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CRIMES EM ESPÉCIE
O  DELITO DE APROPRIAÇÃO INDÉBITA, OS DELITOS DE ESTELIONATO E OUTRAS FRAUDES, O CRIME DE RECEPTAÇÃO, OS CRIMES CONTRA A PROPRIEDADE IMATERIAL E OS CRIMES CONTRA A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO
Anna Luiza Mattos Duarte
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OLÁ!
Você está na unidade Crimes em espécie: o delito de apropriação indébita, os delitos de estelionato e outras fraudes, o crime de receptação, os crimes contra a propriedade imaterial e os crimes contra a organização do trabalho. Conheça aqui os principais tipos penais previstos na parte especial do Código Penal.
Aprenda sobre os delitos contra a propriedade imaterial, conheça seus principais tipos penais e seus contornos legais. Estude sobre os crimes contra a organização do trabalho, entendendo as principais condutas tipificadas e suas peculiaridades.
Bons estudos!
 
1. Apropriação indébita (CP, art. 168)
O delito de apropriação indébita, previsto no art. 168 do Código Penal, caracteriza-se pela conduta do agente que “apropria-se de coisa alheia móvel, de que tem a posse ou a detenção”, sendo apenada com reclusão, de um a quatro anos, e multa (BRASIL, 1940).
Segundo Rogério Greco, a conduta ilícita ocorre quando o autor toma para si coisa alheia móvel, assim entendida como “qualquer bem, passível de remoção, pertencente a outrem que não o próprio agente”, de que tem a posse ou a detenção. Inclusive, o que diferencia a apropriação indébita do furto é justamente o atuar do agente em liberdade desvigiada, pois é necessário que ele exerça liberdade sobre a coisa para que ocorra o delito.
A diferença entre o delito de apropriação indébita e o delito de estelionato consiste em identificar o momento em que surge o dolo. Dessa forma, segundo Rogério Greco (2017) “se [ocorrido] antes de ter a posse ou a detenção sobre a coisa, o delito será o de estelionato; se [ocorrido] após a posse ou detenção da coisa, será o de apropriação indébita".
Segundo Álvaro Mayrink da Costa (2016), citado por Greco, o delito poderá ocorrer em diversas modalidades, quando o agente, exteriorizando o seu animus de apropriar-se, atua: 
· Por consumo
No qual há alteração ou transformação da coisa, o que impossibilita a sua restituição.
· Por retenção
Recusa na devolução ou em dar a coisa.
· Por alheação
Passar a coisa a terceiro por venda, doação ou permuta, destinação que fora especificada no recebimento.
· Por ocultação
Que é uma forma de consumo.
· Por desvio
Aplicar um fim distinto trazendo prejuízo patrimonial (v.g.: Caio coloca à venda o relógio recebido em custódia e Tício retém dinheiro referente a comissões recebidas na mediação na venda de bens). 
Consoante tal visão, pode-se sintetizar que, na tipificação, o ilícito comportamental se caracteriza diante da recusa da devolução da coisa, pois o autor possui um dever jurídico de restituir. (COSTA, 2006 apud GRECO 2017)
Dessa forma, trata-se de crime de mão própria, pois somente pode ser cometido por quem detém ou possui licitamente a coisa, pelo menos a princípio. O sujeito passivo será o proprietário da coisa móvel, ou, se a coisa “foi entregue por titular da posse direta decorrente de direito real (usufruto, penhor), também ele será sujeito passivo (pois o direito real gravita na órbita da propriedade)” (HUNGRIA, 2016 apud GRECO 2017).
O parágrafo primeiro desse artigo prevê que a pena ainda é aumentada de um terço, quando o agente recebeu a coisa em depósito necessário, na qualidade de tutor, curador, síndico, liquidatário, inventariante, testamenteiro ou depositário judicial, ou em razão de ofício, emprego ou profissão.
Neste ponto, é interessante a observação doutrinária de Rogério Greco ao explicar que a figura do depósito necessário pode ser dividida em depósito legal ou depósito miserável. Para o autor, somente incide a causa especial de aumento de pena quando o depósito é miserável, isto é, “imposto pela necessidade de pôr a salvo a coisa, na iminência ou no curso de algum acontecimento calamitoso” (HUNGRIA, 2016 apud GRECO 2017), sendo excluído o depósito legal, pois, segundo o mesmo autor “a infidelidade do depositário legal (stricto sensu), que é sempre um funcionário público, recebendo a coisa ‘em razão do cargo’, constitui o crime de peculato (art. 312)”.
1.1 Apropriação indébita previdenciária (CP, art. 168-A)
No ano de 2000, foi inserida no Código Penal a figura da apropriação indébita previdenciária, no art. 168-A do Código Penal, que pune a conduta de quem deixa de repassar à previdência social as contribuições recolhidas dos contribuintes, no prazo e forma legal ou convencional, punindo-se o responsável tributário, que tem o dever de arrecadar os valores para o ente público, cominando-lhe pena de reclusão, de dois a cinco anos, e multa. 
De acordo com Greco (2017), o delito pressupõe que as contribuições previdenciárias tenham sido recolhidas pelo agente “isto é, em tese, pelo menos inicialmente, o raciocínio é construído no sentido de que foram efetivamente descontadas dos contribuintes, não sendo, entretanto, repassadas à previdência”.
O delito é consumado quando o agente não recolhe os valores devidos depois de ultrapassado o prazo legal ou convencional para tanto (GRECO 2017). Sobre a tentativa, explica o autor que:
Por se tratar de crime omissivo próprio, torna- -se complicado o raciocínio correspondente à tentativa, pois que, se depois de ultrapassado o prazo o agente não praticar os comportamentos determinados pelo tipo penal, o crime estará, nesse momento, consumado; caso contrário, se realiza as determinações típicas, efetuando os repasses, recolhendo as contribuições etc., o fato será um indiferente penal. (GRECO 2017)
· Sujeito ativo do delito
É aquele “tinha a obrigação legal de repassar à previdência social as contribuições recolhidas dos contribuintes” (GRECO 2017), não sendo possível a punição da pessoa jurídica que possuía essa obrigação legal, em razão da inexistência de previsão legal.
· Sujeito passivo do delito
É a “previdência social, que representa o Estado por intermédio do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS)” (GRECO, 2017).
O parágrafo primeiro do art. 168 prevê a punição do “contribuinte-empresário” (BITENCOURT, 2016 apud GRECO 2017), que deve que deve recolher a contribuição que arrecadou do contribuinte. Neste caso, são típicas as condutas de recolher, no prazo legal, contribuição ou outra importância destinada à previdência social que tenha sido descontada de pagamento efetuado a segurados, a terceiros ou arrecadada do público; recolher contribuições devidas à previdência social que tenham integrado despesas contábeis ou custos relativos à venda de produtos ou à prestação de serviços;  pagar benefício devido a segurado, quando as respectivas cotas ou valores já tiverem sido reembolsados à empresa pela previdência social.
Porém, o parágrafo segundo do dispositivo legal, traz a hipótese de extinção da punibilidade do agente que espontaneamente, declara, confessa e efetua o pagamento das contribuições, importâncias ou valores e presta as informações devidas à previdência social, na forma definida em lei ou regulamento, antes do início da ação fiscal. Segundo a doutrina de Rogério Greco, para que seja extinta a punibilidade do agente, é necessário que Luiz Flávio Gomes complemente o raciocínio anterior, afirmando que a declaração, confissão e pagamento das contribuições tenha sido feito antes da “cientificação pessoal do contribuinte” no curso da ação fiscal (GOMES, 2016 apud GRECO 2017).
Por fim, o parágrafo terceiro, prevê a faculdade que o juiz tem de aplicar a pena, ou cominar apenas pena de multa quando:
· O agente for primário e de bons antecedentes, desde que ele tenha promovido, após o início da ação fiscal e antes de oferecida a denúncia, o pagamento da contribuição social previdenciária, inclusive acessórios.
· O valor das contribuições devidas, inclusive acessórios, seja igual ou inferior àquele estabelecido pela previdência social, administrativamente, como sendo o mínimo para o ajuizamento de suas execuções fiscais.
· 
1.2 Apropriação de coisa havida por erro, casofortuito ou força da natureza
A conduta tipificada no art. 169 do Código Penal é descrita como “apropriar-se alguém de coisa alheia vinda ao seu poder por erro, caso fortuito ou força da natureza”, sendo apenada com detenção, de um mês a um ano, ou multa.
Neste caso, a coisa apropriada deve ter sido recebida do agente mediante erro ou por caso fortuito ou da natureza. Quanto à figura do erro, este poderá ser (GRECO 2017):
a) quanto à pessoa; b) quanto ao objeto; c) quanto à obrigação. Assim, conforme exemplos de Hungria, João recebe do carteiro um registrado de valor destinado a seu homônimo (erro quanto à pessoa); o agente recebe da vítima um colar de pérolas autênticas no lugar do colar de pérolas falsas que realmente comprara (erro quanto ao objeto); no que diz respeito à existência de uma obrigação, o agente recebe da vítima o pagamento de uma dívida já paga ou quantia maior que a devida (erro quanto a obrigação). Não é incomum a hipótese, nos dias de hoje, de recebermos, em nossa conta corrente, o crédito de importância que nos era indevida, tendo a instituição bancária agido com erro no que diz respeito à pessoa que devia ter sido beneficiada com o depósito. Caso o agente retenha o valor, deixando de restituí-lo, querendo dele se apropriar, deverá ser responsabilizado pelo delito tipificado no caput do art. 169 do Código Penal.
Já a circunstâncias definidas como caso fortuito e força maior, referem-se a “fato que não era dominado ou, pelo menos, dominável pela vontade humana” (GRECO 2017).
 O sujeito ativo poderá ser qualquer pessoa, e o sujeito passivo é aquele quem perde a coisa apropriada, podendo ser o proprietário ou possuidor. O delito se consuma quando o agente, percebendo que recebeu a coisa por erro, caso fortuito ou força maior, resolve com ela permanecer (GRECO 2017).
Incorrerá nas mesmas penas quem, nos termos do art. 169, parágrafo único, inciso I “acha tesouro em prédio alheio e se apropria, no todo ou em parte, da quota a que tem direito o proprietário do prédio” (BRASIL, 1940).
Segundo disposições contidas na lei civil, o tesouro pode ser definido como “as coisas antigas, preciosas e ocultas, de cujo dono não se haja memória”, assim, o tesouro não possui proprietário. Porém, incumbe a quem o encontrar “dividi-lo em partes iguais com o proprietário do prédio” (GRECO 2017). Ao não atuar assim, incide o agente nas penas cominadas a esse tipo legal. Nesta modalidade, o sujeito ativo é qualquer pessoa, e o sujeito passivo é o dono do prédio em que estava localizado o tesouro.
Por fim, o mesmo tipo penal prevê ainda a apropriação de coisa achada, figura típica prevista no art. 169, parágrafo único, inciso II, que tipifica a conduta de “quem acha coisa alheia perdida e dela se apropria, total ou parcialmente, deixando de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor ou de entregá-la à autoridade competente, dentro no prazo de quinze dias” (BRASIL, 1940).
A coisa alheia perdida pode ser definida, segundo as preclaras lições de Rogério Greco (2017):
A conduta de se apropriar agora é dirigida finalisticamente à coisa alheia perdida. Dessa forma, não comete o delito em estudo se o agente estiver diante de res nullius (coisa de ninguém) ou, ainda, de res derelicta (coisa abandonada). Merece ser levada a efeito a distinção entre coisa perdida e coisa esquecida, pois que coisa perdida é aquela que seu dono ou possuidor não sabe onde efetivamente se encontra, e coisa esquecida é aquela que, temporariamente, foi esquecida em algum lugar conhecido pelo dono ou possuidor. 
Consuma-se o delito com a apropriação da coisa perdida ou do tesouro, sendo admitida, neste caso, a tentativa (GRECO 2017).
2. Estelionato e outras fraudes 
O capítulo VI, inserido dentro dos crimes contra o patrimônio, tipifica as condutas de estelionato e outras fraudes. Dessa forma, o capítulo reúne condutas que induzem a vítima a erro para conseguir obter a vantagem patrimonial.
Nesse capítulo, são observados os crimes de estelionato (BRASIL, 1940, art. 171), o delito de duplicata simulada (BRASIL, 1940, art. 172), de abuso de incapaz (BRASIL, 1940, art. 173), de induzimento à especulação (BRASIL, 1940, art. 174), fraude no comércio (BRASIL, 1940, art. 175), outras fraudes (BRASIL, 1940, art. 176), fraudes e abusos na fundação ou administração de sociedade por ações (BRASIL, 1940, art. 177), emissão irregular de conhecimento de depósito ou "warrant" (BRASIL, 1940, art. 178) e fraude à execução (BRASIL, 1940, art. 179). Dentre esses delitos, destacam-se os crimes de estelionato e de fraude contra a execução, em razão da sua maior ocorrência prática.
A seguir, analisaremos os referidos delitos, buscando entender melhor seus contornos e especificidades.
2.1 Estelionato (art. 171 do CP)
A conduta tipificada no delito de estelionato consiste em “obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento”.
Dessa forma, a vantagem ilícita obtida pelo agente é conseguida mediante uso de fraude, que visa induzir ou manter a vítima em erro. Segundo Greco (2017) as condutas de induzir e manter a vítima em erro são distintas, pois, ao induzir a erro, o agente faz “nascer a representação equivocada na vítima”, enquanto na ação de manter em erro a vítima já possui “representação distorcida da realidade” e o agente “a mantém nessa situação, com a finalidade de obter vantagem ilícita, em seu prejuízo”.
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Figura 1 - O estelionato consiste em obter para si, ou outrem, vantagem ilícita, prejudicando terceirosFonte: Sellwell, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: A figura mostra dois homens de terno apertando as mãos. Não é mostrado o rosto do que está em primeiro plano, apenas é possível ver que ele está com a mão esquerda para trás, fazendo o gesto de dedos cruzados, que representa que ele está mentindo. O outro homem tem uma expressão satisfeita.
Ainda de acordo com Greco (2017), a vantagem ilícita e o prejuízo alheio, binômio que configura o delito, devem ser assim entendidos: 
Ilícita é a vantagem que não encontra amparo no ordenamento jurídico, sendo, na verdade, contrária a ele. Se a vantagem perseguida pelo agente fosse lícita, o fato poderia ser desclassificado para outra infração penal, a exemplo do crime de exercício arbitrário das próprias razões. Além disso, discute-se a respeito da natureza dessa vantagem ilícita. A doutrina majoritária posiciona-se no sentido de que a expressão vantagem ilícita abrange qualquer tipo de vantagem, tenha ou não natureza econômica. Nesse sentido, afirma Luiz Regis Prado: “Prevalece o entendimento doutrinário de que a referida vantagem não necessita ser econômica, já que o legislador não restringiu o seu alcance como o fez no tipo que define o crime de extorsão, no qual empregou a expressão indevida vantagem econômica”.
Apesar de o delito possuir forma livre, o caput traz a previsão, exemplificativa, de que o delito possa ser cometido por meio argiloso ou ardil. Nesse sentido, conceitua Greco (2017) que:
Artifício, lexicologicamente, significa produto de arte, trabalho de artistas. Nesse sentido, portanto, pode-se dizer haver artifício quando há certo aparato, quando se recorre à arte, para mistificar alguém. Pode o artifício manifestar-se por vários modos: consistir em palavras, gestos ou atos; ser ostensivo ou tácito; explícito ou implícito; e exteriorizar-se em ação ou omissão. Quanto ao ardil, dão-nos os dicionários os sinônimos de astúcia, manha e sutileza. Já não é de natureza tão material quanto o artifício, porém mais intelectual. Dirige-se diretamente à psique do indivíduo, ou, na expressão de Manzini, à sua inteligência ou sentimento, de modo que provoque erro mediante falsa aparência lógica ou sentimental, isto é, excitando ou determinando no sujeito passivo convicção, paixão, ou emoção, e criando destarte motivos ilusórios à ação ou omissão desejada pelo sujeito ativo. 
