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ASPECTOS AFETIVOS, COGNITIVOS E SOCIAIS ENVOLVIDOS NO PROCESSO DE ENSINO – APRENDIZAGEM 1 1 Sumário ASPECTOS AFETIVOS, COGNITIVOS E SOCIAIS ENVOLVIDOS NO PROCESSO DE ENSINO – APRENDIZAGEM ... Erro! Indicador não definido. FACUMINAS ............................................................................................ 2 INTRODUÇÃO ......................................................................................... 3 CONCEITUANDO AFETIVIDADE ........................................................ 5 CONCEITUANDO APRENDIZAGEM ................................................... 8 AS EMOÇÕES NA HISTÓRIA DO PENSAMENTO HUMANO .............. 12 ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS PROPOSTAS POR VYGOTSKY .................................................................................................. 22 ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS APRESENTADAS POR WALLON ....................................................................................................... 26 A APRENDIZAGEM NO ÂMBITO FAMILIAR ........................................ 29 O COGNITIVO E A AFETIVIDADE NAS RELAÇÕES DE SALA DE AULA ......................................................................................................................... 32 REFERÊNCIAS ..................................................................................... 36 file:///C:/Users/Cliente/Documents/PSICOLOGIA%20ESCOLAR%20E%20EDUCACIONAL/ASPECTOS%20AFETIVOS,%20COGNITIVOS%20E%20SOCIAIS%20ENVOLVIDOS%20NO%20PROCESSO%20DE%20ENSINO%20-%20APRENDIZAGEM/ASPECTOS%20AFETIVOS,%20COGNITIVOS%20E%20SOCIAIS%20ENVOLVIDOS%20NO%20PROCESSO%20DE%20ENSINO%20-%20APRENDIZAGEM.docx%23_Toc42091010 file:///C:/Users/Cliente/Documents/PSICOLOGIA%20ESCOLAR%20E%20EDUCACIONAL/ASPECTOS%20AFETIVOS,%20COGNITIVOS%20E%20SOCIAIS%20ENVOLVIDOS%20NO%20PROCESSO%20DE%20ENSINO%20-%20APRENDIZAGEM/ASPECTOS%20AFETIVOS,%20COGNITIVOS%20E%20SOCIAIS%20ENVOLVIDOS%20NO%20PROCESSO%20DE%20ENSINO%20-%20APRENDIZAGEM.docx%23_Toc42091010 2 2 FACUMINAS A história do Instituto Facuminas, inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a Facuminas, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A Facuminas tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 3 INTRODUÇÃO A afetividade é uma dimensão do ser humano que envolve emoções, sentimentos e paixões (WALLON, 1995b) e o compõe enquanto pessoa. Muito se tem falado sobre afetividade na educação, especialmente na relação professor-aluno. Muitas vezes, trata-se de relações de carinho criando um ambiente de bem-estar na sala de aula, desvinculado do papel da escola: ensinar os conhecimentos acumulados e legitimados culturalmente pela sociedade. Segundo Wallon (1978), a afetividade desempenha um papel fundamental na constituição e funcionamento da inteligência, determinando os interesses e necessidades individuais. Entende que a primeira relação do ser humano ao nascer é com o ambiente social. Assim, as manifestações iniciais do bebê assumem um caráter de comunicação entre ele e o outro, sendo vistas como essenciais para garantir os cuidados necessários para a sua sobrevivência. Apesar desse papel fundamental na fase inicial de vida, as emoções e sentimentos têm uma função social de contágio, mobilização e comunicação com o outro que se mantêm por toda a vida. Vigotski (1991), por sua vez, defende que a construção do conhecimento ocorre a partir de um intenso processo de interação entre as pessoas, que possibilita a criança apropriar-se das práticas culturalmente estabelecidas, evoluindo das formas elementares de pensamento para formas mais abstratas, que a ajudarão a conhecer e controlar a realidade. Destaca a importância do outro não só no processo de construção do conhecimento, mas também de constituição do próprio sujeito e de suas formas de agir. 4 4 Assume-se a afetividade como uma construção social, elaborada a partir da mediação do outro. Por que falar de afetividade nas relações entre professores e alunos? Segundo Pino (mimeo) a afetividade refere-se à forma como os acontecimentos em geral afetam cada sujeito individualmente. Dentre todos os acontecimentos, as reações das pessoas em relação a nós, são as mais importantes. Afirma que, parece mais adequado entender o afetivo como uma qualidade das relações humanas e das experiências que elas evocam (...). São as relações sociais, com efeito, as que marcam a vida humana, conferindo ao conjunto da realidade que forma seu contexto (coisas, lugares, situações, etc.) um sentido afetivo (p. 130-131). Portanto, os acontecimentos da sala de aula, de maneira especial as ações dos professores nas situações de ensino, afetam a aprendizagem dos alunos e a sua relação com os objetos de conhecimento. 5 5 CONCEITUANDO AFETIVIDADE A afetividade é a dimensão constituinte de todo ser humano, ela exerce um papel fundamental na nossa vida psíquica, pois as emoções e os sentimentos são os “combustíveis” que alimentam o nosso psiquismo e estão presentes em todas as expressões de nossa vida. É a mais evidente manifestação da nossa subjetividade, na qual se encontram os sentimentos, as emoções, as paixões, o medo, o sofrimento, o interesse, a tristeza, a alegria. Nesse aspecto, podemos considerar a afetividade como: 6 6 [...] o conjunto de fenômenos psíquicos que se manifestam sob as formas de emoções, sentimentos e paixões, acompanhados sempre de impressão de dor ou de prazer, de satisfação ou insatisfação, de agrado ou desagrado, de alegria ou tristeza (BARRETO, 1998, p. 71). Segundo Capelatto (2005), a afetividade é a dinâmica mais profunda e complexa da qual o ser humano faz parte. Surge a partir do momento em que um sujeito se liga ao outro através do amor. É a mistura de todos os sentimentos: amor, ciúme, raiva, inveja, saudade; e aprender a cuidar corretamente de todas essas emoções é que vai possibilitar ao sujeito uma vida emocional plena e equilibrada. A dimensão afetiva pode ser considerada como a energia vital que impulsiona e conduz o homem no transcorrer de sua existência. A afetividade move o sujeito para que ele possa desempenhar a ação. Desse modo, é um elemento indispensável no desenvolvimento humano, pois a sua presença ou a sua ausência influencia definitivamente esse desenvolvimento; ela é a “substância” que nutre as nossas ações e que consequentemente potencializa a vida. Nesse sentido, a afetividade pode ser considerada como a mola propulsora de nossa vida. Ela influencia decisivamente a nossa percepção, a nossa memória, o nosso pensamento, a nossa