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Banco Básico de Perfis Genéticos e Legislação Aplicada Unidade 1 OBJETIVOS Olá Aluno! Olá Aluna! Prontos para começar o curso sobre banco perfis genéticos e legislação aplicada? O objetivo deste curso é apresentar e discutir a legislação vigente que prevê a coleta de material biológico de condenados e a identificação genética de suspeitos, para fins de inserção nos bancos da Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG). Ao completar esta ação educacional espera-se que os servidores capacitados compreendam a importância dos bancos de dados de perfis genéticos, conheçam as possibilidades dos bancos de perfis genéticos como ferramenta auxiliar à justiça e investigações e estejam aptos para realizarem a coleta de amostras de referência de suspeitos e condenados. Recomendamos que vocês façam anotações em um caderno, bloco de notas ou um arquivo de texto no computador. Este curso tem material de leitura extenso e bastante técnico. Anote conceitos e o que mais achar importante. Lembre-se: após cada unidade do curso, vocês terão acesso a uma avaliação composta por questões objetivas. Cada avaliação vale até 25 pontos da nota final. Para sua aprovação no curso, é necessário que você obtenha 70% do total do evento e, pelo menos, 40% em cada avaliação. Vamos iniciar!? INTRODUÇÃO Em 28 de maio de 2012, foi sancionada a Lei nº 12.654/2012, que alterou duas outras importantes leis do ordenamento jurídico brasileiro: a Lei 7.210/1984 (Lei de Execução Penal) e a Lei 12.037/2009 (Lei de Identificação Criminal do civilmente identificado). A partir daquele momento, estava previsto no ordenamento jurídico nacional a coleta de material biológico de indivíduos condenados ou suspeitos por crimes, dentro de regras estabelecidas, bem como a inserção do respectivo perfil genético destes em bancos de dados de perfis genéticos. Tal feito criou novos caminhos para a investigação criminal no Brasil e ampliou a possibilidade de solução de crimes principalmente no que concerne à identificação do autor do ato delitivo. Mas do que se trata um perfil genético? Como funciona um banco de dados? Quais as limitações impostas pela Lei? Como se realiza uma coleta de material biológico para fins de referência? O que é material de referência? Este é um assunto relativamente novo e ainda gera muitas dúvidas. Nosso curso ajudará você a compreender melhor este tema e se sentir capaz de atuar de forma mais efetiva no cumprimento da legislação vigente e no uso dos bancos de dados de perfis genéticos como ferramenta de elucidação de crimes. CONCEITO DE IDENTIFICAÇÃO A identificação é uma soma de caracteres que individualizam uma pessoa. Tal processo determina a identificação ou a não identificação de um indivíduo, ou seja, aquela pessoa é ou não é determinado indivíduo. Os métodos de identificação devem ser cientificamente sólidos, confiáveis, aplicáveis e capazes de serem implementados dentro de um período de tempo razoável. Torna-se importante diferenciar dois termos que são equivocadamente utilizados como sinônimos: reconhecimento e a identificação de um indivíduo. Alguns indivíduos não relacionados podem ter aparências muito similares, como exemplificado a seguir: Figura: General Douglas MacArthur (esquerda) e Bruce Willis (direita). Figura: Hermann Rorschach (esquerda) e Brad Pitt (direita). Apesar de ser um procedimento usualmente empregado, o reconhecimento não deve ser empregado como um método confiável de identificação humana, pois é subjetivo, não é baseado em conhecimento técnico-científico e não pode ser reprodutível. As falhas decorrentes do reconhecimento facial, principalmente relacionadas à identificação visual, podem levar a erros graves de identificação. Um caso famoso que tomou repercussão nacional em 2014 foi o do ator Vinícius Romão, acusado de roubar uma mulher. Vinícius ficou 16 dias preso após o reconhecimento da vítima. A investigação policial, contudo, apontou Dione Mariano da Silva como o verdadeiro assaltante. A identificação genética é um método de identificação sólido, confiável, aplicável e capaz de ser implementado dentro de um período de tempo razoável. Além disto, a análise do perfil genético de um indivíduo, como método