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PSICOMOTRICIDADE E EDUCAÇÃO SOCIOMOTORA Marly Marisa Rodrigues , 2 SUMÁRIO 1 CONCEITO DE MOTRICIDADE HUMANA E PSICOMOTRICIDADE............... 3 2 HISTÓRIA DA PSICOMOTRICIDADE ........................................................ 16 3 A SIMBOLOGIA DA AÇÃO ....................................................................... 27 4 RELAÇÃO ENTRE ESQUEMA CORPORAL E IMAGEM CORPORAL ............. 40 5 PARÂMETROS DE EXPRESSIVIDADE MOTORA E PSICOMOTORA] ........... 60 6 PROTOCOLO PARA A OBSERVAÇÃO E AVALIAÇÃO DOS PARÂMETROS PSICOMOTORES ....................................................................................... 83 , 3 1 CONCEITO DE MOTRICIDADE HUMANA E PSICOMOTRICIDADE Apresentação Caro alunado, Estamos aqui para apresentar mais uma disciplina que servirá de base para muitos diálogos interdisciplinares para a prática do psicopedagogo. Quando falamos de psicomotricidade, todos na escola, de algum modo, de alguma forma, sabem o que é. As professoras de educação infantil a relacionam com brincadeiras e jogos, as das séries iniciais, quase sempre fazem a relação com a motricidade fina, importante para a escrita, portanto, para a alfabetização, e a partir do 4º ao 9º ano, parece que essa tal psicomotricidade é esquecida e relegada, como se ela não fizesse parte da constituição do ser humano e de toda a nossa vida. O termo psicomotricidade traz consigo a palavra motricidade, sugerindo um elo entre a motricidade e o psiquismo. Neste bloco vamos falar sobre o que é a motricidade humana e oferecer o conceito com o qual o psicopedagogo irá trabalhar, bem como iremos discutir sobre o que é a psicomotricidade e com qual conceito vamos apoiar nossa prática psicopedagógica. Nós vamos, deste modo, iniciar apresentando um conceito de motricidade a partir da vertente sócio histórica, ou seja, da base teórica sócio cultural. 1.1 Motricidade humana, o que é? Para falar de motricidade humana, precisamos exercitar a mente e nossos mais fundamentais conhecimentos. O que diferencia o movimento do mamífero vertebrado humano do movimento do mamífero vertebrado não humano? , 4 Qual a diferença entre o movimento de um corpo físico, um corpo biológico não humano e de um corpo biológico humano? Bom, vamos responder essas questões! Vivemos no planeta Terra e coabitamos com seres dos reinos vegetal, mineral e animal. Fazemos parte, do ponto de vista biológico do reino animal, sendo caracterizados como vertebrados mamíferos. Podemos pensar, portanto, que somos seres físicos, regidos pelas leis da Física, porque somos corpos físicos, porém, nosso movimento no mundo está sujeito à gravidade da Física, por exemplo, mas a ultrapassa, pois somos mais que corpos físicos (Física). Além disso, nós também somos indivíduos biológicos (Biologia), vertebrados, mamíferos e nossa motilidade contém intencionalidade, como ocorre com qualquer indivíduo biológico que quer se mover. Mas, no nosso caso, não é simplesmente assim. Temos a motilidade biológica, mas a ultrapassamos porque, para além de seres biológicos, somos seres sociais e culturais. Então, o que é a motricidade humana? A motricidade humana é uma interação entre as heranças biológica e cultural. Ela ultrapassa e contém os movimentos de corpos físicos (Física) e da motilidade de indivíduos biológicos (Biologia), pois sua diferenciação não é o movimento simples de um corpo físico e nem a intencionalidade da motilidade biológica, mas o significado do movimento motor construído social e culturalmente. O que isso quer dizer? Quer dizer que o significado não é uma simples intenção de um organismo vivo. Trata- se, portanto, de algo bem mais complexo. Nós aprendemos o significado dos movimentos em uma rede de relações sociais e culturais, como a família, a escola, os amigos, a vivência religiosa, com os filmes e as músicas, ou seja, com tudo a que somos expostos durante o nosso desenvolvimento que está atrelado a tudo o que aprendemos. Por isso, a nossa motricidade é única e exclusiva da espécie humana, ainda que nossa espécie seja também vertebrada mamífera. , 5 Para melhor entender, todos os vertebrados mamíferos se dividem em não humanos e humanos. O humano se relaciona com a civilização, a sociedade e a cultura. Desse modo, motricidade é um movimento exclusivo do vertebrado mamífero social e cultural, resultante de suas heranças biológica e cultural, cujo diferencial com as demais espécies é o significado social que acompanha o movimento. Cada movimento humano está relacionado a cultura na qual ele está inserido. O que isso quer dizer? Cada movimento humano está relacionado com a cultura? Como assim? Vamos pensar no movimento de dormir. O mamífero não humano dorme em árvores, florestas, sozinhos ou amontoados, dependendo de sua categoria mamífera. Não há significado, simplesmente a intenção de ir dormir (intencionalidade – característica da motilidade biológica). O mamífero humano, quando vai dormir, escova os dentes, lava o rosto, penteia o cabelo, coloca um pijama, arruma a cama, usa colchão macio ou ortopédico, lençol, edredom, cobertor, etc. É o único mamífero cujo significado de dormir envolve instrumentos e objetos construídos pela espécie. Observem que também podem conter nesse ato de dormir, uma luz azul ou amarela porque acalma; incensos para relaxamento; um travesseiro massageador para aliviar a tensão do pescoço; um colchão de água para sensação de prazer e bem-estar etc., ou seja, visões de bem estar, valores e crenças relativos à saúde, conforto entre outros. Assim sendo, o uso de instrumentos e objetos, as visões de bem-estar, os valores e crenças, fazem parte da nossa natureza cultural que confere o significado do movimento que acompanha o ato de dormir. Agora pensem, nesse mamífero humano, que é morador de rua. Qual é o significado de dormir para ele? No chão, sem higiene, muitas vezes passando frio e até morrendo. Por isso, o significado da motricidade humana também está atrelado ao contexto social no qual o sujeito está inserido. , 6 Agora pensem no mesmo mamífero humano que está em uma prisão. A intenção de dormir é a mesma para todos, porém, qual é o significado de dormir para quem está na prisão? Qual é o significado de dormir para quem mora em um cômodo e não tem sequer um colchão? Qual é o significado de dormir para quem trabalha viajando e só dorme em hotéis? Esse é o diferencial da motricidade exclusiva dos humanos: o significado construído socialmente para cada movimento. Você já havia pensado e refletido do modo que te apresentamos? Se acostume. O psicopedagogo pensa assim! 1.2 Conceito de motricidade humana Ao nos referirmos a um conceito de motricidade, nos situamos na concepção de indissociabilidade mente-corpo, ou seja, a mente se relaciona e constrói as expressões corporais e o corpo se relaciona e constrói as expressões mentais. Nesse sentido, corpo e mente são uma unidade dialética, cuja implicância resulta que um não pode ser pensado a não ser na relação com o outro, quer dizer, o corpo só pode ser pensado na relação à mente (cérebro). Lembram que vimos na disciplina Neurociência, cognição e aprendizagem que o nosso SN nasce, cresce e morre, e esses três processos estão mudando a cada minuto, pois não é fixo, mas sim mutável? Essa mudança que se dá durante toda a vida e a cada minuto da vida é a impressionante dinâmica de mudança de nosso cérebro. Ele recebe influências e informações dos ambientes social e cultural e inclusive do seu microambiente interno. O cérebro responde por tudo em nosso corpo e todas as nossas ações. Por volta da 3ª semana, temos o primeiro vestígio de um sistema nervoso e que, entre a 6ª ou 7ª semana, o encéfalo vai aparecendo já dividido em dois hemisférios. , 7 Os primeirosneurônios nascem por volta da 10ª semana e, por meio da neuroimagem, há indícios que por volta da 18ª semana, o feto já apresenta respostas sensoriais! O que isso representa em termos de motricidade e psicomotricidade? Ora, se não há separação entre corpo e cérebro, se um depende do outro para a formação do indivíduo humano, e se já há indícios de respostas sensoriais; a motricidade e a psicomotricidade já estão em formação na própria formação gestacional do feto. Lembram, ainda, que vimos na mesma disciplina que nosso cérebro acrescentou uma habilidade de sobrevivência à espécie humana que nenhuma outra desenvolveu, o ser humano modifica o ambiente no qual vive, portanto, modifica as suas condições de aprendizagem? O que isso quer dizer? Significa que nós modificamos nossas condições de aprender tudo. Por isso, a nossa motricidade contém e transcende nossa biologia. Ao construirmos uma civilização, uma sociedade e cultura, mudamos radicalmente a natureza dos nossos movimentos, por isso não é um simples movimento (Física), não é apenas uma motilidade (Biologia), mas sim, um movimento tipicamente e exclusivamente construído na evolução da espécie humana: motricidade. A partir do que vimos, nossa disciplina será orientada por um conceito de motricidade, exclusivamente humano, apoiado na Ciência da Motricidade Humana, sendo que uma de suas formulações é: Forma concreta de relação do ser humano com o mundo e com seus semelhantes, relação esta, caracterizada por intencionalidade e significado, fruto de um processo evolutivo (...). A motricidade refere-se, portanto, a sensações conscientes do ser humano em movimento intencional e significativo no espaço-tempo objetivo e representado, envolvendo percepção, memória, projeção, afetividade, emoção, raciocínio. (...) A motricidade configura-se como processo, cuja constituição envolve a construção do movimento intencional a partir do reflexo, da reação mediada por representações a partir da reação imediata, das ações planejadas a partir das simples respostas a estímulos externos, da criação de novas formas de interação a partir da reprodução de padrões aprendidos, da ação contextualizada na história – portanto, relacionada ao passado vivido e ao futuro projetado – a partir da ação limitada às contingências presentes. Esse processo ocorre, de forma dialética, nos planos filogenético e ontogenético, expressando e compondo a totalidade das múltiplas e complexas determinações da contínua construção do homem (KOLYNIAK FILHO, 2010, p. 55.). , 8 Peço que observem, nesse conceito, as peculiaridades, os detalhes, as premissas evolutivas, as características distintas, as especialidades e particularidades exclusivamente humanas! Um conceito simultaneamente, multi, inter e transdisciplinar. Se o termo psicomotricidade traz consigo a palavra motricidade, o que é essa tal psicomotricidade? Vamos argumentar e refletir sobre isso no próximo subtema! Está apreciando o diálogo que estamos construindo com outra disciplina? Seu foco investigativo psicopedagógico terá como eixo criar diálogos com todas as instâncias da vida do encaminhado e com as teorias que está aprendendo. 1.3 Psicomotricidade – possibilidades conceituais É muito comum, principalmente do ponto de vista didático, a seguinte relação com esse vocábulo: Psi: de emoção e sentimentos - alma Co: de conhecer, cognição – pensar, razão Motric: movimentos Idade: por toda a vida, em cada estágio dela. Está errada essa relação? Não. Acabamos de afirmar que, do ponto de vista didático, ela é comum, uma vez que o termo complexo é dividido em partes e essas partes são nomeadas. Para o estudante, didaticamente, é mais fácil memorizar. Outra definição muito comum é que a psicomotricidade é uma ciência multidisciplinar que é voltada para o sujeito em seus aspectos motores, cognitivos e socioafetivos visando seu desenvolvimento físico e psíquico. Está errada esta outra relação? Não. É outra definição comum, fácil de ser entendida. Porém, muito ampla, que não a caracteriza como nós, psicopedagogos, precisamos para nosso trabalho. Por isso, buscamos um conceito maior e, ao mesmo tempo, rico em detalhes exclusivamente humanos. , 9 Observem que posso dizer que a Psicologia é uma área multidisciplinar que é voltada para o sujeito em seus aspectos motores, cognitivos e socioafetivos visando seu desenvolvimento físico e psíquico. E o que acabei de afirmar, faz sentido. Pode não ser a melhor definição, porém, faz sentido. O que é interessante que observem? Que esses conceitos que estou apresentando são conceitos genéricos1, ou seja, não são voltados para detalhes e especificidades exclusivamente humanas, pois são muito abrangentes, a ponto de eu poder usar essa relação genérica para conceituar Psicologia e fazer sentido. Contudo, vamos continuar buscando conceitos para a Psicomotricidade. E se eu disser que a psicomotricidade é uma área do conhecimento que faz uso dos movimentos físicos para atingir aquisições elaboradas como, por exemplo, as intelectuais, e serve de ferramenta para o processo ensino e aprendizagem. Observem, outra vez, que faz total sentido. Todavia, vamos dizer que eu queira relacionar a psicomotricidade com a neurologia ou a neurociência, então, eu poderia defini-la como uma ciência neurofuncional que privilegia a unicidade do indivíduo, portanto, vê o ser humano como único e indivisível, cujos estudos abordam os aspectos intelectual (cognitivo), motor (movimento) e relacional (afetivo) em busca do equilíbrio biopsicossocial. Essa definição foi mais legal que as outras não acham? Mas nós podemos também buscar uma definição que a relacione com Saúde e Educação, e temos uma: A Psicomotricidade conceitua-se como ciência da Saúde e da Educação, com objetivo específico de redescobrir os valores psicomotores, cognitivos, afetivos e experiências compreendidas pelo corpo anatômico, de forma segura e consciente (FERNANDES e BARROS, 2015, s/p.). 1 Genérico: Que é geral, comum às coisas ou pessoas de mesmo gênero; abrangente; expresso ou abordado em termos vagos e indeterminados; falta de particularidades ou minúcias (MICHAELIS, S.D.). , 10 E essa definição não está bem melhor que a outra? Claro que está. Mas, então, por que estou apresentando tantos conceitos para vocês? Porque é preciso que percebam a diferença entre conceitos de outras bases teóricas e um conceito apoiado na visão sócio cultural, base que esta professora, privilegia e tem trabalhado com este alunado. Por que a escolha dessa base teórica? Porque os teóricos socioculturais partem de uma concepção que insere o ser humano no processo evolutivo da civilização, construção social e cultural, motivo pelo qual, é uma base que melhor responde aos questionamentos referentes a evolução humana e a seus contextos culturais e sociais. Ao se fundamentar em um processo evolutivo, representa uma evolução dentro da história da constituição do ser humano e por isso abrange interdisciplinaridade com as áreas de filosofia, pedagogia, psicologia, antropologia, sociologia, neurologia, entre outras. 1.4 Conceito de psicomotricidade Nós já aprendemos; na disciplina Neurociência, cognição e aprendizagem; que estudar acerca do desenvolvimento humano significa reconhecer que ele é determinado pela interação de diversos fatores como a hereditariedade, a maturação neurofisiológica, o meio social em que o sujeito está inserido, a cultura e as transformações históricas de sua época. Neste texto, vimos também que, quando nos referirmos a um conceito de motricidade, nos situamos na concepção de indissociabilidade mente-corpo, e que isto se dá porque a mente se relaciona e constrói as expressões corporais e o corpo se relaciona e constrói as expressões mentais. Isto decorre, pois,o corpo e a mente são uma unidade dialética, cuja implicância resulta que um não pode ser pensado a não ser na relação com o outro, uma vez que não podemos pensar em um corpo sem cérebro e em um cérebro sem um corpo. , 11 Por conseguinte, nossas reflexões acerca do conceito de psicomotricidade já apontam que a compreensão conceitual é obrigatoriamente interdisciplinar, assim como a interdisciplinaridade é obrigatoriamente a condição da construção da área de estudos da psicopedagogia. Assim sendo, trabalharemos com uma concepção que respeite o conceito de motricidade humana e com ele construa diálogo, ou seja, um conceito que apresente as peculiaridades, os detalhes, as premissas evolutivas, as características distintas, as especialidades e particularidades exclusivamente humanas, necessariamente, um conceito simultaneamente, multi, inter e transdisciplinar. A Psicomotricidade, como ciência, é entendida como o campo transdisciplinar que estuda e investiga as relações e as influências recíprocas e sistêmicas, entre o psiquismo e o corpo, e, entre o psiquismo e a motricidade, emergentes da personalidade total, singular e evolutiva que caracteriza o ser humano, nas suas múltiplas e complexas manifestações biopsicossociais, afetivo-emocionais e psicosociocognitivas (FONSECA, 2010, P. 42). Vamos, agora, ler atentamente o conceito, focar, selecionar, analisar, refletir e procurar interpretar as relações das categorias conceituais postas no conceito apresentado. Se a psicomotricidade é um campo transdisciplinar2, indica que suas pesquisas e investigações ultrapassam e olham para além da própria disciplina. Se voltar para as relações e as influências recíprocas e sistêmicas entre o psiquismo e o corpo, envolve estudos e investigações que comportem expressões humanas, quer sejam corporais, gestuais, motoras, não verbais e não simbólicas, uma vez que essas expressões se encontram na expressividade motrícia humana e sustentam as manifestações do nosso psiquismo. 2 Capaz de produzir uma interação entre disciplinas que, não somente se restringindo ao conteúdo disciplinar, propõe um diálogo entre campos do saber, buscando alcançar e alterar a percepção, cognição ou comportamento do sujeito (DICIO, S.D.). , 12 Se voltar para as relações e as influências recíprocas e sistêmicas entre o psiquismo e a motricidade, envolve estudos e investigações das expressões nomeadas acima, pois são elas que sustentam as manifestações do psiquismo, o que implica, por inferência, que o psiquismo é concebido em sua totalidade, ou seja, pelas sensações, percepções, emoções, nossos medos e fantasmas, nossas representações, sonhos, projeções, e nossos comportamentos sociais, culturais e relacionais. Isso implica, ainda, que integra corpo, psiquismo, assim como todos os nossos processos cognitivos, conativos e executivos, nossa habilidade de integração, processamento, planejamento, autorregulação, tomada de decisão e execução, que se expressam em nossa motricidade, como movimento de ação, como uma resposta intencional, voluntária, inteligível exclusiva da espécie humana. Nesse sentido, Fonseca (2010), refere que a psicomotricidade se sustenta em um tripé de investigação e orientação multicomponencial, multiexperiencial e multicontextual. Multicomponencial porque busca diálogo nas construções humanas das Ciências biológicas, humanas e sociais, abrangendo assim interdisciplinaridade com antropologia, fenomenologia, psicossomática, psicofisiologia, psicopatologia, psicanálise, psicopedagogia, neuropatologia, dentre tantas outras. Multiexperiencial porque é preciso investigar o desenvolvimento psicomotor e também seu desdesenvolvimento, quer dizer, do recém-nascido até o envelhecimento maior; do indivíduo típico ao atípico; do inexperiente ao experiente; das dificuldades ou desvantagens às facilidades, ou seja, dentro de um espectro global e variável das vinculações, experiências e vivências humanas. Multicontextual porque a aplicação dos conhecimentos da psicomotricidade se volta para os vários contextos em que se observa a atividade humana, o que ocorre em qualquer instância como escolas em seus diferentes níveis de aprendizado, hospitais, centros de lazer, de desportos, culturais, locais de trabalho, casa de repouso e específicas para males senis entre outros. , 13 Podemos, deste modo, inferir que a psicomotricidade traz em sua concepção caráter de prevenção, educação, reeducação, terapia, reabilitação que se constituem como atividade humana e, portanto, de base inter e transdisciplinar cuja intervenção se apresenta em várias faces como na saúde, na educação, no bem-estar social, dentre tantas outras. Observem que relacionar psiquismo e corpo; e psiquismo e motricidade implica em dizer que as funções da motricidade e da corporalidade são indissociáveis das funções cognitivas, afetivas, relacionais, linguísticas, de escrita, pensamento entre outras. Quando nos referimos as FPS (funções psicológicas superiores em Vygotski, que também vimos na disciplina Neurociência, cognição e aprendizagem), a partir das concepções de motricidade humana e de psicomotricidade, por inferência, nos referimos a FMS (funções motoras superiores). Essa psicomotricidade tem tudo a ver com a psicopedagogia! No próximo subtema, apresentaremos para vocês uma síntese dos aspectos que fundamentam a motricidade humana e a psicomotricidade. Observe o encargo formativo de um psicopedagogo e o domínio teórico interdisciplinar exigido para a prática psicopedagógica. Espero que esteja saboreando os conhecimentos apresentados. E não se intimide porque nós vamos chegar lá! 1.5 Motricidade humana e psicomotricidade: uma síntese , 14 Conclusão Neste bloco apresentamos diferentes formas de construção de conceitos que se relacionam com a motricidade humana e a psicomotricidade, explicando como esses conceitos podem ser construídos, ou seja, a partir de uma visão de mundo e de ser humano, que é centro da construção de bases teóricas. A que apresentamos ao alunado é a sociocultural. Refletimos sobre o que é a motricidade humana e o porquê de ela ser tipicamente humana, apresentamos um conceito de referência para o psicopedagogo, assim como refletimos sobre a psicomotricidade e a conceituamos. REFERÊNCIAS DICIONÁRIO ONLINE DE PORTUGUES - DICIO. Transdisciplinar. S.D. Disponível em: <https://bit.ly/3iBMAIG>. Acesso em: 21 jul. 2021. FERNANDES, D. G. D.; BARROS, C. L. Psicomotricidade: Conceito e História. Rev. Conexão Eletrônica, Três Lagoas, MS, Volume 12, Número 1, Ano 2015. Disponível em: <http://revistaconexao.aems.edu.br>. Acesso em: 19 maio 2021. FONSECA, V. Psicomotricidade: uma visão pessoal. Construção Psicopedagógica. São Paulo, 2010, Vol. 18, n.17, p. 42-52. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cp/v18n17/v18n17a04.pdf>. Acesso em: 19 maio 2021. http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cp/v18n17/v18n17a04.pdf%3e. , 15 KOLYNIAK FILHO, C. Motricidade e aprendizagem: algumas implicações para a educação escolar. Construção Psicopedagógica, São Paulo, 2010, Vol. 18, n.17, p. 53- 66. Disponível em: <https://bit.ly/3fehMwP>. Acesso em: 19 maio 2021. MICHAELIS - Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa. Genérico. Uol, S.D. Disponível em: <https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues- brasileiro/gen%C3%A9rico>. Acesso em: 21 jul. 2021. Referências Complementares KOLYNIAK FILHO, C. Contribuições para o ensino em motricidade humana. In: Discorpo, revista do Departamento de Educação Física e Esportes da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: São Paulo, 2002, n°13, p. 27-39. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cp/v18n17/v18n17a05.pdf>. Acesso em: 19 maio 2021.http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cp/v18n17/v18n17a05.pdf%3e. , 16 2 História da psicomotricidade Apresentação Como vimos na relação entre neurociência e psicopedagogia, toda área de estudos tem uma história dentro da sociedade e da cultura ocidental. Com a psicomotricidade é a mesma coisa. Houve um período na história do desenvolvimento do ser humano, no qual os aspectos motores relacionados com a psicomotricidade foram questionados. Esse questionamento gerou processos de investigação e estudos, que se transformaram com o passar do tempo e com o avanço dos conhecimentos sobre o ser humano. Nosso eixo, dessa forma, é o de organizar uma síntese dos principais acontecimentos históricos que iniciaram esse questionamento e assim contribuíram para o repensar, o reinvestigar e transformar a psicomotricidade com a transdisciplinaridade que ela apresenta no séc. XXI. Nós vamos, assim, iniciar apresentando subtemas que vão abordar esses períodos dentro dos seus respectivos contextos históricos. Fiquem atentos, pois a estratégia de levantar a história da família e do desenvolvimento da criança é ferramenta do processo de investigação do psicopedagogo. 2.1 O termo psicomotricidade na história Nós vimos, no bloco 1, que o termo psicomotricidade contém o termo motricidade e que a história da motricidade humana é a própria história evolutiva do ser humano e de suas atividades concretas no seu mundo social e cultural e com seus semelhantes. Vimos que a psicomotricidade se volta para todas as relações entre psiquismo e corpo e entre psiquismo e motricidade, a partir das peculiaridades, dos detalhes, das premissas evolutivas, das características distintas, das especialidades e particularidades exclusivamente humanas. , 17 Agora, vamos pensar que esse ser humano que evoluiu tem um corpo materializado que o acompanhou nessa evolução. A partir dessa afirmação, a história do corpo se entrelaça com a história da psicomotricidade. Recordando os nossos conhecimentos de filosofia, no Renascimento, os gregos valorizavam o corpo, sempre envolvido em moral, beleza, estética, ética, bem fazer, bem viver entre tantos. Lembram disso? Falcão e Barreto (2009) nos recordam que Platão falava do bem viver, do alimentar e mexer o corpo, sendo esses os primeiros elementos da educação do espírito e do corpo. Relembrem que Platão afirmava a separação entre corpo e alma, atualmente, podemos ler como a dicotomia entre corpo e cérebro e sabemos que não é assim. A alma era imortal e o corpo somente um lugar de transição. Já Aristóteles, discípulo de Platão, falava que o corpo era uma matéria moldada pela alma e que era essa última que colocava o corpo em movimento. Prestem atenção nessa afirmação feita a.C, há XXI séculos atrás. Quando Aristóteles falou que a matéria era moldada pela alma, neste século, podemos inferir que ele deu indícios de que não há dicotomia entre corpo e cérebro. No entanto, essa afirmação já enunciava um prelúdio, uma abertura de pensamento psicomotor. Para ele a ginástica servia para educar o corpo, dar graça e vigor IBIDEM. Ainda segundo as autoras citadas, foi XVIII séculos depois, com Descartes, que baseado em Platão, acentuou a separação do corpo e da alma (corpo e cérebro) porque o corpo era externo e não pensava, pois a alma era a substância pensante e, por isso, não participava de nada que pertencia ao corpo. Pois bem, quase um século depois de Descartes, o médico neurologista e psiquiatra francês, Ernest Dupré (1862-1921), com pesquisas voltadas para a neuropsiquiatria infantil, com enfoque no desenvolvimento motor das crianças, observou disfunções motoras sem lesão cerebral, esses seriam os distúrbios motores, posteriormente estudados. Esse dado de disfunção motora sem lesão cerebral, oportunizou o surgimento da palavra Psicomotricidade em 1870, conforme Moi E Mattos (s.d.). , 18 Somente no século seguinte (XX) a psicomotricidade passaria a ser considerada Ciência, ainda que a prática psicomotora tenha começado com Eduard Guilmain, outro francês, em 1935, discípulo de Wallon IBIDEM. Contudo, veremos isso nos próximos subtemas! Você viu que bacana! Tudo o que você pensar em conhecer, tem uma origem e uma história dentro da própria história de evolução da nossa espécie! Bora pesquisar e conhecer. 2.2 Dupré, Wallon e Guilman: uma síntese Ainda que inicialmente a psicomotricidade estivesse voltada para patologias, quando Dupré relacionou disfunções motoras sem lesão cerebral, posteriormente em suas investigações e pesquisas, relacionou a motricidade com a inteligência, portanto, com processos cognitivos. Wallon tem outras características (CONSTRUIR NOTÍCIAS, S.D.), cursou filosofia, medicina, psicologia, foi professor, médico do exército francês e de instituições psiquiátricas, teve contato com lesões cerebrais, revendo suas posições em seu trabalho com crianças deficientes, realizou conferências em Sorbonne sobre a psicologia da criança, coordenou o projeto Reforma do Ensino, conhecido como Langevin-Wallon (PARANÁ, S.D.), entre outras tantas facetas. Muito bem, Wallon relacionava o movimento ao afeto, ao ambiente social, as emoções, e aos hábitos das crianças. Estudando a psicologia da criança, relacionou o movimento com a emoção e o desenvolvimento cognitivo, assim sendo, Wallon relaciona o movimento humano como uma construção do psiquismo humano. A concepção psicobiológica de Wallon parece ser o ponto de partida da noção fundamental da unidade funcional, isto é, da unidade biológica da pessoa humana. Essa noção busca a união dos domínios psíquicos e motor, representando a expressão das relações reais do ser com seu meio. Em síntese a obra de Wallon mostra a importância dos movimentos no desenvolvimento psicológico da criança (NEGRINE, 1995, p.37). , 19 Fonte: Elaborado pela autora. Figura 2.1 - Evolução da criança segundo Wallon A criança é um ser único que se movimenta, sente, pensa e age. Lembram das funções cognitivas (conhecer), conativas (cérebro emocional) e executivas (integrar conhecer, emoções e ação – lobo frontal)? Wallon forneceu bases juntamente com Luria para a construção da tríade funcional da aprendizagem (Bloco 6 – Neurociência, cognição e aprendizagem). Essa relação entre as disciplinas, o psicopedagogo é solicitado a desenvolver durante este curso. Henry Wallon (1879-1962), médico, psicólogo e pedagogo, é provavelmente, o grande pioneiro da psicomotricidade, vista como campo científico. Segundo Fonseca (1988), forneceu observações definitivas acerca de desenvolvimento neurológico do recém-nascido e da evolução psicomotora da criança. Wallon diz que “o movimento é a única expressão e o primeiro instrumento do psiquismo”. O movimento (ação), pensamento e linguagem são unidades inseparáveis. O movimento é o pensamento em ato, e o pensamento é o movimento sem ato (FALCÃO E BARRETO, 2009, P. 87). , 20 Observem que a frase “o movimento é o pensamento em ato, e o pensamento é o movimento sem ato” afirma que a inteligência se constrói do ato ao pensamento, quer dizer, do movimento que busca a resposta, do movimento para a inteligência, ou seja, do concreto para o abstrato, ou ainda, da experiência realizada com o corpo para a interiorização na mente. Figura 2.2 - Dança A dança é o pensamento em ato e sua coreografia expressa esse pensamento, em um nível muito mais elaborado, já como FPS (funções psicológicas superiores). Guilman, impulsionado por Wallon e suas pesquisas, inicia a prática psicomotora relacionando-a com técnicas advindas da neuropsiquiatria infantil, cujo foco era a reeducação tônica, relacional e controle motor, portanto de reeducação psicomotora, IBIDEM. As obras, pesquisas e investigações de Wallon, consagraram nomes importantes da psicomotricidade, como Ajuriaguerra, Guilmain, Erickson,Soubiram, Stambak e muitos outros que trabalhavam no Hospital Henri Roselle e desenvolviam intensa atividade científica impulsionadas pelos projetos de Wallon. Observem a importância de estudos e pesquisas nos processos de investigações científicas. , 21 2.3 Ajuriaguerra e Ramain-Thiers De acordo com TRIPICCHIO (2008), Julián de Ajuriaguerra (1911-1993) estudou neurologia e psiquiatria, explorando diversos campos da neuropsiquiatria, a psiquiatria, a psicanálise, a psicologia do desenvolvimento da criança, desorganizações psíquicas do paciente idoso, fisiopatologia cerebral, dirigiu e organizou a Clínica Universitária de Bel-Air e ocupou a cátedra de neuropsicologia do desenvolvimento no Collège de France. Seus trabalhos mais destacados foram: “Epilepsias, suas formas clínicas, seus tratamentos” de 1948; “O córtex cerebral” de 1948; e o mais conhecido e usado “Manual de psiquiatria Infantil” de 1970. Ajuriaguerra e Datkine, em seus estudos, ocasionaram uma mudança na história da psicomotricidade ao redefinirem o conceito de debilidade motora como uma síndrome de propriedades particulares. Em seu trabalho mais expressivo “Manual da Psiquiatria Infantil”, aponta e delimita com clareza os transtornos psicomotores, afirmando que estes oscilam entre o neurológico e psiquiátrico. Esse trabalho mudou tudo, uma vez que os transtornos especificamente psicomotores se situam nessa oscilação, conforme Falcão e Barreto, 2009. Para Ajuriaguerra o corpo é um porta voz dos sintomas e, por isso, sede dos problemas de aprendizagem (diálogo entre psicanálise e neuropsiquiatria) e psicomotores, porém, esse corpo pode ser reeducado. Simone Ramai, vem para o Brasil em 1970, trazendo suas experiências psicocinéticas com objetivo reeducador. Na década de 1980, Solange Thiers cunhou o método Ramain brasileiro. Ela morreu em 2018 e foi Presidente de Honra da S.B.P. (Sociedade Brasileira de Psicomotricidade) e Sócia Fundadora e Presidente da A.B.R.T. (Associação Brasileira Ramain-Thiers) (RAMAIN-THIERS SOCIOPSICOMOTRICIDADE, S.D.). , 22 O método se baseia em terapia de grupo com aportes interdisciplinares em sociologia, psicologia, psicanálise, medicina, socioanálise, dentre outras. Conhecida como sociopsicomotricidade Ramain-Thiers (CARDOSO, S.D.), volta-se para as influências emocionais na expressão motora, apoiado na visão de um ser humano corpóreo, cognitivo, psíquico e social. 2.4 As 3 unidades funcionais de Luria e a psicomotricidade: uma síntese Vocês se lembram do neuropsicólogo russo que nós estudamos no Bloco 1? Tenho certeza que sim! Lá nós vimos as contribuições desse estudioso “artesão intelectual”, mudando por definitivo a compreensão, até então, de um cérebro estudado pelas funções de suas áreas, por um cérebro trino, com blocos funcionais, que constituem um complexo e completo sistema cerebral trabalhando em cooperação, ou seja, como em uma orquestra, na qual cada bloco ou unidade funcional contribuem para a melhor resposta adaptativa neurológica. Muito bem! Por que Luria era conhecido como “artesão intelectual”? Por que suas pesquisas eram intensas e interdisciplinares? Vamos relacioná-lo com a psicomotricidade e verão o porquê. Luria contribuiu para o estudo da psicomotricidade, principalmente com o desenvolvimento motrício infantil. Sua pesquisa foi tão profunda acerca do desenvolvimento motor infantil, que forneceu o tempo (estágios) e como (o modo) que a criança estará apta a integrar (como em uma orquestra) com as “bases psicomotoras”. Luria foi mais longe, a partir das 3 unidades funcionais, pesquisou sobre a significação psiconeurológica da influência das bases psicomotoras para a aprendizagem humana e chamou-as de alicerce para o desenvolvimento humano – corpo e cérebro são uma unidade, na qual o corpo em suas experiências vividas, fornece substância para o desenvolvimento cerebral, tendo a cultura e as relações interpessoais como mediadores primordiais. , 23 Estudaremos cada fator psicomotor no Bloco 5. Aguardem! Estudem as unidades funcionais e quais fatores psicomotores elas representam. Essas conceituações fazem parte rotineira do olhar psicopedagógico e são ferramentas de investigação e de intervenção. 2.5 O olhar hierárquico de Luria para a construção dos fatores psicomotores Vamos nos lembrar novamente de Luria. Ele afirmava que as unidades funcionais trabalham de modo hierárquico, ou seja, uma depende da outra para o cérebro trabalhar em melodia. Apenas para alimentar a nossa memória de longo prazo, a 1ª unidade é base para a 2ª que é base para a 3ª. O que é mesmo que isso significa para a nossa aprendizagem? Significa que, como o nosso cérebro trabalha como uma orquestra e de modo hierárquico, se, em algum bloco funcional houver alguma “falha” de consolidação, a dificuldade de aprendizagem será emergente. , 24 Ora, se as unidades funcionais em Luria trabalham em hierarquia, as funções psicomotoras também se constroem em hierarquia. E o que isso quer dizer? Isso quer dizer que uma depende da outra para se constituir. Estudaremos essas hierarquias no Bloco 5. Por hora, vamos esquematizar como seria a hierarquia dos fatores psicomotores e finalizamos este bloco! Vamos ver a hierarquia? A tonicidade é base para o equilíbrio como sua resposta “tônica” (1ª unidade). A lateralização, não pode ser constituída adequadamente sem a tonicidade e o equilíbrio (diálogo entre 1ª e 2ª unidade). A noção de corpo depende da tonicidade, do equilíbrio e da lateralização. A estruturação espaço-temporal, depende de todos esses em hierarquia. , 25 Assim sendo, a praxia global (3ª unidade) depende de uma constituição adequada da tonicidade e equilíbrio, na 1ª unidade, da lateralização, noção de corpo e estruturação espaço-temporal, na 2ª unidade, e vai servir de base e estrutura para a praxia fina, ou seja, um perfeito e melódico diálogo entre todas as unidades funcionais e todos os fatores psicomotores. Conclusão Neste bloco, reunimos elementos acerca da história do termo psicomotricidade, apresentamos alguns de seus mais eminentes pesquisadores, cujas pesquisas contribuíram para a mudança de olhar e transformação da área de estudos da psicomotricidade. Posteriormente, retomamos às contribuições de A. Luria e sua pesquisa interdisciplinar, apontando uma pequena síntese de sua contribuição para a psicomotricidade, relacionando os blocos funcionais do cérebro trino com os fatores psicomotores de modo hierárquico. REFERÊNCIAS CARDOSO, K. A. L. Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers. Imostra Regional de Práticas em Psicologia, S.D. Disponível em: <https://bit.ly/3iyAcJH>. Acesso em: 22 jul. 2021. CONSTRUIR NOTÍCIAS. Biografia de Henri Wallon. Edição 16. S.D. Disponível em: <https://www.construirnoticias.com.br/biografia-de-henri-wallon/>. Acesso em: 21 jul. 2021. FALCÃO, H. T.; BARRETO, M. A. M. Breve histórico da psicomotricidade. Ensino, Saúde e Ambiente, Volta Redonda, RJ, V.2, n.2, p.84-96, agosto 2009. Disponível em: <https://periodicos.uff.br>. Acesso em: 19 maio 2021. , 26 MOI, R. S.; MATTOS, M. S. Um breve histórico, conceitos e fundamentos da psicomotricidade e sua relação com a educação. Anais do 2º Encontro Internacional História & Parcerias, 6º seminário fluminense de Pós graduando em história e 5ª jornada do programa de pós graduação em história das ciências e da saúde, S.D. Disponível em: <https://bit.ly/36VTBPc>. Acesso em: 19 maio 2021. PARANÁ. Wallon. Secretaria da Educação, S.D. Disponível em: <http://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=467 &evento=9>. Acesso em: 21 jul. 2021. NEGRINE, A. Aprendizagem e desenvolvimento infantil. Porto Alegre: Prodil, 1995. RAMAIN-THIERS SOCIOPSICOMOTRICIDADE. Ramain-Thiers Chega à Manaus. S.D. Disponívelem: <https://bit.ly/3ydpdvW>. Acesso em: 21 jul. 2021. TRIPICCHIO, A. Ajuriaguerra Julián de (1911 - 1993). Rede PSI, 2008. Disponível em: <https://www.redepsi.com.br/2008/02/27/ajuriaguerra-juli-n-de-1911-1993/>. Acesso em: 21 jul. 2021. Referência Complementar FERNANDES, D. G. D.; BARROS, C. L. Psicomotricidade: Conceito e História. Rev. Conexão Eletrônica, Três Lagoas, MS, V. 12, n.1, s/p, 2015. Disponível em: <http://revistaconexao.aems.edu.br>. Acesso em 19 maio 2021. , 27 3 A SIMBOLOGIA DA AÇÃO Apresentação Neste bloco vamos abordar a simbologia da ação humana. Isto implica que estaremos falando de motricidade (movimento exclusivamente humano) e psicomotricidade (relação entre motricidade e psiquismo humanos). Nossos movimentos são culturais, não são inatos, portanto, são mediados pelos instrumentos e objetos que nossa espécie construiu ao longo de sua história e processo evolutivo. Nós vamos iniciar apresentando como podemos entender essa tal mediação a partir do uso de instrumentos pela espécie humana. Fique atento a visão histórica deste texto. Entrelaçar contextos históricos faz parte do processo de investigação do psicopedagogo. 3.1 O uso de instrumentos pela espécie humana Neste subtema, vamos pensar na evolução da espécie humana em alguns milhares de anos. Houve um tempo no qual vivíamos em hordas, grandes grupos que se juntavam para poder sobreviver ao frio, ao calor, à fome e aos predadores. Não havia vínculo civil ou social, o sexo era promíscuo, simplesmente para procriação, para aumentar os membros da horda. E como não havia moral ou moralidade, não havia também violações. Nesse período já tínhamos o fogo e algumas pedras lascadas que eram usadas como armas para defesa e caça para a alimentação do grupo. A horda, em seu estado selvagem, significava a sobrevivência do indivíduo que ainda se tornaria humano. Isso significa que a consciência era coletiva, tudo era feito para a horda, para todos sobreviverem e não apenas para um ou alguns poucos. , 28 Havia uma tolerância recíproca entre os machos adultos uma vez que mulheres procriavam com vários machos e o oposto também, pois procriar significava ter membros no grupo para lutar para poderem sobreviver. Desse modo, não havia ciúmes, uma condição de posse do ser amado, que perdurou por muitos séculos e ainda se mantem neste século XXI. Tolerância e ausência de ciúmes (de posse e poder sobre o outro), se constituíam como a primeira condição para formar esses grupos maiores e duradouros, cujo vínculo era o da sobrevivência, e que eram os únicos em que poderiam ocorrer a transformação do animal em humano. O uso de instrumentos como fogo e pedras lascadas (lascas de pedras cortantes), foram alguns dos primeiros objetos que protegeram esses pré-humanos por um lado e, por outro, os distanciariam totalmente de sua natureza selvagem. Observem que o conhecimento e a aprendizagem eram grupais, deixando pouca ou nenhuma margem para o individualismo, uma vez que sozinho, sem uma horda, sua morte era iminente. À medida que os nossos conhecimentos e habilidades manuais foram se desenvolvendo em interação com o cenário ambiental, fomos produzindo mais instrumentos, junto com eles, poderíamos deixar de nos esconder, tínhamos arco e flechas, já podíamos nos movimentar para diferentes lugares e iniciar um tipo de sedentarismo, plantar e criar animais para nosso sustento. O mamífero humano é extremamente sedentário, pois tem uma moradia e domesticou plantas e animais. Isso inicialmente o auxiliou na criação de condições de vida para que pudesse permanecer em um mesmo local. Ao longo de milhares de anos, esse pré-humano foi acumulando experiências de trabalho, pois, as atividades de trabalho ficaram mais complexas. Elas incluem criar animais e plantar para comer, o que exigia desenvolver a agricultura; observar o crescimento das plantas; escolher como agir em tal ou qual situação; escolher animais para sua guarda e a do rebanho; dentre outras coisas. Isso mudou sua condição de vida e, com isso, foi acumulando conhecimento para poder reproduzir e construir uma vida em situação mais segura do que a vivenciada. , 29 Esse processo longo e lento (falamos de milhares de anos) lhe propiciou experiências de trabalho, de convivência com novas formas de relações coletivas, novas formas de trabalho, oferecendo bases para o desenvolvimento da comunicação, já que as novas atividades precisavam ser nomeadas e também precisavam ser ensinadas para às novas gerações. Conhecer e ensinar, significava oferecer condições de uma vida em situação mais segura, ter melhores condições para sobrevivência e aprender a melhorar o modo de vida. Ao uso de instrumentos e objetos, chamamos de tecnologia. Nestes dois milhões de anos, desde quando nossos antepassados construíram os primeiros utensílios de pedra, até agorinha, séc. XXI, com o primeiro robô para explorar a superfície de Marte, estamos evoluindo tecnologicamente o tempo todo. Observem que conhecer, aprender e ensinar faz parte da história evolutiva da espécie humana! E