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AS DIVERSAS PERSPECTIVAS DE FUNDAMENTAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Prof. Luiz Gonzaga Silva Adolfo T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 1 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Nesta unidade temática, você vai aprender ▪ A compreender as diversas perspectivas de fundamentação dos Direitos Humanos; ▪ A identificar a concepção clássica de evolução dos Direitos Humanos; ▪ A analisar a evolução histórica e juspositiva dos Direitos Humanos; ▪ A perceber - sempre em linha evolutiva -, a geração moderna dos Direitos Humanos, esteada na dignidade da pessoa humana; ▪ A reconhecer aquela que é perspectiva intercultural dos Direitos Humanos. T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 2 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 3 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Introdução É importante dialogarmos sobre “As diversas perspectivas de fundamentação dos direitos humanos”. Este momento é muito importante pela contextualização que faremos de uma evolução cronológica e com avanços na regulação e na construção dos Direitos Humanos. No primeiro instante, trabalharemos com a denominada perspectiva clássica dos Direitos Humanos, que inicialmente foram relacionados à ideia de Direito Natural. Num segundo patamar evolutivo - e também aqui, o foco estará na visão juspositivista dos Direitos Humanos, que ocorre a partir de proteções eficazes ou não em um positivismo que pode ser chamado de “nacionalista” (local), como ocorreu muito tristemente durante a Segunda Guerra Mundial. No terceiro mote e sempre avançando, temos a linha de mira na crismada perspectiva moderna dos Direitos Humanos, que tem seu foco no grande princípio de Direito interno e de Direito Internacional, o da dignidade da pessoa humana. Após os horrores principalmente oriundos do nazismo e do fascismo, foi necessário “reinventar a humanidade”, e então, é claro, os Direitos Humanos atingiram um papel muito relevante. Por fim, e não menos importante, no quarto ponto trabalharemos na ideia de Direitos Humanos enquanto interculturalidade, o que se dá mormente a partir da antes citada internacionalização, e deles já reconhecidos com Direito Internacional dos Direitos Humanos. Bom proveito! As diversas perspectivas de fundamentação dos direitos humanos A perspectiva clássica de fundamentação do direito natural O conceito específico de direitos humanos está ligado à sua previsão em instrumentos internacionais para garantir uma vida digna (RAMOS, 2016). T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 4 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Fique de olho! O Direito Natural se fundamenta na ideia de direito do homem, amparando-se nas correntes filosóficas anteriores. Na era moderna, o papel do Direito é uma dedução de uma essência genérica do ser humano. Aos poucos, ocorreu uma transferência para uma atuação concreta fundada no ser humano. Ramos (2016) dispõe que o jusnaturalismo é uma corrente do pensamento jurídico, tratando-se de um conjunto de normas vinculantes anterior e superior ao sistema de normas fixadas pelo Estado (Direito posto). T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 5 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Saiba mais Já na seara dos Direitos Humanos, pode-se identificar uma visão jusnaturalista na Antiguidade, simbolizada na peça de teatro Antígona de Sófocles (421 a.C., parte da chamada Trilogia Tebana). Na Idade Média, o jusnaturalismo foi baseado pela visão religiosa de São Tomás de Aquino, para quem a lex humana deve obedecer a lex naturalis, que era fruto da razão divina, mas perceptível aos seres humanos. T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 6 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 No plano internacional, Hugo Grotius, considerado um dos fundadores do Direito Internacional e iniciador da teoria do Direito Natural moderno, sustentava, no século XVI, a existência de um conjunto de normas ideais, fruto da razão humana. Limitou-se aos direitos positivados, pois o Direito dos legisladores humanos só seria válido quando compatível com os mandamentos daquela lei imutável e eterna. T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 7 of 33 12/04/2022 16:48 https://drive.google.com/file/d/1483dYbQl3PlsF6cYmSFryFJ0oAZ2kGdO/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1483dYbQl3PlsF6cYmSFryFJ0oAZ2kGdO/view?usp=sharing https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Figura 1: Hugo Grotius. Fonte: Wikimedia. T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 8 of 33 12/04/2022 16:48 https://drive.google.com/file/d/1483dYbQl3PlsF6cYmSFryFJ0oAZ2kGdO/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1483dYbQl3PlsF6cYmSFryFJ0oAZ2kGdO/view?usp=sharing https://www.google.com/url?q=https%3A%2F%2Fcommons.wikimedia.org%2Fwiki%2FFile%3AMichiel_Jansz_van_Mierevelt_-_Hugo_Grotius.jpg&sa=D&sntz=1&usg=AOvVaw0cy9gPTEM6_vgZPieabPgD https://www.google.com/url?q=https%3A%2F%2Fcommons.wikimedia.org%2Fwiki%2FFile%3AMichiel_Jansz_van_Mierevelt_-_Hugo_Grotius.jpg&sa=D&sntz=1&usg=AOvVaw0cy9gPTEM6_vgZPieabPgD https://www.google.com/url?q=https%3A%2F%2Fcommons.wikimedia.org%2Fwiki%2FFile%3AMichiel_Jansz_van_Mierevelt_-_Hugo_Grotius.jpg&sa=D&sntz=1&usg=AOvVaw0cy9gPTEM6_vgZPieabPgD https://www.google.com/url?q=https%3A%2F%2Fcommons.wikimedia.org%2Fwiki%2FFile%3AMichiel_Jansz_van_Mierevelt_-_Hugo_Grotius.jpg&sa=D&sntz=1&usg=AOvVaw0cy9gPTEM6_vgZPieabPgD https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Importante anotar essa observação de Ramos, no realce da importância na laicidade na construção deste conceito: Nos séculos XVII e XVIII, a corrente jusnaturalista de Grócio impõe a consagração da razão e laicidade das normas de direito natural. (RAMOS, 2016, p. 81) T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 9 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Comparato enfatiza a evolução histórica dessa percepção, tornado até certo ponto incongruente a discussão sobre essa eventual dicotomia: “Por derradeiro, deve-se observar que as reflexões da Filosofia contemporânea sobre a essência histórica da pessoa humana, conjugadas à comprovação do fundamento científico da evolução biológica, deram sólido fundamento à tese do caráter histórico (mas não meramente convencional) dos direitos humanos, tomando portanto sem sentido a tradicional querela entre partidários de um direito natural estático e imutável e os defensores do positivismo jurídico, para os quais fora do Estado não há direito.” (COMPARATO, 2015, p. 22) Os iluministas, em especial Locke e Rousseau, fundam a corrente do jusnaturalismo contratualista, que aprofunda o racionalismo e o individualismo. A razão é fonte de direitos inerentes ao ser humano, afirmando-se a prevalência dos direitos dos indivíduos frente ao Estado. Essa supremacia dos direitos humanos é fundadaem um contrato social realizado por todos os indivíduos na comunidade humana, que impõe a proteção desses direitos e limita o arbítrio do Estado. Assume posição central nesse horizonte a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: “A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, documento marcante dessa visão dos direitos humanos, de 1789, estabelece que ‘o fim de toda a associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis’ de todo ser humano. Na visão do contratualismo liberal de direito natural, os direitos humanos são direitos atemporais, inerentes à qualidade de homem de seus titulares. Para mencionar um exemplo desse legado teórico, cite-se a primeira afirmação da longeva Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), pela qual todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos, o que é assemelhado à frase inicial de Rousseau no clássico Do contrato social, na qual afirmou que o homem nasceu livre.” (RAMOS, 2016, p. 81) T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 10 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Mister acentuar a lógica evolução histórica que se deu, de um Direito Natural de inspiração religiosa a um Direito Estatal, de construção humana: “O traço marcante da corrente jusnaturalista (de origem religiosa ou contratualista) de direitos humanos é o seu cunho metafísico, pois se funda na existência de um direito preexistente ao direito produzido pelo homem, oriundo de Deus (escola de direito natural de razão divina) ou da natureza inerente do ser humano (escola de direito natural moderno). Consequentemente, o ser humano é titular de direitos que devem ser assegurados pelo Estado em virtude tão somente de sua condição humana, mesmo em sobreposição às leis estatais.” (RAMOS, 2016, p. 81) Ademais, o direito de resistência é um exemplo dessa irresignação da corrente jusnaturalista com os direitos postos pelo Estado. T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 11 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Fatos e dados No que se refere às primeiras Declarações de Direitos (Virgínia, 1776 e a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1789), frisa-se que elas reconheceram o direito humano de resistência à opressão. T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 12 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Fique de olho! E foi a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos (Paris, 1948) que também se passou a mencionar, no seu preâmbulo, o direito à rebelião contra a tirania e a opressão. O reconhecimento de direitos não expressos é feito para justificar efeitos ainda não previstos de determinado direito fundamental. T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 13 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Cite-se, a título de exemplo, o reconhecimento do caráter de “direito natural” do direito de greve (inerente a toda prestação de trabalho, público ou privado). O Supremo Tribunal Federal já decidiu que não cabe o não pagamento dos salários e que eventual compensação ao patrão pela ausência do trabalho deve ser feita após o encerramento da greve. Para o Supremo Tribunal Federal: “Em síntese, na vigência de toda e qualquer relação jurídica concernente à prestação de serviços, é irrecusável o direito à greve. E este, porque ligado à dignidade do homem – consubstanciando expressão maior da liberdade a recusa, ato de vontade, em continuar trabalhando sob condições tidas como inaceitáveis –, merece ser enquadrado entre os direitos naturais. Assentado o caráter de direito natural da greve, há de se impedir práticas que acabem por negá- lo (...) consequência da perda advinda dos dias de paralisação há de ser definida uma vez cessada a greve. Conta-se, para tanto, com o mecanismo dos descontos, a elidir eventual enriquecimento indevido, se é que este, no caso, possa se configurar.” (Supremo Tribunal Federal, Decisão monocrática da Presidência, SS 2061 AgR/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, Presidente, julgamento em 30-10-2001) O Direito Natural foi ainda utilizado para reconhecer os direitos novos, como o “direito à fuga”, não positivado na Constituição ou nos tratados de Direitos Humanos celebrados pelo Brasil. Ainda, o Direito Natural serviu para ampliar direito previsto na Constituição, como foi o caso da previsão constitucional do direito ao preso de “permanecer calado” (Constituição Federal, art. 5º, inciso LXIII), que foi transformado pelo Supremo Tribunal Federal ao longo dos anos em um direito de não se autoincriminar e não colaborar nas investigações criminais. Para o Supremo Tribunal Federal: “o direito natural afasta, por si só, a possibilidade de exigir-se que o acusado colabore nas investigações. A garantia constitucional do silêncio encerra que ninguém está compelido a autoincriminar-se. Não há como decretar a preventiva com base em postura do acusado reveladora de não estar disposto a colaborar com as investigações e com a instrução processual” (HC 83.943/MG, Rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 27-4-2004). T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 14 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 A perspectiva histórica e juspositivista de fundamentação dos direitos humanos A consolidação do Estado constitucional foi fruto das revoluções liberais oitocentistas, que inseriu os direitos humanos tidos como naturais (jusnaturalismo de direitos humanos) no corpo das Constituições e das leis, sendo agora considerados direitos positivados (RAMOS, 2016). Foi a Escola positivista que traduziu a ideia de um ordenamento jurídico produzido pelos seres humanos, de modo coerente e hierarquizado, dispondo que no topo do sistema jurídico, existiria a Constituição, pressuposto de validade de todas as demais normas do ordenamento, inserindo-se os direitos humanos na Constituição, obtendo um estatuto normativo superior (RAMOS, 2016). Para a Escola Positivista, o fundamento dos direitos humanos consiste na existência da