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ITGT
Instituto de Treinamento e pesquisa em Gestalt-terapia de Goiânia
Professora: Sandra Albernaz Disciplina: Relação Dialógica Turma: 39
Aluna: Camila Martins Machado
Resenha dos capítulos 8, 9 e 10 do livro De pessoa a pessoa, Richard Hycner, 1995.
Capítulo 8
Entrando no mundo do cliente: Nossas experiências individuais são radicalmente
únicas. Este é um dos maiores desafios para o psicoterapeuta. A perplexidade toma-se maior
quando a experiência do cliente diverge significativamente daquela do terapeuta. A suposição
da abordagem dialógica é que os bloqueios neuróticos ou “interferências” surgiram, ao menos
em parte, porque outras pessoas não foram capazes de entender, de considerar e de valorizar a
experiência dessa pessoa. O terapeuta, portanto, deve estabelecer uma aliança e um vínculo
com esse cliente. O cliente necessita experienciar profundamente em seu íntimo que o
terapeuta o compreende ou, pelo menos, que está fazendo um esforço humanamente possível
para compreendê-lo. O texto faz menção a oito posturas fundamentais que devem ser
praticadas pelo psicoterapeuta.
Presença: Para poder entrar no mundo do cliente, o terapeuta deve, em primeiro lugar,
estar completamente “presente” para o cliente. O terapeuta não deve ser apenas amigável,
mas deve estar disposto a efetivamente contribuir com seu próprio Self para o encontro. Ela é a
awareness de que toda a categorização e rotulação interferem no revelar genuíno daquilo que
é mais vulnerável, real e essencial no ser humano. É estar o mais completamente disponível
para a outra pessoa num dado momento — sem a interferência de considerações ou reservas.
É a consciência que se dirige completamente ao “processo de existir” da outra pessoa. Isso
requer que o terapeuta esteja atento à experiência do cliente, mas, simultaneamente, esteja
atento à sua própria existência. Essa centralização-no-presente é o que mantém o processo da
terapia totalmente vivo. Quando a presença é diminuída, o sentimento de plenitude da vida
também sofre.
Suspendendo os pressupostos: O terapeuta deve “suspender” seus pressupostos, sua
própria visão de mundo e conceitos tanto quanto for humanamente exequível no momento.
Mas é necessário que nossos significados, vieses e preconceitos sejam “colocados entre
parênteses”, postos de lado temporariamente, de modo a nos permitir uma entrada no mundo
e nos conceitos mais significativos da pessoa com quem estamos trabalhando. É sempre tarefa
do terapeuta adaptar sua compreensão à pessoa única com quem ele está lidando, ou seja, ser
receptivo a qualquer realidade que emerja — nunca decidindo com antecedência o que será
dito ou o que ocorrerá. Um contato melhor e uma relação mais significativa com o cliente se dá
quando tiver suspendido meus próprios valores e “experienciado” o mundo do ponto de vista
do meu cliente. Cada um de nós, nos recantos mais profundos de nosso ser, clama
desesperadamente por ser confirmado. É uma de nossas grandes necessidades existenciais —
sermos profundamente compreendidos por outro ser humano.
Sentimento de admiração: Para fazer uma terapia que seja realmente responsiva às
necessidades do cliente, o terapeuta tem que ter um sentimento de admiração — tem que se
permitir ficar surpreso. Essa abertura verdadeira para a beleza do outro não pode ocorrer se o
terapeuta mantém concepções significativamente divergentes de quem o cliente é ou deveria
ser. As expectativas do terapeuta do que deveria acontecer sempre interferem no que pode
acontecer. Se não fico em contato com a possibilidade de me surpreender, estarei prestando ao
cliente um desserviço. Isso não significa que ocorra o tempo todo — mas o essencial é a
postura geral de estar aberto à possibilidade de se surpreender — dispor-me a ser tocado pelo
mistério, pela maravilha e a grandeza da pessoa com quem estou trabalhando.
Centro Dinâmico da pessoa: A disponibilidade para ser “surpreendido” é tão essencial
porque afasta o terapeuta da tendência impulsiva de categorizar e coisificar. Buber encoraja o
terapeuta a ir além do óbvio, do “visível”, e focalizar a “alma” da pessoa, o cerne do seu ser —
em vez de ser afastado desse foco pela “patologia”, que, freqüentemente, é um grito de ajuda.
