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HISTÓRIA DA ARQUITETURA BRASILEIRA PROFA. MA. ISABELLA CAROLINE JANUÁRIO Reitor: Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira Pró-Reitoria Acadêmica Maria Albertina Ferreira do Nascimento Diretoria EAD: Prof.a Dra. Gisele Caroline Novakowski PRODUÇÃO DE MATERIAIS Diagramação: Alan Michel Bariani Thiago Bruno Peraro Revisão Textual: Fernando Sachetti Bomfim Marta Yumi Ando Olga Ozaí da Silva Simone Barbosa Produção Audiovisual: Adriano Vieira Marques Márcio Alexandre Júnior Lara Osmar da Conceição Calisto Gestão de Produção: Cristiane Alves © Direitos reservados à UNINGÁ - Reprodução Proibida. - Rodovia PR 317 (Av. Morangueira), n° 6114 Prezado (a) Acadêmico (a), bem-vindo (a) à UNINGÁ – Centro Universitário Ingá. Primeiramente, deixo uma frase de Sócrates para reflexão: “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida.” Cada um de nós tem uma grande responsabilidade sobre as escolhas que fazemos, e essas nos guiarão por toda a vida acadêmica e profissional, refletindo diretamente em nossa vida pessoal e em nossas relações com a sociedade. Hoje em dia, essa sociedade é exigente e busca por tecnologia, informação e conhecimento advindos de profissionais que possuam novas habilidades para liderança e sobrevivência no mercado de trabalho. De fato, a tecnologia e a comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, diminuindo distâncias, rompendo fronteiras e nos proporcionando momentos inesquecíveis. Assim, a UNINGÁ se dispõe, através do Ensino a Distância, a proporcionar um ensino de qualidade, capaz de formar cidadãos integrantes de uma sociedade justa, preparados para o mercado de trabalho, como planejadores e líderes atuantes. Que esta nova caminhada lhes traga muita experiência, conhecimento e sucesso. Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira REITOR 33WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 01 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ................................................................................................................................................................5 1. ARQUITETURAS NO SÉCULO XIX: O ECLETISMO .................................................................................................6 1.1 PANORAMA HISTÓRICO INTERNACIONAL E NACIONAL ....................................................................................6 1.2 ECLETISMO NA ARQUITETURA DESENVOLVIDA NO BRASIL NO SÉCULO XIX ............................................... 7 1.2.1 O NEOCLÁSSICO NO BRASIL ..............................................................................................................................8 1.2.2 O NEOCOLONIAL: ARQUITETURA E TRADIÇÃO .............................................................................................. 10 2. MODERNISMOS E MODERNIDADES: OS CONCEITOS E IMAGENS .................................................................. 11 2.1 MODERNIZAÇÃO E ARQUITETURA ...................................................................................................................... 11 2.2 IMAGENS DE UMA ARQUITETURA E CIDADE MODERNISTA ......................................................................... 13 3. LE CORBUSIER E O BRASIL ................................................................................................................................... 15 ARQUITETURA MODERNA BRASILEIRA NO INÍCIO DO SÉCULO XX PROFA. MA. ISABELLA CAROLINE JANUÁRIO ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: HISTÓRIA DA ARQUITETURA BRASILEIRA 4WWW.UNINGA.BR 3.1 A VIAGEM DE 1929 ................................................................................................................................................. 15 3.2 A VIAGEM DE 1936 ................................................................................................................................................ 15 4. O MODERNISMO PIONEIRO NO BRASIL: GREGORI WARCHAVCHIK ............................................................... 17 4.1 ARQUITETOS ESTRANGEIROS ............................................................................................................................. 17 4.2 GREGORI WARCHAVCHIK: A CASA NA RUA SANTA CRUZ (1927-1928) ......................................................... 18 5. A FORMAÇÃO DA ARQUITETURA MODERNA BRASILEIRA: LÚCIO COSTA ...................................................... 19 5.1 ATUAÇÃO E TEXTOS: UMA APROXIMAÇÃO IDENTITÁRIA ............................................................................... 19 5.2 POR UMA ARQUITETURA MODERNA E BRASILEIRA ....................................................................................... 21 5.3 DOIS PROJETOS REPRESENTATIVOS .................................................................................................................23 6. BURLE MARX ..........................................................................................................................................................24 6.1 TRAJETÓRIA E CARACTERÍSTICAS PROJETUAIS ..............................................................................................24 6.2 O PROJETO DA PRAÇA E JARDIM MODERNISTA .............................................................................................26 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..........................................................................................................................................28 SUMÁRIO DA UNIDADE ..............................................................................................................................................29 5WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Este material foi pensado para contribuir com a compreensão sobre a formação da arquitetura moderna do Brasil no início do século XX. Iniciemos este processo buscando reconhecer os seus precedentes arquitetônicos, como no caso da arquitetura eclética, desenvolvida no País no século XIX. Entenderemos por que esse estilo arquitetônico passou a ser excluído do vocabulário projetual dos profissionais com as novas demandas econômicas, políticas e sociais que incidiram no País com o início do novo século. Para isso, aproximaremos os conceitos de Modernismos e Modernidades para explicar tais transformações em curso, bem como as imagens por eles produzidas ou invocadas. Analisaremos o papel seminal das viagens ao Brasil em 1929 e 1936, do arquiteto francês Le Corbusier, para o desenvolvimento dessa arquitetura moderna no Brasil. Compreenderemos a importância do arquiteto russo Gregori Warchavchik, que, ao migrar para o Brasil, em 1923, trouxe consigo um repertório modernista bastante atualizado com o que se discutia no cenário europeu — materializado na primeira casa modernista no Brasil, em 1928. Revelaremos o papel fundamental de Lúcio Costa para a formação da arquitetura moderna brasileira, expressa em suas obras emblemáticas para o contexto de identidade nacional. Por fim, entenderemos como essas ideias modernas brasileiras foram adaptadas para o projeto paisagístico por meio das obras de Burle Marx. Sendo assim, neste primeiro momento, para que todo esse processo se desenvolva de modo agradável, buscaremos aproximar esse conteúdo histórico para estabelecer bases teóricas para a compreensão do projeto arquitetônico e paisagístico que se configurou no Brasil no final do século XIX e início do século XX, por meio da espacialidade, dos materiais, dos sistemas construtivos empregados, das relações históricas e sociais que essa arquitetura estabeleceu. 6WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1. ARQUITETURAS NO SÉCULO XIX: O ECLETISMO O ecletismo apresentou-se como uma doutrina filosófica estruturada a partir de meados do século XIX, que se propôs a garantir maior liberdade de escolha para os artistas sobre o que se considerava melhor ou positivo no campo das artes e do pensar, abandonandodogmas com aqueles cânones estabelecidos pelo repertório clássico. Na arquitetura e nas artes plásticas, o ecletismo foi incorporado a partir de 1840, em diversos polos culturais europeus. Na França, ocorria uma reação contra a monotonia classicista, como nas obras renascentistas e barrocas. Com uma profusão de novas doutrinas, houve a gradativa melhora dos meios de comunicação e, principalmente, o auge do processo industrial com os múltiplos produtos no mercado, mais acessíveis a um número cada vez maior de consumidores. O ecletismo se popularizou, transformando também a composição arquitetônica. Essa arquitetura tinha por característica se voltar a fontes antigas como modelos para suas edificações, servindo-se de uma ampla variedade de estilos históricos (ROTH, 2017), o que resultou na retomada do classicismo romano e grego e da arquitetura medieval, gótica e egípcia. 1.1 Panorama Histórico Internacional e Nacional Quase todos os aspectos da civilização ocidental moderna têm alguma influência das avassaladoras transformações culturais que tiveram início no século XVIII. Esse período é frequentemente chamado de “A Era das Revoluções” (HOBSBAWM, 2015): a Declaração de Independência dos Estados Unidos (1775-1783); a Revolução Francesa (1789-1794); e a Revolução Industrial, em curso na Inglaterra entre os séculos XVIII e XIX, substituindo o trabalho artesanal pelo assalariado, com o uso das máquinas. No Brasil, esses fatos foram relevantes para impulsionar mudanças estruturais nos campos político, econômico e cultural. Com a Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte invade Portugal, e o Rei Dom João VI decide partir para a colônia brasileira em 1808, com toda a sua corte. Com isso, o poder político de Portugal também foi transferido para o Brasil, sendo o Rio de Janeiro a capital da sede do governo. Uma série de transformações ocorreu para modernizar a metrópole. Uma delas foi a chegada da Missão Artística Francesa e a criação da Academia Imperial de Belas Artes, em 1816. Os artistas da Missão Artística Francesa pintavam, desenhavam, esculpiam e construíam à moda europeia. Obedeciam ao estilo neoclássico, ou seja, um estilo artístico que propunha a volta aos padrões da arte clássica (greco-romana), da Antiguidade e do Renascimento. Entre eles, estavam os artistas Jean Baptiste Debret e Nicolas Antoine Taunay. A partir das suas gravuras, é possível reconhecer os aspectos sociais, etnográficos e as paisagens urbanas e rurais do Brasil colonial. 7WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 1 – Um jantar brasileiro (1827). Fonte: Debret (1827). Entre os artistas migrantes, estava o arquiteto Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny (1776-1850), fundador da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro e primeiro titular da cadeira de arquitetura. Fruto do modelo do ensino de Escola de Belas Artes, os profissionais procuraram se alinhar aos estilos europeus e excluíram o barroco colonial português. O objetivo era propor uma arquitetura que demonstrasse a majestosidade e o equilíbrio do espírito francês, principalmente em sedes governamentais como assembleias legislativas e tribunais (BRUAND, 2012, p. 34). 1.2 Ecletismo na Arquitetura Desenvolvida no Brasil no Século XIX No Brasil, costuma-se englobar sob o rótulo “neoclássico” todos os edifícios onde se pode notar o emprego de um vocabulário arquitetônico cuja origem distante remonta à Antiguidade greco-romana. Portanto, o que se convencionou chamar de neoclassicismo, na realidade, não passa de uma forma de ecletismo, em que é possível encontrar, justapostos, todos os estilos que utilizam colinas, cornijas e frontões, da Renascença Italiana ao Segundo Império Francês (BRUAND, 2012, p. 33) 8WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.2.1 O neoclássico no Brasil Devido às influências originárias da Europa através de arquitetos e engenheiros de diferentes formações, a volumetria neoclássica no Brasil acabou se manifestando através de quatro soluções principais (MENDES et al., 2011, p. 70). A primeira solução é a adoção de pórticos com ordens superpostas, com dois ou três pavimentos de altura, enquanto o restante permanecia apenas com o térreo. Um exemplo é a fachada da Academia Imperial de Belas Artes, proposta por Grandjean de Montigny, em 1926. Figura 2 – Planta e fachada da Academia Imperial de Belas Artes (1826). Fonte: Neves (2021). O terreno destinado à construção da Academia era estreito e inserido na malha urbana colonial da cidade. A planta baixa retomava os princípios clássicos de simetria e ordem na composição. Ela era composta por um grande retângulo, ocupando praticamente todo o lote. No térreo do corpo central, estava localizada a grande entrada para o vestíbulo por meio do qual se acessava a biblioteca do pavimento superior através de uma escada localizada à esquerda. A segunda solução foi a adoção do pórtico de mesma altura do restante do edifício, com uma nítida influência clássica paladiana, com os pórticos sob o frontão triangular no mesmo plano da fachada principal. Um exemplo é a Casa do Conde de Itamaraty, no Rio de Janeiro, proposta pelo arquiteto José Jacinto Rebelo, em 1854. Figura 3 – Casa do Conde de Itamaraty, Rio de Janeiro (1854). Fonte: Grua (2021). 9WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA A terceira solução é quando o pórtico frontal avança além do alinhamento do prédio, protegendo os passageiros dos coches e carruagens. O partido adotado retoma os templos romanos. Tem-se como exemplo o Palácio Imperial de Petrópolis, de 1845. Figura 4 – Palácio Imperial de Petrópolis (1845). Fonte: Gasparetto Junior (2021). A quarta e última solução é o partido mais próximo ao templo. Com uma linguagem mais simplificada, esse modelo teve pouca aplicação no País. Um dos exemplos é a Igreja Nossa Senhora da Glória, do Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Figura 5 – Igreja Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, Rio de Janeiro. Fonte: Bafafá (2019). 10WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.2.2 O neocolonial: arquitetura e tradição No movimento de revivalismo a que se propôs o ecletismo, uma orientação que se destacou no começo do século XX no Brasil foi o neocolonialismo. A campanha neocolonial no Brasil foi impulsionada por um pensamento fortemente marcado pelo nacionalismo, em um contexto de eventos importantes, como o Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil, Exposição do Centenário do Rio de Janeiro, em 1922, quando alguns dos principais pavilhões foram projetados dentro do espírito neocolonial e, no mesmo ano, a Semana de Arte Moderna, em São Paulo (AMARAL, 1994; SEGAWA, 1998; MELLO, 2007; SILVA, 2019). Esta última mobilizou, no Teatro Municipal, artistas plásticos e escritores como Anitta Malfatti, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Víctor Brecheret e o compositor Heitor Villa-Lobos. Vale lembrar que, diferentemente do neoclassicismo, no contexto de desenvolvimento do neocolonial do final do século XIX e início do século XX, o Brasil já havia declarado a Proclamação da República (1889) e se apoiava em uma filosofia positivista, de uma identidade distante do caráter monárquico. Tal orientação nacionalista do movimento se explicita, entre outros aspectos, na defesa das manifestações artísticas tradicionais como expressões de identidade nacional e elementos de constituição da arte e arquitetura realmente brasileira. Os arquitetos que se engajaram nessa causa foram principalmente o português Ricardo Severo, o francês Victor Dubugras e Lúcio Costa, que adere ao movimento entre 1917 e 1930. Um exemplar emblemático para se identificarem as premissas da arquitetura colonial foi o projeto de Ricardo Severopara a sua própria residência em Guarujá, São Paulo (1922) (Figura 6). O caráter da residência provinha do emprego sistemático de elementos da arquitetura civil portuguesa dos séculos XVII e XVIII: as varandas sustentadas por simples colunas toscanas, telhados planos com largos beirais feitos de telhas-canal, uso de rótulas, muxarabis e azulejos fabricados diretamente em Porto (BRUAND, 2012, p. 53). A planta, por sua vez, revelava uma complexidade maior, permitindo recuos volumétricos e vãos maiores graças à técnica construtiva contemporânea. Figura 6 – Residência do arquiteto Ricardo Severo (1922), Guarujá, São Paulo. Fonte: Bruand (2012). 11WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O neocolonial, na prática, afirmou-se como uma variação do ecletismo, buscando eleger um estilo mais adequado para o fim que tinha. O perfil distinto da retórica do neocolonial é o tempero nacionalista, o repertório sistematizado das formas do colonial brasileiro ou do barroco ibérico enquanto indicador de manifestação nacional, no lugar de regras clássicas (SEGAWA, 1998). Esse pensamento contribuiu para introduzir no Brasil um debate para a arquitetura como indicadora de identidade e nacionalidade, seminais para a noção de arquiteta moderna “e” brasileira que veremos adiante. 2. MODERNISMOS E MODERNIDADES: OS CONCEITOS E IMAGENS A revolução industrial e a modernização social acelerada colocaram a arquitetura e o planejamento urbano em uma nova situação no final do século XIX e início do século XX, sob o ponto de vista cultural, territorial e de técnicas construtivas (FRAMPTON, 2015). Surgiram novas esferas para a vida privada e para a conformação das cidades a partir do desenvolvimento do capitalismo industrial, que colocou em xeque a arquitetura palaciana, eclética e a velha cultura urbana, com a abertura de ferrovias e com a revolução da rede de transporte. Para entender como o cenário se conformou no início do novo século, é fundamental entender a diferença entre os conceitos que contribuíram para explicá-lo: moderno, modernismo, modernidade e modernização. 2.1 Modernização e Arquitetura O termo moderno vem do Latim modus e faz referência àquilo que é hodierno, ou seja, dos tempos recentes. O conceito de modernismo se refere a um estilo, uma maneira e um feitio. No nosso caso, faz referência ao movimento moderno, entendendo-o como um estilo. Esse conceito está relacionado a um conjunto de características da forma e dos motivos ornamentais que distinguem determinados grupos de objetos de acordo com a época e o modo de fabricação. Nessa perspectiva, o termo modernidade, para o filósofo alemão Jürgen Habermas, em “O Discurso Filosófico Da Modernidade” (2000), é entendido como um processo intelectual de refletir a organização social e modos racionais de pensamento, considerando a liberdade do mito, da religião, da superstição, libertação do uso arbitrário do poder e o lado sombrio da natureza humana. O termo modernização, por sua vez, diz respeito aos processos sociais que dão vida a um turbilhão de novos processos industriais, tecnológicos, sociais, políticos e econômicos. Portanto, modernização está vinculada a um processo de desenvolvimento (BRUNA, 2002). Em resumo, temos: 12WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 7 – Resumo explicativo sobre as diferenças conceituais. Fonte: A autora. Portanto, observa-se que as ideias de modernização, desenvolvimento e industrialização foram fundamentais para embasar o pensamento da arquitetura modernista. As transformações técnicas em curso no final do século XIX e início do século XX, principalmente vinculadas à engenharia estrutural, revelaram novos materiais, como o ferro, o vidro, o aço e o concreto. Apresentaram também novos métodos de construção como os pré-fabricados e os pré-moldados. No Brasil, essa arquitetura ganhou forma acompanhando o processo de modernização das cidades e indústrias e, também, principalmente com as visitas ao País do arquiteto francês Charles Edouard Jeanneret, conhecido como Le Corbusier, o maior representante do pensamento modernista na arquitetura e no urbanismo na primeira metade do século XX. 13WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2.2 Imagens de uma Arquitetura e Cidade Modernista Em 1923, Le Corbusier publicou o livro “Por uma Arquitetura”. Nele, o arquiteto propôs que uma nova arquitetura deveria ser criada para o novo século, acompanhando o processo de modernização em curso (LE CORBUSIER, 2002). Nesse texto, o arquiteto também deixa clara a sua admiração pela modernidade, pelo avião, pelo transatlântico, pelo automóvel, pelas referências racionais que a história tinha visto, como Partenon, a Roma antiga e as obras de engenharia. A casa, por exemplo, deveria corresponder às necessidades do homem moderno, procedendo diretamente do fenômeno do antropocentrismo e da razão. Dessa maneira, o projeto moderno seria embasado pelo Espírito Novo em Arquitetura, e a casa ensinaria a morar (LE CORBUSIER, 2002). A arquitetura moderna não deixaria de atestar um certo tom autoritário de “domesticação do homem”. Com efeito, esse Espírito Novo deveria atestar uma nova estética composta por cinco pontos (Quadro 1). Os cinco pontos da arquitetura moderna A planta livre, na qual haveria liberdade para propor o que quiser dentro de um esquema estrutural e, portanto, dentro da caixa. O uso de pilotis, o que ajudaria a liberar o solo para a máquina, estabelecendo uma relação direta com a cidade moderna. A fachada livre, que revela o domínio completo de tecnologia associada à estética: livre de pilares na fachada. A janela corrida, que apresenta o aproveitamento máximo das superfícies para luz e ventilação (necessidades modernas): estratégia racional e lógica, que leva a uma nova estética. O terraço jardim, que somente seria possível com o advento de novas tecnologias construtivas, que permitem descartar o telhado duas águas e ocupar esse espaço. 14WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O sistema dominó resumiria o processo construtivo mais racional possível para a construção civil. Quadro 1 - Os cinco pontos da arquitetura moderna, propostos por Le Corbusier. Fonte: A autora. Na concepção de Le Corbusier, certamente esse pensamento de modernização também deveria ser aplicado para as cidades. Em 1933, no IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), realizado na cidade de Atenas, Grécia, foi elaborado um manifesto urbanístico que expressa o pensamento sobre o meio urbano na época, a chamada Carta de Atenas. A Carta, de modo geral, analisou o estado crítico das cidades de crescimento urbano acelerado e problemas causados pela industrialização e qualidade de vida, propondo aspectos que deveriam ser respeitados para a melhoria da estrutura urbana. Com considerações sobre as habitações, o lazer, o trabalho, a circulação e o patrimônio histórico das cidades, a Carta propunha, entre outros pontos, a separação das áreas residenciais, de lazer e de trabalho, através da setorização das áreas e de um planejamento do uso do solo. Nessa perspectiva, Le Corbuiser projetou a Ville Radieuse em 1924: um masterplan publicado no livro “Urbanismo” (1930). Esse projeto consistia em apresentar uma nova cidade, que deveria emergir da “tábula rasa” e conter um meio eficaz de transporte, habitação, edifícios em altura para comércio e serviços, bem como abundância de espaço verde e luz solar. Figura 8 – Ville Radieuse. Fonte: Le Corbusier (1924). Esse foi o ideário modernista vigente para as cidades na primeira metade do século XX. Essa imagem representaria o progresso, a modernidade, uma nova qualidade de vida. No Brasil, essas ideias chegampor meio da atuação de arquitetos imigrados das duas guerras europeias, pelos contatos estabelecidos pelos arquitetos locais e, principalmente, pelas vindas de Le Corbusier ao Brasil, em 1929 e 1936. 15WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 3. LE CORBUSIER E O BRASIL Nos anos 1920, o arquiteto franco-suíço Le Corbusier já era tido como um dos principais protagonistas do movimento internacional de renovação da arquitetura. Nas primeiras décadas do século XX, Le Corbusier havia palestrado em toda a Europa, apresentando suas ideias e concepções sobre a arquitetura moderna (MARTINS, 2004, p. 267). Seus textos em francês também chegavam ao Brasil com um certo atraso, mas foram lidos por alguns arquitetos e engenheiros (SEGAWA, 1998, p. 77). Em 1929, Le Corbusier aceitou o convite para dar conferências em Buenos Aires, com passagem por São Paulo e Rio de Janeiro. Mas seria a sua segunda estada no Brasil, em 1936, que mudaria os rumos da arquitetura nacional. 3.1 A Viagem de 1929 Em 17 de novembro de 1929, Le Corbusier desembarcava em Santos, do navio Giulio Cesare, proveniente de Buenos Aires. No Brasil, o arquiteto proferiu duas conferências, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro. Em São Paulo, ele promoveu uma conferência sobre Arquitetura e a revolução arquitetural contemporânea e sobre Urbanismo: a revolução arquitetural contemporânea traz a solução da urbanização das grandes cidades modernas. No Rio de Janeiro, Le Corbusier fez também as duas mesmas conferências (ZAKIA, 2015). Nessas oportunidades, o arquiteto francês falou para um número significativo de arquitetos e engenheiros que entendiam o seu idioma, principalmente aqueles alunos e professores da Escola Politécnica de Engenharia de São Paulo e Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro (ENBA). No ano seguinte, a viagem resultou no livro Precisões – sobre um estado presente da arquitetura e do urbanismo. 3.2 A Viagem de 1936 O ano de 1936 constitui marco fundamental na história da arquitetura brasileira, especialmente pela visita de Le Corbusier como convidado do Ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, para assessorar a equipe de arquitetos encarregados pelo projeto do edifício do Ministério. Tratava-se de uma equipe coordenada pelo arquiteto brasileiro Lúcio Costa, em parceria com Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão e Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos e Oscar Niemeyer (como estagiário de Costa). Ao contrário da primeira estada do mestre Le Corbusier no Brasil, em 1929, com consequências mais discretas, a segunda teve repercussões mais profundas por ele ter trabalhado diretamente com os arquitetos locais. Em 1934, sob o governo de Getúlio Vargas, é criado o Ministério da Educação e Saúde, sendo nomeado o Ministro Gustavo Capanema, que fez da construção da sede do Ministério uma prioridade. Em 23 de março de 1935, é publicada, em Diário Oficial, a convocação para o concurso público para escolha do projeto. O vencedor desse concurso foi Archimedes Memória, porém, o resultado não agradou ao Ministro, que, após submetê-lo à apreciação de engenheiros e consultores do governo, julgou-o inadequado ao seu objetivo de fazer do edifício uma notável obra de arquitetura, digna de nossa cultura. Após consultar várias organizações de engenheiros e arquitetos, Capanema solicitou a Lúcio Costa um novo projeto para o Ministério. 16WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O projeto de Lúcio Costa e seu grupo esforçou-se por incorporar os preceitos racionais de Le Corbusier, como o uso de pilotis definindo a estrutura de apoio e liberando o térreo para tratamento paisagístico de integração dos espaços internos e internos, uso de quebra-sóis nas fachadas mais ensolaradas, cortinas de vidro, planta livre, jardins na cobertura e uso de ventilação e iluminação naturais (FONSECA, 2002). Para uma consultoria ao novo projeto, Costa sugeriu o nome de Le Corbusier. Durante sua estada de cinco semanas, o arquiteto proferiu conferências e prestou serviços de consultoria aos arquitetos brasileiros no projeto para a Cidade Universitária do Rio de Janeiro e ao Ministério. Quanto ao Ministério, o arquiteto francês sugeriu a mudança do terreno ao Ministro Gustavo Capanema, ideia acolhida pelo Ministro. Contudo, as contingências legais de permuta do terreno impediram a concretização dessa proposta e, às vésperas de sua partida, Le Corbusier desenhou uma última proposta para o terreno original (SEGAWA, 1998, p. 91). A partir desses croquis, a equipe brasileira desenvolveu o projeto definitivo. O projeto final do Ministério da Educação e Saúde incorporava toda a sintaxe corbusierana — sobretudo os cinco pontos da arquitetura nova: o volume laminar sobre pilotis e os dois blocos baixos liberando a esplanada aberta, que revisa o sentido tradicional da quadra fechada por edificações e constitui uma praça (jardim) pública. As recomendações de Le Corbusier foram acatadas: o uso de pedras regionais como revestimento; o suporte de painéis artísticos; e a valorização das palmeiras. Figura 9 – Projeto para o Ministério da Educação e Saúde Pública, Lúcio Costa e equipe (1936). Fonte: Cronologia do Urbanismo (2021c). 17WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Le Corbusier ainda não havia aplicado os seus pressupostos projetuais em um edifício em altura. A vinda do arquiteto ao Brasil contribuiu para revisar a sua trajetória. E, para o Brasil, o projeto do Ministério é considerado o ponto inicial de uma arquitetura moderna de feitio brasileiro (SEGAWA, 1998, p. 92). 4. O MODERNISMO PIONEIRO NO BRASIL: GREGORI WARCHAVCHIK No início dos anos 1920, a arquitetura no Brasil era monopolizada pelas ideias do ecletismo nos edifícios administrativos e pelo neocolonialismo nas residências, com forte inclinação para a recuperação da tradição como identidade nacional (impulsionada pelos debates intelectuais dos modernistas nas artes plásticas e literatura). Em 1925, foi registrada, na grande imprensa, a atuação em São Paulo de dois arquitetos estrangeiros: Rino Levi e Gregori Warchavchik. Este tópico tratará de apresentá-los e explicará a arquitetura modernista desenvolvida em especial por Warchavchik, bem como os limites da sua proposta enquanto arquitetura moderna (brasileira). 4.1 Arquitetos Estrangeiros São Paulo, na década de 1910, já era tida como uma grande metrópole brasileira do século XX, pela riqueza do café e prosperidade na capacitação profissional industrial. Chegam à cidade Rino Levi e Gregori Warchavchik, dois arquitetos estrangeiros. Para o projeto paisagístico do edifício, foi convidado o arquiteto-paisagista Roberto Burle Marx. Ele projetou a praça conformada no térreo da edificação, um terraço jardim no 2º andar (não aberto para visitações) e o teto jardim na cobertura. Os painéis em azulejo foram desenhados por Cândido Portinari. As imagens faziam referência aos retirantes nordestinos. A contribuição de Burle Marx e Portinari na equipe foi promover a integração da arquitetura e das artes, como sugeriu Le Corbusier. Um passeio pelo edifício do Ministério da Educação (hoje intitulado Edifício Gustavo Capanema), com a explicação do projeto pelo próprio Lúcio Costa, pode ser assistido em Lúcio Costa - Entrevista com o grande mestre da arquitetura. O material está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=M6XJJQ24okk . 18WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Filho de imigrantes italianos, Rino Levi ingressou em 1921 na Escola Preparatória e de Aplicação para os Arquitetos Civis, em Milão, Itália. Transferiu-se, em 1924, para a Escola Superior de Arquitetura de Roma. Iniciou a sua carreira no Brasil em 1927, construindo pequenas residênciase conjuntos de casas de aluguel para membros da comunidade italiana paulista. Em sua carreira, destacou-se pelo projeto elaborado para a Sede do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB, 1947), pelos projetos hospitalares, de edifícios de apartamentos e cinemas em São Paulo (ANELLI, 2001). Gregori Warchavchik era russo emigrado para o Brasil. Formou-se na Itália nos anos de 1920 e muda-se para o Brasil em 1923. Em 1925, publica o texto Futurismo? no jornal italiano de São Paulo Il Piccolo (traduzido e republicado no Correio da Manhã com o título Acerca da Arquitetura Moderna). Embora não tenha repercussão imediata, é considerado o primeiro manifesto da arquitetura moderna no País (SEGAWA, 1998). Segundo esse texto, Warchavchik reconhece as exigências impostas pelo desenvolvimento da indústria e a incompatibilidade entre a racionalidade construtiva dos engenheiros e a ornamentação postiça dos arquitetos (acadêmicos). As novas imposições da vida moderna gerariam um “estilo do nosso tempo”: a arquitetura moderna. Nessa perspectiva, o arquiteto fez ressonar as ideias diretas que Le Corbusier havia apresentado em seu livro de 1923, advogando em prol dos princípios da nova arquitetura, baseados na racionalidade, no antidecorativismo e na economia da construção. Portanto, a concepção arquitetônica de Warchavchik não contemplava as ideias de nacionalismo. As ideias modernistas seriam materializadas no projeto residencial elaborado para ele e sua família em São Paulo. 4.2 Gregori Warchavchik: a Casa na Rua Santa Cruz (1927-1928) Em 1927, Warchavchik se casa com Mina Klabin, de uma rica família de industriais de São Paulo. A sua própria casa, concluída em 1928, constituiu a primeira expressão de arquitetura moderna no Brasil, sendo divulgada na imprensa como “[...] uma casa moderna na rua Santa Cruz” (SEGAWA, 1998, p. 45). A casa foi levantada em alvenaria de tijolos sobre o platô edificado, mas traria na sua aparência o volume purista e abstrato corbusierano (Figura 10), sem nenhum tipo de ornamento e ostentando os efeitos totais de transparência dos vidros (sem nenhuma modinatura). As platibandas esconderam o telhado tradicional de telha de barro e vigamentos em madeira. Figura 10 – Casa da Rua Santa Cruz (1927). Fonte: Lira (2011). 19WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Muitas dificuldades foram efetivamente encontradas por Warchavchik para a construção de uma casa modernista ao final dos anos 1920. Com uma série de restrições técnicas, não foram possíveis as soluções em concreto armado e janelas em fita, tampouco o uso de pilotis conforme as lições do mestre francês. Mas a sobriedade da fachada, o uso de vidros, os detalhes técnicos internos e os mobiliários desenhados para o homem moderno não deixam de atestar as intenções projetuais do novo século. Tais limitações técnicas e identitárias para uma arquitetura nacional foram superadas por Lúcio Costa nos anos seguintes. 5. A FORMAÇÃO DA ARQUITETURA MODERNA BRASILEIRA: LÚCIO COSTA Não seria estranho pensar como foi que uma arquitetura que se propunha a ser universal, como a arquitetura moderna, se tornou brasileira? E como isso se transformou em algo original e nacional? Teria a arquitetura moderna brasileira surgido por um milagre? Na realidade, esse “milagre” se deveu à importante atuação e articulação de Lúcio Costa para fortalecer a arquitetura moderna no Brasil (ARANTES, 2004). Ele se tornou o grande mentor dessa arquitetura, sendo o responsável por moldar esse raciocínio modernista em um contexto brasileiro. É isso o que veremos neste tópico. 5.1 Atuação e Textos: uma Aproximação Identitária Filho de pais brasileiros, Lúcio Costa nasceu em Paris, em 1902, e estudou na Inglaterra e na Suíça (1910-1916). Em 1916, retornou ao Brasil, onde estudou na Escola Nacional de Belas Artes, concluindo sua formação em 1924. Em 1920, faz uma viagem à Europa. Naquele contexto, ele se disse pouco conhecedor da arquitetura de Le Corbusier (SEGAWA, 1998). Esse também é o período em que Costa trabalhou com Fernando Valentim, realizando projetos que defendiam a retórica do neocolonial. Com a repercussão da primeira casa modernista de Gregori Warchavchik, Costa passou a estabelecer um diálogo e interesse por aquela arquitetura. Convidado pelo próprio arquiteto carioca para ser professor da Escola Nacional de Belas Artes e para ser seu sócio em escritório no Rio de Janeiro, Warchavchik acabou exercendo influência sobre Lúcio Costa (GUERRA, 2002). Em 1930, Costa assumiu a direção da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro (ENBA), mas seria desligado um ano depois, por tentar implementar um novo currículo para o curso. O A biografia de Warchavchik foi escrita por José Lira e publicada em 2011. O livro traz fotos inéditas do arquiteto e o apresenta de forma inovadora, revelando suas contradições, rupturas de pensamento e contribuição para a vanguarda modernista no Brasil. Segue a referência completa: LIRA, J. Warchavchik: Fraturas na Vanguarda. São Paulo: Cosac & Naify, 2011. 20WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA novo currículo seria uma das primeiras tentativas para se renovar a arquitetura e deveria acompanhar as transformações em curso na arquitetura mundial. Mesmo não implantado, ele deixou frutos e motivações para outros estudantes e profissionais (SEGAWA, 1998). A questão do patrimônio colonial no Brasil também é fruto de um debate proposto por Lúcio Costa, quando assume, em 1937, o cargo de direção do Serviço de do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). Junto ao SPHAN, o arquiteto desenvolveu instrumentos para os tombamentos, recuperações e restauros de um grande acervo colonial. Como funcionário público nos anos de 1930, Costa estava vinculado ao debate político que armava no Brasil em defesa da retórica de identidade nacional. O estado getulista instaurado a partir de 1930 por Getúlio Vargas saiu em defesa da ideia de nacionalismo, de uma política de “modernização conservadora”, de um Estado desenvolvimentista, de um incentivo à urbanização, às artes e às culturas e uma forte campanha para a educação. O estado desenvolvimentista exercia um claro incentivo ao certo industrial, em parceria com a burguesia industrial, portanto, sem grandes abalos sociais (FAUSTO, 2015, p. 315). Essa questão ainda tinha sido pouco discutida sob o ponto de vista arquitetônico. Como vimos, o que mais se aproximava dessas questões de identidade nacional foi a arquitetura neocolonial, mas, ainda assim, com uma série de limitantes técnico-construtivos. Contudo, era certo que o Estado buscava promover uma identidade moderna para um homem moderno, em um País em desenvolvimento. Essas referências de promover o desenvolvimento, de conscientização do homem moderno, também fizeram parte das concepções teóricas de Le Corbusier. IDEIAS TRANSFORMADORAS DE LE CORBUSIER LÓGICA DESENVOLVIMENTISTA DE VARGAS Corbusier em Por Uma Arquitetura (1923): o espírito novo; ensinar a morar. Estado novo getulista: a construção do homem novo; civilizar por cima (slogan de Getúlio Vargas). Quadro 2 - Relação entre as ideias de Le Corbusier e o Estado getulista. Fonte: A autora. Considerou-se a valorização de uma tradição e promoção de uma identidade nacional a partir da construção simbólica de uma nação a partir: da música com Heitor Villa Lobos (O Trenzinho e As Bachianas Brasileiras); das artes plásticas, a exemplo de Cândido Portinari e os demais modernistas da Semana de 1922, vanguardistas que mostraram a peregrinação dos nordestinos para as grandes cidades; e do cinema, com Carmem Miranda. 21WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Nota-se que existiu uma certa afinidade entre as lógicas do Estado desenvolvimentista varguista e as ideias transformadorasde Le Corbusier. Portanto, o próximo passo seria a atuação do Estado, promovendo uma imagem por meio da arquitetura. Um dos primeiros episódios significativos foi a atuação do Ministro Gustavo Capanema ao convidar Le Corbusier para vir ao Brasil em 1936, por meio de um pedido de Lúcio Costa para trabalhar em parceria com a equipe no projeto para o Edifício do Ministério da Educação e Saúde Pública. Seguido desse episódio, no Brasil das próximas décadas, o grande promotor da arquitetura moderna seria o estado, com o objetivo de reformar a sociedade (REGO, 2019). 5.2 Por uma Arquitetura Moderna e Brasileira Como essa arquitetura nova poderia ser assimilada no País e, ao mesmo tempo, representar a identidade nacional? Certamente, ela não poderia ser uma versão europeia, como nós havíamos projetado até então: copiando os modelos internacionais ecléticos e neocoloniais. Existia uma certa contradição entre essas duas ideias: uma arquitetura moderna e uma arquitetura moderna brasileira: • Vanguardas europeias: dissolução de identidades; derrubada de ícones da tradição. • Vanguarda brasileira: ênfase nas questões locais e culturais do País. Em 1938, Costa publicou o texto “Documentação necessária”, defendendo que seria possível estabelecer uma arquitetura moderna “e” brasileira, reconsiderando o nosso passado colonial. Essa foi a saída de Lúcio Costa para desatar tal contradição. No texto, Costa aponta a arquitetura moderna como evolução da arquitetura colonial (COSTA, 1995), pois a arquitetura moderna priorizou a forma simples, a ausência de ornamentação aplicada, um racionalismo nas soluções construtivas (separação entre a estrutura e a vedação) e a ossatura independente. Segundo Costa, essas eram características das casas coloniais brasileiras, portanto, já se notava uma certa “legitimidade” nacional. CARACTERÍSTICAS REPRESENTAÇÕES A simplificação da forma: a arquitetura colonial é simples e apresenta uma planta muito regular. As semelhanças técnico-construtivas: a taipa de mão (barro armado com a estrutura em madeira) é semelhante ao concreto, aço ou vidro, em que a vedação não é estrutural. Uma técnica rudimentar colonial poderia ser inspirações modernas. Essa técnica permitiu a evolução nas espessuras das paredes. 22WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O telhado: o telhado moderno (laje plana e teto jardim) seria uma evolução do telhado colonial. Evolução na abertura dos vãos: à medida que os materiais foram permitindo, os vãos foram ficando maiores, até se transformarem na transparência absoluta. As varandas: segundo o autor, as varandas, quando bem orientadas, são o melhor lugar das nossas casas; é a varanda, no clima tropical, uma sala completamente aberta. Quadro 3 - As características da arquitetura brasileira. Fonte: A autora. Essa relação de evolução da arquitetura colonial para a arquitetura moderna, para Costa (1995), seria natural. Tudo o que nós já fazíamos antes tenderia ao moderno. Portanto, estaríamos no caminho certo, com a arquitetura crescendo e reproduzindo o seu lastro colonial. Dessa maneira, o que Lúcio Costa propunha é que a arquitetura moderna brasileira não seria uma cópia, pois é derivada de nós mesmos, como a documentação necessária pode evidenciar. Nessa perspectiva, Costa amarra a arquitetura moderna como tradição brasileira e estabelece uma filiação para o modernismo no Brasil, tomando-o como um traço de continuidade com o passado colonial, portanto, nacional e identitário. Por isso, o arquiteto recupera, em seus projetos, soluções com o uso de: muxarabis; curvas barrocas; azulejaria, a síntese das artes; e o uso de madeira em acabamentos. 23WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 5.3 Dois Projetos Representativos A Casa Barão Saavedra (1942-1945) foi projetada para uma família que requisitou uma casa de veraneio em Petrópolis, Rio de Janeiro. Destaca-se no projeto a forma como Lúcio Costa solucionou o extenso programa, mas de forma modernista. Trata-se de uma casa em L, onde se localizou o bloco para o programa social de um lado e a área íntima na extensão maior. Os serviços foram deslocados para o térreo, que permaneceu, em grande parte, livre para o acesso do automóvel, tal qual previa Le Corbusier. Apesar de a planta ser bastante funcional, Costa recorreu aos elementos tradicionais, como o telhado de uma água, telha de barro e o muxarabi nas janelas. Figura 11 – A Casa Barão Saavedra (1942-1945). Fonte: Casas Brasileiras (2021). Há uma composição que não foge da arquitetura moderna: a fachada contínua, cujo telhado cai só para um lado, mas com lastro colonial; a planta com uma distribuição em série muito funcional; as janelas que avançam pela parede com telha portuguesa esmaltada na parte de baixo; esquadrias de madeira; uso de materiais tradicionais de forma moderna. O Park Hotel São Clemente (1944) é um projeto de Costa, mas que já foi demolido. Nesse projeto, o arquiteto também fez uso de materiais tradicionais, mas de forma moderna. Trata-se de um bloco linear que abrigava todos os quartos, solto do solo por estruturas de madeira (Figura 12). A telha colonial volta a aparecer, e as estruturas de madeira recebem agora um fechamento em vidro. Portanto, novamente uma forma moderna, mas com um vínculo material expressivo. 24WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 12 – A Casa Barão Saavedra (1944). Fonte: Duarte (2021). Esses pressupostos aplicados à arquitetura teriam grande repercussão no mundo, principalmente a partir de 1945, com a exposição do Brazil Builds, no Museu de Arte Moderna de Nova York. Essa exposição revelou, para o mundo, o Brasil como uma grande potência na arquitetura, uma arquitetura moderna brasileira, uma arquitetura regionalista (GIEDION, 2000), da qual outros arquitetos fariam parte, como Oscar Niemeyer e Roberto Burle Marx. 6. BURLE MARX O arquiteto-paisagista Roberto Burle Marx (1994–1909) cumprirá um papel fundamental na evolução da arquitetura moderna brasileira, não só pelo seu reconhecido talento pessoal, que resultou numa obra inovadora, mas também pela função chave que desempenhará na legitimação dos exemplares paisagistas como verdadeiros espécimes brasileiros (GUERRA, 2002). Ele será o responsável por aplicar, na arquitetura paisagística, os conceitos de identidade nacional conforme apontados por Lúcio Costa, reconhecendo o valor originário moderno, em que o jardim é um artifício que deve reintegrar o homem à sua paisagem natural. 6.1 Trajetória e Características Projetuais Burle Marx se formou também na ENBA, no Rio de Janeiro, em 1930, no auge do debate proposto por Lúcio Costa de renovação do currículo da escola. Sua primeira obra profissional, o jardim da casa de Alfredo Schwartz, de 1932, colocou-o em contato não só com Lúcio Costa, mas também com Gregori Warchavchik (1896-1976), então sócio do arquiteto carioca. O arquiteto-paisagista passou a atuar nos anos de 1930 bastante atento às transformações no panorama da arte e arquitetura brasileiras. Como uma cultura técnica consolidada, Burle Marx conhecia os princípios puristas e geométricos de Le Corbusier e também os empregou em seus trabalhos. Forma e geometria eram elementos essenciais no purismo vanguardista. Os objetos podiam ser representados de modo que seus contornos, retos ou curvos, coincidissem com os objetos próximos, objetivando fazer a transição entre eles e integrá-los na composição, evitando deformações que os descaracterizassem. Le Corbusier chamou esse efeito de mariage de contours (JEANNERET; OZENFANT, 1994). 25WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Em suas obras de paisagismo, Burle Marx recorreu à transposição dos princípiosde organização da pintura moderna para a natureza viva (GIEDION, 2000). Com isso, fez uso de desenhos ondulados, cores, texturas e curvas estruturadas, comuns aos desenhos de Oscar Niemeyer (MAHFUZ, 2010). Esta última não é um traçado casual. É um método que consiste em inserir a linha reta entre os seguimentos de curva, suavizando a transição entre elas. A curva estruturada foi uma estratégia recorrente na pintura, nos projetos de jardins e praças de Roberto Burle Marx (Figura 13). Os traçados curvos que o paisagista testava na composição dos recintos ajardinados “[...] originavam-se de um exercício plástico abstrato e autorreferente” (DOURADO, 2009, p.171). Figura 13 – Design de capa para uma edição de 1953 da Revista Rio. Fonte: Souza (2016). Burle Marx explorava o conceito purista do mariage de contour com o objetivo de criar “[...] jardins paradisíacos, articulados e texturados” (FRAMPTON, 2015, p.310-311). Com isso, os jardins de Burle Marx “[...] guardam a experiência purista das linhas que entrelaçam formas e definem planos e massas de cor” (REGO, 2019). PURISMO DE LE CORBUSIER (VANGUARDA ARTÍSTICA) DESENHO DE BURLE MARX Formas puras Cores em tons pastéis: azul, alaranjado, amarelo, Mariage de contours Formas puras Cores e texturas tropicais Curva estruturada (pintura e jardins) Mariage de contours matizada Quadro 4 - Resumo explicativo entre o purismo de Le Corbusier e o desenho característico de Burle Marx. Fonte: A autora. A atuação de Burle Marx também ficou marcada pelo seu trabalho de catalogação e excursões de coleta de plantas com potencial uso paisagístico em diversas partes do território brasileiro. Tais excursões foram responsáveis por trazer espécies carismáticas das paisagens locais, como possibilidades de transposição para integrar projeto e ambiente natural. Elas também sinalizam a busca desses intelectuais pelas “raízes do Brasil”, das manifestações culturais do folclore, da música e da arquitetura, tornando-se matéria-prima a ser usada, depois, em obras de arte. 26WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 6.2 O Projeto da Praça e Jardim Modernista Como vimos, os arquitetos brasileiros, auxiliados pela consultoria de Le Corbusier, desenvolveram o projeto do Ministério da Educação e Saúde (MES), recorrendo aos princípios puristas do arquiteto francês, mas os revisando para o contexto nacional. No projeto para o teto jardim da cobertura do MES, é possível observar os conceitos das artes plásticas citadas, delimitando em um espaço definido dentro da arquitetura, como um pintor que usou o terraço como tela e as plantas como tintas. Através do uso de uma linguagem abstrata, nota-se, no seu projeto, que a forma é predominantemente marcada por um traçado orgânico baseado no encadeamento de retas e curvas, com tons multicoloridos (Figura 14). Segundo Bruno Zevi (1979), as formas orgânicas livres desse terraço jardim “[...] abrandam a geometria dos traçados reguladores e a dureza dos perfis arquitetônicos.” Figura 14 – Projeto de Burle Marx para o jardim no terraço do MES (1938). Fonte: Souza (2016). Nos jardins da residência Edmundo Cavanelas, em Pedro do Rio (1954), o projeto paisagístico de Burle Marx responde à arquitetura flexível e, ao mesmo tempo, rigorosa de Oscar Niemeyer de duas maneiras diferentes. Canteiros sinuosos ocupam a parte oeste do jardim, enquanto o tabuleiro e a piscina geométricos ocupam a parte leste. A arquitetura funciona como elemento separador e, ao mesmo tempo, integrador dessas duas áreas aparentemente dissonantes, que mantêm uma relação entre si e com a construção. Figura 15 – Projeto de Burle Marx para a Residência Edmundo Cavanelas (1954). Fonte: Souza (2016). 27WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O conhecimento que acumulou em botânica aplicada ao longo da vida permitiu que as especificações vegetais fossem definidas com perfeito domínio técnico para se chegar aos resultados desejados. Isso proporcionou a Burle Marx um aumento no repertório criativo de composição a partir do elenco de plantas disponíveis no Brasil, como um pintor que procura matizes inéditos ou um arquiteto pesquisando materiais de construção. Ao longo de sua extensa vida profissional, Burle Marx teve a oportunidade única de formar dupla com Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Rino Levi e atuar com arquitetos paulistas, como João Batista Vilanova Artigas. Pode-se dizer que a pertinência dos projetos de Burle Marx é reconhecida pela síntese das referências das artes plásticas e pela capacidade criativa de o arquiteto transpor para o projeto paisagístico a nacionalidade e identidade brasileiras. 28WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, foi possível compreender um dos capítulos da História da Arquitetura Brasileira. Iniciamos esse processo reconhecendo as características da arquitetura eclética desenvolvida no País no século XIX e início do século XX. Revisando a sua proposta de arquitetura, que se apoiava em estilos passados europeus, foi possível entender os seus caminhos contraditórios com os conceitos de Modernismo, Modernidade, Modernização e Moderno. Esses conceitos visavam ao progresso e impulsionavam para o novo, excluindo aspectos históricos. Por isso, tais conceitos foram aplicados na arquitetura e urbanismo dos anos 1920 e 1930, sendo altamente difundidos. Na difusão dessa arquitetura, analisamos o papel seminal do arquiteto francês Le Corbusier para o desenvolvimento dessa arquitetura moderna no Brasil. A sua prática projetual foi apropriada pelos arquitetos estrangeiros que migraram para o Brasil no contexto das duas Guerras Mundiais, em especial por Gregori Warchavchik. Como vimos, Warchavchik encontrou certas limitações técnicas construtivas e conceituais para efetivar essa arquitetura modernista no Brasil. Nessa perspectiva, podemos dizer que Lúcio Costa superou tais limitações e foi motivado pelo apoio do governo getulista, a partir de 1930, ao patrocinar o desenvolvimento industrial e os aspectos identitários nacionais na cultura. Lúcio Costa soube associar as duas ideias que, aparentemente, pareciam contraditórias: o moderno seria uma evolução da arquitetura colonial já desenvolvida no País e que era nossa identidade. Por isso, deveríamos praticar uma arquitetura em concreto, com planta livre, com janelas em fita, terraço jardim e o prédio solto do solo, sempre referenciando a nossa identidade com as curvas barrocas e com as esquadrias que pudessem filtrar os raios solares (muxarabis). Tendo isso em vista, foi possível compreender tais ideias aplicadas no projeto paisagístico por meio das obras de Burle Marx a partir das curvas estruturais, do multicolorido e do uso das espécies nacionais. Sendo assim, nesse primeiro momento, aproximamo-nos dos primeiros episódios de uma arquitetura moderna brasileira: dos fatores que a possibilitaram, dos primeiros personagens, das primeiras obras referenciais e das suas características projetuais. 2929WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 02 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO .............................................................................................................................................................. 31 1. A ESCOLA CARIOCA: CARACTERÍSTICAS E CONCEITOS .................................................................................... 31 1.1 UMA CONSOLIDAÇÃO PROJETUAL .......................................................................................................................32 1.2 DIFUSÃO DAS IDEIAS DA ESCOLA CARIOCA ......................................................................................................33 2. A ESCOLA CARIOCA: OSCAR NIEMEYER ..............................................................................................................352.1 MÉTODO E ESTRATÉGIAS PROJETUAIS ..............................................................................................................36 2.2 PROJETOS E OBRAS .............................................................................................................................................39 2.2.1 GRAND HOTEL, DE OURO PRETO (1938-1940) ................................................................................................39 2.2.2 OS PROJETOS PARA PAMPULHA .....................................................................................................................40 A ESCOLA CARIOCA PROFA. MA. ISABELLA CAROLINE JANUÁRIO ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: HISTÓRIA DA ARQUITETURA BRASILEIRA 30WWW.UNINGA.BR 2.2.3 OS PROJETOS PARA BRASÍLIA .........................................................................................................................43 2.2.4 OS PROJETOS PARA SÃO PAULO .....................................................................................................................46 3. A ESCOLA CARIOCA E AS TRAJETÓRIAS PROFISSIONAIS .................................................................................47 3.1 AFFONSO EDUARDO REIDY ..................................................................................................................................48 3.2 SERGIO BERNARDES ............................................................................................................................................52 4. A CIDADE MODERNISTA: BRASÍLIA ......................................................................................................................53 4.1 O CONCURSO .........................................................................................................................................................53 4.2 O PROJETO VENCEDOR DE LÚCIO COSTA .........................................................................................................54 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...........................................................................................................................................57 31WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Como vimos na unidade passada, no Brasil, a arquitetura moderna teve suas origens nas atuações individuais de alguns arquitetos. Entre eles, está Gregório Wachavchik nos anos de 1920, um arquiteto russo emigrado, que havia sido influenciado pelo Futurismo durante seus estudos em Roma e que foi responsável pelas primeiras casas modernistas no Brasil. Além de Lúcio Costa, que exerceu um papel fundamental na formação da arquitetura moderna brasileira, expressada em suas obras emblemáticas no Rio de Janeiro, como o Ministério da Educação e Saúde. Nesta unidade, veremos como as manifestações dos arquitetos cariocas, principalmente atuantes na primeira metade do século XX, tiveram características comuns que lhes proporcionaram ser reconhecidos como uma “escola”. Tais expressões modernas foram difundidas Brasil afora, graças aos deslocamentos dos arquitetos em busca de oportunidades de trabalho e à multiplicação das escolas de Arquitetura e Urbanismo nas grandes capitais. Estudaremos também que essa arquitetura carioca, definida por Lúcio Costa como “uma arquitetura de cara lavada e pernas finas”, teve Oscar Niemeyer como um dos maiores representantes e (pode-se dizer que) um dos mais conhecidos arquitetos brasileiros. Entenderemos o seu método projetual que sintetiza a sua atuação profissional, a partir dos seus exemplares projetuais. Também entenderemos essa arquitetura carioca a partir das trajetórias individuais de Affonso Eduardo Reidy, na sua atuação seminal em projetos de grandes escalas habitacionais e culturais no Rio de Janeiro, bem como as propostas mais arrojadas estruturalmente de Sergio Bernardes. Por fim, compreenderemos o projeto proposto por Lúcio Costa no concurso de 1956 para Brasília. A partir da contextualização das ideias urbanísticas que estavam ressonando no País, entenderemos o projeto vencedor de Costa e as suas consequências para a arquitetura e urbanismo nacional a ponto de criar uma certa inflexão de ideias. Sendo assim, revisitando os projetos da escola carioca — por meio da espacialidade, dos materiais, dos sistemas construtivos empregados, das relações históricas e sociais que essa arquitetura estabeleceu —, entenderemos a sua contribuição para a arquitetura brasileira e sua influência para o contexto nacional na primeira metade do século XX. 1. A ESCOLA CARIOCA: CARACTERÍSTICAS E CONCEITOS Com a revolução liderada por Getúlio Vargas em 1930 e a nomeação de Costa como diretor da Escola de Belas Artes, a arquitetura moderna passou a ser acolhida no Brasil como uma questão de política nacional (FRAMPTON, 2015, p. 310). Em 1936, Le Corbusier teve impacto direto sobre a América do Sul quando foi convidado para atuar no Brasil como consultor para o projeto de um novo edifício para o Ministério da Educação no Rio de Janeiro. Depois de trabalhar com Costa e sua equipe de projetistas (Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcellos, Carlos Leão, Jorge Moreira e Oscar Niemeyer), Le Corbusier pareceu ter endossado a solução de dezesseis andares, que se afastava dramaticamente de seus esboços iniciais. Aliás, essa escala monumental era nova para o arquiteto franco-suíço, sendo essa a grande inovação dos arquitetos brasileiros: uma arquitetura moderna, brasileira e monumental. 32WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.1 Uma Consolidação Projetual O projeto para o Ministério (e a sua repercussão no cenário nacional e internacional, referente a uma “arquitetura brasileira”) se consolidou como símbolo de modernidade e modernização para o Brasil e como um protótipo de grande prestígio dessa arquitetura (COMAS, 1987). Trata-se do peristilo de pilotis, que deu ensejo à primeira aplicação monumental de muitos elementos corbusianos característicos: o teto-jardim, o brise-soleil, o térreo, plantas e fachadas livres. Figura 1 – Ministério da Educação do Rio de Janeiro (1936). Fonte: Cronologia do Urbanismo (2021a). Além disso, a própria forma como o projeto foi implantado na quadra também se tornaria referência projetual, pois, negando a implantação clássica e acadêmica que segue o alinhamento predial, o grupo de arquiteto proporcionou um edifício isolado no lote, com a criação de praças abertas e conectadas com a cidade. Um segundo projeto seminal para a escola carioca e de muita repercussão internacional foi o Pavilhão do Brasil na Exposição de Nova York, em 1939, proposto por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. O bloco em concreto pintado de branco, solto do chão por pilotis, recebeu brises em sua fachada como uma espécie de muxarabis para diminuir a incidência do Sol, assim como surpreendeu por associar as formas puras dos planos ortogonais com um segundo bloco lateral e uma rampa de acesso mais orgânica, com o objetivo de se aproveitar o passeio para apreciar o entorno (Figura 2). A espacialidade interna do projeto também foi revigorante para os que já conheciam as formas ortogonais típicas da arquitetura moderna. As lajes de concreto com pé- direito duplo ganharam total plasticidade, ora se engastando nos pilares metálicos, ora desviando deles. 33WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 2 – Pavilhão de Nova York (1936). Fonte: Cronologia do Urbanismo (2021b). Uma implantação do edifício solto no lote conformando praças, o teto-jardim, a plasticidade do concreto articulando curvas com planos ortogonais, plantas, fachadas e térreo livres foram todos elementos vistos e aplicados por uma série de arquitetos brasileiros a partir de então, arranjados e rearranjados de diversas maneiras na arquitetura nacional.Mas sempre remetendo a essa matriz modernista. 1.2 Difusão das Ideias da Escola Carioca Entre 1943 e 1973, o levantamento bibliográfico de Alberto Xavier registrou 137 referências em periódicos especializados fora do Brasil (SEGAWA, 1998). O mais significativo deles foi o catálogo do Brazil Builds, de 1943 (Figura 3), feito para uma exposição da arquitetura brasileira no Museu de Arte Moderna de Nova York, e o livro de Henrique Mindlin, Modern Architecture in Brazil, de 1956. Nesses textos internacionais, era possível encontrar, além das artes plásticas e igrejas barrocas, o Ministério da Educação e Saúde proposto por Lúcio Costa e equipe, os projetos de Oscar Niemeyer para Belo Horizonte e as obras de Affonso Eduardo Reidy. Pode-se dizer que a repercussão internacional da moderna arquitetura brasileira representou, no plano doméstico, uma legitimação e um reconhecimento social inéditos para uma categoria e para uma prática profissional. Os elementos formais citados anteriormente foram apropriados como modismos por construtores populares, por engenheiros e arquitetos de todo o Brasil. 34WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 3 – Capa do catálogo Brazil Builds (1943). Fonte: Baratto (2019). As revistas de circulação nacional, como a Revista Acrópole (1941-1971), Arquitetura e Engenharia (1946-1965) e Revista Módulo (1955-1965, coordenada por um grupo em torno de Oscar Niemeyer), foram seminais para a difusão da arquitetura moderna no Brasil (SEGAWA, 1998). Além disso, a partir da disseminação do ensino de arquitetura, essa linguagem moderna e brasileira também ganhou voz Brasil afora. No final da década de 1940, foram criadas escolas importantes nas universidades federais, independentes do curso de Engenharia: em Belo Horizonte (1946); na Mackenzie, em São Paulo (1947); na Universidade de São Paulo (1948); em Porto Alegre (1951); no Recife (1959); em Curitiba (1962); em Brasília (1964); em Belém e Fortaleza (1965). Era certo que muitos desses professores que compunham o quadro docente desses novos cursos teriam saído ou da ENBA, no Rio de Janeiro, ou das escolas Politécnicas de Engenharia. Portanto, o deslocamento de profissionais de uma região para outra também foi decisivo para a afirmação de uma linguagem comum moderna pelo território brasileiro (SEGAWA, 1998). Podemos citar como exemplo o arquiteto Acácio Gil Borsoi, que se formou no Rio de Janeiro em 1951, mas passou a exercer sua profissão no Recife, levando para o Nordeste as referências corbusianas, agora adaptadas à linguagem brasileira: o brise-soleil; o piloti; a praça aberta; e o teto jardim. 35WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 4 – Fachada poente do Edifício Santo Antônio (1963). Fonte: Amorim (2010). Nota-se, com isso, que essas migrações caracterizaram um processo de transferência de conhecimento e tecnologia de regiões mais desenvolvidas (como Rio de Janeiro e São Paulo) para outras menores, “[...] num processo indutivo de modernização e uniformização de valores culturais e técnicos, via arquitetura” (SEGAWA, 1998). 2. A ESCOLA CARIOCA: OSCAR NIEMEYER Oscar Niemeyer surgiu nos anos 1940 com projetos e obras de grande qualidade. Do Conjunto da Pampulha, em Minas Gerais, até os palácios de Brasília, Niemeyer consolida sua versão da arquitetura moderna e ganha admiradores e seguidores por toda parte. Na Pampulha, quatro edifícios magníficos demonstram a versatilidade do arquiteto capaz de projetar de várias maneiras. No Ibirapuera, a grande surpresa de se encontrar um espaço vibrante no interior de um edifício até certo ponto anódino quando visto do exterior. Em Brasília, têm-se as inúmeras variações em torno do tema do Palácio Moderno. Neste tópico, veremos quais foram os elementos e repertórios de projeto de um dos mais aclamados arquitetos brasileiros e como essas estratégias projetuais foram aplicadas nas obras mais célebres. 36WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2.1 Método e Estratégias Projetuais Ao mesmo tempo em que é, sem dúvida, o mais famoso dos arquitetos brasileiros, Oscar Niemeyer e sua obra seguem cercados de mistério e mitos. Um deles é o de que o arquiteto não teve nenhum tipo de referência arquitetônica e que teria trabalhado partindo do zero a cada projeto. Como resultado, suas criações seriam sempre originais. Portanto, primeiramente, podemos recuperar as influências de Oscar Niemeyer. A primeira e mais forte influência a quem ele foi exposto diretamente foi Le Corbusier, quando, no projeto do Ministério da Educação e Saúde, o arquiteto franco-suíço foi consultor da equipe brasileira da qual Niemeyer fez parte como estudante. Para Corbusier, a forma de projetar era concebendo o projeto arquitetônico a partir da volumetria e moldando essa forma (BAKER, 1998), ou seja, escolhendo uma forma para trabalhar a priori. Para Oscar Niemeyer, o papel da forma era criar e gerar beleza. A forma deveria surpreender. Certamente, essas ideias estão relacionadas ao purismo corbusiano: os contornos das formas puras, casados com as curvas estruturais que massageiam os olhos e são um passo para o deleite e a experiência do belo. Nessa perspectiva, Niemeyer se aproxima dos conceitos do mestre e explora no concreto toda a plasticidade que o material permitiria. Por que fazemos só o ângulo reto se podemos fazer curvas? Daí a ideia de projetar moldando objetos arquitetônicos. Essas referências aparecem com veemência nos projetos para Pampulha. O livro de David Underwood sobre Oscar Niemeyer buscou dissipar uma corrente da crítica segundo a qual a contribuição da obra de Niemeyer para a arquitetura moderna brasileira teve um caráter essencialmente formal. Para isso, o autor analisou os variados contextos com os quais o arquiteto trabalhou: físico, cultural, político e teórico, os quais puderam elucidar as intenções e sentidos por trás de suas inovações projetuais. Segue a referência: UNDERWOOD, D. Oscar Niemeyer e o modernismo de formas livres no Brasil. São Paulo: Cosac Naify, 2010. O próprio arquiteto alimentava esses mitos ao não explicar como projetava e ao endossar o mito de que a arquitetura não se aprende, mas se nasce arquiteto. Nas poucas vezes em que explicou seus projetos, sempre mencionava referências não arquitetônicas como “a curva da mulher amada” e “as montanhas da minha terra”, por exemplo. Torna-se muito difícil a transmissão de conhecimento sobre projeto quando os arquitetos que são nossas referências justificam seus projetos apenas com conceitos externos à disciplina. Essa atitude de Niemeyer foi nefasta para a prática da arquitetura no Brasil nas décadas de 1950 em diante, pois, por muitas décadas, nossos arquitetos buscaram em cada projeto o que supunham ser a originalidade do seu ídolo. Quando, na verdade, muito se aprende entendendo a lógica projetual de outros arquitetos. 37WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Em segundo lugar, e um pouco menos comentada, é a absorção das ideias do arquiteto alemão Mies van der Rohe. Mies foi um arquiteto que começou atuando na Alemanha nos anos 1920, em especial na Escola de Artes da Bauhaus, mas migrou para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Sua arquitetura é caracterizada por planos ortogonais sobrepostos, que criam um sempre espaço fluido interno. Diferentemente de Le Corbusier, para Mies, a forma não é dada a priori, mas é encontrada a partir da articulação dos planos. DUAS ESTRATÉGIAS PROJETUAIS Le Corbusier Mies van der Rohe Contexto França Alemanha e EUA Resultado formal Uma volumetria a priori Encontrar a forma Estratégia Moldar a forma pura Articular planos Artes plásticas Purismo NeoplasticismoExemplos paradigmáticos Villa Savoye Pavilhão de Barcelona Quadro 1 - Duas estratégias projetuais: Le Corbusier e Mies van der Rohe. Fonte: A autora. Dessa maneira, a arquitetura de Mies se torna extremamente esquemática, sóbria, sem excesso de informação. Em especial na sua atuação nos Estados Unidos, Mies van der Rohe mostrou todo o esquematismo arquitetônico nos projetos em concreto e aço: estruturas leves, com plantas livres e fachadas sem ornamento. Mies van der Rohe, além de ter sido mundialmente conhecido, foi um dos principais expositores na Bienal de 1953-1954, em São Paulo. Suas estratégias projetuais se tornaram referência para Oscar Niemeyer, não pela aparência, mas principalmente pelo caráter esquemático típico de Mies nos projetos para os Palácios Modernos para Brasília, em 1960. Por fim, em seu texto chamado “Depoimento”, de 1958, Niemeyer explica que “[...] passou a se interessar por formas simples, dando protagonismo para a solução estrutural, para o reducionismo da produção arquitetônica e para uma arquitetura sintética e esquemática” (NIEMEYER, 1958). Referências diretas às estratégias de projeto miesiano. Portanto, o que perceberemos nos projetos de Niemeyer é como ele fundiu essas duas referências. Nessa perspectiva, Mahfuz (2010) comenta que existem duas estratégias projetuais que organizam o repertório quase sempre fixo na obra do arquiteto. A primeira é a composição subtrativa ou de partido compacto/monolítico. A segunda é a composição por partes, chamada de composição aditiva ou elementar. Ambas foram herdadas da arquitetura de séculos passados e de referências modernas europeias. 38WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Na concepção monolítica, o ponto de partida é sempre uma forma elementar: um prisma de base retangular, um cilindro, uma pirâmide, cúpulas, paraboloides, abóbadas de berço, formas livres, não importa a elaboração pela qual tenham passado durante o projeto ou processo projetual. Os apoios são sempre pilotis, pilotis compostos, arcadas, colunatas, inovações plásticas (colunas dos palácios de Brasília). Comumente, percebem-se os jogos rampas, conforme apresentado por Le Corbusier (internas e externas), que servem para apreciação do contexto. E estão sempre presentes os moduladores climáticos como brises–soleil, marquises, galerias e variações. Exemplos: • a barra horizontal ou curva: dimensão horizontal maior que a vertical (Copan); • a torre: única ou duas (Congresso, em Brasília); • edifício circular de baixa altura: com pátio interior ou não (Museu do Índio); • a marquise orgânica: maior e menor escala (Ibirapuera); • a plataforma tapete e plataforma habitável (Congresso, em Brasília); • as cascas de concreto em forma livre (Capela da Pampulha); • O edifício viga: onde a estrutura é externa e está posicionada nas laterais do edifício, que o suspendem, e, portanto, não toca o chão; pavimento térreo permeável (Editorial Mondadori). Na composição aditiva ou por partes (elementar), esses elementos voltam a aparecer, mas, agora, em edifícios com escalas maiores ou em conjuntos de edifícios. A composição elementar pode acontecer com dois componentes volumetricamente conhecidos, coincidindo com elementos importantes do programa ou com elementos que se conectam. • Edifícios de formas simples e elementares são conectados pela marquise (Ibirapuera); • Um bloco maior repete quase todo o programa, e o bloco menor é destinado a um programa à parte (Hospital Sul-américa; Sede do Partido Comunista). Portanto, essas serão algumas das estratégias projetuais que identificaremos nos projetos a seguir. 39WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2.2 Projetos e Obras 2.2.1 Grand Hotel, de Ouro Preto (1938-1940) O Hotel para Ouro Preto, proposto por Oscar Niemeyer, se configurou como uma barra linear de estrutura independente de concreto, térreo livre, com garagem e pilotis, quartos com mezaninos e quartos individuais, além de cobertura com telha capa canal (ou colônia) de uma água (Figura 5). Esse bloco linear que separa a estrutura da vedação associa elementos coloniais nos fechamentos com as formas abstratas e estruturas formais modernistas, como havia ensinado Lúcio Costa (Figura 6). Figura 5 – Corte do projeto para o Grande Hotel, Ouro Preto. Fonte: Comas (2010). Figura 6– Grande Hotel, Ouro Preto. Fonte: Comas (2010). 40WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA A solução final proposta por Niemeyer se apoia em certas características corbusianas: o bloco puro branco, solto do solo pelos pilotis que acomodam o edifício na sua condição topográfica, com rampas de acesso. Mas, com relação aos projetos anteriores do mestre francês, aparece uma novidade fundamental – o telhado de uma água caindo para a rua e as esquadrias em madeiras seguindo o modelo de muxarabis, fazendo referências ao meio colonial barroco. O modelo esquemático de monobloco, cuja forma foi moldada, será reutilizado por Niemeyer em diversos outros projetos. 2.2.2 Os projetos para Pampulha O conjunto arquitetônico da Pampulha é composto pela Casa do Baile (1942), Edifício do antigo Cassino (1942), o Iate Clube (1942), a Igreja de São Francisco (1943) e a casa de Juscelino Kubitschek, todos implantados junto à lagoa artificial da Pampulha, em Belo Horizonte. Encomendados por Juscelino Kubitschek no início da década de 1940, esses edifícios foram inaugurados em maio de 1943 e visavam a revelar modernização para a capital mineira a partir da arquitetura. Com essa encomenda, Niemeyer pôde projetar cinco soluções diferentes para atender os específicos programas (Figura 7). O complexo foi tombado como patrimônio cultural federal, estadual e municipal, sendo reconhecido como símbolo da história do Movimento Moderno Brasileiro e de identidade da capital mineira. O conjunto ganhou mais destaque pelo seu caráter modernista também pelos painéis de Cândido Portinari, o paisagismo de Burle Marx e as esculturas de Ceschiatti, Zamoisk e José Pedrosa. Figura 7 – Croqui do Conjunto da Pampulha, Belo Horizonte. Fonte: Baratto (2016). 41WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Na Casa do Baile, nota-se a estratégia de Niemeyer de moldar a forma pura em concreto, conectando duas formas circulares por uma marquise orgânica, sob pilotis revestidos em pedras (semelhante ao projeto do Ministério da Educação e Saúde, do Rio de Janeiro) e com guarda- corpo revestido por azulejos, fazendo referências à tradição colonial. Figura 8 – Casa do Baile, Belo Horizonte. Fonte: Portal IPHAN (2021). O edifício proposto para o Cassino (Figura 9) também surpreende pela sua associação formal de quatro volumes que compõe o projeto arquitetônico: a articulação entre a caixa, o cilindro, o bloco e a marquise garante quatro elevações tripartites, cada uma com elemento central projetando-se sobre colunas. O acesso é frontal, mas a obliquidade aviva o partido arquitetônico. A espacialidade interna remete a toda criatividade proposta por Niemeyer e Lúcio Costa no Pavilhão de Nova York pelo pé direito duplo. A marquise que marca o acesso se sustenta por ‘pernas’ finas de aço. Figura 9 – O antigo edifício para o Cassino, Belo Horizonte. Fonte: Comas, 2008. 42WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O Iate Clube havia sido concebido para ser um equipamento público de lazer e esporte para a população de Belo Horizonte. Aqui, a novidade plástica explorada por Oscar Niemeyer é que a caixa de vidro com brise-soleil em uma das fachadas agora recebeu um telhado duas águas invertido, conhecido também por telhado borboleta (Figura 10). A casa proposta para Juscelino Kubitschektambém assume a mesma solução formal: a caixa com o telhado invertido. No caso residencial, Niemeyer volta a explorar materiais mais tradicionais, como a madeira nos fechamentos e acabamentos internos (Figura 11). Figura 10 – Iate Clube, Belo Horizonte. Fonte: Wiki Arquitectura (2021). Figura 11 – Casa para Juscelino Kubitschek, Belo Horizonte. Fonte: Portal IEPHA (2021). 43WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Por fim, um dos projetos mais emblemáticos de Niemeyer para a Pampulha foi a Igreja de São Francisco de Assis. Nesse projeto, o arquiteto explorou toda a espacialidade e plasticidade do concreto armado, propondo como solução formal uma sequência de abóbadas (Figura 12). Não existe uma única linha reta no projeto. Todos os seus elementos são curvas ou são linhas na diagonal, a exemplo da inclinação da marquise e do campanário. A espacialidade interna também surpreende. O coro e seus elementos curvos fazem referência às relações côncavas e convexas vistas na arquitetura barroca mineira. Figura 12 – Igreja São Francisco de Assis, Belo Horizonte. Fonte: Mota (2021). Em seu exterior, destacam-se a fachada em painel de azulejos em tons azuis, de autoria de Cândido Portinari, e o painel de pastilhas abstrato de Paulo Werneck. Os jardins que circundam a igreja foram projetados por Burle Marx. Seu interior abriga a Via Sacra, constituída por 14 painéis de Portinari. Por suas linhas curvas e suas formas inusitadas, a obra demorou 14 anos para ser reconhecida pela arquidiocese. 2.2.3 Os projetos para Brasília Conforme comentado anteriormente, os projetos de Oscar Niemeyer para Brasília foram considerados como propostas inovadoras sob o ponto de vista formal. Foi nesse contexto que o arquiteto se aproximou de projetos mais esquemáticos, cuja estrutura recebeu maior relevância no projeto do que somente a exploração plástica (NIEMEYER, 1958). Nessa perspectiva, ele se aproxima mais da simplificação da forma conforme visto na arquitetura de Mies van der Rohe. As obras para Brasília respondem, portanto, a três categorias de estratégias de projetos, adotadas por Niemeyer: os palácios de pórticos, os edifícios compostos por jogos de volume simples e os edifícios religiosos de planta centrada (BRUAND, 2012, p. 183). Os palácios de pórticos correspondem a duas lajes aparentes e uma espacialidade interna flexível, permitida pelos pórticos esculturais que apoiam as lajes. Com uma arquitetura baseada em articulação de planos, planta modular, com apoios externos à “caixa” envidraçada, o monobloco resolveu todo o programa. Essa foi a concepção de palácio moderno apresentada para o Alvorada (Figura 13), Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. 44WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 13 – Palácio da Alvorada, Brasília. Fonte: Weintraub (2021). A combinação e o jogo de volumes podem ser exemplificados pelo projeto elaborado para o Congresso. O programa, diferentemente dos palácios, não era tão unitário. Ele deveria abrigar duas assembleias, todo o apoio institucional para senadores e deputados e, ainda, servir como ponto focal para o eixo monumental. Para resolver o problema de alta complexidade, Niemeyer propôs a solução mais simples de articular todo o programa a partir de uma grande plataforma encimada por duas cúpulas e duas torres que contêm os escritórios. Figura 14 – Palácio do Congresso, Brasília. Fonte: Souza (2021a). 45WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Tais estratégias de projeto de Niemeyer não fogem das grandes preocupações formais e projetuais que o arquiteto esteve desenvolvendo em suas realizações anteriores: uma espécie de monumentalidade a partir da arquitetura; a manipulação da forma; a articulação dos planos; a associação do paisagismo e das artes plásticas com a arquitetura. Essas foram as qualidades dos projetos para a Igrejinha da quadra 308 em Brasília, que revela a síntese das artes com os artistas plásticos Athos Bulcão (no exterior) e Volpi (no interior). O Palácio das Relações Exteriores – Itamaraty – (Figura 15) também é um projeto que se destaca no meio da sua produção pela adoção do concreto aparente, que contribui para uma certa novidade no seu repertório formal. Figura 15 – Palácio das Relações Exteriores – Itamaraty, Brasília. Fonte: Holanda (2017). O edifício com uma estrutura externa nas laterais suspende o bloco de vidro, tocando ou não o chão circundado pelo espeço d’água. Essa solução também foi vista no projeto para a Editora Mondadori, em Milão. Com isso, nota-se que, em Brasília, Niemeyer soube explorar inúmeras estratégias projetuais, variando elementos já conhecidos em seu repertório, mas sempre alcançando formas originais e inéditas no conjunto da sua obra até então e associando as referências de Le Corbusier às de Mies van der Rohe. 46WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2.2.4 Os projetos para São Paulo São Paulo, com o seu crescimento econômico, também entrava para o circuito das modernizações a partir da arquitetura, principalmente nos anos de 1950 e1960. Os projetos de Oscar Niemeyer para o Ibirapuera e Copan não deixam de atestar esses episódios. Para o Parque do Ibirapuera, o arquiteto carioca propôs algo semelhante com o conjunto da Pampulha. Trata-se de edifícios de forma simples (monobloco ou cúpula) espalhados no parque, mas, dessa vez, são conectados por uma marquise orgânica (Figura 16). Exemplifica, portanto, a composição elementar que comentamos anteriormente a articulação espacial de grandes conjuntos que se conectam por algum elemento. Figura 16 – Parque Ibirapuera, São Paulo. Fonte: Lareu (2018). O Copan, por sua vez, inserido no centro de São Paulo, foi um projeto destinado a abrigar uma diversidade de programa: habitação, comércio e serviços. Em um terreno estreito, Niemeyer resolve todo o complexo com uma barra que se molda e retorna ao lote, ao invés de ser totalmente linear. A própria laje estendida contribui para diminuir a incidência do Sol, atuando como brise- soleil (Figura 17), solução inovadora quando comparada com a torre do Ministério da Educação. 47WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 17 – Copan, São Paulo. Fonte: Catraca Livre (2020). A trajetória projetual de Oscar Niemeyer ainda rendeu projetos importantes na segunda metade do século XX, principalmente no exterior, em seus anos de exílio na ditadura militar brasileira (1964-1985). Projetos para Argel e Paris revisam algumas das suas formas e soluções propostas anteriormente. Nos anos 1990 e início do novo século, alguns dos seus projetos com programas culturais ainda chamam a atenção pelo arrojo formal, por vezes, extremamente eloquentes, sem muita razão: os projetos para o Museu da América Latina, em São Paulo; o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba; e o Museu de Arte Contemporânea, em Niterói. 3. A ESCOLA CARIOCA E AS TRAJETÓRIAS PROFISSIONAIS Algumas trajetórias paralelas às de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer também são representativas da escola carioca e importantes para a afirmação da sua hegemonia enquanto características projetuais. Trata-se, primeiramente, de Affonso Eduardo Reidy, formado na ENBA, em 1930. Como comentamos anteriormente, ele trabalhou com os mestres cariocas no projeto para o Ministério da Educação. Ainda, Sérgio Bernardes, formado na Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA, uma atualização da ENBA), em 1940, quando a escola carioca já havia alcançado todo o seu prestígio nacional e internacional. Reidy nos apresentara uma potencialidade da arquitetura a partir da solução estrutural, e Sérgio Bernardes, o requinte da estrutura metálicaassociada à sofisticação dos detalhes construtivos. Esses arquitetos tornam-se representativos para o Rio de Janeiro, mas também para arquitetos de fora da capital carioca. 48WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 3.1 Affonso Eduardo Reidy Um feito singular na arquitetura brasileira foi o complexo do Pedregulho de Reidy, construído no Rio de Janeiro, entre 1948 e 1954, para abrigar os funcionários públicos. O projeto compreendeu apartamentos, uma escola primária, um ginásio de esportes e uma piscina (Figura 18), conformando um conjunto de Unidade de Vizinhança prototípica, que seria aplicado também em Brasília (como veremos adiante) para receber os funcionários públicos da nova capital brasileira. Figura 18 – Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes (Pedregulho), Rio de Janeiro Fonte: Fracalossi (2021). Os blocos de apartamentos foram divididos em três: o bloco A, com 272 apartamentos duplex e quitinetes; e os blocos I e II, com outra tipologia de apartamento também duplex. A peça-chave de todo o conjunto é o grande edifício construído no alto do terreno (o Bloco A), direcionando na sua implantação todos os apartamentos com vistas para a Baía de Guanabara (Figura 19). De planta serpenteada, que acompanha as condições naturais do terreno, o Bloco A não deixa de atestar a herança com os postulados de Le Corbusier. Trata-se do prédio de quase 260 m de comprimento e 11,40 m de largura, com claras preocupações funcionais estreitamente relacionadas às soluções formais: a tecnologia do concreto aplicada na construção, controle da luz e da ventilação, facilidade de circulação, o equilíbrio da forma pura no terreno inclinado a partir de pilotis. O vocabulário plástico empregado como referência também foi uma das soluções de Oscar Niemeyer para o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte: a retomada de arcos e abóbadas, as linhas curvas e os desenhos ondulantes. 49WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 19 – Infográfico do Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes (Pedregulho), Rio de Janeiro. Fonte: O Globo (2021). 50WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O Pedregulho foi elogiado pela crítica internacional, inclusive por Le Corbusier em sua passagem pelo Brasil, em 1962, marcando um momento de reconhecimento internacional das obras arquitetônicas e urbanísticas de Reidy. Outro projeto de destaque do arquiteto na sua produção é o Museu de Arte Moderna (MAM), de 1952, no Rio de Janeiro, implantado no Aterro do Flamengo. Os dois projetos são responsáveis por marcar novos episódios na modernização na cidade. Figura 20 – Aterro do Flamengo e o MAM, Rio de Janeiro. Fonte: Migliani (2021). O projeto para o MAM é representativo da arquitetura moderna brasileira por revelar uma solução projetual cujo rigor estrutural é uma das principais respostas formais do projeto. Essa ideia seria seminal ao longo das décadas de 1950 e 1960 para os arquitetos paulistas, como veremos na próxima unidade. A estrutura é de concreto aparente, com quatorze pórticos em formato de V (não simétricos), posicionados a 10 m de distância entre si (Figura 21). Seus apoios sustentam as lajes superiores e intermediárias, que conformam o monolítico que abriga o acervo do museu. A escada interna helicoidal, em concreto, é uma peça escultural à parte. Essa clareza estrutural e sua solução esquemática de planos e pilares precisos (e muito arrojados para a época) propuseram uma nova feição para a arquitetura nacional a partir da exploração plástica do concreto aparente. 51WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 21 – MAM, Rio de Janeiro Fonte: Migliani (2021). O Parque do Flamengo surgiu em um contexto completamente imerso na dita “Revitalização da Marina da Glória”. Naquela época, aliou-se a vontade de um governo democrático ao trabalho de uma equipe visionária e competente. Seu projeto foi fruto de um trabalho em grupo, presidido por Lota Macedo Soares e chefiado por Affonso Eduardo Reidy, tendo Roberto Burle Marx como o projetista da paisagem. O Aterro do Flamengo é, antes de tudo, uma importante experiência no contexto brasileiro em termos de utilização de um parque como instrumento específico de planejamento urbano, que precede e orienta as iniciativas da administração pública e de particulares (OLIVEIRA, 2006). Paralelamente à sua criação, melhorou-se a conexão viária entre a Zona Sul e o centro do Rio, criou-se uma praia artificial e integraram-se importantes equipamentos urbanos que buscavam equipá-la com infraestrutura, como o aeroporto Santos Dumont, o MAM e o Iate Clube. Figura 22 – Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro. Fonte: Costa (2013). 52WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Uma das grandes lições que podemos extrair dos projetos de Reidy é o seu pensamento sempre na escala urbana. Um interior, uma casa ou um conjunto habitacional eram vistos como problemas análogos, que requeriam igualmente uma estrutura formal, por constituírem apenas diferentes escalas de um mesmo problema (MAHFUZ, 2003). Com isso, uma certa sistematicidade de pensamento do arquiteto também fica evidente, ou seja, o desenvolvimento de um modo de projetar que possa resolver o maior número possível de temas arquitetônicos. 3.2 Sergio Bernardes Sergio Bernardes se destacou pelos diversos prêmios que recebeu na década de 1950: em 1953, o Prêmio Jovem Arquiteto Brasileiro na 2ª Bienal de São Paulo com a Residência de Lota Macedo Soares; em 1954, a Trienal de Veneza com a Residência de Helio Cabal; e, em 1958, com o Pavilhão da Feira Internacional de Bruxelas, venceu em todas as categorias, o que o levou a receber a condecoração de Chevallier de La Courone Belge. Suas experimentações relacionadas aos materiais e métodos construtivos, associados com uma espacialidade flexível a partir de grandes vãos, são reconhecidamente inovadoras e são um dos aspectos que mais se destacam na obra do arquiteto carioca. Essas qualidades aparecem no projeto residencial para Lota Macedo Soares. Como comentamos anteriormente, a arquiteta paisagística Lota Macedo Soares foi uma importante personagem na arquitetura carioca pela sua participação efetiva na implantação de projetos de revitalização do Aterro do Flamengo. O arquiteto resolveu o projeto residencial com um telhado de alumínio ondulado, que repousou sobre uma treliça metálica e finos pilares de aço. Além de aço em pilares e cobertura, fechamentos em vidro e concreto em viga e pilar, Sergio Bernardes utilizou materiais mais simples e no seu estado aparente, como pedras e tijolos. Os planos de vidro, tijolos e pedra organizam os espaços: numa das extremidades, estava o apartamento íntimo, com nível um pouco mais elevado que os demais (Figura 23). Uma longa e elegante galeria em rampa de dois trechos serve como varanda e conduz ao estar social e aos aposentos dos hóspedes, situados na outra extremidade, de modo a garantir-lhes o máximo de conforto e privacidade. Figura 23 – Casa de Lota Macedo Soares. Fonte: Casa Cláudia (2017). 53WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Essa sofisticação se dá sob o ponto de vista de detalhamento estrutural e de execução, bem como as soluções funcionais internas de separação do corpo íntimo e social da casa, conforme se identifica pela diferença de materiais. Serão aspectos de referência para a arquitetura residencial carioca. 4. A CIDADE MODERNISTA: BRASÍLIA Pode-se dizer que o sucesso alcançado pelo grupo carioca em projetos arquitetônicos tem o seu ápice nos anos 1956-1960, com a proposta urbanísticamais relevante da história, política, economia e cultura brasileira: o concurso e o projeto para a nova capital nacional. 4.1 O Concurso Proposta já em 1823 por José Bonifácio de Andrada e Silva, a criação de uma nova capital do Brasil no interior do País começou a se realizar em setembro de 1956, com a publicação do edital para o “Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil”, no Diário Oficial da União, por determinação do então presidente Juscelino Kubitschek. O objetivo do edital era promover o desenvolvimento do projeto a ser utilizado na implantação da nova capital. Investir em obras públicas continuava sendo a forma que o governo desenvolvimentista encontrava para acelerar a economia e propor uma identidade nacional. Basta lembrar que Getúlio Vargas já havia feito isso com o Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro, e Kubitschek com a Pampulha, em Minas Gerais – que havia apresentado bons resultados. Como vimos com relação à arquitetura moderna, na concepção dessa nova cultura arquitetônica e urbanística, as caraterísticas de cidades tradicionais e clássicas não serviriam mais. Elas estariam esgotadas e não se adequavam à proposta de progresso. O que seria oportuno seria uma cidade utópica, nova e que atendesse aos anseios de uma sociedade ideal. Com isso, os projetos finalistas foram fortemente embasados pela Carta de Atenas de 1933 (BRAGA, 2010). Neles, encontram-se sistematicamente as lições desse pensamento: a divisão entre as quatro funções principais enunciadas na Carta (habitar, trabalhar, cultivar o corpo e o espírito, circular); o solo como propriedade pública; os setores bem definidos; unidade de vizinhança e super quadra; urbanização com o tráfego com vias especializadas e com a separação entre veículos e pedestres; e o uso de formas geométricas puras para os edifícios dispersos no território. Os finalistas do concurso para a nova capital foram: em 5º lugar, Carlos Cascaldi, João Vilanova Artigas, Mário Wagner Vieira da Cunha, Paulo de Camargo e Almeida / Henrique Mindlin e Giancarlo Palanti / Construtécnica S/A – Milton C. Ghiraldini; em 3º e 4º lugares, a equipe carioca formada por MM Roberto / Rino Levi, Roberto Cerqueira Cesar, Luis Roberto Carvalho Franco; em 2º lugar, os arquitetos associados Boruch Milmann, João Henrique Rocha e Ney Fontes Gonçalves; e, em 1º lugar, Lúcio Costa e equipe. 54WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA A proposta de Costa denota, fundamentalmente, os posicionamentos exigidos no edital: uma cidade para a nova época, naquele momento de euforia e ufanismo. O arquiteto também se referenciou nas ideias da Carta de Atenas de 1933, mas apresentou um projeto que expressava a monumentalidade de prestígio na arquitetura brasileira, agora na escala urbana para uma capital modernista e que seria representativa desses sentimentos de euforia e ufanismo. 4.2 O Projeto Vencedor de Lúcio Costa A proposta apresentada por Costa foi desenhada considerando principalmente dois eixos perpendiculares, consagrados, respectivamente, ao setor público e à vida particular, com concentração de atividades mistas na interseção dos dois elementos. Assim, ele chegou à forma definitiva do projeto: o formato de um avião dotado de imensas asas ligeiramente curvas, acompanhando o nível do grande território (Figura 24). Uma solução de extrema elegância e simplicidade, simetria e nitidez, mas, sobretudo, monumental. Tratava-se de uma obra de arte, imaginada, desde o princípio, como um todo acabado e perfeito. Figura 24 – Plano Piloto de Brasília. Desenho apresentado no concurso. Fonte: Canez e Segawa (2010). Entre 1956 e 1957, a realização do Concurso para o Plano Piloto da Nova Capital do Brasil foi polêmica e controversa, principalmente pela vitória de Lúcio Costa. As críticas redundaram quanto à forma sumária de apresentação do projeto de Costa (algumas folhas datilografadas, seguidas de croquis feitos à mão) e dos investimentos de algumas equipes que apresentaram dezenas de pranchetas e maquetes. Outras reportagens voltaram-se à rapidez na escolha dos finalistas e ao processo de seleção que contava com figuras sempre ligadas à pessoa de Oscar Niemeyer, colocando em discussão: a validade e a competência de tal concurso; decisões políticas autoritárias; o uso ideológico da construção de um emblema nacional; e a retórica modernista. 55WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Para Costa, uma capital digna desse nome devia ser monumental a fim de desempenhar o papel de prestígio que lhe era atribuído: a criação de uma perspectiva principal única e com expressão plástica, englobando todos os edifícios mais representativos. Ademais, uma cidade moderna, digna do seu tempo, não podia ser concebida sem se levar em conta um fenômeno próprio do século XX: a civilização do automóvel. É possível percorrer todo o plano-piloto sem nenhum cruzamento de vias em função da tensão de sua malha. Outro aspecto significativo no projeto de Costa é a relação entre moradia e cidade a partir da revisão do conceito de Unidade de Vizinhança. A unidade de vizinhança fora definida como um setor urbano que acomodava organicamente a população necessária para o funcionamento de uma escola primária, configurado de modo que nenhuma criança caminhasse além de meia milha até a escola – aproximadamente 800 metros –, de preferência sem ter que cruzar sequer uma via de tráfego importante (MUMFORD, 2000). Deveria conter uma escola, partes para área de lazer, comércio local e serviço. Essa ideia apareceu no Plano Regional de Nova York, de 1929, detalhado por Clarence Perry, em 1923. Costa, em Brasília, também fez uso dessas referências clássicas para o estudo do urbanismo no começo do novo século. Em Brasília, a Unidade de Vizinhança foi desenhada composta por quatro superquadras, com população da ordem de 10 a 12 mil habitantes. Em cada superquadra, os blocos de habitação obedeceram ao gabarito de seis pavimentos sob pilotis, térreo livre e com separação entre tráfego de veículos e pedestres (Figura 25). Além das residências, deveriam constar o comércio básico e a escola para serviços mínimos. As superquadras foram repetidas na Asa Sul e Asa Norte do plano. Figura 25 – As superquadras, em Brasília. Fonte: Kon (2021). A cidade foi inaugurada em 1960 e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1990, o que assegura a preservação dos seus “princípios volumétricos e espaciais”. Dessa maneira, a sua volumetria está preservada, podendo serem passíveis de demolição futuras edificações que não obedeçam aos parâmetros originais de ocupação do plano. 56WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O projeto para Brasília de Lúcio Costa se destaca por associar ideias já conhecidas da Carta de Atenas de 1933, mas com uma expressão plástica que difere do racionalismo ortodoxo. Existe uma certa monumentalidade brasileira. O seu projeto e viabilização se tornaram uma inflexão na história da arquitetura e urbanismo no Brasil (BASTOS; ZEIN, 2010). A sua implantação, inauguração e utilização desnudaram os problemas de uma cidade modernista quando essa crítica já se tornava evidente no contexto europeu de reconstrução das cidades do pós-Segunda Guerra: uma cidade somente para o automóvel e uma cidade que morre em certos períodos do dia pela sua separação absoluta dos usos de moradia, comércio e serviço. Essas verdades vividas na prática se tornaram peças fundamentais para as críticas pós-modernistas e para novos capítulos da história da arquitetura brasileira. Brasília, Contradições de Uma Cidade Nova: documentário dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, produzido em 1967. Duração: 23 minutos. Retrata as desigualdades sociais que se desenvolveram na então novacapital do Brasil. Conferir em https://www.youtube.com/watch?v=3Ony7axA-CE . 57WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, vimos como as manifestações dos arquitetos cariocas, principalmente atuantes na primeira metade do século XX, tiveram características comuns que lhes proporcionaram ser reconhecidos como uma “escola”. Os volumes puros, retorcidos ou não, articulados ou não com outros elementos, conformaram configurações inovadoras, a sequência de pilotis, o teto-jardim, o brise-soleil, o térreo, plantas e fachadas livres. Graças ao sucesso dessa arquitetura moderna e bem estimada pela crítica, tais expressões foram difundidas Brasil afora, devido, em grande parte, aos deslocamentos dos arquitetos em busca de oportunidades de trabalho e multiplicação das escolas de Arquitetura e Urbanismo nas grandes capitais. Essas foram características que deram ensejo a muitos projetos dos arquitetos cariocas e que não deixam de atestar uma certa relação com o método de projeto de um dos principais arquitetos brasileiro, Oscar Niemeyer. Como vimos, muitas formas e estratégias de projeto de Niemeyer advêm das relações formais com a arquitetura de Le Corbusier no aspecto de moldar uma forma a priori para “criar beleza”, a exemplo dos projetos da Pampulha, em Belo Horizonte. E, com a arquitetura de Mies van der Rohe, é a simplificação da forma com os planos de vários pisos que permite acolher todo o programa em uma solução mais “pavilhionar”, a exemplo dos Palácios Modernos, em Brasília. Em algumas trajetórias particulares dos arquitetos cariocas, vimos essas soluções com preocupações diferentes. Para Reidy, o projeto arquitetônico assumiu uma escala de relação com a cidade, como vimos tanto no projeto para o MAM como no edifício linear curvo do Pedregulho, com sua solução seccional para terrenos em declive, com um piloti no nível da rua e vários andares abaixo e acima dele. O esquema miesiano também aparece nos projetos de Sérgio Bernardes graças à espacialidade flexível interna, mas agora sob estruturas metálicas e fazendo uso de outros materiais para fechamento, como tijolo e alvenaria comum. Por fim, compreendemos como o projeto proposto por Lúcio Costa para o concurso de Brasília fez uso das ideias urbanísticas que estavam ressonando no País como as principais referências da Carta de Atenas de 1933, mas adaptadas para o anseio de modernização, identidade e ufanismo vivido pelo Brasil, com um projeto monumental e caraterístico de uma capital nacional. Essas verdades vividas na prática com uma cidade modernista se tornaram peças fundamentais para as críticas pós-modernas e para novos capítulos da história da arquitetura brasileira. 5858WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 03 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ..............................................................................................................................................................59 1. O BRUTALISMO PAULISTA: CARACTERÍSTICAS E CONCEITOS .........................................................................60 1.1 A ARQUITETURA DA ESCOLA CARIOCA E A ARQUITETURA DA ESCOLA PAULISTA ......................................60 1.2 AS CARACTERÍSTICAS DA ARQUITETURA BRUTALISTA PAULISTA ................................................................ 61 2. O BRUTALISMO PAULISTA: ARTIGAS ...................................................................................................................65 2.1 UMA TRAJETÓRIA ..................................................................................................................................................65 2.2 PROJETOS E ESTRATÉGIAS PROJETUAIS ..........................................................................................................67 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...........................................................................................................................................75 O BRUTALISMO PAULISTA PROFA. MA. ISABELLA CAROLINE JANUÁRIO ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: HISTÓRIA DA ARQUITETURA BRASILEIRA 59WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Conforme visto nas unidades anteriores, é possível reconhecer as características e os representantes da escola carioca: o papel fundamental de Lúcio Costa propondo uma arquitetura moderna e brasileira; Oscar Niemeyer criando formas inovadoras para essa arquitetura; Burle Marx fazendo a interpretação dessas lições compositivas para o projeto de paisagem no Brasil; Reidy interpretando a cidade e tornando o projeto arquitetônico como parte do meio construído; e as novas experimentações materiais de Sergio Bernardes. Compreendemos também a importância do concurso para Brasília no final da década de 1950: as referências de projetos de cidade que o concurso proporcionou; o ápice da arquitetura moderna carioca; a consolidação e o declínio de uma cidade modernista racionalista devido às suas verdades reveladas a partir do seu funcionamento. Nesse sentido, entendemos a arquitetura carioca como uma “escola” que utilizou o vocabulário formal que se disseminou pelo País, recuperando as estratégias de projeto de Le Corbusier no que diz respeito à estética purista, à arquitetura como forma; e de Mies van der Rohe na sua forma minimalista e de formas elementares, principalmente no que diz respeito ao “espaço sanduíche” de duas lajes que permitem uma espacialidade flexível. Nesta unidade, entenderemos que esses dois arquitetos ainda serão referências para os arquitetos sediados em São Paulo. Mas, principalmente a partir da década de 1960, esse grupo de arquitetos passou a ter uma linguagem com características muito semelhantes, reconhecida pela literatura como Brutalismo Paulista, por usar o concreto armado no seu estado bruto, aparente, sem revestimentos. Essas ideias chegaram ao Brasil em um contexto de pós-Segunda Guerra via Le Corbusier (novamente), mas, agora, com um debate e carga ideológica própria, principalmente pela atuação de João Batista Vilanova Artigas. Com uma trajetória muito reconhecida nos anos de 1950, 1960 e 1970, Artigas se consolidou no campo da prática profissional em São Paulo e também no campo acadêmico. Sua atuação como professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP) foi seminal para consolidar um tipo de pensamento projetual: a estrutura como principal gerador do projeto arquitetônico. O mestre falou para muitos alunos e deixou um legado, uma tradição de projeto moderno e espacialidade interna, revigorada até hoje pelos arquitetos contemporâneos no Brasil. 60WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1. O BRUTALISMO PAULISTA: CARACTERÍSTICAS E CONCEITOS Com a prosperidade econômica que São Paulo desfrutou graças à exportação de café, industrialização e ação desenvolvimentista no estado, a metrópole passou a se tornar referência quanto ao que tinha de mais moderno no País. O mercado imobiliário estava aquecido, e os construtores, empresários e investidores estavam buscando os arquitetos modernos para o desenvolvimento de projetos, em especial, edifícios em altura (LORES, 2017; SILVA, 2013). A separação dos cursos de Engenharia e Belas Artes (lembrando que a FAU MACKENZIE ganhou um currículo novo em 1947, e a FAU USP ganhou um currículo novo em 1948) também lançou os arquitetos e urbanistas para atuarem de forma independente e com um certo grau de autoridade. Essas movimentações de modernização e associação com o mercado imobiliário são vistas na cidade a partir dos edifícios: Copan (1954), de Oscar Niemeyer; Conjunto Nacional (1956), de David Libeskind; e o Edifício Itália, de Franz Heep (1957). Esses episódios atestam também a importância da arquitetura na cidade no contexto da década de1950. Ali, emerge a figura de Vilanova Artigas. Arquiteto, professor na FAU USP e muito atuante no Instituto dos Arquitetos do Brasil (instituição que existe até hoje, que se debruça sobre as causas dos arquitetos, do interesse da cidade em prol da classe), Artigas reuniu em seu entorno muitos arquitetos, o que certamente foi muito favorável para uma certa aproximação criativa entre os arquitetos paulistas naquele meio. É nessa perspectiva que a arquitetura paulista se desenvolve com causas próprias da cidade, com novos personagens, ampliando a cultura arquitetônica brasileira e sedimentando uma nova vertente na história: a arquitetura brutalista paulista. 1.1 A Arquitetura da Escola Carioca e a Arquitetura da Escola Paulista A escola carioca é proveniente da Escola Nacional de Belas-Artes (depois atualizada para a Faculdade Nacional de Arquitetura – FNA), enquanto, em São Paulo, trata-se de arquitetos provenientes da Escola Politécnica formando engenheiros-arquitetos (SEGAWA, 1998). Conforme visto nas unidades passadas, podemos dizer que as estratégias projetuais dos arquitetos atuantes no Rio de Janeiro se apoiaram nos princípios puristas da estética corbusiana e miesiana: uma estratégia projetual de moldar a forma; explorar a plástica do concreto armado; de formar espaços flexíveis dentro do projeto a partir do esquematismo da estrutura. Podemos dizer que essas ideias eram a maior referência projetual e se disseminaram Brasil afora. Portanto, elas também serão usadas pelos arquitetos em São Paulo. Mas considerando um contexto de crescimento acelerado da metrópole e o uso dos materiais como mote da industrialização e desenvolvimento, o uso do concreto armado e as técnicas de experimentações dos materiais (vidro, aço e concreto) consolidaram na capital paulista um pensamento de projeto mais racionalizado. Era fundamental encontrar um meio esquemático e simples, que desse forma para a arquitetura. E o meio encontrado foi a estrutura. Criar a estrutura e dar forma para o projeto a partir dela serão o gerador primário do projeto arquitetônico em inúmeros casos paulistas. Nessa perspectiva, ainda surge a ideia de explorar e finalizar a obra com o concreto no seu estado bruto, sem acabamentos, sem forro e sem reboco, apresentando como de fato a estrutura funciona, a sequência das suas forças e como o espaço é completamente moldado por ela. Essa arquitetura será denominada como arquitetura brutalista paulista (ZEIN, 2005; 2014). Essa arquitetura bruta será a maior referência para a arquitetura brasileira nas décadas de 1960 e 1970, principalmente com a inauguração do seu principal exemplar projetual: o prédio da FAU USP (1969), projetado por Artigas. 61WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Portanto, podemos considerar que: • Escola carioca: princípios puristas das estéticas corbusiana e miesiana; estratégia projetual de moldar a forma; explorar a plástica do concreto armado. • Escola paulista: também parte da estética purista de Le Corbusier e Mies van der Rohe; a estrutura é a responsável por dar forma ao projeto. • Brutalismo paulista: o concreto no seu estado bruto, sem acabamentos, que revela completamente a estrutura. Contudo, de onde surge o nome “brutalismo”? Afinal, esse termo não parece explicar muita coisa para a arquitetura. Como se configurou projetualmente essa arquitetura bruta? Como seus espaços foram articulados? Por que ela difere dos demais exemplares da arquitetura brasileira? Essas questões merecem um tópico à parte e serão mais bem investigadas a partir da origem do seu nome, do uso dos seus termos e das características comuns que essas obras apresentam. 1.2 As Características da Arquitetura Brutalista Paulista O termo brutalismo foi apresentado pela primeira vez no contexto internacional. Ele foi usado pelo teórico inglês Reyner Banham, em 1966, para explicar a arquitetura proposta pelos arquitetos ingleses Alison e Peter Smithson para o projeto da Escola de Hunstanton (1953). O projeto proposto pelo casal não utilizou o concreto aparente como tecnologia ou materiais construtivos. Na realidade, o projeto é todo estruturado em aço e com placas de vedação com materiais muito comezinhos, como gesso e tijolos (Figura 1). A questão é que Banham os chamou de brutalistas por deixarem aparentes todos os materiais e instalações hidráulicas e elétricas. Esse projeto teve pouca repercussão no Brasil, mas serviu para lançar luz para o termo (ZEIN, 2014). Figura 1 – Escola de Hunstanton (1953). Fonte: Afasia Archzine (2021). 62WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O que, de fato, precisamos explorar é o projeto de Le Corbusier para a Unité d’Habitatión de Marselha, 1947 (Figura 2). Como se sabe, Le Corbusier foi uma fonte de estratégias projetuais para os arquitetos brasileiros na primeira metade do século XX. E os projetos do mestre francês no contexto pós-Segunda Guerra (e, portanto, de recuperação econômica das cidades bombardeadas) também se tornaram referências. Le Corbusier passou a projetar fazendo uso do concreto aparente, sem acabamentos, para facilitar a construção e a racionalização das habitações. O projeto para Marselha evidencia essas experiências construtivas. O edifício residencial deveria funcionar como um verdadeiro bairro, onde os habitantes poderiam morar, exercitar-se e socializar no mesmo espaço. A ideia de cidade dentro do projeto arquitetônico gerou, obviamente, grandes estruturas que seriam mais bem resolvidas em concreto. Figura 2 – Unité d’Habitatión de Marselha (1947). Fonte: Souza (2021b). No espaço de socialização na cobertura foi quando o projetista explorou toda a plasticidade do concreto. Essa imagem de estrutura e exploração plástica do concreto migrou para o Brasil. Um dos primeiros a pôr em prática foi Affonso Eduardo Reidy, como vimos. Primeiro, pelo conceito de unidades de habitação discutido no Rio de Janeiro por Carmen Portinho e Reidy para o Pedregulho. Ali, os profissionais se embasaram nas ideias de cidade dentro do edifício arquitetônico, fazendo forte referência à proposta de Le Corbusier para a Unité d’Habitatión de Marselha. Segundo, pelo projeto do MAM, considerado como o primeiro projeto brutalista no Brasil (ZEIN, 2014) por dar à estrutura a principal fonte de espacialidade do projeto arquitetônico. 63WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Portanto, mais uma vez, Le Corbusier se tornou uma fonte de respostas projetuais, plásticas e tectônicas para os arquitetos brasileiros. Nessa perspectiva, segundo Bastos e Zein (2010, p. 78-79), o conjunto de obras de tendência brutalista tem como características: • Partido: preferência pela solução em monobloco ou em volume único, abrigando todas as atividades e funções do programa atendido. Havendo mais de um volume ou corpo, há uma evidente hierarquia entre aquele que é principal e os demais, claramente secundários e apensos ao primeiro. A relação com o entorno se dá claramente por contraste visual, realizando a integração com o sítio basicamente através da franqueza dos acessos. Procura de horizontalidade na solução volumétrica do edifício. • Composição: preferência pela solução em “caixa portante” e preferência pela solução em “planta genérica”. Preferência pela solução de teto homogêneo em grelha uni ou bidirecional (à maneira miesiana), comumente sobreposta de maneira independente sobre as estruturas inferiores. Emprego frequente de vazios verticais internos, muitas vezes associados a jogos de níveis, meio níveis, em geral dispostos de maneira a valorizar visuais e percursos voltados para os espaços internos comuns, cobertos, de uso indefinido. Os espaços internos são organizados de maneira flexível, interconectada e não compartimentada. Os elementos de circulaçãorecebem grande destaque: se internos, definem zoneamentos e usos; se externos, sua presença plástica é marcante. Há frequentemente concentração horizontal e vertical das funções de serviços em núcleos compactos que, muitas vezes, definem a distribuição e o zoneamento funcional dos demais ambientes. • Dimensão espacial: gerando quase sempre pé-direito duplo, vazios, pátios e outras composições espaciais que articulam planta e elevação de modo integrado. Daí a importância do corte enquanto recurso criativo. • Elevações: predominância dos cheios e vazios, ou com poucas aberturas, ou aberturas protegidas por balanços de extensões das lajes, inclusive de cobertura, com ou sem auxílio de panos verticais pendurados (à maneira de lambrequins ou platibandas). Frequentemente, opção pela iluminação natural zenital complementar ou exclusivamente, podendo-se considerar as coberturas como uma quinta fachada. Inserção ou aposição de elementos complementares de caráter funcional – decorativos, como sheds, gárgulas, buzinotes, vigas, calhas, canhões de luz etc., realizados quase sempre em concreto aparente. Carmen Portinho foi uma importante arquiteta, urbanista e engenheira, que trabalhou no departamento de habitação da prefeitura do Rio de Janeiro a partir de 1947. Ela trabalhou com Reidy na implementação dos projetos habitacionais do Pedregulho (1948) e da Gávea (1952). Também foi uma intelectual em prol das artes no Brasil. Integrou-se à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e conseguiu encontrar-se com Getúlio Vargas, em 1933, para convencê-lo a instaurar o voto feminino universal no Brasil. Em 1937, criou a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas. 64WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA • Sistema construtivo: emprego quase exclusivo de estruturas de concreto armado, algumas vezes protendido, utilizando lajes nervuradas uni ou bidirecionais, pórticos rígidos ou articulados, pilares com desenho trabalhado analogamente às forças estáticas suportadas, opções por vãos livres e balanços amplos. Emprego constante de fechamentos em concreto armado fundido in loco, eventualmente aproveitando também as paredes e divisórias internas. Estruturas em concreto são quase sempre realizadas in loco embora frequentemente o projeto preveja a possibilidade de pré-fabricação. Emprego menos frequente, mas bastante habitual, de fechamentos em alvenaria de tijolos e/ou de blocos de concreto, deixados aparentes (em alguns casos, prescindindo da estrutura em concreto). Os volumes anexos são geralmente realizados em estruturas independentes mesmo quando internos ou abrigados sob o corpo principal. • Textura e ambiência lumínica: as superfícies em concreto armado ou em alvenaria de tijolos ou blocos de concreto são deixadas aparentes, valorizando a rugosidade de textura obtida por sua manufatura, algumas vezes recebendo proteção por pintura, algumas vezes colorida, que ocorre apenas pontual e discretamente, sendo quase sempre aplicada diretamente sobre os materiais, sem prévio revestimento. As aberturas laterais de iluminação natural são quase sempre sombreadas por brises ou outros dispositivos, sendo comum a ausência de cor ou predominância da cor natural do concreto, resultando em uma iluminação natural fraca e difusa nas bordas, em contraste paradoxal com espaços centrais muitas vezes abundante e naturalmente iluminados graças às aberturas zenitais. Essas são as características básicas e tipológicas que apareceram não somente nos projetos dos arquitetos paulistas (Figura 3). Alguns desses temas ganharam mais ênfase do que outros, mas, de modo geral, os arquitetos partiram dessas bases projetuais, inclusive Artigas. Figura 3 – Exemplares de casos identificados pela literatura como projetos brutalistas. Fonte: Zein (2014). 65WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2. O BRUTALISMO PAULISTA: ARTIGAS A destacada participação do arquiteto João Vilanova Artigas na vida intelectual paulistana como projetista, docente, editor de revista e membro ativo do Instituto dos Arquitetos do Brasil consagrou-o como uma importante referência cultural desse momento (BRUAND, 2012), reunindo à sua volta um grupo de jovens e talentosos arquitetos com quem soube estabelecer um profícuo canal de comunicação (CAMARGO, 2015). 2.1 Uma Trajetória Nascido em Curitiba, Artigas migrou para São Paulo para estudar na Escola Politécnica de Engenharia da USP, formando-se em 1937. Atuando no seu próprio escritório em São Paulo e dando aulas na USP, ele contribuiu para a formulação do novo currículo e do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade no final da década de 1940. Com tamanha envergadura política e profissional, no início dos anos 1960, ele foi convidado a projetar uma das maiores referências da arquitetura brutalista paulista, o próprio prédio da FAU USP. A literatura costuma apresentar a obra de Artigas a partir das suas referências projetuais (BRUAND, 2012; TAGLIARI, 2012; CUNHA, 2017), muitas vezes articuladas com os seus pensamentos políticos, que foram se tornando mais influentes na sua obra ao longo da década de 1960. Seguindo uma ordem cronológica, podemos entender a obra de Artigas em três momentos: • Período Wrightiano (1938-1944) Nesse primeiro momento como recém-formado, Artigas trabalhou em sociedade com Duílio Marone. Nessa época, eles construíram casas em São Paulo, que fazem ressonar algumas das estratégias projetuais de Frank Loyd Wright. Trata-se da preferência pelos materiais tradicionais, como: tijolos para as paredes e telhas comuns para a cobertura; madeira para as vigas aparentes; os telhados que se estendem para proteção dos grandes vidros das salas; a primazia absoluta do interior sobre o exterior; a organização centrífuga em torno da lareira, como no caso das Prairie Houses de Wright; e a concepção de um espaço fluido onde as paredes conformam planos que seguem para o exterior (Figura 4) . As Prairie Houses de Frank Lloyd Wright são casas urbanas nos subúrbios de diversas cidades nos estados de Wisconsin (Spring Green) e Illinois (Chicago). O nome reflete a característica de sua implantação horizontal e seu desenvolvimento interno mais linear do que monolítica compacta. Por isso, sua articulação volumétrica e uma sintaxe espacial costumavam ter um partido em cruz ou duplo “T”, envolvendo a lareira – centro de força e ponto de cruzamento dos eixos axiais internos (EISENMAN, 1963). 66WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 4 – Robie House, Chicago, 1906. Fonte: Coisas da Arquitetura (2021). • Período racionalista, funcionalista (1949-1960) No final dos anos 1940, Artigas passou a testar soluções mais racionalistas e que fazem ressonar os volumes puros de Le Corbusier. Notam-se: o uso de materiais modernos, como o concreto e o vidro; a estrutura independente em concreto armado; volumes geométricos claros; preferência sistemática pelo telhado em V; rampas e desníveis desencontrados; e brises. São dessa época: os projetos para Londrina; o Edifício Louveira, em São Paulo; e a sua segunda casa, implantada no mesmo terreno da Casinha. Em um momento em que o Brasil estabelecia relações diretas com os EUA por entrar na guerra como aliado, Artigas ganhou a bolsa da Fundação Guggenheim, em 1946, para conhecer o ensino de Arquitetura da Escola de MIT. De volta ao Brasil em 1948, ele participou da criação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), onde passou a lecionar. Com o acirramento da Guerra Fria, Artigas radicalizou o tom ideológico do seu discurso, particularmente nos textos que escreveu para: a revista marxista Fundamentos, ligada ao Partido Comunista Brasileiro; Le Corbusier e o Imperialismo, 1951; e Os Caminhos da Arquitetura Moderna,1952. O que ele observa é uma mudança no cenário político e na concepção de Artigas. Era preciso que os arquitetos estivessem atentos às necessidades da sociedade: habitação e proletariado. Em seu texto de 1952, ele critica em parte a arquitetura de Oscar Niemeyer e comenta que os arquitetos estavam a serviço somente da burguesia e da classe dominante: “[...] a arquitetura moderna tal como vemos é a arma de opressão, arma da classe dominante, uma arma de opressores, contra oprimidos” (ARTIGAS, 2004). 67WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Nesse contexto, o Partido Comunista no Brasil tornou-se ilegal. E Artigas sentia a necessidade de estreitar cada vez mais suas relações com suas ideias políticas. Viajou para a União Soviética, desencantando-se com a arte e arquitetura do realismo socialista e mergulhando em uma crise profissional, que se estenderia até meados dos anos 1950, quando projetou as residências Olga Baeta (1956), Rubem de Mendonça (“casa dos triângulos”) (1958) e a segunda residência Taques Bittencourt (1959), com pórticos de concreto armado. No final da década de 1950, ele projetou uma série de escolas para o governo do Estado de São Paulo, feitas na administração Carvalho Pinto (1959-1963), destacando-se os ginásios de Itanhaém e de Guarulhos. • Período Brutalista (1960-1984) Esse período é considerado como a produção mais reconhecida de Artigas, pois foi a oportunidade de propor soluções mais ousadas com relação à estrutura. Nesse momento, Artigas recupera as suas habilidades enquanto arquiteto/engenheiro e projeta estruturas originais e inovadoras para os pontos de apoio estrutural dos monoblocos em concreto aparente. Com isso, as estratégias projetuais do arquiteto nesse período remetam às supracitadas para a arquitetura brutalista: monobloco em concreto aparente; solto do solo; iluminação interna por aberturas zenitais; paredes que não tocam a cobertura; opção por rampas; associação de volumes; pórticos que fazem o papel de pilar e viga; fachadas opacas. 2.2 Projetos e Estratégias Projetuais A principal obra que faz referência ao período “Wrightiano” de Artigas é sua primeira residência, projeto de 1942, também conhecida como “Casinha”. A casa se aproxima dos princípios orgânicos de Wright e se tornou um importante episódio em que ele rompeu com o sistema compositivo acadêmico: o uso dos materiais em seu estado bruto; o tijolo à vista e madeira nos forros, pisos e esquadrias; o telhado quatro águas, que unifica volumetricamente os espaços e se estende para proteção dos panos de vidro. A casa está implantada girando 45° em relação aos limites do lote (Figura 5) e há uma intercomunicação fluida entre os ambientes de estar, jantar e cozinha, todos concentrados ao redor do núcleo – o conjunto de lareira, o único banheiro e um fogão à lenha. Nota-se também o deslocamento do setor íntimo do perímetro do quadrado, com o quarto do casal e o ateliê da Virgínia (sua esposa). Percebe-se a expansão do interior, em que as paredes delimitadoras do espaço íntimo se encaminham para o jardim, acompanhado por uma pérgola (Figura 6). O livro Caminhos da Arquitetura reúne os passos de um projeto de vanguarda do arquiteto João Bastia Vilanova Artigas e expressa o ideário de uma arquitetura refletida sem complacência no espelho da sociedade. A obra é composta de discursos, artigos e testemunhos produzidos por Artigas em situações muito diversas. Possui apresentação de José Lira. Leia: ARTIGAS, J. B. V. Caminhos da Arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2004. 68WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 5 – Casinha, 1942 (planta). Fonte: Vila Nova Artigas (2021a). Figura 6 – Casinha, 1942 (externo). Fonte: Vila Nova Artigas (2021a). Pode-se dizer que alguns projetos representativos da fase racionalista de Artigas foram a sua segunda residência, os projetos para Londrina e o edifício Louveira, em São Paulo. A sua segunda residência encontra-se no mesmo terreno da primeira, mas segue princípios modernos diversos. Nesse projeto, Artigas se aproxima das estratégias projetuais de Le Corbusier no que diz respeito a uma linguagem geométrica pura (Figura 7). A planta responde à ideia de setorização e funcionalidade. Toda a parte íntima, mais a cozinha, está concentrada no bloco trapezoidal menor. Sala, pátio e ateliê no outro bloco trapezoidal maior e que também aparenta ser mais leve. A estrutura está dentro, permitindo o uso do vidro. O pé-direito duplo permite ver o estúdio e, embaixo dele, cria-se um pátio coberto – lembrando a espacialidade criada por Le Corbusier. Todos esses espaços se integram, proporcionando a interpenetração do espaço interno com o espaço externo. Nota-se o uso dos materiais tradicionais e modernos: tijolos pintados e concreto sobre a cobertura em V, onde só é possível ver a espessura branca de uma parte. 69WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 7 – Segunda residência do arquiteto (1949). Fonte: Vila Nova Artigas (2021d). Entre 1948 e 1955, Artigas projetou edifícios para Londrina. É importante lembrar que, nessa época, Londrina consolidava seu plano urbanístico. As obras de expressão modernistas estavam vinculadas à consagrada escola carioca e seriam bem-vindas para o momento na cidade. Nessa época, Artigas já tinha certo prestígio nacional, e trazer um arquiteto moderno para projetar edifícios no Norte do Paraná, em vez dos prédios em madeira, era transparecer uma imagem de cidade moderna. Para essas obras no Norte do Paraná, o concreto armado precisou ser levado de São Paulo para Londrina. No caso da Rodoviária de Londrina, a linguagem arquitetônica já é conhecida tanto pelos trabalhos de Le Corbusier quanto de Oscar Niemeyer para Pampulha: volumes claramente identificáveis; na parte trapezoidal do prédio, podemos encontrar restaurante, guichês, escritórios e lojas, integrando o interno e o externo com o uso do vidro; o contrapeso está na parte formada pelas sete abóbadas dispostas lado a lado, que abrigam a plataforma dos ônibus. Figura 8 – Rodoviária de Londrina (1950). Fonte: Vila Nova Artigas (2021c). 70WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Em Londrina, os pilares estruturais finos estão revestidos com pastilhas azuis, no mesmo tom da paleta de cores de Le Corbusier. Cores como verde e rosa claro também aparecem no edifício do Norte do Paraná. Portanto, as peculiares associações entre curva e reta fazem referência ao esquematismo formal de Le Corbusier, também interpretado por Niemeyer. No Edifício Louveira, de 1946, essas associações de formas voltam a aparecer: dois monoblocos possuem uma praça em comum, que garante o acesso a um dos prédios a partir de uma rampa curva no meio ou escadas. Nesse projeto, aparece o discurso de Artigas de integrar a cidade dentro do edifício. São apartamentos: de três quartos mais quartos de serviços; comumente um banheiro; circulação e varanda. O prédio possui um mecanismo de esquadria único, projetado por Artigas: sobe na vertical, tornando-se janelas em fita. Para a aprovação do projeto na prefeitura, Artigas teve de desenhar, nas fachadas cegas voltadas para a rua, algumas janelas nos desenhos legais, pois, para a prefeitura, isso era o que garantia a face de um edifício urbano. Contudo, o projeto foi executado conforme os desenhos originais de Artigas (Figura 9). Figura 9 – Edifício Louveira (1946). Fonte: Vila Nova Artigas (2021b). A casa Olga Baeta (1956) foi um importante projeto de transição de pensamento de Artigas, quando ele revisa as lições de Le Corbusier e Oscar Niemeyer para a arquitetura brasileira e passa a testar mais experimentações estruturais (CUNHA, 2017). Sua estrutura é composta por três linhasde dois pilares, que, quando engastados às empenas estruturais nas fachadas frontal e posterior, determinam pórticos sucessivos (Figura 10). Os seis pilares são distribuídos num perímetro de, aproximadamente, 11,60 metros paralelos à rua e 12,65 metros no sentido do comprimento do lote. É nesses vãos e entre lajes do “espaço sanduíche” que Artigas articula todo o programa residência (Figura 11). Pela primeira vez na obra de Artigas, as empenas transversais determinam pórticos estruturais, ou seja, vigas e pilares principais, articulados por um nó rígido, funcionando como uma peça única. 71WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 10 – Casa Olga Baeta (1956, externa). Fonte: Kon (2021). Figura 11 – Casa Olga Baeta (1956, planta). Fonte: Comover (2012). 72WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA As precedentes residências com o uso da estrutura articulando viga/pilar/empena abrem espaço para escalas maiores, como no projeto para a Garagem de Barcos do Clube Santa Paula (1961), reconhecido pela literatura como um dos primeiros projetos que revela uma arquitetura brutalista na carreira de Artigas. Trata-se de um pavilhão conformado por uma extensa cobertura autoportante que pousa no chão, criando um pilar de junta metálica (Figura 12). Essa solução técnica encontrada por Artigas e Cascaldi oferece uma resposta perfeita ao problema da dilatação: “é preciso fazer cantar o ponto de apoio”. O esquematismo estrutural que permite uma planta livre como um grande pavilhão não deixa de atestar as referências de Mies van der Rohe pela sua simplificação formal. Figura 12 – Garagem de Barco (1961). Fonte: Vila Nova Artigas (2021b). Importante ressaltar que o raciocínio estrutural que determina a ideia de pórticos já estava presente na cultura arquitetônica moderna brasileira. Basta lembrar do projeto para MAM, proposto por Reidy, no Rio de Janeiro, em 1943, como vimos na última unidade. Essa ideia também aparece no Teatro Municipal de Belo Horizonte, proposta por Oscar Niemeyer. Contudo, coube a Artigas a tarefa de reelaborá-la ou ainda reinventá-la, partindo da escala residencial e vinculando-a às suas definições tipológicas de casa. Essa solução voltou a aparecer na casa Rubens Mendonça, de 1958, conhecida também como a Casa dos Triângulos, cuja fachada foi pintada pelo artista plástico neoconcreto Mário Gruber – revelando a síntese entre arquitetura e artes plásticas no trabalho de Artigas. 73WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Por fim, destacamos o projeto para o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). O projeto fez parte do novo plano urbanístico da Universidade de São Paulo, proposto na gestão do então governador Carvalho Pinto (1959-1963). Outros arquitetos modernistas foram convidados para projetar prédios de outras faculdades. No caso da arquitetura, Artigas ficou responsável pelo projeto da FAU. Nesse projeto, Artigas propõe uma escola que funcionasse como um grande laboratório de ensaio: experimentações de pé-direito, de dimensão dos espaços, de sensação da luz. O projeto configura-se como um vasto prisma retangular, de faces cegas, todo em concreto bruto, montado em pilares do mesmo material. Os pilares do entorno do prédio parecem sustentar toda a enorme massa de concreto. O desenho dos pilares é em forma de trapézio duplo, mais altos do que largos, opostos e representam a ideia de continuidade da cobertura, vedação e estrutura. O contraste prossegue nas partes fechadas em cima e abertas ou envidraçadas na parte inferior, contribuindo para a ideia de leveza (Figura 13). O grande vazio central coberto pela grelha com iluminação zenital possui mais de 15 metros de altura, indo do subsolo até a cobertura, com variações de pé-direito de andar para andar. O desencontro dos níveis produz saliências internas, como: a parte de estudo em grupos e a biblioteca; a alternância de fechamentos internos, ora completos ora meio a 1,50. As rampas apresentam-se como um elemento de continuidade espacial e de contraste com a horizontalidade das lajes (Figura 14). Figura 13 – FAU USP (1969, externa). Fonte: Vila Nova Artigas (2021a). 74WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 14– FAU USP (1969, interna, jogo de rampas). Fonte: Vila Nova Artigas (2021a). A faculdade de arquitetura não possui portas, tampouco guarda-corpo. O que Artigas gostaria de propor para essa escola é a busca por um ideal de vida comunitária, em que é possível facilitar os contatos humanos, lutar contra as tendências individuais, trazer a cidade universitária para dentro do prédio e incentivar o intercâmbio de ideias dos seres políticos, que devem ser os alunos e o cidadão. A essência dos materiais (homogeneidade e paleta restrita), a austeridade por eles apresentada e a sua possibilidade de pré-fabricação foram muito valorizados nas décadas de 1960 e 1970. A clareza formal, construtiva e de solução estrutural, possibilitada pelo concreto no seu estado bruto, representava a moralidade que se buscava na época. Nesse sentido, tornou-se uma expressão arquitetônica muito utilizada por arquitetos do mundo inteiro. Essas características brutalistas contribuíram para uma expressão arquitetônica de resistência à ditadura militar, vigente não só no Brasil a partir do golpe de 1964, mas em toda a América do Sul. 75WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, entendemos o que foi a arquitetura paulista no quadro da arquitetura brasileira e suas inovações plásticas a partir do brutalismo paulista, principalmente com a atuação de João Batista Vilanova Artigas. Não é fortuita a estreita relação entre a produção arquitetônica paulista (de meados dos anos 1950 e da década de 1960, identificada como Escola Paulista) e o arquiteto e professor Artigas. A sua atuação como projetista, docente e a sua participação na política de classe foram fundamentais na constituição de uma cultura arquitetônica na cidade de São Paulo no período. Como vimos, a sua trajetória profissional se funde com suas ideias, vivência e viagens. Se, em um primeiro momento da sua produção, Artigas desenvolveu projetos que estudavam uma espacialidade semelhante às obras do arquiteto americano Frank Lloyd Wright, em seguida, o arquiteto aprimorou essas relações com jogos de volumes racionalistas que fazem referência à arquitetura de Le Corbusier e Oscar Niemeyer para Pampulha (Belo Horizonte). Mas, principalmente a partir da década de 1960, reconhece-se uma linguagem com características muito semelhantes, reconhecida pela literatura como Brutalismo Paulista por usar o concreto armado no seu estado bruto, aparente, sem revestimentos. O esquematismo estrutural e a simplificação formal dessa fase não deixam de atestar as referências com a arquitetura de Mies van der Rohe, além do plasticismo do concreto armado visto na obra de Le Corbusier em um contexto de pós-Segunda Guerra. Nessa perspectiva, Artigas se consolidou no campo da prática profissional em São Paulo e também no campo acadêmico. Sua atuação como professor da FAU, São Paulo, foi seminal para consolidar um tipo de pensamento projetual: a estrutura como principal gerador do projeto arquitetônico. Portanto, nota-se que a arquitetura da escola paulista deve muito, plasticamente, aos ensinamentos de Le Corbusier e à espacialidade de Mies van der Rohe. A ideia do brutalismo de evidenciar a materialidade no seu estado bruto percorreu muitos países nas décadas de 1960 e 1970 e chegou ao Brasil com o uso quase que exclusivo do concreto, o que possibilitou novas composições plásticas, repensando o papelda estrutura e a sua capacidade de recriação do lugar. Nesse sentido, é a partir da estrutura que se dá forma ao projeto arquitetônico. Essa estratégia será amplamente usada por arquitetos também nas décadas de 1970 e 1980. 