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SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA 
Me. Adilson do Nascimento Gomes 
GUIA DA 
DISCIPLINA 
 
 
1 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
1. O SIGNIFICADO NOS ESTUDOS DA LINGUAGEM 
 
Objetivo 
Estudar o significado dentro da linguística, ampliando o nosso olhar para a compreensão 
de como se processam os significados na sociedade e, consequentemente, sob a perspectiva 
dos estudos linguísticos. 
 
Introdução 
Como tudo que se refere ao homem, a língua e a construção de sentido sempre 
foram objetos de investigação. A essa altura, indubitavelmente, você já deve ter 
compreendido que a língua é um fenômeno eminentemente social. Logo, é preciso entender 
as relações que ela mantém com a cultura em que está inserida. Por isso, trataremos, nesta 
aula, de algumas concepções que explicam a construção do significado a partir das 
relações empreendidas socialmente. 
 
1.1 O significado dentro da Linguística 
 
Saussure (2002), considerado o pai da Linguística moderna, concebeu a linguagem 
como uma faculdade humana capaz de produzir, desenvolver e compreender a língua e 
outras manifestações simbólicas semelhantes a ela. Seu objetivo principal era diferenciar a 
língua da fala, entretanto ateve-se, também, à compreensão e ao significado. Em suma, 
para ele, a língua é a relação entre o pensamento e os sons/gestos. 
 
Já Chomsky (1957), linguista norte-americano, parte da premissa de que a língua é 
parte de um conhecimento que o indivíduo traz em sua carga genética. Sua teoria, 
conhecida como Gramática Gerativa, propõe, principalmente, que a língua seja objeto 
mental, diferentemente de Saussure que, como já se sabe, a tinha como objeto social. 
Pode-se dizer, portanto, que, de acordo com Chomsky, a mente se incumbe de produzir, 
interpretar e compreender sentenças linguísticas. 
 
Assim sendo, é possível chegar à seguinte conclusão: os falantes interagem por 
meio de signos construídos cognitivamente e consagrados por sua força social. Usam, para 
este fim, conceitos mais ou menos detalhados, a depender de seus objetivos. 
 
 
 
 
2 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
 
 
Pensamento e linguagem existem em mentes individuais, mas constroem-se 
na interação social. (SILVA, 2010, p. 47) 
 
 
 
A par dessas noções básicas é importante também mencionar o caráter 
interdisciplinar dos processos que visam a significação. Filosofia, Linguística, Ciências 
Cognitivas e Sociais e Lógica, por exemplo, entrelaçam-se com o intuito de aprofundar e 
discutir as reflexões até então levantadas sobre esta temática. 
 
Dentro da Linguística, disciplinas especiais como Semântica, Pragmática, 
Sociolinguística e Análise do Discurso se concentram em verificar a descrição de conceitos 
(palavras, a grosso modo), e suas relações, e em organizar a linguagem e suas 
possibilidades de comunicação. 
 
O significado passa, então, a ser descrito por meio de perspectivas internalistas e 
externalistas, isto é, ora é tido como resultado de estruturas linguísticas predeterminadas e 
definidas pela capacidade cognitivo-mental, ora pelas condições externas, como a 
interação com a cultura e com o ambiente. 
 
1.2 A Significação Sob O Olhar Da Filosofia E Da Psicologia 
Em Crátilo (Natureza dos Nomes), Platão anuncia a infecundidade do estudo das 
palavras no entendimento da construção do significado, porque, para ele, a convergência 
entre estas instâncias apresenta natureza convencional. Ora, em sua opinião, os sons que 
produzem os significados das coisas resultam de acordos prévios realizados socialmente. 
 
Sócrates (1987) defende que apenas o conhecimento das palavras, da linguagem 
inata, levaria ao conhecimento das coisas. Para ele, na origem da formação das primeiras 
linguagens humanas, as palavras traziam o som das coisas, isto é, eram onomatopeicas, 
portanto, uma natureza comum entre as duas. 
 
 
3 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Aristóteles (1985), numa concepção mais elaborada, apresenta um elemento novo 
na relação linguagem e significado: a mente. Em suas reflexões, a mente é favorecida por 
uma estrutura discursiva capaz de converter as manifestações da alma em palavras. A 
mente, enquanto instituição, atuaria como intercessor entre a relação convencional das 
palavras e o significado das coisas. 
 
Já na Filosofia Moderna, cabe a John Locke, talvez o único filósofo da época a se 
preocupar com a linguagem, apontar a linguagem como fruto da experiência humana. 
Fundamentalmente, o homem desenvolve a capacidade de comunicar, interagir, 
compreender e se fazer compreendido com a intenção de viver melhor. A atividade da 
linguagem associa cada palavra a uma ideia que, por sua vez, está associada ao que se 
quer representar. Logo, a palavra representa coisas, intenções e interesses com os quais 
os homens querem dialogar. Ela é meio para a comunicação do pensamento. 
 
Após a introdução desses estudos sob a ótica da filosofia, é justo conceder espaço 
às contribuições da Psicologia, as quais possibilitam, ainda mais, investigação e 
aprofundamento nesse assunto. 
 
Vygostky (1896-1934) não só dedicou sua atenção ao desenvolvimento das funções 
psicológicas superiores, mas também ao problema da linguagem, de sua gênese e de sua 
condição de instrumento de regulação de outras formas de comportamento. Investigando a 
relação entre pensamento e palavra, percebe que a união entre pensamento e palavra dá 
origem à criação verbal. 
 
Nas palavras do autor: 
 
o significado de uma palavra representa um amálgama tão estreito do 
pensamento e da linguagem, que fica difícil dizer se se trata de um 
fenômeno da fala ou de um fenômeno do pensamento. Uma palavra sem 
significado é um som vazio; o significado portanto, é um critério da ‘palavra’, 
seu componente indispensável.” (VYGOTSKY, 1931, p. 104) 
 
 
A estrutura semântica da palavra carrega em si o referente e o significado. 
Correspondente a isso está a capacidade do indivíduo de fazer distinção entre a função 
nominativa e a função significativa, isto é, aquilo a que se refere possui um nome que, 
dentro de um contexto, variavelmente, carrega um significado, ou, além disso, uma função 
social. 
 
 
4 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Tendo em vista estas considerações, cumpre observar que uma única teoria ou 
constatação não se encarrega de responder às indagações sobre a construção de 
significados, pois, à medida que cada uma se constituía, representava não a anulação da 
proposição anterior, mas sua validação e reafirmação, mesmo que fossem divergentes em 
seus ideais. 
 
 
 
É importante considerar cada uma dessas aspirações, pois, para compreender 
o funcionamento dos significados tal qual se compreende hoje, é preciso 
analisar historicamente todas as constituições. 
Nesta aula vimos que o significado dentro da linguística é visto sob duas 
perspectivas uma internalista que considera o significado como resultado de 
estruturas linguísticas predeterminadas e definidas pela capacidade cognitivo-
mental. A outra perspectiva, a externalista, considera as condições externas, 
ou seja, a interação social, a cultura e o ambiente. 
 
 
 
 
 
CHOMSKY, Noam. Estruturas Sintácticas / Noam Chomsky; tradução de 
Madalena Cruz Ferreira; Lisboa: Edições 70, 1957. 
 
NEVES, Maria Helena de Moura. A gramática: história, teoria, análise e ensino. 
São Paulo: Ed. UNESP, 2002. 
 
SANTOS, Patrícia de Catro (1995). A Construção do Significado: caminhos 
possíveis... Dissertação de Mestrado, LAEL/PUCSP, 1995. 
 
SAUSSURE, Ferdinand. Curso de lingüística geral. Organização de Charles Bally 
e Albert Sechehaye com a colaboração de Albert Riedlinger. Trad. de Antônio 
Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. 24ª ed. São Paulo: Pensamento-
Cultrix, 2002. 
 
SILVA, Augusto Soares. Palavras,significados e conceitos: o significado lexical 
na mente, na cultura e na sociedade. In.: Caderno de Letras da UFF, nº 41, p. 
27-53, 2010. 
 
VYGOTSKY, Lev Semyonovich. (1931). Historia del desarrollo de las funciones 
psíquicas superiores. In Obras Escogidas, tomo I, vol LXXIV de la Colección 
Aprendizaje, Direção ALVAREZ, A. e DEL RIO, P., Tradução CORAZÖN, J.M., 
Madrid, Centro de Publicaciones del Ministerio de Educación y Ciencia e Visor 
Distribuiciones, 1991. 
 
 
5 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
2. A SEMÂNTICA E O ESTUDO DO SIGNIFICADO 
 
Objetivo 
O objetivo desta aula introdutória é delimitar os espaços dos estudos da Semântica 
e seu objeto de estudo. 
 
Introdução 
Os estudos da linguagem não podem ser realizados afastando a língua de seu uso 
social, ou seja, a interação é o lugar de observação dos fenômenos da língua, desta forma 
é na interação. É observando os homens falando no mundo, na escrita e na oralidade, que 
o linguista deve centrar suas atenções e estudos, pois é socialmente que emergem os 
sentidos. 
 
Observar como, em diferentes contextos de interação, as frases e expressões 
significam é algo que realizamos todos os dias em nossas interações cotidianas. Muitas 
vezes nem nos damos conta, de tão comum e corriqueiro. 
 
2.1 A Semântica 
Os diferentes contextos de usos da língua colocam em movimento os significados 
que empregamos e codificamos nessas interações, ou seja, a relação entre as palavras e 
as coisas. 
 
Observemos: 
Nunca tinha visto mangas tão bonitas! 
 
https://papodehomem.com.br/camisa-
masculina-conhecimentos-definitivos-mais-12-
duvidas-tiradas-pra-todo-homem-saber-usar/ 
 
https://revistagloborural.globo.com/vida-na-
fazenda/como-plantar/noticia/2013/12/como-plantar-
manga.html 
 
 
6 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
Nos dois exemplos, através da fonética é impossível determinar qual dos significados 
atribuir, por este motivo o contexto guia os significados. No exemplo com a palavra manga, 
apenas o contexto daria conta da compreensão do significado que a palavra assume em 
cada situação. 
 
