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Estatuto da Pessoa com Deficiência COMENTADO ARTIGO POR ARTIGO COORDENADOR Costa Machado ORGANIZADORAS Maria Amália de Figueiredo Pereira Alvarenga Luciana Esteves Zumstein Ribeiro Estatuto da pessoa com deficiência : comentado artigo por artigo / coordenador: Copyright © 2019 by Antônio Carlos da Costa Machado, Maria Amália de Figueiredo Pereira Alvarenga, Luciana Esteves Zumstein Ribeiro Copyright © 2019 by Novo Século Editora Ltda. COORDENAÇÃO EDITORIAL: Nair Ferraz PREPARAÇÃO: Equipe Novo Século REVISÃO: Luiza Bonfin CAPA: Brenda Sório PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO: Nair Ferraz IMAGEM DE CAPA: Símbolo Internacional de Acessibilidade (ONU) EDITORIAL Bruna Casaroti • Jacob Paes • João Paulo Putini • Nair Ferraz • Renata de Mello do Vale • Vitor Donofrio DESENVOLVIMENTO DE EBOOK Loope Editora | www.loope.com.br Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), em vigor desde 1º de janeiro de 2009. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Estatuto da Pessoa com Deficiência: comentado artigo por artigo Costa Machado; organizadoras: Maria Amália de Figueiredo Pereira Alvarenga, Luciana Esteves Zumstein Ribeiro. -- Barueri, SP : Novo Século, 2019. ISBN: 9788542817119 1. Deficientes – Estatuto legal, leis etc. – Brasil 2. Brasil. [Estatuto da Pessoa com Deficiência (2015)] – Comentários I. Machado, Costa II. Alvarenga, Maria Amália de Figueiredo Pereira III. Ribeiro, Luciana Esteves Zumstein 19-0472 CDD-346.81013 Índice para catálogo sistemático: 1. Direito – Deficientes – Estatuto Legal São de responsabilidade dos autores as informações contidas nesta obra. Alameda Araguaia, 2190 – Bloco A – 11º andar – Conjunto 1111 CEP 06455-000 – Alphaville Industrial, Barueri – SP – Brasil Tel.: (11) 3699-7107 | Fax: (11) 3699-7323 www.gruponovoseculo.com.br | atendimento@novoseculo.com.br http://www.gruponovoseculo.com.br AUTORES Acir de Matos Gomes | Andreia Maria Ribeiro Silva | Cristiany de Castro | Denilson Pereira Afonso de Carvalho | Edwirges Elaine Rodrigues | Erton Evandro de Sousa David | Esdras Lovo | Fábio Cantizani Gomes | Flávio Henrique Amado Tersi | Gabriela Giaqueto Gomes | Gabriela Pirajá Cecilio Bunhola | Isadora Beatriz Magalhães Santos | Kátia Maria Ranzani | Kelly Cristina Canela | Kleber Antonio Galerani | Leandro Jorge de Oliveira Lino | Letícia Machel Lovo | Luciana Esteves Zumstein Ribeiro | Luciano Crotti Peixoto | Luciano Dal Sasso Masson | Maiara Motta | Maísa Rezende Ferraro Alvarenga | Márcio de Freitas Cunha | Murilo Colombini | Paula Baraldi Artoni | Paula Santiago Soares | Roberto Alves de Oliveira Filho | Victor Hugo de Almeida CONSELHO EDITORIAL Prof. Dr. Antônio Cláudio da Costa Machado (USP/SP) Prof. Dr. Carlos Eduardo de Abreu Boucault (FCHS/UNESP) Prof. Dr. Eudes Quintino de Oliveira Júnior (UNORP; FAMERP/SJRP) Profª. Drª. Kelly Cristina Canela (FCHS/UNESP) Profª. Drª. Maria Flávia Figueiredo (UNIVERSIDADE DE FRANCA) Prof. Dr. Murilo Gaspardo (FCHS/UNESP) Prof. Dr. Victor Hugo de Almeida (FCHS/UNESP) COORDENADOR Antônio Cláudio da Costa Machado É graduado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Mestre e Doutor em Direito Processual Civil pela Faculdade de Direito da USP. Professor de Teoria Geral do Processo e Direito Processual Civil da Faculdade de Direito da USP desde 1984 e de Mestrado em Prestação Jurisdicional e Direitos Humanos da Universidade Federal do Tocantins – ESMAT, desde 2010. Foi, também, professor do Mestrado em Direito do Centro Universitário Fieo (Unifieo) entre 2000 e 2003. Professor de Mestrado em Direitos Humanos Fundamentais do Centro Universitário Fieo (Unifieo) desde 2004. Ex-professor do curso de mestrado da Universidade de Guarulhos (UNG) entre 2000 e 2004 e da Universidade de Franca (Unifran) entre 2000 e 2006. Ex-coordenador de Processo Civil da Escola Paulista de Direito (EPP) entre 2008 e 2013. Autor e organizador de mais de 30 livros jurídicos, integrou mais de 250 aulas de pós-graduação e preferiu mais de 300 palestras. É advogado, consultor jurídico e parecerista. ORGANIZADORAS Maria Amália de Figueiredo Pereira Alvarenga Graduação em Direito pela Faculdade de Direito de Franca (1984). Mestre (1994) e Doutora (1999) em Direito pela FHDSS. Foi Coordenadora dos Cursos de Pós-Graduação Stricto Sensu: Mestrado em Direito Público e Direito Privado (2003) da Universidade de Franca. Coordenadora de técnicas e elaboração de Monografia da Faculdade de Direito de Franca (1999-2001). Coordenadora do Curso de Aperfeiçoamento da FHDSS (2007). Coordenou o Curso de Direito da Unesp, Franca (2011-2014). Atualmente é Chefe do Departamento de Direito Privado, de Processo Civil e do Trabalho da FHDSS e Professora Assistente Doutora (RDIPD), com experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Civil, atuando principalmente nos seguintes temas: parte geral, direitos da personalidade, direito de família e responsabilidade civil. Docente da Pós- Graduação (Mestrado) em Direito na área de Direito de Família da UNESP, Franca. Avaliadora de Cursos e Institucional do Ministério da Educação. Líder de Pesquisa da CNPq e Membro do IBDFAM. Luciana Esteves Zumstein Ribeiro Graduação em Direito pela Faculdade de Direito de Franca (1997). Mestre em Direito Público pela Universidade de Franca (2001). Advogada. Professora de Direito do Consumidor na Universidade de Franca (2017); e Professora Titular da disciplina Direito Civil na Universidade de Franca (2018): Direito das Obrigações, Contratos, Direito de Família e Direito das Sucessões. Membro do Grupo de Pesquisa “O Direito de Família contemporâneo e as relações sociais” da CNPq. AUTORES Acir de Matos Gomes Graduação em Direito pela Faculdade de Direito de Franca (1994). Mestrado em Linguística (com ênfase em análise do discuro jurídico) pela Unifran (2011). Doutor em Língua Portuguesa (com ênfase em retórica jurídica) pela PUC-SP (2017). Pós-graduado (especialista) em psicanálise contemporânea pela Unifran (2013). Pós graduação (especialista) em Processo Civil pela Facon (2017). Professor de Direito Processual Civil II e IV na Unifran. Professor de Medicina Legal na Unifran. Professor da Escola Superior da Advocacia do núcleo de Franca-SP. Professor de comunicação e oratória da OAB/Franca. Professor na escola Meta – preparatório para concurso público. Advoga nas áreas cível, família e criminal. Mediador/Conciliador certificado pelo Nupemec/CNJ (2017). Articulista do Jornal Diário Verdade da cidade de Franca. Integrante do Grupo de Pesquisa ERA (estudos retóricos e argumentativos) PUC – São Paulo. Integrante do Grupo de Pesquisa PARE (Pesquisa em Argumentação e retórica) da Unifran – São Paulo. Autor do livro: Discurso Jurídico, Mulher e Ideologia: uma análise da Lei Maria da Penha e do livro União Homoafetiva: análise retórica e jurídica. Procurador Jurídico da Federação das Apaes do Estado de São Paulo. Andreia Maria Ribeiro Silva Mestre em Linguística pela Universidade de Franca – Unifran. Especialista em Gestão Jurídica da Empresa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp/Franca. Graduada em Direito pela Faculdade de Direito de Franca – FDF. Graduada em Serviço Social pela Unesp/Franca. Coordenadora do Curso de Serviço Social da Universidade de Franca/Unifran. Professora titular da disciplina “Legislação Social e Serviço Social” no Curso de Serviço Social da Unifran. Professora titular das disciplinas “Direito do Trabalho I” e “Direito do Trabalho II”, no Curso de Direito da Unifran. Advogada militante. Cristiany de Castro Graduada em Direito pela Faculdade de Direito de Franca. Pós-graduanda pela Faculdade de Direito de Franca. Advogada atuante nas áreas civil e administrativa. Ampla atuação na defesa dos direitos da pessoa com deficiência. Procuradora jurídica da APAE/Franca. Presidente da Federação das APAES do Estado de São Paulo (FEAPAES-SP). Palestrante sobre a Legislação Brasileirada Inclusão (LBI). Denilson Pereira Afonso de Carvalho Advogado militante na cidade de Franca e Região (desde 2003). Graduação em Direito pela Faculdade de Direito de Franca (1999). Secretário de Negócios Jurídicos no Município de Franca (2000-2003). Professor universitário na Universidade de Franca (2003-2008). Professor universitário na Faculdade de Direito Fafram (2005-2007). Edwirges Elaine Rodrigues Mestre em Direito pela FCHS/Unesp. Especialista em Direito Processual Civil pela FCHS/Unesp. Membro do Grupo de Pesquisa “O Direito de Família contemporâneo e as relações sociais” da CNPq; Membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM. Professora Substituta de Direito Civil da FCHS/Unesp. Erton Evandro de Sousa David Graduação em Direito pela Faculdade de Direito de Franca (1999). Especialização em Direito Processual Penal pela Universidade de Franca. Especialização em Direito Público pelo Instituto LFG/Uniderp. Especialização em Direito Processual Civil pelo Instituto LFG/Uniderp. Promotor de Justiça do Estado de São Paulo na Comarca de Ituverava/SP. Membro associado do Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM. Membro associado do Ministério Público Democrático – MPD. Membro dos grupos de pesquisa “O Direito de Família contemporâneo e as relações sociais” e “As novas vertentes do Direito da Personalidade”, ambos da CNPq. Mestre em Direito pela Unesp. Esdras Lovo Doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP. Mestre em Direito Empresarial pela Universidade de Franca. Professor titular de Direito Empresarial e Prática Trabalhista, Coordenador do Curso de Direito da Universidade de Franca, Diretor Jurídico Adjunto do CIESP e Sócio Fundador do Escritório Lovo Advogados. Fábio Cantizani Gomes Graduado e mestre em Direito pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Unesp. Doutorando em Direito pelo Centro Universitário de Bauru – CEUB, da Instituição Toledo de Ensino – ITE. Professor de Direito Constitucional da Universidade de Franca e da Faculdade de Direito de Franca – FDF. Flavio Henrique Amado Tersi Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca – FDF. Mestre em Direito pela Universidade de Franca. Professor de Direito Penal do curso de Direito da Universidade de Franca. Gabriela Giaqueto Gomes Mestranda em Direito pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Unesp (2018). Bacharel em Direito pela Unesp (2017). Pesquisadora CNPq/PIBIC: “Mudanças no modelo familiar: as novas intervenções no Direito de Família”. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Família – GEPEFA. Membro do Grupo de pesquisas: “O Direito de Família contemporâneo e as relações sociais: inovações no direito de família contemporâneo”, coordenado pela professora-orientadora Maria Amália de Figueiredo Pereira Alvarenga. Membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM. Estagiária de pós-graduação junto ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Gabriela Pirajá Cecilio Bunhola Advogada com ênfase nas áreas Trabalhista, Direito de Família e Direito Médico; Pós-Graduada em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Gama Filho; Mestranda em Direito pela Unesp/Franca e Advogada do Conselho Regional de Medicina – CRM. Isadora Beatriz Magalhães Santos Advogada. Formada pela Faculdade de Direito de Franca. Mestranda em Direitos Fundamentais pela Unesp/Franca. Tutora na disciplina Ciências Jurídicas e Sociais do NEaD – Núcleo de Educação a Distância/Unesp. Kátia Maria Ranzani Graduação em Direito pela Faculdade de Direito de Franca (1993) e em Pedagogia pela Universidade de Franca (1988) e Mestrado em Direito Empresarial pela Universidade de Franca (2001). Tem experiência na área de Direito com ênfase em Direito Civil, Tributário, Direito Administrativo, Antropologia e Sociologia Jurídica, atuando principalmente nos seguintes temas: direito, educação e cidadania. É professora em cursos preparatórios para concursos públicos e consultora jurídica. Especialista e Mestre em Direito Tributário, Direito Civil e Processo Civil. Advogada Militante. Graduanda em Medicina Veterinária pela Unifran. Kelly Cristina Canela Graduação pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (1998-2002), com habilitação em Direito Privado e Processo Civil. É mestre em Direito pela Università di Roma “Tor Vergata” (2004-2006) e doutora, na Área de Direito Privado, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (2004-2009). É professora do Departamento de Direito Privado da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) e advogada inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Kleber Antonio Galerani Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Especialização, em andamento, em Direito Público pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC–MG). Professor de Direito Internacional, Direito Constitucional, Ciência Política e Teoria Geral do Estado da Universidade de Franca (Unifran). Foi professor no Programa de Pós- Graduação em Gestão Urbana da Unifran e nos cursos de graduação em Relações Internacionais e Ciências Econômicas do Centro Universitário Moura Lacerda (CUML) de Ribeirão Preto/SP. Pesquisador na área de tecnologias digitais e metodologias ativas aplicadas ao ensino superior. Leandro Jorge de Oliveira Lino Advogado especializado em Direito Público com ênfase em Direito Tributário, com pós-graduação em Direito Tributário Material e Processual pela Escola Paulista de Direito (EPD). Presidente da Comissão de informática e membro da comissão de terceiro da 87ª Subseção da OAB/SP em Bebedouro (2008-2009). Palestrante convidado na área de Direito do Consumidor da Comissão de Estudos OAB vai à Escola da 87ª Subseção da OAB em Bebedouro. Docente na Escola Superior da Advocacia da OAB/SP e OAB/MG, no curso de Processo Digital e Peticionamento eletrônico. Membro da Comissão Permanente do Processo Judicial Digital da OAB/SP, representando a 87ª Subseção de Bebedouro/SP. Mestre em Direito da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Letícia Machel Lovo Mestre em Linguística pela Universidade de Franca. Mestranda em Filosofia do Direito pela PUC-SP. Professora titular de Direito Civil e Direito do Consumidor no Curso de Direito da Universidade de Franca. Professora de Ética Profissional nos Cursos Márcio Cunha. Pesquisadora e Advogada. Luciana Esteves Zumstein Ribeiro Graduação em Direito pela Faculdade de Direito de Franca (1993-1997). Mestre em Direito Público pela Universidade de Franca (1999-2001). Advogada. Professora de Direito do Consumidor na Universidade de Franca (2016-2017). Professora titular da disciplina Direito Civil na Universidade de Franca (2001-2018), com ênfase em Direito das Obrigações, Contratos, Direito de Família e Direito das Sucessões. Luciano Crotti Peixoto Graduado em Direito pela FCHS/Unesp. Especialista em Direito Notarial e Registral pela Faculdade Damásio de Jesus e especialista em Direito Notarial e Registral pela Universidade Candido Mendes. Mestrando em Direito pela FCHS/Unesp. Membro do grupo de pesquisa “O Direito de Família contemporâneo e as relações sociais” e “As novas vertentes do Direito da Personalidade”, ambos da CNPq. Luciano Dal Sasso Masson Especialista em Direito Público pela Universidade de Franca. Mestre em Direitos coletivos e cidadania pela Universidade de Ribeirão Preto. Professor Universitário e em cursos preparatórios para concursos públicos. Defensor Público no Estado de São Paulo. Maiara Motta Mestranda em Direito Civil pela Unesp/Franca. Especialista em Processo Civil pela Escola Paulista da Magistratura (EPM). Mediadora certificada pelo NupeMEC. Bacharel em Direito pela Unesp/Franca. Maísa Rezende Ferraro Alvarenga Graduada em Terapia Ocupacional pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais – Ceuclar. Mestre em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicinade Ribeirão Preto – FMRP/USP. Extensão Universitária em Preparação Pedagógica pela FMRP-USP (bolsista Capes). Extensão Universitária em Estágio Supervisionado em Docência pela FMRP-USP (bolsista Capes). Curso em Comunicação Alternativa pela APAE – Franca-SP. Formação em Terapia Motora Cognitiva pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Formação em Integração Sensorial pela clínica Lúdens – Campinas. Formação em Medicina Tradicional Chinesa (Acupuntura). Docente no curso de Terapia Ocupacional do Centro Universitário Claretiano de Batatais (2013). Docente da Pós-Graduação em Neuroaprendizagem e Psicopedagogia da Faculdade Metropolitana de São Paulo (2017-2018) – Pólo Franca-SP. Márcio de Freitas Cunha Graduado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca/SP (2000), Especialista em Direito Penal pela Universidade de Franca/SP (Unifran – 2010) e Mestre em Direito pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp – 2013). É advogado militante na comarca de Franca/SP e região (Márcio Cunha Advogado & Associados), bem como Diretor do Departamento Jurídico da Prefeitura Municipal de Ribeirão Corrente/SP. Docente da Universidade de Franca (Unifran). Coordenador e Docente do Cursos Márcio Cunha Preparatório para o Exame da Ordem e Concursos Públicos. Cofundador do NACCRIM (Núcleo Avançado de Ciências Criminais) da Faculdade de Direito de Franca. Murilo Colombini Advogado habilitado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) desde 2005. Graduado em 2005 pela Universidade de Franca. Membro da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CDPCD) da OAB, Seccional Goiás. Foi Analista Jurídico na Federação das APAES do Estado de São Paulo – FEAPAES/SP. Aluno especial do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Planejamento e Análise de Políticas Públicas da Unesp – Franca. Paula Baraldi Artoni Graduada em direito e mestranda em direito civil pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP. Pós graduada em Direito Notarial e Registral pela Rede de Ensino Luis Flávio Gomes – LFG. Procuradora Jurídica do Serviço de Previdência, Saúde e Assistência (SEPREM) do Município de Jaboticabal/SP. Paula Santiago Soares Graduanda em Direito pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP-Franca). Aluna pesquisadora PIBIC, com financiamento pela CNPq sobre o tema “A Situação do Instituto da Curatela após o Estatuto da Pessoa com Deficiência e o Novo Código de Processo Civil”, sob orientação da Profa. Dra. Maria Amália F. P. Alvarenga. Membro do grupo de pesquisa “O Direito de Família contemporâneo e as relações sociais”. Roberto Alves de Oliveira Filho Mestre em Direito Civil pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – FCHS – UNESP-Franca. L.L.M. em Direito Civil pela Universidade de São Paulo – FDRP-USP. Especialista em Direito Contratual pela Universidade Pontifícia de Salamanca. Graduado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca. Advogado. Victor Hugo de Almeida Doutor em Direito do Trabalho pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – Largo São Francisco (FADUSP). Mestre pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP/USP). Docente de Direito do Trabalho, Vice-Chefe do Departamento de Direito Privado, de Processo Civil e do Trabalho e Vice-Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito da UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais – Campus Franca (SP). Membro Pesquisador do Grupo de Pesquisa (CNPQ) “A transformação do Direito do Trabalho na sociedade pós-moderna e seus reflexos no mundo do trabalho” da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FDRP/USP). Membro-pesquisador do “Consorcio Latinoamericano de Posgrado en Derechos Humanos – Políticas de regulación das empresas transnacionales por las violaciones de los derechos humanos en América Latina”, com o projeto “Análise sistêmica da sustentabilidade na empresa de nióbio? Araxá/MG: políticas de regulación de las empresas transnacionales por violaciones a los derechos humanos en America Latina”. Membro Externo do Conselho Curador da Fundação Instituto de Enfermagem de Ribeirão Preto (FIERP) – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo (EERP/USP). ÍNDICE DOS COMENTÁRIOS Arts. 1° e 2° – Kleber Antonio Galerani Art. 3° – Paula Santiago Soares Arts. 4° a 8° – Luciana Esteves Zumstein Ribeiro Art. 9° – Denilson Pereira Afonso de Carvalho Arts. 10 a 13 – Acir de Matos Gomes e Cristiany de Castro Arts. 14 a 17 – Paula Baraldi Artoni Arts. 18 a 26 – Luciano Dal Sasso Masson Arts. 27 a 30 – Kátia Maria Ranzani Arts. 31 a 33 – Gabriela Giaqueto Gomes Arts. 34 e 35 – Andreia Maria Ribeiro Silva Art. 36 – Márcio de Freitas Cunha Arts. 37 e 38 – Victor Hugo de Almeida Arts. 39 a 41 – Leandro Jorge de Oliveira Lino Arts. 42 a 45 – Gabriela Pirajá Cecilio Bunhola Arts. 46 a 52 – Isadora Beatriz Magalhães Santos Arts. 53 a 62 – Kelly Cristina Canela e Luciano Crotti Peixoto Arts. 63 a 68 – Roberto Alves de Oliveira Filho Arts. 69 a 73 – Esdras Lovo e Letícia Machel Lovo Arts. 74 e 75 – Luciano Crotti Peixoto e Maísa Rezende Ferraro Alvarenga Art. 76 – Fábio Cantizani Gomes Arts. 77 e 78 – Roberto Alves de Oliveira Filho Arts. 79 a 83 – Flavio Henrique Amado Tersi Arts. 84 a 87 – Paula Santiago Soares Arts. 88 a 91 – Flavio Henrique Amado Tersi Arts. 92 a 95 – Maiara Motta Arts. 96 a 103 – Erton Evandro de Sousa David Arts. 104 a 113 – Murilo Colombini Arts. 114 a 127 – Edwirges Elaine Rodrigues Capa Folha de Rosto Créditos Coordenador Antônio Cláudio da Costa Machado Organizadoras Maria Amália de Figueiredo Pereira Alvarenga Luciana Esteves Zumstein Ribeiro Autores Acir de Matos Gomes Andreia Maria Ribeiro Silva Cristiany de Castro Denilson Pereira Afonso de Carvalho Edwirges Elaine Rodrigues Erton Evandro de Sousa David Esdras Lovo Fábio Cantizani Gomes Flavio Henrique Amado Tersi Gabriela Giaqueto Gomes Gabriela Pirajá Cecilio Bunhola Isadora Beatriz Magalhães Santos Kátia Maria Ranzani Kelly Cristina Canela Kleber Antonio Galerani Leandro Jorge de Oliveira Lino Letícia Machel Lovo Luciana Esteves Zumstein Ribeiro Luciano Crotti Peixoto Luciano Dal Sasso Masson Maiara Motta Maísa Rezende Ferraro Alvarenga Márcio de Freitas Cunha Murilo Colombini Paula Baraldi Artoni Paula Santiago Soares Roberto Alves de Oliveira Filho Victor Hugo de Almeida Índice dos comentários Prefácio Apresentação 1 Apresentação 2 Livro 1 – Parte Geral Título 1 – Disposições preliminares Capítulo I – Disposições gerais Capítulo II – Da Igualdade e da Não Discriminação Seção única – Do Atendimento Prioritário Título II – Dos Direitos Fundamentais Capítulo I – Do Direito à Vida Capítulo II – Do Direito à Habilitação e à Reabilitação Capítulo III – Do Direito à Saúde Capítulo IV – Do Direito à Educação Capítulo V – Do Direito à Moradia Capítulo VI – Do Direito ao Trabalho Seção 1 – Disposições Gerais Seção II – Da Habilitação Profissional e Reabilitação Profissional Seção III – Da Inclusão da Pessoa com Deficiência no Trabalho Capítulo VII – Do Direito à Assistência Social Capítulo VIII – Do Direito à Previdência Social Capítulo IX – Do Direito à Cultura, ao Esporte, ao Turismo e ao Lazer Capítulo X – Do Direito ao Transporte e à Mobilidade Título III – Da Acessibilidade Capítulo I – Disposições Gerais Capítulo II – Do Acesso à Informação e à Comunicação Capítulo III – Da Tecnologia Assistiva Capítulo IV – Do Direito à Participação na Vida Pública e Política Título IV – Da Ciência e Tecnologia Livro II – Parte Especial Título I – Do Acesso à Justiça Capítulo I – Disposições Gerais Capítulo II – Do Reconhecimento Igual perante a Lei Título II – Dos Crimes e das Infrações Administrativas Título III – Disposições Finais e Transitórias Capítulo III – Da Tomada de Decisão Apoiada Anexos Anexo I – Leis Lei n. 7.405, de 12 denovembro de 1985 Lei n. 7.853, de 24 de outubro de 1989 Lei n. 8.160, de 8 de janeiro de 1991 Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991 Título I – Da finalidade e dos princípios básicos da previdência social Título II – Do plano de benefícios da previdência social Título III – Do regime geral de previdência social Título IV – Das disposições finais e transitórias Lei n. 8.899, de 29 de junho de 1994 Lei n. 8.989, de 24 de fevereiro de 1995 Lei n. 10.048, de 8 de novembro de 2000 Lei n. 10.098, de 19 de dezembro de 2000 Lei n. 10.754, de 31 de outubro de 2003 Lei n. 11.126, de 27 de junho de 2005 Lei n. 11.307, de 19 de maio de 2006. Lei n. 12.587, de 3 de janeiro de 2012 Lei n. 13.409, de 28 de dezembro de 2016 Anexo II – Decretos Decreto n. 3.298, de 20 de dezembro de 1999 Decreto n. 3.956, de 8 de outubro de 2001 Decreto n. 5.296, de 2 de dezembro de 2004 Decreto n. 5.626, de 22 de dezembro de 2005 Decreto n. 6.214, de 26 de setembro de 2007 Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009 Decreto n. 7.612, de 17 de novembro de 2011 Decreto n. 8.954, de 10 de janeiro de 2017 Decreto n. 9.296, de 1° de março de 2018 Decreto n. 9.404, de 11 de junho de 2018 Decreto n. 9.405, de 11 de junho de 2018 Anexo III – Portarias Portaria n. 142, de 16 de novembro de 2006 Portaria n. 793, de 24 de abril de 2012 Anexo IV – Resoluções Resolução n. 109, de 11 de novembro de 2009 Resolução n. 230, de 22 de junho de 2016 Resolução n. 304, de 18 de dezembro de 2008, CONTRAN Resolução TSE n. 23.381, de 19 de junho de 2012 Referências bibliográficas PREFÁCIO O Direito, pela sua característica pragmática, regulador que é das relações humanas, deve formar um conjunto único e harmônico. Excepcionalmente, para atender situações consideradas especiais e que não receberam um conteúdo legislativo suficiente, cinde-se em ordenamentos estanques, sem, no entanto, afastar-se dos princípios básicos e norteadores da linha mestra constitucional. Justificam-se, desta forma, o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/90), Estatuto da Juventude (Lei n. 12.852/2013), o Estatuto do Idoso (Lei n. 10.741/2003), o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei n. 13.146/2015) e outros de segmentos diversos. É o demonstrativo da evolução do pensamento jurídico que, acompanhando todas as transformações sociais, vai se amoldando de tal forma a acampar os anseios e reclamos das novas dimensões do Direito, conforme proclamado por Norberto Bobbio. A elasticidade é tamanha que comporta a inserção ilimitada de benefícios que sejam convenientes e adequados para o ser humano. A presente obra, que reflete o produto das investigações e pesquisas de relevantes nomes do cenário jurídico nacional, que se comprometeram em pinçar temas atuais e necessários, muitos deles apresentando teses e hipóteses agora esgrimidas pelos tribunais superiores, representa um marco de suma importância não só para a parcela significativa de cidadãos com deficiência, para que possam buscar as orientações adequadas, mas, também, para o meio jurídico, que vai se instrumentalizar de forma mais consistente para fazer prevalecer judicialmente a efetiva e tão proclamada inclusão. Percebe-se que, pela leitura dos comentários da inusitada obra, embora individualizados em tópicos da lei protetiva, vão se pulverizando em variadas direções, ultrapassando – e muito – os conceitos já sedimentados, com a nítida intenção de criar horizontes novos no Direito, todos gravitando em torno do eixo constitucional recomendado, com inspiração em acentuado humanismo. Assim, o leitor poderá percorrer com incontida satisfação os labirintos que rondam o Estatuto da Pessoa com Deficiência e neles penetrar com a convicção de que encontrará a melhor interpretação da mens legis, visando à construção de uma nova realidade social, calcada na política da igualdade, tanto com relação aos direitos conquistados como também ao rastreamento do nascedouro dos que estão por vir. A comunidade jurídica, desta forma, é brindada pela presente obra que, de forma lúcida, expõe, com clareza de pensamento e consistência jurídica invejável, temas que pedem enfrentamento judicial mais acurado. Vários juristas deitaram seus conhecimentos para que a obra pudesse ganhar corpo e materializar-se num só compêndio com tantas informações relevantes. Com certeza foi lançado o fermento na massa. Fica, ao final da leitura, comprovado que a beleza de uma obra escrita a várias mãos reside na harmoniosa solidariedade dos talentos dos autores. Eudes Quintino de Oliveira Júnior, Mestre em Direito do Estado pela Universidade de Franca – Unifran (1999); Doutor em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto – Famerp (2010); Promotor de Justiça aposentado pelo estado de São Paulo; Advogado e Reitor do Centro Universitário do Norte Paulista. APRESENTAÇÃO 1 A ideia de fazer um livro de comentários, artigo por artigo, ao Estatuto da Pessoa com Deficiência surgiu em minha mente no início de 2018, à luz da experiência dos últimos quinze anos de códigos interpretados que tive a oportunidade de organizar. O segundo e necessário passo era naturalmente o de convidar um grande professor de Direito Civil que pudesse montar um time de comentaristas, dividir suas tarefas e comandar a realização conjunta do trabalho. A escolhida foi a Dra. Maria Amália Alvarenga, amiga querida de tantas jornadas em Franca (SP), acadêmica brilhante, professora de mão cheia e entusiasta por projetos desafiadores. Aceito o convite, para a minha alegria, coube à professora Maria Amália a iniciativa de repartir seu trabalho de organização com a não menos competente Dra. Luciana Esteves Zumstein Ribeiro, do seu relacionamento próximo, e, a partir daí, constituir a equipe de jovens juristas – quase todos com vínculos acadêmicos com as organizadoras e com a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), e a Universidade de Franca (Unifran) –, com o objetivo de construir o livro que ora vem à luz. O que eu realmente espero é que este Estatuto da Pessoa com Deficiência: comentado artigo por artigo, possa de fato representar uma contribuição significativa para compreensão desta lei que, sob a inspiração direta da igualdade substancial e da dignidade da pessoa humana, pretende transformar a realidade das pessoas – milhões, no Brasil – no sentido de que se sintam verdadeiramente mais incluídas, mais livres e mais felizes. Que Deus nos abençoe neste sonho. Santana do Parnaíba, maio de 2019. Antônio Cláudio da Costa Machado, organizador APRESENTAÇÃO 2 Encontramo-nos em uma época de constante luta pela igualdade, o que não pode excluir as pessoas com deficiência que, devido à ignorância e preconceito da sociedade, encontram-se ainda segregadas e marginalizadas em razão das suas diferenças. Foi por isso que o legislador criou o Estatuto da Pessoa com Deficiência (EPD), também conhecido como Lei Brasileira de Inclusão (LBI), que surge no ordenamento jurídico brasileiro com a ideia de inclusão e acessibilidade, de modo a que a pessoa com deficiência possa exercer sua cidadania de forma plena e efetiva, com acesso a todos os recursos disponíveis para a eliminação das barreiras existentes. O Estatuto aponta para grandes avanços ao declarar todas as pessoas com deficiência como capazes para a prática de seus direitos individuais. A pessoa com deficiência passa a ter o direito de casar e constituir união estável, de adotar, de tomar decisões quanto ao próprio corpo, de votar, entre outros direitos fundamentais. Entretanto, para que esses direitos sejam respeitados e exercidos com efetividade é necessário que as pessoas com deficiência tenham acesso a tratamentos, informações sobre autoajuda, provisão de tecnologias assistivas apropriadas, recebimento de serviços de reabilitação e apoio para seu pleno empoderamento e inclusão, o que deve ocorrer por meio da criação de políticas públicas que respeitem a dignidade de todas as pessoas, o que parece coerente com a busca da efetivação do Estatutoda Pessoa com Deficiência. Como modo de alcançar tais objetivos e valendo-se dos valores da não discriminação e da igualdade de todos, princípios tão caros ao Estatuto e à Constituição, é que o presente trabalho pretende ajudar juristas, estudantes e profissionais com vista à compreensão daquilo que permeia a vida da pessoa com deficiência, seus direitos e necessidades, auxiliando na remoção das barreiras que restringem a autonomia e a capacidade da pessoa com deficiência, revelando, por meio de um exame minucioso, os fundamentos e os direitos que revolvem a liberdade, a inclusão e a dignidade das pessoas com deficiência, de modo a conscientizar a sociedade de que todos realmente são iguais. Paula Santiago Soares, autora DISPOSIÇÕES PRELIMINARES CAPÍTULO I DISPOSIÇÕES GERAIS Art. 1º É instituída a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), conhecida também como Estatuto da Pessoa com Deficiência (EPD), é o principal instrumento normativo que versa, no direito protetivo pátrio, sobre os direitos das pessoas com deficiência. Essa legislação federal sistematiza num único instrumento legal temas que estavam presentes em outras leis, decretos e portarias e altera algumas leis existentes para harmonizá-las à Convenção da Organização das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, dos quais o Brasil é signatário. Fundamentada em princípios constitucionais basilares, como o princípio da dignidade da pessoa humana (CF, art. 1º, III), e na Convenção da ONU sobre a matéria, a LBI foi aprovada em 2015, após quinze anos em tramitação. Em 2000, o então deputado Paulo Paim apresentou um projeto de lei (PL n. 3.638/2000) com o nome de EPD, na Câmara dos Deputados, mas o projeto, inicialmente, não avançou. Dessa forma, em 2003, após ter sido eleito senador, Paulo Paim apresentou um novo projeto de lei (PLS n. 6/2003), com idêntico teor, no Senado Federal. Durante o processo de elaboração do tratado multilateral sobre esse tema, a tramitação desses projetos de lei na Câmara e no Senado ficou suspensa até 2006, quando foi finalizado o texto da Convenção. No mesmo ano, os dois projetos foram aprovados nas suas respectivas casas e, em 2007, houve o apensamento de ambos (PL n. 7.699/2006). Entretanto, ao invés de dar continuidade ao processo legislativo da lei nacional, os esforços do Congresso Nacional voltaram-se para a aprovação da Convenção da ONU e seu Protocolo Facultativo. Em 2008, após a aprovação de ambos os tratados pelo Poder Legislativo, conforme o rito previsto na CF (art. 5º, § 3º), o governo brasileiro depositou o instrumento de ratificação junto ao Secretário-Geral das Nações Unidas e, em 2009, promulgou a Convenção e o seu respectivo Protocolo (Decreto federal n. 6.949/2009). Após a ratificação, houve divergência entre setores da sociedade civil sobre a necessidade de uma legislação pátria, uma vez que o texto da Convenção onusiana foi aprovado com envergadura de norma constitucional. Superado o impasse, decidiu-se pela edição de uma legislação nacional, contudo, grupos da sociedade civil alegavam que o PL n. 7.699/2006 não era plenamente compatível com o texto da Convenção. Dessa forma, o Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência (Conade) promoveu cinco encontros, nas diversas regiões do país, que subsidiou o entendimento sobre quais pontos do EPD precisavam ser melhor debatidos, em virtude de eventuais incompatibilidades com a Convenção. Em 2012, a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República instituiu um Grupo de Trabalho dedicado ao EPD, cujo objetivo era o aprimoramento do texto do PL n. 7.699/2006 para compatibilizá- lo à Convenção da ONU. A composição desse grupo contou com membros da sociedade civil, do Ministério Público, acadêmicos e integrantes dos Três Poderes. Por fim, em 2013, foi elaborado o Substitutivo do Grupo de Trabalho do Estatuto da Pessoa com Deficiência, que se tornou o texto base para as futuras discussões. De 2013 a 2015, ano da aprovação do EPD, incentivou-se uma intensa participação social de não deficientes e, principalmente, de deficientes, em diversas consultas e audiências públicas para o aprimoramento do texto base. Sob o lema “nada sobre nós, sem nós”, o ideário de inclusão dos deficientes esteve presente, inclusive, no processo de elaboração do estatuto. Com esse intuito, para permitir a participação das pessoas com deficiência auditiva, o projeto do estatuto foi convertido em vídeo traduzido em Libras e, para possibilitar a participação das pessoas com deficiência visual, utilizou-se do e- Democracia, o portal de participação social do Congresso Nacional, que se adapta às necessidades desses cidadãos. Após intensa participação da sociedade, em 2014, a relatora do estatuto na Câmara, a deputada federal Mara Gabrilli, apresentou um novo Substitutivo do EPD e, em 2015, o estatuto foi aprovado em ambas as casas legislativas, tendo sido sancionado pela presidente Dilma Rousseff no mesmo ano. É notório que a LBI é o principal instrumento legal que objetiva promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania. Para tanto, é imprescindível garantir a efetividade na aplicação desse instrumento protetivo, uma vez que é primordial o respeito ao art. 3º, IV, do texto constitucional, que indica o compromisso do Brasil com a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Parágrafo único. Esta Lei tem como base a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, ratificados pelo Congresso Nacional por meio do Decreto Legislativo nº 186, de 9 de julho de 2008, em conformidade com o procedimento previsto no § 3º do art. 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, em vigor para o Brasil, no plano jurídico externo, desde 31 de agosto de 2008, e promulgados pelo Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009, data de início de sua vigência no plano interno. A LBI tem como base a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, ambos assinados, em 2007, pelo Brasil. Esses instrumentos protetivos internacionais são fruto de cinco anos de trabalho de um Comitê ad hoc criado pela ONU, em 2001, com o objetivo de elaborar o texto base para ser apresentado e discutido na 1ª Conferência Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que foi realizada em 2006, na sede geral da ONU, em Nova York. A conferência contou com a participação de representantes de governos e de organizações da sociedade civil de 192 países e resultou no mais importante instrumento protetivo às pessoas com deficiência no âmbito multilateral. A Convenção, que já conta com 147 Estados signatários, reafirma o entendimento sobre a necessidade de garantir que todas as pessoas com deficiência possam fruir dos direitos humanos, sem discriminação, uma vez que nesse documento está consagrado o entendimento quanto à universalidade, indivisibilidade, interdependência e inter-relação de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. O Comitê sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU é o órgão responsável pelo monitoramento do cumprimento da Convenção. Além das funções previstas na Convenção, quando o Estado se vincula também ao Protocolo Facultativo, esse comitê exerce dois mandatos adicionais: a) o recebimento e o exame de petições individuais; e b) a instauração e a apuração de inquéritos no caso de provas confiáveis de violações graves e sistemáticas à Convenção. O Brasil é signatário da Convenção desde 2007 e ratificou esse tratado multilateralno ano seguinte. Em conformidade com a previsão constitucional do art. 49, I, o Congresso Nacional aprovou a Convenção e o Protocolo, por meio do Decreto legislativo n. 186, de 9 de julho de 2008, conforme o procedimento disposto no § 3° do art. 5º da Constituição. Ressalta-se que, após a aprovação da EC n. 45/2004, esses foram os primeiros tratados aprovados com quórum qualificado, ou seja, foram aprovados em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por 3/5 dos votos dos respectivos membros, e, portanto, a Convenção e o Protocolo, são equivalentes às emendas constitucionais. Em 1° de agosto de 2008, após aprovação do Congresso Nacional, o governo brasileiro depositou o instrumento de ratificação dos referidos atos junto ao Secretário- Geral das Nações Unidas, sendo que após trinta dias, a Convenção e o Protocolo entraram em vigor para o Brasil, no plano jurídico externo. No plano jurídico interno, após a promulgação do Decreto federal n. 6.949, em 2009, esses instrumentos, em virtude do quórum de aprovação no legislativo, entraram em vigor e passaram a posicionar-se no mais alto grau da hierarquia das normas internas. Art. 2º Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. A principal inovação do EPD está na mudança do conceito de deficiência e no reconhecimento de que este conceito está em evolução. Tradicionalmente, a deficiência é compreendida, numa perspectiva médica, como uma condição estática e biológica da pessoa. Entretanto, a Convenção da ONU, adotada pelo EPD, dispõe que a deficiência resulta da interação entre pessoas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial e as barreiras resultantes das atitudes e do ambiente, que podem impedir a plena e efetiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. Ressalta-se o avanço quanto à terminologia empregada no art. 2º: “pessoa com deficiência”. Designações comumente utilizadas, tais como pessoas portadoras de deficiência, pessoas com necessidades especiais, deficientes, entre outras, muitas vezes de cunho pejorativo e degradante, restam ultrapassadas e devem ser abandonadas. Essa mudança conceitual e terminológica é de grande relevância, visto que além de redefinir o conjunto de beneficiários de direitos, demonstra a opção pelo paradigma dos direitos humanos, que enfatiza o papel da sociedade e do Poder Público na eliminação e na superação das barreiras existentes, para permitir a inclusão social das pessoas com deficiência, em condições de igualdade, princípio consagrado no caput do art. 5º da Constituição Federal. § 1º A avaliação da deficiência, quando necessária, será biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar e considerará: O novo conceito de deficiência presente na LBI (cf. art. 2º) implica num novo modelo de avaliação da deficiência e de seu respectivo grau. No modelo tradicional, conhecido como modelo médico, predomina a avaliação médica da deficiência, que se restringe à aplicação de critérios técnicos e funcionais para elaboração de uma perícia médica, que define o tipo de deficiência (física, visual, auditiva, mental e múltipla). No novo modelo, conhecido como modelo social, a avaliação, quando necessária, é realizada por uma equipe multiprofissional e interdisciplinar, da qual participam profissionais de áreas distintas, como assistentes sociais, médicos e psicólogos, que trabalham em sinergia para permitir uma avaliação na qual se considerem fatores biológicos, psicológicos e sociais. Dessa forma, além do quadro clínico, também é considerado o contexto social em que o indivíduo está inserido, uma vez que a deficiência resulta da interação entre os indivíduos que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial e as barreiras, ou seja, os entraves, obstáculos, as atitudes ou os comportamentos que podem impedir ou dificultar sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. I – os impedimentos nas funções e nas estruturas do corpo; Para a avaliação da deficiência e de seu respectivo grau, a avaliação médica deve considerar os impedimentos nas funções e nas estruturas do corpo. Conforme a Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), consideram-se funções do corpo as funções fisiológicas dos sistemas orgânicos, incluindo as funções psicológicas, sendo que o termo “corpo” refere-se ao organismo humano como um todo, incluindo-se o cérebro e as suas funções, a exemplo da mente. Desse modo, as funções mentais ou psicológicas são, portanto, incluídas nas funções do corpo. Segundo a mesma classificação, as estruturas do corpo são as partes anatômicas do corpo, tais como órgãos, membros e seus componentes. II – os fatores socioambientais, psicológicos e pessoais; As avaliações médicas e sociais devem considerar os fatores sociais, ambientais e pessoais na avaliação da deficiência. A LBI, em sintonia com a perspectiva interdisciplinar presente na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, propõe um novo modelo para a avaliação da deficiência que, além da avaliação médica, pressupõe uma avaliação social, na qual são considerados os fatores socioambientais, psicológicos e pessoais. Dessa forma, conforme prescreve a CIF, a avaliação da deficiência é realizada de forma a considerar o ambiente físico, social e atitudinal em que as pessoas vivem e conduzem suas vidas. III – a limitação no desempenho de atividades; As avaliações médicas e sociais devem considerar a limitação no desempenho de atividades para a avaliação da deficiência. Segundo a CIF, a limitação no desempenho caracteriza-se pelas dificuldades que o indivíduo pode ter na execução das atividades, ou seja, na execução de tarefas ou ações. A CIF contém uma listagem que contempla diversas atividades, de inúmeras áreas da vida, que devem ser consideradas para elaboração da avaliação biopsicossocial, tais como as capacidades de aprendizagem e aplicação do conhecimento; comunicação; mobilidade; e de ministrar autocuidados. Desse modo, parte-se da premissa de que quanto melhor for o conhecimento do indivíduo, maiores serão as chances de uma avaliação satisfatória e benéfica. IV – a restrição de participação. As avaliações médicas e sociais devem considerar a restrição da participação social na avaliação da deficiência. Segundo a CIF, participação é o envolvimento de um indivíduo numa situação da vida real, sendo que as restrições de participação são problemas que um indivíduo pode enfrentar quando está envolvido nessas situações, como as dificuldades de estabelecer interações e relacionamentos interpessoais. Dado que essas restrições devem ser analisadas conforme o contexto vivencial do indivíduo, os fatores ambientais, como o ambiente físico, social e atitudinal em que as pessoas vivem e conduzem as suas vidas, são importantes para a melhor compreensão dos impactos dessas restrições. § 2º O Poder Executivo criará instrumentos para avaliação da deficiência. Conquanto há mais de uma década estudam-se instrumentos alternativos que contemplem fatores biológicos, psicológicos e sociais para a avaliação da deficiência, a criação de instrumentos avaliativos é um grande desafio enfrentado pelos governos nacionais. Em 2000, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou a Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), uma metodologia que tem por objetivo contemplar as mudanças exigidas pelo emergente modelo social de avaliação e que tem sido utilizada por muitos países, inclusive o Brasil, como base para a elaboração dos modelos de avaliação nacionais. No Brasil, a transição do modelo médico para o biopsicossocial vem ocorrendo de forma gradativa. Os instrumentosavaliativos tradicionais, que classificavam o tipo de deficiência (física, visual, auditiva, mental e múltipla) baseados exclusivamente em critérios médicos, vêm sendo aprimorados de modo a contemplar aspectos do modelo social. Há alguns anos, o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, desenvolveu o Índice de Funcionalidade Brasileiro (IF-Br), que é baseado na CIF e está sendo avaliado pela comunidade técnico- científica, devendo servir a todas as políticas públicas do Estado brasileiro. Com o objetivo de criar uma Avaliação Unificada da Deficiência, que sirva para orientar o Estado brasileiro na condução das políticas públicas para pessoas com deficiência, em 2017, o Decreto federal n. 8.954 instituiu o Comitê do Cadastro Nacional de Inclusão da Pessoa com Deficiência e da Avaliação Unificada da Deficiência. Entre as competências desse Comitê estão: a) a criação de instrumentos para a avaliação da deficiência; e b) o estabelecimento de diretrizes, a definição de estratégias e a adoção de medidas para subsidiar a validação técnico-científica dos instrumentos de avaliação biopsicossocial da deficiência, com base no IF-Br. Esse comitê, composto por membros de diversos setores da administração pública (Ministérios, INSS, IBGE e Conade), sob a coordenação da Secretaria Especial dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Ministério da Justiça e Cidadania, desempenha um papel fundamental, uma vez que o resultado do seu trabalho subsidiará as políticas públicas em diversas áreas, tais como a previdenciária, a assistência social, a saúde, a habitação, o transporte e a educação. Art. 3º Para fins de aplicação desta Lei, consideram-se: O Estatuto da Pessoa com Deficiência, em seu art. 3º, traz conceitos de diversas expressões que serão utilizadas ao longo do presente dispositivo normativo, buscando a mesma compreensão de seus significados, prevenindo, deste modo, que surjam divergências quanto à aplicação destes termos ou que eles passem a ser utilizados em sentido outro daquele defendido tanto pelo próprio EPD como pela Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, a qual foi adotada pelo sistema normativo brasileiro por meio do Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009, com força de Emenda Constitucional. É importante também a apreciação de que dentro de todos estes conceitos trazidos pelo EPD encontra-se a ideia de inclusão, uma real inclusão, não aquela disfarçada e que na realidade leva à segregação das pessoas com deficiência, designando-se espaços específicos para estas, como se não pudessem se locomover ou utilizar os espaços nos quais elas decidirem estar presentes. I – acessibilidade: possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida; Por meio do conceito de acessibilidade trazido pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, tem-se que acessibilidade é a possibilidade que as pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida têm de participar dos mais diversos espaços, sejam eles urbanos ou rurais, privados de uso coletivo ou públicos, em igualdade de condições com as demais pessoas. Assim, a acessibilidade permite a livre movimentação, a livre utilização desses espaços e de seus mobiliários e equipamentos, com segurança e sem necessitar de qualquer auxílio, tendo guarida no direito constitucional de ir e vir. Este conceito como vem determinado pelo EPD é de extrema importância, haja vista que transmite a ideia de inclusão, como já comentado, pois a partir do momento em que a acessibilidade, da forma retratada, deve estar presente em todos os espaços, tem-se que esta não pode mais ocorrer somente em determinados lugares isolados dentro de um mesmo local, levando à segregação da pessoa com deficiência e não à sua inclusão. Um exemplo de acessibilidade restritiva é a sala de cinema. Muitos podem defender que estas apresentam acessibilidade, quando na realidade segregam a pessoa com deficiência física ou múltipla ou, ainda, pessoas com mobilidade reduzida a locais na frente da sala, os quais muitas vezes não apresentam o conforto necessário no momento de assistir ao filme. Nesses casos, a pessoa com deficiência não tem a possibilidade de escolher, na sala de cinema, um local de sua preferência, uma vez que a acessibilidade está restrita às primeiras fileiras da sala. II – desenho universal: concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou de projeto específico, incluindo os recursos de tecnologia assistiva; A ideia de desenho universal surgiu com o arquiteto americano Ronald Mace, que por volta de 1985 começou a se envolver com a proposta de criar ambientes mais acessíveis para todas as pessoas, buscando adequar, por meio da arquitetura, os ambientes às mais variadas necessidades físicas. A ideia do desenho universal é a de que os objetos e os espaços projetados com esta base possam ser utilizados por qualquer pessoa, com qualquer tipo de restrição (sensorial, cognitiva, físico-motora ou múltipla). O desenho universal é regido por 5 (cinco) princípios criados por Ronald Mace na década de 1990, que são adotados pelos programas que se utilizam da acessibilidade plena.