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1HISTÓRIA 1. A colonização francesa Antecedentes A França iniciou tardiamente seu processo de expansão ultramarina. Envolvida na Guerra dos Cem Anos (1337-1453), somente na segunda metade do século XV ini ciou as navegações, que proporcionaram a formação de seu Império Colonial na Amé ri ca, estabelecendo-se em áreas desprezadas pelos ibéricos. As navegações francesas tinham por objetivo encon - trar uma passagem a no roes te para a Ásia. Assim como os ingleses, os franceses organizaram sua ação em termos de pi ra taria e concessão de cartas de corso reais contra as frotas dos países ibéricos, ou por meio de ataques a vilas e povoados da América luso-espanhola. Cabe lembrar que o rei Francisco I ques - tio na va o Tratado de Tordesilhas, exigindo para a sua aceitação o “testamento de Adão”. As conquistas Na primeira metade do século XVI, os franceses organizaram expedições para o Novo Mundo. Entre 1534 e 1535, Jacques Cartier explorou a foz do Rio São Lourenço, dando-lhe o nome de Nova França. Nesse mesmo período, tentaram fundar uma colônia de povoamento na Baía da Guanabara (atual Rio de Janeiro), que ficou conhecida como “França Antártica”. Logo em seguida, na França, tiveram início as Guerras de Religião, que en vol ve riam toda a história francesa até o final do século XVI, atrasando assim os empreen dimentos ultramarinos. No reinado de Henrique IV, a questão religiosa foi apaziguada e retomou-se a ideia de exploração da América. Em 1603, Samuel de Champlain começou a ocupação das terras; em 1608, fundou a cidade de Québec, no Canadá. Nessa região, apesar dos esforços para a implan ta - ção de atividades agrícolas, desenvolveu-se um lucrativo comércio de peles com os indígenas algonquinos. Em 1627, o governo do cardeal Richelieu criou a Companhia de Comércio Nova França, que recebeu o monopólio do comércio de peles e comprometeu-se a povoar o Canadá. Em 1642, missionários católicos fundaram a cidade de Montreal, expandindo a área conquistada pela França. Módulos 45 – Expansão e colonização francesa 46 – Expansão e colonização holandesa 47 – Colonização espanhola 48 – África I – Origens e características gerais 49 – África II – Tráfico Negreiro 50 – A origem do ameríndio 51 – Os maias 52 – Os astecas 53 – Os incas 54 – Os indígenas norte-americanos 55 – Indígenas brasileiros 56 – Política indigenista no Brasil 45 Expansão e colonização francesa Palavras-chave: • Corsários • Companhias de comércio • Colbertismo HISTÓRIA INTEGRADA C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 04/06/2021 14:16 Página 1 2 HISTÓRIA Entre 1673 e 1674, os jesuítas alcançaram a região dos Grandes Lagos, o que possibilitou a descoberta da foz do Rio Mississippi, pelo qual Robert de Cavelier de La Salle navegou de 1680 a 1682, ane xan do, em nome da França, todo o território até a nascente do rio. Esse território foi denominado Louisiana. O mercantilismo francês proporcionou um afluxo de riquezas para o erário. Sala dos Espelhos, Palácio de Versalhes. Com Colbert, minis tro de Luís XIV, ex tin guiu-se a Compa nhia de Comércio Nova Fran ça e a responsa - bilidade pela colonização pas sou para a Coroa Fran - cesa. O Canadá seria transformado em re gião produtora de ma dei ra e peles, tor nando-se uma pro - víncia do Impé rio. Colbert, ministro das Finanças de Luís XIV. Nas Pequenas An tilhas, a ocupação francesa deu- se principalmente com a fun dação da Companhia das Índias Ocidentais, por Colbert. As ilhas ocupadas pela Fran ça, a partir de 1635, foram Guadalupe, Martinica, São Cristóvão, São Bartolo meu, São Martinho, Santa Lúcia, Santa Cruz e Granada, além da porção ocidental da ilha de Hispaniola ou Ilha de São Domingos (mais tarde, chamada de Haiti). Essas áreas im pro dutivas nas mãos da Companhia de Comércio passaram, em 1674, para o do mí nio do Esta do, produzindo tabaco, algodão, açúcar, cacau, café e ma dei ras tin to riais. 2. O declínio do Império Francês na América A ocupação da América do Norte por franceses e ingleses acabou conduzindo a choques inevitáveis entre esses grupos, motivados por interesses econômicos e territoriais. Os franceses dominavam o comércio de peles com os indígenas, o que atraía a atenção dos ingleses, que já se sentiam limitados, pois a presença francesa na região da Louisiana impedia sua expansão para as áreas a oeste. Nesses conflitos, era comum a busca de alianças com os grupos indígenas locais. Os franceses estabe - le ce ram aliança com os algonquinos; e os ingleses, com os iroque ses, tribos rivais desde o período pré- coloni za dor. A expansão de colonos ingleses para além dos Montes Allegheny resultou em conflito com os franceses que, somado aos conflitos europeus, como a Guerra de Sucessão Espanhola (1701 a 1713), retirou da França, de acordo com o Tratado de Utrecht, a região de Nova Acádia e Terra Nova, no Canadá. Mais tarde, novos conflitos envolveram franceses e ingleses. Entre 1756 e 1763, eclodiu a Guerra dos Sete Anos, travada em duas frentes: uma americana e outra europeia. A França foi a grande derrotada e, com a assina tura do Tratado de Paris, em 1763, perdeu o Canadá, as Peque nas Antilhas e o leste do Rio Mississippi para a Inglaterra. A Espanha (aliada da Inglaterra) recebeu a Louisiana como recompensa pela perda da Flórida para os ingleses. Durante a Guerra de Independência norte-ame ri - cana, a França retomou a Louisiana, que, em 1803, foi vendida por Napoleão Bonaparte aos Estados Unidos da América. Atualmente, a Guiana Francesa é o único território francês nas américas. Foi colônia até 1947, quando se tornou um departamento ultramarino. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 2 3HISTÓRIA � (MODELO ENEM) – Em 1555, um dos mais importantes líderes do protes tantismo francês, o Almirante Coligny, enviou uma expedição à América. Em novembro do mesmo ano, sob o comando de Nicholas Durand de Villegaignon, a expedição chegou ao atual Estado do Rio de Janeiro, onde construiu o forte Coligny e fundou uma colônia deno minada França Antártica. Destaca-se, entre as razões que motivaram a fundação dessa colônia, a a) disputa pela posse das lavouras açu - careiras implan tadas no território brasileiro. b) luta pelo controle do porto de Paraty, por onde era exportada a produção de ouro. c) retaliação aos católicos pelo massacre de pro tes tantes na “Noite de São Bartolo - meu”. d) disputa pela hegemonia do comércio de pau-brasil para a manufatura têxtil. e) necessidade de ampliar o controle territorial francês até a foz do Rio da Prata. Resolução Desde os primórdios do século XVI, os franceses se interessavam pela extração do pau-brasil em nosso litoral. A fundação da França Antártica insere-se nessa disputa com os portugueses, bem como nos conflitos entre católicos e huguenotes (protestantes calvinis - tas) na França. Obs.: A importância do pau-brasil relacionava-se com a produção de uma tintura vermelha para as manufaturas têxteis da Europa. Resposta: D � Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) compara, nos trechos a seguir, as guerras das sociedades Tupinambá com as chamadas “Guerras de Religião” dos franceses que, na segunda metade do século XVI, opunham católicos e protestantes. “(...) não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos; e, na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra. (...) Não me parece excessivo julgar bárbaros tais atos de crueldade [o canibalismo], mas que o fato de condenar tais defeitos não nos leve à cegueira acerca dos nossos. Estimo que é mais bárbaro comer um homem vivo do que o comer depois de morto; e é pior esquartejar um homem entre suplícios e tormentos e o queimar aos poucos, ou entregá-Io a cães e porcos, a pre - texto de devoção e fé, como não somente o lemos mas vimos ocorrer entre vizinhos nossos conterrâneos; e isso em verdade é bem mais grave do que assar e comer um homem previa mente executado. (...) Podemos portanto quali ficar esses povos como bárbaros em dando apenas ouvidos à inteligência, mas nunca se compararmos anós mesmos, que os exce demos em toda sorte de barbaridades”. (Michel Eyquem de Montaigne. Ensaios. São Paulo: Nova Cultural, 1984.) De acordo com o texto, pode-se afirmar que, para Montaigne, a) a ideia de relativismo cultural baseia-se na hipótese da origem única do gênero humano e da sua religião. b) a diferença de costumes não constitui um critério válido para julgar as diferentes socie dades. c) os indígenas são mais bárbaros do que os europeus, pois não conhecem a virtude cristã da piedade. d) a barbárie é um comportamento social que pressupõe a ausência de uma cultura civili - zada e racional. e) a ingenuidade dos indígenas equivale à racionalidade dos europeus, o que explica que os seus costumes são similares. Resolução A resposta correta resulta da simples inter pre - tação do texto apresentado. Podemos, porém, reforçá-la considerando o conceito antropo - lógico de cultura: conjunto da produção coletiva de uma comunidade, independen te - men te de seu nível de adiantamento técnico. Assim, não se podem estabelecer juízos de valor entre diferentes culturas, com base exclu sivamente nas diferenças ou no aparente exotismo dos costumes de uma comunidade. Obs.: No texto transcrito, Mon taigne comete uma contradição ao considerar as práticas adotadas pelos europeus, nas guerras entre católicos e protestantes, mais condenáveis que o canibalismo dos tupinambás. Para chegar a essa conclusão, o pensador francês estabe leceu juízos pessoais, sem considerar os valores predominantes na sociedade de seu tempo. Resposta: B Exercícios Resolvidos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 3 4 HISTÓRIA � Quais as razões do atraso da França nas Grandes Navegações? RESOLUÇÃO: Os motivos que levaram ao atraso foram: no século XV, o envolvimento na Guerra dos Cem Anos (1337-1453) e a necessidade de recuperação do país após o conflito; no século XVI, as Guerras de Religião (1562-98) entre católicos e hugue notes, as quais dividiram o País, evitando a união dos esforços que deveriam ser direcionados aos empreendimentos marítimos. � Quais as mudanças promovidas na colonização do Canadá com o ministério de Colbert? RESOLUÇÃO: Colbert extinguiu a Companhia de Comércio Nova França, e o Canadá se transformou em província do Império. Como consequência, a França passou a ocupar-se com a exploração comercial das Pequenas Antilhas. � Comente os efeitos da Guerra dos Sete Anos para o Império Colonial Francês. RESOLUÇÃO: A França, derrotada na Guerra, perdeu para a Inglaterra os ter - ritórios do Canadá, Pequenas Antilhas e leste do Mississippi. � Com relação à colonização francesa na América, assinale Verda deiro ou Falso. (0) A exploração colonial foi efetivamente desenvolvida por Col - bert. (1) No Canadá, os franceses estabeleceram postos para o comér cio de peles. (2) Nas pequenas Antilhas, foi desenvolvida a mineração. (3) A França manteve o seu império colonial intacto até o final da Época Moderna. (4) Os franceses não desenvolveram a grande lavoura mercantil em suas colônias americanas. RESOLUÇÃO: 2 – Nas pequenas Antilhas foi desenvolvida a grande lavoura de produtos tropicais. 3 – Antes do fim da Idade Moderna, a França já havia perdido diversos territórios para a Inglaterra. 4 – O principal foco da colonização francesa nas Américas foi o desenvolvimento de latifúndios. Itens verdadeiros: 0 e 1. Itens falsos: 2, 3 e 4. Exercícios Propostos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 4 5HISTÓRIA � Jean de Léry viveu na França na segunda metade do século XVI, época em que as chamadas Guerras de Religião opuseram católicos e protestantes. No texto abaixo, ele relata o cerco da cidade de Sancerre por tropas católicas. “(...) desde que os canhões começaram a atirar sobre nós com maior frequência, tornou-se necessário que todos dormissem nas casernas. Eu logo providenciei para mim um leito feito de um lençol atado pelas suas duas pontas e assim fiquei suspenso no ar, à maneira dos selvagens americanos (entre os quais eu estive durante dez meses) o que foi imediatamente imitado por todos os nossos soldados, de tal maneira que a caserna logo ficou cheia deles. Aqueles que dormiram assim puderam confirmar o quanto esta maneira é apropriada tanto para evitar os vermes quanto para manter as roupas limpas (...).” Neste texto, Jean de Léry a) despreza a cultura e rejeita o patrimônio dos in dí genas americanos. b) revela-se constrangido por ter de recorrer a um invento de “selvagens”. c) reconhece a superioridade das sociedades indí ge nas americanas com relação aos europeus. d) valoriza o patrimônio cultural dos indígenas ame ricanos, adaptando-o às suas necessidades. e) valoriza os costumes dos indígenas americanos por que eles também eram perseguidos pelos católicos. RESOLUÇÃO: O texto se explica por si mesmo, mostrando como um europeu que vivera entre os índios do Brasil assimilou algumas de suas práticas, adaptando uma delas (o uso da rede) às suas neces sida des na Europa. Resposta: D � (UFRRJ – MODELO ENEM) – O texto a seguir trata das incursões francesas na América; entretanto, essas ainda não representavam que a França tivesse dado início à sua expansão. “Ao longo do século XVI, os franceses estiveram na América, mas isso não significava uma atitude sistemática e coerente desenvolvida pela Coroa. Era, no mais das vezes, atuação de corsários e de uns poucos indivíduos. Como exemplo, pode-se mencionar as invasões do litoral brasileiro, (...), e algumas visitas à América do Norte.” (R. de M. Faria; F. C. Berutti; A. M. Marques. História para o Ensino Médio. Belo Horizonte: Lê, 1998, p.182.) Dentre os motivos que levaram a França a iniciar tardiamente sua expansão marítima e comercial, podemos destacar a) os problemas internos ligados à consolidação do Estado Nacional. b) a derrota da França na violenta guerra contra a Alemanha. c) a falta de associação entre a Coroa e a Burguesia francesa. d) a violenta disputa religiosa entre calvinistas e luteranos. e) a não inclusão das classes superiores no projeto expan - sionista. RESOLUÇÃO: As guerras de religião (católicos contra protestantes huguenotes) impediram a unificação do país em torno de uma família real, condição fundamental para a realização das navegações. Resposta: A � (FUVEST) – Sobre a presença francesa na baía de Guanabara (1557-1560), podemos dizer que foi a) apoiada por armadores franceses católicos que procuravam estabelecer no Brasil a agroindústria açucareira. b) um desdobramento da política francesa de luta pela liberdade nos mares e assentou-se numa exploração econômica do tipo da feitoria comercial. c) um protesto organizado pelos nobres franceses huguenotes, descontentes com a Reforma Católica implementada pelo Concílio de Trento. d) uma alternativa de colonização muito mais avançada do que a portuguesa, porque os huguenotes que para cá vieram eram burgueses ricos. e) parte de uma política econômica francesa levada a cabo pelo Estado com intuito de criar companhias de comércio. RESOLUÇÃO: A França não reconhecia o Tratado de Tordesilhas e afirmava que as terras do Novo Mundo não pertenciam a quem as descobriu, mas a quem as ocuparia de fato. Resposta: B C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 5 6 HISTÓRIA 1. Antecedentes Na Baixa Idade Média, a região da Flandres (ou Países Baixos), correspondente à Bélgica e à Holanda atuais, era um importante centro mercantil e manufa - tureiro, principalmente no setor têxtil. Poli ti ca men te, era formada por um aglomerado de feudos com extensão variável, submetidos sucessivamente à suserania da França, do Ducado da Borgonha, da Áustria e, a partir de 1556, da Espanha (então governada por um ramo da Dinastia de Habsburgo). Na época, a Reforma Protestante provocara uma cisão entre os flamengos: os habitantes da porção setentrional (atual Holanda) aderiram ao calvinismo, enquanto os moradores do sul (Bélgica de hoje) permaneceram cató - licos. Felipe II, rei da Espanha (1556-98)e senhor dos Países Baixos, era um católico inflexível e o principal líder leigo da reação antiprotestante (Contrarreforma). Tentando forçar os flamengos do norte* a retornar ao catolicismo, ele iniciou uma série de perseguições que levaram os protestantes a se revoltar contra o domínio espanhol, em 1568. Em 1581, os rebe lados proclamaram a indepen - dência da República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos (comumente conhecida como Holanda), sob a forma de uma república burguesa. * Inicialmente, o termo flamengo designava todos os habitantes da Flandres. Atualmente, aplica-se apenas aos belgas que falam holandês (os belgas que falam francês são conhecidos pelo nome de valões). Por outro lado, a denominação Países Baixos, antes extensiva a toda a Flandres, hoje se restringe à Holanda. Mesmo durante o período em que esteve subordi na - da à Espanha, a Holanda desenvolveu-se como um Estado capitalista, e, como já foi dito, com a burguesia profes sando uma religião protestante calvinista. Assim, os flamengos já tinham uma participação expressiva no comércio marítimo europeu, possuindo uma grande frota mercante, desenvolvendo uma poderosa marinha de guerra e tornando-se rapidamente uma das maiores potências navais da época, comparável à Espanha e à Inglaterra. Além disso, naquela época, os holandeses tornaram-se parceiros de Portugal na comercialização do açúcar brasileiro, realizando grandes investimentos nos engenhos de cana-de-açúcar. 2. União Ibérica Em 1580, com a extinção da Dinastia de Avis, a Coroa Portuguesa passou para a Espanha, formando a União Ibérica (1580-1640). Obrigados a seguir a política externa espanhola, os portugueses romperam suas rela - ções mercantis com os flamengos, contra os quais pas - sa ram a combater. Em 1599, os holandeses tentaram uma primeira pe - ne tração no Rio de Janeiro, mas não obtiveram sucesso. Em 1602, fundaram a Companhia das Índias Orien tais e iniciaram a penetração no Oriente (Índia, Ceilão, hoje Sri Lanka, e Ilhas Molucas), além de realizarem o tráfico negreiro com a África. De 1609 a 1621, foi firmada e vigorou a Trégua dos Doze Anos, período em que se intensificaram as com - pras de açúcar e Amsterdã tornou-se um dos grandes centros refinadores e distribuidores do produto. Os êxitos da Companhia das Índias Orientais esti mu - la ram a criação, em 1621, de uma empresa congênere para atuar no Oceano Atlântico: a Companhia das Índias Oci dentais (sigla em holandês: WIC), estruturada nos moldes de sua antecessora. A WIC atuou nas três Américas e também na costa ocidental da África, onde chegou a dominar Angola, importante centro fornecedor de escravos. Na América do Sul, os holandeses invadiram o Brasil em duas ocasiões, visando apoderar-se dos centros produtores de açúcar, mas foram expulsos nas duas tentativas (Guerras do açúcar). Em 1624-25, atacaram a Bahia. Na segunda vez, invadiram Pernambuco (1630-54), tendo chegado a dominar o litoral nordestino desde Alagoas até o Mara nhão. Mesmo derrotados, conseguiram transplantar o cultivo da cana e as técnicas da produção açucareira para as possessões que haviam conquistado nas Antilhas, estabelecendo uma concorrência que prejudicou o açúcar brasileiro. Aliás, algumas dessas colônias insulares permanecem até hoje sob a soberania dos Países Baixos. 3. Decadência A Companhia das Índias Ocidentais também tentou fixar-se na América do Norte, fundando em 1625, na Ilha de Manhattan, a cidade de Nova Amsterdam, capital da colônia da Nova Holanda. A região recebeu numerosos imigrantes e prosperou, mas não conseguiu resistir ao crescente poderio da Inglaterra. A Guerra de Navegação dos holandeses con tra os ingleses de Oliver Cromwell (1651-54), devido à decretação do Ato de Nave ga ção (1651) pela Ingla ter ra, contri buiu para 46 Expansão e colonização holandesa Palavras-chave: • Independência • Companhias de comércio • Guerras do açúcar C4_1a_HISTORIA_JR_2022.qxp 13/05/2022 14:45 Página 6 7HISTÓRIA enfraquecer ainda mais os flamen gos. Em 1674, Nova Amsterdam passou definiti vamente para o domínio inglês, com o nome de Nova York. Pieter Stuyvesant (1612-72), governador da Nova Holanda, defendendo a cidade de Nova Amsterdam (futura Nova York) contra os ingleses. Ainda no século XVII, a Holanda estabeleceu-se na região da Guiana, mas perdeu para a Grã-Bretanha boa parte desse território (1796). A área restante (com exclusão da Guiana Francesa) permaneceu em poder da Holanda até 1975, quando obteve sua independência, com o nome de Suriname. Em marcha lenta nas ilhas do Caribe “Formadas por Barbados, ilhas de Sotavento, Trinidad e Tobago, Guadalupe, Porto Rico e República Dominicana, as Antilhas eram as Sugar Lands, ilhas do açú car, que foram sucessivamente incorpo ra das ao mercado mundial como produtoras de açúcar e ficaram conde - nadas até nossos dias. Prisio nei ras da monocul tura da cana nos lalifúndios de vastas terras exaustas, as ilhas sofrem com o desem prego e a pobreza; o açúcar é cultivado em gran de escala e em grande escala irradia suas mal di ções. Também Cuba conti nua depen dendo, em medida determinante, de suas vendas de açúcar, mas a partir da reforma agrária de 1959, iniciou-se um intenso pro cesso de diversificação da economia da ilha, o que colocou um ponto-final no desemprego. Os cubanos não trabalham ape nas cinco meses no ano, durante as safras, mas sim doze, ao longo da inter rompida e, decerto, difícil construção de uma nova sociedade. ‘Pensareis talvez, senhores’, dizia Karl Marx em 1848, ‘que a produção de café e açúcar é o destino natural das Índias Oci den tais. Há dois séculos, a natureza, que pou co tem a ver com o comércio, não tinha plan ta do ali nem a árvore do café nem a cana-de-açú car’. A divisão interna cional do trabalho não se foi estruturando por obra e graça do Espírito Santo, senão por obra dos homens ou, mais precisa mente, por causa do desen - vol vimento internacional do capitalismo. Na realidade, Barbados foi a primeira ilha do Caribe onde se produziu o açúcar para a exportação em grandes quanti da - des, desde 1641, embora anteriormente os espanhóis tenham plantado cana na Ilha Dominicana e em Cuba. Foram os holan deses, como vimos, que introdu zi - ram as plantações na minúscula ilha britânica. Em 1666, já havia em Barbados 800 planta ções de cana e mais de 800 mil escravos. Vertical e horizontalmente ocupada pelo latifúndio nascente, Barba - dos não teve melhor sorte do que o Nor - des te do Brasil. Antes, a ilha desfrutava da policultura; produ zia, em pequenas propriedades, algo dão, ta baco, laranjas, vacas e porcos. Os canaviais devoraram as culturas agrícolas e devasta ram as densas matas em nome do efêmero apogeu. Rapidamente, a ilha descobriu que seus solos haviam se esgotado, que não tinha como alimentar sua população e que estava produ zindo açúcar a preços fora de concorrência. O açúcar propagou-se a outras ilhas, em direção ao arquipélago de Sotavento, rumo à Jamaica e, em terras continentais, às Guianas. No começo do século XVIII, os escravos eram, na Jamaica, dez vezes mais numerosos do que os colonos brancos. Também seu solo se cansou em pouco tempo. Na segunda metade do século, o melhor açúcar do mundo brota - va do solo esponjoso das planuras da cos - ta do Haiti, uma colônia francesa que na - quela época se chamava Saint Domin gue. Ao norte e a oeste, o Haiti converteu-se em sorvedouro de escravos, pois o açúcar exigia cada vez mais braços. Em 1786, chegaram à colônia 27 mil escravos e, no ano seguinte, 40 mil. No outo no de 1791, explodiu a revolução. Num só mês, se tem bro, duzentas planta ções de cana fo ram tomadas pelas chamas; os incên dios e os combates suce deram-se sem trégua à C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 7 8 HISTÓRIA medida que os escravos insurretos iam empurrando os exércitos fran ceses até o oceano. Os barcos zarparam car regando cada vez mais fran ceses e cada vez menos açúcar. A longa guerra der ramou rios de sangue e devastou as plantações. O país, emcinzas, ficou para lisado; em fins do século, a produ ção caiu verti cal - mente. ‘Em novembro de 1803 quase toda a colônia, antigamente flores cente, era um grande ce mitério de cinzas e escombros’, diz Lep kowski. A Revolu ção Haitiana tinha coinci - dido, e não só no tempo, com a Revo - lução Francesa; o Haiti sofreu também, na própria carne, o bloqueio da coalizão inter - nacional contra a França quando a Ingla - ter ra domi nava os mares. Porém, logo sofreu, à medi da que sua in de pendência se fazia inevi tável, o bloqueio da França. Cedendo à pressão francesa, o Congresso dos Estados Unidos proibiu o co mércio com o Haiti, em 1806. Logo em 1825, a França reconheceu a indepen dên cia de sua anti ga colônia, mas em troca de uma gi gan tes ca indenização em dinheiro. E m 1802, pouco de pois de Tous saint-Lou - verture (cau dilho dos exér citos escra vos) ser preso, o ge neral Leclerc escre vera a seu cunhado Na poleão: ‘Eis minha opinião sobre o país: há que supri mir todos os negros das montanhas, homens e mulheres, conser vando-se somente as crianças menores de doze anos, extermi - nar a metade dos negros nas planícies e não deixar na colônia nem um só negro que use jarre tei ras’. O trópico vingou-se de Leclerc, pois mor reu ‘agarrado pelo vômito-negro’ (apesar das esconju ra - ções mágicas de sua esposa, Paulina Bona - par te, irmã de Napoleão), sem poder cumprir seu plano, porém a indeni za ção em dinhei ro se tornou uma pedra esma - gadora sobre as costas dos haitianos independentes que haviam sobre vivido aos banhos de sangue das suces sivas expedi ções militares enviadas contra eles. O país nasceu em ruínas e não se recuperou jamais; hoje é o mais pobre da América Latina. A crise do Haiti provocou o auge açu - ca reiro de Cuba, que rapidamente conver - teu-se na primeira supridora do mundo. Também a produção cubana de café, outro artigo de intensa demanda no ultramar, recebeu seu impulso da queda de pro dução haitiana, po rém o açúcar ganhou a corrida da mono cul tura e, em 1862, Cuba viu-se obrigada a importar café. Um membro dile to da ‘sacaro cracia’ cuba na chegou a escrever sobre as ‘profundas vantagens que se podem tirar da desgraça alheia’. À rebelião haitiana suce de ram os preços mais fabulo sos da história do açú car no mercado euro peu, e, em 1806, Cuba já tinha duplicado, ao mesmo tempo, os en genhos e a produti - vidade.” (Eduardo Galeano. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Adaptado.) � (MACKENZIE – MODELO ENEM) – “E se a lição foi aprendida a vitória não será vã. Nesse Brasil holandês tem lugar para português e para o Banco de Amsterdam.” (Chico Buarque e Rui Guerra. Cababar.) Indique a alternativa que justifica o texto relativo às Invasões Holandesas no séc. XVII. a) Após a vitória holandesa, os senhores de engenho continuaram a resistência, sem jamais aceitar o novo dominador. b) A administração de Nassau, marcada pela intolerância religiosa, desencadeou a violenta resis tência dos colonos. c) Negros e índios não participaram das lutas contra os invasores holandeses. d) A Companhia das Índias ofereceu créditos, liber dade religiosa e proteção aos colonos, que aos poucos retornaram aos engenhos e à produção. e) Os holandeses não conseguiam dominar Pernam buco, nem conseguiam aliados entre os nativos, sofrendo duros revezes. Resolução A política adotada pela Companhia das Índias Ocidentais em relação ao Brasil holandês somen - te corresponde ao explicitado na alter nativa d se consi derarmos o Período Nassoviano (1637-44). Antes e depois disso, o que houve foi uma postura de exploração e de arrocho econômico. Resposta: D � (FATEC – MODELO ENEM) – “Guerreado por Madri e pela Holanda, posto em qua - rentena pela Santa Sé, Portugal busca o apoio de Lon dres, preferindo à aliança com os dis - tan tes here ges à as sociação com os vizinhos católicos. Dando se guimento a vários tratados bilaterais, os portu gueses fa cilitam o acesso dos mercadores e das mercadorias inglesas às zonas sob seu controle na Ásia, África e América.” (L.F. de Alencastro. A economia política dos descobrimentos. In A. Novaes (org.). A descoberta do homem e do mundo. São Paulo: Cia. das Letras, 1998, p. 193.) O trecho do texto de Alencastro refere-se a) ao período inicial da expansão marítima portu guesa, no qual as rivalidades com a Espanha em torno da partilha da América levaram a uma apro ximação diplomática entre Portugal e Inglaterra. b) à época da Restauração, que se seguiu à união di nás tica entre as monarquias ibéricas e que obrigou a Coroa Portuguesa a en frentar tropas espanholas na Europa e holan desas na África e na América. c) à época napoleônica, que acabou por definir o início da aproximação diplomática de Portugal com a Inglaterra, em virtude da articulação franco-espanhola que ameaçava as colônias portuguesas na América. d) ao período de Guerras de Religião, durante o qual a monarquia portuguesa, por aproxi - mar-se dos calvinistas ingleses, passou a ser enca rada com suspeitas pelo poder pontifício. e) à época das primeiras viagens portuguesas às Ín dias, quando muitas expedições foram or gani zadas em conjunto por Inglaterra e Portugal, o que alijou holandeses e es - panhóis das atividades mercantis reali - zadas na Ásia. Resolução A União Ibérica (1580-1640) terminou quando da Res tauração Portuguesa, com a ascensão da Dinastia de Bragança. Nessa ocasião, Portugal teve de lutar contra a Espanha (que não queria reconhecer a eman cipação lusa) e contra a Holanda, que invadira diversas colô - nias portu guesas, entre elas o Brasil e An gola. Resposta: B Vômito-negro: febre amarela. Exercícios Resolvidos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 8 9HISTÓRIA � (UFV) – Durante a segunda metade do século XVII, os portugueses perderiam grande parte do controle do comércio do Oriente e das rotas do Oceano Índico para os holandeses, que, por sua vez, logo se veriam superados pelos ingleses. Holandeses e ingleses deviam seu sucesso à capacidade de organizar e financiar seus empreendimentos simultaneamente militares e comerciais. a) Qual o principal instrumento de política colonial dos holan de - ses e ingleses? b) Aponte um evento que indique os desdobramentos da con - cor rência entre as grandes potências na América Portugue - sa. RESOLUÇÃO: a) As companhias de comércio. b) A decretação dos Atos de Navegação pela Inglaterra. � O que foi a Guerra do Açúcar? RESOLUÇÃO: Conflitos em que a Holanda buscou apoderar-se das regiões produtoras de açúcar no Nordeste brasileiro. � Assinale a alternativa correta. I. A grande propriedade inexistiu nas áreas coloniais dos chama dos não ibéricos. II. As colônias franco-holandesas não exploraram nenhuma forma de escravidão. III. A Guiana foi a única porção territorial que os holandeses toma ram de Portugal. a) Se todas estiverem corretas. b) Se todas estiverem incorretas. c) Se I e II estiverem corretas. d) Se I e III estiverem corretas. e) Se II e III estiverem corretas. RESOLUÇÃO: I. Falso, pois Inglaterra, França e Holanda desenvolveram colônias de exploração com latifúndios. II. Falso, pois franceses e holandeses se utilizaram da escravidão para a exploração colonial. III. Falso, pois os holandeses também tomaram posse de Pernam - buco, no século XVII. Itens falsos: I, II e III. Resposta: B � Assinale a alternativa correta. I. Os holandeses chegaram a se estabelecer na região do Rio Hud son. II. As companhias de comércio holandesas eram pacíficas em - presas mercantis. III. O Ato de Navegação, de Cromwell, ani qui lou a supremacia marítima flamenga. a) Se todas estiverem corretas. b) Se todas estiverem incorretas. c) Se I e II estiverem corretas. d) Se I e III estiverem corretas. e) Se II e III estiverem corretas. RESOLUÇÃO: II. Falso, pois as companhias holandesas não agiram pacifi ca - mente durante todo período colonial, entrando em conflito com portugueses, espanhóis e ingleses. Itens verdadeiros: I e III. Itens falsos: II. Resposta:D Exercícios Propostos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 9 10 HISTÓRIA � (FUVEST – MODELO ENEM) – Este quadro, pintado por Franz Post por volta de 1660, pode ser corretamente relacionado a) à iniciativa pioneira dos holandeses de construção dos primeiros engenhos no Nordeste. b) à riqueza do açúcar, alvo principal do interesse dos holandeses no Nordeste. c) à condição especial dispensada pelos holandeses aos escravos africanos. d) ao início da exportação do açúcar para a Europa por determinação de Maurício de Nassau. e) ao incentivo à vinda de holandeses para a consti tuição de pequenas propriedades rurais. RESOLUÇÃO: A União Ibérica (1580-1640) fez com que Portugal rompes se relações com a Holanda, que até então comercia li za va o açúcar brasileiro, mas se encontrava em guerra com a Espanha. Em consequência, a Com pa nhia das Índias Ocidentais, formada por capitais ho landeses, atacou o Nordeste brasileiro, principal re gião produtora de açúcar. Durante a dominação holandesa em Pernambuco, ocorreu a administração de Maurício de Nassau (1637-1644), que trouxe para o Brasil o pintor Franz Post, autor da tela reproduzida na questão. Resposta: B � (MACKENZIE) – “(...) o número de refinarias, na Holanda, passara de 3 ou 4 (1595) para 29 (1622), das quais 25 encontravam-se em Amsterdã, que se transformara no grande centro de refino e distribuição do açúcar na Europa.” (Elza Nadai e Joana Neves.) A respeito do aumento de interesse, por parte dos holandeses, não apenas na refinação do açúcar brasileiro, mas também no transporte e distribuição desse produto nos mercados europeus, acentuadamente no século XVII, é correto afirmar que: a) com a União Ibérica (1580-1640), os holandeses desejavam conquistar militarmente o litoral nordestino para obter postos estratégicos na luta contra a Espanha. b) a ocupação de Salvador, em 1624, por tropas flamengas, foi um sucesso, do ponto de vista militar, para diminuir o poderio de Filipe II, rei da Espanha. c) a criação da Companhia das Índias Ocidentais foi responsável pela conquista do litoral ocidental da África, do nordeste brasileiro e das Antilhas, visando obter mão de obra para as lavouras antilhanas. d) o domínio holandês, no nordeste brasileiro, buscava garantir o abastecimento de açúcar, controlando a principal região produtora, pois foi graças ao capital flamengo, que a empresa açucareira pode ser instalada na colônia. e) a Companhia das Índias Ocidentais, em 1634, na luta pela conquista do litoral nordestino, propõe a proteção das propriedades brasileiras submetidas à custódia holandesa, porém, em troca, os brasileiros não poderiam manter sua liberdade religiosa. RESOLUÇÃO: Os holandeses invadiram duas vezes o Nordeste Brasileiro: Salvador (1624-25), centro administrativo; e Pernambuco (1630- 54), centro produtor de açúcar. Tinha por objetivo garantir os investimentos flamengos na agroindústria do açúcar, devido à proibição espanhola (União Ibérica) do comércio entre Portugal e a Holanda. Resposta: D C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 10 11HISTÓRIA 1. A conquista da América Da fase inicial de exploração do novo continente pelos espanhóis, destacam-se as conquistas de Porto Rico, em 1508, por Juan Ponce de León; Jamaica, em 1509, por Juan Esquivel; Cuba, em 1511, por Diego Velázquez. Também sobressaem a descoberta do Oceano Pacífico, em 1513, por Vasco Núñez Balboa; no mesmo ano, a navegação da Bacia do Mississippi, por Juan Ponce de León; o descobrimento do Rio da Prata, em 1516, por Juan Días de Solis; a primeira viagem de circum-navegação da Terra, de 1519 a 1522, iniciada por Fernão de Magalhães e concluída por Sebastián del Cano. Aos europeus e espanhóis interessava mesmo a conquista de áreas com metais preciosos e, nesse aspecto, a Espanha foi privilegiada na conquista da América. Entre 1519 e 1521, Fernão Cortês, contando com a supremacia bélica, dominou o Império Asteca (México), garantindo para a Espanha o envio de imensas quantidades de metais preciosos. O controle das minas de metais preciosos no Novo Mundo não cessava somente com essas conquistas. Entre 1531 e 1533, Francisco Pizarro e Diego de Almagro conquistaram o Império Inca (Peru), fundando, em 1535, a Ciudad de los Reyes, atual Lima. Além das ricas regiões mineradoras, a Espanha dominou El Salvador e Guatemala (1523 a 1524), Honduras (1524 a 1526), Califórnia (1532) e Bolívia (1538 a 1544). A conquista militar e religiosa (ação da Companhia de Jesus) desestruturou a cultura religiosa e sua organização econômica, atingindo até a sua integridade física. 2. A administração espanhola na América As terras americanas eram consideradas proprie - dade pessoal dos reis es pa nhóis. Assim, a admi nis tra ção seguiu um rígido esquema, determinado pela Coroa. Durante a fase de conquista europeia, grandes ex - ten sões de terras eram entregues aos chefes conquis - tadores, que eram denominados adelantados e possuíam autonomia de poder dentro do território. Páginas do catecismo para índios, do frei Pedro de Gante. Com a descoberta das minas de prata e ouro, a Coroa Es panhola, fortalecida, retirou a inde pen dên cia dos ade lan tados e redefiniu a adminis tração da América. A subdivisão do território da América Espanhola en - con trou sua forma definitiva no século XVIII, como segue: • Vice-Reinos: No va Espanha, cria do em 1535, compre en dendo o oeste do atual território norte-ame - ricano, o México e parte da América Central; Peru, criado em 1543, formado pelos atuais Peru e parte da Bolívia; Nova Granada, criado em 1717, abrangendo os atuais Equador, Panamá e Colômbia; Rio da Prata, criado em 1776, composto pelos atuais territórios da Argentina, do Paraguai, do Uru guai e parte da Bolívia. • Capitanias-Gerais: Cuba, Guatemala, Venezuela e Chile. Órgãos administrativos No século XVI, a Espanha já organizava os órgãos que controlariam, a partir da Europa, as possessões ameri ca nas. Em 1503, foi criada a Casa de Contratação, com a tarefa de fiscalizar a exploração colonial e impedir o con - trabando, por meio da contagem e registro das riquezas coloniais. Origi nalmente, as funções reservadas à Casa de Contratação eram comerciais. Durante o reinado de Felipe II, ela passou a ter um papel meramente fisca - lizador das áreas coloniais, ficando subordinada ao Con - selho das Índias, criado em 1524 por Car los V. Esse órgão passou a controlar os assuntos re lativos à Amé - rica, tais como no meação de vice-reis, capi tães-ge rais e Au diências, além de fun cio nar como tri bunais de apela - ção para os colo nos e fazer as leis para a América. Durante o reinado de Felipe II, o Conselho das Índias foi submetido ao próprio rei, esva ziando-se o seu poder. 47 Colonização espanhola Palavras-chave: • Vice-reinos • Casa de contratação • Frotas anuais/porto único C4_1a_HISTORIA_JR_2022.qxp 13/05/2022 14:45 Página 11 12 HISTÓRIA Os responsáveis pela realização de sindicância sobre os funcionários espanhóis na América eram os Juízes de Resi dência, enquanto os Visitadores eram encarre - gados de fa zer inspeções não previstas regularmente e que eram defi ni das em razão das necessidades da Coroa, como ve rificar a ocor rência de abusos ou fazer reformas ad mi nis trativas. A maior autoridade executiva da América, escolhida dentro da nobreza, eram os vice-reis. Eram represen tan - tes diretos da Coroa Espanhola que monopolizavam as funções militares, judiciais (presidente da Audiência da capital do vice-reino), fiscais (membro do Tribunal de Con - tas), administrativas (distribuir reparti mi en tos, doar terras), religiosas (autoridade da Igreja das Índias) e finan - ceiras (presi dente da Junta da Fazenda Colonial). Fun ção semelhante à do vice-rei era exe r ci da pelos capi tães-ge - rais, que governavam as capitanias-gerais e cons ti tuíam a au to ridade executiva máxima nessas áreas. Na América, os principais órgãos administrativos eram representados pelas Audiências e Cabildos. Apartir de 1526, as chamadas Audiên cias, que cor - res pon diam aos tribunais de justiça criados na Espa nha, foram trans plantadas para a Amé rica; ficavam subordi na - das ao Conselho das Índias e repre sentavam a justiça real em todo o território colonial. Os critérios de implan - tação das audiências no continente americano foram ba - seados na concen tra ção demo gráfica e na im portância econômica das regiões. Eram representadas pelos ouvidores (no mea dos pelo rei e com função vita lícia) e, em bora con sistissem em poder local, não se tratava de um poder limitado, na me dida em que aos ouvidores cabia, entre outras ta refas, a de fiscalizar os vice-reis. As Audiên cias mais importantes, na América, foram as do México, Lima, Guatemala, Bogotá, Quito, Santiago do Chile e Bue nos Aires. Os Cabildos ou Ayuntamientos correspondiam às Câmaras Municipais. Cons tituíam o poder político local e gozavam de autonomia em relação à Espanha. Formados pela elite local, eram responsáveis pela política, pela administração e, também, pela eleição de uma autori - dade política e judiciária, conhecida como alcaide. Todo esse aparelho burocrático montado pela Coroa tinha por finalidade im pe dir o contrabando, garantir a manu ten ção do monopólio comercial e da co brança de im postos, o que levaria, consequentemente, ao seu próprio fortale ci mento. Entre os impostos cobrados pela Espanha na América, figuravam: o taxado sobre o comércio externo e interno, por vias marítimas, denominado almoja ri - fazgo; sobre a extração mineral, denominado quinto; sobre a circulação de mercadorias e sobre índios em idade adulta, aptos a trabalhar, chamado al cavala; e o de proteção aos galeões que faziam o comércio entre Espanha e Amé rica, denominado avería. Além dos impostos, a Espanha adotou, como meio de manter um rígido fiscalismo sobre a América, o sistema de portos únicos. Na Espanha, o porto comercial ficava em Sevilha e, posteriormente, foi trans ferido para Cádiz. Na América, os portos autorizados a realizar importações e ex por tações foram fixados no Panamá (Porto Belo), no Mé xi co (Vera Cruz), na Colômbia (Cartágena) e em Cuba (Havana). O poder eclesiástico completava a administração co - lonial. Para que se efetivasse o processo de colonização foram criadas as missões ou reduções, para a evange li - zação dos nativos. A partir de 1571, foram montados os Tribunais do San to Ofício da Inquisição, para perse - guir e punir os hereges. Colombo e os reis católicos. Monopólio: exclusividade. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 12 13HISTÓRIA 3. A estrutura social e a mão de obra Quanto à estrutura social, havia profundas diferen - ças entre as classes sociais, com relação aos nascidos na Espa nha e aos nascidos na América. Pode mos iden - tificar, cla ra mente, quatro grupos: chapetones ou guachupines, bran cos nascidos na Espanha que, na América, ocu pavam os car gos burocráticos da adminis - tração; criollos, brancos nascidos na América que, apesar de constituírem a elite eco nô mica local, estavam impedidos de assumir cargos su periores dentro da admi nistração; mestiços, resultado da mis - cigenação de brancos e indí genas, que de sem penha - vam funções como as de capata zes e artesãos; e escravos ne gros, que, trazidos da África, eram utilizados em várias ati vidades. O grupo indígena era majoritário e constituía a base de sustentação da economia colonial. Eram consi dera dos vassalos do rei e sobre eles recaía a tarefa mais árdua: trabalhar para fortalecer o Império Espanhol. Eram obriga dos a pagar impostos, e o pagamento era feito com tra balho compulsório. Uma das formas de paga mento era a encomienda, segundo a qual era dado ao colonizador o direito de posse sobre um território e os indígenas que nele se encontravam; esses indígenas, para permane cerem no território, pagavam tributos sob a forma de trabalho e, em troca, recebiam a catequese. Outra forma de imposto era o reparti mien to, instituído pela Coroa para a construção de grandes obras públicas ou para a exploração de regiões ricas, como minas e grandes lati fúndios; consistia no recru ta mento de massas indígenas, que era feito, geralmente, por sorteio, e, em troca do trabalho, o indígena recebia um salário. Esse fato, porém, não significa que se tratava de relações capi talistas de trabalho, pois este era compulsório e asseme lhava-se à mita e ao cuate quil, instituições, respec ti vamente, incaica e asteca, que foram formas de exploração de trabalho exercidas pelas elites dessas civilizações. Manuscrito espanhol do século XVI mos - trando a exploração no México. � (MODELO ENEM) – Sobre a implementa - ção do sistema colonial espanhol na América, temos as seguintes asserções: I. A Casa de Contratação era a instituição res - ponsável por todas as questões coloniais, fossem de natureza judicial, legislativa, mili tar ou ecle siástica. II. O Conselho das Índias era uma importante instituição, pois estava incumbida de cen - tralizar a administração das colônias; por - tanto, com petia a essa a suprema autori - dade sobre todas as ques tões coloniais, fos sem de natureza judicial, legislativa, militar ou eclesiástica. III. A Casa de Contratação tinha como função central a organização do comércio, o reco - lhimento de impostos e a fiscalização dessas áreas. Dessas afirmações, está(ão) correta(s) a) apenas I. b) apenas II. c) apenas III. d) I e II somente. e) II e III somente. Resolução A afirmativa I está incorreta, porque a Casa de Contratação era responsável pelo controle do comércio colonial para impedir o contrabando. Resposta: E � (UNESP – MODELO ENEM) – "(...) desde o começo até hoje a hora presente os espa - nhóis nunca tiveram o mínimo cuidado em procurar fazer com que a essas gentes fosse pregada a fé de Jesus Cristo, como se os índios fossem cães ou outros animais: e o que é pior ainda é que o proibiram expres sa mente aos religiosos, causando-lhes inumeráveis aflições e perseguições, a fim de que não pregassem, porque acreditavam que isso os impediria de adquirir o ouro e riquezas que a avareza lhes prometia." (Frei Bartolomeu de Las Casas. Brevíssima relação da des truição das Índias, 1552.) No contexto da colonização espanhola na América, é possível afirmar que a) existia concordância entre colonizadores e missionários sobre a legitimidade de sujeitar os povos indígenas pela força. b) os missionários influenciaram o processo de con quista para salvar os índios da cobiça espa nhola. c) colonizadores, soldados e missionários respeitavam os costumes, o modo de vida e a religião dos povos nativos. d) os padres condenavam as atitudes dos soldados porque pretendiam ficar com as riquezas das terras descobertas. e) os missionários condenavam o uso da força e propunham a conversão religiosa dos povos indí genas. Resolução O texto reflete o choque – frequente na América Es pa nhola e também na América Portuguesa –, entre os mis sionários católicos (notadamente jesuítas) e os con quis tadores espanhóis, acerca da forma de tratar os in dí genas para incorporá-los ao processo colo nizador. Resposta: E Exercícios Resolvidos Latifúndio: grande propriedade rural. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 13 14 HISTÓRIA � “A espada, a cruz e a fome dizimaram a família selvagem”. A propósito dos versos do poeta chileno Pa blo Neruda, comen - te os efeitos da colonização para os indígenas da América. RESOLUÇÃO: Conquista e subordinação dos povos ameríndios; destruição da sua cultura e modo de vida; imposição de valores cultu rais europeus. � (UNESP) – As epidemias provocadas pelos contatos entre europeus e povos autóctones da América a) demonstraram o risco da expansão territorial para áreas distantes e determinaram o imediato desenvolvimento de vacinas. b) representaram uma espécie de guerra biológica que afetou, ainda que de forma desigual, conquistadores e conquistados. c) provocaram a interdição, pelas cortes europeias, da circulação de mulheres grávidas entre osdois continentes. d) foram utilizadas pelos nativos para impedir o avanço dos europeus, que contraíram doenças tropicais, como a febre amarela e a malária. e) levaram à proibição, pelas cortes europeias, do contato sexual entre europeus e nativos, para impedir a propagação da sífilis. RESOLUÇÃO: A baixa imunidade dos nativos às moléstias trazidas pelos europeus provocou inúmeras mortes entre os primeiros. Esse fator biológico veio a ser utilizado por espanhóis e portugueses como um recurso de guerra destinado a quebrantar a resistência inimiga. Resposta: B � (UNESP) – “A instalação de uma Igreja poderosa, dominadora e próxima dos autóctones” contribuiu para a dominação espanhola e portuguesa da América, uma vez que os religiosos a) mediaram os conflitos entre grupos indígenas rivais e asseguraram o estabelecimento de relações amistosas destes com os colonizadores. b) aceitaram a imposição de tributos às comunidades indígenas, mas impediram a utilização de nativos na agricultura e na mineração. c) toleraram as religiosidades dos povos nativos e assim conseguiram convencê-los a colaborar com o avanço da colonização. d) rejeitaram os regimes de trabalho compulsório, mas estimularam o emprego de mão de obra indígena em obras públicas. e) desenvolveram missões de cristianização dos nativos e facilitaram o emprego de mão de obra indígena na empresa colonial. RESOLUÇÃO: A catequese dos indígenas pela Igreja Católica resultou em um processo de aculturação que, além de facilitar a submissão dos nativos aos europeus, contribuiu para inseri-los na empresa colonizadora como mão de obra compulsória e de baixo custo. Resposta: E � ”O encontro entre o Velho e o Novo Mundo, que a descoberta de Colombo tornou pos - sível, é de um tipo muito particular: é uma guerra — ou a Conquista —, como se dizia então. E um mistério continua: o resultado do combate. Por que a vitória fulgurante, se os habitantes da América eram tão superiores em número aos adversários e lutaram no próprio solo? Se nos limitarmos à conquista do México — a mais espetacular, já que a civilização mexicana é a mais brilhante do mundo pré- colombiano — como explicar que Cortez, liderando centenas de homens, tenha conseguido tomar o reino de Montezuma, que dispunha de centenas de milhares de guerreiros?” (TODOROV. T. A conquista da América. São Paulo: Martins Fontes. 1991. Adaptado.) No contexto da conquista, conforme análise apresentada no texto, uma estratégia para superar as disparidades levantadas foi a) implantar as missões cristãs entre as comunidades submetidas. b) utilizar a superioridade física dos mercenários africanos. c) explorar as rivalidades existentes entre os povos nativos. d) introduzir vetores para a disseminação de doenças epidêmicas. e) comprar terras para o enfraquecimento das teocracias autóctones. RESOLUÇÃO: A utilização das rivalidades entre os povos nativos da América para conseguir aliados na luta contra grupos dominantes (astecas, no caso citado), pelos colonizado res europeus, foi um recurso para minimizar a inferio ridade numérica dos atacantes em relação à população nativa. Obs. A referência da alternativa D sobre o emprego de agentes biológicos para provocar doenças e debilitar a resistência dos nativos não pode ser aplicada à conquista do Império Asteca pelos espanhóis, tendo em vista a rapidez com que esse processo se consumou (1519-1521). Resposta: C Exercícios Propostos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 14 15HISTÓRIA 1. Introdução “A História da África é importante para nós, brasilei ros, porque ajuda a explicar-nos. Mas é importan te também por seu valor próprio e porque nos explica o grande continente que fica em nossa fronteira leste e de onde proveio quase metade de nossos antepassados. Não pode continuar o seu estudo afastado de nossos currículos, como se ela fosse matéria exótica. O obá do Benin ou o angola a quiluanje estão mais próximos de nós do que os reis da França.” (Alberto da Costa e Silva. Os estudos de história da África e sua importância para o Brasil. Palavras na abertura da II Reunião Internacional de História de África.) 2. Política e sociedade No continente africano surgiram diferentes formas de organização sociopolítica, que variavam de grandes impérios a pequenos vilarejos. Mas, mesmo com essa diversidade de estruturas políticas, todas possuíam a mesma unidade básica: a família. Reunindo parentes e agregados, a família era subordinada ao chefe, geralmen te o homem mais velho e sábio. Várias famílias agrupadas formavam uma aldeia, que se dispunha à autoridade de um chefe. Esse chefe era responsável pela justiça e pela distribuição de terras, e também liderava os guerreiros em combate. Para tomar suas decisões, o chefe de aldeia contava com um conselho formado pelos líderes das famílias que faziam parte da aldeia. Diferentes aldeias podiam se reunir, formando uma confederação liderada por um conselho de chefes, que tomavam decisões em conjunto. Entretanto, caso da reunião de aldeias surgisse um único líder, com autoridade sobre todos os demais chefes, ocorreria a formação de um reino (ou império). Por fim, cabe destacar a existência de grupos nôma - des nos desertos e áreas florestais, além das diversas cidades independentes e fortificadas, cercadas por paliçadas ou muralhas, espalhadas pelo continente. 3. Reinos Nilo Egito Antigo (séc. XXX – I a.C.) • Política: império teocrático. • Economia: agricultura (rio Nilo); comércio; artesa nato. • Religião: politeísta; antropozoomórfica; mumifi - cação. • Destaque: arquitetura (pirâmides e templos); escrita (hieróglifos). • Decadência: invasões (romanos). Kush (séc. XVIII a.C. – IV) • Política: monarquia eletiva. • Economia: agricultura; comércio; artesanato; pecuária; mineração (ouro). • Religião: politeísta. • Povo: kushita. • Destaque: no séc. VIII a.C., os kushitas conquis ta - ram o Egito e reinaram por cem anos; arquitetura (pirâmides). • Decadência: invasão e conquista pelo Reino de Axum. 48 África I – Origens e características gerais Palavras-chave: • Tribos • Agricultura • Comércio • Diversidade C4_1a_HISTORIA_JR_2022.qxp 13/05/2022 14:45 Página 15 16 HISTÓRIA Sudaneses Gana (séc. IV – XIII) • Política: monarquia centralizada. • Economia: comércio (tecidos e noz-de-cola), mineração (ouro) e agricultura. • Religião: religião tradicional africana; islamismo. • Povos: soninquês; mandingas ou diulas. • Destaque: era conhecida, desde o século VIII, como “a terra do ouro”. • Decadência: ascensão do Reino do Mali. Mali (séc. XI – XVI) • Política: monarquia descentralizada, abarcando diferentes reinos e aldeias. • Economia: mineração (ouro), comércio, agricult - ura, pecuária e artesanato. • Religião: religião tradicional africana; islamismo. • Povos: mandingas; jalofos, sereres, tucolores e fulas (Senegal); bambaras e soninquês (Níger); malinquês; queitas. • Destaque: Mansa Musa, entre 1324 e 1326, fez uma peregrinação a Meca, levando 60 mil servos, 100 camelos e gigantescas quantidades de ouro; em 1337, a cidade de Timbuktu (ou Tombuctu), capital de seu império, se transformou num centro islâmico de estudos. • Decadência: disputas internas. Songai (séc. XV – XVI) • Política: monarquia centralizada. • Economia: mineração (ouro), comércio (produtos agrícolas e escravos) e agricultura (arroz, sorgo e milhete). • Religião: religião tradicional africana; islamismo. • Povo: songai. • Destaque: Soni Ali, em meados do século XV, fez o Império Songai atingir seu auge territorial e eco - nômico (agricultura e comércio). • Decadência: invasão marroquina Mansa Musa – Atlas Catalão, 1375. Savanas e florestas Ifé (séc. VI – XVI) • Política: monarquia divina. • Economia: mineração (ouro), comércio (marfim, noz-de-cola, sal, pimenta, inhame, vidro, peixe seco, dendê, goma e escravos), agricultura e metalurgia (ferro e bronze). • Religião: religião tradicional africana. • Povo: edo, ibo, nupe, ijó, igala e iorubá. • Destaque:centro religioso da região; imagens em bronze e ferro, hoje consideradas obras de arte, narram a história desse reino. • Decadência: concorrência comercial da costa atlântica. Benin (séc. XII – XIX) • Política: monarquia. • Economia: comércio (dendê, pimenta, marfim e escravos; usavam como moeda pedaços de cobre e ferro, além de búzios), agricultura (inhame, melão, feijão, pimenta e algodão), metalurgia (ferro e bronze) e artesanato (marfim). • Religião: religião tradicional africana. • Povo: edos. • Destaque: exército profissional e uso de fortificações para defesa. • Decadência: invasão britânica em 1896-1897. Oyo (séc. XIV – XIX) • Política: monarquia. • Economia: comércio (sal, couro, cavalos, noz-de- cola, marfim, tecidos e escravos), metalur gia (ferro) e artesanato (couro). • Religião: religião tradicional africana. • Povo: iorubá. • Destaque: exército profissional. • Decadência: invasão britânica em 1896. África Oriental Axum (séc. I – X) • Política: monarquia. • Economia: mineração (ouro, esmeraldas e ferro); comércio (marfim, cascos de tartaruga, produtos agrícolas, sal, seda e especiarias), com rotas marítimas e terrestres, interligando Axum com a Índia, China, Egito, Mesopotâmia, Síria e Bizâncio; agricultura (trigo e cevada); pecuária (gado bovino, ovelhas e camelos). • Religião: politeísmo árabe e judaísmo (até o séc. IV); cristianismo (após o séc. IV). • Povo: abissínios, kushitas, kunamas e naras. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 16 17HISTÓRIA • Destaque: primeiro reino africano a cunhar moe - das; acreditavam ser descendentes de Salomão e da rainha de Sabá. • Decadência: expansão islâmica. Grande Zimbábue (séc. XI – XVI) • Política: monarquia. • Economia: comércio (cerâmica, produtos agríco - las, cobre, sal, ouro e marfim, tecidos, porcelana e vidro), com rotas marítimas e terrestres interli - gando o Grande Zimbábue com a Índia, China, Síria e Pérsia; agricultura; pecuária; mineração; artesanato (escultores e tecelões). • Religião: religião tradicional africana. • Povo: xonas. • Destaque: construções de muralhas de blocos de granito, com mais de 10m de altura, que cerca - vam as moradias dos governadores. • Decadência: diminuição das águas do rio Save; infestação da mosca tsé-tsé; crescimento popula - cional; esgotamento do solo e dos animais de caça. África Centro-ocidental Congo (séc. XIV – XIX) • Política: monarquia eletiva; • Economia: comércio (produtos agrícolas, sal, tecidos de algodão e de ráfia e escravos); agricul - tura (coco, banana, dendê, sorgo, milhete, inhame e noz-de-cola); criação de animais (porcos, cabras e galinhas); mineração e artesanato (cestarias, ferreiros e tecelões). • Religião: religião tradicional africana; cristianismo. • Povo: congos. • Destaque: utilizavam búzios como moeda. • Decadência: dominação portuguesa (1857). 