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I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários, TRÊS LAGOAS - MS, 2006. 
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ANAIS CD-R DO I ENCONTRO DE LETRAS: estudos lingüísticos e literários / MAIO DE 2006. 
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BREVE HISTÓRICO DA EVOLUÇÃO DOS ESTUDOS DA LINGUAGEM: DO 
PERÍODO HELÊNICO À CONCEPÇÃO BAKHTINIANA 
Rosemere de Almeida AGUERO (Mestranda em Estudos Lingüísticos – UFMS/ CPTL) 
raaguero@bol.com.br 
Introdução 
Para que se possa compreender as diversas concepções teóricas que 
permeiam, hoje, as investigações de natureza lingüística é necessário que se faça 
um percurso pela história dos estudos da linguagem. 
O objetivo desse artigo é justamente promover essa incursão, tarefa 
instigante na medida em que, quando se fala em linguagem, fala-se no próprio 
homem, dotado da capacidade de articular elementos sonoros e produzir discursos, 
aos quais atribui sentido e, com os quais, interage na sociedade, cumprindo o seu 
papel político. 
Metodologicamente desenvolvido através de pesquisa bibliográfica, este 
estudo procura retratar os diversos momentos da história da linguagem, iniciando-se 
pela Antiguidade Clássica, berço da cultura ocidental, passando pelas diversas 
correntes teóricas do século XX até chegar ao pensamento de Bakthin, estudioso 
singular e ainda contemporâneo em sua concepção marxista. 
Embora percorra as diversas correntes lingüísticas, não nega a filiação teórica 
à Análise do Discurso de tradição francesa, na medida em que concebe a linguagem 
como produto do contato entre o histórico e o lingüístico, espaço no interior do qual 
percorre o sujeito, em toda a sua materialidade. 
A partir destas reflexões, espera-se poder contribuir para a compreensão da 
linguagem como produto da prática histórico-social da constituição de sujeitos e de 
sentidos, presente nas práticas discursivas. 
1. A Contribuição da Antigüidade Clássica 
Embora o interesse pela linguagem remonte ao período clássico – os antigos 
hindus já estudavam sua língua na tentativa de que os textos sagrados compilados 
no Veda não sofressem alteração no momento em que fossem recitados ou 
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cantados e, ainda, no século IV a.C Panini já se dedicava ao “estudo do valor e do 
emprego das palavras” (LEROY,1971, p. 16), podendo ser considerado, até certo 
ponto, precursor dos estudos estruturais desenvolvidos no século XX – é na 
Antigüidade grega que basicamente foram fundamentados os estudos ocidentais 
sobre a linguagem. 
A Grécia antiga foi, certamente, mais que o berço de toda cultura ocidental e 
mantinha-se forte graças a sua organização social e política, cujo sustentáculo era a 
cultura e o saber acumulados. E o instrumento de poder grego, longe de ser o 
conferido pela força das armas, era exatamente aquele capaz de registrar e 
disseminar esse saber acumulado: a língua. 
A língua era tão importante para o povo grego que os filósofos a ela se 
dedicavam em investigações de caráter estético (estudos ligados ao estilo) e 
filosófico (referentes à adequação da linguagem ao pensamento). Aliás, língua e 
pensamento eram considerados como um só, até certo ponto da história grega, se 
confundindo em uma única noção. 
Cientes de sua superioridade intelectual sobre outros povos, os gregos 
negligenciavam outros idiomas, por eles considerados como bárbaros. Segundo 
Leroy (p.16) “o termo ‘bárbaro’ – palavra imitativa que designava originariamente o 
pipilar dos pássaros – aplicavam indistintamente a toda língua estrangeira, porque 
lhes era tão ininteligível quanto o gorjeio dos alados”. 
De modo geral, pode-se dividir os estudos lingüísticos clássicos em duas 
etapas: o período helênico e o período helenístico. O período helênico 
correspondendo ao apogeu da civilização grega e o helenístico, ao seu declínio. 
