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Livro - Introdução Aá Linguística - Vol 3 - Fundamentos Epistemológicos

Terceiro volume da coleção Introdução à Linguística: fundamentos epistemológicos. Oferece panorama de perspectivas teórico‑metodológicas e bases epistemológicas da ciência da linguagem; reúne capítulos sobre estudos pré‑saussurianos, estruturalismo, gerativismo, funcionalismo, cognitivismo, discurso, semiótica e filosofia da linguagem.

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA: fundamentos epistemológicos
Fernanda Mussalim e Anna Christina Bentes (Orgs.)
Capa: aeroestúdio
Preparação de originais: Elisabeth Santo
Revisão: Maria de Lourdes de Almeida e Cibele Cesario da Silva
Composição: Linea Editora Ltda.
Coordenação editorial: Danilo A. Q. Morales
Conversão para ebook: Cumbuca Studio
Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização expressa das autoras 
e do editor.
© 2004 by Organizadoras
Direitos para esta edição
CORTEZ EDITORA
Rua Monte Alegre, 1074 – Perdizes
05009-000 – São Paulo – SP
Tel.: (11) 3864-0111 Fax: (11) 3864-4290
E-mail: cortez@cortezeditora.com.br
www.cortezeditora.com.br
Publicado no Brasil – 2021
SUMÁRIO
Apresentação
Fernanda Mussalim
Anna Christina Bentes
Introdução
Luiz Antônio Marcuschi
Maria Margarida Martins Salomão
1. ESTUDOS PRÉ‑SAUSSURIANOS
Carlos Alberto Faraco
2. O ESTRUTURALISMO LINGUÍSTICO: ALGUNS CAMINHOS
Rodolfo Ilari
3. O EMPREENDIMENTO GERATIVO
José Borges Neto
4. OS ANOS 1990 NA GRAMÁTICA GERATIVA
Maria Cristina Figueiredo Silva
João Costa
5. O FUNCIONALISMO EM LINGUÍSTICA
Erotilde Goreti Pezatti
6. FORMALISMOS NA LINGUÍSTICA: UMA REFLEXÃO
CRÍTICA
Roberta Pires de Oliveira
7. DO COGNITIVISMO AO SOCIOCOGNITIVISMO
Ingedore Villaça Koch
Maria Luiza Cunha-Lima
8. VIRTUDES E VICISSITUDES DO COGNITIVISMO,
REVISITADAS
Edson Françozo
Eleonora Albano
9. O INTERACIONISMO NO CAMPO LINGUÍSTICO
Edwiges Maria Morato
10. TEORIA DO DISCURSO: UM CASO DE MÚLTIPLAS
RUPTURAS
Sírio Possenti
11. TEORIA SEMIÓTICA: A QUESTÃO DO SENTIDO
Arnaldo Cortina
Renata Coelho Marchezan
12. TRÊS CAMINHOS NA FILOSOFIA DA LINGUAGEM
Helena Martins
Sobre os autores
APRESENTAÇÃO
Fernanda Mussalim
Anna Christina Bentes
Este terceiro volume da coleção Introdução à Linguística encontra-se
organizado de forma a oferecer ao leitor um panorama das diversas
perspectivas que constituem e que organizam a ciência da linguagem.
O objetivo principal da presente obra é apresentar as diferenças entre os
programas de investigação científica e entre as várias orientações teórico-
metodológicas que constituem a ciência da linguagem, por meio da
explicitação das bases epistemológicas sobre as quais estes programas e
estas orientações encontram-se fundados.
Há, ainda, vários outros objetivos que motivaram a realização desse
projeto: fazer com que nos fixemos um pouco mais demoradamente em
cada uma dessas diferenças; perceber o valor histórico que cada programa,
cada orientação possui e o papel que cada um(a) desempenhou(a) na
construção de um sólido conjunto de conhecimentos sobre o fenômeno
linguístico; acompanhar as mudanças ocorridas no interior de cada um dos
programas, em cada uma das orientações; compreender os movimentos por
meio dos quais se promove a eleição de um determinado programa como o
paradigma científico dominante; notar as divergências internas e as seleções
que vão sendo operadas dentro dos paradigmas para que estes sejam
mantidos e transformados; dar acesso aos debates temáticos e
metodológicos internos às/e entre as orientações; propiciar o contato com
uma reflexão filosófica sobre as diferentes respostas que foram e ainda
podem ser construídas para a indagação fundamental sobre a natureza do
fenômeno linguístico. Estes, entre outros, são alguns de nossos objetivos
para organizar e trazer a público este volume.
As diferenças entre os programas de investigação científica e entre as
várias orientações teórico-metodológicas encontram-se nuançadas em
diversos níveis. Antes mesmo de os programas e/ou orientações serem
apresentados como fundamentalmente diferentes entre si — fato este que se
dá mais pelo detalhamento da construção de uma maneira própria de olhar o
fenômeno da linguagem do que pela postura que privilegia o
enfraquecimento de outras posições —, os textos procuram explicitar a
heterogeneidade de cada um desses programas e/ou orientações,
construindo, dessa maneira, uma imagem mais condizente com o fazer
científico contemporâneo.
Isto não significa que este livro irá simplesmente delinear um quadro de
diferenças epistemológicas, teóricas e metodológicas. Depois de quase um
século de sua fundação, a linguística, as outras ciências e os outros campos
do conhecimento, que, junto com ela, procuram compreender o fenômeno
da linguagem em toda a sua complexidade, desenvolveram uma maturidade
que admite consensos importantes para a consolidação de programas de
investigação científica, de orientações teórico-metodológicas e áreas do
conhecimento.
Um consenso importante construído ao longo do livro, que se encontra
refletido na própria forma de apresentação de cada um dos programas de
investigação e de cada orientação teórica, é o fato de que as diferenças
existentes entre as formas de construção de um conhecimento científico
sobre a linguagem não necessariamente encontram-se organizadas em
termos dicotômicos. A leitura dos textos desta obra permite não só perceber
os antagonismos existentes, responsáveis pela organização do campo, mas
também a qualidade desses antagonismos, dessas diferenças. E é
exatamente por essa última razão que as diferenças entre as orientações não
são apresentadas como simples dicotomias.
Em função dos objetivos mesmos do projeto, os textos que compõem
este volume destacaram um requisito importante para o desenvolvimento de
uma visão global do campo de estudos da linguagem: o de que a
compreensão de uma perspectiva está relacionada à compreensão de uma
outra. Em outras palavras, cada um dos textos dialoga, de maneira mais ou
menos explícita, mais ou menos próxima, com os pressupostos de outras
perspectivas (ou mesmo com certos pressupostos internos à própria
perspectiva), com as metodologias postuladas por outras orientações (ou
mesmo com certos procedimentos metodológicos da própria perspectiva).
Este tipo de apresentação faz com que os leitores possam ter acesso às
formas de produção do conhecimento na linguística por meio de uma
metodologia contrastiva, que explicita as tensões entre as diferentes
orientações, entre os diferentes programas ou entre as discordâncias
internas aos próprios paradigmas.
Os diálogos existentes entre os textos certamente remetem a diferenças
irreconciliáveis, mas também podem construir “pontes conceituais”, que
integram perspectivas, que desconstroem, em alguma medida, as fronteiras
entre as orientações. Nesse sentido, o contato com os textos desta obra
possibilita não só a percepção das diferenças, mas também a percepção do
que foi possível construir em termos de aproximações, de pontos de contato
entre as diversas perspectivas.
Para esta coletânea, tivemos o privilégio de contar com a colaboração de
dois grandes nomes da linguística brasileira — Luiz Antônio Marcuschi e
Maria Margarida Martins Salomão —, que se dispuseram a introduzir a
presente obra, a partir de uma leitura minuciosa e perspicaz dos doze
capítulos que compõem este volume. Não se trata de uma introdução que
apenas apresenta ao leitor o conteúdo e o teor de cada um desses capítulos,
mas, sobretudo, trata-se de um excelente ensaio sobre a agenda
investigativa da linguística no Brasil.
O percurso de leitura que estamos propondo para esta obra revela-se
pela disposição dos textos em uma dada ordem. No primeiro capítulo,
temos a apresentação das formas de construção de um conhecimento sobre
a linguagem que emergiram ao longo do século dezenove e que permitiram
o surgimento da linguística moderna tal como a conhecemos.
Os quatro capítulos seguintes formam um conjunto de textos que são
mais tradicionalmente reconhecidos como as “escolas” ou “correntes” da
linguística moderna: o estruturalismo, o gerativismo (em dois capítulos) e o
funcionalismo. É verdade que assim privilegiamos uma visada histórica,
que não só procura acompanhar o nascimento e o desenvolvimento da
linguística moderna, como também a sua afirmação como ciência.
No entanto, os textosque formam este conjunto não se apresentam de
maneira tradicional. Neles são reproduzidos os recortes necessários para a
apresentação das bases epistemológicas de cada uma das “escolas”, mas
também são abordados os seus desenvolvimentos heterogêneos, as
constantes reelaborações da agenda investigativa e as continuidades teórico-
metodológicas que possibilitam reconhecer a força de cada uma dessas
“escolas” na pesquisa linguística dos dias atuais.
O sexto capítulo se propõe a reafirmar uma determinada atitude de
investigação científica, um modo de fazer ciência — assumido, em parte,
pelos programas de investigação científica, mas não necessariamente por
todas as orientações teóricas —, por meio da discussão sobre três maneiras
de compreender o metatermo “formal”.
Os dois capítulos seguintes (sétimo e oitavo) mostram de que maneira o
advento de um outro campo do conhecimento, o das ciências cognitivas, em
reação ao dominante paradigma behaviorista, influenciou a agenda de
pesquisa das ciências humanas, em geral, e mais especialmente, da ciência
da linguagem. Esta influência pode ser vista tanto na crítica produzida nos
dois capítulos às bases epistemológicas das ciências cognitivas clássicas (o
que implica uma crítica às bases epistemológicas do programa gerativista),
como na construção de uma agenda investigativa, o sociocognitivismo,
comprometida com a compreensão da linguagem como um fenômeno
cognitivo socialmente situado.
O nono capítulo explicita, a partir da exploração do conceito de
interação, considerado uma importante categoria de análise e peça-chave no
amadurecimento da teorização linguística, as diferentes posições que podem
ser assumidas quando uma orientação teórico-metodológica no campo da
linguagem reivindica para si o estatuto de interacionista. Além disso, esse
capítulo enfatiza as relações da linguística com outros campos,
redimensionando o próprio objeto de estudo da linguística, dado o prestígio
teórico-metodológico que a noção de interação passa a gozar no interior dos
diferentes domínios deste campo.
O décimo capítulo apresenta a teoria do discurso de linha francesa,
orientação teórico-metodológica que se caracteriza por reivindicar uma
epistemologia da ruptura em relação à linguística. Essa ruptura encontra-se
construída em dois sentidos: inicialmente em relação às bases
epistemológicas da linguística e, posteriormente, em relação a uma certa
concepção de ciência pautada na noção de objetividade científica,
decorrente do funcionamento de um aparelho formal capaz de dar conta de
seu objeto de análise.
O capítulo seguinte apresenta a teoria semiótica, que possui suas bases
inaugurais dominantemente assentadas em um arcabouço estrutural e que
reintroduz a questão do sentido como questão central nos estudos da
linguagem. No entanto, diferentemente de outras orientações teóricas que
também privilegiam a questão do sentido, propõe uma descrição da
significação em geral, descrição esta que compreende uma instância do
sentido comum a diferentes linguagens, tais como textos verbais, não
verbais e sincréticos.
O último capítulo do livro, uma reflexão a partir da filosofia da
linguagem, procura mostrar como três visões gerais da antiguidade clássica
— realismo, mentalismo e pragmatismo — veem o fenômeno da
linguagem, e como estas visões encontram-se marcadas pela tensão entre
relativismo e essencialismo. Nesse sentido, este capítulo fecha o livro
“sobrepondo ao terreno examinado uma rede”. Essa metáfora pode ser
melhor compreendida se assumirmos que encontramos versões puras e
híbridas do realismo, do mentalismo e do pragmatismo nos diferentes
programas e orientações que constituem e organizam o campo da ciência da
linguagem.
A organização desse percurso de leitura, voltado para as bases
epistemológicas e filosóficas que possibilitaram a construção e a
consolidação da ciência da linguagem, revelou-se um desafio para nós,
organizadoras, em vários sentidos. Por um lado, não poderíamos deixar de
reproduzir os recortes clássicos presentes em muitas outras obras como esta,
de caráter programático. No entanto, os recortes clássicos não foram
meramente reproduzidos, mas sim, reconstituídos de forma a propiciar, em
alguns momentos, aprofundamentos que julgamos necessários para a
compreensão da complexidade do campo. Por outro lado, também foi
possível construir um percurso de leitura um pouco diferenciado daqueles
com os quais geralmente nos deparamos em obras do mesmo caráter. Isto
somente foi possível em função da própria condição do campo no Brasil,
condição esta de efervescência e de constante movimentação e criação,
considerando o volume de publicações (periódicos e livros), congressos e
programas de pós-graduação na área. É nesse sentido que esta obra
apresenta uma especificidade na reprodução/reconstituição dos recortes,
privilegiando, em outros momentos, orientações que foram criadas e/ou
desenvolveram-se de forma especial no interior da linguística brasileira.
Esta tarefa dificilmente poderia caber a uma só pessoa. O fazer
científico na área de linguística no Brasil apresenta como uma de suas
características importantes o trabalho coletivo, com resultados de altíssima
qualidade que têm contribuído para a formação de novos pesquisadores e
para a consolidação do campo. O presente volume da coleção Introdução à
Linguística, assim como os outros dois volumes anteriores, tem orgulho de
integrar essa tradição.
Assim, esta obra somente existe em função do engajamento de
importantes pesquisadores nesse projeto. Nossos profundos agradecimentos
aos linguistas brasileiros, Arnaldo Cortina, Carlos Alberto Faraco, Edson
Françozo, Edwiges Maria Morato, Eleonora Albano, Erotilde Goreti
Pezatti, Helena Martins, Ingedore Grunfeld Villaça Koch, José Borges
Neto, Maria Cristina Figueiredo Silva, Maria Luiza Cunha-Lima, Renata
Coelho Marchezan, Roberta Pires de Oliveira, Rodolfo Ilari, Sírio Possenti
e ao linguista português João Costa. Nosso especial agradecimento a Luiz
Antônio Marcuschi e a Maria Margarida Martins Salomão, por terem aceito
o convite para produzir uma introdução à obra.
Nossos agradecimentos também a Cortez Editora por mais uma vez ter
apostado em um projeto coletivo e de longa execução e que, esperamos,
deve contribuir para reafirmar o lugar de destaque já alcançado pela
linguística brasileira na reflexão e na construção de um conhecimento
sólido sobre a linguagem.
Maio de 2004
INTRODUÇÃO
Luiz Antônio Marcuschi
Maria Margarida Martins Salomão
Esta coletânea tece uma densa e robusta cartografia dos fundamentos
epistemológicos dos diversos rumos de uma ciência chamada Linguística,
ao longo do último século. A primeira impressão é a de que se não fosse o
século XX, particularmente os últimos cinquenta anos de multifária
ebulição teórica, seria bem mais simples e mais fácil indagar-se sobre
aventuras e desventuras, entroncamentos e perspectivas teórico-
metodológicas da Linguística. Acertaram as organizadoras Fernanda
Mussalim e Anna Christina Bentes, ao escolherem os temas e os autores
para a produção dos estudos. Entre os méritos dos doze ensaios da obra está
o de lançarem-nos pelas mais diversas sendas e ruas, clareiras e becos,
demorando-se no geral em algumas avenidas centrais da grande ‘metrópole
científica’ em que se tornou a Linguística nos dias de hoje.
Já o sugestivo subtítulo, “fundamentos epistemológicos”, aponta para a
natureza dos trabalhos. Mais do que oferecer análises e resultados, tecem
um roteiro para se entender a gênese, o desenvolvimento e o potencial de
algumas direções da Linguística Contemporânea, inclusive no Brasil.
Mesmo sendo um conjunto de trabalhos temáticos e não
predominantemente históricos, os textos não deixam de nos informar sobre
os desmembramentos teóricos da Linguística de uma maneira original, isto
é, mostrando a teia dos “programas científicos”. Com isto, os ensaios
cumprem o papel fundamental de nos levarem a repensar o objeto, as
metodologias e as teorias em suas grandes linhas.
Sabemos que todo início de um novo século— particularmente o início
de um novo milênio — é momento propício para repensar-se os
fundamentos. E como o início do século XXI acha-se marcado por
características muito diversas daquelas que vigoravam no início do século
XX, parece oportuno dar-se conta do que mais se salienta neste momento.
Quando Frege, Freud, Weber, Saussure, Russell e Wittgenstein, entre tantos
outros, lançaram os fundamentos que seriam a mola propulsora de uma
vasta rede de projetos científicos levados a cabo ao longo do século XX,
ainda não era possível antever o que aconteceria. Mas hoje sabemos que nos
últimos 100 anos a herança metafísica essencialista e formalista triunfou
não necessariamente para o bem da humanidade. Mas nem tudo é tão
simples assim e esse destino vem de muito longe, como bem mostra Helena
Martins, em seu trabalho sobre as três tradições na filosofia da linguagem
iniciadas nos hoje não tão remotos pré-socráticos. Um fato parece
incontestável: independentemente de qual a teoria ou problema investigado,
todos estão preocupados em fundamentar suas asserções, em formular de
maneira clara seus princípios, em justificar e explicar os fenômenos de que
tratam. Todos constroem discursos numa matriz indisfarçável, mesmo
quando não nomeada. Parece que o século XX, pelo menos na Linguística,
teve um efeito grandemente higienizador, na forja de uma metáfora
sanitarista. Há um certo pudor no envolvimento com um mar de dados,
instalando-se a consciência da relevância da explicação e dos princípios
gerais.
Na realidade, mais do que um ritual de passagem de final de século, a
atividade de revisitar os fundamentos epistemológicos de uma ciência
deveria servir de revigoramento. Não se trata propriamente de fazer um
balanço para decidir o que vale ou não vale, nem de fazer um levantamento
histórico para flagrar lacunas, mas de perceber o quão frutíferas são as
alternativas. E o quão bem fundamentadas se apresentam. Estes doze
estudos fornecem elementos para se proceder a uma reflexão sobre tais
questões. Não é um costume brasileiro pensar-se os fundamentos de nossas
ciências, em particular na Linguística; por isso o projeto desta obra é
ousado e destina-se tanto a iniciados como a iniciantes. Em alguns casos,
são paisagens bastante verticais e, em outros, são um teste para o potencial
das teorias.
Há momentos em que a cena muda repentinamente: do envolvimento
sociocultural para a aridez do formalismo; da trama histórica para a
investigação pontual; das hipóteses sobre a linguagem e a mente para a
trama da semiótica. Surpreende na leitura a constatação de que os mais
diversos modelos teóricos lidam com um fenômeno construído e observado
dentro de um contínuo de preocupações marcado pelos múltiplos enfoques
que, em consequência, vão gerando múltiplos objetos. Muito cuidadosos, os
autores preocuparam-se mais em mostrar os fundamentos e os dividendos
de cada perspectiva do que em praticar proselitismo. Reflexões
epistemológicas são sempre momentos de acautelamento.
Tal é o grau de interdisciplinaridade em alguns casos que se torna difícil
estabelecer um terreno sisudamente demarcado. Aflora a sensação de uma
crescente e frutífera proliferação de pontos de vista. A Linguística não se
recusa a analisar todos os problemas que dizem respeito a aspectos formais
e estruturais, processos comunicativos e interativos, cognitivos e
(sócio)históricos que envolvem o ser humano em suas atividades diárias.
Afinal, a linguagem é o maior empreendimento conjunto do ser humano e
não pode ser cercado de um lado apenas. É assim que este livro se torna
oportuno e instigante versando sobre as grandes tendências da linguística
contemporânea sem a imposição de uma linha, mas com a sobriedade de
quem de fato busca oferecer os fundamentos para a reflexão.
Quando dizíamos que a Linguística oferecia ao século XXI um
panorama muito diverso daquele que vigorava no início do século XX,
apoiávamo-nos na reveladora abordagem de Carlos A. Faraco que, em sua
análise histórico-sistemática dos “Estudos pré-saussurianos”, expõe uma
linguística ainda em busca da identificação de seu objeto. Essa definição
acontece com os neogramáticos e se consolida com Saussure ao dar
consistência à noção de língua como uma “realidade histórica” e “totalidade
organizada”, que deveria ser analisada “em si mesma e por si mesma”.
Estava plantado o germe de uma linguística do significante. Isto muda
radicalmente o estudo da linguagem, incorporando as descobertas formais
dos comparatistas sem descurar a noção de variação. A tradição trata
Saussure como o grande divisor entre a linguística antes e depois dele. Mas
parece ser precisamente na compreensão deste ponto que o estudo de
Faraco traz sua contribuição, ao mostrar um Saussure tributário de ideias
produzidas desde o final do século XVIII até as primeiras décadas do século
XX pelos comparatistas e neogramáticos, precursores da Linguística
moderna. É inegável a influência de Whitney sobre Saussure com a ideia do
caráter arbitrário do signo, da Linguística como ciência autônoma, da
linguagem como instituição social e sistema autônomo de relações
imanentes. Assim, o que marcaria a linguística contemporânea seria aquilo
que se consolidou no século XIX, isto é, a ideia da “língua como sistema
autônomo” que pode ser estudado em si mesmo como um objeto legítimo. E
como se verá nos estudos subsequentes, a depender da interpretação e da
posição tomada diante deste princípio básico, surgirão todos os matizes
teóricos que hoje povoam a Linguística. Isto sem nos esquecermos de que
Humboldt já plantava a noção da linguagem como atividade (energeia) e
não produto (ergon), tão produtiva em muitas direções.
Com o sistemático ensaio “O Estruturalismo Linguístico: alguns
caminhos”, Rodolfo Ilari apresenta-nos a variedade dos estudos
estruturalistas no século XX, que constituíram então uma das perspectivas
mais frutíferas. É impossível englobá-los sob algum rótulo teórico-
metodológico que vá além da crença na organização estrutural da língua.
Dizia-se, sem a menor dificuldade, que era impossível não ser estruturalista.
No Brasil dos anos sessenta do século XX, o estruturalismo foi a posição
hegemônica, tendo em Mattoso Câmara Jr. seu expoente. O estruturalismo é
o legítimo herdeiro de todas as dicotomias, começando pela distinção
“langue-parole”, passando pelo significante-significado, chegando às
oposições da fonologia acústica. Como bem diz Ilari, os estruturalismos
fazem da “regra de jogo” e não das “mensagens” o objeto dos estudos
linguísticos. Na trilha saussuriana, toma-se a “langue” e não a “parole”
como foco de análise. O estruturalismo impulsiona os estudos fonético-
fonológicos e a sintaxe, descuidando, no entanto, da semântica e da
pragmática. Assim mesmo, deu origem à Linguística de Texto — no interior
da escola de Praga —, dedicando-se ao estudo do dinamismo comunicativo
na “perspectiva funcional da sentença”. O estruturalismo foi um terreno
fértil da linguística descritiva. Mas nem tudo é unanimidade, e há opositores
em seu interior, tal como Benveniste que critica o esquecimento do sujeito.
Coseriu, que investe contra algumas consagradas dicotomias como
sincronia-diacronia, opondo-lhe a “pancronia”, não aceita a divisão langue-
parole e sugere a tripartição “sistema-norma-fala”. Pêcheux sente falta de
considerações sobre a ideologia, história e política e critica o descaso com o
fenômeno discursivo. E com o gerativismo surgido tanto dentro como fora
do estruturalismo vem um golpe de morte no descritivismo e no
behaviorismo que se instalara no estruturalismo.
José Borges Neto desenvolve instigantes reflexões em seu ensaio sobre
“O empreendimento gerativo” convencendo-nos de que o gerativismo é de
fato um empreendimento sob a liderança pessoal de Chomsky, que dita o
que vale. Mas o essencial é o argumento minuciosamente desenvolvido ao
longo do ensaio, provando que se trata de um empreendimento e de um
“programa de pesquisa” coerente e unitário desde os anos cinquenta do
século XX, com a primeira obra de Chomsky, semdesvios notáveis. Borges
percorre os 50 anos do gerativismo mostrando sua unidade teórica. As
mudanças e variações são adaptações aos mesmos princípios básicos
enunciados desde o início. O gerativismo teria um programa com um
núcleo e uma heurística. O núcleo estaria na tese de que “os
comportamentos linguísticos são parcialmente determinados pela
mente/cérebro” e a heurística diz que “esses comportamentos são
computacionais”. A língua é uma herança da espécie e a heurística
chomskiana busca os universais e não as particularidades e exterioridades
dessa herança. As regras são formais e gerais, surgindo daí uma linguística
formal. Sucedem-se modelos teóricos, mas não teorias nem programas. A
teoria e o programa se mantêm coerentes desde o modelo padrão, o padrão
estendido até a teoria de princípios e parâmetros, chegando ao programa
minimalista que não passaria de um refinamento de posições anteriores. A
tese de Borges tem um interesse metodológico fundamental ao sugerir que o
gerativismo seja tomado como um empreendimento muito mais homogêneo
do que seu próprio criador dá a entender. As posições mudam para ficarem
cada vez mais as mesmas. Uma coisa é certa: depois de Chomsky a
linguística mudou tornando-se mais rigorosa e controlada. Neste sentido, a
influência chomskiana pode ser tida como onipresente e instauradora de
uma nova forma mentis científica.
As observações de Maria Cristina Figueiredo Silva e de João Costa no
ensaio sobre “Os anos 1990 na gramática gerativa” aprofundam nosso
entendimento do Programa Minimalista (PM), esclarecendo em que
consiste a novidade chomskiana. Vários são os autores nesta coletânea que
se referem ao PM e uma das conclusões a que chegam é a de que não há
consenso entre os gerativistas quanto ao seu alcance e sua eficácia ou
novidade. Deveria ser uma nova orientação e constituir até mesmo um novo
modelo, mas segundo os autores do ensaio, “não é totalmente claro até que
ponto este texto [Minimalist Program] constitui uma ruptura com o modelo
de Regência e Ligação, que dominou nos anos 80.” Continuidade do
modelo de Regência e Ligação (GB) ou refinamento e proposta até mesmo
“incompatível” com ele, o certo é que o PM é uma tentativa de “limpar” a
teoria da GB de seus complexos e demasiados princípios e operações,
dando ao modelo mais agilidade, economia e, sobretudo, poder
explanatório. Mas o preço dessa façanha é alto e muita coisa se torna vaga.
O que se diz é que a gramática é econômica e que o modelo deveria refletir
essa faceta, transformando-a em seu princípio epistemológico norteador.
Esta economia refere-se aos princípios de derivação e vai direto ao âmago
da teoria e não diz respeito ao processo de sua formulação. Economia,
otimidade e minimalismo são, pois, motes que norteiam a própria
elaboração do programa e não princípios de ordem metodológica. Entre os
aspectos centrais desses anos 90 no gerativismo minimalista está a
eliminação dos níveis representacionais e a volta ao processo derivacional,
o que dá maior relevo às interfaces da sintaxe com os componentes
articulatório e conceptual. Em suma, o estudo de Maria Cristina e de João
Costa oferece argumentos para a tese de que um dos focos da diferença
entre a GB e o PM se dá na confrontação de um modelo representacional
com um modelo derivacional, o que, em certo sentido, é um retorno às
bases.
Com o minucioso estudo de Erotilde Goreti Pezatti sobre “O
funcionalismo em Linguística”, saímos do projeto gerativista de cunho
formalista e entramos numa ampla introdução às mais diversas correntes
teóricas abrigadas sob esse rótulo que, seguramente, seria melhor utilizado
no plural “funcionalismos”, como observa a própria autora. Situado em
seus primórdios no século XIX com Whitney e Von der Gabelentz, o
funcionalismo alastra-se pela maioria das ciências humanas: antropologia,
sociologia, psicologia e economia. Nos estudos linguísticos funcionalistas,
situam-se autores como Sapir, Pike, Mathesius, Hymes, Firth, Halliday,
Givón, Chafe, Hopper, Dik, e inúmeros outros. Há quem admita que todos
os trabalhos em Linguística de Texto, Análise da Conversação, Análise do
Discurso, Sociolinguística etc. são funcionalistas, mas isso deve ser visto
com alguma cautela. Termos-chave nesses modelos teóricos, tais como
função, tópico discursivo/sentencial, foco, fluxo informacional, intenção,
transitividade, relevância discursiva e gramaticalização frequentam não
apenas o paradigma funcionalista. Em princípio, o funcionalismo não se
opõe ao formalismo, pois há funcionalismos bastante formais em sua
concepção, como algumas posições de Jakobson, Halliday e a do próprio
Dik. A autora opta pela defesa de não incompatibilidade entre dedicar-se à
forma ou à função, já que se trata de enfoques diversos sobre o “mesmo
objeto”. Defende o funcionalismo da acusação de vagueza teórica,
relativismo e perspectivismo, pois a teoria funcionalista da gramática, por
exemplo, especificaria um sistema de regras bastante formal, como no caso
de Dik, para línguas particulares. Apenas não se ocupa com regras
universais e trabalha as línguas em seus contextos de uso, ligadas à história
e à sociedade, com atenção para a adequação explanatória. Na tentativa de
confrontar-nos com as várias correntes, a autora apresenta alguns focos
temáticos, desde a “perspectiva funcional da sentença”, da Escola de Praga
com sua análise da estrutura tema-rema e do dinamismo comunicativo, até
os “processos de gramaticalização”, de grande aceitação e produtividade na
linguística brasileira. Resumidamente, os funcionalismos caracterizam-se
pelas análises das condições de produção, dos usos e das posições da
expressão como inter-relacionados. Assim, nos funcionalismos, sintaxe,
semântica e pragmática são vistas como “dimensões interdependentes”.
Em “Formalismos na Linguística: uma reflexão crítica”, instigante
ensaio de Roberta Pires de Oliveira, encontramos uma análise não apenas
das diversas acepções do uso da metaexpressão “formal”, mas
particularmente das consequências de ser ou não ser formalista. A autora
parte da indagação: o que é formal? E responde dizendo haver pelo menos
três opções da noção: (a) cientificidade, (b) autonomia e (c) cálculo. Com
esta observação, Roberta mostra que não se pode equivaler, em Linguística,
o formalismo ao gerativismo. O gerativismo é o formalismo (b) que
preserva e postula a autonomia (da sintaxe). Um aspecto que certamente
une todos os formalistas é a ideia de que “as línguas naturais são um
cálculo”. Seguramente, não um cálculo lógico ao modo do cálculo das
linguagens artificiais. Provocativamente, a autora afirma que “todo linguista
deve ser formalista”, aduzindo como argumento o fato de que se quisermos
ser cientistas, devemos necessariamente ser formalistas. A ideia é sem
dúvida polêmica, mas heuristicamente instigante, pois a autora ressalva nas
entrelinhas que ser formalista não implica ignorar a ética, a sociedade, a
história, a cultura e tantos outros aspectos envolvidos na língua. Isso
significa dizer que não é razoável equivaler as linguagens artificiais às
línguas naturais. A autora afirma, em momento crucial de seu trabalho, que
reserva “o termo ‘ciência’ para o estudo naturalista da linguagem e o termo
‘humanidades’ para falar sobre a visão histórica (‘subjetiva’) da
linguagem”, ressalvando, contudo, que com isso não deseja instituir uma
dicotomia e sim “limitar a atuação da metodologia científica”. Como esta
obra trata essencialmente dos fundamentos epistemológicos da Linguística,
pode-se dizer que Roberta vai direto e sem rodeios ao âmago da questão.
Alguns discordarão de seu popperianismo, mas é inegável que essas
posições caracterizam uma grande parte do fazer científico da Linguística
contemporânea. Para a autora, a questão da controvérsia “formalismo versus
funcionalismo” merece cuidados, pois ela se “refere a diferenças quanto aos
compromissos ‘metafísicos’, as crenças sobre a linguagem humana, o
núcleo duro desses programas”. O que Roberta sugere é que todo o cientista
deve ter compromissos com umametalinguagem formal se quiser se fazer
entender de maneira universal e unívoca. Mas nem todos os linguistas
precisam adotar a posição chomskiana de um formalismo que postula a
autonomia da sintaxe e reduz o estudo das línguas naturais à língua-I
(internalizada), para fazer boa ciência.
Ingedore Koch & Maria Luiza Cunha-Lima apresentam-nos um rico e
instrutivo ensaio sobre o tema “Do cognitivismo ao sociocognitivismo”,
mostrando a história, os temas e as perspectivas, desde o cognitivismo
clássico dos anos 50, com a crença de que seria possível replicar a
inteligência humana em autômatos, até o momento atual da perspectiva
sociocognitivista. Se aquele projeto inicial faliu, levando rios de dinheiro na
aventura da Inteligência Artificial, por outro lado, como ressalvam as
autoras, o sociocognitivismo ainda não é um programa de pesquisa de
contorno maduro e definido, com um núcleo nitidamente demarcado. A
questão central continua de pé e já fora lançada pelos gregos: como é
possível conhecer e como conhecemos o mundo extramental? Qual o nosso
modo de acesso a ele? Como o comunicamos às outras mentes? Qual o
estatuto da referência? Como constituímos as categorias que usamos no dia
a dia? Qual o papel da interação na construção da verdade? Estas são
algumas das questões que não se calam e que são tratadas nesse ensaio. As
autoras demonstram que o estudo da relação entre linguagem, sociedade e
cognição não é novo, mas vem recebendo hoje novos enfoques na
perspectiva sociocognitiva. Um dos problemas que ainda não se acha
resolvido é a organização do conhecimento na mente e suas formas de
representação, bem como o papel da linguagem nestas atividades. Isto exige
uma análise da mente e da cognição para livrar-se da velha dicotomia
cartesiana entre corpo e mente. Para tanto, as autoras percorrem as várias
concepções de mente, chegando à concepção de mente como um fenômeno
social. Temas ainda atuais e abertos são as questões do que seja a percepção
e a experiência e como contribuem para o conhecimento. Se o projeto de
inteligência artificial como modelo da inteligência natural fracassou, a
sugestão não foi inútil. Mas hoje sabemos que “a computação não é
necessariamente simbólica”, e o conexionismo volta a ser atraente; sabemos
que “mente e corpo não são duas entidades estanques” ou desligadas uma
da outra, mas a mente é um fenômeno corporificado. Finalmente, sabemos
que “as atividades cognitivas não estão separadas das interações com o
meio, nem, obviamente, da vida social”. E este será o ponto central que
interessa às autoras desenvolver como o núcleo da proposta
sociocognitivista para o futuro. As ações verbais são conjuntas, situadas e
cognitivas, desenvolvidas na convivência humana que é social, cultural e
histórica.
“Virtudes e Vicissitudes do Cognitivismo, Revisitadas”, de Edson
Françozo e Eleonora Albano, constitui uma incursão de natureza
epistemológica sobre a metodologia das ciências. Centra-se na avaliação do
enfoque metodológico, recusando a perspectiva do modelo kuhniano da
história científica por “alimentar a irracionalidade dos cientistas” e
adotando a visão de Lakatos conhecida como “falseacionismo
metodológico sofisticado”. Os autores admitem que “a comunidade
científica se organiza em torno de programas de pesquisa” e não de uma
teoria. O programa assim constituído consiste num conjunto de teorias com
um núcleo comum que não desaparece quando uma das teorias evidencia-se
como inadequada, pois “os problemas científicos não nascem nem morrem
com as teorias que os aportaram”, de modo que eles podem migrar e
frutificar ou desaparecer. Sob esta ótica, o cognitivismo é visto como um
programa que foi mudando sua face e hoje subsiste por uma estratégia de
adaptação epistemológica assumindo a formalização como saída. Diante
disso, os autores concluem que, no caso do cognitivismo, ainda não se pode
dizer que ele está sendo substituído pelo conexionismo, mas parece que ele
se revigoraria com enxertos provenientes dessa vertente.
Diretamente conectado ao ensaio sobre o sociocognitivismo, o
minucioso estudo “O interacionismo no campo linguístico”, de Edwiges
Maria Morato, é uma análise dos fundamentos e da fortuna crítica do
interacionismo na Linguística. Surgido em reação ao psicologismo e contra
a visão descarnada da língua, o interacionismo caracteriza-se tanto por uma
visão nova de linguagem, como pela forma de analisar as relações humanas,
sempre inscritas num quadro social interativo. Centra-se nas categorias de
“ação”, “outro”, “prática”, “sociedade”, “cognição”, movendo-se num
terreno multidisciplinar. Neste quadro, a autora indaga qual o lugar da
interação na investigação linguística. E responde dizendo que “toda a ação
humana procede de interação”, pois o ser humano caracteriza-se como um
ser interativo por natureza. O grande problema foi o esvaziamento teórico e
metodológico por que passou a expressão “interacionismo” em tempos
recentes. O termo foi usado desde o âmbito pedagógico até a descrição
etnográfica, sem uma depuração epistemológica, alheio à distinção entre
“interação” e “interacionismo” e olvidando que há uma multiplicidade de
interacionismos. Diante disso, a preocupação da autora é mostrar o lugar da
interação na análise da linguagem. Mesmo tendo em vista que “falar é
interagir”, no dizer de Gumperz, e que “a interação verbal é a realidade
fundamental da linguagem”, de acordo com Bakhtin, isto não implica,
assevera Edwiges, que a função primordial da linguagem seja a
comunicação. Lembrando Carlos Franchi, a autora frisa que “antes de ser
para a comunicação, a linguagem é para a elaboração; antes de ser
mensagem, a linguagem é a construção do pensamento”. Enquanto
“atividade constitutiva do conhecimento humano”, a linguagem é algo mais
do que um sistema simbólico para transmissão de mensagens ou mediadora
de interações. A interação tem a ver com cognição e com a produção de
conhecimento. Quanto a isto, Edwiges deixa claro o papel central da
interação e sua presença nos processos cognitivos. Concluindo seu ensaio, a
autora sublinha que “a discussão sobre a interação nos estudos linguísticos
responde em boa parte pela manutenção da Linguística na agenda dos
debates científicos de nossa época”. Assim, a interação não ameaça a
Linguística, mas traz avanços “não impedindo de cercar-se sempre de seu
objeto, isto é, a linguagem”.
O provocador ensaio “Teoria do discurso: um caso de múltiplas
rupturas” de Sírio Possenti parte da suposição de que a maioria das
observações sobre o termo ‘discurso’ associariam-no a algo “extra”,
relativo a aspectos históricos, antropológicos, sociológicos, cognitivos
“entrelaçados com a língua”, fato que evidenciaria um crasso
desconhecimento das teorias da Análise do Discurso, na medida em que ela
é a ruptura com tudo isso. Optando por um recorte metodológico estrito,
Sírio dedica-se exclusivamente à “Análise do Discurso Francesa” (ADF).
Epistemologicamente, a ótica é a da “ruptura”, um traço que marca a ADF e
caracteriza suas práticas. Adotando esta posição em contrapartida à ideia de
que o conhecimento se daria pelo progresso cumulativo, Sírio analisa a
ADF como um gesto de ruptura e não apenas uma nova forma de fazer o
que fazia a velha Linguística. Como teoria da leitura, a ADF rompe com a
hermenêutica e a análise de conteúdo: “A AD não aceita que palavras,
expressões ou estruturas sintáticas pudessem ter sido uma garantia de
sentido, que a linguística histórica recuperaria.” Também não aceita que o
sentido seja apenas a vontade de um indivíduo histórico, pois para a ADF a
língua é polissêmica e opaca, fazendo-se presentes os efeitos da ideologia e
do inconsciente, além das condições de produção. E mais: a ADF recusa a
intencionalidade, o cognitivismo, o voluntarismo, a individualidade e a
contextualidade fortuita e imediata da pragmática clássica. Recusa também
o texto como unidade relevante de análise; para ela, o texto só se torna
relevante quando for parte de uma cadeia (um arquivo). Nega a autonomia
da sintaxe, não aceita que o sentidoseja da ordem da língua, reservando-o
para a ordem do discurso, e recusa-se a tomar a língua como expressão do
pensamento. Na medida em que a ADF não tem uma teoria da língua, não
se inscreve em nenhum funcionalismo ou formalismo. Inimigos nobres da
ADF são, no entanto, a pragmática e o interacionismo em geral. A visão
que Sírio nos dá da ADF é de uma fornalha de rupturas epistemológicas, o
que é saudável pela inovação de perspectivas. É ainda oportuno citar o
próprio autor quando nos provoca afirmando que, provavelmente, a AD
quis ser científica. “Provavelmente, não é, nunca foi. E nisso não vai uma
avaliação de demérito, antes pelo contrário. Talvez se possa dizer da AD o
que Foucault disse do marxismo e da psicanálise: que são muito
importantes para serem ciências”. Epistemologicamente, isto equivale a
uma radicalização da ruptura como método, o que não deixa de ser uma
forma singular de produção de conhecimento.
O ensaio dedicado a uma “Teoria semiótica: a questão do sentido”, de
Arnaldo Cortina & Renata Coelho Marchezan, é uma completa e atualizada
visão da semiótica atual, incluindo seu desenvolvimento histórico. Os
autores oferecem uma noção da semiótica como uma ciência que busca
explicar como o sentido se constitui na trama dos signos. Assim, a
semiótica é vista como uma teoria geral da significação no plano
enunciativo sem se confundir, portanto, com a semântica tout court. Trata-
se de uma semiótica que não se prende à frase nem às unidades linguísticas
no nível da palavra, mas vai ao plano textual. Após uma análise das
heranças saussuriana, hejelmsleviana e proppiana da semiótica, os autores
dedicam-se à exposição sistemática da semiótica de Greimas, entre outros.
Mostram como se dá o “o percurso gerador da significação do texto”, que,
denominado “gramática semiótica”, caracteriza-se como um projeto que
“obedece a três etapas de organização: a gramática fundamental, a
gramática narrativa e a gramática discursiva”. Epistemologicamente,
seguindo Benveniste, a partir dos anos setenta, a semiótica recupera o que
havia perdido na década de sessenta, quando estava fortemente situada no
contexto do estruturalismo, isto é, recupera a enunciação, passando do
primado do enunciado ao primado da enunciação. Reconhece a presença do
sujeito no texto, entrando por essa via a circunstância de tempo e espaço,
bem como os demais parâmetros da significação. Nos anos oitenta, o
interesse da semiótica volta-se para a interação, e o sujeito não é mais visto
apenas como construto que surge no interior da língua como o via
Benveniste, mas sim a partir da dimensão intersubjetiva. Finalmente, hoje, a
semiótica passa a ter uma aproximação com a fenomenologia e, assim,
“passa a focalizar ao mesmo tempo a enunciação e a percepção, que, juntas,
são responsáveis pela inserção do sujeito no mundo”. Como se nota,
epistemologicamente, a semiótica faz o percurso da descontinuidade para a
continuidade: “uma continuidade que não rejeita a diferença, não descarta o
‘recorte’”, mas busca dinamizá-lo, modalizá-lo e temporalizá-lo,
sensibilizando-o.
Se a ideia dessa coletânea é pensar os fundamentos, nada melhor do que
revisitar a “origem mais remota” da Linguística que, sem dúvida, instaura-
se com a Filosofia da Linguagem grega. Helena Martins, fortemente
inserida na preocupação filosófica, percorre, com sua percuciente análise
dos “Três caminhos na Filosofia da Linguagem”, as reflexões seminais que
tomam corpo nos sofistas, passando por Sócrates, Platão e Aristóteles,
dando-nos a sensação de que continuamos compulsoriamente ligados a
essas fundações originárias até hoje. Helena mostra com clareza e detalhe
argumentativo convincente como “três dos mais influentes paradigmas hoje
disponíveis para o entendimento da linguagem — realismo, mentalismo e
pragmatismo — tomam forma bem cedo na história da Filosofia”. Por
incrível que pareça, foi da pergunta sobre como é possível a verdade e o
falso, lançada por Platão em seus diálogos, que surgiu a necessidade de uma
investigação profunda do potencial da linguagem. Daí surgiram os
paradigmas até hoje dominantes numa ou noutra versão, que migram da
filosofia para a linguística de modo cada vez mais enfático ao longo de dois
milênios e meio. Semântica, cognição e pragmática têm origem nessa
aventura metafísica da humanidade cujo destino parece incontornável.
Epistemologicamente, os três paradigmas ainda hoje vigentes nos estudos
filosóficos da linguagem — (a) realismo; (b) mentalismo e (c) pragmatismo
— ligam-se, respectivamente, a Platão, Aristóteles e sofistas. Essas três
posições têm diferentes noções de mundo, verdade e sentido. Para o
realismo, o mundo externo existe e podemos conhecê-lo (um mundo que
para Platão era um real céu de ideias); para o mentalismo há conhecimentos
mentais que podemos partilhar uns com os outros; para o pragmatismo,
ligado aos sofistas, interagimos dentro de uma cultura usando a mesma
língua, com acesso escasso e problemático ao conhecimento externo. Os
três carregam problemas de fundo epistemológico que ainda são motivos de
disputa: o realismo debate-se com uma relação biunívoca entre linguagem e
mundo; o mentalismo debate-se com a questão da representação mental e o
mundo das essências; o pragmatismo encontra dificuldade para superar o
relativismo de uma verdade como consenso cultural. Mesmo circunscrito
basicamente no terreno da filosofia grega clássica, o estudo de Helena é
uma rara oportunidade de se perceber a origem de temas e questões ainda
hoje centrais na agenda da Linguística e da Filosofia da Linguagem. Hoje e
sempre, deveríamos acrescentar.
O que nos ensinam todas estas recensões é a inegável pujança dos
estudos da linguagem praticados no mundo, nos últimos cem anos, e a sua
exuberante vitalidade no Brasil. Um traço que releva de todos os ensaios,
além da maioridade intelectual indiscutível, é o engenho com que se
identificam epistemologicamente, a autoconsciência que cultivam, mesmo
os mais programáticos.
Eis um legado não só da boa cultura acadêmica de que procedem, mas
também da ressonância genealógica da matriz saussure-chomskiana que
atravessa todos estes discursos: há o cuidado não só de especificar o ponto
de vista, que “produz o objeto”, mas também de perfilar as tradições
contrastadas, enumerar os caminhos recusados, mapear as encruzilhadas
percorridas.
