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ENSINO DE BIOLOGIA NO COTIDIANO ENSINO DA BIOLOGIA E O COTIDIANO Faculdade de Minas 2 Sumário A ORIGEM DA CIÊNCIA E DA BIOLOGIA ....................................................... 4 REFLEXÕES SOBRE O CONHECIMENTO ................................................... 6 O CONHECIMENTO SEGUNDO PIAGET ...................................................... 9 A CONCEPÇÃO FREIREANA DE CONHECIMENTO .................................. 13 ABORDAGEM - CONCEPÇÃO DE CONHECIMENTO ............................. 16 GÊNESE DO CONHECIMENTO BIOLÓGICO .............................................. 18 A BIOLOGIA COMO IDEOLOGIA ................................................................. 21 A IMPORTÂNCIA DO ENSINO DA BIOLOGIA NO COTIDIANO .................. 24 A IMPORTÂNCIA DAS AULAS PRÁTICAS NO ENSINO DA BIOLOGIA ..... 28 METODOLOGIAS ALTERNATIVAS EM CIÊNCIAS ...................................... 30 CIÊNCIA TECNOLOGIA E SOCIEDADE NO ENSINO DE BIOLOGIA: UMA APLICAÇÃO POR MEIO DA ABORDAGEM DO COTIDIANO ................................ 38 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS .............................................................. 41 Faculdade de Minas 3 FACUMINAS A história do Instituto Facuminas, inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender a crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação.Com isso foi criado a Facuminas, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A Facuminas tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética.Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. Faculdade de Minas 4 A ORIGEM DA CIÊNCIA E DA BIOLOGIA Fonte:https://www.elconfidencial.com/alma-corazon-vida/2019-10-07/test-preguntas-biologia-cuanto- sabes_2233631/ O início do estudo da biologia se deu a partir da primeira classificação dos animais feitos pelo grego Aristóteles, que conseguiu catalogar cerca de 500 espécies em estilo moderno. No século XIV, em 1316, o professor da escola de medicina de Bolonha, o italiano Mondino de Luzzi, publicou o primeiro livro conhecido como a anatomia humana. Cerca de três séculos após a publicação, surgiu à teoria da Evolução, elaborada pelos biólogos ingleses: Charles Robert Darwin e Alfred Russel Wallace. Segundo eles, os organismos das plantas e dos animais estão sempre em processo de mudança. Mas, uma das maiores descobertas foi feita somente no século XX, em 1944, quando o bacteriologista norte-americano Oswald Theodore Avery, descobriu que o DNA (ácido desoxirribonucléico) era a matéria-prima da qual são feitos os genes, ou seja, é a partir desta molécula que fica escrito o código genético. A partir de então, os cientistas (biólogos) conseguiram desvendar alguns enigmas a respeito da ciência (SCHNETZLER, 2000). A biologia é o estudo dos seres vivos (do grego βιος - bios = vida e λογος - logos = estudo). Debruça-se sobre as características e o comportamento dos organismos, a origem de espécies e indivíduos, e a forma como estes interagem uns com os outros e com o seu ambiente. A biologia abrange um espectro amplo de áreas https://www.elconfidencial.com/alma-corazon-vida/2019-10-07/test-preguntas-biologia-cuanto-sabes_2233631/ https://www.elconfidencial.com/alma-corazon-vida/2019-10-07/test-preguntas-biologia-cuanto-sabes_2233631/ Faculdade de Minas 5 acadêmicas freqüentemente consideradas disciplinas independentes, mas que, no seu conjunto, estudam a vida nas mais variadas escalas. A vida é estudada à escala atômica e molecular pela biologia molecular, pela bioquímica e pela genética molecular, ao nível da célula pela biologia celular e à escala multicelular pela fisiologia, pela anatomia e pela histologia (SCHNETZLER, 2000). A biologia do desenvolvimento estuda a vida ao nível do desenvolvimento ou ontogenia do organismo individual. Subindo na escala para grupos de mais que um organismo, a genética estuda como funciona a hereditariedade entre progenitores e a sua descendência. A etologia estuda o comportamento dos indivíduos. A genética populacional trabalha ao nível da população, enquanto que a sistemática trabalha com linhagens de muitas espécies. As ligações de indivíduos, populações e espécies entre si e com os seus habitats são estudadas pela ecologia e pela biologia evolutiva. Uma nova área, altamente especulativa, a astrobiologia (ou xenobiologia) estuda a possibilidade de vida para lá do nosso planeta. A biologia clínica constitui a área especializada da biologia profissional, para Diagnose em saúde e qualidade de vida, dos processos orgânicos eticamente consagrados (SCHNETZLER, 2000). A biologia nem sempre foi objeto de ensino nas escolas. O espaço conquistado por essa ciência no ensino formal (e informal) seria, segundo ROSA (2005), conseqüência do status que adquiriram principalmente no último século, em função dos avanços e importantes invenções proporcionadas pelo seu desenvolvimento, provocando mudanças de mentalidades e práticas sociais. Segundo CANAVARRO (1999 apud ROSA, 2005) a inserção do ensino de ciências na escola deu-se no início do século XIX quando então o sistema educacional centrava-se principalmente no estudo das línguas clássicas e da matemática, de modo semelhante aos métodos escolásticos da idade média. De acordo com LAYTON (1973 apud ROSA 2005) já naquela época as diferentes visões de ciência dividiam opiniões. Havia os que defendiam uma ciência que ajudasse na resolução de problemas práticos do dia a dia. Faculdade de Minas 6 Outros enfocavam a ciência acadêmica, defendendo a idéia de que o ensino de ciências ajudaria no recrutamento dos futuros cientistas. A segunda visão acabou prevalecendo e embora essa tensão original ainda tenha reflexos no ensino de ciências atual, este permaneceu bastante formal, ainda baseado no ensino de definições, deduções, equações e em experimentos cujos resultados são previamente conhecidos. A revolução industrial deu novo poder aos cientistas institucionalizando socialmente a tecnologia. Este reconhecimento da ciência e da tecnologia como fundamentais na economia das sociedades levou à sua admissão no ensino com a criação de unidades escolares autônomas em áreas como a Física, a Química e a Geologia e com a profissionalização de indivíduos para ensinar estas áreas. Já o estudo da biologia foi introduzido mais tarde devido à sua complexidade e incerteza (ROSA, 2005). SANTOS & GRECA (2006) lembram que preocupação com o processo ensino e aprendizagem nas Ciências Naturais, como um campo específico de pesquisa e desenvolvimento, já completo praticamente meio século, se considerarmos como marco inicial a criação dos grandes projetos americanos e ingleses para a didática da ciência na Educação Básica. Pode-se dizer que nas primeiras décadas desse período, mais especificamente nas décadas de 60 e 70 do século passado, havia uma preocupação maior com a estruturação do conhecimento científico tal como ele se constituiu no âmbito dos campos científicos da Física, Química, Biologia e Geologia. REFLEXÕES SOBRE O CONHECIMENTOFonte:http://www.teliga.net/2007/10/reflexes-sobre-o-conhecimento-cientfico.html http://www.teliga.net/2007/10/reflexes-sobre-o-conhecimento-cientfico.html Faculdade de Minas 7 As origens da reflexão sobre conhecimento “De que maneira o homem pré-histórico conhecia os demais seres vivos?” Muito do que sabemos desse período nos é revelado pela arte rupreste, que nos dá conta dos hábitos, das lutas por alimento e por sobrevivência, da autodefesa, das crenças. Para conhecer, o homem passa a tomar consciência de sua identidade: se há um outro, há um eu. Ao se tornar um ser social, civilizado, o homem rompe com o animal, torna-se, em oposição a este, um inadaptado e toda a sua luta se dá no sentido de aperfeiçoamento, cada vez mais ele se distância do ambiente natural e procura se aproximar daquilo que estabelece como sendo o padrão humano em oposição ao selvagem. As teorias evolucionistas que têm tratado das relações entre os homens e os demais organismos vivos partem, exatamente, de pares opostos: natural X artificial, doméstico X selvagem, cultura X natureza. Assim, a sociedade tem como missão conduzir o homem ao conhecimento, e sociedade e conhecimento, juntos, têm como missão aperfeiçoar o homem. Tanto já se refletiu e já se escreveu sobre o conhecimento, que podemos até afirmar que não há grande pensador que não tenha o seu próprio conceito de conhecimento. Portanto, é impossível reunir num texto apenas as várias elaborações que desde tempos imemoriais foram construídas para pensar a concepção do que é conhecer, o que é conhecimento. Se isso, por um lado, cria uma impossibilidade de síntese, por outro nos mostra a importância do assunto. Desde os tempos mais remotos, pensadores buscam definir