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32 José A. Castorina e Mario Carretero (Orgs.) foram elaborados no final da obra piagetiana e são os menos conhecidos pelos psicólogos. Não consideraremos, por motivos de espaço, outros processos muito importantes, como a tomada de consciência (PiaGet, 1976), o saber fazer e a busca de razões (PiaGet, 1974), tampouco as in- tricadas e sugestivas relações entre o real, o possível e o necessário (PiaGet, 1983) ou a elaboração dos morfismos (PiaGet; henriquez; asCher, 1990). Assim, vamos expor as relações entre a construção cognitiva e suas condi- ções sociais na história das ideias de Piaget. Por fim, discutiremos o signifi- cado da contribuição da tradição de pesquisa científica para a psicologia do desenvolvimento, avaliando tanto as críticas aos aspectos de seu nú- cleo como as revisões necessárias deste último. a equiliBração Dos sistemas cognitivos A teoria da equilibração é a principal tentativa de Piaget de ofere- cer uma explicação satisfatória do processo de construção cognitiva. Tra- ta-se de um componente crucial da pesquisa do desenvolvimento, cuja pri- meira versão focou os “controles de probabilidades crescentes” (PiaGet; aPOstel; mandeleBrOt, 1957), e foi totalmente reorganizada em uma se- gunda versão (PiaGet, 1978b), focada no jogo dinâmico da assimilação e acomodação dos esquemas de conhecimento. Além disso, Piaget (1978b) elaborou um modelo que, apesar de ficar incompleto, avançou em rela- ção às dificuldades desta segunda versão, ao analisar os processos de passagem de um nível de estruturação a outro, examinando as abstra- ções, a generalização e a dialética (BOOm, 2009; GarCía, 2000). Voltando-nos à segunda versão, a mais sistemática entre as três, mas escrita de modo muito denso em A equilibração das estruturas cogni tivas (PiaGet, 1978b), destacaremos algumas notas muito significativas para a psicologia do desenvolvimento. Por um lado, tal tese se aplica a um sistema de ações em permanente troca com o meio, se mantendo en- quanto expande seu campo de controle das trocas. Além disso, o desen- volvimento deste sistema é um processo construtivo no qual Piaget atri- buiu uma direção e progresso, o que deu lugar a críticas mais significati- vas, como veremos. Por outro lado, a equilibração é “[...] um processo que conduz de certos estados de equilíbrio a outros qualitativamente di- ferentes, passando por múltiplos desequilíbrios e reequilibrações.” (PiaGet, 1978b, p. 5). Trata-se de um equilíbrio dinâmico, ou seja, de uma proprie- dade de um processo constantemente dinâmico, que apresenta formas Desenvolvimento cognitivo e educação: os inícios do conhecimento 33 com relativa estabilidade, como, por exemplo, as estruturas operatórias com sua propriedade de fechamento. O sistema que se equilibra, por sua parte, “[...] está aberto, no sentido de que envolve trocas com o meio, e está fechado, no sentido de que constitui ciclos [...]” (PiaGet, 1978b, p. 6). Essa abordagem do desenvolvimento em termos de um sistema que sustenta uma identidade enquanto modifica a si própria se relaciona com a tese da auto-organização, própria dos sistemas dinâmicos não li- neares (BOOm, 2009). Estes últimos foram reconhecidos por Piaget quan- do encontrou semelhanças entre sua interpretação da equilibração e a versão de “estados dinâmicos” de Prigogine: genuínos estados estacioná- rios envolvidos nas trocas que tendem a manter a ordem funcional e es- trutural em sistemas abertos. Ele considerou que, se reescrevesse sua obra, daria maior ênfase à autorregulação dos processos de equilibração (PiaGet, 1977a). A ideia central é que as trocas dos sistemas de ação cog- nitiva com o mundo estabilizam as estruturas por meio de regulações, e tal estabilidade somente pode ser compreendida por sua história a partir de uma série de sistemas instáveis. Com base nesse modelo, Piaget esbo- ça uma incipiente “teoria de sistemas”, que ainda hoje deveria ser deta- lhada (ChaPman, 1992). Entretanto, toda equilibração cognitiva é um processo de interação entre a assimilação e a acomodação, que pode ser de três tipos (PiaGet, 1978b): antes de tudo, a equilibração que ocorre entre sujeito e objeto, amplamente estudado pelo autor, que pode ser formulada como a assi- milação dos objetos aos esquemas de ação – conferindo-lhes um signifi- cado – e a simultânea acomodação destes aos objetos, supondo que tal interação envolve um processo de regulação. Depois ocorre a equilibra- ção nas interações