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Fisocratas

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exclusiva da 
agricultura. 
Na verdade, em certos momentos Quesnay parece tender a uma 
concepção um pouco diferente, que incluiria no setor produtivo todas 
as atividades imediatamente ligadas à exploração da natureza. A segunda 
e a terceira versões do Quadro incluem a pesca e a mineração na cate-
goria dos trabalhos produtivos. A referência às minas acaba sendo aban-
donada, mas discípulos de Quesnay ainda aceitarão a inclusão da pesca, 
jior muitos anos, na mesma categoria da agricultura. O próprio Quesnay 
aparentemente jamais se abala com a dificuldade. Ele se limita, muito 
simplesmente, a concentrar sua atenção na atividade rural como única 
'"(iii iiii Hr, (i. Quesnay — La costruzic.ie delia machina delia prosperità. Milão, 
1 liiN I ibti , V ) l l . p. K6. 
20 
geradora de produto líquido. E o certo é que a noção de produção por 
ele empregada normalmente só é aplicável à descrição da agricultura, 
embora possa, ocasionalmente, valer também para a pesca. Enfim, o 
texto da "Análise", de 1766, não deixa espaço para nenhuma dúvida 
ou ambigüidade: 
"A classe produtiva é a que faz renascer, pelo cultivo da terra, as 
riquezas anuais da nação, que realiza os adiantamentos das despesas dos 
trabalhos da agricultura e que paga anualmente os rendimentos dos pro-
prietários das terras. Encerram-se na dependência desta classe todos os 
trabalhos e todas as despesas feitas até à venda das produções em pri-
meira mão; é por esta venda que se conhece o valor da reprodução 
anual das riquezas da nação" i®. 
Proprietários e artesãos 
Se apenas a agricultura é produtiva, que são os outros setores da 
economia? Quesnay divide a parte não-agrícola em dois segmentos: os 
proprietários, de um lado, e, de outro, todos os demais agentes, como 
artesãos, comerciantes e transportadores. A este segundo grupo, que 
inclui a maioria das atividades que hoje chamamos produtivas, ele deno-
mina classe estéril. Estéril, é claro, não porque o seu trabalho seja inútil, 
mas porque, segundo o pensamento fisiocrático, nada produz além do 
que gasta. 
"Um sapateiro que vende um par de calçados", escreve Quesnay, "vende 
não só a matéria-prima com a qual formou o par de calçados, mas 
também seu trabalho, cujo valor é determinado pelo de sua despesa em 
produtos ou mercadorias necessários à subsistência e manutenção de sua 
família e dele mesmo durante o tempo do trabalho empregado em fazer 
o par de calçados. Vemos que aí só há consumo, e não produção." 
Merecem destaque duas afirmações contidas nessa passagem. A 
primeira é a que vincula o valor do trabalho ao custo de manutenção 
do trabalhador e de sua família. É uma idéia destinada a uma longa e 
importante carreira na história da economia política. Em 1757 Quesnay 
tem esta noção bem definida. Na primeira máxima do governo econô-
mico, na parte final do artigo "Cereais", ele iguala o ganho dos operários 
da indústria ao dos trabalhadores empregados pelo agricultor. Num e 
19 QUESNAY, F. Análise da fórmula aritmética do Quadro econômico, neste volu-
me, p. 131. 
20 QUESNAY, F. Resposta à memória do Sr. H. sobre as vantagens da indústria e 
do comércio e sobre a fecundidade da pretensa classe estéril, neste volume, p. 162. 
„J 
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noutro caso a remuneração se limita à subsistência. Assim, "o valor 
dos trabalhos da indústria é proporcional ao próprio valor da subsistência 
que os operários e os mercadores consomem". Quesnay assimila o ganho 
do artesão e o do comerciante ao salário — e é esta palavra que ele 
usa, às vezes, para designar a remuneração do produtor de manufatu-
rados, seja ele empregado ou trabalhador independente. De toda forma, 
esta noção de que o trabalho assalariado tende a ser pago no nível do 
"necessário" jamais chega a ser discutida ou explicada. O autor a oferece 
como se correspondesse a um fato evidente, da experiência comum. 
