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AN02FREV001/REV 4.0 202 PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA Portal Educação CURSO DE SAÚDE DA FAMÍLIA Aluno: EaD - Educação a Distância Portal Educação AN02FREV001/REV 4.0 203 CURSO DE SAÚDE DA FAMÍLIA MÓDULO IV Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para este Programa de Educação Continuada. É proibida qualquer forma de comercialização ou distribuição do mesmo sem a autorização expressa do Portal Educação. Os créditos do conteúdo aqui contido são dados aos seus respectivos autores descritos nas Referências Bibliográficas. AN02FREV001/REV 4.0 204 MÓDULO IV 19 O IDOSO E A ABORDAGEM DA SAÚDE DA FAMÍLIA Com frequência vemos profissionais da saúde dirigirem-se a pacientes idosos usando nomes no diminutivo. Após tantos anos de vida, de experiências incríveis, muitas vezes tendo ocupado cargos e exercido atividades de alta responsabilidade, deixam de ser chamados por seus nomes e viram “vovozinho(a)”, entre outros. Ao atendermos os idosos, devemos nos dirigir a eles pelo nome. Sempre precedido por senhor ou senhora. É um pronome de tratamento da língua portuguesa que deve ser utilizado sempre quando estamos diante de pessoas mais velhas. Não é assim que aprendemos nas aulas de português? Nada de “vôzinho”, vovô, vovó. Eles não são nossos parentes. São pessoas que merecem nosso respeito e toda consideração. Quantos de nós aproveitamos a grande oportunidade de conversar com pessoas mais velhas? Muitos, pela idade e também pela profissão, podem contar histórias riquíssimas, que não são encontradas em livros nem jornais, mas que foram vivenciadas por eles. Brasília é uma cidade jovem, de 49 anos. Muitos que vieram para a construção da nova capital do Brasil, hoje possuem mais de 70 ou 80 anos. Imaginem a riqueza de conversarmos com essas pessoas e sabermos como era a vida na década de 1960 e início dos anos 1970 em nosso país. É comum vermos o idoso, em consultas, ser acompanhado por parentes; e o profissional de saúde, ao invés de fazer perguntas diretamente ao idoso, faz ao parente. Idoso não é criança. Se em consultas com crianças que sabem falar, perguntamos diretamente a elas, por que seria diferente com o idoso? A justificativa para nos dirigirmos aos acompanhantes dá-se apenas diante de quadros avançados AN02FREV001/REV 4.0 205 de demência, quando o paciente não consegue mais fornecer informações adequadas ou, mesmo, falar. As diferentes formas de demência são extremamente graves, requerem toda nossa atenção e as pesquisas devem ser incentivadas e apoiadas de todas as formas para diminuir a morbidade e oferecer opções de tratamento e cura. No entanto, devemos ter em mente que a maioria dos idosos possui plenas condições de responder perguntas sobre suas vidas e, a menos que haja claras evidências do contrário é que devemos nos dirigir a outras pessoas para avaliação de sinais e sintomas. Naturalmente que há questões que podem e devem ser compartilhadas com parentes mais próximos, desde que o idoso permita, como as relacionadas à qualidade do sono. Nem sempre o paciente percebe movimentos involuntários de pernas ou roncos durante a noite. Nestes casos, por exemplo, e esta abordagem independe da idade, pode ser feita a quem dorme junto ou perto do paciente. Muitas vezes, para nós, é mais confortável conversar com quem entende rápido nossas perguntas e nos responde com presteza. É comum os acompanhantes já chegarem com um diagnóstico: “Papai está deprimido desde que o cachorro dele morreu.” Será que é depressão mesmo? Ou um quadro de demência? Por outro lado, poderíamos ter a pergunta inversa: “Papai está esclerosado igual à vovó. Já não se lembra de mais nada e não quer nem conversar mais.” Será que é mesmo demência? Não poderia ser uma depressão? E se for demência, que tipo seria? O atendimento ao idoso requer cuidado, paciência, respeito, observação clínica e, sobretudo, humildade. Deve-se ter cuidado ao se referir ao paciente. Não achar que, porque ele está olhando para você fixamente ou pouco se comunicando, não o está compreendendo. Em particular, recordo de uma senhora, já com mais de 75 anos, que, em decorrência de um acidente vascular cerebral, não conseguia mais articular uma frase (afasia), embora fosse capaz de cantar e rezar. Os familiares que conviviam com esta senhora se divertiam em apresentá-la aos amigos para cantar e rezar, apesar de não conseguir falar. Patético e cruel. O pior é que achavam ser uma forma de distrair a tal senhora. Ela estava bastante deprimida e mesmo com todas suas dificuldades tentava se comunicar. O problema é que todos naquela casa AN02FREV001/REV 4.0 206 só se dispunham a ouvir, com os ouvidos, quando há horas que devemos entender com o coração. O respeito deve existir desde o primeiro momento. Até mesmo na forma como nos vestimos. Há alguns profissionais que entendem que, porque estão em um Programa de Saúde da Família, devem vestir-se de forma desleixada. Asseio e bom gosto ao vestir-se não têm nenhuma relação com classe social. Encontraremos pessoas bem asseadas e muito bem vestidas em todas as classes sociais, como também o contrário. Espera-se dos profissionais da saúde, roupas limpas, sobretudo quando utilizam o jaleco. Chinelos não são calçados adequados a serem utilizados durante as consultas, a menos que seja um programa desenvolvido na praia. Como você se sentiria se fosse consultar com um profissional da saúde e fosse recebido por alguém com aspecto de sujeira e desleixo? A primeira coisa que vem à mente seria “se ele não cuida dele mesmo, como poderá cuidar de mim”? Não quero dizer que as aparências compensam uma formação deficiente. Longe disso, mas que você não causará uma primeira boa impressão. Como a confiança e a empatia são fundamentais na relação com o paciente, certamente você encontrará dificuldades em sua avaliação. Os idosos viveram a juventude quando muitos de nós sequer éramos nascidos. Era outra época. Outro momento. Nem melhor, nem pior do que agora. Quem sabe? Mas, com certeza, diferente, e temos que reconhecer e respeitar isso. Se queremos (e devemos) “entrar no mundo” de nossos pacientes idosos, temos que entender e nos comunicar na linguagem deles. Ninguém precisa usar terno e gravata em um Programa de Saúde da Família, mas um mínimo de bom-senso se faz necessário. O uso de gírias deve ser evitado. Quer usar um piercing na sobrancelha? Vá em frente. Mas, na hora de ir trabalhar, deixe-o em casa ou guardado na bolsa. O objetivo da consulta é o paciente. Estou insistindo um pouco nesta questão, porque, com frequência, encontro pacientes idosos que se queixam de ser atendidos por jovens de chinelo, falando gírias, e com isso, sentem-se desrespeitados. Não custa nada um pouco de atitude. A paciência é uma virtude. Ouvir e, quando falar, repetir, ou mudar a forma de dizer se não estiver conseguindo ser compreendido; são atributos indispensáveis a quem lida com os idosos. Muitas vezes há uma deficiência auditiva importante. Outras vezes, não nos fazemos compreender. AN02FREV001/REV 4.0 207 Certa vez, vi um profissional que falava rápido e não tinha muita paciência. Após falar duas vezes com um senhor e não ser compreendido perdeu a paciência e pediu que outra pessoa fizesse as perguntas. Aconselhou ao paciente que buscasse um otorrino, pois não era possível que não tivesse entendido. Quanta arrogância! Pois bem, o paciente não tinha nenhum problema auditivo. Só não falava português. Ou melhor, entendia, mas com muita dificuldade. Era um imigrante da Ucrânia e, ao iniciar a consulta, o profissional não apenas não olhou para ele, como mandouque sentasse e foi logo medindo a pressão. Ao perguntar se o paciente estava tomando alguma medicação não foi compreendido. Isso não é forma de atender ninguém, muito menos uma pessoa que já está fragilizada por não estar em seu país e não entender a nossa língua. Devemos ter cuidado também com o “mediquês”, ou seja, ao explicarmos as condutas e fazermos as perguntas, é importante que percebamos se fomos compreendidos. Nem todo mundo sabe o que é icterícia, náuseas, lombalgia, fadiga, dispneia e muitos outros termos que são comuns para nós, mas não para os pacientes. Se prescrevermos uma medicação para ser tomada duas vezes ao dia, estamos sendo claros? Pode ser que para uns, sim. Mas, para muitos, pode ser entendido como tomar dois comprimidos de uma só vez, ou na hora em que for mais conveniente. Se for uma medicação, como um antibiótico, por exemplo, que precisa ser tomado com horário certo, devemos perguntar ao paciente qual o melhor horário para ele e escrever no receituário. Peço desculpas aos que possam entender estas recomendações como básicas, mas acreditem, são problemas extremamente comuns e que causam sérios problemas na aderência ao tratamento. O mesmo se dá com a caligrafia do profissional da saúde. Ninguém é obrigado a ter que traduzir palavras mal escritas ou, mesmo, indecifráveis. Há ainda o risco de medicação com nome similar, mas substâncias completamente diferentes de serem administradas. A forma de administração da medicação também deve ser explicada e não só escrita. Pergunte ao paciente se ele entendeu e, se não for possível, ao seu acompanhante. Observe também como o paciente se veste. As roupas estão combinando? Não só em cores, mas com o clima? Pacientes com aspecto de desleixo ou não se AN02FREV001/REV 4.0 208 preocupando com o aspecto visual, sobretudo em idosos, podem apresentar indício de depressão. Outros muito alegres e com roupas muito coloridas ou mesmo bizarras podem estar em um quadro de mania ou, simplesmente, não ser nada mais que a forma como gosta de se vestir. Há sinais de alcoolismo? Há cinzeiros na casa? Há sinais de cigarro? Como o paciente se comunica? Ele parece enxergar e escutar bem? Como ele caminha? Na Geriatria, a observação é extremamente importante. Aquele paciente com marcha diferente e incontinência urinária pode estar com um quadro de hidrocefalia de pressão normal. Cuidado com rótulos. Nem todo tremor em idoso é Parkinson e ainda que a filha de seu paciente diga que ele tem esta doença, avalie o quadro. Quem fez o diagnóstico? Quando? Foi medicado? O que parecia ser Parkinson pode ser apenas um Tremor Essencial. Ao realizar a anamnese do paciente esteja atento para alguns fatores. Não faz sentido perguntar a ele se nasceu de fórceps ou de parto normal. Mas, faz sentido perguntar sobre sua alimentação, seu padrão de sono, sua sexualidade e, sobretudo, verificar se algum sintoma surgiu após o início de alguma medicação. Percebe-se, pelos estudos citados, que, embora a demência seja um problema muito importante e que deva ser precocemente identificado, como veremos mais a frente, a maior parte dos idosos não sofre de demência. Apenas na faixa etária acima de 95 anos é que a doença alcança pouco mais de 50%. Mais de 90% dos idosos com menos de 80 anos não são portadores de demência, contrariando a percepção de muitas pessoas, inclusive, profissionais da saúde. O idoso possui uma série de características fisiológicas e comportamentais que devem ser observadas. O envelhecimento do corpo é acompanhado pelo envelhecimento dos órgãos e, assim, temos alterações fisiológicas (não são doenças) que acompanham o avançar da idade. Muitas vezes essas alterações fisiológicas trazem limitações, o que não significa incapacidade ou doença. Se formos nos lembrar de nossa infância, perceberemos que havia uma série de atividades que fazíamos sem nos cansarmos e tínhamos uma energia fora do comum para brincar. Tínhamos também outros interesses. Quando nos tornamos adultos, nosso corpo passa a ter outras exigências e comporta-se de forma diferente. O mesmo se dá com o idoso. AN02FREV001/REV 4.0 209 Estamos falando de Geriatria e de Gerontologia, mas qual a diferença entre essas disciplinas? A Gerontologia estuda o envelhecimento e suas correlações com as demais áreas e campos sociais, humanos, biológicos, entre outros. Não é voltada para diagnóstico, nem tratamento de doenças. Quem cuida desta parte é a Geriatria. Na Geriatria, encontramos principalmente profissionais da saúde; na Gerontologia, encontramos sociólogos, cientistas políticos e uma quantidade enorme de estudiosos. Os profissionais da Saúde da Família possuem uma interface com a Geriatria, embora todos que queiram estudar o tema do envelhecimento possam fazê-lo em pesquisas e especializações, incluindo a pós- graduação strictu sensu, em Gerontologia. 