprios e organizar seus sistemas educacionais, além de propor cotas estaduais para o financiamento da educação.
Outro aspecto deste detalhamento e da ambiguidade do texto constitucional de 1934, em relação às questões educacionais, encontra-se na garantia ao professor de liberdade de cátedra, definida no art. 155, pois tal liberdade, sem dúvida, importante, pode reverter-se em risco à qualidade, quando o professor se reveste de autoridade exagerada, fora dos limites regulatórios do Estado.
Esta fragilidade regulatória, somada às prerrogativas que a instância estadual passava a gozar no texto constitucional, tornava a qualidade da educação mais uma questão de atitude e compromisso local do que um projeto baseado em princípios estabelecidos nacionalmente. Nos debates sobre a organização da educação brasileira na constituinte de 1934, Horta (2005) aponta-nos algo novo e importante sobre a democratização das relações na educação que, a muitos, passa despercebido. O autor cita parecer de Celso Kelly sobre a criação e as funções de um Conselho Nacional para a Educação, onde ele propunha que, em razão da abrangência que deve ter um órgão que vise organizar a educação em plano nacional, sua composição contemplasse membros da sociedade civil, além dos especialistas em educação - o que não apenas ampliava como democratizava o Conselho.
Devido à amplitude e ao detalhamento com que foi abordada a temática educacional pela Constituição de 1934, as Cartas que a ela se seguiram limitaram-se a retocá-la com um ou outro detalhe conjuntural ou a limitar direitos. No caso da de 1937, sob o signo da ditadura do Estado Novo, além da supressão de direitos civis garantidos constitucionalmente em 1934, com respeito à educação, de significativo, tivemos apenas o estabelecimento da cobrança da caixa escolar àqueles que não comprovassem estado de pobreza.
Ainda no Estado Novo, o contexto de construção da Constituição de 1946 é de intensa contradição. O mundo saíra de uma guerra para um processo de polarização do poder econômico e político, a Guerra Fria. De um lado, os países capitalistas liderados pelos Estados Unidos da América, e do outro, a União Soviética, liderando um conjunto de repúblicas do leste europeu, de ideologia comunista.
Em função da aliança com os vencedores da grande guerra, não cabia à sociedade brasileira – acreditamos que a nenhuma outra naquele momento – a adoção de discurso contrário às liberdades políticas e sociais, contraponto internacional à ditadura do proletariado implantada na União Soviética. Isso havia posto o governo brasileiro numa situação politicamente contraditória: internamente, uma ditadura; externamente, defensor das liberdades democráticas.
Ainda em 1943, um grupo de intelectuais e profissionais liberais de Minas Gerais, de tendência liberal, organizou o Manifesto ao Povo Mineiro, em que se defendia a redemocratização do país. Em 1945, com o acirramento dos ânimos políticos, em virtude das eleições, foi fundada a União Democrática Nacional (UDN), frente anti-Vargas, que congregava setores oligárquicos em desavença com Getúlio, setores liberais, socialistas e comunistas.
Do lado governista surgiram partidos que, a despeito de sua vinculação à ditadura, ao longo da história política nacional, se caracterizariam como marcos de resistência à intolerância, os partidos Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Social Democrático (PSD). Um, composto por sindicalistas que apoiavam as políticas governistas e o outro, liderado pelos interventores nos governos estaduais.
Mesmo neste clima de ambiguidade, a Carta de 1946 manteve a linha liberal e avançou. Resgatou os direitos civis perdidos em 1937 e, em relação à educação, manteve avanços da Constituição de 1934, descentralizando a organização escolar, ao institucionalizar os sistemas de educação e recriar os Conselhos de Educação com funções normativas (COSTA, 2002).
Já o golpe civil-militar de 1964, politicamente centralizador, promoveu alterações significativas na Constituição de 1946. Procurando adequar a ordem constitucional à ditatorial que se instalara no país, editou Atos Institucionais e Emendas Constitucionais que retiravam garantias e fortaleciam o poder executivo em favor de mudanças políticas e econômicas (COSTA, 2002).
No entanto, no que tange à educação, a Carta Constitucional de 1967, apesar de elaborada em plena ditadura militar, marcada pelo centralismo das decisões e do aprofundamento dos princípios tecnicistas, pouco mudou em relação ao que estava determinado pelas de 1934 e 1946. O artigo 154 até previa punição à subversão à ordem, à moral e aos bons costumes, mas não esclarecia o que fosse tal subversão. Imprecisão providencial, de que muitos se valeram para serem considerados “diferentes” e não “subversivos”.
Contudo, o signo da ambiguidade legal se mantinha presente. Ao mesmo tempo em que artigos dessa natureza ameaçavam a liberdade de cátedra, outros revelavam avanços, como o da ampliação da gratuidade da oferta estatal de ensino de quatro para oito anos no ensino obrigatório de 1º Grau e o que comprometia as empresas com a educação primária, com a aprendizagem dos trabalhadores menores de idade e com o aperfeiçoamento profissional dos funcionários.
Passaram-se, então, 21 anos sob a égide da Constituição Militar de 1967. A respeito da regulação da educação, várias leis, nesse período, efetuaram profundas reformas: em 1968, a Lei 5.540 de 1968 promoveu reformas no ensino superior e, em 1971, a Lei 5.692 alterou a organização da educação básica, regulando o ensino de 1º Grau para as crianças de sete a catorze anos e instituindo o ensino de 2º Grau profissionalizante para todos os brasileiros.
No fim da década de 1970, iniciou-se no Brasil, acompanhando tendência já presente no restante da América Latina, um processo de redemocratização, a abertura política. A Constituição de 1988 pode ser considerada o marco final deste processo. Resultado de fervorosos embates entre as forças representativas de organismos de esquerda da sociedade civil e representantes das elites conservadoras, esta Constituição, quando da sua promulgação, foi considerada um dos textos legais mais modernos do mundo.
A Carta Constitucional brasileira inaugurava uma visão de democracia, no tocante aos direitos civis, distinta das anteriores, sob a capa liberal da social democracia. A sociedade civil organizada queriagarantir em seu texto os direitos civis, instrumentos de inclusão social, igualdade de oportunidade para o exercício pleno da cidadania e a modernização das relações sociais.
As reivindicações envolviam desde os aspectos relacionais dos direitos civis até elementos de uma economia mais solidária e sustentável. Porém, no que se refere à educação, os debates constituintes de 1988 concentraram-se no já antigo e conhecido embate entre o público e o privado. As discussões do campo educacional envolviam tanto entidades representativas dos profissionais da educação, nos mais variados níveis, orientados pelo Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública, quanto instituições mantidas pela iniciativa privada, estas reunidas em torno da Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino - CONFENEN.
Fotografia com as diversas publicações das Constituições Brasileiras do século XX, lado a lado.
Figura 2 - Constituições do Brasil até a mais recente, de 1988 (lado direito)
Fonte: site do Senado
Assim, a Constituição de 1988 nos artigos 6º, 205, 206 e 208 instituir a educação como um direito social de todos e dever do Estado, sem, é claro, excluir a família desta responsabilidade. A educação escolar assume a mesma importância que o trabalho, a saúde, o lazer, a segurança e outros direitos de natureza vital à vida em sociedade e à preservação da saúde mental. E a distribuição das obrigações educacionais entre o Estado e a família implica parceria de ambos no processo educativo. A educação obrigatória, com direito à gratuidade nas escolas públicas, continuou dos sete aos catorze anos de idade. Somente a Emenda Constitucional nº 59, de 2009, ampliou-a para crianças e adolescentes de quatro a dezessete anos. Com as Emendas nº 14, de 1996, e 53, de 2006.
Aos estabelecimentos de educação básica fica a missão de garantir o exercício de um direito ao cidadão, já assegurado no art. 6º da CF. E remete o servidor público – agora chamado de “profissional da educação básica” - à condição de intermediário entre os cidadãos e o Estado e agente viabilizador do exercício desse direito. É, pois, seu dever ético atender ao cidadão com presteza para que ocorra a efetivação de seu direito à educação.
A CF/1988, ao reiterar o papel da família como ente educador, estendendo-o à educação escolar, sugere o estabelecimento de parcerias permanentes entre estas duas instâncias. Um vínculo que aponta para a ampliação destas relações pela troca e ajuda mútua, e inclui a sociedade civil como coautora do processo educacional. Pela afirmação da gestão democrática como princípio educativo, a organização da educação escolar aponta para a construção de uma “comunidade educadora”, descaracterizando a escola enquanto “ilha de saber” e “propriedade dos catedráticos”. A gestão e o ato pedagógico têm que envolver a todos, não apenas os profissionais da educação e os estudantes, atores tradicionais no processo educativo.
O art. 211 da CF/1988 apresenta as bases para o regime de colaboração entre União, estados, municípios e Distrito Federal, na oferta da educação básica. Na prática, levou a um movimento de municipalização do ensino fundamental, especialmente depois de 1997, com a implantação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF). Pela EC nº 14, de 1996, modificou-se profundamente o art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) que, nunca obedecido, obrigava à União e aos entes federados concentrarem 50% de seus recursos financeiros na eliminação do analfabetismo e universalização do ensino fundamental. Com o Fundef e, a partir de 2007, com o Fundeb (EC nº 53) inaugura-se uma série de obrigações e mecanismos federativos para o financiamento da educação básica e valorização dos educadores.
A garantia de atendimento universal gratuito na educação básica, com qualidade, e de custeio de uma rede pública de educação superior pela União e pelos estados obrigou a aumentar os impostos federais vinculados à manutenção e desenvolvimento do ensino para 18% (art. 212). Os percentuais de vinculação nos estados e municípios, pelo mesmo artigo, são de pelo menos 25% - mas a LDB irá preceituar que as constituições estaduais e as leis orgânicas municipais poderão aumentá-los – o que tem acontecido, ou na legislação, ou na prática.
Ainda a respeito do financiamento da educação pública, o artigo 213, § 1º, prevendo a impossibilidade de atendimento da demanda nas escolas públicas, autoriza a matrícula com ônus para o Estado, em espaços escolares não públicos – comunitários confessionais ou filantrópicos. Essa prática tem sido confirmada tanto na educação básica (com recursos do Fundeb), como na educação superior – pelo Programa Universidade para Todos (PROUNI).
A garantia constitucional do direito à educação não se limita à oferta de vagas. Estende-se à garantia de condições para a permanência dos alunos na escola, à continuidade dos estudos e à qualidade. Preocupações claras do artigo 211 que, além de definir as responsabilidades das diferentes instâncias - federal, estadual, municipal e Distrito Federal -, confere à União a obrigação de equalizar as ofertas de educação no território nacional, por meio do apoio técnico e financeiro às unidades da federação. Quanto à permanência na escola e à continuidade dos estudos, o inciso VII do art. 208 aponta ações suplementares de suporte aos alunos, que são operacionalizadas por programas governamentais vinculados ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Trata-se de um conjunto de ações, descritas adiante, que possibilitem o bom desenvolvimento dos estudantes da educação básica como pessoas e cidadãos.
A matrícula gratuita nas escolas públicas de educação básica é direito de todo cidadão (art. 206, IV; art. 208, I). Portanto, não pode ocorrer qualquer distinção entre os indivíduos, tampouco obstrução à sua oferta. A educação obrigatória, inclusive dos que não tiveram acesso a ela na idade própria, passa a ser entendida como direito subjetivo, aquele próprio da cidadania. Entendimento que implica na garantia de matrícula e permanência do aluno na escola. Desafios que o Estado tem de enfrentar via implementação de programas sociais efetivos.
2.5 Constituição federal/1988
Os preceitos constitucionais relativos à educação assim se apresentam:
Capítulo III - Da Educação, da Cultura e do Desporto
Seção I - Da Educação
Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;
III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;
IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
V - valorização dos profissionais do ensino, garantido, na forma da lei, plano de carreira para o magistério público, com piso salarial profissional e ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, assegurado regime jurídico único para todas as instituições mantidas pela União;
VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei;
VII - garantia de padrão de qualidade.
Art. 207. As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:
I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;
II - progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio;
III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rederegular de ensino;
IV - atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade;
V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;
VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando;
VII - atendimento ao educando, no ensino fundamental, através de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde.
§ 1º O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo.
§ 2º O não-oferecimento do ensino obrigatório pelo poder público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente.
§ 3º Compete ao poder público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela frequência à escola.
Art. 209. O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições:
I - cumprimento das normas gerais da educação nacional;
II - autorização e avaliação de qualidade pelo poder público.
Art. 210. Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais.
§ 1º O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.
§ 2º O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem.
Art. 211. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino.
§ 1º A União organizará e financiará o sistema federal de ensino e o dos Territórios, e prestará assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios para o desenvolvimento de seus sistemas de ensino e o atendimento prioritário à escolaridade obrigatória.
§ 2º Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e pré-escolar
Art. 212. A União aplicará, anualmente, nunca menos de dezoito, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios vinte e cinco por cento, no mínimo, da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino.
§ 1º A parcela da arrecadação de impostos transferida pela União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, ou pelos Estados aos respectivos Municípios, não é considerada, para efeito do cálculo previsto neste artigo, receita do governo que a transferir.
§ 2º Para efeito do cumprimento do disposto no caput deste artigo, serão considerados os sistemas de ensino federal, estadual e municipal e os recursos aplicados na forma do art. 213.
§ 3º A distribuição dos recursos públicos assegurará prioridade ao atendimento das necessidades do ensino obrigatório, nos termos do plano nacional de educação.
§ 4º Os programas suplementares de alimentação e assistência à saúde previstos no art. 208, VII, serão financiados com recursos provenientes de contribuições sociais e outros recursos orçamentários.
§ 5º O ensino fundamental público terá como fonte adicional de financiamento a contribuição social do salário-educação, recolhida, na forma da lei, pelas empresas, que dela poderão deduzir a aplicação realizada no ensino fundamental de seus empregados e dependentes.
Art. 213. Os recursos públicos serão destinados às escolas públicas, podendo ser dirigidos a escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas, definidas em lei, que:
I - comprovem finalidade não lucrativa e apliquem seus excedentes financeiros em educação;
II - assegurem a destinação de seu patrimônio a outra escola comunitária, filantrópica ou confessional, ou ao poder público, no caso de encerramento de suas atividades.
§ 1º Os recursos de que trata este artigo poderão ser destinados a bolsas de estudo para o ensino fundamental e médio, na forma da lei, para os que demonstrarem insuficiência de recursos, quando houver falta de vagas e cursos regulares da rede pública na localidade da residência do educando, ficando o poder público obrigado a investir prioritariamente na expansão de sua rede na localidade.
§ 2º As atividades universitárias de pesquisa e extensão poderão receber apoio financeiro do poder público.
Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração plurianual, visando à articulação e ao desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis e à integração das ações do poder público que conduzam à:
I - erradicação do analfabetismo;
II - universalização do atendimento escolar;
III - melhoria da qualidade do ensino;
IV - formação para o trabalho;
V - promoção humanística, científica e tecnológica do País
Para saber mais sobre a CF/1988, assista ao vídeo:
Constituição Brasileira de 1988
E aí, pessoal, tudo bem com vocês? Esse é mais um vídeo do canal História Contada e o último vídeo sobre as constituições brasileiras. Nesse vídeo, nós iremos falar sobre a Constituição de 1988, a nossa atual constituição. Bom, pessoal, a nossa atual constituição é o marco da reestruturação política e redemocratização do Brasil. Ela foi baseada nas necessidades da política e sociedade brasileira que acabava de sair de um regime militar de 21 anos. Foi criada a partir de um processo de aceleração da abertura política que aconteceu no governo de Sarney. Essa constituição marca a ampliação da liberdade para os civis bem como os seus direitos e garantias individuais. É nela que os analfabetos e os jovens a partir de 16 anos têm o direito ao voto. Sobre os direitos trabalhistas, houve redução de 48 para 44 horas de serviço semanal, o seguro-desemprego, as férias remuneradas e o 13º salário. Ainda na área trabalhista, a licença maternidade passou de três para quatro meses para as mulheres e cinco dias para os homens. Houve também o restabelecimento do habeas corpus e a criação do habeas data. Na área da redemocratização teve o fim da censura nas rádios, imprensa, jornais e demais meios de troca de informação e comunicação. Já na área social, os indígenas tiveram direito à posse de terras sobre territórios demarcados. Os negros ganharam uma defesa mais relevante do governo em relação ao combate contra o racismo e o preconceito.
(Tela com texto:
Características:
- Carta Constitucional promulgada legalmente.
- “República Federativa do Brasil”.
- Reestruturação política e social.
- Reabertura política. Redemocratização do país.
- Ampliação da liberdade, direitos e garantias.
- Analfabetos e jovens (a partir de 16 anos) podem votar.
- Fim da censura dos meios de comunicação.
- Territórios demarcados para os indígenas.
- Leis de combate ao racismo e preconceito.
- Eleições voltaram a ser diretas.
- Composta de 245 artigos (250 atualmente), ainda em vigor.)
Ainda nesta constituição, em 1993, foi realizado um plebiscito votado pelo próprio povo para a escolha de um sistema e forma de governo que ainda não havia sido definido nesta constituição.
(Imagem de uma cédula do plebiscito:
FORMA DE GOVERNO
1 – MONARQUIA
2– REPÚBLICA
SISTEMA DE GOVERNO
1 – PARLAMENTARISMO
2 – PRESIDENCIALISMO)
O resultado foi a República Presidencialista. A atual constituição nomeia o Brasil como República Federativa do Brasil. Ela começou com 245 artigos e atualmente possui 250. É isso aí, pessoal, chegamos ao fim da série de vídeos sobre as constituições brasileiras.
2.6 Vídeo legislação escolar
PROFESSORA DANIELA
Olá, alunos e alunas. Sejam bem-vindos à disciplina de Legislação Escolar do curso Técnico de Formação dos Profissionais da Educação. Eu sou a professora Daniela e vamos juntos compreender que somos todos educadores, independente da função que exercemos somos parte do processo educativo.
Com esse estudo, vamos entender por que a legislação é tão importante para o nosso cotidiano escolar, pois todos nós, profissionais da educação que exercemos funções nas escolas ou em qualquer outra instância educacional, somos agentes públicos, viabilizadores de um direito que jáé garantido pela Constituição Federal.
Vejam só os artigos 205 e 206 da nossa Constituição:
Artigo 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Artigo 206 apresenta que o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; e Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber.
Neste momento apresentei apenas esses dois artigos e também dois princípios para iniciarmos nossa conversa. Mais à frente, iremos ver mais princípios que estão no artigo 206 da Constituição Federal de 1988. O mais importante neste momento é saber que a Carta Magna ou Constituição Federal é o maior contrato de nosso país, considerada até por muitos juristas como a certidão de nascimento de uma nação. É ela que estabelece que todos nós temos direitos e deveres a cumprir. A legislação vem então para nos ajudar na promoção da inclusão social, formação de cidadãos e profissionais competentes com a colaboração da sociedade. Assim, ao longo de nossas aulas, iremos conhecer a legislação escolar e suas implicações na educação, através de textos, questionários, vídeos, debates e outras atividades que irão auxiliar na compreensão da ementa da unidade. Acompanhe comigo a ementa da nossa disciplina: A educação nas Constituições Brasileiras; O Plano Nacional de Educação através da Lei Nº 10.172, de 2001, e o Plano Nacional de Educação 2011-2020; A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional; A organização da educação escolar; Sistema Nacional de Educação; Marcos normativos do Conselho Nacional de Educação; Projeto Político Pedagógico; O Regimento escolar.
A partir desta ementa, temos como objetivo principal revelar a todos vocês que trabalham nas escolas os preceitos constitucionais, legais e normativos que hoje regem a nossa educação brasileiro. Vale lembrar que as normas federais, estaduais e municipais são muitos em nosso país. Por isso, não é possível conhecer todas. Porém, ao longo de nossas aulas, iremos nos familiarizar com a legislação básica que rege a educação brasileira. O nosso objetivo será alcançado se o desejo da pesquisa e o desenvolvimento de um espírito democrático de liberdade, autonomia e criatividade forem desenvolvidos por todos vocês. É importante compreender que em relação à educação escolar nossos estudos vão bem além de conhecer e aplicar as teorias administrativas e as leis existentes. O profissional da educação deve se portar e atuar como um verdadeiro educador. Esse profissionalismo é o que esperamos de vocês, uma vez que, dentro do espaço escolar, são muitas as singularidades, ou seja, temos pessoas diversas, com características e funções diferentes. Porém, devemos ir além do que está descrito em nossas funções e assumir uma postura participativa, pensando sempre na construção da cidadania. Muitos serão os alunos e assim os desafios serão grandes também, exigindo de nós conhecimento da legislação que garante uma educação de qualidade.
Para assim nos posicionarmos, a disciplina de Legislação Escolar está dividida em quatro unidades. A unidade 1, com a educação e as Constituições do século e os programas do FNDE. Na unidade 2, estudaremos a educação escolar na Lei de Diretrizes e Bases e a atual Lei Nº 9.394, de 1996. Na unidade 3, o Plano Nacional de Educação: o que se trata, um breve histórico e o Plano Nacional atual. E na unidade 4, os marcos normativos dos Sistemas de Ensino. Por isso, mãos à obra porque temos bastante trabalho pela frente.
Nessa nossa aula inicial, vamos estudar a unidade 1 - a educação e as Constituições. Esse é o momento para que você já incorpore alguns conceitos básicos sobre o que é legislação, onde ela se encontra e qual é o seu principal agente, o servidor público.
A aplicação da legislação ao contexto educacional da escola pública depende de todos nós enquanto guardiões do direito à educação. Nas escolas, o comprometimento dos profissionais deve ir além da simples produção de algo ou alguma coisa esperando o final por um diploma. Esse comprometimento envolve a construção da cidadania em muitos aspectos, incluindo os afetivos e emocionais. Assim, torna-se inadmissível comparar gestão escolar e gestão empresarial, muito mais ainda imaginar que é possível utilizar métodos empresariais para a escola ou métodos da escola para as empresas. O fato de não podermos comparar a gestão escolar com a gestão empresarial se deve ao fato de que dentro da instituição escolar queremos uma gestão participativa, envolvimento de todos os setores, como pais, alunos, funcionários e de toda a região que a escola está inserida. Já na gestão empresarial não existe interesse da participação que vá além dos funcionários. De acordo com o tipo de gestão a postura muda em relação aos funcionários. Nos bancos, por exemplo, o objetivo é o lucro, assim como nas fábricas o objetivo é a produção. Gerentes, diretores e cargos de chefia não costumam se relacionar com funcionários diversos. Bem diferente das escolas, que têm como objetivo o aprendizado integral, o que promove encontros entre todos os envolvidos no processo. A postura muda diante de um tipo de gestão. A função dos cargos varia de acordo com os objetivos da instituição. Como exemplo, bancos, fábricas e escolas. Em relação à educação, os papéis que os funcionários exercem dentro da escola são diferentes, mas todos devem estar preocupados com a promoção de uma educação de qualidade e baseada nos princípios da Constituição Federal, conforme já apontei anteriormente. Não importa a qualificação de cada membro, mas sim a participação e a postura que devemos ter. A merendeira, o porteiro, o auxiliar de serviços gerais e de secretaria também trabalham para a construção da cidadania, divulgando direitos e deveres que são apresentados na legislação.
Agora vamos fazer uma pausa e conversar um pouco. O que você entende por legislação? E aí, será que vocês conseguiram definir legislação? Vamos lá. O que é legislação? Segundo o Novo Aurélio Século 21, o dicionário da língua portuguesa, podemos entender legislação como o conjunto de leis que regulam as relações sociais em um país ou em uma determinada área das relações humanas. Por exemplo, a Constituição Federal trata das bases das relações sociais em uma nação. O Código de Trânsito trata das relações decorrentes do trânsito de veículos e pessoas nas ruas e estradas. O estatuto de um condomínio regula as relações e as formas de organização naquele espaço de residência.
E a legislação educacional, o que é? Em relação à legislação educacional temos como definição: leis que procuram, de certa, forma organizar o setor tanto nas questões pedagógicas quanto nas questões administrativas, o que inclui a regulamentação das relações internas - entre funcionários burocráticos, professores, alunos, pais e responsáveis -, e externas, como acesso à educação escolar e sua articulação com as demais instâncias da sociedade.
No entanto, a simples existência de legislações não garante direitos e deveres. É necessário que tenhamos o conhecimento e o entendimento de seus sentidos e de suas funções. Esse conhecimento exige organização pessoal para o cumprimento adequado das determinações que a lei contém e também a mobilização de todos os profissionais da comunidade escolar. A cidadania implica em muito mais do que conhecer e aceitar as leis. Podemos afirmar que a legislação da educação caracteriza-se como um conjunto de normas, com artigos da Constituição, leis, decretos, resoluções, pareceres, portarias, instruções e atos. Todas essas normas dão forma e regulamentam a estrutura e o funcionamento da educação com amplitude maior ou menor. Isso irá depender se ela é de âmbito nacional estadual ou federal.
A legislação educacional está composta por artigos da Constituição, leis, decretos, resoluções, pareceres, portarias, instruçõese atos. Mais uma vez, vale ressaltar que não vamos decorar todas essas leis ou decretos, mas teremos o conhecimento de que existe uma lei para determinada situação e que ela garante o exercício e a aplicação de direitos e deveres.
Agora vamos fazer uma outra pausa. Em trios ou em duplas, faça uma lista de situações, objetos, alimentos e outras coisas que você acredita que a sua instituição precisa para ter e oferecer uma educação de mais qualidade. Você conhece alguma lei que possa garantir que a sua instituição conseguiu de forma segura o que ela necessita? Guarde suas anotações para, no final desta aula, fazermos uma atividade.
Vamos retomar a nossa aula. Quando falamos em leis precisamos perceber que a participação democrática dos cidadãos nos diferentes espaços que ocupamos levam em consideração alguma hierarquia. Ela acontece no trabalho nos bairros, nas instituições sociais e até mesmo nas instâncias legislativas. A hierarquia existente no sistema educacional está baseada nos órgãos federais, através do Ministério da Educação e do Conselho Nacional de Educação. Depois, temos as secretarias estaduais, municipais e os Conselhos Estaduais de Educação. Essa hierarquia que se estende a todos os municípios também. Para organizar o funcionamento de todas essas instâncias temos a Constituição Federal de nosso país, a Constituição cidadã de 1988. Mas antes dela, tivemos outras. Acompanhe comigo.
Em 1824, foi apresentada a nós a primeira Constituição do Brasil, chamada de Constituição Imperial. A primeira Constituição do Império a possuir um único artigo versando acerca da gratuidade do ensino primário e da eliminação das exclusividades do Estado, mas não regulamentava nem garantia recursos. Até então, toda a estrutura e financiamento da educação se fazia por instituições confessionais, vinculadas, na sua maioria, à Igreja Católica.
Alguns anos depois, em 1891, a República foi inaugurada com uma nova Constituição chamada de Republicana, que cria as instituições de ensino superior e determina que o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos será leigo. O ensino primário foi normatizado e passa ser de caráter obrigatório, público e gratuito para todos os brasileiros.
Já a Constituição de 1934 foi uma consequência direta da Revolução Constitucionalista de 1932. Ela estabelece a competência legislativa da União para traçar diretrizes da educação nacional, definida como direito de todos, dever da família e dos poderes públicos, voltada para a consecução de valores de ordem moral e econômica.
A Constituição de 1937 foi a quarta Constituição brasileira e a terceira do período republicano. Ficou conhecida como a Constituição polaca por ter leis de inspiração fascista. O texto constitucional vincula a educação a valores cívicos e econômicos. Não se registra a preocupação com o ensino público.
A Constituição brasileira de 1946, bastante avançada para a época, foi notadamente um avanço da democracia e das liberdades individuais do cidadão. Incluiu em seu texto uma normativa que tornava obrigatória a elaboração e publicação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei Nº 4.024, de 1961. Porém, durante a vigência da Constituição de 1946, ocorreu o golpe militar de 1964, quando governava o presidente João Goulart. A partir de então, a Carta Magna passou a receber uma série de emendas que a descaracterizaram.
Foram tempos muito difíceis, mas, em 1988, foi promulgada a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 ou Constituição de 1988, que é a atual Carta Magna do Brasil. Ela é a sétima Constituição do país e a sexta de sua República, bem como a última a consolidar a transição de um regime autoritário da ditadura militar de 1964 a 1985 para o regime democrático de 1985 até o momento. Ela institui a gestão democrática da educação pública.
Antes de 1824, a história da educação brasileira se construiu por uma ausência de políticas públicas para a educação. Passamos pelas constituições de 1824, 1891, 1934, 1937, 1946 e 1967, com avanços e retrocessos que você poderá se aprofundar através do seu caderno de estudos, da página 30 a 52. A atual Constituição Federal garante que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família. Assim, o desenvolvimento da pessoa e seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho devem ser de qualidade e que atendam a necessidade e os padrões da comunidade. Isso está garantido nos artigos 205 e 206, seguidos do artigo 208, que aponta os deveres do Estado para que a educação seja garantida nas creches, na educação infantil e ensino fundamental. No artigo 207, a autonomia das universidades é apresentada. Não devemos esquecer que, mesmo com a autonomia, responsabilidades e normas existem. Já os artigos 210 e 211 apresentam normas para assegurar a formação básica comum e de quem é a responsabilidade da oferta. O artigo 212 estabelece as porcentagens que devem ser aplicadas à educação em relação aos impostos, assim como no artigo 213 os recursos públicos destinados às escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas. O artigo 214 estabelece o Plano Nacional de Educação, que teremos a oportunidade de estudar na unidade 3.
Nossa, quanta informação, não é mesmo? Agora darei um tempo vocês para assimilarem esse conteúdo. Voltem às páginas 45 a 49 e, caso tenham qualquer dúvida, seu tutor estará aí para discutir com você. Voltamos agora para conhecer um pouco mais. Você já parou para pensar que a educação básica é ofertada de acordo com as competências e responsabilidades da União, dos Estados e dos municípios? Então veja. Essa divisão acontece em regime de colaboração, mas com algumas divisões apontadas na LDB.
À União cabe autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar os cursos das instituições de educação superior e dos estabelecimentos de ensino. Ao Estado cabe assegurar o ensino fundamental e oferecer com prioridade o ensino médio. A município cabe oferecer educação infantil em creches e pré-escolas e, com prioridade, o ensino fundamental. Ao Distrito Federal cabe as competências dos Estados e municípios, sendo assim oferecer toda a educação básica. Mas de nada adiantam tantas leis se não exercemos nosso papel de agentes viabilizadores e fazemos valer nossos direitos e deveres. Assim, em relação à educação, temos o Fundo Nacional de Desenvolvimento Escolar ou FNDE. O FNDE é uma autarquia do Ministério da Educação que tem por finalidade a captação de recursos para projetos educacionais, sendo sua principal fonte o salário-educação. O salário-educação é composto por 40% da denominada cota federal, mantidos pela União para distribuição em programas, projetos e ações voltadas para a educação básica pública. Os outros 60% compõem a denominada cota estadual, a serem divididos proporcionalmente ao número de matrículas na educação básica, entre Estados, Distrito Federal e municípios, conforme informações do Censo. O FNDE teve sua criação em 21 de novembro de 1968, através da Lei Nº 5.537 e sua missão é prover recursos executar ações para o desenvolvimento da educação, visando garantir educação de qualidade com acesso garantido a todo cidadão. Os principais programas do FNDE são: Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que garante pelo menos uma refeição diária para os alunos da educação básica das escolas públicas e comunitárias; e para as escolas de período integral três refeições; Programa Nacional do Livro Didático, o PNLD, fornece os livros para os alunos do ensino fundamental e médio, incluindo a educação de jovens e adultos; O Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) foi criado para equipar as bibliotecas com as obras literárias, dicionários e enciclopédias, aumentando assim a qualidade de aprendizado de nossos alunos; O Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) transfere recursos para a conservação e manutenção das instalações, materiais permanentes e de consumo, além de formação continuada do pessoal das escolas. Esse programa é para todas as etapas e modalidades da educação básica;O Programa de Transporte do Escolar (PTNE) repassa aos municípios recursos para o transporte dos alunos da educação básica que moram em zonas rurais, incluindo o programa Caminho da Escola que financia a compra de ônibus e embarcações para esses alunos; O Programa Nacional Saúde da Escola (PNSE) destina recursos para que as escolas desenvolvam ações que sanem problemas de saúde que podem comprometer o aproveitamento escolar dos alunos.
Todos esses programas do FNDE são derivados dos artigos 208 e 212 da Constituição Federal. Vamos assistir a um vídeo institucional do MEC sobre as ações do FNDE por todo o Brasil, com alguns exemplos de programas já aplicados. Fique atento às informações, elas serão muito importantes para a atividade que vamos realizar ao final dessa videoaula.
VÍDEO INSTITUCIONAL DO MEC SOBRE O FNDE
APRESENTADORA: Olá, tudo bem? Você está convidado a conhecer as principais ações do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, o FNDE, autarquia federal vinculada ao Ministério da Educação. Este vídeo pertence a todos nós que abraçamos a boa causa da educação de qualidade, para os cerca de 41 milhões de estudantes em 154 mil escolas públicas do país. Pode entrar, a escola é nossa. Vamos começar pela alimentação escolar. Que tal um exemplo para ilustrar o que falamos?
Belo Horizonte. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é o maior programa de alimentação escolar do mundo. Ele transfere recursos financeiros suplementares aos Estados, municípios, Distrito Federal e escolas federais para suprir as necessidades nutricionais dos alunos da educação básica. O repasse é feito em 10 parcelas mensais a partir de fevereiro e ao menos 30% deste recurso devem ser investidos na compra de alimentos da agricultura familiar. Detalhes sobre a prestação de contas estão na página do programa no portal da autarquia.