4. Economia Desde a Antiguidade, o continente africano possuía uma economia complexa e dinâmica. Com o processo de sedentarização, a agricultura e a criação de animais progrediram extraordinariamente. A necessidade de armazenamento do excedente de produção estimulou a fabricação de objetos de cerâmica, e a metalurgia acom panhou esse desenvolvimento. Um considerável siste ma de trocas comerciais, tanto interno (via Saara, ligando o Sahel e o Magreb) como externo (via Mediter - râneo, Índico e Atlântico), foi estabelecido, tendo como suas bases a mineração, a produção de sal e de víveres (gêneros alimentícios), além da escravidão. Agricultura e pastoreio Produtos agrícolas típicos do continente eram: banana, sorgo, milhete (milho de grãos miúdos), inhame, trigo e cana-de-açúcar. O contato com os europeus (via Atlântico) e com a Ásia (via Índico) resultou na introdução do cultivo de novas espécies, nativas do Oriente e das Américas, como frutas cítricas, tomate, cebola, tabaco, mandioca, amendoim, batata-doce, assim como certas variedades de milho e inhame que acabaram diversifi cando e, em alguns lugares, até revolucionando as práticas agrícolas. A pecuária também fazia parte da economia básica das populações africanas antigas. Os tipos de gado eram o bovi no (das raças zebu e sanga, mais adaptados ao cli - ma seco e quente), o asinino (burros), o equino (cavalos) e os camelos, usados no transporte de cargas pesadas em longas distâncias. Esses animais eram criados em grandes estábulos, no interior das aldeias ou dentro das muralhas das cidades. Cabe ainda destacar que nas áreas litorâneas, assim como naquelas que contam com lagos (como o Chade, o Tanganica e o Vitória) e rios (como o Nilo e o Níger), a pesca foi uma importante atividade econômica. Comércio Interno Rotas de comércio interligavam diferentes regiões: o Saara, a África Ocidental e Oriental, o interior e áreas do Transvaal, formando de uma maneira dinâmica uma intrincada rede mercantil. “Os nômades, senhores do deserto, foram muito beneficiados pelo comércio transaariano, pois as caravanas levavam-lhes cereais e tecidos em troca de carne, sal e água. Assim, os nômades e os povos seden tários complementavam-se. As caravanas necessitavam de guias na imensidão do Saara; estes lhes eram fornecidos pelos nômades, que conheciam as rotas e eram pagos a preço de ouro. (Djibril Tamsir Niane. Relações e intercâmbios entre as várias regiões. In Djibril Tamsir Niane (edit.). História geral da África, vol. IV. Brasília: UNESCO, 2010, p. 699.) Ruínas das muralhas do Grande Zimbábue. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 17 18 HISTÓRIA Externo No mar Mediterrâneo transitavam produtos e mercadorias vindos da Europa para o norte do continente africano e, no sentido oposto, navios carregados partiam dos portos africanos em direção ao Velho Mundo. Esse trânsito de produtos (como grãos), pessoas e conheci - mento ocorria desde a Antiguidade, quando fenícios, gregos, cartaginenses e romanos faziam tal travessia. Já na Idade Média, o norte da África foi palco da expansão islâmica, que interligou tal região à Península Arábica, graças às caravanas de mercadores e aos peregrinos em direção à Meca. A costa oriental da África, desde o Chifre da África até Sofala, se ligaram, via oceano Índico, a redes de comércio que se estendiam até a China e a Indonésia, passando pela Índia e pela Arábia Saudita. Nessa região circulavam produtos caros e luxuosos, como incenso, tecidos finos e pedras preciosas, que eram trocados por marfim, escravos, tecidos, âmbar, pele e penas raras. O tran sporte por essas longas distâncias era compen - satório, já que tais mercadorias alcançavam altos preços nos mercados de Axum (Etiópia), Cairo e, via Mar Vermelho, de Constantinopla e Roma. Já o litoral Atlântico, com a chegada dos portugue - ses durante o processo de Expansão Marítima (e, mais tarde, com franceses, ingleses e holandeses), acabou interligando o continente africano às economias europeia e americana, com o comércio de ouro, marfim, pimenta e escravos. Além disso, os entrepostos portugueses na África serviam como pontos de apoio para as viagens lusas até os portos comerciais orientais. Artesanato e mineração A produção de cerâmica acontecia em diversos pontos do continente, servindo o comércio interno e também as redes comerciais externas. Os povos africanos da Antiguidade desenvolviam, ainda a metalurgia (ferro, ouro e bronze) e a produção de vidro. O sal, produto valorizado no território africano, devido a sua utilizacão para a conservação de alimentos, chegava a valer mais que o ouro. 5. Religião e cultura Religião As populações africanas acreditavam em um Ser Supremo que governava o mundo junto com divinda des; estas agiriam como Seus ministros ou funcionários, que realizavam Seus desejos e funcionavam como in terme - diários entre Ele e os homens. Esse sistema de crenças é chamado por alguns especialistas de politeís mo, en - quanto outros o definem como um monoteísmo difuso. Entre aqueles que definem esse sistema de crenças como politeísta está E. G. Parrinder, em West African Religion. O autor usaessa definição devido à presença de vários seres divinos no panteão africano. Já os que estabelecem a crença dos povos africanos como um monoteísmo difuso, a exemplo de Bolaji Idowu, em Olodumare, entendem que as divindades derivam de uma única e suprema autoridade. Esse Ser Supremo, criador do universo, teria colo - cado um espírito em todas as coisas, vivas ou não. Por essa razão, a religião africana é considerada animista. As sociedades africanas antigas cultuavam seus ancestrais, cujos nomes eram passados de geração em geração pela tradição oral, e também utilizavam objetos mágico-religiosos. Essa religião tradicional africana manteve-se como o principal sistema de crenças do continente, mesmo com a chegada de outras religiões, como o cristianismo (que perdia adeptos conforme diminuía a extensão do Império Bizantino, mas sobreviveria na Etiópia, Núbia e em algu mas partes do Egito, até ser mais tarde reintrodu zido pelas potências ibéricas durante a Expansão Marítima) e o islamismo (em expansão desde o século VII, tendo chegado ao Magreb, Sahel e na costa Oriental da África). A cidade de Timbuktu (ou Tombuctu), um grande centro islâmico de estudos no Mali. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:06 Página 18 19HISTÓRIA Línguas As diversas línguas faladas no continente podem ser agrupadas em quatro grandes troncos: afro-asiático; nilo- saariano; niger-kordofarian (que deu origem ao impor tan - te conjunto bantu); e o khoisan. Arte “Para os africanos que os produzem e utilizam, tais objetos são insígnias de poder, status e prestígio, são objetos que tornam os ancestrais presentes, que auxiliam a manutenção do equilíbrio do mundo, que propiciam a fertilidade, que apoiam a transmissão da tradição oral. São, portanto, fundamentais para sua existência. Eles nunca ou raramente são apenas decorativos ou estéticos, como grande parte da arte ocidental. Muitas vezes eles não eram feitos para serem admirados; alguns nem sequer podiam ser vistos por todos. (...) Tais objetos têm uma evidente qualidade estética, que inclui noções de equilíbrio, proporção, simetria – como expresso no conceito yoruba ojú-onà, que pode ser traduzido como ‘consciência do design’. Os artistas utilizam códigos reconhecidos por todo o grupo social, que resultam em características formais e iconografia específicas. As Máscaras, esculturas e emblemas são objetos que trazem os ancestrais à presença dos vivos, auxiliando a manutenção do equilíbrio, garantindo a prosperidade e fertilidade, orientando as ações dos indivíduos e da comunidade, explicando e dando sentido ao mundo. Jogos divinatórios e instrumentos musicais são outras formas de estabelecer a comunicação entre vivos e ancestrais ou com as divindades.” (MAFRO – Museu Afro-Brasileiro. Projeto de Atuação Pedagógica e Capacitação de Jovens Monitores – Material do Professor. Universidade Federal da Bahia, 2005.) Placa de latão mostrando o rei do Benin – século XVI, Reino do Benin. Cabeça coroada – cobre, século XIV-XV, Reino de Ifé. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 19 20 HISTÓRIA � (ESTÁCIO – FMJ) – Sobre a cultura africana no século pré-expansão marítima, podemos afirmar: a) era bastante variada, com cânticos, danças, sendo um espelho da cultura primitiva encontrada no Brasil com os indígenas. b) possuíam reinos organizados, com religiões diversas, destacando-se as tradições de origem banta e a presença muçulmana. c) os reinos de Mali e Songai eram de fatos tribos atrasadas espa lhadas pelo deserto do Saara, o que demonstra o atraso tecnológico do grupo. d) os africanos criam cânticos para exaltar os deuses, brancos, que viriam do céu e que os levaria à salvação, por isso a aceitação da dominação dos europeus. e) as disputas entre hutus e haussas que já ocorria histori camente no século XVI é uma demonstração da cultura africana subsaari - ana que, perdida em conflitos, não avançava. Resolução Resposta: B � (UNICAMP) – “A longa presença de povos árabes no norte da África, mesmo antes de Maomé, possibilitou uma interação cultural, um conhecimento das línguas e costumes, o que facilitou posterior mente a expansão do islamismo. Por outro lado, deve-se considerar a superiorida de bélica de alguns povos africanos, como os sudaneses, que efetivaram a conversão e a conquista de vários grupos na região da Núbia, promovendo uma expansão do Islã que não se apoia na presença árabe.” (Adaptado de Luiz Arnaut e Ana Mônica Lopes. História da África: uma introdução. Belo Horizonte: Crisálida, 2005, p. 29-30.) Sobre a presença islâmica na África, é correto afirmar que: a) O princípio religioso do esforço de conver - são, a jihad, foi marcado pela violência no norte da África e pela aceitação do islami - smo em todo o continente africano. b) Os processos de interação cultural entre árabes e africanos, como os propiciados pelas relações comerciais, são ante riores ao surgimento do islamismo. c) A expansão do islamismo na África ocorreu pela ação dos árabes, suprimindo as crenças religiosas tradicionais do continente. d) O islamismo é a principal religião dos povos africanos e sua expansão ocorreu durante a corrida imperialista do século XIX. Resolução Mera interpretação de texto, pois a alternativa B parafraseia as afirmações do enunciado. Todavia, é conveniente lembrar que a arábia Pré-Islâmica mantinha importantes relações comerciais com a costa africana do Mar Vermelho e do Oceano Indico – mas não com a África do Norte, banhada pelo Mediterrâneo e dominada sucessivamente por romanos, vândalos e bizantinos. Resposta: B � Considerando os principais contatos comerciais estabe - lecidos pelos africanos, interna e externamente, indique a) as principais rotas internas. b) os principais contatos externos. c) os principais produtos comercializados. RESOLUÇÃO: a) Transaariana e Transvaal. b) Muçulmanos, indianos e chineses na Costa Oriental; europeus na Costa Ocidental e Mediterrânea. c) Cereais, tecidos, carne, sal, ouro, marfim e escravos. � ”No império africano do Mali, no século XIV, Tombuctu foi centro de um comércio internacional onde tudo era negociado – sal, escravos marfim etc. Havia também um grande comércio de livros de história, medicina, astronomia e matemática, além de grande concentração de estudantes. A importância cultural de Tombuctu pode ser percebida por meio de um velho provérbio: ‘O sal vem do norte, o ouro vem do sul, mas as palavras de Deus e os tesouros da sabedoria vêm de Tombuctu’.” (ASSUMPÇÃO, J. E. “África: uma história a ser reescrita”. In: MACEDO, J. R. (Org.). Desvendando a história da África. Porto Alegre: UFRGS. 2008 (adaptado.) Uma explicação para o dinamismo dessa cidade e sua importância histórica no período mencionado era o(a) a) isolamento geográfico do Saara ocidental b) exploração intensiva de recursos naturais. c) posição relativa nas redes de circulação. d) tráfico transatlântico de mão de obra servil. e) competição econômica dos reinos da região. RESOLUÇÃO: A cidade de Tombuctu, capital do império do Mali, constituiu no período citado um ponto de importante escala e de convergência das rotas transaarianas, que ligavam comercialmente o Norte da África à região do Sahel e, por extensão, à África Equatorial. Acessoriamente, Tombuctu também realizava a conexão entre a África Ocidental, o Vale do Nilo e, no limite, o Mar Vermelho e o Oriente Médio. Resposta: C Exercícios Resolvidos Exercícios Propostos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 20 21HISTÓRIA � “A África também já serviu como ponto de partida para comédias bem vulgares, mas de muito sucesso, como Um príncipe em Nova York e Ace Ventura: um maluco na África; em ambas, a África parece um lugar cheio de tribos doidas e rituais de desenho animado. A animação O Rei Leão, da Disney, o mais bem-sucedido filme americano ambientado na África, não chegava a contar com elenco de seres humanos.” (E. Leibowitz. Filmes de Hollywood sobre África ficam no clichê. Disponível em: http://noticias.uol.com.br.Acesso em: 17 abr. 2010.) A produção cinematográfica referida no texto contribui para a constituição de uma memória sobre a África e seus habitantes. Essa memória enfatiza e negligencia, respectivamente, os seguintes aspectos do continente africano: a) A história e a natureza. b) O exotismo e as culturas. c) A sociedade e a economia. d) O comércio e o ambiente. e) A diversidade e a política. RESOLUÇÃO: Os filmes citados enfatizam o exotismo da África, mantendo a visão etnocentrista ocidental que, desde os primeiros contatos dos europeus com o Continente Negro, procurou contrastar os povos locais com os brancos “civilizados”, dentro de uma perspectiva depreciativa. Ao mesmo tempo, negligenciam a evidência de que as populações africanas apresentam uma rica variedade de culturas que não podem ser avaliadas por juízos de valor, já que refletem um longo processo de construção da própria identidade, tão digna de consideração quanto a de outros continentes. Resposta: B � (IFRN – Adaptado) – Na África Tradicional – nome que se dá ao período da história africana que antecede a Revolução Industrial – a solução dos conflitos de terra apresentava particularidades. Segundo um escritor que nasceu e viveu no Mali, “[...] todo africano tem um pouco de genealogista e é capaz de remontar a um passado distante em sua própria linhagem. Do contrário, estaria como que privado de sua “carteira de identidade”. No antigo Mali, não havia quem não conhecesse pelo menos 10 ou 12 gerações de antepassados. [...] A genealogia é, desse modo, ao mesmo tempo sentimento de identidade, meio de exaltar a glória da família e recurso em caso de litígio. Um conflito por um pedaço de terra, por exemplo, poderia ser resolvido por um genealogista, que indicaria qual ancestral havia limpado e cultivado a terra, para quem a havia dado, sob que condições etc.” (A. Hampaté Bâ. A tradição viva. In J. Ki-Zerbo. (ed.). História Geral da África, I: Metodologia e Pré-História da África. Brasília: UNESCO, 2010, p. 203-204.) A partir da leitura do texto, é possível concluir que, nessa sociedade, a posse da terra era legitimada a) pelos laços familiares mantidos com as antigas dinastias. b) pela tradição hereditária familiar, que ignorava os docu - mentos escritos. c) pela identificação étnica reivindicada com os ancestrais. d) pelo modelo familiar patrilinear, que regularizava as sucessões. RESOLUÇÃO: O texto exemplifica como o regime de posse de terra na “África Tradicional” estava muito mais ligado à questões de genealogia e legado cultural, do que, como no Ocidente, por questões de direito instituído ou documentos escritos. Resposta: B � (FGV) – “Durante a Antigüidade e a Idade Média, a África per maneceu relativamente isolada do resto do mundo. Em 1415, os portugueses conquistaram Ceuta, no norte do continente, dando início à exploração de sua costa ocidental.” (José Jobson de A. Arruda e Nelson Piletti, Toda a História.) Acerca da África, na época da chegada dos portugueses em Ceuta, é correto afirmar que a) nesse continente havia a presença de alguns Estados or - ganizados, como o reino do Congo, e a exploração de escravos, mas não existia uma sociedade escra vista. b) assim como em parte da Europa, praticava-se a ex ploração do trabalho servil que, com a presença euro peia, transformou-se em trabalho escravo. c) a população se concentrava no litoral e o continente não conhecia formas mais elaboradas de organização política, daí a denominação de povos primitivos. d) os poucos Estados, organizados pelos bantos, encon travam- se no Norte e economicamente viviam da exploração dos escravos muçulmanos. e) a escravidão e outras modalidades de trabalho com pulsório eram desconhecidas na África e foram introduzidas apenas no século XVI, pelos portugueses e espanhóis. RESOLUÇÃO: Embora a África todo compreenda duas partes bastante distintas (África do Norte e África Ne gra), em ambas, na época mencionada, existiam Estados orga nizados e havia escravos; mas estes não cons tituíam a base da força de trabalho e, conseqüen temen te, não caracterizavam as sociedades africanas como escravistas. Resposta: A C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 21 22 HISTÓRIA 1. Introdução Embora existam populações negroides nativas no Sudeste Asiático, na Nova Guiné e na Austrália, con si - dera-se a África ao sul do Saara (especialmente a África Oriental) como o berço desse tronco étnico; por isso, o con ti nente africano é também conhecido como Con ti - nen te Negro*. No transcorrer da Idade Moderna, um grande contingente de negros afri ca nos foi des lo cado à força para as Américas e obri ga do a tra ba lhar, na condição de es cra vos, em co lônias de ex ploração implantadas pelas po tên cias ma rí ti mas europeias. Calcula-se que, entre o século XVI e a primeira metade do XIX, cerca de 10 mi lhões de africanos foram transportados através do Atlântico, vindo a constituir uma parcela ponderável da po pu lação das Américas (na maioria das Antilhas, a proporção de negros chega a quase 100%). Note-se que sua presença foi menos marcante nas maioria das possessões hispano- americanas, onde pre valeceu a mão de obra indígena. * Os povos da África do Norte não fazem parte da África Negra, pois estão relacionados, étnica e culturalmente, com os árabes e com os berberes (principal etnia saariana). Durante a Idade Média, a escravidão, tão relevante na Antiguidade, praticamente deixou de existir na Europa, embora os Estados cristãos do Mediterrâneo mantivessem a prática de usar cativos muçulmanos como remadores em suas galeras (barcos de guerra que, apesar de disporem de velas, tinham nos remos seu principal meio de pro pul são). Já no mundo islâmico, que incluía a África do Norte, a es cra vi dão era institucio - nalizada, abrangendo indis tin tamente bran cos e negros. Estes últimos eram levados para a África Se tentrional em caravanas que atravessavam o Saara, trans por tando também ouro, marfim e pimenta-ver melha. Pouco depois de iniciarem a Expansão Marítimo-Co - mercial, os lusitanos descobriram e ocuparam os arqui - pé la gos atlânticos dos Açores, Madeira e Cabo Verde; ali desenvolveram a produção açucareira, que já praticavam no sul de Portugal. Para cultivar a cana e produzir o açúcar, recorreram a escravos trazidos da África Con ti - nental*. Esse foi o início do escravismo mo der no, que se tornaria a mola propulsora da economia de muitas colônias, entre elas o Brasil**. * Escravos africanos foram também introduzidos no Algarve (sul de Portugal), a fim de trabalhar nas lavouras de cana e engenhos de açúcar. ** A escravidão negra foi justificada durante muito tempo pela interpretação tendenciosa, não endossada pela Igreja, de um episódio bíblico: os negros estavam des ti nados a ser escravos porque esta foi a maldição lançada por Noé sobre a descendência de seu filho Cam, da qual eles faziam parte. 2. O tráfico negreiro A colonização da América impulsionou extraordi - nariamente o comércio transatlântico de seres humanos. Praticada a princípio apenas pelos portugue ses, essa atividade passou depois a contar com intensa participação de franceses, holandeses e so bretudo ingle - ses, os quais chegaram a ser hegemônicos nesse setor da economia. Os negros trazidos para as Américas eram quase sempre capturados por outras comunidades em guerras tribais, sendo depois vendidos aos comerciantes brancos. As negociações eram realizadas em feitorias estabelecidas pelos europeus no litoral atlântico da África e em Moçambique. As transações eram feitas por meio do escambo, isto é, da troca de mercadorias com valores desiguais. Os escravos eram cambiados por produtos de custo baixo (aguardente, tabaco, te ci dos de má qualidade e objetos de metal*), mas seriam vendidos nas colônias americanas por preços altamente com pen sa dores – mesmo perdendo-se na travessia, em média, 40% dos cativos transportados. Na verdade, o comércio de escravos afri ca nos tor nou-se um dos negócios mais rentáveis do 49África II – Tráfico negreiro Palavras-chave: • Escambo • Lucro • Afrodescendência C4_1a_HISTORIA_JR_2022.qxp 13/05/2022 14:45 Página 22 23HISTÓRIA Sistema Co lo nial, em muito contribuindo para a acu mu la - ção pri mi tiva de capitais que então se processava na Europa. Observe-se, a propósito, que numerosos co mer - cian tes de escravos residiam nas próprias colônias. * Eventualmente, os escravos podiam ser trocados por armas de fogo e mu ni ções, pois convinha aos traficantes fortalecer os chefes africanos com quem comerciavam. O tráfico negreiro provocou algumas mudanças nas populações africanas que o praticaram: além de criar novas necessidades, relacionadas com os produtos uti li - za dos no escambo, tornaram as guerras intertribais mais in tensas e frequentes, com o objetivo precípuo de fazer pri sioneiros para serem negociados. Houve comuni - dades afri canas que se organizaram como Estados semibárbaros cristianizados superficialmente, que mantinham relações quase oficiais com os governos euro peus ligados à ati vidade escravista. Um exemplo foi o Reino do Congo, que com preen dia territórios atual - men te pertencentes a Angola e às duas Repúblicas do Con go. Desde 1509, os soberanos con go le ses con ver te - ram-se formalmente ao catolicismo e ado ta ram nomes portugueses, fazendo do comércio de escravos sua principal fonte de renda. Em 1857, com a economia arra - sada devido ao fim do tráfico e com seu território bas tan - te diminuído, o Reino do Congo tornou-se um pro te to ra - do português, subsis tin do oficialmente até 1914. O tráfico transatlântico de escravos inseriu a África no circuito do comércio europeu como área pe ri férica, atuando em dois campos: fornecimento de mão de obra para as colônias americanas e geração de lucros que contribuiriam dire ta men te para o enriquecimento dos Estados que o pra ti ca vam. No Atlântico Sul, as relações entre a África e o Brasil se processaram de forma direta, na maioria das vezes sem necessidade de se recorrer ao comércio triangular. Esse relacionamento produziu um notável intercâmbio nos costumes, na linguagem e até na alimentação das duas regiões. 3. Os negros no Brasil Quando os portugueses começaram a colonização do Brasil, lançaram mão da escravização dos índios para suprir suas necessidades de mão de obra. Os primeiros escravos africanos foram introduzidos na capitania de Pernambuco já em 1534, mas o trabalho indígena con ti - nuou a ter destaque na eco no mia colonial até o começo do século XVII. Na época, alegava-se que o trabalhador africano era mui to mais produtivo que o silvícola brasileiro. De acordo com esse ponto de vista, o ameríndio não se adequava ao trabalho agrícola, fosse por rebeldia, fosse por preguiça, debilidade física ou inap ti dão natural; por oposição, os africanos seriam mais submissos, mais diligentes, mais robustos e mais adaptados à escravidão. Esse ra cio cínio foi des men ti do pelas cons tantes demonstrações de re sis tên cia contra a condição de escravos: suicídios, abortos, prática da capoeira como forma de luta, assas sinatos de senhores e de feitores*, revoltas, fugas e formação de quilombos (refúgios de escravos em locais de difícil acesso, nos quais os fugitivos muitas vezes recriavam formas de organização existentes na África). Há ainda que lembrar o banzo, doença psicossomática causada pela saudade da terra natal e que fazia numerosas vítimas entre os escravos deslocados de sua região de origem. * Feitores: empregados do fazendeiro – muitos deles mestiços livres ou escravos alforriados (libertos) – incumbidos de controlar o trabalho dos cativos, a quem geral men te tratavam com extrema brutalidade. Legalmente, os escravos da Época Colonial não possuíam quaisquer di rei tos. Portanto, além do trabalho extenuante nas plan ta ções e nos engenhos, estavam sujeitos a sofrer punições físicas e tor turas que, em casos extremos, podiam levá-los à morte, sem que o senhor fosse responsabilizado. Dada a importância da escravidão no período, a Igreja nunca se opôs a ela, em - bora houvesse membros do clero que criticassem o tra - ta mento cruel dispensado aos cativos. O exemplo mais eloquente dessa compaixão foi dado pelo padre jesuíta Antônio Vieira (1608-97), jus ta men te admirado pela genialidade de suas cartas e sermões. Mesmo assim, existiam diferenças no tratamento dado aos escravos por seus senhores. Os trabalhadores bra çais destinados à lavoura eram os mais sujeitos à cruel - dade dos feitores e dos proprietários. Outros, utili za dos em trabalhos mais especializados, como serviços arte sa nais ou as atividades no engenho, tinham situação um pouco melhor. Todos, porém, eram alojados nas senzalas, em con dições insalubres e de grande promiscuidade. Padre Antônio Vieira (1608-97), um dos mais ilustres representantes da Companhia de Jesus no Brasil. Orador e escritor de raro talento, seus sermões e suas cartas figuram com destaque na literatura barroca portuguesa. Foi ardoroso defensor dos índios e grande crítico da crueldade com que eram tratados os escravos negros. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 23 24 HISTÓRIA O trabalho Conforme escreveu em 1711 o jesuíta Antonil, “os es cra vos são os pés e as mãos do senhor de engenho”. Real men te, além dos cativos destinados às tarefas mais pe sadas, ha via outros que conviviam com seus senhores, a quem serviam como criados domésticos. Nessa ca te - goria estavam incluídas as mucamas (servidoras da mu - lher do fa zen dei ro) e as mães pretas (amas de leite dos filhos do proprietário). Contudo, a intimi dade com a fa mí - lia do senhor não era garantia contra maus-tratos. O crescimento de cidades como Recife, Salvador e Rio de Janeiro, sobretudo no século XVIII, deu origem a uma nova categoria de tra ba lha dores escravos: os negros de ganho ou escravos de ga nho. Tratava-se de prestadores de serviços urbanos (bar beiros, carregadores, vendedoras de quitutes), cuja re muneração pertencia ao senhor. Era comum esses trabalhadores serem autorizados a guardar parte do que ga nhavam, para ser usada em sua alforria. Deve-se ainda mencionar a diferenciação entre os escravos crioulos (criados no Brasil) ou ladinos (espertos, vivos, sagazes) dos africanos adultos, que mostravam dificuldade para entender e cumprir ordens, sendo por isso chamados de boçais (broncos, estúpidos). Essa distinção tornava os primeiros mais valiosos, pois os segundos somente se prestavam ao trabalho braçal. Etnias Apesar de pertencerem a muitas nações (etnias) com características culturais próprias, os escravos trazidos para o Brasil poderiam ser classificados em dois grandes grupos: os sudaneses*, originários do Golfo da Guiné; e os bantos, naturais do Congo, de Angola e de Mo çam - bique. Os primeiros distinguiam-se dos segundos pela estatura elevada, pela cor mais escura e pela maior evo - lu ção técnica. No Brasil, os sudaneses concentraram-se na Bahia, enquanto os bantos foram distribuídos pelo restante do território. Os colonizadores aproveitaram-se da variedade entre as etnias para realizar uma Diáspora Negra, dispersando e misturando os indivíduos das diversas nações, para dificultar rebeliões. Até certo ponto, essa estratégia foi mal sucedida, pois a condição de escravo, comum a todos eles, serviu-lhes como fator de coesão para superar suas diferenças. * O termo sudaneses, neste caso, não significa naturais do Sudão (país africano ao sul do Egito), mas os habitantes da região ao sul do Saara, na África Ocidental. A porção litorânea desses territórios, abrangendo os atuais Gana, Togo, Benin e Nigéria, era conhecida dos portugueses pelo nome de Costa da Mina. 4. Afrodescendência A longa duração da escravidão no Brasil fez com que a influência negra em nossa formação social fosse bem maior que a do elemento indígena. É o que se depreende do grande número de festividades populares de origem africana, com especial destaque para as ma ni fes tações musicais. Assim também ocorreu com a culinária e a linguagem. Um aspecto relevanteda presença africana no Brasil diz respeito à religião. Tão logo chegavam, os escravos recebiam o batismo, não só para merecerem a salvação de suas almas, mas também como instrumento de acul tu ra ção – a exemplo do que se fez com os índios –, para me lhor sujeitá-los à dominação dos colonizadores. Uma vez batizados, os negros passavam a fazer parte da comunidade católica, participando das cerimônias e cele bra ções religiosas; mas permaneciam apartados dos de mais fiéis. Para preservar as diferenciações sociais, a hierarquia católica estimulou a construção de igrejas “para os homens pretos”, incentivou a devoção a santos de raça negra e criou irmandades (associações religiosas for madas por leigos) exclusivas para africanos ou afrodes cendentes, fossem eles livres ou escravos. Todavia, nem todos os negros brasileiros aderiram integral men te ao catolicismo. Muitos deles, em uma manifestação de resistência cultural, conservaram parte de seus cultos ancestrais, associando entidades afri - canas a figuras da religião católica. Esse sincretismo recebeu, já no século XX, o influxo do espiritismo kardecista, dando origem à umbanda. Esta, a princípio marginalizada e até perseguida sob a acusação de curan deirismo, ocupa hoje posição de destaque no panorama religioso do País. Ainda no século XX, brasi - leiros afrodescendentes resgataram cultos prati cados no Golfo da Guiné (sobretudo na Nigéria) e os introdu - ziram no Brasil, sob o nome genérico de candomblé. Ainda que representem uma grande parcela da população brasileira, os negros têm sido alvo de preconceito e discriminação; mesmo após a abolição da C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 24 25HISTÓRIA Exportações de escravos da África na rota Trans-Atlantico Período Números total de escravos % 1450-1500 [81.000] 1 – 1500-1600 328.000 2 2.9 1601-1700 1.348.000 12.0 1701-1800 6.090.000 54.2 1801-1900 3.466.000 3 30.9 Total 11.232.000 100.0 1. Principalmente comercializados como um produto ao longo da costa do Atlântico para a mineração de ouro, sendo um pequeno número de escravos exportados para a Europa e Ilhas do Oceano Atlântico. 