mais! Instrumentos, objetos, tecnologia é uma manifestação da motricidade e da psicomotricidade tipicamente humana. Legal isso, não é?! Você psicopedagogo, precisará conhecer e aprender para poder intervir e oferecer condições de uma situação mais segura para aqueles que forem encaminhados para você! 3.2 Instrumentos e tecnologia – uma relação mediada com a natureza À medida que construímos instrumentos, objetos, utensílios, artefatos, mudamos nossa relação com a Natureza e com o nosso Planeta, assim como mudamos nossa relação com todos os outros seres vivos que habitam o Planeta, quer sejam, minerais, vegetais ou animais e mudamos nossa relação com nossa própria espécie, nos tornando os únicos responsáveis pelo que fazemos com o Planeta e com todos os seres que nele habitam, assim como responsáveis por nossa educação e vidas. Para nós, animais humanos, a evolução não para. Construímos mudanças imensas em nossas vidas para melhorá-las e as nossas condições de sobrevivência e segurança. Com isso nos tornamos cada vez mais sedentários. , 30 Basta olharmos para a história e trazer a mente a invenção da máquina a vapor, que mudou nosso conceito de transporte e lançou bases para o barco a vapor, a locomotiva e o primeiro automóvel. A invenção do telefone, permitindo comunicação como nunca antes e originando as Comunicações. Ora, e a prensa tipográfica que nos permitiu, a partir de uma matriz, fazer cópias e que deu origem à impressão de livros. A lâmpada elétrica mudou nossas vidas, assim como tudo eletroeletrônico. Graças a isso, nós temos mais tempo para nossos quefazeres e, incrivelmente, nos queixamos de falta de tempo. Como pode ser isso?! E, bom, a invenção do computador que nunca mais parou não é mesmo?! Cada objeto, instrumento, utensílio e artefato que produzimos muda a nossa relação com a natureza e com a nossa própria espécie. Construímos uma relação indireta, mediada, por copos, pratos, roupas, casas, carros, energia, água canalizada, restaurantes, camas, maquilagem etc. Essa produção é consequência de uma evolução motrícia que nenhum outro mamífero adquiriu! E isso tem um impacto em nossas vidas, sentimentos, emoções, mente, e em nosso psiquismo. Isso também tem um impacto na Natureza e em todas as vidas das outras espécies que neste Planeta habitam. Aliás, somos nós que coabitamos com as espécies porque elas existem há milhares de anos antes de nós e, sem elas, nós nem existiríamos! Se, por um lado, nossa espécie construiu um outro ambiente no espaço natural, um ambiente social e cultural, para facilitar nosso acesso a bens e serviços, nos permitindo ir a qualquer parte do mundo; por outro lado, ao extrairmos excessivamente matérias primas de todas as ordens da natureza,inclusive, vidas animais, causamos a destruição do meio ambiente e o desgaste irrefreável dos seus recursos naturais. Observem que os recursos naturais são para os seres vivos deste planeta e não apenas para os da nossa espécie. Com isso, estamos “mecanizando” o planeta, o que origina uma destruição rápida e maciça dos habitats naturais das demais espécies, conduzindo-as à extinção. Esse seria o aspecto negativo da motricidade humana. , 31 A extinção de outras espécies vivas é uma consequência do desenvolvimento tecnológico irrefreado da nossa espécie. A tecnologia é uma forma de relação mediada, que caracteriza o humano. Ela não tem razão e nem emoção. Quem as tem é aquele que a usa, o humano. Agora que já fizemos um retrocesso e avanço histórico da nossa evolução e do nosso desenvolvimento tecnológico, e aprendemos que nossa relação com este planeta, com todas as espécies que nele habitam e com os da nossa espécie é uma relação mediada, no próximo subtema vamos ver o que é essa tal mediação e porquê ela é importante para a construção do nosso psiquismo. 3.3 Conceito de mediação em Vygotski Este subtema está pautado no livro de L. S. Vigotski, “A formação social da mente”, no qual ele discorre sobre o uso de instrumentos e objetos e sua importância psíquica na formação do desenvolvimento e da aprendizagem da criança. É, portanto, relativo ao desenvolvimento mental da criança e seu processo de aprendizagem, muito importante para a mediação e para todo o processo de investigação, análise, diagnóstico e intervenção psicopedagógica. Vygotsky faz uso do conceito de mediação, que sustenta que nossa relação com o mundo não é direta, mas sim, mediada pelos sistemas simbólicos3. Ele observou que crianças consideradas de mesmo nível mental apresentavam aproveitamento diferente quando estimuladas a partir de algum auxílio. Uso de dicas, objetos ou instrumentos na mediação com o adulto em qualquer processo de ensino e aprendizagem. É por isso que, para Vygotsky, o professor é a figura essencial do aprender, isso porque representa uma ponte (mediação) entre o aluno e o conhecimento que se encontra no ambiente cultural e social. Suas ideias se apoiam em 3 eixos centrais: 3 Os sistemas simbólicos funcionam como elementos mediadores, que permitem a comunicação entre indivíduos, o estabelecimento de significados compartilhados por determinado grupo cultural, a percepção e interpretação dos objetos, eventos e situações do mundo circundante (CULTURANDAS, S.D.). , 32 1- Os Processos Psicológicos superiores (PPS) ou Funções Psicológica Superiores (FPS) têm uma origem histórica e social. 2- Os instrumentos de mediação (ferramentas e signos) desempenham um papel central na constituição das FPS. 3- É preciso abordar os PPS segundo os processos de sua constituição, ou seja, a partir de uma perspectiva genética (fases de maturação do organismo, predisposição para aprender), um diálogo essencial entre a herança biológica e a herança sociocultural. O conceito de mediação parte do pressuposto de que o ser humano não se relaciona diretamente com o mundo ao seu redor e, por isso, sua relação é mediada pelo conhecimento construído pelas gerações antecedentes, pelos instrumentos físicos ou simbólicos (signo, linguagem) que se interpõem entre o ser humano e os objetos e fenômenos. Veja, por exemplo, que é o machado que amplia as possibilidades de o humano transformar a natureza e a sua própria natureza. Isso ocorre porque o machado corta mais e melhor que a mão humana. Por que e como o machado foi feito? Vamos pensar. Um instrumento é pensado para um certo objetivo (o martelo, o liquidificador, o fogão, o trator etc.). No caso do machado, cortar mais e melhor, altera a relação do humano com a natureza e com os da sua espécie. Ele fica mais rápido no que faz e tem tempo para outras coisas. , 33 Assim sendo, quando pensado, o instrumento carrega consigo a função para o qual ele foi criado. Desse modo, ele é um objeto social (tem uma função social) e mediador da relação entre os seres humanos e o seu mundo. Vejam que vocês podem pensar: ora, mas tem macacos que usam instrumentos (galhos) para pegar frutos. É verdade! Mas não o fazem como os humanos: os animais não produzem, seus instrumentos deliberadamente como o humano, não guardam seus instrumentos para uso futuro, portanto, não preservam a função do instrumento como uma conquista a ser transmitida a outros de seu grupo social como o humano faz. Nas instituições educativas, professores, demais profissionais e alunos são agentes mediadores entre o ensinar e o aprender. OU SEJA: Estímulo – Elo Intermediário ou Elemento Mediador – Resposta Desde o início do desenvolvimento da criança, ela explora o ambiente ao seu redor. A curiosidade é uma característica do cérebro, afinal, ele precisa conhecer para nos proteger. Mesmo quando a criança pega um brinquedo, um instrumento, um bichinho de pelúcia, esses artefatos já são uma relação indireta com a natureza. , 34 O adulto está constantemente apresentando novos objetos para as crianças, novas curiosidades para sua exploração. Isso pode nos dar a sensação de que nossos filhos aprendem sozinhos, basta que eles peguem os objetos e os manuseiem. Pois não é assim. Nossa voz, nossa linguagem, a entonação da fala, a linguagem gestual, o apontar para algo, uma expressão facial, são todos elementos mediadores para o desenvolvimento e a aprendizagem da criança. Para levar a água à boca, por exemplo, a criança utiliza uma xícara, uma garrafinha, um copo. Para alcançar um brinquedo em cima da mesa, usa uma cadeira ou um banquinho. Ao ameaçar colocar o dedo na tomada, muda de ideia com o alerta dos pais, de outros adultos ou pela lembrança de um choque. Ela não aprendeu nada disso sozinha. Um adulto a ensinou, mostrou pela primeira vez, ou ela viu. Aprender por imitação é uma característica comum dos mamíferos (humanos e não- humanos). Neurônios espelhos permitem esse tipo de aprendizagem (pela imitação). Mas, ao fim e ao cabo, em praticamente todas as situações humanas há um elo intermediário que se interpõe entre o ser humano e o mundo, a relação mediada. A mediação é uma função fundamental do psicopedagogo em todo seu processo de investigação, diagnóstico e intervenção. 3.4 Elementos mediadores: instrumentos e signos Dois tipos de elementos mediadores foram propostos por Vygotsky. MEDIAÇÃO SIMBÓLICA INSTRUMENTO SIGNO Media a ação sobre os objetos Regula a ação sobre o psiquismo SIGNO age como um instrumento da atividade psicológica de modo análogo ao de um instrumento de trabalho. O primeiro são os instrumentos. , 35 Ao se interpor entre o homem e o mundo, eles ampliam as possibilidades de transformação da natureza. O machado permite um corte mais afiado e preciso, uma vasilha facilita o armazenamento de água etc. Alguns animais, sobretudo primatas, podem até utilizá-los eventualmente, mas é o homem que concebe um uso mais sofisticado, guarda instrumentos para o futuro, inventa novos e deixa instruções para que outros os fabriquem. Instrumentos e signos são formas de mediação, mas se distinguem na orientação: • O INSTRUMENTO é orientado externamente e visa à mudança nos objetos. • O SIGNO é orientado internamente e visa o controle do próprio indivíduo. O que é importante? Instrumentos mudam a nossa relação com o mundo ao redor e as nossas relações interpessoais. Os signos fazem parte do nosso intrapsíquico (interior) e nos permitem autorregulação e controle inibitório. O segundo elemento mediador, o signo, é exclusivamente humano. A palavra signo provém do termo latim signum (CONCEITO DE, S.D.). Trata-se de um objeto, fenômeno ou ação material que, por natureza ou por convenção, representaou substitui outro. É algo que representa algo, é um sinal. A linguagem, por exemplo, é toda composta de signos, a palavra cadeira remete ao objeto concreto cadeira. Perceba que você certamente pode imaginar uma agora mesmo sem a necessidade de vê-la. O mesmo ocorre se eu falar rosa, ou, situação triste, ou, momento muito feliz. Você certamente vai pensar em uma rosa, em uma situação triste ou um momento muito feliz que faz parte da sua vida. A palavra te remete a uma situação concreta e vivida. , 36 Para o ser humano, a capacidade de construir representações mentais que substituam os objetos do mundo real é um traço evolutivo importante. Isso decorre porque a representação mental da cadeira (com ela ausente) nos liberta do tempo e do espaço presentes e imediatos, o que nos permite fazer relações mentais na ausência dos objetos e artefatos, fazer planos, ter intenções, projetar etc. Portanto, nos permite regular nosso psiquismo. As nossas representações mentais trazem consigo seus significados. A representação mental do machado, traz consigo o significado social de cortar melhor, mais trabalho, mais rapidez. O instrumento é orientado externamente – objetos. A representação mental da rosa traz consigo significado e sentido pessoal. O signo é orientado internamente – psiquismo. Mas como é que essa representação mental e seu significado se constroem? O significado se constrói apenas em uma rede de relações sociais e culturais e nunca isoladamente. Isso ocorre porque o significado é um sistema de representações entre relações de vários objetos e pessoas, e que ocorre quando o sujeito é capaz de reter em sua mente a representação daquilo que deseja independente de sua presença, na ausência daquilo que quer. Se ocorre em uma rede de relações (sempre mediado por outros e na relação com outros) e nunca isoladamente, a interação social tem uma função central no processo de internalização. Essa mesma característica também é fundamental para a construção de conhecimentos. Isso decorre porque nos permite aprender por meio da experiência do outro e com o outro. Uma criança, por exemplo, não precisa pôr a mão na chama de uma vela para saber que ela queima. Ela pode ter visto alguém se queimar e lembrar ou sabe disso devido aos conselhos de pessoas mais velhas. Que processo é esse pelo qual passa a criança? , 37 A criança simplesmente associa a representação mental da vela com a possibilidade de queimadura e sempre que ela faz essa associação decorre uma internalização do conhecimento, ou seja, a criança não precisa mais de advertências pois ela já sabe que o fogo pode queimar. Ou seja, é um signo que atua psiquicamente, permitindo a autorregulação. Fica claro, portanto, a importância da mediação na escolarização e em todos os processos de aprendizagem humanos, incluindo a intervenção psicopedagógica. 3.5 Simbologia da ação – motricidade e psicomotricidade Bom, como então podemos entender a simbologia da ação da motricidade humana e da psicomotricidade? Vamos tomar como exemplo a intenção de comer, movimento motrício comum entre todos os mamíferos e entre todas as espécies vivas, no entanto, como seria essa simples intenção de comer como ação humana? Vamos exemplificar e refletir sobre ela. 1. Comer em casa é um movimento motrício produtor de determinado significado e sentido. 2. Comer catando comida na lata de lixo é o “mesmo” movimento motrício produtor de um outro determinado significado e sentido. 3. Comer em um restaurante é um outro “mesmo” movimento motrício produtor de um outro determinado significado e sentido. 4. Comer com amigos é também um outro “mesmo” movimento motrício produtor de outro determinado significado e sentido. 5. Ter a intenção de comer e não ter comida para comer é também determinantemente um outro “mesmo” movimento motrício produtor de outro determinado significado e sentido. O que é que nós precisamos observar? , 38 A mesma intenção de comer assume significados e sentidos diferentes que se articulam entre si, porque envolvem sistemas de representação que incluem signos produzidos a partir da concreta atividade humana que é “determinada” na interação com seu meio social humano. Disso decorre, como já vimos, que o que chamamos de motricidade e psicomotricidade humana não nasce com o indivíduo biológico enquanto uma predeterminação genética que será desenvolvida forçosamente pelo seu caráter genético, mas que vai sendo construída na relação com o meio histórico-sociocultural, sem o qual a herança biológica simplesmente não se concretiza. Conclusão Neste bloco vimos que, para abordar a simbologia da ação humana, precisamos recorrer à história da evolução da espécie humana, nossa vivência em hordas em um único coro coletivo. Com isso, aprendemos que o conhecimento ocorre nas relações coletivas e das quais são construídos o corpo e a consciência individual. Abordamos o uso de instrumentos e signos como mediadores das nossas ações e do nosso psiquismo e pudemos entender que a simbologia da ação humana ocorre de diferentes significados e sentidos que são tecidos e articulados em uma rede de relações. REFERÊNCIAS CONCEITO DE. Conceito de Signos. S.D. Disponível em: <https://conceito.de/signos>. Acesso em: 22 jul. 2021. CULTURANDAS. Cultura, Comunicação e Sistemas Simbólicos. S.D. Disponível em: <https://culturandas.wordpress.com/cultura-comunicacao-e-sistemas-simbolicos/>. Acesso em: 22 jul. 2021. VIGOTSKI, L. S. A formação social da mente. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. , 39 Referências complementares OLIVEIRA, M. K. Pensamento e ação no magistério Vygotsky: Aprendizado e desenvolvimento – um processo sócio histórico. S.D. Disponível em: <https://bit.ly/3Bw99r7>. Acesso em: 7 jun. 2021, https://bit.ly/3Bw99r7 , 40 4 RELAÇÃO ENTRE ESQUEMA CORPORAL E IMAGEM CORPORAL Apresentação Neste tema vamos abordar as possíveis relações entre os conceitos de esquema corporal e imagem corporal, apontando sua importância para o desenvolvimento da criança e o corpo como possível objeto de dificuldades de aprendizagem. Para isso, apresentaremos a vocês algumas considerações pertinentes acerca do vocábulo esquema, como resultado e produto das pesquisas sobre o corpo em psicomotricidade. Posteriormente, nos embasaremos em Wallon, autor que não apenas contribuiu para a transformação do olhar na construção da área psicomotricidade, como também, seus pressupostos embasaram a pedagogia, a psicologia, a neurociência, a psicopedagogia entre outras áreas. A partir de suas contribuições, apresentaremos ao futuro psicopedagogo a relação dos estágios de desenvolvimento da criança com a percepção do corpo. Finalizaremos nosso texto com algumas considerações sobre esquema corporal, noção de corpo e imagem corporal e uma síntese simplificada do desenvolvimento psicomotor em Wallon, como ferramentas e instrumentos para o trabalho da prática psicopedagógica. Nós vamos iniciar, portanto, com as considerações sobre o vocábulo “esquema”. Bons estudos! 4.1 Algumas considerações importantes sobre o vocábulo “esquema” Em seu livro, “Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem”, Vitor da Fonseca, em seu capítulo 3, tece algumas considerações sobre o vocábulo “esquema” corporal. Psicopedagogo e pós-doutorado, é um autor que tem uma base de formação e prática, inter e transdisciplinar. , 41 Nesse capítulo, Fonseca recorre a obra de Julian Ajuriaguerra que nós já vimos na história da psicomotricidade, sobre a importância de suas contribuições no âmbito da neurofisiologia, neuropatologia e neuropsiquiatria infantil. Para Ajuriaguerra, o corpo da criança representa a sua evolução, a sua conscientização e o seu conhecimento cada vez mais profundo sobre seu corpo, e afirma que seu corpo é seu “eu total”.Qual a ideia original de Ajuriaguerra? Pensar a investigação do corpo a partir das patologias que lidava em neuropatologia e neuropsiquiatria infantil. Por que o corpo é o “eu total”? Ajuriaguerra responde que o corpo é o “eu total” porque é com o corpo que a criança elabora todas as suas experiências vitais e organiza sua personalidade de modo único, não nivelável, de modo total e evolutivo (do nascer ao envelhecimento). Ora, como é que crescemos e amadurecemos? Não tem cérebro sem corpo, não tem emoção sem corpo, não tem consciência sem corpo, não tem um “EU” sem corpo. Em poucas palavras, a criança é o seu corpo, ou dito de outra forma, a pessoa é o seu corpo! Vejam a importância da afirmação de Ajuriaguerra e porque, depois dele, muitas transformações ocorreram na área da psicomotricidade. Uma delas, que nós todos podemos pensar aqui e agora é “não preciso pensar o humano apenas com um SN que evoluiu, na construção de um cérebro capaz de transformar a natureza”. Isso porque esse SN e esse cérebro, não podiam existir sem seu corpo. , 42 Todos os sistemas de integração sensorial e psicomotores que o cérebro organiza e comanda, estão em um corpo. Um corpo que pode ser observado não apenas em suas normalidades, mas em suas anormalidades e patologias, que auxiliam na compreensão inclusive das dificuldades motoras e dificuldades de aprendizagem. Sem dúvida, no séc. XX, o corpo se tornou um objeto de estudo muito mais profundo e também, um sujeito de estudos, primeiro por neurologistas que queriam compreender o funcionamento do cérebro e suas patologias, e, depois por psicólogos e psicanalistas que queriam compreender a evolução da personalidade da criança, do jovem e as suas possíveis perturbações. E é aí que entram as nossas considerações sobre o vocábulo esquema corporal, uma vez que dentro da história do estudo do corpo, cada autor deu uma nominação: esquema corporal, imagem de si, imagem do eu corporal, imagem do corpo, noção de corpo, imagem espacial do corpo, imagem do nosso corpo entre tantas. As que nós mais ouvimos são o esquema corporal, noção de corpo e imagem corporal. Mas por quê? Bom, por que não tivemos acesso aos autores que abordaram o corpo dentro de um período histórico que foi capaz de produzir tantos estudos e investigações e tantas nomeações? Simples assim, levaríamos anos para estudar a contribuição de dezenas de autores e isso requereria graduações e pós-graduações específicas. O que FONSECA (2008, p. 106) coloca sobre o vocábulo “esquema” é que “(...) tem o grande inconveniente de o termo “esquema” não traduzir a noção de plasticidade e de disponibilidade que esse conceito contém”. Complementando, Fonseca aponta que a noção de esquema corporal se situa em um plano neurofuncional, envolve integração neurológica de posturas e programas motores que estejam em interação com a percepção espacial de objetos, uma vez que o corpo seria visto como um subsistema necessário para a realização da ação. Mas o corpo, não é apenas um subsistema! , 43 Sem o corpo não há plano neurofuncional, não há integração neurológica de posturas e programas motores. Motivo pelo qual a visão da indissociação organismo-cérebro e corpo-mente é o ponto de partida inter e transdisciplinar para qualquer compreensão e investigação sobre o mamífero humano. Com relação à imagem do corpo, aponta um pensamento psicanalítico adotado por Ajuriaguerra, que explicita que esse termo tem um enfoque na abstração e na representação consciente e inconsciente do corpo, e que esse conceito envolve a autopercepção, o autoconceito, a própria noção de Eu enquanto um sujeito de suas emoções vividas e integradas a atitudes, ou seja, o corpo como elemento principal de qualquer processo intencional. Ora, o que isso quer dizer? Isso quer dizer um corpo situado social e culturalmente, com história de suas experiências e justamente por estar situado é capaz de se autoperceber e se autoconceituar. Peço que observem que o corpo da criança (do jovem, do adulto e do velho) é a própria criança (o jovem, o adulto e velho)! Muito bem, aqui encerramos nossas considerações com os vocábulos e trabalharemos os conceitos no decorrer deste tema! 4.2 Estágios de desenvolvimento da criança segundo Wallon Neste subtema, vamos nos apoiar em Henry Wallon, um autor muito pouco conhecido e também muito pouco usado no Brasil, principalmente nas escolas públicas, onde suas contribuições seriam de melhor valia. Este subtema e o próximo (4.3) estão, portanto, fundamentados no capítulo 1 de FONSECA “Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem” e em WALLON “Do acto ao pensamento”. Para quem se interessar há uma edição mais recente: WALLON, “Do ato ao pensamento – ensaio de psicologia comparada”. 