Uma lição (não necessariamente edificante) do “empreendimento
gerativo” é a prática indisfarçada do imperialismo teórico: além da
qualificação como “não científica”, ou “pré-científica”, dos recortes de
saber alternativos, procede-se à incorporação domesticada das eventuais
resistências intraprograma. Assim a “teoria dos casos semânticos” é
apropriada como tratamento das funções temáticas; a estigmatizada
decomposição lexical dos semanticistas gerativos ressurge legitimada como
“vp shells” minimalistas... Sob este aspecto, José Borges Neto é
absolutamente preciso quando constata a presença direta de Chomsky como
instância arbitral determinante da evolução desta grande aventura
intelectual.
De todo modo, tais processos da complexa constituição de autoria, da
qual os doze ensaios dessa coletânea são exemplos, oferecem preciosa
vacina política a imunizar linguistas contemporâneos dos riscos da
ingenuidade analítica. Tomados em seu conjunto, estes ensaios retomam o
dilema contemporâneo que percorre os estudos da linguagem entre as
linguísticas do significante e as linguísticas da significação.
As linguísticas do significante, herdeiras das principais tradições pré-
estruturalistas (dos comparatistas e dos neogramáticos), dos estruturalistas e
gerativistas, são desde logo as mais exitosas e respondem pelo sucesso
acadêmico-político da Linguística como campo disciplinar. Incluem em sua
folha de serviços prestados a reivindicação da oralidade como objeto de
estudo, a descrição de um número considerável de línguas das mais
diferentes famílias genéticas e tipológicas, a identificação de fenômenos,
nos planos fônico e (morfos)sintático, dantes jamais vislumbrados, o
desenvolvimentode poderosas metalinguagens para tratar teoricamente seu
objeto. São as linguísticas do significante que podem reclamar, com alguma
margem de conforto, a metaexpressão “formal”, nos termos em que a
desvenda Roberta Pires de Oliveira — na acepção de explicitável,
comprometida com uma noção popperiana de cientificidade.
Do outro lado pendem as linguísticas de significação, enfrentando a
milenar contradição filosófica, tão bem caracterizada por Helena Martins,
que separa o essencialismo de fundação clássica (platônico-aristotélica) do
protopragmatismo dos sofistas — aos quais regressa com volúpia,
celebratória ou amargurada, toda uma rica linhagem do pensamento no
século XX.
É verdade que os estudos semânticos de vertente montagueana parecem
diferenciar-se neste quadro por seu decidido afastamento tanto dos perigos
da psicologização do sentido como das dimensões relativas ao uso; nesta
perspectiva podem seguramente pretender constituir-se como “semântica
formal”. O fato é que quanto mais formais se consolidam estes estudos,
mais restrita é sua órbita de interesse: embora bem-sucedidos no plano da
representação lógico-sintática, enredam-se tanto quanto outras
investigações alternativas para resolver simples problemas de
composicionalidade como os que afetam um item lexical.
De resto, a relativa juvenilidade das linguísticas de significação frente às
linguísticas do significante não permite que se tenha resolvido neste campo
o dilema que antagoniza “descrições” e “explicações”. Uma parte
importante destas investigações, como é o caso da Análise do Discurso,
foca expressamente a singularidade do processo significativo — a
interpretação! — e, nestes termos, pode reivindicar-se como uma Nova
Filologia, desvirginada por Marx e por Freud na sua desconstrução do
Sujeito.
Numa posição divergente querem colocar-se as várias interpelações
interacionistas e (socio)cognitivistas que não desistiram de constituir-se
como “ciência”, embora muito claramente ainda se ressintam da falta de
uma metalinguagem adequada; também por isso, todas as fichas se
empilham na aposta conexionista.
O cruzamento destes tantos discursos se expressa nitidamente como
constelação de quatro grandes temas estruturantes, a saber: sistema,
cognição, interação e história. Posicionados em diferentes hierarquias,
expressamente priorizados ou deliberadamente recalcados, estes quatro
grandes conceitos entrecruzam-se nos doze ensaios, os dois primeiros mais
fortemente relevados para as abordagens centradas no significante. Todas os
quatro estão, entretanto, desafiadoramente presentes para os projetos
investigativos que pretendem tratar a significação.
Na verdade, a questão de significação coloca-se para a linguística como
o canto das sereias para Ulisses: enquanto focamos a “infinitude discreta”
do significante podemos, amarrados ao mastro, evitar o risco da dissolução
das fronteiras disciplinares. O trato da significação nos leva de encontro à
antropologia, à psicanálise, à filosofia, aos estudos literários — toda esta
“matéria escura” de que nos circunscrevíamos, quando demarcávamos
laboriosamente “o objeto”.
O advento de avanços importantes no campo das neurociências e a
própria consolidação dos estudos da linguagem no seio das ciências
cognitivas obriga-nos a reposicionar a importante acumulação já produzida
(sobre o estudo do significante) diante de uma agenda, progressivamente
inescapável, relativa à exploração da semântica linguística (como uma
possibilidade especializada de conceptualização).
Ponto valioso a ser destacado nesta conexão é que programas
importantes de estudos semânticos, praticados a partir de distintas
orientações doutrinárias — como é o caso, de um lado, o trabalho de
Jackendoff e, de outro, o de Fauconnier e Turner —, convergem na
identificação de temas de pesquisa até muito recentemente desfavorecidos,
como é o caso do processamento linguístico, quando não abertamente
desprestigiados como seja o problema da origem da linguagem humana.
A leitura desta coletânea de estudos, ainda que provoque impressões
diferentes, não deixará, em qualquer caso, de manifestar-se como
testemunho do maravilhamento que a linguagem em seu uso suscita —
como fenômeno, como prática, como criação coletiva. Sábio se manifestava
Manuel de Barros, no Livro das Ignoranças (“Didática da invenção”):
Maior do que o infinito é a encomenda.
1
ESTUDOS PRÉ-SAUSSURIANOS
Carlos Alberto Faraco
1. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
Os manuais de história da linguística costumam apresentar Ferdinand de
Saussure (1857-1913) como o pai da linguística moderna, entendendo por
linguística moderna os estudos sincrônicos praticados intensamente durante
o século XX em contraste com os estudos históricos, que predominaram no
século anterior.
Embora possamos concordar com essa perspectiva, é preciso não
esquecer que o real impacto do Curso, publicado postumamente em 1916,
só começou a aparecer no fim da década de 1920, mais propriamente a
partir do Primeiro Congresso Internacional de Linguística (Haia, 1928), do
Primeiro Congresso dos Filólogos Eslavos (Praga, 1929) e da Primeira
Reunião Fonológica Internacional (Praga, 1930). Foi principalmente nestes
três fóruns de grande porte que primeiro apareceram teses de inspiração
saussuriana, em especial pelas mãos de Roman Jakobson (1896-1982) e
Nikolai Troubetzkoy (1890-1938).
A nova geração de sincronistas só aos poucos foi ocupando o espaço
acadêmico na área dos estudos linguísticos. Nesse sentido, podemos dizer
que, na prática, até a Segunda Guerra Mundial pelo menos, a linguística
continuou a ser, no espaço universitário, uma disciplina fundamentalmente
histórica. O século XIX, portanto, não terminou, em linguística, tão cedo
como muitas vezes os recortes dos manuais chegam a sugerir.
Por outro lado, é inegável que Saussure realizou um grande corte nos
estudos linguísticos. Suas concepções deram as condições efetivas para se
construir uma ciência sincrônica da linguagem. A partir de seu projeto, não
houve mais razões para não se construir uma ciência autônoma a tratar
exclusivamente da linguagem, considerada em si mesma e por si mesma, e
sob o pressuposto da separação estrita entre a perspectiva histórica e a não
histórica.
Seu ovo de Colombo foi não só mostrar que a língua poderia (e deveria)
ser tratada exclusivamente como uma forma (livre das suas substâncias),
mas principalmente como esta forma se constituía, isto é, pelo jogo
sistêmico de relações de oposição — funcionando este jogo de tal modo que
nada é num sistema linguístico senão por uma teia de relações de oposição.
E, por outro lado, nada interessa numa tal perspectiva sistêmica salvo o
puramente imanente.
Se o gesto epistemológico saussuriano instaura a possibilidade da
imanência (a língua como um sistema de signos independente) e, com ela, a
de uma ciência autônoma da linguagem enquanto uma realidade
exclusivamente sincrônica, seria injusto não reconhecer o longo processo
preparador desse gesto.
Embora à primeira vista haja no gesto de Saussure uma ruptura com o
modo de fazer linguística do século XIX, podemos também pensá-lo como
um gesto de continuidade. O que ele fez (e não é pouca coisa,
evidentemente) foi dar consistência formal à velha intuição de que as
línguas humanas são totalidades organizadas.
Essa intuição percorreu todo o século que antecedeu o corte saussuriano.
Teve, inclusive, uma formulação naturalista forte em A. Schleicher (1821-
1867) que, na esteira de sua formação de botânico e de adepto do
pensamento evolucionista de sua época, concebia a língua como um
organismo vivo. E recebeu de W. Whitney (1827-1894) uma formulação
que Saussure muito admirava (conforme se lê no Curso e nos manuscritos):
a ideia da língua como uma instituição social.
Assim, se a linguística, da segunda metade do século XX em diante, tem
sido, por herança saussuriana, fundamentalmente estrutural, as sementes
dessa concepção toda estão dadas no senso de sistema autônomo que
atravessou o século XIX. A este senso Saussure vai dar o arremate,elaborando a ideia de que a língua é um sistema de signos independente.
Nossa tese aqui é, portanto, que a possibilidade dessa formulação de um
sistema de signos independente resultou basicamente do senso de sistema e
das características do trabalho empírico realizado desde o manifesto de
William Jones (1746-1794) em 1786, o marco simbólico do início da
linguística como ciência, de que falaremos adiante.
Lembremos, nesse sentido, que foi precisamente a linguística
comparativa e histórica que desenvolveu um método de manipulação de
dados linguísticos enquanto dados linguísticos, tão bem resumido na frase
que Franz Bopp (1791-1867) incluiu no prefácio de sua Gramática
comparada (citada por Mounin, p. 180): “As línguas de que trata esta obra
são estudadas por si mesmas, ou seja, como objeto, e não como meio de
conhecimento”.
Se a tradição anterior sempre havia tratado a linguagem em projetos que
a relacionavam com outros interesses (em especial, à lógica, à retórica, à
poética e ao bom uso), é com a linguística comparativa e histórica que, pela
primeira vez, se tratará da linguagem em si mesma e por si mesma.
A marca registrada específica dessa linguística foi dar sustentação
empírica sistemática à velha intuição de que as línguas eram realidades
históricas (ou realidades com história), intuição que emergia tanto da tese
monogênica, sustentada numa certa leitura do texto bíblico, de que todas as
línguas derivavam do hebraico; quanto, por exemplo, da percepção já em
Dante de que as línguas latinas tinham uma origem comum; ou, ainda, das
diferentes tentativas pós-medievais de estabelecer, com base em
comparações (embora ainda não “genéticas”, nem sistemáticas), correlações
entre línguas diversas. Sem esquecer, é claro, que a própria criação do
trabalho filológico entre os alexandrinos passava precisamente pela
percepção da mudança da língua no tempo.
A novidade da linguística do século XIX está em dar um caráter
sistemático para o trabalho de comparação gramatical e estabelecer, depois,
a tese de que correlações sistemáticas apontam para uma origem comum.
Como lemos no próprio Curso (p. 8): “(...) foi ele [Bopp] quem
compreendeu que as relações entre línguas afins podiam tornar-se matéria
duma ciência autônoma. Esclarecer uma língua por meio de outra, explicar
as formas duma pelas formas de outra, eis o que não fora ainda feito”.
2. A CONSTRUÇÃO DA IMANÊNCIA
Como dissemos anteriormente, a linguística se constituiu como ciência,
no sentido que a modernidade deu ao termo, a partir dos últimos anos do
século XVIII, quando William Jones, o juiz inglês que exercia seu ofício na
burocracia colonial em Calcutá, entrou em contacto com o sânscrito.
Impressionado com as semelhanças entre essa língua, o grego e o latim,
levantou a hipótese de que semelhanças de tal magnitude não poderiam ser
atribuídas ao acaso; era forçoso reconhecer que essas três línguas tinham
uma origem comum.
Esse evento desencadeia na Europa um movimento de estudos
comparativos e históricos que, por seu resultado, deve ser considerado,
aproveitando o julgamento de Raymond Williams (1921-1988), como um
dos principais períodos de toda a investigação erudita (1977, p. 25).
Por meio desse movimento investigativo, agrupou-se uma vasta
quantidade de dados e se incorporou ao pensamento, de modo sistemático, o
princípio de que as línguas mudam no tempo; de que é possível relacionar
grupos de línguas por terem elas uma demonstrável origem comum; e de
que é até possível reconstruir, por comparações e inferências, vários
aspectos desses estágios anteriores não documentados.
O sucesso inicial do empreendimento comparativo e histórico é notório.
Em poucos anos, se conseguiu estabelecer uma série de blocos de
correspondências, principalmente de natureza fonético-fonológica e de
morfologia gramatical, entre línguas e subfamílias de línguas. A própria
metáfora de famílias de línguas, aliás, nasceu nesse contexto intelectual.
Desenvolveu-se também um entendimento de que essas
correspondências indicavam os caminhos percorridos pela história. Elas
foram aos poucos sendo apresentadas em enunciados descritivos de
natureza estrutural que tinham mais ou menos a seguinte forma:
Dados os elementos a, b, c numa língua X e o contexto estrutural E, resultaram, na língua Y ou
na subfamília W, as mudanças p, q, r.
As chamadas leis de Grimm e Verner, que tratam da mutação das
consoantes oclusivas no ramo germânico das línguas indo-europeias, é um
enunciado que pode muito bem exemplificar o que acabamos de dizer.
De forma simplificada, podemos resumir um aspecto das leis de Grimm
e Verner da seguinte maneira:
As consoantes /p/, /t/, /k/ do indo-europeu, quando precedidas de sílabas fracas, passam, no
gótico, respectivamente a /b/, /d/, /g/; e, nos demais contextos, a /f/, /q/, /h/ respectivamente.
Esse tipo de enunciado, característico do trabalho histórico-comparativo,
embora apenas descritivo e definidor de blocos de correspondências, vai
favorecer, segundo nosso entendimento, a construção, por ilação, da
poderosa ideia da imanência, isto é, a ideia de que fatos linguísticos são
condicionados só e apenas por fatos linguísticos.
Foi essa prática de análise — bem sedimentada na tradição histórica do
século XIX e magistralmente aplicada por Saussure em sua Mémoir sur le
système primitif des voyelles dans les langues indo-européenes (defendida
em Leipzig em 1878 e ali publicada no ano seguinte) — que preparou as
bases para o corte saussuriano.
3. ASPECTOS DA LINGUÍSTICA DO SÉCULO XIX
Como sabemos, é bastante volumosa a produção de estudos linguísticos
no século XIX. Vamos aqui apenas fazer rápida menção aos autores e
momentos mais destacados daquela produção. Com isso, queremos alcançar
dois objetivos: primeiro, dar um panorama do desenrolar dos estudos
linguísticos durante aquele século; segundo, apontar os eixos que,
construídos naquela tradição, se mantêm até hoje em diferentes práticas de
análises históricas.
3.1. Os pioneiros
Como dissemos antes, costuma-se localizar o nascimento da linguística
nos fins do século XVIII. É o tempo em que intelectuais europeus
iniciaram, em meio a uma conjuntura de crescente interesse pelas
civilizações antigas, o estudo do sânscrito, língua clássica dos hindus.
Toma-se como primeira data referencial deste período o ano de 1786,
em que William Jones apresentou sua comunicação à Sociedade Asiática de
Bengala. Nela, Jones destacava as inúmeras semelhanças (em tal grau que,
segundo ele, não poderiam ser atribuídas ao acaso) entre o sânscrito, o latim
e o grego. Só haveria uma forma de explicar tais semelhanças: uma origem
comum dessas três línguas. A elas, Jones acrescentava ainda o céltico, o
gótico e o persa antigo. Se outros já haviam apontado as semelhanças,
parece ser Jones o primeiro a levantar a hipótese da origem comum.
Há, na sequência, uma verdadeira febre de estudos sânscritos:
escreveram-se gramáticas e dicionários; ao mesmo tempo, fundou-se em
Paris, em 1795, a Escola de Estudos Orientais, que se tornou um centro
particularmente importante de investigação, onde estudaram os intelectuais
alemães — Friedrich Schlegel (1772-1829) e, em particular, Franz Bopp
(1791-1867) — que desenvolveram, em seguida, a chamada gramática
comparativa.
F. Schlegel publicou, em 1808, seu texto Über die Sprache und die
Weisheit der Inder (Sobre a língua e a sabedoria dos hindus), que é
considerado o ponto de partida dos estudos comparativos germânicos. Nele,
o autor, entre outras coisas, reforçou a tese de W. Jones sobre o parentesco
do sânscrito com o latim, o grego, o gótico e o persa, parentesco que se
evidenciava principalmente pelos elementos gramaticais (fonológicos e
morfológicos).
Foi F. Bopp quem levou esse programa adiante e publicou, em 1816, seu
livro Über das Konjugationssystem der Sanskritsprache in Vergleichung mit
jenem der griechischen, lateinischen, persischen, und germanischen
Sprache (Sobre o sistema de conjugação da língua sânscrita em comparação
com o da língua grega, latina, persa e germânica),no qual demonstrou, pela
comparação detalhada da morfologia verbal de cada uma dessas línguas, as
correspondências sistemáticas que havia entre elas, fundamento para se
revelar empiricamente seu efetivo parentesco.
Estava criado assim o método comparativo, procedimento central nos
estudos de linguística histórica. É por meio dele que se estabelece o
parentesco entre línguas, a partir do pressuposto de que entre elementos
gramaticais de línguas aparentadas existem correspondências sistemáticas
(e não apenas aleatórias ou casuais), passíveis de serem estabelecidas por
meio de uma comparação cuidadosa e rigorosa. Com esse procedimento,
podemos não só explicitar o parentesco entre línguas, como também
determinar, por inferência, características da língua ascendente comum de
um certo conjunto de línguas.
Bopp, durante as décadas seguintes, estendeu seu trabalho comparativo
para incluir o lituano, o eslavo, o armênio, o celta e o albanês, reunindo, em
1833 e 1852, os resultados de suas investigações na sua abrangente
Vergleichende Grammatik des Sanskrit, Zend, Griechischen, Lateinischen,
Litauischen, Gothischen und Deutschen (Gramática comparativa do
sânscrito, persa, grego, latim, lituano, gótico e alemão), obra básica dessa
área pioneira em linguística histórica, constituída pelos estudos das línguas
indo-europeias.
Costuma-se dizer que o estudo propriamente histórico foi estabelecido
por Jacob Grimm (1785-1863), um dos irmãos que ficaram famosos, no
contexto do Romantismo alemão, coletando histórias infantis tradicionais.
Em seu livro Deutsche Grammatik — cuja primeira edição é de 1819,
mas cujo ponto de referência é a segunda edição publicada, com o texto
completamente remodelado e ampliado, em 1822 — Grimm interpretou a
existência de correspondências fonéticas sistemáticas entre as línguas como
resultado de mutações regulares no tempo.
Temos, nesse sentido, uma diferença importante entre os trabalhos
iniciais de Bopp e Grimm. O primeiro intencionava fundamentalmente
estabelecer o parentesco entre as línguas. Para isso, trabalhou com textos de
diferentes línguas sem pretender seguir nenhuma cronologia entre eles.
Grimm, por sua vez, ao estudar o grupo germânico das línguas indo-
europeias, tinha seus dados distribuídos numa sequência de catorze séculos
e pôde assim estabelecer a sucessão histórica das formas que estava
comparando.
A partir dos estudos de Grimm, ficou claro que a sistematicidade das
correspondências entre as línguas tinha a ver com o fluxo histórico e, mais
especificamente, com a regularidade dos processos de mudança linguística.
Nas décadas seguintes a esse trabalho pioneiro, ampliou-se a pesquisa
comparativa, criando-se áreas especializadas com o estudo específico de
cada subgrupo das línguas indo-europeias. Nessa linha, destaca-se
principalmente o desenvolvimento da chamada filologia (ou linguística)
românica, nome que se deu ao estudo histórico-comparativo das línguas
oriundas do latim, iniciado sistematicamente pelo linguista alemão
Friedrich Diez (1794-1876). Ele publicou, entre 1836 e 1844, uma
gramática histórico-comparativa das línguas românicas e, em 1854, um
dicionário etimológico dessas línguas.
Interessante observar que a filologia românica teve um papel
fundamental no desenvolvimento dos estudos histórico-comparativos.
Enquanto em outros subgrupos só se alcançam os estágios mais antigos por
reconstrução hipotética em razão da inexistência de registros escritos, no
subgrupo românico a documentação em latim é extensa, o que permitiu um
importante refinamento metodológico dos estudos históricos: com uma
situação em que as formas ascendentes são atestadas, foi possível reforçar a
confiabilidade nos procedimentos de método nos casos em que isso não
ocorria.
3.2. A obra de Schleicher
Na metade do século XIX, os estudos histórico-comparativos
conheceram, na obra do linguista A. Schleicher (1821-1867), uma
orientação fortemente naturalista. Botânico de formação e influenciado pelo
pensamento evolucionista proeminente à época, Schleicher formulou uma
concepção que tomava a língua como um organismo vivo, com existência
própria independente de seus falantes, sendo sua história vista como uma
“história natural”, isto é, como um fluxo que se realiza por força de
princípios invariáveis e idênticos às leis da natureza. Em outros termos, por
força de uma dinâmica que ocorre por necessidade.
Schleicher construiu uma obra bastante extensa que serviu de referência
durante as décadas seguintes, mesmo quando se criticava nele sua
concepção naturalista. Propôs uma tipologia das línguas e uma “árvore
genealógica” das línguas indo-europeias. Trabalhou intensamente num
projeto de reconstrução do que ele chamava de Ursprache (“língua
original”) indo-europeia, isto é, o estágio remoto (hoje em geral
denominado de proto-indo-europeu), donde se originaram essas línguas.
Nesse sentido, a obra de Schleicher representa uma síntese do saber
acumulado nessa área até seu tempo.
Dentre os outros trabalhos de Schleicher, destaca-se seu estudo
extensivo do lituano, publicado em 1856-57 e cujo mérito maior é o de ter
sido o primeiro estudo de uma língua indo-europeia feito a partir da fala e
não de textos, passo metodológico importante no desenvolvimento dos
estudos linguísticos em geral.
3.3. Os neogramáticos
O último quarto do século XIX ficou caracterizado como a época dos
neogramáticos, uma nova geração de linguistas relacionados com a
Universidade de Leipzig, à qual Saussure esteve diretamente vinculado. A
característica do programa desse grupo foi o questionamento dos
pressupostos tradicionais da prática histórico-comparativa (principalmente
seu descritivismo) e o estabelecimento de uma orientação metodológica
diferente e de um conjunto de postulados teóricos para a interpretação da
mudança linguística.
Esse programa acabou imprimindo uma direção forte à linguística
histórica a partir daí, a qual ou segue, nos fundamentos, a trilha dos
neogramáticos, ou polemiza com ela. Está, de certa forma, nessa tensão o
perfil característico da linguística histórica do século XX.
Costuma-se assumir o ano de 1878 como a data inicial do movimento
neogramático. Foi nesse ano que se publicou o primeiro número da revista
Morphologischen Untersuchungen (Investigações morfológicas), fundada
por Hermann Osthoff (1847-1909) e Karl Brugmann (1849-1919), cujo
prefácio, assinado pelos dois autores, é tido como o manifesto
neogramático.
Nele, Osthoff e Brugmann criticam a concepção naturalista da língua,
que a via como possuindo uma existência independente. Para eles, a língua
tinha de ser vista ligada ao indivíduo falante. Com isso, introduzia-se uma
orientação psicológica subjetivista na interpretação dos fenômenos de
mudança (a língua existe no indivíduo e as mudanças se originam nele) —
orientação que até hoje é bastante forte em muitos estudos históricos,
quando não no próprio senso comum.
Por outro lado, Osthoff e Brugmann diziam que o objetivo principal do
pesquisador não era chegar à língua original indo-europeia, que é uma
criação hipotética, mas, estudando as línguas vivas atuais, apreender a
natureza da mudança. Interessava-lhes, portanto, investigar os mecanismos
da mudança (desvendar os princípios gerais do movimento histórico das
línguas) e não apenas reconstruir estágios remotos das línguas. Nesse
sentido, temos aqui uma perspectiva diferente para os estudos históricos:
trata-se antes de criar uma teoria da mudança do que apenas arrolar
correspondências sistemáticas entre línguas e, a partir delas, reconstruir o
passado.
Os dois autores condenavam ainda nos antecessores o fato de que,
embora operando sob o pressuposto da regularidade da mudança,
costumavam, diante de irregularidades, facilmente interpretá-las como
resultado de exceções fortuitas e casuais.
Segundo Osthoff e Brugmann, admitir tais interpretações significaria, no
fundo, aceitar que as línguas não seriam suscetíveis de estudo científico.
Eles estabeleceram, então, o princípio — já intuído por alguns estudiosos
dessadécada de 1870, em especial A. Leskien (1840-1916) — de que as
mudanças sonoras se davam num processo de regularidade absoluta, isto é,
as mudanças afetavam a mesma unidade fônica em todas as suas
ocorrências, no mesmo ambiente, em todas as palavras, não admitindo
exceções (proposta que se substanciava nas chamadas leis fonéticas).
Em havendo exceções, de duas uma: ou o princípio regular efetivo ainda
era desconhecido (vale dizer: princípio existe, o que falta é encontrá-lo); ou
a regularidade da mudança havia sido afetada por ocorrência de
empréstimos vocabulares de outras línguas ou pelo processo da analogia.
Esta era entendida como a alteração na forma fonética de certos elementos
duma língua por interveniência de seus paradigmas gramaticais regulares.
Em outras palavras, a mudança por analogia era entendida como uma
interferência do plano gramatical no plano fônico, o que afetava, em
consequência, o caráter absoluto da mudança sonora e criava
irregularidades. Ao regularizar gramaticalmente as formas, a analogia
romperia a regularidade da mudança fonética. É por essa razão que os
neogramáticos entendiam que as exceções às leis fonéticas eram apenas
aparentes.
O pensamento neogramático teve seu grande manual no livro do
linguista alemão Hermann Paul (1846-1921) Prinzipien der
Sprachgeschichte, que, publicado em 1880 pela primeira vez, teve
sucessivas, renovadas e ampliadas edições e foi texto de referência para a
formação de linguistas nas primeiras décadas do século XX. Utilizamos
aqui a tradução portuguesa (1970) que se fez a partir da edição de 1921.
Paul negava, ainda em 1921, a possibilidade de uma linguística que não
fosse histórica:
Aquilo que se considera como um método não histórico, e contudo científico, de estudar a língua,
não é no fundo mais do que um método histórico incompleto, incompleto em parte por culpa do
observador, em parte por culpa do material de estudo (p. 28).
E propunha uma diretriz para os estudos da mudança linguística que,
indo além da mera observação dos fatos, deveriam “expor o mais
universalmente possível as condições de vida da língua, traçando assim de
uma maneira geral as linhas fundamentais duma teoria da evolução da
mesma” (p. 17), cujos resultados deveriam ser aplicáveis a todas as línguas
(p. 43).
Para ele, os princípios fundamentais da mudança linguística deveriam
ser buscados nos fatores psíquicos e físicos tomados como determinantes
dos objetos culturais como a língua. Assim, a linguística só precisava de
duas ciências: a psicologia e a fisiologia (mais daquela do que desta), para
apreender a realidade da mutação histórica das línguas.
Paul entendia que o fundamento da cultura era o elemento psíquico, que
a psicologia era a base de todas as ciências culturais (p. 17), e que só havia
uma psicologia individual. Esse psicologismo e subjetivismo radical
sustentavam sua tese de que a fonte de toda mudança linguística era o
indivíduo falante e de que a propagação da mudança se dava por meio do
que ele chamava de ação recíproca dos indivíduos, perspectiva sob a qual
pode-se dizer que ainda hoje trabalham muitos linguistas, em particular
(mas não exclusivamente) os gerativistas (embora estes assumam não um
psicologismo, mas um biologismo na base do processo).
Outra tese de Paul também bastante aceita entre esses linguistas
contemporâneos é a de que a mudança linguística é originada
principalmente no processo de aquisição da língua (ver Lightfoot, 1991 para
uma engenhosa formulação contemporânea dessa tese).
Numa breve avaliação dos neogramáticos, é preciso dizer que o rigor
metodológico que introduziram no enfrentamento dos problemas de história
das línguas teve particular importância no desenvolvimento da linguística
histórica.
Por outro lado, o conceito de lei fonética como princípio absoluto (isto
é, como princípio que só conhece condicionantes fonéticos e que se aplica
sem exceção a todas as palavras que satisfaçam igualmente as condições da
mudança) foi relativizado, em decorrência dos estudos empíricos, pelos
próprios neogramáticos (como Paul, por exemplo) ou por aqueles que,
embora críticos de certos aspectos, aceitaram, no geral, a orientação teórica
dos neogramáticos (como Bloomfield, por exemplo). Sem negar a
regularidade da mudança, passou-se a entender a “lei fonética” não como
um princípio categórico, mas como uma fórmula de correspondência entre
sistemas fonéticos sucessivos duma mesma língua nos diversos períodos de
sua existência. Mesmo assim, é importante destacar que a questão das leis
fonéticas (mais propriamente, a questão de como se processa a mudança
sonora, isto é, se ela ocorre de modo abrupto, atingindo todas as palavras ao
mesmo tempo, ou se de modo lento, atingindo progressivamente as
palavras) foi um dos pontos centrais dos debates e polêmicas posteriores
(ver Labov, 1981, para uma discussão contemporânea desse tema).
Para L. Bloomfield (1887-1949), grande parte dessa polêmica se deveu
apenas a questões terminológicas (cf. cap. 20 de seu livro Language). O
termo lei, segundo ele, nunca poderia ser entendido como um enunciado
absoluto, já que se estava tratando de fenômenos históricos; e, por outro
lado, que a formulação dos neogramáticos, de que tais “leis” não admitiam
exceções, era um modo inexato de dizer que fatores não fonéticos, tais
como a frequência ou o significado das palavras, não interferiam na
mudança sonora.
O ponto central da questão, segundo Bloomfield, é o escopo das classes
de correspondência fonética (isto é, a extensão da regularidade) e a
significação dos resíduos (isto é, as irregularidades). Os neogramáticos
introduziram o desafio de que os resíduos deviam receber uma análise
completa, não aceitando que fossem vistos como meros desvios ou
ocorrências casuais, fortuitas.
O desafio posto pelos neogramáticos é, em si, uma diretriz fundamental
para quem estuda os fenômenos de história das línguas e, acreditamos,
majoritariamente aceito pelos linguistas históricos. Nesse sentido, a herança
dos neogramáticos é fundamental. O questionável não é o desafio, mas a
forma de enfrentá-lo (via, por exemplo, interferências da chamada
analogia): os estudos empíricos têm mostrado que a realidade da história
das línguas envolve grande complexidade, e que soluções para fenômenos
irregulares, por meio de conceitos excessivamente vagos, como o da
analogia, ou de qualquer outro de caráter puramente interno, dificilmente
auxiliam a destrinçar tal complexidade.
Assim, a chamada analogia, embora muito clara nos casos exemplares
clássicos e ainda presente nas interpretações de fatos por linguistas
históricos, deve ser vista com bastante reserva. Primeiro, porque faz parte
de um arcabouço teórico que não levava em consideração, na compreensão
dos fenômenos da história, as relações entre língua e sociedade, relações
que os estudos de sociolinguística têm mostrado serem particularmente
relevantes para se entender a mudança linguística. O imanentismo
subjacente ao conceito de analogia, antes de esclarecer qualquer coisa,
acaba por obscurecer a compreensão dos fenômenos, na medida em que
escapa pela saída simples da existência de um princípio regularizador cuja
aplicação é totalmente aleatória (a analogia não se aplica sempre que há, em
tese, condições para tanto) e, portanto, dificilmente tratável por qualquer
princípio geral.
Por último, cabe questionar o psicologismo e o subjetivismo que
estavam na base da concepção dos neogramáticos. Essa redução da língua à
psique individual simplifica as questões, ao desconsiderar as complexas
questões que estão envolvidas na constituição e funcionamento da psique,
em especial a tensão entre o social e o individual.
O mesmo se pode dizer da ideia de que a mudança é originada no
processo de apreensão da língua pela criança, processo este que envolveria
sempre uma espécie de recriação individual da língua e, por isso,
condicionante da mudança. O primeiro problema desse tipo de interpretação
é dessocializar a criança, isto é, isolá-la, ignorando o contexto de suas
experiênciasinteracionais que são básicas no processo de apreensão da
língua. Além disso, há, de certo modo, nesse tipo de interpretação, a
necessidade de um pressuposto de sucessão discreta de gerações (uma
geração homogeneamente substituindo a outra), o que não tem, como
mostram os estudos sociolinguísticos, fundamento empírico (cf. Labov,
1982).
Podemos dizer que, desde o início, as formulações dos neogramáticos
provocaram a crítica de vários linguistas. O centro das polêmicas foi o
conceito de lei fonética, compreendida como um princípio imanente de
aplicação cega e sem exceções. Sem negar, em princípio, a existência de
regularidades na mudança, os linguistas que se opunham aos neogramáticos
não aceitavam o caráter categórico das leis fonéticas, isto é, não aceitavam
que as mudanças se espalhassem por toda a comunidade e por todos os itens
lexicais de modo totalmente uniforme.
Com base em estudos empíricos (principalmente dialetológicos), esses
linguistas mostraram que uma unidade sonora pode mudar de maneira
diferente duma palavra para outra, o que significa que a expansão das
mudanças é lenta, progressiva e diferenciada tanto no espaço geográfico,
quanto no interior do vocabulário, sendo isso decorrência do fato de as
condições de uso em que cada palavra se encontra não serem idênticas.
Adotar essa concepção não significa defender o caráter casual, fortuito,
da mudança; significa, isto sim, mostrar que a realidade da mudança é mais
complexa do que sugeria a formulação dos neogramáticos. Mais complexa,
porque tem a ver com o contexto concreto em que a língua é falada,
contexto este que de forma alguma é uniforme e homogêneo.
Embora sejam vários os linguistas que participaram dessa crítica aos
neogramáticos, foi o austríaco Hugo Schuchardt (1842-1927) certamente o
mais importante. Embora tivesse uma concepção subjetivista da língua (é
ainda o falante individual que lhe serve de ponto de referência), esse
linguista, ao se opor ao conceito de lei fonética, chamou a atenção para a
imensa gama de variedades de fala existente numa comunidade qualquer,
variedades essas condicionadas por fatores como o gênero, a idade, o nível
de escolaridade do falante, tema que voltará a ter proeminência com o
aparecimento da sociolinguística na década de 1960.
Mais do que isso, ele mostrou como essas variedades se influenciam
mutuamente, como as línguas em contacto — quer pela proximidade
geográfica, quer em decorrência de invasões, conquistas e intercruzamentos
étnicos e culturais — também se influenciam mutuamente, tema que voltará
a nos ocupar extensamente depois da obra de U. Weinreich na década de
1950. Foi dentro dessa perspectiva do contacto que Schuchardt deu atenção
sistemática aos pidgins e crioulos, línguas emergentes em situação de
contacto e de cujo estudo se podem tirar inúmeras contribuições para a
compreensão dos fenômenos linguísticos em geral e das mudanças em
particular.
Assim, considerando esse quadro heterogêneo, o autor buscou
compreender o processo de mudança linguística. Portanto, ao mesmo tempo
em que ele relativizava a concepção dos neogramáticos, abria uma trilha
que, questionando permanentemente um tratamento apenas ou
primordialmente imanentista dos fenômenos da mudança, vai introduzindo,
no correr do século XX, um tratamento em que o contexto social e cultural
da língua é visto como condicionante básico da variação e, dentro dela, da
mudança. É a trilha da dialetologia, de uma linguística sociológica (ao
modo de A. Meillet, por exemplo) e, mais recentemente, da
sociolinguística.
Essa tensão, no estudo da história das línguas, entre duas grandes
concepções sobre a mudança linguística, atravessará o século XX. Dela,
Rosa Virgínia Mattos e Silva (1996) deu-nos uma clara síntese, quando
distingue, de um lado, uma linguística histórica lato sensu de uma
linguística histórica stricto sensu; e, de outro, uma linguística diacrônica de
uma linguística histórica stricto sensu. Em suas palavras:
A rigor, a designação análise diacrônica só deveria ser utilizada quando se tratasse de estudos de
mudança no quadro teórico da teoria dos sistemas ou no quadro teórico da teoria da gramática,
em que os dados são argumentos empíricos para os modelos teóricos, abstratos. Num sentido
mais leve, continua-se a utilizar diacrônico por histórico, confundindo-se os dois conceitos. Uma
vez que, na atualidade, uma das abordagens mais proeminentes da mudança linguística se
encontra no modelo gerativista, que associa aquisição e mudança, vale ficar aqui destacado que,
nos dias que correm, linguística histórica e linguística diacrônica devem ser consideradas como
conceitos distinguíveis, como aliás não deveria deixar de ser.
Para sintetizar e concluir essas breves reflexões sobre alguns conceitos preliminares, cumpre
reafirmar que considerarei no desenrolar deste texto os conceitos de linguística histórica lato
sensu, que inclui descrições e interpretações sincrônicas datadas e localizadas, linguística
histórica stricto sensu, que se concentra na mudança linguística no tempo, levando em
consideração fatores intralinguísticos ou estruturais e fatores extralinguísticos ou sócio-históricos
e linguística diacrônica, que, tratando da mudança no tempo, se concentra no sistema ou na
gramática, depreensões teóricas que subjazem às línguas históricas.
4. WHITNEY E HUMBOLDT
O século XIX teve ainda dois outros importantes pensadores na área dos
estudos linguísticos: William D. Whitney (1827-1894) e Wilhelm von
Humboldt (1767-1835), cujas ideias tiveram influência nos desdobramentos
da linguística do século XX.
Whitney fez seus estudos universitários em Yale (EUA), tendo
frequentado, em seguida, no início da década de 1850, cursos na
Universidade de Berlim, onde foi aluno de Franz Bopp. Em seu retorno aos
EUA, tornou-se professor de sânscrito em Yale; escreveu uma gramática
dessa língua e ficou reconhecido como um dos melhores sanscritistas de seu
tempo. Foi dos primeiros linguistas a se interessar pelo estudo das línguas
indígenas da América do Norte e também um dos pensadores do século a se
ocupar de questões gerais sobre a linguagem.
Seu livro The life and growth of language, publicado em 1875, foi
traduzido, no mesmo ano, para o francês (teve 3 edições até 1880) e, no ano
seguinte, para o alemão (em tradução feita por Leskien, um dos fundadores
do movimento neogramático). Foi, assim, obra de grande circulação entre
os linguistas do fim do século XIX. Atraiu especialmente a atenção de
Saussure. No Curso há três referências a ele: uma só de passagem (p. 7) e as
outras duas particularmente relevantes para nosso argumento de que o
século XIX preparou extensivamente o corte saussuriano.
Na página 17, lemos uma crítica à tese de Whitney de que entre a
linguagem e o aparelho vocal não há nenhuma relação necessária; que os
seres humanos adotaram o aparelho vocal como poderiam ter escolhido, por
exemplo, o gesto, sem que a linguagem em si sofresse qualquer alteração.
Saussure critica-lhe a tese (“Sem dúvida, esta tese é demasiado
absoluta”), mas diz: “No ponto essencial, porém, o linguista norte-
americano parece ter razão: a língua é uma convenção e a natureza do signo
convencional é indiferente”.
Essa mesma discussão aparece com bastante mais detalhes no terceiro
curso, conforme as anotações de E. Constantin (Saussure, 1993, p. 8a):
O linguista americano Whitney que, por volta de 1870, tornou-se muito influente por meio de seu
livro The principles and the life of language [sic], causou espanto ao comparar as línguas a
instituições sociais. Nisso ele estava no caminho certo; suas ideias estão em concordância com as
minhas. “É, no fundo, fortuito”, ele disse, “que os homens tenham feito uso da laringe, dos lábios
e da língua para falar. Eles descobriram que era mais conveniente; mas se tivessem usado sinais
visuais ou manuais, a linguagem continuaria em essência exatamente a mesma; nada teria
mudado”. Ele estava certo, pois não atribuía grande importância à execução. Isso nos traz de
volta ao que estávamos dizendo: aúnica mudança seria a substituição das imagens acústicas que
eu mencionava por imagens visuais. Whitney queria erradicar a ideia de que, no caso de uma
língua, estávamos lidando com uma faculdade natural; de fato, instituições sociais se colocam em
posição oposta às instituições naturais (tradução nossa).
Voltando ao Curso, vamos encontrar Saussure dizendo: “Para mostrar
bem que a língua é uma instituição pura, Whitney insistiu, com razão, no
caráter arbitrário dos signos; com isso, colocou a Linguística em seu
verdadeiro eixo. Mas ele não foi até o fim e não viu que tal caráter
arbitrário separa radicalmente a língua de todas as outras instituições” (p.
90).
Por esses trechos, podemos observar que Saussure tinha suas
discordâncias com Whitney, mas, mais importante, não escondia suas
muitas concordâncias com aquele autor, em especial quanto à ideia de que
os signos linguísticos são arbitrários e convencionais; e quanto à concepção
de língua como uma instituição social, em oposição à concepção da língua
como organismo natural. A esse respeito, encontramos a asserção forte de
Saussure de que Whitney, com essas ideias, havia posto a linguística em seu
verdadeiro eixo (asserção que aparece também nos manuscritos, como
comentaremos a seguir). Saussure via, porém, a necessidade de insistir
sempre em sua própria perspectiva de que a língua é uma instituição social,
mas diferente das demais instituições sociais (o que, segundo ele, não tinha
sido percebido adequadamente por Whitney, embora este tivesse um
entendimento claro de outro aspecto muito caro a Saussure — o da
autonomia da língua de suas substâncias).
Essa ligação (esse diálogo) com as ideias de Whitney é ainda mais
evidente nos manuscritos saussurianos (Saussure, 2002, p. 203 e seg.). Há
nesse material um longo esboço de um artigo em que Saussure trabalhava
em 1894 sobre aquele autor.
Aí encontramos Saussure enfatizando a contribuição de Whitney com a
expressão que voltará no Curso: em contraste com outras concepções, a
proposta de Whitney de tratar a linguagem como uma instituição social
“mudou o eixo da linguística” (p. 211). Do mesmo modo, estará aí a
apologia de Whitney como “o primeiro generalizador que inculcou nos
linguistas uma perspectiva mais correta daquilo que era geralmente o objeto
tratado sob o nome de linguagem” (p. 204).
Nesse mesmo manuscrito, Saussure delineará — a partir da ideia de
Whitney de que a linguagem é uma instituição pura (um sistema de signos
independente, ou seja, uma forma, no sentido do Curso) — a importância
de se tratar a linguagem como uma instituição “sem análogo” (p. 211) e de
elaborar para ela uma análise não histórica (p. 209).
As ideias do Whitney “linguista geral” (“le premier généralisateur”)
foram, portanto, uma peça central na construção da linguística saussuriana.
Por isso, vale a pena resumi-las rapidamente aqui conforme se pode ler em
seu texto The life and growth of language.
Whitney defendia a necessidade de uma ciência autônoma da linguagem
que deveria diferenciar-se do estudo histórico-comparativo (sem negá-lo,
em razão das “duas faces” da linguagem: sistema e história) e ser
independente das ciências naturais e da psicologia. Seu objeto seria a
linguagem enquanto sistema de signos arbitrários e convencionais, visto
não como um mero agregado de partículas, mas como um conjunto de
partes ligadas entre si e ajudando-se mutuamente; como um sistema
ordenado de articulações com relações que o percorrem em todos os
sentidos. Em suma, a linguagem como uma instituição social (e não natural)
e como um sistema autônomo (definido por relações imanentes).
O senso de sistema (a língua como uma organização) a que nos
referimos acima, estava também presente em Humboldt quando este
afirmava que nenhum elemento poderia ser estudado fora da forma da
língua (no sentido que ele dava à palavra forma — isto é, “o elemento
constante e uniforme no trabalho mental de elevar o som articulado a uma
expressão do pensamento, quando percebido em sua mais completa
compreensão e sistematicamente apresentado” (p. 50). Temos aqui, é claro,
um outro quadro epistemológico, muito diferente, nos seus grandes
pressupostos, dos quadros de Whitney e Saussure. Contudo, há um traço
comum: a concepção de língua como uma totalidade organizada, em que o
elemento só faz sentido no conjunto, traço que será fundamental para a
linguística estrutural do século XX.
Talvez uma das diferenças fundamentais esteja no fato de que Humboldt
não pensava a forma da língua como uma forma gramatical, como um
sistema de signos, portanto: “... ao dizermos forma da língua não estamos
de modo algum fazendo alusão meramente à assim chamada forma
gramatical” (p. 51). A forma da língua para ele remete a todos os aspectos
do trabalho mental contínuo da construção da expressão. Em outras
palavras, o modo de ser da língua é a atividade (energeia), o trabalho do
espírito; “é o trabalho mental continuamente reiterado de fazer o som
articulado capaz de expressar o pensamento” (p. 49).
Humboldt vinha de família muito rica e influente na Prússia. Foi
diplomata e exerceu cargos na administração de seu país, sendo o criador da
Universidade de Berlim (1810), ainda hoje o grande modelo das
universidades modernas. Sua obra linguística costuma ser apresentada como
extensa e dificilmente suscetível de sistematização. Ele era dono de uma
erudição enciclopédica e de uma paixão pelas línguas. Sua vida abastada
lhe deu condições de estudos, viagens e contactos contínuos com grande
parte da intelectualidade europeia de seu tempo. Era, portanto, um
intelectual de interesses múltiplos, o que, certamente, contribuiu para uma
produção pouco sistematizável. A esse respeito, é interessante reproduzir as
palavras de Cassirer (1874-1945) que, em seu livro A filosofia das formas
simbólicas (1923), muito se inspirou nas reflexões de Humboldt:
Essencialmente, Humboldt é um pensador sistemático, mas ele se mostra hostil a toda e qualquer
técnica de sistematização apenas exterior. Ocorre, assim, que o seu empenho em sempre
apresentar em cada um dos pontos de sua análise simultaneamente a totalidade de sua concepção
da linguagem resulta na ausência de uma distinção clara e inequívoca desta totalidade. Os seus
conceitos nunca são os produtos puros e livres da análise lógica; neles, em vez, vibra sempre uma
tonalidade estética do sentimento, uma atmosfera artística, que anima a exposição, mas, ao
mesmo tempo, encobre a articulação e a estrutura das ideias (p. 140-141).