2. Não inclui até 50.000 escravos exportados para a Europa e Ilhas do Oceâno Atlântico. 3. Inclui os escravos exportados como trabalhadores contratados ou libertados pelo franceses e portugueses. Fonte: Paul E. Lovejoy. Transformations in Slavery. Cambridge University Press, 2000. escravatura, sancionada em 1888, a maioria deles permaneceu marginalizada, muito embora as diversas Cons ti tui ções sempre tenham afirmado a igualdade entre os cidadãos brasileiros. Em tempos recentes, movimentos da comunidade negra, demonstrando crescente cons cien - ti zação acerca da questão racial no Brasil, vêm registrando avanços e conseguindo a implementação de políticas voltadas para a proteção de afrodescendentes e de indí - genas. Como exemplos, podemos citar, res pec ti va men te, o reconhecimento das co mu ni da des quilombolas e a demarcação das terras dos chamados “povos da floresta”, além da adoção do sistema de quotas em algumas situações. A propósito, cumpre observar que a “Cons ti tui - ção Cidadã” de 1988, em seu artigo 5.º, considera a prática do racismo um crime inafiançável e imprescritível*. * Inafiançável: que não permite a soltura do preso mediante pagamento de fiança. Imprescritível: que não tem prazo para deixar de ser julgado. Atualmente, os descendentes de africanos compreen dem, além dos negros puros, uma grande proporção de mulatos (mestiços de branco e negro). Em alguns estados da Federação, notadamente na Bahia, eles chegam a constituir a maioria da população. Os cafuzos (mestiços de negro e índio) são relativamente raros, pois a convivência de indígenas e negros foi pouco frequente em nossa História. O TRÁFICO DE ESCRAVOS “Fosse qual fosse o caminho percorrido, as condi ções a bordo refletiam o status de excluídas que marcava as pessoas aprisionadas no porão. Nenhum europeu — fosse condenado, servo temporário ou imigrante livre miserável — jamais foi submetido ao ambiente que recebia o escravo africano típico no momento de embar que. Eram separados por sexo, mantidos nus, amontoa dos, sendo os homens acorrentados por longos períodos. Nada menos do que 26 por cento das pessoas a bordo eram classificadas como crianças, um índice do qual nenhuma outra migração anterior ao século XX sequer se aproximou. Fora o período de ilegalidade do tráfico, quando as condições por vezes tornavam-se ainda piores, os traficantes de escravos normalmente transportavam dois escravos por tonelada. Embora algumas naus que partiam da Alta Guiné chegassem às Américas em três semanas, a duração média das viagens iniciadas em todas as regiões da África era de pouco mais de dois meses. A maior parte do espaço em um navio negreiro era ocupada por barris de água. As embarcações lotadas que navegavam para o Caribe a partir da África Ocidental tinham primeiro que seguir para o sul antes de virar para noroeste e passar pela zona das calmarias. No século XIX, as melhorias na tecnologia de navegação reduziram a duração da viagem à metade, mas a taxa de mortali dade manteve-se elevada nesse período devido à natureza ilegal do tráfico. Durante toda a era do tráfico negreiro, a imundície gerava doenças gastrointestinais endêmicas e a proliferação de agentes patogênicos epidêmicos que, juntamente com as erupções periódicas de resistência violenta, faziam com que entre 12 e 13 por cento das pessoas embarcadas não sobrevivessem à viagem. A taxa modal de mortalidade era bem menor que a taxa média, porque algumas catástrofes ocorridas num número relativamente pequeno de viagens elevavam a média de mortes a bordo. A mortalidade da tripulação, em termos de porcentagem dos tripulantes que embarcavam, acompanhava a mortalidade de escravos ao longo da viagem, mas como os cativos passavam menos tempo no navio do que a tripulação, as taxas de mortalidade dos escravos eram mais elevadas. O mundo do século XVIII era violento, e a expecta tiva de vida era curta em todos os lugares, uma vez que a revolução da taxa de mortalidade global ainda não havia ocorrido, mas o quociente de sofrimento humano gerado pelo deslocamento forçado de milhões de pessoas em navios negreiros não pode ser comparado ao de nenhuma outra atividade humana.” (David Eltis. A travessia do Atlântico. Disponível em: http://www.slavevoyages.org/.) C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 25 26 HISTÓRIA � (FCC) – Observe o mapa com atenção. (Manoel Maurício de Albuquerque et alii. Atlas histórico escolar. 8.a ed. Rio de Janeiro: MEC, 1991.) Considerando o contexto histórico em que se insere, o mapa permite identificar a) uma das grandes imigrações voluntárias dos povos africanos na época moderna. b) um dos maiores movimentos populacionais forçados da história da humanidade. c) o grau de conhecimento tecnológico da indústria naval europeia no século XV. d) um dos mais intensos intercâmbios comerciais entre os americanos e os africanos. e) o sistema triangular de comércio adotado pelos portugueses no século XVII. Resolução O mapa demonstra o fluxo de escravizados da África para as Américas, com destaque para as principais etnias que foram trazidas: bantos e sudaneses. Tal processo teve início ainda no século XVI e perdurou até o século XIX, tornando-se o “maior movimento populacional forçado da história”. Resposta: B � (UFSC) – “A África é tão pouco uniforme cultural quanto geograficamente. Os africanos não são uma raça de pretos primitivos, nem é a África um continentes sem uma velha história, como ainda se pensa geralmente. [...] São marcantes suas diferenças culturais, étnicas e linguísticas. Seu passado, embora não raro obscuro, não é a crônica de um isolamento. Desde o tempo dos primeiros hominídeos que viveram há um milhão de anos no desfiladeiro de Olduvai, a África desempenhou importante papel na história da humanidade [...].” (Andreas Lommel. A arte pré-histórica e primitiva. Encyclopedia Britannica do Brasil Publicações.7.a ed. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1979, p. 140- 141, 143, 162. In Ricardo de Moura, Estudos de História, v. 1. São Paulo: FTD. 2010, p. 37.) Em relação à história da África e de seu povo, assinale a(s) proposição(ões) correta(s). 01) Além dos egípcios, vários outros povos habitavam o continente africano no período correspondente à chamada Idade Antiga. 02) A expansão marítima europeia dos séculos XV e XVI transformou a costa africana em espaço privilegiado para a formação de feitorias e, consequentemente, em fonte de mão de obra e matéria-prima. 04)O neocolonialismo europeu sobre o continente africano no século XIX estava relacionado à ideia de “missão civilizadora” e às ideologias de progresso e superioridade racial branca. 08)Com a expansão islâmica, todo o norte africano foi dominado pelos árabes através da fundação de diversos califados; entretanto, durante a Idade Média, o avanço das cruzadas recuperou definiti - vamente a região para o domínio cristão. 16)Mesmo a contragosto das principais potências europeias, as fronteiras entre os países africanos, estabelecidas pela Conferência de Berlim (1884-85), tiveram que respeitar as questões étnicas e culturais por determinação da Organização das Nações Unidas (ONU). 32)Os processos de independência na África, intensificados logo após a década de 1950, ocorreram através de acordos pacíficos que promoveram o endividamento e a dependência dos novos países, mas evitaram a deflagração de conflitos e guerras civis. Resolução 1 + 2 + 4 = 7 � (UFSCAR – MODELO ENEM) – “Nem todos os brancos que chegavam do mar eram portugueses, e os povos que viviam nas cercanias do litoral logo aprenderam a distingui-los. (...) Se os surpreendiam, os portugueses os atacavam, queimavam e punham a pique. Mas às vezes ocorria o oposto. (...) Os portugueses insistiam com os reis e notáveis do litoral para que não transacionassem com os outros europeus, por eles qualificados de piratas. E recomendavam que lhes dessem combate. (...) Por volta de 1560, os portugueses começaram a usar galés para patrulhar as costas próximas ao forte da Mina. (...) Os entrepostos nas mãos de portugueses fiéis à Coroa eram poucos e quase sempre dependentes da boa vontade dos chefes nativos, até para seus alimentos.” (Alberto da Costa e Silva. A manilha e o libambo, 2002.) O texto descreve a conquista portuguesa a) no Brasil. b) nas Guianas. c) nas Índias Orientais. d) no Japão. e) na África. Resolução O texto descreve os esforços dos portugueses para se instalar na costa ocidental da África, onde estabeleceram feitorias para negociar os produtos locais (escravos, principalmente). O autor menciona a necessidade, para os portugueses, de efetivar relações amistosas com os chefes nativos e, paralelamente, lutar contra a concorrência de outros países europeus. Resposta: E Exercícios Resolvidos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 26 27HISTÓRIA � (UERJ) – O tráfico internacional de escravos africanos movi mentou milhares de indivíduos entre os séculos XV e XIX. Indique a principal contribuição do tráfico negreiro para os interesses mercantis europeus na América durante a colonização. RESOLUÇÃO: O uso de escravos africanos na grande lavoura colonial tornou o comércio de cativos uma atividade muito rentável, contribuindo para a acumulação de capitais e a expansão das atividades mercantis europeias. � (ESTÁCIO-FMJ) – A História da África foi recente mente tornada obrigatória no Brasil, e durante muitos anos inteiramente negligenciada, tanto que no imaginário popular a África era composta por tribos perdidas do nada em que os europeus se valiam do seu atraso para comprar e escravizar a população. Sobre a escravidão na África podemos afirmar: a) não existia escravidão no continente africano, foram os portugueses que inventaram esse sistema incentivando as guerras entre os grupos diversos. b) a escravidão foi introduzida pelos muçulmanos, que preferiam escravos negros homens para a lavoura do delta do Nilo, para plantação de arroz no mar Vermelho, mostrando que os africanos não deveriam resistir. c) em diversas partes do que é chamado de África, a escravidão era instituída, mas não mercantilizada – quer dizer, os escravos não eram propriedade que poderiam ser vendidos ou trocados, mas vencidos, e a partir disso deveriam trabalhar compulsoriamente para recuperar sua liberdade. d) os africanos vendiam seus irmãos em troca de pequenos bens não conhecidos, como contas, espelhos, joias baratas, e os europeus se beneficiaram por terem essas prendas em profusão. e) os africanos eram dóceis e identificavam os brancos como seus deuses, cantados em sua lenda, por isso aceitavam a escravidão. RESOLUÇÃO: A escravidão presente na África divergia muito daquela do modelo mercantilista europeu empregado nas Américas, pois não possuía caráter mercantil, sendo fruto de vitórias em guerras intertribais e submissão de populações conquistadas. Resposta: C Leia o texto para responder às questões de números 3 e 4. “Os africanos não escravizavam africanos, nem se reconheciam então como africanos. Eles se viam como membros de uma aldeia, de um conjunto de aldeias, de um reino e de um grupo que falava a mesma língua, tinha os mesmos costumes e adorava os mesmos deuses. (...) Quando um chefe (...) entregava a um navio europeu um grupo de cativos, não estava vendendo africanos nem negros, mas (...) uma gente que, por ser considerada por ele inimiga e bárbara, podia ser escravizada. (...) O comércio transatlântico (...) fazia parte de um processo de integração econômica do Atlântico, que envolvia a produção e a comercialização, em grande escala, de açúcar, algodão, tabaco, café e outros bens tropicais, um processo no qual a Europa entrava com o capital, as Américas com a terra e a África com o trabalho, isto é, com a mão de obra cativa.” (Alberto da Costa e Silva. A África explicada aos meus filhos, 2008. Adaptado.) � (UNESP) – Ao caracterizar a escravidão na África e a venda de escravos por africanos para europeus nos séculos XVI a XIX, o texto a) reconhece que a escravidão era uma instituição presente em todo o planeta e que a diferenciação entre homens livres e homens escravos era definida pelas características raciais dos indivíduos. b) critica a interferência europeia nas disputas internas do continente africano e demonstra a rejeição do comércio escravagista pelos líderes dos reinos e aldeias então existentes na África. c) diferencia a escravidão que havia na África da que existia na Europa ou nas colônias americanas, a partir da constatação da heterogeneidade do continente africano e dos povos que lá viviam. d) afirma que a presença europeia na África e na América provocou profundas mudanças nas relações entre os povos nativos desses conti nentes e permitiu maior integração e colaboração interna. e) considera que os únicos responsáveis pela escravização de africanos foram os próprios africanos, que aproveitaram as disputas tribais para obter ganhos financeiros. RESOLUÇÃO: Embora não o faça de forma explícita, o texto permite depreender que os europeus e colonos americanos viam os negros africanos como um conjunto relativamente homogêneo, destinado a fornecer mão de obra escrava. Já do ponto de vista das sociedades africanas, o autor é bastante enfático ao observar que as populações locais sentiam-se diferenciadas das demais comunidades, sem qualquer percepção de uma possível identidade comum, resultante da “negritude” ou da “africanidade”. Resposta: C Exercícios Propostos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 27 28 HISTÓRIA � (UNESP) – Ao caracterizar a “integração econômica do Atlântico”, o texto a) destaca os diferentes papéis representados por africanos, europeus e americanos na constituição de um novo espaço de produção e circulação de mercadorias. b) reconhece que europeus, africanos e americanos se beneficiaram igualmente das relações comerciais estabe - lecidas através do Oceano Atlântico. c) afirmaque a globalização econômica se iniciou com a colonização da América e não contou, na sua origem, com o predomínio claro de qualquer das partes envolvidas. d) sustenta que a escravidão africana nas colônias europeias da América não exerceu papel fundamental na integração do continente americano com a economia que se desenvolveu no Oceano Atlântico. e) ressalta o fato de a América ter se tornado a principal fornecedora de matérias-primas para a Europa e de que alguns desses produtos eram usados na troca por escravos africanos. RESOLUÇÃO A questão é respondida a partir da mera interpretação do texto, da análise dos desdobramentos da expansão marítima europeia, da colonização da América e da Revolução Comercial dos séculos XVI- XVII. Em outras palavras, trata da integração entre a Europa (investimento de capitais), a América (a terra) e a África (mão de obra escrava), para a produção e comercialização de gêneros tropicais. Resposta: A � “A identidade negra não surge da tomada de consciência de uma diferença de pigmentação ou de uma diferença biológica entre populações negras e brancas e(ou) ne gras e amarelas. Ela resulta de um longo processo histórico que começa com o descobrimento, no século XV, do continente africano e de seus habitantes pelos navegadores portugueses, descobrimento esse que abriu o caminho às relações mercantilistas com a África, ao tráfico negreiro, à escravidão e, enfim, à colonização do continente africano e de seus povos”. (K. Munanga. “Algumas considerações sobre a diversidade e a identidade negra no Brasil”. In Diversidade na educação: reflexões e experiências. Brasília: SEMTEC/MEC, 2003, p. 37.) Com relação ao assunto tratado no fragmento de texto, é correto afirmar que a) a colonização da África pelos europeus foi simultânea ao descobrimento desse continente. b) a existência de lucrativo comércio na África levou os portugueses a desenvolverem esse continente. c) o surgimento do tráfico negreiro foi posterior ao início da escravidão no Brasil. d) a exploração da África decorreu do movimento de expansão europeia do início da Idade Moderna. e) a colonização da África antecedeu as relações comerciais entre esse continente e a Europa. RESOLUÇÃO: O texto transcrito mostra que a África Negra foi “descoberta” pelos portugueses no século XV (ou seja, no início da Idade Moderna). E, na sequência, descreve a exploração daquele continente – primeiro com tráfico negreiro, depois com o neocolonialismo – como uma decorrência do processo de descobrimento. Resposta: D � (VUNESP) – Leia o texto. “Os africanos foram trazidos do chamado “continente negro” para o Brasil em um fluxo de intensidade variável. Os cálculos sobre o número de pessoas transportadas como escravos variam muito. Estima-se que entre 1550 e 1855 entraram pelos portos brasileiros 4 milhões de escravos, na sua grande maioria jovens do sexo masculino. A região de proveniência dependeu da organização do tráfico, das condições locais na África e, em menor grau, das preferências dos senhores brasileiros.” (Boris Fausto, História do Brasil, p. 51.) Acerca do tráfico negreiro, é correto afirmar que a) nos séculos XVI e XVII, a preferência dos senhores de terra do Brasil recaía sobre a exploração da mão de obra compulsória dos índios, mas com a definitiva proibição de escravizar os indígenas, no princípio do século XVIII, com o início do tráfico de escravos, optou-se pela exploração exclusiva do escravo africano. b) desde o século XVI, a preferência dos senhores de engenho recaía sobre os escravos vindos dos portos de Benguela e Cabinda, especialmente os huaças e os jejes, reconhecidos como os homens mais fortes, que conheciam a metalurgia e ofícios mecânicos, além de se apresentarem mais leais aos seus senhores. c) no século XVI, os portos ao longo do litoral de Daomé forneceram o maior número de escravos, e nos séculos XVII e seguintes, as regiões do Congo e de Angola tornaram-se os centros mais importantes de exportação de escravos; além disso, Salvador e Rio de Janeiro foram os grandes centros importadores de escravos. d) a efetiva entrada de escravos africanos no Brasil ocorreu a partir da segunda metade do século XVIII, momento no qual já existiam justificativas religiosas e morais para a escravização do homem africano, e, em toda ordem escravista, Moçambique foi a mais importante região fornecedora de escravos. e) entre os séculos XVI e XVIII, o norte da África foi, quase exclusivamente, a região fornecedora de mão de obra compulsória para o Brasil e o resto da América colonial, mas essa situação foi radicalmente transformada com a ação do governo da França que proibiu, após a Revolução Francesa, a retirada de escravos de qualquer parte da África. RESOLUÇÃO: O texto ressalta a longa duração do tráfico negreiro para o Brasil, demonstrando quais características dos escravizados eram priorizadas, além das principais áreas fornecedoras de cativos. Resposta: C C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 28 29HISTÓRIA 1. Introdução A América é um continente com uma área aproxi - mada de 42 083 606 km2, ou seja, possui 28,2% das terras emersas do globo terrestre. Localiza-se no Hemis - fério Ocidental, dividin do-se, no sentido norte-sul, em Amé rica do Norte e América do Sul, ligadas por um verdadeiro istmo, associado a um conjunto de ilhas, que constituem a América Central. Do lado leste, existe o Ocea no Atlântico e, a oeste, o Oceano Pa cífico. Liga-se ao con ti nente asiático pelo pequeno Es treito de Bering, situado no extremo noroeste do continente. O processo migratório desencadeado pela coloni za ção pro lon ga-se até a atualidade. Esse processo con tri buiu para a for ma ção das sociedades nacionais, distri buindo-se desigual mente pe lo continente, a ponto de se poder falar em uma América bran ca (Anglo-Saxônica e países do Prata), uma Amé rica índia (paí ses andinos), uma América hispano-índia (regiões centro-ameri ca nas e Paraguai) e países de mesti ça gem multirracial, co mo o Brasil. Convém lembrar que esse imenso continente teve um processo heterogêneo de conquista e dominação pelos coloni zadores europeus e, portanto, não é possível tratar a História da América de forma homogênea na atualidade, desconsi derando as especificidades do processo colonizador. Assim, nos dias de hoje, vemos com nitidez que, sob os as pectos econômicos, sociais, políticos e culturais, a América também é dividida de forma desigual. No Norte, temos uma América industrial e imperialista; já no Sul, a chamada América Latina permanece presa a estruturas arcaicas e, com os países da África e da Ásia, compõe o Terceiro Mundo. 2. A origem do homem na América pré-colombiana A primeira coisa que é necessário saber ao se iniciar o estudo da História da América é ter consciência de que esta não é uma tarefa fácil, principalmente no que diz respeito aos chamados povos pré-colombianos. As difi cul da des de vem-se, princi palmente, ao fato de os “con quista do res”, ao chega rem ao conti nen te, terem des truído gran de parte dos monumentos, obras de arte e os chamados “códices” (ma nus critos), os prin - cipais ma teriais de tra ba lho dos historia dores. Além dis - so, mas em me nor proporção, antes da chega da dos es - pa nhóis, alguns povos americanos, como os astecas, por exemplo, também tinham o hábito de destruir os vestí - gios dos povos por eles dominados. Grande parte das informações que possuímos desse período foi dada pela visão dos europeus, a versão dos "vencedores". Mas quem eram os povos americanos? Como che - garam ao continente? Esta é uma questão importante, já que a tese do autoctonismo foi posta por terra. Atualmente, trabalhamos basicamente com duas hi - póteses para explicar o po voamento do continente antes da chegada dos europeus. Uma delas é a hipótese asiá tica, defendida pelo dinamarquês Ales Hrdlicka, que considera os ameríndios descendentes de populações da Ásia Ori en tal que atravessaram o Estreito de Bering na última glacia ção (cercade 40 mil anos), quando uma violenta mudan ça climática no planeta transformou o Estreito nu ma “ponte de gelo”, facilitando a locomoção entre os dois conti nen tes. No entanto, essa explicação Autoctonismo: qualidade de autóctone (do que se formou ou se originou no local em que é encontrado). 50 A origem do ameríndio Palavras-chave: • Estreito de Bering • Heterogeneidade • Hipóteses C4_1a_HISTORIA_JR_2022.qxp 13/05/2022 14:55 Página 29 30 HISTÓRIA não é suficiente para justificar a heterogeneidade dos diversos povos pré-colombianos. A hipótese polinésia, defendida por Paul Rivet, sus - ten ta, com base nas semelhanças etnográficas, linguís - ticas e biológicas, ter existido também um povoamento da América realizado por povos vindos da Polinésia. Segundo essas hipóteses, os primeiros habitantes da América, quando aqui chegaram, ainda não conhe - ciam as técnicas da agricultura, vivendo basicamente da coleta, da caça e da pesca. Como não possuíam a noção de Estado (que só aparece nas sociedades mais com ple - xas), viviam em pequenas comunidades caracteriza das pela proprie dade coletiva dos meios de produção e distri - bui ção das atividades, conforme os critérios de sexo e idade. Os laços de parentesco nessas sociedades eram seu elo, reforçados pela crença em antepas sa dos míticos comuns, nos quais baseavam as suas cren ças. O panorama encontrado pelos primeiros habitantes da América se modificaria devido a uma nova trans for ma ção climática e ecológica ocorrida por volta do ano 7 mil a.C. A temperatura da terra tornou a subir, e desapareceram numerosas espé cies de animais que esses povos caçavam, assim como a “ponte de gelo” do Estreito de Bering. Isolados do outro continente e com uma nova realidade, muitos povos começaram a buscar a sua sobrevivência em outras atividades, destacando-se a agricul tura, que implicaria a sedentarização e, conse quen - temente, o primeiro passo para a urbanização das grandes civilizações, como a dos maias, astecas e incas. Estima-se que, quando da chegada do colonizador europeu, a América possuía entre 25 e 40 milhões de habitantes. Distribuindo-se pelo con ti nen te, es ses povos ti ve ram pro ces sos diferen cia dos de estru tu ração de suas so cie da - des (fato per cep tível em ra zão de, no mo men to da che ga - da dos co lo ni za do res, os gru pos apresen ta rem variados graus de desen vol vi mento cul tural e ma terial). Podemos, entretanto, encaixá-los em três grandes gru pos, que representam três estágios de desen vol vi - men to, segundo a classificação do antropólogo nor te-a - me ricano Morgan: Paleolítico (selvageria): Grupos cuja subsistência dependia da caça, da pesca, da coleta vegetal e da agricultura rudimentar, localizados principalmente no Brasil, no Paraguai, no Uruguai e na Argentina. Neolítico (barbárie): Grupos já sedentarizados, com prática da agricultura e uma relativa organização social, política e econômica, localizados no norte da América do Sul, na América Central e praticamente em toda a América do Norte. Civilização: Sociedades complexas em alguns aspectos, como o seu modo de pro dução, localizadas no México, na Guate ma la, em Nicarágua, no Peru, na Bolívia e no Equador. A Antropologia contemporânea considera o esque - ma evolutivo de Morgan extremamente rígido e, até certo pon to, preconceituoso; e defende que, na rea lida - de, existem di versidades étnicas, e não grupos humanos “superiores” ou “in feriores”, como insinua a teoria de Morgan. Entre tanto, esse esquema evolu tivo será utilizado nas próximas aulas. O estreito de Bering visto da Ilha Pequena Diómedes (EUA). Heterogeneidade: qualidade de hete ro gêneo; de diferente natureza. Antropólogo: especialista em Antropolo gia, ciência que estuda e classifica os ca racteres físico-culturais de grupos huma nos. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 30 31HISTÓRIA O Oriente Médio é considerado o “berço da civilização”, pois foi ali que surgiram os primeiros homens. O índio brasileiro, segundo as mais recentes pesquisas antropológicas, teria vindo da Ásia e da Polinésia. � (MODELO ENEM) – Observe o mapa. Assinale a alternativa que se relaciona com as diversas hipóteses de origem do homem americano. a) O mapa justifica a hipótese de o homem americano apresentar características mongo loides ou pré-mongoloides: povos oriundos da Mongólia e da Sibéria penetraram no con tinente americano pelo Estreito de Bering. b) Segundo o que demonstra o mapa, o homem chegou à América em migrações esporádicas, navegando pelo Pacífico, vindo da Europa e da África. c) Segundo o mapa, o homem americano é autóctone, ou seja, surgiu no próprio conti nente, embora não exista nenhum fóssil anterior ao Homo sapiens sapiens. d) Observando o mapa, fica evidente que o ser humano não chegou no continente americano pelo Oceano Pacífico, apesar de esse ser o caminho mais "curto". e) No continente sul-americano, o fóssil mais antigo é o de uma mulher conhecida por Maria, encontrada em 1975, próximo à Serra da Capivara/PI, datada de 11 500 anos. Resolução A hipótese mais aceita é a da origem asiática do homem americano. Durante uma glaciação, o Estreito de Bering (que separa a Ásia da América) congelou, formando uma ponte de gelo que permitiu, du - rante algum tempo, a passagem de algum contingente populacional. Resposta: A Exercícios Resolvidos 3. Pré-História no Brasil Os estudos arqueológicos em nosso país estão cada vez mais avançados, e os pesquisadores têm-se esforçado para aprimorar as suas investigações e pesquisas. Os sinais do nosso passado pré-histórico podem ser observados nos sítios arqueológicos espalhados por todo o País, tais como: o de Lagoa Santa (MG), o da Gruta dos Brejões (BA) e o mais conhecido de todos, o de São Raimundo Nonato, no Parque Nacional da Serra da Capivara (PI). Ali, a arqueóloga Niéde Guidon comanda uma equipe que encontrou inúmeras pinturas rupestres, vários utensílios e vestígios de fogueira. Ela tem procurado demonstrar que eles datam, aproximadamente, de 50 mil anos atrás, mas a comunidade científica internacional não os reconhece, pois a teoria mais aceita a respeito da origem do homem americano (Estreito de Bering – ponte de gelo) aponta para 18 mil anos. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 31 32 HISTÓRIA � Explique as hipóteses para a origem do homem americano. RESOLUÇÃO: Hipótese asiática: o homem americano tem sua origem, prova vel - men te, na Ásia Oriental; e aqui chegou pelo estreito de Bering. Hipótese polinésia: o povoamento da Amé rica deu-se por povos da Polinésia que, deslocando-se pelas ilhas do Pacífico Sul, chegaram até a costa andina. � Podemos considerar que, quando os conquistadores euro - peus chegaram à América, as sociedades estavam estrutura - das de maneira homogênea? Comente. RESOLUÇÃO: Não, cada sociedade estava estruturada de forma diversa: algumas com Estado organizado e complexo; e outras com uma organi - zação tribal. � Comente, de forma crítica, o esquema de Morgan que classifica os grupos americanos. RESOLUÇÃO: Morgan utiliza um esquema rígido e, em grande parte, preconceituoso, pois avalia os grupos humanos comparando-os com o modo de vida do homem branco ocidental (europeu), a fim de classificá-los como superiores ou inferiores. � (MODELO ENEM) – “Até meados dos anos 1990, predo - minava na literatura a ideia de que a ocupação da América pelo Homo sapiens teria se dado por três levas distintas. Uma pri - meira, conhecida como Ameríndia, teria dado origem à esma - gadora maioria dos índios das três Américas; uma segunda, aos Na-Dene da costa pacífica do Canadá e dos Estados Unidos; e uma terceira, responsável pelos atuais esqui mós e aleútes. Denominado ‘Modelo das Três Migra ções’, foi su gerido no início dos anos 1980 por Cristy Turner II, Stephen Zegura e Joseph Greenberg, baseado em três pilares: a diver sidade dentária, linguística e genética das populações nativas americanas. Quando da publicação original do modelo(Greenberg et al., 1986), os estudos sobre variabilidade gené tica baseavam-se em produtos gênicos, como as proteínas séricas, por exemplo, e não na diversidade do DNA propria mente dito. Exercícios Propostos � (UFPe – MODELO ENEM) – “O longo processo evolutivo, que se realizou na África, culminou com a aparição do homem na Terra (o chamado gênero Homo), a partir de um ancestral comum ao homem e aos macacos antropoides. O Homo erectus e o Homo ergaster migraram da África há pelo menos um milhão de anos e povoaram a Ásia. O Homo antecesor iniciou o povoamento da Europa, há 800 000 anos. Há 100 000 anos, o homem de Neandertal ocupava também a Europa e a Ásia Me nor. Todas essas espécies extinguiram-se, restando apenas o Homo sapiens moderno, única espécie sobre - vivente, à qual todos perten cemos.” Baseado nessas informações, analise as propo sições a seguir: 1) A América estava completamente despo voada quando Colombo ali chegou, pela pri meira vez, descobrindo o chamado Novo Mundo. 2) A América, antes dos descobrimentos dos espanhóis e portu - gueses, já estava povoada por numerosos grupos humanos de dife rentes culturas, embora todos pertencessem à mesma espécie humana, a do Homo sapiens moderno. 3) Depois de povoar a Ásia, o Homo erectus conseguiu chegar também à América, faz meio milhão de anos. 4) Os primeiros homens que povoaram a América chegaram desde a Ásia através do Estreito de Bering. 5) Os primeiros habitantes da América perten ciam a uma espécie humana hoje extinta. Estão corretas apenas a) 1 e 2. b) 2 e 3. c) 3 e 5. d) 2 e 4. e) 1 e 5. Resolução A afirmativa 1 está incorreta, porque a América já era povoada, tanto que Colombo chamou os habitantes encontrados de “índios”, por acreditar que havia chegado às Índias (expressão usada naquela época para designar o Oriente). A afirmativa 3 está incorreta, porque o homem da América não possui mais que 18 mil anos (oficial), ou no máximo 50 mil (Niede Guidon). A afirmação 5 está incorreta, pois só existe um tipo de hominídeo, com a mesma origem ancestral. Resposta: D C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 32 33HISTÓRIA A partir de meados dos anos 1990, mas principalmente a partir do final da década, dois outros modelos passaram a desfrutar de grande interesse entre a comunidade especializada, sobretudo porque questionavam seriamente o modelo tripartite. O primeiro deles, originalmente batizado por Neves e Pucciarelli (1989, 1990, 1991) como ‘Modelo das Quatro Migrações’, foi mais tarde renomeado ‘Modelo dos Dois Com ponentes Biológicos Principais’ por duas razões: a dificul dade de se estabelecer, de fato, o número real de migrações que ocorreu no processo de colonização da América; e o progresso das informações advindas da Biologia Molecular, baseadas agora no estudo dos polimor fismos da própria fita do DNA recombinante.” (Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid= S0034-77012007000100001&script=sci_arttext. Acesso em: 5 abr. 2010.) A partir da leitura do texto, é possível afirmar que a) até hoje a explicação sobre a origem do homem americano continua a mesma. b) o homem americano tem uma origem asiática, uma malaio- po linésia e uma europeia. c) uma única leva de asiáticos foi responsável por todo o povoa - mento do continente americano. d) não existe comprovação científica da origem asiática do homem americano. e) é mais provável que a América tenha sido povoada por várias migra ções de homens asiáticos. RESOLUÇÃO: A partir de análises da Biologia Molecular, constatou-se que o homem americano tem origem em várias migrações asiáticas para o continente americano. Resposta: E � Segundo a explicação mais difundida sobre o povoa mento da América, grupos asiáticos teriam chegado a esse continente pelo Estreito de Bering, há 18 mil anos. A partir dessa região, localizada no extremo noroeste do continente americano, esses grupos e seus descendentes teriam migrado, pouco a pouco, para outras áreas, chegando até a porção sul do continente. Entretanto, por meio de estudos arqueológicos realizados no Parque Nacional da Serra da Capivara (Piauí), foram descobertos vestígios da presença humana que teriam até 50 mil anos de idade. Validadas, as provas materiais encontradas pelos arqueó logos no Piauí a) comprovam que grupos de origem africana cruzaram o oceano Atlântico até o Piauí há 18 mil anos. b) confirmam que o homem surgiu primeiramente na América do Norte e, depois, povoou os outros continentes. c) contestam a teoria de que o homem americano surgiu primeiro na América do Sul e, depois, cruzou o Estreito de Bering. d) confirmam que grupos de origem asiática cruzaram o Estreito de Bering há 18 mil anos. e) contestam a teoria de que o povoamento da América teria iniciado há 18 mil anos. RESOLUÇÃO: Os estudos arqueológicos no Parque Nacional da Serra da Capivara (PI) apontam para uma origem do homem americano muito mais remota (50 mil anos) do que a considerada pela teoria da “ponte de gelo” no Estreito de Bering (18 mil anos). Resposta: E � (FUVEST) – Pesquisadores do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, encontraram o crânio e uma parte do fêmur de Luzia, o esqueleto humano mais antigo descoberto na América que revolucionou as teorias científicas sobre a ocupação do continente. Os fósseis foram achados há alguns dias (não foi divulgado quando) junto aos escombros do edifício, parcialmente destruído por um incêndio em 2 de setembro. O crânio está fragmentado, porque a cola que mantinha os seus pedaços juntos se foi com o calor, mas a equipe está bastante otimista com suas condições. (Júlia Barbon, Folha de S.Paulo, Outubro/2018. Adaptado.) O esqueleto de Luzia, a) adquirido por D. Pedro II em 1876, foi incorporado à sua coleção pessoal, a mesma que deu origem ao Museu Nacional no período republicano. b) descoberto na década de 1970 em Minas Gerais, permitiu questionar a teoria de que a ocupação das Américas se deu por apenas uma onda migratória. c) estudado por diferentes equipes de antropólogos, comprovou que grupos saídos diretamente da África foram os primeiros habitantes das Américas. d) encontrado na atual Serra da Capivara, no Estado do Piauí, pertenceu à cultura que elaborou suas famosas pinturas rupestres. e) mantido em uma coleção particular fora do país, estava exposto para comemoração dos 150 anos da passagem de Charles Darwin pelo Brasil. RESOLUÇÃO: Até a descoberta de “Luzia” – fóssil humano com 10 mil a 15 mil anos de idade –, as principais teorias acerca do povoamento do continente americano versava sobre a rota do Estreito de Bering ou por uma travessia de origem malaio-polinésica. O achado de “Luzia” abriu novas perspectivas, apontando para a possibilidade de o homem ter chegado às Américas por itinerários diferentes em épocas distintas. Resposta: B C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 33 34 HISTÓRIA 1. A cultura olmeca e teotihuacana A sedentarização do homem e a prática da agricultura, na região do México e da América Central – conhecida como Mesoamérica –, ocorreram entre 5 000 e 4 000 anos antes de Cristo. Por volta de 2000 a.C., surgiram os primeiros aglo - me rados humanos, as aldeias transformaram-se em cen - tros cerimoniais e surgiu a classe sacerdotal, responsá vel pelos cultos, principalmente os vinculados à fertilidade. Os sacerdotes, detentores do saber, passaram a controlar também o excedente agrícola, tornando-se uma classe mais poderosa ainda. Organizava-se um Estado teocrático dentro dessas sociedades. Entre 1500 e 500 a.C., floresceu a cultura olmeca, na costa sul do Golfo do México. Essa civilização agrícola, que vivia principalmente da produção de milho, desenvolveu a construção de reservatórios de pedra para o armazenamento de água. Os olmecas tinham como dirigente, em suas comu - nidades, a classe sacerdotal, a quem pagavam impostos, tanto sobre a produção agrícola quanto sobre a artesanal. Os principais centros dessa cultura foram La Venta, San Lorenzo e Três Zapotes. Por volta do século I a.C.,chegava ao fim a cultura olmeca, que legou às posteriores uma avançada técnica agrícola, o artesanato têxtil e de barro, um sistema de escrita e numeração, um calendário – o religioso com 260 dias e o civil com 365 dias –, além de uma religião extremamente organizada. O poder político era exercido pelos sacerdotes de origem olmeca e a sociedade já se organizava de forma mais complexa. A religião era extremamente importante, a ponto de a principal manifestação artística desse povo, a arquitetura, voltar-se para a religiosidade. Foi durante seu apogeu que essa civilização construiu a Cidade dos Deuses – Teotihuacán –, totalmente planejada, e também pirâmides dedicadas ao Sol e à Lua, ricamente decoradas com esculturas e afrescos. A cidade de Teotihuacán, localizada no nordeste do Vale do México, estendeu seus domínios por todo o México Central, entre 300 e 600 d.C. A população de Teotihuacán, sucessora dos olmecas, aperfeiçoou as técnicas de cultivo, desenvolveu o sistema de irrigação e as chinampas (técnica de plantio feita sobre esteiras de varas flutuantes que eram colocadas no Lago Texcoco). A cultura teotihuacana desapareceu durante o século VI, sendo difícil precisar quais fatores foram responsáveis por tal fato. Porém, presume-se que doenças, rebeliões ou invasões expliquem a destruição da Cidade dos Deuses e sua civilização. 2. Os maias No momento em que Teotihuacán entrou em deca - dência, o sul da Mesoamérica conheceu o esplen dor da civilização maia. Durante o apogeu de sua civilização, os maias domi na - ram a Península de Yucatán (no sudeste do México), quase toda a Guatemala, parte de Honduras e El Salvador, além de Belize, ocupando o território da antiga cultura olmeca. A denominação maia é utilizada em função da semelhança linguística entre os povos da região. Origi - nários das regiões setentrionais, atual Estados Unidos, estabeleceram-se inicialmente ao norte da Gua temala e em Honduras, constituindo a mais antiga das civilizações pré-colombianas. As três grandes civilizações pré- colombianas. Cultura a tecas Cultura maia Cultura inca Teotihuacán Tenochtitlán Mayapán Uxmal Copán Chichén Itzá Cuzco Nazca OCE AN O PA CÍ FI C O OCEANO A TLÂ NT IC O 51 Os maias Palavras-chave: • Cidades-Estado • Mesoamérica • Chinampas C4_1a_HISTORIA_JR_2022.qxp 13/05/2022 14:45 Página 34 35HISTÓRIA Características gerais Os maias não chegaram a constituir um império. Ao contrário do que se pensava, as cidades maias estiveram constantemente em conflito, sendo sua organização caracterizada pela formação de cidades-Estado. O poder político era teocrático e hereditário. Cada cidade-Estado possuía um governante local que devia obediência ao poder central. A sociedade era rigidamente dividida e a posição social era dada pelo nascimento. No topo da pirâmide social, estava a família governante, altos funcionários do Estado (sacerdotes e militares) e comerciantes; abaixo destes, vinham os cobradores de impostos, militares e responsáveis pelas cerimônias; na base da pirâmide, encontravam-se os trabalhadores braçais. Na economia, o cultivo da terra era coletivo e as comunidades pagavam um imposto também coletivo, caracterizando-se pelo modo de produção asiático, pois ao Estado cabia a propriedade das terras e à comunidade, a posse útil. O principal produto cultivado era o milho, base da alimentação dos maias. Além da produção agrícola, os maias davam significativa importância às atividades comerciais. Os mercadores eram os responsáveis pela realização de trocas de produtos agrícolas e artesanais. A religião defendia que o destino dos homens era controlado pelos deuses, aos quais prestavam cultos, realizavam cerimônias e construíam templos em forma de pirâmides com escadarias, utilizando mão de obra camponesa recrutada de forma compulsória. Ainda em função da religião, desenvolveram a escultura em terracota, a pintura e o calendário cíclico, com 52 anos, com base em seus sofisticados estudos de Astronomia. Com a intenção de facilitar os cálculos, inventaram o zero. A escrita elaborada é denominada glífica e consiste em um conjunto de caracteres que represen tam parcial mente um objeto ou algo relacionado a esse objeto. O Novo Império Maia Por volta do ano 900, iniciou-se o declínio do Império Maia, que, dois séculos mais tarde, passou a sofrer influência da cultura tolteca. Os toltecas, originários do grupo linguístico naua, haviam ocupado o Planalto Central Mexicano e transfor - mado Tula em sua capital. Formavam uma sociedade urbanizada e militarista, com forte presença da religião, que tinha como deus principal Quetzalcoatl (serpente emplumada). A partir de então, ocorreu a fusão das culturas maia e tolteca, dando início ao chamado Novo Império Maia, que lentamente assistiu ao declínio dessa civilização. Quando os espanhóis chegaram, os maias já estavam em decadência. Entretanto, deixaram a marca da sua cultura em muitos povos vizinhos na Mesoamé rica. As hipóteses para explicar a sua decadência são muitas. Entre elas, podemos citar o esgotamento do solo em razão da prática da agricultura de coivara ou queimada, a deficiência alimentar (era raríssimo o consumo de carne e, portanto, de proteína) e ainda os acirrados conflitos internos entre os diversos líderes das cidades-Estado. Entre 1517 e 1697, os espanhóis realizaram a con quis - ta do Império Maia, marcada pela violência do bran co contra o indígena, pela força das armas em busca do ouro. Entre as culturas pré-colombianas, somente os maias resistiram à conquista europeia; não acreditavam, como os outros povos, que os europeus fossem deuses que chegavam à América. Templo do Jaguar, em meio à floresta tropical em Tikal. Guerreiro maia, baixo-relevo. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 35 36 HISTÓRIA MODO DE PRODUÇÃO TRIBUTÁRIO Existiu um modo de produção que Marx começou a analisar na Índia, denominado Modo de Produção Asiático. O que Marx não tinha condições de saber é que esse modo de produção se localizava também no Egito Antigo, na Creta Micênica, na África Negra ou na América Pré-colombiana. Para evitar confusões geográficas, vamos denominar esse modo de produção como Modo de Produção Tributário. Quais são as características desse modo de produção? As comunidades primitivas efetuaram ao longo dos anos um processo de unificação em torno de uma comunidade superior, o Estado, movidas pela necessidade de organizar e efetuar as grandes obras públicas que ultrapassavam os meios das comunidades individuais. O Estado tem suas raízes no surgimento de uma minoria com poderes de “função”, isto é, nasce quando uma minoria que efetua serviços de interesse comum para a comunidade se afasta da produção, apropriando-se do excedente econômico gerado pelos produtores diretos, transformando o poder de função em poder de exploração. A característica fundamental do Modo de Produção Tributário é a existência das comunidades aldeãs, sociedades sem classes, provenientes de um modo de produção anterior, o Comunitário Primitivo; e, por outro lado, a existência do Estado (sociedade de classes), representado por uma classe de sacerdotes, funcionários e guerreiros, que extrai tributos das comunidades aldeãs. O Modo de Produção Tributário é uma forma de transição de uma sociedade sem classes para uma sociedade de classes. A existência de um Modo de Produção Tributário na América não significa a negação das especificidades do desenvolvimento asteca, maia ou inca. O modo de produção é uma abstração teórica que não existe na realidade em sua forma pura. Ele explica como uma sociedade cria e recria suas condições materiais de existência, assegurando a própria reprodução, e se explica pela articulação das instâncias econômica, política e ideológica. É possível afirmar que o Modo de Produção Tributário se constitui em regiões onde a produção de excedente econômico agrícola requer importantes transformações no meio ambiente (canais de irrigação, drenagens, terraços etc.), por meio de uma aglutinaçãodas comunidades aldeãs ao redor de um núcleo central. Nesse caso, o Estado intervém diretamente na produção, como acontecia no Império Inca. Aliás, os incas foram os únicos a formar um verdadeiro império. Quanto aos maias, não passaram de cidades-Estado que ocasionalmente se associavam, mas que na maioria da vezes lutavam entre si pelo controle da terra. Não encontraremos grandes obras incaicas, nem grandes trabalhos hidraúlicos. O que veremos na península de Yucatán é uma minoria que domina e explora as comunidades, interferindo na produção de forma limitada. No Modo de Produção Tributário se estabelece um equilíbrio, uma correspondência pela mediação do Estado entre forças produtivas e relações de produção. Mas o Modo de Produção Tributário também se caracteriza por uma inadequação entre forças produtivas e meios de produção. Existe mais utilização de força produtiva de trabalho humano que meios de produção. Encontraremos uma superexploração da força de trabalho que compensa a subutilização das possibilidades tecnológicas. A superexploração da força de trabalho, sem um desenvolvimento tecnológico avançado, somente pode acontecer porque as comunidades aldeãs permanecem em suas terras, sob o regime de comunidade primitiva ainda não dissolvida, enquanto o Estado assume as tarefas de defesa, controle social, organização da produção e distribuição. O sistema de exploração montado pelo Estado permite a manutenção da força de trabalho, quando ela é deslocada no período de entressafra para grandes construções públicas. (Enrique Peregalli. A América que os europeus encontraram. São Paulo: Atual, p. 9-11. Adaptado.) C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 36 37HISTÓRIA � (UNESP) – “Outra prática comum aos povos mesoamericanos foi a construção de cidades. [...] As cidades mesoamericanas também serviam para dar identidade grupal aos seus habitantes, ou seja, as pessoas se reconheciam como pertencentes a tal cidade e não como “indígena”, termo que começou a ser utilizado pelos espanhóis para referir-se aos milhares de grupos que se [...] autodenominavam mexicas, cholutecas, tlaxcaltecas, dependendo da cidade que habitavam.” (Eduardo Natalino dos Santos. Cidades pré-hispânicas do México e da América Central, 2004.) As cidades existentes na América Central e no México no período pré- colombiano a) foram objeto de disputa entre lideranças indígenas e conquis - tadores espanhóis, pois eram situadas em áreas próximas ao litoral. b) eram centros comerciais, políticos e religiosos que contribuíam para a caracterização e diferenciação dos habitantes da região. c) eram espaços dedicados essencialmente a cultos religiosos monoteístas, que asseguravam a unificação identitária dos povos da região. d) eram as capitais de grandes unidades políticas e sociais, e seus governantes buscavam a homogeneização dos povos indígenas da região. e) foram conservadas quase integralmente até os dias de hoje, graças às preocupações preservacionistas dos colonizadores espanhóis. Resolução As cidades mesoamericanas pré-colombianas pos suíam caracterís - ticas próprias, com comunidades específicas, dotadas de identidade própria. A única exceção, que poderia ser considerada um centro de poder imperial, foi a capital dos astecas, Tenochtitlán. Resposta: B � (MODELO ENEM) – Quando da chegada do colonizador europeu, as civilizações ame ríndias apresentavam as seguintes caracte rísticas: I. Os maias são chamados de “os gregos da América” por possuírem cidades-Estado. II. Entre os maias, o trabalho dominante baseava-se na escravidão dos agricultores. III. Na civilização maia, o comércio era uma atividade econômica importante. IV. Entre os maias, a monarquia teocrática e militar predominava na organização política. Assinale a alternativa correta. a) Somente I e II são verdadeiras. b) Somente I e III são verdadeiras. c) Somente II e III são verdadeiras. d) Somente I e IV são verdadeiras. e) Somente III e IV são verdadeiras. Resolução A afirmativa II é falsa, porque a mão de obra era a servidão coletiva. A afirmativa IV é falsa, porque os maias possuíam uma política dividida em cidades-Estado. Resposta: B � Caracterize a cultura olmeca quanto a sua economia e sua política. RESOLUÇÃO: Economia: agrícola, com base no cultivo do milho. Política: seus governantes vinham do estamento sacerdotal. � O que eram as chinampas? RESOLUÇÃO: Técnica de plantio sobre as águas que utilizava uma espécie de jangada, coberta de terra, sobre a qual se cultivavam alimentos. Exercícios Resolvidos Exercícios Propostos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 37 38 HISTÓRIA � Caracterize a economia da civilização maia. RESOLUÇÃO: O Estado era o proprietário das terras e cedia a posse útil daquele espaço para ser cultivado pela comunidade, que devia sobre ele pagar tributo. Foi desenvolvido também o comércio de produtos agrícolas e artesanais. � Sobre a economia da civilização maia, é correto afirmar que a) teve como base o comércio, desenvolvido com os povos da América do Sul. b) foi uma economia voltada exclusivamente para a subsis - tência do grupo, não produzindo excedente econômico. c) as terras pertenciam ao Estado, e a comunidade detinha a posse útil da terra, pagando impostos pelo seu uso. d) era completamente dependente do mercado exter no, com - prando os produtos necessários à sobrevi vência do grupo. e) se encontrava ainda no estágio de selvageria, desenvol - vendo, portanto, uma atividade agrícola iti nerante. RESOLUÇÃO: A economia das civilizações pré-colombianas assemelhava-se ao “Modo de Producão Asiático”, originário das primeiras civilizacões da região do Crescente Fértil, no Oriente Médio, e descrita na alternativa C. Resposta: C � Com relação à civilização maia, podemos considerar corretas as afirmações a seguir, exceto: a) Estruturou-se em cidades-Estado teocráticas. b) Sua sociedade era igualitária, não havendo dife ren ças entre os membros da comunidade. c) Organizou-se em cidades-Estado, indepen den tes umas em relação às outras. d) Em sua fase de declínio, integrou-se à cultura tol teca. e) Apesar de toda resistência, foi conquistada pe los espa nhóis. RESOLUÇÃO: A sociedade era estamental e rigidamente dividida. Resposta: B � (UFPb – MODELO ENEM) – As principais sociedades ameríndias (maias, astecas e incas) tinham como característica: a) Homogeneidade étnica e diferenciação linguística, locali - zando-se na chamada Mesoamérica (México e América Central). b) Organização econômica com predominância da agricultura de subsistência, baseada em um sistema de propriedade privada, mas sem hierarquia social. c) Organização política que evoluiu de teocracias centralizadas para impérios descentralizados, constituídos de cidades-Es - tado bastante autônomas. d) Cidades comparáveis a cidades europeias, com calçamento, ajardinamento, sistema de esgoto e canalização de água. e) Religião monoteísta, naturalista, em que se praticava a astrolatria e sacrifícios humanos. RESOLUÇÃO: Os espanhóis ficaram admirados com o desenvolvimento urbanístico dos astecas, maias e incas. Os antropólogos classificaram esses povos como civilizações, mediante o grau de desenvolvimento tecnológico comparável ao dos povos europeus. Resposta: D C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 38 39HISTÓRIA 1. Primórdios A localização geográfica originária dos astecas é a região noroeste do Méxi co, denominada Aztlán, daí se denominarem astecas. Essa região foi ocupada por volta dos séculos I e II a.C., período em que os astecas eram considerados "bárbaros" (chichimecas ou ainda mexicas) por per - tencerem ao grupo linguístico nahuatl. Como todos os grupos, os astecas primitivamente viviam da caça, da pesca e da coleta vegetal. Possuíam uma sociedade simples, em que prevalecia a igualdade entre os membros do grupo, que era liderado por um chefe guerreiro. Aliás, a guerra sempre foi um elemento característico dos agrupamentos humanos durante o período do Paleolítico.Ao se estabelecerem no Vale do México, durante o século XII d.C., após o saque à cidade de Tula, dos toltecas, os astecas sedentarizaram-se, passando à fase Neolítica. Em 1325, fundaram a capital do Império, às margens do Lago Texcoco, que recebeu o nome de Tenochtitlán (que significa Rocha de Cactos e corresponde à atual Cidade do México). Estabeleceram aliança com as cidades-Estado de Tlacopan e Texcoco, que juntas submeteram os povos do Vale e deram origem ao Império Asteca. No início, as três cidades dividiam o poder entre si, mas a supremacia militar de Tenochtitlán acabou transferindo o poder para o controle dos astecas. Em 1440, Montezuma I iniciou a construção de grandes aquedutos e obras para a irrigação do solo e, principalmente, a organização do Império. No momento em que os espanhóis chegaram à região do Império Asteca, em 1521, Montezuma II era reconhecido co mo o único impe rador na região, e os astecas viviam seu momento de apogeu. Montezuma, em uma ilustração do século XVI. 2. Economia Na economia, os astecas tinham a agricultura como principal atividade; cultivaram milho, feijão, cacau e algodão, entre outros produtos. O Estado era o pro - prietário das terras, e a comunidade detinha a posse útil e pagava impostos sobre a produção. Utilizavam as chinampas; e aperfeiçoaram o sistema de regadio em suas plantações. O comércio, apesar de não ser a principal atividade econômica, também pos suía importância na sociedade. Realizavam-se trocas dentro das cidades (por exemplo, no mercado de Tlatelolco) de legumes, frutas, plumas, joias e es cravos, além de produtos importados, como tabaco, peles e cristal. Esse comércio levou ao aprimoramento do sistema de troca, que transformou a semente de cacau em "moeda corrente". 3. Organização social Primitivamente, os astecas organizavam-se em clãs, denominados calpulli, que tinham por base os laços de parentesco. O imperador e sua família ocupavam o topo da pirâmide social. A expansão sobre o Vale do México e a conquista de terras, realizada por meio da guerra, conferiram grande poder dentro do império aos militares, que cons tituíram a nobreza, junto aos sacerdotes, com pondo a classe dominante dentro da sociedade. Tinham como privilégios a isenção de impostos e o domínio so bre extensões de terra, das quais não eram pro prie tários particulares, uma vez que, nesse período, a posse da terra era coletiva, inexistindo a noção de propriedade privada. Os comerciantes (deno mi nados pochtecas) e os artesãos compunham a camada social interme diá ria. Os comerciantes se or ga nizavam em corpo ra ções e de ti nham o monopólio sobre a ativi da de mercantil, que era transmitida de pai para filho. Os artesãos traba lha vam com a ourivesaria e a confecção de peças em plumas; tam bém se orga nizavam em corpora ções e pagavam impostos ao Estado. A pro fissão era here di tá ria den tro das famílias. Na base da pirâ mide social estavam os cam po neses e os escravos. Os pri mei ros, de ori gem as teca, deviam obri ga ções ao Estado, co mo trabalhar em o bras públi cas e na agri cul tura (cuatequil), pagar im pos tos e prestar 52 Os astecas Palavras-chave: • Calpulli • Sacrifícios • Serpente com asas C4_1a_HISTORIA_JR_2022.qxp 13/05/2022 14:45 Página 39 40 HISTÓRIA ser viço mi litar; na épo ca do casa mento, re cebiam um lote de terra para cultivar; e, nos comba tes mili ta res, tinham a pos sibilidade de ascen são social. Os escravos, adquiri dos em guerras como pagamento de dívidas ou condenados por crimes, trabalhavam a terra e podiam ser libertados. A poligamia era admitida no grupo em razão de a população mascu lina diminuir em períodos de guerra, mas predominava a monogamia. Código mexicano. 4. Política A sociedade asteca, fortemente fundada no milita - rismo e influenciada pela religião, fez nascer um poder político militarizado e teocrático. O imperador, inicial men te, era eleito por uma As - sem bleia de Guerreiros. Em razão das conquistas, essa Assembleia foi per den do cada vez mais sua impor tân cia e acabou sen do subs tituída por um Conselho, que passou a escolher os impe radores dentro de uma mesma família, o que tornou a sucessão hereditária. O imperador era o comandante supremo do Exército e dividia o poder com a Mulher-Serpente, função exer ci - da por um homem, responsável pela chefia de governo. 