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CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI GUARULHOS – SP APRENDIZAGEM E METODOLOGIAS EM RELAÇÃO AOS SUJEITOS COM ALTAS HABILIDADES 2 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 3 2 DIREITOS DAS PESSOAS COM AH/SD ................................................................. 4 2.1 Incursão histórica do conceito ............................................................................ 4 2.2 Educação especial brasileira na perspectiva da educação inclusiva .................. 7 2.3 Direito ao atendimento educacional especializado ........................................... 13 2.4 Direito a acessibilidade ..................................................................................... 21 3 CARACTERÍSTICAS DA PESSOAS COM AH/SD ................................................ 23 3.1 Talento, pensamento divergente e dedicação .................................................. 28 3.2 Precocidade, criatividade e avidez por aprender .............................................. 30 3.3 Características afetivas das altas habilidades/superdotação ............................ 33 3.4 Teoria de Dabrowski e as supersensibilidades ................................................. 40 4 PROCESSOS DE IDENTIFICAÇÃO ...................................................................... 42 4.1 Modelo dos Três Anéis de Renzulli ................................................................... 45 4.2 Modelo Diferencial de Dotação e Talento (DMGT 2.0) ..................................... 48 4.3 Modelo de sobredotação WICS ........................................................................ 49 4.4 Processo de identificação ................................................................................. 51 4.5 Identificação do talento: desafios dentro da sala de aula ................................. 53 4.6 Lista Itens para Observação em Sala de Aula .................................................. 58 4.6.1 Primeiro passo ................................................................................................ 59 4.6.2 Segundo passo ............................................................................................... 61 4.6.3 Terceiro passo ................................................................................................ 61 5 ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS ........................................................................... 62 5.1 Enriquecimento curricular ................................................................................. 64 5.2 Enriquecimento intracurricular .......................................................................... 66 5.3 Aceleração ........................................................................................................ 67 5.4 Compactação curricular .................................................................................... 68 8. REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 69 3 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 4 2 DIREITOS DAS PESSOAS COM AH/SD Fonte: https://bityli.com/xhnvxpnc O conceito de Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) é uma nomenclatura relativamente nova, mas desde sempre a humanidade buscou encontrar soluções e resolver problemas. Essa busca trouxe mudanças profundas ao desenvolvimento da sociedade. Ao longo da história pessoas talentosas ou ainda com agilidade fora do comum destacaram-se em várias áreas do saber, mas apesar desse conhecimento, os estudos mostram que as pesquisas sobre inteligência e sobre as altas habilidades são insuficientes. Neste capítulo temos como objetivo realizar uma retrospectiva histórica sobre o conceito, os direitos e a inclusão das pessoas com Altas Habilidades/ Superdotação (PAH/SD). 2.1 Incursão histórica do conceito Desde o século IV a.C., estudos filosóficos apontam que o conceito de inteligência era alvo de interesse para entender as capacidades humanas presentes na sociedade, considerando os contextos sociais, ideológicos e políticos. Na Idade Moderna, no entanto, o conceito de inteligência promovido por René Descartes considerava a inteligência como a capacidade de diferenciar o falso do verdadeiro e ainda formar bons juízos (SAKAGUTI, 2020). https://bityli.com/xhnvxpnc 5 A partir do século XIX incrementou-se o interesse pelos estudos sobre inteligência humana, principalmente após Herbert Spencer e Francis Galton afirmarem que a inteligência consistia no reflexo de habilidades sensoriais e perceptivas, as quais eram geneticamente transmitidas. Entretanto, as primeiras pesquisas com resultados realmente significativos sobre a inteligência humana surgiram apenas no século XX. Em 1904, o pesquisador francês Alfred Binet tentou mensurar a inteligência por meio do Quociente Intelectual (QI), um conjunto de avaliações que buscava mensurar atributos vinculados à inteligência e que pretendiam responder aos questionamentos sobre o desempenho escolar de crianças. Esses testes psicológicos também buscavam comparar e relacionar as idades cronológica e mental das crianças (SAKAGUTI, 2020). De acordo com os estudos de Sakaguti (2020), Binet e Théophile Simon atenderam a um pedido do Ministério de Educação Francês e criaram, em 1905, a escala Binet-Simon para diagnosticar crianças que careciam de educação especializada. Essa escala era capaz de avaliar o nível verbal e não verbal, a habilidade de raciocinar e a compreensão da linguagem. Anos mais tarde, em 1939, David Wechsler, psicólogo romeno, desenvolveu a Escala Wechsler de Inteligência para Adultos (WAIS). A autora afirma que esses testes de inteligência tornaram-se alvo de crítica dos cientistas, especialmente daqueles que não acreditavam na quantificação da inteligência, pois, a consideravam algo estático no tempo e no espaço. Apesar dessas críticas, os estudos sobre o tema continuaram, e alcançaram destaques a teoria de Guilford, que engloba fatores dentro de inteligência, e a de Gardner, que idealizou as inteligências múltiplas. A identificação dos superdotado data do ano 2200 a.C., durante a antiguidade chinesa, quando os jovens eram submetidos a um sistema de concurso com altíssimo rigor. Assim, os jovens que eram escolhidos, ocupavam posições no serviço ofícial dentro do governo. Esse sistema de avaliação chineses configurou a concepção de inteligência que está vigente até hoje nas práticas sociais. Na Grécia Antiga, os papéis dos cidadãos dependiam de suas capacidades e habilidades. Dessa forma, eram os mais sábios e inteligentes, que recebiam as funções de governo. Percebe-se como essa iniciativa, a existência de um trabalho de6 política socioeducacional para identificar as pessoas mais capazes e habilidosas, as quais recebiam benefícios diferenciados em relação ao restante da população. De forma semelhante, na Turquia, durante séculos XVI e XIX, centenas de jovens eram selecionados, de acordo com suas habilidades e inteligência. Logo, permaneciam no Palácio Escola dos 12 aos 14 anos. Aqueles que alcançavam um destaque maior, passavam a ocupar altos cargos no governo imperial. Ainda que isoladas, outras ações foram identificadas para atender crianças e jovens superdotados foram identificadas pela Europa e Ásia e também nos Estados Unidos (SAKAGUTI, 2020). Na Europa do século XX, os primeiros textos sobre o assunto são de 1910, tendo sido publicados na Iugoslávia. Antes da Primeira Guerra, a primeira escola para alunos com inteligência superior surgiu na Holanda em 1921. Na Alemanha, William Stern introduziu o conceito de quociente de inteligência, ao mesmo tempo que Spranger sugeria bolsas de estudo para os mais capazes, e Galton, na Inglaterra, fazia a primeira pesquisa sobre testar a inteligência. Nesse país, os Atos Educacionais de 1870 e 1902 tornaram a educação obrigatória, e o Ato de 1944 criou formas diferenciadas de Educação, usando testes de aptidão. Nos anos 1960, no entanto, o movimento de igualdade de direitos gerou a descrença em testes de aptidão, e na educação diferenciada para superdotados. Na Ásia em geral (Coréia, Taiwan, Singapura), a partir dos anos 1970, o investimento no potencial humano vem crescendo a cada dia, fortalecendo a educação dos talentos. E em Israel também enfatiza-se muito a educação das altas habilidades. Já nos Estados Unidos, o processo foi mais tardio que no continente europeu, e a atenção às altas habilidades era ainda exceção no século XIX. A primeira medida pedagógica foi adotada em 1862, permitindo aos alunos superdotados a aceleração da aprendizagem por meio de promoções a cada seis meses. Desenvolveu-se, principalmente, por causa da Guerra Fria, ocasião em que Louis Terman, da Universidade de Stanford, começou a medir o Q.I. (Quociente Intelectual) com o teste Stanford-Binet, e Leta Hollingworth, da Universidade de Columbia, defendia educação diferenciada para os altamente habilidosos. Nos anos 1960, no entanto, esse esforço também foi reduzido em nome da igualdade de oportunidades de educação para todos, e os EUA vivem um eterno dilema: como conciliar dois valores importantes, a equidade e a excelência. 7 No Brasil sentimos alguns reflexos desse dilema, uma vez que, por motivos diferentes, também carregamos conosco, por muito tempo, o preconceito de que a Educação Especial dos talentosos é uma forma elitista de discriminação. Sobre o desenvolvimento da atenção às altas habilidades no Brasil, entre outros, Gama (2006) e Delou (2007) nos contam que o marco inicial foi cravado nos anos 1930, quando Leoni Kaseff publica “A Educação dos Supernormais”. Antes disso, Ulisses Pernambuco, já em 1924, recomendava o início de trabalho dirigido ao superdotado, tratando de sua identificação por meio de um teste usado pelo exército americano na 1ª Guerra Mundial, encontrando, por meio dele, dez por cento de superdotados. De acordo com a professora Cristina Delou (2007), o atendimento pioneiro aos estudantes com altas habilidades/superdotação, no Brasil, aconteceu após a chegada da pedagoga russa Helena Antipoff em 1929, à convite da Secretária de Educação do Estado de Minas Gerais. Foi assim que se iniciaram as pesquisas em Educação Especial no Brasil. Mas, a menção aos alunos excepcionais na Lei de Diretrizes e Bases da Educação só aconteceu em 1961, e apenas em 1971 foram estabelecidos os tipos de atendimento que esse aluno deveria receber, por meio da Lei n. 5.692, de 11 de agosto de 1971: Art. 9º - os estudantes que apresentem deficiências físicas ou mentais, os que encontrem atraso considerável quanto à idade reguiar de matrícula e os superdotados deverão receber tratamento especial, de acordo com as normas fixadas pelos Conselhos de Educação (BRASIL, 1971). Na década de 1970, alguns fatos relevantes marcaram a luta pelo reconhecimento e inclusão dos sujeitos com AH/SD. Foram elaborados os Pareceres do Conselho Federal de Educação n. 255 e n. 436/1972 e n. 681/1973. Também foi criado, em 1973, o Centro Nacional de Educação Especial (CENESP), que investiu em pesquisas para o atendimento especializado desse aluno e ainda promoveu dois seminários sobre superdotados, em Brasília, nos anos de 1974 e 1977. 2.2 Educação especial brasileira na perspectiva da educação inclusiva O atendimento educacional especializado, no Brasil, começa a ser exigido a partir da década de 60. Foi fundamental a quebra do paradigma educacional para que o direito pela escolarização das pessoas com necessidades especiais dentro do 8 sistema de ensino regular fosse efetivado nas políticas educativas. A década de 90 será crucial na conquista por reformas estruturais da escola no marco da inclusão. Esse modelo surge como uma reação contrária ao processo de integração, buscando acolher e respeitar as diferenças de cada aluno. Após um longo processo, a educação especial brasileira na perspectiva da inclusão foi reconhecida como uma modalidade de ensino que perpassa todos os níveis, agindo pedagogicamente, para garantir atendimentos educacionais de qualidade às necessidades dos estudantes com necessidades educacionais especiais, através de serviços, recursos, metodologias, profissionais especializados que os ajudem no desenvolvimento de suas capacidades e potencialidades. A literatura consultada confirma que o atendimento às necessidades especiais dos alunos que apresentam altas habilidades, em alguma ou várias áreas do desempenho humano, é fundamental para que esse potencial não se perca ou, no pior dos casos, seja utilizado contra a sociedade. Observa-se que o processo de identificação desses alunos, ainda, passa por um lento processo e representa um grande desafio. Entretanto, o censo escolar de 2005 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep/MEC) registrou 1.928 matrículas de alunos com altas habilidades ou superdotação em todo o país e, em 2016, foram 15.995 estudantes matriculados. Esses dados revelam um aumento considerável. Outras medidas foram tomadas para a inclusão dos superdotados como a implantação dos núcleos de atividades de altas habilidades/superdotação; das salas de Recursos Multifuncionais, com o objetivo de disponibilizar aos sistemas públicos de ensino equipamentos, mobiliários, materiais pedagógicos e de acessibilidade para a oferta do atendimento educacional especializado nas escolas públicas de ensino regular. A década de noventa é uma época determinante no campo da educação inclusiva. Movimentos, organismos internacionais, pesquisadores da educação especial assumem um papel fundamental para ancorar nas trilhas da inclusão em favor daqueles que por anos foram colocados à margem do sistema educacional. Impulsionados pelo princípio da educação para todos independentemente de classe, raça, gênero ou deficiência, iniciam-se novos tempos na escola brasileira e com eles, novos desafios. Foi a década que rompeu com o antigo paradigma da educação especial, conhecido pela filosofia da integração. Mas, todo esse modelo foi repensado 9 à luz do paradigma da inclusão. Mantoan (2003) nos explica que os paradigmas entram em crise cada vez que uma nova visão de mundo é proposta. Para os gregos os paradigmas eram modelos, ideias que se materializam de forma imperfeita num mundo concreto. A concepção moderna os chamará de regras, normas, valores, princípios que surgem em um momento determinado e norteiam o comportamento de um grupo. Mas chega um certo tempo, em que esses modelos já não satisfazem mais e, por isso, entram em crise.Tendo estas concepções como base, Mantoan dize que toda mudança de paradigma gera incertezas e inseguranças, mas também renasce a ousadia e a liberdade para procurar novos conhecimentos, interpretações que ajudem a repensar o mundo desde outra ótica. A inclusão é o novo paradigma da educação. A conjuntura mundial tornou-se cenário visível da grande diversidade cultural, social, religiosa, étnica, de gênero, enfim, de toda essa pluralidade de formas e manifestações da vida humana. Diante dessas diferenças, a escola tem sido questionada na sua forma de acolher essas diferenças, também no que respeita às diferentes formas de apreender e de se relacionar com o saber. Um dos documentos determinantes para a elaboração de uma política pública voltada para a inclusão das pessoas com deficiência, no Brasil, foi a Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994). Esse dispositivo internacional proclama o direito a educação para todas as crianças, entendendo que a inclusão não se limita só a crianças com deficiências, mas a todas aquelas que precisam de um atendimento educacional especializado: O princípio que orienta esta Estrutura é o de que escolas deveriam acomodar todas as crianças independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras. Aquelas deveriam incluir crianças deficientes e superdotadas, crianças de rua e que trabalham, crianças de origem remota ou de população nômade, crianças pertencentes a minorias linguísticas, étnicas ou culturais, e crianças de outros grupos desavantajados ou marginalizados (UNESCO, 1994). Este documento reforçou a mudança de paradigma na Educação Especial em dois aspectos. Por um lado, redefinindo o conceito dos sujeitos alvos da educação especial, na utilização do termo “pessoas com necessidades educacionais especiais”, inclusive aquelas crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem e não só as 10 com deficiência. Por outro lado, preconizou que todas as escolas devem acolher todas as crianças, independentemente de suas diferenças culturais, sociais, étnicas, religiosas, de condições intelectuais, etc. Ela foi firmada por mais de 100 países e numerosas organizações internacionais, estabelecendo fundamentos e orientações por uma educação que seja universal e inclusiva por direito próprio. Nesta declaração, também, alerta-se para uma pedagogia centralizada no aluno e que ela se torna um dos maiores desafio da escola inclusiva. O documento insiste em que: o mérito de tais escolas não reside somente no fato de que elas sejam capazes de prover uma educação de alta qualidade a todas as crianças [...] tais escolas é um passo crucial no sentido de modificar atitudes discriminatórias, de criar comunidades acolhedoras e de desenvolver uma sociedade inclusiva. (UNESCO, 1994). Assume-se, então, que “as diferenças humanas são normais” e que, em consonância com a aprendizagem de ser adaptada às necessidades da criança, ao invés de se adaptar a criança às ideias pré-concebidas a respeito do ritmo e da natureza do processo de aprendizagem (UNESCO, 1994). O benefício da pedagogia centrada na criança, diz a Declaração de Salamanca, é a possibilidade de reduzir a taxa de desistência e repetência escolar e ao mesmo tempo garantir índices médios mais altos de rendimento escolar, impedir o desperdício de recursos e o enfraquecimento de esperanças porque sempre e alimentou a crença de que "um tamanho serve a todos". Os governos e organizações que firmaram esta declaração sustentam a ideia de que: Escolas centradas na criança são além do mais a base de treino para uma sociedade baseada no povo, que respeita tanto