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I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. _____________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 194 BREVE HISTÓRICO DA EVOLUÇÃO DOS ESTUDOS DA LINGUAGEM: DO PERÍODO HELÊNICO À CONCEPÇÃO BAKHTINIANA Rosemere de Almeida AGUERO (Mestranda em Estudos Lingüísticos – UFMS/ CPTL) raaguero@bol.com.br Introdução Para que se possa compreender as diversas concepções teóricas que permeiam, hoje, as investigações de natureza lingüística é necessário que se faça um percurso pela história dos estudos da linguagem. O objetivo desse artigo é justamente promover essa incursão, tarefa instigante na medida em que, quando se fala em linguagem, fala-se no próprio homem, dotado da capacidade de articular elementos sonoros e produzir discursos, aos quais atribui sentido e, com os quais, interage na sociedade, cumprindo o seu papel político. Metodologicamente desenvolvido através de pesquisa bibliográfica, este estudo procura retratar os diversos momentos da história da linguagem, iniciando-se pela Antiguidade Clássica, berço da cultura ocidental, passando pelas diversas correntes teóricas do século XX até chegar ao pensamento de Bakthin, estudioso singular e ainda contemporâneo em sua concepção marxista. Embora percorra as diversas correntes lingüísticas, não nega a filiação teórica à Análise do Discurso de tradição francesa, na medida em que concebe a linguagem como produto do contato entre o histórico e o lingüístico, espaço no interior do qual percorre o sujeito, em toda a sua materialidade. A partir destas reflexões, espera-se poder contribuir para a compreensão da linguagem como produto da prática histórico-social da constituição de sujeitos e de sentidos, presente nas práticas discursivas. 1. A Contribuição da Antigüidade Clássica Embora o interesse pela linguagem remonte ao período clássico – os antigos hindus já estudavam sua língua na tentativa de que os textos sagrados compilados no Veda não sofressem alteração no momento em que fossem recitados ou I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. _____________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 195 cantados e, ainda, no século IV a.C Panini já se dedicava ao “estudo do valor e do emprego das palavras” (LEROY,1971, p. 16), podendo ser considerado, até certo ponto, precursor dos estudos estruturais desenvolvidos no século XX – é na Antigüidade grega que basicamente foram fundamentados os estudos ocidentais sobre a linguagem. A Grécia antiga foi, certamente, mais que o berço de toda cultura ocidental e mantinha-se forte graças a sua organização social e política, cujo sustentáculo era a cultura e o saber acumulados. E o instrumento de poder grego, longe de ser o conferido pela força das armas, era exatamente aquele capaz de registrar e disseminar esse saber acumulado: a língua. A língua era tão importante para o povo grego que os filósofos a ela se dedicavam em investigações de caráter estético (estudos ligados ao estilo) e filosófico (referentes à adequação da linguagem ao pensamento). Aliás, língua e pensamento eram considerados como um só, até certo ponto da história grega, se confundindo em uma única noção. Cientes de sua superioridade intelectual sobre outros povos, os gregos negligenciavam outros idiomas, por eles considerados como bárbaros. Segundo Leroy (p.16) “o termo ‘bárbaro’ – palavra imitativa que designava originariamente o pipilar dos pássaros – aplicavam indistintamente a toda língua estrangeira, porque lhes era tão ininteligível quanto o gorjeio dos alados”. De modo geral, pode-se dividir os estudos lingüísticos clássicos em duas etapas: o período helênico e o período helenístico. O período helênico correspondendo ao apogeu da civilização grega e o helenístico, ao seu declínio. Segundo Neves (2002, p. 21), o período helênico foi uma época de intensa criação na cultura grega, onde floresceram a filosofia e a literatura. No período helênico privilegiou-se o estudo da significação dentro da linguagem. Através da Teoria da Significação, denominada logos pelos filósofos, estudou-se o que era significativo e como a significação se dava na linguagem. Esses estudos podem ser divididos em três estágios, cada qual vinculado a um dos três grandes filósofos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Na perspectiva socrática, a significação apresentou uma relação entre o nome e a coisa nomeada. Para Sócrates a linguagem não