¹ São eles: i) o igualitário, de acordo com o qual objetos, produtos e ambientes devem poder ser utilizados por pessoas com diferentes capacidades; ii) o adaptável, para o qual o design de produtos e espaços deve ser realizado de forma que estes possam ser utilizados para qualquer uso; iii) o óbvio, em que deve haver, por exemplo, sinais de fácil entendimento para que qualquer pessoa possa compreender, independentemente do seu nível de conhecimento, concentração ou habilidade de linguagem; iv) o conhecido, em que se deve transmitir a informação necessária de forma a atender as necessidades do receptor, seja uma pessoa estrangeira ou com dificuldade de comunicação; e, por fim, v) o seguro, de acordo com o qual sempre se deve procurar realizar um design que minimize riscos e consequências de possíveis acidentes. Entre alguns exemplos de objetos que se utilizam do conceito de desenho universal, há tesouras que se adaptam a destros e canhotos; mapas com informações em alto relevo; fechaduras e maçanetas que podem ser abertas sem a necessidade de força, podendo-se utilizar do punho ou cotovelo, entre outros. III – tecnologia assistiva ou ajuda técnica: produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivem promover a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social; Tecnologia assistiva é a expressão utilizada para se referir ao arsenal de recursos e serviços que buscam prover uma vida independente e a inclusão das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Esse conceito surgiu no sistema brasileiro em 2007, criado pelo Comitê de Ajudas Técnicas (CAT), o qual foi instituído pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, por meio da Portaria nº 142, de 16 de novembro de 2006, de acordo com o qual “Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação, de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social” (BRASIL – SDHPR – Comitê de Ajudas Técnicas – ATA VII). Atualmente existem doze categoriasde tecnologia assistiva: i) auxílios para a vida diária e vida prática; ii) comunicação aumentativa e alternativa; iii) recursos de acessibilidade para computador; iv) sistemas de controle de ambiente; v) projetos arquitetônicos para acessibilidade; vi) órteses e próteses; vii) adequação postural; viii) auxílios de mobilidade; ix) auxílio para qualificação da habilidade visual e recursos que ampliam a informação a pessoas com baixa visão ou cegas; x) auxílios para pessoas com surdez ou déficit auditivo; xi) mobilidade em veículos; xii) esporte e lazer. Os produtos que fazem parte dessas classificações podem ser verificados por qualquer pessoa interessada no Catálogo Nacional de Produtos de Tecnologia Assistiva, disponível na página do Portal Nacional de Tecnologia Assistiva na internet. IV – barreiras: qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a participação social da pessoa, bem como o gozo, a fruição e o exercício de seus direitos à acessibilidade, à liberdade de movimento e de expressão, à comunicação, ao acesso à informação, à compreensão, à circulação com segurança, entre outros, classificadas em: Entre os significados presentes no dicionário Michaelis da Língua Portuguesa para o termo “barreira”, o que melhor traduz o conceito que o EPD apresenta neste dispositivo é o de que barreira é “Qualquer coisa que dificulte ou impeça a realização ou a obtenção de algo; estorvo, impedimento, obstáculo”, pois este documento se refere aos impedimentos em relação à participação social da pessoa e a outros direitos essenciais, devendo-se atentar para o fato de que este dispositivo não se restringe apenas às pessoas com deficiência, mas, também, a toda e qualquer pessoa que se encontre cerceada por qualquer “entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que a limite”. Deve-se atentar, também, para o fato de que o EPD explora, no significado de “barreiras”, não apenas aquelas físicas, mas também sociais, como é o caso de certas atitudes e comportamentos. Assim, ao estabelecer, no art. 2º, deste mesmo dispositivo normativo, o conceito de pessoa com deficiência e se referir à interação com barreiras que limitam a sua plena e efetiva participação em sociedade, deve-se entender que essas barreiras podem ser tanto físicas como decorrer de uma atitude, como é o caso do preconceito muitas vezes praticado em relação às pessoas com deficiência, que leva muitos a acreditarem que estas são incapazes, quando, na realidade, apresentam uma grande capacidade de compreender, de se fazer compreender e de tomar suas próprias decisões. a) barreiras urbanísticas: as existentes nas vias e nos espaços públicos e privados abertos ao público ou de uso coletivo; As barreiras urbanísticas são aquelas construídas ou implantadas no ambiente urbano, tendo se tornado comuns, principalmente nas grandes cidades, em razão do crescimento desordenado destas, o que levou a alterações em ruas, avenidas e áreas urbanas, sem que se realizasse, primeiramente, um projeto. Entre os exemplos de barreiras urbanísticas podem ser citados semáforos, quiosques, árvores, cabines telefônicas, pontos de transporte público, que acabam por impedir a livre movimentação das pessoas, além das calçadas desniveladas, com degraus e buracos. Em linhas gerais, para que se alcance a plena acessibilidade urbanística é necessário a implantação de ruas planas, com pouco declínio nas estações e paradas de transporte público; faixa livre para a exclusiva circulação de pedestres, sem qualquer obstáculo; rebaixamento de calçadas nas faixas de travessia de pedestres; piso tátil de alerta; piso direcional; vagas reservadas em estacionamentos etc.² b) barreiras arquitetônicas: as existentes nos edifícios públicos e privados; As barreiras arquitetônicas são aquelas que impedem que as pessoas desfrutem do espaço físico, estando presentes em residências, estabelecimentos comerciais e em edifícios públicos. Para que se alcance a plena acessibilidade nas edificações, faz-se necessária a implantação de entradas e saídas livres de obstáculos, com uma superfície regular, estável e antiderrapante; catracas e cancelas acessíveis às pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida; elevadores ou plataformas elevatórias; portas e vãos de passagem devidamente dimensionados e sinalizados; sanitários adaptados etc.³ c) barreiras nos transportes: as existentes nos sistemas e meios de transportes; Entre as barreiras no transporte e em seu sistema, pode-se ter como exemplos, estações e terminais de ônibus sem acessibilidade; ônibus que não possuem a plataforma elevatória para as pessoas com deficiência física que utilizam cadeiras de rodas ou que não possuem mobilidade para subir as escadas dos ônibus e passar pela catraca. Há casos em que a barreira ainda é mantida de forma mascarada, como nos casos de ônibus públicos acessíveis e adaptados que funcionam somente em poucos horários e em quantidade reduzida, o que acaba por limitar a própria liberdade de movimento da pessoa e o seu direito ao uso de transportes públicos. Uma solução encontrada para a existência de barreiras nos transportes são os carros ou vans preferenciais, que são preparados para idosos e para pessoas com mobilidade reduzida. Entretanto, além de grande parte da população desconhecer esse serviço, este também costuma ser extremamente burocrático, por não atender à demanda da população que se beneficiaria deste serviço. Neste ponto verificamos ainda mais uma barreira, a “barreira burocrática”. d) barreiras nas comunicações e na informação: qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens e de informações por intermédio de sistemas de comunicação e de tecnologia da informação; As barreiras nas comunicações e na informação passam a existir quando estas não estão disponíveis para todos, seja porque não existem meios, seja porque as informações não são apresentadas de maneira acessível. Assim, as barreiras podem ocorrer na comunicação interpessoal, quando se busca diálogo com uma pessoa com deficiência auditiva e não se sabe a Língua Brasileira de Sinais (Libras); na comunicação escrita, quando informações não estão disponíveis, por exemplo, em Braile, o que tende a ocorrer em bibliotecas e placas de sinalização; e nos espaços virtuais, quando não são disponibilizados recursos como tradução automática, audiodescrição e textos alternativos na imagem. e) barreiras atitudinais: atitudes ou comportamentos que impeçam ou prejudiquem a participação social da pessoa com deficiência em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas; Essas barreiras se referem a preconceitos, medos, desconhecimento sobre como agir adequadamente diante de uma pessoa com deficiência, frutos dos estereótipos que produzem a discriminação. Constituem barreiras atitudinais a ignorância, que consiste no desconhecimento da potencialidade da pessoa com deficiência; a rejeição, a recusa de interagir com a pessoa com deficiência; a inferioridade, que consiste em acreditar que a pessoa com deficiência não tem capacidade de compreensão ou de realizar diversos atos simplesmente pela visão estigmatizada que o indivíduo tem sobre a pessoa com deficiência; estereótipos, comparar a pessoa com deficiência a outras que apresentam essa mesma deficiência, construindo generalizações; atitude de segregação; adjetivação, classificando a pessoa com deficiência a partir de termos pejorativos e a generalizando a isso etc.⁴ f) barreiras tecnológicas: as que dificultam ou impedem o acesso da pessoa com deficiência às tecnologias; As barreiras tecnológicas são geradas pela evolução social e por avanços tecnológicos que não atendem às limitações de determinadas pessoas, limitando ou impedindo a acessibilidade a espaços, objetos, determinados aparelhos, comunicações etc. Como exemplo, podem ser citados produtos comercializados por meio eletrônico sem elementos necessários para que as pessoas com deficiência visual possam verificar o quebuscam adquirir. Um site acessível é aquele em que a pessoa consegue acessar, navegar, entender e interagir sem o auxílio de outras pessoas, independentemente de suas dificuldades e restrições. Para que as informações disponibilizadas através de meios tecnológicos atinjam as pessoas com deficiência, é necessário que se atente para cada tipo de deficiência, sendo necessárias modificações na estrutura física ou virtual, além da disponibilização de serviços para atendimento das necessidades informacionais. A construção de uma sociedade igualitária demanda uma interação efetiva entre todos os cidadãos, atentando-se à acessibilidade e inclusão, buscando alcançar um ponto em que todos os cidadãos tenham acesso às mais diversas informações e tecnologias, de forma efetiva, de acordo com suas especificidades. V – comunicação: forma de interação dos cidadãos que abrange, entre outras opções, as línguas, inclusive a Língua Brasileira de Sinais (Libras), a visualização de textos, o Braille, o sistema de sinalização ou de comunicação tátil, os caracteres ampliados, os dispositivos multimídia, assim como a linguagem simples, escrita e oral, os sistemas auditivos e os meios de voz digitalizados e os modos, meios e formatos aumentativos e alternativos de comunicação, incluindo as tecnologias da informação e das comunicações; A comunicação é o ato de transmitir uma mensagem, assim como receber uma, sendo o modo de transmitir uma informação o seu conteúdo. O Estatuto da Pessoa com Deficiência, com fulcro no direito constitucional de liberdade de expressão, busca neste inciso a inclusão dentro da comunicação, trazendo todas as possibilidades em que essa possa ocorrer, principalmente em relação às pessoas com deficiência, como a utilização de caracteres ampliados, sistemas auditivos, meios de voz digitalizados, deixando em aberto para a possibilidade de outros meios e formatos aumentativos e alternativos de comunicação, que ainda possam vir a surgir e auxiliar todas as pessoas na realização da comunicação mútua. VI – adaptações razoáveis: adaptações, modificações e ajustes necessários e adequados que não acarretem ônus desproporcional e indevido, quando requeridos em cada caso, a fim de assegurar que a pessoa com deficiência possa gozar ou exercer, em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas, todos os direitos e liberdades fundamentais; As adaptações razoáveis geralmente são requeridas e feitas em relação ao ambiente escolar e de trabalho, sendo decorrentes da acessibilidade e do princípio da igualdade, buscando garantir a equidade de oportunidades. O ideal é que os ambientes já apresentem as adaptações necessárias, mas como esta não é a realidade, e o legislador ao criar o Estatuto teve consciência disso, faz-se necessário que a sociedade se adapte conforme a necessidade for surgindo. Por se tratar de algo que deva atender à especificidade da pessoa com deficiência, é esta que deve indicar suas necessidades e as alterações necessárias a serem realizadas. VII – elemento de urbanização: quaisquer componentes de obras de urbanização, tais como os referentes a pavimentação, saneamento, encanamento para esgotos, distribuição de energia elétrica e de gás, iluminação pública, serviços de comunicação, abastecimento e distribuição de água, paisagismo e os que materializam as indicações do planejamento urbanístico; O Estatuto da Pessoa com Deficiência decidiu tratar sobre esse conceito, pois defende que os elementos de urbanização devem ser acessíveis a todas as pessoas, devendo estar, desde a etapa de planejamento, de acordo com as normas de acessibilidade, mesmo que não seja isso que ocorra na realidade, como se pode observar no comentário do artigo anterior. Quanto ao tema, é importante mencionar o Projeto de Lei n. 4.767 de 2016, o qual ainda está votação, de autoria da Senadora Gleisi Hoffmann, que busca estabelecer normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência, e que em seu Capítulo II objetiva estabelecer normas relativas aos elementos da urbanização, como se segue: CAPÍTULO II DOS ELEMENTOS DA URBANIZAÇÃO Art. 3º O planejamento e a urbanização das vias públicas, dos parques e dos demais espaços de uso público deverão ser concebidos e executados de forma a torná-los acessíveis para as pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida. Art. 4º As vias públicas, os parques e os demais espaços de uso público existentes, assim como as respectivas instalações de serviços e mobiliários urbanos deverão ser adaptados, obedecendo-se ordem de prioridade que vise à maior eficiência das modificações, no sentido de promover mais ampla acessibilidade às pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida. Art. 5º O projeto e o traçado dos elementos de urbanização públicos e privados de uso comunitário, nestes compreendidos os itinerários e as passagens de pedestres, os percursos de entrada e de saída de veículos, as escadas e rampas, deverão observar os parâmetros estabelecidos pelas normas técnicas de acessibilidade da NBR 9050 da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT. Art. 6º Os banheiros de uso público existentes ou a construir em parques, praças, jardins e espaços livres públicos deverão ser acessíveis e dispor, pelo menos, de um sanitário e um lavatório que atendam às especificações da NBR 9050 da ABNT. Art. 7º Em todas as áreas de estacionamento de veículos, localizadas em vias ou em espaços públicos, deverão ser reservadas vagas próximas dos acessos de circulação de pedestres, devidamente sinalizadas, para veículos que transportem pessoas portadoras de deficiência com dificuldades de locomoção. Parágrafo único. As vagas a que se refere o caput deste artigo deverão ser em número equivalente a dois por cento do total, garantida, no mínimo, uma vaga, devidamente sinalizada e com as especificações técnicas de desenho e traçado de acordo com as normas técnicas vigentes. VIII – mobiliário urbano: conjunto de objetos existentes nas vias e nos espaços públicos, superpostos ou adicionados aos elementos de urbanização ou de edificação, de forma que sua modificação ou seu traslado não provoque alterações substanciais nesses elementos, tais como semáforos, postes de sinalização e similares, terminais e pontos de acesso coletivo às telecomunicações, fontes de água, lixeiras, toldos, marquises, bancos, quiosques e quaisquer outros de natureza análoga; Conforme exposto no inciso, mobiliário urbano são móveis implantados em espaços públicos, disponíveis para ser utilizados pela população. Não havendo um consenso do que especificamente seja o mobiliário urbano, cada Município tem sua própria legislação sobre o tópico. São exemplos de mobiliários urbanos passíveis de citação: pontos de táxi, hidrantes, lixeiras, postes de iluminação, fontes ou bebedouros etc. Entretanto, o Estatuto da Pessoa com Deficiência, ao tratar do fato de que não podem causar alterações nos espaços públicos e nos elementos de urbanização, traz para junto deste conceito a ideia de acessibilidade, em que este mobiliário urbano tem de ser disposto de modo a não prejudicar a livre circulação de qualquer pessoa, incluindo aquelas com deficiência ou com mobilidade reduzida. IX – pessoa com mobilidade reduzida: aquela que tenha, por qualquer motivo, dificuldade de movimentação, permanente ou temporária, gerando redução efetiva da mobilidade, da flexibilidade, da coordenação motora ou da percepção, incluindo idoso, gestante, lactante, pessoa com criança de colo e obeso; Primeiramente, tem-se que pessoa com mobilidade reduzida não é o mesmo que pessoa com deficiência física, esta tem seu conceito determinado no art. 2º do presente dispositivo normativo, enquanto a pessoa com mobilidade reduzida não se enquadra neste conceito. Entretanto, ainda apresenta dificuldade de se movimentar, de forma permanente ou temporária, e como muito bem traz o EPD, enquadram-se neste grupo as pessoas idosas, gestantes, lactantes, pessoas com crianças de colo e obesos.O conceito de mobilidade, em si, ainda é recente no Brasil, tendo sido inicialmente definido pelo Ministério das Cidades, em 2006, como um atributo relacionado aos deslocamentos realizados por indivíduos em suas atividades (MACHADO, Mariza Helena; LIMA, Josiane Palma. Avaliação da acessibilidade pela perspectiva da pessoa com mobilidade reduzida. Revista Tecnologia e Sociedade, v. 13, n. 29, 2017, p. 3), sendo por meio da acessibilidade que se busca a efetivação da mobilidade para todas as pessoas, mesmo aquelas com deficiência física ou com mobilidade reduzida, assegurando, deste modo, o direito de ir e vir. X – residências inclusivas: unidades de oferta do Serviço de Acolhimento do Sistema Único de Assistência Social (Suas) localizadas em áreas residenciais da comunidade, com estruturas adequadas, que possam contar com apoio psicossocial para o atendimento das necessidades da pessoa acolhida, destinadas a jovens e adultos com deficiência, em situação de dependência, que não dispõem de condições de autossustentabilidade e com vínculos familiares fragilizados ou rompidos; A ideia das residências inclusivas surgiu por meio da Resolução n. 109/2009 do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), trazendo a previsão do atendimento de jovens e adultos com deficiência em residência inclusiva, sendo uma das metas previstas no Plano Nacional de Direitos da Pessoa com Deficiência – Plano Viver sem Limites – Eixo Inclusão, lançado pela Presidente da República Dilma Rousseff, em novembro de 2011, por meio do Decreto n. 7.612. As residências inclusivas têm como objetivo acolher jovens e adultos com deficiência que foram abandonados por suas famílias ou que possuem vínculos familiares rompidos ou fragilizados, e que não têm condições de autossustentabilidade, buscando fornecer apoio para que essas pessoas potencializem suas capacidades, inserindo-as na sociedade, proporcionando-lhes desenvolvimento humano e social. Deste modo, as residências inclusivas devem contar com equipe multiprofissional, composta por psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e cuidadores, com metodologia adequada para prestar um atendimento personalizado e qualificado, buscando construir uma autonomia progressiva, fortalecendo vínculos comunitários e participação social. XI – moradia para a vida independente da pessoa com deficiência: moradia com estruturas adequadas capazes de proporcionar serviços de apoio coletivos e individualizados que respeitem e ampliem o grau de autonomia de jovens e adultos com deficiência; A moradia para a vida independente segue os princípios da residência inclusiva prevista no inciso anterior, buscando desenvolver as capacidades da pessoa com deficiência, além de fortalecer os vínculos comunitários e a participação social desta. Entretanto, este tipo de moradia vai além da residência inclusiva, sendo destinado para pessoas que possuem uma maior autonomia na realização das tarefas diárias, mas que ainda necessitam de um local acessível e com apoio, de acordo com suas restrições e necessidades. XII – atendente pessoal: pessoa, membro ou não da família, que, com ou sem remuneração, assiste ou presta cuidados básicos e essenciais à pessoa com deficiência no exercício de suas atividades diárias, excluídas as técnicas ou os procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas; O acompanhante é aquele que está com a pessoa com deficiência, enquanto o atendente pessoal é aquele que presta auxílio à pessoa com deficiência, temporária ou permanentemente, de forma remunerada ou não, com a restrição de que não pode ser pessoa que exerça profissão regulamentada. Entretanto, o Projeto de Lei n. 1.152/2015, de autoria da deputada Mara Gabrilli, busca regulamentar essa atividade como uma profissão. Segundo o texto deste Projeto, o profissional terá as funções de realizar tarefas de organização do ambiente de trabalho; auxiliar as pessoas com deficiência em suas necessidades, buscando o seu bem-estar e a sua inclusão na comunidade; e atuar como elo entre a pessoa com deficiência e a família, sem em momento algum ter a capacidade de tomar decisões pela pessoa com deficiência ou praticar os atos da vida civil no lugar desta. Conforme o Projeto de Lei, os requisitos para que a pessoa possa se habilitar como atendente pessoal serão: ensino fundamental completo e participação em cursos de formação promovidos por instituições de ensino profissional, assistenciais ou pelo governo. XIII – profissional de apoio escolar: pessoa que exerce atividades de alimentação, higiene e locomoção do estudante com deficiência e atua em todas as atividades escolares nas quais se fizer necessária, em todos os níveis e modalidades de ensino, em instituições públicas e privadas, excluídas as técnicas ou os procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas; De acordo com determinação, em mesmo sentido, da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, foi criada a Nota Técnica 19/2010 – MEC/SEESP/GAB, a qual assegura a disponibilização de um Profissional de Apoio Escolar, toda vez que o estudante com deficiência não demonstrar autonomia em higiene, alimentação, locomoção e comunicação. A necessidade do auxiliar deve ser avaliada pela equipe escolar, juntamente com o núcleo familiar da criança ou do adolescente com deficiência, no sentido de não somente auxiliar o estudante com deficiência, mas também promover sua autonomia. O profissional de apoio escolar deve acompanhar o estudante com deficiência em todos os locais dentro do ambiente escolar, não podendo substituir professor ou qualquer outro profissional da escola, também devendo auxiliar o estudante no cumprimento de atividades em sala de aula, de acordo com as orientações do professor. Portanto, deve acompanhar o estudante com deficiência nas idas ao banheiro, no intervalo, ajudando-o com as refeições, assim como auxiliá-lo no desenvolvimento das atividades em sala de aula. XIV – acompanhante: aquele que acompanha a pessoa com deficiência, podendo ou não desempenhar as funções de atendente pessoal. Como dito anteriormente, no inciso XII, acompanhante não é o mesmo que atendente pessoal, mas pode desempenhar as funções deste. Em sentido geral, acompanhante é quem acompanha, auxilia outrem. Em razão de estar sempre com a pessoa com deficiência, o acompanhante acaba por ter certos benefícios, como desconto em passagens de avião para acompanhar a pessoa com deficiência, por exemplo. Em alguns municípios, o acompanhante também tem direito ao pagamento de meia passagem nos transportes públicos. 1CARLETTO, Ana Claudia; CAMBIAGHI, Silvana. Desenho Universal – Um conceito para todos . Disponível em: <https://www.maragabrilli.com.br/wp- content/uploads/2016/01/universal_web-1.pdf>. Acesso em: 16 maio 2019. 2PIRES, Maria Eulália de Souza; TOMAZELLI, Darcio R. Barreiras arquitetônicas urbanísticas e nas edificações . Revista do TRT da 2ª Região, São Paulo, n. 10, 2012, p. 57. 33 Ibidem, p. 58 4LIMA, Francisco José de; SILVA, Fabiana Tavares dos Santos. Barreiras Atitudinais: Obstáculos à Pessoa com Deficiência na Escola. In: SOUZA, Olga Solange Herval (org.). Itinerários da inclusão escolar: múltiplos olhares, saberes e práticas . Canoas: Ed. ULBRA, 2008, p. 27-29. CAPÍTULO II DA IGUALDADE E DA NÃO DISCRIMINAÇÃO A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência trouxe à baila, nos arts. 4º a 8º do Estatuto, dois preceitos centrais: o direito à igualdade de oportunidades e a proibição de discriminação contra a pessoa com deficiência. Sua natureza jurídica incorporou um novo modelo social, alvidrado pelos Direitos Humanos, que é a reabilitação da própria sociedade como um todo, trazendo a necessidade de minorar as barreiras de exclusão e incluir a pessoa com deficiência na comunidade. Garante o Estatuto à pessoa com deficiência uma vida independente, com igualdade de direitos, no exercício de sua plena capacidade jurídica. Art. 4º Toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidadescom as demais pessoas e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação. Por muitos séculos, pessoas que nasceram ou adquiriram alguma limitação ao longo da vida lutaram por reconhecimento e foram ignoradas, sofrendo toda espécie de preconceito e discriminação. Segundo a Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência (Decreto n. 3.956, de 8 de outubro de 2001), o termo deficiência significa uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causada ou agravada pelo ambiente econômico e social. Um dado alarmante, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com ênfase no Censo de 2010, é que 23,9% da população brasileira apresenta alguma forma de deficiência: visual, auditiva, motora e mental ou intelectual. Diante deste fato, e buscando amenizar as desigualdades, o Estatuto da Pessoa com Deficiência foi criado para assegurar e promover, em condições de igualdade, o pleno exercício dos direitos e das liberdades fundamentais às pessoas com deficiência, proibindo qualquer tipo de discriminação. Dessa forma, a promoção da igualdade de oportunidades e a proibição de discriminação das pessoas com deficiência só foi possível a partir da consolidação do modelo social de deficiência, substituindo o antigo e injusto modelo médico, na medida em que busca promover o acesso da pessoa com deficiência a todos os direitos fundamentais em igualdade de condições com as demais pessoas. A dignidade da pessoa humana constitui valor universal e as pessoas, mesmo com diferenças físicas, intelectuais ou psicológicas, são detentoras de igual dignidade, tendo direito à igualdade de tratamento e oportunidade, sem discriminação. § 1º Considera-se discriminação em razão da deficiência toda forma de distinção, restrição ou exclusão, por ação ou omissão, que tenha o propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais de pessoa com deficiência, incluindo a recusa de adaptações razoáveis e de fornecimento de tecnologias assistivas. Etimologicamente, a palavra discriminação está associada à ideia de fazer distinção com base em etnia, gênero, raça, orientação sexual, condição social, religião ou em razão de deficiência. De acordo com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009): “discriminação por motivo de deficiência significa qualquer diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência, com o propósito ou efeito de impedir ou impossibilitar o reconhecimento, o desfrute ou o exercício, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais nos âmbitos político, econômico, social, cultural, civil ou qualquer outro. Abrange todas as formas de discriminação, inclusive a recusa de adaptação razoável”. No Brasil, o princípio da proibição da discriminação está esculpido no art. 3º, IV, da Constituição Federal de 1988: “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: [...] inciso IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, cor, sexo, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. O Estatuto da Pessoa com Deficiência não preconiza discriminação contra pessoa com deficiência, mas em razão da deficiência. A discriminação em razão da deficiência significa conferir à outra pessoa um tratamento desigual, com base na deficiência, cujo efeito é a criação de uma situação de inferioridade e de exclusão da pessoa com deficiência, baseada na supressão e até na diminuição de direitos e liberdades fundamentais. Por sua vez, a recusa de adaptações razoáveis e de fornecimento de tecnologias assistivas, a fim de eliminar ou reduzir barreiras estruturais existentes na sociedade, também constitui discriminação. § 2º A pessoa com deficiência não está obrigada à fruição de benefícios decorrentes de ação afirmativa. As ações afirmativas podem ser definidas como políticas estatais e privadas que utilizam mecanismos de inclusão da pessoa com deficiência na sociedade, cujo objetivo principal é a materialização de um objetivo constitucional universalmente reconhecido, como a efetiva igualdade de oportunidades, a que todos têm direito. Dedicam-se a corrigir ou mitigar os efeitos presentes da discriminação praticada no passado, almejando concretizar o ideal de efetiva igualdade e acesso a bens fundamentais, para o fim de zelar pelos desiguais na medida de suas desigualdades. Positivou, assim, o legislador a célebre frase de Aristóteles: “devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade”.⁵ Apesar de os indivíduos serem iguais e, portanto, devam ser tratados de forma igualitária, também apresentam desigualdades, que demandam atendimento diferenciado para que seja possível o pleno uso dos seus direitos. Importante destacar que não constitui discriminação as ações adotadas para promover a integração social ou o desenvolvimento pessoal das pessoas com deficiência, desde que a diferenciação ou preferência não limite em si mesma o direito à igualdade dessas pessoas e que elas não sejam obrigadas a aceitar tal diferenciação ou preferência. Em que pese todas as condições favoráveis criadas pelas ações afirmativas, a fim de promover os direitos das pessoas portadoras de deficiência, a Lei Brasileira de Inclusão faculta às pessoas com deficiência a decisão de fruir ou não dos benefícios concedidos. Assim, a pessoa com deficiência não está obrigada à fruição de benefícios decorrentes de ação afirmativa. Art. 5º A pessoa com deficiência será protegida de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, tortura, crueldade, opressão e tratamento desumano ou degradante. Todas as pessoas devem receber proteção, em especial as pessoas com deficiência, contra atos de discriminação, exploração, violência, tortura, tratamento desumano ou degradante. Fazem-se necessárias medidas imediatas e apropriadas para promover, na sociedade, o respeito pelos direitos e pela dignidade das pessoas com deficiência, cabendo ao Estado a criação de mecanismos que reprimam as atividades desumanas e degradantes. Ações educativas que tragam condições mais humanas à pessoa com deficiência são necessárias para coibir qualquer tipo de discriminação. Parágrafo único. Para os fins da proteção mencionada no caput deste artigo, são considerados especialmente vulneráveis a criança, o adolescente, a mulher e o idoso, com deficiência. Ao se referir à criança, ao adolescente, à mulher e ao idoso, a Lei Brasileira de Inclusão incluiu pessoas em situação de vulnerabilidade. Esta situação é sensivelmente agravada quando estas pessoas, além da condição pessoal de hipossuficiência, forem também pessoas com deficiência, surgindo, dessa maneira, um duplo grau de vulnerabilidade. A dupla vulnerabilidade, reconhecida em lei, deve apoiar novas estatísticas consolidadas no Brasil que ajudem no diálogo entre as Políticas Públicas voltadas a mulheres, crianças, idosas e meninas com deficiência, o Estatuto da Pessoa com Deficiência, o Estatuto do Idoso (Lei n. 10.741, de 1º de outubro de 2003) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990). Para a Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, mulheres e meninas com deficiência estão expostas a maiores riscos de sofrer violência, lesões, abusos e maus tratos. A condição de vida da pessoa com deficiência é intensificada em razão do preconceito de gênero e da discriminação, de maneira a impor obstáculos ao aprendizado, à profissionalização e a outros aspectos da vida social e política. Art. 6º A deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive para: A plena capacidade legal da pessoa com deficiência, colocando todas como civilmente capazes para os atos da vida civil, é outra garantia fundamentalalbergada pela Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência e disposta na Lei Brasileira de Inclusão das Pessoas com Deficiência. Deveras importante é destacar que a pessoa com deficiência, para o ordenamento jurídico, deixou a situação de invalidez e exclusão e “alcançou a posição de sujeito de direitos, apto não apenas à titularidade, mas também ao exercício desses mesmos direitos em igualdade de condições com as demais pessoas”. O art. 6º traz um rol de situações relacionadas ao direito de decisão da pessoa com deficiência, tais como casar-se, exercer direitos sexuais e reprodutivos; decidir pelo número de filhos e ter acesso a informações adequadas sobre reprodução e planejamento familiar; conservar sua fertilidade, sendo vedada a esterilização compulsória; exercer o direito à família e à convivência familiar e comunitária; e exercer o direito à guarda, à tutela, à curatela e à adoção, como adotante ou adotado. I – casar-se e constituir união estável; A nova concepção de família, no Direito brasileiro, está calcada em uma perspectiva constitucional de igualdade, afeto e dignidade da pessoa humana. Dessa forma, a pessoa com deficiência tem preservada a sua capacidade de entendimento e pode livremente manifestar sua vontade. Sendo assim, não existe qualquer impedimento para contrair casamento ou constituir união estável. Até mesmo o curatelado, com ênfase neste Estatuto, tem preservada sua capacidade para contrair matrimônio, nos termos do art. 85, § 1º, da Lei de Inclusão da Pessoa com Deficiência. II – exercer direitos sexuais e reprodutivos; O Estado brasileiro preza pelo respeito e garantia aos Direitos Humanos, entre os quais se incluem os direitos sexuais e os direitos reprodutivos, para a formulação e implementação de políticas relacionadas ao planejamento familiar. Com fulcro no princípio da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, a Constituição Federal de 1988, no art. 226, § 7º, assenta que “o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas”. Nesse sentido, o direito se sobrepõe à presença da deficiência. Não se pode, inclusive, tratar em separado, de uma sexualidade própria e específica das pessoas com deficiência. Não existe esta distinção. Todos são igualmente detentores de direitos. Os direitos sexuais e os direitos reprodutivos da pessoa com deficiência são direitos humanos fundamentais para a qualidade de vida e exercício da cidadania e devem ser reconhecidos, respeitados e valorizados por todos. III – exercer o direito de decidir sobre o número de filhos e de ter acesso a informações adequadas sobre reprodução e planejamento familiar; O direito ao planejamento familiar, bem como o direito à reprodução das pessoas com deficiência está expressamente previsto na Constituição Federal de 1988, ao estabelecer que o planejamento familiar “é livre decisão do casal, cabendo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos, para o exercício desse direito”. O regramento constitucional assenta que a pessoa humana pode exercer sua autonomia no que tange ao planejamento familiar, sendo vedada ao Estado a adoção de meios de restrição do exercício de seu direito ao planejamento familiar, que abarca o direito fundamental de decidir ou não a paternidade ou maternidade, o número de filhos que o indivíduo pretende ter e quais métodos conceptivos ou contraceptivos adotará. Ressalta o inciso III em comento a livre decisão da pessoa com deficiência sobre a prole que pretende estabelecer, não se admitindo qualquer ingerência externa, pública ou privada, que restrinja este direito. O direito à procriação está profundamente conectado ao Princípio da Dignidade da Pessoa Humana e seus desdobramentos, exigindo a Lei Brasileira de Inclusão o pleno acesso às pessoas com deficiência a informações adequadas sobre reprodução e planejamento familiar. Em síntese, o respeito à autonomia da pessoa humana, para gerar ou não filhos, constitui norma de cunho obrigatório para todos os agentes públicos, devendo ser a base das políticas e programas estatais na esfera da saúde reprodutiva para acesso das pessoas com deficiência. IV – conservar sua fertilidade, sendo vedada a esterilização compulsória; As pessoas com deficiência, além de vulneráveis, foram alvo de injustiças e discriminação, fazendo parte de grupos fragilizados jurídica, política e culturalmente pela dificuldade de acesso a direitos e informações. É fato notório que muitas pessoas com deficiência foram esterilizadas contra sua vontade, de programas de esterilização compulsória instituídos pelo Estado. O Estatuto da Pessoa com Deficiência garante à pessoa com deficiência plena autonomia sobre seus direitos sexuais, reprodutivos e também para conservar sua fertilidade, vedando expressamente a esterilização compulsória, de modo a facilitar a efetivação do princípio do respeito pela vulnerabilidade humana. V – exercer o direito à família e à convivência familiar e comunitária; A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência estabelece, no art. 19: “Os Estados Partes reconhecem o igual direito de todas as pessoas com deficiência de viver na comunidade, com a mesma liberdade de escolha que as demais pessoas, e tomarão medidas efetivas e apropriadas para facilitar às pessoas com deficiência o pleno gozo desse direito e sua plena inclusão e participação na comunidade”. É função do Estado propiciar às pessoas com deficiência o pleno exercício dos direitos fundamentais, como o direito à família, à convivência familiar e comunitária, minorando as barreiras de exclusão e incluindo a pessoa com deficiência na comunidade, de maneira a garantir uma vida independente, com igualdade de direitos, no exercício de sua capacidade jurídica. VI – exercer o direito à guarda, à tutela, à curatela e à adoção, como adotante ou adotando, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. Partindo da premissa estabelecida no caput do art. 6º, da Lei n. 13.146/2015, a deficiência não afeta a capacidade civil da pessoa. Desse modo, pode a pessoa com deficiência normalmente exercer o direito à guarda, seja qual for a sua modalidade, bem como o direito à tutela, à curatela e à adoção, como adotante ou adotando, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. Por sua vez, cabe destacar que a pessoa com deficiência, quando adotante, está em igualdade de direitos com os demais candidatos à adoção. No entanto, na disputa pela guarda de uma criança com deficiência, sendo ela adotando, terá prioridade no trâmite do processo de adoção. Para tanto, preconiza o art. 47, § 9º, da Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990 (ECA), que os candidatos “terão prioridade de tramitação nos processos de adoção em que o adotando for criança ou adolescente com deficiência ou com doença crônica. (Incluído pela Lei n. 12.955, de 2014)”. Art. 7º É dever de todos comunicar à autoridade competente qualquer forma de ameaça ou de violação aos direitos da pessoa com deficiência. Estabelece a norma supramencionada a imposição de uma obrigação, um dever de agir, a todos que presenciarem ou tomarem conhecimento de qualquer forma de ameaça ou violação aos direitos da pessoa com deficiência. No entanto, questiona-se de que maneira se daria a responsabilização do agente que, mesmo sabendo da ameaça ou da violação, deixa de comunicar as autoridades competentes. De acordo com o disposto no art. 13, do Estatuto Penal, “o resultado de que depende a existência do crime somente é imputável a quem lhe deu causa”, considerando “causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido”. Também estabelece que “a omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado”. Segundo o mesmo Estatuto, o dever de agir incumbe a quem tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância; àquele que assumiu a responsabilidadede impedir o resultado; ou àquele que, com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado. Diante disso, entende-se que poderá ser considerada causa de um resultado criminoso a ação ou omissão de todas as pessoas que estão, por lei, obrigadas a comunicar à autoridade competente qualquer forma de ameaça ou violação aos direitos da pessoa com deficiência, já que a lei impôs um dever de cuidado, proteção e vigilância em relação a elas. Não parece que a todos se imponha o dever de comunicação, mas somente àqueles a quem, por disposição legal, se obrigue a esta comunicação. Para a garantia do cumprimento dessa norma, faz-se necessário que o Poder Público promova campanhas educativas a toda população e capacite os agentes públicos para instruir a sociedade quanto aos direitos das pessoas com deficiência, sobretudo, para estabelecer regras de conduta para que seja realizada a comunicação, às autoridades competentes, de formas de ameaça ou violação aos direitos das pessoas com deficiência. Parágrafo único. Se, no exercício de suas funções, os juízes e os tribunais tiverem conhecimento de fatos que caracterizem as violações previstas nesta Lei, devem remeter peças ao Ministério Público para as providências cabíveis. O art. 7º obriga a todos o dever de comunicar às autoridades competentes qualquer forma de ameaça ou violação aos direitos da pessoa com deficiência. Por sua vez, no parágrafo único consta a obrigação de juízes e tribunais, ao tomarem conhecimento de fatos que caracterizem as violações previstas na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, comunicarem oficialmente o fato ao Ministério Público para as providências cabíveis. Nada impede, também, que a Defensoria Pública seja comunicada, posto que, dentre suas funções institucionais, encontra-se a de promover ação civil pública e todas as demais espécies de ações, capazes de propiciar adequada tutela dos direitos difusos coletivos ou individuais, principalmente quando o resultado puder beneficiar grupos de pessoas hipossuficientes. Art. 8º É dever do Estado, da sociedade e da família assegurar à pessoa com deficiência, com prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à sexualidade, à paternidade e à maternidade, à alimentação, à habitação, à educação, à profissionalização, ao trabalho, à previdência social, à habilitação e à reabilitação, ao transporte, à acessibilidade, à cultura, ao desporto, ao turismo, ao lazer, à informação, à comunicação, aos avanços científicos e tecnológicos, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária, entre outros decorrentes da Constituição Federal, da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo e das leis e de outras normas que garantam seu bem-estar pessoal, social e econômico. O art. 8º da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência estabelece que é dever do Estado, da sociedade e da família assegurar à pessoa com deficiência, com prioridade, a efetivação de diversos direitos humanos fundamentais, que garantam seu bem-estar pessoal, social e econômico. O dispositivo consagrou o “princípio do melhor interesse das pessoas com deficiência”, igualmente tutelado em vários outros artigos da Lei de Inclusão, assegurando às pessoas com deficiência a efetivação de um rol numerus apertus de direitos, liberdades e garantias fundamentais. O princípio do melhor interesse da pessoa com deficiência, de base constitucional, surge como um consectário natural da Ordem Constitucional, permitindo à ratio legis propiciar, de forma taxativa, à pessoa com deficiência a proteção aos bens mais fundamentais, como a vida, saúde, trabalho, previdência, habitação, alimentação, acessibilidade, lazer, entre outros decorrentes da Constituição Federal, da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo e das leis e de outras normas que garantam seu bem-estar pessoal, social e econômico. Seção única – DO ATENDIMENTO PRIORITÁRIO Art. 9º A pessoa com deficiência tem direito a receber atendimento prioritário, sobretudo com a finalidade de: É dever constitucional da família, da sociedade e do Estado assegurar à pessoa com deficiência absoluta prioridade. Sendo assim, o conteúdo jurídico do princípio da igualdade simboliza garantir a todos os indivíduos tratamento igualitário na medida de suas desigualdades, ou seja, o Estado deve atuar ativamente na promoção de uma igualdade material ou isonomia substancial. A Magna Carta prevê o direito da assistência social para a pessoa com deficiência. Pelas amplas necessidades das pessoas com deficiências, em função de desgastes físicos e psíquicos, bem como pelo alto grau de vulnerabilidade, o ordenamento jurídico brasileiro desenvolveu sua proteção formatada nos moldes dos princípios que regem os direitos humanos, principalmente no que tange ao atendimento prioritário, atribuindo ao Estado (gestor da coisa pública) o dever de amparar e incluir as pessoas com deficiência e quaisquer outros meios legítimos capazes de garantir melhor acessibilidade e proteção. É o que se verifica no dispositivo em análise, que não se satisfaz com a mera igualdade formal, indo além, ao exigir uma igualdade material. Daí, inclusive, as chamadas ações afirmativas. É bom lembrar que o atendimento prioritário se estende ao acompanhante da pessoa com deficiência. A seguir, o legislador descreve rol exemplificativo de formas de atendimento prioritário à pessoa com deficiência. I – proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; A primazia dos interesses das pessoas com deficiência é uma obrigação do Poder Público, que deve adotar medidas que assegurem a sua proteção e socorro na forma mais ampla. A proteção tem um sentido preventivo e o socorro tem um caráter de assistência às necessidades urgentes, e o dispositivo legal destaca a amplitude com a expressão “em quaisquer circunstâncias”, ou seja, sem exceções. Assim, a pessoa com deficiência tem assegurada atenção integral em qualquer situação em todos os níveis de complexidade, garantindo-se acesso universal e igualitário. II – atendimento em todas as instituições e serviços de atendimento ao público; A Lei n. 10.048/2000, em seu art. 2º, já previa a prioridade no atendimento às pessoas com deficiência em repartições públicas e empresas concessionárias de serviços públicos, por meio de serviços individualizados que assegurem tratamento diferenciado e atendimento imediato às pessoas com deficiência. A Lei n. 13.146/2015 reforçou este atendimento prioritário e ainda ampliou para todas as instituições e para qualquer serviço de atendimento ao público, inclusive instituições privadas. Este direito também é garantido ao acompanhante da pessoa com deficiência. III – disponibilização de recursos, tanto humanos quanto tecnológicos, que garantam atendimento em igualdade de condições com as demais pessoas; O legislador assegurou a prioridade na disponibilização de recursos humanos e tecnológicos às pessoas com deficiência. Na área de recursos humanos, a disponibilização de recursos consiste em formação e qualificação nas diversas áreas de conhecimento, inclusive de nível superior, que atendam à demanda e às necessidades reais das pessoas com deficiência. Além disso, deve ser disponibilizado o desenvolvimento tecnológico em todas as áreas de conhecimento, assunto que será melhor abordado no art. 77. Este direito também é garantido ao acompanhante em igualdade de condições com as demais pessoas. IV – disponibilização de pontos de parada, estações e terminais acessíveis de transporte coletivo de passageiros e garantia de segurança no embarque e no desembarque; Algumas barreiras urbanas acabam levando pessoas com deficiência à exclusão social, limitando-as cada vez mais, negando o direito de exercer sua cidadania dentro de um contexto social e econômico. Assim, os pontos de parada devem estar preparados para receber as pessoas com deficiência (pisos táteis, regulares e antiderrapantes, plataforma elevatóriaetc.), sendo acessíveis e com prioridade. O dispositivo ainda prevê segurança no embarque e desembarque das pessoas com deficiência e seu acompanhante. V – acesso a informações e disponibilização de recursos de comunicação acessíveis; A pessoa com deficiência tem prioridade no acesso à comunicação, ou seja, a possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações disponíveis ao público. Os órgãos públicos, bem como empresas privadas, devem manter sites na internet que permitam o acesso da pessoa com deficiência, como maneira, inclusive, de eliminação de barreiras nas comunicações e na informação. Este dispositivo é principiológico e diz respeito ao atendimento prioritário e será melhor abordado no art. 63 desta Lei. VI – recebimento de restituição de imposto de renda; As pessoas com deficiência devem ser tratadas com absoluta prioridade quando se trata de recebimento de quaisquer créditos decorrentes do imposto de renda. Já havia previsão legal mais restrita na Lei n. 8.687/93 e, a partir deste Estatuto, se amplia o escopo da lei em garantir às pessoas com deficiência prioridade na restituição do imposto de renda. VII – tramitação processual e procedimentos judiciais e administrativos em que for parte ou interessada, em todos os atos e diligências. A proteção à pessoa com deficiência reflete status constitucional e legal, traduzindo-se a discriminação na tramitação como mecanismo necessário de proteção e garantia da isonomia material. Neste cenário, a tramitação processual prioritária para as pessoas com deficiência surge como instrumento de diminuição dos impactos causados pela grande demora dos processos judiciais no Brasil. O processo judicial deve ter duração razoável para que possa garantir tutela jurídica justa. Neste ponto, o processo não deve ser demorado demais para que atinja sua finalidade, que é a prestação jurisdicional eficaz. Isso porque as pessoas com deficiência sofrem maior risco na demora da obtenção da tutela jurisdicional. Prioridade na tramitação consolida o acesso à justiça, que será tratado no art. 79 desta Lei. § 1º Os direitos previstos neste artigo são extensivos ao acompanhante da pessoa com deficiência ou ao seu atendente pessoal, exceto quanto ao disposto nos incisos VI e VII deste artigo. Esta Lei define no art. 3º, XII e XIV, respectivamente, acompanhante da pessoa com deficiência e seu atendente pessoal. Neste dispositivo, o acompanhante e o atendente pessoal assumem os mesmos direitos prioritários das próprias pessoas com deficiência, exceto aqueles dos incisos VI e VII, que são personalíssimos da pessoa com deficiência. Todos os demais direitos deste artigo foram estendidos ao acompanhante e ao atendente pessoal. § 2º Nos serviços de emergência públicos e privados, a prioridade conferida por esta Lei é condicionada aos protocolos de atendimento médico. Não obstante a previsão de prioridade de socorro do inciso I deste artigo, esta prioridade nos serviços de emergência deve ser condicionada aos protocolos de atendimento médico. Isto porque nem sempre a condição de deficiente garantirá prioridade frente a outros casos mais graves do ponto de vista médico emergencial, fazendo com que a pessoa com deficiência tenha que esperar. O critério deve ser sempre a urgência no atendimento e não se a pessoa tem ou não deficiência. Somente quando há igualdade na urgência médica é que deve haver prioridade à pessoa com deficiência. 