Prévia do material em texto
Desenho Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Ms. Miguel Luiz Ambrizzi Revisão Textual: Prof. Ms. Claudio Brites História e Tipos de Desenho • Introdução: Elementos Básicos e Tipos de Desenho • Os Materiais de Desenho por Fricção • Os Materiais Gráficos no Decorrer da História, Suportes e Meios • O desenho Como Registro: Observação, Memória, Cego e Gestual (criação) · Abordaremos conceitos sobre a história e os tipos de desenho, sobre os materiais gráficos utilizados no decorrer da história, suportes e meios. Falaremos sobre o desenho como registro e abordaremos temas como a observação, a memória, o desenho cego e gestual (criação), construção e desconstrução. · Entender os aspectos relevantes da representação do desenho, o desenvolvimento da representação por meio dos materiais utilizados e a introdução sobre os conhecimentos de modos de fazer, conceitos necessários para a compreensão deste início de estudo em artes e principalmente em desenho. OBJETIVO DE APRENDIZADO História e Tipos de Desenho Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como o seu “momento do estudo”. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo. No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE História e Tipos de Desenho Contextualização Avaliando os exemplos apresentados para a compreensão de um percurso com a teoria e a prática do desenho, considera-se importante o olhar atento aos diferentes caminhos e processos criativos adotados pelos artistas ao longo do tempo. Nesta unidade, além de propormos um olhar para esse entendimento, consideramos de fundamental importância o aprofundamento da pesquisa e o olhar curioso para as relações que envolvem o desenho, seus processos criativos e seus criadores. Assim, recomenda-se assistir ao documentário All in the Mind - The Secret to Drawing: Parte 1: https://youtu.be/9H59cVnnF9Y Parte 2: https://youtu.be/VEz3JwCMZcQ Parte 3: https://youtu.be/DY_t2cwJQnw Parte 4: https://youtu.be/x4X-jWKzaaQ Nesse documentário, o que nos interessa são os exemplos dados pelos diferentes desenhos e produções realizadas pelos diversos artistas. Ex pl or 8 9 Introdução: Elementos Básicos e Tipos de Desenho Ao iniciarmos um estudo sobre o desenho, podemos refletir sobre nossas próprias experiências, por meio das quais, de uma forma mais imediata, adquirimos uma ideia, uma imagem do que essa palavra ou conceito representa para cada um de nós. Mesmo diante de nossas experiências com o ato de desenhar (desde as primeiras garatujas, rabiscos, até o desenvolvimento do desenho enquanto linguagem ao longo do tempo), é imprescindível atentarmos também para o conceito da palavra desenho em seus diferentes significados e usos, ampliando, dessa forma, as possibilidades de entendimento sobre a experiência existente com o desenho, sua representação e utilização através dos tempos. É com a garatuja, com a experimentação livre dos instrumentos para desenho – como carvão, lápis, bastões, canetas diversas, etc. – e das formas – como linhas distintas, pontos, etc. –, que temos a oportunidade de materializar inúmeros gestos desde a primeira infância. A garatuja é uma expressão de desenho genuína; é muito presente desde as fases iniciais da infância e apresenta-se com muita força, manifestando-se como livre expressão, configurando-se como um processo inicial de experimentação com o desenho e o ato de desenhar. Figura 1 – Gabriel, 2 anos e 7 meses. Garatuja infantil. Caneta hidrográfi ca sobre papel, 2015 Fonte: Acervo do Autor Essa disciplina é proposta numa perspectiva do desenho não tido somente como um meio de representação ao longo da história e como uma visualização de um resultado, mas pretendemos propor que o aluno tenha momentos de experimentação e se permita exercitar sua criatividade. 9 UNIDADE História e Tipos de Desenho Portanto, acreditamos que para ser um bom professor de artes é necessário conhecer os procedimentos artísticos, utilizá-los e ter interesse pela área para que, posteriormente, possa despertar nos alunos o envolvimento com as artes visuais. Nesta disciplina, é preciso dedicação e exercitar a prática do desenho para que se tenha um efetivo aproveitamento, pois se aprende a desenhar praticando. O desenho é uma linguagem a qual usamos para expressar uma ideia, uma imagem, um signo. Em muitas pessoas o desenho se perde lá na infância, principalmente quando aprende-se a ler e a escrever na escola e a realizar as operações matemáticas. Muitos professores há décadas se preocupavam somente com esses saberes e não se preocupavam com o pensamento, o conhecimento e a prática artística. Infelizmente, muitos dos desenhos que fazemos quando criança e que foram impostos como sendo o “desenho correto” por outras pessoas (familiares ou professores) continuam em nossa memória até os dias atuais. Esses desenhos estereotipados permanecem em nosso repertório visual e, muitas vezes, prejudicam nosso julgamento, evocando conceitos que se perdem entre o desenho certo e o errado, o desenho bonito e o desenho feio. Por conta disso, muitos de nós provavelmente tenhamos a expressão através do desenho “adormecida” lá na adolescência, por conta desses julgamentos que nos paralisaram; mas este é o momento de recuperar o desenho perdido. Somos rodeados por desenhos. Eles estão presentes em nossa vida tanto na percepção de como enxergamos a natureza e o nosso mundo circundante como também na interferência da ação do homem na natureza já existente, com criações de formas, ocupando espaços. Observar a linha do horizonte ao longe, por exemplo, é um bom exercício para percebermos isso. A forma como a enxergamos nos mostra que, ao longe, na paisagem, existe uma linha no horizonte dividindo dois elementos de força, duas superfícies constituintes dela: céu e chão (ar e terra), céu e água (ar e líquido). Quanto maior a distância que temos da cena de uma paisagem na natureza, mais evidente é a sensação do desenho dessa linha no espaço. Por outro lado, relacionamo-nos, visualmente, o tempo inteiro, com outros inúmeros contornos, frutos dos objetos que nos circundam. Figura 2 Fonte: Wikimedia/Commons 10 11 Figura 3 – Desenho arquitetônico do período de Leonardo Da Vinci, em Milão Fonte: Wikimedia/Commons Figura 4 – Palácio de Cristal em Madri, Espanha – forte presença de linhasem contraste com a vegetação e a transparência dos vidros Fonte: Wikimedia/Commons Figura 5 – Tronco de árvore Fonte: Wikimedia/Commons Podemos, com estes exemplos visuais, de uma forma geral, considerar que assimilamos linhas, formas, volumes, texturas e suas qualidades por meio da percepção do olhar atento – aguçando nossa cognição – e da amplitude de informações que nos envolvem quando estamos diante de um objeto. Esse olhar atento perante o que nos rodeia contribui muito para a percepção que resultará tanto na realização quanto na observação de um desenho, seja ele graficamente realizado em uma superfície plana com materiais de desenhos – como lápis, carvão, etc. –, bem como os desenhos feitos com outros materiais e dimensões que extrapolam o plano bidimensional ou apresentam diferentes proporções, ou seja, o desenho no campo expandido ou o desenho tridimensional. Pode-se afirmar que tudo é desenho. Quando vemos “o resultado final” de um projeto, temos em sua estrutura um pensamento anterior, um desenho que estruturou a forma que vemos – seja ela uma pintura, um mosaico, uma instalação, uma escultura, uma planta de um desenho arquitetônico – e o seu resultado no espaço – um site specific, etc. 11 UNIDADE História e Tipos de Desenho Figura 6 – Desenho da Catedral de Brasília – Oscar Niemeyer Fonte: artinamericamagazine.com Figura 7 – Catedral de Brasília – Oscar Niemeyer Fonte: Wikimedia/Commons Figura 8 – Instalação Profundidade, Regina da Silveira, 2012 Fonte: reginasilveira.com 12 13 Considerando denominações mais imediatas, tomemos como exemplo as referências de algumas definições da palavra desenho. Dentre elas, encontramos esta: o ato, a ação física, motora de representar, por meio de gestos e de materiais, de símbolos, de formatos diversos, por exemplo, ideias do universo simbólico e criativo. Sabemos que essa delimitação não determina, definitivamente, o conceito de desenho, mas busca elucidar e trazer uma gama de elementos que supõem reconhecer o desenho em seus diferentes aspectos, assim como a definição exemplifica (não deixemos de lado a ideia de que desenho também é um processo mental, não apenas mecânico), ou ainda o desenho como projeto (Desígnio), onde a aplicação do desenho, a intenção com o desenho, determina caminhos para a realização do processo criativo – o projeto como propósito. Desenho SM. (lat. designu) 1 Arte de representar objetos por meio de linhas e sombras. 