É neste contexto de estudo dos significados que emerge a Semântica e a 
Pragmática, que de acordo com Ilari (2000) são duas formas de descrever e explicar os 
fenômenos da significação. Assim a Semântica e a Pragmática são duas ciências que 
estudam o significado e por este motivo são duas ciências muito próximas. 
 
A Semântica tem relação com o significado das palavras. O significado das palavras 
pode se alterar em determinadas situações sociais de uso, assim como a ausência de 
compreensão do significado de algumas palavras pode atrapalhar a interação entre os 
interlocutores, isso porque as palavras podem assumir diferentes significados de acordo 
com o contexto em que são empregadas. 
 
Veja os usos da palavra Galo: 
 
 
 
https://pt.dreamstime.com/fotografia-de-
stock-royalty-free-galo-bonito-image40765207 
 
https://www.arnigel.pt/traumatismos-
ligeiro/um-galo-na-testa-de-uma-crianca-como-reagir/ 
GALO 
 
A palavra GALO assume diferente sentido de acordo com o contexto em que é 
empregado, observem agora a tirinha: 
https://pt.dreamstime.com/fotografia-de-stock-royalty-free-galo-bonito-image40765207
https://pt.dreamstime.com/fotografia-de-stock-royalty-free-galo-bonito-image40765207
https://www.arnigel.pt/traumatismos-ligeiro/um-galo-na-testa-de-uma-crianca-como-reagir/
https://www.arnigel.pt/traumatismos-ligeiro/um-galo-na-testa-de-uma-crianca-como-reagir/
 
 
7 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
http://letramento2012aps.blogspot.com/2012/11/cica-pagando-o-pato-porto-alegre-l-2006.html 
 
O galo a que a galinha se refere diz respeito ao calombo que se formou na sua 
cabeça por conta de uma topada. Porém o sentido se altera, pois o galo compreende que 
ela está pensando em um “belo galo” na cabeça, já que não ouviu o início da conversa. 
 
No exemplo abaixo percebemos como a ausência de conhecimento do significado 
de determinadas palavras atrapalha a compreensão da mensagem, assim como causa 
estranhamento entre os interlocutores: 
 
WHATERSON, Bil. O melhor de Calvin. O Estado de São Paulo, 27 de agosto de 2002. 
 
Acompanhe a transcrição: 
 
Mãe: ─ Onde vais, jovem desgarrado? Pode ainda restar alguma vilania que não 
cometestes? 
Calvin: ─ Tu difamas-me! Juro, não sei para onde erro. Creio que o mais caprichoso 
zéfiro tem mais intenções do que eu. Mas vede: não me detenhais. Pois estou decidido a 
deixar este lugar sem demora. 
Mãe: ─ Sim, mas ouves isto, em breve conhecerei teus assuntos. Vá-te. Mandrião! 
Calvin: ─ Pelos deuses. Estou a ir. 
 
 
8 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Calvin: ─ Puxa vida. Não tá passando algum seriado policial, onde eles falem que 
nem gente de verdade? 
Mãe: ─ Shhh! 
 
Sugestionados pela linguagem formal utilizada no vídeo, Calvin conversa com sua 
mãe, demonstrando, porém certa dificuldade de compreender o vocabulário utilizado e 
então questiona “Puxa vida. Não tá passando algum seriado policial, onde eles falem que 
nem gente de verdade?” 
 
Considerando essa fala de Calvin, concluímos que as falas anteriores não 
representam a comunicação “normal” entre Calvin e sua mãe, o que o faz reclamar, 
perguntando por um programa em que as pessoas “falem que nem gente de verdade”. 
 
A dificuldade de compreensão por parte do menino Calvin tem relação estreita com 
a semântica que estuda o significado dos signos linguísticos. De acordo com Ilari (2020) “o 
trabalho da semântica consiste em explicar o significado dessas mensagens”. 
 
Para que a compreensão de mensagens, no ato de interação, seja oral ou escrita, é 
preciso olhar também as palavras que as compõem. Será que, em algum momento, você 
não se perguntou, o significado de determinadas palavras na tirinha como desgarrado, 
vilania, zéfiro e mandrião? 
 
As variações no sentidos das palavras, à luz da semântica, estão divididos em: 
 
SINONÍMIA ANTONÍMIA POLISSEMIA 
 
A Sinonímia é a parte da semântica que estuda as palavras sinônimas, ou seja, as 
palavras que possuem significados ou sentidos muito próximos, semelhantes. Observe o 
exemplos: 
 
O pianista dedicado executou a homenagem com muita emoção. 
O músico devoto praticou a homenagem com muita comoção. 
 
 
 
9 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Inicialmente observamos que os substantivos pianista e músico têm o mesmo 
significado e nos levam aos mesmos sentidos. O mesmo ocorre com os verbos executar e 
praticar. 
 
https://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2014/02/especialista-orienta-como-escolher-o-melhor-
dicionario-para-seu-filho 
 
O livro que abriga a maior quantidade de sinônimos que uma língua possui é o 
dicionário. É nele que encontramos a maior fonte de palavras que se relacionam umas com 
as outras em relação à sentidos e significados comuns. 
 
Do outro lado dos significados semelhantes está a antonímia que é o contrário da 
palavra, ou seja, apresenta sentido inverso. Observe aos exemplos: 
 
O pianista dedicado executou a homenagem com muita emoção. 
O pianista indiferente executou a homenagem com muita frieza. 
 
Neste exemplo os sentidos de dedicado e indiferente são opostos, assim como 
emoção e frieza se contrapõem. Denominamos antonímia ao estudo semântico das 
palavras que indicam sentidos opostos. 
 
Quando uma mesma palavra assume diferentes significados de acordo com o 
contexto em que é empregada a chamamos de polissêmica. Observe os exemplos de 
Polissemia: 
 
 
10 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
Não gostei dessa manga. Está muito curta. 
A manga é uma fruta muito saborosa além de fazer bem à saúde. 
 
Observando os diferentesusos da palavra manga percebemos que ela assume 
diferentes significados nos mais diversos contextos em que é usada. A manga de uma 
roupa e a manga fruta. 
 
 
 
Ainda de acordo com o Ilari (2020) 
“Mobilizamos nossas capacidades semânticas sempre que lidamos com 
mensagens verbais, coisa que, na vida moderna, acontece continuamente. Por 
isso a escola teria interesse em dar às questões do sentido e da interpretação 
uma atenção maior do que tem dado. Nesta área, mais do que em qualquer 
outra, vale o princípio de que se pode aprender brincando. É possível ensinar 
semântica lançando à classe desafios do tipo “Pensem em cinco nomes de 
pássaros” ou “Excluam o objeto que não combina”, ou mesmo jogando 
palavras cruzadas. Além disso, muitas anedotas, mais ou menos inocentes, 
baseiam-se no duplo sentido de uma palavra ou de uma construção sintática: 
rir um pouco e refletir em seguida sobre a anedota (por exemplo, a do disco 
voador: “Havia um camarada que era como um disco-voador: baixo, chato e 
ninguém acreditava nele”) pode ser o começo de uma atitude de atenção para 
com as ambiguidades e sutilezas do significado, que o aluno levará consigo 
pela vida toda”. 
 
 
 
ILARI, Rodolfo. Semântica e pragmática: duas formas de descrever e explicar 
os fenômenos da significação. In.: Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v.9, n.1, 
p.109-162, jan./jun. 2000 
ILARI, Rodolfo. Semântica. In.: Glossário CEALE. Disponível em 
<http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/semantica>. 
Acesso em 24 jun. 2020. 
 
 
 
 
11 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
3. AS ORIGENS DA SEMÂNTICA E A PROBLEMÁTICA DO SENTIDO 
 
Objetivo 
Apresentar as origens dos estudos semânticos e, dentro da perspectiva descritiva, 
estudar o significado das palavras através dos conceitos de denotação e conotação. 
 
Introdução 
Do grego semantiká, a Semântica, ramo da linguística, incumbe-se de analisar o 
significado dos termos de uma língua. A criação do vocábulo “semântica” se deu em 1883 
e é atribuída ao filólogo francês Bréal, também conhecido como pai da semântica moderna. 
 
Atento aos aspectos mutáveis de uma língua, Bréal pretendia “marcar algumas 
divisões, como um plano provisório sobre um domínio ainda não explorado, e que reclama 
o trabalho de uma legião de linguistas” (BRÉAL, 1992, p.20). Mais de um século depois, 
permanece atual a preocupação do filólogo porque, desde 1883, não há discussões 
concluídas sobre muitos estudos da significação. 
 
Em seus estudos, Bréal (1992) se debruçou, principalmente, nas alterações de 
significados de uma palavra. A esse respeito, concluiu, sobretudo, que o sentido é 
determinado pelos interlocutores. 
 
3.1 A Semântica 
 
 
 
É tão vão propor à linguística abrir-se à plenitude do sentido (...) quanto 
esperar da anatomia que ela se espiritualize através do estudo do coração ou 
do cérebro. (Pavel, 1990, p.64) 
 
 
 
Uma cronologia para compreender a aplicação da semântica foi elaborada por Junior 
(2012) a partir de dados brasileiros. Ela começa com a proposta do jornalista Fernando 
Levisky, em 1955, de retirar sinônimos considerados ofensivos presentes em obras 
escolares, como judeu (avarento), negro (maldito), brasileira (cachaça) e favela (moradia 
 
 
12 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
de negros, pobres e malandros). Estes termos, inclusive, foram retirados do Dicionário 
Contemporâneo (1958). 
 
Em 1961, o presidente Jânio Quadros decretou que fossem desconsiderados no 
Dicionário Prático da Língua Portuguesa “conceitos que não podem ser levados em país 
cristão e democrático à mocidade”. 
 
Já em 1999, o termo aidético, por exemplo, foi substituído por soropositivo, em 
virtude do combate ao preconceito. 
 
Entre 2005 e 2006, a Secretaria Especial de Direitos Humanos lançou uma cartilha 
com 96 palavras que deveriam ser evitadas entre seus servidores, entre elas barbeiro 
(motorista inabilidoso) e aidético. 
 