7676WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 04 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ..............................................................................................................................................................78 1. O BRUTALISMO PAULISTA: PAULO MENDES DA ROCHA ...................................................................................79 1.1 TRAJETÓRIA PROFISSIONAL ................................................................................................................................79 1.2 PROJETOS ..............................................................................................................................................................80 1.2.1 O GINÁSIO DO CLUBE PAULISTANO (1958-1961) ............................................................................................80 1.2.2 O PAVILHÃO EM OSAKA (1969) ........................................................................................................................80 1.2.3 A CASA DO ARQUITETO (1964) ......................................................................................................................... 81 2. A ARQUITETURA DE LINA BO BARDI ....................................................................................................................83 2.1 ARTES, PATRIMÔNIO E CULTURA: UMA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL ...........................................................83 O BRUTALISMO PAULISTA – PARTE 2 PROFA. MA. ISABELLA CAROLINE JANUÁRIO ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: HISTÓRIA DA ARQUITETURA BRASILEIRA 77WWW.UNINGA.BR 2.2 PROJETOS ..............................................................................................................................................................84 2.2.1 A CASA DE VIDRO (SÃO PAULO, 1951) ..............................................................................................................84 2.2.2 MASP (SÃO PAULO, 1968) ................................................................................................................................85 2.2.3 SESC POMPEIA (SÃO PAULO, 1986) ...............................................................................................................86 2.2.4 RESTAURO DA LADEIRA DA MISERICÓRDIA (SALVADOR, 1987) ..................................................................88 3. ARQUITETURA BRASILEIRA DAS DÉCADAS DE 1970, 1980 E 1990 ...................................................................90 3.1 O PÓS-MODERNISMO NO BRASIL: ARQUITETURA MINEIRA DOS ANOS 1980 .............................................90 3.2 DOIS CONCURSOS ................................................................................................................................................92 3.3 A REVALORIZAÇÃO DA ARQUITETURA DE OSCAR NIEMEYER E PAULO MENDES DA ROCHA ...................94 3.3.1 OS MUSEUS DE NIEMEYER A PARTIR DA DÉCADA DE 1980 .........................................................................94 3.3.2 PAULO MENDES: MUBE (1987) E PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO (2006) ...............................96 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...........................................................................................................................................98 78WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Vimos, nas unidades anteriores, como a arquitetura brasileira estava se armando com características próprias a partir de referências aos projetos de Le Corbusier e Mies van der Rohe no cenário internacional. Vimos a contribuição das ideias desses dois arquitetos tanto na arquitetura carioca quanto na arquitetura paulista. Percebemos que, em São Paulo particularmente, a arquitetura produzida a partir do concreto aparente se tornou uma linguagem de projeto, com soluções comuns, sendo que o principal gerador do projeto aconteceu por meio da estrutura. Essas estratégias projetuais foram classificadas pela literatura como arquitetura brutalista paulista e tiveram como principal representante o arquiteto João Batista Vilanova Artigas. Nesta unidade, entenderemos que a solução projetual a partir de estrutura ainda será amplamente usada por arquitetos também nas décadas de 1970 e 1980, mas, agora, não somente por meio do concreto armado, como demonstrará a arquitetura de Paulo Mendes da Rocha. Compreenderemos também a importância da atuação no Brasil da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi desde meados de 1950, em São Paulo, mas, sobretudo, nos anos 1970 e1980, em Salvador. A trajetória dessa arquiteta cruzou com importantes profissionais desse contexto, como o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, principalmente pelo seu método de projeto de aliar estrutura e produção. Ademais, em um cenário mais plural de referências arquitetônicas vindas de contextos internacionais (como a arquitetura high-tech da Europa ou a arquitetura pós-moderna americana), a partir da década de 1970 a arquitetura voltou a ser comentada nas revistas nacionais, propondo novas discussões sobre habitação, patrimônio, planejamento urbano e concursos de projeto de arquitetura. Nesse contexto, a arquitetura brasileira verá a revalorização da obra de Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha. Em meados dos anos 1980 e início dos anos 1990, dois concursos são os pivôs para a discussão no meio acadêmico e arquitetônico profissional: o concurso para o Sesc de Nova Iguaçu (1985) e o concurso para o Pavilhão Brasileiro, em Sevilha (1992). O primeiro certame colocou em foco a arquitetura pós-moderna, que também veremos na atuação dos arquitetos mineiros. O segundo promoveu a retomada das referências da escola paulista em um contexto mais contemporâneo, pela atuação dos arquitetos Ângelo Bucci e Alvaro Puntoni. 79WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1. O BRUTALISMO PAULISTA: PAULO MENDES DA ROCHA Como vimos na Unidade 3, a dita “escola paulista de arquitetura” deve muito à atuação de Artigas, que consolidou um grupo ao seu redor, principalmente a partir de 1950. Um dos arquitetos que atuou e acompanhou o mestre nesse circuito paulista foi Paulo Mendes da Rocha. O uso de estruturas em concreto aparente, os espaços flexíveis internos e o discurso pautado no uso do concreto em seu estado bruto são as evidências das aproximações criativas entre os dois arquitetos. Sua atuação e o Prêmio Pritzker o consolidaram como um dos mais importantes arquitetos brasileiros, ao lado, sem dúvida, de Oscar Niemeyer. 1.1 Trajetória Profissional Nascido em Vitória, Espírito Santo, Paulo Mendes se formou arquiteto urbanista em 1954, na FAU-Mackenzie. Naquele contexto, como usual, os arquitetos paulistas se reuniam no IAB/SP e mantinham vínculo com os professores e alunos da escola vizinha, a FAU USP (na sua sede, no palacete Vila Penteado, FAU MARANHÃO). Com isso, Artigas convidou Paulo Mendes e Pedro Paulo de Mello Saraiva, outro arquiteto recém-formado na Mackenzie, para serem seus assistentes nas disciplinas de projeto da FAU USP, onde, anos mais tarde, ele ingressou como professor. Nessa perspectiva, nota-se a clara aproximação criativa entre o mestre e o aluno, ainda que Paulo Mendes tenha se formado em outra escola. A parceria seria efetiva no campo profissional quando, em 1968, ao lado de Artigas e Fábio Penteado, Paulo Mendes projetou o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado – Parque Cecap, em Guarulhos, para 50 mil moradores. A estrutura como forma plástica e a dedução da forma a partir de um esqueleto estrutural, conforme visto no projeto, se relacionam a algumas das estratégias projetuais que Artigas estava explorando nos projetosresidenciais, conforme vimos na Unidade 3. Portanto, cabe agora uma leitura em detalhe dos principais projetos desse consagrado arquiteto “paulista”. Prêmio Pritzker é uma espécie de “Nobel da Arquitetura”. É o prêmio mais importante para o profissional e é concedido anualmente para homenagear um ou mais arquitetos vivos, cujo trabalho demonstra uma combinação de qualidades, como talento, visão e compromisso e que produziu contribuições consistentes e significativas para a humanidade e o ambiente construído por meio da arquitetura. Os dois únicos arquitetos brasileiros que receberam esse prêmio foram Oscar Niemeyer, em 1988, e Paulo Mendes da Rocha, em 2006. 80WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.2 Projetos 1.2.1 O ginásio do Clube Paulistano (1958-1961) Depois de três anos de formado, Paulo Mendes venceu o concurso para o projeto para o ginásio do clube, do qual também Artigas e equipe haviam participado. Pode-se dizer que esse projeto inaugura a carreira profissional de Paulo Mendes da Rocha. Com uma proposta audaciosa, de concreto e tirantes metálicos, ele e João de Gennaro (sócios na época, sendo este um importante arquiteto paulista) projetaram um ginásio no qual a plástica do edifício pode ser atribuída à sua estrutura. Sendo o projeto de um ginásio, a cobertura não poderia receber pilares centrais. A solução foi dispor seis pilares na periferia do ginásio, que sustentam a marquise que cobre o ginásio, com suas arquibancadas simétricas. Figura 1 – Clube Atlético Paulistano. Fonte: Arquivo Arq (2021). Para cobrir o vazio interno conformado pelo anel dessa marquise, tem-se uma cobertura estruturada por treliças metálicas e atirantadas por cabos de aço. A forma peculiar dos pilares que delimitam o ponto de apoio e se abrem para o alto enfatiza uma qualidade quase bidimensional, cuja forma plástica se justifica plenamente – não por ser mero diagrama de forças estáticas, mas por enfatizar didaticamente as tensões estruturais enquanto dá continuidade às linhas de força compositivas que buscam uma maior horizontalidade do conjunto. 1.2.2 O pavilhão em Osaka (1969) Também através de um concurso, Paulo Mendes projetou o pavilhão brasileiro para a feira de exposição de Osaka, Japão, em 1970. Para esse pavilhão, o arquiteto e equipe propuseram relacionar o espaço natural com o espaço construído. Nessa perspectiva, o projeto apresentou- se como uma enorme cobertura suspensa que, ao apenas tocar o chão levemente, criou abrigo e sombra. Artificialmente recobertos por taludes naturais, os pilares reconstituem a necessidade do homem de dominar a natureza para atender às necessidades humanas. Isso acontece em três pontos. O quarto foi formado por um pilar com dois arcos cruzados, representando a fundação do lugar, analogamente aos traços de Lúcio Costa para Brasília (Figura 2). 81WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 2 – O pavilhão em Osaka. Fonte: Fracalossi (2021). No subsolo, estavam as instalações do programa expositivo e administrativo. Ao final das exposições internacionais, os pavilhões são desmontados, restando somente fotos da época e maquetes feitas na atualidade. Para a década de 1970, esse pavilhão deveria representar também a eficiência tecnológica de um país em desenvolvimento econômico. E assim o fez ao firmar, mais uma vez, o interesse dos arquitetos brasileiros no concreto aparente. 1.2.3 A casa do arquiteto (1964) A residência do arquiteto é uma das casas gêmeas que Paulo Mendes fez para si e sua família e outra para sua irmã, no mesmo terreno. O fato de essas casas serem idênticas já revela a questão da individualidade e isolamento, que fazia parte das reflexões sobre o que era a casa na concepção do arquiteto. Para isso, Paulo Mendes colocou em debate as ideias sobre pré- fabricação, sobre produção de casas em série repetível e multiplicável. Trata-se de uma casa que retoma as características de uma obra brutalista: a aparência do monobloco como uma massa pesada em concreto no seu estado bruto elevada do solo, suspensa por quatro pilares (que quase desaparecem em função do prolongamento das lajes – Figura 3). A simetria domina essa planta genérica, que parece se configurar como a planta de um apartamento (Figura 4). 82WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 3 – A casa do arquiteto. Fonte: ADSTTC (2021a). Figura 4 – A casa do arquiteto (planta). Fonte: ADSTTC (2021b). 83WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Por uma escada lateral, acessa-se o pavimento superior da casa. No térreo, estão localizados a garagem e os serviços em uma planta circular. Não existem portas para esse térreo. O acesso é livre. No interior da casa, as divisões entre os cômodos não tocam a cobertura. Os quartos, banheiros e cozinha estão concentrados no meio da planta retangular, enquanto, na periferia, encontram-se a sala de estar e a sala de estudos. Mais uma vez, essa disposição absolutamente fechada, não desprovida de uma certa autoridade e agressividade, afeta as fachadas, que devem ser iluminadas através de uma iluminação zenital. As janelas estão concentradas nos lados noroeste e sudeste e são protegidas pela projeção da laje. O tratamento engenhoso na estrutura, esquadrias e esquematismo em planta é fruto de um raciocínio lógico e apurado (ZEIN, 2005). Era uma situação apropriada para a ideia de replicação da habitação. O que o arquiteto buscou combater nesse projeto são os modismos que as pessoas inventam, muitas vezes por puro capricho, no modo de habitar. E que, em um contexto de necessária habitação em série para o País, o arquiteto buscava explorar e apresentar um caminho aliando uma arquitetura de qualidade. 2. A ARQUITETURA DE LINA BO BARDI Dentre os arquitetos que migraram para o Brasil devido às consequências e perseguições dos fascistas e nazistas na Europa, nos anos 1940, talvez Lina Bo Bardi seja uma das personalidades mais importantes da arquitetura brasileira do contexto pós-Brasília. Alguns autores a consideram como uma “estranha no ninho” (BASTOS; ZEIN, 2010, p. 57) uma vez que sua arquitetura se destaca pelo olhar singular não somente para a estrutura (comum aos seus contemporâneos), mas pela inclusão das particularidades referentes à cultura nacional. Esse é um dos aspectos que a tornam tão original em meio aos paulistas, como veremos. 2.1 Artes, Patrimônio e Cultura: uma Trajetória Profissional Achilina di Enrico Bo foi uma arquiteta italiana que estudou em Roma nos anos 1940. Após seu casamento com Pietro, o casal visitou o Rio de Janeiro, onde conheceram a vanguarda das artes no Brasil. No ano seguinte, Pietro é convidado pelo jornalista, empresário e político Assis Chateaubriand para fundar e dirigir um museu de arte moderna. Lina naturaliza-se brasileira em 1951 e, no mesmo ano, completa seu primeiro projeto arquitetônico no Brasil, a Casa de Vidro. Seu trabalho ao lado do marido Pietro Bardi foi intensamente dedicado a estruturar e fomentar o acesso à cultura no País. Lina vai a Salvador em 1958 para dar conferências na Escola de Belas Artes, da Universidade da Bahia, e é convidada para dirigir o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA). Ali, ela projetou e coordenou o restauro do Solar do Unhão e sua adaptação para sede do museu. A sua experiência no Nordeste foi fundamental para o desenvolvimento da sua arquitetura, rodeada pela diversidade e vitalidade da região em meio ao processo de industrialização. Retornando para São Paulo, em 1966, ela projeta o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MASP), na Avenida Paulista, que, após sua inauguração, em 1968, virá a ser um dos marcos mais icônicos da arquitetura brasileira. 84WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IAD A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Na segunda metade dos anos 1980, Lina estabeleceu parcerias profissionais que se tornariam fundamentais para repensarmos a arquitetura brasileira a partir da ideia de recuperação de cidades históricas e patrimônio cultural. Isso ficou evidente na sua atuação em Salvador com João Filgueiras Lima, o Lelé, e os jovens arquitetos Marcelo Carvalho Ferraz e Marcelo Suzuki. Essas questões apresentadas por ela antes da sua morte, em 1992, abriram caminho para os debates sobre a arquitetura contemporânea brasileira nos anos 1990 e 2000 (RUBINO; GRINOVER, 2009). 2.2 Projetos 2.2.1 A Casa de Vidro (São Paulo, 1951) A Casa de Vidro, como foi apelidada, foi a primeira obra integralmente projetada e construída por Lina Bo Bardi no Brasil, no bairro do Morumbi. Sendo a residência da autora, é também uma obra que poderia ser concebida e realizada de forma mais íntegra, com claro caráter de manifesto, assim como a residência do arquiteto Paulo Mendes da Rocha: um manifesto pela arquitetura moderna no País (BASTOS; ZEIN, 2010). Uma das primeiras intenções de Lina foi conservar o perfil natural do terreno, muito inclinado, o que influiu para que a frente da casa fosse construída sobre pilotis, mas sem deixar de fazer referência a um dos cinco pontos da arquitetura propostos por Le Corbusier. A parte de trás da residência ficou, por conseguinte, apoiada em muros de concreto diretamente sobre o terreno. Esse aspecto maciço da porção posterior se contrapõe à leveza da porção sul e sua fachada principal, criando um rico diálogo entre transparência e opacidade, natureza e construção, interior e exterior, que traz novamente à tona os exemplos das primeiras casas corbusianas. Figura 5 – A casa de Vidro. Fonte: Fracalossi (2021). 85WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA A casa se apresenta como uma caixa transparente flutuante em meio à natureza. De modo a tirar o máximo proveito da privilegiada vista para a cidade, a casa foi projetada com o mínimo de proteção, de tal modo que as grandes janelas não possuem guarda-corpo. Assim, ao mesmo tempo em que a casa atua como um refúgio, ela também proporciona uma vida em constante contato com a natureza e contemplação da paisagem. 2.2.2 MASP (São Paulo, 1968) O edifício foi erguido no terreno do antigo Belvedere Trianon, na Avenida Paulista. Encontra-se num ponto privilegiado da cidade, no cruzamento de dois eixos viários sobrepostos: a Avenida Paulista e o túnel da Avenida 9 de Julho. O edifício foi projetado por Lina como um grande volume que se suspende para deixar o térreo livre, estruturando-se em dois grandes pórticos em vermelho. O volume elevado está suspenso a oito metros do solo. Com uma extensão total de 74 metros entre os pilares, a obra constituiu o maior vão livre do mundo em sua época (Figura 6). Trata-se de uma espécie de contêiner de arte, que armazena a cultura na zona onde se implanta. Figura 6 – MASP. Fonte: ADSTTC (2021d). No térreo interno, foram projetados: uma espécie de hall cívico, palco de reuniões públicas e políticas; um teatro-auditório; e um pequeno auditório com sala de projeção. No volume suspenso, estão a pinacoteca, com seus escritórios, salas de exposições temporárias e salas de exposições particulares. Para exibir as pinturas, Lina Bo Bardi projetou lâminas de vidro temperado, suportadas por um bloco base que imitava concreto, como a posição do quadro sobre o cavalete do artista. 86WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2.2.3 Sesc Pompeia (São Paulo, 1986) Novamente, Lina se destacou em um projeto arquitetônico para um programa cultural em São Paulo. Três volumes prismáticos de concreto aparente surgem ao lado dos antigos galpões da fábrica de tambores da Pompéia: um prisma retangular de 30x40 m de base e 45 m de altura, que recebe as quadras; um segundo prisma retangular, menor e mais alto que o primeiro, de 14x16 m de base e 52 m de altura, que recebe as aulas práticas; e um cilindro de 8 m de diâmetro e 70 m de altura. O jogo de volumes é conectado por passarelas elevadas (Figura 7) que apresentam um desenho diferente da outra, ainda que sob as mesmas regras: partem de uma mesma abertura no prisma menor e se ramificam levando a duas aberturas simétricas no prisma maior, como um V ou Y. No bloco maior, as janelas foram projetadas por Lina com um desenho aleatório, como se tivessem sido esculpidas no concreto. Elas receberam uma proteção interna em muxarabi, pintada de vermelho. Figura 7 – Sesc Pompeia. Fonte: ADSTTC (2021g). 87WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA As edificações existentes, antes destinadas à fábrica de tambor, foram mantidas por Lina em uma parte do terreno. Elas foram pensadas no projeto para abrigar o espaço de lazer, exposição, atividades multimídias e educativas, auditórios e restaurantes. Figura 8 – Sesc Pompeia (interior). Fonte: ADSTTC (2021h). Lina descobriu que a velha fábrica possuía uma estrutura moldada por um dos pioneiros do concreto armado no início do século XX, o francês François Hennebique. Essa descoberta fez com que a arquiteta pedisse o processo de desnudamento dos edifícios com a retirada dos rebocos e a aplicação de jatos de areia nas paredes, em busca da essência de sua tectônica. Nessa perspectiva, o tratamento e as fachadas dos edifícios tornaram-se peças fundamentais para manter e contar a história do bairro, da própria fábrica como patrimônio cultural. 88WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2.2.4 Restauro da Ladeira da Misericórdia (Salvador, 1987) Na segunda metade dos anos 1980, Lina retornou a Salvador convidada a conceber um plano de recuperação do centro histórico da cidade. Nessa ocasião, acompanhada de Marcelo Carvalho Ferraz (1955) e Marcelo Suzuki, realizou o projeto da Casa do Benin, no Pelourinho, 1987, e a recuperação das encostas da ladeira da Misericórdia, erguendo contrafortes nitidamente destacados dos muros remanescentes do século XVIII e utilizando, para as construções novas, painéis leves e pré-moldados de argamassa armada, desenvolvidos pelo arquiteto João Filgueiras Lima (1932-2014), o Lelé, em usina local. Figura 9 – Ladeira da Misericórdia. Fonte: Pinterest (2021). João Filgueiras Lima: para Spadoni (2004), o episódio mais importante do Brasil no período da visão industrial, até pela qualidade inegável do arquiteto, foi o trabalho de João Filgueiras Lima (Lelé). A indústria para Lelé deveria andar lado a lado com o potencial expressivo da criação arquitetônica, revelando a possibilidade que a racionalização do processo construtivo tem de ampliar os horizontes das soluções estruturais e formais. É um arquiteto formado na escola brasileira, da filiação de Oscar Niemeyer, com quem iniciou a carreira e colaborou por muitos anos. Sua contribuição a esse projeto foi pensar a possibilidade de racionalizar aquilo que se firmou pela espetacularidade – as estruturas expressivas –, mas cujo processo não era tão lógico no discurso, como vimos nas unidades anteriores. 89WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O projeto de restauro da antiga rua deveria promover a vitalidade urbana da área. Para isso, os projetistas desenvolveram o restauro das casas, abrigando comércio, serviço e espaços de ateliê. Mas o projeto destaque da área foi para o restaurante Coatí (Figura 10). O edifício é constituído por um conjunto de cilindros em argamassa armada, uma das técnicas construtivas estudadas por Lelé. O acesso principal ao restaurante se dá por uma escadaria que inicia paralelamente à lateral de uma casaremanescente, adjacente a essa porção do terreno. Apresenta uma inflexão na metade do seu percurso ascendente, tornando-se paralela ao muro de contenção que faz limite com a rua, até atingir o recinto do cilindro maior, o salão de mesas do restaurante. Figura 10 – Restaurante Coatí. Fonte: Alô Alô Bahia (2016). Certamente, a intervenção feita por Lina e equipe na Ladeira da Misericórdia buscou seguir certos princípios de distinguibilidade, por não imitar as construções históricas. Também evidencia sua posição de reversibilidade, pois as intervenções feitas não prejudicam possíveis ações futuras. O projeto preservou as obras existentes nas suas integridades (matéria e potencial artístico). São intervenções mínimas: é respeitosa no sentido em que respeita a sua totalidade (compreende o edifício como documento e imagem). E, por fim, é compatível com o bem material que ocupa: a cidade, no seu tecido colonial tradicional de Salvador, referente à cidade alta e cidade baixa. Nessa perspectiva, Lina abriu caminho para a discussão sobre como deveríamos agir no campo do patrimônio cultural no Brasil. O conceito de Pré-Fabricação na arquitetura de Lelé pode ser visto no vídeo Arquitetura e Pré-Fabricação. Trata-se de uma palestra para alunos da graduação do curso da Escola da Cidade em São Paulo (2003). Assista ao vídeo em https://www.youtube.com/watch?v=Gn- t2dspcTj0&list=PLNDgpX65wNuRRa7wD0Tfk1qkDPbEGViS- D&index=1. 90WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 3. ARQUITETURA BRASILEIRA DAS DÉCADAS DE 1970, 1980 E 1990 Alguns autores evidenciam as mudanças que ocorreram a partir do final da década de 1970 na arquitetura brasileira (BASTOS; ZEIN, 2010). A reabertura política devido ao fim da ditadura militar, instaurada em 1964, permitiu, com a Lei da Anistia, que os torturadores militares não fossem julgados e presos, mas também autorizava que os exilados políticos pudessem voltar ao País. Entre eles, estavam Oscar Niemeyer e Artigas. Outra questão de destaque nesse contexto foi a volta da circulação de revistas de arquitetura, dentre elas, a revista Projeto, que dedicava algumas colunas para a crítica arquitetônica e reflexões sobre a política habitacional no País, itens até então pouco discutidos. Portanto, a circulação das revistas permitiu redescobrir a experiência da arquitetura moderna, ao mesmo tempo em que expunha os acontecimentos externos pós- modernos. De certa forma, essas imagens de arquitetura em ressonância nas décadas de 1970 e 1980 exerciam uma certa carga imagética nos projetos de arquitetura. Como veremos, em tais projetos a busca não era mais pela síntese, mas sim pelo excesso, devido a essa liberdade lúdica e experimental que dominava o cenário brasileiro. 3.1 O Pós-Modernismo no Brasil: Arquitetura Mineira dos Anos 1980 O lançamento da revista Pampulha, em 1979, foi organizado por um grupo de arquitetos mineiros, que buscaram restabelecer as comunicações de arquitetura, arte e cultura depois de um tempo de declínio em Minas Gerais. Estavam, entre eles, os arquitetos Éolo Maia, Sylvio Emrich de Podestá e a arquiteta Jô de Vasconcellos. Esses agitadores culturais em Belo Horizonte promoveram um debate sobre arquitetura, que os grandes centros (Rio de Janeiro e São Paulo) ainda não estavam visualizando: por que não podemos fazer uma pós-moderna? Mas o que, de fato, era o pós-moderno? O patrimônio arquitetônico e urbano não está apartado da vida cotidiana. Ele é parte intrínseca das nossas relações com a cidade e com o projeto dela. A arquitetura moderna tratada nestas unidades também está envelhecendo. É importante perceber que essas obras fazem parte de um panorama muito significativo da nossa sociedade e cultura, pois muitas das nossas cidades já nasceram modernas, como Maringá e suas edificações. Mas como estamos discutindo a questão do patrimônio moderno? Quais são os seus limites e potencialidades? Sem negarmos as questões políticas e econômicas, que também são importantes, atenhamo-nos a outras três frentes que estimulam a preservação do patrimônio moderno hoje no Brasil: as questões culturais, pelos aspectos formais, documentais, simbólicos e memoriais; as questões científicas, pelo fato de os bens culturais serem portadores de conhecimento em vários campos do saber, que vão das humanidades até as ciências exatas ou biológicas; e as questões éticas, quando pensamos que não é adequado transformar indistintamente obras que são portadoras do conhecimento e são suporte de aspectos simbólicos. 91WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O período posterior a 1965 abriu caminho para uma abordagem da arquitetura que veio a ser conhecida como pós-modernismo, de início nos EUA e, depois, em todo o mundo industrializado. O pós-modernismo é um conceito diversificado e instável, que tem denotado abordagens estéticas específicas na crítica literária, na arte, no cinema, no teatro e na arquitetura, sem falar na moda e nos conflitos armados. O fato de ser uma categoria instável é uma de suas características inerentes. Trata-se da rejeição: à possibilidade de unidade de forma ou ideologia; à visão do mundo unitário; às narrativas mestras (GHIRARDO, 2002). Enquanto as forças da modernização do início do século XX tendiam a obscurecer diferenças locais, regionais e étnicas, o pós-modernismo concentra-se precisamente nessas diferenças e traz, para primeiro plano, o que fora marginalizado pelas culturas dominantes (GHIRARDO, 2002). Podemos dizer que, nos anos 1960 e 1970, nota-se uma crítica pós-moderna de forma bastante ferrenha nos EUA e Europa. Isso ocorreu de forma um pouco tardia no Brasil. De certa forma marginalizados de uma arquitetura nacional, os mineiros deram voz a essa crítica pós- moderna, mais cosmética e que causava espanto. Um dos projetos mais significativos dessa época foi, sem dúvidas, o Centro de Informação Turística Tancredo Neves, projetado por Éolo Maia e Sylvio de Podestá na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, em 1985. A partir da despretensiosa demanda por banheiros de fácil acesso, Maia e Podestá projetaram um edifício com formas mirabolantes e pouco usuais na arquitetura brasileira. A fachada voltada para a praça tem uma protuberante quadrícula de placas metálicas posicionadas simetricamente – um conjunto acinzentado, arrematado por um arco superior (Figura 11). São ações de projetos que pareciam ser mais decorativos do que, de fato, estruturais. Isso era novo para a arquitetura moderna brasileira. O revestimento em chapas metálicas de aço SAC-41 foi o que fomentou o apelido “Rainha da Sucata”, dado ao edifício, também em referência a uma novela da Rede Globo, dos anos 1980. Figura 11 – Centro de Informação Turística - Museu de Mineralogia Professor Djalma Guimarães. Fonte: Bosch (2020). 92WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA A fachada para a outra avenida, com um grande volume azul arredondado e embutido no centro, é marcada pelo que parecem ser duas grandes estampas xadrezes. Nada é mais chamativo, porém, que o cilindro amarelo, aparentemente pronto para suportar o mais alto dos edifícios e que, na verdade, é o abrigo dos sanitários. Esse edifício causa um certo contraste com os prédios das antigas secretarias da Educação e de Interior e Justiça, com seus capitéis e frontões para todos os gostos. 3.2 Dois Concursos Dois concursos de arquitetura no Brasil, promovidos nos anos 1980 e 1990, contribuíram para entender a arquitetura contemporânea das próximas décadas, como marcos sinalizadores de um novo momento da arquitetura brasileira (BASTOS; ZEIN, 2010, p. 286). O primeiro foi o concurso para o Sesc Nova Iguaçu, vencido por Bruno Padovano e Hector Vigliecca. O segundo foi o concurso para o Pavilhão do Brasil, em Sevilha, de 1992, vencidopor Ângelo Bucci e Alvaro Puntoni. O programa do concurso para o novo Sesc era muito conciso e quase se pode resumi-lo num quadro de áreas se não fosse pelo fato de sua simplicidade admitir inclusões e desenvolvimentos variados, desejados e incentivados pelo cliente como um recurso para individualizar o programa que era, e continua sendo, repetido por todo o Brasil – os Sesc’s. Os arquitetos premiados em primeiro lugar apresentaram quatro volumes de tijolo aparente, implantados a partir de duas relações causais: a primeira, imediata, dos objetos organizados ora paralela ora perpendicularmente aos limites do terreno; e a segunda, deles entre si, construindo uma praça que orienta os vazios entre os edifícios e indica percursos a partir de um encontro axial quase concêntrico. No vazio principal, desembocadura das entradas do complexo, uma torre de água de composição tripartida: a base prismática quadrada, o fuste cilíndrico – ambos em alvenaria aparente – e o capitel também cilíndrico, porém, já não como um volume cheio, mas como uma superfície translúcida, coroando a escada metálica azul que serpenteia a torre. Figura 12 – Sesc Nova Iguaçu. Fonte: ADSTTC (2021f). 93WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O concurso para o Sesc Nova Iguaçu revelou uma certa maturação das ideias pós-modernas. O programa distribuído no terreno buscava estabelecer um certo diálogo com a realidade. Houve a seleção dos materiais e acabamentos mais comezinhos, como tijolo maciço, madeira para a estrutura da cobertura e telhas metálicas simples; portanto, menos uso do concreto aparente. Todas essas características fizeram ressoar as ideias menos modernistas e mais pós-modernistas dos anos 1980 – mas não tão provocativos e cosméticos como os mineiros. Certamente, trata-se de um prédio que não seguia o status quo da arquitetura modernista brasileira. Lançado em novembro de 1990, o concurso para a escolha do Pavilhão do Brasil na feira de Sevilha, de 1992, contou com a participação de 253 equipes (BASTOS; ZEIN, 2010). Venceu, em primeiro lugar, a equipe liderada por dois arquitetos paulistas egressos da FAU USP, alunos de Paulo Mendes da Rocha – um dos jurados do concurso. Esse fator causou muitas críticas e desconfiança com relação ao processo. O projeto premiado, de fato, fez reverberar as heranças mais claras da escola paulista: o monobloco que resolve os três níveis internos com rampas; a escala baixa que fizesse o prédio aproximar-se do chão e do visitante; a parede viga; térreo aberto e de caráter coletivo; um terraço cercado por um espelho d’água, que permitiria conforto aos usuários do restaurante e vista para cidade. Figura 13 – Projeto premiado em primeiro lugar para o concurso de Sevilha, em 1992. Fonte: Grupo SP (2021). Independentemente das críticas que assolaram o projeto de 1990, pois o pavilhão parecia se voltar para as lições projetuais da escola paulista dos anos 1960 e 1970, Ângelo Bucci e Alvaro Puntoni continuaram a fazer uma arquitetura de muita qualidade durante os anos 1990 e 2000 – altamente estudada e premiada internacionalmente nos anos 2010. De qualquer sorte, os dois concursos revelam a transição entre o pós-moderno e uma retomada do moderno de forte orientação da escola paulista. Foi uma redescoberta da importância dessa arquitetura que, sem dúvida, atesta a criatividade de Bucci e equipe e o seu amadurecimento profissional. 94WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 3.3 A Revalorização da Arquitetura de Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha O projeto premiado de Bucci e Puntoni recuperou o forte lastro com a arquitetura paulista nos anos 1990. De fato, esse cenário era concreto, com a retomada e revalorização de projetos dos grandes mestres Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha. Entre os motivos, pode-se dizer que Oscar Niemeyer seguia vivo (tendo falecido em 2012), e Paulo Mendes segue vivo, assim como outros grandes arquitetos que representaram a arquitetura moderna brasileira dos anos 1950 e 1960. A revalorização desses mestres é porque suas obras subsistem e se retroalimentam, ainda repousando uma certa herança bastante fecunda de obras que seguem iluminadas, instigantes e polêmicas, mesmo para a nova geração de arquitetos. 3.3.1 Os museus de Niemeyer a partir da década de 1980 Um dos programas mais solicitados por Niemeyer na sua atuação a partir de 1980 foi o programa para museus. Um dos primeiros nessa periodização da obra do arquiteto carioca, a partir de 1985, foi o Memorial para a América Latina, em São Paulo, 1988 (Figura 14). O projeto do memorial foi desmembrado em vários edifícios isolados, buscando conformar uma praça entre eles. Conta com um bloco para a biblioteca, museu, auditório, administração, restaurante etc. Nota-se a estratégia compositiva de Niemeyer em explorar soluções diversas para cada programa, soltando esses edifícios no terreno na busca por articulação como uma única composição. Figura 14 – Memorial da América Latina. Fonte: Wikipédia (2020). 95WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O memorial não foi tão bem acolhido pela crítica como havia sido a sua arquitetura dos anos 1940 e 1950. O projeto acabou por deixar uma grande área do terreno sem uso, uma praça sem atividade cultural, cimentada e sem espaços verdes de recreação (BASTOS; ZEIN, 2010, p. 357). Certamente, a crítica de arquitetura brasileira se tornou mais ácida com o passar dos anos, muito em função do que se viu com as cidades modernistas, inclusive com Brasília. A crítica pós- moderna chegou ao Brasil e não se esperava mais as soluções antigas para os problemas atuais. Em contrapartida, o Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói, de 1996, foi mais bem acolhido pelo público. Nem tanto por não ser possível fazer críticas ao projeto e à obra, mas porque seu poder de sedução é tão magnifico, que todos os reparos acabam ficando soterrados pelo entusiasmo que a visita à obra consegue sempre despertar. Figura 15 – MAC. Fonte: ADSTTC (2021c). O projeto recupera uma das estratégias do arquiteto de solucionar o programa a partir de uma forma elementar, mas moldada para criar beleza: nesse caso, um cilindro de 16 metros de altura e, aproximadamente, 30 metros de espaço livre interno para o museu. Um espelho d’água dá continuidade visual ao mar. E o museu que, de longe, parecia brotar da terra surge, em verdade, do mar. A passarela escultural para o acesso do museu recupera toda a plasticidade do concreto, como o arquiteto apresentou nos projetos para Pampulha. Outros museus de Niemeyer também revelam sua eloquência formal, a exemplo do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, nos anos 2000. 96WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 3.3.2 Paulo Mendes: MUBE (1987) e Pinacoteca do Estado de São Paulo (2006) O projeto está situado em um terreno de esquina, em um dos bairros mais tradicionais de São Paulo, o Jardim Europa. O projeto foi fruto de um concurso público do qual participaram, dentre outros arquitetos, Joaquim Guedes e Lina Bo Bardi. Os moradores se juntaram para mobilizar a criação de um museu nesse terreno, onde empresários gostariam de fazer um shopping center. A proposta parte, portanto, de repensar esse lugar: aproveitando a grande declividade do terreno, Paulo Mendes trabalha as superfícies de maneira a criar espaços que dão continuidade ao domínio público, abrigando todo o museu na parte inferior, demarcado pela presença do pórtico- viga, de pouca altura para não confrontar com o contexto do bairro e que também contribui para emoldurar a paisagem e qualificar a presença do novo equipamento. Figura 16 – MUBE (1987). Fonte: ADSTTC (2021e). O MUBE marca uma estratégia de projeto de PauloMendes, que exercita a intervenção mínima com o grau máximo de inteligência. No caso da Pinacoteca do Estado, a refuncionalização na região da Luz é caracterizada por uma intervenção mínima feita pelo arquiteto, mas muito marcante em função da materialidade que se destaca no edifício de tijolos, tipo eclético. Paulo Mendes intervém com uma cobertura tipo grelha para facilitar a entrada de Luz no saguão principal de exposição de esculturas e, também, com passarelas, escadas e elevador em estrutura metálica, que contribuem para criar o percurso do museu. 97WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 17 – Pinacoteca de São Paulo. Fonte: Torres (2021). A escada eclética original que existia na frente do museu foi descartada, pois não contribuía mais para o percurso. A estrutura metálica quase miesiana surgiu como intervenção no edifício, muito “cirúrgica”. Essa solução também aparece em outros projetos de Paulo Mendes nos anos 2000, como no Centro Cultural da Fiesp, na Avenida Paulista e na Praça do Patriarca. Em ambos os casos, pouco foi modificado no projeto, mas, com essas mínimas intervenções, tudo acabou sendo transformado. A fim de nos debruçar sobre as obras pós-Brasília, podemos recuperar o livro Pós Brasília: os rumos da arquitetura brasileira, escrito por Maria Alice Junqueira Bastos, em 2003 – arquiteta, urbanista e professora da FAU Mackenzie. O livro é composto pela seleção e análise de 30 obras brasileiras, projetadas entre 1969 e 1990, apresentadas com textos e análises projetuais dos debates ocorridos no mesmo período. A pesquisa começa com o Pavilhão de Osaka, proposto por Paulo Mendes, em 1969, e termina com o Pavilhão de Sevilha, de Bucci e equipe, proposto em 1990. Parece peculiar que a listagem comece e termine por pavilhões oficiais do Brasil. Certamente, a autora aproveitou essa coincidência para contemplar as mudanças que ocorreram na arquitetura brasileira nesse espaço e tempo. Segue a referência completa: BASTOS, M. A. J. Pós Brasília: os rumos da arquitetura brasileira. São Paulo: Perspectiva, 2003. 98WWW.UNINGA.BR HI ST ÓR IA D A AR QU IT ET UR A BR AS IL EI RA | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, entendemos como se configurou a arquitetura brasileira a partir das décadas de 1960 e 1970. Percorremos esse caminho a partir das trajetórias de importantes arquitetos paulistas, como Paulo Mendes da Rocha. Identificamos que algumas das soluções propostas em suas obras ainda partiram da estrutura como geradora primária de projeto, mas referenciando, por essa perspectiva, ainda o brutalismo paulista. A partir da década de 1970, a arquitetura brasileira viveu um momento mais complexo frente ao quadro econômico de inserção do País no cenário internacional. Alguns dos arquitetos que eram grandes referências da arquitetura brasileira estavam exilados por conta da ditadura militar, como Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas. Além disso, a situação econômica, depois do auge do milagre econômico militar em 1973, passou a revelar problemas antes pouco evidentes para a classe dos arquitetos e até para os meios governamentais, como a precariedade da habitação no Brasil e as problemáticas relacionadas ao patrimônio histórico nacional. Nesse quadro mais complexo, destacaram- se as atuações da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi e também de Lelé, especialmente no cruzamento dessas duas trajetórias em Salvador, na década de 1980. Ademais, os mineiros também estavam revisando as pautas da arquitetura modernista no Brasil, tão consagrada nos anos de 1940 até 1960, com seu ápice em Brasília. Os arquitetos atuantes em Minas Gerais, fora dos grandes centros irradiadores de arquitetura moderna (como São Paulo e Rio de Janeiro), propuseram uma arquitetura assumidamente pós-moderna em Belo Horizonte. Dentre eles, estavam Éolo Maia, Sylvio Podestá e Jô de Vasconcellos, todos em torno da revista Pampulha. Também apresentamos a relevância de dois concursos para a arquitetura nacional: Sesc de Nova Iguaçu (1985) – definitivamente como um projeto pós-moderno –; e o concurso para o Pavilhão Brasileiro em Sevilha (1992) – apresentando a qualidade dos trabalhos da nova geração de arquitetos paulistas, como Ângelo Bucci e Alvaro Puntoni. Como vimos, o nome de Oscar Niemeyer, pela sua relevância nacional, ainda se fez presente na primeira década dos anos 2000. De certa forma, podemos dizer que, no Rio de Janeiro, Niemeyer não estabeleceu um vínculo com uma nova geração, ofuscada pelo legado do mestre. Contudo, certamente podemos destacar na arquitetura contemporânea os trabalhos de Thiago Bernardes e Paulo Jacobsen, especialmente a arquitetura residencial de grande qualidade. Em São Paulo, destaca-se a geração de Bucci e também os arquitetos Isay Weinfeld, Marcio Kogan e Hector Vigliecca. 99WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA REFERÊNCIAS ADSTTC. A casa do arquiteto. 2021a. 1 foto. Disponível em: https://images.adsttc.com/media/ images/52cf/162d/e8e4/4e30/c800/00ad/large_jpg/pmrpm_17.jpg?1389303334. Acesso em: 17 mar. 2021. ADSTTC. A casa do arquiteto (planta). 2021b. 1 foto. Disponível em: https://images.adsttc. com/media/images/52cf/15b5/e8e4/4e84/9600/009d/large_jpg/planta3_Ruth_Verde_Zein. jpg?1389303214. Acesso em: 17 mar. 2021. ADSTTC. MAC. 2021c. 1 foto. Disponível em: https://images.adsttc.com/adbr001cdn.archdaily. net/wp-content/uploads/2012/11/1353183006_1288030426_untitled_1.jpg. Acesso em: 17 mar. 2021. ADSTTC. MASP. 2021d. 1 foto. Disponível em: https://images.adsttc.com/adbr001cdn.archdaily. net/wp-content/uploads/2012/07/1342286032_wikiarquitectura_1311629433_wiki_2.jpg. Acesso em: 17 mar. 2021. ADSTTC. MUBE (1987). 2021e. 1 foto. Disponível em: https://images.adsttc.com/media/ images/5966/2be3/b22e/38be/df00/0443/large_jpg/4.jpg?1499868125. Acesso em: 17 mar. 2021. ADSTTC. Sesc Nova Iguaçu. 2021f. 1 foto. 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