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U N O PA R M ATERIA IS ELÉTRICO S E SEM ICO N D U TO RES Materiais Elétricos e Semicondutores Keila Tatiana Boni Patrícia Beneti de Oliveira Materiais elétricos e semicondutores Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Boni, Keila Tatiana ISBN 978-85-8482-549-3 1. Aparelhos e materiais elétricos. 2. Condutores elétricos. 3. Semicondutores. I. Oliveira, Patrícia Beneti de. II. Título. CDD 621.31042 Boni, Patrícia Beneti de Oliveira. – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2017. 168 p. B715m Materiais elétricos e semicondutores / Keila Tatiana 2017 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ © 2017 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Presidente Rodrigo Galindo Vice-Presidente Acadêmico de Graduação Mário Ghio Júnior Conselho Acadêmico Dieter S. S. Paiva Camila Cardoso Rotella Emanuel Santana Alberto S. Santana Lidiane Cristina Vivaldini Olo Cristiane Lisandra Danna Danielly Nunes Andrade Noé Ana Lucia Jankovic Barduchi Grasiele Aparecida Lourenço Paulo Heraldo Costa do Valle Thatiane Cristina dos Santos de Carvalho Ribeiro Revisor Técnico Ruy Flávio de Oliveira Editoração Emanuel Santana Lidiane Cristina Vivaldini Olo Cristiane Lisandra Danna André Augusto de Andrade Ramos Erick Silva Griep Adilson Braga Fontes Diogo Ribeiro Garcia eGTB Editora Unidade 1 | Constituição e estrutura dos materiais Seção 1 - Estrutura atômica 1.1 | Propriedades dos materiais 1.2 | Classificação dos materiais 1.3 | Análise geral dos metais Seção 2 - Condutividade e resistividade elétrica 2.1 | Condutividade elétrica 2.2 | Condução eletrônica 2.3 | Resistividade elétrica dos metais 2.4 | Condução iônica 2.5 | Comportamento dielétrico 2.6 | Propriedades térmicas 7 11 11 13 15 25 25 29 33 37 37 40 Unidade 2 | Materiais condutores, semicondutores e isolantes Seção 1 - Propriedades dos materiais condutores e isolantes 1.1 | Propriedades dos metais 1.2 | Materiais de condutividade elétrica elevada 1.3 | Propriedades dos materiais isolantes Seção 2 - Propriedades dos materiais semicondutores 2.1 | Principais características dos materiais semicondutores 2.2 | Elementos semicondutores 2.3 | Ligações semicondutoras e principais componentes semicondutores 51 55 55 66 73 75 75 79 81 Unidade 3 | Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos Seção 1 - Materiais dielétricos 1.1 | Polarização dos materiais isolantes 1.2 | Comportamento dos dielétricos 1.3 | Propriedades básicas dos materiais dielétricos 1.4 | Aplicações dos materiais dielétricos voltados à engenharia Seção 2 - Materiais ferroelétricos e piezoelétricos 2.1 | Materiais ferroelétricos 2.2 | Materiais piezoelétricos 93 97 97 100 103 109 115 115 119 Sumário Unidade 4 | Materiais ferromagnéticos e supercondutores Seção 1 - Propriedades dos materiais ferromagnéticos 1.1 | Magnetização dos materiais 1.2 | Classificação dos materiais em termos de suas propriedades 1.2.1 | Materiais ferromagnéticos 1.2.2 | Materiais diamagnéticos 1.2.3 | Materiais paramagnéticos 1.2.4 | Antiferromagnetismo e ferrimagnetismo 1.3 | Características dos materiais magnéticos 1.4 | Indutância Seção 2 - Propriedades dos materiais supercondutores 2.1 | Materiais supercondutores 2.2 | Propriedades magnéticas de supercondutores 129 133 133 137 137 139 140 142 143 147 151 151 154 Apresentação Com o estudo proposto nesse material didático objetiva-se que você, estudante de engenharia, compreenda e diferencie os diversos materiais utilizados em equipamentos e componentes elétricos e magnéticos, a partir da consideração das propriedades de cada tipo de material as suas propriedades estruturais. Dentre esses tipos de materiais destacamos os metais, as cerâmicas, os polímeros e os semicondutores. Assim, espera-se que ao final desse estudo você compreenda como diferentes fatores, sobretudo os relacionados à estrutura do material, influenciam suas propriedades, principalmente, propriedades elétricas, térmicas e magnéticas, que são focos do estudo proposto. Para você, como futuro engenheiro, esses conhecimentos são fundamentais para a elaboração de projetos e seleção de materiais. Na primeira unidade, você estudará a estrutura atômica dos materiais, em que destacamos o estudo dos materiais que apresentam estrutura cristalina. A partir desse estudo inicial, apresentam-se conceitos relacionados à condutividade e resistividade elétrica, bem como à condutividade térmica. Na segunda unidade, você estudará as principais propriedades dos materiais condutores, semicondutores e isolantes, pautando-se, inclusive, nos conceitos iniciais tratados na primeira unidade. Na terceira unidade, propõe-se o estudo de materiais ferromagnéticos e supercondutores, evidenciando suas propriedades principais. Por fim, aprofunda-se o estudo sobre materiais dielétricos, tema brevemente introduzido na primeira unidade, e contempla-se conceitos relacionados aos materiais piezoelétricos. Esse material foi produzido em uma linguagem dialógica para auxiliar na construção do seu conhecimento e esperamos que ele seja utilizado com muito entusiasmo. Bons estudos! Profª Keila Tatiana Boni Profª Patrícia Beneti de Oliveira Unidade 1 Constituição e estrutura dos materiais Na primeira seção dessa unidade, objetivamos evidenciar que as propriedades mais relevantes de materiais sólidos dependem dos arranjos estruturais dos átomos, bem como das interações existentes entre estes. Nesse estudo, partindo do que você já aprendeu nos estudos em Química, adentramos nas abordagens sobre uma forma estrutural que encontramos em alguns sólidos: a estrutura cristalina. De maneira mais específica, focamos o estudo em três tipos de estruturas cristalinas, as quais são comumente encontradas nos metais. Na segunda seção dessa unidade, objetivamos apresentar as propriedades elétricas dos materiais, ou seja, a resposta de um material à aplicação de um campo elétrico, abordando-se os fenômenos de condutividade e resistividade elétrica de materiais, sobretudo, de metais. Além disso, nessa mesma seção, Seção 1 | Estrutura atômica Seção 2 | Condutividade e resistividade elétrica Objetivos de aprendizagem: Com essa unidade, objetiva-se que você apreenda que a estrutura atômica de materiais sólidos está relacionada às propriedades mais relevantes desses tipos de materiais, sendo que, dentre essas propriedades, destacamos as elétricas e térmicas. Sobre essas propriedades, você compreenderá os fenômenos de condutividade e resistividade elétrica, bem como de condutividade térmica. Keila Tatiana Boni Constituição e estrutura dos materiais U1 8 exploraremos as propriedades térmicas dos materiais, ou seja, a resposta de um material à aplicação de calor, destacando o fenômeno de condutividade térmica. Constituição e estrutura dos materiais U1 9 Introdução à unidade Nesta unidade, iniciaremos o estudo sobre materiais elétricos e semicondutores a partir de suas constituições, ou seja, suas estruturas atômicas e ligações interatômicas. Tal estudo é relevante porque o tipo de ligação, muitas vezes, nos permite explicar as propriedades do material, sobretudo, aquelas propriedades que são foco do nosso estudo: condutividade elétrica. Além disso, nessa unidade, veremos que as propriedades de alguns materiais estão diretamente relacionadas as suas estruturas cristalinas. Por fim, iniciamos a exploração daspropriedades elétricas dos materiais, começando com o fenômeno da condutividade elétrica: quais são os parâmetros que a expressam, o mecanismo de condução por elétrons etc. Encerramos com as abordagens sobre resistividade elétrica e condutividade térmica. Constituição e estrutura dos materiais U1 10 Constituição e estrutura dos materiais U1 11 Seção 1 Estrutura atômica Introdução à seção 1.1 Propriedades dos materiais Nesta seção, o objetivo é conduzir você, estudante, a evidenciar algumas das propriedades fundamentais dos materiais que dependem dos arranjos geométricos dos átomos, bem como das interações existentes entre os átomos e moléculas que constituem tais materiais. Considerando esse objetivo, nesta seção, você recordará alguns conceitos fundamentais já estudados na disciplina de Química, bem como aprofundará o estudo de tais conceitos, tendo como foco o estudo dos materiais elétricos e semicondutores. Entre os conceitos, você estudará a estrutura atômica (principalmente, estrutura cristalina) e as ligações interatômicas. Ainda nesta seção, você conhecerá as relações entre as propriedades de alguns materiais com suas estruturas. Vamos iniciar o estudo sobre a constituição de materiais sólidos, conhecendo suas diferentes classificações com relação às suas propriedades. Afinal, conhecer essas propriedades é fundamental para determinar suas aplicações na engenharia. Essas propriedades são classificadas em: mecânicas, térmicas, elétricas, químicas e ópticas. Analisar tais propriedades dos materiais é essencial para o futuro engenheiro, pois essa análise permitirá que esse profissional pense sobre matérias-primas e suas adaptações a novas condições de serviço ou, até mesmo, sobre a substituição de um material por outro mais adequado. As propriedades mecânicas estão relacionadas à resistência, elasticidade, dureza e tenacidade do material. Em outras palavras, as propriedades mecânicas correspondem à resistência do material a forças mecânicas. Constituição e estrutura dos materiais U1 12 As propriedades térmicas referem-se ao comportamento térmico dos materiais quando submetidos a variações de temperatura (dilatações térmicas) e esse comportamento é representado em termos de capacidade calorífica e de condutividade térmica, assunto que será abordado na próxima seção. Calor e temperatura têm o mesmo significado? Para falarmos sobre propriedades térmicas, é preciso ter bem clara a ideia de calor e de temperatura. Para conhecer esse assunto, acesse: <http://fisica. ufpr.br/grimm/aposmeteo/cap3/cap3-1.html>. Acesso em: 11 ago. 2016. Sobre propriedades térmicas, é importante ressaltar que cada material apresenta distintos pontos de fusão e de ebulição e esses pontos estão relacionados à transição entre distintos arranjos estruturais dos átomos no material. O processo de transferência de calor envolvendo sólidos ocorre, em geral, por condutividade térmica, sendo que tal processo também depende da temperatura. As propriedades elétricas estão relacionadas à resistividade do material, que é um conceito inverso à condutividade elétrica, assunto que também será abordado na segunda seção dessa unidade. Matematicamente, a resistividade está relacionada à resistência de um material de modo que: resistência resistividade comprimento área = ⋅ ( ) Exemplo 1: “O cobre tem uma resistividade de 1 7 10 6, × − ohm.cm. Qual é a resistência de um fio com 0,1 cm de diâmetro e 30 m de comprimento?” (VAN VLACK, 1970, p. 9). Resolução: o primeiro passo é considerar que o comprimento do fio e seu diâmetro devem ser apresentados na mesma unidade de medida. Assim, transformamos 30 m em centímetros, multiplicando 30 por 100, obtendo, como resultado, 3000 cm. Fazendo as devidas substituições na expressão dada, temos: Constituição e estrutura dos materiais U1 13 resistência = × ⋅ ( ) =−1 7 10 3000 0 1 0 656 2 , , , Portanto, a resistência do fio considerado na situação dada é de 0,65 ohm. As propriedades químicas do material correspondem aos processos de corrosão, solubilização e oxidação que esse material pode ser suscetível. Por fim, as propriedades ópticas envolvem, sobretudo, o índice de refração, que é a razão entre a velocidade da luz no vácuo e a velocidade da luz no material. Além dessas propriedades, vale destacar que existe ainda um fator determinante no momento do engenheiro realizar a escolha por um determinado material para uma certa atividade: o custo desse material. Nesse mesmo fator, considera-se, ainda, a vida útil do material. 1.2 Classificação dos materiais Até o momento, abordamos os materiais sólidos de maneira geral, porém tais materiais são agrupados em três categorias, devido as suas características: metais, cerâmicas e polímeros. O que caracteriza um determinado material em uma dessas três categorias é, principalmente, sua composição química e sua estrutura atômica. Além disso, vale destacar que existem alguns materiais que são compostos por uma mistura de alguns desses materiais e, nessa situação, o material deve ser analisado em suas particularidades. Dentre as categorias de materiais, daremos enfoque à primeira: metais. Para que você compreenda porque daremos ênfase a essa categoria, na sequência apresentamos uma breve descrição de cada um deles, destacando suas principais características: - Metais: essa primeira categoria envolve os materiais que são constituídos por pelo menos um elemento metálico. Isso não significa que em suas composições não possa ter outros tipos de elementos, porém quando estes também fazem parte da composição, são em quantidades pequenas se comparadas à quantidade de elementos metálicos. Nos metais, os átomos são organizados de modo ordenado e são densos. Por isso, quanto as suas propriedades mecânicas, os metais constituem materiais rígidos, o que não impede que estes possam ser deformados sem fratura. Devido a essa propriedade mecânica, os metais são amplamente aplicados em estruturas. Constituição e estrutura dos materiais U1 14 Entre as diversas características dos metais, uma delas em particular é de grande interesse em nosso estudo: são excelentes condutores de eletricidade e de calor. Por esse motivo, nosso foco de estudo estará nos materiais constituídos, predominantemente, por metais. - Cerâmicas: nessa segunda categoria são contemplados os materiais constituídos por elementos metálicos e não metálicos, tais como, os carbetos, os nitretos e os óxidos, além dos materiais formados por minerais argilosos, vidro e cimento. Se comparados aos metais, os materiais cerâmicos são relativamente rígidos, sendo, muitas vezes, suscetíveis a fraturas. Sobre a condutibilidade de calor e de eletricidade, os materiais cerâmicos são tipicamente isolantes, entretanto, são mais resistentes a altas temperaturas que os metais. O que são materiais isolantes? O que pode estar relacionado a essa característica isolante ou condutora dos materiais? - Polímeros: nessa categoria são considerados aqueles materiais que conhecemos por plásticos e borrachas. Em geral, esses materiais são constituídos por elementos não metálicos, tendo como base principal elementos tais como o carbono e o hidrogênio. Sobre suas propriedades mecânicas, os polímeros se apresentam como menos resistentes e rígidos que os metais e as cerâmicas, entretanto, são mais suscetíveis de serem moldados que estes dois tipos materiais. Com relação à condutividade elétrica, apresentam baixas condutividades. Além das três categorias apresentadas, existe uma quarta que, de certa forma, enquadra-se nas categorias já apresentadas: metais, cerâmicas e polímeros. São os compósitos, que se enquadram nas demais categorias porque são materiais compostos por dois ou mais materiais individuais, de modo a tentar combinar as melhores características de cada material. São exemplos do compósitos as fibras de vidro e os polímeros reforçados por fibras de carbono. Saiba maissobre os compósitos, acessando o link disponível em: <http://www.almaco.org.br/compositos.cfm>. Acesso em: 11 ago. 2016. Constituição e estrutura dos materiais U1 15 Além das categorias de materiais elencadas, existem aqueles materiais que são considerados como avançados, os quais são utilizados em aplicações de alta tecnologia. Entre esses tipos de materiais, destacamos os semicondutores que apresentam propriedades elétricas intermediárias entre os condutores (metais e ligas metálicas) e os isolantes (cerâmicas e polímeros). A importância dos semicondutores que permite serem classificados entre os “materiais do futuro”, é que eles são muito sensíveis à presença concentrações mínimas de átomos de impurezas e, assim, possibilitam a evolução dos circuitos integrados, responsáveis por avanços na área industrial de eletrônicos. 1.3 Análise geral dos metais Os elementos metálicos e ligas metálicas são os melhores condutores de eletricidade, assim, daremos maior enfoque ao estudo deles, destacando suas características principais e suas estruturas. Entre as principais características dos metais, as quais boa parte serão exploradas no decorrer dessa subseção, Schmidt (1979) cita: a) A estrutura cristalina, que corresponde à organização regular e ordenada dos átomos; b) A opacidade; c) A elevada condutividade elétrica e térmica; d) O brilho típico e elevada capacidade de reflexão da luz; e) Materiais, em geral, são sólidos; f) A suscetibilidade de deformação e moldagem, quando submetidos a temperaturas elevadas ou a grandes esforços mecânicos; g) A suscetibilidade de formação de ligas metálicas a partir da combinação entre elementos metálicos; h) A suscetibilidade de transformação em derivados metálicos, como sais e óxidos. Como mencionado nas principais características dos metais, eles são caracterizados por serem de estrutura cristalina. Vamos entender o que isso significa. Para Callister e Rethwisch (2015, p. 39), “Um material cristalino é um material no qual os átomos estão posicionados em um arranjo periódico ou repetitivo ao longo de grandes distâncias atômicas”. Em outras palavras, podemos entender os Constituição e estrutura dos materiais U1 16 materiais cristalinos como aqueles em que evidenciamos uma estrutura em padrão tridimensional repetitivo, sendo tal estrutura engendrada a partir de uma ordem atômica de longo alcance. Tal estrutura é evidenciada nos metais e apenas em alguns materiais cerâmicos e polímeros. É importante ressaltar que cada sólido apresenta uma forma cristalina específica, ou seja, uma estrutura em que seus átomos, íons ou moléculas estão arranjados espacialmente. Sobre essas estruturas cristalinas, temos que os átomos, ou íons, são tomados como esferas sólidas com diâmetros específicos. Nesse modelo, as esferas que representam os átomos mais próximos se tocam entre si. Quando o arranjo tridimensional de pontos coincide com as posições dos átomos ou com os centros das esferas, designamos a estrutura cristalina como rede cristalina. Na figura a seguir são apresentados alguns exemplos de estruturas cristalinas: Fonte: <http://pt.slideshare.net/laufersil/11-cincias-dos-materiais>. Acesso em: 11 ago. 2016. Figura 1.1 | Estrutura cristalina tridimensional – CFC Na Figura 1.1, o item (a) é uma representação de uma célula unitária por meio de esferas rígidas. Células unitárias são entidades que se repetem na estrutura cristalina. O item (b) é a representação de uma célula unitária por esferas reduzidas e no item (c) temos a representação de um agregado de muitos átomos. Nos metais, a ligação atômica é metálica, sendo, portanto, de natureza não direcional. Nesse caso, como são mínimas as restrições sobre quantidade e posição dos átomos vizinhos mais próximos, temos que o número de vizinhos mais próximo Agora que você já sabe o que são sólidos cristalinos, reflita: o que são sólidos não cristalinos? Constituição e estrutura dos materiais U1 17 é relativamente alto, o que ocasiona arranjos atômicos compactos para as estruturas cristalinas dos metais. Em geral, nos metais predominam três tipos de estruturas cristalinas: cúbica de faces centradas, cúbica de corpo centrado e hexagonal compacta (CALLISTER; RETHWISCH, 2015). A estrutura cúbica de faces centradas é a estrutura que possui uma célula unitária com estrutura cúbica. Assim, os átomos estão dispostos em cada um dos vértices e nos centros de todas as faces do cubo. Possuem esse tipo de estrutura cristalina, por exemplo, o ouro, a prata, o alumínio e o cobre. Na Figura 1.1 (a), observamos um modelo de esferas rígidas para a célula unitária cúbica de faces centradas. Já no item (b) da mesma figura, evidenciamos um átomo em cada vértice da célula unitária, um no centro de cada face e nenhum no centro do cubo, e, no item (c) temos a seção de um cristal formado por múltiplas células unitárias cúbicas de faces centradas. Perceba na Figura 1.1 que as esferas se tocam ao longo de uma diagonal da face. Matematicamente, podemos relacionar o comprimento da aresta do cubo a e o raio atômico R pela seguinte expressão: a R= 2 2 Para compreender melhor tal relação, vamos analisar o seguinte exemplo, em que temos a intenção de determinar o volume da célula unitária cúbica de faces centradas: Exemplo 2: “Calcule o volume de uma célula unitária cúbica de faces centradas (CFC) em função do raio atômico R” (CALLISTER; RETHWISCH, 2015, p. 42). Resolução: A célula unitária CFC é representada na figura a seguir. Você lembra o que é ligação metálica? E quais são os outros tipos de ligações? Antes de continuar seus estudos é fundamental recordar esses conceitos. Para isso, acesse os links, disponíveis em: <https://www. youtube.com/watch?v=h24RYu_yQSc>; <https://www.youtube.com/ watch?v=bxnCu91Rj_Y>; <https://www.youtube.com/watch?v=EZGH- OqweF4>. Acesso em: 11 ago. 2016. Constituição e estrutura dos materiais U1 18 Fonte: <http://pt.slideshare.net/niqueloi/estrutura-cristalina>. Acesso em: 11 ago. 2016. Figura 1.2 | Célula unitária CFC Note que os átomos se tocam ao longo de uma diagonal na face do cubo, cujo comprimento vale 4R. A célula unitária é um cubo, em que a corresponde ao comprimento da aresta da célula, temos que seu volume é a³. Perceba, ainda, que na face há a formação de um triângulo retângulo e, portanto, podemos aplicar o Teorema de Pitágoras: a a R² ² ( )²+ = 4 Ou, ainda, podemos utilizar a relação entre comprimento da aresta do cubo a e o raio atômico R: a R= 2 2 Utilizando essa relação, obtemos: V a R RC = = =³ ( )³ ³2 2 16 2 Além disso tudo, outra característica importante de uma estrutura cristalina que merece destaque diz respeito ao fator de empacotamento atômico (FEA). Nas estruturas cristalinas CFC, o número de empacotamento atômico é 12. Para compreender esse número, retorne e visualize a Figura 1.1 (a): nela você pode perceber que existem quatro vizinhos mais próximos do átomo na face anterior. Esses quatro átomos estão localizados nos vértices ao redor do átomo na face anterior. Além disso, percebe-se quatro átomos localizados nas faces em contato na Constituição e estrutura dos materiais U1 19 parte de trás e mais quatro átomos de faces equivalentes que estão localizados na outra célula unitária mais próxima, na parte da frente. O fator de empacotamento atômico (FEA) pode ser entendido como a razão entre o somatório dos volumes das esferas que representam os átomos que compõem o interior de uma célula unitária e o volume de uma única célula unitária. Considerando que o volume para uma esfera é 4 3 ≠ R³ e considerando que cada célula unitária CFC possui quatro átomos, matematicamente podemos escrever: V R V RE E= → =( ) ³ ³4 4 3 16 3 π π E, como vimos no exemplo 1, o volume total da célula unitária CFC é: V RC =16 2³ Assim, podemos concluir que o fator de empacotamento atômico (FEA) para a estrutura cristalina CFC é de 0,74, pois: FEA R R = = ( ) ³ ³ ,4 4 3 16 2 0 74 π Esse resultado indica o máximo empacotamento que é possível, considerando esferas de mesmos diâmetros. Outra estrutura cristalina é a cúbica de corpo centrado (CCO). Estruturalmente, ela apresenta uma única célula unitária cúbica, com seus átomos alojados nos oito vértices, sendo um único localizado no centro do cubo. Observe a figura a seguir: Fonte: <http://pt.slideshare.net/laufersil/11-cincias-dos-materiais>. Acesso em: 11 ago. 2016. Figura 1.3 | Estruturas cristalina pura de corpo centrado Na Figura 1.3 (a), visualizamos o diagrama de células unitárias CCC com os átomos representados pelo modelo de esferas rígidas. Em 1.3 (b), temos a mesma visualização de 1.3 (a), com a diferença de que não se trata do modelo de esferas Constituição e estrutura dos materiais U1 20 rígidas, mas de esferas reduzidas. Por fim, em 1.3 (c), observamos um conjunto de esferas que representam a estrutura cristalina CCC. Nesse tipo de estrutura cristalina, temos valores menores para o número de coordenações e de empacotamento atômico, se comparados às estruturas CFC, em que o número de coordenação é oito e o fator de empacotamento atômico é 0,68. Por fim, outra estrutura cristalina é a hexagonal compacta (HC). Essa estrutura se diferencia das demais, sobretudo, por ser um tipo de estrutura que possui célula unitária cuja simetria não é cúbica, mas possui célula unitária de simetria hexagonal. A figura a seguir ilustra essa estrutura cristalina. Fonte: <http://pt.slideshare.net/laufersil/11-cincias-dos-materiais>. Acesso em: 11 ago. 2016. Figura 1.4 | Estrutura cristalina hexagonal compacta Na figura, a primeira imagem traz a representação de uma célula unitária com esferas reduzidas para a estrutura HC, enquanto, na mesma figura, a segunda imagem traz a representação de um conjunto de várias células unitárias HC. Quanto ao número de coordenação e o índice de empacotamento atômico, esses valores são exatamente os mesmos apresentados para as estruturas CFC: 12 e 0,74, respectivamente. A tabela a seguir traz a categorização dos principais metais puros, de acordo com suas estruturas cristalinas. Fonte: <http://pt.slideshare.net/laufersil/11-cincias-dos-materiais>. Acesso em: 11 ago. 2016. Tabela 1.1 | Estrutura cristalina dos principais metais puros Estrutura Metal CFC Ag, Al, Au, Ca, Co-β, Cu, Fe-γ, Ni, Pb, Pd, Pt, Rh, Sr HC Be, Cd, Co-α, Hf-α, Mg, Os, Re, Ru, Ti-α, Y, Zn, Zr-α CCC Ba, Cr, Cs, Fe-α, Fe-δ, Hf-β, K, Li, Mo, Na, Nb, Rb, Ta, Ti-β, V, Zr-β Constituição e estrutura dos materiais U1 21 Além das abordagens realizadas até o momento sobre estruturas cristalinas, atrelado a esse conceito temos a possibilidade de determinação do cálculo da massa específica teórica de um sólido metálico. Essa determinação é possibilitada a partir da seguinte relação: ρ = ⋅ ⋅ n A V NC A Em que: • ρ é a massa específica teórica do metal (unidade: Ω⋅m ); • n é o número de átomos associados a cada célula unitária; • A é o peso atômico; • VC é o volume da célula unitária; • NA é o número de Avogadro ( 6 022 10 23, × átomos/mol). Como vimos no estudo das estruturas cristalinas, uma molécula tem uma regularidade estrutural, seja de simetria cúbica ou hexagonal. Essa regularidade decorre de ligações covalentes que determinam um número de vizinhos para cada átomo, bem como suas localizações espaciais. De acordo com Rolim (2002, p. 6), “A maioria dos materiais de interesse para os engenheiros tem arranjos atômicos que se repetem nas três dimensões de uma Quantos e quais são os sistemas cristalinos? Como diferem entre si? Quais são suas características? Aprenda mais sobre estruturas cristalinas. Nos links a seguir, você acessará vídeos com explicações sobre os três tipos de estruturas que você estudou: CFC, CCC e HC. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=W_omC_Iyqq0>; <https://www.youtube.com/watch?v=sTHXe2_ilnk>. Acesso em: 12 ago. 2016. Constituição e estrutura dos materiais U1 22 unidade básica”. A esse tipo de arranjos designamos cristais. Além das estruturas cúbicas e hexagonais, Rolim (2002) destaca outros cinco tipos principais de cristais: tetragonal, ortorrômbico, monoclínico, triclínico e romboédrico. Entre esses tipos, ainda podem ser acrescentados alguns subgrupos, os quais podem ser observados na figura a seguir. Fonte: Rolim (2002, p. 6). Figura 1.5 | Grupos espaciais de cristais Sabe qual a importância de conhecermos a estrutura cristalina de um material? Algumas das propriedades dos materiais dependem dessa estrutura. Em outras palavras, o modo pelo qual os átomos, íons ou moléculas de um material estão organizados espacialmente, em termos de estrutura, nos auxilia a compreender algumas das propriedades desse material, sobretudo, aquelas que são nosso foco de estudo: as propriedades elétricas e térmicas. Tais assuntos começam a ser abordados na próxima seção. 