19.1 COMO ABORDAR O IDOSO NA SAÚDE DA FAMÍLIA? O Ministério da Saúde elaborou um Caderno de Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa, que pode (e deve) ser consultado. Ele está disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/abcad19.pdf>. A Lei nº 8.842, de 4 de janeiro de 2004, dispõe sobre a Política Nacional do Idoso, cria o Conselho Nacional do Idoso e dá outras providências. Por meio desta lei, temos condições de saber como é o pensamento dos Poderes Legislativo e Executivo de nosso país, com a questão dos idosos. A lei começa definindo quem é idoso, pelo critério da idade. Assim, quem tem mais de 60 anos entra nesta categoria. Fala também da finalidade deste dispositivo legal, ao estabelecer que tem por objetivo: “[...] assegurar os direitos sociais do idoso, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade” (ITAMAR FRANCO; Leonor Barreto Franco - Brasília, 4 de janeiro de 1994, 173º da Independência e 106º da República.). O que seriam estes direitos sociais? Podemos em um conceito amplo entender que compreendem educação, saúde, moradia, condições dignas para AN02FREV001/REV 4.0 210 exercício da cidadania, respeito e segurança, o que inclui a não discriminação, entre outras. A lei segue os seguintes princípios: I) a família, a sociedade e o Estado têm o dever de assegurar ao idoso todos os direitos da cidadania, garantindo sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade, bem-estar e o direito à vida; II) o processo de envelhecimento diz respeito à sociedade em geral, devendo ser objeto de conhecimento e informação para todos; III) o idoso não deve sofrer discriminação de qualquer natureza; IV) o idoso deve ser o principal agente e o destinatário das transformações a serem efetivadas por meio desta política; V) as diferenças econômicas, sociais, regionais e, particularmente, as contradições entre os meios rural e urbano do Brasil deverão ser observadas pelos poderes públicos e pela sociedade em geral, na aplicação desta Lei. Observe que a responsabilidade não recai apenas sobre o Estado, mas também sobre a Sociedade e a Família, de forma compartilhada. Infelizmente, é comum, ainda que veladamente, o preconceito contra os mais velhos. Vemos isto ocorrer constantemente na área de empregos. Por que alguém com 60 anos e boas condições de saúde não pode exercer plenamente suas atividades? Há, no entanto, muitas empresas que simplesmente descartam os mais velhos, mais experientes, com mais bagagem cultural e de vida, em busca do que chamam de “renovação”, mas que nada mais é do que uma simples redução de custos. Esta política cruel, discriminatória e pouco inteligente é vista com muita frequência até mesmo em universidades, onde antigos professores cedem seus lugares para os que estão começando. Nada contra a renovação, mas o que ocorre, em muitos casos, é apenas a opção pelo “mais barato”. Em alguns países, esta seria umasituação inaceitável. Em muitas culturas, os idosos, também conhecidos como anciãos, são os mais respeitados e a quem cabe as decisões mais importantes. Em outras, quando ocorre a aposentadoria, passam a fazer parte de um conselho de notáveis. O problema é ainda mais complexo, quando nos deparamos com famílias segregando seus parentes. Pais que dedicaram suas vidas a seus filhos, de uma AN02FREV001/REV 4.0 211 hora para outra, são tratados como estorvos. São conhecidas as histórias de maus tratos e abandonos de idosos por seus filhos e membros da família. É verdade que não é fácil lidar com doenças crônicas, degenerativas e incapacitantes, que podem, por sua vez, ocorrer em qualquer fase de nossas vidas, com nomes e diagnósticos diferentes, mas com prognóstico igualmente sombrio. O que fazer nessas horas? O profissional da Saúde da Família, ao realizar sua consulta familiar, deve sempre avaliar, ao constatar a presença de idoso na casa visitada, de que forma ele é visto pelos demais. Se está doente, como está sendo cuidado. Entre outras coisas: Que medicamentos estão sendo utilizados? Quem prescreveu? Quando? Por que razão? Um dos problemas mais comuns na avaliação do idoso, diz respeito à prática da polifarmácia, ou seja, o uso de diversos medicamentos de forma simultânea, muitas vezes dirigido para o alívio de sintomas, de síndromes ou doenças não diagnosticadas. Quem é o responsável para administrar as medicações? A que horas são tomadas? De que forma são administradas? O encarregado por administrar as medicações deve ser alguém responsável, o que significa saber a importância de seu papel na recuperação do idoso, verificar se a medicação prescrita é de fato a que foi adquirida e a que está sendo administrada; se a dose está correta e se a via de administração também. Nem toda medicação pode ser fracionada, uma vez que há diferentes sítios de absorção. O horário de administração da medicação deve levar em conta a sua praticidade, mas, sobretudo, as condições do paciente. Ter que acordar o idoso para receber a medicação, porque quem a administra gosta de ir a festas é inadmissível. O paciente recebe os devidos cuidados para não apresentar escaras de decúbito? Quem realiza esta prevenção? O paciente toma banho diariamente? Como? Quem dá o banho? Como é o ambiente em que o idoso está? Há riscos de quedas? Muitos estarão pensando: em um país como o nosso, onde há milhões de pessoas com precárias condições de saneamento, assistência social, como garantir ou até mesmo pedir a familiares, também pobres e sem condições mínimas de qualidade de vida, para cuidarem, de forma correta, de seus idosos? AN02FREV001/REV 4.0 212 Realmente não é fácil, no entanto, há um elemento a mais nesta discussão, que é a existência de uma lei. Também sei que apenas o fato de ela existir não garante o seu cumprimento, mas se, como sociedade, não fizermos nosso papel, já estaremos “passando por cima” do primeiro preceito da lei, que é o compartilhamento de responsabilidades. Seu papel como profissional da Saúde da Família está exatamente aí: avaliando, prevenindo, diagnosticando e tratando doenças. Também levando às autoridades competentes condições e situações degradantes. Não apenas para punir, mas, sobretudo, para corrigir. O mundo não é perfeito, mas temos que fazer cumprir nosso papel. Por outro lado, a Saúde da Família, em nosso país, é vista com um viés quase que totalmente direcionado para comunidades carentes e necessitadas. Outro erro. Em países como o Canadá, o Reino Unido e os Estados Unidos, os médicos de família são profissionais que atendem diferentes tipos de pessoas e das mais diversas condições econômicas. No Canadá, por exemplo, o primeiro contato de todo paciente é sempre com o médico de família e não com o especialista. No artigo 4º da lei são estabelecidas as suas diretrizes, ou seja, o que precisa ser seguido. I – Viabilização de formas alternativas de participação, ocupação e convívio do idoso, que proporcionem sua integração às demais gerações. Comentário: esta é uma diretriz essencialmente relacionada à não discriminação e à integração do idoso. Quantos aposentados não poderiam contribuir em programas de voluntariado? O voluntariado ainda é pouco estimulado e desenvolvido no Brasil, embora tenham surgido diversas iniciativas nos últimos anos. II – Participação do idoso por meio de suas organizações representativas, na formulação, implementação e avaliação das políticas, planos, programas e projetos a serem desenvolvidos. Comentário: quem são as organizações representativas dos idosos? De que forma, na prática, eles podem de fato participar de planos, políticas, programas e projetos, sobretudo na formulação, implementação e avaliação? AN02FREV001/REV 4.0 213 III – Priorização do atendimento ao idoso por meio de suas próprias famílias, em detrimento do atendimento asilar, à exceção dos idosos que não possuam condições que garantam sua própria sobrevivência. Comentário: esta é uma questão diretamente relacionada à participação da família no cuidado do idoso. É com base nesta diretriz, sobretudo, que o profissional da Saúde da Família deve atuar. Os asilos devem ser a exceção, não a regra. Alguns planos de saúde já admitem o pagamento do cuidador de idoso, que pode ser inclusive parente, desde que não pertencente ao núcleo familiar direto. A figura do cuidador ainda é nova em nosso meio e há carência de muitos profissionais nesta área. IV – Descentralização político-administrativa. V – Capacitação e reciclagem dos recursos humanos nas áreas de Geriatria e Gerontologia e na prestação de serviços. Comentário: é enorme a necessidade de geriatras e gerontólogos em nosso país. Há, no entanto, poucos programas de formação, e não é fácil, mesmo para o profissional que já está atuando no mercado há vários anos, conseguir sua titulação. Nos Estados Unidos, por exemplo, o processo é bem mais simplificado, sem com isso diminuir a capacidade técnica de seus profissionais. Naquele país, a Geriatria é uma subespecialidade (no sentido de ser derivada) da Medicina Interna e não especialidade primária. Da mesma forma, há uma formação diferenciada para os enfermeiros geriátricos. VI – Implementação de sistema de informações que permita a divulgação da política, dos serviços oferecidos, dos planos, dos programas e dos projetos em cada nível de governo. Comentários: alguns programas foram de fato implementados, como o do “Viaje Mais”, do Ministério do Turismo, voltado para idosos, em que são oferecidos vários descontos e benefícios para quem quer viajar. Diversas leis estaduais e municipais já foram criadas e algumas “derrubadas”, como na questão do transporte interestadual, em que vagas seriam destinadas ao transporte gratuito de idosos. AN02FREV001/REV 4.0 214 VII – Estabelecimento de mecanismos que favoreçam a divulgação de informações de caráter educativo sobre os aspectos biopsicossociais do envelhecimento. Comentários: esta é uma diretriz que ainda precisa ser implementada. VIII – Priorização do atendimento ao idoso em órgãos públicos e privados prestadores de serviços, quando desabrigados e sem família. Comentários: a priorização dos idosos tem sido na maioria das vezes restrita a vagas preferenciais. IX – Apoio a estudos e pesquisas sobre as questões relativas ao envelhecimento. Comentários: este apoio ainda precisa ser anunciado e efetivado, pois, na prática, ainda não foi de fato implementado. Parágrafo único – É vedada a permanência de portadores de doenças que necessitem de assistência médica ou de enfermagem permanente em instituições asilares de caráter social. Comentários: há situações em que ocorre a necessidade de encaminhamento de idosos que padecem de doenças crônico-degenerativas, quando asfamílias não possuem condições de cuidar. Por outro lado, é grande a deficiência de centros especializados para esses cuidados. Ou são muito caros ou são asilos, que mais se parecem depositários de pessoas. Poucos, de fato, são acessíveis à boa parcela dos que requerem esses cuidados. Vimos a lei que discute a Política Nacional do Idoso, mas o que diz o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741 de 2003)? Da mesma forma que o faz a Política Nacional do Idoso, o Estatuto também compartilha responsabilidades, como disposto no art. 3º: Art. 3º É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. AN02FREV001/REV 4.0 215 No trecho citado, existe a palavra “prioridade”, ou seja, antes dos demais, ela é absoluta e não relativa, o que significa que não está sujeita a condições para ser aplicada. Naturalmente que não podemos entender que haja uma prioridade no direito à vida, pois este é inalienável e não comporta prioridades, já que ninguém abrirá mão de seu direito de viver em favor de outros. Assim, o entendimento que podemos dar para este artigo é que o idoso não pode ser tratado com discriminação. Ele não é um pária da sociedade e nem alguém a ser tratado em último lugar. Apesar disso, pacientes idosos, sem levar em consideração comorbidades, status socioeconômico e suporte social, recebem menos intervenções cardiovasculares intensivas e tratamento em geral que os pacientes mais jovens, apenas com base na idade. O legislador, para deixar claro de que tipo de prioridade ele se refere, assim definiu no art . 