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1 
SUMÁRIO 
1 O QUE É ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL ................................................. 2 
1.1 Objetivos da Orientação Profissional.................................................... 3 
2 ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL E A PSICOLOGIA ................................... 4 
2.1 Modalidade Estatística ......................................................................... 5 
2.2 Modalidade Clínica ............................................................................... 5 
3 HISTÓRICO DA ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL ...................................... 5 
4 DESENVOLVIMENTO DA ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL ...................... 8 
5 ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL NO BRASIL ........................................... 10 
6 OS TESTES PSICOLÓGICOS E A AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA ............ 13 
6.1 Testes Vocacionais ............................................................................ 15 
6.2 O teste na Orientação Vocacional. Por que não? .............................. 17 
6.3 Alguns testes psicológicos e uma breve síntese ................................ 24 
BIBLIOGRAFIA ............................................................................................... 26 
7 LEITURA COMPLEMENTAR .................................................................... 32 
 
 
 
2 
1 O QUE É ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL 
Segundo Levenfus (1997) o termo Orientação Profissional deve se referir a 
trabalhos que se limitam a informar sobre as profissões, mercado de trabalho, onde 
são aplicadas técnicas de aprendizagem, sem que dê ênfase a questões 
intrapsíquicas. 
De acordo com a autora, existe uma diferença entre Orientação Profissional e 
Orientação Vocacional, pois a Orientação Vocacional trata-se de um processo no qual 
se busca auxiliar e orientar para um conhecimento das características pessoais, 
familiares e sociais, criando condições para encontrar afinidades destas 
características como aquilo que poderá realizar em forma de projeto de vida 
profissional. Porém, ainda existem questionamentos sobre o termo orientação, pois 
alguns autores sugerem que o direcionamento dessa atividade parte do Psicólogo. 
Contudo, esse trabalho pode ser realizado por professores também. 
A Orientação Profissional ―oportuniza a reflexão, a discussão e o debate 
entre os próprios jovens para que eles possam se dar conta daquelas 
influências que lhe estão sendo prejudiciais, por não lhe permitirem escolher 
ou por levarem a um grau de angustia insuportável (SOARES, 1987, p.83). 
Conforme a citação acima cabe a reflexão de que a realização da Orientação 
Profissional que é feita em grupo auxilia os jovens por diversas razões como: diante 
da necessidade de escolher, os membros do grupo podem se identificar com as 
possibilidades, a troca de ideias e experiências pode proporcionar um maior 
aproveitamento das técnicas utilizadas. 
Na concepção de Müller (1998) a Orientação Vocacional não se trata de um 
estudo psicológico do qual necessariamente saem resultados. Ao contrário, trata-se 
de um processo, uma evolução mediante a qual os orientandos têm a oportunidade 
de refletir sobre sua problemática de modo que procurem caminhos para sua 
superação. Nos últimos anos, observou-se que a procura pela Orientação Vocacional 
tem crescido muito, sendo indiscutível o valor do trabalho do orientador profissional 
para a sociedade, considerando que a prática desse trabalho deve ser 
constantemente avaliada pelos profissionais envolvidos. O processo de Orientação 
Vocacional pode ser desenvolvido tanto em grupo quanto individualmente. 
Lucchiari, ao referir o trabalho em grupo considera que: 
 
3 
É importante para o indivíduo, sentir-se igual aos outros, há possibilidade de 
compartilhar sentimentos de dúvidas em relação à escolha e ao futuro, cada 
participante do grupo é um facilitador, pois auxiliam a entender o outro e o 
conhecimento que cada membro busca de si mesmo (1993 p.13-14). 
Em contrapartida, Torres (2002) em sua prática clínica já defende os 
atendimentos individuais, acreditando mais em sua eficácia. Portanto, a Orientação 
Vocacional auxilia o indivíduo na compressão do mundo social em que vive, a construir 
seu projeto profissional. Para Andrade et.al. (2002, p.49): 
A relevância do processo de OV pode ser evidenciada quando este, ao passo 
que faz com que o levem a refletir sobre si mesmo, também o ajuda a escolher 
um caminho profissional, dando possibilidades para que possa desenvolver 
todas as suas capacidades. 
Diante dessa afirmação, os autores expõem a ideia do quanto se torna 
importante a OV para que o indivíduo possa fazer uma reflexão sobre si e a partir 
dessa reflexão, enxergar as possibilidades que surgirem, como também suas próprias 
capacidades para então fazer a sua escolha profissional. 
1.1 Objetivos da Orientação Profissional 
O objetivo principal da Orientação Profissional é facilitar a escolha do jovem, 
auxiliando-o a refletir sobre suas capacidades e dificuldades para que se possa fazer 
a escolha mais adequada. 
Lucchiari afirma que: 
Ela tem por objetivo facilitar o momento da escolha ao jovem, auxiliando-o a 
compreender sua situação específica de vida, na qual estão incluídos 
aspectos pessoais, familiares e sociais. É a partir dessa compreensão que 
ele terá mais condição de definir qual a melhor escolha- a escolha possível- 
no seu projeto de vida (1993, p.12). 
De acordo com a autora, o orientador deve estar habilitado para coordenar o 
processo de OP para que as dificuldades possam ser trabalhadas e assim auxiliar o 
jovem a pensar, facilitando sua escolha. Para facilitar essa escolha a autora ressalta 
que devem ser trabalhados os seguintes aspectos; 
1. Conhecimento de Si: está relacionado à identidade do jovem em quem ele foi, 
quem ele é e quem ele será, o projeto que ele espera para o futuro em sua vida 
profissional, suas expectativas em relação a família e pessoais, quais são seus 
principais valores e interesses. 
 
4 
2. Conhecimento das Profissões: está relacionado às profissões, quais são, o 
que fazem e como fazem, o mercado de trabalho dentro do sistema político-
econômico, quais as possibilidades de atuação, visitas aos locais de trabalho e cursos 
de universidades, informações sobre currículos e entrevista com profissionais. 
3. Escolha propriamente dita: que refere à decisão pessoal, deixar de lado o que 
não é escolhido, viabilizar a escolha. 
 
 
Fonte: www.valordoconhecimento.com.br 
2 ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL E A PSICOLOGIA 
De acordo com Bohoslavsky (1998), existe um trabalho conjunto da Psicologia 
com a Orientação Profissional, pois os indivíduos precisam de um processo de 
mudanças e escolhas em um determinado momento de sua vida, e a escolha da 
profissão faz parte de um momento crítico de mudança na vida de cada indivíduo. 
Nesse caso cabe ao psicólogo auxiliar com o trabalho de OP ao jovem enfrentar e 
elaborar suas dúvidas, medos, inseguranças que emergem nesse momento. Portanto, 
há duas modalidades diferentes que se enquadram nesse contexto. 
 
5 
2.1 Modalidade Estatística 
Para os psicólogos que atuam nesta modalidade, o trabalho é realizado a partir 
do interesse do cliente, diante das oportunidades existentes, que se ajustam ao gosto 
do futuro profissional. Esta modalidade, influenciada por programas da psicometria, 
tem recebido contribuição de autores fatorialistas, suas descrições quantitativas estão 
cada vez mais rigorosas e o teste torna-se um instrumento fundamental para se 
conhecer as aptidões dos orientandos. 
2.2 Modalidade Clínica 
Nesta modalidade os jovens são auxiliados a enfrentar e compreender a 
situação no processo de escolha para chegar a uma decisão responsável. Para os 
psicólogos que atuam nessa modalidade, a entrevista é o principal instrumento, pois 
se considera que se a adaptação à situação de aprendizagem não for boa, a decisão 
também não será. 
Portanto, conforme a descrição do autor pode-seconcluir que tanto na 
modalidade estatística quanto na modalidade clínica, o psicólogo exerce uma função 
de fundamental importância no que diz respeito à facilitação da escolha do jovem, com 
técnicas, testes, escuta qualificada, entrevistas e reflexões, esse profissional pode 
auxiliar o indivíduo no processo da escolha profissional. 
3 HISTÓRICO DA ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL 
De acordo com Bock (2006) no passado a escolha de uma profissão ou 
ocupação não era vista como um problema universal da humanidade, pois os homens 
trabalhavam e viviam apenas para sobreviver. Os trabalhos organizavam-se como 
atividade de coleta e mais tarde como caça, não havendo diferenciação de funções, 
exceto aquelas determinadas pelo sexo. 
Na vida tribal, pode ser encontrada a preservação de culturas advindas de seus 
descendentes, não estipulando atividades e ocupações diferentes entre seus 
membros, sendo organizadas apenas por meio de uma hierarquia, no que se refere 
às questões de guerra e aos cuidados com a saúde, levando em conta funções 
exercidas por questões de coragem ou ainda idade avançada. As atividades da caça, 
 