Segundo Neves (2002, p. 21), o período helênico foi uma época de intensa 
criação na cultura grega, onde floresceram a filosofia e a literatura. No período 
helênico privilegiou-se o estudo da significação dentro da linguagem. Através da 
Teoria da Significação, denominada logos pelos filósofos, estudou-se o que era 
significativo e como a significação se dava na linguagem. Esses estudos podem ser 
divididos em três estágios, cada qual vinculado a um dos três grandes filósofos: 
Sócrates, Platão e Aristóteles. 
Na perspectiva socrática, a significação apresentou uma relação entre o nome 
e a coisa nomeada. Para Sócrates a linguagem não era a representação do mundo, 
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a linguagem constituía o mundo. Assim, o nome possuía um caráter físico e era 
considerado uma extensão daquilo que representava, como se fosse sua própria 
essência. O nome transpunha o mundo das idéias para o mundo real, daí postular-
se uma relação logos/phisis. Entretanto, essa noção foi contrariada por vários fatos, 
entre os quais a existência de nomes destituídos de referência no mundo concreto, 
tais como os derivados de adjetivos, conotativos, etc. 
Na proposição de Platão, a significação não estava no mundo referencial, 
mas nas frases, às quais eram atribuídas significações expressas em partes do 
discurso e somente do discurso. Para Platão, amor ao logos era amor ao discurso e 
as atribuições de significado eram feitas através de relações metafísicas ou mentais, 
nele perceptíveis. Apesar de que, nessa fase, houve uma mudança no enfoque, 
passando do mundo referencial ao discurso, não se pode considerar um avanço 
significativo, uma vez que a língua ainda se confundia com o logos. 
Foi com Aristóteles que se conseguiu estabelecer uma ruptura entre o logos 
e a phisis e, assim, marcar o final de um ciclo relativo aos estudos da linguagem, 
uma vez que seus sucessores pouco contribuíram para os avanços nos estudos 
lingüísticos. Sua grande contribuição, para os estudos da linguagem, foi conseguir 
separar o logos (a significação em si mesma) e o significante (aquilo que expressa o 
significado), este último objeto de estudo da lingüística moderna. 
As invasões de Alexandre Magno marcaram historicamente o início do 
período helenístico, na cultura grega. No contato constante com outros povos, diante 
das modificações inevitáveis sofridas pelo sistema lingüístico, a língua, verdadeiro 
símbolo do poder grego, começou a se mostrar suscetível às variações. Essas 
mudanças comprometiam a hegemonia cultural grega e aconteceram de modo 
concomitante à decadência daquele Império. 
Na tentativa de deter aquilo que era considerada a deterioração do seu maior 
bem cultural, reuniram-se alguns intelectuais que empreenderam esforços no 
sentido de sistematizar o grego, para tentar interromper o processo de modificação 
da língua e, assim, preservar o status da cultura dominante. Desse modo, no 
período helenístico, modificação e preservação coexistiram, num esforço contínuo 
de intelectuais na tentativa de preservar o grego de um passado remoto. 
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É assim que, nesse período, a cultura se apoiou no ensino-aprendizagem, 
privilegiando-se o estudo do significante e a prescrição de padrões lingüísticos 
apoiados na forma consagrada pela cultura dominante. 
O caráter prescritivo do período helenístico incentivou estudos relacionados à 
morfologia. Nesse período foram desenvolvidos os primeiros registros de dados 
lingüísticos com o objetivo de normatizar os fatos gramaticais presentes nos textos 
clássicos. 
Uma característica interessante desse período foi o predomínio das 
investigações de natureza lingüística em detrimento aos estudos filosóficos, próprios 
do período anterior. Se, por um lado, essas investigações apresentavam um 
aspecto positivo, já que se tentava desvincular linguagem e pensamento atendo-se 
mais às questões da língua, por outro eram frágeis, na medida em que pouco se 
sustentavam teoricamente. Observamos aí a origem da descrição e da 
normatização privilegiadas, ainda hoje, nos estudos de linguagem em muitas 
instituições escolares. 