2ª ed. São Paulo: Editora Vozes, 2015. , 44 Encontramos também um artigo muito bem redigido e interpretado para auxiliar o alunado em suas leituras: LEITE, Sérgio Antônio da Silva e TASSONI, Elvira Cristina Martins “A afetividade em sala de aula: As condições de ensino e a mediação do professor” (S.D.). Vamos então ao nosso diálogo de construção de conhecimento! Wallon se dirige a uma criança completa, estudando seus estágios como um ser pleno inserido em uma sociedade e cultura que não entendem seu desenvolvimento e sua expressividades. Em suas obras, a psicomotricidade e a motricidade são uma constante, visto que para ele a criança é sempre movimento que precisa ser interpretado pelo adulto. Este é o autor da psicopedagogia e da psicomotricidade por excelência. Vamos apresentar uma síntese para que possam sentir o “sabor” dessa teoria, desenvolvida em plenas 1ª e 2ª guerras mundiais. Para Wallon, há quatro fatores para explicar o desenvolvimento psicológico da criança: A Emoção: é altamente orgânica, altera a respiração os batimentos cardíacos e até o tônus muscular, tem momentos de tensão e distensão que ajudam o ser humano a se conhecer. (...)as emoções são manifestações de estados subjetivos, mas com componentes orgânicos. Contrações musculares ou viscerais, por exemplo, são sentidas e comunicadas através do choro, significando fome ou algum desconforto na posição em que se encontra o bebê. Ao defender o caráter biológico das emoções, destaca que estas originam-se na função tônica. Toda alteração emocional provoca flutuações de tônus muscular, tanto de vísceras como da musculatura superficial e, dependendo da natureza da emoção, provoca um tipo de alteração muscular (LEITE E TASSONI S.D., p.4). Emoção é diferente de afetividade. , 45 A afetividade, por sua vez, tem uma concepção mais ampla, envolvendo uma gama maior de manifestações, englobando sentimentos (origem psicológica) e emoções (origem biológica). A afetividade corresponde a um período mais tardio na evolução da criança, quando surgem os elementos simbólicos. Segundo Wallon, é com o aparecimento destes que ocorre a transformação das emoções em sentimentos. A possibilidade de representação, que consequentemente implica na transferência para o plano mental, confere aos sentimentos uma certa durabilidade e moderação (LEITE E TASSONI S.D., p.5.) A pessoa: A construção do eu depende essencialmente do outro. A construção do “eu” como pessoa é a construção da consciência de si. Inicialmente, o indivíduo está na fusão emocional (no útero materno), necessidades alimentares ou posturais têm satisfação automática. Pós nascimento mamãe e bebê ainda são encarados como um todo, o que representa, para WALLON, alto grau de sociabilidade (ela e outro = um só), para depois o indivíduo perceber-se enquanto único, o que nomeia processo de individuação. O movimento (de ação e atividade): A motricidade tem caráter pedagógico, tanto pela qualidade do gesto e do movimento, quanto por sua representação. Ele acreditava que as escolasdeveriam quebrar a rigidez e a mobilidade adaptando a sala de aula para que as crianças possam se movimentar mais. A motricidade é a primeira forma de expressão emocional do comportamento, visto que a criança exprime as suas necessidades neurovegetativas (involuntárias, como a circulação do sangue, a respiração, a digestão etc.) de bem-estar ou mal-estar. Portanto, para Wallon, o movimento – a motricidade, contém uma dimensão afetiva e de interação social que se traduz em uma comunicação somática (soma = corpo) não- verbal e, por isso, também contém uma dimensão psíquica e é um deslocamento no espaço de uma totalidade motora, afetiva e cognitiva, uma pessoa completa. A inteligência: A proposta Walloniana coloca o desenvolvimento intelectual dentro de uma cultura mais humanizada. Os elementos como afetividade, movimento e espaço físico se encontram num mesmo plano buscando favorecer a criança em seu aprendizado. , 46 Para Wallon, os estágios de desenvolvimento dependem da vivência corporal da criança, sendo que cada estágio subsidia os novos estágios em desenvolvimento para aquisições mais elaboradas. 1º Estágio: Impulso Emocional - do nascimento – 1º ano. A emoção orienta as primeiras reações do bebê às pessoas, as quais intermedeiam sua relação com o mundo físico. Ocorre no primeiro ano de vida (0 – 1 anos), sendo que sua principal função é a emoção que pode construir uma simbiose emocional com o ambiente, uma vez que as emoções são o primeiro recurso de interação do bebê com o meio social e são extremamente contagiosas entre os indivíduos. 2º Estágio: Sensório Motor e Projetivo – até 3 anos. Estágio caracterizado pela exploração sensório-motora do mundo físico e do espaço. Função simbólica da linguagem. O ato mental “projeta-se” em atos motores. Inicia-se por volta de um ano e se estende até os três anos de idade. Predominam as relações cognitivas com o meio, uma vez que atividade sensório - motora tem dois objetivos básicos. O primeiro é a manipulação de objetos e o segundo é a imitação. Suas relações são orientadas para com os outros e com os objetos e são externamente caracterizadas pela investigação e exploração da realidade exterior. O andar e o desenvolver da linguagem dará à criança o ingresso a um novo mundo, o dos símbolos, a linguagem vai estruturar o pensamento. 3º Estágio: do Personalismo:3 – 6 anos. Estágio caracterizado pelo processo de formação da personalidade. Ocorre por volta dos três aos seis anos. Há o retorno da predominância das relações afetivas, voltadas para a construção da consciência de si. Suas ações e relações se voltam para a consciência e afirmação da personalidade na construção de si mesmo, para seu interior pois há a necessidade de afirmação. , 47 É um período assinalado por mudanças, pois, observa-se que entre 2-3 anos age pela oposição, tenta reivindicar, há insistência sobre a propriedade dos objetos, o que enriquece o eu e a construção da personalidade, pois, opondo-se ao outro, busca de afirmação de si; entre 3-4 anos observa-se uma idade da graça nas habilidades expressivas e motoras, a criança seduz, pois procura a aceitação e admiração dos outros, para se admirar também. Período narcisista. Pouco tempo antes dos 5 anos inicia-se a representação de papéis por meio da imitação. Personagens são criados a partir das pessoas que a criança admira. Sua inteligência se apoia fortemente na atividade motora e não separa a qualidade da coisa em si (sincretismo) (SALLA, 2011). 4º Estágio: Categorial: 9 – 11 anos. Estágio caracterizado pelo interesse para o conhecimento e conquista do mundo exterior. Ocorre entre os 6 e 11 anos e suas relações com o mundo são importantes, predominam processos cognitivos, pois sua função principal é conquistar e conhecer o mundo exterior. Sua orientação está voltada para o externo e o circundante e apresenta interesse especial por alguns objetos. É um período assinalado por mudanças, pois observa-se que, entre 6-9 anos, seu pensamento sincrético se torna global e impreciso, misturando o objetivo com o subjetivo. Entre 9-11 anos seu pensamento se modifica em categorial. Começa a agrupar categorias de acordo com seu uso, características ou atributos. Podemos perceber e observar progressos intelectuais, planificações, construção de conhecimentos e busca pelo desempenho do movimento. Seus deslocamentos são automáticos. 5º Estágio: adolescência Ocorre a partir dos 15 anos e é marcado por uma nova definição da personalidade, na qual a crise da puberdade provoca uma ruptura com a tranquilidade afetiva da etapa anterior, pois surgem questões pessoais, morais e existenciais. A função dominante nesta etapa é marcada pela contradição entre o conhecido e entre o que se deseja conhecer, uma vez que se dirige para a afirmação do eu. , 48 Esta fase impõe a necessidade de uma nova definição dos contornos da personalidade, desestruturados devido às modificações corporais resultantes da ação hormonal, na qual se observa uma oposição sistemática ao adulto, buscando diferenciar-se dele. Marca a diferenciação entre o eu e o mundo exterior, em que a criança aprende a perceber o que é de si e o que é do outro. Passa a pensar a realidade a partir de categorias, emerge a atenção como nova capacidade e nesse período é fundamental a interação do indivíduo com a cultura. No próximo subtema vamos, então, relacionar esses estágios de desenvolvimento e sua importância para a percepção do corpo na criança. 4.3 Relação entre os estágios de desenvolvimento em Wallon e percepção do corpo na criança A luz de Wallon e dos estágios de desenvolvimento da criança, vamos relacioná-los com a percepção do corpo pela criança. “Corpo Vivido” 1º Estágio: Impulso Emocional - do nascimento – 1º ano. Neste estágio o bebê é dependente do outro para experimentar o ambiente e o seu próprio corpo, sendo que o recurso para sentir seus deslocamentos (movimentos) se dão por intermédio de reconhecer, pelo tato, a forma e a consistência dos objetos, através da sensibilidade tátil, da sensibilidade às pressões e da sensibilidade profunda sendo que, depois de aprender rolar, engatinhar e andar, os deslocamentos (movimentos) ainda são parcialmente dependentes e com imprecisão. Seu corpo é vivido pelo outro e, por conta disso, a criança tem acesso aos seus primeiros estímulos, sensações, percepções etc. “Corpo projetado” 2º Estágio: Sensór io Motor e Projetivo – até 3 anos. Neste estágio, é importante o olhar acompanhar o movimento, pois tem início uma exploração ativa e autônoma do ambiente. O desenvolvimento de seu pensamento precisa da linguagem não verbal do gesto para projetar -se e concretizar-se. É a fase dos “olhos nas pontas dos dedos”, a criança mexe em tudo, procura imitar os adultos, testando sua descoberta de movimento, e usa seu corpo para se projetar em diversas posições no ambiente externo. Portanto, a criança projeta seu corpo e, ao fazê-lo, o usa como um instrumento de conhecimento e aprendizagem. , 49 “Corpo Percebido” 3º Estágio: do Personalismo: 3 – 6 anos. Neste estágio, a criança já aprendeu a se projetar, a imitar, usa os gestos como forma de concretizar seus movimentos, ou seja, vivenciou a experiência motrícia e psicomotora e já começa a perceber o seu corpo na relação com o contexto: em cima, embaixo, para dentro, para fora, a sua frente, atrás dela etc. Ela deverá estar muito segura com relação a sua capacidade de se locomover, pois entra em jogo seus movimentos proprioceptivos (saltar pequenas alturas, sustentar seu próprio corpo, pular, correr etc.), uma vez que isso significa um desenvolvimento psicomotor, por conseguinte, um desenvolvimento neurofuncional. Isso é o esperado, se tudo correu bem nas fases anteriores. É neste estágio também que, por volta dos 3-4 anos, temos asmanhas e birras, decorrentes de uma maior consciência de seu corpo, o que faz emergir também a consciência de seus desejos, que ela nos impõe. Nesta fase se encontra a crucial importância da educação infantil no desenvolvimento da pessoa completa, na interação com seus pares, onde terá início um contraponto entre os desejos, a negociação e a argumentação. Desenvolvimento cognitivo e conativo, como vimos no Bloco 6 em Neurociência, cognição e aprendizagem. Observem aqui a importância do conhecimento interdisciplinar do psicopedagogo para que ele possa analisar o que está em investigação. “Corpo Simbólico” 4º Estágio: Categorial: 9 – 11 anos. Sempre que pensarmos em um estágio sucessor de desenvolvimento, precisamos investigar se tudo correu bem no estágio anterior. Isto porque um estágio lança bases para o desenvolvimento do outro estágio. Portanto, neste estágio, já se espera que a criança esteja preparada para os desafios escolares, resolver problemas do dia a dia, se relacionar bem fazendo negociações com segurança, confiante, com atenção e concentração boas. , 50 Muitas vezes você, psicopedagogo, irá receber alunos nestas idades que podem apresentar, em sala de aula, dificuldades motoras (organizar caderno, destreza de coordenação motora fina, letra feia, derrubar tudo que está em sua carteira, trombar com os outros, escorregar ou cair sem motivos...), que ficam mais evidentes por conta de maior exigência escolar. É muito comum, por exemplo, uma pressão e preensão incorreta do lápis ou caneta. Ora, é uma dificuldade motora que, do ponto de vista neurofuncional, vai ocasionar fadiga para o aluno, lentidão na execução da tarefa e também, uma tensão não ade quada quando precisar escrever textos mais longos. Você precisa estar atento. A motricidade e a psicomotricidade são extra biológicas, não são inatas. São construídas, portanto, aprendidas social e culturalmente. 4.4 Considerações sobre esquema corporal, noção de corpo e imagem corporal Neste subtema, vamos tecer algumas considerações importantes sobre o nosso corpo, quer seja como esquema corporal, noção de corpo ou imagem corporal. No entanto, antes disso, vamos abrir um parêntesis porque, para chegarmos do corpo vivido ao corpo simbólico, precisamos de um suporte de base (o tônus) para esse corpo ficar em pé e poder se projetar, se perceber e aprender mais até ter consciência de si como um corpo, uma pessoa. Justamente, por isso, vamos abrir um parêntesis. No Bloco 5, nós vamos conhecer os parâmetros ou funções psicomotoras em detalhes. No entanto, neste subtema, já antecipo para vocês que nosso tônus tem função de dar suporte aos nossos aprendizados motrícios, afetivos e cognitivos. Então, vamos a uma prévia, neste subtema, acerca da importância da tonicidade para qualquer aprendizagem humana. A organização motora de base é o primeiro alicerce fundamental do sistema funcional complexo, que compreende a psicomotricidade. Isso decorre porque sem a organização tônica e suporte, a atividade motora não se desencadeia, nem a estruturação psicomotora se desenvolve. E isso quer dizer que a tonicidade reflete o primeiro degrau de maturidade neurológica do ser humano porque a tonicidade é responsável pelas funções de atenção, de alerta e de ativação dos estados mentais globais e assume uma função de integração psiconeurológica. , 51 Como isso funciona? Por que, para Wallon, a psicomotricidade era tão importante? Por que ele colocava o movimento, a experiência, como base, afirmando que os estágios de desenvolvimento dependem da vivência corporal da criança? Como nosso tônus pode influenciar nossos aprendizados motrícios, afetivos e cognitivos? Em seu livro “Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem”, Vitor da Fonseca dedica seu capítulo 1 aos “prelúdios psicomotores do pensamento: introdução à obra de Wallon”, no qual ele discorre sobre o fundamento biopsicossocial do pensamento, sobre as principais categorias conceituais wallonianas; apresenta a evolução da psicomotricidade segundo os estágios de desenvolvimento da criança; apresenta a motricidade humana como a materialização do comportamento humano, a indissociação da ação e da c onsciência, entre outros; e aborda a significação psicológica do ato motor apontando o papel da tonicidade para Wallon. Assim sendo, apresentaremos uma breve síntese sobre os tipos de tônus na concepção de Wallon, focando que, para o autor a vivência corporal e a interação social são basilares para sua constituição e sua regulação (a do tônus). Tônus Motor – é o tônus que responde pela sustentação do nosso corpo e dos nossos movimentos. É base para nossa organização postural. Ele depende de ajustamentos tônicos que vivenciamos em contextos que nos permitem movimentos que causam relaxamento e contração muscular (correr/frear; pular/parar; tencionar/distender). Essas vivências, a maioria na infância e na adolescência, são fundamentais para a constância, fortalecimento e inibição tônica, que são recrutadas para o aluno se manter sentado e atento em sala de aula, e o cérebro não precisar desviar essa atenção para desconfortos posturais. Tônus de Suporte/Afetivo – Observem que as nossas emoções têm “caras e bocas”, elas são visivelmente tônicas. O tônus de suporte afetivo nos propicia e garante um sentimento de capacidade e de possibilidade diante do novo (alegria, disposição, enfrentamento, tomada de decisão) e depende totalmente da qualidade de nossas interações sociais. Observem também que esse tônus sofre mudança diante do estresse, da insegurança emocional, da ansiedade, da depressão, repercutindo em nosso corpo (moleza, tensão, desânimo) ou o contrário, como alegria, confiança, relaxamento, disposição, que também repercutem em nosso corpo (firmeza, alegria, ânimo). , 52 Tônus de Ação/Cognitivo – Ora, cognição é tudo que se relaciona com o conhecer, o aprender e o fazer, a execução. Ai, de novo, aquela função executiva? Sim! É preciso um tônus de ação, de execução, que dá o suporte ao nosso corpo para executar ações com harmonia e precisão diante dos estímulos e desafios do meio social. Esse tônus também é dependente do meio social, da qualidade das vivências e das interações sociais. Quer dizer que, quando uma criança for encaminhada para você, a primeira coisa que você vai investigar é como foram as vivências motrícias dessa criança, uma vez que você já sabe que o tônus pode lhe dar informações sobre as emoções e a cognição do aluno encaminhado! Dito de outra forma, a criança que não teve seu corpo vivenciado com qualidade e riqueza de estímulos e movimentos não terá uma “caixa de instrumentos tônicos” para encarar os desafios e obstáculos com os quais terá de lidar em seu processo de escolarização e alfabetização. Agora, vamos pensar sobre o que e como a criança aprende na escola a respeito do seu corpo, que nós já sabemos, que é a sua própria criança (pessoa). Fonte: PEREIRANUBIA 893, S.D. Figura 4.1 partes do corpo – esquema corporal Vejam na figura acima que, quando estamos ensinando as partes do corpo que comumente chamamos de esquema corporal, em sua grande maioria, principalmente no ensino infantil, não nos aproveitamos da linguagem não verbal gestual e nem do apoio da linguagem verbal (para a gestual) para alavancarmos o desenvolvimento da lateralidade (pé [mão, lado, olho, orelha] direito e pé [mão, lado, olho, orelha] esquerdo...) e do conhecimento do espaço (em cima, embaixo, do lado direito, do lado esquerdo, a frente e atrás). Por quê? Esquema corporal , 53 Talvez seja por desconhecer o poder da vivência corpo como objeto e arquiteto da aprendizagem em nossas próprias vidas! Será quetodos tivemos essas vivências? Será que agora, ao chegarmos até aqui, você pode avaliar suas vivências motrícias e se concluir que elas não foram muito boas, conseguirá construir para você, um formato diferenciado com suas próprias experiências de vida? Agora, vamos falar em outra situação, quando a criança chora com dor de barriga, entre quatro a cinco anos, pelo menos. Também não ensinamos a ela sobre seu próprio corpo? Observe as imagens abaixo: Figura 4.2 órgãos internos do macho humano , 54 Figura 4.3 órgãos internos da fêmea humana Será que não poderíamos também ensinar onde fica o coração, o pulmão, que a dor de barriga pode ser no estômago ou no intestino e ensiná-la a perceber as diferentes sensações que essas dores provocam, para que ela pudesse se expressar melhor quando estiver sentindo um pequeno ou um grande desconforto (dor)? Mas isso não ocorre. E por que não acorre? Não temos uma resposta única. Pode ser a formação docente, a insegurança da prática docente, a ausência de estudos e questionamentos sobre os conteúdos estudados, a crença de que a criança não vai aprender tão pequena, e será que não pode ser também por não acreditar e não ter fé no Projetil de Vida que significa cada criança que ensinamos ou atendemos? Poderão investigar cada resposta que coloquei aqui com a prática psicopedagógica de vocês. , 55 Observe a figura A seguir: Figura 4.4 crianças sentadas em um jardim Podemos relacionar com o estágio do personalismo (corpo percebido). Importantíssimo para a convivência, negociação, início dos primeiros suportes para a autorregulação emocional, se bem vivenciado, já traz segurança, confiança, aprender é uma alegria, não intimida porque a criança confia em seu corpo, e confiar em seu corpo é aprender a confiar em si e no outro. Depende da qualidade da experiência, da mediação-interação social e dos tipos e dos atributos dos estímulos que são oferecidos para a criança. Observe a figura a abaixo. Figura 4.5 crianças entre 10 e 11 anos juntas em harmonia Noção de corpo Imagem corporal Experiência motora Mediação social – adulto mais experiente Aprendizagem socioafetiva construção mental expressão da individualidade percepção de si e do outro , 56 Podemos relacioná-la com o estágio categorial (corpo simbólico), simbolismo esse que estará em transformação por toda a nossa vida. Aqui entra em ação a mediação e a simbologia da ação que vimos no Bloco 3. Durante nossos estágios de vida (tempo/idade), nossa noção de corpo e imagem corporal vão se transformando a partir da complexidade de nossas vivências, mesmo depois de nosso corpo envelhecer e não ter mais as mesmas seguranças e confianças para seus movimentos. Isso é possível por conta das memórias que estão presentes em todas as nossas células vivas, em nosso corpo vivo, em nossa mente viva, até morrermos. 