vontade e as nossas ações, além de ser um componente essencial para a formação e o equilíbrio da personalidade: A afetividade acompanha o ser humano desde o nascimentoaté a morte. Ela “está” em nós como uma fonte geradora de potência, de energia. Dizemos que, até os 12 anos, a vida do ser humano é extremamente afetiva e, a partir daí, o futuro adulto já tem estabelecidas suas formas de afetividade. A afetividade domina a atividade pessoal na esfera instintiva, nas percepções, na 7 7 memória, no pensamento, na vontade, nas ações, na sensibilidade corporal — é componente do equilíbrio e da harmonia da personalidade (ROSSINI, 2001, p. 09). A afetividade propicia as inter-relações entre os sujeitos, assim como as com o meio no qual estão inseridos, ocasião esta em que vivenciam as emoções e os sentimentos, ou seja, reagem afetivamente aos acontecimentos. É um elemento contagiante que nos torna capazes de “[...] afetar o outro a partir de comportamentos, sentimentos e reações” (LIMA, 2010, p. 53). Só o afeto é capaz de mobilizar e contagiar as pessoas existentes à nossa volta. Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008), a vida afetiva é parte integrante da nossa subjetividade. Para que nossas expressões sejam compreendidas, é preciso que sejam considerados os afetos que as seguem. Nossos pensamentos e ações, aquilo que está no nosso íntimo, só terão significado se compreendermos o afeto que vem juntamente com eles. Para que possamos compreender o ser humano de forma integral, é necessário entendermos que ele não é um ser fragmentado, apenas formado pela dimensão cognitiva, mas principalmente pela dimensão afetiva. Evidentemente, os afetos proporcionam um sentido especial à nossa vida; eles traduzem claramente nossos sonhos, palavras, desejos, gestos, fantasias, expectativas, pretensões, enfim, todas as nossas atitudes e pensamentos. Os afetos determinam a forma como os indivíduos visualizam o mundo, como também seu modo de manifestar-se dentro dele. Outra especificidade dos afetos consiste no fato de eles estarem vinculados à nossa consciência, o que implica dizer que aquilo que sentimos podemos transmitir ao outro por meio da linguagem. Através desse mecanismo, podemos expressar as nossas emoções. 8 8 A afetividade é o que transporta a nossa vida — a alegria, a felicidade, a esperança, o entusiasmo, a motivação, o prazer e o principal de todos: o amor, que é o prolongamento do domínio, que é o coração. É inconcebível uma educação em que não exista a afetividade em sua composição, pois “[...] sem afeto não há educação” (CHALITA, 2004, p. 149). Desse modo, podemos afirmar que a afetividade assume um papel fundamental na compreensão do aprendiz em sua totalidade e em todas as suas dimensões, com enfoque na vida afetiva, que constitui o seu lado puramente subjetivo, sendo também responsável por contribuir e fortalecer o desenvolvimento de outros aspectos formadores da estrutura humana. Portanto, os afetos são os elementos que conduzem os nossos comportamentos, estimulam e energizam a nossa aprendizagem. CONCEITUANDO APRENDIZAGEM Inicialmente, para que se possa compreender a aprendizagem e seus inúmeros processos, é fundamental definirmos o que significa aprender. Segundo Nunes e Silveira (2009), essa palavra deriva do latim aprehendere, que significa agarrar, pegar, apoderar-se de algo. Com base nesse conceito, a aprendizagem pode ser analisada como um processo no qual os indivíduos se apropriam de conhecimentos, habilidades, valores, estratégias, condutas e informações; portanto, a aprendizagem está relacionada à mudança, à significação, à amplitude das vivências internas e externas, à transformação de cada ser, à cultura na qual ele está inserido. Aprender já traz em si a incorporação de um conhecimento novo aos saberes que já possuímos, e, consequentemente, isso resulta na modificação 9 9 dos conhecimentos que o sujeito já possui. Convém destacar que a aprendizagem apresenta uma visão específica para cada ser, cada qual tem sua própria modalidade, singularidade e subjetividade, as quais devem ser respeitadas no decorrer da aprendizagem. Segundo Bossa (2000), para Fernández todo sujeito apresenta sua modalidade de aprendizagem, ou seja, meios, condições e limites de que todo ser humano dispõe ao aproximar-se do conhecimento e constituir o saber. A aprendizagem, afinal, é a grande responsável pela inserção da pessoa no mundo cultural, e é por meio de uma participação ativa que cada ser se apodera dos saberes e métodos e com isso constrói em seu interior uma imensidão de representações simbólicas. A aprendizagem é o processo através do qual o indivíduo se apropria dos conhecimentos e da experiência da cultura na qual ele está inserido. É através da aprendizagem que o indivíduo se torna capaz de atuar sobre o mundo interagindo com as coisas e pessoas, transformando a realidade e sendo por ela transformado, tornando-se capaz de sobreviver no contexto no qual ele está inserido para garantir a sua existência e a de sua espécie no mundo (LIMA, 2010, p. 07). Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008), é evidente que a aprendizagem é um processo dinâmico, pois existem diversos tipos de aprendizagem, os quais são perceptíveis nos diferentes contextos das atividades humanas. Ela tem o seu início desde os primeiros instantes da vida e desenvolve-se nas primeiras ações cotidianas do ser humano, como o falar, o comer, o sentar e o andar. Porém essa não é a única instância em que ela ocorre; a aprendizagem sistematizada encontra seu espaço nas instituições educativas, como a escola, as quais estão diretamente ligadas com o desenvolvimento da sociedade e correspondem com o saber que cada cultura prioriza. 1 0 10 A aprendizagem é um processo contínuo, constante e diversificado, ou seja, o ser humano, ao longo de sua existência, está em constante situação de aprendiz. É importante compreender que “[...] a aprendizagem ajuda o homem a economizar energias na tentativa de resolver os conflitos cognitivo-afetivos que lhe são propostos pelo meio” (VISCA, 1991, p. 47). Na concepção construtivista defendida por Jean Piaget, a evolução do conhecimento é um processo contínuo, o qual se constrói no momento da interação do sujeito com o meio (físico e social). Desse modo, a teoria construtivista entende o aluno como um ser ativo, construtor do seu próprio conhecimento, e, nesse processo, deve ser respeitado seu desenvolvimento natural. Desse modo, “[...] a aprendizagem em Piaget é um processo complexo, que requer elaboração interna de um modo ativo e singular, não sendo um ato de incorporação passiva, mecânica” (NUNES E SILVEIRA, 2009, p. 90). Aprender consiste em uma formação interna, uma compreensão do objeto a ser apreendido e, ao mesmo tempo, uma possibilidade de interação com o mundo. Segundo Nunes e Silveira (2009), na teoria de Vygotsky a aprendizagem está ligada à valorização das potencialidades e singularidades dos alunos, à atividade do sujeito diante dos desafios propostos pela situação de ensino e à mediação do outro. O sujeito é social e ativo em seu meio cultural. A aprendizagem é dinâmica e contínua, feita através da interação social. Nesse contexto, o professor tem a função de contribuir para essa aprendizagem, servindo de mediador entre a criança e o mundo. Para Bossa (2000), atualmente a Psicopedagogia trabalha com o conceito de aprendizagem que conduz a uma visão de homem como sujeito ativo num processo de interação com o meio físico e social. Nesse processo, participa um equipamento biológico com disposições afetivas e intelectuais que interferem na 1 1 11 forma como o sujeito se relaciona com o meio. Essas disposições influenciam e são influenciadas pelas condições socioculturais do indivíduo e do seu meio. Uma questão fundamental paraa educação atual consiste na necessidade de estimular o aprender a aprender, enfatizando a aprendizagem humana, que acontece de forma processual e contínua. O aprender a aprender é condição essencial no processo de valorização do educando como um pesquisador ao longo de toda a sua vida, como ser autônomo, livre, ativo e participativo na sociedade da qual ele faz parte. O enorme desafio do aprender a aprender é o desafio de formar seres aptos a governar a si mesmos, a desenvolver a liderança participativa, a aprender a dizer sim e a dizer não. De que serve uma multidão de seres repetidores de ideias alheias sem capacidade de pensar por si mesmos? O grave problema da formação inadequada é a ausência de objetivos definidos, sem a perspectiva de finalidade (CHALITA, 2004, p. 65). A aprendizagem não pode ser considerada estática, o conhecimento está em constante transformação, e é necessário nós acompanharmos as mudanças no conhecimento para que não nos tornemos ultrapassados com ele. “O aprender a aprender não envelhece nunca” (CHALITA, 2004, p. 193). Dessa forma, o aprender a aprender é uma habilidade incessante na qual o ser humano está em constante busca de conhecimento. 1 2 12 AS EMOÇÕES NA HISTÓRIA DO PENSAMENTO HUMANO Historicamente, somos marcados por uma concepção dualista que coloca em oposição razão e emoção. Por séculos, as teses foram formuladas a partir de antagonismos: corpo e alma, material e imaterial, conhecimento inteligível e sensível, matéria e espírito, bem e mal, luz e trevas, etc. Essa forma de pensar influenciou as ciências, a produção de conhecimento e, consequentemente, o pensamento e a forma de viver de cada época. Atribuía-se às emoções um status inferior. Na antiguidade, a busca pelo pensamento científico valorizava a razão e a inteligência, em detrimento da experiência sensível. Todos os aspectos relacionados à razão tornam-se centrais e constituem-se no grau máximo de desenvolvimento humano. 1 3 13 O dualismo durante todo o período medieval é observado na relação entre razão e fé. Ambas têm a mesma origem: Deus, que é fonte de toda a verdade. A busca pela verdade faz com que a razão prevaleça sobre o sensível, embora não o desconsidere. Mas, somente pela razão se chega ao conhecimento. O período moderno apresenta uma ruptura com a visão de mundo hierarquizada da Idade Média. Instaura-se uma crescente valorização do homem individual, considerando seus desejos. Assim, o pensamento moderno valorizou o sujeito pensante, a consciência individual e a liberdade como alternativas necessárias para confrontar a hegemonia política e religiosa da Idade Média. Mesmo assim, a relação emoção e razão continua marcada pelo dualismo. Corpo e alma eram analisados separadamente, mesmo ganhando maior centralidade aspectos como liberdade e desejos. Para Descartes (1991), filósofo da época, alma e corpo têm funções bem distintas. No tratado As Paixões da Alma, descreve de maneira extensa os órgãos, que ele denomina as partes do corpo, e algumas de suas funções. Detalha todo o processo da circulação sanguínea, os movimentos do coração, o processo da digestão e até os movimentos dos músculos, para afirmar que todas essas funções são pertencentes ao corpo, restando apenas os pensamentos, que devem ser atribuídos à alma. A célebre expressão encontrada no Discurso do Método “Penso, logo existo” (ibid, p. 47) revela o que é central para Descartes. Coloca a existência humana sob a dependência do pensar. Mente e corpo estão separados. Atribui ao último um funcionamento mecânico e à primeira uma existência independente do corpo. São as ideias de Espinosa (1989), outro filósofo da Idade Moderna, que trazem inovações importantes para a relação corpo-alma. Em sua obra mais conhecida – Ética – defende que corpo e mente não são realidades distintas e 1 4 14 sim, atributos ou manifestações diferentes de uma substância única. Corpo e alma estão sob as mesmas leis e princípios, expressos diferencialmente. Rompe-se com a concepção hierárquica que definia a alma como superior ao corpo, devendo comandá-lo. Para Espinosa (1989), ao contrário do que acreditavam seus antecessores, não é através do afastamento entre a alma e o corpo, que aquela tornar-se-á livre para assumir sua função – alcançar o conhecimento verdadeiro através do ato de pensar. É pelo aprofundamento desta relação, que a alma poderá tomar a iniciativa para pensar. É função da alma ter consciência do que acontece ao corpo, tal consciência se traduz em imagens. Se imaginamos coisas que conduzem à alegria, há um esforço para que essas coisas de fato aconteçam. Mas, se, ao contrário, imaginamos coisas que conduzem à tristeza, vamos nos esforçar para destruir essas imagens, afastar-se delas. Portanto, essas ideias imaginadas são afetivas, referem-se a sentimentos. Por isso, Espinosa afirma que “a relação originária da alma com o corpo e de ambos com o mundo é a relação afetiva” (CHAUÍ, 1995, p. 64). Segundo Chauí (1995), Espinosa é o primeiro a formular uma nova concepção a respeito das relações entre corpo e alma. Ao defender uma ligação profunda entre ambos, afirma que atuam em conjunto e rompe radicalmente com o pensamento que até então vigorava. A grande originalidade de Espinosa encontra-se na afirmação de que corpo e alma são ativos ou passivos por inteiro e em conjunto. Foi baseando-se nas ideias de Espinosa que, séculos mais tarde, Vigotski vem defender uma concepção monista de ser humano, criticando duramente o dualismo. Afirma que o ser humano não se constitui por uma absorção imediata do meio, mas por um processo único e constante de 1 5 15 subjetivação da realidade. Nesse sentido, o mundo objetivo converte-se em mundo subjetivo. O externo é internalizado e produz algo novo no âmbito interno; social e individual contêm um ao outro, sem se diluírem. Este é o processo dialético, onde um não existe sem o outro. Assim, o psiquismo não existe sem as relações materiais em que está imerso e a linguagem é um instrumento essencial nesse processo. Portanto, a construção da subjetividade é um processo histórico e social, que se dá por meio dos processos de significação mediados pela linguagem constituindo diversas formas de sentir, pensar e agir. Destaca-se, nessa construção, a presença das emoções e sua inter-relação com os aspectos cognitivos. Podemos concluir que as formas de significação também são emocionadas, ou seja, mediadas pelas emoções e que as falas, pensamentos e ações dos homens sempre carregam em si uma emoção. [...] Dessa forma, o pensamento sempre será um fenômeno que terá em sua constituição uma emoção, e, sendo assim, o processo cognitivo nunca existirá sem ela também (ROSA e ANDRIANI, 2002, p. 274-275). Ao defender a integração entre os processos afetivos e a cognitivos, Vigotski, (2004), faz várias críticas às teorias da época que imprimiam uma marca organicista ao estudo das emoções. Discute a teoria de James e Lange, demonstrando seu caráter anti-histórico ao não considerar a possibilidade de evolução para as emoções. É uma concepção destituída da perspectiva de desenvolvimento, tratando as emoções de maneira periférica, restringindo-as à percepção de alterações corporais. Problematiza a relação entre as manifestações corporais e as emoções, partindo dos estudos de Cannon e Sherrington, os quais concluem que as modificações físicas são secundárias nos estados emocionais. 1 6 16 Vigotski (2004) argumenta que pacientes com paralisia facial não expressam, no rosto, as emoções, mas as sentem. Observou-se, neles, “una expresión del rostro parecida a la de una máscara, pero tras lacual se mantiene por completo el funcionamiento normal de las reacciones emocionales” (p. 46). Dessa forma, as modificações orgânicas têm pouca importância nos fenômenos emocionais e, em contrapartida, as modificações cerebrais ganham um status maior. Portanto, a reação emocional tem muito mais relação com os componentes psíquicos associados às modificações cerebrais. Vigotski destaca que, ao restringir o estudo das emoções às manifestações corporais, há um reducionismo, contemplando apenas as emoções mais primitivas, diretamente associadas aos instintos e não formula explicação alguma sobre as emoções superiores, mais refinadas. Falta uma análise psicológica. Afirmou que as emoções “isolam-se cada vez mais do reino dos instintos e se deslocam para um plano totalmente novo” (VIGOTSKI, 1998, p. 94). Ao assumir uma perspectiva de desenvolvimento para as emoções, destaca que não há uma redução ou desaparecimento das mesmas, mas, na verdade, sugere que existe um deslocamento para o plano do simbólico, da significação e do sentido. Admite que a manifestação inicial da emoção parte da herança biológica, mas, junto com outras funções psicológicas, nas interações sociais, ela perde seu caráter instintivo para dar lugar a um nível mais complexo de atuação do ser humano, consciente e autodeterminado. Isso não implica que descarte o reconhecimento das bases mecanicistas e biológicas da emoção, mas mostra a necessidade de submetê-las à análise histórico-cultural, para tratar dos processos psicológicos superiores. 1 7 17 Vigotski (2004) defende que uma abordagem ancorada puramente nos processos corporais, além de ignorar as qualidades superiores das emoções, única e exclusivamente humanas, também não considera as transformações qualitativas que sofrem ao longo do desenvolvimento. Afirma que a natureza dos afetos transforma-se, constituindo-se em novas e diferentes maneiras de sentir. Ressalta, ainda que, mesmo observando-se a relação entre a intensidade da emoção e as alterações orgânicas ocorridas, elas não podem esclarecer quanto ao significado das emoções em jogo nestes momentos. Enfatiza que só é possível compreender o papel da emoção no contexto dinâmico da vida, pois é este que dá o significado às experiências emocionais. Por isso destaca o papel da cultura na constituição de significado e sentido das manifestações emocionais. Afirma que os fenômenos psicológicos refletem e são construídos a partir das atividades sociais. Compreender as manifestações emocionais segundo a cultura, significa elucidar suas correspondências com a maneira pela qual as pessoas agem, pensam e são tratadas nas atividades culturais. Wallon, construiu uma teoria voltada para explicação da gênese dos processos psíquicos; ocupou-se de investigações que possibilitaram a descrição das transformações e do desenvolvimento dos processos especificamente humanos – preocupação também compartilhada por Vigotski. Ao longo de sua elaboração teórica, Wallon mostrou-se cuidadoso ao tratar do aspecto orgânico das emoções. Assim como Vigotski, também faz referência aos estudos de Sherington e Cannon, destacando a importância do tônus muscular para a expressão emocional. Wallon (1995a) afirma que as emoções são de natureza fisiológica e manifestam-se, desde o início da vida da criança, por movimentos significativos para as pessoas, que os interpretam, possibilitando o seu uso como meio de 1 8 18 comunicação. Defende que o biológico e o social são aspectos complementares, tornando-se impossível pensar a vida psíquica fora dessa relação. Atribui às emoções um papel de primeira grandeza na formação da vida psíquica, funcionando como uma amálgama entre o social e o orgânico. As relações com o mundo exterior são, desde o início, relações de sociabilidade, pois, ao nascer, a criança não tem possibilidades de ações eficazes sobre o ambiente e necessita do outro para satisfazer suas necessidades e desejos. Wallon (1995a) afirma que “as emoções, tendem (...) a realizar, por meio de manifestações consoantes e contagiosas, uma fusão de sensibilidade entre o indivíduo e os que o cercam” (p. 262). Defende que as emoções assumem um caráter de comunicação entre a criança e o outro, sendo vista como o meio de sobrevivência típico da espécie humana. É o primeiro e mais forte vínculo entre os indivíduos. Wallon estuda o funcionamento humano segundo uma visão integradora de todos os aspectos que o compõem. Defende a ideia de integração entre três campos funcionais: o afetivo, o cognitivo e o motor, que exercem, ao longo do desenvolvimento humano, uma relação de influência e dependência, integrando- se na constituição de um quarto campo funcional, que denominou da pessoa. Organizou o desenvolvimento humano em estágios nos quais a criança estabelece diferentes formas de interação com o meio humano e físico. Em cada fase do desenvolvimento os aspectos afetivos e cognitivos estão em constante entrelaçamento. Destaca os conceitos de alternância e preponderância 1 9 19 funcionais, referindo-se à predominância alternada da afetividade e da cognição nas diferentes fases do desenvolvimento. Explica que, em cada fase, um campo funcional exerce uma dominância maior sobre os outros. Quando a afetividade prepondera sobre a dimensão cognitiva, o indivíduo está voltado para a construção do seu eu e, por isso, o movimento é para o interior da pessoa (movimento centrípeto). Quando a cognição prepondera, o movimento é para o exterior (força centrífuga), para o conhecimento do mundo, das coisas. A dimensão motora não assume a preponderância em fase alguma, mas exerce um papel fundamental na evolução da pessoa. Neste processo, os campos funcionais se beneficiam dos avanços do outro que está dominando e evoluem também. Portanto, cada campo funcional irá se beneficiar das conquistas do outro em seu momento de dominância, além de alternarem-se nessa dominância nos diferentes estágios evolutivos. No estreito entrelaçamento entre afetividade e cognição, as conquistas do plano afetivo são utilizadas no plano cognitivo e vice-versa, assumindo uma perspectiva de desenvolvimento para todos os aspectos, inclusive o afetivo. Neste sentido, é possível afirmar que a afetividade incorpora as construções da inteligência e tende a se racionalizar, ampliando suas formas de manifestação. Dantas (1992) arrisca afirmar que há “três grandes momentos: afetividade emocional ou tônica; afetividade simbólica e afetividade categorial” (p. 91), demonstrando o desenvolvimento qualitativo conquistado pela afetividade em cada etapa. A afetividade emocional ou tônica corresponde ao momento inicial do desenvolvimento humano, onde, pelas manifestações orgânicas, se estabelece a comunicação com o mundo social. Restringe-se a trocas epidérmicas, dependendo inteiramente da presença concreta do outro. Nessa etapa, o domínio afetivo vai se constituindo a partir de uma sensibilidade orgânica, que 2 0 20 funciona de uma maneira muito intensa e precisa. Tal sensibilidade Sherrington (apud WALLON, 1995a) denominou de interoceptiva e proprioceptiva. A sensibilidade interoceptiva refere-se à percepção que o bebê vai adquirindo sobre a condição dos seus órgãos – estômago, intestino, etc. – revelando estados de fome, dor, entre outros. A sensibilidade proprioceptiva refere-se à percepção de postura, percepção muscular – a questão do apoio (equilíbrio) e os movimentos que a criança é capaz de fazer. Há ainda, segundo Sherrington (id ibid), um outro tipo de sensibilidade, que denominou esteroceptiva, referindo-se às percepções do bebê em relação ao ambiente ao seu redor; portanto exterior. Destaca que as variações de luminosidade, a presençade diferentes tipos e intensidade de sons provocam no bebê reações de natureza orgânica (alterações de respiração, de pulso, de volume cerebral, de tônus muscular). Wallon (1995a), baseando-se nestes três conceitos de sensibilidade, afirma que, através destes processos perceptivos, vai se delineando o surgimento da vida racional. Admite que há um aperfeiçoamento de tais processos, resultando em ações mais refinadas e complexas, melhores adaptadas e mais conscientes. Pode-se afirmar que, neste processo de refinamento da sensibilidade esteroceptiva, há uma percepção cada vez maior, por parte do sujeito, da presença, das atitudes e reações do outro. A percepção do ambiente físico e social possibilita transformações nas manifestações afetivas. Dantas denominou de afetividade simbólica o momento em que surge a capacidade de representação, especialmente a linguagem. Aqui, a afetividade se beneficia dos avanços cognitivos e ganha outras formas de manifestação. “Instala-se o que se 2 1 21 poderia denominar de forma cognitiva de vinculação afetiva” (DANTAS, 1992, p. 90). A afetividade categorial refere-se à incorporação da função categorial, isto é, a fase do desenvolvimento em que o pensamento é organizado por categorias. Por isso, surge uma conduta que “coloca exigências racionais às relações afetivas: exigências de respeito recíproco, justiça, igualdade de direitos, etc.”. (ibid, p. 91). Nota-se que a integração entre os campos funcionais se traduz em uma ampliação das formas de vinculação afetiva e em novas exigências afetivas nas relações sociais. Wallon (1995b) faz ainda uma diferenciação conceitual, usando o termo afetividade para um conjunto amplo de manifestações, compreendendo emoções, sentimentos e paixão. Defende que as emoções têm uma natureza orgânica, em função das transformações corporais que desencadeia (aumento dos batimentos cardíacos, tensão ou relaxamento muscular, rubor ou palidez, etc.), mas têm também uma função social no que se refere à comunicação e mobilização do outro, durante o período inicial da vida (pelo choro ou agitação física, o bebê chama a atenção da pessoa que está por perto). Destaca, ainda, que o surgimento da capacidade de representação (possibilidade de imaginar, planejar, fantasiar, criar ideias) reflete também aspectos afetivos. Trata-se, porém, de sentimentos que são mais duradouros, menos intensos e menos visíveis que as emoções. “É a expressão representacional da afetividade. (...) Os sentimentos podem ser expressos pela mímica e pela linguagem” (MAHONEY e ALMEIDA, 2007, p. 18). Assim, à medida que o indivíduo se desenvolve, as emoções vão encontrando vias de escoamento qualitativamente diferentes. O que, no início, era comunicado através do corpo, com conquistas como aquisição da marcha, 2 2 22 da linguagem oral, da intencionalidade, da capacidade de representação, etc. vai transformando-se e ampliando as maneiras de expressão. Surgem novas formas além do contato corporal. As conquistas intelectuais são incorporadas à afetividade, dando-lhe um caráter cognitivo (DANTAS, 1992). Quanto à paixão, pressupõe a capacidade de autocontrole “como condição para dominar uma situação. Para tanto, configura a situação (cognitivo), o comportamento, de forma a atender às necessidades afetivas” (MAHONEY e ALMEIDA, 2007, p. 18). Para Wallon (1978) o conhecimento do mundo objetivo é feito de modo sensível e reflexivo, envolvendo o sentir, o pensar, e o imaginar. Wallon e Vigotski têm muitos pontos em comum em se tratando da afetividade. Assumem o seu caráter social e têm uma abordagem de desenvolvimento para ela, demonstrando, cada um à sua maneira, que as manifestações emocionais, portanto de caráter orgânico, vão transformando-se qualitativamente, passando a atuar no universo do simbólico, ampliando-se as formas de manifestações da afetividade. Defendem que o afetivo e o cognitivo inter-relacionam-se e influenciam-se mutuamente, promovendo o desenvolvimento do indivíduo em sua totalidade. ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS PROPOSTAS POR VYGOTSKY Vygotski (1998) aponta a importância das funções psicológica superiores no processo de humanização ressaltando entre elas: percepção, atenção, criatividade, pensamento, memória e raciocínio, de forma a que cada pessoa ao viver sua humanidade se integre na realidade social, transformando-a. 2 3 23 Para o autor é na interação que ocorre a internalização de formas culturalmente estabelecidas de funcionamento psicológico, seja com outros membros da cultura, seja pela apropriação de elementos do ambiente culturalmente constituído, na medida em que nessa interação internalizam-se os signos, isto é, as palavras que se ouve e se apropria. Dessa forma, o processo de conhecimento vem de fora para dentro, pois o biológico vai se desenvolvendo, amalgamado com o sócio histórico. As formas superiores de comportamento aparecem nas relações sociais que o indivíduo estabelece com o mundo exterior, “o verdadeiro curso do desenvolvimento do pensamento não vai do individual para o social, mas do social para o individual”. (VYGOTSKY, 1987, p. 18). Para o autor, o homem enquanto ser social e histórico, deve se apropriar dos conhecimentos historicamente construídos e transmitidos, ampliando dessa forma sua práxis, pois é, por esta via, que se desenvolve a consciência humana. Observação, atenção voluntária, memória, abstração, comportamento intencional, enfim as funções psicológicas superiores, são produtos da atividade mental que se apresentam como resultado da interação do indivíduo com o mundo sobre a base biológica, e estão em permanente desenvolvimento. O sujeito, no exercício de sua atividade laboral, interage com objetos externos, instrumentos construídos pelos seres humanos, mediado por processos internos, os signos, que vão sendo apropriados, na medida em que esse sujeito 2 4 24 interage com outros homens, e assim vai desenvolvendo essas funções psicológicas superiores, que são tipicamente humanas. Ainda para o autor, as causas que movem os pensamentos, encontram seus princípios nas emoções que as identificam, expressas muitas vezes pelas palavras que as representam. Para ele, em nenhum outro campo de investigação se mostra tão clara a impossibilidade de cisão entre as dimensões, afetiva e cognitiva, as quais interagem mutuamente no dinamismo avançado da apropriação do conhecimento. Portanto, não temos como separar a cognição, da afetividade e do pensamento. Outra questão importante a se considerar na relação entre ensino e aprendizagem é a importância da atuação docente na área, denominada por Vygotsky (1998), de desenvolvimento próximo (ZDP – Zona de Desenvolvimento Próximo ou Zona de Desenvolvimento Iminente). Essa área é constituída por aquelas atividades que o sujeito realiza com a ajuda de outro mais experiente. Distingue-se, portanto, da área referente ao conjunto de conhecimentos que o sujeito já domina e das atividades que ele realiza sem ajuda, denominado por Vygotsky (1998) de ZDR - Zona de Desenvolvimento Real. Para incidir na Zona de Desenvolvimento Próximo ou iminente, é preciso que o professor redefina sua prática e parta daquilo que o aluno já sabe, promovendo atividades mediadoras na relação entre os alunos e o objeto a ser conhecido, relativas a conhecimentos que o aluno ainda não tem, mas com a ajuda docente vai se apropriando. Para isso é preciso que se estabeleça, entre professor e aluno, uma relação de afetividade e diálogo, criando situações em que os alunos expressem aquilo que já sabem sobre o mundo que os cerca. O sujeito apropria-se do conhecimento por meio das experiências sociais, portanto, o desenvolvimento não pode serseparado do contexto social. Dai a importância do adulto mediando o desenvolvimento da criança, pois o 2 5 25 desenvolvimento depende das interações com as pessoas e com os instrumentos que a criança utiliza em seu mundo. Vygotsky (2001) sinalizava para uma escola diferente, que dialogasse, discutisse, interrogasse e compartilhasse saber, onde professores e alunos pudessem refletir sobre a construção do próprio conhecimento. Para ele o professor é o responsável pelo processo de aprendizagem discente, por representar um elo interposto entre o aluno e o conhecimento disponível no ambiente. “[...] A instrução pode não se limitar a ir atrás do desenvolvimento, a seguir seu ritmo, mas pode adiantar-se a ele, fazendo-o avançar e provocando nele novas formações” (VYGOTSKY, 2001, p. 223). Neste sentido, o professor precisa conhecer seu aluno, para atuar entre estes dois níveis de desenvolvimento, a zona real e a iminente. Ser coerente com a intencionalidade no processo pedagógico significa, portanto, entender as ideias discentes como ponto de partida para novos estudos e descobertas, ou seja, para a apropriação do conhecimento científico. As funções no desenvolvimento da criança “[...] aparecem duas vezes: primeiro, no nível de seu meio social, e depois, no seu estágio individual; primeiro entre pessoas (interpsicológica), e, depois, no interior da criança (intrapsicológica) [...] (VIGOTSKY, 1998, p. 75). Esse processo de internalização não ocorre passivamente, mas de maneira dinâmica. Deve haver uma interação entre o meio cultural e a subjetividade de cada um, aí entra a função da afetividade, pois as emoções influenciam e diversificam o comportamento, e, dependendo de como palavras são ditas, provocarão sentimentos que levarão o indivíduo a agir de forma diferente. Martins (2013, p. 227), apoiando-se em Vygotsky, aponta que os conteúdos disponibilizados à apropriação devem encerrar aspectos 2 6 26 qualitativamente distintos. Nem toda aprendizagem é, de fato, promotora de desenvolvimento. Por conseguinte, a seleção de conteúdos e a forma organizativa da aprendizagem, para a psicologia histórico-cultural, não são fatores que possam ser secundarizados. Da mesma forma, para a pedagogia, histórica-crítica, há que se identificar, no ato educativo, sob quais condições a aprendizagem opera, de fato, a serviço do desenvolvimento dos indivíduos. Se entendermos como alma sensível, a percepção, então se pode dizer que muitos conhecimentos são percebidos quando ensinados, mas não são incorporados. Caem da carroça. Ao contrário, quando há aprendizagem a carga está ali bem organizada, isto é o conhecimento, faz sentido. Muitos escritos apontam que Vygotsky, em seu legado, possibilitou que se espalhasse pelas mãos dos pesquisadores da psicologia histórico-cultural a construção de uma psicologia científica, capaz de explicar que não é o pensamento “quem” pensa ou o sentimento “quem” sente quem assim o faz é a pessoa, que precisa constituir-se como totalidade em sua relação, com o outro e apropriar-se dos conhecimentos historicamente construídos, para humanizar- se. ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS APRESENTADAS POR WALLON 2 7 27 A teoria psicogenética elaborada por Wallon (1995) visa estudar a pessoa completa, considerada igualmente em seus domínios afetivo, cognitivo e motor e em suas relações com o meio. Essa teoria destaca a afetividade e a atividade motora, por exercerem importância decisiva no complexo interjogo funcional, e serem responsáveis pelo desenvolvimento do indivíduo. Pode ser considerada psicogenética, por entender o desenvolvimento da personalidade, integrando afetividade e inteligência. Para o autor “afetividade e cognição” estarão dialeticamente, sempre em movimento, comprovando que o ser humano é essencialmente social. A teoria da emoção e do caráter de Wallon considera que a afetividade desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da personalidade, pois é o primeiro domínio de controle a ser percorrido pela criança. Wallon atribui ao professor a responsabilidade de buscar novos métodos a serem utilizados no espaço escolar para resolver as diversas situações conflitantes que surgem no processo pedagógico, pois quando a dimensão da afetividade é considerada, possibilita melhor gerência de sala de aula, promovendo melhor aproveitamento quanto à aprendizagem. O professor com consciência de seu papel no processo da aprendizagem sente-se responsável pelo aluno, e preocupa-se em promover vínculos cooperativos entre os educandos. Essa postura lhe permitirá abrir caminhos, apropriando-se do momento histórico e priorizando afinidades que estimulem a aprendizagem como uma ação aprazível, na qual o aluno possa já no espaço 2 8 28 escolar sentir-se um cidadão participativo contribuindo com as mudanças sociais necessárias. Para tanto, o aluno precisa sentir-se considerado, respeitado e acolhido pela escola, como parte integrante do espaço escolar. Assegurado com certos limites, possibilidades e com responsabilidades, só assim sentir-se-á seguro para desenvolver um comportamento organizado socialmente, com relações civilizadas recíprocas de respeito, junto à autoridade docente. Wallon (1986, p. 170) “considera o meio como um concorrente mais ou menos durável de circunstâncias nas quais se desenvolvem existências individuais”, em uma dinâmica complementar e contrária, na qual se faz presente o movimento do par Eu-Outro. É nesse comunicar-se que o indivíduo se constitui. Ao Outro inconsciente Wallon dá o nome de “[...] sócius”, referindo-se ao outro, intrínseco, que mantém com o Eu, uma conversa interna, uma ação com o mundo externo. O sócius traz em si a conjuntura cultural e simbólica presente no contexto social, sendo direção para o Eu, determinando - lhe regras e exigências sociais. A teoria walloniana parte sempre da possibilidade das funções mentais, que permitem ao sujeito funcionar em suas relações sociais, com enfoque interacionista entre elementos orgânicos e sócio-culturais. O que nos propõe Wallon é “superar a visão de homem dicotomizada, razão/emoção, permitindo- nos reconhecer a função integradora dos sujeitos envolvidos no processo ensino- aprendizagem”. (CALIL, 2007). 2 9 29 A APRENDIZAGEM NO ÂMBITO FAMILIAR As primeiras aprendizagens do sujeito acontecem no âmbito familiar. As primeiras conquistas da criança também são no seio familiar. Por isto, quanto mais estímulos a criança recebe, mais oportunidades ela terá de desenvolver novas habilidades. 3 0 30 Conforme Fernández, a modalidade de aprendizagem é o resultado das experiências de aprendizagem do indivíduo em interação com o grupo familiar. A família deve estimular o pensamento da criança, deve ajudá-la a pensar com autonomia. É importante ouvir suas indagações e questionamentos, mas deve- se permitir que ela faça suas escolhas e se responsabilize por elas, orientando quando necessário e na medida certa. Quando a autoria do pensamento da criança é podada pela família, pode haver reflexo negativo na aprendizagem do sujeito. Neste caso o sujeito poderá mostrar-se submisso e inseguro na tomada de decisão. A família deve participar ativamente da educação da criança, acompanhando o que acontece na escola. Numa sociedade em transformação, onde a família vem apresentando uma nova constituição, não sendo mais aquela formação tradicional, onde o pai era o provedor, a mãe era a do lar e a que acompanhava diariamente as primeiras aprendizagens da criança, onde suas conquistas eram comemoradas e estimuladas para que novas habilidades fossem adquiridas.Ao longo do tempo vem se consolidando uma nova formação de família, a mãe que era a ”cuidadora”, ingressa no mercado de trabalho e passa também a sofrer as conseqüências do novo mercado que se apresenta, onde a instabilidade e insegurança se instalam, com a velocidade da tecnologia que muda muito rápido há necessidade de estar constantemente se aprimorando e se capacitando para as novas práticas do mercado, conseguindo sobreviver os que apresentam versatilidade. O vínculo empregatício já faz parte do passado, onde existia uma “estabilidade” que um bom desempenho garantiria uma aposentadoria tranqüila. Todas essas mudanças na sociedade tiveram reflexo na família, a insegurança em que os pais vivem e a necessidade de constante adequação as novas práticas do mercado, fizeram com que a família transferisse para a escola a adaptação social dos seus filhos e até a aprendizagem das noções mais 3 1 31 básicas de higiene e sexualidade. A formação dessa criança começa a apresentar uma lacuna que dificilmente será preenchida nesse cenário. A falta de incentivo dos pais, a falta de incentivo da escola para que os alunos permaneçam e como a escola não dispõe de um ambiente social adequado, nem tem o entusiasmo