Ao que se sabe, Humboldt conheceu muitas das gramáticas de línguas
ameríndias feitas pelos missionários; esteve em contacto epistolar
permanente com pesquisadores que lidavam com as línguas indígenas na
América do Norte; esteve no País Basco para conhecer-lhe a língua; e,
frequentando em Paris a École des Langues Orientales Vivantes, entrou em
contacto com línguas da Ásia (em especial, as semíticas, o chinês e a língua
kawi, da ilha de Java). A esta última língua, Humboldt destinou sua
investigação de maior porte, publicada postumamente em 1836, contendo
uma introdução de caráter mais geral, em que encontramos suas concepções
sobre a natureza da linguagem.
Para ele, linguagem e pensamento constituem uma unidade. Nesse
sentido, a língua não é entendida como apenas a manifestação externa do
pensamento (algo que vem depois do pensamento), mas aquilo que o torna
possível. Ela tem, nesse sentido, um caráter constitutivo, viabilizando a
elaboração conceitual e os atos criativos da mente. É por isso que Humboldt
afirma que a língua é um processo, uma atividade (energeia) e não um
produto (ergon). Entretanto, mesmo sendo um processo, ela é, ao mesmo
tempo, algo que permanece (o ergon acumulado que cada geração recebe e
que constitui, no seu conjunto, a visão de mundo da nação, o espírito do
povo) e algo transitório (porque é inerentemente energeia, isto é, trabalho
mental criativo contínuo, um verdadeiro ato artístico que opera sobre o
ergon permanentemente, reconfigurando-o).
A Humboldt fascinava a diversidade daslínguas, mas acreditava que
atrás dela havia uma forma geral: “Pois na língua a individualização de uma
conformação geral é tão maravilhosa que podemos dizer com igual correção
que a humanidade como um todo tem apenas uma língua, e que cada ser
humano tem uma que lhe é própria.” (p. 53). Em outras palavras, o trabalho
mental elaborador da expressão num indivíduo é o mesmo de toda a
humanidade. Assim, sua concepção universalizante não diz respeito a uma
gramática universal entendida como um sistema, mas como uma dinâmica
mental de elaboração da expressão. Num certo sentido, então, aproxima-se
da tradição universalizante que atravessa os séculos e tem suas formulações
bem conhecidas no século XX, mas afasta-se de todas elas por conceber a
língua não como um sistema gramatical, mas como uma atividade mental
sistemática de elaboração. Para Humboldt, a gramática como tal (como um
a priori) e a comunicação são absolutamente acessórias. O essencial é o
trabalho elaborador do espírito.
Vale a pena, neste ponto, voltar ao texto de Cassirer e reproduzir a
súmula que faz do pensamento de Humboldt sobre esse tema específico
(p.146-147):
A fragmentação da linguagem em palavras e regras será sempre um trabalho grosseiro e inútil da
análise científica — pois a essência da linguagem não reside jamais nestes elementos ressaltados
pela abstração e pela análise, mas tão somente no trabalho eternamente repetido que realiza o
espírito para tornar o som articulado capaz de expressar o pensamento. Em cada língua este
trabalho tem início em determinados pontos centrais, expandindo-se, a partir deles, para diversas
direções — e, apesar disso, esta multiplicidade de processos criadores se funde afinal, não na
unidade objetiva de uma criação, mas na unidade ideal de uma atividade que, em si, está
subordinada a regras específicas. A existência do espírito somente pode ser concebida em
atividade e como atividade, e o mesmo é válido para cada existência particular que somente é
apreensível e possível através do espírito. Consequentemente, o que denominamos de essência e
forma da linguagem nada mais é do que o elemento permanente e uniforme que podemos
detectar, não em uma coisa, mas no trabalho realizado pelo espírito para fazer do som articulado
expressão de um pensamento.
Raymond Williams (1977, p. 35) considera que a grande herança de
Humboldt para o pensamento reside no fato dele apontar para a linguagem
como uma atividade. O mesmo Williams dirá que V. N. Voloshinov (1894-
1936), em seu Marxismo e filosofia da linguagem (1929), veio dar à
linguagem como atividade seu caráter social, arrematando sua discussão
com as seguintes palavras:
Isso permitiu a ele [Voloshinov] ver “atividade” (o aspecto mais forte da ênfase idealista depois
de Humboldt) como atividade social e ver “sistema” (o aspecto mais forte da nova linguística
objetivista) em relação a esta atividade social e não, como for o caso até então, formalmente
separada dela. Desse modo, ao apoiar-se nos aspectos fortes das tradições alternativas, e ao
colocá-las lado a lado deixando visível suas fragilidades radicais, ele abriu caminho para um
novo tipo de teoria que era já necessária havia mais de um século (tradução nossa).
5. EM DIREÇÃO A UMA FILOSOFIA DA INTERAÇÃO
A revisão panorâmica do pensamento linguístico do século XIX que
realizamos acima aponta para um certo conjunto de formulações que, feitas
naquela conjuntura, vão recorrer (sob as mais diferentes formas) durante o
século XX e nos ocupam ainda hoje.
O século XIX nos deixou, por exemplo, o delineamento claro da língua
como uma realidade com história (sob mutação permanente no eixo do
tempo); reorganizou nossa percepção da diversidade (demonstrando
sistematicamente a existência de uma rede de relações ‘genéticas’ entre
várias línguas diferentes); deu forma ao senso de sistema (exercitando
perspectivas biologizantes, psicologizantes e sociologizantes, bem como
lançando as condições para o grande corte sistêmico saussuriano). E, se a
carruagem ia se encaminhando celeremente para a estação da estrutura, não
faltou também ao século XIX elaborar um modo de pensar a língua não
como sistema (gramatical), mas como uma atividade sistemática (do
espírito humano), perspectiva que voltará no século XX sob as mais
variadas formas.
Por outro lado, face à importância que o interacional (novamente, em
suas mais diferentes concepções) veio a ter no século XX, acreditamos que
não seria demais acrescentar a este texto algumas considerações sobre
elaborações filosóficas que colocaram essa questão já no século XVIII e,
principalmente, no correr do século XIX.
É fácil constatar que, no século XX, embora tenha prevalecido, nos
estudos da linguagem, a ótica estrutural (pode-se dizer que, nessa área, o
século XX, pelo menos em sua segunda metade, foi o império da estrutura
— para roubar a expressão de Hugo Mari et al. 1999, p. 150), o tema da
interação, da intersubjetividade, do dialógico, ou — como preferem alguns
autores — o tema da relação EU-TU foi copiosamente tratado, mesmo que
à margem do grande império e sem afetá-lo.
A questão que podemos, então, colocar é a de como esse tema se
formulou e passou a constituir uma problemática do pensamento moderno.
Ou seja: identificar os primeiros momentos da entrada em cena da relação
EU-TU e, principalmente, investigar a partir de que momento a linguagem
se tornou elemento nuclear dessa problemática.
Trata-se, então, de realizar um breve percurso filosófico do tema que
possa interessar às linguísticas da interação, da intersubjetividade, do
dialógico; que possa subsidiá-las numa compreensão mais ampla do seu
próprio modo de estudar a linguagem. Em outras palavras, trata-se de
projetar a problemática dessas linguísticas num eixo de grande
temporalidade, o que significa dizer transcender um pouco a pequena
temporalidade, a temporalidade imediata das teorizações, e olhá-las como
parte de uma reflexão maior que, embora dispersa, difusa, heterogênea e
descontínua, estende-se no tempo, isto é, não começa com as teorizações de
hoje, nem nelas se esgota.
Ao que tudo indica, é no século XVIII que o tema da relação EU-TU
emerge pela primeira vez no pensamento moderno. Para entender melhor
sua pertinência e sua conjuntura, lembremos, primeiramente, que o
indivíduo, já desde o século XVI, é o grande elemento axiomático do
pensamento moderno. Dele se deduz o resto. Um dos grandes emblemas
dessa perspectiva é, certamente, o sujeito cartesiano, o sujeito transparente a
si mesmo no ato imediato de refletir sobre si e de dar fundamento à sua
atividade cognitiva. Para lá do sujeito, a relação que importa é a do sujeito
com o objeto (a relação EU-ELE), a relação cognitiva em si do indivíduo.
A se confiar na leitura que Robert G. Solomon (1983) faz desse período,
pode-se dizer que da história da filosofia moderna — de Descartes e Locke
a Kant — os outros (isto é, os TUs) estão silenciosamente ausentes.
Excluindo as inúmeras diferenças existentes entre as várias formulações
desse modo de pensar, poderíamos ir adiante e dizer que essa linhagem de
pensamento continua forte ainda hoje (apesar de todas as sucessivas
críticas) como o substrato organizador de importantes reflexões, seja na
filosofia, seja na ciência, sobre a subjetividade, a cognição e a linguagem,
para ficar nas áreas mais próximas de nós.
A outra linhagem, aquela que vai, aos poucos, tornar a relação EU-TU
relevante para reflexões sobre esses mesmos temas, emerge, como
dissemos, no contexto da filosofia alemã do século XVIII, um período de
excepcional vitalidade e complexidade. Naquela conjuntura, há, inclusive,
um filósofo que explicitamente declara ser o primeiro a levantá-la. E é dele
que falaremos aqui em mais detalhes.
Trata-se de Friedrich H. Jacobi (1743-1819). Ele costuma não ser
incluído entre os pesos pesados do período. Contudo, exerceu, pelas suas
polêmicas, pela sua constante atividade epistolar e por sua argumentação
antirracionalista, uma influência não desprezível sobre seus
contemporâneos.
Além de escreverdois romances filosóficos (Edward Allwills
Briefsammlung, publicado em parte em 1776; e Woldemar: ein Seltenheit
aus der Naturgeschichte, com partes publicadas no ano seguinte), Jacobi
elaborou uma crítica ao pensamento de Spinoza, publicando um primeiro
texto em 1785 (Über die Lehre des Spinoza, in Briefen an den Herrn Moses
Mendelssohn), que veio a ter uma nova e ampliada edição em 1789.
No meio tempo (1787), publicou uma resposta às críticas que
Mendelssohn e outros leitores fizeram à primeira edição. Esse livro-
resposta recebeu o título David Hüme über den Glauben, oder Idealismus
und Realismus.
Posteriormente, detalhou sua perspectiva teísta num texto escrito em
1799 em defesa de Fichte (que fora acusado de ser ateu em razão de um
imbroglio decorrente da publicação de um texto seu na revista de que era
editor — Philosophisches Journal — e, por isso, fora afastado de sua
cátedra na Universidade de Iena).
Por fim, Jacobi redigiu e publicou em 1802 uma crítica a Kant (Über
das Unternehmen des Kritizismus).
No Prefácio à edição de 1815 da obra David Hüme über den Glauben,
em nota de rodapé, Jacobi (1994, p. 554) declara explicitamente ter sido ele
o primeiro a proclamar inequivocamente, na obra sobre Spinoza, a
proposição “O EU é impossível sem o TU”.
Mas já numa carta de 16 de outubro de 1775, dez anos, portanto, antes
da obra sobre Spinoza, Jacobi (1994, p. 66) dizia (tradução nossa):
Os filósofos analisam e argumentam e explicam: até que ponto nós realmente experienciamos
que algo existe fora de nós? Eu tenho de rir dessas pessoas, entre as quais eu mesmo estive
incluído. Abro meus olhos ou meus ouvidos, ou estendo minhas mãos, e naquele exato instante
eu sinto o Tu e Eu; o Eu e Tu. Se tudo que está fora de mim, fosse separado de mim, eu
mergulharia no insensível, na morte. Tu, tu me dás vida. (...). Deus, eu me conformo contigo e
em ti, separado e um, Eu em Ti, e Tu em Mim.
Nessa citação, estão presentes os dois sentidos da relação EU-TU nos
argumentos de Jacobi. Primeiro, o TU aparece em seus textos como
equivalente ao NÃO EU, isto é, ao mundo exterior à consciência. Nesse
sentido, para Jacobi, a consciência (o EU) não é um pré-dado absoluto, mas
se constitui na relação com o NÃO EU. Aqui, ainda, o substrato do
raciocínio é a relação sujeito-objeto (o TU entra como a designação do
NÃO EU, da NÃO PESSOA). Contudo — e aqui sua novidade — essa
relação não está dada numa perspectiva unilateral (ou seja, na perspectiva
do primado do EU e da apreensão cognitiva do objeto pelo sujeito), mas de
efetiva inter-relação, isto é, a consciência (o EU) não aparece como uma
unidade imediatamente presente a si mesmo, mas como uma unidade que se
constitui na relação com o NÃO EU (“Tu, tu me dás vida”). Sem essa inter-
relação o EU mergulharia na morte.
Há, porém, um segundo sentido para o TU em Jacobi, especificamente
uma outra pessoa. Nessa perspectiva, parece ser ele mesmo quem primeiro
põe em cena como pertinente a relação interpessoal, muito embora em sua
argumentação essa outra pessoa seja primordialmente Deus.
Para melhor apreender essa questão, lembremos que Jacobi estava se
contrapondo a Spinoza. Este, em sua Ética, entre outras coisas,
argumentava contra a ideia de um Deus transcendental e, mesmo, contra
todas as representações antropomórficas de Deus, terminando por
identificar Deus com a Natureza (o seu famoso dito Deus sive Natura).
Ora, para Jacobi, essa argumentação era inteiramente inaceitável.
Primeiro, porque se tratava de um Deus deduzido, produto da razão. E, de
acordo com ele, se o Homem toma a razão como o único instrumento do
conhecimento, fica condenado às fronteiras do humano, o que o leva a um
inevitável desespero metafísico. Isso porque o Homem, segundo nosso
autor, tem uma aspiração pelo infinito. Contudo, se, para satisfazer essa
aspiração que palpita nele e constitui sua dignidade, ele se remete ao
pensamento especulativo, às concatenações lógicas, ele se entrega às mais
desesperantes experiências por não conseguir transcender seus próprios
limites e, portanto, por não conseguir dar sentido àquela aspiração pelo que
não tem começo nem fim. É preciso, por isso, escapar da miragem mortal
do entendimento apenas discursivo, lógico-conceitual.
Ele falava aqui de uma insuperável regressão infinita inerente a todo
pensamento em que uma proposição remete a outra, na medida em que não
é possível ir além do finito por esse meio. A dedução lógica não é falsa,
mas ela nunca nos dá o real, aquilo que constitui o infinito. A realidade
infinita não pode ser objeto de ciência; só o coração pode conhecê-la por
meio do sentir, por meio da convicção imediata, que é superior e anterior às
posições racionais. O mesmo sentir que nos impele a procurar o infinito,
no-lo dá — sem que possamos saber como — num ser infinito; e é por ele
que temos acesso ao verdadeiro, ao real.
E aqui temos a segunda contraposição a Spinoza. Para Jacobi (fiel à sua
formação pietista), Deus tem de ser um Outro; ele não pode ser uma
substância indistinta na Natureza, nem apenas um conceito ou um valor
abstrato, mas é um ser transcendente, uma personalidade real que, ao se dar
a conhecer a nós pela experienciação de um sentimento anterior e acima da
razão, também determina a individuação do Eu. Não pode haver tal
individuação sem um outro, sem uma determinação genuína, isto é, sem um
indivíduo estar numa relação significante com outro indivíduo de modo a
que cada um se perceba como tal e apartado do outro. Em outros termos, o
EU só pode se perceber como distinto na relação com o TU. Vale aqui
também o dito anterior de que o EU é impossível sem o TU.
Em outras palavras, para Jacobi não pode haver um EU exceto em
referência a um TU que o transcenda. E esse TU remete primeiro e antes de
mais nada a Deus, cuja transcendência e simultânea imanência (Deus está,
ao mesmo tempo, fora e dentro de mim, porque se deixa conhecer a meu
coração) em relação a cada sujeito criado servem para individualizar este
sujeito radicalmente. Uma vez individualizado, um EU está em condições
de encontrar um outro EU igualmente criado e individualizado e os dois
podem, então, entrar numa relação genuína, porque, sendo cada um
irredutível ao outro, podem eles se defrontar como indivíduos de fato, isto
é, como radicalmente distintos e não obstante relacionados
significativamente.
Em seu Fenomenologia do espírito (1807), G. Hegel (1770-1831) vai
um pouco mais longe e argumenta que a autoconsciência nasce do outro,
passa necessariamente pelo espaço da consciência alheia (“A consciência-
de-si é em-si e para-si enquanto e porque é em-si e para-si para outra
consciência-de-si; ou seja, ela só é na medida em que é um ser
reconhecido”, in: Rauch & Sherman, 1999, p. 20 — tradução nossa).
Essa questão será retomada pelo filósofo hegeliano L. Feuerbach (1804-
1872). As referências desse filósofo a uma razão intersubjetiva são bastante
dispersas. No entanto, há um trecho, em Über Spiritualismus und
Materialismus, de 1866, que será suficiente para mostrar a direção de seu
pensamento. Dizia ele (Gesammelte Werke, v. 11, p. 176):
Certamente que o idealismo sabe (...) que sem tu não há eu; mas este ponto de vista no qual há
um eu e um tu, é para ele apenas o empírico, não o transcendental, quer dizer, verdadeiro, não é o
primeiro e originário, mas um ponto de vista subordinado, que é válido para a vida, mas não para
a especulação.
Fica claro, por este trecho, que, para Feuerbach, o intersubjetivo tem um
papel constitutivo (“transcendental, primeiro, originário”) e não apenas
subordinado. Eleva-se aqui o intersubjetivo a um efetivo a priori. Nada se
diz ainda sobre a linguagem que, nessa perspectiva, só entrará de fato em
cena com a obra do Círculo de Bakhtin, na segunda metade da década de
19201 (cf. Faraco, 2003).
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1. Ver a esse respeito o capítulo Interacionismo no campo linguístico neste mesmo volume, e
Faraco (2003).
2
O ESTRUTURALISMO LINGUÍSTICO:
alguns caminhos
Rodolfo Ilari
1. AS NOTÍCIAS DOS PRIMEIROS VIAJANTES
O estruturalismo teve sobre os estudos da linguagem, no Brasil, um
impacto enorme, típico de uma escola dominante. Seu advento se deu no
Brasil durante os anos 1960 e coincidiu com o reconhecimento da
linguística como disciplina autônoma; assim, muitos professores e
pesquisadores que, naquela altura, já tinham uma larga experiência de
investigação, foram atraídos pela nova orientação e a utilizaram para
sistematizar suas doutrinas (o caso mais célebre é o de Mattoso Câmara Jr.);
muitos jovens que se interessavam por literatura e haviam sido ensinados a
encarar a linguística como uma disciplina auxiliar no estudo da poesia e da
prosa literária inverteram suas prioridades, e passaram a encarar a descrição
linguística como um objetivo autônomo; e muitos estudantes que chegavam
então à universidade tiveram a ilusão (compreensível) de que os estudos da
linguagem sempre haviam sido objeto de uma disciplina chamada
linguística, identificada pura e simplesmente com a linguística estrutural.
Por volta de 1970, pode-se dizer que o estruturalismo já era, no Brasil, a
orientação mais importante nos estudos da linguagem, e que tinha
contribuído para criar um novo tipo de estudioso, o linguista, que já então
dispunha de um espaço próprio em face de duas figuras mais antigas — a
do gramático (interessado na sistematização dos conhecimentos que
resultam num uso “correto” da variante padrão) e a do filólogo (interessado
no estudo das fases antigas da língua, e na análise de textos representativos
dessas fases).
Hoje, o linguista brasileiro não precisa mais justificar sua própria
existência em face de outros estudiosos da linguagem, mas a diversificação
de escolas é muito grande e, a despeito de existirem algumas orientações
muito prestigiadas (como o gerativismo, o “funcionalismo” e a análise do
discurso), não existe uma orientação hegemônica.
Repetindo uma história que é bastante comum no desenvolvimento das
ciências, o estruturalismo linguístico se impôs no Brasil vencendo as
resistências de outras tradições de análise, e acabou, ele próprio, sendo
superado pelas novas tendências de uma disciplina que tinha contribuído
para consolidar. Nessas circunstâncias, isto é, em contraste com as
orientações que se opuseram historicamente a ele, tendemos a pensar no
estruturalismo linguístico como um movimento uniforme e coeso mas, no
que concerne ao Brasil, é preciso considerar pelo menos dois focos de
irradiação distintos, localizados respectivamente no Rio de Janeiro e em
São Paulo.
No Rio de Janeiro, atuou desde a década de 1930 Joaquim Mattoso
Câmara Jr., que seria mais tarde um dos criadores do Setor de Linguística
do Museu Nacional. Tendo estudado e lecionado na América do Norte num
momento em que a universidade brasileira vivia sob forte influência da
ciência europeia, Mattoso Câmara Jr. foi um profundo conhecedor da
linguística produzida nos dois continentes, no período entre as duas guerras.
Praticou a fonologia na linha do estruturalismo de Praga (ver item 3.1 deste
artigo), e se declarou até o fim da vida um discípulo dessa orientação, mas
isso não o impediu de divulgar as ideias dos linguistas americanos,
particularmente Edward Sapir (que foi um dos principais precursores do
estruturalismo americano e se empenhou em dar à linguística o status de
ciência) e Roman Jakobson (um autor sobre o qual falaremos mais
extensamente na seção 3.4). Seu livro Princípios de linguística geral (1941)
foi o primeiro manual de linguística publicado na América do Sul, e teve
uma importância decisiva para a afirmação da linguística como disciplina
autônoma; teve sucessivas edições, que dão um espaço cada vez maior aos
princípios e métodos da linguística estrutural.
Em São Paulo, o estruturalismo linguístico se fez presente nos cursos de
graduação e pós-graduação da USP, onde, no final da década de 1960,
atuaram, entre outros, Eni Orlandi, Izidoro Blikstein e Cidmar Teodoro
Paes. Esta geração de professores era parcialmente formada por antigos
bolsistas retornados da França, que criaram condições para a leitura de
autores como Luis Hjelmslev, André Martinet, Bernard Pottier, Roland
Barthes e Algirdas J. Greimas, além, evidentemente, do mestre de todos,
Ferdinand de Saussure.
Na sequência desta exposição, procurarei esclarecer as principais
diferenças de motivação e de orientação que distinguem o estruturalismo
americano e o estruturalismoeuropeu. O leitor fica desde já avisado de que,
dada a complexidade do assunto (estaremos falando de discussões teóricas e
práticas descritivas que se estenderam por mais de meio século e que se
desenvolveram de maneira independente em dois continentes), será
inevitável fazer afirmações genéricas e parcialmente inexatas.
Comecemos pela tradição estruturalista europeia.
2. O SAUSSURIANISMO
Para a afirmação do estruturalismo na Europa, foi altamente relevante o
sucesso do livro Cours de linguistique générale, publicado em 1916 como
obra póstuma do linguista suíço Ferdinand de Saussure. As circunstâncias
de publicação desse livro são singulares. Em primeiro lugar, o livro não foi
escrito por Saussure, mas por alguns de seus alunos da Universidade de
Genebra, que se valeram para isso das notas de aula que haviam tomado nos
anos letivos de 1907-8, 1908-9 e 1910-11 (Saussure faleceu em 1913,
depois de um período de doença). Os próprios redatores do livro — Bally,
Riedlinger e Sechehaye — difundiram a ideia de que Saussure levava para
as aulas roteiros taquigráficos que eram destruídos logo em seguida, e que,
ao morrer, não deixou escritos, mas essa informação logo foi desmentida.
Essas circunstâncias fizeram com que o livro, apesar de seu enorme
sucesso, fosse desde logo colocado sob a suspeita de não estar expressando
o “verdadeiro” pensamento do mestre. Explica-se assim que, por várias
décadas depois da morte de Saussure, tenham sido lançadas publicações que
procuravam recuperar as “fontes” do Cours, ou que se propunham a revelar
o “verdadeiro Saussure”. Em 1969, apareceram as Sources manuscrites du
Cours de linguistique générale, publicadas por R. Godel. Antes disso,
haviam sido lançados na Universidade de Genebra os Cahiers Ferdinand de
Saussure, uma série cujo título é um verdadeiro programa, e que prestou
serviços inestimáveis na divulgação de materiais que ensejam a descoberta
de um “outro Saussure” — entre eles a correspondência, os escritos inéditos
e os cadernos de outros alunos além daqueles que tinham sido utilizados
para a redação do Cours. Na década de 1960, o crítico literário Starobinsky
deu início a uma série de ensaios nos quais dá conta de uma preocupação
que Saussure alimentou no final da vida, o estudo dos “anagramas”. Ao
analisar textos do latim antigo e do germânico, Saussure tinha chegado à
hipótese de que esses textos, além de permitir a leitura linear que fazemos
hoje (na qual segmentamos, reconhecemos e interpretamos palavras
adjacentes na cadeia escrita), ensejariam outra leitura, baseada num certo
tipo de repetição dos fonemas nos textos. Na feliz expressão de Starobinsky,
essa outra leitura faria aparecer “palavras sob as palavras”, permitindo ouvir
os nomes de personagens míticas ou de divindades que, por causa de algum
tabu religioso, não era permitido pronunciar.1 Saussure formula a hipótese
de que esse tipo de prática da poesia era consciente na literatura da
antiguidade em algumas cartas mandadas em 1907-1908 a seu antigo aluno,
o linguista Antoine Meillet. É uma hipótese forte, que altera não só a
maneira de conceber a poesia antiga, mas a própria noção de leitura.
Um outro Saussure ainda, também diferente do que aparece no Cours,
toma forma nas edições críticas do Cours de linguistique générale, que
também começam a ser publicadas na década de 1960. A mais célebre
dessas edições é a de Tullio de Mauro: dotada de um enorme aparato crítico
(de notas, citações e referências bibliográficas), ela permite entender mais
claramente o contexto histórico de que se alimentou o pensamento de
Saussure; permite também acompanhar, passo a passo e quase dia a dia, o
que Saussure efetivamente ensinou em suas aulas. A imagem geral é de um
pensamento em evolução, no qual as teses que hoje atribuímos a Saussure
estão ainda tomando forma, de maneira tensa e, às vezes, pouco clara —
exatamente o contrário do que sugere a exposição chapada do Cours.
É preciso então lembrar que o estruturalismo linguístico, se teve como
referência constante as ideias expostas no Cours de linguistique générale,
foi também sendo alimentado pela descoberta desses outros Saussures
supostamente mais “verdadeiros”, cujas ideias estão em relação dialética
com as do primeiro. Como essa dialética não aparece no Cours, podemos
dizer que o livro foi fruto de uma simplificação excessiva, que contribuiu
para seu enorme sucesso, mas também pode ser encarada como uma de suas
principais fraquezas. Mas em que consiste, afinal, o saussurianismo? De
onde vinha seu potencial de inovação?
2.1. Toda revolução científica, toda orientação teórica inovadora parte
de um pequeno conjunto de metáforas que produzem um modo novo de
enfocar os fatos a serem explicados. Em oposição ao período vivido pela
linguística histórica do século XIX, durante o qual a metáfora de base para
a compreensão dos fenômenos linguísticos tinha sido a ideia evolucionista
da transformação das espécies, Saussure elegeu como noção central para a
compreensão do fenômeno linguístico a noção de valor. Essa noção foi
exposta por Saussure em uma das últimas aulas que ministrou antes da
doença final, e não é casual que assim tenha sido; de fato, a noção
saussuriana de valor só pode ser compreendida à luz de uma série de
distinções teóricas e decisões que a preparam, entre as quais se incluem a
distinção língua X fala, a distinção forma X substância, a noção de
pertinência, e as noções de significante, significado e signo. Trataremos
primeiramente de tudo isso, e voltaremos a falar de valor somente na seção
2.5. Se tivermos sucesso em nossa exposição, deverá ficar claro que na
teoria do valor confluem e se confirmam várias teses saussurianas.
Comecemos, pois, por falar da distinção entre língua e fala, à qual
Saussure chegou refletindo sobre várias experiências do dia a dia, uma das
quais foi o jogo. Tanto a experiência de jogar como a experiência de
comunicar-se através de uma língua historicamente dada envolvem
interação com outras pessoas, e prestam-se a ser analisadas e comparadas
de vários pontos de vista diferentes; assim, não admira que, ao longo dos
tempos, o jogo e a linguagem tenham sido comparados várias vezes, com
resultados diferentes.2 Em Saussure, o jogo é evocado antes de mais nada
para contrapor os inúmeros desenvolvimentos que se podem prever a partir
da “regra do jogo” ao conjunto sempre limitado de jogadas que
efetivamente se realizam quando o jogo acontece. A ideia de que no jogo de
xadrez são possíveis certas jogadas mas não outras (por exemplo, a torre
pode atacar qualquer peça adversária, mas tem que fazê-lo deslocando-se
em sentido perpendicular aos lados do tabuleiro) leva, em suma, a valorizar
o que não se observa, ou seja, a “regra do jogo”, encarada como condição
de possibilidade do jogo ou, no caso da língua, como condição da
comunicação. Por esse caminho, chega-se à mais fundamental das
oposições saussurianas, a que se estabelece entre a língua e a fala, ou seja
entre o sistema e os possíveis usos do sistema. Saussure opôs claramente o
sistema, entendido como entidade abstrata, e os episódios comunicativos
historicamente realizados. Além disso, estabeleceu com toda clareza que o
objeto específico da pesquisa linguística teria que ser a “regra do jogo”, isto
é, o sistema, e não as mensagens a que ele serve de suporte. Essa decisão
era muito radical para a época, e trouxe muitas consequências. Com ela,
Saussure não só apontava para um tipo de pesquisa totalmente diferente do
que tinha praticado durante toda sua vida (ele foi um grande professor de
filologia germânica e história das línguas indo-europeias, e um de seus
principais interesses era justamente o estudo dos textos antigos), mas
provocou uma mudança de atitude de que sentimos ainda hoje os efeitos.3
Como se trata de uma mudança cujos resultados ainda nos afetam, é difícil
para nós entender claramente o que acontecia antes; mas podemos ter uma
ideia menos confusa de seu alcance se pensarmos no que distingue (ainda
hoje) a orientação do filólogo e a orientação dolinguista. Simplificando
muito, o filólogo vale-se de quaisquer conhecimentos pertinentes (inclusive
os linguísticos) para colocar à nossa disposição a melhor explicação
possível sobre a forma original de um texto antigo e sobre a interpretação
que o autor esperava para ele no momento em que foi escrito. Já o linguista,
quando dirige sua atenção para textos específicos, tende sobretudo a usá-los
como evidência de que, no momento em que foram produzidos, o sistema
linguístico oferecia aos usuários da língua determinadas possibilidades
(sintáticas, semânticas, fonéticas, ortográficas), e de que esse modo de ser
do sistema é que permitiu dar às mensagens determinadas formas e
determinadas interpretações.
A oposição entre os atos linguísticos concretos e o sistema que lhes
serve de suporte ficou conhecida como a “oposição língua/fala (ou
oposição langue/parole)”. Para melhor compreendê-la, é útil referi-la a
algumas distinções que foram elaboradas, no mesmo espírito, pelas ciências
sociais. A referência mais óbvia são, nesse sentido, os estudos do sociólogo
Émile Durkheim sobre o suicídio. Nada é, à primeira vista, mais individual
do que o suicídio; entretanto, o suicídio só assume seu significado enquanto
ato que se contextualiza no interior de uma determinada sociedade.
Analogamente, os indivíduos que utilizam a linguagem o fazem sempre por
iniciativa pessoal, mas sua ação verbal só tem os efeitos que tem pela
existência de um sistema que o usuário compartilha com os outros membros
da comunidade linguística de que faz parte. À luz dessa analogia, não
admira que Saussure tenha qualificado a língua como um fenômeno social,
e que tenha caracterizado a linguística como um ramo da psicologia social.
Provavelmente, nenhuma outra escola linguística, até Saussure, tinha
afirmado com tanta força a separação entre a dimensão individual e a
dimensão social do funcionamento da linguagem. Seguindo Saussure, os
estruturalistas não só entenderam que seria preciso tratar separadamente do
comportamento linguístico das pessoas e das regras a que obedece esse
comportamento, mas ainda entenderam que o uso individual da linguagem
(a parole) não poderia ser objeto de um estudo realmente científico.
Chegou-se assim a uma situação extrema em que toda a atenção foi
dedicada às “regras do jogo”, isto é, ao sistema, ao passo que os episódios
de seu uso foram relegados a uma disciplina secundária (denominada às
vezes “linguística da fala”, outras vezes “estilística”), à qual coube a tarefa
“menos nobre” de legislar sobre fatos sujeitos a uma regularidade precária.
2.2. Voltemos, porém, à metáfora do jogo e ao conceito de valor. Todos
nós sabemos que é possível substituir uma peça perdida (por exemplo, no
jogo de xadrez, uma torre que se extraviou) por um outro objeto qualquer, e
jogar o jogo sem problemas, desde que convencionemos que a peça
improvisada (seja ela um botão ou uma pedra) representará a que se
extraviou. Essa experiência banal, além de reforçar a importância do
“regulamento do jogo”, revela uma propriedade desse regulamento que
poderia passar despercebida: a matéria de que são feitas as peças conta
menos do que a função que lhes é atribuída convencionalmente. Transferida
para a língua, essa “descoberta” leva diretamente a outra tese saussuriana:
que a descrição de um sistema linguístico não é a descrição física de seus
elementos, e sim a descrição de sua funcionalidade e pertinência.
Os fonólogos estruturalistas fizeram um uso exemplar desse princípio.
Ensinaram que, para levantar o inventário das unidades fonológicas de uma
língua, é preciso distinguir as diferenças de pronúncia que são apenas
físicas (articulatórias ou sonoras), daquelas que permitem significar uma
diferença de função. Por esse método, descobre-se antes de mais nada que
certas diferenças acústicas ou articulatórias que parecem consideráveis
quando são avaliadas em termos físicos (impressionísticos ou
experimentais) podem ser desprezadas numa análise rigorosamente
linguística, porque não são investidas de nenhuma função. É o caso das
diferentes maneiras como é pronunciada em português do Brasil a primeira
letra de palavras como rato ou romance: na pronúncia típica de um gaúcho,
a consoante inicial é uma vibrante apicoalveolar, produzida pela vibração da
ponta da língua junto à parte interna dos dentes; na fala de um paulista ou
de um carioca, o r é, ao contrário, uma consoante velar. O esforço muscular
necessário para produzir a pronúncia gaúcha é muito maior, e a impressão
acústica é diferente (a tal ponto que somos capazes de identificar a origem
gaúcha de quem fala). Mas, do ponto de vista da fonologia, essa diferença
não interessa, porque as duas pronúncias levam às mesmas unidades
linguísticas — no caso, às mesmas palavras. Observando outras
propriedades físicas das palavras, chegamos às mesmas conclusões.
Pensemos, por exemplo, nas duas maneiras como podemos pronunciar o
som que grafamos i na palavra enfiar: a escolha de uma pronúncia surda ou
sonora para esse som não tem qualquer implicação para o sentido, que será
o mesmo em qualquer das duas hipóteses (enfiar = “introduzir num
orifício”). Mas a diferença de sonoridade tem consequências importantes se
for aplicada ao som grafado f; neste caso, passaremos de enfiar a enviar,
isto é, de uma palavra que significa “introduzir num orifício” para uma
palavra que significa “despachar”, “remeter”, “mandar”. Diremos então que
a mesma propriedade física [+sonoro/-sonoro] pode ter ou não ter função
linguística, a depender do contexto.
Obviamente, uma mesma diferença física pode ser portadora de uma
distinção numa língua e não sê-lo em outra. É sabido, por exemplo, que o
sistema vocálico do latim clássico utilizava a quantidade, isto é, distinguia
vogais longas e vogais breves. Aplicada ao som [o], essa diferença permitia,
por exemplo, que a palavra populus evocasse ora o significado “povo,
gente”, ora o significado “choupo, árvore”. Hoje, nenhuma das línguas
derivadas do latim utiliza linguisticamente essa diferença: nossos políticos
podem dirigir-se à vontade a seus eleitores chamando-os de “meu povo” ou
de “meu poooooovo”; isso não fará com que se trate de duas palavras
diferentes.
Essas considerações, essenciais para compreender os objetivos do
fonólogo, exemplificam com pouco custo uma noção que é central para a
linguística saussuriana — a de pertinência ou relevância. Dir-se-á, por
exemplo, que a duração é fonologicamente pertinente em latim mas não é
pertinente em português, e que as diferenças físicas apontadas a propósito
do r de rato e romance e do i de enfiar não são fonologicamente pertinentes
em português. Por sua vez, a noção de pertinência explica a popularidade de
que gozou na linguística estruturalista o procedimento de análise conhecido
como teste do par mínimo, que consiste, em última análise, em apontar um
contexto (ou, como também se diz, um “ambiente”) linguístico mínimo em
que uma diferença de forma corresponde a uma diferença de função.4
2.3. Uma vez assimilada a ideia de pertinência, chega-se naturalmente à
decisão de querer considerar como objetos de análise apenas aqueles
elementos da fala que podem ser considerados como pertinentes, no sentido
que acaba de ser caracterizado. Falar em pertinência, no caso, significava
excluir como não linguísticas uma série de informações que a tradição
gramatical, a linguística histórica de inspiração neogramática e a fonética
experimental do século XIX (representada por autores como Abade
Rousselot) tinham considerado com bastante atenção. A maneira mais feliz
de formular essa exclusão foi a representação a que chegou o linguista
dinamarquês Luis Hjelmslev, elaborando a distinção feita anteriormente por
Saussure entre forma e substância. Explicitando de maneira particularmente
feliz a intuição saussuriana, Hjelmslev chamou de forma tudo aquilo que
uma determinada língua institui como unidades através da oposição; à
forma, ele opôs a substância, definida como o suporte físico da forma, que
tem existência perceptiva masnão necessariamente linguística. Assim, nas
palavras caro e carro é possível distinguir uma diferença que é ao mesmo
tempo de substância e de forma; mas entre as duas pronúncias possíveis em
português do Brasil para carro (velar ou apical) há apenas uma diferença de
substância. Além da distinção entre forma e substância, Hjelmslev
considerou uma outra distinção, a que se estabelece entre expressão e
conteúdo; cruzando essas duas distinções (expressão X conteúdo, forma X
substância), chegou a um mapa onde é possível delimitar com muita clareza
a definição de língua com que trabalharam tipicamente os estruturalistas. O
mapa é este:
Forma Substância
Expressão Forma da expressão (1) Substância da expressão (2)
Conteúdo Forma do conteúdo (3) Substância do conteúdo (4)
Para o linguista estruturalista, os quatro campos identificados como (1),
(2), (3) e (4) sempre existem quando há linguagem; mas apenas a parte
cinza tem interesse linguístico; por exemplo, a substância da expressão
(identificada com os sons da fala) é encarada sem hesitação como o assunto
de uma disciplina não linguística — a fonética — à qual se atribui, no
máximo, um caráter auxiliar. Por sua vez, a substância do conteúdo,
identificada com o pensamento, é deixada aos cuidados de várias disciplinas
científicas ou filosóficas, que tratarão de estudar a realidade empírica e a
maneira como é conceitualizada; esse trabalho de conceitualização sempre
existe, mas só se torna “visível” para o linguista quando se traduz em
diferenças que possam ser capturadas por testes de pertinência.
2.4. Para ilustrar a noção de pertinência, utilizei até aqui exemplos que
dizem respeito apenas às casas (1) e (2) do quadro hjelmsleviano (plano da
expressão), a propósito do qual propus o seguinte teste: modificar as
propriedades de um som (por exemplo, alterar a sonoridade do f interno de
enfiar), verificando se isso nos faz “passar” para uma palavra de sentido
diferente (por exemplo, enviar): quando isso acontece, ultrapassamos um
limite que, para o português, é de natureza linguística. O mesmo método
pode, evidentemente, ser aplicado às casas (3) e (4) (plano do conteúdo):
Quando modificamos aspectos da significação que associamos
convencionalmente a uma determinada palavra, podemos chegar a uma
construção de significados para a qual uma outra palavra é necessária. É o
que acontece se tomarmos o conceito convencional de “carro” e dele
retirarmos determinações como “automotivo”, “para transporte de
passageiros”, “com 4 rodas”, “movido a gasolina ou álcool” etc.: haverá um
momento em que esse processo nos levará a palavras como carroça, vagão
de carga ou carriola. É, em suma, o significante, na medida em que se
distingue de outros significantes, que dá legitimidade linguística ao
significado; e é o significado, na medida em que se distingue de outros
significados, que dá legitimidade linguística ao significante; chegamos
assim a entender algumas das passagens mais difíceis e ao mesmo tempo
mais originais do Curso de linguística geral: aquelas em que o texto
procura explicar a indissolubilidade da relação entre significado e
significante, lançando mão de uma série de metáforas “de contacto”. Numa
dessas metáforas, a língua é comparada à superfície do mar: a língua não é
nem a água do mar (uma substância), nem o céu que a cobre (outra
substância), mas sim a forma que a superfície das águas assume em
contacto com o céu. É nesse contacto que se configura uma forma. Numa
outra metáfora, a língua é comparada a uma folha de papel, que vai sendo
recortada por uma tesoura: é impossível recortar uma face do papel sem
recortar simultaneamente a outra face. O que se procura mostrar, através
dessas metáforas, é que, para compreender cada uma das unidades que
compõem uma língua, temos que relacioná-la (opô-la) a todas as demais
unidades daquela mesma língua. No começo do século XX, essa ideia era
extremamente inovadora, contrária mesmo ao senso comum, e não admira
que, para colocá-la ao abrigo de possíveis confusões, Saussure tenha
sentido a necessidade de criar os termos significante, significado e signo,
que nasciam comprometidos com sua concepção essencialmente opositiva
das unidades linguísticas.
Há uma concepção de linguagem, até hoje bastante difundida, segundo a
qual as palavras nomeiam seres cuja existência precede a língua e cujas
propriedades são determinadas independentemente dela (é a concepção que
está presente no mito bíblico segundo o qual Adão teria dado os nomes às
coisas). Foi precisamente a essa concepção tradicional e ingênua de
linguagem que Saussure contrapôs a noção de signo linguístico: os dois
componentes do signo saussuriano — o significante e o significado — não
devem sua existência a nenhum fator externo à língua, mas tão somente ao
fato de que estão em oposição a todos os demais significados e significantes
previstos pela língua.
2.5. No início da seção 2.1, eu disse que toda teoria científica inovadora
se caracteriza por propor um novo enfoque sobre o objeto estudado e que,
no caso do saussurianismo, esse novo enfoque é dado pela noção de valor.
Tendo exposto as noções de pertinência e de signo linguístico, podemos
finalmente comentar esta última noção. Falar em valor linguístico a
propósito de Saussure é, antes de mais nada, ressaltar a natureza opositiva
do signo. O que fundamenta a especificidade de cada signo linguístico não é
(como na história de Adão) o fato de que ele se aplica a certos objetos do
mundo, e não a outros; é a maneira como a língua coloca esse signo em
contraste com todos os demais. Nesse sentido, há uma diferença muito
grande entre a teoria saussuriana do valor e a maneira tradicional de
entender as unidades linguísticas, uma diferença que fica evidente tão logo
se tenta caracterizar as mesmas realidades objetivas usando línguas
diferentes. Suponha-se, por exemplo, que queremos falar da carne que
vimos na seção de resfriados do supermercado, e que vamos fazê-lo em
português e em inglês. Como se trata de carne bovina, falaremos em
português de carne de boi (ou de vaca, conforme a região): em português, o
nome da carne (bovina, de boi) é o mesmo que o do animal. Em inglês (por
um acidente histórico que remonta à conquista da Inglaterra pelos
normandos), os nomes dos animais, respectivamente, ox e cow, diferem de
beef, que não se aplica aos animais, mas serve para indicar de que animal
procede a carne. Diante desses fatos, o senso comum ao qual se opôs
Saussure afirmaria que carne de vaca equivale a beef, porque ambos falam
dos mesmos alimentos; pela teoria saussuriana do valor, ao contrário, não
há equivalência possível, pois a língua inglesa faz um recorte a mais (ox,
animal bovino, vs. beef, carne do animal bovino) que para o português não
é pertinente. Chegaremos a conclusões análogas se, explorando um pouco
mais o vocabulário das carnes, nos perguntarmos pela equivalência entre os
nomes dos comerciantes de quem as compramos: um americano em visita
ao Brasil, nos anos 1950, poderia sem dúvida chamar de butcher o nosso
açougueiro; mas isso não seria argumento para atribuir o mesmo valor
linguístico a essas duas palavras, porque naquela época havia no Brasil um
segundo tipo de vendedor de carnes, o bucheiro (especializado em vender
miúdos de boi de porta em porta), que também precisaria ser traduzido por
butcher. Esses exemplos mostram que as línguas repartem de maneiras
diferentes os mesmos domínios práticos e conceituais; se passássemos a
falar de cortes de carne, as coisas se complicariam mais ainda, porque os
cortes não são os mesmos.
Ao falar em valor linguístico, Saussure deu realce ao fato de que a
relação significante/significado sempre deve ser considerada à luz do
sistema linguístico em que o signo se insere, e não das situações práticas em
que a língua intervém ou das realidades extralinguísticas de que permite
falar. Essa recomendação vai no sentido de uma linguística imanentista, ou
seja, de uma linguística que procura minimizar as relações que a língua
mantém com o mundo. Vai também no sentidode dar prioridade lógica às
relações que se estabelecem no interior do sistema, e não às unidades entre
as quais essas relações se estabelecem. Contrariando uma longa tradição
que colocava em correspondência palavras e ideias, e tratava as palavras
como unidades autônomas de análise, Saussure, em suma, tinha chegado à
ideia de um sistema onde “tudo está imbricado com tudo” (“un système oú
tout se tient”); embora o Cours de linguistique générale faça um uso muito
limitado e quase marginal da palavra estrutura, pode-se por isso dizer que
Saussure tinha descoberto na língua uma construção legitimamente
estrutural, isto é, uma construção onde o sistema (isto é, o conjunto de
relações entre os objetos), em termos lógicos, é mais fundamental que os
próprios objetos.