Trata-se, no caso, de crime comum que pode ser praticado por qualqueragente. Quanto ao sujeito passivo, exige-se que ele tenha capacidade de discernimento, para que posa ser induzido a erro. O delito se consuma quando o agente obtém a vantagem ilícita, admitindo, por sua vez, a punição por tentativa (GRECO, 2017).
Quando o criminoso é primário e é diminuto o valor do prejuízo para a vítima (analisado em relação ao patrimônio da vítima), permite-se que o juiz substitua a pena de reclusão pela de detenção, a diminua de um a dois terços, ou aplique somente a pena de multa.
O delito de estelionato, nos termos do art. 171, § 2º do CP (BRASIL, 1940) também classifica como estelionato: 
· Quem dispõe de coisa alheia como própria (“vende, permuta, dá em pagamento, em locação ou em garantia coisa alheia como própria”).
· Quem aliena ou onera de forma fraudulenta coisa própria (“vende, permuta, dá em pagamento ou em garantia coisa própria inalienável, gravada de ônus ou litigiosa, ou imóvel que prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em prestações, silenciando sobre qualquer dessas circunstâncias”).
· Quem defrauda penhor (“defrauda, mediante alienação não consentida pelo credor ou por outro modo, a garantia pignoratícia, quando tem a posse do objeto empenhado”).
· Quem aplica fraude na entrega de coisa (“defrauda substância, qualidade ou quantidade de coisa que deve entregar a alguém”).
· Quem frauda recebimento de indenização ou valor de seguro (“destrói, total ou parcialmente, ou oculta coisa própria, ou lesa o próprio corpo ou a saúde, ou agrava as consequências da lesão ou doença, com o intuito de haver indenização ou valor de seguro”).
· Quem frauda pagamento por meio de cheque (“emite cheque, sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado, ou lhe frustra o pagamento”).
Nos termos do art. 171, § 3º, a pena é aumentada em um terço, se o crime é cometido em detrimento de entidade de direito público ou de instituto de economia popular, assistência social ou beneficência. Greco (2017) leciona que a causa especial de aumento de pena se justifica, pois: 
A razão de ser do aumento de pena diz respeito ao fato de que todas as entidades arroladas pelo parágrafo prestam serviços fundamentais à sociedade. Assim, o comportamento do agente, causando prejuízo a essas entidades, atinge, reflexamente, a sociedade. Na verdade, embora a entidade prejudicada seja determinada, o número de pessoas que sofre com a conduta do agente é indeterminado [...] 
Por fim, nos termos do art. 171, § 4º, a pena será aplicada em dobro se o crime é cometido contra idoso. Idoso, nos termos da Lei n. 10.741, de 1º de outubro de 2003 (Estatuto do Idoso), é aquele com idade igual ou superior a 60 anos (GRECO, 2017). Deve-se registrar que o agente que comete o estelionato deve conhecer a idade da vítima, pois, caso contrário, poderá ser reconhecido o erro de tipo.
2. 2 Fraude à execução (CP, art. 176 a art. 179)
O delito previsto no art. 179 do Código Penal tipifica a conduta do agente que frauda a execução, alienando, desviando, destruindo ou danificando bens, ou simulando dívidas, sendo cominada pena de detenção, de seis meses a dois anos, ou multa. Conforme disposto no parágrafo único do mesmo artigo, o delito somente se processa mediante queixa.
O tipo penal incrimina a conduta de quem aliena, desvia, destrói ou danifica bens durante execução judicial. A conduta de alienar traduz-se em transferir o domínio de determinado bem, enquanto desviar consiste na ação de ocultar os bens que podem ser penhorados, destruir, por sua vez, denota a eliminação completa do bem, enquanto na destruição, o bem é estragado, reduzindo seu valor ou utilidade. Em outra vertente, a conduta de simular dívidas pode ser assim definida:
Por meio da simulação de dívida, o agente, fraudulentamente, produz o aumento do seu passivo. Hungria dizia que, “nesse caso, é necessário que o crédito fictício (cujo titular é coautor do crime) provoque o concurso de credores e o rateio do ativo, em prejuízo dos credores legítimos. Antes disso, o que pode haver é simples tentativa”. (GRECO, 2017)
Não se considera típica a conduta de quem aliena, desvia, destrói, danifica ou simula dívida que tenha por objeto bem impenhorável, nos termos da lei. Isto porque aquele bem não pode ser utilizado para solver a dívida do credor, motivo pelo qual não se vislumbra na conduta do agente o dolo necessário para configurar a conduta típica (GRECO, 2017).
Rogério Greco (2017) leciona que o delito somente ocorre quando o réu é citado no processo de execução judicial, sendo atípicos os mesmos comportamentos quando ocorrerem em processo de conhecimento. De outro lado, Hungria defende que, para a adequação típica, basta que o agente tenha ciência da existência de ação judicial, devendo demonstrar a “ciência inequívoca do devedor, ainda que extrajudicialmente, de que seus bens estão na iminência de penhora, bem como a vontade de frustrar a execução, em prejuízo do credor exequente” (HUNGRIA, 2016 apud GRECO, 2017).
Dessa forma, o sujeito ativo do delito é o devedor (executado nos autos da execução judicial) e o sujeito passivo é o credor. O delito se consuma quando praticada qualquer uma das condutas típicas, sendo admitida a tentativa, ante a possibilidade de fracionamento da conduta.
3. Receptação (CP, art. 180)
O delito de receptação está previsto no art. 180 do Código Penal, descrevendo a conduta de “adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte”. O delito é apenado com reclusão, de um a quatro anos, e multa.
 
Conforme Greco (2017), a conduta delitiva divide-se em própria e impropria. É considerada própria quando o agente adquire, recebe, transporta, conduz ou oculta, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime.
As condutas próprias podem ser assim definidas: 
Adquirir tem o significado legal, como bem salientado por Luiz Regis Prado, “de obter a propriedade da coisa, de forma onerosa, como na compra, ou gratuita, na hipótese de doação. Inclui-se aqui a conduta de obter o produto do autor do crime anterior como compensação de dívida deste para com o agente. Pode, também, a aquisição originar-se de sucessão causa mortis, desde que o herdeiro saiba que a coisa fora obtida por meio criminoso pelo de cujus. Pode ainda ocorrer a receptação pela modalidade de adquirir, ainda que não haja vínculo negocial entre o autor do crime anterior e o agente, como na hipótese do indivíduo que se apodera da coisa atirada fora pelo ladrão que está empreendendo fuga, com pleno conhecimento de sua origem criminosa”. O núcleo receber é utilizado pelo tipo penal em estudo no sentido de ter o agente a posse ou a detenção da coisa, para o fim de utilizá-la em seu proveito ou de outrem. O agente, aqui, deve procurar algum benefício mediante o recebimento da coisa que lhe foi entregue. (...) A conduta de transportar, como já o dissemos, foi inserida no caput do art. 180 do Código Penal pela Lei n. 9.426, de 24 de dezembro de 1996. Tal inserção se deu, principalmente, em razão do crescimento dos casos de roubo de cargas (alimentos, eletrodomésticos, cigarros etc.) transportadas em caminhões. Assim, pessoas eram contratadas para, depois da prática da subtração anterior, tão somente fazer o seu transporte até o local determinado por aquele que as havia adquirido. Dessa forma, o transporte passou a ser reconhecido como mais uma modalidade de receptação. (...) A conduta de conduzir é semelhante à de transportar. Transportar implica remoção, transferência de uma coisa de um lugar para outro. Conduzir é guiar, dirigir. Somente o caso concreto, na verdade, é que nos permitirá, talvez, apontar o comportamento que melhor se amolde à conduta levada a efeito pelo agente. Ocultar tem o sentido de esconder a coisa ou, ainda, de acordo com Noronha, “exprime a ação de subtraí-la das vistas de outrem; colocá-la em lugar onde não possa ser encontrada; ou apresentá-la por forma que torne irreconhecível, tudo fazendo difícil ou impossívela recuperação”. (GRECO, 2017)
A receptação impropria, por sua vez, denotava a conduta do agente que influencia para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte. Neste caso, se o agente estiver de boa-fé, será mero instrumento para a prática do delito, então, sua conduta será atípica. Caso o agente tenha conhecimento da ilicitude de seu comportamento, também responderá pelo delito.
Em ambas as modalidades, é necessário que o agente tenha conhecimento que se trate de coisa produto de crime (não sendo admitida a contravenção penal para a configuração típica). Neste caso, o entendimento da doutrina majoritária, é que a expressão “sabe”, empregada pelo legislador, denota a exigência de dolo direto, não se admitindo a consumação do delito por dolo eventual (GRECO, 2017).
Rogério Greco ainda adverte que é possível que o agente realize a receptação própria e logo em seguida a impropria, quando “primeiro adquirir a coisa que sabe ser produto de crime e depois influenciar para que terceiro de boa-fé faça o mesmo”, entendendo que neste caso o sujeito deve responder por crime único. Já Bitencourt (2016 apud GRECO, 2017) entende que o agente que assim agir cometerá dois crimes, pois se estará diante de “tipos mistos cumulativos, e não alternativos, como nas circunstâncias antes relacionadas”.
Por outro lado, a expressão “produto de crime” denota “tudo aquilo que for originário economicamente do delito levado a efeito anteriormente” (GRECO, 2017). Ou seja, se o produto de um furto (celular da marca Y) for trocado por outro objeto (celular da marca Z), e esse celular for adquirido pelo agente, com o conhecimento de que se tratava de bem de origem ilícita, restará tipificada a conduta.
Para Greco (2017), o delito se consuma quando o agente ou terceiro influenciado realiza os comportamentos previstos pelo tipo penal, vale dizer, adquira, receba ou oculte a coisa receptada. Dessa forma, é possível a tentativa.
Por fim, deve-se registrar que a punição pelo delito de receptação exige a ocorrência de crime anterior (GRECO, 2017). Porém, o parágrafo quarto do mesmo dispositivo informa que a receptação será punível, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor do crime de que proveio a coisa.
3.1 Receptação qualificada (CP, art. 180, §1º)
A figura qualificada do delito de receptação, prevista no art. 180, § 1º do CP 9BRASIL, 1940), consiste em: “adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito, desmontar, montar, remontar, vender, expor à venda, ou de qualquer forma utilizar, em proveito próprio ou alheio, no exercício de atividade comercial ou industrial, coisa que deve saber ser produto de crime”, punida com pena de reclusão, de três a oito anos, e multa.
Como se observa da leitura do mencionado artigo, o legislador aumentou a pena da figura simples e adicionou algumas outras condutas, como a de ter em depósito, desmontar, montar, vender, expor à venda, ou de qualquer forma utilizar o bem receptado no exercício de atividade comercial ou industrial. Em razão disso, alguns doutrinadores entenderam que não se trata de uma modalidade qualificada, mas, sim, de um tipo penal autônomo. De outro lado, também é expressiva a doutrina que entende persistir a noção da figura qualificada do delito, haja vista que a inserção de novas condutas não se “afastam do tipo fundamental e que têm a nítida finalidade de exercer maior juízo de reprovação quando praticados” (GRECO, 2017).
Para que o delito de receptação seja qualificado, é necessário que ele ocorra no exercício de atividade comercial ou industrial, o que, nos termos do parágrafo segundo, pode ser entendido como “qualquer forma de comércio irregular ou clandestino, inclusive o exercício em residência”. Dessa forma, o sujeito ativo deve ser pessoa que exerce atividade econômica. O sujeito passivo, por sua vez, não exige qualificação especial.
Além disso, a inclusão do legislador de mais condutas típicas, demonstra sua preocupação com o desmanche de veículos, notadamente pela tipificação dos atos de “desmontar, montar, vender e expor a venda”. Melhor descrevendo as condutas, Greco (2017) ensina que:
Ter em depósito significa armazenar, guardar, manter, conservar a coisa recebida em proveito próprio ou de terceiro. Trata-se, nesse caso, de infração penal de natureza permanente.
Desmontar tem o sentido de separar as peças existentes, desencaixar, a exemplo do que acontece com aquele que é contratado para, tão somente, separar as peças constantes de um automóvel que havia sido objeto de subtração, ou mesmo aquelas que fazem parte de um microcomputador que também foi produto de crime.
Montar quer dizer juntar as peças que se encontravam separadas do todo, encaixando-as de modo que permitam o funcionamento da coisa. Pode ocorrer a hipótese em que tenha havido a subtração de peças integrantes de um determinado objeto, produzidas por diversos fabricantes especializados, cabendo ao agente juntá-las, encaixá-las, fazendo com que a coisa funcione da forma para a qual fora projetada.
Remontar significa montar novamente, ou seja, o objeto já tinha sido montado uma primeira vez, estando pronto para uso, quando foi desmontado. Agora, o agente o remonta, permitindo o uso para o qual fora destinado, consertando-o, reparando-o.
A conduta de vender, conforme salienta Luiz Regis Prado, “expressa a conduta do comerciante ou industrial de transferir a outrem, mediante pagamento, a posse da coisa obtida com o crime antecedente”.
Já o comportamento de expor à venda se traduz tão somente no fato de exibir, mostrar a coisa de origem criminosa com a finalidade de transferi-la a terceiro, mediante determinado pagamento.
A última conduta diz respeito ao fato de o agente, de qualquer forma, utilizar, em proveito próprio ou alheio, no exercício de atividade comercial ou industrial, coisa que saiba ser produto de crime. Utilizar significa, como esclarece Mirabete, “fazer uso, usar, valer-se, empregar com utilidade, aproveitar, ganhar, lucrar”.
A expressão de qualquer forma, utilizada no texto legal, não permite o raciocínio da chamada interpretação analógica, uma vez que o rol dos comportamentos proibidos pelo tipo penal em estudo é taxativo. Essa expressão, na verdade, está ligada diretamente à utilização da coisa que o agente deve saber ser produto de crime, vale dizer, qualquer forma de uso que atenda aos interesses do agente no exercício de atividade comercial ou industrial.
A consumação do delito ocorre quando o agente pratica quaisquer dos atos típicos, admitindo-se a tentativa pela possibilidade de fracionamento do iter criminis.
 
Destaca-se que o legislador exige que o agente “deva saber” que o bem receptado é produto de crime. Segundo a doutrina majoritária a inclusão da expressão “deve saber”, não presente na figura do caput, indica que o delito pode ser cometido tanto a título de dolo direto, quanto por dolo eventual (GRECO, 2017).
Nos termos do parágrafo quinto do mesmo dispositivo legal, no caso de o criminoso ser primário e ser de pequeno valor (inferior a um salário mínimo) o bem receptado, poderá o juiz substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa.
3.2 Receptação culposa 
O art. 180, § 3º traz a hipótese de receptação culposa, entendida como a conduta de quem adquire ou recebe coisa que, por sua natureza ou pela desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso. Essa conduta, por sua vez, recebe pena de detenção, de um mês a um ano, ou multa, ou ambas as penas.