CRISTIANE JUSTI – professora - “Dentre os recursos do FNDE, existe o Programa de Alimentação Escolar, que é de fundamental importância para a manutenção dos alunos na escola, além de custear investimentos na agricultura familiar.”
RITA ROCHA – cozinheira - “Quando você faz o que você gosta, você faz com amor e fazer comida, pra mim, é sempre um prazer.”
CRIANÇAS NO REFEITÓRIO DE UMA ESCOLA - “Tá muito gostoso”.
APRESENTADORA: E pensar que isso não acontece só em Minas Gerais. É no Brasil todo. Mas vamos agora falar sobre Caminho da Escola. Auxiliar Estados, municípios e o Distrito Federal a renovar, padronizar e ampliar a frota de veículos escolares em áreas rurais e ribeirinhas prioritariamente é o principal objetivo do Caminho da Escola. O programa oferece ônibus, lanchas e bicicletas que podem ser adquiridos via assistência financeira do FNDE, linha de crédito especial do BNDES ou recursos próprios. Dentro do mesmo tema temos outro programa super importante, o transporte escolar, que veremos em Sabará, Minas Gerais. Mais uma vez gestores estaduais e municipais recebem recursos financeiros suplementares do Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar (Pnate) para ajudar nas despesas dos veículos escolares como seguro, impostos, manutenção, combustível e terceirização do serviço. As transferências ocorrem em 10 parcelas a partir de fevereiro.
DULCILÉA RIBEIRO – diretora - "Muitas vezes, os alunos das zonas rurais interrompem seus estudos por falta de oportunidade de luz se locomoverem até as escolas. Pra mim esse transporte escolar traz um grande benefício pedagógico. Os meninos conseguem ter uma sequência nos estudos, o acompanhamento diário, o que também tranquiliza muitos pais.
HELEN SANTOS - mãe - “Antigamente era no dedão, né? A gente já não tem aquela mesma disposição para andar. Aí a van escolar foi boa demais.”
APRESENTADORA: Legal, né, gente? Vamos falar em Dinheiro Direto na Escola. Aonde vamos? Rio Grande do Norte. O Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) destina recursos financeiros às escolas públicas da educação básica e escolas privadas de educação especial mantidas por entidades sem fins lucrativos. O dinheiro pode ser usado na compra de materiais e equipamentos permanentes, realização de pequenos reparos, entre outras possibilidades. Veja os prazos de prestação de contas no portal do FNDE.
MARCELE NORONHA – gestora escolar - “O FNDE é um recurso essencial para o funcionamento da escola e para o auxílio de um modo geral para as atividades do aluno, para o aprendizado, para todos os componentes que ativam a escola, que formam o professor, que ajudam no dia a dia das atividades diárias dos alunos e dos educadores.”
APRESENTADORA - “Os Programas do Livro envolvem duas ações: o Livro Didático e o Biblioteca da Escola. E eu mostro através dos Estados de Pernambuco e Rio Grande do Norte. O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) contribui diretamente para o aprendizado de estudantes das redes públicas de ensino fundamental e médio com a distribuição gratuita de livros didáticos, obras complementares e dicionários às escolas. Os próprios professores escolhem, de uma lista disponibilizada pelo MEC, os livros que irão utilizar em sala de aula.
JOSÉ SILVA – professor - “O livro didático na biblioteca, na escola e com o aluno é uma ferramenta de grande valia, pois, além da bateria de exercícios, da teoria, é uma praticidade muito boa, tanto por parte do professor e principalmente por parte do alunado.”
APRESENTADORA - Democratizar o acesso às fontes de informação, fomentar a leitura de alunos e apoiar a atualização e o desenvolvimento profissional do professor são os objetivos do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). Todas as escolas públicas recebem obras literárias de referência e de pesquisa para compor em suas bibliotecas.
SOCORRO LOPES – professora - “O programa PNBE é um programa de alto valor para que a gente possa estimular cada vez mais os jovens a conseguir melhorar a sua escrita, o seu interesse em qualquer outra disciplina. Um projeto de leitura sempre será bem-vindo para que o estudante possa aperfeiçoar-se em qualquer outra disciplina que ele venha a estudar, porque quanto mais ele lê mas ele vai aprender.”
RENATA CHERON - aluna - “Qualquer projeto que envolva literatura é muito bem-vindo em qualquer escola que seja, seja ela fundamental ou do ensino médio. Os livros ajudam muito, não só sobre conhecimento de vestibular ou ENEM ou escola, eles ajudam também a gente em questão de conhecimento de mundo, de vida em si.”
APRESENTADORA - Por fim, temos o Proinfância. Vamos ver um exemplo real que já acontece no Brasil. O Proinfância presta assistência técnica e financeira a municípios e ao distrito federal para a construção de creches e compra de mobiliário e equipamentos para seu funcionamento, como mesas, cadeiras, berços, geladeiras e fogões.
MARIO MELO – professor - “É através da educação infantil que se forma a base dos nossos estudantes, para que eles possam prosseguir a caminhada estudantil deles, a formação pessoal, a formação escolar, a formação cidadã.”
GILSA SOUZA – coord. Administrativa - “E a gente está aqui para passar para eles segurança, carinho, amor.”
MARIO MELO – professor - “Sem esses programas não poderíamos tê-los aqui e fazer com que a escola tivesse tanto sabor, tão atrativo.”
APRESENTADORA: O FNDE respira educação e inspira desenvolvimento. Aspiramos a um Brasil melhor. Visite nosso portal na internet em www.fnde.gov.br e conheça outras iniciativas como o Plano de Ações Articuladas (PAR), Registro de Preços Nacional, Formação pela Escola, Fundeb, salário-educação e SIOPE. Gestores, técnicos, professores, pais, alunos, juntos temos fôlego de sobra pra construir um futuro mais justo e digno. FNDE. Ministério da Educação. Governo Federal.
FIM DO VÍDEO
PROFESSORA DANIELA
E aí, perceberam quantos programas importantes o FNDE possibilita? Vamos recordar aqui. O FNDE possui: Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); Programa Nacional do Livro Didático (PNLD); Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE); Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE); Programa de Transporte do Escolar (PTNE); ProgramaNacional Saúde na Escola (PNSE).
A atuação do FNDE está na provisão de recursos, gestão de programas e ações de controle, acompanhamento e assistência desses recursos. Todos esses programas do FNDE são derivados dos artigos 208 e 212 da Constituição Federal. O artigo 208 em seu inciso 7 garante o atendimento ao educando no ensino fundamental, através de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. O artigo 212 apresenta que a União aplicará anualmente nunca menos de 18% e os Estados e o Distrito Federal e os municípios 25%, no mínimo, da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino.
Agora que você já conhece um pouco mais da Constituição Federal e também sobre o FNDE, vamos voltar àquela lista de leis que você fez em dupla ou em trio. Solicitei que vocês fizessem uma lista de situações, objetos, alimentos e outras coisas que você acredita que sua instituição precisa para oferecer uma educação de mais qualidade. Também perguntei se você conhece alguma lei que pudesse garantir que a sua instituição de forma segura o que ela necessita. Como você viu até agora, o ensino no Brasil tem leis que asseguram a oferta de ensino e também o FNDE, para auxiliar no financiamento de recursos para projetos educacionais. A partir das necessidades que você elencou, faça agora uma tabela indicando em qual programa do FNDE essa necessidade se enquadra e verifique em sua escola se já foi solicitado recurso. Você receberá um modelo para que fique mais fácil. Faça uma entrevista em sua escola e anote como foi esse recurso foi solicitado, valor que a escola recebeu e se ainda não conseguiu também o recurso. Com essas informações você também está ajudando sua escola a saber de seus direitos e como melhorar a qualidade de instalações e do ensino. Lembre-se que essa atividade será avaliada. Portanto, aproveite os momentos finais dessa aula para tirar suas dúvidas com o tutor e trocar ideias com seus colegas sobre a atividade.
Finalizando a aula de hoje sabemos que ainda temos grandes desafios educacionais: crianças que abandonam a escola, analfabetismo e repetência, aplicação inadequada de recursos, entre outros problemas. Um aprendizado abrangente sobre nossos direitos e deveres é sem dúvida o ponto de partida não somente para se diagnosticar os problemas e distorções que envolvem a área educacional, mas também para nos ajudar a identificar as ações que marcam avanços e progressos, orientando efetivamente na elaboração de políticas públicas eficazes. Nesse sentido, espero ter contribuído para despertar a consciência sobre a importância da busca constante pelo saber. Um grande abraço a todos. Acompanhe as aulas no ambiente virtual de aprendizagem e mantenha seus estudos em dia.
2.8 A educação escolar na LDB
Não podemos tratar de Leis de Diretrizes e Bases (LDB) sem antes falarmos, um pouco que seja, dos ideais que as envolveram. Antes mesmo de instrumento de controle e ordenamento legal da educação brasileira, o que se pretendia com o estabelecimento de diretrizes e bases para a educação era configurar um conjunto coeso de normas para a educação brasileira. Buscar um ordenamento legal que configurasse nossa educação a partir de demandas da sociedade brasileira, o que, a nosso ver, tem sido atingido.
Foi neste intuito que, ainda em 1932, embalados pela onda de transformações nacionalistas e liberais que caracterizavam a intelectualidade e a sociedade brasileira nas décadas de 1920 e 1930, os Pioneiros, em Manifesto, exigiram diretrizes para se moldar um projeto nacional de educação.
Esse projeto contemplaria as demandas da sociedade brasileira e garantiria o papel da educação escolar na modernização social, política e econômica da sociedade brasileira. Utopia educacional e social que embalou os preceitos constitucionais relativos à educação nas constituições de 1934 e 1946 e os dispositivos de nossa primeira Lei de Diretrizes e Bases (LDB) – a Lei nº 4.024, de 1961.
Esse movimento, com um olhar republicano para a educação e a sociedade, implicava o entendimento da ação educativa como ferramenta alavancadora da modernização social. E exigia da sociedade, sob a orientação estatal, um papel de promotora das condições para o desenvolvimento de uma educação voltada à cidadania. Nessa perspectiva, as leis de diretrizes da educação editadas no Brasil, desde a primeira, de 1961, até a atual (Lei 9.394 de 1996) e mesmo a Lei 5692, de 1971, em plena ditadura, configuram-se como regulamentadoras da educação preconizada constitucionalmente – em alguns momentos até reeditando o texto constitucional. E caracterizaram-se por marcos de avanços, mesmo que pequenos, na organização desta educação nacional.
Assim, nesta reflexão sobre a educação brasileira, dadas as limitações de espaço e, principalmente, por se tratar de material também instrucional, trataremos as diretrizes e bases da educação como ferramental de trabalho dos profissionais da educação. Sem omitir análises necessárias dos textos legais, vamos abordá-los na sua dimensão funcional, como ferramenta de trabalho dos profissionais dos setores administrativos da escola.
Será dada maior ênfase à atual LDB que já sofreu mais de cem mudanças no texto - em função de sua vigência, desde 1996 - o que faz dela a peça legislativa de maior impacto no trabalho cotidiano dos profissionais administrativos escolares. Por isso, recomendamos, a partir deste momento, a leitura do texto atualizado da Lei nº 9.394, de 1996. Mas tal postura não implicará no preterimento das demais LDB’s, pois entendemos como importante para o profissional o conhecimento crítico do processo evolutivo dessa legislação.
2.8.1 As leis de diretrizes e bases (LDB)
Pela LDB – 4024/61 a educação se estruturava nos seguintes níveis: pré-primário; primário; ensino secundário de primeiro e segundo ciclos e ensino superior. O ensino secundário atendia, além da educação propedêutica, própria para a continuidade nos demais níveis da educação, o ensino profissional nas áreas agrícola, industrial e comercial e o Curso Normal, de formação para o magistério no pré-primário e no primário.
Orientada pela vaga liberal, descentralizadora, a LDB 4024/61 trouxe mudanças significativas à organização da educação brasileira. Conferia maior autonomia aos órgãos estaduais, descentralizava a gestão da educação (arts. de 15 a 17) e regulamentava os Conselhos Estaduais de Educação (art.10) e o Conselho Federal de Educação (arts. 8 e 9).
A Lei 4.024, de 1961, apoiava-se nos preceitos de financiamento da Constituição de 1946, pelos quais a União devia aplicar 12% dos impostos com a educação, e os estados, municípios e o Distrito Federal 20% (art. 92). Esta definição, além de aclarar os limites mínimos de comprometimento orçamentário dos entes federados, facilitava o planejamento do setor.
A LDB 4024 detalhava a organização do trabalho pedagógico a ser desenvolvido na educação escolar. Estabelecia ano letivo com duração de 180 dias (art. 72); previa atendimento a alunos excepcionais, inclusive na rede privada, com aporte de recursos públicos (arts. 88 e 89); esclarecia o que não seria considerado despesa com educação (art. 93 § 2º); definia como facultativa a frequência ao ensino religioso, embora constante da grade horária escolar (art. 97); e possibilitava a instalação de escolas com propostas de ensino experimental (art. 104).
Esta LDB 4024 estabelecia a obrigatoriedade de matrícula no ensino primário (art. 3) e propunha o Curso Normal como instância de formação de profissionais para o Ensino Primário – docentes, coordenadores, orientadores e administradores - (art. 52 a 55).
O ingresso na carreira docente, na rede pública de ensino se daria, a partir desta Lei, mediante concurso de provas e títulos (art. 60). E obedeceria aos critérios de formação nela estabelecidos: para os cursos secundários, em licenciaturas de nível superior. As mudanças pretendidas pela LDB de 1971 foram mais profundas. Reconfigurou-setoda a Educação Básica, instituindo o 1º grau, com oito séries, sendo as 4 primeiras equivalentes ao antigo primário e as 4 últimas, ao primeiro ciclo do secundário – abolindo-se a exigência de aprovação em “exame de admissão ao ginásio”. O segundo ciclo secundário foi rebatizado de Ensino de 2º grau, compulsoriamente profissionalizante, com duração de 2 a 5 anos. Havia alternativas de habilitações técnicas, com maior carga horária profissional, e de auxiliares.
Ao Curso Normal, que já formava professores para o magistério na pré-escola e nas séries iniciais do primário, foi indicada a possibilidade de ampliação em um ano, habilitando seu egresso à docência até a sexta série.
Mas as mudanças da Lei 5692/71 não se limitaram à estrutura da educação escolar; avançavam no currículo. Organizaram-no em atividades, áreas de estudo e disciplinas, segundo os aportes da psicologia evolutiva e, pelo art. 7º, definiu como obrigatório, dentre outros componentes, a Educação Moral e Cívica, disciplina de natureza ideologicamente comprometida com os ideais que fundamentavam o golpe civil-militar de 1964. O viés profissionalizante foi atenuado pela reação de acadêmicos e da burguesia que colocava seus filhos em escolas privadas para disputar os vestibulares aos cursos de prestígio (direito, engenharias e medicina). Uma “reforma da reforma” instituiu as “habilitações básicas” no lugar das terminalidades técnicas.
A década de 1990, apesar de caracterizar-se pelas ideias neoliberais com relação à educação, trouxe o desejo de ampliação do alcance das políticas de educação e o clima de inclusão social que envolveu a sociedade ocidental desde a convenção de Educação para Todos, realizada em Jontien, na Tailândia, em 1990, e da Declaração de Salamanca, na Espanha (1994).
Estes eventos, no Brasil, influenciaram a LDB 9.394/96, recolocando-a em consonância com a Constituição de 1988 que já orientava o Estado brasileiro numa perspectiva mais atenta às demandas da sociedade civil. Essa convergência entre a LDB 9394/96, os fundamentos filosóficos de seu tempo e a Carta Magna de 1988 conferiram à educação brasileira caracteres típicos de uma prática centrada no processo de modernização social, o que implicou e implica em mudanças significativas na organização da educação brasileira, em todos os níveis, a começar pela sua amplitude.
2.8.2 A LDB atual: lei nº 9.394, de 1996
Universalização do ensino médio gratuito, em seu primeiro artigo, define a abrangência da educação para o Estado brasileiro, ao afirmar que ela abarca os
"processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais."
No artigo 5º, caracteriza o direito à educação como direito público subjetivo. O que implica o Estado, em todas as suas instâncias, com a sua garantia e a estabelece como prioridade. Esta caracterização permite ao cidadão ou a qualquer entidade da sociedade civil acionar o Estado legalmente na cobrança deste direito, no caso de “oferta irregular da educação”, ficando a autoridade sujeita a responder por crime de responsabilidade.
O que é uma oferta irregular? Menos dias letivos anuais? Menos horas letivas diárias? Professores sem habilitação? Índices muito negativos de aprendizagem? A LDB defende uma percepção da educação que, mais do que esclarecer a complexidade do ato educativo, identifica os limites do compromisso que o envolve. Um comprometimento que não pode se limitar aos muros escolares, tampouco aos profissionais da educação que atuam na docência. pois aponta diferentes espaços educativos e compromete todos os atores na defesa dos princípios da liberdade e da solidariedade humana (art.2º).
A atual LDB parte da perspectiva de construção de uma “sociedade aprendente”, na qual todos se encontram implicados com a educação e, consequentemente, com a transformação social. Para tanto, ainda no art.2º, a LDB 9394/96 apresenta como sua meta educativa “o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
O art. 3º replica e amplia os princípios constitucionais do ensino, que também expressam sua filosofia de educação. A saber:
I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;
III – pluralismo ideias e de concepções pedagógicas;
IV – respeito à liberdade e o apreço à tolerância.
V – coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;
VI – gratuidade do ensino em estabelecimentos oficiais;
VII – valorização do profissional da educação escolar;
VIII – gestão democrática do ensino público, na forma da lei e da legislação dos sistemas de ensino;
IX – garantia de padrão de qualidade.
X – valorização da experiência extraescolar;
XI – vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.
Atendendo ao preceito constitucional presente no artigo 205 da Carta de 1988, que estabelece o compromisso estatal e familiar com a educação, a LDB 9394/96 define nos artigos 4º a 6º as obrigações relativas ao Estado e às famílias com a educação.
Ao Estado compete garantir, segundo o artigo 4º:
Ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;
Universalização do ensino médio gratuito;
Atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino;
Atendimento gratuito em creches e pré-escolas às crianças de zero a seis anos de idade; Acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;
Oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando;
Oferta de educação escolar regular para jovens e adultos, com características e modalidades adequadas às suas necessidades e disponibilidades, garantindo-se aos que forem trabalhadores as condições de acesso e permanência na escola;
Atendimento ao educando, no ensino fundamental público, por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde;
Padrões mínimos de qualidade de ensino, definidos como a variedade e quantidade mínimas, por aluno, de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem;
Vaga na escola pública de educação infantil ou de ensino fundamental mais próxima de sua residência a toda criança a partir do dia em que completar 4 (quatro) anos de idade.
A educação brasileira, pela LDB 9394/96, passou a organizar-se em apenas dois níveis, o básico e o superior (art. 22). A educação básica compreende a educação infantil, que atende em creches às crianças de 0 a 3 anos de idade e na pré-escola, às de 4 e 5 anos (arts. 29 e 30). O ensino fundamental, com nove anos de duração (art. 32), atende às crianças a partir de 6 anos (art. 32). E o ensino médio, última etapa da educação básica, com três anos de duração – em que a idade certa de matrícula varia de 14 a 18 anos. Quanto à estrutura, o ensino médio, com a edição dos decretos 2.208/97, que regula a educação profissional, e 5.154/04, que cria a modalidade de ensino médio integrado à educação profissional técnica de nível médio, sofreu alterações significativas.
O decreto 2.208/97 estabelece no seu artigo 2º que:
"a educação profissional será desenvolvida em articulação com o ensino regular ou em modalidades que contemplem estratégias de educação continuada, podendo ser realizada em escolas do ensino regular, em instituições especializadas ou nos ambientes de trabalho. (Brasil, 1997)"
Uma das inovações mais radicais da LDB, que merece bastante atenção, é, sem dúvida, a variedade de possibilidades de organização apresentada às escolas da educação básica. Pelo art. 23, elas poderão ser estruturadas em séries anuais; em semestres; ciclos; períodos de estudos alternados; grupos nãoseriados; enturmados por faixa etária; por competências demonstradas pelos alunos; ou por outros critérios. Entretanto, o parâmetro de organização será sempre “o que o interesse do processo de aprendizagem recomendar”. Essa observação, que em leis anteriores se aplicava ao ensino de artes e de línguas estrangeiras, deve agora ser levada em conta para todas as etapas, modalidades e componentes curriculares da educação básica. Daqui se vê a importância do diálogo entre professores e secretaria escolar, que muitas vezes corre o risco de engessar os tempos e espaços da escola em ritos burocráticos.
No que tange ao currículo do ensino fundamental, a obrigatoriedade de inclusão de conteúdos relativos aos direitos das crianças e dos adolescentes (§ 5º, inciso IV, art. 32), também é digna de destaque. Uma vez que se trata de ação concreta de construção de postura cidadã, um dos objetivos fundamentais da educação básica.
Já o ensino médio tem sofrido grandes alterações curriculares com as mudanças na atual LDB, que incorporaram dispositivos dos decretos referentes à educação profissional, já citados, trazendo novos conteúdos e formas de oferta, nas diferentes modalidades de atendimento. O importante é saber que, aos alunos concluintes do ensino fundamental, abrem-se hoje oportunidades as mais variadas, desde o tradicional ensino médio comum – preparatório à educação superior – até cursos profissionais a ele concomitantes ou subsequentes e os de currículo integrado, oferecidos principalmente pelas redes estaduais e pelos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, presentes em 500 municípios brasileiros.
O “cardápio” de cursos da educação superior é estruturado em graduações (licenciatura, bacharelado e tecnológico) e pós-graduações, lato sensu (aperfeiçoamento e especialização) e stricto sensu (mestrado e doutorado), bem como em cursos de extensão e sequenciais, descritos no art. 44 da Lei, tendo os últimos como pré-requisito a certificação do ensino médio.
Embora não tenhamos a pretensão de construir um manual de legislação educacional, entendemos como bem-vindo o destaque de alguns aspectos da lei que dizem respeito a pontos específicos da rotina administrativa de uma escola.
Comecemos, então, pelo ingresso de alunos. A matrícula na educação básica, na educação infantil faz-se em creches para crianças de até 3 anos de idade (art. 30, inciso I) e é obrigatória na pré-escola para aquelas entre 4 e 5 anos (art.30, inciso II). No ensino fundamental, de matrícula obrigatória, o ingresso será aos 6 anos de idade (Art. 32). Alguns sistemas, seguindo resolução do Conselho Nacional de Educação, adotam 31 de março como a data de nascimento limite para admitir as crianças no 1º ano do ensino fundamental.
Não tendo completado seis anos até este dia, a criança deve ser matriculada ainda na pré-escola. Já para o ensino médio, a legislação não estabelece uma idade limite mínima para ingresso, nem mesmo exigindo-se a conclusão do ensino fundamental. Sendo, porém, 18 anos a idade para realização dos exames de suplência (Art.38 § 1º, inciso II), podemos deduzir os 17 anos como sendo a idade limite para ingresso no ensino médio regular. Daí por diante o estudante se enquadra na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Num país de dimensões continentais como o Brasil, a busca por melhores oportunidades, em todos os campos da vida, tem levado pessoas e famílias a porem-se em constante movimento. Esta mobilidade tem afetado a vida escolar de crianças e adultos, exigindo dispositivos legais que minimizem os impactos deste fenômeno social sobre a frequência à escola.
Atento a essa questão, os legisladores da educação trazem para a LDB, em seu art. 24, inciso II, item b, a possibilidade de matrícula em qualquer ano ou série da educação básica por promoção ou transferência, e mesmo sem comprovação de escolarização anterior. Nesta última possibilidade de acolhimento do aluno à escola realizará avaliação para verificar o “grau de desenvolvimento e experiência do candidato” (Inciso II, item c) antes de enturmá-lo. Essa avaliação poderá, inclusive, resultar em “aceleração de estudos” ou “avanços nos cursos e nas séries”. O art. 24 permite extrema flexibilidade, mas não se pode usá-la para prejuízo futuro do estudante.
À migração podemos associar a busca precoce por emprego como fator que compromete a frequência regular e até mesmo o ingresso de nossos jovens na escola na idade considerada regulamentar. E, paralelamente a esta chaga social, que é a não preparação do jovem para ingresso digno no mundo do trabalho, os avanços tecnológicos exigem cada vez mais uma formação de maior qualidade. Nesse contexto, como impacto no sistema educacional vem, num primeiro momento, a elevação dos postulantes à Educação de Jovens e Adultos (EJA) e, com ele, a busca por formação profissional. Diante de tal cenário, a LDB, nos arts. 37 e 38, estabelecendo a educação como política social, alavanca do desenvolvimento social e econômico, assegura a gratuidade dos cursos fundamentais e médios da EJA e a gratuidade dos exames de suplência para os jovens e adultos que não frequentaram a educação básica na idade certa. Mais ainda: alia aos currículos da EJA os componentes da educação profissional.
Os exames de suplência, para o ensino fundamental, estão garantidos aos maiores de 15 anos e os exames para conclusão do ensino médio são ofertados aos maiores de 18 anos de idade (Art. 38). Nesses exames, os sistemas de ensino poderão manter formas de aferir e aproveitar os conhecimentos adquiridos informalmente pelo educando (§2º). A maior novidade quanto à formalização dos conhecimentos como política pública é a instituição pelo governo federal do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que certifica a conclusão do ensino médio para os aprovados com mais de 18 anos e os habilita, por classificação, a ocupar milhares de vagas em cursos superiores de graduação de instituições públicas e privadas.
Ainda nesta vertente da educação como política social articulada a outras demandas da sociedade, como a de formação de mão de obra, por exemplo, a LDB 9394/96 teve, a partir da Lei 11.741 de 2008, alterados o capítulo II, com a criação da seção IV – A “Da Educação Profissional Técnica de Nível Médio e o capítulo III, que passou a titular-se “Educação Profissional e Tecnológica” (arts. de 36 a 42).
Desta forma, o ensino médio, à semelhança do antigo 2º grau da LDB 5692/61, voltou a ser instância também de formação profissional, contudo, sem o caráter obrigatório e o aligeiramento dos conteúdos científicos e humanísticos a que levava a lei anterior. É tarefa também da secretaria escolar subsidiar o estudante ao término do ensino fundamental para a decisão entre um curso profissional ou de currículo comum (propedêutico). Outra distinção desta forma de organização da educação profissional é seu alinhamento com o mercado de trabalho da região, bem como a parceria com instituições de formação profissional de outras redes de ensino.
Sempre articulada com o ensino regular, a formação profissional poderá atender também a demandas de formação continuada em cursos especiais focados no interesse comunitário, sem exigência de comprovação de algum nível de escolaridade. Não nos esqueçamos de que a educação profissional é uma modalidade que perpassa a educação básica e superior e, neste último nível, expressa-se pelos cursos tecnológicos, que são graduações de menor duração, e pelos inúmeros cursos superiores de graduação e pós-graduação que conduzem a postos especializados de trabalho cada vez mais numerosos e diversificados. Pode-se dizer que, nos dias de hoje, mede-se o desenvolvimento econômico, social e cultural dos países pelo número e variedade dos concluintes de seus cursos superiores. Entretanto, nos termos da Lei 11741/08, a LDB teve o acréscimo dos artigos 36-A, B, C e D. Nos dois primeiros, diz-se que a formação profissional pode ser integrada ao ensino médio de duas formas: articulada ou subsequente, sempre aproveitando os espaços e temposdisponíveis do aluno.
A subsequente é clara, atende àqueles que já concluíram o ensino médio. Já a forma articulada pode ser assumir várias organizações: a integrada, destinada aos concluintes do ensino fundamental, tem por fim a habilitação profissional de nível médio, na própria escola, contendo os componentes profissionais, científicos e humanísticos do currículo; e a concomitante, oferecida aos que ingressam no ensino médio ou aos que já o cursam, podendo ocorrer em turnos distintos da própria escola ou na escola convencional num turno e em instituições especializadas, em outro turno.
Dentro da proposta de inclusão social assumida pela sociedade brasileira no final do século XX e no começo do XXI, a atenção educacional aos estudantes entendidos como de “necessidades educacionais especiais” – pessoas deficientes, com transtornos globais de desenvolvimento ou superdotadas - ganhou destaque considerável. A LDB 9394/96 avança nesse aspecto em relação às anteriores, ao estabelecer o atendimento a estes estudantes preferencialmente dentro da rede regular de ensino, prevendo o suporte de profissionais especializados às turmas comuns e salas para atenção específica quando for necessário (art. 58).
A atenção a estes alunos, pelo art. 59 da LDB 9394/96, terá, em função das demandas dos estudantes, adequação curricular e metodológica, de forma a atender a seu desenvolvimento educativo e pessoal. O mesmo artigo prevê a formação geral e específica para os profissionais dedicados à modalidade da educação especial, inclusiva e especializada.
O capítulo da LDB consagrado aos profissionais da educação não é focalizado neste Caderno. Entretanto, a publicação recente da Lei nº 12.796, em 4 de abril de 2013, obriga-nos a uma referência especialíssima.
Depois da Lei nº 12.014, que reconheceu os funcionários de escolas como a Categoria III dos profissionais de educação (art. 61 da LDB), desde que em exercício permanente nas redes públicas e formados em cursos reconhecidos de nível médio e superior, “em área pedagógica ou afim”, dois avanços muito importantes foram trazidos pela Lei 12.796/13, que introduziu o art. 62-A na LDB. O primeiro é que confirma a formação profissional da Categoria III por meio de “cursos de conteúdo técnico-pedagógico”, descartando a possibilidade de aproveitamento de diplomas sem ligação direta com a essência da identidade dos funcionários: técnicos e educadores. O segundo é que se garante a formação continuada dos funcionários em cursos de graduação e pós-graduação, o que fundamenta a reivindicação por horário de trabalho dedicado à capacitação permanente.
Sobre o financiamento da educação na LDB, fazemos somente algumas referências, já que ele é tema constitucional e de outras leis ordinárias, e foi e será tratado em outros Cadernos. Registre-se, então, que um avanço da Lei 9394/96 foi sem dúvida a transparência em relação aos recursos destinados à educação. No art.68, detalha a fonte desses recursos; no art. 69 os percentuais mínimos a serem aplicados anualmente por União (18%), os estados e o Distrito Federal (25%) e os municípios (25%). Aspecto importante no acompanhamento pela sociedade dos investimentos em educação é a discriminação, presente nos arts. 70 e 71, do que seja e não seja “manutenção e desenvolvimento do ensino” (MDE). É importante, para quem trabalha na secretaria escolar, conhecer bem estes itens, embora as despesas com cada programa (PNDDE, por exemplo) tenham regras próprias.
A legislação configura-se como a síntese de um acordo, um pacto social, a garantia legal de direitos. Contudo, sua efetivação demanda mobilização social, fiscalização, atuação em conselhos e organismos da sociedade, debate com os movimentos que atuam na comunidade. Tudo isso requer compreensão dos mecanismos de gestão e participação social, em que os planos de educação têm papel fundamental.
2.9 Plano nacional de educação (PNE)
O que é o PNE?
Podemos afirmar que um Plano Nacional de Educação – PNE – tem como objetivo a organização racional, consequente e eficaz do universo de ações educativas que devem ser executadas num determinado país. O instrumento jurídico que respalda o PNE é a Constituição Federal. Em conformidade com o artigo 214 da Carta Magna, o PNE deveria abranger todos os aspectos relativos à organização da educação nacional para unir os diversos níveis do ensino com o propósito de integrar as ações governamentais intentando solucionar as deficiências históricas na área educacional. Dessa forma, este plano deveria estabelecer como metas a erradicação do analfabetismo, a universalização do atendimento escolar, a melhoria da qualidade do ensino, a formação para o trabalho, a promoção humanística, científica e tecnológica do país.
Previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o PNE constitui-se num mecanismo intermediário entre a lei maior da educação – a LDB - e a materialização das metas necessárias para constituir um sistema nacional de educação que assegure a todos os brasileiros um ensino de qualidade regido por relações democráticas
Para que você compreenda melhor o que é um PNE, vamos compará- -lo à construção de uma casa. Tanto a construção de uma casa como a de um PNE obedecem a alguns procedimentos comuns: ambos estão subordinados a uma lei, necessitam de um diagnóstico prévio, estabelecem metas e, muito importante, precisam de recursos para sua materialização.
Vamos, então, iniciar nossa comparação subordinando esses dois objetos – o PNE e a casa – a uma legislação. Quando você vai construir uma casa, a preocupação primeira é a legislação que regulamenta as edificações. Os municípios têm leis que disciplinam as construções e são chamados de código de posturas. Antes de realizar o projeto da casa, o arquiteto precisa conhecer os limites impostos por esse código. Ele determina, por exemplo, a porcentagem permitida de construção em relação ao terreno, a altura da casa, o recuo mínimo da parte frontal e lateral em relação ao muro, os espaços de ventilação etc. A construção, assim, tem que respeitar as normas estabelecidas pela lei.
O PNE, por outro lado, também está subordinado a uma legislação que é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB. Esta é a lei maior da educação e estabelece as diretrizes para a sua organização nacional. Assim, todas as ações educativas implementadas nos âmbitos federal, estadual e municipal, mesmo as regulamentadas por legislações específicas no estado e município, têm como referência a LDB. Ela previa, em 1996,o envio de um PNE para o Congresso Nacional no prazo de um ano após sua promulgação. Assim, da mesma forma que a construção de uma casa, o PNE tem como referência uma legislação, no caso, a LDB.
