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NATUREZA DA EMOÇÃO: CINCO QUESTÕES PERMANENTES – CAP 11 RESUMO Os pesquisadores das emoções de modo geral, veem as emoções como respostas construtivas a tarefas fundamentais da vida. Raiva e medo podem causar uma sensação ruim e às vezes resultar em comportamentos problemáticos, mas mesmo a mais veemente emoção existe como concessão necessária na busca humana da sobrevivência, que é repleta de emoções. Elas ocupam seu lugar na sobrevivência e na adaptação a situações ameaçadoras. O QUE É UMA EMOÇÃO? As emoções são mais complexas do que parecem a princípio. À primeira vista, todos nós conhecemos as emoções como sentimentos. Conhecemos a alegria e o medo porque o aspecto sentimento de uma emoção tem muito destaque em nossa experiência. As emoções são multidimensionais. Existem como fenômenos subjetivos. biológicos. sociais e com um propósito (lzard, 1993). Em parte, as emoções são sentimentos subjetivos, pois nos fazem sentir de determinado modo, tal con10 zangados (com raiva) ou alegres. Mas as emoções são também reações biológicas, respostas mobilizadoras de energia que preparam o corpo para adaptar-se às situações que enfrentamos, sejam elas quais forem. As emoções têm quatro componentes (ou dimensões) independentes e interligadas, que precisam ser ativadas para formá-la. Cada dimensão tem suas próprias características: RELAÇÃO ENTRE EMOÇÃO E MOTIVAÇÃO As emoções relacionam-se com a motivação de dois modos. Em primeiro lugar, as emoções são um tipo de motivo. Assim como todos os outros motivos (por exemplo, necessidades. cognições), as emoções dão energia ao comportamento e o dirigem. A raiva, por exemplo, mobiliza recursos subjetivos, fisiológicos, hormonais e musculares (ou seja, dá energia ao comportamento) para se atingir uma determinada meta ou propósito (ou seja, dirige o comportamento), tal como, vencer um obstáculo ou corrigir uma injustiça. Em segundo lugar, as emoções servem como um sistema de leitura (readout) permanente para indicar se a adaptação pessoal está indo bem ou não. A alegria, por exemplo, revela inclusão social e o progresso em direção as nossas metas, enquanto a angústia revela exclusão social e fracasso. Emoção como motivação Alguns pesquisadores argumentam que as emoções atuam como sistema motivador primário, impulsionando os seres humanos às ações, como, por exemplo, a fome motiva o ato de comer. Emoção como sistema de leitura (readout) A emoção também fornece uma leitura do status em que se encontram os estados motivacionais da pessoa, que estão em contínua mudança e sua condição de adaptação pessoal (Buck, 1998). As emoções positivas refletem o envolvimento e a satisfação de nossos estados motivacionais, enquanto as emoções negativas refletem o abandono e a frustração de nossas motivações. As emoções positivas também refletem o êxito de nossa adaptação a circunstâncias que enfrentamos, enquanto as emoções negativas refletem o fracasso da nossa adaptação. O QUE CAUSA A EMOÇÃO? Quando deparamos com um evento significativo da vida, surge a emoção. A mente (processos cognitivos) e o corpo (processos biológicos) das pessoas reagem de modo adaptativo a eventos significativos. Biologia e Cognição Juntas, as perspectivas cognitiva e biológica fornecem um quadro relativamente abrangente do processo da emoção. Não obstante, reconhecer tanto os aspectos cognitivos como os aspectos biológicos como base da emoção não responde à questão do que é primário: os fatores biológicos ou cognitivos (Lazarus, 1982.) Para o biólogo teórico, as emoções podem ocorrer, e realmente ocorrem, sem um evento cognitivo prévio, mas não podem ocorrer sem um evento biológico prévio. A biologia, portanto, e não a cognição, é primária. Ex.: Se existe a emoção fome, essa é fruto da ação das enzimas estomacais avisando quimicamente o cérebro de que existe necessidade de se consumir alimentos naquele corpo. Ou seja, a biologia veio antes da cognição. Perspectiva biológica Para Panksepp (1982, 1994), as emoções surgem de circuitos neurais geneticamente fornecidos que regulam a atividade cerebral (ou seja, eventos bioquímicos e neuro-hormonais). Panksepp admite que é mais difícil estudar os processos ocultos dos circuitos cerebrais do que estudar sentimentos rotulados verbalmente. Insiste, porém, em que os circuitos cerebrais fornecem os fundamentos biológicos essenciais para experiência emocional. O raciocínio lógico que apoia a perspectiva biológica de Panksepp provém de três descobertas importantes: l. Como os estados emocionais são muitas vezes difíceis de verbalizar, eles devem, pois, ter origens não-cognitivas (não baseadas na linguagem). 