No Dicionário de Termos Literários, o conceito de semântica está relacionado “ao 
processo indutivo” estabelecido pelas palavras e os objetos designados por elas. 
 
Interesse não só de linguistas e gramáticos, mas também de filósofos e demais 
estudiosos de humanidades, é por meio de Aristóteles que se atribui ao referente um 
significado, traduzindo, desta forma, uma realidade. 
 
Saussure (2002) atribui à criação de significado um determinado elemento subjetivo 
da língua. Isto implica dizer que importam as questões envolvidas na produção de sentido. 
Para ele, 
 
[...] toda espécie de valor, mesmo usando elementos muito diferentes, só se 
baseia no meio social e na força social. É a coletividade que cria o valor, o 
que significa que ele não existe antes e fora dela, nem em seus elementos 
decompostos e nem nos indivíduos. (SAUSSURE, 2002, p.50) 
 
 
Incumbe-se esta ciência de relacionar os significados de uma língua natural e listá-
los em um dicionário, a fim de se estabelecer as possibilidades de significados. É, para 
alguns filósofos, a materialidade, a concretização, de certo modo, da linguagem. 
 
 
 
13 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Tendo em vista que iniciar e manter um diálogo são atitudes triviais e tomadas o 
tempo todo, conceber à Semântica sua devida atenção é imprescindível tanto para a 
manutenção das relações entre interlocutores já familiarizados quanto para a estrutura 
social em geral, pois exige de seus agentes posturas lógico-cognitivas. 
 
3.2 Conotação e Denotação 
Assim como outras disciplinas linguísticas, a semântica pode ser dividida em teórica 
(responsabiliza-se por conceituar, significar), histórica (analisa o significado de um termo 
diacronicamente), comparativa (ao relacionar significados) e descritiva, que será 
desdobrada, a princípio, em conotação e denotação. 
 
Em um evento comunicativo, o sujeito comunicante tem por objetivo significar o 
mundo, a partir de seus propósitos, para um sujeito interpretante. Nessa troca, ou seja, 
nesse processo dialógico, para proceder a uma análise do texto, o sujeito interpretante 
precisa não só mobilizar o sentido das palavras e suas regras de combinação (langue) 
como também construir um sentido que corresponda a sua intencionalidade (parole). Nesse 
ponto, passa-se do sentido de língua ao sentido de discurso, tendo em vista que o sujeito 
interpretante não busca o significado das palavras ou sua combinação (sentido de língua), 
mas seu sentido social (sentido de discurso). 
 
Observe a imagem: 
 
 
 
 
14 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Fonte: http://acervo.folha.com.br/leitor.do?numero=47817&anchor=6052320&origem=busca 
 
 
Acompanhando a imagem de Emmanuel Macron o enunciado verbal está construído 
no sentido denotativo, ou seja, os dizeres “Macron vence eleição na França” estão sendo 
aplicados em sentido literal, carregando os sentidos reais, dicionarizados. 
 
A denotação, de acordo com Platão e Fiorin (apud. Fiorin, 1996), é caracterizada 
pelo plano de expressão (significante) e o de conteúdo (significado). Já a conotação é “um 
novo plano de conteúdo, investido no signo como um todo”, isto é, a conotação assume, ao 
mesmo tempo, um significante e um significado diferentes, a depender de fatores como o 
contexto social, a cultura, a época e a identidade dos interlocutores. 
 
Em suma, um termo, ou vocábulo, em seu sentido denotativo, representa a 
linguagem mais próxima do real, mais próxima de seu sentido próprio, convencional, aceito 
amplamente, sem traços de subjetividade. A conotação, por sua vez, funciona como 
“exteriorização psíquica”. Observe: 
 
 
Fonte: https://jornalzonasul.com.br/edicao-2936-16-de-agosto-de-2019/ed2936-capa/ 
 
O enunciado presente na capa do Jornal S. Paulo Zona Sul, “Guerra às carcaças no 
Jabaquara”está empregado em sentido figurativo. De acordo com Fiorin (1996), a 
conotação não é uma criação particular de um indivíduo, mas a parte plurissignificativa da 
palavra, cujo significado se dá num contexto. Ela pode ser subdividida em conotação por 
analogia e conotação por contiguidade. 
 
 
15 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
A conotação por analogia ocorre quando há uma relação de semelhança entre o 
sentido tido como denotado e o sentido original, como em “Pedro é o cabeça da equipe.” 
Em cabeça, no sentido figurado, há o sentido de líder, chefe, membro principal de um grupo, 
tão próximo do sentido de “parte superior do corpo humano”, de grande importância. 
 
Por fim, a conotação por contiguidade, também chamada de extensão, não esclarece 
tão nitidamente o sentido do termo conotado como faz a conotação por analogia. Veja: 
“Reconheci o gato que me assaltou.” O termo gato, aqui, remete a um animal ágil, veloz, 
dotado de destreza, traiçoeiro ou assaltante, ou ainda, em “Ele é uma mala sem alça”, o 
termo conotado exige, para uma interpretação eficiente, compreensão aprofundada, um elo 
nem tão próximo assim. 
 
 
 
Desde sua fundação, Bréal (1992), o pai da Semântica, já considerava o sentido 
das palavras presente no interlocutores de uma língua, ou seja, o significado 
se constrói na língua em uso, no social. É na linguagem em uso, na interação 
que compreendemos, por exemplo, quando uma palavra está sendo utilizada 
em seu sentido real (denotativo) ou em seu sentido figurado (conotativo), ou 
seja 
 
 
 
 
CANÇADO, Márcia. Manual de semântica: noções básicas e exercícios. BH: Ed. 
UFMG, 2005. 
 
FIORIN, José Luiz.; SAVIOLI, Francisco Platão. Lições de texto. Leitura e 
redação. São Paulo: Ática, 1996. 
 
ILARI, Rodolfo & GERALDI, João Wanderlei. Semântica. 4ª Ed., SP: Cultrix, 1990. 
 
PAVEL, Thomas. A miragem linguística: ensaio sobre a modernização 
intelectual. Campinas: Pontes, 1990. 
 
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. Organização de Charles 
Bally e Albert Sechehaye com a colaboração de Albert Riedlinger. Trad. de 
Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. 24ª ed. São Paulo: 
Pensamento-Cultrix, 2002. 
 
 
16 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
4. SEMÂNTICA DESCRITIVA: PARA ALÉM DO LÉXICO 
 
Objetivo 
O objetivo desta aula é revisar alguns conceitos da semântica descritiva como a 
sinonímia, a homonímia e a polissemia. 
 
Introdução 
Como já vimos, os estudos sobre Semântica, para fins de sua organização, são 
divididos entre os eixos teórico, histórico, comparativo e descritivo. Este último já fora 
apresentado a partir das colocações a respeito da denotação e da conotação. 
 
Debruçar-se em estudos sobre significados implica dividir também as conclusões em 
semântica linguística ou semântica pura. A medida que a primeira parte do ponto de vista 
da linguagem, a segunda descreve e investiga o significado das frases e enunciados de 
uma língua. 
 
4.1 Alguns Conceitos Semânticos 
As palavras são classificadas de acordo com as relações que têm entre si. Portanto, 
a Semântica apresenta alguns conceitos: 
 
4.1.1 Sinonímia e Antonímia 
Isto é, as relações de disparidade, de aproximação e exclusão, lógica e contradição 
entre os sentidos de palavras de dada língua natural, a Portuguesa, como em nosso caso. 
 
Vejamos alguns exemplos de Sinônimos: 
 
CARINHO – AFETO 
CARRO – AUTOMÓVEL 
LONGE – DISTANTE 
 
Vejamos agora alguns exemplos de Antônimos: 
 
CERTO – ERRADO 
 
 
17 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
ABERTO – FECHADO 
BENDIZER – MALDIZER 
 
4.1.2 Homonímia e Paronímia 
Ou seja, à ordem de aproximação entre pronúncia e grafia. 
 
Veja os exemplos de homônimos e parônimos: 
 
O concerto está marcado para sábado. 
O conserto está marcado para amanhã. 
 
Concerto e conserto são palavras com significados completamente contrários e 
sem lógica interna entre si, entretanto têm a mesma pronúncia. O que determina o sentido 
das frases é a aplicação e o contexto. Trata-se, portanto, de homonímia. 
 
 
https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/concerto-de-
pianista-prodigio-encanta-estudantes-da-rede-
municipal/46737 
 
https://santaritadosapucai.portaldacidade.com/noticia
s/regiao/falta-de-agua-pode-atingir-40-dos-pequenos-
negocios-mineiros 
O concerto está marcado para sábado. O conserto está marcado para amanhã 
 
 
Nas palavras de Bechara (1999, p. 81) 
 
[...] por homonímia entende a tradição: “propriedade de duas ou mais 
formas, inteiramente distintas pela significação ou função, terem a mesma 
estrutura fonológica, os mesmos fonemas, dispostos na mesma ordem e 
subordinados ao mesmo tipo de acentuação [...]” (BECHARA, 1999, p.81). 
 
 
Os homônimos podem ser classificados levando-se em conta, além da pronúncia 
idêntica, suas grafias. Nesse sentido, são denominados imperfeitos ou perfeitos, conforme 
 
 
18 Semântica e Pragmática 
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o caso. Nos homônimos imperfeitos, embora a pronúncia seja igual, as grafias são 
diferentes (heterógrafos). Alguns autores, como Rocha Lima, referem-se a casos assim 
apenas como homófonos. 
 
Segundo ele, homófonos são “homônimos que, apesar de terem os mesmos 
fonemas, se escrevem diferentemente” (2000, p. 487). Alguns exemplos apresentados por 
ele são cessão/seção; coser/cozer. Homônimos perfeitos são formas com pronúncia e 
grafia iguais, ou seja, simultaneamente homófonas e homógrafas. Por exemplo: verão 
(substantivo); verão (verbo). 
 