as diferenças quanto a dignidade de todos os seres humanos. Uma mudança de perspectiva social é imperativa. Por um tempo demasiadamente longo os problemas das pessoas portadoras de deficiências têm sido compostos por uma sociedade que inabilita, que tem prestado mais atenção aos impedimentos do que aos potenciais de tais pessoas. (UNESCO, 1994) O documento utiliza o termo “portadores de deficiência” porque na época era essa a nomenclatura vigente. Atualmente, utiliza-se o termo “pessoas com deficiência”. Portanto, leia-se dessa forma. Por tudo isso, afirma Mantoan (2003, p. 15), a “inclusão implica uma mudança de perspectiva educacional, pois, não se limita 11 aos alunos com deficiência e aos que apresentam necessidades de aprender, mas a todos os demais”. Para esta pesquisadora, a educação inclusiva põe fim a divisão entre escola regular e escola especial. A partir deste novo modelo, as escolas devem atender as diferenças sem discriminar, sem trabalhar à parte com os alunos diferentes, e além do mais, sem estabelecer regras específicas para planejar, para aprender, para avaliar. E ela, acrescenta que o objetivo de todo esse processo é atingir os alunos que fracassam na sala de aula e são penalizados com a repetência, a evasão, a discriminação, a exclusão. Em 2008, o governo brasileiro por meio da Secretaria de Educação Especial do Ministério de Educação (SEESP), publica a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, na qual se explicita, claramente, em que consiste este movimento da educação inclusiva: O movimento mundial pela educação inclusiva é uma ação política, cultural, social e pedagógica, desencadeada em defesa do direito de todos os alunos de estarem juntos, aprendendo e participando, sem nenhum tipo de discriminação. A educação inclusiva constitui um paradigma educacional fundamentado na concepção de direitos humanos, que conjuga igualdade e diferença como valores indissociáveis, e que avança em relação à ideia de equidade formal ao contextualizar as circunstâncias históricas da produção da exclusão dentro e fora da escola (BRASIL, 2008). Por décadas, as pessoas com necessidades educacionais especiais foram separadas da sociedade, escondida e discriminadas. O antigo paradigma demandava que deviam ser separadas de seus pares e receber um tratamento meramente assistencialista por serem considerados incapazes. As primeiras instituições que surgem no Brasil, segundo o próprio documento do MEC (Brasil, 2008), eram organizadas segundo conceito de normalidade/anormalidade, determinando formas de atendimento clínico-terapêuticos fortemente ancorados nos testes psicométricos que, por meio de diagnósticos, definiam as práticas escolares para os alunos com deficiência. Foram esses os princípios que orientaram o atendimento às pessoas com deficiência, no Brasil, na época do Império. As duas instituições pioneiras foram: o Imperial Instituto dos Meninos Cegos (1854), atual Instituto Benjamin Constant – IBC, e o Instituto dos Surdos Mudos (1857), hoje denominado Instituto Nacional da Educação dos Surdos – INES, ambos no Rio de Janeiro. No início do século XX foram 12 fundados: o Instituto Pestalozzi em 1926, instituição especializada no atendimento às pessoas com deficiência mental; em 1954, foi fundada a primeira Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – APAE; e, em 1945, foi criado o primeiro atendimento educacional especializado às pessoas com superdotação na Sociedade Pestalozzi, por Helena Antipoff. Em 1973, o MEC cria o Centro Nacional de Educação Especial – CENESP, responsável pela gerência da educação especial no Brasil, que, sob a égide integracionista, impulsionou ações educacionais voltadas às pessoas com deficiência e às pessoas com superdotação, mas ainda configuradas por campanhas assistenciais e iniciativas isoladas do Estado. Enes, Bicalho (2015) compreendem que o paradigma integracionista da década de 70 e 80 baseava-se no modelo médico, assistencialista, segregativo sem possibilidade de acesso à educação, ou seja, os alunos recebiam, apenas, uma instrução voltada para alcançar autonomia nas atividades da vida diária (AVD). Atualmente,usa-se a nomenclatura AVAS (Atividades da vida autônoma e social), que revela que tais alunos precisam ser estimulados no somente no âmbito comportamental, mas, também, no social. Nesse sentido, essas pessoas passavam anos aprendendo a escovar dentes, a tomar banho e comer sozinhos, enfiar contas em arames e fios, a usar papel só para pintar e fazer colagem. As pessoas com deficiência auditiva e surdez eram separados das famílias e internados em escolas especiais. Afirmam, também, que a década de 1990 foi crucial na luta pelos direitos das pessoas com necessidades especiais. O sentimento de renovação do olhar da sociedade em relação a essa parcela da população era generalizado. No Brasil, os movimentos sociais levaram as ideias e propostas para debates educacionais, que se reconhecidas e implementadas pelo Ministério de Educação. Passos importantes foram dados para que esse novo modelo de educação inclusiva ganhe seu espaço e, sobretudo, autoridade nas práticas pedagógicas. Os alunos com necessidades especiais foram reconhecidos como sujeitos de direitos para sua escolarização. No entanto, e as pesquisadoras Guenther, França-Freitas (2014) nos alertam que a simples matrícula do aluno não é garantia de atendimento às suas necessidades especiais. Elas argumentam que o processo de inclusão escolar implica mudanças radicais na compreensão dos sujeitos e na estrutura da 13 escola. Mesmo que os professores acreditam ter uma adequada formação acadêmica para lidar com alunos com necessidades educacionais especiais, as suas concepções e práticas pedagógicas são limitadas e restritivas por serem reprodutoras de um discurso médico sobre necessidades especiais. A crítica maior desses autores radica na responsabilidade pelo êxito ou pelo fracasso da inclusão nas costas dos professores. Eles apontam que quando os professores sinalizam suas dificuldades e necessidades, isso é indicador de um isolamento profissional. Esperava-se que a escola inclusiva seja uma escola democrática, mas o que se constata é que o isolamento profissional é real e a compreensão da política inclusiva, ainda é limitada. 2.3 Direito ao atendimento educacional especializado O presente tópico objetiva apresentar e analisar brevemente as conquistas alcançadas pela Educação Especial na sua luta pelo reconhecimento do direito das crianças a receber um atendimento educacional especializado no marco da legislação brasileira nos documentos mais determinantes sobre o assunto a partir de 1961, data de promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), pela Lei 4.024/61, até 2008, data de publicação da Política Nacional de Educação Especial na perspectiva de Educação Inclusiva (2008). O atendimento educacional especializado começa a ser, inicialmente, garantido para as pessoas com deficiência pelas disposições da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN, Lei no 4.024/61(Brasil, 1961), no artigo 88 que apontava o direito dos “excepcionais” à educação, afirmando que, ela “deve, no que for possível, enquadrar-se no sistema geral de educação, a fim de integrá-los na comunidade”. Merece ser observado que o termo utilizado para se referir às pessoas com deficiências é de “excepcionais” e que a compreensão de atendimento educacional enquadra-se dentro dos parâmetros da possibilidade dentro do paradigma da integração. Em 1971, o governo altera a LDBEN de 1961, com a Lei no 5.692/71, o único artigo que faz referência a educação especial é o artigo 9, que estabelece que: Os alunos que apresentem deficiências físicas ou mentais, os que se encontrem em atraso considerável quanto à idade regular de matrícula e os 14 superdotados deverão receber tratamento especial, de acordo com as normas fixadas pelos competentes Conselhos de Educação. (BRASIL, 1971) Observa-se que no artigo 9º foi retirado o uso do termo “excepcional”, que pode ser considerado um avanço, e, regulamenta-se o “tratamento especial”, que não necessariamente envolve educação ou escolarização, para “alunos que apresentam deficiências físicas ou mentais” e aparecem pela primeira vez os “superdotados”. Entretanto, no mencionado artigo não se promove a organização de um sistema de ensino capaz de atender às necessidades educacionais especiais e acaba reforçando o encaminhamento dos alunos para as classes e escolas especiais, uma vez que aparece nas normas fixadas pelos Conselhos de Educação. No âmbito educacional, a Carta Magna Brasileira de 1988, no artigo 6º define a educação como um direito social. Mas à frente, promulga no artigo 205, a educação como um direito de todos, garantindo o pleno desenvolvimento da pessoa, o exercício da cidadania e a qualificação para o trabalho. No seu artigo 206, inciso I, estabelece a “igualdade de condições de acesso e permanência na escola” como um dos princípios para o ensino e garante, como dever do Estado, e no art. 208 a “oferta do atendimento educacional especializado, aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino” (BRASIL, 1988). Observa-se que esse artigo da Constituição define como dever do Estado o atendimento educacional especializado (AEE), no entanto, seja só contemplado para os, assim chamados na época, “portadores de necessidades”. O importante, nesse momento, é destacar o direito constitucional de acesso à educação e a um atendimento educacional especializado. Reynaud e Rangni (2017) entendem que é por meio da educação que o ser humano tem possibilidade de florescer e se tornar apto para participar da sociedade. E elas lembram que no artigo 23, inciso V, da Constituição Federal de 1988, determina que é dever da União, estados, Distrito Federal e municípios proporcionar meios de acesso à educação, à ciência, à tecnologia, à pesquisa e à inovação, entre outros direitos socais. Em 1990, surge o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, Lei no 8.069/90, no artigo 55, reforçando a ideia do direito de educação das crianças e responsabilizando aos pais e outros pela obrigatoriedade da matriculação dos filhos 15 ou pupilos na rede regular de ensino. Observa-se que em sintonia com os documentos internacionais, entre eles, a Convenção de Direitos da Criança (1988), a Declaração Mundial de Educação para todos (1990) e da Declaração de Salamanca (1994), o ECA entende que as crianças sem exceção devem ter acesso a escolarização. A Declaração Mundial de educação para todos foi aprovada pela Conferência Mundial sobre Educação para Todos, organizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em Jomtien (Tailândia), em 1990. Nela foi definido o plano de ação para satisfação das Necessidades Básicas de Aprendizagem. Foi lembrado no preâmbulo que há mais de quarenta anos, as nações do mundo afirmaram na Declaração Universal dos Direitos Humanos que toda pessoa tem direito à educação. No entanto, ainda persistem crianças sem escolarização. O Documento fornece definições e novas abordagens sobre as necessidades básicas de aprendizagem, tendo em vista estabelecer compromissos mundiais para garantir a todas as pessoas os conhecimentos básicos necessários a uma vida digna, visando uma sociedade mais humana e mais justa. Seu objetivo é satisfazer as necessidades básicas da aprendizagem de todas as crianças, jovens e adultos e o esforço de longo prazo para a consecução deste objetivo pode ser sustentado de forma mais eficaz, uma vez estabelecidos objetivos intermediários e medidos os progressos realizados. Em 1993, em resposta à Conferência Mundial sobre Educação para Todos, o Brasil lança um Plano Decenal de Educação para Todos. Para Menezes, Santos (2001), marca a aceitação formal, pelo governo federal brasileiro, das teses e estratégias que estavam sendo formuladas nos foros internacionais mais significativos na área da melhoria daeducação básica. Ele foi apresentado e aprovado em Nova Delhi, num encontro promovido pela Unicef e pelo Banco Mundial. As autoras explicam que com este documento o governo brasileiro assume, de garantir a satisfação das necessidades básicas de educação de seu povo, assegurando, até o ano 2003, o mínimo de conteúdos de aprendizagem que atendam às necessidades elementares da vida contemporânea das crianças, jovens e adultos. A década dos 90, no Brasil, segundo Garcia, Michels (2011), caracterizou-se como um período de reformas. Nesse contexto, a Secretaria de Educação Especial - SESPE, publica em 1994, a Política Nacional de Educação Especial. Para essas autoras como para outros críticos, a Educação Especial estava organizada 16 politicamente pelo princípio da integração. Entende-se que na tentativa de eliminar os preconceitos e de integrar os alunos portadores de deficiências nas escolas comuns do ensino regular, os alunos foram encaminhados a classes especiais (integração parcial) para, depois, passar para a integração total na classe comum. As Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (2001) fazem uma crítica ao modelo de integração quando afirma que: O aluno, nesse processo, tinha que se adequar à escola, que se mantinha inalterada. A integração total na classe comum só era permitida para aqueles alunos que conseguissem acompanhar o currículo ali desenvolvido. Tal processo, no entanto, impedia que a maioria das crianças, jovens e adultos com necessidades especiais alcançassem os níveis mais elevados de ensino. Eles engrossavam, dessa forma, a lista dos excluídos do sistema educacional (BRASIL, 2001, p.21). Com o advento da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, visualizam-se mudanças estruturais significativas e que fortaleceram o debate e os argumentos por uma educação que respeite e valorize as diferenças. Ela é considerada uma ampliação e uma avanço dos direitos constitucionais da educação do que está definido no artigo 208 da Carta Magna. Assim, a Lei 9.394/96, no capítulo V, os artigos 58, 59 respaldam esse caminho de mudança, uma vez que reconhece a educação especial como uma modalidade de educação escolar e regulamenta a necessidade de atendimento educacional especializado não só para as crianças com deficiências, mas para os educandos com necessidades educacionais especiais (neste documento ainda usava- se o termo educando portadores de necessidades): Art. 58. Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades. § 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação especial Art. 59. Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais: I - currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades; II - terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados (BRASIL, 1996). A conquista alcançada pela Educação Especial na LDBN 9394/96 é http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12796.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12796.htm#art1 17 extremamente importante por três motivos: primeiro por ser reconhecida oficialmente como uma modalidade de educação escolar, segundo porque deve ser oferecida na rede regular de ensino, e terceiro porque se normatiza o atendimento educacional especializado e identificação para aqueles que possuem uma necessidade educacional especial seja pela deficiência ou pela superdotação. Afirmar que a educação especial avança na reflexão em direção da educação inclusiva, a partir dessa lei, significa que, no marco da legalidade, houve uma superação do modelo integracionista presente na Política Nacional de Educação Especial de 1994, porque houve uma reformulação dos conceitos para o paradigma inclusivista. Pensar que, finalmente, se entende por lei que, é na escola onde o aluno com necessidades educacionais especiais deve permanecer para receber uma educação conforme as suas capacidades, a possibilidade de uma adequação do currículo, método, profissionais específicos, etc. Isto é algo impensável nas décadas passadas. As conquistas legais avançaram também nas políticas educacionais. Assim, em 1999, o Decreto no 3.298, que regulamenta a Lei no 7.853/99, ao dispor sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, define no artigo 24, entre outras coisas, “a matrícula compulsória em cursos regulares de estabelecimentos públicos e particulares de pessoa portadora de deficiência capazes de se integrar na rede regular de ensino”. Destaca-se que o paradigma da inclusão, ainda está longe de efetivar-se, uma vez que, a matrícula da pessoa “portadora de deficiência”, no ensino regular, será parcial, pois, depende dela integrar-se na escola. Afirmam Garcia, Michels (2011) que ao longo dos anos 2000, eventos internacionais influenciaram a Educação Especial brasileira tais como a Convenção de Guatemala (2001) e a Convenção de Nova Iorque (2006), e intensificaram a divulgação de uma perspectiva inclusiva para a educação. Mostra disso foi que, logo em 2001, o Conselho Nacional de Educação - CNE promulgou a resolução que institui as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Para elas, a importância de tal documento está em que se a LDB 9.394/96 propôs um atendimento especializado preferencialmente na rede regular, a Resolução CNE/CEB 2/2001, enfatiza-se a sua inclusão quando é retirado do artigo 7 a palavra “preferencialmente” como aparece no artigo 58 da LDBEN 9.394/96, ficando da seguinte maneira: 18 Art. 7º: O atendimento aos alunos com necessidades educacionais especiais deve ser realizado em classes comuns do ensino regular, em qualquer etapa ou modalidade da Educação Básica. (BRASIL, 2001). Por outro lado, passa-se a utilizar no artigo 5º, a terminologia "educandos com necessidades especiais", os quais são definidos como: I - dificuldades acentuadas de aprendizagem ou limitações no processo de desenvolvimento que dificultem o acompanhamento das atividades curriculares, compreendidas em dois grupos: a) aquelas não vinculadas a uma causa orgânica específica; b) aquelas relacionadas a condições, disfunções, limitações ou deficiências; II – dificuldades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais alunos, demandando a utilização de linguagens e códigos aplicáveis; III - altas habilidades/superdotação, grande facilidade de aprendizagem que os leve a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes (BRASIL, 2001). Contudo, tal definição, a exemplo das indicações encontradas na Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994), abriu o foco de atenção para uma diversidade de sujeitos muito grande e fora das características de atuação da Educação Especial no Brasil. Para Enes, Bicalho (2015), com dispositivos legais como este, o processo de construção de sistema educacional inclusivo torna-se uma realidade para o século XX. Outro aspecto que merece destaque, segundo Delou (2007, p.37) é que, por um lado, nesta resolução aparece o conceito dos alunos com as altas habilidades/superdotação e os descreve como pessoas com “grande facilidade de aprendizagem que os leve a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes”. E, por outro, uma ampliação do que seria o enriquecimento curricular para esses alunos, previsto no artigo 24, V, da Lei 9394/96, quando se explicita, no artigo 8, inciso IX, que:As escolas da rede regular de ensino devem prever e prover na organização de suas classes comuns [...] atividades que favoreçam, ao aluno que apresente altas habilidades/superdotação, o aprofundamento e enriquecimento de aspectos curriculares, mediante desafios suplementares nas classes comuns, em sala de recursos ou em outros espaços definidos pelos sistemas de ensino, inclusive para conclusão, em menor tempo, da série ou etapa escolar (BRASIL, 2001). Para os alunos com altas habilidades/ superdotação vislumbra-se uma conquista no ano de 2005, pois, foram implantados, os Núcleos de Atividade das Altas 19 Habilidades/Superdotação – NAAH/S em todos os estados e no Distrito Federal. Eles nascem com a ideia, segundo o próprio MEC, de ser tornarem centros de referência para o atendimento educacional especializado para os alunos com altas habilidades/superdotação, para orientar as famílias e a favorecer a formação continuada aos professores. Nacionalmente, são disseminados referenciais e orientações para organização da política de educação inclusiva nesta área, de forma a garantir esse atendimento aos alunos da rede pública de ensino. Seguindo com o percurso legal, na história das conquistas da Educação Especial, o governo brasileiro publica em 2008, um documento que vai mudar a visão da educação especial no sistema educativo pela sua clareza e especificidade na dimensão inclusiva: “A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva de Educação Inclusiva”. Essa política objetiva: O acesso, a participação e a aprendizagem dos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação nas escolas regulares, orientando os sistemas de ensino para promover respostas às necessidades educacionais, garantindo: Transversalidade da educação especial desde a educação infantil até a educação superior; atendimento educacional especializado; continuidade da escolarização nos níveis mais elevados do ensino; formação de professores para o atendimento educacional especializado e demais-profissionais da educação para a inclusão escolar; participação da família e da comunidade; acessibilidade urbanística, arquitetônica, nos mobiliários e equipamentos, nos transportes, na comunicação e informação; e articulação intersetorial na implementação das políticas públicas (BRASIL, 2008). Iremos lembrando ao longo desta apostila sobre as nomenclaturas que forma mudando com os avanços das pesquisas e que ficaram desatualizadas nos documentos oficiais. Nesse sentido, na supracitada política onde se lê “Transtornos Globais do Desenvolvimento”, leia-se “Transtorno do Espectro Autista”; e onde se lê “necessidades especiais”, leia-se “necessidades educacionais especiais”. Percebe-se satisfatoriamente quanto foi importante o processo de lutas e de discussões para entender o papel da educação especial e a grandeza de sua caminhada. Por isso, cita-se textualmente a riqueza de conceitos desenvolvidos neste documento sobre a educação especial no campo da inclusão: Na perspectiva da educação inclusiva, a educação especial passa a integrar a proposta pedagógica da escola regular, promovendo o atendimento aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. Nestes casos e em outros, como os transtornos 20 funcionais específicos, a educação especial atua de forma articulada com o ensino comum, orientando para o atendimento desses estudantes (BRASIL, 2008). Observa-se no seguinte parágrafo que a educação especial passa a formar parte da proposta pedagógica e não somente um serviço suplementar ou complementar do ensino regular: A educação especial direciona suas ações para o atendimento às especificidades desses estudantes no processo educacional e, no âmbito de uma atuação mais ampla na escola, orienta a organização de redes de apoio, a formação continuada, a identificação de recursos, serviços e o desenvolvimento de práticas colaborativas (BRASIL, 2008). Em relação ao conceito do público alvo da educação especial, o documento manifesta uma clara evolução e alerta, inclusive, antes da conceituação que, as pessoas se modificam continuamente e transformam o contexto no qual estão inseridas, entende-se que são produtoras de cultura. Por isso, “as definições e uso de classificações devem ser contextualizados, não se esgotando na mera especificação ou categorização atribuída a um quadro de deficiência, transtorno, distúrbio, síndrome ou aptidão”. (BRASIL, 2008). Após esse esclarecimento, define-se a pessoa com deficiência como: [...] aquela que tem impedimentos de longo prazo, de natureza física, mental ou sensorial que, em interação com diversas barreiras, podem ter restringida sua participação plena e efetiva na escola e na sociedade. Os estudantes com transtornos globais do desenvolvimento são aqueles que apresentam alterações qualitativas das interações sociais recíprocas e na comunicação, um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Incluem-se nesse grupo estudantes com autismo, síndromes do espectro do autismo e psicose infantil (BRASIL, 2008). Os estudantes com altas habilidades/superdotação são aqueles que: [...] demonstram potencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, além de apresentar grande criatividade, envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse (BRASIL, 2008). Finalmente, explicita-se em que consiste o atendimento educacional especializado: 21 O atendimento educacional especializado tem como função identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos estudantes, considerando suas necessidades específicas. As atividades desenvolvidas no atendimento educacional especializado diferenciam-se daquelas realizadas na sala de aula comum, não sendo substitutivas à escolarização. Esse atendimento complementa e/ou suplementa a formação dos estudantes com vistas à autonomia e independência na escola e fora dela (BRASIL, 2008). O documento prevê para este grupo de alunos a organização de programas, de enriquecimento curricular, o ensino de linguagens e códigos específicos de comunicação e sinalização e tecnologia assistiva. Lembra-se que esse atendimento deve estar articulado com a proposta pedagógica do ensino comum e que deve ser oferecido desde a educação infantil. Os documentos analisados revelam que a Educação Especial percorreu caminhos pedregosos por momentos, mas evidenciam-se progressos significativos na perspectiva filosófica, epistemológica, social e política que, sem dúvida não teriam acontecido se os movimentos em favor das pessoas com deficiência e com necessidade educacionais especiais, pesquisadores, educadores e a sociedade em geral não tivessem impulsionado a mudança de paradigma. A inclusão continua sendo um desafio, mas o reconhecimento social e o respaldo jurídico são fundamentais para que a luta alcance sentido e fundamento. 2.4 Direito a acessibilidade Em questão de barreiras a serem rompidas, é importante salientar que os estudantes com Altas Habilidades/Superdotação também têm direito à acessibilidade. Trata-se principalmente de quebrar não só as barreiras físicas, mas também barreiras atitudinais que impeçam o desenvolvimento dos potenciais desses estudantes (PAVÃO; PAVÃO; NEGRINI, 2018). Assim, é oportuna a seguinte afirmação: [...] entende-se como bastante complexo o desenvolvimento das ações relativas à acessibilidade educacional dos estudantes com Altas Habilidades/ Superdotação, em virtude, dentre outros, dos próprios comportamentos apresentados por estes não serem facilmente evidenciados e confirmados, especialmente pelacarência da formação dos professores nesta área (CAMARGO; NEGRINI; FREITAS, 2012, p. 4). 22 É muito importante que para que essa acessibilidade educacional aconteça, invista-se na formação dos professores. Eles precisam ter conhecimento das características e interesses de seus alunos e, assim, procurar contemplar em seus planejamentos conexões que possibilitem a melhor aprendizagem e o estímulo das habilidades do estudante com Altas Habilidades/Superdotação. Pois, nessa linha reflexiva considera-se que: Pensando nos alunos com AH/SD, essa acessibilidade também deve ocorrer através da supressão de barreiras e dos obstáculos que os impeçam de ter acesso a um conhecimento de seu interesse. Assim, deixar alunos numa sala de aula que não lhe oportuniza desafios é permitir que essa falta de estímulo se torne uma barreira impeditiva do desenvolvimento dos potenciais desses educandos (MORAES et.al, 2015, p. 336). Dessa forma, Pavão; Pavão; Negrini (2018) afirmam que pensar nesse com AH/SD implica olhar atentamente a suas especificidades para que seja estimulado e não tenha sua potencialidade neutralizada por um ambiente e uma prática pedagógica que não investem em seus potenciais e desconsideram seus interesses. Nesse sentido, é fundamental que esses estudantes sejam identificados e que se pense em uma prática pedagógica tanto na sala de aula como no atendimento educacional especializado que o desafie e estimule suas habilidades e interesses. Dessa forma, pode ser entendido que: [...] reformas educacionais para adequar o sistema de ensino às mudanças na economia e na sociedade, sendo que uma das palavras-chave desta lógica é oferecer maior “qualidade” na educação para todos os alunos. Porém, a questão da qualidade exige pensar nas necessidades pedagógicas que surgem das peculiaridades específicas de cada aluno, as quais conjugam diferentes objetivos e interesses. Neste sentido, a escola é responsável pela organização e reorganização do sistema de ensino, com intuito de oferecer melhores condições e maior qualidade de educação para todos (FREITAS; PÉREZ, 2012, p. 8). A aplicação de ações diferenciadas voltadas a atender os alunos com AH/SD esbarra-se em dificuldades que podem ser das mais diversas tanto como financeiras ou de compreensão, entre tantas outras (PAVÃO; PAVÃO; NEGRINI, 2018). 23 3 CARACTERÍSTICAS DA PESSOAS COM AH/SD Fonte: https://bityli.com/UtKVBpGJ São muitas as características das pessoas com altas habilidades/superdotação (PAH/SD) apresentadas na literatura especializada, assim como por alguns documentos oficiais do Ministério de Educação Brasileira (MEC). Todos os autores consultados coincidem em levar em consideração as diferentes visões e concepções de inteligência e das habilidades superiores para realizar a identificação. Entretanto, mesmo não compartilhando dos mesmos referenciais teóricos, Freitas, Pérez (2012) afirmam que todos coincidem em mencionar características afins. Por tanto, a caracterização aqui apresentada será baseada na análise e observações feitas pelas supracitadas autoras, assim como da doutora Gama (2006) e pelo caderno do MEC (2007) para a construção de práticas educacionais para alunos com alunos com altas habilidades/superdotação. Cabe mencionar, que mesmo que os especialista buscam chegar a um consenso sobre tais características, as pessoas identificadas possuem individualidades que as tornam únicas. O caderno do MEC (2007) para a construção de práticas educacionais para alunos com alunos com altas habilidades/superdotação, realiza a caracterização a partir de três divisões: intelectuais, emocionais e sociais. Assim, menciona-se que podem ser indicadores de inteligência acima da média, as pessoas que com habilidades superiores de pensamento, fluência de ideias e originalidade, reação positiva a elementos estranhos e novos, grande bagagem de informações sobre 24 temas de interesse, paixão por aprender, concentração, facilidades para entender princípios gerais, rapidez para processar informação, pensamento independente. Em termos afetivos e sociais, este documento explica que as PAH/SD são notadas pela grande sensibilidade, proveniente da acumulação de uma quantidade maior de informações e emoções, que geralmente estão além do que podem absorver e processar. Afirma-se, por isso que: Os superdotados são definitivamente mais curiosos, sensíveis, perceptivos e apaixonados. Por outro lado, mostram-se mais descontentes, frustrados, ansiosos e, por vezes, mais resilientes. Desta forma, o superdotado requer um ambiente estimulante que ofereça oportunidades que atendam às suas necessidades emocionais, ajudando-o a aplicar suas habilidades verbais e de compreensão avançadas às suas experiências afetivas. (BRASIL, 2007, p. 47-48). Em relação a comportamentos afetivos, o caderno do MEC adverte que os alunos com AH/SD podem apresentar os seguintes problemas emocionais: ▪ Dificuldade em aceitar críticas; ▪ Não conformismo e resistência às autoridades; ▪ Recusa em realizar tarefas rotineiras e repetitivas; ▪ Excesso de competitividade; ▪ Intensidade de emoções; ▪ Preocupações éticas e estéticas; ▪ Ansiedade; ▪ Persistência; ▪ Autoconsciência elevada ▪ Dificuldade de relacionamento com colegas de mesma idade que não compartilham dos mesmos interesses; ▪ Perfeccionismo; ▪ Vulnerabilidade a críticas dos outros e de si mesmo; ▪ Problemas de conduta (por exemplo, indisciplina), especialmente durante a realização de tarefas pouco desafiadoras; ▪ Grande empatia em relação ao outro como resultado de sua sensibilidade exacerbada; ▪ Interesse por problemas filosóficos, morais, políticos e sociais; 25 ▪ Tédio em relação às atividades curriculares regulares; ▪ Tendência a questionar regras (BRASIL, 2007, p.48). As pessoas com altas habilidades/superdotação não pertencem a um grupo homogêneo. Ao contrário: diferenças profundas marcam esse grupo com diferentes níveis de potencialidade. Uma das principais orientações sobre a identificação do sujeito AH/SD é que não existe um perfil homogêneo desses indivíduos. Apesar disso, Winner (1998) elenca algumas características para as quais a família e os professores devem atentar. Geralmente, a criança AH/SD senta, engatinha e anda precocemente; adquire linguagem e conhecimento verbal precoce, aprende rápido com pouca instrução, possui curiosidade intelectual e constrói perguntas de nível superior ao de seus pares, além de demonstrar insistência na busca da informação que deseja. Super- creatividade, sensibilidade e alto nível de energia também são características dessa criança que, por vezes, é considerada, precipitadamente, hiperativa (SAKAGUTI, 2020). De forma geral, a população de alunos com altas habilidades/ superdotação possui níveis de habilidade e multipotencialidades diferenciados, além de variarem também em seus interesses, estilos e ritmos. Freitas e Pérez (2012) apresentam outras características que podem ser identificadas nas PAH/SD. Cada uma delas será descrita nos subtópicos a seguir. Precocidades e gosto pela leitura Embora esse indicador possa parecer relacionado à inteligência linguística, constata-se a sua presença em PAH/ SD nas mais diferentes inteligências. Esse fato tem uma explicação bastante lógica, visto que a leitura é um instrumento essencial para obter informações e construir conhecimentos. A aquisição precoce dessa faculdade permite à criança com AH/SD uma maior independência para saciar a “fome de conhecimentos” (em qualquer área) no seu próprio ritmo que, em geral, é mais acelerado. Por essa razão, essa característica não tem aparecido exclusivamente nas crianças com AH/SD na área linguística, mas, de forma muito frequente na maioria delas, qualquer que seja a área de destaque. 26Interesses variados e diferenciados aos dos seus pares Essa variedade e diferenciação de interesses também promovem a tendência a associar-se ou com pessoas mais velhas ou mais novas do que ela em lugar de pessoas da mesma idade, o que é natural, se considerarmos que, nas pessoas mais velhas, as PAH/SD encontram parceiros com os quais podem conversar, discutir e aprender sobre esses interesses em um nível mais complexo. Já a associação a pessoas mais novas parece ser uma forma de poder expor seus interesses sem sofrer preconceitos e evitar que seus pares a considerem uma pessoa excêntrica. As crianças pequenas ainda não assentaram os preconceitos e estereótipos que fundamentam a discriminação dos adultos com aqueles que perguntam demais ou mesmo sabem mais do que eles, e os adolescentes, preferidos por muitos adultos com AH/SD como amigos são muito mais abertos ao novo e ao diferente que as gerações posteriores (FREITAS; PÉREZ, 2012). Assincronismo afetivo-intelectual, intelectual-psicomotor, da linguagem e do raciocínio e socio-escolar e familiar O termo foi acunhado por Terrasier e consiste na carência de sincronização nos ritmos de desenvolvimento intelectual, afetivo e motor em relação ao desenvolvimento considerado “normal” costuma ocorrer em crianças com AH/SD, e pode causar problemas de desempenho, de personalidade e sociais. As pessoas com AH/SD sentem-se diferentes às demais, na sua forma de pensar, sentir ou agir (FREITAS; PÉREZ, 2012). O assincronismo afetivo-intelectual é compreendido como o desequilíbrio entre as esferas afetiva e cognitiva, em relação às etapas de desenvolvimento previstas como “norma” ou “regra” para o geral das crianças e adolescentes, que faz que as crianças com AH/SD utilizem seu domínio cognitivo para disfarçar a sua imaturidade emocional. O assincronismo intelectual-psicomotor (desequilíbrio entre o nível intelectual e o desenvolvimento psicomotor), que pode refletir-se, por exemplo, entre a aprendizagem da leitura (geralmente precoce) e a da escrita, que demanda uma maturidade psicomotora prévia para concretizá-la. 27 O assincronismo da linguagem e do raciocínio (desequilíbrio entre o raciocínio e a linguagem) pode manifestar-se, por exemplo, nas crianças que compreendem um processo matemático rapidamente, mas, quando solicitadas a explicar o procedimento, não conseguem demonstrar a sua compreensão com palavras. Já o assincronismo socio-escolar e familiar é característico da criança que adquire um domínio maior nas informações e cujo ritmo de aprendizagem é superior ao dos pares. Em relação ao assincronismo familiar, as autoras explicam que algumas crianças com AH/SD podem deixar os pais ou tutores perplexos quando adotam raciocínios adultos. Muitas vezes, a família pode identificar essa condição de AH/SD presente nos filhos, mas por falta de condições culturais, intelectuais e financeiras chegam a enfrentar problemas relacionados a desajustes afetivo-intelectual da criança (FREITAS; PÉREZ, 2012). Preferência em trabalhar/estudar sozinhos Essa preferência de trabalhar sozinhos é considerada como um desejo de isolamento e está relacionado com os interesses diferenciados e o ritmo de aprendizagem maior aos dos pares, que por sua vez se conjuga com o comprometimento elevado com a tarefa, perfeccionismo e nível de exigência mais elevado. Esses fatores tornam o trabalho em grupo ou o estudo com os colegas algo penoso, demorado e desanimador para as crianças com AH/SD. Em contrapartida, acontece, especialmente entre os adolescentes, a rejeição dos alunos com essa condição e acabam ficando com a responsabilidade de realizar a tarefa, pois, a pessoa com AH/SD não se permite não cumprir com sua obrigação (FREITAS; PÉREZ, 2012). Independência, autonomia e senso de humor refinado São duas qualidades frequentemente encontradas nas PAH/SD desde a tenra infância. Fundamentais para o elevado grau de comprometimento com a tarefa e criatividade que demonstram, geralmente, as PAH/SD precisam de pouco o nenhum estímulo para desenvolver atividades, concluindo as tarefas que se propõem a fazer, sem ter medo de enfrentar desafios ou correr riscos. Um humor requintado e 28 sofisticado, do uso hábil da ironia e, não raramente, encontram humor em situações que não são humorísticas para as demais pessoas (FREITAS; PÉREZ, 2012). Perfeccionismo e elevada capacidade de observação Permite que as PAH/SD notem detalhes que outros deixam passar; descrevam situações, objetos, atitudes, gestos, etc. de forma minuciosa e rica e, em consequência, elaborem produtos mais complexos. A facilidade e o gosto que as crianças com AH/SD experimentam, desde muito cedo, na montagem de quebra- cabeças ou brinquedos de construção, como o Lego, por exemplo, refletem claramente essa capacidade (FREITAS; PÉREZ, 2012). Liderança e preferência por jogos que exijam estratégia A liderança é uma característica bastante comum em PAH/SD quando a sua área de destaque é a interpessoal. Avalia-se como positiva ou negativa a depender do desempenho. Caracteriza-se por uma elevada capacidade de persuasão, argumentação, convencimento, autossuficiência, tendência a organizar o grupo e de habilidade para a cooperação. É vista como uma liderança negativa quando os resultados na escola ou no trabalho são aquém do esperado. Pessoas com AH/SD destacam-se pelo gosto por jogos que exijam deles estratégias, principalmente, o xadrez, jogos como o banco imobiliário ou de jogos associados com estimulação da abstração, do raciocínio lógico-matemático e de resolução de problemas (FREITAS; PÉREZ, 2012). 3.1 Talento, pensamento divergente e dedicação Para Gama (2006, p.57) a superdotação em crianças e adolescentes, é composta por três fatores: “precocidade ou talento; pensamento divergente (criativo e/ou crítico) e dedicação obstinada a determinadas tarefas”. Assim, ela explica que “a precocidade está sempre relacionada não ao comportamento ou forma de pensamento propriamente ditos, mas, à idade em que estes são exibidos [...]” (GAMA, 2006, p. 65). Deste modo, é característico dessas crianças começar a andar e o falar 29 mais cedo que o normal, a capacidade de pensar de maneira qualitativamente diferente, fazem generalizações rápidas e corretas, aprendem símbolos abstratos com facilidade e deduzem relações entre eles. Para essa autora, o extremo da precocidade constitui o prodígio, ou seja, a criança com habilidades extremas, capaz de desempenhar tão bem quanto um adulto, o que parece contrariar a ordem normal da natureza, podendo vir a causar desconforto e estranhamento. Segundo Gama (2006, p. 59), uma criança capaz de “tocar violino aos sete anos, com a competência de um músico; resolver problemas algébricos aos nove ou começar a falar por volta dos três ou quatro meses de vida, está sujeita à rejeição daqueles que a cercam por conta da não compreensão de seus feitos”. Embora os casos de crianças prodígios sejam bastante raros, crianças precoces são facilmente encontradas nas instituições de educação infantil, porém, somente a precocidade não é suficiente para determinar a superdotação. Entre estas crianças precoces, “algumas vão apresentar outras características de superdotação quando mais velhas, outras não”. (GAMA, 2006, p. 60) Em relação ao talento desenvolvido, Gama (2006) sinaliza que segundo os estudos feitos, existe apenas em adultos. Nessas pesquisas, explicam-se que a definição de superdotação que falam de talento, na verdade, referem-se ao potencial para vir a ser um artista reconhecido ou um produtor exemplar de ideias. Entretanto, para a pesquisadora, a superdotação corresponde a competências, por tanto, relaciona-se com as aptidões e o talento corresponde ao desempenho. Em consequência, é mais fácil identificar os talentos,por serem demonstrações de desempenho em determinados domínios ou áreas de saber. Os estudos revelam, também, que pode existir uma relação entre os talentos identificados nas diversas áreas, como talento matemático, verbais, espaciais, musicais, artísticos. Mas, isso não significa que o desenvolvimento seja igual em todas elas. por isso, crianças talentosas verbalmente geralmente têm bastante talento na área matemática, embora o reverso não seja verdadeiro. O pensamento divergente é representado pela “capacidade de pensar respostas novas, de dar soluções diferentes para problemas abertos” enquanto que o pensamento convergente almeja encontrar “a resposta certa, aquela que foi definida a priori” (GAMA, 2006, p. 72). 30 A autora define o pensamento crítico e o pensamento criativo como formas de pensamento divergente e propõe uma distinção entre eles: Na verdade, a distinção entre pensamento criativo e pensamento crítico é apenas uma forma de diferenciar alunos superdotados que dão preferência à criação de produtos novos – pinturas, músicas, coreografias, textos literários, poemas, etc. – daqueles que dão preferência à resolução de problemas – matemáticos, científicos, ou outros – que não implicam no surgimento de um produto na concepção mais corriqueira da palavra [...]. (GAMA, 2006, p. 72- 73) Por tudo que foi dito em relação às características gerais das PAH/SD, o caderno do MEC (2007), adverte que na hora de falar sobre dita caracterização, precisa-se considerar quatro conceitos básicos: (a) heterogeneidade: diversidade de habilidades e graus de manifestação; (b) multipotencialidade: confluência de habilidades e interesses característicos de alguns indivíduos superdotados; (c) assincronia no desenvolvimento cognitivo, afetivo, psicomotor e social e, (d) possibilidade de desenvolvimento de problemas emocionais, de aprendizagem, comportamental e social. Deve-se considerar também que alunos com altas habilidades/superdotação podem apresentar alguma condição associada que camuflam suas reais potencialidades, como o caso dos alunos com dupla excepcionalidade (BRASIL, 2007). Compreende-se, portanto, que para atender as necessidades educacionais desses alunos, o professor precisa ser capaz de identificar tais características. Neste sentido, fica claro que a formação docente se faz necessária, contudo, não suficiente, pois existe ainda a demanda por um olhar atento, que leve o professor a conhecer seu aluno, considerar seu contexto e livrar-se das imagens estereotipadas. 3.2 Precocidade, criatividade e avidez por aprender Winner (1998) afirmou que, para estabelecer que uma criança é superdotada, é preciso combinar três características: a precocidade, a criatividade, a avidez por aprender. Mas esses são apenas três aspectos em um universo bastante plural com 31 possibilidades de muitas características e com alta variação de presença e intensidade. Um dos motivos que dificultam a identificação é a dificuldade para encontrá-los por meio dos padrões de avaliação. Apesar da dificuldade de estabelecer esses padrões, a Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação relacionou algumas características consideradas universais para identificação da criança AH/SD: [...] curiosidade e vivacidade mental, motivação interna, persistência na área de seu talento, facilidade de compreensão e percepção da realidade, capacidade resolver problemas, energia, senso de humor, habilidade em assumir riscos, sensibilidade, pensamento original é divergente, conduta criativa (BRASIL, 2006, p. 40). Fleith (2010) acrescenta a essa lista algumas informações e afirma que os sujeitos com altas habilidades/superdotação apresentam também alto grau de curiosidade; boa memória; atenção concentrada; persistência; independência e autonomia; facilidade de aprendizagem; criatividade e imaginação; iniciativa; liderança; vocabulário avançado para sua idade cronológica e riqueza de expressão verbal, além de outras características possíveis. Diante dessas informações, o documento Saberes e práticas de inclusão aconselha que: [...] a identificação de alunos com superdotação, na escola, deve assim, se basear no programa a ser implementado para o atendimento de suas necessidades, a utilização de várias fontes de coleta de dados (entrevistas, observações, sondagens do rendimento e desempenho escolar, análise de produções e outros), no conhecimento das características específicas desse aluno e das diferentes fases de desenvolvimento pelas quais as pessoas passam em cada faixa etária (BRASIL, 2006, p. 20). E afirma que, aos serem identificados por seus professores, esses alunos provavelmente apresentarão ainda: Aprendizagem com instrução mínima; Persistência e concentração; Alto grau de energia; Interesses específicos; Estilo próprio para resolver situações problemas; Curiosidade acentuada (Brasil, 2006, p. 20). Criatividade e liderança também são atributos considerados pelos especialistas para identificação da pessoa com altas habilidades/superdotação. Alencar e Fleith (2001) explicam que a incorporação dessas características na lista mudou o foco do 32 indivíduo para a observação da relação dele com o meio. Assim, a identificação do sujeito AH/SD passa a envolver uma espécie de avaliação que considere e atenda às várias fontes de informação e também às diversas dimensões, lembrando sempre que o ser humano é complexo e existem muitas variáveis, e, por isso, não existem regras fixas ou dados absolutos na identificação das altas habilidades/superdotação. Virgolim (2010, p. 5) explica que, quando uma criança “apresenta um alto nível de desenvolvimento cognitivo, ao ponto de se colocar em um patamar diferenciado com relação a seus pares, suas necessidades sociais e afetivas tomam-se diferenciadas também”. A referida autora entende que as características afetivas e cognitivas da criança AH/SD não são exatamente ruins ou negativas, mas permitem ser interpretadas como interações de má qualidade. A autora refere-se à dificuldade do ambiente de lidar com as peculiaridades emocionais do indivíduo AH/SD. Influenciam nesse processo o tipo de educação recebido, o perfil de superdotação, além das características pessoais. Mas “a pessoa superdotada não apenas pensa diferentemente de seus pares, ela também se sente diferente” (Virgolim, 2010, p. 12) e, nesse ponto, Smutny (2011), explica que, em virtude de suas habilidades avançadas, os alunos superdotados alcançam um altíssimo nível de consciência e percepção de si mesmo e também do mundo e das pessoas ao seu redor. Arantes (2011) complementa que o aluno com altas habilidades/superdotação, por enxergar e interagir com o mundo de maneira diferenciada, também lida com a própria inteligência e nos relacionamentos interpessoais de maneira incomum, influenciada por estereótipos que afetam profundamente a interação dessa criança com a família e a escola. Para Ourofino e Guimarães (2007, p. 49) “O modo característico de ver o mundo e a consciência precoce dos processos sociais, torna- se uma oportunidade para que superdotados desenvolvam estruturas sofisticadas de valores, senso ético e de justiça”. Conforme Pereira (2012, p. 379), as características do aluno superdotado podem desencadear alguns problemas emocionais. Por exemplo, a facilidade de adquirir e reter informações com rapidez torna esse aluno impaciente com a demora de aprendizado dos seus amigos, assim como o desmotiva de desenvolver tarefas repetitivas e rotineiras. A capacidade de inventar e criar também pode trazer problemas, como jamais aceitar fazer as coisas da maneira considerada “comum e, 33 com isso, despertar a imitação dos colegas, dando a impressão de querer as coisas sempre “do seu jeito”. Outra característica — que é capacidade de interessar-se pordiversos assuntos e temas - pode levar esse 'aluno ao caos da desorganização ou à impressão de estar sempre “desligado" e desorganizado para seus amigos de sala e também professores. Entre essas diferenças, no entanto, a sensibilidade é uma das que mais exige atenção dos pais e professores, já que, por ser diferente, o aluno AH/SD, quando se sente rejeitado ou não compreendido, costuma colocar altas doses de expectativa e frustração sobre a situação, sentindo-se, em muitos momentos, alienado. Diante do desafio da integração social da criança AH/SD, Chagas (2014) destaca a importância do treinamento de habilidades sociais. No entanto, é preciso respeitar a diferença entro as crianças, já que elas podem vivenciar as situações de formas diferentes dos seus pares o, por isso mesmo, aquele pai que tem o filho introvertido deve respeitá-lo como “normal e não tentar transformá-lo numa criança expansiva. 3.3 Características afetivas das altas habilidades/superdotação A professora Angela M.R. Virgolim é uma das referências brasileiras em pesquisas sobre altas habilidades/superdotação. Dentre seus temas de interesse e preocupação estão as questões associadas à dimensão afetiva e emocional das pessoas com altas habilidades/superdotação (PAH/SD). Neste tópico apresentaremos algumas características afetivas desse público, a partir dos estudos de Virgolim (2019). Os estudos com crianças superdotadas apontam que elas apresentam uma sensibilidade que impacta diretamente na vida diária, levando-a a formar vínculos profundos com pessoas e lugares em sua vida. Elas podem facilmente sofrer emocionalmente, mas estão agudamente conscientes das necessidades alheias. Crianças superdotadas podem ser autoanalíticas, autocríticas e mesmo severas com elas mesmas, mas não se perdoam facilmente se, por acaso, magoam ou ferem os sentimentos dos outros. Dentre os traços emocionais das PAH/SD encontra-se o perfeccionismo. Nesse sentido, o perfeccionismo em alunos superdotados pode se manifestar de 34 várias formas, algumas valorizadas pela sociedade e outras não. No entanto, a maior discussão no campo é se o perfeccionismo é uma característica positiva que deve ser cultivada ou se é um problema que deve ser curado. Assim, de um lado, está o perfeccionista saudável, caracterizado por uma intensa necessidade de ordem e organização, que demonstra autoaceitação de seus erros, uma boa aceitação das altas expectativas parentais; tem uma forma positiva de lidar com suas tendências perfeccionistas; adota bons modelos que enfatizam o fazer o melhor que se pode, percebe o esforço pessoal como uma parte importante do perfeccionismo. Mas, por outro lado, encontra-se o perfeccionista disfuncional (VIRGOLIM, 2019). O perfeccionista disfuncional é aquele que apresenta um constante estado de ansiedade com relação à possibilidade de cometer erros; determina padrões e objetivos extremamente altos e irrealistas para alcançar; percebe as altas expectativas dos outros como critica excessiva; questiona seus próprios julgamentos; exibe uma constante necessidade de aprovação; demonstra estratégias ineficazes para lidar com as exigências do ambiente. Em resumo, pode-se afirmar que o perfeccionismo disfuncional paralisa e o perfeccionismo saudável autoriza e empodera, tornando-se força para o sucesso e a realização escolar. O perfeccionismo saudável contribui com o desenvolvimento assincrônico da criança superdotada. Devido ao desenvolvimento mais rápido da mente sobre o corpo, o seu raciocínio e seus valores são mais parecidos com seus pares mentais do que com seus pares cronológicos; assim, é compreensível que a frustração possa surgir nesse contexto. Um bom aconselhamento psicológico pode ser necessário para ajudar a criança a perceber esse funcionamento e atuar positivamente e de forma produtiva na direção de um perfeccionismo saudável. O perfeccionista precisa perceber que pessoas importantes do seu ambiente acreditam nela e têm fé na sua habilidade de atingir suas metas e objetivos, mesmo que impliquem suplantar grandes obstáculos (VIRGOLIM, 2019). Os educadores precisam ajudar as crianças e os jovens a apreciar seus traços de perfeccionismo e a não se sentirem envergonhados com essa qualidade. As pessoas com altas habilidades precisam se permitir serem perfeccionistas naquelas atividades que são importantes para elas, devem manter altos padrões para si mesmos. Ele precisam focalizar no próprio sucesso e continuar tentando quando suas 35 primeiras tentativas fracassarem; devem ter confiança em suas ideias e na sua habilidade em atingir suas metas. O perfeccionismo que impulsiona a pessoa a tentar mais uma vez leva ao sucesso. Aquele perfeccionismo que resulta em paralisia, evitação, ataques de ansiedade e fuga, leva ao fracasso. Assim, os educadores precisam ajudar a criança superdotada a sentir prazer em suas realizações e a ver seus contratempos como “uma forma de aprendizagem, fazendo elogios pelos seus esforços e pela sua determinação, e não pela inteligência ou pelo talento, fatores que não pode controlar. Por fim, os professores devem canalizar seus esforços para aquilo que é mais motiva dor ou importante para a criança (VIRGOLIM, 2019). Uma outra característica afetiva das PAH/SD é a perceptividade. Virgolim (2019) explica que se trata de uma habilidade na qual a pessoa consegui apreender vários aspectos de uma situação simultaneamente e entender rapidamente os elementos essenciais de um problema. Assim, a pessoa com essa habilidade pode perceber as várias camadas por baixo de um sentimento; pode demonstrar essa perceptividade por meio da intuição, insight e necessidade da verdade, mesmo que isso possa ofender o outro. A autora esclarece, também, que para a criança perceptiva, a busca da verdade e a necessidade de entender a justiça e a equidade podem ofuscar a consciência das necessidades dos outros. Ela pode não entender a razão de outras pessoas não perceberem o que está claro para ela e demonstrar pouca tolerância com comportamentos tolos, ordinários ou injustos. A perceptividade e a capacidade para insights emergem como resultado de um raciocínio avançado, de um alto nível de vocabulário e da maneira sofisticada com que os pensamentos são transmitidos, muitas vezes demonstrando sabedoria ante um assunto. Crianças superdotadas perceptivas frequentemente enxergam padrões em materiais que para os outros, não têm significado; encontram significados escondidos no que leem ou ouvem; entendem a realidade subjacente aa que os outros falam, principalmente quando notam a falta da verdade e da justiça na forma como alguns adultos tratam as crianças. No entanto, é frequentemente difícil para as crianças entenderem as sutilezas da diplomacia e da máscara social que tantas vezes são necessárias na convivência com o mundo adulto. Por isso, a criança precisa que suas percepções e seus insights sejam validados pelo adulto, reconhecidos em sua 36 verdade, e devem ser orientadas para o entendimento de como os outros pensam e sentem (VIRGOLIM, 2019). Uma terceira característica apresentada pela pesquisadora Virgolim (2019) é chamada de lócus de controle. Esse termo foi cunhado, de acordo com a autora, por Julian Rotter (1916-2014), na década de 1960, com base na teoria de aprendizagem social proposta por ele em 1954, para explicar o grau no qual o indivíduo percebe a relação entre seu próprio comportamento e os resultados desse comportamento. A pessoa que assume controle ou responsabilidade pelos eventos na sua vida possui um lócus de controle interno. De maneira oposta, a pessoa com lócus de controle predominantemente externo percebe que sua vida não é controlada por ela, mas pelos outros. Por isso, entende-se que sejam pessoas que se sentem mais afetadas pelo mundo externo, pelas críticas, pelas percepçõese pelos elogios que vêm dos outros. Alunos superdotados podem desenvolver argumentos disfuncionais para explicar seu sucesso escolar quando a tarefa parecem muito fáceis - um exemplo é a crença de que sempre irão aprender as coisas com muita facilidade e rapidez, de que sempre vão dar as respostas corretas e de que nunca cometerão erros. Quando o aluno obtém sucesso em uma tarefa especialmente desafiadora, as chances de atribuições apropriadas em direção de um lócus de controle interno aumentam na medida em que percebe que o sucesso é dependente do nível de esforço na atividade. Por outro lado, a criança superdotada que desenvolve um lócus de controle externo pode se sentir perdida sem o direcionamento dos outros e responsabilizar professores, pais, outros alunos ou eventos e circunstâncias externos para justificar um desempenho ruim (VIRGOLIM, 2019). Uma quarta característica descrita pela professora Virgolim (2019) é a introversão. A autora explica que a grande diferença entre o extrovertido e o introvertido é a fonte de energia: pessoas extrovertidas obtêm energia nas pessoas e nos objetos do mundo externo; pessoas introvertidas, dentro delas mesmas. Outros autores estudados pela pesquisadora apontam que ao contrário dos extrovertidos, os introvertidos frequentemente mantêm um self privado e outro público, que é a sua persona. Tipicamente, a criança introvertida vai à escola, na qual procura se comportar de forma perfeita, mas reservada, mantendo todos os seus sentimentos negativos 37 dentro de si; quando chega em casa, joga esses sentimentos na pessoa em quem mais confia e se sente seguro. Virgolim (2019) orienta que as pessoas introvertidas precisam ser respeitadas por sua introversão, necessitam de tempo para refletir, para deixar suas emoções fazerem sentido antes de serem verbalizadas, a fim de ponderar as possíveis soluções para um problema; já os extrovertidos organizam os pensamentos pela verbalização. Diferentemente da fobia e da timidez, a pessoa introvertida socializa facilmente, embora muitas vezes prefira não o fazer. A quinta característica é o pensamento divergente. Pessoas com pensamento divergente são originais, têm respostas incomuns e criativas e apresentam um bom senso de humor. Pensadores divergentes frequentemente têm dificuldade em organizar pensamentos, sentimentos e materiais, seja em casa, seja na escola Eles não se utilizam de uma forma linear de pensamento e percebem o todo em detrimento das partes. Quando adultas, pessoas divergentes são produtivas, inovadoras em numerosos campos, empreendedoras e altamente imaginativas. Contudo, quando crianças, em ambientes de ensino tradicional, são punidas por serem questionadoras, apresentarem respostas incomuns ou não gostarem de trabalhar em grupos. Dessa forma, muitas crianças aprendem a esconder seu eu criativo por trás de uma máscara social para se sentirem aceitas. Na escola, tais crianças podem ter dificuldade em focalizar atenção, entender o ponto de vista do professor ou decidir quais os pontos mais importantes que deve memorizar, já que pode ser difícil organizar ideias em uma certa sequência ou focalizar a atenção em um ponto especifico. Na adolescência, pensadores divergentes podem ter risco de isolamento, muitos podem estar mais interessados em seguir sua própria visão interna do que em se conformar para ser aceito pelos pares. Muitas vezes, é no aconselhamento psicológico que encontrarão suporte para entender as consequências de suas decisões. A sexta característica descrita pela autora é o senso de destino. Assim, PAH/SD são altamente motivadas a fazer o seu próprio caminho e o seu próprio destino, a despeito de inúmeros obstáculos que possam vir a ter. Têm uma grande autodeterminação, uma força vital interna que dirige a vida e o crescimento para se tornar aquilo que alguém é capaz de ser. São capazes de atingir sua própria autorrealização. 38 O senso de destino compreende uma variedade de conceitos interrelacionados, como lócus de controle interno, motivação, vontade e autoeficácia. Quando um indivíduo tem uma visão ou senso de destino sobre futuras atividades, eventos e envolvimentos, usa esse conhecimento para direcionar os seus comportamentos, o que se torna um incentivo para o comportamento atual. Pessoas com senso de destino acreditam em si próprias mesmo quando ninguém mais acredita. Sentem-se determinadas na busca de suas próprias metas e demonstram grande força de vontade, muitas vezes inspirando pares e adultos do seu entorno. São carismáticas, facilmente lideram seus pares em atividades de grupo e são muitas vezes procuradas pelo apoio e encorajamento que podem fornecer. Em geral, são pessoas que inspiram outros a serem melhores do que ordinariamente poderiam ser. No entanto, nem sempre esses traços trazem o melhor resultado para PAH/SD. Colocar as necessidades do outro em primeiro lugar pode levá-lo a uma grande frustração e desapontamento consigo mesmo e a ter dificuldades em perceber seus pontos fracos e fortes e em estabelecer seu próprio senso de identidade quando separado dos outros (VIRGOLIM, 2019). Outra característica apresentada nesta dimensão afetiva é o assincronismo. Conforme já foi explicado anteriormente, crianças e jovens com AH/SD tendem a mostrar necessidades afetivas e sociais de modo diferenciado aos seus pares de mesma idade cronológica, provavelmente devido à grande sensibilidade que caracteriza esse grupo. Os estudiosos desse assunto explicam que eles têm um desenvolvimento assincrônico, palavra cunhada por ela para se referir às habilidades cognitivas avançadas que se combinam com a grande intensidade com que essas pessoas vivenciam o mundo, criando experiências internas e um grau de consciência qualitativamente diferentes de seus pares. Devido a essa grande sensibilidade, é comum que essas pessoas oscilem entre momentos de grande avanço emocional e outros de imaturidade (VIRGOLIM, 2019). A autora acredita que é necessário que a criança aprenda a aplicar suas capacidades cognitivas na compreensão de seu mundo emocional, de forma a dirimir sua vulnerabilidade e alcançar um desenvolvimento ótimo, no perceber a necessidade de se focalizar mais no mundo emocional da pessoa superdotada e nas suas vulnerabilidades em vez de apenas em suas habilidades acadêmicas. 39 A superdotação é um desenvolvimento assincrônico no qual habilidades cognitivas avançadas e grande intensidade combinam para criar experiências internas e consciência que são qualitativamente diferentes da norma. Essa assincronia aumenta com a capacidade intelectual. A unicidade do superdotado os torna particularmente vulneráveis e são necessárias modificações na educação parental, no ensino e no aconselhamento psicológico, a fim de que possam alcançar um desenvolvimento ótimo (VIRGOLIM, 2019). O conceito de assincronia como parte integrante do indivíduo superdotado veio recentemente a ser debatido e criticado por duas pesquisadoras nacionais. Uma delas é Paula Sakaguti (2017), que, ao pesquisar crianças superdotadas e suas famílias, concluiu que o assincronismo se origina na falta de alteridade nas relações, que tratam o indivíduo como vulnerável, desajustado ou problemático. No seu estudo com famílias com interações qualitativamente positivas - nas quais predominam relações positivas, harmônicas, estáveis, de confiança, em que a heterogeneidade dos traços de personalidade e das diferenças apresentadas pelos filhos são respeitadas - não se percebeu a ocorrência de assincronismo. Portanto, conclui a pesquisadora que a assincronia não poderia ser vista como parte integrante da pessoa superdotada, como colocam outros autores, mas sim como parte apenas daquelas crianças que crescem em uma família disfuncional, sem apoio ou validação de sua identidade superdotada (VIRGOLIM,2019). Na mesma linha de pensamento e base teórica, Karina Paludo (2018) pesquisou as relações ditas assincrônicas em um grupo de crianças superdotadas escolhidas aleatoriamente em um programa especial para as altas habilidades, com foco nas relações de amizades que elas formavam na escola. Os dados dessa pesquisadora também mostraram o assincronismo como um fator relacional, que era percebido apenas nas crianças que tinham dificuldade em fazer amizades (o que, na verdade, se constituiu num grupo muito pequeno de sua amostra. A grande maioria das crianças e dos adolescentes do seu estudo apresentavam bom ajustamento social e emocional, com fortes relações de amizade e com capacidade de estabelecer vínculos afetivos duradouros. Além disso, no estudo de Paludo, ficou evidente que o contexto social funciona como uma fonte de aprendizagem, tanto de conhecimentos de mundo quanto de conhecimentos de si mesmo, o que demarca a identidade superdotada. 40 Podemos concluir, então, que o assincronismo fala da sensibilidade e da vulnerabilidade da criança ou do adolescente que não é aceito pela família, escola ou sociedade, cujas relações sociais são permeadas pela disfuncionalidade e não aceitação dos traços de personalidade da pessoa superdotada. Assim, seria a ineficiência do contexto social em atender às necessidades cognitivas, emocionais e sociais do superdotado o verdadeiro fator responsável pela manifestação do assincronismo (VIRGOLIM, 2019). 3.4 Teoria de Dabrowski e as supersensibilidades Uma teoria que está bastante presente na literatura sobreas questões afetivas e sociais da pessoa superdotada é a teoria da desintegração positiva, de Kazimierz Dabrowski (902-1980), psiquiatra e psicólogo polonês (Figura 2). Parte de sua teoria deriva de sua experiência em campos de concentração nazista e parte, de sua prática clínica na Polônia, além de estudos com pessoas talentosas e criativas (VIRGOLIM, 2019). Figura 2 – Kazimierz Dabrowaski Fonte: https://bityli.com/tzqSxaNUi Em uma de suas obras, Dabrowski comenta como a vivência profunda da guerra, da morte e das condições sub-humanas a que as pessoas foram submetidas em campos de concentração modificaram esses indivíduos, levando-os a desenvolverem altos padrões de ética e de valores morais, alcançando um desenvolvimento emocional de nível superior. Dabrowski identificou cinco áreas nas 41 quais essa intensidade está grandemente presente: psicomotora, sensual, intelectual, imaginativa e emocional. Virgolim (2019) resume tais áreas da seguinte forma: 1) A supersensibilidade psicomotora se refere a uma alta excitabilidade no sistema neuromuscular e inclui movimento, inquietude, direcionamento e uma capacidade aumentada para ser ativo e cheio de energia; pode também incluir, como expressão de tensão emocional, fala compulsiva, ações impulsivas, hábitos nervosos e compulsão pelo trabalho. 2) A supersensibilidade sensual se relaciona a refinamento, Vivacidade e presença da experiência sensual, que engloba todos os sentidos; o indivíduo percebe coisas com mais detalhes, texturas e contrastes. Na tensão emocional, o indivíduo com alta sensibilidade sensual pode demonstrar alimentação compulsiva, compulsão para compras, masturbação excessiva e necessidade de estar sempre em evidência 3) A supersensibilidade intelectual significa a sede desconhecimento, à descoberta, o questionamento, o amor pelas ideias e análises teóricas, a busca da verdade; no entanto, emerge negativamente como critica excessiva a si e aos outros e como excesso de preocupação com a lógica e a verdade. 4) A supersensibilidade imaginativa corresponde à intensidade de imagens, à riqueza de associações, à facilidade para sonhar, fantasiar e inventar, dotando brinquedos e objetos com personalidade (animismo), à preferência pelo incomum e único, pode também misturar ficção e realidade e ter baixa tolerância à rotina e à repetição. 5) A supersensibilidade emocional diz respeito à grande profundidade e intensidade da vida emocional expressa numa grande variedade de sentimentos, que vão desde uma imensa felicidade a uma profunda tristeza ou desespero, compaixão, responsabilidade e autocrítica. Uma vida emocional tensa pode levar a expressões somáticas (dores de estômago, mãos suadas, rosto vermelho, palpitação), medos, ansiedades, sentimento de culpa, solidão e ideias suicidas. 42 O autor conclui que, também nas pessoas superdotadas, percebemos que a intensidade das emoções, a supersensibilidade e a tendência aos extremos emocionais são partes constituintes de sua natureza física e psicológica. Essas características indicam elevada intensidade para responder aos estímulos internos e externos, que torna os superdotados, portanto, mais intensos, sensíveis, perceptivos, imaginativos e energéticos (VIRGOLIM, 2019). 4 PROCESSOS DE IDENTIFICAÇÃO Fonte: https://bityli.com/eijVsoYb Neste capítulo, daremos continuidade aos estudos sobre o universo do aluno com altas habilidades/superdotação. Inicialmente, vamos entender a evolução no processo de estudos da inteligência, sua concepção e também o conceito de altas habilidades/superdotação, utilizando a definição da Teoria dos Três Anéis, desenvolvida na década de 1970 por Joseph Renzulli. Em seguida entenderemos que os indivíduos com altas habilidades/superdotação podem ser enquadradas em dois perfis bastante distintos que são o superdotado acadêmico ou escolar e o superdotado produtivo- criativo. Saberemos as diferenças para essa identificação e discutiremos o enorme desafio que é atender alunos com cada um desses perfis. Para encerrar, vamos conversar sobre a identificação desses alunos no contexto escolar e como cada pessoa da comunidade em que a criança está inserida pode contribuir para ajudar os professores e as escolas a reconhecer e atender esse aluno AH/SD. O estudo da inteligência passou por importante ampliação da sua significação ao longo da história. Se inicialmente sua concepção era psicométrica e unidimensional, 43 atualmente essa visão tornou-se multidimensional. Mesmo assim, e apesar de contestada, a aplicação de testes de inteligência ainda é utilizada e considerada para identificar o sujeito com altas habilidades/superdotação. A testagem mental é extremamente prejudicial ao processo, pois impede ou dificulta identificar e, consequentemente, valorizar o indivíduo que possui capacidades especiais em outras instâncias que não a acadêmica. Já existem pesquisas que demonstram a limitação da abordagem psicométrica, que estuda e cria testes de avaliação psicológicas com base em conhecimentos estatísticos e processos matemáticos (Infopédia, 2013-2019). Renzulli (2014, p. 226) chama a atenção para o fato de que, “no mínimo, atributos do comportamento inteligente devem ser considerados dentro do contexto de fatores culturais e situacionais”. No mesmo sentido, Gardner (1995; 2000), autor da Teoria das Inteligências Múltiplas, explica que a inteligência é como uma ou várias habilidades capazes de, quando ativadas, resolver problemas e até criar produtos, considerando sempre o meio cultural do indivíduo. A inteligência é um fator multifatorial, na concepção de Gardner, que listou ao menos oito tipos de inteligências, a saber (GAMA, 2006 p. 34): ▪ Inteligência cinestésica: habilidade para resolver problemas ou criar produtos através do uso de parte ou de todo o corpo; habilidade para usar a coordenação motora ampla ou fina em esportes, artes cênicas ou plásticas, no controle dos movimentos do corpo e na manipulação de objetos com destreza; ▪ Inteligência espacial: capacidade para perceber o mundo visual e espacial de forma precisa; habilidade para manipular formas e objetos mentalmente e, a partir das percepções iniciais, criar tensão, equilíbrio e composição,numa representação visual ou espacial. Gardner indica que é a inteligência principal de artistas plásticos, engenheiros e arquitetos; ▪ Inteligência interpessoal: habilidade para entender e responder adequadamente a humores, temperamentos e motivações de outras pessoas; habilidade para perceber intenções e desejos de outras pessoas e para reagir apropriadamente a partir dessa percepção; ▪ Inteligência intrapessoal: habilidade para ter acesso aos próprios sentimentos, sonhos e ideias, para discriminá-los e lançar mão deles na solução 44 de problemas pessoais; habilidade para reconhecer necessidades, desejos e inteligências próprios, para formular uma imagem precisa de si e para usar esta imagem para funcionar de forma efetiva; ▪ Inteligência linguística: sensibilidade para os sons, ritmos e significados das palavras, além de uma especial percepção das diferentes funções da linguagem; habilidade para usar a linguagem para convencer, agradar, estimular ou transmitir ideias. Segundo Gardner, é a habilidade exibida na sua maior intensidade pelos grandes poetas; ▪ Inteligência lógica - matemática: sensibilidade para padrões, ordem e sistematização, habilidade para explorar relações e categorias através da manipulação de objetos ou símbolos, e para experimentar de forma controlada; capacidade de lidar com séries de raciocínios, de reconhecer problemas e de resolvê-los; ▪ Inteligência musical: habilidade para apreciar, compor, ou reproduzir uma peça musical, para discriminar sons e para perceber temas musicais; sensibilidade para ritmos, texturas e timbre; ▪ Inteligência naturalista: habilidade para reconhecer flora e fauna, para fazer distinções e para agir produtivamente no mundo natural. Segundo Gardner, esta inteligência caracteriza pessoas como Darwin. Nesse sentido, Renzulli (1998, p. 5) acredita que a “inteligência não é um conceito unitário, mas há muitos tipos de inteligência e definições únicas não podem ser usadas para explicar este complicado conceito”. Robert Sternberg (1983) criou a Teoria Triárquica da Inteligência, por meio da qual afirma que a inteligência abrange capacidades analíticas, criativas e práticas (Teixeira, 2016). E sobre essa teoria, Alencar e Fleith (2001, p. 34) explicam que todos os três tipos de inteligência são importantes, e o grande desafio é encontrar o equilíbrio entre elementos tão distintos que a compõem. As autoras justificam ilustrando com a seguinte situação: uma pessoa que possui somente elevada inteligência criativa, apesar de sugerir soluções inovadoras, não será capaz de decidir sobre quais são realmente pertinentes e também não saberá como promovê-las. Em contrapartida, se apenas a inteligência analítica se desenvolver, o indivíduo será capaz de avaliar as ideias dos outros, mas não 45 apresentará ideias próprias. E, por fim, se o sujeito apresentar exclusivamente uma alta inteligência prática, ele é capaz de promover ideias, sem, no entanto, possuir juízo de valor, ou seja, não saberá diferenciar entre ideias ou produtos realmente criativos daqueles com pouco ou nenhum valor. No que se refere à superdotação, Gardner afirma que crianças superdotadas apresentam um alto nível de desenvolvimento em uma inteligência específica, ainda que jamais tenha recebido qualquer estímulo para desenvolvê-la. Nesse aspecto, Gama (2006, p. 4) confirma que: Gardner acredita que estas crianças, quando expostas a conteúdos específicos das inteligências nas quais têm potencial, bem como têm oportunidades para explorar tais conteúdos, possuem verdadeiras chances de se tornarem excepcionais em campos de atividade que dependem das inteligências em questão. Gardner acredita que a superdotação é, na verdade, o resultado das habilidades inatas em interação com um meio ambiente apropriado e favorável, e não apenas resultado de inteligência alta. Por isso, o autor estabelece que os sujeitos com altas habilidades/superdotação não apresentaram, necessariamente, domínio de todas as áreas do conhecimento, já que pode acontecer o desnível e o mesmo indivíduo apresentar expressivo desempenho em algumas áreas e pouca habilidade em outras. 4.1 Modelo dos Três Anéis de Renzulli Largamente utilizado nos serviços de Atendimento Educacional Especializado no Brasil, pelo MEC e pelo Conselho Brasileiro para Superdotação (ConBraSD), o entendimento de superdotação do Dr. Joseph Renzulli, da Universidade de Connecticut, é conhecido como o Modelo dos Três Anéis. Trata-se de uma construção que apresenta as dimensões do potencial humano para criação cuja sustentação do comportamento se baseia no grupamento de três traços: ▪ habilidades acima do normal; ▪ altos níveis de compromisso com a atividade; 46 ▪ elevada capacidade criativa. O Quadro 1 apresenta graficamente a combinação dessas dimensões estudadas por Renzulli. Quadro 1 – Definição gráfica do Modelo dos Três Anéis Fonte: https://bityli.com/tEGEwqzA Quando todos esses elementos se concentram juntos no mesmo indivíduo, acontece então a identificação da superdotação. Vale destacar que todos os fatores, os de personalidade e também os ambientais, afetam diretamente os comportamentos manifestos de superdotação, mesmo que as intensidades dos três traços anteriormente citados variem entre si (VIRGOLIM, 2014). Em resumo, Renzulli (2004) define que “as crianças superdotadas e talentosas são aquelas que possuem ou são capazes de desenvolver este conjunto de traços e aplicá-los a qualquer área potencialmente valorizada do desempenho humano”, mas o autor faz o alerta de que “[..] os candidatos ao atendimento especial não precisam manifestar todos os três grupamentos; mas apenas serem identificados como capazes de desenvolver assas características” (RENZULLI, 2004, p. 85). A Teoria dos Três Anéis não se reduz aos aspectos cognitivos e Renzulli (1986) apresenta ainda a diferença entre dois tipos de superdotação, que vem a ser: a superdotação acadêmica ou escolar e a superdotação produtivo-criativa. É importante frisar que ambas têm a mesma importância e merecem o encorajamento. 47 É sempre mais fácil, no ambiente escolar, identificar e incentivar os alunos cuja superdotação dominante é a acadêmica, já que eles, regra geral, alcançam boas notas e são muito interessados em conhecimento. Além disso, esses alunos são facilmente identificados nos testes de conhecimento padronizados. No entanto, o aluno com superdotação produtivo-criativa se destaca em situação de desenvolvimento de ideias, expressões artísticas originais e produtos. Esse aluno será destaque em atividades que envolvam investigações e soluções. de problemas, porque ele estabelece a aplicação do conhecimento e dos processos de pensamento de maneira integrada, indutiva e voltada para problemas reais. Sobre o aluno com superdotação acadêmica, Virgolim (2014) explica que esse aluno é facilmente identificado nos testes de inteligência tradicionais e, portanto, apresenta alto QI (Quociente de Inteligência), tira boas notas, sua habilidade está voltada para processo de aprendizagem dedutiva, “o treinamento estruturado de pensamento e a aquisição, o estoque e a recuperação da informação” (p. 53). Por isso, o aluno é considerado um consumidor de conhecimentos. Esse aluno também aprende com rapidez, apresenta longos períodos de concentração, apresente raciocínio verbal e/ou numérico excelente, é perseverante e tem boa memória. Sobre esse aluno, também é correto afirmar que apresenta alta necessidade de motivação mental, tem paixão por aprender e apresenta grande intensidade emocional. A autora ainda explica que, sobre as características socioemocionais desse contingente de alunos, o superdotado acadêmico tem sempre a necessidade de mais conhecimento e busca de forma ativa por novos aprendizados. O grande perigoestá em situações em que esse aluno estabelece para si metas inalcançáveis, considerando sua capacidade real. Essa situação se agrava quando os pais, motivados pelos resultados diferenciados do filho, incentivam a busca por essas metas ilusórias. Nessas situações, há grande risco de frustração tanto para o aluno quanto para a família. Sobre o aluno com superdotação produtivo-criativa, Virgolim (2014) explica que ele é considerado um “aprendiz em primeira-mão”, no sentido de que escolhe trabalhar os problemas que têm relevância para ele e são considerados desafiadores (p. 53, aspas do autor), não apresenta resultados diferenciados em testes de inteligência de ordem psicométrica. Ele não necessariamente apresenta Ql superior, por exemplo. Além de criativo e original, o aluno produtivo-criativo pensa por analogias, usa bastante 48 o humor, demonstra diversidade de interesses e procura formas alternativas de fazer as coisas. Ele gosta de brincar com as ideias e fantasiar, é inventivo e construtor de novas ideias, além de ser sensível aos detalhes. 4.2 Modelo Diferencial de Dotação e Talento (DMGT 2.0) De acordo com Miranda; Morais (2014) e Moreno (2018), o modelo Diferencial de Dotação e Talento de Gagné foi evoluindo desde sea elaboração inicial em 1985 até sua última versão de 2009. Este modelo apresenta como ideia central a diferenciação entre dotes e talento, apresentando cinco componentes que se relacionam dinamicamente. Os três primeiro componentes básicos são: Os Dotes (Giftedness); os Talentos (Talent); o Processo Desenvolvimental (Development). Completam este modelo mais dois componentes adicionais, chamados de catalizadores: Catalizadores Interpessoais (Interpersonal) e Catalizadores Ambientais (Environement). Graficamente, a figura 1 apresenta cada um desses componentes. Figura 1 – Modelo Diferencial de Dotação e Talento de Gagné Fonte: Gagné; Guenther (2016) 49 De acordo com as autoras citadas no início deste tópico, o componente Dotes está constituído por seis capacidades naturais em seis domínios. Assim, quatro desses domínios são da dimensão mental: intelectual, criativo, social, percetual. Já os outros dois domínios são da dimensão física, ou seja, muscular (motricidade grossa) e o controle motor (Coordenação, equilíbrio, rapidez dos reflexos). Essas capacidades, embora sejam consideradas naturais, elas não são estáticas, pois, se desenvolvem ao longo da vida. Em relação ao componente Talento, explica-se que abarca todas as áreas da atividade humana, ou seja, a acadêmica, técnica, ciências, tecnologia, administração, etc. O componente processo desenvolvimental se subdivide em três: atividades, investimento e progressão. Essas subdivisões se dividem, ainda, em outras. Em relação aos catalizadores, Moreno (2018) explica que: Dentro dos componentes adicionais que complementam o modelo estão os catalisadores, os quais são considerados a principal contribuição de Gagné, pois fica demonstrado que o ambiente tem um papel preponderante na transformação das capacidades em talentos específicos. Os catalisadores dividem-se em intrapessoais (I) e ambientais (E). Os catalisadores intrapessoais são formados por fatores físicos e psicológicos sob influência genética. Os catalisadores ambientais correspondem às influências do meio em nível macroscópico (geográficos, demográficos, sociológicos e outros) e microscópicos (tamanho da família, status econômico, estilos de criação, programas específicos e outros) (MORENO, 2018, p. 7). Miranda e Moraes (2014) explicam que o modelo idealizado por Gagné parte da ideia de que ninguém controla o que recebe geneticamente no momento da concepção, nem do ambiente onde será educado. Portanto, as capacidades naturais ou aptidões funcionam como matéria prima para que o talento se desenvolva. Esse desenvolvimento é influenciado pelos catalizadores. Entende-se, em resumo, que para que “o talento se transforme em sobredotação, para além da relação dinâmica entre estes componentes, é necessário, também, que as aptidões presentes no sujeito estejam acima da média” (MIRANDA; MORAES, 2014, p. 195). 4.3 Modelo de sobredotação WICS Este modelo foi proposto por Sternberg (2003;2005) e é chamado de WICS (Widsom, Inteligence, Creativity, Synthesized). O autor explica que a sobredotação 50 seria uma combinação ou uma síntese entre a sabedoria, a inteligência, a criatividade. Assim, a inteligência seria um componente base da criatividade e a sabedoria; a criatividade é essencial para a sabedoria e que a sabedoria se constrói pela criatividade e a inteligência. A inteligência é compreendida por Sternberg à luz da teoria da inteligência de sucesso. O autor entende que o sujeito sobredotado possui um conjunto de habilidades intelectuais que lhe permitem conquistar seus objetivos dentro do contexto social. Por meio dessas habilidades, o sujeito maximiza suas potencialidades e equilibra ou corrige suas fragilidades, para adaptar-se, modelar ou selecionar os ambientes. Ele utiliza nesse processo habilidades analíticas, criativas e práticas (MIRANDA; MORAIS, 2014). O componente criatividade é compreendido por meia da teoria do investimento da criatividade, a qual entende que os pensadores criativos são como aqueles bons investidores que compram barato para venderem caro. Esse comprar barato é entendido como “perseguir ideias que são desconhecidas, mas que o sujeito percebe como sendo potencialmente valiosas. Por outro lado, vender caro envolve partir para novos projetos quando uma ideia ou produto se torna valiosa” (MIRANDA; MORAIS, 2014, p. 196). Nesse sentido, a criatividade implica a capacidade de redefinir problemas, questionar, não vender por si só as ideias criativas, ultrapassar os obstáculos, correr riscos avaliados, tolerar as ambiguidades, autoeficácia, ser determinante, inclusive, para adiar a gratificação e a coragem (MIRANDA; MORAIS, 2014). O componente da sabedoria é entendido por Sternberg, a partir da teoria por ele desenvolvida do “balanço da sabedoria”. Ela consiste em atribuir à sabedoria um status privilegiado neste modelo. Assim, a sabedoria é definida como “a aplicação da inteligência e da criatividade mediada por valores que defendem o desenvolvimento de um bem comum, através do balanço de interesses intrapessoais, interesses interpessoais e interesses extrapessoais” (MIRANDA; MORAIS, 2014, p. 196). Dessa forma, a pessoa sabia equilibra os vários interesses interpessoais com os dos outros, ou seja, os interpessoais e com as diferentes circunstâncias do contexto no qual está inserido. Sternberg entende que sem a sabedoria, a pessoa sobredotada aplica sua inteligência somente para alcançar egoisticamente seus objetivos pessoais. Ele 51 explica que uma pessoa sobredotada é aquele sujeito que atinge os objetivos visando o bem comum (MIRANDA; MORAIS, 2014). 4.4 Processo de identificação Quando pensamos na identificação do aluno superdotado na escola, é preciso, com base nas concepções de inteligência e de superdotação, analisar com cuidado os métodos de identificação qualitativos e elaborar a proposta de atendimento desse aluno. Em contrapartida, avaliar o aluno para enquadrá-lo no Sistema de avaliação também é fundamental. Vieira (2005) explica que o procedimento escolhido para realizar essa identificação revela também a natureza do atendimento a ser ofertado. Se, por exemplo, a escola optar por testes simplistas como os de Ql, aqueles alunos com superdotação produtivo-criativa não serão identificados e consequentemente, não serão alvo de atendimento especializado. Entre os instrumentos de identificação, Virgolim (2007, p. 58) orienta que, nos casos de indicações por professores, o processo pode ser informal e o docente demonstra “outras características que não aquelas tradicionalmenteacessadas por testes de inteligência - por exemplo, criatividade, liderança, aptidão para esportes, para artes cênicas, visuais e música”. Em processos formais, são utilizadas escalas, questionários específicos e indicadores de observação. Virgolim (2007) esclarece que a utilização de escalas para avaliação de características comportamentais de alunos AH/SD auxiliam o professor na identificação de características comportamentais desse aluno em áreas como Liderança, aprendizagem, motivação, criatividade, artes, planejamento e comunicação. Outras possibilidades de identificação desse aluno são o portfólio de produção ao longo do ano letivo e também as indicações de pais e colegas de turma. Segundo Vieira (2005), os amigos de turma podem oferecer informações sobre esse colega que os adultos não notariam facilmente. Já entendemos que a identificação do aluno com altas habilidades/superdotação depende de uma combinação de esforços de toda a comunidade em que está inserido. O papel da escola é fundamental porque, muitas vezes, além de oferecer suporte ao aluno, é a 52 instituição que orienta a família sobre como tratar e absorver as diferenças significativas dessa criança em relação às demais. Freeman e Guenther (2000) destacam que o papel do professor nesse “caminho também é fundamental, uma vez que ele é peça principal, porque é o mediado do processo educacional e acompanha o desenvolvimento do aluno por muito tempo e com grande parcela de interferência. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) 9.394/96, Art. 59, nos itens I, II e III define que ao aluno público alvo da Educação Especial, deve ser dado: I- currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades; II- terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para à conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para superdotados; III - professores com especialização adequada em nível médio ou Superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns. Já a Nota Técnica n. 04/2014 (MEC/SECADI) estabelece que o aluno não depende de laudo clínico para ingressar nos serviços de Atendimento Educacional Especializado. Por um lado, essa dispensa de laudo permite aos professores providenciarem com agilidade a inclusão do aluno no atendimento especializado. Por outro, um diagnóstico preciso é de salutar importância para direcionar as ações de atendimento, motivação e estimulo desse aluno. A evolução da inteligência e como testes de ordem psicométrica e unidimensional são limitados e incapazes de identificar todos os sujeitos com altas habilidades/superdotação. Dentro dos perfis estudados, os superdotados acadêmicos ou escolar e os superdotados produtivo-criativo, estes úlimos não seriam diagnosticados por tais ferramentas. No entanto, com a evolução dos estudos sobre a inteligência, considerando agora a visão multidimensional, encontramos a teoria de Gardner sobre as intelgências múltiplas, em que o autor listou, pelo menos, oito tipos de inteligência. Mas é na Teoria dos Três Anéis, apresentada por Joseph Renzull, que a definição de superdotação encontrou uma explicação mais clara e coerente. A legislação brasileira vale-se desse conceito para estabelecer os elementos a serem 53 considerados no processo de identificação de indivíduos com altas habilidades/superdotação. 4.5 Identificação do talento: desafios dentro da sala de aula Fonte: https://bityli.com/zBjhJZGz A educação dos superdotados não é uma questão nova para a humanidade. Gama (2006) identifica esse atendimento educacional nos primórdios da história, já na Grécia antiga quando os meninos espartanos eram separados de suas famílias, aos sete anos, para iniciar a formação militar e os mais capazes eram incentivados para prosseguir com a educação. Assim, por exemplo, a Academia de Platão, selecionava rapazes e moças baseando-se na sua inteligência e desempenho físico, independentemente da classe social. Ao longo da história, nas diversas culturas e países, as crianças com altas habilidades/superdotação formam ganhando visibilidade em função das contribuições que eles podem oferecer para o bem comum. A literatura marca um antes e um depois nas realidades desses alunos, quando na década de 70, o relatório de Marland (1972) emanado pelo departamento de Saúde, Educação e Bem-estar dos Estados Unidos, definiu que de 3% a 5% da população mundial possuem altas habilidades ou superdotação em uma, duas ou três áreas combinadas, tais como intelectual geral, criatividade, artística, liderança e psicomotricidade. Esta definição teve impacto em outras definições, nas legislações e políticas educacional a nível mundial. No Brasil, o direito para um atendimento educacional especializado, na escola regular, começa a tomar uma dimensão maior só a partir da década dos 90. Para 54 muitos pesquisadores, esses alunos, ainda não foram totalmente reconhecidos nas suas potencialidades, mesmo que exista uma legislação educacional que respalde o seu direito de receber uma educação que favoreça ao enriquecimento e desenvolvimento de seu talento. Entende-se, que a inclusão escolar se tornou uma conquista almejada por anos pela educação especial como um todo. Por isso, as resistências pela sua implementação atingem, também, àqueles que são identificados com altas habilidades/superdotação como dos que buscam efetivar as políticas que fundamentam seu atendimento, a maioria das vezes, pelo desconhecimento desse universo enigmático das potencialidades. As pesquisadoras Guenther, França-Freitas (2014, p. 167) definem que a escola inclusiva é “aquela em que todos e cada um dos alunos têm o seu lugar na sala de aula, integrados na convivência com seus pares, vistos como indivíduos de direito, sem necessidade de uma característica pré-determinada que defina o seu processo de enturmação”. Mas, para que isso aconteça, é de responsabilidade da escola saber lidar com a diversidade dos alunos e capaz de oferecer a cada criança aquilo que cada uma necessita para desenvolver-se e aperfeiçoar. Nessa linha de pensamento, afirmam que, é inaceitável submeter turmas inteiras ao mesmo tratamento pedagógico, mesmo que ele seja pedagogicamente correto e apropriado para todos os componentes do grupo. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva de Educação Inclusiva define que os alunos com altas habilidades/superdotação são aqueles que demonstram potencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes; também apresentam elevada criatividade, grande envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse (MEC, 2008). Delpretto, Zardo (2010, p.19), apontam que a dificuldades de aceitação da necessidade de um atendimento educacional especializado para os alunos com altas habilidades/superdotação, passa, fundamentalmente, pelo mito construído em torno delas. Em geral atribuem-se lhes valores "superiores" e saberes inquestionáveis. Consideram que o uso exclusivo do teste do quociente intelectual, impediu contemplar as diferentes aptidões e formas de expressão da criatividade destes alunos. 55 Esses instrumentos, observam as autoras, exaltam o desempenho acadêmico, linguístico e lógico-matemático, desconsiderando as habilidades diversas, como por exemplo, aquelas relacionadas às soluções de problemas do cotidiano. Dessa forma, a escola passou a interpretar que devia fazer intervenções fora da escola ou da sala de aula comum e, no geral, dissociadas do projeto escolar. Elas entendem que a concepçãoequivocada de que as altas habilidades/superdotação poderiam ser manifestadas em diferentes áreas do conhecimento, mesmo sem oportunidades escolares adequadas; por ser algo biologicamente dado, não precisavam-se de recursos e serviços específicos para o desenvolvimento de suas potencialidades. Guenther, França-Freitas (2014, p.168-169) entendem que a inclusão desses alunos, que a diferença dos alunos com deficiências e limitações, não passa não pela luta pelo direito para entrar na escola, mas pela superação do estado de invisibilidade. Analisam que tal invisibilidade deva-se, preferencialmente, por um lado, a falta de autoconfiança e consciência do potencial que eles carregam e, por isso, reprimem seus anseios por oportunidades de aprender assuntos diferente e desafiadores, preferindo lidar com o tédio no trabalho escolar da melhor forma possível. Para superar essa repressão, elas sugerem à escola a criação de situações desafiadoras de aprendizagem para que elas possam perceber-se como capazes. Por outro lado, a causa dessa invisibilidade estaria originada pelo preconceito, mas, em uma linha de análise, diferente da opinião de Delpretto e Zardo (2010). Para essas autoras o que favorece à falsa imagem que se tem desses alunos seria seu próprio perfil e a forma como se caracteriza a superdotação. Geralmente, esse aluno, é um aluno que tira notas boas e não apresenta comportamentos destoante que chame a atenção dos adultos. Para tornar-se visível precisa aparecer com o rótulo de “criança problema”, criando situações que incomodam o professor, tais como inquietação, impaciência com o trabalho escolar, desinteresse, travessuras, rejeição de certas atividades, entre outras. A autoras observam que a explicação da superdotação a partir dos exemplos de crianças marcadas por extraordinária precocidade no desenvolvimento de alguma área verbal, matemática, científica, moral ou social, pode ser um grande equívoco. Esses exemplos são comportamentos que a maioria dos alunos identificados na escola não irá exibir e, tudo isso leva a construção de uma imagem distorcida sobre 56 eles. Em consequência, os professores não os identificam, em sua sala de aula, por considerar que não são fenomenais. Gama (2006, p. 32-33) explica que a teoria das inteligências múltiplas contribuiu para quebrar o tradicional conceito da inteligência como uma capacidade inata, geral e única. Essa visão unitária e psicometrista da inteligência teve lugar no século XX com o surgimento dos Testes de Quociente Intelectual (QI), que serviram para classificar indivíduos e dar crédito às habilidades lógico-matemática e linguística. Em contrapartida, o neuropsicólogo norteamericano, Howard Gardner, insatisfeito com essa unilateralidade, criou a teoria das inteligências múltiplas, propondo redefinir a inteligência à luz das origens biológicas das habilidades de acordo com o contexto. Desde essa nova visão, o neuropsicólogo entende que a organização das habilidades humanas não é horizontal, mas vertical, ou seja, que, para cada área de domínio não existe uma relação direta entre percepção, memória e aprendizado. A pesquisa de Gardner confirma que a inteligência pode ser ativada por diversas ações, como solucionar problemas ou criar produtos culturais. Após anos de estudo, ele identificou, pelo menos oito inteligências e elas já foram apresentadas anteriormente. A mudança de conceituação da inteligência radica, especificamente, na independência entre as competências intelectuais, nos limites genéticos, nos processos cognitivos próprios, nos diferentes graus das inteligências e nas variadas formas com elas se combinam e organizam. Ele conclui que, no entanto, exista uma independência entre elas, dificilmente funcionam isoladamente. A análise e caracterização feita sobre a Teoria das Inteligências Múltiplas, foi uma ilustração breve para compreender a vital importância da mesma dentro do processo de reconsiderar a relação que a educação tem com o desenvolvimento das potencialidades. De fato, ela merece um tratamento todo especial pelo nível de complexidade das pesquisas que sustentam sua originalidade e cientificidade no campo dos estudos da neuropsicologia e da educação. As pesquisas de Gardner cobraram relevância no campo das Altas Habilidades porque ele entende que o desenvolvimento de cada uma delas, não depende somente do fator genético e neurobiológico, mas também, de fatores motivacionais e culturais. Em consequência, ele chega a definir as crianças superdotadas como aquelas que prometem, e as descreve como aquelas que contêm em si a promessa de um desenvolvimento superior. Segundo ele, essas crianças, 57 demonstram desde muito cedo potencial para desenvolver as habilidades ou capacidades de uma das múltiplas inteligências. Ele acredita que se essas crianças são expostas a conteúdos específicos das inteligências nas quais têm potencial, as chances de tornar-se excepcional nessa área humana, são grandes e verdadeiras. Por tanto, diz Gardner, todas as pessoas nascem com o potencial das oito inteligências, mas a predisposição genética não é tão determinante como as experiências cristalizadoras que produzem um impacto significativo para o desenvolvimento do potencial dessas pessoas (GAMA, 2006, 40). Percebe-se o quanto essa teoria contribui para uma melhor compreensão das pessoas com altas habilidades/superdotação. O problema da invisibilidade estava permeado por essa concepção estereotipada da genialidade dos talentosos, pessoas que segundo a visão tradicional, são gênios em tudo e se desenvolvem quase sem intervenção do meio. Esse modo de percebê-los começa a ser desconstruído. Assim, encontramos afirmações como Gama (2006, p. 41)), que explica que o superdotado é uma criança como qualquer outra, com uma característica que o distingue dos outros: o talento. Esse talento não surge de um vazio interior, mas da capacidade de adquirir conhecimentos, desenvolver habilidades e compreender a experiência. Mas, essas autoras explicam que, a coragem para enfrentar o novo, o desconhecido e inexplorado é tão fundamental quanto o dom, o talento. Ora, elas alertam que se a criança superdotada não for ajudada, ela poderá desistir, conformar- se ou canalizar suas habilidades para fins destrutivos e antissociais. Contudo, essa autora evidencia que a identificação dessas crianças somente possui sentido se houver previsibilidade de algum tipo de atendimento. Caso contrário, configura-se, sim na rotulação do aluno, provocando expectativas desnecessárias e frustrantes para professores, pais e para ele próprio. Nessa perspectiva multidimensional, afirmam Delpretto, Zardo (2010, p.20), as discussões sobre inteligência e as altas habilidades/superdotação passaram a incorporar pesquisas e análises sobre uma aprendizagem contextualizada e dependente de oportunidades e atividades para o desenvolvimento de habilidades. Nesse sentido, elas confirmam que o objetivo da identificação não é "rotular" os alunos com altas habilidades/superdotação, mas verificar elementos individuais de aprendizagem para a elaboração de atividades e provisão de recursos específicos para estes. 58 Enfatiza-se a ideia de que, a intervenção pedagógica específica para o atendimento aos alunos com altas habilidades/superdotação devem oportunizar a manifestação da criatividade e originalidade do aluno. Por isso, a inclusão desse aluno passa pela utilização de técnicas que cooperam com a elaboração de trabalhos na(s) área(s) de interesse; e atividades usadas para transformar os ambientes tornando-os mais adequados ao aprendizado. Elas concluem dizendo que uma proposta educacional na perspectiva da inclusão para esses alunos, possibilita a superação de possíveis dificuldades na construção do conhecimento de forma individual e coletiva, no reconhecimento de característicasde aprendizagem distintas e individuais, no reconhecimento da importância da interação e da participação de todos os alunos nos espaços comuns de aprendizagem. A inclusão dos alunos com altas habilidades/superdotação reveste-se de um significado maior e relevante por entender que esses alunos não se desenvolvem sozinhos e que precisam ser acompanhados e reconhecidos. O processo de aprendizagem que eles realizem de forma colaborativa contribui para sua autonomia cognitiva e os desafia a compartilhar conhecimentos na sala de aula, mas, também, a beneficiar-se dos processos de aprendizagem coletivos. (DELPRETTO, ZARDO 2010, p.21). 4.6 Lista Itens para Observação em Sala de Aula O processo de identificação não é um processo fácil. Existem vários instrumentos facilitadores desse processo. Neste tópico, será apresentado um modelo de identificação, baseado nas orientações do Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento (CEDET) de Lavras/MG, e apresentado nos estudos de Moreno; Enes (2018). O Centro para o Desenvolvimento de Potencial e Talento (CEDET), localizado na cidade de Lavras, no estado de Minas Gerais foi idealizado pela pesquisadora Zenita Guenther e criado pela Lei Municipal de 4 de junho de 1993, como órgão da Prefeitura Municipal de Lavras, vinculado à Secretaria Municipal de Educação. Posteriormente foi incorporado à Pró-reitoria de Extensão da Universidade Federal de Lavras. O centro recebe também o apoio da Associação de Pais e Amigos para Apoio ao Talento (ASPAT), entidade de direito civil e utilidade pública que objetiva garantir 59 a estrutura logística e material para os CEDETs. Zenita Cunha Guenther é psicóloga, mestre em Orientação e Aconselhamento Psicológico e doutora em Psicologia da Educação pela University of Florida. Professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora voluntária da Universidade Federal de Lavras (UFLA). Autora e coautora de vinte livros e mais de cem artigos publicados no Brasil e no exterior e atua na área de dotação e talento humanos. Fundadora e diretora técnica do Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento (CEDET) de Lavras, em Minas Gerais. Presidente honorária do Conselho Brasileiro para Superdotação. O processo envolve, não somente, a avaliação e o julgamento do professor da sala como primeiro observador do talento da criança, mas a multiplicidade de fatores ambientais e as interações que se considerem parte ativa do processo. 4.6.1 Primeiro passo A primeira ação para a identificação é a aplicação de um questionário denominado Lista Itens para Observação em Sala de Aula, idealizado pela pesquisadora e doutora em Psicologia brasileira Zenita Cunha Guenther e desenvolvido no CEDET, composto por 26 indicadores - distribuídos de modo aleatório - argumentado pelas concepções de dotação e talento adotados por essa autora (GUENTHER, 2000, p.175-177). O item 26 está relacionado a habilidade psicossocial, assim descrito: “capazes de liderar e passar energia própria para animar o grupo” (GUENTHER, 2000, p.176). Esse instrumento sustenta-se, principalmente, pela teoria dos três anéis de Renzulli e das Inteligências Múltiplas de Gardner. Segundo Freitas, Pérez (2012, p. 17), a sincronia entre a existência das oito inteligências não hierarquizadas e o conceito de superdotação de Renzulli, entendida como a intersecção dos três traços (habilidade acima da média, comprometimento com a tarefa e criatividade), permite propor indicadores de altas habilidades/superdotação em qualquer uma dessas inteligências. É, nessa perspectiva, que buscam-se os indicadores das potencialidades dos alunos de Governador Valadares. O questionário é feito pelo professor do 1º ao 5º do Ensino Fundamental e pede-se a ele que indique para cada item, um ou dois alunos. O Quadro 2 apresenta 60 os 26 itens do questionário: Quadro 2 – Questionário de identificação INDICADORES 1-Os melhores da turma nas áreas de linguagem, comunicação e expressão. 2- Melhores na área da matemática e ciências. 3- Melhores nas áreas de artes e educação artística. 4- Melhores nas atividades extracurriculares e extraclasse. 5- Mais verbais, falantes e conversadores. 6- Mais curiosos, interessados e perguntadores. 7- Mais participativos e presentes em tudo, dentro e fora da sala de aula. 8- Mais críticos com os outros e consigo próprio. 9- De melhor memória, aprendem logo e fixam com facilidade. 10- Mais persistentes, compromissados e chegam ao fim do que fazem. 11- Mais independentes, iniciam o trabalho e fazem sozinhos. 12-Entediados e desinteressados, mas não necessariamente atrasados. 13- Mais originais e criativos. 14- Mais sensíveis aos outros e bondosos com os colegas. 15- Mais preocupados com o bem-estar dos outros. 16- Mais seguros e autoconfiantes. 17- Mais ativos, perspicazes e observadores. 18- Mais capazes de pensar e tirar conclusões. 19- Mais simpáticos e queridos pelos colegas. 20- Mais levados, engraçados, “arteiros”. 21- Que você considera os mais inteligentes. 22- Com melhor desempenho, em esportes e exercícios físicos. 23- Que sobressaem em habilidades manuais e motoras. 24- Que produzem respostas inesperadas e pertinentes. 25- Capazes de organizar e passar energia própria para o grupo. II- Existe em sua turma alguma criança com outros talentos especiais? Quem? Como manifesta o seu talento? Fonte: Guenther (2000). Esse questionário é aplicado em anos seguintes, para uma segunda indicação, ou seja, que a identificação desse aluno pode levar até dois anos ou mais. 61 4.6.2 Segundo passo A segunda ação realizada é análise do questionário através do crivo que consiste no cruzamento de dados para definir quais inteligências que os alunos indicados evidenciam no seu cotidiano. Para isso, a interpretação da ficha se faz de acordo com os critérios estabelecidos por Guenther (2000). Assim são convidados a participar do programa os alunos que apresentam sinais de talentos em determinadas áreas como demonstra o Quadro 3. Quadro 3 – Crivo ÁREAS DE TALENTOS NÚMERO DE INDICAÇÕES NECESSÁRIAS EM CADA ÁREA Capacidade e inteligência geral 6 vezes ou pelo menos 4 dos seguintes itens: 4,6, 9,10, ,11,12, 17, 18, 21,22, 25. Ou 4 vezes nos itens 9 ,11, 13, 17,18, 22, 25. Talento Verbal 3 vezes ou mais nos itens: 1, 5, 7, 18, 21. Pensamento Abstrato 3 vezes ou mais nos itens: 2, 9, 11, 18, 22. Talento psicossocial 4 vezes ou mais nos itens 4,7, 14, 15, 16, 19, 26. Quando for indicado nos itens: 4,7,14,15,16, e 26 indica talento psicossocial com liderança. Talento Psicomotor Presença nos itens: 4,22,24 Criatividade ou Talento Artístico 4 vezes nos itens: 3- 8- 10- 12- 13- 17- 2; ou 3, incluindo os itens 3 e 13 Fonte: Guenther (2000). 4.6.3 Terceiro passo A terceira ação do processo de identificação é a participação efetiva desse aluno por meio do convite. O passo seguinte consiste na matrícula desse aluno/a, e 62 por último, a formação e informação às famílias dos alunos junto com a escola. Os profissionais que acompanham esses alunos explicam que o atendimento realizado organiza-se segundo as orientações feitas no documento “Adaptações Curriculares em Ação: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais dos alunos com altas habilidades /superdotação”, lançado pelo MEC em 2002. Segundo esse documento as salas de recursos requerem professores especializados e programa de atividades específicas, tendo como objetivo o aprofundamento e enriquecimento do processo de ensino-aprendizagem e a criação de oportunidades para trabalhos independentes e para investigações nas áreas de interesse, habilidades e talento. O atendimento é feito em pequenos grupos, com cronograma adequado de acordo com as características de cadaeducando. Requer planejamento conjunto entre o professor e o aluno e a equipe deve realizar relatórios frequentes sobre o progresso de cada aluno. (BRASIL, 2002). 5 ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS Fonte: https://bityli.com/zgaMtxSQ De acordo com Freitas e Pérez (2012), é importante antes de modificar o currículo, investir no conhecimento prévio do aluno. Nesse sentido, as autoras elencam uma série de ações necessárias para que de fato o processo de identificação seja o mais assertivo possível e em consequência, planeje-se um programa de atendimento que contribuirá no desenvolvimento desse estudante com AH/SD, de 63 forma mais efetiva. Dentre as ações orientadas pelas autoras, destacam-se as seguintes (FREITAS; PÉREZ, 2012, p. 68-69): 1. Fazer inventários de interesses, questionários sobre estilos de aprendizagem e pesquisas sobre experiências anteriores do aluno ou utilizar as observações do professor para identificar preferências, pontos fortes, realizações fora da escola e talentos do aluno; 2. Analisar e modificar as unidades do currículo existente para eliminar repetições e aumentar autenticidade, o desafio e o alinhamento entre os objetivos, a avaliação e as atividades de ensino-aprendizagem; 3. Dar aos alunos uma visão geral de cada unidade do currículo ou realizar uma atividade inicial que explique suas principais metas e atividades, que demonstre sua importância e aumente a motivação do aluno para aprender; 4. Desenvolver atividades diferenciadas, abertas ou que tenham como resultado um determinado produto, para atender às diferenças individuais; 5. Permitir que os alunos tenham a oportunidade de comunicar seus conhecimentos ou experiências prévias mediante atividades ou objetivos de aprendizagem e indicar seus pontos fortes, necessidades, preferências de atividades de aprendizagem, produtos ou atividades de extensão; 6. Organizar atividades de aprendizagem flexíveis em pequenos grupos para atender as diferenças individuais em relação aos objetivos de cada unidade; 7. Implementar algum formulário de pré-testagem ou pré-avaliação antes de iniciar uma nova unidade, como técnica para identificar o nível de compreensão de cada aluno e a possibilidade de aplicação de objetivos específicos do currículo; 8. Utilizar uma variedade de estratégias de ensino para o grande grupo (aula expositiva, multimídia, demontrações, experimentos, etc.), para garantir o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos; 9. Incorporar recursos da comunidade ou de especialistas em currículo para aumentar a atencão do aluno e a autenticidade do conteúdo e promover o desenvolvimento do talento; 10. Oferecer estratégias educacionais explícitas para promover as habilidades (por exemplo, cognitivas, de pesquisa, de coleta de dados, afetivas, de comunicação, etc) necessárias para incentivas a pesquisa independente; 64 11. Construir centros de interesse, centros de descoberta, contratos ou atividades optativas para fortalecer as habilidades de aprendizagem independente e atender as necessidades, pontos fortes e interesses individuais; 12. Oferecer simulações e atividades de resolução de problemas que incentivem os alunos a transferir os objetivos de aprendizagem a aplicações autênticas e complexas e a cenários que exijam criatividade e o uso de habilidades de pensamento mais elevadas; 13. Incentivar os alunos a buscar respostas para suas próprias perguntas, fornecendo sugestões e oportunidades para o desenvolvimento de projetos individuais e atividades exploratórias; 14. Envolver os pais em atividades de enriquecimento em casa, tutoriais e na execução de tarefas desafiadoras. 5.1 Enriquecimento curricular A pesquisa da professora Sakaguti (2020) aponta que oportunizar o enriquecimento curricular e apresentar situações de aprendizagem realmente atraentes são providências essenciais para uma inclusão efetiva e também para a construção de uma identidade positiva desse aluno. Inclusive, ela afirma que o investimento na formação do professor é fundamental para o processo, pois dá a ele condições de oportunizar uma educação que considere as diferenças indivíduais e estimule o desenvolvimento de competências, talentos e habilidades variadas. Mas, segundo ela, a realidade do Brasil mostra que ainda existem barreiras para que esse processo aconteça na sua plenitude e um desses empecilhos está na forma como é concebido o ato educativo. Esse desenvolvimento também esbarra na infexibilidade de curículos que não consideram a complexidade das necessidades que envolvem a educação especial. O enriquecimento currícular e intracuricular são capazes de gerar motivação e inclusão ao aluno superdotado, ao mesmo tempo, promover o desenvolvimento e despertar o interesse dos demais alunos da sala onde esse indivíduo está inserido. A aceleração já é uma estratégia aceita e promovida pelas leis e diretrizes brasileiras de educação. Uma das melhores maneiras de mobilizar o aluno superdotado é desafiando-o, encorajando-o a buscar na escola e na sociedade recursos que lhe 65 deem subsídio e ampliem sua teia do saber. Pensar um processo que desafie e envolva, de fato, esse aluno com características tão específicas, requer do professor e da escola a adequação dos procedimentos didáticos, ou, como se convencionou dizer, o enriquecimento curricular (SAKAGUTI, 2020). O enriquecimento curricular consiste no desenvolvimento de práticas pedagógicas voltadas à promoção de experiências investigativas e estímulos em desenvolver práticas pedagógicas direcionadas à promoção de estimulos e experiências investigativas que correspondam aos interesses e também às habilidades do aluno AH/SD. Entre os modelos existentes e testados, daremos destaque ao Modelo Triádico de Enriquecimento, desenvolvido por Joseph Renzulli na década de 1970. Trata-se de uma ação composta pela realização de três tipos de atividade, chamadas Enriquecimento do tipo I, do tipo II e do tipo III que apresentam grande poder de despertar e potencializar a criatividade do aluno. Cada uma deles é definido como: As atividades de enriquecimento do tipo I: são experiências e atividades exploratórias ou introdutórias destinadas a colocar o aluno em contato com uma ampla variedade de tópicos ou áreas de conhecimento, que geralmente não são contempladas no currículo regular [...] deve ser planejada, sempre, a partir do interesse dos alunos, ainda que seja de um único aluno, com a finalidade de fomentar a curiosidade, responder a questionamentos, aprofundar uma discussão etc. [...] devem ser estimulantes e dinâmicas e podem envolver: o contato com profissionais e especialistas por meio de palestras, painéis, troca de experiências e oficinas; visitas a instituições, feiras, bibliotecas, museus e eventos culturais; acesso à literatura; viagens; simulações; filmes; internet [...]. Atividades de enriquecimento do tipo II: são utilizados métodos, materiais e técnicas instrucionais que contribuem para o desenvolvimento de níveis superiores de pensamento (analisar, sintetizar e avaliar), de habilidades criativas e críticas, de habilidades de pesquisa (por exemplo, como conduzir uma entrevista, analisar dados e elaborar um relatório), de busca de referências bibliográficas e processos relacionados ao desenvolvimento pessoal e social (habilidades de liderança, comunicação e desenvolvimento de um autoconceito positivo). O objetivo deste tipo de enriquecimento é desenvolver nos alunos habilidades de “como fazer” [...]. As atividades de enriquecimento do tipo III: visam a investigação de problemas reais, por meio da utilização de métodos adequados de investigação, a produção de conhecimento novo, a solução de problemas ou a apresentação de um produto, serviço ou performance. Estas atividades têm ainda como objetivo desenvolver habilidades de planejamento, gerenciamentodo tempo, avaliação e habilidades sociais de interação com especialistas, professores e colegas. O aluno, após passar por este tipo de experiência, deverá ser capaz de agir, sentir e produzir como um profissional de uma área específica do conhecimento. Os problemas e tópicos para este 66 tipo de atividade devem ser selecionados pelo(s) aluno(s) [...] (BRASIL, 2007). No primeiro combo de ações, aquelas denominadas Tipo I, o autor sugere a promoção de atividades gerais de exploração. Já as ações de enriquecimento do tipo II preveem as atvidades de treinamento em grupo e, finalmente, as ações de enriquecimento do tipo III promovem para o aluno a possibilidade de investigar soluções para problemas reais em suas áreas de interesse, desenvolvendo essa atividade individualmente ou em conjunto com outros alunos e até com outras pessoas da comunidade e oferecendo produtos e serviços de real impacto e mudança na audiência a sua volta (SAKAGUTI, 2020). 5.2 Enriquecimento intracurricular O enriquecimento intracurricular acontece dentro do ambiente de sala de Aula. Trata-se de uma parcera entre especialistas em altas habilidades/superdotação e o professorem sala com o objetivo de atender o aluno AH/SD em suas carências e demandas. Essa parceria também pode ser uma ação colaborativa da comunidade que cerca esse aluno especial e a escola onde estuda. Apesar de o foco ser o aluno com indicadores de superdotação, todos os alunos da sala são beneficiados com as atvidades propostas (SAKAGUTI, 2020). O trabalho do professor e da equipe envolvida será, por meio de indicadores e ou processos de avaliação, conhecer as áreas de interesses, as hablidades e os campos em que esse aluno tem facildade de assimilação para, então, promover atividades diferenciadas que se enquadrem nessas características. Também é importante pensar em ativídades que ofereçam um nível de profundidade maior que o habitual, ao ponto de torná-las verdadeiros desafios para esse aluno AH/SD. Freitas e Pérez (2012) alertam aos professores que, em condições ideais de desafio, o aluno superdotado apresentará desempenho superior ao de seus pares. Em resumo, as autoras definem o enriquecimento intracurricular como: [...] estratégias propostas o orientadas pelo docente de sala de aula regular ou das diferentes disciplinas, durante o período de aula ou fora dela (tarefas adicionais, projetos individuais, monitoras, tutorias e mentorias), que podem 67 ter como base o conteúdo que dia está (trabalhando num determinado momento e cuja proposta pode ser elaborada conjuntamente com o professor especializado ou mesmo com um professor itinerante, quando for necessário (FREITAS E PÉREZ, 2012, p. 79). Um dos principais ganhos do enriquecimento curricular é o fato de que a sua aplicação promove a aprendizagem tanto do aluno com perfil de superdotação acadêmico/escolar quanto o aluno com superdotação produtivo criativa. Mas, para o aluno superdotado acadêmico, a aceleração ou progressão escolar é outra estratógia de atendimento, já aceita, inclusive, pelo Ministério da Educação (SAKAGUTI, 2020). 5.3 Aceleração A professora Virgolim (2007, p. 63) explica que “acelerar implica em decídir que competência, e não a idade, será o critério determinante para que o indivíduo obtenha acesso a um currículo e experiências acadêmicas mais adiantadas”. Como já dito anteriormente, a Lei de Diretrizes e Bases – Lei n. 9.394/96 – prevê em seu art. 59 que: Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades Ospeciais [...]: - terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para à conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menos tempo o programa, para superdotados. E as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (2001) contemplam em seu texto que os alunos superdotados têm [...] grande facilidade de aprendizagem que os levem a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes e que, por terem condições de aprofundar e enriquecer esses conteúdos, devem receber desafíos suplementares em classe comum, em sala de recursos ou em outros espaços definidos pelos sistemas de ensino, nclusive para conclui, em menor tempo a série ou etapa escolar. Outro autores resumem que acelerar significa cumprir a grade curicular em tempo reduzido, o que pode acontecer de duas formas: por ingresso precoce na escola ou pela promoção do aluno ao ano/série seguintes, quando comprovado que ele domina os conteúdos do ano letivo em que se encontra. O foco, em ambos os casos, é proteger e promover o aluno, evitando o tédio e a desistimulação (SAKAGUTI, 2020). 68 5.4 Compactação curricular A compactação curricular é uma ferramenta utilizada em favor dos alunos com AH/SD para agilizar a continuação dos seus estudos, prosseguindo mais rapidamente com o conteúdo já apreendido. A vantagem desse processo é que elimina a rotina de exercícios repetitivos, uma das situações que mais desmotiva o aluno com alto rendimento (SAKAGUTI, 2020). Para Virgolim (2007, p. 62), essa compactação do currículo "toma mais desafiador o ambiente de aprendizagem, dando ao aluno oportunidade de aproveitar melhor seu tempo para o desenvolvimento de atvidades de enriquecimento e abrindo espaço para a aceleração escolar”. Nesse aspecto, Renzuli (2014, p. 549) ressalta que a “compactação curricular é uma técnica de diferenciação instrucional projetada para fazer os ajustes curriculares necessários para alunos de qualquer área curicular e qualquer ano”. De acordo com Virgolim (2007) cabe ao professor identificar, por meio de atividades e testes, a área do curículo que o aluno já dominou e suas áreas fortes, A partir daí, assegurado da situação real dos conteúdos dominados por aquele aluno e a adequação ao currículo pré-estabelecido, o professor indica quais atividades podem ser eliminadas do curriículo ou aceleradas para alcançar o ritmo do aluno em questão. A decisão final de aceleração ou enriquecimento em sala de aula fica a cargo do professor, sempre considerando as necessidades do aluno superdotado. Ao professor também cabe avaliar a possiblidade de elíminar conteúdos repetitivos do livro didático, dispensando o aluno de rever conteúdos que já domina. Por fim, a intodução de informações com maior profundidade nos conteúdos curriculares são a sugestão de Freitas e Pérez (2012), que também aconselham parcerias entre docentes da escola, terceiro setor, universidades e também vistas a laboratórios, museus, além de pesquisas na intemet, por exemplo. Sempre com o objetivo de tomar a experiência educacional pertinente e interessante ao aluno AH/ SD. 69 8. REFERÊNCIAS ALENCAR, E. M. L S; FLEITH, D. de S. Superdotados: determinantes, educação e ajustamento. 2. ed. São Paulo: EPU, 2001. ARANTES, D. R. B. Uma investigação sobre pessoas com altas habilidades/superdotação: dialogando com Marion Miner. 2011. 106 1. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2011. BRASIL. Constituição Nacional Brasileira. 1988. Disponível em: http://www.planalto .gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 3 nov. 2022. BRASIL. 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