Prévia do material em texto
Sociedade Brasileira de Psicanálise Democrática OS MECANISMOS DA EMOÇÃO NO ENCÉFALO 1 OS MECANISMOS DA EMOÇÃO NO ENCÉFALO Elaboração: Hudson Lucas do Nascimento Bibliografias: Livro: NEUROCIENCIAS - DESVENDANDO O SISTEMA NERVOSO Autores: Mark F. BEAR - Barry W. CONNORS - Michael A. PARADISO Livro: O ESTILO EMOCIONAL DO CEREBRO Autor: Richard J. Davidson, Ph.D., Com Sharon Begley 2 INDÍCE • Introdução • Primeiras Teorias Da Emoção • A Teoria De James-Lange • A Teoria De Cannon-Bard • Quadro 18.1 De Especial Interesse: “Borboletas” No Estômago • Implicações Da Emoção Inconsciente • O Sistema Límbico • O Lobo Límbico De Broca • O Circuito De Papez • Quadro 18.2 De Especial Interesse: Phineas Gage • Dificuldades Com O Conceito De Um Sistema Único Para As Emoções • Teorias Da Emoção E Representações Neurais • Teorias Da Emoção Básica • Teorias Dimensionais Da Emoção • O Que É Uma Emoção? • Quadro 18.3 A Rota Da Descoberta: Conceitos E Nomes Na Ciência De Todos Os Dias, Por Antonio Damasio • O Medo E A Amígdala • A Síndrome De Klüver-Bucy • A Anatomia Da Amígdala • Efeitos Da Estimulação E De Lesões Da Amígdala • Um Circuito Neural Para O Medo Aprendido • Raiva E Agressividade • A Amígdala E A Agressividade • Cirurgia Para Reduzir A Agressividade Em Seres Humanos • Quadro 18.4 De Especial Interesse: A Lobotomia Frontal • Componentes Neurais Da Raiva E Da Agressividade Além Da Amígdala • Raiva, Agressividade E O Hipotálamo • O Mesencéfalo E A Agressividade • Regulação Serotoninérgica Da Raiva E Da Agressividade • Considerações Finais • Reconexão: Exercícios Inspirados Na Neurologia Para Mudar Seu Estilo Emocional 3 INTRODUÇÃO Para valorizar o significado das emoções, tente imaginar a vida sem elas. Em vez dos altos e baixos diários que todos experimentamos, a vida provavelmente nos pareceria uma grande planície vazia de existência, com pouco significado. As experiências emocionais são uma grande parte do ser humano. Em livros e filmes, alienígenas e robôs podem ter uma aparência igual à de pessoas, mas, em geral, parecem não humanos simplesmente porque não mostram ter emoções. As neurociências afetivas investigam as bases neurais da emoção e do humor. Neste capítulo, estudaremos a emoção. Os transtornos do afeto, também conhecidos como transtornos do humor, serão discutidos no Capítulo 22. Você talvez esteja imaginando como podemos estudar algo tão efêmero quanto os sentimentos de alguém. Quando estudamos um sistema sensorial, em contrapartida, você pode apresentar um estímulo e buscar os neurônios que respondem a ele. Você pode manipular o estímulo para determinar quais de seus atributos (intensidade luminosa, frequência do som, etc.) evocam mais facilmente uma resposta. Não podemos, porém, estudar tão diretamente as emoções em animais que não podem nos relatar as suas sensações subjetivas. Assim, o que observamos são comportamentos que supomos que sejam expressões de emoções internas. Devemos ser cuidadosos ao distinguir entre experiência emocional (sentimentos) e expressão emocional. Aquilo que sabemos sobre os mecanismos da emoção no encéfalo provém de uma síntese de estudos realizados em animais e em seres humanos. Em animais, a atividade encefálica e os efeitos de lesões no encéfalo sobre o comportamento foram observados e interpretados no contexto de emoções, embora não possamos determinar os sentimentos dos animais. Alguns estudos em seres humanos têm examinado a atividade encefálica associada a experiências emocionais e, em outros estudos, ao reconhecimento de emoções. Ainda não estamos no estágio em que possamos mapear um sistema emocional da mesma maneira que os sistemas sensoriais têm sido delineados. De fato, veremos que as ideias iniciais acerca de um único sistema emocional ou múltiplos sistemas envolvendo áreas encefálicas dedicadas a determinadas emoções foram substituídas por teorias nas quais as emoções são baseadas em redes de atividade encefálica distribuída. PRIMEIRAS TEORIAS DA EMOÇÃO Emoções – amor, ódio, felicidade, tristeza, medo, ansiedade, e assim por diante – são sentimentos que todos experimentamos em um momento ou em outro. Entretanto, o que define precisamente esses sentimentos? Serão sinais sensoriais de nosso corpo, padrões difusos de atividade em nosso córtex, ou algo mais? No século XIX, diversos cientistas altamente respeitados, incluindo Darwin e Freud, ponderaram acerca do papel do encéfalo na expressão das emoções (Figura 18.1). Essa pesquisa inicial foi baseada no estudo cuidadoso da expressão emocional em animais e em seres humanos e na experiência emocional em seres humanos. Pode parecer apenas bom senso para muitos hoje, mas Darwin fez observações importantes, considerando que pessoas em diferentes culturas experimentam as mesmas emoções e que os animais parecem expressar algumas das mesmas emoções que os seres humanos expressam. Posteriormente, nos séculos XIX e XX, cientistas desenvolveram teorias para as bases fisiológicas da emoção e para a relação entre expressão e experiência emocional. 4 A Teoria de James-Lange Uma das primeiras teorias bem articuladas acerca da emoção foi proposta, em 1884, pelo renomado psicólogo e filósofo norte-americano, William James. Ideias semelhantes foram propostas pelo psicólogo dinamarquês Carl Lange. Essa teoria, comumente chamada de teoria de James-Lange da emoção, propôs que experimentamos a emoção em resposta a alterações fisiológicas em nosso organismo. Para compreender por que muitos contemporâneos de James e Lange consideraram essa ideia contraintuitiva, considere um exemplo. Suponha que você acorde em uma manhã e encontre uma aranha que parece malévola pendurada em uma teia sobre a sua cama. Se você, como muitas outras pessoas, tem aracnofobia, então poderá experimentar uma resposta de luta ou fuga, que envolve mudanças na frequência cardíaca, no tônus muscular e na função pulmonar (ver Capítulo 15). De acordo com a teoria de James-Lange, o seu sistema visual envia uma imagem da aranha para o seu encéfalo, que responde enviando comandos ao sistema nervoso somático e ao sistema nervoso visceral – simpático/parassimpático/entérico –, os quais alteram funções em músculos e órgãos diversos. Essas respostas do corpo são consequência direta da entrada sensorial, sem um componente emocional. A emoção que você experimenta consiste em seus sentimentos, que resultam de alterações em seu corpo. Em outras palavras, você não pula para fora da cama em resposta ao medo que sente, você, na verdade, sente medo porque tomou consciência de seu coração disparando e da tensão em seus músculos. Isso pode parecer o contrário do esperado para muitas pessoas hoje, como também pareceu para muitos contemporâneos de James e Lange. Até essa teoria ser proposta, a concepção comum era de que uma emoção é evocada por uma situação, e o corpo muda em resposta à emoção: você fica amedrontado quando vê uma aranha e, então, o seu corpo reage. A teoria de James-Lange postula exatamente o oposto. Consideremos um dos bem elaborados experimentos sugeridos por James. Suponha que você está fervendo de raiva por causa de algo que recém aconteceu. Tente remover todas as alterações fisiológicas associadas à emoção. O seu coração que batia forte, se acalma, os seus músculos tensos relaxam e a sua face irritada torna-se calma. Como James disse, é difícil imaginar como manter a raiva na ausência de qualquer uma dessas respostas fisiológicas. Mesmo se for verdade que a emoção ocorre em resposta a mudanças no estado fisiológico do corpo, isso não significa que a emoção não possa ser sentida na ausência de sinais fisiológicos óbvios (uma observação com a qual mesmo James e Lange concordariam). FIGURA 18.1 Expressões de raiva em animais e em seres humanos. Estes desenhossão do livro As Expressões das Emoções no Homem e nos Animais, de Darwin, e foram utilizados para apoiar a sua ideia de que há emoções básicas universais. Darwin realizou um dos primeiros estudos extensos sobre a expressão da emoção. Reproduzida, com permissão, de John van Wyhe, ed. 2002. The Complete Work of Charles Darwin Online. (http://darwin-online.org.uk/) 5 Contudo, para emoções fortes, que são geralmente associadas a mudanças físicas, a teoria de James-Lange diz que não é a emoção que causa as alterações corporais, mas, sim, que as alterações corporais causam a emoção. A Teoria de Cannon-Bard Embora a teoria de James-Lange tenha se tornado popular no início do século XX, ela logo foi contestada. Em 1927, o fisiologista norte-americano Walter Cannon publicou um artigo em que fazia várias críticas convincentes à teoria de James-Lange, e propunha uma nova teoria. A teoria de Cannon foi modificada por Philip Bard e tornou-se conhecida como a teoria de Cannon-Bard da independentemente da expressão emocional. Um dos argumentos de Cannon contra a teoria de James-Lange era de que as emoções podem ser experimentadas mesmo quando mudanças fisiológicas não podem ser sentidas. Para apoiar essa hipótese, ele descreveu os casos de animais, estudados por ele e por outros, após transecção da medula espinhal. Essa cirurgia elimina as sensações do organismo abaixo do nível do corte, mas não parece abolir emoções. Na medida do possível, preservando apenas o controle muscular da porção superior do corpo ou da cabeça, os animais ainda exibiam sinais de emoções. De forma semelhante, Cannon observou casos humanos em que uma transecção de medula não diminuía a emoção. Se a experiência emocional ocorre quando o encéfalo sente mudanças fisiológicas no organismo, conforme propõe a teoria de James-Lange, então a eliminação das sensações deveria, também, eliminar as emoções, e esse não parecia ser o caso. Uma segunda observação de Cannon, que sugere inconsistência com a teoria de James- Lange, é de que não há correlação confiável entre a experiência emocional e o estado fisiológico do organismo. Por exemplo, o medo é acompanhado por um aumento da frequência cardíaca, uma inibição da digestão e um aumento da sudorese. Entretanto, essas mesmas mudanças fisiológicas acompanham outras emoções, como raiva, e mesmo condições patológicas não emocionais, como a febre. Como pode o medo ser uma consequência de mudanças fisiológicas, quando essas mesmas mudanças estão associadas a outros estados além do medo? A nova teoria de Cannon focou a ideia de que o tálamo teria um papel especial nas sensações emocionais. Nessa teoria, a entrada sensorial é recebida pelo córtex cerebral, que, por sua vez, ativa certas mudanças no organismo. No entanto, de acordo com Cannon, esse circuito neural de estímulo-resposta, em si, é desprovido de emoção. As emoções são produzidas quando sinais alcançam o tálamo, seja diretamente, a partir dos receptores sensoriais, seja por estímulos corticais descendentes. Em outras palavras, o caráter da emoção é determinado pelo padrão de ativação do tálamo, independentemente da resposta fisiológica à entrada sensorial. Um exemplo pode esclarecer a diferença entre esta teoria e aquela de James-Lange. De acordo com James e Lange, você sente tristeza quando sente que está chorando; se você pudesse evitar chorar, a tristeza se iria também. Na teoria de Cannon, você não precisa chorar para estar triste: basta, apenas, que ocorra a ativação apropriada do seu tálamo em resposta à situação. As teorias da emoção de James-Lange e de Cannon-Bard são comparadas na Figura 18.2. 6 Muitas teorias da emoção foram propostas desde os tempos das teorias de James-Lange e de Cannon-Bard. Trabalhos subsequentes demonstraram que cada uma das velhas teorias tinha méritos, assim como tinha falhas. Por exemplo, ao contrário das predições de Cannon, tem sido demonstrado que medo e raiva estão associados a respostas fisiológicas distintas, embora ambos ativem basicamente o sistema nervoso simpático, divisão do SNV. Embora isso não prove que essas emoções resultem de respostas fisiológicas distintas, as respostas pelo menos são diferentes (Quadro 18.1). Alguns estudos mostram também que, de certo modo, podemos ter consciência da função ”visceral”* de nosso corpo (denominada interocepção consciente), que é um componente-chave para a teoria de James-Lange. Por exemplo, foi demonstrado que as pessoas são capazes de julgar as suas frequências cardíacas, e um aumento na atividade de certas áreas encefálicas é observado durante a realização dessa tarefa. Outro desafio interessante à teoria de Cannon-Bard, trazido por estudos posteriores, é que a emoção é, algumas vezes, afetada por lesão da medula espinhal. Em um estudo com homens adultos lesionados na medula, encontrou- -se uma correlação entre a extensão da perda sensorial e as diminuições relatadas nas experiências emocionais, embora outros estudos de indivíduos com lesão espinhal nem sempre encontrem semelhante correlação. Aqui, examinaremos teorias mais recentes para a emoção no contexto de resultados experimentais que sugerem quais as estruturas encefálicas envolvidas na experiência e na expressão da emoção. Implicações da Emoção Inconsciente Embora os achados possam ser contraintuitivos, alguns estudos sugerem que as aferências sensoriais podem ter efeitos emocionais sobre o encéfalo sem que o percebamos conscientemente. Diversos experimentos relacionados foram realizados por Arne Öhman, Uma comparação das teorias de James-Lange e de Cannon-Bard para a emoção. Na teoria de James- - Lange (setas vermelhas), o homem percebe um animal ameaçador e reage. Quando ele sente as respostas de seu corpo à situação, fica amedrontado. Na teoria de Cannon-Bard (setas azuis), o estímulo ameaçador leva primeiro à sensação de medo, e, então, ocorre a reação. 7 Ray Dolan e colaboradores, na Suécia e na Inglaterra. Eles demonstraram, inicialmente, que se um rosto expressando raiva é mostrado brevemente, seguido rapidamente por uma face desprovida de emoções, os participantes relatam ter visto apenas a face desprovida de emoções. Diz-se que a face zangada tem sua percepção “mascarada”, e a face sem expressão é o estímulo que efetua o mascaramento. Em um experimento, foram mostradas aos participantes várias faces, sem estímulos que efetuassem o mascaramento, e cada vez que uma face zangada era mostrada, os participantes recebiam um leve choque elétrico em um dedo. Após tal condicionamento aversivo, os participantes demonstravam atividade neurovegetativa alterada, como aumento na condutância da pele (palmas suadas), quando faces zangadas eram mostradas novamente. Os pesquisadores estavam interessados no que ocorreria quando faces zangadas fossem ocasionalmente mostradas após o condicionamento, mas mascaradas, isto é, com a reintrodução do estímulo que efetua o mascaramento. Surpreendentemente, quando as faces zangadas eram mostradas, os participantes apresentavam uma resposta neurovegetativa (aumento da condutância da pele), mesmo que não estivessem conscientes da face zangada. Esses achados indicam que os participantes respondiam às expressões de raiva da face que representava o estímulo aversivo, mesmo que não estivessem conscientes de terem percebido o estímulo. O conceito de uma emoção inconsciente baseia-se nessa observação. Em um segundo experimento, foram mostradas faces de indivíduos raivosos aos participantes ao mesmo tempo em que era emitido um som alto e desagradável, ou sem esse som (Figura 18.3). Como antes, os participantes não percebiam as faces raivosas quando um estímulo para as mascarar era apresentado. Ainda assim, medidas da condutância da pele mostraram que os participantes respondiam às faces raivosas que haviam sido pareadas com o som. Além disso, imageamento usando tomografia por emissãode pósitrons (TEP) foi utilizado para registrar a atividade encefálica enquanto as fotos eram apresentadas. As imagens do encéfalo mostram que as faces zangadas, condicionadas a serem desagradáveis, evocavam uma maior atividade no encéfalo em certo local, a amígdala. Teremos mais a dizer sobre a amígdala posteriormente neste capítulo. Por enquanto, um ponto importante a ser lembrado é que as medidas, tanto de respostas neurovegetativas quanto da atividade da amígdala, correlacionam- se à apresentação de faces zangadas condicionadas a serem desagradáveis, apesar do fato de essas faces não serem percebidas. Se sinais sensoriais podem apresentar impacto emocional no encéfalo sem estarmos cientes deles, isso parece descartar teorias nas quais a experiência emocional é um pré- requisito para a expressão da emoção. No entanto, mesmo aceitando essa conclusão, há muitas maneiras possíveis para o encéfalo processar informação emocional. Consideraremos agora as vias que ligam, no encéfalo, as sensações (sinais de entrada) às respostas comportamentais (sinais de saída) que caracterizam a experiência emocional. No restante deste capítulo, veremos que diferentes emoções podem depender de distintos circuitos neurais, mas algumas partes do encéfalo são importantes para múltiplas emoções. 8 “Borboletas” no Estômago A linguagem humana tem formas animadas e vibrantes de descrever as experiências emocionais. Se alguém hesita antes de fazer bungee jumping e saltar de uma ponte alta, descrevemos esse medo dizendo que a pessoa sente “frio na barriga”. No outro extremo do espectro de temperatura, uma pessoa que facilmente fica zangada ou raivosa é descrita como “cabeça quente”. Você fica nervoso antes de sair com um novo alguém? Você pode estar experimentando “borboletas no estômago”. Esses termos descritivos são divertidos, mas terão alguma relação com a experiência fisiológica da emoção? Um estudo intrigante, conduzido por cientistas da Universidade de Aalto, na Finlândia, sugere que as emoções básicas e algumas outras emoções podem, de fato, estar associadas com mapeamentos singulares de alterações sensoriais espalhadas no corpo. Essa conclusão foi obtida com base em testes online realizados em mais de 700 pessoas na Finlândia, na Suécia e em Taiwan. A fim de estabelecer quais partes do corpo os indivíduos sentiam estar afetadas por uma emoção, os cientistas pediram aos participantes que colorissem um mapa do corpo usando cores quentes quando sentissem que alguma emoção tornava o corpo mais ativo, e cores frias quando sentissem o corpo menos ativo. Mapas de emoções foram feitos em resposta a uma variedade de estímulos, incluindo palavras com conteúdo emocional, fotos de expressões faciais emocionais, experiências emocionais vividas com estórias curtas e cenas emocionais em filmes. A expectativa era de que, ao estudar participantes de diferentes culturas e linguagens, experiências emocionais universais pudessem ser mapeadas, distinguindo-as de estereótipos culturais. A figura mostra mapas do que se presume ser a atividade corporal média, estabelecida ao longo de várias observações em diferentes pessoas. O vermelho e o amarelo indicam atividade elevada, e o azul representa atividade reduzida, em relação a um estado neutro (em preto). Alguns traços, como atividade elevada na cabeça e no peito (por aumento das frequências cardíaca e respiratória?), foram comuns para múltiplas emoções. Outras características foram mais singulares. A felicidade foi incomum pelo fato de que todo o corpo mostrava aumento de atividade, e a tristeza mostrou uma singular redução de atividade nas extremidades. O mapa corporal para o desgosto apresentou uma estranha elevação na atividade ao redor do tracto digestório e da garganta (um reflexo de vômito?). O que representam esses mapas coloridos? Podemos apenas especular, mas talvez estejam relacionados a padrões de sensações e ativação do sistema visceral. Obviamente, devemos ser cautelosos ao interpretar os mapas, mas é intrigante que os diferentes mapas emocionais são distintos e, de certo modo, isso ocorre mesmo para emoções não consideradas “básicas”. Também é interessante o achado de que os mapas emocionais são similares entre culturas. Embora não possamos tirar uma foto das borboletas no estômago, esses achados são consistentes com a ideia de Darwin de que pelo menos algumas emoções são experiências ímpares e universais ao longo das diferentes culturas. 