2 Objeto desenhado. 3 Delineação dos contornos das fi guras. 4 Delineamento ou traçado geral de um quadro. 5 Arquit Plano ou projeto de edifício, etc. 6 Desígnio. 7 Figura de ornatos, em tecidos, vasos, etc. Ex pl or Assim, considerando nosso universo ocidental, da palavra em italiano Disegno, proveniente do latim, derivou a palavra Desenho em nossa língua portuguesa. Essas designações, mesmo atribuindo valores à palavra, como já mencionado, não esgotam a amplitude de significados que o termo desenho possui. Considerando sua utilização, usos e costumes, vemos que o desenho relaciona-se de forma dinâmica com o tempo e o espaço em que se insere. O desenho está presente na história humana desde o desenvolvimento da história do homem e também do desenvolvimento da linguagem, já no período denominado Pré-História. O homem sempre desenhou, por vários motivos, alguns só podemos imaginar, outros foram levantados em anos de pesquisas, mas sabemos que ao ato de desenhar até interpretações mágicas já foram atribuídas. Independente das razões, o desenho sempre existiu e perpetua incitando desejos e intenções tanto no campo das artes quanto como parte de um processo para alguma realização. Figura 9 – Animais desenhados, pintados na Gruta de Lascaux Fonte: Wikimedia/Commons 13 UNIDADE História e Tipos de Desenho Assim, percebendo esse desenvolvimento, é possível entender, também, que a relação que um arquiteto estabelece com o seu desenho (como no exemplo da Catedral projetada por Niemeyer) é diferente das intenções e ideias de um artista plástico em seu processo artístico ou, ainda, das que um designer emprega em suas ideias para seus projetos, formas, etc. Ao mesmo tempo, os materiais possuem a função de construir o repertório visual do desenho, do projeto, da imagem pretendida, transformando-se de acordo com sua natureza e época. Figura 10 – Desenho digital gerado em um programa de computador do tipo CAD Fonte: Wikimedia/Commons Figura 11 – Pesos e categorias de linhas Fonte: Wikimedia/Commons Como exemplo, temos o desenho mais específico, como o desenho científico ou botânico, em que a destreza e a precisão técnica são fatores imprescindíveis em seu processo e no resultado final, pois esse tipo de desenho requer uma descrição exata de cores e formas tidas como naturais. Também temos o desenho em quadrinhos, em sua forte relação com a comunicação de massa, que assume narrativas diversas 14 15 para entretenimento e arte. Aliás, temos o desenho na arte, meio de produções artísticas em poéticas tão pessoais, comuns a cada artista. Nesses gêneros, o desenho desempenha seu papel como registro, processo, projeto, síntese e obra final, pois o desenho não é apenas um instrumento, mas sim uma linguagem dentre tantas outras possíveis e, provavelmente, constitua-se como essencial em seu processo, levando em consideração seu caráter germinal. Figura 12 – Leonardo da Vinci. Desenho de um exemplar de junco Fonte: Wikimedia/Commons Figura 13 – Phalaenopsis amabilis Carl Ludwig Blume, 1835 Fonte: Wikimedia/Commons Figura 14 – As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte, de Angelo Agostini, a primeira história em quadrinhos do Brasil Fonte: latincontemporary.com 15 UNIDADE História e Tipos de Desenho Figura 15 – Artista em execução da obra Encontro das Águas, Sandra Cinto, 2013 Fonte: Wikimedia/Commons Figura 16 – Caricatura de Arturo Alessandri Fonte: Wikimedia/Commons Figura 17 – Desenho de Rembrandt Fonte: Wikimedia/Commons Figura 18 – Fachada decorada com grafite, em Olinda, Pernambuco. Fonte: Wikimedia/Commons E é por meio do repertório dos elementos que compõem o desenho que compreendemos diferentes forças dessa linguagem. Desses elementos, podemos destacar o ponto, a linha, a forma, a luz, a sombra, os volumes, cada um deles com suas qualidades, potencialidades e suas singularidades já apontadas ao longo da história da arte, diante de seu uso e de suas problematizações teóricas e práticas diversas, como em Kandinsky, Alberti, entre outros. Figura 19 – Crayon, aquarelle et endre de Chine sur papier signé Wassily Kandinsky, sans titre Fonte: Wikimedia/Commons 16 17 Não é raro nos referirmos ao ponto, tão mínimo, como “ponto de partida”, e esse se inicia com o gesto que desencadeia um processo de linhas e, por consequência, de imagens. O simples gesto do encontro entre a ponta do lápis, ou qualquer outro material, e determinada superfície já indica sua existência. O ponto é um dos elementos visuais mínimos que utilizamos para construir um desenho e que nos permite infinitas possibilidades. O ponto assume diferentes formas (até uma figura humana pode ser um ponto), tudo depende do referencial e das proporções. O ponto pode ser “ponto de partida”, mas também pode ser exatamente o elemento principal ou constituinte de uma ideia inserida em uma obra ou, ainda, fazer parte do processo criativo de um artista. Com um simples ponto pode-se obter inúmeras ideias e descobertas, ele pode ser representado por uma infinidade de materiais e procedimentos artísticos. A técnica do pontilhismo, também conhecida por divisionismo, consiste no uso e na aplicação de pequenas manchas, de forma que, a uma certa distância, elas se fundem no olhar do espectador, produzindo um efeito de unidade, proporcionando efeitos de texturas e áreas de diferentes tonalidades. Muito comum no final do século XIX e início do século XX, com pintores como George Seurat e Paul Signac, através da justaposição de pontos,mais aproximados ou não, com maior ou menor espessura e pressão, essa técnica exige paciência e dedicação no seu processo. Figura 20 – Paul Signac, O Grande Canal (Veneza), 1905 Fonte: Wikimedia/Commons A B C D A C Figura 21 – Desenho feito com a técnica do Pontilhismo Fonte: Istock/Getty Images Você poderá estabelecer também relações do uso do ponto na construção da imagem na técnica do mosaico. Busque imagens e textos de história da arte que falem dos mosaicos bizantinos para compreender a presença do ponto em outras técnicas que vão além do desenho e da pintura. Ex pl or 17 UNIDADE História e Tipos de Desenho No desenho anterior, podemos encontrar quatro variações de pontilhados cujas espessuras e distanciamentos criam as áreas de diferentes tonalidades, constituindo a imagem. Já num contexto contemporâneo, temos o trabalho da artista japonesa Yayoy Kusama, cujos pontos se inserem em diferentes contextos poéticos e de distintas linguagens que vão da pintura à escultura e à instalação, constituindo um elemento primordial na sua produção artística. Figura 22 – Yayoi Kusama, Infinite Obsession, 2014 Fonte: KUSAMA, Yayoi A linha, que é dinâmica nessa relação com o ponto inicial, como vimos no exemplo da garatuja, constitui-se como um elemento de força no desenvolvimento do gesto no Desenho. Define-se a linha como o ponto em movimento. Ela demarca espaços e registra um gesto numa superfície. Traça caminhos, dá lugar à forma, atribui dinamismo ao desenho de acordo com suas qualidades de espessura, comprimento (espessa, fina, longa, curta, contínua, interrompida, diagonal, curva, etc.) e com a intenção no desenho. A linha pode se apresentar de diferentes modos, expressando o estado de espírito do artista, sofrendo alterações e variações na intensidade (clara ou escura), na espessura, na medida, além da direção, do ritmo, da densidade e energia. Figura 23 – Parmigianino: Sagrada Família com pastores e anjos Desenho, Metropolitan Museum of Art Fonte: Wikimedia/Commons Figura 24 – Ted Gould, Menina na Poltrona Fonte: GOULD, Ted Figura 25 – Desenho com linhas expressivas Fonte: Istock/Getty Images 18 19 Entretanto, a linha que utilizamos no desenho bidimensional, para marcar contornos, por exemplo, não existe na natureza, é apenas uma convenção do homem criada para representar e parar comunicar. Dentre as qualidades expressivas da linha, temos a técnica de hachura cruzada, ou seja, a criação de texturas e tonalidades através do cruzamento ordenado de linhas. A criação e uso de diferentes tipos de traçado num desenho possibilita criar diferentes planos, criar a sensação de volume, etc. Figura 26 – Desenho com diferentes tipos de linhas e hachuras Fonte: Istock/Getty Images No livro Fundamentos do Desenho Artístico, seu autor aponta aspectos técnicos e de materiais