Fonte: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?pagina=espaco%2F 
visualizar_aula&aula=24070&secao=espaco&request_locale=es 
 
A dúvida, no caso de inflação e infração, surge em razão da semelhança entre essas 
palavras tanto na grafia (escrita) como na pronúncia (som). Desta forma temos um exemplo 
daquilo que se chama Paronímia. A saber: inflação significa, principalmente: o aumento 
geral de preços (em geral acompanhado por um aumento na quantidade de meios de 
pagamento), com consequente perda do poder aquisitivo do dinheiro e infração, por seu 
turno, significa: ato ou efeito de infringir; violação de uma lei, ordem, tratado etc. 
 
Os parônimos, segundo Rocha Lima (2000, p.487): 
 
São palavras de forma parecida, que, por isso, se prestam a frequentes 
confusões de emprego. Exemplos: infligir e infringir; [...]; descrição e 
discrição, etc. Grande número de parônimos se distinguem pelos prefixos 
apostos a um radical comum: eminente e iminente; emigrar e imigrar [...] 
(2000, p. 487). 
 
 
Os parônimos se assemelham na pronúncia e na grafia, mas têm sentidos diferentes, 
por exemplo: ratificar (confirmar); retificar (corrigir). 
 
 
19 Semântica e Pragmática 
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4.2 Polissemia – Múltiplos Sentidos e Ambiguidade 
Para apresentar mais este conceito, pense no esquema a seguir, apresentado por 
Kempson (1980): 
 
REAL¹: pertencente ao rei, à realeza. 
REAL²: antiga moeda de Portugal; atual do Brasil. 
REAL³: aquilo que tem existência palpável, concreta. 
 
Deste modo, e com base nos estudos feitos até aqui, faz-se necessário distinguir 
homonímia de polissemia. Ullman (1987), linguista húngaro que dedicou sua vida 
principalmente à semântica, assinala que há uma linha tênue entre estes dois conceitos. 
Para tanto, é preciso considerar o modo como surgem e o efeito que trazem para a língua. 
 
Observem os usos da palavra circulação na tirinha: 
 
 
WALKER, mort. Recruta Zero. O Estado de São Paulo, 26 jun. 2006 
 
Na tirinha o General reclama a dona Tetê que sua aliança, apertada, não sai mais 
do dedo. Dona Tetê então pergunta se ele não tem medo que isso prejudique sua circulação 
e ele responde: “minha circulação foi interrompida desde o dia que eu me casei”Neste caso temos uma polissemia, pois a palavra circulação pode assumir variados 
significados. Na tirinha, dona Tetê recorre ao sentido de circulação sanguínea, enquanto o 
general recorre ao sentido de circulação enquanto passeio, paqueras, diversão etc. 
 
 
 
 
20 Semântica e Pragmática 
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Cançado (2012) lembra que ainda é importante distinguir homonímia de polissemia, 
pois a descrição do léxico e parte da descrição gramatical estão relacionadas a essa 
diferenciação. Segundo a autora, “palavras polissêmicas serão listadas como tendo uma 
mesma entrada lexical, com algumas características diferentes; as palavras homônimas 
terão duas (ou mais) entradas lexicais” (2012, p. 72). Por outro lado, alega que uma mesma 
palavra pode ser homônima e polissêmica, dependendo do sentido. 
 
 
 
Nesta aula revisamos alguns conceitos basilares e bastante difundidos desde 
as primeiras séries da educação básica. Os conceitos de Semântica como 
sinonímia que estudam as palavras com significado ou sentido semelhante e a 
antonímia que estudam as palavras com sentidos ou significados opostos. 
Estudamos também a homonímia e a paronímia. As palavras homonímas 
possuem a mesma pronúncia e, as vezes a mesma grafia, mas possuem 
significados diferentes, já as palavras parônimas se assemelham na escrita e 
na pronuncia, porém possuem significados diferentes. E por fim, revisamos as 
palavras polissêmicas, aquelas que podem assumir vários significados, 
guardando relação de sentido entre si. 
 
 
 
 
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. Edição revista e 
ampliada. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999. 
 
CANÇADO, Márcia. Manual de semântica. Belo Horizonte: UFMG, 2012. 
 
ILARI, Rodolfo. Introdução à semântica. São Paulo: Contexto, 2001. 
 
KEMPSON, Ruth M. Teoria Semântica. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. 
 
LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: José 
Olympio, 2000. 
 
ULLMANN, Stephen. Semântica: uma introdução à ciência do significado. 
Tradução de J. A. Osório Mateus. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987. 
 
 
 
 
 
 
 
 
21 Semântica e Pragmática 
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5. SEMÂNTICA HISTÓRICA OU SEMÂNTICA DIACRÔNICA 
 
Objetivo 
Apresentar algumas características da Semântica Histórica ou Diacrônica. 
 
Introdução 
Na tentativa de compreender a Semântica por meio de um olhar histórico (analisa o 
significado diacronicamente) ou descritivo (sincronicamente), temos de recordar a noção 
de diacronia e sincronia. 
 
Diacronia (do grego, dia = através, chrónos = tempo), em Semântica, é a descrição 
de um significado ao longo de sua história, considerando as mudanças que sofreu. Refere-
se, portanto, às transformações dos significados. 
 
Sincronia (do grego, syn = juntamente, chrónos = tempo) estuda as relações entre 
os termos coexistentes de um estado da língua. 
 
Para Câmara Júnior (1986), são seis as causas que levam as palavras a alterações 
de sentido ao longo do tempo (diacronia). São elas (1) histórico-cultural, (2) psicológica, (3) 
lógica, (4) formal, (5) sintagmática e (6) social. 
 
5.1 A Semântica Histórica 
Estudar a história interna de uma língua é fundamental para o conhecimento das 
transformações ocorridas e, com isso, assimilar melhor seu estado atual. 
 
A mudança de sentido envolve a pesquisa e a comparação de estágios significativos 
distintos, utilizando modelos ou teorias desenvolvidos nas pesquisas sincrônicas. 
 
Por outro lado, esses modelos podem ser testados a partir de dados históricos, e só 
podem ser considerados completos se permitirem a incorporação da mudança na 
significação. A combinação de informação sincrônica e diacrônica, no que se caracteriza 
como uma abordagem pancrônica em Semântica fornece uma descrição mais densa, com 
 
 
22 Semântica e Pragmática 
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possibilidade de explicação mais completa do fenômeno sob investigação. Observemos a 
evolução de algumas palavras: 
 
Barbeiro 
O nome do profissional veio de barba + a terminação designativa de profissão -eiro (como 
em padeiro, costureiro). No Brasil e em Portugal, até as primeiras décadas do século XIX, 
os barbeiros também praticavam odontologia e medicina. Chegavam até a fazer pequenas 
cirurgias. Não é difícil imaginar o resultado desastroso produzido por um barbeiro tirando 
um dente ou fazendo uma punção. E, assim, também não foi difícil a palavra barbeiro 
ganhar o sentido de “indivíduo que não é hábil na sua profissão”. Daí se formou 
barbeiragem como sinônimo de incompetência. Com relação ao barbeiro, o inseto, seu 
nome popular veio do fato de ele chupar o sangue da sua vítima quase sempre no rosto, 
enquanto ela dorme. O barbeiro, na verdade, não tem nenhuma predileção por rostos. É 
que, quando dormirmos, essa parte do corpo se acha sempre descoberta e à mercê do 
maldito. 
Brigadeiro 
A palavra veio da brigada com a terminação 
– eiró. O docinho apareceu logo depois da 
segunda Guerra Mundial, quando era 
grande o racionamento de açúcar, leite e 
ovos no Brasil. Uma dona de casa, muito 
prendada na cozinha, resolveu fazer um 
doce sem esses ingredientes e misturou leite 
condensado com chocolate. Ela mesma 
batizou a delícia com o nome de brigadeiro, 
em homenagem a um homem que admirava: 
o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato à 
República nas eleições de 1945 (acabou 
vencido por um general, Eurico Dutra). 
Infelizmente, desconhece-se a identidade da 
extraordinária inventora. 
Expresso 
Veio do latim expressu, espremido, 
comprimido. Já o café expresso veio do 
italiano caffè espresso. Tem esse nome não 
por ser feito rapidamente, mas sim porque 
resulta da compressão de vapor ou água 
fervente através de minúsculos grãos de 
café. A palavra expresso aplicada a meios 
de transporte (trens, ônibus...) se originou do 
inglês express. 
 
 
ARMÁRIO 
Você já deve ter questionado se armário não deveria ser um lugar para guardar armas. Pois 
já foi, faz muito tempo. A palavra veio do Latim armarium, com esse sentido: lugar onde se 
guardam armas. Mas ainda no Latim a palavra teve seu sentido ampliado para guarda-
louça, cofre, biblioteca e caixão. Atualmente, em português, é um móvel para guardar 
objetos variados. 
 
 
23 Semântica e Pragmática 
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http://g1.globo.com/educacao/blog/dicas-de-portugues/post/palavras-que-mudaram-de-sentido.html 
 
 
Admite-se, portanto, que compreender a evolução de um significado exige 
cooperação entre os campos sincrônico e diacrônico. 
 
Há inúmeros motivos pelos quais uma abordagem diacrônica é desejável. Em 
primeiro lugar, ela aumenta o poder explanatório da teoria semântica. Demonstrar que uma 
dada forma ou construção desempenha determinada função não justifica a existência dessa 
forma ou construção. É necessário mostrar como essa forma ou significado veio a ter essa 
função. Daí a importância do estudo diacrônico. (OLIVEIRA, VOTRE, 1999) 
 
Outra contribuição do estudo diacrônico é a relevância dos fatores cognitivos, 
capazes de revelar para o estudioso, entre vários outros aspectos, a identidade e a 
mentalidade dos usuários daquela língua nativa. É importante considerar, neste sentido, a 
dinamicidade das situações comunicativas, levando-se em conta, para a interpretação dos 
resultados alcançados, a manifestação do inconsciente. 
 
Além disso, é importante ressaltar que o vocabulário nunca apresentou, em qualquer 
língua que seja, indícios de estabilidade em seus elementos significativos. Tal fato 
corroboraria para a falta de evolução e de desenvolvimento de uma identidade linguística. 
 