6 
por exemplo, são atribuídas especificamente aos homens, devido ao porte físico, já a 
agricultura e o cuidado dos filhos são destinados exclusivamente as mulheres. Nesse 
período não havia possibilidades e nem necessidades de grandes escolhas no que se 
refere a funções, tanto para a sobrevivência material ou não. 
Para os grandes filósofos gregos, e especificamente para Platão e Aristóteles, 
o trabalho era uma atividade exclusivamente física, que se reduzia ao esforço 
que deviam fazer as pessoas para assegurar seu sustento, satisfazer suas 
necessidades vitais e reproduzir sua força de trabalho (circunscrita à sua 
dimensão meramente física). Era uma atividade considerada pelos demais 
não somente como penosa, senão também como degradante, que não era 
valorizada socialmente e que se justificava em última instância pela 
dependência que os seres humanos tinham com respeito às suas 
necessidades (NEFFA, 1999, p. 130, tradução nossa, do espanhol). 
Consequentemente ser cidadão, escravo, camponês ou trabalhador manual 
não tinha nenhuma relação com algum tipo de escolha, mas sim da condição de classe 
da família que o indivíduo pertencia ou de acordo com as vitórias e derrotas nas 
guerras. Mas, segundo Jaccard não era o trabalho que era desvalorizado nesse 
tempo, mas a condição de dependência: 
A condição do assalariado livre não valia mais do que a do servo; ambos eram 
desprezados e quase sempre miseráveis, por trabalharem por suas mãos? 
Não, porque os deuses, os reis e os senhores também o faziam, mas.... Por 
dependerem de outrem, por não subsistirem senão servindo outrem. Nesse 
tempo, não era o trabalho que estava desacreditado; era a dependência, a 
obrigação de servir - de que o cristianismo fará um dever de honra – que era 
considerada indigna do homem. É por isso que o cultivador pobre, penando 
sobre o seu árido campo, alimentando-se com custo, mas independente, será 
glorificado por muito tempo, mas do que o artesão, o poeta ou o artista, cuja 
subsistência depende de um mestre ou de um cliente generoso. (1974, p. 65). 
A luta pela sobrevivência dependia das condições estabelecidas pela estrutura 
e forma da sociedade, de como ela se organizava, ou seja, não dependia de escolhas. 
Na idade Média, especificamente no feudalismo, o mesmo fenômeno ocorre, a 
sociedade divide-se em camadas sociais: nobres, clérigos, senhores e vassalos, uns 
com obrigações para os outros. O que determina a posição da classe é a circunstância 
do nascimento, caso o indivíduo seja de uma família de nobres ou plebeus. A 
ocupação e a posição ocupadas na sociedade são transmitidas de pai para filho. O 
trabalho, neste modo, visa o sustento dos indivíduos, pois nesse tempo o mercado 
apenas começava a desenvolver-se. 
Ainda nesse período de desenvolvimento da sociedade, não se pode falar em 
escolha de profissão por parte dos indivíduos, pois a estrutura da sociedade que vai 
 
7 
determinar o que cada um vai fazer ou que prestígio social e poder vai ter. A igreja 
aparece com força absoluta, principalmente a católica, reafirmando que tudo que 
acontece é por força divina. O que importa são os laços de sangue, há uma 
estagnação social e as tarefas são transmitidas familiarmente. 
A palavra vocação só se conceitua no sentido religioso, que seria um chamado 
divino, impondo uma missão para os indivíduos. O trabalho ainda é visto como uma 
atividade para a manutenção e sobrevivência da espécie humana. 
A terra, segundo Huberman (1986) era de propriedade da nobreza e do clero, 
que a arrendava aos senhores, que, por sua vez, arrendava aos servos. 
A ideia de escolha profissional só ganha relativa importância quando o modo 
de produção capitalista se instala definidamente. Com a passagem do feudalismo para 
o capitalismo começa o surgimento de importantes mudanças no modo de produzir e 
reproduzir a existência humana. Segundo Braverman (1981), a nova ordem social, 
engendrada pelo capitalismo, só aparece quando algumas características 
fundamentais dominam o processo de produção. 
Em primeiro lugar, o trabalhador é excluído da propriedade de todos os meios 
de produção, assim sua sobrevivência só é alcançada por meio da venda de sua força 
de trabalho, e isto acontecerá apenas se ele não tiver nenhuma possibilidade de 
sobreviver de forma autônoma. 
Em segundo lugar, passa a ser crucial que o trabalhador não tenha nenhum 
tipo de relação jurídica que o mantenha preso a qualquer modo de servidão, o 
trabalhador agora é livre e pode vender sua capacidade de trabalho. 
E, em terceiro lugar, o objetivo primordial do trabalho (produção) não é mais 
característico da satisfação das necessidades humanas, como resultado, passa-se a 
produzir para o mercado, visando o capital empregado (lucro), característico desse 
modo de produção. 
Assim, as teorias e práticas na área da orientação profissional só avançam no 
modo capitalista de produção, que mais a frente, na chamada Revolução Industrial, 
aparecerá a divisão técnica do trabalho. Nesse período a questão da seleção e, 
consequentemente, a escolha profissional, passam a ser consideradas muito 
importantes, para que se tenha o homem certo no lugar certo, visando à produtividade. 
A posição do indivíduo no capitalismo não é mais determinada, pelos laços 
de sangue. Agora, esta posição é conquistada pelo indivíduo segundo esforço 
que despende para alcançar esta posição. Se antes esta posição era 
entendida em função das leis naturais referendadas pela vontade divina, 
 
8 
agora, ao contrário, o indivíduo pode tudo, desde que lute, estude, trabalhe, 
se esforce, e também (por que não?) seja um pouco aquinhoado pela sorte 
(BOCK, 1989, pag.15). 
Nesse momento o conceito de vocação muda, pois não se pode mais falar no 
sentido religioso, como era no período feudal. A revolução burguesa falava sobre a 
ideia de igualdade entre os homens, mas como explicar as desigualdades entre os 
seres humanos, numa sociedade que questiona a determinação religiosa? Assim, 
surge o conceito de vocação biológica para justificar essas diferenças no meio da 
sociedade. 
Se o indivíduo não se deu bem na vida (não obteve, segundo os parâmetros 
da sociedade, riqueza, prestígio, poder, etc.), a justificativa para tal gira em 
torno da má escolha de sua profissão, portanto, da não identificação de sua 
‗‘verdadeira vocação‘‘, ao invés de se proceder a uma análise da realidade 
socioeconômica para entender a situação. (BOCK, 1986, p. 173) 
Assim, a ideia da liberdade de escolha profissional tem como base inicial, o 
capitalismo, que coloca o trabalho para além da sobrevivência pessoal. Com certeza, 
só se pode mencionar a questão da opção num caso em que o indivíduo não pode 
mais sobreviver de forma autônoma e necessita vender sua força de trabalho. Só a 
partir desse momento,se concebe a ideia de que o indivíduo escolhe seu caminho 
dentro das condições em que vive e em função de suas vontades e aptidões. 
As teorias em orientação profissional serão desenvolvidas seguindo essa 
perspectiva, ou seja, compreendendo que a escolha profissional é um fenômeno, que 
acontece em um determinado momento na história da humanidade. 
4 DESENVOLVIMENTO DA ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL 
Com a Revolução Francesa, em 1789, passa-se a ter possibilidades de se 
pensar em algum tipo de liberdade de escolha, pois essas, já não eram mais 
determinadas pelo nascimento, por castas ou pelas famílias, mas sim, pela luta de 
igualdade dos direitos entre os homens. 
Depois, com a Revolução Industrial, ocorre uma significativa mudança do modo 
de produção agrário para o industrial, mudando completamente o cenário nas relações 
de trabalho. No qual, exige-se uma qualificação humana diferenciada para os vários 
tipos de ocupações, nesse momento surge os primeiros sinais de uma necessidade 
da orientação profissional. Com o objetivo de selecionar, detectar trabalhadores aptos 
 
9 
para a realização ou não de algumas tarefas, buscando uma eficácia industrial, ou 
seja, o homem certo para cada ocupação. 
 