O tipo penal descreve a conduta do agente que, inobservando os deveres objetivos de cuidado que lhe competiam, adquire ou recebe produto de crime. Nesse caso, é exigível que o produto, em razão de circunstâncias da venda (características peculiares do produto, ou manifesta desproporção entre valor de mercado e da venda), ou em razão de características do vendedor, faça presumir sua origem ilícita.
O art. 180, § 5º, prevê ainda a possibilidade de se conceder ao agente operdão judicial. Além disso, autoriza que, sendo o criminoso primário, o juiz possa, tendo em vista as circunstâncias, deixar de aplicar a pena.
3.3 Causa especial de aumento de pena      
Se o bem receptado for integrante do patrimônio da União, de estado, do Distrito Federal, de Município ou de autarquia, fundação pública, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviços públicos, nos termos do art. 180, § 6º do Código Penal, aplica-se em dobro a pena prevista no caput deste artigo.
3.4 Receptação animal 
O art. 180-A, incluído pela Lei n. 13.330, de 2016, tipificou a conduta de “adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito ou vender, com a finalidade de produção ou de comercialização, semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes, que deve saber ser produto de crime”, apenando-a com reclusão, de dois a cinco anos, e multa (GRECO, 2017).
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Figura 2 - A receptação animal é delito previsto no artigo 180 do Código PenalFonte: wk1003mike, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: A figura mostra uma jaula, com muitos pontos de ferrugem. Por entre as grades dessa jaula, é mostrada a mão de um macaco.
O legislador pretendeu, com a inclusão do art. 180-A do CP, criar delito autônomo quando o objeto da receptação for semovente. Para entender o conceito de semovente, observemos o que explica Greco (2017):
Semovente é a definição jurídica dada ao animal criado em grupos (bovinos, suínos, caprinos etc.) que integram o patrimônio de alguém, passíveis, portanto, de serem objetos de negócios jurídicos. A lei claramente não abrange os animais selvagens, mas somente os domesticáveis, mesmo que já abatidos ou divididos em partes. Os animais devem ser, ainda, de produção, isto é, preparados para o abate e comercialização. Não abrange apenas os quadrúpedes, mas também os bípedes e ápodes (animais desprovidos de membros locomotores, como répteis).
Trata-se de tipo misto alternativo, o que significa dizer que, se o agente realizar mais de uma conduta típica, como “adquirir” e “conduzir”, ainda sim responderá por somente um delito. A consumação do delito ocorre com a prática de qualquer um dos núcleos típicos, admitindo-se a tentativa.
Igualmente ao delito de receptação qualificada, o tipo penal exige que o agente “deva saber” que se trata de produto de crime, sendo a conduta punida tanto a título de dolo direto como dolo eventual (GRECO, 2017).
Por fim, trata-se de delito comum, que pode ser praticado por qualquer agente. Quanto ao sujeito passivo, ele será “não somente o proprietário, mas também o possuidor do semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes, que se confundirá com o sujeito passivo do crime anterior de onde surgiu o produto do crime” (GRECO, 2017). 
4. Delitos contra a propriedade imaterial
Segundo Cleber Masson (2016), os bens imateriais podem ser definidos como:
Os bens imateriais são incorpóreos, mas têm valor econômico. Integram a propriedade intelectual e são protegidos pelo Direito a partir do momento em que se concretizam em obras científicas, literárias, artísticas e invenções em geral.
Ainda de acordo com Masson (2016), o fundamento de tutela desses bens jurídicos possui fundamento em vários dispositivos constitucionais, notadamente o art. 5°, IX, do Diploma Constitucional, ao assegurar que "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” e o inciso XXVII, do mesmo dispositivo legal, ao estabelecer que "aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar” (BRASIL, 1988).
Dessa forma, o título III do Código Penal reunia os delitos que atentavam contra os bens imateriais, garantias constitucionalmente asseguradas. O capítulo I reunia os delitos contra a propriedade intelectual, enquanto o capítulo II tratava sobre os crimes contra o privilégio de invenção, o capítulo III previa os delitos contra marcas de indústria e comércio e, por fim, o capítulo IV tratava dos crimes contra a concorrência desleal. Na redação atual do Código Penal persistem apenas os delitos contra a propriedade intelectual, tratados no capítulo I, sendo os demais revogados pela Lei n. 9.279, de maio de 1996 (MASSON, 2016).
Dentro do capítulo I, também permanece apenas uma figura típica: o delito de violação de direito autoral, o qual analisaremos de maneira mais aprofundada.
4.1 Violação de direito autoral
O delito de violação de direito autoral é previsto no art. 184 do Código Penal, que tipifica a conduta de “violar direitos de autor e os que lhe são conexos”, cuja pena cominada é de detenção, três meses a um ano, ou multa.
 Para compreender essa figura típica, é necessário recorrer à Lei n. 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que trata sobre a proteção dos direitos autorais. Nos termos da referida lei, e conforme Greco (2017), os direitos do autor podem ser assim definidos:
Assista aí
Os direitos autorais possuem a natureza jurídica de bens móveis, conforme salienta o art. 3º da Lei n. 9.610/1998, sendo considerado como autor a pessoa física criadora de obra literária, artística ou científica (art. 11). Pertencem-lhe os direitos morais e patrimoniais sobre a obra que criou (art. 22), cabendo-lhe o direito exclusivo de utilizar, fruir e dispor das mencionadas obras (art. 28). Os direitos de autor poderão, no entanto, ser total ou parcialmente transferidos a terceiros, por ele ou por seus sucessores, a título universal ou singular, pessoalmente ou por meio de representantes com poderes especiais, por meio de licenciamento, concessão ou por outros meios admitidos em Direito, obedecidas as limitações constantes dos incisos previstos pelo art. 49 do diploma especial em exame.
Dessa forma, qualquer transgressão aos direitos do autor será reputada como crime. A conduta daquele que viola os direitos conexos ao do autor também é punida, sendo estes direitos entendidos como “os relativos aos direitos dos artistas intérpretes ou executantes, dos produtores fonográficos e das empresas de radiodifusão” (GRECO, 2017).
O delito possui forma livre, sendo que a transgressão pode ocorrer de diversas formas. Nesse sentido dispõe Nucci (2016 apud GRECO, 2017):
A transgressão ao direito autoral pode dar-se de variadas formas, desde a simples reprodução não autorizada de um livro por fotocópias até a comercialização de obras originais, sem a permissão do autor. Uma das mais conhecidas formas de violação do direito de autor é o plágio, que significa tanto assinar como sua obra alheia, como também imitar o que outra pessoa produziu. O plágio pode dar-se de maneira total (copiar ou assinar como sua toda a obra de terceiro) ou parcial (copiar ou dar como seus apenas trechos da obra de outro autor). São condutas igualmente repugnantes, uma vez que o agente do crime se apropria sorrateiramente de criação intelectual de outrem, o que nem sempre é fácil de ser detectado pela vítima. Diversamente dos delitos patrimoniais comuns, em que o proprietário sente a falta de seu bem tão logo ele sai da sua esfera de proteção e vigilância, no caso da violação de direito de autor torna-se complexo e dificultoso o processo de verificação do plágio ou mesmo da simples utilização não autorizada de obra intelectual, sem a devida remuneração, na forma da lei civil, ao seu autor.
O delito admite qualquer sujeito ativo, sendo o sujeito passivo o autor dos direitos violados. Nesse sentido, a jurisprudência entende que, para a configuração do delito, é prescindível a identificação ou inquirição do autor do direito violado.
A consumação do delito e a possibilidade de tentativa devem ser observadas em cada espécie de violação, adotando-se como regra geral que o delito se consuma quando há a violação dos direitos do autor.
A legislação que trata dos direitos autorais (Lei n. 9.610/1998) elenca, em seu art. 46,ações que não constituem violação aosdireitos do autor sendo, portanto atípicas as seguintes condutas:
Art. 46. Não constitui ofensa aos direitos autorais:
I - a reprodução:
a) na imprensa diária ou periódica, de notícia ou de artigo informativo, publicado em diários ou periódicos, com a menção do nome do autor, se assinados, e da publicação de onde foram transcritos;
b) em diários ou periódicos, de discursos pronunciados em reuniões públicas de qualquer natureza;
c) de retratos, ou de outra forma de representação da imagem, feitos sob encomenda, quando realizada pelo proprietário do objeto encomendado, não havendo a oposição da pessoa neles representada ou de seus herdeiros;
d) de obras literárias, artísticas ou científicas, para uso exclusivo de deficientes visuais, sempre que a reprodução, sem fins comerciais, seja feita mediante o sistema Braille ou outro procedimento em qualquer suporte para esses destinatários;
II - a reprodução, em um só exemplar de pequenos trechos, para uso privado do copista, desde que feita por este, sem intuito de lucro;
III - a citação em livros, jornais, revistas ou qualquer outro meio de comunicação, de passagens de qualquer obra, para fins de estudo, crítica ou polêmica, na medida justificada para o fim a atingir, indicando-se o nome do autor e a origem da obra;
IV - o apanhado de lições em estabelecimentos de ensino por aqueles a quem elas se dirigem, vedada sua publicação, integral ou parcial, sem autorização prévia e expressa de quem as ministrou;
V - a utilização de obras literárias, artísticas ou científicas, fonogramas e transmissão de rádio e televisão em estabelecimentos comerciais, exclusivamente para demonstração à clientela, desde que esses estabelecimentos comercializem os suportes ou equipamentos que permitam a sua utilização;
VI - a representação teatral e a execução musical, quando realizadas no recesso familiar ou, para fins exclusivamente didáticos, nos estabelecimentos de ensino, não havendo em qualquer caso intuito de lucro;
VII - a utilização de obras literárias, artísticas ou científicas para produzir prova judiciária ou administrativa;
VIII - a reprodução, em quaisquer obras, de pequenos trechos de obras preexistentes, de qualquer natureza, ou de obra integral, quando de artes plásticas, sempre que a reprodução em si não seja o objetivo principal da obra nova e que não prejudique a exploração normal da obra reproduzida nem cause um prejuízo injustificado aos legítimos interesses dos autores. (BRASIL, 1998)
É importante salientar, ainda, que, embora o tipo penal narre conduta comissiva (“violar”), o tipo penal admite a punição pela omissão por aquele quem ocupa a posição de garantidor.
Por fim, nos termos do que dispõe o art. 186, inciso I, o delito em análise, processa-se mediante queixa, exceto no caso da vítima ser entidade de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou fundação instituída pelo Poder Público, casos em que se processará mediante ação penal pública incondicionada (BRASIL, 1940, art. 186, III).
4.2 Formas qualificadas
Nos termos do art. 184, § 1° do Código Penal, a pena será de reclusão de dois a quatro anos e multa quando “a violação consistir em reprodução total ou parcial, com intuito de lucro direto ou indireto, por qualquer meio ou processo, de obra intelectual, interpretação, execução ou fonograma, sem autorização expressa do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor, conforme o caso, ou de quem os represente” (BRASIL, 1940).
Dessa forma, a conduta qualificada exige que o autor reproduza (faça cópias), total ou parcialmente, os bens imateriais que possuem direitos autorais e os direitos a ele conexos, atuando ainda com o dolo específico de auferir lucro com a violação dos direitos de autor.
Os bens imateriais que tipificam a figura qualificada estão previstos na legislação dos direitos autorais. Assim, por definição contida no art. 7º Lei n. 9.610/1998, são obras intelectuais, por exemplo, os textos de obras literárias, artísticas ou científicas, composições musicais que tenham ou não letra, as obras audiovisuais, sonorizadas ou não, inclusive as cinematográficas, as obras fotográficas, desenho, pintura, gravura, escultura, litografia e arte cinética, bem como inúmeras outras, haja vista se tratar de rol exemplificativo (GRECO, 2017).
Já a execução, interpretação ou fonograma, são definidas, de acordo com Greco (2017) como: 
Artistas intérpretes ou executantes são atores, cantores, músicos, bailarinos ou outras pessoas que representem um papel, cantem, recitem, declamem, interpretem ou executem em qualquer forma obras literárias ou artísticas ou expressões do folclore; produtor é a pessoa física ou jurídica que toma a iniciativa e tem a responsabilidade econômica da primeira fixação do fonograma ou da obra audiovisual, qualquer que seja a natureza do suporte utilizado; fonograma é toda fixação de sons de uma execução ou interpretação ou de outros sons, ou de uma representação de sons que não seja uma fixação incluída em uma obra audiovisual.
Em outra vertente, o parágrafo segundo do mesmo dispositivo comina a mesma pena do art. 184, § 1º a quem “com o intuito de lucro direto ou indireto, distribui, vende, expõe à venda, aluga, introduz no País, adquire, oculta, tem em depósito, original ou cópia de obra intelectual ou fonograma reproduzido com violação do direito de autor, do direito de artista intérprete ou executante ou do direito do produtor de fonograma, ou, ainda, aluga original ou cópia de obra intelectual ou fonograma, sem a expressa autorização dos titulares dos direitos ou de quem os represente” (BRASIL, 1998).
Segundo a doutrina de Rogério Greco (2017), o tipo penal descreve condutas ocorridas comumente após a reprodução, sendo que “todos esses comportamentos devem recair sobre original ou cópia de obra intelectual ou fonograma reproduzido com violação do direito de autor, do direito do artista intérprete ou executante, ou do direito do produtor de fonograma”.
Inclusive, sobre o tema, o Superior Tribunal de Justiça editou a súmula n. 502 sobre o tema, que dispõe: “presentes a materialidade e a autoria, afigura-se típica, em relação ao crime previsto no art. 184, § 2º, do Código Penal, a conduta de expor à venda CDs e DVDs piratas”. A súmula pretendeu afastar o princípio da adequação social, que era reiteradamente aplicado ao delito (GRECO, 2017).
Nos termos do art. 186, inciso II, as formas qualificadas, previstas no parágrafo primeiro e segundo do art. 184, são processadas mediante ação penal pública incondicionada.
Lado outro, o parágrafo terceiro dispõe que “se a violação consistir no oferecimento ao público, mediante cabo, fibra ótica, satélite, ondas ou qualquer outro sistema que permita ao usuário realizar a seleção da obra ou produção para recebê-la em um tempo e lugar previamente determinados por quem formula a demanda, com intuito de lucro, direto ou indireto, sem autorização expressa, conforme o caso, do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor de fonograma, ou de quem os represente” a pena será de reclusão, de dois a quatro anos, e multa (GRECO, 2017).
O tipo penal incrimina a violação do direito de autor através da internet. Nesta conduta, segundo Nucci (2016 apud GRECO, 2017): 
O fornecedor não promove a venda direta ao consumidor do produto (que seria figura do parágrafo anterior), mas coloca em seu site, à disposição de quem desejar, para download as obras que o autor não autorizou expressamente que fossem por esse meio utilizadas ou comercializadas.
Por fim, é importante lembrar que a figura prevista no parágrafo terceiro se processa mediante ação penal pública condicionada à representação (BRASIL, 1940, art. 186, IV). 
5. Crimes contra a organização do trabalho
Os crimes contra a organização do trabalho estão previstos no título IV do Código Penal (BRASIL, 1940). Segundo a exposição de motivos da parte especial do Código Penal, são incriminadas neste título as condutas que atentam contra a organização do trabalho e “que se fazem acompanhar da violência ou da fraude. Sefalta qualquer desses elementos, não passará o fato, salvo poucas exceções, de ilícito administrativo" (CAMPOS, [s.d.]).