Subjacente a toda patologia, o terapeuta deve discernir o “centro dinâmico” da pessoa que
guarda seu “espírito” — ele nos dá o contexto para compreender o comportamento.
Rastreando: É essencial que o terapeuta seja capaz, no aqui e agora, de “rastrear” as
experiências e significados percebidos do cliente que estão ocorrendo a cada momento. Isso
quer dizer que o terapeuta “segue”, passo a passo, esses significados expressados pelos
clientes e que são percebidos. Tal abordagem preenche diversos objetivos importantes.
Primeiramente, comunica ao cliente que o terapeuta está genuína e profundamente
interessado em sua experiência. Seguir o outro, momento a momento, requer grande esforço e
envolvimento, o que é inevitavelmente sentido pelo cliente. Nasce uma relação, nasce a
confiança e um esforço desses ajuda o terapeuta a começar a compreender alguns dos
sentidos e temas essenciais da vida dessa pessoa.
A experiência do terapeuta: Há uma tensão rítmica do terapeuta de estar centrado em
si mesmo e, ainda assim, ir em direção ao cliente, onde ele estiver. Dentro dessa oscilação
existencial, existe aquele momento amedrontador, quando se sente que se vai perder os
próprios referenciais. Torna-se necessária uma compreensão profunda desse ponto de vista e,
ao mesmo tempo, a habilidade de sair dele e oferecer outra perspectiva. Certamente
precisamos estar aware de nossa própria experiência, ainda que essa mesma experiência possa
interferir no “estar” de fato com a outra pessoa. Esse é o desafio para o terapeuta; não só
apreciar total e profundamente a experiência do cliente, mas também manter seu próprio
centro diante de experiências divergentes e até conflitantes.
Pedras de Toque: Uma forma de chegar a um sentido mais profundo do mundo dessa
pessoa é através do que Maurice Friedman (1972b) chama de “pedras de toque”. Isto é,
apreender os acontecimentos centrais cristalizados da vida de uma pessoa que parecem dar
significado a sua vida. O essencial é tentar explorar com uma determinada pessoa o que essas
“pedras de toque” significam para ela. Fazendo isso, o clínico está conseguindo compartilhar o
sentido do mundo dessa pessoa — ele está entrando nos significados e eventos experienciais
do mundo do cliente. Ao mesmo tempo, o terapeuta está indiretamente lhe dizendo que está
interessado.
Estabelecendo uma relação: É tarefa do terapeuta construir uma “ponte” em direção
ao cliente. Esse é um aspecto importante da “cura pelo encontro”, da qual Buber fala. Curar
significa “tornar inteiro”. É, antes, um processo contínuo de restabelecimento dessa conexão
com o terapeuta e com os outros. Como pode o terapeuta saber que a relação está sendo
construída? É uma avaliação intuitiva que deve ser feita. Em um sentido maior, é a culminação
e a integração de numerosos momentos de interações em direção a uma experiência global.
Uma vez que a relação esteja estabelecida e aprofundada, as possibilidades na terapia são
virtualmente infinitas. Com uma sólida relação estabelecida, o clínico pode correr grandes
riscos na terapia. Ele pode explorar áreas excessivamente vulneráveis, em relação às quais, até
então, o cliente poderia estar muito resistente à exploração. A solidez da relação permite que o
clínico penetre no “entre” e explore a “força crescente” dessa pessoa — onde pessoa encontra
pessoa.
Capítulo 9
O problema pode ser visto como fazendo parte da existência total da pessoa e não
como uma anomalia. O “problema”, na verdade, é uma proclamação de como a existência
dessa pessoa tornou-se fraturada, alienada e perturbada. Problemas “só” são problemas
quando olhamos para nossa existência objetivamente, ou seja, de maneira EU-ISSO. Os
problemas precisam ser ouvidos. Eles surgem em função do desequilíbrio de nossas relações
conosco e com os outros. Olhar para “o problema como uma resposta”significa sair da nossa
posição egocêntrica e olhar para o “entre” — olhar para nossa existência relacionalmente. Uma
abordagem dialógica entende a “Psicopatologia” como um diálogo abortado. Uma forma de
entender o comportamento “patológico” é vê-lo como um pedido desesperado de resposta ao
mundo. Considerar o problema presente não apenas como uma questão isolada, mas como um
distúrbio da existência inteira dessa pessoa. O que o problema está tentando dizer? Não se
trata de uma técnica, mas antes de uma atitude total de aceitação da importância do
problema.