1. (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 44) O cobre possui um raio atômico de 0,128 nm (ou 1,28 x 10-8 cm), uma estrutura cristalina CFC e um peso atômico de 63,5 g/mol. Calcule sua massa específica teórica: Constituição e estrutura dos materiais U1 23 a) 8,89 g/cm³. b) 8,94 g/cm³. c) 8,98 g/cm³. d) 9,09 g/cm³. e) 9,19 g/cm³. 2. (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 72) Considere o elemento irídio (Ir) que possui uma estrutura cristalina CFC. Logo, o número de átomos por célula unitária é igual a 4. A massa específica do irídio é de 22,4 g/cm³ e seu peso atômico é de 192,2 g/mol. Calcule o raio de um átomo de irídio (considere V RC =16 2³ ). a) R = 0,456 nm. b) R = 0,136 nm. c) R = 0,098 nm. d) R = 0,827 nm. e) R = 0,076 nm. Constituição e estrutura dos materiais U1 24 Constituição e estrutura dos materiais U1 25 Seção 2 Condutividade e resistividade elétrica Introdução à seção 2.1 Condutividade elétrica Durante o projeto de um componente ou de uma estrutura, é essencial conhecer e considerar as propriedades elétricas e térmicas dos materiais. Afinal, resultados de condutividade de materiais, em geral, são controláveis, o que é de grande utilidade para o engenheiro em seu planejamento, seja para fins de suprimentos de força, para equipamentos de controle ou para comunicações. Para prever as propriedades elétricas de um material, você aprenderá que será necessário conhecer como o comportamento elétrico desse material varia de acordo com as energias dos elétrons na camada de valência, com o “spin” dos elétrons dos átomos e com a estrutura do material. Sobre as propriedades térmicas de um material, você conhecerá o comportamento de sólidos quando absorvem energia na forma de calor, como se dá o transporte desse tipo de energia no material e a importância da capacidade calorífica, da expansão térmica e da condutividade térmica para a utilização dos sólidos em situações práticas. O movimento de cargas elétricas de uma posição para outra é o que designamos por condutividade elétrica. Esse movimento decorre a partir de íons ou elétrons e a mobilidade desses elementos varia de material para material. Note que uma das características elétricas fundamentais de um material sólido é esse seu poder de mobilidade de transmissão de uma corrente elétrica e, para adentrar nesse assunto, precisaremos de alguns conceitos que, provavelmente, você já ouviu falar no estudo de Física no ensino básico. Existe uma relação entre a corrente I e a voltagem aplicada V. Essa relação é chamada Lei de Ohm, é escrita como: Constituição e estrutura dos materiais U1 26 V I R= ⋅ Na expressão, R representa a resistência do material, por meio do qual a corrente elétrica I está passando. Lembre-se de que a corrente I pode ser entendida como a taxa de passagem de cargas ao longo do tempo. As unidades que utilizamos para V, I e R são, respectivamente, volt (J/C), ampère (C/s) e ohm (V/A). A configuração do material, ou seja, sua estrutura, influencia no valor de sua resistência R. Já a resistividade elétricaρ independe dessa estrutura e se relaciona a R segundo a expressão: ρ = RA l Em que l representa o comprimento de um ponto a outro do material, considerando onde se pretende medir a voltagem, e A representa a área da seção transversal perpendicular à direção da corrente. Na figura a seguir, você poderá visualizar esses conceitos: Fonte: <https://conhecendoeletrica.wordpress.com/2015/04/05/leis-de-ohm/>.Acesso em 12 ago. 2016. Figura 1.6 | Representação esquemática da relação entre uma amostra de material, a resistência, a área e o comprimento Considerando, na segunda expressão, que V I R= ⋅ , podemos reescrever R em termos de V e I: ρ = VA Il Saiba mais sobre a Lei de Ohm, acessando os links. Disponíveis em: <https://www.todamateria.com.br/leis-de-ohm/>; <http://adm.online.unip.br/img_ead_dp/20409.PDF>; <https://www.youtube.com/watch?v=8kKRhvmPnZ8>. Acesso em: 12 ago. 2016. Constituição e estrutura dos materiais U1 27 A natureza elétrica de um material, muitas vezes, é especificada a partir de um valor numérico específico, o qual é chamado de condutividade elétrica (σ ). De maneira bem simples, podemos entender esse conceito como sendo o inverso da resistividade. Assim: σ ρ = 1 Em que σ é dado pela unidade inversa do ohm-metro [ ( )Ω⋅ −m 1 ]. A condutividade elétrica auxilia na compreensão de quanto o material é susceptível de conduzir uma corrente elétrica. Dessa forma, uma das maneiras de fazer a classificação de materiais sólidos é embasar-se no seu fator de condutividade elétrica. Assim, torna-se possível classificar tais materiais de três maneiras distintas: condutores, semicondutores e isolantes. Os condutores são aqueles que apresentam condutividade elétrica da ordem de 107 1( )Ω⋅ −m , como é o caso dos metais, os quais chamamos de bons condutores. Os isolantes apresentam condutividade elétrica muito baixa, variando na ordem de 10 10 1− −⋅( )Ω m e 10 20 1− −⋅( )Ω m . Os semicondutores apresentam condutividade elétrica intermediária entre os condutores e isolantes, variando na ordem de 10 6 1− −⋅( )Ω m e 104 1( )Ω⋅ −m . Observe as figuras a seguir. Nelas é possível evidenciar as faixas de condutividade elétrica para diversos tipos de materiais: Fonte: <http://docplayer.com.br/8611879-Universidade-do-estado-de-santa-catarina-centro-de-ciencias-tecnologicas- departamento-de-engenharia-mecanica.html>. Acesso em: 12 ago. 2016. Figura 1.7 | Faixas de condutividade elétrica para diversos tipos de materiais Constituição e estrutura dos materiais U1 28 Fonte: <http://professor.ufabc.edu.br/~jeverson.teodoro/archives/bc1105/2015-2/Aula_MSP10_Propriedades_El%C3%A9tricas_ Materiais.pdf>. Acesso em: 12 ago. 2016. Figura 1.8 | Condutividade σ em (Ω.m)-1 de uma variedade de materiais à temperatura ambiente Que tipo de material você encontra e utiliza no seu cotidiano é possível classificar como condutores, isolantes e semicondutores? Esperamos que até esse momento você tenha compreendido que a condutividade elétrica diz respeito ao movimento de cargas elétricas de uma posição para outra. Tal movimento é provocado por um campo elétrico aplicado externamente. A partir de agora, você estudará como esse movimento ocorre. A carga tem que ser transportada por íons ou elétrons e essa mobilidade depende do tipo do material, se é condutor, semicondutor ou isolante. Considerando que é um campo elétrico externo que ativa o movimento de cargas elétricas, é importante ressaltar que dependendo da caga das partículas o movimento dessas terá direções diferentes. As partículas carregadas positivamente tenderão a acelerar na mesma direção do campo elétrico, enquanto que as partículas carregadas negativamente serão aceleradas na direção oposta ao campo elétrico. Além disso, esse movimento, ou seja, a condução, pode ocorrer de duas maneiras: eletrônica ou iônica. A condução eletrônica é a que ocorre na maioria dos sólidos, em que uma corrente tem origem a partir do fluxo de elétrons. A condução iônica é a que ocorre a partir do movimento resultante de íons carregados, produzindo uma corrente. Constituição e estrutura dos materiais U1 29 Vamos dar início ao estudo desses dois tipos de conduções nas próximas subseções. 2.2 Condução eletrônica A condução eletrônica é a que ocorre na maioria dos materiais, sendo este o tipo de condução que ocorre em todos os materiais condutores, semicondutores e em alguns materiais isolantes. Esse tipo de condutividade depende dos elétrons e, por isso, a magnitude da condutividade elétrica está estritamente relacionada à quantidade de elétrons acessíveis para participar desse processo de condução. Isso significa dizer que nem todos os elétrons de cada átomo do material se movimentaram devido à presença de um campo elétrico externo. Recorde os conceitos relacionados aos estados de energia dos elétrons acessando os links indicados. Disponíveis em: <https://docente. ifrn.edu.br/denilsonmaia/modelos-atomicos-omodelo-de-bohr>; <https://www.youtube.com/watch?v=P211XXB5pW0>; <https://www. youtube.com/watch?v=gL5ytHCKBK4>; <https://www.youtube.com/ watch?v=H8Z3PuPbiB8>. Acesso em: 12 ago. 2016. Os materiais sólidos são constituídos por N números de átomos que, inicialmente, estão separados uns dos outros, mas agrupados e ligados ordenadamente de maneira a formar a estrutura cristalina. Quando a distância entre os átomos é relativamente grande, devemos compreender que os átomos são independentes entre si e, portanto, cada átomo apresentará a mesma configuração eletrônica e níveis de energia do que se estivesse isolado. Agora, conforme os átomos vão se apresentando relativamente mais próximos uns do outro, observa-se uma influência dessa aproximação nos elétrons de cada átomo. Essas influências podemos chamar de perturbações que acontecem porque aos elétrons e núcleos de átomos que estão próximos. Devido a essa influência, considerando os materiais sólidos, compreende-se que o estado de cada átomo individual poderá ser dividido em uma série de estados eletrônicos espaçados, o que é denominado de banda de energia eletrônica. Constituição e estrutura dos materiais U1 30 É importante destacar que a extensão da divisão depende da separação entre os átomos e começa no sentido das camadas eletrônicas mais externas para as mais internas. Isso porque as camadas mais externas são as primeiras a sofrerem influências. Na figura a seguir, você observará uma representação esquemática da energia eletrônica em função da separação entre átomos correspondente a um agregado de 12 átomos (N = 12). Nessa figura, perceba que a partir da aproximação, cada um dos estados atômicos 1s e 2s se divide, formando, assim, uma banda de energia eletrônica que consiste em 12 estados. Cada um desses estados de energia tem a capacidade de acomodar dois elétrons de spins com sentidos opostos. Fonte: <http://professor.ufabc.edu.br/~jeverson.teodoro/archives/bc1105/2016-3/Aula_MSP10_Propriedades_El%C3%A9tricas_ Materiais.pdf>. Acesso em: 12 ago. 2016. Fonte: <http://professor.ufabc.edu.br/~jeverson.teodoro/archives/bc1105/2016-3/Aula_MSP10_Propriedades_El%C3%A9tricas_ Materiais.pdf>. Acesso em: 12 ago. 2016. Figura 1.9 | Representação esquemática da energia eletrônica em função da separação entre átomos correspondente a um agregado de 12 átomos (N = 12) Figura 1.10 | Representação convencional da estrutura da banda de energia eletrônica para um material sólido Na próxima figura, você pode visualizar uma representação esquemática para bandas de energia eletrônica para um material sólido formado por N átomos. Constituição e estrutura dos materiais U1 31 Na Figura 1.10 (A), observamos a representação convencional da estrutura da banda de energia eletrônica para um material sólido na separação entre átomos de equilíbrio. Na Figura 1.10 (B), observamos a energia eletrônica em função da separação entre átomos para um agregado de N átomos. Assim, nessa segunda parte, é possível compreender comoé gerada a estrutura da banda de energia na separação entre átomos de equilíbrio. Ainda, na Figura 1.10, em que se menciona Gap de energia, podemos entender isso como o espaçamento entre bandas de energia. A importância de compreender a estrutura da banda de energia eletrônica consiste na consequência desta para as propriedades elétricas de um material sólido. Considerando 0 K, podemos encontrar quatro tipos distintos de estruturas de bandas, que podem ser visualizados na figura a seguir. Fonte: <http://professor.ufabc.edu.br/~jeverson.teodoro/archives/bc1105/2016-3/Aula_MSP10_Propriedades_El%C3%A9tricas_ Materiais.pdf>. Acesso em: 2016. Figura 1.11 | Estruturas de bandas de energia possíveis para sólidos a 0 K Na Figura 1.11, Ef representa a energia correspondente ao estado preenchido mais elevado a 0K, o que denominamos de energia de Fermi. Vamos compreender cada um desses tipos distintos de estruturas de bandas apresentados na Figura 1.11: (a) Essa estrutura de banda é característica de metais em que se encontram disponíveis, na mesma banda de energia, estados eletrônicos não preenchidos acima e adjacentes a estados eletrônicos preenchidos. Um exemplo é o cobre, em que cada átomo tem um único elétron 4s, sendo capaz de acomodar 2N elétrons e, portanto, apenas a metade das posições eletrônicas disponíveis nessa banda 4s está preenchida (CALLISTER; RETHWISH, 2015). (b) Essa estrutura de banda também é característica de metais como, o magnésio, que apresenta dois elétrons 3s em cada átomo isolado. Percebe-se nesse elemento que ocorre a superposição das bandas de energia mais externas, de uma banda vazia com uma banda preenchida, portanto, quando se forma o sólido, as bandas 3s e 3p se superpõem. Constituição e estrutura dos materiais U1 32 As bandas (c) e (d) são bastante semelhantes. Nelas, a banda de valência, que está totalmente preenchida com elétrons, está separada de uma banda de condução vazia. Entre essas duas bandas existe um espaço entre bandas de energia. A partir desse estudo devemos compreender o seguinte: apenas os elétrons com energias maiores que a energia de Fermi sofrem influências de maneira que são acelerados na presença de um campo elétrico externo. Esses elétrons são denominados de elétrons livres. Contudo, existem outros tipos de entidades eletrônicas que também participam na condução eletrônica e que são menores que a energia de Fermi: são os buracos. Essas entidades são comumente encontradas nos semicondutores e nos isolantes. O que diferencia os materiais condutores dos não condutores é exatamente a quantidade dessas entidades: elétrons livres e buracos. Os elétrons livres estão presentes, em geral, nos metais, que são considerados como bons condutores. O elétron torna-se livre quando é excitado de maneira que possa migrar para um dos estados de energia vazios e disponíveis acima da energia de Fermi. Para os metais, classificados nas estruturas de banda (a) e (b), existem estados de energias vazios adjacentes ao estado preenchido e, assim, pouco energia é necessária para tornar os elétrons livres. Logo, a energia que o campo elétrico externo proporciona é o suficiente para excitar um grande número de elétrons. Esse número elevado de elétrons livres está diretamente relacionado a uma alta condutividade. Nos isolantes e semicondutores não estão disponíveis os estados vazios adjacentes ao topo da banda de valência preenchida. Assim, para que se tornem livres, “os elétrons devem ser promovidos através do espaçamento entre bandas de energia para estados vazios na parte inferior da banda de condução” (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 619). Como fazer isso? É preciso atribuir a um elétron a diferença de energia resultante desses dois estados, banda de energia e de condução, o que corresponde, aproximadamente, à energia do espaçamento entre as bandas (Ee). Nesses casos, Você acabou de estudar que as bandas (c) e (d) são semelhantes. Observando a Figura 1.11, reflita: qual a diferença entre essas duas estruturas de bandas, sabendo que a (c) é característica dos materiais isolantes e a (d) dos semicondutores? Constituição e estrutura dos materiais U1 33 a energia de excitação não vem de fontes elétricas, mas de fontes de calor (são termicamente excitados). Essa relação entre espaçamento entre bandas, calor e condutividade elétrica é inversamente proporcional, “quanto maior for o espaçamento entre as bandas, menor será a condutividade elétrica em uma dada temperatura” (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 619). Conforme há um aumento de temperatura nos materiais isolantes ou semicondutores, ocorre um aumento na excitação dos elétrons devido ao aumento de energia térmica. Consequentemente, quanto maior a quantidade elétrons excitados, ou seja, movimentados para a banda de condução, maior a condutividade do material. Devido a esse fenômeno, podemos distinguir a condutividade entre os materiais isolantes e semicondutores, pois de acordo com os modelos de ligação atômica destes dois tipos de materiais, observa-se que nos semicondutores os elétrons são removidos por excitação térmica com maior facilidade que os elétrons dos materiais isolantes. Quanto à mobilidade eletrônica, considerando que o elétron está carregado negativamente, quando um material está em contato com um campo elétrico a ele aplicado ocorre uma força que age sobre os elétrons livres, de maneira que esses elétrons acelerem em uma direção oposta ao campo elétrico. Diante dessa relação de proporcionalidade inversa, envolvendo, de um lado, condutividade elétrica em uma dada temperatura e, de outro, espaçamento entre bandas, reflita: em que consiste a diferença entre semicondutores e isolantes? 2.3 Resistividade elétrica dos metais Diante de tudo que já foi abordado até aqui, destacando o estudo sobre os metais, os quais são, em sua maioria, considerados como bons condutores, vamos dar início à abordagem sobre a condução nos metais em termos de resistividade, o que pode ser entendido como o inverso da condutividade. Como vimos, os metais apresentam estruturas cristalinas e, nessas estruturas, observam-se defeitos cristalinos que incluem lacunas, átomos de impurezas, discordâncias etc. Nesses defeitos cristalinos ocorrem espalhamento dos elétrons de condução dos metais. Assim, esses defeitos cristalinos estão relacionados ao aumento da resistividade do material ou da diminuição da condutividade. Constituição e estrutura dos materiais U1 34 Como essas imperfeições dependem da temperatura, da composição e do grau de trabalho a frio com o metal, temos que a resistividade do metal pode ser dada pela adição entre as “contribuições das vibrações térmicas, das impurezas e da deformação plástica; ou seja, os mecanismos de espalhamento atuam de maneira independente uns dos outros” (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 621). ρ ρ ρ ρtotal t i d= + + Essa relação é denominada de Regra de Matthiessen. Nos materiais semicondutores, a condutividade elétrica é mais baixa em relação a dos metais. Contudo, esses tipos de materiais apresentam algumas características elétricas fundamentais e de grande utilidade: eles são muito sensíveis à presença, mesmo que pequena, de impurezas. E, com relação a essas impurezas, temos duas classificações: os semicondutores intrínsecos e os semicondutores extrínsecos. Os semicondutores intrínsecos são caracterizados pela estrutura de banda eletrônica mostrada na Figura 1.11(d). São exemplos de semicondutores intrínsecos o silício (Si) e o germânico (Ge), sendo que ambos se encontram, na tabela periódica, no grupo IVA e se ligam por ligações covalentes. De acordo com Callister e Rethwish (2015, p. 625), “Nos semicondutores intrínsecos, cada elétron excitado para a banda de condução resulta na falta de um elétron em uma das ligações covalentes” ou “há um estado eletrônico vazio na banda de valência”. Quando na presença de um campo elétrico, o elétron ausente move-se, na estrutura cristalina,devido ao movimento de outros elétrons de valência que estão preenchendo a ligação incompleta. Esse elétron ausente é o que chamamos de buraco e é uma partícula carregada positivamente. A carga dessa partícula tem mesmo valor numérico que a carga do elétron, porém como é positiva, apresenta sinal contrário: + × −1 6 10 19, C . Vimos, então, que existem dois tipos de portadores de carga em um semicondutor intrínseco, os elétrons livres e os buracos. A condutividade σ para a maioria dos materiais é expressa por: σ µ= n e e Em que: • n é o número de elétrons livres ou condução por unidade de volume; • e é a magnitude absoluta da carga elétrica de um elétron (1,6 x 10-19 C); • µe é a mobilidade eletrônica, e é uma constante de proporcionalidade que Constituição e estrutura dos materiais U1 35 indica a frequência dos eventos de espalhamentos. Unidade: volt-segundo (m²/Vs). Note que para expressar a condutividade dos semicondutores intrínsecos, faz- se necessário acrescentar a essa expressão a contribuição da corrente devido aos buracos. Assim, escrevemos: σ µ µ= +n e p ee b Em que: • p é o número de buracos por m³; • µb é a mobilidade dos buracos, sendo essa magnitude menor que do µe para os semicondutores. Unidade: volt-segundo (m²/Vs). Considerando-se que nos semicondutores intrínsecos, cada elétron que se movimenta entre o espaçamento entre bandas deixa para trás um buraco na banda de valência, podemos considerar que: n p ni= = Dessa forma, obtemos: n e p ee b e b( ) ( )µ µ µ µ+ = + Logo, σ µ µ= +n ei e b( ) Vamos ver um exemplo: Exemplo 3: (Adaptada de CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 635) “Calcule a condutividade elétrica do silício (Si) intrínseco a 150°C (423 K)”. Considere ni do Si igual a 4 x 1019 m-3, µe = 0,06 m²/Vs e µb = 0,022 m²/Vs. Resolução: σ µ µ σ σ = + = × × + = ⋅ − − n e m i e b( ) ( )( , )( , , ) , ( ) 4 10 1 6 10 0 06 0 022 0 52 19 19 1Ω Aprofunde seus conhecimentos sobre materiais semicondutores intrínsecos acessando: <https://www.youtube.com/watch?v=snLCgz7W22Y>. Acesso em: 13 ago. 2016. Constituição e estrutura dos materiais U1 36 Os semicondutores comerciais, em sua maioria, são extrínsecos, em que o comportamento elétrico é determinado pelas impurezas. Essas impurezas, mesmo em concentração muito pequena, permitem a introdução de um excesso de elétrons ou de buracos. Quando consideramos uma temperatura ambiente, a energia térmica disponível já é o suficiente para provocar a excitação de um grande número de elétrons a partir dos estados doadores. Nesse caso, a condutividade dos semicondutores extrínsecos (do tipo n) é dada por: σ µ≅ n e e Nessa situação, consideramos os elétrons como portadores majoritários devido à massa específica. Há, ainda, um efeito oposto, em que o elétron e o buraco trocam de posições, “Um buraco em movimento é considerado como estando em um estado excitado, e participa no processo de condução de maneira análoga à de um elétron excitado, de um doador como descrito anteriormente” (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 630). Portanto, nesse caso, temos que a concentração de buracos é superior à de elétrons, sendo, agora, os buracos considerados como portadores majoritários: σ µ≅ p e e Essa relação descreve a condutividade dos semicondutores extrínsecos (do tipo p). Um dos processos de formação de ligas em materiais semicondutores é denominado de dopagem e está relacionado ao que estudamos sobre semicondutores intrínsecos e extrínsecos. Saiba mais sobre esse processo acessando os links: <https://www.youtube.com/watch?v=lnnpfVR0rmo>; <https://www.youtube.com/watch?v=CzXlfE6tiUc>; <http://www.foz.unioeste.br/~lamat/downmateriais/materiaiscap15. pdf>. Acesso em: 13 ago. 2016. Além disso, aprofunde seus conhecimentos sobre semicondutores extrínsecos acessando: <https://www.youtube.com/watch?v=- UegYHLZbWQ>. Acesso em: 13 ago. 2016. Constituição e estrutura dos materiais U1 37 2.4 Condução iônica 2.5 Comportamento dielétrico À temperatura ambiente, os polímeros e as cerâmicas são materiais isolantes, ou seja, em temperatura ambiente, poucos elétrons podem ser excitados através do espaçamento entre bandas pela energia térmica disponível. É isso que faz com que esses tipos de materiais apresentem uma condutividade elétrica muito pequena. Contudo, quando se provoca um aumento na temperatura, é possível fazer com que os materiais isolantes apresentem, inclusive, uma condutividade elétrica maior que alguns semicondutores. Vamos entender esse processo. Sabemos que tanto os cátions quanto os ânions apresentam carga elétrica. Assim, na presença de um campo elétrico podem se movimentar. O movimento desses íons carregados é responsável por gerar corrente elétrica. Assim, podemos escrever a condutividade total de um material iônico como o somatório entre as contribuições do campo elétrico e as contribuições iônicas: σ σ σtotal eletrônica iônica= + Quanto à mobilidade µI, podemos associá-la a cada espécie iônica: µI I In eD kT = Em que: • nI é a valência de um íon específico; • DI é o coeficiente de difusão de um íon específico; • k é uma constante; • T é temperatura. Logo, podemos concluir que a contribuição iônica para a condutividade total aumenta na mesma proporção em que aumenta a temperatura, uma vez que esta é a responsável por provocar a excitação dos íons. Contudo, mesmo em temperaturas elevadas, existem materiais iônicos e permanecem isolantes. O material dielétrico pode ser entendido como um isolante elétrico que exibe ou pode vir a exibir uma estrutura de dipolo elétrico. Constituição e estrutura dos materiais U1 38 Saiba o que é um dipolo elétrico acessando: <http://www.fotoacustica. fis.ufba.br/daniele/FIS3/DipoloEletrico.pdf>; <http://midia.atp.usp.br/ensino_novo/eletromagnetismo/ebooks/ dipolos_eletricos_polarizacao.pdf>; < h t t p : / / w w w . u f j f . b r / f i s i c a / f i l e s / 2 0 1 3 / 1 0 / F I I I - 0 1 - 0 5 - Dipoloel%C3%A9trico.pdf>. Acesso em: 13 ago. 2016. Os materiais dielétricos são empregados nos capacitores. Segundo Callister e Rethwish (2015, p. 646), “Quando uma voltagem é aplicada através de um capacitor, uma placa fica carregada positivamente, enquanto a outra fica carregada negativamente”. Relacionada a essa quantidade de carga armazenada a cada uma das placas Q, definimos capacitância C pela relação: C Q V = Em que V é a voltagem aplicada por meio do capacitor. A unidade para a capacitância é o coulomb por volt (C/V) ou Farad (F). Para um material dielétrico inserido na região entre placas, temos: C A l =∈ Em que ∈ representa a permissividade desse meio dielétrico. A permissividade relativa, chamada, também, de constante dielétrica, é dada por: ∈ = ∈ ∈r 0 Em que ∈0 é a permissividade no vácuo, cujo valor é 8 85 10 12, × − . O que é vácuo? Ou seja, que característica apresenta um determinado ambiente para que possamos considerá-lo como vácuo? Constituição e estrutura dos materiais U1 39 Vamos ver um exemplo: Exemplo 4: Considere um capacitor de placas paralelas com uma área de 6,45 x 10-4 m² (1 in²) e uma separação entre placas de 2 x 10-3 m (0.08 in) através do qual é aplicado um potencial de 10 V. Se um material com uma constante dielétrica de 6,0 for colocado na região entre as placas, calcule (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 650): a) A capacitância. b) A magnitude da carga armazenada em cada placa. Resolução: (a) Antes de calcular a capacitância, precisamos determinar a permissividade do meio dielétrico: ∈ = ∈ ∈ = ∈ × ∈= × − − r F m 0 12 11 6 0 8 85 10 5 31 10 , , , / Assim, a capacitância será igual a: C A l C C =∈ = × × × = × − − − − ( , ) ( , ) ( ) ( , )( , 5 31 10 6 45 10 2 10 5 31 10 0 322 11 4 3 11 55 1 71 10 11 ) ,C F= × − Segundo Callister e Rethwish (2015), dentro dos estudos de comportamento dielétrico, é fundamental compreender os tipos de polarização. A polarização é o alinhamento de momentos dedipolos moleculares e atômicos, induzidos ou permanentes, considerando a aplicação de um campo elétrico externo. Cada material dielétrico geralmente exibe um desses tipos de polarização: eletrônica, iônica ou de orientação. Conheça cada um deles acessando os links a seguir. Disponíveis em: Constituição e estrutura dos materiais U1 40 <http://www.labspot.ufsc.br/~jackie/cap4_new.pdf>; <http://www.foz.unioeste.br/~lamat/downmateriais/materiaiscap18. pdf>. Acesso em: 13 ago. 2016. 