entre os subsistemas que antes eram independentes. Estes não são articulados automaticamente, seja por que são construídos em velocidades diferentes ou por que a incorporação dos objetos requei- ra esforço. Essa situação pode provocar desequilíbrios, que dão lugar à assimilação recíproca dos esquemas. O terceiro tipo de equilibração cor- responde às acomodações entre os subsistemas, que levam à diferencia- ção de um esquema (ou sistema) em subsistemas, e estes podem provo- car novos desequilíbrios com a demanda de assimilação em um novo sis- tema total. Em certas ocasiões, Piaget caracteriza a situação de conjunto como equilibração entre diferenciação e integração, o que agrega um sentido de hierarquia a respeito do segundo tipo, descrito anteriormente. Nos três tipos mencionados é necessário haver relações entre as afirma- ções e negações. As primeiras consistem na atribuição de traços positivos 34 José A. Castorina e Mario Carretero (Orgs.) aos objetos, e as segundas a atribuições da ausência de uma propriedade específica. Para exemplificar o primeiro tipo de equilibração, considera- remos uma das experiências que Piaget apresenta (1978c), a qual se refe- re a uma contradição entre previsões e um fato que as desmente mediante uma experiência na qual as crianças olham para letras maiúsculas usan- do um espelho. Durante o teste, elas interpretam uma lei segundo a qual – com base em sua experiência com letras assimétricas, como o K – todas as letras ficam invertidas, e se surpreendem quando uma letra simétrica, como o M, não se inverte na imagem. Isso ocorre ao ponto de alguns dos sujeitos afirmarem que a letra M não é uma letra do alfabeto! A dificul- dade está no fato de que a criança não construiu o grupo de deslocamen- tos das posições para todas as letras, uma vez que nem todas as inver- sões das letras “podem ser vistas”. Quanto às relações entre os subsiste- mas cognitivos, poderíamos dizer que, se é feita uma coordenação entre dois deles, é preciso que os sujeitos possam pensar na interseção de S1 e S2, mas, também, no que fica de fora: a contraposição entreS1 e não S2 e de S2 e não S1. Ou seja, para construir um sistema totalizador, são ne- cessárias tanto afirmações como negações. Lembremo-nos de que a ação do sujeito sobre o mundo encontra uma resistência, a qual este reage mediante regulações. Estas últimas são um componente da atividade do sujeito que entra em jogo quando a re- petição da ação é modificada por seu resultado, seja uma lacuna ou um obstáculo (PiaGet, 1978b). Assim, é próprio dos esquemas a repetição de suas ações graças ao feedback produzido pela realização de ações seme- lhantes. Todavia, quando a resistência pode ser qualificada como uma perturbação, aparece em primeiro plano o caráter cíclico das interações com o mundo como sistema aberto e, ao mesmo tempo, fechado. Assim, para assimilar essas perturbações podem ser necessárias modificações no esquema ou no sistema de esquemas. As regulações que foram bem-sucedidas, denominadas por Piaget (1978b) de “compensações”, consistem em ações que se opõem e ten- dem a suprimir a perturbação, seja pela inversão ou pela reciprocidade. Desse modo, obtém-se certa otimização do equilíbrio (ChaPman, 1988b), ainda que, mesmo não sendo completa, provoca conflitos cognitivos, como os que ocorrem no teste do espelho, quando as crianças sustentam a hipótese de que as letras “sempre” se invertem materialmente, o que leva a contradições nos casos em que isso não ocorre. Do mesmo modo, na co- nhecida experiência de conservação da substância (PiaGet; inhelder, 1970), a compensação é completa quando a criança afirma que “acontece a Desenvolvimento cognitivo e educação: os inícios do conhecimento 35 mesma coisa”, por que se pode retornar ao ponto de partida por inversão em relação à transformação gerada ou por reciprocidade se o alonga- mento da salsicha, por exemplo, neutraliza a transformação. Tais com- pensações não levam ao equilíbrio inicial, após os desequilíbrios que acarretam contradições, mas a formas mais avançadas, por que foram superadas as contradições envolvendo, portanto, construções. Por último, a relação entre observáveis e coordenações se relacio- na com as compensações, no processo de equilibração. Os primeiros são “aquilo que os sujeitos acreditam constatar”, como quando observam so- mente o alongamento da salsicha na experiência da conservação da subs- tância. As segundas vão além dos observáveis, por exemplo, por meio de uma coordenação