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Doença de Parkinson Definição e História Parkinsonismo = grupo de desordens que produzem anomalias no funcionamento dos gânglios da base. Doença de Parkinson (DP) = tipo mais frequente de parkinsonismo. Conhecida também como paralisia agitante, a DP foi descrita em 1817 por James Parkinson como movimentos involuntários tremulantes. Diretriz Européia A Diretriz Europeia de Fisioterapia para a Doença de Parkinson foi elaborada em 2014 e traduzida para o português em 2015. Reuniu um grupo de profissionais de diversas áreas que realizaram a análise crítica das evidências científicas na área, publicadas em periódicos. Tem como objetivo embasar a tomada de decisões para a prática da Fisioterapia na Doença de Parkinson. Epidemiologia É a segunda doença neurodegenerativa mais comum depois da Doença de Alzheimer. No Brasil estima-se que aproximadamente 160 mil pessoas vivem com a DP. A incidência é 1,5 vezes maior em homem do que em mulheres. A maioria das PCP recebe o diagnóstico da doença com mais de 60 anos de idade; cerca de 5% tem menos do que 40 anos. Pode ocorrer até antes dos 21 anos de idade. A prevalência aumenta com a idade. Fisiopatologia Perda progressiva das células da substância negra do mesencéfalo. Observa-se a presença, com frequência, na substância negra e no locus cereleus, corpos de inclusão citoplasmática conhecidos como corpos de Lewy que representam marcadores anatomopatológicos para a DP. No interior dos corpos de Lewy encontra-se a proteína alfasinucleína, além de outras que contribuem significativamente para o processo de degeneração dos neurônios dopaminérgicos do encéfalo. A degeneração dos neurônios da zona compacta da substância negra resulta na diminuição da produção de dopamina, com destruição da via nigroestriatal e subsequente perda da dopamina estriatal. Etiologia A etiologia da doença ainda é obscura e controversa. ↪ Multifatorial: fatores genéticos, neurotoxinas ambientais, estresse oxidativo, anormalidades mitocondriais e excitotoxicidade. Estudos epidemiológicos encontraram de forma consistente uma associação positiva entre doença de Parkinson e pesticidas. Em 5% a 10% de todas as PCP, mutações genéticas são as responsáveis. A probabilidade de uma variação genética é maior em casos de início antes dos 40 anos de idade e um histórico familiar positivo. Atualmente acredita-se que fatores genéticos e ambientais interajam e aumentem o risco de um indivíduo desenvolver doença de Parkinson. A CIF para a Doença de Parkinson ↪ Deficiências nas funções motoras (sinais clássicos da DP): Bradicinesia: lentidão e redução do movimento (77 a 98% das PCP). - Acinesia: ausência de movimento – momentos de congelamento – parada ou bloqueio súbito do movimento. - Hipocinesia: amplitude de movimento reduzida. Tremor em repouso (de 70 a 100% das PCP). - Sintoma inicial da DP em aproximadamente 70% dos casos. - Oscilação involuntária de uma parte do corpo, com frequência de 4 a 6Hz. - Denominado tremor de repouso desaparece com movimentos voluntários. Rigidez: resistência crescente por toda a amplitude de movimento passivo de um membro. - Sentida tanto em músculos agonistas quanto antagonistas, e em ambas as direções dos movimentos. - Constante, independente da tarefa, amplitude ou velocidade do movimento. - Dois tipos: a) Roda denteada: espasmódica, como resistência rítmica de catraca, no movimento passivo os músculos alternam entre tensos e relaxados. b) Cano de chumbo: resistência sustentada pelos movimentos passivos, sem flutuações. - Assimétrica afeta primeiro os músculos proximais. Instabilidade postural: projeção do tronco para a frente com perda dos reflexos posturais e alterações nas reações de equilíbrio. - Anormalidades de postura e equilíbrio. - Raras nos primeiros 5 anos após o diagnóstico. - Ocorrem em: Estreitamento da base de apoio; Situações de atenção dividida; Movimentos autoiniciados: alcançar, caminhar, girar etc. - Os músculos extensores do tronco apresentam maior fraqueza que os flexores = adoção de postura flexionada. - Consequências: quedas, limitações funcionais, fraqueza muscular, fadiga, perda de condicionamento musculoesquelético generalizado, contraturas, perda da função. ↪ Deficiências nas funções não motoras: Disfunção olfativa. Distúrbio comportamental do sono REM. Constipação. Depressão. Disfunções executivas: 1. Controle interno da atenção (versus atenção guiada por pistas externas) essencial para tarefas não rotineiras. 2. Alternância: mudar a atenção de um estímulo para o outro. 3. Planejamento: identificar e organizar os passos para atingir um objetivo. 4. Resolução de conflito: inibição de respostas predominantes. 