5Aristóteles, citado por BARBOSA, Rui. Oração aos moços. 18 ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 55. 6LEITE, Flávia Piva Almeida; RIBEIRO, Lauro Luiz Gomes; FILHO, Waldir Macieira da Costa. Comentários ao Estatuto da Pessoa com Deficiência . São Paulo: Saraiva, 2016. p. 81. DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS CAPÍTULO I DO DIREITO À VIDA Art. 10. Compete ao Poder Público garantir a dignidade da pessoa com deficiência ao longo de toda a vida. O presente artigo obriga a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios a garantir, por meio de políticas públicas, que a pessoa com deficiência seja tratada com dignidade, durante toda a sua vida. Reitera o princípio da igualdade entre os seres humanos, previsto no art. 5º, caput, da Constituição Federal, proíbe a discriminação feita a pessoas com ou sem deficiência e, ao atrelar este princípio da igualdade ao da dignidade da pessoa humana, reforça a efetivação e elevação da “dignidade humana” como princípio constitucional para garantir que toda e qualquer pessoa deva sempre ser tratada pelos representantes do povo e pelo próprio povo com a dignidade que lhe é inerente. Desta maneira, o Poder Legislativo, o Executivo e o Judiciário devem garantir à pessoa com deficiência, no âmbito de suas atuações, um tratamento igualitário que considera as diferenças em suas particularidades. É possível ao Poder Público tratar os desiguais na medida em que se desigualam, mas deve sempre considerar que as pessoas com deficiência também têm garantido o direito da autonomia da vontade, a possibilidade de fazer as próprias escolhas, a inclusão na sociedade, o respeito e a aceitação da deficiência como integrante da diversidade humana e igualdade de oportunidades. Garantir a dignidade da pessoa com deficiência, ao longo de sua vida, deve ser entendido como direito das pessoas e um dever do Poder Público para, realmente, efetivar medidas políticas, administrativas, jurídicas, legislativas e executivas que protejam o pleno e efetivo exercício da cidadania para a construção de uma sociedade mais inclusiva. Trata-se de um conceito em desenvolvimento, que deve ser revisado a todo instante, já que no seu íntimo abriga uma revolução, pois as pessoas com deficiência, durante muito tempo, foram mantidas à margem da sociedade. Eram tratadas com adjetivos pejorativos, como “retardados”, “débeis mentais”, “aleijados”, “loucos de todo os gêneros”, “excepcionais”, “mongoloides” e demais. Nesse sentido, os seus poucos direitos sequer eram respeitados, pois eram consideradas pessoas incapazes de exercê-los. Importante destacar que a presente lei, numa interpretação teleológica, reforça o direito de igualdade material, de não discriminação, em toda a sua extensão, e a deixa expressa também no Capítulo II, nos arts. 4º a 8º. A expressão “ao longo da vida” deve ser entendida como uma obrigação do Poder Público em assegurar, durante toda a existência da pessoa com deficiência, que os direitos inerentes à sua condição de pessoa humana sejam respeitados, ou seja, enquanto houver vida os seus direitos devem ser garantidos e cumpridos. Ao posicionar a dignidade humana dentro do capítulo que trata dos direitos fundamentais, reforça-se a concepção atual, embora com críticas, de que esses direitos decorrem da dignidade humana, ou seja, os direitos básicos do ser humano são inerentes à sua condição humana, que necessariamente deve ser digna. Reforça-se a concepção jusnaturalista, na qual esses direitos são prepositivos. Contudo, ao elencar na lei os demais direitos da pessoa com deficiência, reforça-se, também, a concepção positivista (são direitos os previstos nas normas), bem como o realismo jurídico (são direitos os conquistados pela humanidade). Inegável que, independente da concepção teórica, a lei garante os direitos fundamentais da pessoa humana considerando a dignidade que também é um conceito amplo, aberto e de difícil conceituação. Essa amplitude de conceitos permite afirmar que a pessoa com deficiência deve ter os seus direitos fundamentais garantidos durante toda a sua vida. Entendemos que a expressão “ao longo da vida” deve, também, ser entendida como toda forma de capacitação da pessoa com deficiência com a finalidade de garantir a ela a autonomia da sua vontade para que seja protagonista de sua própria vida. A pessoa com deficiência tem o direito de ser o autor principal da sua vida e, nesse contexto, o art. 27 desse Estatuto também garante o direito à educação, ao aprendizado “ao longo da vida” para que a pessoa comdeficiência alcance “o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem”. A inclusão, a não discriminação, a valorização da autonomia da vontade da pessoa com deficiência, a igualdade formal e material não devem ser analisadas em casos pontuais, isolados ou momentâneos, mas “ao longo da vida” não só da pessoa com deficiência, mas também da sociedade em que está inserida. Antes de ser deficiente, trata-se de uma pessoa, um ser humano. Parágrafo único. Em situações de risco, emergência ou estado de calamidade pública, a pessoa com deficiência será considerada vulnerável, devendo o Poder Público adotar medidas para sua proteção e segurança. A primazia dos interesses das pessoas com deficiência é uma obrigação do Poder Público, que deve adotar medidas que assegurem a sua proteção. Essa primazia legal decorre não só do fato de ser pessoa com deficiência, como previsto no art. 9º desta lei, mas também de situações excepcionais (risco, emergência ou estado de calamidade pública), que são situações de desigualdade. Nas situações previstas neste parágrafo, o tratamento se mostra desigual, ante a vulnerabilidade da pessoa com deficiência, que passa a exigir maiores cuidados e atenção. Trata-se de uma presunção absoluta. A vulnerabilidade aqui remete a outras legislações existentes em nosso ordenamento que, ao reconhecerem a desigualdade entre pessoas, destinam tratamentos jurídicos para igualar as forças, as condições e os direitos, tal como o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto do Idoso, o Estatuto da Criança e o Adolescente, o Código de Processo Civil, o Código Penal etc. As situações previstas nesse parágrafo permitem interpretações, pois são hipóteses exemplificativas. O legislador deixou em aberto a definição de risco e de emergência. A Lei n. 12.340, de 1º de dezembro de 2010, trata das questões relativas à calamidade pública. A intenção do legislador é de assegurar que a pessoa com deficiência, em situações especiais e que exigem cuidados, diante de sua vulnerabilidade, tenha primazia no atendimento, no tratamento e na garantia dos seus direitos. Art. 11. A pessoa com deficiência não poderá ser obrigada a se submeter a intervenção clínica ou cirúrgica, a tratamento ou a institucionalização forçada. A regra é ouvir a pessoa com deficiência antes de submetê-la a qualquer intervenção clínica, cirurgia, tratamento e institucionalização. A vontade e a autonomia da pessoa com deficiência devem ser respeitadas e valorizadas. Embora seja uma pessoa com deficiência, ela mantém preservada a sua capacidade civil por força do art. 6º desta lei. Mudou-se o paradigma da capacidade civil das pessoas com deficiência prevista no Código Civil, pois, outrora incapaz, doravante capaz. A pessoa com deficiência é sujeito de direitos e prevalece a sua vontade e a sua autonomia. Parágrafo único. O consentimento da pessoa com deficiência em situação de curatela poderá ser suprido, na forma da lei. A autonomia da vontade da pessoa com deficiência é um valor a ser observado e respeitado. Não mais prevalece a vontade do curador. Ademais, a curatela passou a alcançar apenas os atos de “natureza patrimonial e negocial”, não podendo, portanto, alcançar o direito à “saúde”, além de ser uma “medida extraordinária” e de “menor tempo possível”, conforme os parágrafos contidos nos arts. 84 e 85 desta lei. O § 2º do art. 84 desta lei, para evitar a interdição indiscriminada, instituiu a “tomada de decisão apoiada”, na qual a pessoa com deficiência poderá tomar uma decisão ajudada por pessoa da sua confiança, mediante um processo judicial. Prevê ainda, no § 3º do art. 85, que em situação de institucionalização, o curador deve ser preferencialmente escolhido entre pessoas com vínculo familiar, afetivo ou comunitário com o curatelado. Art. 12. O consentimento prévio, livre e esclarecido da pessoa com deficiência é indispensável para a realização de tratamento, procedimento, hospitalização e pesquisa científica. O artigo reforça a autonomia da vontade da pessoa com deficiência e a plenitude da sua capacidade civil. Qualquer tratamento, procedimento, hospitalização e pesquisa científica somente podem ocorrer com o seu prévio consentimento, que também deve ser livre e depois de prestados todos os esclarecimentos e informações. O consentimento deve ser isento de erro, dolo, fraude, lesão ou coação. Sem um consentimento isento de vício, qualquer “tratamento” deve ser considerado ilegal. A pessoa com deficiência deve ser amplamente esclarecida, através de qualquer meio que lhe garanta a acessibilidade de todas as informações necessárias ao seu julgamento e tomada de decisão. O esclarecimento pode se dar inclusive por meios tecnológicos. O importante é que ele seja efetivo e em condições de permitir à pessoa com deficiência a sua manifestação de vontade. Importante avanço prevê este artigo no que se refere à possibilidade de a pessoa com deficiência submeter-se a pesquisa científica. Sabemos que a ciência necessita testar as suas pesquisas antes de disponibilizá-las para a sociedade. Contudo, quando estas envolvem o ser humano, necessário se faz, dentre outras normas e resoluções, observar a Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde. Cabe à pessoa com deficiência discernir e consentir com a sua submissão aos tratamentos experimentais/científicos. Ela detém o poder de escolha, que deve ser pautado pelos direcionamentos contidos no § 2º deste artigo. § 1º Em caso de pessoa com deficiência em situação de curatela, deve ser assegurada sua participação, no maior grau possível, para a obtenção de consentimento. Em consonância com o caput, esse parágrafo vem reforçar a necessidade de obter o consentimento da pessoa com deficiência mesmo quando ela está sujeita a interdição. Reforça, ainda, o caráter excepcional e temporário da interdição e sua limitação às questões patrimoniais e negociais. Ressalta, também, a autonomia da vontade e da capacidade civil da pessoa com deficiência, ainda que interditada. Há uma mudança significativa da curatela. Antes desta lei, prevalecia apenas a vontade do curador, doravante, é necessário conjugar a vontade do curador e do curatelado, e tendo a pessoa com deficiência possibilidade de fazer um julgamento, uma escolha, uma análise das vantagens e desvantagens, a sua vontade deve prevalecer ainda que divirja da vontade do curador. § 2º A pesquisa científica envolvendo pessoa com deficiência em situação de tutela ou de curatela deve ser realizada, em caráter excepcional, apenas quando houver indícios de benefício direto para sua saúde ou para a saúde de outras pessoas com deficiência e desde que não haja outra opção de pesquisa de eficácia comparável com participantes não tutelados ou curatelados. Essa previsão legal tem como finalidade impedir a escolha “utilitarista” da pessoa com deficiência para ser submetida às experiências científicas. A pessoa com deficiência é, antes de qualquer coisa, um ser humano, logo, não se admite que a pessoa com deficiência seja “cobaia” para testar o resultado da pesquisa, simplesmente por ser deficiente. Este parágrafo impede, assim, uma visão utilitarista do ser humano, na qual quem não tem deficiência seria supostamente mais “útil”, portanto, devendo ser submetidas às pesquisas experimentais as pessoas “menos úteis”, as deficientes. A norma não impede a pessoa com deficiência de submeter-se à pesquisa, mas estabelece critérios legais como: ser a pesquisa excepcional, haver indícios de benefícios para a saúde da própria pessoa ou outras deficientes e que não exista outra opção de pesquisa com pessoas não tuteladas ou curateladas. Como a lei prevê a autonomia da vontade da pessoa com deficiência, estando sob o manto da tutela ou curatela, ela também deve ser ouvida, mas como essa manifestação de vontade pode não ser possível em decorrência da severa limitação do indivíduo, em se tratando de pesquisa científica, a leiimpõe esses critérios para a garantia da pessoa com deficiência. Ela não será submetida à pesquisa, mesmo com a concordância do seu tutor ou curador, caso não exista prova de benefício direto para a sua saúde ou de outros deficientes e que haja pesquisa eficaz com participantes não sujeitos a tutela ou curatela. A norma visa garantir que as pesquisas sejam realizadas com seres humanos e que o critério de escolha não seja o de menos valia da pessoa com deficiência. Art. 13. A pessoa com deficiência somente será atendida sem seu consentimento prévio, livre e esclarecido em casos de risco de morte e de emergência em saúde, resguardado seu superior interesse e adotadas as salvaguardas legais cabíveis. A manifestação de vontade da pessoa com deficiência não será validada, escutada ou atendida em situações excepcionais como risco de morte e emergência. Esse dispositivo legal está em consonância com o estado de necessidade previsto no art. 24 do Código Penal. O profissional da saúde tem o dever de cuidar e salvar a vida da pessoa humana. Desta maneira, o artigo visa garantir a autonomia da vontade da pessoa com deficiência e, ao mesmo tempo, a sua vida e integridade, pois, em situações nas quais o seu consentimento não possa ser obtido, havendo o risco de morte e de emergência em saúde, prevalecem os deveres de cuidar e salvar a vida da pessoa com deficiência. Esse dispositivo legal reforça a necessidade de que, no tratamento da pessoa com deficiência, deve-se obter, sempre que possível, o seu consentimento, pois ela é dotada de capacidade civil. Não se pode desprezar o interesse, a vontade e o consentimento da pessoa apenas por ela ser deficiente. Todo e qualquer profissional da saúde, ao atender uma pessoa com deficiência, deve se cercar dos cuidados e meios necessários para obter o seu consentimento, pois a sua deficiência, por si só, não a torna “incapaz para os atos da vida civil”. A pessoa com deficiência deve ser tratada com igualdade e liberdade para garantir a sua dignidade, uma vez que o princípio da dignidade humana, por ser um fundamento da República Federativa do Brasil (art. 1º, III, da Constituição Federal) orienta, constrói e interpreta todo o nosso sistema jurídico. CAPÍTULO II DO DIREITO À HABILITAÇÃO E À REABILITAÇÃO Art. 14. O processo de habilitação e de reabilitação é um direito da pessoa com deficiência. Ao determinar a habilitação e reabilitação como um direito, o Estatuto demonstra ampla dedicação em efetivar a dignidade da pessoa humana mediante a promoção de bem-estar e autonomia à pessoa com deficiência. O art. 14 reforça a garantia constitucional insculpida no art. 203, IV da Carta Magna, o qual consagra os processos de habilitação e reabilitação das pessoas com deficiência como um dos objetivos a serem concretizados no âmbito da Assistência Social. Como o próprio nome já indica, o processo de habilitação destina-se aos sujeitos com deficiência congênita, ao passo que a reabilitação destina-se àqueles cuja deficiência é superveniente, adquirida ao longo da vida em virtude de algum evento específico. Parágrafo único. O processo de habilitação e de reabilitação tem por objetivo o desenvolvimento de potencialidades, talentos, habilidades e aptidões físicas, cognitivas, sensoriais, psicossociais, atitudinais, profissionais e artísticas que contribuam para a conquista da autonomia da pessoa com deficiência e de sua participação social em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas. O parágrafo único do art. 14 explana, em linhas gerais, que a habilitação e a reabilitação constituem medidas que visam auxiliar o indivíduo com deficiência a promover o autoconhecimento sobre as limitações e dificuldades que o atingem e, diante de tais informações, aprender a trabalhar suas restrições de modo a minimizá-las, bem como conhecer e aprimorar novas alternativas e potencialidades até então não despertas ou praticadas, tendo em vista conferir saúde, bem-estar, dignidade e autonomia, facilitando assim o convívio da pessoa com deficiência em sociedade. Ressalta-se que o art. 89 da Lei federal n. 8.213/91 (que constitui a regulamentação infraconstitucional do art. 203, IV, da Constituição Federal) trata dos processos de habilitação e reabilitação exclusivamente voltados ao âmbito profissional, contemplando basicamente o fornecimento de próteses, órteses e transportes adaptados. Já no âmbito do Estatuto, a temática tem abrangência muito mais ampla e denota comprometimento do Poder Público com a habilitação e reabilitação não apenas de ordem física e profissional, mas também de ordem mental, psicológica e social, de modo a facilitar a plena inclusão e participação da pessoa com deficiência em todos os aspectos da vida. Art. 15. O processo mencionado no art. 14 desta Lei baseia-se em avaliação multidisciplinar das necessidades, habilidades e potencialidades de cada pessoa, observadas as seguintes diretrizes: O art. 15, em complemento ao parágrafo único do art. 14, explicita as diretrizes que norteiam os processos de habilitação e reabilitação. Seu caput reforça o ideário de reconhecimento das deficiências, aferição das necessidades delas decorrentes, desenvolvimento de meios para superação das limitações, bem como de novas habilidades e potencialidades. Fixa, ainda, que tal tarefa será realizada por meio de avaliação multidisciplinar, a qual já é prevista no art. 137, § 1º, do Decreto n. 3.048/99, envolvendo especializações em medicina, serviço social, psicologia, sociologia, fisioterapia, terapia ocupacional e outras afins. I – diagnóstico e intervenção precoces; O inciso I trata principalmente da atuação hospitalar ofertada por meio do Sistema Único de Saúde (SUS – Lei federal n. 8.080/90). Uma das diretrizes a serem observadas no processo de habilitação e reabilitação é o diagnóstico individual das espécies de deficiência, bem como a intervenção médica precoce, visando prevenir ou reduzir a velocidade das perdas funcionais decorrentes da deficiência, assim como melhorar, recuperar ou compensar a função debilitada. Como medidas concretizadoras desta diretriz, pode-se elencar a realização de exames pré-natais, contemplando exames de imagens para acompanhar o desenvolvimento do feto, exames médicos obrigatórios a serem realizados nos neonatos, tais como os populares testes do pezinho (art. 10, III da Lei n. 8.069/90), da orelhinha (Lei n. 12.303/2010), da linguinha (Lei n. 13.002/2014), entre outros. Inconteste que o diagnóstico precoce oportuniza à equipe médica eleger os tratamentos adequados à pessoa com deficiência, bem como auxilia a própria família a promover adaptações do espaço físico e a informar-se sobre quais cuidados especiais serão necessários no dia a dia. II – adoção de medidas para compensar perda ou limitação funcional, buscando o desenvolvimento de aptidões; O inciso II revela a intenção do legislador em proporcionar ao sujeito com deficiência oportunidades para descobrir e desenvolver novas habilidades e alternativas com o fito de compensar as perdas e limitações funcionais vivenciadas em razão da deficiência, sempre objetivando garantir autonomia, bem-estar e facilidade de inserção e convívio em sociedade. Como exemplo de excelência menciona-se a oferta pelo SUS de Terapia Ocupacional, realizada por profissionais capacitados para tanto. A referida terapia visa prevenir, tratar e reabilitar pessoas com deficiência, ampliando seu campo de ação, seu desempenho e autonomia. Outro exemplo padrão é a realização de tratamentos médicos como órteses, próteses e medicamentos. Ainda, de forma indireta, mas também como medida para ampliar horizontes e ofertar novas capacitações e possibilidades, cita-se a garantia de acesso à educação por diversas linguagens (Lei n. 10.436/2002), vagas especiais para ingresso nos ensinos técnicos, médios e superiores (Lei n. 13.409/2006), facilidades tributárias, sem prejuízo de outras medidas que auxiliem a pessoa com deficiência a descobrir e desenvolver habilidades e talentos, ampliando assim seushorizontes e o leque de oportunidades para que ela se insira em sociedade e tenha autonomia. III – atuação permanente, integrada e articulada de políticas públicas que possibilitem a plena participação social da pessoa com deficiência; A concretização dos processos de habilitação e reabilitação depende da implementação de políticas públicas nas mais diversas áreas. O processo de articulação e coordenação de políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência é de incumbência da Secretaria Especial dos Direitos das Pessoas com Deficiência, órgão da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Como exemplo de políticas públicas integradas e articuladas cita-se o “Plano Viver Sem Limites – Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência”, instituído pelo Decreto n. 7.612/2011, o qual comporta atividades integradas em quatro eixos principais: saúde, educação, inclusão social e acessibilidade, instituindo assim uma vasta gama de políticas em prol das pessoas com deficiência. IV – oferta de rede de serviços articulados, com atuação intersetorial, nos diferentes níveis de complexidade, para atender às necessidades específicas da pessoa com deficiência; O inciso IV reforça a atuação coordenada e conjunta de vários setores públicos no sentido de atender às necessidades subjetivas dos indivíduos com deficiência. Nesse sentido, é importante mencionar a atuação afirmativa do Cadastro Nacional de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Cadastro-Inclusão), instituído pelo art. 92 deste Estatuto, com o objetivo de levantar e identificar, de forma georreferenciada, as pessoas com deficiência e as barreiras que as impedem de exercer seus direitos e de conviver plenamente em sociedade. A intenção é que, com base nas informações levantadas, seja possível determinar a criação/adaptação de serviços públicos com o fito de promover maior acessibilidade e participação ativa e autônoma dos indivíduos com deficiência. Ainda, no tocante à atuação intersetorial, é imprescindível mencionar a existência do Comitê do Cadastro Nacional de Inclusão da Pessoa com Deficiência criado pelo Decreto n. 8.954/2017, que busca, dentro de seus objetivos, auxiliar na sugestão de políticas para potencializar a inclusão das pessoas com deficiência. Interessante ressaltar a múltipla composição de tal Comitê: Secretaria Especial dos Direitos das Pessoas com Deficiência, Ministérios da Justiça e Cidadania, Fazenda, Transportes, Portos e Aviação Civil, Educação, Desenvolvimento Social e Agrário, Saúde, Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, Cidades, bem como o IBGE, INSS e Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência – CONADE. V – prestação de serviços próximo ao domicílio da pessoa com deficiência, inclusive na zona rural, respeitadas a organização das Redes de Atenção à Saúde (RAS) nos territórios locais e as normas do Sistema Único de Saúde (SUS). O presente inciso versa sobre a facilitação do acesso da pessoa com deficiência à assistência médica. O SUS tem como objetivo principal dar acesso universal e atenção integral à toda a população brasileira na área da saúde. No âmbito das pessoas com deficiência, conforme o Plano Viver Sem Limites (tratado no comentário do inciso III deste artigo), o SUS apresenta programas específicos, como: a) CER – Centro Especializado de Reabilitação, que consiste em centros médicos especializados; b) oficinas ortopédicas com fornecimento de próteses e órteses; c) exames neonatais; e d) tratamento dentário. Com o fito de otimizar e potencializar a atuação do SUS na oferta de tratamento médico, o Estado brasileiro conta com as Redes de Atenção à Saúde (RAS) que, segundo a Portaria nº 4.279/2010 do Ministério da Saúde, consistem em “arranjos organizativos de ações e serviços de saúde, de diferentes densidades tecnológicas que integradas por meio de sistemas de apoio técnico, logístico e de gestão, buscam garantir a integralidade do cuidado”. Dessa forma, as RAS constituem mecanismo de atuação do SUS, que implica, na fixação de diversos postos de atendimento nas mais variadas localidades, buscando efetivar com maior eficiência os objetivos do Sistema Único de Saúde. Insta ressaltar, ainda, que no âmbito das RAS tem-se também tratativa específica voltada às pessoas com deficiência, conforme determina a Portaria nº 793/2012 do Ministério da Saúde. Art. 16. Nos programas e serviços de habilitação e de reabilitação para a pessoa com deficiência, são garantidos: Este artigo fixa quais são as garantias que o Estado oferta às pessoas com deficiência no curso dos programas e serviços de habilitação e reabilitação. I – organização, serviços, métodos, técnicas e recursos para atender às características de cada pessoa com deficiência; Cada indivíduo é único e por isso é impossível tratar todos os sujeitos com deficiência de maneira idêntica. Isso porque além das limitações/restrições intrínsecas a cada espécie de deficiência, outros reflexos de ordem emocional, psicológica, fisiológica ou genética também devem ser ponderados com o fito de promover processo de habilitação e reabilitação adequados e completos. Nesse sentido, o Estado garante manter-se estruturado para ofertar tratamento subjetivo e especializado voltado às particularidades e necessidades individuais e concretas de cada um, mediante o emprego de técnicas que melhor se adequem ao sujeito em processo de habilitação e reabilitação. II – acessibilidade em todos os ambientes e serviços; O inciso II garante a acessibilidade em todos os ambientes e serviços, sendo certo que tal acessibilidade se concretiza em três vertentes: a) adaptação dos meios de transporte e prédios; b) oferta de serviços públicos com profissionais especializados em atender pessoas com deficiências; e c) existência de unidades e vagas que facilitem o gozo de políticas públicas. Para que um sujeito com deficiência possa inserir-se no meio social é imprescindível que sejam superadas todas as barreiras de transporte, urbanísticas e arquitetônicas que obstem seu tráfego e o exercício de sua cidadania. Em vista disso, o Estado garante a promoção de adaptação dos espaços, prédios e meios de transportes públicos. Além disso, barreiras de comunicação, atitudinais e de tecnologia também não devem existir, motivo pelo qual o Estado se compromete a capacitar seus servidores para que saibam atender pessoas com deficiências, lidando com as necessidades de cada qual de modo a permitir que os indivíduos consigam usufruir dos serviços públicos de forma autônoma. Por fim, é preciso que o Estado concretize as políticas públicas que institui em lei. Para tanto, o Estado se compromete a garantir vagas especiais em quantidade razoável para o acesso à escolaridade, cargos e empregos públicos. Além das vagas especiais, há também comprometimento à quantidade de vagas suficientes para tratamentos médicos e processos de habilitação e reabilitação. III – tecnologia assistiva, tecnologia de reabilitação, materiais e equipamentos adequados e apoio técnico profissional, de acordo com as especificidades de cada pessoa com deficiência; Consoante já mencionado no comentário do inciso I deste artigo, é certo que os procedimentos de habilitação e reabilitação devem comportar tratamento específico e individualizado às necessidades de cada pessoa. Assim, visando otimizar a habilitação e a reabilitação, é certo que cada pessoa com deficiência deve ser atendida em vista de suas especificidades por intermédio de profissionais especializados em cada caso e com o emprego de equipamentos, tecnologia e técnicas que melhor satisfaçam e se adequem às necessidades subjetivas de cada indivíduo. IV – capacitação continuada de todos os profissionais que participem dos programas e serviços. A capacitação e a constante atualização dos profissionais que participem dos programas de habilitação e reabilitação é algo necessário e indispensável para que a oferta de tratamentos efetivos e de ótima qualidade às pessoas com deficiência seja possível. Art. 17. Os serviços do SUS e doSuas deverão promover ações articuladas para garantir à pessoa com deficiência e sua família a aquisição de informações, orientações e formas de acesso às políticas públicas disponíveis, com a finalidade de propiciar sua plena participação social. O Estado oferece uma série de programas e facilidades às pessoas com deficiência em diversos âmbitos (saúde, educação, profissional, cultural, lazer etc.). O gozo de tais programas e vantagens, contudo, deve ser solicitado pelo próprio indivíduo que pretende deles gozar, justamente porque não há como exigir que a administração pública tenha conhecimento sobre quais pessoas têm necessidade e interesses nos programas em comento. Assim, para que as pessoas com deficiência e seus familiares tenham conhecimento sobre os programas e possibilidades que o Estado oportuniza, incumbiu-se ao Sistema Único de Saúde (SUS – Lei federal n. 8.080/90) e ao Suas (Sistema Único de Assistência Social – Lei federal n. 8.742/93) o mister de informar os cidadãos que potencialmente possam interessar-se e usufruir das ações públicas voltadas às pessoas com deficiência. A atribuição da incumbência ao SUS e ao Suas é bastante efetiva e estratégica justamente porque as unidades de saúde e de assistência social acabam por ser serviços públicos que as pessoas com deficiência acessam com frequência. Parágrafo único. Os serviços de que trata o caput deste artigo podem fornecer informações e orientações nas áreas de saúde, de educação, de cultura, de esporte, de lazer, de transporte, de previdência social, de assistência social, de habitação, de trabalho, de empreendedorismo, de acesso ao crédito, de promoção, proteção e defesa de direitos e nas demais áreas que possibilitem à pessoa com deficiência exercer sua cidadania. Conforme expresso nos comentários dos incisos III e IV, do art. 15, os processos de habilitação e reabilitação envolvem o acesso às políticas públicas existentes nas mais diversas áreas. Nesse sentido, enquanto unidades orientadoras, os pontos do SUS e do Suas têm o dever de prestar informações e divulgar todas as possibilidades e políticas públicas existentes, e não apenas as vinculadas às áreas de saúde (SUS) e de assistência social (Suas). CAPÍTULO III DO DIREITO À SAÚDE Art. 18. É assegurada atenção integral à saúde da pessoa com deficiência em todos os níveis de complexidade, por intermédio do SUS, garantido acesso universal e igualitário. Iniciando o Capítulo III da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, tem-se o artigo analisado, que trata da garantia do acesso à saúde a pessoas com deficiência, com a previsão sobre o acesso universal e igualitário à saúde, da mesma forma que trazido no art. 196 da Constituição Federal. Como sabido, a Constituição Federal previu o direito à saúde como direito fundamental de todos os brasileiros e estrangeiros, residentes no país, cabendo ao Estado adotar as medidas necessárias à sua promoção, independentemente da situação econômica do titular do direito. Nesse contexto, e considerando-se o conceito de pessoa com deficiência tratado no art. 2º desta lei, é fácil concluir que o impedimento que recai sobre a pessoa poderá justificar atendimento profissional na rede pública ou particular de saúde. A universalidade na prestação do serviço público de saúde repousa sobre o fato de que todos os cidadãos brasileiros, inclusive aqueles com algum tipo de deficiência, sem qualquer tipo de discriminação, têm direito ao acesso às ações e serviços de saúde. Universalizar é colocar o gozo do direito à disposição de todos, indistintamente. Importante de se destacar, num recorte histórico, que antes da criação do Sistema Único de Saúde – SUS, que possui como um dos pilares essa oferta prestacional de maneira universal, apenas pessoas com vínculo formal de trabalho (carteira assinada) ou que estavam vinculadas à previdência social poderiam dispor dos serviços públicos de saúde. Essa universalidade, assim, representa um grande avanço inclusivo na garantia desse importante direito fundamental social. § 1º É assegurada a participação da pessoa com deficiência na elaboração das políticas de saúde a ela destinadas. A Lei n. 8.142/90, que trata da estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS), dispõe em seu art. 1º sobre a criação de dois órgãos colegiados, a Conferência de Saúde e o Conselho de Saúde, sendo que neste último, que deve ser organizado nas esferas estaduais, municipais e federais, há participação popular para formulação de estratégias e controle na execução de políticas públicas. Essa participação trazida no § 1º, sem dúvida, dá legitimidade às políticas públicas a serem implementadas na área da saúde, em prol da população em situação de vulnerabilidade por conta da situação de deficiência. § 2º É assegurado atendimento segundo normas éticas e técnicas, que regulamentarão a atuação dos profissionais de saúde e contemplarão aspectos relacionados aos direitos e às especificidades da pessoa com deficiência, incluindo temas como sua dignidade e autonomia. A dignidade da pessoa humana, grande vetor interpretativo e norteador do sistema jurídico pátrio, insculpido como fundamento da República no art. 1º, inciso III, da CF, aqui é erigido como parâmetro no atendimento à saúde da pessoa com deficiência. A autonomia dessa população, qual seja, a possibilidade de sua manifestação de vontade, de per si ou por meio de seus representantes, deve também ser observada no atendimento médico, bem como na submissão de tratamento médico, vedando-se assim, por via reflexa, a compulsoriedade de qualquer tratamento. Ainda, os parâmetros médicos ordinários, bem como a técnica aplicável a essa ciência, também deverão ser postos em prática na garantia do atendimento à pessoa com deficiência. § 3º Aos profissionais que prestam assistência à pessoa com deficiência, especialmente em serviços de habilitação e de reabilitação, deve ser garantida capacitação inicial e continuada. Por serem os sujeitos do Estatuto aqui analisado cidadãos que possuem algum tipo de impedimento de longo prazo de natureza física, auditiva, intelectual ou sensorial, é exigível, nos termos da lei, capacitação específica para o tratamento e o fornecimento de serviço de saúde, de acordo com a complexidade apresentada. § 4º As ações e os serviços de saúde pública destinados à pessoa com deficiência devem assegurar: O referido artigo traz parâmetros para a prestação do acesso à saúde a pessoas com deficiência. I – diagnóstico e intervenção precoces, realizados por equipe multidisciplinar; A medicina preventiva, com intervenções e procedimentos precoces, aumenta a possibilidade de cura, sendo esse um dos nortes para as ações e serviços de saúde. Nesse contexto, traz o art. 16 do Decreto n. 3.298/99 que “a prevenção compreende as ações e medidas orientadas a evitar as causas das deficiências que possam ocasionar incapacidade e as destinadas a evitar sua progressão ou derivação em outras incapacidades”. II – serviços de habilitação e de reabilitação sempre que necessários, para qualquer tipo de deficiência, inclusive para a manutenção da melhor condição de saúde e qualidade de vida; A habilitação visa a possibilidade de prática, pela pessoa portadora de deficiência, de todos os atos cotidianos, inclusive relacionados ao mercado de trabalho, e a reabilitação, por sua vez, visa o retorno à prática desses mesmos atos. Ambas decorrem, necessariamente, da qualidade de vida e saúde da pessoa, e também são parâmetros para ações e serviços de saúde. III – atendimento domiciliar multidisciplinar, tratamento ambulatorial e internação; Equipe multidisciplinar é o conjunto de profissionais de diferentes disciplinas que trabalham para um objetivo comum; no caso do inciso III, profissionais da área de saúde deverão atuar para proporcionar melhora na qualidade de vida dos cidadãos portadores de deficiência. A manifestação por equipes multidisciplinares foi uma preocupação do legislador ordinário, sendo prevista em vários dispositivos do Estatuto (arts. 15, 36,114 e 116), além do próprio artigo ora analisado. IV – campanhas de vacinação; O Programa Nacional de Imunização (PNI) está a cargo do Ministério da Saúde, a quem caberá definir as vacinas de caráter obrigatório em todo o território nacional, nos termos do art. 3º da Lei n. 6.259/75. Ainda, consoante o mesmo dispositivo legal, as vacinações obrigatórias serão realizadas de maneira sistemática e gratuita pelos órgãos e entidades públicas, bem como entes privados subvencionados pelo Poder Público. V – atendimento psicológico, inclusive para seus familiares e atendentes pessoais; Nos termos do art. 3º do Estatuto, atendente pessoal é pessoa, membro ou não da família que, com ou sem remuneração, assiste ou presta cuidados básicos e essenciais à pessoa com deficiência no exercício de suas atividades diárias, excluídas as técnicas ou os procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas. Cabe aqui referência à Lei n. 8.080/90 (que dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências), que em seu art. 19-I, dispõe que na modalidade de assistência de atendimento e internação domiciliares incluem-se, principalmente, os procedimentos médicos, de enfermagem, fisioterapêuticos, psicológicos e de assistência social, entre outros necessários ao cuidado integral dos pacientes em seu domicílio. VI – respeito à especificidade, à identidade de gênero e à orientação sexual da pessoa com deficiência; No atendimento à pessoa com deficiência, assim como de qualquer cidadão, deve-se respeitar sua orientação sexual, vedando-se qualquer ato discriminatório, afinal, nos termos da Constituição Federal, art. 3º, inciso IV, é objetivo da República promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. VII – atenção sexual e reprodutiva, incluindo o direito à fertilização assistida; O art. 6º deste mesmo diploma legal, ao dispor expressamente sobre a capacidade civil da pessoa portadora de deficiência, traz um rol de direitos a ela outorgados, dentre os quais o de exercer direitos sexuais e reprodutivos, podendo se valer, nesse diapasão, de todos os métodos fertilizatórios postos à disposição. VIII – informação adequada e acessível à pessoa com deficiência e a seus familiares sobre sua condição de saúde; Nos termos do art. 13 do Código Civil, salvo por exigência médica, é vedado o ato de disposição do próprio corpo, quando importar diminuição permanente da integridade física ou contrariar os bons costumes. Versando sobre o mesmo assunto, dispõe o art. 15, do mesmo codex, que ninguém poderá ser constrangido a submeter-se, com risco de vida, a tratamento médico ou intervenção cirúrgica. Nesse cenário, e tomando como baliza os arts. 13 e 15 mencionados, é importantíssima a informação precisa sobre o estado de saúde do paciente, bem como os tratamentos que serão ministrados, objetivando sua evolução clínica. A doutrina denomina tal necessidade de informação de consentimento informado.