Outra contribuição importante para os estudos da linguagem proveio dos 
estóicos, povo responsável pela elaboração da primeira gramática grega, com 
características normativas. De acordo com Neves ( p. 38) “A lógica estóica (...) era 
uma lógica de enunciados, não de termos e, por isso, o modo de união dos fatos é 
fundamental”. Daí sua contribuição significativa para o desenvolvimento de estudos 
relacionados às partes do discurso (no total de quatro, no sistema estóico), 
constituídos por sujeito, predicado, conjunção e artigo, estes últimos responsáveis 
pela “ligação e articulação dos eventos” (NEVES, p. 39), constitutivos desses 
enunciados. 
Desse modo, como vimos, reconhece-se na Antigüidade clássica duas 
posições distintas com relação aos estudos da linguagem. A partir daí, pouco se 
inovou, até chegarmos ao século XX, verdadeiro marco do aparecimento de 
doutrinas teóricas cujo objetivo era tratar de assuntos inerentes à linguagem no 
aspecto científico. É o que veremos a seguir. 
 
 
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2. A Lingüística Saussureana e o Estruturalismo 
O Curso de Lingüística Geral, de Ferdinand de Saussure, publicado em 1916, 
após sua morte, foi o grande marco para os estudos lingüísticos do século XX, uma 
vez que sua doutrina teórica propunha estudos relacionados especificamente à 
linguagem humana e não mais ao pensamento, como era próprio dos estudos 
filosóficos da Antigüidade. 
Pode-se dizer que o Curso de Lingüística Geral, de Saussure, marcou o 
nício de uma lingüística autônoma, em que a língua, objeto da lingüística, é 
oncebida como um sistema interno de relações diferenciai, 
independentemente de uma relação com ‘a coisa’ ou o objeto do mundo. É 
evidente, em Saussure, a obsessão de se definir a natureza do objeto 
‘integral’, ‘concreto’, ‘verdadeiro’, ‘único’ da lingüística, evitando-se ‘ um 
aglomerado de coisas confusas e heteróclitas, sem liame entre si 
(CARDOSO, 2003, p. 7-8) 
Fruto de um momento histórico caracterizado pelo tecnicismo, a lingüística 
saussureana nasceu com o intento de estudar as línguas naturais e de apresentá-la 
como um objeto concreto, passível de observação e análise, por um método 
científico que a elevasse à categoria de ciência. Serviu de modelo para uma corrente 
denominada estruturalista. O Estruturalismo, baseando-se nas idéias de Saussure, 
propunha inventariar a língua, analisando-a como se estivesse em um laboratório e, 
para tanto, utilizou-se do princípio dicotômico langue/parole, nos estudos da 
linguagem. Por langue entendia-se o conjunto de propriedades supra-individuais 
comuns a todos os falantes, um contrato social coletivo, todo o conjunto de regras 
fonológicas, morfológicas, sintáticas, semânticas, lexicais e estilísticas existentes em 
um determinado sistema lingüístico. Quanto à parole: 
A fala é tudo aquilo que a língua não pode ser: ato lingüístico individual, 
material, concreto, psicofísico, dependente da vontade e da inteligência 
indivíduo (subjetivo), um impulso expressivo, assistemática, inovadora 
(lugar de liberdade), acessória e mais ou menos acidental, ocasional. 
(CARDOSO, 2003, p. 9) 
Os estudos saussureanos se concentraram na langue, por representar um 
estado idealizado da língua. Dessa forma, era feito um levantamento criterioso 
daquilo que o lingüista considerava como propriedade ideal, que acabava por 
originar longas listas de palavras, que eram classificadas e inseridas em classes. Daí 
o Estruturalismo ser conhecido como a doutrina da taxionomia. 