9 Figura A Mapas coloridos de seis emoções básicas. As estimativas de ativação do corpo variam de baixa (em azul) à alta (em amarelo). (Fonte: adaptada de Nummenmaa L, Glerean E, Hari R, Hietanen JK. 2014. Mapas corporais das emoções. Proceedings of the National Academy of Science 111: 646-651, Figura 1.) FIGURA 18.3 Atividade encefálica emocional inconsciente. (a) Participantes humanos foram condicionados utilizando-se fotografias de faces sem expressão e de faces raivosas. Os participantes respondiam à face raivosa, pareada com um som alto e desagradável, com aumento na atividade simpática (condutância da pele). (b) Na fase de teste, uma face raivosa era mostrada brevemente, seguindo-se imediatamente uma face desprovida de expressão. Os participantes relataram ter visto apenas a face sem expressão, mas um aumento na condutância da pele ainda ocorria. (c) Apesar do fato de que a face raivosa não era percebida na fase de teste, ocorria ativação da amígdala (em vermelho e amarelo) apenas quando o estímulo (face sem expressão) era precedido pela face raivosa (Fonte: Morris, Öhman e Dolan, 1998.) 10 O SISTEMA LÍMBICO Em capítulos anteriores, discutimos como a informação sensorial proveniente de receptores periféricos é processada ao longo de vias claramente definidas e anatomicamente distintas que seguem para o neocórtex. Os componentes de uma via constituem coletivamente um sistema. Por exemplo, neurônios loca- lizados na retina, no núcleo geniculado lateral (NGL) e no córtex estriado tra- balham juntos para servir à visão, de forma que dizemos que eles são parte do sistema visual. Há, nesse sentido, um sistema responsável pela experiência das emoções? Desde cerca de 1930, alguns cientistas têm argumentado que há, e tal sistema veio a ser conhecido como sistema límbico. Discutiremos brevemente as dificuldades de se tentar definir um sistema único para a emoção. Inicial- mente, porém, examinaremos a origem do conceito de sistema límbico. FIGURA 18.4 O lobo límbico. Broca definiu o lobo límbico como as estruturas que formam um anel ao redor do tronco encefálico e do corpo caloso, nas paredes mediais do encéfalo. As principais estruturas do lobo límbico assinaladas aqui são o giro cingulado, o córtex temporal medial e o hipocampo. O tronco encefálico foi removido na figura para que a superfície medial do lobo temporal fosse visível. O Lobo Límbico de Broca Em um artigo publicado em 1878, o neurologista francês Paul Broca observou que todos os mamíferos possuem, na superfície medial do cérebro, um grupo de áreas corticais que são bastante distintas do córtex circundante. Utilizando a palavra latina para “borda” (limbus), Broca designou essa coleção de áreas corti- cais como lobo límbico, uma vez que elas formam um anel, ou borda, ao redor do tronco encefálico (Figura 18.4). De acordo com essa definição, o lobo lím- bico é constituído por córtex ao redor do corpo caloso (principalmente o giro cingulado), córtex na superfície medial do lobo temporal e hipocampo. Broca não escreveu sobre a importância dessas estruturas para a emoção, e, por algum tempo, pensou-se que estivessem envolvidas primariamente com o olfato. A palavra límbico, contudo, e as estruturas no lobo límbico de Broca foram, após, associadas fortemente à emoção. 11 O Circuito de Papez Por volta da década de 1930,evidências sugeriram que algumas estruturas límbicas estivessem envolvidas na emoção. Refletindo a respeito de trabalhos anteriores de Cannon, Bard e outros, o neurologista norte-americano James Papez propôs que houvesse, na parede medial do encéfalo, um “sistema da emoção”, que ligaria o córtex ao hipotálamo. A Figura 18.5 mostra o grupo de estruturas que veio a ser chamado de circuito de Papez. Cada estrutura está conectada à outra por algum importante tracto axonal. Papez acreditava, como muitos cientistas hoje, que o córtex estivesse criticamente envolvido com a experiência emocional. Algumas vezes, lesões em certasáreas corticais promovem mudanças profundas na expressão emocional com poucas mudanças na percepção ou na inteligência (Quadro 18.2). Além disso, tumores próximos ao córtex cingulado estão associados a certas perturbações emocionais, incluindo medo, irritabilidade e depressão. Papez propôs que a atividade evocada em outras áreas neocorticais por projeções do córtex cingulado adiciona “colorido emocional” a nossas experiências. FIGURA 18.5 O circuito de Papez. Papez acreditava que a experiência da emoção era determinada pela atividade no córtex cingulado e, menos diretamente, em outras áreas corticais. Acreditava-se que a expressão emocional fosse governada pelo hipotálamo. O córtex cingulado projeta-se para o hipocampo, e o hipocampo projeta-se para o hipotálamo através do feixe de axônios, chamado de fórnice. Os efeitos do hipotálamo atingem o córtex através de uma estação retransmissora nos núcleos talâmicos anteriores. Vimos, no Capítulo15, que o hipotálamo integra as ações do sistema nervoso visceral (SNV). No circuito de Papez, o hipotálamo governa a expressão comportamental da emoção. O hipotálamo e o neocórtex estão arranjados de forma que um pode influenciar o outro, ligando, assim, a expressão e a experiência da emoção. No circuito, o córtex cingulado afeta o hipotálamo por meio do hipocampo e do fórnice (o grande feixe de axônios que deixa o hipocampo), ao passo que o hipotálamo afeta o córtex cingulado por meio do tálamo anterior. O fato de que a comunicação entre o córtex e o hipotálamo é bidirecional significa que o circuito de Papez é compatível com ambas as teorias da emoção, a de James-Lange e a de Cannon-Bard. 12 Apesar de os estudos anatômicos demonstrarem que os componentes do circuito de Papez estão interconectados, conforme Papez havia proposto, havia apenas evidências sugestivas de que cada uma dessas estruturas estivesse envolvida na emoção. Uma razão pela qual Papez imaginou que o hipocampo estivesse envolvido com a emoção é o fato de que ele é afetado pelo vírus da raiva. Uma indicação de infecção pelo vírus da raiva, e uma ferramenta no seu diagnóstico, é a presença de corpos citoplasmáticos anormais nos neurônios, sobretudo no hipocampo. Uma vez que a raiva se caracteriza por uma hiper- responsividade emocional, como medo ou agressividade exagerados, Papez propôs que o hipocampo deveria estar normalmente envolvido na experiência emocional. Embora houvesse pouca evidência em relação ao papel do tálamo anterior, outros relatos clínicos da época consideravam que lesões dessa área levavam a aparentes perturbações emocionais, como o riso ou o choro espontâneos. Você talvez tenha percebido a correlação entre os elementos que compõem tanto o circuito de Papez quanto o lobo límbico de Broca. Por causa de sua similaridade, o grupo de estruturas no circuito de Papez é frequentemente referido como sistema límbico, embora a noção anatômica do lobo límbico de Broca originalmente nada tivesse a ver com a emoção. O termo sistema límbico foi popularizado, em 1952, pelo fisiologista norte-americano Paul MacLean. De acordo com MacLean, a evolução de um sistema límbico permitiu aos animais experimentar e exprimir emoções e os emancipou do comportamento estereotipado ditado pelo tronco encefálico. Lesões encefálicas podem, às vezes, ter uma influência profunda na personalidade de um indivíduo. Um dos mais famosos exemplos é o caso de Phineas Gage. No dia 13 de setembro de 1848, enquanto socava pólvora em um buraco, preparando uma explosão no local de construção de uma ferrovia, em Vermont, ele cometeu o erro de não olhar, por um instante, para o que estava fazendo. O bastão de ferro que era utilizado para socar atingiu a rocha, e a pólvora explodiu. As consequências são descritas pelo Dr. John Harlow em um artigo de 1848, intitulado “Passagem de um bastão de ferro através da cabeça”. Quando a carga explodiu, a barra de ferro de 1 m de comprimento e de 6 kg foi projetada em direção à cabeça de Gage, logo abaixo de seu olho esquerdo. Após atravessar o seu lobo frontal esquerdo, a haste saiu pela parte superior do crânio de Gage. Inacreditavelmente, após ser carregado até um carro de bois, Gage manteve-se sentado ereto até chegar a um hotel próximo, conseguindo subir um longo lance de escadas para entrar. Harlow comentou, posteriormente, que, quando viu Gage no hotel pela primeira vez, “o quadro que se apresentava era, para alguém não acostumado a cirurgias militares, verdadeiramente impressionante” (p. 390). Como o leitor pode imaginar, o projétil destruíra uma porção considerável do crânio e do lobo frontal esquerdo, e Gage havia perdido bastante sangue. O buraco que atravessou sua cabeça tinha mais de 9 cm de diâmetro. Harlow foi capaz de colocar toda a extensão do seu dedo indicador dentro do orifício no topo da cabeça de Gage, e também para cima, a partir do buraco em seu rosto. Harlow Phineas Gage e o bastão que trespassou seu encéfalo. (Fonte: Wikimedia.) 13 cuidou do ferimento tão bem quanto pode. Ao longo das semanas seguintes, desenvolveu- se uma considerável infecção. Ninguém teria ficado surpreso se o homem morresse. Cerca de um mês após o acidente, no entanto, ele estava fora da cama e caminhando pela cidade. Dificuldades com o Conceito de um Sistema Único para as Emoções Definimos um grupo de estruturas anatômicas interconectadas que, a grosso modo, circundam o tronco encefálico como o sistema límbico. Trabalhos experimentais apoiam a hipótese de que algumas das estruturas no lobo límbico de Broca e no circuito de Papez tenham um papel na emoção. Por outro lado, alguns dos componentes do circuito de Papez, como o hipocampo, por exemplo, não são mais considerados importantes para a expressão da emoção. O ponto crítico parece ser conceitual, considerando a definição de um sistema emocional. Dada a diversidade das emoções que experimentamos e a diferente atividade encefálica associada a cada uma delas, não há uma razão forte que nos faça pensar que apenas um sistema esteja envolvido, em vez de diversos sistemas. Por sua vez, evidências sólidas indicam que algumas estruturas envolvidas no processamento da emoção estão também envolvidas em outras funções; não há uma relação “uma estrutura, uma função” neste caso. Embora o termo sistema límbico seja ainda comumente utilizado em discussões acerca dos mecanismos encefálicos da emoção, está se tornando cada vez mais claro que não existe um sistema único e bem delimitado para as emoções. Harlow correspondeu-se com a família de Gage durante muitos anos e, em 1868, publicou um segundo artigo, “Recuperação da Passagem de uma Barra de Ferro Através da Cabeça”, descrevendo a vida de Gage após o acidente. Após Gage recuperar-se de seus ferimentos, ele estava aparentemente normal, exceto por uma coisa: a sua personalidade fora drástica e permanentemente alterada. Quando tentou voltar ao seu antigo emprego como contramestre de construção, a companhia notou que ele havia mudado muito, e para pior, de modo que não o empregaram novamente. De acordo com Harlow, antes do acidente Gage era considerado “o contramestre mais capaz e eficiente... Ele possuía uma mente equilibrada, e era considerado por aqueles que o conheciam como um negociante perspicaz e inteligente, muito persistentena execução de todos os seus projetos” (p. 339-340). Após o acidente, Harlow o descreveu como segue: O equilíbrio ou balanço, por assim dizer, entre suas capacidades intelectuais e propensões animais parece ter sido destruído. Ele é indeciso, irreverente, permitindo- se às vezes imprecações grosseiras (que não era seu costume anteriormente), apresentando pouca deferência para com seus amigos, impaciente com relação a obstáculos ou conselhos que entrem em conflito com seus desejos; às vezes de uma obstinação pertinaz, e ainda assim caprichoso e vacilante, imaginando muitos planos para operações futuras, os quais, logo que arranjados, são abandonados em troca de outros que lhe pareçam mais factíveis... A sua mente mudou radicalmente, de modo tão notável que seus amigos e conhecidos disseram que ele “não era mais o Gage”. (p. 339-340) O caminho do bastão de ferro através do crânio de Gage. (Fonte: Damasio et al., 1994, p. 1104.) 14 Phineas viveu mais 12 anos e quando morreu, não foi realizada necropsia. Seu crânio e a barra de ferro, porém, foram preservados em um museu na Escola de Medicina de Harvard. Em 1994, Hanna e Antonio Damasio e colaboradores, da Universidade de Iowa, fizeram novas medidas do crânio e utilizaram técnicas modernas de diagnóstico por imagem para reconstituir a lesão no encéfalo de Gage. Essa reconstrução do percurso da barra de ferro está mostrada na Figura A. A barra de ferro lesionou gravemente o córtex cerebral de ambos os hemisférios, principalmente os lobos frontais. Presume-se que tenha sido essa lesão que levou às explosões emocionais apresentadas por Gage e às drásticas mudanças em sua personalidade. TEORIAS DA EMOÇÃO E REPRESENTAÇÕES NEURAIS As teorias iniciais da emoção e as descrições subsequentes do sistema límbico foram construídas sobre uma combinação de introspecção e inferência, baseada principalmente em exemplos de lesões e doenças encefálicas: se uma estrutura do encéfalo é lesionada e isso altera a expressão ou a experiência emocional, inferimos que tal estrutura é importante para a função emocional normal. Infelizmente, estudos de doenças e das consequências de lesões não são ideais para revelar a função normal. Antes de entrarmos no âmago da questão dos experimentos investigando mecanismos neurais da emoção, pode ser útil considerarmos a representação das emoções a partir de uma perspectiva mais ampla. Teorias da Emoção Básica Se o sistema límbico não é um sistema monolítico para a experiência e a expressão de todas as emoções, como agora parecer ser o caso, outra possibilidade que foi investigada é de que algumas emoções estão pelo menos associadas a padrões distintos de atividade no encéfalo e a respostas fisiológicas únicas no corpo (ver Quadro 18.1). Acredita-se, de acordo com as teorias da emoção básica, que certas emoções sejam experiências indivisíveis e únicas que são inatas e universais entre culturas, uma ideia que parece uma extensão lógica das observações iniciais de Darwin sobre a universalidade de um pequeno número de emoções. Em geral, são consideradas como emoções básicas a raiva, o desgosto, o medo, a felicidade, a tristeza e a surpresa. Desde uma perspectiva neural, poder-se-ia hipotetizar que emoções básicas têm representações ou circuitos distintos no encéfalo, talvez análogos às distintas representações para as experiências sensoriais. Por exemplo, tem sido sugerido que a tristeza se correlaciona melhor com atividade no córtex pré-frontal medial, e o medo com atividade na amígdala. Logo mais, veremos com profundidade as evidências que sugerem um papel especial para a amígdala no medo. Contudo, vejamos primeiro a questão mais geral da atividade encefálica associada à emoção. Uma maneira de se ter uma perspectiva mais ampla da representação da emoção é compararmos registros de imagens por ressonância magnética funcional (IRMf) ou TEP de encéfalos humanos enquanto as pessoas experimentam diferentes emoções. Numerosos experimentos desse tipo foram conduzidos. Neles, as pessoas são induzidas a experimentar emoções ou são mostradas figuras que evocam diferentes emoções enquanto as pessoas estão deitadas em um aparelho de imageamento encefálico. A Figura 18.6 mostra um resumo de imagens encefálicas coletas desse modo. Diversas observações podem ser feitas a partir dessas imagens. Primeiro, há diferentes “pontos quentes” – áreas onde determinada emoção está relacionada à atividade encefálica particularmente alta. 15 Segundo, cada emoção está associada a um conjunto de áreas menores ou maiores onde a atividade encefálica é mais baixa. Por fim, algumas regiões ativadas estão associadas a mais de uma emoção. A parte inferior da figura compara ativações do encéfalo para tristeza e medo, emoções que podem ser discriminadas com certa confiança a partir dos padrões de ativação. De modo consistente com a ideia de circuitos distintos para diferentes emoções, a atividade da amígdala está mais associada ao medo que à tristeza, e a atividade do córtex pré-frontal medial está mais associada à tristeza. Uma interpretação dos dados na Figura 18.6 é que a região de mais alta atividade representaria de forma única uma emoção, como o córtex pré-frontal medial para a tristeza, de modo semelhante aos segmentos de áreas do córtex visual seletivos para faces nos lobos temporais (ver Capítulo 10). Alternativamente, o padrão de ativação poderia ser a base da emoção e cada região encefálica ativa seria uma peça do quebra-cabeças. Sejam áreas isoladamente ou redes de áreas as representações únicas das emoções, poderíamos, a princípio, esquadrinhar encéfalos de pessoas e saber o que estão sentindo. Isso seria consistente com o conceito de que emoções básicas teriam representações únicas e distintas. Até o momento, não sabemos qual dessas interpretações está correta. Como veremos, há também teorias alternativas para a natureza da representação da emoção no encéfalo. FIGURA 18.6 Ativação encefálica associada a cinco emoções básicas. Para cada emoção, a intensida- de da ativação encefálica está indicada por cores (amarelo maior que vermelho). A imagem do encéfalo na parte inferior compara ativações associadas à tristeza (vermelho e amarelo = maior atividade na tristeza) e ao medo (azul = maior atividade no medo). (Fonte: Hamann, 2012, p. 460.) 