Conforme Masson (2016), o fundamento da proteção da tutela da organização do trabalho tem natureza constitucional, dispondo que:
Assista aí
A Constituição Federal, em diversas passagens, protege direitos inerentes ao trabalho do ser humano. No art. 6°, elenca o trabalho como um direito social. Em seu art. 7°, arrola em 34 incisos uma série de direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, destinados à melhoria de sua condição social. O art. 8° declara a liberdade de associação profissional ou sindical dos trabalhadores, e, além disso, o art. 9° assegura o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devem por meio dele defender. Tais dispositivos legitimam a incriminação, nos arts. 197 a 207 do Código Penal, das condutas atentatórias à organização do trabalho. (MASSON, 2016)
Merece destaque também a competência para processamento e julgamento dos delitos cometidos contra a organização do trabalho, que será da Justiça Federal, nos termos do art. 109, inciso VI, da Constituição Federal.
Abordaremos, a seguir, os delitos que atentam contra a liberdade de trabalho, os delitos de paralisação do trabalho, os delitos de invasão de estabelecimento industrial, comercial e agrícola, de sabotagem, bem como os crimes contra a legislação trabalhista e os de aliciamento.
5.1 Crimes que atentam contra a liberdade de trabalho (CP, art. 197 a art. 199)
Os delitos que atentam contra a liberdade de trabalho inauguram os delitos contra a organização do trabalho. No art. 197, o Código Penal tipifica a conduta de quem constrange alguém, mediante violência ou grave ameaça a exercer ou não exercer arte, ofício, profissão ou indústria, ou a trabalhar ou não trabalhar durante certo período ou em determinados dias. Essa conduta é apenada com detenção, de um mês a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência. Além disso, abrir ou fechar o estabelecimento de trabalho, ou participar de parede ou paralisação de atividade econômica também é conduta apenada com detenção, de três meses a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência.
Dessa forma, a violência ou grave ameaça deve ser utilizada para as finalidades específicas descritas no tipo penal. A violência dirigida a constranger alguém a não trabalhar, é mais bem detalhada por Greco (2017) nos seguintes termos:
Exercer deve ser entendido no sentido de praticar, realizar, desempenhar etc. Arte, conforme esclarece Guilherme de Souza Nucci, “é atividade manual, implicando em habilidade, aptidão técnica; ofício é habilidade manual ou mecânica, socialmente útil. Ambas podem ser remuneradas ou não. Profissão é atividade especializada, material ou intelectual, exercida, via de regra, mediante remuneração, demandando preparo e devidamente regulamentada. Indústria é atividade de transformação de materiais, conforme as necessidades humanas, implicando em destreza e aptidão.
Já a violência dirigida a coagir alguém a participar de parede ou paralisação denota a conduta de fazer com que alguém abandone coletivamente o trabalho (parede) ou a interromper, temporária ou definitivamente, uma atividade empresarial (paralisação), neste caso, trata-se da conduta ilícita conhecida como lockout ou greve dos empregadores, proibida pelo ordenamento jurídico (GRECO, 2017).
Greco (2017) afirma que isso se trata de crime comum, que não exige nenhuma qualificação especial do sujeito ativo ou passivo, embora exista discussão de a pessoa jurídica poderia ser autora do delito, não há previsão expressa.
O crime é consumado em diferentes momentos, a depender do enquadramento. Nesse sentido, Greco (2017) leciona que o delito se consuma quando: 
· a) Exerce ou deixa de exercer arte, ofício, profissão ou indústria.
· b) Trabalha, ou não, durante certo período ou em determinados dias.
· c) Efetivamente, abre ou fecha seu estabelecimento de trabalho.
· d) Participa de parede ou paralisação de atividade econômica.
Além disso, como é possível o fracionamento do iter criminis, a tentativa é possível.
Já o art. 198 do Código Penal prevê a conduta de “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a celebrar contrato de trabalho, ou a não fornecer a outrem ou não adquirir de outrem matéria-prima ou produto industrial ou agrícola”, sendo tal conduta apenada com detenção, de um mês a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência.
A primeira conduta típica consiste em obrigar alguém, mediante violência ou grave ameaça e celebrar contrato de trabalho, tanto coletivo quanto individual. Dessa forma, o delito se consuma o sujeito passivo assina o contrato (no caso de contrato escrito) ou consente em prestar o trabalho (contrato de trabalho tácito). Destaca-se  que há lacuna legal quanto à conduta de impedir que alguém assine contrato de trabalho, ação que, portanto, será atípica.
A segunda conduta típica consiste no boicote violento (Greco, 2017) que impede que outrem adquira ou forneça insumo ou produto industrial e agrícola a terceiro. A importância da tipificação legal pode ser observada nas palavras de Hungria (2016 apud GRECO 2017):
A palavra ‘boicotagem’ vem do nome de um administrador agrícola, na Irlanda, James Boycott, com quem os camponeses e fornecedores da região romperam relações (forçando-o a emigrar para a América), em represália à sua atuação vexatória. Trata-se de uma espécie de ostracismo econômico: a pessoa atingida pela boicotagem é posta à margem do círculo econômico a que pertence, vendo-se na contingência de cessar sua atividade, porque ninguém lhe fornece os elementos indispensáveis a ela, nem lhe adquire os produtos. 
Segundo Greco, a negativa de fornecimento somente pode ser de “substâncias orgânicas ou inorgânicas (vegetais ou animais, e minerais), máquinas, instrumentos etc., e os diversos produtos agrícolas” (NORONHA, 2016 apud GRECO 2017). Se a negativa de fornecimento se referir a dinheiro ou crédito, a conduta será atípica.
Trata-se de crime que admite qualquer sujeito ativo, e o sujeito passivo será aquele quem celebre o contrato de trabalho, ou, usualmente, forneça insumo industrial ou agrícola. Consuma-se quando a vítima deixa de fornecer os materiais, admitindo-se a tentativa.
Por fim o delito previsto no art. 199 do Código Penal dispõe que será crime apenado com detenção, de um mês a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência, a conduta de “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a participar ou deixar de participar de determinado sindicato ou associação profissional” (BRASIL, 1940).
A proibição advém da tutela constitucional à liberdade de associação, preconizada no art. 8º, inciso V da Carta Constitucional. Dessa forma, é crime obrigar alguém a associar-se ou não a sindicato ou associação profissional, entidades entendidas como “forma de organização de pessoas físicas ou jurídicas que figuram como sujeitos nas relações coletivas de trabalho” (NASCIMENTO, 2015 apud GRECO 2017).
Não é exigida nenhuma qualificação especial quanto ao sujeito ativo. Porém, no que concerne ao sujeito passivo, ele deve possuir condições para ser associado dessas entidades. Assim, o delito é consumado quando a vítima se filia ou não, contra a sua vontade, ao sindicato ou associação profissional.
5.2 Crimes de paralisação do trabalho (CP, art. 200 e art. 201)
Os crimes contra a paralisação do trabalho estão previstos no art. 200 e 201 do Código Penal. O delito descrito no art. 200 tipifica a conduta de “participar de suspensão ou abandono coletivo de trabalho, praticando violência contra pessoa ou contra coisa”, sendo a pena cominada de um mês a um ano e multa, além da pena correspondente à violência.
Assista aí
A greve é direito constitucionalmente assegurado a todos os trabalhadores. Nos termos do art. 2º da Lei 7.783, de 28 de junho de 1989 que regulamenta referido direito, a greve deve ser exercida de forma pacífica e temporária (GRECO 2017). Dessaforma, é lícita a tipificação da conduta grevista quando essa é praticada utilizando-se de violência contra a pessoa ou contra coisa.
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Figura 3 - A greve é direito assegurado por lei, mas deve ser exercida de forma pacífica e temporáriaFonte: 4-life-2-b, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: A figura mostra uma multidão com cartazes coloridos nas mãos, em uma rua lotada. Sugere, portanto, a realização de uma greve pacífica.
Segundo o parágrafo único do mesmo dispositivo legal, “para que se considere coletivo o abandono de trabalho é indispensável o concurso de, pelo menos, três empregados” (GRECO 2017). Trata-se de delito praticado pelo empregado ou empregador (lockout), sendo o sujeito passivo toda a coletividade, haja vista que, conforme defende Greco (2017), o objeto material tutelado pelo crime é a “regularidade e a moralidade das relações trabalhistas”.
Por sua vez, o delito previsto no art. 201 do Código Penal tipifica a conduta de greve violenta quando operada em detrimento de serviço público, sendo necessário que a paralisação ocasione a interrupção de obra pública ou serviço de interesse coletivo (BRASIL, 1940).
A doutrina majoritária entende, neste ponto, que não basta a interrupção de obra pública ou de serviço de interesse coletivo, devendo o serviço ser ainda reputado essencial (GRECO 2017).
A Lei da Greve (Lei 7.783, de 28 de junho de 1989) elenca rol de atividades (art. 10) consideradas serviços essenciais. A greve nesses serviços deve observar determinadas peculiaridades, notadamente o fato de que a paralisação não pode ser total, prejudicando a prestação do serviço. Dentre essas atividades pode-se destacar o serviço de tratamento e abastecimento de água, produção e distribuição de energia elétrica, gás e combustíveis, de assistência médica e hospitalar, de distribuição e comercialização de medicamentos e alimentos, de transporte coletivo, dentre outras (BRASIL, 1989).
Dessa forma, o delito somente se consumaria com a paralisação ou interrupção total desses serviços. Como é possível o fracionamento da empreitada criminosa, admite-se a tentativa. O delito também não exige nenhuma qualificação especial do sujeito passivo, que será toda a coletividade, enquanto exige que o sujeito ativo seja empregador (lockout) ou empregado (BRASIL, 1989).
5.3 Delito de invasão de estabelecimento industrial, comercial ou agrícola e sabotagem (CP, art. 202)
O delito previsto no art. 202 do Código Penal, tipifica a conduta de “invadir ou ocupar estabelecimento industrial, comercial ou agrícola, com o intuito de impedir ou embaraçar o curso normal do trabalho, ou com o mesmo fim danificar o estabelecimento ou as coisas nele existentes ou delas dispor”, sendo tal ação apenada com pena de reclusão, de um a três anos, e multa.
Segundo Hungria (2016 apud GRECO, 2017) a “invasão é a entrada arbitrária e hostil, e ocupação é a tomada de posse, com arbitrária exclusão do dominus”. Logo, pune-se a conduta de tomar conta, sob a forma de ocupação ou invasão, de local destinado ao desempenho da atividade industrial, comercial ou agrícola, sendo ainda exigível que essa ação possua especial fim de agir, qual seja a intenção do agente de interromper a prestação de trabalho. Neste caso, é prescindível a ocorrência de qualquer resultado naturalístico, pois o delito se consuma com a mera invasão ou ocupação.
A segunda parte do caput do delito prevê, ainda, o crime de sabotagem, que ocorre quando a intenção do agente é direcionada a ou causar dano ao estabelecimento comercial, consumando-se com a ocorrência do efetivo dano e, portanto, admitindo a tentativa.
Ambas as condutas delitivas podem ser cometidas por qualquer pessoa, sendo o sujeito passivo o proprietário ou possuidor do estabelecimento. Greco (2017) ainda adverte que “A coletividade também poderá figurar, mediatamente, nessa condição [sujeito passivo]”.
5.4 Crimes contra a legislação trabalhista (CP, art. 203 a art. 204)
Os delitos que atentam contra a legislação trabalhista estão previstos no art. 203 e 204 do Código Penal. O art. 203 prevê a conduta de “frustrar, mediante fraude ou violência, direito assegurada pela legislação do trabalho”, sendo a pena cominada de detenção de um ano a dois anos, e multa, além da pena correspondente à violência. 
Dessa forma, proíbe-se a conduta de quem impeça exercício de direito trabalhista assegurado na Consolidação nas normas trabalhistas (CLT), na Constituição Federal, ou ainda em leis esparsas.
Conforme adverte Damásio a execução do delito é feita com a utilização de fraude (comportamento que induz ou mantém a vítima em erro), ou violência consistente em força física, não sendo possível admitir que o criminoso utilize de violência moral, assim justificando:
 A violência moral consistente no emprego de grave ameaça (vis compulsiva), não é meio de execução deste delito. Quando o legislador quer referir-se à violência moral, menciona esta expressamente, usando o termo ‘grave ameaça’. Como não empregou tal expressão na definição legal, deve-se entender que esta não é meio de execução. (DAMÁSIO, 2011 apud GRECO, 2017)
O sujeito ativo do delito pode ser qualquer pessoa, já o sujeito passivo, é o titular do direito trabalhista frustrado. O delito se consuma quando o direito trabalhista não é exercido pelo seu titular. Apesar de o tipo exigir conduta comissiva, também será possível sua prática omissiva por quem ocupa a posição de garantidor.
O parágrafo primeiro do mesmo dispositivo prevê que na mesma pena incorre quem obriga ou coage alguém a usar mercadorias de determinado estabelecimento, para impossibilitar o desligamento do serviço em virtude de dívida, ou impede alguém de se desligar de serviços de qualquer natureza, mediante coação ou por meio da retenção de seus documentos pessoais ou contratuais. 
A primeira conduta consiste em impor que o empregado adquira as mercadorias em estabelecimento determinado a fim de impedir que essa se desligue do serviço em virtude de formação de dívida. A imposição, nesse caso, poderá ser feita por qualquer meio, admitindo-se tanto a coação física quanto a moral (GRECO, 2017).
Já a segunda conduta exige que o agente impeça alguém de romper o vínculo trabalhista utilizando-se de coação (física e moral) ou retenção de documentos pessoais e contratuais. Conforme Greco, trata-se de delito de constrangimento ilegal especial, tendo a coação como seu meio executivo.
O mesmo tipo penal ainda prevê ainda causa especial de aumento de pena, de um sexto a um terço, nos casos em que a vítima é menor de dezoito anos, idosa, gestante, indígena ou portadora de deficiência física ou mental, em virtude da maior vulnerabilidade dessas. 
Por sua vez, o delito tipificado no art. 204 do Código Penal, prevê a figura típica da frustração da lei sobre nacionalização do trabalho, punindo com pena de detenção, de um mês a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência quem “frustrar, mediante fraude ou violência, obrigação legal relativa à nacionalização do trabalho” (BRASIL, 1940).
A doutrina de Greco (2017) ainda afirma que a obrigação legal relativa à nacionalização do trabalho deve ser entendida como a “proteção que a lei confere aos trabalhadores nacionais”. Dessa forma, o delito se consuma quando resta prejudicado o exercício de obrigação legal desta natureza, mediante fraude ou violência (física) estaremos diante dessa figura típica, sendo possível a tentativa.
Nesta hipótese, o sujeito ativo será o empregador, embora “nada impede que qualquer pessoa possa figurar nessa condição, a exemplo do empregado ou de um estranho à relação de trabalho” (GRECO, 2017). O sujeito passivo é o Estado.
5.5 Exercício de atividade com infração de decisão administrativa (CP, art. 205)
O tipo penal previsto no art. 205 do CP, descreve como ilícita a conduta de “exercer atividade, de que está impedido por decisão administrativa”, sendo apenado com detenção, de três meses a dois anos, ou multa (BRASIL, 1940).
Trata-se de delito especial de desobediência de decisão administrativaque proíba o exercício de determinada atividade lícita. Acerca do tema Greco (2017) adverte que:
A decisão deverá possuir, obrigatoriamente, natureza administrativa, haja vista que se o impedimento se der em virtude de decisão judicial, por exemplo, o delito será o tipificado no art. 359 do Código Penal, que prevê a desobediência à decisão judicial sobre a perda ou suspensão de direito.