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Outra dicotomia importante apontada pelos estudos saussureanos foi a 
sincronia/diacronia. Sincrônico eram os estudos de fatos lingüísticos, tal como se 
apresentavam num determinado momento, como se estivessem imóveis no tempo. 
Diacrônico era o estudo desses mesmos fenômenos em sua evolução histórica, 
analisando suas mudanças. A lingüística saussureana foi basicamente sincrônica. 
Embora Saussure tenha imprimido mudanças significativas aos estudos da 
linguagem, uma vez que seus conceitos, rigorosamente formulados, tornaram-se 
clássicos e elevaram os estudos lingüísticos à categoria de ciência, ao conceber a 
língua como sistema, equivocou-se ao relegar a fala (parole) a uma segunda plana, 
privilegiando o estudo sincrônico da langue. Com essa atitude, desconsiderou que 
na história da língua a fala é soberana, por ser capaz de promover ininterruptamente 
a evolução do sistema lingüístico, e tratou a langue como um sistema de normas 
imutáveis, ignorando o fato de que esta é produto da enunciação de sujeitos, 
constituídos historicamente em suas relações com o mundo. 
Entretanto, cabe-nos reconhecer o rigor e a precisão de suas formulações 
teóricas - considerável avanço aos estudos lingüísticos modernos - que lhe 
couberam o reconhecimento e a popularidade ainda nos dias de hoje. Desse modo, 
falar da história da linguagem no século XX, sem mencionar a significativa 
contribuição de Ferdinand Saussure e dos estruturalistas ao pensamento científico 
moderno é esquecer uma parte importante (senão essencial) dessa mesma história, 
até porque, pela sua própria natureza, toda verdade científica não é permanente e aí 
reside exatamente o seu mérito: na possibilidade de ser contestada e, a partir dela, 
surgirem novas verdades. 
Ainda, é preciso lembrar que por mais brilhantes que foram os estudos 
saussureanos, não ultrapassaram o âmbito da descrição dos enunciados, excluídos 
das circunstâncias da enunciação e afastando-se da questão do pensamento. Não 
chegaram a considerar, também, a relação entre as unidades lingüísticas. E foi 
exatamente nessa lacuna que se inscreveu uma outra corrente lingüística, ainda no 
século XX, que nasceu como uma teoria da sintaxe, a partir das idéias de Noam 
Chomsky e da tradição da lingüística americana. 
 
 
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3. A Teoria Gerativa de Chomsky 
O Gerativismo ou Teoria Gerativo-Transformacional foi outra doutrina que 
também se dedicou ao estudo da língua como objeto concreto. A teoria gerativa 
surgiu, de modo concomitante à invenção do computador, com a tarefa inicial de 
apresentar soluções para problemas relacionados ao uso da língua pela máquina, 
que deveria ser semelhante ao da mente humana. Entretanto, o grupo de teóricos 
(matemáticos, em sua maioria), logo se defrontaram com o problema de como 
observar o cérebro humano, buscando determinar os mecanismos que operavam a 
construção da linguagem, uma vez que o produto da mente era puramente 
simbólico, portanto, não concreto. 
Na tentativa de solucionar o problema apontado, formularam uma hipótese, 
sugerida por Chomsky, denominada Hipótese do Inatismo, segundo a qual a mente 
humana tinha uma predisposição inata para a linguagem, capacidade comum a 
todos os falantes. 
As noções mais significativas da teoria de Chomsky para os estudos da 
linguagem, referem-se às concepções de produtividade (qualquer falante pode 
compreender e produzir enunciados velhos e novos), competência (conhecimento 
mentalizado da língua, saber lingüístico implícito), performance ( manifestação 
lingüística do falante num dado momento) e universais lingüísticos (predisposição 
inata para a linguagem, comprovada em todos os homens). 
Concebida inicialmente como uma teoria da sintaxe, o Gerativismo não 
conseguiu chegar ao domínio dos textos, isto porque a tecnologia naquele momento 
disponível não era capaz de processar o número de informações necessárias à 
elaboração textual. Era necessária a fundamentação de conceitos fora dos limites da 
hipótese inatista. 