2. A experiência emociona] pode ser induzida por procedimentos não-cognitivos. tais como estimulação elétrica do cérebro ou da musculatura facial. 3. As emoções ocorrem em bebês e em outros animais além do homem. Perspectiva Cognitiva Na perspectiva cognitiva incluem-se três representantes: Richard Lazarus (1984, 1991a. 1991b), Klaus Scherer (1994a, 1994b,1997) e Bernard Weiner (1986). Para cada um desses teóricos a atividade cognitiva é um pré-requisito necessário para que haja emoção. Elimine o processamento cognitivo e a emoção desaparecerá. Lazarus argumenta que. sem uma compreensão da importância pessoal do impacto potencial de um evento sobre o bem estar pessoal, não há razão para uma resposta emocional. Os estímulos avaliados como irrelevantes não provocam reações emocionais. Scherer (199.ta. 1997) concorda com Lazarus em que algumas experiências da vida produzem emoções enquanto outras não as produzem. Scherer identifica diversas avaliações cognitivas específicas que geram experiências emocionais. Em sua análise de atribuição da emoção. Weiner (1986) concentra-se no processamento de informações que acontece após resultados de vida ocorrerem. Ou seja, a teoria da atribuição enfoca o pensamento e a reflexão pessoal que empreendemos depois dos êxitos e fracassos da vida. Depois de um êxito, acreditar que este foi causado pela própria pessoa produz uma emoção (orgulho), ao passo que acreditar que o mesmo êxito foi causado por um amigo produz uma emoção diferente (gratidão). Visão dos Dois Sistemas Uma resposta à pergunta "O que causa a emoção” é que tanto a cognição como a biologia causam emoção. Segundo Buck (1984), os seres humanos têm dois sistemas sincrônicos que ativam e regulam a emoção. Um dos sistemas é um sistema inato, espontâneo e fisiológico que reage involuntariamente a estímulos emocionais. O segundo é um sistema cognitivo com base na experiência que reage interpretativa e socialmente. O sistema fisiológico da emoção surgiu primeiro na evolução da humanidade (isto é, o sistema límbico), ao passo que o sistema cognitivo da emoção surgiu mais tarde, à medida que os seres humanos iam se tomando cada vez mais cerebrais e cada vez mais sociais (isto é, o neocórtex). Juntos, o sistema biológico primitivo e o sistema cognitivo contemporâneo combinam-se para fornecer um mecanismo altamente adaptativo de emoção formado por dois sistemas. O Problema da Galinha e do Ovo Robert Plutchik (1985) vê o debate entre cognição e biologia como o dilema sobre a galinha e o ovo. A causa da emoção não deveria ser conceituada como cognitiva nem como biológica. A emoção é antes um processo, uma cadeia de eventos que se agregam em um sistema complexo de retroalimentação. Os elementos no circuito de retroalimentação de Plutchik são: cognição, ativação, sentimentos, preparação para a ação, expressões e atividade comportamental manifesta. QUANTAS EMOÇÕES EXISTEM? O debate entre cognição e biologia desperta indiretamente outra questão importante: quantas e moções existem? A orientação biológica enfatiza emoções primárias (p. ex., raiva, medo) e minimiza a importância de emoções secundárias, ou adquiridas. A orientação cognitiva reconhece a importância das emoções primárias, mas destaca que muita coisa interessante sobre as experiências emocionais surge das experiências individuais, sociais e culturais. Assim, a parte interessante e importantena emoção está nas emoções complexas (secundárias adquiridas). Em última análise, qualquer resposta à pergunta "Quantas emoções existem?” depende da preferência dada, à orientação biológica ou à orientação cognitiva. Emoções Básicas Qualquer resposta à pergunta sobre a quantidade de emoções existentes força a pessoa a comprometer-se com um nível de especificidade (Averill, 1994,) o que significa que as emoções podem ser conceituadas cm um nível geral, tal como a família ou o protótipo (p. ex.: raiva) ou em um nível situacional específico (p. ex.: hostilidade, inveja, frustração). Nesta seção, as emoções são examinadas cm nível geral. As chamadas emoções básicas são as que satisfazem os seguintes critérios (Ekman & Davidson, 1994): 1. São inatas, e não adquiridas ou aprendidas por experiência ou socialização. 2. Surgem das mesmas circunstâncias para todas as pessoas (perdas pessoais entristecem a todos. Independentemente de idade, cultura e assim por diante). 3. São expressas de maneira própria e distinta (tal corno por meio de uma expressão facial universal). 4. Provocam um padrão de respostas fisiológicas distinto e altamente previsível. As principais são: 1º grupo - medo; raiva; repugnância; tristeza; ameaça e dano (organiza as reações às quatro emoções já citadas até aqui), 2° grupo – alegria; interesse; envolvimento e satisfação de motivo (organiza as reações das emoções deste grupo) QUAL A UTILIDADE DAS EMOÇÕES? O trabalho sobre a utilidade ou a função da emoção começou com The Expression of Emotions in Man and Animais (1872), de Charles Darwin. um esforço menos famoso do que sua obra de 1859 sobre a evolução das espécies. Em sua obra sobre as emoções, Darwin argumentou como as emoções ajudam os animais a se adaptarem aos seus ambientes. Exibições de emoção ajudam a adaptação, do mesmo modo que a exibição de características físicas (p. ex.: a altura). Por exemplo, quando o cão mostra os dentes para defender seu território, isso o ajuda a lidar com situações hostis (afastando os adversários). Tal expressividade é funcional e, portanto, as emoções são candidatas à seleção natural. Funções de Enfrentamento (Coping) As emoções não ocorrem inesperadamente. Ocorrem por uma razão. De um ponto de vista funcional, as emoções evoluíram porque ajudaram os animais a lidarem com tarefas fundamentais da vida (Ekman, 1994a). Para sobreviver, os animais precisam explorar seus ambientes, vomitar substâncias nocivas, desenvolver e manter relações, atender imediatamente a emergências, evitar ferimentos, reproduzir-se, lutar, e também fornecer e proporcionar cuidados. Todos esses comportamentos são produzidos por emoções e todos facilitam a adaptação do indivíduo às modificações nos ambientes físico e social. Funções Sociais Além de servir às funções de enfrentamento (coping), as emoções servem n funções sociais (lzard, 1989: Keltner & Haidt, 1999; Manstead, 1991). As emoções: 1. Comunicam aos outros os nossos sentimentos. 2. Influem no modo como os outros nos tratam. 3. Promovem e facilitam a interação social. 4. Criam, mantêm e dissolvem relacionamentos. Por que Temos Emoções A vida é cheia de desafios, estresses e problemas a serem resolvidos. As emoções existem corno soluções para esses desafios, estresses e problemas (Ekman, 1992; Frijda., 1986, 1988; Lazarus, 1991a; Scherer, 1994b). Coordenando e orquestrando sentimentos, ativação, propósito e expressão, as emoções "estabelecem nossa posição diante do nosso ambiente (Levenson, 1999) e "nos equipam com respostas específicas e eficientes, talhadas sob medida para problemas de sobrevivência física e social" (Keltner & Gross, 1999). Alguns argumentam que as emoções não têm nenhum propósito útil. Alegam que as emoções atrapalham a atividade habitual, desorganizam o comportamento e nos privam da nossa racionalidade e da nossa lógica (Hebb, 1949: Mandler, 1984). Esses pesquisadores da emoção admitem que, embora as emoções tenham servido a funções evolutivas importantes, há milhares de anos, não o fazem mais no mundo moderno. QUE DIFERENÇA HÁ ENTRE EMOÇÃO E HUMOR? Urna quinta pergunta fundamental sobre a natureza da emoção é: que diferença há entre emoção e humor (Ekman & Davidson, 1994; Russell & Barrett, 1999)? Diversos critérios de distinção podem ser citados (Goldsmith, 1994), mas há três que parecem especialmente notáveis: • Diferença nos antecedentes • Diferença na especificidade de ação • Diferença no decurso de tempo