2.6. Da concepção de signo que acabo de expor, passa-se naturalmente a
outro célebre princípio saussuriano, o da arbitrariedade das línguas, mas
aqui é necessário um alerta, porque há pelo menos dois sentidos diferentes
em que se poderia falar de arbitrariedade a propósito de Saussure. O
primeiro é aquele que as pessoas usam quando especulam sobre a forma e a
história de certas palavras, perguntando se entre os sons e os objetos
significados há algum tipo de semelhança. Embora isso seja uma forma de
reintroduzir os objetos, o mundo,5 o próprio Saussure parece ter feito uma
reflexão desse tipo sobre o substantivo francês fouet, “chicote”. Para muitos
falantes do francês, essa palavra é uma onomatopeia, que evoca o estalar de
um chicote; a propósito dessa palavra parece então correto afirmar que a
relação entre significante e significado não é arbitrária, mas motivada. O
Curso de linguística geral considera essa hipótese mas logo a descarta,
alegando que, se voltarmos no tempo, veremos que o antepassado de fouet é
a palavra latina fagutus: aí, o estalar do chicote desapareceu; e o exemplo
de fouet, que poderia ser tomado como argumento para afirmar o caráter
motivado da linguagem, aparece como um efeito casual da evolução
fonética que corroeu a forma original da palavra latina.
Quer concordemos ou não com essa explicação, o exemplo de fouet põe
em jogo um conceito em que arbitrariedade se define por oposição a
motivação, semelhança de sons ou, como também se diz, iconicidade.6
Além deste conceito de arbitrariedade, que é por assim dizer o mais
“banal”, o mais próximo do senso comum, Saussure desenvolveu também
um segundo conceito de arbitrariedade, bem mais radical, que resulta
diretamente da concepção de signo linguístico como unidade de natureza
opositiva exposta na seção anterior. Reportemo-nos à metáfora da folha de
papel: como vimos, ela nos faz pensar que não é possível recortar uma das
faces da folha sem recortar simultaneamente a outra; e isso significa que,
pela concepção de signo adotada em Saussure, uma língua historicamente
dada precisa recortar simultaneamente os significados e os significantes.
Mas, segundo a reflexão saussuriana, não há nada que permita prever por
onde passarão os cortes, ou seja, o continuum dos sons e o continuum da
experiência podem ser colocados em contato recortando a folha de uma
infinidade de maneiras distintas; o número de línguas logicamente possíveis
é infinito; o fato de que as línguas reais são as que são é uma espécie de
acidente histórico. Em outras palavras, a ideia radical de arbitrariedade que
Saussure elaborou consiste no seguinte: uma vez estabelecido que toda
língua relaciona sons e sentidos articulando-os mediante uma forma, a
forma adotada para realizar essa articulação varia de uma língua
historicamente dada para outra.
A noção radical de arbitrariedade tem tudo a ver com a noção de valor
linguístico, e os exemplos que poderiam ser dados acabam mostrando que
cada língua organiza seus signos através de uma complexa rede de relações
que não será reencontrada em nenhuma outra língua. Acabamos de
exemplificar esse fenômeno através do exemplo caseiro das palavras ox,
beef e boi; para quem quiser um exemplo mais ilustre, que foi
frequentemente evocado entre os próprios estruturalistas, vale a distinção
entre as palavras latinas niger e ater: ambas significavam “preto” (ou
“negro”), mas havia entre elas uma diferença, relacionada a brilho (niger
significava o negro “brilhante”, ao passo que ater significava o negro
“opaco”). Dizer que as línguas historicamente dadas são arbitrárias
significa, no caso, que não há nada que impeça duas línguas — mesmo duas
línguas da mesma família, como o português e o latim — de segmentar a
realidade de modos diferentes, aplicando conjuntos diferentes de signos a
uma mesma realidade objetiva.
Nem todos os estruturalistas assimilaram a concepção radical de
arbitrariedade que está presente no Curso de linguística geral; para os que o
fizeram, é fácil imaginar os problemas que ela causou: um desses
problemas coloca-se a propósito da tradução, pois um raciocínio bastante
óbvio leva então a negar a própria possibilidade de traduzir: se cada língua
recorta a seu modo a experiência, como explicar que as pessoas traduzem
de uma língua para outra? essa prática que todos conhecemos e que é real,
não fica excluída em princípio? o que significa traduzir num mundo em que
as línguas são arbitrárias?;7 outro problema diz respeito à liberdade do
falante em relação à língua que ele fala: se a cada língua corresponde um
certo modo de mapear a experiência em estruturas verbais, devemos
entender que nossas possibilidades expressivas ficam predeterminadas pelo
código que usamos? Alguns estruturalistas pensaram que sim, outros, mais
cuidadosos, preferiram entender que tudo pode ser expresso em qualquer
língua natural, e que a tirania que a língua exerce sobre nós não se
manifesta pela impossibilidade de verbalizar o que quer que seja, mas pela
obrigatoriedade de dizer certas coisas, se quisermos dizer outras (por
exemplo, quem quer falar de um determinado rio em francês precisa
explicitar se se trata de um rio que deságua no mar ou de um rio que
deságua em outro rio, escolhendo entre as palavras fleuve ou rivière). Na
seção 3.4. veremos que esta maneira de encarar o “problema da tradução”
foi uma das tantas contribuições do linguista de origem russa Roman
Jakobson.
2.7. Nosso quadro das doutrinas saussurianas não seria completo se não
mencionássemos uma última oposição, que foi extremamente rica em
consequências. Trata-se da oposição entre sincronia e diacronia. Seria um
equívoco pensar que os estudiosos da língua anteriores a Saussure nunca
pensaram em descrever o estágio a que uma determinada língua tinha
chegado em algum momento de sua história (sincronia), ou imaginar que
eles não trabalharam nunca com alguma noção de sistema, limitando-se a
considerar as mudanças que a língua sofre ao longo do tempo (diacronia).
Mas o ensinamento de Saussure, que valorizava na língua tudo aquilo que é
sistemático, e declarava que a diacronia só se interessa por formas isoladas,
acabou por dar aos estudos sincrônicos uma posição de primeiro plano, uma
posição de vanguarda científica.
Verifica-se, assim, que as gerações posteriores a Saussure não só
aceitaram o desafio de descrever as línguas estudadas mediante cortes
“sincrônicos”, mas também começaram a interessar-se por línguas difíceis
de abordar de um ponto de vista histórico, pela total ausência de
documentos escritos. Apontando como objetivo primordial a depreensão da
estrutura das línguas, o estruturalismo criou a convicção de que as línguas
mal documentadas — por exemplo as línguas ágrafas, ou as variantes não
padrão das línguas de cultura — constituíam um objeto de reflexão tão
legítimo como as grandes línguas que os europeus vinham estudando havia
séculos. No caso, dois objetivos foram frequentemente afirmados: a)
estudá-las como se fossem completamente desconhecidas, o que significa,
para o bem e para o mal, livrar-se da influência da tradição gramatical
greco-latina; b) olhar para sua história como uma sucessão de sincronias.8
Essa “virada” fez com que as linguísticas estruturais fossem tipicamente
sincrônicas, em contrastecom o que havia acontecido no século XIX. Mas
quais são essas “linguísticas estruturais”?
3. DESENVOLVIMENTO DE LINGUÍSTICAS “ESTRUTURAIS”
A resposta à pergunta do final da seção anterior não é óbvia. Não
ajudaria nada, por exemplo, tentar listar as obras ou os capítulos de obras
escritos a partir dos anos 1950 cujos títulos fazem referência expressa à
noção de estrutura. Há um número enorme de trabalhos com essa
característica, e eles são tão diferentes entre si que seria impossível dizer o
que têm em comum sem cair no vago. Que ligação se pode estabelecer, por
exemplo (para citar apenas algumas das obras que chamaram a atenção dos
linguistas brasileiros), entre a Sintaxe estrutural de Lucien Tesnière, a
Semântica estrutural de Algirdas Julien Greimas, a Linguística estrutural
de Konstantin Šaumjan e a Estrutura da língua portuguesa de Mattoso
Câmara Jr.? A frequência com que os autores incluíram o adjetivo
estrutural em seus títulos, a partir de um certo momento, deixa
praticamente de nos informar sobre o conteúdo das obras, e apenas mostra
que o estruturalismo estava em alta, e que o qualificativo estrutural ajudava
a promover a obra.
Também é de pouca ajuda definir as linguísticas estruturais como
aquelas que se definiram a si próprias como continuadoras de Saussure. É
que, pensando bem, Saussure (se esquecermos seu trabalho como professor
de línguas clássicas) não deixou nenhum exemplo mais acabado de análise
linguística; apenas definiu o que chamaríamos hoje um “programa de
investigação”. Esse caráter da doutrina saussuriana foi bem percebido pelo
linguista italiano Raffaele Simone (ver Saussure, 1970b, p. 21):
(...) a linguística saussuriana não se apresenta como uma teoria linguística, nem, afinal, como
uma teoria tout court — apresenta-se, com uma clareza inédita, como uma axiomática válida para
qualquer teoria futura, isto é, como uma metateoria; seu objetivo principal é fornecer uma bateria
de noções logicamente válidas e adequadas às diferentes teorias linguísticas que admite; seu
escopo é especificar a estrutura das teorias.
Ao elaborar essa metateoria, Saussure, como era de esperar, ultrapassou às vezes os limites
intrínsecos de seu programa, fazendo concessões aqui e acolá às “préoccupations d’époque”, ou
propondo teses de caráter teórico stricto sensu; mas no essencial seu objetivo foi luminosamente
alcançado. Como qualquer metateoria, também a metateoria saussuriana não admite todas as
teorias linguísticas possíveis: admite algumas e exclui outras, e o axioma seletivo, o que leva a
metateoria a admitir ou excluir a teoria linguística em questão é, claramente, o da arbitrariedade
do signo. Ainda assim, a axiomática saussuriana é extremamente ampla, de modo que são
poucas, hoje, as teorias linguísticas que podem declarar-se autenticamente não saussurianas.
Compreende-se, nesse contexto, que tenha havido o desenvolvimento de
muitas linhas de investigação linguística que puderam ser consideradas
saussurianas (estruturais) e, no entanto, foram muito diferentes entre si.
Nessas condições, falaremos em linguísticas saussurianas no plural, e
reservaremos esse nome a algumas orientações que tiveram amplo
reconhecimento, e que aplicam disciplinadamente o ideário saussuriano tal
como o expusemos: prioridade da análise do sistema, concepção da língua
como forma, descarte da substância, preferência pela sincronia. Há um
consenso antigo em reconhecer como tais: (1) a escola que atuou entre as
duas guerras mundiais em Praga, (2) a glossemática de Hjelmslev, (3) o
funcionalismo de Martinet. Por outro lado, (4) Roman Jakobson, a cuja obra
linguística não corresponde o nome de uma escola, foi, provavelmente, o
autor que mais fez pelo estruturalismo, em sua vida longa e produtiva,
vivida em dois continentes. Todas essas orientações enriqueceram o projeto
saussuriano com reflexões e análises originais. Vejamos como.
3.1. A Escola Linguística de Praga
A Escola Linguística de Praga desenvolveu-se entre as duas guerras
mundiais, e beneficiou-se do fato de ter conseguido harmonizar os
ensinamentos de Saussure com uma outra importante linha de reflexão
sobre a linguagem, a do psicólogo vienense Karl Bühler. Como
representantes dessa escola costumam ser lembrados o Troubetzkoy dos
Princípios de fonologia e o próprio Roman Jakobson, que teve atuação
destacada na redação das Teses do Círculo Linguístico de Praga, publicadas
em francês em 1929. Mas para a definição dos interesses do grupo não foi
menos importante a figura do linguista praguense Wilhem Mathesius, cuja
docência é parcialmente contemporânea à de Saussure e antecipa algumas
das ideias do mestre de Genebra. Entre as duas guerras, por influência de
Mathesius, linguistas de Praga desenvolveram uma concepção de
comunicação incomparavelmente mais rica que a de Saussure, que acabou
levando à perspectiva de análise conhecida como Perspectiva Funcional da
Sentença. Tentemos entender a diferença. O que conta na concepção de
comunicação utilizada por Saussure é que os interlocutores tenham pleno
controle sobre os elementos pertinentes dos signos linguísticos mediante os
quais se comunicam. Espera-se, em outras palavras, que os falantes usem os
signos linguísticos que compõem suas mensagens de modo tal que se
reconheçam nesses signos todos os traços pertinentes que permitem
identificá-los. Essa concepção de comunicação, que é a própria concepção
saussuriana, basta para distinguir língua e fala e para estabelecer como a
fala depende da língua, mas reduz de certo modo o processo de
interpretação a uma questão de discriminação dos signos que se transmitem,
e nada nos diz sobre o que acontece quando interpretamos. É, pois,
extremamente redutora, e provavelmente, hoje, não seria aceita nem mesmo
como uma boa descrição da comunicação entre dois computadores.
Mathesius indicou um caminho possível para superá-la ao lançar a ideia
(hoje quase banal, mas em seu tempo altamente revolucionária) de que a
comunicação afeta dinamicamente nossos conhecimentos e nossa
consciência das situações. Com essa concepção dinâmica da comunicação,
Mathesius pôde sugerir que o dinamismo comunicativo se distribui de
maneira desigual nos enunciados que efetivamente utilizamos para fins de
comunicação, e assim chegou à ideia de que os enunciados comportam
tipicamente uma parte menos dinâmica — o tema — e uma parte mais
dinâmica — o rema. Mathesius mostrou ainda que essas duas funções
comunicativas são autônomas em relação às funções sintáticas do sujeito e
do predicado, e que, em inglês e em checo, são indicadas pela ordem das
palavras9 e pela entoação. As ideias de Mathesius renderam frutos durante
várias décadas; depois da Segunda Guerra Mundial foram retomadas por
linguistas como Franticek Daneš, Ian Firbas e M. A. K. Halliday, levando a
uma concepção estrutural de sintaxe que consiste em descrever cada
sentença em vários níveis, estabelecendo entre eles algum tipo de
mapeamento marcado ou não marcado.10 A preocupação com as funções da
linguagem foi produtiva, na Escola de Praga, muito além do domínio da
Perspectiva Funcional da Sentença: desde o primeiro momento, levou, por
exemplo, a investigar as características da linguagem dos vários gêneros
(particularmente os da comunicação estética) e criou uma abertura
importante para as questões do ensino.
3.2. A glossemática
Tendo como figuras de ponta os dinamarqueses Luis Hjelmslev e Viggo
Bröndal, a glossemática desenvolveu-se na Universidade de Copenhague,
onde o ensinamento de Otto Jespersen tinha consolidado uma forte tradição
de estudo crítico da gramática. A glossemática foi a escola de linguística
estrutural que mais consequentemente procurou aplicar a tese saussuriana
de que as línguas se constituem como sistemas de oposições. Esta
preocupação levou o próprio Hjelmslev a caracterizar exaustivamente, do
ponto de vista lógico, as relações por meio das quais as línguas se
estruturam, e resultou num tipo de descrição linguística das línguas em que
se dá atenção particular às relações entre as unidades, nos váriosníveis de
análise.11
No debate com as outras escolas estruturalistas, a glossemática foi às
vezes acusada de ter cultivado uma preocupação excessiva com os
instrumentos da análise linguística, que a teria levado a produzir textos
abstratos e de difícil aplicação, fugindo da análise propriamente dita. Esta
imagem é justa apenas em parte. É verdade que os textos da glossemática (e
particularmente os de seu principal expoente, Hjelmslev) não têm em geral
um enfoque descritivo e são menos fáceis de ler, por exemplo, que os dos
praguenses. Mas é também verdade que muitas das distinções estabelecidas
por Hjelmslev são claras e de grande alcance. Já tivemos uma amostra dessa
clareza quando recorremos à formulação de Hjelmslev para explicar como a
forma e a substância se articulam com a expressão e o conteúdo; além dessa
formulação, muitas outras surgiram no contexto da glossemática e se
destinam a ficar. É em Hjelmslev, por exemplo, que encontramos o par
terminológico sintagma vs. paradigma, e que a variedade de relações que se
dão nesses dois eixos é objeto de uma tipologia exaustiva. É ainda em
Hjelmslev que encontramos uma das mais felizes definições de
conotação.12 Não esqueçamos, por fim, que, tendo desenvolvido uma
reflexão linguística menos aderente ao significante, a glossemática
conseguiu dar um enfoque estruturalista ao estudo da significação:
remontam, de fato, a Hjelmslev as primeiras tentativas feitas pelos
estruturalistas europeus de explicar a significação das palavras por meio de
matrizes de traços semânticos (como no caso das palavras latinas niger e
ater, que têm em comum um traço indicando a mesma tonalidade cromática,
mas se distinguem por serem marcadas positiva ou negativamente quanto
ao traço de “brilho”).13 A ideia de tratar a significação lexical por meio de
matrizes de traços seria utilizada, na década de 1960, por autores como os
franceses Greimas e Pottier, que exploraram inicialmente esse caminho para
elaborar suas próprias versões de uma semântica estrutural. Esses dois
autores fizeram escola no Brasil. Por algumas décadas foram referência,
entre nós, para muitos linguistas que se propuseram a estudar a significação
das palavras — um tipo de análise que supostamente deveria enumerar os
componentes últimos da significação, e que por isso ficou conhecida como
“análise componencial”.
3.3. O funcionalismo
De todos os países europeus, a França foi aquele em que o
estruturalismo teve maior ressonância, um fenômeno que culminou no final
dos anos 1960, num momento em que vários movimentos de contestação
política chegaram a colocar em crise uma série de valores estabelecidos,
naquele país. Para identificar a França com o estruturalismo, tinha
contribuído, nos anos anteriores, uma orientação que se autodenominou
“funcionalismo”, e foi liderada por um linguista que tinha mantido fortes
contatos com os Círculos de Praga e Copenhague: André Martinet. Os
interesses dos martinetianos foram menos marcadamente teóricos que os de
Hjelmslev e resultaram numa linguística mais concreta e mais fácil de
assimilar, mas talvez menos rigorosa do ponto de vista dos conceitos. Por
exemplo, o termo que dá nome à escola, “função”, foi usado pelos
martinetianos para dar cobertura a conceitos tão disparatados como (i) o
caráter, próprio da fala, de ser um instrumento de comunicação entre as
pessoas, (ii) a possibilidade de fazer referência a objetos diferentes, por
meio de unidades linguísticas diferentes; (iii) o tipo de relação gramatical
liga uma unidade sintática (por exemplo, um adjunto adverbial) ao contexto
sintático maior de que faz parte (por exemplo, a sentença); essa
ambiguidade não chegou a incomodar Martinet e os martinetianos, e não os
impediu de desenvolver um conjunto de análises que, em determinado
momento, puderam ser consideradas de vanguarda. A crédito desta escola
tem que ser registrada a clareza com que formulou e reafirmou a chamada
“dupla articulação da linguagem” — estabelecendo que haveria em toda
língua natural dois níveis de oposição (e de combinatória): aquele em que
as unidades podem ser contrastadas de modo a fazer aparecer,
simultaneamente, diferenças de forma e de sentido (esta é, para Martinet, a
primeira articulação, que corresponde muito aproximadamente às palavras),
e aquele em que se podem pôr à mostra diferenças que apenas servem para
distinguir unidades (esta é a segunda articulação, cujas unidades são os
fonemas). Deve-se creditar a Martinet também o mérito de ter realizado um
trabalho relativamente extenso de descrição sintática (sobretudo no fim da
vida), explorando assim uma área que outros estruturalistas evitaram, pois
parecia difícil transportar para ela os métodos rigorosamente saussurianos
testados na fonologia.
Mas o maior mérito de Martinet vem, a meu ver, de seus estudos de
fonologia diacrônica, e tem a ver com o conceito de economia. Estudando a
evolução fonológica de um dialeto românico da região dos Alpes franceses,
Martinet mostrou que essa evolução era regulada por um princípio de
economia que pode ser explicado, grosso modo, como segue: na cadeia
falada, os fonemas sofrem uma pressão no sentido de se assimilarem aos
fonemas vizinhos, o que leva ao desgaste de algumas oposições
fonológicas, e à criação de algumas oposições fonológicas previamente
inexistentes. Sob o efeito dessas pressões, dois fenômenos podem se
manifestar: (i) algumas das oposições em que se baseia o sistema
fonológico da língua podem tornar-se pouco rentáveis (no sentido de serem
utilizadas apenas num conjunto muito restrito de ambientes, e portanto
serem responsáveis por um número limitado de oposições); nesse caso sua
tendência é desaparecer; (ii) outras oposições podem tornar-se mais
rentáveis, e nesse caso a tendência do sistema é generalizar seu uso. Em
suma, o sistema fonológico se mantém graças a uma economia interna,
baseada numa relação de custo e benefício, que é precisamente o que
Martinet chamou de economia. Ao formular este princípio, Martinet
subordinava a explicação de fenômenos que até então pareciam
imprevisíveis e desencontrados à compreensão do sistema em que esses
fenômenos se inserem; seu raciocínio mostrava que o que evolui na língua
não são elementos isolados, mas sim as estruturas, e, mais ainda, que é
possível esperar ou predizer a evolução da estrutura analisando as
propriedades que ela apresenta, quando descrita em termos rigorosamente
sincrônicos. Esse não era apenas um raciocínio tipicamente estruturalista,
era uma descoberta que representava um passo enorme em relação à
concepção de linguística diacrônica exposta no Curso de linguística geral.
Como já foi mencionado neste texto, o Curso de linguística geral afirmava
categoricamente que as línguas evoluem através de alterações estritamente
locais, retomando uma velha tese do século XIX segundo a qual as
mudanças linguísticas são sempre pontuais.
3.4. Roman Jakobson
A última grande figura que evocaremos neste panorama dos
estruturalismos europeus é Roman Jakobson. O fato de ser a última figura
que evocaremos nesta parte de nosso texto não significa que ele tenha sido
um autor menos importante ou menos merecedor de nosso interesse, muito
pelo contrário. Jakobson deixou uma obra vasta que continua parcialmente
desconhecida, e teve com o Brasil uma relação muito rica, particularmente
pelo interesse que lhe despertava o movimento da poesia concreta, em que
via uma forma de realização de suas ideias sobre os usos estéticos da
linguagem.
O conjunto de interesses linguísticos que Jakobson cultivou seria
resumido por ele próprio na fórmula “linguista sum, linguistici a me nihil
alienum puto” que imita, aplicando-a à linguagem, uma definição clássica
do humanismo “humanus sum, humani a me nihil alienum puto” (“Sou
humano, acho que tudo que é humano tem a ver comigo”), dada por um
escravo numa comédia do teatrólogo latino Terêncio. Essa fórmula, que
seria excessivamente ampla para caracterizar os interesses de qualquer
outro linguista, não é exagerada como avaliação da pluralidade de campos
emque Jakobson fez contribuições originais: com efeito, produzindo por
quase um século,14 ele refletiu sobre temas que vão desde a fonologia até a
linguagem da poesia, desde a aquisição da linguagem dita “normal”, até a
patologia linguística. Deixou estudos descritivos sobre línguas diversas e
elaborou noções de grande alcance teórico. A despeito da diversidade dos
assuntos a que se aplicou, e do fato de ter sido divulgada sobretudo na
forma de artigos e ensaios curtos, a reflexão linguística de Jakobson é
altamente integrada. Se nos perguntarmos, por exemplo, o que tem a ver sua
fonologia com a aquisição da linguagem ou com a patologia, encontraremos
respostas surpreendentemente claras e interessantes. Originariamente, a
fonologia de Jakobson era a de seu companheiro de exílio, Troubetzkoy, e
recorria à noção de fonema, distinguindo os fonemas por meio de traços
articulatórios. Ao chegar aos Estados Unidos, contudo, Jakobson passa a
trabalhar a fonologia num enfoque criado pelo propósito de desenvolver a
telefonia, e portanto atento às propriedades acústicas dos sons. Lançando
mão da técnica de ponta da época — as análises espectrográficas
produzidas pelo sonógrafo — Jakobson e colaboradores chegam a
visualizar as diferenças entre os fonemas como o efeito de combinar um
número mínimo de traços acústicos de natureza binária.15 Com isso, a
linguística passou a reconhecer como parte integrante de qualquer língua
um nível de combinatória ainda mais básico que o dos fonemas — o dos
traços distintivos, agora definidos em termos rigorosamente acústicos.
Ficava assim reforçada a ideia de que a linguagem se organiza como uma
escala de níveis de complexidade crescente, em que as unidades de nível
inferior funcionam como peças na construção das unidades do nível
imediatamente superior. Coube ao próprio Jakobson mostrar que a
fonologia acústica não era apenas uma representação útil para os fins
“técnicos” que haviam levado à sua descoberta; ele mostrou, com efeito,
que a assimilação progressiva dos traços permite reconstituir as etapas que a
criança percorre na aquisição da linguagem, assim como define a ordem em
que se dá sua perda nos falantes acometidos de afasia. Ao fazê-lo, ele
mostrou que no nível dos traços e dos fonemas funcionam alguns processos
combinatórios que tiram partido de duas relações fundamentais: a
contiguidade e a similaridade, as mesmas relações que, em outros níveis,
garantem o funcionamento da gramática, e dão origem a figuras de
linguagem fundamentais, da metáfora e da metonímia... Seria difícil
imaginar uma concepção de linguagem mais coesa.
Mas isso não é tudo. Na figura de Jakobson, ao caráter amplo, variado e
fortemente coerente de sua produção, soma-se uma intensa convivência
com escritores, poetas e tradutores, e isso lhe permitiu perceber alguns dos
impasses em que poderia incorrer um estruturalismo estreito, e propor para
eles saídas mais interessantes. Já vimos um exemplo notável disso, pois foi
Jakobson quem propôs para o problema teórico da tradução a solução que
apresentamos no parágrafo 2.5. Conforme lembramos naquela altura, o
estruturalismo depara com o problema da tradução quando, depois de
aceitar a tese saussuriana da arbitrariedade em sua versão mais radical, cede
à tentação de afirmar que os falantes são prisioneiros do código: juntas, as
duas teses levam a concluir que a tradução é impossível. Jakobson desfaz
magistralmente o impasse, afirmando (na esteira de Franz Boas) que, em
qualquer língua humana, tudo pode ser expresso, e que as línguas não se
distinguem por aquilo que podem dizer (pois todas podem dizer tudo) mas
por aquilo que nos obrigam a dizer, quando queremos expressar algo.
À sua maneira — uma maneira particularmente brilhante — Jakobson
foi funcionalista. Fiel à herança dos praguenses, assimilou a intuição de
Bühler de que seria possível distinguir as funções da linguagem atentando
para o maior ou menor relevo dado aos vários fatores de uma mensagem
típica, e assim chegou a construir o conhecido quadro das funções da
linguagem em que se define a função conativa pelo realce dado à figura do
receptor, a função expressiva pelo realce dado ao falante, a função fática
pelo realce dado ao canal (ao controle dos ruídos), a função informativa
pelo maior valor dado ao referente e assim por diante. A grande novidade
desse quadro era, evidentemente, a possibilidade de pensar num tipo de
mensagem que retém a atenção dos interlocutores por suas próprias
características. Essa possibilidade se harmoniza bem com a crença (que
sempre foi muito forte em estética) de que a arte não pode ter finalidades
práticas. Não admira, assim, que ela tenha dado origem a uma importante
linha de análise das mensagens literárias, segundo a qual o texto poético
não é aquele que nos interessa pelo assunto, mas sim aquele que nos atrai
pelo tratamento que dá à linguagem, ou seja, por suas características de
composição. Ideias como esta valeram a Jakobson um título de que ele se
orgulhava, e que corresponde bem à maneira como é representado até hoje
no Brasil: de ter sido o poeta da linguística e o linguista dos poetas.
4. O ESTRUTURALISMO FORA DA LINGUÍSTICA
Antes de passar para o “estruturalismo americano”, convém chamar a
atenção para o fato de que, na Europa e na América do Sul, o apogeu do
estruturalismo coincidiu com um momento da história das ideias em que a
linguística foi encarada como a matriz possível de toda a atividade
científica, ou pelo menos de todas as ciências que se propõem a analisar
algum tipo de comunicação. Obviamente, todas as ciências humanas, na
medida em que lidam com valores e representações, analisam algum tipo de
troca simbólica, e isso fez com que muitos autores que atuavam nesse
campo aderissem ao estruturalismo. Entre as disciplinas que reformularam
suas tarefas tomando como modelo a linguística, estiveram a antropologia
(Lévi-Strauss), a sociologia, a estética, o estudo da moda (Barthes) e,
evidentemente, a teoria literária (com a “redescoberta” dos escritos dos
teóricos da literatura russos e checos conhecidos como “formalistas”, ou das
análises de contos de fadas do russo Wladimir Propp, que por sua vez
inspiraram autores como Greimas, Barthes, Brémond e Todorov um tipo
particular de análise das narrativas literárias e cinematográficas). Estas e
outras disciplinas, em determinado momento, realizaram avanços
espetaculares, valendo-se de métodos semelhantes aos que vinham sendo
aplicados pela linguística ou, mais exatamente, pela fonologia (com
Troubetzkoy e Martinet), que era vista, no interior da própria linguística,
como uma espécie de disciplina-piloto. Mas a influência do estruturalismo
não se limitou às ciências humanas. Usando um conceito ampliado de troca
simbólica não é difícil reconhecer que há algum tipo de troca simbólica
também nos fenômenos estudados pelas ciências exatas e biológicas.
Assim, uma disciplina aparentemente tão distante do estudo linguístico
como a biologia, viu-se repentinamente interessada em reinterpretar à luz
das noções de código e mensagem algumas de suas doutrinas, em particular
aquelas que tratam da transmissão do código genético. Em suma, se o
estruturalismo projetou a linguística foi também porque a linguística
conseguiu fornecer às outras ciências modelos estruturais de análise que
foram por algum tempo moeda de troca num intenso intercâmbio
interdisciplinar. Há nisso muita riqueza, mas qualquer tentativa de entrar em
detalhes nos levaria muito longe de nosso propósito inicial de limitar a
exposição ao âmbito da linguística.
5. O ESTRUTURALISMO AMERICANO
Quando se fala em “estruturalismo americano” pensa-se num amplo
espectro de trabalhos que foram realizados nos Estados Unidos da América
entre as décadas de 1920 e 1950, e em autores que cultivaram interesses de
pesquisa bastante diversificados. É certamente injusto tratar desses autores
em conjunto, como teremos que fazê-lo aqui, por razões de espaço. A forma
de exposição que adotamos nos obrigará, além do mais, a dar uma
importância maior àquiloque esses autores afirmaram em termos de
propósitos e programas, desconsiderando um amplo trabalho de descrição e
análise que, ao contrário, mereceria a maior atenção. Não faltam, contudo,
características comuns, que definem o que poderíamos chamar de “estilo de
época”, e essas características ficam ainda mais visíveis quando são postas
em contraste com a linguística chomskiana.16
Entre os interesses que marcaram o estruturalismo americano costuma-
se incluir o projeto dos linguistas desse período de descrever
exaustivamente as línguas indígenas do continente — uma tarefa de grande
urgência que já vinha sendo objeto de preocupação desde a década de 1920
(por parte de autores como Franz Boas e Edward Sapir), e que às vezes se
confundiu com o plano de desenvolver métodos para o estudo de todas as
línguas ágrafas — um objetivo que sempre esteve na ordem do dia das
instituições interessadas em catequese religiosa.
Diante das línguas a serem estudadas, os pesquisadores americanos
desse período sentiram-se comprometidos em realizar uma tarefa
eminentemente descritiva, que deveria, tanto quanto possível, evitar a
interferência dos conhecimentos prévios do linguista (por exemplo, sua
formação em gramática inglesa, ou das línguas greco-latinas). Essa
orientação correspondia à crença de que cada língua tem uma gramática
própria, a qual se viu reforçada, nos anos 1950, pela simpatia que
despertaram as teses “relativistas” de Benjamin Lee Whorf, segundo as
quais as diferenças linguísticas determinam diferenças no modo como as
várias culturas representam a realidade.
Na afirmação de que cada língua tem sua própria gramática, e na
recomendação de que as categorias gramaticais sejam extraídas “dos
dados”, e não buscadas na tradição ou em experiências prévias de análise, é
difícil não ver, sob uma outra roupagem, uma reafirmação da tese
saussuriana da arbitrariedade. Mas os estruturalistas americanos não se
reconheceram como saussurianos; sua referência intelectual é Leonard
Bloomfield. Em sua obra mais influente, Language (1933), Bloomfield
defendia explicitamente que “as únicas generalizações úteis a respeito da
linguagem são de ordem indutiva”. Era uma forma de evitar que o linguista
tentasse dominar os dados por meio de sua intuição pessoal, lançando
hipóteses que, por serem de ordem mental ou psicológica, corriam o risco
de ficar sem “prova”, isto é, sem confirmação empírica. Por um raciocínio
análogo, Bloomfield chegou à conclusão de que o sentido — que é mental,
e portanto faz parte da psicologia individual — não poderia ser estudado
cientificamente. Recomendou que o estudo do sentido fosse adiado até que
a ciência tivesse produzido uma descrição exaustiva do mundo;17 o peso
dessa exclusão foi tão forte que, por algumas décadas, nos Estados Unidos,
a semântica marcou passo; e a linguística estrutural americana foi
tipicamente avessa ao estudo do sentido.
Chegamos assim a uma situação que vem às vezes descrita nos
manuais,18 na qual a língua que se pretende descrever é tipicamente tratada
como uma língua totalmente desconhecida. Ela se apresenta então ao
linguista exatamente como se apresentaria ao leigo que a desconhece: um
emaranhado de sons desorganizado e sem nexo. À diferença do leigo, o
linguista precisa tornar visíveis suas regularidades. Mas como? Os
linguistas americanos pré-Chomsky acreditaram tipicamente na necessidade
de dispor de uma amostragem alentada da língua a ser estudada.
Preconizaram, pois, como primeira tarefa que todo linguista deveria
enfrentar, a constituição de um corpus de sentenças ou de textos daquela
língua. Em seguida, obedecendo à orientação de Bloomfield, imaginaram
que algum processo indutivo de generalizações sucessivas poderia reduzir o
corpus a uma “representação compacta”.
Vários procedimentos foram de fato pensados para pôr em prática essa
parte do programa de pesquisa. Opto por falar aqui do que foi proposto por
Zellig Harris (1951) porque, sendo extremamente radical, deixa mais
visíveis os compromissos que o motivaram. Harris toma ao pé da letra a
ideia de que a análise da língua não deve contar com qualquer informação
prévia e evita, por isso, considerar o sentido; nessas condições, quando a
análise começa, o linguista dispõe apenas de um corpus (possivelmente um
corpus de extensão considerável, por exemplo o conjunto de todas as
emissões radiofônicas que foram ao ar num país durante um mês): o
linguista sabe ouvir, mas não sabe, por definição, quais são as unidades
linguísticas da língua em estudo. Seu primeiro problema é, então, o de
segmentar o corpus, ou seja, transformar o que ouve no gravador em
sequências discretas de unidades. (É, de certo modo, o que fazemos
corriqueiramente quando escrevemos uma língua conhecida mas — não
esqueçamos — aqui se trata de línguas desconhecidas, e os textos estudados
são textos falados, não escritos.) O recurso de que Harris lança mão para
segmentar consiste em substituir aleatoriamente trechos do corpus com
duração determinada (em milissegundos) por outros trechos do corpus que
tenham a mesma duração, controlando mediante a avaliação de um falante
nativo se a alteração “modificou” o trecho inicialmente dado. Segundo
Harris, seria possível, por esse método, definir uma noção de equivalência
que dispensa o recurso ao sentido e que permite, em dois momentos
diferentes, encontrar os fonemas e os morfemas da língua, desde que o
corpus seja suficientemente amplo e representativo.
O método proposto por Harris vale, em princípio, para qualquer língua
(e, particularmente, para aquelas que nunca foram escritas) e,
independentemente de ser prático ou não, é um bom exemplo de como os
estruturalistas americanos confiaram na possibilidade de desenvolver
procedimentos que, aplicados aos dados de uma língua desconhecida,
forneceriam sua estrutura ao final de uma série controlada de operações (os
chamados “procedimentos de descoberta”) em que o linguista faz o menor
apelo possível à sua própria intuição. Exemplifica também um outro
pressuposto da linguística descritiva americana: a crença de que a
propriedade que melhor define uma unidade linguística é a maneira como
essa unidade se combina com as demais na cadeia falada. Essa propriedade,
que é conhecida pelo nome técnico de distribuição, teve um papel central
na linguística descritiva americana. Ela foi usada para dar respostas a
problemas antigos, como por exemplo o problema de distribuir as palavras
em “partes do discurso” ou o problema de definir a sinonímia (o
substantivo, o adjetivo, o verbo etc. foram caracterizados através de suas
propriedades distribucionais, como palavras que entram em determinados
ambientes sintáticos e não outros; a sinonímia foi definida como a
capacidade que têm duas expressões diferentes de aparecer exatamente nos
mesmos ambientes linguísticos). É ainda considerando a distribuição que se
chega ao modelo de sentença mais prestigiado nessa “escola”, o modelo de
constituintes imediatos, que leva a representar a estrutura da sentença
através de árvores sintagmáticas. Com efeito, a análise da sentença em
constituintes imediatos tem por fundamento último a possibilidade
(confirmada em tese pelo corpus) de substituir uma sequência de unidades
por uma única unidade.19
Afirmando sua confiança nos dados do corpus, representando o trabalho
do linguista como uma construção indutiva que se faz por etapas, colocando
sob suspeita o recurso ao sentido e às hipóteses gerais sobre a natureza da
linguagem, dando atenção prioritária à distribuição, a linguística descritiva
americana criou um tipo de ciência que valorizava a singularidade das
línguas e, à sua maneira, era profundamente imanentista (= as explicações
sobre a linguagem devem ser procuradas nos objetos linguísticos, não em
objetos de outra natureza). Há nisso tudo pontos comuns com os
estruturalismos europeus, mas uma compreensão mais profunda das
semelhanças e diferenças exigiria um enorme trabalho de recuperação, do
qual, nos limites desta apresentação, só é possível apontar o interesse.
6. O ESTRUTURALISMOENCARA SEUS LIMITES
No final dos anos 1960, justamente quando sua importação começava a
impulsionar a criação de uma disciplina linguística autônoma no Brasil, o
paradigma estruturalista já estava dando no hemisfério norte claros sinais de
esgotamento. No caso do estruturalismo europeu, esses sinais
manifestaram-se na forma de revisões ou de ataques abertos que, de um
modo ou de outro, apontavam para um fato crucial: o estruturalismo havia
levado a desconsiderar aspectos dos fenômenos linguísticos que são
essenciais para a sua compreensão, e estava funcionando como um
handicap para a investigação. Uma dessas propostas de revisão provém de
Émile Benveniste, um autor que, embora tenha trabalhado no sentido de
aperfeiçoar e divulgar o programa saussuriano, e possa, nesse sentido, ser
considerado um representante importante da escola, era bastante
diferenciado, por seus interesses20 e por seus sólidos conhecimentos em
linguística histórica indo-europeia. A grande crítica de Benveniste é que o
estruturalismo teria negligenciado o papel essencial que o sujeito
desempenha na língua. Uma inteira seção de seu livro Problemas de
linguística geral (obra publicada em 1966, em que se reúne uma produção
de cerca de 30 anos) mostra que algumas estruturas centrais em qualquer
língua (como o sistema dos pronomes ou o dos “tempos” do verbo) deixam
de fazer sentido se a língua for descrita sem referência à fala e aos
diferentes papéis que os falantes assumem na interlocução. Mostrou, dessa
forma, que a fala está representada e por assim dizer prevista no sistema da
língua.
Uma outra crítica visava diretamente à distinção feita pelos alunos de
Saussure entre sincronia e diacronia, e partiu do linguista romeno Eugenio
Coseriu. Para Coseriu, a possibilidade de delimitar uma sincronia é, até
certo ponto, uma ficção, pois a todo momento, em qualquer língua,
convivem mecanismos gramaticais e recursos lexicais que são fruto de
diferentes momentos da história. O velho convive com o novo, e é essa
convivência de fragmentos de velhos sistemas com fragmentos de novos
sistemas que caracteriza um estado de língua dado. Por isso, diz Coseriu, o
linguista estará lidando o tempo todo com pancronias. Coseriu revisou
também a oposição língua (sistema linguístico) X fala: entre a fala e o
sistema, sugere que se considere uma instância intermediária, muito mais
operacional e psicologicamente mais real que a própria língua: a norma.
Bem menos conciliador é o tom das críticas que o estruturalismo passou
a receber, a partir do fim dos anos 1960, de uma orientação de pesquisa que
se tornaria conhecida na década seguinte pelo nome de “análise do
discurso”. Diz Michel Pêcheux, no livro que costuma ser tomado como o
marco inicial dessa orientação:21
Até (...) o Curso de Linguística Geral, estudar uma língua era, no mais das vezes, estudar textos
(...) a ciência linguística clássica propunha-se a ser simultaneamente ciência da expressão e
ciência dos meios dessa expressão, e o estudo gramatical e semântico estava a serviço de um fim,
a saber, a compreensão do texto, da mesma forma que, no próprio texto, os “meios de expressão”
estavam a serviço do fim visado pelo produtor do texto (a saber: fazer-se compreender). Nessas
condições, se o homem compreende o que diz seu semelhante, é porque ambos são, em alguma
medida, “gramáticos”, enquanto o especialista em linguagem só pode fazer ciência porque, como
qualquer um, é capaz de expressar-se. Ora, o deslocamento conceitual introduzido por F. de
Saussure consiste precisamente em quebrar essa homogeneidade cúmplice entre a prática e a
teoria da língua: a partir do momento em que a língua deve ser pensada como um sistema, ela
deixa de ser compreendida como tendo a função de expressar um sentido; torna-se um objeto de
que uma ciência pode descrever o funcionamento. (...) A consequência desse deslocamento é,
como se sabe, a seguinte: o “texto” não pode de maneira alguma ser objeto pertinente para a
linguística, porque ele não funciona — o que funciona é a língua, isto é, um conjunto de sistemas
que autorizam combinações e substituições regradas com base em elementos definidos, e os
mecanismos mobilizados têm dimensões inferiores ao texto: a língua, como objeto de ciência, se
opõe à fala, resíduo não científico da análise.
Como se pode ver, Pêcheux diz sem meias palavras que a linguística
saussuriana, retirando-se do campo da parole, teria transformado todos os
fenômenos textuais e semânticos numa espécie de terra de ninguém. Ao
descartar a fala como objeto de estudo científico, Saussure teria destruído
simultaneamente a) a possibilidade de uma linguística textual e b) a
possibilidade de uma análise científica do sentido dos textos. A força dessas
críticas depende, é claro, de onde exatamente é traçado o limite entre
langue e parole; mas em 1969, quando Pêcheux publicou o texto acima
reproduzido, era mais ou menos consensual que a linguística deveria tratar
apenas de objetos linguísticos estruturados por relações de conexidade
sintática.
Outra crítica do mesmo Pêcheux tinha como alvo esta célebre passagem
de Jakobson (1963, p. 47):
(...) há na combinação das unidades linguísticas uma escala ascendente de liberdade. Na
combinação dos traços distintivos em fonemas, a liberdade do locutor individual é nula: o código
já estabeleceu todas as possibilidades que se podem usar na língua em questão. A liberdade de
combinar os fonemas formando palavras é circunscrita, limitada à situação marginal da criação
de palavras. Na formação das frases a partir de palavras, a restrição a que está sujeito o locutor é
menor. Por fim, na combinação das frases em enunciados, a ação das regras restritivas da sintaxe
deixa de ter efeito, e a liberdade do locutor individual fica substancialmente acrescida, embora
não se deva subestimar o número de enunciados estereotipados.
Para Pêcheux, esta passagem resumia de maneira exemplar o modo
equivocado como os estruturalistas representaram a liberdade linguística.
Em sua opinião, essa representação era equivocada no que diz respeito aos
níveis inferiores (fonemas, morfemas), porque nestes há liberdade, ou pelo
menos criatividade; e também era falsa para os enunciados de um discurso,
porque estes são sancionados como aceitáveis ou anômalos em função das
condições ideológicas em que são produzidos e recebidos, e a ideologia
obriga a considerar as formações sociais, onde a significação não é nem
individual (como na parole saussuriana) nem universalmente compartilhada
(como na langue de Saussure). Aqui também a crítica é clara: ao situar as
unidades do discurso na parole, representando-as como criações
inteiramente livres, o estruturalismo teria utilizado uma ideia de liberdade
individual que não tem nada a ver com a prática social, e que, de fato, se
prestava a um papel de mascaramento ideológico. Hoje, seria talvez
possível responder a Pêcheux que acabou surgindo uma linguística do texto
que trata de coesão em termos que não têm a ver com ideologia,22 e que a
própria análise do discurso tem interesse em conviver com a descrição
estrutural, porque não deixa de ser através da sintaxe e do vocabulário dos
textos que a ideologia se revela. Seja como for, na época, porém, as
cobranças feitas pela análise do discurso tiveram um impacto enorme.
Começava aí, precisamente dentro da linguística francesa, um processo em
que o estruturalismo figurava como réu — por ter preconizado uma análise
que se esgota no exame de características internas da própria linguagem,
concebida como sistema; por ter tratado da significação sem levar em conta
os fatores ideológicos e políticos, em suma, por não ter considerado a
história. Como se pode ver, não se tratava mais de propostas de revisão: a
crer na análise do discurso, o estruturalismo sofria de um vício capital
incontornável.
Críticas como essas acabaram aos poucos revelando uma face do
estruturalismo linguístico para a qual dificilmente as pessoas teriam
atentado duas décadas antes, quando o movimento se afirmou reagindo aos
impasses e aosexcessos do historicismo herdado do século XIX. Foram
então percebidos como problemas três traços do estruturalismo que já
vinham sendo criticados em outras áreas do conhecimento: seu caráter anti-
historicista, anti-idealista e anti-humanista. Esses traços são inerentes ao
estruturalismo enquanto atitude filosófica, e não há como negá-los. Como
lembra um filósofo de orientação existencialista, contemporâneo dos
debates aqui descritos:23
(...) contra o historicismo, que é substancialmente uma consideração longitudinal da realidade,
isto é, uma interpretação desta em termos de devir, desenvolvimento e progresso, o
Estruturalismo afirma o primado de uma concepção transversal (cross section), isto é, de uma
concepção que considera a própria realidade como um sistema relativamente constante e
uniforme de relações. (...) Contra o idealismo, o Estruturalismo afirma a objetividade do sistema
de relações, o qual, mesmo quando é concebido como construção científica, não é reduzido a um
ato ou a uma função subjetiva, mas assume a função fundamental de explicar o maior número
possível de fatos constatados. Enfim, contra o humanismo, o Estruturalismo afirma a prioridade
do sistema em relação ao homem: das estruturas sociais em relação às escolhas individuais, da
língua em relação ao falante singular e, em geral, da organização econômica ou política em
relação às atitudes individuais, e apresenta a exigência de encontrar no sistema em que o
indivíduo está inserido os limites e as condições dentro das quais pode mover-se para renovar ou
transformar o próprio sistema.