Embora a posição gerativo-transformacional tenha sido considerada um 
avanço, já que se afastou da mera descrição de enunciados realizados, partindo 
para o âmbito das estruturas sintáticas, facilmente se reconhecem nela fases mais 
antigas do pensamento lingüístico e, ainda, algumas posições que pouco se 
sustentam teoricamente. Assim, na noção chomskyana de competence, podemos 
identificar o conceito saussureano de langue .O mesmo se dá com o conceito de 
performance, semelhante à parole de Saussure. De igual modo observamos 
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algumas concepções, em princípio inovadoras, semelhantes às gramáticas 
tradicionais dos séculos XVII e XVIII, tais como as noções dos universais 
lingüísticos. 
A teoria Gerativo-Transformacional mostrou-se, de igual modo, bastante frágil 
em alguns pontos controversos , tais como em seu conceito de produtividade, uma 
vez que certos enunciados, gramaticalmente possíveis de serem construídos, 
podiam ser inteiramente incompreensíveis e, portanto, interditados num ato de 
comunicação, e o falante ideal chomskyano, não afetado em sua performance por 
fatores externos, era pura abstração teórica, pois, de acordo com as situações 
diversas ou com as características psicológicas dos indivíduos, eles mostravam-se 
afetados em seus atos discursivos. Semelhante aos criticados estruturalistas, os 
gerativistas também se ativeram aos estudos sincrônicos, fixando e estabelecendo o 
que era gramatical e agramatical e, ainda, acabaram por adotar, segundo Pottier 
(1972), muitos conceitos resultantes dos estudos dos seus antecessores. Daí 
reconhecermos em seu arcabouço teórico uma certa fragilidade, que abre espaço às 
críticas. 
Entretanto, se até aqui falamos em fragilidades, temos que considerar que a 
teoria gerativa ainda está em franca transformação. Não podemos nos esquecer, 
ainda, de sua inestimável contribuição à investigação lingüística referente ao modo 
do funcionamento da mente humana e de como a informação é processada nessa 
mesma mente do falante, assim como para os estudos da sintaxe, até então 
esquecidos. É importante ratificar, ainda, que, semelhante a sua antecessora, esta 
teoria também não deteve a verdade absoluta, confirmando, na doutrina que veio a 
seguir, o seu caráter transitório. Entretanto, não podemos deixar de reconhecer o 
mérito do grupo de Chomsky e de seus sucessores, para os estudos da linguagem 
Uma característica comum aos dois grupos teóricos citados anteriormente, foi 
a limitação do campo de seus estudos, que não avançaram para além dos limites da 
frase. Outras doutrinas, entretanto, vieram a se preocupar com o estudo da língua 
numa perspectiva inteiramente comunicativa. Este foi o caso da Análise do Discurso, 
que considerou algumas variáveis nascidas da necessidade de comunicação entre 
os indivíduos, aqui considerados como sujeitos. A partir dessa necessidade de 
comunicação, a Análise do Discurso concentrou-se nos efeitos e nos sentidos dos 
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discursos, encarando o fenômeno lingüístico como produto de relações histórico-
sociais entre os homens. Foi nessa perspectiva que, ainda no século XX, surgiu 
essa nova vertente teórica concentrada não mais no produto, como no 
Estruturalismo e no Gerativismo, mas, agora, nas condições de produção dos 
discursos. 
4. Michel Pêcheux e a Análise do Discurso 
Continuando o percurso da história da linguagem, chegamos ao ano de 1969. 
No ano de 1969, na França, Michel Pêcheux publicou Análise Automática do 
Discurso, marco inicial de uma proposta que visava transformar os estudos até 
então desenvolvidos sobre a linguagem. Sua publicação coincidiu com o auge dos 
estudos estruturalistas, na Europa, paradigma até então seguido por toda uma 
geração de teóricos. O sujeito, até o momento ignorado formalmente pelos 
estruturalistas, foi resgatado por Pêcheux, e passou-se a refletir sobre a linguagem 
como produto das relações sociais entre os homens (sujeitos), regulada pela 
ideologia e marcada pela história. 