4.5 Uma síntese simplificada do desenvolvimento psicomotor em Wallon Neste subtema, apresentaremos um esquema figurativo do desenvolvimento psicomotor para Wallon, pois facilitará para vocês, em termos de visualização. Vamos relembrar que, para Wallon, quando a criança nasce, a sua atividade é rude e elementar e é necessariamente caracterizada por gestos com significados de sobrevivência (chora, grita, esperneia e ri; gestos que indicam que está bem ou que está com algum tipo de incomodo). Isso ocorre porque, entre o sujeito humano e o meio social, já há uma unidade indivisível. A cultura e a sociedade se constituíram para o humano, uma “necessidade orgânica” que determina, condiciona ou emancipa o seu desenvolvimento e a sua inteligência. Antes da aquisição da linguagem, a motricidade é a característica existencial e essencial da criança. Motivo pelo qual ela ocupa um lugar de destaque na teoria de Wallon. A motricidade é a resposta preferencial e prioritária da criança para suas necessidades básicas, assim como o é para os seus estados básicos, emocionais e relacionais. Assim sendo, a motricidade na criança é tão precoce desde que ela nasce, pois é a expressão do seu psiquismo prospectivo. A motricidade é, ao mesmo tempo e sequencialmente, a primeira estrutura de relação e correlação com o meio social, com as outras pessoas prioritariamente, e posteriormente com os objetos sociais. Trata-se da primeira forma de expressão emocional do comportamento humano que posteriormente integrará motor, cognitivo e afetivo. , 57 Fonte: Elaborado pela autora. Figura 4.6 - Integração entre motor, afetivo e cognitivo Por meio da motricidade, a criança manifesta as suas necessidades de bem ou mal- estar, manifestação essa que traz consigo a dimensão afetiva e interativa que se traduz (é traduzida pelos adultos) em uma comunicação somática não-verbal. Nesse sentido, a motricidade também traz consigo uma dimensão psíquica, uma vez que é um deslocamento no espaço de uma totalidade motora, afetiva e cognitiva. Para Wallon, a evolução motora é importante no desenvolvimento e aprendizagem da criança, pois implicará em uma conquista do mundo externo e do mundo interior do ser em crescimento. O ato motor implica nas reações próprias do corpo em sua relação com o mundo exterior. Integração e (aprendizagem) produção de posturas e movimentos do corpo no espaço, o que inclui a interação com o mundo, outras pessoas e com os objetos sociais. Inicialmente, é possível observar que a motricidade é incoerente e pouco integrada. Entretanto, à medida que a criança vai interagindo mediada pelos adultos circundantes, emerge para uma motricidade mais coerente, em uma construção de sistemas motores e gestuais mais fluentes e adaptados. Isso ocorre porque a interação e a mediação dos adultos se traduz na concretização das aquisições dos primeiros hábitos sociais, hábitos esses que permitem as funções construtivas e criativas das aprendizagens psicomotoras. cognitivo afetivo motor Integração entre motor, afetivo e cognitivo , 58 Assim sendo, o movimento de relação e de interação afetiva com o mundo exterior se projeta na criança em seu contexto social, motivo pelo qual movimento, emoção e cognição são processos sistêmicos e funcionais de sucessão e de alternância. Fonte: Elaborado pela autora. Figura 4.7 - sucessão e alternância entre movimento, emoção e cognição. Conclusão Neste bloco apresentamos algumas considerações sobre o vocábulo esquema, os estágios de desenvolvimento da criança segundo Wallon, relacionando-os ao modo como a criança percebe seu corpo. Tecemos considerações sobre esquema corporal, noção de corpo e imagem corporal, abrindo um parêntesis para abordarmos os diferentes tônus que atuam em nosso corpo, em nossos afetos e em nossa cognição e fechamos, oferecendo um esquema simplificado do desenvolvimento psicomotor em Wallon. REFERÊNCIAS FONSECA, V. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008. SALLA, F. Henri Wallon e o Conceito de Sincretismo. Novaescola, 2011. Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/58/henri-wallon-e-o-conceito-de-sincretismo>. Acesso em: 23 jul. 2021. LEITE, S. A. S.; TASSONI, E. C. M. A afetividade em sala de aula: As condições de ensino e a mediação do professor. S.D. Disponível em: cognitivo afetivo motor sucessão e alternância entre movimento, emoção e cognição. , 59 <https://www.fe.unicamp.br/alle/textos/SASL-AAfetividadeemSaladeAula.pdf>. Acesso em: 08 jun. 2021. PEREIRANUBIA893. Esquema Corporal. Wordwall, S.D. Disponível em: <https://bit.ly/3kM9ZKt>. Acesso em: 23 jul. 2021. Referências complementares WALLON, H. A evolução psicológica da criança. Lisboa: Edições 70, 1968. __________. As Origens do Caráter na Criança. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1971. __________. Do actoao pensamento. Lisboa: Moraes Editores, 1978. https://www.fe.unicamp.br/alle/textos/SASL-AAfetividadeemSaladeAula.pdf%3e. , 60 5 PARÂMETROS DE EXPRESSIVIDADE MOTORA E PSICOMOTORA Apresentação Neste tema vamos abordar as funções ou parâmetros psicomotores ou ainda, blocos psicomotores. Para fazermos isso, faremos uso do pensamento interdisciplinar, pensamento por excelência, exigido do psicopedagogo. Veremos que, o que vimos em Neurociências, cognição e aprendizagem, especificamente as unidades funcionais de Luria, serão novamente a base que sustentarão a expressividade psicomotora. Para tanto, sugiro que recorram aos elementos textuais da disciplina citada, para alimentarem e fortalecerem suas memórias de longo prazo. Neste bloco, usaremos como referência de base o livro de Vitor da Fonseca, “Manual de observação psicomotora: significação dos fatores psicomotores”, especificamente seu capítulo 2 “Modelo de organização funcional do cérebro humano, segundo Luria” e capítulo 3 “fatores psicomotores e sua relação com as três unidades funcionais” (p. 37- 261). Nós vamos iniciar apresentando a relação entre o desenvolvimento humano e a psicomotricidade oferecendo reflexões importantes para a investigação e prática interventiva do psicopedagogo e, em seguida, os subtemas que vão abordar as funções psicomotoras, sua relação com a aprendizagem e as dificuldades de aprendizagem. Fique atento as considerações reflexivas do pensamento interdisciplinar. Ele é a base da prática psicopedagógica. 5.1 Desenvolvimento humano e psicomotricidade Neste subtema vamos relacionar o desenvolvimento humano com a psicomotricidade, a partir de reflexões importantes, que serão apresentadas em tópicos para facilitar didaticamente. , 61 Nós já vimos que o desenvolvimento humano compreende TODAS as mudanças contínuas que ocorrem desde a concepção ao nascimento até a morte. Isso ocorre porque: • O desenvolvimento humano nem é pré-formado nem é pré-determinado. O ser humano se constrói como um ser social. • Sem a presença do adulto socializado, o recém-nascido não responde “geneticamente” às suas necessidades de crescimento e de desenvolvimento. Dada a condição inicial do recém-nascido, a motricidade humana não é imediata e nem pré-programada biologicamente. • A criança é “agida” por outros, antes de se auto locomover e se auto mexer. Daí a raiz EXÓgena e a origem social da motricidade, ou seja, se desenvolve de fora para dentro, do social ao biológico. Tomemos o exemplo de quando o adulto diz para a criança “Pega a xícara”, e a criança segue as instruções. Por quê? Isso ocorre por meio de uma compreensão auditiva e da linguagem interior (gesto) que se demonstra posteriormente em termos de realização com os movimentos voluntários. Mais tarde, é a própria criança quem dará instruções a si pela interiorização da linguagem (do exterior para o interior, de fora para dentro). Neste sentido, a motricidade está dependente da linguagem e é a própria linguagem (oromotricidade). A dimensão da ontogênese4 da motricidade é expressa em um processo semelhante ao da apropriação sócio histórica e sociocultural, enfoca o desenvolvimento da motricidade da criança dependente fundamentalmente da motricidade (conduta) do adulto, porque na interação com a cultura de seu meio social confere significado e sentido à motricidade humana (simbologia da ação). Nesse sentido genérico e simultaneamente individual, O social é o biológico porque: 4 Onto = ser, gênese = origem – nota da professora , 62 • O social é uma condição vital e indispensável da ontogênese; • O social não se opõe ao biológico e o biológico não se opõe ao social; • São duas dimensões humanas que não se reduzem uma à outra, antes, coexistem dialeticamente, ou seja, uma precisa da outra para existir; • Somente o biológico não garante o desenvolvimento humano; • Todos os aparatos culturais garantem a “Vida Biológica” como especificamente humana. Assim, ao nos lembrarmos de Wallon, Vygotski e Piaget, dos reflexos motores à reflexão mental, a motricidade consubstancia o integrado e o complexo como processo interativo e evolutivo, que traduz a emergência do cérebro, considerado o órgão mais organizado do organismo, sendo que, para Vygotsky, o cérebro é o órgão da civilização. Nosso cérebro, como vimos, é o órgão principal por excelência, para lidar intencionalmente com o envolvimento social (interação) e, por inferência funcional, para captar, integrar, elaborar e expressar a linguagem porque nenhum outro órgão evidencia tanta indiferenciação e tão elevada especialização. A partir do que apresentamos e refletimos, podemos abrir uma visão de que a Psicomotricidade sem a totalidade da motricidade humana é tornar acéfala a própria noção de psicomotricidade. Isso decorre porque a psicomotricidade refere-se à especialidade e complexidade funcional que o cérebro adquiriu ao longo da sua interação histórico-evolutiva, desde o diminuto cérebro dos peixes, répteis e das aves ao cérebro hipercomplexo e esférico dos mamíferos, dos primatas e do homem. Lembram que, no bloco 2 (Tópico 2.4 - As 3 unidades funcionais de Luria e a psicomotricidade: uma síntese), apresentamos uma sinopse. Muito bem, agora vamos abordar cada unidade relacionando-as com suas correspondentes funções psicomotoras. Mãos à obra porque vamos construir mais aprendizado! , 63 Observem que não podemos pensar no que é humano desatrelado da história evolutiva específica do próprio ser humano – visão histórica e cultural. 5.2 1ª unidade funcional – função de tonicidade e equilíbrio A fonte para este subtema encontra-se no capítulo 3, págs. 121-166, em diálogo com o capítulo 2. Na organização da psicomotricidade, o fator tonicidade (entre 0 à 12 meses) é o seu alicerce fundamental. Por quê? Porque a tonicidade: • Garante as atitudes, as posturas, as mímicas, as emoções, etc., de onde emergem todas as atividades motoras humanas, papel fundamental no desenvolvimento motor e psicológico; • Assegura a preparação da musculatura para as múltiplas e variadas formas de atividade postural e práxica; • Abrange todos os músculos responsáveis pelas funções biológicas, além de toda e qualquer forma de relação e comunicação social não verbal; • Sua característica essencial é o seu baixo nível energético - permite ao ser humano manter-se de pé por grandes períodos de tempo sem a manifestação de sinais de fadiga. Por isso, é impossível separar a motricidade da tonicidade. A tonicidade é o 1º fator psicomotor para a prontidão da aprendizagem. A organização motora de base é o primeiro alicerce fundamental do sistema funcional complexo, que compreende a psicomotricidade. • Sem a organização tônica e suporte, a atividade motora não se desencadeia, nem a estruturação psicomotora se desenvolve. • A tonicidade reflete o primeiro degrau de maturidade neurológica do ser humano. , 64 • É responsável pelas funções de atenção, de alerta e de ativação dos estados mentais globais e assume uma função de integração psiconeurológica. A equilibração (entre 12 meses aos 2 anos) reflete, a resposta motora vigilante e integrada (à tonicidade), face a força gravitacional que atua permanentemente sobre o indivíduo. A equilibração: • Reúne um conjunto de aptidões estáticas e dinâmicas que abrangem o controle postural e o desenvolvimento das aquisições de locomoção - postura bípede humana. • Reflete a integração da postura num sistema funcional complexo, que combina a função tônica e a proprioceptividade. • Assume uma potencialidade corporal, que serve de base para estruturar qualquer processo humano de aprendizagem. • Refrata a exclusividade da postura bípede humana de onde partem orientaçõesextra biológicas únicas e peculiares. A complexa integração sensorial que está na base da equilibração é especificamente humana. Dela partem as orientações simbólicas definitivas da humanidade. A equilibração é essencial ao desenvolvimento psiconeurológico da criança, a todas as ações coordenadas e intencionais, que são os alicerces dos processos humanos de aprendizagem. Se a equilibração não é suficiente, a intervenção de centros superiores será reclamada e as potencialidades de aprendizagem diminuem e se traduzem em uma “aprendizagem disfuncional”. A insegurança postural ou gravitacional gera instabilidade emocional, hiperatividade, ansiedade, distração, alterando todas as condições ao processamento da informação para a aprendizagem. Quando a equilibração não se realiza apropriadamente, toda a instabilidade emocional se desencadeia e nenhuma atenção seletiva ou controle é possível. , 65 Se o desenvolvimento emocional e psicomotor está comprometido, as dificuldades de aprendizagem tendem a surgir. Sem o domínio postural, o cérebro não aprende, a motricidade não se desenvolve e a atividade simbólica fica afetada. 5.3 2ª unidade – lateralidade, noção de corpo e estruturação espaço temporal A fonte para este subtema encontra-se no capítulo 3, págs. 167-223, em diálogo com o capítulo 2. A lateralização (entre 2 aos 3 anos) humana respeita a progressiva especialização dos hemisférios cerebrais que resultaram das funções sócio-históricas da motricidade laboral e da linguagem (uso de instrumentos e comunicação). • A lateralização é o resultado da integração bilateral postural do corpo, peculiar no ser humano e está relacionada com a evolução e utilização dos instrumentos (motricidade instrumental – psicomotricidade), com integrações sensoriais complexas, dinâmicas e de origem social. A lateralização basicamente inata é governada por fatores genéticos, embora o treino e os fatores de pressão social a possam influenciar. • A lateralização manual surge no fim do primeiro ano, mas só se estabelece fisicamente por volta dos 4-5 anos, independentemente de muitas crianças atravessarem a ambilateralidade e vários episódios de flutuação, antes de obterem a lateralização direita ou esquerda. • Quando uma é moldada pelas aprendizagens escolares para a preferência manual direita, muitas vezes o “custo” é um perfil psicomotor desviante, que provoca um potencial de aprendizagem atípico. Pais e professores não se dão conta dessa situação e continuam, como agentes da tradição, impondo o uso da mão direita em muitas crianças. • A integração bilateral dos dois lados do corpo é uma condição básica da motricidade humana decorrente dos dois fatores psicomotores anteriores. Ela é indispensável ao controle postural e ao controle perceptivo visual para que a lateralização como sistema funcional complexo se diferencie. , 66 • Quando uma criança não atinge a dominância manual em uma idade adequada, a presença de sinais disfuncionais intra ou inter-hemisférico pode interferir com o desenvolvimento psicomotor e com o potencial cognitivo. A lateralização traduz a capacidade de integração sensório-motora dos dois lados do corpo (do cérebro), transformando-se numa espécie de radar de relação e de orientação com e no mundo exterior retratando uma competência operacional, que orienta o indivíduo. • A significação psiconeurológica da lateralização envolve a organização progressiva do cérebro como órgão de trabalho e órgão de comunicação. O cérebro tem de organizar primeiro as sensações e os movimentos, antes de organizar símbolos; por essa razão, a integração bilateral antecede a especialização hemisférica. Lateralização é sinônimo de diferenciação e de organização sem a qual nenhuma aprendizagem se traduz. A noção do corpo (entre 3 aos 4 anos) tem como função primordial a recepção, análise e armazenamento da informação, sem a qual a aprendizagem é vazia (do ato ao pensamento). • A noção do corpo (somatognosia5) compreende a recepção, análise e o armazenamento das informações vindas do corpo. A noção do corpo em termos psicomotores constitui estruturas psiconeurológicas para uma conscientização ontogenética e apreendida através da experiência motora e da mediação social. • A noção do corpo, crítica, singular e plural, flui de uma contribuição particular, dos fatores psicomotores da tonicidade, da equilibração e da lateralização. Trata-se de uma construção multifatorial (interdepende de outros fatores psicomotores) que envolve a relação inevitável com o outro e a dimensão da linguagem. 5 Soma = corpo, gnose = conhecer - nota da professora , 67 • A noção do corpo é um sistema funcional complexo que resulta da organização e estruturação de percepções simples em constelações mais complexas, memórias neuronais que dão ao corpo uma singularidade própria e uma localização subjetiva intrínseca. Com base nos dados vividos, o corpo transforma-se num instrumento do pensamento e da comunicação. O corpo é, em síntese, um objeto psicológico e um constructo psicológico. • A noção do corpo em psicomotricidade se centra no estudo da sua representação psicológica e linguística e nas suas relações inseparáveis com o potencial de aprendizagem. A noção do corpo, como noção única e incomparável construída pela própria criança, adquire um sentido e uma significação, cuja integração está na base das funções psíquicas superiores. • A noção do corpo não se esgota nas dimensões neurológicas, uma vez que transcende as suas fronteiras nos vários processos de comunicação. Abrange desde a comunicação básica, primitiva e vital, que subentende o inesgotável diálogo tônico-afetivo mãe-filho, até o conforto tátil, que retrata a vinculação essencial do ser humano a outros seres humanos, passando pela imitação e pela comunicação não-verbal universal, o corpo sede da consciência, é a habitação emocional e racional da inteligência. Em relação à idade, as crianças (4 e 5 anos) devem nomear oito pontos táteis (nariz, queixo, olhos, orelha, ombro, cotovelo, mão e pé). A criança acima dos seis anos deve nomear 16 pontos táteis (testa, boca ou lábios, olho direito, orelha esquerda, nuca, pescoço, ombro esquerdo, cotovelo direito, joelho esquerdo, pé direito, pé esquerdo, mão esquerda, polegar, indicador, médio, anelar e mínimo direitos). • O desenho do corpo tem sido utilizado no campo do diagnóstico psicológico. Em princípio, a criança desenha o que sabe do seu corpo, como verdadeira síntese psicomotora, justapondo aspectos visuo-tátil-cinestésicos transcritos sobre a forma gráfica. , 68 • O desenho do corpo não substitui a multiplicidade de dados afetivos, emocionais, projetivos, cognitivos, etc., inseridos na noção do corpo. Isoladamente considerado, não fornece a totalidade dos aspectos somatognósicos, nem pode espelhar o potencial intelectual de uma criança. A estruturação espaço temporal (entre 4 aos 5 anos) decorre como organização funcional da lateralização e da noção do corpo, uma vez que é necessário desenvolver a conscientização espacial interna do corpo antes de projetar o referencial somatognósico no espaço exterior. • A estruturação espaço-temporal emerge da motricidade; da relação com os objetos localizados no espaço; da posição relativa que ocupa o corpo; das múltiplas relações integradas da tonicidade; da equilibração; da lateralização e da noção do corpo, confirmando o princípio da hierarquização dos sistemas funcionais e da sua organização vertical. • A integração multissensorial contida principalmente na lateralização e na noção do corpo tem de se distanciar progressivamente no espaço subjetivo para se projetar no espaço objetivo. Quer dizer que a criança localiza a si própria antes de se localizar no espaço ou de localizarobjetos no espaço. Localiza os objetos em relação a si própria e, posteriormente, localiza cada objeto sem precisar referi-los corporalmente. • Dá-se uma projeção da lateralização e da noção do corpo no espaço, isto é, a lateralidade desenvolvida no interior do organismo projeta-se no exterior e transforma-se em direcionalidade. • A estruturação espaço temporal é uma superestrutura, uma vez que resulta da integração de duas estruturações distintas que têm o seu desenvolvimento próprio. Por um lado, a estrutura espacial e, por outro, a estrutura temporal, as duas especificamente relacionadas com diferentes modalidades sensoriais, a visual e auditiva, respectivamente. , 69 • Toda a informação relacionada com o espaço tem de ser interpretada por meio do corpo. Pelo corpo (noção do corpo), podemos estimar a quantidade de movimento necessário para explorar o espaço, ou contatar com qualquer objeto nele localizado ou contido. Pela quantidade de movimento, podemos estimar a distância percorrida no espaço a percorrer para apanhar o objeto. • É através da translação do movimento no espaço que obtemos conhecimento da distância a que nos encontramos do objeto ou da distância percorrida no espaço. Transformamos o conhecimento do corpo em conhecimento do espaço, primeiro intuitivamente, depois