16 Teorias Dimensionais da Emoção Há um apelo intuitivo à ideia de que cada emoção básica que experimentamos esteja baseada na atividade encefálica em uma área ou rede de áreas especializadas no encéfalo; quão conveniente isso seria para nós, cientistas! Infelizmente, aprendemos suficientemente acerca do encéfalo para saber que nem sempre ele faz aquilo que julgamos intuitivo. Uma analogia interessante é a codificação do movimento corporal. A frequência de disparos de um neurônio no córtex motor poderia codificar algo bastante direto, como as propriedades de contração de um único músculo (p. ex., comprimento, força). Há evidências, contudo, de que a atividade neural possa representar algo mais complexo, como os sinais de entrada para uma gama de músculos que constituem uma parte de um comportamento complexo (p. ex., balançar um bastão de golfe, fazer uma pirueta). Uma alternativa para as teorias básicas das emoções são as teorias dimensionais da emoção. Essas teorias são baseadas na ideia de que as emoções, mesmo as emoções básicas, podem ser desmontadas em elementos fundamentais menores combinados em formas e quantidades diferentes, assim como os elementos da tabela periódica são feitos de prótons, nêutrons e elétrons. Exemplos de dimensões afetivas propostas são a valência (“prazeroso-desagradável”) e o alerta (“emoção fraca-emoção forte”). Imagine um gráfico bidimensional com eixos marcados desse modo; cada experiência emocional estaria localizada em uma parte diferente do gráfico (Figura 18.7). Obviamente, para qualquer emoção, como a felicidade, por exemplo, haveriauma variação normal ao longo de uma dimensão, como a intensidade emocional (alerta). Em diferentes teorias, há diferentes números de dimensões, algumas vezes com diferentes nomes. FIGURA 18.7 Uma representação dimensional das emoções básicas. Em uma teoria dimensional, emoções como a felicidade e a tristeza consistem em quantidades distintas de ativação encefálica, que correspondem a dimensões afetivas, como valência e alerta. (Fonte: Hamann, 2012, p. 461.) 17 Veja novamente a Figura 18.6, na qual consideramos que áreas de atividade em cada fatia do encéfalo poderiam ser, como um grupo, uma possível representação de uma emoção básica. Por outro lado, poderiam essas áreas funcionar como subpadrões distintos, um subpadrão associado ao grau de agradabilidade, outro com a intensidade emocional e talvez ainda outros com dimensões adicionais? Ainda não temos resposta a essa questão. As teorias psicológico-construcionistas da emoção são uma variação das teorias dimensionais. Essas teorias são semelhantes às teorias dimensionais no sentido em que consideram as emoções como constituídas de pequenos blocos construtivos. Uma diferença-chave é que, nos modelos construcionistas, as dimensões não possuem peso afetivo. Em vez de dimensões como agradabilidade, um estado emocional é construído de processos fisiológicos que, por si, não se referem apenas às emoções. Exemplos de componentes psicológicos não emocionais que constroem a emoção são linguagem, atenção, sensações internas do corpo e sensações externas do ambiente. A emoção é uma consequência que emerge da combinação desses componentes, assim como um bolo resulta da combinação de ingredientes em uma receita. O Que é uma Emoção? Especulações acerca da natureza das emoções humanas têm sido feitas desde antes dos tempos de Darwin. Alguns pesquisadores argumentam que um pequeno conjunto de emoções básicas evoluiu e essas emoções são comuns aos seres humanos em todo o planeta, assim como aos animais. Outros pesquisadores trabalhando com neurociências afetivas acreditam que as emoções são constituídas por blocos construtivos que têm ou não peso emocional. Atualmente, há uma grande diversidade de perspectivas acerca da natureza das emoções, indo além daquilo que já discutimos. Um dos líderes nesse campo é Antonio Damasio, da Universidade do Sul da Califórnia, que vem investigando a natureza das emoções, a distinção entre emoções e sentimentos e a relação entre emoção e outras funções encefálicas, como a tomada de decisão (Quadro 18.3). À parte da natureza das emoções, um tema relacionado é a base neural das emoções: cada emoção é representada por atividade em uma área especializada do encéfalo, por uma rede de áreas ou por uma rede mais difusa de neurônios? Ainda não temos respostas para essas questões. Nossa esperança de vê-las respondidas está em uma convergência de abordagens que incluem, por exemplo, observações comportamentais, registros fisiológicos e estudos dos efeitos de lesões e de doenças. Na próxima seção, focalizaremos duas emoções: medo e raiva/agressividade. Poderíamos igualmente ter escolhido outras emoções, mas as pesquisas acerca do medo e da raiva fornecem bons exemplos de união entre estudos em seres humanos e em animais experimentais. O MEDO E A AMÍGDALA Como vimos, ainda existem dúvidas consideráveis acerca da representação das emoções no encéfalo. Técnicas de imagem utilizando o encéfalo humano nos fornecem figuras da atividade encefálica associada a diferentes emoções, mas essas figuras não podem nos dizer como ou quais áreas encefálicas, de fato, contribuem para a experiência ou para a expressão de uma emoção. Isso dito, há uma estrutura no encéfalo que, mais do que qualquer outra, tem uma reputação de crítica à emoção: a amígdala. Tem sido sugerido que a amígdala desempenha um papel especial no medo. Enquanto estudamos as evidências conectando a amígdala ao medo, tenha em mente que outras estruturas do 18 encéfalo também parecem estar envolvidas no medo e que a amígdala também está ativa em outros estados emocionais. A Síndrome de Klüver-Bucy Logo após a proposta de Papez de um circuito emocional no encéfalo, os neurocientistas Heinrich Klüver e Paul Bucy, da Universidade de Chicago, descobriram que a remoção bilateral dos lobos temporais, ou lobotomia temporal, em macacos rhesus, tem um efeito dramático sobre as tendências agressivas dos animais e suas respostas a situações capazes de produzir medo. A cirurgia produz numerosas anomalias comportamentais bastante bizarras, coletivamente denominadas síndrome de Klüver-Bucy. Após a lobotomia temporal, os macacos pareciam ter uma boa percepção visual, porém um reconhecimento visual deficiente. Quando colocados em um novo ambiente, os animais moviam-se, averiguando os objetos que viam. Entretanto, diferentemente dos animais normais, pareciam necessitar colocar os objetos na boca para poder identificá-los. Se a um macaco faminto fosse mostrado um grupo de objetos que ele havia visto anteriormente misturado com alimento, ainda assim o macaco executaria todo o processo de pegar cada objeto para estudo, antes de consumir as porções de alimento. Um macaco faminto normal, na mesma situação, iria dirigir-se diretamente para a comida. Esses macacos também mostraram um aumento acentuado de interesse por sexo. As mudanças emocionais em macacos com a síndrome de Klüver-Bucy eram indicadas de forma mais dramática por uma diminuição no medo e na agressividade. Por exemplo, um macaco selvagem normal evitaria seres humanos e outros animais. Na presença de um experimentador, ele normalmente se encolheria em um canto e permaneceria quieto; quando alguém se aproximasse, ele correria para um canto mais seguro ou assumiria uma postura agressiva. Esses comportamentos não eram apresentados pelos macacos com lobotomia temporal bilateral. Esses macacos selvagens (exceto por essa característica) não apenas se aproximariam de um ser humano e o tocariam, mas deixariam que o ser humano lhes fizesse carinho e os pegasse ao colo. O mesmo comportamento tranquilo era observado na presença de outros animais normalmente temidos pelos macacos. Mesmo após a aproximação e o ataque de um inimigo natural, como uma serpente, o macaco voltaria e tentaria examiná-la novamente. Havia também uma diminuição correspondente no número de vocalizações e expressões faciais normalmente associadas ao medo. Parecia que tanto a experiência quanto a expressão normais de medo e agressividade estavam intensamente diminuídas pela lobotomia temporal. Praticamente todos os sintomas relatados em macacos com a síndrome de Klüver-Bucy também foram observados em seres humanos com lesões do lobo temporal e, mais especificamente, com lesões na amígdala. Além de problemas de reconhecimento visual, tendências orais e hipersexualidade, esses pacientes parecem ter as emoções “atenuadas”. A Anatomia da Amígdala A amígdala situa-se no polo do lobo temporal, logo abaixo do córtex, do lado medial. O seu nome deriva da palavra grega para “amêndoa”, devido à sua forma. A amígdala humana é um complexo de núcleos, os quais são comumente divididos em três grupos: os núcleos basolaterais, os núcleos corticomediais e o núcleo central (Figura 18.8). Os aferentes à amígdala têm diversas origens, incluindo o neocórtex em todos os lobos do 19 cérebro e os giros hipocampal e cingulado. De particular interesse aqui é o fato de que a informação proveniente de todos os sistemas sensoriais alimenta a amígdala, sobretudo os núcleos basolaterais. Cada sistema sensorial apresenta um padrão de projeção diferente para os núcleos da amígdala, e interconexões dentro da amígdala permitem a integração de informações provenientes de diferentes modalidades sensoriais. Duas vias principais conectam a amígdala ao hipotálamo: a via amigdalofugal ventral e a estria terminal. Efeitos da Estimulação e de Lesões da Amígdala Os pesquisadorestêm demonstrado, em diferentes espécies, que lesões da amígdala atenuam as emoções de modo semelhante à síndrome de Klüver-Bucy. A amigdalectomia bilateral em animais pode reduzir profundamente o medo e a agressividade. Há relatos de que ratos submetidos a esse tratamento se aproximam de um gato sedado e mordiscam suas orelhas, e que um lince selvagem se torna tão dócil quanto um gato doméstico. Numerosos estudos em seres humanos têm examinado os efeitos de lesões que incluem a amígdala sobre a capacidade de reconhecer expressões faciais de emoção. Muito embora seja consenso que essas lesões prejudiquem o reconhecimento da expressão emocional, os pesquisadores discordam sobre quais emoções são afetadas. Em diferentes estudos, déficits associados a medo, raiva, tristeza e desgosto têm sido relatados. A variedade de déficits provavelmente reflete, em parte, diferenças nas lesões: duas lesões raramente são FIGURA 18.8 Uma secção coronal na altura da amígdala. (a) Visões lateral e medial do lobo temporal, mostrando a localização da amígdala em relação ao hipocampo. (b) Foi feita uma secção coronal do encéfalo para mostrar a amígdala em secção transversal. Os núcleos basolaterais (circundados de vermelho) recebem aferentes visuais, auditivos, gustatórios e táteis. Os núcleos corticomediais (circundados de violeta) recebem aferentes olfatórios. 20 iguais e, em geral, incluem lesões a outras estruturas além da amígdala. Ainda assim, o sintoma mais comumente relatado para as lesões que incluem a amígdala é uma incapacidade de reconhecer o medo em expressões faciais. Foram documentados muito poucos casos de seres humanos com lesões bilaterais restritas à amígdala. No entanto, Ralph Adolphs, Antonio Damasio e colaboradores, então na Universidade de Iowa, estudaram o caso de uma mulher de 30 anos, conhecida como S.M., que apresentava destruição bilateral da amígdala, resultante da doença de Urbach-Wiethe, uma doença rara, caracterizada por espessamento da pele, das membranas mucosas e de certos órgãos internos. S.M. era, de certo modo, incomum pelo fato de ser amigável e confiante de forma indiscriminada, talvez indicando que ela experimentava menos medo que outras pessoas. Ela apresentava inteligência normal e era perfeitamente capaz de identificar pessoas a partir de fotos. Quando lhe era pedido que categorizasse a emoção expressa no rosto de pessoas, ela descrevia normalmente alegria, tristeza e desgosto. Era menos provável que descrevesse uma expressão zangada como irritação, e a resposta mais anormal era a grande improbabilidade de ela descrever uma expressão amedrontada como medo. É interessante que S.M. era capaz de reconhecer o medo a partir do tom da voz de uma pessoa. Pode-se imaginar que a lesão na amígdala reduziu de modo seletivo a sua capacidade de reconhecer o medo nas faces com base apenas em aferências visuais. Dez anos após o exame inicial de S.M., um estudo de seguimento estudou seu déficit em mais detalhes, comparando a sua capacidade de reconhecer felicidade e medo. Nos 10 anos que se haviam passado, a capacidade de S.M. de reconhecer o medo em faces não havia melhorado. O achado fascinante nesse último estudo foi que a incapacidade de detectar medo e algumas outras emoções resultava do fato de que ela não olhava para os olhos das pessoas nas fotografias empregadas nos testes. Uma vez que ela olhava constantemente para as bocas das pessoas, ela evidentemente era capaz de reconhecer felicidade. Em comparação, participantes de um grupo-controle, em geral, passam uma alta porcentagem do tempo olhando para os olhos, à medida que exploram as faces. Os movimentos oculares de S.M. enquanto ela investigava as faces eram incomuns pelo fato de não se fixarem nos olhos das pessoas nas fotografias. Quando era especificamente orientada a olhar os olhos de uma pessoa, ela o fazia e, então, era capaz de reconhecer corretamente o medo. De modo surpreendente, após esses testes mais recentes, ela reverteu para movimentos oculares anormais e prejuízo no reconhecimento do medo. Para explicar esse curioso conjunto de resultados, os cientistas formularam a hipótese de que o medo normalmente seria reconhecido por uma interação de duas vias entre a amígdala e o córtex visual. A informação visual é levada para a amígdala, que, então, instrui o sistema visual para mover os olhos e examinar os sinais de entrada visuais para determinar a expressão emocional em uma face. Sem a amígdala, essa interação não ocorre, e os movimentos oculares anormais de S.M. não lhe permitiam reconhecer o medo. Se a remoção da amígdala reduz a expressão e o reconhecimento do medo, o que ocorre quando a amígdala intacta é estimulada eletricamente? Dependendo do sítio de estimulação, isso pode levar a efeitos diferentes, incluindo um estado de vigilância ou atenção aumentados. A estimulação da porção lateral da amígdala em gatos pode produzir uma combinação de medo e agressividade violenta. Tem sido relatado que a estimulação elétrica da amígdala em seres humanos leva à ansiedade e ao medo. Não é de surpreender, então, que a amígdala figure sempre em destaque nas teorias atuais sobre transtornos de ansiedade, como veremos no Capítulo 22. 21 Estudos utilizando imageamento funcional encefálico demonstr am que a atividade neural na amígdala é consistente com seu papel no medo, como pode ser visto na Figura 18.6. Em um experimento realizado por Breiter e colaboradores, os participantes eram posicionados em uma máquina de IRMf (ressonância magnética funcional), e a atividade encefálica era monitorada enquanto lhes eram mostradas fotos de faces neutras, felizes ou amedrontadas (Figura 18.9a). A atividade encefálica em resposta às faces amedrontadas mostrava maior atividade da amígdala do que em resposta às expressões neutras (Figura 18.9b). A ativação da amígdala era específica para o medo, uma vez que não houve diferença na atividade em resposta a expressões felizes ou neutras (Figura 18.9c). Outros estudos relataram ativação da amígdala em resposta a outras expressões faciais, incluindo felicidade, tristeza e raiva. A função que a amígdala desempenha nessas várias emoções não foi ainda esclarecida, mas todas as evidências em conjunto sugerem que a amígdala tenha um papel-chave na detecção de estímulos amedrontadores e ameaçadores. Um Circuito Neural para o Medo Aprendido Experimentos em animais e em seres humanos, bem como introspecção, indicam que memórias de eventos emocionais são particularmente vívidas e duradouras. Isso é, indubitavelmente, verdadeiro para o medo aprendido. Por meio da socialização ou de experiências dolorosas, todos aprendemos a evitar certos comportamentos pelo medo de sermos feridos. Se, quando criança, você recebeu um choque doloroso após colocar um clipe de papel em uma tomada, você provavelmente nunca mais repetiu tal procedimento. Memórias associadas ao medo podem ser rapidamente formadas e durarem muito. Como veremos no Capítulo 22, no transtorno do estresse pós-traumático, o medo intenso que resulta de uma experiência traumática pode interferir com a vida normal durante muitos anos. Embora não se acredite que a amígdala seja um sítio de armazenamento primário da memória, alterações sinápticas na amígdala parecem estar envolvidas na formação de memórias para eventos emocionais. Diversos experimentos sugerem que neurônios na amígdala possam “aprender” a responder a estímulos associados à dor, e, após tal aprendizado, esses estímulos passam a evocar uma resposta de medo. Em um experimento realizado por Bruce Kapp e colaboradores, na Universidade de Vermont, coelhos foram condicionados para associar um certo tom a uma dor leve. Um sinal normal de medo nos coelhos é uma alteração na frequência cardíaca. No experimento, um animal era colocado em uma gaiola e, em diferentes tempos, ele ouvia um dentre dois tipos de tons. Um dos tons era seguido por um FIGURA 18.9 Atividade encefálicaem um ser humano em resposta a estímulos emocionais. (a) Faces neutras e amedrontadas foram utilizadas como estímulos visuais. (b) Faces amedrontadas produziram maior atividade na amígdala (áreas em vermelho e amarelo dentro dos quadrados brancos) em comparação a faces neutras. (c) Não houve diferença na atividade da amígdala em resposta a faces felizes ou neutras. (Fonte: Breiter et al., 1996.) 22 leve choque elétrico nas patas, aplicado através do soalho metálico da gaiola; o outro tom não produzia qualquer sensação desagradável. Após o treino, o grupo de Kapp verificou que a frequência cardíaca do coelho apresentava uma resposta de medo ao tom associado à dor, mas não ao tom benigno. Antes do condicionamento, os neurônios no núcleo central da amígdala não respondiam aos tons usados no experimento. Após o condicionamento, contudo, os neurônios no núcleo central da amígdala respondiam ao tom relacionado ao choque (mas não ao tom benigno). Joseph LeDoux, da Universidade de Nova Iorque, mostrou que, após esse tipo de condicionamento envolvendo medo, lesões da amígdala eliminavam as respostas viscerais aprendidas, como alterações de frequência cardíaca e de pressão arterial. Parece que a resposta condicionada na amígdala se origina de mudanças sinápticas nos núcleos basolaterais. A Figura 18.10 mostra um circuito proposto para explicar o medo aprendido. A informação sensorial, por exemplo, o tom que o animal ouve e o choque elétrico que ele sente, é enviada para a região basolateral da amígdala, onde células, por sua vez, enviam axônios ao núcleo central. O pareamento de um tom neutro com um estímulo doloroso leva a alterações na eficácia sináptica, que aumentam a resposta da amígdala ao tom após o condicionamento (os Capítulos 24 e 25 discutem as alterações neurais que ocorrem com o condicionamento). Eferentes do núcleo central projetam-se ao hipotálamo, que pode alterar o estado do sistema nervoso visceral em qualquer de suas divisões, simpática, parassimpática ou entérica, e à substância cinzenta periaquedutal no tronco encefálico, que pode evocar reações comportamentais via sistema motor somático. Acredita-se que a experiência emocional tenha base na atividade do córtex cerebral. FIGURA 18.10 Um circuito neural para o medo aprendido. Durante o condicionamento, um tom é emitido e se torna associado à dor de um choque elétrico. A resposta ao medo é mediada pela amígdala. O tom neutro e o choque dolorido alcançam os núcleos basolaterais da amígdala via córtices auditivo e somatossensorial, e o sinal é retransmitido ao núcleo central. O pareamento desses estímulos leva a alterações sinápticas na amígdala e a uma resposta aumentada ao som neutro. Eferentes da amígdala projetam-se para a substância cinzenta periaquedutal do tronco encefálico, promovendo a reação comportamental ao estímulo, e para o hipotálamo, resultando na resposta neurovegetativa. Presume-se que a experiência de uma emoção desagradável envolva projeções ao córtex cerebral. 23 Estudos recentes sugerem que o papel da amígdala no medo aprendido, inicialmente estudado em coelhos e ratos, verifica-se também em seres humanos. Em um estudo, foram apresentados diversos estímulos visuais aos participantes, que foram condicionados a esperar por um leve choque elétrico, quando um determinado estímulo era apresentado. Um aparelho de diagnóstico por imagem utilizando IRMf monitorava a atividade encefálica. As imagens de RMf mostram que o estímulo visual temido ativava a amígdala significativamente mais do que os estímulos visuais não associados ao choque. Em um outro estudo utilizando imageamento da atividade encefálica por TEP, realizado por Hamann e colaboradores, os participantes inicialmente observavam uma série de fotografias. Algumas das fotos eram agradáveis (animaizinhos simpáticos, cenas sexualmente excitantes, alimentos apetitosos), algumas fotos eram assustadoras ou aversivas (animais ameaçadores, corpos mutilados, violência) e algumas eram neutras (cenas de ambientes domésticos, plantas). Comparados com objetos neutros, tanto os estímulos prazerosos quanto os desagradáveis afetaram medidas fisiológicas, como a frequência cardíaca e a condutância da pele, e evocaram maior atividade na amígdala. Essas medidas confirmam o papel da amígdala no processamento emocional, como já discutimos. Na segunda fase do experimento, os participantes foram colocados novamente no aparelho de TEP, e várias figuras foram-lhes mostradas. Foi, então, pedido aos participantes que utilizassem a memória e identificassem quais das fotos haviam visto na sessão inicial de condicionamento. Como esperado, os participantes recordaram melhor as fotos com conteúdo emocional do que as neutras. O aumento na memória para figuras emocionais apresentou correlação com a atividade registrada na amígdala (Figura 18.11). Não houve tal correlação para figuras neutras. RAIVA E AGRESSIVIDADE A raiva é uma emoção básica. Muitas coisas podem nos zangar: frustração, mágoas, estresse, e assim por diante. A agressividade não é uma emoção, mas um possível resultado comportamental da raiva; um bêbado enraivecido pode dar um soco no nariz de alguém. Em estudos em seres humanos, a agressividade e o sentimento que chamamos de raiva podem ser separados facilmente, uma vez que as pessoas podem declarar que estão com raiva, mesmo que não atuem usando tal sentimento. Como visto, é mais difícil estudar as emoções em animais, pois não podemos perguntar a um animal como ele se sente; podemos apenas medir as suas manifestações fisiológicas e comportamentais. Podemos aferir que um animal está com raiva apenas pelos comportamentos agressivos que ele exibe, como a emissão de um som alto e assustador, uma expressão facial FIGURA 18.11 Atividade na amígdala, associada a aumento na memória emocional. Os participantes inicialmente observaram figuras com estímulos emocionais e neutros, e a atividade encefálica foi registrada por imageamento por TEP. Posteriormente, as figuras originais foram novamente mostradas, assim como figuras novas. A evocação de estímulos emocionais esteve associada a uma resposta aumentada na amígdala, mostrada em amarelo. (Fonte: Hamann et al., 1999.) 24 ameaçadora ou uma postura ameaçadora. Uma vez que a agressividade e a raiva estão frequentemente mescladas em animais, aqui nós as discutiremos em conjunto. A Amígdala e a Agressividade Somos capazes de distinguir diferentes formas de agressividade em seres humanos, indo da legítima defesa até o assassinato. Do mesmo modo, há diferentes tipos de agressividade nos animais. Um animal pode atuar agressivamente em relação a outro por muitas razões: matar por comida, defender a prole, conseguir um companheiro, assustar um adversário em potencial. Há algumas evidências de que diferentes tipos de agressividade são regulados de modo diferente pelo sistema nervoso. A agressividade é um comportamento multifacetado, que não é produto de apenas um sistema encefálico isolado. Um fator que influencia a agressividade é o nível de hormônios androgênios (ver Capítulo 17). Em animais, há uma correlação entre níveis sazonais de androgênios e comportamento agressivo. De forma consistente com um dos papéis dos androgênios, injeções de testosterona podem tornar um animal imaturo mais agressivo, e a castração pode reduzir a agressividade. Em seres humanos, a relação é menos clara, embora alguns tenham sugerido que o comportamento agressivo em criminosos violentos esteja conectado aos níveis de testosterona. Talvez você tenha ouvido falar de um ataque incontrolável de raiva e agressividade relatado, às vezes, em atletas fazendo uso de esteroides anabolizantes, que têm efeitos semelhantes à testosterona. De qualquer modo, fortes evidências indicam um componente neurobiológico para a agressividade, que é nosso foco nesta seção. Uma distinção útil pode ser feita entre agressividadepredatória e agressividade afetiva. A agressividade predatória envolve o ataque contra um membro de uma espécie diferente, com o propósito de obter alimento, como, por exemplo, um leão que caça uma zebra. Ataques típicos desse tipo são acompanhados de relativamente poucas vocalizações e são direcionados à cabeça e ao pescoço da presa. A agressividade predatória não está associada a altos níveis de atividade do sistema nervoso simpático. A agressividade afetiva parece almejar fins demonstrativos, e não os de matar para se alimentar, e envolve altos níveis de atividade simpática. Um animal que exibe agressividade afetiva geralmente faz vocalizações enquanto adota uma postura ameaçadora ou defensiva. Um gato silvando e arqueando seu dorso quando um cão se aproxima seria um bom exemplo. As manifestações comportamentais e fisiológicas de ambos os tipos de agressividade devem ser mediadas pelo sistema motor somático e pelo sistema nervoso visceral, porém as vias devem divergir em algum ponto para explicar as dramáticas diferenças nas respostas comportamentais. Diversas linhas de evidências indicam que a amígdala está envolvida no comportamento agressivo. O cientista norte-americano Karl Pribram e colaboradores, mostraram, em 1954, que lesões da amígdala têm um efeito importante sobre as interações sociais em uma colônia de oito macacos rhesus machos. Tendo vivido juntos durante algum tempo, os animais haviam estabelecido uma hierarquia social. A primeira intervenção realizada pelos investigadores foi lesionar bilateralmente a amígdala no encéfalo do macaco mais dominante. Após o animal retornar à colônia, ele caiu para a posição mais inferior da hierarquia, e o macaco que previamente era o segundo na hierarquia, agora tornou- se o dominante. Presumivelmente, o segundo macaco na hierarquia descobriu que o “chefão” se tornara mais tranquilo e menos difícil de ser desafiado. 25 Após a realização de uma amigdalectomia no novo macaco dominante, ele também caiu para a posição mais baixa da hierarquia. Esse padrão sugeriu que a amígdala é importante para a agressividade normalmente envolvida na manutenção de uma posição na hierarquia social. Isso é consistente com o achado de que a estimulação elétrica da amígdala pode produzir um estado de agitação ou de agressividade afetiva. Cirurgia para Reduzir a Agressividade em Seres Humanos. Na década de 1960, foram realizadas as primeiras cirurgias da amígdala em seres humanos violentos, na esperança de que as lesões reduzissem a agressividade, como ocorre com animais. Algumas pessoas pensavam que o comportamento violento frequentemente resultava de crises de descargas elétricas anômalas no lobo temporal. Em uma amigdalectomia humana, eletrodos atravessam o encéfalo, mergulhando em direção ao lobo temporal. Realizando registros ao longo do procedimento e obtendo imagens dos eletrodos com raios X, é possível posicionar a ponta do eletrodo na amígdala. Uma corrente elétrica é passada através do eletrodo, ou uma solução é injetada para destruir toda ou parte da amígdala. As lesões produzidas têm um efeito de “doma” em alguns pacientes, reduzindo a incidência de ataques de agressividade. A cirurgia encefálica utilizada como método de tratamento de pacientes psiquiátricos é chamada de psicocirurgia. No começo do século XX, o tratamento de transtornos graves – envolvendo ansiedade, agressividade ou neuroses – com técnicas psicocirúrgicas, incluindo a lobotomia frontal, era uma prática comum (Quadro 18.4). Pelos padrões atuais, a psicocirurgia é um procedimento drástico, a ser considerado apenas como um último recurso para o tratamento. Embora amigdalectomias sejam ainda utilizadas ocasionalmente para o tratamento de comportamento agressivo, o tratamento mais comum é o farmacológico. A Lobotomia Frontal Desde as primeiras descobertas de Klüver e Bucy e outros de que lesões no encéfalo podem alterar o comportamento emocional, clínicos têm tentado a cirurgia como um meio de tratar transtornos graves do comportamento em seres humanos. É difícil para muitas pessoas, hoje, conceber que a destruição de uma grande porção do encéfalo já foi considerada terapêutica. De fato, em 1949, o prêmio Nobel em Medicina foi outorgado ao Dr. Egas Moniz pelo desenvolvimento da técnica de lobotomia frontal. Ainda mais estranho é o fato de que Moniz acabou parcialmente paralisado por um tiro na espinha, disparado por um paciente lobotomizado. Embora lobotomias não sejam mais executadas, dezenas de milhares foram realizadas após a Segunda Guerra Mundial. O desenvolvimento da lobotomia tinha pouco suporte teórico. Na década de 1930, John Fulton e Carlyle Jacobsen, da Universidade Yale, relataram que lesões do lobo frontal tinham efeitos calmantes em chipanzés. Tem-se sugerido que lesões frontais tenham esse efeito devido à destruição de estruturas límbicas e, em particular, de conexões com os córtices frontal e cingulado. Moniz propôs que ablações do córtex frontal poderiam ser efetivas no tratamento de transtornos psiquiátricos. Uma variedade assustadora de técnicas foi utilizada para produzir lesões nos lobos frontais. O procedimento tornou- -se lugar comum com o desenvolvimento de uma técnica conhecida como lobotomia transorbital (Figura A). Nesse procedimento, um leucotomo, um bastão de aço de 12 cm com uma das extremidades em ponta, era introduzido no fino osso na parte superior da órbita ocular com um martelo. O instrumento era, então, girado medial e lateralmente para destruir células e vias de interconexão. Milhares de pessoas foram 26 lobotomizadas com essa técnica, às vezes chamada de “psicocirurgia do picão de gelo”; ela era tão simples que poderia ser realizada no próprio consultório médico. Observe que, embora essa cirurgia não deixasse cicatrizes externas, o médico não podia ver o que estava sendo destruído. Foram relatados efeitos benéficos da lobotomia frontal nas pessoas com diversos transtornos, incluindo psicose, depressão e várias neuroses. O efeito da cirurgia foi descrito como um alívio para a ansiedade e uma fuga de pensamentos insuportáveis. Apenas mais tarde é que emergiu um padrão de efeitos colaterais menos agradáveis. Ainda que a lobotomia frontal possa ser realizada com pouca diminuição do QI ou perda de memória, ela, de fato, tem outros profundos efeitos. As mudanças que parecem estar relacionadas ao sistema límbico são um entorpecimento das respostas emocionais e uma perda do componente emocional dos pensamentos. Além disso, foi muitas vezes observado que os pacientes lobotomizados desenvolviam um “comportamento inadequado”, ou uma aparente diminuição dos padrões morais. De modo semelhante a Phineas Gage, os pacientes apresentavam considerável dificuldade em planejar o futuro e trabalhar visando aos seus objetivos. Os pacientes lobotomizados também mostravam dificuldade de concentração e se distraíam facilmente. Com nossa modesta compreensão dos circuitos neurais subjacentes à emoção e a outras funções encefálicas, é difícil justificar a destruição de uma grande porção do encéfalo. Felizmente, o tratamento por meio da lobotomia retrocedeu bastante e de forma rápida. Atualmente, a terapia com fármacos específicos predomina como o tratamento de escolha nos transtornos emocionais graves. Componentes Neurais da Raiva e da Agressividade Além da Amígdala Tem sido relatado que, além da amígdala, uma variedade de estruturas encefálicas estão envolvidas na raiva e na agressividade. Por exemplo, estudos por imageamento do encéfalo humano descobriram que há maior atividade no córtex orbitofrontal e no córtex cingulado anterior quando os indivíduos recordam experiências passadas que os tornaram zangados. A interpretação desses padrões de ativação encefálica envolve os mesmos desafios que discutimos para outras emoções. Historicamente, estudos acerca da raiva e da agressividade foram importantes por suas implicações para o envolvimento deestruturas subcorticais na emoção. Veremos agora alguns poucos desses importantes marcos na pesquisa. Raiva, Agressividade e o Hipotálamo. Uma das primeiras estruturas a ser relacionada à raiva e a comportamentos agressivos foi o hipotálamo. Experimentos realizados na década de 1920 mostraram que uma transformação notável do comportamento ocorria em gatos ou cães cujos hemisférios cerebrais tivessem sido removidos. Animais que não eram facilmente provocados antes da cirurgia, passariam, após a cirurgia, a um estado de raiva violenta à menor provocação. Por 27 exemplo, uma resposta violenta poderia ser produzida por um ato tão inocente quanto coçar as costas de um cão. Esse estado foi denominado raiva simulada, uma vez que o animal mostrava todas as manifestações comportamentais de raiva, porém em uma situação que normalmente não induziria raiva. Também era simulada no sentido de que o animal, na verdade, não atacava como normalmente faria. Enquanto essa condição comportamental extrema, chamada de raiva simulada, resultou da remoção completa de ambos os hemisférios cerebrais (o telencéfalo), o efeito comportamental pode ser revertido de modo notável se a lesão for aumentada apenas um pouquinho, para incluir porções do diencéfalo, sobretudo o hipotálamo. A raiva simulada pode ser observada se o hipotálamo anterior for destruído juntamente com o córtex, mas não ocorre se a lesão for aumentada para incluir a metade posterior do hipotálamo (Figura 18.12). A implicação desse achado é que o hipotálamo posterior pode ser particularmente importante para a expressão da raiva e da agressividade e que é normalmente inibido pelo telencéfalo. Devemos, porém, considerar que as lesões foram amplas, e que outras coisas além do hipotálamo posterior podem ter sido destruídas nesse caso. Em uma série de estudos pioneiros que iniciaram na década de 1920, W.R. Hess, da Universdade de Zurique, investigou os efeitos comportamentais da estimulação elétrica do diencéfalo. Hess fez pequenos orifícios no crânio de gatos anestesiados e implantou eletrodos no encéfalo. Após os animais despertarem da anestesia, uma corrente elétrica de baixa intensidade foi passada através dos eletrodos e os efeitos comportamentais foram observados. Várias estruturas foram estimuladas dessa forma, mas enfocaremos aqui apenas os efeitos da estimulação de diferentes regiões do hipotálamo. A variedade de respostas complexas obtidas com a estimulação de ligeiramente diferentes porções do hipotálamo é surpreendente, considerando-se que o hipotálamo é uma parte tão pequena do encéfalo. Dependendo de onde for colocado o eletrodo, a estimulação pode fazer o animal farejar, arquejar, comer ou expressar comportamentos característicos de medo ou raiva. Essas reações ilustram as duas funções primárias do hipotálamo, discutidas nos Capítulos 15 e 16: homeostasia e organização de respostas motoras viscerais e somáticas coordenadas. Respostas relacionadas à expressão emocional podem incluir FIGURA 18.12 Transecções do encéfalo e a raiva simulada. (1) Se os hemisférios cerebrais forem removidos e o hipotálamo for deixado intacto, o animal apresentará a chamada raiva simulada. (1) e (2) Um resultado similar é obtido se, além do córtex cerebral, for removido também o hipotálamo anterior. (1), (2) e (3). Se o hipotálamo posterior for removido, em adição ao hipotálamo anterior, a raiva simulada não ocorre 28 alterações na frequência cardíaca, dilatação da pupila e motilidade gastrintestinal, para citar apenas algumas. Uma vez que a estimulação de algumas partes do hipotálamo também provoca um comportamento característico de medo e raiva, a hipótese é de que essa estrutura seja um componente importante do sistema normalmente envolvido na expressão dessas emoções. A expressão de raiva que Hess conseguiu provocar mediante a estimulação hipotalâmica foi semelhante à raiva simulada observada nos animais cujos hemisférios cerebrais haviam sido removidos. Com a aplicação de uma leve corrente elétrica, um gato iria salivar, rosnar e dobrar as orelhas para trás e seu pelo ficaria eriçado. Esse conjunto complexo e altamente coordenado de comportamentos normalmente ocorre quando o gato se sente ameaçado por um inimigo. Às vezes, quando o hipotálamo era estimulado, o gato subitamente saía correndo como se estivesse fugindo de um atacante imaginário. Quando a intensidade da estimulação era aumentada, o animal podia efetuar um ataque real, golpeando com uma pata ou saltando sobre o adversário imaginário. Quando a estimulação cessava, a raiva desaparecia tão rapidamente como iniciara, e o gato podia até mesmo enrodilhar-se e adormecer. Em uma série de estudos conduzidos na Escola Médica da Universidade Yale, na década de 1960, John Flynn descobriu que a agressividade afetiva e a agressividade predatória poderiam ser desencadeadas em um gato pela estimulação de diferentes áreas do hipotálamo (Figura 18.13). A agressividade afetiva, também conhecida como ameaça de ataque, foi observada após a estimulação de sítios específicos do hipotálamo medial. De modo semelhante à resposta de raiva relatada por Hess, o animal arqueava seu dorso, salivava e grunhia, mas normalmente não atacava a vítima, como, por exemplo, um rato que estivesse próximo. A agressividade predatória, que Flynn denominou ataque silencioso com mordida, foi evocado pela estimulação de partes do hipotálamo lateral. Enquanto o dorso do animal poderia estar algo arqueado, e o pelo ligeiramente eriçado, a agressividade predatória não era acompanhada pelos gestos dramáticos de ameaça que caracterizam a agressividade afetiva. Apesar disso, nesse “ataque quieto”, o gato movia-se rapidamente na direção do rato e o mordia com ferocidade no pescoço. A despeito da crueza de tal experimentação pelos padrões atuais, as pesquisas iniciais envolvendo lesões e estímulos elétricos do hipotálamo são consistentes com a sugestão de que essa estrutura é importante para a expressão da raiva e da agressividade em animais. O Mesencéfalo e a Agressividade. Há duas vias principais pelas quais o hipotálamo envia sinais envolvendo funções neurovegetativas para o tronco encefálico: o feixe prosencefálico medial e o fascículo longitudinal dorsal. FIGURA 18.13 Reações de raiva em gatos com estimulação hipotalâmica. (a) A estimulação do hipotálamo medial produz agressividade afetiva (ameaça de ataque). (b) A estimulação do hipotálamo lateral evoca a agressividade predatória (ataque silencioso com mordida). (Fonte: Flynn, 1967, p. 45.) 29 Axônios do hipotálamo lateral fazem parte do feixe prosencefálico medial e se projetam para a área tegmentar ventral no mesencéfalo. A estimulação de sítios na área tegmentar ventral pode provocar comportamentos característicos da agressividade predatória, exatamente como a estimulação do hipotálamo lateral. Por outro lado, lesões da área tegmentar ventral podem fazer cessar os comportamentos ofensivos da agressividade. Uma descoberta que sugere influências do hipotálamo no comportamento agressivo por meio de seu efeito na área tegmentar ventral é que a estimulação hipotalâmica não evocará agressividade se o feixe prosencefálico medial for seccionado. É interessante observar que o comportamento agressivo não é inteiramente eliminado por essa cirurgia, sugerindo que essa via é importante quando o hipotálamo estiver envolvido, mas que o hipotálamo não precisa necessariamente estar envolvido. O hipotálamo medial projeta axônios para a substância cinzenta periaquedutal (SCPA) do mesencéfalo através do fascículo longitudinal dorsal. A estimulação elétrica da substância cinzenta periaquedutal pode produzir agressividade afetiva, e lesões localizadas nessa região podem fazer cessar esse comportamento. É interessante que o hipotálamo e a substância cinzenta periaquedutal do mesencéfalo parecem ter influência sobre o comportamento,em parte com base em sinais que chegam originários da amígdala. A Figura 18.14 mostra um circuito simplificado para a raiva e para a agressividade, envolvendo as estruturas que discutimos. Regulação Serotoninérgica da Raiva e da Agressividade Uma variedade de estudos sugere que o neurotransmissor serotonina desempenha um papel importante na regulação da raiva e da agressividade. Neurônios serotoninérgicos localizados nos núcleos da rafe do tronco encefálico ascendem no feixe prosencefálico medial, projetando-se ao hipotálamo e a várias estruturas límbicas envolvidas com a emoção (ver Figura 15.13). Em sua maioria, as evidências experimentais apoiam a hipótese da deficiência serotoninérgica, que estabelece que a agressividade seria inversamente relacionada à atividade serotoninérgica. FIGURA 18.14 Um circuito neural para a raiva e para a agressividade. (a) O hipotálamo pode influenciar o comportamento agressivo por meio de projeções para a área tegmentar ventral e para a substância cinzenta periaquedutal. (b) Neste esquema simplificado, a expressão da raiva e da agressividade é controlada por uma via neural que se origina na amígdala, passa pelo hipotálamo, indo para a substância cinzenta periaquedutal (SCPA) e para a área tegmentar ventral. 30 Um elo entre o neurotransmissor serotonina e a agressividade vem de estudos de agressividade induzida em roedores. Se camundongos machos são isolados em uma pequena gaiola por diversas semanas, cerca de metade deles desenvolverá hiperatividade e comportamento incomumente agressivo ao encontrar posteriormente outros camundongos. Embora o isolamento não tenha efeito no nível de serotonina no encéfalo, há uma redução em sua taxa de renovação (a taxa de síntese, liberação e nova síntese). Além disso, essa diminuição é encontrada apenas nos camundongos que posteriormente se tornaram anormalmente agressivos, e não naqueles relativamente não afetados pelo isolamento. Além disso, camundongos fêmeas não se tornam, em geral, agressivos após o isolamento e não apresentam diminuição na taxa de renovação da serotonina. Evidências indicam que fármacos que bloqueiam a síntese ou a liberação de serotonina aumentam o comportamento agressivo. Por exemplo, em um estudo, quando a substância paraclorofenilalanina (PCPA), que bloqueia a síntese de serotonina, foi administrada, os animais mostraram aumento nos ataques a outros animais em suas caixas. Há pelo menos 14 subtipos de receptores para a serotonina, e parece que os subtipos 5- HT1A e 5-HT1B estão envolvidos na modulação da raiva e da agressividade. Por exemplo, vários experimentos mostraram que, em camundongos, agonistas dos receptores 5-HT1B causam uma redução na agressividade, ao passo que antagonistas desses receptores aumentam a agressividade. Com base nesses resultados farmacológicos, poderíamos prever que camundongos deficientes para o receptor 5-HT1B seriam mais agressivos que animais normais. De modo consistente com esse raciocínio, foi observado em alguns estudos que camundongos nocaute para o receptor 5-HT1B apresentam comportamento mais agressivo. Outros experimentos, contudo, nos fornecem um cenário algo distinto, sugerindo que esses camundongos nocaute não seriam necessariamente mais agressivos, e sim mais impulsivos. A relação entre a serotonina e a agressividade é similar nos primatas que têm sido estudados. Por exemplo, pesquisadores observaram que a dominância hierárquica em uma colônia de macacos vervet (ou macacos verdes da África) podia ser manipulada ao se injetar nos animais fármacos que aumentavam ou diminuíam a atividade serotoninérgica. O comportamento desses animais foi consistente: maior agressividade estava associada à menor atividade serotoninérgica. Havia, contudo, um interessante senão sociológico: a agressividade não estava correlacionada à dominância no grupo. Se o macho dominante era removido, a posição superior na hierarquia era tomada por um animal com atividade serotoninérgica artificialmente acentuada (i.e., um animal ao qual fora administrado um precursor da serotonina ou um inibidor de sua recaptação, e que era menos agressivo). Por sua vez, a injeção de fármacos que reduziam a função serotoninérgica (antagonistas da serotonina) correlacionou-se com o desfecho de os animais tornarem-se subordinados. Os animais subordinados eram, na verdade, significativamente mais propensos a iniciarem a agressão. De modo interessante, o macho dominante menos agressivo obteve seu status devido à sua capacidade de recrutar as fêmeas para apoiarem a sua posição. Em seres humanos, há um grande número de relatos de uma correlação negativa entre a atividade serotoninérgica e a agressividade. Por exemplo, em um estudo em homens militares que haviam sido diagnosticados com transtornos de personalidade, observou-se 31 que a agressividade apresentou relação inversa com os níveis de ácido 5-hidroxi- indolacético (5-HIAA), um metabólito da serotonina, no líquido cerebrospinal. Questões acerca da generalização da correlação entre serotonina e agressividade foram levantadas, contudo, quando pessoas de diferentes idades e pessoas sem transtornos de personalidade foram examinadas. Assim como no caso dos estudos em animais, uma correlação é frequentemente relatada, mas a realidade é provavelmente mais complexa. Muitos cientistas concordariam que a serotonina está envolvida na modulação da raiva e do comportamento agressivo. As evidências apresentadas aqui sugerem uma correlação inversa entre agressividade e atividade do sistema serotoninérgico no encéfalo. Alguns cientistas que estudam esse tema, contudo, consideram essa relação por demais simplista. Animais apresentam comportamento agressivo por uma variedade de razões, e a serotonina não está igualmente envolvida em todas as formas de agressividade. De um ponto de vista mecanístico, o sistema é complexo. Os neurônios serotoninérgicos projetam- -se amplamente para o encéfalo. Receptores 5-HT1A e 5-HT1B estão distribuídos amplamente e apresentam, assim como os demais receptores da serotonina, interações com outros sistemas de neurotransmissores. Além disso, há uma retroalimentação negativa no sistema, pois muitos dos receptores 5-HT1A e 5-HT1B são autorreceptores (ver Capítulo 5). Alguns autorreceptores nos neurônios da rafe que inervam amplamente o encéfalo com serotonina são pré-sinápticos. A ativação desses receptores inibe a liberação de serotonina em todo o encéfalo. Com essa retroalimentação negativa, a liberação de serotonina afeta os neurônios da rafe, de modo a reduzir uma posterior liberação desse neurotransmissor. Devido à diversidade de localizações e de funções dos receptores, a interpretação de experimentos farmacológicos e utilizando animais nocaute é algo desafiador; novas abordagens são necessárias para deslindar os detalhes das relações entre serotonina, raiva e comportamento agressivo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Todos sabemos o que são as emoções – aqueles sentimentos que chamamos de felicidade, tristeza, e assim por diante. Mas o que são exatamente esses sentimentos? Como evidenciado pelas diversas teorias que consideramos, há uma grande incerteza a respeito. Mais de cem anos após a teoria de James-Lange ter sido proposta, ainda existe controvérsia acerca do grau em que as emoções causam mudanças no corpo ou as mudanças no corpo causam emoções. Sabemos, de fato, a partir de estudos com imageamento do encéfalo, que as emoções estão associadas a uma ampla ativação encefálica. Algumas das estruturas envolvidas são parte do sistema límbico, ao passo que outras estruturas não o são. Contudo, mesmo tendo imagens da atividade encefálica em vários estados emocionais, a compreensão das bases neurais da experiência emocional é algo desafiador. Não sabemos quais das áreas ativadas são responsáveis pelos sentimentos. Será a área mais ativa, todas elas ou algo mais? Como devemos interpretar a observação de que algumas estruturasencefálicas são ativadas em múltiplos estados emocionais, ao passo que outras são mais específicas para determinadas emoções? Por sinal, será correto pensar na atividade encefálica como refletindo sentimentos, ou os sentimentos seriam sensações emergentes com base em combinações de neurônios ativos, nenhum dos quais independentemente sinalizando uma emoção? Neste capítulo, enfocamos um punhado de estruturas encefálicas para as quais existem evidências especialmente convincentes de seu envolvimento na emoção. Uma forma de olharmos para o atual estado do conhecimento é que a combinação de estudos envolvendo 32 lesões, estimulação encefálica e imageamento do encéfalo tem feito um bom trabalho na identificação de estruturas candidatas ao processamento emocional. Temos um bom trabalho ainda para determinar quais das várias áreas corticais e subcorticais contribuem para esse processamento. As experiências emocionais são o resultado de interações complexas entre estímulos sensoriais, circuitos encefálicos, experiências passadas e atividade de sistemas de neurotransmissores. À luz dessa complexidade, provavelmente não deveríamos ficar surpresos de que os seres humanos podem exibir um amplo espectro de transtornos emocionais e de humor, como veremos no Capítulo 22. Quando pensar acerca das bases neurais da emoção, tenha em mente que as estruturas aparentemente envolvidas na emoção também têm outras funções. Durante um tempo considerável após Broca ter definido o lobo límbico, acreditou- se que ele seria basicamente um sistema olfatório. E, embora nossa perspectiva tenha mudado muito desde o tempo de Broca, partes do encéfalo envolvidas no olfato foram incluídas na definição de sistema límbico. Veremos, no Capítulo 24, que algumas das estruturas límbicas são também importantes para o aprendizado e para a memória. Emoções são experiências nebulosas que influenciam nossos encéfalos e nosso comportamento de muitas formas, assim parece ser lógico que o processamento emocional deva estar entrelaçado com outras funções encefálicas. 33 RECONEXÃO: EXERCÍCIOS INSPIRADOS NA NEUROLOGIA PARA MUDAR SEU ESTILO EMOCIONAL O que você leu até aqui sobre a descoberta do estilo emocional, sua origem na infância e a descoberta dos padrões cerebrais que determinam sua posição em cada uma das seis dimensões reflete minha jornada científica, movida pela convicção de que as emoções merecem lugar de destaque no estudo da mente, assim como os pensamentos. Embora essa não fosse minha intenção original, descobri que cada pessoa é uma combinação das dimensões Resiliência, Atitude, Intuição Social, Autopercepção, Sensibilidade ao Contexto e Atenção, uma mescla única que descreve o modo como percebemos o mundo e como reagimos a ele, nos relacionamos com as pessoas e enfrentamos a corrida de obstáculos que é a vida. Minha carreira culminou nos estudos inspirados pelos experimentos com praticantes de meditação experientes que descrevi no capítulo anterior e que demonstraram que temos a capacidade de viver nossa vida e treinar nosso cérebro de modo a modificar a posição em que nos encontramos nas seis dimensões do estilo emocional. E é isso que vamos fazer agora. Como mencionei no Capítulo 1, existem alguns estilos emocionais, alguns pontos em cada uma das seis dimensões, que simplesmente tornam a vida mais difícil e dolorosa do que deveria ser. É claro que não estou argumentando que todos deveriam tentar se mover para o ponto médio de cada dimensão. Já conheci muitas pessoas produtivas, criativas e fascinantes que abraçaram sua visão sombria da vida, sua hipersensibilidade ao contexto, sua falta de resiliência e sua autopercepção aguçada – pessoas que jamais conseguiriam nem mesmo se imaginar com um estilo emocional ligeiramente diferente. Mesmo que essa descrição se aplique a você – ainda que de forma aproximada –, mesmo que você queira manter as qualidades pessimistas, neuróticas e sensíveis que tanto o caracterizam, é possível que você queira modificar sua dimensão de Atenção ou algum outro aspecto do seu estilo emocional, se isso estiver prejudicando sua capacidade de se relacionar e atingir os seus objetivos. Outra razão para modificar seu estilo emocional é que alguns pontos em cada uma das seis dimensões são mais úteis em determinadas situações que em outras. Você talvez considere que uma atitude negativa e pessimista o faça trabalhar de forma mais diligente (“Esse trabalho está horrível, por isso vou me dedicar completamente a ele e cancelar todos os meus outros compromissos desta semana.”). Por outro lado, pode achar que uma atitude mais positiva funcione melhor em situações sociais (“Sei que posso brilhar nessa festa; vamos lá.”). Nesse caso, a capacidade de regular seu estilo em cada uma das dimensões segundo sua própria vontade lhe permitirá responder a cada situação da forma mais eficaz. Isso é possível – ao menos em parte. Podemos modificar o nível de concentração da nossa Atenção. Podemos ajustar a rapidez ou a lentidão com que nos recuperamos das adversidades. Podemos regular nossa Atitude, enxergando alguns copos como meio cheios, outros como meio vazios. Por fim, podemos treinar nosso cérebro para ser mais socialmente intuitivo, autoperceptivo e sensível ao contexto. É claro que existem limites para essa mudança. Por não sabermos do que a plasticidade do cérebro é capaz, não posso prometer que você conseguirá passar, por exemplo, de um extremo da dimensão 34 para o outro, transformando-se de Cassandra em Poliana, mas acredito que possa saltar vários pontos em qualquer uma das duas direções. Isso é importante, pois nenhum extremo do espectro é necessariamente melhor ou pior que seu oposto. Mais uma vez, tudo depende de quem você é, do que funciona na sua vida, dos seus valores e das circunstâncias externas. Conheço uma enorme quantidade de acadêmicos que acreditam firmemente que o fato de estarmos contentes – de termos, na terminologia do estilo emocional, uma atitude positiva – é sinônimo de sermos ingênuos, tolos e desatentos. Mesmo que você não chegue a abraçar o extremo negativo da dimensão Atitude, precisa ter cuidado com o que deseja. Embora a maioria das pessoas provavelmente prefira avançar para o lado positivo, fortalecendo sua capacidade de sustentar o tipo de emoção que o caracteriza, uma atitude positiva demais pode ser extremamente inadequada, causando problemas. Indivíduos que têm uma atitude extrema e persistentemente positiva muitas vezes se veem incapazes de adiar as coisas que lhes trazem satisfação. Sentem dificuldade de avaliar as situações de forma realista e seu otimismo excessivo pode levá-los a tomar decisões pouco sensatas (“Não tem problema se eu comer este pedaço de bolo. Só vou precisar passar mais tempo na academia amanhã.” ou “Adorei este par de sapatos. Acho que vou comprá- lo, mesmo que ultrapasse meu orçamento. Talvez eu consiga trabalhar umas horas extras neste mês.”). Com atitudes desse tipo, são incapazes de resistir às tentações imediatas a fim de atingir um objetivo mais distante. Essencialmente pela mesma razão, eles podem ter dificuldade em aprender com os próprios erros: sua atitude positiva os leva a ver o erro e suas consequências como algo sem grande importância, e assim eles não absorvem suas lições (“Não consegui ser selecionada para aquela vaga para a qual fui entrevistada, aparentemente por não mostrar muito entusiasmo. Mas tenho certeza de que o próximo entrevistador não vai ligar para isso.”). Descobertas recentes sugerem que algumas pessoas com altos níveis de emoções positivas também tendem a adotar comportamentos arriscados, como o consumo excessivo de álcool e comida e o uso de drogas. Também são mais propensas a não levar a sério possíveis ameaças, pois sua atitude despreocupada as torna cegas diante do perigo. Por outro lado, uma atitude excessivamente negativapode acabar com a motivação e arruinar a vida social de uma pessoa, além de sua carreira. Por pensar que nada de bom irá acontecer, ela corre o risco de desistir de sua vida amorosa e profissional antes mesmo de tentar. Da mesma forma, à primeira vista pode parecer que é sempre bom termos uma alta Autopercepção. Afinal, quem não quer compreender por que está sentindo o que está sentindo e o que seu corpo está tentando lhe dizer? Porém há incontáveis eventos que, embora ocorram dentro de nosso cérebro e corpo, nos são completamente desconhecidos. Isso não é necessariamente ruim. Não queremos estar cientes de todas as operações mentais necessárias para produzir uma frase gramaticalmente correta. Se isso ocorresse, jamais conseguiríamos dizer qualquer coisa que fosse. Talvez não seja bom nem mesmo estarmos cientes de todos os sinais corporais associados às emoções. Se eles forem intensos, como picos de pressão arterial e de frequência cardíaca, poderão nos arrebatar, interferindo em nossa capacidade de pensar e de enxergar com clareza. E certamente não queremos estar cientes dos sinais cerebrais que regulam a respiração e a função cardíaca, pois a torrente de informações iria abafar todo o resto. Como exemplo de Autopercepção excessiva, cito as pessoas que detestam o contato da lã ou de materiais sintéticos com a pele, alegando que essas roupas lhes provocam a sensação de que têm insetos rastejando pelo corpo. E você talvez conheça alguém que afirme ser completamente incapaz de comer certo tipo de