Outro fator importante que precede tanto a construção de uma casa como a de um PNE é o diagnóstico. Ao projetar-se uma casa, faz-se necessário saber que pessoas irão lá morar, seu sexo e idade, o clima da região, se alguém vai desenvolver alguma atividade profissional domiciliar etc. Estes dados permitirão estabelecer o número de cômodos, de quartos, a possível construção de um escritório ou uma pequena oficina, etc. Um diagnóstico mais preciso levantará os desejos dos moradores e como a casa pode ajudar a resolver seus problemas.
Com um PNE não é diferente. Faz-se necessário ter um bom conhecimento dos problemas da educação nacional para planejar com eficácia as medidas necessárias para sua resolução. É preciso saber qual o número de analfabetos, quantas crianças de 0 a 5 anos não têm acesso a creches e pré-escolas, em que medida o ensino fundamental está universalizado, quantos jovens estão excluídos do ensino médio, qual o índice de brasileiros fora das universidades, qual o contingente da população que não estudou na idade apropriada e necessita ter acesso à educação de jovens e adultos, qual o número de crianças portadoras de necessidades especiais que precisam ser inseridas no ensino especial, quantos professores existem no país, seu estágio de formação e as exigências de cursos para sua formação continuada. Comesses dados, faz-se o diagnóstico e se tem maior clareza dos desafios que estão postos para a elaboração do PNE.
Outra fase de um plano é o estabelecimento de metas. Numa construção, é importante se estabelecer quando vai começar e terminar a obra. Você, dentro de suas possibilidades, planeja o andamento da obra para, o mais cedo possível, desfrutar do conforto da casa construída e mobiliada.
Sendo assim, do PNE constam os prazos estabelecidos para: erradicar o analfabetismo; universalizar a educação básica; equiparar a oferta de ensino superior público aos níveis dos países desenvolvidos; ampliar a oferta da educação de jovens e adultos; ter um corpo docente com formação superior atuando em todos os níveis da educação básica. Por mais que seja importante priorizar a educação básica, até para não condenar as gerações futuras às defasagens educacionais que são vivenciadas no presente, não se pode esquecer-se da educação superior, da educação de jovens e adultos, da educação especial etc. Portanto, o PNE deve ter essa capacidade de articular simultaneamente a oferta e o desenvolvimento dos diversos níveis, etapas e modalidades da educação.
As diretrizes e metas de um Plano Nacional de Educação têm relação direta com o projeto político e de desenvolvimento que se quer para o país. Por exemplo, se é desejo dos dirigentes de uma nação a redução de sua dependência tecnológica em relação aos países industrializados, é fundamental que o governo invista em pesquisa para dotar nossas universidades de maior capacidade de produção científica.
Assim, um PNE não pode limitar-se somente a repassar recursos, mas deve estar subordinado a uma estratégia de desenvolvimento nacional que leve em consideração a conquista de maior soberania do país e a resolução de seus problemas sociais estendendo ao conjunto da população o direito de educar-se.
No entanto, a maior prova do compromisso do governo com a construção de um sistema nacional de educação pública é dada pelo montante de recursos disponibilizados ano a ano para realizar as metas estabelecidas. Da mesma forma que não se estabelecem metas para a construção de uma mansão com recursos suficientes somente para erguer um casebre ou com recursos que, de tão escassos, só terminarão a obra após décadas, a verba destinada para atender às prioridades de um PNE devem ser suficientes para o crescente acesso de parcelas cada vez mais significativas da população aos diversos níveis e modalidades de ensino.
Em suma, os recursos são fundamentais para assegurar a educação universalizada e de qualidade para todos. É preciso ter claro que, em países como o Brasil, que tem diversas deficiências na área educacional, a quantidade de recursos destinada para o ensino deve ser muito maior do que daquelas nações que já possuem sistemas de educação construídos. Isso porque, enquanto nós precisamos de recursos para concluir a organização da educação nacional e depois mantê-la, nos países desenvolvidos, os recursos são gastos somente com a manutenção.
Voltando ao exemplo da obra, o Brasil necessita construir seu prédio educacional e mantê-lo. Outros países, que já realizaram sua obra educacional há mais de cem anos, precisam de recursos só para a manutenção do seu “edifício da educação”.
2.9.1 PNE: breve histórico
O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, propunha organizar um plano educacional em todo o país que universalizasse o ensino e assegurasse educação pública e de qualidade. Foi a primeira iniciativa de modernização da sociedade brasileira por meio da educação.
A Constituição de 1934 introduziu também instrumentos importantes para a organização da educação nacional. Estabeleceu como competência da União, a fixação de um plano nacional de educação e a coordenação de sua fiscalização e execução em todo o país. Além disso, previu a criação de um Conselho Nacional de Educação que seria responsável pela elaboração do PNE. Com o advento do Estado Novo, em 1937, o PNE, que se encontrava em processo de elaboração, acabou não vingando.
As diferenças de pensamento no interior da sociedade – expressas, por um lado, na orientação do papel do Estado como planejador do desenvolvimento do país de forma a diminuir sua histórica dependência externa; e de outro, pelos defensores do mercado e da iniciativa privada como impulsionadores do desenvolvimento sem a interferência do Estado – marcarão o debate educacional entre 1946 e 1964, período conhecido como República Nova.
Esta última tendência prevaleceu e a LDB de 1961 trouxe uma concepção de PNE restrita à distribuição de recursos públicos para os diferentes níveis de ensino, disponíveis até para instituições privadas, como assinalou Saviani (2004). Mesmo previsto pela LDB, o Plano Nacional de Educação, elaborado por Anísio Teixeira, não chegou a concretizar-se. Em 1964, os militares assumem o poder por meio de um golpe de Estado, destituindo João Goulart da Presidência da República. Uma característica desse período é a subordinação do Ministério da Educação ao Ministério do Planejamento, evidenciando a substituição dos educadores pelos tecnocratas na formulação do planejamento educacional. Dessa forma, conforme Saviani (2004), “os planos para a área de educação decorriam diretamente dos Planos Nacionais de Desenvolvimentos (PNDs), recebendo, por isso mesmo, a denominação de “Planos Setoriais de Educação e Cultura (PSECs)”. A concepção da escola nova que havia influenciado o entendimento dos PNEs até então como um mecanismo de utilização na educação da racionalidade científica, é substituída pela visão tecnicista da educação. Triunfa a concepção de PNE como instrumento de racionalidade tecnocrática.
A Nova República, a partir de 1985, mantém os mecanismos autoritários de planejamento e execução de políticas educacionais. O centralismo da formulação dos planos educacionais, verificado na cúpula governamental durante o regime militar, é substituído pela descentralização em que a fragmentação e o descontrole são as marcas das ações na área de educação.
Em 1993, no governo de Itamar Franco, é lançado o Plano Decenal de Educação para Todos. Tal plano estava focalizado na oferta do ensino fundamental e da educação infantil, sobretudo na faixa etária de 4 a 6 anos. Esse foco revelava as limitações do Plano, que não se propunha a atacar a problemática educacional como um todo nem estruturar um sistema nacional de educação que atendesse as múltiplas demandas por qualidade da educação brasileira.
Como você viu até agora, o processo de elaboração da legislação educacional brasileira tem se caracterizado pelo confronto entre conservadores e progressistas. Com o PNE não seria diferente, pois observamos as forças conservadoras defendendo um Estado autoritário, centralizador na elaboração de políticas, mas mínimo nos gastos sociais. Por outro lado, setores da sociedade civil, representando as forças progressistas, pressionando pela democratização do Estado e seu empenho no financiamento da educação pública.
Assista ao vídeo sobre PNE para saber mais sobre o assunto:
O Plano Nacional de Educação (PNE). Campanha Nacional pelo Direito à Educação.
No dia 25 de junho de 2014, na forma da Lei 13.005, a presidenta Dilma Rousseff sancionou sem vetos o Plano Nacional de Educação. As conquistas do texto final, inegavelmente maiores do que as da versão original, se devem à influência da sociedade civil, em especial da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que atuou de maneira incansável para melhorar o texto da lei. Esteve sempre presente nos momentos de tramitação do plano no Congresso Nacional. Trabalhou com todos os partidos e buscou negociar com o Ministério da Educação. Percorreu o país inteiro debatendo PNE, assumindo o protagonismo que fez dela a principal fonte da imprensa brasileira sobre o assunto.
Mas para entender melhor por que o PNE representa um grande e importante passo para o país, é preciso voltar ao começo desta caminhada. Em 1988, a Constituição Federal, por meio do artigo 214, exigiu a formulação de Planos Nacionaisde Educação, uma lei que determina metas para cada 10 anos. Portanto, uma política de Estado e não um programa restrito a um governo. No primeiro PNE (2001/2010), poucos avanços foram alcançados por causa da falta de controle social na implementação da lei, da menor participação da sociedade em sua elaboração e por conta dos vetos do ex-presidente FHC, mantidos pelo ex-presidente Lula.
No começo de 2010, foi realizada a Conferência Nacional de Educação. A CONAE aprovou um documento que deveria apoiar a construção do segundo plano e foi antecedida por etapas estaduais. A conferência teve a participação ativa da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que integrou a comissão organizadora e contou com uma das mais fortes delegações. A realização de conferências é uma das bandeiras da Campanha desde 2003. No final do mesmo ano, o poder executivo apresentou sua versão para o Plano Nacional de Educação. A Campanha recebeu o texto de uma jornalista na noite anterior à solenidade marcada pelo governo para a divulgação de sua proposta para o novo PNE. Durante a madrugada, ele foi analisado pela equipe que escreveu o posicionamento público enviado à imprensa no final da manhã seguinte. Assim, no dia 15, logo após a reunião com o presidente Lula e o então ministro Fernando Haddad, inúmeras matérias traziam críticas ao texto. Os questionamentos eram pautados pela argumentação da Campanha enviada no começo do dia e que mostrava que o Plano não respeitava as deliberações da CONAE.
As ações continuaram no começo de 2011. Durante o recesso parlamentar, a Campanha arregaçou as mangas. O intenso trabalho deste período criou o movimento “PNE pra Valer”, planejado e coordenado pela Campanha. Representando inúmeras organizações, a Campanha assumiu o protagonismo das mudanças. Em fevereiro, distribuiu um CD com 117 emendas que demonstravam as fragilidades do projeto de lei do governo. A partir delas, deputados de diversos partidos redigiram outras. Ao todo, mais de 2.900 emendas foram produzidas entre fevereiro e junho. Quando o primeiro relatório substitutivo foi publicado, a Campanha, novamente, em questão de horas, apresentou outras 34 emendas que mais uma vez foram acatadas por parlamentares da situação e oposição.
A Campanha Nacional pelo Direito à Educação foi criada em 1999. Sua missão é colaborar para que todo brasileiro tenha acesso à educação pública de qualidade. Trata-se de uma organização com mais de 200 entidades e movimentos da sociedade civil. É dirigida por um comitê nacional formado por instituições de destaque na área. Uma rede que participou ativamente da aprovação de leis e políticas públicas, como lei das cotas, defesa do piso nacional do magistério, destinação de 50% do fundo social do pré-sal para a educação, de 75% dos royalties do petróleo e de 10% do PIB para as políticas educacionais. Também formulou o mecanismo do custo aluno-qualidade inicial. Por sua atuação no processo de criação do Fundeb, a Campanha recebeu da Câmara dos Deputados, em nome do Congresso Nacional, o Prêmio Darcy Ribeiro em 2007. F foi quando começou a pensar em seu próximo foco: o PNE.
Os resultados bem-sucedidos são amparados por uma argumentação técnica detalhada e mais aprofundada do que a do governo federal, além da capacidade de mobilização social e da mídia. Também se dedica articular com outros segmentos da sociedade e formar atores sociais multiplicadores, construindo assim uma teia de atividades espalhadas por todo o país. No caso do PNE, a participação dos comitês regionais foi fundamental na luta para vencer um dos principais desafios desta jornada: garantir um patamar de investimento equivalente a 10% do Produto Interno Bruto para o financiamento da educação. No Ceará, por exemplo, seminários e debates ajudaram a coordenação nacional a aprimorar o trabalho argumentativo e pressionar parlamentares.
IDEVALDO BODIÃO (CEDECA CEARÁ) - Eu falo aqui também em nome da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, uma entidade que congrega cerca de 200 entidades em pelo menos 20 estados brasileiros. É esse esforço, é esta militância nacional que o Ceará hoje se responsabiliza por representar. Nossa principal bandeira de reivindicações é o cumprimento das deliberações da Conferência Nacional de Educação expressas no seu documento final. É essa a bandeira importante do movimento PNE pra Valer. E nós fazemos pelo entendimento que ele é uma abrangente construção democrática que tem ao mesmo tempo o tamanho da geografia do brasil e tem também a capilaridade de todos os segmentos sociais.
Conforme diagnóstico frágil do governo, 7% do PIB seria suficiente para o PNE. Porém, com isso, só seria possível expandir as matrículas. Já uma nota técnica da Campanha, divulgada em agosto de 2011, mostrou que, para conseguir atender mais alunos e ao mesmo tempo melhorar o padrão de qualidade das escolas, seria necessário um financiamento maior.
DANIEL CARA (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO) - Nenhum cálculo sério, cuidadoso de quanto custa o PNE alcança um patamar inferior a 10% do PIB. E é 10% do PIB de investimento público, na escola pública. Esse é o cálculo que qualquer estudo cuidadoso gera como resultado.
SALOMÃO XIMENES (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO) - Nós entendemos, e aí nós avançamos também nesse sentido, que mais recursos para a educação hoje possibilita inclusive uma melhor gestão dos processos educacionais.
Em maio de 2012, a Campanha colocou em prática toda a sua capacidade de mobilização para garantir que o novo PNE fosse aprovado em sua primeira etapa na Câmara. Era ainda o início da votação na Câmara dos Deputados e durante dois dias o movimento PNE pra Valer promoveu o seu mais forte tuitaço. A estratégia, somada a outras ações que aproveitam o amplo relacionamento da rede, como grupos de e-mails e cartas abertas, foi bem-sucedida e fundamental para que o dia 26 de junho de 2012 se tornasse o marco para a educação brasileira.
DEPUTADO LELO COIMBRA (PMDBES) - Nesse momento coloco em votação o texto que foi motivo de convergência desta comissão e do governo que diz ampliar o investimento público em educação pública de forma a atingir no mínimo o patamar de 7% do Produto Interno Bruto do país no quinto ano de vigência desta lei e no mínimo o equivalente a 10% do PIB ao final do decênio.
A meta 20 que destina 10% do PIB para o financiamento do ensino público foi aprovada por unanimidade pela Comissão Especial do Plano Nacional de Educação da Câmara dos Deputados. Depois desta conquista histórica, o texto da lei seguiu para o Senado e de novo a Campanha entrou em ação. Em uma das atividades, mais de 100 representantes da rede fizeram um arrastão de porta em porta. Integrantes de 25 comitês estaduais visitaram gabinetes para entregar uma carta com demandas referentes ao PNE. O documento acabou sendo lido no plenário pelo senador Paulo Paim, que destacou a meta de financiamento público para a educação pública.
SENADOR PAULO PAIM (PT/RS) - A rede da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, composta por mais de 200 entidades distribuídas em todo o Brasil, reunida em seu 9º Encontro Nacional, dedicado a problematizar a educação e a ação política no Brasil de hoje, perspectivas para a incidência da sociedade civil, solicita seu compromisso, no caso nosso compromisso, na aprovação do Plano Nacional de Educação com celeridade, sem qualquer prejuízo às conquistas estabelecidas pela sociedade civil na Câmara dos Deputados.
Mesmo com todo o esforço, o texto aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado vetou um ponto importante relacionado ao custo aluno-qualidade inicial. O dinheiro público também financiaria a educação privada infelizmente.
DANIEL CARA (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO) - O mecanismo do custo aluno-qualidade inicial exige complementação da União na ordem de R$ 46 bilhões e foi exatamente isso que o senador Vital do Rêgo retirou de seu relatório, os demais senadores concordaram.
A incidência pela inclusão do custo aluno-qualidade inicial do PNE foi uma decisãoestratégica tomada pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Era um dos principais pontos do planejamento de 2007. Desde 2002, a rede realiza grupos de trabalho, oficinas, debates e estudos sobre o mecanismo. Para chegar ao cálculo final, foi necessário entender que tipo de escola garante o ensino público com padrão mínimo de qualidade. É preciso professores bem remunerados, com plano de carreira e formação continuada, número adequado de estudantes por sala de aula. Também são necessários laboratórios de informática e de ciências e bibliotecas com acervo de referência e literatura. O CAQi, criado pela Campanha, expressa o direito de estudantes e educadores e organiza o orçamento da educação de maneira mais justa e afeita ao controle social. A importância de usar o custo aluno-qualidade inicial como parâmetro para o financiamento da educação básica foi reconhecida pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado e voltou para o texto da lei em novembro de 2013. Mesmo assim, em dezembro, por pressão do Palácio do Planalto, o CAQi foi praticamente retirado do documento. Depois de aprovado pelo Senado, o projeto do novo PNE voltou para a Câmara dos Deputados e, no começo de junho de 2014, após incansável trabalho da Campanha, a votação dos destaques foi concluída, com o CAQi incorporado e servindo como parâmetro para o financiamento do ensino público. Mais uma vitória da Campanha.
GRITOS DO PÚBLICO NO PLENÁRIO DA CÂMARA DOS DEPUTADOS - A nossa luta é todo dia. Educação não é mercadoria.
DANIEL CARA (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO) - Como é bom estar na Câmara dos Deputados, porque no Senado Federal isso seria impossível. É importante ouvir a voz da sociedade na questão do Plano Nacional de Educação. Bom, eu queria trazer aqui a posição da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que defende integralmente e unanimemente a posição de que o texto de Plano Nacional de Educação que está mais próximo do interesse da sociedade civil, que é possível agora é o texto da Câmara dos Deputados. Então a gente não abre mão de nenhum aspecto constante do texto da Câmara dos Deputados. É que o custo aluno-qualidade inicial é a única alternativa que nós temos e a complementação da União para fazer com que daqui a 10 anos toda a responsabilidade pela educação básica não seja de Estados e municípios. Quero deixar claro para os deputados que o cenário que é posto o seguinte: se o custo aluno-qualidade inicial e o custo aluno-qualidade forem implementados tal como o projeto do Senado, toda a responsabilidade pela qualidade da educação básica vai recair sobre prefeitos e governadores. Prefeitos e governadores que não têm a capacidade financeira de dar conta das necessidades da educação básica. A Constituição, no artigo 211, parágrafo primeiro, vai dizer que é obrigação da União, do governo federal portanto, colaborar técnica e financeiramente com Estados e municípios para garantir um padrão mínimo de qualidade. Isso nunca foi feito no Brasil, não só por este governo, mas também pelos governos que o antecederam até 1988. Então eu quero deixar claro que a reivindicação dos estudantes aqui não é simplesmente do movimento estudantil, mas é de todo o movimento educacional brasileiro. E a cada a cada dia que passa, cada vez mais, é a reivindicação da sociedade brasileira. Então os deputados têm que ter clareza da demanda com a sociedade está trazendo para esta Casa. Muito obrigado.
Essa conquista foi validada e acompanhada de perto pela mídia, reconhecida pelos movimentos sociais e comemorada por todos os brasileiros.
CLEUSA REPULHO (EX-PRESIDENTA DA UNDIME) - Passados então quatro anos, é importante destacar que agora, depois da aprovação e da sanção do PNE, nós conquistamos o CAQi, o custo aluno-qualidade, os 10 % do PIB, os royalties para a educação, 75% para a educação e 25% para a saúde.
Finalmente, no dia 25 de junho de 2014, o PNE foi sancionado sem vetos pela presidenta da República. O documento de 80 páginas, que levou quase quatro anos para chegar à sua versão final, estabelece 20 metas e estratégias para os próximos 10 anos e propõe um novo futuro para a educação brasileira.
ESTUDANTES EM CORO - Brilhou no céu da pátria nesse instante. Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte, em teu seio, ó liberdade, desafia o nosso peito a própria morte! Ó pátria amada, Idolatrada, Salve! Salve! Brasil, um sonho intenso, um raio vívido....
DANIEL CARA (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO) - O PNE vai disso tudo? Não, eu não acho que em 10 anos a gente vai resolver o problema, mesmo com todas as metas cumpridas. Mas a gente pelo menos se aproxima muito dos países que têm uma educação com maior qualidade, mesmo aqui na nossa região, como Chile, Argentina e Uruguai. Então a gente vai dar um passo. Esse passo vai ser muito importante.
No dia 12 de agosto de 2015, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, em nome do Congresso Nacional, concedeu o prêmio Darcy Ribeiro a Daniel Cara, coordenador geral da Campanha. Foi um reconhecimento ao trabalho de incidência da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, da construção do Plano Nacional de Educação, na destinação dos royalties do petróleo e de metade do fundo social do pré-sal para a área e na inclusão do custo aluno-qualidade inicial - CAQi e do custo aluno qualidade – CAQ no PNE.
2.9.2 O PNE atual
A elaboração do atual PNE, que deveria ter vigência entre 2011-2020, ainda não foi concluída, encontrando-se em debate no Congresso Nacional. Tal situação é preocupante, pois há um atraso de pelo menos três anos para se superar enormes desafios educacionais do País. O cenário é delicado porque a aplicação do PNE anterior resultou num retumbante fracasso, como descreveremos brevemente a seguir.
Logo do PNE composto pelas siglas do programa.
Figura 1 - PNE
Fonte: MEC
O processo de elaboração do PNE 2001-2010 pautou-se pelo confronto de duas propostas: uma, do Ministério de Educação (MEC) e outra, da sociedade civil por meio do Congresso Nacional de Educação (CONED). O centralismo foi uma das marcas da proposta do MEC, levada ao Congresso Nacional em fevereiro de 1998. A exposição de motivos, assinada pelo então ministro Paulo Renato de Souza, ressaltava que o PNE representava o:
[...] ponto culminante de um processo cujo objetivo permanente foi o de dotar o sistema educacional brasileiro de um conjunto de diretrizes e metas que possam orientar e balizar a política educacional do país, com vista ao resgate de uma dívida historicamente acumulada. (SAVIANI, 2004, p. 91).
Saviani (2004) indicava então uma série de limitações da proposta do MEC, principalmente no tocante à participação financeira do Estado na implementação do PNE. Para ele, era uma continuidade da política do MEC, uma compressão de gastos públicos e transferência de responsabilidades para os estados e municípios, entidades privadas e filantrópicas.
Já o Plano Nacional de Educação – Proposta da Sociedade Brasileira – foi resultado de um longo processo de debate organizado por entidades ligadas à educação que em boa parte estavam vinculadas ao Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública. Os debates realizados em todo o território nacional foram consolidados no II CONED, realizado em novembro de 1997. Essa proposta de PNE foi incorporada na Câmara dos Deputados pela bancada de oposição ao governo e apresentada no parlamento em fevereiro de 1998. Ela enfrentou uma maioria conservadora no Congresso Nacional, resistente à realização das profundas mudanças educacionais que propunha.
Apesar do controle exercido pela maioria governista na tramitação do projeto de lei do PNE, a pressão social dos estudantes e profissionais de educação produziu alguns avanços no PNE aprovado. Eles estão materializados mais claramente no tema “financiamento da educação”. Foi aprovado o índice de 7% do PIB a ser gasto com educação até o final do Plano, previsto para dez anos. A conclusão da tramitação do PL n. 4.155/98 revelou uma grande distância entre a proposta da sociedade brasileirae a lei do PNE aprovada.
Os pequenos avanços inseridos na lei do PNE foram vetados pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso. Este admite que as medidas contidas na lei aprovada no Parlamento referentes ao financiamento da educação contrariavam as determinações da área econômica do governo e sua política de redução de gastos sociais. Dessa forma, justificou-se o veto à meta que previa atingir a aplicação em educação de 7% do PIB em dez anos.
No fim de 2010, ao final da vigência do PNE de 2001, verificou-se que as metas de atendimento para a educação infantil não foram atendidas: em vez de 50% de atendimento em creches, havia-se chegado a 17%. Tanto que a mesma meta foi reeditada para o PNE seguinte. As metas quantitativas de expansão da educação superior e da EJA também ficaram muito aquém do pretendido. E, sobretudo, não se atingiram as metas de qualidade na escola pública, nem mesmo no ensino fundamental, que já foi praticamente universalizado.
Outro aspecto que contribuiu para o fracasso do último PNE foi o descompromisso da maioria dos estados e municípios que, não obedecendo ao art. 2º da Lei 10.172, deixaram de elaborar seus planos decenais de educação. Some-se a isso tantos outros que o fizeram, mas não o executaram. Também a União acabou não assumindo a política de Estado (PNE) ao decretar e seguir o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), uma política de governo. Portanto, foi no rastro de um PNE fracassado que se iniciaram os debates do atual plano. O desafio é maior porque há necessidade de sistematizar estratégias que consolidem um sistema público de ensino com qualidade que proponha medidas que não foram previstas ou cumpridas no PNE anterior.
Seguindo os preceitos constitucionais – Art.214, já com os efeitos da Emenda Constitucional nº 59, o novo PNE começou a ser debatido pela CONAE nas esferas municipais e estaduais, em 2009, e nacionalmente, em 2010. Vale lembrar que, diferentemente do PNE anterior, verificou-se um ambiente de diálogo entre governo e sociedade, demonstrado, entre outras ações, na convocação do CONAE pelo MEC em abril de 2010 com ampla participação da sociedade civil. Isso resultou na apresentação e tramitação, até o momento, de uma única proposta de PNE no Congresso Nacional. Entretanto, o projeto de lei de iniciativa do governo (PL nº 8.035) só foi enviado ao Congresso Nacional em dezembro de 2010, inviabilizando sua implantação em 2011. O projeto de lei consta de doze artigos e um anexo que contém vinte metas e as respectivas estratégias para atingir cada uma delas.
Art. 2º
I – erradicação do analfabetismo;
II - universalização do atendimento escolar;
III – superação das desigualdades educacionais;
IV – melhoria da qualidade do ensino;
V – formação para o trabalho;
VI – promoção da sustentabilidade socioambiental;
VII – promoção humanística, científica e tecnológica do país;
VIII – estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção de produto interno bruto;
IX – valorização dos profissionais da educação; e
X – difusão dos princípios da equidade, do respeito à diversidade e da gestão democrática da educação.
O financiamento do PNE é tratado no art. 5º, que prevê uma possível revisão da meta de ampliação do investimento público a partir de uma avaliação do mesmo no quarto ano de sua vigência. Já o Art. 6º assegura mecanismos de participação e controle social ao prever a realização de duas conferências nacionais de educação sob a coordenação e articulação do Fórum Nacional de Educação. A gestão democrática é tratada no Art. 9º, que determina a aprovação de leis específicas nos níveis municipal, estadual e distrital.
Conforme o art. 7º, a responsabilidade pela execução das metas e a implementação das estratégias para alcançá-las caberá à União, estados e municípios em regime de colaboração. O Art. 8º confirma essa responsabilização dos entes federados ao determinar a realização de planos municipais, estaduais e distrital de educação, ou adequar os já existentes, em consonância com PNE, até um ano após a promulgação deste, atentando-se, entre outros aspectos, à construção de sistemas educacionais inclusivos.
O Art. 10 determina que os entes federados deverão formular o seu plano plurianual, as diretrizes orçamentárias e orçamentos anuais compatíveis com as diretrizes, metas e estratégias do PNE e planos distrital, estadual e municipal a fim de assegurar a completa execução dos mesmos. Por fim, no art. 11, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) é apontado como o instrumento avaliativo da qualidade do ensino e acompanhamento da consecução das metas do PNE.
Como já assinalado, o anexo da proposta do PNE é composto por vinte metas com suas respectivas estratégias. Tais metas dissertam sobre a ampliação da oferta de educação básica com vistas à sua universalização, considerando também os alunos com deficiência (metas 1 a 4); alfabetização de todas as crianças até os oito anos de idade (meta 5); oferta de educação em tempo integral em até 50% das escolas públicas de educação básica (meta 6); avanço nas avaliações do IDEB até 2021, nos ensinos fundamental e médio (meta 7); elevação da escolaridade da população pertencente às classes populares na faixa etária de 18 a 24 anos e superação das diferenças na escolaridade média entre negros e não negros (meta 8); erradicação do analfabetismo e redução em até 50% do analfabetismo funcional (meta 9); inserção de educação profissional em pelo menos 25% das matrículas dos segundo e terceiro segmento da EJA e duplicação da oferta de educação profissional técnica de nível médio (metas 10 e 11); as metas 12, 13 e 14 focam o ensino superior na elevação de matrículas na graduação, na qualificação do corpo docente desse nível educacional, aumentando o percentual de mestres e doutores, além do crescimento da oferta de matrícula para a pós-graduação (mestres e doutores); a valorização dos professores é objeto das metas 15 a 18 quando preveem a formação continuada com a graduação de todos os docentes na área específica em que atuam e a extensão a até 50% dos professores da educação básica o nível de pós-graduação lato e stricto sensu (metas 15 e 16), elevação salarial com a aproximação do rendimento médio do magistério com mais de onze anos de escolaridade com outros profissionais com instrução equivalente (meta 17) e construção de plano de carreiras em todos os sistemas de ensino (meta 18); a meta 19 prevê a aprovação de lei específica nos diversos níveis da federação que regule com critérios técnicos a nomeação de gestores escolares, assegurando a participação da comunidade escolar; finalmente, a meta 20 trata do financiamento da educação, elevando até 7% do produto interno bruto do país o investimento de recursos públicos em educação.
As metas para as etapas e modalidades da educação básica retomam as quantidades do PNE anterior. Houve mais atenção à qualidade com a introdução de metas no número de escolas em jornada integral e a evolução do IDEB no ensino fundamental e ensino médio e a focos mais claros na educação especial, na educação de jovens e adultos e na educação profissional de nível médio. Em geral, houve consonância com as resoluções da CONAE, com exceção dos temas financeiros - 7% do PIB e não 10% - e silêncio quanto às novas fontes de financiamento.
A tramitação foi conturbada e muito longa na Comissão Especial da Câmara, que acabou aprovando os 10% do PIB. No Senado, onde se encontra desde outubro de 2012 sob o nome de Projeto de Lei da Câmara nº 103, deverá sofrer novas mudanças em três comissões.. Enquanto isso, dois anos se passaram sem plano, os investimentos estacionaram ao redor de 5% do PIB e os estados e municípios se fazem de surdos à exigência constitucional de terem seus planos, à espera da votação do PNE. Ao mesmo tempo, na educação superior e profissional federal se fizeram grandes avanços de 2006 a 2012, duplicando as matrículas na primeira e triplicando na segunda, embora sem plano nem um regime claro de colaboração com os outros entes federativos.É verdade que o governo não espera passivamente a aprovação do PNE para começar a executar algumas estratégias. Por exemplo, em novembro de 2012 foi lançado o plano nacional de alfabetização aos oito anos que é objeto da meta 5.
A valorização dos profissionais da educação é um ponto forte, prevendo-se a formação em nível médio e superior de todos, mas com piso salarial somente para os do magistério. Há espaço para avanços no Senado, mas ao preço de novos atrasos no PNE e nos planos subnacionais.
Bem, podemos afirmar que todas as tentativas de implantação de um Plano de Educação verdadeiramente nacional fracassaram no decorrer de nossa História. Do lançamento do manifesto dos pioneiros da educação em 1932, passando por outros períodos de nossa República no século passado, até o desfecho do PNE 2001/10 foram frustradas as oportunidades de a sociedade brasileira organizar sua educação de forma a assegurar a todos um ensino público de qualidade, democrático, voltado à construção da cidadania e capaz de ser um instrumento de formação tecnológica e, por conseguinte, uma alavanca de desenvolvimento do país.
Enquanto isso, as classes mais abastadas escolhem o caminho da escola privada, já ultrapassado pela maioria das nações desenvolvidas da Europa, América do Norte e Ásia. Como não repetir os fracassos anteriores e dotar a sociedade brasileira de um plano educacional que inclua todos os brasileiros com qualidade e definitivamente salde essa dívida com nosso povo?
Como você estudou no módulo 5 do bloco pedagógico, a sociedade é dividida em classes sociais. Estas têm interesses diferentes entre si e há uma constante disputa no interior da sociedade e nos diversos espaços do estado pela hegemonia, ou seja, pela capacidade de um segmento social dirigir toda a sociedade conforme seus interesses de classe. Historicamente, somos dirigidos por uma elite (grandes empresários, fazendeiros, banqueiros etc.) que, em função da consolidação de suas reivindicações, marginalizou-se boa parte das classes populares tornando nosso país um dos mais desiguais do mundo.
Nos últimos dez anos, com a ascensão ao Palácio do Planalto de governos populares, houve avanços sociais importantes que significaram a retirada de milhões de brasileiros da pobreza absoluta, a diminuição do desemprego, o aumento da renda salarial e a extensão de programas de inclusão social. No entanto, ainda é longo o caminho para a construção de um país para todos.
Dentro de uma estratégia de desenvolvimento nacional que dê oportunidades para o conjunto da sociedade brasileira, a construção de um sistema educacional público e de qualidade é um pilar fundamental. E daí a importância de um plano nacional de educação que construa, consolide e mantenha esse sistema público de ensino.
Pelo menos dois fatores contribuíram para que o último PNE fracassasse: o financiamento insuficiente e a negligência da maioria dos estados e municípios que não elaboraram seus planos decenais de educação. Isso não pode ocorrer novamente, sob pena de jogarmos no lixo uma oportunidade histórica.