Veja, a seguir, exemplos de vocábulos cujo significado foi analisado a partir da 
Semântica Diacrônica. 
 
CIRCUNSTÂNCIA TERMO/ 
VOCÁBULO 
SIGNIFICADO ANTES E 
DEPOIS 
Enobrecimentodo 
sentido: 
 
“marechal” 
significava “criador de 
cavalos”, hoje significa 
“alta patente do exército 
Degradação de 
sentido: 
 
“vilão” 
significava “habitante da vila”; 
hoje significa “bandido”. 
Ampliação 
de sentido: 
 
“embarcar” 
significava “entrar na barca”; 
hoje significa “entrar em 
qualquer condução”. 
 
 
24 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Restrição de 
sentido 
 
 “fortuna” 
significava “bom ou mau 
destino”; hoje apresenta 
apenas o lado positivo. 
 
.(Câmara Júnior, 1986, s/p.) 
 
 
Já o estado sincrônico é resultado de um desenvolvimento passado que continua no 
presente. Ele implica, necessariamente, variação e não mudança dada como encerrada. A 
Semântica Sincrônica (Descritiva) busca as relações de sentido literal e de sentido figurado, 
além dos aspectos lexicais. Este eixo é intimamente ligado à Polissemia. 
 
Repare na tira: 
 
http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/portugues/0018.html 
 
Esta perspectiva analisa o conjunto de fatos contemporâneos de uma língua em 
qualquer época. Neste caso, as personagens da tirinha interpretam, cada uma a sua 
maneira, o enunciado “Pode escrever isso!”. Enquanto o locutor do primeiro quadrinho a 
professe em seu sentido figurado, o interlocutor, por sua vez, interpreta-a em seu sentido 
literal, dicionarizado, sem levar em conta o contexto da enunciação, motivo pelo qual ele, 
de fato, escreve o que ouvira. 
 
 
 
 
 
 
 
25 Semântica e Pragmática 
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Nesta aula estudamos um pouco sobre a Semântica Histórica, também 
chamada de Semântica Diacrônica, que estuda o significado das palavras ao 
longo do tempo, ou seja, estuda como uma palavra pode significar 
diferentemente ao longo do tempo. 
 
 
 
 
 
CÂMARA JR., J. Mattoso. Dicionário de linguística e gramática. Petrópolis: 
Vozes, 1986. 
 
CUNHA, Maria Angélica Furtado da; OLIVEIRA, Mariangela Rios de; VOTRE, 
Sebastião. A interação Sincronia/Diacronia no Estudo da Sintaxe. In. DELTA, 
São Paulo, v. 15, n. 1, 1999. 
 
SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. 24. ed. São Paulo: Cultrix, 
2002. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
26 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
6. ABORDAGENS DA LÍNGUA EM USO 
 
Objetivo 
Apresentar a teoria dos Atos de Fala e refletir sobre as análises empreendidas pelos 
interlocutores nos momentos de interação. 
 
Introdução 
O filosofo inglês John Langshaw Austin em seu livro “Quando dizer é fazer” fala 
sobre os modos como usamos a linguagem, não apenas para transmitir informações, mas 
para realizar ações. 
 
Como já vimos, Austin (1960, 1962) propõe que o falante e o ouvinte são sujeitos 
intencionais e o fenômeno da significação se divide entre os enunciados constativos e 
performativos. 
 
Consoante a Rangel (2004), os estudos da língua ganham novas abordagens a partir 
de Austin, pois, antes de suas contribuições, “as proposições eram analisadas pelos 
critérios de verdade ou falsidade e com a teoria dos performativo de Austin, houve uma 
redimensionada nos estudos linguísticos”, em que passaram a ser considerados fatores 
externos (falantes e ouvintes) e as condições de produção na constituição dos sentidos 
enunciativos. 
 
Depois dessa virada nos aspectos da língua, ao invés da noção de sujeito e objeto, 
considera-se primordial a concepção de sujeito e sujeito, o que implica pensar numa relação 
intersubjetiva. Leitor e texto, falante e ouvinte, são, deste modo, sujeitos diferentes 
passíveis de ressignificação. 
 
Ao longo do texto, ou da enunciação, constata-se uma nova maneira de sujeitar-se, 
quer dizer, o sujeito deixa de ser autossuficiente, auto instituído e passa a ser assujeitado 
na leitura, ou pelo discurso. 
 
6.1 Teoria dos Atos de Fala 
Para melhor compreender essa questão, recorre-se, novamente, às contribuições de 
Austin, especialmente à Teoria dos Atos de fala, que o inglês categorizou em três tipos 
 
 
27 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
principais. Em seus trabalhos na filosofia linguística, desenvolveu uma investigação 
pragmática que fomentou compreensões a respeito da aquisição da língua. 
 
De acordo com os Atos de Fala, os interlocutores realizam atos ilocucionários ao 
proferirem sentenças. Isto é, por meio dos enunciados, os falantes transmitem intenções, 
provocam ações. Um exemplo trivial é a cerimônia de batismo religioso. Quando o clérigo 
diz “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, esta mensagem cumpre 
uma função social. O ato de proferir tal enunciado confere o grau de batizado, ou seja, 
institui, por meio da fala, um significado consagrado socialmente. 
 
Os Atos de Fala, para Austin (1962) se classificam em (1) ato locucionário, (2) ato 
ilocucionário e (3) ato perlocucionário. A saber: 
 
• Ato locucionário: a produção de um enunciado pode ser classificada a partir de 
suas características fonéticas, gramaticais e lexicais. É o ato de dizer, de 
enunciar linguisticamente até o significado da sentença. 
Exemplo: “Eu vos declaro marido e mulher.” 
 
• O ato ilocucionário é a ação posta em cena por meio do ato locucionário. É a 
ação realizada quando se enuncia algo. Exemplo: quando se profere “Eu vos 
declaro marido e mulher”, o locutor não só enuncia um conjunto de sentenças 
linguísticas carregado de significação, mas também realiza uma ação, a ação de 
consagrar, de concretizar algo, no caso a união conjugal. 
 
• Já o ato perlocucionário implica o efeito do uso da linguagem. Na situação ora 
descrita, implica convencer, persuadir que aquela união é reconhecida pela 
suprema entidade religiosa à qual foi submetida. 
 
Embora concatenados entre si, o ato ilocucionário – que representa o eixo da teoria 
dos atos – é a força da qual se originam os outros dois atos. 
 
Além disso, de acordo com Silva (2005) os atos de fala podem ser diretos ou 
indiretos. Um ato de fala é direto, quando realizado por meio de formas linguísticas 
especializadas, isto é, típicas daquele tipo de ato. Há, por exemplo, uma entonação típica 
para perguntas. 
 
 
28 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
As formas imperativas são tipicamente usadas para dar ordens ou fazer 
pedidos; expressões como por favor, por gentileza, etc. são tipicamente 
usadas para fazer pedidos ou solicitações, etc. Eis alguns exemplos: Que 
horas são? (ato de perguntar); Saia daqui (ato de ordenar); Por favor, traga-
me um copo d'água (ato de pedir). (SILVA, 2005, p.168) 
Um ato de fala é indireto (ou derivado), quando realizado indiretamente, isto é, por 
meio de formas linguísticas típicas de outro tipo de ato. Nesse sentido, "dizer é fazer uma 
coisa sob a aparência de outra". Eis alguns exemplos: 
I. Você tem um cigarro? (pedido com aparência de pergunta) Quem 
enuncia essa frase não está perguntando se o alocutário tem ou não um 
cigarro, mas sim pedindo-lhe que ceda um cigarro. 
II. Como está abafada esta sala! (pedido com aparência de constatação) 
Normalmente, quem enuncia essa frase não está simplesmente fazendo 
uma constatação sobre a temperatura no interior do recinto, mas sim 
pedindo que o alocutário faça algo para amenizar o calor, como abrir as 
janelas, ligar o ventilador, o ar-condicionado,etc. 
III. Você pode fechar a porta? (pedido com aparência de pergunta) Quem 
enuncia essa frase não está perguntando sobre a (in)capacidade física do 
alocutário de fechar a porta, mas sim pedindo-lhe que feche a porta. Seria 
estranho se o alocutário pensasse que a pergunta é mera curiosidade e 
respondesse simplesmente sim ou não. (SILVA, 2005, p. 168-9) 
 
Tendo em vista tais concepções, falar da língua em uso é falar de uma ciência formal 
que estabelece as regras de formação das proposiçõesa partir da abstração e da 
combinação entre os signos. 
 
6.2 Para além de Austin: os desdobramentos de Searle e Grice 
Conforme Marcondes (2005), a pragmática consiste na experiência “concreta da 
linguagem, nos fenômenos linguísticos com que efetivamente lidamos”; entretanto, uma 
análise linguística em um sentido mais sistemático e teórico se dá apenas “para os planos 
da semântica e da sintaxe.” 
 
Antes de encerrar os estudos sobre a Teoria dos Atos de Fala de Austin, é importante 
destacar as contribuições de seu discípulo, o estadunidense John Roger Searle, que se 
propôs a estudar pormenorizadamente os tipos de enunciado. 
 