¹ IX – serviços projetados para prevenir a ocorrência e o desenvolvimento de deficiências e agravos adicionais; O caráter preventivo no atendimento à saúde mostra-se uma tônica, objetivando-se melhores resultados na efetivação da garantia da qualidade de vida e saúde à pessoa portadora de deficiência. Afinal, um diagnóstico precoce possibilita uma melhor análise da doença e, por consequência, sua cura nesse estágio inaugural. X – promoção de estratégias de capacitação permanente das equipes que atuam no SUS, em todos os níveis de atenção, no atendimento à pessoa com deficiência, bem como orientação a seus atendentes pessoais; Essas estratégias e capacitação das equipes que atuam no SUS objetivam a eficiência na prestação do serviço público, bem como o aprimoramento no que tocam às especificidades trazidas pelos impedimentos das pessoas com deficiência. XI – oferta de órteses, próteses, meios auxiliares de locomoção, medicamentos, insumos e fórmulas nutricionais, conforme as normas vigentes do Ministério da Saúde. Órteses são dispositivos aplicados externamente para modificar as características estruturais e funcionais dos sistemas neuromuscular e esquelético da pessoa. Já as próteses são dispositivos aplicados externamente para substituir total ou parcialmente uma parte do corpo ausente ou com alteração da estrutura. Estas são muito utilizadas, notadamente para viabilizar a locomoção, a prática de atos cotidianos, bem como a inclusão na sociedade da pessoa com algum tipo de deficiência. § 5º As diretrizes deste artigo aplicam-se também às instituições privadas que participem de forma complementar do SUS ou que recebam recursos públicos para sua manutenção. Segundo o referido parágrafo, todas as especificações trazidas, norteadoras que são das ações e serviços de saúde, também são aplicáveis às instituições privadas (v.g., operadoras de planos de saúde e prestadores de serviços de saúde). Art. 19. Compete ao SUS desenvolver ações destinadas à prevenção de deficiências por causas evitáveis, inclusive por meio de: Traz o artigo, mais uma vez, a vontade do legislador no desenvolvimento da prestação de serviço público de saúde de forma preventiva, nesse caso, objetivando prevenir a deficiência em situações evitáveis. I – acompanhamento da gravidez, do parto e do puerpério, com garantia de parto humanizado e seguro; A Portaria nº 1.459/2011, do Ministério da Saúde, implementou a chamada “rede cegonha”, que visa assegurar à mulher o direito ao planejamento reprodutivo e a atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério, bem como à criança o direito ao nascimento seguro e ao crescimento e desenvolvimento saudáveis. Quanto ao parto humanizado, é este o processo que vai do pré-natal até o nascimento da criança, respeitando-se a vontade da gestante, sua opção por formas de alívio da dor, bem como que todo o procedimento seja realizado na presença de marido ou acompanhante, em ambiente iluminado. Por certo que a referida portaria, conjugada ao inciso I ora analisado, bem como o parto humanizado, aplicam-se à gestante com deficiência. II – promoção de práticas alimentares adequadas e saudáveis, vigilância alimentar e nutricional, prevenção e cuidado integral dos agravos relacionados à alimentação e nutrição da mulher e da criança; Ser portador de algum tipo de deficiência, conceituada no art. 2º retro, torna o sujeito mais vulnerável à violação de direitos, inclusive desnutrição decorrente da má alimentação e falta de acesso aos bens de consumo mais comezinhos do nosso dia a dia. Nesse contexto, definem-se como especialmente vulneráveis a criança, o adolescente, a mulher e o idoso com deficiência, pois é maior a possibilidade de incidência, nesses grupos específicos, de situações concretas de não observância às normas legais, atingindo-os, por consequência, de forma negativa. O art. 16, inciso I, da Lei n. 8.080/90 dispõe que à direção nacional do Sistema Único de Saúde compete formular, avaliar e apoiar políticas de alimentação e nutrição. Ainda, o Decreto n. 8.553/2015 instituiu o Pacto Nacional de Alimentação Saudável, objetivando aumentar a oferta e disponibilidade de alimentos saudáveis, com destaque aos provenientes de agricultura familiar, orgânicos, agroecológicos e da sociobiodiversidade, promovendo hábitos alimentares saudáveis à população brasileira. Assim, objetiva-se que a nutrição, alimentação, prevenção e cuidado integral sejam dispensados corretamente em relação à parcela dos cidadãos especialmente vulneráveis, quais sejam, mulheres e crianças, adolescentes e idosos, possibilitando a eles, assim, melhor qualidade de vida. III – aprimoramento e expansão dos programas de imunização e de triagem neonatal; A triagem neonatal é popularmente conhecida como “teste do pezinho”, tratada na Portaria nº 822/2001. Sua realização é compulsória e objetiva detectar alguns tipos de doença, como doenças falciformes, fenilcetonúriaetc. IV – identificação e controle da gestante de alto risco. A gestação de alto risco é conceituada como aquelas situações nas quais a saúde da mulher apresenta complicações por doenças preexistentes ou intercorrências da gravidez no parto ou puerpério, geradas tanto por fatores orgânicos como por fatores socioeconômicos e demográficos desfavoráveis. Assim, o alto risco da gestação, alinhado à deficiência da gestante, poderão justificar atendimento médico especializado e detido, a depender do caso concreto. Art. 20. As operadoras de planos e seguros privados de saúde são obrigadas a garantir à pessoa com deficiência, no mínimo, todos os serviços e produtos ofertados aos demais clientes. Objetiva o artigo trazer à baila a isonomia na prestação dos serviços de saúde, devendo as operadoras dos planos de saúde tratar de forma paritária todos os clientes, sob pena de sancionamento, inclusive no que toca à legislação consumeirista (Lei n. 8.078/90), que em seu art. 39 veda ao fornecedor de produtos e serviços (inclusos os de saúde) elevar sem justa causa o preço de produtos e serviços, em situação classificada como prática abusiva. Nesse contexto, cabe referência ao art. 8º da Lei n. 7.853/89, que diz constituir crime punível com reclusão de um a quatro anos e multa a recusa, o retardamento ou a dificuldade na internação, bem como deixar de prestar assistência médico-hospitalar e ambulatorial, quando possível, a pessoa portadora de deficiência. Art. 21. Quando esgotados os meios de atenção à saúde da pessoa com deficiência no local de residência, será prestado atendimento fora de domicílio, para fins de diagnóstico e de tratamento, garantidos o transporte e a acomodação da pessoa com deficiência e de seu acompanhante. Versa o artigo em comento sobre a garantia de locomoção e acomodação gratuitas, a serem custeados pelos entes políticos ou privados prestadores de serviço, quando for o caso, à própria pessoa com deficiência e a seu acompanhante, para fins de prestação adequada do serviço de saúde em localidade diversa de sua residência. Art. 22. À pessoa com deficiência internada ou em observação é assegurado o direito a acompanhante ou a atendente pessoal, devendo o órgão ou a instituição de saúde proporcionar condições adequadas para sua permanência em tempo integral. Trata o artigo sobre o direito da pessoa com deficiência de estar acompanhada quando da internação ou observação médicas, até mesmo para que ela obtenha informação adequada e acessível sobre sua condição de saúde, direito a ela outorgado, como visto alhures. § 1º Na impossibilidade de permanência do acompanhante ou do atendente pessoal junto à pessoa com deficiência, cabe ao profissional de saúde responsável pelo tratamento justificá-la por escrito. Reforça o § 1º a necessidade de permanência do acompanhante ou do atendente da pessoa com deficiência, devendo eventual impossibilidade ser justificada por escrito por profissional de saúde. § 2º Na ocorrência da impossibilidade prevista no § 1º deste artigo, o órgão ou a instituição de saúde deve adotar as providências cabíveis para suprir a ausência do acompanhante ou do atendente pessoal. Indica-se, no caso em análise, que um profissional da área de saúde (v.g., enfermeiro) acompanhe a pessoa com impedimento durante a internação ou observação médicas, na ausência de acompanhante apto a tanto. Art. 23. São vedadas todas as formas de discriminação contra a pessoa com deficiência, inclusive por meio de cobrança de valores diferenciados por planos e seguros privados de saúde, em razão de sua condição. A discriminação contra a pessoa com deficiência é vedada em qualquer contexto, incluindo-se também aquela praticada por meio de cobrança de valores diferentes, por conta do impedimento por ela apresentado. Nesse contexto, forçoso relembrar que a finalidade da lei, insculpida no seu art. 1º, é justamente promover o exercício de direitos e liberdades fundamentais por parte da pessoa com deficiência, também no que toca à prestação de direitos sociais (como o direito fundamental à saúde), a serem realizados pelos entes políticos e particulares, visando à sua inclusão social e cidadania. Art. 24. É assegurado à pessoa com deficiência o acesso aos serviços de saúde, tanto públicos como privados, e às informações prestadas e recebidas, por meio de recursos de tecnologia assistiva e de todas as formas de comunicação previstas no inciso V do art. 3º desta Lei. Trata o artigo 24 da garantia de direito à informação à pessoa com deficiência, ou a seu acompanhante, em relação ao acesso a serviços de saúde, públicos ou fornecidos por entes privados. A tecnologia assistiva, nos termos da lei, é a necessidade de uso de materiais e equipamentos adequados e apoio técnico profissional, de acordo com as especificidades de cada pessoa com deficiência. Importante rememorar que essa garantia de direitos foi um dos nortes da legislação, tanto que seu art. 6º dispõe que a deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive para: I – casar-se e constituir união estável; II – exercer direitos sexuais e reprodutivos; III – exercer o direito de decidir sobre o número de filhos e de ter acesso a informações adequadas sobre reprodução e planejamento familiar; IV – conservar sua fertilidade, sendo vedada a esterilização compulsória; V – exercer o direito à família e à convivência familiar e comunitária; e VI – exercer o direito à guarda, à tutela, à curatela e à adoção, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. A informação relacionada à prestação de serviços de saúde, submissão de tratamentos etc. Seria, assim, um outro direito outorgado pela lei e não constante do rol exemplificativo do art. 6º. Art. 25. Os espaços dos serviços de saúde, tanto públicos quanto privados, devem assegurar o acesso da pessoa com deficiência, em conformidade com a legislação em vigor, mediante a remoção de barreiras, por meio de projetos arquitetônico, de ambientação de interior e de comunicação que atendam às especificidades das pessoas com deficiência física, sensorial, intelectual e mental. Traz o artigo a necessidade de que os espaços utilizados para prestação de atendimento e serviços de saúde à pessoa com deficiência sejam de fácil acesso, sem barreiras ou obstáculos impeditivos à sua fruição. Pense-se, v.g., numa pessoa cadeirante, e que tenha que se utilizar de Unidade Básica de Saúde sem qualquer acessibilidade, composta de muitas escadarias. O escopo do artigo, assim, é justamente afastar essas situações impeditivas ao gozo de direitos. O artigo trazido está ajustado, ainda, ao conceito legal de acessibilidade, que é a possibilidade e condição de alcance da pessoa com deficiência para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços (destaquem-se aqui os de saúde) e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural. Art. 26. Os casos de suspeita ou de confirmação de violência praticada contra a pessoa com deficiência serão objeto de notificação compulsória pelos serviços de saúde públicos e privados à autoridade policial e ao Ministério Público, além dos Conselhos dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Trata o artigo referido sobre a necessidade de informação aos entes públicos sobre violência perpetrada contra pessoas portadoras de deficiência e que tenham chegado ao seu conhecimento (pense-se, v.g., numa pessoa com algum tipo de impedimento, gravemente ferida, atendida numa UBS – Unidade Básica de Saúde, sendo dever dos médicos e enfermeiros atendentes comunicar tal situação às autoridades referidas). A violência é conceituada como qualquer ação ou omissão praticada em local público ou privado que cause morte, dano ou sofrimento físico ou psicológico à pessoa portadora de deficiência. De se destacar que a não observância ao referido artigo poderá ensejar aresponsabilização civil, criminal e administrativa do agente público leniente. No mesmo sentido do art. 26 ora versado, o art. 7º dessa mesma legislação diz ser dever de todos comunicar à autoridade competente qualquer forma de ameaça ou de violação aos direitos da pessoa com deficiência. Este último artigo possui como destinatário sujeitos particulares. Ainda, nesse viés protetivo, e almejando a garantia de direitos à pessoa com deficiência, cabe fazer menção à nova redação dada pelo Estatuto ao art. 3º da Lei n. 7.853, de 24 de outubro de 1989, que trata da tutela coletiva de interesses relacionados à pessoa com deficiência, e que dispõe que as medidas judiciais destinadas à proteção de interesses coletivos, difusos, individuais homogêneos e individuais indisponíveis da pessoa com deficiência poderão ser propostas pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública, pela União, pelos Estados, pelos Municípios, pelo Distrito Federal, por associação constituída há mais de 1 (um) ano, nos termos da lei civil, por autarquia, por empresa pública e por fundação ou sociedade de economia mista que inclua, entre suas finalidades institucionais, a proteção dos interesses e a promoção de direitos da pessoa com deficiência. Parágrafo único. Para os efeitos desta Lei, considera-se violência contra a pessoa com deficiência qualquer ação ou omissão, praticada em local público ou privado, que lhe cause morte ou dano ou sofrimento físico ou psicológico. Nesse diapasão, vale destacar o compromisso internacional assumido pelo Brasil, por meio do art. 15 da Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência, que dispõe em seu item 2 que os Estados-Partes (incluso o nosso país, que a recepcionou) tomarão todas as medidas (administrativa, legislativa e judicial) para evitar que pessoas com deficiência sejam submetidas à tortura ou a tratamentos e penas cruéis, desumanos ou degradantes. 1FARIAS, Cristina Chaves de et al. Manual de direito civil . Salvador: Juspodivm, 2017. p. 189. CAPÍTULO IV DO DIREITO À EDUCAÇÃO Art. 27. A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem. O artigo reproduz a premissa contida na Constituição Federal, que no art. 205 consagrou a educação como direito social fundamental a toda pessoa humana, visando o desenvolvimento de todas as potencialidades e a preparação para o mercado de trabalho. A educação é dever do Estado e deve ser assegurada em todos os níveis, com a participação da família e da sociedade civil. Nesse contexto, as pessoas portadoras de deficiência devem ser atendidas na rede regular de ensino sem que haja qualquer discriminação no processo ensino- aprendizagem. As matrículas devem ocorrer normalmente na rede pública e privada, com a inclusão do estudante em salas regulares, destinando-lhes o mesmo conteúdo pedagógico programado para a série em que esteja inscrito. É garantido o atendimento especializado e individualizado, quando necessário, durante todo o horário em que esteja em atividades pedagógicas dentro do estabelecimento de ensino (art. 208 da CF). A liberdade para aprender, ensinar e o pluralismo de ideias são preconizados na Carta Mãe como princípios fundamentais da Educação Nacional e estão presentes em todos os períodos de aprendizagem e para todos os docentes e discentes. Parágrafo único. É dever do Estado, da família, da comunidade escolar e da sociedade assegurar educação de qualidade à pessoa com deficiência, colocando-a a salvo de toda forma de violência, negligência e discriminação. A Lei n. 13.146 é conhecida como a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Nesse sentido, a norma dispõe que é dever do Estado e da família, além da sociedade civil e escolar, assegurar o direito à educação a toda pessoa com deficiência, atuando de maneira a não permitir qualquer discriminação ou violência a esse público estudantil. A violência na escola pode ocorrer por meio de bullying, segregação e de toda ou qualquer ação ou omissão que mitigue a plena adaptação do discente no ambiente escolar. Dessa forma, o espaço escolar deve garantir que as crianças e jovens passem pelo processo de sociabilização, assimilando atitudes éticas, de aceitação e convívio social. Art. 28. Incumbe ao Poder Público assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar, acompanhar e avaliar: A educação é dever do Estado. Por esse motivo, há obrigação de se implementar mecanismos que assegurem o cumprimento de todas as metas, prerrogativas e garantias consagradas ao público estudantil com deficiência. Compete à União organizar o sistema federal de ensino e ditar a política pública ao setor, garantindo a equalização de oportunidades educacionais e qualidade mínima de ensino nas escolas públicas. Os Municípios atuam, prioritariamente, no ensino infantil e na educação fundamental, enquanto os Estados respondem pelo ensino médio e também podem atuar no fundamental em concorrência com as Prefeituras. O Programa Nacional de Educação do Governo Federal fixou as metas e diretrizes do setor para o período 2014-2024 e criou mecanismos para o acompanhamento dos resultados: Inep – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. I – sistema educacional inclusivo em todos os níveis e modalidades, bem como o aprendizado ao longo de toda a vida; A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) dedica o Capítulo V à Educação Especial, garantindo atendimento diferenciado àqueles “educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação” (art. 58 da Lei n. 9.394/96), vedada qualquer forma de discriminação e preconceito. O processo de ensino-aprendizagem deve ocorrer na rede regular de ensino com “apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação especial” (LDB, art. 58, § 1º). Apenas será admitida a criação de centros ou salas especializadas quando o atendimento educacional, em função das condições específicas dos alunos, não puder ser realizado com sua integração nas classes comuns, tudo visando o melhor interesse do aluno em questão. II – aprimoramento dos sistemas educacionais, visando a garantir condições de acesso, permanência, participação e aprendizagem, por meio da oferta de serviços e de recursos de acessibilidade que eliminem as barreiras e promovam a inclusão plena; O inciso deve ser interpretado junto com as determinações da Lei n. 10.098/2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida em território nacional. Assim, as escolas públicas e privadas são obrigadas a ter seus espaços físicos adequados e adaptados a garantir plena acessibilidade aos alunos com deficiência, e também estar capacitadas a oferecer os recursos didático- pedagógicos e de comunicação para viabilizar adequada inclusão no processo de aprendizagem. Entende-se por acessibilidade a “possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida”(art. 2º, I, da Lei n. 10.098/2000). III – projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional especializado, assim como os demais serviços e adaptações razoáveis, para atender às características dos estudantes com deficiência e garantir o seu pleno acesso ao currículo em condições de igualdade, promovendo a conquista e o exercício de sua autonomia; O Atendimento Educacional Especializado (AEE) pressupõea disponibilização de um conjunto de instrumentos que permitam o pleno aprendizado e inclusão das pessoas com deficiência nas salas regulares e adequado aproveitamento e acesso ao currículo das disciplinas ofertadas. O AEE deve ser oferecido na própria escola em que o aluno estiver matriculado, no horário regular de aula ou em contraturnos, mas não em substituição ao ensino escolar cotidiano. A legislação pátria determina o uso de tecnologia assistiva ou ajuda técnica nas escolas, o que pressupõe a existência de “produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivem promover a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social” (art. 2°, VIII, da Lei n. 10.098/2000). O AEE é obrigação das escolas públicas e privadas. IV – oferta de educação bilíngue, em Libras como primeira língua e na modalidade escrita da língua portuguesa como segunda língua, em escolas e classes bilíngues e em escolas inclusivas; Esse inciso também requer a interpretação sistemática e integrativa da LBI com a Lei n. 10.098/2000, porque esta última prescreve a obrigação das escolas possuírem instrumentos facilitadores de comunicação, como a Língua Brasileira de Sinais (Libras), a visualização de textos, o Braille, o sistema de sinalização ou de comunicação tátil, os caracteres ampliados, os dispositivos multimídia, assim como a linguagem simples, escrita e oral, os sistemas auditivos e os meios de voz digitalizados e os modos, meios e formatos aumentativos e alternativos de comunicação, incluindo as tecnologias da informação e das comunicações. O Decreto n. 5.626/2005 regulamentou a Lei n. 10.098/2000 e definiu como “pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras” (art. 1º). Nesse contexto, a Libras é de inclusão obrigatória na formação dos professores, pedagogos e fonoaudiólogos, em todos os níveis de ensino, por determinação do art. 3º do Decreto mencionado. V – adoção de medidas individualizadas e coletivas em ambientes que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes com deficiência, favorecendo o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem em instituições de ensino; Maximizar o desenvolvimento acadêmico da clientela estudantil com deficiência pressupõe políticas e ações de incentivo à participação nas atividades da escola e da comunidade e programas de integração entre os estudantes e comunidade escolar e, sobretudo, medidas que garantam a matrícula, permanência, participação, continuidade dos estudos e medidas que evitem a evasão escolar. Um dos programas relacionados à meta descrita no inciso V é o “BPC na Escola”, que visa criar condições para o desenvolvimento da autonomia, participação social e emancipação da pessoa deficiente. O programa é essencialmente assistencial, contudo traz bons resultados quando integrado à escola. Garante ao beneficiário ter reservada a sua vaga na escola da sua comunidade e, ainda, renda mínima àqueles que preencherem os requisitos socioeconômicos (art. 203, V, da CF/88). O Benefício de Prestação Continuada na Escola (BCP) realiza anualmente o pareamento de dados entre o Censo Escolar – Inep/MEC e o Banco do BPC do Governo Federal, a fim de identificar os índices de inclusão e exclusão escolar dos beneficiários do BPC. O Decreto n. 6.214/2007 regulamentou o BCP para as pessoas deficientes. VI – pesquisas voltadas para o desenvolvimento de novos métodos e técnicas pedagógicas, de materiais didáticos, de equipamentos e de recursos de tecnologia assistiva; As ações pedagógicas para o cumprimento dos objetivos de inclusão deverão estar em constante desenvolvimento e aprimoramento. Tal obrigação cabe ao Governo Federal, prioritariamente, porque é de sua responsabilidade a fixação de diretrizes, metas e prioridades ao setor educacional nacional, sendo o principal financiador dessas despesas públicas. A CF fixa parâmetros mínimos orçamentários à educação no art. 212: “A União aplicará, anualmente, nunca menos de dezoito, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios vinte e cinco por cento, no mínimo, da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino”. VII – planejamento de estudo de caso, de elaboração de plano de atendimento educacional especializado, de organização de recursos e serviços de acessibilidade e de disponibilização e usabilidade pedagógica de recursos de tecnologia assistiva; “Tecnologia assistiva” pressupõe existência de produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivem promover a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando à autonomia, à independência, à qualidade de vida e à inclusão social. Dessa forma, as escolas públicas e particulares devem ter espaços físicos adequados à perfeita acessibilidade e, além disso, “usabilidade pedagógica” dos tais espaços pelos estudantes. Por força do Decreto n. 9.405/2018, todas as empresas, do setor educacional ou não, que se constituem como sociedades ou associações civis devem promover adaptações, modificações e ajustes necessários e adequados a fim de assegurar que a pessoa com deficiência possa gozar ou exercer, em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas, todos os direitos e liberdades fundamentais. As adaptações necessárias ao cumprimento do Decreto deverão seguir as normas técnicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT. O design instrucional permite a plena usabilidade pedagógica e pressupõe o desenvolvimento de espaços físicos, materiais pedagógicos e outros instrumentais, além da aplicação de métodos em situações didáticas específicas, visando atingir os objetivos no processo ensino-aprendizagem. VIII – participação dos estudantes com deficiência e de suas famílias nas diversas instâncias de atuação da comunidade escolar; A escola inclusiva é aquela que garante a qualidade de ensino educacional a todos os alunos, reconhecendo e respeitando a diversidade e respondendo a cada um de acordo com suas potencialidades e necessidades (Cf. VASCONCELLOS, C. dos S. Construção do conhecimento em sala de aula. São Paulo: Libertad, 1995, passim). Assim concebida, requer a participação de toda a comunidade e, nesse contexto, toma especial importância a integração da família do estudante na escola. Na educação das pessoas com deficiência, essa integração familiar é fundamental para que haja o pleno conhecimento das particularidades que envolvem o cotidiano do estudante e para que as ações pedagógicas possam ser continuadas no lar. No art. 14, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional prevê a participação da comunidade e da família na escola. Dispõe que: “Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades” e II – “participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes”. IX – adoção de medidas de apoio que favoreçam o desenvolvimento dos aspectos linguísticos, culturais, vocacionais e profissionais, levando-se em conta o talento, a criatividade, as habilidades e os interesses do estudante com deficiência; O atendimento Educacional Especializado (AEE) deve ser ofertado na rede pública e particular de ensino em todos os níveis. Abrange o dever de disponibilizar currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organizacionais específicos, para atender às necessidades da clientela estudantil. Além disso, há o dever de “terminalidade específica” para estudantes que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas especificidades (Lei n. 9.394/96, art. 59,II). Os alunos superdotados também deverão receber atendimento diferenciado visando a aceleração dos estudos e o desenvolvimento de suas potencialidades. A Lei n. 13.234/2015, que alterou a LDB, determina a criação do Cadastro Nacional de Alunos com Altas Habilidades ou Superdotação matriculados na educação básica e na educação superior. O objetivo é oferecer atendimento especializado a esse alunato a fim de fomentar a execução de políticas públicas destinadas ao desenvolvimento pleno das potencialidades dessa clientela de estudantes. O art. 59 da Lei n. 9.394/96 determina a obrigatoriedade de professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração dos educandos com deficiência nas classes comuns, isto é, regulares (inciso III – “professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns”). O atendimento especializado ao estudante é direito subjetivo de natureza constitucional, passível de ser garantido mediante impetração de Mandado de Segurança. O writ vem sendo usado com certa rotina para a garantia desse atendimento especializado dentro das escolas públicas. O pedido de tutela também pode ser feito em ações de obrigação de fazer, seguindo o rito ordinário. (TJMG, AC 10439160086377001/MG; TJSP, APL 00079753620128260428/SP; STF, ARE 992295/SP – SÃO PAULO 0008399-95.2012.8.26.0002, DJe-252 7.11.2017, Rel. Min. Gilmar Mendes; STF, ARE 860.979 – AgR, Rel. Min. Gilmar Mendes, 2ª T., DJe 6.5.2015; STF, RE 642.536 – AgR, Rel. Min. Luiz Fux, 1ª T., DJe 27.2.2013). X – adoção de práticas pedagógicas inclusivas pelos programas de formação inicial e continuada de professores e oferta de formação continuada para o atendimento educacional especializado; Direito à saúde e à educação são assegurados pela Constituição Federal. Respectivo dever incumbe ao Estado, mediante atendimento integral e fornecimento gratuito de recursos inerentes ao tratamento, habilitação e reabilitação daqueles que precisarem. Assim, a jurisprudência tem entendido que há solidariedade passiva no dever de atendimento entre o Estado e o Município. As práticas pedagógicas inclusivas devem existir, via AEE, em todos os níveis de formação do estudante. Contudo, a obrigação de atendimento inclusivo pressupõe também outras atitudes do Estado, como o fornecimento do transporte escolar adequado ao estudante com deficiência: “ADMINISTRATIVO. PROCESSUAL CIVIL. TRANSPORTE PÚBLICO PARA ATENDIMENTO TERAPÊUTICO. CRIANÇA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA. DIREITO À SAÚDE E À EDUCAÇÃO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA”. (STJ – AgRg nos EDcl no REsp 1463765/SP, 2014/0095817-2, Rel. Min. HUMBERTO MARTINS, j. 02.06.2015, 2ª T., DJe 10.06.2015). XI – formação e disponibilização de professores para o atendimento educacional especializado, de tradutores e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de profissionais de apoio; A Língua Brasileira de Sinais – Libras – é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão no Brasil. É um sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, contudo não poderá substituir a modalidade escrita da Língua Portuguesa. De acordo com a Lei n. 5.626/2005, todos os cursos de Licenciatura, nas diferentes áreas do conhecimento, o curso normal de formação de professores (normal superior), e o curso de Pedagogia devem possuir como disciplina obrigatória a Língua Brasileira de Sinais. A matéria é optativa apenas para os demais cursos de formação superior que não formem professores/educadores. No AEE é obrigatória a inclusão de profissionais aptos a atender o alunato oferecendo-lhes o ensino da Libras e ajudando em sua interação escolar. XII – oferta de ensino da Libras, do Sistema Braille e de uso de recursos de tecnologia assistiva, de forma a ampliar habilidades funcionais dos estudantes, promovendo sua autonomia e participação; O Braille é um sistema de codificação tátil criado pelo Frances Louis Braille, que perdeu a visão em um acidente na infância. As células Braille possuem três níveis de codificação, sendo o Grau 1 usado para a alfabetização básica. A mídia Braille já está presente em cds, dvds e blueray e diversos produtos disponíveis no mercado, onde os rótulos são fabricados com as referidas codificações que permitem sua identificação pela pessoa portadora de deficiência visual. De acordo com o Censo de 2010, realizado pelo IBGE, existem mais de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual no Brasil. Desse total, estima-se que haja 582 mil cegas e 6 milhões com baixa visão, entretanto, apenas 10% dessas pessoas conhecem e dominam o Braille. Tramitou na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei n. 444/2011, que tornava o Braille um sistema de leitura obrigatório nas escolas públicas do Brasil, especialmente para a alfabetização de alunos portadores de deficiência visual. O projeto foi arquivado em 2015 nos termos do art. 105 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados (Resolução nº 17/89). Por essa razão, não é obrigatória a existência do sistema Braille nas escolas públicas e privadas, contudo o estudante com deficiência visual tem direito ao AEE, com a oferta dos recursos de “tecnologia assistiva” para que possa ter adequada inserção no ambiente escolar. Há portaria do MEC recomendando o uso do Braille nas escolas (Portaria nº 2.678/2002). O Braille pode ser garantido mediante pedido judicial, demonstrada a necessidade desse atendimento específico. Há precedentes nos Tribunais: “MANDADO DE SEGURANÇA. ADOLESCENTE PORTADORA DE NECESSIDADES ESPECIAIS. CEGUEIRA. DIREITO À EDUCAÇÃO. PROFESSOR DE APOIO. O DIREITO À EDUCAÇÃO, CONSTITUCIONALMENTE ASSEGURADO, DEVE SER EFETIVADO SOB A DOGMÁTICA DE POLÍTICAS QUE ASSEGUREM A INCLUSÃO DE JOVENS PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS, NA ESPÉCIE, CEGUEIRA, À REDE PÚBLICA DE ENSINO, DE MODO A LHES GARANTIR TRATAMENTO IGUALITÁRIO PARA COM OS DEMAIS ALUNOS, PROPICIANDO A ASSISTÊNCIA DE PROFESSOR DE APOIO EM SALA DE AULA, PARA LHE AUXILIAR NO APRENDIZADO. SEGURANÇA CONCEDIDA”. (TJGO, Mandado de Segurança nº 192935-90.2013.8.09.0000 (201391929357), 4ª Câmara de Direito Privado, v.u.) XIII – acesso à educação superior e à educação profissional e tecnológica em igualdade de oportunidades e condições com as demais pessoas; O art. 208 da CF/88 fixa como dever do Estado a educação, aí incluídas ações que garantam ao estudante “o acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um” (inciso V); O Decreto n. 3.956/2001 (Convenção da Guatemala – 1999) dispõe que as pessoas com deficiência têm os mesmos direitos humanos e liberdades fundamentais das demais pessoas, e considera discriminação toda a diferenciação e exclusão que possa impedir ou anular o exercício dos direitos humanos e liberdades. A Política Nacional de Educação Especial tem por objetivo garantir a transversalidade da educação especial desde a educação infantil até a educação superior e a continuidade da escolarização nos níveis mais elevados do ensino. A Lei n. 13.409/2016 alterou a Lei n. 12.711/2012 (Lei de Cotas das escolas públicas), que passou a garantir aos estudantes com deficiência, juntamente com os pardos, negros e indígenas e estudantes de escolas públicas, 50% das vagas de matrículas nos cursos das universidades federais (arts. 3º e 5º). A Lei sofreu regulamentação pelo Decreto n. 7.824/2012 e pela Portaria Normativa n. 18/2012, do Ministério da Educação. XIV – inclusão em conteúdos curriculares, em cursos de nível superior e de educação profissional técnica e tecnológica, de temas relacionados à pessoa com deficiência nos respectivos campos de conhecimento; A Lei n. 9.394/96 fixa a Política Nacional para a Educação e, dentro da concepção de escola inclusiva, há exigência da transformação da comunidade escolar que, por seu turno, exige orientação e ações que incentivemo respeito à diversidade, à solidariedade e à não discriminação. Desta forma, o processo de inclusão impõe a ruptura do modelo tradicional de ensino, com a abordagem do tema sob o aspecto humanístico e democrático, num olhar de inserção social de todos, indistintamente. Os conteúdos relativos aos direitos humanos e à prevenção de todas as formas de violência contra a criança e o adolescente são incluídos na grade curricular como temas transversais por determinação da LDB. Nos cursos de nível superior e de formação profissional, mesmo que não relacionados à formação de professores, devem estar incluídos temas relativos a pessoas com deficiência. XV – acesso da pessoa com deficiência, em igualdade de condições, a jogos e a atividades recreativas, esportivas e de lazer, no sistema escolar; A escola deve possuir um amplo projeto de inclusão social e pedagógica como estratégia para a perfeita interação do estudante deficiente em igualdade de condições. Devem existir ações inclusivas em prol da acessibilidade física, digital e social dos deficientes. XVI – acessibilidade para todos os estudantes, trabalhadores da educação e demais integrantes da comunidade escolar às edificações, aos ambientes e às atividades concernentes a todas as modalidades, etapas e níveis de ensino; A acessibilidade aos ambientes escolares depende da adaptação arquitetônica dos espaços e, também, dos recursos pedagógicos convencionais. Tais ajustes são essenciais no processo de inclusão educacional. As normas são estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT, na NBR 9.050, de Setembro de 1994 (ABNT: www.abnt.org.br). A Lei n. 7.853/89 e o Decreto n. 3.298/99 balizam a política nacional para integração da pessoa portadora de deficiência e trazem as principais diretrizes relativas às normas de acessibilidade. XVII – oferta de profissionais de apoio escolar; A oferta de Programa de formação continuada de professores para o AEE é exigência legal, bem como a implantação de salas de recursos multifuncionais nas escolas regulares. O Decreto n. 6.949/2009 recepcionou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006) e foi um marco para assegurar o acesso das pessoas com deficiência a um sistema educacional inclusivo em todos os níveis de ensino. “A inclusão educacional é um direito do aluno e requer mudanças na concepção e nas práticas de gestão, de sala de aula e de formação de professores, para a efetivação do direito de todos à escolarização” (DUTRA, Cláudia Pereira. Manual de Orientação: Programa de Implantação de Salas de Recursos Multifuncionais. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php? option=com_docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao- programa-implantacao-salas-recursos-multifuncionais&Itemid=30192). XVIII – articulação intersetorial na implementação de políticas públicas. As políticas públicas sociais encampam a Política Educacional, que tem como principal referencial legal a LDB. A Política Educacional pressupõe estabelecimento de diretrizes, planejamento e ações para programar referenciais educacionais para a educação especial na rede regular de ensino. É responsabilidade do Estado, via organizações políticas e com a participação da sociedade civil. § 1º Às instituições privadas, de qualquer nível e modalidade de ensino, aplica-se obrigatoriamente o disposto nos incisos I, II, III, V, VII, VIII, IX, X, XI, XII, XIII, XIV, XV, XVI, XVII e XVIII do caput deste artigo, sendo vedada a cobrança de valores adicionais de qualquer natureza em suas mensalidades, anuidades e matrículas no cumprimento dessas determinações. Os estabelecimentos de ensino privados ou particulares são obrigados a seguir as diretrizes da LDB no oferecimento do serviço educacional no Brasil. Dessa forma, tudo que se aplica e impõe aos estabelecimentos públicos é exigência no ensino privado, exceto o disposto nos incisos IV e VI. Dessa forma, não há obrigação de que as escolas privadas ofertem educação bilíngue, em Libras, aos alunos, tampouco que invistam parte de suas receitas em pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novos métodos e técnicas pedagógicas, de materiais didáticos, de equipamentos e de recursos de tecnologia assistiva. O Atendimento Educacional Especializado deve ser ofertado, vedada qualquer cobrança extra. A Lei n. 13.146/2015 veda expressamente qualquer prática discriminatória no âmbito da educação para pessoas com deficiência, seja em instituições de ensino público ou privado. A recusa de matrícula e a cobrança de valores adicionais são as violações mais comuns em matéria de direito à educação e podem ensejar danos materiais e morais aos envolvidos, além da eventual responsabilidade penal: “APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. INSTITUIÇÃO DE ENSINO. DISCRIMINAÇÃO PERPETRADA CONTRA ALUNO DEFICIENTE AUDITIVO. RELAÇÃO DE CONSUMO. FALHA NA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS. DANO MORAL INDENIZÁVEL.” (TJRJ, APL 00007804820088190003/RIO DE JANEIRO, ANGRA DOS REIS, 1ª VARA CÍVEL, Rel. MARCOS ALCINO DE AZEVEDO TORRES, j. 09.11.2010, 19ª CÂMARA CÍVEL, DJe 1º-12-2010) § 2º Na disponibilização de tradutores e intérpretes da Libras a que se refere o inciso XI do caput deste artigo, deve-se observar o seguinte: O § 2º do artigo supra dá orientações de como deve ser implementada a diretriz presente no inciso XI, que dispõe sobre a formação e disponibilização de professores para o atendimento educacional especializado, de tradutores e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de profissionais de apoio. I – os tradutores e intérpretes da Libras atuantes na educação básica devem, no mínimo, possuir ensino médio completo e certificado de proficiência na Libras; O professor de Libras deve possuir ao menos ensino médio completo e curso de formação na área. Os cursos podem ser de educação profissional, extensão universitária e de formação continuada, ofertados por instituições de ensino superior, públicas ou privadas, credenciadas pelas Secretarias de Educação. A certificação do professor ocorre via Prolibras – Programa Nacional para a Certificação de Proficiência no Uso e Ensino da Língua Brasileira de Sinais – Libras e para a Certificação de Proficiência em Tradução e Interpretação da Libras/Língua Portuguesa, organizado pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES e Ministério da Educação (MEC). A Portaria Normativa n. 20/2010, de 8-10-2010 do MEC, dispõe sobre essa certificação. I – os tradutores e intérpretes da Libras, quando direcionados à tarefa de interpretar nas salas de aula dos cursos de graduação e pós-graduação, devem possuir nível superior, com habilitação, prioritariamente, em Tradução e Interpretação em Libras. Para os profissionais, tradutores e intérpretes da Libras, que atuem nos cursos de graduação e pós-graduação na formação de educadores, é exigida a formação superior específica, nos termos do que exige o art. 4º do Decreto n. 5.626/2005. As pessoas surdas terão prioridade nos cursos de formação de professores e intérpretes da Libras. Art. 29. (VETADO). O vetado art. 29 exigia que as instituições de educação profissional e tecnológica, de educação, ciência e tecnologia e as de educação superior públicas federais e privadas reservassem, em cada processo seletivo para ingresso nos respectivos cursos de formação inicial e continuada ou de qualificação profissional, de educação profissional técnica de nível médio, de educação profissional tecnológica e de graduação e pós-graduação, no mínimo, 10% (dez por cento) de suas vagas, por curso e turno, para estudantes com deficiência. As razões do veto explicam que “Apesar do mérito da proposta, ela não trouxe os contornos necessários para sua implementação, sobretudo a consideração de critérios de proporcionalidade relativos às características populacionais específicas de cada unidade da Federação onde será aplicada, aos moldes do previsto pela Lei n. 12.711, de 29 de agosto de 2012. Além disso, no âmbito do Programa Universidade para Todos – PROUNI, o Governo Federal concede bolsas integrais e parciais a pessoascom deficiência, de acordo com a respectiva renda familiar”.² Art. 30. Nos processos seletivos para ingresso e permanência nos cursos oferecidos pelas instituições de ensino superior e de educação profissional e tecnológica, públicas e privadas, devem ser adotadas as seguintes medidas: O caput do art. 30 fixa, nos incisos, os pressupostos para ingresso e permanência nos cursos oferecidos para a formação profissional e tecnológica. I – atendimento preferencial à pessoa com deficiência nas dependências das Instituições de Ensino Superior (IES) e nos serviços; Deve ser garantido atendimento preferencial ao estudante deficiente nas universidades públicas e privadas no Brasil. A regra do atendimento prioritário não ocorre apenas nas escolas, mas é regra geral. A Lei n. 10.048/2000 obriga que as pessoas com deficiência, os idosos com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos, as gestantes, as lactantes, as pessoas com crianças de colo e os obesos tenham atendimento prioritário sempre (art. 1º), bem como em repartições públicas e empresas concessionárias de serviços públicos, instituições financeiras, transporte coletivo e acomodações públicas em geral. II – disponibilização de formulário de inscrição de exames com campos específicos para que o candidato com deficiência informe os recursos de acessibilidade e de tecnologia assistiva necessários para sua participação; No ato da inscrição ou matrícula na escola, o estudante deficiente deve informar sua condição e especificidade. Para isso, é exigido que lhe seja disponibilizado formulário em que possa descrever sua condição e suas necessidades, tudo visando o recebimento do AEE e da tecnologia assistiva necessária à inserção escolar plena. O formulário não pode ser específico e discriminatório. Dessa forma, as fichas tradicionais de matrícula e inscrição devem passar a ter espaço para tais informações. III – disponibilização de provas em formatos acessíveis para atendimento às necessidades específicas do candidato com deficiência; O processo de avaliação dos estudantes ocorre observando e respeitando o conteúdo previsto para a etapa em que o aluno esteja cursando; contudo, os métodos de avaliação deverão ser adaptados às exigências do estudante deficiente. Provas orais, Braille, Libras ou outras formas de comunicação podem ser escolhidas como substitutivas à prova tradicional escrita. A regra impõe que a avaliação seja adaptada à condição do estudante. IV – disponibilização de recursos de acessibilidade e de tecnologia assistiva adequados, previamente solicitados e escolhidos pelo candidato com deficiência; A tecnologia assistiva e os recursos de acessibilidade são todo arsenal de recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência. Englobam produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que gerem funcionalidade e adaptabilidade, reduzindo dificuldades, incapacidades ou questões de mobilidade, nos termos da Portaria nº 142, de 16 de novembro de 2006 (MEC). A novidade do inciso IV é o direito de o estudante escolher, dentre os recursos disponíveis, o que melhor lhe atenda na escola. V – dilação de tempo, conforme demanda apresentada pelo candidato com deficiência, tanto na realização de exame para seleção quanto nas atividades acadêmicas, mediante prévia solicitação e comprovação da necessidade; Na mesma linha da regra que fixa a necessidade de a avaliação pedagógica se adequar, quanto à forma e as condições do alunato especial, aqui há disposição que dita a exigência de adequação de tempo especial, respeitadas as especificidades do discente deficiente, quando houver a aplicação dos processos seletivos, trabalhos escolares e atividades avaliativas na escola. VI – adoção de critérios de avaliação das provas escritas, discursivas ou de redação que considerem a singularidade linguística da pessoa com deficiência, no domínio da modalidade escrita da língua portuguesa; Singularidade significa característica única ou especial, particularidade. Singularidade linguística é a forma particular de comunicação desenvolvida com certas propriedades sintáticas que não são encontradas no português europeu. Decorre da construção subjetiva enraizada na cultura ou na forma particular de expressão de grupos em função de certas características. A escola deve considerar válida a singularidade linguística da pessoa com deficiência, dispõe o inciso. Isso significa compreender e respeitar a maneira particular de comunicação do estudante e suas diferentes construções linguísticas, mesmo que não coincidam com a maneira convencional de comunicação e expressão da língua portuguesa. O exemplo é a comunicação dos aprendizes surdos, em que a princípio há pouco uso de artigos, conjunções e preposições, bem como outras categorias gramaticais, o que reflete em textos curtos, com características “telegráficas”. A escrita é uma representação da linguagem e a lei determina que é preciso permitir ao aprendiz deficiente expressar-se mediante sua singularidade. Apenas “após vivenciar a escrita enquanto expressão de sua linguagem, o surdo terá mais condições de expressar por escrito à língua segunda, no caso, o Português”.³ VII – tradução completa do edital e de suas retificações em Libras. Nos termos da Lei n. 10.048/2000, a Libras é reconhecida como meio legal de comunicação (art. 1º). O Poder Público em geral e as empresas concessionárias de serviços públicos devem apoiar e difundir o uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras como meio de comunicação objetiva e de utilização corrente das comunidades surdas do Brasil. A mesma regra deve ser aplicada às instituições de ensino, que devem disponibilizar intérpretes e tradutores quando da realização de processos seletivos. 2Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2015/lei-13146-6- julho-2015-781174-veto-147472-pl.html . 