Pois bem, uma das divergências entre o plano do governo e o aprovado na CONAE é qual a porcentagem do PIB – produto interno bruto, que reflete toda a riqueza no país – deve ser aplicada na educação. O primeiro apontou 7%, enquanto o segundo 10%. É verdade que o governo avançou e vem buscando fontes que possam sustentar o investimento de 10% na educação. Um exemplo é a aplicação dos recursos provenientes da exploração do petróleo do Pré-sal na educação. Além das resistências a essa proposta no Congresso Nacional, cabe saber quando tais recursos estarão disponíveis. Já deveríamos estar no terceiro ano de vigência do PNE, são urgentes os aumentos de financiamento não só na rede federal como nas estaduais e municipais, cujos governos poderiam estar arrecadando e aplicando em educação muitos tributos, que hoje são sonegados ou têm isenção legal. Está provado que as pessoas com mais capacidade contributiva são as que menos pagam os impostos dos quais derivam as verbas para a educação pública.
A sociedade civil precisa entrar em cena de forma mais vigorosa para pressionar o governo e o parlamento e assim assegurar os 10% no financiamento do PNE. Isso significa redistribuição de recursos e fim de privilégios que certamente afetarão setores privilegiados que têm forte representação no Congresso Nacional. Mas não existem atalhos para a conquista de recursos necessários para revolucionar a educação brasileira. Outro aspecto importante para que o PNE tenha êxito é assegurar mecanismos que forcem os gestores estaduais e municipais a construir seus planos decenais de educação. Tais planos já podem ser feitos, mesmo antes da conclusão do PNE. A colaboração entre União, estados e municípios é fundamental para que um sistema educacional universalizado e de qualidade seja erguido.
Lembra-se de que em outros módulos do presente curso você já foi chamado a atuar de forma mais participativa para mudar a realidade educacional do seu local de trabalho e de sua cidade? Está aí uma boa oportunidade: cobre, apoiado pelo Conselho Escolar de sua Escola, do Secretário de Educação, do prefeito e da Câmara de Vereadores a elaboração do plano decenal de educação do seu município. Esta é uma das formas de você atuar para mudar a realidade educacional de sua cidade. Lutemos para que o atual governo, que dá continuidade aos dois mandatos do presidente Lula e é identificado com as causas populares, se esforce para a aprovação de um PNE que consiga resgatar essa enorme dívida social do estado brasileiro com o seu povo, construindo sistemas educacionais nas três esferas de governo que propiciem educação pública de qualidade para todos.
Referência:
SAVIANI, Dermeval. Da nova LDB ao novo plano nacional de educação: por uma outra política educacional. 5. ed. São Paulo: Autores Associados, 2004.
2.10 Marcos normativos dos sistemas de ensino
Depois de considerarmos os marcos federativos da legislação educacional – Constituição, LDB e outras leis federais, estaduais e municipais - vamos agora dar atenção a um outro conjunto de disposições reguladoras da educação que são próprias de nosso “mundo pedagógico”: as normas dos conselhos de educação, no âmbito dos sistemas de ensino.
Essas normas – traduzidas na maioria por Pareceres e Resoluções – estão presentes no dia a dia das escolas e, principalmente, no cotidiano das secretarias das escolas. Passemos rapidamente a descrever como nasceram e se desenvolveram os colegiados normativos a que estamos nos referindo, hoje presentes no âmbito federal (Conselho Nacional de Educação), estadual (Conselhos Estaduais de Educação), municipal (Conselhos Municipais de Educação) e do Distrito Federal (Conselho de Educação do Distrito Federal).
Na história da educação brasileira, legislação e normas se confundiram até 1834. Às regras das Aulas Régias de 1772 sucedeu a Lei Imperial de 15 de outubro de 1827. O Ato Adicional à Constituição do Império possibilitou que surgissem os sistemas de ensino das províncias e, com a República em 1889, dos Estados. Às leis do Poder Legislativo Central e de cada ente federado, somaram-se as normas do Poder Executivo - tanto do Titular do Órgão da Educação, quanto dos Conselhos que aos poucos se criaram. As leis abarcavam regras gerenciais e educacionais; já as normas foram se centrando em preceitos pedagógicos e curriculares. O Conselho Nacional de Educação (CNE), vinculado à estrutura do Ministério da Educação (MEC), tem seus antecedentes ao longo do século passado com a criação do Conselho Superior de Ensino em 1911, substituído pelo Conselho Nacional de Ensino em 1925, e pelo Conselho Nacional de Educação em 1931.
Em 1961, com a promulgação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, este Conselho passou a ser denominado Conselho Federal de Educação, quando também se instalaram os Conselhos Estaduais. A instância municipal só passou a contar com conselhos com a Lei 5.692, em 1971. Em 1995, a Lei 9.131 recriou o Conselho Nacionalde Educação. O novo CNE passa a ser “composto pelas Câmaras de Educação Básica e de Educação Superior, terá atribuições normativas, deliberativas e de assessoramento ao Ministro de Estado da Educação e do Desporto, de forma a assegurar a participação da sociedade no aperfeiçoamento da educação nacional”.
No art. 7º, a Lei 9.131 estabelece também como competências do CNE:
subsidiar a elaboração e acompanhar a execução do Plano Nacional de Educação;
manifestar-se sobre questões que abranjam mais de um nível ou modalidade de ensino;
assessorar o Ministério da Educação e do Desporto no diagnóstico dos problemas e deliberar sobre medidas para aperfeiçoar os sistemas de ensino, especialmente no que diz respeito à integração dos seus diferentes níveis e modalidades;
emitir parecer sobre assuntos da área educacional, por iniciativa de seus conselheiros ou quando solicitado pelo Ministro de Estado da Educação e do Desporto;
manter intercâmbio com os sistemas de ensino dos Estados e do Distrito Federal;
analisar e emitir parecer sobre questões relativas à aplicação da legislação educacional, no que diz respeito à integração entre os diferentes níveis e modalidade de ensino;
elaborar o seu regimento, a ser aprovado pelo Ministro de Estado da Educação e do Desporto.
Sua Câmara de Educação Básica tem as seguintes atribuições:
examinar os problemas da educação infantil, do ensino fundamental, da educação especial e do ensino médio e tecnológico e oferecer sugestões para sua solução;
analisar e emitir parecer sobre os resultados dos processos de avaliação dos diferentes níveis e modalidades mencionados na alínea anterior;
deliberar sobre as diretrizes curriculares propostas pelo Ministério da Educação e do Desporto;
colaborar na preparação do Plano Nacional de Educação e acompanhar sua execução, no âmbito de sua atuação;
assessorar o Ministro de Estado da Educação e do Desporto em todos os assuntos relativos à educação básica;
manter intercâmbio com os sistemas de ensino dos Estados e do Distrito Federal, acompanhando a execução dos respectivos Planos de Educação;
analisar as questões relativas à aplicação da legislação referente à educação básica;
Cabe a todos os Conselhos de Educação emitir pareceres e resoluções que esclareçam e normatizem a legislação educacional, determinando e orientando os procedimentos administrativos das unidades escolares. O parecer deve ser sustentado em bases confiáveis e tem por objetivo esclarecer, interpretar e explicar questões apresentadas pelos usuários do sistema educacional, seja profissional, aluno ou responsável por aluno. As bases das decisões apresentadas nos pareceres são, via de regra, artigos científicos e a própria legislação.
E qual seria a relação de um parecer com o meu cotidiano de trabalho numa secretaria de escola? Pois bem, são muitas as questões que requerem esclarecimentos de profissionais especializados ou consultas às normas do Conselho Nacional de Educação (CNE) e dos outros conselhos, segundo o sistema de ensino onde se situa a escola. Muitas situações implicam em obstáculo ao exercício, ou mesmo em perda de direitos. Pois, a complexidade legislativa e o pouco esclarecimento da população sobre as leis acabam por gerar interpretações e muitos equívocos quanto ao que se pode ou não fazer na educação.
Na secretaria das escolas são frequentes as demandas por esclarecimentos tais como: o aluno que completará 6 anos de idade no decorrer do ano poderá ser matriculado no 1º ano, no início do período letivo? Quem já tem domínio de uma língua estrangeira pode ser dispensado da disciplina no ensino médio? Quem foi aprovado num exame vestibular de universidade pública sem ter concluído o ensino médio poderá fazer matrícula na educação superior? Estas são apenas algumas das questões polêmicas nos últimos tempos e que dependem de normas dos conselhos de educação já existentes ou que podem ser objeto de consulta.
Figura 1 - Linha do tempo documentos curriculares
Fonte: site Instituto Reuna
Descrição da imagem: 1988: Constituição Federal; 1996: Lei de Diretrizes e Bases; 1997-2013: Diretrizes curriculares; 2014: BNCC entra no PNE; 2015, 2016 e 2017: construções na BNCC; 2018: Currículos Estaduais/BNCC.
2.10.1 Pareceres e resoluções
O Conselho Nacional de Educação, em sua nova fase de atuação, desde 1996 – ano de publicação da atual LDB – tem emitido pareceres e resoluções que podemos assim classificar:
Diretrizes Curriculares sobre as etapas e modalidades da educação básica e sobre os cursos da educação superior;
Diretrizes nacionais sobre outros temas de política educacional, interpretando a LDB ou respondendo a consultas que lhe são submetidas por órgãos educacionais ou por pessoas físicas ou jurídicas;
Pareceres sobre consultas pontuais a respeito de temas e situações na educação, raramente acompanhados de resoluções.
Quanto ao primeiro grupo de documentos, já que tratamos da formação de profissionais da educação básica, deixamos de citar os inúmeros pareceres sobre cursos de graduação e de pós-graduação e enfatizamos as seguintes matérias curriculares, que os técnicos em secretaria escolar forçosamente devem conhecer, sob a forma de Parecer ou Resolução:
Diretrizes Curriculares da Educação Básica - Resolução CNE/CEB nº 4, de 13 de julho de 2010
Diretrizes Curriculares da Educação Infantil - Resolução CNE/CEB n.º 1, de 7 de abril de 1999 - Resolução CNE/CEB nº 5, de 2009 ;
Diretrizes Curriculares do Ensino Fundamental - Resolução CNE/ CEB n.º 2, de 7 de abril de 1998; Resolução CNE/CEB nº 1 de 2010; Resolução CNE/CEB nº 7, de 14 de dezembro de 2010
Diretrizes Curriculares do Ensino Médio - Resolução CNE/CEB n.º 3, de 26 de junho de 1998; Resolução CNE/CEB nº 2, de 30 de janeiro de 2012
Diretrizes Curriculares da Educação Profissional- Resolução CNE/ CEB n.º 4, de 8 de novembro de 1999; Resolução CNE/CEB nº 6, de 2012
Diretrizes Curriculares da Educação do Campo - Resolução CNE/ CEB n.º 1, de 3 de abril de 2002
Diretrizes Curriculares do Curso Normal de Nível Médio - Resolução CNE/CEB nº 2, de 1999; Resolução CNE/CEB n.º 1, de 20 de agosto de 2003
Diretrizes Curriculares da Educação Especial- Resolução CNE/CEB n.º 2, de 11 de setembro de 2001; Resolução CNE/CEB nº 4, de 2009
Diretrizes Curriculares da Educação de Jovens e Adultos - Resolução CNE/CEB nº 2, de 19 de maio de 2010; Resolução CNE/CEB nº 3, de 15 de junho de 2010; (diretrizes operacionais)
Diretrizes Curriculares da Educação Indígena- Resolução CNE/CEB nº 5, de 22 de junho de 2012
Diretrizes Curriculares da Educação Quilombola- Resolução CNE/ CEB nº 8, de 20 de novembro de 2012
Cumpre registrar aqui que cada sistema estadual e municipal pode e, muitas vezes, deve emitir pareceres e resoluções sobre matéria curricular, principalmente em relação à Parte Diversificada do Currículo, que compõe com a Parte Comum o Currículo Pleno de cada curso no âmbito da educação básica. À própria escola, em progressivos graus de autonomia pedagógica, cabe tomar decisões curriculares, a exemplo da escolha da Língua Estrangeira Moderna e da forma como desenvolvê-la – segundo o § 5º do art. 26 da LDB. Quanto ao segundo grupo de documentos dos conselhos, elencamos algumas das matérias sobre as quais o CNE e outros conselhos têm-se pronunciado:
Diretrizes Operacionais sobre etapas e modalidades de ensino – Resolução 01, de 2010, sobre a implantação do Ensino Fundamental de nove anos; Resolução 2, de 2008, sobre a operacionalização da oferta de educação do campo; Resolução 3, de 2008, sobre o Catálogo Nacional de Cursos Técnicos de Nível Médio.
Formação e Carreira dos Profissionais da Educação - Resolução CNE/CEB n.º 3, de 8 de outubro de 1997; Resolução CNE/CEB n.º 2, de 19 de abril de 1999; Resolução CNE/CEB n.º 1, de 20 de agosto de 2003; Resolução CNE/CEB nº 5, de 22 de novembro de 2005; Resolução CNE/CEB nº 2, de 28 de maio de 2009; Resolução CNE/CEB nº 5, de 3 de agosto de 2010;Financiamento da Educação - Resolução CNE/CEB nº 1, de 27 de março de 2008;
Aproveitamento de estudos - Resolução CNE/CEB nº 2, de 10 de março de 2006
Quanto ao terceiro grupo de pronunciamentos dos conselhos, em relação a consultas pontuais, é muito extensa e variada a pauta de assuntos, no CNE e nos demais conselhos. Pesquisando-se, por exemplo, alguns pareceres da Câmara de Educação Básica do CNE em 2012, citamos, como forma de fomentar o espírito de pesquisa dos funcionários de secretarias escolares:
Parecer 03, atualiza o Catálogo Nacional de Cursos Técnicos de Nível Médio;Pareceres 09 e 18, orientam implantação da Lei nº 11.738, de 2008, sobre o Piso Salarial Nacional dos Profissionais do Magistério da Educação Básica Pública;
Parecer 12, fixa diretrizes operacionais para oferta de Educação a Distância em regime de colaboração entre sistemas de ensino;
Parecer 21, ajusta calendários escolares durante a Copa do Mundo em 2014;
Parecer 23, orienta as escolas de educação infantil quanto às suas férias e recessos.
Parecer 12, fixa diretrizes operacionais para oferta de Educação a Distância em regime de colaboração entre sistemas de ensino;
Parecer 21, ajusta calendários escolares durante a Copa do Mundo em 2014;
Parecer 23, orienta as escolas de educação infantil quanto às suas férias e recessos.
A prática de os conselhos emitirem pareceres pontuais se assemelha um pouco à chamada “jurisprudência” dos tribunais, que acumulam uma doutrina a partir das respostas às consultas que, embora particulares, podem gerar preceitos mais gerais. Nesse sentido, incentivamos os funcionários administrativos a que façam também suas consultas aos respectivos conselhos estaduais e municipais quando da ocorrência de dúvidas no cotidiano das escolas e nas reuniões do Conselho Escolar.
Na maior parte dos casos, quando solicitadas oficialmente, além de fundamentadas em leis, normas e decisões da escola, devem apresentar-se na forma de um parecer, esclarecendo de forma clara e objetiva as dúvidas colocadas e as decisões tomadas pela secretaria. Um parecer é a manifestação de técnico ou órgão técnico sobre assunto de sua especialidade. Este documento tem por caráter fundamental sua natureza de julgamento técnico conclusivo, portanto, fará parte do final de todo trâmite administrativo que culmine numa decisão ou esclarecimento. Um parecer poderá ser evocado sempre que uma decisão demande esclarecimentos de profissional ou setor especializado.
Embora sempre técnico, em função do seu objetivo, um parecer pode ser normativo, quando se destina ao estabelecimento de normas ou regulamentação de condutas, ou técnico, quando tem por fim responder a questionamentos, dúvidas, ou finalizar um processo administrativo. No caso dos relativos à secretaria escolar, o parecer emitido pelo secretário será sempre de natureza técnico-administrativo, pois, versará sobre tema da rotina da relação da escola com a comunidade escolar: matrícula, progressão, atestados médicos e outros temas que sempre geram dúvidas e acabam por afetar o exercício de direitos, tanto pelos alunos quanto pelos docentes e demais funcionários da escola.
De uma maneira geral, os pareceres a serem emitidos pela secretaria escolar são simples e poderão ser compostos, sem comprometimento do bom atendimento do setor, dos seguintes itens:
Campo 1: Identificação da Escola – em papel timbrado ou carimbo;
Campo 2: Identificação do documento em numeração sequencial e ano;
Campo 3: Assunto – breve relato da demanda apresentada;
Campo 4: Análise – esclarecimento da demanda o tratamento dado a ela pela legislação;
Campo 5: Conclusão – Decisão embasada no exposto na análise; e
Campo 6: Identificação do funcionário – assinatura do secretário e carimbo do setor ou do secretário.
A segunda forma é a de dois outros documentos, presentes na rotina da educação escolar, a Resolução e a Portaria. Documento de natureza regulamentar e normativa, a Resolução é a expressão de decisão do Conselho Escolar e a Portaria da Direção ou de outra chefia da Escola, a ser cumprida por todos ou por um setor determinado. Observe- -se que as resoluções do Conselho Escolar devem estar baseadas em registros nos seus livros de ata, para resguardar a autenticidade. E as Portarias só têm sentido em escolas de maior tamanho (onde a comunicação informal perde a eficiência) ou quando se tratar de matérias controversas nas quais se pretenda imprimir um toque de maior autoridade ou precisão formal.
3 Gestão de Documentos e Arquivística
3.1 Gestão de documentos
A escrita
A escrita é um conjunto de símbolos dos quais nos servimos para representar e fixar a linguagem falada. O homem primitivo, tendo necessidade de um meio de expressão permanente, recorreu a uma engenhosa disposição de objetos simbólicos ou a sinais materiais (os nós, os entalhes, os desenhos), os quais passaram a ser à base dos primeiros sistemas de escrita (PAES, 2002). A autora afirma que na medida em que os povos atingiam graus elevados de cultura, ou absorviam o que havia de bom nas civilizações mais adiantadas, os sistemas de escrita também foram sofrendo modificações até a invenção da escrita fonética, ou seja, até a invenção do alfabeto.
Logo que os povos passaram a um estágio de vida social mais organizado, os homens compreenderam o valor dos documentos e começaram a reunir, conservar e sistematizar os materiais em que fixavam, por escrito, o resultado de suas atividades políticas, sociais, econômicas, religiosas e até mesmo de suas vidas particulares. Surgiram assim os arquivos, destinados não só a guarda dos tesouros culturais a época, como também à proteção dos documentos que atestavam à legalidade de seus patrimônios, bem como daqueles que contavam a história de sua grandeza.
Segundo Paes (2002), há dúvidas quanto à origem do termo arquivo. Alguns afirmam ter surgido na antiga Grécia, com a denominação arché, atribuída ao palácio dos magistrados. Daí evoluiu para archeion, local de guarda e depósito dos documentos.
Ramiz Galvão (1990) considera o termo procedente de archivum, palavra de origem latina, que no sentido antigo identifica o lugar de guarda de documentos e outros títulos. A gestão de documentos surgiu a partir da necessidade das organizações em gerenciar a informação que se encontrava desestruturada, visando facilitar o acesso ao conhecimento explícito da corporação
“Pode ser considerada como um conjunto de soluções utilizadas assegurar a produção, administração, manutenção e destinação dos documentos possibilitando fornecer e recuperar as informações contidas nos documentos de uma maneira conveniente”. (SANTOS, 2002).
No Brasil, a gestão documental é regulamentada na Lei nº 8.159/91 que “Dispõe sobre a política nacional de arquivos públicos e privados e dá outras providências”
Conceito de Gestão de Documentos
Gestão de Documentos é o “conjunto de procedimentos e operações técnicas referentes à sua produção, tramitação, uso, avaliação e arquivamento em fase corrente ou intermediária, visando sua eliminação ou recolhimento para guarda permanente”. (Artigo 3º Lei nº 8.159/91)
Para que você compreenda melhor, citaremos alguns artigos da lei de gestão de documentos:
Art. 1º Lei nº 8.159/91: ”É dever do Poder Público a gestão documental
e a de proteção especial a documentos de arquivos, como instrumento
de apoio à administração, à cultura, ao desenvolvimento científico e
como elementos de prova e informação”.
Art. 4º Lei nº 8.159/91: “Todos têm direito a receber dos órgãos
públicos informações de seu interesse particular ou de interesse coletivo
ou geral, contidas em documentos de arquivos, que serão prestadas no
prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo
sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado, bem
como à inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da
imagem das pessoas”.
Art. 6º Lei nº 8.159/91: Fica resguardado o direito de indenização pelo
dano material ou moral decorrente da violação do sigilo, sem prejuízodas ações penal, civil e administrativa.
Conforme estabelecido em Lei, a Gestão de Documentos está diretamente ligada com o uso de técnicas arquivísticas, que facilitam a localização, o acesso a informações, o relacionamento com outros documentos e evitam perdas, prazos e acúmulo de documentos desnecessários. (SANTOS, 2002)
Referências:
PAES, Marilena Leite. Arquivos: teoria e prática. Rio de Janeiro: FGV, 2002.
RAMIZ GALVÃO. Vocabulário etimológico, ortográfico e prosódico das palavras portuguesas derivadas da língua grega. Garnier, 1994;
SANTOS, V.B. Gestão de documentos eletrônicos: uma visão arquivística. Brasília: ABARQ, 2002
Assistente de Secretaria Escolar - Turma 2022A
Painel Meus cursos ASE2022A 3 Gestão de Documentos e Arquivística 3.2. Objetivos da gestão de documentos
3.2. Objetivos da gestão de documentos
A gestão de documentos tem por objetivo:
Organizar a produção, administração, gerenciamento, manutenção e destinação dos documentos de modo eficiente;
Agilizar a eliminação de documentos que não tenham valor administrativo, fiscal, legal, histórico e/ou científico;
Assegurar o acesso à informação governamental quando e onde se fizer necessária ao governo e aos cidadãos;
Garantir a preservação e o acesso aos documentos de caráter permanente.
Características dos documentos
Os documentos podem assumir características distintas quanto aos aspectos físicos e de apresentação, sendo:
Suporte - diz respeito ao material sobre o qual as informações são registradas. É a base física dos documentos. Exemplo: fita magnética, filme de nitrato, papel.
Formato - configuração física de um suporte, de acordo com a natureza e o modo como foi confeccionado. Exemplo: caderno, cartaz, dispositivo, folha, mapa, planta, rolo de filme, etc.
Gênero - configuração que assume um documento de acordo com o sistema de signos utilizado na comunicação de seu conteúdo. Exemplo: documentação audiovisual, (fotos) fonográfica (representação gráfica das palavras) iconográfica (imagens).
Espécie - configuração que um documento de acordo com a disposição e a natureza das informações nele contidas. Exemplo: boletim, certidão, declaração, relatório, ata.
Tipo - configuração que assume uma espécie documental, de acordo com a atividade que a gerou. Exemplo: boletim de ocorrência, boletim de frequência e rendimento escolar, certidão de nascimento, certidão de óbito, relatório de atividades, relatório técnico, etc.
Procedimentos Gerais para Gestão de Documentos
A gestão de documentos impõe regras para análise e correto destino da documentação, sendo:
Designar Comissão para avaliação de documentos; (avaliação é um termo utilizado em arquivologia para transferir ou eliminar documentos).
Diagnóstico do acervo;
Seleção por assunto;
Uso das informações (de que maneira as informações serão utilizadas e a frequência);
Definir prazos de guarda: plano de classificação (assunto); tabela de temporalidade; lista de eliminação
3.3 Classificação de documentos
Na opinião de Rosseau e Couture (1998), “A classificação consiste em organizar os documentos produzidos e recebidos pela organização no exercício de suas atividades, de forma a constituir-se em um referencial para a sua recuperação”.
O código de classificação de documentos de arquivo é um instrumento de trabalho utilizado para classificar todo e qualquer documento produzido ou recebido por um órgão no exercício de suas funções e atividades. A classificação por assuntos é utilizada com o objetivo de agrupar os documentos sob um mesmo tema, como forma de agilizar sua recuperação e facilitar as tarefas arquivísticas relacionadas com a avaliação, seleção, eliminação, transferência, recolhimento e acesso a esses documentos, uma vez que o trabalho arquivístico é realizado com base no conteúdo do documento. Portanto, a classificação define a organização física dos documentos arquivados, constituindo-se em referencial básico para sua recuperação.
Um importante método de classificação de documentos foi desenvolvido por Mevil Dewey (1851-1931). Este método é utilizado nas bibliotecas, e, em grande parte também por instituições públicas e privadas. O método apresenta configuração decimal, sendo:
· 000 – Obras Gerais
· 100 – Filosofia
· 200 – Religião
· 300 – Ciências Sociais
· 400 – Linguística
· 500 – Ciências Puras
· 600 – Ciências Aplicadas
· 700 – Artes divertimentos
· 800 – Literatura
· 900 – História Geografia.
Agora, vamos adaptar esse modelo decimal para a administração pública e teremos a seguinte configuração:
O Código de classificação de documentos de arquivo para a administração pública, atividades meio, possui duas classes comuns a todos os seus órgãos: a classe 000 que se refere aos assuntos de Administração Geral e a classe 900 que corresponde a Assuntos Diversos.
As demais classes (100 a 800) destinam-se aos assuntos relativos às atividades fim do órgão. Estas classes não são comuns, cabendo aos respectivos órgãos sua elaboração seguindo orientações da instituição arquivística na sua esfera específica de competência. Vejamos um exemplo aplicado ao setor público com o código 000 – Administração Geral:
Tabela 1 - Classificação de documentos
Classificação do Documento - Código Decimal
Classe
000
Administração Geral
Subclasses
010
Organização e Funcionamento
020
Pessoal
030
Material
040
Patrimônio
050
Orçamento e Finanças
060
Documento e Informação
070
Comunicações
080
(vaga)
090
Outros assuntos referentes à administração geral
Grupo
012
Comunicação Social
Subgrupos
012.1
Relações com a Imprensa
012.11
Credenciamento de Jornalistas
010 – Organização e Funcionamento: classificam-se os documentos relativos à criação, estruturação, funcionamento e organização interna do órgão.
020 – Pessoal: incluem-se documentos relativos aos direitos e obrigações dos servidores lotados no órgão, de acordo com a legislação vigente, bem como os direitos e obrigações da instituição empregadora no que tange à assistência, proteção ao trabalho e concessão de benefícios.
030 – Material: são classificados os documentos referentes à administração dos materiais do órgão, necessários ao desenvolvimento de suas atividades, incluindo as formas de aquisição e alienação, bem como os serviços de manutenção, limpeza e recuperação.
040 – Patrimônio: classificam-se os documentos referentes aos bens patrimoniais imóveis, veículos e semoventes pertencentes ao órgão. Incluem-se, neste caso, as formas de aquisição e alienação, bem como os serviços de manutenção, limpeza e recuperação.
050 – Orçamento e Finanças:classificam-se os documentos relativos à previsão e execução orçamentária e às operações contábeis e financeiras referentes ao uso dos recursos públicos e comprovação de receita e despesa. Incluem-se ainda, a movimentação de conta corrente, balanços e prestações de contas aos tribunais de contas.
060 – Documentação e Informação: incluem-se nesta subclasse os documentos referentes à publicação, produção, editorial, preparo, impressão e distribuição de matérias, bem como à aquisição, controle, distribuição e acesso à documentação bibliográfica do órgão. Incluem-se, ainda, os documentos referentes à produção, controle, avaliação, arquivamento e destinação de documentos arquivísticos, como também os documentos relacionados com as atividades de reprodução, conservação e informática.
070 – Comunicações: classificam-se os documentos relacionados com a instalação, manutenção, operação e uso dos recursos e serviços postais, de telecomunicações e de tecnologias da informação.
080 – Vaga: esta subclasse mantém-se vaga para possíveis expansões e inserção de documentos referentes à Administração Geral, que resultem de novas atividades desenvolvidas pelo órgão.
090 – Outros assuntos referentes à Administração Geral: incluem-se nesta subclasse documentos de caráter genérico relativos à Administração Geral. Utiliza-se, também, esta subclasse como recurso para inclusão de assuntos que nãopossuam classificação específica no Código de Classificação de documentos de arquivo, bem como para evitar a proliferação de subclasses que possam ser reservadas para possíveis expansões.
Vejamos agora a Classe 900 – Assuntos Gerais aplicada à Administração Pública. Esta classe refere-se aos documentos de caráter genérico que se relacionam com as diversas atividades desenvolvidas pelo Órgão.
Exemplo aplicado ao setor público com o código 900 – Assuntos Gerais:
Tabela 2 - Assuntos gerais
Assuntos Gerais
Classe
900
Assuntos Gerais
Subclasses
910
Solenidades, Comemorações, Homenagens
920
Congressos, Conferências, Seminários, Simpósios, Encontros. Convenções, Ciclos de Palestras, Mesas Redondas.
930
Feiras, salões, exposições, mostras, concursos, festas
940
Visitas e visitantes
950 a 980
Vagas (para possíveis inclusões)
990
Assuntos Transitórios
Referência:
ROUSSEAU, Jean-Yves; COUTURE, Carol. Os fundamentos da disciplina Arquivística. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1998
3.4 Métodos de classificação de documentos
A classificação é um processo natural que tem por finalidade reunir coisas semelhantes. O ato de classificar e arquivar de maneira correta tornou-se ponto primordial nos cuidados da documentação. A classificação se materializa com um Plano de Classificação, que deve ter como características a simplicidade, a flexibilidade e fácil assimilação. Sobretudo deve ser uniforme mantendo sempre um padrão e ter um gerenciamento centralizado.
Segundo o Conselho Nacional de Arquivos (CONARQ), a classificação é uma das atividades do processo de gestão de documentos arquivísticos, o qual inclui procedimentos e rotinas específicas que possibilitam maior eficiência e agilidade no gerenciamento e controle das informações.
A classificação deve ser realizada por servidores treinados, de acordo com as seguintes operações:
Estudo: consiste na leitura de cada documento, a fim de verificar sob que assunto deverá ser classificado e quais as referências cruzadas que lhe corresponderão.
Codificação: consiste na atribuição do código correspondente ao assunto de que trata o documento. As rotinas correspondentes às operações de classificação são:
Receber o documento para classificação;
Ler o documento, identificando o assunto principal e o(s) secundário(s) de acordo com seu conteúdo;
Localizar o(s) assunto(s) no Código de classificação de documentos de arquivo, utilizando o incide, quando necessário;
Anotar o código na primeira folha do documento;
Preencher a folha de referência para os assuntos secundários. (Nota: a folha de referência está no modelo ao final desta aula.)
Quando o documento possuir anexos, estes deverão receber a anotação dos códigos correspondentes.
Segundo Paes (2002), os documentos podem ser classificados da seguinte maneira:
Por seus mantenedores:
Públicos - federal, estadual e municipal;
Institucionais - instituições educacionais, igrejas, corporações não lucrativas, sociedades e associações;
Comerciais - empresas, corporações e companhias;
Famílias ou pessoais.
Pelos estágios de sua evolução - Teoria das Três Idades
Arquivos de primeira idade ou corrente: são aqueles que estão em curso, isto é, tramitando, ou que foram arquivados, mas são objetos de consultas frequentes. Pode ser conservado no local onde foi produzido ou ficar sob a responsabilidade das pessoas ou do órgão que o criou.
Arquivos de segunda idade ou intermediário: são aqueles que não são mais de uso corrente, mas que por razões de interesse administrativo, aguardam sua eliminação ou recolhimento à instituição arquivística. Esses documentos devem ser recolhidos a um arquivo intermediário, sob a responsabilidade conjunta dos funcionários do organismo produtor e da instituição arquivística.
Arquivos de terceira idade ou permanentes: são aqueles de valor histórico, probatório e informativo que devem ser definitivamente preservados. Eles não são mais necessários ao cumprimento das atividades da administração. Devem ser conservados nas instituições arquivísticas sob a responsabilidade dos profissionais de arquivo.
Pode-se afirmar que a teoria das três idades trouxe como inovação a noção do documento intermediário, isto é, a constatação da existência de inúmeros documentos que, mesmo não sendo mais necessários ao cumprimento daquela atividade, precisam ser mantidos, por um determinado período, para fins de prova e informação. É o caso, por exemplo, da documentação referente ao Departamento Pessoal, orçamento, material, entre outras
Pela extensão de sua atuação:
Setoriais - quando existem arquivos espalhados nos mais diversos setores da organização;
Gerais ou centrais - quando todos os documentos gerados estão reunidos em um único arquivo.
Pela natureza de seus documentos:
Arquivo especial - detém sob sua guarda diferentes tipos de suportes de documentos resultantes da experiência humana em algum campo específico do conhecimento, tais como fotos, fitas cassete, filmes VHS, discos, CDs, recortes de jornais, disquetes, CD-ROM, entre outros. Por se tratar de documentos na sua grande maioria frágeis, deve-se ter maior cuidado com a conservação e preservação, não somente no aspecto de armazenagem, mas também em seu registro, acondicionamento e controle.
Arquivo especializado - detém sob sua custódia documentos resultantes da experiência humana num campo específico, independente da forma física que seus documentos apresentem.
Pelo Gênero:
Escritos ou textuais;
Cartográfico (perfis/mapas);
Iconográficos (imagem estática/cartazes);
Filmográficos (filmes);
Sonoros (CDs, fita cassete);
Micrográficos (microfilme);
Informáticos.
Pela Natureza do assunto:
Ostensivos – documentos cuja divulgação não prejudica a administração.
Sigilosos – documentos de conhecimento, custódia e divulgação restrita.