Ainda de acordo com Greco (2017), o delito se consuma quando há a “prática reiterada dos atos próprios da atividade que o indivíduo se encontra impedido de exercer”. Em sentido contrário, no julgamento do HC 74826/SP, o Supremo Tribunal Federal entendeu que “basta um ato de desobediência à decisão administrativa para que se configure o delito em questão” (BRASIL, 1997). Em qualquer que seja a posição adotada é admissível a tentativa.
Sobre o delito, é importante a posição adotada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do conflito de competência n. 10098/MG, em que se entendeu que “o cancelamento, a pedido, de inscrição no CRO por encerramento das atividades é mero ato de registro, não se constituindo em decisão administrativa de natureza punitiva de modo a impedir o profissional de exercer seu ofício”. Dessa forma, a conduta não se enquadraria no art. 205 do Código Penal (GRECO, 2017).
5.6 Delitos de aliciamento (CP, art. 206 e art. 207)
Encerrando o título penal destinado aos delitos contra a organização do trabalho, encontram-se as previsões dos delitos de aliciamento. No art. 206 do Código Penal, tipifica-se a conduta de “recrutar trabalhadores, mediante fraude, com o fim de levá-los para território estrangeiro”, sendo a referida ação apenada com pena de detenção, de um a três anos e multa.
O tipo penal pune a conduta de quem induz a erro as vítimas (trabalhadores) para que eles emigrem do território nacional. De acordo com Greco (2017) a fraude poderá ser assim entendida:
A fraude é o meio utilizado pelo agente, podendo consistir em falsas promessas de remuneração, vantagens pessoais, a exemplo de habitação e alimentação, da possibilidade de aquisição de bens materiais (automóvel, casa própria etc.), enriquecimento em curto prazo, enfim, promessas que, certamente, não serão cumpridas, mas que servirão de estímulo para que o trabalhador aceite partir do território nacional. 
Embora exista divergência doutrinária, no entender de Rogério Greco exige-se para a consumação delitiva que sejam enviados para o exterior no mínimo três trabalhadores, pois o tipo penal referiu-se a “trabalhadores” no plural e porque “quando a lei se contenta com aquela quantidade [duas pessoas] o diz expressamente” (PRADO, 2016 apud GRECO, 2017).
Trata-se de crime comum, não sendo exigível, portanto, do autor e da vítima qualquer qualidade especial. Consuma-se o delito com o simples aliciamento, sendo prescindível que as vítimas sejam enviadas ou cheguem ao exterior, também é admissível a tentativa.
Porém, se o aliciamento dos trabalhadores ocorrer com o fim de levá-los de uma para outra localidade do território nacional, incidirá a conduta típica prevista no art. 207 do Código Penal, punida com detenção de um a três anos, e multa (BRASIL, 1940). 
Conforme leciona Greco (2017) não se pune a conduta de transferir um trabalhador de um local para o outro do território nacional, mas sim se veda a ação de aliciadores, que realizam o êxodo de população dentro do território nacional. Por outro lado, o crime não exige que a vítima seja induzida a erro, o que permite a punição pelo simples aliciamento, “mesmo que com promessas reais de melhoria de vida”.
Igualmente à figura prevista no art. 206 do CP, trata-se de crime comum, que se consuma com o mero aliciamento, não sendo necessário que efetivamente ocorra o deslocamento dentro do território nacional, sendo admissível a tentativa (BRASIL, 1940).
O parágrafo primeiro do art. 207 do Código Penal prevê ainda a conduta típica “recrutar trabalhadores fora da localidade de execução do trabalho, dentro do território nacional, mediante fraude ou cobrança de qualquer quantia do trabalhador, ou, ainda, não assegurar condições do seu retorno ao local de origem”, apenada com a mesma sanção da figura do caput (BRASIL, 1940).
Nesse sentido, a conduta exige, além do aliciamento dentro do território nacional, o emprego de fraude, de cobrança de valores do trabalhador ou de não assegurar condições de retorno ao local de origem.
Por fim, o parágrafo segundo ainda prevê causa especial de aumento de pena de um sexto a um terço, nos casos em que a vítima é menor de dezoito anos, idosa, gestante, indígena ou portadora de deficiência física ou mental, em razão da sua maior vulnerabilidade.
É ISSO AÍ!
Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
· aprimorar os conhecimentos sobre o delito de ameaça e seus contornos legais;
· conhecer os delitos cometidos com o uso de fraude;
· conhecer aspectos relevantes sobre o delito de receptação, identificando, sobretudo, aspectos relativos à sua forma qualificada e culposa;
· entender sobre as noções gerais aplicáveis aos crimes contra a propriedade imaterial, notadamente no que se refere ao delito de violação de direito autoral e suas formas qualificadas;
· estudar sobre os delitos contra organização do trabalho, suas espécies e contornos típicos. 
UNIDADE 4 IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
CRIMES EM ESPÉCIE
CRIMES CONTRA O SENTIMENTO RELIGIOSO E CONTRA O RESPEITO AOS MORTOS E OS CRIMES CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL
Anna Luiza Mattos Duarte
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OLÁ!
Você está na unidade Crimes em espécie: os crimes contra o sentimento religioso e contra o respeito aos mortos e os crimes contra a dignidade sexual. Conheça aqui os principais tipos penais previstos no título V e VI da parte especial do Código Penal.
 
Aprenda sobre os crimes contra a liberdade sexual, dos crimes sexuais contra vulneráveis, sobre os delitos de lenocínio e trafico de pessoas para fins de exploração sexual, e os delitos de ultraje público ao pudor.  Estude também sobre os delitos contra o sentimento religioso e contra os respeitos aos mortos.
Bons estudos!
1. Dos crimes contra o sentimento religioso e contra o respeito aos mortos 
Os crimes contra o sentimento religioso e contra o respeito aos mortos estão localizados no título V do Código Penal (CP), que é dividido em dois capítulos. Antes do advento da República, esses crimes eram considerados atentados contra a ordem estatal, pelo fato de o Estado brasileiro não ser laico. Com o advento da Constituição republicana de 1988, o Estado brasileiro passa a ser laico, que “admite e respeita todas as vocações religiosas” (MASSON, 2016).
Atualmente, os tipos penais visam a assegurar o exercício do sentimento religioso, e o respeito aos mortos, que, de acordo com Masson (2016), também se reveste de cunho religioso. Esses direitos são constitucionalmente assegurados no art. 5°, VI, da Constituição da República: "é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias” (BRASIL, 1988).
Dessa forma, no capítulo I, são tutelados os crimes contra o sentimento religioso, que possui apenas um tipo penal, qual seja: o ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato a ele relativo, e, no capítulo II, localizam-se os delitos contra o respeito aos mortos, dentre os quais se destacam o delito de violação de sepultura, destruição, subtração ou ocultação de cadáver e vilipêndio ao cadáver.
1.1 Ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato a ele relativo (CP, art. 208)
O delito o ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato a ele relativo é previsto no art. 208 do Código Penal nos seguintes termos: Art. 208 - Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa”. Deve-se destacar que, se a conduta do agente é feita com emprego de violência,a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência (BRASIL, 1940, art. 208, parágrafo único).
O tipo penal descreve três condutas típicas:
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Ridicularizar alguém por motivos de crença (fé) ou função (ocupação, ministério) religiosa. Para que a conduta seja penalizada, é necessário que a ridicularização seja levada a efeito em público (GRECO, 2017). Neste caso, a conduta típica se consuma com a simples ridicularização, independente da vítima se sentir ofendida ou não.
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Cada uma dessas ações configura a elementar típica, de forma que, praticando duas delas, por exemplo, o agente deverá responder por dois crimes. Em todas as hipóteses narradas também é admissível a tentativa.
Quanto ao elemento subjetivo do delito, dispõe Masson (2016) que: 
Elemento subjetivo: é o dolo. Não se admite a modalidade culposa. Na primeira figura criminosa, exige-se ainda um especial fim de agir, consistente em atuar "por motivo de crença função religiosa': Na segunda conduta basta o dolo eventual. Na terceira conduta também se reclama um especial fim de agir: o propósito de vilipendiar, de ofender o sentimento religioso, ultrajando-o”.
Trata-se de crime comum, que pode ser exercido por qualquer pessoa, não exigindo nenhuma característica específica. Já o sujeito passivo é aquele que foi ridicularizado por suas crenças, ou no exercício de função religiosa; na segunda conduta, aquele que foi impedido ou tenha realizado mal cerimônia ou culto; e, na terceira conduta, todos aqueles que estavam ligados ao ato ou objeto de culto religioso que foi profanado, vilipendiado pelo agente. 
1.2 Violação de sepultura (CP, art. 210)
O delito previsto no art. 210 consiste em “violar ou profanar sepultura ou urna funerária”, sendo apenado com reclusão, de um a três anos, e multa.
Segundo a doutrina de Hungria (2016 apud GRECO 2017), o termo violar consiste em “abrir ou devassar arbitrariamente”, enquanto profanar significaria o ato de “tratar com irreverência, conspurcar, degradar”. Já a sepultura, pode ser descrita como:
O termo ‘sepultura’ deve ser entendido em sentido amplo: não é apenas a cova onde se acham encerrados os restos mortais, o lugar onde está enterrado o defunto, senão também tudo quanto lhe é imediatamente conexo, compreendendo o túmulo, isto é, a construção acima da cova, a lápide, os ornamentos estáveis, as inscrições. A lei não distingue entre a vala comum e o mausoléu. A sepultura do pária desconhecido merece tanto respeito quanto a do herói celebrado. Expressamente equiparada à sepultura é a urna funerária, que é não só aquela que guarda as cinzas (urna cinerária) como a que encerra os ossos do defunto (urna ossuária). (HUNGRIA, 2016 apud GRECO, 2017)
Neste caso, se o agente pratica as duas condutas descritas, responderá apenas por um delito, pois se trata de tipo misto alternativo. O tipo penal é comum, não exigindo do sujeito ativo nenhuma característica especial. O sujeito passivo é a coletividade, mais especialmente, a família do morto (GRECO, 2017).
O delito se consuma quando a sepultura é violada, sendo admissível a modalidade tentada. Deve-se registrar que se a sepultura estiver vazia, será configurado crime impossível, ante a ineficácia absoluta do objeto.
Se a intenção do agente, ao violar sepultura for subtrair pertences do morto, Hungria se posiciona a favor do reconhecimento do concurso material de delitos, respondendo o agente tanto pela violação da sepultura quanto pelo delito de furto (HUNGRIA, 2016 apud GRECO, 2017).
Já Rogério Greco (2017) acredita que o agente deverá responder somente pelo delito de violação, uma vez que “objetos que foram ali deixados pela família do morto não pertencem mais a ninguém, tratando-se, pois, de res derelicta".
1.3 Destruição, subtração ou ocultação de cadáver (CP, art. 211)
O delito de destruição, subtração, ou ocultação de cadáver é descrito no art. 211 do Código Penal, traduzindo a conduta de “destruir, subtrair ou ocultar cadáver ou parte dele”, apenada com reclusão, de um a três anos, e multa (BRASIL, 1940).
Greco (2017) explica que o objeto material do delito é o cadáver, caracterizado por ser um “corpo humano morto, enquanto mantida a sua aparência como tal”, excluindo-se a figura dos restos esqueléticos, ou da múmia.
Já as condutas típicas podem ser: destruir (aniquilar), subtrair (retirar do local original) ou ocultar (fazer desaparecer). A distinção entre as condutas de ocultar e de subtrair é que a primeira ocorre antes do sepultamento, enquanto a segunda, depois dele. Deve-se registrar que se trata de tipo misto alternativo, o que implica dizer que, ocorridas duas ações típicas, o agente responderá por um só delito (GRECO, 2017).
Igualmente aos demais crimes do mesmo título, o sujeito passivo não requer nenhuma condição penal, e o sujeito passivo é a família do cadáver e toda a coletividade. A consumação delitiva, por sua vez, ocorre com a destruição, subtração ou ocultação do cadáver, ainda que parciais. A tentativa é possível diante da possibilidade de fracionamento do iter criminis.
É interessante, por fim, a observação trazida pela doutrina de Cleber Masson (2016), que sugere a hipótese de ocorrer a ocultação do cadáver para fins de esconder o objeto material de um homicídio, por exemplo. Nesse sentido, o doutrinador entende que:
O homicida que, para ocultar o cadáver, apaga ou elimina vestígios de sangue, não pode ser denunciado pela prática, em concurso, dos crimes de fraude processual penal e ocultação de cadáver, senão apenas deste, do qual aquele constitui mero ato executório. (MASSON, 2016)
1.4 Vilipêndio a cadáver (CP, art. 212)
O delito de vilipêndio a cadáver, descrito no art. 212 do Código Penal, descreve a conduta do autor que “vilipendiar cadáver ou suas cinzas”, atribuindo-a pena de detenção, de um a três anos, e multa (BRASIL, 1940).
A conduta típica consiste em “aviltar, ultrajar, tratar com desprezo”, o cadáver ou suas cinzas. Embora haja controvérsia doutrinária, Rogério Greco entende não ser necessário nenhum dolo especial, bastando que, objetivamente, a conduta seja de vilipêndio ao cadáver. Novamente, o sujeito passivo não requer nenhuma condição penal, e o sujeito passivo é a família do cadáver e toda a coletividade. A consumação, por sua vez, ocorre com o ato de vilipendiar, sendo possível a tentativa.
Sobre o consentimento do falecido, Masson (2016) adverte sobre a impossibilidade de isso afastar a ilicitude do comportamento do sujeito, entendendo que “subsiste o delito quando o falecido, em disposição de última vontade, autorizou o vilipêndio do seu cadáver. Tutela-se um interesse de ordem pública, representado pelo sentimento ético-social de respeito aos mortos”.
Assista aí
2. Crimes à dignidade sexual
Os crimes contra a dignidade sexual encontram-se descritos no título VI do Código Penal, e tem como bem jurídico tutelado a dignidade sexual do ser humano, segundo Greco (2017) essa dignidade pode ser traduzida como:
A dignidade sexual é uma das espécies do gênero dignidade da pessoa humana. Ingo Wolfgang Sarlet, dissertando sobre o tema, esclarece que a dignidade é “a qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos”. (GRECO, 2017)
Segundo Cleber Masson (2016), O fundamento de validade dos crimes contra a dignidade sexual repousa no art. 1º, inc. III, da Constituição Federal, que prevê a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. O autor ainda leciona que: “a dignidade da pessoa humana não gera reflexos apenas nas esferas físicas, morais e patrimoniais,mas também no âmbito sexual”, sendo dever do Estado “assegurar meios para todos buscarem a satisfação pessoal de forma digna, livre de violência, grave ameaça ou exploração”.
Estudaremos, a seguir, os delitos previstos no capítulo I, em que o bem jurídico tutelado é a liberdade sexual. A liberdade sexual é definida por Masson (2016) como: 
[...] o direito inerente a todo ser humano de dispor do próprio corpo. Cada pessoa tem o direito de escolher seu parceiro sexual e com ele praticar o ato desejado no momento que reputar adequado, sem qualquer tipo de violência ou grave ameaça. O Código Penal protege o critério de eleição sexual que todos desfrutam na sociedade.
Dentre os delitos que atentam contra a liberdade sexual, explicaremos sobre os delitos de estupro, violação sexual mediante fraude, importunação sexual e assédio sexual.
2.1 Estupro (CP, art. 213)
O delito de estupro está previsto no art. 213 do Código Penal, que descreve a conduta de “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”, sendo a pena imputada a figura delitiva de reclusão, de seis a dez anos (BRASIL, 1940).