usados na hachura: Os grises (tons cinzentos) com traços são obtidos com a combinação de linhas que formam hachuras; a distância entre essas linhas pode ser maior ou menor, conforme sejam necessários tons claros, médios ou escuros. Do mesmo modo, a pressão exercida com a grafite determina a intensidade do tom. As hachuras paralelas e as hachuras cruzadas são as mais habituais; convém praticar com elas, pois cada tipo de hachura proporciona um acabamento diferente. Os lápis de grafite e as penas metálicas são os instrumentos ideais para construir hachuras. São muitas as formas de elaborar o traço ou hachura, de acordo com a intenção que se pretenda conferir ao trabalho. Num mesmo desenho é possível utilizar diferentes tipos de hachura, alternados com sombreados e coloridos. Convém praticar com elas, pois cada tipo confere um aspecto diferente ao desenho (ROIG, 2007, p. 80). Para além das hachuras e gestualidade no desenho, as linhas ainda funcionam como guias para a nossa percepção espacial e a sua representação no plano bidimensional. Os desenhos elaborados a partir da técnica da perspectiva se constituem pela representação da linha do horizonte em uma folha de papel, essa linha divide planos, estruturando o desenho em linhas horizontais e, partindo do ponto de fuga, dá forma ao espaço, construindo, traçando diagonais e outras direções de linhas ao que se pretende desenhar. 19 UNIDADE História e Tipos de Desenho Figura 27 – Exemplo com ponto de fuga. Técnica de aplicação de pontos de fuga, por Hans Vredeman de Vries (1605) Fonte: Wikimedia/Commons Importante! Serão aprofundados os conhecimentos sobre a perspectiva mais adiante, onde abordare- mos desde as leis clássicas da perspectiva até a sua subversão no desenho contemporâneo. Importante! A forma espacial, seja geométrica ou figurativa, indica características funda- mentais sobre sua natureza, e seu reconhecimento visual acontece pela incidência de luz sobre sua superfície. Nosso mundo aparente é percebido e apreciado por essa relação entre a luz e o nosso mecanismo visual (o olho juntamente com o cérebro), que nos faz reconhecer o que é aplicado à visão humana e consegue captar e perceber a diversidade de formas existentes a partir da incidência de luz (maior, menor, difusa, direta, etc.), que também é responsável por indicar cores, sombras, aspectos espaciais dos objetos, texturas, entre outras coisas. Desenhar requer perceber essas nuances. O artista plástico Wassili Kandisnky, por exemplo, dedicou-se poeticamente à representação da linha, do plano, da cor - que, como já vimos, são elementos estruturais para a visão humana - e, durante um bom período de sua produção, teve o ponto, a linha, o plano, a cor como seu objeto de interesse, sendo o desenho fator preponderante em suas pinturas. Figura 28 – Estudo da graduação de luz e sombra Fonte: Wikimedia/Commons 20 21 Figura 29 – Wassily Kandinsky, Amarelo, Vermelho e Azul, 1925 Fonte: Wikimedia/Commons Figura 30 – Wassily Kandinsky, Mild Tension, 1923 Fonte: Wikimedia/Commons A gama de repertório que compõe esses elementos do desenho norteia o artista em diversas criações, e a compreensão dos aspectos de cada um deles, na práxis, estabelece-se junto com o processo criativo, considerando questões culturais e a própria criatividade no processo de criação em profunda relação com a matéria- prima que a realiza. Sobre esse assunto, veremos mais a seguir. 21 UNIDADE História e Tipos de Desenho Os Materiais de Desenho por Fricção Quando se esfrega na superfície do papel qualquer material que atue por meio de atrito, uma miríade de partículas de pigmento se desprende, deixando um traço intenso, mas pouquíssimo estável; basta tocá-lo com os dedos para que ele se desfaça e se disperse em forma de fuligem. É justamente a falta de estabilidade desses materiais que os torna adequados para se começar a desenhar, uma vez que eles possibilitam retificar e corrigir com facilidade (ROIG, 2007, p. 11). Os materiais possuem suas próprias características intrínsecas e cabe ao artista sua liberdade de manejo dos mesmos ao utilizar diferentes técnicas e linguagens. No entanto, ao estudarmos os fundamentos do desenho, é preciso termos consciência dessas características para tirarmos proveito das possibilidades oferecidas pelos materiais, os quais veremos a seguir. O Carvão O carvão é um dos materiais mais antigos, é versátil e reflete a menor alteração de pressão na sua aplicação. Hoje em dia temos uma variedade de carvão específico para desenho, desde os bastões naturais finos até as barras cilíndricas, quadradas, em formato de lápis e carvão em pó. É um material muito instável e pouco aderente ao suporte, isso faz com que tenhamos uma facilidade em apagá- lo somente ao passarmos os dedos sobre ele ou soprando com força. Para fixá-lo a uma superfície, após o término do desenho, utilizamos um fixador em spray específico para desenho ou até mesmo laquê de cabelo no caso de exercícios e estudos iniciais. Figura 31 – Tipos de carvão para desenho Fonte: Wikimedia/Commons 22 23 Grafi te Comparativamente a outros materiais,o grafite é um dos mais populares entre os estudantes de arte e artistas, pela sua permanência na superfície e pelo seu fácil manejo. Com ele conseguimos fazer desde um rascunho rápido a um desenho mais detalhado, por ser um meio imediato, versátil e sensível. Geralmente redondos ou hexagonais, os lápis de grafite possuem no geral um tamanho estabelecido de 17,5cm, com variações da forma, do diâmetro da mina e da vareta. De acordo com Smith (2006, p. 65), tanto em lápis ou em lapiseiras, a mina de grafite que faz o desenho é basicamente o mesmo produto em todos os casos. Uma gama de minas das finas às espessas, de 0,3 mm a 12 mm e apresentando graus de dureza que vão do duro ao macio, de 7H a 8B proporciona uma larga variedade de manipulações e técnicas. Além das diferentes tonalidades de cinzas, dos mais claros aos mais escuros. Os artistas preferem os grafites mais macios porque sua gradação é mais intensa, no entanto, em alguns casos, é necessário alternar lápis de diferentes gradações num mesmo desenho para que se tenha uma reprodução da luz mais sinuosa até a sombra mais profunda e intensa. Figura 32 – Lápis de puro grafi te Fonte: Wikimedia/Commons Ainda há barras de grafite ou o lápis redondo de puro grafite (também conhecido como lápis integral), sem o revestimento de madeira, nas formas hexagonais ou retangulares e quadradas, também apresentando diferentes durezas e permitindo uma grande variedade de traços. Podemos desenhar com o grafite sobre várias superfícies devido a sua natureza oleosa, que o torna bastante permanente. Conseguimos, de acordo com as qualidades dos próprios materiais e com as intensidades de pressão do lápis, resultados com aspectos mais aveludados e suaves ou mais intensos e agudos. A forma como o seguramos resultará em diferentes traços, que vão dos mais finos, quando utilizamos a ponta, até as áreas mais amplas, utilizando-o na transversal. Para aprofundar seus conhecimentos sobre como os materiais são fabricados, consulte o livro: SMITH, R. Manual Prático do Artista. Porto: Civilização, 2006. Trata-se de um material bem completo e detalhado sobre todos os materiais e técnicas artísticas, amplamente ilustrado e que apresenta as possibilidades estéticas dos materiais. Ex pl or 23 UNIDADE História e Tipos de Desenho Lápis Conté e Sanguínea Os lápis conté pretos, brancos, marrons (sépia) e em tons marrom-avermelhados, conhecidos como “sanguíneos”, são os preferidos para retratos e figuras humanas. Produzem um traço mais sutil que o do carvão ou lápis, mas são excelentes nos efeitos arrojados. São feitos com pigmentos naturais cor de terra, unidos por um aglutinador que os torna mais firmes que o carvão, permitindo a construção de áreas de preto uniforme devido à sua aderência ao papel. Esses tons também são disponíveis na forma de barras. Figura 33 – Lápis conté e giz em tons de preto, cinzas, sanguinea e branco Fonte: Wikimedia/Commons Acessórios: Esfuminho, Borracha, Estilete e Apontadores São muitos os acessórios que poderão ser necessários para o trabalho de desenho. Cada artista acaba por reunir, aos poucos, o seu conjunto de ferramentas pessoais . O esfuminho é uma espécie de lápis de papel maciço com duas pontas para friccionar e fundir. Há esfuminhos de diversas espessuras e recomenda-se utilizar uma extremidade para tons mais escuros e outra para os mais claros, evitando acidentes no desenho. A fusão dos traços com o esfuminho acentua o efeito volumétrico da figura, pois ele é um instrumento que facilita o defeito de degradê suave, fundindo os sombreados, suavizando os traços, eliminando os brancos existentes entre eles. A borracha é um acessório que vem auxiliar na construção do desenho, possibilitando o apagamento de traços indesejados. Há uma grande variedade de borrachas disponíveis no mercado: as tradicionais, as moldáveis, a goma, as de plástico e as de vinil. Para os trabalhos de desenho são indicadas as borrachas brancas, por serem mais eficientes. Possuem textura firme, não ferem a superfície do papel e podem ser cortadas facilmente em pequenos pedaços para facilitar no apagamento de áreas menores em trabalhos meticulosos. As ferramentas mais comuns utilizadas para apontar os lápis e pastéis são os apontadores e os estiletes. Os apontadores podem possuir diferentes diâmetros, para lápis mais finos ou mais grossos, e caracterizam-se por gerar uma ponta afiada e de tamanho padrão. Os estiletes permitem fazer pontas variadas, sendo mais achatadas, largas e alongadas, ampliando o uso do material em outros resultados. 