necessário, se a criança não aprender em casa esses conceitos também não encontrará na escola, tornando-se um círculo vicioso. A família ao escolher a escola do seu filho não deve pensar apenas no aspecto cognitivo, não deve ser reducionista em nenhum aspecto, mas ampla, na direção da formação dos seres humanos completos, críticos e participativos, na direção da construção da cidadania. Na família moderna, em numerosos casos, falta o afeto. O aspecto afetivo apresenta uma profunda influência sobre o desenvolvimento intelectual da criança, pode acelerar ou diminuir o ritmo de desenvolvimento. Na teoria de Piaget, o desenvolvimento intelectual é considerado como tendo dois componentes: um cognitivo e outro afetivo. Paralelo ao desenvolvimento cognitivo está o desenvolvimento afetivo do nascimento até a vida adulta, centrando-se na infância. O afeto inclui sentimentos, interesses desejos, tendências, valores e emoções em geral. Com suas capacidades afetivas e cognitivas expandidas através da contínua construção, as crianças tornam-se capazes de investir afeto e ter sentimentos validados nelas mesmas. A família apresenta um papel decisivo neste aspecto, a auto-estima mantém uma estreita relação com a motivação ou interesse da criança para aprender. O afeto é o princípio norteador da auto-estima. Após desenvolvido o vínculo afetivo, a aprendizagem, a motivação e a disciplina como 'meio' para conseguir o autocontrole da criança e seu bem estar são conquistas significativas. 3 2 32 Para que a criança tenha um desenvolvimento saudável e adequado dentro do ambiente escolar, e conseqüentemente no social, é necessário que haja um estabelecimento de relações interpessoais positivas, como aceitação e apoio, possibilitando assim o sucesso dos objetivos educativos. O COGNITIVO E A AFETIVIDADE NAS RELAÇÕES DE SALA DE AULA O cognitivo remete à aquisição de conhecimento (cognição), envolvendo fatores diversos como o pensamento, a linguagem, a percepção, a memória e o raciocínio, que fazem parte do desenvolvimento intelectual. Mas a cognição é mais do que simplesmente a aquisição de sapiência, é uma forma de ser e de se modificar internamente. São processo e produto pelo qual os homens influenciam- se mútua e reciprocamente entre si e atuam no contexto social em que atuam, gerando uma memória que tem como material a informação do meio em que o sujeito vive. A afetividade relaciona-se com o sentimento, e está envolvida em todos os acontecimentos de vida humana. Relaciona-se com as emoções que o sujeito experimenta em relação a si e a outros seres e objetos. As pessoas criam laços afetivos com elas mesmas, com os outros e com seres irracionais, uma vez que os animais também são afetivos. 3 3 33 Neste sentido, a afetividade tem um papel essencial, na construção do intelecto do homem, porque está presente em toda a existência, sempre articulada ao processo cognitivo. A Psicologia define a afetividade como eficácia individual de experienciar o conjunto de acontecimentos afetivos, tais como: emoções, paixões, e sentimentos como dor, alegria, tristeza ou raiva. É preciso olhar para a prática pedagógica, vendo o sujeito como um ser intelectual e afetivo, capaz de reconhecer a afetividade como parte que lhe complementa num movimento que implica saberes, conhecimento sobre si e sobre o outro. Uma educação dialética e humanizadora requerer a revisão de métodos de ensino que, muitas vezes, mantém a ilusão de que estão restringindo o processo pedagógico apenas à dimensão cognitiva, e, portanto, apenas a conteúdos escolares. Trata-se de uma ilusão, pois a dimensão cognitiva e afetiva é indissociável na ação pedagógica. Separá-las só é possível, por meio de um exercício intelectual. Daí a necessidade de se pensar numa educação que envolva um novo olhar para o aluno, no sentido da compreendê-lo como pessoa 3 4 34 completa, lembrando que a escola não é participante única do processo de constituição da subjetividade discente. Neste patamar, pode-se considerar importante a presença da família na vida escolar do aluno, pois é nela que se encontra as referências de identificação e suporte para a aprendizagem. No entanto, frequentemente a família tem se omitido consciente ou inconscientemente da responsabilidade de educar e instruir seus filhos, transferindo tal responsabilidade à escola ou muitas vezes a própria escola desconsidera estar próxima à família. A escola precisa desenvolver ações que incentivem e estimulem a presença da família na escola, não apenas na entrega de boletim, e na cobrança por disciplina. A família é protagonista na formação do caráter e no desenvolvimento intelectual do aluno. Portanto, essa relação precisa ser considerada pela escola. Somadas, família e escola pode enriquecer o processo de aprendizagem e desenvolvimento do aluno, cada instituição exercendo sua função, unindo-se numa parceria mútua. É importante levar em consideração que a aprendizagem é um processo permanente que se constrói pelo trabalho, pelas atividades sociais e pela convivência com família, escola, grupos que o sujeito participa e interage, e com leituras, mídia, internet e demais experiências que realiza. Assim uma formação docente adequada envolve o conhecimento dos conceitos que fundamentam o fazer pedagógico, das metodologias, bem como do processo de desenvolvimento do aluno, a fim de estimulá-lo ao aprendizado. Nesse processo insere-se a preocupação em relacionar o novo conhecimento com a emoção, caso contrário o saber torna-se morto (VYGOTSKY, 2001). Para Vygotsky (2001), aprender é estabelecer, organizar, dar definição, enfim desenvolver as funções psicológicas especificamente humanas. Mas para encarar a provocação de ensinar como uma possibilidade precisa-se optar por mudanças nas quais o diálogo possa permear a capacidade de pensar, construir e internalizar o conhecimento. 3 5 35 Dessa forma, um dos meios de entendimento da dialética escolar é verificar a qualidade das relações interpessoais entre seus sujeitos, pois a escola é este espaço constituído pela e para troca de experiências e de sentimentos entre aluno- aluno e professor/aluno. Enfim, a articulação entre conhecimento e afetividade pode contribuir ou prejudicar a apropriação do conhecimento científico, função principal da escola. 3 6 36 REFERÊNCIASBARRETO, Sirdley de Jesus. Psicomotricidade: educação e reeducação. Blumenau: Odorizzi, 1998. BOCK, Ana M. Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. BOSSA, Nádia A. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. 2. ed. 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