Nessa concepção, o foco da análise concentrou-se no discurso, 
compreendido como “(...) a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, 
parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história.” (ORLANDI, 
2001, p. 15). A língua passou a ser investigada como “(...) condição de possibilidade 
do discurso.” (ORLANDI, p. 22) e este como uma relação entre “(...) sujeitos e 
sentidos afetados pela história.” (ORLANDI, p. 21). 
A Análise do Discurso (AD) propunha o estudo da linguagem a partir da sua 
materialidade presente na ideologia “Partindo da idéia de que a materialidade 
específica da ideologia é o discurso e a materialidade especifica do discurso é a 
língua (...).” (ORLANDI, p. 17). 
Para a compreensão do funcionamento discursivo, valorizou-se a memória, 
compreendida “(...) como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente.” 
(ORLANDI, p. 31). Desse modo, a AD postulou a idéia de que todo discurso era 
entremeado por uma série de já-ditos (memória/constituição) que se misturava ao 
que se estava dizendo (formulação). Postulou, também, a noção de interdiscurso – 
conjunto de formulações feitas esquecidas – e a teoria dos esquecimentos, 
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identificados pelos números um e dois; o primeiro denominado esquecimento 
ideológico, da ordem do inconsciente; e o segundo, da ordem da enunciação. 
Outra noção importante da AD era a de assujeitamento. Este se caracterizava 
pela existência de um sujeito, apresentado de modo contraditório, uma vez que, por 
um lado, era livre e, por outro, submisso: “Submetendo o sujeito mas ao mesmo 
tempo apresentando-o como livre e responsável, o assujeitamento se faz de modo a 
que o discurso apareça como instrumento (límpido) do pensamento e reflexo (justo) 
da realidade.” (ORLANDI, p. 51). 
 Esse sujeito era também condicionado, em seu discurso, por formações 
imaginárias, traduzidas sob forma de relações de força “(...) o lugar a partir do qual 
fala o sujeito é constitutivo do que ele diz.”(ORLANDI, p. 39), de sentidos “(...) os 
sentidos resultam de relações: um discurso aponta para outros que o sustentam, 
assim como para dizeres futuros.” (ORLANDI, p. 39), e de antecipação “(...) todo 
sujeito tem a capacidade de experimentar, ou melhor, de colocar-se no lugar em que 
o seu interlocutor ‘ouve’ suas palavras.” (ORLANDI, p. 39). Além das formações 
imaginárias citadas, vale ressaltar, na constituição do discurso e dos sentidos, as 
formações discursivas, determinadas também pela ideologia e pela história. 
As críticas mais contundentes em relação a essa corrente teórica decorreram 
exatamente da noção de assujeitamento, entendida como uma posição 
extremamente passiva dos sujeitos em relação aos já-ditos , ao se utilizarem de 
discursos e textos preexistentes. A crítica que daí decorre é que, de acordo com 
essa concepção, não haveria então discursos ou textos originais e a individualidade 
do falante estaria, naturalmente, excluída, assim como sua atuação criadora, dentro 
da sociedade. 