era a representação do mundo, I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. _____________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 196 a linguagem constituía o mundo. Assim, o nome possuía um caráter físico e era considerado uma extensão daquilo que representava, como se fosse sua própria essência. O nome transpunha o mundo das idéias para o mundo real, daí postular- se uma relação logos/phisis. Entretanto, essa noção foi contrariada por vários fatos, entre os quais a existência de nomes destituídos de referência no mundo concreto, tais como os derivados de adjetivos, conotativos, etc. Na proposição de Platão, a significação não estava no mundo referencial, mas nas frases, às quais eram atribuídas significações expressas em partes do discurso e somente do discurso. Para Platão, amor ao logos era amor ao discurso e as atribuições de significado eram feitas através de relações metafísicas ou mentais, nele perceptíveis. Apesar de que, nessa fase, houve uma mudança no enfoque, passando do mundo referencial ao discurso, não se pode considerar um avanço significativo, uma vez que a língua ainda se confundia com o logos. Foi com Aristóteles que se conseguiu estabelecer uma ruptura entre o logos e a phisis e, assim, marcar o final de um ciclo relativo aos estudos da linguagem, uma vez que seus sucessores pouco contribuíram para os avanços nos estudos lingüísticos. Sua grande contribuição, para os estudos da linguagem, foi conseguir separar o logos (a significação em si mesma) e o significante (aquilo que expressa o significado), este último objeto de estudo da lingüística moderna. As invasões de Alexandre Magno marcaram historicamente o início do período helenístico, na cultura grega. No contato constante com outros povos, diante das modificações inevitáveis sofridas pelo sistema lingüístico, a língua, verdadeiro símbolo do poder grego, começou a se mostrar suscetível às variações. Essas mudanças comprometiam a hegemonia cultural grega e aconteceram de modo concomitante à decadência daquele Império. Na tentativa de deter aquilo que era considerada a deterioração do seu maior bem cultural, reuniram-se alguns intelectuais que empreenderam esforços no sentido de sistematizar o grego, para tentar interromper o processo de modificação da língua e, assim, preservar o status da cultura dominante. Desse modo, no período helenístico, modificação e preservação coexistiram, num esforço contínuo de intelectuais na tentativa de preservar o grego de um passado remoto. I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. __________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 197 É assim que, nesse período, a cultura se apoiou no ensino-aprendizagem, privilegiando-se o estudo do significante e a prescrição de padrões lingüísticos apoiados na forma consagrada pela cultura dominante. O caráter prescritivo do período helenístico incentivou estudos relacionados à morfologia. Nesse período foram desenvolvidos os primeiros registros de dados lingüísticos com o objetivo de normatizar os fatos gramaticais presentes nos textos clássicos. Uma característica interessante desse período foi o predomínio das investigações de natureza lingüística em detrimento aos estudos filosóficos, próprios do período anterior. Se, por um lado, essas investigações apresentavam um aspecto positivo, já que se tentava desvincular linguagem e pensamento atendo-se mais às questões da língua, por outro eram frágeis, na medida em que pouco se sustentavam teoricamente. Observamos aí a origem da descrição e da normatização privilegiadas, ainda hoje, nos estudos de linguagem em muitas instituições escolares. Outra contribuição importante para os estudos da linguagem proveio dos estóicos, povo responsável pela elaboração da primeira gramática grega, com características normativas. De acordo com Neves ( p. 38) “A lógica estóica (...) era uma lógica de enunciados, não de termos e, por isso, o modo de união dos fatos é fundamental”. Daí sua contribuição significativa para o desenvolvimento de estudos relacionados às partes do discurso (no total de quatro, no sistema estóico), constituídos por sujeito, predicado, conjunção e artigo, estes últimos responsáveis pela “ligação e articulação dos eventos” (NEVES, p. 39), constitutivos desses enunciados. Desse modo, como vimos, reconhece-se na Antigüidade clássica duas posições distintas com relação aos estudos da linguagem. A partir daí, pouco se inovou, até