24 25 Lápis de cor – aquarela, neon, metálicas Hoje em dia há uma variedade de lápis de cor disponíveis no mercado. Os mais conhecidos são os estandartizados, cuja permanência sobre o papel é de longa duração, como os utilizados nas escolas. Temos também os lápis com pigmentos solúveis em água, conhecidos como aquareláveis, os quais não são tão permanentes. Após o seu uso sobre o papel, usa-se um pincel úmido ou embebido em água para dissolver o pigmento, resultando em detalhes pictóricos. Ainda há artistas que exploram desenhar com os lápis aquareláveis sobre papel úmido, o qual já amolece a ponta, criando diferentes efeitos. Figura 34 – Lápis de cor aquarelável Fonte: Acervo do conteudista Por fim, temos outros lápis com uma variedade de tonalidades e matizes, com cores metálicas e neon, permitindo maior possibilidade de resultados para quem se identifica com a linguagem do desenho. Figura 35 – Lápis de cor metalizados e neon Fonte: Acervo do conteudista 25 UNIDADE História e Tipos de Desenho Giz pastel – seco e oleoso O giz pastel é um material que transita entre o desenho e a pintura, de acordo com a forma como é aplicado. Em geral, um desenho a pastel com destaque evidente linear é tido como desenho, enquanto aqueles em que as cores são construídas através das técnicas de camadas, e onde a linha tem um papel secundário, são, na verdade, pinturas – embora não tenham sido feitas com pincel. Os pastéis macios são “crayons secos feitos de pigmento em pó levemente aglutinado numa solução de come de tragacanto ou celulose de metil. Contêm geralmente um conservante e por vezes um pesticida” (SMITH, 2006, p. 77). Caracterizam-se pelo aspecto pulverizado e, por ser um material vulnerável e de pouca permanência (basta um sopro para desfazer grande parte da cor), necessita de uso de fixadores para evitar que o desenho se altere ou que suje em áreas indesejadas. Assim como o grafite, os pastéis secos possuem diferentes graus, sendo duros, médios ou macios (os mais tradicionais), e possuem diferentes formatos (finos, grossos, quadrados, cilíndricos). Há uma variedade de tons e cores que são disponíveis para compra separadamente ou em estojos. Já os pasteis oleosos assemelham-se mais aos lápis de cera, mas os de boa qualidade possuem maior quantidade de pigmento na composição e são ligeiramente mais macios que os de cera. De acordo com a temperatura da mão, o traço poderá ser mais áspero ou mais preciso. Eles possuem uma grande vantagem de não requererem fixador, já que os pigmentos são unidos por ceras e óleos. Não produzem linhas bem definidas, mas são ideais para desenhos arrojados e vivos, com áreas sólidas de cor. Figura 36 – Giz pastel seco em barras retangulares e giz pastel oleoso em barras redondas Fonte: Acervo do conteudista Pena e Nanquim A pena é um instrumento mais antigo que o lápis, o qual utiliza a tinta nanquim para elaborar trabalhos lineares, com precisão e limpeza. As penas tradicionais são feitas com penas de ave e de junco, além da variedade de penas para desenho fei- tas de aparos de aço e das canetas com aparos tubulares que armazenam a tinta e que possuem diferentes espessuras de linhas, cujas pontas são metálicas. “Trata-se de uma técnica definitiva em que a oportunidade de dar vida ao desenho à pena é uma só” (SMITH, 2006, p. 103). As canetas técnicas, comumente utilizadas por 26 27arquitetos, traçam linhas de espessura uniforme e têm de ser seguradas a um ângu- lo muito mais alto do que as penas de aço tradicionais. As penas de junco dão uma linha mais suave, as de desenho produzem uma linha dura e vincada. Figura 37 – Material tradicional de pintura a nanquim – base em pedra para diluição da tinta nanquim em barra (com detalhes em dourado) ou a líquida (tubo verde), juntamente com os pincéis Fonte: Acervo do conteudista Quais são as suas experiências com esses materiais de desenho? Quais você ainda não utilizou? Você já pensou nas formas como você utilizou esses materiais, como pegou, a força que utilizou, os gestos que fez? Aproveite esse momento para, além de rememorar, voltar a praticar exercícios de desenho, experimentando esses materiais agora de outras formas, conhecendo suas possibilidades. Ex pl or Os Materiais Gráfi cos no Decorrer da História, Suportes e Meios Nas imagens rupestres de milênios atrás, temos indícios de alguns percursos do homem e das descobertas de matérias-primas fundamentais utilizadas pelos nossos ancestrais e ainda mantidas, depois de anos, nas paredes das cavernas bem como em rochas, pedras, utensílios e, no decorrer dos tempos, em outros suportes, como folhas, couro, argila, madeira, papiro, tecido, papel, parede, entre outros. Figura 38 – Sítio Toca da entrada do Caixão da Vaca. Serra da Capivara, PI Fonte: Wikimedia/Commons 27 UNIDADE História e Tipos de Desenho Figura 39 – Urna funerária decorada em relevo, c. 400-1000 d.C., coleção Henry Law Fonte: Wikimedia/Commons Figura 40 – Mulheres fazendo Tecido – japonês Fonte: Wikimedia/Commons Figura 41 – Pigmento e corpo como suporte. Indígena brasileiro, representando sua rica arte plumária e de pintura corporal Fonte: Wikimedia/Commons Além dos principais suportes, matérias-primas, como carvão, pigmentos naturais, ossos, sangue, pedras, deram forma à representação imagética do homem ancestral, expressando imagens, como animais, caçadores e ferramentas de caça, rituais de dança, entre outros sinais, tornando-se registros preciosos das manifestações do comportamento humano e do desenvolvimento da representação da observação e inquietações subjetivas. As incisões, comumente observadas no desenho das paredes das cavernas, também compõem as imagens e, além disso, são usadas para a preparação do desenho. No período denominado pré-histórico, tanto a imagem desenhada quanto a imagem gravada constituíam características fundamentais dessas imagens. Figura 42 – Desenho rupestre. Veado com filhote. Pigmento natural sobre parede de caverna. Sítio arqueológico do Parque Nacional da Serra da Capivara, PI Fonte: Wikimedia/Commons 28 29 Figura 43 – Lion Twyfelfontein (Namíbia) Fonte: Wikimedia/Commons Figura 44 – Pedra do Ingá. Paraíba,PI. Painel vertical e linha de capsulares na Pedra do Ingá Fonte: Wikimedia/Commons 29 UNIDADE História e Tipos de Desenho Os desenhos eram feitos comumente com pedras negras (como o manganês), utilizavam, também, carvão e podiam ser coloridos com ocre vermelho, além de vegetais diversos, a fim de obter maiores nuances de cores. A mistura que propor- cionava a coloração podia ser realizada com o auxílio de uma espécie de canudo, como ossos – ou com a própria boca –, que, quando assoprado, a tinta mecanica- mente saía aerada, semelhante a um spray sobre a superfície do desenho. Volumes também eram obtidos pela observação de saliências nas próprias su- perfícies das cavernas onde eram realizados os desenhos, tornando a imagem ain- da mais sofisticada em sua composição e elementos visuais. As linhas, além de desenhadas, eram obtidas a partir dessa observação entre a figura e fundo e o gestual de sua realização; e até mesmo de um gesto inacabado, muitas vezes terminado pela percepção do reconhecimento da forma. Figura 45 – Bisão na Caverna de Altamira Fonte: Wikimedia/Commons Figura 46 – Pinturas na Cueva de las Manos, Argentina Fonte: Wikimedia/Commons Figura 47 – Reprodução de um dos bisões encolhidos, neste caso fêmea (Breuil, 1902 e 1935) Fonte: Wikimedia/Commons 30 31 Já entre os sumérios, por volta de 3.000 a.C., encontramos, de maneira mais acentuada, a escrita, o desenvolvimento de uma linguagem por meio de signos deno- minada cuneiforme. Essas representações foram comumente encontradas sobre a argi- la, mas também eram produzidas em outros suportes, como pedras. Eram escritas com ferramentas que permitiam sua característica em formato de cunha e o desenvolvimento de uma comunicação escrita como registro. Figura 48 – Tablete com escrita cuneiforme sobre pedra Fonte: Wikimedia/Commons Com os egípcios, posteriormente, além da escrita hieroglífica, o desenho teve surpreendente força, relacionando-se com histórias específicas e, também, tumulares, relacionadas à vida dos faraós. Foram realizadas nas paredes, onde, possivelmente, usava-se esboço preparatório para, em seguida, serem pintados com afrescos, resultando em um desenho com uma estética absolutamente linear. Também encontramos, nessa sociedade, a incisão, o desenho em baixo-relevo e a escrita hieroglífica em pedra e nas paredes junto aos desenhos. Além desses suportes, os egípcios utilizaram o papiro, que apresentava muita semelhança com o papel que conhecemos. A presença do desenho e da escrita caracterizou os registros do desenho nesse suporte, que, para serem realizados, necessitavam de um meio distinto, uma espécie de ponta parecida com a da caneta, exigindo uma precisão de traços finos, mas também firmes. Figura 49 – Seção do Livro dos Mortos do escriba Nebqed, cerca de 1300 a.C. Fonte: Wikimedia/Commons Figura 50 – Papiro, Século VII a IV a.C. Fonte: Wikimedia/Commons 31 UNIDADE História e Tipos de Desenho Os nanquins – muito apreciados no orien- te, mais precisamente na China e no Egito, de onde também se originou, em meados de 2500 a.C., a tinta utilizada para escrita e desenho, cuja composição era semelhante às tintas que conhecemos, feitas com misturas de carbono e aglutinantes – eram produzidos na forma com- pacta e diluídos de acordo com a tonalidade que se desejava obter no traçado. No ocidente, empregou-se o nanquim em outro formato, co- mumente em estado líquido, obtendo variações tonais a partir da adição de água à composi- ção existente, com resultados semelhantes ao da tinta compacta, embora diferentes nas suas particularidades mais sutis. O nanquim é capaz de produzir muitas va- riações de tons em uma mesma figura, além de possibilitar traços marcantes e, ao mesmo tempo, uma delicadeza nas tonalidades preten- didas, de acordo com o manejo e os materiais utilizados com ele. Figura 51 – Xu Beihong: Cavalo, Dinastia Qing Fonte: Wikimedia/Commons Utilizada tanto na escrita quanto no desenho e na pintura, a tinta nanquim ad- quiriu, nos desenhos e nas pinturas orientais chineses, aspectos culturais próprios, assumindo a posição de limiar entre a pintura e o desenho. Ambos são realizados com o mesmo instrumento, o pincel, e assumem uma estética com aspectos muito particulares, totalmente independente da arte ocidental e com grande valorização técnica, compondo uma tradição em suas práticas, usos e costumes. Como suporte, essa arte utiliza, em sua grande maioria, a seda, cerâmicas e, sem dúvida, o papel, cuja invenção é creditada aos chineses, milênios antes da era cristã, e que se tornará o suporte mais difundido em todo o mundo após seu surgimento. Além de pincéis variados, o nanquim pode ser utilizado com os chamados bicos de pena, industrializados ou naturais, feitos com penas diversas ou pontas artesa- nais, como as de bambus. Figura 52 – Sen no Rikyū, Suigetsu (Intoxicated by the Moon), 1575 Fonte: Wikimedia/Commons 32 33 Na civilização grega, embora expressões artísticas como a escultura e a arquitetura possuam maior ênfase, são notáveis os desenhos realizados nos vasos em argila assim como os produzidos em afresco. Nos vasos, quando pintados de preto, observa-sea retirada da linha que traça o desenho, revelando a cor da argila – o oposto também ocorre, valendo-se da ideia de positivo e negativo. São conhecidas como as pinturas negras e pinturas vermelhas. Figura 53 – Fundo de cálice em fi gura vermelha, com cena de Ajax e Cassandra, c. 440-430 a.C. Fonte: Wikimedia/Commons Ainda se vê a produção do desenho sobre a argila branca, enfatizando, de outra forma, a linha como atributo da composição e traduzindo com maestria a ideia do desenho para essa civiliza- ção tão ligada a formas monumentais, mas também com uma produção em- blemática em outros suportes. Assim, encontramos o positivo e o negativo, a relação entre figura e fundo no suporte tridimensional e em utensílios como va- sos e outros objetos. Figura 54 – Dançarinos arcaicos em vaso pintado Fonte: Wikimedia/Commons Figura 55 – Afresco na Tumba de Kalanzak Fonte: Wikimedia/Commons Além de objetos utilitários, esses desenhos eram produzidos também sobre placas de madeira preparadas com fundo branco – obtidos a partir de pó de osso – e sobre pergaminhos, e podiam tomar forma com pontas metálicas, de prata ou chumbo, com os quais era possível a aprendizagem tanto de técnicas gráficas como pictóricas. Figura 56 – Placa de madeira pintada, encontrada em Corinto. Século VI a.C. Fonte: Wikimedia/Commons 33 UNIDADE História e Tipos de Desenho Figura 57 – Músico etrusco da “Tumba do Triclínio”, em Tarquinia Fonte: Wikimedia/Commons Com os etruscos, encontramos um desenho cuja produção foi muito de- dicada a imagens relacionadas à arte tumular, com conhecimento dos afres- cos (que têm como característica a exe- cução do desenho e da pintura ainda com o revestimento da parede úmido, com aspecto fresco, que, ao receber o pigmento, funde-se com o suporte en- quanto seca), provavelmente uma ativi- dade que denotou um comportamento ligado às crenças religiosas daquela so- ciedade, esses vigoraram entre os séc. VI e IV a.C. Já a arte islâmica trouxe elementos gráficos mais intensos, especialmente com as ornamentações, o que inclui arabescos lineares, muitas vezes voltados à imagem abstrata, especialmente quando relacionada à religiosidade, na qual a iconografia desaparece evidenciando outras formas, incluindo a própria escrita como composição ornamental. Figura 58 – Shashwat Nagpal Fonte: Wikimedia/Commons Frases em árabe do Alcorão inscritas em parede nos jardins Lodhi, em Délhi, na Índia, a proibição islâmica de se registrar desenhos representando a natureza fez com que a arte islâmica se caracterizasse pelos desenhos geométricos e pelas obras de caligrafia. 34 35 Figura 59 – Iluminura - Tratado sobre a criação do mundo, Séc. XIII Fonte: Wikimedia/Commons No período da Idade Média, a pro- dução de desenho estabeleceu-se como projeto em suas mais variadas manifes- tações (arquitetura, pintura, afrescos) e nos chamados códices e iluminuras, referenciados na imagem iconoclas- ta e realizados sobre pergaminho. O desenho, nesse momento, arraigado à tradição cristã, ainda se apoiava na produção de aprendizado coletivo, em guildas, nas quais quase inexistia a autoria, embora já se encontrassem esboços, desenhos realizados fora das guildas e mosteiros. Essa produção veiculada fora das guildas e representada pelos códices ilustrados era tida como marginal. Um grande marco encontra-se nos desenhos de Villard de Honnecourt, arquiteto, que já são desenhos autorais. Seus desenhos lineares prenunciavam características góticas e foram realizados no século XIII. Figura 60 – Villard de Honnecourt Fonte: Wikimedia/Commons Figura 61 – Desenho arquitetônico de Villard de Honnecourt, Séc. XIII Fonte: Wikimedia/Commons 35 UNIDADE História e Tipos de Desenho Com a invenção atribuída aos chine- ses há milênios antes de Cristo e com a sua difusão pelo ocidente, o papel tor- nou-se um suporte mais popular e per- cebe-se, por volta do séc. XIV, sua uti- lização em substituição ao pergaminho. Mas foi no século XV, com o advento da imprensa, que o papel estabeleceu sua supremacia como suporte, man- tendo sua tradição de uso relacionada também ao desenho. Como “tema”, nota-se maior importância e interesse voltados para o entendimento da obser- vação da paisagem e do retrato. Figura 62 – Van Eyck. Desenho preparatório Fonte: Wikimedia/Commons Figura 63 – Jan van Eyck - Kardinal Niccolò Albergati Fonte: Wikimedia/Commons Figura 64 – Sandro Botticelli, 1490 - Galleria degli Uffizi, Florence Fonte: Wikimedia/Commons Figura 65 – Donato Bramante Fonte: Wikimedia/Commons Figura 66 – Desenho de Albrecht Dürer Fonte: Wikimedia/Commons 36 37 Em meados do século XV e início do século