o que é conhecimento. Platão, filósofo grego, nascido por volta de 427 a.C. em uma família aristocrática de Atenas, foi um dos pioneiros na reflexão sobre o que é conhecimento. Vejamos, em linhas gerais, o pensamento de Platão acerca de conhecimento: Como seu mestre Sócrates, Platão busca descobrir as verdades essenciais das coisas. As Faculdade de Minas 8 coisas devem ter outro fundamento, além do físico, e a forma de buscar estas realidades vem do conhecimento, não das coisas, mas do além das coisas. Essa busca racional é contemplativa. Isto significa buscar a verdade no interior do próprio homem, não meramente como sujeito particular, mas como participante das verdades essenciais do ser. O conhecimento era o conhecimento do próprio homem, mas sempre ressaltando o homem não enquanto corpo, mas enquanto alma. O conhecimento contido na alma era a essência daquilo que existia no mundo sensível. Portanto, em Platão, também a técnica e o mundo sensível eram secundários. A alma humana, enquanto perfeita, participa do mundo perfeito das idéias, porém esse formalismo só é reconhecível na experiência sensível. Também o conhecimento tinha fins morais, isto é, levar o homem à bondade e à felicidade. Assim a forma de conhecimento era um reconhecimento, que faria o homem dar-se conta das verdades que sempre possuíra e que o levavam a discernir melhor dentre as aparências de verdades e as verdades. A obtenção do autoconhecimento era um caminho árduo e metódico. Quanto ao mundo material, o homem poderia ter somente a doxa (opinião) e téchne (técnica), que permitia a sua sobrevivência, ao passo que, no mundo das ideias, o homem pode ter a é pisthéme, o conhecimento verdadeiro, o conhecimento filosófico, Platão não defendia que todas as pessoas tivessem igual acesso à razão. Apesar de todos terem a alma perfeita, nem todos chegavam à contemplação absoluta do mundo das ideias. Para Platão, ao vermos um objeto, repetidas vezes, lembramo-nos, aos poucos, da Ideia daquele objeto, que vimos no mundo das Ideias. Platão recorre a um mito (ou uma metáfora) para explicar tal fenômeno: antes de nascer, a alma de cada pessoa vivia em uma Estrela, onde se localizam as Ideias. Quando uma pessoa nasce, sua alma é "jogada" para a Terra, e o impacto que ocorre faz com que esqueça o que viu na Estrela. Mas ao ver um objeto aparecer de diferentes formas (como as diferentes árvores que se pode ver), a alma recorda-se Faculdade de Minas 9 da Ideia daquele objeto que foi vista na Estrela. Para Platão, a raiz do conhecimento é a recordação, ou anamnese. Recordamos aquilo que desde sempre está na nossa alma, que contemplamos no mundo das ideias, onde pré existia a alma. A partir do momento em que se fizer uma explicação racional de uma opinião, se dará chances para torná-la verdadeira, fato que seria impossível. A razão somente é capaz de se referir às essências e não aos corpos. Ao que se pode dizer que a opinião baseada nas sensações jamais poderá alcançar. As sensações são apegadas aos corpos, ao passo que a razão se desliga do material e se liga com o essencial, ou seja, com aquilo de fundamental que existe no objeto em questão. Por isso, não se pode afirmar que uma opinião seguida de explicação racional seja compatível à definição de conhecimento. O conhecimento é conhecimento da verdade, é conhecimento da ideia. Portanto, como já foi dito no início, para Platão, conhecer se resume na ideia de recordar-se, tornando o conhecimento uma forma de rememorar ou acordar as ideias que sempre estiveram dentro de nós desde o dia em que nascemos. O CONHECIMENTO SEGUNDO PIAGET Foto: https://psicopedagogiainfantilsp.wordpress.com/2017/08/10/jean-piaget/ https://psicopedagogiainfantilsp.wordpress.com/2017/08/10/jean-piaget/ Faculdade de Minas 10 Outra concepção de conhecimento que tem sido divulgada até os dias atuais é a de Jean Piaget, epistemólogo suíço, considerado o maior expoente do estudo do desenvolvimento cognitivo. Para Piaget (1982 apud FERRACIOLI, 1999), o conhecimento não está no sujeito- organismo, tampouco no objeto-meio, mas é decorrente de interações contínuas entre os dois. Para ele, a inteligência é relacionada à aquisição de conhecimento na medida em que sua função é estruturar as interações sujeito-objeto. Dessa forma, todo o pensamento tem origem na ação, e para se conhecer a gênese das operações intelectuais é imprescindível a observação da experiência do sujeito com o objeto. O conhecimento é construído através de estágios (estádios ou períodos). Quando interrogamos crianças de diferentes idades sobre os principais fenômenos que as interessam espontaneamente, obtemos respostas bem diferentes segundo o nível dos sujeitos interrogados. Nos pequenos, encontramos todas as espécies de concepções, cuja importância diminui consideravelmente com a idade: as coisas são dotadas de vida e de intencionalidade, são capazes de movimentos próprios, e estes movimentos destinam-se, ao mesmo tempo, a assegurar a harmonia do mundo e servir ao homem. Nos grandes, não encontramos nada mais que representações da ordem da causalidade adulta, salvo alguns traços dos estágios anteriores. Entre os dois, de 8 a 11 anos mais ou menos, encontramos, pelo contrário, várias formas de explicações intermediárias entre o animismo artificialista dos menores e o mecanismo dos maiores; é ocaso particular de um dinamismo bastante sistemático, do qual várias manifestações lembram a física de Aristóteles, e que prolonga a física da criança enquanto prepara as ligações mais racionais (PIAGET, 1982, p.173-4 apud FERRACIOLI, 1999). Faculdade de Minas 11 A partir do nascimento até a idade adulta, o desenvolvimento mental do indivíduo é um processo contínuo de construção de estruturas variáveis, que, juntamente com características constantes e comuns a todas as idades, refletem o seu grau de desenvolvimento intelectual. Para Piaget (1967), as estruturas variáveis são maneiras de organização das atividades mentais, que englobamos aspectos motor ou intelectual e afetivo, tanto na dimensão individual como na social; já as características invariáveis são as funções de interesse, explicação, entre outras, que não variam com o nível mental do indivíduo (PIAGET, 1967, apud FERRACIOLI, 1999). Desse modo, a cada explicação particular para um certo interesse, há uma integração com a estrutura existente, que, em um primeiro momento, é reconstruída e, em seguida, ultrapassada para uma dimensão mais ampla, acarretando o desenvolvimento mental. A partir da integração de sucessivas estruturas, na perspectiva de que cada uma conduz à construção da seguinte, Piaget dividiu esse desenvolvimento em grandes períodos que obedecem basicamente a três critérios: 1. A ordem de sucessão é constante, embora as idades médias que as caracterizam possam variar de um indivíduo para outro, conforme o grau de inteligência, ou de um meio social a outro (PIAGET; LNHELDER, 1978, p. 131 apud FERRACIOLI, 1999). Assim, o desenrolar dos estágios pode ser acelerado ou retardado, dependendo da experiência do indivíduo, e que as Faculdade de Minas 12 idades são relativas às populações estudadas, sendo que o mais importante é que a ordem de sucessão permanece inalterada. Isso é comprovado em estudos realizados por psicólogos de vários países que constataram um retardamento de até 4 anos em crianças em idade escolar (PIAGET, 1982 apud FERRACIOLI, 1999). 2. Cada estádio [estágio] é caracterizado por uma estrutura de conjunto em função da qual se explicam as principais reações particulares. (PIAGET; LNHELDER, 1978, p. 131 apud FERRACIOLI, 1999). Esse critério não significa que cada estádio de desenvolvimento seja caracterizado por um conteúdo fixo de pensamento, mas sim, por uma certa atividade potencial que é suscetível de atingir esse ou aquele resultado, dependendo do meio no qual a criança vive (PIAGET, 1982). 3. As estruturas de um conjunto são integrativas e não se substituem uma às outras: cada uma resulta da precedente, integrando-a na qualidade de estrutura subordinada e prepara a seguinte, integrando-se a ela mais cedo ou mais tarde. (PIAGET; LNHELDER, 1978, p. 132 apud FERRACIOLI, 1999). E esse contínuo processo de desenvolvimento se dá através do restabelecimento do equilíbrio entre a estrutura precedente e a ação do meio, sendo que essas estruturas se sucedem de forma que cada uma assegura um equilíbrio mais estável do que o anterior, em direção a uma estrutura mais abrangente (FERRACIOLI, 1999, p. 180-194). Dessa forma, o conhecimento ocorre por um constante processo dialético de adaptação entre o sujeito e o objeto. Tomemos como exemplo a seguinte situação: uma criança, ao representar uma casa, provavelmente o fará através dos aspectos que lhe chamam mais atenção ou aos quais esteja mais ligada afetivamente. Essa casa é menos real do que a casa vista pelo adulto? Na concepção de Piaget, essa é a forma como a criança constitui o objeto nesse momento; futuramente pode vir a constituí-lo de outras formas, de acordo com o desenvolvimento da capacidade de raciocínio e as experiências vivenciadas (STRECK, 2005). Piaget compreende o desenvolvimento como processo essencial, base para cada nova experiência de aprendizagem; dessa forma sua noção de aprendizagem restringe à aquisição de um conhecimento novo Faculdade de Minas 13 e específico derivado do meio, o que difere de desenvolvimento da aprendizagem que corresponde à totalidade das estruturas do conhecimento construídas. O sujeito possui uma estrutura mental e essa visão difere da idéia associacionista que se baseia no esquema estímulo-resposta: “Para Piaget, o indivíduo assimila o estímulo e, após uma interação ativa, emite uma resposta, ou seja, o conhecimento adquirido não é devido a uma ação unilateral do meio (estímulo) sobre o sujeito passivo, mas sim a uma interação nos dois sentidos: do estímulo sobre o sujeito e ao mesmo tempo do sujeito sobre o estímulo” (FERRACIOLI, 1999, p.187). A CONCEPÇÃO FREIREANA DE CONHECIMENTO Foto:https://www.hypeness.com.br/2020/01/paulo-freire-17-livros-em-pdf-para-baixar-e-conhecer-a-importancia-do-educador/ Para Paulo Freire, o conhecimento está na base de sua proposta de educação, uma vez que esta tem como finalidade a conscientização e, para conscientizar-se, é preciso conhecer. Em oposição a uma perspectiva “bancária” de educação, Paulo Freire apresenta uma proposta de educação “problematizadora” e nesta a apropriação do conhecimento se faz a partir do diálogo, aliás, o diálogo é o alicerce do ato educativo para Freire. Sendo assim, “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 2005, p. 78). Diferentemente da prática bancária, onde o educador é a autoridade conhecedora que transmite os conhecimentos ou deposita-os no aluno, sujeito passivo, que os https://www.hypeness.com.br/2020/01/paulo-freire-17-livros-em-pdf-para-baixar-e-conhecer-a-importancia-do-educador/ Faculdade de Minas 14 arquiva, “em nome da preservação da cultura e do conhecimento”, a prática problematizadora constitui-se numa situação gnosiológica, em que o educador problematizador refaz seu ato de conhecer no momento em que os alunos estão vivenciando o seu ato cognoscente (FREIRE, 2005). Para Freire (2007), conhecer é condição sine qua non para desenvolver a consciência crítica e o conhecimento é social e histórico: Ele não se dá fora do tempo nem fora do espaço: há uma historicidade da ciência, há uma historicidade do conhecimento, que tem limites. O sujeito que conhece está histórica e socialmente limitado no ato de conhecer. E esses limites são sociais e não apenas individuais (FREIRE, 1982, p. 103). Mesmo que leve em consideração o aspecto individual, a gestão do conhecimento é sempre social, destacando a importância de o aluno, enquanto busca o conhecimento, refletir sobre o caráter social do mesmo e reconhecer que, no seu ato individual de conhecer, há uma dimensão social. Freire destaca, também, que conhecer é uma prática social, atrelada à produção material da vida, e na sociedade capitalista essa prática reveste-se de uma perspectiva competitiva. A escola, por sua vez, reproduz essa noção na cultura do conhecimento. Numa sociedade diferente, que movesse suas práticas não pela competição, mas pela solidariedade, teríamos uma escola em que “a produção do conhecimento e o exercício de conhecer o conhecimento que já existe se deem não em termos competitivos, mas sim de solidariedade.” (FREIRE, 1982, p.104). O conhecimento se dá pela interação sujeito-realidade-sujeito. O conhecimento da realidade é indispensável ao desenvolvimento da consciência de si e este ao aumento daquele conhecimento. Mas o ato de conhecer que, se autêntico, demanda sempre o desvelamento de seu objeto, não se dá na dicotomia antes referida, entre objetividade e subjetividade, ação e reflexão, prática e teoria (FREIRE, 2007, p.171). Para Freire, tal como o homem é inconcluso, o conhecimento é ato que não se finda, assim também a conscientização não se encerra no desvelamento da realidade. Assim como o ciclo gnosiológico não termina na etapa da aquisição do Faculdade de Minas 15 conhecimento existente, pois que se prolonga até a fase da criação do novo conhecimento, a conscientização não pode parar na etapa do desvelamento da realidade. A sua autenticidade se dá quando a prática do desvelamento da realidade constitui uma unidade dinâmica e dialética com a prática da transformação da realidade (FREIRE, 2007, p.171). Segundo Freire, a consciência do inacabamento do homem exige uma prática educativa permanente. Desse modo, o ato de conhecer nunca se finda, porque estamos sempre à procura, curiosos, em estado de aprender, de conhecer.Somente uma educação problematizadora possibilita que o ato cognoscente seja vivido ao mesmo tempo por educador e educando. (...) na educação como situação gnosiológica, o ato cognoscente do sujeito educador (também educando) sobre o objeto cognoscível não morre, ou nele se esgota, porque, dialogicamente, se estende a outros sujeitos cognoscentes de tal maneira que o objeto congnoscível se faz mediador da cognoscitividade dos dois (...) (FREIRE, 2007, p. 146). Para Freire o ato de conhecer é permanente e se realiza na interação entre os sujeitos, ou seja, no diálogo; ao mesmo tempo conhecer é pré-requisito para desenvolver a consciência crítica Diante da impossibilidade de sintetizar todas as concepções de conhecimento elaboradas pelos mais distintos pensadores nos vários campos do conhecimento, o quadro abaixo nos ajuda a pensar esse conceito nas diversas abordagens do fenômeno educativo, uma vez que o conhecimento é o fenômeno por excelência da educação e, segundo Freire (apud STRECK, 2005, p. 232), “a educação é sempre um processo gnosiológico como também uma teoria de conhecimento posta em ação”. Síntese das concepções de ensino nas diversas abordagens do fenômeno educativo Faculdade de Minas 16 ABORDAGEM - CONCEPÇÃO DE CONHECIMENTO 1 – Tradicional - A inteligência/atividade mental é uma faculdade que acumula/armazena informações. O papel do ser humano é incorporar informações, das mais simples as mais complexas, sobre o mundo físico, social. O sujeito tem papel insignificante na elaboração e aquisição do conhecimento, já que este lhe é transmitido por um ensino dedutivo, cabendo-lhe apenas memorizar definições, leis, sínteses, resumos etc. 2 – Comportamentalista - A experiência planejada é considerada a base do conhecimento, tem orientação empirista. O comportamento é um objeto de estudo que não pede método hipotético-dedutivo, é estruturado indutivamente através da experiência. 3 – Humanista - A experiência pessoal e subjetiva é o fundamento sobre o qual o conhecimento é construído, no decorrer do processo de vir-a-ser da pessoa. O conhecimento possui característica dinâmica e é inerente à atividade humana 4 – Cognitivista - O conhecimento é uma construção contínua. A passagem de um estado de desenvolvimento para o seguinte é sempre caracterizada por formação de novas estruturas que não existiam anteriormente no indivíduo. A aquisição do conhecimento se dá em pelo menos duas fases: exógena: fase da constatação, da cópia, da repetição; endógena: fase da compreensão das relações, das combinações. A aprendizagem pode parar na primeira fase, mas o verdadeiro conhecimento implica no aspecto endógeno, já que pressupõe abstração. A Biologia é a infraestrutura da teoria do conhecimento. 5 – Sócio-cultural - O homem se constrói e torna-se sujeito na medida em que, integrado ao seu contexto, reflete sobre ele e com ele se compromete, tomando consciência de sua historicidade. Constantemente desafiado pela realidade, necessita responder de forma original a cada desafio, já que não há respostas prontas ou modelos de resposta, uma vez que há tantas respostas quantos sejam os desafios, assim como várias respostas para um mesmo. Dessa forma, a elaboração e o desenvolvimento do conhecimento estão ligados ao processo de Faculdade de Minas 17 conscientização. O conhecimento é elaborado e criado a partir do mútuo condicionamento, pensamento e prática. Como processo e resultado, ele consiste na superação da dicotomia sujeito-objeto Segundo Kress (2006), as teorias atuais sobre o conhecimento chegaram até nós virtualmente inalteradas, desde o século XIX, todavia é evidente que muitas ideias que acompanham essas teorias precisam ser revistas, uma vez que estamos numa época em que o conhecimento é criado pelo indivíduo, para si mesmo, assim sendo “os conceitos de aprendizagem como mera aquisição ou de significado como algo estável, simplesmente não serão suficientes.” (p. 132). Diante disso, é claro que a escola não pode se esquivar de sua responsabilidade e dos novos referentes contextuais; portanto, na organização do currículo precisa inserir novos princípios sobre o conhecimento e da pedagogia. O propósito da escolarização mudou: se antes era comunicar o conhecimento existente considerado útil para que o aluno se adaptasse e conformasse-o ao seu mundo, Agora, o propósito da escolarização talvez seja oferecer à juventude os princípios com base nos quais os jovens possam construir o conhecimento de que necessitam à medida que se defrontam com os problemas de seu próprio mundo; construir o conhecimento que os capacite a criar seu próprio mundo de acordo com seus propósitos (KRESS, 2006, p.130). Faculdade de Minas 18 GÊNESE DO CONHECIMENTO BIOLÓGICO Foto:http://www.aconteceempetropolis.com.br/2015/07/12/para-pensa-inteligencia-e-evolucao/evolucao/ Características das Ciências Biológicas A Biologia é uma Ciência empírica, isto é, o conhecimento biológico é obtido através da experiência. Correntemente, o empirismo é desconsiderado como ciência, chegando na linguagem popular a ser sinônimo de charlatanismo. Esta visão advém dos primórdios da filosofia da Ciência, quando as ciências formais eram consideradas a Ciência por excelência e admitia-se que conhecimento científico era só o que se baseia em princípios puramente racionais, ou seja, apenas a Matemática e a Lógica seriam verdadeiramente ciências. Por isso entre as ciências, a Biologia ocupa um lugar ao mesmo tempo marginal e central. Marginal no sentido de que o mundo vivo constitui apenas parte ínfima, apesar de muito especial, do universo conhecido. Disso resulta que o estudo dos seres vivos jamais deverá revelar leis gerais aplicáveis fora da biosfera. Entretanto, se a ambição última da Ciência é elucidar a relação do homem com o universo, deve-se conferir à Biologia um lugar central, pois ela é entre todas as ciências, a que tenta penetrar mais diretamente no cerne dos problemas que devem ser solucionados antes que possa ser colocado o problema da “natureza humana” http://www.aconteceempetropolis.com.br/2015/07/12/para-pensa-inteligencia-e-evolucao/evolucao/ Faculdade de Minas 19 em termos científicos diferentes da metafísica. Por isso, a Biologia é, para o homem, a mais signficativa de todas as ciências. O objetivo maior da Ciência é chegar à verdade. Embora a Verdade absoluta não possa ser alcançada, a experiência, tanto quanto os princípios puramente racionais, pode levar a verdades parciais sobre os fatos e fenômenos da natureza, verdades estas modificáveis à medida que novos conhecimentos são adquiridos. A aquisição do conhecimento é um processo histórico e dinâmico bem expresso no dito “só sei que nada sei”, visto que quanto melhores são os meios de observação e investigação, mais clara fica nossa ignorância. As ciências empíricas são muitas vezes separadas em hard sciences compreendendo a Física e a Química e soft sciences dentre as quais está a Biologia. A razão para a Biologia ser considerada uma das ciências soft deve-se ao fato de ser a que mais se ressente da falta de uma linguagem precisa, com termos bem definidos e enunciados claros de seus postulados. Essa característica deve-se à proverbial aversão dos biólogos pela Matemática e a uma certa dificuldade para o raciocínio abstrato, devido à própria natureza concreta dos seus objetos de estudo. No entanto, a partir dos anos 70 e mais ainda hoje em dia, com a guinada da Biologia em direção à Química, via Biologia Molecular, o tratamento axiomático do conhecimento biológico vem ganhando força. Muitas das teorias da Biologia no campo da genética, da sistemática filogenética, da Ecologia, da Biogeografia e da Biologia Molecular estão firmemente baseadas em tratamentos formaise se desenvolvem sobre bases intuitivas. Apesar disso, o grosso do conhecimento biológico foi adquirido e, continua a sê-lo, utilizando o método hipotético dedutivo. Embora alguns métodos de descoberta tendam a ser mais fecundos do que outros, o seu êxito, no final, é tão aleatório que se pode dizer que uma afirmação ou enunciado científico pode ser verdadeiro, sem que se leve em conta o modo como foi gerado. A questão nas Ciências biológicas é saber em que medida o conhecimento acumulado neste campo se enquadra dentro do formalismo científico. Existem ou não teorias e leis biológicas? Alguns autores são de opinião que na Biologia não há teorias solidamente construídas como, por Faculdade de Minas 20 exemplo, as da Física e muito menos leis biológicas. Mas, o que dizer então das leis da Genética Mendeliana e da Genética Molecular? Não seriam científicas a teoria sintética da evolução e as teorias da Biologia de populações. De acordo com os autores que negam a existência de teorias e leis biológicas, no momento em que as teorias mencionadas apresentam coerência para serem classificadas como genuinamente científicas, deixam de ser verdadeiramente biológicas. A dificuldade é que os sistemas biológicos não são suficientemente fechados para permitirem a formulação de leis. Os seres vivos além da sua complexidade própria estão em constante interação com a complexidade do ambiente em que se encontram, desta forma generalizações sobre a resultante dessas interações tendem a ocupar o lugar das leis, e muitas vezes essas generalizações são denominadas leis. Portanto, no sentido estrito do que seja uma lei em Ciência, não há leis biológicas. A Ciência de maneira geral não aceita, ou tem muitas restrições a postulados teleológicos, ou seja, finalistas. No entanto, na Biologia o modo teleológico de expressão é amiúde mais conveniente que o discurso causal, mormente quando se descreve a organização e comportamento dos seres vivos. A chamada teleologia interna de Aristóteles compara a organização dos organismos vivos com o Universo em geral, estabelecendo uma analogia funcional que de certa maneira, se reflete no fato do “micro” reproduzir o “macro” na organização das estruturas. Segundo Demócrito, tudo que existe no universo é fruto do acaso e da necessidade. A noção teleológica, ao contrário, implica na idéia de uma atividade orientada, coerente e construtiva. Juntando estas duas ideias, verifica-se que o que acontece por acaso pode tornar-se necessário e ser moldado pela necessidade para certas finalidades. Segundo esse critério, as proteínas que surgiram por acaso a partir de sínteses químicas na “sopa primordial”, são hoje agentes essenciais das performances teleonômicas dos seres vivos. A Biologia, provavelmente, mais do que qualquer outra Ciência, contribuiu para a formação do pensamento moderno, profundamente transtornado e definitivamente marcado em todos os domínios (filosófico, religioso e político) pelo advento da Faculdade de Minas 21 Teoria da Evolução. No entanto, a Teoria da Evolução, embora aceita pelos homens lúcidos, permaneceu em suspenso, sem base de sustentação, enquanto não foi elaborada a teoria da hereditariedade. A compreensão da hereditariedade foi a grande contribuição dada pela teoria do código genético, em sentido geral, incluindo a estrutura do DNA, a informação nela contida e os mecanismos moleculares da expressão morfogenética e fisiológica dessa informação. A teoria do código genético constitui, hoje, a base fundamental da Biologia. Isso não significa que as estruturas e funções complexas dos organismos possam ser deduzidas da teoria, nem mesmo que elas sempre sejam analisadas segundo a escala molecular. Contudo, se a teoria molecular do código genético não pode predizer e resolver toda biosfera, não deixa de constituir uma teoria geral válida para todos os seres vivos. Antes da sua enunciação, o “segredo da vida” parecia inacessível. Atualmente, está em boa parte desvendado. Esse conhecimento teve enorme repercussão no pensamento contemporâneo assim que foi compreendido fora do círculo de especialistas. A BIOLOGIA COMO IDEOLOGIA Foto:https://medium.com/crist%C3%B3centro/ideologia-de-g%C3%A9nero-do-que-estamos-a-falar-1-3-adacd6efc7b9 https://medium.com/crist%C3%B3centro/ideologia-de-g%C3%A9nero-do-que-estamos-a-falar-1-3-adacd6efc7b9 Faculdade de Minas 22 A Ciência serve a duas funções: 1) Fornecer novos meios para manipular o mundo material, através de práticas, técnicas e invenções que mudam a qualidade de vida dos seres vivos. 2) Explicar porque as coisas são como são. Esta segunda função é, às vezes, ligada à primeira. Por exemplo: como podemos curar o câncer sem entendê-lo? Como aumentar a produção de alimentos sem entender a genética e a nutrição de animais e plantas? No entanto, a Ciência aplicada expressa na primeira função é, na prática, muitas vezes independente da teoria expressa na segunda função. Virtualmente, nenhum progresso na terapia do câncer resultou do conhecimento aprofundado do crescimento e desenvolvimento celular, apesar de praticamente toda pesquisa sobre câncer, com exclusão da puramente clínica, ser devotada à compreensão dos mínimos detalhes da Biologia e proliferação celular. A medicina permanece, a despeito de toda a conversa sobre medicina científica, essencialmente empírica, no mau sentido da palavra, isto é, os médicos prescrevem o que funciona. No entanto, o conhecimento biológico pode ser aplicado socialmente. Por exemplo, pode ser cientificamente demonstrado que não há base para se admitir que possa haver superioridade racial ou superioridade genética dos indivíduos e, portanto, qualquer tipo de discriminação com base biológica. Por outro lado, contraste que muitas vezes se faz entre nature e nurture não é como se pensa um contraste entre o fixo (nature) e o mutável (nurture). É uma falácia dizer que os genes são fixos e que não se pode interferir sobre seus efeitos, portanto, também não há base para qualificar o comportamento social dos indivíduos pelo seu genótipo. Em escala física, a possibilidade de interferência está patente na correção dos erros inatos de metabolismo. Uma criança que nasça com fenilcetonúria pode ter um desenvolvimento e levar uma vida normal, bastando evitar alimentos com o ácido aminado fenilalamina. Faculdade de Minas 23 Na mesma linha, pode-se dizer que não há “ambiente” no sentido de alguma coisa aberta e independente, ou seja, assim, como não há organismo independente do ambiente, não há ambiente sem organismos. Os organismos não vivem no ambiente, eles o criam, constroem seu próprio ambiente de porções do mundo físico e biológico e de sua própria atividade. O ambiente do organismo está constantemente mudando durante sua vida. Estes são capazes, em média, ao longo do tempo, de “tamponar” as flutuações dos fatores físicos adaptando-se a elas. O organismo muda interiormente os sinais físicos que lhe chegam do mundo exterior. Por exemplo, quando a temperatura sobe em uma sala, o fígado percebe essa mudança não como aumento de temperatura, mas como mudança da concentração de açúcar e de certos hormônios no sangue. Portanto, o que começa como uma mudança na taxa de vibração das moléculas do ar é transformado no interior do corpo em mudança na concentração de certas substâncias químicas e provoca uma resposta adaptativa. É esperado que os seres humanos desejem um mundo no qual possam viver longa vida com saúde, mas isso não pode ser conseguido levantando a bandeira do “Salvemos o Meio Ambiente”, porque esse slogan assume que há um ambiente que foi criado pela natureza e que está sendo destruído pelos homens. Assume, também, que há um balanço e uma harmonia intrínseca nanatureza que estão sendo destruídos. No entanto, não há nada no conhecimento biológico que justifique a crença que tal balanço e harmonia existam. O mundo físico e o biológico desde o início sempre estiveram em um constante fluxo de mudanças, muito mais drásticas do que concebemos, mesmo muito antes da presença do homem. Portanto, qualquer movimento ambientalista razoável deve abandonar essa visão romântica e a ideologia totalmente infundada e voltar sua atenção para o verdadeiro problema que é: como as pessoas desejam viver e como elas organizam sua maneira de viver. Faculdade de Minas 24 Os seres humanos têm uma única característica que não compartilham com os outros organismos: podem planejar as mudanças que ocorrerão no mundo. Não podem impedir que o mundo mude, mas podem dirigir as mudanças para, talvez, direções mais benéficas e até adiar as maléficas por algumas centenas ou milhares de anos. A IMPORTÂNCIA DO ENSINO DA BIOLOGIA NO COTIDIANO Foto: https://brasilescola.uol.com.br/biologia Os problemas no processo de ensino-aprendizagem presentes em nossas escolas se devem a obstáculos que permanecem escondidos no cotidiano dos professores. O processo educativo toma o rumo estabelecido pela sociedade, desenvolvendo uma educação fragmentada, elitista, que obedecendo aos caprichos do capitalismo, se reflete na sociedade e na vida das pessoas. Na pedagogia da autonomia, FREIRE (1996) fala do sentido da ética necessária para o desenvolvimento da prática educativa, tendo em vista que é uma prática formadora. A ideologia fatalista, imobilizante, que anima o discurso neoliberal anda solta no mundo. Com ares de pós-modernidade, insiste em convencer- nos e que nada podemos contra a realidade social que, de histórica e cultural, passa a ser ou a virar “quase natural”. Frases como: “a realidade é assim mesmo, que podemos fazer?” ou “ o desemprego no mundo é uma fatalidade do fim do século” expressam bem o fatalismo desta ideologia e sua indiscutível vontade imobilizadora. (FREIRE, 1996). https://brasilescola.uol.com.br/biologia Faculdade de Minas 25 É importante a educação na vida das pessoas, pois quanto maior seu conhecimento maior sua capacidade de relacionar-se com o mundo. Em face de vivermos num mundo comandado pela ciência e pela tecnologia, os conhecimentos científicos se tornam indispensáveis para que essa relação aconteça. Hoje o campo da biologia tem destaque entre as ciências de ponta e marca profundamente os avanços científicos desde o século passado. Neste sentido, o ensino de biologia tem relevância inconteste para a vida de todo cidadão, e, as escolas têm a missão de levar esse conhecimento a todos. Assim, pesquisadores como Krasilchik entendem que o ensino de biologia tem, entre outras funções, a de contribuir para que: Cada indivíduo seja capaz de compreender e aprofundar explicações atualizadas de processos e de conceitos biológicos, a importâncias da ciência e da tecnologia na vida moderna, enfim o interesse pelo mundo dos seres vivos. Esses conhecimentos devem contribuir, também, para que o cidadão seja capaz de usar o que aprendeu ao tomar decisões de interesse individual e coletivo, no contexto de um quadro ético de responsabilidade e respeito que leva em conta o papel do homem na biosfera (KRASILCHIK, 2004). Alguns pesquisadores, atualmente, especialmente da área da biologia, vêm apresentando essa preocupação com o papel do homem na biosfera. Junto a essa preocupação, devemos estar atentos também para as questões de ciência e tecnologia, que conduziu à criação do conceito de “alfabetização Biológica”. Os efeitos da ciência e da tecnologia estão muito presentes na vida da sociedade, apresentando tanto vantagens como problemas na sua produção e uso sendo que algumas situações envolvem decisões éticas e sociais. KRASILCHIK (2004) observa que as situações criadas sejam positivas ou negativas, estão relacionadas às visões de mundo que fundamentam os processos de descoberta e utilização de seus resultados. Faculdade de Minas 26 A finalidade do ensino de biologia prevista nos currículos escolares é de desenvolver a capacidade de pensar lógica e criticamente. Esse ideal dificilmente é alcançado uma vez que, na prática de sala de aula, a realidade que temos é de um ensino diretivo, autoritário, em que toda a iniciativa e oportunidade de discussão dos alunos são coibidas, ou seja, transmitem-se apenas conhecimentos. A função social do ensino da biologia deve contribuir no cotidiano para ampliar o entendimento que o indivíduo tem da sua própria organização biológica, do lugar que ocupa na natureza e na sociedade, e na possibilidade de interferir na dinamicidade dos mesmos, através de uma ação mais coletiva, visando a melhoria da qualidade de vida (KRASILCHIK, 2004). A educação biológica, e, portanto o ensino de ciências, pode contribuir para a construção do mundo que queremos, ou seja, o ato de educar implica uma visão de mundo e por conseqüência nosso modo de atuar nele, assim como de interferir no modo como as pessoas interagem e se relacionam com ele (DEMO, 2004; MORAES, 2001). Assim, a escola deve e pode ser o lugar onde, de maneira mais sistemática e orientada, aprendamos a ler o mundo e a interagir com ele. Ler o mundo significa aqui poder entender e interpretar o funcionamento da natureza e as interações dos homens com ela e dos homens entre si [...] Ela deve ser o lugar em que praticamos a Leitura do Mundo e a Interação com ele de maneira orientada, crítica e sistemática (CANIATO, 1989). Conforme CANIATO (1989), o mundo tem o tamanho de nossa capacidade de entendê-lo. Daí a importância do ensino da biologia no cotidiano da escola, pois deve ser trabalhado como produção de conhecimento. “A qualidade do Mundo, isto é, a qualidade de nossa vida sobre a Terra será dada pelo Modo e Uso na conquista do conhecimento” (CANIATO, 1989, p. 66). Nos países em desenvolvimento, a biologia tem um papel importante a cumprir, uma vez que há tudo por fazer, desde ações educativas básicas na saúde, passando por questões ambientais, até as tecnologias de ponta vivenciadas no campo da genética e da biotecnologia que caracterizam os dias atuais. Faculdade de Minas 27 Dada a relevância da biologia para o cotidiano, é essencial aos professores compreenderem o seu papel na formação das visões de mundo que fundamentarão a sociedade que queremos. No ensino da biologia a abordagem do cotidiano deve ser valorizada por pesquisas e pelas propostas curriculares, evidenciando a sua importância para a formação da cidadania dos educandos. A compreensão sobre o significado da vida cotidiana é diversificada, mas é através da abordagem do cotidiano que são gerados interação no processo educativo. A aula de biologia trabalhada pelos professores deve-se apresentar à vida cotidiana como uma possibilidade de explicitar os conceitos biológicos, provocando o interesse do aluno para dar visibilidade aos conceitos da biologia. No cotidiano deve proporcionar situações que mostre o papel da ciência apresentados através dos costumes, dos hábitos e dos problemas sócio-ambientais para solucionar os problemas. Assim, os professores mostrarão como a biologia pode responder as necessidades humanas, levando para a sala de aula assuntos do cotidiano dos alunos, dando oportunidade para eles conhecerem os aspectos relacionados à ciência, à tecnologia e à sociedade (DEMO, 2004). Diante o exposto, o ensino da biologia deve ser visto numa perspectiva da educação transformadora, ou seja, um caminho que leva a formação para a cidadania trabalhar com situações pertencentes ao cotidiano, onde os professores de biologia devem buscar em alguns momentos de suas aulas, trabalharem o cotidiano apresentado comdiferentes maneiras de abordá-lo. Faculdade de Minas 28 A IMPORTÂNCIA DAS AULAS PRÁTICAS NO ENSINO DA BIOLOGIA Foto: https://www.youtube.com/watch?v=Eq9XZXk6Wow As atividades práticas, quando vinculadas às atividades teóricas em biologia, buscam e auxiliam a reconstrução de conceitos científicos significativos para o aluno. Elas proporcionam condições para que haja o questionamento e reflexão na ação dos temas trabalhados. A prática fortalece várias atitudes esperadas na educação e aprendizagem como: a argumentação, a criatividade, a intuição, a abstração, a autonomia e a competência do aluno. Demo (2002) considera que (...) “Não é competente o curso excessivamente teórico, ou excessivamente prático, porque formação básica é tão importante quanto o exercício prático. Os conhecimentos sob forma de informações são relacionados e alcançam significados com os experimentos. A compreensão dos processos dos vários temas em biologia se aproxima do aluno e se confrontam com suas concepções iniciais, interagindo e possibilitando uma mudança reflexiva em tais concepções. PERRENOUD (2000) esclarece que “A maior parte dos conhecimentos científicos contraria a intuição”, portanto, é importante que os alunos em aulas práticas se confrontem com os limites de seu próprio conhecimento e se desfaçam de ideias intuitivas. https://www.youtube.com/watch?v=Eq9XZXk6Wow Faculdade de Minas 29 Os experimentos, realizados nas aulas, podem ajudá-los a compreender os fenômenos e podem ser reproduzidos e se tornam viáveis com poucos recursos, valorizando a pedagogia do ensinar e aprender. Ao incluir ações como manejar materiais específicos, desenvolver tarefas, identificar o problema, estabelecerem objetivos e hipóteses, relacionar a prática com os fundamentos teóricos, no intuito de analisar os resultados e escrever conclusões, oportuniza o desenvolvimento de habilidades motoras, bem como a participação, a socialização, a crítica, a argumentação, o debate, a autonomia e a abstração do aluno. O Professor, atento aos acontecimentos em sala de aula e ao desenrolar dos experimentos, é lembrado por BACHELARD (1996) que, “(...) é indispensável que o professor passe continuamente da mesa de experiência para a lousa, a fim de extrair o mais depressa possível o abstrato do concreto”. O desenvolvimento de habilidades, não só motoras, mas que exijam reflexão e raciocínio e possibilitem a abstração, a ação e a criação de argumentos são favorecidas por aulas práticas.” As ações experimentais unem-se com as informações teóricas e propiciam a construção de uma rede de esquemas mentais, auxiliando de um modo lógico e ordenado à compreensão dos conteúdos em biologia. No entanto, um trabalho experimental requer muita atenção e concentração, pois envolve manipulação de materiais e instrumentos, conversa com os colegas, disponibilidade de equipamentos, movimentação constante, fatores que contribuem naturalmente para a dispersão (DEMO, 2002). Por não estar habituado a um trabalho experimental, o aluno, muitas vezes, comparece, passivamente, como objeto de ensino. A iniciativa e a elaboração própria necessitam ser estimuladas. No planejamento do professor, as aulas experimentais precisam atender à reconstrução dos conceitos e oportunizar a reflexão, o questionamento e a discussão. As visões teóricas a respeito de um determinado assunto são importantes, mas a informação por si só não significa conhecimento se o mesmo não se faz útil. Faculdade de Minas 30 Essa ideia é justificada pela afirmação de FREIRE (1996) quando diz que “A leitura verdadeira me compromete de imediato com o texto que a mim se dá e a que me dou e de cuja compreensão fundamental me vou tornando também sujeito”. Na aula prática o aluno aprende, buscando um conhecimento além daquele que o professor colocou em aula. Alguns professores, em seu cotidiano, trabalham com a pesquisa em sala de aula. Dessa forma, trabalhar os assuntos de biologia na intenção de contribuir e facilitar o desenvolvimento de competências e responsabilidades nos alunos é entender que pesquisar em sala de aula é uma maneira de os alunos aprimorarem suas competências e o professor aprimorar também o seu fazer docente. METODOLOGIAS ALTERNATIVAS EM CIÊNCIAS Foto: https://www.youtube.com/watch?v=lgD_G0_5EYE O esforço para melhorar o ensino das Ciências sempre foi maior do que o registrado nas publicações existentes. O ensino através de Metodologias Alternativas é mais uma ação que complementa a prática cotidiana de professores do que um abandono de práticas anteriores. A sensibilidade necessária a essa necessidade é que caracteriza essa modificação a qual demos o nome de “Mudança Significativa na Prática de Professores”. O ato de pesquisar é inerente à condição humana. O homem está sempre buscando mais conhecimentos. A Ciência constitui hoje, a forma mais eficiente de gerar conhecimentos significativos para as sociedades contemporâneas. Porém, a pesquisa só evolui mediante o surgimento de contradições, de conflitos, de https://www.youtube.com/watch?v=lgD_G0_5EYE Faculdade de Minas 31 necessidades humanas que estimulem os seus avanços para compreender os fenômenos naturais. Para Vale (1998), a Ciência é, em suma, o conhecimento preocupado em determinar as leis gerais destes fenômenos. Para compreender e avaliar a dimensão da importância da Ciência, do Conhecimento, da Educação, derivada da pesquisa e da técnica, busca-se fundamentos nas idéias do educador e pedagogo italiano MANACORDA (2007). Este destaca que a Ciência concentra-se no mundo capitalista (países do 1º mundo) enquanto o restante do mundo (países do 3ª mundo) recebe o conhecimento sob a forma de produtos, o que lhe custa muito caro. O educador esclarece que as populações do 3ª mundo não participam como produtoras do conhecimento; e afirma que a Educação é uma das alternativas para se criar uma sociedade que tenha em suas próprias mãos a autonomia, sem se isolar da realidade planetária. Essa Educação entendida e defendida por Manacorda fundamenta-se nos princípios de liberdade, democracia e participação cultural. Através dessa Educação e, conseqüentemente, da escola apoiada por professores competentes no domínio dos conteúdos científicos, com visão política e instrumentalizados metodologicamente, essa Educação cria condições para possibilitar as transformações sociais. É essa Educação que se almeja para as escolas brasileiras a qual pode representar aspectos decisivos e fundamentais para o desenvolvimento dos indivíduos e para toda a sociedade. Este formato de Educação é denominado Educação Científica e Tecnológica. A Educação Científica, de acordo com Vale (1998, p.5), apresenta os seguintes objetivos: Ensinar Ciência e Técnica de modo significativo e interessante a todos; colocar a prática social como ponto de partida e de chegada da educação científica tomando o contexto para determinação dos conteúdos; criar condições para formação do espírito científico para além do senso Faculdade de Minas 32 comum das pessoas; ter a capacidade de avaliar de forma crítica os conhecimentos em função das