A primeira conduta típica consiste em obrigar alguém, mediante violência (força física) ou grave ameaça (imprimir temor à vítima), a ter conjunção carnal. Segundo Greco (2017), o Código Penal adotou o conceito restrito ao caracterizar a conjunção carnal, que pode ser definida, nas palavras de Hungria (2016 apud GRECO, 2017): “a cópula secundum naturam, o ajuntamento do órgão genital do homem com o da mulher, a intromissão do pênis na cavidade vaginal”.
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Figura 1 - O crime de estupro está previsto no artigo 213 do Código PenalFonte: Tinnakorn jorruang, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: A imagem mostra um pulso e uma mão feminina semicerrada, cuja parte de trás está encostada no chão. Uma mão masculina segura com força o pulso, levando à constatação de violência.
Já a segunda conduta típica, incorpora ao delito de estupro a realização de outros atos libidinosos, que podem ser assim definidos: “todos os atos de natureza sexual, que não a conjunção carnal, que tenham por finalidade satisfazer a libido do agente” (GRECO, 2017). Os atos devem possuir especial gravidade, considerando a pena mínima cominada ao crime:
Esses atos devem possuir alguma relevância, pois, caso contrário, estaríamos punindo o agente de forma desproporcional com o seu comportamento, uma vez que a pena mínima cominada ao delito de estupro é de seis anos de reclusão. Nesse sentido, com precisão, afirma Cezar Roberto Bitencourt que ‘passar as mãos nas coxas, nas nádegas ou nos seios da vítima, ou mesmo um abraço forçado, configuram [...] a contravenção penal do art. 61 da lei especial, quando praticados um lugar público ou acessível ao público’. (GRECO, 2017)
Quanto aos sujeitos do delito, Greco (2017) adverte que “quando a finalidade for a conjunção carnal, poderá ser tanto o homem quanto a mulher. No entanto, nesse caso, o sujeito passivo, obrigatoriamente, deverá ser do sexo oposto, pressupondo uma relação heterossexual”, quando a finalidade for a prática de outro ato libidinoso , o delito admitirá qualquer sujeito passivo ou ativo.
Quanto à consumação, ela também é diferente no caso em que a finalidade é a conjunção carnal ou ato libidinoso. No primeiro caso, Greco explica que: “o delito de estupro se consuma com a efetiva penetração do pênis do homem na vagina da mulher, não importando se total ou parcial, não havendo, inclusive, necessidade de ejaculação” (GRECO, 2017). Quanto ao segundo caso, explica que:
Consuma-se o estupro no momento em que o agente, depois da prática do constrangimento levado a efeito mediante violência ou grave ameaça, obriga a vítima a praticar ou permitir que com ela se pratique outro ato libidinoso diverso da conjunção carnal. (GRECO, 2017)
A tentativa, por sua vez, é possível em ambas as finalidades. Quanto ao dolo, Greco ensina que a prática do crime de estupro independe de qualquer finalidade especial pretendida pelo sujeito, assim dispondo:
Não há necessidade de que o agente atue com a finalidade especial de saciar sua lascívia, de satisfazer sua libido. O dolo, aqui, diz respeito tão somente ao fato de constranger a vítima com a finalidade de, com ela, ter a conjunção carnal ou praticar ou permitir que com ela se pratique outro ato libidinoso, não importando a motivação. Se o agente agiu com a finalidade, por exemplo, de humilhar ou mesmo vingar-se da vítima, tal fato é irrelevante para efeitos de configuração do delito, devendo ser considerado, no entanto, no momento da aplicação da pena. (GRECO, 2017)
O delito de estupro ainda prevê modalidades qualificadas pelo resultado que, em ambos os casos, somente podem ocorrer a título de culpa sendo, portanto, hipóteses de crimes preterdolosos.
No parágrafo primeiro do mesmo dispositivo, o legislador previu maior pena (reclusão de oito a doze anos) quando do estupro resultar lesão corporal de natureza grave ou se a vítima for menor de 18 ou maior de 14 anos. Deve-se notar que se do estupro resultar lesão leve, ela será absorvida pela figura do caput, sendo considerada consequência do emprego da violência ou grave ameaça. Se da conduta resultar morte, a pena será de reclusão, de 12 a 30 anos, nos termos do art. 213, § 2º do Código Penal.
Em ambos os casos, Greco (2017) defende a possibilidade de tentativa, ainda que se trate de crime preterdoloso, quando não se consumar a conjunção carnal e outro ato libidinoso e se configurar o resultado morte ou lesão grave.
O Código Penal prevê, ainda, causas especiais de aumento de pena em seu artigo 226:
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O artigo 234-A traz ainda outra causa de aumento de pena, exasperando de metade a 2/3, se do crime resulta gravidez, e de 1/3 a 2/3 se o agente transmite à vítima doença sexualmente transmissível de que sabe ou deveria saber ser portador, ou se a vítima é idosa ou pessoa com deficiência. 
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Segundo a nova redação do art. 225 do Código Penal, o processamento do delito de estupro ocorrerá mediante ação penal pública incondicionada.
2.2 Violação sexual mediante fraude (CP, art. 215)
O delito de violação sexual mediante fraude é descrito no art. 215 do CP como a conduta de “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima” (BRASIL, 1940). A conduta é apenada com reclusão, de dois a seis anos e, se praticado com o fim de se obter vantagem econômica, aplica-se também multa.
Neste caso, o núcleo do tipo penal consiste em ter conjunção carnal ou outro ato libidinoso mediante fraude. O que diferencia a conduta do estupro é que o ato é praticado mediante fraude, sendo assim compreendida:
A fraude faz com que o consentimento da vítima seja viciado, pois que se tivesse conhecimento, efetivamente, da realidade não cederia aos apelos do agente. Por meio da fraude, o agente induz ou mantém a vítima em erro, fazendo com que tenha um conhecimento equivocado da realidade. (GRECO, 2017)
Não é à toa que o delito ficou popularmente conhecido como “estelionato sexual”. Greco exemplifica a figura típica com exemplos interessantes, como na “troca de pessoas tratando-se de irmãos gêmeos idênticos, ou, ainda, o médico ginecologista, que, sem necessidade, realiza exame de toque na vítima, somente para satisfazer seu instinto criminoso” (GRECO, 2017).
Deve-se, porém, registrar que “a fraude utilizada na execução do crime não pode anular a capacidade de resistência da vítima, caso em que estará configurado o delito de estupro de vulnerável (art. 217-A do CP)” (CUNHA, 2016 apud GRECO, 2017). Assim, a manifestação de vontade da vítima deve ser apenas dificultada.
O delito também se configura quando o agente faz uso de qualquer artifício ardil (outras fraudes) para consumá-lo. Esse artifício pode consistir em: 
· palavras, gestos ou atos; ser ostensivo ou tácito;
· explícito ou implícito;
· exteriorizar-seem ação ou omissão.
Os sujeitos ativo e passivo não exigem qualquer característica especial, sendo certo que no caso da conjunção carnal, apenas exige-se que se trate de relação heterossexual.
O delito se consuma com a prática da conjunção carnal ou do ato libidinoso, sendo admissível a tentativa. Porém, Greco (2017) adverte que:
É importante frisar, no entanto, que, dada a gravidade da pena prevista para essa infração penal, somente aqueles atos que importem em atentados graves contra a liberdade sexual é que poderão ser reconhecidos como característicos do tipo penal em estudo. Assim, por exemplo, utilizar-se de fraude para beijar a vítima, mesmo que seja um beijo prolongado, não se configura no delito em questão, devendo o fato ser considerado atípico.
Deve-se registrar que se o agente, mediante fraude, pratica a conjunção carnal conjuntamente com outro ato libidinoso com a vítima, deverá responder por uma única infração penal, e não pelo concurso de crimes. Aplicam-se também no presente caso, as causas de aumento previstas no art. 226 e no art. 234, todos do Código Penal (BRASIL, 1940).
2.3 Importunação sexual (CP, art. 215-A)
O delito previsto no art. 215-A do Código Penal foi inserido pela Lei n. 13.718, de 2018 e consiste em: “praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro”, sendo a conduta reprimida com pena de reclusão, de um a cinco anos, se o ato não constitui crime mais grave (GRECO, 2017).
Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), “antes da norma, a conduta era considerada apenas uma contravenção penal, punida com multa, e quando se tratava de estupro, era prisão em flagrante ou preventiva” (BRASIL, [s.d.]). Também conforme o CNJ, o caso mais comum do delito é o assédio sofrido por mulheres em meios de transporte coletivo, mas também enquadra ações como beijos forçados e passar a mão no corpo alheio sem permissão.
A conduta típica consiste em praticar ato libidinoso contra alguém, sem que a vítima tenha anuído para a prática de tal ato. Dessa forma, não deve ser empregado pelo agente violência ou grave ameaça, sob pena de caracterizar o delito de estupro. Lado outro, exige-se que esteja presente a “vontade dirigida a satisfazer da própria lascívia ou de terceiros, não bastando o simples toque ou ‘esbarrão’ no metrô, por exemplo” (LOPES JUNIOR; ROSA, 2018).
Aury Lopes Junior e Alexandre Morais da Rosa (2018) fazem uma consideração sobre a conduta de estupro, mediante a prática de atos libidinosos, e a prática de importunação sexual, esclarecendo que:
Agora, pelo princípio da proporcionalidade, os atos libidinosos foram “divididos”, até mesmo em respeito às vítimas que tiveram suas liberdades sexuais ofendidas em nível máximo. Agora, “o passar de mãos lascivo nas nádegas”, “o beijo forçado”, aquilo que antes tinha que se adequar ao estupro para não ficar impune (mesmo todo mundo sabendo dessa desproporcionalidade!) “ganha” nova tipificação: o crime de importunação sexual. Não há mais dúvida: é crime! Dessa forma, verifica-se um tratamento mais adequado aos casos do mundo da vida e às hipóteses de absolvição forçada dada a única opção (estupro). Qualifica-se o âmbito de proteção normativo.
O crime é comum, não exigindo do sujeito, tanto ativo quanto passivo, qualquer característica especial. O delito se consuma com a prática do ato libidinoso, sendo admissível a tentativa.
2.4 Assédio sexual (CP, art. 216-A)
O art. 216-A do Código Penal prevê o delito de assédio sexual. A conduta descrita no tipo penal consiste em “constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”.  Ao crime é cominada pena de detenção, de um a dois anos.              
O parágrafo segundo do dispositivo prevê ainda que a pena seja aumentada em até um terço se a vítima é menor de 18 anos. Lembrando que, para incidir a referida causa de aumento, é necessário que o agente tenha conhecimento da idade da vítima.
Segundo Rogério Greco, o delito de assédio sexual implica em modalidade especial de constrangimento ilegal que pressupõe a existência de relações laborais:
No delito de assédio sexual, partindo do pressuposto de que seu núcleo prevê uma modalidade especial de constrangimento, devemos entendê-lo praticado com ações por parte do sujeito ativo que, na ausência de receptividade pelo sujeito passivo, farão com que este se veja prejudicado em seu trabalho, havendo, assim, expressa ou implicitamente, uma ameaça. No entanto, essa ameaça deverá sempre estar ligada ao exercício de emprego, cargo ou função, seja rebaixando a vítima de posto, colocando-a em lugar pior de trabalho, enfim, deverá sempre estar vinculada a essa relação hierárquica ou de ascendência, como determina a redação legal. (GRECO, 2017)
O constrangimento deve ser empregado com o fito de perceber favores sexuais. Ademais, para a prática do ato, o agente deve ser o superior hierárquico da vítima, assim entendido como quem exerce hierarquia no âmbito público, ou superior em emprego (denota relações laborais regidas pela CLT), cargo ou função (relações laborais no âmbito da administração pública). Greco (2017) ainda ressalta que se o agente possuir posição hierárquica igual ou inferior à da vítima, não haverá crime.
Algumas relações não podem configurar a subordinação laboral exigível para a tipificação do delito. Assim, ocorrido assédio sexual nessas relações, o fato será atípico: entre professor e aluno ou entre líder religioso e seus seguidores. Por outro lado, as “diaristas” ainda que não possuam relação laboral regida pela CLT podem ser vítimas de assédio (GRECO, 2017).
Os sujeitos ativo e passivo não possuem qualquer qualificação especial, bastando que exista entre eles uma relação de subordinação do segundo em relação ao primeiro. O delito se consuma quando o autor constrange a vítima, “não havendo necessidade que esta venha, efetivamente, a praticar os atos que impliquem vantagem ou favorecimento sexual exigidos pelo agente que, se vierem a ocorrer, serão considerados mero exaurimento do crime” (GRECO, 2017), sendo a tentativa admissível.
Assista aí
3. Crimes sexuais contra vulnerável  
Os delitos sexuais cometidos contra vulneráveis são previstos no capítulo II do título IV do Código Penal. Nesses crimes é reconhecida a vulnerabilidade da vítima e a impossibilidade de ela consentir com estes atos.
Nesse sentido, explica Masson (2016) que: 
No Capítulo II, o CP tem em vista a integridade de determinados indivíduos, fragilizados em face da pouca idade ou de condições específicas, resguardando-as do início antecipado ou abusivo na vida sexual. Para a caracterização destes crimes é irrelevante o dissenso da vítima. A lei despreza o consentimento dos vulneráveis, pois estabeleceu critérios para concluir pela ausência de vontade penalmente relevante emanada de tais pessoas. O aperfeiçoamento dos delitos independe do emprego de violência, grave ameaça ou fraude.
As vítimas, reputadas incapazes nesses delitos são: os menores de 14 anos (critério etário objetivo), aqueles que, por enfermidade ou deficiência mental, não têm o necessário discernimento para a prática do ato, aqueles que não podem oferecer resistência por qualquer causa.
Abordaremos, a seguir, os crimes mais relevantes do capítulo em questão.
3.1 Estupro de vulnerável (CP, art. 217-A)
O estupro de vulnerável foi figura incluída pela Lei n. 12.015, de 2009, no art.217-A, que contém a seguinte redação: “Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos: pena - reclusão, de 08 (oito) a 15 (quinze) anos” (GRECO, 2017).
Diferentemente do delito de estupro, o tipo penal relativo ao estupro de vulnerável, não exige que a vítima seja constrangida ao ato, bastando a ocorrência da conjunção carnal ou ato libidinoso com menor de quatorze anos. Assim, é irrelevante, para a configuração típica a ocorrência de violência ou grave ameaça, paraconfigurar o constrangimento da vítima (GRECO, 2017).
É importante ressaltar que, para incidir na figura típica, o agente deve conhecer ou ter meios de auferir a idade da vítima. Exemplifica Greco (2017) nesse sentido que:
Assim, imagine-se a hipótese em que o agente, durante uma festa, conheça uma menina que aparentava ter mais de 18 anos, dada à sua compleição física, bem como pelo modo como se vestia e se portava, fazendo uso de bebida alcoólica etc., quando, na verdade, ainda não havia completado os 14 (catorze) anos. O agente, envolvido pela própria vítima, resolve, com o consentimento dela, levá-la para um motel, mantêm conjunção carnal. Nesse caso, se as provas existentes nos autos conduzirem para o erro, o fato praticado pelo agente poderá ser considerado atípico, tendo em vista a ausência de violência física ou grave ameaça.
O parágrafo primeiro, do mesmo dispositivo, incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência.