4º do Estatuto do Idoso: A garantia de prioridade compreende: I – atendimento preferencial imediato e individualizado junto aos órgãos públicos e privados prestadores de serviços à população; II – preferência na formulação e na execução de políticas sociais públicas específicas; III – destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção ao idoso; IV – viabilização de formas alternativas de participação, ocupação e convívio do idoso com as demais gerações; V – priorização do atendimento do idoso por sua própria família, em detrimento do atendimento asilar, exceto dos que não a possuam ou careçam de condições de manutenção da própria sobrevivência; VI – capacitação e reciclagem dos recursos humanos nas áreas de Geriatria e Gerontologia e na prestação de serviços aos idosos; VII – estabelecimento de mecanismos que favoreçam a divulgação de informações de caráter educativo sobre os aspectos biopsicossociais de envelhecimento; AN02FREV001/REV 4.0 216 VIII – garantia de acesso à rede de serviços de saúde e de assistência social locais; IX – prioridade no recebimento da restituição do Imposto de Renda. Comentário: ou seja, corrobora o que foi dito, com relação à “não discriminação”. Mais à frente, no art. 9º, assim estabelece: “[...] é obrigação do Estado garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade.” Fica claro, portanto, que o Estado tem a obrigação de agir no sentido de garantir a proteção da vida e da saúde do idoso, o que não exclui o dever ético, moral e social da sociedade e da família em atuarem no mesmo sentido. É, no entanto, o Capítulo V, que trata do Direito à Saúde do Idoso. CAPÍTULO IV Do Direito à Saúde Art. 15. É assegurada a atenção integral à saúde do idoso, por intermédio do Sistema Único de Saúde – SUS, garantindo-lhe o acesso universal e igualitário, em conjunto articulado e contínuo das ações e dos serviços, para a prevenção, promoção, proteção e recuperação da saúde, incluindo a atenção especial às doenças que afetam preferencialmente os idosos. § 1º A prevenção e a manutenção da saúde do idoso serão efetivadas por meio de: I – cadastramento da população idosa em base territorial; II – atendimento geriátrico e gerontológico em ambulatórios; III – unidades geriátricas de referência, com pessoal especializado nas áreas de Geriatria e Gerontologia social; IV – atendimento domiciliar, incluindo internação, para a população que dele necessitar e esteja impossibilitada de se locomover, inclusive para idosos abrigados e acolhidos por instituições públicas, filantrópicas ou sem fins lucrativos e eventualmente conveniadas com o Poder Público, nos meios urbano e rural; AN02FREV001/REV 4.0 217 V – reabilitação orientada pela Geriatria e Gerontologia, para redução das sequelas decorrentes do agravo da saúde. Comentário: este é um exemplo típico da teoria distante da prática. O atendimento geriátrico e gerontológico está distante da população como um todo. Há poucos serviços do gênero no país e os existentes estão lotados. É comum a marcação de retorno para meses, o que inviabiliza qualquer tipo de tratamento continuado, com sério prejuízo ao idoso, sobretudo no acompanhamento e tratamento dos distúrbios neuropsiquiátricos. A titulação na área é pouco estimulada e o concurso para novos especialistas, extremamente dificultado, o que agrava a crise no setor. O atendimento domiciliar muitas vezes é o que resta ao idoso, já que a existência de vagas em unidades hospitalares é cada vez mais restrita. Se por um lado, o atendimento domiciliar deve ser estimulado, dada suas vantagens em diversos aspectos, também é verdade que, mesmo nos casos onde a internação se impõe como condição fundamental para o tratamento, ela é dificultada ou mesmo impossível de ser realizada. § 2º Incumbe ao Poder Público fornecer aos idosos, gratuitamente, medicamentos, especialmente os de uso continuado, assim como próteses, órteses e outros recursos relativos a tratamento, habilitação ou reabilitação. Comentário: a distribuição de medicamentos de uso continuado, embora seja uma obrigação do Estado, é descumprida de forma sistemática, sendo frequente a sua falta para distribuição. O mesmo deve ser dito com relação a próteses, órteses e outros recursos. § 3º É vedada a discriminação do idoso nos planos de saúde pela cobrança de valores diferenciados em razão da idade. Comentário: praticamente todos os planos de saúde aplicam valores diferenciados de acordo com a idade do segurado, em flagrante desrespeito a esta norma. § 4º Os idosos portadores de deficiência ou com limitação incapacitante terão atendimento especializado, nos termos da lei. AN02FREV001/REV 4.0 218 Art. 16. Ao idoso internado ou em observação é assegurado o direito a acompanhante, devendo o órgão de saúde proporcionar as condições adequadas para a sua permanência em tempo integral, segundo o critério médico. Parágrafo único. Caberá ao profissional da saúde responsável pelo tratamento conceder autorização para o acompanhamento do idoso ou, no caso de impossibilidade, justificá-la por escrito. Art. 17. Ao idoso que esteja no domínio de suas faculdades mentais é assegurado o direito de optar pelo tratamento de saúde que lhe for reputado mais favorável. Parágrafo único. Não estando o idoso em condições de proceder à opção, esta será feita: I – pelo curador, quando o idoso for interditado; II – pelos familiares, quando o idoso não tiver curador ou este não puder ser contactado em tempo hábil; III – pelo médico, quando ocorrer iminente risco de morte e não houver tempo hábil para consulta a curador ou familiar; IV – pelo próprio médico, quando não houver curador ou familiar conhecido, caso em que deverá comunicar o fato ao Ministério Público. Art. 18. As instituições de saúde devem atender aos critérios mínimos para o atendimento às necessidadesdo idoso, promovendo o treinamento e a capacitação dos profissionais, assim como orientação a cuidadores familiares e grupos de autoajuda. Art. 19. Os casos de suspeita ou confirmação de maus tratos contra idoso serão obrigatoriamente comunicados pelos profissionais da saúde a quaisquer dos seguintes órgãos: I – Autoridade policial; II – Ministério Público; III – Conselho Municipal do Idoso; IV – Conselho Estadual do Idoso; V – Conselho Nacional do Idoso. Comentário: Aqui, fica claro que os profissionais da saúde, o que inclui os envolvidos na Saúde da Família, devem denunciar os casos de suspeita ou confirmação de maus tratos, o que é muitas vezes negligenciado. AN02FREV001/REV 4.0 219 19.2 ACESSO AO IDOSO Antes de falarmos do acesso ao idoso, é importante registrarmos o conceito de Avaliação Geriátrica Ampla. O termo Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) começou a ser utilizado no Reino Unido, no final da década de 1930, e, posteriormente, difundiu-se de forma que conceito, parâmetros e indicações foram motivos para inúmeras publicações em revistas especializadas. Os primeiros artigos sobre a necessidade e a importância de uma avaliação geriátrica especializada foram publicados pela médica britânica Marjory Warren, considerada a mãe da Geriatria. Em 1936, ela assumiu a chefia de um grande hospital londrino com pacientes crônicos, imobilizados e negligenciados, que não tinham recebido um diagnóstico médico apropriado e muito menos encaminhados para reabilitação. Acreditava-se que eles deveriam permanecer na instituição pelo resto de suas vidas. Bons cuidados de enfermagem mantinham os pacientes vivos, mas a falta de diagnóstico e a reabilitação mantinham-nos incapacitados. A doutora Warren avaliou sistematicamente cada um dos pacientes e iniciou a reabilitação de todos eles, com isso, conseguiu que a maioria deles deixasse de ser imobilizada e muitos receberam alta do hospital. Como resultado de seu trabalho, ela passou a ser reconhecida como geriatra e passou a advogar que todo idoso deveria receber uma Avaliação Geriátrica Ampla, com o objetivo de se planejar a reabilitação antes de ser encaminhado para uma instituição de longa permanência. A AGA é sempre multidimensional, frequentemente interdisciplinar e tem por objetivo determinar deficiências, incapacidades e desvantagens apresentadas pelo idoso, objetivando o planejamento do cuidado e o acompanhamento a longo prazo. Ela difere do exame clínico padrão por enfatizar a avaliação da capacidade funcional e da qualidade de vida e por basear-se em escalas e testes quantitativos. A AGA permite uma avaliação multifuncional do idoso, de tal forma a se verificar diferentes capacidades que podem estar comprometidas e que em uma consulta médica convencional poderiam ser ignoradas ou subavaliadas. AN02FREV001/REV 4.0 220 A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) apresenta, de forma bastante didática, este tema, que pode ser encontrado em: <www.sbgg.org.br>. De que forma fazemos o acesso ao paciente idoso? TABELA 12 FONTE: Adaptada da American Geriatric Society. A abordagem do idoso deve permitir a seguinte avaliação: condições físicas e clínicas (existência de doença?); capacidade funcional; capacidade cognitiva. Ao realizar a avaliação do idoso, alguns cuidados são importantes para evitar interferências e obter uma boa comunicação e relação profissional nesta abordagem. Tais como: utilize uma cama ou colchão em que o paciente possa deitar-se de forma adequada; evite luz de fundo; diminua ruídos ambientes; evite interrupções; apresente-se ao paciente e diga que você está lá para ajudá-lo; chame o paciente pelo nome (sempre usando senhor ou senhora antes do nome); AN02FREV001/REV 4.0 221 mantenha uma atitude de respeito e um linguajar adequado, respeitando a cultura local e o grau de instrução do paciente; olhe diretamente para os olhos do paciente; sente-se na mesma altura dos olhos dele; fale devagar e em tom adequado; respeite a forma e a velocidade da fala do paciente; não tente falar por ele e nem permita que outras pessoas o façam, a menos que ele não consiga se comunicar; pergunte sobre a audição, o volume que costuma usar para assistir televisão, por exemplo. Use um diapasão para testar a audição, se possível; seja paciente ao receber as respostas às suas perguntas; não minimize as queixas do paciente; não credite sinais e sintomas apenas ao envelhecimento. 19.3 ANAMNESE Na anamnese do idoso, as questões devem ser dirigidas. É importante saber o que mais o incomoda, desde quando surgiu esse incômodo e procurar explorar melhor as suas características. Não faz qualquer sentido, no entanto, questões comuns em outras faixas etárias, como condições de parto, por exemplo. Questione sobre hábitos, como tabagismo, etilismo, uso de drogas e sexualidade, sempre de forma respeitosa e sem emitir juízo de valor. Pergunte sobre o funcionamento intestinal e urinário. Sobretudo no homem, investigue possíveis disúria noctúria ou nictúria, poliúria e qualquer alteração na intensidade, quantidade e características da urina. Ao questionar a um paciente se dorme bem, ele pode dizer que dorme pouco e acorda várias vezes à noite. Se sua investigação terminar por aí, é possível que ele acabe recebendo prescrição de um hipnótico, um benzodiazepínico ou um antidepressivo. Se a investigação prosseguir, no entanto, você poderia descobrir que ele acorda várias vezes, porque precisa urinar e que a urina sai com dificuldade. Aprofundando a investigação, é possível que este paciente tenha uma hiperplasia AN02FREV001/REV 4.0 222 prostática benigna ou mesmo um câncer de próstata. Observe como é importante a correta avaliação dos sintomas apresentados. Outra possibilidade. Uma paciente queixa-se de incontinência urinária e você imediatamente pensa, como primeira possibilidade, em uma infecção urinária. No entanto, a examina sentada e não se lembra de perguntar sobre a marcha. Se tivesse perguntado, talvez recebesse a informação que não apenas a marcha estava alterada, como também havia algum grau de dificuldade cognitiva. Esses sinais ou sintomas poderiam ajudá-lo a diagnosticar ou suspeitar de uma hidrocefalia de pressão normal, que deve ser tratada o quanto antes. 19.4 EXAME FÍSICO Deve começar pela avaliação da marcha, se o paciente vem caminhando. Como ele está vestido? A roupa está combinando ou existe claramente uma completa dissociação (exagero de cores, extravagância, que pode estar aumentada na mania ou na hipomania)? O paciente parece estar limpo, os cabelos estão penteados, há uma preocupação em apresentar-se de forma adequada? Forma adequada não significa usar roupas caras, mas uma preocupação com a autoimagem, que pode estar rebaixada na depressão, por exemplo. Como está a pele do paciente? Está hidratada, tem sinais que possam indicar um câncer de pele? As lesões suspeitas são aquelas que apresentam os seguintes sinais (ABCDE). A – Assimetria: Lesão simétrica (normal); lesão assimétrica (suspeita). B – Bordas: Regulares (normal); irregulares (suspeita). C – Cor: Uma cor apenas (normal); variações de cor (suspeita). D – Diâmetro: Qualquer lesão mais larga que a borracha da ponta de um lápis (>6mm) deve ser suspeita. AN02FREV001/REV 4.0 223 E – Elevação: Lesões elevadas são consideradas suspeitas. Qualquer sinal que tenha apresentado mudança na cor, no tamanho, no aspecto, nas características em geral deve ser avaliado. Nem todo sinal suspeito é um câncer, mas todos devem ser avaliados. O melanoma é um câncer extremamente agressivo e pode levar à morte. Há outros tipos de câncer de pele (basocelular, espinocelular) que são menos agressivos, mas também devemser avaliados. As taxas de sobrevida média nos casos de melanoma de extremidades, em 5 e 10 anos, foram de 80,3% e 67,5% respectivamente. Nos negros, a taxa de sobrevivência em 5 e 10 anos foi menor (77,2% e 71,5%) que nos indivíduos caucasianos ou brancos hispânicos’, explica o Dr Aldo Toschi, conselheiro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica e coordenador de Dermatologia do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer. Os brancos hispânicos (72.8% e 57.3%) e asiáticos (70, 2% e 54,1%) também evoluem pior que as pessoas de pele clara e têm piores taxas em períodos de 5 e 10 anos, respectivamente. (SBCD, 2010, s. p.). Segundo a mesma notícia, [...] os negros representam 10% dos casos de melanoma; a localização mais comum é nas extremidades das mãos, região plantar e sob as unhas. Os primeiros sinais surgem com manchas que progridem até 2 a 3 cm, de cor castanho-enegrecida e bordas irregulares. O período de evolução é de aproximadamente 2 anos e meio quando surgem elevações e nódulos. O maior problema nos melanomas é a falta do diagnóstico precoce; uma vez que não existe tratamento radio, quimio ou imunoterápico eficiente. A cirurgia feita de modo correto e precoce é ainda o melhor tratamento. (SBCD, 2010, s. p.). A avaliação seguinte é a dos aparelhos circulatório, respiratório, abdominal, não se esquecendo de observar e buscar informações como edema, ferimentos plantares (sobretudo em diabéticos) e, sempre que possível, uma otoscopia e um exame de fundo de olho. A pressão arterial deve ser medida com o paciente deitado e em pé, em busca de hipotensão ortostática. O exame físico deve ser completado por outros exames: avaliação do status funcional; nutrição; audição; visão. AN02FREV001/REV 4.0 224 19.5 AVALIAÇÃO DO STATUS FUNCIONAL Atividades diárias – tomar banho, vestir-se, ir ao banheiro para suas necessidades básicas, alimentar-se, cuidar da aparência; Atividades diárias instrumentais – usar o telefone, preparar comidas, administrar as finanças, tomar medicações, lavar roupas, fazer compras, pegar o sistema de transporte etc.; Teste de “energia” – marcha, balanço, qualidade de vida. 19.6 AVALIAÇÃO NUTRICIONAL Busque sinais de subnutrição ou de deficiências nutricionais; Faça uma inspeção visual; Faça avaliação da massa corporal (IMC) que é igual ao peso dividido pela altura ao quadrado. Valores abaixo de 20 kg/m2 são preocupantes; Perdas de peso inexplicadas devem ser investigadas; Má nutrição pode estar associada a várias doenças, como depressão, câncer, disfunção de mastigação, entre outras. 