lógica e conceitualmente. A noção de espaço não é inata, resulta de uma construção onde o corpo assume o papel de arquiteto. • A capacidade para estruturar e organizar o espaço é essencial para qualquer aprendizagem. Basicamente, envolve a elaboração de um conceito a partir de dados visuais e tátil cinestésicos integrados, que constatam a nossa posição no espaço que constitui o imenso continente da nossa motricidade. • Embora o acesso ao espaço seja proporcionado pela motricidade, a visão é o sistema sensorial mais preparado para o estruturar. • A estruturação temporal envolve a localização do espaço de forma permanente. A noção do tempo é artificial e abstrata. Esse aspecto que traduz a estruturação temporal é de fato a chave para a compreensão dos fenômenos psíquicos, para a compreensão de todos os processos de informação humana, quer sensoriais, quer simbólicos ou cognitivos porque são dinâmicos e se modificam com o tempo vivido. • A estrutura temporal é mais elaborada em si que a estruturação espacial, uma vez que transcende a estimulação sensorial imediata. É segundo essa variável crucial que o cérebro desenvolveu as suas memórias (o tempo), com as quais responde ao presente e ao futuro através das múltiplas combinações das experiências anteriores. , 70 • O cérebro elabora sistemas funcionais de acordo com a dimensão do tempo, pois joga com as experiências anteriores, adapta-se às condições presentes e prediz e antecipa o futuro. A preservação desses sistemas ilustra a complexa organização temporal que o cérebro necessita para preparar as suas atividades. O ritmo como unidade de extensão da dimensão temporal • A unidade de extensão da dimensão temporal é o ritmo que envolve a conscientização da igualdade dos intervalos de tempo, uma vez que ele ocorre em várias áreas do comportamento: na motricidade (coordenação de movimentos), na audição (reconhecimento de estímulos auditivos), na visão (exploração sistemático do envolvimento) e nas aprendizagens escolares (leitura, escrita, cálculo). • A função do ritmo ultrapassa a dimensão temporal, visto que se insere em todas as manifestações de comportamento, desde as biológicas (batimentos cardíacos por exemplo) e as nervosas (impulsos nervosos); às psicológicas (emoções: coração, respiração, tremores, por exemplo), daí a sua importância na observação psicomotora, pois ele é uma propriedade fundamental da matéria viva, portanto, é uma propriedade de toda a atividade da criança, um requisito do comportamento humano, pondo em relevo o papel do sistema auditivo nos esquemas do pensamento. • A sequencialização temporal é inseparável da simultaneidade espacial nos processos básicos da aprendizagem, na medida em que põem em jogo as funções inter-hemisféricas (não verbais e verbais) e as funções interneurossensoriais (visão e audição). • A organização espacial compreende a capacidade espacial concreta de calcular as distancias e os ajustamentos dos planos motores necessários para os percorrer, pondo em jogo as funções de análise espacial; processamento e julgamento da distância e da direção; planificação motora; e verbalização simbólica da experiência (Aluno que pula linhas, não escreve do lado certo da folha etc.). , 71 • A estrutura rítmica compreende a capacidade de memorização e reprodução motora de estruturas rítmicas. Trata-se de uma tarefa que avalia problemas de percepção auditiva e de memorização de curto termo e a translação dos estímulos auditivos para as respostas motoras. A criança deve captar, reter, rechamar e expressar em termos motores (como por exemplo, batimentos do lápis na mesa). A perda do sentido rítmico pode interferir com o poder de descriminação fonética resultando em problemas de percepção linguística (alfabetização). • A estruturação espaço temporal é dependente dos outros dois fatores psicomotores, a lateralização e a noção do corpo. Uma vez que o ponto de partida de estimação e orientação do espaço e do tempo é o corpo, qualquer disfunção somatognósica tem tendência a refletir-se na orientação como o espaço e como os objetos. Caros futuros psicopedagogos, estão observando como os fatores psicomotores são ferramentas valiosíssimas para o psicopedagogo? Dominem todos eles. 5.4 3ª unidade funcional – praxia global e praxia fina A fonte para este subtema se encontra no capítulo 3, págs. 223-261, em diálogo com o capítulo 2. Praxia global ou grossa (entre 5 aos 6 anos), prepara o movimento propriamente dito. Para esse efeito, vai rechamar a tonicidade e a equilibração, pondo em jogo a combinação minuciosa do tônus da profundidade como o da superfície, eliminando a presença de quaisquer sinergias onerosas e a sincronização de sistemas extrapiramidais, cerebelosos e vestibulares, que asseguram a estabilidade gravitacional necessária. Reivindica, por outro lado, a coordenação da lateralização, da noção do corpo e da estruturação espaço temporal para harmonizar o espaço intracorporal com o extracorporal e, por último, a função de decisão, regulação e verificação para materializar a intenção e atingir o fim, que esteve justamente na sua origem. , 72 Envolve muitos níveis hierárquicos, desde a tonicidade à estruturação espaço temporal. Nesse sentido, a praxia global é a expressão da informação do córtex motor, como resultado da recepção de muitas informações sensoriais, táteis, cinestésicas, vestibulares, visuais etc., ou seja, como resultado integrado dos fatores psicomotores, ou ainda, como resultado orquestrado das 3 unidades funcionais do cérebro de Luria. Podemos observar que: Todas as praxias exigem uma complexa integração proprioceptiva, cuja função de informação é desencadeada pelos próprios movimentos exclusivos do humano. O movimento é o resultado de uma informação que produz, ao mesmo tempo, uma informação que lhe serve de alimento, com a finalidade de manutenção e a regulação da sensibilidade dos fusos neuromusculares, cuja atividade confere ao movimento voluntário a plasticidade e a melodia cinética que o caracterizam. A praxia global encerra em si a unidade de um “pensamento abstrato que se traduz numa ação motora concreta”. Para a formação do “pensamento abstrato”, a proprioceptividade entra em jogo, solicitando os movimentos voluntários. Deste modo, a observação do fator da praxia global permite apreciar o grau de integração dos fatores restantes: da tonicidade (potência e tônus adequados), da equilibração (segurança gravitacional e flutuações dinâmicasdo centro de gravidade e concomitante integração vestibular e cerebelosa), da lateralização (conscientização bilateral corporal, orientação face ao espaço, aos objetos de nível de dominância e preferência manual e pedal), da noção do corpo (rechamada de engramas6 e somatogramas necessários à execução do movimento) e da estruturação espaço temporal (matriz espacial, coordenadas extracorporais e temporalidade dos vários movimentos), que no seu conjunto se traduzem na realização de movimentos intencionais e voluntários. 6 Por engramas entendemos as marcas cerebrais deixadas por cada uma de nossas experiências (A MENTE É MARAVILHOSA, 2018). Por inferência: somatograma: marcas cerebrais deixadas por cada uma de nossas experiências em nosso corpo, pois soma quer dizer corpo (PRIBERAM DICIONÁRIO, S.D.a). , 73 A praxia global é algo que se pode observar quando a sua realidade é pobre, dismétrica (Portal São Francisco, S.D.), exagerada e mal inibida, é porque alguma desorganização ocorreu no cérebro. A praxia fina (entre 6 aos 7 anos) integra todas as considerações e todas as significações psiconeurológicas já avançadas na praxia global. Integra todos os seus parâmetros a um nível mais complexo e diferenciado, uma vez que compreende a micromotricidade e a perícia manual, de onde decorre a Antropogênese (PRIBERAM DICIONÁRIO, S.D.b). A praxia fina compreende as tarefas motoras sequenciais finas, ligada à função de coordenação dos movimentos dos olhos durante a fixação da atenção e durante manipulações de objetos que exigem controle visual. Abrange as funções de programação, regulação e verificação das atividades preensivas e manipulativas mais finas e complexas. A mão, a arquiteta da civilização e da inteligência na criança e no homem, transformou-se, no melhor e mais eficaz meio de exploração do mundo exterior em peso, forma, temperatura, etc. Tornou-se um instrumento de preensão, forte e preciso, possibilitando a manipulação de pequenos objetos com os quais criou utensílios e ferramentas, meios privilegiados de transformação da natureza e da própria natureza do homem. Preensibilidade, oponibilidade, convergência, divergência, e muitas outras potencialidades motoras, ligadas a uma hipercomplexa coordenação que, na aprendizagem escolar, nos desafia a estudar na criança a sua capacidade construtiva manual e a sua destreza bimanual como um componente psicomotor fundamental para todos os processos de aprendizagem. O uso da mão define a ontogênese (PRIBERAM DICIONÁRIO, S.D.c) que distingue o ser humano de todas as outras espécies. • O desenvolvimento da preensão passa por uma atenção visual primitiva que envolve olhar e perseguir os objetos, em seguida um comportamento tocar- prender de imediato; o olho descobre a mão, que leva a um novo comportamento olho- mão. , 74 • Essa sequência, ocorrida nos primeiros meses de vida, determina naturalmente o desenvolvimento subsequente da praxia fina (lembrem de quando a mãe pega um chocalho, uma mamadeira e movimenta e o bebê a segue com o olhar e depois pega o objeto na mão e olha para ele). • O “pegar” do objeto envolve uma captura que põe em jogo operações de alerta, referenciais viso espaciais, deslocamentos dos segmentos corporais, controle da trajetória, preensão propriamente dita e, por último, estabilização da superfície de análise e inspeção visual, obedecendo a um refinamento de operações sensoriais, motoras e associativas. • A intima relação que a praxia fina tem com a percepção visual é de grande importância para o desenvolvimento psicomotor e para o desenvolvimento da aprendizagem, nomeadamente da leitura, escrita e cálculo. • A praxia fina evidencia a velocidade e a precisão dos movimentos finos e a facilidade de reprogramação de ações, à medida que as informações táteis perceptivas se ajustam às informações visuais que participam como mobilizadoras iniciais dos programas de ação (detecção de limites, contornos, formas, pormenores) e com funções de estabilização de posições e direções (coordenação dos dados captados visualmente com os dados captados manualmente). • A coordenação dinâmica manual compreende a destreza bimanual e a agilidade digital, visando o estudo da coordenação fina das mãos e dedos. A tarefa requer a coordenação fina dos movimentos das mãos e dos dedos com as capacidades visuoperceptivas em termos de velocidade e de precisão. A praxia fina exige uma hipercomplexa integração de todos os fatores psicomotores já vistos, portanto, a integração orquestrada das unidades funcionais de Luria, configurando sem dúvida alguma a aprendizagem humana como extra biológica e exclusivamente social. , 75 5.5 Subfatores psicomotores e sua relação com a dificuldade de aprendizagem Alguns subfatores da tonicidade • Extensibilidade: maior comprimento possível que podemos imprimir a um músculo afastando as suas inserções. • Passividade: capacidade de relaxamento passivo dos membros e suas extremidades distais (mãos e pés) perante mobilizações, oscilações e balanços produzidos externamente. • Paratonia: traduz a incapacidade ou impossibilidade de descontração voluntária. Assim sendo, a tonicidade reflete a primeira instância da nossa maturidade neurológica e é responsável pelas funções de atenção, de alerta e de ativação dos estados mentais globais, assumindo uma função de integração psiconeurológica. A 1ª unidade funcional é base para as outras, lembram? Sem atenção, alerta e ativação de estados neurais nenhuma aprendizagem é possível. A tonicidade é base para qualquer aprendizagem humana. Subfatores da equilibração Imobilidade – Capacidade de inibir voluntariamente todo e qualquer movimento por um breve tempo. Estático - Capacidade de controlar voluntariamente todo e qualquer movimento por um breve tempo. Dinâmico - Orientação controlada do corpo em situações de deslocamento no espaço com olhos abertos. Fonte: Elaborado pela autora. Postura e tonicidade - Desenvolvimento da criança e aquisição dos processos de aprendizagem mais complexos. Só é possível com tonicidade e equilibração. (Posteriormente) Noção de corpo, noção de espaço e tempo, praxias. Aprendizagem: , 76 1. Capacidade de ampliar e inibir estímulos, processar informações e agir. 2. Capacidade de domínio postural. 3. Automatização das funções antigravíticas. Os risos sem aparente motivo, desequilíbrio, hiperemotividades como ansiedade, instabilidades de humor, agitação etc. estão relacionadas com as disfunções nas funções de tonicidade e equilíbrio. Subfatores da lateralização Ocular Auditiva Manual Pedal Fonte: Elaborado pela autora. • Relação entre as coisas existentes em seu meio. • Preferência manual, pedal, visual, auditiva etc. • Desintegração bilateral: pobre evocação de reflexos posturais, problemas de equilibração estática e dinâmica, fraco controle visual, confusões espaciais e de direção. • Dificuldades escolares: 1. Direção gráfica. 2. Conceitos de direita e esquerda. 3. Comprometimento da leitura e escrita. 4. Má postura. 5. Coordenação motora fina. 6. Discriminação visual (d,b; f,j; p,q; etc.). 7. Perturbações afetivas. 8. Sincinesias. , 77 O acesso à linguagem no ser humano requer uma equilibração altamente complexa, superiormente governada. Para lidar com sinais e símbolos, o cérebro tem de se organizar primeiro para lidar com informações tônicas, táteis e cinestésicas. A postura abre o caminho à linguagem através da função de lateralização, transformando o cérebro num órgão capaz de processar informação que tem origem fora de seu corpo (a aprendizagem é extra biológica). Subfatores da noção de corpo Primeiro, a informação motora, depois a sua ligação com a informação psíquica, e por último a informaçãopsicológica, a noção do corpo como conceito superiormente integrado no cérebro. Sentido Cinestésico Direita-esquerda Auto-imagem Imitação de gestos Desenho do corpo Fonte: Elaborado pela autora. À criança, para poder aprender, não basta ter entendido que um lado é direito e o outro esquerdo, é preciso manter as relações entre ambos de forma controlada e discriminada. Sem a noção do corpo reconhecida na sua lateralidade interna e externa não é possível estabelecer relações corretas com o mundo em redor. A noção do corpo é a condição básica para a iniciação de qualquer movimento intencional. As relações entre a noção do corpo e as praxias são obvias e inequívocas, na medida em que um problema perceptivo tende a criar um problema motor. As funções perceptivas da aprendizagem são inseparáveis das funções motoras em termos de organização psiconeurológica. Estruturação espacial – unidades que compõem os subfatores Situações Tamanho Posição Movimento Formas , 78 Qualidades Superfícies Volumes Fonte: Elaborado pela autora. Estruturação temporal– unidades que compõem os subfatores Simultaniedade Ordem Consequência Duração Intervalos Períodos Ritmo Fonte: Elaborado pela autora. Disfunções na aprendizagem: Dificuldade em se locomover pela escola, para chegar a sua sala de aula e para se deslocar no recreio. Dificuldade em perceber diferentes posições (não discrimina posições dos símbolos: b/p, 6/9, p/q, 15/51). A criança não acompanha a trajetória de uma bola quando está é lançada. Não consegue prever a dimensão do papel quando realiza um desenho. Escrita - Não consegue respeitar a orientação horizontal, não escreve sobre as linhas. Escrita/Leitura - Não acompanha a ordem e sucessão das letras nas palavras, nem das palavras nas frases; não acompanha com a visão o sentido esquerda/direita da leitura, pula linhas na leitura. Matemática - Não perfila números e, portanto, confunde unidade/dezena/centena; dificuldades em analisar, classificar e agrupar elementos em um problema; dificuldade em reversibilidade e transposição: 6 + 2 = 4 + 4, 4 + 2 = 2 + 4; dificuldade em perceber erros de uma figura para outra; dificuldade em fazer progressões de tamanho, ritmo, quantidade. Subfatores da estruturação espaço-temporal , 79 Organização - Capacidade especial concreta de calcular distâncias e ajustamento necessário. Estruturação dinâmica - Capacidade de memorização sequencial visual (curto- termo) de estruturas espaciais simples. Representação topográfica - Capacidade espacial semiótica e de interiorização de uma trajetória espacial em um levantamento topográfico (planta de uma sala). Estruturação rítmica - Capacidade de memorização e reprodução motora de estruturas rítmicas. Fonte: Elaborado pela autora. A estruturação espaço-temporal fornece, no seu conjunto, dados, cuja implicação educacional psiconeurológica é significativa, na medida em que identifica o estado de maturação das pré-aptidões simbólicas das crianças em idade pré-primárias e porque permitem detectar sinais de importância para a compreensão e reabilitação dos problemas da criança com dificuldades de aprendizagem. Subfatores da praxia global ou macromotricidade Coordenação óculomanual - Capacidade de coordenar movimentos manuais com referência perceptivo-visuais. Dismetria - Inadaptação visuoespacial e visuoquinestésica dos movimentos orientados face a uma distância ou a um objeto. Dissociação - Capacidade de individualizar vários segmentos corporais que tomam parte na panificação e execução motora de um gesto ou vários gestos intencionais sequenciados. Fonte: Elaborado pela autora Disfunções na aprendizagem: Na apraxia (BRITES, 2018) global os fatores psicomotores da tonicidade, da equilibração, da lateralização, da noção do corpo e da estruturação espaço temporal não se integram num todo mais geral, impedem a conexão funcional dos seus sistemas e alteram, consequentemente, a precisão, a economia, a melodia cinestésica que retrata o movimento voluntário e a praxia global. É neste contexto que a aprendizagem motora se processa na criança, desde as praxias de vestuário (laços no sapato) até as praxias gráficas (escrita). A criança dispráxica apresenta uma disfunção psicomotora que infere na aprendizagem. , 80 A dispraxia no seu aspecto global traduz uma disfunção psiconeurológica da organização tátil, vestibular e proprioceptiva, que interfere com a capacidade de planificar ações, com repercussões no comportamento socioemocional e no potencial de aprendizagem. É dentro destes parâmetros de observação com a preocupação de captar dados dispráxicos que o fator da apraxia global se compõe dos seguintes subfatores: coordenação óculo manual, coordenação óculo pedal, dismetria e dissociação, uma vez que esses subfatores são recrutados no desenvolvimento da coordenação motora fina. Subfatores da praxia fina ou micromotricidade Coordenação dinâmica manual – Compreende a destralidade bimanual e a agilidade digital, visando o estudo da coordenação fina das mãos e dos dedos. Tamborilar – Compreende uma tarefa da motricidade fina que estuda a dissociação digital sequencial que envolve a localização tátil-quinestética dos dedos e a sua motricidade independente e harmoniosa. Velocidade-precisão - Compreende duas tarefas de coordenação práxica do lápis e envolve a preferência manual e a coordenação visuográfica. Fonte: Elaborado pela autora Exercer a praxia fina ou a micromotricidade requer a realização precisa, independente e harmoniosa de movimentos finos e oponibilidade com uma transição dedo a dedo melódica e sequencializada, pondo em realce a gnosia digital (PONTILES, 2010), a planificação micromotora e, naturalmente, a preferência manual e a discriminação direita-esquerda. Objetivamente, as tarefas da coordenação dinâmica manual (praxia fina), permitem- nos detectar: • Problemas perceptivo-visuais (estrabismos; problemas de visão binocular; excessiva aproximação dos objetos ou das mãos; problemas de convergência e consequentemente de apreciação de distancias; nistágmos; fracas fixações; distorções perceptivas de figuras – fundo; constância da forma; posição; orientação e relação espacial; estratégia e investigação espacial etc.). , 81 • Problemas proprioceptivos (hipertonia, rigidez, contato tátil dos objetos esporádico, acidental e assistemático etc.). • Problemas de coordenação e inibição cerebelosa (dismetrias; tremores; fracos problemas ajustamento terminal micromotor; fraca adaptação ao diâmetro dos objetos; preensão tremula e titubeante etc.), • Problemas de automatização (movimentos excessivamente vigiados; hipercontrolados; fragmentados; sem fluidez ou melodia etc.). Sem um adequado controle frontal (lobo frontal, o maestro da orquestra: funções executivas), dificilmente qualquer atividade de aprendizagem pode ser sustentada. Afinal, dele depende a auto regulação e o autocontrole e também porque ele traduz a utilização da linguagem interior como processo psicológico superior, passando então essa a assumir a função superior de regulação do comportamento humano. A praxia fina, em conjunto com os outros fatores psicomotores, permite antever e perspectivar como é que o cérebro integra, processa e elabora informação. O cérebro como órgão da aprendizagem não só recodifica a informação sensorial transformando-a em um sistema de conceitos, como também estabelece planos, programas e formas de controle consciente das ações. O que você achou deste bloco? Gostou de aprender sobre a psicomotricidade como apresentamos? Todos esses conceitos, são suas futuras ferramentas psicopedagógicas que vão te dar suporte em suas investigações e intervenções. Conclusão Neste bloco apresentamos e relacionamos o desenvolvimento humano com a psicomotricidade.Estudamos todos os fatores de expressividade psicomotora e os relacionamos com as unidades funcionais de Luria, em uma leitura e diálogo interdisciplinar entre psicomotricidade, neurociência e neuropsicologia. E, finalmente, relacionamos os subfatores psicomotores com a dificuldade de aprendizagem. , 82 REFERÊNCIAS A MENTE É MARAVILHOSA. Engramas: marcas da experiência em nosso cérebro. 