Neste caso, novamente o Código Penal adotou o critério biopsicológico, pois, além de a vítima possuir enfermidade, esta ainda deve ser capaz de impedir que aquela tenha o discernimento necessário para a prática do ato. Nesse sentido, 
é importante ressaltar que não se pode proibir que alguém acometido de uma enfermidade ou deficiência mental tenha uma vida sexual normal, tampouco punir aquele que com ele teve algum tipo de ato sexual consentido. O que a lei proíbe é que se mantenha conjunção carnal ou pratique outro ato libidinoso com alguém que tenha alguma enfermidade ou deficiência mental que não possua o necessário discernimento para a prática do ato sexual. (GRECO, 2017)
Porém, a vulnerabilidade também poderá resultar da impossibilidade que a vítima tenha de oferecer resistência como, por exemplo, “os casos de embriaguez letárgica, o sono profundo, a hipnose, a idade avançada, a sua impossibilidade, temporária ou definitiva, de resistir” (GRECO, 2017).
Deve-se registrar que o § 5º do mesmo dispositivo dispõe que as penas deste artigo se aplicam “independentemente do consentimento da vítima ou do fato de ela ter mantido relações sexuais anteriormente ao crime” (BRASIL, 1940).
O artigo também prevê as modalidades agravadas pelo resultado. Nesses casos, o resultado deve ser cometido a título de culpa, ou seja, tratar-se de crime preterdoloso. Assim, nos termos do parágrafo terceiro, se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave, a pena será de reclusão de 10 a 20 anos.  Se da conduta resulta morte, a pena será de reclusão, de 12 a 30 anos (BRASIL, 1940, art. 217-A, § 4º).
O sujeito ativo do delito pode ser qualquer pessoa, não havendo necessidade de qualificação especial. Já o sujeito passivo é a pessoa menor de 14 anos, ou acometida de enfermidade ou deficiência mental, que não tenha o discernimento necessário para a prática do ato, ou que, por outra causa, não possa oferecer resistência.
 A consumação do delito ocorre com a ocorrência de conjunção carnal ou prática de qualquer ato libidinoso. Aplicam-se as causas de aumento de pena previstas nos artigos 216 e 234 do Código Penal.
3.2. Corrupção de menores (CP, art. 218)
O delito previsto no art. 218 do Código Penal consiste em “induzir alguém menor de 14 (catorze) anos a satisfazer a lascívia de outrem”, sendo apenado com reclusão, de dois a cinco anos (BRASIL, 1940).
A conduta típica pode ser explicada como a ação daquele que incute ou convence a vítima a satisfazer a lascívia de outrem, o que denota comportamento sexual que não imponha à vítima a conjunção carnal ou outro ato libidinoso, pois, senão, se estaria diante do delito de estupro de vulnerável.
Além disso, é necessário que a atuação da vítima seja destinada a satisfazer desejo de outrem, pessoa ou grupo de pessoas determinadas, pois “se o agente induz a vítima a satisfazer a lascívia de um número indeterminado de pessoas, o crime passará a ser o de favorecimento da prostituição” (SANCHES, 2016 apud GRECO, 2017).
Os sujeitos ativo e passivo do delito não exigem nenhuma qualificação especial, sendo suficiente apenas que a vítima seja menor de 14 anos. Quanto ao momento consumativo, existe divergência na doutrina, Greco aponta que (2017):
Embora o núcleo induzir nos dê a impressão de que a consumação ocorreria no momento em que a vítima, menor de 14 (catorze) anos, fosse convencida pelo agente a satisfazer a lascívia de outrem, somos partidários da corrente que entende seja necessária a realização, por parte da vítima, de pelo menos algum ato tendente à satisfação da lascívia de outrem, cuidando-se, pois, de delito de natureza material. Em sentido contrário, Paulo Busato preleciona que: “A consumação do crime se dá com a produção do resultado de indução, que é o convencimento do menor a realizar o ato que deverá conduzir à satisfação para a lascívia de terceiro.
A tentativa é admitida, haja vista a possibilidade de fracionamento do iter criminis. 
A tentativa é admitida, haja vista a possibilidade de fracionamento do iter criminis. 
O art. 218-B do Código Penal tipifica a conduta de submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone”, sendo tal conduta apenada com reclusão, de 04 (quatro) a 10 (dez) anos. Ademais, se o crime é praticado com o fim de obter vantagem econômica, aplica-se também multa (BRASIL, 1940, art. 218-B, §1º).
Segundo Greco (2017), a exploração sexual da vítima pode ocorrer em quatro frentes: prostituição, turismo sexual, pornografia e tráfico para fins sexuais. Dessa forma, o delito se configura quando o agente submeter (obrigar), induzir (incutir a ideia) ou atrair (estimular) a prática dessas ações, ainda que dessa conduta não resulte lucro. Nesse sentido, merece destaque o comentário do autor quanto à prática de prostituição:
As instituições (governamentais, não governamentais, internacionais), profissionais, pesquisadores e estudiosos da exploração sexual vêm questionando o termo prostituição de crianças e adolescentes, por considerarem que estes não optam por este tipo de atividade, mas que a ela são levados pelas condições e trajetórias de vida, induzidos por adultos, por suas carências e imaturidade emocional, bem como pelos apelos da sociedade de consumo. Neste sentido, não são trabalhadores do sexo, mas prostituídos, abusados e explorados sexualmente, economicamente e emocionalmente.        
Também é típica a conduta daquele que favorece a prática de exploração sexual de menores (lenocínio assistido), ou de quem dificulta a interrupção da exploração, no sentido de impedir que a vítima saia da situação, ou criar-lhe embaraços (GRECO, 2017).
O sujeito passivo do delito é a criança (até 12 anos) o adolescente (de 12-18 anos) ou o vulnerável (menor de 14 anos ou aquele que tem a capacidade de discernimento reduzida em razão de doença mental e não pode dar consentimento ou oferecer resistência). Já o sujeito ativo poderá ser qualquer pessoa.
O delito admite a modalidade tentada, se consumando, no entender de Rogério Greco (2017) quando:
Dá-se início ao comércio carnal, ou seja, às atividades próprias características da prostituição, com a colocação de seu corpo à venda, mesmo que não tenha, ainda, praticado qualquer ato sexual com algum ‘cliente’; ou, ainda, (...) quando a vítima é, efetivamente, explorada sexualmente, mesmo sem praticar o comércio carnal. (...) No que diz respeito à facilitação, entende-se por consumado o delito com a prática, pelo agente, do comportamento que, de alguma forma, facilitou, concorreu para que a vítima praticasse a prostituição ou fosse, de qualquer outra forma, explorada sexualmente. Consuma-se também a figura típica mediante impedimento ao abandono da prostituição, quando a vítima, já decididaa deixar o meretrício, de alguma forma é impedida pelo agente, permanecendo no comércio carnal. Da mesma forma aquela que quer se livrar da exploração sexual a que vem sendo submetida e é impedida pelo agente. O delito também restará consumado quando ficar provado que o agente, de alguma forma, dificultou, criando problemas para que a vítima abandonasse a prostituição ou a exploração sexual a que estava sujeita.
O parágrafo segundo do mesmo dispositivo, ainda prevê que, incorrerá nas mesmas penas quem pratica conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém menor de 18 e maior de 14 anos na situação descrita no caput deste artigo. Nesse caso, o agente deverá ter conhecimento sobre a idade da vítima, ou o proprietário, o gerente ou o responsável pelo local em que se verifiquem as práticas.
No último caso, o proprietário deve conhecer o fato de que o imóvel e destinado à prostituição de menores e vulneráveis, sendo que, ocorrendo essa conduta será efeito obrigatório da condenação a cassação da licença de localização e funcionamento do estabelecimento (BRASIL, 1940, art. 218-B, §3º).
Ademais, segundo entendimento assente da jurisprudência pátria, “o crime de favorecimento a prostituição ou outra forma de exploração sexual de vulnerável deve ser absorvido pelo crime de estupro de vulnerável” (GRECO, 2017).
4. Lenocínio e do tráfico de pessoa para fim de prostituição ou outra forma de exploração sexual 
O capítulo V, do título VI do Código Penal compreende os delitos de lenocínio e do tráfico de pessoa para o fim de prostituição ou exploração sexual. Segundo Masson (2016), o lenocínio pode ser definido como:
Assista aí
O lenocínio consiste em prestar assistência à libidinagem de outrem ou dela tirar proveito. Difere-se dos demais crimes sexuais porque opera em torno da lascívia alheia. Esta é a nota comum entre os delitos definidos neste capítulo: os proxenetas (ou alcoviteiros), os rufiões e os traficantes de pessoas para fim de exploração sexual atuam em favor da libidinagem de outrem, ora como mediadores, fomentadores ou auxiliares, ora como aproveitadores. O lenocínio pode ser principal (mediação para satisfazer a lascívia de outrem- art. 227 do CP) ou acessório (conceito que engloba os demais crimes previstos neste capítulo). Embora não se reclame no lenocínio o ânimo lucrativo, a prática demonstra ser isto o que normalmente acontece, ensejando o chamado lenocínio mercenário ou questuário.
4.1 Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual (CP, art. 228)
A prostituição é conceituada por Enrique Orts Berenguer, citado por Greco (2017) como:
A satisfação sexual que uma pessoa dá a outra em troca de um preço. Dois são, pois, os ingredientes desta atividade: uma prestação de natureza sexual, entendida esta em um sentido amplo, compreensivo de qualquer variante que possa ser solicitada, não somente das mais convencionais; e a percepção de um preço, de uns honorários em contraprestação ao serviço prestado.
A prática da prostituição é um indiferente penal no Brasil, pois tal conduta não é tipificada como crime. Dessa forma, o país filia-se a corrente abolicionista, em que o ato de se prostituir não é considerado crime, mas as pessoas que contribuem para esse exercício têm suas condutas tipificadas no Código Penal.
Explica Rogério Greco (2017) que atualmente há três sistemas de repressão à prostituição, sendo um deles o da regulamentação, outro o da proibição, e por fim o abolicionista. O autor explica que:
Dissertando sobre o tema, com precisão, esclarece Luiz Regis Prado: “O sistema da regulamentação tem por escopo objetivos higiênicos, a fim de prevenir a disseminação de doenças venéreas e também a ordem e a moral públicas. Por este sistema a prostituição fica restrita a certas áreas da cidade, geralmente distantes do centro, onde as mulheres sujeitam-se a um conjunto de obrigações, como a de submeterem-se periodicamente a exames médicos. É criticável o sistema em epígrafe, uma vez que, além de estigmatizar a prostituta, o seu fim higiênico é de resultado restrito, já que controla apenas parte da atividade.” 101 Nesse sistema de regulamentação, as pessoas que se prostituem trabalham, em geral, com carteira assinada, possuem plano de saúde, aposentadoria etc., tal como ocorre na Holanda. No sistema em que predomina a proibição, a exemplo dos países árabes e Estados Unidos, a prostituição é considerada infração penal. No entanto, tem prevalecido o sistema conhecido como abolicionista. Assim, deixa-se de responsabilizar criminalmente aquele que pratica a prostituição; no entanto pune-se as pessoas que lhe são periféricas e que de alguma forma contribuem para o seu exercício, como ocorre com os proxenetas, rufiões, cafetões etc.
Em razão da adoção do sistema abolicionista é que se tem no ordenamento jurídico a conduta tipificada no art. 228 do Código de Penal, que incrimina o favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual nos seguintes termos: “Induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone: Pena - reclusão, de 02 (dois) a 05 (cinco) anos, e multa” (BRAISL, 1940).
Segundo Rogério Greco (2017), a conduta típica consiste em induzir (fazer incutir a ideia) ou atrair (estimular a pessoa) alguém a se prostituir (intuito comercial) ou ser de outra forma explorada sexualmente (refere-se ao “ramo de negócios no qual há a produção e a comercialização da mercadoria – serviços e produtos sexuais”). Nessa modalidade, o delito se consuma com o início das atividades próprias à prostituição ou exploração sexual, “mesmo que não tenha, ainda, praticado qualquer ato sexual com algum ‘cliente’” (GRECO, 2017).
Greco (2017) ainda expõe que a prostituição independe de habitualidade e de contato físico entre a vítima e o “cliente”:
O que o “comprador” deseja é a realização de seus prazeres sexuais, que lhe são oferecidos pela (o) prostituta (o), haja ou não contato corporal. Assim, por exemplo, o que ocorre com disk- -sexo, em que uma pessoa entra em contato com outra, via telefone, a fim de ver realizados seus sonhos e desejos eróticos. Simula-se, até mesmo, uma situação de relação sexual. Nesse caso, segundo entendemos, poderíamos considerar a atividade daquela (e) que presta serviços sexuais a alguém em troca de preço como característica da prostituição.
O delito também se amolda à conduta do nomeado lenocínio assessório, que ocorre quando o agente facilita essas formas de exploração sexual. Essa conduta diferencia-se das demais, pois “na facilitação, o agente permite que a vítima, já entregue ao comércio carnal, nele se mantenha com o seu auxílio, com as facilidades por ele proporcionadas” (GRECO, 2017). O delito, nessa modalidade, consuma-se com a prática de qualquer ato de facilitação.
Por fim, subsiste a conduta típica de dificultar que a vítima abandone a prostituição ou outras formas de exploração sexual, que consiste em “atrapalhar, criar embaraços, com a finalidade de fazer com que a vítima sinta-se desestimulada a abandonar a prostituição ou outra forma de exploração sexual” (GRECO, 2017). Nesta hipótese, o crime se consuma quando o agente pratica qualquer ato que impeça ou crie embaraços para que a vítima deixe aquela profissão.
Trata-se de crime comum, não sendo exigível do sujeito ativo ou passivo qualquer característica especial. A tentativa é admissível pela possibilidade de fracionamento da execução delitiva (GRECO, 2017).
Em seus parágrafos, o artigo ainda traz hipóteses qualificadas do delito. Em princípio, o parágrafo primeiro dispõe que se o agente é ascendente, padrasto, madrasta, irmão, enteado, cônjuge, companheiro, tutor ou curador, preceptor ou empregador da vítima, ou se assumiu, por lei ou outra forma, obrigação de cuidado, proteção ou vigilância, a pena será de reclusão, de três a oito anos.
Já o parágrafo segundo dita que se o crime, é cometido com emprego de violência, grave ameaça ou fraude, a pena será de reclusão, de quatro a dez anos, além da pena correspondente àviolência.
 Por fim, o parágrafo terceiro leciona que se o crime é cometido com o fim de lucro, aplica-se também multa.
4.2 Casa de prostituição (CP, art. 229)
O delito descrito no art. 229 do Código Penal descreve a conduta de “manter, por conta própria ou de terceiros, estabelecimento em que ocorra exploração sexual, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente”, sendo referida conduta apenada com reclusão, de dois a cinco anos, e multa. Segundo Rogério Greco (2017), a conduta de “manter” exige habitualidade, ou permanência. Nesse caso, o agente deve possuir “a finalidade de que aquela situação se prolongue”.
O mesmo autor ainda leciona que o agente que faz a mediação direta, ou mesmo o proprietário ou gerente do local também respondem pelo delito, entendendo que:
A manutenção pode ocorrer por conta própria ou de terceiros, querendo isso significar que o próprio agente é quem pode arcar com as despesas de manutenção do local (estabelecimento em que ocorra a exploração sexual), ou que terceira pessoa, mesmo sabendo da finalidade ilícita do lugar, contribua para a sua manutenção, devendo, também, responder pelo delito, a título de coautoria. Se, porventura, o terceiro desconhecer a finalidade ilícita do local para o qual contribui para a sua manutenção, o fato, para ele, será atípico, por ausência de dolo. (GRECO, 2017)
Ainda é necessário que o estabelecimento se destine à exploração sexual. Essa finalidade, por sua vez, não precisa ser exclusiva, podendo o estabelecimento também servir, por exemplo, como moradia ou comércio. Deve-se registrar que, quanto a hotéis e motéis, a conduta somente se amoldará ao tipo penal se “ficar demonstrado que o estabelecimento hoteleiro destinava-se à exploração sexual, o que não é incomum em determinadas regiões do país” (GRECO, 2017).