19.7 AVALIAÇÃO DA VISÃO Há diversas patologias que podem estar presentes independentemente do envelhecimento natural. Devem ser objeto de investigação e avaliação, situações como catarata, glaucoma, degeneração macular, entre outras. A catarata, por exemplo, é uma condição que, ao ser corrigida, traz inúmeros benefícios e agrega qualidade de vida ao paciente. AN02FREV001/REV 4.0 225 No processo de investigação de sinais e sintomas, pergunte como está a visão do paciente. Se ele possui dificuldades para ler, para ver televisão, se houve mudanças recentes, se ele enxerga melhor de perto ou de longe e não deixe de fazer uma avaliação, ainda que simples, do campo visual. Isso é muito importante, pois a diminuição da campimetria pode estar associada a outros distúrbios e sob o ponto de vista prático para a vida do paciente, ele deve estar ciente de sua condição, pois, ao atravessar ruas, poderá não perceber a aproximação de carros. Ao avaliar o paciente, se ele for alfabetizado, peça para que ele leia alguma coisa, comparando a visão de um olho com o outro. Se não, peça para ver objetos, comparando também a visão dos olhos. A avaliação com o uso de Cartão de Snellen ou de Jaeger também pode ser utilizada para este fim. FIGURA 26 - CARTÃO DE SNELLEN FONTE: Arquivo pessoal do autor. AN02FREV001/REV 4.0 226 19.8 AVALIAÇÃO DA AUDIÇÃO Como está a audição do paciente? Há dificuldade na compreensão? Ele inclina-se para ouvi-lo? Em que volume ele assiste à televisão? As pessoas precisam repetir as frases para que ele possa compreendê-las? A diminuição da audição é comum entre idosos. Há, no entanto, causas outras que devem ser investigadas. Um exame com otoscópio pode mostrar, por exemplo, que há um tampão de cera, dificultando a audição. Antes de dizermos que a perda é apenas decorrente da idade, devemos estar atentos para algumas questões: Quando começou a ficar mais evidente? A perda é progressiva? Atinge apenas um dos ouvidos? Houve algum fato relacionado à perda auditiva? Como a perda é percebida? A otoscopia é normal? Um teste simples com diapasão foi realizado e a audição comparada? Sempre que possível, uma audiometria deve complementar a avaliação com parecer do fonoaudiólogo e do otorrino. A perda de 40 dB (tonal) em 1000 ou 2000 Hz em um ou ambos os ouvidos é anormal. 19.9 AVALIAÇÃO COGNITIVA O envelhecimento cerebral é fato e, como decorrência, algumas atividades podem estar comprometidas. No entanto, nem todo esquecimento significa demência. Por outro lado, nem todo esquecimento deve receber o diagnóstico de envelhecimento cerebral, sem uma avaliação mais criteriosa. AN02FREV001/REV 4.0 227 De acordo com a Sociedade Americana de Geriatria, 10% dos pacientes com mais de 65 anos e cerca de 50% daqueles com mais de 85 anos apresentam quadro de Alzheimer. Muitos pacientes com quadro demencial, no início, não possuem queixas expressivas de perda de memória. Os pacientes com comprometimento do estado cognitivo possuem risco aumentado para acidentes, bem como baixo desempenho nas atividades diárias e no uso de medicações. A avaliação consiste na utilização do teste de Minimental de Folstein. Trata-se de teste amplamente e facilmente utilizado, em que é possível verificar diferentes aspectos cognitivos. Não é, contudo, diagnóstico para um tipo específico de quadro demencial, embora possa ser utilizado para se fazer um estudo comparativo ao longo do tempo. Nos casos não diagnosticados de demência, diante de alteração importante no resultado do Minimental, o paciente preferencialmente deve ser avaliado por psicólogo, geriatra e/ou neurologista, para confirmação diagnóstica e conduta. Além do Minimental, outros exames devem ser realizados, como o do desenho do relógio. É importante nos lembrarmos de que muitas vezes um diagnóstico de depressão pode ser confundido com um quadro demencial. Nem sempre a depressão se manifesta de forma clássica, e a chamada depressão “subclínica” pode estar presente. Por trás de adinamia, perda de apetite, irritação e esquecimento pode haver um quadro de depressão. Não confundir, no entanto, tristeza com depressão também é importante. Para facilitar o diagnóstico do quadro depressivo em idosos, a chamada Escala de Depressão Geriátrica é um bom instrumento. Na versão de 30 itens, uma pontuação maior que 10 indica um quadro depressivo, em que cada resposta em negrito vale um ponto e, diferente do negrito não pontua. AN02FREV001/REV 4.0 228 ESCALA GERIÁTRICA DE DEPRESSÃO (Yesavage, 1983) PACIENTE: __________________________________________________________________ DATA DA AVALIAÇÃO: __________________________ AVALIADOR: __________________________________ 1) Você está satisfeito com sua vida? ( ) Sim ( ) Não 2) Abandonou muitos de seus interesses e atividades? ( ) Sim ( ) Não 3) Sente que sua vida está vazia? ( ) Sim ( ) Não 4) Sente-se frequentemente aborrecido? ( ) Sim ( ) Não 5) Você tem muita fé no futuro? ( ) Sim ( ) Não 6) Tem pensamentos negativos? ( ) Sim ( ) Não 7) Na maioria do tempo está de bom humor? ( ) Sim () Não 8) Tem medo de que algo de mal vá lhe acontecer? ( ) Sim ( ) Não 9) Sente-se feliz na maioria do tempo? ( ) Sim ( ) Não 10) Sente-se frequentemente desamparado, adoentado? ( ) Sim ( ) Não 11) Sente-se frequentemente intranquilo? ( ) Sim ( ) Não 12) Prefere ficar em casa em vez de sair? ( ) Sim ( ) Não 13) Preocupa-se muito com o futuro? ( ) Sim ( ) Não 14) Acha que tem mais problema de memória que os outros? ( ) Sim ( ) Não 15) Acha bom estar vivo? ( ) Sim ( ) Não 16) Fica frequentemente triste? ( ) Sim ( ) Não 17) Sente-se inútil? ( ) Sim ( ) Não 18) Preocupa-se muito com o passado? ( ) Sim ( ) Não 19) Acha a vida muito interessante? ( ) Sim ( ) Não 20) Para você é difícil começar novos projetos? ( ) Sim ( ) Não 21) Sente-se cheio de energia? ( ) Sim ( ) Não 22) Sente-se sem esperança? ( ) Sim ( ) Não 23) Acha que os outros têm mais sorte que você? ( ) Sim ( ) Não AN02FREV001/REV 4.0 229 24) Preocupa-se com coisas sem importância? ( ) Sim ( ) Não 25) Sente frequentemente vontade de chorar? ( ) Sim ( ) Não 26) É difícil para você se concentrar? ( ) Sim ( ) Não 27) Sente-se bem ao despertar? ( ) Sim ( ) Não 28) Prefere evitar as reuniões sociais? ( ) Sim ( ) Não 29) É fácil para você tomar decisões? ( ) Sim ( ) Não 30) O seu raciocínio está tão claro quanto antigamente? ( ) Sim ( ) Não 19.10 AVALIAÇÃO SOCIAL Como o idoso (neste contexto, estamos usando a palavra no masculino, como está na lei, mas emprega-se para ambos os gêneros) está inserido no aspecto social e nas atividades diárias? Ele consegue realizar as atividades básicas diárias sozinho? Sob o ponto de vista financeiro, consegue se manter? Tem atividades de lazer? Tem amigos? Os familiares o visitam com regularidade ou ele mora com a família? É casado(a)? Tem um(a) companheiro(a)? Namora? Tem filhos? Tem netos? Como é a relação com a família? Trabalha? Possui um cuidador? Quem é? Dirige (o número de acidentes envolvendo idosos é maior do que todas as demais faixas etárias, com exceção da faixa de 16-24 anos, segundo a Sociedade Americana de Geriatria)? 20 ABORDAGEM DA CRIANÇA E PROBLEMAS MAIS COMUNS A prevenção de problemas com a criança tem início muito antes do nascimento. É a partir da gravidez que os primeiros cuidados devem ser adotados. Gravidez não é doença. Nós todos sabemos disso, no entanto, há uma série de modificações fisiológicas na gestante que não podem ser ignoradas e que merecem atenção, tanto para prevenir problemas com a futura mãe, quanto para o filho que se está esperando. AN02FREV001/REV 4.0 230 É nesse contexto que surgiram os programas de pré-natal. Tão importantes e infelizmente não acessíveis a todas as gestantes. É o momento em que é possível avaliar as condições de saúde da gestante, verificar sua imunidade, doenças preexistentes e em atividade, bem como detectar problemas nutricionais e oferecer a melhor assistência possível para que a gestação possa seguir seu curso de forma natural e saudável. Os profissionais de Saúde da Família não podem perder a oportunidade de abordar as gestantes, com uma perspectiva de atuação positiva para a saúde da futura mãe, mas também da criança esperada. Em que contexto essa criança está sendo gerada? É uma gravidez desejada? A gestante é adolescente? O pai da criança está presente (não apenas fisicamente, mas sob o ponto de vista emocional)? Qual a realidade socioeconômica dessa família? A gestante usa algum medicamento, drogas, álcool? É tabagista? Com que frequência? Qual a realidade socioeconômica da futura mãe? Como é a vizinhança? A que perigos e riscos naturais e ambientais a gestante e a futura criança estão inseridas? Os profissionais de Saúde da Família possuem grande vantagem sobre os que trabalham apenas em postos de saúde ou hospitais neste aspecto, uma vez que podem observar diretamente a realidade da futura mãe e de seu filho. Muitas vezes, a gestante omite determinadas situações, com vergonha das condições socioeconômicas em que vive. Outras vezes, pode ser que para ela, as condições estejam adequadas, pois está comparando a situação em que vive, com os demais da rua ou mesmo usando como parâmetro o conforto. Mas como é o saneamento básico da casa em que mora? Como está a sua alimentação? Ela trabalha? Em qual jornada? Como ela faz para ir ao trabalho? Poderíamos fazer muitas outras perguntas. O importante é que percebamos que, como profissionais de Saúde da Família, há muito a ser feito nesta avaliação, incluindo as orientações de pré-natal. Esta não é uma ação exclusiva de ginecologistas, como também o acompanhamento da criança não é exclusividade do pediatra, embora sejam profissionais importantíssimos nestas ações. No entanto, quantas comunidades em nosso país sequer possuem médico? Como esperar que apenas especialistas possam atuar? Diante de tantas questões que podem afetar de forma negativa uma gestação, podendo até mesmo provocar a morte da gestante e do neonatal, o AN02FREV001/REV 4.0 231 Governo Federal lançou o chamado “Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal”. Segundo estudos do Ministério da Saúde que fundamentam este pacto, as principais causas de mortalidade materna são: hipertensão arterial; hemorragias; complicações por aborto; infecções puerperais. A saúde da mulher será foco de nossa atenção posteriormente, mas não podemos deixar de comentar a importância da assistência pré-natal para a prevenção e o diagnóstico precoce de doenças que podem levar às condições mencionadas, como hemorragias e o controle da pressão arterial – que deve ser feita por todo profissional de enfermagem e médicos. Segundo pesquisa nacional coordenada pelo professor Ruy Laurenti, Universidade de São Paulo (USP)/Ministério da Saúde, em 2002, houve 2.321 óbitos maternos (números absolutos). Com relação à mortalidade neonatal, as principais causas elencadas foram: problemas respiratórios e circulatórios; prematuridade e baixo peso; infecções perinatais; hemorragias. Segundo o mesmo estudo, em 2002, houve 38.570 óbitos neonatais, ou seja, quase 40 mil “brasileirinhos” que não puderam ter a oportunidade de brincar e crescer, como tantos outros. Como principais determinantes para estes números, foram apresentados: oferta insuficiente de profissionais capacitados para atuar na atenção obstétrica e neonatal; reconhecimento restrito da magnitude da questão enquanto problema de Saúde Pública; precárias condições socioeconômicas da população; baixa escolaridade (60% das mulheres não concluíram o Ensino Fundamental). AN02FREV001/REV 4.0 232 De que forma as condições socioeconômicas da população impactam nestes números? Por quê? O que a baixa escolaridade tem em comum com a mortalidade materna e neonatal? Nesta pesquisa, foi evidenciado que a Região Nordeste compreende a maior taxa de mulheres com menos de um ano de estudo (23,04%). De que forma essa taxa pode ser relacionada aos altos índices de mortalidade infantil na região? Uma das causas importantes de mortalidade materna é a eclampsia, caracterizada por hipertensão arterial, proteinúria e manifestações neurológicas, como a convulsão. De acordo com este pacto em trabalho publicado pela conceituada revista Lancet, em 1995 (The Eclampsia Trial), e, em 2002 (Magpie Collaborative Group. Do women with pre-eclampsia, and their babies, benefit from magnesium sulphate?), “o tratamento de eclampsia com o uso de Sulfato de Magnésio – 1g endovenosa por hora durante 24 horas em gestantes no anteparto com PA de 140x90 mmhg e proteinúria de + reduz