Não é difícil perceber que as críticas de Pêcheux atingiam o
estruturalismo como prática linguística atacando seus pressupostos
filosóficos. Isso explica, evidentemente, a repercussão que elas tiveram na
Europa.
Por sua vez, a partir dos anos 1960, a linguística descritiva americana
viu-se desalojada da posição de prestígio de que havia desfrutado entre as
duas guerras devido ao advento da linguística chomskiana. Antigo aluno de
Harris, Chomsky comandou desde então uma revolução científica que
atingiria em cheio o estruturalismo americano, atacando seus princípios
mais fundamentais. Do ponto de vista teórico, a linguística chomskiana
opôs-se à linguística descritiva americana por propor à consideração dos
estudiosos um novo objeto de estudo, a competência sintática, entendida
como uma capacidade ou disposição dos falantes, ou seja, como um objeto
mental. Isso implicava que a linguística não deveria mais tratar daquilo que
se observa, mas sim interessar-se por alguma coisa que não é imediatamente
acessível aos sentidos, e é até certo ponto misteriosa. Depois de quase meio
século, o princípio bloomfieldiano de evitar os objetos mentais, soou falso.
Apelando para argumentos como o da pobreza do estímulo,24 Chomsky
também declarava obsoletas as explicações behavioristas acerca da
aquisição da linguagem, às quais substituía uma explicação inatista
(aprendemos línguas, mas já conhecemos em grande medida sua gramática,
como parte de nosso equipamento biológico). A diversidade das línguas
apareceu de repente como um fato relativamente superficial, bem menos
interessante do que sua profunda semelhança.
À nova representação da linguagem correspondeu uma nova
metodologia de investigação. Para dar conta da capacidade dos falantes de
distinguir entre sentenças bem e malformadas, Chomsky recorreu a
instrumentos de cálculo parecidos com os que são familiares aos lógicos25 e
isso o levou a entender as gramáticas como sistemas formais especialmente
construídos para gerar26 todas e apenas as sentenças bem formadas de uma
língua. No contexto desse enfoque — no qual se trata de projetar
dispositivos matemáticos que geram todas as sentenças bem formadas de
uma língua e nenhuma outra — perde-se a ideia de que a gramática tem a
função de “compactar” os dados de um corpus; a própria noção de corpus
se torna até certo ponto supérflua e às metodologias indutivas — até então
as únicas merecedoras de crédito — se substituem metodologias hipotético-
dedutivas.
A linguística chomskiana é em si mesma um capítulo fascinante da
história das ideias; suas realizações são tão amplamente reconhecidas que
as resistências e as polêmicas que lhe foram opostas pelos estruturalistas
americanos nos anos 1960 aparecem, hoje, como um episódio menor. Aqui,
lembraremos apenas que, por algum tempo, a gramática gerativa foi tratada
pelos estruturalistas europeus como um novo estruturalismo, que atendia
melhor do que qualquer outro tratamento da linguagem até então proposto
ao propósito de matematização lançado por Hjelmslev. É o caso também de
lembrar que alguns problemas que haviam preocupado os estruturalistas
americanos encontraram soluções simples e elegantes no quadro da teoria
gerativa (por exemplo, o risco de não aplicar à força a qualquer língua os
conceitos da gramática greco-latina ficava automaticamente afastado com a
adoção de uma formalização de inspiração matemática); além disso, a
linguística chomskiana se mostrou capaz de incorporar parte do
conhecimento acumulado pela investigação de campo da geração anterior: o
caso mais evidente foram as semelhanças apontadas para as mais diferentes
línguas do mundo pela teoria dos “universais linguísticos”, que puderam ser
reinterpretadas de forma elegante no contexto da teoria chomskiana de
princípios e parâmetros.27
Seja como for, diante do gerativismo, a linguística estrutural americana
foi perdendo progressivamente terreno. As orientações que se opõem hoje a
Chomsky, na América do Norte, não são continuação do estruturalismo
bloomfieldiano; constituem antes a preocupação de tratar da história da
língua (dando relevo, por exemplo, aos processos de gramaticalização), ou
de representar a linguagem como uma forma de conhecimento em que o
papel central não é exercido por operações de tipo matemático, mas por
processos de tipo analógico (como a metáfora, a organização da experiência
em torno de protótipos e a criação de espaços mentais). Nesse contexto, dos
antigos estruturalistas, sobreviveram apenas os que se singularizaram por
sua genialidade, revelada no mais das vezes na contribuição que fizeram a
campos ou ao estudo de assuntos específicos (como Dwight Bolinger,
Eugene Nida, Joseph Greenberg, Bernard Bloch, Rulon Wells e alguns
outros).
7. EPÍLOGO: ALGUNS SALDOS PARA A LINGUÍSTICA BRASILEIRA
São poucos, hoje, os linguistas brasileiros que estariam dispostos a
declarar-se publicamente estruturalistas. Há, em nosso meio, muitos
“funcionalistas”, mas esse termo identifica modos de fazer ciência que não
remetem imediatamente aos vários funcionalismos de inspiração
saussuriana de que se falou neste texto (isto é, a Martinet, aos praguenses
ou mesmo à glossemática), nem ao distribucionalismo de Bloomfield. O
que os funcionalistas brasileiros de hoje têm em comum é mais
provavelmente o fato de que suas pesquisas não seguem a gramática
chomskiana e a disposição para incluir em seus programas de pesquisa a
descrição dos aspectos pragmáticos da linguagem.28 Devemos então pensar
que o estruturalismo desapareceu no Brasil sem deixar vestígios?
Sem dúvida, desapareceu o clima de entusiasmo dos anos 1960. Naquela
época, os adeptos da nova ciência exageraram a importância de alguns
autores que eles haviam tomado por modelo, dedicando-lhes um culto nem
sempre compatível com seus méritos. O tempo se encarregou depois de
reduzir alguns desses autores a dimensões bem mais modestas. Mas, junto
com autores de importância discutível, o entusiasmo de nossos primeiros
linguistas contribuiu também para divulgar algumas crenças e fixar algumas
preocupações que constituem um saldo positivo, e que ficaram.
Em primeiro lugar, o estruturalismo instaurou a crença de que a língua
portuguesa tal como é falada e escrita no Brasil deveria ser tomada como
objeto de descrição, contrariando uma longa tradição normativa. A nova
atitude afetou antes de mais nada os estudos do português padrão, que
passou a ser descrito mediante instrumentos inspirados, diretaou
indiretamente, nos princípios de pertinência; isso fez com que aparecessem,
em pouco tempo, representações confiáveis do sistema fonológico e dos
principais recursos morfológicos (por exemplo, a flexão nominal e a
conjugação do verbo) utilizados pelo português padrão. A adoção de uma
atitude descritiva, por outro lado, permitiu que as variedades não padrão da
língua fossem consideradas como objetos legítimos de análise. Quando o
estudo da língua segue uma orientação normativa, é fácil acreditar que
somente a variedade padrão é sistemática, e que tudo mais é “erro” ou
“corrupção” dessa variedade. Quando, ao contrário, prevalece a atitude
descritiva, descobre-se naturalmente que as variedades não padrão não têm
necessariamente uma estrutura pobre ou ineficiente, têm apenas uma
estrutura diferente.29
Sugerindo que nos falares sem prestígio social há regularidades a
explicar (e não “corruptelas” a lamentar), o estruturalismo fez com que
ganhassem dignidade plena, enquanto objetos de estudo, muitos aspectos da
realidade linguística brasileira que até então haviam recebido uma
importância menor por parte dos estudiosos da linguagem: aí se incluem as
línguas indígenas, as línguas e os dialetos trazidos pelos africanos e pelos
europeus e as inúmeras variedades regionais do português (que começaram
a ser levantadas por várias equipes interessadas em construir atlas
linguísticos de diferente abrangência, a partir da experiência pioneira do
Atlas prévio dos falares baianos, de Nélson Rossi).
Considerando tudo isso, podemos dizer que o estruturalismo contribuiu
para dotar a linguística brasileira de uma nova “agenda”. Fica evidente que
essa agenda era praticável e fecunda se olharmos para a produção do
principal linguista brasileiro do período, Joaquim Mattoso Câmara Jr. A
obra de Mattoso Câmara Jr. começa antes do estruturalismo e inclui temas
que, numa visão estruturalista mais estreita, não seriam prioritários (por
exemplo, a história da língua). Mas nessa obra o filão estruturalista é forte,
incluindo uma sistematização da fonologia que ainda hoje é referência, e
vários estudos de morfologia da variedade padrão do português do Brasil.
Na obra de Mattoso Câmara Jr. há também incursões interessantes nas
variedades não padrão: uma dessas incursões parte da análise dos “erros dos
escolares”, mostrando (pela primeira vez em língua portuguesa?) que os
“erros” que os professores de ensino médio apontam às vezes nas redações
e em outros exercícios escolares, nada mais são do que a manifestação da
língua que os alunos efetivamente conhecem, a língua real, nem sempre
igual às representações construídas pelos gramáticos.30 Mattoso Câmara Jr.
foi também um grande estudioso das línguas indígenas, tendo deixado uma
das principais obras de conjunto sobre as línguas indígenas brasileiras.
Em segundo lugar, com a preocupação pela descrição, o Estruturalismo
trouxe também a preocupação de registrar, disponibilizar e tratar dados
linguísticos. Estimulou a linguística de campo, e levou à constituição de
grandes corpora, que se caracterizaram não só por sua abrangência, mas
também por um alto grau de rigor nos procedimentos de coleta. Muitos
desses levantamentos serviriam de material em seguida para outros estudos,
realizados ou não segundo metodologias estruturais. Um bom exemplo é o
Projeto de Estudo da Norma Urbana Culta (NURC), que se desenvolveu no
Brasil por iniciativa de Nélson Rossi, Ataliba Castilho e Celso Cunha, e que
visava ao estudo da variedade mais prestigiada do português falado. Como
parte desse projeto, foram gravadas amostras da língua falada das cinco
capitais brasileiras que, no início dos anos 1970, contavam com mais de um
milhão de habitantes. Repartidas em três tipos de entrevistas (elocuções
formais, diálogos entre dois entrevistados, diálogos do entrevistado com o
entrevistador), as gravações desse projeto começaram a ser realizadas em
1972, e alcançaram o número até hoje impressionante de 1500 horas. A
ideia inicial era estudar todo esse material em paralelo com outros corpora
dedicados ao espanhol da América, segundo uma metodologia única,
desenvolvida pelo estruturalista americano Juan Manuel Lope-Blanch.
Quando os linguistas brasileiros chegaram à conclusão de que a
metodologia em questão deixava a desejar, o corpus do NURC estimulou
um outro grande projeto, o Projeto de Estudo da Gramática do Português
Falado. Nascido por iniciativa de Ataliba Castilho, o PGPF chegou, em
meados dos anos 1990, a contar com cerca de 40 pesquisadores ligados a
universidades de todo o país, representando as orientações mais variadas da
linguística contemporânea. As inúmeras “descobertas” que este projeto
permitiu fazer sobre o português falado representam um estágio da
linguística brasileira bem mais avançado do que o estruturalismo, mas não
seriam possíveis sem ele.
Em terceiro lugar, como não podia deixar de ser dadas as condições em
que a linguística se tornou uma disciplina autônoma, no Brasil dos anos
1960, o estruturalismo criou grandes expectativas de que poderia contribuir
positivamente para a renovação do ensino de línguas. Sua contribuição
nessa área foi considerável, mas não vale a pena procurá-la nos chamados
“exercícios estruturais” (que, no caso mais típico, visavam a automatizar o
uso de determinadas estruturas sintáticas, e eram claramente inspirados na
psicologia behaviorista), nem nas chamadas “gramáticas contrastivas”,31
metodologias que logo foram superadas por outras, mais “globais” e mais
voltadas para as situações de uso. A grande contribuição que o
estruturalismo deixou no ensino refere-se à pedagogia da língua materna e
consistiu, antes de mais nada, em mostrar a precariedade da doutrina
gramatical que vinha sendo tradicionalmente ensinada pela escola: hoje,
qualquer pessoa medianamente informada sabe que essa doutrina
recomenda uma linguagem que não é nem a do povo, nem a dos grandes
veículos de comunicação, nem a dos escritores. Além disso, numa fase em
que a escola passou a receber um número cada vez maior de alunos cujo
vernáculo não é a variedade prestigiada do português brasileiro, o
estruturalismo criou condições para que se possa aceitar como um fato que
esses alunos falam outra língua (que tem sua estrutura, sua história e suas
condições de uso), e que isso não tem nada a ver com limitações ou déficits
intelectuais (falar português não padrão é uma questão de história social do
aluno, não uma questão de burrice). Não menos importante, penso que se
deve creditar ao estruturalismo o fato de que a escola adotou uma nova
atitude em face dos textos, inclusive os literários, que passaram a ser objeto
de uma análise específica; até a década de 1960, era mais importante falar
de coisas que hoje nos aparecem como “circunstanciais”: a biografia do
autor, a escola literária a que ele pertenceu, os fatos que o inspiraram a
escrever o texto, as figuras históricas a partir das quais criou suas
personagens fictícias...
Esta amostra (que poderia facilmente ser ampliada) deveria bastar para
nos convencer de que muitas atitudes que as pessoas informadas têm hoje
em relação às questões de língua e linguagem em nossa sociedade criaram
suas raízes num solo fecundado pelo estruturalismo. Se é assim, interessa
entender o que foi o estruturalismo linguístico e como foi assimilado no
Brasil, não só por ele, mas principalmente por nós, isto é, para saber quem
fomos, quem somos e para onde vamos no que diz respeito à relação que
mantemos com as línguas que falamos, e com tudo aquilo que elas
representam.
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1. Por exemplo, segundo a hipótese de Saussure, no verso ... facundi calices hausere alterni... um
leitor iniciado em poesia romana poderia ler o nome de um povo da Campânia, os Falerni.
2. Para Wittgenstein, por exemplo, a linguagem e o jogo têm em comum a característica de ser
comportamentos regrados, e Wittgenstein se inspira na enorme variedade de jogos possíveis para
apontar a enorme variedade de ações (“jogos”) que podemos realizar através da linguagem.
3. Mesmo a linguística gerativa (que, a partir dos anos 1960, se contrapôs ao estruturalismo e
acabou por substituí-lo no papel de paradigma científico de vanguarda) preconiza que se tomem
como objeto de análise as condições de possibilidade das mensagens linguísticas — a competência
— e não as próprias mensagens — o desempenho).
4. O exemplo dado, enfiar X enviar é, precisamente, um par mínimo.
5. Como não escapou ao linguista francês Émile Benveniste (ver seu ensaio sobre arbitrariedade
linguística no primeiro volume dos Problemas de linguística geral).
6. O filósofo e semioticista americano Charles Sanders Peirce chamou de ícones todos os signos
em que a relação entre o significante e o significado é de semelhança; nesse sentido, uma maquete é
um ícone da construção que representa, um mapa é um ícone da região que descreve e uma
onomatopeia é um ícone do som que imita.
7. Essas questões são tema do livro de Mounin, George. Problèmes théoriques de la traduction.
Paris: Gallimard, 1963.
8. Um bom exemplo de história da língua escrita segundo esses parâmetros é: Evolution et
structure de la langue française, de Walther von Wartburg, que alterna capítulos de “evolução” e
capítulos de “estrutura” estes últimos correspondem, aproximadamente, ao francês antigo e às
diferentes fases do francês médio (séculos XV e XVI) e do francês moderno (séculos XVII a XX).
9. Um bom teste para reconhecer o tema e o rema de um enunciado consiste em perguntar a que
perguntas responderia. Considerem-se, por exemplo, as seguintes sentenças:
(i) O cachorro fez um buraco no quintal.
(ii) Quem fez um buraco no quintal foi o cachorro.
(iii) Quem fez um buraco no quintal?
(iv) O que fez o cachorro?
(v) No quintal, o cachorro fez um buraco.
Aplicado a (i)-(iv), o teste mostra que só os encadeamentos (iii)-(ii) e (iv)-(i) são adequados.
Nesses pares, a parte comum à pergunta e à resposta é o tema; a parte em que a pergunta e a resposta
diferem é o rema.
10. Para Halliday e Daneš, são não marcadas as sentenças em que o sujeito gramatical,o agente e
o tema coincidem numa mesma expressão (como acontece, por exemplo, na sentença (i) da nota
anterior; são marcadas as sentenças em que esse mapeamento falha (por exemplo, (ii) e (v)).
11. Um desses tratamentos, que se propõe como uma aplicação fiel ao francês da axiomática
linguística de Hjelmslev, é o livro Structure immanente de la langue française de Knud Togeby.
12. Para Hjelmslev, a denotação é sempre uma informação que se refere ao falante, e nós a
derivamos do fato de que ele usa certas expressões, e não outras, para denotar uma determinada
realidade. De alguém que se refere aos doces servidos com o café da tarde como quitanda, sabemos
que é mineiro; de alguém que chama as crianças de piás ou guris, concluímos que é gaúcho etc.
13. Independentemente de Hjelmslev, Leonard Bloomfield, o mentor da linguística estrutural
americana, chegou à noção de traço semântico quando imaginou a possibilidade de “fatorar” o
sentido das palavras, para explicar certas relações que podem ser observadas no léxico, e que
lembram a “regra de três” da aritmética, por exemplo boi + vaca = homem + mulher = cavalo +
égua.
14. A trajetória intelectual de Jakobson começa na Rússia pré-revolucionária, onde Jakobson
participou do chamado Círculo Linguístico de Moscou; passa, entre as duas guerras, pelo Círculo
Linguístico de Praga, e termina com sua morte nos anos 1980, quando Jakobson ocupava uma
cátedra na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos da América. Depois da Segunda Guerra
Mundial, Jakobson esteve a ponto de ser contratado pela Universidade de São Paulo, então recém-
criada.
15. A saber, ± vocálico, ± consonântico, ± compacto, ± difuso, ± grave, ± bemolizado, ± vozeado,
± contínuo, ± estridente, ± nasal.
16. O contraste entre a linguística estrutural americana e o gerativismo chomskiano é tema de
vários trabalhos escritos na década de 1960. Para entender o que estava em jogo nesses debates,
sugerimos que se leia o texto “Linguistique structurelle et philosophie des sciences”, de Emmon
Bach (In: BENVENISTE et al. Problèmes du langage. Paris: Gallimard, 1966. p. 117-136) em
contraponto com o livro de Charles Hockett. (The state of the art. Haia: Mouton, 1968.)
17. Nesse momento, o estudo científico do sentido seria possível, segundo Bloomfield. (Mas o
estudo do sentido seria então desnecessário, porque as ciências teriam dado conta do significado de
todas as palavras.)
18. Por exemplo, Gleason, 1955.
19. A ideia é que, num corpus realmente representativo, serão encontradas sequências como
(i) o menino de olhos grandes veio,
(ii) ele veio,
(iii) ele veio ontem,
(iv) ele veio ontem porque precisou etc.
nessas sequências, “ele” comuta com “o menino de olhos grandes”, e isto prova que “o menino de
olhos grandes” é um constituinte; “veio ontem” comuta com “veio” e assim se mostra que “veio
ontem” é um constituinte etc.).
20. À frente de seu tempo, Benveniste interessou-se por problemas de filosofia da linguagem, e foi
um dos primeiros autores a publicar em francês sobre temas como os atos de fala e os delocutivos.
21. PÊCHEUX, Michel. Analyse automatique du discours. Paris: Dunod, 1969. p. 1-2.
22. Essa linguística do texto tem como um de seus marcos iniciais o livro de M. A. K. Halliday e
R. Hasan, Cohesion in spoken and written English. London: Longman, 1976.
23. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 2. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982. (Verbete
“Estruturalismo”).
24. O argumento da pobreza do estímulo afirma que o tanto de linguagem a que uma criança é
exposta até dominar completamente sua língua materna não é suficiente para explicar a rapidez e a
perfeição com que a aquisição da linguagem se processa. Para explicar a aquisição o gerativismo
postula que a criança traz, como parte de seu equipamento biológico, uma gramática universal que
poderá assumir formas diferentes conforme a língua a que a criança é exposta (ver o capítulo O
empreendimento gerativo, neste volume).
25. Em visita ao Brasil, depois de uma conferência proferida em São Paulo, alguém perguntou a
Roman Jakobson quem vinha a ser o linguista Noam Chomsky. Sua resposta, “Mas não é um
linguista, é um lógico!”, mostra bem a dificuldade que muitos tiveram para assimilar a nova
orientação, e a distância que perceberam entre estruturalismo e gerativismo.
26. O adjetivo gerativo, tal como é usado na expressão gramática gerativa, é um termo
matemático. Os matemáticos dizem, por exemplo, que dado um axioma b e uma regra de formação b
→ aba, é possível gerar sequências de comprimento arbitrário com a forma
b
aba
aabaa
aaabaaa
etc.
27. Para uma ideia de conjunto sobre os resultados que a investigação havia alcançado no início
dos anos de 1960 em matéria de universais linguísticos, veja-se Greenberg, J. Universals
of’language. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1963.
28. Ver o capítulo O funcionalismo em linguística, neste volume.
29. Por exemplo, nas variantes subpadrão do português brasileiro, a conjugação verbal se reduz às
vezes a duas formas: eu falo ≠ ocê/nóis/ocêis/eles fala; para quem adota uma perspectiva normativa,
isso caracteriza uma “perda da conjugação” a ser lamentada; para quem apenas descreve os fatos, fica
evidente, ao contrário, que essa variedade da língua apenas dispensa algumas desinências verbais que
seriam de toda maneira redundantes em relação ao sujeito gramatical. Que a ausência de desinências
verbais redundantes não compromete o bom funcionamento de uma língua fica evidente quando se
pensa que o francês (com o paradigma ´parl/par´lõ/par´le) e o inglês (com o paradigma
speak/speaks) funcionam muito bem, e são muito mais parecidos com o português subpadrão do que
com o português padrão.
30. Quase meio século depois de escrito, o trabalho “Erros de escolares como sintomas de
tendências linguísticas no português do Brasil”, de 1957 (recolhido no livro Dispersos, editado em
1972 pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro e organizado por Carlos Eduardo Falcão
Uchoa), ainda é uma leitura oportuna. Mostra que o “erro” tem origem numa tendência ou “deriva”
da língua, e não resulta de uma deficiência que afetaria o aluno como indivíduo.
31. No ensino de língua estrangeira, essa orientação levou a trabalhar prioritariamente as
diferenças de estrutura entre a língua materna do educando e a língua a ser ensinada. Isso levou a
uma prática de ensino em que se procurava prever as dificuldades que os alunos supostamente
encontrariam, em função das diferenças entre a língua materna e a língua-alvo. Essa orientação foi
bem-aceita durante certo tempo nos cursos de língua estrangeira e, às vezes, levou à elaboração de
“métodos” que visavam a um tipo particular de educando (por exemplo, métodos de ensino de
português brasileiro destinados a falantes nativos de espanhol).
3
O EMPREENDIMENTO GERATIVO1
José Borges Neto
Em 1982, Riny Huybregts e Henk van Riemsdijk publicam uma longa
entrevista com Noam Chomsky, construída na forma de uma discussão
sobre vários pontos da história e da estrutura da teoria linguística. O livro
que traz essa entrevista recebeu o nome, extremamente feliz, de The
generative enterprise (ver Chomsky 1982a). Digo que o nome do livro é
extremamente feliz porque compartilho da opinião dos entrevistadores de
que a teoria linguística, proposta, desenvolvida e “protegida”
constantemente pela figura singular de Noam Chomsky, pode, de fato, ser
entendida como um “empreendimento” coletivo, que tem em Chomsky seu
líder inequívoco.
É minha tarefa, aqui, demonstrar isso. Demonstrar que a teoria
linguística conhecida genericamente como gramática gerativa (a par com
vários outros nomes que recebe em diferentes momentos) é um Programa
de Investigação Científica, extremamente coerente, que começa a ser
construído em meados do século XX e que se torna, já nos primeiros anos
de existência, um modo de entender a estrutura da linguagem humana que
pode ser contestado — o que é próprio das teorias científicas — mas que
não pode ser ignorado.
Vou encarar os cerca de 50 anos da gramática gerativa (GG,doravante)
como um período em que se constrói um programa de investigação
científica, mais ou menos no sentido que o termo recebe na proposta feita
pelo filósofo húngaro Imre Lakatos (1978) para o tratamento da história das
ciências em geral. Embora não vá fazer uma abordagem lakatosiana
ortodoxa, acredito que as ideias de Lakatos permitem uma compreensão de
qualidade superior sobre o que de fato aconteceu com a GG nesses 50 anos.
Este trabalho, então, não é um trabalho estritamente de linguística. É
antes um trabalho de história e de filosofia da ciência,2 voltado para a
análise de um caso particular: a história “interna” da GG.
1. A METODOLOGIA DE LAKATOS
Vou iniciar a apresentação da metodologia de Lakatos com uma citação
de Feyerabend:
A visão de ciência que deve substituir a de Kuhn é a síntese das duas descobertas seguintes.
Primeiro, contém a descoberta de Popper de que a ciência progride pela discussão crítica de
visões alternativas. Segundo, contém a descoberta de Kuhn da função da tenacidade que ele
expressou, erroneamente, a meu ver, mediante o postulado da existência de períodos de
tenacidade. A síntese consiste na afirmação de Lakatos (...) de que a proliferação e a tenacidade
não pertencem a períodos sucessivos da história da ciência, mas estão sempre copresentes
(Feyerabend, 1970, p. 261).
Comecemos com as noções de proliferação e de tenacidade.
Proliferação, em Lakatos, significa que é desejável que haja teorias em
competição. Para ele a história da ciência tem sido, e é assim que deve ser,
uma história de programas de investigação em competição.
Tenacidade, para Lakatos, significa que o cientista não abandona uma
teoria que foi falseada, como quer Popper, mas, ao contrário, faz o possível
e o impossível para mantê-la, desconhecendo os contraexemplos ou
reanalisando-os de modo a transformá-los em evidências corroboradoras da
teoria. Nas suas próprias palavras:
A Natureza pode gritar não, mas o engenho humano — contrariamente ao que sustentam Weyl e
Popper — sempre é capaz de gritar mais alto. Com suficiente habilidade e com alguma sorte,
qualquer teoria pode defender-se “progressivamente” durante longo tempo, inclusive se é falsa
(Lakatos, 1971, p. 111).
Segundo Lakatos, a melhor maneira de se iniciar o “jogo da ciência” não
é com uma hipótese falseável, mas com um programa de investigação
científica (PIC), que consiste, basicamente, num núcleo e numa heurística.
O núcleo de um PIC é um conjunto de proposições que, por decisão
metodológica, são dadas como “não testáveis”, isto é, proposições que às
vezes são ditas “metafísicas” e que revelam o ponto de vista que vai
orientar a abordagem do objeto, a própria definição do objeto de estudos
etc.
A heurística de um PIC é um conjunto de regras metodológicas que nos
dizem que direções devem ser seguidas na busca das “explicações”
científicas. A heurística é uma espécie de “política de desenvolvimento” do
programa, ou seja, uma seleção e ordenação de problemas, um plano que
conduz à sofisticação progressiva dos modelos explicativos. É um plano
que estabelece uma sequência de modelos simuladores da realidade, cada
vez mais complexos, profundos e abrangentes.
Lakatos nos oferece como exemplo da ação dessa heurística o processo
de desenvolvimento do programa newtoniano. Newton elaborou
inicialmente um modelo para o sistema planetário que tivesse um único
planeta gravitando o sol e tanto o sol quanto o planeta eram tratados como
pontos. Neste modelo, conseguiu obter a lei do inverso do quadrado para a
elipse de Kepler. A terceira lei da dinâmica, no entanto, proibia esse modelo
extremamente simples e Newton o substituiu por outro modelo em que
tanto o sol quanto o planeta giravam em torno do centro de gravidade do
sistema formado por ambos. Em seguida, Newton adaptou o modelo para
incluir mais planetas, admitindo, no entanto, apenas forças heliocêntricas e
não forças interplanetárias. Trabalhou depois no caso de serem, o sol e os
planetas, esferas e não pontos. Este momento do desenvolvimento do
programa exigiu a superação de imensas dificuldades matemáticas.
Resolvidos os problemas, Newton começou a trabalhar com esferas
rotativas e suas oscilações. Admitiu as forças interplanetárias e começou a
trabalhar com as perturbações. Mais tarde, trabalhou com planetas
irregulares, em vez de planetas esféricos, aproximando-se cada vez mais
dos sistemas planetários reais.3
Para Lakatos, então, o programa avança pela elaboração de uma série de
modelos, diferentes entre si, mas compartilhando um mesmo núcleo e
seguindo uma mesma heurística.
Na maior parte dos casos, os modelos se diferenciam porque assumem
hipóteses auxiliares diferentes. Por exemplo, no programa newtoniano, a
hipótese de que os planetas se comportam como pontos ou a hipótese de
que os planetas são esferas.
Eventualmente, podemos encontrar diferenças entre os modelos que
resultam de mudanças criativas (creative shifts) na heurística, ou seja, de
revisões no “plano de desenvolvimento” do programa.
2. GG: UM PROGRAMA DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA
A ideia que tenho defendido há já algum tempo é a de que a GG é um
PIC e não uma “teoria” linguística. Não vou tentar justificar aqui essa
posição (ver Borges Neto 1991, para mais detalhes). Nesse sentido, mais do
que discutir propostas alternativas, feitas por este ou aquele linguista,
interessa acompanhar as grandes direções que o programa, pelas regras de
sua heurística, assume. Interessa ver, também, as mudanças criativas que
periodicamente redirecionam os esforços dos cientistas ligados ao PIC.
Nos limites do espaço de que dispomos, esta é a investigação que este
trabalho pretende realizar.
2.1. O PIC chomskiano: núcleo e heurística
Sem entrar em maiores discussões, eu gostaria de propor que o núcleo
da GG consiste nas seguintes afirmações:
1. os comportamentos linguísticos efetivos (enunciados) são, ao menos
parcialmente, determinados por estados da mente/cérebro;
2. a natureza dos estados da mente/cérebro, parcialmente responsáveis
pelo comportamento linguístico, pode ser captada por sistemas
computacionais que formam e modificam representações.4
Creio que essas duas afirmações sintetizam adequadamente a concepção
de linguagem humana que preside esses cinquenta anos de pensamento
chomskiano.
A heurística do programa da GG determina que a tarefa fundamental do
linguista é a criação de sistemas computacionais que sirvam de modelo para
o conhecimento linguístico dos falantes/ouvintes de uma língua. Esses
sistemas computacionais devem ser entendidos como hipóteses explicativas
e suas consequências empíricas devem ser avaliadas num sistema dedutivo.
Apesar da imensa diferença entre as análises efetivamente propostas
para os fenômenos das línguas naturais nos diversos momentos da história
da GG (os sistemas computacionais propostos), o objetivo geral da
linguística chomskiana tem sido notavelmente consistente nesses anos
todos. Podemos dizer, em linhas gerais, que Chomsky persegue
obsessivamente um mesmo objetivo por 50 anos, embora periodicamente
substitua o mecanismo teórico concebido para realizar a tarefa maior de sua
concepção de linguística.
No fundo, o que a GG pretende é a construção de um mecanismo
computacional capaz de formar e transformar representações, que “simule”
o conhecimento linguístico de um falante de uma língua natural,
“registrado” em sua mente/cérebro.
É esse “núcleo”, constante nos 50 anos de história da GG, que nos
permite dizer que estamos diante de um mesmo programa de investigação,
apesar das inúmeras e profundas alterações que o mecanismo teórico (o
sistema computacional) sofre.
2.2. A primeira proposta de gramática gerativa: LSLT e SS
Normalmente considera-se que a história da GG se inicia em 1957, com
a publicação de Syntactic structures (Chomsky, 1957 — doravante SS). Os
trabalhos anteriores de Chomsky — seja pelo fato de terem circulado
apenas entre não linguistas, seja por terem tido circulação restrita —
tiveram pouca influência no desenvolvimento do programa chomskiano. A
dissertaçãode mestrado de Chomsky (1951), por exemplo, foi quase
completamente ignorada pela comunidade linguística, embora tenha
chamado alguma atenção fora da área.5 Outros artigos deste período
(Chomsky, 1953 e 1955a) destinavam-se mais a lógicos e filósofos do que a
linguistas: o primeiro foi publicado no Journal of Symbolic Logic, periódico
dificilmente lido por linguistas, e o segundo, embora publicado em
Language, sustentava uma polêmica com o lógico israelense Yehoshua Bar-
Hillel sobre a aplicabilidade dos desenvolvimentos da lógica simbólica nos
estudos linguísticos.
Em meados da década de 1950, Chomsky terminou de escrever um livro
extremamente pretensioso — The logical structure of linguistic theory
(Chomsky 1955c — doravante LSLT) — em que reunia, como capítulos,
sua dissertação de mestrado e sua tese de doutorado (Chomsky, 1955b) e
lançava os fundamentos de uma “nova linguística”. O livro não conseguiu
despertar o interesse dos editores e permaneceu arquivado sob a forma de
microfilme até sua publicação em 1975, já então apenas com valor
histórico. Nas palavras de Chomsky:
Quanto à acolhida reservada a LSLT, pouco tenho a dizer. Já lhe observei que não tinha a
impressão de fazer linguística. A falta de interesse ou de reação por parte dos linguistas não era,
portanto, surpreendente. Eu tinha proposto LSLT ao MIT Press (...) que o recusou. Com razão,
penso eu, porque naquele momento o contexto era muito desfavorável para um livro geral sobre
um tal assunto. Submeti também um artigo técnico sobre uma parte da questão à revista Word,
por sugestão de Roman Jakobson, mas ele foi recusado e devolvido pelo correio. Tinha eu então
poucas esperanças de ver publicado semelhante trabalho, numa revista de linguística pelo menos,
mas com franqueza, não me preocupava muito com isso (Chomsky 1977, p. 121).
Chegamos, então, a 1957 e a Syntactic Structures. Este livro reúne notas
de um curso que Chomsky ministrava no MIT e, segundo o próprio
Chomsky, não reflete com justeza seu pensamento linguístico da época. Em
suas palavras:
Vocês sabem o que Syntactic structures era. Notas de aula para uma disciplina de graduação no
MIT. Van Schooneveld apareceu aqui e deu uma olhada em algumas das notas da disciplina de
graduação que eu estava lecionando e disse: eu preciso publicar isso. Uma vez que nada tinha
sido publicado ainda, eu disse, por que não, e isso é o que Syntactic structures era. De fato,
Syntactic structures é um livro muito enganador (Chomsky, 1982a, p. 63).
As ideias de Chomsky só começaram a ser conhecidas pelos linguistas
após a publicação de SS e, principalmente, após a longa resenha que Robert
Lees, linguista que já possuía uma certa reputação junto à comunidade,
publicou em Language (Lees, 1957). Assim, a teoria deste primeiro período
ficou conhecida como “teoria de Syntactic structures”.
Nesse momento já encontramos o núcleo do programa chomskiano
razoavelmente bem definido, embora ainda não de todo explicitado. O
melhor modo de captar esse núcleo é pela investigação das principais
divergências que Chomsky e alguns de seus alunos entendiam haver entre
suas propostas e as propostas da linguística dominante à época: o
estruturalismo americano, de extração bloomfieldiana.6
As propostas de Chomsky, corporificadas na teoria de SS, divergem do
estruturalismo em alguns pontos importantes.
Em primeiro lugar, o objeto de estudos do estruturalismo era a língua,
entendida como “a totalidade dos enunciados que podem ser feitos numa
comunidade linguística”, segundo Bloomfield (1926, p. 47). Cabia ao
linguista descrever essa língua, e isso era feito a partir da coleta de um
“corpus representativo”, que era descrito minuciosamente com o
instrumental fornecido pelos “procedimentos de descoberta”. O que chama
a atenção de Chomsky é a necessidade de se supor a existência de algo
anterior à língua dos estruturalistas: a capacidade que os falantes têm de
produzir exatamente os enunciados que podem ser feitos. Em outras
palavras, Chomsky desloca a questão fundamental da teoria linguística para
a determinação das regras que regem os “corpora representativos”, que
deixam assim de ser o ponto de partida da teoria linguística e passam a ser o
seu ponto de chegada. Para Chomsky, a comunidade linguística possui um
conhecimento compartilhado sobre os enunciados que podem e os que não
podem ser produzidos, e é justamente este conhecimento que precisa ser
descrito e explicado pela teoria linguística. O “corpus representativo” é
resultado desse conhecimento e partir dele é metodologicamente
desinteressante. Para Chomsky, um bom indício da existência deste
conhecimento é a criatividade linguística: a habilidade que o falante de uma
certa língua tem de produzir e de compreender sentenças às quais nunca foi
exposto antes.
Podemos dizer, então, que já se delineava nos primeiros trabalhos de
Chomsky um objeto psicológico para os estudos linguísticos, embora
Chomsky não explicitasse isso. Em outras palavras, os “estados da
mente/cérebro” de que falamos acima já eram vislumbrados.
Outro lugar de divergência entre o estruturalismo americano e a teoria
de SS está na definição dos objetivos das teorias. Enquanto as teorias
estruturalistas eram, em geral, explicitamente descritivas, a teoria de SS se
pretendia explicativa, no sentido de que os fenômenos deviam ser
deduzidos de um conjunto de princípios gerais.7 A adoção por Chomsky de
um modelo de ciência hipotético-dedutivo tem implicações profundas nos
procedimentos de seu programa. Não se trata mais, como no estruturalismo,
de descrever os dados que se revelam à percepção dos linguistas, mas trata-
se de encontrar princípios gerais a partir dos quais as descrições dos dados
observáveis possam ser logicamente derivadas. Com Chomsky, assume-se
na linguística a prioridade do teórico sobre o empírico. Não é de se
estranhar, então, que boa parte dos trabalhos de Chomsky, nesse período,
discuta as linguagens formais e procure definir a natureza formal das
línguas naturais em comparação com as linguagens dos lógicos e dos
matemáticos.8 É a heurística do programa determinando as prioridades e,
com suficiente clareza, Chomsky percebe que o fundamental no momento é
a definição de uma noção formal de gramática, entendida como um sistema
computacional (uma gramática gerativa, no sentido técnico do termo), que,
à moda de um exemplar paradigmático kuhniano, servisse de ferramenta
para a descrição dos fenômenos das línguas naturais. Em outras palavras,
para levar a efeito sua proposta de descrever o conhecimento implícito dos
falantes e fazê-lo no quadro de uma teoria explicativa, Chomsky precisa
construir um aparato formal9 (uma gramática gerativa) capaz de dar conta
das regras de boa formação de uma língua qualquer L e de relacionar esse
aparato formal a algum conjunto de princípios gerais (que determinem o
que pode valer como “gramática gerativa” para as línguas em geral).
Surge daí a divisão das tarefas da linguística em dois grupos: construção
de gramáticas para línguas particulares e construção de princípios gerais
para a capacidade de linguagem (“universais”). O processo de construção
de gramáticas particulares exige mecanismos formais poderosos o
suficiente para que se possa dar conta de detalhes e de particularidades das
línguas; o processo de construção de princípios gerais deve ignorar as
particularidades e buscar os “universais”. Em parte, a tensão entre esses
dois processos vai ser responsável pelas alterações nos modelos de análise
que se sucederão no tempo nesses últimos 50 anos.
O primeiro modelo de análise proposto por Chomsky está longamente
apresentado em LSLT e em SS e consiste, basicamente, numa forma
sofisticada de gramática de constituintes imediatos acrescida de um
componente transformacional. Este modelo de análise apresenta dois
componentes principais: um que forma expressões, e que é uma versão
gerativa da gramática de constituintes imediatos, desenvolvida e
apresentada, entre outros, por Rulon Wells (1947), e outro que transforma
expressões e que, aomenos em parte, apoia-se na noção de “transformação”
desenvolvida por Zellig Harris, que foi o orientador de Chomsky no
doutorado.10 Além desses dois componentes propriamente sintáticos, há um
componente morfofonêmico, que atribui leituras fonológicas ao output do
componente transformacional.
A noção fundamental é a noção de nível linguístico.
A língua é um sistema extremamente complexo. A teoria linguística tenta reduzir esta imensa
complexidade a proporções controláveis pela construção de um sistema de níveis linguísticos,
cada um dos quais possuindo um certo aparato descritivo para a caracterização da estrutura
linguística. Uma gramática reconstrói a complexidade total da língua em etapas, distinguindo a
contribuição de cada nível linguístico (Chomsky 1955c, p. 63).
Para o Chomsky de LSLT, um nível linguístico é um sistema L no qual
se constroem representações unidimensionais dos enunciados. Cada nível
apresenta um “alfabeto”, fixo e finito, de elementos primitivos. Por meio de
uma operação de concatenação podemos obter sequências de elementos que
serão chamadas cadeias em L. No processo de análise linguística, constrói-
se, em cada nível L, um conjunto de cadeias, chamado de marcadores-L (L-
markers), que será atribuído às sentenças da língua sob análise. O
marcador-L de uma dada sentença S deve conter toda a informação
estrutural referente a S no nível L. A relação entre os vários níveis L1, L2,
..., Ln é feita por operações de mapeamento que associam os elementos de
um nível aos elementos dos outros níveis. Se organizarmos os vários níveis
numa hierarquia, podemos pensar numa sequência de mapeamentos (de L1
para L2, de L2 para L3 e assim por diante até Ln) até chegarmos a um último
que associe marcadores-L às sentenças da língua.
Achamos necessário distinguir ao menos os seguintes níveis na descrição linguística: fonemas
(Pm), morfemas (M), palavras (W), categorias sintáticas (C), estrutura frasal (P) e transformações
(T) (Chomsky, 1955c, p. 66).
É tarefa da gramática, então, a atribuição de pelo menos seis
representações — uma para cada nível — a cada sentença da língua. Em
outras palavras, a gramática deve associar a cada sentença uma
representação formal (uma “expressão” da linguagem em que se escreve o
sistema computacional), em cada um dos níveis linguísticos, que represente
(simule, modele) as propriedades da sentença referentes àquele nível.
A gramática de uma língua deve nos dizer exatamente quais são as sentenças-tokens gramaticais,
e exatamente como elas são representadas em cada nível (Chomsky, 1955c, p. 99).
Vejamos agora a forma que uma gramática deve assumir para realizar
estas tarefas. Em primeiro lugar, é preciso que a gramática estabeleça para
cada sentença-token uma sequência de representações <R1, ..., Rn>, onde R1
é a representação Sentença, Rn é uma representação fonética e R2, ..., Rn-1
são as representações intermediárias.
Podemos gerar essas sequências de representações por regras da forma
1. X → Y
interpretadas como a instrução “reescreva X como Y”. Chamamos a estas regras de Conversão.
(...) Dizemos que a sequência <R1, ..., Rn> é uma derivação de Rn, gerada por um conjunto C de
conversões, se R1 for sentença e para cada i (1 ≤ i ≤ n), Ri+1 seguir-se de R1 por uma das
conversões de C (Chomsky, 1955c, p. 114).
A ideia básica é que uma sentença como Pedro viu Maria, bem como
qualquer outra sentença da língua portuguesa, receba um conjunto de
representações e que essas representações possam ser construídas, numa
sequência, uma a partir da imediatamente anterior. Suponhamos que o
sistema comece dizendo que Pedro viu Maria é uma sentença. A partir
disso, o sistema deverá dizer como a sentença é constituída por categorias
sintáticas, expondo sua estrutura. Nossa sentença, por exemplo, é
constituída por um sintagma nominal (SN) seguido de um sintagma verbal
(SV); o sintagma verbal, por sua vez, é constituído por um verbo (V)
seguido de um novo SN. Os SNs são constituídos por nomes próprios (N).
Assim, no nível da estrutura frasal, a sentença Pedro viu Maria receberá
uma representação que pode ter uma das duas formas seguintes (que são
absolutamente equivalentes):
Cada uma das palavras, Pedro, viu e Maria, receberá uma representação
no nível morfológico e fonológico, o que permitirá a obtenção de uma
representação morfológica e fonológica para a sentença. E assim por diante,
até que tenhamos a sentença completamente representada em todos os seis
níveis linguísticos previstos.
Cada conversão precisa ser marcada de algum modo para indicar a que
nível linguístico pertence e isso pode ser feito pelo agrupamento das
conversões de um mesmo nível e pelo estabelecimento de uma ordem de
aplicação.
Chegamos assim à gramática — bastante conhecida — de Syntactic
Structures:
Para produzir uma sentença a partir de tal gramática nós construímos uma derivação contínua
começando com sentença. Passando pelas regras de F, construímos uma cadeia terminal que será
uma sequência de morfemas, embora não necessariamente na ordem correta. Passamos então pela
sequência de transformações T1, ..., Tj, aplicando cada uma das obrigatórias e talvez algumas das
opcionais. Essas transformações podem rearranjar as cadeias ou podem acrescentar ou apagar
morfemas. Como resultado obtemos uma cadeia de palavras. Passamos então pelas regras
morfofonêmicas, convertendo desta forma as cadeias de palavras em cadeias de fonemas
(Chomsky, 1957, p. 46).
Este é, em rápidas pinceladas, o modelo de análise que Chomsky
propunha na segunda metade da década de 1950.
A hipótese que se colocava é a de que este mecanismo de análise
linguística seria uma representação adequada do sistema computacional,
presente na mente/cérebro dos falantes, capaz de determinar, ao menos
parcialmente, seus comportamentos linguísticos. Ou seja, assumidas as
afirmações do núcleo, a heurística determinou a construção de uma hipótese
de representação do sistema computacional que, até prova em contrário, foi
considerada a gramática presente na mente/cérebro dos falantes.
É fácil perceber que este modelo não se encontra muito afastado dos
modelos oriundos do estruturalismo americano. O próprio Chomsky não vê
diferença essencial entre seu modelo e o modelo distribucional de
Bloomfield e de Harris: no final do capítulo IV de LSLT, após apresentar
seu modelo de gramática, Chomsky afirma:
Vamos nos referir à análise linguística efetuada nestes termos como “análise distribucional”. Este
uso parece corresponder à prática do que se tem chamado de análise distribucional (Chomsky,
1955c, p. 127).
No que diz respeito à noção de nível linguístico, a abordagem
chomskiana também não se distingue profundamente das abordagens
estruturalistas: Chomsky remete a Hockett (1955) “para uma abordagem
semelhante dos níveis linguísticos” (1955c, p. 97). O único ponto em que a
proposta de Chomsky parece se distanciar das propostas estruturalistas é
quanto ao número de níveis necessários para a descrição linguística.