Pelo Sigilo (são classificados em quatro graus)
Ultrassecreto – esta classificação é dada aos assuntos que requeiram excepcional grau de segurança e cujo teor ou características só devam ser do conhecimento de pessoas intimamente ligadas ao seu estudo ou manuseio. São assuntos normalmente classificados como ultrassecretos aqueles da política governamental de alto nível e segredos de Estado, tais como: negociações para alianças políticas e militares, planos de guerra, descobertas e experimentos científicos de valor excepcional, informações sobre política estrangeira de alto nível. São documentos oriundos da Presidência e dos Ministérios.
Secreto – consideram-se secretos os assuntos que requeiram alto grau de segurança e cujo teor ou características podem ser do conhecimento de pessoas que, sem estarem intimamente ligadas ao seu estudo ou manuseio, sejam autorizadas a deles tomar conhecimento, funcionalmente. São documentos considerados secretos os referentes a planos, programas e medidas governamentais, os assuntos extraídos de matéria ultrassecreta que, sem comprometer o excepcional grau de sigilo da matéria original, necessitam de maior difusão, tais como: planos ou detalhes de operações militares, planos ou detalhes de operações econômicas ou financeiras, aperfeiçoamento em técnicas ou materiais já existentes, dados de elevado interesse sob aspectos físicos, políticos, econômicos, psicossociais e militares de países estrangeiros e meios de processos pelos quais foram obtidos, materiais criptográficos importantes que não tenham recebido classificação inferior.
Confidencial – a classificação de confidencial é dada aos assuntos que, embora não requeiram alto grau de segurança, seu conhecimento por pessoa não autorizada pode ser prejudicial a um indivíduo ou criar embaraços administrativos. São assuntos, em geral, classificados como confidenciais os referentes à pessoal, material, finanças e outros cujo sigilo deva ser mantido por interesse das partes, como por exemplo: informações sobre e atividade de pessoas e entidades, bem como suas respectivas fontes:radiofrequência de importância especial ou aquelas que devam ser usualmente trocadas, cartas, fotografias aéreas, e os negativos que indiquem as instalações consideradas importantes para a segurança nacional.
Reservado – são os assuntos que não devem ser do conhecimento do público em geral. Recebem essa classificação, entre outros, partes de planos, programas e projetos e as suas respectivas ordens de execução; cartas, fotografias aéreas, e os negativos que indicam instalações importantes
Tabela 1 - Folha de referência
MODELO DE UMA FOLHA DE REFERÊNCIA
Código do Assunto
Resumo do assunto:
Dados do documento:
Número:
Data:
Espécie:
Remetente:
Destinatário:
Referência:
PAES, Marilena Leite. Arquivos: teoria e prática. Rio de Janeiro: FGV, 2002.
3.5 Avaliação documental
A avaliação é uma função importantíssima no processo de classificação de documentos. Consiste basicamente na análise e identificação dos valores dos documentos para a definição de seus prazos de guarda e destinação. Esta análise é feita com base nos usos administrativos, legais, fiscais ou históricos e na relação orgânica com os demais documentos do fundo a que pertence. A classificação e avaliação representam atividades significativas para o perfeito arquivamento dos documentos. Sem elas é impossível pensar na implantação efetiva de uma gestão documental integrada, com base na teoria das três idades.
Outro procedimento de igual importância na avaliação de documentos consiste em conhecer e aplicar a Tabela de Temporalidade de Documentos. Abaixo, damos um exemplo de tabela:
Tabela 1 - Tabela de temporalidade documental
Tabela de Temporabilidade Documental Simplificada
Documento
Prazo de guarda
Suporte Legal
Aviso e recibo de férias
10 anos
Dec. 3.048/99, Art. 225
Certidão Negativa de Débito
90 dias
Decreto 4.729/03, Art.257
Contas de água, luz e telefone
05 anos*
Lei 5.172/66, Art.173
Contrato de Estágio
05 anos
Const.Federal, Art.7
Espelho ou cartão ponto
05 anos
Const.Federal, Art.7
Extrato bancário
05 anos*
Lei 5.172/66, Art.173
Declaração de informações econômicas e fiscais da pessoa jurídica - DIPJ (Imposto de Renda)
10 anos
Lei 8.212/91, Art.46
Nota Fiscal
05 anos*
Lei 5.172/66, Art.173
Prestação de contas de viagem
05 anos*
Lei 5.172/66, Art.173
Controle de entrega de vale transporte e alimentação
05 anos
Const.Federal, Art.7
*O prazo inicia no exercício seguinte ao do fato gerador. Por exemplo, se uma conta de luz venceu no mês de março/2003, comece a contar o prazo de guarda a partir de janeiro de 2004.
ATENÇÃO!
Ao implantar a Tabela de Temporalidade Documental deve-se utilizar como referência os prazos de guarda estabelecidos pelas legislações, mas sempre considerando as particularidades de sua empresa.
As atividades de gestão, portanto, não se restringem a evitar a produção de documentos desnecessários e a estabelecer depósitos intermediários para garantir a organização e a preservação dos documentos. A gestão abrange todas as operações referentes à produção (quais são os suportes com validade em juízo e fora dele; como o documento deve ser estruturado, incluindo código de classificação de assunto), à tramitação (protocolo), ao uso (consulta e empréstimo), à avaliação (aplicação da tabela de temporalidade e destinação) e ao arquivamento (guarda e armazenamento).
Entende-se por protocolo, o cumprimento de normas a respeito da numeração sequencial dada aos documentos, com o objetivo de sua pronta localização. Também significa o livro onde se registram em ordem, os documentos apresentados numa repartição, ou então, os fatos e as decisões ocorridos numa assembleia ou audiência. A principal função do protocolo é autenticar a entrega de um documento, ou evidenciar a decisão ou o fato que deve ser registrado.
Arquivo
Mas, afinal, o que é Arquivo?
Neire do Rocio Martins (2005) explica que a Associação de Arquivistas Brasileiros adotou a seguinte definição: “Arquivo é o conjunto de documentos que, independentemente da natureza ou do suporte, são reunidos por acumulação ao longo das atividades de pessoas físicas ou jurídicas, públicas ou privadas”.
Conceito Geral de arquivo: arquivo é a acumulação ordenada de documentos, produzidos por instituições públicas e privadas ou por uma família ou pessoa, no transcurso de suas atividades e funções, guardando esses documentos relações orgânicas entre si. (PAES, 2002)
Os arquivos públicos são conjuntos de documentos produzidos e recebidos, no exercício de suas atividades, por órgãos públicos de âmbito federal, estadual, do Distrito Federal e Municipal em decorrência de suas funções administrativas, legislativas e judiciárias. (Lei nº 8.159/91).
Consideram-se arquivos privados conjuntos de documentos produzidos ou recebidos por pessoas físicas ou jurídicas, em decorrência de suas atividades. Os arquivos privados podem ser identificados pelo Poder Público como de interesse público e social, desde que sejam considerados como conjuntos de fontes relevantes para a história e desenvolvimento científico nacional. (Lei nº 8.159/91).
Classificação dos arquivos:
Segundo as entidades criadoras e mantenedoras, os arquivos podem ser classificados em:
Públicos (federal, estadual, municipal);
Institucionais (escolas, igrejas sociedades, clubes, associações);
Comerciais (empresas, corporações, companhias);
Pessoais (fotos de família, cartas, originais de trabalhos, etc).
A Lei 8.159/91 diz que “Ficará sujeito à responsabilidade penal, civil e administrativa, na forma da legislação em vigor, aquele que desfigurar ou destruir documentos de valor permanente ou considerado como de interesse público e social."
Ciclo de vida do arquivo
É contado a partir da produção do documento e do encerramento do ato, ação ou fato que motivou a sua produção e da frequência de uso. Diz-se na arquivística que essa fase tem relação com a vigência do documento, a razão de ser da existência de um documento.
Vamos conhecer a Teoria das Três Idades:
Correntes: conjunto de documentos atuais, em curso, que são objetos de consultas e pesquisas frequentes. Temporários: conjunto de documentos oriundos de arquivos correntes que aguardam remoção para depósitos temporários.
Permanentes: conjunto de documentos de valor histórico, científico ou cultural que devem ser preservados indefinidamente.
Muitas instituições utilizam o termo arquivo morto, o que caracteriza um erro dentro do estudo da arquivística. Documentos que não são consultados com frequência, mas que possuem valor, Devem ser classificados como Documentos Permanentes.
Há instituições detentoras de acervos documentais, (arquivos) que tem como objetivo a guarda permanente de documentos tais como:
Bibliotecas: detentoras de coleção pública ou privada de livros e documentos congêneres, organizada para estudo, leitura e consulta;
Central de documentação: com funções abrangentes, possuem diversas finalidades, que variam de acordo com os propósitos de sua criação.
Museu: estabelecimento permanente com vistas a coletar, conservar, estudar, explorar de várias maneiras, e basicamente exibir para educação e lazer, produtos da ação cultural humana.
Finalidade do CONARQ
O Conselho Nacional de Arquivos – CONARQ - é um órgão colegiado, vinculado ao Arquivo Nacional da Casa Civil da Presidência da República, e tem por finalidade definir a política nacional de arquivos públicos e privados, como órgão central de um Sistema Nacional de Arquivos, bem como exercer orientação normativa visando à gestão documental e à proteção especial aos documentos de arquivo.
Referências:
PAES, Marilena Leite. Arquivos: teoria e prática. Rio de Janeiro: FGV, 2002.
MARTINS, Neire do Rocio. Apostila sobre roteiro para organizar arquivos. Disponível em: https://simagestao.com.br/wp-content/uploads/2016/01/nocoes_basicas_para_organizacao_de_arquivos1.pdf - Acesso em 19/05/2021.
Estrutura Básica
Para poder desempenhar satisfatoriamente as funções, o arquivo necessita de umaestrutura básica, conforme segue:
Recursos Humanos
Entende-se a responsabilidade de um servidor na execução das operações de arquivos, tais como:
Selecionar documentos;
Registrar documentos;
Estabelecer o método de classificação;
Codificar documentos;
Ordenar documentos;
Arquivar documentos de acordo com o método adotado;
Conservar os documentos mantendo o arquivo organizado e atualizado;
Localizar documentos
Controlar a saída de documentos do arquivo;
Transferir e descartar documentos;
Orientar e treinar usuários.
Para que haja um bom desempenho das funções no sistema de arquivamento, dois requisitos são essenciais. Primeiro, o funcionário deve ter total e profundo
conhecimento da organização da empresa na qual trabalha. Segundo, ter as seguintes características: habilidade em lidar com o público, espírito metódico, discernimento, paciência, imaginação, atenção, poder de análise e de crítica, poder de síntese, discrição, honestidade, espírito de equipe e entusiasmo pelo trabalho.
Instalações
A instalação dos arquivos requer analise dos seguintes aspectos:
Localização: acessível, com capacidade de expansão e se volumoso deve ficar no andar térreo;
Iluminação: ampla, mas difusa, não deve haver incidência direta do sol;
Arejamento: ventilação natural, constante e regulável;
Higienização: limpo, bem cuidado. Com dedetização periódica;
Disposição: espaço livre para locomoção, fácil consulta e conservação do acervo;
Segurança: contra incêndio, roubo, infiltrações, etc.
Recursos Materiais
Mobiliário: ideal para os formatos e gêneros dos documentos produzidos que economize espaço, que permita arrumação racional dos documentos e que apresente capacidade de expansão, seguro e resistente.
Acessório: pastas suspensas (frontais ou laterais), pastas intercaladoras, pastas A/Z ou outras. As caixas devem ser resistentes e específicas para cada tipo de arquivo, dependendo do formato/gênero dos documentos. Observar também as etiquetas e projeções para que sejam ideais.
Para os arquivos intermediários que são instalados em depósitos centralizados, o ideal é o uso de caixas para o armazenamento de documentos.
Como organizar um arquivo
Para que um arquivo, em todos os estágios de sua evolução (corrente, intermediário e permanente) possa cumprir seus objetivos, torna-se indispensável à formulação de um plano arquivístico que tenha em conta tanto as disposições legais quanto as necessidades da instituição a que
pretende servir. Um dos mais importantes aspectos a ser considerado na organização de um arquivo é manter um plano de classificação. Vejamos os passos que devem ser tomados/analisados na elaboração de um plano de classificação:
Identifique as atribuições e atividades da Instituição e da área em que você trabalha. Você poderá encontrar essas informações pesquisando nos atos legais tais como Portarias, Deliberações, Estatutos, Atas e Relatórios. Em último caso, analise as atividades desenvolvidas e descreva-as.
Relacione e organize o que você levantou. Após as verificações citadas no item anterior, organize uma pasta com os atos relativos à implantação de sua área/órgão e o que você conseguiu descrever.
Identifique os tipos de documentos que “nascem” a partir do cumprimento das atividades identificadas.
Montagem de um plano de classificação de documentos
Relacione as atividades da sua área
Exemplo:
Controlar o inventário patrimonial do órgão;
Assessorar reuniões da Diretoria;
Preparar minutas de correspondências para Diretoria;
Registrar frequência de funcionários;
Proceder ao cadastro de funcionários;
Controlar férias;
Solicitar materiais de consumo/almoxarifado;
Administrar convênios e contratos.
Classifique as atividades de acordo com as atribuições afins ou maiores classes ordenando-as em subclasses.
Exemplo:
Assessorar Diretoria
Assessorar Reuniões da Diretoria (pautas, atas);
Elaborar minutas de correspondências.
Notação/Pastas
Reuniões/Diretoria;
Correspondência/Convocações.
Codifique ou estabeleça códigos para localização dos documentos
As pastas, caixas ou qualquer unidade de arquivamento, que você adotar, poderão ser identificadas com códigos correspondentes da classificação:
Número (ou código de classificação), ou;
Número e o Nome da Atividade, ou;
Nome da atividade (que pode ser abreviada).
Exemplo: MATERIAIS/SUPRIMENTOS (inserir código de classificação)
Além do Código de classificação que você adotou, podem ser utilizadas as cores para facilitar a localização. Ex. cor azul para Atividades Administrativas; cor verde para Atividades Fim (como agendamento de reuniões).
3.9 Modelo de plano arquivístico
Segundo Paes (2002), o planejamento arquivístico consiste em estruturar o arquivo de forma que a documentação possa ser consultada e controlada pelo responsável.
Para a elaboração desse plano devem ser considerados os seguintes elementos: posição do arquivo na estrutura da instituição, centralização ou descentralização e coordenação dos serviços de arquivo, escolha de métodos de arquivamento adequados, estabelecimento de normas de funcionamento, recursos humanos, escolha das instalações e do equipamento, constituição de arquivos intermediário e permanente, recursos financeiros.
Posição do arquivo na estrutura da instituição
Recomenda-se que a posição seja a mais elevada possível, para que o arquivo seja subordinado a um órgão hierarquicamente superior, tendo em vista que irá atender a setores e funcionários de diferentes níveis de autoridade. A adoção desta medida visa evitar sérios problemas na área das relações humanas e das comunicações administrativas.
Ao usuário não interessa onde se encontra armazenada a informação, pode estar numa biblioteca, numa memória de computador, num microfilme, ou num arquivo tradicional. Daí a importância da constituição de sistemas de informação, dos quais o arquivo deve participar, dotados de recursos técnicos e materiais adequados para atender à acelerada demanda de nossos tempos.
Centralização ou descentralização e coordenação dos serviços de arquivo
Ao elaborar um plano de arquivo, deve-se definir a centralização ou a descentralização dos serviços de arquivo em fase corrente.
É importante esclarecer de imediato que a descentralização se aplica apenas à fase corrente dos arquivos. Nas fases intermediária e permanente, os arquivos devem ser sempre centralizados.
Centralização: Entende-se não apenas a reunião da documentação em um único local, como também a concentração de todas as atividades de controle recebimento, registro, distribuição, movimentação e expedição, de documentos de uso corrente em um único órgão da estrutura organizacional, frequentemente designado como protocolo e arquivo, comunicações e arquivo, ou outra denominação similar
Descentralização: Se a centralização for rígida pode ser desastrosa, a descentralização excessiva surtirá efeitos iguais ou ainda piores. O bom senso indica que a descentralização deve ser estabelecida levando-se em consideração as grandes áreas de atividades de uma instituição. Tomando como exemplo uma empresa estruturada em departamentos veremos que a descentralização do arquivo é uma solução, facilitando o fluxo de informações em cada Departamento.
Coordenação
Para que os sistemas descentralizados atinjam seus objetivos com rapidez, segurança e eficiência são imprescindíveis à criação de uma coordenação central, tecnicamente planejada, que exercerá funções normativas orientadoras e controladoras. A coordenação terá por atribuições: prestar assistência técnica aos arquivos setoriais, estabelecer e fazer cumprir normas gerais de trabalho, de forma a manter a unidade de operação e eficiência do serviço dos arquivos setoriais, treinar pessoal especializado para que sejam encarregados dos arquivos, promover reuniões com esse pessoal a fim de exame, debate e instruções sobre assunto de interesse do sistema de arquivos.
Rotinas de arquivamentoInspeção
Consiste em verificar o destino de cada documento. Exemplo:
para arquivamento;
para solicitar informação;
para verificar a existência de antecedentes, em obediência a uma rotina.
É de extrema importância a verificação do último despacho contido no documento para o devido cumprimento. Ex. Arquive-se. Verificar também se há existência de anexos e se estes já estão inseridos no documento inicial.
Leitura
Cada documento deve ser lido cuidadosamente para verificar seu conteúdo e sob que classificação deverá ser arquivado.
Seleção
Selecionar o material que será realmente arquivado, daquele que poderá ser descartado imediatamente, sem prejuízo para a instituição (como cópias, comunicados passageiros).
Marcar a hora e a data
De entrada do documento no arquivo, para anular todas as possíveis controvérsias sobre a chegada do documento no arquivo.
Registro
Registrar diariamente, em um livro ou sistema informatizado, os documentos que darão entrada no arquivo. Fazer um breve relato sobre o que trata o documento para facilitar a localização.
Para trabalhar no arquivo, o profissional deve ter boa memória, capacidade de síntese, ser metódico e acima de tudo gostar do que faz.
Referência:
PAES, Marilena Leite. Arquivos: teoria e prática. Rio de Janeiro: FGV, 2002.
Instalações e Equipamentos
O arquivo também é uma parte da empresa que necessita de constante reestruturação. A escolha dos materiais de consumo é de extrema importância. Veja as dicas desta aula e depois visite lojas especializadas. Há um universo de equipamentos para se adaptar a diferentes estruturas e necessidades.
Segundo Paes (2002), de igual importância para o bom desempenho das atividades de arquivo é a escolha do local adequado, quer pelas condições físicas que apresente – iluminação, limpeza, índices de umidade, temperatura - quer pela extensão de sua área, capaz de conter o acervo e permitir ampliações futuras.
Da mesma forma, a escolha apropriada do equipamento deverá merecer a atenção daqueles que estão envolvidos com a organização dos arquivos.
Definição de equipamento em arquivística
Considera-se equipamento o conjunto de materiais de consumo e permanente, indispensáveis à realização do trabalho arquivístico.
Definição de materiais de consumo em arquivística
Considera-se materiais de consumo aqueles que sofrem desgastes a curto ou médio prazo. São as fichas, as guias, as pastas, as tiras de inserção e outros.
Ficha
É um retângulo de cartolina, grande ou pequeno, liso ou pautado, onde se registra uma informação. As dimensões variam de acordo com as necessidades, podendo ser branca ou de cor.
Guia Divisória
É um retângulo de cartão resistente que serve para separar as partes ou seções dos arquivos ou fichários, reunindo em grupos as respectivas fichas ou pastas. Sua finalidade é facilitar a busca dos documentos e o seu rearquivamento.
No estudo das guias divisórias, distinguem-se diversos elementos relacionados com sua finalidade e funções, sendo:
Projeção: É a saliência na parte superior da guia. Pode ser recortada no próprio cartão ou nele ser aplicada, sendo então de celulóide ou de metal.
Pé: É a saliência na parte inferior da guia, onde há um orifício chamado ilhó. Por esse orifício passa uma vareta que prende as guias à gaveta. (PAES, 2005)
Descrição da imagem: apresenta uma guia divisória, sendo um retângulo com uma saliência na na parte superior (canto superior esquerdo no formato de um trapézio), sendo a projeção e com uma saliência na parte inferior (metade da borda inferior do retângulo) sendo o pé. E no pé encontra-se o orifício denominado ilhó.
Notação
É a inscrição feita na projeção, podendo ser alfabética, numérica ou alfanumérica.
Descrição da imagem: apresenta três guias divisórias onde na primeira na projeção temos a letra A, sendo uma notação alfabética; na segunda guia temos na projeção o número 100 sendo uma notação numérica e na terceira guia temos 100-E sendo uma notação alfanumérica.
A Notação pode ser ainda aberta ou fechada. É aberta quando indica somente o início da seção, e fechada quando indica o princípio e o fim.
Descrição da imagem: apresenta duas guias divisórias onde na primeira na projeção temos a letra A, sendo uma notação aberta e na segunda guia temos na projeção A-C sendo uma notação fechada.
Posição
É o local que a projeção ocupa ao longo da guia. O comprimento pode corresponder à metade da guia, a um terço, um quarto ou um quinto. Daí a denominação: primeira posição, segunda posição, terceira posição, quarta posição, quinta posição.
Descrição da imagem: apresenta três guias divisórias onde na primeira a projeção está no canto superior esquerdo; na segunda está na metade da guia e na terceira está no canto superior direito.
Função
Quanto à função, a guia pode ser:
primária: indica a primeira divisão de uma gaveta ou seção de um arquivo;
secundária: indica uma subdivisão da primária;
subsidiária: indica uma subdivisão da secundária;
especial: indica a localização de um nome ou assunto de grande frequência.
O que indica se uma guia é primária, secundária, subsidiária ou especial é a notação e não a projeção. O ideal seria que as guias primárias estivessem sempre em primeira posição e assim por diante.
3.11 Sistemas e métodos de arquivamento
Para Roncaglio (2005), todas as pessoas participam de negócios e praticam ações que precisam ser anotadas em documentos que servirão de base para futuras consultas. Nesse contexto, o arquivo moderno deixou de ser simples local de guarda de papéis colecionados segundo as habilidades individuais, para constituir um núcleo de informações registradas em documentos, de acordo com a classificação racional e sistemática, mantidos em locais próprios, acessíveis e seguros.
A importância das etapas de levantamento e análise dos documentos se faz sentir de modo marcante no momento em que o arquivista escolhe os métodos de arquivamento a serem adotados no arranjo da documentação corrente.
Segundo Paes (2002), dificilmente se emprega um único método, pois há documentos que devem ser ordenados pelo assunto, nome, local, data ou número. A escolha do sistema de arquivamento está diretamente relacionada com a análise cuidadosa das atividades da instituição, aliado a observação de como os documentos são solicitados ao arquivo. Após esta análise, é possível definir qual o método principal e quais os métodos auxiliares.
A função primordial dos arquivos é disponibilizar as informações contidas nos documentos para a tomada de decisão e comprovação de direitos e obrigações, o que só se efetivará se os documentos estiverem corretamente classificados e devidamente guardados. Tão importante quanto arquivar é achar rapidamente as informações no momento desejado.
Para se alcançar tais objetivos encontram-se descritos, a seguir os principais métodos de arquivamento utilizados para a organização dos acervos arquivísticos, as operações desenvolvidas na fase do arquivamento, as rotinas e, finalmente, os critérios e procedimentos adotados no cumprimento da função mais nobre dos arquivos: sua utilização, mediante empréstimo e consulta. O método de arquivamento é determinado pela natureza dos documentos a serem arquivados e pela estrutura da entidade
Sistemas e Métodos de Arquivamento
Paes (2002) ensina que os métodos de arquivamento podem ser divididos em duas classes. Veja, abaixo, o esquema de um sistema de arquivamento de documentos:
Devido ao número limitado de caracteres o descrição da imagem encontra-se abaixo.
Descrição da imagem: Há duas categorias maiores denominadas "Básicos" e "Padronizados" que abrangem subcategorias. Dentro de "básicos" há três categorias: 1) Alfabeto Geográfico 2) Numérico e 3) Ideográficos (assunto). Na categoria "Numérico" há três subcategorias: 1) simples, 2) cronológico e 3) Dígito-Terminal. Na categoria "Ideográficos" há mais duas categorias 1) Alfabéticos 2) Numéricos onde Alfabéticos se subdivide em Enciclopédico e Dicionárioe Numéricos se subdivide em: "Duplex", "Decimal" e "Uniterno ou Indexação coordenada". Por fim a categoria Padronizados se subdivide em "Variadex", "Automático", "Soundex", "Minemônico" e "Rôneo".
Estes métodos pertencem a dois grandes sistemas: direto e indireto
Sistema direto: Aquele em que a busca do documento é feita diretamente no local onde se acha guardado.
Sistema indireto: Aquele em que é preciso antes consultar um índice ou um código para se localizar o documento.
O método alfanumérico
Combinação de letras e números – não se inclui nas classes de métodos básicos e padronizados e é considerado do sistema semi-indireto.
Quando se trata de planejar a organização de um arquivo ou fichário, os elementos constantes de um documento a considerar são: nome (do remetente do destinatário ou da pessoa a quem se refere o documento); local, número, data e assunto. De acordo com o elemento mais importante e frequentemente procurado, em cada caso, pode-se organizar os fichários ou arquivos em:
ordem alfabética;
ordem geográfica;
ordem numérica (simples ou cronológica)
ordem de assunto.
Vejamos um exemplo de método de arquivamento.
Tabela 1 - Método de arquivamento
Método de Arquivamento
Classificação por Assunto
Método Geográfico
PATRIMÔNIO
Brasília
Rio de Janeiro
São Paulo
PESSOAL - ADMISSÃO
Método Alfabético
Aguiar, Celso
Borges, Francisco
Cardoso, Jurandir
Castro, Lúcia
DEMISSÃO - FOLHAS DE PAGAMENTO
Método (secundário) Cronológico
Jan a jul de 1980
Ago a dez. 1980
Jan a jul. 1981
3.12 Método alfabético
É um método direto, pois o profissional faz a pesquisa diretamente pelo nome, não sendo necessário recorrer a um índice auxiliar para localizar qualquer documento. Segundo Paes (2002), as fichas ou pastas ficam dispostas na ordem rigorosamente alfabética, respeitando as normas gerais para a alfabetação, através de guias divisórias, com as respectivas letras. Na opinião da autora, a única desvantagem deste método refere-se aos erros do arquivamento alfabético, que muitas vezes devido ao volume de documentos e a variedade de grafia dos nomes podem provocar intenso.
Regras para arquivamento
O arquivamento de nomes obedece a 13 regras, chamadas de alfabetação, sendo:
Pela 1ª letra do último sobrenome
João Barbosa; Pedro Álvares Cabral; Paulo Santos
Barbosa, João
Cabral, Pedro Álvares
Santos, Paulo
Para sobrenomes iguais
Teixeira, Aníbal
Teixeira, Marília
Teixeira, Paulo
Teixeira, Vitor
Para nomes compostos
Camilo Castelo Branco; Paulo Monte Verde; Heitor Villa Lobos.
Castelo Branco, Camilo
Monte Verde, Paulo
Villa Lobos, Heitor
Para sobrenomes abreviados
J. Vieira; Jonas Vieira; José Vieira
Vieira, J.
Vieira, Jonas
Vieira, José
Para nomes com artigos e preposições
Pedro de Almeida, Ricardo d’Andrade; Lúcia da Câmara; Arnaldo do Couto.
Almeida, Pedro de
Andrade, Ricardo d’
Câmara, Lúcia da
Couto, Arnaldo do
Para sobrenomes com grau de parentesco
Antonio Almeida Filho; Paulo Ribeiro Júnior; Joaquim Vasconcelos Sobrinho.
Almeida Filho, Antonio
Ribeiro Júnior, Paulo
Vasconcelos Sobrinho, Joaquim
Para pessoas da mesma família
Jorge de Abreu Sobrinho; Jorge de Abreu Filho; Jorge de Abreu Neto.
Filho, Jorge de Abreu
Neto, Jorge de Abreu
Sobrinho, Jorge de Abreu
Para nomes estrangeiros
Georges Aubert; Winston Churchill; Paul Muller; Jorge Schmidt.
a) Aubert, Georges
b) Churchill, Winston
c) Mueller, Paul
d) Schmidt, Jorge
Para nomes estrangeiros (espanhol) com o nome da mãe
José de Oviedo Y Bãnos; Francisco de Pina de Mello; Antonio de Los Rios.
Oviedo Y Bãnos, José de
Pina de Mello, Francisco de
Rios, Antonio de Los.
Para nomes Orientais Japoneses e Árabes
Al Bem Hur (permanece)
Ly Youtohn (permanece)
Para nomes estrangeiros com preposição
Giulio Di Capri; Esteban De Penedo; Charles Du Pont; John Mac Adam
De Penedo, Esteban
Di Capri, Julio
Du Pont, Charles
Mac Adam, John
Para Pessoas Jurídicas:
EMBRATEL; Álvaro Ramos & Cia; A Colegial; The library of Congress; Fundação Getúlio Vargas:
Álvaro Ramos & Cia
Colegial (A)
Embratel
Fundação Getúlio Vargas
Library of Congress (the)
Para Numeral
4º Congresso de Secretariado; I Encontro Regional de Arquivologia; III Simpósio de Apicultura.
Congresso de Secretariado (4º)
Encontro Regional de Arquivologia (I)
Simpósio de Apicultura (III)
3.13 Método geográfico
Este método usa também o alfabético, mas sua principal atenção é mais voltada para os estados, cidades e regiões. Paes (2002) afirma que este método é preferido quando o principal elemento a ser considerado em um documento é a procedência do local.
Ordenações geográficas
As melhores ordenações geográficas são:
Nome do estado, cidade e correspondente
Quando se organiza um arquivo por estados, as capitais devem ser alfabetadas em primeiro lugar, por estado, independentemente da ordem alfabética em relação às demais cidades, que deverão estar dispostas após as capitais. Neste caso, há necessidade de se utilizar guias divisórias com notações indicativas dos nomes dos estados.
Exemplo:
Tabela 1 - Organização de arquivos
Exemplo de Organização do arquivo por Estados
Estado
Cidade
Correspondente
Amazonas
Manaus
Sobreira, Luísa
Amazonas
Itacoatiara
Santos, Antonio J.
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro
Rodrigues, Isa
São Paulo
Campos
Almeida, José de
São Paulo
São Paulo
Corrêa, Gilson
Nome da cidade, estado e correspondente
Quando o principal elemento de identificação é a cidade e não o estado, deve-se observar a rigorosa ordem alfabética por cidades, não havendo destaque para as capitais.
Tabela 2 - Organização de arquivos
Exemplo de Organização do arquivo por Estados
Cidade
Estado
Correspondente
Campos
Rio de Janeiro
Almeida, José de
Itacoatiara
Amazonas
Santos, Antonio J.
Lorena
São Paulo
Silva, Alberto
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro
Rodrigues, Isa
São Paulo
São Paulo
Corrêa, Gilson
Nesse caso não é necessário o emprego de guias divisórias correspondentes aos estados, pois as pastas são guardadas em ordem alfabética pela cidade.
É imprescindível, porém que as pastas tragam os nomes dos estados, em segundo lugar, porque há cidades com o mesmo nome em diferentes estados.
Exemplo:
Brasília (Distrito federal) – Silva, Jackson
Brasília (Minas Gerais) – Leite, Edson
Itabaiana (Paraíba) – Santos, Therezinha
Itabaiana (Sergipe) – Souza, Lourdes da Costa e
Correspondência com outros países
Tabela 3 - Organização de arquivos
Exemplo de Organização do arquivo por Estados
País
Cidade
Correspondente
França
Paris (capital)
Unesco
França
Lorena
Vadim, Roger
Portugal
Lisboa (capital)
Pereira, José
Portugal
Coimbra
Albuquerque, Maria
Portugal
Porto
Ferreira, Antonio
Vantagens do método geográfico: é direto e de fácil manuseio. Desvantagens: exige duas classificações – local e nome do correspondente. Podem ser introduzidas as cores como elemento para chamar a atenção e facilitar o acesso aos documentos.
3.14 Métodos numéricos
Segundo Paes (2002), “Quando o principal elemento a ser considerado em um documento é o número, a escolha deve recair sobre um dos seguintes métodos: simples, cronológico ou dígito-terminal.” Esses métodos são indiretos, uma vez que para localizar um documento ou pasta, há que se recorrer a um índice alfabético, que fornecerá o número sob o qual os documentos ou pasta foram arquivados. A numeração obedece somente à ordenação sequencial, embora a disposição física das pastas, nas gavetas ou estantes, possa apresentar peculiaridades próprias a cada método.
O método numérico simples
Constitui-se na atribuição de um número a cada correspondente ou cliente, pessoa física ou jurídica, obedecendo-se à ordem de entrada ou de registro, sem qualquer preocupação com a ordenação alfabética,já que o método exige um índice alfabético remissivo. (PAES, 2002).
Além do registro (em livro ou fichas) das pastas ocupadas, a fim de se evitar que sejam abertas duas ou mais pastas com o mesmo número, é indispensável um índice alfabético remissivo, sem o qual fica difícil a localização dos documentos.
No método numérico simples, pode-se aproveitar o número de uma pasta que venha a vagar. Por exemplo: em uma organização existe uma pasta de nº X, onde se guarda a correspondência de determinada firma. Por qualquer motivo a organização termina suas relações comerciais com a referida firma.
Para que não se conserve uma pasta no arquivo corrente, sem utilidade, faz- se a transferência dos documentos, após análise e seleção, para o arquivo permanente, e aproveita-se o mesmo número com um novo cliente. Quanto à ficha do índice alfabético, referente à primeira firma, permanecerá no fichário acrescida de nova indicação do lugar onde se encontra no arquivo permanente. O novo cliente, que ocupa a pasta de nº X, terá também uma ficha no índice alfabético em seu respectivo lugar.