alimento porque o deixa inchado, enjoado ou grogue. Essa hipersensibilidade, 35 em vez de indicar um comportamento neurótico destinado a chamar a atenção, pode ser efeito de uma Autopercepção extrema, uma grande capacidade de perceber sensações na pele ou no trato digestivo. A natureza teve boas razões para nos fazer inconscientes de muito do que ocorre dentro de nós. Os indícios científicos da plasticidade de algumas dimensões são mais fortes que os de outras. Consequentemente, o mesmo ocorre com as evidências do efeito de certas formas de treinamento mental sobre a posição em que uma pessoa se encontra nas dimensões. São necessárias novas pesquisas para identificar a forma ideal de treinamento para cada pessoa. Porém estamos nos movendo na direção certa, rumo às intervenções comportamentais inspiradas na neurologia, isto é, às formas de treinamento mental que, por afetarem os padrões de atividade cerebral e os circuitos neurais específicos que existem na base das seis dimensões do estilo emocional, podem modificar o estilo de cada pessoa. Embora meu trabalho tenha se concentrado nas bases cerebrais do estilo emocional, mudar sua posição em uma ou em todas as dimensões não é a única opção. Em vez de modificar seu estilo emocional para que ele se ajuste com mais perfeição à sua realidade, você pode mudar seu mundo – seu ambiente imediato e o modo como você estrutura sua vida – para que ele, sim, seja mais adequado ao seu estilo emocional. Tomemos como exemplo o caso de Mike, o adolescente autista que apresentei no Capítulo 7. Ele minimiza sua necessidade de interagir com os outros, reduzindo, assim, a pressão que a presença de outras pessoas gera sobre sua amígdala hiper-reativa. Assim também uma pessoa que não seja particularmente sensível ao contexto social e que, portanto, tenha dificuldade para se comportar de forma apropriada nas diferentes situações do dia a dia poderá arrumar um emprego que lhe permita trabalhar em casa. Dessa forma, ela não teria que ajustar seu comportamento e a conduta sempre que o entorno social se modificasse – como quando vai de casa para o trabalho –, algo que seu hipocampo não tem muita facilidade em fazer. E alguém que se situe no extremo de recuperação lenta da dimensão Resiliência pode escolher uma ocupação que raramente o obrigue a confrontar crises, protegendo-se, portanto, das consequências de um córtex pré-frontal preguiçoso. Estando consciente de seu estilo emocional, você poderá adotar uma vida que se ajuste a ele. Entretanto, esse ajuste nem sempre é possível, pois não necessariamente conseguiremos arrumar uma ocupação que nos permita trabalhar em casa, muito menos fazer uma grande mudança de carreira. E, mesmo que consigamos mudar nosso entorno físico e social, os benefícios poderão ser limitados. O trabalho que supostamente iria nos livrar da necessidade de enfrentar crises constantes, ajustando-se, por conseguinte, à nossa falta de Resiliência, não nos protegerá de crises pessoais das quais simplesmente não podemos fugir, seja a morte de uma pessoa amada, seja uma catástrofe natural, seja uma doença. Por outro lado, o ato de mudarmos nosso estilo emocional, ajustando a máquina neural na qual ele se baseia, promete gerar mudanças mais duradouras. Pensando nisso, apresentarei a seguir sugestões específicas sobre como construir um mundo de trabalho e de relacionamentos que fortaleça seu estilo emocional e seja adequado às suas fraquezas. No entanto, irei me concentrar especialmente em modificar a posição em que você se encontra em cada uma das seis dimensões, afetando sua base neural. É a diferença entre ler livros impressos numa fonte grande e fazer uma cirurgia ocular a laser. Você talvez queira voltar aos questionários que preencheu no Capítulo 3, para se lembrar da posição em que se encontra em cada dimensão. Esse será o ponto de partida. Daí em 36 diante, existem maneiras de alterar seu estilo e de modificar seu ambiente para que se ajuste melhor a ele. ATITUDE A decisão de tornar sua Atitude mais positiva ou negativa não depende apenas de saber se sua posição atual lhe provoca uma depressão de baixo grau (ou pior) ou se ela irrita seus amigos e colegas, que não suportam sua visão excessivamente otimista do mundo. Uma atitude positiva demais, como já mencionei, também afeta sua capacidade de aprender com os erros e de adiar a gratificação imediata em favor de uma recompensa maior no futuro. De fato, a incapacidade de postergar a gratificação é a marca característica de uma atitude extremamente positiva. O ato de modificar seu estilo na direção do lado negativo irá resolver ambos os problemas. O oposto disso, ou seja, uma atitude excessivamente negativa, pode acabar com sua motivação e destruir sua capacidade de sentir alegria com seus relacionamentos, de forma que adotar uma atitude mais positiva poderá melhorar a visão que você tem do mundo. Afirmei no Capítulo 4 que uma atitude positiva indica alta atividade no estriado ventral (mais especificamente, no núcleo acumbente, situado no interior do estriado ventral, que processa a sensação de gratificação), no pálido ventral (também interconectado com o estriado ventral e extremamente sensível ao prazer hedonista) e no córtex pré-frontal, que, exercendo sua função de planejamento, ajuda a sustentar a atividade no núcleo acumbente. Uma atitude negativa indica baixa atividade nessas regiões e conexões mais fracas entre elas. Tendo em vista a popularidade dos livros e dos sites que prometem segredos para ter mais felicidade, suponho que a maioria das pessoas queira aumentar sua capacidade de sustentar emoções positivas, em vez de deixar que a tristeza tome conta de sua vida. Isso significa aumentar a atividade no estriado ventral ou no córtex pré-frontal, ou em ambos, e melhorar a força da conexão entre os dois. Uma das funções fundamentais do córtex pré-frontal é o planejamento. Assim, você poderá fortalecê-lo da mesma forma como fortalece seu bíceps: exercitando-o. Quando se vir numa situação na qual se sinta tentado por uma recompensa imediata mas souber que a escolha mais inteligente, segura ou saudável é esperar por uma gratificação futura de mais valor, pare e se concentre na recompensa futura. Por exemplo: ao olhar para o bolo que preparou para o lanche, em vez de provar só um pedacinho de manhã, invoque a imagem mental do lanche. Veja-se levando o bolo para a mesa. Imaginea sensação de culpa por já estar comendo o segundo pedaço. Visualize sua cintura ou seu nível de colesterol. Agora, imagine-se se deliciando com o bolo junto da família ou de amigos, sem culpa nenhuma, por saber que não comeu demais. Se necessário, arrume uma distração que desvie sua atenção do bolo às três da tarde. Essa estratégia fortalece a função de planejamento do córtex pré- frontal, fazendo-o visualizar um resultado futuro mais positivo. O que vou sugerir a seguir pode parecer tão insano quanto dizer a um alcoólatra que passe algum tempo num bar, mas aí vai: procure situações nas quais exista uma recompensa imediata e resista a elas. No começo, não exagere. Se quiser resistir ao canto da sereia das compras, vá a algum lugar sem o cartão de crédito ou o de débito, levando apenas algum trocado. Então pratique a resistência àquilo que a loja está lhe oferecendo, o que será facilitado pelo fato de que, de qualquer forma, você não poderá fazer a compra impulsiva. Focando-se nos benefícios de usar o dinheiro que economizou para, por exemplo, pagar um curso para seu filho ou quitar uma prestação da casa, você fortalecerá 37 sua resistência – exercitando o córtex pré-frontal e o estriado ventral – para quando surgirem promessas de gratificação imediata mais tentadoras. Pratique todos os dias durante cerca de 15 minutos, visualizando a recompensa futura. Seguindo esse exemplo, depois de ter fortalecido sua capacidade de se concentrar na recompensa postergada, passe a levar o cartão de crédito quando for à loja. Não fique com raiva de si mesmo se cair em tentação de vez em quando – você até pode se fazer certos agrados. A ideia é: exercitando sua capacidade de planejar o futuro, você fortalece seu córtex pré-frontal e sua conexão com o estriado ventral. Mas não deixe de se recompensar no futuro: depois de ter economizado o que gastaria em uma compra impulsiva e de ter usado esse dinheiro para uma necessidade real, sinta-se livre para comprar o item desejado. Dessa forma, estará treinando o cérebro para acreditar que o futuro imaginado chegará um dia. Concentre-se em diferentes recompensas a longo prazo em dias diferentes – por exemplo, recompensas de saúde, econômicas e nos relacionamentos. Pratique esse exercício diariamente durante uma semana e descubra se ele fez alguma diferença. Embora não possa observar o próprio cérebro para saber se as conexões entre o córtex pré-frontal e o estriado ventral foram fortalecidas, se perceber que consegue reavaliar com mais facilidade os benefícios relativos de uma gratificação imediata, em comparação com outra a longo prazo, rejeitando a primeira, é muito provável que seu cérebro tenha se modificado. E o resultado final do exercício será uma capacidade maior de sustentar emoções positivas. Outro exercício para fortalecer as conexões entre o córtex pré-frontal e o estriado ventral é uma técnica chamada terapia do bem-estar,1 criada por Giovanni Fava, da Universidade de Bolonha. Destinada a promover os componentes do bem-estar – a autonomia, o domínio do ambiente, as relações interpessoais positivas, o crescimento pessoal, o propósito na vida e a autoaceitação –, a terapia do bem-estar comprovadamente move as pessoas para o lado positivo da dimensão Atitude, melhorando sua sensação de bem-estar e permitindo que sustentem por mais tempo as emoções positivas. Embora não tenham sido feitos exames cerebrais antes e depois da terapia, tendo em vista tudo o que sabemos sobre os circuitos cerebrais relacionados com esses componentes, é muito provável que a terapia do bem-estar fortaleça o córtex pré-frontal e suas conexões com o estriado ventral. Faça estes três exercícios todos os dias, durante uma semana: 1. Escreva uma característica positiva que observa em si mesmo e uma de alguém com quem interage constantemente. Repita o processo três vezes por dia. O ideal é que você escreva uma característica diferente a cada vez, mas, se tudo o que conseguir pensar sobre seu colega de escritório é que ele é “prestativo”, tudo bem. 2. Expresse gratidão regularmente. Preste atenção nos momentos em que diz “obrigado”. Fite os olhos da pessoa a quem está agradecendo e tente experimentar uma sensação de gratidão genuína. Escreva um diário e, ao final do dia, anote os momentos específicos em que sentiu uma conexão genuína, ainda que breve, com outra pessoa durante o ato de expressar sua gratidão. 3. Elogie os outros com frequência. Mantenha-se atento às oportunidades de fazê-lo: um trabalho bem-feito por um colega no escritório, um belo jardim cultivado por um vizinho ou até o belo casaco de um desconhecido. Fite os olhos da pessoa que você estiver elogiando. No seu diário, anote os momentos específicos em que sentiu uma conexão genuína com alguém que tenha elogiado. 38 Depois de uma semana fazendo esse exercício, passe algum tempo refletindo sobre as mudanças que observou no seu estilo de Atitude. É muito provável que descubra que suas emoções positivas estão durando um pouco mais e que seu otimismo aumentou. À semelhança do que ocorre com o exercício físico, você provavelmente precisará manter uma rotina. Quando sua Atitude se tornar positiva ou negativa, dependendo do que for seu desejo, é importante sustentar um nível de exercício suficiente para manter sua Atitude no ponto ideal para você. Se, em vez de adotar uma Atitude mais positiva, você quiser passar para o lado mais negativo dessa dimensão, seu objetivo será reduzir a atividade no núcleo acumbente ou no estriado ventral, ou em ambos, ou ainda enfraquecer as conexões entre eles. Se estiver se sentindo otimista demais, tendo uma Atitude tão positiva que deixa de ser realista, deverá visualizar possíveis resultados negativos. Se estiver pensando em comprar um produto caro, passe algum tempo refletindo sobre as possíveis consequências negativas dessa escolha. Por exemplo: se estiver tentado a comprar um carro novo e estiloso, mesmo que o atual funcione muito bem, escreva tudo o que poderia dar errado com o carro novo ou diminuir seu encanto – o fato de sofrer uma enorme depreciação assim que deixar de ser zero- quilômetro, o cuidado que deverá ter quando dirigir ou estacionar para evitar o menor arranhão, as prestações mensais que o obrigarão a cortar despesas com outras coisas que lhe dão prazer. Se, em vez de praticar os exercícios que mudarão as bases da sua dimensão Atitude, você precisar apenas de uma solução rápida, poderá modificar o seu ambiente para se ajustar à sua posição neste espectro. Se estiver tentando passar ao lado positivo, procure encher seu espaço de trabalho e sua casa de lembretes alegres, otimistas e gratificantes de momentos felizes e de pessoas que deem sentido à sua vida, como fotos de amigos queridos ou de lugares que você associa a uma forte sensação positiva. Mude as fotos com frequência, uma vez por semana, para não se acostumar a elas. Você pode manter as pessoas e os lugares, basta escolher fotografias diferentes. Se, em vez disso, quiser reduzir sua Atitude positiva, poderá encher sua casa e seu espaço de trabalho de lembretes de ameaças ao seu bem-estar, como descrições de desastres naturais ou notícias sobre problemas ambientais e econômicos. À semelhança do que fez Mike, que acomodou seu ambiente para conseguir funcionar melhor apesar de seu autismo, você também pode modificar seu mundo para não se ver prejudicado pelo seu estilo de Atitude. O primeiro passo é encontrar pessoas que pensem como você – não há sensação mais desconfortável que a de ser extremamente negativo em meio a um grupo de otimistas, ou a de ser Poliana em meio a pessoas que vivem apavoradas. Além disso, tendo em vista que as pessoas situadas no extremo negativo da dimensão Atitude costumam afirmar que sentem baixos níveis de energia, arrumar uma ocupação não muito exigente e que não se estenda para além do horário normal de trabalho pode ser útil. Para alguém de atitude negativa, terque trabalhar com algo atrelado a prazos, como no mercado financeiro ou no jornalismo, é garantia de infelicidade. Além disso, você talvez se encontre numa ocupação que recompense o ato de ver o pior em cada pessoa ou situação, como no ramo da segurança ou escrevendo poesia depressiva. 39 AUTOPERCEPÇÃO A ignorância nem sempre é uma bênção: o fato de ser cego e surdo diante do que seu corpo está tentando lhe dizer pode fazer com que você não perceba sinais de doenças, seja uma febre que indica uma infecção, seja um aperto no peito que pressagia um infarto. Um estilo autoignorante também tem consequência nos relacionamentos: se você não perceber que sua pressão está subindo e que seu coração está acelerado pelo fato de estar com raiva, não terá possibilidade de optar por fazer uma caminhada que o acalme antes de uma reunião importante, de um encontro com a professora de seu filho, do retorno para casa durante a hora do rush ou de qualquer outra coisa que, ao ser feita, possa ser fortemente afetada por essa raiva. Por outro lado, uma Autopercepção extrema conduz à hipocondria e aos ataques de pânico, e também a uma paralisia na sua vida emocional: se você se vir constantemente cercado de mensagens sobre seu estado mental e corporal, a vida pode ficar muito difícil. No Capítulo 4 expliquei que pessoas com altos níveis de Autopercepção (emocional ou física) têm maior ativação na ínsula, ao passo que aquelas com pouca Autopercepção têm menor ativação. Nos casos extremos, níveis ultraelevados de atividade na ínsula parecem estar associados a uma hiperpercepção de qualquer mudança ínfima na frequência cardíaca ou na respiração, o que ocorre às vezes na síndrome do pânico. Assim, para passar para o lado autoperceptivo dessa dimensão, você precisará aumentar a ativação da sua ínsula, e, para reduzir sua Autopercepção, terá que diminuir a atividade de sua ínsula. Graças às pesquisas sobre a síndrome do pânico, sabemos um pouco sobre como reduzir a atividade na ínsula, que nos torna excessivamente autoperceptivos. O tratamento mais Nela, os pacientes aprendem a reenquadrar ou reavaliar o significado de seus sinais corporais internos. Por exemplo: se sentir uma dor no peito ou outra sensação que interprete como um sinal de perigo, diga a si mesmo que existem muitas sensações perfeitamente inócuas, e que essa provavelmente é uma delas. Esse tipo de reavaliação cognitiva, por diminuir a atividade da ínsula, geralmente reduz consideravelmente os sintomas do pânico. Em vez de reduzir sua Autopercepção do próprio corpo, dos pensamentos e dos sentimentos diminuindo a atividade da ínsula, você também pode reduzir a reatividade do resto do seu cérebro aos sinais enviados pela ínsula. A ideia básica é alterar sua relação com os próprios pensamentos, emoções e sensações corporais, de modo a não ficar preso num ciclo vicioso interminável, que o faça saltar à conclusão de que um aspecto do que está sentindo anuncia desgraça. O truque é evitar que sua mente fique ruminando pensamentos em resposta a esses sinais internos. Assim, em vez de modificar a Autopercepção excessiva vinda da ínsula, a ideia é reduzir a atividade da amígdala e do córtex orbitofrontal, que formam um circuito destinado a dar valor emocional aos pensamentos e às sensações. Reduzindo a atividade desse circuito, o cérebro pode começar a perceber os pensamentos, as sensações e as emoções de forma menos crítica e histérica, de modo que você não se veja preso em sua tagarelice interna. Você ainda será muito autoperceptivo, mas não de forma debilitante. Uma das maneiras mais eficazes de reduzir a ativação da amígdala e do córtex orbitofrontal é por meio da meditação da consciência plena. Nessa forma de treinamento mental, você procurará observar os próprios pensamentos, sentimentos e sensações 40 momento a momento e de maneira acrítica, vendo-os apenas como o que são: pensamentos, sentimentos, sensações – nada além disso. Ao aprender a observar de forma acrítica, você irá romper a sequência de associações que surge habitualmente após cada pensamento. Por exemplo: o pensamento “Droga, tenho que parar de me preocupar com o trabalho” se transforma em “Veja só que interessante, um pensamento sobre problemas no trabalho entrou na minha consciência”. O pensamento “Ai, meu joelho está me matando!” se transforma em “Ah, um sinal do meu joelho chegou ao meu cérebro”. Se essas observações começarem a se transformar em pensamentos críticos, como geralmente ocorre (“Eu devia ter terminado aquele projeto mais cedo, e não tão em cima do prazo final!”), tente voltar ao processo da simples observação. O cultivo desses hábitos mentais geralmente requer bastante prática. Ainda assim, nossa pesquisa indica que mesmo um exercício simples já pode fazer diferença. Muitas pessoas relatam benefícios após meros 20 minutos de prática. As melhores instruções para a prática dessa técnica vêm de um curso de redução do estresse por meio da meditação da consciência plena, a forma mais comum de meditação secular ensinada em centros médicos na atualidade. Se quiser tentar a meditação da consciência plena antes de frequentar um curso, pode começar por conta própria, fazendo exercícios de respiração: 1. Escolha o momento do dia em que você esteja mais desperto e alerta. Sente-se no chão ou numa cadeira, mantendo a coluna reta e uma postura relaxada, porém ereta, de modo a não ficar com sono. 2. Agora, concentre-se na respiração, nas sensações que ela provoca em seu corpo. Observe como seu abdome se move a cada inspiração e expiração. 