entre eles: “a salsicha oferece mais para comer por que é mais grossa do que a bola”, uma atribuição causal que não é observá- vel. A linha divisória entre ambos é apenas relativa, já que, seguindo o dictum de Hanson (1997), não existem observáveis puros ou dados pela experiência: todo observável está carregado de teoria (GarCía, 2000). No entanto, admitindo que os observáveis próprios de determinado nível de conhecimento podem variar quanto às coordenações, é possível que se provoquem perturbações. Trata-se claramente da discrepância entre os observáveis (p. ex., as mudanças no estiramento da bola de massa de modelar, que parece se adelgaçar), possibilitados pelos esquemas pré- vios, e as expectativas derivadas das ações do sujeito. Para eliminar tal conflito, deve ocorrer alguma diferenciação dos esquemas envolvidos. Uma compensação de sucesso, portanto, é uma construção: a modifica- ção de um esquema que não podia assimilar uma situação por que era inteiramente adequado a ela. Assim, podem ser distinguidas três condutas associadas às relações entre compensações e modificações (PiaGet, 1978b): as reações alfa, onde predominam de maneira absoluta as afirmações com desconhecimento das negações, que são geradas quando um fato novo é uma perturbação tão pequena que não altera o equilíbrio do sistema (p. ex., um objeto que é incluído em uma classificação já estabelecida) ou é uma perturba- ção inassimilável (p. ex., as crianças menores não fazem séries de obje- tos além de ordená-los em pares grande/pequeno e, quando não conse- guem incorporar um terceiro elemento, o deixam de fora). Já as reações beta inserem no sistema o elemento perturbador por meio de certas mo- dificações, embora com o mínimo custo possível (se as classificações são revisadas para incluir um novo elemento, a seriação será estendida para incorporar um terceiro elemento). Por último, a reação superior, a gama, 36 José A. Castorina e Mario Carretero (Orgs.) somente ocorre em sistemas muito elaborados que permitem prever as variações possíveis, que advêm em parte daqueles, deixando de ser per- turbações, isto é, qualquer variação do sistema é compensada por uma transformação contrária (qualquer elemento que se oferece pode ser se- riado sistematicamente de modo operatório). O intricado modelo de desenvolvimento desta segunda versão do equilibração defende a “melhoria” do equilíbrio, um incremento da coe- rência do sistema cognitivo com o mundo exterior, ainda que diferen- ciando sua existência ontológica (que é o que o faz funcionar como um limite para o conhecimento) de seu significado epistemológico, enquanto a realidade está associada a sua transformação cognitiva. Assim, as com- pensações que geram essa melhoria são instrumentos da adaptação à rea- lidade estruturada pelas ações (BOOm, 2009). Todavia, a atividade de compensações progressivas, como as que apre- sentamos, não explica como se passa de um nível a outro da estabilização, isto é, como surge a novidade cognitiva, que será a contribuição da terceira versão da equilibração. Em outras palavras, a última versão analisa os pro- cessos de constituição de um sistema a partir de outro e, por isso, se concen- tra nos mecanismos específicos do desenvolvimento (GarCía, 2000). aBstração reflexiva e generalização construtiva A abstração reflexiva constitui o segundo mecanismo que permite reorganizar os sistemas de conhecimento, e, portanto, dos desequilíbrios, mas em relação às equilibrações que incluem novidades, no sentido de novas conexões e novas distinções de conhecimento. Na terceira versão da equilibração, este processo mantém sua própria identidade e se rela- ciona com a generalização e o pensamento dialético. Enquanto a abstra- ção empírica se refere aos objetos exteriores, a respeito dos quais o sujei- to constata propriedades, separando-as para considerá-las de forma in- dependente, a abstração reflexiva abstrai propriedades das coordenações entre as ações. Caso se isolem as propriedades de um conjunto de obje- tos, como a cor ou o peso, se faz uma abstração empírica, mas se os co- locamos do maior ao menor, se agrega uma propriedade que não proce- de deles, mas do próprio ato de ordenar as propriedades. No entanto, a abstração empírica não é “puramente empírica”, no sentido de que não deriva somente da experiência, já que, para poder abstrair as propriedades físicas, o sujeito precisa utilizar instrumentos de assimilação. Por exem- Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra.