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Fisocratas

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necessárias ao trabalho mais eficiente, cabe à ciência da sociedade, ou 
do governo, descobrir as formas de organização mais adequadas a uma 
produtiva exploração da natureza. Um claro fisicismo permeia toda a 
concepção de ordem, fazendo da arte de governo, quase literalmente, 
uma espécie de engenharia. Quesnay não extrai todas as conseqüências 
políticas dessa noção de ordem, mas abre claramente o caminho. A seus 
discípulos caberá enunciar com todas as palavras uma doutrina do des-
potismo esclarecido: 
"Só neste governa simples e natural", escreverá Dupont de Nemours, 
"é que os soberanos são verdadeiramente déspotas, que eles podem tudo 
o que querem para o seu bem, que se encontra inseparável e manifesta-
mente ligado ao das nações que eles governam" 
I d c m , ibicicm, p. 921 . 
l i lcm. O i l i rc i lo n a t u r a l , n c s l c v o l u m e , p. 149. 
DUPONI' 1)11 NUMOURS. Op . eit., p. 364 . 
36 
Não se trata, é claro, de um regime de arbitrariedade, mas de uma forma 
de governo adequada a uma sociedade "instruída sobre as leis gerais da 
ordem natural". Trata-se, enfim, de um poder baseado na "força irre-
sistível da evidência", o meio pelo qual, há séculos, "o déspota Euclides" 
reina sobre os povos esclarecidos, segundo Mercier de Ia Rivière 
Um médico de sucesso 
Quesnay e seus discípulos não chegam a ver na França a implan-
tação de uma política semelhante à que defenderam com tanto empenho. 
Turgot, que não pode ser propriamente considerado um fisiocrata, mas 
que partilha de muitas idéias da escola, toma medidas, enquanto contro-
lador geral das finanças, em favor da livre circulação de produtos agrí-
colas e contra os privilégios tradicionais das corporações. Ele não 
sobrevive politicamente, porém, à tentativa de consertar as finanças do 
reino e de eliminar os desperdícios da corte. Mas tampouco a coroa 
conseguirá sobreviver à sua incapacidade de adotar as reformas impostas 
pelos tempos. 
Quando chega a revolução, afinal, a fisiocracia já não é o assunto 
da moda. Fulgurante por alguns anos, o nome da escola já está em 
declínio quando morre seu líder, em 1774, mesmo ano em que Turgot 
chega ao posto de controlador. Após a morte de Quesnay, o marquês 
de Mirabeau se mantém como a figura central da escola, mas nada de 
importante é produzido pelos fisiocratas a partir daí. E praticamente 
nada é escrito de importante sobre eles — excetuada, é claro, a análise 
de Smith no livro 4.° da Riqueza das nações — até que Marx se ponha 
a estudar o processo de reprodução do capital. É difícil afirmar que os 
contemporâneos de Quesnay, mesmo os simpatizantes da fisiocracia, 
tenham avaliado corretamente a importância de sua contribuição. 
"Na maioria das vezes, quando surgem idéias novas no campo teórico", 
observa Schumpeter, "primeiramente só se assimila o que elas têm 
de superficial, e isto, em geral, não tem relação alguma com o seu 
significado profundo. Inúmeros leitores imaginaram, não sem ingenui-
dade, encontrar no sistema fisiocrático uma glorificação da agricultura, 
e todos aqueles a quem isto agradava se declararam partidários dos fisio-
cratas." 36 
®5DE LA RIVIÈRE, M. Vordre naturel des societés politiques. In: DAIRE, org. 
Op. cit., p. 471. 
38 SCHUMPETER, J. A. Fundamentos do pensamento econômico. Rio de Janeiro, 
Zahar, 1968. p. 50-1. 
37 
Em seus últimos anos Quesnay quase não cuidou de economia, limi-
tando seu interesse, sem sucesso, a reflexões matemáticas — uma aven-
tura que seus amigos, condoídos, atribuíram ao desgaste intelectual pro-
duzido pela velhice. Esse desgaste, no entanto, demorou a surgir. Não 
deixa de ser notável que François Quesnay tenha escrito a sua obra 
econômica depois dos 60 anos, no topo de uma bem-sucedida carreira 
médica. Esse tardio envolvimento com a economia não foi, no entanto, 
o único aspecto singular de suas atividades. Nascido num lugarejo cha-
mado Meré, em 1694, foi destinado pela mãe a cuidar da pequena pro-
priedade familiar. Perdeu o pai aos 8 anos e continuou analfabeto até 
os 12, quando aprendeu a ler com um jardineiro. Data dessa época, 
talvez, seu interesse profundo pelos problemas da agricultura. 
Aos 17 anos, em Paris, tomou-se aprendiz de gravador e logo 
passou a mestre de ofício. Aos 24 formou-se em cirurgia, escolhendo 
Mantes para exercer a profissão. Enquanto freqüentou o Colégio de 
Cirurgia assistiu também a alguns cursos da escola de medicina, mas só 
se diplomou médico aos 50 anos, obtendo seu título na obscura faculdade 
de Pont-à-Mousson. Quesnay parece ter sido um profissional competente 
e discreto, capaz de impor-se à confiança de uma clientela influente. Em 
1749, aos 55 anos, tomou-se médico pessoal de madame Pompadour. 
Serviu também à família real e tornou-se um respeitado membro da 
corte, onde formou em torno de si a primeira escola de pensamento 
econômico registrada na história. Conta-se que o próprio rei, aconse-
lhado por François Quesnay a exercitar-se fisicamente, imprimiu cópias 
do Quadro econômico. Pode ser uma lenda, mas não há dúvida quanto 
ao respeito que cercou o médico economista na corte real. Não deixa 
de ser curioso que, nessa posição privilegiada, ele não tenha conseguido 
influenciar as decisões econômicas. 
Sua reputação, no entanto, teve peso na polêmica entre médicos e 
cirurgiões, tendo ele tomado o partido destes. Como médico, Quesnay 
se dedicou também à pesquisa mas com resultados medíocres. Parece 
jamais ter tido talento especial como experimentador — o que não o 
impediu de produzir uma rica reflexão sobre as condições de produção 
do conhecimento experimental. É a sua concepção de ciência e de natu-
reza, mais que qualquer outra coisa, que ele transplanta da medicina 
para a investigação no campo econômico: uma concepção sensualista do 
conhecimento, que toma a evidência — uma noção sempre presente em 
seus escritos — como a certeza da sensação presente ou como a segu-
rança derivada da observação cuidadosa de relações "certas e constan-
38 
tes". Foi sobretudo a sua postura experimentalista que atraiu as atenções 
dos editores da Enciclopédia. O artigo "Evidência", escrito sob enco-
menda, acabou sendo para eles uma surpresa. Ao lado de uma teoria 
sensualisjta do conhecimento, o defensor dos cirurgiões e da medicina 
experimental abraça uma metafísica de inspiração nitidamente malebran-
chista. Escândalo? Em certa medida, sim. Mas seus leitores ganhariam 
levando a sério essa referência. Ela ajuda a entender mais claramente 
o que significa, para Quesnay, a idéia de ordem. Significa o mesmo que 
para Malebranche: um conjunto de relações que o próprio Deus consulta 
quando age. Ê algo a ser lembrado quando se lê, nos textos dos fisio-
cratas, que o poder de legislar de fato não pertence ao homem. Esta, 
no entanto, não é uma idéia estranha ao século das luzes, embora nem 
sempre apareça revestida de cores religiosas. Não seria aí, portanto, que 
François Quesnay iria realmente espantar seus leitores. Muito mais que 
sua devoção a Malebranche — uma glória nacional —, seria o estranho 
diagrama de 1758 que realmente espalharia a perplexidade entre seus 
contemporâneos. Este não tinha muito a ver com o passado, exceto 
talvez pelo que havia escrito um quase desconhecido Richard Cantillon. 
Mas tinha tudo a ver com o futuro: era o paradigma de uma ciência 
nascente. 
A seleção de textos 
O objetivo desta antologia é permitir uma visão ampla do pensa-
mento social de François Quesnay. Procurou-se mostrar ao leitor, antes 
de mais nada, que o autor do Quadro econômico é um estudioso do 
problema do desenvolvimento. O artigo "Arrendatários" (Fermiers), 
sua primeira obra no campo da economia, é um texto defeituoso, sem 
dúvida, e muito árido em longas passagens, mas constitui um documento 
valioso para entender-se a gênese e a natureza de suas preocupações. O 
trecho selecionado do artigo "Homens" — também do período em que 
François Quesnay inicia sua produção econômica — oferece uma pre-
ciosa reflexão sobre o problema do valor, a única passagem