norma posta, cujo pressuposto de validade está em sua edição conforme as regras estabelecidas na Constituição (RAMOS, 2016). T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 15 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Fique de olho! Assim, os direitos humanos justificam-se graças a sua validade formal e sua previsão no ordenamento posto, tendo o universalismo proposto pela corrente jusnaturalista e retratado na ideia de que todos os indivíduos possuem direitos inerentes foi sacrificado, sendo a ideia de “direitos inerentes” substituída pela ideia dos “direitos reconhecidos e positivados pelo Estado” (RAMOS, 2016). A faceta nacionalista dessa percepção é enfatizada por Ramos: “Na vertente original do século XIX até meados do século XX, a positivação dos direitos humanos é nacional: o positivismo nacionalista, então, exige que os direitos sejam prescritos em normas internas para serem exigíveis em face do Estado ou de outros particulares.” (RAMOS, 2016, p. 85) O risco gerado aos direitos humanos pela adoção do positivismo nacionalista é visível, no caso de as normas locais (inclusive as constitucionais) não protegerem oureconhecerem determinado direito ou categoria de direitos humanos. Pode-se citar o exemplo nazista, que mostra a insuficiência da fundamentação positivista nacionalista dos direitos humanos (RAMOS, 2016). Essa, no entanto, é um fazedora inacabada, tendo que ser aperfeiçoado o processo a cada instante: T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 16 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Reflita “A história da positivação nacional dos direitos humanos é, então, um processo inacabado, no qual a imperfeição das regras legais ou constitucionais de respeito aos direitos humanos revela a manutenção de injustiças ou a criação de novas.” (RAMOS, 2016, p. 85) T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 17 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Como resultado da Filosofia Política e das revoluções que marcaram o século XVII, passou-se a disciplinar a respeito dos direitos humanos pela doutrina, sendo referidos direitos ganhado espaço no Direito positivo. A maior parte das constituições traz um rol de direitos fundamentais. A positivação, seria então, a incorporação no ordenamento constitucional daqueles direitos universalmente atrelados à condição humana. Ramos (2016) leciona acerca da divergência entre os jusnaturalistas e os positivistas, indicando que não reside no reconhecimento ou não da existência de certos princípios de moral e justiça passíveis de revelação pela razão humana (mesmo que tenham origem divina). Ressalta-se que a divergência entre as duas Escolas jurídicas reside, sim, na defesa, pela Escola jusnaturalista, da superioridade de normas não escritas e inerentes a todos os seres humanos, reveladoras da justiça, em face de normas postas incompatíveis. Ademais, para os positivistas nacionalistas, essas normas reveladoras da justiça não pertencem ao ordenamento jurídico, inexistindo qualquer choque ou antagonismo com a norma posta (RAMOS, 2016). Ainda, arremata Ramos (2016): a moral e as regras de justiça podem sim influenciar a formação do Direito no momento da produção legislativa e também no instante do desempenho da atividade judicial. No que se refere à reconstrução dos direitos humanos no século XX, cabe mencionar que a partir das críticas utilitaristas superadas pela aceitação da necessidade de se associar a liberdade e autonomia individuais com o bem comum, ponderou-se, no caso concreto, os limites necessários a determinado direito para que se obtenha um benefício a outro. T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 18 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Portanto, os direitos servem para exigir do Estado e da comunidade as prestações necessárias para o bem-estar social fundado na igualdade. Ademais, a crítica marxista esvaziada pelo reconhecimento da autocracia e do poder arbitrário que imperaram nas ditaduras do chamado socialismo real do século XX, desmanteladas após a queda do Muro de Berlim (1989) e da dissolução final da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1991 (RAMOS, 2016). Assim, houve uma predominância positivista nacionalista dos direitos humanos do século XIX e início do século XX desmoralizada após a barbárie nazista no seio da Europa (1933-1945), berço das revoluções inglesa e francesa: T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 19 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Por outro lado, a predominância positivista nacionalista dos direitos humanos do século XIX e início do século XX ficou desmoralizada após a barbárie nazista no seio da Europa (1933-1945), berço das revoluções inglesa e francesa. O desenvolvimento do Direito Internacional dos Direitos Humanos gerou uma positivação internacionalista, com normas e tribunais internacionais aceitos pelos Estados e com impacto direto na vida das sociedades locais. Essa positivação internacionalista foi identificada por Bobbio, que, em passagem memorável, detectou que ‘os direitos humanos nascem como direitos naturais universais, desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada Constituição incorpora Declaração de Direitos) para finalmente encontrar a plena realização como direitos positivos universais’. (RAMOS, 2016, p. 90) T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 20 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Atualmente, os direitos humanos representam a nova centralidade do Direito Constitucional e também do Direito Internacional. No Direito Constitucional existe, então, uma jusfundamentalização do Direito, fenômeno pelo qual as diferentes normas de um ordenamento jurídico se formatam à luz dos direitos fundamentais: “Trata-se de uma verdadeira ‘filtragem pro homine’, na qual todas as normas do ordenamento jurídico devem ser compatíveis com a promoção da dignidade humana.” (RAMOS, 2016, p. 91) T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 21 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Fatos e dados No plano internacional, os direitos humanos sofreram uma ruptura ocasionada pelos regimes totalitários nazifascistas na Europa na Segunda Guerra Mundial e, após, foram reconstruídos com a internacionalização da matéria. T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 22 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 A partir disso, o Direito Internacional passou por uma lenta mudança do seu eixo central voltado à perspectiva do Estado, que passou a se preocupar com a governabilidade e com a manutenção de suas relações internacionais. Nesse passo, foi com a ascensão da temática dos direitos humanos previstos em diversas normas internacionais que os direitos humanos passaram a promover a entrada em cena da preocupação internacional referente à promoção da dignidade humana em todos os seus aspectos (RAMOS, 2016). Para o Supremo Tribunal Federal: “O eixo de atuação do direito internacional público contemporâneo passou a concentrar-se, também, na dimensão subjetiva da pessoa humana, cuja essencial dignidade veio a ser reconhecida, em sucessivas declarações e pactos internacionais, como valor fundante do ordenamento jurídico sobre o qual repousa o edifício institucional dos Estados nacionais” (Habeas Corpus 87.585-8, voto do Min. Celso de Mello, julgamento em 12-3-2008) A perspectiva moderna de fundamentação dos direitos humanos centrada na defesa da autonomia e no reconhecimento da dignidade humana Sob a ótica moderna, o princípio da dignidade humana adquiriu papel central nas constituições nacionais e nos tratados internacionais modernos e é frequentemente utilizado como base para decisões judiciais sobre os mais diversos assuntos (FRIAS; LOPES, 2015). T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 23 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Fique de olho! Nesse passo, a defesa da dignidade humana ocupa lugar principal no discurso jurídico contemporâneo, uma vez que é a partir dela que se inicia o esforço para evitar a repetiçãodas atrocidades da Segunda Guerra Mundial (FRIAS; LOPES, 2015). T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 24 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Observe-se este realce: “O apelo à dignidade tem também sido recorrente nas decisões de diversos tribunais sobre diferentes matérias, como aquelas relacionadas à interrupção da gravidez de fetos anencéfalos (ADPF 54/DF), ao reconhecimento da união homoafetiva (ADPF 132/RJ e ADI 4.227/DF), às pesquisas com células-tronco embrionárias (ADI 3.510/DF), à proibição de trabalho escravo (RE 398.041/PA)” (FRIAS; LOPES, 2015, s/n) Ao longo do século XX, a dignidade da pessoa humana se tornou um princípio presente em diversos documentos constitucionais e tratados internacionais, sendo o conteúdo dos textos bastante semelhantes, que em geral, aludem que as pessoas têm a mesma dignidade, que esse é o parâmetro principal da ação estatal e/ou que o objetivo principal do Estado é promover a dignidade humana, como se vê nas disposições ao longo da Constituição brasileira de 1988 (FRIAS; LOPES, 2015). A perspectiva intercultural de fundamentação dos direitos humanos A universalidade dos direitos humanos possui vínculo indissociável com o processo de internacionalização dos direitos humanos. Veja-se: T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 25 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 A universalidade dos direitos humanos consiste na atribuição desses direitos a todos os seres humanos, não importando nenhuma outra qualidade adicional, como nacionalidade, opção política, orientação sexual, credo, entre outras. (RAMOS, 2016, p. 85) Destaca-se que até a consolidação da internacionalização em sentido estrito dos direitos humanos, com a formação do Direito Internacional dos Direitos Humanos, os direitos dependiam da positivação e proteção do Estado Nacional, por isso eram direitos locais. O horror da Segunda Guerra foi crucial para que a humanidade buscasse novos patamares regulatórios: Produzido por Núcleo de Audiovisual e Tecnologias Educacionais (NATE) - ULBRA EAD Universidade Luterana do Brasil Todos os direitos reservados. T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 26 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Reflita “A barbárie do totalitarismo nazista gerou a ruptura do paradigma da proteção nacional dos direitos humanos, cuja insuficiência levou à negação do valor do ser humano como fonte essencial do Direito. Para o nazismo, a titularidade de direitos dependia da origem racial ariana. Os demais indivíduos não mereciam a proteção do Estado. Os direitos humanos, então, não eram universais nem ofertados a todos.” (RAMOS, 2016, p. 92) T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 27 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Cabe mencionar que os números dessa ruptura dos direitos humanos são significativos, tendo em vista que foram enviados aproximadamente 18 milhões de indivíduos a campos de concentração, gerando a morte de 11 milhões deles, sendo 6 milhões de judeus, além de inimigos políticos do regime, comunistas, homossexuais, pessoas com deficiência, ciganos e outros considerados descartáveis pela máquina de ódio nazista (RAMOS, 2016). Dessa feita, foi esse legado nazista de exclusão que exigiu a reconstrução dos direitos humanos após a Segunda Guerra Mundial, sob uma óptica diferenciada, que buscava a proteção universal, garantida, subsidiariamente e na falha do Estado, pelo próprio Direito Internacional dos Direitos Humanos. O ano de 1948 merece ser enfatizado como um ponto muito importante na construção dos Direitos Humanos: T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 28 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Fique de olho! “O marco da universalidade e inerência dos direitos humanos foi a edição da Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, que dispõe que basta a condição humana para a titularidade de direitos essenciais. O Art. 1º da Declaração de 1948 (também chamada de “Declaração de Paris”) é claro: “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Para a Declaração de Paris, o ser humano tem dignidade única e direitos inerentes à condição humana. Consequentemente, são os direitos humanos universais. Fica registrada a inerência dos direitos humanos, que consiste na qualidade de pertencimento desses direitos a todos os membros da espécie humana, sem qualquer distinção.” (RAMOS, 2016, p. 92) Observa-se que, desde a Declaração Universal de 1948 até hoje, a universalidade dos direitos humanos foi sendo constantemente reafirmada pelos diversos tratados e declarações internacionais de direitos editadas pelos próprios Estados. Destacam-se, dentre elas, a Proclamação de Teerã, emitida na 1ª Conferência Mundial de Direitos Humanos da ONU, realizada em Teerã, em 1968, na qual ficou disposta a indispensabilidade da comunidade internacional no