2018. Disponível em: <https://amenteemaravilhosa.com.br/engramas-cerebro/>. Acesso em: 26 jul. 2021. BRITES, C. Apraxia e Autismo: Compreenda a relação entre as condições e o impacto na fala. Instituto Neurosaber, 2018. Disponível em: <https://bit.ly/3iVM1JY>. Acesso em: 27 jul. 2021. FONSECA, V. Manual de observação psicomotora: significação dos fatores psicomotores. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. Portal São Francisco. Dismetria. S.D. Disponível em: <https://www.portalsaofrancisco.com.br/saude/dismetria>. Acesso em: 27 jul. 2021. PRIBERAM DICIONÁRIO. Antropogênese. S.D.b Disponível em: <https://dicionario.priberam.org/antropog%C3%AAnese>. Acesso em: 26 jul. 2021. _______________________. Ontogênese. S.D.c Disponível em: <https://dicionario.priberam.org/ontog%C3%AAnese>. Acesso em: 26 jun. 2021. _______________________. Sôma. S.D.a Disponível em: <https://dicionario.priberam.org/s%C3%B4ma>. Acesso em: 26 jul. 2021. PONTILES, S. Gnosia. Dicionário Informal, 2010. Disponível em: <https://www.dicionarioinformal.com.br/significado/gnosia/2389/>. Acesso em: 27 jul. 2021. REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES FONSECA, V. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008. __________. Psicomotricidade: filogênese, ontogênese e retrogênese. 2.ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. __________. Psicomotricidade: perspectivas multidisciplinares. Porto Alegre: Artmed, 2004. , 83 6 PROTOCOLO PARA A OBSERVAÇÃO E AVALIAÇÃO DOS PARÂMETROS PSICOMOTORES Apresentação Neste tema vamos abordar o protocolo para a observação e avaliação dos parâmetros psicomotores (BPM), Bateria Psicomotora. Para isto, usaremos como referência de base Vitor da Fonseca, psicomotricista, psicopedagogo e pós doutor em educação, que mora em Portugal e atualmente está aposentado, porém, continua escrevendo diversos livros. Em seu livro “Manual de observação psicomotora: significação dos fatores psicomotores”, em seu capítulo 3, (fatores psicomotores e sua relação com as 3 unidades funcionais), encontraremos a BPM em formato de uma ficha, destinada ao estudo do perfil psicomotor da criança (subtema 3.1 fundamentos psiconeurológicos da BPM). Das páginas 98 a 261, encontraremos as bases das funções psicomotoras que fizemos uso no bloco 5, tamanha é a importância do autor e do livro apresentado. Você deve observar, portanto, que os blocos 5 e 6 finalizam, encorpam, agregam e ultrapassam o que estudamos nos outros 4 blocos. Outro livro que será eixo central neste texto é o “Dificuldades de coordenação psicomotora na criança – a organização práxica e a dispraxia infantil”, também do Vitor da Fonseca, no qual o autor reaborda o Manual de observação psicomotora e sua própria BPM em 5 capítulos, em uma linguagem mais contemporânea e que coloca a BPM como uma avaliação psicomotora dinâmica reeducativa ou terapêutica, por conseguinte, é extremamente útil e importante para a formação e prática psicopedagógica. Portanto, este bloco trará uma síntese específica e orientada deste livro, nomeadamente o capítulo 4 em diálogo com o livro de base do Bloco 5. Nós vamos iniciar apresentando a história da elaboração da BPM (bateria psicomotora). , 84 Fique atento as considerações reflexivas do pensamento interdisciplinar. Ele é a base da prática psicopedagógica. 6.1 A história da BPM – bateria psicomotora A Bateria psicomotora é um instrumento de observação cuja construção foi possível ao longo de mais de 20 anos de trabalho do professor doutor Vitor da Fonseca em sua atuação como Psicomotricista e Psicopedagogo, no instituto Piaget. Fonseca construiu o instrumento em 1985 em sua tese de doutorado e, em 1995, publicou o livro Manual de Observação Psicomotora. O livro aborda a filogênese da motricidade humana, sua ontogênese e a importância da interpretação do modelo de cérebro de Luria para a compreensão da significação psiconeurológica dos fatores psicomotores, assim como sua implicação para a aprendizagem e desenvolvimento humanos e como as funções psicomotoras são condicionantes na aprendizagem escolar. A bateria psicomotora não é um instrumento de avaliação psicomotora validado, apesar disso, é internacionalmente estudado e adaptado por profissionais da área da saúde e da educação cujo olhar diagnóstico não se limita a uma avaliação rotuladora, estandardizada, mas que busca recursos e estratégias para que a avalição seja contínua e dinâmica, mediada com vistas a modificabilidade cognitiva. A BPM possibilita descrever o Perfil Psicomotor (PEREIRA, 2005) da criança, uma vez que o perfil psicomotor individualiza as potencialidades e as dificuldades da criança, atuando como apoio para identificar e intervir nas dificuldades de aprendizagem psicomotora, observando e atendendo progressivamente as necessidades mais específicas da criança em seu processo global de aprendizagem. A BPM foi elaborada para algumas possibilidades de verificação. Elas são: Objetivos do teste (REZENDE et al 2003) 1º cerificar ou detectar o perfil psicomotor de uma pessoa (é utilizada em crianças e jovens de até 14 anos de idade). , 85 2º Detectar os níveis de dificuldades de aprendizagem relacionadas ao desenvolvimento psicomotor. Itens de avaliação da BPM7 1ª unidade: tonicidade, equilibração. 2ª unidade: lateralidade, noção de corpo, estruturação espaço-temporal. 3ª unidade: praxia global, praxia fina. Fonte: Elaborado pela autora. Classificação do perfil psicomotor: uma síntese (SANCHES, 2004) Perfil psicomotor Déficit de aprendizagem deficitário / apráxico imperfeito, incompleto e descoordenado Significativos (moderado ou severo), relativos a alguma deficiência Dispráxico com dificuldade de controle (satisfatório) Relativos (específicos), relativos a atraso de desenvolvimento bom / eupráxico adequado e controlado superior / hiperpráxico perfeito, harmonioso e controlado Fonte: Elaborado pela autora. 7 Modelo para psicomotricista – o psicopedagogo deve adaptar para sua prática (FONSECA, 1975). PRAXIA FINA PRAXIA GLOBAL ESTRUTURA ESPAÇO-TEMPORAL NOÇÃO DE CORPO LATERALIDADE EQUILIBRIO TONICIDADE BPM https://www.efdeportes.com/efd79/psicom.htm , 86 Quando nos referimos aos fatores psicomotores, abordamos uma hipercomplexa organização cerebral que evolui do bebê à adolescência; do ato ao pensamento/Wallon; da inteligência prática à reflexiva/Piaget; e do social para o individual/Vygotski. Fonte: Fonseca, 1995 Observem a importância da psicomotricidade para a prática do psicopedagogo. 6.2 1ª unidade funcional: tonicidade e equilíbrio – disfunções A fonte deste subtema encontra-se nas págs. 42-77 do livro “Dificuldades de coordenação psicomotora na criança – a organização práxica e a dispraxia infantil”, em diálogo com o “Manual de observação psicomotora: significação dos fatores psicomotores”. A primeira unidade regula o tônus e o ajustamento postural abrange a tonicidade e a equilibração, fatores que participam das primeiras conquistas antigravíticas do desenvolvimento humano e formas básicas de integração sensorial. Entre a tonicidade e a equilibração, opera-se uma complexa interação que constitui o alicerce fundamental da organização funcional da psicomotricidade. Essa unidade funcional responde por: , 87 Regulação tônica de alerta e dos estados mentais: atenção e sono; Seleção da informação; Regulação e ativação; Vigilância – tonicidade; Facilitação – inibição; Modulação neurotônica (tônus e nervos) (INFOPEDIA S.D.); Integração interssensorial (entre todos os sistemas sensoriais). Um atraso de desenvolvimento nestas funções psicomotoras que são o alicerce fundamental da organização funcional psicomotora, do ponto de vista da sobrevivência (uma vez que um organismo biológico se mantém vivo a partir de seu funcionamento), acarretaria em falhas em funções extremamente relevantes como respiração, circulação, controle da alimentação, da eliminação, do sono entre tantas. Ora, mas por quê? Porque essas “simples” funções precisam do tônus, da modulação neurotônica, para respirar; circular o sangue; mastigar e engolir; defecar; relaxar para poder dormir; entre outras. Por outro lado, no que se refere a aprendizagem humana, a disfuncionalidade se voltaria para o tônus hipertônico ou hipotônico (SOUZA, 2018), falta de atenção, porque as estruturas responsáveis pela modulação de alerta corporal e tônico postural estão disfuncionais, assim como filtrar e integrar entradas sensoriais e respostas motoras, que seriam falhas e grosseiras, sem melodia neural. Em um bebê, por exemplo, o privaria de reptação (MAHET, 2016), preensão, imitação, inclusive de afiliação vinculativa aos pais (o diálogo tônico, emocional), umas das primeiras e muitas competências psicomotoras do bebê humano. , 88 Sem tonicidade e equilíbrio, nosso cérebro não responde aos estímulos externos, o que coloca em risco não apenas a interação e coerência entre corpo e mente, como uma unidade indissociável, quanto também a integração sensório-motora total do corpo biológico com todos os objetos e artefatos que forem apresentados. Haverá uma disfuncionalidade que será expressa em dificuldade motora e/ou dificuldade de aprendizagem. E o que isso implica para a aprendizagem? Bom, isso implica simplesmente que, sem a 1ª unidade funcional que aloja o desenvolvimento da tonicidade e do equilíbrio, nenhuma aprendizagem é possível de modo adequado, significativo, apropriado e expressivo. Motivo pelo qual a tonicidade e o equilíbrio são os primeiros fatores psicomotores a serem investigados pelo psicopedagogo. As desordens tônicas, posturais e atencionais desta unidade, podem explicar déficits de atenção, de hiperatividade e de hipoatividade (MINATEL, 2014); déficits específicos de linguagem de dispraxias; até as dificuldades de aprendizagem generalizadas e específicas, incluindo TEA, perturbações de conduta, Síndromes de Gilles de la Tourette (CUF, 2018) entre outros. Isso decorre porque não é possível foco, fixação, seleção, distribuição da atenção, sustentação da concentração, mobilização, recuperação experiencial e emocional, assim como em outras funções de aprendizagem que requerem o tônico emocional, como as funções relacionais, cognitivas, linguísticas entre as mais diferenciadas. Observem que, quando nos referimos a emoção, ela está relacionada com os estados de conservação, de segurança e de relação social de um indivíduo biológico. Trata-se da 1ª unidade, a reptiliana, a unidade do agir, da sobrevivência! Vimos isso em neurociência, cognição e aprendizagem, e também no bloco 5. A 1ª unidade está em diálogo coativo com a 2ª unidade! Nosso estado tônico reflete, em geral, atenção e sobremaneira, nossas emoções (e- moção = nos preparar para a ação: o agir). , 89 Sendo o equilíbrio uma resposta à tonicidade, sem a equilibração, nenhuma ativação mental como a aprendizagem, pode ser realizada com intencionalidade e eficácia. A BPM permite estabelecer uma interface fundamental e crucial em termos de aprendizagem entre a emoção, cognição e ação. Lembram da tríade funcional da aprendizagem? Cognição, conação e execução. Começa na 1ª unidade funcional! Essa é a relação da 1ª unidade: cognição, que só é possível com a tonicidade e o equilíbrio! Agora tudo começa a se relacionar e dialogar, com tudo! E vem mais por ai! 6.3 2ª unidade funcional: lateralização, noção do corpo e estruturação espaço- temporal – disfunções A fonte deste subtema encontra-se nas págs. 78-135 do livro “Dificuldades de coordenação psicomotora na criança – a organização práxica e a dispraxia infantil”, em diálogo com o “Manual de observação psicomotora: significação dos fatores psicomotores”. A segunda unidade assegura o processamento da informação proprioceptiva8 (noção do corpo) e exteroceptiva9 (estruturação espaço-temporal), e abrange a lateralização, noção do corpo e estruturação espaço-temporal. Essa unidade funcional responde por: Recepção, análise e armazenamento da informação: recepção, análise e síntese sensorial; Organização espacial e temporal; Simbolização esquemática; Decodificação e codificação; Processamento; 8 Proprioceptiva – orientação intracorporal (Fonseca, 1995). 9 Exteroceptiva – orientação extracorporal (Fonseca, 1995). , 90 Armazenamento; Integração perceptiva dos proprioceptores10 e dos telerreceptores11. Elaboração gnósica. Quando pensarmos em lateralização, significa que pensamos nos dois hemisférios cerebrais e sua dominância. Isso inclui a neurodiversidade. Sem o desenvolvimento da lateralização e sua função de estabilidade e coerência da dominância motora, assim como a captação sensorial preferencial, não acontece, o que interfere na especialização hemisférica cerebral. A BPM subsidia a observação da criança, se há hesitações, perturbações tônicas, sinais de ambidestria ou de lateralidade mista, para que com isso se possa apreciar a qualidade da integração intra e inter-hemisférica. O trabalho dos dois hemisférios de nosso cérebro retrata justamente a lateralização como uma vantagem evolutiva e maturação neuropsicológica na criança. Ora, quando nos deparamos com uma criança com dificuldades de dominância nas mãos e pés, na visão e audição, coordenação óculo manual e assim por diante, temos sem dúvida uma disfuncionalidade na lateralização que merece a investigação, desde o contexto que cerca a criança e, principalmente dos fatores psicomotores da 1ª unidade. Com certeza, há uma resposta. Lembrando que o desenvolvimento entre o indivíduo humano e o ambiente social, ocorre entre as heranças biológicas (dos genes) e histórica sociocultural de oportunidades de aprendizagem. Vamos ver, no quadro a seguir, o que significa a lateralização do ponto de vista dos hemisférios cerebrais e de habilidades necessárias para a aprendizagem: 10 Proprioceptores – manual e pedal (Fonseca, 1995). 11 Telerreceptores – ocular e auditiva (Fonseca. 1995). , 91 Hemisfério direito Hemisfério esquerdo Maturação mais precoce que o esquerdo. Maturação mais lenta e demorada que o direito. Constituído por mais substância branca (preferencialmente mais envolvida na transmissão e comunicação da informação). Constituído por mais substância cinzenta (preferencialmente mais envolvida no processamento, integração e retenção da informação). Conexões mais longas que garantiu conquistas holísticas e globais, não simbólicas e/ou não verbais. Conexões mais curtas – em termos neurofuncionais, um hemisfério que evoluiu para novas conquistas, mais analíticas, simbólicas e verbais. Aquisições anteriores de onde emergiu a arte, a dança e a música. Conexões essas, associadas a linguagem falada, escrita e quantitativa, à lógica, aos conceitos, às ideias, à razão e dedução. Das quais atuam habilidades lúdicas, intuitivas e criativas. Este hemisfério é mais orientado para lidar com as rotinas. Um hemisfério mais apto para lidar com a novidade, preferência na educação infantil, pois é neste hemisfério que podemos facilitar os pré-requisitos ou processos deprontidão solicitados pelas aprendizagens simbólicas mais complexas. Lesionado, interferiria radicalmente com a compreensão e produção da linguagem. Este hemisfério tem fraco impacto nas competências linguísticas e tem forte impacto nas competências atencionais, emocionais, relacionais, sociais e espaciais, não verbais e não simbólicas, com efeitos para o desenvolvimento muito severos. Hemisfério mais característico das habilidades linguísticas – dificuldades específicas de aprendizagem verbal (dislexia, disortografia...). , 92 Hemisfério mais característico das habilidades perceptiva-sociais, afetivas- relacionais e viso-espaciais (dificuldades de aprendizagem não verbais). Hemisfério preferencialmente psicolinguístico, pois nele devem se diferenciar as aprendizagens complexas, porque esse hemisfério lida com as relações sucessivas e com as propriedades específicas das tarefas. Hemisfério preferencialmente psicomotor, porque por ele devem começar todas as aprendizagens simples e compostas, pois este hemisfério cuida das relações simultâneas e das propriedades globais das tarefas. Fonte: Adaptado de FONSECA, 2014 Assim sendo, a disfunção na lateralização, a partir do desenvolvimento neuropsicológico, evoca uma transição de funções sociais, interativas, lúdicas, globais e gestuais (não verbais), funções linguísticas, simbólicas, lógicas, analíticas e reflexivas (verbais). E o que isso quer dizer para a aprendizagem? Ora, se quando pensamos em lateralização, significa que pensamos nos dois hemisférios cerebrais e suas especializações, isso quer dizer que a complexa e progressiva comunicação inter-hemisférica, não ocorre adequadamente e não há suporte para a aprendizagem! Quando pensarmos em noção do corpo (somatognosia), pensamos também em outros conceitos como esquema corporal, imagem corporal, expressão corporal, como vimos no bloco 4. A BPM auxilia para a investigação do sentido cinestésico (VALENTE, 2020) (proprioceptivo, espacial, da posição do corpo etc.); identificação intra e extra corporal; autoimagem e detalhes da face; imitação de gestos e posturas; desenho; e quebra cabeça do corpo. , 93 Mas por que isso é importante? Bloco 4, lembram? O corpo é a pessoa! Somatognosia significa, também, autognosia (conhecimento de si, do outro, autoconhecimento). Em termos psicomotores, é reconhecer a própria autoimagem, a consciência de si que, em termos neurológicos, se traduz em uma “neuro assinatura” do próprio corpo, como uma rede neural única para cada pessoa do Planeta! Assim sendo, o uso do prefixo “a”, como por exemplo, assomatognosia, representa uma incapacidade, decorrente de lesão ou acidente (mais em adultos) de reconhecer o próprio corpo. Por outro lado, o uso do prefixo “dis” envolve uma disfunção, perturbação ou imaturidade (mais frequentes em cérebros imaturos ou crianças privadas de estímulos de aprendizagem). Por isso, a somatognosia (noção do corpo) é crucial para as ações planejadas, executadas e reguladas, uma vez que cérebro e corpo são uma unidade indissociável, sem a qual a aprendizagem estaria altamente prejudicada. Do corpo dependem os conhecimentos de suas experiências e todas as informações somatossensoriais (PRIBERAM DICIONÁRIO, S.D.a) como base, sem as quais a mente humana não poderia construir uma representação única de si mesmo e, por conseguinte, não poderia reconhecer o outro e, se assim for, não ocorrerá a construção do “Eu”, do “Outro”, de auto estima, de auto segurança, de autoconfiança, do eu objetivo, do eu subjetivo, do eu coletivo e por aí afora. Podemos observar o disfuncionamento somatognósico nos casos de TEA, DI e várias síndromes que envolvem a DI em crianças em risco social etc., uma vez que nesses casos, vemos uma ação corporal que deveria ser melódica, harmoniosa, de adaptação progressiva contextual e relacional, explodir de modo exagerado, descontrolado e abrupto. A noção de corpo também é hierárquica: depende da lateralização e esta depende da tonicidade e do equilíbrio. A 1ª unidade funcional é base para a 2ª. E da noção do corpo, dependem as estruturações espaço-temporal. , 94 Quando pensarmos em estruturação espaço-temporal (ecognosia: objeto, espaço e tempo), significa que pensamos que este fator psicomotor se refere a eco-organização da nossa interação com o que nos envolve, com os conhecimentos com o mundo interior, quer dizer, nosso conhecimento do espaço, do tempo, dos objetos e das situações culturais inerentes a espécie humana. Do ponto de vista neuro funcional, trata-se da organização psicomotora do reconhecimento do espaço, do tempo e dos objetos, como componentes externos da construção da ação no espaço-tempo e que a BPM vai analisar os subfatores da organização, estruturação dinâmica e rítmica e representação topográfica (Bloco 5, subtemas 5.3 e 5.5). Assim sendo, a significação psiconeurológica da ecognosia engloba o reconhecimento, o processamento, a retenção e reprodução de estímulos espaciais, temporais objetais externos ao indivíduo. Quando não temos uma resposta adequada, podemos estar diante de uma disfunção de captação das informações do mundo externo, envolvendo elementos de processamento, ainda que funções mentais e de linguagem estejam preservadas. E como o psicopedagogo pode levantar essa hipótese? Pelos subfatores que a BPM vai analisar. No ponto de vista prático, a criança apresenta dificuldade (ou não reconhecimento) de faces, cores, imagens, figuras, espaços (sistema visual); de ritmos, sons, melodias, parlendas, fonemas (sistema auditivo); e de tamanho e forma de objetos, seu peso, textura, temperatura (sistema tátil) etc. E por que seria uma hipótese de disfunção? Porque envolve os sistemas visual, auditivo e tátil. É evidente que, antes de levantar essa suspeita, o psicopedagogo deve investigar o contexto no qual se deu o desenvolvimento da criança e se a mesma teve acesso a estímulos adequados. , 95 Quais são os referenciais de que dispomos para nos organizarmos espacialmente, por exemplo? A primeira consideração é a percepção (entrada da informação - input), por um lado, e por outro, a ação (saída da informação em forma de ação - output). Ora, não falamos o tempo inteiro que a organização dos fatores psicomotores é hierárquica? Sim. Então como podemos apontar esses referenciais? Vamos lá, então! 