 
Fonte: significar.com.br 
Com toda essa mudança, o capitalismo sofre um disparo, fazendo surgir uma 
nova era, onde o que importava era o lucro. Assim descobre-se que a maioria da 
população não tem qualificação, sendo necessário o aparecimento de alguma forma 
de capacitação para tornar essa população apta para os novos trabalhos. A partir, 
desses acontecimentos a escolha profissional passa a ter um destaque importante 
para o homem, que agora é livre para oferecer seu trabalho. 
Em 1909 acontece a publicação do primeiro livro sobre Orientação Profissional, 
‘Escolhendo uma Profissão‘‘, de Frank Parsons, e também o surgimento do primeiro 
Centro de Orientação Profissional, criado pelo mesmo. Este último possuía o objetivo 
de identificar aptidões, buscando uma boa adaptação através da comparação dos 
perfis do indivíduo e do requisitado pela ocupação, ou seja, a adaptação depende do 
equilíbrio entre as características do indivíduo e as exigências das funções (SPARTA, 
2003). 
A demanda pelo serviço de orientação profissional amplia-se, com a primeira 
Guerra Mundial, em 1917, com isso surge à necessidade de recrutamento de novos 
membros para o exército e com isso o incentivo ao uso de testes como os de 
inteligência, aptidões, habilidades, interesses e personalidade. 
 
10 
A orientação Profissional teve seu início associada à psicometria, porém, essas 
teorias não supriam as questões ligadas às práticas, tiveram um papel importante 
nessa época, desenvolvendo-se mais elaboradas para tentar cumprir seu objetivo. 
De acordo, com dados colhidos no artigo de Sparta (2003), até esse momento 
o desenvolvimento da Orientação Profissional era diretivo, mas após o surgimento da 
teoria de Carl Rogers, aproximadamente em 1940, que era centrada na pessoa, a 
orientação profissional passa a seguir outros caminhos, dando lugar para o 
surgimento de outras teorias mais subjetivas. 
5 ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL NO BRASIL 
De acordo com Sparta (2003), a Orientação Profissional brasileira teve como 
marco inicial, sua origem em 1924, com o Serviço de Seleção e Orientação 
Profissional para os alunos do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, sob o comando 
do engenheiro suíço Roberto Mange. A Orientação Profissional nasceu ligada à 
Psicologia Aplicada, a qual vinha se desenvolvendo no país na década de 1920, que 
se coloca junto à Medicina, à Educação e à organização do trabalho. 
No Brasil, a orientação profissional surgiu com a intenção de preencher as 
exigências do mercado industrial, com a missão de operar para sustentar sociedade. 
Posteriormente foi sendo transformada para atender as necessidades da nova 
sociedade pós-industrial que vive em constante mudança. 
A Orientação Profissional não satisfeita em reproduzir ou manter as exigências 
sociais almeja ser um agente de transformação social. Para tal, está engajada política, 
social e eticamente na sociedade (SPARTA, 2003). 
 
11 
 
Fonte: orientacaoprofissionalblog.wordpress.com 
Nas décadas de 1930 e 1940, foi inserida no Serviço de Educação do Estado 
de São Paulo, por iniciativa de Lourenço Filho. Em 1942, a lei Capanema, sobre a 
organização do ensino secundário, estabeleceu a atividade de orientação educacional 
e colocou como o auxílio na escolha profissional dos estudantes. 
Conforme explica Sparta (2003), em 1944 foi criada a Fundação Getúlio 
Vargas, no Rio de Janeiro, estudava a organização racional do trabalho e a influência 
da psicologia sobre a mesma. 
Já em 1945 e 1946, com assistência do governo brasileiro, de acordo com a 
autora foi oferecido o curso de Seleção, Orientação e Readaptação Profissional, 
ministrado pelo psicólogo e psiquiatra espanhol Emilio Mira y López, com o objetivo 
de formação de técnicos brasileiros em áreas de atuação específicas. Em 1947, foi 
fundado o Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP), junto à Fundação 
Getúlio Vargas, na cidade do Rio de Janeiro, Instituto que técnicos e estudiosos da 
Psicologia Aplicada, muitos deles formados pelo curso ministrado por Mira y López, o 
primeiro diretor do Instituto. 
Na década de 1950, começaram a surgir diferentes teorias sobre a escolha 
profissional. Em 1951 foi publicado o livro Ocupacional Choice, de Cinzberg & outros. 
Essa obra originou a primeira teoria do desenvolvimento vocacional, que enfatiza a 
questão de a escolha profissional não ser um acontecimento específico que ocorre 
num momento específico da vida, mas sim um processo evolutivo que ocorre entre os 
 
12 
últimos anos da infância e os primeiros anos da vida adulta. Segundo a autora, dois 
anos após essa teoria, foi publicada a teoria do desenvolvimento vocacional de Donald 
Super. Tal teoria definiu a escolha profissional como um processo que ocorre ao longo 
da vida, da infância até a velhice. Ocorre através de diferentes estágios do 
desenvolvimento vocacional e da realização de diversas tarefas evolutivas. Em 1959, 
foi publicada a Teoria Tipológica de John Holland. Para esta autora, os interesses 
profissionais refletem a personalidade do indivíduo. Dessa forma, podem servir de 
base para a definição de diferentes tipos de personalidade, cujas características 
definem diferentes grupos de trabalho e correspondem a diferentes ambientes de 
trabalho. 
Nas décadas de 1950 e 1960, de acordo com a mesma autora, foram 
publicadas as teorias psicodinâmicas da escolha profissional, baseadas na teoria 
psicanalítica e na teoria de satisfação das necessidades, bem como, nas teorias de 
tomada de decisão, que estavam inicialmente mais preocupadas com o momento da 
escolha do que como processo em si. No Brasil, a OP desde sua concepção esteve 
ligada à Psicologia, pautada no enfoque clínico e foi muito influenciada pela 
Psicanálise, ou seja, norteou-se principalmente pela estratégia clínica de orientação 
vocacional do psicólogo argentino Rodolfo Bohoslavsky, e foi introduzida no Brasil na 
década de 1970 por Maria Margarida de Carvalho. 
Silva et al, (2008) salienta que a estratégia clínica de Bohoslavsky e o processo 
de interação grupal desenvolvido por Carvalho deu origem a um modelo brasileiro de 
orientação profissional, utilizado até os dias de hoje no Brasil. Essa pesquisadora 
propôs os processos grupais como forma alternativa ao modelo psicométrico e como 
forma de promoção da aprendizagem da escolha. O enfoque clínico permanece, 
mesmo considerando as décadas de 1980 e 90, as quais foram décadas em que muito 
se pesquisou a respeito da OP em relação à escolha vocacional e adolescência. No 
final da década de 90 do século XX, o foco de interesse das pesquisas sobre 
Juventude, Educação e Trabalho se exacerbou, devido às mudanças ocorridas no 
mundoque rodeia o trabalho, novas perspectivas foram abertas para a OP que cada 
vez mais vem se consolidando como agente de transformação social. 
Como afirma Soares (1999), no Brasil a Orientação Profissional pode ser 
realizada por psicólogos e pedagogos, mas infelizmente a formação de orientadores 
profissionais brasileiros ainda não possui regulamento ou lei para se determinar 
conteúdos mínimos a serem realizados. Fica a formação a cargo de universidades e 
 
13 
cursos livres, a falta de uma lei mais rigorosa da profissão acaba desfazendo boas 
iniciativas e não oferece poder para que a ABOP (Associação Brasileira Orientação 
Profissional) possa fiscalizar os cursos oferecidos em território nacional. 
6 OS TESTES PSICOLÓGICOS E A AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA 
Como afirma Gislene Macedo, 
Discutir sobre as muitas questões que envolvem os testes psicológicos no 
Brasil é, de certa forma, discutir o eixo estrutural da Psicologia como ciência 
e profissão. Ao longo dos anos, a Psicologia foi-se legitimando como ciência 
em função da sua capacidade de descrever, prever e explicar 
comportamentos. A Psicologia não se resume a esse tipo de constructo. Sua 
episteme é muito mais complexa e diversificada. No entanto, no curso da 
história do conhecimento, a criação de instrumentos para avaliar os aspectos 
psicológicos de um sujeito veio corroborar essa visão de ciência 
comprobatória e abrir espaço e credibilidade para a Psicologia em suas 
intervenções. (2004, p. 7) 
No início, o modelo do diagnóstico psicológico privilegiava atividades 
predominantemente classificatórias, centralizando suas conclusões sobre os 
resultados dos testes e não em uma apreensão integrada da pessoa. Esta visão 
apoiava-se no modelo médico-psicopatológico (Plaza, 1989) mais do que em uma 
abordagem integrada e dinâmica do indivíduo, em todas as suas dimensões. Ao se 
realizar um trabalho com uma proposta mais objetiva, deixavam-se de lado as 
relações do psicólogo e do cliente, bem como tratavam da aplicação de testes dando 
pouca atenção ao contexto em que ocorria. Apesar de existirem textos desta época 
nos quais já foi analisada a relevância de se considerar a entrevista, bem como as 
relações transferenciais e contra transferenciais na avaliação psicológica, como é o 
caso, por exemplo, de Roy Schaffer, em seu livro de 1954 sobre o método de 
Rorschach, na orientação vocacional, predominou um tipo de atendimento no início, 
que Bohoslavsky (1971/1977) denominou de modalidade estatística, muito 
semelhante ao modelo classificatório do psicodiagnóstico. 
No entanto, nas décadas de 70 e 80, este modelo passou a ser questionado, 
em decorrência dos debates a respeito do uso dos testes psicológicos, que ocorreram 
nos anos 60, 70 ou 80, década que foi distinta nos diversos países envolvidos com 
estas críticas. Podemos encontrar artigos com temas relativos ao questionamento a 
respeito dos testes em diversas comunicações da International Test Commission 
 
14 
(ITC), ou no Journal of Personality Assessment principalmente das décadas de 70, 80 
e 90). Como exemplo, podemos citar a pesquisa internacional de Poortinga (1979) 
justamente com um levantamento a respeito dos questionamentos referentes ao uso 
dos testes em diversos países publicada no Newsletter of the International Test 
Commission. No Journal of Personality Assessment podemos localizar diversas 
referências sobre este assunto, tais como, os artigos de Weiner (1972, 1983) nos 
quais discorre sobre o futuro do psicodiagnóstico. No primeiro deles, são evidenciadas 
as críticas de algumas correntes teóricas da Psicologia em relação aos testes, e o 
autor, um clínico que se utiliza bastante da avaliação psicológica, apresenta seus 
argumentos a favor desta atividade, e no segundo texto (1983), sua preocupação foi 
demonstrar que apesar das críticas da década anterior, o uso da avaliação psicológica 
continuava como uma atividade importante no campo da Psicologia. Outro artigo, 
publicado no Journal of Personality Assessment, é de Wade, Baker, Morton e Baker 
(1978), onde os autores apresentam o resultado de uma pesquisa em que levantam a 
frequência em que os testes continuavam a ser utilizados ou indicados por psicólogos 
dos Estados Unidos, e o levantamento foi realizado levando em conta as áreas da 
Psicologia em que estes profissionais atuavam. 
Esta discussão levou a uma mudança no paradigma e a um declínio do uso dos 
testes. Com isto, a entrevista ganhou grande espaço na Psicologia. Esta perspectiva 
mais recente, também abriu espaço para a avaliação psicológica como um trabalho 
dinâmico e integrador da pessoa, bem como da pessoa em situação. Para realizá-la 
não é obrigatório o uso de testes psicológicos. Estes são instrumentos auxiliares da 
avaliação. Os testes são utilizados quando precisamos de material fidedigno, passível 
de reaplicação, que chegue a conclusões confiáveis em curto espaço de tempo para 
tomarmos decisões. Como já afirmamos, os testes psicológicos são procedimentos 
sistemáticos de coleta de informações que municiam o processo amplo e complexo 
de avaliação psicológica, com dados úteis e confiáveis. Existem várias formas de se 
obter informações tais como a observação direta, entrevistas, análise de documentos, 
e a testagem propriamente dita. Fica claro, então, que os testes psicológicos são uma 
das formas possíveis de se obter informações sobre as pessoas durante a Avaliação 
Psicológica. (Primi, Nascimento & Souza, 2004, p. 21). 
Acreditamos, portanto, que podemos realizar avaliações psicológicas sem o 
uso de testes psicológicos, mas muitas vezes necessitamos de produção que vá além 
 
15 
da entrevista. Como encontramos nas considerações iniciais da resolução 07/2003 do 
Conselho Federal de Psicologia (CFP). (Conselho Federal de Psicologia, 2003). 
A avaliação psicológica é entendida como o processo técnico-científico de 
coleta de dados, estudos e interpretação de informações a respeito dos fenômenos 
psicológicos, que são resultantes da relação do indivíduo com a sociedade, utilizando-
se, para tanto, de estratégias psicológicas &– métodos, técnicas e instrumentos. 
(Conselho Federal de Psicologia, 2003). 
A avaliação psicológica do mesmo modo que a OV deve apoiar-se em 
conceitos referenciados em teorias psicológicas e não deve ser nunca realizada de 
forma mecânica, mas sempre levar em conta o caso individual, bem como o meio 
cultural em que está inserido. Não se deve nunca realizar uma interpretação de um 
teste de modo rígido, desconsiderando o singular de uma pessoa. Não podemos 
utilizar os dados numéricos como um padrão onde todos se encaixam, sem considerar 
as peculiaridades do caso. Como diz Weiner (2000), devemos também considerar em 
que as pessoas se parecem entre si, quanto observar em que se diferenciam umas 
das outras. 
6.1 Testes Vocacionais 
Considerando-se os paradigmas da OV no Brasil, os testes foram, em 
determinado momento, praticamente abolidos do processo de orientação. A entrevista 
passou a ser o instrumento privilegiado, e aos antigos instrumentos utilizados para o 
“teste vocacional” restaram a desvalorização e o ostracismo. Pudemos acompanhar 
estas mudanças em nossa história profissional, mas também o declínio do uso dos 
testes em OV pode ser evidenciado pelo reduzido número de testes psicológicos 
específicos para a área, que chegaram ao CFP para serem avaliados de acordo com 
a Resolução CFP N.º 02/2003, que define e normatiza o uso, a elaboração e a 
comercialização de testes psicológicos instituída devido a, dentre outros motivos, pela 
necessidade de aprimorar os instrumentos e procedimentos técnicos de trabalho dos 
psicólogos e de revisão periódica das condições dos métodos e técnicas utilizados na 
avaliação psicológica, com o objetivo de garantir serviços com qualidade técnica e 
ética à população usuária desses serviços.(Conselho Federal de Psicologia, 2003). 
Esta avaliação faz consideraçõesa respeito dos critérios de validade, precisão 
e normas, que levem em conta estudos recentes dos testes. As informações a respeito 
 
16 
da situação dos testes em relação aos critérios estabelecidos encontram-se no 
Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI), hospedado no site referido 
acima. 
Entre os testes recebidos, com indicação específica para a OV encontramos os 
seguintes: BBT-BR Feminino (Teste de Fotos de Profissão) (Achtnich, 1991; 
www.pol.org.br/satepsi); EMEP &– Escala de maturidade para a escolha profissional 
(Neiva, 1999); Quati (Zacharias, 2003), que foram considerados favoráveis. 
O Inventário de interesses Kuder (Kuder, s.d.), Inventário de Interesses de L.L. 
Thurstone (Thurstone, Angelini, & Angelini, 2002), a Bateria Fatorial CEPA (Centro 
Editor de Psicologia Aplicada, 2002 a), Bateria de testes de Aptidões Gerais II (BTAG 
II) (Centro Editor de Psicologia Aplicada, 2002 b), entre outros, foram considerados 
desfavoráveis. 
Os psicólogos com muitos anos de experiência profissional também irão notar 
que antigos instrumentos de interesses profissionais foram considerados 
desfavoráveis. Um dos grandes motivos para esta condição é que pesquisas com tais 
instrumentos não foram mais desenvolvidas, tornando-os obsoletos e a ausência de 
pesquisas talvez possa ser atribuída à pouca importância que se estava dando aos 
testes, o que se tornou um círculo vicioso. Encontramos um artigo recente sobre o 
tema, a saber, Análise de instrumentos de avaliação de interesses profissionais 
(Noronha, 2003). 
Apesar de serem poucos os instrumentos específicos para a OV disponíveis no 
momento, podemos incluir alguns testes atuais que são favoráveis, cuja finalidade não 
é exclusiva para a OV, mas por seus objetivos podem ser incluídos neste processo. 
Entre eles, podemos citar o BPR-5 (Bateria de Provas de Raciocínio - Formas A e B) 
(Almeida & Primi, 2000). E mais, para a finalidade da nossa prática profissional, pode-
se incluir qualquer teste psicológico. Não precisamos ficar presos apenas aos testes 
específicos à OV, mas diversos testes podem ser utilizados em uma OV, dependendo 
do propósito da avaliação e da sua indicação. Entre estes, podemos incluir as escalas 
Wechsler (WISC ou WAIS) (Wechsler, 2002, 2004), ou qualquer outro teste de 
inteligência (desde que válidos) e mais os de personalidade, como o TAT (Murray, 
1943/2005), HTP (Buck, 2003), Rorschach (1921/2006) entre outros. 
 