de identificação, resguarda as seguintes características: • Imutabilidade: o DNA está presente em todo o corpo humano, não se alterando a depender do tecido analisado, e não muda através do tempo. • Praticabilidade: a coleta é fácil (suabe bucal) e sua análise vem tendo o custo cada vez mais baixo (em torno de R$ 100,00 – R$ 200,00 por amostra). • Classificabilidade: os dados podem ser resumidos em um código alfa- numérico, facilmente armazenados em bancos de dados. O QUE É DNA? O DNA é uma molécula que contém as informações genéticas dos organismos e está presente nas células. Praticamente qualquer material biológico contém DNA, seja ele mucosa oral (células epiteliais), sangue, sêmen, músculo, órgãos, ossos, dentes, saliva, urina, fezes, pêlo, etc. Cada indivíduo representa uma combinação do DNA de seus pais, sendo que a metade do DNA é herdada da mãe, e a outra metade, do pai. A fita de DNA é muito longa e isso com certeza poderia atrapalhar na hora da divisão celular. Por isso o DNA se condensa, formando as estruturas que chamamos de cromossomos. Cada espécie tem um número determinado de cromossomos. A espécie humana, por exemplo, tem um conjunto de 46 cromossomos, presentes nos núcleos de cada célula. Todas as células de um indivíduo contêm a mesma informação genética (mesmo DNA), o que se traduz em 3,2 bilhões de pares de bases. As exceções são os gametas (que possuem apenas metade da informação genética) e as células anucleadas, como as hemácias (que não possuem tal material genético). Dentro de todo DNA, existe uma parte codificante e uma parte não codificante. A parte codificante é aquela utilizada para a produção de proteínas, a qual pode estar relacionada a alguma característica física, comportamental ou doenças. Já a região não codificante não influencia nas características físicas e comportamentais das pessoas. Esta região sim tem interesse técnico-científico nas ciências forense porque varia muito de pessoa para pessoa permitindo sua individualização. Assim, quando se fala de perfil genético, estamos falando da análise de uma quantidade de 5 mil a 20 mil pares de base de regiões não codificantes. Ou seja, analisa-se apenas 0,0007% (de um total de 3,2 bilhões de pares de base) do DNA do indivíduo em regiões não codificantes. Portanto, o exame de genética forense não diz absolutamente nada sobre as características físicas, comportamentais ou doenças de uma pessoa. A grande variabilidade genética existente torna o DNA uma ferramenta poderosa de identificação de pessoas. Mais à frente estudaremos casos relevantes em que o exame de genética forense foi importante para sua elucidação. Em resumo: A Genética Forense trata da utilização dos conhecimentos e das técnicas de Genética e de Biologia Molecular no auxílio da justiça no que tange desde autorias de locais de crime quanto na identificação de pessoas desaparecidas ou definição de paternidade (ou maternidade). O DNA empregado nesses processos é obtido de materiais biológicos como ossos, dentes, sangue, tecido epitelial, sêmen e saliva1. O processo em que se obtém esse perfil genético e a sua comparação é conhecido como exame de DNA. Esse nome se tornou muito popular, apesar de que de fato no laboratório de genética forense se analisa apenas o perfil genético. HISTÓRICO DO EXAME DE DNA O exame de DNA foi um avanço tecnológico relativamente recente no campo das ciências forenses. Tal tecnologia tem um notável poder de discerniras diferenças genéticas, ao ponto de individualização. Juntamente com o desenvolvimento de métodos cada vez mais sensíveis, o teste de DNA é agora uma parte essencial do arsenal pericial objetivando a investigação de crimes. As primeiras aplicações da técnica na área forense surgiram do trabalho de Alec Jeffreys, o qual vinha estudando a utilização de fragmentos polimórficos* de DNA para testes de paternidade. Os polimorfismos genéticos são variações na seqüência de DNA. A freqüência de alelos heterozigotos para o polimorfismo genético ocorre em mais de 2% da população. Em 1985, a polícia britânica de West Midlands se aproximou de Jeffreys para ajudá-los em um caso de estupro e homicídio. O trabalho de Jeffrey resultou na libertação de um homem injustamente condenado e na apreensão e condenação do verdadeiro perpetrador. Em 1983, Kary Mullis desenvolveu a técnica conhecida como PCR (Polymerase Chain Reaction - Reação em Cadeia da Polimerase), que revolucionou a biologia molecular, incluindo a análise de DNA forense. Através da PCR, a análise de DNA forense tornou-se essencialmente mais rápida e sensível. Problemas que ocorriam anteriormente, como o tempo de análise, a utilização de materiais radioativos, a grande quantidade de amostra, a presença de DNA não degradado de alto peso molecular e a necessidade de lidar com variações de tamanho foram melhorados pelo uso da técnica de PCR. A PCR é um processo enzimático no qual uma região específica do DNA é replicada repetidamente para produzir muitas cópias de uma determinada sequência. Este processo envolve o aquecimento e resfriamento de amostras em um padrão de ciclo térmico. O processo de amplificação por PCR tem um duplo propósito: aumentar o número de moléculas que representam um local-alvo específico e anexar um marcador, na maioria das vezes um corante fluorescente, que permite a detecção dos amplicons produzidos. OBTENÇÃO DO PERFIL GENÉTICO As regiões analisadas apresentam sequências de DNA repetitivas (Short Tandem Repeats – STR) também conhecidas como marcadores genéticos e consistem em unidades de repetição com 1 a 5 nucleotídeos, repetidos entre 2 a 40 vezes. Estas repetições são muito abundantes em zonas não codificantes do DNA nuclear e são analisadas por técnicas de biologia molecular nos laboratórios de genética forense. A análise de STR é o método de escolha atual para os exames de DNA em laboratórios forenses e produz resultados robustos de identificação e/ou vínculo genético. As chaves para o sucesso do exame de DNA utilizando STRs são a análise simultânea de várias regiões e a capacidade de marcar nucleotídeos com substâncias fluorescentes. O exame envolve diversas etapas: • AMOSTRAGEM: toma-se uma parte do material biológico (ou ele todo, no caso de suabes ou outros itens pequenos) que represente o objeto encaminhado a exame; a análise é feita por meio de exame visual, óptico (com uso de luzes forenses, lupas, microscópios etc) ou bioquímico (com uso de reagentes específicos), os quais podem apontar os locais onde existe material biológico apto à obtenção de DNA. • EXTRAÇÃO: lise celular (liberação do DNA da célula) seguida de purificação, visando a obtenção de uma solução contendo o material genético; • QUANTIFICAÇÃO: determinação de quanto DNA se tem na amostra; no caso de amostras de referência (onde há boa quantidade de DNA e o material genético é proveniente de uma única fonte) esta etapa pode ser excluída; • AMPLIFICAÇAO: produção de múltiplas cópias do DNA por meio da técnica de PCR • SEPARAÇÃO: separação do produto de DNA amplificado para permitir a sua subsequente identificação; atualmente é realizada pela técnica de eletroforese capilar; • ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO: a determinação de um perfil genético utiliza kits comerciais que analisam ao menos 15 marcadores genéticos autossômicos simultaneamente, além do marcador de gênero sexual (Amelogenina). A obtenção de um perfil genético é um processo laboratorial complexo. Após obtidos, no entanto, os perfis genéticos são dados simples que podem ser facilmente armazenados em bancos de dados. Exemplo de perfil genético: DPF12345 X,Y 7,8 15,17 23,27 13 8,11 10,11 12,13 8,9 15,16 12 9,13 12,18 13,14 11 22,24 O exame de DNA é de natureza comparativa. A comparação quantitativa e qualitativa das amostras de DNA presentes em vestígios (amostras questionadas) frente a perfis de DNA conhecidos (amostras de referência) podem ser realizadas por meio de: 1) comparação direta (quando a investigação já aponta os suspeitos – casos fechados) ou 2) bancos de dados de perfis genéticos (quando a investigação não aponta os suspeitos – casos abertos). Compara-se o perfil genético de uma amostra questionada com o perfil genético de uma amostra de referência. Enquanto a amostra questionada pode ser praticamente qualquer vestígio, a amostra de referência é coletada de uma pessoa de identidade conhecida. As amostras questionadas normalmente são coletadas pelos peritos criminais na perícia de local de crime, mas também podem