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Tanatologia forense Estuda a morte e as consequências jurídicas a ela inerentes. Dois conceitos distintos de morte: a cerebral, teoricamente indicada pela cessação da atividade elétrica do cérebro, tanto na cortiça quanto nas estruturas mais profundas, pela persistência de um traçado isoelétrico, plano ou nulo, e a circulatória, por parada cardíaca irreversível à massagem do coração e às demais técnicas usualmente utilizadas nessa eventualidade. Causa jurídica da morte Entende-se por causa jurídica da morte toda e qualquer causa violenta — homicídio e suicídio — ou acidental capaz de determinar a morte, revestindo-se a sua elucidação de fundamental importância, pois as consequências legais variam conforme seja a hipótese figurada. Modalidades de morte a) Morte anatômica — É o cessamento total e permanente de todas as grandes funções do organismo entre si e com o meio ambiente. b) Morte histológica — Não sendo a morte um momento, compreende-se ser a morte histológica um processo decorrente da anterior, em que os tecidos e as células dos órgãos e sistemas morrem paulatinamente. Modalidades de morte c) Morte aparente — O indivíduo assemelha-se incrivelmente ao morto, mas está vivo, por débil persistência da circulação. O estado de morte aparente poderá durar horas, notadamente nos casos de morte súbita por asfixia-submersão e nos recém-natos com índice de Apgar baixo (avaliação por um pediatra de 5 sinais objetivos do recém-nascido, atribuindo-se a cada um dos sinais uma pontuação de 0 a 2). É possível a recuperação de indivíduo em estado de morte aparente pelo emprego de socorro médico imediato e adequado. Modalidades de morte d) Morte relativa — O indivíduo jaz como morto, vitimado por parada cardíaca diagnosticada pela ausência de pulso em artéria calibrosa, como a carótida comum, a femoral, associada à perda de consciência, cianose, ou palidez marmórea. Entende-se por parada cardíaca o cessamento súbito e inesperado da atividade mecânica do coração sob forma de fibrilação ventricular, taquicardia ventricular sem pulso periférico palpável, dissociação eletromecânica em ritmo orgânico, útil e suficiente, em indivíduos que não portam moléstia incurável, debilitante, irreversível e crônica, pois que nesses enfermos a parada cardíaca nada mais é do que a consequência natural do evolver (evoluir) maligno da doença de base. Ocorre estatisticamente em 1/5.000 casos de anestesias cirúrgicas. O ofendido, submetido em tempo hábil à massagem cardíaca, poderá retornar à vida. Modalidades de morte e) Morte intermédia — É admitida apenas por alguns autores. A morte intermédia é explicada, pelos que a admitem, como a que precede a absoluta e sucede a relativa, como verdadeiro estágio inicial da morte definitiva. Diversos autores têm relatado em seus livros centenas de casos de indivíduos que, em inúmeras circunstâncias (atos cirúrgicos, afogamentos frustrados etc.), perceberam-se como que saídos de seus corpos, flutuando no espaço, presos por um “fio prateado” à cicatriz umbilical, sentindo-se como se mortos estivessem. Socorridos adequadamente, em tempo hábil, retornaram à consciência física, contando avidamente as experiências vividas. Modalidades de morte f) Morte real — É o ato de cessar a personalidade e fisicamente a humana conexão orgânica, por inibição da força de coesão intermolecular, e o de formar-se paulatinamente a decomposição do cadáver até o limite natural dos componentes minerais do corpo (água, anidrido carbônico, sais etc.), que, destarte, passam a integrar outras formas de organizações celulares complexas em eterna renovação. Morte suspeita é aquela que ocorre em pessoas de aparente boa saúde, de forma inesperada, sem causa evidente, ou com sinais de violência indefinidos ou definidos — in exemplis, simulação de suicídio objetivando ocultar homicídio —, passível de gerar desconfiança sobre sua etiologia (origem). Morte súbita é “a morte que se produz apenas instantaneamente, pelo menos, muito rapidamente no decorrer de boa saúde aparente”. É aquela que ocorre de forma imprevista, em segundos ou, no máximo, alguns minutos, precedida ou não de fugacíssima (rápida) agonia, e motivada por afecções cardiovasculares, lesões encefálicas e meningeias, tumores cerebrais, acidente vascular encefálico, infarto do miocárdio, fibrilação ventricular, edema agudo dos pulmões, insuficiência cardíaca congestiva, ruptura de vísceras ocas e/ou maciças, ruptura de aneurisma, asfixias mecânicas, edema de glote, choque hemorrágico, anafilático, obstétrico, doenças tromboembólicas, acidentes anestésicos e/ou cirúrgicos, crise epiléptica apneica, febre tifoide, meningites, tétano, difteria, ação da eletricidade cósmica ou