Por outro lado, é necessário que o agente dirija sua ação à prática reiterada da exploração sexual naquele local, ou seja, “o elemento subjetivo deve abranger o caráter duradouro do comportamento, não se destinando, por exemplo, a uma única ocasião” (GRECO, 2017).
A consumação do delito ocorre com a prática de qualquer ato que indique a abertura de estabelecimento com o fim de exploração sexual, por exemplo, a “abertura de um bordel, a nosso ver, já configuraria a consumação do delito, independentemente, até mesmo, de que algum casal já tenha ali se relacionado sexualmente” (GRECO, 2017). Porém, há quem entenda que, por se tratar de delito habitual, a consumação depende da ocorrência reiterada de condutas de exploração sexual no local (BITENCOURT, 2016 apud GRECO, 2017).
A admissibilidade da tentativa é também controversa. Greco (2017) entende pela sua possibilidade, diante do fato de ser possível fracionar o iter criminis. Já a doutrina majoritária, entende que a tentativa não é admissível em razão de se tratar de crime habitual.
O delito descrito neste artigo é merecedor de críticas por parte da doutrina. Entende-se que a prostituição, por ser conduta atípica, tem que ocorrer em algum lugar. Dessa forma, não faria sentido a punição de quem mantenha o estabelecimento destinado à sua prática, haja vista que, como o artigo não exige o aferimento de lucro, sequer pode-se dizer que o agente explore a vítima. Nesse sentido, se posiciona Rogério Greco (2017):
Acreditamos que o controle social informal, praticado pela própria sociedade, seria suficiente para efeitos de conscientização dos males causados pela prática de determinados comportamentos que envolvem a prostituição, não havendo necessidade de sua repressão por parte do Direito Penal, que deve ser entendido como extrema ou ultima ratio.
4.3 Rufianismo (CP, art. 230)
O delito previsto no art. 230 do Código Penal descreve a conduta de “tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar, no todo ou em parte, por quem a exerça”, sendo cominada pena de reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Segundo Rogério Greco (2017), o núcleo do tipo penal consiste em tirar proveito da prostituição alheia, sendo que essa conduta pode ocorrer de forma ativa, hipótese em que “participa diretamente dos lucros auferidos com a prostituição alheia”, ou passiva, quando “se faz sustentar por quem a exerce”.
Dessa forma, o agente deve tirar proveito econômico daquilo que é obtido mediante a prática da prostituição, não exigindo, entretanto, que essa seja a única fonte de renda do agente.
O mesmo autor ainda informa que “para efeitos de configuração da mencionada figura típica, haverá necessidade de constatação do requisito habitualidade, sem o qual o fato se transforma em um indiferente penal” (GRECO, 2017). O sujeito ativo do delito é qualquer pessoa, já o sujeito passivo é a coletividade.
O parágrafo primeiro do mesmo dispositivo traz a figura qualificada do delito, entendendo que “se a vítima é menor de 18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos ou se o crime é cometido por ascendente, padrasto, madrasta, irmão, enteado, cônjuge, companheiro, tutor ou curador, preceptor ou empregador da vítima, ou por quem assumiu, por lei ou outra forma, obrigação de cuidado, proteção ou vigilância” a pena será de reclusão de 03 (três) a 06 (seis) anos, e multa (BRASIL, 1940).
Mais uma vez, é necessário ressaltar que a figura qualificada pela idade da vítima somente incidirá se restar comprovado que o agente tinha conhecimento da menoridade daquela.
Por outro lado, o crime também será qualificado se for cometido mediante violência, grave ameaça, fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação da vontade da vítima, sendo apenado com reclusão, de dois a oito anos, sem prejuízo da pena correspondente à violência.
Segundo o Superior Tribunal de Justiça quando as práticas de rufianismo e de favorecimento à prostituição ocorrerem em um mesmo contexto, contra a mesma vítima, “o favorecimento à prostituição, este delito foi absorvido pelo de rufianismo, pela preponderância do indevido proveito, consubstanciado na participação nos lucros” (STJ, HC 8.914/MG, Rel. Min. Fernando Gonçalves, 6ª T., RSTJ, v. 134, p. 525).
4.4 Promoção de migração ilegal (CP, art. 232-A)
O delito de promoção de migração ilegal, previsto no art. 232-A, foi inserido no Código Penal com a Lei n. 13.445/17 e consiste em “promover, por qualquer meio, com o fim de obter vantagem econômica, a entrada ilegal de estrangeiro em território nacional ou de brasileiro em país estrangeiro”, sendo cominada pela de reclusão, de dois a cinco anos, e multa (GRECO, 2017).  
A doutrina criticou a inserção do mencionado delito entre os crimes sexuais, pois “o crime de promoção de migração ilegal não tem conotação sexual e não se confunde, de forma alguma, com o tráfico de pessoas para exploração sexual, que antes da Lei n. 13.344/16 fazia parte do mesmo Capítulo” (CUNHA, 2017).
Segundo Cunha, o bem jurídico tutelado pelo mencionado delito é a soberania nacional, da qual deriva toda a disciplina para entrada e saída de pessoas do território brasileiro, explicando que:
É com base no poder pleno de autodeterminação, ou seja, não condicionado a nenhum outro poder de origem externa ou interna, que o Estado estabelece as regras para o trânsito de pessoas no território nacional. Ignorar essas regras atenta, portanto, contra o poder de autodeterminação. São também objetos jurídicos deste crime, ainda que mediatos, a segurança nacional e a manutenção da ordem interna, pois a entrada ilegal de estrangeiros em território brasileiro impede que os órgãos de imigração tomem conhecimento de quem está penetrando no país e a que título (o art. 12 da Lei n. 13.445/17 estabelece cinco espécies de vistos, que por sua vez são divididos em subespécies, cada uma concedida de acordo com a finalidade para o ingresso e a permanência do estrangeiro no Brasil).Por fim, como a figura criminosa pune também a promoção de entrada ilegal de brasileiro em território estrangeiro e a saída ilegal de estrangeiro para outro país, é possível dizer que se tutela a manutenção da regular relação entre o Brasile outros países.
A conduta típica consiste em facilitar a entrada de pessoa estrangeira em território nacional ou de brasileiro em país estrangeiro. Dessa forma, pune-se a conduta de quem qualquer forma auxilia nesses trâmites como, por exemplo, quem “agencia a vinda do estrangeiro, quem o transporta para o território nacional, quem o recebe no momento do ingresso ou quem de qualquer forma pratica algum ato com o propósito de tornar possível a entrada do estrangeiro sem a observância das disposições legais” (CUNHA, 2017).
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Figura 2 - A facilitação de imigração ilegal é crime previsto no artigo 232-A do Código PenalFonte: Vic Hinterlang, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: A figura mostra um caminhão no meio de uma estrada. Em cima da caçamba do caminhão, há algumas pessoas com mochilas grandes e, ao lado do caminhão, embaixo, há um grande número de outras pessoas, em fila, esperando para subir na caçamba. A figura demonstra a imigração precária e ilegal.
O delito possui forma livre e, portanto, “a entrada ilegal pode ocorrer tanto por meio de desvio dos postos de imigração [...] quanto mediante utilização de meios fraudulentos perante o controle de imigração (ex.: documentos falsos)” (CUNHA, 2017).
Cunha (2017) ainda explica que, embora o território de um país compreenda tanto o espaço físico (espaço terrestre, marítimo ou aéreo sujeito à soberania do Estado), quanto o espaço jurídico (espaço físico por ficção, por equiparação, por extensão ou território flutuante como, por exemplo, embarcações nacionais a serviço do governo onde quer que se encontrem), para fins de compreensão do mencionado artigo deve ser considerado apenas o território físico, pois “somente nesse momento que os órgãos de fiscalização de fronteiras podem exercer o controle da entrada de pessoas no território”.
Para configuração da conduta, ainda se exige que o agente atue com o dolo específico de obter vantagem econômica. O crime se consuma com a efetiva entrada no território nacional ou estrangeiro da pessoa auxiliada pelo agente.
Parágrafo primeiro 
Parágrafo segundo 
Parágrafo terceiro 
Traz causa especial de aumento de pena, consistente em exasperação de 1/6 (um sexto) a 1/3 (um terço) quando o crime é cometido com violência; ou a vítima é submetida à condição desumana ou degradante (CUNHA, 2017). 
5. Do ultraje público ao pudor
O capítulo VI do Código Penal prevê os crimes de ultraje ao pudor público.  Esses crimes possuem como bem jurídico tutelado o pudor público, assim entendido como (SILVEIRA, 1977): 
A palavra em si expressa um sentimento de vergonha, de mal estar, gerado pelo que pode ferir a decência, a honestidade ou a modéstia. Sua origem é latina de «pudor-oris», significando vergonha, pejo, enleio. Porém, há autores que lhe dão origem diferente, como é o caso de NELSON HUNGRIA, que afirma derivar da palavra latina «putere», significando mal cheiro, podridão. (...) O pudor seria, portanto, no aspecto sexual, o limite de ação permitido pela sociedade de uma região, para a conquista amorosa. Este limite surgiria naturalmente, como conseqüência dos costumes, usos, religiões etc.
Dessa forma, são previstos nesse capítulo os delitos de ato obsceno ou de escrito ou objeto obsceno que estudaremos adiante.        
5.1 Ato obsceno (CP, art. 233)
O delito de ato obsceno é previsto no art. 233 do Código Penal e possui como conduta típica o ato de “praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público”, apenado com detenção, de três meses a um ano, ou multa.
O núcleo do tipo penal consiste na prática de ato reputado obsceno. Trata-se de conceito que deve ser preenchido mediante interpretação do juízo. Para tanto ele deve julgar quais atos a sociedade entende ser não adequado. Além disso,  
O princípio da adequação social, por mais que tenha conotação subjetiva, poderá nos auxiliar no sentido de investigar o sentimento da maioria da sociedade, a fim de descobrir se aquele determinado comportamento poderá ser considerado adequado, levando-se em consideração o lugar, a época, a cultura do povo, enfim, dados que serão indispensáveis ao reconhecimento da conduta como obscena. (GRECO, 2017)
Para que se configure a conduta típica o ato ainda deve ser localizado em local público ou aberto ou exposto ao público. Greco (2017) diferencia os três ambientes definindo que: 
· Local público
É aquele em que o público tem acesso irrestrito como, por exemplo, ruas avenidas, praças e parques públicos.
· Local aberto ao público
É aquele que “embora com alguma restrição, o acesso ao público é permitido, como acontece com os cinemas, teatros, museus, igrejas”.
· Local exposto ao público
É aquele lugar em que “embora podendo ser considerado privado, é devassado a ponto de permitir que as pessoas presenciem o que nele se passa, como acontece, por exemplo, com as varandas dos apartamentos”.
O delito é classificado como comum, não exigindo do sujeito ativo ou passivo (que pode ser pessoa ou grupo específico de pessoas como a própria coletividade) qualquer característica especial.
A consumação delitiva ocorre com a prática do ato. Em que pese a possibilidade de tentativa seja controversa na doutrina, Greco (2017) entende pela sua possibilidade, haja vista que sempre que a conduta puder ser fracionada a tentativa será admissível.
A diferença entre o delito de ato obsceno e o delito de importunação sexual reside no grau de importância do fato, além de no “delito de ato obsceno, o Código Penal exige a prática de um ato, ou seja, de um comportamento, de uma expressão corporal entendida como obscena”, enquanto na importunação meras palavras ou gestos podem tipificar o delito (GRECO, 2017).
Sobre o concurso de crimes, Cleber Masson dispõe que:
Se, no mesmo contexto fático, o sujeito realiza diversos atos obscenos, estará configurado um único crime. Se as condutas forem cometidas em locais e em momentos distintos, a ele deverão ser imputados vários crimes, em concurso material ou em continuidade delitiva, se presentes os demais requisitos exigidos pelo art. 71, caput, do CP. Também é possível o concurso com algum outro delito. (MASSON, 2016)
5.2 Escrito ou objeto obsceno (CP, art. 234)
O delito descrito no art. 234 tem como conduta típica “fazer, importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de comércio, de distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto obsceno” sendo cominada pena de detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.
Hungria descreve os verbos das condutas delitivas insertas nesse tipo penal como:
“Fazer é produzir, fabricar, elaborar, dar forma a alguma coisa. Importar é introduzir em qualquer ponto do território nacional. Exportar, ao contrário, é fazer sair do nosso para outro país. Adquirir é obter alguma coisa ut dominus, seja a que título for (pouco importando que a res não incida imediatamente na efetiva posse do agente). Ter sob sua guarda é deter ou possuir, ter a res, própria ou alheia, em depósito ou à imediata disposição. Vender é transferir, dispor ou entregar, mediante um preço. Distribuir é entregar a outrem, com ânimo definitivo ou não, a título gratuito ou oneroso (exemplo: locação lucrativa), franca ou clandestinamente, de modo direto ou mediante despacho, ou por via postal. Expor à venda é colocar a res à vista de possíveis compradores. Expor ao público é exibir ou mostrar em lugar público ou em que, embora somente para fim de conhecimento da exposição, se permita o acesso a tout venant”. (HUNGRIA, 2016 apud GRECO, 2017)
O parágrafo único do mesmo tipo penal prevê ainda outras condutas consideradas obscenas. No inciso I descreve a conduta de quem “vende, distribui ou expõe à venda ou ao público qualquer dos objetos referidos neste artigo”, no inciso II de quem “realiza, em lugar público ou acessível ao público, representação teatral, ou exibição cinematográfica de caráter obsceno, ou qualquer outro espetáculo, que tenha o mesmo caráter” e no inciso III quem “realiza, em lugar público ou acessível ao público,ou pelo rádio, audição ou recitação de caráter obsceno”.
Sobre as condutas equiparadas, Masson (2016) descreve que: 
O inciso I diz respeito à comercialização do escrito ou objeto obsceno. No inciso II, a lei se volta à representação teatral, à exibição cinematográfica ou qualquer outro espetáculo de caráter obsceno. Representação teatral é a interpretação para o público, mediante cenas, de história fictícia ou verídica. Exibição cinematográfica é a mostra de película produzida para o cinema. O legislador se vale da interpretação analógica (ou intra legem), ao utilizar a expressão "qualquer outro espetáculo", referindo-se a eventos similares, mas diversos da representação teatral e da exibição cinematográfica. Todos devem possuir caráter obsceno, ou seja, atentatórios à moralidade pública na esfera sexual. O inciso III tem como foco a audição (atividade de fazer ouvir) ou recitação (a leitura de um texto em alto e claro som) de caráter obsceno.
Dessa forma, o delito se consuma com a prática de qualquer um desses comportamentos que exponha objeto obsceno a público, e a tentativa é admissível. Qualquer pessoa poderá ser sujeito ativo do delito, que admite como sujeito passivo a coletividade.
É ISSO AÍ!
Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
· entender sobre as noções gerais aplicáveis aos crimes contra o sentimento religioso e contra o respeito aos mortos;
· estudar os delitos contra a dignidade sexual, notadamente os delitos que atentam contra a liberdade sexual;
· aprimorar seus conhecimentos sobre os delitos sexuais praticados contra incapazes e vulneráveis;
· conhecer os delitos de lenocínio e do tráfico de pessoas, para fim de prostituição ou outra forma de exploração sexual; 
· dominar as condutas que caracterizam os delitos de ultraje público ao pudor.

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