17 
6.2 O teste na Orientação Vocacional. Por que não? 
Retomando o que dissemos anteriormente, nosso instrumento privilegiado é a 
entrevista. Na OV ela proporciona a “recolha de informações e à intervenção dela 
decorrente” (Leitão & Ramos, 2004, p. 45). De acordo com estas autoras, a entrevista 
também exerce um importante papel na avaliação no processo de OV. Podemos 
exprimir, em outras palavras, dizendo que a entrevista coleta informações, avalia e faz 
intervenções, ou seja, na OV, as entrevistas podem ocorrer tanto para obter 
informações do orientando, como para fazer as interpretações possíveis e 
necessárias, para que a pessoa possa ampliar sua percepção a respeito de si mesma. 
Retornando a Bohoslavsky, isto corresponde à sua proposta do método clínico, em 
que sintetiza como o “VER, PENSAR E ATUAR”. (Bohoslavsky, 1971/1977, p. 40). Na 
OV a entrevista tem finalidades variadas, entrevistas de levantamento de informações, 
entrevistas que podemos chamar de diagnósticas, entrevistas de devoluções, a partir 
de interpretações pontuais, considerando-se as peculiaridades do sistema teórico 
escolhido, entrevistas de informações profissionais, etc. 
A entrevista também é elemento fundamental uma vez que no processo de OV 
ela auxilia a identificar o motivo (manifesto ou latente) que leva a pessoa a procurar 
nosso serviço para resolver sua dificuldade; quais são seus conflitos predominantes; 
que procedimentos devemos escolher para realizar a orientação com um caso 
individual. Ela torna o processo dinâmico. Ela auxilia no diagnóstico. Além disto, a 
entrevista, de acordo com diversos autores, pode colaborar no trabalho de elaboração 
do orientando, para que ele possa construir a sua identidade vocacional, elaborar os 
conflitos e fazer suas escolhas. 
Como vemos, por meio da entrevista podemos tornar o nosso processo 
dinâmico, tal como propusemos no início do artigo e transferir a responsabilidade da 
escolha para o orientando. O desafio é manter a dinâmica do processo e utilizar os 
testes ao mesmo tempo. Como utilizar os testes sem cair na chamada modalidade 
estatística? 
Mais uma vez vamos retornar a Bohoslavsky (1971/1977). De acordo com este 
autor, “a proposição diagnóstica que esboçamos e a ênfase que atribuímos à 
importância da análise da primeira entrevista poderiam conduzir a um erro quanto à 
desvalorização dos testes mentais como fonte de informação” (p.112). 
 
18 
Portanto, a utilização de uma abordagem dinâmica em OV não implica 
necessariamente no desuso dos testes psicológicos. No entanto, a utilização deve ser 
cuidadosa, refletida e “nunca substituir a função do psicólogo” como também afirma 
Bohoslavsky (1971/1977, p.112). 
Para uma boa utilização dos testes, o que vem sendo amplamente considerado 
pelo CFP, também já foi advertido por Bohoslavsky, ou seja, “supõe que se conheça 
seus fundamentos teóricos e suas características de validade, fidedignidade, como 
também se saiba para que são aplicados” (1971/1977, p.112). 
Existem clientes que não conseguem acompanhar um processo de OV 
individual. São jovens ou adultos muito comprometidos psicologicamente e que 
apresentam sérias dificuldades para realizar uma escolha autônoma e consciente, 
com reduzida capacidade para elaborar todas as questões necessárias para 
acompanhar este processo em curto espaço de tempo. Nestes casos costumamos 
propor um processo de OV, inicialmente baseado em testes psicológicos variados, 
especialmente para avaliar os recursos positivos, como por exemplo, relativos à sua 
capacidade intelectual, ou avaliar o grau de adequação da percepção da realidade, a 
capacidade de conduzir seu pensamento sem a presença de transtornos nesta esfera, 
ou para uma auto percepção adequada, avaliar a ausência de distúrbios significativos 
de humor, ou outras manifestações que possam contribuir para que estas pessoas 
venham a se preparar e possam vir a exercer uma atividade profissional de forma 
satisfatória. Os testes geralmente são aplicados assim que estabelecido um bom 
vínculo e obtidas as informações fundamentais para sua aplicação. Após esta etapa 
inicial, definimos a melhor estratégia para continuar a orientação vocacional. Contudo, 
estes casos compõem a minoria dos que nos procuram. Por isto daremos mais 
atenção aos demais casos, os mais habituais. 
Em diversas ocasiões já trabalhamos apenas a partir de entrevistas e, 
especialmente em atendimentos supervisionados pela autora, notamos maior 
facilidade do supervisionando a aderir este modelo. No entanto, em inúmeros 
atendimentos tivemos a convicção da falta de alguma informação que apenas o 
resultado de um teste poderia fornecer em tempo breve e com segurança, como 
mencionado acima. Estas informações podem se referir, por exemplo, a uma 
habilidade específica, que nem sempre o orientando é capaz de avaliar por meio de 
sua experiência, como diversas vezes encontramos entre os desejosos de optar por 
um curso onde lidar com relações espaciais é um fator importante, tal como a 
 
19 
arquitetura; outras vezes, uma questão de personalidade que pode tomar muito tempo 
para ser investigada por meio de entrevistas, pode ser perscrutada de forma 
sistemática e profunda por meio de uma técnica projetiva; também podemos avaliar, 
por meio de técnicas específicas da OV, ou mesmo por instrumentos para avaliação 
da personalidade, o grau de maturidade para que alguém, aparentemente incapaz de 
tomar sua decisão; ou ainda,pessoas cuja dúvida entre várias opções profissionais 
de áreas diversas, cuja solução poderia levar muito tempo, e uma técnica de 
investigação de interesses poderia contribuir para resolver esta dúvida. Ou seja, 
informações importantes para que o orientando possa, a partir delas, fazer suas 
escolhas. 
Tais informações obtidas por meio de testes psicológicos podem também 
contribuir para cumprirmos com o que mencionamos a respeito do limite de tempo do 
processo de orientação vocacional, que deve ser breve. Além do modelo teórico, esta 
brevidade também é necessária porque o nosso cliente quase sempre necessita desta 
resposta em curto prazo. Diversamente dos processos de psicoterapia, não podemos 
esperar o “timing” até conseguir a compreensão de determinados mecanismos 
importantes para realizar o que denominamos autoconhecimento. 
Pensamos que os testes também seriam os instrumentos adequados para 
buscar as informações necessárias para ampliar aspectos relacionados ao 
autoconhecimento e à compreensão do conflito. O conflito, aqui mencionado, é, 
aparentemente, quase sempre a respeito da escolha de uma entre várias profissões, 
mas que podemos compreender como se tratando de ser manifestações de 
características diversas de sua dinâmica psíquica, como assinalamos no início do 
texto, por exemplo, entre instâncias psíquicas (id x superego), ou amor e rivalidade 
relativos a figuras parentais, bem como relativos a valores adquiridos no decorrer de 
sua existência que podem entrar em contradição e acarretar consequências no 
momento em que os adolescentes, ainda não totalmente seguros, fazer suas 
escolhas. Por vezes esses valores que entram em contradição são originados por 
diferenças entre valores familiares e de outros grupos de referência. Podem também 
se referir a divergências entre os valores próprios e os familiares. Estes conflitos entre 
valores são muito comuns na adolescência, no processo de formação da própria 
identidade. 
Deve-se ter em conta que os testes não ajudam diretamente na resolução do 
conflito, mas sim na compreensão dos mesmos. A elaboração destes conflitos levaria 
 
20 
em certas situações muitos anos de análise para serem trabalhados a partir de livre 
associação, contudo, já temos verificado uma grande contribuição para a tomada de 
decisão a respeito da carreira a seguir, a partir de sua explicitação. 
No entanto, à primeira vista, é possível considerar que entrevistas utilizadas de 
maneira dinâmica e sessões de aplicação de testes, utilizados em momentos 
consecutivos poderiam comprometer o enquadre do atendimento. Entendemos por 
enquadre, como Bleger (1972), o estabelecimento de algumas variáveis constantes 
no trabalho. Entre estas condições estão o estabelecimento de horários, a previsão 
do tempo do processo, o estabelecimento de honorários pelo trabalho, como muito se 
tem comentado nos meios profissionais. Mas também estão incluídos no enquadre, o 
modo pelo qual vamos trabalhar e ainda, o tipo de vínculo que vamos criar com o 
orientando, ou como denomina Bleger, “atitude técnica e papel do entrevistador” 
(Bleger, 1972, p.15). Tomando estas últimas questões, sessões de aplicação de teste 
têm uma configuração diversa das entrevistas semidirigidas que costumamos realizar 
nos processos de OV. Nas entrevistas, mais livres, há uma participação mais intensa 
em sua condução, por parte do orientando, enquanto que nas entrevistas de aplicação 
de testes, o psicólogo toma para si a condução das atividades propostas. O processo 
reflexivo também fica alterado com a introdução de um teste, que pode ser visto como 
um instrumento que substitui este processo. Por isto, é importante que o psicólogo-
orientador se movimente com clareza para exercer seu papel adequadamente em 
ambas as situações. 
Um outro ponto a se considerar é relativo à expectativa de muitos orientandos 
quanto a receber respostas que garantam a decisão correta e uma possível 
idealização de que isto será conseguido por meio dos resultados dos testes. É 
importante que o orientador desmistifique esta expectativa em relação aos testes, para 
que o orientando compreenda bem qual a verdadeira razão de aplicá-los e em que 
estes poderão contribuir. Portanto, ao tomar a decisão de se utilizar testes devemos 
estar atentos para que estes venham a contribuir para o processo, tomando alguns 
cuidados, antes da utilização do instrumento de avaliação psicológica. 
 