Convém, entretanto, lembrar que o arcabouço teórico da AD foi construído em 
três momentos distintos e o sujeito assujeitado, passivo, reduzido a reproduzir 
discursos institucionais, que tem a ilusão de ser a origem do seu dizer, teoricamente 
se identifica mais com a primeira fase dos estudos discursivos, conhecida como AD1 
- fase influenciada pelos estudos de Althusser e seus Aparelhos Ideológicos do 
Estado. No segundo momento – AD2 – o conceito de formação discursiva reflete-se 
no sentido do sujeito e ele passa a gozar de uma certa autonomia sobre o seu 
próprio discurso, fruto do reconhecimento da existência de zonas de efeitos 
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discursivos que se entrecruzam no seu dizer. Já no terceiro momento – AD3 – 
introduz-se os Esquecimentos 1 e 2 de Pêcheux, que nos fazem reconhecer, 
exatamente, que o sujeito não é somente assujeitado, mas que suas palavras 
resignificam sempre. Através do esquecimento ideológico elas adquirem um novo 
sentido e, desse modo, “ (...) estão sempre em movimento, significando sempre de 
muitas e variadas maneiras” (ORLANDI, p. 36). Dessa forma, o sujeito da AD não é 
jamais passivo, uma vez que seu discurso está sempre se construindo, se 
resignificando quando surgem pontos de deriva e esse mesmo sujeito perde o 
controle do seu dizer, sendo obrigado a reconfigurá-lo, num trabalho contínuo 
intermediado pelo simbólico e pelas condições históricas. Assim, temos a primazia 
teórica de um outro discurso construído sobre o mesmo “já-ouvido”, assim como a 
influência da exterioridade presente nos dizeres. Este é, portanto, o sujeito real da 
AD. 
Uma outra concepção, que também visualiza o sujeito como elemento 
participativo no processo de comunicação é a de Mikhail Bakhtin. Estudar a história 
da linguagem sem mencionar o pensamento desse teórico é ignorar o trabalho de 
um eminente pesquisador cujas idéias ainda nos assombram pela originalidade e 
por estar muito além do seu tempo. Bakhtin pesquisou a linguagem relacionando-a à 
sociedade e suas considerações antecedem, em muitos anos, estudos vinculados à 
Sociolingüística e à Semiótica. Daí a genialidade e a contemporaneidade de suas 
idéias. 
5. Bakhtin e a Visão Marxista da Linguagem 
Retomando os diversos momentos da história da linguagem, chegamos ao 
pensamento de Mikhail Bakhtin. Suas idéias só ficaram conhecidas pelo grande 
público ocidental a partir da década de 60, apesar de que, de acordo com Brait 
(1994), desde 1919, o teórico já desenvolvia estudos de linguagem e de ordem 
literária. 
Partindo de um ponto de vista marxista, Bakhtin abordou a linguagem como 
um reflexo da ideologia e das estruturas sociais. Para Bakhtin, a língua era a 
expressão das lutas de classe e refletia a ideologia e os resultados desses conflitos. 
Para o teórico, a palavra era o veículo da ideologia, porque o signo era 
essencialmente ideológico. Assim, qualquer mudança na ideologia era refletida na 
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palavra e, conseqüentemente, na língua: “A palavra é capaz de registrar as fases 
transitórias mais íntimas, mais efêmeras das mudanças sociais.”(BAKHTIN, 1995, p. 
41). 
Como o homem (sujeito) não era inerte, mas interagia na estrutura social, 
nesse cenário de luta de classes, tornava-se um agente modificador da língua, uma 
vez que, através da sua palavra, veiculava as mudanças ocorridas na ideologia. 
Opondo-se ao pensamento saussureano que priorizou os estudos sincrônicos 
da langue, como um estado idealizado da língua, rejeitando os estudos relacionados 
à parole (fala), Bakhtin valorizou justamente a segunda, uma vez que, na sua visão 
marxista de linguagem, enquanto produto das relações histórico-sociais, a fala, 
como ato lingüístico individual, era justamente o veículo que refletia as mudanças 
ideológicas da sociedade. 
Quanto à ênfase dada por Saussure aos estudos sincrônicos, Bakhtin o 
criticou, postulando, como a maioria dos lingüistas hoje admitem, a inexistência da 
sincronia pura, uma vez que no estudo da línguas há momentos em que estágios 
mais antigos do sistema lingüístico coexistem com estágios posteriores, ou como, no 
dizer de Jakobson (1969, p. 26-27): 
(...) não acontece jamais que uma só geração exista a um certo tempo e 
que todos os membros da geração precedente morram simultaneamente no 
mesmo dia. Portanto, os dois sistemas coexistem sempre durante certo 
tempo. 