Em Searle (1979), a enunciação é consagrada em três atos: 
 
 
29 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
a. Ato de enunciação > ato locutório: ambos se referem à produção do enunciado 
concreto. 
b. Ato proposicional > ato de referir e de predicar. 
Em termos mais simples, o referente consiste no alvo da predicação. O ato de referir 
instaura um ‘ser’ no mundo enunciativo, um ponto sobre o qual é possível aplicar ou 
atribuir alguma propriedade ou sobre o qual é possível associar um evento. 
c. Ato ilocutório > o que se faz por meio da linguagem. Pode ser identificado por 
pistas linguísticas ou extra-linguísticas explícitas ou implícitas. 
Inclinado a compreender a capacidade humana de reconhecer um ato de fala, Searle 
(1979) chegou à conclusão de que um ato de fala é o resultado de uma proposição 
de um conteúdo semântico relacionado aos fatos no mundo. 
Grice (1989) tinha a preocupação de explicar os efeitos de sentido que vão além do 
que é dito. Em suma, pretendia explicar como é possível um enunciado e sua 
capacidade semântica tomarem o que Austin chamou de ato de fala corpo e significar 
além do que estava expresso. A ele, cabia esclarecer que regra condicionava um 
falante transmitir algo além da frase a um ouvinte. 
Considere o exemplo a seguir, retirado da obra Studies in the ways of words (1989): 
 
 A e B conversam sobre um amigo mútuo, C, que agora está trabalhando 
em um banco. A pergunta a B sobre C e seu emprego; B responde: Oh, 
muito bem, eu acho; ele gosta de seus colegas e ainda não foi preso. 
(GRICE, 1989, p. 74) 
 
Grice (1989) introduz a noção de implicatura conversacional e apresenta sua Teoria 
das Implicaturas baseada num Princípio de Cooperação mais um conjunto de quatro 
máximas: quantidade, qualidade, relação e modo, a saber: 
 
a. Máxima de Qualidade: não diga algo que você acredita ser falso e que não possa 
fornecer evidência adequada; 
b. Máxima de Quantidade: torne sua contribuição tão informativa quanto é requerida 
e não dê mais informações do que o necessário; 
c. Máxima da Relação: seja relevante; 
d. Máxima de Modo: seja breve e ordenado, evitando obscuridade e ambiguidade. 
 Com os estudos de Costa (2009), Grice constitue os princípios comunicativos 
por leis implícitas quando os indivíduos dialogam e, com as máximas 
 
 
30 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
conversacionais, entende-se que numa interação linguística os sujeitos devem ser 
informativos à medida que lhes convêm. Para o autor, 
 
seja informativo como convém, diga a verdade, seja relevante e seja 
adequado na expressão. Quando o locutor aparentemente viola as 
máximas, ele pode ter intenção de gerar inferências. Com elas, pode-se 
transmitir mais do que o que é dito. São as implicaturas, inferências na 
interface semântico/pragmática. (COSTA, 2009, p. 36) 
 
 
O autor ressalta ainda que esses princípios cooperativos talvez tenham sido 
aprendidas concomitantemente à aquisição da linguagem, de modo que um falante 
competente reconhece os efeitos de sentido de uma mensagem em sua língua e adquire 
conhecimentos desse jogo comunicacional ao qual está submetido. 
 
 
 
Em “Quando dizer é fazer” Austin (1962) classifica os Atos de Fala em 
Locucionário, o ato de enunciar, Ilocucionário, a ação que se realiza quando se 
enuncia algo e Perlocutório que implica o uso da linguagem para convencer, 
persuadir. É no ato ilocutório, porém que se originam os outros atos. 
 
 
 
 
 
AUSTIN, John Langshaw. How to do Things with words. New York: Oxford 
University Press, 1962. 
 
COSTA, Jorge Campos da. A Teoria Inferencial das Implicaturas: descrição do 
modelo clássico de Grice. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 44, n. 3, p. 12-17, 
jul./set. 2009. 
 
GRICE, Paul. Meaning. The Philosophical Review, v. 66, 1957. (Reimpresso em: 
GRICE, P. Studies in the ways of words. Cambridge, Mass.: Harvard University 
Press, 1989. p. 213-223). 
 
MARCONDES, Danilo. 2005. Em defesa de uma concepção pragmática de 
linguagem. Revista Gragoatá, 18:11-30 
 
RANGEL, Eliane de Fátima Manenti. Uma Nova Concepção de Linguagem a 
partir do Percurso Performativo de Austin. Revista Letra Magna - Revista 
 
 
31 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Eletrônica de Divulgação Científica em Língua Portuguesa, Linguística e 
Literatura, Porto Alegre, ano 01, n. 1, seg. sem. 2004. Disponível em: . Acesso 
em: 28 nov. 2010. 
 
SEARLE, John R. Expression and meaning. Cambridge: Cambridge University 
Press, 1979. 
 
SILVA, Gustavo Adolfo Pinheiro da. Pragmática: a ordem dêitica do discurso. 
Rio de Janeiro: ENELIVROS, 2005. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
32 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
7. O QUE É PRAGMÁTICA? 
 
Objetivo 
Apresentar o percurso histórico e a conceituação da Pragmática nos estudos da 
linguagem. 
 
Introdução 
Desde seu nascimento, a pragmática centrou-se na ideia de enunciação e 
convenção dos ritos sociais. De certo modo, pode-se dizer que os signos são a potência de 
uma realização, isto é, o efeito de sentido produzido por uma palavra provoca no interlocutor 
determinadas ações, previamente imaginadas pelo locutor. A isto dá-se o nome de força 
ilocucionária. 
 
Para Dascal (1982) a pragmática moderna possui duas origens: uma ligada à 
sociolinguística e outra relacionada aos estudos de Saussure (1916). 
 
A concepção moderna de uma disciplina com o nome de “pragmática” está 
intimamente ligada à ideia de uma outra disciplina, com o nome de 
“semiótica” ou “semiologia”, que surgiu por volta do início deste século. A 
“semiótica” ou “semiologia”, tem, como se sabe, uma dupla origem: os 
escritos de Charles Sanders Peirce e de Ferdinand de Saussure. De um 
modo geral, ela pode ser caracterizada, segundo ambos, como a teoria geral 
dos sinais. A ela ficam assim naturalmente subordinadas todas as disciplinas 
que se ocupam de um tipo particular de sinais, como é o caso da linguística. 
É a essa dupla origem da semiótica e à influência desigual de seus 
fundadores sobre o desenvolvimento da linguística contemporânea que [...] 
remonta, pelo menos em parte, o problema da inclusão de um componente 
pragmático na teoria linguística. (DASCAL, 1982, p. 8) 
 
 
Originária dos estudos de Peirce (século XIX), a pragmática é concebida como um 
nível de análise linguística cujo objetivo é o funcionamento de algo como signo, ou seja, 
aquilo que representa algo a alguém. 
 
Estudos apontam para três direções da pragmática, a saber: 1) uma que considera 
o usuário somente para determinar a relação da linguagem com o mundo, 2) o usuário e 
sua relação com a linguagem e uma terceira que se configura a partir da linguagem 
ordinária. 
Vista, portanto, como a relação mediada pelo signo e o contexto, a pragmática 
inclina-se a algumas indagações: 
 
 
33 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
1. O que se faz quando se usa a linguagem? 
2. As interações seguem à risca a alguma regra sistemática? 
3. Que outros elementos podem ser usados para interagir? 
 
É neste sentido que a pragmática, enquanto ciência / disciplina, se interessapelo 
significado a partir de situações reais de uso. Assim sendo, em pragmática significado 
significa uso, ou, enquadrando-se na teoria dos atos de fala, significa ação. 
 
Pode-se, deste modo, definir o processo pragmático como determinadas intenções 
interacionais em relação ao seu alocutário. Este, por seu turno, tenta identificar qual o 
significado de tal enunciado e leva, para tanto, em conta as condições variáveis: de contexto 
e de locutor. 
 
Em suma, a pragmática é a parte da linguística que trata do uso, da prática da 
linguagem relacionada ao efeito de sua produção social. 
 
Antes de trilhar caminhos linguísticos, a pragmática, como se sabe, buscava 
responder a indagações por meio da filosofia da linguagem. Para consolidar-se como 
ciência/disciplina relacionada à linguagem, tornaram-se precisos os estudos do inglês 
Austin, intitulados de teoria dos atos de fala. 
 
7.1 Os atos de fala 
Por meio da comunicação realizamos diversos atos da língua, era o que afirmava, 
desde a década de 1960, John Langshaw Austin. Por meio deles, não apenas se declarava 
algo, mas poderia também solicitar, orientar, ameaçar, declarar, pedir etc. 
 
Marcondes (2005) assinala que considerar as práticas sociolinguísticas equivale ir 
além do significado das palavras e da estrutura sintática e do valor de verdade das 
sentenças para incluir os elementos contextuais que fazem com que o significado, em uma 
acepção pragmática, dê conta de mais do que é explicitamente dito na interação linguística 
e torne possível a análise dos resultados por meio da linguagem. 
Influenciado por filósofos devido a sua origem de estudo, considerar o contexto como 
imprescindível para a construção do sentido contribui para investigar como a linguagem 
 
 
34 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
pode agir sobre o interlocutor, levando-a concretizar a interpretação e o significado ora 
construídos. 
 
A pragmática se sustenta de estudos linguísticos, considerando, como já fora dito, o 
contexto, os usuários e o conhecimento, estes três tidos como premissas fundamentais. 
Para ela, o enunciado está relacionado a uma ação, a um representar, em que falante e 
ouvinte se constituem como sujeitos intencionais. 
 
Austin (1990) estudava o pragmatismo por meio das características da fala e de suas 
possíveis motivações (motivações psicológicas dos falantes, reações dos interlocutores, 
tipos socializados de fala, objeto da fala etc.), contrariando os aspectos sintáticos e 
semânticos. 
 
Os enunciados, objetos de estudo de Austin, dividem-se conforme à orientação 
linguística a que se destinam. Classificam-se em (A) constativos e (B) performativos. 
 
Em A os enunciados descrevem estados de mundo, relatam ocorrências e atribuem 
valores verdadeiros ou falsos (p. exemplo: em “A previsão é de sol” este enunciado pode 
ser facilmente verificado e julgado como verdade ou mentira). 
 
Já em B, os enunciados cumprem a missão de fazer, realizar ações sugeridas pela 
interpretação do código linguístico – o signo. (Exemplos: “Hoje eu pago a dívida. De hoje 
não passa” e “Pode confiar em mim!”) 
 
Diante disso, em seus trabalhos, Austin tem os atos de fala como um meio de 
investigação linguística usada para realizar atos ilocucionários (uma função particular da 
linguagem realizada por um enunciado) durante a produção de sentenças. Isto implica dizer 
que por meio da linguagem os falantes transmitem intenções comunicativas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
35 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Por meio da linguagem realizamos ações, realizamos atos. Austin dividiu os 
enunciados em atos constativos e performativos. Os enunciados constativos 
descrevem estados de mundo, ou seja fatos verificáveis como 
A TERRA É REDONDA 
Os enunciados performativos cumprem a missão de realizar algo como 
EU OS DECLARO MARIDO E MULHER 
Disse o juiz de paz. 
 
 
 
AUSTIN, John Lanshaw. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Porto Alegre: 
Artes Médicas, 1990 [1962]. 
 
DASCAL, Marcelo. Fundamentos metodológicos da linguística – v. IV: 
Pragmática. Campinas, 1982. 
 
MARCONDES, Danilo. A Pragmática na filosofia contemporânea. Rio de 
Janeiro, Jorge Zahar, 2005. 
 
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. Organização de Charles 
Bally e Albert Sechehaye com a colaboração de Albert Riedlinger. 1916. 
Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. 24ª ed. São Paulo: 
Pensamento-Cultrix, 2002. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
36 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
8. PERCURSO CONSTITUTIVO DA PRAGMÁTICA 
 
Objetivo 
O objetivo desta aula é apresentar um brevíssimo percurso do pensamento sobre a 
linguagem que culminou no surgimento da Pragmática. 
 
Introdução 
Muitas ciências como a Filosofia, a Biologia, a Psicologia, a Linguística, a Etnologia 
e a Antropologia se ocuparam com os estudos da linguagem humana. Desde sempre, todas 
elas se deslumbraram com este importante patrimônio histórico-cultural. 
 
A civilização hindu, uma das mais antigas sociedades do mundo, juntamente da 
grega, formaram as bases para estudos sobre a lógica, que antecede o estudo da 
pragmática. Homero (928 a.C.), autor da Ilíada e da Odisseia, constrói com seus atos de 
fala uma concepção enunciativa da pragmática. 
 
De modo geral, os gregos viam a linguagem como uso, prática, efetivação discursiva, 
distante da ideia de teoria. A esse exemplo tem-se Homero, que deixou a herança mais 
antiga sobre os usos da língua. Ao se falar de pragmática, deve-se ter por princípio os atos 
de fala, cujos estudos tiveram como precursor o já mencionado poeta épico da Grécia 
Antiga. 
 
Os hindus tinham a linguística baseada na perspectiva formal, isto é, relacionada à 
noção de ciência formal. Panini (século V a.C.) se destaca como a principal contribuição 
hindu para a linguística, da qual é fundador. Panini estudou detalhadamente o Sânscrito, 
considerada a língua perfeita, envolvendo questões como filologia, morfologia e sintaxe. 
Sobre o mérito de Panini, Blikstein (1974, p. 286) escreve: “E o mérito extraordinário de 
Panini reside exatamente em ter descrito com notável minúcia e precisão as várias 
centenas de combinações possíveis com seus respectivos resultados semânticos”. 
 
8.1 O nascimento da Pragmática 
A pragmática, enquanto teoria semântica, nasce no interior da filosofia da linguagem 
e em um panorama mais recente da linguística, os atos de fala tiveram a atenção do inglês 
John Langshaw Austin (1911-1960). Neste sentido 
 
 
37 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
 
A perspectiva recai sobre o que se diz e o que se faz e a linguagem está 
intimamente ligada à naturalidade das coisas. 
 
 
 
A pragmática linguística assim entendida começou a se firmar no início da década 
de 1970, embora propusesse, por volta de 1940, a divisão tricotômica nos estudos 
linguísticos, dividindo-se em sintaxe, semântica e pragmática. 
 
A partir do século XIX, nos Estados Unidos, estudos passam a vigorar como método 
para determinar o significado de termos linguísticos fundamentais. Formada pelo vocábulo 
grego pragma, estendeu-se à Inglaterra, a Itália e chegou a nós sob variadas formas. 
 
O Methaphiucal Club, grupo de pensadores formado em Cambridge, 
Massachussets, nos anos de 1870, se configura como o primeiro grupo linguístico de 
estudos pragmáticos. Dele, destaca-se Charles Sanders Peirce (1829-1914), referência nos 
estudos desta temática. 
 
Outro hindu de relevância neste contexto é Yaska, cujas contribuições recaem sobre 
a Etimologia. Para Yaska, a maioria dos nomes derivava-se de verbos. 
 
De acordo com Blikstein (1974 p.92), 
 
suas explicações etimológicas são uma verdadeira antecipação do que viria 
a ser a análise histórico morfológicada gramática comparada do século XIX. 
Em seus Nirukta (interpretações de palavras), Yaska distingue 
perfeitamente as raízes verbais de prefixos, provérbios e sufixos, explicando 
a formação das palavras a partir de derivação e composição; para Yaska e 
seus seguidores (os Nairuktas), as raízes representam o ponto de partida 
de qualquer investigação etimológica, sendo mesmo indecomponíveis. 
(BLIKSTEIN, 1974, p. 192) 
 
Yaska estudou sobre o significado, acreditando que ele emerge na palavra ou 
sentença. A pragmática estuda o significado, mas dedica-se a questões relacionadas ao 
contexto e ao enunciado. Sobre Yaska e o tratado de Etimologia. 
 
 
38 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
A linguagem era classificada em dois tipos pelos gregos, sobretudo os pré-
socráticos: poética e retórica. 
 
Fonte de inspirações, a linguagem poética consiste em falas obtidas por meio de 
musas, enquanto a retórica relaciona-se à persuasão, utilizada principalmente pelos 
políticos. Para Fonseca (2004) os sofistas - pessoas que tentavam convencer por meio da 
linguagem, representando a emergência no pensamento grego - exigiam alto pagamento 
por suas lições e, nas palavras do autor: 
 
(...) apresentavam-se como programas de ensino o discurso ordenado, o 
mito, a explicação dos poetas. A crítica de ideias sobretudo morais, sem 
dúvida recebeu dos sofistas uma colaboração que imprimiu caráter original 
ao fim do século V e à primeira metade do século IV. Eles entraram em 
desafio com os críticos dos velhos atenienses, de Platão com seus diálogos. 
(FONSECA, 2004, p.104-5) 
 
 
Dada a dupla função, a pragmática, a partir do século XIX, passa a ser vista como 
disciplina contemporânea, isto é, desprende-se da tradição secular. Surge, portanto, no 
início do século XX definida como estudo de aspectos dos significados linguísticos que só 
podem ser explicados se levados em conta o enunciador e o contexto de enunciação. 
 
Sua história se apropria das investigações lógicas de Wittgenstein, ao considerar 
que a linguagem pode ter diversos usos além de informar ou descrever. Para tanto, leva-
se em conta os estudos aprofundados de Austin e as posteriores reformulações feitas por 
Searle. 
 
Período clássico x contemporâneo 
 
Como é sabido, a pragmática se desenvolveu no interior da filosofia da linguagem, 
da lógica e da mente e são os estudiosos dessas vertentes que cumpriram a tarefa de dividi-
la em duas dimensões: em período clássico e em período contemporâneo. 
 
O período clássico compreende os caminhos trilhados no final do século XIX até fins 
da década de 1950-1960, quando Peirce a definiu como forma não homogênea. Dessa 
forma, Peirce enxergava os signos a partir de estudos semióticos, de onde surge a tríade 
sintaxe, semântica e pragmática. 
 
 
 
39 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Nas palavras de Costa (2008, p. 23), 
 
sintaxe era o estudo mais abstrato dos signos, semântica mais concreto, 
incluindo tanto sintaxe quanto o estudo da denotação sem o uso, 
e pragmática seria todo o escopo do estudo da linguagem, incluindo sintaxe 
e semântica. Isso muda em Morris no seu texto signs, language and 
behavior (1946), quando a semântica se torna o estudo da significação em 
todos os modos de significar e pragmática o estudo da origem, uso e efeitos 
dos signos. (COSTA, 2008, p.23) 
 
 
Ainda para o autor, o que caracteriza essa fase é o fato de determinados teóricos 
compreenderem a necessidade de investigações que sistematizassem os “fenômenos 
ligados aos usos da linguagem, antes de estabelecer, com clareza, os limites desse 
fenômeno e o aparato conceitual dessa investigação” (COSTA, 2008, p.23). 
 
Predomina, neste período, a distinção da pragmática descritiva e pura, orientando o 
homem para o que se chama de pragmática formal. 
 
Já o período contemporâneo tem a pragmática como complementar aos estudos 
semânticos. Isto é, enquanto este preza pelo que foi dito, aquele preza pelo que foi 
implicado. 
 
Tal concepção postula que a comunicação se estabelece a partir da intenção do 
comunicador, o qual tenta fazer com que seu ouvinte pense ou faça algo. 
 
Grice (1989) introduz a noção de implicatura conversacional e apresenta sua Teoria 
das Implicaturas baseada num princípio de cooperação formulado a partir de quatro 
máximas: quantidade, qualidade, relação e modo, como se verá adiante. 
 
 
 
A pragmática tem raízes nos pensamentos hindus e gregos que, 
posteriormente foram estudados e aprofundados por teóricos 
contemporâneos, possibilitaram uma relação indireta com a pragmática. Os 
estudos dos atos de fala foram possíveis graças a lógica de Homero e de seus 
teóricos. Com seus atos de fala, possibilitou mais tarde o estudo dos 
enunciados. 
 
 
 
 
40 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
 
 
BLIKSTEIN, Izidoro. Hinduísmo, Linguística e Semiologia. ALFA, São Paulo, p. 
275-287, mai 1974. 
 
COSTA, Jorge Campos da. A Teoria Inferencial das Implicaturas: descrição do 
modelo clássico de Grice. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 44, n. 3, p. 12-17, 
jul./set. 2009. 
 
FONSECA, Ísis Borges B. A retórica na Grécia antiga. In: MOSCA, L. (Org.). 
Retóricas de ontem e de hoje. 3. ed. São Paulo: Associação Editorial 
Humanitas, 2004. 
 
GRICE, Paul. Meaning. The Philosophical Review, v. 66, 1957. (Reimpresso em: 
GRICE, P. Studies in the ways of words. Cambridge, Mass.: Harvard University 
Press, 1989. p. 213-223). 
 