 Em primeiro lugar, ao decidir pela aplicação de qualquer dos testes 
necessários, nós psicólogos temos que, primeiramente ter clareza do que 
estamos realizando e nos questionar quanto ao que pretendemos com a 
introdução deste instrumento. 
 
21 
 Eticamente também é necessário que o orientando seja esclarecido, quanto ao 
que podemos acrescentar ao processo com a utilização do instrumento. 
 Devemos desconstruir a fantasia de que um teste pode trazer “a” resposta que 
ele não conseguirá por seu esforço reflexivo. 
 Temos ainda que nos certificar sobre qual é o melhor instrumento para 
contribuir com as informações que consideramos necessárias, ou seja, a 
escolha do instrumento deve ser fundamentada nas informações contidas nos 
manuais dos testes. Será este o melhor instrumento para responder às minhas 
necessidades? 
 Qual é o melhor momento para realizar a aplicação de um teste? Por nossa 
experiência não indicamos a utilização de um teste no início de um processo. 
Antes disso deve-se analisar bem o caso, estabelecer o vínculo, compreender 
sua dinâmica e o significado de sua procura para a OV. 
 O profissional que decide pelo uso do instrumento tem bom domínio e 
capacitação para utilizá-lo? Na hora da escolha de um teste devemos estar 
preparados para esta tarefa em termos de conhecimento e habilidade. 
 Ao estabelecer um contrato de trabalho, consideramos importante informar que 
testes podem ou não ser aplicados, dependendo de haver necessidade, mas 
se aplicados seus resultados não trarão as respostas, apenas mais 
informações a respeito do orientando. Este esclarecimento contribui para que, 
por um lado, o orientando não considere que ao não aplicar testes, não lhe 
demos toda a assistência e por outro lado, não crie fantasias, como por 
exemplo, de que introduzimos o teste porque não estamos conseguindo obter 
as informações necessárias ou que ele possui alguma “patologia” que precisa 
ser melhor investigada. 
 
Tendo em vista que não vamos utilizar o teste mecanicamente, a seguir 
proponho definir alguns pontos a se considerar para o manuseio dos resultados no 
processo, sem fugir ao enquadre da orientação. 
O primeiro ponto a levar em consideração é que não haverá um momento de 
entrevistas, um de testes e um de devolução de resultados. Estes devem ir sendo 
discutidos no decorrer das entrevistas e não são resultados finais para o orientando 
levar consigo. Os resultados dos testes, trabalhados no decorrer do processo e 
integrados ao seu autoconceito, devem auxiliar o orientando a compreender em que 
 
22 
podem contribuir para sua escolha profissional. Portanto, assim que realizado o teste, 
seus resultados devem ser comunicados mesmo no meio do processo, para ampliar 
o conhecimento que o orientando pode ter de si mesmo. Também o conteúdo desta 
comunicação deve-se associar aos demais conhecimentos que já foram elaborados 
no processo, ou seja, a informação dos resultados deve ser integrada aos demais 
aspectos considerados para a escolha da profissão. 
Muitas vezes o teste pode não contribuir diretamente para a escolha, mas para 
compreender a origem da dificuldade da escolha. Este emprego do teste, algumas 
vezes pode ser realizado na fase inicial de um processo (após apenas algumas 
sessões, mas quando já tivermos um bom vínculo estabelecido e compreendido a 
demanda do caso), mas também pode ser utilizado no meio do processo, quando 
vemos que o orientando não está conseguindo evoluir em seutrabalho. Ou seja, não 
há o momento correto para a aplicação de teste(s). Depende do(s) teste(s) 
escolhido(s), do caso em andamento e de sua evolução. 
A título de exemplificação, vamos trabalhar com estas ideias, ainda que não em 
situações reais (em função destas ideias terem sido desenvolvidas em experiência 
clínica profissional e não em pesquisa, não temos permissão para divulgar dados de 
clientes) para vermos como este procedimento tem sido conduzido por nós. Estes 
dados foram criados a partir de uma série de casos atendidos ou supervisionados. 
Suponhamos um jovem que está terminando seu curso colegial, mas com muitas 
dificuldades acadêmicas, com todas suas notas muito próximas à média e talvez até, 
sendo aprovado pelo conselho de classe, e já tendo apresentado dificuldades em 
outras séries de sua formação, com reprovações ou recuperações. Talvez seja 
interessante aplicarmos um WAIS (Wechsler, 2004), ou WISC (Wechsler, 2002) (a 
escolha por um destes dois testes deve ser feita tomando-se em consideração a idade 
do orientando) antes de continuar as reflexões a respeito da escolha propriamente 
dita, uma vez que é importante detectar a origem de suas dificuldades escolares. 
Assim que o teste for avaliado, devemos retornar estes resultados para o orientando, 
de preferência na sessão seguinte ao término da aplicação, salientando os pontos de 
dificuldade e os de maior facilidade. Tendo assegurado que houve a compreensão por 
parte do orientando, vamos verificando com ele o que deve ser feito para superar 
estas dificuldades e vamos também refletindo a respeito das carreiras onde ele terá 
maior dificuldade e maior facilidade. Não podemos nos esquecer que o teste traz um 
resultado do desempenho que ele é capaz naquele momento e situação. Mas o próprio 
 
23 
resultado possivelmente poderá indicar a que se referem algumas de suas 
deficiências e se será possível realizar alguma intervenção para superá-las. Os 
resultados também podem indicar se há alguma probabilidade de as dificuldades 
serem provenientes de problemas emocionais, ansiedade, insegurança etc. ou de 
dificuldades neuropsicológicas. Mas, como já afirmamos, para conseguir levantar 
estas hipóteses é necessário que haja alguma prática no manuseio do teste. Estas 
informações deverão se associar à representação de sua autoimagem, às 
expectativas que tem sobre de si mesmo e às expectativas que a família tem a seu 
respeito. Possivelmente este suposto jovem deve apresentar uma baixa autoestima, 
o que costuma acontecer com estudantes que apresentam baixo desempenho 
escolar, o que, por sua vez, costuma ter grande interferência nas escolhas 
profissionais. Além de trabalhar as questões da autoimagem, vamos também refletir 
sobre as opções que ele já tinha em mente e aquelas que poderá construir neste 
momento, a partir dos conteúdos que vamos trabalhar a partir dos resultados do teste. 
Uma outra situação pode ser encontrada em algum caso, em que o desejo de 
escolher uma determinada profissão vem acompanhado de desculpas e 
intelectualizações justificando a não opção, justificativas estas que não nos 
convencem, e que também podem transformar as próprias sessões cansativas, com 
resistências por parte do orientando, com reações contra transferenciais negativas, 
que tornam o processo desinteressante e pouco motivador para dar continuidade. Em 
situações como esta, pensamos que a aplicação de um teste como o TAT pode 
fornecer material para a compreensão desta resistência. A partir da discussão dos 
pontos importantes, especialmente daqueles que tem um sentido para a escolha da 
profissão, temos observado que o prosseguimento do caso fica mais livre e muitas 
vezes temos conseguido até mesmo elaborar algumas das dificuldades no decorrer 
do próprio processo de OV. Muitas vezes o medo de aproximar-se de questões 
importantes inviabiliza a escolha de uma profissão. Em algumas ocasiões 
encontramos este tipo de problema em casos de pessoas que já haviam feito uma 
escolha e que nos procuram para, segundo suas palavras, “não tornar a realizar uma 
escolha errada”, mas cuja hipótese mais provável era a dificuldade de fazer uma “boa” 
escolha por causa dos conflitos envolvidos. A partir da discussão da nossa 
compreensão do caso, obtida por meio do teste, pudemos continuar as sessões, com 
um conhecimento muito mais amplo e com maior possibilidade de uma escolha 
adequada, refletida e livre de conflitos. 
 
24 
6.3 Alguns testes psicológicos e uma breve síntese 
Listamos abaixo alguns testes favoráveis comumente utilizados no processo de 
orientação vocacional/profissional. 
Consulta realizada no Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos 
(SATEPSI) - (http://satepsi.cfp.org.br/testesFavoraveis.cfm) em 18/06/2018. 
 