chegarmos ao século XX, verdadeiro marco do aparecimento de doutrinas teóricas cujo objetivo era tratar de assuntos inerentes à linguagem no aspecto científico. É o que veremos a seguir. I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. _____________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 198 2. A Lingüística Saussureana e o Estruturalismo O Curso de Lingüística Geral, de Ferdinand de Saussure, publicado em 1916, após sua morte, foi o grande marco para os estudos lingüísticos do século XX, uma vez que sua doutrina teórica propunha estudos relacionados especificamente à linguagem humana e não mais ao pensamento, como era próprio dos estudos filosóficos da Antigüidade. Pode-se dizer que o Curso de Lingüística Geral, de Saussure, marcou o nício de uma lingüística autônoma, em que a língua, objeto da lingüística, é oncebida como um sistema interno de relações diferenciai, independentemente de uma relação com ‘a coisa’ ou o objeto do mundo. É evidente, em Saussure, a obsessão de se definir a natureza do objeto ‘integral’, ‘concreto’, ‘verdadeiro’, ‘único’ da lingüística, evitando-se ‘ um aglomerado de coisas confusas e heteróclitas, sem liame entre si (CARDOSO, 2003, p. 7-8) Fruto de um momento histórico caracterizado pelo tecnicismo, a lingüística saussureana nasceu com o intento de estudar as línguas naturais e de apresentá-la como um objeto concreto, passível de observação e análise, por um método científico que a elevasse à categoria de ciência. Serviu de modelo para uma corrente denominada estruturalista. O Estruturalismo, baseando-se nas idéias de Saussure, propunha inventariar a língua, analisando-a como se estivesse em um laboratório e, para tanto, utilizou-se do princípio dicotômico langue/parole, nos estudos da linguagem. Por langue entendia-se o conjunto de propriedades supra-individuais comuns a todos os falantes, um contrato social coletivo, todo o conjunto de regras fonológicas, morfológicas, sintáticas, semânticas, lexicais e estilísticas existentes em um determinado sistema lingüístico. Quanto à parole: A fala é tudo aquilo que a língua não pode ser: ato lingüístico individual, material, concreto, psicofísico, dependente da vontade e da inteligência indivíduo (subjetivo), um impulso expressivo, assistemática, inovadora (lugar de liberdade), acessória e mais ou menos acidental, ocasional. (CARDOSO, 2003, p. 9) Os estudos saussureanos se concentraram na langue, por representar um estado idealizado da língua. Dessa forma, era feito um levantamento criterioso daquilo que o lingüista considerava como propriedade ideal, que acabava por originar longas listas de palavras, que eram classificadas e inseridas em classes. Daí o Estruturalismo ser conhecido como a doutrina da taxionomia. I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. _____________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 199 Outra dicotomia importante apontada pelos estudos saussureanos foi a sincronia/diacronia. Sincrônico eram os estudos de fatos lingüísticos, tal como se apresentavam num determinado momento, como se estivessem imóveis no tempo. Diacrônico era o estudo desses mesmos fenômenos em sua evolução histórica, analisando suas mudanças. A lingüística saussureana foi basicamente sincrônica. Embora Saussure tenha imprimido mudanças significativas aos estudos da linguagem, uma vez que seus conceitos, rigorosamente formulados, tornaram-se clássicos e elevaram os estudos lingüísticos à categoria de ciência, ao conceber a língua como sistema, equivocou-se ao relegar a fala (parole) a uma segunda plana, privilegiando o estudo sincrônico da langue. Com essa atitude, desconsiderou que na história da língua a fala é soberana, por ser capaz de promover ininterruptamente a evolução do sistema lingüístico, e tratou a langue como um sistema de normas imutáveis, ignorando o fato de que esta é produto da enunciação de sujeitos, constituídos historicamente em suas relações com o mundo. Entretanto, cabe-nos reconhecer o rigor e a precisão de suas formulações teóricas - considerável avanço aos estudos lingüísticos modernos - que lhe couberam o reconhecimento e a popularidade ainda nos dias de hoje. Desse modo, falar da história da linguagem no século XX, sem mencionar a significativa contribuição de Ferdinand Saussure e dos estruturalistas ao pensamento científico moderno é esquecer uma parte importante (senão essencial) dessa mesma história, até porque, pela sua própria