2.6 Propriedades térmicas As propriedades térmicas de um material estão diretamente relacionadas ao comportamento desse material quando submetido à aplicação de calor. Tal como você já deve ter estudado em Física, quando o material é submetido a uma elevação de temperatura, a energia em forma de calor pode ser absorvida, apresentando um aumento de temperatura e de suas dimensões (dilatação térmica). Para a utilização prática dos sólidos, é fundamental que o engenheiro conheça as principais propriedades térmicas dos materiais, entre elas a capacidade calorífica, a dilatação térmica e a condutividade térmica. Vamos adentrar nesse estudo começando pelo conceito de capacidade calorífica. A capacidade calorífica (C) é um valor específico de cada material e indica a habilidade, ou seja, a capacidade que esse material possui de absorver de sua vizinhança. Tal capacidade está relacionada à quantidade de energia que esse material precisa produzir para aumentar em uma unidade a sua temperatura. Assim, matematicamente, podemos escrever essa relação como: C dQ dT = Em que, dQ é a quantidade de energia necessária [dada em Joule (J) ou calorias (cal)] para que haja uma variação dT na temperatura. A unidade para a capacidade calorífica é especificada por mol do material (J/ mol.K ou cal/mol.K). Além disso, em algumas situações, considera-se um outro valor que é específico para cada material: o calor específico (c). Esse valor indica a capacidade calorífica do material por unidade de massa. Na tabela a seguir você pode verificar o valor do calor específico de algumas substâncias ou materiais: Constituição e estrutura dos materiais U1 41 Fonte: elaborada pela autora. Tabela 1.2 | Calor específico de algumas substâncias ou materiais Substância ou material Calor específico (cal/g°C) Substância ou material Calor específico (cal/g°C) Água 1,0 Oxigênio 0,22 Alumínio 0,22 Rocha 0,21 Carbono 0,12 Ar 0,24 Gelo 0,5 Álcool 0,6 Cobre 0,0091 Chumbo 0,031 Hidrogênio 4,3 Ferro 0,11 Madeira 0,42 Ouro 0,032 Vidro 0,16 Prata 0,056 A dilatação térmica, você já estudou em Física: quando um material é aquecido, em geral, ele tende a expandir suas dimensões e, de maneira contrária, quando submetido a baixas temperaturas, ele tende a se contrair. Esse processo de dilatação ou de contração ocorre de modo diretamente proporcional ao seu comprimento inicial (ou área, ou volume) e à variação de temperatura a qual foi submetido. Além disso, depende, também de modo diretamente proporcional, ao tipo de material: ∆ = ∆l l Tl0α Em que o delta (∆) indica variação, l e l0 são, respectivamente, comprimento final e inicial e αl é o coeficiente linear de dilatação térmica (que varia de acordo com o material), cuja unidade é (°C)-1. A figura a seguir ilustra cada um desses parâmetros: Fonte: <http://www.ebah.com.br/content/ABAAAgEgoAJ/8-relatorio-dilatacao-termica-9-2>. Acesso em: 13 ago. 2016. Figura 1.12 | Dilatação térmica linear Essa mesma expressão pode ser entendida para os casos de dilatação superficial e volumétrica, em que ao invés de considerar l e l0 , consideramos A e A0 (área final e área inicial) e V e V0 (volume final e inicial), respectivamente. Constituição e estrutura dos materiais U1 42 Na tabela a seguir, você pode entender a variação entre os coeficientes lineares de dilatação entre os diferentes tipos de materiais que estudamos: Fonte: elaborada pela autora. Tabela 1.3 | Variação do coeficiente de dilatação linear para diferentes tipos de materiais Tipo de Material Variação em (°C)-1 Metal 5 x 10-6 e 25 x 10-6 Cerâmica 0,5 x 10-6 e 15 x 10-6 Polímero 50 x 10-6 e 400 x 10-6 Considerando os coeficientes de dilatação linear para os diferentes tipos de materiais, reflita: por que um anel de latão, na tampa de uma jarra de vidro, afrouxará quando o conjunto for aquecido? A condutividade térmica corresponde ao fenômeno por meio do qual observamos o transporte de calor (forma de energia) ocorrendo no sentido de regiões de maior temperatura para regiões de menor temperatura. Matematicamente, temos: q k dT dx = − Em que q representa o fluxo de calor em trânsito por unidade de tempo e unidade de área, k é a condutividade térmica e dT dx é o gradiente de temperatura através do meio de condução. As unidades para q e k são, respectivamente, W/ m² e W/m.K. Vale destacar que essa expressão só é válida para as situações em que a temperatura não varia com o tempo, ou seja, quando o processo de transmissão de calor ocorre em regime estacionário. A condução de calor pode ocorrer segundo dois mecanismos: por meio das ondas de vibração da rede (fônons) ou por meio de elétrons livres. Assim, a condutividade total é dada por: k k kr e= + Constituição e estrutura dos materiais U1 43 Nos metais, verificamos o predomínio do mecanismo eletrônico (elétrons livres) no transporte de calor. Isso porque esse processo nos metais é o mais eficiente, uma vez que os elétrons livres apresentam maior velocidade que os fônons. Uma característica dos metais é que, além de bons condutores de eletricidade, também são bons condutores térmicos, sendo essa característica atribuída ao elevado número de elétrons livres que participam desse processo de condução. Os valores de condutividade térmica para os metais variam entre 20W/mK e 400W/mK. É importante observar que no caso de ligas metálicas existe uma queda no valor da condutividade térmica porque os átomos de impurezas que são adicionados atuam como centro de espalhamento, o que reduz a eficiência do movimento dos elétrons. Pelo mesmo motivo, as ligas metálicas apresentam uma queda na condutividade elétrica. Nos materiais não metálicos, os quais são isolantes térmicos, verificamos predominância dos fônos na condutividade térmica, uma vez que os materiais não metálicos apresentam uma quantidade reduzida de elétrons livres. Isso se observa, portanto, tanto para as cerâmicas, quanto para os polímeros. Além das propriedades térmicas da capacidade calorífica, da dilatação térmica e da condutividade térmica, outra propriedade que vale pena conhecer é de tensão térmica. Segundo Callister e Rethwish (2015, p. 675), as “Tensões térmicas são tensões induzidas em um corpo como resultados de variações na temperatura”. Conhecer a natureza dessas tensões é essencial para o engenheiro, pois esse conhecimento auxilia a evitar ou, no mínimo, minimizar, efeito de fraturas e deformação indesejáveis. Uma das fontes de tensões térmicas é a restrição à dilatação (ou à contração) térmica de um corpo. Nessa situação, é possível determinar a magnitude da tensão pela seguinte relação: σ α α= − = ∆E T T E Tl f l( )0 Em que E é o módulo de elasticidade. Outra fonte de tensão térmica é a resultante de um aquecimento ou resfriamento rápido de um corpo de um material, ou seja, é resultante de gradientes de temperatura entre as regiões externa e interna do corpo. Por fim, outra fonte que podemos citar são os choques térmicos de materiais frágeis que estão relacionados às fraturas de um corpo devido a tensões térmicas induzidas por variações de temperatura que ocorrem com rapidez. Constituição e estrutura dos materiais U1 44 1. (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 628) Para o arseneto de gálio intrínseco, a condutividade elétrica à temperatura ambiente é de σ = ⋅− −10 6 1( )Ω m ; as mobilidades dos elétrons e dos buracos são, respectivamente, de 0,85 m²/Vs e 0,04 m²/Vs. Calcule a concentraçãode portadores intrínsecos ni à temperatura ambiente. a) 3,0 x 1012 m-3. b) 4,0 x 1012 m-3. c) 5,0 x 1012 m-3. d) 6,0 x 1012 m-3. e) 7,0 x 1012 m-3. 2. (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 676) Uma barra de latão deve ser usada em uma aplicação que requer que suas extremidades sejam mantidas rígidas. Se à temperatura ambiente (20°C) a barra está livre de tensões, qual é a temperatura máxima até a qual ela pode ser aquecida sem que uma tensão de compressão de 172 Mpa seja excedida? Assuma um módulo de elasticidade de 100 x 10³ MPa para o latão. (Considere o coeficiente linear de expansão térmica do latão igual a 20 x 10-6 (°C)-1). a) 98°C. b) 100°C. c) 106°C. d) 118°C. e) 121°C. Nesta unidade, você aprendeu: • As diferentes classificações das propriedades dos materiais. Constituição e estrutura dos materiais U1 45 • As diferentes classificações dos principais materiais sólidos, diferenciando-os pelas características químicas. • Os conceitos relacionados à estrutura cristalina de materiais, tais como, desenho das células, célula unitária, raio atômico etc. • As quatro estruturas possíveis das bandas eletrônicas para os materiais sólidos. • Como ocorre e em que influenciam os eventos de excitação eletrônica que produzem elétrons livres e buracos nos condutores, semicondutores e isolantes. • A calcular a condutividade elétrica de condutores, semicondutores e isolantes. • A distinguir materiais semicondutores intrínsecos e extrínsecos. • A calcular capacitância e a definir a constante dielétrica. • A definir capacidade calorífica e calor específico. • Quais são os mecanismos principais pelo qual se dá o processo de energia térmica. • A definir e calcular o conceito de dilatação térmica. • A definir condutividade térmica. • Quais os mecanismos principais de condução de calor nos sólidos. Espera-se que ao final desse estudo você compreenda que a estrutura e as propriedades químicas dos materiais estão diretamente relacionadas as suas principais características e propriedades, dentre as quais destacamos as elétricas e térmicas, envolvendo fatores, tais como, condutividade e resistividade elétrica e condutividade térmica. Vale destacar que para que a aprendizagem nessa disciplina de fato ocorra, é muito importante que você faça uma leitura atenta do material, resolva novamente os exemplos apresentados, acesse os links indicados, resolva as atividades de aprendizagem e também, se possível, faça pesquisa em bibliotecas e estude os materiais que compõem a bibliografia dessa unidade. Constituição e estrutura dos materiais U1 46 Além disso tudo, é muito importante que você realize um estudo regular dessa disciplina e acesse o fórum, pois será por meio dele que você poderá sanar suas dúvidas. Bons estudos! 1. (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 72) O raio do atômico do alumínio é de 0,143 nm. A partir dessa informação, é correto afirmar que o volume da célula unitária do alumínio, em metros cúbicos, é igual a: a) 6,00 x 10-25 m³. b) 6,00 x 10-28 m³. c) 6,62 x 10-25 m³. d) 6,62 x 10-29 m³. e) 6,71 x 10-29 m³. 2. (VAN VLACK, 1970, p. 76) Alguns dos metais que possuem estrutura cristalina cúbica de faces centradas (CFC) são o cobre, alumínio, prata e ouro. Quando conhecemos o raio atômico de um elemento dessa estrutura, é possível determinar o comprimento do lado dessa célula unitária, bem como o seu volume. Sabendo que a prata é CFC e seu raio atômico é 0,1444 nm, qual o comprimento do lado de sua célula unitária? a) 0,4084 nm. b) 0,4506 nm. c) 0,4690 nm. d) 0,4708 nm. e) 0,4089 nm . Constituição e estrutura dos materiais U1 47 3. Os materiais foram agrupados, de acordo com suas características, em três categorias: metais, cerâmicas e polímeros. Porém, além dessas categorias, podemos citar a dos compósitos e dos semicondutores. Considerando as características principais dessas cinco categorias, faça a relação correta: 1 – Metais. 2 – Cerâmicas. 3 – Polímeros. 4 – Compósitos. 5 – Semicondutores. (__) Facilmente moldados, baixa densidade, isolantes. (__) Resistentes, dúcteis, bons condutores térmicos/ elétricos. (__) Combinação de materiais de diferentes categorias, alta resistência específica. (__) Condutividade depende da dopagem, podem emitir luz, não têm aplicação estrutural. (__) Relativamente rígidos e resistentes, susceptíveis a fraturas, isolantes. Assinale a alternativa que apresenta a correspondência correta: a) 1, 3, 4, 2, 5. b) 3, 5, 1, 2, 4. c) 3, 1, 4, 5, 2. d) 2, 4, 3, 5, 1. e) 2, 3, 5, 1, 4. 4. Sabe-se que qualquer quantidade de chumbo sólido, o qual exibe uma estrutura CFC, é constituída por pequenas células unitárias com arestas medindo 0,495 x 10-9 m, calcule o número de células unitárias existentes em 1 cm³ (1 x 10-6 m³) de chumbo. Constituição e estrutura dos materiais U1 48 a) 8,2 x 1012 células. b) 8,2 x 1015 células. c) 8,2 x 1018 células. d) 8,2 x 1021 células. e) 8,2 x 1026 células. 5. (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 635) Considerando a condutividade elétrica à temperatura ambiente para o silício extrínseco, considere a situação em que átomos de arsênio, na proporção de 1023 m-3 são adicionados ao silício de alta pureza. Sabendo-se que o material é do tipo n, calcule a condutividade elétrica desse material à temperatura ambiente, em que µe =0,07 m²/Vs. a) 1120 ( )Ω⋅ −m 1. b) 1210 ( )Ω⋅ −m 1. c) 1280 ( )Ω⋅ −m 1. d) 1320 ( )Ω⋅ −m 1. e) 1380 ( )Ω⋅ −m 1. U1 49Constituição e estrutura dos materiais Referências CALLISTER, William D.; RETHWISH, David G. Ciência e engenharia de materiais: uma introdução. Tradução de: Sergio Murilo Stamile Soares. Rio de Janeiro: LTC, 2015. ROLIM, Jacqueline Gisèle. Materiais elétricos. Santa Catarina: Universidade Federal de Santa Catarina, 2002. 108 f. Disponível em: <http://professorpetry.com.br/Ensino/ Repositorio/Docencia_UFSC/Materiais_EEL_7051/Apostila_Materiais.pdf>. Acesso em: 12 ago. 2016. SCHMIDT, Valfredo. Materiais elétricos. São Paulo: Edgard Blücher, 1979. VAN VLACK, Lawrence Hall. Princípios de ciência dos materiais. Tradução: Luiz Paulo Camargo Ferrão. São Paulo: Edgard Blücher, 1970. Unidade 2 Materiais condutores, semicondutores e isolantes Objetivos de aprendizagem: Com essa unidade, objetiva-se aprofundar o estudo sobre propriedades elétricas de materiais sólidos, destacando as principais propriedades e características de materiais condutores, isolantes e semicondutores, destacando, nesse estudo, algumas das características a serem observadas nas composições de ligas metálicas e a relevância de materiais semicondutores em diversas situações. Keila Tatiana Boni Na primeira seção dessa unidade, objetivamos proporcionar maior aprofundamento sobre propriedades e características específicas de materiais, sobretudo dos condutores: os metais e as ligas metálicas. Na segunda seção dessa unidade, destacamos a importância dos materiais semicondutores, bem como apresentamos suas principais propriedades e características. Seção 1 | Propriedades dos materiais condutores e isolantes Seção 2 | Propriedades dos materiais semicondutores Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 52 Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 53 Introdução à unidade Na primeira unidade desse material, você já teve uma prévia sobre o estudo de diferentes tipos de materiais, em que destacamos a forma estrutural atômica (ou molecular) e como essa forma estrutural influencia na condutividade e resistividade elétrica e térmica de cada material. Diferenças como essas nos permitem classificar os materiais de três maneiras: condutores, isolantes e semicondutores. Nessa segunda unidade, você conhecerá em maior profundidade algumas das ideias principais relacionadas a essas características de resistividade e condutividade, sobretudo, elétrica. Tais conhecimentos auxiliarão você, futuro engenheiro, a refletir sobre matérias-primasdiversas, decidindo sobre que material é mais adequado para determinada situação e que tipo de substituições realizar entre materiais de modo mais adequado. Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 54 Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 55 Seção 1 Propriedades dos materiais condutores e isolantes Introdução à seção 1.1 Propriedades dos metais Tal como você já estudou na primeira unidade desse material, os materiais sólidos são agrupados, em geral, em três categorias: metais, cerâmicas e polímeros. Essa classificação é realizada com base na estrutura atômica e nas propriedades químicas de cada material, o que lhe conferem suas propriedades específicas. Essas propriedades podem ser de ordem mecânica, elétrica, térmica, magnética, óptica e de deterioração. Em nosso estudo, nosso enfoque principal tem sido nas propriedades elétricas e, em alguns casos, nas propriedades térmicas, porém, considerando estas relacionadas às elétricas. De maneira mais específica, podemos considerar que, de acordo com suas características estruturais e químicas, um material sólido pode ser, quanto a suas propriedades elétricas, classificado como condutor, isolante ou semicondutor. Nessa seção, destacaremos as propriedades fundamentais dos materiais condutores que, em geral, são os metais, e dos materiais isolantes, tais como borracha, vidro, silicone, papel madeira e cerâmica. Tal apresentação já teve início na primeira unidade desse material, porém, nesse momento, você aprofundará seus conhecimentos sobre as propriedades desses tipos de materiais, conhecendo novos conceitos essenciais relacionados às propriedades dos materiais condutores e isolantes. Nesse estudo sobre propriedades dos materiais condutores e isolantes, iniciaremos pelos condutores que, em geral, são os metais. Na primeira unidade, você já conheceu, de maneira geral, algumas características principais dos metais que nos levam a considerá-los como condutores. Contudo, para darmos sequência ao estudo, em diversos momentos, será necessário fazer uma breve retomada dessas características principais. Primeiramente, vimos que os materiais que são utilizados em eletricidade podem ser classificados como elétricos ou magnéticos e que, na prática, tais classificações Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 56 não são tão precisas quanto na teoria. Isso significa dizer que nem condutores e nem isolantes são totalmente satisfatórios. Assim, precisamos interpretar que essa classificação que realizamos, sobretudo, a classificação sobre condutores e isolantes, é possibilitada a partir da comparação que realizamos entre materiais, de acordo com seus comportamentos relativos e características predominantes em situações específicas. Para simplificar esse processo, convencionou-se a consideração da resistividade transversal do material para realizar sua classificação do ponto de vista elétrico. Assim, de acordo com o valor de resistividade transversal, apresentado por Schmidt (1979, p. 20), podemos classificar os materiais como: “A) Condutores: quando temos resistividade transversal da ordem de 10-6 a 10Ω mm²/m. B) Semicondutores: quando temos resistividade transversal da ordem de 10 a 1012 mm²/m. C) Isolantes: quando temos resistividade transversal da ordem de 1012 a 1024mm²/m”. Os valores apresentados de resistividade transversal para os materiais condutores, semicondutores e isolantes correspondem ao comportamento do material quanto a sua condutividade diante de corrente elétrica. Esses valores têm alguma relação com a diferença estrutural entre os materiais? Em caso afirmativo, qual é a relação? Como você já sabe, os metais são bons condutores elétricos, mas não são apenas materiais sólidos que apresentam boa condutividade elétrica, é possível notar esse fenômeno em líquidos e, dependendo de alguns casos, também em gasosos. Um bom exemplo que condutor líquido é o mercúrio, que também é um metal, mas que em condições normais, ou seja, em temperatura ambiente, encontra-se no estado líquido. No estado gasoso, podemos considerar como exemplo a abertura instantânea de circuitos elétricos (SCHMIDT, 1979). Afinal, que característica apresenta um material para que possamos considerá-lo como condutor? Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 57 Vamos pensar em sua estrutura e em algumas ideias físicas: a corrente elétrica tem origem com o deslocamento de cargas (elétrons ou íons). Essas cargas são de polaridade própria e seus movimentos são excitados por fatores externos, dentre os quais podemos citar a energia elétrica, que provoca uma diferença de potencial, a térmica e a magnética, dentre outras. Essas energias externas provocam, nas partículas carregadas, um aumento em seus níveis de energia, fazendo com estas se afastem cada vez mais do núcleo. Assim, podemos entender corrente elétrica como sendo um fluxo ordenado de partículas carregadas (elétrons ou íons). Em outras palavras, a corrente elétrica corresponde ao deslocamento de cargas que ocorrem dentro de um condutor, o que acontece quando submetido a uma diferença de potencial elétrico ou à aplicação de outro tipo de energia. Saiba mais sobre corrente elétrica acessando os links indicados a seguir: <https://www.mundodaeletrica.com.br/o-que-e-corrente-eletrica/>; <http://www.efeitojoule.com/2008/04/corrente-eletrica.html>. Acesso em: 24 ago. 2016. E como ocorre esse movimento das partículas em um material condutor? As partículas livres carregadas encontram-se naturalmente em movimento aleatório e desordenado. Quando submetemos o material à aplicação de uma energia externa (térmica, elétrica, magnética etc.), estabelecemos um campo elétrico na região das partículas carregadas. Assim, verifica-se que esse campo elétrico provocará um movimento ordenado das partículas. É essa situação que temos ilustrada na figura a seguir: Fonte: <http://www.ebah.com.br/content/ABAAABKuUAB/apostila-eletricidade-predial?part=5>. Acesso em: 24 ago. 2016. Figura 2.1 | A movimentação de partículas e a corrente elétrica Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 58 Na Figura 2.1 observamos, na primeira imagem, os elétrons livres se movimentando no interior de um material sólido. Na segunda imagem, na mesma, verificamos que quando diante da aplicação de uma energia externa, há a formação de um campo elétrico na região dos elétrons livres, obrigando-os a realizarem um movimento ordenado no interior do material sólido. É esse movimento ordenado que forma a corrente elétrica. Ainda na Figura 2.1, note que na primeira imagem menciona-se “sem ddp” e, na segunda, “com ddp”. Essa sigla corresponde à diferença de potencial elétrico, que é provocada a partir da aplicação de energia externa ao material sólido. Nessa situação, quando ocorre o movimento das partículas carregadas, estas se distanciam do núcleo do átomo e é a força de atração entre o núcleo atômico e as partículas que estão diretamente relacionada à intensidade de corrente elétrica. Nesse caso, quanto menor a atração entre o núcleo do átomo e as partículas carregadas, maior a capacidade do material sólido em permitir o fluxo de corrente elétrica. A partir dessa constatação, acreditamos que você já entendeu porque os metais são considerados bons condutores, afinal, de acordo com a estrutura desses tipos de materiais, conforme você já estudou na primeira unidade desse material, os elétrons da última camada da eletrosfera, ou seja, os elétrons de valência, encontram-se fragilmente ligados ao núcleo do átomo e, assim, diante de um campo elétrico, são capazes de se movimentarem com facilidade e, portanto, capazes de permitir um fluxo maior de corrente elétrica. Em outras palavras, podemos entender que os metais são bons condutores porque possuem muitos elétrons livres. Além disso, devido a essa mesma característicaé que podemos afirmar que os bons condutores são, ao mesmo tempo, materiais com baixa resistência elétrica. Sobre a estrutura dos metais sólidos, já sabemos que são considerados como cristalinos, sendo estruturados por átomos dispostos regularmente. Essa disposição pode ser no formato de um cubo de elemento central, do um cubo de face central ou de um hexágono fechado. Fonte: <http://pt.slideshare.net/thiagotoscanoferrari/5-estrutura-cristalina>. Acesso em: 24 ago. 2016. Figura 2.2 | Principais estruturas dos sólidos cristalinos Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 59 Que outras características os metais sólidos apresentam que nos permitem classificá-los em alcalinos, nobres, bivalentes e de transição? Em suma, recordando um pouco o que você já estudou na primeira unidade, não apenas os materiais metálicos, de estrutura sólida cristalina, apresentam propriedades que dependem da sua disposição atômica, mas outros tipos de materiais sólidos também apresentam essa dependência. E essa estrutura é responsável por nos permitir considerar os metais como bons condutores. Assim, tal como você já se iniciou nessa abordagem, os materiais condutores têm como características principais as suas propriedades elétricas e térmicas. Sobre esses conceitos, já apresentamos a ideia de corrente, de condutividade e de resistividade elétrica e condutividade térmica. Agora, vamos explorar um pouco mais sobre as ligas metálicas. Quando se realiza a liga de dois metais há um aumento de resistividade. Isso significa dizer que quando associamos dois ou mais elementos metálicos, o que compõe o que denominamos de liga metálica, consideramos que cada um desses elementos apresenta valores específicos de resistividade e, geralmente, após a formação da liga, percebemos que ela apresenta um valor de resistividade superior ao de seus componentes. Esse fenômeno também está relacionado à estrutura atômica da liga, pois na formação da liga metálica, provocamos alterações na estrutura cristalina de seus componentes, e, consequentemente, irregularidades nessa estrutura que dificultam a passagem dos elétrons. Além disso, outro fator que influencia na resistividade é a temperatura, variações de temperatura provocadas em ligas metálicas também provocam o aumento de resistividade. Na figura a seguir, você pode observar a variação da resistividade de algumas ligas metálicas devido à temperatura. Fonte: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-92242011000100003>. Acesso em: 25 ago. 2016. Figura 2.3 | Variação da resistividade elétrica com a temperatura para algumas ligas metálicas distintas Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 60 Na Figura 2.3 são apresentadas algumas ligas metálicas, apresentando diferentes variações de resistividade. Essas variações apresentadas estão ocorrendo devido à temperatura. É, sobretudo, no ponto de fusão que evidenciamos as variações mais bruscas na resistividade na maioria das ligas metálicas. É o que observamos, por exemplo, na Figura 2.3, o comportamento da resistividade para o aço carbono 1020 a 1600°C. Outro fator que influencia na resistividade de ligas metálicas é a ação de forças mecânicas que provocam deformações cristalinas nos materiais. Sobre a condutividade térmica também temos algumas características nas ligas metálicas que podem ser observadas. Sabemos que é por meio do condutor que ocorre a circulação e, por isso, é pelo condutor que percebemos as perdas de energia. Tais perdas são inevitáveis e, geralmente, ocorrem na forma de calor que é liberado para o meio externo, sendo essa liberação necessária para evitar alterações consideráveis no material. Na unidade anterior, você já estudou a condutividade térmica, agora, vamos entender um pouco sobre resistividade térmica dos metais e ligas metálicas. Para evitar que equipamentos compostos por metais sofram danos quando submetidos a temperaturas elevadas, faz-se necessário conhecer as características de resistividade térmica de cada metal, para melhor selecionar que material utilizar na construção desse equipamento. Matematicamente, a resistência térmica é dada pela equação (Segunda Lei de Ohm): R h AT T = ⋅ρ Em que: • R T é a resistência térmica total; • ρ T é a resistência térmica específica, dada, em geral, por 1/Ω cm; • A é a área da seção transversal do condutor; • h é a unidade linear. Para materiais puros, temos para a resistência térmica específica ρ T valores baixos, enquanto que para as ligas metálicas esse valor é relativamente mais alto. Os valores para a resistência térmica específica ρ T de metais puros podem ser observados no quadro a seguir: Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 61 Fonte: Schmidt (1979, p. 31). Quadro 2.1 | Resistência térmica específica de materiais condutores Material Resistividade térmica ρ T (1/Ω cm) Cobre Alumínio Zinco Estanho Chumbo 0,24 0,40 0,90 1,55 3,00 Veja um exemplo: Exemplo 1: (LIMA, 2013) Sabendo que a resistência de um chuveiro elétrico é feita de um fio enrolado de níquel, calcule o comprimento do fio do resistor desse chuveiro, cuja resistência vale 7,8Ω. Dados: Área da seção transversal do fio = 1 . 10-6m2 Resistividade do níquel = 7,8 . 10-8Ω.m Resolução: Aplicando a fórmula da segunda Lei de Ohm, temos: R h AT T = ⋅ρ 7 8 7 8 10 1 10 8 6 , ,= ⋅ ⋅ ⋅ − − h 7 8 0 078, ,= ⋅h 7 8 0 078 , , = h h m=100 Logo, o fio do resistor desse chuveiro mede 100 metros. Aprenda mais sobre a segunda Lei de Ohm acessando: <https://www.youtube.com/watch?v=eAkXQxqfISg>; <https://www.youtube.com/watch?v=1Xm2KcxmScg>; <https://www.youtube.com/watch?v=kh5QtTuwz24>. Acesso em: 25 ago. 2016. Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 62 Ainda sobre ligas metálicas, quando há o contato entre dois metais distintos, cria- se uma diferença de potencial (ddp) entre as superfícies de ambos. Isso acontece devido às diferenças entre as nuvens de elétrons de cada um desses materiais, o que ocasiona diferenças na pressão interna. Vamos considerar a diferença de tensão entre dois metais designados genericamente por A e B. O valor dessa tensão varia em uma ordem de milivolts (mV) até alguns volts, dependendo dos metais que estarão em contato. Vale destacar que ao considerarmos um circuito fechado, envolvendo dois metais, a soma do potencial de contato resultará em zero, isso se considerarmos ambos os metais com a mesma temperatura. Agora, quando as temperaturas são diferentes (T 1 e T 2 ), teremos: U U UAB BA= + U U U K T e U U KT eB A K l A B A B B A = − + + + +1 0 0 2 0 0 ln ln η η η η ou U K e T T A B = −( ) ln1 2 0 0 η η U A T T= −( )1 2 Em que: • K = constante de Boltzmann ( − −m k1 38064852 10 23 2 2 1 × −g s K ); • T = temperatura em graus absolutos (Kelvin); • e = carga de um elétron; • η0 =número de elétrons livres por unidade de volume do material; • A = área da seção transversal do condutor. O quadro a seguir apresenta alguns valores de potencial elétrico de alguns metais a 20°C: Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 63 Fonte: <http://www.getulio.eng.br/meusalunos/materiais/coeficiente_de_temperatura.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2016. Quadro 2.2 | Valores de potencial elétrico de alguns metais a 20°C Condutor símbolo Potencial elétrico Alumínio ( Al ) -1,33V Zinco ( Zn ) -0,76V Cromo ( Cr ) -0,51V Ferro ( Fe ) -0,44 Níquel ( Ni ) -0,23 Estanho ( Sn ) -0,16 Hidrogênio ( H ) 0,00V Cobre ( Cu ) 0,34V Prata ( Ag ) 0,79V Ouro ( Au ) 1,36V Platina ( Pt ) 1,6V Note que a expressão dada é muito próxima daquela estudada na primeira unidade, segunda seção, para determinação de tensão térmica criada por aquecimento, em que você pode conhecer um exemplo e realizar algumas atividades. Para alguns materiais, faz-senecessário determinar a concentração, o tipo e a mobilidade do portador de cargas principal, o que não é possível de ser obtido a partir da medição da condutividade elétrica. Nessa situação, é preciso realizar um experimento que permita analisar o chamado efeito Hall. Tal fenômeno consiste em, a partir de um condutor, por meio do qual circula uma corrente, aplicar do seu lado de maior comprimento um campo magnético uniforme. Assim, provoca-se o deslocamento de elétrons em direção perpendicular ao campo magnético. Dessa forma, provocamos a ação de uma força entre o campo magnético e os elétrons e essa força resultante fará com que os elétrons sejam comprimidos sobre a face maior do condutor. Tal compressão engendra uma diferença de potencial (ddp) e um campo elétrico. Quais as diferenças e similaridades entre o que você acabou de conhecer sobre tensão de contato entre dois metais e o que você estudou no final de primeira unidade, sobre tensão térmica criada por aquecimento? Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 64 Acessando o link indicado, você verá um vídeo que ilustra e explica o fenômeno designado como efeito Hall. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=bHo6_jltfc8>. Acesso em: 25 ago. 2016. Observe a figura a seguir: Na Figura 2.4, você pode observar que os portadores de carga principais são os elétrons e que estes se acumulam do lado esquerdo da barra (IBACH; LÜTH, 2009). Ainda, nessa mesma figura, note que temos um esquema de uma barra metálica que, em resposta a um campo elétrico, os elétrons se deslocam na direção x, o que provoca o surgimento da corrente I x . Na direção z, visualizamos a aplicação de um campo magnético, cuja força resultante dessa aplicação e que age sobre os elétrons majoritários, faz com que estes se desloquem na direção y, no sentido da esquerda. O acúmulo de cargas em um dos lados do condutor faz surgir uma diferença de potencial transversal designada de voltagem de Hall (V H ). De acordo com Callister e Rethwisch (2015, p. 637), essa voltagem “será estabelecida na direção y. A magnitude de V H dependerá de I x , B z e da espessura da amostra d”. Logo, temos: V R I B dH H x z= Em que: • R H é o coeficiente de Hall, que é uma constante com valor específico para cada material; Fonte: <http://mtc-m21b.sid.inpe.br/col/sid.inpe.br/mtc-m21b/2015/02.12.13.42/doc/publicacao.pdf>. Acesso em: 26 ago. 2016. Figura 2.4 | Demonstração esquemática do efeito Hall Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 65 • I x é a corrente originada; • B z é o campo magnético aplicado na direção z; • d é a espessura da amostra. Para determinar o R H para os metais, utilizamos: R n eH = 1 Em que, n é o número de elétrons livres ou de condução por unidade de volume e e é a magnitude da carga do elétron, o qual é considerado em módulo porque, para os metais, como a condução ocorre a partir de elétrons, o valor de R H é negativo. Quanto à mobilidade do elétron (µe), podemos determiná-la de duas maneiras, sendo que para ambos os casos se faz necessário determinar a condutividade (σ ) do material: µ σ e n e = ou µ σe HR= O exemplo a seguir ajudará você a compreender melhor essas expressões, bem como suas interpretações. Exemplo 2: (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 638) A condutividade elétrica e a mobilidade dos elétrons para o alumínio são de 3 8 107 1, ( )⋅ ⋅ −Ω m e 0,0012 m²/V.s, respectivamente. Calcule a voltagem de Hall para uma amostra de alumínio com 15 mm de espessura para uma corrente de 25A e um campo magnético de 0,6 tesla (imposto em uma direção perpendicular à corrente). Resolução: Para que possamos determinar a voltagem de Hall (V H ) precisamos, primeiro, determinar o coeficiente de Hall (R H ): µ σe HR= 0 0012 3 8 107, ( , )= ⋅ − ⋅RH RH = − ⋅ 0 0012 3 8 107 , , Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 66 R V m A teslaH = − ⋅ ⋅ ⋅ −3 16 10 11, / Agora que já determinamos o valor do coeficiente de Hall para a situação dada, vamos determinar o que a questão pede, ou seja, a voltagem de Hall: V R I B dH H x z= VH = − ⋅ ⋅ ⋅ ⋅ − − 3 16 10 25 0 6 15 10 11 3 , , VH = − ⋅ ⋅ − − 4 74 10 15 10 10 3 , V VH = − ⋅ −3 16 10 8, 1.2 Materiais de condutividade elétrica elevada Até agora, você estudou os metais que são ótimos condutores de corrente elétrica, isso porque na estrutura deles verificamos que os elétrons estão fracamente atraídos pelo núcleo. Você sabia que eles ainda podem ser classificados como materiais de condutividade elevada ou como materiais de resistividade elevada? Na primeira classificação contemplamos os materiais que apresentam a menor perda possível enquanto a corrente elétrica circula pelo condutor. Essa é uma característica dos elementos de ligação. Já na segunda classificação, consideramos os elementos utilizados para transformar energia elétrica em térmica e, por isso, durante a circulação da corrente no condutor esses elementos apresentam muita perda. Quanto aos materiais de elevada condutividade elétrica, podemos citar como exemplo os metais nobres, como o cobre, a prata, o ouro e a platina e suas ligas, inclusive, com outros metais não nobres. Vale destacar que nem sempre o material de maior condutividade elétrica deve ser o escolhido para uma dada situação. Isso porque cada material apresenta diversas propriedades além de elétrica e térmica, tais como, luminosa, mecânica, magnética etc., e, diante de certa situação, deve-se ter bem claro que, todas as propriedades sofrem efeitos. Assim, para cada situação o material deve ser escolhido segundo cada um dos efeitos sofridos por cada propriedade, tendo em vista escolher aquele que acarretará menores consequências indesejáveis. Na eletrotécnica e na eletrônica, em geral, os mais utilizados são os materiais classificados como ligas metálicas, além do cobre, do alumínio da prata, do chumbo, da platina e do mercúrio, que são metais de elevada condutividade elétrica. Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 67 Além desses, outro material muito utilizado em ligas é o ferro. Tendo em vista a frequência com que tais materiais são utilizados, vamos conhecer uma pouco mais sobre suas características principais, tendo como base o que apresenta Schmidt (1979): - O cobre (Cu) e suas ligas: entre os materiais condutores, certamente o cobre ocupa uma posição de destaque. Isso porque esse material apresenta pequena resistividade, perdendo apenas para a prata, entretanto, ganhando desta no quesito custo. Além disso, o cobre apresenta propriedades mecânicas favoráveis e baixa oxidação, quando diante de umidade em temperatura ambiente. O cobre é, ainda, bastante maleável, permitindo deformação tanto à temperatura reduzida quanto elevada. Assim, é possível, até mesmo, reduzir a seção transversal do cobre para dimensões muito pequenas. O cobre apresenta, em condições normais, 99,9% de grau de pureza e é muito fácil de ser influenciado, em termos de condutividade elétrica, quando diante de impurezas. Quanto maior a distribuição de impurezas na massa do cobre, maior essa influência e, por esse motivo, há uma redução acentuada do deslocamento dos elétrons do cobre. Analise a tabela periódica a seguir. Fonte: <http://umaquimicairresistivel.blogspot.com.br/2011/01/atomos-e-moleculas.html>. Acesso em: 25 ago. 2016. Figura 2.5 | Tabela periódica Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 68 Na tabela periódica, o cobre é o elemento 29, e próximo a ele podemos encontrar os demais elementos metálicos de alta condutividade que foram elencados anteriormente. Sobre esses elementos, temos como regra geral que aqueles que estão mais afastados do cobre na tabela periódica provocam menores influências na condutividade elétrica dele. É o caso, por exemplo, do ouro (Au). Na presença de água, carbonatose sulfatos, o cobre apresenta boa resistência, porém, na presença do oxigênio do ar somado a ácidos, sais e amoníaco, pode sofrer corrosão. Para evitar esse fenômeno, uma boa pedida é o carbonato de cobre, chamado de patina, o qual é amplamente utilizado como uma proteção para o cobre para que possa ser submetido a condições normais do ambiente. Em contato com ar, o óxido do cobre quando formado, o que pode ser resultado do estado de fusão, por exemplo, pode se fundir à massa do cobre metálico. Com isso, o cobre passa a apresentar diferença considerável em suas propriedades elétricas e mecânicas devido à característica de resistividade elétrica elevada apresentada pelo óxido de cobre. Assim, para contornar essa situação, faz- se necessário o acréscimo de outros materiais na composição: metais oxidantes, tais como o silício ou o alumínio. Porém, é essencial destacar que, diante do acréscimo de outros materiais, seja de óxidos ou de outros metais, mesmo que em pequenas proporções, já ocorrem mudanças consideráveis no cobre, que passa a apresentar menor condutibilidade e maior rigidez. Além disso, existem outras maneiras de se obter o cobre e transformá-lo, como por recozimento. Em qualquer caso, as propriedades elétricas, bem como outras propriedades do cobre, são alteradas. No caso do recozimento do cobre, apesar de alterar as propriedades mecânicas do material, provoca-se um aumento de sua condutibilidade elétrica e é esse fenômeno que justifica sua grande aplicação. Em que consiste o processo de recozimento? De que outra forma é possível realizar transformações em materiais metálicos? Quanto à aplicação do cobre, ele é utilizado encruado ou duro em redes aéreas de cabo em tração elétrica, como para fios telefônicos. Isso porque, nessas situações, faz-se necessário um material de elevada rigidez e resistência. O cobre mole ou recozido é amplamente utilizado em enrolamentos, cabos isolados e barramentos. Agora, o cobre em seu estado puro tem pouca aplicação direta, porém é muito Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 69 utilizado na composição de ligas metálicas, sendo que os elementos escolhidos para essa composição têm função complementar, ou seja, objetivam complementar as propriedades inferiores do outro. Na tabela a seguir, você pode visualizar e comparar as principais ligas de cobre e suas características: Fonte: Schmidt (1979, p. 40). Tabela 2.1 | Características das ligas de cobre - O alumínio (Al): depois do cobre, o alumínio é o metal mais utilizado em situações que envolvem eletricidade. O alumínio, além de apresentar menor custo que o cobre, apresenta características consideravelmente favoráveis para diversas aplicações: o peso do alumínio é menor que o do cobre, mesmo quando ele precisa ser redimensionado para apresentar condutibilidade elétrica equivalente ao do cobre, o que acarreta em redução do custo em sustentação; e, no Brasil, encontra-se alumínio com maior facilidade que o cobre na natureza. Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 70 Porém, tanto quanto nas propriedades mecânicas quanto elétricas, o alumínio é inferior ao cobre, porém, em determinadas circunstâncias, são diferenças pequenas para nos fazer optar pelo cobre, sendo possível ainda, realizar correções para aproximar essas diferenças. As aplicações do alumínio na área elétrica são diversas, sobretudo, na aeronáutica, na instalação elétrica de aviões e em suas próprias estruturas. Dentre tantas características, certamente, uma das que se destacam nos alumínios diz respeito ao peso. Isso reflete, inclusive, nas ligas metálicas que incluem o alumínio, pois essas ligas apresentam pequeno peso e, por esse motivo, é grande a utilização de ligas de alumínio em equipamentos eletrônicos portáteis, em partes de equipamentos elétricos que precisam realizar movimento ou que precisam ser transportados etc. - O chumbo (Pb): na aplicação elétrica é muito utilizado como finas chapas ou folhas, por exemplo, na construção de paredes protetoras contra a ação de raios X. - O estanho (Sn): apresenta uma resistividade elevada e é amplamente aplicado como material de solda ou reduzido a finas folhas. - A prata (Ag): dentre os metais nobres, é o mais utilizado nas indústrias, seja na forma pura ou de liga, sobretudo em partes condutoras, ou seja, em locais cuja oxidação poderia causar sérios danos. Por esse motivo, também utiliza-se a prata em espessuras muito finas para proteger outros metais da corrosão. - O ouro (Au): esse metal apresenta excelentes características elétricas e mecânicas, porém o que limita sua utilização é certamente o seu custo elevado. Sua utilização é geralmente observada nas peças de contato na área de correntes muito baixas, situações estas em que a oxidação, por menor que seja, pode acarretar na interrupção elétrica do circuito. Sua utilização é feita essencialmente na forma pura, uma vez que as ligas apenas minimizariam suas propriedades que já são ótimas. - A platina (Pt): é utilizada em peças de contato, anodos e fios de aquecimento, pois apresenta propriedades antioxidantes. Ainda, devido a suas características mecânicas de suportar até altas temperaturas sem sofrer alterações em sua estrutura, é aplicada na fabricação de termômetros resistivos. - O mercúrio (Hg): uma das principais características do mercúrio é que ele é o único metal que pode ser encontrado, à temperatura ambiente, no estado líquido. Também é utilizado em termômetros resistivos, porém a temperaturas inferiores àquelas que são submetidos os termômetros de platina. - O zinco (Zn): é o metal que apresenta o maior coeficiente de dilatação. É utilizado em revestimentos e na forma de ligas metálicas, sobretudo com alumínio e cobre, tendo em vista aumentar suas resistências à tração e outras propriedades de Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 71 ordem mecânica. Além dos metais elencados, outros apresentam propriedades importantes e grande aplicabilidade, tais como o cádmio (Cd), o níquel (Ni), o cromo (Cr) e o tungstênio (W). Conheça e compare as características principais de todos esses metais que foram mencionados, no quadro a seguir: Fonte: Schmidt (1979, p. 89). Quadro 2.3 | Características de metais condutores Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 72 Saiba mais sobre as características e aplicações dos metais que foram elencados, inclusive de algumas ligas metálicas, acessando o link: <http:// www.labspot.ufsc.br/~jackie/cap3_new.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2016. Para finalizar nossas discussões acerca de metais e ligas metálicas, vamos conhecer os tipos de liga quanto as suas funções e abordar sobre as ligas metálicas resistivas. As ligas metálicas resistivas são aquelas que apresentam resistividade elétrica ( ρ ) variando entre 0,2 e 1,5 Ωmm²/m. As ligas metálicas, em muitas situações, são preferíveis ao invés da utilização de metais puros devido a algumas características, tais como: • Serem de elevada dureza e, portanto, de elevada resistividade (os metais puros dificilmente apresentam resistividade superior a 0,2 Ωmm²/m). • Apresentarem resistividade constante dentro de um certo intervalo de variação de temperatura. • Apresentarem valores baixos de envelhecimento e oxidação. Apesar dessas características, como ocorrem mudanças estruturais na estrutura cristalina de cada elemento envolvido na composição da liga metálica, ocorrem mudanças nas propriedades, sobretudo, mecânicas da liga metálica. Assim, ao tentar obter melhores características elétricas, por outro lado pode-se obter características mecânicas não satisfatórias. Isso ocorre porque as ligas não apresentam uma estrutura cristalina homogênea, tal como os metais puros. Assim, tendo em vista essas mudanças nas características mecânicas, no processo de constituição de ligas, faz-se necessáriorealizar algumas ponderações para que se consiga uma otimização elétrica. É sobre essa abordagem que distinguiremos três tipos de ligas: para fins térmicos, para fins de medição e para fins de regulação. - Para fins térmicos (ligas de aquecimento): a principalmente característica desse tipo de liga é a elevada estabilidade térmica, além de ótimo desempenho corrosivo ou químico local. Em geral, essas ligas se cobrem por fina película de óxido, o que as protegem do ambiente. Porém, desligamentos e ligamentos na rede elétrica, podem provocar rupturas dessa película devido à provocação de variações de temperatura frequentes, por isso, é preciso considerar nessas ligas as capacidades de dilatação e contração do material, bem como suas capacidades de radiação. Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 73 - Para fins de medição: o principal problema que ligas podem sofrer na deformação ao frio é o envelhecimento. Para evitar que isso ocorra, é preciso provocar a estabilização do material a partir de tratamento térmico apropriado. - Para fins de regulação e carga: para esses tipos de ligas, a faixa de temperatura varia entre 100 e 200°C. Aprenda mais sobre características e aplicações de ligas de resistividades, estudando o material indicado. Disponível em: <http://www.eletrica.ufpr.br/piazza/materiais/ AndreBranco.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2016. 1.3 Propriedades dos materiais isolantes Na primeira unidade desse material, você já estudou que a maioria dos polímeros e das cerâmicas (que fazem ligação iônica) são materiais isolantes em condições normais (ambiente). Isso significa dizer que, quando submetidos à temperatura ambiente, esses tipos de materiais apresentam, em sua estrutura, pouca movimentação dos elétrons por meio dos espaçamentos entre bandas, o que acarreta em baixa condutividade. Assim, podemos concluir que diante de variações elevadas de temperatura há a possibilidade de aumentar o valor de condutividade de alguns desses tipos de materiais que são isolantes à temperatura ambiente. Van Vlack (1970, p. 109) complementa que os materiais isolantes apresentam baixa condutividade porque “os elétrons não estão livres para deixar os átomos dos quais fazem parte” e, ainda, “a probabilidade de um elétron receber a energia necessária para demovê-lo de sua posição estável é extremamente baixa. Uma forma de fornecer maior energia para o elétron é por meio da elevação de temperatura. Contudo, dificilmente essa elevação de temperatura é suficiente para tornar um material isolante em um bom condutor. O aumento de condutividade, nesse caso, é inversamente proporcional à resistividade do material, ou seja, quanto maior a resistividade do material, menor será a elevação de sua condutividade a partir da variação de temperatura. Aprofunde seus conhecimentos sobre propriedades dos materiais isolantes acessando: Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 74 <https://www.youtube.com/watch?v=CUbOFkZV8ZM>; <http://professores.unisanta.br/santana/downloads%5CTelematica%5C Microondas_1%5CEletromagnetismo%5Ccapitulo7.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2016. 1. (FEI-SP, 1996) O filamento de tungstênio de uma lâmpada tem resistência de 20Ω a 20°C. Sabendo-se que sua secção transversal mede 1 1 10 4, ²⋅ − mm e que a resistividade do tungstênio a 20°C é 5 5 10 2 1, ²⋅ ⋅ ⋅− −Ω mm m , determine o comprimento do filamento: a) 4 m. b) 4 mm. c) 0,4 m. d) 40 mm. e) 5.10² m. 2. (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 663) Sabe-se que uma liga metálica possui valores de condutividade elétrica e de mobilidade dos elétrons de 1 5 107 1, ( )⋅ ⋅ −Ω m e 0 0020, ² /m V s⋅ , respectivamente. Uma corrente de 45A é passada através de uma amostra dessa liga com 35 mm de espessura. Qual é o campo magnético que precisa ser imposto para gerar uma voltagem de Hall de − ⋅ −1 0 10 7, V? a) 0,34 tesla. b) 0,42 tesla. c) 0,53 tesla. d) 0,58 tesla. e) 0,61 tesla. Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 75 Seção 2 Propriedades dos materiais semicondutores Introdução à seção 2.1 Principais características dos materiais semicondutores Você já recordou e aprofundou seu estudo sobre materiais condutores e isolantes, aprofundando, sobretudo, seus conhecimentos sobre materiais condutores, conhecendo quais são os materiais de alta condutividade e as finalidades e características das composições denominadas de ligas metálicas. Agora, você aprofundará seus conhecimentos sobre os materiais semicondutores. Para adentrarmos nesse estudo, nos basearemos em princípios físicos e serão apresentados os principais materiais utilizados na composição de materiais semicondutores. Você já estudou, na seção anterior, os materiais condutores e isolantes e é bem provável que você esteja concluindo que os materiais semicondutores são caracterizados como materiais intermediários entre os condutores e os isolantes. Como você verá na sequência de seus estudos, essa é uma visão muito simplista desses materiais que são de grande importância e aplicabilidade em diversos setores. Não significa dizer que considerar os semicondutores como uma mediação entre condutores e isolantes esteja totalmente equivocado, afinal, em termos de valores de condutibilidade elétrica, de fato, os semicondutores apresentam valores limitados inferiormente pelos isolantes e superiormente pelos condutores, porém apenas esses valores não são o suficiente para descrever os materiais e ligas semicondutores. Considerando o que foi afirmado, reflita: é possível haver material ou liga que apresente valor de condutividade elétrica intermediária entre condutores e isolantes e, ainda assim, não apresente comportamento semicondutor? Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 76 Vamos começar abordando os semicondutores, relacionando condutividade elétrica com temperatura. Em geral, em temperatura ambiente, os semicondutores apresentam comportamento diferente dos condutores, no sentido de que o número de portadores de carga, ou seja, de elétrons, não é constante, mas varia conforme ocorrem variações de temperatura, podendo alterar esse número de modo exponencial. Schmidt (1979) afirma que existe uma relação matemática entre grandezas que nos permite obter um índice praticamente seguro para afirmar que um material é semicondutor: n f n kT = ( ) −0 2 exp. ε Nessa relação, temos: • n representa as partículas em movimento; • T é a temperatura; • k é uma constante de proporcionalidade; • ε é a condutividade. Com a expressão matemática, podemos entender que a condutividade é proporcional às partículas em deslocamento ( n ). Nota-se, ainda, uma proporcionalidade entre a temperatura (T) e as partículas, porém, de maneira inversa. Podemos interpretar essa situação da seguinte maneira: antes de participarem da condutividade elétrica, os elétrons são provocados pela ação de uma forma de energia que pode ser térmica, luminosa ou de outra forma. Um dos principais efeitos que observamos nesse fenômeno é a emissão luminosa. Isso ocorre porque os semicondutores são altamente sensíveis à variação de radiação luminosa (fotocondutividade). No caso de materiais sólidos, como nestes os átomos estão bastante próximos entre si, ao ocorrer o contato com a forma de energia que provoca a movimentação dos elétrons, observa-se uma interação entre eles e os materiais semicondutores, que são sensíveis a pequenas perturbações da estrutura atômica. Partindo desse princípio, já podemos concluir que a condutividade térmica do semicondutor pode ser facilmente influenciada pela presença de impurezas ou pela provocação de irregularidades, mesmo que pequenas, na estrutura cristalina. Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 77 Schmidt (1979) destaca que existem ainda dois efeitos que provocam influência nos semicondutores,inclusive, influências bem maiores do que nos materiais condutores, são os efeitos termoelétricos e de Hall. O primeiro efeito é aquele que provoca uma diferença de potencial no ponto de contato entre dois materiais, a partir da variação de temperatura nesse ponto. O segundo, o efeito Hall, corresponde à submissão de um campo magnético perpendicular ao condutor, provocando uma diferença de potencial na face oposta do material condutor, onde circula a corrente. De acordo com o que você já estudou na primeira unidade, sobre a estrutura atômica dos materiais semicondutores, vimos que estes tipos de materiais apresentam em sua estrutura atômica camadas que estão ocupadas totalmente ou em níveis de energia muito elevados. Nesse caso, a condutividade é nula devido à ausência de portadores de carga. Para alterar esse estado é possível: • Perturbar a estrutura com o intuito de aumentar o nível de energia dos elétrons. • Perturbar a estrutura, retirando um elétron e, assim, liberando “espaço”. • Por condutividade intrínseca, em que diante de um acréscimo de energia provoca-se o deslocamento de um elétron, estabelecendo-se naturalmente a condutividade. Diante de tudo isso, Schmidt (1979, p. 94) resume bem uma definição para material semicondutor: É um corpo sólido, cuja resistividade se encontra entre os valores de 10-4 e 1010Ω.cm, que apresenta, pelo menos em certo trecho, um coeficiente de temperatura da resistência com valor negativo cujo valor pode ser reduzido sensivelmente pela presença de impurezas ou de defeitos na estrutura da matéria. Saiba mais sobre as características fundamentais dos materiais semicondutores acessando: <https://www.youtube.com/watch?v=QPewZdVcA48>; <http://aquarius.ime.eb.br/~aecc/FundEngEle/Semicondutores>. Acesso em: 27 ago. 2016. Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 78 Já vimos que uma das maneiras de provocar o aumento de condutividade elétrica em semicondutores é a partir da introdução de impurezas. O processo por meio do qual realizamos a introdução de impurezas em uma rede cristalina, que é a estrutura da maioria dos materiais semicondutores, com intuito de provocar a mudança adequada de duas propriedades físicas, sobretudo, elétricas, é chamada de dopagem. Você já estudou na unidade anterior esse processo de dopagem, quando abordamos sobre semicondução intrínseca e extrínseca, em que você conheceu a do tipo p e do tipo n. Recorde esses conceitos acessando o link indicado. Nele você encontrará uma sequência de vídeos que tratam sobre materiais semicondutores. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=snLCgz7W22Y&list =PL45FgJYSmjREKKSnyfJTOXJM4VGYxYbXD>. Acesso em: 27 ago. 2016. Para realizar a dopagem, podemos considerar quatro situações distintas: durante o crescimento do cristal, por liga, por difusão ou por implantação iônica. 1. Durante o crescimento do cristal: “O material de base sofre um aquecimento até se transformar em massa cristalina fundente, estado em que se efetua o acréscimo do material de dopagem” (SCHMIDT, 1979, p. 107). Enquanto ocorre esse processo térmico, nota-se uma expansão do cristal. Assim, na cadeia cristalina que está sendo formada, os átomos de dopagem vão sendo posicionados. 2. Por liga: “O material de base é levado à fusão conjuntamente com o de acréscimo, formando-se assim uma liga. Após essa formação e esfriamento, os dois materiais estão agregados entre si” (SCHMIDT, 1979, p. 108). 3. Por implantação iônica: consiste em injetar na cadeia cristalina do semicondutor átomos de material dopante que são carregados eletricamente. Esses átomos, em estado gasoso, são acelerados por um campo elétrico antes de serem injetados. Dentre os métodos de dopagem, esse é o mais preciso. 4. Por difusão: eleva-se a temperaturas aproximadas de 1000°C alguns discos de metal tetravalente básico e colocados diante de metais no estado gasoso. Assim, ocorre a fusão entre os átomos do material gasoso com o sólido cristalino e, considerando que material sólido é do tipo n, origina-se uma zona p. Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 79 O que determina um material sólido como do tipo n ou do tipo p? 2.2 Elementos semicondutores Apesar de já termos definido o que são materiais semicondutores, identificar um material como tal não é tarefa simples. Entretanto, existem alguns materiais que já foram identificados assim e que são amplamente utilizados na indústria. Na tabela periódica, os elementos químicos que apresentam semicondutividade se encontram no Grupo IV. Esses elementos compartilham de características comuns, que são: mesma estrutura cristalina e compartilhamento de um par de elétrons. Veja um exemplo na figura a seguir: Fonte: <http://www.foz.unioeste.br/~lamat/downmateriais/materiaiscap15.pdf>. Acesso em: 28 ago. 2016. Figura 2.6 | Representação de alguns átomos no cristal de silício O primeiro elemento semicondutor que conheceremos é o carbono (C). O interessante desse elemento é que, mesmo sendo considerado um semicondutor, em algumas situações é utilizado como condutor e, em outras, como material resistivo. Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 80 Como matéria-prima, o carbono é utilizado na forma de grafita natural, antracito e negro-de-fumo, e, quanto à aplicação, observa-se em escovas para máquinas girantes, resistores de carvão, carvão para microfones, contatos de carvão e eletrodos. Outro elemento condutor é o germânio (Ge), que é um dos mais antigos semicondutores. Na natureza é encontrado nos minérios, acompanhado do zinco, do ferro e do cobre. Quanto às aplicações, o germânio é utilizado na fabricação de componentes semicondutores e, para isso, deve estar em condições de pureza elevada. Por isso, antes de utilizá-lo na fabricação de componentes, o germânio passa por processos de purificação, pelo método da cristalização dirigida ou pelo método da fusão zonal. Conheça os métodos de purificação dos semicondutores acessando os links: <http://www3.fsa.br/proppex/piic2013/702185.pdf>; <http://www.teleco.com.br/tutoriais/tutorialsemicon/pagina_4.asp>. Acesso em: 28 ago. 2016 O silício (Si) é outro material semicondutor de muitas aplicações. Esse elemento também precisa passar pelos mesmos procedimentos que o germânio para ser obtido e purificado. Comparando esses dois elementos, o silício é termicamente mais estável que o germânio. Assim, é possível de ser submetido a temperaturas mais elevadas, de até 150°C. Além disso, apresenta outras características que o tornam mais rentável e mais utilizado na fabricação de componentes semicondutores. Além dessas características próprias do silício, ele é o material mais encontrado na natureza, perdendo apenas para o hidrogênio, podendo ser encontrado em rochas, areia e minérios. Quando sua temperatura é elevada, apresenta facilidade de se dissolver em metais em estado de fusão e, tais reações, originam derivados diversos de grande aplicabilidade industrial. O quadro a seguir apresenta um comparativo entre diferentes elementos semicondutores, em que consta, inclusive outro elemento semicondutor: o selênio (Se). Esse elemento já foi muito utilizado no passado, sendo hoje substituído pelo silício. Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 81 Fonte: Schmidt (1970, p. 124). Quadro 2.4 | Comparação de retificadores semicondutores Características Retificadores semicondutores Retificadores a vapor de mercúrioSe Si Ge Tensão de bloqueio max./elemento (V) 35 600 80 a 160 Até 7500 Queda de tensão/elemento (V) 1,2 1 a 1,3 0,6 a 0,7 Até 24 Rendimento (%) 92 99,6 98,5 Até 99,2 Limite de temperatura da parte ativa (°C) 85 150 65 100 Limite de temperatura do meio refrigerante (°C) Carga nominal Até 35 Até 50 Até 35 Até 35 Carga reduzida 75 105 50 50 Tipo de refrigeração Ar e líquido Ar e líquido Ar e líquido Ar e água2.3 Ligações semicondutoras e principais componentes semicondutores Você já estudou que os materiais semicondutores podem ser de dois tipos: p ou n. Os materiais semicondutores do tipo n são aqueles oriundos de um processo de dopagem que consiste na introdução de certa quantidade de átomos na estrutura cristalina, de modo que tais átomos apresentam excesso de elétron de valência. Assim, nesse processo, um pequeno número de átomos dopantes é capaz de introduzir modestas modificações na estrutura cristalina do semicondutor puro. Denominamos o semicondutor dopado com átomos em excesso de elétrons em sua camada de valência de semicondutor do tipo n porque nesses tipos de materiais observa-se a condução da corrente elétrica de maneira predominantemente negativa. É isso que você pode visualizar na figura a seguir. Fonte: <http://www.feg.unesp.br/~jmarcelo/restrito/arquivos_downloads/apostilas/eb2/semicondut_v1.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2016. Figura 2.7 | Corrente de elétrons em um semicondutor do tipo n Corrente de elétrons Corrente de elétrons Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 82 Note, na Figura 2.7, que a condução da corrente não depende da polaridade da tensão que é aplicada nas extremidades do semicondutor. Os materiais semicondutores do tipo p são aqueles originados a partir da introdução de átomos na estrutura cristalina do material semicondutor, de modo que nesses átomos que são introduzidos evidenciamos a deficiência de elétron de valência, o que chamamos de lacuna. De certa forma, podemos entender que é uma situação contrária à apresentada para obtenção do semicondutor do tipo n. Essa formação de lacunas no semicondutor permite um mecanismo de condução em que um elétron derivado de uma ligação covalente transita para um ponto do cristal em que existe uma lacuna. Tal movimento acontece em um sentido específico, do polo negativo para o polo positivo, e, nessa transição, cada elétron disponibiliza uma nova lacuna em seu local de origem. Por esse motivo, pela corrente elétrica nas lacunas se comportar como portadores de carga positiva é que atribuímos a denominação de semicondutor do tipo p. Veja a ilustração desse processo: Fonte: <http://www.feg.unesp.br/~jmarcelo/restrito/arquivos_downloads/apostilas/eb2/semicondut_v1.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2016. Figura 2.8 | Movimento de lacunas em um semicondutor sujeito a um diferencial de potência (ddp) É importante considerar que nos dois tipos de semicondutores, n e p, o número de elétrons ou de lacunas, respectivamente, cresce na mesma proporção que a introdução de átomos de impureza na estrutura cristalina e, consequentemente, provoca-se um aumento da condutividade elétrica do material. Portanto, podemos concluir que isso permite um controle de dosagem de condutividade de acordo com Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 83 a função que desejamos desempenhar com esse material semicondutor e, por esse motivo, materiais semicondutores têm sido aplicados em larga escala no setor elétrico e eletrônico. É possível realizar a ligação entre materiais semicondutores do tipo n e p, e esse processo pode ocorrer de três maneiras: por junção, por pontas ou por difusão. Por junção é quando a circulação da carga elétrica ocorre a partir da junção de dois ou mais materiais semicondutores que se juntam com o contato de suas superfícies. Por pontas é quando há o contato entre partes de um componente, ou seja, por meio de pontas de contato. Por difusão corresponde à “dopagem de um certo volume de material de base numa polaridade ou concentração de cargas diferentes do material de suporte” (SCHMIDT, 1979, p. 125). Fonte: <http://www.feg.unesp.br/~jmarcelo/restrito/arquivos_downloads/apostilas/eb2/semicondut_v1.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2016. Fonte: Schmidt (1979, p. 125). Fonte: Schmidt (1979, p. 125). Figura 2.9 | Ligação semicondutora por junção Figura 2.10 | Ligação semicondutora por pontas Figura 2.11 | Ligação semicondutora por difusão Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 84 Sobre os componentes semicondutores principais, componentes diferentes podem ser originados a partir da aplicação e/ou presença de diversificados tipos de energia, tais como, magnéticas, elétricas, luminosas etc. Diante de uma dessas diferentes fontes de energia, o material apresenta comportamentos diferentes. Dentre os componentes semicondutores principais, podemos destacar os diodos semicondutores, que são componentes que podem se comportar tanto como condutores, quanto como isolantes elétricos, sendo esse comportamento dependente da maneira que a tensão é aplicada aos terminais desse diodo semicondutor. São essas características que fazem o diodo ser utilizado em muitas aplicações. Dentre as principais aplicações do diodo semicondutor, podemos citar a transformação de corrente alternada para a corrente contínua. Que tipos de comportamentos diferentes podem ser apresentados pelos materiais semicondutores quando em contato com os diferentes tipos de energia? Entenda a diferença entre corrente contínua e corrente alternada acessando os links: <https://www.youtube.com/watch?v=XDHLZ05lHsY>; <https://www.youtube.com/watch?v=gQTfsj3LOBU>. Acesso em: 16 set. 2016. Além disso, acessando os links, você poderá aprofundar seu conhecimento sobre o que é um diodo semicondutor: <https://www.youtube.com/watch?v=MAO5bCr3204>; <https://www.youtube.com/watch?v=NeoNq7vc_4k>; <https://www.youtube.com/watch?v=RBUFZbESlfk>; <https://www.youtube.com/watch?v=iOn4zM5BZb8>. Acesso em: 30 ago. 2016. Propriedades retificadoras particulares são obtidas a partir da formação de pares np de materiais condutores. Dentre os diodos fabricados atualmente, destacam-se os de germânio e silício. Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 85 Mediante dopagem, é possível estabelecer as polaridades de n e p e, em seguida, ocorre a cristalização. Nesse processo, “os átomos de índio penetram na zona de borda do cristal de germânio, formando um semicondutor do tipo p, enquanto a parte inalterada do cristal de germânio mantém a polaridade n” (SCHMIDT, 1979, p. 126). A característica da condutividade será determinada por esse processo de junção, sendo tal característica a de um só sentido do diodo, ou seja, o de condução, sendo neste que se fundamenta o seu efeito retificante. Além desse diodo de germânio, destacamos o diodo de silício. O diodo de silício é associado ao alumínio, por junção, sendo o primeiro material do tipo n e, o segundo (o alumínio), do tipo p. “Uma condução do tipo p é formada quando átomos de alumínio penetram na borda do corpo de silício, enquanto a parte de silício livre de difusão mantém sua condutividade n” (SCHMIDT, 1979, p. 126). Saiba mais sobre os diodos semicondutores acessando o link indicado a seguir. Nesse link, a partir da página 14, você conhecerá como se dá e quais são as características da junção pn na formação do diodo, qual o aspecto e a representação que adotamos para o diodo, as aplicações de tensão sobre ele, seja a direta ou a inversa, bem como conhecerá as características elétricas do diodo semicondutor. Além disso, você conhecerá sua curva característica e limites de operação do diodo. Disponível em: <http://www.feg.unesp.br/~jmarcelo/restrito/arquivos_ downloads/apostilas/eb2/semicondut_v1.pdf>. Acesso em: 30 ago. 2016. 1. (UFRPE, 2016) O silício (Si) é o principal elemento semicondutor conhecido. Para aplicações práticas, os semicondutores devem ser dopados, ou seja, alguns poucos átomos da rede cristalina original do material devem ser removidos e adicionados outros átomos de elementos químicos diferentes, com a finalidade de introduzir elétrons adicionais (semicondutor dopado tipo n) e lacunas ou buracos adicionais (semicondutor dopado tipo p). A inclusão do elemento Alumínio (Al) na matriz de silício(Si) torna o material semicondutor __________, enquanto que a Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 86 inclusão do elemento Fósforo (P) como dopante na matriz de Silício (Si) torna o material semicondutor ___________. Assinale a alternativa na qual se encontram os itens que completam corretamente as lacunas: a) Intrínseco; extrínseco. b) Tipo n; tipo p. c) Tipo p; tipo n. d) Intrínseco; tipo n. e) Extrínseco; tipo p. 2. (FGV, 2014) Uma das maneiras de provocar o aumento de condutividade elétrica em semicondutores é a partir da introdução de impurezas, por meio de um processo chamado de dopagem. A técnica de dopagem dos semicondutores, em que o material base é levado à fusão conjuntamente com o material de acréscimo, é a dopagem: a) Por implantação iônica. b) Por liga. c) Por difusão. d) Durante o crescimento do cristal. e) Por radiação. Nesta unidade você aprendeu: • As características principais de materiais condutores relacionados às propriedades elétricas e térmicas. • A relação entre estrutura atômica e movimento de portadores de carga na condutividade elétrica de materiais. Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 87 • Conheceu quais são os materiais elétricos de elevada condutividade, bem como algumas de suas aplicações. • Conheceu as possíveis finalidades da composição de ligas metálicas e como para essa composição faz-se necessário conhecer diversas características de cada material dessa composição, tendo em vista maximizar a condutividade elétrica dessa liga, porém, sem provocar mudanças muito indesejáveis em outras propriedades da liga como nas propriedades mecânicas. • Recordou as características principais dos materiais isolantes. • Conheceu as principais características dos materiais semicondutores. • Conheceu os principais elementos utilizados na composição e materiais de caraterísticas semicondutoras. • Dentre os componentes semicondutores você conheceu os diodos semicondutores que apresentam como principal característica o comportamento que pode ser condutor ou isolante. Espera-se que ao final desse estudo você conheça e compreenda as principais características de metais condutores, isolantes e semicondutores, sobretudo, a importância das ligas metálicas para otimização de custo e de desempenho elétrico, dependendo de suas finalidades, bem como a importância e aplicabilidade de materiais semicondutores. Com isso, esperamos que tais conhecimentos sirvam como embasamento para a tomada de decisões na sua futura prática profissional. Para otimizar o seu aprendizado nessa disciplina, faça uma leitura atenta do material, resolva novamente os exemplos apresentados, acesse os links indicados, resolva as atividades de aprendizagem e vá além, pesquise em bibliotecas e estude os materiais que compõem a bibliografia dessa unidade. Bons estudos! Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 88 1. (Unifenas, 2002) Levando em consideração a segunda lei de Ohm, considere as grandezas proporcionais envolvidas na expressão matemática e analise uma possibilidade que melhor se enquadra para a obtenção de um fio metálico que apresente uma elevada resistência elétrica. a) Que o fio metálico possua uma grande área de secção transversal. b) Que o fio metálico possua uma grande área de secção transversal e pequeno comprimento. c) Que o fio metálico possua uma pequena área de secção transversal e grande comprimento. d) Que o fio metálico possua pequena resistividade. e) Que o fio metálico possua uma pequena área de secção transversal e pequeno comprimento. 2. (Mack, 2006) Para a transmissão de energia elétrica, constrói-se um cabo composto por 7 fios de uma liga de cobre de área de secção transversal 10 mm² cada um, como mostra a figura. A resistência elétrica desse cabo, a cada quilometro, é: (Dado: resistividade da liga de cobre = 2 1 10 2, ² /⋅ − Ωmm m ) a) 2,1Ω. b) 1,8Ω. c) 1,2Ω. d) 0,6Ω. e) 0,3Ω. Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantes U2 89 3. (UFLA, 2000) O alumínio e o cobre são largamente empregados na produção de fios e cabos elétricos. A condutividade elétrica é uma propriedade comum dos metais. Este fenômeno deve-se: a) À presença de impurezas de ametais que fazem a transferência de elétrons. b) Ao fato de os elétrons nos metais estarem fracamente atraídos pelo núcleo. c) À alta afinidade eletrônica destes elementos. d) À alta energia de ionização dos metais. e) Ao tamanho reduzido dos núcleos dos metais. 4. (PUC-SP, 2005) Os metais são conhecidos pela sua maleabilidade e ductilidade, por serem bons condutores térmicos e elétricos e apresentarem brilho característico. Propriedades mais específicas de alguns metais são descritas a seguir. - O metal I é líquido à temperatura ambiente e dissolve diversos outros metais, formando amálgamas que apresentam larga aplicação. - O metal II apresenta temperatura de fusão de 98°C, é mole e reage violentamente com a água, liberando grande quantidade de energia. - O metal III é certamente o metal mais utilizado no mundo, sendo o principal constituinte das ligas metálicas conhecidas genericamente como aço. - O metal IV tem bastante aplicação na indústria civil e de embalagens. Além de pouco denso, tem a vantagem de ser coberto por uma fina camada de óxido que dificulta a sua corrosão pelo oxigênio. Os metais, I, II, III e IV são, respectivamente: a) Mercúrio, ouro, cobre e titânio. b) Césio, potássio, prata e alumínio. c) Mercúrio, sódio, ferro e alumínio. d) Mercúrio, sódio, cobre e estanho. e) Gálio, ouro, ferro e alumínio. Materiais condutores, semicondutores e isolantesMateriais condutores, semicondutores e isolantes U2 90 5. (FGV, 2014) Considere as afirmativas a respeito dos materiais isolantes, condutores e semicondutores: I- A resistividade de um material condutor diminui com o aumento da temperatura. II- Nos semicondutores o número de elétrons em deslocamento não é constante, variando esse valor com a temperatura. III- A resistividade de um material isolante ou semicondutor diminui com o aumento da temperatura. Assinale a alternativa correta: a) Somente a afirmativa I está correta. b) Somente a afirmativa II está correta. c) Somente a afirmativa III está correta. d) Somente as afirmativas I e III estão corretas. e) Somente as afirmativas II e III estão corretas. U2 91Materiais condutores, semicondutores e isolantes Materiais condutores, semicondutores e isolantesMateriais condutores, semicondutores e isolantes Referências CALLISTER, William D.; RETHWISH, David G. Ciência e engenharia de materiais: uma introdução. Tradução de: Sergio Murilo Stamile Soares. Rio de Janeiro: LTC, 2015. LIMA, Tarcisio. Leis de Ohm: exercício básico. Exercícios resolvidos, 18 nov. 2013. Disponível em: <http://www.exerciciosresolvidos.net/fisica/eletricidade/resistividade/ exercicio-resolvido/leis-de-ohm-exercicio-basico-48>. Acesso em: 25 ago. 2016. IBACH H.; LÜTH H. Solid state physics: an introduction to principles of materials science. 4. ed. Berlin: Springer, 2009. SCHMIDT, Valfredo. Materiais elétricos. São Paulo: Edgard Blücher, 1979. VAN VLACK, Lawrence Hall. Princípios de ciência dos materiais. Tradução de: Luiz Paulo Camargo Ferrão. São Paulo: Edgard Blücher, 1970. Unidade 3 Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos Na primeira seção, evidenciamos que as propriedades mais relevantes dos materiais dielétricos dependem da forma de polarização do material, bem como o comportamento do material quando submetido a uma diferença de potencial, modificando-se a partir do campo elétrico. De maneira mais específica, apresentamos os materiais dielétricos, cerâmicas e polímeros, seu alto desempenho e aplicação na área de engenharia. Na segunda seção, apresentamos as propriedades dos materiais ferroelétricose piezoelétricos, bem como o comportamento destes materiais quando submetidos a variações de temperatura, pressão e campo elétrico. Além disso, exploramos aplicações práticas destes materiais presentes em nosso cotidiano e na área industrial. Seção 1 | Materiais dielétricos Seção 2 | Materiais ferroelétricos e piezoelétricos Objetivos de aprendizagem: Essa unidade tem o objetivo de ensinar as propriedades dos materiais dielétricos, os tipos de polarização que influenciam o comportamento físico do material e compreensão dos fenômenos da constante e rigidez dielétrica, bem como o fator de perda. Destacamos os materiais cerâmicos e polímeros e suas aplicações para a engenharia. Patrícia Beneti de Oliveira Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 95 Introdução à unidade Durante um projeto, é vital que o engenheiro profissional saiba como selecionar materiais que melhor atendam às exigências do projeto, como exigências econômicas, estéticas e principalmente exigências de resistência e durabilidade dos materiais. Por isso, deve entender as propriedades dos materiais e suas limitações. Nesta unidade, iniciaremos o estudo sobre os materiais dielétricos a partir de seu comportamento, ou seja, como se comporta a polarização, condutividade elétrica, constante dielétrica, rigidez dielétrica e fator de perda do material. Clipes de plástico para papéis e pás de turbinas de cerâmica representam tentativas de fazer melhor com polímeros e materiais cerâmicos o que antes era bem-feito com metais. Você perceberá que as características e comportamentos dos materiais perante alguma alteração de temperatura, pressão e diferença de potencial apresentarão variações nas propriedades dos materiais, podendo melhorar ou piorar a qualidade do material, dependendo da finalidade de aplicação. Por fim, iniciamos a exploração das características e propriedades dos materiais ferroelétricos e piezoelétricos aplicados à engenharia em situações práticas. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 96 Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 97 Seção 1 Materiais dielétricos 1.1 Polarização dos materiais isolantes Introdução à seção Os materiais classificados como dielétricos não são isolantes perfeitos. Em condições limites de aplicação, a condutividade dos elétrons é tão pequena que geralmente pode ser desprezada. Por outro lado, existem importantes casos de utilização em que o material dielétrico se torna um condutor com aplicação de um campo elétrico externo. Para começar, existe um alinhamento dos dipolos elétricos, o que chamamos de polarização, ou seja, para cada dipolo elétrico presente no material, existe uma grandeza vetorial associada, direcionando da carga negativa para a positiva, separados por uma distância entre elas, como podemos observar na Figura 3.1. Nesta seção, o objetivo é conduzir você, estudante, a evidenciar algumas das propriedades fundamentais dos materiais dielétricos, também conhecidos como isolantes, que dependem da composição de sua estrutura para permitir ou não a passagem de eletricidade, quando ele faz parte do circuito elétrico. Considerando esse objetivo, nesta seção, você recordará alguns conceitos abordados na Unidade 2, bem como aprofundará o estudo dos conceitos de polarização, capacitância, constante dielétrica e rigidez dielétrica, tendo como foco os materiais dielétricos. Dentre tais conceitos, você estudará: a constante dielétrica, a tensão de ruptura do dielétrico e o fator de perda. Ainda nesta seção, você aprofundará seus conhecimentos a respeito de alguns materiais dielétricos e aplicações voltadas à engenharia. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 98 Fonte: <http://goo.gl/I7WauE>. Acesso em: 31 ago. 2016. Figura 3.1 | Representação esquemática de um dipolo elétrico A esse alinhamento denominamos o momento de dipolo dielétrico p associado a cada dipolo. Assim, dependendo da maneira de aplicação do campo elétrico externo, existem três tipos de polarização para os dielétricos: a eletrônica, a iônica e a polarização de orientação. Vejamos a características de cada uma: Polarização eletrônica: este tipo de polarização é a mais comum entre os isolantes. Compreende o descolamento das cargas elétricas negativas que se encontram ao redor do núcleo atômico em direção ao terminal positivo, deslocando ligeiramente o núcleo atômico para o lado do terminal negativo, apresentado na Figura 3.2a. Devido a esse deslocamento, caso o material dielétrico sofra alguma variação de temperatura, a polarização diminui, pois ocorre a dilatação do material, diminuindo a quantidade de partículas por unidade de volume. Este tipo de polarização é usualmente utilizada em frequências elevadas, da ordem de 10 16 Hz (hertz), pois responde facilmente a alterações do campo elétrico. Polarização iônica: relaciona-se somente aos materiais iônicos. O momento de dipolo elétrico, para um par de íons, ocorre pelo descolamento de íons positivos em uma direção e os íons negativos em direção oposta, representado na Figura 3.2b. Ao contrário da polarização eletrônica, ao sofrer um aumento na temperatura, aumenta- se o número de interações quando o material se dilata. Este tipo de polarização é frequentemente observado nos materiais cerâmicos e apresenta uma frequência de trabalho mais lenta que a polarização eletrônica, da ordem de 1013 Hz. Polarização de orientação: presente em materiais que apresentam orientação de dipolos permanentes. Ocorre a partir do alinhamento dos dipolos pelas vibrações térmicas dos átomos, como está representado na Figura 3.2c. Este tipo de polarização é muito comum aos polímeros, como exemplos de aplicação na engenharia, podemos citar os polímeros sintéticos PE, PP, PET, PC, náilons produzidos a partir de reações químicas de derivados de petróleo, entre outros que veremos mais à frente no item materiais aplicados à engenharia. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 99 O comportamento de polarização dos materiais influencia diretamente no fator de perdas dielétricas, pois interfere na circulação das correntes transversais (correntes que perpassam pelo material dielétrico). Podemos representar estas perdas, graficamente, na Figura 3.3, em dependência da carga elétrica q de um isolante, ao qual se aplicou uma tensão V. A Figura 3.3a representa o isolante que não apresenta perdas. “Se num isolante, a polarização é retardada, aparecem perdas dielétricas e a curva característica se Fonte: <http://goo.gl/I7WauE>. Acesso em: 31 ago. 2016. Figura 3.2 | Representação esquemática (a), polarização eletrônica (b) e polarização iônica (c) polarização de orientação Agora que você já sabe a polarização nos materiais dielétricos, reflita: um material pode se polarizar mediante outros mecanismos, além da aplicação de um campo elétrico externo? Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 100 torna uma elipse” (SCHMIDT, 1979, p. 32), apresentada pela Figura 3.3b. As perdas são demonstradas pelo cálculo da área interna à elipse, sendo esta proporcional à energia absorvida no período de tempo se transformando em calor, por isso é considerado perda. “Para materiais isolantes eletro-seignéticos e ferromagnéticos a energia de perda também é proporcional à área interna do laço” (SCHMIDT, 1979, p. 33), representado na Figura 3c. Fonte: Schmidt (1979, p. 33). Figura 3.3 | Representação de dependência entre carga e tensão para (a) isolante sem perdas; (b) isolante com perdas e (c) isolante seigne-elétrico Reflita: Como um dipolo elétrico consegue manter a mudança de direção de sua orientação? Aprenda mais sobre características de perdas dielétricas em diversos materiais isolantes estudando o material indicado: Disponível em: <http://goo.gl/SfMZGm>; <http://goo.gl/WTKvf9>; <http://goo.gl/8mJgBX>. Acesso em: 31 ago. 2016. 1.2 Comportamento dos dielétricos Na Unidade 2, vimos queum material ao apresentar condutividade elétrica muito baixa, variando na ordem 10 10 1− −⋅( )Ω m e 10 20 1− −⋅( )Ω m é classificado como isolante. As substâncias dielétricas são muito utilizadas em nosso cotidiano, podemos citar: Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 101 silício, polietileno, grafita, vidro, porcelana, madeira, plástico e muitos outros. Afinal, que características apresenta um material para que possamos considerá-lo como isolante? Vamos pensar na condutividade elétrica de alguns destes materiais, para facilitar demonstramos alguns valores no Quadro 3.1. Observem que a condutividade para o polietileno e a porcelana são muito baixas, cerca de 1020 vezes menor do que aquela dos metais altamente condutores. Fonte: elaborado pela autora. Quadro 3.1 | Condutividades elétricas típicas à temperatura ambiente Material Condutividade elétrica [(Ω.m)-1] Silício 4,3 x 10-4 Polietileno <10-14 Grafita 105 (média) Porcelana 10-10 – 10-12 Outra principal característica de um isolante é que os elétrons estão fortemente ligados ao núcleo do átomo por meio de ligações iônicas ou covalentes, ou seja, os elétrons livres apresentam-se em quantidade reduzida, assim, pelos dielétricos há maior dificuldade na passagem de corrente elétrica, a não ser quando o material é submetido a altas temperaturas. Utilizamos o modelo de bandas de energia para representar o posicionamento do aglomerado de átomos durante as interações interatômicas, representado na Figura 3.4. Fonte: <http://goo.gl/2PE3GP>. Acesso em: 20 ago. 2016. Figura 3.4 | Formação de bandas, com 1 átomo, alguns átomos e muitos átomos (sólido) Como ocorre o movimento dos átomos em um material isolante? Estes materiais em temperatura ambiente apresentam a estrutura das bandas de energia representada na Figura 3.5. Quando a banda de valência se apresenta cheia de elétrons, resta a estes ocuparem a banda seguinte. Para que os elétrons ultrapassem a lacuna, devem ser energizados a ponto de poder “saltar” até a banda de condução. Desta forma, quando um isolante está suscetível a um campo elétrico, poderão ocorrer pequenas conduções por adição de elétrons livres ou o acúmulo Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 102 de elétrons na área de interação de materiais diferentes ou fases diferentes, até que se atinja o limiar para condução. Isto pode ocasionar pequenas perdas dielétricas, principalmente em materiais sujeitos a campos alternados. Fonte: elaborada pela autora. Figura 3.5 | Representação das bandas de energia para um isolante Qual é o mínimo de energia que deve ser fornecido para que ocorra a condução do elétron entre a banda de condução e a banda de valência de um capacitor? Percebemos a partir das bandas, que o material dielétrico apresenta-se eletricamente isolante, já que o material é não metálico e à temperatura ambiente praticamente não há condução de elétrons. A partir da Figura 3.1, observamos uma estrutura de dipolo elétrico, ou seja, ocorre a separação dos elementos eletricamente positivos, dos eletricamente negativos, num nível atômico ou molecular. Esta separação encontra-se representada na Figura 3.5. Como vimos anteriormente, devido à forma de polarização e à aplicação de um campo elétrico, é possível determinar a empregabilidade dos isolantes: capacitores, isolação de cabos, isoladores poliméricos (apresentado na Figura 3.6) e isolação para transformadores presentes nas redes de alta tensão, entre outros. Fonte: <http://goo.gl/FH8YSl>. Acesso em: 31 ago. 2016. Figura 3.6 | Exemplo de estrutura de um isolador polimérico Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 103 Ao utilizar os materiais isolantes, devemos prestar atenção nas propriedades básicas: a) constante dielétrica, b) rigidez dielétrica e c) o fator de perda. Essas propriedades seguem as características do tipo de material a ser utilizado (tipo de ligação, estrutura e defeitos no cristal, constituição das fases), a temperatura a que serão submetidos, a tensão e frequência aplicados ao funcionamento e o tempo que permanecerá ligado à mesma tensão e irão afetar as respostas dos dipolos e sua orientação. Para falarmos sobre a atuação dos isoladores, principalmente na rede de transmissão elétrica, é preciso ter bem claro a ideia de comportamento em cadeia dos isoladores. Para conhecer esse assunto, acesse: <http:// goo.gl/183hHI>. Acesso em: 31 ago. 2016. 