necessidades sociais; permitir a formação de um educando questionador. A Educação Pública precisa tornar-se popular e isto é traduzido pela necessidade de universalizá-la e democratizá-la em seus diferentes níveis e em suas diferentes dimensões, tornando-a, de fato, acessível às camadas populares, promovendo, pela via do conhecimento e da cidadania, as condições necessárias à transformação social e à emancipação humana, pretendendo-se chegar à ação político- pedagógica. Dessa forma, Educação Pública e popular e Educação Científica demonstram a importância de se pensar uma educação escolar que realize a síntese daquantidade com a qualidade. O estudante fora das relações com o mundo e a sociedade é um ser alienado sem condições de reagir aos múltiplos estímulos que decorrem de um contexto cada vez mais caracterizado pela Ciência e pela Técnica. A Educação e, especialmente, o trabalho docente, exige a pesquisa investigativa, já que se trabalha diretamente com o conhecimento científico. Na Biologia, por exemplo, o conhecimento científico se caracteriza por uma estrutura sistemática, na qual predomina o nível descritivo. Com certa freqüência, os conteúdos são trabalhados de forma desvinculada da realidade, dos aspectos históricos e das questões sociais. O reflexo desta prática pedagógica, nos educandos é apenas a memorização dos conteúdos. Continua presente na escola o agir tradicional, tornando a vivência de sala de aula pouco produtiva. Os educandos fazem o papel de ouvintes, comprovando a não ocorrência de um aprendizado interativo. Neste contexto, e de acordo com as necessidades e exigências da prática docente, dependendo das condições da escola e do interesse de seus alunos, o professor selecionará a modalidade didática mais adequada para aquela situação/conteúdo. Entende-se que o processo ensino-aprendizagem é dinâmico e coletivo, exigindo por isso, parcerias entre professor/aluno e aluno/aluno. Para estabelecer estas Faculdade de Minas 33 relações dialógicas, o professor poderá optar por várias modalidades didáticas que permitem esse tipo de interação. Algumas modalidades didáticas que são utilizadas no ensino de Biologia são apresentadas a seguir: Aulas expositivas: As aulas expositivas ocorrem geralmente com função de informar e representam formas econômicas e de controle da turma. Esse tipo de metodologia exige dos alunos alto nível de concentração durante todo o tempo das aulas. Há pouca interação entre professor/aluno. Os professores não estabelecem relações causais. Apresentam fatos sem justificá- los e sem explicar como se chegou a eles, o que afasta ainda mais a modalidade didática do objetivo de ensinar a pensar lógica e criticamente. Centralizar a aula num problema é uma das formas de intensificar a participação intelectual dos alunos, que acompanham as alternativas de solução propostas pelo expositor (KRASILCHIK, 2005, p. 80). Contudo, é possível que uma aula expositiva seja informativa e divertida se o professor for competente para isto. Discussões: As discussões representam um avanço na construção de um diálogo em sala de aula. O professor tem condições de conduzir discussões que oportunizem aos educandos a participação intelectualmente das atividades de investigação. Quando os conceitos são apresentados por meio de uma discussão, tornam-se mais agradáveis e interessantes, pois, desafiam a imaginação dos estudantes. Há possibilidades de utilização de discussões de diversas maneiras, tais como discussões estruturadas e seminários. Vários livros didáticos apresentam orientações e sugestões para o professor, caso ele não se sinta seguro para iniciar Faculdade de Minas 34 uma discussão. Em todos os casos o professor precisa estar atento para não interferir de forma negativa, isto é, fazer intervenções atrapalhando a exposição das ideias dos estudantes. Para Torres e Irala (2007), estas modalidades têm o potencial de promover uma aprendizagem mais ativa por meio do estímulo ao pensamento crítico; ao desenvolvimento de capacidades de interação, negociação de informações e resolução de problemas e ao desenvolvimento da capacidade de auto-regulação do processo de ensino-aprendizagem. Essas formas de ensinar e aprender tornam os alunos mais responsáveis por sua aprendizagem, levando-os a assimilar conceitos e construir conhecimentos de uma maneira mais autônoma. Nota-se que essas modalidades trazem intrinsecamente concepções sobre o que é o ensino, aprendizagem e qual a natureza do conhecimento. Demonstrações: As demonstrações servem principalmente, para apresentar à turma, por exemplo, espécimes ou fenômenos de difícil representação ou duração longa do experimento. Assim, justifica-se o uso desta modalidade didática quando se quer economizar tempo ou não se tem material suficiente para toda a turma. Outra justificativa é a demonstração na forma de que todos possam ver a mesma coisa ou fenômeno, ao mesmo tempo. Alguns aspectos devem ser observados quando o professor desejar utilizar uma demonstração: 1- O material em apresentação deve estar visível para todos. 2- Para não distrair a atenção dos alunos, o material em demonstração deve ser simples, limitando-se o que fica sobre a mesa o estritamente necessário. Faculdade de Minas 35 3- O professor deve ser claro, falar alto e entusiasticamente, mostrando o que deseja passo a passo, repetindo quantas vezes forem necessárias para que todos possam acompanhar o procedimento (KRASILCHIK, 2005, p. 85). Aulas práticas: As aulas práticas apresentam importância fundamental no ensino de Biologia, pois permitem aos educandos o contato direto com os fenômenos, manuseio de equipamentos e observação de organismos. Com a utilização das aulas práticas, é fornecida aos educandos a possibilidade de enfrentar resultados imprevistos, oportunizando-lhes desafiar sua imaginação e raciocínio. A maneira de propor o problema e as orientações fornecidas pelo professor aos seus estudantes, determinará o envolvimento destes no decorrer da aula. Existem várias propostas de encaminhamento de aulas práticas. Geralmente, elas seguem critérios que permitem variar o grau de liberdade concedida aos estudantes, para seu desenvolvimento. Excursões: Embora muitos professores considerem de grande importância os trabalhos de campo e excursões no cotidiano escolar, elas pouco acontecem. É provável que os fatores como: autorização dos pais; cedência de aulas de outros professores; transporte para levar os alunos; insegurança quanto ao comportamento da turma; falta de recursos financeiros e receio de que ocorram eventuais acidentes, façam com que pouquíssimos professores utilizem esta modalidade didática. Tais problemas podem ser amenizados com uma boa organização da excursão ou da aula a campo, pelo professor. Isso implica desde a escolha do local a ser visitado, o roteiro, os objetivos de estudo, a observação, coleta e a discussão dos dados. Faculdade de Minas 36 Projetos: Os projetos podem ser desenvolvidos individualmente ou por equipes e serem utilizados para resolver problemas permitindo aos estudantes o desenvolvimento de iniciativas, a capacidade de decidir, a capacidade de estabelecer um roteiro para suas tarefas e finalmente redigir um relatório no qual constam as conclusões obtidas. Esse processo implica saber formular questões, observar, investigar, localizar as fontes de informação, utilizar instrumentos e estratégias que lhe permitam elaborar as informações coletadas. Assim, para Behrens e Zem (2007), os projetos são procedimentos essenciais na vida dos indivíduos deste novo século. Para aprender a adquirir novos conhecimentos com autonomia, os estudantes precisam conviver com situações e com condições para enfrentar problemas e questões diversas, circulando com fluência pelas diferentes formas de investigar e de conhecer. O trabalho com projetos permite uma aprendizagem colaborativa, tornando a relação ensino-aprendizagem um processo dinâmico, possibilitando a formação de sujeitos participativos e autônomos, criando a possibilidade de desfazer a forma de aula tradicional em que só o professor fala e apresenta os conteúdos e os alunos ficam restritos a escutar, copiar, memorizar e repetir os conteúdos (BEHRENS e ZEM, 2007). Assim postula-se que a metodologia de projetos pode ser uma modalidade didática pertinentepara oferecer aos estudantes aprendizagens que levem à produção do conhecimento, provocando aprendizagens para a vida. Mapas conceituais: Os mapas conceituais representam uma modalidade didática que está começando a ser utilizada. A construção de um mapa conceitual estimula o aluno a refletir, a pesquisar, a selecionar, a analisar, a elaborar o conhecimento e aprender de uma maneira significativa. Faculdade de Minas 37 Os mapas conceituais são dinâmicos, pois à medida