natureza, toda verdade científica não é permanente e aí reside exatamente o seu mérito: na possibilidade de ser contestada e, a partir dela, surgirem novas verdades. Ainda, é preciso lembrar que por mais brilhantes que foram os estudos saussureanos, não ultrapassaram o âmbito da descrição dos enunciados, excluídos das circunstâncias da enunciação e afastando-se da questão do pensamento. Não chegaram a considerar, também, a relação entre as unidades lingüísticas. E foi exatamente nessa lacuna que se inscreveu uma outra corrente lingüística, ainda no século XX, que nasceu como uma teoria da sintaxe, a partir das idéias de Noam Chomsky e da tradição da lingüística americana. I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. __________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 200 3. A Teoria Gerativa de Chomsky O Gerativismo ou Teoria Gerativo-Transformacional foi outra doutrina que também se dedicou ao estudo da língua como objeto concreto. A teoria gerativa surgiu, de modo concomitante à invenção do computador, com a tarefa inicial de apresentar soluções para problemas relacionados ao uso da língua pela máquina, que deveria ser semelhante ao da mente humana. Entretanto, o grupo de teóricos (matemáticos, em sua maioria), logo se defrontaram com o problema de como observar o cérebro humano, buscando determinar os mecanismos que operavam a construção da linguagem, uma vez que o produto da mente era puramente simbólico, portanto, não concreto. Na tentativa de solucionar o problema apontado, formularam uma hipótese, sugerida por Chomsky, denominada Hipótese do Inatismo, segundo a qual a mente humana tinha uma predisposição inata para a linguagem, capacidade comum a todos os falantes. As noções mais significativas da teoria de Chomsky para os estudos da linguagem, referem-se às concepções de produtividade (qualquer falante pode compreender e produzir enunciados velhos e novos), competência (conhecimento mentalizado da língua, saber lingüístico implícito), performance ( manifestação lingüística do falante num dado momento) e universais lingüísticos (predisposição inata para a linguagem, comprovada em todos os homens). Concebida inicialmente como uma teoria da sintaxe, o Gerativismo não conseguiu chegar ao domínio dos textos, isto porque a tecnologia naquele momento disponível não era capaz de processar o número de informações necessárias à elaboração textual. Era necessária a fundamentação de conceitos fora dos limites da hipótese inatista. Embora a posição gerativo-transformacional tenha sido considerada um avanço, já que se afastou da mera descrição de enunciados realizados, partindo para o âmbito das estruturas sintáticas, facilmente se reconhecem nela fases mais antigas do pensamento lingüístico e, ainda, algumas posições que pouco se sustentam teoricamente. Assim, na noção chomskyana de competence, podemos identificar o conceito saussureano de langue .O mesmo se dá com o conceito de performance, semelhante à parole de Saussure. De igual modo observamos I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. _____________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 201 algumas concepções, em princípio inovadoras, semelhantes às gramáticas tradicionais dos séculos XVII e XVIII, tais como as noções dos universais lingüísticos. A teoria Gerativo-Transformacional mostrou-se, de igual modo, bastante frágil em alguns pontos controversos , tais como em seu conceito de produtividade, uma vez que certos enunciados, gramaticalmente possíveis de serem construídos, podiam ser inteiramente incompreensíveis e, portanto, interditados num ato de comunicação, e o falante ideal chomskyano, não afetado em sua performance por fatores externos, era pura abstração teórica, pois, de acordo com as situações diversas ou com as características psicológicas dos indivíduos, eles mostravam-se afetados em seus atos discursivos. Semelhante aos criticados estruturalistas, os gerativistas também se ativeram aos estudos sincrônicos, fixando e estabelecendo o que era gramatical e agramatical e, ainda, acabaram por adotar, segundo Pottier (1972), muitos conceitos resultantes dos estudos dos seus antecessores. Daí reconhecermos em seu arcabouço teórico uma certa fragilidade, que abre espaço às críticas. Entretanto, se até aqui falamos em fragilidades, temos que considerar que a teoria gerativa ainda está em franca transformação. Não podemos nos esquecer, ainda, de sua inestimável contribuição