 
 
 
 
25 
 
 
 
 
 
 
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32 
7 LEITURA COMPLEMENTAR 
Orientação Profissional na escola: uma pesquisa com intervenção 
 
Karen Cristina Alves Lamas 
Sabrina Maura Pereira 
Altemir José Gonçalves Barbosa 
 
RESUMO 
 
A escolha profissional é um processo evolutivo que, se realizada de forma consciente 
e planejada, interfere positivamente na qualidade de vida. O objetivo do presente 
trabalho é apresentar uma orientação profissional dentro da escola, utilizando como 
base teórica a abordagem sócio histórica e como método de avaliação dos resultados 
uma escala de atitudes. Verificou-se a importância de um instrumento para avaliar 
processos de orientação profissional, que possibilite mensurar quanto os alunos se 
beneficiaram com a intervenção. Entretanto, o indicado seria a prática durante as 
aulas, com a participação dos professores, de modo que o tema seja trabalhado de 
forma transversal ao currículo escolar. 
 
Palavras-chave: orientação profissional; adolescentes; abordagem sócio 
histórica. 
 
Introdução 
 
A escolha da profissão é um processo evolutivo (Super, 1957, citado por 
Sparta, Bardagi & Teixiera, 2006) que, se realizada de forma consciente e planejada, 
interfere positivamente na qualidade de vida. A maioria das pessoas, entretanto, faz 
escolhas profissionais conhecendo muito pouco sobre a totalidade das atividades de 
trabalho, o que pode ser reflexo da ausência de uma preocupação sistemática da 
escola ou da família em ensinar a filhosou alunos habilidades de tomada de decisão 
(Bardagi, Lassance & Paradiso, 2003). Segundo Lehman (2005), 44,5% da evasão 
escolar nos cursos superiores são causadas pela escolha mal realizada. Para a 
autora, o fenômeno ocorre, ainda, por falta de informação, 30,7% abandonam a 
faculdade por não gostar da estrutura do curso que ingressaram e 13,4% desistem 
 
33 
por insatisfação com a profissão e com o mercado de trabalho. Em um estudo 
realizado por Bardagi et al (2003), com estudantes em meio de curso, foi constatado 
que 42,7% dos participantes já pensaram em desistir ou mudar de profissão; e 15,9% 
ainda pensavam nisso; e 59,3% dos alunos acreditavam que poderiam se beneficiar 
de processos de orientação profissional. 
Desse modo, a Orientação Profissional no contexto escolar, além de poder ter 
uma perspectiva preventiva, pode ser uma intervenção para a promoção de saúde, 
visto que pretende trabalhar, a partir das relações sociais do indivíduo, a compreensão 
e transformação delas, além de capacitá-lo a agir de modo a transformar a realidade 
que o cerca e superar os obstáculos que dela advêm (Bock & Aguiar, 1995). O 
Ministério da Educação do Brasil coloca a Orientação Profissional como um dos 
objetivos da escola e como pessoas responsáveis por esse trabalho: Orientador 
Educacional, Psicólogo Escolar e Professor (Uvaldo, 1995). Este serviço, porém, é 
geralmente realizado com mais frequência em escolas particulares. Na rede pública, 
acredita-se que um dos impedimentos para a implantação desses serviços seja a falta 
de profissional especializado. Ademais, diante de tantos problemas emergenciais, 
como dificuldades de aprendizagem, problemas comportamentais e socioeconômicos, 
a Orientação Profissional, embora relevante, fica em segundo plano. (Melo-Silva, 
Lassance & Soares, 2004). Segundo Ribeiro (2003), os modelos de Orientação 
Profissional utilizados no Brasil são embasados na realidade dos adolescentes de 
classe média e alta. Com isso, há uma necessidade de mais pesquisas, teorias e 
modelos que correspondam à realidade da população socioeconomicamente 
desfavorecida concentrada principalmente nas escolas públicas. 
Lassance e Sparta (2003) afirmam que a Orientação Profissional tem suas 
origens na sociedade industrial, na qual suas práticas, inicialmente, estavam voltadas 
para o incremento da produção. Com o declínio da sociedade industrial, nasce um 
novo paradigma de Orientação 
Profissional, cujo foco deixou de ser a produção e passou a ser o indivíduo, e um de 
seus objetivos é promover uma reflexão crítica e ética sobre o compromisso social 
implicando escolhas profissionais dos indivíduos para que possam assumir um papel 
de agente de mudança social. 
A Orientação Profissional envolve atividades que dispõem de conhecimentos 
teóricos e práticos destinados, sobretudo, aos adolescentes, à escolha profissional e 
à elaboração de projetos futuros (Melo-Silva, Noce & Andrade, 2003). Atualmente, 
 
34 
entende-se por Orientação Profissional o processo de facilitação da decisão, por meio 
do reconhecimento, pelo orientando, das relações entre os elementos sociais, 
familiares e psicológicos que a influenciam (Noronha, Freitas e Ottati, 2003; Sparta, et 
al. 2006). Isso ocorre a partir do aprendizado do processo de escolha que implica: 
autoconhecimento, informação sobre as profissões e a integração desses aspectos 
em uma síntese, de modo que se construa uma identificação profissional e um projeto 
de vida, enfatizando a responsabilidade do orientando sobre sua decisão (Sparta et 
al., 2006). 
Quanto ao referencial teórico, existem várias concepções sobre o tema. 
Utilizando a classificação de Bock (2002), pode-se organizá-las em: teorias 
tradicionais (abordagem liberal); teorias críticas; e teorias para além da crítica. Dentre 
as propostas que podem ser agrupadas na última classificação, tem-se a abordagem 
Sócio Histórica. Nessa perspectiva, pretende-se que os orientandos tenham maior 
consciência de si como indivíduos históricos e inseridos socioculturalmente e 
caminhem para uma compreensão de si e do outro, menos preconceituosa, 
estereotipada e ideológica; a partir disso possam organizar seus projetos de vida, 
baseados nas suas necessidades e possibilidades (Bock & Aguiar, 1995). 
Segundo Bardagi et al. (2003), além da dimensão individual, é importante 
considerar as mudanças produtivas e sociais ocorridas nas últimas décadas e seu 
impacto sobre as escolhas de carreira para se compreender o desenvolvimento 
profissional. Para a autora, “existe uma ansiedade generalizada dos profissionais 
inseridos no mercado, relativa à busca de emprego, busca de qualificação e afirmação 
de projetos e estratégias de carreira” (p.155), pois, na pós-modernidade, a principal 
característica é a instabilidade, a incerteza quanto ao futuro (Cattani, 1996, citado por 
Bardagi, 2003). Assim, o referencial sócio histórico faz uma contribuição significativa 
para o campo teórico e prático da Orientação Profissional, ao dar maior ênfase ao 
Projeto Social de Trabalho (Melo-Silva, Bonfim, Esbregeo & Soares, 2003). 
Na abordagem sócio histórica para viver em sociedade, o Homem, precisa 
adquirir uma série de aptidões que são aprendidas culturalmente; da mesma forma o 
autoconhecimento é construído na relação com o outro e não por uma reflexão isolada 
(Bock & Aguiar, 1995). Assim, a forma de trabalho é o grupo por apresentar vantagens 
como enriquecimento do processo devido à dinâmica do grupo que envolve o 
confronto com a diversidade e a heterogeneidade (Bock, 2002). Além disso, o 
processo grupal é uma amostra do processo social; a visão do outro auxilia na própria 
 
35 
visão de si, as aspirações e limitações são dosadas porque o grupo facilita a 
percepção das influências familiares, sociais e econômicas (Carvalho, 1995). 
No que se refere aos instrumentos de avaliação, os estudos realizados, 
envolvendo o contexto brasileiro, indicam que há uma carência de instrumentos 
nacionais ou adaptados a essa realidade; faltam ferramentas capazes de avaliar 
adequadamente tanto o processo de orientação quanto os seus resultados, apesar de 
existir grande preocupação com a indecisão frente à escolha profissional, 
principalmente no período da adolescência (Sparta et al., 2006). 
Assim, o objetivo do presente trabalho foi realizar uma pesquisa com 
intervenção utilizando a abordagem sócio histórica no processo de escolha 
profissional de adolescentes no contexto escolar. 
 
Método 
 
Participantes 
 
A amostra foi composta por oito alunos do terceiro ano do Ensino Médio do 
Colégio de Aplicação João XXIII. Em um primeiro momento, foi realizada uma palestra 
expondo a questão da escolha profissional. Após, os alunos interessados (N = 17) 
foram convocados para participar do processo de orientação profissional, que foi 
organizado em nove encontros. Devido à incompatibilidade de horários, somente 11 
alunos compareceram ao primeiro encontro. No decorrer dos encontros, alguns 
participantes (n = 4) escolheram a profissão e deixaram de participar; outros 
desistiram por eventualidades (outras atividades que surgiram no horário, como 
cursinho), aqueles que persistiram tiveram algumas faltas. No último encontro, todos 
os onze participantes do primeiro encontro foram convocados para a aplicação do pós-
teste, mas, devido ao fim das aulas, somente oito alunos compareceram, sendo, 
efetivamente, essa a amostra. 
 