3. Concentre-se na ponta do seu nariz, observando as diferentes sensações a cada respiração. Quando notar que foi distraído por outros pensamentos e sensações que possam ter surgido, simplesmente volte sua concentração mais uma vez para a respiração. Você pode praticar com os olhos abertos ou fechados, o que for mais confortável. Recomendo que tente durante 5 ou 10 minutos de cada vez, de preferência duas vezes por dia. Assim que se sentir mais confortável, poderá aumentar a duração das sessões. Quando sentir que já pegou a prática da respiração da consciência plena, deixe de usar a respiração como âncora de atenção e permita que seu foco repouse em qualquer que seja o conteúdo dominante da sua mente consciente a cada momento, seja um pensamento, seja um sentimento, seja uma sensação corporal. Cultive a percepção do que está acontecendo sem pensar no fato nem julgá-lo. Você também pode experimentar uma técnica que eu pratico, chamada “varredura corporal”: 1. Sente-se no chão ou numa cadeira, mantendo a coluna reta e uma postura ereta e relaxada, para não ficar com sono. 2. Faça sua atenção perambular sistematicamente pelo corpo, de um lugar a outro – dedos do pé, pé, tornozelo, perna, joelho. Note a sensação específica em cada local, como um formigamento, pressão ou temperatura. Não pense nessas partes do corpo, apenas 41 vivencie as sensações. Dessa forma, você cultivará a consciência corporal no contexto da percepção acrítica. 3. Se começar a se perder em meio a pensamentos ou sentimentos, volte a atenção à respiração, para reencontrar o foco. Recomendo praticar a “varredura corporal” de 5 a 10 minutos, de preferência duas vezes por dia. Depois de algumas semanas, você possivelmente perceberá que sua relação com os pensamentos, sentimentos e sensações mudou: agora consegue vivenciá-los com menos críticas, pânico ou obsessões. Conseguirá estar ciente deles sem ficar preso no redemoinho que costumam gerar. Fortalecendo sua percepção acrítica, você evita que os pensamentos e as sensações tomem conta da sua mente. Paradoxalmente, uma das estratégias mais eficazes para aumentar a atividade da ínsula, tornando-se, assim, mais autoperceptivo, é praticar a meditação da consciência plena. Um estudo feito em 2008 revelou que pessoas que haviam praticado a meditação daconsciência plena todos os dias2 durante cerca de oito anos tinham uma ínsula maior que indivíduos do mesmo sexo e idade que não meditavam. Como é possível que a mesma prática aumente e diminua a Autopercepção? A resposta está no que gera a Autopercepção e no que exatamente queremos dizer com esse termo. Se você se sente tão arrebatado pelas sensações internas que tem dificuldade em agir normalmente, é provável que tenha níveis normais de sinais internos, isto é, níveis normais de atividade na ínsula, mas que reaja a eles com sensações ou pensamentos catastróficos. Nessa situação, a meditação da consciência plena irá transformar sua reatividade, baixando o volume dos sinais que chegam à amígdala e ao córtex orbitofrontal. Porém, se você tem dificuldade em discriminar seus sinais corporais internos, a meditação da consciência plena poderá amplificá-los, aumentando o volume dos sinais emitidos pela ínsula. Em outras palavras, a meditação da consciência plena tem um efeito regulador sobre a mente. Se você tiver uma carência de Autopercepção, ela poderá tornar suas sensações internas mais salientes e vívidas. Se for hiperciente, sentindo e ouvindo seus sinais internos de forma extremamente vívida, a meditação poderá lhe trazer uma espécie de equilíbrio, fazendo com que você não seja perturbado por esses ruídos internos. E esse equilíbrio acabará por reduzir a intensidade dos próprios sinais. À semelhança do que ocorre com todas as outras dimensões do estilo emocional, as mudanças duradouras virão com a prática mental que modifica os padrões de atividade cerebral. No entanto, você também poderá ajustar seu ambiente para estimular ou desestimular a Autopercepção. Para aumentar sua Autopercepção, reduza o número de distrações e escolha ambientes calmos, que lhe permitirão perceber seus sentimentos e sensações internas com mais facilidade. Esses são os “sinais” que você quer perceber; as coisas ao seu redor são o ruído de fundo, as distrações. Reduzindo esse ruído, seus sinais internos ficarão mais audíveis. Para diminuir sua Autopercepção, faça o oposto: arranje sua vida de modo a ter mais estímulos externos nos quais se concentrar. Por exemplo: deixe o rádio ligado, mas não permita que ele se transforme num ruído de fundo. Realize muitas tarefas ao mesmo tempo, checando o e-mail enquanto assiste à televisão, ou escutando música enquanto trabalha. Isso fará com que você tenha menos recursos de atenção para dedicar às sensações internas, fazendo com que estas se tornem menos perceptíveis. 42 ATENÇÃO Um sinal claro de que você é concentrado demais é o fato de sua família ou seus colegas reclamarem de que você não escuta o que estão lhe dizendo enquanto trabalha. Outra pista: você se concentra de forma tão intensa num aspecto de uma situação que deixa de enxergar o quadro geral, como quando um estudante se concentra tanto na fonte e na formatação de um trabalho escrito que deixa de perceber que o conteúdo em si é incoerente. Por outro lado, um estilo desconcentrado também tem seus problemas – problemas que boa parte da indústria farmacêutica adora tentar resolver, em especial se você for um jovem em idade escolar. Você deixa de perceber o que as pessoas estão lhe dizendo, pois está perdido em seu próprio mundo, tem dificuldade em terminar uma tarefa antes de ser distraído por outra e, quando lê, percebe que, ao chegar ao final de uma tela ou página, já esqueceu o que leu no início. O extremo concentrado da dimensão Atenção resulta de uma ativação maior em certas regiões cerebrais, como o córtex pré-frontal e o córtex parietal, que constituem um circuito para a atenção seletiva. O córtex pré-frontal é indispensável para manter a atenção, e o córtex parietal atua como um leme para o cérebro, dirigindo a atenção para certos objetos e permitindo a concentração em alvos específicos. Ao contrário, no extremo desconcentrado o córtex pré-frontal apresenta baixa atividade e a atenção é movida pelos estímulos: o que quer que ocorra ao seu redor, tal coisa irá atrair sua atenção. Você passa de um estímulo a outro sem nenhum leme interno que guie sua atenção. Portanto, para melhorar o foco é preciso aumentar a atividade dos córtices pré-frontal e parietal. Se você não gosta de ser concentrado demais, seu objetivo deve ser reduzir a atividade no córtex pré-frontal. Isso abrirá sua mente a novos estímulos presentes no ambiente, como, por exemplo, seu filho parado à porta do seu escritório em casa, implorando para que você vá brincar com ele. Essa qualidade da atenção se caracteriza por altos níveis de sincronia de fase aos estímulos do ambiente, de modo que tais estímulos são sincronizados com as oscilações neurais já presentes. O resultado é uma atenção mais receptiva. Para melhorar a concentração, recomendo mais uma vez a meditação da consciência plena. Em pesquisas recentes feitas no meu laboratório, descobrimos que os praticantes experientes, ao se concentrarem num objeto, atingem níveis mais altos de ativação nos córtices pré-frontal e parietal. Siga as instruções da seção Autopercepção para fazer os exercícios de consciência plena da respiração e o rastreamento corporal. Quando estiver confortável com essas práticas, passe à meditação de atenção focada, também chamada concentração unidirecional: 1. Em um ambiente no qual não haja distrações, sente-se com tranquilidade, com os olhos abertos. Encontre um objeto pequeno, como uma moeda ou um botão da sua camisa. É importante que o objeto de atenção seja visual, e não a própria respiração ou imagem corporal, ou outros objetos mentais. 2. Concentre toda a sua atenção nesse objeto. Fixe os olhos nele. 3. Se sua atenção perambular, traga-a calmamente de volta ao objeto. Pratique essa técnica diariamente, de início por 10 minutos. Se você perceber que consegue manter a concentração durante a maior parte do tempo, aumente o tempo de prática aproximadamente 10 minutos por mês, até chegar a uma hora. 43 Se você considerar que sua atenção é excessivamente concentrada e quiser ampliá-la para absorver melhor o mundo, a meditação de monitoramento aberto ou de presença aberta poderá empurrá-lo para essa direção da dimensão Atenção. Na meditação de monitoramento aberto, sua atenção não é fixada em nenhum objeto específico. Em vez disso, você cultivará uma percepção da própria percepção. Recomendo começar com uma prática de meditação de atenção focada, como a centrada na respiração, que lhe dará um nível básico de estabilidade de atenção, facilitando a meditação de monitoramento aberto. As instruções básicas são: 1. Em um ambiente tranquilo, sente-se numa cadeira confortável, com as costas retas e o corpo relaxado. Mantenha os olhos abertos ou fechados, como achar mais confortável. Se estiverem abertos, mantenha o olhar baixo e os olhos ligeiramente desfocados. 2. Mantenha uma percepção clara e uma abertura para o ambiente que o cerca. Conserve a mente calma e relaxada, sem focá-la em nada específico, embora ela deva estar totalmente presente, clara, vívida e transparente. 3. De forma suave, observe qualquer objeto que apareça no centro da sua consciência, mas não se fixe nele. A ideia é observar o próprio processo de pensamento, dizendo a si mesmo algo do tipo: “Ah, percebo que a primeira coisa na qual estou pensando ao me sentar para meditar é...” 4. Dê atenção plena ao objeto mais chamativo da sua consciência a cada momento, concentrando-se nele de modo a excluir todo o resto, mas não pensando nele. Isto é, você está simplesmente ciente do objeto, observando-o da forma mais desinteressada possível, mas não o explora intelectual e conscientemente. Pense no objeto de atenção como se fosse um quadro emoldurado exposto em um museu, ou um filme, algo que não tenha grande relevância para você. 5. Gere um estado de abertura total, no qual sua mente seja ampla como o céu, capaz de receber e de absorver qualquer pensamento,sentimento ou sensação. Quando surgirem pensamentos, apenas permita que passem pela sua mente sem deixar rastros. Ao perceber ruídos, imagens, sabores ou outras sensações, deixe que fiquem como estão, sem se envolver com eles nem os rejeitar. Diga a si mesmo que eles não conseguem afetar o equilíbrio sereno da sua mente. 6. Se notar que sua mente está passando para outro pensamento ou sentimento, permita que isso aconteça, deixando que esse novo objeto entre na sua consciência. Ao contrário das formas de meditação dedicadas a fortalecer a atenção, você não deverá tentar afastar o pensamento “invasor”. Em vez disso, consinta que sua mente se volte para ele. A diferença fundamental dessa técnica em relação à meditação focada na respiração, que descrevi anteriormente, é que na meditação de monitoramento aberto não temos um único foco para o qual a atenção deva ser redirigida caso comece a divagar. Em vez disso, você deve apenas estar ciente daquele que é o centro da sua atenção a cada momento. 7. Volte sua mente para esse novo objeto de atenção, como fez com o primeiro. 8. Prossiga durante um tempo que varie entre 5 e 10 minutos. Muitos praticantes dessa forma de meditação sentem adquirir uma espécie de percepção panorâmica, na qual estão conscientes também de seus pensamentos e sentimentos, além do ambiente externo. Um estudo que fizemos em 2009 sugere a razão para isso. 3 44 Usando o eletroencefalograma, descobrimos que, quando as pessoas praticam a meditação de monitoramento aberto, ela modula suas ondas cerebrais de um modo que as torna mais receptivas a estímulos externos, isto é, elas apresentam sincronia de fase, uma marca característica da Atenção concentrada. Lembre-se da metáfora do lago no capítulo anterior: se jogarmos uma pedra num lago calmo, veremos as ondulações com muita clareza. Porém, se o lago for turbulento, teremos dificuldade em distinguir a ondulação gerada pela pedra. Da mesma forma, se nossa mente estiver calma, seremos mais receptivos aos estímulos que nos chegam, o que é expresso pela sincronia de fase das oscilações corticais a esses estímulos. Para transformar a sua capacidade de atenção você precisará de alguma prática. Mas, como a atenção é um constituinte básico de tantas outras coisas, acredito que o esforço valha a pena. E creio também que a maioria dos praticantes irá observar benefícios após um curto período de prática. À semelhança do que ocorre nas outras dimensões, você pode ajustar seu ambiente de modo a que ele se acomode ao seu estilo de atenção, minimizando a possibilidade de que interfira em seus objetivos. Para aumentar seu foco, você precisa minimizar as distrações. Mantenha seu ambiente limpo, em especial o de trabalho, eliminando o maior número possível de estímulos externos. Ou seja, limite o ruído, sobretudo as conversas. Se puder fechar a porta, não hesite em fazer isso. Procure executar uma tarefa de cada vez. Se estiver postando algo em redes sociais, não faça nada além disso, nem mesmo escutar música. Quando usar um computador, mantenha apenas um programa aberto: um navegador ou um programa de e-mail, mas não ambos. Se estiver escrevendo ou usando uma planilha ou outro programa qualquer, feche o navegador e o e-mail e desative quaisquer alertas de mensagens recebidas. Se você for hiperconcentrado, tente criar um ambiente que o ajude a alargar sua atenção. Deixe livros e revistas espalhados e ceda à tentação de apanhar um deles, mesmo que supostamente devesse estar concentrado em alguma outra coisa. Se estiver trabalhando no computador, mantenha a porta do seu quarto ou escritório aberta, para poder ouvir o mundo exterior, e toque uma música de fundo. Se tiver uma janela, não a bloqueie com cortinas ou persianas, e tente posicionar sua mesa de modo que lhe permita ver o que ocorre lá fora, onde provavelmente encontrará muitas distrações. Coloque fotos de pessoas queridas em seu escritório, para poder olhar para elas enquanto trabalha. Ajuste um alarme no seu celular ou computador para que ele toque a cada 20 ou 30 minutos, rompendo sua concentração e forçando-o a prestar atenção no mundo ao redor. RESILIÊNCIA À primeira vista, pode parecer estranho que alguém queira se recuperar das adversidades de forma mais lenta, mas certamente existem pessoas que se recuperam rápido demais. Para levar uma vida emocional saudável, você precisa ser capaz de sentir as próprias emoções e de responder a elas, o que é difícil se costuma avançar muito rápido, a ponto de ter apenas um contato superficial com seus sentimentos. Temos a tendência de usar a duração de uma emoção como um sinal de sua intensidade. Assim, a capacidade de seguir adiante após uma adversidade pode fazer com que você sinta que seu afeto é abafado, que não consegue vivenciar as emoções de forma tão intensa quanto gostaria. Para ter relações saudáveis, você precisa ser capaz de sentir as emoções dos outros e de reagir a elas. Se for extremamente resiliente, os demais podem pensar que você não tem sentimentos ou que cria uma barreira emocional ao seu redor. Uma pessoa de recuperação muito rápida pode ter dificuldade em vivenciar a empatia ao observar a dor ou a desgraça 45 dos outros. Parte da resposta de empatia consiste em sentir a dor alheia. De fato, pesquisas recentes mostram que, quando sentimos empatia, o cérebro ativa muitos dos circuitos que são acionados quando sentimos dor, quer seja física, quer não. Os benefícios de uma recuperação mais rápida são mais fáceis de entender. Se as adversidades afetam seu funcionamento normal durante longos períodos, elas poderão impedi-lo de atingir seus objetivos e dificultar seus relacionamentos. Caso se veja atolado em seu próprio lamaçal emocional, é possível que negligencie a família, os amigos e o trabalho. A marca característica de um estilo de recuperação lenta diante das adversidades é a presença de poucos sinais – ou de sinais fracos – passando do córtex pré-frontal para a amígdala, como resultado de uma baixa atividade no córtex pré-frontal ou da presença de poucas conexões – ou de conexões disfuncionais – entre o córtex pré-frontal e a amígdala. Pacientes com depressão que apresentam recuperação lenta – que ficam devastados por qualquer frustração ou revés – têm uma conectividade muito baixa entre essas regiões. A recuperação rápida diante das adversidades resulta de uma forte ativação do córtex pré- frontal esquerdo em resposta aos problemas e de uma forte conectividade entre o córtex e a amígdala. Se sentir que precisa aumentar sua Resiliência, você deverá aumentar a atividade do córtex pré-frontal (em especial no lado esquerdo) ou fortalecer as vias neuronais entre o córtex e a amígdala, ou ambos. Se sentir que possui uma Resiliência que é tão grande a ponto de chegar a prejudicar sua resposta emocional natural em seus relacionamentos, seu objetivo será reduzir a atividade do córtex pré-frontal e enfraquecer suas conexões com a amígdala. Para cultivar maior Resiliência e se recuperar mais rapidamente das adversidades, recomendo a meditação da consciência plena. Por gerar equilíbrio emocional, essa técnica o ajudará a se recuperar, mas não tão rápido, à semelhança do que faz com a Atenção, tornando-o concentrado, mas não hiperconcentrado. A meditação da consciência plena enfraquece a cadeia de associações que nos faz pensar obsessivamente numa adversidade, quando, então, ficamos empacados nela. Por exemplo: a perda de um emprego pode fazer com que seus pensamentos passem de “desemprego” a “perda do plano de saúde”, “perda da casa” e “falta de força para seguir em frente”. A meditação da consciência plena fortalece as conexões entre o córtex pré-frontal e a amígdala, promovendo um equilíbrio que o ajudará a evitar esse tipo de círculo vicioso. Se seus pensamentos começarem a saltar de uma catástrofe para a seguinte, você terá os recursos mentais necessários para fazer uma pausa, observara facilidade com que a mente entra nesse ciclo, notar que esse é um processo mental interessante e resistir, sem ser jogado no abismo. Recomendo que comece com uma forma simples de meditação da consciência plena, como a focada na respiração, descrita anteriormente. Se a prática da meditação da consciência plena não aumentar tanto quanto você gostaria a velocidade da sua recuperação, o treinamento em reavaliação cognitiva poderá ajudar. Essa