3COSTA, Dóris Anita Freire. Relato de Pesquisa. Revista Psicopedagogia, 2003, v. 20, 62. ed. Disponível em: http://www.revistapsicopedagogia.com.br/detalhes/453/linguistica-e-surdez-- compreendendo-a-singularidade-da-producao-escrita-de-sujeitos . Acesso em: 20 de abril de 2019. CAPÍTULO V DO DIREITO À MORADIA Art. 31. A pessoa com deficiência tem direito à moradia digna, no seio da família natural ou substituta, com seu cônjuge ou companheiro ou desacompanhada, ou em moradia para a vida independente da pessoa com deficiência, ou, ainda, em residência inclusiva. O direito à moradia relaciona-se, intimamente, à noção dos direitos humanos, em especial pela sua específica proteção na Constituição Federal, em seu art. 6º, enquadrando-o como um direito social, bem como na Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu art. 25. A compreensão do direito à moradia como um direito fundamental decorre do fato de que este é o lugar onde o indivíduo resguarda sua intimidade e tem condições de desenvolver práticas básicas da vida, noções de responsabilidade e de convívio social. Nesse sentido, o presente dispositivo prevê não apenas o direito à moradia, mas o direito a uma moradia digna à pessoa com deficiência, compreendendo aquela que dispõe de instalações adequadas, possui acessibilidade física, de uso simples e intuitivo, com design útil, que apresente flexibilidade no uso, estabelecida em bairro que ofereça infraestrutura básica adequada e que tenha boa localização, oferecendo- lhe um lar e uma comunidade seguros para viver em paz, com dignidade e saúde física e mental. Ao lado do direito fundamental à moradia, o dispositivo traz, também, o direto à convivência familiar e comunitária, uma vez que a dimensão social da vida é capaz de desenvolver potencialidades, além de ser responsável pela construção cultural, política e civilizatória do indivíduo. Ainda, de maneira a promover o exercício pleno de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais às pessoas com deficiência, garante-se o respeito à escolha pela vivência desacompanhada, à autonomia individual de cada um e à independência das pessoas. Logo,a moradia digna, sustentada pelo direito à convivência familiar, é um direito básico e fundamental, reconhecido no plano nacional constitucional e internacional, que garante a existência digna à pessoa com deficiência. § 1º O Poder Público adotará programas e ações estratégicas para apoiar a criação e a manutenção de moradia para a vida independente da pessoa com deficiência. Compreendendo o direito à moradia como um direito social, este deve ser realizado por meio do Estado que, para implementá-lo, lança mão de recursos públicos disponíveis, de maneira a conferir-lhe efetividade. Trata-se do poder- dever do Estado em adotar medidas contundentes para permitir o pleno exercício do direito à moradia digna às pessoas com deficiência. Isso inclui a adoção de políticas públicas e a cooperação de todos os entes da federação, tendo em vista a complexidade que tais ações demandam. Dentre as principais políticas públicas atuais, podemos citar o programa “Viver Sem Limites”, que envolve educação, saúde, inclusão social e acessibilidade, e o programa “Minha Casa, Minha Vida”, que disponibiliza casas adaptadas às necessidades dos indivíduos com deficiência. Importante mencionar que, além de as casas serem acessíveis e adaptáveis, considerando a autonomia das pessoas com deficiência, é dever do Poder Público garantir a acessibilidade nas ruas, praças e calçadas no entorno da moradia, a fim de que o indivíduo usufrua de todo o espaço urbano que o envolve, sem se deparar com barreiras. § 2º A proteção integral na modalidade de residência inclusiva será prestada no âmbito do Suas à pessoa com deficiência em situação de dependência que não disponha de condições de autossustentabilidade, com vínculos familiares fragilizados ou rompidos. A residência inclusiva é uma modalidade de serviço de atendimento prevista no Sistema Único de Assistência Social (Suas). São moradias que acolhem grupos de até dez pessoas por residência, com estruturas adequadas e capazes de proporcionar serviços de apoio coletivos e individualizados que respeitem e ampliem o grau de autonomia e participação social de jovens e adultos com deficiência. Busca-se atender, prioritariamente, jovens e adultos com deficiência, beneficiários do Benefício de Prestação Continuada e que não disponham de condições de autossustento ou que não tenham o apoio familiar. O programa é gerido no âmbito municipal pelas secretarias de assistência social, e conta com residências adaptadas, estrutura física adequada, localizadas em áreas residenciais na comunidade, dispondo de equipe especializada e adequada para prestar atendimento personalizado e qualificado. Seu propósito é romper com a prática do abandono e do isolamento, de maneira a propiciar um efeito progressivo nas habilidades da pessoa com deficiência, facilitando sua autonomia e consequente reinserção na comunidade. Art. 32. Nos programas habitacionais, públicos ou subsidiados com recursos públicos, a pessoa com deficiência ou o seu responsável goza de prioridade na aquisição de imóvel para moradia própria, observado o seguinte: O artigo traça a sistemática previsão que garante a prioridade de aquisição de imóvel para moradia própria à pessoa com deficiência, tratando-se de programa habitacional público ou subsidiado com recurso público, com a observância de parâmetros específicos para promoção da acessibilidade nas edificações. Nesse mesmo sentido dispõe o art. 3º, III, da Lei n. 11.977/2009 sobre o Programa “Minha Casa Minha Vida”, que prevê a prioridade do atendimento às famílias com pessoa com deficiência. De maneira a proporcionar efetividade ao dispositivo, necessário que se cumpra o conjunto dos parâmetros indicados nos incisos do próprio artigo. Importante mencionar a necessária aplicação do conceito de desenho universal nos ambientes e serviços desenvolvidos, ou seja, a elaboração de espaços e edificações que sejam utilizáveis por todas as pessoas. I – reserva de, no mínimo, 3% (três por cento) das unidades habitacionais para pessoa com deficiência; Além da prioridade na aquisição de imóvel nos programas habitacionais públicos ou subsidiados com recursos públicos, a pessoa com deficiência goza da reserva de, no mínimo, 3% das unidades habitacionais. O direito a tal reserva percentual de unidades residenciais para pessoas com deficiência caracteriza-se como uma forma de atuação do Estado, por meio de ação afirmativa, que tem por objetivo eliminar diferentes formas de discriminação e alcançar a efetivação do direito à igualdade. II – (VETADO); III – em caso de edificação multifamiliar, garantia de acessibilidade nas áreas de uso comum e nas unidades habitacionais no piso térreo e de acessibilidade ou de adaptação razoável nos demais pisos; Em relação à acessibilidade, tratando-se de edificação multifamiliar, que atende a moradia de diversas famílias, garante-se que todas as unidades sejam acessíveis, nos pisos térreos e demais andares, bem como nas áreas de uso comum. Logo, ao proprietário com deficiência, tendo em vista sua particular necessidade, além da garantia de acessibilidade comum, deve ser efetuada a adaptação razoável nos demais andares da edificação. É de elevada importância observar que, tratando-se de obra inserida em programas habitacionais públicos ou subsidiados com recursos públicos, é inadmissível a construção de espaços que não ofereçam ampla acessibilidade. Assim, não se adstringe a necessária acessibilidade ao mínimo porcentual estabelecido no inciso I do presente artigo, uma vez que este diz respeito, exclusivamente, à reserva das unidades a serem disponibilizadas para pessoas com deficiência, enquanto a acessibilidade é destinada a pessoas com deficiência e àquelas com mobilidade reduzida, inclusive pessoas idosas. IV – disponibilização de equipamentos urbanos comunitários acessíveis; O direito à moradia relaciona-se, diretamente, ao direito à igualdade, impondo a efetivação conjunta e simultânea, bem como o pleno exercício de outros direitos fundamentais, como o direito à saúde, educação, cultura, esporte e lazer. Nesse sentido, os equipamentos urbanos comunitários têm um grande potencial no ordenamento urbano ao proporcionar bem-estar à população, sendo que sua implementação é atribuída ao Poder Público. Trata-se de bens públicos ou privados, de utilidade pública, destinados à prestação dos serviços necessários ao funcionamento da cidade, englobando os aspectos da educação, cultura, saúde e lazer e, assim sendo, necessário o seu fornecimento em condições acessíveis a toda a população. Compreendem-se como equipamentos urbanos os espaços livres, as vias e praças, áreas destinadas a esses fins, por ocasião de um processo de loteamento. V – elaboração de especificações técnicas no projeto que permitam a instalação de elevadores. A livre circulação de pessoas com deficiência é possibilitada, muitas vezes, a partir da reestruturação de espaços e instalação de equipamentos, como elevadores. A implementação de elevadores tem o objetivo de garantir autonomia, facilitar a vida e a rotina das pessoas com deficiência, proporcionando-lhes boa comodidade e segurança. Assim, considerando o papel que desempenham na inclusão social, o legislador viu por bem determinar, expressamente, a possibilidade de instalação de elevadores adaptados para comportar pessoas com deficiência. A ABNT elenca os requisitos que devem estar presentes nos elevadores para transportar pessoas com deficiência, dentre eles está a dimensão do elevador, devendo ser capaz de receber uma cadeira de rodas, a presença de comandos em Braille e anúncios sonoros. § 1º O direito à prioridade, previsto no caput deste artigo, será reconhecido à pessoa com deficiência beneficiária apenas uma vez. Comparativamente ao direito à moradia digna, tem-se que este é mais amplo que o direito à propriedade, uma vez que comporta direitos não relacionados à propriedade. O direito à moradia cumpre uma função prestacional e exige do Estado uma atuação ativa na realização da justiça social e promoção da dignidade humanaaos indivíduos. O direito à propriedade, compreendido como um direito fundamental, está intimamente relacionado ao cumprimento da sua função social, ou seja, não se trata de um direito absoluto e admite sofrer limitações quando houver um interesse social. Assim sendo, o presente artigo delimitou o direito à propriedade, a ser exercido uma única vez pela pessoa com deficiência. O propósito do artigo é vedar o uso dos privilégios concedidos à pessoa com deficiência como um instrumento de especulação, sendo vedado o uso do imóvel para locação a terceiros ou alienação por meio de instrumento particular. § 2º Nos programas habitacionais públicos, os critérios de financiamento devem ser compatíveis com os rendimentos da pessoa com deficiência ou de sua família. As ações do Estado, buscando conferir à pessoa com deficiência o direito à moradia digna, devem alcançar os programas habitacionais, públicos ou subsidiados com recursos públicos. Logo, evidente que os programas habitacionais públicos devem utilizar o critério da renda familiar como fator determinante para a distribuição dos imóveis, de maneira a criar meios e condições para que as pessoas com deficiência possam promover sua autonomia e inserção social plena a partir da efetivação do seu direito à moradia digna. § 3º Caso não haja pessoa com deficiência interessada nas unidades habitacionais reservadas por força do disposto no inciso I do caput deste artigo, as unidades não utilizadas serão disponibilizadas às demais pessoas. Não havendo inscrição de candidatos deficientes na proporção determinada no inciso I do artigo sob análise, deve-se repassar as unidades aos demais interessados, que concorrerão em iguais condições. O propósito do parágrafo é que os imóveis cumpram com a função social da propriedade, sendo inconcebível que se mantenha imóveis ociosos com tamanha busca pela casa própria. Art. 33. Ao Poder Público compete: O presente artigo traz os deveres impostos ao Poder Público no que tange à efetivação do direito à moradia às pessoas com deficiência. I – adotar as providências necessárias para o cumprimento do disposto nos arts. 31 e 32 desta Lei; e A garantia dos direitos em comento no presente capítulo depende, em boa parte, da promoção e efetivação de políticas públicas voltadas para o campo da habitação social. Trata-se do direito prestacional à moradia, expresso no poder- dever do Estado em adotar medidas contundentes para permitir seu pleno exercício. Infelizmente, o que se verifica é a omissão do Estado em fornecer elementos de inclusão e acessibilidade às pessoas com deficiência, que continuam encontrando diversas barreiras que impedem a fruição do seu direito à moradia digna e adequada, como barreiras físicas, discriminação e estigmatização, obstáculos institucionais e isolamento social. Daí a importância da necessária cooperação conjunta dos três entes estatais, União, estados e municípios, para implementarem o desenvolvimento adequado dos centros urbanos, de maneira a dar eficácia ao direito à moradia e proporcionar condições dignas de habitação e vida aos indivíduos. II – divulgar, para os agentes interessados e beneficiários, a política habitacional prevista nas legislações federal, estaduais, distrital e municipais, com ênfase nos dispositivos sobre acessibilidade. Por fim, considerando que é recente a visibilidade social e jurídica ofertada à pessoa com deficiência, cumpre ao Estado promover a divulgação da política de acessibilidade e inclusão social tratada no capítulo em exame, bem como prestar informações e orientações sobre os direitos assegurados em lei ou rede de serviços direcionados a esse grupo, com o objetivo de levar, ao maior número de pessoas possível, o conhecimento acerca dos direitos e deveres que envolvem a temática da moradia digna à pessoa com deficiência. CAPÍTULO VI DO DIREITO AO TRABALHO Seção 1 – DISPOSIÇÕES GERAIS Historicamente, a preocupação com o trabalho da pessoa com deficiência parece ter surgido a partir das guerras e revoluções. Isso porque, ao final de cada guerra, os diversos países afetados tinham que cuidar de problemas relacionados a soldados que, apesar de terem sobrevivido, retornaram mutilados para seus lares. Assim, em 1923 a Organização Internacional do Trabalho (OIT) recomendou a criação de leis que impusessem às entidades públicas e privadas a obrigação de contratar determinado número de pessoas com deficiências. Posteriormente, em 1944, a OIT aprovou nova Recomendação, que versava sobre a oferta de vagas de empregos a um número razoável de pessoas cujas deficiências não estivessem relacionadas ao combate. Acredita-se que o fato de o Brasil não ter vivenciado, diretamente, as duas Guerras Mundiais tenha contribuído para que a questão relacionada ao trabalho da pessoa com deficiência somente fosse debatida, no País, a partir da década de 1950 e de maneira bastante tímida. Felizmente, a Constituição Federal de 1988 (CF) trouxe, para o ordenamento pátrio, diversos preceitos destinados a garantir os direitos e a proteção da pessoa com deficiência, nos mais variados aspectos, inclusive no que se refere ao direito laboral, culminando na criação de normas infraconstitucionais relacionadas ao tema, dentre elas a Lei n. 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência – LBI), que se destaca por sua relevância, especialmente por estar pautada na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD), da Organização das Nações Unidas (ONU), ratificada pelo Brasil em 2008. Art. 34. A pessoa com deficiência tem direito ao trabalho de sua livre escolha e aceitação, em ambiente acessível e inclusivo, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. O art. 170, da CF, explicita que “a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social”. Ademais, não se pode olvidar que, assim como os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, a dignidade da pessoa humana constitui-se num dos mais importantes fundamentos do Estado Democrático de Direito (art. 1º, III e IV, da CF). Por sua vez, há muito que a sabedoria popular proclama que “o trabalho dignifica o homem”. Nesse sentido, o trabalho não é mero instrumento para subsistência humana. É muito mais do que isso, é ferramenta de inserção social e de autoafirmação. É, portanto, um direito de todos, inclusive da pessoa com deficiência. Vale ressaltar que, no caput do art. 34, da LBI, a expressão “trabalho” foi utilizada de forma genérica, não havendo referência expressa à relação de emprego, que pressupõe o trabalho subordinado. Depreende-se, portanto, que não se trata do direito a qualquer tipo de trabalho ou da imposição de determinadas ocupações que seriam “mais adequadas” a certas pessoas em razão de sua condição. Esse estigma deve ser superado. O artigo sob comento determina que o trabalho seja escolhido ou aceito livremente pela pessoa com deficiência, a quem compete decidir, por exemplo, se deseja trabalhar no comércio, na indústria ou na prestação de serviços; se vai trabalhar de maneira autônoma, subordinada ou, ainda, se vai empreender, gerir o próprio negócio. No que se refere ao ambiente acessível e inclusivo, deve-se atentar para o conceito de adaptações razoáveis (tratado no art. 3º, VI, da LBI) e para o fato de que o efetivo direito ao trabalho, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, somente será alcançado com o rompimento não só das barreiras urbanísticas, arquitetônicas, de transporte, de comunicação ou de informação, mas, especialmente, das chamadas barreiras atitudinais (art. 3º, IV, e, LBI). § 1º As pessoas jurídicas de direito público, privado ou de qualquer natureza são obrigadas a garantir ambientes de trabalho acessíveis e inclusivos. A referência expressa do legislador às pessoas jurídicas, certamente, decorre da obrigatoriedade de reserva de percentual de cargos e empregos públicos para as pessoas com deficiência (art. 37, VIII, da CF),bem como da obrigatoriedade de contratação de pessoa com deficiência, imposta apenas às empresas que possuam 100 ou mais empregados (art. 93, da Lei n. 8.213/91). Todavia, isso não quer dizer que as pessoas físicas que atuem como empregadoras ou tomadoras de serviços e que contratem pessoas com deficiência estejam liberadas da obrigação de garantir ambientes de trabalho acessíveis e inclusivos. Quando o legislador especifica “pessoas jurídicas de direito público, privado ou de qualquer natureza”, evidencia que não importa a natureza jurídica do contratante, seja ele ente da administração pública, empresa privada ou até mesmo entidade sem fins lucrativos, deverá, obrigatoriamente, garantir o ambiente de trabalho acessível e inclusivo. Nesse sentido, além de observar as normas de saúde, higiene e segurança do trabalho (art. 7º, XXII, da CF), o contratante deve adotar medidas de acessibilidade arquitetônica (no ambiente interno e externo do estabelecimento), de comunicação e informação e também tecnológica. Por fim, ressalta-se que, não obstante a adoção de todas essas medidas, é de suma importância que se realize um trabalho continuado junto a todos os demais trabalhadores, com o objetivo de eliminar, efetivamente, as já mencionadas barreiras atitudinais. Por oportuno, salienta-se que as questões relacionadas ao ambiente de trabalho acessível e inclusivo foram tratadas, de forma mais detalhada, no art. 3º da LBI. § 2º A pessoa com deficiência tem direito, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, a condições justas e favoráveis de trabalho, incluindo igual remuneração por trabalho de igual valor. Este dispositivo da LBI enaltece, além das disposições da CDPD, o princípio esculpido no art. 7º, inciso XXXI, da CF, que veda qualquer discriminação no tocante ao salário e critérios de admissão do trabalhador com deficiência. Trata- se de conceder a todos, indistintamente, a igualdade de oportunidades, favorecendo o acesso ao trabalho para, a partir de então, exigir que o trabalho se desenvolva em condições justas e favoráveis. Todavia, o conceito de “trabalho de igual valor” presente no § 1º do art. 461, da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, parece não se adequar aos pressupostos da LBI, afinal, em razão das diversas barreiras impostas à pessoa com deficiência, não se pode exigir que esta apresente produtividade e perfeição técnica idênticas àquelas apresentadas pelos demais trabalhadores que não possuem nenhuma deficiência. Tal exigência somente contribuiria para ampliar, ainda mais, o rol das barreiras impostas à conquista da tão alardeada igualdade. É salutar, portanto, que sejam oferecidos à pessoa com deficiência treinamentos, cursos de aprimoramento e as mais variadas formas de incentivo à qualificação profissional, tudo isso acompanhado da merecida contraprestação (prêmios, abonos, promoções etc.). Cotidianamente, observa-se que, algumas vezes, o empregador, “compadecido” com a situação do trabalhador com deficiência ou na ânsia de cumprir, às cegas, as determinações relativas à reserva das cotas previstas no art. 93 da Lei n. 8.213/91, contrata pessoas com deficiência e efetua, rigorosamente, os pagamentos dos salários sem, no entanto, exigir que essas pessoas trabalhem efetivamente. Outras vezes, apesar de atribuir jornadas relativamente menores aos trabalhadores com deficiência, o empregador realiza o pagamento dos salários na mesma proporção dos pagamentos feitos aos demais trabalhadores que cumprem a jornada regular de trabalho. Data maxima venia, tais atitudes também são formas de discriminação, menosprezo e violação da dignidade da pessoa humana e, não raro, têm sido motivo de condenação dos empregadores, por danos morais, perante a Justiça do Trabalho. § 3º É vedada restrição ao trabalho da pessoa com deficiência e qualquer discriminação em razão de sua condição, inclusive nas etapas de recrutamento, seleção, contratação, admissão, exames admissional e periódico, permanência no emprego, ascensão profissional e reabilitação profissional, bem como exigência de aptidão plena. Preambularmente, a CDPD demonstrou legítima preocupação com as difíceis situações enfrentadas pelas pessoas com deficiência, salientado que, para além da discriminação relacionada à deficiência, essas pessoas estão sujeitas a múltiplas formas de discriminação que, por vezes, são agravadas em razão de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de outra natureza (Preâmbulo da CDPD, alínea p). No que se refere à capacidade laborativa, a LBI, por meio do § 3º, do art. 34, salienta que ninguém pode ser considerado inapto para o trabalho simplesmente pelo fato de ser uma pessoa com deficiência. Ademais, não basta oferecer uma oportunidade de trabalho. A legislação brasileira prevê, para determinadas pessoas jurídicas (administração pública e empresas com 100 ou mais empregados), a obrigatoriedade de contratar e manter pessoas com deficiência em seu quadro funcional. Todavia, isso não é suficiente. Após a formalização do contrato de trabalho, o empregador não pode exigir do trabalhador com deficiência a aptidão plena para a vaga em disponibilidade. Ao invés disso, deve promover a sua capacitação e profissionalização, oferecendo-lhe oportunidade de ascensão profissional, eliminando, assim, toda e qualquer forma de discriminação relacionada à sua condição. § 4º A pessoa com deficiência tem direito à participação e ao acesso a cursos, treinamentos, educação continuada, planos de carreira, promoções, bonificações e incentivos profissionais oferecidos pelo empregador, em igualdade de oportunidades com os demais empregados. Da análise deste dispositivo percebe-se que a questão crucial perpassa pela educação, mais especificamente pela chamada educação inclusiva. Releva destacar que a inclusão educacional da pessoa com deficiência, no Brasil, somente foi normatizada a partir do Decreto n. 3.298/99, que regulamentou a Política Nacional da Pessoa com Deficiência. Até então, as demais pessoas foram educadas em um mundo à parte, não tiveram colegas de classe com deficiência e, portanto, não aprenderam a conviver com as diferenças, o que torna ainda mais difícil a tarefa de romper com as barreiras atitudinais. A esperança é que a educação inclusiva favoreça o convívio das diferenças, tornando o ser humano mais sensível à condição da pessoa com deficiência. Todavia, a transformação não vai acontecer de um momento para outro, o processo é moroso. Nesse contexto, conforme já mencionado, por ora cabe ao empregador oferecer à pessoa com deficiência treinamentos, cursos de aprimoramento profissional e as mais variadas formas de incentivo à qualificação profissional, tudo isso acompanhado da merecida contraprestação e em igualdade de condições com os demais empregados que, também, devem participar de cursos, treinamentos e atividades de educação continuada, visando eliminar toda e qualquer forma de preconceito relacionado à pessoa com deficiência. § 5º É garantida aos trabalhadores com deficiência acessibilidade em cursos de formação e de capacitação. Não obstante o papel do Estado, no que se refere à implantação de políticas públicas destinadas a atender a pessoa com deficiência, nota-se que a LBI impõe, ao empregador, a obrigação de ofertar cursos de formação e de capacitação aos trabalhadores com deficiência. É certo que não se trata de tarefa fácil. Contudo, o empregador não deve se ocultar sob o manto da insuficiência de recursos para se furtar de tal obrigação. A capacitação pode ocorrer, por exemplo, através da contratação de aprendizes portadores de deficiência. Além disso, às empresas contribuintes do sistema “S” (Sesc, Sesi e Senai) sempre existe a opção de exigir, desses órgãos, a disponibilização de cursos para formação e capacitação de trabalhadores com deficiência. Cabe, portanto, ao empregador o esforço criativo no sentido de garantir, cada vez mais, a acessibilidade dos trabalhadores com deficiência aos referidos cursos. Art. 35. É finalidade primordial das políticas públicas detrabalho e emprego promover e garantir condições de acesso e de permanência da pessoa com deficiência no campo de trabalho. Nos dispositivos anteriores deste Capítulo VI, o legislador reforçou a responsabilidade do empregador/tomador de serviços nos mais variados aspectos relacionados ao trabalho da pessoa com deficiência. O caput do art. 34 da LBI, por exemplo, exige do empregador a promoção de um ambiente de trabalho “acessível e inclusivo, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas”. O § 2º, do mesmo art. 34, impõe-lhe o dever de ofertar “condições justas e favoráveis de trabalho”. Na sequência, o § 3º veda a “restrição ao trabalho da pessoa com deficiência e qualquer discriminação em razão de sua condição”. Por fim, os §§ 4º e 5º impõem o dever de oferta e garantia de participação/acessibilidade da pessoa com deficiência em “cursos, treinamentos, educação continuada, planos de carreira, promoções, bonificações e incentivos profissionais oferecidos pelo empregador”. Por outro lado, o art. 35 da LBI tem outro enfoque, chamando a atenção para a responsabilidade e importante atuação do Estado na promoção dos direitos da pessoa com deficiência. Não há como ignorar o crescente compartilhamento, com a sociedade civil, do encargo relacionado à promoção de políticas públicas, notadamente em razão da participação e atuação de representantes da sociedade nas instâncias de controle social e órgãos deliberativos. Todavia, considerando que a atuação do Estado se concretiza por meio de políticas públicas, este não pode se limitar à criação de normas sobre os direitos das pessoas com deficiência. O Estado deve ir além, garantindo, na sua esfera de atuação, o cumprimento de medidas que garantam a acessibilidade nos seus mais variados aspectos e, especialmente, promovendo políticas públicas exequíveis e efetivas, destinadas à proteção e promoção social da pessoa com deficiência e que garantam, dentre outros direitos, o acesso e a permanência da pessoa com deficiência no campo de trabalho. Parágrafo único. Os programas de estímulo ao empreendedorismo e ao trabalho autônomo, incluídos o cooperativismo e o associativismo, devem prever a participação da pessoa com deficiência e a disponibilização de linhas de crédito, quando necessárias. Neste parágrafo único, o legislador reforça a ideia que já foi objeto de comentário no caput do art. 34 da LBI. Ou seja, a pessoa com deficiência é livre para escolher o seu trabalho. É ela quem decide em que setor da economia pretende trabalhar e, ainda, se vai trabalhar de forma autônoma, subordinada ou se vai gerir o próprio negócio. Assim, cabe ao Estado e à sociedade civil garantir a concretização desta liberdade de escolha, seja por meio de Programas Estatais ou de serviços prestados por instituições privadas, como o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), por exemplo. O importante é que, assim como as demais pessoas, a pessoa com deficiência seja devidamente contemplada em programas e ações que estimulem o empreendedorismo e o trabalho autônomo, recebendo o respaldo, técnico e financeiro, necessário ao sucesso de seu empreendimento. Seção II – DA HABILITAÇÃO PROFISSIONAL E REABILITAÇÃO PROFISSIONAL O Estatuto da Pessoa com Deficiência (EPD), em seu Título II, elenca, dentre os direitos fundamentais, o Capítulo VI quanto ao trabalho, integralmente alinhado aos direitos sociais já estabelecidos em nossa Carta Magna (art. 6º). O trabalho, sem dúvida, tem papel dignificador, mas o EPD busca a verdadeira inclusão social, com o senso de responsabilidade para com o próximo dentro do ofício a ser desempenhado, e tornar a pessoa com qualquer tipo de deficiência produtiva perante a coletividade. Art. 36. O Poder Público deve implementar serviços e programas completos de habilitação profissional e de reabilitação profissional para que a pessoa com deficiência possa ingressar, continuar ou retornar ao campo do trabalho, respeitados sua livre escolha, sua vocação e seu interesse. Esse artigo indica duas situações específicas quanto à forma com que o trabalho será desempenhado por qualquer pessoa com deficiência, sempre com o propósito do respeito a atividades de sua aptidão. A primeira, quanto às pessoas que precisam de uma habilitação profissional, geralmente cidadãos que já apresentam deficiências congênitas, na busca de um ensino que ofereça conhecimento mínimo para o desempenho de um ofício no qual as pessoas serão inseridas. E a segunda, quanto às pessoas que já desempenhavam um trabalho específico e que, por motivos variados, como acidentes de trânsito, doenças etc., acabaram por adquirir alguma deficiência e necessitam de reabilitação profissional, seja para continuar no mesmo ramo de atividade profissional ou a ele retornar. Nesse contexto, o Regime Geral de Previdência Social, regulamentado pela Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991, em seu art. 18, inciso III, alínea c, estabelece expressamente ao segurado e dependente a reabilitação profissional. § 1º Equipe multidisciplinar indicará, com base em critérios previstos no § 1º do artigo 2º desta Lei, programa de habilitação ou de reabilitação que possibilite à pessoa com deficiência restaurar sua capacidade e habilidade profissional ou adquirir novas capacidades e habilidades de trabalho. O EPD determina, como regra geral, a avaliação da deficiência, com critérios técnicos objetivos e subjetivos, o que não é diferente quanto a qualquer análise de habilitação ou de reabilitação de uma pessoa com deficiência a um trabalho a ser desempenhado. Nesse contexto, a presente Lei Brasileira de Inclusão determina que profissionais avaliem quais as reais condições do indivíduo dentro dos impedimentos, limitações e restrições existentes, que possam ser adequados ao trabalho a ser desempenhado. Afinal, expor qualquer pessoa a trabalho sem conhecimento ou capacidade é mitigar socialmente qualquer cidadão. E mais: a pessoa pode ser submetida até a uma efetiva periculosidade por não ter conhecimento básico ou técnico do que está sendo desempenhado. § 2º A habilitação profissional corresponde ao processo destinado a propiciar à pessoa com deficiência aquisição de conhecimentos, habilidades e aptidões para exercício de profissão ou de ocupação, permitindo nível suficiente de desenvolvimento profissional para ingresso no campo de trabalho. Como exposto, a habilitação profissional é fundamental para a pessoa que apresenta qualquer deficiência congênita ou adquirida em razão de circunstâncias pessoais (doenças, por exemplo), ou mesmo resultante de acidentes (como acidente de trânsito). Assim, a habilitação profissional adentra fatalmente à seara da educação, direito previsto constitucionalmente (em seu art. 6º), como também na presente Lei Brasileira de Inclusão (arts. 27 e seguintes), e que fomenta melhoria profissional, afinal, independentemente da eventual falta de aptidão, a habilitação profissional trará a adequação a qualquer cidadão com deficiência em uma verdadeira inclusão. § 3º Os serviços de habilitação profissional, de reabilitação profissional e de educação profissional devem ser dotados de recursos necessários para atender a toda pessoa com deficiência, independentemente de sua característica específica, a fim de que ela possa ser capacitada para trabalho que lhe seja adequado e ter perspectivas de obtê-lo, de conservá-lo e de nele progredir. O atendimento a toda e qualquer necessidade da pessoa com deficiência para fins de habilitar-se ou reabilitar-se, tendo um aprendizado condizente, passa cabalmente por serviços que sejam adequados e flexibilizados para o atendimento de cada caso. Afinal, todo e qualquer serviço prestado para fins de inserção, conservação ou progressão do trabalho a ser desempenhado deve atender às peculiaridades subjetivas na busca da excelência plena da inclusão social. § 4º Os serviços de habilitação profissional, de reabilitação profissional e de educação profissional deverão ser oferecidos em ambientes acessíveis e inclusivos. Ab initio, é fato que oPoder Público deve exigir de toda e qualquer instituição pública ou privada ambiente com o acesso necessário e de fato inclusivo, o que fomenta serviços a serem prestados quanto à habilitação ou reabilitação profissional adequados. No mais, a quebra de barreiras arquitetônicas apresenta regulamentação técnica e legal, o que permite não só a simples acessibilidade e, sim, a proibição de qualquer entrave quanto à participação social da pessoa com deficiência, seja quanto à liberdade de movimento, de expressão, de comunicação, de informação, de compreensão, de segurança etc. § 5º A habilitação profissional e a reabilitação profissional devem ocorrer articuladas com as redes públicas e privadas, especialmente de saúde, de ensino e de assistência social, em todos os níveis e modalidades, em entidades de formação profissional ou diretamente com o empregador. Sem dúvida, a União, os Estados e os Municípios têm a responsabilidade de propiciar órgãos para que a pessoa com deficiência obtenha a possibilidade efetiva de inclusão a um trabalho. Nesse contexto, é primordial o atendimento quanto à saúde, ao ensino e à assistência social, tripé que propicia a efetividade de qualquer habilitação ou reabilitação profissional. Dentre os benefícios da Previdência Social, a Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991, em seus arts. 89 usque 93, estabelece regras para a efetivação da habilitação e reabilitação profissional, englobando não apenas órgãos públicos, mas também o setor privado. Logo, a articulação na inclusão de pessoas com deficiência não é de responsabilidade exclusivamente pública, mas também do setor privado, este que tem de fato maior potencial para contratação. § 6º A habilitação profissional pode ocorrer em empresas por meio de prévia formalização do contrato de emprego da pessoa com deficiência, que será considerada para o cumprimento da reserva de vagas prevista em lei, desde que por tempo determinado e concomitante com a inclusão profissional na empresa, observado o disposto em regulamento. Vale consignar que o Poder Público, quando da contratação de pessoal, em regra, realiza o concurso público, que está regido pela Constituição Federal, que estabelece expressamente percentual para pessoas com deficiência, conforme art. 37, XIII. Nesse contexto, ainda, a Lei n. 7.853, de 24 de outubro de 1989, regulamentada pelo Decreto n. 3.298, de 20 de dezembro de 1999, estabelece, em seu art. 37, § 1º, que “o candidato portador de deficiência, em razão da necessária igualdade de condições, concorrerá a todas as vagas, sendo reservado, no mínimo, o percentual de cinco por cento em face da classificação obtida”. Contudo, o setor privado, como já exposto no § 5º do presente artigo em comento, não só tem estrutura para auxiliar os órgãos públicos a propiciar habilitação e reabilitação profissional, como também nossa legislação previdenciária, no art. 93 da Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991, estabelece que uma empresa com 100 (cem) ou mais empregados está obrigada a preencher de 2% (dois por cento) a 5% (cinco por cento) dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência. E mais: o Ministério do Trabalho deve fomentar e fiscalizar o cumprimento de vagas, para que a habilitação profissional seja cumprida também no setor privado, sob pena de que tal determinação legal seja inócua. § 7º A habilitação profissional e a reabilitação profissional atenderão à pessoa com deficiência. O presente parágrafo exclusivamente reitera o exposto quanto ao direito do trabalho à pessoa com deficiência, sendo a prerrogativa fundamental da habilitação e da reabilitação profissional. Afinal, a Lei Brasileira de Inclusão, em seus arts. 34 usque 38, é dedicada a fomentar o trabalho às pessoas com deficiência, o que, de fato, ratifique-se, não só dignifica qualquer cidadão, como também gera, perante a sociedade, verdadeira inserção social de pessoas que, mesmo com limitações, apresentam papel na construção do nosso país. Seção III – DA INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA NO TRABALHO A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, o Estatuto da Pessoa com Deficiência, prevê, nos arts. 37 e 38, comandos para a inclusão (admissão, permanência e ascensão) da pessoa com deficiência no contexto do trabalho, pautados nas premissas da acessibilidade, da razoável adaptação do meio ambiente do trabalho, da igualdade de oportunidades com as demais pessoas, bem como nos princípios da solidariedade, do respeito e da cooperação. Dessa forma, envolve diversos atores sociais, incluindo a sociedade civil, o Poder Público e as próprias pessoas com deficiência para a efetivação dos direitos fundamentais ao trabalho, ao meio ambiente do trabalho equilibrado, da cidadania e da dignidade dessas pessoas. Art. 37. Constitui modo de inclusão da pessoa com deficiência no trabalho a colocação competitiva, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, nos termos da legislação trabalhista e previdenciária, na qual devem ser atendidas as regras de acessibilidade, o fornecimento de recursos de tecnologia assistiva e a adaptação razoável no ambiente de trabalho. O caput do art. 37 da Lei n. 13.146/2015 garante à pessoa com deficiência o direito à inclusão no contexto laboral, entendido não apenas como o direito de ingresso, mas, também, como o direito de permanência e ascensão em condições de trabalho adequadas em um meio ambiente de trabalho equilibrado, consoante ao disposto nos arts. 225 e 200, inciso VIII, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. O direito fundamental ao trabalho das pessoas com deficiência (ingresso, permanência e ascensão no trabalho) é plenamente garantido não só pela Constituição Federal como, também, pela legislação nacional, notadamente a Lei n. 13.146/2015, cujo regramento consolidou toda a legislação construída desde a década de 1960. Ademais, o dispositivo em comento deve ser associado aos primados dos valores sociais do trabalho, disposto no inciso IV do art. 5º, da Constituição Federal, e do livre exercício de qualquer atividade de trabalho, ofício ou profissão, disposto no art. 5º, inciso XIII, da Constituição Federal. Dessa forma, deve-se entender como meio ambiente de trabalho equilibrado, à luz dos arts. 3º, 34 e 37 da Lei n. 13.146/2015, o locus laboral acessível, ou seja, que atenda às regras de acessibilidade espacial, nos termos das normas técnicas vigentes; dotado de recursos de tecnologia assistiva (vide art. 3º, III, da Lei n. 13.146/2015), ou seja, mecanismos, métodos, estratégias, práticas e serviços que promovam a funcionalidade, autonomia e independência da pessoa com deficiência; razoavelmente adaptado; e, sobretudo, isonômico no tocante à competitividade e a oportunidades em relação às demais pessoas, inclusive para o desenvolvimento pessoal e profissional, nos termos da Convenção n. 111/58 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), cujo tratado versa sobre a discriminação em matéria de emprego e profissão. Note-se não se tratar apenas do ingresso da pessoa com deficiência no contexto do trabalho, mas, também, do acesso e da efetiva inclusão, cujos elementos conduzem ao entendimento de que deve o locus laboral compreender tanto condições arquiteturais e tecnológicas adequadas como inclusivas, capazes de permitir à pessoa com deficiência a plena vivência do contexto laboral e a execução do trabalho de forma autônoma e independente. Isto é, a efetivação da inclusão da pessoa com deficiência não esbarra apenas em aspectos físicos do meio ambiente do trabalho, mas, principalmente, em aspectos comportamentais (incluindo as relações interpessoais, competitividade etc.) e organizacionais (incluindo a gestão laboral) constituintes do locus laboral (ALMEIDA, Victor Hugo de. Consumo e trabalho: impactos no meio ambiente do trabalho e na saúde do trabalhador. 2013. 241f. Tese (Doutorado em Direito) – Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013). Parágrafo único. A colocação competitiva da pessoa com deficiência pode ocorrerpor meio de trabalho com apoio, observadas as seguintes diretrizes: O parágrafo único do art. 37, da Lei n. 13.146/2015 internaliza, mais uma vez, o conteúdo disposto na Convenção n. 111/58 da OIT, ratificada pelo Brasil em 26 de novembro de 1965, cujo tratado versa sobre a discriminação em matéria de emprego e profissão, e da Convenção Internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, incorporada à legislação brasileira em 2008, por meio do Decreto Legislativo n. 186, e em 2009, por meio do Decreto n. 6.949/2009. A Convenção n. 111/58 da OIT prevê em seu art. 2º o compromisso de todo país-membro adotar e seguir uma política nacional destinada a promover a igualdade de oportunidade e de tratamento em matéria de emprego e profissão, visando à eliminação de toda forma de discriminação nesse sentido, inclusive em relação à inclusão da pessoa com deficiência. Por sua vez, a Convenção Internacional da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência assevera, em seu art. 3º, e, a igualdade de oportunidades como princípio geral, evidenciando a deficiência como apenas mais uma característica da condição humana. De acordo com o art. 27 dessa Convenção, internalizada no ordenamento jurídico pátrio pelo Decreto n. 6.949/2009, esse direito abrange a “[...] oportunidade de se manter com um trabalho de sua livre escolha ou aceito no mercado laboral em ambiente de trabalho que seja aberto, inclusivo e acessível a pessoas com deficiência”,⁴ bem como a proibição da discriminação; a proteção dos direitos das pessoas com deficiência mediante condições justas e favoráveis de trabalho, com iguais oportunidades e remuneração por trabalho de igual valor; a garantia do exercício dos direitos trabalhistas e sindicais; oportunidades de ingresso e manutenção no emprego e ascensão profissional; adaptações razoáveis do local de trabalho; reabilitação profissional; entre outros. Ademais, ao indicar, como objetivo, a colocação competitiva da pessoa com deficiência, tal dispositivo reforça a necessária isonomia para a inclusão da pessoa com deficiência, com base em sete diretrizes a seguir comentadas. I – prioridade no atendimento à pessoa com deficiência com maior dificuldade de inserção no campo de trabalho; Prevê o inciso I do parágrafo único do art. 37, da Lei n. 13.146/2015, a prioridade no atendimento à pessoa com deficiência com maior dificuldade de inserção no campo do trabalho, impondo, quando da colocação profissional competitiva da pessoa com deficiência, a necessidade de avaliação do seu grau de dificuldade, de acordo com sua deficiência (física, sensorial ou intelectual). Consoante aos dados colhidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no último Censo, em 2010, verificou-se menor taxa de atividade, um dos indicadores adotados para aferir a inserção da pessoa com deficiência no trabalho, das pessoas com deficiência intelectual, sendo a deficiência visual a menos restritiva.⁵ Esses dados, por exemplo, justificariam a prioridade no atendimento à pessoa com deficiência intelectual para inserção no contexto laboral. II – provisão de suportes individualizados que atendam a necessidades específicas da pessoa com deficiência, inclusive a disponibilização de recursos de tecnologia assistiva, de agente facilitador e de apoio no ambiente de trabalho; Como diretriz para a colocação competitiva da pessoa com deficiência, prevê o inciso II do parágrafo único do art. 37, da Lei n. 13.146/2015, a provisão de suportes individualizados direcionados a necessidades pontuais da pessoa com deficiência, como, por exemplo, recursos de tecnologia assistiva, agente facilitador, apoio no ambiente de trabalho, entre outros. Evidentemente, trata-se de rol não taxativo de suportes individualizados, haja vista a necessidade de tais medidas se adequarem às necessidades específicas da pessoa com deficiência em colocação profissional. Tal análise, nos termos do art. 2º, § 1º, inciso II, da Lei n. 13.146/2015, deve considerar fatores socioambientais, psicológicos e pessoais da pessoa com deficiência, visando à sua participação plena e efetiva na sociedade, incluindo o contexto laboral, em igualdade de condições com as demais pessoas. Essas garantias previstas na Lei n. 13.146/2018, como, por exemplo, o acesso das pessoas com deficiência a produtos, recursos, estratégias, práticas, processos, métodos e serviços de tecnologia assistiva que maximizem sua autonomia, mobilidade pessoal e qualidade de vida carecem de regulamentação pelo Poder Público. III – respeito ao perfil vocacional e ao interesse da pessoa com deficiência apoiada; O inciso III do parágrafo único do art. 37, da Lei n. 13.146/2015, preleciona a colocação competitiva da pessoa com deficiência com observância ao seu perfil vocacional e interesse. Significa dizer, portanto, que a admissão e inclusão da pessoa com deficiência não deve visar ao “[...] afastamento das penalidades impostas pela legislação”⁷ em decorrência da ordem de observância das cotas impostas pela legislação, mas, sim, gerar efetivas oportunidades nos processos de ingresso, permanência e ascensão dessas pessoas, de acordo com suas habilidades e potencialidades, de modo a contribuir para o desenvolvimento profissional e a efetivação da cidadania do trabalhador com deficiência. Em outras palavras, a pessoa com deficiência não deve ser vista como mera “[...] beneficiária da misericórdia comunitária e do assistencialismo estatal, mas, sim, [...] como um cidadão produtivo, capaz de contribuir de forma digna para o desenvolvimento do meio social em que vive”,⁸ lembrando-se que deficiência não deve ser entendida como incapacidade, mas, sim, como limitação. IV – oferta de aconselhamento e de apoio aos empregadores, com vistas à definição de estratégias de inclusão e de superação de barreiras, inclusive atitudinais; O inciso IV do parágrafo único do art. 37, da Lei n. 13.146/2015, prevê uma importante ferramenta para a efetiva inclusão da pessoa com eficiência, em condições competitivas, qual seja, a oferta de aconselhamento e de apoio aos empregadores, ratificando os primados do direito à igualdade de oportunidades e do direito ao trabalho, bem como princípios da solidariedade, do respeito e da cooperação. Desse modo, busca-se efetivar o acesso e a permanência dos profissionais com deficiência no trabalho, bem como o seu desenvolvimento profissional e social, por meio de estratégias de inclusão e superação de barreiras, inclusive atitudinais, de modo a demover aspectos culturais e organizacionais da gestão laboral capazes de dificultar a efetivação do direito fundamental ao trabalho dessas pessoas. Por barreiras (urbanísticas, arquitetônicas, de transporte, de comunicação, atitudinais ou tecnológicas) deve-se entender, nos termos do art. 3º, inciso IV, da Lei n. 13.146/2015, “[...] qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a participação social da pessoa”, inclusive “o gozo, a fruição e o exercício de seus direitos à acessibilidade, à liberdade de movimento e de expressão, à comunicação, ao acesso à informação, à compreensão, à circulação com segurança”. E por barreiras atitudinais, “atitudes ou comportamentos que impeçam ou prejudiquem a participação social da pessoa com deficiência em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas”.¹ De acordo com Fabiano Carvalho, tais barreiras atitudinais “[...] podem decorrer tanto das ações e atitudes do empregador como dos demais trabalhadores em relação ao colega com deficiência, reforçando equivocadamente uma incapacidade ou desvantagem em relação aos seus pares”; ou “da própria pessoa com deficiência, ao se imaginar realmente incapaz e merecedora, tão somente, das benesses estatais a ela destinadas em decorrência de sua condição”.¹¹ Ainda, “as barreiras atitudinais podem ocorrer de forma horizontal e/ou vertical, ou seja, tanto nas ações e atitudes negativas do empregador em relação aos seus empregados com deficiência como dos demaistrabalhadores em relação ao colega com deficiência”, de modo a salientar uma limitação e, por meio dela, impor ao trabalhador com deficiência limites “[...] ao se imaginar realmente incapaz de desenvolver determinado ofício e ser merecedor, tão somente, das benemerências estatais a ela destinadas”.¹² V – realização de avaliações periódicas; Outra diretriz para a colocação competitiva da pessoa com deficiência no contexto do trabalho, prevista no inciso V do parágrafo único do art. 37 da Lei n. 13.146/2015, é a realização de avaliações periódicas, visando ao acompanhamento do desenvolvimento, das limitações e de eventual necessidade de intervenção para a adaptação da pessoa com deficiência ao trabalho e ao seu meio. A Lei n. 13.146/2015 não detalhou o modo como deverão ser feitas tais avaliações. Sabe-se, porém, que os critérios adotados deverão ser objetivos, transparentes e relacionados ao conteúdo laboral; e subjetivos apenas no tocante a necessidades específicas do trabalhador com deficiência para a sua plena adaptação ao labor e ao meio ambiente do trabalho que integra, em condições adequadas e competitivas. Todavia, é evidente que o objetivo dessas medidas é avaliar periodicamente, mediante critérios técnicos e preferencialmente objetivos, as condições de aptidão, o desenvolvimento funcional e a eficiência dos serviços realizados pelo trabalhador com deficiência, sem perder de vista o primado da isonomia, buscando-se não apenas uma “[...] aparente igualdade formal (consagrada no liberalismo clássico), mas, principalmente, a igualdade material, na medida em que a lei deverá tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades”.¹³ VI – articulação intersetorial das políticas públicas; Entende-se por políticas públicas o sistema ou as ações isoladas propostas pelo Estado com o intuito de dar efetividade aos direitos fundamentais. No caso das políticas públicas de trabalho e emprego, tratam-se de ações para a efetivação do direito fundamental ao trabalho, como, por exemplo: apoio ao desempregado; qualificação profissional; intermediação de mão de obra; microcrédito; incentivo ao primeiro emprego; informação ao trabalhador; fiscalização das condições de trabalho; entre outras. A atuação intersetorial “caracteriza-se, também, como uma atuação em rede, entendida aqui como um arranjo entre pessoas, órgãos, departamentos, divisões, organizações etc.”¹⁴ Logo, para a eficácia das políticas públicas impõe-se a necessidade de identificar os problemas sociais e integrar “saberes e experiências das diversas políticas, passando a população também a desempenhar um papel ativo e criativo nesse processo”, constituindo-se a articulação intersetorial como um importante “fator de inovação na gestão das políticas sociais”.