Nossa principal conclusão será que a teoria conhecida [o estruturalismo americano] tem apenas
uma adequação limitada — i.e., ela está tentando conseguir muito com pouca bagagem teórica.
(...) Nós vamos demonstrar que o remédio para essas deficiências não se encontra na extensão da
base distribucional da teoria linguística de modo a incluir significado, contexto situacional, etc.,
nem, aparentemente, na introdução de conceitos probabilísticos e estatísticos. Em vez disso,
propõe-se um novo nível de análise transformacional como o nível mais alto da estrutura
linguística. Vai-se mostrar que a teoria da análise transformacional pode ser formulada nos
mesmos termos completamente distribucionais que são requeridos nos níveis mais baixos, e que
um grande e importante conjunto de problemas que surgem com a aplicação rigorosa da teoria
linguística conhecida desaparecem quando ela é estendida para incluir a análise transformacional
(Chomsky, 1955c, p. 64).
Aparentemente, para Chomsky, o acréscimo de um nível
transformacional à “teoria linguísticaconhecida” (o estruturalismo
americano, em outras palavras) é suficiente para torná-la adequada. A
mesma posição, aliás, é assumida, com extremo otimismo, por Lees, que
afirma:
Chomsky (...) foi levado a construir todo um nível de transformações gramaticais para tratar
todas as dificuldades encontradas na tentativa de estabelecer explicitamente uma gramática de
constituintes imediatos completa e simples (Lees, 1957, p. 52; o grifo é nosso).
Causa alguma estranheza, no entanto, considerar que Chomsky constrói
um conjunto de regras transformacionais com o fito de superar deficiências
dos modelos do estruturalismo americano (EA), uma vez que em Harris
(1952) já se utilizam regras transformacionais para a análise das línguas
naturais, e Harris é um dos representantes mais característicos do EA. É
preciso ficar bem claro, então, o sentido em que a noção de transformação
de Chomsky é distinta da noção de transformação de Harris.
A noção de transformação de Harris repousa na noção de forma
sentencial. Harris chega a esta noção pela definição de variáveis que têm
por domínio classes de palavras (a variável N tem por domínio a classe dos
nomes, por exemplo). A partir daí, podem-se definir sequências de
variáveis bem formadas.11 Essas sequências de variáveis bem formadas são
chamadas, por Harris, de formas sentenciais.
Ocorre, porém, que nem todas as sentenças obtidas pela atribuição de
valores às variáveis de uma forma sentencial são igualmente aceitáveis. Por
exemplo, a sentença O homem pensa é mais aceitável do que A pedra
pensa, embora ambas pertençam à mesma forma sentencial. Cada forma
sentencial, então, possui uma gradação de aceitabilidade para os valores de
suas variáveis e tal gradação caracteriza propriamente a forma sentencial.
Harris define, então, pares de formas sentenciais, compostas exatamente
pelas mesmas variáveis, diferindo apenas por alguma característica
univocamente determinável (diferença de ordem entre as variáveis;
presença ou ausência constante de determinados elementos etc.). Se duas
formas sentenciais pertencem a um par assim definido e, além disso,
apresentam a mesma gradação de aceitabilidade, Harris vai dizer que elas
estão em relação de transformação. Por exemplo, as formas sentenciais
N1+V+N2 e N2+ser+V-do por+N1 constituem um par de formas que (i)
apresentam as mesmas variáveis; (ii) apresentam elementos constantes
numa delas (ser, -do, por) e (iii) apresentam mudança de ordem entre N1 e
N2. Na medida em que a gradação de aceitabilidade das duas formas
sentenciais é a mesma, Harris vai dizer que essas duas formas estão numa
relação de transformação denominada ativa/passiva.
Para Harris, então, uma transformação não é mais do que uma classe de
pares de sentenças. Como Milner (1973, p. 191) aponta, as transformações
harrisianas são relações que podem ser exprimidas numa linguagem de
classes e podem ser ditas relações-em-extensão.
Vejamos agora em que consistem as transformações para Chomsky. Ele
parte da definição do predicado “analisável”. Imaginemos uma sentença
constituída pela sequência de elementos t; imaginemos que Q é um
indicador sintagmático (uma “árvore”, como a de (1b)) que representa a
estrutura de t; suponhamos agora que t possa ser subdividido em segmentos
sucessivos t1, ..., tn de modo que cada ti esteja ligado a um nódulo Ai em Q.
Dadas essas condições, podemos dizer que t é analisável em <t1, ..., tn; A1,
..., An> do ponto de vista de Q.
Tomemos a sentença Pedro viu Maria como exemplo. Podemos
representar sua estrutura por meio do indicador sintagmático de (1b). A
sentença está dividida em três segmentos sucessivos (Pedro, viu e Maria) e
para cada segmento podemos encontrar no indicador sintagmático um
nódulo ao qual ele esteja ligado: Pedro está ligado a N, viu está ligado a V e
Maria está ligado a N. Podemos dizer, então, que a sentença Pedro viu
Maria é analisável em <Pedro, viu, Maria; N, V, N>.12
Para Chomsky, uma transformação tem um domínio (ou “condição
estrutural”) e um efeito (ou “mudança estrutural”). O domínio indica a
classe de expressões linguísticas que podem sofrer a transformação e é
especificado por uma sequência de símbolos <A1, ..., An>, que são símbolos
de nódulos de um indicador sintagmático. Para que uma expressão
linguística esteja no domínio da transformação é preciso que seja analisável
em <t1, ..., tn; A1, ..., An>. O efeito da transformação, por sua vez, é descrito
por uma regra que projeta a sentença de partida (o conjunto t1, ..., tn da
sentença que vai sofrer a transformação) na sentença de chegada (i.e., a
sentença já transformada). Tomemos a transformação de passiva como
exemplo. Sua forma para o português seria aproximadamente a seguinte:13
Domínio: N1 Aux V N2 
Efeito: N2 Aux+ser V+do por N1
O domínio nos diz que expressões podem sofrer a transformação (a
sentença Pedro viu Maria, por exemplo, está no domínio da
transformação14); o efeito nos diz quais são as mudanças que a sentença de
partida (digamos, Pedro viu Maria) deve sofrer para que obtenhamos a
sentença de chegada. As mudanças são, basicamente, a permuta de sujeito
(N1) e objeto direto (N2); o acréscimo do verbo ser, como auxiliar porta-
tempo; o acréscimo da terminação de particípio passado ao V; e o acréscimo
da preposição por antes de N1. Aplicada a regra à sentença Pedro viu
Maria, obteremos a sentença de chegada Maria foi vista por Pedro.
Segundo Milner, o que Chomsky define com sua noção de
transformação
é uma entidade específica, a regra de transformação, e não uma classe de pares de sentenças; o
fato de que duas sentenças estejam em relação é visto como uma propriedade do par, distinta do
par-ele-mesmo, de que a regra tomada em seu conjunto é o símbolo (Milner, 1973, p. 192).
Para Milner, as transformações chomskianas não podem ser tratadas
numa linguagem de classes e caracterizam relações-em-intensão.
É fácil ver que há muitas semelhanças entre as duas concepções de
transformação. Segundo Milner, o que as opõe são os enfoques: extensional
em Harris e intensional em Chomsky.
Em termos extensionais, uma relação de transformação é inteiramente
determinada pelo par de sentenças que relaciona e a tarefa da gramática é
simplesmente estabelecer esses pares.
Vê-se então que a análise transformacional não é, na essência, um meio de determinar a estrutura
de cada sentença tomada separadamente, mas um modo de agrupar os conjuntos de sentenças em
pares {A}, {B} e, portanto, de agrupar do mesmo modo as sentenças correspondentes A1, B1 de
cada um dos dois conjuntos (Harris, 1968, p. 68).
Numa perspectiva intensional, por outro lado, dado um par de sentenças,
podemos imaginar inúmeras relações (regras) entre elas, especificadas
diferentemente pelo predicado analisável. A tarefa do cientista é muito mais
complexa do que numa perspectiva extensional.
Sempre se poderia argumentar que as teorias extensionais e intensionais
são equivalentes, uma vez que parece ser possível estabelecer tabelas de
correspondência que relacionem propriedades e classes, relações-em-
extensão e relações-em-intensão etc. Por exemplo, a afirmação “a sequência
t é analisável em...” não é mais do a versão intensional da afirmação “a
sequência t é membro da forma sentencial...”. No entanto,
Existem casos em que os pares são perfeitamente conhecidos, mas em que a regra de
transformação intensional não pode ser formulada porque o predicado “analisável” não pode ser
precisado com toda certeza. (...) Assim, os pares sentenças ativas/sentenças passivas estão entre
os mais atestados da tradição gramatical; em termos extensionais, a transformação passiva é pois
uma das mais certas e mais bem descritas. Por outro lado, ao se enfocar os dados do ponto de
vista do predicado “analisável”, graves obscuridades aparecem: qual é a exata natureza do
complemento agente? Qual é a exata condição que especifica o domínio da transformação (a
natureza transitiva do verbo é suficiente? Outros fatores intervêm: por exemplo, um advérbio de
modo postiço? Cf. Aspects, p. 145-150),etc. Em suma, a regra de transformação passiva é uma
das mais mal conhecidas da gramática intensional (Milner, 1973, p. 198-199).
Não podemos, então, falar em equivalência entre as duas perspectivas
porque a relação entre elas é assimétrica: dada uma teoria intensional bem
formulada, pode-se facilmente obter a contraparte extensional, mas o
inverso não é verdadeiro.
Há ainda uma outra diferença entre as duas noções de transformação que
é fundamental para a sua compreensão (e que Milner ignora). Trata-se do
fato de que nem tudo o que Chomsky relaciona por transformações são
sentenças. A noção harrisiana de transformação pareia conjuntos de
sentenças (formas sentenciais); a noção chomskiana de transformação
mapeia a estrutura de uma sentença num determinado estágio derivacional
em outra estrutura da mesma sentença obtendo um outro estágio
derivacional. As transformações chomskianas não são, definitivamente,
mecanismos construídos para a obtenção de pares de sentenças, embora
possamos, por meio delas, justificar os pares de sentenças que nossa
intuição reconhece na língua.
Fica claro, então, que Chomsky verdadeiramente inova quando propõe
sua teoria intensional das transformações. A noção de transformação — e o
papel que essa noção desempenha no interior do modelo — efetivamente
opõe Chomsky ao EA. Justifica-se assim o destaque que Chomsky e os
divulgadores de sua teoria (como Lees) dão a esta noção.
Apesar da inovação representada pela introdução no “nível
transformacional” na análise linguística, no geral o modelo descritivo
chomskiano não se afasta em demasia da tradição estruturalista.
Encontramos a GG, então, nesses primeiros anos, às voltas com uma
inconsistência que, embora não fosse percebida como tal à época, vai exigir
profundas modificações na forma da teoria: a proposta do programa é
distinta da proposta do programa do estruturalismo, mas as ferramentas de
análise disponíveis são essencialmente as mesmas. Ou seja, há um
descompasso entre o que se pretende fazer e o que, na verdade, acaba sendo
feito.
Não é de se estranhar, então, que logo se façam alterações no modelo
descritivo pela assunção de novas teorias auxiliares.
2.3. A gramática gerativa dos anos 1960: a teoria-padrão
Os primeiros dez anos de gramática gerativa foram os “anos heroicos”
em que o combate com as forças do estruturalismo americano dominou a
cena.15 A teoria de SS vai tendo seus pressupostos explicitados e alguns de
seus mecanismos teóricos alterados ou substituídos para que se consiga, em
melhores condições, a realização da tarefa que a teoria se impunha, ou seja,
a descrição do sistema computacional capaz de definir, gerativamente, as
línguas naturais. Em meados dos anos 1960 já se podia considerar que a
batalha estava ganha: o programa gerativista era claramente dominante na
linguística norte-americana e começava sua expansão para outros lugares,
pela conquista de novos adeptos fora dos limites da América do Norte.
Aspects of the theory of syntax (Chomsky, 1965) é uma grande síntese
das mudanças que se processaram na teoria de SS. Ao lado da primeira
grande explicitação dos postulados do programa, apresentada nos
preliminares metodológicos,16 Chomsky desenvolve uma nova
configuração para sua gramática: o modelo que ficou conhecido pelo nome
de teoria-padrão.
Esta nova teoria altera significativamente o modelo descritivo e explicita
uma série de postulados que, na teoria anterior, permaneciam supostos de
forma relativamente obscura ou decorriam dos pressupostos mas não eram
apresentados de forma clara. É nesse período, por exemplo, que surge a
questão do inatismo como hipótese de trabalho, com a consequente
psicologização forte da gramática.17 É nesse período, também, que se
desenvolvem teorias auxiliares poderosas, que permitirão um melhor
desempenho descritivo e/ou explicativo do programa: o léxico passa a ser
relevante e recebe uma primeira formulação teórica consistente; surge a
noção de “estrutura profunda”, que teve como consequência maior o início
de uma preocupação com a semântica (preocupação que ensejou o
aparecimento de uma série de formulações teóricas alternativas, mais ou
menos heterodoxas).18
Não é de se estranhar, também, que boa parte das discussões tenha como
objeto o componente transformacional do modelo de análise. Dado um
conjunto de fenômenos linguísticos, se o que distingue uma análise
gerativista da análise feita por um estruturalista é a presença de
transformações, nada mais óbvio que a heurística determinar o
aprofundamento dessa noção com vistas à resolução dos problemas formais
que aí poderiam aparecer.
Na teoria-padrão, a forma da gramática, que de certa maneira representa
a imagem que se tem na época do funcionamento do conhecimento
linguístico que o falante tem registrado em sua mente/cérebro, apresenta-se
organizada em três componentes maiores: um componente sintático, que é
gerativo, na medida em que é o único componente que constrói
representações, e dois componentes interpretativos, o componente
semântico e o componente fonológico.19
O processo de geração das sentenças se inicia no componente sintático
que tem a seguinte estrutura interna: um subcomponente de base (ou
simplesmente BASE), que é o responsável pela geração das estruturas
profundas (EP) e um subcomponente transformacional, que converte as EPs
em estruturas superficiais (ES). O subcomponente de base contém (1) um
conjunto de regras de reescritura (chamado, por vezes, de componente
categorial) que, aplicadas ao axioma inicial S, gera estruturas em árvore
“etiquetadas” com símbolos de categorias cujos nós terminais não são
preenchidos; e (2) um léxico, que insere itens lexicais nos nós terminais da
árvore. A entrada (input) da BASE é o axioma S e a saída (output) são
estruturas profundas. O componente transformacional recebe as estruturas
profundas, como entrada, e, por meio de regras transformacionais, converte-
as em estruturas superficiais. Num esquema:
O componente sintático gera pares ordenados <EP, ES> e os dois
componentes interpretativos associam representações aos elementos dos
pares: o componente semântico associa interpretações semânticas às EPs, e
o componente fonológico associa interpretações fonéticas às ESs. O
esquema completo fica com a seguinte forma:
A EP deve conter todos os elementos necessários para a interpretação
semântica da sentença enquanto a ES deve conter as informações para a sua
leitura fonética. Uma gramática é entendida como “um sistema de regras
que une os sinais fonéticos às interpretações semânticas” (Chomsky, 1966,
p. 12) ou, como Chomsky vai repetir em outros lugares, um sistema de unir
sons a significados.
Na medida em que o único componente gerativo é o componente
sintático, este será o componente central da gramática, no sentido de que é
ele que permite o estabelecimento das relações entre o conteúdo semântico
e a forma fonética das expressões linguísticas.
Com a teoria-padrão o programa da GG chega ao fim de uma etapa.
Aparentemente há um bom modelo de análise linguística para dar
sustentação às exigências da heurística. Os mecanismos sintáticos parecem
ser suficientemente poderosos para permitir a descrição adequada das
estruturas linguísticas; as teorias auxiliares e uma teoria geral dos
mecanismos gerativos (teoria formal da gramática) parecem dar suficiente
sustentação às descrições e explicações obtidas pela GG. Multiplicam-se as
análises de novos fatos da língua inglesa e multiplicam-se as análises de
fatos de outras línguas. O sucesso dessas análises reforça a sensação de que
se conseguiu chegar a uma teoria adequada do conhecimento linguístico dos
falantes. O objetivo maior do Programa, então, se ainda não fora atingido,
parecia bem próximo de sê-lo.
No final de 1965 começaram a aparecer, no interior mesmo do
gerativismo, as primeiras críticas às propostas de Chomsky. A principal
área de conflito, na época, era o grau de abstração das estruturas
linguísticas subjacentes. O ponto em disputa era a distância entre as EPs e
as ESs e a distância entreas EPs e as representações semânticas. Enquanto
a teoria-padrão procurava manter a EP e a ES bastante próximas, os
“dissidentes” propunham que se distanciasse mais a EP da ES e que se
aproximasse a EP das representações semânticas.
A afirmação de Chomsky de que
O componente sintático especifica um conjunto infinito de objetos formais abstratos, cada um
dos quais incorpora toda a informação relevante para uma interpretação única duma frase
particular (Chomsky, 1965, p. 97),
induziu os gerativistas a procurarem soluções sintáticas para os
problemas semânticos e a buscarem EPs que representassem todos os
aspectos do significado das sentenças sob análise. Esse procedimento levou
à postulação de EPs cada vez mais abstratas e mais próximas das
representações semânticas.20 O compromisso com a hipótese de que a
interpretação semântica se dá ao nível da EP leva muitos linguistas a
concluírem que tudo o que se considerar como fazendo parte do significado
da sentença deve constar da EP. Assim, por exemplo, todas as ambiguidades
observadas nas sentenças deviam ser resolvidas pela postulação de
diferentes EPs, sem falar em fenômenos fonológicos com consequências
semânticas, como a focalização, as pressuposições, e os performativos, por
exemplo.
Uma série de análises e uma série de argumentos empíricos e teóricos
foram levantados pelos “abstracionistas”, todos levando a uma mesma
conclusão: é necessário postular EPs mais abstratas, que consigam
representar mais diretamente as relações semânticas presentes nas
sentenças.
É importante destacar que os “abstracionistas” se mantinham
rigorosamente no interior da teoria-padrão e, em consequência, no interior
do programa da GG, o que pode explicar a aceitação quase geral de suas
análises pela comunidade gerativista, ao menos por um certo tempo.
Com a expansão da postura abstracionista, chega-se a uma
descaracterização quase completa da noção de EP, tal como imaginada por
Chomsky, não fazendo mais nenhum sentido teórico tentar distingui-las das
representações semânticas.
Os “abstracionistas” tentam — de forma desordenada — reunir suas
ideias no que se chegou a considerar na época um novo “paradigma”, que
recebeu o nome de semântica gerativa.21
A reação de Chomsky não se faz esperar e, em 1967, ele propõe
algumas alterações na teoria-padrão para impedir a abstração desenfreada.
A reação chomskiana tem algumas consequências. Em primeiro lugar, o
rompimento com os “abstracionistas” torna-se inevitável, e surge um
primeiro grupo de linguistas “criados” no interior do programa da GG que
se lançam à tarefa de construção de novos programas de investigação. Em
segundo lugar, um novo modelo de análise linguística é estabelecido. Este
novo modelo ficou conhecido como teoria-padrão estendida (TPE).22
Como o próprio nome indica, TPE não é entendida como uma nova
teoria. Trata-se apenas da velha teoria-padrão que recebe algumas novas
teorias auxiliares, a mais importante das quais é a teoria X-barra. O papel
do léxico também é alterado: os itens lexicais passam a ser tratados como
feixes de traços, por exemplo, e muitos fenômenos que eram tratados via
transformações passam a ser tratados a partir de relações lexicais. No geral,
entretanto, a teoria permanece a mesma.
2.4. Das regras aos princípios
Passada a tempestade dos embates com a semântica gerativa, Chomsky
e seus associados puderam voltar a pensar no desenvolvimento do programa
da GG. A grande herança deixada pela semântica gerativa foi a proliferação
dos mecanismos teóricos e dos tipos de regras disponíveis. A tarefa
imediata com que os chomskianos se defrontaram, então, foi a de restringir
o poder descritivo da gramática para aumentar o seu poder explicativo.
Há uma certa “tensão” presente no programa da GG entre o requisito da
adequação descritiva e o requisito da adequação explicativa. Chomsky diz
que uma teoria é explicativamente adequada quando consegue selecionar
com êxito uma gramática descritivamente adequada a partir do conjunto das
gramáticas possíveis (definido pela teoria geral) e dos dados linguísticos
primários. Em outras palavras, a teoria é explicativamente adequada
quando reproduz o comportamento da criança que adquire linguagem:
frente aos dados linguísticos brutos, a criança seleciona uma gramática
dentre as gramáticas possíveis admitidas pelo componente inato de sua
competência linguística.23 Assim, para atingir a adequação explicativa, os
mecanismos teóricos disponíveis na teoria geral (teoria do componente
inato da gramática) devem ser restringidos, de modo que poucas gramáticas
possam ser obtidas e que se consiga entender como a criança rapidamente
seleciona a gramática adequada aos dados de que dispõe.
Por outro lado, para atingir a adequação descritiva, isto é, para construir
gramáticas para todas as línguas naturais, os mecanismos teóricos
disponíveis devem ser suficientemente ricos e diversos para cobrir toda a
riqueza e diversidade das línguas naturais.
É óbvio o conflito entre esses dois requisitos de adequação e a busca
deverá ser de uma teoria que seja, simultaneamente, rica o suficiente para
dar conta da variedade das línguas e suficientemente restritiva para permitir
um pequeno número de gramáticas possíveis.
Encontramos já em meados dos anos de 1960 propostas de restrição do
poder descritivo das regras transformacionais. A tese de doutorado de John
Robert Ross (1967), com a postulação das “ilhas” (configurações sintáticas
que impediam extrações de elementos), é um bom exemplo dessa
preocupação. Mas é com os trabalhos de Peters e Ritchie, no início dos anos
1970, no calor dos debates entre a GG e a semântica gerativa, que a
necessidade de restringir o poder dessas regras se torna premente.
Peters e Ritchie (1969, 1971, 1973) demonstram que a capacidade
gerativa fraca de uma gramática que inclua regras transformacionais como
as que são propostas na época é equivalente à de um sistema de reescritura
irrestrito (uma máquina de Turing). Isso significa que uma gramática
transformacional de uma língua natural qualquer não nos diz nada sobre as
características estruturais dessa língua, apenas constata que a língua,
entendida como um conjunto de sentenças, é recursivamente enumerável (e
pode, em consequência, ser gerada por um cálculo). Os trabalhos de Peters
e Ritchie mostram que o problema maior das gramáticas transformacionais
não era a proliferação de regras ou de categorias, era a falta de restrições
fortes sobre o funcionamento dessas regras. Sem restrições, as
transformações — que podiam eliminar, criar, permutar, mover ou alterar
elementos — eram inúteis como mecanismos de exposição das estruturas
linguísticas. Fazendo os apagamentos, os movimentos e os acréscimos
adequados, podíamos partir de qualquer sentença e chegar a qualquer outra
sentença.
A tarefa de propor condições restritivas sobre o funcionamento das
regras passa a ser a prioridade do programa. Parece claro que temos aqui
um caso de mudança criativa da heurística. O foco da atenção deixa de ser
a adequação descritiva e passa a ser a adequação explicativa. Em vez de ter
a proposição de sistemas computacionais como a tarefa mais importante, a
restrição dos sistemas já propostos anteriormente passa a ter prioridade.
Obviamente, os rumos da teoria, o seu “plano de desenvolvimento”, sofrem
uma alteração substancial.
Podemos ver duas tendências principais nesse processo de restrição do
poder das regras. A primeira tendência é a de impor condições gerais à
aplicação das regras: as “ilhas” de Ross (1967), a restrição de preservação
de estrutura de Emonds (1970) e as condições de Chomsky (condição sobre
o sujeito especificado, condição sobre sentença com tempo e condição de
subjacência) são, todas, condições sobre a aplicação das regras
transformacionais. Em outras palavras, nos dizem que as transformações só
se aplicam se determinadas condições estão presentes. Como exemplo, a
restrição da preservação de estrutura de Emonds nos diz, entre outras
coisas, que não se pode fazer nenhum apagamento na estruturaque não
possa ser estruturalmente recuperado: só é possível apagar o sujeito de uma
sentença em italiano (e em português também, até onde eu consigo ver)
porque a flexão verbal nos permite recuperar estruturalmente a posição de
sujeito; numa língua sem flexão verbal, como o inglês, o apagamento do
sujeito fica impedido.
A outra tendência, além de restringir a aplicação das regras, propõe uma
restrição forte no número de regras disponíveis. Esta tendência surge com
Chomsky (1976a) e é a tendência dominante na GG a partir daí. Nas
palavras de Lobato:
A restrição do número de transformações é uma característica da teoria gerativa chomskiana
desde 1976 (“Conditions on rules of grammar”), quando o componente transformacional passou
a ser integrado de exclusivamente duas regras: Deslocamento de SN, Deslocamento de QU
(Lobato, 1986, p. 337).
Essa segunda tendência é interessante e merece alguma atenção.
Quando Chomsky propõe que se substituam as regras transformacionais
de posposição de SN e de anteposição de SN por uma única regra de
deslocamento de SN, ele, por um lado, consegue reduzir o número de regras
disponíveis, mas, por outro lado, obtém uma regra tão geral que qualquer
SN passa a poder ser movido de qualquer lugar para qualquer outro lugar.
Como manter, então, a redução no número de regras sem perder de vista a
necessidade geral de restringir a gramática como um todo? A solução de
Chomsky é propor a interação das regras com um conjunto de princípios
gerais sobre a gramática. A solução se revela tão operacional que Chomsky
vai reduzir ainda mais o componente transformacional, ficando com apenas
uma regra: MOVA ALFA.
Na medida em que o componente transformacional fica reduzido a uma
única regra e na medida em que esta regra deve ser facultativa, para
permitir a geração de formas superficiais alternativas para uma mesma
estrutura subjacente, é preciso encontrar mecanismos que não só impeçam
movimentos indesejáveis como mecanismos que forcem o movimento em
casos em que ele deveria ser obrigatório.
A solução de Chomsky reside no estabelecimento de algumas teorias
auxiliares novas: a teoria dos casos, a teoria dos papéis temáticos (teoria
Theta), a teoria dos vestígios, a teoria das categorias vazias e a teoria da
ligação, além da teoria X-barra, já existente. Todas essas teorias impõem
condições sobre as representações possíveis e, em consequência, tanto
forçam movimentos como os impedem.
Não vou me ocupar aqui com análises mais demoradas. Apenas gostaria
de mostrar como essas teorias auxiliares funcionam.
A teoria dos vestígios, por exemplo, desenvolvida em Chomsky
(1976a), postula que todo elemento movido deixa um vestígio no lugar de
onde saiu, vestígio esse que funciona como um elemento pleno para fins das
regras sintáticas. Por exemplo, a análise da sentença (2) propõe que ela seja
derivada por transformação da estrutura (3) por meio do movimento do
clítico nos para junto do verbo da oração principal.24
(2) Paulo nos viu examinar a garota.
(3) Paulo viu [nos examinar a garota]
Não é possível, no entanto, obter (4) a partir de (5) porque o clítico a
teria que “passar por cima” do sujeito da subordinada e isso é proibido pela
condição sobre o sujeito especificado.25
(4) * Paulo a viu nós examinar.
(5) Paulo viu [nós examinar a]
Vejamos um caso um pouco mais complexo. A sentença (6) seria obtida
a partir da estrutura presente em (7) pelo movimento do sujeito da
subordinada para a posição de sujeito da principal e pelo movimento de
anteposição do clítico os.
(6) Paulo parece os ter examinado.
(7) Δ parece [Paulo ter examinado os]
A sentença (8), no entanto, que deveria comportar-se da mesma forma,
não é gramatical, embora aparentemente não haja mais razões para que a
condição sobre o sujeito especificado se aplique.
(8) * Paulo os parece ter examinado.
A solução para o problema trazida pela teoria dos vestígios propõe que,
entre a estrutura (7) e a sentença (8), tenhamos uma estrutura intermediária
(9) que, com seu vestígio na posição de sujeito, impede o movimento do
clítico para fora da subordinada.26
(9) Paulo parece [v ter examinado os]
Os movimentos do clítico no interior da subordinada são permitidos, de
modo que da estrutura (7) poderíamos obter, sem problemas, as estruturas
(10) e (11).
(10) Paulo parece [v tê-los examinado]
(11) Paulo parece [v os ter examinado]
A hipótese do vestígio impede o movimento indesejado mantendo a
generalidade da regra de movimento.
A teoria dos Casos, por sua vez, determina que todo SN pleno (isto é,
SN realizado morfologicamente) receba um Caso;27 estabelece também os
contextos28 na estrutura em que um SN poderá receber CASO. Assim, um
SN gerado em posição que não permita a atribuição de Caso deverá,
necessariamente, ser movido para alguma posição em que possa receber
Caso. Por exemplo, em (12) a posição de sujeito da principal é vazia na
estrutura subjacente e, para obtermos uma sentença bem formada, é
necessário que o sujeito da subordinada ocupe a posição de sujeito da
principal, resultando em (13).
(12) Δ parece [João estar alegre]
(13) João parece [v estar alegre]
Ora, esse movimento não é obrigatório em todos os casos, uma vez que
poderíamos obter (14) a partir de (15), por exemplo.
(14) CV parece [que João está alegre]
(15) Δ parece [João está alegre]
Em vez de propor, de forma ad hoc, a obrigatoriedade de certos
movimentos, é preferível estabelecer um princípio geral, como a exigência
de atribuição de Caso a SNs plenos como “João”, e determinar os contextos
em que essa atribuição se dará. Podemos ver em nossos exemplos que em
(15) o SN João recebe Caso porque é sujeito de uma sentença com verbo
finito (a sentença subordinada) enquanto em (12), na medida em que o
verbo da subordinada é um infinitivo, o SN João não recebe Caso,
precisando, portanto, ser movido para a posição de sujeito da principal para
que receba o Caso nominativo (o verbo da principal, parece, é finito e, em
consequência, permite a atribuição de Caso). Note-se que o movimento
continua facultativo. A ausência de movimento, no entanto, em (12), torna
agramatical a estrutura.
Em suma, uma das teorias — a teoria dos vestígios — restringe o
número de locais para onde os elementos movidos podem ir, enquanto a
outra — a teoria dos Casos — torna certos movimentos obrigatórios.
Chomsky (1976a e 1976b) percebe que essas condições apresentam um
efeito mais geral do que simplesmente regular os movimentos: as condições
também impedem certos relacionamentos entre elementos em casos em que
não houve movimentos. A proposta, então, é que as condições funcionem
também na regulação das relações interpretativas. Dessa forma, é possível
expor um paralelismo estrutural entre o relacionamento do vestígio com seu
antecedente (fruto de uma regra de movimento) e o relacionamento de
alguns pronomes anafóricos (reflexivos e recíprocos, entre outros) e seus
antecedentes (fruto de regras interpretativas).
O que se vai perceber a partir disso é que passa a ser possível admitir
que as regras de movimento são livres, ou seja, não são submetidas a
condições. As condições sobre o movimento deixam de existir e seus
efeitos passam, todos, a ser obtidos por meio de condições sobre a
interpretação.
A principal consequência é a substituição do que podemos chamar de
perspectiva derivacional por uma perspectiva representacional. Estamos
diante de uma nova mudança criativa na heurística do programa.
Numa perspectiva derivacional, as várias representações dos níveis
linguísticos (sejam “fonemas (Pm), morfemas (M), palavras (W), categorias
sintáticas (C), estrutura frasal (P) e transformações (T)”, como queria
Chomsky em LSLT, sejam “estrutura profunda, estrutura superficial, forma
fonética e representação semântica”, da teoria-padrão) são derivadas umas
das outras por meio de regras. A gramática é rigidamente direcional, ou
seja, os diversos níveis de análise linguística são abordados — e recebem
representações — numa ordem determinada. Até meados dos anos 1970,
então, todas as propostasde gramáticas feitas no interior da GG eram
derivacionais.
Na perspectiva representacional, por outro lado, as várias
representações não se relacionam por derivação: elas são apenas
representações de propriedades estruturais resultantes das teorias que
restringem a gramática. As estruturas-P, por exemplo, podem passar a ser
entendidas como uma representação “pura” das funções gramaticais
relevantes para a atribuição de papéis temáticos e, nesse sentido, como uma
“abstração” das estruturas-S. A gramática não é direcional. Como diz
Lobato:
Essa mudança de abordagem leva a uma modificação na interpretação do que seja “ser gerado
pela base”. Nas versões anteriores da teoria, essa expressão significava “ser derivado, a partir de
S, por aplicações sucessivas de regras sintagmáticas e com uso da regra de substituição lexical”.
Agora, ela significa “ser projetado do léxico, a partir de X, de acordo com os princípios da GU
[Gramática Universal] e os parâmetros que a língua fixou”. Essa nova perspectiva permite então
que se considere que uma estrutura-S seja gerada pela base, sendo Deslocamento de ALFA uma
propriedade das estruturas-S, e não, nessa ótica, uma regra que converte estruturas-P em
estruturas-S (cf. Chomsky, 1982b, p. 33). Do mesmo modo, qualquer outro nível de
representação pode ser considerado como “derivado pela base”, uma vez que qualquer nível de
representação é determinado pela fixação dos parâmetros da GU (Chomsky, 1982b apud Lobato,
1986, p. 403-404).
Completado o ciclo de substituições das regras pelos princípios,
Chomsky se vê às voltas com uma teoria da gramática suficientemente
distinta das anteriores para que possa receber um novo nome: teoria de
princípios e parâmetros.
Não vou entrar em mais detalhes sobre a teoria de princípios e
parâmetros (também chamada, por algum tempo, de teoria de regência e
ligação). Basta dizer que é esta a teoria utilizada neste princípio do século
XXI para os estudos da sintaxe das línguas naturais. Cabe, no entanto, um
comentário sobre alguns movimentos que se vêm verificando no interior do
programa da GG — particularmente, o chamado programa minimalista —
cujo estatuto ainda não está bem claro para mim (e nem mesmo para muitos
dos próprios gerativistas, me parece).
2.5. O programa minimalista
Vou começar com a citação de um trecho da Apresentação que Eduardo
Raposo faz à tradução portuguesa do livro O programa minimalista
(Chomsky, 1995):
É importante realçar que o PM [Programa Minimalista] não é um novo quadro teórico da
gramática generativa-transformacional, no sentido em que o modelo P&P [Princípios e
Parâmetros], ou a Teoria Standard Alargada ou a Teoria Standard, o são. Nesse sentido, o PM
não substitui o modelo P&P. Pelo contrário, o PM assenta crucialmente no modelo P&P, e parte
dele para propor algumas questões novas que não poderiam, na realidade, ser concebidas fora
desse modelo. De certa maneira, o PM é um conjunto de “orientações” guiadas pela ideia
intuitiva de evitar a postulação de entidades teóricas que não sejam conceptualmente necessárias
dentro da lógica da teoria (Raposo, 1999, p. 15-16).
Pelas palavras de Raposo, o PM não só deve ser considerado parte do
programa da GG, como todos os outros modelos que vimos até aqui, como
deve ser considerado parte do modelo que resultou da última grande
elaboração do programa: a teoria de princípios e parâmetros.
Na verdade, PM seria apenas uma “orientação” de natureza
metodológica para que os linguistas passassem a “navalha de Occam” na
teoria de princípios e parâmetros (P&P), eliminando o que fosse
desnecessário, essencialmente por razões de economia teórica.29
Se isso é assim, o PM não teria maior interesse para nossa investigação.
Vimos tratando as grandes “guinadas” do programa da GG (de LSLT para a
teoria-padrão e da teoria-padrão para P&P) como mudanças criativas na
heurística. Na medida em que o PM não for considerado uma nova
mudança criativa na heurística, resultando numa nova teoria, nada temos,
em princípio, a dizer sobre ele.
O quadro não é, entretanto, tão claro e creio que devemos investigar
com mais cuidado a natureza e a função do PM no arcabouço do programa
da GG.
Para entender o papel do PM precisamos entender melhor a hipótese de
funcionamento da linguagem humana proposta pelo programa da GG.30
Para Chomsky, as línguas são sistemas biológicos que os homens usam
para falar sobre o mundo (ou sobre a representação mental que têm dele),
descrever, referir, perguntar, comunicar com os outros, articular
pensamentos, falar consigo mesmo etc. Essas “coisas” que fazemos com a
linguagem constituem o que Chomsky chama de sistema conceptual-
intencional (conceptual-intentional system). Por outro lado, enquanto
“meio” expressivo, a língua deve associar-se a um sistema de produção e
recepção, de natureza sensório-motora, capaz de permitir a produção e a
recepção dos sons que constituem as expressões linguísticas. A este
segundo sistema, Chomsky atribui o nome de sistema articulatório-
perceptual (articulatory-perceptual system).
A linguagem humana deve, então, ser capaz de contatar (constituir
interface) tanto com o sistema conceptual-intencional (C-I) quanto com o
sistema articulatório-perceptual (A-P).31
Para Chomsky, os sistemas C-I e A-P possuem estrutura própria e são
independentes da linguagem humana. E é possível supor-se que imponham
condições sobre a linguagem. É razoável pensar que as línguas humanas
têm a capacidade articulatória e auditiva dos seres humanos como limites,
por exemplo.32
Para que possamos usar as línguas, então, é preciso que as expressões
linguísticas satisfaçam algumas condições impostas por esses dois sistemas
externos. Assim, a questão fundamental do PM é o estabelecimento da
“medida” que permita a avaliação da “otimidade” das estruturas em
satisfazer as condições impostas pelos sistemas externos. Em outras
palavras, será considerada “boa”, “gramatical”, “aceitável”, a estrutura que
satisfizer inteiramente as condições das interfaces.
Ora, por mais que isso possa parecer uma grande novidade, parece que
estamos diante do mesmo “movimento” que levou a GG a passar das regras
para os princípios: obtenção da máxima generalidade com o menor número
de recursos. De certa forma, seguindo o pressuposto forte da “realidade
psicológica” dos mecanismos computacionais — pressuposto que, em
maior ou menor grau, norteia as análises gerativistas desde as primeiras
formulações — o que se está supondo é que as condições sobre as
estruturas, concretizadas nas teorias auxiliares, são impostas pelo
desempenho, pela “pragmática”, pelo “uso” que fazemos delas. E esse
“uso” envolve tanto os elementos da compreensão do mundo (o sistema C-
I), quanto os elementos sensório-motores (o sistema A-P). A aposta do PM
é que essas condições gerais, oriundas do desempenho, sejam capazes de
impor ao mecanismo computacional condições tais que ele funcione de
maneira “ótima” e seja capaz de realizar a tarefa das teorias do modelo de
regência e ligação com maior economia, na medida em que não se precisa
mais postular nada que não sejam as interfaces: a sintaxe fica reduzida ao
mínimo.
Não é mais necessário postular restrições sobre as estruturas. As
“condições de boa formação” das estruturas, essenciais nos outros estágios
do programa, desaparecem, e a garantia de que uma estrutura é bem
formada (gramatical) vai depender do grau de satisfação das condições
impostas pelos sistemas externos (C-I e A-P) que a estrutura apresenta. Em
outras palavras, será mais “adequada”, “aceitável”, “bem formada”,
“gramatical”, a estrutura que melhor satisfizer as condições de
produção/percepção fonética e de significação.
Visto assim, o PM não é mais do que a radicalização do movimento que
levou o programa da GG a substituir as regras pelos princípios.
Fundamentalmente, Raposo tem razão e o PM não é um novo quadro
teórico em oposição ao quadro de P&P. De qualquer forma, a “bifurcação”
que P&P sofre com a revisão feita pelo PM deve merecer alguma atenção
por parte dos filósofos da linguística.333. CONCLUSÃO
A história da GG conhece três grandes “estratégias” na delimitação do
conhecimento sobre a língua presente na mente/cérebro dos falantes. Num
primeiro momento (teoria de SS), a gramática deveria gerar diretamente as
sentenças da língua (em suas formas superficiais). Fazia-se exclusivamente
sintaxe (talvez fono-morfo-sintaxe) e a noção de gramática gerativa era
idêntica à noção corrente em lógica e matemática.
No segundo momento (teoria-padrão), a gramática passa a gerar objetos
abstratos que são interpretados nas sentenças da língua (na sua forma
fonética e no seu significado), ou seja, o conjunto de objetos abstratos
gerados pela gramática é projetado na língua, descrevendo-a enquanto um
conjunto de significantes possíveis relacionados a um conjunto de
significados possíveis (pares <s, m>, onde s é um significante e m é um
significado). Aqui, a noção de gramática gerativa sofre uma pequena
modificação com relação ao sentido anterior: ela não gera mais diretamente
as sentenças da língua. Permanece, no entanto, o compromisso com a noção
de língua, uma vez que a gramática vai gerar tantos objetos abstratos
quantas forem as sentenças da língua e nenhum a mais. Isso faz com que
seja possível continuar considerando a gramática como um “sistema de
regras que gera todas, e apenas, as sentenças da língua”.34
No terceiro momento (P&P), a gramática gera objetos abstratos que
explicitam as propriedades que os falantes levam em consideração no
momento de emitir juízos de gramaticalidade sobre objetos linguísticos. As
sentenças de uma língua qualquer constituem apenas um subconjunto desse
conjunto de objetos linguísticos e, portanto, em nenhum momento, e sob
nenhum critério, é possível dizer que a gramática gera as sentenças da
língua — no máximo, é possível dizer que a gramática permite (licencia),
entre outras coisas, as sentenças de uma língua dada.35
Usando a terminologia de Lakatos, podemos dizer que essas
“estratégias” caracterizam heurísticas distintas e que o programa da GG
conhece duas grandes mudanças criativas: a primeira entre a teoria de SS e
a teoria-padrão, e a segunda entre a teoria-padrão e P&P. Podemos também
considerar que a melhor periodização do desenvolvimento do programa
estabelece três períodos: o período de SS, que vai do início do trabalho de
Chomsky (mais ou menos 1954) até a publicação de Aspects (1965); o
período da teoria-padrão, que se inicia com a publicação de Aspects e vai
até Conditions on rules of grammar (1976a);36 e o período de P&P, que
começa com Chomsky (1976a) e vem até nossos dias. No primeiro período
a teoria ainda está muito presa ao modo estruturalista de fazer linguística e,
em consequência, há um certo conflito entre as exigências do programa e as
disponibilidades teóricas: é um período de instabilidade na teoria. No
segundo período, é o próprio programa que enfrenta dificuldades:
proliferam propostas heurísticas alternativas e surgem dissidências. Este
segundo período se caracteriza pelas polêmicas e pela grande efervescência
teórica. O terceiro período é um período de grande desenvolvimento na
ampliação do conteúdo empírico da teoria: um número muito grande de
línguas é analisado de forma satisfatória e os princípios são estabelecidos de
forma bastante consistente. Não obstante, estamos vivendo um momento
em que seu arcabouço teórico sofre severas revisões, com duas “teorias” em
confronto: a teoria de regência e ligação e o PM.
Finalmente, creio que cabem algumas palavras sobre o papel de Noam
Chomsky nessa história.
Chomsky sempre foi o grande líder da comunidade gerativista, impondo
avanços, redirigindo o programa, rejeitando e/ou avalizando propostas.
Chomsky age — e é visto assim pela comunidade — como o “dono” do
programa, a pessoa que tem a última palavra sobre a validade das linhas de
pesquisa propostas pelos colaboradores, a pessoa que diz o que deve e o que
não deve ser pesquisado, a pessoa que periodicamente faz os “balanços” de
lucros e perdas (conquistas e custos teóricos) da teoria e propõe as grandes
sínteses que dão as novas direções. Sem muito exagero, poderíamos dizer
que a GG sempre foi, e continua sendo, essencialmente uma criação de
Chomsky. Todos os que não concordaram com Chomsky, em um ou outro
momento da história do programa, ou renderam-se ao poder do “mestre”,
retornando ao “bom caminho”, ou tornaram-se dissidentes, à margem do
programa. Por mais interessantes que sejam as propostas apresentadas pelos
colaboradores de Chomsky, elas só são, de fato, incorporadas ao arsenal
teórico do programa se explicitamente avalizadas por Chomsky. O poder
centralizador de Chomsky é tão grande que é possível encontrarmos um
livro de cerca de 250 páginas dedicado exclusivamente a um levantamento
do destino — invariavelmente infeliz — daqueles que ousaram desafiá-lo
(Botha, 1989).
Entretanto, um fato interessante começa a acontecer. A reação “fria” de
parte da comunidade ao PM proposto por Chomsky parece indicar que
estamos vivendo um momento em que o programa atinge uma certa
maturidade e que a comunidade já pode caminhar por seus próprios passos,
dispensando a tutela de Chomsky. De qualquer forma, é muito cedo para
fazermos uma avaliação mais segura dos rumos que o empreendimento
gerativista deverá tomar a partir daqui.
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1. Agradeço os comentários, sempre pertinentes, feitos a uma primeira versão deste texto pelas
colegas Maria Cristina Figueiredo Silva e Evani Viotti. Agradeço também as sugestões e comentários
feitos pelas editoras Fernanda Mussalim e Anna Christina Bentes. A responsabilidade pelo resultado
final, obviamente, é apenas minha.
2. Como diz Lakatos (1971, p. 102), parafraseando Kant, “A filosofia da ciência sem a história da
ciência é vazia; a história da ciência sem a filosofia da ciência é cega”.
3. Para uma apresentação mais detalhada deste caso, ver Lakatos (1970, p. 50-51).
4. O termo “representação” assume vários significados na literatura linguística. Eu o estou usando
aqui para designar aqueles objetos formais do construto teórico que correspondem às coisas da
“realidade” modelada. Em outras palavras, os estados da mente/cérebro são, no nosso caso,
representados por expressões de uma linguagem formal.
5. O que deu origem ao seguinte desabafo de Chomsky: “Esse trabalho chamou a atenção de Bar-
Hillel, por exemplo. Declarou-se ele extremamente interessado. (...) Alguém como Quine interessou-
se pelo aspecto metodológico, a questão da teoria, os processos de avaliação. Mas foi só. Entre os
linguistas, ninguém manifestava interesse por esse tipo de trabalho” (1977, p. 120).
6. Ver a esse respeito o capítulo O estruturalismo linguístico: alguns caminhos, neste volume.
7. Chomsky, explicitamente, assume uma perspectiva dedutivo-nomológica em sua caracterização
do que seja uma teoria explicativa (ver, por exemplo, Chomsky (1977, p. 106)).