Instrumentos 
 
Durante os encontros foram utilizadas dinâmicas de grupo, frases para 
promover discussões, músicas e filmes. Utilizou-se, como instrumento de avaliação 
do processo de orientação profissional, um questionário contendo questões sobre 
 
36 
variáveis demográficas, segurança e preparação para realizar escolha, acesso a 
informações sobre as profissões e o processo de orientação, bem como uma escala 
de atitudes tipo Likert. As questões e a escala citadas foramconstruídas pelos autores 
a partir da revisão de literatura e do que se entende por orientação profissional e os 
resultados que se pretende obter com este processo. 
 
Procedimentos 
 
Adotou-se um delineamento quase-experimental. Dessa forma, foram 
aplicados um pré-teste e um pós-teste, no início e término dos encontros. Eles tiveram 
como foco: a) autoconhecimento e significado da escolha profissional; b) trabalho e 
mercado de trabalho; c) informação sobre as profissões. Na primeira metade dos 
encontros, enfatizou-se o tema A, e na segunda metade o tema C. O tema B ficou nos 
encontros intermediários por apresentar ligação com A e com o C. Além dos 
momentos em grupo, foram realizados encontros individuais com alguns alunos para 
trabalhar questões pessoais. 
 
Resultados 
 
A análise dos resultados foi realizada em duas etapas. Inicialmente, 
analisaram-se os dados de forma quantitativa, adotando-se um nível de significância 
de 5% e comparando as medidas com a prova de Wilcoxon. Encontraram-se 
diferenças significantes no que refere à segurança (Zo = -2,33; p 0,02) e à 
preparação (Zo = -2,33; p 0,02) para a escolha profissional pré e pós-orientação, 
revelando que, independente da frequência dos alunos, os encontros geraram crença 
de auto eficácia perante a escolha, o que pode ser visualizado nas figuras 1 e 2. 
Embora não tenha sido encontrada diferença significante, (Zo = -1,41; p 
0,16), provavelmente devido ao tamanho da amostra, uma análise qualitativa 
evidenciou que os alunos com frequência igual ou maior a 50% obtiveram, ao final do 
processo, atitudes mais positivas que os alunos com frequência inferior (Figura 3). 
Verificou-se após a intervenção que quatro alunos continuaram buscando 
informações por meio de jornais e revistas, manuais especializados e Internet; três 
participantes ampliaram a forma de busca, utilizando mais de uma fonte de 
informação. Um discente, porém, cessou de procurar fonte de informação. 
 
37 
Em relação à escolha da profissão, a pergunta “Quais profissões você está em 
dúvida neste momento? ” possibilitou verificar que, dos oito alunos participantes, cinco 
escolheram uma profissão; entre aqueles que não escolheram, um manteve o número 
de dúvida, mas modificou as profissões, outro aumentou uma profissão em sua lista 
de possibilidades e um terceiro que, no início, dizia não ter nenhuma profissão em 
vista, respondeu ao final que não tinha interesse por nenhuma carreira. Antes da 
intervenção, a média de profissões em dúvida entre os estudantes era de 2,71. Essa 
média apresentou redução significativa (Zo = -1,93; p 0,05) ao final do processo, 
passando para 1,29. Assim, há evidências tanto qualitativas quanto quantitativas de 
que os encontros favoreceram uma escolha profissional consciente e planejada. 
 
Discussão 
 
Constatou-se que este estudo atingiu seu objetivo à medida que realizou um 
projeto de orientação profissional, avaliando os participantes pré e pós-intervenção, 
de modo a verificar as possíveis mudanças decorrentes desse processo. Há que se 
destacar, baseando-se em Melo-Silva et. al (2004), que, no Brasil, assim como em 
diversos países, a prática de avaliação dos inputs, processos e outputs, da OP, 
raramente é realizada. Esses autores encontraram poucos registros de sistemas de 
avaliação das práticas instituídas e menos ainda de estudos longitudinais. 
Percebe-se a relevância da proposta enquanto os alunos, que estavam 
próximos ao momento de escolha, adquiriram crenças de auto eficácia o que é de 
suma importância diante de tomada de decisão, pois esse tipo de crença influencia as 
escolhas, bem como o planejamento para atingir a meta desejada (Pajares & Olaz, 
2008). Então, pode-se inferir que a orientação profissional proporcionou 
autoconhecimento de forma que a maioria dos alunos conseguiu perceber as 
atividades que se sentiam capazes e dispostos a realizar. 
A partir da escala de atitudes em relação à escolha profissional, que continha 
afirmações positivas e negativas sobre influência da família e dos pares, mercado de 
trabalho, busca de informações, relevância do curso superior, influência da mídia, 
status social e econômico e realização pessoal, notou-se que os participantes tiveram 
atitudes mais positivas após a intervenção, tendendo para uma escolha realizada sob 
reflexão e crítica. Mas, os alunos que compareceram em menor número (menos que 
50%) aos encontros, tiveram atitudes menos positivas em relação ao objeto proposto, 
 
38 
o que indica que tais alunos possuem maior risco de fazer uma escolha mal realizada, 
e se assemelhar ao grupo de alunos investigados por Bardagi et al (2003) e Lehman 
(2005). 
De acordo com as indicações de Ribeiro (2003), os encontros de OP foram 
planejados de modo que atendesse a alunos de diferentes classes econômicas, 
principalmente as menos favorecidas, mesmo que o perfil da maioria dos participantes 
tenha sido de classe média e o interesse deles, por cursos de ensino superior. Nesse 
sentido, utilizar abordagem sócio histórica como referencial teórico foi muito 
importante à proporção que busca compreender a relação indivíduo-sociedade de 
forma dialética, ou seja, o indivíduo é ao mesmo tempo reflexo da sociedade e agente 
em relação a ela (Bock, 2002). Essa concepção possibilitou a desmistificação de 
preconceitos e reflexão crítica no que se refere às desigualdades sociais e de 
oportunidades. 
Outra relevante modificação visualizada após o projeto foi à ampliação das 
fontes de informação sobre profissões. Evidencia-se, assim, que a OP pode ser a 
forma efetiva de conscientização sobre esta importante etapa do processo de escolha, 
visto que a evasão escolar do ensino superior ocorre muitas vezes por falta de 
informação sobre o curso e o mercado de trabalho (Lehman, 2005). 
Ainda que os benefícios do processo realizado sejam evidentes, destaca-se a 
necessidade de efetuar orientação profissional como um tema transversal ao 
currículo, através das diferentes áreas do conhecimento, uma vez que a questão 
profissional é um dos temas transversais proposto pelo MEC (1998): “Trabalho e 
Consumo”. Com a colaboração dos professores, os alunos têm a possibilidade de 
utilizar os conhecimentos já adquiridos, buscar novas informações e utilizar os 
recursos oferecidos pelas diversas áreas para ampliar o sentido dado à questão 
(Brasil, 1998). 
Ao adotar essa perspectiva e não uma proposta clínica – como a adotada no 
presente estudo –, o problema da falta de assiduidade é minimizado, pois o programa 
é parte das atividades pedagógicas, portanto abrange todos os alunos. Outra 
possibilidade que se abre é a de orientação para alunos que não desejam um curso 
superior ou precisam ingressar no mercado de trabalho em breve. Como afirma Silva 
(1995), o interesse dos adolescentes vem se diversificando e as formas tradicionais 
de orientação profissional não atendem a essa nova demanda. Por isso, é importante 
que o programa seja realizado de forma a auxiliar o jovem no seu projeto de vida e 
 
39 
também na sua inserção no mercado de trabalho e não o orientar, apenas, na escolha 
de profissões de nível superior (Ribeiro, 2003). Ao usufruir de propostas transversais 
o processo se torna, por isso, muito mais rico e, também, promove-se saúde à medida 
que é proporcionado aos alunos condições para refletirem acerca de si mesmos, sobre 
a sociedade e projetos futuros. 
Ressalte-se, ainda, o imperativo de que os profissionais de Psicologia realizem 
práticas profissionais de acordo com uma perspectiva de pesquisa com intervenção 
para que se tenha uma avaliação tanto do desenvolvimento efetivo das pessoas 
quanto da própria atuação. Neste estudo, a avaliação teve um grande significado, ao 
permitir identificar o desenvolvimento do grupo e as limitações existentes no trabalho. 
 
 
 
 
40 
 
 
 
 
 
 
41 
 
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