industrial. Influenciam, ainda, a idade, o sexo, a profissão, a fadiga, o esforço, a embriaguez, o coito, a emoção. Tanatognose É a parte da Tanatologia Forense que estuda o diagnóstico da realidade da morte. Esse diagnóstico será tanto mais difícil quanto mais próximo o momento da morte. Antes do surgimento dos fenômenos transformativos do cadáver, não existe sinal patognomônico (sintomas próprios de cada doença) de morte. Cronotanatognose É a parte da Tanatologia que estuda a data aproximada da morte. Com efeito, os fenômenos cadavéricos, não obedecendo ao rigorismo em sua marcha evolutiva, que difere conforme os diferentes corpos e com a causa mortis e influência de fatores extrínsecos, como as condições do terreno e da temperatura e umidade ambiental, possibilitam estabelecer o diagnóstico da data da morte tão exatamente quanto possível, porém não com certeza absoluta. O seu estudo importa no que diz respeito à responsabilidade criminal e aos processos civis ligados à sobrevivência e de interesse sucessório. Fenômenos transformativos Compreendem os destrutivos (autólise, putrefação e maceração) e os conservadores (mumificação e saponificação). Resultam de alterações somáticas tardias tão intensas que a vida se torna absolutamente impossível. São, portanto, sinais de certeza da realidade de morte. Destrutivos Autólise Após a morte cessam com a circulação as trocas nutritivas intracelulares, determinando lise (degradação) dos tecidos seguida de acidificação, por aumento da concentração iônica de hidrogênio e consequente diminuição do pH. A vida só é possível em meio neutro; assim, por diminuta que seja a acidez, será a vida impossível, iniciando-se os fenômenos intra e extracelulares de decomposição. Os tecidos se desintegram porque as membranas celulares se rompem e flocula (coagula) o protoplasma (substância primordial do organismo vivo), devido às desordens bioquímicas resultantes da anóxia (falta ou diminuição acentuada de oxigenação do sangue, dos tecidos ou das células) e da baixa do pH intra e extracelular. Putrefação A putrefação, forma de transformação cadavérica destrutiva, se inicia, após a autólise, pela ação de micróbios aeróbios, anaeróbios e facultativos em geral sobre o ceco, porção inicial do intestino grosso onde mais se acumulam os gases e que, por guardar relação de contiguidade com a parede abdominal da fossa ilíaca direita, determina por primeiro, nessa região, o aparecimento da mancha verde abdominal, a qual, posteriormente, se difunde por todo o tronco, cabeça e membros, a tonalidade verde-enegrecida conferindo ao morto aspecto bastante escuro. Os fetos e os recém-nascidos constituem exceção; neles a putrefação invade o cadáver por todas as cavidades naturais do corpo, especialmente pelas vias respiratórias. Nos afogados, a coloração verde dos tegumentos aparece primeiramente na metade superior e anterior do tórax e, depois, na cabeça, pela posição declive assumida pelo corpo dentro d’água. Destrutivos Calendário Tanatológico Fauna cadavérica O seu estudo em relação ao cadáver exposto ao ar livre tem relativo valor conclusivo na determinação da cronotanatognose, embora os obreiros ou legionários(micróbios) da morte surjam, com certa sequência e regularidade, nas diferentes fases putrefativas adiantadas do cadáver, com as turmas precedentes preparando terreno para as legiões sucessoras, representadas por um grupo de oito. São elas: 1.ª Legião: aparece entre o 8.º e o 15.º dia, dando início à destruição cadavérica até a for-mação dos ácidos graxos. 2.ª Legião: surge com o odor cadavérico e permanece, conforme a temperatura do meio ambiente, cerca de 15 a 20 dias. 3.ª Legião: aparece 3 a 6 meses após a morte, com a fermentação ácida das substâncias graxas do corpo, desenvolvendo-se num período de 20 a 30 dias, ávida de destruição. 4.ª Legião: encontrada 10 meses após o óbito, surge depois da fermentação butírica das matérias graxas e caseica dos albuminoides. 5.ª Legião: é encontrada nos cadáveres dos que morreram há mais de 10 meses, na fase de fermentação amoniacal de liquefação enegrecida das matérias orgânicas que não foram consumidas pelas legiões anteriores. 6.ª Legião: desseca todos os humores (resíduos líquidos) que ainda restam no cadáver. 7.ª Legião: aparece entre 1 e 2 anos e destrói os ligamentos e tendões, deixando os ossos livres. 8.ª Legião: consome, cerca de 3 anos após a morte, todos os resquícios orgânicos porventura deixados pelas precedentes. Destrutivos Maceração É também fenômeno de transformação destrutiva que afeta os submersos em meio líquido contaminado (maceração [mortificação] séptica [causada por mi-cróbios ou suas toxinas]) e o concepto (concebido/feto) morto a partir do 5.º mês de gestação e retido intrauterinamente (maceração asséptica [ausência de micróbio]). Conservadores Mumificação É a dessecação, natural ou artificial, do cadáver. Há de ser rápida e acentuada a desidratação. A mumificação natural ocorre no cadáver insepulto (não enterrado), em regiões de clima quente e seco e de arejamento intensivo suficiente para impedir a ação microbiana (provocadora dos fenômenos putrefativos). Assim é que têm sido encontradas múmias naturais, sem caixão, simplesmente na areia ou sobre a terra, ou em catacumbas ou cavernas, sem vestígios de tratamento e tão bem conservadas quanto as embalsamadas artificialmente, graças a condições favoráveis. Saponificação É um processo transformativo de conservação que aparece sempre após um estágio regularmente avançado de putrefação, em que o cadáver adquire consistência untuosa (gordurosa), mole, como o sabão ou a cera (adipocera), às vezes quebradiça, e tonalidade amarelo-escura, exalando odor de queijo rançoso. A saponificação atinge comumente segmentos limitados do cadáver; pode, entretanto, raramente, comprometê-lo em sua totalidade. Tal processo, embora factível de individualidade, habitualmente se manifesta em cadáveres inumados (enterrados) coletivamente em valas comuns de grandes dimensões. Conservadores Lei dos Transplantes (Lei 9.434/97) “Art. 4º A retirada de tecidos, órgãos e partes do corpo de pessoas falecidas para transplantes ou outra finalidade terapêutica, dependerá da autorização do cônjuge ou parente, maior de idade, obedecida a linha sucessória, reta ou colateral, até o segundo grau inclusive, firmada em documento subscrito por duas testemunhas presentes à verificação da morte.” As manifestações de vontade relativas à retirada "post mortem" de tecidos, órgãos e partes, constantes da Carteira de Identidade Civil e da Carteira Nacional de Habilitação, perdem sua validade a partir de 22 de dezembro de 2000. (Lei 10.211/2001 que alterou a Lei 9.434/1997) Direitos sobre o cadáver Necropsias Clínicas (exame médico de um cadáver): a obrigatoriedade da necropsia nos casos de morte violenta está disciplinada no art. 162, CPP. Art. 162. A autópsia será feita pelo menos seis horas depois do óbito, salvo se os peritos, pela evidência dos sinais de morte, julgarem que possa ser feita antes daquele prazo, o que declararão no auto. Parágrafo único. Nos casos de morte violenta, bastará o simples exame externo do cadáver, quando não houver infração penal que apurar, ou quando as lesões externas permitirem precisar a causa da morte e não houver necessidade de exame interno para a verificação de alguma circunstância relevante. (o termo Autópsia também é muito utilizado e significa fazer uma observação [opsia] pessoal [auto] de um cadáver) A morte natural só está obrigada à necropsia no âmbito dos Serviços de Verificação de Óbito, nos casos de falecimento sem assistência médica. A importância da necropsia clínica reside no fato de se poder formular diagnóstico seguro e definitivo do óbito, obter informações epidemiológicas, estudar os processos secundários e associados da enfermidade, explicar algumas observações clínicas duvidosas, avaliar o tratamento clínico ou cirúrgico efetuado e contribuir no processo pedagógico (estudos da medicina) Direitos sobre o cadáver Direitos sobre o cadáver Lei 8.501/1992 Art. 2° O cadáver não reclamado junto às autoridades públicas, no prazo de trinta dias, poderá ser destinado às escolas de medicina, para fins de ensino e de pesquisa de caráter científico. Art. 3° Será destinado para estudo, na forma do artigo anterior, o cadáver: I -- sem qualquer documentação; II -- identificado, sobre o qual inexistem informações relativas a endereços de parentes ou responsáveis legais. § 1° Na hipótese do inciso II deste artigo, a autoridade competente fará publicar, nos principais jornais da cidade, a título de utilidade pública, pelo menos dez dias, a notícia do falecimento. § 2° Se a morte resultar de causa não natural, o corpo será, obrigatoriamente, submetido à necropsia no órgão competente. § 3° É defeso (proibido) encaminhar o cadáver para fins de estudo, quando houver indício de que a morte tenha resultado de ação criminosa. § 4° Para fins de reconhecimento, a autoridade ou instituição responsável manterá, sobre o falecido: a) os dados relativos às características gerais; b) a identificação; c) as fotos do corpo; d) a ficha datiloscópica; e) o resultado da necropsia, se efetuada; e f) outros dados e documentos julgados pertinentes. Art. 4° Cumpridas as exigências estabelecidas nos artigos anteriores, o cadáver poderá ser liberado para fins de estudo. Art. 5° A qualquer tempo, os familiares ou representantes legais terão acesso aos elementos de que trata o § 4° do art. 3° desta Lei. Direitos sobre o cadáver