8. É nesse período que Chomsky desenvolve uma classificação e uma tipologia das linguagens que
é ainda hoje utilizada por lógicos, matemáticos e cientistas da computação — a chamada Hierarquia
de Chomsky. Com a hierarquia, Chomsky pretende mostrar que as línguas naturais apresentam
propriedades que não podem ser representadas por gramáticas que seriam perfeitamente adequadas
para dar conta de linguagens dos lógicos. Por exemplo, enquanto as linguagens dos lógicos podem
ser representadas por sistemas formais (gramáticas livres de contexto) que constroem expressões sem
levar em conta o contexto (as expressões adjacentes), as línguas naturais permitem a construção de
expressões que não podem ser representadas senão por mecanismos formais mais poderosos — as
gramáticas transformacionais.
9. Ver, a esse respeito, o capítulo Formalismos na linguística: uma reflexão crítica, neste volume.
10. Ver, por exemplo, Harris (1957).
11. Em português, por exemplo, a sequência N+V+N é bem formada, enquanto a sequência
V+N+V não o é. Maria Cristina Figueiredo Silva me apontou a existência de casos como “fazer
Pedro cantar” que seriam exemplos da sequência V+N+V em português. Apontou também a
sequência Adj+Prep+Adj como sequência que, aparentemente, não é nunca bem formada.
Independentemente da existência ou não da sequência em português, creio que o ponto que pretendi
exemplificar está suficientemente claro (bem como a dificuldade de se levar a efeito a proposta de
Harris diante dos dados linguísticos reais).
12. A sentença Pedro viu Maria é também analisável, do ponto de vista do mesmo indicador
sintagmático, em <Pedro, viu Maria; N, SV>, desde que desconsideremos a estrutura interna do SV.
13. Trata-se apenas de um esboço da transformação passiva em português. É preciso ressaltar que
esse tipo de transformação foi abandonado já nas primeiras revisões da GG e, até onde eu sei, nunca
foi estudado seriamente com relação aos dados do português.
14. O nódulo Aux (Auxiliar) serve, basicamente, para “transportar” o tempo do verbo. No caso de
Pedro viu Maria o Aux é [+passado].
15. Apesar de serem muito parecidos, como vimos, a GG e o EA logo partem para uma disputa de
espaço e de prestígio junto às instituições acadêmicas norte-americanas. Como essa disputa é uma
questão de sociologia da ciência, mais do que de filosofia, e meu trabalho pretende ter um cunho
basicamente filosófico, não vou tentar explorar esse viés da história das ciências aqui.
16. Capítulo inicial de Chomsky (1965).
17. As discussões sobre o mecanismo de aquisição da linguagem (LAD — Language Acquisition
Device) ocupam grande parte do tempo dos linguistas.
18. Como a semântica gerativa, por exemplo (ver, entre outros, Lakoff, 1971; Kato, 1974; Dascal,
1978 e Galmiche, 1979).
19. A diferença entre um componente gerativo e um componente interpretativo está na
propriedade que o componente gerativo tem de criar novas representações, enquanto os componentes
interpretativos apenas associam (pareiam, relacionam) representações entre si.
20. Isto é, de fórmulas (expressões da linguagem do sistema formal) que se supunha representaremadequadamente os significados das expressões das línguas naturais.
21. Não tenho condições de fazer, aqui, uma análise mais detalhada desse período. Convido o
leitor interessado a ver, particularmente, Newmeyer (1980); Borges Neto (1991) e Harris (1993) para
mais detalhes.
22. A TPE é proposta inicialmente em Chomsky (1967) e desenvolvida em Chomsky (1968 e
1971).
23. O componente inato — a faculdade da linguagem — é um conjunto de princípios gerais sobre
a natureza das representações linguísticas, princípios que podem manifestar-se num leque de
realizações alternativas (os parâmetros). A criança, segundo Chomsky, usaria esses princípios
“parametrizados” para construir a gramática de sua língua, uma vez exposta aos dados.
24. Essas análises são emprestadas de Quícoli (1976).
25. Que é uma das condições sobre as transformações propostas por Chomsky, já mencionada
acima.
26. O termo em inglês para vestígio é trace e o símbolo utilizado é t. O termo vestígio e anotação v
estão consagrados na literatura especializada em português.
27. Em algumas versões mais recentes da GG, também se pode atribuir Casos a SNs não
realizados foneticamente.
28. A atribuição de Caso se dá da seguinte forma: (1) a sentença que tem verbo finito atribui o
caso nominativo a seu sujeito; (2) o verbo atribui o caso objetivo a seu complemento; e (3) a
preposição atribui o caso oblíquo a seu complemento.
29. Existe a preocupação de mostrar que as línguas humanas são, elas mesmas, econômicas e
perfeitas (agradeço a Evani Viotti, essa observação).
30. Para o que se segue sirvo-me fortemente de Raposo (1999).
31. Essa questão das interfaces é já antiga. Na teoria-padrão, cabia à estrutura profunda fazer a
interface com o sistema C-I e à estrutura superficial fazer a interface com o sistema A-P. Na teoria de
regência e ligação a interface com o sistema C-I é feita na Forma Lógica e cabe à Forma Fonológica
fazer a interface com o sistema A-P. Certamente, embora a ideia seja antiga, os mecanismos para
realizar essas interfaces vêm se sofisticando com o passar do tempo.
32. O limite pode ser também visual, desde que consideremos que as línguas de sinais dos surdos
são também línguas naturais e se realizam a partir da mesma matriz biológica que as línguas,
digamos, “áudio-orais”.
33. Ver a esse respeito o capítulo Os anos 1990 na gramática gerativa, neste mesmo volume.
34. A gramática de SS tinha como saída do conjunto de conversões as próprias sentenças da
língua; a gramática da teoria-padrão tinha como saída do conjunto de conversões um conjunto de
estruturas (indicadores sintagmáticos) que se interpretavam nas sentenças da língua.
35. Nas palavras de Chomsky: “Nós podemos perfeitamente bem entender a gramática do,
digamos, inglês, como atribuindo uma descrição estrutural a todo som possível. Alguns vão ser
caracterizados simplesmente como ruídos, outros talvez como sons de alguma língua (mas não a
minha), outros como expressões de minha língua com alguma interpretação figurativa, outros como
associados com “interpretações literais” estritas, e assim por diante” (1981, p. 5).
36. Normalmente, encontram-se referências ao texto Conditions on transformations (Chomsky,
1973) como o texto que permite um “salto de qualidade” no programa da GG. Creio, no entanto, que,
por maior que seja a importância deste texto no processo de mudança de um sistema de regras para
um sistema de princípios, ele, de fato, não modifica nenhum dos conceitos fundamentais do
programa. O texto Conditions on rules of grammar (Chomsky, 1976a), por outro lado, na medida em
que libera o componente sintático, permitindo a “sobregeração”, força Chomsky a reconhecer que o
programa só terá saída se abandonar a noção de língua. É esse segundo texto, então, a meu ver, que
inaugura o terceiro período do programa da GG. O fato de os comentadores da obra de Chomsky não
reconhecerem em Conditions on rules of grammar a importância que eu reconheço deixa-me
desconfortável, mas não posso ser infiel às minhas convicções.
4
OS ANOS 1990 NA GRAMÁTICA
GERATIVA1
Maria Cristina Figueiredo Silva2
João Costa
1. INTRODUÇÃO
No início dos anos de 1990, os estudos em sintaxe gerativa foram
marcados pela publicação do texto A minimalist program for linguistic
theory, de Noam Chomsky. Neste texto, são traçadas várias linhas
orientadoras para a definição daquilo que poderia ser um novo modelo
sintático. Não é totalmente claro até que ponto este texto constitui uma
ruptura com o modelo de Regência e Ligação (doravante GB), que dominou
nos anos 1980. Em vários aspectos, há uma certa continuidade e
refinamento de conceitos e instrumentos de análise; em outros, observa-se
um conjunto de pressupostos diferentes, que permitem definir o Programa
Minimalista (doravante PM) como um modelo incompatível com o modelo
GB.3
Nesta introdução, apresentamos alguns dos aspectos inovadores do
Programa Minimalista, dando atenção especial à sua versão inicial,
apresentada em 1992 e 1995, que norteou muitos dos trabalhos realizados
durante os anos 1990. Faremos referência também a algumas das alterações
que foram introduzidas nos textos de Chomsky, no final dos anos 1990,
para fazer justiça à tentativa de resolver alguns dos problemas centrais
notados no PM. Contudo, o nosso comentário centrar-se-á sobretudo nesta
versão inicial do programa, uma vez que ainda não há consenso na literatura
sobre os aspectos introduzidos nos textos escritos a partir de 1998.
1.1. De GB ao PM: a economia da gramática
No final dos anos de 1980, a teoria sintática tinha atingido um elevado
poder analítico e descritivo. Contudo, em muitos casos, o poder de
explicação e análise era obtido ao preço de uma grande quantidade de
princípios, a maior parte dos quais com formulações bastante complicadas.
Um dos principais objetivos do PM é tentar “limpar” a teoria de todos os
princípios e operações demasiado complicadas, tentando reduzir a
Gramática a um conjunto mínimo de operações.
Este “desejo” se revela particularmente necessário na medida em que se
assiste, em GB, à existência de operações diferentes que derivam um
mesmo resultado. O exemplo clássico de uma situação deste tipo surge na
atribuição de Caso. Em GB, considera-se que Caso estrutural pode ser
atribuído quer sob regência, quer numa relação de concordância entre um
especificador e um núcleo. Em particular, para o Caso Nominativo, estas
duas opções parecem estar disponíveis em algumas línguas, o que poderia
nos colocar em situações em que não seria possível decidir por qual dos
mecanismos o Caso Nominativo está sendo efetivamente atribuído naquela
construção. Por exemplo, supõe-se que numa língua como o português
europeu estão disponíveis tanto o Caso Nominativo sob regência, atribuído
em estruturas como (1a), quanto o Nominativo em relação
especificador/núcleo, atribuído em (1b). Todavia, não é claro a priori qual
das duas estratégias de atribuição de Caso seria utilizada numa frase como
(1c), visto que em estruturas interrogativas é possível argumentar que o
verbo se move para C e portanto poderia daí atribuir Caso Nominativo sob
regência ao DP o João, ou poderia, antes de ter se movido para C, quando
em I, atribuir Nominativo em relação de concordância especificador/núcleo
com o DP:
(1a) Telefonou o João
(1b) O João telefonará à Maria
(1c) A quem telefonará o João?
Procurando minimizar o número de operações necessárias dentro da
gramática, Chomsky postula que, frente à existência de operações
redundantes para um mesmo efeito, a teoria deve ser suficientemente
parcimoniosa, de forma a não permitir alternativas como estas. Assim, para
este problema específico, é proposto que apenas a concordância
especificador-núcleo seja relevante para a “atribuição” de Caso, sendo o
conceito de regência eliminado da teoria.
Independentemente dos problemas que podem advir desta eliminação,
parece claro que, enquanto princípio norteador da elaboração de uma teoria,
a explicitação da necessidade de eliminação de redundâncias tem um
caráter sumamente importante.Referimo-nos a esta preocupação em
encontrar o número mínimo de operações relevante para analisar os
fenômenos sintáticos como a economia da gramática, para diferenciar
daquilo que caracterizaremos abaixo como a economia na gramática.
1.2. A economia na gramática: motivação e último recurso
A noção de economia que descrevemos na seção anterior é uma noção
epistemológica e surge como um princípio para orientar a formulação do
modelo. Enquanto tal, ela é diferente de uma outra noção de economia que
é introduzida no PM. Referimo-nos aqui ao conceito de Economia como
medida de avaliação de uma derivação sintática e não como instrumento de
avaliação de uma análise. A diferença reside no fato de se admitir, dentro do
PM, que a Economia é um fator relevante para decidir sobre a
gramaticalidade de uma frase.
Para se entender o porquê da introdução da noção de Economia, é
necessário rever certas características de GB, uma delas sendo a capacidade
da gramática, nesta teoria, de sobre-engendrar (overgenerate) frases. Por
exemplo, assumindo-se a necessidade de Caso para um DP, a regra Mover
ALFA e a possibilidade de um DP subir para uma posição de Caso, prevê-
se que um DP sem Caso se eleve para uma posição disponível onde possa
receber Caso, como em (2):
(2) Consta que os meninos foram assaltados t.
Contudo, nada exclui que esse movimento continue, sendo geradas
frases como as de (3), em que há uma superelevação do sujeito:
(3) *Os meninos constam que t foram assaltados t.
Obviamente, esta frase é excluída, mesmo em GB, por não haver
necessidade de gerá-la. O DP os meninos na posição de sujeito encaixado já
recebe Caso Nominativo, não havendo motivação para uma posterior subida
para a posição de sujeito da frase matriz. No entanto, não existe nada
internamente à teoria de GB que diga respeito à motivação. No PM, para
colmatar esta lacuna, surge a noção de Economia, segundo a qual, numa
derivação sintática, só ocorrem as operações necessárias à sua boa
formação. Assim, a frase (3) é excluída por não ser econômica, ou seja, por
conter uma operação de movimento que não é necessária para que a frase
seja bem formada.
Note-se que esta explicação implica que seja definida a necessidade de
haver movimentos. Neste primeiro momento do PM, Chomsky postula que
um constituinte se move para satisfazer os seus próprios requisitos. É,
portanto, necessário definir que requisitos são esses inerentes a um item
lexical que motivam o seu movimento. Aqui se desenha o principal
mecanismo minimalista, conhecido como Checking Theory (a teoria da
verificação): Chomsky propõe que cada constituinte seja gerado
comportando um conjunto de traços abstratos. Esses traços são meramente
gramaticais (formais), sendo irrelevantes (ou não interpretáveis) nas
interfaces (isto é, no encontro da sintaxe) com o componente fonológico e
semântico da gramática.4 Se é assim, torna-se necessário eliminar esses
traços antes de se chegar a estes componentes (portanto, esses traços devem
ser eliminados por mecanismos sintáticos!). Nesta perspectiva, a motivação
para o movimento de constituintes é a eliminação de traços não
interpretáveis dos próprios constituintes (construídos a partir dos traços dos
itens lexicais que os compõem). Assim, qualquer movimento que não
resulte na eliminação de traços é não econômico e resulta em
agramaticalidade.
Embora de braço dado com a noção de economia, que, como veremos
adiante, tem problemas para encontrar formulação adequada, a preocupação
com a motivação para o movimento é, em princípio, um ganho do PM.
Observou-se, na sequência destes postulados, uma preocupação
generalizada por parte dos sintaticistas em procurar motivação e justificação
para os movimentos efetuados no componente sintático da gramática,
preocupação, sem dúvida, salutar para a teoria sintática como um todo.
1.3. Os níveis de representação, a derivação e o papel das interfaces
Um ponto em que o PM se distancia do modelo GB é na forma como se
dá a geração de uma frase. No PM, volta-se ao pressuposto inicial da
Gramática Gerativa, segundo o qual uma frase é gerada através de um
processo derivacional e não representacional. Em muitos aspectos, a
diferença entre estas duas perspectivas é tênue, sobretudo se se considera a
existência de vestígios/cópias. Contudo, há um pressuposto do PM que
praticamente força a interpretação derivacional para o componente
sintático.5 Na sua tentativa de eliminação de redundâncias, Chomsky
propõe que seja suprimido o conceito de níveis de representação (Estrutura-
D e Estrutura-S). Para além da apresentação de alguns argumentos contra a
existência destes níveis, nota-se que a existência de dois níveis de
representação poderia levar à duplicação de informação em cada um dos
níveis. Num modelo estritamente derivacional, a derivação parte da geração
de marcadores sintagmáticos, através da combinação de itens lexicais
(merge) selecionados do léxico, até chegar aos níveis de interface com os
componentes articulatório e conceptual (PF e LF, respectivamente),
conforme ilustrado em (4):
(4)
A diferença crucial com respeito ao modelo GB reside no fato de a
derivação proceder de uma forma uniforme, sendo o ponto Spell-out, em
que a informação é enviada para o componente fonológico da gramática,
um ponto arbitrário. Esta é talvez a principal diferença: Spell-out não
corresponde a um nível de representação, mas apenas a um ponto de envio
de informação, sem regras nem princípios próprios.
De certo modo, esta concepção da forma de gerar uma frase coloca na
sintaxe estrita um número muito mais reduzido de operações. A sintaxe
surge, assim, como um veículo de construção de marcadores sintagmáticos
e de condução da informação do léxico até as áreas de interface (com a
necessária eliminação de traços não interpretáveis). De acordo com este
modelo, é atribuído um papel de muito maior relevo às interfaces com a
sintaxe. Estando a sintaxe destituída de muitas das funções que lhe eram
previamente atribuídas, e sendo as operações sintáticas reduzidas a um
mínimo, muitos dos fenômenos antes analisados no componente sintático
devem agora ser analisados ou numa área de interface com outros
componentes ou no seio destes mesmos componentes. Com maior ou menor
propriedade, tem sido proposto lidar com o fenômeno conhecido como V2
(o verbo em segunda posição) como um fenômeno do componente
fonológico; ou tratar problemas de vinculação de anáforas e pronomes, por
exemplo, como problemas semântico-pragmáticos.
1.4. A variação interlinguística
Com a concepção de derivação sintática explanada na seção anterior, o
PM abriu portas para uma redefinição da noção de parâmetro e para um
refinamento da fonte de variação entre línguas. Já no âmbito da GB tinha se
tornado claro o desejo de que a variação sintática fosse reduzida a
parâmetros binários. Contudo, o que não estava claro era como transpor
esse desejo para o componente sintático da gramática. De acordo com o
PM, a variação entre as línguas é também mínima e reduz-se à natureza dos
traços não interpretáveis: se estes traços são fortes, constituem objetos
ilegítimos em PF e por isso devem ser eliminados antes de Spell-out —
consequentemente, um constituinte com traços fortes move-se antes de
Spell-out, na sintaxe visível; se estes traços forem fracos, o movimento dá-
se tardiamente, após Spell-out, dado que supostamente o movimento que se
realiza de forma encoberta, sem reflexos visíveis, é mais econômico.
Esta perspectiva da variação entre as línguas tem duas implicações
fortes: em primeiro lugar, a variação paramétrica é reduzida à natureza
(binária) da oposição forte-fraco no valor dos traços; em segundo lugar,
supõe-se que no estágio final da derivação, em LF, não há diferença entre as
línguas, uma vez que o movimento que é visível numa língua ocorre após
Spell-out em outra língua. Esta concepção de variação mínima não é isenta
de problemas, como veremos mais adiante; contudo, é de se notar uma
enorme quantidade de trabalho comparativo que tentou implementar ou
testar estahipótese. Esta é sem dúvida uma das mais-valias do PM: o fato
de ter se voltado a discutir de forma sistemática a diferença entre as línguas.
1.5. Dúvidas e desenvolvimentos mais recentes
Tendo apresentado os conceitos-base do PM, vamos agora apontar
alguns dos aspectos que, a partir de 1995, foram sendo alvo de
reformulações.
Em primeiro lugar, cedo se observou que a dicotomia forte-fraco se
revelava inadequada para dar conta de toda a variação. Isto porque, em
muitos dos casos em que um determinado constituinte não se deslocava
visivelmente, era impossível encontrar evidência para o seu movimento
pós-Spell-out. Chomsky (1995) tenta dar resposta a este problema,
derivando-a da noção de economia. De uma forma simplificada, pode-se
resumir a solução encontrada nos seguintes termos: a motivação para o
movimento pré-Spell-out é de natureza fonológica — o movimento
acontece para a eliminação de traços que não são interpretáveis em PF.
Seguindo o mesmo raciocínio, os traços meramente fonológicos não são
deslocáveis depois de Spell-out, por não haver motivação tal. Assim,
Chomsky propõe que depois de Spell-out apenas os traços formais das
categorias são deslocados — fala-se então de Mova-F —, o que explicaria
que as categorias sejam interpretadas na sua posição de base.
Um segundo problema, ainda não completamente resolvido, relaciona-se
ao fato de se tornar difícil resolver questões de localidade e ciclicidade sem
o conceito de regência. Para dar resposta a este problema, duas noções são
introduzidas depois de 1998: o mecanismo de Agree e a noção de Fase.
Curiosamente, a aceitação de que deve existir um mecanismo como Agree,
que permite legitimar objetos sintáticos sem que haja movimento, permite,
novamente, olhar para o problema do movimento pós-Spell-Out: se se
admite que um objeto sintático pode ser legitimado sem movimento, não é
necessário que o movimento de traços aconteça. A nova questão então é
saber qual dos mecanismos de legitimação é escolhido e em que condições:
Mover (para obtenção de relações de concordância especificador-núcleo) ou
Agree?
A noção de fase visa resolver o problema dos domínios em que a
operação Agree pode ser aplicada. Também não há ainda consenso
relativamente ao que deve ser interpretado como uma fase. Na perspectiva
do presente texto, a questão que fica crucialmente por responder é até que
ponto a suposição de que uma derivação opera de forma cíclica (com
domínios de Spell-out múltiplos e diferentes nós formando fronteiras)
constitui uma ruptura face a modelos anteriores, e/ou uma ruptura face aos
pressupostos iniciais do PM, ou ainda uma tentativa de tradução em
terminologia mais recente dos efeitos derivados no modelo de Barriers em
GB. Também relativamente a este domínio, o consenso entre sintaticistas é
reduzido, razão pela qual não comentaremos estes desenvolvimentos mais
recentes aqui. Não quisemos, contudo, deixar de fazer referência a eles por
justiça ao trabalho dentro do PM, nas tentativas que têm sido desenvolvidas
de resolver alguns dos problemas levantados pelos pressupostos iniciais,
que discutiremos amplamente no decorrer da nossa apresentação.
1.6. Chegando ao ponto
Esta breve apresentação que fizemos do Programa Minimalista tem
como objetivo tornar palatável a discussão que se segue, posto que a partir
de agora falamos de um lugar já inserido dentro do mundo dos gerativistas.
E neste mundo a história do minimalismo começa antes, talvez na
publicação do texto de Pollock, Verb Movement, Universal Grammar and
the structure of IP, em 1989, tido por muitos como o final da gramática
gerativa: a divisão da categoria flexão (IP) em duas outras, concordância
(AgrP) e tempo (TP), abriu espaço para que muitíssimas outras divisões
fossem postuladas, como, por exemplo, a da categoria complementizador
(CP), que pode ser cindida em ForceP, TopP, FocusP, FiniteP, como
sugerido por Rizzi (1997). Ainda mais sério: com base no mesmo tipo de
argumentação posicional de Pollock, passou a ser natural propor um
número indiscriminado de outras tantas categorias funcionais, como
Concordância-objeto (AgroP), Aspecto (AspP) etc. O que aconteceu, então,
pensam alguns, é que cada um foi para sua casa e voltou com o seu próprio
conjunto de projeções funcionais embaixo do braço, porque é perfeitamente
possível postular projeções funcionais com núcleos nulos, diferentemente
das projeções lexicais, que, regra geral, devem ter sempre um item lexical
visível em seu núcleo. Desse modo, o que era base comum na teoria — a
mesma estrutura da frase para todas as frases de todas as línguas —, passou
a ser a diferença entre as línguas e entre os linguistas... Nunca mais falamos
a mesma língua...
Uma tal visão das coisas pode parecer pessimista, mas ela é
perfeitamente plausível: o texto de Chomsky (1989), o segundo capítulo do
livro The Minimalist Program, trabalha no desdobramento do texto de
Pollock e, a partir daí, sugere uma série de modificações no quadro
conhecido como GB (de Lectures on Government and Binding),
modificações estas que serão o embrião do Programa Minimalista. O
pessimismo reside, pois, em achar que o novo quadro é tão mínimo, mas tão
mínimo, que não cabe nada lá dentro, nem os resultados obtidos pela
sintaxe, tal como ela era feita durante a década anterior...
Evidentemente, esta visão convive com uma outra, muito otimista em
relação ao aporte que o PM tem oferecido aos gerativistas nestes seus dez
anos de existência. Para tantos estudiosos da área, aqui se apresenta a
salvação da explosão das categorias funcionais. Fala-se agora de um
arcabouço muitíssimo mais restrito, que não pressupõe uma estrutura frasal
já dada, que possui um conjunto de operações muito bem definidas e
realmente mínimas — basicamente três: select, merge e move — e com um
único mecanismo geral de funcionamento — a teoria de verificação —, de
tal modo que a sintaxe nunca foi tão elegante e esbelta como é agora. Se
num primeiro momento o PM permitia as tantas projeções funcionais que o
texto de Pollock liberou os gerativistas a postularem, num segundo
momento, com Bare Phrase Structure (Chomsky, 1994) e, sobretudo, com o
famoso Capítulo 4 de Chomsky (1995), a estrutura frasal sofreu um
razoável enxugamento. Na verdade, com o corte das projeções de
concordância promovido no Capítulo 4, já se apontou claramente para o
fato de que as projeções funcionais admitidas na teoria serão apenas as que
tiverem algum aporte semântico. Observe-se assim que o PM, se não é
radicalmente contra a adoção de projeções funcionais, também não estimula
o seu uso indiscriminado, o que se coaduna bem com a ideia de que tudo
em sintaxe deve ser mínimo, estritamente o necessário.
Mas, entre os gerativistas, além dos adeptos e dos cépticos, existem os
desconfiados, com um outro tipo de avaliação: a de que trocamos seis por
meia dúzia, posto que há sem dúvida uma parte das análises correntes que
reveste com roupagens minimalistas (leia-se: com a terminologia
minimalista) a velha análise de GB, falando de “verificação” e não de
“atribuição” de Caso, por exemplo, ou investindo numa tipologia de traços
sofisticada em vez de uma tipologia de projeções funcionais enriquecida.6
Se os dois quadros são realmente tão compatíveis e se é possível traduzir
perfeitamente um no outro, por que seria necessário trocar de roupa? Para
os desconfiados, a questão é fundamentalmente a de saber se estamos
perante uma ruptura com o quadro teórico da GB, isto é, se estamos lidando
com um conjunto de premissas completamente diferente, ou se há apenas
um processo de refinamento da teoria, com ajustes ligeiros de alguns
pressupostos e instrumentos, mesmo que estes ajustes pareçam
monumentais pelo tipo de efeito que ocasionam.
Nossa contribuição com o presente texto é uma reflexão feita
declaradamente a partir da posição dos “desconfiados”, de modo que este
trabalho pretende fazer um balanço daquilo que pudemos ver nos anos de
1990 nos estudos em gramática gerativa. Para tanto, estruturamos o trabalho
da seguinte maneira: a seção 2, umalonga seção com várias subseções,
analisa alguns traços da passagem de GB para o PM e procura ver quando
seis e meia dúzia não coincidem, primeiramente dando ênfase ao que
pareceu ser a ventilação que o PM trazia para a teoria, questões já tocadas
nesta introdução para facilitar a compreensão da problemática enfocada: a
eliminação de redundâncias, a definição do que vem a ser um parâmetro
possível, o olhar atento para as interfaces, entre outros ventos. Num
segundo momento, veremos igualmente que este novo ar já vem com
alguma poeira: por exemplo, a eliminação das redundâncias teóricas traz
um tanto de arbitrariedade na escolha do que será eliminado e do que será
mantido; a redefinição do que é parâmetro implica um aumento
considerável do léxico,7 e assim por diante. Como ponto especial,
estaremos discutindo a introdução da noção de economia, uma novidade do
PM enquanto constructo teórico interno à teoria.
Frisamos mais uma vez que, nesta apresentação, traçaremos apenas os
aspectos do PM que caracterizaram os primeiros trabalhos do programa,
desenvolvidos entre 1992 e 1995. Sendo mais um quadro programático do
que um quadro teórico, o PM continua em desenvolvimento. Optamos por
não comentar os desenvolvimentos mais recentes (escritos por Chomsky no
final dos anos de 1990, mas publicados em 2000 e 2001), por ser ainda
menos óbvia a partilha de assunções básicas pela comunidade linguística
sobre os últimos avanços. Evidentemente esta escolha implica não olhar
certas soluções que estão sendo propostas para alguns dos problemas
apresentados, mas como esse olhar também implicaria examinarmos que
consequências as soluções trariam, optamos por colocar um ponto final
arbitrário em algum lugar, e a escolha do momento recai sobre o que parece
estar assentado e reconhecido como “minimalista”.
Na seção 3 discutiremos alguns exemplos de análises em GB e no PM
para que a comparação destes modelos não seja tão abstrata, mas revele as
possibilidades e as limitações de cada um dos quadros. Finalmente, a última
seção conclui a discussão, pautando a questão da ruptura versus a
continuidade desses modelos dentro da gramática gerativista.
É importante notar que não pretendemos aqui nem apresentar um quadro
completo do que são os modelos GB ou PM (o leitor pode encontrar na
bibliografia várias introduções gerais a ambos os arcabouços), nem exaurir
a discussão sobre o que pode ser a contribuição do PM em sintaxe. Ao
contrário, esperamos que a maior virtude do nosso texto seja justamente
acrescentar elementos ao debate sobre a questão.
2. TROCANDO SEIS POR MEIA DÚZIA8
2.1. Quando meia dúzia é mais do que seis...
Não é um exagero dizer que a teoria GB apresentada em Chomsky
(1981, 1982) e trabalhada durante a década de 1980 ofereceu um avanço
para o conhecimento da gramática das línguas naturais que não tem
precedentes na história do gerativismo ou talvez nem mesmo da própria
linguística. O sucesso na resolução da tensão entre a necessidade de
adequação descritiva e o poder explicativo do modelo, revelado pela sua
notável capacidade de predição, é o fator determinante para a sua
consolidação.9 Chamamos a atenção do leitor para o indiscutível poder da
teoria neste momento de revelar novos fatos linguísticos. Por exemplo, a
construção conhecida como Parasitic Gaps (lacunas parasitas),
exemplificada em (5) abaixo, aparentemente não tinha ainda sido notada
nas línguas até a sua discussão (à exaustação a partir deste momento, diga-
se de passagem) por Chomsky (1982):10
(5a) I filed the report without reading it
/Eu arquivei o relatório sem lê-lo/
(5a’) * I filed the report without reading ___
(5b) Which report did you file t without reading it?
/Que relatório você arquivou t sem lê-lo?/
(5b’) Which report did you file t without reading ___?
O fenômeno em questão pode ser resumido do seguinte modo: o inglês é
uma língua que não admite objetos nulos e portanto é necessário sempre
haver um pronome que preencha a posição de objeto do verbo, como mostra
o contraste entre (5a) e (5a’) acima. No entanto, quando já existe uma
categoria vazia licenciada pelo operador interrogativo (cujo lugar na frase
matriz está marcado por t nos exemplos (5b) e (5b’)), a ausência do
pronome na posição de objeto da frase encaixada já não é agramatical —
por isso é que a lacuna é dita parasita: para ser gramatical, esta lacuna
depende da existência de uma outra lacuna devidamente licenciada na frase.
Esse fenômeno não pode ter sido aprendido pelos falantes da língua dada a
sua especificidade, de onde se conclui que a sua existência só pode ser
determinada pela interação que existe entre restrições universais e outras
particulares ao inglês, para que se obtenha este resultado.
E este é um ponto central: a teoria de LGB está alicerçada na ideia de
que é a interação que existe entre, por um lado, Princípios (o universal) e,
por outro, Parâmetros (o particular) o que determina o jogo gramatical. E se
o conceito de Princípio é relativamente claro (é aquela restrição que é
universal), o de Parâmetro tem dificuldades para se materializar. À parte a
ideia de que deve ser binário (uma assunção um tanto ad hoc, mas não
desprovida de senso), o resto é escuridão neste conceito. O que quer dizer
exatamente que uma propriedade é “particular” a uma língua? Qual a
maneira mais consistente de formular essa “particularidade”?
O exemplo clássico de Parâmetro em GB é o Parâmetro PRO-drop,
depois chamado Parâmetro pro-drop e finalmente Parâmetro do Sujeito
Nulo. Quando formulado, em Chomsky (1981), parecia ser tudo aquilo com
que sonháramos: poderíamos derivar um feixe de construções distintas e
não diretamente conectadas (ou aparentemente desconectadas) nas línguas,
listadas e exemplificadas em (6), a partir de uma única propriedade abstrata,
cuja formulação da época é apresentada em (7):
(6a) sujeito nulo:
___ comi que nem um frade.
(6b) inversão livre do sujeito:
Chegou uma carta pra você.
(6c) movimento QU- “longo” do sujeito:
Quem é que você lamenta que ___ castigue as crianças?
(6d) violação aparente do filtro that-t:
Quem é que você pensa que ___ chegou?
(6e) pronome lembrete nulo nas orações encaixadas:
Essa é a menina que eu me pergunto quem acha que ___ faria isso.
(7) A regra R (responsável pela presença dos afixos sobre o verbo) se aplica já em sintaxe? (SIM,
responde o italiano; NÃO, responde o francês.)
A formulação de (7) parece bastante enigmática, porque reflete uma
certa concepção das relações entre a morfologia e a sintaxe que eram moeda
corrente na época e não mais hoje, mas ela conseguia dar alguma realidade
para uma observação creditada a Taraldsen de que as línguas que têm as
propriedades em (6) apresentam igualmente uma morfologia verbal bastante
“rica”, uma correlação não imediata nem facilmente formulável, razão pela
qual não nos detemos neste ponto. De qualquer modo, (7) não é a única
maneira de formular o Parâmetro; passados alguns anos, tornou-se possível
tentar explicar o conjunto de propriedades visto em (6) com alguma coisa
como (8) abaixo,11 que é uma maneira de conceber parâmetros como uma
espécie de teste de escolha binária que os princípios apresentam:
Observe-se que se por um lado uma proposta de formulação como em
(8) de fato restringe de alguma maneira o que pode ser um parâmetro (é
uma subespecificação de um princípio), por outro abandona completamente
o vínculo com o conjunto de propriedades em (6), tornando misteriosa a sua
correlação.
O problema de fato é muito mais sério; é de Kayne um cálculo bastante
simples mas que mostra perfeitamente qual era o ponto: tomemos os textos
presentes na revista Linguistic Inquiry dos anos 1980. Suponhamos que
temos em torno de 20 parâmetros propostos ali, uma suposição não
exagerada. Quantas línguas diferentes este conjunto de parâmetros pode
gerar? Não é preciso pegar a calculadora para ver que o número é
assombroso: dois elevado a vinte! Existem tantas línguas assim no mundo?
Parece que nem no presente, nem somando o presente, o passado e talvez
mesmo o futuro...A verdade é que não há em LGB nenhuma boa indicação de como se
deve formular um parâmetro. A restrição é vagamente colocada como um
desejo: uma vez o parâmetro formulado, várias propriedades independentes
e aparentemente não correlacionadas deveriam aparecer como resultado
dessa marcação, mas não existe nenhuma restrição sobre que tipo de
elemento pode ser parametrizável e a restrição sobre o formato do
parâmetro também é mínima: deve ser binário.
Ora bem, se a tarefa da criança adquirindo uma língua é fixar os seus
parâmetros, é óbvio por que uma formulação pouco precisa de parâmetro
dificulta consideravelmente as asserções sobre exatamente o que a criança
deve fazer. Aliás, talvez não seja demais dizer que o maior esforço no
sentido de entender o que deve ser um parâmetro foi feito exatamente pelos
pesquisadores em aquisição da linguagem, para os quais a questão é crucial.
Vai daí que a ideia clara que o PM aporta sobre o que pode ser
parametrizável nas línguas vem clarear um terreno que era por demais
nebuloso: “parâmetros são restritos a traços substantivos de categorias
funcionais”, diz a formulação minimalista agora já clássica.12
Evidentemente, no presente temos outro problema: o de dizer o que são
“traços substantivos” e quais são as categorias funcionais que estão
presentes nas frases das línguas naturais. Mas é inegável que avançamos de
alguma maneira na precisão do que pode ser parametrizável — o formato
do que é um parâmetro permanece sendo simplesmente a asserção de que
deve ser binário. É igualmente verdadeiro que restringir os parâmetros à
morfologia das línguas é bastante adequado com respeito ao problema da
aquisição de linguagem, dado que os itens lexicais e suas propriedades
devem ser de qualquer modo aprendidos pelas crianças. Resta verificar se
os parâmetros propostos dentro do PM efetivamente fazem mais que
descrever as diferenças visíveis entre as línguas e se conseguem conectar
propriedades aparentemente dissociadas, como fez um dia o parâmetro
PRO-drop em GB.13
O PM traz também uma salutar preocupação com a eliminação das
redundâncias internas à teoria. GB, ainda que pretendesse se conformar
rigorosamente com a definição do que é uma teoria científica, não parecia
estar suficientemente atenta para o fato de eventualmente dispor de
mecanismos diferentes para descrever/explicar um fenômeno
aparentemente unitário. Já discutimos na Introdução o problema do Caso
Nominativo sob regência e em configuração de concordância
especificador/núcleo. Um outro exemplo simples é o tratamento dado à
ordem verbo-sujeito (VS) neste quadro: VS pode ser analisado como
movimento do verbo para a periferia esquerda da frase com o sujeito em sua
posição canônica de sujeito (Spec IP); mas pode ser igualmente o
movimento do verbo para a flexão com o sujeito na sua posição de base
(Spec VP); e ainda poderia ser o movimento do verbo para a periferia
esquerda com o sujeito na sua posição de base; ou, pior, o movimento do
sujeito para uma posição de adjunção à direita da frase, enquanto o verbo
poderia estar em diferentes projeções funcionais dentro da sentença...
Quando chegamos aí, a teoria tem um problema: se não tomarmos cuidado,
a um certo ponto será possível encontrarmos soluções absolutamente
contraditórias entre si e ainda perfeitamente consistentes dentro do quadro
em questão.
Pode ser que a diferença de comportamento das diversas estruturas VS
acabasse por impor mesmo análises diferentes — pelo menos, parece ser
necessário atribuir duas análises distintas para o que ficou conhecido como
VS românico (isto é, V em I e sujeito em Spec VP, por exemplo) e VS
germânico (isto é, V em C e sujeito em Spec IP). Mas é evidente que a
proliferação de possibilidades estruturais para a obtenção de VS linear
deveria encontrar algum tipo de limite dentro da teoria — como, por
exemplo, propôs Kayne (1994) ao afirmar que a adjunção à direita é uma
impossibilidade teórica, o que é uma maneira de eliminar pelo menos a
possibilidade, listada acima, de adjungir o sujeito à direita.14
O fato de o PM lidar com uma estrutura frasal mais enxuta já permite
reduzir, de início, o conjunto de hipóteses a considerar. Adicionalmente,
dada a adoção já por Chomsky (1994) do quadro de Kayne (1994) como
uma propriedade da interface com PF, responsável pela linearização das
árvores “peladas” geradas pela sintaxe (cf. o texto Bare Phrase Structure), a
adjunção à direita é impossível no PM, o que elimina igualmente uma das
possibilidades de análise para o fenômeno em discussão. Por outro lado, o
fato de se pressupor que não existem movimentos opcionais permite
restringir ainda mais o conjunto de hipóteses de análise para uma dada
ordem de palavras dentro de uma língua: em GB, com uma estrutura da
frase com quatro núcleos funcionais (por exemplo, C, AgrS, T e AgrO), se
o sujeito ocupar a sua posição de base, há pelo menos quatro formas de
derivar a ordem VS, correspondentes a movimento do verbo para cada um
dos núcleos funcionais acima elencados. No PM, dada a hipótese de que
não há opcionalidade no movimento do verbo, apenas uma destas quatro
possibilidades teóricas pode ser postulada para uma única e mesma língua.
No entanto, o ponto central da discussão permanece: não é claro se o
que aconteceu foi que o alargamento da base empírica implicou o
enriquecimento da maquinaria disponível para a explicação destes novos
fatos (e isso ocorreria necessariamente em qualquer teoria!). O que parece
claro é que certos fatos encontrados nas línguas encontravam explicação
imediata com o que seria aparentemente um pequeno ajuste em algum dos
módulos da teoria, que aproveitava mecanismos já disponíveis ali dentro.
Retomemos o exemplo da Teoria do Caso. A um certo ponto dos anos de
1980, tornou-se natural pensar que o Caso Nominativo era possível por dois
processos diferentes: por concordância entre o especificador e o núcleo, o
que supomos que acontece em (9a), e por regência, uma explicação possível
para o nominativo que o sujeito invertido recebe em uma sentença como
(9b) — bastante marginal em português brasileiro (doravante PB) em
qualquer contexto, mas perfeita em português europeu (doravante PE) no
contexto adequado:
(9a) Os meninos gostam da Maria
(9b) Gostam os meninos da Maria (ok PE, * PB)
Note-se que a ideia de que caso pode ser atribuído em configurações de
regência já estava presente em GB e era exatamente o que ocorria quando
atribuíamos Caso Acusativo para o objeto de um verbo transitivo ou quando
atribuíamos Caso Oblíquo para o objeto da preposição na estrutura
exemplificada em (9a).
Ora, aqui não estávamos lançando mão de nenhum mecanismo
suplementar, e ainda assim é claro que o poder da teoria se torna enorme.
Na época chegou-se a sugerir que aqui havia um parâmetro em jogo — as
línguas se dividiriam entre aquelas que permitiam e aquelas que proibiam a
atribuição de Caso Nominativo sob regência, o que explicaria, talvez, a
diferença observada acima entre o PB e o PE. Observe-se que neste caso
não era possível tentar impor uma restrição geral a uma das possibilidades
— como fizemos, por exemplo, com a questão da adjunção à direita —,
dado que ambas as opções estavam disponíveis — e eram legítimas! —
independentemente.
A saída que o PM propõe, no entanto, é exatamente esta: o corte de uma
das possibilidades de atribuição de Caso. Aliás, o corte é muito mais
profundo: é a noção de regência que é eliminada da teoria. A relação
privilegiada passa a ser a de concordância entre um especificador e um
núcleo, ampliada para incluir também a relação entre dois núcleos, mas só.
Crucialmente, a relação entre o núcleo e o seu complemento, central em
GB, não tem mais nenhum estatuto no PM: é a configuração usada em
merge, mas nenhuma propriedade de verificação se efetiva sobre ela. E
como o corte aqui foi brutal, num lugar central do modelo, o PM teria agora
que mostrar que todos os fenômenos tratados anteriormente fazendo uso da
noção de regência podem ser tratados com igual desenvoltura sem esta
noção dentro da teoria.Ou seja, ainda resta mostrar que o corte feito é o
bom corte a fazer. Retornaremos a esta questão mais à frente.
Um último ponto a ressaltar é a ideia, explicitamente formulada no PM,
de que as interfaces devem ter algo a dizer sobre como funciona o sistema
computacional. Em particular, a formulação minimalista é de que as
interfaces ditam limites bastante claros para aquilo que pode ou não ser
propriedade do sistema computacional. Essa ideia jamais tinha sido
formulada assim claramente antes. Talvez essa inclusive seja uma
formulação forte demais e não seja adequada em absoluto. Mas a ideia de
considerar propriedades das interfaces como das interfaces mesmo, não
como parte do sistema computacional, ajuda a reduzir consideravelmente a
necessidade de maquinaria sintática adicional.
Uma discussão muito interessante deste ponto é feita por Reinhart
(1995). A autora nota que existem certas distinções que os sintaticistas
insistem em trazer para dentro da sintaxe e por isso são obrigados a
enriquecer a maquinaria disponível. No entanto, o que se verifica afinal é
que os sintaticistas estão tentado dar um tratamento na sintaxe para aquilo
que não é propriamente sintático, mas talvez apenas sensível a
configurações sintáticas (como a configuração de c-comando, por
exemplo), e que pode perfeitamente ser tratado em outro lugar —
possivelmente nas interfaces —, apenas tendo como input a sintaxe. O
exemplo concreto é o caso de sintagmas nominais, como aqueles que vemos
em (10) — exemplo traduzido de Reinhart (1995, p. 2):
(10a) um filófoso, treze revisões de livros
(10b) cada filósofo, a maioria das revisões de livros
(10c) o filósofo, a revisão do Max
Os semanticistas lidam com uma partição dos nominais, bastante útil
para os propósitos da semântica, que os divide em quantificadores fortes,
como os de (10b, c), e quantificadores fracos, como os de (10a). É possível
mostrar que esta diferença semântica tem desdobramentos na sintaxe, como,
por exemplo, a proibição de indefinidos fortes em construções existenciais
em português (ou nas construções com there em inglês), o que serviu de
impulso para que alguns sintaticistas tenham tentado codificar essa
propriedade sintaticamente. Por exemplo, Belletti (1988) supõe que a
proibição a quantificadores como os de (10b, c) em estruturas inacusativas é
fruto do tipo de Caso que este elemento deve receber — o Caso Partitivo.
Similarmente, de Hoop (1992) hipotetiza que os diferentes tipos de
quantificação — forte e fraca — decorrem da atribuição de Caso em
configurações diferentes, associando quantificação forte a movimento para
Spec, AgrOP.
Por outro lado, a teoria sintática propriamente dita vê uma diferença
clara entre (10a, b) e (10c): a distinção entre o que é quantificado e o que é
referencial, respectivamente, uma propriedade que tem igualmente
desdobramentos na sintaxe. Assim, também essa diferença os sintaticistas
têm codificado sintaticamente, especialmente porque a distribuição destes
elementos vai se correlacionar com a questão do uso da linguagem, dado
que uma propriedade crucial das línguas é a sua capacidade de referir. Vai
daí que terminamos com um sistema que codifica duplamente o mesmo
conjunto de elementos, e as diferenças que justificam cada uma das
codificações talvez não sejam diretamente sintáticas.
Ainda mais sério: pode ser que a um certo ponto descubramos que
existem diferenças de distribuição sintática também entre os elementos de
(10a) e os de (10b), o que implicará ainda uma outra caracterização sintática
para estes itens: existem dois tipos de indefinidos sintática e
semanticamente distintos — que podem receber o nome de d-linked e não
d-linked, por exemplo, o que implica que classificamos triplamente uma
parte pelo menos dos nominais das línguas naturais. É codificação demais,
afirma Reinhart.
Possivelmente a única codificação efetivamente necessária aqui seja a
da semântica, que divide os nominais em fortes e fracos, e basta. As
propriedades referenciais dos nominais não precisam ser codificadas
sintaticamente, e as propriedades dos indefinidos que poderiam estar na
base de uma classificação como a discursiva podem ser captadas na
interface com o discurso — o que, aliás, é sugerido pelo próprio nome
proposto por Pesetsky: d-linked, isto é, ligado no discurso.