que o aluno desenvolve sua compreensão e o conhecimento sobre o assunto que está sendo trabalhado, os mapas devem ser revisitados e re-trabalhados para incorporar os novos conceitos (TORRES e MARRIOTT, 2007, p.164). A utilização de mapas conceituais em sala de aula atende, basicamente, os objetivos de revelar o conhecimento prévio do estudante para iniciar um novo conteúdo, resumir conteúdos e fazer anotações, revisar e estudar determinado conteúdo e, serve também, para avaliar. Portanto, o professor precisa ser paciente na sua implementação, tanto com os estudantes que se acostumam a uma nova maneira de pensar e organizar seu pensamento, quanto com os demais docentes que podem não conhecer esta modalidade didática. Mídia e ensino: O desafio para os educadores é de entender a mídia como produtora de cultura. Assim, Sartori e Roesler (2007, p.102) entendem que, a compreensão da mídia e suas linguagens como agentes culturais que participam da aprendizagem, ainda que educandos não tenham acesso a equipamentos tecnológicos sofisticados, alimenta processos coletivos que surgem de uma prática pedagógica alicerçada em planejamento consistente e, principalmente, na criatividade e colaboração. As escolas possuem tecnologias, algumas simples outras um pouco mais complexas. Estas últimas permitem mudanças profundas no cotidiano escolar, no mundo físico e no virtual. Através delas tudo se conecta e a escola consegue: mobilidade, flexibilidade e interoperabilidade. Neste contexto, o professor é o mediador na aprendizagem, para o que precisa ter domínio teórico, precisa elaborar projetos colaborativos, utilizar recursos tecnológicos de forma crítica, ser co-criativo, participativo da gestão da mudança e considerar que a aprendizagem é um processo vivo/ativo. Faculdade de Minas 38 Cabe salientar que uma prática pedagógica criativa e crítica visualizam as diversas possibilidades para atingir os objetivos educacionais desejados a partir dos pressupostos pedagógicos que deverão norteá-la. CIÊNCIA TECNOLOGIA E SOCIEDADE NO ENSINO DE BIOLOGIA: UMA APLICAÇÃO POR MEIO DA ABORDAGEM DO COTIDIANO Dentre os autores brasileiros que discutem o papel da educação na formação para a cidadania, Paulo Freire (1997) enfatiza a importância do processo educativo para desafiar o cidadão a aventurar-se no exercício de não só falar da mudança, mas de com ela, comprometer-se. Para ele, a função educativa deve ser a de incluir os alunos na sociedade, para participarem de sua construção histórica, e não simplesmente nela estarem representados. Uma educação que priorize a formação de cidadãos precisa ser compreendida como um processo dinâmico e de permanente elaboração de conhecimentos, análise, compreensão e transformação da realidade; precisa ser planejada de modo que as situações de ensino e aprendizagem vividas pelos educandos sejam consideradas como um problema que os desafia, para que possam analisar de modo crítico a sua ação e a de outros sujeitos e segmentos da sociedade. Quanto mais o educando reflete sobre a realidade, sobre sua situação concreta, mais emerge plenamente consciente e comprometido a intervir para modificá-la (FREIRE, 2000). No campo da educação científica, o movimento [Ciência, Tecnologia e Sociedade] CTS encontra ressonância com as ideias educacionais de Paulo Freire por apoiar um ensino mais humanista das ciências e ter em vista a conscientização social de que a ciência e a tecnologia também são elementos da cultura e que a sala de aula tem de ser concebida como um ambiente educativo que seja ela própria um ambiente de cidadania (SANTOS, 2001, p.31). Considera-se que na base de uma reforma escolar que incorpore os pressupostos de uma pedagogia da autonomia e da indignação (FREIRE, 1997, 2000) como do Faculdade de Minas 39 movimento CTS, está a formação do professor que além da necessidade de investigações centradas na reconceptualização do ensino das Ciências – passagem de uma visão de ciência para a concepção CTS – é importante investir na compreensão de como os professores compreendem um conteúdo CTS e como o tem trabalhado em sala de aula. Dado que é muito frequente associarem o ensino CTS a uma abordagem centrada no cotidiano como forma de superação da dicotomia dos conhecimentos científicos e tecnológicos com as questões presentes na vida social do educando. [...] No emaranhado das relações atuais que configuram a realidade pessoal e social dos indivíduos, não se pode menosprezar o papel da alfabetização científica e tecnológica na formação de uma cidadania responsável. Conforme Santos (2001), o ensino precisa ter uma “validade cultural ... que se assente no propósito de ensinar a cada cidadão o essencial para chegar a sê-lo de facto, aproveitando os contribuctos de uma educação... que valoriza a “educação sobre ciência’, não descura “a educação em ciência” e dá particular atenção à ‘educação pela ciência’ (p. 16). Apesar de a ciência ser parte, direta ou indireta da realidade vivida pelas pessoas, poucas vezes é apresentada para os alunos a relação entre ciência, tecnologia e sociedade. A sociedade está usufruindo produtos da ciência, sem muitas vezes, compreender os prós e os contras dos mesmos. Nesse sentido, percebe-se a necessidade da escola em contribuir para a formação de pessoas capazes de opinar a respeito dos destinos da ciência e da tecnologia, o que exige por parte dos educadores uma ênfase na compreensão da ciência, de suas realizações e limitações. Alguns investigadores do campo do ensino das Ciências refletiram sobre as relações CTS no ensino a partir da abordagem do cotidiano do aluno em sala de aula. Nesses trabalhos, a produção científica e tecnológica é vista como sujeita aos interesses sociais, econômicos, políticos, morais e éticos, desfazendo a imagem de cientista-indivíduo movido apenas pela curiosidade e desvinculado de um contexto Faculdade de Minas 40 que propõe necessidades, que faz pressões, que julga e opta. Trivelato (1995) aponta que o ensino de Biologia não fornece elementos para capacitar os alunos a analisar o conhecimento produzido pelas pesquisas científicas e tecnológicas. O conhecimento científico apresentado é, geralmente, distanciado dos problemas e questões da atualidade, não sendo encarado por alunos como algo que usufruem, ou em relação ao qual possam interferir ou dar sua contribuição. Para a autora, os currículos de Ciências devem incluir a análise das consequências sociais e culturais do desenvolvimento científico e tecnológico, proporcionando o estabelecimento das relações entre desenvolvimento, progresso social e melhoria da qualidade de vida (p. 127). Nesta mesma direção, Amorim (1997), neste seu trabalho, mostra que a visão das professoras investigadas é a de que a ciência é algo externo à sociedade, não considerando o trabalho científico como um trabalho susceptível a determinantes da estrutura social. E a tecnologia, segundo elas, é apenas a aplicação prática do saber científico pela sociedade. O autor conclui que o discurso que predomina na sociedade educacional é o de que o desenvolvimento científico-tecnológico é tido como desencadeador de benfeitorias para a humanidade, sem distinção de nações e classes sociais e sem dar ênfase às questões relativasà dominação e dependência político-econômica. No ensino de Biologia, a abordagem do cotidiano tem sido valorizada por pesquisas como a de Marques e Carvalho (1997) e pelas próprias propostas curriculares (BRASIL, 1999) que têm evidenciado a sua importância para a formação da cidadania dos educados. A compreensão sobre o significado da vida cotidiana é multifacetada, havendo diversas interpretações sobre a mesma. Entretanto, é pela abordagem do cotidiano que se estabelecem situações significativas e são gerados conteúdos que se preocupam com as interações [entre ciência, tecnologia e sociedade] CTS no processo educativo. Podemos concluir que o ensino de Biológica no cotidiano tem um papel fundamental na formação do indivíduo crítico. Pois transmite a este informação que o qualifica a participar dos debates atuais, como também, o prepara, ao ponto que ele possa Faculdade de Minas 41 relacionar os conteúdos apreendidos com seu cotidiano, infelizmente a escola muitas vezes não tem professores preparados para enfrentar a prática, como um todo, mas isso esta sendo adequado a cada dia por políticas públicas e pelas escolas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. BEHRENS, M. A. e ZEM, R. A. M. S. Metodologia de Projetos: O processo de Aprender a Aprender. In TORRES, P. L. (Org.). Algumas vias para Entretecer o Pensar e o Agir. Curitiba: SENAR-PR, 2007. CANIATO, Rodolfo. Consciência na educação. Campinas: SP: Papirus, 1989. CARRAHER, D. W. et al. 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