à investigação lingüística referente ao modo do funcionamento da mente humana e de como a informação é processada nessa mesma mente do falante, assim como para os estudos da sintaxe, até então esquecidos. É importante ratificar, ainda, que, semelhante a sua antecessora, esta teoria também não deteve a verdade absoluta, confirmando, na doutrina que veio a seguir, o seu caráter transitório. Entretanto, não podemos deixar de reconhecer o mérito do grupo de Chomsky e de seus sucessores, para os estudos da linguagem Uma característica comum aos dois grupos teóricos citados anteriormente, foi a limitação do campo de seus estudos, que não avançaram para além dos limites da frase. Outras doutrinas, entretanto, vieram a se preocupar com o estudo da língua numa perspectiva inteiramente comunicativa. Este foi o caso da Análise do Discurso, que considerou algumas variáveis nascidas da necessidade de comunicação entre os indivíduos, aqui considerados como sujeitos. A partir dessa necessidade de comunicação, a Análise do Discurso concentrou-se nos efeitos e nos sentidos dos I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. _____________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 202 discursos, encarando o fenômeno lingüístico como produto de relações histórico- sociais entre os homens. Foi nessa perspectiva que, ainda no século XX, surgiu essa nova vertente teórica concentrada não mais no produto, como no Estruturalismo e no Gerativismo, mas, agora, nas condições de produção dos discursos. 4. Michel Pêcheux e a Análise do Discurso Continuando o percurso da história da linguagem, chegamos ao ano de 1969. No ano de 1969, na França, Michel Pêcheux publicou Análise Automática do Discurso, marco inicial de uma proposta que visava transformar os estudos até então desenvolvidos sobre a linguagem. Sua publicação coincidiu com o auge dos estudos estruturalistas, na Europa, paradigma até então seguido por toda uma geração de teóricos. O sujeito, até o momento ignorado formalmente pelos estruturalistas, foi resgatado por Pêcheux, e passou-se a refletir sobre a linguagem como produto das relações sociais entre os homens (sujeitos), regulada pela ideologia e marcada pela história. Nessa concepção, o foco da análise concentrou-se no discurso, compreendido como “(...) a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história.” (ORLANDI, 2001, p. 15). A língua passou a ser investigada como “(...) condição de possibilidade do discurso.” (ORLANDI, p. 22) e este como uma relação entre “(...) sujeitos e sentidos afetados pela história.” (ORLANDI, p. 21). A Análise do Discurso (AD) propunha o estudo da linguagem a partir da sua materialidade presente na ideologia “Partindo da idéia de que a materialidade específica da ideologia é o discurso e a materialidade especifica do discurso é a língua (...).” (ORLANDI, p. 17). Para a compreensão do funcionamento discursivo, valorizou-se a memória, compreendida “(...) como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente.” (ORLANDI, p. 31). Desse modo, a AD postulou a idéia de que todo discurso era entremeado por uma série de já-ditos (memória/constituição) que se misturava ao que se estava dizendo (formulação). Postulou, também, a noção de interdiscurso – conjunto de formulações feitas esquecidas – e a teoria dos esquecimentos, I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. __________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 203 identificados pelos números um e dois; o primeiro denominado esquecimento ideológico, da ordem do inconsciente; e o segundo, da ordem da enunciação. Outra noção importante da AD era a de assujeitamento. Este se caracterizava pela existência de um sujeito, apresentado de modo contraditório, uma vez que, por um lado, era livre e, por outro, submisso: “Submetendo o sujeito mas ao mesmo tempo apresentando-o como livre e responsável, o assujeitamento se faz de modo a que o discurso apareça como instrumento (límpido) do pensamento e reflexo (justo) da realidade.” (ORLANDI, p. 51). Esse sujeito era também condicionado, em seu discurso, por formações imaginárias, traduzidas sob forma de relações de força “(...) o lugar a partir do qual fala o sujeito é constitutivo do que ele diz.”