1. Referencial egocêntrico – equivalente à somatognosia ou autognosia – intracorporal 2. Referencial do envolvimento-externo – equivalente a ecognosia – extracorporal 3. Referencial relacional – envolve a interação neurofuncional entre ambos (intra e extracorporal) O que é que nos interessa? A estruturação espaço-temporal depende da noção do corpo (que depende da lateralização, que depende da tonicidade e do equilíbrio). É por isso que a representação mental somatognósica do nosso corpo é chave para a organização dos nossos movimentos, com ou sem objetos, porque é a partir da representação mental que a criança tem do próprio corpo, que ela (a criança) vai projetar seu corpo no espaço e na interação com o que envolve a si mesma (seu corpo). Vamos dizer de outra forma, trata-se da percepção do corpo que se projeta na percepção do espaço porque é o corpo que se posiciona, se lateraliza, se direciona, e caminha na ecognosia (espaço, tempo e objetos)! , 96 Sem a percepção do corpo, que é estruturante, não teremos memórias nem declarativas e nem procedurais (já vimos isso em memória: neurociência, cognição e aprendizagem). Sem memória corporal, teremos dificuldades em trajetos, itinerários, antecipação de ações, reconhecimento e regulação do espaço entre tantas. Ora, vejam, compreender o mundo que nos cerca passa pela percepção interna das referências espaciais ao nosso corpo (frente, atrás, emcima, embaixo, esquerda, direita...). Por quê? O que são essas referências? Bom, essas referências são simplesmente um “radar” somático e psíquico sem o qual a aprendizagem não é possível! Isso decorre porque a noção (gnosia) de espaço emerge da noção do corpo, é uma construção na qual o corpo da criança (e do jovem e do adulto) é o arquiteto. Para interpretarmos o espaço (até nas folhas do caderno, livros) precisamos de um corpo equilibrado e situado em seus referenciais tátil, cinestésico, postural, vestibular, proprioceptivo e somatognósico. Observem que, se a representação do espaço depende da representação do corpo, a representação do tempo depende de ambas. Por isso a estruturação espaço-temporal é uma superestrutura. Não há como caminhar no espaço sem ter o tempo presente (aqui, agora, primavera, verão, dias, meses, anos, horas, passado, presente, futuro etc.) Um tempo que podemos chamar de estático, se pensarmos em um momento antes e um momento depois, ou de dinâmico se pensarmos em uma noção de transição entre passado (antes), presente (durante) e futuro (depois). É na noção de tempo que é possível a elaboração e a evolução da experiência subjetiva, sem a qual nem poderíamos pensar em um processo evolutivo histórico - sociocultural. É o processo da história da criança que nos permite construir um desenvolvimento neuropsicológico do qual emerge a individualidade de um ser temporal. , 97 Observem que a gnosia temporal é distinta da gnosia espacial, ainda que se completem e se transformem. Gnosia temporal - Codifica a informação de forma ordenada e ocorre em uma sucessão temporal de eventos. Processa o tempo. Gnosia espacial - Codifica a informação de modo holístico-global e ocorre em simultaneidade espacial. Processa o espaço. A gnosia do tempo é a chave da praxia produzida em tempo útil, tempo esse no qual lidamos com o antes, o durante e o depois. Por quê? Porque, o animal humano, diferentemente do não humano, precisa do tempo, de uma cronologia em tudo o que faz em seu viver. Para reconhecer e atuar nessa cronologia, é necessário que tenhamos desenvolvido funções muito específicas e significativas como atenção; processar informações somatognósica e ecognósica; planejar; organizar e programar ações; assim como a decisão da execução controlada e regulada da ação. Isso tudo implica em uma experimentação, não é um automatismo, mas vivenciar etapa por etapa! Corpo e tempo também afetam nossas memórias. A integração sensorial temporal é mais complexa do que a espacial, porque precisa das funções da memória e, ao solicitar essas funções, chama por experiências anteriores, que se adaptam às condições presentes à qual é rechamada e pode, ainda, projetar e antecipar situações posteriores. Na gnosia temporal entram em jogo, sucessões, sequencializações, ritmos, velocidade, operações mentais entre outros. Observem que é essa capacidade rítmica de começar, terminar, prolongar, interromper, repetir, acelerar, alternar, modificar etc. que será requerida nas praxias globais e finas, por isso são importantes serem observadas na BPM. , 98 Assim sendo, somatognosia e ecognosia não são simples representações, mas sim praxias simuladas e projetadas no mundo externo à criança. E nossa percepção, bom, ela é uma parceira crucial para nossas ações! Relembrando, a 2ª unidade funcional de Luria é a unidade de construção e elaboração da lateralidade, noção de corpo e estruturação espaço-temporal. Caros futuros psicopedagogos, os fatores psicomotores são ferramentas valiosíssimas para a prática psicopedagógica, tanto para a funcionalidade psicomotora, como para observar sua disfuncionalidade e possível dificuldade de aprendizagem quer seja motora, quer seja escolar. 6.4 3ª unidade funcional: praxia global e praxia fina – disfunções A fonte deste subtema encontra-se nas págs. 135-229 do livro “Dificuldades de coordenação psicomotora na criança - a organização práxica e a dispraxia infantil”, em diálogo com o “Manual de observação psicomotora: significação dos fatores psicomotores”. A terceira unidade programa, regula e verifica a atividade práxica e abrange a praxia global e a fina. Essa unidade funcional responde por: Programação, regulação e verificação da atividade (intenções e planificação motora); Elaboração práxica; Execução; Correção; Sequencialização das operações cognitivas. , 99 A 3ª unidade é a de planejamento e execução práxica (output do cérebro). Trata-se do nível mais elaborado de desenvolvimento neuropsicológico, um “centro de comando” em gestão e decisão práxica, uma vez que concretiza, realiza e executa múltiplos tipos de praxias: macromotora, micromotora, oromotora, grafomotora. Quando pensarmos em praxia global, significa que pensamos que este fator psicomotor se refere a nossa macropraxia, ou seja, todos os nossos movimentos voluntários. Nosso corpo humano é considerado um organismo vertebrado neurologicamente mais organizado e dominante. Por quê? Porque é do corpo que emerge o movimento e do cérebro que emerge o psiquismo. Não falamos sempre em relações de diálogos, interrelações entre corpo e mente como uma unidade indissociável?! Por que é indissociável mesmo? Ah sim, porque, para aprender o movimento, o corpo precisa do cérebro e o cérebro precisa do corpo para realizar o movimento aprendido, o que incluí, em um nível mais complexo, aprender a pensar. Mas por que é mesmo que ocorre desse modo tão integrado? Porque quando falamos em movimentos voluntários (praxias) não nos referimos a movimentos como “simples” resultado da contração de um ou um grupo de músculos, ou de uma extensão ou flexão de um membro do nosso corpo. Isso todos os vertebrados fazem, incluindo os não humanos. Não! A motricidade e psicomotricidade humana transcende isso. , 100 Falamos quase que em essencial de gestos, ou seja, de um amplo conjunto coordenado (as 3 unidades funcionais em sintonia) de movimentos voluntários, intencionais, com significados sociais e sentidos intrapsíquicos, que são realizados em função de uma finalidade, um fim a ser atingido (como cozinhar para se alimentar, dirigir um carro para chegar ao trabalho, pegar um elevador e saber o que fazer para ir ao médico) e, mais que isso, falamos de ações a finalizar, de uma atividade psíquica complexa que envolve vários níveis neurofuncionais de comando, de regulação, de verificação etc. que atuam e intervêm na interação entre as mais diversas funções sensoriais e motoras (aqui incluídas as cognitivas, conativas e executivas). Podemos mencionar como exemplo, ir a faculdade estudar e estar atenta durante toda a aula; ir ao trabalho por 6, 8 ou 12 horas e realizar as funções necessárias incluindo regular suas ações na interação com demais funcionários, incluindo também suas habilidades socioemocionais; aceitar e lidar com a morte de entes amados, vivenciar o luto, a dor e suplantar esse período marcante e desgastante, e, mesmo com esse desgaste, lidar e dar conta de tudo o que o meio externo te exige e o interno também, com a melhor resposta adaptativa possível! A praxia global, nossa postura eminentemente humana que nos caracteriza como não selvagens! Motricidade – corpo, psicomotricidade – corpo e psiquismo. Ora, quando mencionamos que Wallon coloca que a inteligência da criança caminha do ato ao pensamento (do movimento ao intelecto), esse paradigma se transforma em outro mais abrangente e inverso, do pensamento ao ato (o que caracteriza a habilidade de conceber uma ideia abstrata e realizá-la), pensar um carro e fazer; pensar um computador e fazer; pensar um fogão e fazer etc., motivo pelo qual aprender fazendo é vital para o desenvolvimento e aprendizagem humana. Assim sendo, a BPM vai analisar os subfatores da praxia global, como a coordenaçãoóculo manual, óculo pedal, dissociação de movimentos com os pés e mãos, agilidade de executar movimentos motores simultâneos (pular com espaços entre os pés e bater palmas, por exemplo). , 101 E você, caro psicopedagogo, sabe que a 3ª unidade funcional luriana é a unidade da nossa ação intencional, voltada para um fim, exclusiva de nossa espécie, portanto, um processo maturacional neurofuncional que exige em muito, como diz Wallon, a qualidade dos estímulos vivenciados pela criança. Mas você já sabe mais! Você sabe que a praxia (movimento voluntário) recruta uma multidiversidade de estratégias mentais, hierarquizadas e, por isso, sequenciais, que juntas em cooperação (coativam) com todo o funcionamento cerebral, reclama desde a tonicidade até a praxia dita, e isso requer passar pela somatognosia e ecognosia, ou seja, da 1ª até a 3ª unidade funcional. Vitor da Fonseca (2014 pag. 181) nos explica que a praxia, ao converter a decisão em ação, em uma resposta final do cérebro, cujo funcionamento permite expandir as capacidades potenciais do corpo, reclama a contribuição sistêmica e melódica (o cérebro trino luriano em orquestra): Da tonicidade atencional; Do equilíbrio e do controle postural; Do processamento somatognósico e ecognósico; Do planejamento, execução, regulação e inibição práxica. Em uma linguagem filosófica e existencial, nossa história humana evolutiva nos fez prisioneiros da ação “(...) fadada para a ação, logo, para a praxia(...)”, (FONSECA, 2014 p. 183), uma vez que não nos esgotamos em nossa herança biológica, mas a transcendemos reconsubstanciando-a12 em nossa natureza social e cultural. Me diz uma coisa, você já havia pensado na psicomotricidade deste modo como você está aprendendo? 12 Reconsubstanciar é, portanto, consubstanciar de outra forma (PRIBERAM, S.D.b). , 102 Quando pensarmos em praxia fina, significa que pensamos que este fator psicomotor se refere a micromotricidade, evolução do uso de nossas mãos, única e exclusiva em todo o Planeta. Estas mesmas mãos que constroem artefatos e tecnologias geniais e magníficas, destroem a própria espécie e o Planeta que as originou! Na escolarização, sempre que falamos em praxia fina, já se pensa em uso da massinha, pintura/rabiscos, desenho, e evidentemente, a escrita. Escrever é o bicho papão da pré-alfabetização, da alfabetização e dos que estão na 6ª série (ou mais) e ainda não escrevem e por isso apresentam dificuldades na leitura também. Esses são os alunos que serão encaminhados para você, psicopedagogo, no que se refere especificamente a dificuldades de escrever e ler. Mas, como se desenvolveu a nossa micromotricidade que não se resume na escrita, apenas? Vocês se lembram dos textos anteriores que nos chamam a atenção pela produção de artefatos e instrumentos? Do texto que fala da importância da mediação por instrumentos e signos? Tudo tem um começo na história de desenvolvimento de qualquer ser vivo do planeta e com o ser humano não é diferente. O propósito aqui é a praxia fina e não apenas relacioná-la com a escrita. Antes, é te auxiliar a pensar em dimensões históricas. Você, futuro psicopedagogo, deve desenvolver esse pensamento (o de correlacionar as diferentes histórias) para poder entender a história do desenvolvimento da criança que está atrelada à história do desenvolvimento de seus pais, e até com a história de desenvolvimento da professora que atende o aluno que foi encaminhado para você! Quando pensamos em micromotricidade, precisamos relacioná-la com a oromotricidade, uma vez que, em nossa espécie, a linguagem oral (oromotricidade) evoluiu de gestos manuais, ou seja, das mãos, da linguagem não verbal, da imitação possível (neurônios espelhos) e da observação interativa em grupo. Esse aspecto é central na evolução humana e é um princípio de base do desenvolvimento neuropsicomotor da criança. , 103 Não há como desenvolver a micromotricidade desatrelada da linguagem oral e dos gestos. Pois é, e o que isso tem a ver com mediação? Tudo ora! O elemento mediador é a linguagem oral e os gestos, quando somos muito pequenos (1 a 4 anos e inclusive durante toda a nossa vida). Lembram os signos em Vygostsky? Em seus livros “A formação social da mente” e “A construção do pensamento e da linguagem”, o autor vai abordar mais densamente a importância do signo para a linguagem oral, escrita e o desenvolvimento do pensamento. Por agora, vamos simplificar e pontuar que, para Vygotsky, o desenvolvimento da linguagem oral irá mediar e dar suporte para a linguagem escrita. Para ele, a linguagem escrita é, primeiramente, um tipo de simbolismo de segunda ordem, isto porque a linguagem escrita se constitui por um sistema de signos (letras) que indicam os sons (fonemas) que formam as palavras da linguagem oral. Isso porque é a linguagem oral que contém os signos que representam o real. É por isso também, que Vygotsky fala que, o gesto, o desenho, os jogos simbólicos, representam uma “pré-história da escrita” na criança. Dito de outra forma, seriam alguns pré-requisitos para a alfabetização. Viram isso! Não tem como separar a nossa relação mediada cada vez mais complexa em nosso desenvolvimento e aprendizagem. Assim sendo, a praxia fina voltada para o desenvolvimento da escrita (grafomotricidade), se apresentará enquanto dificuldades de escrita como disgrafia quando a criança precisar rechamar, mobilizar e executar as letras (o engrama13 cinestésico que deveria partir da cooperação entra a 1ª, a 2ª e a 3ª unidade funcional, em uma complexa e melodiosa harmonia entre tonicidade, equilíbrio, lateralização, noção do corpo, estruturação espaço temporal e praxia global) e, em disortografia quando estiver relacionado com dificuldades linguísticas que se aproximam dos déficits da linguagem falada (integração sensorial, processamento auditivo central, codificação etc.). 13A MENTE É MARAVILHOSA, 2018. , 104 Sem dúvida, o desenvolvimento da funcionalidade e da disfuncionalidade das praxias finas da criança, poderão ter sua origem na história do seu desenvolvimento, na qual você deverá levar em muita consideração, a passagem da criança (ou não) pelo maternal, pré-escola e como essa criança foi estimulada no período pré-escolar (alfabetização). Recordem que no bloco 5, no subtema 5.5 - Subfatores psicomotores e sua relação com a dificuldade de aprendizagem, apresentamos várias dificuldades de aprendizagem que podem ter sua origem no desenvolvimento psicomotor (outra forma seria alguma lesão neural). Assim sendo, quando pensarmos em disfuncionalidades com relação a praxia fina, precisamos pensar em todos os outros fatores psicomotores e usar a BPM para identificar quais os subfatores que podem estar precisando de estímulos. Abaixo, separei uma imagem muito útil da “Neurofisio intensiva” que trabalha com multiprofissionais, incluindo o psicopedagogo, para apresentar uma visão que abarcará as funções psicomotoras (obrigatoriamente até, por conta da prática dos fisioterapeutas) que contribuirão para desenvolver habilidades básicas que precisam ser estimuladas antes da alfabetização – algumas delas, não é?! , 105 , 106 , 107 Fonte: PAULO, S.D. A motricidade fina, praxia fina ou micropraxia, para ser desenvolvida, a mão precisa aprender a se tornar exímia em integrar alguns sistemas funcionais, a partir da interação e da mediação, é óbvio! Vamos apontar no quadro abaixo, alguns sistemas funcionais que atuam em integração quando do uso de nossas mãos. Perícia da motricidade fina – execução: integração de sistemas funcionais Tonicidade e controle postural – garantem estabilidade Coordenação bilateral (mão dominante e mão de suporte),dependentes da lateralização, para a dextralidade manual o que solicitará, ainda, uma coordenação sistêmica entre postura, visão e mão. Integração proprioceptiva e vestibular – sistema que vão unificar as estruturas que irão regular e executar os movimentos da mão (tendões, músculos, sistemas sensoriais etc.) , 108 A perícia manual exige, não apenas, sustentar e integrar os sistemas funcionais acima, mas também, uma interação neuro funcional (unidades de Luria) Coordenação viso-motora – coordenação harmoniosa entre a mão e o olho, além do controle postural. Põe em jogo a lateralização do corpo, e principalmente a lateralização das duas mãos, que representam a lateralização do cérebro (dois hemisférios). Qualquer dispraxia pode comprometer todo o desenvolvimento psicomotor, afetivo emocional e relacional, psicolinguístico e cognitivo. Movimentos manuais mais evoluídos requerem maior controle voluntário, maior esforço atencional. Pensem na mão como um órgão extraordinário – por exemplo uma microcirurgia, na qual a mão manuseia instrumentos sofisticadíssimos. A criança vai depender de 3 experiências cruciais em seus primeiros anos: 1. O preender (mão) 2. O apreender (visão e mão) 3. O compreender (cognição) Este é um “triangulo psicomotor do conhecimento” cujo vetor é o princípio de maturação neurológica. Como o trabalho emerge da mente, mão e mente são inseparáveis/indissociáveis. Fonte: adaptada de FONSECA, 2014, Em síntese, acredite no seu trabalho, invista na sua formação, creia na criança como um verdadeiro “Projétil de Vida” e busque pela modificabilidade cognitiva constantemente. Em muitos casos você poderá remediar e, em outros tantos, você vai conseguir! 6.5 A psicomotricidade e a psicopedagogia Finalmente, nós vamos tecer algumas considerações relacionais entre essas duas áreas inter e transdisciplinares: a psicopedagogia e a psicomotricidade. A relação entre psicopedagogia e psicomotricidade se caracteriza, em âmbito geral, pelos seus complexos objetos de estudos e pela necessidade de buscar apoio em outras áreas para investigar seus objetos. Ambas as áreas têm em comum: • A interdisciplinaridade; • O olhar diferenciado para a aprendizagem; , 109 • As propostas diferenciadas de diagnóstico e intervenção; • Consideram o aprendente contextualizado socialmente; • Consideram a aprendizagem social, cultural, cognitiva, afetiva, emocional, orgânica etc. A psicopedagogia e a psicomotricidade são áreas que se complementam pela sua similitude e que apresentam pontos de interseção no atendimento ao problema de aprendizagem. Essas duas áreas têm origem na medicina e apoiaram-se por muito tempo no modelo médico para compreender suas práticas, pois os PA´s (problemas de aprendizagem) eram considerados como doenças física e\ou mental. Também podemos citar que psicopedagogia e psicomotricidade abordam as implicações recíprocas entre o desenvolvimento e a aprendizagem na criança e no jovem, com base na contribuição de vários autores oriundos de várias culturas e que são simultaneamente, disciplinares, interdisciplinares e transdisciplinares. Ambas enfatizam a necessidade de conhecer a criança em seu processo de desenvolvimento em relação ao contexto sociocultural em que está inserida, a fim de que as atividades motoras, portanto, pedagógicas e inclusive, psicopedagógicas (na intervenção do psicopedagogo) propostas e a metodologia a ser utilizada estejam de acordo com as características infantis. Assim como ambas buscaram subsídio teórico na psicogenética para formar seu corpo teórico, onde receberam apoio para instituir a técnica reeducativa; buscam subsídios na neurologia, linguística, psicologia, psicanálise, entre tantas outras, para redimensionar sua prática, compreender melhor os problemas de aprendizagem e consideram a pessoa como um todo em suas dimensões: cognitiva, social, emocional, relacional, contextual etc. Como áreas interdisciplinares voltadas para a aprendizagem humana e suas possíveis disfunções e sintomas, o psicopedagogo encontra na psicomotricidade, não apenas mais uma importantíssima área de conhecimento, mas sobretudo, uma ferramenta e também um instrumento de investigação, diagnóstico diferencial e de intervenção específica. , 110 O que você achou deste bloco? Gostou de conhecer as disfuncionalidades que as unidades funcionais e os fatores psicomotores podem causar e também a BPM? Conclusão Neste bloco apresentamos para você a história da BPM (bateria psicomotora) e oferecemos uma classificação do perfil psicomotor, correlacionando o perfil psicomotor com possíveis déficits de aprendizagem, motivo pelo qual é um valioso instrumento para a prática diagnóstica e interventiva do psicopedagogo. Apresentamos as 3 unidades funcionais correlacionadas aos fatores psicomotores, apontando as possíveis dificuldades que poderão surgir ao relacioná-los com suas possíveis disfunções na aprendizagem. E, finalmente, apresentamos algumas considerações correlacionais entre a psicopedagogia e a psicomotricidade. REFERÊNCIAS A MENTE É MARAVILHOSA. Engramas: marcas da experiência em nosso cérebro. 2018. Disponível em: <https://amenteemaravilhosa.com.br/engramas-cerebro/>. Acesso em: 26 jul. 2021. CUF. Alguns tiques são, na verdade, manifestação da Síndrome de Touretter, um problema que começa cedo e interfere com a vida pessoal, escolar, laboral e social. 2018. 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