Feitas algumas adaptações, este método tem ampla aplicação nos arquivos especiais (discos, fotografias, filmes, fitas sonoras) e documentos especializados (projetos de engenharia, projetos de financiamento, prontuários médicos, cadastros de funcionários). Sempre que utilizar métodos numéricos, você deverá fazer um controle à parte. É uma questão lógica: não há como memorizar tantos números. Com uma simples tabela do Access ou criando um sistema próprio, você pode fazer este controle usando o computador, o qual exerce influência marcante no controle de documentos. Saiba mais conversando com um profissional da área da tecnologia da informação.
Método Numérico Cronológico
No método cronológico, além da ordem numérica, deve ser observada a data. Esta modalidade é a adotada em quase todas as repartições públicas. (PAES, 2002) Numera-se o documento e não a pasta. O documento depois de autuado, colocado capa de cartolina, onde além do número de protocolo são transcritas outras informações, em geral, passa a ser denominado processo.
Assim, além da ficha numérica, também chamada de ficha de protocolo (que é o registro propriamente dito, onde será indicada toda a movimentação do documento ou processo), devem ser preparados índices auxiliares (em fichas) alfabéticos, de procedência e de assunto para facilitar a recuperação da documentação.
Vantagens: maior grau de sigilo, menor possibilidade de erros por ser mais fácil lidar com números do que com letras.
Desvantagens: é um método indireto, obrigando duplicidade de pesquisa.
Método Dígito Terminal
Este método surgiu em decorrência da necessidade de serem reduzidos erros no arquivamento de grande volume de documento, cujo elemento principal de identificação é o número. Entre as instituições de grande porte, que precisam arquivar parte considerável de seus documentos por número podemos mencionar o INSS, as companhias de seguros, os hospitais, os bancos, entre outros. (PAES, 2002)
Os documentos são numerados sequencialmente, mas sua leitura apresenta uma peculiaridade que caracteriza o método: os números, dispostos em três grupos de dois dígitos cada um, são lidos da direita para a esquerda, formando pares.
Exemplo: decompondo-se o número 829.319, têm-se os seguintes grupos: 82-93-19.
Como a leitura é feita sempre da direita para a esquerda, chama-se o grupo 19 de primário, o grupo 93 de secundário, e o grupo 82 de terciário. Quando o número for composto de menos de cinco dígitos, serão colocados zeros à sua esquerda, para complementação. Assim o número 41.054 será representado pelos grupos 04-20-54.
Nesse método, o arquivamento dos documentos, das pastas ou das fichas é elaborado, considerando-se em primeiro lugar o grupo primário, seguindo-se o secundário e finalmente o terciário.
Vantagens: redução de erros de arquivamento; rapidez na localização e arquivamento, uma vez que trabalha com grupos de dois dígitos; expansão equilibrada do arquivo distribuído em três grandes grupos; possibilidade de divisão equitativa do trabalho entre os responsáveis pelo arquivo.
Desvantagens: leitura não convencional dos números; disposição física dos documentos de acordo com o sistema utilizado na leitura
O método cronológico é muito utilizado pelo profissional da área de recursos humanos; enquanto que o dígito terminal, por ser mais complexo, é utilizado em grande escala pelos bancos. Um dos métodos mais procurado é o numérico simples, porém há necessidade de referência cruzada, ou seja, que haja um suporte para consulta, já que é difícil memorizar tantos números.
Método por Assunto
O método de arquivamento por assunto não é de fácil aplicação, pois depende de interpretação dos documentos sob análise, além de amplo conhecimento das atividades institucionais. No entanto, é o mais aconselhado nos casos de grandes massas documentais e variedade de assuntos. (PAES, 2002).
Não há esquemas padronizados de classificação por assunto; entretanto cada instituição elabora seu próprio plano de classificação, onde os assuntos são grupados sob títulos principais e estes subdivididos em títulos específicos, partindo-se sempre dos conceitos gerais para os particulares. O maior ou menor grau de detalhamento a ser estabelecido obedecerá às necessidades do próprio serviço e das peculiaridades de cada empresa.
Recomenda-se que tal levantamento seja feito em fichas para facilitar a fase posterior de reunião dos assuntos em classes, grupos e subgrupos, de escolha de termos significativos para representá-los e, finalmente, de opção pelo método a ser adotado
Exemplo de um planejamento de arquivamento utilizando o método por assunto:
Tabela 1 - Método por assunto
Exemplo de um arquivo organizado pelo Método por Assunto
VESTUÁRIO
Roupas
Masculinas
camisas
calças
meias
casacos
paletós
Femininas
saias
blusas
meias
casacos
vestidos
Infantil
recém-nascidos
de 01 a 04 anos
de 05 a 10 anos
de 10 a 15 anos
Método Variadex
É uma variante do método alfabético. Com o objetivo de minimizar as dificuldades apresentadas na utilização deste método, a Remington Rand concebeu o método variadex, introduzindo as cores como elementos auxiliares para facilitar não só o arquivamento, como a localização de documentos.
Tabela 2 - Método Variadex
Método Variadex - Cores
Letras
Cores
A, B, C, D e abreviações
Ouro
E, F, G, H e abreviações
Rosa
I, J, K, L, M, N e abreviações
Verde
O, P, Q e abreviações
Azul
R, S, T, U, V, W, Y, Z e abreviações
Vermelho
Como é impossível determinar uma cor para cada letra do alfabeto, uma vez que seriam necessárias 26 cores distintas para representar o alfabeto, as cores da chave devem ser atribuídas às projeções das pastas em função da segunda letra do nome de entrada e não da inicial, a qual indicará a seção alfabética correspondente para sua ordenação. Assim, pode-se concluir que em cada letra do alfabeto existirão pastas nas cinco cores da chave.
Vejamos um exemplo dado por Paes (2002)
Tabela 3 - Método Variadex II
Método Variadex - exemplo de arquivamento com cores
Nomes
Entrada
Cores
C. Catram, S.A.
C. (abreviação)
Ouro
Décourt, Maria Luiza
Décourt
Rosa
Figueiredo, Hugo
Figueiredo
Verde
Flores, José Antonio
Flores
Verde
Pontes, Armando
Pontes
Azul
Trota, Luiz
Trota
Vermelho
As cores utilizadas no método variadex podem ser aplicadas em outros métodos. Isso representa uma técnica excelente para localizar os documentos.
3.18 Arquivística e informática
Segundo Rondinelli (2005, p. 23), após a II Guerra Mundial, a tecnologia do computador começou uma lenta expansão pelas instituições públicas e privadas. Aos poucos foram aparecendo os computadores pessoais e as redes de trabalho. Assim a informática foi inserida nas organizações, modificando profundamente os processos de trabalho e a forma de organizar a informação.
O termo tecnologia da informação (TI) servepara designar o conjunto de recursos tecnológicos e computacionais para geração e uso da informação. Para Rezende (2008), a TI está fundamentada nos seguintes componentes:
– Hardware e seus dispositivos periféricos;
– Software e seus recursos;
– Sistemas de telecomunicações;
– Gestão de dados e informações.
Tecnologia da Informação
Entende-se Tecnologia da Informação (TI) como sendo um conjunto de recursos não humanos dedicados ao armazenamento, processamento e comunicação da informação, e a maneira como esses recursos estão organizados num sistema capaz de executar um conjunto de tarefas. A TI não se restringe a equipamentos (hardware), programas (software) e comunicação de dados. Existem tecnologias relativas ao planejamento de informática, ao desenvolvimento de sistemas, ao suporte, ao software, aos processos de produção e operação, ao suporte de hardware.
O Hardware, Material ou Ferramental
Parte física do computador, ou seja, é o conjunto de componentes eletrônicos, circuitos integrados e placas que se comunicam através de barramentos. Em contraposição ao hardware, o software é a parte lógica, ou seja, é o conjunto de instruções e dados processados pelos circuitos eletrônicos do hardware.
Toda interação dos usuários de computadores modernos é realizada através do software, que é a camada, colocada sobre o hardware, que transforma o computador em algo útil para o ser humano.
Periféricos
São aparelhos ou placas que enviam ou recebem informações do computador.
Em informática, o termo periférico aplica-se a qualquer equipamento acessório que seja conectado à CPU (unidade central de processamento). São exemplos de periféricos: as impressoras, o scanner, leitores e ou gravadores de CDs e DVDs, leitores de cartões e disquetes, mouse, teclado, Webcams, dentre outros.
Os dados
São quaisquer registros ou indícios relacionáveis a alguma entidade ou evento. Por exemplo, um documento de identificação pode conter vários dados de uma pessoa como: nome, sexo, data de nascimento, etc. Outros exemplos de dados são a temperatura de uma cidade, ou a área de um território. Ainda que estes pareçam, por vezes, isolados, podem sempre englobar-se em conjuntos (as temperaturas das cidades de uma província ou país, ou as áreas de um conjunto de territórios) ou séries (as temperaturas de uma cidade ao longo do tempo).
Novas Tecnologias
Com o desenvolvimento da tecnologia da informação e comunicação, a arquivística desenvolveu-se com métodos modernos como o Gerenciamento Eletrônico de Documentos (GED) o Workflow (fluxo de trabalho) e sistemas informatizados de gestão arquivística de documentos (SIGAD).
O Gerenciamento Eletrônico de Documentos (GED) é uma tecnologia capaz de gerenciar de forma eletrônica qualquer tipo de documento, seja ele um documento digital ou não. O workflow é uma tecnologia que possibilita automatizar processos, racionalizando-os e potencializando-os por meio de dois componentes implícitos: organização e tecnologia. Essa tecnologia, além de otimizar e informatizar o fluxo de trabalho, gera documentos digitais os quais estão armazenados em diversos tipos de mídias digitais. O SIGAD é um sistema informatizado desenvolvido para produzir, receber, armazenar, dar acesso e destinar documentos arquivísticos. (SANTOS, 2002, p. 24).
Referências:
REZENDE, Denis Alcides. Tecnologia da Informação Aplicada a Sistemas de Informação Empresariais. São
Paulo Atlas, 2008;
RONDINELLI, Rosely Curi. Gerenciamento arquivístico de documentos eletrônicos: uma abordagem teórica da
diplomática arquivística contemporânea. Rio de Janeiro: FGV, 2005;
SANTOS, V.B. Gestão de documentos eletrônicos: uma visão arquivística. Brasília: ABARQ, 2002.
Qual o suporte de um documento digital?
Segundo Vanderlei SANTOS (2002, p. 26), o documento digital tem como base três elementos: o hardware, o software e a informação armazenada em um suporte. Os suportes de documentos eletrônicos são:
Suporte magnético
Tem como princípio básico de funcionamento o magnetismo, ou seja, a informação armazenada neste tipo de suporte é formada por cargas positivas e negativas que representam os dígitos binários. Uma das características principais dos suportes magnéticos é que a informação gravada pode ser modificada a qualquer momento, seja através do próprio hardware ou de um campo magnético. Exemplo: se colocarmos um disquete próximo a um ímã, o campo magnético do ímã irá desordenar toda a informação ali armazenada, o que torna impossível a recuperação ou a leitura da informação. Nessa situação, a mídia não foi danificada fisicamente e sim logicamente.
Suporte óptico
Possui uma característica fundamental em relação às demais mídias, pois é gravado uma única vez, seja no processo de gravação ou na gravação por gravador de CDs. Somente o CD-RW e o DVD-RW permitem regravações. O suporte óptico, ao contrário do magnético, não sofre influência das ondas eletromagnéticas e pode ser exposto a campos magnéticos.
Tipos mais comuns de suporte magnético
Disco Rígido
É um suporte com capacidades em constante evolução e que está instalado na parte interna do equipamento.
Memória digital
A grande maioria dos documentos é produzida em meio eletrônico, há uma crescente preocupação com a preservação desses documentos, em virtude da obsolescência das tecnologias, da deteriorização das mídias digitais e principalmente pela falta de políticas de preservação digital. Para Vanderlei, uma forma de contornar a problemática da obsolescência digital seria a criação de museus tecnológicos, locais onde teremos equipamentos obsoletos em perfeito estado de conservação onde será possível fazer a leitura de mídias eletrônicas consideradas obsoletas.
Na visão de SANTOS (2002), os documentos digitais podem ser gerados de três formas:
por meio de sistemas informatizados;
por processo de digitalização;
por meio de uso de um software ou sistema específico.
Considerando que a maioria dos documentos na atualidade é gerada por mídias eletrônicas, e que grande parte das organizações não tem uma política de preservação, analisemos os Dez Mandamentos da Preservação Digital sugeridos por Santos (2002, p.40):
Política de Preservação: Precisa haver uma equipe multidisciplinar responsável pela elaboração de uma política de preservação digital; preparação da infraestrutura e do ambiente; implantação da política de preservação propriamente dita e, por último, pela revisão e adaptação periódica. Sem essas ações não há como implantar uma correta política de preservação dos documentos.
Não depender de hardware específico: O hardware utilizado para a produção, gestão e preservação deve ser escolhido criteriosamente, pois se o hardware não for considerado como elemento de preservação, todo o acervo digital corre o risco de ficar a mercê do fabricante.
Não depender de software específico: Assim como não se deve depender de hardware específico, o mesmo procedimento se aplica ao software, que pode causar dependência tecnológica de tipo e de fabricante. Essa dependência fica perigosa à medida que torna impossível manter e migrar documentos digitais sem a interferência dos fabricantes, pois o detentor do documento digital não tem toda a autonomia para realizar os procedimentos fundamentais.
Não confiar em sistemas gerenciadores como única forma de acesso ao documento digital: Trata-se de uma “caixa preta” não somente em relação ao software, mas também aos gerenciadores de documentação digital, pois muitas vezes o usuário acredita que simplesmente por fazer a captura neste tipo de sistema, os dados e o próprio documento podem ser localizados a qualquer momento, mas é importante entender que qualquer sistema está suscetível a falha e que nem sempre podemos confiar nos sistemas gerenciadores. A captura consiste em declarar um documento como sendo um documento arquivístico por meio de ações de: registro, classificação, indexação, atribuição de outros metadados e arquivamento.
Migrar os documentos de suporte e formato periodicamente:Na atualidade a documentação digital faz parte dos acervos documentais podendo ser produzida, manipulada e visualizada de maneiras distintas, sofrendo modificações no seu formato e suporte ao longo do tempo. É importante que isso aconteça de forma periódica, pois os suportes e os formatos não duram para sempre, ficando assim suscetíveis à obsolescência tecnológica, à fragilidade e à perda de confiabilidade.
Replicar os documentos em locais fisicamente separados: O fato de manter uma política de backup não necessariamente garante a recuperação da documentação digital, pois em caso de alagamento ou incêndio, tudo pode ser perdido.
Não confiar cegamente no suporte de armazenamento: Qualquer perda no suporte de armazenamento pode significar a perda do acervo como um todo, portanto devem ser observadas inclusive as condições ambientais. De acordo com alguns estudos, foi possível definir que as mídias digitais apresentam maior confiabilidade em ambiente com temperatura baixa e pouca unidade relativa do ar. Uma temperatura considerada ideal seria em torno de 10°C e 20°C de umidade relativa.
Não deixar de fazer backup e cópias de segurança: A política de backup é o primeiro passo para a preservação dos documentos digitais, pois ele garante de forma íntegra e confiável a restauração de documentos digitais e sistemas informatizados.
Não preservar lixo digital: Muito lixo digital está sendo armazenado em servidores, microcomputadores e mídias em geral. Essa sobrecarga na maioria das vezes pode ser eliminada facilitando a capacidade de armazenamento de documentos que realmente necessitamos.
Garantir a autenticidade dos documentos digitais: A garantia da autenticidade dos documentos digitais é fundamental para a qualidade da documentação digital a ser preservada. Um dos momentos críticos para a garantia da autenticidade no documento digital é o momento da migração, que expõe o documento digital para possíveis adulterações e perda de garantia da fidedignidade e da autenticidade
Informação
Primeiramente, vamos tentar entender o que é informação. Pois bem, hoje em dia, a palavra informação remete-nos de imediato para os jornais, notícias, televisão e poucos são os que pensam em livros, pesquisa ou formação. De fato, pensa-se logo em comunicação e torna-se difícil estabelecer uma distinção entre dois conceitos. A comunicação põe em comum, reúne, mistura e divulga a informação. Nas novas tecnologias esta comunicação da informação é feita por meios mais modernos, tais como máquinas de fax, satélites, câmaras de vídeo, leitores de CD, impressoras, computadores pessoais e telefones, entre outros menos divulgados. A informação é, então, o “termo que designa o conteúdo de tudo aquilo que trocamos com o mundo exterior e que faz com que nos ajustemos a ele de forma perceptível”.
A palavra informática surge da contração das palavras informação e automática. Logo, informática é a ciência que estuda os métodos e modo de processamento e transmissão da informação. (LOPES; MONTE, 2004).
Os principais suportes da informação encontrados na atualidade são:
Os papéis;
Os filmes;
Os dispositivos de armazenamento magnético;
Os dispositivos de armazenamento óptico.
O papel é utilizado há vários séculos como sustentáculo de múltiplas informações. Somente no século XX começa a ser substituído pelos suportes eletrônicos ou informáticos (fitas, discos rígidos e flexíveis, compact discs, entre outros). Porém, o papel é reconhecido legalmente, enquanto discos e fitas magnéticas necessitam, ainda, de ser legalmente aceitos pelas agências governamentais. (LOPES; MONTE, 2004).
Gerenciamento Eletrônico de Documentos
Conhecido como GED, torna os documentos disponíveis extremamente eficientes para o usuário. Ele também permite a recuperação desses documentos através de estruturas eletrônicas como discos magnéticos e ópticos. (LOPES; MONTE, 2004). Em um sistema de GED usa-se a Tecnologia da Informática para captar, armazenar, localizar e gerenciar versões digitais das informações, cuja finalidade é converter informações, normalmente encontradas em suportes convencionais (papel, fita), para a forma digital. No GED, os documentos em papel são preparados para serem digitalizados em scanners especiais. Após a digitalização, os documentos passam por uma conferência e depois são gravados em meios magnéticos ou ópticos
O GED tem ainda como objetivo gerenciar o ciclo de vida das informações desde sua criação até o seu arquivamento. As informações podem, originalmente, estar registradas em mídias analógicas ou digitais em todas as fases de sua vida. Podem ser criadas, revisadas, processadas e arquivadas em papel. Podem ainda ser criadas em mídias eletrônicas, processadas a partir dessas mídias e arquivadas eletronicamente.
No enfoque da Arquivística, o GED funciona como um gestor das rotinas, colaborando, de uma forma rápida, na localização, classificação e avaliação documental.
As páginas de um “website” são consideradas documentos arquivísticos, pois são produzidas e recebidas no decorrer das atividades da instituição que as criou e, portanto, servem como fonte de prova das atividades de uma organização. (Fonte: CONARQ).
Arquivo Fotográfico
Segundo orientação de Paes (2002) para se evitar a deterioração pela umidade e acidez, as fotografias devem ser acondicionadas em papel de pH neutro e guardadas em pastas suspensas, com suportes de plástico. Devem ser identificadas pelo mesmo código de assunto ou número de registro dado ao grupo de fotos que contêm e arquivadas pelo código de assunto principal ou em ordem numérica crescente, conforme o método adotado, em móveis de aço.
Os negativos das fotos devem ser acondicionados em tiras, em envelopes confeccionados em papel de pH neutro ou polietileno. O código do assunto ou o número de registro e o da fotografia correspondente devem ser transcritos no envelope em que o negativo for acondicionado.
Arquivo de Fita Magnética, Filme e Disco
Os procedimentos para o arquivamento de fitas áudio e vídeo magnético, filmes e discos, guardadas as particularidade de cada suporte, são muito semelhantes aos aplicados no arquivo fotográfico.
Neste caso, o método de arquivamento mais indicado é o numérico simples. Cada rolo de fita ou filme, bem como cada disco, receberá um número de registro que os identificará e localizará no acervo.
Para possibilitar a pesquisa, devem ser preparadas fichas que permitam recuperar as informações através de cada um dos elementos de interesse dos usuários, tais como assuntos, nomes (de conferencistas, autores, intérpretes, compositores, orquestras, regentes, diretores, etc) datas, títulos (de conferências, congressos, músicas, filmes etc.) de lugares, acontecimentos, gêneros musicais (tango, sinfonia, rock etc). Essas fichas dão suporte ao arquivo.
Arquivo de Recorte de Jornal
Em geral, os recortes de jornais são arquivados, com vantagem, por assunto, podendo-se aplicar qualquer um dos métodos usuais, ou seja, o dicionário, o enciclopédico, ou decimal. Desaconselha-se a colagem do recorte em folhas de papel, a fim de facilitar o processo de microfilmagem, que exige uniformidade de coloração de papéis, bem como melhor aproveitamento dos fotogramas.
Arquivo de Catálogo Impresso
Além da correspondência e de outros documentos convencionais, as empresas possuem também impressos e catálogos produzidos ou não por elas, e que devem receber tratamento arquivístico.
O arquivamento poderá ser feito por assunto, por nome das firmas ou por artigos referenciados nos catálogos. Se o arquivamento for por assunto deverão ser preparadas fichas para os nomes das firmas e para os artigos neles mencionados. Se o arquivamento for feito pelos nomes das firmas deverão ser preparadas fichas para os assuntos e para os artigos
Nessa situação o melhor método é o alfabético, tanto para os nomes de firmas e de artigos quanto para os assuntos. Poderá ser adotado também o método numérico simples. Neste caso, cada catálogo receberá um número de registro, pelo qual serãoarquivados, devendo ser organizado fichários com entrada pelo nome das firmas, pelos assuntos e pelos artigos constantes dos catálogos. (PAES, 2002).
Sempre que for elaborar um arquivamento, pondere o método com o suporte dos documentos. Certamente você concorda que não dá para guardar fotografias ou recortes de jornais da mesma maneira que se guardam outros tipos de documentos. Já se encontram disponíveis no mercado, tipos de plásticos que não agridem as fotos. Vale a pena conhecer esses materiais!
Conservação de documentos
Classifique
Classifique e arquive seus documentos ativos por assunto e acondicione de preferência em pastas suspensas, que facilitam a localização e o acesso ao material. Identifique o assunto principal da pasta de acordo com que está arquivando e coloque-as em ordem alfabética. Dentro das pastas, separe os documentos por sub-assunto e período, utilizando divisórias de cartolina.
Recomendações para conservação de fotografias e negativos
Não use grampos ou clipes em fotografias ou negativos;
Não escreva em fotografias com caneta ou tinta de qualquer espécie.
Use somente lápis macio (6B) e de preferência anote no verso apenas o número (código) para catalogação;
Não use fita adesiva, etiqueta autoadesiva ou cola diretamente sobre as fotografias e filmes (frente e verso);
Não toque diretamente nas fotografias e negativos, utilize luvas.
Evite
Evite danos ao papel utilizando fixadores plásticos no arquivamento dos documentos, pois os fixadores de metal provocam manchas de ferrugem não removíveis no papel. O controle contra insetos em arquivos deve ser realizado mediante limpeza e desinsetizações periódicas e uso preferencialmente de estantes de aço.
Para maior durabilidade, fitas de vídeo, disquetes e outros meios eletrônicos devem ser mantidos longe de campos eletromagnéticos (computadores, aparelhos de som, de televisão, etc.) e livres de poeira, umidade e temperaturas altas
Preserve seus documentos tomando alguns cuidados básicos durante a consulta:
Sempre manuseie documentos com as mãos limpas livres de sujeira e gorduras.
Não umedeça o dedo com a saliva para virar as páginas de um documento/livro. Ela afeta a sua saúde e pode provocar o desenvolvimento de microrganismos na documentação.
Não dobre o canto da folha para marcar páginas. Esta dobra, no futuro, poderá causar o rompimento do papel. Utilize marcadores de livro em papel livre de acidez.
Organização de documentos
Controle a temporalidade de guarda dos documentos
Elabore a Tabela de Temporalidade Documental definindo o prazo de guarda dos documentos com base na legislação vigente e nas particularidades da Instituição, possibilitando a adoção de critérios para guarda e descarte dos documentos, maior confiabilidade em ações de expurgo, redução de custos operacionais, racionalização de espaço físico, materiais e recursos humanos.
Identificação de documento arquivístico eletrônico original
No ambiente eletrônico, a qualidade de original é dada de acordo com a rota do documento dentro do sistema eletrônico de gestão arquivística. Quando um documento é transmitido eletronicamente, o original é aquele que é recebido. Isto porque a transmissão acrescenta metadados que o tornam mais completo e capaz de gerar consequências. Neste caso, o documento armazenado pelo remetente é considerado uma cópia.
Descarte Documentos
Gerencie o descarte dos documentos com a implantação de Termo de Eliminação que é instrumento onde deve constar a relação dos documentos a serem eliminados e a aprovação dos responsáveis. Mantenha os Termos no Arquivo para possíveis consultas
Defina e implante a metodologia de arquivamento dos documentos da Instituição, visando:
Localizar os documentos no instante em que solicitados;
Conservar junto, em um mesmo lugar, todos os documentos relacionados com um determinado assunto, lugar, indivíduo, firma ou instituição;
Proporcionar lugar seguro e permanente para os documentos.
O profissional deve avaliar os documentos que precisam ser mantidos no arquivo considerando a exigência legal e a necessidade administrativa da empresa. A redução de custos na manutenção de arquivos provém do não arquivamento de documentos desnecessários e pela eliminação dos que já perderam o valor legal ou administrativo. Utilizar pastas internas para dividir os assuntos correlatos dentro das pastas suspensas, assim localizará as subseções da pasta de forma mais rápida.
Para que haja uma gestão eficaz do arquivo, é bom implantar um controle de empréstimo de documentos. Este controle poderá ser feito com o uso de divisórias coloridas de papel, registrando-se o nome, ramal e data de retirada. Os documentos retirados deverão ser substituídos temporariamente por estas divisórias até sua devolução.
Antes de arquivar um documento, o profissional deve ler, definir o assunto e avaliar se a guarda desse documento se faz necessário. O sistema de arquivamento deve ser escolhido de acordo com o tipo de documento, o volume e a frequência de uso. Os documentos podem ser classificados e organizados por assuntos, nomes de pessoas, instituições, datas, lugares, em ordem numérica ou uma combinação de todos os itens.
Para considerar um documento como original, deve-se avaliar o contexto em que este é gerado. Se o documento é produzido eletronicamente e a tramitação é feita no papel (assinatura, circulação e arquivamento), o documento em papel é considerado o original. Todavia, se o documento possuir assinatura, fluxo e arquivamento em meio eletrônico, este é que será considerado o original. Neste caso, o documento impresso será considerado uma cópia. (Fonte CONARQ)
Na organização de um arquivo devem ser considerados os seguintes aspectos:
a temporalidade dos documentos;
a implantação de um método eficiente;
o suporte dos documentos (se em papel, em fita, em filme etc).
os materiais de consumo que serão necessários para o arquivo;
os equipamentos físicos necessários; (caixas de papelão, gavetas em aço, etc).
o controle de empréstimo e consulta local;
o espaço físico e capacidade de expansão;
a localização do setor do arquivo (preferência no térreo, sempre considere o peso);
Um método eficiente é aquele que permite a rápida localização dos documentos, e também a facilidade de adaptação para os demais funcionários de uma determinada empresa.
4 Trabalho Escolar e Teorias Administrativas
Concepções e organizações
4.1 Concepções de educação: a relação Escola-Sociedade como ponto de partida e de chegada
Você já deve ter parado para pensar como várias questões presentes no trabalho desenvolvido na escola estão relacionadas à sociedade, vista em um sentido mais amplo. Já deve ter observado também como as ações que realiza na secretaria da escola estão associadas à maneira como as pessoas – você, seus colegas de trabalho, professores, gestores e a comunidade em geral – compreendem o que é educação.
É isso mesmo, cada um de nós pode perceber a educação de uma maneira, pois, afinal, todos assumimos um papel educativo na escola, à medida que contribuímos para o alcance de um objetivo comum: o sucesso do aluno! Entretanto, devido à complexidade que possui, a educação tem sido estudada por um grande número de teóricos, cuja preocupação tem sido, dentre outras, a de sistematizar a discussão do fenômeno educativo, considerando que esse fenômeno ocorre na sociedade em geral, e que sua sistematização acontece na instituição escolar.
Assim analisaremos algumas concepções (ou visões) de educação, procurando extrair de cada uma delas seus principais fundamentos e ideias. Todavia, é importante lembrar que, embora tenham surgido obedecendo a uma cronologia de tempo, essas concepções convivem simultaneamente na sociedade, de maneira geral, e na escola, em particular, ainda que uma delas predomine sobre as outras, em determinados momentos da história.
Para a discussão dessas teorias, obordaremos o discurso conservador do paradigma do consenso, eas denúncias e propostas do paradigma do conflito.
Estudando os conteúdos abordados, esperamos que você seja capaz de:
reconhecer elementos importantes da relação entre escola e sociedade; e
identificar as principais características das concepções de educação vinculadas ao paradigma do consenso e ao paradigma do conflito.
Neste primeiro momento, discutiremos diferentes concepções de educação que convivem tanto na sociedade quanto no interior da escola. A compreensão desse tema é importante, sobretudo, para um entendimento mais amplo das várias formas como a educação é concebida como prática social e de sua relação com os conceitos de organização e teorias administrativas, temas abordados na sequência.
Em sua experiência de vida e profissional, você já deve ter parado para pensar como a escola lida com diferentes visões de mundo presentes na realidade social, embora uma ou outra predomine sobre as demais.
Você pode estar-se perguntando: por onde começar a discussão sobre o conceito de educação? Veja: essa reflexão implica, antes de tudo, pensar a relação escola versus sociedade. Sabe por quê? Porque as diferentes concepções de educação não se encerram em si mesmas, mas decorrem de determinadas visões de homem, de mundo e de sociedade. O ponto de partida é a reflexão sobre o sentido que a educação assume para os sujeitos em seu contexto social. Observe como Carlos Rodrigues Brandão, por meio da transcrição do extrato de uma carta de índios, chama nossa atenção para essa questão:
[...] Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração.
Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa ideia de educação não é a mesma que a nossa.
[...] Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e apreenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou conselheiros.
Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens.” (BRANDÃO, 1996, p. 8).
Que bela lição do que é educação, não? As ideias contidas no trecho apresentado nos mostram que cada grupo atribui um sentido à educação, porque possui uma concepção própria do fenômeno educativo. Em diferentes épocas, os povos adotam variadas formas de educação, valorizam diferentes métodos de ensino e definem variadas funções para a escola. Afinal, a educação sempre ocorre com sujeitos que, como você, são dotados de historicidade. Por isso, a escola precisa construir sua própria história, a partir da ação conjunta dos seus atores.
Ao longo do tempo, a educação tem sido objeto de muita discussão, motivo pelo qual foram surgindo diversas teorias para explicá-la. Todavia, aqui o nosso interesse é analisar apenas algumas das principais concepções de educação, as quais, em linhas gerais, estão vinculadas a dois grandes paradigmas: o paradigma do consenso e o paradigma do conflito.
Mas, o que é um paradigma? O teórico Thomas Kuhn (1996) nos ajuda a pensar a respeito desse conceito. Para ele, os paradigmas são “as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (p. 13).
Um paradigma representa uma estrutura de pensamento para a explicação e compreensão de certos aspectos da realidade. Em função disso, o surgimento de um novo paradigma resulta de um processo evolutivo que envolve uma análise da realidade presente e a busca de novas alternativas para os problemas existentes.
O Discurso Conservador do Paradigma do Consenso
Como enfatizamos anteriormente, as concepções de educação são decorrentes de determinadas visões de homem, mundo e sociedade. Por isso, iniciaremos nossa discussão sobre o que é educação exatamente por esses conceitos.
Dentre as várias teorias que explicam o fenômeno educativo, destaca-se aquela vinculada ao funcionalismo. Vejamos, então, como o funcionalismo encara a sociedade.
Mostrando-se conservador, o funcionalismo percebe a sociedade como similar a um organismo vivo, composto de várias partes interdependentes que, desempenhando funções específicas, devem ajudar na manutenção do equilíbrio social. Nesse sentido, a sociedade é preservada à medida que a harmonia reina entre os indivíduos, sendo as diferenças sociais percebidas como decorrências naturais das características pessoais desses mesmos indivíduos.
O funcionalismo defende a necessidade da ordem social, bem como a reprodução das regras sociais pelos indivíduos, a fim de a sociedade perpetuar-se. Veja que, nessa lógica, vêm, em primeiro lugar, as estruturas sociais e não o indivíduo.
O funcionalismo é uma tendência que ressalta a função dos elementos culturais em detrimento de sua forma. Essa perspectiva teórica considera que a todo elemento cultural deve ser atribuída uma função e que a estrutura existe em si mesmo, como um todo funcional.
A partir dessa visão de sociedade e de homem, como o funcionalismo encara a educação? Podemos dizer que, nessa visão, a educação é concebida como fator de equalização social. Vinculada ao paradigma do consenso, essa concepção ganhou força nas primeiras décadas do século XX, vendo a educação escolar como “salvadora” de todos os problemas da sociedade, sejam eles sociais, políticos ou econômicos.
Vamos agora refletir se é possível a escola ser a redentora dos problemas presentes na sociedade.
Um dos principais representantes dessa forma de pensar é Émile Durkheim (1858-1917). Para esse teórico, a educação, em princípio, pode até ser estabelecida pelo indivíduo ou grupo de indivíduos, a partir de seus interesses ou habilidades. Porém, ela só alcançará seus objetivos plenos se for realizada de acordo com os interesses que a sociedade estabelece como condições necessárias à sua própria manutenção (DURKHEIM, 1975).