Os problemas não existem para ser eliminados, mas sim para ser integrados. Existe a
inter-relação do nosso lado problemático com o nosso lado criativo. Um não “causa” o outro;
mas um “informa” o outro. Nossas dificuldades são nossa força vital. Elas nos forçam a
enfrentar aspectos de nós mesmos e do mundo que preferiríamos evitar. Quanto mais
recusamos determinadas coisas, mais lhes damos força. Esta é uma das ironias existenciais da
vida. Quanto mais rejeitamos psicologicamente partes nossas, mais energia é preciso
despender a fim de manter aquela parte afastada de nós. Necessitamos reconhecer o
problema e ouvir o que ele estava tentando mostrar em sua vida. Precisamos aprender a ouvir
a nosso ser em sua totalidade e não apenas nossa mente consciente. Nós lutamos contra as
respostas que nos são dadas porque elas não se encaixam em nossas expectativas. Todos nós
somos resistentes a essa mensagem mais profunda, porque ela rompe com a nossa vida —
rompe com o nosso senso de controle. Essa ilusão de controle completo é algo que todos nós
valorizamos.
É parte integrante do diálogo e da dialética da terapia que o terapeuta se torne o
ouvinte da mensagem do problema da outra pessoa. A presença e a perspectiva do terapeuta
são essenciais, como “ouvinte” do problema. O terapeuta torna-se o intermediário. Ele deve
ser capaz de escutar o problema em um nível mais profundo do que o cliente. De diversas
maneiras, somos todos estrangeiros diante da linguagem de nosso corpo. É necessária muita
educação na terapia para ajudar essa pessoa a entender como seu problema está tentando
ensinar-lhe a tornar-se uma pessoa mais integrada.
Resposta a Resistência: A resistência surge porque muitas vezes um problema
persistente pode estar nos dizendo que precisamos fazer uma mudança maior em nosso estilo
de vida. Nosso desconforto está tentando nos dizer que o status quo não é mais saudável para
nós, ainda que, frequentemente, as primeiras mudanças no modo de viver fossem
ajustamentos saudáveis. Entretanto, eles podem ter se tornado improdutivos. Muitos de nós
queremos manter a segurança que temos, mesmo que ela seja problemática. A resistência
reconhece implicitamente o espectro do risco. Em um sentido, temos que nos tornar nosso
problema. Temos que nos identificar com ele completamente e percebê-lo como uma parte de
nós mesmos. Isso dá início ao processo de integração do que estava dissociado. Identificar o
problema como nosso e reintegrá-lo em nós inicia o processo de cura. À medida que nos
abrimos para aquelas partes não reconhecidas, podemos aceitar nossa fragilidade humana e
sermos mais compassivos com a fragilidade e a vulnerabilidade dos outros. Isso nos permite
retirar nossas “projeções” sobre os outros e verdadeiramente encontrá-los, não “projeção com
projeção”, mas pessoa com pessoa.
Capítulo 10
Segundo o autor, a resistência é o resíduo de um diálogo interrompido; se manifesta na
clínica como produto da interação cliente terapeuta. A resistência é a manifestação de
onde/lugar e de como uma pessoa se sente vulnerável. E nosso papel como terapeuta é
descobrir o que essa resistência está dizendo, é também um resultado da interação entre
terapeuta e cliente.
A manifestação da resistência sinaliza como esta pessoa se sente vulnerável. Dá
indícios do medo de assumir riscos que não tinham suporte na experiência vivida
anteriormente, se caracterizando como autoproteção. Do ponto de vista externo a pessoa
parece fechada, do ponto de vista subjetivo é uma evitação do sofrimento. A resistência é um
muro que encerra feridas antigas e sensíveis, a tarefa do terapeuta é tornar este muro mais
permeável. Através do diálogo genuíno pode-se observar os sinais que ampliam a identificação
do como a resistência está funcionando.