em 70% a incidência de eclampsia”, com custo diário de cinco reais. Um valor muito baixo, para um benefício tão grande. Naturalmente, que nenhum tratamento é “receita de bolo” e há semprecondições clínicas que devem ser avaliadas e este é um tratamento que apenas pode ser utilizado por médicos, já que requer o diagnóstico e a prescrição de medicamentos, mas o que está acontecendo na opinião de vocês? Não há medicamento disponível? O tratamento não é de conhecimento de todos os médicos, ficando restrito apenas aos especialistas? De que forma o Ministério da Saúde pode e deve mudar esta situação? Falamos da importância do pré-natal, mas em que consiste de fato essa assistência e por que ela é importante para a criança? De acordo com as diretrizes de Assistência Pré-Natal da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia, “talvez o principal indicador do prognóstico ao nascimento seja o acesso à assistência pré-natal”. Segundo o mesmo texto, “as consultas devem ser mensais até a 28ª semana, quinzenais entre 28 e 36 semanas e semanais no termo”. De acordo com a diretriz, já na primeira consulta, as seguintes informações devem ser obtidas na anamnese. data da última menstruação; regularidade dos ciclos; AN02FREV001/REV 4.0 233 uso de anticoncepcionais; número de filhos; intercorrências clínicas, obstétricas e cirúrgicas; detalhes de gestações prévias; hospitalizações anteriores e exames de pré-natal realizados (em outras gestações); uso de medicações; história prévia de doença sexualmente transmissível; exposição ambiental ou ocupacional de risco; reações alérgicas; história pessoal ou familiar de doenças hereditárias/malformações; gemelaridade anterior; fatores socioeconômicos; atividade sexual; uso de tabaco, álcool ou outras drogas lícitas ou ilícitas; história infecciosa prévia; vacinações prévias; história de violências. Alguns exames dos solicitados acima estão diretamente relacionados à saúde da mãe, mas e com relação à saúde da criança? O histórico de doença sexualmente transmissível diz respeito apenas à saúde da mãe? O que pode acontecer com um feto cuja mãe esteja com sífilis em atividade? E com AIDS? Exames complementares e uma boa avaliação biométrica e clínica da gestante são fundamentais. Para avançarmos em nossos estudos, vamos conceituar Mortalidade Infantil nos próximos tópicos. AN02FREV001/REV 4.0 234 20.1 TAXA DE MORTALIDADE INFANTIL É o quociente entre os óbitos de menores de um ano ocorridos em uma determinada unidade geográfica e o período de tempo, e os nascidos vivos da mesma unidade nesse período, segundo a fórmula: Taxa de Mortalidade Infantil = (óbitos de menores de um ano/nascidos vivos) x 1.000 Nota: a maior variabilidade nas taxas, em alguns municípios, pode decorrer do número reduzido de nascidos vivos e óbitos de menores de um ano, ocorridos em cada período considerado. Observação: essa taxa é, em geral, multiplicada por mil para facilitar a leitura e permitir comparação internacional. GRÁFICO 4 - EVOLUÇÃO DA MORTALIDADE INFANTIL FONTE: Disponível em: <http://www.seade.gov.br/index.php>. Acesso em: 28 fev. 2010. Que podemos aferir deste quadro? A situação está melhorando em quais aspectos? AN02FREV001/REV 4.0 235 Onde está piorando? Que fatores são os mais importantes causadores da mortalidade infantil? TABELA 13 - TAXA DE MORTALIDADE INFANTIL DO BRASIL SEGUNDO REGIÕES E COMPARAÇÃO COM ALGUNS PAÍSES EM 2003 Brasil Norte – 26,2 Nordeste – 35,5 Sudeste – 15,6 Sul – 15,8 Centro-Oeste – 18,7 23,6 Argentina 16,5 Chile 7,8 México 19,7 Peru 33,4 FONTE: Arquivo pessoal do autor. Observem esta afirmação do Ministério da Saúde (Ministério da Saúde): Estudo produzido pelo Ministério da Saúde e publicado em 2006 (Macinko et al.) mostrou que o Programa de Saúde da Família (PSF) teve impacto significativo na queda da mortalidade infantil no Brasil, no período de 1991 a 2002. Para cada aumento de 10% da cobertura do PSF a mortalidade infantil caiu 4,5%. A cobertura média do PSF, nos municípios, em 2004, foi de 62,3%, em 2002 foi de 54,8%. Aumentou 10% em dois anos, concentrando-se nos municípios com menor renda, onde a mortalidade infantil apresenta índices mais elevados. Apesar da queda grande no período, a mortalidade infantil ainda é alta se comparada a outros países. De que forma o PSF teve um impacto tão positivo na redução da mortalidade infantil? Por que ainda persistem as diferenças regionais? Para reduzir esta mortalidade, sobretudo na Amazônia e na região Nordeste, o Ministério da Saúde fez o chamado “Pacto pela Redução da Mortalidade Infantil AN02FREV001/REV 4.0 236 Nordeste–Amazônia Legal”. Em que consiste este pacto? Em um compromisso mais amplo, voltado para as seguintes ações. redução do analfabetismo; redução da mortalidade infantil; erradicação do sub-registro civil; fortalecimento da agricultura familiar. O Ministério da Saúde estabeleceu a seguinte meta para erradicação da mortalidade infantil: GRÁFICO 5 - META PARA ERRADICAÇÃO DA MORTALIDADE INFANTIL FONTE: Arquivo pessoal do autor. AN02FREV001/REV 4.0 237 20.2 ALEITAMENTO MATERNO FIGURA 27 - ALEITAMENTO MATERNO FONTE: Disponível em: <www.maringa.pr.gov.br>. Acesso em: 29 fev. 2010. O aleitamento materno, com frequência, é pouco valorizado. Todos que já trabalharam com recém-nascidos já ouviram sobre mães que deixaram de amamentar porque o “leite havia secado”, que era “muito ralo” ou que o leite materno “não sustenta ninguém”, dentre tantas outras coisas. Muitas então passaram a alimentar seus filhos com leite de vaca. Este leite não é bom? Claro que é, mas para amamentar bezerros. O que está por trás de muitos mitos são técnicas e formas inadequadas de amamentar. Geralmente, as mães que informam que o “leite é fraco” não percebem ou não sabem verificar que a criança está sugando de forma inadequada e, por esta razão, vive insatisfeita. Quanto melhor e mais eficiente a sucção, mais leite é produzido. Não há um estoque de leite que a criança tenha de utilizar aos poucos. Infelizmente, ainda há AN02FREV001/REV 4.0 238 muitos mitos sobre o tema, como, por exemplo, o de que cerveja aumenta a produção de leite. Nada mais absurdo. A Organização Pan-Americana de Saúde editou em conjunto com o Ministério da Saúde o “Guia Alimentar para Crianças Menores de dois anos”. A amamentação é vantajosa sob todos os aspectos. Permite um maior contato da mãe com o filho, é um alimento completo para a criança, além de atuar positivamente no sistema imune da criança. Poucas são as situações em que a amamentação seria contraindicada – algumas doenças que poderiam ser transmitidas para a criança, pela mãe contaminada, bem como em alguns casos, onde a mãe tenha que tomar determinados medicamentos, com risco de atuarem de forma importante na criança. Estas condições devem ser conhecidas e avaliadas pelo pediatra. Em 2002, durante a Assembleia Mundial de Saúde, os países-membros da OMS foram signatários da Estratégia Mundial para Alimentação do Lactente e da Criança Pequena, com vistas a “revitalizar esforços para promover, proteger e dar apoio apropriado à alimentação de lactantes e crianças pequenas” (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE, 2003). A estratégia está baseada nos seguintes princípios: todos os governos devem desenvolver e implementar uma ampla política sobre alimentação do lactente e da criança pequena, no contexto de suas políticas nacionais de nutrição, de saúde reprodutiva, para a criança e para redução da pobreza; todas as mães devem ter acesso à assistência profissional e técnica para iniciar e manter a amamentação exclusiva nos primeiros seis meses da criança e para assegurar a introdução, no período correto, de alimentação complementar adequada e segura, juntamentecom a amamentação até os dois anos de idade ou mais; os profissionais de saúde devem ser capacitados para fornecer aconselhamento adequado sobre amamentação e tais serviços devem ser estendidos às comunidades por meio de treinamento de assistentes; os governos devem rever os progressos obtidos com a implementação, em nível nacional, do Código Internacional do Mercado de Substitutos do Leite Materno, e considerar a necessidade de novas leis e medidas AN02FREV001/REV 4.0 239 adicionais destinadas a proteger as famílias da influência da propaganda destes produtos; os governos devem adotar leis que protegem os direitos das mulheres trabalhadoras de amamentar e estabelecer meios para que esse direito seja reforçado. De acordo com o Banco de Dados sobre Amamentação da Organização Mundial de Saúde, apesar do reconhecimento geral das vantagens do leite materno sobre o artificial, mesmo em países industrializados, as taxas de amamentação, no geral, são baixas e só agora começam a melhorar, como é o caso da França, Itália, Holanda, Espanha, Suíça e Reino Unido. Na Suécia, uma exceção: 98% dos bebês, em 1990, tinham mamado em algum momento de suas vidas. Progressos nas taxas de alimentação exclusiva com leite materno até os quatro meses foram obtidos: na Polônia, que passou de 1,5%, em 1988, para 17%, em 1995; Suécia, de 55%, em 1992, para 61%, em 1993; e Armênia, de 0,7%, em 1993, para 20.8%, em 1997. Os dados para a Região das Américas indicam que a porcentagem de crianças que chegaram a mamar em algum momento é alta em alguns países: Chile, 97%, em 1993; Colômbia, 95%, em 1995; e Equador, 96%, em 1994. Por outro lado, as taxas de amamentação exclusiva até os quatro meses, ainda que altas se comparadas com outras regiões, são mais modestas e estão caindo: na Bolívia, 59%, em 1989, e 53%, em 1994; Colômbia, 19%, em 1993, e 16%, em 1995; República Dominicana, 14%, em 1986, e 10%, em 1991. O profissional de Saúde da Família tem importância fundamental no aleitamento materno ao atuar nas seguintes questões: orientar a “mãe” com relação aos benefícios da amamentação, incentivando-a a alimentar seu filho desta forma, ensinando as técnicas de amamentação e os cuidados com os seios, com vistas à prevenção de mastites. Muitas mães acabam deixando de amamentar seus filhos, dado a dor de mamas inflamadas ou em decorrência de infecções, muitas vezes, importantes. É essencial que os bicos dos seios estejam sempre secos após a amamentação; identificar mastites e outras situações que requeiram avaliação especializada com vistas à saúde materna, e minimizar a possibilidade de abandono precoce da amamentação; AN02FREV001/REV 4.0 240 avaliar os casos em que a amamentação está contraindicada, dado o risco de transmissão de doenças da mãe para o filho ou em decorrência de uso de determinados medicamentos; atuar de forma multidisciplinar e com foco na saúde da criança e da mãe. 20.3 ACIDENTES NA INFÂNCIA A prevenção de acidentes é de fundamental importância em todas as faixas etárias da população, mas quando nos referimos a crianças, o cuidado deve ser mais do que redobrado. Por uma questão muito simples: as crianças, principalmente as menores, não têm a noção do perigo. Não sabem os riscos a que estão expostas. E os pais, muitas vezes, não acreditam que podem ter seus filhos vitimados pelos mais variados números e tipos de acidentes. Com frequência, ao dirigir, vejo crianças sentadas no colo do motorista, no colo da passageira, como também no banco de trás, sem cinto de segurança. No banco da frente, nem com o cinto pode ser permitido! E de fato não é! Quando os acidentes ocorrem, os pais ficam desesperados, o que é de se esperar, mas será que aquele acidente poderia ter sido evitado? Em boa parte dos casos, sim. Em que contexto o profissional de Saúde da Família pode ajudar na prevenção de acidentes? De uma maneira extremamente privilegiada, uma vez que tem a oportunidade de avaliar o meio em que a criança está se desenvolvendo e, assim, buscar identificar os riscos a que está exposta. Há riachos ou rios próximos? Há barrancos? A região é violenta? A família tem carro? Onde a criança brinca? Do que ela gosta de brincar? Há fios e tomadas sem a devida proteção? Há fossas, poços, bueiros, onde há risco grande de um acidente? Há instalações elétricas improvisadas? Muitas outras perguntas podem ser feitas. Preocupada com o tema, a Sociedade Brasileira de Pediatria lançou a Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes na Infância e na Adolescência. Como parte desta campanha, diferentes cartilhas foram elaboradas. Cada uma delas trata dos acidentes mais comuns e da melhor forma de prevenção. AN02FREV001/REV 4.0 241 Os acidentes de consumo são, na definição da Sociedade Brasileira de Pediatria, aqueles que ocorrem quando um produto ou serviço, ainda que utilizado corretamente, causa danos à saúde ou à segurança dos consumidores. É provocado por defeito dos produtos ou na prestação de serviços. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (Jornal da Associação Médica Brasileira), [...] até meados de 2004, o Brasil não tinha a menor ideia das sequelas sociais e econômicas originadas pelo acidente de consumo. Imaginava-se que o problema fosse grave, como em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas de outubro de 1998 a setembro de 1999, as falhas em produtos e serviços foram responsáveis por mais de quatro milhões de ferimentos tratados em salas de emergência de hospitais, que provocaram 4.308 mortes e custaram U$ 300.557.000 ao sistema de saúde. Entre as medidas preventivas sugeridas pela Sociedade Brasileira de Pediatria estão as seguintes: é importante que se cumpram as normas do Novo Código Nacional de Trânsito (respeitar a faixa de pedestre; uso obrigatório do cinto de segurança; uso de assento apropriado para crianças menores em automóveis; transporte de crianças sempre no banco traseiro); motoristas devem dobrar sua atenção nos locais onde passam crianças e adolescentes, como portas de escola, clubes, condomínios, áreas de lazer; ao transportar crianças em bicicletas, usar sempre o assento especial; estimular o uso de equipamentos de segurança em práticas esportivas (skate, patins, bicicletas etc.); proteger as janelas de residências, escolas e creches com telas e grades. As piscinas devem ser protegidas com redes apropriadas ou cercadas; proteger as crianças menores do risco de ferimentos com objetos e tomar cuidado com as escadas e lajes, que devem ter acesso restrito; as tomadas devem ser sempre protegidas e a fiação elétrica não pode ficar exposta em locais onde circulem crianças; remédios, produtos de limpeza e material inflamável devem ficar longe do alcance das crianças e nunca devem ser guardados em recipientes de refrigerantes ou similares; AN02FREV001/REV 4.0 242 afastar a criança de água ou alimentos muito quentes e de qualquer situação onde exista risco de fogo e chama (SBP, 2010). Em notícia publicada no jornal “Folha de São Paulo”, de 11 de dezembro de 2008, sob o título “Especialistas dão dicas para ajudar a escolher brinquedos mais seguros e evitar possíveis riscos à saúde das crianças”, a repórter Amarílis Lage fez a seguinte matéria: “Na carta para o Papai Noel, a meninada faz seus pedidos: um urso fofo, uma boneca gigante, um carrinho reluzente... Cabe aos pais acrescentar no canto da carta mais uma orientação: que o brinquedo seja seguro. Um dos primeiros aspectos a prestar atenção é a qualidade do brinquedo. Os que são voltados para crianças até 14 anos devem apresentar o selo do Inmetro. Isso significa que o brinquedo passou por testes como os de impacto, de inflamabilidade e de mordida – para ver se a criança consegue arrancar pedaços pequenos da peça com a boca. Aspeças sem o selo não foram submetidas aos testes ou não foram aprovadas neles. E não é só no comércio informal que os brinquedos sem certificação estão à venda. A ‘Operação Papai Noel’, realizada pelo Ipem (Instituto de Pesos e Medidas do Estado de São Paulo) entre os dias 1º e 5 deste mês, confiscou 612 brinquedos que estavam sendo vendidos sem o selo do Inmetro em quatro lojas de São Paulo e São Bernardo do Campo (Grande São Paulo). Mais 495 brinquedos irregulares foram apreendidos em 11 lojas de São José dos Campos, São José do Rio Preto, Campinas e Bauru. Para complicar, mesmo os brinquedos certificados viraram alvo de desconfiança depois que marcas como Mattel e Gulliver promoveram o recall de algumas peças. Mas, segundo Alessandra Françoia, coordenadora da ONG Criança Segura, os brinquedos à venda no país são seguros. ‘Depois que as peças foram recolhidas, o Inmetro avisou que seria mais rigoroso na certificação’, diz. Gustavo Kuster, gerente de regulamentação do Inmetro, ressalta que, no Brasil, a medida foi preventiva – já que aqui não houve registro de acidentes. Depois disso, conta, o Inmetro mudou as regras para a importação. Até então, era feita uma certificação no país de origem do brinquedo, e os testes eram repetidos a cada seis AN02FREV001/REV 4.0 243 meses, no país produtor e no Brasil. Após o recall, a regra passou a ser testar cada lote de brinquedos que chega ao país. Depois de o presente ser devidamente escolhido, embrulhado e colocado sob a árvore, a missão de pais e cuidadores não termina. ‘O selo do Inmetro assegura que o brinquedo é resistente, que não tem materiais tóxicos. Mas não garante que a criança não irá se machucar’, afirma o pediatra Tulio Konstantyner, pesquisador do projeto CrechEficiente, da Universidade Federal de São Paulo. Depois da seleção, vem a supervisão, a manutenção e o armazenamento, avisa a pediatra Renata Waksman, presidente do Departamento de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria. ‘Brinquedo não é babá de criança’, ressalta. Veja, a seguir, as dicas de especialistas para cada uma dessas etapas. DICAS Um dos sonhos de consumo infantil, as bicicletas devem ser acompanhadas sempre de outro presente: um capacete. Ao escolher, fique atento para que o capacete não fique solto nem apertado na cabeça da criança. Como essas peças não recebem o selo do Inmetro, já que não há normas definidas para sua fabricação, a compra deve levar em consideração aspectos como a credibilidade do fabricante. Quando a criança andar de bicicleta, deve usar sapatos fechados e evitar cadarços folgados ou soltos. Para saber o tamanho adequado da bicicleta: os pés das crianças devem alcançar o chão enquanto ela estiver sentada no selim. Ensine a criança a olhar sempre para a esquerda, direita e novamente para a esquerda antes de entrar numa rua; se usar a bicicleta à noite, é necessário usar material refletor na roupa e na bicicleta. Ao comprar um brinquedo, fique atento à faixa etária para a qual ele é indicado. Os testes de segurança variam conforme a faixa etária, e uma peça segura para uma criança de oito anos pode oferecer riscos para outra de dois anos. AN02FREV001/REV 4.0 244 PIRATARIA Não adquira brinquedos falsificados. Essas peças não passam pelos mesmos testes que os brinquedos originais e, por isso, podem oferecer risco para as crianças, como ter substâncias tóxicas em sua composição ou formar arestas pontiagudas ao quebrar. Não é por ser artesanal ou ter uma proposta educativa que um brinquedo está acima do controle de segurança. Pequenos fabricantes também devem ser certificados pelo Inmetro – processo que pode durar um pouco mais de 40 dias, caso a empresa tenha poucos funcionários e os brinquedos passem imediatamente nos testes. Brinquedos sem o selo do Inmetro oferecem tantos riscos de toxicidade e acidentes quanto os falsificados. Brinquedos vendidos no Mercosul, nos EUA e na Europa devem seguir as mesmas normas dos que são vendidos no Brasil. Quem quiser comprar brinquedos no exterior deve buscar saber qual é a certificadora equivalente ao Inmetro no país e só comprar as peças que tenham o selo. EMBALAGEM Uma embalagem bonita torna qualquer presente ainda mais interessante. Mas os adultos devem estar atentos para que a embalagem seja descartada o quanto antes, pois as fitas e os sacos plásticos oferecem riscos de estrangulamento e asfixia e os grampos podem ferir as crianças. BEXIGAS Evite utilizar balões de látex e, se usá-los, supervisione a brincadeira das crianças com menos de seis anos de idade. Não as deixe encherem bexigas e tenha cuidado com os pedaços das que estourarem, já que eles podem ser ingeridos e causar asfixia. COMPRIMENTO Evite brinquedos com correntes, fios, fitas e cordas com mais de 15 cm de comprimento para crianças de até quatro anos de idade, já que elas podem enrolá- los no pescoço, correndo risco de estrangulamento. AN02FREV001/REV 4.0 245 Para testar se uma peça oferece ou não riscos para crianças em fase oral, a dica é usar um tubo para guardar filme fotográfico. Tudo que couber no recipiente deve ficar fora do alcance de crianças até os quatro anos de idade. É um mito que os móbiles podem deixar as crianças estrábicas. Essas peças são, na verdade, benéficas para o desenvolvimento dos bebês. A dica é trocar de vez em quando, para que a criança continue a ser estimulada. Evite brinquedos que gerem ruídos muito altos ou estridentes. Como as crianças usam essas peças repetidamente e perto do ouvido, isso pode gerar lesões. Para receber a certificação, um brinquedo sonoro deve gerar ruídos que chegam até a criança com, no máximo, 85 decibéis (equivalente ao barulho de uma avenida com tráfego pesado). No caso de objetos que ficam perto do ouvido, como telefones de brinquedo, o limite é menor: 80 decibéis. Uma dica: se o adulto considerar o som incômodo, não deve oferecê-lo à criança. Quando um brinquedo precisar de pilhas, elas devem ser armazenadas de forma que a criança não consiga retirá-las. As pilhas contêm substâncias tóxicas e corrosivas e, caso a criança as engula, esse material pode ser liberado no estômago com consequências muito graves, como úlceras. As boias não são consideradas equipamentos de segurança, e sim brinquedos. Por isso, devem ter o selo do Inmetro. Seu uso deve ser sempre acompanhado por um adulto. As pistolas d’água, outro brinquedo comum no verão, podem ser perigosas, dependendo da pressão com a qual a água é ejetada. Traumas nos olhos são comuns. De modo geral, brinquedos que arremessem ou lancem componentes não são indicados para crianças com menos de cinco anos. A brincadeira deve ser supervisionada por um adulto. Jogos eletrônicos também podem ter consequências para a saúde. Passar muito tempo brincando dessa forma pode trazer problemas posturais e oftalmológicos. Busque controlar o tempo de uso desses jogos e também fique atento à cadeira e à posição da criança diante da tela. Verifique os brinquedos com frequência para ver se algum deles quebrou e está com pontas afiadas, por exemplo. A limpeza também é importante: busque seguir a orientação do fabricante. Peças de plástico e de borracha devem ser AN02FREV001/REV 4.0 246 lavadas semanalmente com sabão neutro; peças de madeira podem ser higienizadas com um pano úmido. Ensine as crianças a guardar os brinquedos após usá-los, isso evita o risco de tropeços e escorregões. Escolha, para este fim, uma caixa que não tenha travas ou tampas que possam prender os dedos das crianças. Controlar o uso de brinquedos conforme a faixa etária pode ser difícil quando as crianças têm acesso às peças dos irmãos mais velhos. O importante, nesse caso, é guardar separadamente os brinquedos, tendo em mente dois grupos: aqueles que são voltadospara crianças até três anos e aqueles indicados para crianças mais velhas. Isso significa que não há perigo em uma criança de um ano ter acesso aos brinquedos de outra de três anos. Uma criança de cinco anos também pode compartilhar brinquedos com crianças mais velhas. Os brinquedos das crianças mais velhas devem ser guardados em locais que as menores não alcançam.” FONTE: Disponível em: <http://www.sbp.com.br/show_item2.cfm?id_categoria=17&id_detalhe=2929&tipo_detalhe=s>. Acesso em: 25 jun. 2010. De acordo com a organização não governamental (ONG) Criança Segura, [...] os acidentes, ou lesões não intencionais, representam a principal causa de morte de crianças de 1 a 14 anos no Brasil. No total, cerca de 6 mil crianças até 14 anos morrem e 140 mil são hospitalizadas anualmente segundo dados do Ministério da Saúde, configurando-se como uma séria questão de saúde pública. Estimativas mostram que a cada morte, outras quatro crianças ficam com sequelas permanentes que irá gerar, provavelmente, consequências emocionais, sociais e financeiras a essa família e à sociedade. De acordo com o governo brasileiro, cerca de R$ 63 milhões são gastos na rede do SUS – Sistema Único de Saúde. (ACIDENTES, 2010, s. p.). Ainda de acordo com a ONG, [...] segundo relatório da Organização Mundial de Saúde, somente em 1998, aproximadamente 5,8 milhões de pessoas morreram vítimas de trauma no mundo, o que representa 97,9 óbitos por 100.000 habitantes. Destes, aproximadamente 800.000 óbitos e 50 milhões de sequelados estão na faixa etária de 0 a 14 anos de idade. (ACIDENTES, 2010, s. p.). AN02FREV001/REV 4.0 247 O site mostra ainda, os tipos mais comuns de acidentes, de acordo com a faixa etária, conforme a tabela a seguir. TABELA 14 - TIPOS MAIS COMUNS DE ACIDENTE, DE ACORDO COM A FAIXA ETÁRIA DA VÍTIMA FONTE: Ministério da Saúde. No site da ONG há uma apresentação sobre “Acidentes com Crianças e o Comportamento das Mães”; de acordo com esta apresentação (ACIDENTES, 2010), referindo dados da Organizamos Mundial de Saúde, encontramos: AN02FREV001/REV 4.0 248 1 milhão de crianças até 14 anos morrem em decorrência de acidentes todos os anos ao redor do mundo; cerca de 50 milhões ficam com sequelas permanentes; mais de 90% destas mortes acontece nos países em desenvolvimento; nestes países, o acidente é a principal causa de morte de crianças de um a 14 anos. O site traz, ainda, importantes dados e orientações com relação à prevenção de acidentes em diferentes situações. 20.4 DOENÇAS INFECCIOSAS O número de doenças infecciosas na infância é bastante elevado, sobretudo em locais com baixas condições de saneamento básico e higiene. O profissional de Saúde da Família deve estar atento às condições que predispõe a transmissão de doenças infecciosas, como o uso de água suja para ingestão e banho. Perguntas básicas e comuns, na anamnese, não podem ser esquecidas, como, por exemplo, saber se a família cria e convive com animais domésticos, inclusive aves. A casa onde a criança vive tem banheiro? Esgoto? Fossa? Como são eliminados os dejetos? A casa é de alvenaria? Há doenças endêmicas na região? Quais? Como se dá a transmissão? Há prevenção? A criança tem acesso à água para banho? Há na região lagoas com caramujos? Há pessoas doentes nas imediações? Que tipo de doença? Os sintomas e os sinais respiratórios, vômitos, febre e as diarreias devem ser objetos de atenção para os profissionais de Saúde da Família. Em primeiro lugar, porque podem traduzir uma série de doenças que podem ser graves. Em segundo, porque podem conduzir a quadros de descompensação respiratória ou hemodinâmica (caso dos vômitos e diarreia), como também sepses. É fundamental, na questão preventiva, que sejam feitas as imunizações de acordo com o calendário nacional de vacinações, conforme veremos mais adiante. AN02FREV001/REV 4.0 249 20.5 PREVENÇÃO DA DESIDRATAÇÃO Como dissemos anteriormente, a desidratação é sempre uma situação temida, uma vez que pode conduzir a graves alterações metabólicas e hemodinâmicas, inclusive o choque hipovolêmico e a morte. Ao tratarmos de doenças na infância, não podemos nos esquecer, que uma das importantes causas de problemas na infância, com grave repercussão na vida adulta, diz respeito à Saúde Bucal. 