Não obstante, Quesnay se refere mais de uma vez a outro tipo de 
ganho, o lucro, cuja existência poderia, à primeira vista, comprometer 
a idéia do revenu como único excedente. Em certas passagens o lucro 
é mencionado em associação com a agricultura, como ganho do arren-
datário; noutras, como resultado também das atividades industrial e 
comercial. O que se coloca em jogo, aqui, não é, no entanto, apenas a 
classificação ou tipificação das formas do produto líquido. Em outras 
palavras, trata-se aqui não apenas de listar as formas possíveis do exce-
dente (renda da terra, lucros e juros seriam reunidos depois na classifi-
cação consagrada), mas de discutir a sua natureza. Trata-se, em outras 
palavras, de saber se o próprio Quesnay não se perde e acaba compro-
metendo a idéia da produtividade exclusiva da agricultura. A melhor 
resposta à questão é provavelmente aquela encaminhada pelo professor 
Ronald Meek. Examinando o tema no que se refere à agricultura, ele 
relaciona três situações em que se discute a questão do lucro: vantagem 
de escala, aumento de preço do produto durante a vigência do aluguel 
e redução de custo. Em qualquer dos casos, a possibilidade do lucro é 
temporária, ou porque a grande cultura deve tender à generalização, 
desaparecendo, assim, a vantagem da empresa maior, ou porque os pro-
prietários, ao verem a agricultura tornar-se mais rentável pelo aumento 
de preço ou pela redução de custos, se disponham a elevar os aluguéis 
na primeira oportunidade. Sobram, no entanto, as hipóteses do privilégio 
na indústria e no comércio (herança do período pré-liberal), do comér-
cio de bens de oferta muito limitada, como obras de arte ou vinhos 
especiais, e, enfim, das qualificações profissionais dispendiosas: em todos 
estes casos é de esperar-se que ocorram ganhos aparentemente extraor-
dinários. Enfim, postos de lado todos os casos especiais, em que o lucro 
é configurado como um ganho temporário ou determinado por circuns-
tâncias particulares e bem delimitadas, sobra a noção de "salário supe-
rior" como prêmio da iniciativa e dos esforços do empresário. É esta 
a única forma normal — ou generalizada — que o lucro assume no 
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pensamento de Quesnay. Mas este "salário" pode ser entendido, perfei-
tamente, como remuneração de um custo (interpretação rejeitada já por 
Smith), e assim nada resta, além do revenu, que se possa classificar 
como excedente. 
As soluções podem ser insatisfatórias, mas deixam intocada, afinal, 
a idéia de que a indústria não multiplica o produto gerado pela agri-
cultura. Esta é a segunda afirmação importante contida naquela passagem 
sobre a condição do sapateiro. Nessa atividade, segundo Quesnay, só há 
consumo — da matéria-prima usada no sapato e dos bens empreg. dos 
para o sustento do artesão e de sua família. Não deixa de espantar, de 
um lado, que François Quesnay reconheça o acréscimo de valor ocorrido 
na transformação da matéria-prima e, de outro, considere só ocorrer 
consumo nesse processo. É por este caminho que Smith constrói sua 
crítica à noção de esterilidade da indústria. Mesmo que os artífices, diz 
ele, só reproduzam o valor de seu consumo, dando continuidade ao capital 
que lhes permite o trabalho, eles de fato aumentam a renda da sociedade. 
Assim, um operário que, trabalhando seis meses, "consumiu uma renda 
semestral de 10 libras em valor de cereais e outros artigos indispensáveis, 
produziu um valor igual ao trabalho, suficiente para comprar, para si 
mesmo ou para alguma outra pessoa, uma renda igual de meio ano. 
Por isso, o valor do que foi consumido e produzido durante esses seis 
meses é igual não a 10, mas a 20 libras" Para o leitor moderno a 
crítica é pertinente. Mas, para os fisiocratas, ela poderia não ter maior 
significado, uma vez que, para eles, o artesão não produziria, mas ape-
nas ganharia sua vida, sem acrescentar uma partícula ao produto já 
existente. 
A intransigência de Quesnay em relação a este ponto pode levar à 
suposição de que nada existe, em sua teoria, entre o produtivo e o 
estéril. Mas não é verdade. Cabe aos donos da terra uma terceira 
posição. Segundo ele, é fácil perceber: 
que 08 proprietários,