Figura 1 - Máquina da educação
Descrição da imagem: Máquina da educação apresenta uma esteira com três crianças, cada criança diferente uma da outra, uma das crianças é uma menina que veste saia e sapatos vermelhos e camiseta rosa, está com a mão no queixo e com feições de que está com dúvidas, à outra criança é um menino que veste camiseta verde e calça azul, está segurando um urso de pelúcia nas mãos e apresenta feições de irritado, e a outra criança é um menino que veste camiseta branca e calção azul, os mesmos estão remendados ele apresenta a feições de triste. Na sequência há uma espécie de máquina que está no meio da esteira e da máquina saem crianças vestidas todas iguais com um uniforme branco e azul, com posturas iguais, segurando livros em baixo de um dos braços.
Émile Durkheim (1858-1917)
Durkheim nasceu em Epinal, na Alsácia, descendente de uma família de rabinos. Realizou estudos filosóficos na Escola Normal Superior, de Paris (França) e na Alemanha. Esse teórico acreditava ser a ciência o modelo de pensamento ideal, rigoroso e eficaz, capaz de levar à definição de uma moral com base científica.
Considerando o homem como resultado do coletivo, o referido autor defende que a educação deve-se resumir à ação que as gerações mais velhas (adultas) exercem sobre as gerações mais novas, visando à incorporação, por parte destas, de determinados estados físicos, intelectuais e morais necessários à reprodução da própria sociedade.
Na visão funcionalista, a educação é reduzida a um mecanismo adaptativo do homem à sociedade, restringindo-se à mera transmissão de conhecimentos, fazendo com que tradiçõese regras sociais sejam defendidas, por exemplo, pela escola, com o objetivo de manter o equilíbrio social.
Também inserido na visão funcionalista encontra-se Karl Mannheim (1893-1947) que, defendendo a necessidade de técnicas sociais para o planejamento de uma sociedade democrática, vê a educação como uma dessas principais técnicas. Para ele, a educação escolar é elemento-chave para o progresso social, devendo preparar o indivíduo para viver numa sociedade que seja o resultado de um planejamento democrático e racional.
Mannheim foi um sociólogo alemão de origem húngara, tendo desenvolvido muitos estudos de filosofia e sociologia. Foi brilhante professor de Sociologia em Frankfurt (Alemanha) a partir de 1930. Em 1933, com a ascensão do nazismo, Mannheim deixou a Alemanha para tornar-se professor em Londres (Inglaterra). Mannheim concebe as técnicas sociais como todo e qualquer método que possa influenciar na conduta do homem, visando levá-lo a adaptar-se às normas e aos padrões de interação e organização social vigentes (MANNHEIN, 1972).
Para esse autor, a racionalidade humana deve ser usada para assegurar a harmonia social. Todavia, a capacidade de utilizar a racionalidade não estaria em todos os homens; apenas alguns teriam o conhecimento e a competência para planejar a sociedade democrática.
Mas, com diz o poeta Cazuza, “o tempo não para ”, não é verdade? As transformações políticas, econômicas e sociais pelas quais passou o mundo nas duas primeiras décadas do século XX fizeram com que a educação fosse pensada e vivida de forma diferente. As novas perspectivas apresentadas, principalmente em função da 1ª Grande Guerra Mundial (1914-1918), repercutiram intensamente nos vários setores da vida social. O contexto era de “uma civilização em mudança”, um mundo de grandes mudanças sociais.
Surge, assim, outra concepção educacional, a Escola Nova que, propondo uma pedagogia ativa, terá no americano John Dewey (1859-1952) seu representante máximo. Esse autor parte do princípio de que “educação não é preparação para a vida, mas é a própria vida”. Para ele, o indivíduo se educa através do processo ativo de construção e reconstrução da experiência, o que caracterizaria a educação como um processo fundamentalmente social (DEWEY, 1967).
Em geral, na visão escolanovista, a democracia é percebida, primeiramente, no âmbito da escola e não no contexto das relações sociais, o que leva os seus defensores a não discutirem a divisão e a luta de classes em sua maneira de conceber a educação. Dentre seus princípios orientadores, destacam-se:
educação que equilibre as necessidades individuais com o meio através de experiências que satisfaçam, ao mesmo tempo, os interesses do aluno e as exigências sociais;
valorização da criança e respeito à sua liberdade, iniciativa e interesses. O que importa é a atividade que vale por si mesma e não pelos resultados e práticas sociais que produz;
ênfase na metodologia, deixando em segundo plano o conteúdo, de forma que este último pouco importa: qualquer um serve, desde que leve o aluno a aprender a aprender; e
bases científicas na educação, levando à defesa da incorporação do desenvolvimento tecnológico-científico ao ato educativo (DEWEY, 1967).
A participação é um dos elementos constitutivos da democracia. Então, a partir disso, podemos refletir até que ponto é democrática uma sociedade planejada apenas por alguns, para ser vivida por todos.
No início da década de 1960, o pensamento conservador na educação assume uma nova roupagem, por meio dos programas de educação compensatória. Partindo da ideia da deficiência cultural, segundo a qual o aluno das classes trabalhadoras é portador de déficits socioculturais, a educação compensatória não questiona se as diferenças sociais decorrem das características dos sujeitos ou se são resultados diretos da divisão social do trabalho.
Em linhas gerais, a educação compensatória veicula o discurso da necessidade de a escola compensar as deficiências resultantes do ambiente pobre em que vivem as crianças da classe trabalhadora. Assim, defende o papel da educação como agente equalizador das desigualdades sociais, de deficiências que vão desde questões de saúde, nutrição e familiares até outras de natureza emotiva, cognitiva e linguística. Como podemos ver, até aqui, em maior ou menor grau, as concepções educacionais discutidas mantêm sua filiação ao paradigma do consenso.
Descrição da imagem: Educação compensatória representada por uma caixa de texto centralizada com a palavra Escola, em seu entorno apresenta seis caixas de texto com setas que ligam estas caixas à caixa central, as caixas apresentam os seguintes indagações: Questões emotivas?; Saúde e alimentação?; Questões nutricionais?; Questões cognitivas?; Questões linguísticas?; Questões familiares?.
Todavia, nenhuma visão de mundo é absoluta, nem existe sozinha em um momento da história; sempre há outras que se manifestam, de forma conflitante. Por isso, é importante buscar outras formas de perceber a educação na sociedade e na escola, espaço no qual você desempenha o seu trabalho. Vejamos, então, outras possibilidades de se conceber o fenômeno educativo.
Referências:
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. 38. ed. São Paulo: Brasiliense, 1996. (Coleção Primeiros Passos).
DEWEY, John. Vida e educação. São Paulo: Melhoramentos, 1967.
DURKHEIM, Émile. Educação e Sociologia. 10ª ed. São Paulo: Melhoramentos,1975.
KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.
MANNHEIN, Karl. Liberdade, poder e planificação democrática. São Paulo: Mestre Jou, 1972.
Este material foi baseado em:
SOUZA, José Vieira. Trabalho escolar e teorias administrativas. Universidade Federal de Mato Grosso/Rede e-Tec Brasil, Cuiabá: 2013.
4.1.1 Denúncias e propostas do paradigma do conflito
Opondo-se ao modelo discutido anteriormente, o paradigma do conflito entende que toda sociedade possui contradições internas fortes o suficiente para levar à sua própria superação. Nesse sentido, os conflitos são vistos como necessários à organização social, pois eles estão presentes nas relações que os homens estabelecem entre si, no mundo social.
Essa forma de perceber a sociedade tem como base o marxismo e adota o homem como o centro do mundo e como processo de suas ações. Considerando que os humanos participam de determinadas relações sociais, defende que o mundo social deve ser compreendido a partir de seus condicionantes histórico-econômicos e da divisão e luta de classe. Este nível de percepção da realidade social influencia todas as concepções educacionais do paradigma do conflito. Abordaremos aqui duas dessas grandes concepções.
O marxismo é um conjunto de doutrinas sociais e filosóficas cuja origem está relacionada ao pensamento de Karl Marx. Embora possua diversas vertentes, como sistema ideológico o marxismo critica radicalmente o capitalismo e defende a emancipação dos homens numa sociedade sem classes (MARX, 1975).
Educação como Fator de Reprodução Cultural
Um grupo das teorias educacionais marxistas é denominado de crítico-reprodutivista e, em geral, percebe a educação como fator de reprodução cultural. Dessas teorias, uma das mais debatidas é a de Louis Althusser (1918-1990), para quem o trabalho da escola é escolher um saber único e passá-lo a indivíduos concebidos isolados de suas condições de classe. Para esse autor, como poderoso Aparelho Ideológico do Estado/AIE, a escola veicula a ideologia burguesa e a impõe à classe trabalhadora, negando-lhe quaisquer possibilidades de expressar sua própria visão de mundo (ALTHUSSER, 1985).
Para Althusser (1985), a ideologia se materializa na sociedade por meio dos Aparelhos Ideológicos de Estado/IES, os quais funcionam como aparelhos de reprodução e alienação ideológica da classe dominante do poder de Estado. Diversos são esses AIE: religioso (sistema das diferentes igrejas); escolar (sistema de diferentes escolas públicas e particulares); familiar; jurídico; político (diferentes partidos);sindical; da informação (imprensa, rádio, TV); cultural (Letras, Belas Artes, Desportos etc.). Ainda de acordo com o mesmo autor, há uma diferença entre o Aparelho Repressivo de Estado e o Aparelho Ideológico de Estado: o primeiro funciona primeiramente pela violência e secundariamente pela ideologia enquanto o segundo age de forma inversa.
De forma semelhante, pensam outros teóricos, como Pierre Bourdieu (1930-2002) e Jean-Claude Passeron para quem a escola age pela violência simbólica. Para eles, a violência simbólica da educação manifesta-se quando a escola leva o aluno a destruir sua visão de mundo para assumir a da classe dominante, levando-o a responsabilizar-se pelas consequências desse processo. Em função disso, os padrões culturais, estéticos e artísticos valorizados e privilegiados são os daqueles grupos privilegiados na sociedade. Observe, caro (a) cursista, que esses autores conseguem identificar a contradição básica do funcionamento da escola na sociedade capitalista: favorecer os já favorecidos e excluir os já excluídos (BOURDIEU & PASSERON, 1975).
Outra abordagem crítico-reprodutivista é a expressa por Baudelot e Roger Establet, para os quais a principal função da escola capitalista é inculcar a ideologia burguesa na classe trabalhadora, contribuindo, assim, para a reprodução das desigualdades sociais. Esses autores admitem que os alunos trabalhadores têm uma ideologia própria, mas entendem também que, ao ingressar na escola, esses alunos têm destruída sua visão de mundo. Tal processo se desenvolve à medida que a escola procura torná-los submissos e sem forças significativas para manifestarem-se e fazer valer sua ideologia de classe (BAUDELOT & ESTABLET, 1971).
A forma com que esse grupo de visões teóricas encara a ação educativa tem provocado, nas últimas décadas, muitas críticas por se mostrarem, por exemplo:
Reducionistas, à medida que apresentam o fator econômico como determinante das outras dimensões da vida social;
Próximas ao funcionalismo por defenderem total passividade dos sujeitos sociais;
Pessimistas e derrotistas, por não levarem em conta o caráter político das ações dos indivíduos visando a processos de transformação social; e
Imprecisas na análise da realidade social, por não conseguirem captar o funcionamento contraditório dessa realidade.
Educação como Fator de Resistência e Transformação Social
As limitações das teorias crítico-reprodutivistas levaram à necessidade de elaboração de outra abordagem mais recente do paradigma do conflito. Essa nova abordagem trabalha com a ideia da resistência, elemento desconsiderado pelas teorias da reprodução cultural, discutidas anteriormente. Henry Giroux é um dos mais importantes representantes desta teoria crítica em educação, que apresenta certa esperança emancipatória do trabalho da escola.
Não existe atividade humana da qual se possa excluir de toda intervenção intelectual, não se pode separar o homo faber do homo sapiens. Em suma, todo homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um "filósofo", um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção do mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui assim para manter ou modificar uma concepção do mundo, isto é, para promover novas maneiras de pensar (GRAMSCI, 1991, p. 11).
Quanto à relação escola-sociedade, essa teoria inspira-se no pensamento de Antonio Gramsci (1891-1937), teórico segundo o qual todos os homens são intelectuais embora, devido às condições materiais e ideológicas da organização da cultura, só alguns efetivamente desempenhem essa função. Para ele, não há nenhuma atividade humana totalmente desprovida do elemento intelectual. Sem dúvida, é extremamente importante perceber essa relação entre o pensar e o fazer na ação humana, pois, afinal, todos somos, ao mesmo tempo, homo fabere o homo sapiens. Veja como Gramsci nos ajuda a entender esta relação:
Em linhas gerais, a teoria da resistência parte do princípio de que o processo de reprodução cultural nunca é total, existindo sempre germes de resistência nas práticas escolares dos grupos.
Como você sabe, é o conhecimento que possibilita distinguir a realidade social, pondo em perigo as verdades até então tidas como absolutas e inquestionáveis. Veja, então, que a educação pode ser considerada como fator de transformação social, já que uma classe social só pode impor-se sobre outra fazendo valer sua visão de mundo e seus interesses. Nesse contexto, é que a prática educativa assume um caráter politizador, capaz de ajudar a rever o caráter classista que se tem manifestado, historicamente, na função da escola.
Na relação escola versus sociedade, ocorrem processos de desgaste e renovação das concepções de educação. Assim, é possível encontrarem-se elementos repetitivos de um lado e inovadores do outro, conforme você já deve ter verificado em sua atuação profissional.
Esperamos que a discussão realizada até este momento, sobre a relação escola versus sociedade, tenha servido para ajudar a perceber a escola como um espaço educativo no qual convivem diferentes concepções de educação. Essas concepções são expressas pelos diversos atores que, como você, participam e contribuem para a realização do trabalho escolar.
Para encerrar, reiteramos a ideia de que tais concepções decorrem de certas visões de homem, mundo e sociedade. Portanto, devemos compreendê-las considerando o momento histórico em que cada uma delas é elaborada, difundida e transformada dentro das organizações sociais. Analisaremos o conceito de organizações na próxima aula, partindo do elemento que o constitui: o grupo.
4.2 As organizações como característica fundamental
Como vimos anteriormente, as concepções de educação têm origem nas visões de mundo, homem e sociedade. Em decorrência disso, algumas delas enfatizam o caráter conservador do ato educativo e outras, numa perspectiva contrária, seu caráter transformador.
Esperamos que essa discussão o(a) tenha ajudado a identificar, na escola onde atua, a concepção educacional que se vem destacando em relação às demais. Afinal, como cogestor dessa organização educativa, é fundamental você ter clareza dessa questão para que, juntamente com os demais grupos da escola, oriente o trabalho pedagógico para a mudança.
Partindo dessa ideia mais geral, discutiremos a marca distintiva que as organizações têm assumido no mundo contemporâneo. Pare e pense: na atualidade todos os indivíduos, inclusive você, estão envolvidos e participam de um grande número de organizações, ao mesmo tempo. A escola é uma delas!
Para melhor compreender a discussão proposta, dividimos os conteúdos nos seguintes temas:
O Surgimento das Organizações no Mundo Moderno e o Papel dos Grupos;
Uma Primeira Aproximação do Conceito de Organização e suas Classificações;
Níveis de Participação dentro das Organizações;
Mas, por que a Escola É Diferente das Demais Organizações Sociais?
O estudo dos temas dessas seções poderá ajudá-lo(a) a perceber que a escola somente concretiza o trabalho dela contando com a participação dos diversos grupos que a compõem. É da união de forças, que essa organização conseguirá desempenhar um papel de grande importância no mundo moderno: formar indivíduos numa visão crítica, democrática e emancipatória.
Após realizar o estudo dos temas abordados nas cinco seções apresentadas, são esperados os seguintes objetivos:
Reconhecer as organizações como marca distintiva do mundo contemporâneo, sua classificação e os níveis de participação dos indivíduos em seu interior; e
Caracterizar a escola como uma organização diferenciada das demais na sociedade contemporânea, em decorrência da especificidade de sua atuação.
4.2.1 O surgimento das organizações no mundo moderno e o papel dos grupos
Mas o que podemos entender por organização, no contexto da sociedade moderna? Será da discussão desse conceito que nos ocuparemos a seguir.
O homem é um ser social e, portanto, tem necessidade de socializar-se. Além disso, possuisuas limitações e, para garantir o cumprimento dos seus objetivos em sociedade, é levado a cooperar com seus pares. Dessa interação entre os homens surgem as organizações. Porém, para compreendermos melhor esse processo é importante discutir, primeiro, o conceito de grupo, pois este é o elemento básico da organização. Inicialmente, é importante destacar que o grupo constitui a estrutura mais elementar do mundo social. Porém, nenhum grupo nasce pronto, mas é construído, sendo essencial para o processo de aprendizagem, para a convivência e para as relações.
Na sociedade há dois tipos de grupos: primários e secundários. Os grupos primários, como, por exemplo, a família, possuem maior grau de interação, intimidade e coesão. Esse tipo de grupo requer mais tempo para desenvolver graus de interação e sentimentos comuns aos seus membros. Por sua vez, os grupos secundários mostram-se menos coesos, menos íntimos, mais formais e com normas de convivência mais explícitas. Esses grupos, como, por exemplo, aqueles formados por pessoas que assistem a uma sessão de cinema, revelam dificuldades de se sustentar por um longo período de tempo.
No interior desses grupos, há uma relação diferenciada de poder. Assim, quanto mais primário for um grupo, maior é a sua força sobre o indivíduo. Em outra direção, os membros dos grupos secundários moldam as condutas do indivíduo, embora persista a influência dos membros dos grupos primários.
Dentro das organizações, os grupos convivem e constroem determinadas relações que dão, de certa forma, sustentação a essas mesmas organizações. Por isso, a estruturação dos grupos é um elemento fundamental para o surgimento e evolução das organizações.
Nos perguntamos frequentemente como surgiram as organizações no mundo moderno. Com efeito, a resposta a esta pergunta não é simples e nem pode ser apresentada sem situá-la em relação à própria evolução humana. Assim, é importante compreender como as organizações apareceram e em função de que necessidades humanas. Isso é importante, entre outros motivos, para ajudar a compreender os momentos históricos que influenciaram o surgimento das principais teorias administrativas, que serão discutidas no Módulo 2 deste curso.
Talvez você já tenha se perguntado como surgiram as organizações, por exemplo, aquelas de natureza educacional.
Em tempos remotos, os homens viviam em bandos, os quais podem ser considerados como o primeiro estágio da evolução política da vida humana. Nesse momento da História, havia uma organização mínima entre os humanos, valendo a “lei do mais forte sobre o mais fraco”. Portanto, nesse contexto, o poder estava bastante associado à própria força física dos indivíduos, aspecto que determinava, em grande parte, a forma como eles viviam no coletivo.
Em um momento posterior dessa evolução, os homens já viviam em tribos ordenadas a partir de referências de parentesco, sexo e idade. Todavia, ainda não se organizavam em uma comunidade estruturada social e economicamente, nem conseguiam exercer um poder coercitivo sobre os indivíduos, pois todos decidiam tudo ao mesmo tempo. Podemos imaginar como isso gerava, frequentemente, a desunião entre os homens.
Antes de chegar à espécie atual, o homo sapiens, o homem passou por uma série de transformações, inclusive físicas.
Na Pré-História – período compreendido entre o aparecimento do homem sobre a Terra há, aproximadamente, 2 milhões de anos, e o da escrita, por volta do ano 4.000 a. C. – surgiram comunidades humanas formadas por grupos que viviam da coleta de alimentos e da caça. A Pré-História pode ser dividida em três períodos: Paleolítico, Neolítico e Idade dos Metais.
Depois, os povos começaram a cultivar a terra e cuidar de rebanhos, vivendo como agricultores e pastores. Considerando esse novo estágio de evolução humana, estima-se que os homens começaram a fixar residência há cerca de 10.000 a 12.000 anos.
Na Antiguidade Clássica – longo período da História da Europa que se estende aproximadamente do século VIII a. C., até a queda do Império Romano do ocidente no século V d. C. (476) –, os humanos começaram a perceber que só o estado poderia lhes dar proteção para a realização de seus ideais políticos, éticos e morais. Como você sabe, nesse período da História da humanidade as duas civilizações mais marcantes foram a Grega e a Romana. Etimologicamente, o vocábulo estado tem sua origem no latim status, que significa estar firme, aparecendo pela primeira vez na obra O Príncipe, escrita em 1513, por Maquiavel (1469-1513), um dos primeiros pensadores a se dedicar ao estudo sistemático do estado. As primeiras análises a respeito do estado surgem, de forma mais sistemática, ainda na Antiguidade nos escritos dos filósofos gregos Platão, Aristóteles e do filósofo romano Cícero. Porém, o estado, com sua organização política, jurídica e sua finalidade repressiva e ideológica, é algo criado no mundo moderno, visto que, em momentos anteriores da história da humanidade, a fragilidade nas relações políticas não permitia que tal concepção fosse elaborada. Nessa perspectiva, deve-se considerar que, somente no final da Idade Média e início da Idade Moderna (1789 em diante), ocorrem mudanças nas condições históricas do mundo europeu, as quais passaram a exigir uma forma de organização política como a do estado.
Já na Idade Média (476-1.453 d.C.), a característica predominante do pensamento humano era a religiosidade. Isso levou as teorias políticas da época a explicarem a ordem social estabelecida a partir da ideia de que todo o poder vinha de Deus e não dos homens.
Porém, à medida que a humanidade foi evoluindo, intensificaram-se as formulações teóricas sobre o estado, cuja estruturação deu-se entre os séculos XIII e XVIII, na Europa. Particularmente, neste último – chamado “século das luzes” – o estado caracterizou-se como poderoso, absoluto e soberano.
A complexidade das relações entre os homens ocorre, de forma bastante acentuada, nas primeiras décadas do século XVIII. Porém, antes da Revolução Industrial, cujo início se deu na segunda metade do referido século, na Inglaterra, as práticas administrativas nas organizações possuíam outras características daquelas que assumem a partir do século XIX. A Revolução Industrial teve início na segunda metade do século XVIII, na Inglaterra, com a mecanização dos sistemas de produção. Antes da industrialização, a tribo, a Igreja, o Exército e o Estado correspondiam às organizações básicas mais frequentemente observadas na sociedade.
Nessa época, em que cresceu substancialmente o número de organizações industriais, a realidade mostrou aos proprietários das fábricas, que cada vez mais eram criadas, que isolados eles não conseguiriam conduzir, nem controlar todo o trabalho produtivo de seus próprios estabelecimentos. Na verdade, essa dificuldade poderia comprometer inclusive o próprio lucro. Todavia, mesmo enfrentando essa dificuldade, o mundo ainda não contava com teorias sistematizadas sobre o ato de administrar.
É importante ressaltar, caro(a) cursista, que, a partir do momento em que a sociedade se mostrou mais complexa, ela foi sentindo necessidade de procurar outras formas de os seus membros viverem. Nesse momento histórico, os homens já mostravam a necessidade de desenvolver processos visando à administração dos recursos e das relações criadas pelos grupos formados por eles.
Com o acelerado crescimento industrial no século XIX, o mundo passou a sentir necessidade de conhecimentos mais aprofundados sobre como administrar as empresas, indústrias e fábricas, que continuavam a surgir. Tempos depois, são construídas as teorias que fortaleceram as principais características das organizações da sociedade industrial, as quais serão discutidas logo adiante. Veja, então, que as organizações surgem no contexto da Revolução Industrial do século XIX quando as relações econômicas, sociais e culturais entre os indivíduos mostraram-se acentuadamente complexas.
As muitas transformações verificadas no mundo no último século, particularmente aquelas relacionadasà tecnologia, fizeram com que as organizações, como, por exemplo, as escolares, também sentissem a necessidade de procurar acompanhar essas mudanças.
4.2.2 Uma primeira aproximação do conceito de organização e suas classificações
Como você sabe, o mundo contemporâneo caracteriza-se por um período de grandes e rápidas transformações em todas as áreas da vida humana. Nesse cenário, as organizações surgiram com o objetivo de contribuir para que os indivíduos buscassem soluções coletivas para os seus problemas, percebendo que, dessa forma, sua força poderia ser maior para resolvê-los. Lembre-se do que acabamos de discutir sobre a crescente complexidade na evolução humana!
Mas, a partir da evolução histórica que propiciou o seu surgimento, vamos pensar como podemos definir organização. Antes de responder a essa pergunta, que tal pensarmos sobre o que significa organizar. Recorrendo a um dicionário, verifica-se que organizar possui diversos sentidos, como, por exemplo, tornar apto para a vida, estabelecer as bases, formar, dispor para funcionar, arranjar etc.
É possível que você tenha encontrado um significado próximo a este: “modo pelo qual as partes que compõem um ser vivo estão dispostas para cumprir certas funções” (LAROUSSE, 1980, p. 606). De início, o conceito apresentado chama nossa atenção para algumas ideias, como, por exemplo, “partes”, “composição” e “cumprir certas funções”. Na realidade, dentro das organizações, os homens agem de forma estruturada para buscar alcançar a meta maior da própria organização: sua sobrevivência.
Em linhas gerais, as organizações correspondem a formações sociais articuladas com um número necessário de membros. Elas possuem funções internas definidas e apresentam, de forma consciente, fins e objetivos específicos também estabelecidos.
Considerando essa e outras ideias, muitos autores têm refletido sobre o conceito de organização, ampliando-o a partir do sentido geral do que é organizar, que acabamos de ver. Para um desses autores, Etzioni (1989), as organizações podem ser entendidas como unidades sociais, orientadas para o alcance de objetivos e metas.
As organizações constituem sistemas complexos que interagem constantemente com um número significativo de outros sistemas, também com grande complexidade. Em função disso, uma organização não se encontra isolada, nem é autossuficiente. Ao contrário, existe ao seu redor todo um contexto que deve ser considerado em sua existência e estudo: o ambiente. Dessa forma, as organizações, como os seus ambientes, são dinâmicas.
A Classificação das Organizações
Em função de sua experiência pessoal e profissional, você já sabe que, na sociedade moderna, as organizações assumiram um papel muito importante, sendo uma das principais características do mundo atual. Sendo bastante diversificadas, elas podem ser, por exemplo, organizações:
Público e privadas;
Pequenas, médias e grandes;
De participação obrigatória ou voluntária;
Econômicas, políticas, religiosas, educacionais, etc.;
De produção ou de serviço;
De associações de benefício mútuo e/ou empresas comerciais, etc.
As organizações podem ser classificadas, de diversas formas, conforme a proposta dos autores que as discutem. Etzioni (1989), por exemplo, as classifica como coercitivas, utilitárias ou voluntárias. Vejamos como pode ser compreendida esta classificação.
As instituições voluntárias são aquelas nas quais os membros podem livremente entrar e sair, com finalidade específica. Os membros desse tipo de organização não são remunerados, embora, caso elas cresçam consideravelmente, seja possível, dentro dela, o aparecimento de um grupo que possa vir a ser remunerado. Dentre essas instituições, podemos destacar igrejas, clubes recreativos e as organizações não-governamentais (ONGs), que vêm crescendo consideravelmente no Brasil, a partir da década de 1980.
As organizações coercitivas são aquelas em que a coerção constitui-se na principal forma de controle sobre os membros. Esse nível de coerção tende a resultar em considerável ação dos membros em relação à organização, o que é garantido, em níveis variados, pela força e rígida disciplina. São exemplos de organizações coercitivas as prisões, entidades que abrigam menores infratores e hospitais destinados a atender pacientes psiquiátricos.
Já as instituições utilitárias são aquelas que têm como principal forma de controle sobre os seus membros a recompensa, a qual pode ser de naturezas diversas. Nesse grupo, temos como exemplos: fábricas, bancos, repartições governamentais, empresas médicas etc.
Por um outro critério – o de modelo organizacional – as organizações podem ser classificadas como:
Militares, cuja ênfase recai sobre a hierarquia de autoridade, como é o caso das Forças Armadas (Aeronáutica, Exército, Marinha etc.);
Filantrópicas, que contam com uma diretoria própria, profissionais e pessoas que recebem certo atendimento, como entidades que atendem à comunidade gratuitamente;
Corporações, por possuírem acionistas, diretores, gerentes etc., com no caso de empresas e indústrias em geral;
Familiares, nas quais pessoas unidas por laços de sangue e casamento possuem uma empresa com fins lucrativos, como, por exemplo, grandes redes de lojas e/ou de supermercados.
Também as características das organizações mudam, conforme o autor consultado. Para Schein (1982), essas principais características seriam:
constante interação com os ambientes;
múltiplas funções e objetivos;
presença de vários subsistemas interdependentes em interação dinâmica;
existência dentro de um conjunto de meios ambientes dinâmicos;
presença de vários elos entre a organização e seus ambientes;
ausência de autossuficiência e de independência nas organizações; e
realidade construída.
A escola nossa de cada dia, que tipo de organização é? Veja que, tomando como critério de classificação os objetivos das organizações, a escola é uma organização formal de serviços. Considerá-la dessa forma implica reconhecer, como beneficiário dos seus serviços, um público que possui contato direto com ela, e para quem os seus membros trabalham. Em função disso, é importante que todos que atuam na escola desenvolvam suas atividades com ética e transparência. Para tanto, é importante considerar que, dentro das organizações, os indivíduos possuem diferentes níveis de participação.
Referências:
ETZIONE, Amitai. Organizações modernas. 8. ed. São Paulo: Pioneira, 1989
GRANDE ENCICLOPÉDIA DELTA LAROUSSE. Rio de Janeiro: Delta, 1980.
SCHEIN, Edgard. Psicologia organizacional. Rio de Janeiro: Prentice-Hall, 1982.
4.2.3 Níveis de participação dentro das organizações
Conforme veremos no Módulo 2 deste curso, as teorias administrativas concebem a participação dos indivíduos dentro das organizações de formas bastante variadas. Todavia, é possível, mesmo sem termos analisado essas teorias, refletir sobre esse nível de participação, a partir do esquema apresentado a seguir, proposto por Bordenave (1995).
Figura 1 - Nível de participação em uma organização
Descrição da imagem: Nível de participação em uma organização apresenta uma caixa de texto a esquerda descrita com a palavra Controle, ao lado apresenta outra caixa de texto descrita com as palavras: Dirigentes, posicionada a esquerda da caixa e Membros posicionada a direita da caixa. Da caixa descrita como Dirigentes e Membros saem sete setas, com tamanhos crescentes, direcionadas para baixo que ligam-se às palavras: Informação; Consulta facultativa; Consulta obrigatória; Elaboração/recomendação; Cogestão; Delegação e Autogestão. O menor nível de participação está na informação e o maio nível em Autogestão.
Como você já deve ter observado em sua prática profissional, o menor grau de participação das pessoas em uma organização é o da informação, pois esta implica os dirigentes apenas informarem os membros da organização sobre as decisões que, tomadas por instâncias superiores, devem apenas ser acatadas por todos. Nesse nível de participação,comportamentos como, por exemplo, o debate sobre as decisões tomadas mostra-se, praticamente, inexistente.
Em um segundo nível, está a consulta facultativa, que ocorre quando os dirigentes podem, se quiserem e quando desejarem, consultar os subordinados, solicitando destes críticas, sugestões ou informações visando à solução de determinado problema. No caso de a consulta ser obrigatória, embora os subordinados sejam consultados em certas ocasiões, a decisão final continua sendo exclusiva dos superiores na administração da organização.
Em um grau mais avançado de participação que o anterior, está o da elaboração/recomendação. Nesse caso, os subordinados formulam propostas e sugerem medidas em relação a determinado problema, as quais a administração pode acatar ou rejeitar.
Ainda de acordo com o esquema apresentado, o nível de participação da cogestão mostra-se superior aos anteriormente apresentados, à medida que, nele, a administração da organização é compartilhada por meio de mecanismos de codecisão, o que acontece, geralmente, via colegiados nos quais todos têm poder de voz e voto. No caso da escola, um desses colegiados pode ser, por exemplo, o conselho escolar, que deve contar com representante dos vários segmentos da escola.
Por sua vez, a delegação é um grau de participação mais elevado, que permite aos subordinados um considerável nível de autonomia em relação a determinadas áreas e/ou campos da organização da qual fazem parte.
Por último, temos o grau mais alto de participação – a autogestão – em que o grupo estabelece os objetivos da organização, os meios que julga os mais adequados para alcançá-los e os mecanismos de controle pertinentes. Quando é assegurado esse grau de participação na organização, tendem a desaparecer as diferenças entre os dirigentes e os subordinados.
Pense na forma como se vem dando a participação dos vários segmentos que formam a escola nas tomadas de decisões relativas ao trabalho na instituição onde você atua. Ao analisar esses graus de participação, é importante considerar que cada organização e, por consequência, cada escola é única, de forma que o grau de participação dos seus membros varia de acordo com sua própria dinâmica.
Referência:
BORDENAVE, Juan E. Díaz. O que é participação. São Paulo: Brasiliense, 1995. (Coleção Primeiros Passos).
4.2.4 Mas, por que a escola é diferente das demais organizações sociais?
Sem dúvida, a resposta a esta questão merece um debate mais demorado. Entretanto, como mais adiante trataremos da natureza e especificidade do trabalho na organização escolar, sinalizaremos essa resposta, neste item, de uma forma mais breve.