(ORLANDI, p. 39), de sentidos “(...) os sentidos resultam de relações: um discurso aponta para outros que o sustentam, assim como para dizeres futuros.” (ORLANDI, p. 39), e de antecipação “(...) todo sujeito tem a capacidade de experimentar, ou melhor, de colocar-se no lugar em que o seu interlocutor ‘ouve’ suas palavras.” (ORLANDI, p. 39). Além das formações imaginárias citadas, vale ressaltar, na constituição do discurso e dos sentidos, as formações discursivas, determinadas também pela ideologia e pela história. As críticas mais contundentes em relação a essa corrente teórica decorreram exatamente da noção de assujeitamento, entendida como uma posição extremamente passiva dos sujeitos em relação aos já-ditos , ao se utilizarem de discursos e textos preexistentes. A crítica que daí decorre é que, de acordo com essa concepção, não haveria então discursos ou textos originais e a individualidade do falante estaria, naturalmente, excluída, assim como sua atuação criadora, dentro da sociedade. Convém, entretanto, lembrar que o arcabouço teórico da AD foi construído em três momentos distintos e o sujeito assujeitado, passivo, reduzido a reproduzir discursos institucionais, que tem a ilusão de ser a origem do seu dizer, teoricamente se identifica mais com a primeira fase dos estudos discursivos, conhecida como AD1 - fase influenciada pelos estudos de Althusser e seus Aparelhos Ideológicos do Estado. No segundo momento – AD2 – o conceito de formação discursiva reflete-se no sentido do sujeito e ele passa a gozar de uma certa autonomia sobre o seu próprio discurso, fruto do reconhecimento da existência de zonas de efeitos I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. _____________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 204 discursivos que se entrecruzam no seu dizer. Já no terceiro momento – AD3 – introduz-se os Esquecimentos 1 e 2 de Pêcheux, que nos fazem reconhecer, exatamente, que o sujeito não é somente assujeitado, mas que suas palavras resignificam sempre. Através do esquecimento ideológico elas adquirem um novo sentido e, desse modo, “ (...) estão sempre em movimento, significando sempre de muitas e variadas maneiras” (ORLANDI, p. 36). Dessa forma, o sujeito da AD não é jamais passivo, uma vez que seu discurso está sempre se construindo, se resignificando quando surgem pontos de deriva e esse mesmo sujeito perde o controle do seu dizer, sendo obrigado a reconfigurá-lo, num trabalho contínuo intermediado pelo simbólico e pelas condições históricas. Assim, temos a primazia teórica de um outro discurso construído sobre o mesmo “já-ouvido”, assim como a influência da exterioridade presente nos dizeres. Este é, portanto, o sujeito real da AD. Uma outra concepção, que também visualiza o sujeito como elemento participativo no processo de comunicação é a de Mikhail Bakhtin. Estudar a história da linguagem sem mencionar o pensamento desse teórico é ignorar o trabalho de um eminente pesquisador cujas idéias ainda nos assombram pela originalidade e por estar muito além do seu tempo. Bakhtin pesquisou a linguagem relacionando-a à sociedade e suas considerações antecedem, em muitos anos, estudos vinculados à Sociolingüística e à Semiótica. Daí a genialidade e a contemporaneidade de suas idéias. 5. Bakhtin e a Visão Marxista da Linguagem Retomando os diversos momentos da história da linguagem, chegamos ao pensamento de Mikhail Bakhtin. Suas idéias só ficaram conhecidas pelo grande público ocidental a partir da década de 60, apesar de que, de acordo com Brait (1994), desde 1919, o teórico já desenvolvia estudos de linguagem e de ordem literária. Partindo de um ponto de vista marxista, Bakhtin abordou a linguagem como um reflexo da ideologia e das estruturas sociais. Para Bakhtin, a língua era a expressão das lutas de classe e refletia a ideologia e os resultados desses conflitos. Para o teórico, a palavra era o veículo da ideologia, porque o signo era essencialmente ideológico. Assim, qualquer mudança na ideologia era refletida na I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. _____________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 205 palavra e, conseqüentemente, na língua: “A palavra é capaz de registrar as fases transitórias mais íntimas, mais efêmeras das mudanças sociais.”