20.6 IMUNIZAÇÃO Como profissionais de Saúde da Família, é fundamental que em toda avaliação de crianças seja verificado o cartão de vacinas. A participação em campanhas de vacinação deve ser altamente estimulada e todos na faixa etária proposta devem ser vacinados. É importante que a mãe esteja consciente dos benefícios da vacinação e dos riscos de quem não é imune. 20.6.1 Vacinação no Brasil – histórico A história das vacinações, no Brasil, é resumida pelo Ministério da Saúde conforme mostrado a seguir. 1804 – Instituída a primeira vacinação no País – contra a varíola. 1885 – Introdução da primeira geração da vacina antirrábica. 1897 – Primeira geração da vacina contra a peste. 1904 – Decreto da obrigatoriedade da vacinação contra varíola. AN02FREV001/REV 4.0 250 1937 – Produção e introdução da vacina contra a febre amarela. Início da década de 1950 – implantação do toxoide tetânico (TT) e a vacina DTP, em alguns estados. 1961 – Primeira campanha contra a poliomielite, projeto experimental em Petrópolis (RJ) e Santo André (SP). 1962 – Primeira campanha nacional contra a varíola. 1967 – Introdução da vacina contra o sarampo para as crianças de oito meses a quatro anos de idade. 1968 – Inicia-se a vacinação com a vacina BCG. 1970 – Registros oficiais do Ministério da Saúde sobre casos de doenças preveníveis por vacinação: 11.545 casos – poliomielite; 1.771 casos – varíola; 10.496 casos – difteria; 81.014 casos – coqueluche; 109.125 casos – sarampo; 111.945 casos – tuberculose. 1971 – Ocorrência, no Brasil, do último caso de varíola. 1973 – Criado o Programa Nacional de Imunizações (PNI). 1975 – Instituição do Programa Nacional de Imunizações (PNI).e do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (Lei nº 6.259). 1976 – Regulamentado o PNI. 1977 – Instituídos pela Portaria nº 452 o primeiro Calendário Básico e o Cartão de Vacinas com as vacinas obrigatórias para os menores de um ano de idade. 1992 a 2002 – Implantação gradativa nos estados da vacina dupla (sarampo e rubéola) ou tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola). 1996 – Redefinição das estratégias de vacinação contra Hepatite B em menores de um ano de idade, em todo o país, e ampliação da faixa etária para 15 anos na Amazônia Legal, SC, ES, PR e DF. 1999 – Substituição da vacina TT pela dupla tipo adulto (difteria e tétano) no calendário básico para a faixa etária de sete anos ou mais. 2002 – Introdução da vacina tetravalente para os menores de um ano. AN02FREV001/REV 4.0 251 2003 – Atualização do calendário na faixa etária de 12 meses a 11 anos 2004 – Instituído o Calendário Básico de Vacinação em Portaria de nº 597. 2004 – Campanha de Vacinação de Seguimento contra sarampo, caxumba e rubéola para as crianças de 12 meses a quatro anos, na qual foram vacinadas 12.777.709 crianças, 92.80% de cobertura vacinal. 2006 – inclusão da vacina contra o rotavírus humano para os menores de seis meses de idade. De acordo com o Datasus, por ocasião da Primeira Fase da Campanha Nacional de Vacinação contra a Pólio, realizada em 20 de junho de 2009, houve cobertura vacinal de 97,13% da população-alvo (crianças de 0-4 anos). O quadro a seguir mostra o calendário de vacinação para crianças. TABELA 15 - CALENDÁRIO BÁSICO DE VACINAÇÃO DA CRIANÇA FONTE: Arquivo pessoal do autor. AN02FREV001/REV 4.0 252 1) A primeiradose da vacina contra a hepatite B deve ser administrada na maternidade, nas primeiras 12 horas de vida do recém-nascido. O esquema básico constitui-se de três doses, com intervalos de 30 dias da primeira para a segunda dose e 180 dias da primeira para a terceira dose. 2) O esquema de vacinação atual é feito aos dois, quatro e seis meses de idade com a vacina Tetravalente e dois reforços com a Tríplice Bacteriana (DTP). O primeiro reforço aos 15 meses e o segundo entre quatro e seis anos. 3) É possível administrar a primeira dose da Vacina Oral de Rotavírus Humano a partir de um mês e 15 dias a três meses e sete dias de idade (seis a 14 semanas de vida). 4) É possível administrar a segunda dose da Vacina Oral de Rotavírus Humano a partir de três meses e sete dias a cinco meses e 15 dias de idade (14 a 24 semanas de vida). O intervalo mínimo preconizado entre a primeira e a segunda dose é de quatro semanas. 5) A vacina contra febre amarela está indicada para crianças a partir dos nove meses de idade, que residam ou que irão viajar para área endêmica (estados AP, TO, MA MT, MS, RO, AC, RR, AM, PA, GO e DF), área de transição (alguns municípios dos estados PI, BA, MG, SP, PR, SC e RS) e área de risco potencial (alguns municípios dos estados BA, ES e MG). Se viajar para áreas de risco, vacinar contra febre amarela dez dias antes da viagem. 21 ABORDAGEM DO ADOLESCENTE E PROBLEMAS MAIS COMUNS A passagem da infância para a adolescência é assustadora para todos. São hormônios em ebulição, modificações no corpo que surgem sem avisar. É a fase do surgimento das primeiras paixões. Da menstruação que de uma hora para outra transforma meninas em mulheres. Da primeira ejaculação dos meninos, muitas vezes, ocorrida de noite e enchendo-os de vergonha quando acordam. É a paixão que parece eterna. São as juras de amor que não têm fim. A criança que antes tinha suas roupas escolhidas pela mãe, de uma hora para outra, passa a se governar. AN02FREV001/REV 4.0 253 Surge a rebeldia, muitas vezes, sem motivo ou sem razão. Surgem as novas amizades, os novos ambientes e, com eles, novas emoções, mas também outros riscos. É a droga sempre presente, as primeiras relações sexuais (muitas vezes, sem proteção), o primeiro emprego, a faculdade. Para alguns, é o momento em que a criança passa a ter corpo de adulto, embora ainda pense como criança. Para outros, o corpo é de criança, mas a cabeça de adulto. Alguns sequer infância tiveram, pois trabalham desde cedo para ajudar no orçamento de casa. Definir quando a criança se torna adolescente é sempre uma tarefa difícil e, na prática médica, adotou-se que até os 12 anos, é criança, a partir daí, não mais. O que significa este “não mais”? Na grande maioria dos serviços de saúde brasileiros, como hospitais e centros de saúde, equivale a dizer que a partir dessa idade, este indivíduo de 12 anos não mais será visto pelo pediatra, mas sim, pelo clínico, como qualquer adulto. Então, é assim que deixamos de ser crianças? A noite anterior de nossos aniversários de 12 anos é nossa última noite como criança? Que transformações ocorrem durante essa noite, que nos fazem ser adultos? Obviamente, nenhuma. Mas é assim que funciona. Pediatras que deixam de atender seus pacientes porque completaram 13 anos, e clínicos que não sabem o que fazer com pessoas nesta idade. No SUS, a questão é ainda mais complicada. Enquanto no atendimento privado e nos consultórios os pediatras comumente continuem atendendo seus pacientes, muitas vezes até os 18 anos – e não há nenhum impedimento legal, ético ou moral quanto a isso, já que o médico pode exercer livremente sua profissão –, o mesmo não ocorre na rede pública. Ao marcar consulta ou fazer a ficha de atendimento de alguém com 12 anos ou mais, não será dada a possibilidade de atendimento com pediatra. Em raríssimas exceções onde haja um especialista em adolescência (hebiatra), pode ser que a sorte esteja ao lado deste “pequeno adulto”. Criança não é adulto em miniatura, já ensinava meu professor de Pediatria. Portanto, as doses das medicações não são a metade das dos adultos. O atendimento de crianças requer conhecimento especializado. Embora seja necessária e importante a abordagem multidisciplinar da criança e do adolescente, sobretudo no contexto da Saúde da Família, é fundamental que o atendimento referenciado com o pediatra possa estar disponível. O mesmo dá-se com o adulto na AN02FREV001/REV 4.0 254 Clínica Médica e o mesmo deveria se dar com o adolescente na Hebiatria. Na ausência deste especialista, é fundamental o entrosamento do pediatra com o clínico, como também com o ginecologista, no caso das mulheres. Muitas vezes, o psiquiatra é necessário na avaliação tanto da criança quanto do adolescente. Nosso mundo tem assistido violência contra as crianças e adolescentes diariamente. Nunca se falou tanto em pedofilia, como agora. De acordo com o Ministério da Saúde, em 2000, havia no Brasil 21.249.557 pessoas na faixa etária de 12 a 18 anos. A primeira questão que iremos levantar em nossa discussão diz respeito à violência contra os adolescentes. Sobre este tema, o Ministério da Saúde fez as seguintes recomendações, conforme o tópico a seguir. 21.1 PREVENÇÃO À VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES Violência contra criança ou adolescente é tudo o que fazemos ou deixamos de fazer que provoque dano físico, sexual e/ou psicológico à criança ou ao adolescente. Exemplos: violência física: beliscões, cintadas, chineladas, puxões de orelhas, uso da força física ao tocar na criança ou no adolescente; violência sexual: manipulação da genitália, exploração sexual, ato sexual com ou sem penetração; violência psicológica: rejeição, desrespeito, depreciação, rotulação, xingamento, cobrança e punições exageradas; negligência ou abandono: falha ou omissão em prover os cuidados, a atenção, o afeto e as necessidades básicas da criança ou do adolescente, como saúde e alimentação. Indicações de que uma criança e/ou adolescente possa estar sendo vítima de violência: lesões físicas; AN02FREV001/REV 4.0 255 doenças sexualmente transmissíveis (DSTs); problemas de aprendizagem; comportamento muito agressivo ou apático; comportamento extremamente tenso; afastamento, isolamento; conhecimento sexual inapropriado para a idade; negar-se a voltar para casa; ideias e/ou tentativas de suicídio; autoflagelação; fugas de casa; choro sem causa aparente; hiperatividade; comportamento rebelde; desnutrição; aparência descuidada e suja. Atitudes que podem ajudar a criança (ou o adolescente) vitimizada: não culpá-la; mostrar que ela não está só; acreditar nela; deixar que ela fale sobre seus sentimentos; incentivar a procura de ajuda profissional; não criar expectativas que não sabe se poderão ser cumpridas; reforçar atitudes positivas da criança e do adolescente; incentivar a autoconfiança; dizer e permitir que seja diferente; respeitar seu jeito de ser. Há um bom tempo, as crianças e os adolescentes eram tratados com pouca ou nenhuma consideração. Posteriormente, muitos confundiram a relação mais aberta e afetuosa com falta de limites. Hoje em dia, há uma busca de equilíbrio, já que essas duas formas de tratar a criança e o adolescente não trouxeram resultados satisfatórios. AN02FREV001/REV 4.0 256 O que fazer? Tratar a criança e o adolescente como pessoa em condição diferenciada de desenvolvimento. Ter claro, querendo ou não, que nós somos um modelo para eles, e que é preciso avaliar sempre nossa atuação. Saber que rigidez, autoritarismo e gritaria não têm nada a ver com dar limites. Em 1990, a professora Maria Cecília Minayo publicou artigo, com o tema “A violência na adolescência: um problema de saúdepública”. Estamos falando de quase 20 anos atrás, e se naquela época a situação já era crítica e preocupante, infelizmente, vivemos momentos ainda mais angustiantes. Sobre este tema, vejam o que diz a professora Lucimar Françoso, doutora em Medicina e professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, em editorial intitulado “Mortalidade na Adolescência: grave problema de saúde pública”, publicado na Revista da Sociedade de Pediatria de São Paulo: “Em comparação com outras faixas etárias, o coeficiente de mortalidade na adolescência é baixo. Entretanto, a maior parte das mortes ocorridas nesse período se relaciona diretamente ao trauma e à violência. Em 1998, nos Estados Unidos, as mortes decorrentes de trauma, homicídio e suicídio, em conjunto, foram responsáveis por 75% dos óbitos de jovens entre 15 e 19 anos de idade. No Brasil, as causas externas ou violentas constituem a principal e crescente causa de mortalidade na segunda década de vida. Enquanto em 1979, o trauma e a violência foram responsáveis por 45,6% dos óbitos de adolescentes, em 1996 e 2002, corresponderam a 63% e 66% dos motivos de morte nesse grupo, respectivamente. Entre as causas externas, os acidentes de trânsito ocupam o primeiro lugar na faixa etária de 10 a 14 anos e o segundo entre 15 e 19 anos, perdendo apenas para os homicídios. Mortes de adolescentes por causas violentas são mais frequentes no sexo masculino em todo o mundo. No Brasil, os meninos