1.3 Propriedades básicas dos materiais dielétricos Neste estudo sobre as propriedades dos dielétricos, iniciaremos pela constante dielétrica. Simbolizada pela letra k, esta propriedade deve ser consultada inicialmente quando pensamos em realizar algum projeto, principalmente se for um capacitor. Os capacitores, também chamados de condensadores, possuem como principal função o armazenamento de cargas elétricas quando submetidos a uma tensão elétrica, devido a esta propriedade, temos o valor da capacitância expressa pela fórmula: C Q V = Em que: • C é a capacitância medida em Farad (F); • Q é a quantidade de cargas, medida em Coulomb (C); • V é a tensão elétrica, medida em Volts (V). Os capacitores mais simples apresentam em sua estrutura duas placas paralelas constituídas de um bom material condutor (metal) e de área A separada pela distância L, com um dielétrico (ex.: óleo, ar etc.) ou pelo vácuo. Seja o segundo caso, em que as placas se encontram separadas pelo vácuo, se uma tensão ou diferença de potencial (ddp) for aplicada às placas, uma das placas ficará carregada com carga +q e a outra –q e o campo elétrico direcionado ao sentido convencional da corrente elétrica (movimentação do polo positivo para o polo negativo). (1) Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 104 Assim como o capacitor, representado na Figura 3.4, tem a função de armazenar cargas, uma carga Q 0 permanece acumulada na placa do capacitor diretamente relacionada à ddp aplicada em seus terminais, e inversamente proporcional à distância entre as placas, expressa pela fórmula: Q A L V C V0 0 0= =ε Em que: • Q0 carga acumulada; • ε0 permissividade no vácuo equivalente a ε0 128 85 10= −, /x F m ; • A área das placas; • L distância entre as placas; • C capacitância do capacitor; • V tensão aplicada em volts. Portanto, podemos relacionar a distância entre as placas de um capacitor, quando esta distância se encontra preenchida pelo vácuo, ao valor da capacitância do capacitor pela expressão: C A L0 0 = ε (2) (3) Fonte: elaborada pela autora. Figura 3.7 | Simbologia utilizada para representar um capacitor Agora que você já sabe a atuação dos capacitores de placas paralelas, reflita: é possível, devido à atuação do campo elétrico, obter capacitores em outros formatos? A variação da capacitância do capacitor depende diretamente da variação da constante dielétrica, k, do material utilizado na construção do capacitor, que permite Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 105 uma maior carga Q, acumulada entre as placas e disposta pela expressão: Q A L V CVd= =ε Em que: • εd representa a permissividade do meio dielétrico que será maior que ε0 . Desta forma, podemos relacionar o valor das capacitâncias entre o vácuo e o dielétrico em um sistema pela interação da expressão (2) e (4): C C A L V A L V C Cd d r 0 0 0 0= = → = ε ε ε ε ε ( / ) ( / ) Em que: • ε ε d 0 é a permissividade relativa ε r , chamada habitualmente de constante dielétrica, k. Desta forma, ao analisarmos a expressão, podemos verificar que a constante dielétrica, k, nos indica a quantidade de vezes que a capacidade do sistema aumentou com a inserção do material isolante entre as placas do capacitor, desde que mantida as condições de atuação do campo elétrico, as placas de mesma área e tamanho e o volume de cargas utilizado pelo material. (4) (5) Agora que você já sabe que a variação da capacitância depende diretamenteda variação da constante dielétrica, o que aconteceria ao capacitor se fosse aplicado uma grande diferença de potencial entre seus terminais? Um capacitor de placas paralelas, tendo como meio o vácuo, encontra-se representado na Figura 3.8, em que o acúmulo de cargas nas placas do capacitor produz um campo elétrico a partir da ddp de alimentação. E outro que apresenta o meio com um dielétrico, em que é gerado um campo elétrico que anula o apresentado entre as placas. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 106 Fonte: <http://goo.gl/avsPOb>. Acesso em: 31 ago. 2016. Figura 3.8 | Esquematização do campo elétrico atuante no capacitor com placas separadas pelo vácuo e placas separadas por um dielétrico Sendo o capacitor, um dispositivo que armazena energia, sua capacidade de armazenamento é aumentada ao utilizar o material dielétrico em sua construção. Neste material, por apresentar valores muito altos para a constante dielétrica, os capacitores fabricados são muito pequenos e com altas capacitâncias. Quando um capacitor apresenta o espaço entre as placas inteiramente ocupado por um dielétrico, a equação (3) torna-se: C k L= ε0 Até aqui citamos o capacitor como elemento dielétrico, não só este, mas todos os dielétricos possuem um valor limite suportado a fim de desempenhar seu funcionamento sem avarias. Normalmente, quando estes valores são ultrapassados, o componente modifica de “maneira irreversível o material, como, por exemplo, uma ruptura dielétrica, deformação permanente, modificação estrutural etc. Frequentemente essa modificação afeta fundamentalmente as propriedades isolantes do dielétrico” (SCHMIDT, 1979, p. 2). Veja um exemplo: Exemplo 1 - (Adaptada de SMITH; HASHEMI, 2012, p. 570) Um capacitor simples de placas paralelas deve armazenar 8µC sob um potencial de 10KV. A distância de separação entre as placas deve ser 0,20mm. Calcule a área requerida para as placas, se o dielétrico entre elas for (a) o vácuo (k=1) e (b) sílica fundida (k=3,8). Utilize ε0 128 85 10= −, /x F m . Resolução: Aplicando a fórmula da capacitância temos: C Q V x C V x F= = = − −8 10 10000 8 10 6 10 (6) Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 107 A CL k x F x m x F m k = = − − −ε0 10 3 12 8 10 0 20 10 8 85 10 ( )( , ) ( , / )( ) (a) Para o vácuo, k=1 A x m= −18 07 10 3 2, (b) Para a sílica fundida, k = 3,8 A x m= −4 75 10 3 2, Logo, a inserção de um material com uma alta constante dielétrica pode reduzir sensivelmente a área requerida para as placas. Aprenda mais sobre a constante dielétrica e o funcionamento dos capacitores acessando: <http://goo.gl/77kTY9>; <http://goo.gl/kAJXy2>; <http://goo.gl/O903Dn>; <http://goo.gl/zsgHq2>. Acesso em: 1 ago. 2016. Outra propriedade que caracteriza os dielétricos é a rigidez dielétrica. Todo capacitor é fabricado para suportar uma tensão de funcionamento e permanecer em funcionamento até que se atinja a tensão máxima Vmáx . Ao ser submetido a uma variação que ultrapasse a Vmáx , o material dielétrico se rompe, o que permite inicialmente pequenos caminhos condutores entre as placas paralelas, sendo que estes caminhos aumentam em proporção ao tempo que o material ficar ligado sob a diferença de potencial maior que a tensão máxima suportada. Assim, especificamos para o capacitor, além de sua capacitância, a tensão máxima de isolamento. Como determinar a tensão máxima que um dielétrico poderá suportar? A relação encontra-se entre o diâmentro do dielétrico e a máxima diferença de potencial suportada sem ruptura do material isolante. Utiliza, pelo SI, o valor expresso em Volts por metro (V/m). Os materiais apresentam um valor limite de tensão por unidade de comprimento, a partir do qual passam a conduzir corrente, ou seja, se tornam condutores. A rigidez dielétrica está diretamente relacionada ao campo elétrico que o material pode suportar sem haver a ruptura do poder isolante do dielétrico. Diversos fatores influenciam a rigidez: depende da área específica da placa, dos defeitos, porosidade e pureza do material utilizado, além da frequência e tensão aplicados, o tempo que permaneceu submetido à aplicação da tensão e as condições ambientais (umidade, temperatura etc.). Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 108 A ruptura do material isolante inicia-se com o aparecimento de elétrons na banda de condução. Os elétrons ultrapassam a lacuna a partir do momento em que há a aplicação de um campo elétrico elevado, que ao ser aplicado em um longo período de tempo, proporciona a ruptura do material, geralmente por fusão local. Caso ocorra a troca com elétrons livres presentes na estrutura do material e estes ofereçam certo grau de impureza, a ocorrência da ruptura geralmente é um arco voltaico entre o terminal de alta voltagem e a superfície contaminada do isolador, causando modificações químicas e mecânicas no material isolante. A ruptura do dielétrico também se relaciona à temperatura a qual o material é submetido. Quando o material já apresenta deteriorações pelo uso e exposição às intempéries do tempo, exemplo um isolador polimérico e capacitores velhos, a intensidade do campo elétrico para a ocorrência da ruptura é relativamente baixa. Assim, podemos relacionar a rigidez à medição da qualidade de um material como isolante, capaz de oferecer segurança e evitar falhas elétricas e acidentes. O Quadro 3.2 traz valores das propriedades de alguns materiais dielétricos à temperatura ambiente. Lembrando que se houver variação de temperatura, o comportamento do material será alterado. Fonte: elaborado pela autora. Quadro 3.2 | Constante e rigidez dielétrica de alguns materiais isolantes Material Constante dielétrica (k) Constante dielétrica (k) Ar 1,00059 3 Porcelana 7 5,7 Óleo de transformador 4,5 12 Papel parafinado 3,7 16 Mica 5,4 10-100 Vidro (pirex) 4,7 14 Além das propriedades abordadas, devemos considerar mais uma propriedade quando falamos em materiais isolantes, o fator de perda dielétrica. Uma das condições que esta propriedade relaciona é a polarização do material acompanhado da dissipação de energia, isto provoca o aquecimento do material dielétrico, a outra condição é quando a polarização se encontra atrasada quando equiparada à intensidade do campo elétrico E. Esse fator aparece em corrente contínua e em alternada, pois em ambos os casos circulará uma corrente transversal pelo isolante. Assim, se a tensão empregada para manter “a carga em um capacitor for senoidal, como é o caso de voltagens geradas por corrente alternada, a corrente estará 90° à frente da tensão quando um material dielétrico sem perdas preencher o espaço entre as placas do capacitor” (SMITH; HASHEMI, 2012, p. 570). Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 109 Aprenda mais sobre a rigidez dielétrica e perda dielétrica acessando: <http://goo.gl/IEFP9M>; <https://youtu.be/_t0-KBDyZvQ>; <http://goo. gl/DsM3hB>. Acesso em: 1 ago. 2016. 1.4 Aplicações dos materiais dielétricos voltados à engenharia Você conheceu a estrutura de diversos materiais na Unidade 1, como as cerâmicas, os polímeros, os metais principalmente sua estrutura cristalina e suas propriedades térmicas e elétricas. Neste momento, iremos apresentar propriedades e características de materiais dielétricos aplicados à engenharia. Vamos começar! Neste primeiro momento, iremos abordar as cerâmicas e polímeros. As cerâmicas tradicionais são feitas a partir de três componentes: a argila, sílica (sílex) e feldspato. Já as cerâmicas de alto desempenho, também aplicadas à engenharia, possuem compostos puros ou quase puros de óxidos, carbetos ou nitretos. Estas cerâmicas são aplicadas para a fabricação de ferramentas de corte, matrizes, peças para motores e peças resistentes ao desgaste. Podemos citar a alumina, nitreto de silício, carbeto de silício e a zircônia. Tendo em vista a frequência com que tais materiais são utilizados, vamos conheceruma pouco mais sobre suas características principais, tendo como base o que apresentam Smith e Hashemi (2012): - Alumina (Al2O3): entre os materiais cerâmicos, certamente a alumina ocupa lugar de destaque. Isto porque esse material apresenta baixa perda dielétrica, alta resistividade e dureza, ótimo isolamento térmico, alta resistência à corrosão (baixas e altas temperaturas), ou seja, também possui estabilidade de temperaturas, além de alta resistência ao desgaste. Por apresentar todas estas propriedades, é frequentemente usada em aplicações elétricas de alta qualidade, como em radomes (estrutura protetora de antenas de radares), peças de motores e turbinas e mancais. - Nitreto de silício (Si3N4): apresenta a combinação de propriedades mais útil à engenharia. Quando comparada à alumina, possui melhor tenacidade, além da excelente cominação de propriedades de materiais, sendo mais leve que o carbeto de silício (SiC). Sua microestrutura lhe fornece excelente resistência ao choque térmico, por isso é cada vez mais utilizado em aplicações de alta tecnologia, por exemplo, válvulas de motores de automóveis. Sua alta resistência à quebra o torna resistente Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 110 aos impactos e choques, por isso é altamente utilizado no processo de usinagem em ferramentas de corte de altas velocidades. - Carbeto de silício (SiC): possui maior resistência à oxidação, abrasão e corrosão a altas temperaturas. É produzido artificialmente pela mistura de área sílica e coque de petróleo. Possui alta dureza, boa resistência ao choque térmico e ótima condutibilidade elétrica. Entre suas aplicações podemos citar: trocadores de calor, anéis para selos mecânicos, rolamentos e componentes para bombas, válvulas esféricas e peças afins a tubulações sujeitas a processos químicos, entre outros. - Zirconia (ZrO2): diferente dos outros materiais cerâmicos, possui alta constante dielétrica, resultando em uma expansão térmica muito elevada. Isto proporciona uma resistividade elevada à propagação de fendas e alta resistência à fratura, por isso frequentemente é aplicada como ferramenta para a moldagem de fios, como auxiliar no processo de fundição de cerâmicas e aço. É utilizado na fabricação de plataformas auxiliares para a construção de restaurações dentárias, como coras e pontes na indústria de odontologia, nos automóveis aparece nas células de medição de oxigênio nas sondas lambda representadas na Figura 3.9, e como anéis de isolamento nos processos térmicos. Os componentes produzidos com este material são muito mais caros que os produzidos com alumina. Este material vem sendo estudado para possíveis aplicações como isolante nos transistores de dispositivos nano-eletrônicos. Fonte: elaborada pela autora Figura 3.9 | Estrutura física de uma sonda lambda, com uso de cerâmida de dióxido de zinco Veja que até aqui estudamos os tipos específicos de cerâmicas voltadas a um alto desempenho. Um exemplo típico é a porcelana que, sendo um material de excelente isolamento térmico, é aplicada em linhas aéreas de transmissão de energia devido a suas propriedades químicas, mecânicas e dielétricas, mas apresenta desvantagens quanto a sua flexibilidade, por isso temos suas aplicações mais presentes em equipamentos que mantêm uma posição fixa. No Quadro 3.3 a seguir, você pode visualizar os principais materiais cerâmicos abordados e suas aplicações: Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 111 Fonte: elaborado pela professora. Quadro 3.3 | Aplicações de materiais cerâmicos Material Aplicação Porcelana Isolantes elétricos. Tijolos Construção; utilização como refratário. Alumina densa, carboneto nitreto de silício, zircônia cúbica Ferramentas de corte, matrizes; superfícies resistentes ao desgaste, mancais; implantes cirúrgicos; peças de motores e turbinas; blindagem. Fibra de vidro (composto cerâmico) Estruturas de alto desempenho. Cermet Ferramentas de corte, matrizes. Alumina-carboneto de silício Aplicações em alta temperatura e alta tenacidade. Como você pôde acompanhar na Unidade 1, os polímeros são constituídos por elementos não metálicos, tendo como base principal elementos tais como o carbono e o hidrogênio e com relação à condutividade elétrica, apresentam baixas condutividades. Devido a esta propriedade, os polímeros são aplicados como materiais isolantes. Vamos conhecer algumas características deste material e suas aplicações. Como vimos anteriormente, os dipolos elétricos presentes nos polímeros são orientados a partir da polarização de orientação, a partir das vibrações térmicas dos átomos. Assim, suas propriedades podem ser radicalmente alteradas com uma pequena mudança de temperatura. Como acontece para as cerâmicas, há um número grande de polímeros e esse número aumenta a cada ano. Podemos abordar que os vários tipos de polímeros compreendem os plásticos, as borrachas, as fibras, os revestimentos, as resinas, as espumas, os adesivos e os filmes. Dependendo da propriedade de um polímero, este pode ser usado em duas ou mais das categorias citadas. Os polímeros não são apenas plásticos, eles também constituem estruturas de toda vida vegetal. Um exemplo é o ADN, código genético que define as características dos seres vivos, que é um polímero. Portanto, temos polímeros naturais e polímeros sintéticos. Grande parte dos polímeros sintéticos é produzida a partir de reações químicas de derivados do petróleo, como os polímeros sintéticos PE, PP, PET, PC, náilons; polímeros de alto desempenho reforçados com fibra de vidro, de carbono ou de Kevlar (poliamida de alta resistência); os termoplásticos como o polietileno que amolece com aquecimento, os thermosets ou resinas como epóxi, que endurecem com a junção de dois compostos (uma resina e um endurecedor); os elastômeros ou borrachas; os polímeros naturais como a celulose, lignina e proteína, que proporcionam a base mecânica de grande parte da vida vegetal e animal. Observe no Quadro 4.4 algumas das utilizações dos polímeros. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 112 Quadro 3.4 | Aplicações de materiais polímeros Material Aplicação Polietileno, PE Tubulação, película, garrafas, xícaras, isolamento elétrico, embalagem. Polipropileno, PP As mesmas aplicações que o PE, porém é um material mais leve, mais rígido e mais resistente à luz do sol. Cloreto de Polivinila, PVC Utilizações voltadas à arquitetura (esquadrias de janelas etc). Se plastificado produz couro artificial, meias e vestuário. Náilon 66 Têxteis, corda, moldagens. Epóxi Fibra de vidro, adesivos. Produto mais caro que o poliéster. Poliéster Fibra de vidro, laminados. Produto mais barato que o epóxi. Poliisopreno Borracha natural. Celulose Estrutura de toda vida vegetal, principal componente estrutural em paredes de células. Proteína Gelatina, lã, seda. Fonte: elaborado pela autora. Conheça mais sobre os materiais cerâmicos, suas propriedades e aplicações acessando: <http://goo.gl/DwQeI5>; <http://goo.gl/p8ufcX>. Acesso em: 1 set. 2016. 1. (CALLISTER; RETHWISCH, 2015, p. 663) Um capacitor de placas simples armazena 7 0 10 5, x C− sob um potencial de 12000 V. Para este capacitor, utilizaremos um material dielétrico de cerâmica à base de titanato com uma constante dielétrica k = 2100 entre placas, as quais apresentam uma área de 6 45 10 4 2, x m− . Após a fabricação deste componente, qual será a distância de separação entre as placas? Utilize ε0 128 85 10= −, /x F m . a) 2,054mm. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 113 b) 1,043mm. c) 2,11m. d) 3,21m. e) 0,108m. 2. (CALLISTER; RETHWISCH, 2015, p. 650) Consideremos a área de 3 0 10 5 2, x m− para as placas paralelas de um capacitor, distantes de 2 0 10 3, x m− uma placa da outra, submetidas a uma diferença de potência de 10 V. Caso um material que apresentada uma constante dielétrica de ε r = 6 0, for alocado entre as placasparalelas, qual será o valor da capacitância do capacitor? a) 0,7965nF. b) 0,171nF. c) 6µF. d) 9,2µF. e) 7,9F. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 114 Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 115 Seção 2 Materiais ferroelétricos e piezoelétricos 2.1 Materiais ferroelétricos Introdução à seção Como vimos na seção anterior, os materiais dielétricos polarizam seus átomos sob a ação de um campo elétrico externo aplicado ao material. Agora, iremos compreender que não somente o material dielétrico pode ser polarizado desta forma, mas também por outros meios, como variação de temperatura. É importante ressaltar que existem materiais que não precisam de nenhum estímulo, ou seja, não precisam da aplicação de um campo elétrico externo para se polarizar, são os materiais ferroelétricos. Os materiais ferroelétricos apresentam polarização espontânea, mesmo na ausência de um campo elétrico externo e a polarização permanente pode ser mudada ou até mesmo invertida quando este material é exposto a um campo elétrico (SCHMIDT, 1979). Isto ocorre em consequência do posicionamento dos íons na estrutura cristalina, o que pode ser simétrica, Figura 3.10a, quando o material se encontra em uma temperatura acima da temperatura de Curie se apresenta em um estado paraelétrico, ou assimétrica, Figura 3.10b, quando a temperatura a qual o material se encontra está abaixo da temperatura de Curie se apresenta em estado ferroelétrico. Você já aprofundou seu estudo sobre materiais dielétricos, conhecendo a forma de polarização, o comportamento das estruturas destes materiais quando isolantes ou condutores de corrente e, sobretudo, seus conhecimentos quanto às propriedades dielétricas: constante dielétrica, rigidez dielétrica e o fator de perda. Agora, você aprofundará seus conhecimentos sobre duas novas características elétricas e relativamente importantes encontradas em alguns materiais: os ferroelétricos e piezoelétricos. Para adentrarmos nesse estudo, nos basearemos no princípio de polarização que estes materiais apresentam e serão apresentadas as principais aplicações destes materiais para a engenharia. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 116 No estado ferroelétrico, o material titanato de bário (BaTiO 3 ), representado na Figura 3.10b, apresenta o centro de cargas positivas não coincidente ao centro das cargas negativas, havendo um desequilíbrio entre as cargas, dando origem ao cristal ferroelétrico. Fonte: <http://goo.gl/2PE3GP>. Acesso em: 20 ago. 2016. Figura 3.10 | Polarização da célula unitária, mediante o deslocamento do átomo de Titânio, (a) com centro simétrico e com centro assimétrico O titanato de bário (BaTiO 3 ) é um dos clássicos conhecidos, pois suas propriedades cerâmicas influenciaram o desenvolvimento e a produção de dispositivos eletrônicos, favorecendo a produção de dispositivos da microeletrônica. Para BaTiO 3 , quando aquecido acima de sua temperatura de Curie (120°C), a célula unitária torna-se cúbica, acima desta temperatura crítica, o material perde o seu comportamento ferroelétrico. Outro material de relevada importância que exibe comportamentos ferroelétricos é o sal de Rochelle (NaKC 4 H 4 O 6 4H 2 O), conhecido também por tartarato de sódio e potássio tetrahidratado, um dos primeiros elementos de estudos ferroelétricos, permite monocristais grandes e de excelente propriedade óptica. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 117 Agora que você já sabe a aplicação dos materiais ferroelétricos, reflita: o que estes materiais possuem em comum com os ferromagnéticos? Quais materiais possuem aplicação desta característica na eletrônica? Outra característica importante dos materiais ferroelétricos é a presença do fenômeno histerese e uma estrutura de domínios, ou seja, uma região com determinada polarização. Como isso ocorre no material ferroelétrico? Consideramos os domínios como sendo as múltiplas regiões de polarização orientadas de forma aleatória e uniforme, ou seja, de maneira espontânea, Figura 3.11a. Quando aplicada uma diferença de potencial nos terminais do material ferroelétrico, os domínios tentem a assumir a mesma orientação dos dipolos elétricos, Figura 3.11b. Após a remoção da diferença de potencial, ou seja, do campo elétrico externo, os dipolos elétricos, em sua maioria, permanecem orientados, Figura 3.11c (FUJINO, 2006). Fonte: Fujino (2006, p. 18). Figura 3.11 | Representação hipotética da orientação de domínios ferroelétricos (a) orientação espontânea, sem aplicação do campo elétrico, (b) com aplicação do campo elétrico externo e (c) domínios orientados sem a presença do campo elétrico Após a representação da orientação dos domínios ferroelétricos, entender o que é histerese ferroelétrica ficou fácil. Vamos conferir? Consideramos a histerese como uma interferência à polarização, que por sua vez ocorre de forma não linear com o campo elétrico aplicado, representado na Figura 3.12. Os estados iniciais dos domínios ferroelétricos apresentam-se orientados aleatoriamente (O). Ao aplicar um campo elétrico de baixa intensidade, somente uma relação linear entre a polarização e o campo elétrico existe (segmento OA), porque os domínios tendem a permanecer na sua configuração inicial, devido à Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 118 intensidade do campo elétrico. Os pontos (D) e (H) são as configurações estáveis quando o campo elétrico é igual a zero, momento em que alguns domínios ferroelétricos permanecerão alinhados na direção positiva ou negativa e o cristal exibirá uma polarização remanescente (Pr). Se o segmento (BC) ultrapassar o eixo de polarização (P), temos o momento de polarização espontânea. A fim de reduzir a polarização P ao zero, é necessário aplicar um valor de campo elétrico externo, chamado campo coercitivo (Ec). Se o campo elétrico aumenta na direção oposta à polarização até (G), uma nova rotação ocorrerá e os dipolos ficarão orientados em direção oposta, podendo os domínios experimentar uma nova reorientação. Se realizarmos a inversão do campo elétrico (alterando as polaridades da ligação, por exemplo) o ciclo se repetirá (FUJINO, 2006). Se considerarmos a construção de um capacitor, com um material ferroelétrico ao invés de um dielétrico entres as placas paralelas, iremos obter um componente altamente não linear. Utilizado ainda em poucas aplicações como memórias DRAM, capacitores robustos para usar em aparelhos transmissores de ondas de rádio, cerâmicas ferroelétricas transparentes em aplicações para janelas óticas, displays, moduladores óticos e guias de onda, filmes finos como titanatos de bismuto (BIT) e niobato de bário e estrôncio (SBN). Estes materiais possuem alta aplicação na indústria eletroeletrônica, por apresentarem diversas aplicações práticas em atuadores e sensores. Fonte: Fujino (2006, p. 19). Figura 3.12 | Ciclo de histerese ferroelétrica Aprofunde seus conhecimentos sobre materiais ferroelétricos e suas aplicações acessando: Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 119 Disponível em: <http://goo.gl/YVc8lA>; <http://goo.gl/xlW4ce>; <http://goo.gl/FxZU7Q>; <http://goo.gl/KWxp8Q>. Acesso em: 1 set. 2016. 2.2 Materiais piezoelétricos Como acabamos de estudar, os materiais ferroelétricos sofrem uma alteração em sua polarização devido à temperatura de Curie. Apresentamos agora os materiais cerâmicos piezoelétricos, em que o prefixo piezo significa pressão, ou seja, a eletricidade pela pressão. Como ocorre essa eletricidade pela pressão? Assim como os ferroelétricos, os piezoelétricos apresentam dipolos elétricos que devido ao alinhamento de muitos destes dipolos, o material apresenta um momento bipolar não nulo, ou seja, os centros das cargas positivas e das negativas não coincidem, Figura 3.13a. Sujeito a tensões de compressão entre os seus terminais, o material apresenta um acúmulode cargas positivas em uma extremidade e na outra extremidade cargas negativas, como consequência minimiza o momento bipolar total por unidade volumétrica do material, logo, a distância entre os dipolos unitários é reduzida e o material se contrai, gerando uma deformação mecânica, Figura 3.13b. Ao aplicar uma diferença de potencial, as extremidades do material, o campo elétrico gerado induz a mudança de orientação dos dipolos elétricos, que ligeiramente alonga o material devido ao aumento da carga positiva, atraindo os polos negativos do dipolo e o contrário na outra extremidade, Figura 3.13c. Isto caracteriza o efeito piezoelétrico inverso e direto respectivamente. Essa é uma forma de transformar energia elétrica em mecânica, pois o cristal vibra com a frequência do campo alternado aplicado e em proporção ao diferencial de tensão. Fonte: Van Vlack (1970, p. 219). Figura 3.13 | Em (a) dipolos em um material piezoelétrico; (b) tensões de compressão provocam variações dimensionais e (c) a mudança de orientação dos dipolos induz à deformação pela diferença de potencial Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 120 Logo, podemos caracterizar o efeito piezoelétrico como a transformação de energia mecânica em energia elétrica, podendo também ocorrer o fenômeno inverso, transformar a energia elétrica em mecânica. Esta forma de funcionamento provoca pequenas “vibrações” no material, ao converter a energia mecânica para energia elétrica o que acontece por exemplo em microfones, ou o inverso ocorre nos autofalantes. “Os dispositivos eletromecânicos resultantes, que são denominados de transdutores, são normalmente utilizados para produzir ondas sonoras de alta frequência e na sintonização de circuitos elétricos” (VAN VLACK, 1970, p. 219). Qual a principal invenção utilizando as cerâmicas piezoelétricas, descoberta durante a primeira guerra mundial? Alguns tipos de materiais que oferecem a variação da polarização são: os materiais ferroelétricos, a turmalina, o topázio, sulfato de lítio, o quartzo. Também se apresentam em ordem de importância os materiais cerâmicos construídos a partir de soluções sólidas de zirconato de chumbo (PbZrO 3 ) e titanato de chumbo (PbTiO 3 ) utilizados na fabricação das cerâmicas PZT. Os materiais PZT apresentam maiores propriedade piezoelétricas do que o titanato de bário, incluindo a temperatura de Curie mais alta. Podemos citar alguns exemplos destes materiais e suas aplicações industriais como: PTZ-4 aplicado a sistemas de limpeza por ultrassom e fisioterapia; PTZ-5A aplicado principalmente em sensores e transdutores fabricados para ensaios não destrutivos; o PZT-5J e 5H para geradores de faísca por impacto aplicado como fonte de ignição para isqueiros. A Figura 3.14 mostra a atuação de um ignitor piezoelétrico. “Um outro exemplo é um transdutor de ultrassom subaquático, no qual a potência elétrica de entrada o faz vibrar Fonte: <http://goo.gl/2PE3GP>. Acesso em: 20 ago. 2016. Figura 3.14 | Expansão e contração de um disco piezoeléctrico, em resposta a uma pressão aplicada Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 121 e assim transmitir ondas sonoras” (SMITH; HASHEMI, 2012, p. 575). Outras aplicações de uso cotidiano que incluímos são: os autofalantes, os microfones, as impressoras a jato de tinta e relógios de quartzo. Ao aplicar um campo elétrico ao material piezoelétrico, como o titanato de bário, o que se pode esperar com relação às dimensões físicas deste material? As substâncias piezoelétricas têm grandes aplicações tecnológicas. Conheça algumas delas acessando: <http://goo.gl/6O7aSd>; <http://goo.gl/tkYOIo>. Acesso em: 20 ago. 2016. Além disso, aprofunde seu conhecimentos sobre o efeito piezoelétrico acessando: <https://www.youtube.com/watch?v=asFZS84lfn0>; <https://www.youtube.com/watch?v=ftchx1TDNJo>; <https://www.youtube.com/watch?v=p9E9P0gQFlg>. Acesso em: 20 ago. 2016. 