¹⁵ Assim sendo, esse inciso deve ser analisado conjuntamente com o disposto no art. 35 da Lei n. 13.146/2015, que prevê, como finalidade primordial dessas políticas públicas, a garantia de condições de acesso e de manutenção da pessoa com deficiência no trabalho, de modo que o Estado, em conjunto com a sociedade, crie condições para a efetivação do direito ao trabalho às pessoas com deficiência, de sua cidadania e, consequentemente, de sua dignidade, nos termos dos incisos II e III do art. 1º da Constituição Federal. E, também, com o disposto no art. 1º da Lei n. 13.146/2015, conduzindo ao entendimento de que não basta a simples colocação da pessoa com deficiência no contexto do trabalho, devendo o Estado e os diversos atores sociais buscar a inclusão, assegurando e promovendo, em iguais condições, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais da pessoa com deficiência. Assim, diante da necessidade de articulação intersetorial das políticas públicas, como diretriz para a colocação dessas pessoas, não basta dar condições ao trabalho sem a efetivação de outros direitos fundamentais, como, por exemplo, lazer, moradia, cultura, saúde e, inclusive, educação, como base para a capacitação e emancipação das pessoas com deficiência, com vistas a sua ascensão profissional e social. Portanto, tais políticas públicas devem alcançar bem mais do que aspectos arquiteturais e tecnológicos adaptados para o acesso e permanência dessas pessoas no campo do trabalho, mas também outros direitos fundamentais necessários para o acesso, a permanência e a ascensão da pessoa com deficiência no trabalho. VII – possibilidade de participação de organizações da sociedade civil. Como medida de inclusão, prevê o inciso VII do art. 37, da Lei n. 13.146/2015, a possibilidade de participação e apoio de organizações da sociedade civil na colocação competitiva da pessoa com deficiência no trabalho, visando efetivar o seu pleno desenvolvimento pessoal e profissional, a sua cidadania, a acessibilidade e a igualdade de oportunidades. Destaca-se, portanto, o papel das Organizações Não Governamentais (ONGs) e de associações e fundações que possuam a Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (Cebas) ou sejam qualificadas como Organizações Sociais pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). A Cebas é a certificação concedida pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) a entidades que atuam nas áreas da assistência social, saúde ou educação, possibilitando usufruir da isenção de contribuições para a seguridade social e a celebração de parcerias com o Poder Público, desde que observem os requisitos prescritos na Lei n. 12.101/2009. Podem participar diversas entidades, públicas, privadas, nacionais ou internacionais, com projetos direcionados à pessoa com deficiência, por meio de prestação de serviços e/ou destinação de recursos. Art. 38. A entidade contratada para a realização de processo seletivo público ou privado para cargo, função ou emprego está obrigada à observância do disposto nesta Lei e em outras normas de acessibilidade vigentes. O intuito do legislador, quando da confecção do art. 38 da Lei n. 13.146/2015, foi garantir que nenhuma entidade contratada para a realização de processo seletivo, público ou privado, para cargo, função ou emprego se eximisse da responsabilidade quanto à inclusão da pessoa com deficiência, à efetivação do direito ao trabalho e à garantia de um meio ambiente de trabalho equilibrado, ou seja, adequado, acessível e inclusivo. Desse modo, o dispositivo em questão obrigou expressamente essas entidades – pessoas física, jurídica ou ente despersonalizado, ou seja, independentemente de sua natureza jurídica – à observância do disposto na Lei n. 13.146/2015 e em normas de acessibilidade vigentes, como, por exemplo, a NBR 9050:2015, sobre critérios e parâmetros técnicos para projeto, construção, instalação e adaptação de edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos às condições de acessibilidade; a NBR NM 313:2007, sobre elevadores de passageiros e elevadores para transporte de pessoa com deficiência; a NBR 16537:2016, sobre sinalização tátil no piso; NBR 15599:2008, sobre comunicação na prestação de serviços; entre outras normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Dentre as medidas de acessibilidade contempladas em normas técnicas vigentes, encontram-se: estrutura e sinalização adequadas; espaço de deslocamento e circulação de usuários de cadeiras de rodas; vagas de estacionamento para pessoas com deficiência; instalação de maçanetas em altura adequada; sanitários acessíveis; sistema de telefonia para comunicação de deficientes auditivos; postos de trabalho e mesas para refeições em altura acessível a pessoas usuárias de cadeiras de rodas; sinalização tátil (pessoas com deficiência visual) e sonora (pessoas com deficiência auditiva); sistema de proteção e reabertura de portas de elevadores; entre outras. 4BRASIL. Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009. Diário Oficial da União , Brasília/DF, 26 ago. 2009. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm>. Acesso em: 16 jul. 2018. 5IBGE. Cartilha do Censo 2010. Pessoas com deficiência. Brasília, 2012. Disponível em: <http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/publicacoes/cartilha- censo-2010-pessoas-com-deficienciareduzido.pdf>. Acesso em: 16 jul. 2018. 6CARVALHO, Fabiano. O direito fundamental ao trabalho da pessoa com deficiência como meio de efetivação da cidadania : um enfoque labor-ambiental. 2018. 142f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2018. 77 CARVALHO, loc. cit. 8CARVALHO, Fabiano; ALMEIDA, Victor Hugo de. A efetivação do direito humano fundamental ao trabalho das pessoas deficientes . Revista da Faculdade de Direito do Sul de Minas, v.33, 2017. p. 54. 9BRASIL. Lei n. 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Diário Oficial da União , Brasília/DF, 7 set. 2015. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm>. Acesso em: 16 jul. 2018. 10 BRASIL. Lei n. 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Diário Oficial da União , Brasília/DF, 7 set. 2015. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm>. Acesso em: 16 jul. 2018. 11 CARVALHO, Fabiano. O direito fundamental ao trabalho da pessoa com deficiência como meio de efetivação da cidadania: um enfoque labor-ambiental. 2018. 142f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2018. p. 55. 12 CARVALHO, Fabiano. O direito fundamental ao trabalho da pessoa com deficiência como meio de efetivação da cidadania: um enfoque labor-ambiental. 2018. 142f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2018. p. 90). 13 LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado: igualdade formal e material. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 679. 14 CKAGNAZAROFF, Ivan Beck; MOTA, Normaston Rodrigues. Considerações sobre a relação entre descentralização e intersetorialidade como estratégias de modernização de prefeituras municipais. Economia & Gestão , Belo Horizonte, v. 3, n. 6, 2003. p. 38.. 15 JUNQUEIRA, Luciano A. Prates. A gestão intersetorial das políticas sociais e o terceiro setor. Saúde e Sociedade , São Paulo, v. 13, n. 1, abr. 2004. p. 34. CAPÍTULO VII DO DIREITO À ASSISTÊNCIA SOCIAL Art. 39. Os serviços, os programas, os projetos e os benefícios no âmbito da política pública de assistência social à pessoa com deficiência e sua família têm como objetivo a garantia da segurança de renda, da acolhida, da habilitação e da reabilitação, do desenvolvimento da autonomia e da convivência familiar e comunitária, para a promoção do acesso a direitos e da plena participação social. O acesso amplo às políticas públicas fomentadas pelo Estado é direito da pessoa com deficiência e dever da sociedade, com previsão na Constituição Federal e na Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência de Nova Iorque, recepcionada com status de emenda constitucional (Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009). A finalidade das políticas públicas destinadas às pessoas com deficiência, especialmente no que concerne ao trabalho consiste na garantia de renda, com acesso a programas de habilitação ou reabilitação profissional. No âmbito da assistência social, o objetivo é o de garantir uma renda mínima à pessoa com deficiência, por intermédio de acesso a benefício assistencial, principalmente o Benefício de Prestação Continuada (BPC) regulamentado pela Lei Orgânica da Assistência Social (Loas). § 1º A assistência social à pessoa com deficiência, nos termos do caput deste artigo, deve envolver conjunto articulado de serviços do âmbito da Proteção Social Básica e da Proteção Social Especial, ofertados pelo Suas, para a garantia de seguranças fundamentais no enfrentamento de situações de vulnerabilidade e de risco, por fragilização de vínculos e ameaça ou violação de direitos. A gestão do sistema de assistência social à pessoa com deficiência, cuja finalidade é gerir a implementação dos serviços de proteção social, é realizada pelo Sistema Único de Assistência Social (Suas), o qual é composto por uma gestão quadripartite entre a União, o Distrito Federal, Estados e Municípios. À União cabe a responsabilidade pela gestão das ações, por meio da formulação, do apoio, da articulação e coordenação das ações. Aos Estados federados competem a gestão da assistência social no âmbito de suas competências definidas constitucionalmente, cujas responsabilidades estão definidas na Norma Operacional Básica (NOB/Suas) (Resolução CNAS nº 33, de 12 de dezembro de 2012). Por seu turno, cabem aos Municípios e ao Distrito Federal, a atuação em três possíveis níveis: inicial, básico e pleno. A atuação inicial cabe aos municípios que atendam aos requisitos mínimos, tais como existência e funcionamento de conselho, fundo e planos municipais de assistência social, com execução de ações de Proteção Social Básica, utilizando-se de seus próprios recursos. No nível básico, o Município assume autonomamente a gestão da proteção social básica. Finalmente, no nível pleno, assume a gestão plena das ações sociais e assistenciais. § 2º Os serviços socioassistenciais destinados à pessoa com deficiência em situação de dependência deverão contar com cuidadores sociais para prestar-lhe cuidados básicos e instrumentais. Os cuidadores sociais são profissionais habilitados para realizarem os cuidados básicos assistenciais às pessoas com deficiência que sejam totalmente dependentes e que não possuam familiares, ou que estes não tenham condições de auxiliá-los. Os cuidadores sociais são muito mais conhecidos nos seus trabalhos desenvolvidos em apoio às crianças ou idosos em situação vulnerabilidade social, em abrigos ou asilos. De acordo com o Estatuto da Pessoa com Deficiência, é dever do Estado manter profissionais habilitados para atender e suprir as necessidades básicas das pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade social. Art. 40. É assegurado à pessoa com deficiência que não possua meios para prover sua subsistência nem de tê-la provida por sua família o benefício mensal de 1 (um) salário-mínimo, nos termos da Lei n. 8.742, de 7 de dezembro de 1993. Para consagrar o direito à vida biológica e social digna, a Constituição Federal, em seu art. 203, V, garante à pessoa com deficiência e ao idoso que esteja em situação de vulnerabilidade socioeconômica que comprove não possuir condições de prover a própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, nos termos da lei, um auxílio correspondente a um salário-mínimo mensal. Este auxílio assistencial refere-se ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), que é regulamentado pela Loas (Lei n. 8.742, de 7 de dezembro de 1993), segundo o qual, para ser considerado socialmente vulnerável, a pessoa com deficiência ou idoso deve ter renda per capita familiar inferior a 1/4 do salário mínimo. Há que se ressaltar, no entanto, pelo entendimento consolidado no STJ (STJ, REsp 1112557/MG 2009/0040999-9, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia, DJ 20-11-2009) que o possuidor de renda superior a 1/4 do salário mínimo per capita pode comprovar por outros meios a sua condição de miserabilidade e vulnerabilidade socioeconômica. CAPÍTULO VIII DO DIREITO À PREVIDÊNCIA SOCIAL Art. 41. A pessoa com deficiência segurada do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) tem direito à aposentadoria nos termos da Lei Complementar n. 142, de 8 de maio de 2013. O Estatuto da Pessoa com Deficiência, ao se reportar à Lei Complementar n. 142/2013, está corroborando o direito à aposentadoria especial da pessoa com deficiência no Regime Geral de Previdência. A EC n. 47/2005, que alterou o art. 201, § 1º, da CF, trouxe a previsão da aposentadoria com redução de tempode contribuição para os trabalhadores que exerçam suas atividades em condições especiais que prejudiquem a saúde e a integridade física e ao “portador de deficiência” – termo usado pela Constituição Federal. As aposentadorias decorrentes do labor sob condições especiais prejudiciais à saúde e à integridade física estão disciplinadas no art. 57 e seguintes da Lei n. 8.213/91, e para a pessoa com deficiência na Lei Complementar n. 142/2013, regulamentada pela Decreto n. 8.145/2013, de modo a prever os critérios legais para concessão da aposentadoria especial da pessoa com deficiência por tempo de contribuição, com redução neste critério, e por idade, com redução no critério etário. A redução do critério de tempo de contribuição mínimo para a concessão de aposentadoria especial da pessoa com deficiência de ambos os sexos leva em consideração o grau da deficiência reconhecida, sendo existentes 3 (três) graus: i – leve com redução de 2 (dois) anos; ii – moderado com redução de 6 (seis) anos e grave com redução de 10 (dez) anos. Na aposentadoria especial da pessoa com deficiência por idade, para ambos os sexos, a redução do critério etário sempre será de 5 (cinco) anos partindo da regra geral, independente do grau da deficiência constatada. Por derradeiro, ressalte-se que apesar de o Estatuto da Pessoa com Deficiência se reportar à aplicação da Lei Complementar voltada ao Regime Geral de Previdência Social, sua aplicação por isonomia previdenciária deve ser estendida aos servidores públicos que, na condição de pessoa com deficiência, também fazem jus à concessão da aposentadoria especial da pessoa com deficiência, por força do art. 40, § 4º, I, da CF/88, com a redação dada pela EC n. 47/2005. Apesar de os servidores públicos não possuírem ainda legislações próprias que regulamentem a aposentadoria especial da pessoa com deficiência, esta omissão legislativa tem sido sistematicamente suprimida pelo Poder Judiciário, especialmente pelo STF em sede de Mandado de Injunção, determinando a aplicação da LC n. 142/2013 aos servidores públicos até a promulgação da legislação própria. No tocante à aplicação da Lei Complementar n. 142/2013 aos servidores públicos federais, o Ministério da Previdência Social editou norma regulamentando a sua aplicação para fins de análise da concessão da aposentadoria especial da pessoa com deficiência a estes servidores. Aludida norma é a Instrução Normativa MPS/SPPS n. 2/2014 (MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL. Instrução Normativa MPS/SPPS n° 2. Diário Oficial da União, fev. 2014, p. 14). CAPÍTULO IX DO DIREITO À CULTURA, AO ESPORTE, AO TURISMO E AO LAZER Art. 42. A pessoa com deficiência tem direito à cultura, ao esporte, ao turismo e ao lazer em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, sendo-lhe garantido o acesso: O Princípio da Igualdade, insculpido no art. 5°, caput, da Constituição Federal, constitui o fundamento principal do art. 42 da LBI. É vedada qualquer discriminação à pessoa com deficiência, e o legislador prevê, expressamente, que o acesso à cultura, ao esporte, ao turismo e ao lazer devem ser igualmente garantidos a esta parcela da população. A vida com dignidade exige proteção à integridade física e psíquica. Neste ponto, para que se alcance o bem-estar, a plenitude e a saúde, resta fundamental garantir o acesso à cultura, que alarga os horizontes do conhecimento; ao esporte, que proporciona saúde física e mental; e ao turismo e ao lazer, conferindo diversão, prazer, descanso e recuperação do cansaço que o trabalho ocasiona para as pessoas. I – a bens culturais em formato acessível; A materialização e concretização ao acesso à cultura pelas pessoas com deficiência exige que os programas culturais, como teatros, cinemas e shows disponham de materiais, tecnologias e bens adaptados e acessíveis. Por exemplo, para que se garanta a inclusão das pessoas com deficiência física aos bens culturais, é necessário dispor de local acessível com rampa, espaço ampliado que caiba cadeira de rodas e elevador, se necessário. Já no caso de deficiência auditiva, deve haver disponibilidade de pessoal próprio para transcrição do evento em Libras. No que tange ao direito ao lazer, muitas empresas já fabricam balanços, gira- giras e até piscinas adaptadas para serem utilizadas pelas pessoas com deficiência. Importante destacar que o cuidado de desenvolver equipamentos e brinquedos próprios para serem utilizados pelas crianças com deficiência importa na observância, também, ao Princípio do Melhor Interesse do Menor, previsto no art. 227 da Carta Magna e nos arts. 1° e 10 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). II – a programas de televisão, cinema, teatro e outras atividades culturais e desportivas em formato acessível; e Este inciso lista exemplos de atividades culturais que devem ser disponibilizada em formato acessível para as pessoas com deficiência. Já existem alguns programas televisivos que contam com intérprete em Libras (Língua Brasileira de Sinais), como programas transmitidos pela TV Câmara. Existem cinemas que já contam com espaço sem poltronas localizado no meio das salas, para que as pessoas com deficiência tenham uma visão melhor dos filmes. As iniciativas inclusivas nas áreas de lazer importam em, além de oferecer rampas de acesso e banheiros adaptados em teatros, cinemas e locais de apresentação de shows, disponibilizar serviços de legendagem descritiva, audiodescrição e Libras. Os Ministérios da Cultura contam com órgãos específicos, como as Secretarias do Audiovisual, que têm como função instrumentalizar referidos serviços de inclusão. A existência de deficiência física jamais pode ser fator impeditivo de participação das pessoas com deficiência das atividades culturais e desportivas, e é neste sentido que os órgãos públicos têm trabalhado e ainda precisam avançar para fazerem valer de forma concreta os dispositivos previstos na LBI atinentes ao direito, em igualdade de condições, às pessoas com deficiência, às atividades de lazer, desportivas, culturais e recreativas. III – a monumentos e locais de importância cultural e a espaços que ofereçam serviços ou eventos culturais e esportivos. Os monumentos artísticos, presentes principalmente nos museus, devem conter recursos sensoriais, informações em Braille, audiodescrição, Libras e legendas, para que haja acessibilidade universal das pessoas com deficiências às obras artísticas. As ações culturais inclusivas devem ser promovidas e fomentadas para que exista uma participação ativa das pessoas com deficiência na vida cultural. Neste sentido: “é precisamente com o acolher da vertente social que o museu recebe uma nova missão. Sem renunciar às características de preservação do patrimônio, deve fomentar iniciativas culturais inclusivas, impulsionar a diferenciação e inserção de novos públicos que, afastados durante décadas, fazem valer os seus direitos de participação na vida cultural da sociedade atual”.¹ Os espaços que oferecem eventos esportivos, como os estádios, por exemplo, devem observar as regras constantes na Norma 9050 da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), que especifica os detalhes para a construção e adaptação de locais públicos a pessoas com deficiência. O Decreto n. 5.296/2004 determinou a reserva de 4% dos lugares dos estádios para pessoas com deficiência, sendo 2% para cadeirantes e 2% para pessoas com mobilidade reduzida ou deficiência visual. Todos esses cuidados propiciam que o esporte seja utilizado como uma ferramenta inclusiva, e que seja disponibilizado, em igualdade de condições, para as pessoas com deficiência. § 1º É vedada a recusa de oferta de obra intelectual em formato acessível à pessoa com deficiência, sob qualquer argumento, inclusive sob a alegação de proteção dos direitos de propriedade intelectual. A LBI garante à pessoa com deficiência o direito ao acesso aos meios culturais e ao entretenimento de forma igualitária às pessoas não deficientes, inclusive no que tange ao acesso a obras intelectuais em formato acessível, como os livrosem formato acessível. O art. 68, § 2° da Lei n. 13.146/2015 delimita o conceito de formato acessível como os “arquivos digitais que possam ser reconhecidos e acessados por softwares leitores de telas ou outras tecnologias assistivas que vierem a substituí-los, permitindo leitura com voz sintetizada, ampliação de caracteres, diferentes contrastes e impressão em Braille”. O legislador, neste ponto, preocupou-se em garantir o direito à informação, preconizado no art. 5°, XXXIII, da Constituição Federal, às pessoas com deficiência. Cabe salientar que, caso seja negada a disponibilização das obras intelectuais em formato acessível, pode ser interposta ação contra a editora que o negou, por exemplo, o que traz a garantia, no caso concreto, do acesso à leitura. § 2º O Poder Público deve adotar soluções destinadas à eliminação, à redução ou à superação de barreiras para a promoção do acesso a todo patrimônio cultural, observadas as normas de acessibilidade, ambientais e de proteção do patrimônio histórico e artístico nacional. A Carta Constituinte atual dispõe em seu art. 244 que: “a lei disporá sobre a adaptação dos logradouros, dos edifícios de uso público e dos veículos de transporte atualmente existentes a fim de garantir acesso adequado às pessoas portadoras de deficiência, conforme o disposto no art. 227, § 2°”. Além disso, estatui, no art. 215, caput, que: “o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes de cultura nacional”. O direito de acessibilidade aos bens culturais encontra amparo nos princípios da isonomia e da fruição coletiva do patrimônio cultural nacional. A LBI, no art. 42, § 2º, regulamenta e observa os dispositivos constitucionais retromencionados, e transfere para o Poder Público o dever de agir no sentido de eliminação dos entraves, problemas e obstáculos que impedem as pessoas com deficiência de usufruir dos bens pertencentes ao patrimônio cultural brasileiro, impondo-lhe, ainda, a função de facilitar o acesso das pessoas com deficiência a referidos bens. Na parte final do § 2° do artigo em tela, o legislador condiciona o agir do Poder Público à observância das normas de acessibilidade, previstas sobretudo na NBR 9050, que dispõe sobre acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos públicos; à legislação ambiental e a que protege o patrimônio histórico e artístico nacional. Assim, se determinado espaço público for passar por reformas para atender o público com necessidades especiais, deverá ser observada a norma protetiva do patrimônio histórico, por exemplo, manter as fachadas de prédios históricos. Art. 43. O Poder Público deve promover a participação da pessoa com deficiência em atividades artísticas, intelectuais, culturais, esportivas e recreativas, com vistas ao seu protagonismo, devendo: As atividades recreativas, desportivas e de lazer, como mencionado alhures, são um importante meio para promoção da igualdade e integração das pessoas com deficiência com o público em geral. Desta forma, incumbe ao Estado, por meio de políticas públicas inclusivas, incentivar que as pessoas com deficiência participem de eventos e programas artísticos, culturais e intelectuais. Para isso, deverá garantir estrutura própria, como banheiros adaptados, espaço próprio, disponibilizar intérpretes e ainda divulgar que os eventos culturais terão apoio para o público que possua qualquer espécie de deficiência. O Poder Público deverá sempre atentar-se ao princípio da igualdade substancial, que consiste em tratar de forma igual os iguais e de forma desigual os desiguais, na medida de sua desigualdade. Os fatores que causam limitações físicas ou mentais às pessoas devem ser superados, não só individualmente, mas pelo próprio Poder Público, que por meio de ações inclusivas possibilitará a estas pessoas um tratamento igualitário perante os demais. I – incentivar a provisão de instrução, de treinamento e de recursos adequados, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas; Para que as pessoas com deficiência tenham o efetivo acesso aos bens artísticos e culturais, deverão ser promovidas políticas públicas que viabilizem o exercício do direito à fruição do patrimônio artístico e cultural em igualdade de condições com as demais pessoas. A fim de alcançar essa finalidade, os municípios e estados deverão treinar pessoal para trabalhar nas obras artísticas como intérpretes, ou dispor recursos tecnológicos que permitam o acesso das pessoas com deficiência às obras e monumentos culturais, como fones que descrevem as obras artísticas em museus, por exemplo. Estes recursos operacionais permitem que o público que possua alguma deficiência interaja com as demais pessoas e desfrute das obras artísticas e eventos culturais com igualdade de condições. II – assegurar acessibilidade nos locais de eventos e nos serviços prestados por pessoa ou entidade envolvida na organização das atividades de que trata este artigo; e Este inciso apresenta mais uma maneira de ser promovida a inclusão e participação das pessoas com deficiência nos eventos culturais, artísticos ou desportivos, determinando que incumbe ao Poder Público garantir a acessibilidade onde houver tais eventos, por exemplo, dispondo de sanitários adaptados, de corredores e espaços adequados, transferindo tal mister também às entidades organizadoras desses eventos. Deverão assim ser oferecidos aparatos que instrumentalizem o exercício do direito ao acesso à cultura, sejam eles físicos, tecnológicos ou operacionais. E este dever pertence aos Municípios, às Secretarias de Cultura e, como mencionado anteriormente, às entidades organizadoras de eventos culturais, artísticos, intelectuais ou desportivos. III – assegurar a participação da pessoa com deficiência em jogos e atividades recreativas, esportivas, de lazer, culturais e artísticas, inclusive no sistema escolar, em igualdade de condições com as demais pessoas. As atividades esportivas promovem bem-estar, lazer e saúde física e psíquica das pessoas. Por isso devem sempre ser fomentadas, assim como as atividades recreativas e de lazer, que possibilitam a socialização, vivência conjunta e formação de opinião dos indivíduos. Por esta razão, incumbe ao Poder Público assegurar que a pessoa com deficiência seja integrada a tais atividades e delas participe com igualdade de condições com as demais pessoas. Essas políticas públicas também deverão ser voltadas ao ambiente escolar, possibilitando que as crianças com deficiência usufruam dos esportes, brincadeiras e eventos culturais da mesma forma que as demais crianças, o que corrobora para a construção do caráter e da personalidade de tais crianças, promovendo-lhes, consequentemente, saúde física e psíquica. O Poder Público não pode economizar esforços para promover a integração das pessoas, notadamente as crianças, ao ambiente cultural. Os recursos públicos deverão ser destinados à compra de material inclusivo, como audiolivros, livros com leitura em Braille, construção de parques com brinquedos adaptados para pessoas com deficiência e a presença de professores treinados para auxiliar referidas crianças. Construir o futuro de uma nação é, sobretudo, garantir um momento presente digno para as crianças, e a integração social e cultural fazem parte da formação moral das pessoas, não devendo jamais serem excluídas as que possuírem qualquer forma de deficiência. Art. 44. Nos teatros, cinemas, auditórios, estádios, ginásios de esporte, locais de espetáculos e de conferências e similares, serão reservados espaços livres e assentos para a pessoa com deficiência, de acordo com a capacidade de lotação da edificação, observado o disposto em regulamento. O art. 44 da LBI foi regulamentado recentemente pelo Decreto n. 9.404, de 11 de junho de 2018. Os teatros, cinemas, espaços esportivos e destinados a conferências, como palestras, deverão contar com espaços livres, onde caibam as cadeiras de rodas, situados em local com boa visibilidade, e deverá ser reservado um percentual das cadeiraspara as pessoas com deficiência. O art. 1° do supramencionado decreto alterou o art. 23 do Dec. n. 5.296/2004, determinando que nas edificações com capacidade de lotação de até mil lugares deverão ser disponibilizados 2% (dois por cento) de espaço para pessoas com cadeira de rodas, e 2% (dois por cento) de acentos para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida (§ 1°, I, a e b) e nas edificações com lotação acima de mil lugares deverá haver vinte espaços para pessoas em cadeira de rodas mais 1% (um por cento) do que exceder mil lugares e ainda vinte assentos para pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida mais 1% (um por cento) do que exceder mil lugares (§ 1°, II, a e b). O art. 1°, § 2° do Decreto n. 9.404, de 11 de junho de 2018, por sua vez, estatui que 50% (cinquenta por cento) dos assentos destinados para pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida devem ser reservados para o uso por pessoa obesa, os quais devem ter características dimensionais e estruturais para o uso das pessoas obesas. § 1º Os espaços e assentos a que se refere este artigo devem ser distribuídos pelo recinto em locais diversos, de boa visibilidade, em todos os setores, próximos aos corredores, devidamente sinalizados, evitando-se áreas segregadas de público e obstrução das saídas, em conformidade com as normas de acessibilidade. O legislador, neste parágrafo, deixou claro que não basta garantir o simples acesso da pessoa com deficiência aos espaços culturais. É necessário garantir bons espaços, que garantam a plenitude do direito ao lazer e à cultura. Não é suficiente simplesmente reservar algumas poltronas dos cinemas para as pessoas com deficiência. É preciso que sejam destinados àquelas locais com boa localização, acessíveis, próximos dos corredores, para facilitar a entrada e a saída. Os assentos para pessoas com deficiência devem estar situados conjuntamente com os demais assentos, integrando o público. As saídas devem estar liberadas, para facilitar a locomoção. § 2º No caso de não haver comprovada procura pelos assentos reservados, esses podem, excepcionalmente, ser ocupados por pessoas sem deficiência ou que não tenham mobilidade reduzida, observado o disposto em regulamento. De forma genérica, pode-se entender que neste ponto o legislador quis evitar o prejuízo econômico das empresas cinematográficas, teatrais e culturais, porque, a contrario sensu, caso fosse proibida a ocupação dos assentos vazios destinados a pessoas com deficiência, referidas empresas deixariam de vender os ingressos correspondentes a tais assentos. A prioridade é que o espaço especial e adaptado seja ocupado por pessoas com deficiência. Mas, se por algum motivo, eles ficarem vazios, foi aberta oportunidade para serem ocupados pelo público em geral. Este parágrafo foi regulamentado pelo Decreto n. 9.404/2018, que disciplina no art. 23-A sobre as condições de venda de ingressos de locais reservados a pessoas com deficiência para pessoas que não a possuam, regrando no respectivo § 1° que a reserva de assentos será garantida a partir do início das vendas até 24 horas antes de cada evento, com disponibilidade em todos os pontos de venda de ingresso, sejam eles físicos ou virtuais. Já no § 2º, determina-se que nos eventos realizados em estabelecimentos com lotação acima de 10 mil pessoas, a reserva de assentos de que trata o caput será garantida a partir do início das vendas até 72 horas antes de cada evento. O § 3º preleciona que os espaços e os assentos em cada setor somente serão disponibilizados às pessoas sem deficiência ou sem mobilidade reduzida depois de esgotados os demais assentos daquele setor e somente quando os prazos estabelecidos nos §§ 1º e 2º se encerrarem. Por fim, o § 4º dispõe que nos cinemas, a reserva de assentos de que trata o caput será garantida a partir do início das vendas até meia hora antes de cada sessão. § 3º Os espaços e assentos a que se refere este artigo devem situar-se em locais que garantam a acomodação de, no mínimo, 1 (um) acompanhante da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, resguardado o direito de se acomodar proximamente a grupo familiar e comunitário. O Estatuto da Pessoa com Deficiência, nos artigos destinados à garantia do acesso ao lazer, cultura e esporte, demonstra nítida preocupação com a sociabilidade e a inserção da pessoa com deficiência nos meios culturais junto com a comunidade. Este parágrafo retrata essa assertiva. Além de ter direito a espaço reservado com facilidades de locomoção, espaço para cadeira de rodas e boa visibilidade do espetáculo ou filme, o legislador garantiu, neste parágrafo, que as pessoas com deficiência têm também o direito de contar com espaço ao seu lado para um acompanhante, com vistas a garantir a segurança e amparo deste público. Assegurou-se ainda o direito de as pessoas com deficiência ficarem situadas próximas de sua família e da comunidade. Esta determinação traz como consequência o dever das empresas cinematográficas e teatrais de construírem espaços para as pessoas com deficiência próximos ao espaço destinado para o público em geral. Com esta determinação garante-se integração entre os dois públicos. § 4º Nos locais referidos no caput deste artigo, deve haver, obrigatoriamente, rotas de fuga e saídas de emergência acessíveis, conforme padrões das normas de acessibilidade, a fim de permitir a saída segura da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, em caso de emergência. O art. 23 do Decreto n. 5.296/2004, com redação alterada pelo art. 1° do recente Decreto 9.404/2018, em seu § 4º, dispõe a obrigatoriedade da existência de rotas de fuga e saídas de emergência acessíveis, conforme padrões das normas técnicas de acessibilidade da ABNT, a fim de permitir a saída segura de pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida, em caso de emergência. Este regramento tem como escopo, pautado no princípio da igualdade, garantir às pessoas com deficiência a mesma segurança destinada ao público em geral, resguardando assim sua integridade física no caso de incêndio, desabamento ou qualquer acidente que ocorra durante o filme, peça, show ou partida de esporte. § 5º Todos os espaços das edificações previstas no caput deste artigo devem atender às normas de acessibilidade em vigor. O § 5° do art. 44 da LBI dispõe expressamente que é dever de todas as instituições, empresas e eventos destinados à promoção de lazer, que observem, em suas edificações, as normas de acessibilidade vigentes na época, incluindo a própria LBI, o Decreto n. 9.404, de 11 de junho de 2018, que regulamenta o art. 44 do Estatuto da Pessoa com Deficiência e outras normas técnicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). O art. 23 do Decreto n. 5.296/2004, com redação alterada pelo Decreto n. 9.404/2018, no § 10, por exemplo, estipula prazo máximo de doze meses, contado da data de publicação deste último decreto, para implementação das adaptações necessárias à oferta de assentos com características dimensionais e estruturais para o uso por pessoa obesa. Assim, além de as edificações deverem observar todos os regramentos que determinam normas de acessibilidade, há que serem observados os prazos conferidos para mudanças e adaptações, para que estejam em conformidade com as legislações. § 6º As salas de cinema devem oferecer, em todas as sessões, recursos de acessibilidade para a pessoa com deficiência. Para que exista a interação plena do público com deficiência com o filme, o legislador determina que deverão haver recursos de acessibilidade. Este parágrafo fora regulamentado pelo art. 1°, § 6º, do Decreto n. 9.404/2018, o qual estatui que as salas de espetáculo deverão dispor de meios eletrônicos que permitam a transmissão de subtitulação por meio de legenda oculta e de audiodescrição, além de disposições especiais para a presença física de intérprete de Libras e de guias-intérpretes, com a projeção em tela da imagem do intérprete sempre que a distância não permitir sua visualização direta. Todos esses recursos viabilizama acessibilidade durante as apresentações de películas para as pessoas com deficiência. Há inclusive um projeto de lei, de n. 63592016, que visa renumerar o § 7° do art. 44 da Lei n. 13.146/2015 (LBI), para determinar que as salas de cinema disponibilizem rede wi-fi específica para acesso por surdos-mudos e cegos, mediante aplicativo gratuito disponível para baixar e instalar em tablets e smartphones contendo um intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) e legendas e que emita audiodescrição através de fones de ouvido. Todas essas determinações demonstram que a tecnologia pode e deve ser utilizada para fomentar recursos tecnológicos que garantam inclusão e acessibilidade das pessoas com deficiência aos meios culturais. § 7º O valor do ingresso da pessoa com deficiência não poderá ser superior ao valor cobrado das demais pessoas. O legislador dispõe expressamente que o preço dos ingressos deve ser o mesmo tanto para as pessoas com deficiência como para as demais pessoas. Talvez, pelo alto custo econômico de implementação das mudanças estruturais das edificações e dos recursos tecnológicos empregados visando obedecer as determinações legislativas, as empresas cinematográficas poderiam valer-se de tal argumento para cobrarem valor mais alto das pessoas com deficiência. A intenção do disposto neste parágrafo é justamente de coibir esta prática. E mais, o § 11 do Decreto n. 9.404/2018 garante às pessoas com deficiência o direito à meia entrada, o qual deve observar apenas o limite estabelecido no § 10 do art. 1º da Lei n. 12.933, de 26 de dezembro de 2013, que por sua vez estatui que a concessão do direito ao benefício da meia-entrada é assegurada em 40% (quarenta por cento) do total dos ingressos disponíveis para cada evento. Essa limitação, reitere-se, é destinada tanto para as pessoas com deficiência como para o restante do público, em igualdade de oportunidades. Art. 45. Os hotéis, pousadas e similares devem ser construídos observando- se os princípios do desenho universal, além de adotar todos os meios de acessibilidade, conforme legislação em vigor. Para que as pessoas com deficiência usufruam plenamente e confortavelmente de seus passeios e viagens, houve a preocupação do legislador de estabelecer regras arquitetônicas para os locais destinados à hospedagem. Os hotéis, pousadas e similares, no que concerne a este tema, atualmente devem respeitar o Decreto Presidencial n. 9.296, de 1° de março de 2018, o qual regulamenta o presente artigo. De acordo com o referido Decreto, os projetos arquitetônicos dos estabelecimentos de hospedagem deverão atender aos princípios do desenho universal e ter como referências básicas as normas técnicas de acessibilidade da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), a legislação específica e as disposições do próprio decreto, especialmente quanto aos seus anexos I, II e III, que detalham quais princípios e meios de acessibilidade devem ser garantidos. § 1º Os estabelecimentos já existentes deverão disponibilizar, pelo menos, 10% (dez por cento) de seus dormitórios acessíveis, garantida, no mínimo, 1 (uma) unidade acessível. O legislador estabelece, no art. 45, § 1° da LBI, o percentual mínimo de 10% (dez por cento) dos seus dormitórios nas condições de acessibilidade, devendo haver no mínimo um dormitório observando todas as características de acessibilidade. Este parágrafo foi regulamentado pelo Dec. n. 9.296, de 1° de março de 2018, o qual estatui, no art. 3°, que os estabelecimentos hoteleiros já existentes, construídos ou reformados no período entre 30 de junho de 2004 e 2 de janeiro de 2017 devem contar com 5% (cinco por cento), mínimo de 1 dormitório, com as características construtivas e recursos de acessibilidade constantes no Anexo I do respectivo decreto, que por sua vez trata das características construtivas e recursos de acessibilidade; com 5% dos demais dormitórios contando com ajudas técnicas e recursos de acessibilidade presentes no Anexo II, que versa sobre ajudas técnicas e recursos de acessibilidade. Por fim, o art. 3°, III, preleciona que se o hóspede solicitar, quando da efetuação da reserva, ajudas técnicas e recursos de acessibilidade, estes devem ser disponibilizados. O Dec. n. 9.296/2018, no art. 3°, ainda concede prazo de 4 anos para que os estabelecimentos já existentes, construídos até 29 de junho de 2004, atendam o percentual mínimo de 10٪ (dez por cento) de dormitórios acessíveis. § 2º Os dormitórios mencionados no § 1° deste artigo deverão ser localizados em rotas acessíveis. Para garantir a plenitude do direito ao lazer, e para que as pessoas com deficiência tenham a oportunidade de usufruir de todos os espaços comuns dos estabelecimentos de hospedagem e hoteleiros, além de garantir o percentual mínimo de unidades contendo todas as características de acessibilidade determinadas pela legislação, determinou-se também que referidos dormitórios estejam localizados em rotas acessíveis. O Dec. n. 9.296/2018, no art. 2°, parágrafo único, reiterou essa determinação, dispondo que: “Os dormitórios a que se refere o inciso I do caput não poderão estar isolados dos demais e deverão estar distribuídos por todos os níveis de serviços e localizados em rota acessível”. O inciso I do caput do art. 2°, por sua vez, determina que os estabelecimentos hoteleiros deverão disponibilizar no mínimo 5٪ de seus dormitórios com características construtivas e recursos de acessibilidade. 16 SANTOS, Sônia. Museus Inclusivos: realidade ou utopia? Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/8945.pdf . Acesso em: jun. 2018. CAPÍTULO X DO DIREITO AO TRANSPORTE E À MOBILIDADE Art. 46. O direito ao transporte e à mobilidade da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida será assegurado em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, por meio de identificação e de eliminação de todos os obstáculos e barreiras ao seu acesso. A Lei brasileira de acessibilidade traz, neste capítulo, alguns elementos teóricos sobre transporte e mobilidade baseados na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência promovida no ano de 2006 pela ONU e ratificada em 2008 pela legislação brasileira com equivalência de Emenda Constitucional. Neste capítulo também são ressaltados elementos práticos com normas que visam melhorar o dia a dia do transporte da pessoa com deficiência no país. O direito ao transporte está inserido como direito social no art. 6º, bem como o direito de locomoção, direito fundamental positivado também na Constituição Federal em seu art. 5º, inciso XV, garantia que permite a todo cidadão se locomover livremente pelos espaços públicos e privados nacionais e internacionais. Portanto, o direito ao transporte é uma garantia fundamental resguardada para todo e qualquer cidadão brasileiro em igualdade material, ou seja, baseando-se nos artigos da Constituição brasileira, pode-se dizer que o transporte no país deve ser inclusivo e acessível, dando a seus usuários mobilidade por meio de um tratamento isonômico, já que a igualdade material significa tratar os iguais igualmente e os desiguais desigualmente (NERY JÚNIOR, 1999, p. 42). Isso implica na derrubada das barreiras urbanísticas, arquitetônicas e de transportes (termos definidos nesta Lei no art. 3º, II, a, b e c) e obstáculos que impossibilitam a locomoção da pessoa com deficiência. Este artigo é explícito e reclama o direito ao transporte e à mobilidade em relação de igualdade com os demais cidadãos, fazendo com que haja acessibilidade urbana para a pessoa com deficiência. § 1º Para fins de acessibilidade aos serviços de transporte coletivo terrestre, aquaviário e aéreo, em todas as jurisdições, consideram-se como integrantes desses serviços os veículos, os terminais, as estações, os pontos de parada, o sistema viário e a prestação do serviço. A acessibilidade como conceito é a ideia de tirar as barreiras que impedem a plena e efetiva participação da pessoa com deficiência na sociedade em igualdade de condições, definida nesta Lei Brasileira deInclusão em seu art. 3º, inciso I. Sendo assim, o reconhecimento de que existem barreiras físicas e sensoriais que impedem a livre locomoção da pessoa com deficiência também nas estações, nas vias e pontos de parada dos vários tipos de transporte coletivo faz com que seja de extrema importância o reconhecimento e a positivação deste parágrafo. A acessibilidade no transporte vai muito além do deslocamento da pessoa com deficiência do ponto de partida para o ponto de chegada, esta também inclui a informação sobre itinerário, horários, bem como o atendimento e a capacitação adequada dos servidores. O passe livre concedido para a pessoa com deficiência comprovadamente carente oferece também uma acessibilidade mais completa no transporte coletivo e está positivado na Lei n. 8.899/94, regulamentada pelo Decreto n. 3.691/2000 que reserva dois assentos de cada veículo destinado ao serviço convencional para ocupação das pessoas beneficiadas. § 2º São sujeitas ao cumprimento das disposições desta Lei, sempre que houver interação com a matéria nela regulada, a outorga, a concessão, a permissão, a autorização, a renovação ou a habilitação de linhas e de serviços de transporte coletivo. Este parágrafo traz alguns conceitos do Direito Administrativo, como a outorga, a concessão, a permissão, a autorização, a renovação e a habilitação, que basicamente são institutos administrativos em que o Estado repassa a execução de um serviço originalmente a ele incumbido para um particular. Deste modo, o Estado presta serviço de forma indireta, podendo assim dizer que é um meio de descentralização do serviço público. A concessão, de maneira mais específica, é um contrato administrativo definido pela Lei n. 8.987/95, art. 2º, inciso II, como delegação da prestação do Estado, mediante licitação, na modalidade de concorrência à pessoa jurídica ou consórcio de empresas com capacidade para o desempenho por sua conta e risco e por prazo determinado. A permissão, definida pela mesma Lei, no art. 2º, inciso IV, é um ato administrativo discricionário e precário em que é concedido ao particular algum procedimento em que exista interesse predominante da coletividade. Diferentemente, a autorização permite que o particular utilize o bem público ou exerça uma atividade para seu próprio interesse, desde que não haja prejuízos ao interesse da população. A habilitação é uma fase da licitação destinada à verificação da documentação e dos requisitos pessoais dos licitantes, prevista na Lei n. 8.666/93, arts. 27 a 33. Por fim, a renovação promove uma nova relação contratual, uma renovação do contrato administrativo, ou seja, é uma relação jurídica inédita que deve respeitar as disposições dessa Lei, podendo também ser sinônimo da prorrogação prevista no caput do art. 57 da Lei n. 8.666/93 (ALEXANDRINO; PAULO, 2012, p. 561). Em detrimento deste dispositivo, todos esses institutos estão sujeitos ao cumprimento do Estatuto da Pessoa com Deficiência quando se tratar do repasse de um serviço público a um particular relacionado ao transporte coletivo. § 3º Para colocação do símbolo internacional de acesso nos veículos, as empresas de transporte coletivo de passageiros dependem da certificação de acessibilidade emitida pelo gestor público responsável pela prestação do serviço. A Lei n. 7.405/85 trata sobre o símbolo internacional de acesso, e torna obrigatória a sua colocação de forma visível em todos os locais e serviços comprovadamente adequados que permitam acesso da pessoa com deficiência. A certificação de acessibilidade é o documento emitido pelo gestor público que comprova a adaptação das edificações, bem como o correspondente atendimento aos parâmetros de acessibilidade determinados pela legislação vigente acima mencionada. Do mesmo modo, os incisos XVIII e XIX, do art. 4º da Lei n. 7.405/85, regulam o emprego do símbolo internacional de acesso em todos os veículos de transporte coletivo que possibilitem acessibilidade, que ofereçam vagas adequadas e, ainda, veículos que sejam conduzidos pela própria pessoa com deficiência. Art. 47. Em todas as áreas de estacionamento aberto ao público, de uso público ou privado de uso coletivo e em vias públicas, devem ser reservadas vagas próximas aos acessos de circulação de pedestres, devidamente sinalizadas, para veículos que transportem pessoa com deficiência com comprometimento de mobilidade, desde que devidamente identificados. O conceito de mobilidade por vezes é confundido com o de acessibilidade, que está definido nesta Lei Brasileira de Inclusão no art. 3º, inciso I. Todavia, são conceitos que guardam diferenças entre si. A mobilidade é definida pelo Ministério das Cidades como um atributo relacionado aos deslocamentos realizados pelas pessoas nas suas atividades diárias, como estudo, trabalho, lazer, estando intimamente relacionado com a facilidade de deslocamento do cidadão. Por este motivo esse artigo é tão importante, pois, para as pessoas com deficiência, a mobilidade urbana é essencial, é um exercício dos seus direitos que promove a inclusão social e o exercício do princípio da dignidade humana. A falta de mobilidade não afeta somente a locomoção, também impede a efetivação de outros direitos. Com isso, este artigo torna obrigatória a reserva de vagas para veículos que transportem a pessoa com deficiência em estabelecimentos públicos ou privados de uso coletivo, como ruas, avenidas, shoppings, supermercados, entre outros. § 1º As vagas a que se refere o caput deste artigo devem equivaler a 2% (dois por cento) do total, garantida, no mínimo, 1 (uma) vaga devidamente sinalizada e com as especificações de desenho e traçado de acordo com as normas técnicas vigentes de acessibilidade. A Resolução 304/2008 do Conselho Nacional de Trânsito resolveu uniformizar a sinalização e a fiscalização das vagas de estacionamento para veículos utilizados por pessoas com deficiência e com dificuldade de locomoção, o que facilita o acesso à informação e promove a correta fiscalização. No entanto, deve ficar claro que a porcentagem indicada neste parágrafo de 2% (dois por cento) do total, para estacionamentos com 100 (cem) vagas, por exemplo, correspondente a 2 (duas) vagas disponíveis, os demais estacionamentos com menor número de vagas ficam obrigados a ter pelo menos 1 (uma) vaga destinada à pessoa com deficiência. § 2º Os veículos estacionados nas vagas reservadas devem exibir, em local de ampla visibilidade, a credencial de beneficiário, a ser confeccionada e fornecida pelos órgãos de trânsito, que disciplinarão suas características e condições de uso. Um fato recorrente no país é a falta de respeito às vagas reservadas às pessoas com deficiência e pessoas com mobilidade reduzida, como idosos, gestantes, lactantes, pessoas com criança de colo e obesos. Para a efetivação desse direito é de extrema importância a identificação, que segundo a Resolução 304/2008 do Conselho Nacional de Trânsito, deve ser realizada pela credencial posicionada em uma área visível no automóvel, fornecida pelos órgãos de trânsito do município de domicílio e válida em todo o território nacional. § 3º A utilização indevida das vagas de que trata este artigo sujeita os infratores às sanções previstas no inciso XVII do art. 181 da Lei n. 9.503, de 23 de setembro de 1997 (Código de Trânsito Brasileiro). (Revogado) Este parágrafo foi revogado, pois referenciava ao inciso XVII do art. 181 do Código de Trânsito Brasileiro, o qual menciona a infração do condutor ao estacionar veículo em desacordo com as condições regulamentadas especificamente pela sinalização, mas que não faz menção à vaga da pessoa com deficiência. § 3º A utilização indevida das vagas de que trata este artigo sujeita os infratores às sanções previstas no inciso XX do art. 181 da Lei n. 9.503, de 23 de setembro de 1997 (Código de Trânsito Brasileiro). (Redação dada pela Lei n. 13.281 de 2016) Com a correção dada pela Lei n. 13.281/2016, a redação anterior foi revogada e foi mencionado o inciso XX do art. 181 do Código de Trânsito Brasileiro (Lei n.9.503/1997), como infração ao condutor que estacionar seu veículo nas vagas reservadas às pessoas com deficiência ou idosos, sem credencial que comprove tal condição, configurando infração gravíssima, com penalidade de multa e a remoção do veículo como medida administrativa. § 4º A credencial a que se refere o § 2º deste artigo é vinculada à pessoa com deficiência que possui comprometimento de mobilidade e é válida em todo o território nacional. A credencial de beneficiário, embora tenha que ser solicitada à entidade ou ao órgão competente de trânsito localizado no domicílio da pessoa interessada, também tem referência no art. 2º da Resolução 304/2008 do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) que reitera a validade em todo o território nacional. Art. 48. Os veículos de transporte coletivo terrestre, aquaviário e aéreo, as instalações, as estações, os portos e os terminais em operação no País devem ser acessíveis, de forma a garantir o seu uso por todas as pessoas. O art. 20 da Convenção da Pessoa com Deficiência da ONU enfatiza que a mobilidade traz independência à pessoa com deficiência, bem como seu art. 9º aborda sobre a importância do transporte em igualdade de oportunidade com as demais pessoas, ou seja, o direito ao transporte e à mobilidade da pessoa com deficiência deve ser exercido de forma possível a todos indistintamente, e deve ser pensado de forma a possibilitar o deslocamento de todas as pessoas igualmente. Com isso, não adianta um transporte inclusivo, com adaptações para a pessoa com deficiência visual, motora, auditiva, se suas estações, pontos e principalmente os prestadores de serviço não estiverem aptos a realizar atendimentos e a oferecer a ajuda necessária para a concretização dessa acessibilidade. Por isso acreditamos na importância do esclarecimento deste artigo, que retrata uma importante atenção no atendimento completo de todo tipo transporte coletivo. Neste artigo não se fala explicitamente da capacitação dos profissionais, mas entendemos que esta é extremamente necessária, porque não adianta o veículo oferecer a acessibilidade do transporte sem um condutor capacitado para realizá-lo. § 1º Os veículos e as estruturas de que trata o caput deste artigo devem dispor de sistema de comunicação acessível que disponibilize informações sobre todos os pontos do itinerário. A quebra de barreiras para a inclusão da pessoa com deficiência no transporte coletivo vai muito além de veículos acessíveis e adaptados. Toda e qualquer informação disponibilizada ao passageiro deve também ser disponibilizada à pessoa com deficiência, de maneira clara e inclusiva. Para que ocorra uma efetiva mobilidade deve-se, portanto, permitir o acesso às informações sobre o itinerário, horário e demais alterações no transporte coletivo para todos de forma acessível. § 2º São asseguradas à pessoa com deficiência prioridade e segurança nos procedimentos de embarque e de desembarque nos veículos de transporte coletivo, de acordo com as normas técnicas. A vulnerabilidade da pessoa com deficiência em um ambiente lotado, de acesso rápido e com uma grande quantidade de pessoas, faz com que essa norma seja de extrema importância para a sua segurança. A prioridade deve ser respeitada e deve ser efetivamente célere para a efetivação da sua concreta mobilidade. Este Estatuto em seu art. 9º, inciso IV, ratifica o direito de atendimento prioritário da pessoa com deficiência na disponibilização de pontos de parada, estações e terminais acessíveis de transporte coletivo, bem como na garantia de segurança no seu embarque e desembarque. § 3º Para colocação do símbolo internacional de acesso nos veículos, as empresas de transporte coletivo de passageiros dependem da certificação de acessibilidade emitida pelo gestor público responsável pela prestação do serviço. Este artigo, por um descuido do legislador, repete exatamente o já mencionado e comentado § 3º do art. 46, desta Lei Brasileira de Inclusão, sobre a colocação do símbolo internacional de acesso nos veículos. Art. 49. As empresas de transporte de fretamento e de turismo, na renovação de suas frotas, são obrigadas ao cumprimento do disposto nos arts. 46 e 48 desta Lei. Os arts. 46 e 48 desta Lei Brasileira de Inclusão ressaltam o direito ao transporte e à mobilidade da pessoa com deficiência em igualdade de oportunidade com abrangência a todo tipo de transporte coletivo terrestre, aquaviário, aéreo e suas estações, portos, terminais e instalações, com comunicação acessível às informações e itinerários, prioridade e segurança no embarque e desembarque. Essas normas, assim como o credenciamento devido para a colocação do símbolo internacional de acesso nos veículos, devem também ser aplicadas às empresas de transporte de fretamento e turismo na renovação de suas frotas. Art. 50. O Poder Público incentivará a fabricação de veículos acessíveis e a sua utilização como táxis e vans, de forma a garantir o seu uso por todas as pessoas. A Constituição Federal, em seu art. 227, § 2°, ressalta que a Lei disporá sobre normas de construção dos logradouros e dos edifícios de uso público e de fabricação de veículos de transporte coletivo, a fim de garantir acesso adequado às pessoas portadoras de deficiência. Destarte, a Lei Brasileira de Inclusão fundamenta esse incentivo na fabricação de veículos acessíveis, na Constituição, reiterando a importância do fomento para garantir maior acessibilidade e mobilidade à pessoa com deficiência no transporte. Art. 51. As frotas de empresas de táxi devem reservar 10% (dez por cento) de seus veículos acessíveis à pessoa com deficiência. A Lei n. 12.587/2012, que institui diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana, em seu art. 12-B, acrescido pela Lei n. 13.146/2015 em seu art. 119, traz um complemento para este dispositivo, pois reserva 10% (dez por cento) das vagas na outorga de exploração de serviço de táxi para condutores com deficiência. Sendo assim, nas frotas de empresas de táxis, 10% (dez por cento) dos veículos devem ser acessíveis à pessoa com deficiência, bem como 10% (dez por cento) das vagas para os condutores devem ser reservadas àqueles com deficiência, desde que o veículo conduzido seja de sua propriedade e adaptado às suas necessidades. § 1º É proibida a cobrança diferenciada de tarifas ou de valores adicionais pelo serviço de táxi prestado à pessoa com deficiência. A cobrança diferenciada à pessoa com deficiência é antagônica aos seus direitos por diversas vezes mencionados nesta Lei Brasileira de Inclusão sobre acessibilidade e mobilidade no transporte. Ainda que se exija maior tempo de parada para deslocamento e auxílio na retirada do passageiro do veículo, é vedado cobrar a mais por esse serviço. No Código de Defesa do Consumidor, Lei n. 8.079/90, art. 39, inciso V, essa cobrança pode ser definida como prática abusiva, ao exigir vantagem manifestamente excessiva. § 2º O Poder Público é autorizado a instituir incentivos fiscais com vistas a possibilitar a acessibilidade dos veículos a que se refere o caput deste artigo. Para a facilitação do acesso e mobilidade no transporte da pessoa com deficiência, e muitas vezes possibilitar a sua independência, o Poder Público isenta de alguns impostos os veículos com acessibilidade nas frotas de empresas de táxis que respeitem a reserva de 10% (dez por cento) de seus veículos disponíveis à pessoa com deficiência. No entanto, vale comentar que o Estado também isenta o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que de acordo com o art. 1º, inciso IV, da Lei n. 8.989/95, é desobrigado dos automóveis de passageiros de fabricação nacional, equipados com motor de cilindrada não superior a 2.000 cm³, de no mínimo quatro portas inclusive a de acesso ao bagageiro, movidos a combustíveis de origem renovável ou sistema reversível de combustão, quando adquiridos por pessoas com deficiência física, visual, mental severa ou profunda, ou autistas, diretamente ou por intermédio de seu representante legal. Já a Lei n. 8.383/91, em seu art. 72, inciso IV isentado Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), as operações de financiamento para a aquisição de automóveis de passageiros de fabricação nacional de até 127 HP de potência bruta (SAE), quando adquiridos por pessoas com deficiência física atestada pelo Departamento de Trânsito do Estado. Ainda, na Legislação infraconstitucional estadual, de São Paulo, Lei n. 13.296/2008, art. 13, inciso III, isenta a pessoa com deficiência do pagamento de IPVA, de seu único veículo adequado para ser conduzido por pessoa com deficiência física. Art. 52. As locadoras de veículos são obrigadas a oferecer 1 (um) veículo adaptado para uso de pessoa com deficiência, a cada conjunto de 20 (vinte) veículos de sua frota. Para cada locadora deve-se oferecer 1 (um) veículo adaptado para cada 20 (vinte) veículos tradicionais. Muitas locadoras de veículos possuem filiais em várias cidades, mas mesmo não constando explicitamente neste artigo, entendemos que essa proporção equivale para cada unidade da locadora, senão, não haverá acessibilidade para pessoa com deficiência. Parágrafo único. O veículo adaptado deverá ter, no mínimo, câmbio automático, direção hidráulica, vidros elétricos e comandos manuais de freio e de embreagem. Este dispositivo elenca a adequação mínima que um veículo deva ter para ser considerado adaptado. O câmbio automático facilita as passagens das marchas, a direção hidráulica e os vidros elétricos auxiliam também o manuseio do veículo, e os comandos manuais de freio e embreagem facilitam para as pessoas que não possuem ou possuem reduzida movimentação nos membros inferiores. Todavia, a adaptação de forma genérica não consegue abranger a todos, uma vez que esses veículos incluem, em sua maioria, pessoa com deficiência ou pouca mobilidade nas pernas. DA ACESSIBILIDADE CAPÍTULO I DISPOSIÇÕES GERAIS Art. 53. A acessibilidade é direito que garante à pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida viver de forma independente e exercer seus direitos de cidadania e de participação social. A acessibilidade é um princípio geral que consta na alínea f, do art. 3º da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Esta Convenção, adotada pela Assembleia Geral da ONU em 2006, foi ratificada, no Brasil, por meio do Decreto Legislativo nº 186/2008 e promulgada pelo Decreto n. 6.949/2009. Segundo a Resolução nº 230/2016, do Conselho Nacional de Justiça, a Convenção Internacional reconheceu a acessibilidade “como princípio e como direito, sendo também considerada garantia para o pleno e efetivo exercício de demais direitos”. Trata-se de um direito fundamental direcionado à pessoa com deficiência ou à pessoa com mobilidade reduzida temporária ou permanente. Cabe mencionar que o citado Decreto n. 6.940/2009 foi aprovado com o quórum qualificado do § 3º, art. 5º, da Constituição Federal, possuindo, portanto, status de emenda constitucional. O art. 53 apresenta uma definição de acessibilidade conectada com outra definição, mais detalhada e de ampla atuação, que consta no inciso I, art. 2º, da Lei n. 10.098/2000, com as alterações advindas do Estatuto da Pessoa com Deficiência (art. 3º, inciso I): “acessibilidade: possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida”. Esta mesma definição é seguida na Resolução nº 230/2016, do Conselho Nacional de Justiça, a qual disciplina a adequação das atividades dos órgãos do Poder Judiciário à Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Destaca-se, assim como faz o art. 53, que o direito de acessibilidade busca garantir a independência da pessoa e o seu pleno exercício da cidadania, bem como todas as formas de participação social. A pessoa com deficiência tem o direito fundamental de não encontrar limites ou barreiras para o pleno exercício dos seus direitos, tendo respeitada a sua diversidade. Art. 54. São sujeitas ao cumprimento das disposições desta Lei e de outras normas relativas à acessibilidade, sempre que houver interação com a matéria nela regulada: O direito à acessibilidade é regulado por diversas normas de diferentes hierarquias. Além do Decreto n. 6.949/2009, de índole constitucional, importa destacar a Lei n. 10.098/2000, a qual disciplina as normas gerais e os critérios básicos para a promoção da acessibilidade. Esta lei sofreu relevantes alterações com o advento da Lei n. 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência) no sentido de ampliação da tutela à acessibilidade. O Decreto-lei n.º 5.296/2004, denominado Lei de Acessibilidade, trouxe a regulamentação da Lei n. 10.098/2000. Outras normas relevantes para a efetivação da disposição legal são as Normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Trata-se do Foro Nacional de Normatização. Em 2016, foram editadas duas normas sobre acessibilidade: NB 16.537, sobre a sinalização tátil no piso, e a NB 15.646, sobre a plataforma elevatória veicular e a rampa de acesso veicular. Todavia, existem várias outras normas ABNT sobre acessibilidade, conforme os diferentes setores de atuação. A NBR 14.022 trata da acessibilidade em veículos de características urbanas para o transporte coletivo de passageiros, buscando promover acessibilidade com segurança para o maior número possível de pessoas. Neste setor, aplicam-se ainda as Resoluções do CONTRAN. I – a aprovação de projeto arquitetônico e urbanístico ou de comunicação e informação, a fabricação de veículos de transporte coletivo, a prestação do respectivo serviço e a execução de qualquer tipo de obra, quando tenham destinação pública ou coletiva; As hipóteses previstas nos incisos I a IV são instrumentos importantes disponíveis ao Estado para fazer uma avaliação prévia do cumprimento das diretivas normativas. O Estado, por outro lado, tem o dever de cumprir estas determinações, sob pena de ser responsabilizado pela conduta omissa. A atuação do Ministério Público é fundamental nesta seara. É certo que esta norma deve ser imposta aos particulares e à administração pública. II – a outorga ou a renovação de concessão, permissão, autorização ou habilitação de qualquer natureza; A Lei n. 8.987/95, art. 2°, incisos II e IV conceitua a concessão e a permissão, ao dispor que “para os fins do disposto nesta Lei, considera-se: II – concessão de serviço público: a delegação de sua prestação, feita pelo poder concedente, mediante licitação, na modalidade de concorrência à pessoa jurídica ou consórcio de empresas que demonstre capacidade para seu desempenho, por sua conta e risco e por prazo determinado [ ... ] IV – permissão de serviço público: a delegação, a título precário, mediante licitação, da prestação de serviços públicos, feita pelo poder concedente à pessoa física ou jurídica que demonstre capacidade para seu desempenho, por sua conta e risco”. III – a aprovação de financiamento de projeto com utilização de recursos públicos, por meio de renúncia ou de incentivo fiscal, contrato, convênio ou instrumento congênere; e Pelo fundamento constitucional do art. 175: “Incumbe ao Poder Público, na forma da lei, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, sempre através de licitação, a prestação de serviços públicos”. O respeito a todas as normativas existentes sobre a acessibilidade é requisito essencial para a aprovação de projetos, fabricação de veículos de transporte coletivo, realização de obras, financiamentos, outorgas ou renovações, sempre que envolvam recursos públicos e tenham destinação pública ou coletiva, observados os termos dos incisos em análise. IV – a concessão de aval da União para obtenção de empréstimo e de financiamento internacionais por entes públicos ou privados. No intuito da obtenção de empréstimo internacionalé necessária a prévia aprovação do Ministério da Fazenda e, posteriormente, do Senado da República. O Senado editou a Resolução 43/2001, que dispõe sobre operações de crédito interno e externo dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, listando requisitos a serem observados para a obtenção do aval daquela casa. Isso quando se tratar de ente público. Assim, o dispositivo em análise tem aplicação somente quando envolvido ente público, não incidindo, portanto, quando privada a negociação. Deste exige-se apenas comunicação ao Banco Central, nos termos da Resolução nº 3.844/2010. Art. 55. A concepção e a implantação de projetos que tratem do meio físico, de transporte, de informação e comunicação, inclusive de sistemas e tecnologias da informação e comunicação, e de outros serviços, equipamentos e instalações abertos ao público, de uso público ou privado de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, devem atender aos princípios do desenho universal, tendo como referência as normas de acessibilidade. O presente artigo segue o conceito mais amplo de acessibilidade que consta no inciso I, art. 2º, do Estatuto da Pessoa com Deficiência, incluindo informações e tecnologia, bem como qualquer serviço ou instalação abertos ao público, de uso público ou privado de uso coletivo, seja em área urbana ou rural. Ou seja, qualquer construção, meio de transporte de uso coletivo, serviços, informação, comunicação ou tecnologia, em qualquer parte do país, deve atender os princípios do desenho universal. E as referências para se alcançar este objetivo são exatamente as normas referentes ao direito à acessibilidade. O conceito de desenho universal está presente na legislação (inciso X, art. 2º, Lei n. 10.098/2000; inc. II, art. 3º, Lei n. 13.146/2015) e nas normas técnicas (ABNT NBR 9050:2015, item 3.1.16), nos seguintes termos: “desenho universal: concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou de projeto específico, incluindo os recursos de tecnologia assistiva”. O objetivo é que todas as obras de arquitetura e design tenham como pressuposto o ser humano e a diversidade humana (Anexo A, ABNT NBR 9050:2015), proporcionando pleno acesso a construções, produtos, tecnologia e serviços a todas as pessoas, independentemente da altura, idade, condição de mobilidade ou outra diversidade. Os sete princípios sobre o desenho universal constam no Anexo A da norma técnica ABNT NBR 9050:2015: 1) uso equitativo (o fato de qualquer pessoa poder ter livre acesso a local, produto ou serviço, independentemente da sua diversidade. Acesso universal com segurança e conforto); 2) uso flexível (o produto ou ambiente deve possibilitar o uso pelo maior número possível de pessoas com distintos graus de preferência e habilidade. Permitir adaptações a diferentes necessidades de qualquer pessoa); 3) uso simples e intuitivo (uso de fácil compreensão); 4) informação de fácil percepção (as informações devem ser apresentadas de distintas maneiras e de forma ampliada, permitindo a facilidade de visualização por todas as pessoas); 5) tolerância ao erro (prever e indicar claramente possibilidade de qualquer risco ao utilizar o ambiente ou produto); 6) baixo esforço físico (possibilitar o mínimo de fadiga muscular do usuário); 7) dimensão e espaço para aproximação e uso (independentemente da altura, postura ou mobilidade do usuário, a aproximação e o uso do ambiente ou produto devem ser de fácil acesso). § 1º O desenho universal será sempre tomado como regra de caráter geral. A regra de caráter geral deve ser o uso seguro e confortável pelo maior número de usuários possível, ou seja, o acesso universal valorizando o ser humano e a sua rica diversidade. O desenho universal para a ser, assim, imprescindível instrumento para a efetivação do direito à acessibilidade, devendo ser a primeira referência para todos os projetos de arquitetura e design cujos resultados sejam dirigidos ao uso público ou privado de caráter coletivo. § 2º Nas hipóteses em que comprovadamente o desenho universal não possa ser empreendido, deve ser adotada adaptação razoável. O § 2º confirma o fato de o desenho universal ser a regra de caráter geral, pois a decisão pelo emprego da adaptação razoável apenas pode ocorrer mediante prova de não ser possível empregar o desenho universal em determinado projeto. É fundamental destacar que a razoável adaptação do ambiente, produto, programa ou serviço não é a meta da legislação e sim o propósito do modelo universal que ofereça conforto e segurança a todas as pessoas independentemente das suas características pessoais. As adaptações razoáveis estão definidas no inciso VI, art. 3º, do Estatuto da Pessoa com Deficiência, nos seguintes termos: “adaptações, modificações e ajustes necessários e adequados que não acarretem ônus desproporcional e indevido, quando requeridos em cada caso, a fim de assegurar que a pessoa com deficiência possa gozar ou exercer, em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas, todos os direitos e liberdades fundamentais”. O inciso V, art. 2º, da Resolução nº 230/2016 do Conselho Nacional de Justiça, seguindo a redação do art. 2º, do Decreto n. 6.949/2009, o qual promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, define o “desenho universal” da seguinte forma: “significa a concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados, na maior medida possível, por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico (...)”. Observa-se que a expressão “na maior medida possível” não consta na definição do inciso II, art. 3º da Lei Brasileira de Inclusão. Todavia, esta expressão seria a própria aplicação do § 2º em análise, ou seja, não havendo possibilidade comprovada de aplicação do desenho universal, deve-se adotar a adaptação razoável. § 3º Caberá ao Poder Público promover a inclusão de conteúdos temáticos referentes ao desenho universal nas diretrizes curriculares da educação profissional e tecnológica e do ensino superior e na formação das carreiras de Estado. Uma das intervenções de maior impacto para a implementação do direito à acessibilidade é a educação. As diretrizes curriculares, nas diferentes áreas de educação, devem incluir como conteúdo temas referentes ao desenho universal, já que esta é a regra de caráter geral de qualquer projeto. Trata-se de uma medida extremamente relevante, pois tem impacto na formação dos novos profissionais e pesquisadores, representando uma verdadeira mudança de paradigma. § 4º Os programas, os projetos e as linhas de pesquisa a serem desenvolvidos com o apoio de organismos públicos de auxílio à pesquisa e de agências de fomento deverão incluir temas voltados para o desenho universal. No mesmo sentido, como educação e pesquisa caminham em conjunto, é essencial que, havendo apoio público, sejam fomentadas pesquisas envolvendo o desenho universal. É necessário, portanto, que universidades e centros de pesquisa, bem como os organismos públicos de auxílio à pesquisa, estimulem a criação de programas, projetos e linhas de pesquisa sobre o desenho universal. Trata-se do desenvolvimento de uma cultura de promoção de Direitos Humanos. A obrigação do Estado em “realizar e promover pesquisa e o desenvolvimento de produtos, serviços, equipamentos e instalações com desenho universal” está presente na alínea f, do art. 4ª, da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Decreto n. 6.949/2009). § 5º Desde a etapa de concepção, as políticas públicas deverão considerar a adoção do desenho universal. Trata-se do desdobramento da obrigação do Estado de “levar em conta, em todos os programas e políticas, a proteção e a promoção dos direitos humanos das pessoas com deficiência”, que consta na alínea c, art. 4º, do Decreto n. 6.949/2009. Ademais disso, cabe mencionar que, segundo o mesmo artigo, o desenvolvimento das políticas para implementar a Convenção Internacional sobre Direitos das Pessoascom Deficiência deve envolver “ativamente as pessoas com deficiência, inclusive crianças com deficiência, por intermédio de suas organizações representativas”. Art. 56. A construção, a reforma, a ampliação ou a mudança de uso de edificações abertas ao público, de uso público ou privadas de uso coletivo deverão ser executadas de modo a serem acessíveis. Este artigo trata especificamente de edificações abertas ao público, podendo ser públicas ou privadas de uso coletivo. Desde o momento da construção até qualquer alteração posterior do edifício, inclusive de sua utilização deve-se ter como premissa a acessibilidade. § 1º As entidades de fiscalização profissional das atividades de Engenharia, de Arquitetura e correlatas, ao anotarem a responsabilidade técnica de projetos, devem exigir a responsabilidade profissional declarada de atendimento às regras de acessibilidade previstas em legislação e em normas técnicas pertinentes. As entidades como o CAU/BR (Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo) e o Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), por meio dos seus órgãos competentes, devem exigir um termo de responsabilidade específico: “responsabilidade profissional declarada de atendimento às regras de acessibilidade”. A não exigência do termo terá como efeito a responsabilização da respectiva entidade. A fiscalização, em si, é de realização do engenheiro, a quem o art. 7° da Lei n. 5.194/66, alíneas e e f, atribui a tarefa de “fiscalização de obras e serviços técnicos e direção de obras e serviços técnicos“. § 2º Para a aprovação, o licenciamento ou a emissão de certificado de projeto executivo arquitetônico, urbanístico e de instalações e equipamentos temporários ou permanentes e para o licenciamento ou a emissão de certificado de conclusão de obra ou de serviço, deve ser atestado o atendimento às regras de acessibilidade. Segundo o § 2º, também se exige que administração pública competente para a emissão de cada um dos documentos mencionados deve atestar o atendimento às regras de acessibilidade. Com a avaliação de equipe técnica, realiza-se um novo controle sobre as normas de acessibilidade. § 3º O Poder Público, após certificar a acessibilidade de edificação ou de serviço, determinará a colocação, em espaços ou em locais de ampla visibilidade, do símbolo internacional de acesso, na forma prevista em legislação e em normas técnicas correlatas. Por fim, após a certificação, deve o Poder Público determinar a colocação do símbolo internacional de acesso segundo as normas de acessibilidade, buscando a maior visibilidade possível. O símbolo internacional de acesso vem tratado na Lei n. 7.405/85 e em seu art. 1° torna obrigatória sua instalação “em todos os locais que possibilitem acesso, circulação e utilização por pessoas com deficiência, e em todos os serviços que forem postos à sua disposição ou que possibilitem o seu uso”. Art. 57. As edificações públicas e privadas de uso coletivo já existentes devem garantir acessibilidade à pessoa com deficiência em todas as suas dependências e serviços, tendo como referência as normas de acessibilidade vigentes. Esta norma não permite exceção. Logo, todas as edificações já existentes e com acesso ao público, sejam públicas ou privadas de uso coletivo, devem oferecer acesso de todas as suas áreas e serviços às pessoas com deficiência, não podendo alegar que a obra obedeceu aos regramentos jurídicos da época. Faz-se necessária a sua adaptação às normas de acessibilidade atualizadas, realizando as denominadas adaptações razoáveis. Art. 58. O projeto e a construção de edificação de uso privado multifamiliar devem atender aos preceitos de acessibilidade, na forma regulamentar. O art. 58 trouxe importante inovação, porém necessita ser regulamentado. Recentemente, o Ministério dos Direitos Humanos abriu consulta pública sobre tal regulamentação. Houve, inclusive, debate com representantes da sociedade civil e do setor imobiliário. O presente caput determina que o projeto e a construção das edificações de uso privado multifamiliar precisam obedecer às normas de acessibilidade. § 1º As construtoras e incorporadoras responsáveis pelo projeto e pela construção das edificações a que se refere o caput deste artigo devem assegurar percentual mínimo de suas unidades internamente acessíveis, na forma regulamentar. O § 1º afirma que deve ser reservado um percentual mínimo de unidades internamente acessíveis. Segundo a minuta deste trabalho, no seu inciso I, art. 2º, a edificação de uso privado multifamiliar é “aquela com doze ou mais unidades autônomas destinadas ao uso residencial, ainda que localizadas em um único pavimento ou em um único empreendimento composto por edifícios isolados” (notícia e minuta disponíveis em: http://www.mdh.gov.br/todas-as- noticias/2018/maio/mdh-abre-consulta-publica-sobre-lei-brasileira-de-inclusao- da-pessoa-com-deficiencia/minutaConsultaPessoacomdeficincia.pdf. Acesso em: 16-7-2018). § 2º É vedada a cobrança de valores adicionais para a aquisição de unidades internamente acessíveis a que se refere o § 1º deste artigo. O § 2º prevê a proibição da cobrança de valores adicionais para a aquisição de unidades internamente acessíveis. Consoante dispõe o inciso II, art. 2º, da minuta supracitada, a unidade internamente acessível é a “unidade autônoma de edificação de uso privado multifamiliar cujas características construtivas permitam sua adaptação, a partir da alteração de layout, das dimensões e/ou número de ambientes, para unidade internamente acessível, nos termos deste Decreto”. O art. 5º da minuta ainda afirma que o percentual mínimo será de 3% (três por cento), sendo necessária a demanda do adquirente. Art. 59. Em qualquer intervenção nas vias e nos espaços públicos, o Poder Público e as empresas concessionárias responsáveis pela execução das obras e dos serviços devem garantir, de forma segura, a fluidez do trânsito e a livre circulação e acessibilidade das pessoas, durante e após sua execução. As intervenções nas vias e nos espaços públicos costumam gerar múltiplos impactos à população, muitas vezes por tempo prolongado. Para garantir direitos básicos durante e após a realização das obras, tais como segurança, livre circulação, fluidez do trânsito e acessibilidade, surge o dever, seja do Poder Público, seja das empresas concessionárias, de organizar as intervenções com planejamento adequado para preservar o direito dos cidadãos. Art. 60. Orientam-se, no que couber, pelas regras de acessibilidade previstas em legislação e em normas técnicas, observado o disposto na Lei n. 10.098, de 19 de dezembro de 2000, Lei n. 10.257, de 10 de julho de 2001, e Lei n. 12.587, de 3 de janeiro de 2012: O art. 60 aborda a acessibilidade no direito urbanístico brasileiro, afirmando que os temas tratados nos cinco incisos devem obedecer a todas as normas de acessibilidade contidas na legislação e nas normas técnicas, em conjunto com as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana e o Estatuto da Cidade. A aplicação em conjunto das normas permite a construção de cidades com maior mobilidade, acessibilidade, conforto e segurança, enfim, centralizadas na promoção da pessoa humana, sem discriminações. I – os planos diretores municipais, os planos diretores de transporte e trânsito, os planos de mobilidade urbana e os planos de preservação de sítios históricos elaborados ou atualizados a partir da publicação desta Lei; Cabe ao plano diretor de cada município e zelar para que normas de acessibilidade do deficiente físico sejam observadas, notadamente no que tange às vias urbanas. II – os códigos de obras, os códigos de postura, as leis de uso e ocupação do solo e as leis do sistema viário; Para analisar este inciso apresenta-se aqui o art. 30, inciso VIII da Constituição Federal, a saber: “Compete aos Municípios [ ... ] VIII – promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano”. III – os estudos prévios de impactode vizinhança; Neste aspecto há a necessidade de se analisar o conceito de impacto de vizinhança. Segundo a Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) n. 1/86, em seu art. 1°: “Para efeito desta Resolução, considera-se impacto ambiental qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: 1 – a saúde, a segurança e o bem-estar da população”. IV – as atividades de fiscalização e a imposição de sanções; e O plano diretor deve definir os órgãos competentes para fiscalização e imposição de sanções decorrentes de eventual descumprimento. V – a legislação referente à prevenção contra incêndio e pânico. Cada Estado apresentará sua legislação acerca da matéria. No Estado de São Paulo, a matéria vem tratada na Lei Complementar Estadual n. 1.257/2015, que institui o Código Estadual de Proteção contra Incêndios e Emergências. § 1º A concessão e a renovação de alvará de funcionamento para qualquer atividade são condicionadas à observação e à certificação das regras de acessibilidade. Consiste o alvará no instrumento pelo qual a administração concede ao particular, preenchidos os requisitos legais, licença ou autorização para funcionamento. Assim sendo, ao expedir o respectivo alvará, deve o administrador observar se o requerente preenche os elementos que garantem a acessibilidade do deficiente. § 2º A emissão de carta de habite-se ou de habilitação equivalente e sua renovação, quando esta tiver sido emitida anteriormente às exigências de acessibilidade, é condicionada à observação e à certificação das regras de acessibilidade. O § 2º disciplina a aplicação da certificação das regras de acessibilidade na emissão de carta de habite-se ou equivalente e sua renovação. Trata-se de um documento que comprova a adaptação de uma determinada edificação a todo o complexo sistema de tutela da acessibilidade, presente na legislação e nas normas técnicas. Exemplo de norma técnica aqui aplicada é a NBR 9050:2015, da ABNT, sobre a acessibilidade de edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. Art. 61. A formulação, a implementação e a manutenção das ações de acessibilidade atenderão às seguintes premissas básicas: O art. 61 apresenta as duas premissas básicas para a atuação em ações de acessibilidade, desde o planejamento até a manutenção, indicando seu amplo espectro de atuação e a contínua implantação de um sistema de plena acessibilidade. I – eleição de prioridades, elaboração de cronograma e reserva de recursos para implementação das ações; e A primeira premissa é a eleição das prioridades e o exato planejamento das ações por meio da elaboração de um cronograma. Na fase seguinte, efetua-se a reserva dos recursos para a efetivação das metas traçadas. II – planejamento contínuo e articulado entre os setores envolvidos. A segunda premissa básica trata exatamente da contínua e coordenada implantação de um sistema de plena acessibilidade, baseando-se no constante planejamento e articulação dos setores envolvidos, o que possibilita ações mais efetivas, coordenadas, melhoria contínua e eficácia no cumprimento das normas de acessibilidade. Art. 62. É assegurado à pessoa com deficiência, mediante solicitação, o recebimento de contas, boletos, recibos, extratos e cobranças de tributos em formato acessível. Tanto as empresas privadas como os órgãos públicos devem providenciar, com base em solicitação fundamentada no direito à acessibilidade e no direito à informação, documentos nos formatos necessários ao público, consoante as necessidades especiais de cada um. Inclusive, por meio de uma interpretação extensiva, esta regra pode ser aplicada aos contratos. Neste sentido, o Superior Tribunal de Justiça já decidiu que “as instituições financeiras devem utilizar o sistema Braille na confecção dos contratos bancários de adesão e todos os demais documentos fundamentais para a relação de consumo estabelecida com indivíduo portador de deficiência visual”. (STJ, REsp 1315822/RJ Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, DJ 16-4-2015). O tema é atual, cabendo citar outro relevante julgado firmando o mesmo posicionamento: STJ, REsp 1349188/RJ. Rel. Min. Luis Felipe Salomão. DJ 10-5-2016. CAPÍTULO II DO ACESSO À INFORMAÇÃO E À COMUNICAÇÃO A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela ONU em 10 de dezembro de 1948, prevê em seu art. XIX o direito de acesso, bem como a liberdade de informação e comunicação. Espelhada em seu conteúdo, a Constituição Federal de 1988 elenca no rol de direitos e garantias fundamentais do ser humano o direito de acesso à informação e à comunicação, previstos no art. 5º, incisos IX, XIV e XXXIII; art. 37, § 3º, inciso II; art. 216, § 2º e art. 220. Por conseguinte, cumpre salientar que os referidos direitos também encontram respaldo na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, cujo art. 21 traz a seguinte redação: “Os Estados-Partes tomarão todas as medidas apropriadas para assegurar que as pessoas com deficiência possam exercer seu direito à liberdade de expressão e opinião, inclusive à liberdade de buscar, receber e compartilhar informações e ideias, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas e por intermédio de todas as formas de comunicação de sua escolha, conforme o disposto no Artigo 2 da presente Convenção, entre as quais: [...] c) Urgir as entidades privadas que oferecem serviços ao público em geral, inclusive por meio da internet, a fornecer informações e serviços em formatos acessíveis, que possam ser usados por pessoas com deficiência;”. O acesso à informação e a possibilidade de se comunicar constituem meios para o exercício do convívio social e a participação na sociedade, no sentido de manifestar interesses, opiniões e desejos. Dessa forma, a limitação do direito de comunicação, além de ferir a Constituição, representa uma afronta aos direitos humanos. No tocante às pessoas com deficiência, a restrição à acessibilidade e aos recursos necessários para a sua participação social impossibilita o seu desenvolvimento e autonomia, condenando-as à exclusão. Com efeito, a LBI buscou fortalecer esses direitos estabelecendo normas com o escopo de regular os recursos adequados e a acessibilidade, bem como o direito à comunicação e à informação para as pessoas com deficiência. Art. 63. É obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no País ou por órgãos de governo, para uso da pessoa com deficiência, garantindo-lhe acesso às informações disponíveis, conforme as melhores práticas e diretrizes de acessibilidade adotadas internacionalmente. A garantia de acessibilidade à internet prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência representa um avanço significativo para todas as pessoas que se deparam com qualquer barreira durante a navegação em sites na Web. O legislador por sua vez, ao mencionar o referido direito de forma objetiva, abre as portas para tirá-lo da subjetividade, de modo a assumir e incorporar no Estatuto os preceitos e as diretrizes da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, além de viabilizar o amadurecimento de novas políticas públicas a serem implementadas. Com efeito, em comparação à legislação anterior, observa-se que a Lei Brasileira de Inclusão deu um grande passo ao aviventar o direito fundamental de acesso à informação (CF, art. 5º, XIV), bem como outras leis e decretos, tais como a Lei n. 10.098/2000 (Lei da acessibilidade), o Decreto Federal n. 5.296/2004, a Lei n. 12.577/2011 (Lei de acesso à informação), o Decreto n. 7.724/2012 e a Lei 12.965/2014 (Marco Civil da internet). Por conseguinte, o dispositivo em análise impõe aos órgãos públicos, bem como às empresas sediadas no país, a manutenção de websites que facilitem o acesso da pessoa com deficiência como forma de eliminação de barreiras no que dizem respeito às comunicações e à informação, nos termos do art. 3°, incisoIV, alínea d, da LBI. Por fim, o acesso deve ser pleno e envolver todas as funcionalidades disponíveis, garantindo assim a autonomia e a experiência de acesso que atenda às necessidades dos usuários. § 1º Os sítios devem conter símbolo de acessibilidade em destaque. A exigência do uso do símbolo de acessibilidade nos websites, prevista no § 1º do art. 63 e no art. 64 não representa nenhuma novidade, tão somente reafirmando as exigências previstas no Decreto Federal n. 5.296/2004. Um ano após a publicação do referido Decreto, foi iniciado o Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico, conhecido como eMAG, criado por uma parceria do Governo federal e a Organização Acessibilidade Brasil, com o escopo de orientar a acessibilidade dos sites e portais do Governo. Por conseguinte, no dia 10 de agosto de 2015, o jornal O Estado de S.Paulo, através do blog “Vencer limites: pessoas com deficiência”, divulgou a adoção do símbolo oficial da acessibilidade elegido pela Organização das Nações Unidas. O símbolo, batizado de “The Accessibility” (A Acessibilidade), consiste em uma figura simétrica ligada por quatro pontos a um círculo, e representa a harmonia entre o ser humano e a sociedade. Com os braços abertos, a imagem simboliza o acolhimento e a inclusão de pessoas com todas as habilidades, em todos os lugares. Além deste, existem vários outros símbolos que variam de acordo com a deficiência apresentada. Por fim, ainda sobre simbologia, cumpre fazer a remissão ao art. 56, § 3° desta lei. § 2º Telecentros comunitários que receberem recursos públicos federais para seu custeio ou sua instalação e lan houses devem possuir equipamentos e instalações acessíveis. Os telecentros e as lan houses, assim como todos os demais locais, devem ser acessíveis tanto para pessoas com limitações motoras como para pessoas com limitações sensoriais, com a disponibilização de recursos de acessibilidade para que as pessoas com deficiência visual possam ter autonomia na utilização dos serviços disponibilizados por esses locais. De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, o telecentro consiste em um ponto de inclusão digital, sem fins lucrativos e gratuito, com computadores conectados à internet, cujo objetivo é promover o desenvolvimento social das comunidades por ele atendidas, criando oportunidades de inclusão digital aos cidadãos. Portanto, a inclusão social é o cerne dessa política pública, e para que ela se realize por completo é fundamental a disponibilização de recursos de tecnologia assistiva. Tais recursos são indispensáveis para a obtenção de autonomia e equiparação de oportunidades no uso dos computadores, bem como na participação de cursos e demais atividades que são oferecidas nos telecentros. § 3º Os telecentros e as lan houses de que trata o § 2º deste artigo devem garantir, no mínimo, 10% (dez por cento) de seus computadores com recursos de acessibilidade para pessoa com deficiência visual, sendo assegurado pelo menos 1 (um) equipamento, quando o resultado percentual for inferior a 1 (um). O Decreto n. 5.296/2004 prevê em seu art. 47, § 3º o direito de uso preferencial de um computador com sistema de som instalado para pessoas com deficiência visual, sendo essa obrigação imposta apenas aos telecentros custeados pelo Governo. O Estatuto da Pessoa com Deficiência, por sua vez, expandiu essa obrigação para os estabelecimentos comerciais, exigindo a presença de recursos de tecnologia assistiva. Segundo a lógica do parágrafo em análise, se em um estabelecimento houver 100 computadores instalados, pelo menos 10 deles devem estar equipados com recursos que possibilitem a acessibilidade da pessoa com deficiência. Contudo, se houver apenas três computadores, ao menos um deles deve ser compatível com os requerimentos previstos neste parágrafo. Por fim, em se tratando de telecentros que recebam recursos públicos, será possível observar com maior facilidade a implementação da norma. Quanto às lan houses, hodiernamente cada vez mais raras, devido ao alto custo de instalação de tais equipamentos, será mais difícil vislumbrar o cumprimento da norma. Art. 64. A acessibilidade nos sítios da internet de que trata o art. 63 desta Lei deve ser observada para obtenção do financiamento de que trata o inciso III do art. 54 desta Lei. A obtenção de financiamento com recursos públicos ou por meio de renúncia ou incentivo fiscal está sujeita à prévia demonstração de atendimento dos requisitos de acessibilidade previstos art. 54, inciso III da Lei Brasileira de Inclusão. Portanto, os entes públicos ou privados que pretendam obter tais benefícios legais devem obrigatoriamente demonstrar o efetivo cumprimento das normas de acessibilidade. Art. 65. As empresas prestadoras de serviços de telecomunicações deverão garantir pleno acesso à pessoa com deficiência, conforme regulamentação específica. Em se tratando de acessibilidade nos serviços de telecomunicações, a Lei Brasileira de Inclusão garante o acesso irrestrito à pessoa com deficiência, entretanto sem entrar em detalhes, fazendo remissão à regulamentação específica. Por conseguinte, é oportuno salientar que o referido assunto já era previsto no Decreto n. 5.296/2004, cujo art. 49 especifica quais são as ações que devem ser praticadas pelas empresas prestadoras de serviços de telecomunicações para garantir o pleno acesso às pessoas com deficiência aos serviços de telefonia fixa e móvel. Entretanto, dado o constante avanço das tecnologias nessa seara, a atualização dessas ações revela-se como consequência natural, considerando os novos hábitos e anseios das pessoas com deficiência. Art. 66. Cabe ao Poder Público incentivar a oferta de aparelhos de telefonia fixa e móvel celular com acessibilidade que, entre outras tecnologias assistivas, possuam possibilidade de indicação e de ampliação sonoras de todas as operações e funções disponíveis. Inicialmente, cumpre aduzir que o conteúdo do dispositivo em análise também se encontra previsto no art. 51 do Decreto n. 5.296/2004, com o seguinte teor: “Caberá ao Poder Público incentivar a oferta de aparelhos de telefonia celular que indiquem, de forma sonora, todas as operações e funções neles disponíveis no visor”. Por conseguinte, o Estatuto da Pessoa com Deficiência contribuiu para a elaboração do Regulamento Geral de Acessibilidade em Serviços de Telecomunicações de interesse coletivo, aprovado pela Resolução nº 667 da Anatel, de 30 de maio de 2016, a qual em seu art. 3º destaca a acessibilidade como um direito fundamental, devendo possibilitar às pessoas com deficiência a fruição dos serviços e equipamentos de telecomunicações de maneira independente, além de promover a supressão das