corresponderam a 80,6% desses óbitos em 1996 e a 84,8% em 2002, com proporção de quatro indivíduos do sexo masculino para cada indivíduo do feminino em 1996 e de 5,5 para um em 2002.” AN02FREV001/REV 4.0 257 É indiscutível que a situação esteja crítica. Vemos diariamente, nos jornais e pela televisão, verdadeiras cenas de guerra em grandes cidades brasileiras. Infelizmente a violência urbana está tão banalizada, que a população parece estar “anestesiada”. O envolvimento de crianças e adolescentes no tráfico e o consumo de drogas são causa e consequência desta situação. Em julho de 2009, a Unicef, órgão das Nações Unidas, publicou o “Índice de Homicídios na Adolescência – Análise preliminar dos homicídios em 267 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes”. Vejam o que diz um trecho do resumo executivo desse estudo: O cálculo do Índice segue a lógica das tábuas de mortalidade e aplica taxas específicas de homicídio por idade a uma coorte de 1.000 adolescentes na idade inicial: 12 anos. A soma das mortes estimadas, ano a ano, até a idade final – 18 anos, traduz-se no número esperado de vidas perdidas por homicídio entre os 12 e 18 anos, para cada grupo de 1.000 adolescentes. Dito de outra forma, de cada 1.000 adolescentes que cumprem 12 anos, quantos serão vítimas de homicídio antes de completar 19 anos. O Índice pode ser aplicado a diferentes faixas etárias seguindo o mesmo princípio. (Política de Direito do Adolescente, Setembro de 2009). Em sua apresentação de resultados: O valor médio do IHA para os 267 municípios considerados é de 2,03 adolescentes mortos por homicídio antes de completar os 19 anos, para cada grupo de 1.000 adolescentes de 12 anos. A cifra é bastante elevada, considerando que uma sociedade não violenta deveria apresentar valores próximos de zero. No entanto, a violência letal contra adolescentes não se distribui de forma homogênea no território, e há alguns municípios com valores extremamente elevados. (...) destacamos o caso de Foz do Iguaçu (Paraná), liderando o ranking, e algumas outras cidades de meio porte como Governador Valadares (Minas Gerais) e Cariacica (Espírito Santo). Entre as capitais, Maceió e Recife aparecem nos primeiros lugares. A questão da drogadicção é inseparável da discussão da violência, bem como é grande a pressão por diversos segmentos da sociedade para que o uso de drogas não seja criminalizado. É um tema polêmico, em que evidentemente todos devem participar com suas opiniões e estudos, mas de nossa parte, enquanto AN02FREV001/REV 4.0 258 profissionais de saúde, devemos nos ater ao que diz a lei. No momento, há drogas ilícitas, como a maconha, os opioides, a cocaína e também o “lança-perfume”, tão consumido entre os jovens, sobretudo em festas, mas responsável por muitas mortes. Qualquer tipo de apoio ou incentivo ao uso de drogas implica crime previsto em nosso código de ética. Mesmo que você seja a favor da liberação de drogas em nosso país, como profissional de Saúde da Família e no exercício de sua função, não cabe esse tipo de manifestação diante de uma legislação que tipifica tais substâncias como ilícitas. É igualmente importante termos em mente que, embora lícitos, o álcool e o tabagismo produzem dependência química importante e é grande o número de jovens que são tabagistas e alcoolistas. De acordo com o Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios, no período de 1º de novembro de 2007 a 29 de fevereiro de 2008, percebe-se que 50% dos infratores estão na faixa de 16 a 17 anos e 80% do total na faixa de 14 a 17 anos. No estudo realizado, foram considerados 725 adolescentes infratores havendo a recorrência de 25 adolescentes, totalizando 750 atos infracionais. Do total de 725 adolescentes, 402 (55,45%) estavam matriculados regularmente em escolas; 322 (44,41%) não estavam matriculados e um não respondeu a essa pergunta; 77% dos alunos matriculados frequentavam a escola de forma regular. Aproximadamente 62% dos alunos estavam cursando o Ensino Fundamental; quase 17%, o Ensino Médio; e 0,5%, Ensino Superior. Não houve informação por parte de 11%; e 9,5% dos alunos frequentavam o Supletivo. O crime mais prevalente foi o roubo, ou seja, quando há subtração de um bem, com emprego de violência ou grave ameaça. Na apresentação final dos resultados, os autores afirmam que: [...] É possível apontar o domínio dos adolescentes não frequentes à escola nos atos infracionais Furto, Roubo, Tráfico de Drogas, Porte/Uso de Drogas e Porte Ilegal de Arma de Fogo/Munição e Disparo, enquanto os AN02FREV001/REV 4.0 259 adolescentes que frequentam a escola compõem a maior parte dos que praticaram Ameaça/Injúria, Lesão Corporal e Pichação. É interessante observarmos que o fato de os adolescentes frequentarem regularmente as salas de aula, neste estudo, impactou no tipo de delito cometido, em que os mais graves foram cometidos por alunos que não estavam estudando. 21.2 GRAVIDEZ E ADOLESCÊNCIA Junto com a intensidade das emoções que acompanham a adolescência estão os primeiros encontros amorosos e o modismo dos jovens atuais, que “ficam” com dezenas de pessoas numa mesma noite e sem qualquer compromisso posterior. O “ficar” pode variar de troca de beijos e abraços a carícias mais íntimas e até mesmo a relação sexual. Quando ocorre, muitas vezes, é realizada sem uso de preservativo, que teria a dupla função de prevenir doenças sexualmente transmissíveis e uma gravidez indesejável. É comum encontrarmos jovens que avaliam a possibilidade de contrair ou não uma doença sexualmente transmissível apenas pela aparência da pessoa com quem irá se relacionar. Com relação à gravidez, ainda é frequente a ideia machista de muitos jovens que a responsabilidade da prevenção recaia sobre a mulher. De acordo com o site Psiquiweb (2010), a incidência de gravidez na adolescência está crescendo e, nos EUA, onde existem boas estatísticas, vê-se que de 1975 a 1989, a porcentagem dos nascimentos de adolescentes grávidas e solteiras aumentou 74,4%. Em 1990, os partos de mães adolescentes representaram 12,5% de todos os nascimentos no país. Lidando com esses números, estima-se que aos 20 anos, 40% das mulheres brancas e 64% de mulheres negras terão experimentado ao menos uma gravidez, nos EUA. No Brasil, a cada ano, cerca de 20% das criançasque nascem são filhas de adolescentes, número que representa três vezes mais garotas com menos de 15 anos grávidas que na década de 1970, engravidam hoje em dia (2009). A grande maioria dessas adolescentes não tem condições financeiras nem emocionais para AN02FREV001/REV 4.0 260 assumir a maternidade e, por causa da repressão familiar, muitas delas fogem de casa e quase todas abandonam os estudos. A Pesquisa Nacional em Demografia e Saúde, de 1996, mostrou um dado alarmante; 14% das adolescentes já tinham pelo menos um filho e as jovens mais pobres apresentavam fecundidade dez vezes maior. Entre as garotas grávidas atendidas pelo SUS no período de 1993 a 1998, houve aumento de 31% dos casos de meninas grávidas entre 10 e 14 anos. Nesses cinco anos, 50 mil adolescentes foram parar nos hospitais públicos devido a complicações de abortos clandestinos. Quase 3 mil na faixa dos 10 a 14 anos. Um grande cuidado que o profissional de saúde deve ter ao avaliar a sexualidade precoce e a gravidez na adolescência é com relação ao juízo de valor. Mesmo que você tenha princípios éticos, morais ou religiosos que sejam contrários à prática do adolescente, é fundamental que sua assistência esteja voltada para as necessidades do paciente e que seu atendimento seja sob este prisma. Jamais um profissional de saúde pode julgar a conduta dos pacientes que estão sendo atendidos. Muito menos tentar “converter” essas pessoas para qualquer tipo de religião, filosofia. O Código de Ética Médico é claro neste aspecto e a Constituição Federal, também. Isso não quer dizer que o paciente não deva ser orientado a como proteger a sua saúde. Mesmo que sua religião seja contrária à utilização de preservativos, seria um verdadeiro absurdo que um profissional de saúde deixasse de orientar aos pacientes a utilizar este método de barreira, na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e na gravidez. Aos profissionais que não conseguem ter esse discernimento, que escolham áreas e profissões sem que não tenham de orientar as melhores práticas de saúde. Naturalmente que ninguém irá incentivar crianças a ter relações sexuais, por outro lado, deixar de oferecer orientações importantes de proteção para adolescentes é permitir que eles possam contrair doenças graves e gestações indesejadas, aumentando a possibilidade de abortos. Toda mulher deve ter direito e acesso a um ginecologista, desde sua primeira menstruação. Ginecologista não é apenas para quem tem vida sexual ativa, como pensam muitos. O câncer de mama, de útero, de ovário, são doenças ainda muito prevalentes e cujo sucesso de tratamento está diretamente relacionado ao diagnóstico precoce. AN02FREV001/REV 4.0 261 Diante da presença de adolescentes grávidas, qual deve ser a postura do profissional de saúde? A de acolhimento. Sempre. Orientar quanto à necessidade de acompanhamento e à realização de pré-natal bem feito. O suporte emocional é sempre importante para essas meninas. Geralmente, são discriminadas na família, pelos vizinhos, na escola (algumas deixam de estudar), na igreja e nos mais variados locais. É grande o número de adolescentes grávidas que serão mães solteiras, daí a importância da prevenção. É também possível que a adolescente ou os parentes, diante da angústia da situação, pensem na possibilidade de aborto. Em nossa legislação, salvo situações específicas, quando a mãe corre risco de morte se a gestação for conduzida a termo ou em caso de estupro, a prática do aborto é crime previsto no Código Penal e quem ajuda ou sugere também comete crime, e no caso de profissionais de saúde, é considerado infração ética grave, passível de cassação do registro profissional. Nos casos, no entanto, em que há previsão legal, a adolescente deve ser orientada a procurar os órgãos competentes. Os hospitais devem possuir setor de ginecologia apto a fornecer as informações adequadas para essas pacientes. A chamada “pílula do dia seguinte” não deve ser usada como método contraceptivo. Muitas meninas cientes da existência dessa medicação preferem não realizar qualquer tipo de proteção, para simplesmente, no dia seguinte ou até mesmo no mesmo dia, praticarem a anticoncepção de emergência. Além de não estarem se prevenindo contra doenças sexualmente transmissíveis, o resultado pode não ser o esperado, já que não é um método 100% eficaz. Sobre este tema, vejam esta reportagem do portal Globo, publicada em 22 de setembro de 2008, sob o título: “Uso repetido de pílula do dia seguinte é perigoso para a mulher”, disponível em: <http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL766885- 5603,00.html>. Na disciplina de Saúde do Homem e da Mulher, estudaremos melhor a questão dos métodos contraceptivos, como também a anticoncepção de emergência e as doenças sexualmente transmissíveis. O atendimento à criança por profissionais de Saúde da Família é extremamente amplo, mas igualmente importante. AN02FREV001/REV 4.0 262 Discutimos e apresentamos tópicos relevantes que, com frequência, acometem às crianças em nosso país. A adolescência é uma fase da vida caracterizada pela “ebulição”. É o momento em que deixamos de ser crianças, mas também não somos adultos. É a época das aventuras, da retomada dos sonhos, da contestação e das paixões. Em todos os níveis. Sentimental e ideológico. O profissional de Saúde da Família deve estar atento às modificações fisiológicas que acompanham esta fase, como também ser um grande orientador da família e do próprio adolescente. Atuar de fato como alguém que se preocupa com a Saúde da Família e, portanto, do contexto em que este adolescente está inserido. TABELA 16 - CALENDÁRIO DE VACINAÇÃO DO ADOLESCENTE FONTE: Arquivo pessoal do autor. 1) Adolescente que não tiver comprovação de vacina anterior, seguir este esquema. Se apresentar documentação com esquema incompleto, completar o esquema já iniciado. 2) Adolescente que já recebeu anteriormente três doses ou mais das vacinas DTP, DT ou dT, aplicar uma dose de reforço. É necessário doses de reforço da vacina a cada dez anos. Em caso de ferimentos graves, antecipar a dose de reforço para cinco anos após a última dose. O intervalo mínimo entre as doses é de 30 dias. AN02FREV001/REV 4.0 263 3) Adolescente que resida ou que for viajar para área endêmica (estados: AP, TO, MA, MT, MS, RO, AC, RR, AM, PA, GO e DF), área de transição (alguns municípios dos estados: PI, BA, MG, SP, PR, SC e RS) e área de risco potencial (alguns municípios dos estados BA, ES e MG). Em viagem para essas áreas, vacinar dez dias antes da viagem. (4) Adolescente que tiver duas doses da vacina Tríplice Viral (SCR) devidamente comprovada no cartão de vacinação não precisa receber esta dose. 5) Adolescente grávida, que esteja com a vacina em dia, mas recebeu sua última dose há mais de cinco anos, precisa receber uma dose de reforço. A dose deve ser aplicada no mínimo 20 dias antes da data provável do parto. Em caso de ferimentos graves, a dose de reforço deve ser antecipada para cinco anos após a última dose. FIM DO MÓDULO IV