cumprimento da sua obrigação solene de fomentar e incentivar o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção nenhuma por motivos de raça, cor, sexo, idioma ou opiniões políticas ou de qualquer outra espécie (RAMOS, 2016). Os Direitos Humanos passaram então a ter uma dimensão mais ampla, transnacional: “Chegamos ao que se convencionou chamar, na exposição de Weis, de transnacionalidade, que consiste no reconhecimento dos direitos humanos onde quer que o indivíduo esteja. Essa característica é ainda mais importante na ausência de uma nacionalidade (apátridas) ou na existência de fluxos de refugiados. Os direitos humanos não mais dependem do reconhecimento por parte de um Estado ou da existência do vínculo da nacionalidade, existindo o dever internacional de proteção aos indivíduos, confirmando-se o caráter universal e transnacional desses direitos.” (RAMOS, 2016, p. 93) Assim, os direitos humanos não mais dependem do reconhecimento por parte de um Estado ou da existência do vínculo da nacionalidade, existindo o dever internacional de proteção aos indivíduos, confirmando-se o caráter universal e transnacional desses direitos. Logo, os direitos humanos exigem que o Estado aja para protegê-los, quer de condutas dos agentes públicos ou mesmo de particulares (dimensão objetiva dos direitos humanos). T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 29 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 No que se refere à indivisibilidade, cite-se o conceito de Ramos (2016), que dispõe sobre o reconhecimento de que todos os direitos humanos possuem a mesma proteção jurídica, uma vez que são essenciais para uma vida digna. Tem-se, então, que a indivisibilidade possui duas facetas, sendo a primeira um reconhecimento que o direito protegido apresenta uma unidade incindível em si; já a segunda faceta, mais conhecida, assegura que não é possível proteger apenas alguns dos direitos humanos reconhecidos (RAMOS, 2016). Podemos assim destacar a característica muito presente, que é a da indivisibilidade dos Direitos Humanos: “O objetivo do reconhecimento da indivisibilidade é exigirque o Estado também invista – tal qual investe na promoção dos direitos de primeira geração – nos direitos sociais, zelando pelo chamado mínimo existencial, ou seja, condições materiais mínimas de sobrevivência digna do indivíduo. A indivisibilidade também exige o combate tanto às violações maciças e graves de direitos considerados de primeira geração (direito à vida, integridade física, liberdade de expressão, entre outros) quanto aos direitos de segunda geração (direitos sociais, como o direito à saúde, educação, trabalho, previdência social etc.)” (RAMOS, 2016, p. 94) T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 30 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Fique de olho! Já o conceito de interdependência (ou inter-relação), dispõe sobre o reconhecimento de que todos os direitos humanos contribuem para a realização da dignidade humana, o que exige a atenção integral a todos os direitos humanos, sem exclusão. Reconheceu-se, dessa forma, que os direitos humanos formam uma unidade de direitos tida como indivisível, interdependente e inter-relacionada. Ramos (2016) elenca as normas internacionais que confirmaram a indivisibilidade e a interdependência: a. Proclamação de Direitos Humanos da 1ª Conferência Mundial de Direitos Humanos da ONU (Teerã, 1968). b. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento (1986). c. Declaração de Viena (aprovada na 2ª Conferência Mundial de Direitos Humanos da ONU, 1993). T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 31 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 32 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 Referências COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. FRIAS, Lincoln; LOPES, Nairo. Considerações sobre o conceito de dignidade humana. Revista Direito GV (on-line), v. 11, p. 649-670, 2015. PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. São Paulo: Saraiva, 2018. RAMOS, André de Carvalho. Curso de direitos humanos. São Paulo. Saraiva, 2017. Créditos T002 https://www.sites.google.com/ulbra.br/G000280GS001/t002 33 of 33 12/04/2022 16:48 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0 https://www.sites.google.com/ulbra.br/g000280gs001/t001?authuser=0