técnica, que é uma forma de terapia cognitiva, ensina as pessoas a repensar as adversidades, de forma que passam a acreditar que elas não são tão extremas nem duradouras quanto poderiam ser. Por exemplo: se você cometeu um erro no trabalho e se deixou invadir por pensamentos aflitivos, talvez comece a pensar que não é muito inteligente, que provavelmente cometerá o mesmo tipo de erro outras vezes e que isso irá acabar com a sua carreira. São esses enganos de pensamento que a reavaliação cognitiva 46 tenta corrigir. Em vez de considerar que o erro representa seu trabalho como um todo, você é treinado a perceber que ele foi uma anomalia e que poderia ter sido cometido por qualquer um. Em lugar de pensar que o erro reflete uma qualidade consistente e fundamental sua, você passa a considerar a possibilidade de havê-lo cometido porque teve um dia ruim, ou porque não dormiu o suficiente na noite anterior, ou porque todos somos falíveis. Ao questionar a precisão dos seus pensamentos, a reavaliação cognitiva pode ajudá-lo a reenquadrar as causas do seu comportamento e, portanto, da sua aflição. Esse tipo de treinamento cognitivo envolve diretamente o córtex pré-frontal, resultando numa maior inibição pré-frontal da amígdala – o padrão característico da Resiliência. Se, por outro lado, você decidir passar para o lado de recuperação lenta da dimensão Resiliência, talvez para fortalecer sua capacidade de sentir empatia, precisará enfraquecer as conexões entre o córtex pré-frontal e a amígdala. Existem muito poucas pesquisas sobre como fazer isso, mas uma estratégia consiste em se concentrar intensamente em qualquer emoção negativa ou dor que esteja sentindo como resultado de uma adversidade. Isso pode ajudar a sustentar essa emoção, ao menos por algum tempo, aumentando, assim, a ativação da amígdala. Você também poderá se concentrar na dor de alguém que esteja sofrendo e descrevê-la por escrito, como por exemplo: “Tudo dá errado na vida de Aaron. Sua ex- namorada o persegue, ele corre o risco de perder o emprego porque a empresa em que trabalha está fazendo cortes de pessoal e o proprietário do apartamento em que ele mora o está ameaçando de despejo por causa dos constantes atrasos no pagamento do aluguel. Ele mal consegue se levantar da cama de manhã e tem crises de choro frequentes.” Utilize essas descrições para se concentrar nos aspectos específicos da dor ou do sofrimento que você poderia sentir em resposta ao sofrimento alheio. Esse exercício provavelmente resultará numa ativação mais sustentada do córtex cingulado anterior, da ínsula e da amígdala, o circuito relacionado com a dor e o sofrimento. Você também pode praticar uma forma de meditação do budismo tibetano chamada tonglen, que significa “tomar e receber”. Nessa técnica, destinada a cultivar a compaixão, temos de visualizar outra pessoa que esteja sofrendo, absorver sua dor e transformá-la em compaixão. Ela é muito eficaz no cultivo da empatia. Para começar, pratique esse exercício durante 5 ou 10 minutos, quatro ou cinco vezes por semana: 1. Visualize, da forma mais vívida que conseguir, alguém que esteja passando por um sofrimento. Pode ser um amigo ou parente doente, um colega com problemas no trabalho, um vizinho em meio a uma crise conjugal... Quanto mais próxima for a pessoa, mais forte e clara será a visualização. Se você tiver a sorte de não conhecer ninguém que esteja sofrendo, tente visualizar um desconhecido, como um catador de lixo, uma criança faminta, uma pessoa com câncer. 2. A cada inspiração, imagine que está absorvendo o sofrimento dessa pessoa. Sinta-o visceralmente: ao inspirar, imagine a dor passando por suas narinas, atravessando o nariz e chegando aos pulmões. Se for difícil imaginar o ato de absorver fisicamente o sofrimento, imagine que a pessoa está se livrando dele a cada inspiração sua. Quando inspirar, invoque uma imagem de dor e aflição saindo do corpo da pessoa, como a neblina que se dissipa sob o sol forte. 3. A cada expiração, imagine que esse sofrimento é transformado em compaixão. Direcione esse sentimento piedoso para a pessoa: quando expirar, imagine a respiração fluindo na 47 direção dela, como um presente de empatia e amor que irá envolvê-la e invadi-la, acalmando sua dor. Existem maneiras de ajustar o ambiente para fazê-lo se acomodar ao seu estilo de Resiliência. Para acelerar sua recuperação, tente, se possível, abandonar a situação na qual ocorreu o problema e vá para um ambiente com menos carga emocional. Por exemplo: se você acabou de ter uma briga com seu cônjuge, deixe a zona de combate e saia para caminhar na rua, ou ao menos vá para outro cômodo da casa. Se o que você deseja é tornar sua recuperação mais lenta e conseguir sentir o sofrimento por mais tempo e de forma mais intensa, tente fazer o oposto: permaneça na situação associada à adversidade ou encha seu ambiente de lembretes que o façam recordar o problema. INTUIÇÃO SOCIAL Poderíamos pensar que todas as pessoas querem modificar seu estilo de Intuição Social para se tornarem o mais socialmente intuitivas possível. Afinal, pesquisas sobre inteligência emocional e social afirmam que uma habilidade maior nessa área conduz a um êxito maior no amor, no trabalho e na vida em geral. Porém é possível que um foco excessivo nos sinais e eventos sociais acabe por interferir nas atividades cotidianas. Por exemplo: se você não conseguir interagir com seus colegas de trabalho sem captar as mensagens veladas transmitidas por eles, talvez tenha dificuldade em agir da melhor forma possível e prefira ser um pouco mais distraído. O cérebro de uma pessoa que se situa no extremo desnorteado da dimensão Intuição Social se caracteriza por baixa atividade no giro fusiforme e alta atividade na amígdala. No extremo oposto, uma pessoa socialmente intuitiva tem altos níveis de ativação do giro fusiforme e atividade na amígdala que varia de baixa a moderada, o que lhe dá a capacidade de captar sinais sociais extremamente sutis. Para melhorar a Intuição Social, temos que aumentar a atividade no giro fusiforme e reduzir a atividade na amígdala. Por outro lado, para reduzir a hiperintuição é preciso reduzir a atividade do giro fusiforme e aumentar a da amígdala. Para aumentar a atividade do giro fusiforme, assim melhorando, consequentemente, a Intuição Social, o primeiro passo é prestar atenção. Para detectar as pistas sociais, sobretudo as mais sutis, precisamos nos concentrar no que está acontecendo ao nosso redor: o tom de voz, a linguagem corporal, a expressão facial. Trata-se, essencialmente, de uma questão de prática: 1. Comece a praticar com estranhos. Quando estiver em público, escolha um casal ou um pequeno grupo de amigos e observe-os discretamente. Preste atenção sobretudo na face, que transmite muitas informações. Lembre-se de olhar para o rosto das pessoas quando as observar e, em especial, quando interagir com elas. 2. Aproxime-se o suficiente para ouvir a conversa (desde que consiga fazê-lo de forma discreta; recomendo tentar essa prática num espaço com muitas pessoas, como uma festa, uma loja apinhada de gente ou o saguão de um cinema). Observe se o tom de voz das pessoas corresponde à sua linguagem corporal e expressão facial. 3. Se não corresponder, você provavelmente entendeu algo errado. Tome nota do fato e aplique essa lição às próximas pessoas que observar. 48 4. Quando achar que já consegue discernir o que as pessoas estão sentindo, tente o mesmo com amigosou colegas. Você também pode cultivar a Intuição Social por meio da meditação da consciência plena, descrita anteriormente. Nesse caso, utilize os sinais sociais como objetos da sua consciência plena. Agora, pratique prestar atenção nos olhos das pessoas, que transmitem os sinais mais verdadeiros de seu estado emocional. Por serem tão breves, muitas vezes as expressões faciais passam despercebidas, de modo que deixamos de notar importantes sinais sociais. Embora a pesquisa sobre a eficácia desse treinamento para melhorar a capacidade de captar sinais sociais ainda seja recente, é provável que qualquer treinamento para detectar esses sinais aumente a ativação da área fusiforme e do sulco temporal, uma região situada nos lobos temporais que costuma ser ativada em resposta aos estímulos sociais. Como esse treinamento o torna mais apto a interpretar a linguagem da face e dos olhos, provavelmente o fará se concentrar nessas áreas com mais frequência, nem que seja porque os sinais passarão a ser mais significativos e interessantes. A voz, a postura e a linguagem corporal também transmitem sinais sociais e emocionais. Existem exercícios específicos para aumentar sua sensibilidade a esses outros canais de comunicação: 1. Para aumentar sua sensibilidade aos sinais vocais das emoções, vá a um lugar público – o metrô, uma lanchonete agitada, uma loja repleta de pessoas ou o terminal de um aeroporto –, feche os olhos e preste atenção nas vozes ao seu redor. Concentre-se em vozes específicas, mas não dê atenção ao que elas dizem, e sim ao seu tom. 2. Descreva para si mesmo o que esse tom de voz transmite – serenidade, alegria, antecipação, ansiedade, estresse, etc. Teste sua própria capacidade, abrindo os olhos e observando o que vier a seguir. Um encontro que termina com uma das pessoas indo embora bufando provavelmente foi caracterizado por emoções negativas. 3. Agora, faça o mesmo com a postura e a linguagem corporal. Quando observar uma conversa, note a orientação do corpo das pessoas, o modo como se sentam ou ficam em pé, os gestos que fazem. 4. Escolha um canal – tom de voz, linguagem corporal – para ser o foco de sua atenção durante um dia inteiro. Quando estiver num transporte público, no trabalho ou cercado de parentes, amigos ou colegas, procure oportunidades para se afastar um pouco da situação, mesmo que por apenas um minuto, de modo a se tornar um observador, e não um participante. Pratique os passos 1 e 2, ou o passo 3, dependendo do canal no qual você esteja se concentrando. 5. No dia seguinte, escolha outro canal e repita o exercício. Acho que você ficará surpreso ao ver quanto esse exercício simples pode aumentar rapidamente sua sensibilidade aos sinais sociais. Se você se sente extremamente afetado pelos sinais que as outras pessoas transmitem a ponto de querer se mover na direção do extremo desnorteado do espectro da Intuição Social, terá que dar um descanso ao seu giro fusiforme. Evite encarar os outros. Use seu treinamento de atenção para afastar seu foco da linguagem corporal e do tom de voz das 49 pessoas. Exercitando menos sua área fusiforme, você diminuirá a atividade de base dessa região e se tornará menos consciente da linguagem dos sinais sociais. Existem algumas maneiras de alterar o ambiente de modo a ajustá-lo ao seu grau de Intuição Social. Se você estiver no lado desnorteado da dimensão e ficar satisfeito com isso, programe-se para passar pouco tempo com outras pessoas, sobretudo com as desconhecidas. Isso irá limitar as situações nas quais você interpreta erroneamente os sinais sociais ou sente dúvida quanto ao seu significado. Um emprego que lhe permita trabalhar em casa pode ter o mesmo efeito. Se, por outro lado, você tiver uma alta Intuição Social e for distraído com facilidade pelos sinais sociais, limite suas interações a momentos específicos do dia, durante os quais elas não poderão afetá-lo de forma intensa. Ao interagir com os demais em momentos programados do dia, durante intervalos e refeições, você conseguirá limitar esse tipo de distração. Se for estudante, procure estudar sozinho, e não numa biblioteca, num café ou em outro espaço público, restringindo, assim, as intromissões sociais. SENSIBILIDADE AO CONTEXTO A incapacidade de discernir corretamente o contexto social pode levar a respostas emocionais que são adequadas em um contexto, mas não em outros. É razoável sentirmos uma ansiedade extrema em situações perigosas, mas não em situações seguras. Se não consegue diferenciá-las, corre o risco de sofrer de transtorno do estresse pós-traumático. No outro extremo, que é menos comum, uma pessoa excessivamente antenada talvez perca a noção de seu eu verdadeiro: pode perceber que altera seu comportamento para se adaptar a cada contexto. Nesse caso, talvez seja desejável tornar-se um pouco mais desligada. Pessoas extremamente antenadas com o contexto tendem a ter fortes conexões entre o hipocampo e áreas do córtex pré-frontal que controlam as funções executivas e registram as memórias de longo prazo no neocórtex. Os desligados tendem a possuir conexões mais fracas. Existem poucas pesquisas sobre como fortalecer ou enfraquecer essas conexões. As melhores pistas vêm de estudos sobre o transtorno do estresse pós- traumático, particularmente a chamada terapia de exposição, que consiste numa exposição progressivamente mais direta a sinais específicos associados a um trauma, porém num contexto seguro. Por exemplo: se uma mulher foi assaltada numa rua escura e fica aterrorizada sempre que sai de casa, o terapeuta talvez lhe ensine, em primeiro lugar, um exercício de respiração que ela poderá usar para se manter calma diante de sinais que geram ansiedade. A seguir, pedirá à paciente que imagine a rua em que foi assaltada. Quando ela conseguir fazer isso, o terapeuta talvez a leve até o bairro, e depois até a própria rua, sempre acompanhada de mais alguém que ela conheça e em plena luz do dia. Presumindo que o local seja seguro durante o dia, essa terapia ajudará a vítima a distinguir entre o contexto do dia e o da noite. A terapia de exposição tem o objetivo essencial de ajudar os pacientes a processar implicitamente a segurança do contexto atual em contraste com o perigo do contexto traumático. 50 Com base no êxito da terapia de exposição, podemos supor que uma estratégia geral para melhorar a Sensibilidade ao Contexto é nos habituarmos gradualmente aos sinais que nos deixam ansiosos ou irritados: 1. Para relaxar com mais facilidade, comece com uma técnica de respiração simples da hataioga. Com os olhos fechados, preste atenção na respiração, exatamente como se faz na meditação da consciência plena: contando a duração de cada inspiração e expiração. 2. Depois de ter contado durante várias respirações, aumente a duração de seu ciclo respiratório, para que dure um segundo a mais. Continue a aumentar a duração enquanto se sentir confortável e então mantenha essas respirações prolongadas por cinco minutos. 3. Observe se a inspiração e a expiração têm a mesma duração. Se uma delas for mais longa, tente prolongar a outra, para que durem o mesmo tempo. Prossiga por cinco minutos e então abra os olhos. Quando se sentir confortável com esse exercício respiratório, passe para o treinamento do contexto. Vou usar o exemplo de um chefe que lhe causa tanta ansiedade que você começa a suar só de pensar nele, e essa ansiedade se reflete em sua vida familiar. O mesmo princípio deve funcionar com qualquer outra fonte de ansiedade ou medo: 1. Faça uma lista dos sinais e comportamentos específicos do seu chefe que o incomodam. Ele talvez goste de passar perto da sua mesa durante o dia. Talvez fique reparando se você sai mais cedo. Pode ser que ele desaprove os relatórios ou outros informes que você lhe entrega. Tente ser o mais específico, vívido e detalhado possível. 2. A seguir, num contexto seguro, como em sua casa duranteo fim de semana, invoque, de forma calma e gradual, imagens mentais associadas ao seu chefe. Imagine exatamente o aspecto de seu chefe observando você ao final do dia. Visualize seu rosto enquanto ele lê o seu trabalho. 3. Simultaneamente, faça o exercício de respiração. Prossiga até se sentir confortável e relaxado, apesar de imaginar a cara irritada de seu chefe e o hábito que ele tem de passar perto da sua mesa. Pratique esse exercício por 15 minutos. Você provavelmente sentirá algum benefício após praticar essa técnica durante quatro sessões. Melhorando sua capacidade de distinguir entre o contexto do trabalho e o de casa, esse exercício deverá ajudá-lo a distinguir também outros contextos e, assim, a ter respostas emocionais mais apropriadas para cada um deles. Embora não existam estudos que comparem a atividade cerebral antes e após o treinamento, o fato de a terapia de exposição ajudar pacientes com transtorno do estresse pós-traumático sugere que ela funciona por fortalecer as conexões entre o hipocampo, o córtex pré-frontal e outras áreas do neocórtex. Não foram feitas pesquisas explicitamente focadas em fazer com que as pessoas passem para o lado desligado da Sensibilidade ao Contexto nem claramente dirigidas ao estudo das maneiras de enfraquecer as conexões do hipocampo com o córtex pré-frontal e o neocórtex. Porém, se você sentir que poderia se beneficiar do fato de ser um pouco mais desligado, deixando de adaptar seu comportamento a cada contexto de uma maneira excessivamente forçada, recomendo os exercícios que cultivam a Autopercepção. Ao se tornar mais consciente dos seus pensamentos, sentimentos e sensações corporais, você 51 conseguirá regular melhor suas respostas emocionais, de modo que elas não mais serão tão afetadas pelo contexto externo. Você também pode ajustar o ambiente para que ele se acomode à sua Sensibilidade ao Contexto. Se você não é muito antenado, minimize o número de contextos diferentes que frequenta. Vá a reuniões nas quais haja vários conhecidos, em vez de a lugares cheios de desconhecidos. Procure viajar e visitar novos lugares na companhia de pessoas próximas. Assim, embora o ambiente físico seja novo, o ambiente social será familiar e confortável. Se, por outro lado, você sentir que está tão antenado que se sente impelido a ajustar seu comportamento a cada pequena mudança do contexto, a ponto de parecer fingido, tente limitar a gama de contextos em que transita, para minimizar as mudanças desencadeadas por novas situações. Dessa maneira, você se lembrará de seus hábitos mentais essenciais que se mantêm constantes independentemente do contexto. MUDE SEU CÉREBRO TRANSFORMANDO SUA MENTE Todos os exercícios deste capítulo trabalham a mente para modificar o cérebro. As técnicas apresentadas, sejam elas inspiradas em tradições contemplativas milenares, seja em terapias psiquiátricas atuais, têm a capacidade de alterar os sistemas neurais que existem na base das seis dimensões do estilo emocional. A decisão de modificar seu estilo em qualquer dessas dimensões deve se basear na introspecção cuidadosa, que lhe permita saber se seu perfil emocional o impede de ser quem você quer ser e de levar a vida que deseja. Para isso, naturalmente você precisará compreender a si mesmo, o que não é fácil quando estamos tentando discernir a maneira como respondemos às dificuldades emocionais. Espero que os questionários do Capítulo 3 tenham ajudado. Espero também que você tenha percebido que a pessoa que você é hoje não precisa ser a mesma que será amanhã e que cada um de nós pode criar seu estilo emocional. As emoções nos ajudam a apreciar os outros e o mundo que nos cerca. Elas dão sentido à vida, tornando-a gratificante. Desejo que você floresça em seu bem-estar e ajude outras pessoas a fazer o mesmo. Capa_Logo Emoções do Encefalo Os Mecanismos da Emoção no Encéfalo