O que Reinhart está defendendo é que diferentes estratégias de interface
respondem por essas diferenças de comportamento entre os nominais sem
que a sintaxe tenha que se preocupar com elas. Tanya Reinhart não é
exatamente uma minimalista militante, mas o desejo de restrição da
maquinaria está presente em todos os gerativistas que trabalhavam em GB e
sentiram a debilidade crescente da teoria por conta do peso dos
instrumentos que o quadro acumulou nos seus melhores anos de
desenvolvimento. Na medida em que o PM torna mais leve o equipamento
teórico da sintaxe, é evidente que os pesquisadores da área se interessam
pelos seus resultados e pelo quadro enquanto tal — claro, se o PM
conseguir mostrar não só que suas análises dão conta dos fenômenos
explicados anteriormente com sucesso, mas sobretudo que o seu poder
heurístico, por exemplo, é o mesmo que o de GB...
2.2. Quando seis é mais que meia dúzia...
Dada a discussão da seção anterior, parece claro que o PM veio fazer
uma faxina na teoria, desmontando, diminuindo e polindo a maquinaria que
restou de forma a torná-la fina e realmente mínima em um certo sentido. No
entanto, não é pacífico que o resultado é aquele que era esperado. Vários
pontos merecem debate especial, mas por agora vamos apenas apresentar o
contraponto dos problemas discutidos na seção anterior.
Em primeiro lugar, se é verdade indiscutível que era necessário eliminar
redundâncias dentro da maquinaria, nem por isso o que tem que ser cortado
é decidido às cegas. No caso específico que discutimos anteriormente, não é
claro por que a noção de Caso sob regência tenha sido descartada e é a
noção de Caso por concordância especificador/núcleo a que deve ser
mantida na teoria. Não há nenhuma razão evidente de por que deveria ser
assim e não ao contrário. O ponto a notar aqui é o de que houve alguma
arbitrariedade na escolha de qual das noções colocar para fora da teoria,
dado que havia duas opções disponíveis. A escolha foi feita por Chomsky e
não nos parece que alguém da comunidade tenha pensado — e trabalhado
— na outra possibilidade.15
A arbitrariedade da escolha reflete-se também nas suas consequências
para a análise de dados. Por exemplo, sob a hipótese de que toda a
verificação de Caso é feita numa configuração de concordância entre
especificador e núcleo, torna-se necessário criar a categoria AgrO, para a
qual o objeto se move. Postula-se que esta categoria desempenha uma
função semelhante à categoria AgrS e sabe-se que é inspirada na
observação de Kayne de que em línguas como o francês um complemento
movido desencadeia concordância na forma participial.16 Contudo, uma tal
simetria teórica faria prever evidência mais robusta para concordância entre
objeto e verbo, pelo menos semelhante à que se encontra entre sujeito e
verbo (apesar de se ter conseguido tratar dados de línguas escandinavas em
que há movimento de objetos para uma posição-A com uma clareza
superior), um fato não atestado. De igual modo, perdeu-se um claro
tratamento de todos os contextos em que as preposições surgem como
marcadores de caso. Conseguiu-se olhar para novos dados de línguas menos
estudadas, mas sente-se que não houve uma preocupação em preservar
resultados já alcançados em momentos anteriores da teoria.
Este problema permite-nos introduzir uma outra questão. É de Kanavillil
Rajagopalan (1997) uma expressão muito feliz para descrever um fenômeno
que vemos se desenhar na teoria sintática atual: “a dadidade do dado”.
Determinar o que são os dados interessantes para a teoria é de fato uma
questão de programa.17 Mas parece arbitrário a um certo ponto que os
dados que eram explicados por ECP (Empty Category Principle, isto é,
Princípio das Categorias Vazias, que fazia uso crucialda noção de
regência18) tenham simplesmente desaparecido do foco de atenção dos
linguistas. Argumenta-se dentro do PM que os efeitos de ECP podem ser
captados por outros princípios, nomeadamente MLC (Minimal Link
Condition), mas o fato concreto é que os dados que tocavam problemas do
tipo dos de ECP não são mais considerados interessantes dentro do PM —
ou pelo menos não têm sido considerados interessantes. O PM seleciona
seus próprios dados, digamos assim. Os problemas interessantes para o PM
não são os mesmos que interessavam à GB. Observe-se que os diferentes
focos de atenção não constituiriam um problema por si só, se se verificasse
que o postular de diferentes assunções não tem como consequência o fato
de se verificar que muitos dos dados tratados e analisados anteriormente
com eficiência ficam sem explicação — e não adianta dizer que alguns
dados novos estão recebendo um tratamento jamais sonhado dentro de GB!
O problema que queremos notar é sobretudo o de se procurar configurar
uma evolução no quadro teórico que passa por uma redução no poder
explicativo da teoria em áreas bastante e eficientemente trabalhadas.
Ainda cabe uma nota aqui sobre um ponto delicado: o aumento
indiscriminado do léxico não se coaduna com qualquer definição de
“mínimo” que queiramos defender para a teoria linguística. O ponto preciso
que queremos mostrar aqui pode ser ilustrado com uma análise minimalista
possível (na verdade, uma análise bastante difundida ao menos num
primeiro momento do PM) para a aparente opcionalidade de (11) a seguir:
(11a) Quem a Maria viu?
(11b) A Maria viu quem?
O problema que (11) coloca é claro para uma teoria em que qualquer
movimento tem que ser motivado por algo de dentro do próprio sistema: se
o sintagma QU- não precisa se mover, como mostra (11b), por que se
moveu em (11a)? Uma resposta minimalista para a aparente opcionalidade
de (11) é que de fato não estamos lidando com os mesmos itens lexicais
(com a mesma numeração, em termos mais técnicos), ao contrário do que as
aparências poderiam indicar. Em particular, o item lexical quem tem duas
entradas no léxico, uma, digamos, com o traço +QU (forte) e outra sem este
traço, de modo que em (11a) extraímos do léxico e colocamos na
computação o item que tem o traço +QU (forte), que deve ser checado antes
de Spell-Out, dando lugar obrigatoriamente ao movimento visível; em
(11b), por outro lado, selecionamos no léxico o item lexical quem que não
tem o traço +QU e, portanto, não há motivação para o movimento visível
deste item para a posição que checa este traço +QU. O movimento, que
supostamente deve existir se a forma lógica das duas sentenças é idêntica
— e deve ser, dado que a interpretação é a mesma —, é de traços e só
acontece após Spell-out, não tendo por isso nenhuma consequência
visível.19
O fato de o PM girar sobre uma teoria de traços que tem problemas para
se definir claramente (como teve anteriormente o elenco das categorias
funcionais), aliado a uma certa concepção de léxico como lugar de
irregularidades e, portanto, sem contornos muito claros — uma ideia muito
antiga de léxico o define como “o depósito das idiossincracias”, e o PM
parece abraçar essa noção — faz com que o seu aumento não seja muito
claramente notado (ou, de qualquer modo, pareça não custoso). Mas isso
não muda o fato concreto: postular como diferentes itens lexicais (isto é,
com um conjunto de traços funcionais diferente) elementos aparentemente
idênticos, simplesmente porque há diferença de distribuição entre eles,
parece querer dizer que o tapete deve ser erguido em algum lugar para que a
teoria de traços funcione dentro do sistema computacional. E o lugar
escolhido é o léxico.
O problema que apontamos pode ser definido como um excesso de foco
na sintaxe estrita. Pretende-se com o PM reduzir ao mínimo indispensável a
teoria gramatical. Contudo, em grande parte dos trabalhos, parece que a
teoria linguística compreende apenas o componente sintático. Em outras
palavras, é minimalista postular que determinados fenômenos podem ser
analisados na interface com o léxico ou com a fonologia, mesmo que isso
implique complexificar os níveis lexical e fonológico. No nosso entender,
uma perspectiva minimalista deve se revestir de uma atitude menos
“sintático-cêntrica”, procurando desenhar sistemas econômicos e com o
mínimo de ferramentas de análise em qualquer um dos componentes da
gramática. Como bem formula Ernst (2002) com uma extrema lucidez, a
teoria como um todo não é econômica se a economia de um módulo da
gramática força formulações custosas em outros módulos. É a formulação
da gramática inteira o que conta para a economia.
Para citarmos um exemplo, a dada altura da teoria é sugerido que o
fenômeno V2, que coloca o verbo em segunda posição absoluta em várias
línguas, é de natureza fonológica.20 A grande motivação para esta sugestão
é o fato de a análise sintática minimalista não ter muito a dizer sobre este
problema. Como tal, ele é empurrado para outro componente. Qualquer
fonólogo dirá que a fonologia dificilmente lidará com questões de
movimento do verbo, pelo que, a ser tomada a sério, esta sugestão
implicaria um aumento nos pressupostos, ferramentas e instrumentos da
teoria fonológica, construindo-se um nível fonológico absolutamente
“antiminimalista”.
2.3. Quando seis e meia dúzia são dois números completamente
diferentes
Uma das grandes inovações do PM é sem dúvida a noção de economia.
Esta é uma noção que já estava presente na teoria desde os seus
primórdios,21 mas jamais com o estatuto que tem dentro do PM, que é,
aliás, duplo: tanto o sistema computacional quanto a teoria sobre o sistema
computacional devem ser econômicos. Esse segundo tipo de economia é
fundamentalmente aquele guiado pela navalha de Occam: se duas teorias
são igualmente adequadas para explicar um fenômeno, deve ser preferida a
que lança mão do menor número de asserções teóricas — a mais simples,
econômica e elegante.
Por outro lado, como nota Marantz (1994), alguma ideia sobre o
primeiro tipo de economia, a do próprio sistema linguístico, já vinha se
formando em GB, mesmo que não tivesse esse nome; por exemplo, parece
claro que algo como Minimalidade Relativizada (Rizzi, 1990) já é de uma
certa maneira um princípio de economia, porque determina que o
movimento de qualquer elemento deve ir para a primeira posição possível
para aquele elemento, sem saltar posições em que poderia aterrizar. Do
mesmo modo, a ideia de que há operações das quais só se lança mão
quando não há mais nada a fazer também já se apresentava na análise de
inserção de do em inglês. No entanto, a ideia de que derivações devem ser
comparadas e que vencerá a derivação mais econômica, em detrimento das
menos econômicas, isso é realmente novo.
Novo e problemático, deve-se dizer. Em primeiro lugar, observe-se que
o estatuto dos princípios de economia no PM varia de princípio para
princípio. À parte a diferença entre dizer respeito à economia global ou
local, que discutiremos abaixo, existe uma diferença na violabilidade deles.
Por exemplo, Procrastinate (um princípio de vida segundo alguns!) é
violável se não existe derivação que convirja caso ele se aplique — o
exemplo é o do movimento do verbo em francês: dado o estatuto “forte” (ou
como quer que se formule) do traço que o verbo finito deve checar em I, no
caso de o verbo respeitar o princípio, deixando o movimento para depois de
Spell-Out, a derivação não convergirá. Assim, esta violação é obrigatória.
Por outro lado, um princípio como Minimal Link, que é o responsável no
PM pelos efeitos de minimalidade relativizada, não pode ser violado, nem
se a derivação com o menor elo de cadeia não convergir e portanto só a com
um elo maior convergiria. O exemplo clássico aqui é o de super-raising que
vemos em (12) a seguir:
(12) *John seems that it is likely to be t fool
/John parece que é provável ser t bobo/
Aqui, o que acontece é que o movimento do DP John da sua posição de
base (marcada por t) até a posição de sujeito do verbo matriz — um
movimento legítimojá que este DP não pode checar seus traços de Caso
Nominativo na sua posição de origem — deve atravessar uma posição de
sujeito: aquela ocupada por it. O fato de a posição estar ocupada e, portanto,
de ser impossível para o DP aterrizar ali não muda a aplicabilidade deste
princípio: a derivação da frase não faz a opção mais econômica e por isso é
agramatical.
Não há nenhum problema a priori aqui, mas não é esperado de um
quadro que se dispõe a ser mínimo, com basicamente três operações (select,
merge e move), uma única configuração de verificação de traços
(concordância especificador/núcleo), apenas dois níveis de representação
(PF e LF) e assim por diante, de repente lançar mão de diferentes tipos de
recursos para cuidar da derivação de uma sentença trivial. Em particular, se
os diferentes princípios de economia atuam simultaneamente para a
avaliação da economia de uma sentença, é necessário hierarquizá-los de
algum modo para a computação final de uma certa derivação. Como se fará
esta hierarquização?
Muito mais sério, todavia, é o problema apontado por Johnson & Lappin
(1997, p. 283-288) com respeito a condições globais de economia, do tipo
da que está por trás de princípios como Procrastinate, por exemplo. Para
que seja possível aplicar este princípio, deve ser possível saber se há ou não
outra derivação convergente mais econômica. Dito de outro modo, uma
condição de economia global desta natureza exige que examinemos o
conjunto de referência da derivação em questão, isto é, o conjunto de todas
as derivações convergentes que poderiam ser construídas com o mesmo
conjunto de itens lexicais, ou seja, com a mesma numeração. Ora, a
construção de um tal conjunto levanta questões de complexidade
computacional e conceptual não existentes em um modelo como GB, que é
baseado em restrições locais.
Talvez valha a pena dizer isso mais claramente: num modelo como o de
GB, uma sentença será dita gramatical se existe pelo menos uma derivação
bem formada na gramática que fornece esta sentença como resultado. Num
modelo como o PM, por outro lado, isto não basta: para mostrar que uma
sentença é gerada pela gramática de uma língua é preciso mostrar que ela
satisfaz as restrições locais da gramática (como em GB), mas,
adicionalmente, é preciso mostrar que ela é optimal com respeito a todas as
outras derivações que seriam possíveis com os mesmos itens lexicais.
Vai daí que é necessário saber quais podem ser essas outras derivações
de modo a se poder compará-las. Suponhamos que queiramos saber se a
menina comeu o bolo é gramatical em português. Para além do respeito às
condições locais de boa formação, que deveriam ser observadas também em
GB, no PM devemos: (1) construir a numeração N dessa frase a partir dos
itens lexicais que a compõem (a, menina, comeu, ... não esquecendo de
trazer para cá igualmente os elementos funcionais que verificarão os traços
formais presentes nesses itens lexicais); (2) construir o conjunto de
referência para esta numeração, isto é, o conjunto de derivações
convergentes que vão deste N até um par <LF, PF> bem formado; (3) usar
os princípios de economia global para isolar o subconjunto de derivações
óptimas contidas no conjunto de referência construído previamente; e
finalmente (4) verificar se existe pelo menos uma derivação óptima cujo par
<LF, PF> corresponde efetivamente à frase a menina comeu o bolo.
Ora, é evidente que a complexidade computacional desta tarefa é
imensa. Chomksy (1995, p. 227-228) se dá conta disso e propõe que a
construção desse conjunto de referência se dê localmente, o que de fato
resolve o problema lá na frente, quando os itens da numeração já estão se
esgotando. Na verdade, para a primeira computação, todos os itens da
numeração estão disponíveis e, portanto, supondo que só apliquemos select
e façamos merge, as duas operações conceptualmente necessárias do PM, as
combinações possíveis são em um número assustador: se tivermos 5 itens
na numeração, cada um deles ocorrendo uma única vez, o número de
sequências distintas que podem ser formadas é de 5! = 120. Se os itens da
numeração são em número de 10, as sequências são da ordem de 10! =
3.628.800. Um número assim não é mínimo para nenhuma definição do
termo, todos estarão de acordo. Claro, muitas dessas combinações serão
descartadas rapidamente, mas o ponto é que devem ser formadas e
avaliadas para serem descartadas a seguir.
Mas não é só este tipo de problema que torna o PM pouco mínimo,
segundo Johnson & Lappin (1997). Existem problemas técnicos de
resolução difícil no quadro, como a distinção entre movimento visível e
movimento invisível. Aparentemente, a ideia é de que o processo mais
econômico é mover apenas os traços que devem ser verificados, nada além
deles; no entanto, segundo o argumento minimalista, mover apenas os
traços formais antes de Spell-Out criaria um constituinte sem traços
fonológicos que não poderia ser interpretado em PF, o que só pode ser
evitado se os traços “fortes” sempre se moverem com todos os outros traços
do constituinte. É por isso que movimento antes de Spell-Out é
necessariamente movimento “visível”.
Examinemos a afirmação de que se o movimento antes de Spell-Out
mover apenas os traços formais de um constituinte A — FF(A) — a
derivação não convergirá em PF, razão pela qual o movimento visível induz
pied-piping de todos os traços. Esta afirmação terá dificuldade de se
confrontar com o fato de que merge e move trabalham com categorias sem
matriz fonológica antes de Spell-Out e não parece haver nada de errado com
isso (veja, por exemplo, o que acontece em frases como O João queria PRO
iparecer t simpático). Adicionalmente, não é possível lançar mão do fato de
que FF(A) exclui traços semânticos, porque o próprio Chomsky fala de
merge de expletivos nulos, que não têm traços semânticos mas que, como
supomos desde Rizzi (1982), são alçados quando em estruturas com verbos
que o exigem — o exemplo relevante é algo como: Expli sembra ti piovergli
sulla testa (lit. Expli Parece ti chover-lhe sobre a cabeça), a ser comparado
com Mariai sembra ti piangere (lit. A Mariai parece ti chorar), onde o
movimento é a análise padrão.22
O ponto dos autores é simples: dado que elementos nulos são possíveis e
podem ser movidos na derivação antes de Spell-Out, não é claro por qual
razão movimentar apenas traços formais aí seria um problema. O outro lado
desta moeda é que a presença de traços formais em um constituinte sem
traços fonológicos não é suficiente para identificar esta como uma estrutura
de após Spell-Out e, portanto, não é possível dizer que os traços “fortes”
implicam movimento visível.
A intuição que deve ser captada é a de que se um item tem traços
fonológicos, o movimento visível deve incluir esses traços (e o mesmo
deveria ser dito sobre os traços semânticos), mas se um item não tem traços
fonológicos, nem por isso o movimento visível é proibido. É interessante,
afirmam os autores, que um fato tão simples e central da linguagem humana
— o de que os itens lexicais podem não ter traços fonológicos ou
semânticos mas sempre têm traços formais — cause tantos problemas
técnicos para o PM. Adicionalmente, continuam os autores, ainda deve ser
devidamente examinada a asserção de que o movimento invisível move só
traços formais (e não os semânticos, por exemplo).
O último ponto que gostaríamos de abordar aqui é exatamente o
problema dos traços e do mecanismo de verificação deles como o
mecanismo central da sintaxe, responsável por todas as aplicações da
operação move e por isso mesmo responsável pela distância entre a
“perfeição” da língua ideal que não usaria nenhuma operação custosa, só
select e merge.
Examinemos a relevância de um tal mecanismo dentro da teoria. De
acordo com o PM, a motivação do movimento é a verificação dos traços
formais das categorias funcionais junto de um XP ou de um Xº que partilhe
do mesmo conjunto ou de um subconjunto desses traços. Muitos dos
trabalhos desenvolvidos no âmbito do PM recorrem a este instrumento.
Contudo, é muito pouco claro que o mecanismode verificação de traços
seja um dos aspectos claros e inovadores da teoria. Por exemplo, tomemos
o caso do movimento do verbo para I. Em GB, assume-se que o verbo se
move para I quando há argumentos posicionais para defender esse tipo de
movimento. Por exemplo, se a adjacência entre o verbo e o seu
complemento é quebrada por um advérbio, assume-se que o verbo se
moveu para I. Contudo, nunca houve grande preocupação com o porquê
desse movimento.
No PM, é introduzida a ideia de que qualquer movimento sintático deve
ser motivado, o que, supostamente, teria colocado todos os sintaticistas à
procura de triggers para o movimento e sobretudo de verdadeiras
motivações para o movimento sintático. No entanto, o postulado de que o
movimento se dá para verificar traços formais fortes condicionou de uma
forma negativa a realização deste objetivo. Se em GB se dizia que o verbo
se move para I para dar conta da ordem, no PM passou-se a dizer que o
movimento do verbo se dá para verificar traços fortes... e sabemos que eles
são fortes, porque o movimento do verbo é visível! Assim, em francês o
verbo deve ir verificar o traço V de T porque este é um traço forte e a sua
verificação deve então ser feita em sintaxe visível; por seu turno, sabemos
que o traço V de T em francês é forte porque o verbo deve se mover para T
em sintaxe visível para verificá-lo!
Como é evidente, esta formulação contribuiu sobretudo para a criação
de uma enorme circularidade na argumentação, tornando-se claro que o
sistema de traços e a teoria de verificação mais não são do que artefatos
teóricos que têm grande poder descritivo, mas pouco poder analítico. Esta
situação poderia ser resolvida se, no seio da teoria, tivesse sido
desenvolvida uma definição independente daquilo que se observa do que
pode ser um traço e de que forma se pode decidir se ele é forte ou não.
Contudo, tal nunca foi feito, e a restrição máxima que pesa sobre a
formulação do que é um traço é que eles devem ser gramaticais, não
interpretativos, por exemplo. Aquilo que parecia, à primeira vista, ser um
avanço em poder analítico pouco mais é do que uma máscara formal de
uma generalização descritiva já atingida em GB.
3. AINDA FAZENDO AS CONTAS
O PM tem belezas insuspeitadas, é verdade. O exemplo mais claro é o
tratamento que dá às estruturas de reconstrução, um fenômeno sempre
muito mal gestionado por GB. A teoria de cópia do movimento tem uma
explicação extremamente simples e elegante para o conjunto de dados que
vemos em (13) a seguir:23
(13a) Which pictures of himself did Mary say that John saw t?
/Qual retrato dele mesmo Mary disse que John viu?/
(13b) Which pictures of Johni did Mary say that hei saw t?
/Qual retrato de John Mary disse que ele viu?/
(13c) *Mary said hei saw those pictures of Johni
/Mary disse que elei viu aqueles retratos de Joãoi/
O problema para os dados de reconstrução em GB era que, uma vez
feito o movimento A-barra do constituinte interrogativo, para que a teoria
da vinculação pudesse ser respeitada era necessário “desfazer” em LF o
movimento A-barra feito em estrutura superficial, isto é, era necessária uma
operação de rebaixamento do constituinte interrogativo para a sua posição
de base ou para alguma posição intermediária. Por exemplo, (13a) exige
que haja rebaixamento da projeção máxima movida para Spec CP para a
posição de complemento do verbo da oração encaixada de modo que
himself seja vinculado por John. Por outro lado, (13b) não permite a
reconstrução na posição de base, dado que este processo implicaria violação
ao princípio C como a que se vê em (13c).
A elegância da explicação da teoria de cópia é fantástica: o movimento
do constituinte interrogativo de sua posição de base até o Spec CP mais alto
deixa cópias em sua posição de origem, na posição de especificador do CP
intermediário e onde é visível. A ideia então é que em LF existem
diferentes padrões de apagamento do constituinte. Para (13a), a escolha é
por apagar a cópia intermediária e todo o material lexical no Spec CP mais
alto salvo o operador, realizando o material lexical na posição de origem do
constituinte interrogativo, algo como (14a). Para resolver o problema de
(13b), por outro lado, escolhe-se um outro padrão de apagamento:
apagamento de todo o material na posição de base e na posição
intermediária, mantendo todo o material realizado no Spec CP mais alto da
frase, como em (14b):
(14a) Whichx, Mary said John saw [x pictures of himself]
(14b) Which x, x a picture of John, Mary said he saw x
E há ainda um outro caso em que o apagamento de diferentes cópias
resolve de maneira bastante direta o problema da interpretação.
Consideremos a frase em (15a), ambígua entre a interpretação de (15b) e a
de (15c):
(15a) Which picture of himself did John say t that Bill likes t?
/(de) que retrato de si John disse que Bill gosta?/
(15b) Which picture of himselfk did Johnk say t that Billi likes t?
(15c) Which picture of himselfi did Johnk say t that Billi likes t?
A interpretação em (15c) é a que exige reconstrução no lugar de origem
do sintagma interrogativo, isto é, a posição de objeto da frase mais
encaixada. No entanto, a interpretação em (15b) só pode ser derivada se se
admitir reconstrução no especificador intermediário, um lugar por onde se
supõe que a expressão interrogativa passou, dado que o movimento é
cíclico sucessivo também no PM — um resultado obtido por estratégias
bastante diversas da de GB, é verdade... No entanto, ainda devemos dizer
que o fato crucial — porque reconstrução é um fato do sistema A-barra mas
não do sistema A — nem GB nem PM explicam...
Por outro lado, existem, claramente, também os fatos com que GB
lidava de maneira direta e simples, mas que agora no PM encontram
dificuldade para ter alguma explicação, quem dirá uma análise elegante. O
caso, talvez, mais visível é o de ECM, em frases como (16) a seguir:
(16) O João acha a Maria inteligente
Como o PM trata uniformemente a atribuição de caso, a única análise
disponível para (16) é a de que o sintagma a Maria se move para alguma
projeção do verbo matriz (AgrOP ou vP, dependendo do modelo) para
checar seus traços de acusativo de forma encoberta. No entanto, essa análise
tem problemas para explicar frases como a de (17):24
(17) I [ACC [believe [Johni [to have been chosen ti for the job]]]]
/Eu acredito John ter sido escolhido para o emprego/
Nas primeiras versões do PM, seria muito difícil explicar este exemplo,
dada a posição visível ocupada por John, aparentemente a de especificador
do auxiliar infinitivo. Ora, se esta não é uma posição de verificação de Caso
Acusativo (só o Caso Nulo de PRO pode ser aí verificado), o que estaria
fazendo estacionado aí o sintagma nominal? Parece claro que ele não tem
nada a fazer aí. Se o movimento deve ser motivado e é por razões próprias
que um elemento se move, temos então um problema... Mesmo nas versões
mais recentes, que reconhecem que existem motivações independentes do
próprio elemento movido para determinar que ele se mova — veja a ideia
de sonda, presente em Minimalist Inquiries, por exemplo — ainda assim o
lugar em que está o sintagma nominal na frase é surpreendente: se o Caso
acusativo não tem traço forte em inglês e só poderá ser checado no
especificador de alguma projeção funcional em LF, e se o traço de Caso da
flexão infinitiva não pode checar os traços de Caso deste sintagma nominal,
é bastante inesperado que ele possa verificar os traços de Caso da flexão
infinitiva. Aliás, aqui estamos diante de uma das invenções do PM que é
bastante problemática...
De qualquer modo, mesmo que seja possível arrumar uma solução
técnica para o problema — sempre é possível, creem os otimistas! —, ainda
assim é evidente que a solução de GB aqui é muito superior em elegância,
parcimônia e simplicidade: o que se postula é apenas uma configuração de
verificação de Caso, contra a postulação, pelo PM, de um Caso especial
para PRO, na flexão infinitiva, que não verifica os traços de Caso de um
sintagma nominal mas que admite que o sintagma nominalverifique os seus
traços de Caso, enquanto espera até LF para ter os próprios traços de ACC
verificados.
4. À GUISA DE CONCLUSÃO
Com este texto nos propusemos a examinar o que aconteceu na
gramática gerativa durante os primeiros anos da década de 1990 e, por isso,
examinamos uma série de problemas dos quadros conhecidos como GB e
PM, que tratamos por seis e meia dúzia, numa tentativa de evidenciar o
cerne de nossa discussão, assumindo a posição dos “desconfiados” com
relação ao que aconteceu na teoria. Seria interessante ter alguma conclusão
firme e clara para apresentar aqui. No entanto, talvez seis e meia dúzia a um
certo ponto sejam mesmo absolutamente indistinguíveis...
Existe sem dúvida um problema na retórica do PM. Conceber a sintaxe
como um sistema computacional perfeito, cujo design é determinado pela
“necessidade conceptual virtual” talvez seja um ponto programático muito
problemático (com rima e tudo!). Os problemas que Johnson & Lappin
(1997) reconhecem são muito bem formulados e devem ser tomados a sério:
a questão da economia global torna o PM absolutamente suboptimal e
determina que se abra mão de qualquer relação mais próxima entre esse
modelo de geração de sentenças e o que se passa na mente/no cérebro
humano quando falamos, o que vemos como uma perda, diga-se de
passagem.
No entanto, esta conclusão é surpreendente: se a gramática universal é a
representação de uma faculdade cognitiva, é muito estranho que ela deva
apresentar uma propriedade como eficiência, uma noção claramente
formulável no domínio da engenharia, não no da biologia. Neste terreno, o
que observamos é que os organismos têm subsistemas ou órgãos sem
nenhuma função aparente, que eventualmente podem vir a servir no caso de
alguma mudança no meio. Assim, a definição do que é eficiente (ou
simplesmente útil) pode mudar, como também pode determinar o
desaparecimento do organismo. Portanto, não é claro que eficiência ou
economia seja ou deva ser uma propriedade dos organismos ou dos órgãos
que os compõem.
Lappin, Levine e Johnson (2000a) propõem um exercício interessante:
se é legítimo e natural perguntarmos se a gramática universal é
maximamente elegante, não redundante e simples, imaginemos um biólogo
especialista em fisiologia humana que redige um artigo da seguinte forma:
Este trabalho é motivado por duas questões relacionadas: (1) quais são as condições gerais que se
esperaria que o aparelho urinário satisfizesse? E (2) em que extensão o aparelho urinário é
determinado por estas condições, e nada além delas? A primeira questão tem por seu turno dois
aspectos: que condições são impostas sobre o sistema urinário em virtude de (A) seu lugar no
conjunto dos sistemas fisiológicos do corpo e (B) considerações gerais de naturalidade
conceptual que tem plausibilidade independente como simplicidade, economia, simetria, não
redundância e similares?
Parece claro que perguntar que condições se esperaria que o sistema
urinário satisfaça simplesmente não faz sentido. Nenhum biólogo sugeriria
que podemos deduzir a identidade e interconexão de tecidos da bexiga, rins
ou uretra a partir do conhecimento de que as vias urinárias servem para
expelir a urina do corpo. E parece igualmente claro que noções como a de
“economia” ou “elegância” nada têm a ver com a bexiga, mas apenas com a
teoria que fazemos sobre ela.
O que entendemos que está em discussão é um problema de determinar
o que é ruptura e o que é continuidade na passagem de GB para o PM. Na
história da ciência, vemos com frequência que é preciso que uma nova
teoria prove que pode lidar com todos os dados com que a anterior lidava e
mais algum dado com que a anterior não lidava (e não poderia lidar) para
que a comunidade científica esteja de acordo com a mudança de um quadro
para o outro. A questão agora é saber qual é a avaliação que os gerativistas
têm a respeito do que aconteceu em GB e do que está acontecendo no PM
no que tange ao poder explicativo da teoria.
É necessário dizer que o pequeno artigo de Lappin, Levine e Johnson
(2000b) causou algum furor e respostas mais ou menos raivosas por parte
de minimalistas, por razões que têm pouco a ver com a teoria propriamente
dita. Na verdade, a resposta que nos parece conter a avaliação mais pausada
é a de Eric Reuland. Segundo este gerativista, o problema a enfrentar é a
expansão da maquinaria que sofreu GB no seu desenvolvimento e a
expectativa do PM é basicamente a de dizer o mesmo com muito menos
maquinaria. Assim, segundo ele, não estaríamos frente a um outro quadro,
mas fundamentalmente o mesmo, com alguns quilos de maquinaria a
menos.
Não é claro que seja esse efetivamente o caso. Pode ser que o problema
do design seja mais retórico que um problema teórico, mas é pouco
provável que o problema da economia global se resolva retoricamente. E
parece que os minimalistas sabem disso desde o início: não é à toa que um
pesquisador como Collins se debruça sobre a questão da economia
dedicando a ela toda uma monografia (cf. Collins, 1997), mostrando que a
economia global não dispensa a noção de economia local, o que faz muito
claramente a ponte com a teoria de GB.
Em todo o caso, existe pelo menos uma linha divisória entre esses dois
quadros, que é a questão da abordagem derivacional versus a abordagem
representacional. Se em GB era ainda perfeitamente possível traduzir uma
análise representacional em termos derivacionais, o PM se alinha
definitivamente na perspectiva derivacional e assim se distancia de qualquer
abordagem que proponha trabalhar com representações. Não é só uma
questão de quantos níveis de representação a teoria admite, porque isso
também pode ser facilmente “traduzível”. O problema parece ser de outra
natureza: é fundamentalmente um problema de concepção de como a
maquinaria funciona. Talvez esta também seja uma diferença menos grave
do que parece num primeiro momento, se de fato a ideia de fases que foi
introduzida recentemente no quadro seja uma retomada indireta da ideia de
ciclicidade, que por sua vez tem um parentesco inegável com a ideia de que
existem representações que são de algum modo finais mesmo...
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1. Este trabalho contou com a leitura atenta e os comentários de Anna Christina Bentes, Carlos
Mioto, Evani Viotti, Fernanda Mussalim e Maria Lobo, a quem agradecemos efusivamente. É claro
que nem por isso eles partilham a responsabilidade dos erros que tenham permanecido no texto.
2. Trabalho com suporte parcial da bolsa de pós-doutorado do FCT (Portugal) POCTI-BPD-
9401/2002.
3. Pressupomos um mínimo de informação (correspondente a um curso de um semestre de
graduação, por exemplo) sobre os pressupostos teóricos e metodológicos da gramática gerativa, bem
como familiaridade com sua maquinaria básica, razão pela qual não introduziremos cada conceito-
base que for abordado, mas apenas esporadicamente algum comentário sobre diferentes formulações
de alguma noção ou ainda sobre as noções que estiverem em foco de discussão. O leitor que sentir
dificuldade na leitura ou que quiser se aprofundar em alguma das questões discutidas é convidado a
consultar os manuais de Haegeman e Radford listados na bibliografia, bem como o Manual de
sintaxe de Mioto, Figueiredo Silva e Vasconcellos Lopes e o capítulo Sintaxe, publicado no volume 1
desta obra.
4. A noção de interface é crucial dentro do PM inicialmente porque os níveis de interface são os
únicos níveis de representação que são postulados na gramática, mas principalmente porque o PM
trabalha com a ideia de que as exigências desses níveis — o nível articulatório-perceptual e o nível
intensional-conceptual — são responsáveis por ditar limites sobre o que é ou não feito pelo
mecanismo computacional.
5. Veja-se contudo Brody (1995) para uma interpretação representacional do PM.
6. Assim, por exemplo, em vez de análises que postulam a projeção funcional X ou Y para mover
um dado constituinte e explicar uma dada interpretação — distributividade, por exemplo — é
possível encontrar análises “minimalistas” que postulam esses mesmos traços em algum dos núcleos
funcionais admitidos pelo PM e forçam o movimento de algum constituinte para o especificador
dessa projeção para verificar os traços — por exemplo, o de distributividade — que supostamente são
fortes. Ora, um traço desta natureza não pode ser um traço a ser verificado porque traços verificados
são normalmente apagados e traços semânticos não podem ser apagados. O pior dos casos seria uma
análise que postulasse simultaneamente a projeção funcional e o traço que deve ser checado nela.
7. Os minimalistas têm alegado em defesa do programa que de fato o PM não implica nenhum
aumento indiscriminado do Léxico, mas apenas que agora se tornou explícito o que se deve postular
como pertencente a ele. No entanto, como a discussão do exemplo (11) da seção 2.2 mostra, é um
pouco mais do que isso. Deve-se dizer, no entanto, que na lógica do PM não há nenhum problema em
inchar outros módulos da gramática, já que o que está em foco aqui é a elegância da sintaxe, não dos
outros módulos. Voltaremos também a esta discussão no corpo do texto mais à frente.
8. A metáfora acima tem o objetivo de dar maior visibilidade à questão central discutida neste
capítulo, a saber, se, de fato, o PM constitui uma ruptura com a GB. Queremos, assim, enfatizar a
discussão sobre os rumos que a teoria que praticamos está tomando.
9. Ver o capítulo O empreendimento gerativo, neste volume.
10. Mantivemos o exemplo clássico em inglês por conta das dificuldades que o português oferece
para a tradução do fenômeno.
11. A formulação “usual” deste princípio é apenas a asserção de que todas as frases devem ter um
sujeito, uma afirmação que deve ser feita como uma adição ao Princípio de Projeção, visto que este
último só pode garantir a existência de posições temáticas — e a posição de sujeito, como se sabe,
nem sempre o é.
12. Como nota Evani Viotti, em comunicação pessoal, vários autores (como Hagit Borer, por
exemplo) já haviam feito asserções similares no arcabouço de GB.
13. Durante os anos 1980, foi ficando claro que o conjunto de propriedades exibido em Chomsky
(1981) não divide as línguas do mundo em dois grandes grupos, como parecia então. Na verdade, as
línguas apresentam diversos tipos de combinações intermediárias destas propriedades, não previstas
pela formulação original do parâmetro.
14. Na verdade, em Kayne (1994), é proposto que a ordem linear decorre da existência de relações
de c-comando assimétricas. Assim, a adjunção é eliminada, por gerar estruturas de c-comando
simétrico. Não existindo adjunção, como é esperado, a adjunção à direita não se encontra disponível
neste modelo.
15. É possível argumentar que a noção de concordância entre o especificador e o núcleo é uma
noção mais simples, puramente configuracional, ao contrário da noção de regência, que já encontra
problemas sérios em sua definição: quais são os núcleos regentes? Em qual domínio um núcleo pode
reger? No entanto, observe-se que o ponto em discussão ainda se mantém: várias explicações que
dependiam da noção de regência se perderam no arcabouço minimalista porque não é possível
traduzi-las diretamente para a configuração especificador/núcleo e não existe outro meio de derivar
esses efeitos no novo quadro.
16. Estamos falando do célebre artigo de Kayne (1989) que propõe que o movimento de sintagmas
complemento interrogativos/relativos ou clíticos acusativos do francês passa por uma posição de
especificador de uma projeção de concordância — a de concordância com o objeto, AgroP, portanto
—, de modo a desencadear traços visíveis de gênero e número sobre o particípio ativo. Os dados
relevantes são mostrados em (i)-(iii) abaixo:
(i) Quelle chaise a-t-il repeinte?
(ii) Les chaises qu’il a repeintes...
(iii) (les chaises) il les a repeintes.
17. Ver o capítulo O empreendimento gerativo, neste volume.
18. O ECP conheceu uma variedade de formulações; talvez a mais popular fazia referência a dois
modos de legitimar uma categoria vazia não pronominal: por regência de núcleo ou por regência por
um antecedente. O conjunto de dados historicamente motivador deste princípio é apresentado abaixo:
(i) ? O que você se pergunta como o Pedro consertou t t ?
(ii) * Como você se pergunta o que o Pedro consertou t t ?
19. Carlos Mioto (c.p.) nos faz notar que esta não é a única análise disponível para o problema
levantado pelos dados de (11) — por exemplo, é perfeitamente plausível uma análise em que não seja
o elemento wh quetenha traços diferentes para serem checados em momentos diferentes da
derivação, mas a própria categoria C, que atuaria então como “sonda” em uma numeração mas não
na outra (cf. Pesetsky, 2001). Para a nossa discussão aqui, basta dizer que, evidentemente, com o
acréscimo de ferramentas, é possível apresentar outras análises mais (ou menos) plausíveis para os
mesmos dados; no entanto, note-se que o acréscimo de ferramentas torna a teoria toda menos
“mínima” também.
20. O fenômeno V2 é também um grande mistério para o quadro de GB, porque aqui também não
há uma boa explicação para o fato de as línguas germânicas possuírem esta restrição tão forte nas
frases matrizes — um constituinte qualquer em primeira posição, o verbo em segunda. No entanto, o
fato mesmo de a descrição acima fazer referência a “um constituinte em primeira posição”, não uma
palavra ou um grupo fonológico qualquer, faz crer que estamos frente a um fenômeno
indiscutivelmente de ordem sintática.
21. Ver o capítulo O empreendimento gerativo, neste volume.
22. O movimento do expletivo é visível em línguas sem sujeito nulo, como o inglês, em estruturas
como:
(i) There seems t to be a man in the garden
(ii) It seems t to be raining
Aqui a análise de alçamento explica diretamente a diferença de expletivos exibida pelos exemplos.
23. Os exemplos e a discussão a seguir se baseiam em Marantz (1994, p. 374).
24. Exemplo e discussão extraídos de Marantz (1994, p. 377-8).
5
O FUNCIONALISMO EM LINGUÍSTICA1
Erotilde Goreti Pezatti
1. VISÃO GERAL DO MODELO FUNCIONALISTA
1.1. O ponto de vista teórico
Um ponto geralmente aceito na linguística é o de que a complexidade do
objeto de estudos, a linguagem, torna imperativa a necessidade de
estabelecer uma seleção entre os fenômenos a serem descritos. Quem
primeiramente reconheceu essa necessidade foi o próprio Saussure, na já
célebre afirmação de que “outras ciências trabalham com objetos dados
previamente e que se podem considerar, em seguida, de vários pontos de
vista; em nosso campo nada de semelhante ocorre. (...) Bem longe de dizer
que o objeto precede o ponto de vista, (...) é o ponto de vista que cria o
objeto” (Saussure, 1977, p. 15).
Sabe-se perfeitamente sob que ponto de vista Saussure criou seu objeto
de estudos, a língua (ou o sistema) em oposição à fala (ou o uso): algo que é
social, portanto geral, em oposição ao que é particular e exclusivamente
individual; o que é social é também essencial em oposição ao caráter
acessório e acidental do uso. Esse tipo de idealização teve em Chomsky um
adepto irrestrito com a noção, sobejamente, conhecida de “falante-ouvinte
ideal numa comunidade linguística completamente homogênea”.
O desenvolvimento recente da linguística demonstra rápidas e
sucessivas mudanças na definição do ponto de vista e, portanto, no modo de
fazer pesquisa. Nos anos de 1970, predominava tão maciçamente o modelo
teórico da chamada versão “padrão” da Gramática Transformacional que
não parecia possível trabalhar a sintaxe de uma língua fora de seus
parâmetros de investigação, ainda que para muitos pesquisadores chamava
a atenção o enfoque excessivamente formalista dessa tendência.
Aos poucos, a desconsideração da teoria gerativa por questões
discursivas provocou na linguística uma reação generalizada que
desencadeou o surgimento de várias tendências, como a Sociolinguística, a
Linguística Textual, a Análise do Discurso, a Análise da Conversação, entre
outras. A teoria funcionalista é uma dessas tendências, mas é ilusório pensar
que, como elas, seu surgimento tenha sido tão recente. O que houve, na
realidade, foi uma reatualização de seus princípios. O paradigma funcional
ostenta, na verdade, uma história quase tão longa quanto a do paradigma
formal, incluindo-se neste o estruturalismo saussuriano.2
Segundo DeLancey (2001), o funcionalismo moderno é, de certo modo,
um retorno à concepção de linguistas anteriores a Saussure,3 como Whitney,
von der Gabelentz e Hermann Paul, que assentaram o enfoque linguístico
em fenômenos sincrônicos e diacrônicos no final do século XIX,
entendendo que se deve explicar a estrutura linguística em termos de
imperativos psicológicos, cognitivos e funcionais. Para Whitney (1897,
apud DeLancey, 2001, p. 2), a linguagem pressupõe certas
instrumentalidades mediante as quais os homens consciente e
intencionalmente representam seus pensamentos com a finalidade principal
de torná-los conhecidos de outros homens, isto é, a expressão na linguagem
deve estar a serviço da comunicação.
O ponto de vista funcional pode ser encontrado também na Escola
Linguística de Praga, a partir de seu início nos anos vinte até os dias atuais.
Um dos expoentes desse período e um funcionalista verdadeiramente
pioneiro é Roman Jakobson, que estendeu a noção de função da linguagem,
restrita apenas à referencial na teoria estruturalista, a outras funções que
levam em conta os participantes da interação, como a emotiva, a conativa e
a fática, e outros fatores da comunicação, como a mensagem (função
poética) e o próprio código (função metalinguística).4
Encontra-se também a visão funcionalista na tradição antropológica
americana com o trabalho de Sapir (1921, 1949) e seus seguidores; na teoria
tagmêmica de Pike (Pike, 1967); no trabalho etnograficamente orientado de
Hymes (que introduziu a noção de “competência comunicativa”, Hymes
(1972)); na tradição britânica de Firth (1957) e Halliday (1970, 1973,
1985); e em um sentido diferente também na tradição filosófica que, a partir
de Austin (1962) e por meio de Searle (1969), conduziu à teoria dos Atos de
Fala.
Há muitas escolas e tendências funcionalistas. Nos EUA, um
movimento muito importante surgiu nos anos de 1970 a partir do trabalho
de um grupo de pesquisadores centrados na Califórnia, que inclui Talmy
Givón, Charles Li, Sandra Thompson, Wallace Chafe, Paul Hopper, Scott
DeLancey, John DuBois entre outros; em Buffalo, New York, criou-se, em
torno de Van Valin, uma corrente funcionalista denominada Gramática de
Papel e de Referência (Role and Reference Grammar) e em torno das
figuras de Lakoff e Langacker, em Berkeley, uma tendência funcional-
cognitiva. Assim, mesmo ao grupo norte-americano da Califórnia, que
reúne o agrupamento maior de linguistas, não é certamente possível referir-
se como uma teoria funcional homogênea, ainda que não inteiramente
incompatível.
Como se vê, o termo “funcional” tem sido vinculado a uma variedade
tão grande de modelos teóricos que se torna impossível a existência de uma
teoria monolítica que seja compartilhada por todos os que se identificam
com a corrente funcionalista. Uma pergunta que se tem feito é o que há de
comum a todos os modelos teóricos, e uma resposta, dada por Bates (apud
Newmeyer 2000, p. 13), é a de que o “funcionalismo é como o
Protestantismo: um grupo de seitas antagônicas que concordam somente na
rejeição à autoridade do Papa”.
Uma resposta desse tipo, no entanto, é equivocada, pois, além de dar à
figura individual de Chomsky importância excessiva na área da linguística
formalista, não faz jus à investigação funcionalista, uma vez que esse modo
de pesquisa já existia antes mesmo do surgimento da teoria gerativista no
final dos anos de 1950, com a Perspectiva Funcional da Sentença do
Círculo Linguístico de Praga. Além do mais, esse tipo de afirmação, ao
enfatizar exageradamente a recusa às explicações formalistas, retira da
corrente funcionalista o que lhe é mais caro: em primeiro lugar, a concepção
de linguagem como um instrumento de comunicação e de interação social e,
em segundo lugar, o estabelecimento de um objeto de estudos baseado no
uso real, o que significa não admitir separações entre sistema e uso, tal
como preconizam tanto o estruturalismo saussuriano, com a distinção entre
língua e fala, quanto a teoria gerativa, com a distinção entre competência e
desempenho.
A linguística formal5 gera explicações a partir da própria estrutura, de
modo tal que uma categoria estrutural ou uma relação, como comando ou
subjacência, por exemplo, pode ser legitimamente

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