Nesse sentido, Bakhtin postulou que “(...) o sistema sincrônico não 
corresponde a nenhum momento efetivo do processo de evolução da língua” 
(BAKHTIN, p. 91). Desse modo, o teórico não reconheceu um sistema imutável 
mesmo que temporariamente, uma vez que “(...) a língua apresenta-se como uma 
corrente evolutiva ininterrupta.” e, dessa forma, “(...) um sistema sincrônico não 
passa de ficção.” (BAKHTIN, p. 90) 
Outro aspecto importante da teoria bakthiniana foi a compreensão dialógica 
da enunciação que de acordo com Brait ( p. 26) “(...) se coloca não apenas como 
ponto mais evidente da concepção de linguagem bakhtiniana, mas também como 
forma de produzir conhecimento.” A dialogia foi caracterizada como a alternância 
dos locutores (sujeitos falantes), no ato da enunciação. 
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Para Guerra (p. 1) “Uma das características da obra de Bakhtin, ressaltada 
por seus estudiosos, é a da atualidade dos temas que abordou, tendo em vista a 
época em que seus textos foram escritos.” É nesse sentido que devemos investigar 
suas obras; fazendo um percurso de possibilidades e evidências não apenas 
lingüísticas, mas essencialmente históricas. 
Conclusão 
Feito o percurso histórico por algumas doutrinas que permearam os estudos 
da linguagem, podemos compreender as divergências teóricas que coexistem no 
século XXI. 
Hoje, nos estudos da linguagem, encontramos adeptos de diversas correntes 
teóricas. Há as posições advindas do Estruturalismo, cujos adeptos defendem idéias 
derivadas do pensamento saussuriano; há os gerativistas e seus pressupostos 
fundamentados no inatismo; há os analistas do discurso que vinculam a linguagem à 
ideologia e à história, aos sujeitos e aos sentidos; todos convivendo num universo 
aparentemente pacífico, mas cujas posições são defendidas com veemência, num 
embate epistêmico. 
Filiações à parte, este trajeto foi importante para entendermos essas tantas 
vozes que se confrontam e se constroem nesse interessante debate 
contemporâneo. Se conseguirmos compreender que nessas teorias foram 
alicerçadas as possibilidades que temos, hoje, de conduzir um novo olhar para o 
fenômeno lingüístico e para todo o processo discursivo que o sustentam, aceitando 
que não podemos tratar a linguagem apenas do ponto de vista do seu 
funcionamento, como mera estrutura, uma vez que o histórico e o político estão 
indissoluvelmente ligados e constituem o cotidiano discursivo dos sujeitos, então 
estaremos aptos a penetrar nesse intrincado edifício teórico, universo inesgotável de 
investigações e de possibilidades de natureza não apenas lingüística, mas 
sobretudo humanas. 
 
 
 
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Referências 
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CARDOSO, Sílvia Helena Barbi. A Questão da Referência: das Teorias Clássicas à 
Dispersão de Discursos. Campinas, SP: Autores Associados, 2003. 
BRAIT, Beth. O Discurso Sob o Olhar de Bakhtin. In: GREGOLIN, Maria do 
Rosário.(Orgs.); BARONAS, Roberto. A Análise do Discurso: As Materialidades do 
Sentido. [s.l] : Clara Luz, [s.d.]. 
GUERRA, Vânia Maria Lescano. Principais Conceitos Bakhtinianos. Três Lagoas, 
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NEVES, Maria Helena de Moura. A Gramática: História, Teoria e Análise, Ensino. 
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ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de Discurso. Campinas, SP: Pontes, 2001. 
PÊCHEUX, Michel. Análise de Discurso: Três Épocas. In: GADET, F. e HAK, T. Por 
uma Análise Automática do Discurso. Uma Introdução à Obra de M. Pêcheux. 
Campinas: Ed. da UNICAMP, 1990.

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