Existe uma sabedoria na resistência, se considerarmos que ela surge como indicador de
que o sujeito não tem suporte para enfrentar a situação ameaçadora. O problema da
resistência é que ela não é uma resposta à situação presente. Ela pode ser uma expressão
profunda de alguma coisa que a pessoa precisa desesperadamente, e esse é o único caminho
possível que ela conhece para cuidar de si. A resistência em certo sentido é um “protetor”
internalizado, porém incompleto. Primariamente defensiva, em vez de nutritiva. Se defende de
ameaças reais, imaginárias e acaba impedindo, afastando a nutrição que advém do outro. Ao
mesmo tempo que protege, impede o indivíduo de crescer, cortando o diálogo com o mundo.
A pessoa que resiste é uma nova pessoa, não existe possibilidade do ser voltar no original antes
da existência da resistência.
A resistência é uma parte mais solidificada do self. O cliente constrói uma segurança na
sua forma previsível de reagir ao outro. Esse movimento pode ser patológico ou auto-
destrutivo e não deve ser subestimado. O cliente ao vir à terapia não valoriza sua resistência,
rejeitando-a. Isso produz uma guerra consigo, um lago que ir adiante e o outro lado resiste, é
protetor. Há uma ambivalência do cliente em relação a resistência. Em algum nível sente que
está trabalhando contra si. O cliente funciona, na maioria das vezes, dessa forma a muito
tempo. Por isso o terapeuta deve estar alerta, aceitar com cuidado excessivo o desafio de
“curar” alguém potencializa o aparecimento de mais resistências. O terapeuta precisa ver o
valor criativo na resistência. É um desafio à lógica normal, revertendo a figura e fundo de modo
contrário ao esperado. Com a atitude de apreciar genuinamente a parte resistente da pessoa
se convida o cliente a apreciar a parte rejeitada em si. A única forma de se chegar onde se
deseja é aceitar onde se está. Tem que haver uma integração das polaridades opostas. Deve-se
perguntar ao cliente: “como o comportamento resistente lhe dá suporte?”.
A resistência do cliente é tradicionalmente chamado de transferência. A resistência
transferencial é uma função do entre do encontro terapeuta-cliente, “não há resistência se não
houver alguém a quem possa ser resistente”. Certas respostas e/ou a falta de responsabilidade
do terapeuta pode provocar ou aumentar as resistências, a interação resistente aumenta o
desencontro potencial. A resistência é uma consequência natural da transação entre as formas
características de o paciente se relacionar e o estilo e habilidades terapêuticas do
psicoterapeuta.
Também há sabedoria na resistência do terapeuta, ela informa os limites entre sua
abertura e a aceitação dos outros, e a necessidade de expandir esses limites. O terapeuta deve
estar aware de suas resistências na terapia, essas devem ser levadas para a supervisão e para a
sua terapia pessoal. É necessária uma aliança de trabalho sólida para se trabalhar, confiar no
terapeuta e na relação permite que ambos superem os desencontros. Há sempre um conflito
pessoal, o terapeuta não deve se posicionar em polaridades, mas sim unir-se às forças do
cliente. Tanto as que impulsionam, quanto as que resistem. Depois do contato com o ponto da
resistência, o terapeuta deve unir-se a ela, aliar-se. Este último significa pôr-se no lugar do
cliente. É necessário favorecer a consciência do cliente sobre ela, o que pode levar um tempo.
Ao aliar-se a resistência o terapeuta está se colocando ao lado do self amedrontado do cliente.
As camadas de resistência e defesas enclausuram. Aliar-se a resistência é entrar no pequeno
espaço que reside o verdadeiro self.
A resistência pode ser também apenas resistência. Ao entender os significados do
cliente,o terapeuta pode desafiar a resistência e dar um empurrão, porém para isso o vínculo
deve estar bem estabelecido, e é parte natural da psicoterapia escolher o momento certo de
fazer. O papel do psicoterapeuta é ajudar o cliente a se tornar aware de suas resistências que
interferem no seu funcionamento saudável. Reconhecer que certas resistências são partes da
existência e da forma de estar no mundo é um passo importante da psicoterapia. O sentido é
encontrar o equilíbrio entre o aberto e o encoberto. O terapeuta não deve encarar a resistencia
como inimiga, mas como força a ser integrada, isto é, deve aliar-se (por-se no lugar do cliente)
a resistência. O trabalho não é eliminar as resistências, isso deixaria uma pessoa em profunda
vulnerabilidade. Mas sim RECONHECÊ-LAS E INTEGRÁ-LAS.

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