XVI, com o advento do Renascimento, o desenho passou a assumir status de obra de arte. Esboços, estudos preparatórios, anatômicos e práticas de cunho científico, desenhos projetavam as ideias dos grandes mestres do período. Temos, no Renascimento, uma produção que se estendeu a quatrocentos anos, e o desenho perpassou fortemente por todo o período. Cada artista assumiu, com o desenho, o projeto para as experimentações de suas obras e do universo sensível particular que as envolvia. O artista também era visto dessa forma e ganhou um status artístico e social. A efervescência cultural da época, o renascer das ideias greco-romanas, sobretudo dos estudos filosóficos de Platão e Aristóteles, e um olhar estético voltado para essa cultura favoreceram as inquietações da produção no período. Nesse ambiente, mui- tos artistas destacaram-se, influenciaram e foram influenciados pela produção que acontecia em muitas esferas, como a arquitetura, a escultura, literatura, artes visuais, entre outras. A compreensão do homem e do mundo reverberava nesse ambiente. A consciência do grafismo está presente em desenhos e projetos variados. Nos desenhos de Leonardo, por exemplo, em bico-de-pena ou sanguínea, lápis, ponta de prata, pincel, vê-se a ideia do sfumato, que segue com maestria em sua pintura, além de inúmeros projetos que seu desenho trouxe para observações diversas sobre a projeção de seus desejos e compreensão de mundo – entre eles os desenhos anatômicos, botânicos, retratos e figuras humanas, etc. Figura 67 – Leonardo da Vinci – Estudos anatômicos do ombro Fonte: Wikimedia/Commons Figura 68 – Leonardo da Vinci, Cabeça feminina (La Scapigliata) Fonte: Wikimedia/Commons Figura 69 – Leonardo da Vinci, Estudo de um cavalo Fonte: Wikimedia/Commons Figura 70 – Leonardo da Vinci, Vale do Arno, 5 de agosto de 1473 Fonte: Wikimedia/Commons 37 UNIDADE História e Tipos de Desenho Figura 71 – Leonardo da Vinci, Estudos de embriões (1510–1513) nos quais retrata imagens impossíveis de se ver na época, mas completamente atuais Fonte: Wikimedia/Commons Figura 72 – Leonardo da Vinci, Modelos de máquinas voadoras planejados por Leonardo Fonte: Wikimedia/Commons Michelangelo, que, entre tantas manifestações, tem na escultura sua grande mo- tivação, demonstra, em seus desenhos, um olhar dedicado aos volumes e à elegân- cia do gesto inacabado. Esteve envolvido em muitos projetos, reconhecidos pelos inúmeros estudos ligados à arquitetura, escultura, pintura, entre diversos desenhos e detalhes, em esboços realizados, muitas vezes, sobre um mesmo tema. Figura 73 – Michelangelo, Estudo para a Sibila Líbia Fonte: Wikimedia/Commons 38 39 Foi responsável pela execução do teto da Capela Sistina, obra que elevou seu desenho a outras proporções e dimensões, relacionando-o ao espaço arquitetônico e estabelecendo outra relação com a percepção do olhar, envolvendo a proporção e magnitude de uma grande composição pintada com afrescos. Estudos dizem que os desenhos eram feitos em escala e transpostos para a superfície com argamassa com carvão em pó que era aplicado através de pequenos furos ao longo das linhas compositivas (dos contornos das figuras), como uma espécie de estêncil. Figura 74 – Michelangelo, Vista do teto da Capela Sistina Fonte: Wikimedia/Commons Figura75 – Michelangelo, Estudo de Adão, 1510 Fonte: Wikimedia/Commons Figura 76 – Michelangelo, A Criação de Adão Fonte: Wikimedia/Commons 39 UNIDADE História e Tipos de Desenho Visitar site da Capela Sistina on-line: https://goo.gl/R3qX Ex pl or Nos anos Seiscentos, Rembrandt foi, certamente, uma referência considerá- vel. Vemos, em seus desenhos, muitos experimentos em que se observa a va- riação tanto no uso de técnicas quanto nas temáticas. Tem, entre suas caracte- rísticas, aproximações com Caravaggio, em que o claro-escuro prevalece como interesses presentes nas imagens, tor- nando a atmosfera da cena representa- da dramática, o que se dá pelo uso de contrastes entre sombra e luz. Em seus estudos de desenhos preparatórios, era frequente o uso de bico de pena com prevalência do traço firme, posterior- mente muito bem elaborado em suas gravuras em metal. Figura 77 – Rembrandt Fonte: Wikimedia/Commons No início do século XVIII, na Europa, iniciou-se, especialmente na França, uma escola de pintura, mantendo sua tradição e estendendo-se fortemente até o século XIX. Em paralelo, o campo gráfico desenvolveu-se, destacando-se Watteau como um grande desenhista daquele momento, conservando um exercício constante a partir de modelos e do uso de técnicas de carvão, sanguínea e pastel, com as quais evidenciava um desenho com nuances mais pictóricas. Watteau trabalhava com enorme fluência em seus desenhos, e as temáticas de seu interesse estiveram associadas aos modelos e temas que o inspiravam, os quais sempre observava ao desenhar, conferindo aos desenhos um dinamismo nos gestos e posturas do modelo representado. Figura 78 – Jean Antoine Watteau, Estudo de um dançarino com o braço estendido Fonte: Wikimedia/Commons Figura 79 – Jean Antoine Watteau, Jovem mulher sentada Fonte: Wikimedia/Commons 40 41 Os desenhos de retrato e de paisagem foram temas frequentes do período assim como os desenhos de nus. Já Francisco Goya desenvolveu uma expressão gráfica dedicada à gravura e estendeu-a a uma série de imagens como Os Caprichos, Os Desastres de Guerra e a Tauromaquia. Dessa forma, observa-se que seus desenhos possuíam um caráter de estudo, preparação para outros processos com a gravura, nos quais ganhavam ênfase elementos e valores representativos, como graduações de claro-escuro, intensidade de linhas, mas que já eram apontados no desenho de estudos, além da interpretação de seu tempo, sugerida pela dramaticidade de cena. Figura 80 – Fila superior: Desenhos preparatórios e Caprichos n.º 10.- “O amor e a morte” e n.º 12.- “A caça de dentes” Figura 80 – Fila inferior: Desenhos preparatórios e Caprichos n.º 17.- “Bem tirada está” e n.º 8.- “Que a levaram!” Fonte: Wikimedia/Commons Figura 81 – Desenho preparatório Fonte: Wikimedia/Commons Figura 82 – Gravura Fonte: Wikimedia/Commons 41 UNIDADE História e Tipos de Desenho Em meados do século XIX,ainda havia uma presença intensa da escola e tradição francesa, destacando-se desenhistas de paisagem, como Corot, com quem a paisagem ganhou uma atmosfera que mesclava efeitos de luzes e manchas. Mas, com Monet, o desenho ganhou traços mais pictóricos, muito mais ligados ao impressionismo. Van Gogh iniciou seus desenhos de forma mais linear e realista, com experimentos a carvão e, posteriormente, assumiu traços interrompidos, formando uma textura nos diferentes planos da imagem. Figura 83 – Jean-Baptiste-Camille Corot, ‘Le petit cavalier sous bois’, 1854 Fonte: Wikimedia/Commons Figura 84 – Claude Monet, Gondola em Veneza, 1908 Fonte: Wikimedia/Commons Figura 85 – Vincent Van Gogh, Cottage Garden, 1908 Fonte:metmuseum.org Figura 86 – Honoré Daumier “Gargantua”. Por causa dessa charge, do Rei da França como Gargantua, Daumier ficou preso seis meses no Ste Pelagic em 1832. Litografia, 1831 Fonte: Wikimedia/Commons 42 43 No Brasil, a academia do século XIX formou uma geração de ar- tistas. O ensino do desenho, os estudos e desenhos de modelo vivo foram imprescindíveis, sendo recorrentes inúmeros estudos e imagens dedicados ou realizados em torno desse tema. Da mesma forma, havia uma predileção pela produção de paisa- gens, mas são encontradas também a pintura de gênero e de na- tureza morta, ressaltando que esse estudo de desenho, no Brasil, era militar, arraigado à academia e às regras normativas. O desenho era o elemento principal do ensino artístico, levando à precisão da linha e do modelado. Segundo Barbosa, “A importân- cia desses elementos refl etia a infl uência dos exercícios de ob- servação da escultura, usada com maior frequência. Para os neo- clássicos o artista era um gênio, era uma inteligência superior que, através do desenho, seria limitada, domada pela razão, pela teoria, pelas convenções da composição para melhor entender a tradição e a história” (BARBOSA, 1978, p.34). Figura 87 – Almeida Júnior. Retrato de Zulmira Freire, séc. XIX Fonte: enciclopedia.itaucultural.org.br Ex pl or Na Arte Moderna, inicialmente, nota-se o uso muito claro da expressão gráfica com fins mais específicos, como ocorreu com os cubistas, incluindo Picasso e Braque, que desenhavam com a finalidade de decompor a imagem, processo que ganhou, na pintura e em outras etapas da estética pretendida, maior interesse. Em seus estudos para Guernica, Picasso buscou cada detalhe para composição da obra, valendo-se de vários desenhos até o momento de sua conclusão. Após ser finalizada, a obra traz claramente o jogo de linhas juntamente aos planos e tons, evidenciando o desenho junto aos planos que a cor sugere. Tornou-se uma obra em- blemática, tanto por sua temática, inesquecível, quanto pela composição riquíssima. Figura 88 – Pablo Picasso, Estudo para composição de Guernica VII, 1937 Fonte: museoreinasofia.es Figura 89 – Guernica [étude] II - Fonte: Pablo Picasso (1881-1973) Fonte: Wikimedia/Commons 43 UNIDADE História e Tipos de Desenho Foi um momento de afirmações e rupturas, por isso muito profícuo, no qual inúmeras ideias e estéticas se associaram às criações artísticas. Essa pesquisa estética revelou imagens como as cubistas e também as derivadas do movimento da pintura metafísica, marcadas pelas obras de De Chirico e Giorgio Morandi, e por todo o percurso de produções de imagens do século XX na Europa e nas Américas. No entanto, é com artistas modernos como Henri Matisse, Amedeo Modigliani, Toulouse Lautrec e Paul Klee que o desenho apresentará grande presença, já com grandes alterações estéticas. O desenho deixa de ser somente uma linguagem utilizada em estudos e esboços de pinturas, mas se integra com outros meios como o pastel e a tinta acrílica e a óleo, em trabalhos que muitas vezes tem aparência de inacabados. A Arte Moderna, após surgimento da fotografia, apresenta o interesse dos artistas em valorizar o trabalho feito pela mão e não por um aparato tecnológico. Com isso, tanto nas pinturas quanto nos desenhos, vemos surgir a marca da pincelada e a expressividade das linhas que antes eram “disfarçadas” e “ocultas” numa representação que buscava a representação do real. Agora, é a individualidade e particularidade dos gestos e expressividades dos artistas que estarão presentes na produção artística do período. Nestes exemplos aqui apresentados, podemos ver a simplicidade, a força e a precisão das linhas e manchas de Matisse, a leveza e a delicadeza dos gestos de Modigliani, a expressividade gestual de Lautrec e a agilidade do traço de Klee. Figura 90 – Henri Matisse, Sem título, 1938 Fonte: enciclopedia.itaucultural.org.br Figura 91 – Henri Matisse, Retrato de Sergei I. Shchukin, 1912 Fonte: metmuseum.org Figura 92 – Amedeo Modigliani, Retrato de Dona Rossa, 1915 Fonte: Wikimedia/Commons Figura 93 – Toulouse Lautrec, Desenho, 184- Fonte: Wikimedia/Commons Figura 94 – Toulouse Lautrec, Yvette Guilbert saúda o público, 1894 Fonte: Wikimedia/Commons Figura 95 – Paul Klee, Dama com Guarda-sol, 1883–1885, grafite sobre papel Fonte: Wikimedia/CommonsFigura 96 – Alberto Giacometti, Perfil de Yanaihara, 1956 Fonte: fondation-giacometti.fr 44 45 No Brasil, podemos citar, dentre outros, Cândido Portinari, Vicente do Rego Monteiro e Anita Malfatti que, influenciados por artistas modernos como Picasso e Matisse, trouxeram ao Brasil as vertentes estéticas que estavam sendo investigadas por esses artistas em Paris, buscando uma identidade nacional para a arte brasileira. Figura 97 – Candido Portinari, Menina Sentada, s/data Fonte: PORTINARI, Cândido Figura 98 – Vicente do Rego Monteiro, Figura Feminina, 1920 Fonte: enciclopedia.itaucultural.org.br Figura 99 – Anita Malfatti, O Grupo dos Cinco, 1922 – Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos Brasileiros – USP (São Paulo, SP) Fonte: enciclopedia.itaucultural.org.br 45 UNIDADE História e Tipos de Desenho Na arte contemporânea, o desenho ganhou autonomia total e assumiu proporções cada vez maiores. Pode ser entendido como uma prática que transitava em um universo multidisciplinar, dialogando com muitos fazeres e saberes e mantendo relações com diferentes suportes, materiais e situações. O projeto, o esboço e o desenho frequentemente eram vistos como obras de arte dentro do processo de produção artística. Tanto no campo expandido quanto no caderno de desenho, o desenho na arte contemporânea, muitas vezes, era visto como o processo, um meio de registro de uma ação, valorizando o processo de ações tangíveis e intangíveis, além de expressar o próprio projeto artístico. Ao olharmos alguns exemplos, como Spiral Jetty, de Robert Smithson, percebemos que o desenho de seixos muda a paisagem existente e faz, dentro da obra, uma interferência estética em um momento e um lugar específico, interferência que inclui o tempo, o espaço, o clima, a localização, a dimensão do desenho e o referencial de quem está olhando ou compartilhando a experiência da obra, entre outras conexões às quais estão relacionadas este site specific. Site Specific: O termo sítio específico faz menção a obras criadas de acordo com o ambiente e com um espaço determinado. Trata-se, em geral, de trabalhos planejados – muitas vezes fruto de convites – em local certo, em que os elementos esculturais dialogam com o meio circundante, para o qual a obra é elaborada. Nesse sentido, a noção de site specific liga-se à ideia de arte ambiente, que sinaliza uma tendência da produção contemporânea de se voltar para o espaço – incorporando-o à obra e/ou transformando-o –, seja ele o espaço da galeria, o ambiente natural ou as áreas urbanas. Relaciona-se de perto à chamada land art [arte da terra], que inaugura uma relação com o ambiente natural. Não mais paisagem a ser representada, nem manancial de forças passível de expressão plástica, a natureza é o locus onde a arte se enraíza. O espaço físico – deserto, lago, canyon, planície e planalto – apresenta-se como campo em que artistas realizam intervenções precisas – por exemplo, em Double Negative [Duplo Negativo], de 1969, em que Michael Heizer (1944) abre grandes fendas no topo de duas mesetas do deserto de Nevada; ou em Spiral Jetty [Píer ou Cais Espiral], que Robert Smithson (1938 - 1973) constrói sobre o Great Salt Lake, em Utah, Estados Unidos, em 1971. Ex pl or Figura 100 – Robert Smithson, Spiral Jetty, 1970 Fonte: Wikimedia/Commons 46 47 Esse desenho sugere a previsão de um projeto, materiais, interferências naturais e, ao mesmo tempo, ganha outras proporções e dimensões, diferentes de expo- sições mais tradicionais, em galerias. Relaciona-se diretamente com o acaso em certos momentos, com a surpresa regida pela relação direta com o espaço, o desa- fio de domínio da imprevisibilidade de onde está inserido, resistência do material, enfim, de tantas outras referências que um desenho no campo expandido sugere. É com esse dinamismo que a arte contemporânea lida o tempo inteiro, já que tem todo o histórico da arte como antecedente. Figura 101 – O edifício Reichstag visto do oeste Fonte: Wikimedia/Commons Figura 102 – Desenhos do Reichstag alemão por Christo e Jeanne Claude Fonte: christojeanneclaude.net Figura 103 – Maquete do Reichstag Fonte: Wikimedia/Commons Figura 104 – Reichstag alemão embrulhado por tecido – Wrapped Reichstag, Berlin, 1971-95 Fonte: christojeanneclaude.net O desenho Como Registro: Observação, Memória, Cego e Gestual (criação) “Aprender a desenhar é realmente uma questão de aprender a ver – ver corretamente – o que implica muito mais do que ver apenas com os olhos.” (NICOLAIDES, Kimon. The Natural Way to Draw. Boston: Houghton Mifflin Company, 1940.) Como já vimos, a observação, desde a Antiguidade, trouxe um grau de sofisticação admirável às imagens produzidas na Pré-História e, independente da temporalidade, até nossos dias, configura-se como ação primordial no processo de percepção, reprodução e criação em imagens. Afinal, apesar de intenções prévias, que configuram os desenhos, a observação propõe ser um referencial, um modelo, que pode ser o próprio objeto em questão, na representação e estudo de imagens, ou o princípio para outras propostas e descobertas criativas. 