barreiras à comunicação e à informação. Com efeito, a Resolução nº 667, em seu art. 9º, § 1º determina quais são as funcionalidades que devem ser consideradas como tecnologias assistivas para cada tipo de deficiência, além de estabelecer diretrizes para a acessibilidade dos telefones de uso público (art. 10 e ss.). Art. 67. Os serviços de radiodifusão de sons e imagens devem permitir o uso dos seguintes recursos, entre outros: É imperativo que os meios de comunicação ofereçam recursos para garantir o acesso à informação às pessoas com deficiência, especialmente àquelas com limitações sensoriais ou cognitivas. Hodiernamente, existem diversos recursos de acessibilidade disponíveis para todos os tipos de público, tais como a subtitulação, a janela com intérprete de Libras e a audiodescrição. Malgrado o Estatuto da Pessoa com Deficiência não tenha mencionado a dublagem como recurso, observa-se intrinsecamente a sua presença no inciso II do art. 42, no art. 69 e no inciso III do art. 76, bem como em outras leis e decretos, tais como a Lei n. 10.098/2000, Lei n. 1.146/2015 e o Decreto n. 6.949/2009 (Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência). Vale ressaltar que os recursos previstos na LBI são meramente exemplificativos, o que não afasta o uso dos demais recursos existentes, bem como dos que possamfuturamente ser desenvolvidos. Com efeito, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações priorizou para os serviços de telecomunicação e radiodifusão os recursos elencados nos incisos I a III. I – subtitulação por meio de legenda oculta; A legenda oculta, também conhecida como closed caption ou pela sigla CC resume-se a uma transcrição, em língua portuguesa, de diálogos, efeitos sonoros, sons do ambiente e demais informações que seriam impossíveis de ser percebidos ou compreendidos por pessoas com deficiência auditiva. As legendas ficam ocultas e podem ser ativadas no televisor pelo usuário, pelo menu ou por meio de uma tecla específica. Cumpre salientar que a legenda oculta é prevista no item 3.2 da Portaria nº 310/2006 do Ministério das Comunicações. II – janela com intérprete da Libras; A Janela de Libras, nos termos do item 3.7 da Portaria nº 310/2006 do Ministério das Comunicações, consiste no “espaço delimitado no vídeo, em que as informações são interpretadas na Língua Brasileira de Sinais (Libras)”. A referida portaria ainda determina no item 5.3 que “Os programas que compõem a propaganda político-partidária e eleitoral, bem assim campanhas institucionais e informativos de utilidade pública veiculados pelas pessoas jurídicas concessionárias do serviço de radiodifusão de sons e imagem, bem como as pessoas jurídicas que possuem permissão ou autorização para executar o serviço de retransmissão de televisão, deverão conter janela com intérprete de Libras, cuja produção e/ou gravação ficarão ao encargo e sob a responsabilidade dos Partidos Políticos e/ou dos respectivos Órgãos de Governo aos quais se vinculem os referidos programas”. III – audiodescrição. A audiodescrição, de acordo com o item 3.3 da Portaria nº 188/2010 do Ministério das Comunicações, traduz-se na “narração, em língua portuguesa, integrada ao som original da obra audiovisual, contendo descrições de sons e elementos visuais e quaisquer informações adicionais que sejam relevantes para possibilitar a melhor compreensão desta por pessoas com deficiência visual e intelectual”. Art. 68. O Poder Público deve adotar mecanismos de incentivo à produção, à edição, à difusão, à distribuição e à comercialização de livros em formatos acessíveis, inclusive em publicações da administração pública ou financiadas com recursos públicos, com vistas a garantir à pessoa com deficiência o direito de acesso à leitura, à informação e à comunicação. A produção, edição, difusão, distribuição e comercialização de livros com vistas a promover a acessibilidade das pessoas com deficiência não é novidade no direito brasileiro. Buscando garantir o direito de acesso ao livro e à leitura às pessoas com deficiência, a LBI tão somente reforçou esse assunto, já abordado em outras leis e decretos, tais como a Política Nacional do Livro, a Lei de Direitos Autorais e o Decreto n. 5.296/2004. A Política Nacional do Livro (Lei n. 10.753, de 30 de outubro de 2003), em seu art. 1º, inciso II enuncia que “o livro é o meio principal e insubstituível da difusão da cultura e transmissão do conhecimento, do fomento à pesquisa social e científica, da conservação do patrimônio nacional, da transformação e aperfeiçoamento social e da melhoria da qualidade de vida”. Nos incisos VII e VIII do art. 2º, a referida lei menciona os livros digitais e impressos no sistema Braille para uso de pessoas com deficiência visual. O referido assunto novamente é tratado no art. 58 do Decreto n. 5.296/2004, que impõe ao Poder Público a adoção de medidas para a disponibilização de livros em meio magnético. Por conseguinte, a Lei de Direitos Autorais (Lei n. 9.610/98), em seu art. 46, inciso I, alínea d, prevê não constituir ofensa aos direitos autorais a reprodução de “de obras literárias, artísticas ou científicas, para uso exclusivo de deficientes visuais, sempre que a reprodução, sem fins comerciais, seja feita mediante o sistema Braille ou outro procedimento em qualquer suporte para esses destinatários”. Por fim, vale ressaltar que o Brasil é signatário do Tratado de Marraquexe (Decreto Legislativo n. 261, de 25 de novembro de 2015), documento internacional cujo objetivo consiste na criação de instrumentos legais que possibilitem a reprodução e a distribuição de obras, livros e textos em formato acessível às pessoas com deficiência visual, sem necessidade de requisitar autorização ao titular dos direitos autorais. § 1º Nos editais de compras de livros, inclusive para o abastecimento ou a atualização de acervos de bibliotecas em todos os níveis e modalidades de educação e de bibliotecas públicas, o Poder Público deverá adotar cláusulas de impedimento à participação de editoras que não ofertem sua produção também em formatos acessíveis. O Poder Público, ao publicar edital para aquisição de livros, fará constar cláusula que obrigue o concorrente a disponibilizar as publicações em formatos acessíveis, os quais são definidos pelo § 2° deste artigo. Com efeito, é possível vislumbrar que haverá grande dificuldade de cumprimento deste dispositivo, visto que a implantação da tecnologia necessária para satisfazer os requisitos previstos no § 2° implica em investimentos altíssimos por parte das editoras, deixando de ser economicamente viável por causa dos custos envolvidos na produção dos livros. § 2º Consideram-se formatos acessíveis os arquivos digitais que possam ser reconhecidos e acessados por softwares leitores de telas ou outras tecnologias assistivas que vierem a substituí-los, permitindo leitura com voz sintetizada, ampliação de caracteres, diferentes contrastes e impressão em Braille. O dispositivo em análise elenca de forma exemplificativa os formatos dos arquivos digitais para que possam ser considerados acessíveis, para fins de cumprimento do parágrafo anterior, revelando-se despicienda qualquer informação adicional, dada a sua redação metalinguística. § 3º O Poder Público deve estimular e apoiar a adaptação e a produção de artigos científicos em formato acessível, inclusive em Libras. A Libras, para a pessoa com deficiência auditiva, em alguns casos pode ser considerada a sua primeira língua, o que torna essencial a disponibilização de materiais e obras literárias adaptadas para esse formato linguístico. Por sua vez, vale lembrar que a Língua Brasileira de Sinais foi reconhecida oficialmente no Brasil por meio da Lei n. 10.436/2002, devendo ser garantida, por parte do Poder Público e por empresas concessionárias de serviços públicos, no que diz respeito ao seu uso e difusão. Por conseguinte, a Lei n. 13.005/2014, que trata do Plano Nacional de Educação, estabelece as orientações para a inclusão de alunos com deficiência nas escolas, impondo ao Poder Público a obrigação de oferecer materiais didáticos acessíveis, inclusive em Libras. Da mesma forma, o Decreto n. 7.611/2011 dispõe no § 4º do art. 5º que a União deverá oferecer apoio técnico e financeiro para a produção e distribuição de recursos educacionais para a acessibilidade e a aprendizagem, tais como materiais didáticos e paradidáticos em Braille, áudio e Língua Brasileira de Sinais, laptops com sintetizador de voz, softwares para comunicação alternativa e demais ajudas técnicas. Art. 69. O Poder Público deve assegurar a disponibilidade de informações corretas e claras sobre os diferentes produtos e serviços ofertados, por quaisquer meios de comunicação empregados, inclusive em ambiente virtual, contendo a especificação correta de quantidade, qualidade, características, composição e preço, bem como sobre os eventuais riscos à saúde e à segurança do consumidor com deficiência, em caso de sua utilização, aplicando-se, no que couber, os arts. 30 a 41 da Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. No que concerne à responsabilidade do Poder Público em relação aos consumidores, em especial ao consumidor com deficiência, é indispensável que o dever de informar seja cumprido. Nesse sentido, levando em conta a notável preocupação do Estado em assegurar a harmonia no trato consumerista, é imperioso queas informações sobre produtos e serviços ofertados sejam não apenas claras, mas também ostensivas. Por este motivo, a proteção ao deficiente estende-se a qualquer meio de comunicação, inclusive aos meios virtuais, que crescem a cada dia. No tocante a essas informações, o legislador preocupa-se em abranger todas as especificidades do produto no que tange à sua quantidade, qualidade, composição e preço. Em resumo, os produtos e serviços colocados no mercado devem cumprir, além de sua função econômica específica, um objetivo de segurança. Esclarecendo, o termo “risco” refere-se à probabilidade de que um atributo de um produto ou serviço possa causar danos à saúde da pessoa com deficiência, concluindo-se irrefutável a necessidade de que os indivíduos estejam cientes desta possibilidade. Ainda, aplicar-se-á, no que couber, os arts.30 a 41 do Código de Defesa do Consumidor (Lei n. 8.078/90), que tratam da oferta, da publicidade e das práticas abusivas, lembrando que este último é de natureza exemplificativa, capital para que o deficiente possa ter seus direitos acolhidos, ainda que o CDC não os determine expressamente. Em linhas gerais, este artigo celebra a intersecção necessária entre o Estatuto da Pessoa com Deficiência e o Código de Defesa do Consumidor, imprescindíveis para atingir o objetivo de harmonizar as relações de consumo, concomitantemente com a proteção e inclusão da pessoa com deficiência. § 1º Os canais de comercialização virtual e os anúncios publicitários veiculados na imprensa escrita, na internet, no rádio, na televisão e nos demais veículos de comunicação abertos ou por assinatura devem disponibilizar, conforme a compatibilidade do meio, os recursos de acessibilidade de que trata o art. 67 desta Lei, a expensas do fornecedor do produto ou do serviço, sem prejuízo da observância do disposto nos arts. 36 a 38 da Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. O parágrafo em análise trata da disponibilização de recursos de acessibilidade nos canais de comercialização virtual e nos anúncios publicitários, veiculados na imprensa escrita, na internet, na rádio, na televisão e nos demais veículos abertos ou por assinatura. Nesse viés, a expressão “demais veículos”, demonstra que o legislador se preocupou em estabelecer um rol exemplificativo. Ainda, vale ressaltar que os referidos recursos encontram-se elencados no art. 67 desta Lei, sendo eles a subtitulação por meio de legenda oculta, a janela com intérprete da Libras e a audiodescrição. Todavia, a Lei apenas exemplifica algumas possibilidades, não obstando a utilização de outros recursos, afinal deve-se levar em conta a compatibilidade do meio de comunicação. Releva destacar que, nesta lógica, a disponibilização de acessibilidade aos deficientes é dever do fornecedor e, naturalmente, todas as expensas serão de sua responsabilidade. Na sequência, o legislador faz menção à observância do disposto nos arts. 36 a 39 do Código de Defesa do Consumidor (Lei n. 8.078/90), que trata da publicidade e assume papel determinante para que os consumidores tenham direito a informações claras e precisas, bem como a proteção contra a publicidade enganosa que, em linhas gerais, induz o consumidor a erro e também a publicidade abusiva que, em síntese, ofende a honra e a dignidade dos consumidores. § 2º Os fornecedores devem disponibilizar, mediante solicitação, exemplares de bulas, prospectos, textos ou qualquer outro tipo de material de divulgação em formato acessível. No que tange aos direitos dos consumidores, não restam dúvidas de que o direito à informação é um dos mais expressivos e elementares para a eficácia da Lei, sobretudo no tocante às atitudes dos fornecedores, que devem estar em consonância com o dispositivo legal. Contudo, este parágrafo assevera que, além de todos os deveres dos fornecedores já mencionados no caput e no parágrafo anterior deste artigo, o consumidor deficiente ainda poderá, mediante solicitação, ter à sua disposição os exemplares de bulas, prospectos, textos ou qualquer outro tipo de material de divulgação em formato acessível. Ademais, vale lembrar que a expressão “qualquer outro tipo de material de divulgação” indica que estes meios de divulgação não foram esgotados expressamente pela Lei, portanto, evidente o rol exemplificativo do referido parágrafo. Art. 70. As instituições promotoras de congressos, seminários, oficinas e demais eventos de natureza científico-cultural devem oferecer à pessoa com deficiência, no mínimo, os recursos de tecnologia assistiva previstos no art. 67 desta Lei. O direito de participação em eventos, sejam eles de natureza cultural, científica ou artística, se traduz em uma oportunidade de inclusão da pessoa com deficiência, na qual ela pode se manifestar e exercer sua cidadania. Dessa forma, é deveras importante garantir que os locais em que serão realizados tais eventos estejam de acordo com as exigências previstas na LBI, no que diz respeito à disponibilização dos recursos necessários à participação da pessoa com qualquer tipo de deficiência. Por conseguinte, o relatório final da terceira Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência, realizada entre os dias 3 e 6 de dezembro de 2012, ressalta a necessidade de acesso a eventos e espaços culturais. O referido documento ainda enfatiza a garantia e a implementação de recursos de tecnologia e acessibilidade para promover a participação da pessoa com deficiência em condições de igualdade. Com efeito, o Estatuto da Pessoa com Deficiência contempla o direito à participação em eventos nos arts. 42 a 44 e o assegura usando como referência prioritária os recursos de acessibilidade à informação previstos no art. 67. Por fim, cumpre salientar que a lista de recursos é meramente exemplificativa, não afastando, portanto, a utilização de outros recursos não previstos na LBI. Art. 71. Os congressos, os seminários, as oficinas e os demais eventos de natureza científico-cultural promovidos ou financiados pelo Poder Público devem garantir as condições de acessibilidade e os recursos de tecnologia assistiva. O entendimento de acessibilidade vai além dos recursos mencionados no art. 67, desdobrando-se em acessibilidade física e atitudinal. A acessibilidade física consiste em tornar o local acessível por meio de rampas, elevadores, sinalização e banheiros adequados, bem como vagas de estacionamento e assentos específicos, de forma a facilitar a locomoção e a autonomia da pessoa com deficiência. Por sua vez, a acessibilidade atitudinal se traduz na contratação de pessoas capacitadas e preparadas para a recepção e o atendimento ao público, tais como tradutores e intérpretes de Libras, ledores e guias-intérpretes. Por fim, cumpre aduzir que foi curiosa a postura do legislador em reunir, em dois dispositivos, textos cujo teor é praticamente o mesmo, sendo que o conteúdo do art. 71 poderia sem prejuízo ser apresentado como parágrafo único do art. 70. Art. 72. Os programas, as linhas de pesquisa e os projetos a serem desenvolvidos com o apoio de agências de financiamento e de órgãos e entidades integrantes da administração pública que atuem no auxílio à pesquisa devem contemplar temas voltados à tecnologia assistiva. Em consonância com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, a Lei Brasileira de Inclusão também disciplina os assuntos relacionados à pesquisa e inovação, que são essenciais para o desenvolvimento de novas tecnologias assistivas. O dispositivo em análise determina que as agências de financiamento da administração pública devem possuir em suas linhas de pesquisa temas relacionados a essas tecnologias. O referido fomento também é previsto pela Lei n. 10.098/2000 (Lei da Acessibilidade), que em seu art. 21, inciso II objetiva a destinação de recursos para o desenvolvimento tecnológico orientado à produção de ajudas técnicas para pessoas com deficiência. Por sua vez, o Decreto n. 5.296/2004, no art. 60, prevê disposição similar, porém restrita aos temas relacionados às “tecnologias de informação acessível”. Por conseguinte,o financiamento de pesquisa no Brasil é realizado por instituições de fomento vinculadas aos ministérios, por meio de universidades públicas com fundos específicos de apoio à pesquisa e desenvolvimento, bem como pela iniciativa privada. Dentre as agências de fomento com competência para promover o desenvolvimento e a inovação tecnológica cabe citar a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), vinculada ao Ministério da Educação e Cultura (MEC), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e as Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, presentes em todas as unidades federativas, tais como a Fapesp, Faperj e a Fapemig. Por fim, o fomento da pesquisa, desenvolvimento e inovação em tecnologias assistivas também é um dos objetivos principais do Centro Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva (CNRTA), criado em 2012 pela Portaria nº 139 do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Art. 73. Caberá ao Poder Público, diretamente ou em parceria com organizações da sociedade civil, promover a capacitação de tradutores e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de profissionais habilitados em Braille, audiodescrição, estenotipia e legendagem. Além das políticas públicas voltadas à ampliação da oferta de recursos de acessibilidade, a qualidade dos serviços prestados revelou-se também uma preocupação por parte do legislador, ao incumbir ao Poder Público a capacitação de tradutores e intérpretes de Libras, de guias-intérpretes e de profissionais habilitados em Braille, audiodescrição, legendagem e estenotipia. O treinamento e a capacitação desses profissionais têm por escopo garantir a qualidade dos serviços de atendimento prestados às pessoas com deficiência, visto que essa demanda é frequentemente apontada nos relatórios das Conferências Nacionais das Pessoas com Deficiência. Com efeito, cumpre salientar que muitos profissionais que atuam direta ou indiretamente nas áreas de recursos e inclusão da pessoa com deficiência não possuem a devida regulamentação profissional, tais como os audiodescritores. Nesse sentido, a regulamentação facilita o processo de capacitação profissional e contribui significativamente para a melhoria da qualidade dos profissionais, bem como dos serviços oferecidos. Esse importante passo iniciou-se com a aprovação da Lei n. 12.319/2010, que regulamentou a profissão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais, trazendo um estímulo maior para a formação desses profissionais. CAPÍTULO III DA TECNOLOGIA ASSISTIVA Art. 74. É garantido à pessoa com deficiência acesso a produtos, recursos, estratégias, práticas, processos, métodos e serviços de tecnologia assistiva que maximizem sua autonomia, mobilidade pessoal e qualidade de vida. Os fundamentos para a elaboração legislativa do Estatuto são edificados a partir dos postulados da Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência – Convenção de Nova York. Dessa forma, Os Estados signatários têm por objetivo o compromisso no sentido de efetivação da promoção do pleno exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais assegurado às pessoas com deficiência, sem qualquer tipo de discriminação por causa de sua deficiência. Com isso, os Estados se comprometem, em um viés amplo, a realizar ou promover a pesquisa e o desenvolvimento, bem como a disponibilidade e o emprego de novas tecnologias, inclusive as tecnologias da informação e comunicação, ajudas técnicas para locomoção, dispositivos e tecnologias assistivas adequados a pessoas com deficiência, dando prioridade a tecnologias de custo acessível. Além disso, estão firmes no propósito de divulgar informação acessível para as pessoas com deficiência a respeito de ajudas técnicas para locomoção, dispositivos e tecnologias assistivas, incluindo novas tecnologias bem como outras formas de assistência, serviços de apoio e instalações. Congruente ao acima exposto, pelo Decreto n. 3.298/99, art. 19, incisos I a IX: Consideram-se ajudas técnicas, para os efeitos deste Decreto, os elementos que permitem compensar uma ou mais limitações funcionais motoras, sensoriais ou mentais da pessoa portadora de deficiência, com o objetivo de permitir-lhe superar as barreiras da comunicação e da mobilidade e de possibilitar sua plena inclusão social. Parágrafo único. São ajudas técnicas: I – próteses auditivas, visuais e físicas; II – órteses que favoreçam a adequação funcional; III – equipamentos e elementos necessários à terapia e reabilitação da pessoa portadora de deficiência; IV – equipamentos, maquinarias e utensílios de trabalho especialmente desenhados ou adaptados para uso por pessoa portadora de deficiência; V – elementos de mobilidade, cuidado e higiene pessoal necessários para facilitar a autonomia e a segurança da pessoa portadora de deficiência; VI – elementos especiais para facilitar a comunicação, a informação e a sinalização para pessoa portadora de deficiência; VII – equipamentos e material pedagógico especial para educação, capacitação e recreação da pessoa portadora de deficiência; VIII – adaptações ambientais e outras que garantam o acesso, a melhoria funcional e a autonomia pessoal; IX – bolsas coletoras para os portadores de ostomia. Art. 75. O Poder Público desenvolverá plano específico de medidas, a ser renovado em cada período de 4 (quatro) anos, com a finalidade de: O caput do artigo demonstra a periodicidade do desenvolvimento do plano de medidas a ser adotado em relação às técnicas de tecnologias assistivas. O prazo de 4 (quatro) anos coincide com o da legislatura, a saber, o período de quatro anos de execução das atividades pelo Congresso Nacional. I – facilitar o acesso a crédito especializado, inclusive com oferta de linhas de crédito subsidiadas, específicas para aquisição de tecnologia assistiva; O ordenamento jurídico brasileiro, somado ao entendimento econômico, define crédito especializado como aquele que, buscando seu fomento, se volta a determinado ramo da economia. Tais créditos têm por característica alavancar determinados nichos econômicos por meio de concessão de tratamento diferenciado com a simplificação do trâmite para sua obtenção, de favores legais e até a renúncia tributária específica. II – agilizar, simplificar e priorizar procedimentos de importação de tecnologia assistiva, especialmente as questões atinentes a procedimentos alfandegários e sanitários; Vislumbra-se aqui uma tentativa de melhora aos conhecidos entraves burocráticos legislativos existentes em nosso país. Dessa forma, o presente inciso adota uma postura de redução de tais barreiras. Congruente a isso, a medida proposta esbarra em um caráter protecionista que orienta nossa política econômica. Com isso, necessário o combate a medidas que repudiam o ingresso de mercadorias do exterior e enaltecem tradição cartorial que inspira a administração pública, sendo esta rígida e complexa. III – criar mecanismos de fomento à pesquisa e à produção nacional de tecnologia assistiva, inclusive por meio de concessão de linhas de crédito subsidiado e de parcerias com institutos de pesquisa oficiais; Este inciso menciona os mecanismos que auxiliarão a pesquisa e produção das tecnologias assistivas. Didaticamente, o Decreto n. 7.612/2011, que institui o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Plano Viver sem Limite – faz de maneira clara e objetiva a criação de um comitê que auxiliará no desenvolvimento destes programas de fomento, que tem por finalidade articular e implementar políticas, programas e ações para o acesso e o desenvolvimento em tecnologia assistiva. IV – eliminar ou reduzir a tributação da cadeia produtiva e de importação de tecnologia assistiva; Há aqui intrínseca relação entre o direito civil e o direito tributário, com a demonstração de uma nítida interdisciplinaridade. O presente inciso propõe incentivo fiscal para a promoção da tecnologia assistiva que auxiliaria no âmbito das pessoas comdeficiência. Na lição de Kiyoshi Harada, “incentivo fiscal é um conceito da Ciência das Finanças. Situa-se no campo da extrafiscalidade e implica redução da receita pública de natureza compulsória ou a supressão de sua exigibilidade. É um instrumento do dirigismo econômico; visa desenvolver economicamente determinada região ou certo setor de atividade”.¹ V – facilitar e agilizar o processo de inclusão de novos recursos de tecnologia assistiva no rol de produtos distribuídos no âmbito do SUS e por outros órgãos governamentais. Congruente às atribuições do Sistema Único de Saúde (SUS), na dicção do art. 6°, inciso I, d, e inciso VI, da Lei n. 8.080/90 está a execução de ações como consta no inciso acima. Assim, o SUS tem por indicativo a determinação de produtos e técnicas que serão disponibilizados à população. Dessa maneira, o Estatuto propõe maior agilidade no processo de análise que possa culminar com a inclusão de produtos que privilegiem a tecnologia assistiva. Parágrafo único. Para fazer cumprir o disposto neste artigo, os procedimentos constantes do plano específico de medidas deverão ser avaliados, pelo menos, a cada 2 (dois) anos. O parágrafo único prevê a avaliação no período de dois anos, no mínimo, do rol de produtos disponibilizados pelo SUS. Esta é uma medida necessária, visto que os avanços tecnológicos verificados nessa área são constantes, de modo a tornar obsoletas técnicas e produtos até então entendidos como modernos. A utilização de órteses, próteses e meios auxiliares para ampliação e promoção da funcionalidade e autonomia da pessoa com deficiência no meio em que está inserido é de responsabilidade do serviço e do profissional da saúde. O Sistema Único de Saúde, baseado nos princípios e diretrizes que o orientam, tem a missão de oferecer assistência integral aos usuários por meio de ações, programas e acesso às tecnologias, em especial as tecnologias assistivas em uma perspectiva de prevenção, promoção e redução de agravos à saúde. Sendo assim, a Tecnologia Assistiva deve ser prescrita seguindo os critérios seguros de elegibilidade e mediante a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS). 1Incentivos fiscais. Limitações constitucionais e legais. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XN, n. 94, nov. 2011. Disponível em: www.ambito-juridico.com.br . Acesso em: 7-5-2018. CAPÍTULO IV DO DIREITO À PARTICIPAÇÃO NA VIDA PÚBLICA E POLÍTICA Art. 76. O Poder Público deve garantir à pessoa com deficiência todos os direitos políticos e a oportunidade de exercê-los em igualdade de condições com as demais pessoas. A Constituição Federal de 1988 estabelece como um dos fundamentos do nosso Estado Democrático de Direito a cidadania, entendida como a condição que possibilita ao indivíduo a participação nas decisões políticas da sociedade. Neste sentido, o mesmo art. 1º da CF/88, em seu parágrafo único, consagra o princípio da soberania popular, ao instituir que todo o poder emana do povo, que o exerce indiretamente por meio dos representantes eleitos, ou diretamente nos termos definidos na própria Lei Maior. Em capítulo próprio (art. 14 e ss.), a CF/88 enumera os direitos políticos, divididos basicamente nos direitos de votar e de ser votado. Obviamente, estes direitos devem ser observados em igualdade de condições para as pessoas com deficiência, como legítima expressão de sua cidadania. A expressão “igualdade de condições” deve ser entendida no sentido da igualdade material, havendo necessidade de criar mecanismos de favorecimento e proteção da pessoa com deficiência para suprir as dificuldades ou barreiras naturais que pudessem lhe inviabilizar o exercício dos direitos políticos. Importante esclarecer ainda que, para regulamentar o exercício destes direitos, além de leis, decretos, portarias e resoluções nos âmbitos legislativo e executivo, há uma larga utilização de Resoluções do TSE, fundamentadas no poder normativo que as leis eleitorais conferem a este órgão do Judiciário. § 1º À pessoa com deficiência será assegurado o direito de votar e de ser votada, inclusive por meio das seguintes ações: O art. 15 da CF/88 estabelece entre as causas de perda ou suspensão de direitos políticos a incapacidade civil absoluta (inciso II). Por sua vez, o Código Civil relacionava em seu art. 3º estas hipóteses de pessoas absolutamente incapazes, dentre elas “os que, por enfermidade mental, não tiverem o necessário discernimento para a prática desses atos” (atos da vida civil). Esta expressão foi revogada pelo art. 114 deste Estatuto da Pessoa com Deficiência, restando apenas os menores de 16 anos como absolutamente incapazes. Portanto, segundo a CF/88, não há qualquer causa que impeça a pessoa com deficiência de exercer os direitos políticos. O TSE editou a Resolução nº 21.920/2004, dispondo sobre a obrigatoriedade do alistamento eleitoral e do voto de todas as pessoas com deficiência. Esta mesma Resolução, porém, isenta de sanção a pessoa cuja deficiência torne impossível ou demasiadamente oneroso o cumprimento das obrigações eleitorais. I – garantia de que os procedimentos, as instalações, os materiais e os equipamentos para votação sejam apropriados, acessíveis a todas as pessoas e de fácil compreensão e uso, sendo vedada a instalação de seções eleitorais exclusivas para a pessoa com deficiência; O Código Eleitoral, Lei n. 4.737/65, já estabelecia algumas regras específicas para possibilitar o voto de alguns eleitores com deficiência, embora se restringisse às disposições sobre pessoas com deficiência visual, utilizando o termo “cegos”. Um dos motivos pelo qual havia esta restrição provavelmente é o fato de que o voto se dava ainda em cédulas de papel. A primeira eleição com urnas eletrônicas ocorreu em 1996, com um terço do eleitorado nacional votando desta maneira. Somente nas eleições de 2002 todos os eleitores brasileiros votaram nas urnas eletrônicas. Também para atender a esta nova realidade, o TSE editou a Resolução n. 21.008/2002, dispondo sobre o voto de todos os eleitores com deficiência, muito embora uma das soluções adotadas no art. 1º deste documento normativo tenha sido a de criar seções eleitorais especiais destinadas aos eleitores com deficiência, determinação abolida por este Estatuto. A Resolução nº 23.381/2012 do TSE inovou criando o Programa de Acessibilidade da Justiça Eleitoral, que estabeleceu as diretrizes para o rompimento de todas as espécies de barreiras arquitetônicas, urbanísticas, comunicacionais e tecnológicas que de alguma maneira impediam ou dificultavam o voto do eleitor com deficiência. Para as eleições de 2018, a Resolução nº 23.554/2017 do TSE dispõe sobre todas as regras que facilitem o exercício do direito ao voto da pessoa com deficiência, entre elas o direito de transferir o local de votação para uma seção em que haja melhores condições de acessibilidade, transporte e estacionamento mais próximo ao local de votação, a preferência na fila de votação, teclas na urna eletrônica com sinalização em Braille, fones de ouvido para eleitores que fizerem esta solicitação, dentre outras medidas. O TSE divulgou que, nas eleições de 2014, a Justiça Eleitoral recebeu a solicitação de 148.102 eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida para votar em seções especiais.² O número de seções especiais dotadas de plena acessibilidade para o eleitor com deficiência vem crescendo nas últimas eleições, mas ainda é relativamente baixo. No estado de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, somente cerca de 12 mil das mais de 96 mil seções eleitorais tinham acessibilidade para as eleições de 2018.³ II – incentivo à pessoa com deficiência a candidatar-se e a desempenhar quaisquer funções públicas em todos os níveis de governo, inclusive por meio do uso de novas tecnologias assistivas, quando apropriado; Ainda não há na legislação eleitoral qualquer espécie de mecanismo que promova o incentivo à candidatura de pessoas com deficiência a cargos públicos eletivos. Existe, contudo,um projeto de lei (PLS n. 553/2013) em tramitação no Senado Federal para acrescentar na lei eleitoral (Lei n. 9.504/97) dispositivo no sentido de estabelecer que 5% das vagas para candidatura aos cargos de vereadores, deputados federais, estaduais e distritais fiquem reservadas às pessoas com deficiência. Este PLS foi aprovado na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado em 2014 e, desde então, aguarda votação na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado, para que possa continuar seu regular trâmite até aprovação em Plenário e encaminhamento para a Câmara dos Deputados. Vale dizer que, na legislatura entre 2015-2018, dos 513 deputados federais, apenas três são cadeirantes. A aprovação deste projeto de lei pode constituir em um primeiro passo para implementar o incentivo à candidatura das pessoas com deficiência aqui previsto, conferindo maior representatividade para este grupo social vulnerável. Quanto ao desempenho de funções públicas, existe no âmbito da Câmara dos Deputados e do Senado Federal diretrizes que instituem políticas e planos de acessibilidade para permitir o exercício de atividades como parlamentares, funcionários ou cidadãos nestes espaços. Na Câmara dos Deputados, a Portaria nº 56, de 2011, que instituiu a Política de Acessibilidade no âmbito desta casa legislativa, prevê várias medidas para romper as barreiras que impedem ou dificultam o exercício dos direitos de cidadania das pessoas com deficiência. No Senado Federal existe um Plano de Acessibilidade (Disponível em: http://www.senado.leg.br/transparencia/SECRH/BASF/Anexo/A_01_2018_1283772.PDF) que também visa ao rompimento das barreiras arquitetônicas, urbanísticas, comunicacionais, atitudinais e tecnológicas naquela casa. III – garantia de que os pronunciamentos oficiais, a propaganda eleitoral obrigatória e os debates transmitidos pelas emissoras de televisão possuam, pelo menos, os recursos elencados no art. 67 desta Lei; A Lei n. 10.098/2000 estabelece em seu art. 19 a obrigatoriedade da adoção de medidas técnicas, por parte dos serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens, para o uso da linguagem de sinais ou outra subtitulação, a fim de garantir o acesso à informação das pessoas com deficiência. A lei foi regulamentada pelo Decreto n. 5.296/2004, que prevê a utilização, dentre outros, dos seguintes sistemas de reprodução de mensagens para pessoas com deficiência auditiva e visual: a subtitulação através de legenda oculta, a janela com intérprete de Libras e a descrição e narração em voz de cenas e imagens (art. 53, § 2º). O mesmo decreto ainda estabeleceu, em seu art. 57, parágrafo único, o prazo de seis meses para que os pronunciamentos oficiais do Presidente da República fossem acompanhados por intérprete de Libras, o que somente começou a acontecer cerca de dez anos depois, a partir de 2014, por pressões do Ministério Público Federal. A Lei Eleitoral (Lei n. 9.504/97) estabelece em seu art. 44, § 1º que a propaganda eleitoral gratuita na televisão deverá utilizar janela com intérprete de Libras ou o recurso de legenda. Desde a eleição de 2016, o TSE vem editando Resoluções no sentido de adequar a propaganda eleitoral ao disposto no art. 67 deste Estatuto. Para as eleições de 2018, o TSE editou a Res. n. 23.551/2017 que, em seu art. 42, § 3º estabelece que a propaganda eleitoral gratuita na televisão deverá utilizar, entre outros recursos, subtitulação por meio de legenda oculta, janela com intérprete da Libras e audiodescrição, sob responsabilidade dos partidos políticos e das coligações. Deve-se destacar, portanto, que a atual norma substituiu a possibilidade de escolha entre as alternativas Libras ou legendas para a obrigatoriedade de utilização simultânea dos três recursos citados. Nesta mesma Resolução do TSE para as eleições de 2018, havia a previsão para que, nos debates entre os candidatos transmitidos pela televisão, fossem utilizados estes mesmos três recursos, dentre outros, para conferir acessibilidade às pessoas com deficiência (art. 38, § 4º da Res. n. 23.551/2017 – TSE). IV – garantia do livre exercício do direito ao voto e, para tanto, sempre que necessário e a seu pedido, permissão para que a pessoa com deficiência seja auxiliada na votação por pessoa de sua escolha. A Resolução do TSE n. 23.554/2017 regulamenta os atos preparatórios das eleições de 2018. Em seu art. 115 há a previsão de que o eleitor com deficiência ou mobilidade reduzida seja auxiliado por pessoa de sua confiança no momento do voto, mesmo que não tenha feito pedido expresso antecipadamente. Este dispositivo ainda estabelece que cabe ao presidente da mesa receptora de votos verificar se é imprescindível o auxílio ao eleitor com deficiência, sendo permitido, inclusive, que o acompanhante de confiança digite os números na urna eletrônica. Existem restrições no sentido de que o acompanhante que esteja auxiliando o eleitor com deficiência não possa estar a serviço da Justiça Eleitoral, de partido político ou de coligação. E esta assistência prestada deve ser consignada em ata. A Resolução do TSE n. 23.381/2012 já estabelecia a necessidade de os Tribunais Eleitorais, em anos eleitorais, realizar em campanhas informativas ao eleitor com deficiência, destacando a importância do voto e, entre outras medidas, a possibilidade de contar com o auxílio de pessoa da sua confiança no momento do voto. § 2º O Poder Público promoverá a participação da pessoa com deficiência, inclusive quando institucionalizada, na condução das questões públicas, sem discriminação e em igualdade de oportunidades, observado o seguinte: Embora a cidadania constitua um dos fundamentos do nosso Estado Democrático de Direito, que é regido pelo princípio da soberania popular, a participação do povo nas decisões políticas em nosso país ainda é muito baixa, restringindo-se basicamente ao voto, expressão da democracia representativa. A noção de que, em um efetivo Estado Democrático de Direito, os mecanismos de participação popular devem ser ampliados ainda não está clara para a opinião pública, para os meios de comunicação e até mesmo para setores mais conservadores do meio jurídico. Esta assertiva pôde ser comprovada com as reações extremadas após a edição do Decreto n. 8.243, de abril de 2014, que instituiu a Política Nacional de Participação Social – PNPS. O citado Decreto, editado com o objetivo de fortalecer e articular os mecanismos e as instâncias democráticas de diálogo e a atuação conjunta entre a administração pública federal e a sociedade civil, estabeleceu e regulamentou a criação de instâncias e mecanismos desta participação social, tais como: conselho de políticas públicas; ouvidoria pública federal; mesa de diálogo; audiência pública; consulta pública; e ambiente virtual de participação social (art. 6º). Em todas elas está previsto o respeito à diversidade da sociedade brasileira na sua composição. Constam ainda como algumas das principais diretrizes gerais da PNPS, a solidariedade, a cooperação e o respeito à diversidade de etnia, raça, cultura, geração, origem, sexo, orientação sexual, religião e condição social, econômica ou de deficiência, para a construção de valores de cidadania e de inclusão social (art. 3º). Portanto, a implementação desta PNPS seria fundamental para a participação de todos os setores da sociedade nas esferas de decisões políticas, incluindo as pessoas com deficiência. Lamentavelmente, ocorreram confusões de cunho ideológico quanto ao significado desta PNPS, fazendo com que a Câmara dos Deputados aprovasse, em outubro de 2014, o Projeto de Decreto Legislativo (PDC n. 1.491/2014) para sustar os efeitos do Decreto n. 8.243/2014. Enviado para o Senado Federal e transformado no PDC (SF) n. 147/2014, encontra-se aguardando votação na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania desta casa desde novembro de 2015. Contudo, existe no âmbito do Poder Executivo a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, órgão integrante da Secretaria de DireitosHumanos da Presidência da República que atua na articulação e coordenação das políticas públicas voltadas para as pessoas com deficiência. Destaca-se ainda o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Plano Viver sem Limite, com a finalidade de promover, por meio da integração e articulação de políticas, programas e ações, o exercício pleno e equitativo dos direitos das pessoas com deficiência, criado pelo Decreto n. 7.612/2011. I – participação em organizações não governamentais relacionadas à vida pública e à política do País e em atividades e administração de partidos políticos; A CF/88 estabelece, no art. 5º, XVII e XX, a plena liberdade de associação. O Código Civil, Lei n. 10.406/2002, estabelece entre as espécies de pessoas jurídicas (art. 44) as associações, formato comumente adotado pelas ONGs – Organizações Não Governamentais. Existem dezenas de ONGs voltadas aos interesses da pessoa com deficiência, que atuam de modo bastante incisivo e competente em nosso país. Podem ser citados como exemplos a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais); a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente); o IBDD (Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência); a Escola de Gente; a Acessibilidade Brasil e a ADD (Associação Desportiva para Pessoas com Deficiência), dentre outras. Estas ONGs, que sempre buscam integrar pessoas com deficiência entre os seus componentes, têm contribuído decisivamente para as discussões de projetos de leis e políticas públicas voltadas para os direitos de inclusão neste setor. II – formação de organizações para representar a pessoa com deficiência em todos os níveis; A CF/88 também dispõe, em seu rol de direitos individuais, sobre a liberdade de criação de associações (art. 5º, XVIII), cujas normas de criação e funcionamento estão previstas no Código Civil (Lei n. 10.406/2002), no art. 44 e seguintes. Uma maneira eficiente de o Poder Público atuar para promover a formação de organizações que representem a pessoa com deficiência costuma ser por meio de incentivos fiscais. Como exemplo desta atuação pode ser apontado o Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência – Pronas/PCD, instituído pela Lei n. 12.715/2012 e regulamentado pelo Decreto n. 7.988/2013. O Pronas/PCD tem a finalidade de captar e canalizar recursos destinados a estimular e desenvolver a prevenção e a reabilitação da pessoa com deficiência, sendo implementado mediante incentivo fiscal a ações e serviços de reabilitação da pessoa com deficiência desenvolvidos por pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos que se destinam ao tratamento de deficiências físicas, motoras, auditivas, visuais, mentais, intelectuais, múltiplas e de autismo. III – participação da pessoa com deficiência em organizações que a representem. O lema “nada sobre nós, sem nós”, de origem remota e revolucionária, começou a ser utilizado por ativistas dos direitos das pessoas com deficiência na África e na Europa, na década de 1990, para ilustrar um sentimento de necessidade de representatividade ou participação efetiva das pessoas com deficiência em órgãos públicos ou não que deliberem e estabeleçam políticas de inclusão deste grupo. Neste sentido, em 1999 foi criado, no âmbito do Ministério da Justiça, o Conade – Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, órgão que atualmente integra a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência. O Conade, órgão deliberativo criado para acompanhar e avaliar o desenvolvimento da política nacional para inclusão da pessoa com deficiência, está regulamentado atualmente pela Portaria Interministerial n. 1/2017, sendo composto por 19 representantes dos Ministérios do Poder Executivo, e outros 19 componentes da sociedade civil. Destes representantes, 13 são membros de organizações nacionais de e para pessoa com deficiência. Desse modo, o Conade se constitui no maior exemplo de organização governamental que cumpre o papel de conferir representatividade efetiva para a pessoa com deficiência em sua composição. 2Disponível em: http://www.eleicoes2018brasil.net/eleicoes-2018- brasil/tse-2018 . 3Disponível em: http://www.tre-sp.jus.br/imprensa/noticias-tre- sp/2018/Fevereiro/eleitor-com-deficiencia-pode-transferir-titulo-para-secao- com-acessibilidade. DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA Art. 77. O Poder Público deve fomentar o desenvolvimento científico, a pesquisa e a inovação e a capacitação tecnológicas, voltados à melhoria da qualidade de vida e ao trabalho da pessoa com deficiência e sua inclusão social. É obrigação do Estado a criação e implementação de políticas públicas, bem como a elaboração de leis que favoreçam o desenvolvimento científico e tecnológico no sentido de promover os direitos das pessoas com deficiência, além de melhorar sua condição de vida. O desenvolvimento científico, pesquisa, inovação e capacitação tecnológica tem como fundamento o art. 4, alínea g da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009), que prevê o emprego de tecnologias de informação, comunicação, ajudas técnicas para locomoção, bem como o uso de dispositivos e tecnologia assistiva adequados para as pessoas com deficiência. Com efeito, cumpre salientar que durante o período de tramitação do Estatuto da Pessoa com Deficiência, que foi de aproximadamente quinze anos, foram realizadas diversas ações governamentais de fomento à pesquisa, ao desenvolvimento e à inovação para melhoria dos conhecimentos e tecnologias em favor da pessoa com deficiência. § 1º O fomento pelo Poder Público deve priorizar a geração de conhecimentos e técnicas que visem à prevenção e ao tratamento de deficiências e ao desenvolvimento de tecnologias assistiva e social. Inicialmente, cumpre esclarecer que a expressão “prevenção e tratamento de deficiências” se refere a medidas para evitar, retardar ou minimizar as causas das deficiências. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as medidas de proteção à criança e à mãe contra doenças causadoras de deficiência, chamadas de prevenção primária, realizadas por meio de políticas públicas com o escopo de estimular a realização do exame pré-natal, bem como a condução de programas de informação à população, podem evitar em até 70% dos casos o surgimento de deficiências causadas por enfermidades durante o período de gestação. Por conseguinte, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, por força do art. 12, § 1º do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, denominado Plano “Viver sem Limite” (Decreto n. 7.612, de 17 de novembro de 2011), exerce a coordenação do Comitê Interministerial de Tecnologia Assistiva, no que diz respeito ao planejamento e execução de políticas públicas voltadas à inclusão e ao pleno exercício dos direitos das pessoas com deficiência. Por fim, é oportuno salientar que, hodiernamente, o Brasil conta com programas de pesquisa voltados ao desenvolvimento tecnológico, especialmente no ramo da produção de vacinas e recursos de prevenção às doenças causadoras de deficiência, tais como o Plano Nacional de Enfrentamento ao Aedes Aegypti e aos vírus Zika e Chikungunya, apontados como causadores da Microcefalia. § 2º A acessibilidade e as tecnologias assistiva e social devem ser fomentadas mediante a criação de cursos de pós-graduação, a formação de recursos humanos e a inclusão do tema nas diretrizes de áreas do conhecimento. A criação de cursos de pós-graduação para formação de recursos humanos é essencial para atender a demanda por pessoal qualificado na área de Tecnologia Assistiva. Por conseguinte, existem diversos programas de pós-graduação apoiados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e pela Secretaria dos Direitos Humanos por meio da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), bem como pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que possibilitam o desenvolvimento de novas linhas de pesquisa nos cursos de