Certamente, é fundamental que todos aqueles que, como você, participam do trabalho da escola, possam responder, com clareza, à questão levantada. De forma sintética, é possível afirmar que a escola se distingue das demais organizações, entre outros fatores, por:
promover o desenvolvimento de capacidades cognitivas, operativas e sociais dos alunos, por meio de conteúdos sistematizados;
propiciar condições para fortalecer a subjetividade e identidade cultural das pessoas;
preparar para o trabalho e formar para a sociedade tecnológica e do conhecimento;
formar para a cidadania crítica sujeitos que interfiram na realidade, visando transformá-los e não apenas integrá-los ao mercado de trabalho;
desenvolver a formação dos indivíduos para valores, éticos, qualidades morais, traços de caráter, atitudes e convicções humanitárias de solidariedade.
Estas e outras ideias convergem para a característica principal da escola como organização: sua atuação no processo de socialização das pessoas, de modo a formá-las, com autonomia, crítica e reflexão para desenvolver os papéis que elas assumirão em outras organizações e na sociedade como um todo, na perspectiva de contribuir para a transformação dessa mesma sociedade.
Devido à sua importância, a especificidade da organização educacional tem sido tratada, nos últimos anos, por diversos autores que discutem a administração escolar. Particularmente, dois desses autores – Bordignon e Gracindo (2001) – ressaltam que essa especificidade é definida por alguns fatores que tornam a escola singular, diante de quaisquer outras organizações sociais. Para esses autores, tais fatores são:
a finalidade;
a estrutura pedagógica da escola;
as relações internas e externas que decorrem dessa mesma estrutura; e
o resultado de sua produção, o qual se diferencia da produção em série, característica de outras organizações, como, por exemplo, as industriais e comerciais.
Visando reiterar a distinção da escola, em relação às demais organizações sociais, apresentamos a seguinte ideia dos mesmos autores: A “produção” da escola, diferentemente de outras organizações, não tem sua qualidade definida na padronização, mas na “produção” de seres emancipados, autônomos, não-autômatos (dimensão individual) e na “produção” da equidade, da justiça social (dimensão social) (BORDIGNON & GRACINDO, 2001, p. 155).
Referência:
BORDINGNON, G. & GRANCINDO, R. V. Gestão da educação: o município e a escola. In: FERREIRA, N. S. C. & AGUIAR, M. A. da S. (Orgs.) Gestão da educação: impasses, perspectivas e compromissos. São Paulo: Cortez, 2001, p. 43-67.
Teorias administrativas e política
4.4 Teorias administrativas: fundamentos conceituais e históricos da administração
Como estudamos anteriormente, no mundo moderno, as organizações surgiram em função da necessidade de o homem atender suas necessidades, constituindo-se em uma das mais marcantes características da sociedade contemporânea. Vimos também que a escola é uma organização diferenciada das demais organizações sociais, em função da natureza e especificidade do trabalho que produz.
Neste momento, discutiremos outro tema muito importante, visando a ampliar seu entendimento sobre a natureza das organizações. Trata-se das teorias administrativas, muitas vezes também chamadas de teorias das organizações ou teorias organizacionais, cujo objeto de preocupação mais geral são as práticas desenvolvidas nas organizações. Elaboradas em momentos históricos distintos e para serem aplicadas em diversas organizações, como empresas, essas teorias acabaram repercutindo sobre a administração escolar.
Para tanto, este módulo está estruturado da seguinte forma:
Abordagens Prescritivas e Normativas das Teorias Administrativas.
Abordagens Descritivas e Interpretativas das Teorias Administrativas.
E a Escola, o que Tem a Ver com Tudo Isso?
Como você pode perceber, a preocupação central do módulo é discutir as teorias administrativas a partir de duas grandes classificações, porém chamando sempre a atenção para a especificidade que a escola possui diante dos temas propostos. Em decorrência dessa preocupação, os objetivos deste módulo são:
diferenciar as principais abordagens das teorias da administração, enfatizando seus elementos conceituais e sócio-históricos; e
identificar as três grandes tendências históricas de gestão da escola, como organização educativa, considerando a natureza de sua atuação.
Todavia, é importante reiterar que as teorias administrativas não devem ser aplicadas sem uma análise crítica à escola, em função da especificidade que esta última apresenta, em relação às demais organizações (empresas), como foi enfatizado anteriormente.
Da mesma forma que as concepções de educação vêm evoluindo ao longo da história, as teorias administrativas também passaram por um processo semelhante, havendo uma variedade grande dessas teorias. Porém, focalizaremos aqui apenas algumas delas com o objetivo de ressaltar sua importância para as organizações no mundo moderno. Para alcançar esse objetivo, as agruparemos em duas grandes abordagens: teorias de natureza prescritiva e normativa e teorias de natureza explicativa e descritiva.
Vários são os motivos que justificam a importância da compreensão das teorias administrativas. Dentre estes, destacamos o consenso entre os historiadores de que mundo moderno é, sobretudo,o mundo das organizações. Aliás, é bem possível que você, em seu trabalho cotidiano, lide com princípios de algumas dessas teorias, embora nem sempre tenha consciência disso ou não consiga relacioná-los às teorias das quais eles decorrem.
É importante destacar que a administração de empresas desenvolve teorias sobre a organização do trabalho das empresas capitalistas, enquanto a administração escolar formula proposições teóricas sobre a organização do trabalho na escola e no sistema escolar. Em função de terem sido criadas para as empresas, as teorias administrativas apresentam alguns conceitos que precisam ser repensados, quando tentamos aplicá-los à realidade da escola, pois esta é uma instituição que possui certa especificidade em relação às demais organizações sociais. As teorias administrativas também podem ser identificadas pelo nome de estilo de administração, sendo este o conjunto das práticas de planejamento, organização, direção e controle. Esse estilo corresponde aos padrões comportamentais habitualmente adotados no trabalho pelas diversas práticas administrativas.
Por outro lado, se você parar para pensar, verá que participa e depende, ao mesmo tempo, de diversas organizações – econômicas, políticas, culturais, religiosas, educacionais etc. Por isso, ao estudá-las, é importante ter em mente que elas possuem alguns princípios:
são produtos de um determinado contexto histórico;
mostram-se dinâmicas e com grandes possibilidades de adaptação a situações diversas;
possuem, simultaneamente, um caráter ideológico e prático;
adaptam-se a contextos históricos diferentes, mas preservam determinadas ideias básicas; e
revelam, em maior ou menor grau, o elemento da burocracia.
4.4.1 Abordagens prescritivas e normativas das teorias administrativas
Embora as teorias administrativas ou organizacionais sejam elaboradas em função das transformações decorrentes da Revolução Industrial é possível identificar, ao longo da história, importantes fatos na evolução da humanidade, que tiveram como base determinados princípios defendidos e utilizados até hoje por teóricos da administração. Dentre esses acontecimentos, destaca-se o caso dos egípcios, que planejaram e executaram uma diversidade de atividades visando à construção de suas famosas pirâmides.
Abordaremos neste item três das principais teorias que fazem parte das abordagens prescritivas e normativas: Administração Científica, Teoria Clássica das Organizações e Escola das Relações Humanas.
Inicialmente, saiba que essas teorias são assim classificadas por apresentarem um ponto comum em maior ou menor grau e revelam elementos de natureza prescritiva e normativa para explicar o funcionamento das organizações, como veremos mais adiante. Cabe também destacar que essas teorias, apesar de serem do século XIX, ainda hoje podem ser encontradas em muitas organizações, inclusive algumas de caráter educativo.
Teoria da Administração Científica
A Teoria da Administração Científica recebeu esta denominação devido ao seu caráter altamente técnico. Enfatizando as tarefas dentro da organização, essa abordagem procurava, ao mesmo tempo, reduzir o desperdício e elevar o índice de produtividade. Taylor, seu fundador, era um engenheiro norte-americano que influenciou um número muito grande de seguidores, cuja principal preocupação, nas organizações, era determinar o modo mais eficiente de realizar tarefas repetitivas. De forma geral, esses pensadores defendiam que o salário do trabalhador deveria ser proporcional à sua produção (TAYLOR, 1960).
Fatores como os mencionados acima mostravam que as necessidades básicas do trabalhador não eram consideradas e que o principal interesse dos patrões eram lucro e acumulação de capital. Esse cenário desanimador despertou o interesse de Taylor e seus seguidores para o estudo científico das práticas administrativas visando a orientar o trabalho das organizações.
O taylorismo é uma doutrina econômica e tecnocrática sobre a organização do trabalho, destinada a obter o máximo de rendimento com o mínimo de esforço e no menor espaço de tempo. Criada por Taylor, essa doutrina defende a especialização de funções em detrimento de fatores humanos, sociais ou psicológicos. Além disso, dá ênfase às tarefas que foram simplificadas e padronizadas, com o objetivo de permitir a especialização do trabalhador e o aumento dos índices de produtividade (TAYLOR, 1960).
No contexto histórico de surgimento da Administração Científica – final do século XIX e início do século XX – as condições de trabalho eram desumanas, os salários bastante baixos e as jornadas de trabalho muito longas.
O taylorismo utilizou o estudo de tempos e movimentos como o principal método para padronizar as atividades dentro das organizações. De forma sintética, podemos dizer que essa abordagem considerava o homem apenas como uma máquina que, se regulada adequadamente, teria a capacidade de realizar atividades de maneira repetitiva e igual. Taylor preocupava-se com a análise metodológica do trabalho, defendendo que cada pessoa dentro da organização – chefe e subordinados – deve saber exatamente o que fazer e fazê-lo muito bem.
Outro aspecto fortemente defendido por Taylor é a separação entre o planejamento e a execução. Veja que esse aspecto compromete e dificulta a articulação entre teoria e prática nas atividades desenvolvidas pelos membros de qualquer organização, como, por exemplo, a escola. Essa rígida separação divide as pessoas em dois grupos dentro das organizações: umas poucas que pensam o que será feito e determinam as tarefas, bem como a forma de realizá-las e outras que constituem a maioria, que se limitam a obedecer às ordens que recebem.
O modelo de homem defendido pela administração científica é o do homo economicus, que considera serem os indivíduos motivados exclusivamente por interesses materiais e salariais.
É verdade que a validade da Teoria Científica da Administração tem sido bastante questionada nas últimas décadas, em função de suas limitações para explicar a complexidade das organizações e a presença das pessoas dentro delas. Todavia, apesar de seus entraves, essa teoria trouxe grandes contribuições à organização da produção, à medida que mostrou que o trabalho humano pode ser estudado sistematicamente.
Um pouco sobre Frederick Winslow Taylor (1856-1915) nasceu nos Estados Unidos e começou sua carreira profissional como aprendiz de operário de uma oficina mecânica. Sua ascensão profissional foi bastante rápida: em apenas seis anos já era engenheiro-chefe de oficinas. Preocupado com a desorganização administrativa, buscou encontrar maneiras de reverter isso, estudando, por exemplo, o uso do tempo dentro das organizações.
Teoria Clássica das Organizações
A segunda corrente da administração clássica é a Teoria Clássica das Organizações, desenvolvida em 1916 por seu fundador, o engenheiro francês Jules Henry Fayol (1841-1925). Essa abordagem surgiu frente à necessidade da definição de estratégias para administrar as organizações complexas. Diferentemente de Taylor, Fayol concentrou-se nos elementos da administração superior das organizações, fato que contribuiu para sua adesão aos princípios administrativos definidos numa visão de universalidade. Para ele, o gerenciamento poderia ser ensinado, com base no pensamento administrativo mais geral (FAYOL, 1989).
Jules Henry Fayol (1841–1925) Embora Fayol tenha realizado suas pesquisas ao mesmo tempo que Taylor, eles não conheciam os estudos um do outro. Taylor iniciou suas pesquisas a partir do operário, elevando-o até a gerência, enquanto Fayol fez o contrário, começando pela administração superior, concentrando-se nos problemas da administração geral.
Ao longo do tempo, muitas críticas foram sendo amadurecidas também em relação à Teoria Clássica da Administração. Uma delas refere-se ao fato de essa teoria ter sido concebida em um momento da História em que o ambiente no qual as organizações existiam mostrava-se relativamente estável e previsível. Seus princípios revelam-se incompatíveiscom as organizações complexas de hoje em dia, quando os ambientes são muito mais dinâmicos, em função das grandes transformações sociais, políticas e econômicas das últimas décadas.
As teorias administrativas clássicas da primeira metade do século XX tendiam a não considerar o ambiente externo, preocupando-se somente com o ambiente interno das organizações. Nesse sentido, tratavam a organização como um sistema “fechado”, o que era possível naquela época, visto que o ambiente externo era mais estável e previsível.
Como você pode perceber, os autores das duas teorias que acabamos de analisar evidenciaram uma preocupação fundamental com a construção de um modelo de administração baseado na racionalização e no controle das atividades humanas. Assim, deram pouca atenção às relações dos indivíduos nas organizações, bem como à sua participação.
Escola das Relações Humanas
Vimos que a Administração Clássica enfatizou bastante o estudo científico da organização do trabalho nas organizações. Essa limitação e as mudanças sociais pelas quais passou o mundo no início do século XX fizeram com que uma nova teoria administrativa fosse criada: a Escola das Relações Humanas, a qual se mostrou preocupada com o ser humano no interior das organizações. Seu principal representante foi Elton Mayo (1880-1949).
A Escola das Relações Humanas teve como fato marcante, para sua instalação, as experiências feitas numa fábrica em Hawthorne, realizadas por Elton Mayo e seus colaboradores. Essas experiências foram desenvolvidas entre 1927 e 1932 e visavam a analisar os efeitos do cansaço e da monotonia no ambiente de trabalho. Seus resultados mostraram que os fatores sociais e psicológicos relacionados aos trabalhadores podem estar mais ligados à produtividade que às condições objetivas de trabalho, como iluminação ou o próprio salário (MAYO,1947).
A Escola de Relações Humanas percebia o homem como um ser mais complexo do que supunham os pensadores da Administração Clássica, tendo como princípios básicos:
necessidade de uma visão mais elaborada a respeito da natureza da motivação humana;
o ambiente social externo da organização deve receber atenção;
a organização se caracteriza por ser um sistema social aberto; e
valores, sentimentos e atitudes possuem papel importante sobre o processo de produção.
Na Escola de Relações Humanas, o papel dos chefes é associado ao trabalho com as necessidades das pessoas como seres sociais, visando ao alcance dos objetivos da organização. Assim, defende o homo social, por entender que o trabalhador é motivado, principalmente, por recompensas sociais e simbólicas, e não pela necessidade de ganhar mais dinheiro.
Dentre as várias conclusões a que a Escola das Relações Humanas chegou, a partir dos estudos que desenvolveu, destacam-se aquelas que mostram que elementos como, por exemplo, a especialização de funções e uma rígida supervisão podem contribuir para a diminuição da produtividade dos trabalhadores dentro das organizações. Como você percebe, essa nova teoria mostra-se contrária aos princípios da Administração Científica, vista anteriormente.
Veja que o surgimento da Escola de Relações Humanas foi uma forma de oposição ao pensamento de Taylor e Fayol, já analisados, por entender que, dentro das organizações, as pessoas são os elementos mais importantes. Nessa lógica, buscou-se demonstrar que o modo como os indivíduos se comportam nas organizações não pode ser ignorado. Por isso, uma característica marcante dessa teoria é sua ênfase nas pessoas, tentando humanizar as práticas administrativas da época, defendendo a valorização dos grupos sociais, a motivação, a liderança, a participação e, sobretudo, a preocupação com a satisfação no trabalho.
Você já deve ter chegado à conclusão de que cada teoria administrativa possui aspectos positivos e negativos. No caso da teoria ora analisada, é verdade que ela contribuiu com novas formas de se estudarem as relações dos grupos dentro das organizações. Entretanto, para alguns dos seus críticos, embora mudando a visão sobre o trabalhador dentro da organização – em relação aos defensores da Teoria Clássica da Administração – os humanistas procuravam ajustar os indivíduos aos contextos de trabalho e não o seu crescimento individual. Decorrem dessa crítica mais geral, outras duas:
tentativa de eliminar os conflitos, ao invés de administrá-los; e
idealização de uma visão ingênua e romântica do trabalhador, como se este fosse feliz, produtivo e completamente envolvido na organização.
A seguir, uma tabela com os principais aspectos das teorias administrativas que estudamos até aqui.
Tabela 1 - Os principais aspectos das teorias administrativas
Aspectos principais
Abordagens prescritivas e normativas
Administração Clássica
Teoria das Relações Humanas
Ênfase
Nas tarefas e na estrutura
organizacional
Nas pessoas
Abordagem da Administração
Organização formal
Organização informal
Principais representantes
Taylor e Fayol
Elton Mayo e Lewin,
Conceito de homem
Homo economicus
Homo social
Comportamento organizacional
do indivíduo
Ser isolado que reage
como indivíduo dentro
da organização
Ser social que reage como
membro de um grupo
social
Sistema de incentivos
Incentivos materiais e
salariais
Incentivos sociais e
simbólicos
Objetivos organizacionais versus
objetivos individuais
Identidade de interesses,
não havendo conflito
perceptível
Identidade de interesses,
devendo todo conflito ser
evitado
Resultados almejados
Máxima eficiência
Satisfação do trabalhador
Além das três teorias vistas aqui, nas abordagens prescritivas e normativas, há a Teoria Neoclássica cujo princípio fundamental é o de que o homem é um ser racional e social voltado para o alcance de objetivos individuais e organizacionais. Para tanto, defende que, dentro das organizações, os homens precisam tanto de incentivos materiais (salário, por exemplo), quanto sociais (valorização do seu trabalho). Essa teoria entende também que, visando a uma melhor administração, a organização deve procurar associar os seguintes elementos básicos:
satisfazer as necessidades dos seus funcionários;
possuir um processo participativo de tomada de decisões;
ser flexível; e
buscar sempre se atualizar com novos conhecimentos.
Entre seus principais representantes, encontra-se Peter Drucker.
Referências:
FAYOL, Henri. Administração industrial e geral: previsão, organização, comando, coordenação e controle, 10ª ed., São Paulo: Atlas, 1989.
MAYO, Elton. Problemas políticos de uma civilização industrial. Massachusetts: Harvard, 1947.
TAYLOR, Winslow F. Princípios de administração científica. São Paulo: Editora Atlas, 1960.
4.4.2 Abordagens descritivas e interpretativas das teorias administrativas
Como vimos no item anterior, a Administração Científica, a Teoria Clássica das Organizações e a Escola das Relações Humanas revelam, em menor ou maior grau, elementos prescritivos e normativos do comportamento dos indivíduos dentro das organizações. Neste momento, trataremos de outras teorias administrativas, as quais buscam entender o comportamento dos indivíduos dentro das organizações numa perspectiva descritiva e interpretativa.
A Teoria Comportamental também é chamada de Teoria Behaviorista da Administração e está baseada no comportamento nas organizações. Sua origem encontra-se nas ciências comportamentais, mais especificamente, na Psicologia Organizacional, cuja preocupação fundamental é tratar do comportamento humano no ambiente organizacional. O principal eixo de preocupação behaviorista é o exame do efeito das organizações sobre o individuo e a ação do individuo sobre a organização.
Teoria Comportamental
A Teoria comportamental surgiu com uma abordagem um pouco diferenciada das analisadas antes, ainda que se tenha estruturado considerando algumas ideias da Escola das Relações Humanas. Ela se inclui entre as teorias descritivas e interpretativas, sobretudo por direcionar suas preocupações para a pessoa humana.
De acordocom essa teoria, o comportamento humano é reforçado por suas próprias consequências. Nesse sentido, sempre que existir a necessidade de o organismo se proteger ou atender a alguma necessidade de sobrevivência, haverá, consequentemente, a repetição do mecanismo, conhecido por condicionamento operante.
Condicionamento operante foi assim denominado pelo psicólogo Burrhus Frederic Skinner (1904–1990). O adjetivo operante refere-se a um comportamento capaz de produzir consequências. Assim, entende-se que todo comportamento é influenciado por seus efeitos, ou seja, seus resultados. Nessa lógica, resultados bons fazem com que o comportamento se mantenha e resultados ruins fazem com que ele se torne menos frequentes. O condicionamento operante é composto por um estímulo seguido por um comportamento que, por sua vez, dará um resultado capaz de definir a frequência daquele comportamento.
O grande expoente dessa teoria foi o economista norte-americano Simon de Alexander de Herbert (1916 2001), sobretudo, por ter assegurado destaque aos limites da racionalidade e ao processo de tomada de decisão. Simon mostrou-se descontente com a administração formal, considerando-a como algo sustentado por meros discursos. Em função disso, passou a defender e acreditar em uma ciência que, segundo seu entendimento, seria capaz de compreender os lados social e racional do homem.
Para os defensores da Teoria Comportamental, o trabalho das pessoas deve mostrar-se, ao mesmo tempo, eficaz e eficiente. Nessa lógica, o trabalho mostra-se dotado de eficácia, quando alcança os objetivos da organização e eficiente quando atinge objetivos pessoais.
Como qualquer outra teoria, a Teoria Comportamental revelou insuficiências e limitações. Apesar disso, mostrou ser possível a busca por uma maior e melhor aproximação entre indivíduo e organização, com o propósito de encontrar soluções menos conflitantes tanto para um quanto para o outro. Por isso, alguns estudiosos das organizações entendem que, se não fossem os avanços dessa teoria, é possível que ainda nos dias atuais as organizações revelassem dificuldade em descobrir formas de aproximar as pessoas dentro dos estabelecimentos.
Por último, é importante lembrar que, para essa teoria, não é somente o administrador quem toma as decisões. Ao contrário, ela enfatiza que todas as pessoas dentro de uma organização, em todas as áreas, independentemente de níveis hierárquicos e de situações, estão permanentemente tomando decisões relacionadas ou não com o seu trabalho.
Teoria da Burocracia
Como já estudamos, a Administração Clássica e a Escola das Relações Humanas possuem aspectos que se opõem, em relação à vida nas organizações. A abordagem que vamos discutir agora foi elaborada considerando elementos dessas duas teorias. Ainda que tenha ganhado força com Taylor e Fayol, a Teoria da Burocracia foi sistematizada pelo sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), que realizou aprofundados estudos sobre as características organizacionais, focalizando o modelo burocrático.
Os princípios da Teoria da Burocracia foram inicialmente incorporados às atividades governamentais, porém hoje eles se fazem fortemente presentes em quase todos os setores da economia, bem como nas organizações escolares. Você já deve ter parado para pensar sobre o que é burocracia e as repercussões desta em suas atividades profissionais cotidianas.
Ao estudar a burocracia, Weber distinguiu três tipos de sociedade e de autoridade:
A sociedade tradicional (tribo, clã, família e sociedade medieval), na qual predominam características patriarcais, com autoridade histórica, oriunda muitas vezes do poder divino, transmissível por herança ou dinastia;
A sociedade carismática (partidos políticos, grupos revolucionários, nações em revolução), com predominância de características místicas e arbitrárias, apresentando uma autoridade que é exercida pela influência pessoal ou pelo poder extraordinário de uma pessoa; e
A sociedade burocrática (estados modernos, empresas e exércitos), em que predomina a racionalidade entre meios e fins, sendo a autoridade de natureza técnica e meritocrática (WEBER, 1991).
De acordo com a Teoria Burocrática, dentro das organizações deve-se buscar a eficiência máxima por meio da padronização do desempenho humano. A preocupação exagerada com esse ponto levou a burocracia a defender a possibilidade de se prever o comportamento dos indivíduos nas organizações. Veja que, sob esse ângulo, o homem é visto também como uma máquina. Para garantir isso, a burocracia impõe sobre as pessoas uma permanente fiscalização, de forma que as atividades diárias sejam executadas com vigor e dedicação.
A burocracia concebe a organização como um sistema fechado, no qual não existem incertezas e onde tudo funciona de forma calculada. Pense bem: a Teoria da Burocracia está pouco ou muito presente nas organizações do mundo atual, como, por exemplo, na escola?
Sem dúvida, nossa sociedade é burocrática. Todavia, é preciso repensar, cada vez mais, os princípios dessa teoria, considerando-se as transformações emergentes em nossa realidade. Leia a seguir a principais características da burocracia nas organizações.
Características da burocracia nas organizações
Normas e regulamentos – Regras gerais escritas que determinam os procedimentos formais e definem como a organização deve funcionar.
Divisão do trabalho – Instrumento que possibilita a sistemática especialização de alto grau, determina o emprego de pessoas tecnicamente qualificadas, garantindo assim a eficiência da organização.
Hierarquia da autoridade – Objetiva proporcionar uma estrutura hierárquica na organização, de forma que as pessoas executem suas atribuições dentro de um sistema de controle, indo do topo à base da pirâmide.
Relações impessoais – Caracterizam-se pela individualidade, sem interferências ou preferências emocionais.
Especialização da administração – Havendo uma separação entre o dono do capital e o dirigente, quem administra a organização é um profissional qualificado para o cargo.
Formalismo das comunicações – O formalismo na comunicação torna-se indispensável, visando a adequar a documentação, de forma que as comunicações sejam interpretadas univocamente.
Rotinas e procedimentos – A burocracia estabelece que as regras e normas técnicas sejam fixadas para cada cargo. A padronização possibilita avaliar adequadamente o desempenho de cada um dos participantes.
Competência técnica – Sendo a seleção para admissão do funcionário baseada no mérito técnico, a escolha segue padrões técnicos e não preferências pessoais.
Profissionalização do funcionário – À medida que cada funcionário é um especialista no seu cargo, ele é um profissional selecionado e escolhido por competência e capacidade.
Previsibilidade do funcionamento – Todos os funcionários devem comportar-se dentro das normas e regulamentos determinados pela organização, para que seja possível a obtenção da máxima eficiência possível.
Uma das críticas mais fortes contra a burocracia nas organizações refere-se à ideia de que há regras e princípios racionais que levam as pessoas a comportarem-se dentro de normas previamente estabelecidas, dando a falsa ideia de que divergências e conflitos não existem. A crítica é formulada no sentido de que essa teoria, ignorando os sentimentos e a motivação, encara as organizações como se nelas não existissem seres humanos, mas sim “máquinas” incapazes de usar a razão, a sensibilidade e criatividade.
Teoria da Contingência
O momento histórico atual caracteriza-se por um período de aceleradas transformações em todas as áreas da vida humana. No interior das organizações, essas transformações têm exigido novas formas de administração e levado ao questionamento das próprias teorias administrativas ou organizacionais.
Veja que, sob esse enfoque, não há como defender a generalização dos princípios administrativos para todas as organizações, visto que estas passam por profundas mudanças em tempos e níveis variados, especialmentequando concebidas como sistemas abertos.
Os sistemas abertos estão em constantes mudanças. Por isso, são mais flexíveis, com uma grande capacidade de transformação e adaptação às novas circunstâncias. Esse tipo de sistema reconhece a existência de uma estrutura composta de partes integradas e interdependentes e o fato de que mudanças em uma das partes afetarão as demais.
Também é importante considerar que, dentro das organizações, cada situação vivida pelos seus membros é única – da mesma forma que cada escola é única –, não havendo uma forma definida de organizar um sistema. Essas e outras ideias semelhantes favoreceram o surgimento de uma outra abordagem das organizações: a Teoria da Contingência.
O aparecimento dessa teoria é mais recente. Ela é o resultado de muitas pesquisas desenvolvidas, visando a encontrar estruturas organizacionais mais eficazes em determinadas circunstâncias. Entre seus principais representantes estão Lawrence e Lorsch, cujos estudos, realizados na década de 1970, objetivavam saber como as empresas deveriam comportar-se, agindo com eficiência e determinação, diante das questões tecnológicas e de mercado.
A Teoria da Contingência ou Teoria Contingencial defende que não há nada de absoluto nas organizações ou mesmo na teoria administrativa. Para essa teoria, há uma relação funcional entre as condições do ambiente e as técnicas administrativas apropriadas para o alcance eficaz dos objetivos de qualquer organização.
Um dos princípios nos quais se fundamenta a Teoria da contingência é a não existência de uma maneira única de as organizações melhor funcionarem. Ao contrário, as organizações precisam estar sistematicamente sendo ajustadas às condições ambientais, já que não há nada de absoluto na origem ou princípios de organização. Veja como essa ideia – a ausência de verdades absolutas – é importante para a educação, bem como para a escola.
De acordo com Saviani (1997), sistema é a unidade de vários elementos intencionalmente reunidos, de modo a formarem um conjunto coerente e operante. Nessa lógica, o sistema resulta da atividade sistematizada que, por sua vez, é aquela que busca intencionalmente realizar determinadas finalidades. É, pois, uma ação planejada. No caso do sistema de ensino, corresponde a uma ordenação articulada dos vários elementos necessários à realização dos objetivos educacionais estabelecidos para a população a que se destina. Para o referido autor: “sistema não é unidade de identidade, mas unidade na diversidade, um todo que articula uma variedade de elementos que, ao integrarem um todo, nem com isso perdem a própria identidade” (p. 206).
A partir dessa ideia, a referida teoria procura avançar em relação àquelas vistas anteriormente, defendendo que as condições do ambiente é que causam transformações no interior das organizações. Nesta linha de raciocínio, seus defensores realizaram diversos estudos objetivando melhor entender a natureza e o funcionamento das organizações no mundo atual. Em linhas gerais, as principais conclusões destes estudos
foram as seguintes:
as organizações apresentam certa diferenciação (divisão da organização em subsistemas);
ao se relacionar com o ambiente externo a organização divide-se em unidades, sendo cada uma destas responsável por tratar com parte das condições externas fora da organização; e
à proporção que crescem os sistemas, estes se diferenciam em partes, devendo o seu funcionamento ser integrado para que todo o sistema seja viabilizado.
Uma das grandes contribuições da Teoria da Contingência foi a demonstração do princípio de que, para administrar uma organização, é preciso encontrar o seu próprio modelo, pois não há uma fórmula pronta e acabada. Não existe uma regra geral que possa servir para todas as organizações. Cada caso deve ser estudado e desenvolvido, sendo que a dinâmica da administração não permite que se utilize um padrão igual para todas as organizações.
Os estudos que originaram a Teoria da Contingência enfatizaram dois conceitos básicos sobre a dinâmica das organizações. Um deles, a diferenciação, parte da relação que cada subsistema da organização tem unicamente com o que lhe é importante. O outro, integração, opõe-se ao conceito anterior e se refere ao processo gerado por pressões vindas do ambiente global da organização visando à coordenação entre os vários órgãos ou subsistemas.
Por último, chamamos a atenção para o fato de que a Teoria da Contingência parece propor certa precaução em relação às receitas normativas e prescritivas, que sugerem, de maneira indiferenciada, o comportamento da organização. Elas trazem a ideia de que, dentro das organizações, não há nada de absoluto: tudo é muito relativo e contingencial. Na escola, também temos uma realidade assim: não está por definitivo e acabado, pois tudo está por fazer!
Apresentamos a seguir uma tabela com as principais características do grupo de teorias administrativas que acabamos de analisar.
Tabela 1 - As principais características do grupo de teorias administrativas
Aspectos principais
Teorias descritivas e interpretativas
Teoria Comportamental
Teoria da Burocracia
Teoria da Contingência
Ênfase
Nas pessoas e no
ambiente
Na estrutura
organizacional
No ambiente e na
tecnologia
Abordagem da Administração
Sistema social cooperativo
e informal
Sistema social como
conjunto de funções
oficializadas
Sistema aberto e sistema
fechado
Principais representantes
Simon
Weber
Lawrence e Lorsch
Conceito de homem
Homem administrativo
Homem organizacional
Homem complexo
Comportamento organizacional do indivíduo
Ser racional que decide
participar nas organizações
Ser isolado que reage como
ocupante de cargo e
posição
Desempenho de papéis
Sistema de incentivos
Incentivos mistos
Incentivos materiais e
salariais
Incentivos mistos
Objetivos organizacionais versus objetivos individuais
Conflitos possíveis e
negociáveis
Não há conflito perceptível
Conflitos de
papéis
Resultados almejados
Eficiência satisfatória
Máxima eficiência
Eficiência e eficácia
Também inserida no grupo das abordagens descritivas e interpretativas das teorias administrativas está a Teoria Estruturalista, que defende o conceito de organização como um sistema social intencionalmente construído e reconstruído. Essa teoria concebe o homem como um ser social que vive dentro de organizações e tem como principal representante Amitai Etzioni. Enfatizando a necessidade de o trabalhador receber incentivos mistos, tanto materiais como sociais, essa teoria vem a ser a síntese da Teoria Clássica de Administração e da Escola de Relações Humanas, embora os seus fundamentos estejam localizados nas críticas feitas a esta última. Segundo o estruturalismo, a organização deve ser analisada no seu contexto, pois nela não existe nada de caráter isolado, mas sim complementar e integrado.
Referências:
SAVIANI, Dermeval. Sistemas de ensino e plano de educação: o âmbito dos municípios. Educação e sociedade. São Paulo: CEDES, 1997. ano XX, v. 69, p. 119- 136.
WEBER, Max. Economia e sociedade, Brasília: Editora da UnB, 1991, v. 1.
4.4.3 E a escola, o que tem a ver com tudo Isso?
Sem dúvida, apesar da especificidade de sua “produção”, discutida anteriormente, a escola vem sendo influenciada pelo pensamento administrativo. Por isso, do ponto de vista da organização e gestão educacional no Brasil, é possível identificar tendências históricas dessa influência. De acordo com Teixeira (2003), essas tendências são basicamente três: tendência conservadora, tendência democrática e tendência gerencial. Vejamos como cada uma dessas tendências se caracteriza em relação à gestão da escola.
A tendência conservadora é identificada, em nosso país, no período entre 1930 a 1970 e tem suas raízes no modelo tradicional da organização escolar: burocrática, hierarquizada, rígida e formal. Esse modelo enfatiza a obediência às normas, valorizando a obediência às regras e ao formalismo, em detrimento, por exemplo, do aperfeiçoamento profissional.