5. Religião e cultura A religião era poli teísta. Entre os deuses adorados pelos astecas estavam o Colibri-Azul ou Uitzilopochtli (o deus do Sol do Meio-Dia), Tezcatlipoca (deus pro te tor dos guerreiros e es cra vos, simbolizado pela Noite); o contato com outras civilizações os fez adorar outros deuses, como Quetzalcoatl (a Serpente de Plumas). Os astecas acreditavam que eram o povo incumbido de zelar pela manutenção da harmonia no universo, o que só poderia ser feito por meio da alimentação dos deuses; assim, o seu código religioso admitia o sacrifício humano. Os deuses que regiam o universo e assegu - ravam as boas colheitas e vitórias militares também regiam o destino dos homens. Em termos culturais, podemos considerar que os astecas promoveram uma fusão de elementos das culturas anteriormente estabelecidas no Vale do México, po rém as superaram. A arquitetura foi extremamente desenvolvida, desta - cando-se a construção de pirâmides, palácios e sistemas de irrigação, além de aquedutos. Estudavam astronomia e criaram um calendário dividindo o ano em de zoito meses (cada mês com vinte dias), mais cinco dias com ple men tares; a cada 52 anos completava-se um ciclo. Utilizando esse conhecimento, pre viam eclipses luna res e os solstícios. Possuíam escolas: a Calmecac, destinada à forma - ção da nobreza sacerdotal; e a Telpochcalli, destinada ao ensino comum. A escrita era pictórica e hieroglífica. Figura de Atlantes, com 4,6 me tros de altura, que fica no alto da pirâ - mide B, em Tula, e re pre senta o foco militar que pre dominou nes sa civilização. Poligamia: casamento no qual um dos cônjuges possui vários cônjuges ao mesmo tempo. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 40 41HISTÓRIA � (UFSM – MODELO ENEM) – "Os guer - reiros constituíam um dos grupos mais impor - tantes na sociedade asteca. No início, eram escolhidos entre os indivíduos mais corajosos e valentes do povo. Com o tempo, entretanto, a função de guerreiro começou a ser passada de pai para filho, e apenas algumas famílias, privilegiadas, mantiveram o direito de ter guerreiros entre os seus membros." (Leandro Karnal. A conquista do México. São Paulo: FTD, 1996, p. 13.) O texto faz referência à sociedade asteca, no século XV, a qual era a) guerreira e sacerdotal, formada de uma elite política que governava com tirania a massa de trabalhadores escravos negros. b) igualitária e guerreira, não reconhecendo outra autoridade senão a sacerdotal, que tam bém era guerreira. c) comunal, com estruturas complexas, sendo dirigida por um Estado que contava com um aparelho administrativo, judiciário e militar. d) hierarquizada e guerreira, visto que o Impe - ra dor era, ao mesmo tempo, o general do exército asteca e o sumo pontífice sacer - dotal. e) igualitária, guerreira e sacerdotal: todo guer reiro era um sacerdote e todo sacer - dote era um guerreiro. Resolução Mera interpretação de texto. Os astecas possuíam um governo teocrático e milita - rizado. Resposta: D � (UNESP) – “Os deuses disseram entre si depois de criar o homem: ‘O que os homens comerão, oh deuses? Vamos já todos buscar o alimento.’ Enquanto isso, as formigas vermelhas estavam colhendo e carregando os grãos de milho que traziam de dentro do Tonacatepetl (Montanha do Sustento). O deus Quetzalcoatl encontrou as formigas e lhes disse: ‘Digam-me, onde vocês colheram os grãos de milho?’. Muitas vezes lhes perguntou, mas as formigas não quiseram responder. Algum tempo depois, as formigas disseram a Quetzalcoatl: ‘Lá.’ E apontaram o lugar. Quetzalcoatl se transformou em formiga negra e as acompanhou. Desse modo, Quetzalcoatl acompanhou as formigas vermelhas atéo depósito, arranjou o milho e em seguida o levou a Tamoanchan (moradia dos deuses e onde o homem havia sido criado). Ali os deuses o mas tigaram e o puseram na nossa boca para nos robustecer.” (Apud Eduardo Natalino dos Santos. Cidades pré- hispânicas do México e da América Central, 2004.) O texto asteca a) promove a divulgação das qualidades nutricionais do milho para o fortalecimento dos guerreiros mesoa mericanos. b) oferece uma explicação mítica para a importância do milho na base da alimentação dos povos mesoame ricanos. c) demonstra sustentação histórica e claro desenvol vimento de pensamento lógico e racional. d) procura justificar o fato de apenas os governantes dos povos mesoamericanos poderem exercer atividades agrícolas. e) revela a influência das fábulas europeias na construção do imaginário dos povos mesoamericanos. Resolução O milho, representado nas diversas variedades pro porcionadas pela seleção de sementes, constituiu a base da alimentação não só de astecas, maias e outras populações ditas “mesoamericanas”, mas também para os incas, na América do Sul. Resposta: B A cosmovisão dos astecas Na crença asteca, o ser humano foi criado pelo sacrifício dos deuses e por sua vez foi reciprocamente obrigado a mantê-los com alimento mágico da própria vida — o sangue do sacrifício humano. A responsabilidade dos astecas Daí o orgulho dos astecas, que se consideravam colaboradores dos deuses porque sabiam que sua vida era dedicada a manter a ordem cósmica e lutar contra os poderes das trevas. Em certo sentido, o universo dependia deles para sua existência continuada; deles dependia o alimento para os deuses, deles dependia a doação dos dons que eram outorgados à humanidade. Igualmente a luz do sol, a chuva que se formava nas montanhas e regava o trigo, o vento que so prava através dos juncos, trazendo as nuvens ou transformando-as em furacão, tudo de - pendia deles (…). Além desse ideal cosmológico, os astecas também acreditavam que eles tinham um ideal ético a atingir. A luta do Sol contra os poderes da terra era também, acima de tudo, a luta do bem contra o mal (…). Oposto a este ideal imperialista e religioso, havia também um sentimento de pessimismo na profundeza da alma asteca. Os astecas sabiam que, no fim, o seu líder, o Sol, seria derrotado (…) e então os pode res do mal prevaleceriam e destruiriam a humanidade. Por isso, esta vida, para os astecas, era meramente transitória, e o sentimento de pes simismo e angústia aparecia nas suas es culturas vigorosas e terríveis, e mostravam também uma coloração de tristeza profunda em sua poesia. (A. Caso. The Aztecs: People of the Sun, p. 93-95. Apud E. A. Hobel e E. L. Frost. Antropologia cultural e social. São Paulo, Cultrix, 2006, p. 341.) Exercícios Resolvidos O mundo mágico dos astecas C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 41 42 HISTÓRIA � Que eram os calpulli, na sociedade asteca? RESOLUÇÃO: Correspondiam à organização clânica dos astecas à época primiti - va, que tinha por base os laços de parentesco. � Caracterize a sociedade asteca. RESOLUÇÃO: Era uma sociedade estamental, constituída pelo Imperador e sua família, a nobreza e sacerdotes, comerciantes e artesãos, e camponeses e escravos. � A arquitetura foi altamente desenvolvida entre os astecas. Justifique a frase. RESOLUÇÃO: A exemplo dos egípcios, os astecas construíram pirâmides, palácios e sistema de irrigação. � Os astecas não foram os únicos a admitir os sacrifícios humanos dentro de seu código religioso. Comente essa prática. RESOLUÇÃO: Desde os tempos mais remotos, acreditava-se que a imolação de seres humanos poderia trazer boas colheitas e acalmar a ira das divindades. � (UEL – MODELO ENEM) – Os astecas sacrificavam prisio - neiros de guerra para alimentar seus deuses. O capturado tinha seu coração arrancado, era decapitado e tinha seu sangue bebido pelo captor que, depois, levava o corpo para casa, esfolava-o, comia-o com milho e vestia sua pele. É correto afirmar que estes rituais no mundo dos astecas eram de ordem simbólica, uma vez que a) os vencidos deveriam pagar um tributo de sangue aos astecas, que viam a si próprios como deuses. b) os sacerdotes astecas exigiam oferendas de sangue para que não faltasse alimento em seus templos. c) um grande número de sacrifícios representava um reforço do abastecimento alimentar, evitando a carestia. d) o captor do prisioneiro se vingava do inimigo, comendo suas carnes e vestindo sua pele. e) os deuses exigiam oferendas do bem mais precioso que os homens possuíam, a vida, para que o mundo fosse preservado. RESOLUÇÃO: Os deuses eram responsáveis pela sustentação do universo, além de garantir bons resultados na guerra e boas colheitas, o que explica a necessidade constante de sacrifícios humanos. Resposta: E Exercícios Propostos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 42 43HISTÓRIA � O CANTO TRISTE DOS CONQUISTADOS: OS ÚLTIMOS DIAS DE TENOCHTITLÁN “Nos caminhos jazem dardos quebrados; os cabelos estão espalhados. Destelhadas estão as casas, Vermelhas estão as águas, os rios, como se alguém as tivesse tingido. Nos escudos esteve nosso resguardo, mas os escudos não detêm a desolação...” (J. Pinsky et al. História da América através de textos. São Paulo: Contexto, 2007. Fragmento.) O texto é um registro asteca, cujo sentido está relacionado ao(à) a) tragédia causada pela destruição da cultura desse povo. b) tentativa frustrada de resistência a um poder considerado superior. c) extermínio das populações indígenas pelo exército espanhol. d) dissolução da memória sobre os feitos de seus antepas - sados. e) profetização das consequências da colonização da América. RESOLUÇÃO: Embora a conquista da América pelos espanhóis tenha provocado a destruição das culturas indígenas por meio da violência e da aculturação, o texto transcrito enfatiza a ineficácia da resistência dos astecas contra o poderio militar dos conquistadores, cuja superio ridade foi amplamente demonstrada pelo emprego do ferro, da pólvora, do cavalo e da roda. Obs.: A alternativa b é a que mais se atém ao texto. Entretanto, a alternativa a expressa a visão contem porânea sobre a conquista espanhola da América e poderia ser interpretada como represen - tativa do “sentido” (isto é, do significado) do texto; e até a alternativa c poderia eventualmente ser escolhida, pois o trecho reproduzido também enfatiza a ideia de mortandade, ainda que lhe reserve menos espaço que às considerações de caráter mili tar. De qualquer forma, a questão foi elaborada de tal maneira que pode suscitar no candidato dúvidas sobre qual seria a resposta correta. Resposta: B � (FGV – MODELO ENEM) – "(...) a religião desempenhava papel central nas relações entre o Estado e a sociedade. A guerra era sagrada, pois através dela se obtinham escravos para o sacrifício humano, elemento central na ligação entre a comunidade e o Estado. (...) reinavam sobre um império aberto a dois oceanos. (...) Em 1519 (...), com cerca de 5 milhões de habitantes, era a maior concentração urbana do mundo". (Flavio de Campos e Renan Garcia Miranda. Oficina de História: História integrada.) O texto apresenta características dos a) tupis. b) incas. c) maias. d) mexicas ou astecas. e) araucanos. RESOLUÇÃO: Mexicas era um dos nomes pelo qual eram conhecidos os astecas, que adquiriram a fama de serem a mais sanguinária das civi li za - ções pré-colombianas no sacrifício de seres humanos. Resposta: D C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 43 44 HISTÓRIA 1. Primórdios O território ocupado pelos incas corresponde atualmente a Peru, Bolí via, Equador, parte do Chile e norte da Argentina, na região do Alti plano Andino. A ocupação da região pela civilização inca iniciou-se a partir do ano 1200 e não constituiu o primeiro agrupamento humano da região. Antes da presença inca, o Altiplano Andino foi palco de culturas que são denominadas pré-incaicas. Entre essas culturas, encontramos aChavin, séculos IX a II a.C., no norte do Peru. Com a decadência dessa cultura, o Altiplano Andino assistiu a um longo período em que predominaram gru - pos fragmentados e, a partir do século VI da Era Cristã, três grandes culturas floresceram na região: Império Tiahuanaco, no Altiplano Boliviano, próximo ao Lago Titi - caca; a civilização huari, na bacia do Rio do Aiacucho, estendendo-se da região de Cuzco até a costa norte do Peru; e o Império Chimu, na costa norte do Peru. Os incas, originariamente, consti tuíam um povo nôma de, parte inte gran te do grupo quíchua, da região da Amazônia. Após sucessivas conquistas, estenderam o seu poder sobre uma área de quase 5 200 000 km2, com uma população estimada entre 3,5 milhões e 7 milhões de habitantes. Quando os es panhóis che ga ram, no ano de 1532, o Im pé rio Inca vivia seu auge, impres sio nando os es pa - nhóis por sua or ganização e suas impo nen tes obras arqui te tônicas. Apesar da do minação espa nhola, a influên cia dos incas faz-se presente até ho je. No Pe ru, o quíchua, an ti ga lín gua dos incas, é ho je uma das lín guas oficiais do país. Os incas eram também conhecidos como os “Filhos do Sol” por acreditarem que o Sol (o deus Inti) era o ancestral de seus governantes. 2. Economia A base da economia inca era a agricultura, na qual a batata e o milho ocu pa vam lugar de destaque. Para ampliar a área cultivável, faziam terraços nas re giões do Altiplano Andino, o que, além de favorecer a agricultura, evitava a erosão da ter ra. O solo era fertilizado com o guano, fertilizante natural de excremento de aves. Primitivamente, a terra, no Altiplano Andino, era pro priedade coletiva da co munidade ayllu, que trabalha va em conjunto nas plantações. Uma parte da pro dução era recolhida aos depósitos públicos para ser distribuída aos habitantes, em tempo de crise, pelo curaca, líder local. Com a chegada dos incas e seu processo de expan - são e submissão das comunidades, as terras passaram a pertencer ao Estado e a estrutura fundiária original foi alterada. Passaram a ser divididas em terras da comunidade e terras do Estado, cultivadas pelos membros do ayllu. O tributo em espécie não era pago diretamente ao Estado, mas este detinha o di reito de requisitar a mita, que era paga sob a forma de trabalho compulsório nas mi nas, na construção de estradas e em obras públicas, como canais de irrigação. Na épo ca em que a mita era requi sitada, o Estado devia prover os trabalhadores com víveres. O comércio também se desenvolveu, com base na produção de cerâmica, tecidos e artesanato em ouro, bronze e prata. 53 Os incas Palavras-chave: • Ayllu • Terraços • Mita C4_1a_HISTORIA_JR_2022.qxp 13/05/2022 14:45 Página 44 45HISTÓRIA 3. Organi za ção política e social Antes da dominação inca, a organização social básica era a comunidade deno minada ayllu, liderada pelo cura - ca, fundador ou descen dente do ancestral do gru po. Com a conquista incaica sobre a região do Altiplano, no século XIII, as co munidades foram subordinadas e o poder político passou para as mãos de um im perador – Inca ou Sapa Inca –, cuja força se funda mentava na reli - gião e no Exército, do qual era o comandante supre mo, caracte rizando, assim, um governo teocrático-militarista. Abaixo do imperador estava a nobreza, composta por seus parentes, altos fun cionários do Estado, clero e pelos curacas, que mantiveram seu prestígio em razão da tradição de sua família; em seguida, vinham os arte - sãos, médi cos, artistas, mili ta res e con tabi listas; final - mente, na base da pirâ mi de social, esta vam os cam - pone ses e os escra vos. Dentro do Império, o ayllu continuou a ser a base da organização social e administrativa. Era formado a partir de laços de parentesco e chefiado pelo curaca, cujo poder era transmitido hereditariamente. Para tentar evitar os conflitos internos devido às muitas conquistas sobre ou tros povos, os incas tomavam os filhos dos curacas dominados como "reféns" e os envia vam à capital do império para estudar, forçando a submissão dos líderes derrotados. Administrativamente, o império foi dividido em qua - tro partes (províncias), que eram interligadas por nu me - rosas estradas, permi tin do tanto o serviço dos correios quan to a ação do Exército em caso de revolta. Ironi ca - men te, mais tar de, essas vias acabaram fa cili tan do o trabalho dos invasores es panhóis. Machu Picchu. 4. Religião e cultura Os incas dedicaram-se à astronomia, elaborando um calendário que, além de marcar o tempo, servia para fazer previsões astrológicas. Na religião, além do Sol, da Lua, do Trovão e da Terra, cultuavam Viracocha, o "Cria - dor do Universo". Completando as suas cerimônias, que incluíam danças e uso da chicha (espécie de cerveja feita de cereais), faziam sacrifícios humanos e de lhamas. Árvore candelabro esculpida na rocha numa colina perto da entrada da Bacia de Paiacas (cultura chavin). As pirâmides da lua, entre os campos irriga dos do vale Moche. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 45 46 HISTÓRIA Joseph de Acosta, sacerdote jesuíta, viveu em meados do século XVI. Quando recebeu o cargo de Visitador de Colégios, fez inúmeras viagens cruzando os Andes, conhecendo Are quipa, La Paz, Chu qui - saca, Lima, Potosí e, posterior mente, o Novo México. Foi reitor do Colégio de Lima. Grande estudioso, escreveu várias obras sobre as Índias Ocidentais, onde descreve, com minúcias, as riquezas da terra e os usos e costumes dos indígenas. Tentando suprir as fontes necessárias para um melhor conhecimento das civili - za ções pré-colom bianas, a historio grafia tem-se valido de tes temunhos deixados por viajantes e sacerdotes, que, embora limitados por uma visão euro peia, permi - tem conhecer um pouco mais tais civili - zações. As construções dos incas "Os incas construíram fortalezas, tem plos, caminhos, casas de campo e outros edifícios, com excessivo e can - sativo tra ba lho, como podemos constatar, nos dias de hoje, pelas ruínas e vestígios que ve mos em Cuzco, Tiahua naco, Tambo e em outras regiões, onde há pedras imensas, difíceis de imaginar como foram cortadas, transplan tadas e colocadas onde estão. Para todos estes edifícios e fortalezas que o inca mandava construir em Cuzco e em outras regiões de seu reino, vi nham inúmeras pessoas de todas as províncias, porque o trabalho era admirável e espantoso; não usavam nenhum tipo de liga, não conheciam ins - tru mentos de ferro para cortar e trabalhar as pedras, nem máquinas para movi men - tá-las. Apesar disso, eram de tal maneira polidas que em muitas partes apenas se vê o sinal de junção de umas às outras; algumas pedras são tão grandes que não se acreditaria se não as tivesse visto. (…) O que mais se admira é que as pedras da muralha não sendo cortadas são muito desi guais em tamanho e formato, mas se encaixam umas nas outras, com perfeição e sem liga. Tudo isso se fazia à custa de muita gente e de muito sofrimento no trabalho, porque, para encaixar uma pedra noutra, da maneira como estão ajustadas, era neces - sário removê-las várias vezes, porque não são iguais nem lisas. O número necessário de pessoas pa - ra trabalhar nas pedras e nas constru ções era fixado todo o ano pelo inca. (…) Embo - ra os edifícios fossem grandes, comu - men te eram mal divididos e aprovei tados, parecidos com as mesquitas e outras cons truções dos bár ba ros. Não conse gui - ram fazer arcos, nem a liga necessária para isso. Suas pontes eram feitas de junco, tecido, e presas com cordas nas margens, porque não faziam pontes nem de pedra, nem madeira. (…) O talento e a habilidade dos índios os levaram a fazer pontes firmes e seguras somente com palha, o que parece fábula, mas é verdade. (…) Como estão bem amarradas nas margens dos rios, suportam com segurança homens e bestas com cargas”. (Joseph de Acosta. Historía Natural y Moral de las Indias. 1590, p. 477-8.) � (UFPEL – MODELO ENEM) – “Um dos mistérios que envolvem a cidade de Machu Picchu é como os incas conseguiram carregartantas pedras enormes para construí-la (…). Mestres no assunto, os incas utilizavam recur - sos curiosos, como encher com água fissuras naturais nas pedras para que, à noite, com a queda da temperatura, o líquido congelasse, facilitando a extração dos blocos.” (José Jobson Arruda; Nelson Piletti. Toda a História: História Geral e História do Brasil. São Paulo: Ática, 2003. Adaptado.) Com base no texto e em seus conhecimentos, analise as afirmativas a seguir. I. A construção de estradas, pontes e túneis atesta o notável desenvolvimento dos incas – cujo império se localizava no sul do México e na Península do Yucatán. II. Além de possuírem profundos conheci - mentos matemáticos, evidenciados em sua arquitetura e organização urbanística, os incas utilizavam também conheci - mentos de Física, como o aumento do volume da água durante o congelamento. III. O Império Inca – que chegou a ter uma população de milhões de habitantes, gover na dos por um imperador divinizado, construiu palá cios, templos, estradas pavimentadas, aquedu tos e canais de irrigação. Assinale a alternativa correta. a) Apenas as afirmações I e II são verdadeiras. b) Apenas as afirmações I e III são verdadeiras. c) Apenas as afirmações II e III são verda dei ras. d) Todas as afirmações são verdadeiras. e) Todas as afirmações são falsas. Resolução A afirmação I é falsa, porque o Império Inca se localizava na costa ocidental da América do Sul. Resposta: C � (UFMG – MODELO ENEM) – No final do século XV e início do XVI, quando os europeus conquistaram o continente americano, este era habitado por inúmeros grupos étnicos, com diferentes formas de organização econômica e político-social. Considerando-se o Império Inca, é correto afirmar que a) a agricultura, base de sua economia, era praticada nas encostas andinas em grande escala, cujo excedente era comercializado com os maias. b) o Estado era descentralizado, com o poder político concentrado nas mãos do Inca (impe rador), intitulado “Filho do Sol”. c) seu domínio se estendia ao longo da Cordilheira dos Andes, ocupando parte dos atuais territórios de Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile e Argentina. d) cultuava um Deus único, criador e protetor da vida e da Natureza, para o qual foram cons truídos numerosos templos. e) a sociedade incaica permitia grande mobi - lidade, tendo como base as comunidades clâni cas denominadas calpulli. Resolução Os incas constituíam um vasto império, inte - grado por povos de diferentes culturas, loca - lizados no altiplano andino. Resposta: C Exercícios Resolvidos A engenharia dos incas C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 46 47HISTÓRIA � O que era ayllu? RESOLUÇÃO: Era a comunidade primitiva incaica, na qual prevaleciam as relações de igualdade e a propriedade coletiva, administrada por um líder local, chamado curaca. � Qual o recurso utilizado no Altiplano Andino para melhor aproveitamento das terras? RESOLUÇÃO: Os incas faziam terraços para conter a erosão e aumentar a área de plantio, que, fertilizada com o guano, garantia alta produti vidade. � Descreva o regime de propriedade da terra no Alti plano Andino após a dominação inca. RESOLUÇÃO: As terras pertenciam ao Estado e estavam divididas em “terras da comunidade” e “terras do Estado”. Estas eram cultivadas pelos membros da comunidade no sistema de mita. � (UFPel – MODELO ENEM) – (Gilberto Cotrim. História global: Brasil e Geral. 6.a ed. São Paulo: Saraiva, 2002. Adaptado.) De acordo com o mapa acima, os povos que viviam nas regiões identificadas pelas letras "A", "B" e "C", são, respectivamente, a) astecas, incas e maias. b) incas, maias e astecas. c) astecas, maias e incas. d) maias, astecas e incas. e) maias, incas e astecas. RESOLUÇÃO: Os astecas viveram no sul do atual Estados Unidos e no noroeste do México. Os maias habitaram a Península do Yucatán, Guatemala, Honduras, El Salvador e Belize. Os incas habitaram o altiplano andino, desde o Peru até o norte da Argentina. Resposta: C Exercícios Propostos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 47 48 HISTÓRIA � Quanto às relações de trabalho, havia entre os incas a instituição da mita, sobre a qual é válida a seguinte afirmação: a) Foi introduzida no império após a chegada dos es panhóis. b) Tratava-se do trabalho escravo imposto apenas aos povos vencidos em guerra. c) Era o trabalho realizado nas minas pela nobreza. d) Tratava-se da exploração da mão de obra camponesa, pelo Estado, de forma obrigatória, em obras públicas e nas minas. e) Era o trabalho realizado pela nobreza, em troca dos benefí - cios recebidos do Estado, como a isenção de impostos. RESOLUÇÃO: A mita era uma forma de trabalho compulsório. Além de ser obrigatória, consistia numa forma de tributo. Resposta: D � (MODELO ENEM) – “O ouro e a prata que os reis incas tiveram em grande quantidade não eram avaliados [por eles] como tesouro porque, como se sabe, não vendiam nem compravam coisa alguma por prata nem por ouro, nem por eles pagavam os soldados, nem os gastavam com alguma necessidade que lhes aparecesse; tinham-nos como supérfluos, porque não eram de comer. Somente os estimavam por sua formosura e esplendor e para ornamento [das casas reais e ofícios religiosos]”. (Garcilaso de la Vega. Comentários reais, 1609.) De acordo com o texto, é possível afirmar: a) Os metais preciosos eram igualmente valorizados pelos incas e espanhóis. b) Os incas possuíam uma economia monetária que propor - cionava um grande acúmulo de capitais na sociedade. c) Se os espanhóis tinham os metais preciosos como sua base monetária, os incas davam ao ouro e à prata um valor meramente honorífico e decorativo. d) Uma construção notável dos incas foi a cidade fortificada de Machu Picchu, eregida como a capital do Império. e) Somente os soldados incas eram remunerados com ouro e prata. RESOLUÇÃO: O texto demonstra a diferença entre incas e espanhóis quanto ao valor atribuído aos metais preciosos. Resposta: C � O Império Inca, que corresponde princi - palmente aos territórios da Bolívia e do Peru, che gou a englobar enorme contingente popu - lacional. Cuzco, a cidade sagrada, era o centro administrativo, com uma sociedade fortemente estratificada e composta por imperadores, nobres, sacerdotes, funcionários do governo, artesãos, campo neses, escravos e soldados. A religião contava com vários deuses, e a base da economia era a agricultura, principal mente o cultivo da batata e do milho. A principal característica da sociedade inca era a a) ditadura teocrática, que igualava a todos. b) existência da igualdade social e da coletivização da terra. c) estrutura social desigual compensada pela coletivização de todos os bens. d) existência de mobilidade social, o que levou à composição da elite pelo mérito. e) impossibilidade de se mudar de extrato social e a existência de uma aristocracia hereditária. RESOLUÇÃO: A sociedade incaica era estamental, o que fazia do nascimento o elemento definidor da posição social. Nessa estrutura forte - mente hierarquizada, as funções administrativas e guer reiras eram monopolizadas por uma aristocracia hereditária que sustentava o poder teocrático do Sapa Inca (imperador, considerado “Filho do Sol”). Resposta: E C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 48 49HISTÓRIA 1. Introdução Está claro, hoje, que há diferenças sensíveis entre os grupos indígenas da Amé rica. Podemos afirmar que as sociedades indígenas pré-colombianas (maias, astecas e incas) encontravam-se em um grau de desenvolvimento material muito mais complexo do que o das sociedades indígenas norte-americanas e o da maioria dos grupos sul-americanos. Sem dúvida, um estudo profundo revelaria muitas diferenças culturais entre os diversos povos indígenas da América. Mas, com certeza, encontraríamos muitas seme lhanças, principalmente no que diz respeito à sua produção eco nômica para a sobrevivência, sua organi - zação social e política. Os grupos americanos, tratados neste módulo,caracterizam-se por terem se organizado dentro de um modo de produção primitivo, ou comunismo primitivo, possuindo uma economia em princípio coletora e depois produtora. 2. Características gerais Economia A propriedade dos meios de produção era coletiva, o que significa que a ter ra, os ins trumentos de traba lho, as sementes e as florestas pertenciam à comu nida de. Para o indi ví duo usu fruir desses mei os de pro dução, era neces sário estar integra do ao grupo. O regime de traba lho era coletivo, todos os ho mens e mulheres tra ba lha vam em conjunto, vi san do à sobrevi - vência do grupo, com uma divisão de tarefas segundo o sexo e a idade. Cabia aos homens realizar a coleta, a caça, a pesca, o preparo da terra para o plantio, a construção de habitações, a domes ticação de animais e a defesa do grupo em caso de guerra. Às mulheres estavam reser vadas as tarefas de arar o solo, plantar, preparar os ali mentos, confeccionar o vestuário e os utensílios de cerâmica e de fibras. A produção do grupo era autossuficiente, produzindo tudo o que era necessário com os materiais encontrados na própria região da aldeia; as trocas, quando ocorriam, eram realizadas in natura, ou seja, produto por produto. Entre outros produtos agrícolas, os indígenas plan - tavam mi lho, algodão, batata, pimenta, abóbora, amen - doim e feijão. O predomínio das atividades agrícolas levou parte dos grupos à seden ta rização. Entretanto, outros grupos que se mantiveram parcialmente presos às ativi dades cole tora e caçadora permaneceram com caráter semi nômade. Cachimbo de pedra, da região de Monte Esme - ral da, sul dos EUA; representa um prisioneiro ajoe lha do. Sociedade Nas comu nida des indígenas, pre do mi na vam as rela - ções de parentesco como indicadoras da orga ni zação social. A unidade social era representada pe lo clã, quer fos se matri li near (linha gem fe mi nina) ou patrili near (linha gem mas cu li na). Cons tituía o nú cleo básico da des cen dên cia e unia seus membros por ins tituições sociais e reli giosas. Artesanato indígena. Artesanato da tribo naja. Clã: grupo de pessoas unidas por parentesco e linhagem, definido pela descendência de um ancestral comum. 54 Os indígenas norte-americanos Palavras-chave: • Totem • Animismo • Pueblos • Clãs C4_1a_HISTORIA_JR_2022.qxp 13/05/2022 14:45 Página 49 50 HISTÓRIA A origem da formação dos clãs residia no fato de os indí genas considerarem-se descendentes de um ante pas - sado comum. Daí verificar-se a exis tência de grupos totê - micos, pois, nesses casos, os indí ge nas se consideravam descendentes de um animal ou de uma planta. Na maioria dessas comunidades indígenas, havia o tabu do incesto, proibin do-se, assim, o casamento entre indivíduos de um mesmo grupo. Dessa forma, os clãs integravam-se pela necessidade de buscar casamentos, formando as tribos. As tribos, por sua vez, reuniam-se em federações. As diferenças pessoais na sociedade eram prati ca - mente inexistentes e, quando ocorriam, eram caracte ri - zadas pelo grau de parentesco com o líder do grupo, e não em termos econômicos. Era comum a prática da poli ga - mia, tanto masculina (poli gi nia) como feminina (poliandria). Política As tribos indígenas tiveram uma organização com pa tí vel com seu nível de desenvolvimento socioe co nô mi co. Mas, via de regra, o poder político não era com ple xo e pos suía uma função mais social do que coercitiva sobre o grupo. A ascensão de um líder político ocorria por meio da hereditariedade ou era eletiva. O primeiro caso é mais marcante nos grupos patrilineares; e o segundo caso, nos grupos matrilineares. Religião e cultura A religião era politeísta e animista. A primitiva organização eco nô mica desses grupos estava vin culada às forças da natu reza, o que possibi litou uma visão de mundo mágico-religio - sa, pois disso depen dia a sobre - vivência material do gru po. Na maioria das vezes, os atos mágico-reli giosos destinavam-se a ga rantir o abaste - cimento de alimen tos. Outra prática era a realização de ritos funerários. Os mortos pos suíam lugar reservado em cemi térios, cu jas construções variavam de tribo para tribo. A produção de cerâmica foi uma constante nesses grupos. Estava muito mais vinculada às neces sidades de preservar e guardar os alimentos do que a uma preocu - pa ção em produzir um legado cultural. 3. Principais grupos indígenas norte-americanos Esquimós Os esquimós habitavam a região do litoral do Oceano Ártico (Groenlândia, costa do Labrador e Alasca). A economia desse grupo esta va diretamente ligada ao que a natureza da região propor cio nava, ou seja, caça da foca e de aves, pesca da baleia, e outros animais de grande porte. Desses animais, os es quimós retiravam o alimento necessário à sobrevi vência, e a divisão dos produtos era igual entre os membros do grupo. Além dos produtos para a alimentação, extraíam deles a pele para o vestuário; com o marfim e com os ossos, con feccio navam ins trumentos de caça (pontas de lanças e flechas) e esculturas. A domesticação do cachorro possibilitou aos esqui - mós o seu uso nos trenós. Os algonquinos Os algonquinos viviam entre a região sul do Ártico e a região de tundras, denominada Área do Caribu. Sua economia se baseava na caça (rena, alce etc.) e na pesca de animais ma rinhos, principalmente. As áreas de exploração eram hereditárias para cada grupo. Em termos sociais, os algonquinos viviam em hordas e bandos. As tribos da costa do Pacífico Vários grupos coletores ocuparam essa região de norte a sul. A economia era fundamentada na caça, na pesca e na co le ta, sendo a organização social dividida em clãs. A reli gião era politeísta, ocorrendo a prática de enterrar os mortos. As tribos do deserto Entre as tribos do deserto, têm destaque os chamados pueblos (cul tu ra anasazi), ou índios de aldeias. Sua localização geográfica corres pon de à região dos rios Colorado e Grande. Em relação aos demais povos in dígenas, notabiliza - ram-se pela práti ca de uma agricultura intensiva, com o desenvolvimento da irrigação; pelo conhecimento da te - ce lagem e da ce râ mica; e pela arquitetura feita em pedra. A organização social era um pouco mais complexa que a dos demais povos indígenas. Vinculados por laços de parentesco, os clãs eram totêmi cos e apresentavam um grau de estra tificação social, visto, princi palmente, pelo fato de que o governo era exercido por um Conselho de Anciãos. Estatueta de um felino ajoe lhado, na região do Missis sippi, EUA, do pe río - do final da pré-his tória. Totem: qualquer objeto, animal ou planta que seja cultua do como deus ou equivalente por uma sociedade organizada. Animista: que atribui vida a objetos e coisas, que não possuem vida biológica. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 50 51HISTÓRIA Aldeia típica dos indígenas norte-ameri canos. Ruína de povoação em D, do povo pueblo, na região do desfiladeiro do Chaco, EUA. Os iroqueses Esse grupo indígena ocupava originariamente a região oeste inferior do Rio Mississippi; posteriormente, passou a ocupar a região dos Montes Apalaches, na região de florestas. Apesar da descendência ser matrilinear, a mulher pouco destaque possuía na organização. A escolha do líder político dava-se por meio de eleição. As tribos formavam uma confederação, que funcionava em épocas de guerra. Em termos econômicos, a propriedade da terra era coletiva; sobreviviam da prática da agricultura, bem como da caça e da pesca. Ainda na região oriental da floresta, cabe destacar a existência de sítios arqueológicos pré-históricos, onde encontramos os chamados mounds (montes de terra que serviam de túmulos). Demais grupos Na região da Grande Planície, encontramos os gru - pos que se dedicavam principalmente à caça do búfalo, os quais acabaram por constituir sociedades nômades, lideradas por um chefe, cujo prestígio era dado pelo contingente numérico de guerreiros no grupo. O búfalo é um dos animais mais comuns da cultura indígena. No Caribe, destacaram-se gruposvinculados ao cultivo da terra de forma intensiva e também ao conhecimento de técnicas para o trabalho do metal e da cerâmica, como foi o caso dos chibchas. Cerâmica indígena, com motivos geomé tricos. 4. O contato com o colonizador Não resta dúvidas de que o contato com o colonizador branco europeu levou à dizimação desses grupos indígenas. Quando esta não ocorreu, o branco impôs, pela força, a expulsão dos grupos indígenas de suas áreas originais de ocupação, em nome dos interesses econômicos europeus. Tal fato alterou signifi - cativamente o modo de vida dos grupos indígenas, o que indiretamente contri buiu para seu extermínio. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 51 52 HISTÓRIA � Comente as características econômicas dos grupos indígenas norte-americanos. RESOLUÇÃO: A propriedade da terra e dos demais meios de produção era coletiva, assim como o regime de trabalho. Prevalecia entre os grupos a divisão do trabalho pelo critério do sexo. Viviam de caça, pesca, coleta de plantas e agricultura rudimentar (milho, algodão, batata, pimenta, amendoim e feijão). � Justifique a existência do totemismo entre os grupos indígenas. RESOLUÇÃO: Muitos grupos indígenas se consideravam descen dentes de um antepassado comum (animal ou planta), daí a existência de grupos cultuadores de totens. � Quais as formas e qual o papel das relações de pa rentesco nas tribos indígenas? RESOLUÇÃO: O clã constituía a base da organização social entre os indígenas, cuja unidade se fundamentava nas relações de parentesco. � (MODELO ENEM) – Considere as afirma ções sobre os indígenas norte-americanos: I. A unidade social era representada pelo clã, quer fosse matrilinear (linhagem feminina) ou patrilinear (linhagem masculina). II. A propriedade dos meios de produção e o trabalho eram coletivos. III. A religião era politeísta e animista, pos sibilitando a existência de grupos totêmicos. IV. Uma construção notável dos índios norte-americanos foi a cidade fortificada de Machu Picchu, a cerca de 600km de Cuzco. Sobre as asserções anteriores, deve-se afirmar que estão corretas: a) I, II e III, apenas. b) I, III e IV, apenas. c) II, III e IV, apenas. d) I, II e IV, apenas. e) todas. Resolução A afirmativa IV está incorreta, porque Machu Picchu é uma construção Inca e está localizada no Peru, portanto na América Andina. Resposta: A Exercícios Resolvidos Exercícios Propostos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 52 53HISTÓRIA � Caracterize o grupo esquimó. RESOLUÇÃO: Os esquimós localizavam-se na região ártica (Groenlân dia e Alasca); viviam da caça e da pesca; domesticaram o cão; e utilizavam instrumentos de pedra, marfim e osso. � (MODELO ENEM) – “Não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos [da América]; e, na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra”. (Michel de Montaigne. Ensaios, 1580-1588.) O trecho apresentado permite concluir que a) a opinião do autor expressa a interpretação elabo rada pelo Concílio de Trento, responsável pela contrarreforma. b) pensadores europeus se deram conta da relativi dade dos valores, hábitos e costumes vigentes em diferentes sociedades. c) a expansão marítima propiciou fecundo contato entre povos e culturas, com benefícios iguais para todos os envolvidos. d) o conhecimento de outras regiões do globo colaborou para reafirmar a versão bíblica da criação. e) os primeiros europeus que chegaram à América, sob influência do iluminismo, respeitaram a diversi dade cultural. RESOLUÇÃO: As primeiras impressões dos europeus sobre o Novo Mundo recém-descoberto geralmente demonstravam assombro e incom - preensão em relação aos povos ame ricanos. Montaigne, porém, como pensador renascen tista dotado de espírito crítico, relativiza a apreciação dos costumes dos povos ditos “selvagens”, quando comparados com os dos europeus. Resposta: B � (MODELO ENEM) – Observe a imagem. O culto a totens, muito comum entre os indígenas norte- americanos, reflete um costume derivado da crença: a) de que seriam descendentes de animais ou plantas. b) na existência de um único Deus. c) na existência de objetos enviados pelos deuses. d) de que seriam descendentes de um sacerdote humano em comum. e) em deuses originários dos astros. RESOLUÇÃO: Na sociedade clânica dos indígenas norte-americanos, os nativos acreditavam serem descendentes de antepassados comuns. Daí o culto a totens, pois, no caso, consideravam-se herdeiros de animais ou plantas. Resposta: A C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 53 54 HISTÓRIA 1. Primórdios e classificação No Brasil, estima-se que o povoamento data de aproximadamente dez mil anos. Recentemente, estudos feitos pela equipe de Niède Guidon (em São Raimundo Nonato, no Piauí), de Schmitz (na Bahia) e de André Prous (em Minas Gerais) apontam 40 mil anos de presença humana no Brasil. Mas, como são pesquisas arqueo lógicas ainda em curso, é necessário cautela para se fazer tais afirmações. Quando os portugueses che - garam ao Brasil, a população era de aproxi ma damente 3 milhões de pessoas distribuídas pelo território. De modo geral, o indígena brasileiro – se conside - rarmos a clássica tipologia do antropólogo Morgan – estava no estágio intermediário entre o Paleolítico Su perior e o Neolítico. Portanto, ainda vivia da caça, da pesca, da coleta vegetal, da prática de uma agricultura rudimentar e do início da cerâmica, e as tarefas dentro do grupo respeitavam a divisão sexual do trabalho. A maioria dos grupos desconhecia a tecelagem, o pastoreio, a agricultura inten siva e o uso dos metais, daí seu semino madismo. A primeira classificação do indígena brasileiro foi feita pelos jesuítas, que não utilizaram um critério técnico-cien tífico, baseando-se nas línguas e nas regiões ocupadas. Assim, os jesuítas criaram uma distinção entre os “tupis” (grupos do litoral, chamados de “índios de língua geral”) e os “tapuias” (grupos do interior, chamados de “índios de língua travada ”). Devemos ao alemão Karl von Den Steinen (1884) a pri meira classifi ca ção científi ca dos indíge nas bra sileiros sob a forma de “ nações”. Os in díge nas bra si lei ros, no mo men to da co lo nização, estavam di vi didos em vá rios gru pos ét ni cos, formados a par tir de qua tro tron cos lin - guís ticos: tu pi, nuarua que, jê e caraíba. 2. Principais grupos indígenas Tupis-guaranis ou tupinambás Entre as tribos que com põem esse tronco lin guís - tico, es tão os tupis, gua ranis, tu pinam bás, oiam pis, chiapas, guaia quis, omáguas, parin tin tins, caingás, caiguás, co camas, tamoios, tu pi ni quins, goi tacás, apapo - cu vas, maués, ca maiurás, auetés e mun du rucus. A região ocupada pelos tupis-guaranis, no mo mento da colonização por tu guesa, é difícil de ser deter mi nada, pois esse grupo promoveu frequentes migra ções internas e também pelo fato de que vários outros gru pos indígenas abandonaram a própria língua e assimi laram a língua guarani. Contudo, é certo que o território ocupado por esse grupo era vasto. Consta de relatos de cronistas, viajantes e naturalistas a sua presença na Guiana Francesa, no Brasil, no Paraguai, na Argentina, no Uruguai, na Bolívia, no Peru e no Equador. No Brasil, especificamente, esse grupo estava distribuído em quase todo o território. Havia grupos no Alto Amazonas, no Rio Urubu, na desembocadura do Tocan tins, no Alto Xingu, no Rio Tapajós, no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Paraná e no Rio de Janeiro, pre dominando a ocupa ção do litoral brasileiro, tanto que foi este o primeiro grupo a entrar em contato com os colonizadores. A economia desses grupos baseava-se na caça, na pesca, na co le ta vegetal e na prática de uma agricultura rudimentar. Cul tivavam mandioca, milho, batata, feijão e pimentão. A organização social res pei tava uma hierarquia com - pos ta da seguinte forma: tribo, aldeia, taba e, ocasio nal - men te, confederação– em casos de guerra ou aliança com outros gru pos, migrações e justiça. Naturalistas: viajantes que pesquisa vam e retratavam a fauna e a flora brasi lei ras. 55 Indígenas brasileiros Palavras-chave: • Seminômades • Grupos linguísticos • Cerâmica C4_1a_HISTORIA_JR_2022.qxp 13/05/2022 14:45 Página 54 55HISTÓRIA Nos momentos em que não era necessária a for ma - ção da confederação, o elo entre as ta bas era feito por um chefe comum, que exercia uma auto ridade de cará - ter militar. A li de rança de cada taba cabia ao cacique ou ao chefe, cujo poder era transmitido hereditaria mente. As relações de parentesco eram patrilineares, ou seja, prevalecia a descendência pela origem paterna no grupo. A cultura desse grupo é vasta, mas podemos con si - derar como elementos comuns a prática da antropofagia ritual – que consiste na consunção dos restos dos inimigos em festas –, a poligamia e a saudação la crimosa – a recepção aos bran cos expressando sua ale gria por meio de prantos. A religião era politeísta. Tupã era o deus mais poderoso, que se manifestava no relâm pago, no Sol e no fogo. Abaixo de Tupã, outras divindades asseguravam a vida dos homens, como Jaci (Lua), Rudá (amor), Cairé (Lua cheia) e Mboia (serpente guardadora das donzelas). Comum, também, era a prática de ritos funerários, utilizando como túmulos a própria habitação do morto. A decoração, a dança e a música compuseram a vida desse grupo, que ornamentava o próprio corpo, decorava as cerâmicas e também conhecia a arte plumária. Confeccio - navam instrumentos musicais, como flautas – feitas de bambus ou res tos de ossos –, apitos, maracas, buzinas e cornetas. Coroa radial da tribo Kaxinawá. Bonecas dos índios Karajá. Jês ou tapuias As principais nações desse tronco linguístico são os timbiras, aimorés, botocudos, piocobjês, auges, gran - ges, capiscrãs, tremembés, manajós, guajajaras, caiapós, acuéns, guaianás, caingangues, caracãs, miramomis, bororos e xavantes. Sua presença na Amazônia é anterior à dos tupis e nuaruaques. Provavelmente desalojados por esses grupos, passaram a ocupar o Xingu, região a partir da qual emigraram, atingindo vários dos atuais Estados brasileiros, como Pará, Maranhão, Pernambuco, Piauí, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e outros. Na economia desse grupo, encontramos carac - terís ticas semelhantes às dos tupis: caça, pesca, coleta vegetal e prática rudimentar da agricultura. Entretanto, possuíam uma forma mais elaborada de preparar os alimentos, utilizando o fogo para assar a carne e transformando cereais, como o milho, em farinha. Culti vavam batata, mandioca, algodão, feijão, banana e laranja. A organização social era fundamentada no grupo, liderado por um chefe ou capitão, que possuía obri - gações para com os membros e representava a coletividade nas relações com os demais grupos. A famí lia era poligâmica. Aos homens cabia o sustento de suas esposas, geralmente duas ou três. A religião era poli teísta, havendo a crença em um deus principal, criador dos homens, que recebeu nomes diversos nos grupos, como Maret-khmakniam (Velho Maret) ou Pataéma (o Celeste). A pajelança era constante entre os jês, prin cipal mente nos ritos funerários, em que os mortos eram sepultados em covas, sendo a terra sobre o corpo fortemente batida para impedir a volta do espírito e, ao lado, acesas fogueiras para afastar os espíritos maus. A produção de instrumentos musicais, como flautas e apitos, revela a prática da música e da dança, que, para esse grupo, estavam presentes em vários momentos da vida tribal (por exemplo, nas colheitas). Exemplo de cerâmica indíge na brasileira. Estatueta antropomorfa de cerâmica, de Santarém, PA. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 55 56 HISTÓRIA Nuaruaques ou maipures Os passés, aluagues, aruas, guaianás, banibas, iama - madis, macheiengas, atoraís, uiapichanas, guarás, goajiros, assim como os extintos manaus, tucunas, caquetios, acha - guas e cabres, compõem esse terceiro tronco linguístico. É o mais extenso grupo da América. Está presente na Flórida, nas Antilhas, no Orenoco, no Amazonas, no Alto Paraguai, na parte oriental da Bolívia, no Golfo de Maracaibo e nas Guianas. No Brasil, esse grupo se fez presente na Amazônia, em Roraima, no Amapá, na Ilha de Marajó e no Mato Grosso. Eram coletores, caçadores e pescadores, além de praticarem a agricultura. Sua organização social tinha por base a tribo, lide ra da por um chefe, com prerrogativas militares sobre o grupo. A poligamia e os casamentos exogâmicos eram frequentes. Na religião, como nos demais grupos, prevalecia o politeísmo e a divinização das forças da natureza, além de ritos funerários. Lâminas de machado polidas. Sua cerâmica pode ser considerada como a mais perfeita de todos os gru pos. Caraíbas ou caribas A exemplo dos nuarua ques, os caraíbas espa lha ram-se pela América, ocupan do regiões afastadas entre si. Sua presença ocor re nas Antilhas, na Vene zuela, nas Guianas, no Peru e no Brasil. No Brasil, a região original dos caraíbas foi, prova vel - mente, as cabeceiras dos rios Tapajós e Xingu, de onde se expandiram pela margem esquerda dos rios Amazonas, Piauí, Pernambuco e Mato Grosso. Entre os grupos que pertencem a esse tronco, pode - mos citar os cumanagotos, nepoios, acavaques, uaicas, arecunas, calinas, tairas, recuiens, pauxis, voiavas, apia - cás, palmelas, bacairis e os extintos tamanaques. O tronco caraíba, por ter ocupado uma vasta região e pelo fato de as tribos manterem-se afastadas entre si, é subdividido em dois ramos, por razões linguís ticas: os setentrionais e os meridionais. Sua economia se baseava na caça, na coleta vegetal, na pes ca e na agricultura rudimentar de milho, mandioca e feijão. A tribo era a base da organização social e a coleti - vidade era liderada por um chefe. Praticavam a antropofagia ritual, a poligamia e o poli - teís mo. Provavel mente, foram os primeiros indígenas a entrar em contato com Cristóvão Colombo e também os primeiros a se rivalizarem com os brancos quando do seu estabelecimento no continente. O DESAPARECIMENTO DOS ÍNDIOS NA BAHIA “A gente que de 20 anos a esta parte é gastada nesta Bahia, parece coisa, que se não pode crer; porque nunca ninguém cuidou, que tanta gente se gastasse nunca, quanto mais em tão pouco tempo; porque nas 14 igrejas que os padres tiveram, se jun - taram 40.000 almas, estas por conta, e ainda pas saram delas com a gente, com que depois se forneceram, das quais se agora as três Igrejas que há tiverem 3.500 almas será muito… Veja-se o que isto podia somar, se chegam ou passam de 80 mil almas… E se per gun - tarem agora por tanta gente, dirão que morreu.” (Padre José de Anchieta. Informação dos primeiros aldeamentos da Bahia, 1583.) População indígena por área cultural – 1982 Áreas culturais População % Norte-Amazônico 49 485 27 Solimões-Juruá-Purus 32 095 17 Guaporé 6 111 3 Tapajós-Madeira 9 564 5 Alto Xingu 2 533 1 Tocantins-Xingu 12 898 7 Pindaré-Gurupi 6 616 4 Leste-Nordeste 30 953 17 Paraguai-Paraná 19 974 11 Tietê-Uruguai 15 256 8 Total 185 485 100 C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 56 57HISTÓRIA Leitura 1 – As origens do homem ame - ricano O que teria levado os primeiros gru pos de povoadores a atravessar o Estreito de Bering e a fixar-se na América via Alasca? Em um passado longínquo, que cor - res ponde ao final do período que os arqueólogos e historiadores denominam Idade Paleolítica (Idade da Pedra Las - cada), e os geólogos cha mam de Plisto - ceno, a Ásia e a América encon travam-se unidas por uma faixa de terra que, desa - parecida, deu lugar ao Estreito de Bering. É tarefa ainda impraticável pre cisar rigo - rosamente uma data para a che gada dos povoadores asiáticos à Amé rica. Os recentes conhecimentos arqueo lógi cos situam as pri meiras migra ções entre 40000 e 10000 a.C. – muito provavel - mente em cerca de 15000 a.C. Existem provas de que, por volta de 9000 a.C., já havia homens na América. Fica, portanto, superada a tesedo au tocto nismo, isto é, de que o homem ame ricano seria origi - nário do pró prio conti nente. Na realidade, como sustenta o alocto nismo, os primi - tivos habi tantes da Amé rica eram originá - rios da Ásia Oriental (Sibé ria). A busca da sobrevivência Assim, em um dos últimos períodos gla ciais, bandos de caçadores primitivos, perse guindo manadas de grandes animais selvagens (bisões), deslocaram-se da Sibéria para o Alasca, constituindo uma corrente migratória e iniciando o povoa - mento da América. “Conquanto haja discordância com referência à data da entrada do homem, é unânime a crença de que os primeiros imigrantes viviam em pequenos bandos, compostos por famílias aparentadas. Os homens eram prin cipalmente caçadores, e as mulheres coleta vam provavel mente plantas selvagens comes tíveis e exe - cutavam várias tarefas domésticas, tais como a preparação de peles para usar como proteção contra o vento, a chuva e o frio, e o trançado de cestos. Os instrumentos de pedra não eram especia - lizados e o mesmo implemento servia muitas vezes para cortar, raspar e bater”. (B.J. Meggers. América Pré-Histórica. São Paulo: Paz e Terra, p. 27.) Leitura 2 – A América que os europeus encontraram “(…) Havia nas escolas grande nú - mero de jovens, levados volunta riamente por seus pais, os quais tinham precep - tores e professores que os ensinavam e orien tavam em louváveis exercícios, ofe - re cendo-lhes conhecimentos para serem bem educados, para terem respeito aos mais velhos e para servir e obedecer. Para que fossem agradáveis aos senhores, ensi na vam-lhes a cantar e a dançar. Aprendiam exercícios de guerra: atirar com boa pontaria uma flecha, um arpão, uma vara, manejar o escudo e lutar com espada. Dormiam mal e comiam pior, para que desde pequenos se preparas - sem para o trabalho e não fossem pessoas acomo dadas. Excepcionalmente havia, nos mes mos estabelecimentos, filhos de senho res e nobres que recebiam um tratamento particular: traziam comida de suas casas; ficavam sob o cuidado de velhos e anciãos que continua mente os admoesta vam para serem virtuosos e viver castamente, para serem comedidos na alimentação, para jejuar, para moderar o passo e andar devagar e com reverência. Costuma vam prová-los em alguns traba lhos e exer cícios pesados. Conside ra vam muito as incli - nações dos jovens de mais idade. Aqueles que se achavam aptos para a guerra, tendo idade suficiente, esperavam a ocasião certa para prová-lo. Com o pretexto de levar co - mida e mantimentos aos soldados, envia - vam-nos à guerra, para que obser vassem o medo. Muitas vezes levavam carrega men - tos pesados para que de mons trassem seu valor, e com maior faci lidade fossem ad - mitidos na companhia dos soldados. As - sim, acontecia irem le van do carrega men to ao campo de batalha e voltarem capitães condecorados; outros queriam se sobres - sair tanto que caíam prisioneiros, ou até mesmo morriam; os que não queriam ser presos esforçavam-se ao máximo para não se tornarem cativos dos seus inimigos. Os que assim se apli cavam eram comumente os filhos de gente nobre e valorosa e conseguiam o seu desejo. Outros que se inclinavam às ativi dades do templo, às quais nós chamamos ecle - siásticas, estando na idade adequada, saíam da escola e eram conduzidos aos apo sentos do templo reservados aos reli gio sos. Recebiam as insígnias ecle si ás ti cas, e ali tinham seus prelados e pro fes so res que os ensinavam tudo o que dizia res peito à religião e ao culto. Aquele que se tor nava eclesiástico fazia-o por toda sua vida. Os mexicanos criavam seus filhos com ordem e harmonia. Se agora houves - se essa mesma ordem e se construís - semos seminários para educar os jovens, sem dúvida floresceria a religião cristã entre os índios". (Joseph de Acosta. Historía Na tu ral y Moral de las Indias, 1590, p. 505-6.) 