1. Os materiais dielétricos, principalmente os ferroelétricos, são muito utilizados na indústria, principalmente na aplicação de sensores e atuadores, devido a sua forma de polarização ocasionada a partir da temperatura. A respeito da variação de temperatura, assinale a alternativa correta que caracteriza um material ferroelétrico. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 122 a) Um material dielétrico é considerado ferroelétrico quando apresenta uma temperatura acima da temperatura de superfície. b) Um material dielétrico é considerado ferromagnético quando apresenta uma temperatura de compressão sob a estrutura de placas paralelas. c) Um material paraelétrico é considerado ferromagnético quando apresenta uma temperatura acima da temperatura de Curie. d) Um material isolante é considerado ferroelétrico quando apresenta uma temperatura abaixo da temperatura de Curie. e) Um material isolante é considerado ferromagnético quando apresenta uma temperatura abaixo da temperatura de superfície. 2. Com o alto investimento em automação, os transdutores foram bastante difundidos na área industrial, devido ao tipo de polarização deste elemento, em que há uma proporção entre a geração de cargas e as tensões mecânicas aplicadas e, entre a deformação em função de um campo elétrico aplicado. Dentre as diversas aplicações, citamos o uso em dispositivos de geração de imagem por ultrassom. Os transdutores participam de qual grupo de materiais? a) Materiais ferromagnéticos. b) Materiais piezoelétricos. c) Materiais ferroelétricos. d) Materiais semicondutores. e) Materiais condutores. Nesta unidade, você aprendeu: • A definir um dipolo elétrico. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 123 • As diversas formas de polaridade de um material isolante. • Os conceitos relacionados à condutividade em isolantes, tais como, bandas de condução. • A definir capacitância. • A calcular a capacitância de um capacitor de placas paralelas no vácuo e com a presenção de um isolante. • As três propriedades apresentadas na maioria dos dielétricos, tais como, constante dielétrica, rigidez dielétrica, bem como o fator de perda. • Como ocorre e em que influencia a polarização de um material dielétrico. • A atuação do campo elétrico nos materiais isolantes. • A calcular a área entre as placas paralelas de um capacitor. • A distinguir os materiais ferroelétricos e piezoelétricos. • A definir constante dielétrica. As aplicações de materiais dielétricos de alto desempenho, ferroelétricos e piezoelétricos voltados à engenharia. Espera-se que ao final desse estudo você compreenda que os materiais dielétricos ou isolantes são altamente influenciados, quanto ao seu funcionamento, principalmente, pelo tipo de polarização que recebem, bem como pela atuação das propriedades: constante dielétrica, rigidez dielétrica e o fator de perda. Essas propriedades seguem as características do tipo de material a ser utilizado (tipo de ligação, estrutura e defeitos no cristal, constituição das fases), a temperatura a que serão submetidos, a tensão e frequência aplicadas ao funcionamento e o tempo que permanecerá ligado à mesma tensão. Vale destacar que para que para melhor aproveitamento dos conteúdos abordados nesta disciplina, é muito importante que você realize a leitura atenta do material, dedique tempo à resolução dos exercícios indicados como exemplos e às Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 124 atividades de aprendizagem, se possível, realize pesquisas adicionais em bibliotecas e sites, além do acesso e estudo dos materiais que compõem a bibliográfica desta unidade. Bons estudos! 1. Façamos uso de um capacitor de placas paralelas para o projeto de uma placa eletrônica, em que o material dielétrico instalado entre as placas dispõe da constante dielétrica ε r = 2 5, e apresenta um espaçamento de 1mm. Considerando a necessidade de troca deste dielétrico para um que apresente ε r = 4 0, e a capacitânciapermanecer inalterada, qual deverá ser o novo espacamento entre as placas εd ? a) 1 mm. b) 1,3 mm. c) 1,6 mm. d) 2,0 mm. e) 2,2 mm. 2. (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 663) Considerando que um capacitor de placas paralelas tenha uma área de 2500mm² e a distância de separação entre as placas seja de 2mm e, sendo que o material dielétrico presente entre as placas apresenta uma constante dielétrica de 4,0, qual deve ser a capacitância do capacitor? a) 1 mm. b) 1,3 mm. c) 1,6 mm. d) 2,0 mm. e) 2,2 mm. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 125 3. Considere as afirmativas a respeito dos materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos: I- A propriedade constante dielétrica é comum a todos os materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos. II- Os materiais piezoelétricos realizam apenas a conversão de energia elétrica para energia mecânica. III- O polímero é um material dielétrico, no qual se encontram classificados apenas materiais plásticos. Assinale a alternativa correta: a) Somente a afirmativa I está correta. b) Somente a afirmativa II está correta. c) Somente a afirmativa III está correta. d) Somente as afirmativas I e III estão corretas. e) Somente as afirmativas II e III estão corretas. 4. Os polímeros são materiais dielétricos conhecidos por apresentarem diversas aplicações, por causa das características do tipo de material utilizado (tipo de ligação, estrutura e defeitos no cristal, constituição das fases) e suas propriedades, em que, dependendo destas, um polímero pode ser usado em duas ou mais funções. Características e aplicações específicas de alguns materiais são descritas a seguir. - O polímero I apresenta-se como um dos polímeros mais leve, mais rígido e mais resistente à luz do sol. - O polímero II é certamente o mais utilizado como base mecânica de grande parte da vida vegetal e animal. - O polímero III é produzido pela mistura de dois componentes que reagem e endurecem, seja em temperatura ambiente ou por aquecimento. - O polímero IV possui aplicações na área de arquitetura, bem como quando submetido à plastificação produz couro artificial, meias e vestuário. Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos U3 126 Os polímeros, I, II, III e IV são, respectivamente: a) Poliisopreno, celulose, poliéster e polietileno. b) Poliestireno, lignina, fenolformaldeído e pvc. c) Polipropileno, celulose, epóxi e pvc. d) Polipropileno, proteína, poliéster e náilon. e) Polipropileno, proteína, epóxi e cloreto de polivinila. 5. Os materiais cerâmicos possuem propriedades elétricas e mecânicas que os tornam particularmente adequados para uso como isolantes em muitas aplicações nas indústrias elétrica e eletrônica. Dentre os materiais abordados em nosso estudo, um deles apresenta melhor tenacidade e maior leveza, além de ser o que melhor apresenta combinações de propriedades úteis à engenharia, estamos nos referindo à: a) Alumina. b) Nitreto de silício. c) Carbeto de silício. d) Zircônia. e) Forsterita. U3 127Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos Referências CALLISTER, William D.; RETHWISH, David G. Ciência e engenharia de materiais: uma introdução. Tradução de: Sergio Murilo Stamile Soares. Rio de Janeiro: LTC, 2015. FUJINO, Roberto T. Transições de fases estruturais em cerâmicas ferroelétricas do Sistema PMN-PT. 2006. 90 f. Dissertação (Mestrado em Ciências dos Materiais) -Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, São Paulo. 2006. Disponível em: <http://www.fqm.feis.unesp.br/pos/teses/disser-46.pdf>. Acesso em: 1 set. 2016. SCHMIDT, Valfredo. Materiais elétricos. São Paulo: Edgard Blücher, 1979. SMITH, William F.; HASHEMI, Javad. Fundamentos de engenharia e ciência dos materiais. Tradução de: Necesio Gomes Costa, Ricardo Dias Martins de Carvalho, Míriam de Lourdes Noronha Motta Melo. 5. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012. VAN VLACK, Lawrence Hall. Princípios de ciência dos materiais. Tardução: Luiz Paulo Camargo Ferrão. São Paulo: Edgard Blücher, 1970. U3 128 Materiais dielétricos, ferroelétricos e piezoelétricos Materiais ferromagnéticos e supercondutores Na primeira seção dessa unidade, evidenciamos como ocorre o fenômeno de magnetização, as linhas de campo e a classificação dos materiais quanto as suas propriedades magnéticas, bem como a densidade de fluxo magnético e a atuação do campo magnético nos diversos tipos de materiais. De maneira mais específica, focamos o estudo em três tipos de materiais: os ferromagnéticos, diamagnéticos e os paramagnéticos. Na segunda seção dessa unidade, apresentamos a ocorrência do fenômeno elétrico da supercondutividade e as propriedades apresentadas pelos materiais que os tornam supercondutores, bem como a variação de temperatura a que os materiais são submetidos para serem classificados em supercondutores do tipo I ou supercondutores do tipo II. Seção 1 | Propriedades dos materiais ferromagnéticos Seção 2 | Propriedades dos materiais supercondutores Objetivos de aprendizagem: Com essa unidade, objetiva-se que você apreenda os materiais magnéticos e como se comportam quanto as suas propriedades magnéticas, bem como o que lhe ocorre quando submetidos a uma corrente elétrica. Além disso, evidenciamos o estudo da supercondutividade na apresentação dos materiais supercondutores, suas características e aplicações no campo da engenharia. Dentre os tipos de materiais magnéticos, destacamos a classe de materiais ferromagnéticos, conhecidos como ímãs permanentes devido a sua facilidade de magnetização e forças de atração intensa. Patrícia Beneti de Oliveira Unidade 4 Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 130 Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 131 Introdução à unidade Nesta unidade, iniciaremos o estudo sobre materiais magnéticos e supercondutores. A análise quanto ao momento de dipolo magnético, ou seja, a orientação dos elétrons em torno do átomo e sua orientação em seu próprio eixo, este último proporcionando o efeito spin. A partir destes estudos, podemos verificar o efeito de magnetização dos materiais e a partir deste comportamento classificá-los em: ferromagnéticos, diamagnéticos, paramagnéticos, antiferromagnetismo e ferrimagnetismo. E também verificar a atuação de um solenoide em razão da permeabilidade de um material, ou em função do espaço livre ao centro da bobina. Por fim, iniciamos a exploração dos materiais supercondutores e suas propriedades magnéticas, começando com a verificação da variação de temperatura: quais os pontos de temperatura crítica do material, ou seja, o momento que o material se torna supercondutor. Encerramos com as abordagens sobre as aplicações dos materiais supercondutores. Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 132 Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 133 Seção 1 Propriedades dos materiais ferromagnéticos Introdução à seção 1.1 Magnetização dos materiais Nesta seção, o objetivo é conduzir você, estudante, a evidenciar algumas das propriedades fundamentais dos materiais magnéticos que dependem principalmente do movimento dos elétrons em torno do átomo e o giro em seu próprio eixo, caracterizando pequenos ímãs compostos por polo norte e polo sul. Considerando essa propriedade magnética, iremos classificar os materiais em termos de suas propriedades magnéticas, sendo: ferromagnéticos, diamagnéticos, paramagnéticos, antiferromagnetismo e ferrimagnetismo. Dentre tais conceitos, você estudará: a densidade de fluxo magnético, a permeabilidade do material e do espaço livre, a força magnetizante e a indutância. Ainda nesta seção, você conhecerá diversas aplicações de cada classificação do material magnético na área de engenharia. Os materiais magnéticos estão presentes em diversos projetos de engenharia, principalmente em engenharia elétrica. Os efeitos magnéticos e eletromagnéticos proporcionam influências de atração ou de repulsão entreos materiais. Muitos dispositivos modernos utilizam-se de tecnologias aliadas aos fenômenos magnéticos, possibilitando maior desempenho durante suas aplicações. De modo geral, os materiais magnéticos apresentam dois tipos principais: materiais magnéticos duros e moles. Veremos que os materiais magnéticos moles são fáceis de magnetizar e desmagnetizar, sujeitos a campos magnéticos alternados, apresentam baixas perdas de energia. Como exemplo de aplicação destes materiais, podemos citar os núcleos de transformadores de potência de linhas de distribuição de energia, materiais para estatores e rotores de motores e geradores. Já o grupo de materiais magnéticos duros apresenta alta resistência à desmagnetização, normalmente acumula o campo magnético no material e são empregados principalmente em ímãs permanentes, tais como ímãs de alto-falantes, Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 134 receptores de telefones e computadores, motores síncronos e motores de partida de automóveis. Podemos então nos questionar: por que e como um material se magnetiza? Analogamente ao conceito de dipolo elétrico, apresentado na Unidade 3, um material se magnetiza pela análise do comportamento do dipolo magnético. Este se apresenta nos materiais magnéticos através do movimento de partículas carregadas eletricamente, ou seja, o movimento dos elétrons em torno do átomo (dipolo magnético), bem como o efeito spin (giro em seu próprio eixo) caracterizam pequenos ímãs compostos por polo norte e polo sul, em vez de cargas elétricas positivas e negativas, denominados de momento de dipolo magnético, representados na Figura 4.1. Fonte: <http://midia.atp.usp.br/ensino_novo/eletromagnetismo/ebooks/descricao_macroscopica.pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. Figura 4.1 | Representação do dipolo magnético e efeito spin Na maioria dos casos, os elétrons nos átomos são emparelhados de modo que os momentos magnéticos (ms ) positivo e negativo se cancelam. Caracterizando o momento magnético fundamental, Callister e Rethwisch (2015) afirma ser o magnéton de Bohr, µB , que possui valor: µ πB eh m = 4 Em que: e é o valor da carga eletrônica; h constante de Planck (6 63 10 34, .x J s− ); m massa do elétron. Para o Sistema Internacional de Unidades, o magnéton de Bohr possui magnitude de 9 27 10 24, . ²x Am− . Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 135 Em geral, o magnetismo é um fenômeno bipolar, não tendo sido descoberto até hoje nenhum monopólio magnético. A tendência de orientação de dipolos magnéticos, ou seja, a soma de n dipolos magnéticos é que orienta a magnetização dos materiais classificados em duas categorias: materiais de magnetização permanente, como os ímãs, e materiais que adquirem a magnetização quando submetidos a um campo magnético externo. Devemos nos atentar que os campos magnéticos também são gerados pela corrente elétrica que transpassa um condutor. A Figura 4.2 demonstra a formação das linhas de campo magnético ao redor de uma bobina de fio de cobre, denominada por solenoide. Foram utilizados para a visualização do fenômeno limalha de ferro em uma folha de papel sobre a barra. Fonte: <https://fenix.tecnico.ulisboa.pt/downloadFile/3779571816505/Teoric2Maio(PropMag).pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. Figura 4.2 | Representação do campo magnético formado por um solenoide Agora que você já sabe o comportamento do campo magnético, reflita: quando podemos dizer que um material está magnetizado? É importante destacar que o estudo das estruturas dos materiais magnéticos promoveu, ao longo do tempo, o aparecimento de novas soluções para uma série de aplicações elétricas. Um exemplo é a mudança dos tradicionais núcleos ferromagnéticos estampados para núcleos fabricados por meio de sinterização (compactação do pó de metal magnético), desta maneira é possível realizar qualquer configuração do núcleo. Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 136 Aprenda mais sobre as tendências de uso dos núcleos fabricados por meio de sinterização no link a seguir. Disponível em: <http://www.lume. ufrgs.br/handle/10183/60674?locale=pt_BR>; <htpp://goo.gl/O4N9vT>. Acesso em: 14 set. 2016. Os núcleos magnéticos ajudam na diminuição de perdas do transformador. Os núcleos utilizados para a construção de indutores e transformadores são fabricados a partir da liga de ferro silício. O processo de construção ocorre pelo acoplamento de lâminas (0,3 mm de espessura), isoladas umas das outras, assim cria-se uma resistência diminuindo as perdas pela corrente de Focault ou corrente induzida. Estes núcleos possuem uma região de atuação linear, conforme o aumento do campo magnético (H), aumenta-se a densidade de fluxo magnético (B). Contudo, acima da temperatura de Curie, a região não é mais linear, e o aumento de B não é mais tão relevante quanto de H, saturando o núcleo o prejudicando seu funcionamento. Desta forma, ressaltamos a correspondência que existe entre o campo magnético e a corrente elétrica nos ímãs, estes proporcionando o efeito de indução e o da tensão induzida. O campo magnético pode ser descrito pela análise da totalidade, ou seja, pela densidade volumétrica dos dipolos existentes. Veremos alguns tipos de materiais que apresentam magnetização permanente, os ferromagnéticos, ou seja, exibem uma magnetização independente de campo externo. E também os materiais paramagnéticos e diamagnéticos, estes alteram o momento de dipolo a fim de manterem-se contrários à polarização do campo externo e aqueles por somente se magnetizarem quando o campo externo está presente, representados na Figura 4.3. Fonte: <http://midia.atp.usp.br/ensino_novo/eletromagnetismo/ebooks/diamagnetismo.pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. Figura 4.3 | Tipos de materiais magnéticos indicados na tabela periódica Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 137 1.2 Classificação dos materiais em termos de suas propriedades magnéticas 1.2.1 Materiais ferromagnéticos Você, pelo menos uma vez, já deve ter manuseado um ímã, aqueles de colocar em porta retratos ou na geladeira. Também já deve ter percebido que estes ímãs apresentam-se permanentemente magnetizados. E como será que isto ocorre? Os ímãs permanentes devem apresentar elevado magnetismo residual, ou seja, o material é magnetizado e após cessar as forças de magnetização aplicadas, não cessam as forças magnetizantes no material. Assim, dizemos que o material retém o magnetismo, o que é típico de materiais magnéticos ditos duros, os materiais ferromagnéticos. Estes materiais caracterizam-se, como vimos, por uma magnetização espontânea, ou seja, não dependem de um campo externo para proporcionar o fenômeno da magnetização, ou seja, os dipolos se espalham pelo material independente da presença de um campo magnético externo, ou seja, caso fossem dependentes, a magnetização seria nula quando o campo externo cessasse. Logo, estes materiais apresentam comportamentos não lineares. Assim recebem o nome de ímãs, devido à força de atração ser intensa. Além disso, estes materiais ao sofrerem alterações em suas propriedades, normalmente quando atingem uma temperatura crítica, passam de ferromagnético para diamagnético. Abaixo desta temperatura crítica, denominada de temperatura de Curie, o material apresenta “um grande número de pequenas seções conhecidas por domínios, [...], e que se caracterizam por possuir uma única orientação magnética, ou seja, são dotados, cada um, de um vetor de campo magnético unitário próprio” (SCHMIDT, 1979). Se os domínios forem orientados aleatoriamente, então não haverá magnetização resultante em uma amostra finita do material. Desta forma, o alinhamento paralelo dos dipolos magnéticos de átomos de Fe, Co e Ni são devido à criação de uma energia de troca positiva entre eles, ou seja, os momentos magnéticos permanentes, nos materiais ferromagnéticos, correspondem aos momentos magnéticos atômicos devidos aos spins dos elétrons internos desemparelhados que se alinhamas suas redes cristalinas, Figura 4.4. É possível construir um ímã permanente que possa ser ligado e desligado quando quiser? Qual seria uma utilidade para isso? Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 138 Fonte: <http://midia.atp.usp.br/ensino_novo/eletromagnetismo/ebooks/descricao_macroscopica.pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. Figura 4.4 | Representação dos domínios desmagnetizado e magnetizado por indução Esta característica de alinhamento dos dipolos permite ao material ferromagnético concentrar o campo magnético que transpassa por ele, devido a esta propriedade, estes materiais são muito importantes na construção de componentes como os indutores e transformadores. Como estes materiais apresentam características não lineares, ou seja, a indução magnética B depende diretamente da atuação do campo magnético H, temos a formação do fenômeno conhecido como histerese, a partir da curva de magnetização. Estudamos a respeito no Item 2.1 Materiais ferroelétricos da Unidade 3, Seção 2. Retome a leitura do material, inclusive abordamos a orientação dos domínios do material ferroelétrico, analogamente à magnetização. Agora, pensemos na bobina apresentada na Figura 4.5. Ao considerar o material no seu interior sendo ferromagnético, iremos obter um campo induzido, ou seja, uma indução magnética mais intensa do que em apenas um fio, pois ao passar uma corrente pelo solenoide com um núcleo magnético, o fluxo magnético aumenta através da bobina. “Em equipamento de corrente alternada, o núcleo é primeiramente magnetizado em uma direção e depois na outra, quando a corrente é invertida” (VAN VLACK, 1970, p. 121). Você se recorda do conceito de histerese? E como ela ocorre? Antes de continuar seus estudos, é fundamental recordar esses conceitos. Para isso, acesse os links. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=BL4F-Afugio>; <https://www. youtube.com/watch?v=uJtv49litNg>; <https://www.youtube.com/ watch?v=BXARaPglFJg>. Acesso em: 15 de set. 2016. Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 139 Fonte: <http://coral.ufsm.br/cograca/graca9_1.pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. Fonte: <http://museuweg.net/blog/category/eletricidade/>. Acesso em: 14 set. 2016. Figura 4.5 | Campo magnético gerado por uma bobina cilíndrica e interferência deste campo com a inserção de um material sólido Figura 4.6 | Representação de um eletroímã (solenoide com um núcleo ferromagnético) Logo, temos o princípio de construção de um eletroímã, representado na Figura 4.6. Este, por sua vez, possui diversas aplicações, como: o uso em campainhas, alto- falantes, eletroímã para sucatas, relés e rotores em motores elétricos. Podemos considerar como principais materiais ferromagnéticos aplicados à engenharia, o Ferro (Fe), o Níquel (Ni) e o Cobre (Co), também conhecidos por materiais magneticamente duros. Os metais de transição Dy (disprósio), Gd (gadolínio), Tb (térbio), Ho (hólmio) também são ferromagnéticos à temperatura ambiente, mas possuem pouca aplicação industrial. 1.2.2 Materiais diamagnéticos O diamagnetismo ocorre em todos os materiais, mas em muitos o efeito magnético negativo é cancelado por efeitos magnéticos positivos, ou seja, os elétrons encontram-se emparelhados (Figura 4.7). Estes materiais apresentam uma susceptibilidade negativa muito pequena da ordem χm ≈ − −10 5 (Quadro 4.1). Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 140 Identificamos o fenômeno de repulsão (Figura 4.8) ao aproximar um material diamagnético de um ímã, ou de qualquer outro material magnético, ou seja, apresenta o fenômeno contrário aos materiais ferromagnéticos. Além disso, quando colocados entre os polos de um eletroímã forte, os materiais diamagnéticos tendem a posicionar-se nos locais em que as linhas de campo são extremamente fracas. Fonte: <http://midia.atp.usp.br/ensino_novo/eletromagnetismo/ebooks/diamagnetismo.pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. Fonte: <http://midia.atp.usp.br/ensino_novo/eletromagnetismo/ebooks/diamagnetismo.pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. Figura 4.7 | Representação do material diamagnético e a atuação dos dipolos atômicos Figura 4.8 | Repulsão entre material diamagnético e ímã Este fenômeno ocorre em materiais que não possuem momentos de dipolos elétricos permanentes, podemos citar como elementos deste grupo os gases inertes, metais (cobre, gálio, ouro etc.), bem como a grafita e bismuto que demonstram intensamente este comportamento. Devemos ressaltar que o diamagnetismo não é muito utilizado na engenharia. 1.2.3 Materiais paramagnéticos Assim como o diamagnetismo, o paramagnetismo apresenta formas fracas de interação entre o sólido e um campo magnético aplicado. Assim, exibe magnetização apenas na presença de um campo magnético externo (Figura 4.9), ou seja, o efeito paramagnético extingue-se quando o campo magnético aplicado é removido. Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 141 Neste fenômeno, os momentos dos dipolos atômicos se alinham de alguma forma preferencial: de acordo com a presença do campo magnético, por rotação (spins), ou ainda momentos de dipolos permanentes em virtude do cancelamento incompleto dos momentos magnéticos de spin e/ou orbital do elétron (Figura 4.10). Fonte: <http://midia.atp.usp.br/ensino_novo/eletromagnetismo/ebooks/paramagnetismo_dos_materiais.pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. Fonte: <http://midia.atp.usp.br/ensino_novo/eletromagnetismo/ebooks/diamagnetismo.pdf>. Acesso em: 14 set. 2016. Figura 4.9 | Atuação do campo magnético (H) em material paramagnético Figura 4.10 | Representação do material paramagnético e a atuação dos dipolos atômicos Agora que você já sabe as orientações dos dipolos magnéticos para cada material e o seu comportamento, reflita: por que repetidas quedas de um ímã permanente sobre o piso farão com que ele fique desmagnetizado? Aprenda mais sobre as propriedades magnéticas dos materiais e suas aplicações:<http://www.bv.fapesp.br/pt/dissertacoes-teses/2681/ propriedadesmagneticas-de-sistemas-nanocristalinos/>; <http://www.sbfisica.org.br/rbef/pdf/v22a58.pdf>; <http://www.locus.ufv.br/handle/123456789/952>. Acesso em: 14 set. 2016. Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 142 1.2.4 Antiferromagnetismo e ferrimagnetismo Lembrando que as propriedades magnéticas dependem dos momentos de dipolo, para o fenômeno de antiferromagnetismo, os átomos se alinham em direções contrárias, ou seja, os momentos magnéticos estando opostos, ocorrerão cancelamentos entre si, “como consequência, o sólido como um todo não apresenta qualquer momento magnético resultante” (CALLISTER; RETHWISH, 2015, p. 690), verifique a representação na Figura 4.11. O antiferromagnetismo tem como principal material o cromo, que em fase sólida apresenta este comportamento. Podemos incluir também alguns elementos de manganês como o óxido de manganês (MnO). Já o ferrimagnetismo ocorre em alguns materiais cerâmicos com magnetização permanente e os íons possuem diferentes valores e momentos magnéticos, o que faz com que não se anulem. Isto podemos observar também na Figura 4.11. Os materiais ferrimagnéticos naturais são conhecidos como ferrites, tendo como principal componente a magnetita, Fe3O4, a pedra-ímã dos povos antigos. Em geral, as ferrites apresentam “baixos valores de condutividade, o que as torna úteis para muitas aplicações em eletrônica” (SMITH; HASHEMI, 2012, p. 611), como em transformadores e indutores de alta frequência, cabeças de gravação magnética. Fonte: <http://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0711041_09_cap_01.pdf>. Acesso em: 20 set. 2016 Figura 4.11 | Orientação dos dipolos magnéticos em campo nulo e temperatura ambiente e curvas de M e H para os tipos de materiais magnéticos Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 143 1.3 Características dos materiais magnéticos A distribuição de um campo magnético em torno de um material é simbolizada pela interação das linhas de campo. Em um ímã permanente, existe um campo magnético comlinhas que se direcionam do polo norte ao polo sul, representamos este comportamento na Figura 4.12. Lembramos que qualquer fio percorrido por uma corrente elétrica irá apresentar linhas de campo circulares concêntricas, em que o uso da regra da mão direita determina a direção e sentido destas linhas, que induzirão a formação de um campo magnético ao redor do condutor. Este terá seu sentido alterado caso alterne-se o sentido da corrente elétrica, comportamento representado na Figura 4.13. Sendo o condutor enrolado, temos a formação de uma espira, que apresenta linhas de campo resultantes de mesma direção e sentido, logo, se tivermos diversas espiras, teremos um campo magnético em caminho contínuo ao centro e em torno de cada condutor e da bobina formada, como podemos observar na representação da Figura 4.14. Agora, a intensidade do campo gerado pode ser ampliada ao inserir núcleos de determinados materiais como ferro, aço ou cobalto, para aumentar a densidade Fonte: <http://eletrotecnicasms.blogspot.com.br/2011/05/campos-magneticos.html>. Acesso em: 20 set. 2016. Fonte: <http://midia.atp.usp.br/ensino_novo/eletromagnetismo/ebooks/a_lei_de_ampere.pdf>. Acesso em: 20 set. 2016. Figura 4.12 | Linhas de campo para um ímã permanente Figura 4.13 | Direção e sentido das linhas de campo em um condutor retilíneo Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 144 de fluxo no interior da bobina, como vimos na Figura 4.5. Assim, chegamos a um eletroímã que apresenta as mesmas propriedades de um ímã permanente e produz um campo magnético cuja intensidade pode ser modificada alterando-se um dos parâmetros (corrente, número de espiras etc.). No SI de unidades, o fluxo magnético, ao redor do condutor e/ou bobina, é medido em webers (Wb) e o seu símbolo é a letra grega phi (φ ). O número de linhas de campo por unidade de área (A=m²) é chamado de densidade de fluxo magnético, representado pela letra B e medido em teslas (T), assim: B A = φ No caso da Figura 4.12, a densidade de fluxo é duas vezes maior em a do que aquela em b, pois em a temos duas vezes mais linhas de campo atravessando a mesma área. A densidade do fluxo de um eletroímã está diretamente relacionada ao número de espiras em torno do núcleo pela intensidade da corrente que atravessa o enrolamento. Ao produto destes dois elementos chamamos de força magnetomotriz, medida em ampère-espira (Ae) definida pela expressão: F NImm = Assim, concluímos que se você aumentar o número de espiras em torno do núcleo e/ou aumentar a corrente através do enrolamento, a força do campo magnético também aumentará. Logo, a força magnetomotriz por unidade de comprimento é chamada de força magnetizante (H), na forma da equação: H F l mm= , substituindo na expressão a força magnetomotriz, encontramos H NI l Ae m= ( / ) . Fonte: <http://midia.atp.usp.br/ensino_novo/eletromagnetismo/ebooks/a_lei_de_ampere.pdf>. Acesso em: 20 set. 2016. Figura 4.14 | Representação do campo magnético em uma espira Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 145 Fonte: <http://www.ing.uc.edu.ve/electrica/potencia/maqelec1/index.php?option=com_content&view=article&id=82&Item id=113>. Acesso em: 21 set. 2016. Figura 4.15 | Definição da força magnetizante de um circuito magnético de um toroide1 Exemplo 1: (BOYLESTAD, 2012, p. 431) Considere o circuito magnético apresentado na Figura 4.15, em que NI Ae = 40 e l m= 0 2, . Determine o valor da força magnetizante presente neste arranjo de espiras. Resolução: considerando o arranjo de espiras sendo um toroide, podemos aplicar a fórmula da força magnetizante (H), em que: H NI l Ae m= = =40 0 2 200 , / Logo, ao analisarmos este resultado, verificamos que existem 200A de pressão/ força para estabelecer um fluxo magnético no núcleo da espira. Outro fator que afeta a intensidade do campo magnético, como já conhecemos, é o tipo do núcleo usado. Se o material será ferromagnético, diamagnético ou paramagnético teremos alterações quando a permeabilidade do meio, ou seja, quanto à facilidade com que linhas de fluxo magnético podem ser estabelecidas no material ou no espaço livre (vácuo). Para a permeabilidade do ar 0µ há um valor específico 4 10 7π x T m A− ( . / ) ou ( , ) /1 257 10 6x H m− , agora a razão da permeabilidade de um material em função do espaço livre, chamamos de permeabilidade relativa, isto é, µ µ µr = 0 , relacionada à facilidade do campo B ser induzido na presença de um campo externo H. Em geral, para os materiais ferromagnéticos µr ≥100 e para os materiais não magnéticos µr =1. 1Arranjo de espiras, formando uma superfície de revolução, que pode ser pensada como de um círculo que percorre uma circunferência de raio R. Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 146 Logo, a força magnetizante e a densidade de fluxo estão relacionadas de acordo com: B H= µ Em que: B corresponde à indução magnética ou densidade de fluxo magnético, ou seja, representa a magnitude do campo interno no interior de uma substância que está sujeita a um campo, a unidade Wb/m²; µ permeabilidade magnética, definida pela razão entre a indução magnética B e o campo aplicado H. H campo magnético que é gerado pela corrente circular e pelo ímã, com unidade em ampère/metro ou oersted (Oe). Logo, apresenta um campo magnético H gerado no interior da bobina e dependerá da corrente elétrica, do número de espiras e do comprimento da bobina. Em seguida, se no interior da bobina estiver presente um material sólido, o mesmo apresentará uma magnetização (M) que será somada ao campo aplicado H, resultando na indução magnética B H M= +µ0 ( ). Um ponto importante a ressaltar é que para materiais ferromagnéticos, muitas vezes a magnetização 0µ M é muito maior que o campo aplicado 0µ H , resultando na expressão B M≈ µ0 . Desta forma, para estes materiais, a indução magnética (B) e a magnetização (M) são algumas vezes utilizadas como sinônimos. Uma vez que a magnetização de um material magnético é proporcional ao campo aplicado, temos um fator de proporcionalidade denominado de susceptibilidade magnética, χm definido como: χm M H = . Sendo uma quantidade adimensional, equivalente à permeabilidade magnética. Para os materiais paramagnéticos e antiferromagnéticos, as susceptibilidades magnéticas são positivas, ou seja, maiores que zero. Para os materiais ferromagnéticos e ferrimagnéticos, as susceptibilidades são muito maiores que zero, já os materiais diamagnéticos possuem susceptibilidades negativas. Verifique alguns valores de susceptibilidade dos materiais, dispostos no Quadro 4.1. Quadro 4.1 | Susceptibilidades magnéticas à temperatura ambiente para materiais paramagnéticos e diamagnéticos Materiais paramagnéticos χ Materiais diamagnéticos χ Alumínio 2 3 10 5, x − Ouro − −3 66 10 5, x Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 147 Fonte: elaborado pela autora. Cálcio 1 9 10 5, x − Mercúrio − −2 85 10 5, x Tungstênio 6 8 10 5, x − Nitrogênio − −5 10 9x Conheça mais sobre os elementos paramagnéticos e diamagnéticos em: <https://www.youtube.com/watch?v=HX_l2HWakvc>; <https://www. youtube.com/watch?v=Kwkz-lttSuI>. Acesso em: 14 set. 2016. 1.4 Indutância Denominamos de indutância o fenômeno observado no elemento indutor, que conhecemos a pouco com o nome de solenoide ou bobina. Percebemos que ao enviarmos uma corrente a um indutor, com ou sem núcleo, um campo magnético é estabelecido neste elemento. O nível de indutância irá determinar a força de atuação do campo magnético pela corrente que será aplicada. Sua unidade de medida é henries (H). Logo, para um indutor devemos observar: L N A l = µ 2 Em que: µ é a permeabilidade do meio (Wb/A.m); N o número de espiras; A área em metros quadrados (m²); l comprimento em metros; L valor da indutância em henries (H). Assim, percebemos que o número de espiras, ou seja, o número de voltas é um fator importante, além disso, “o nível de indutância tem sensibilidadesde construção simulares, no sentido de que ele é dependente de área dentro da bobina, do comprimento do indutor e da permeabilidade do material do núcleo” (BOYLESTAD, 2012, p. 394). Não havendo material ao centro da espira, denominados Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 148 por núcleo de ar (Figura 4.16), utilizamos a permeabilidade do ar para o cálculo ( µ π0 74 10= −x T m A( . / ) ). Em geral, o tamanho de um indutor é determinado por seu tipo de construção, pelo núcleo usado e pela especificação da corrente. Desta forma, devemos levar em consideração a espessura do fio condutor que será adotado, quanto mais voltas houver, maior será a indutância. Entretanto, se o fio for muito fino, a corrente do indutor poderá ser limitada. Ao substituir a permeabilidade magnética (µ µ µ= r . 0 ) na fórmula de indutância temos: L N A l r= µ µ 0 ² ou L x N A l r= −4 10 7π µ ² Decompondo a permeabilidade relativa, obtemos uma equação muito útil: L Lr= µ 0 Em que conclui-se “a indutância de um indutor com núcleo ferromagnético é µr vezes a indutância obtida com um núcleo de ar”(BOYLESTAD, 2012, p. 394), ou seja, no vácuo. Exemplo 2: (BOYLESTAD, 2012, p. 394) Considerando a bobina com núcleo de ar apresentado na Figura 4.16. Fonte: Boylestad (2012, p. 394). Figura 4.16 | Bobina com núcleo de ar a) Calcule a indutância. b) Calcule a indutância se um núcleo metálico com µr x= 2 10 3 for inserido na bobina. Resolução: a) Inicialmente, vamos converter os valores dados em polegadas para submúltiplos de metro, ou seja, para milímetros, a fim de descobrir o diâmetro do indutor: d pol m pol mm= = 1 4 1 39 37 6 35 , , Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 149 Logo em seguida, devemos indicar o valor da área A d mm m= = =π π µ² ( , )² , ² 4 6 35 4 31 7 Para calcularmos o valor da indutância, precisamos também do valor do comprimento do condutor utilizado na construção do solenoide, assim: l pol m pol mm= =1 1 39 37 25 4 , , Substituindo os valore encontrados na fórmula da indutância, temos: L x N A l L x x x r= = − − − − 4 10 4 10 1 100 31 7 10 25 4 10 7 7 6 π µ π ² ( )( )²( , ) , 33 15 68 = , µH b) Aplicando a equação L L x x Hr= → = −µ µ0 3 62 10 15 68 10 31 36( )( , ) , . 1.(BOYLESTAD, 2012, p. 437) Considere o circuito magnético apresentado na Figura 4.17. a) Calcule o valor de corrente necessária para gerar um fluxo magnético φ = −4 10 4x Wb. Considere H (aço fundido) = 170 Ae/m. b) Determine µ e µr para o material nessas condições. Fonte: Boylestad (2012, p. 437). Figura 4.17 |Representação de solenoide para o Exercício 1 Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 150 2. (BOYLESTAD, 2012, p. 421) Considerando o eletroímã da Figura 4.18 e as grandezas apresentadas, determine: a) Densidade de fluxo (B) em Wb/m². b) A força magnetomotriz aplicada; Fonte: Boylestad (2012, p. 437). Figura 4.18 |Representação de solenoide para o Exercício 1 Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 151 Seção 2 Propriedades dos materiais supercondutores Introdução à seção 2.1 Materiais supercondutores Um dos campos de estudo que vem contribuindo de modo significativo para o desenvolvimento científico e tecnológico é o aprimoramento dos materiais supercondutores. Utilizados nas mais diversas áreas como: armazenamento de dados, distribuição e transmissão de energia elétrica, transporte e biomedicina. Nesta seção, o objetivo é conduzir você, estudante, a compreender a ocorrência do fenômeno elétrico da supercondutividade, que depende principalmente da variação de temperatura do material. Por esta propriedade, podemos classificar em supercondutores de tipo I e tipo II, bem como verificar o comportamento destes materiais quanto à condutividade elétrica. Os materiais supercondutores apresentam aprimoramento das técnicas de construção de equipamentos que busquem operar a altas temperaturas. Existem diferentes tipos de materiais, como metais e números compostos intermetálicos, que em baixas temperaturas, a resistência elétrica é praticamente igual a zero, ou seja, a corrente flui sem obstáculos e normalmente apresentam uma permeabilidade magnética não detectável. Por exemplo, o cobre, a resistividade deste metal diminui continuamente à medida que a temperatura diminui, atingindo valor residual perto de 0K. Entretanto, para o mercúrio puro, se considerarmos a resistividade deste elemento, sua resistência elétrica cai subitamente a um valor muito baixo ao atingir a temperatura de 4,2K. Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 152 Fonte: Smith e Hashemi (2012, p. 596). Figura 4.19 | Resistividade elétrica em função da temperatura Logo, o comportamento supercondutor ocorre abaixo da temperatura crítica (Tc). O material experimenta, nessa temperatura, uma mudança de fase, Figura 4.19. Ainda, pode ocorrer a perda desta característica se o material for sujeito a correntes elétricas e campos magnéticos suficientemente altos, ou seja, o material retorna ao estado normal antes da supercondutividade. Cerca de 26 metais são supercondutores, bem como centenas de ligas e compostos. Veja o estudo sobre o composto cerâmico YBa2Cu3Ox e sua aplicação como supercondutor. Acesse: <http://www.cpgcm.univasf.edu.br/adm/docs/EDUARDO-VFINAL- REVISAO_WAGNER_31_03_2014.PDF>. Acesso em: 25 set. 2016. Fonte: <http://fisica.ufpr.br/grad/supercondutividade.pdf>. Acesso em: 21 set. 2016. Figura 4.20 | Mudança no comportamento da resistividade e do calor específico durante a transição de fase supercondutora Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 153 Além da temperatura, o estado supercondutor também depende de outras variáveis como a densidade do campo magnético (B) e a densidade de corrente (J), logo, a transição da condutividade normal para a supercondutividade é abrupta e cada material apresenta um momento no espaço com os comportamentos críticos para T, B e J. O gráfico da Figura 4.21 demonstra o comportamento de alguns materiais, em relação à temperatura crítica. Materiais que apresentam T c abaixo de 77K são chamados de Low Temperature Superconductor (LTS – supercondutores de baixa temperatura), enquanto os materiais que apresenta T c acima de 77K são chamados de High Temperature Superconductor (HTS - supercondutores de alta temperatura). Reflita um pouco: os materiais supercondutores podem apresentar desvantagens quanto a aplicações voltadas à engenharia? Fonte: <http://fisica.ufpr.br/grad/supercondutividade.pdf>. Acesso em: 21 set. 2016. Figura 4.21 | Temperatura crítica de materiais supercondutores Aprofunde seus conhecimentos sobre materiais supercondutores acessando: Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 154 <https://www.if.ufrgs.br/public/tapf/n8_ostermann_ferrera_cavalcanti. pdf>; <http://www.cienciamao.usp.br/dados/epef/_supercondutividadeaplica. trabalho.pdf>; <http://www.abenge.org.br/CobengeAnteriores/2011/sessoestec/ art1875.pdf>. Acesso em: 24 set. 2016. 2.2 Propriedades magnéticas de supercondutores Como vimos, se um material supercondutor sofrer influência de um campo magnético muito intenso abaixo de sua temperatura crítica, o supercondutor retorna ao estado normal. A Figura 4.22 demonstra o diagrama de fase entre o campo crítico (H c ) e a temperatura (K) para corrente nula. A curva do campo magnético crítico, H c , para uma data temperatura (obviamente T< T c ) pode ser aproximada por: H H T Tc c = − 0 2 1 Em que: H0 é o ponto crítico a T=0K. Fonte: Smith e Hashemi (2012, p. 596). Figura 4.22 | Curva de magnetização para supercondutores ideais tipo I e II De acordo com a dependência do estado supercondutor sob o campo magnético aplicado, os supercondutores podem ser classificados em dois tipos: - Tipo I: estes materiais, enquanto no estado supercondutor,são diamagnéticos. Logo, quando o material estiver em temperatura ambiente (T> T c ), o campo magnético estará presente em todo o material. Entretanto, quando a temperatura no supercondutor tipo I for diminuída (T< T c ) e o campo magnético estiver abaixo Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 155 de H c , o campo magnético será expulso do corpo do material, em um fenômeno conhecido como efeito Meissner, ilustrado na Figura 4.23. - Tipo II: estes materiais são completamente diamagnéticos desde que submetidos a aplicação de campos pequenos e a exclusão do campo é total. Logo, a transição do estado supercondutor para o estado normal é gradual e ocorre entre os campos críticos inferior (H c1 ) e superior (H c2 ). Acima da H c1 , as linhas de campo magnético começam a passar pelo material até que atinja H c2 . Desta forma, entre H c1 e H c2 temos um material em estado misto, nesta região o material pode conduzir a corrente elétrica em seu interior o que proporciona o uso em aplicações que demandam alta corrente e alto campo. Os supercondutores mais comumente utilizados são as ligas de nióbio-titânio (NbTi) e o composto intermetálico nióbio-estanho (Nb 3 Sn), aplicados em sistemas de ressonância nuclear magnética para diagnóstico médico. O Quadro 4.2 apresenta alguns materiais supercondutores do tipo I e II, as temperaturas críticas e as densidades de fluxo magnético críticas. Exemplo 3: (SMITH; HASHEMI, p. 597) Calcular o valor aproximado do campo crítico necessário para causar o desaparecimento da supercondutividade do nióbio Fonte: <http://midia.atp.usp.br/ensino_novo/eletromagnetismo/ebooks/eletricidade_materiais_dieletricos.pdf>. Acesso em: 21 set. 2016. Figura 4.23 | Efeito Meissner Fonte: elaborado pela autora. Quadro 4.2 | Parâmetros de supercondutividade dos materiais Material Tipo T c (K) H 0 em T=0K Mercúrio (Hg) Metal 4,15 0,0411 Alumínio Metal 1,18 0,0105 Chumbo Metal 7,19 0,0803 Nióbio (Nb) Metal 9,15 0,1960 Nb 3 Ge Ligas metálicas 23 30 Nb 3 Sn Ligas metálicas 18,3 22 YBa 2 Cu 3 Ox Compostos cerâmicos 94 ----- TI 2 Ba 2 Cu 3 Ox Compostos cerâmicos 122 ----- Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 156 puro a 6K. Consulte o Quadro 4.2 para encontrar os valores de T c e H 0 para este material. Resolução: a partir do Quadro 4.2, temos que T c = 9,15 e H 0 = 0,1960, assim aplicados à fórmula do campo magnético crítico, sendo: H H T Tc c = − = − =0 2 2 1 0 1960 1 6 9 15 0 1, , , 112T Logo, o valor do campo magnético crítico será de 0,112 Teslas. O fenômeno da supercondutividade tem muitas implicações importantes. Ímãs supercondutores de alto campo são usados em aceleradores de partículas na física de alta energia. Também podemos citar outras áreas que vêm sendo exploradas como: a transmissão de energia elétrica por materiais supercondutores (Figura 4.24), comutação e transmissão de sinais em computadores a maiores velocidades e em veículos como trens de alta velocidade, nos quais a levitação resulta da repulsão do campo magnético. Fonte: <http://www.azom.com/article.aspx?ArticleID=942>. Acesso em: 21 set. 2016. Figura 4.24 | Cabo de alimentação fabricado com supercondutor HTS Do ponto de vista da engenharia, os novos materiais cerâmicos supercondutores que apresentam alta T c são muito promissores. Os avanços tecnológicos e o desenvolvimento destes materiais mostram que as temperaturas críticas estão acima de 77K, por exemplo para T c de 90K, o nitrogênio líquido pode ser usado como meio de refrigeração em substituição ao hidrogênio líquido e ao, muito mais caro, hélio líquido. Infelizmente, os supercondutores de alta temperatura são essencialmente cerâmicas e apresentam natureza frágil, ou seja, são quebradiças e na sua forma natural possuem baixa capacidade de transporte de corrente. Outras aplicações premeditadas a estes materiais são: uso em motores de máquinas rotativas, proporcionando a produção de máquinas mais compactas e eficientes; aplicação em transformadores de potência, reduzindo peso e tamanho; em cabos de transmissão de energia, substituindo os cabos de cobre e, provavelmente, na tecnologia de filmes finos em eletrônica, como computadores de alta velocidade. Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 157 Agora que você já conheceu um pouco dos materiais supercondutores, podemos pensar que as estruturas cristalinas destes materiais se correlacionam diretamente ao estado de supercondutividade? De que maneira isto ocorre? Veja demais aplicações dos materiais supercondutores acessando: <http://www.scielo.br/pdf/rbef/v34n2/v34n2a17.pdf>; <http://www.cienciamao.usp.br/dados/epef/_ supercondutividadeaplica.trabalho.pdf>; <http://supercondutividade.blogspot.com.br/2013/08/aplicacoes- dossupercondutores.html>. Acesso em: 21 set. 2016. Além disso, acesse os links a seguir e aprofunde seus conhecimentos sobre a ocorrência das aplicações dos supercondutores, como o fenômeno de levitação: <https://www.youtube.com/watch?v=ZZs4Y0_USIc>; <https://www. youtube.com/watch?v=ge6FyoCmKWs>; <https://www.youtube.com/ watch?v=O9csxWbT8ag>. Acesso em: 21 set. 2016. 1. Calcular o valor aproximado do campo crítico necessário para causar o desaparecimento da supercondutividade do mercúrio a 2K. Consulte o Quadro 4.2 para encontrar os valores de T c e H 0 para este material. 2. A supercondutividade é basicamente um fenômeno elétrico, normalmente ocorre quando há variação da resistividade elétrica de um material. Isto ocorre abaixo de um valor de temperatura denominado como Temperatura crítica (T c ). Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 158 Porém, não é somente a variação abrupta da queda da resistividade elétrica a um valor imensuravelmente pequeno que determina o fenômeno da supercondutividade, existem outros fatores que podem provocar este estado nos materiais. Quais são estes fatores e qual deve ser o comportamento dos mesmos para a ocorrência de um material supercondutor? Nesta unidade você aprendeu: • As diferentes classificações dos materiais magnéticos. • Os tipos de classificação dos materiais magnéticos quanto as suas propriedades magnéticas. • Os conceitos relacionados à densidade de fluxo magnético ou indução magnética. • As propriedades dos materiais quanto à temperatura crítica, campo crítico, permeabilidade, permissividade e susceptibilidade magnética. • As condições para que um material condutor apresente características supercondutoras. • A temperatura crítica a qual os materiais precisam permanecer para apresentarem características de supercondutividade. • A calcular a força magnetomotriz e a força magnetizante. • A calcular a indução em indutores constituídos a partir de solenoides em espaço livre e também na presença de um núcleo de material ferromagnético, diamagnético e paramagnético. • A distinguir materiais os materiais magnéticos quanto às classificações de momento de dipolo elétrico. • Aplicações dos materiais magnéticos e supercondutores aplicados à engenharia. Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 159 Espera-se que ao final desse estudo você compreenda que a estrutura e as propriedades dos materiais magnéticos e supercondutores estão diretamente relacionadas ao momento do dipolo magnético, ou seja, na movimentação dos elétrons ao redor do átomo e também o giro em seu próprio eixo conhecido como efeito spin. A partir desta característica, realizamos a divisão de classes dos materiais magnéticos, sendo: os ferromagnéticos, os paramagnéticos, os diamagnéticos, os antiferromagnéticos e os ferrimagnéticos. Verificamos a importância do estudo dos materiais supercondutores, o comportamento delimitado pela variação da resistividade elétrica, do campo magnético B e a densidade de corrente J do material, bem como o direcionamento destes materiais a aplicações voltadas à engenharia.Vale destacar que para que a aprendizagem nessa disciplina de fato ocorra, é muito importante que você faça uma leitura atenta do material, resolva novamente os exemplos apresentados, acesse os links indicados, resolva as atividades de aprendizagem e também, se possível, faça pesquisa em bibliotecas e estude os materiais que compõem a bibliografia dessa unidade. Além disso tudo, é muito importante que você realize um estudo regular dessa disciplina e acesse o fórum, pois será por meio dele que você poderá sanar suas dúvidas. Bons estudos! 1. Na natureza existem diversos materiais que na presença de um campo magnético podem se tornar um ímã, com maior ou menor atração. Também é possível construímos um eletroímã a partir de um solenoide com um núcleo de magnetização espontânea. Assim, devido ao material presente no interior da bobina, iremos obter uma indução magnética mais intensa, ao interligar os terminais do eletroímã a uma corrente, esta ao passar pelo condutor junto ao núcleo magnético, aumenta o Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 160 fluxo magnético. Considerando o abordado no texto, julgue as assertivas: I- O eletroímã apresenta forte atração por materiais que apresentem características magnéticas PORQUE II- Seu núcleo demonstra uma magnetização espontânea, ou seja, mesmo após cessar a corrente elétrica, o eletroímã mantém um magnetismo residual. Assinale a alternativa que apresenta a relação adequada entre as asserções. a) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa da I. b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma justificativa da I. c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. e) As asserções I e II são proposições falsas. 2. Os materiais magnéticos foram agrupados, de acordo com o momento de dipolo magnético, em cinco categorias: ferromagnético, diamagnético, paramagnético, antiferromagnético e ferrimagnético. Considerando as características principais dessas cinco categorias, faça a relação correta: 1- Ferromagnético. 2- Diamagnético. 3- Paramagnético. 4- Antiferromagnético. 5- Ferrimagnético. (__) Apresenta magnetização espontânea dos Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 161 dipolos magnéticos. (__) Não apresenta momento magnético resultante, pois os átomos se alinham em direções contrárias. (__) Apresenta magnetização sob efeito de campo magnético externo. (__) Os dipolos apresentam-se emparelhados, podendo os efeitos positivos anularem os efeitos negativos. (__) Os dipolos apresentam sentidos opostos, com intensidades diferentes, o que faz com que não anulem o campo magnetizante. Assinale a alternativa que apresenta a correspondência correta: a) 1, 4, 3, 2, 5. b) 3, 5, 1, 2, 4. c) 3, 1, 4, 5, 2. d) 2, 4, 3, 5, 1. e) 2, 3, 5, 1, 4. 3. (BOYLESTAD, 2012, p. 421) Considere o indutor apresentado na Figura 4.25. Determine o valor da indutância, em henries e o valor desta mesma indutância se inserirmos um núcleo ferromagnético com µ r = 500, respectivamente. Em seguida, assinale a alternativa correta. a) 40,09µH; 20,04mH. b) 7,89µH; 3,94mH. c) 26,03µH; 2,34H. d) 12,34mH; 4,03µH. e) 2,11mH; 23,6 mH. Fonte: Boylestad (2012, p. 421). Figura 4.25 | Indutor com núcleo de ar Materiais ferromagnéticos e supercondutores U4 162 4. (BOYLESTAD, 2012, p. 448) Se uma força magnetizante H de 600 Ae/m é aplicada em um circuito magnético, uma densidade de fluxo B de 1200 10 4x Wb m− / ² é estabelecida. Calcule a permeabilidade µ de um material no qual a mesma força magnetizante causaria uma densidade de fluxo duas vezes maior. Após assinale a alternativa correta. a) 26 10 6x Wb Am− / . . b) 2 6 10 4, / .x Wb Am− . c) 32 10 8x Wb Am− / . . d) 3 2 10 8, / .x Wb Am− . e) 32 10 2x Wb Am− / . . 5. Com o aprimoramento da ciência e tecnologia, o uso deste tipo de material vem se solidificando ao longo dos anos. A preponderância de aplicação em máquinas rotativas mais compactas e eficientes, bem como armazenamento de dados, distribuição e transmissão de energia elétrica, transporte e biomedicina são algumas das áreas em que este material pode e está sendo utilizado e com maiores pesquisas abrangerá novos mercados. O texto aborda características de que tipo de material: a) Ferromagnético. b) Supercondutor. c) Condutores. d) Diamagnético. e) Paramagnético. U4 163Materiais ferromagnéticos e supercondutores Referências BOYLESTAD, R. L. Introdução à análise de circuitos. Tradução de Daniel Vieira e Jorge Ritter. São Paulo: Person Prentice Hall, 2012. CALLISTER, William D.; RETHWISH, David G. Ciência e engenharia de materiais: uma introdução. Tradução de Sergio Murilo Stamile Soares. Rio de Janeiro: LTC, 2015. SCHMIDT, Valfredo. Materiais elétricos. São Paulo: Edgard Blücher, 1979. SMITH, William F.; HASHEMI, Javad. Fundamentos de engenharia e ciência dos materiais. Tradução de Necesio Gomes Costa, Ricardo Dias Martins de Carvalho, Míriam de Lourdes Noronha Motta Melo. 5. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012. VAN VLACK, Lawrence Hall. Princípios de ciência dos materiais. Tradução de Luiz Paulo Camargo Ferrão. São Paulo: Edgard Blücher, 1970. Anotações Anotações Anotações Anotações Anotações U N O PA R M ATERIA IS ELÉTRICO S E SEM ICO N D U TO RES Materiais Elétricos e Semicondutores