5. Concentração. 6. Retenção e uso de informação. 7. Desempenho em dupla tarefa. 8. Tomada de decisão: considerar as vantagens e desvantagens das diferentes opções. 9. Interações sociais: entender intenções, desejos e humor alheios. ↪ Deficiências tardias nas funções não motoras: Demência. Incontinência urinária. Disfunção sexual. Ansiedade. Apatia. Dor. ↪ Limitações de atividade e restrição de participação: Desempenho nas transferências. Destreza. Comunicação. Alimentação. Marcha (festinação e/ou freezing - congelamento). Atividades relacionadas à marcha. Progressão da doença É utilizada a escala de estadiamento de HOEHN e YAHR (HY) para classificar as PCP com base na progressão da doença: Manejo dos cuidados de saúde para a DP (equipe multidisciplinar) ↪ Objetivo geral: otimizar as atividades, participação e qualidade de vida das PCP, levando em consideração sua funcionalidade, fatores pessoais e ambientais. ↪ Cuidado centrado no paciente: cuidado respeitoso e responsivo às preferências individuais da PCP, suas necessidades e valores, garantindo que os valores da PCP orientem todas as decisões clínicas. ↪ Equipe multidisciplinar: todos devem procurar se comunicar e colaborar com a PCP e entre si, com base nos objetivos da PCP. Tratamento farmacológico Os medicamentos são a primeira opção de cuidados para a PCP. Procuram corrigir o desequilíbrio de neurotransmissores dentro do circuito dos núcleos da base. Se baseia na levedopa, substância precursora de dopamina, e nos agonistas dopaminérgicos. ↪ Levodopa: padrão-ouro no tratamento; oferece melhor alívio dos sintomas de rigidez, bradicinesia e tremor. Os agonistas dopaminérgicos são drogas que ativam diretamente os receptores de dopamina sem a necessidade de ser metabolizada pelo neurônio pré-sináptico. São prescritos para aliviar outras complicações incapacitantes: síndromes das pernas inquietas, sono fragmentado, acinesia ou distonia matinal. Complicações motoras induzidas por medicamentos Neurocirurgia ECP (Estimulação Cerebral Profunda): eletroestimulação de alta frequência (núcleo subtalâmico) através de eletrodos implantados no cérebro, usando um marcapasso. Quando feita bilateral visa controlar os sintomas tremor, rigidez e distonia. Modificação da doença Estudos recentes mostram que a atividade física pode interagir diretamente com o processo neurodegenerativo, provavelmente mediada por fatores neurotróficos cerebrais e neuroplasticidade. ↪ Exercício vigoroso, suficiente para aumentar a frequência cardíaca e a necessidade de oxigênio, está associado a: Redução do risco de DP e melhor funcionamento cognitivo. Aumento do volume de substância cinzenta no cérebro de idosos. Melhora da conectividade funcional. Ativação cortical relacionada com a cognição. Melhora da excitabilidade córtico- motora em PCP (neuroplasticidade). Pode retardar a progressãoda DP. Fisioterapia ↪ Objetivos da fisioterapia na DP: Maximizar a qualidade do movimento. Maximizar a independência funcional. Maximizar a forma física geral. Minimizar complicações secundárias. Apoiar o autocuidado e participação. Aperfeiçoar a segurança. ↪ Áreas centrais da fisioterapia na DP Capacidade física: 1. Tolerância ao exercício (resistência). 2. Mobilidade articular (ADM). 3. Tônus. 4. Potência muscular = Força x Velocidade (relacionada à capacidade de manter o equilíbrio e o desempenho em atividades de mobilidade). 5. Resistência/força muscular. São pré-condições para desempenhar as AVDs e ter participação na sociedade. Transferências: 1. Com a progressão da doença, sequencias motoras complexas, como transferências (principalmente: levantar e sentar da cadeira, deitar e levantar da cama e virar na cama) e atividades manuais, podem deixar de ser realizadas automaticamente. 2. Fatores externos que podem dificultar a mobilidade na cama: colchas de cama, níveis reduzidos de levodopa à noite e baixa orientação visual. Atividades manuais: 1. As atividades manuais podem se tornar mais difíceis devido as sequências motoras complexas necessárias. São diminuídos: fluidez, coordenação, eficiência e velocidade de alcançar e destreza dos movimentos. 2. O tremor também pode afetar as atividades manuais. Equilíbrio: 1. As taxas de quedas variam de 38 a 87% entre o período de 3 a 20 meses de doença. 2. Geralmente 5 anos após o aparecimento das primeiras deficiências, desenvolvem-se limitações na mudança e manutenção da posição do corpo (equilíbrio) devido à alteração progressiva dos reflexos posturais. 3. O equilíbrio também pode ser diminuído por: alterações de propriocepção, redução da flexibilidade do tronco e medicação levodopa. 4. Fatores associados a quedas: freezing/congelamento da marcha, redução da altura do passo, bradicinesia e reflexos posturais alterados. 5. Dupla tarefa: atividades de dupla ou múltiplas tarefas também contribuem para as quedas devido à: - Redução da automaticidade do movimento; - Deficiências de atenção; - Diminuição da flexibilidade atencional; - Deficiências em priorizar tarefas. 6. Como consequência, o desempenho simultâneo de múltiplas tarefas pode levar ao freezing of gait/congelamento da marcha ou a perda do equilíbrio quando a PCP está andando. Marcha: As alterações de marcha já podem surgir nos estágios iniciais da doença. Podem ser alterações de dois tipos: 1. Distúrbios “contínuos”: redução assimétrica ou ausência do balanço de braço, postura inclinada, redução e cariação do comprimento do passo e dificuldades para virar em pé. Com a progressão, a marcha se torna mais lenta – marcha parkinsoniana/parkinsônica típica, com passos pequenos e arrastados, redução bilateral do balanço dos braços e vira em bloco. Se uma tarefa cognitiva é adicionada (dupla tarefa) ou se caminha no escuro, o comprimento dos passos reduz mais ainda. 2. Distúrbios “episódicos”: - Festinação da marcha (os pés ficam atrás do CG) e cada vez diminuem mais os passos. - Freezing: sentem como se os pés estivessem colados no chão. Andam com passos pequenos e arrastados ou com hesitação residual (como se as pernas estivessem tremendo). Acontece geralmente quando a PCP inicia o caminhar (hesitação de início), dá a volta, passa em passagens estreitas (ex. porta), realiza dupla tarefa (ex. falar enquanto anda), alcança algo em espaço aberto, ao se aproximar de um alvo, ou quando anda em completa escuridão. Geralmente duram menos de 10seg. Em estágios mais avançados pode persistir por alguns minutos. Podem ocorrem principalmente nos períodos off. A postura está incluída nessas 5 áreas centrais. Função respiratória e manejo da dor também serão abordados. O foco principal da fisioterapia, bem como os objetivos, é específico para cada pessoa, mas também está relacionado ao estágio atual da progressão da doença da pessoa. Dor Ocorre em 35 a 85% dos casos. Pode ser categorizada em: Problemas respiratórios A pneumonia é a causa mais comum de morte em PCP, geralmente no estágio 5 de HY. ↪ Potenciais causas das alterações respiratórias: Deterioração da função de deglutição (disfagia). Obstrução das vias superiores e restrição da parede torácica. Fraqueza dos músculos respiratórios e alteração da tosse. Fisiologia restritiva. Distúrbios respiratórios do sono. Diminuição dos níveis de atividade física, resultando em perda da resistência, dos níveis máximos de condicionamento físico e da função pulmonar geral. Outros fatores importantes na reabilitação da PCP ↪ Centralização no paciente e apoio ao autocuidado: pacientes bem informados e ativos e profissionais da saúde preparados e proativos. Autocuidado: “capacidade de um indivíduo de lidar com os sintomas, tratamento e consequências físicas, psicossociais e sociais e com as mudanças no estilo de vida devido a uma condição crônica”. São fundamentais para as estratégias de autocuidado: boa comunicação, parceria, confiança e respeito entre a pcp, o cuidador e o profissional da saúde. ↪ Mudança de comportamento: motivação a curto e longo prazo. Requisitos para a mudança de comportamento que podem receber o apoio do fisioterapeuta: conhecimento (sobre o problema e benefícios da intervenção), interesse (nas suas limitações presentes ou futuras), competência (autoeficácia), autoestima (ela mesma vale o esforço). ↪ Motivação para mudar: intrínseca (um comportamento específico é recompensador por si só, motiva e promove sua própria continuação, ex. se exercitar) e extrínseca (incentivo do fisioterapeuta através da seleção de objetivos/resultados, educar sobre a evidência dos benefícios, identificar barreiras pessoais ou ambientais e como superá-las, garantir apoio social – cuidadores ou pares por ex. – focar em supervisão adequada. ↪ Adesão a longo prazo: experimentar o valor real dos exercícios (motivação intrínseca), sentindo prazer e, assim, se auto motivando a continuar. Continuar com um programa de exercícios domiciliares com revisão regular do fisioterapeuta. ↪ Treino da PCP, cuidadores e terapeutas. ↪ Envolvimento do cuidador. Anamnese e exame físico Utilizar questionários e instrumentos que avaliem a capacidade física quando a PCP está com a funcionalidade ótima bem como quando está com a funcionalidade limitada (tempo on e tempo off). Por exemplo, a primeira consulta pode ser no tempo on e a segunda no tempo off. Registrar o momento da avaliação (em relação ao estado de medicação e hora do dia) e repetir as medições o mais próximo possível do mesmo horário durante as consultas de acompanhamento.