ILARI, Rodolfo. Semântica e pragmática: duas formas de descrever e explicar 
os fenômenos da significação. Revista de estudos da linguagem, Belo 
Horizonte, v. 9, n. 1, p. 109-162, 2000. 
 
RAJAGOPALAN, Kanavilli. Os caminhos da pragmática no Brasil. DELTA, São 
Paulo, v. 15, número especial, p. 323-338, 1999. 
 
RUBEN, Maria Vitória. Argumentação e debates linguísticos no Brasil. DELTA, 
São Paulo, n. 11, v. 1, p. 133-159, 1995. 
 
SEARLE, John. Actos de habla. Tradução espanhola de Luis M Valdés 
Villanueva. Madri: Tecnos, 2001. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
41 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
9. PRODUÇÃO DE SENTIDO NAS LÍNGUAS NATURAIS 
 
Objetivo 
O objetivo desta aula é revisar as visões de Chomsky e as de Saussure sobre a 
linguagem. 
 
Introdução 
Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já 
ressoavam à nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis 
do nosso pensamento através da vida, desde as mais humildes ocupações 
da vida quotidiana aos momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a 
vida de todos os dias retira, graças às lembranças encarnadas pela 
linguagem, força e calor. (HJELMSLEV, 1975, p.1) 
 
Duas visões sobre a linguagem se destacam nesta aula. Para Chomsky (1985) a 
linguagem, “parte de nossa herança biológica” é algo inato ao ser humano. Ao considerar esta 
ideia do linguista, filósofo, sociólogo e ativista norte-americano, automaticamente considera-se 
também a premissa de que possuímos uma capacidade de desenvolvimento linguístico 
preestabelecido. Não obstante, o ser humano é o único entre os seres que tem condições de 
pensar o mundo e exprimi-lo por meio das diferentes linguagens. 
 
Luft (1985, p.37) assinala que 
 
o desenvolvimento da linguagem é um processo natural e espontâneo, um 
saber intuitivo, onde o idioma se desenvolve em nossas mentes quando 
somos colocados em um meio ambiente apropriado, passamos a 
desenvolver modelos linguísticos para expressar o que sentimos e 
pensamos. (LUFT, 1935, p. 37) 
 
 
Diante de tais considerações, a linguagem é vista como processo contínuo de 
transformação desde que nascemos e é influenciada pelas variadas experiências 
cognitivas. Para a ciência, o organismo é um corpo em constante interação com o meio ao 
qual está condicionado. Logo, as relações mantidascom o mundo se consagram por meio 
da linguagem, que produz informações e exige respostas no mesmo instante. 
 
Sob a ótica de Saussure (1969), a língua é um sistema de signos. Usa-se os sons 
para expressar ideias e, ao escrever, por exemplo, usam-se símbolos gráficos para 
comunicar esta tal ideia. O signo, como se sabe, é a união entre um significante e um 
 
 
42 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
significado e, resulta da união entre os dois, uma função semiótica, isto é, uma linguagem 
possível de múltiplas possibilidades. 
 
Todavia, vale ressaltar que os significados são conceitos que mudam em função da 
sociolinguística e da pragmática, além de variar entre uma língua e outra. 
 
Ainda para Saussure (1969), cabe a distinção entre língua e fala. De acordo com o 
linguista e filósofo suíço, a língua é um produto social da faculdade da linguagem e um 
conjunto de convenções necessárias adotadas pelo corpo social. Deste modo, a língua, 
enquanto convenção social, se apresenta como patrimônio cultural condicionado às 
transformações que certamente ocorrem ao longo do tempo. 
 
Enquanto isso, a fala é “uma realização concreta não virtual ou psíquica, ou seja, é 
a maneira pessoal de utilização do código”. 
 
Considere o trecho abaixo: 
 
[...] a língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza 
todos os seus efeitos; mas esta é necessária para que a língua se 
estabeleça; historicamente, o fato da fala vem sempre antes. Como 
se imaginaria associar uma ideia a uma imagem verbal se não se 
surpreendesse de início esta associação num ato de fala? Por outro 
lado, é ouvindo os outros que aprendemos a língua materna; ela se 
deposita em nosso cérebro somente após inúmeras experiências. 
Enfim, é a fala que faz evoluir a língua; são as impressões recebidas 
ao ouvir os outros que modificam nossos hábitos linguísticos. 
(SAUSSURE, 1969, p. 27) 
 
 
Cabe, portanto, reiterar a posição do autor ao defender a interdependência da língua 
e da fala. A língua é, neste sentido, ao mesmo tempo, o instrumento que produz a fala e, 
no entanto, esta interdependência não implica dizer que os dois fenômenos sejam 
absolutamente distintos. 
 
Com vistas para essa consideração entre significante e significado, assim, o signo 
em si só pode ganhar corpo se pensado dentro de um contexto histórico-social. É dentro 
de uma sociedade que se constituem os significados. 
 
 
 
43 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Nos primeiros anos de vida, o homem tenta identificar, cada um à sua maneira, tudo 
que está ao seu redor e, não obstante, a linguagem é uma barreira intrapsicológica 
colocada para a inteligência. Naturalmente, à medida que se desenvolve psicologicamente, 
os obstáculos são superados. (Vygotsky, 2005) 
 
Desde crianças, o ser humano consegue manipular o meio e as pessoas que o 
cercam, pois existe algo que está inserido em seu inconsciente. É, mais uma vez, a 
natureza que age. 
 
Ainda na infância, as muitas informações recebidas no dia a dia são internalizadas 
pelo sujeito e relações contextuais são estabelecidas, de modo que, por meio dele, esse 
sujeito age e se (re)constrói mutuamente. Tal internalização das formas culturais corrobora 
para a reconstrução psicológica, a qual tem por base as relações com os signos. 
 
Para Bloomfield (1972), a significação é feita na observação de uma situação social 
estabelecida entre falante e ouvinte e, dessa maneira, a criança aprende a falar pelo fato 
de estabelecer uma relação entre o que ouve e a situação social que está ouvindo. Todos 
os movimentos sistemáticos – leia-se cérebro, percepção – recebem inúmeras informações 
e reagem organizadamente a elas. 
 
Ao se falar em aquisição e produção de sentidos na língua, deve ficar claro que uma 
aprendizagem dessa, bem como qualquer outra, não cessa quando o indivíduo, por mais 
instruído que seja, atinge sua vida adulta. Experiências linguísticas se fazem presente o 
tempo todo e uma metáfora é possível diante dessa constatação. Essas experiências 
nutrem, dão forma, encorpam as capacidades cognitivas dos falantes. Quanto mais se 
alimentar dessas experiências, mais forte e saudável serão o vocabulário, a lógica e as 
demais capacidades cognitivas dos seres. 
 
9.1 A interação: propósito comunicativo ou Propósito comunicativo: a interação? 
A comunicação ocorre por meio não só das palavras, mas também por meio dos 
gestos, dos códigos, das mensagens subliminares, até por meio da piscada de olhos. A 
forma humana de se relacionar com o mundo é dialógica, isto é, enquanto age sobre ele, 
sobre ele também é influenciada. 
 
 
44 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Comunicar é algo natural, espontâneo, fruto das relações sociais. Ao fazer uso de 
diversos códigos, no princípio não há discriminação (quando criança, por exemplo, omitem-
se letras, concordâncias etc.), entretanto, ao passo que as capacidades linguísticas são 
substanciadas, determinadas regras – impostas pela gramática normativa e pelas 
condições contexto-sociais – tornam-se imprescindíveis. 
 
A linguagem, objeto da comunicação, é o reflexo das situações vivenciadas, 
aprendidas durante a interlocução. Pensa-se, portanto, no processo comunicativo como um 
remetente que envia uma mensagem a um interlocutor. (JAKOBSON, 1969, p.23) 
 
Conforme Pais (2006), o modelo de percurso gerativo da enunciação de codificação 
e de decodificação compreende os patamares da percepção, da conceptualização, da 
semiologização, da lexemização, da atualização, da semiose, quanto ao fazer persuasivo, 
do sujeito enunciador. 
 
 
 
Fiorin (2013) afirma que a linguagem é a capacidade específica da espécie 
humana de se comunicar e interagir. Para ele, 
 
Entre as ferramentas culturais do ser humano, a linguagem ocupa um lugar à 
parte, porque o homem não está programado para aprender física ou 
matemática, mas está programado para falar, para aprender línguas, 
quaisquer que elas sejam. Todos os seres humanos, independentemente de 
sua escolaridade ou de sua condição social, a menos que tenham graves 
problemas psíquicos ou neurológicos, falam. Uma criança, por volta dos três 
anos de idade, já domina esse dispositivo extremamente complexo que é a 
língua. (FIORIN, 2013, p.13) 
 
Diante dessas considerações, é possível compreender a língua como 
capacidade específica da espécie humana de produzir sentidos, de se 
comunicar, bem como postula Benveniste (2006) a linguagem “é para o 
homem um meio, na verdade, o único meio de atingir o outro homem, de lhe 
transmitir e de receber dele uma mensagem”. 
 
 
 
 
 
 
 
45 Semântica e Pragmática 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
 
 
BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral I. Campinas: Pontes, 2006. 
 
BLOOMFIELD, Leonard. Fundamentos metodológicos da linguística. São Paulo: 
Global, 1972. 
 
CHOMSKY, Noam. Estruturas sintáticas. Lisboa: Edições, 1985. 
 
FIORIN, José Luiz. Linguística? Que é isso? São Paulo: Contexto, 2013. 
 
HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. São Paulo: 
Párabola, 1975. 
 
JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 1969. 
 
LUFT, Celso Pedro. Língua e liberdade – O gigolô das palavras. Porto Alegre: 
L&pm, 1985. 
 
PAIS, C. T. Ensaios Semiótico-linguísticos. Petrópolis: Vozes, 1977. 
 
SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 1969. 
 
VYGOTSKY, Lev Semyonovich. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins 
Fontes, 2005.

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