47 UNIDADE História e Tipos de Desenho Uma das características do desenho é o registro, a anotação, que possibilita, posteriormente, mais precisão em seu acabamento, se assim o desejar o autor, o que inclui diferentes maneiras de se pensar e de utilizar o desenho. Os mais variados artistas, em diferentes épocas, valeram-se do registro para compor suas imagens, pensando na produção de pequenos esboços, ou para a composição de imagens mais elaboradas ou para o registro de uma ideia. Artistas viajantes, por exemplo, eram incumbidos, em suas viagens, de produzirem registro documental dos lugares visitados, o que era realizado com desenhos, em uma época em que as imagens circulavam com outra velocidade, diferente da de hoje. Após meses de viagens, geralmente realizadas em expedições com fins específicos – como documentar a fauna, a flora e também os tipos humanos –, esses artistas, através da observação, executavam, com o maior número de elementos locais, registros em desenho, compondo um olhar sobre a paisagem. Faziam muitos esboços, desenhos preparatórios de observação, anotações que poderiam compor posteriormente uma determinada imagem. A aquarela, muito utilizada pelo fácil transporte e pela possibilidade de representação de registro com cor, foi muito presente nesses desenhos realizados. Figura 105 – Rugendas. Índios Puris Fonte: Wikimedia/Commons Figura 106 – Ilustração de Johann Moritz Rugendas das florestas da América do Sul Fonte: Wikimedia/Commons 48 49 Figura 107 – Costume des Ministres, Secrétaires d’État — étude, Aquarelle, 15,3 x 21,7cm Fonte: Wikimedia/Commons Além do aspecto documental, os desenhos como registro eram feitos com a finalidade de compor cenas, principalmente para captar gestos, expressões, quando se pretendia desenhar a figura humana – além da expressão da cena local, quando idealizados em um lugar específico. Figura 108 – Rembrandt. Suzana e os Velhos, (1634) Fonte: Wikimedia/Commons O desenho de memória acompanha o homem desde a Pré-História. Embora o registro da observação seja um referencial importante enquanto se desenha, o desenho de memória também é um exercício que se alia a diversas ideias de projeto. Os artistas viajantes, por exemplo, valiam-se da observação, dos registros e, em alguns casos, de detalhes guardados na memória para compor álbuns de viagens ou outras imagens de suas incursões nos lugares por onde viajaram. Um fato curioso na história da arte, relacionado ao desenho de memória, deu-se com um desenho feito pelo artista Albert Dürer: esse, ao realizar a imagem de um rinoceronte por meio de uma descrição, sem nunca tê-lo visto antes, teve como resul- tado, ao final, uma aproximação da imagem original do animal. O fato de retratar o animal de forma muito semelhante à realidade, por meio da observação feita através dos olhos de uma outrapessoa que o descreveu, leva-nos a deduzir que, provavel- mente, o rinoceronte causou uma impressão impactante em seu descritor, uma ver- dadeira experiência estética, digna de guardar sua imagem e registrá-la na memória – e, ainda, capaz de trazê-la de volta com uma descrição tão viva dessa experiência. 49 UNIDADE História e Tipos de Desenho Figura 109 – Albert Dürer, Rinoceronte, 1515 Fonte: Wikimedia/Commons Estudos realizados por artistas, de forma geral – registros, anotações, observa- ções diversas –, antecipam, organizam as ideias para um projeto posterior. Os dois estudos de Leonardo para a Última Ceia exemplificam algumas etapas do desenho de um projeto. Neles, os materiais, os gestos e a composição revelam um pensa- mento latente enquanto se produzia a imagem que resultaria na obra da Santa Ceia que hoje conhecemos. Figura 110 – Leonardo da Vinci. Estudo de Leonardo para a Santa Ceia, contendo o nome de cada um dos apóstolos. Fonte: Wikimedia/Commons Leonardo da Vinci, Esboço a carvão para a pintura de A Última Ceia Fonte: Wikimedia/Commons Leonardo da Vinci, A Última Ceia, 1495-1498 Fonte: Wikimedia/Commons 50 51 Qualquer percurso de projeto com o desenho exige uma trajetória. Entender esse percurso em uma linguagem como o desenho requer uma história perceptiva, e também de caráter prático, o que torna a experiência significativa em seus percursos e processos, pois desenvolve-se um conhecimento, que, neste caso, não se quantifica, mas percebe-se no ato sensível do fazer, produzir e como produzir, tornando esse aprendizado pessoal e insubstituível. Existem várias escolas e aprendizados, meios através dos quais se chega ou se pretende chegar a algum fim. A observação e a persistência no desenvolvimento da linguagem do desenho e todo seu repertório trouxeram-nos, desde os primórdios, uma percepção sobre ele, e o homem vem, ao longo do tempo, dedicando-se a essa aprendizagem. Alguns procedimentos, como o desenho cego, são bastante utilizados como forma de exercitar a desenvoltura do traço a partir da percepção. Define-se como “desenhar sem ver”. É um exercício que se constitui em, a partir da observação de um determinado objeto e sem olhar para a folha de papel ou suporte utilizado, tentar reproduzir o objeto observado, lidando com a percepção e a relação que o cérebro faz em relação ao gesto. Em tese, o desenho parte de um referencial, mas, diferente do que ocorre com o desenho de observação – quando a intenção é olhar tanto o objeto em questão quanto o desenvolvimento do que se está se desenhando –, só se vê o resultado após o término do desenho, o que sugere que, mesmo havendo um referencial, esse se modifica fatalmente pela maneira como é executado. Também não se espera uma cópia fidedigna do objeto desenhado, resultando numa prática que se realiza muito mais como um método para ação de um determinado desejo de se desenhar. Para compreender melhor o processo do desenho cego, assista ao vídeo Desenho Cego por Paulo Von Poser, no Youtube: https://youtu.be/feIYvLPVDJU Ex pl or Chegamos ao final desta primeira Unidade da disciplina Desenho. Vimos as primeiras noções sobre os tipos de desenho, os diferentes contextos e materiais e algumas breves noções históricas do uso dos materiais. Alguns conteúdos iniciados aqui serão melhor desenvolvidos ao longo da disciplina, pois ainda veremos contextos específicos da representação do espaço, da figura humana e de animais e criaturas. Serão estudados ainda os desdobramentos do desenho na arte contemporânea e o desenho infantil. 51 UNIDADE História e Tipos de Desenho Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Sites 19&20 AMBRIZZI, Miguel Luiz. O olhar distante e o próximo - a produção dos artistas- viajantes. 19&20, Rio de Janeiro, v. VI, n. 1, jan./mar. 2011. Esse texto apresenta um panorama geral sobre a produção dos artistas-viajantes no Brasil desde os séculos XVII ao XIX, analisando os gêneros mais comuns: a natureza- morta e a paisagem, os quais revelam o olhar estrangeiro sobre o Brasil. https://goo.gl/D1fEPs 19&20 AMBRIZZI, Miguel Luiz. Entre olhares - O romântico, o naturalista. Artistas-viajantes na Expedição Langsdorff: 1822-1829. 19&20, Rio de Janeiro, v. III, n. 4, out. 2008. Nesse texto o autor analisa a produção dos artistas-viajantes da Expedição Langsdorff mostrando as influências dos artistas do neoclassicismo e do romantismo. https://goo.gl/g0gmeE The Drawings Vincent Van Gogh. The Drawings. Motopolitan Museum of art, New York, 2005. https://goo.gl/Q6vbBW Enciclopédia Itaú Cultural http://enciclopedia.itaucultural.org.br/ Livros Arte-educação no Brasil: das origens ao modernismo BARBOSA, Ana Mae. Arte-educação no Brasil: das origens ao modernismo. São Paulo: Perspectiva, 1978. Fundamentos do Desenho Artístico ROIG, Gabriel Martín. Fundamentos do Desenho Artístico. Barcelona: Parramón, 2007. Gesto inacabado, processo de criação artística SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado, processo de criação artística. São Paulo: Annablume, 1998. Técnicas de Desenho e Pintura: um curso completo de técnicas criativas e práticas HARRISON, Hazel. Técnicas de Desenho e Pintura: um curso completo de técnicas criativas e práticas. Erechim – RS: Edelbra, 1994. Disegno. Desenho. Desígnio. DERDYK, Edith (org). Disegno. Desenho. Desígnio. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2007. 52 53 Livros Arte Moderna. Do Iluminismo aos movimentos contemporâneos ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. O Desenho, de Altamira a Picasso PIGNATTI, Terisio. O Desenho, de Altamira a Picasso. São Paulo: Editora Abril, 1982. Manual Prático do Artista SMITH, R. Manual Prático do Artista. Porto: Civilização, 2006. 53 UNIDADE História e Tipos de Desenho Referências DERDYK, E. Disegno. Desenho. Desígnio. São Paulo: Senac, 2008. DWORECKI, S. M. Em Busca do Traço Perdido. São Paulo: Scipione, 1999. EDWARDS, B. Desenhando Com o Lado Direito do Cérebro. 7. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. HOCKNEY, D. O Conhecimento Secreto - Redescobrindo as Técnicas Perdidas dos Grandes Mestres. São Paulo: Cosac e Naify, 2001. SIMBLET, S. Desenho: Uma Forma Prática e Inovadora para Desenhar o Mundo que nos Rodeia. São Paulo: Ambientes& Costumes Editora Ltda., 2011. VILASALO, P.; J. M. A Perspectiva na Arte. Lisboa: Presença: 1998. WONG, W. Princípios de Forma e Desenho. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 54