(BAKHTIN, 1995, p. 41). Como o homem (sujeito) não era inerte, mas interagia na estrutura social, nesse cenário de luta de classes, tornava-se um agente modificador da língua, uma vez que, através da sua palavra, veiculava as mudanças ocorridas na ideologia. Opondo-se ao pensamento saussureano que priorizou os estudos sincrônicos da langue, como um estado idealizado da língua, rejeitando os estudos relacionados à parole (fala), Bakhtin valorizou justamente a segunda, uma vez que, na sua visão marxista de linguagem, enquanto produto das relações histórico-sociais, a fala, como ato lingüístico individual, era justamente o veículo que refletia as mudanças ideológicas da sociedade. Quanto à ênfase dada por Saussure aos estudos sincrônicos, Bakhtin o criticou, postulando, como a maioria dos lingüistas hoje admitem, a inexistência da sincronia pura, uma vez que no estudo da línguas há momentos em que estágios mais antigos do sistema lingüístico coexistem com estágios posteriores, ou como, no dizer de Jakobson (1969, p. 26-27): (...) não acontece jamais que uma só geração exista a um certo tempo e que todos os membros da geração precedente morram simultaneamente no mesmo dia. Portanto, os dois sistemas coexistem sempre durante certo tempo. Nesse sentido, Bakhtin postulou que “(...) o sistema sincrônico não corresponde a nenhum momento efetivo do processo de evolução da língua” (BAKHTIN, p. 91). Desse modo, o teórico não reconheceu um sistema imutável mesmo que temporariamente, uma vez que “(...) a língua apresenta-se como uma corrente evolutiva ininterrupta.” e, dessa forma, “(...) um sistema sincrônico não passa de ficção.” (BAKHTIN, p. 90) Outro aspecto importante da teoria bakthiniana foi a compreensão dialógica da enunciação que de acordo com Brait ( p. 26) “(...) se coloca não apenas como ponto mais evidente da concepção de linguagem bakhtiniana, mas também como forma de produzir conhecimento.” A dialogia foi caracterizada como a alternância dos locutores (sujeitos falantes), no ato da enunciação. I ENCONTRO DE LETRAS: estudoslingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. _____________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 206 Para Guerra (p. 1) “Uma das características da obra de Bakhtin, ressaltada por seus estudiosos, é a da atualidade dos temas que abordou, tendo em vista a época em que seus textos foram escritos.” É nesse sentido que devemos investigar suas obras; fazendo um percurso de possibilidades e evidências não apenas lingüísticas, mas essencialmente históricas. Conclusão Feito o percurso histórico por algumas doutrinas que permearam os estudos da linguagem, podemos compreender as divergências teóricas que coexistem no século XXI. Hoje, nos estudos da linguagem, encontramos adeptos de diversas correntes teóricas. Há as posições advindas do Estruturalismo, cujos adeptos defendem idéias derivadas do pensamento saussuriano; há os gerativistas e seus pressupostos fundamentados no inatismo; há os analistas do discurso que vinculam a linguagem à ideologia e à história, aos sujeitos e aos sentidos; todos convivendo num universo aparentemente pacífico, mas cujas posições são defendidas com veemência, num embate epistêmico. Filiações à parte, este trajeto foi importante para entendermos essas tantas vozes que se confrontam e se constroem nesse interessante debate contemporâneo. Se conseguirmos compreender que nessas teorias foram alicerçadas as possibilidades que temos, hoje, de conduzir um novo olhar para o fenômeno lingüístico e para todo o processo discursivo que o sustentam, aceitando que não podemos tratar a linguagem apenas do ponto de vista do seu funcionamento, como mera estrutura, uma vez que o histórico e o político estão indissoluvelmente ligados e constituem o cotidiano discursivo dos sujeitos, então estaremos aptos a penetrar nesse intrincado edifício teórico, universo inesgotável de investigações e de possibilidades de natureza não apenas lingüística, mas sobretudo humanas. I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. _____________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________ ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 207 Referências BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 1995. CARDOSO, Sílvia Helena Barbi. A Questão da Referência: das Teorias Clássicas à Dispersão de Discursos. Campinas, SP: Autores Associados, 2003. BRAIT, Beth. O Discurso Sob o Olhar de Bakhtin. In: GREGOLIN, Maria do Rosário.(Orgs.); BARONAS, Roberto. A Análise do Discurso: As Materialidades do Sentido. [s.l] : Clara Luz, [s.d.]. GUERRA, Vânia Maria Lescano. Principais Conceitos Bakhtinianos. Três Lagoas, MS, [s.d.], p. 1. LEROY, Maurice. As Grandes Correntes da Lingüística Moderna. Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. 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