1. As origens do homem americano 2. A América que os europeus encontraram Exercícios Resolvidos � “Os Yanomami consti tuem uma sociedade indí gena do norte da Amazônia e formam um amplo conjunto linguístico e cultu ral. Para os Yanomami, urihi, a ‘terra-floresta’, não é um mero cenário inerte, objeto de explo ração econômica, e sim uma entidade viva, animada por uma dinâmica de trocas entre os diversos seres que a povoam. A floresta possui um sopro vital, wixia, que é muito longo. Se não a desmatarmos, ela não morrerá. Ela não se decompõe, isto é, não se desfaz. É graças ao seu sopro úmido que as plantas crescem. A floresta não está morta, pois, se fosse assim, as florestas não teriam folhas. Tampouco se veria água. Segundo os Yanomami, se os brancos os fizerem desa - parecer para desmatá-la e morar no seu lugar, ficarão pobres e acabarão tendo fome e sede.” (B. Albert. “Yanomami, o espírito da floresta”. Almanaque Brasil Socioambiental. São Paulo: ISA, 2007. Adaptado.) De acordo com o texto, os Yanomami acre - ditam que a) a floresta não possui organismos decom - positores. b) o potencial econômico da floresta deve ser explorado. c) o homem branco convive harmonicamente com urihi. d) as folhas e a água são menos importantes para a floresta que seu sopro vital. e) wixia é a capacidade que tem a floresta de se sustentar por meio de processos vitais. C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 57 58 HISTÓRIA � Qual é o significado da expressão “eurocentrismo” e qual é sua influência na visão que o português teve em relação às populações indígenas do Brasil? RESOLUÇÃO: Eurocentrismo significa o predomínio da visão político-cultural da civilização europeia. Esta levou os portugueses a conside rarem-se, preten samente, superiores em relação aos povos indígenas. � Faça uma caracterização geral dos grupos indígenas brasileiros. RESOLUÇÃO: Viviam da caça, da pesca, da coleta vegetal e da agricultura rudi - mentar. Desconheciam a tecelagem, o pastoreio, a agricultura intensiva, o uso de metais e eram seminômades. O trabalho era dividido de acordo com o sexo dos seus indivíduos. � Qual é a divisão das nações indígenas, segundo seus troncos linguísticos? RESOLUÇÃO: Tupis-guaranis ou tupinambás; jês ou tapuias; nuaruaques ou maipures; e caraíbas ou caribas. � (MODELO ENEM) – As primeiras notícias sobre a Amazônia datam do século XVI. Em carta endereçada ao rei de Portugal, em 1538, Diogo Nunes de Quesada afirmava: “Esta terra está sobre o rio da Prata e o Brasil pela terra adentro, e por esta terra vem o grande rio das Amazonas. É bem povoado da mesma gente bem lúcida. E, da outra banda do rio, há muita povoação da mesma gente de maneira que de uma banda e da outra está bem povoada”. Infere-se da missiva que a) as riquezas minerais, que tanto atraíam os europeus, estavam à vista, esperando para ser exploradas. b) a Amazônia brasileira apresentava considerável população, formada por nações e tribos indígenas. c) era urgente envolver a Igreja Católica no processo de ocupação e de colonização da área. d) se antevia a utilização de mão de obra escrava africana na região amazônica. e) estimular o extrativismo vegetal era a garantia da ocupação e posse da Amazônia. Resolução Mera interpretação de texto, já que no enun - ciado consta o seguinte trecho: “a floresta possui um sopro vital, wixia, que é muito longo”. Resposta: E � “O índio do Xingu, que ainda acredita em Tupã, assiste pela televisão a uma partida de futebol que acontece em Barcelona ou a um show dos Rolling Stones na praia de Copacabana. Não obstante, não há que se iludir: o índio não vive na mesma realidade em que vive um morador do Harlem ou de Hong Kong, uma vez que são distintas as relações dessas diferentes pessoas com a realidade do mundo moderno; isso porque o homem é um ser cultural, que se apoia nos valores da sua comunidade, que, de fato, são os seus.” (F. Gullar. Folha de S.Paulo, 19 out. 2008. Adaptado.) Ao comparar essas diferentes sociedades em seu contexto histórico, verifica-se que a) pessoas de diferentes lugares, por fazerem uso de tec no logias de vanguarda, desfrutam da mesma realidade cultural. b)o índio assiste ao futebol e ao show, mas não é capaz de entendê-los, porque não perten cem à sua cultura. c) pessoas com culturas, valores e relações diversas têm, hoje em dia, acesso às mesmas informações. d) os moradores do Harlem e de Hong Kong, devido à ri queza de sua História, têm uma visão mais aprimorada da realidade. e) a crença em Tupã revela um povo atrasado, enquanto os moradores do Harlem e de Hong Kong, mais ricos, vivem de acordo com o presente. Resolução Ao comparar o índio do Xingu com um morador do Harlem (Nova York) ou de Hong Kong, assistin do a uma partida de futebol ou a um show, pode-se concluir que pessoas com culturas, valores e relações diversas têm, hoje em dia, acesso às mesmas informações. Resposta: C � A História do Brasil inicia-se com a chegada dos portu gueses porque a) antes disso não havia a História do Brasil. b) até essa época o Brasil era totalmente despovoado. c) passou a ser contada do ponto de vista de Portugal. d) os índios não possuem história nem sabem escrevê-la. e) o ponto de vista dos índios é inferior e não deve ser levado a sério. Resolução Essa é uma visão eurocêntrica da História do Brasil. Resposta: C Exercícios Propostos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 58 59HISTÓRIA RESOLUÇÃO: Mera interpretação de texto. A carta de Diogo Nunes de Quesada (não se sabe ao certo quem seria esse personagem) nos leva a confirmar o povoamento da Amazônia, tendo como base a expressão “está bem povoada”. Contudo, não é possível afirmar – mas é possível deduzir – que essa população era formada por muitas nações e tribos, pois a expressão “povoação da mesma gente” não identifica variedade étnica. Resposta: B � No início do século XIX, o naturalista alemão Carl Von Martius esteve no Brasil em missão científica para fazer observações sobre a flora e a fauna nativa e sobre a sociedade indígena. Referindo-se ao indígena, ele afirmou: “Permanecendo em grau inferior da humanidade, moralmente, ainda na infância, a civilização não o altera, nenhum exemplo o excita e nada o impulsiona para um nobre desenvolvimento progressivo (…). Esse estranho e inexplicável estado do indígena ame ricano, até o presente, tem feito fracassarem todas as tentativas para conciliá-lo inteiramente com a Europa vencedora e torná-lo um cidadão satisfeito e feliz.” (Carl Von Martius. O estado do direito entre os autóctones do Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1982.) Com base nessa descrição, conclui-se que o naturalista Von Martius a) apoiava a independência do Novo Mundo, acreditan do que os índios, diferentemente do que fazia a mis são europeia, respeitavam a flora e a fauna do País. b) discriminava preconceituosamente as populações originárias da América e advogava o extermínio dos índios. c) defendia uma posição progressista para o século XIX: a de tornar o indígena cidadão satisfeito e feliz. d) procurava impedir o processo de aculturação, ao descrever cientificamente a cultura das populações originárias da América. e) desvalorizava os patrimônios étnicos e culturais das sociedades indígenas e reforçava a missão “civiliza dora europeia”, típica do século XIX. RESOLUÇÃO: O texto do naturalista Von Martius afirma que os índios não conseguiram adaptar-se à cultura dos dominadores europeus, apesar de todas as tentativas reali zadas. Com isso, ele ressalta a importância cultural da Europa e desqualifica a cultura indígena. Resposta: E � ”Os vestígios dos povos Tupi-guarani encontram-se desde as Missões e o rio da Prata, ao sul, até o Nordeste, com algumas ocorrências ainda mal conhecidas no sul da Amazônia. A leste, ocupavam toda a faixa litorânea, desde o Rio Grande do Sul até o Maranhão. A oeste, aparecem (no rio da Prata) no Paraguai e nas terras baixas da Bolívia. Evitam as terras inundáveis do Pantanal e marcam sua presença discretamente nos cerrados do Brasil central. De fato, ocuparam, de preferência, as regiões de floresta tropical e subtropical.” (A. Prous. O Brasil antes dos brasileiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.) Os povos indígenas citados possuíam tradições culturais específicas que os distinguiam de outras sociedades indígenas e dos colonizadores europeus. Entre as tradições tupi-guarani, destacava-se a) a organização em aldeias politicamente independentes, diri - gidas por um chefe, eleito pelos indivíduos mais velhos da tribo. b) a ritualização da guerra entre as tribos e o caráter semissedentário de sua organização social. c) a conquista de terras mediante operações militares, o que permitiu seu domínio sobre vasto território. d) o caráter pastoril de sua economia, que prescindia da agricultura para investir na criação de animais. e) o desprezo pelos rituais antropofágicos praticados em outras sociedades indígenas. RESOLUÇÃO: As sociedades indígenas tupis e guaranis eram distintas das demais justamente pela prática da agricultura, além de serem coletoras, o que lhes permitiu organizações semissedentárias. Resposta: B � (ALBERT EINSTEIN) – “Mil anos antes da “descoberta” do Brasil pelos europeus, um grande movimento de migração parece ter se iniciado no sul da floresta amazônica. Os povos que se moviam falavam línguas aparentadas, de uma grande família de línguas que denominamos tupi-guarani. Praticavam a coivara e eram bons caçadores e pescadores.” (Norberto Luiz Guarinello. Os primeiros habitantes do Brasil, 2009. Adaptado.) A partir do texto e de seus conhecimentos, pode-se afirmar que os referidos povos a) limitavam-se ao extrativismo e alimentavam-se principal - mente de moluscos, daí serem também chamados de povos dos sambaquis. b) eram pacíficos e estabeleceram relações amistosas com outros grupos nativos e, posteriormente, com os coloni - zadores portugueses. c) eram originários da Ilha de Marajó e dominavam a cerâmica, o que permitia a conservação de mantimentos e a produção de urnas funerárias. d) foram dizimados por grupos indígenas procedentes do litoral pacífico do continente, daí sua cultura ter sido extinta antes da conquista portuguesa. e) praticavam a agricultura e tinham bom domínio da navegação, o que contribuiu para sua expansão pelas terras posteriormente chamadas de Brasil. RESOLUÇÃO: A formulação da questão implica mais conhecimentos dos candidatos do que informações propriamente dedutíveis do enunciado. Estas últimas limitam-se à prática da agricultura, dedutível pela referência à emprego da coivara. Resposta: E C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 59 60 HISTÓRIA 1. As relações com o branco: as políticas indigenistas Os primeiros 30 anos da colonização brasileira, o chamado período pré-colonizador, foram marcados por um profundo desinteresse de Portugal pelas terras con - quis tadas, pois estas não ofereciam riqueza aparente. Pero Vaz de Caminha, ao descrever os habitantes da terra, escreveu que se tratava de gente “boa e de boa sim plicidade”, que vivia em pleno estado de pureza e inocência, mas – dentro da sua visão eurocêntrica – afir - ma va também que eram “gente bestial e de pouco saber”. Porém, com o declínio do Império no Oriente, Portu - gal voltou os olhos para o Brasil, buscando suprir a falência co mercial com as Índias. Nesse momento, os indí genas pas saram a sentir o peso da conquista e do contato com o branco. A ocupação das terras brasileiras para a produção da cana-de-açúcar e a escolha pela escravidão do negro africano – comércio altamente lucrativo de mão de obra – implicaram na tomada dos territórios indígenas. Esse fato marcou os primeiros conflitos, datados de 1547, quando os tupinambás massacraram o donatário da Bahia, Francisco Pereira Coutinho. Somando-se a esse fato, o sistema de capitanias he - re ditárias redundava em fracasso e, em 1548, D. João III de ci diu pela criação e implantação imediata do Governo Geral. Tomé de Souza chegou ao Brasil em 1549. Com as ordens dadas por D. João III, veio a de “varrer” os tupi - nambás, “destruindo-lhes as aldeias e povoações e matando e cativandoaquela parte deles que vos parecer que basta para seu castigo e exemplo de todos”. Os jesuítas vieram acompanhando Tomé de Souza e, contrariamente aos portugueses, acreditavam na pos si - bi li dade de converter os índios por meio da pre gação e do exem plo de vida. Assim, criaram as reduções e missões para catequizar os gentios, convertendo-os ao cato licismo. Entretanto, não podemos colocar os jesuítas como defen sores intransigentes dos grupos indígenas, pois, ao considerarem a organização tribal e a prática da pajelança como empecilhos à catequese, nada faziam para deter o processo de destribalização feito pelos portugueses e que, na maioria das vezes, vitimava centenas de gentios. Colônia Durante a fase de colônia, a Igreja Católica foi susten táculo ideológico da submissão do índio ao branco europeu. A Bula Romanus Pontifex, do Papa Nicolau V, de 1454, garantia aos portugueses o direito de conquistar terras novas e submeter as populações bárba ras nelas existentes. Em 1529, a Bula Inter Arcana, do Papa Clemente VII, reafirmou esse direito, justificando que esses povos preci sa vam “participar do reino dos céus”, se neces - sário pela força. As leis portuguesas do século XVI eram dúbias com relação aos indígenas. Proibiam a escravização do indí ge - na, mas ao mesmo tempo abriam essa possibilidade em caso de “guerra justa” e com permissão do rei. Em 1605, foi declarada a total liber da de dos gentios. Mas, naquele século, essa determi nação foi anulada e restabelecida várias vezes. No final do século XVII, os jesuítas receberam os poderes temporal e espiritual sobre as populações indígenas. Tais poderes foram revo - gados em 1757 pelo Marquês de Pombal, que deter mi - nou também a proibição do ensino da língua nativa e tor - nou obrigatório o ensino de português aos gentios, estimulou os casamentos mistos e reafirmou a liberdade indígena. Ao final do século XVIII, as leis de Pombal foram revoga das e o princípio de “guerra justa” voltou a imperar, além de ser estabelecido o livre acesso de brancos às áreas indígenas. Império Nos primeiros anos da independência, José Boni fá - cio recebeu apoio ao defender a tese de que todos de - ve riam participar da nova nação. A integração do indíge - na, se gun do essa tese, deveria ser feita com a retomada da cate quese, que foi entregue aos padres capuchinhos italianos. Gentio: aquele que professa o paganismo; por extensão, o indígena. Guerra justa: aquela em que o indígena toma a iniciativa de agredir o branco; conceito criado pelo go verno português, segundo o qual a guerra contra os indígenas seria permitida se eles atacassem os portugueses. 56 Política indigenista no Brasil Palavras-chave: • Gentios • Guerra justa • Missões/jesuítas • Tutelados C4_1a_HISTORIA_JR_2022.qxp 13/05/2022 14:45 Página 60 61HISTÓRIA Em termos legais, foi aprovada, no ano de 1831, a lei que estabelecia a condição de “órfão” para os índios, a serem tutelados por juízes de paz. O Ato Adicional de 1834 determinava que as Assembleias Legislativas Pro - vin ciais eram as responsáveis pelo processo de civilização do indí gena. No ano seguinte, aprovou-se o regimento das mis sões, que estabeleceu a criação de diretorias-gerais dos índios em cada província do Império, sendo os dire to res nomeados pelo regente ou imperador, tornou obri ga tório o serviço militar e proibiu a escravização do indígena. Com a aprovação da Lei de Terras, de 1850, que não permitia o direito de posse, mas apenas o de proprie da - de, o índio foi colocado em uma situação real de “invasor da terra”, pois não possuía o título da propriedade que ocupava, sendo em muitos locais expulso e desalojado, o que resultou em maiores conflitos e dizimação. Em 1854, o Decreto n.° 1.318 regulamentou a Lei de Terras e estabeleceu a demarcação de terras indígenas por auto ridades locais, o que, em diversas regiões, como em São Paulo e Pernambuco, não foi feito. República Da mesma forma que a primeira Constituição Bra si - leira (1824), a de 1891 não definiu nada sobre a questão indíge na, apenas transferiu a responsa bili dade para os Estados, que se orientaram por um sentimento paterna - lis ta em relação aos gentios, considerados “ór fãos” des de a Lei de 1831. No início do século XX, com a grande imi gração europeia do final do século XIX, os conflitos entre brancos e indígenas se ampliaram, devido ao pro cesso de ocupação de terras pelos europeus no sul do País. O Brasil passou a ser acusado, interna cio nal - mente, de estar promovendo uma política de exter - mínio dos índios. Foi nesse contexto que surgiu, em 1910, a ideia de criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), cuja direção coube ao marechal Cândido Rondon. A política do SPI para a questão indígena limitava-se ao trabalho de demarcação de reservas, pacificação das tribos e integração do índio à sociedade brasileira sem a utilização do recurso da força. A Rondon uniram-se oficiais do Exército, enge nhei - ros, cientistas, médicos, antropólogos e cineastas. Somente com esse esforço passou a haver o reconhecimento da dignidade da figura do índio, bem como uma política para os povos que habitam o território brasileiro. Foi a partir do SPI que o elemento indígena passou a compor artigos das Constituições Nacionais. Em 1967, foi criada a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), em substituição ao SPI. Em 1969, foi aprovado o “Estatuto do Índio”, que se transformou na Lei n.° 6.001, de 19 de dezembro de 1973. Pela nova legislação, fica definido que os indígenas são tutelados pelo Estado por meio da FUNAI e consi de - rados “relativamente capazes”, o que significa atribuir ao indígena os mesmos foros de um adolescente de 16 a 17 anos, segundo essa lei. Cabe à FUNAI demarcar as reservas indígenas, protegê-las e desenvolver pro gramas para a integração gradual do índio à sociedade brasileira. Porém, os indígenas, hoje em dia, não se colocam mais em uma atitude passiva de aceitar as políticas deter mi na das pelos brancos e padecer suas conse quên - cias. Atual mente, reúnem-se em nações que discutem e deliberam sobre questões de seu interesse, preten - dendo ter sobera nia em suas decisões, apesar de a Constituição de 1988 determinar, no seu artigo 22, inciso XIV, que “compete priva ti vamente à União legislar sobre populações indígenas”. � Em muitos jornais, encontramos charges, qua - drinhos, ilustrações, inspi - rados nos fatos noticiados. Veja um exemplo: (Miguel. Jornal do Commercio, 22 ago. 1993.) O texto que se refere a uma situação seme - lhante à que inspirou a charge é: a) “Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida, À sombra de uma cruz, e escrevam nela – Foi poeta – sonhou – e amou na vida.” (Álvares de Azevedo. Poesias escolhidas. Rio de Janeiro/Brasília: José Aguilar/INL,1971.) b) “Essa cova em que estás Com palmos medida, é a conta menor que tiraste em vida. É de bom tamanho, Nem largo nem fundo, É a parte que te cabe deste latifúndio.” (João Cabral de Melo Neto. Morte e Vida Severina e outros poemas em voz alta. Rio de Janeiro: Sabiá, 1967.) c) “Medir é a medida mede A terra, medo do homem, a lavra; lavra duro campo, muito cerco, vária várzea.” (Mário Chamie. Sábado na hora da escuta. São Paulo: Summus, 1978.) d) “Vou contar para vocês um caso que sucedeu na Paraíba do Norte Política: neste contexto, conjunto de ações governamentais. Exercícios Resolvidos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 61 62 HISTÓRIA � Em linhas gerais, defina a política indigenista por tu gue sa do período colonizador. RESOLUÇÃO: Portugal nunca teve uma política clara em relação aos povos indí - ge nas; ao contrário, durante o período colonizador os portu gue - ses marcaram-se pela dubiedade de posições, ora optando pela escravização dos gentios, ora lhes concedendo a liberdade – e esta com o direito português à “guerra justa”. Essas políticas eram es - ta belecidas, via de regra, conforme as necessidades de mão de obra. � Esclareça a atual condiçãodo indígena prevista pela Constituição de 1988. RESOLUÇÃO: Pelo texto constitucional, os indígenas ainda são considerados tutelados pelo Estado. � I. “O número de índios no Brasil vem dimi nuin do desde a época do descobrimento. As es ti ma tivas cal culam entre 2 e 5 milhões o núme ro de indíge nas na época do desco bri - mento. Hoje essa popu lação está reduzida a mais ou me nos 200 mil, sen do que a maioria se desen raizou de seu lugar de origem.” II. “Distribuída no Brasil em mais de 150 povos e falando mais de 100 línguas, essa população não pode ser tratada como um todo homogê neo. Apesar de haver semelhanças, cada povo pos sui costumes próprios.” Como consequência das informações contidas nos fragmentos de texto I e II, com relação à população indígena bra sileira, podemos afir mar: a) A colonização significou, para a população indí gena, extermí nio em massa e escravidão. b) Levando-se em consideração a história do contato entre brancos e índios, não houve total dizimação dos indígenas e nenhuma grande modificação es pa cial na sua distribuição. c) A relação que essa população manteve com a so cie dade implantada desde 1500 foi sempre hete rogênea, dada a diver sidade tribal. d) A heterogeneidade tribal não tem sido um empe cilho à política indigenista. e) Deve ter havido uma interiorização da população in dí gena, devido à expansão colonizadora, no sen tido norte-sul. RESOLUÇÃO: O texto demonstra que o contato com o homem foi destruidor para a sua civilização. Resposta: A com um homem que se chamava Pedro João Boa-Morte, lavrador de Chapadinha: talvez tenha morte boa porque vida ele não tinha.” (Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.) e) “Trago-te flores, – restos arrancados Da terra que nos viu passar E ora mortos nos deixa e separados.” (Machado de Assis. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1986.) Resolução A charge reproduzida nesta questão refere-se ao genocídio dos índios, sugerindo que as terras que lhes são destinadas são as de suas covas. O mesmo se diz a respeito dos agricultores “sem-terra”, nos versos transcritos de João Cabral de Melo Neto. Resposta: B � (FGV – MODELO ENEM) – “O primeiro testemunho sobre a antropofagia na América foi registrado por Álvarez Chanca (...) em 1493. (...) Registrada a abominação antropofágica, os monarcas espanhóis autorizam em 1503 a escravidão de todos os caraíbas pelos colonos. No litoral brasileiro, os tupinambás, do grupo tupi, tinham o hábito do canibalismo ritual (...). Prova de barbárie e, para alguns, da natu reza não humana do ameríndio, a antropofagia condenava as tribos que a praticavam a sofrer pelas armas portuguesas a ‘guerra justa’ e do cativeiro perpétuo em 1557, por terem devo - rado no ano anterior vários náufragos portu - gueses, entre os quais se encontrava o primeiro bispo do Brasil”. (Luís Felipe de Alencastro. Folha de S.Paulo, 12 out. 1991.) A partir do fragmento é correto concluir que: a) as tribos tupiniquins, aliadas aos franceses, acredita vam na justiça e na importância da guerra justa como capaz de permitir a supre macia contra tribos inimigas. b) conforme determinava a legislação de Portugal e da Espanha até o início do século XIX, apenas os nativos da América que prati cavam o canibalismo foram escravizados. c) a escravização dos ameríndios foi legal e efetiva apenas até a entrada dos primeiros homens escravos africanos na América, a partir da segunda metade do século XVII. d) o estranhamento do colonizador europeu com a prática da antropofagia por parte dos nativos da América serviu de pretexto para a escravização desses nativos. e) portugueses e espanhóis, assim como a Igreja Católica, associavam a desumani - dade dos índios ao fato de esses nativos insis tirem na prática da guerra justa. Resolução Interpretação de texto. Deve-se obser var, porém, que a escravização de índios pelos por - tu gueses ultrapassou largamente o pretex to da antropofagia praticada por deter minadas tribos. Resposta: D Exercícios Propostos C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 62 63HISTÓRIA � (FUVEST – MODELO ENEM) – "O isolamento não pode ter características permanentes, visando à manutenção do índio em seu estado primitivo. Com o avanço das frentes pioneiras, esse contato é inevitável e o índio deve ser preparado para esse contato sem choques bruscos que possam trazer desequilíbrios à comunidade." Este depoimento do General Bandeira de Mello, presidente da FUNAI nos anos 70, defende a) a integração por intermédio de projetos econômicos comuns entre os grupos privados e as comunidades indígenas, sem interferência estatal. b) o direito de as empresas extrativas e pastoris adquirirem a posse das reservas de importância estratégica, utilizando mão de obra indígena. c) a tese de que não se pode resolver os problemas dos índios às custas dos trabalhadores rurais, propondo que os novos assentamentos sejam feitos com base em cooperativas. d) a integração lenta, gradativa e progressiva dos índios à socie - dade brasileira, como condição de se evitar sua margi - nalização. e) a integração como decisão autônoma das comunidades indígenas, garantindo-lhes, enquanto isso, a posse de suas terras por meio da criação de "reservas". RESOLUÇÃO: Há uma grande discussão entre os antropólogos a respeito da preservação da cultura indígena, por meio do isolamento total ou da sua integração à sociedade brasileira. O primeiro grupo acredita que os indígenas devem viver isolados para que sua cultura possa sobreviver. O segundo, por acreditar que o contato cultural é inevitável, busca integrá-lo da melhor maneira possível. Resposta: D � Os textos referem-se à integração do índio à chamada civilização brasileira. I. “Mais uma vez, nós, os povos indígenas, somos vítimas de um pensamento que separa e que tenta nos eliminar cultural, social e até fisicamente. A justificativa é a de que somos apenas 250 mil pessoas e o Brasil não pode suportar esse ônus. (...) É preciso congelar essas ideias colonizadoras, porque elas são irreais e hipócritas e também genocidas. (...) Nós, índios, queremos falar, mas queremos ser escutados na nossa língua, nos nossos costumes.“ (Marcos Terena, presidente do Comitê Intertribal Articulador dos Direitos Indígenas na ONU e fundador das Nações Indígenas, Folha de S.Paulo, 31 ago. 1994.) II. ”O Brasil não terá índios no final do século XXI (...) E por que isso? Pela razão muito simples que consiste no fato de o índio brasileiro não ser distinto das demais comunidades primitivas que existiram no mundo. A história não é outra coisa senão um processo civilizatório, que conduz o homem, por conta própria ou por difusão da cultura, a passar do paleolítico ao neolítico e do neolítico a um estágio civilizatório.” (Hélio Jaguaribe, cientista político. Folha de S.Paulo, 2 set. 1994.) Pode-se afirmar, segundo os textos, que a) tanto Terena quanto Jaguaribe propõem ideias inadequadas, pois o primeiro deseja a aculturação feita pela “civilização branca”, e o segundo, o confinamento de tribos. b) Terena quer transformar o Brasil numa terra só de índios, pois pretende mudar até mesmo a língua do país, enquanto a ideia de Jaguaribe é anticons titu cional, pois fere o direito à identidade cultural dos índios. c) Terena compreende que a melhor solução é que os brancos aprendam a língua tupi para entender melhor o que dizem os índios. Jaguaribe é de opinião que, até o final do século XXI, seja feita uma limpeza étnica no Brasil. d) Terena defende que a sociedade brasileira deve respeitar a cultura dos índios, e Jaguaribe acredita na inevitabilidade do processo de aculturação dos índios e de sua incorporação à sociedade brasileira. e) Terena propõe que a integração indígena deve ser lenta, gradativa e progressiva, e Jaguaribe propõe que essa integração resulte de decisão autônoma das comunidades indígenas. RESOLUÇÃO: Outra alternativa que se explica por si mesma, uma vez que se refere a interpretação de textos. O primeirodeles expressa a difícil situação em que se encontra a cultura indígena no Brasil, nas palavras de uma de suas principais lideranças. Já o pensamento de Hélio Jagua ribe é de que o processo histórico está atrelado a um inexorável determinismo, sem atentar para os valores culturais que diversificam e peculiarizam as comunida des humanas. Resposta: D C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 63 64 HISTÓRIA � ”A experiência que tenho de lidar com aldeias de diversas nações me tem feito ver, que nunca índio fez grande confiança de branco e, se isto sucede com os que estão já civilizados, como não sucederá o mesmo com esses que estão ainda brutos.” (M. Noronha. Carta a J. Caldeira Brant. 2 jan. 1751. Apud M. M. Chaim. Aldeamentos indígenas (Goiás: 1749-1811). São Paulo: Nobel; Brasília: INL, 1983. Adaptado.) Em 1749, ao separar-se de São Paulo, a capitania de Goiás foi governada por D. Marcos de Noronha, que atendeu às diretrizes da política indigenista pombalina que incen tivava a criação de aldeamentos em função a) das constantes rebeliões indígenas contra os brancos colonizadores, que ameaçavam a produção de ouro nas regiões mineradoras. b) da propagação de doenças originadas do contato com os colonizadores, que dizimaram boa parte da popu lação indígena. c) do empenho das ordens religiosas em proteger o indígena da exploração, o que garantiu a sua supre macia na administração colonial. d) da política racista da Coroa Portuguesa, contrária à miscigenação, que organizava a sociedade em uma hierarquia dominada pelos brancos. e) da necessidade de controle dos brancos sobre a popu la ção indígena, objetivando sua adaptação às exigên cias do trabalho regular. RESOLUÇÃO: Antes mesmo de expulsar os jesuítas, pondo fim à atividade desses sacerdotes na catequese e à acultu ração dos indígenas (1759), o marquês de Pombal já demons trava interesse em inserir os nativos na sociedade luso-brasileira, para que se integrassem na força de trabalho colonial. Resposta: E � ”O índio era o único elemento então disponível para ajudar o colonizador como agricultor, pescador, guia, conhecedor da natureza tropical e, para tudo isso, deveria ser tratado como gente, ter reconhecidas sua inocência e alma na medida do possível. A discussão religiosa e jurídica em torno dos limites da liberdade dos índios se confundiu com uma disputa entre jesuítas e colonos. Os padres se apresentavam como defensores da liberdade, enfrentando a cobiça desenfreada dos colonos.” (J. Caldeira. A nação mercantilista. São Paulo: Editora 34, 1999. Adaptado.) Entre os séculos XVI e XVIII, os jesuítas buscaram a conversão dos indígenas ao catolicismo. Essa aproxima ção dos jesuítas em relação ao mundo indígena foi mediada pela a) demarcação do território indígena. b) manutenção da organização familiar. c) valorização dos líderes religiosos indígenas. d) preservação do costume das moradias coletivas. e) comunicação pela língua geral baseada no tupi. RESOLUÇÃO: Em sua ação catequisadora na América e na Ásia, os jesuítas utilizaram os idiomas locais como instrumento de aproximação para a conversão — e consequente aculturação — dos nativos. Na América Portuguesa, o fato de o tupi ser falado pelas tribos da região litorânea (língua geral), somado às dificuldades oferecidas pelos dialetos interioranos dos tapuias (língua travada), explica a preferência dos jesuítas pela primeira. A propósito, o Padre Anchieta elaborou uma primeira gramática da língua tupi. Resposta: E ”Coube aos Xavante e aos Timbira, povos indígenas do Cerrado, um recente e marcante gesto simbólico: a realização de sua tradicional corrida de toras (de buriti) em plena Avenida Paulista (SP), para denunciar o cerco de suas terras e a degradação de seus entornos pelo avanço do agronegócio.” B. Ricardo; F. Ricardo. Povos indígenas do Brasil: 2001-2005. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2006. Adaptado.) A questão indígena contemporânea no Brasil evidencia a relação dos usos socioculturais da terra com os atuais problemas socioambientais, caracterizados pelas tensões entre a) a expansão territorial do agronegócio, em especial nas regiões Centro-Oeste e Norte, e as leis de proteção indígena e ambiental. b) os grileiros articuladores do agronegócio e os povos indígenas pouco organizados no Cerrado. c) as leis mais brandas sobre o uso tradicional do meio ambiente e as severas leis sobre o uso capitalista do meio ambiente. d) os povos indígenas do Cerrado e os polos econômicos representados pelas elites industriais paulistas. e) o campo e a cidade no Cerrado, que faz com que as terras indígenas dali sejam alvo de invasões urbanas. RESOLUÇÃO: A questão faz referência às tensões entre, de um lado, a expansão do agronegócio por áreas do Cerrado e, mais recentemente, por áreas da floresta, no sul e no leste da Amazônia, e, do outro lado, as leis que deveriam proteger florestas e comunidades indígenas. O poder político vê-se dividido entre interesses relacionados à balança comercial e o dever de proteger o patrimônio cultural e ambiental. Resposta: A C4_1a_HISTORIA_JR_2021.qxp 03/06/2021 23:07 Página 64