ser coletadas no corpo da vítima, durante os exames de corpo de delito realizados nos institutos de Medicina Legal. As amostras de referência são mais comumente coletadas de pessoas vivas, mas também podem (e devem) ser coletadas de cadáveres de identidade conhecida. A coleta de material biológico de pessoa viva preferencialmente é feita a partir da boca, coletando-se células da mucosa oral com o auxílio de um suabe ou dispositivo de coleta. Como são expressos os resultados do exame de DNA forense? Quem já leu um laudo de genética forense deve ter percebido que os resultados são expressos de duas formas: • Numericamente: expresso em Razão de Verossimilhança (LR ou Likelihood Rate), com base em duas hipóteses; • Textualmente: utiliza-se uma escala verbal, que traduz o resultado de acordo com o valor de LR obtido. Mas como é calculada a Razão de Verossimilhança (LR)? Basicamente, o que se calcula é a razão entre duas hipóteses. No caso de uma coincidência (match) entre um vestígio e uma amostra de referência (condenado ou suspeito), as seguintes hipóteses são consideradas: • Hipótese 1 (também chamada de Hipótese da acusação): A amostra questionada é oriunda do indivíduo doador da amostra de referência. • Hipótese 2 (também chamada de Hipótese da defesa): A amostra questionada é oriunda de um outro indivíduo qualquer da população sem vínculo familiar próximo com o doador da amostra de referência. O LR é a razão entre a Probabilidade de ocorrer a Hipótese 1 sobre a Probabilidade de ocorrência da Hipótese 2: LR = Probabilidade da Hipótese 1 Probabilidade da Hipótese 2 Para tanto utiliza-se tabelas de frequência alélica da população em estudo. Isso quer dizer que cada população possui uma determinada frequência na ocorrência de determinados alelos (STRs que ocorrem em determinadas regiões do DNA). Após os cálculos, os resultados são relatados da seguinte maneira: “O resultado obtido é n vezes mais provável se considerarmos a hipótese 1 do que se considerarmos a hipótese 2”, onde n é o valor obtido de LR. Para fins de apresentação dos resultados, também pode ser utilizada uma escala verbal, de maneira a tornar mais simples a interpretação do Laudo. “Os resultados obtidos suportam de maneira "escala verbal1" a hipótese de que a amostra questionada analisada é oriunda do doador da amostra de referência.” 1 No laboratório de Genética Forense da Polícia Federal se utiliza a escala proposta em Buckleton, Triggs & Walsh, Forensic - DNA Evidence Interpretation, CRC Press, 2005. • LR ≥ 1.000.000 (um milhão) - Extremamente forte • 100.000 (cem mil) ≤ LR< 1.000.000 (um milhão) - Muito forte • 10.000 (dez mil) ≤ LR < 100.000 (cem mil) – Forte • 1.000 (um mil) ≤ LR < 10.000 (dez mil) – Moderadamente forte • 100 (cem) ≤ LR < 1000 (mil) – Moderado • 10 (dez) ≤ LR < 100 (cem) - Limitado • 1 (um) ≤ LR < 10 (dez) – Inconclusivo Por exemplo, no caso do LR calculado ser da ordem de 1 octilhão (valor de ordem bem comum nas análises genéticas atuais), pode-se concluir da seguinte maneira: “Os resultados obtidos suportam de maneira extremamente forte a hipótese de que a amostra questionada analisada é oriunda do doador da amostra de referência.” REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BUTLER. Advanced Topics in Forensic DNA Typing: Methodology. Elsevier 2012. DECANINE, D. O papel de marcadores moleculares na genética forense. Rev. Bras. Crimin. 5(2), 18-27, 2016. FRANÇA, GENIVAL VELOSO. Medicina Legal, 6ª ed, Editora Guanabara Koogan, 2001. INTERPOL. Disaster Victim Identification Guide(Proposed Amendments: March, 2014), (2014). Disponível em https://www.interpol.int/How-we- work/Forensics/Disaster-Victim-Identification-DVI LODISH H, BERK A, ZIPURSKY SL, MATSUDAIRA P, BALTIMORE D, DARNELL J. Análise genética em biologia molecular. In: Nader HB, editor. Biologia celular e molecular. Rio de Janeiro: Revinter; 2002. p.255-93. PICOLI, F. F., ALVES, A. M.; MUNDIM, M. B. V.; MENDES, S. D. S. C.; SILVA, R. F. A Fragilidade da Análise Facial como Único Método de Identificação Humana. Brazilian Journal of Forensic Sciences, Medical Law and Bioethics 3(4):281-302 (2014). RIBPG. MANUAL DE PROCEDIMENTOS OPERACIONAIS DA RIBPG (VERSÃO 3). 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