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História da Educação Especial no Brasil SST Costa, Luciene História da Educação Especial no Brasil / Luciene Costa Ano: 2021 nº de p.: 12 Copyright © 2021. Delinea Tecnologia Educacional. Todos os direitos reservados. História da Educação Especial no Brasil 3 Apresentação Esta unidade apresentará os aspectos históricos da educação inclusiva, desde uma perspectiva global até chegar ao Brasil. Serão estudados também conceitos e perspectivas, e a evolução histórica ao chegar no Brasil. Você também poderá entender melhor os conceitos, que vão além da deficiência: ela é somente o início de todos os problemas e também de soluções no sistema educacional. Bons estudos! 4 1. Perspectivas históricas A visão sobre a deficiência foi se transformando e ganhando sentidos diferentes de acordo com o contexto social e histórico. Na Antiguidade Clássica, por exemplo, as pessoas que nasciam com deficiência tinham sua humanidade questionada. Em Roma, na era Cristã, leis previam a asfixia ou o afogamento dos bebês que nasciam com algum tipo de “anormalidade” física. Em caso de deficiência mental, eram utilizados como bobos ou palhaços para divertir os senhores, hóspedes e, até mesmo, o público em circos. Na Idade Média, a população europeia crescia sem a infraestrutura e os recursos adequados, fazendo com que as epidemias de hanseníase, peste bubônica, influenza e difteria fossem constantes e as sequelas, terríveis. Devido à crença da época, doenças graves e deficiências eram consideradas resultado de castigos divinos, levando as pessoas a recorrerem à benzedura e ritos de exorcismo. Portanto, a pessoa com deficiência podia ser considerada demoníaca. Assista ao vídeo produzido pelo Ministério da Educação: “Visão histórica da Deficiência” e tenha uma visão histórica das deficiências. Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=dGaaVtYeklU. Saiba mais Entretanto, a grande influência do Cristianismo fez com que se considerassem as pessoas com deficiência como criaturas de Deus, não permitindo mais sua eliminação. Porém, muitas vezes eram deixadas por conta própria e acabavam dependendo de caridade para sobreviver (OLIVEIRA, 2010). Com a instauração da Inquisição Católica, no século XII, a Igreja passou a perseguir quem desrespeitasse qualquer uma das doutrinas estabelecidas nos documentos papais e condenar à tortura ou à fogueira. Pessoas consideradas adivinhas, bruxas, loucas e com deficiência mental, eram acusadas de estarem possuídas pelo demônio. Somente no século XVIII, a partir da ciência moderna, surgem novas ideias e concepções sobre a deficiência, mediante avanços no conhecimento do corpo humano e da natureza da deficiência. https://www.youtube.com/watch?v=dGaaVtYeklU 5 No entanto, o conhecimento produzido pela ciência ainda não tinha chegado à população. Assim, a ideia de deficiência como incapacidade e invalidez permaneceu e a sociedade não avançou no atendimento de necessidades específicas. Depois do século XVIII, a sociedade começou a demonstrar organização na cobrança de ações e medidas, exigindo a melhoria dos serviços de atendimento para pessoas com deficiência. Os primeiros movimentos nesse aspecto começaram na Europa, depois, nos Estados Unidos, Canadá e outras localidades. 2 Evolução da Educação Especial Desde a Antiguidade, a deficiência era vista como uma incapacidade, mas ao longo do tempo os conceitos foram se modificando. Um termo que já foi utilizado e posto em desuso é “portador de deficiência”, mas é o que ainda está na Constituição Federal (1988. O conceito de deficiência, embora signifique o oposto de eficiência, ou seja, limitação ou ineficiência em relação ao ambiente, não precisa ser interpretado de maneira pejorativa. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996) utiliza o conceito de “pessoa com necessidades especiais” (BRASIL, 1996). A partir do século XVIII, surge a preocupação da sociedade médica em sistematizar uma classificação de doenças. Foram feitas revisões em 1948, 1976 e em 1989 a classificação de deficiência passou a ser: [...] perda ou anormalidade de estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica, temporária ou permanente. Representa a exteriorização de um estado patológico, refletindo um distúrbio orgânico, uma perturbação no órgão. (AMIRALIAN et. al. 2000 apud CAMARGO, 2005, [s.p.]). Nos anos de 1960, um conjunto de reivindicações de movimentos sociais específicos ganharam espaço no Brasil e no mundo, com destaque para as questões das mulheres e dos negros, especialmente na América Latina, América do Norte, África e Europa. Nesse mesmo contexto, com o aumento da politização da população com deficiência, esse segmento também passou a exercer pressão para conquistar novas políticas. Esse movimento ficou conhecido como Disability Rights Movement. Outros movimentos pela luta de direitos de pessoas com necessidades específicas se espalharam por diversos países. 6 A Educação Inclusiva e a sua importância Fonte: Plataforma Deduca (2021). #PraCegoVer: A fotografia mostra 3 alunas sentadas em cartei- ras escolares fazendo atividades com caneta e papel. Esses estudos críticos lançaram uma série de questionamentos sobre o tipo de linguagem utilizada na Classificação Internacional de Lesão, Deficiência e Desvantagem (ICIDH), feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1980. Nessa nova concepção, a maneira como a deficiência é descrita tem mais relação com os direitos humanos do que com a medicina. Em 2001, foi divulgada uma revisão intitulada Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). O conceito de doença também já foi associado à deficiência. Doença era compreendida como uma forma de reduzir o corpo humano, enfatizando os aspectos morfológicos e funcionais, ou seja, à anatomia e à fisiologia. Essa forma de ver a doença desconsidera que o corpo deva ser analisado de maneira conectada do conjunto de relações. 7 Educação inclusiva: envolvimento ativo e igualitário Fonte: Plataforma Deduca (2021). #PraCegoVer: A fotografia mostra um ambiente próximo a sala de convivência de uma biblioteca e 2 meninos, um cadeirante e outro colega empurrando a cadeira. As discussões atuais sobre essas questões e as tentativas de práticas para implementar as inclusões são importantes para continuar contribuindo para melhorias futuras e para o aumento da diversidade dentro e fora das escolas. 3. História da Educação Especial no Brasil O interesse pelo atendimento às pessoas com deficiência no Brasil começou no século XIX, a partir das experiências europeias e norte-americanas. Tivemos a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, fundado em 1854 por D. Pedro II, que, foi alterado para Instituto Benjamin Constant. Já o Imperial Instituto dos Surdos-Mudos, criado em 1857, passou a ser Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines). 8 Sabe-se atualmente que a expressão “surdo-mudo” não está correta. Antigamente, acreditava-se que quem fosse surdo também seria mudo; porém, mudo é aquele indivíduo que não consegue fazer uso do seu aparelho fonador, responsável pela produção dos sons da fala. Uma pessoa surda que desenvolve o aparelho fonador pode produzir sons e até falar. Curiosidade No período republicano, o Brasil recebeu profissionais egressos da Europa, que trouxeram novas ideias para o campo do atendimento às pessoas com deficiência. A partir de 1906, Rio de Janeiro e depois São Paulo apresentaram iniciativas para o atendimento de pessoas com deficiência mental e física na educação. Da invisibilidade à convivência na sociedade, houve uma longa trajetória representada pelas medidas caritativas e o assistencialismo, correspondentes a ações imediatistas e desarticuladas, que mantiveram as pessoas com deficiência isoladas nos espaços da família ou em instituições de confinamento. [...] Na atualidade aplica-se o paradigma dos direitos humanos para garantir a dignidade da pessoa com deficiência, o combateà violação de seus direitos, sua autonomia e acesso a todas as prerrogativas sociais (MAIOR, [s.d.], p. 1). Em 1931 e 1932, tivemos as primeiras experiências para atendimento especializado à deficiência física, em São Paulo, com a abertura de uma classe especial na Escola Mista do Pavilhão Fernandinho, na Santa Casa de Misericórdia. Nos anos de 1948, 1950 e 1969, outras classes também foram criadas. Outros marcos são: a primeira Sociedade Pestalozzi no Brasil, em 1932, fundação do Instituto Pestalozzi, em 1935, ambas em Belo Horizonte (MG); chegando posteriormente a São Paulo e ao Rio de Janeiro. A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), fundada em 1954, iniciou no Rio de Janeiro e se espalhou para várias cidades do país, sendo mantida até hoje. As escolas especiais tiveram grande importância no processo de educação inclusiva, pois permitiram os primeiros avanços na escolarização de pessoas com necessidades educacionais especiais, porém, são acusadas de excluírem as pessoas com deficiência das escolas regulares, de causarem a segregação. No entanto, é significativo construir um sistema de educação inclusivo de forma 9 gradativa até porque foram séculos de história de eliminação até chegarmos à constituição da concepção da deficiência como diferença e não defeito. A primordial participação de todos Fonte: Plataforma Deduca (2021). #PraCegoVer: A ilustração mostra uma sala de aula com mó- veis e atividades adaptadas para estudantes com necessidades especiais. Estão na sala 3 professores e 4 alunos. Não podemos nos esquecer do primeiro período da Educação Especial, já descrito no início desta unidade. O segundo período só terá início na segunda metade do século XX. A educação especial tem sido vista como a educação para incluir pessoas com deficiência, bem como alunos com superdotação ou altas habilidades nas escolas regulares. A deficiência intelectual, especificamente, pode apresentar características de algumas doenças, exigindo alguns cuidados clínicos e terapêuticos e, nessa situação, o sistema de ensino deve oferecer o tratamento adequado. Para Diniz (2012) qualquer atitude que gera a exclusão, seja por separação no espaço físico, seja nas comparações, pode causar um grande impacto nos envolvidos. O século XX foi o momento em que ocorreu a transição do atendimento da deficiência pelas instituições educacionais e não somente pelos órgãos da saúde. No entanto, acabou sem que houvesse a promoção da integração, pois, muitas vezes, a oferta de serviços especializados mantém os alunos com deficiência afastados do ensino regular e permanecendo por um tempo excessivamente prolongado na instituição específica. 10 A educação inclusiva surge de um movimento internacional, com grande expressão, após a Segunda Guerra Mundial. Na Europa e nos Estados Unidos, devido aos feridos da guerra que se tornaram deficientes, essa questão passou a ser bastante significativa a fim de reintegrar tais pessoas. Segundo Mantoan (2003), estamos “ressignificando” o papel da escola com professores, pais e comunidades interessadas; e instalando, no seu cotidiano, formas mais solidárias e plurais de convivência. Com esse movimento, a partir da década de 1980, as propostas de práticas inclusivas passaram a ser desenvolvidas. Para Lourenço (2010), no âmbito educacional, foram criados projetos para que as escolas fossem reestruturadas tanto no seu espaço físico quanto no processo de pensar em formas de promover a aprendizagem das pessoas com deficiência intelectual nas classes regulares. É importante que o ambiente escolar seja humanizado, no sentido de ser acolhedor e integrado, no qual as pessoas possam ser vistas como seres únicos com seus limites e acolhidas. Dessa forma, temos a construção coletiva de aprendizagem, além do reconhecimento e do empoderamento de cada talento apresentado, potencializando essa abundância de recursos literalmente humanos. Educação especial e educação inclusiva: representações Fonte: elaborada pelas autoras (2018). #PraCegoVer: A figura mostra círculos com outros círculos, ora internos ora externos, para ilustrar o que é exclusão, inclusão, integração e separação. 11 Entender as diferenças entre inclusão e integração é de suma importância para o bom andamento do desenvolvimento escolar, porque incluir não é só atender às cotas de deficientes e tentar fazer com que o indivíduo aprenda de maneira comum e imposta. Para que haja aprendizado efetivo, é preciso integrar todos os envolvidos, ou seja, fazer com que haja equidade nas relações. Fechamento Esta unidade apresentou aspectos sobre o histórico da Educação Inclusiva e seu desenvolvimento e implementação no Brasil. Pôde-se ver alguns paradigmas e dificuldades que ainda tem de ser enfrentados para a garantia efetiva e integrada de todos os seus processos e, principalmente, do desenvolvimento da aprendizagem de todos os envolvidos. O movimento em favor da integração surgiu na década de 70, com o conceito de normalização. A educação inclusiva foi inicialmente criada para ser um processo paralelo ao sistema educacional e, graças a movimentos morais, científicos, políticos, econômicos e legais, surgiram as orientações para a construção das propostas de unificação. 12 Referências BRASIL. Lei nº 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Senado Federal, 1996. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 12 ago. 2021. ______. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Supremo Tribunal Federal, Secretaria de Documentação, 2017. Disponível em: http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/legislacaoConstituicao/anexo/CF.pdf Acesso em: 12 jul. 2018. CAMARGO, E. P. de C. O ensino de Física no contexto da deficiência visual: elaboração e condução do ensino de Física para alunos cegos e com baixa visão. 2005. Tese. (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação da Unicamp, Campinas, 2005. DINIZ, M. Inclusão de pessoas com deficiência e/ou necessidades específicas: avanços e desafios. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012. LOURENÇO, É. Conceitos e práticas para refletir sobre a educação inclusiva. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2010. MAIOR, I. História, conceito e tipos de deficiência. [s.d.] Disponível em: http:// violenciaedeficiencia.sedpcd.sp.gov.br/pdf/textosApoio/Texto1.pdf. Acesso em: 21 ago. 2021. MANTOAN, M. T. E. Inclusão Escolar o que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Summus Editorial, 2003. OLIVEIRA, L. C. de. Visibilidade e Participação Política: um estudo no Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência em Niterói. 2010. Dissertação. (Mestrado em Serviço Social) – Departamento de Serviço Social do Centro de Ciências Sociais da PUC – Rio, Rio de Janeiro, 2010.