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SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Me. Adilson do Nascimento Gomes GUIA DA DISCIPLINA 1 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. O SIGNIFICADO NOS ESTUDOS DA LINGUAGEM Objetivo Estudar o significado dentro da linguística, ampliando o nosso olhar para a compreensão de como se processam os significados na sociedade e, consequentemente, sob a perspectiva dos estudos linguísticos. Introdução Como tudo que se refere ao homem, a língua e a construção de sentido sempre foram objetos de investigação. A essa altura, indubitavelmente, você já deve ter compreendido que a língua é um fenômeno eminentemente social. Logo, é preciso entender as relações que ela mantém com a cultura em que está inserida. Por isso, trataremos, nesta aula, de algumas concepções que explicam a construção do significado a partir das relações empreendidas socialmente. 1.1 O significado dentro da Linguística Saussure (2002), considerado o pai da Linguística moderna, concebeu a linguagem como uma faculdade humana capaz de produzir, desenvolver e compreender a língua e outras manifestações simbólicas semelhantes a ela. Seu objetivo principal era diferenciar a língua da fala, entretanto ateve-se, também, à compreensão e ao significado. Em suma, para ele, a língua é a relação entre o pensamento e os sons/gestos. Já Chomsky (1957), linguista norte-americano, parte da premissa de que a língua é parte de um conhecimento que o indivíduo traz em sua carga genética. Sua teoria, conhecida como Gramática Gerativa, propõe, principalmente, que a língua seja objeto mental, diferentemente de Saussure que, como já se sabe, a tinha como objeto social. Pode-se dizer, portanto, que, de acordo com Chomsky, a mente se incumbe de produzir, interpretar e compreender sentenças linguísticas. Assim sendo, é possível chegar à seguinte conclusão: os falantes interagem por meio de signos construídos cognitivamente e consagrados por sua força social. Usam, para este fim, conceitos mais ou menos detalhados, a depender de seus objetivos. 2 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Pensamento e linguagem existem em mentes individuais, mas constroem-se na interação social. (SILVA, 2010, p. 47) A par dessas noções básicas é importante também mencionar o caráter interdisciplinar dos processos que visam a significação. Filosofia, Linguística, Ciências Cognitivas e Sociais e Lógica, por exemplo, entrelaçam-se com o intuito de aprofundar e discutir as reflexões até então levantadas sobre esta temática. Dentro da Linguística, disciplinas especiais como Semântica, Pragmática, Sociolinguística e Análise do Discurso se concentram em verificar a descrição de conceitos (palavras, a grosso modo), e suas relações, e em organizar a linguagem e suas possibilidades de comunicação. O significado passa, então, a ser descrito por meio de perspectivas internalistas e externalistas, isto é, ora é tido como resultado de estruturas linguísticas predeterminadas e definidas pela capacidade cognitivo-mental, ora pelas condições externas, como a interação com a cultura e com o ambiente. 1.2 A Significação Sob O Olhar Da Filosofia E Da Psicologia Em Crátilo (Natureza dos Nomes), Platão anuncia a infecundidade do estudo das palavras no entendimento da construção do significado, porque, para ele, a convergência entre estas instâncias apresenta natureza convencional. Ora, em sua opinião, os sons que produzem os significados das coisas resultam de acordos prévios realizados socialmente. Sócrates (1987) defende que apenas o conhecimento das palavras, da linguagem inata, levaria ao conhecimento das coisas. Para ele, na origem da formação das primeiras linguagens humanas, as palavras traziam o som das coisas, isto é, eram onomatopeicas, portanto, uma natureza comum entre as duas. 3 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Aristóteles (1985), numa concepção mais elaborada, apresenta um elemento novo na relação linguagem e significado: a mente. Em suas reflexões, a mente é favorecida por uma estrutura discursiva capaz de converter as manifestações da alma em palavras. A mente, enquanto instituição, atuaria como intercessor entre a relação convencional das palavras e o significado das coisas. Já na Filosofia Moderna, cabe a John Locke, talvez o único filósofo da época a se preocupar com a linguagem, apontar a linguagem como fruto da experiência humana. Fundamentalmente, o homem desenvolve a capacidade de comunicar, interagir, compreender e se fazer compreendido com a intenção de viver melhor. A atividade da linguagem associa cada palavra a uma ideia que, por sua vez, está associada ao que se quer representar. Logo, a palavra representa coisas, intenções e interesses com os quais os homens querem dialogar. Ela é meio para a comunicação do pensamento. Após a introdução desses estudos sob a ótica da filosofia, é justo conceder espaço às contribuições da Psicologia, as quais possibilitam, ainda mais, investigação e aprofundamento nesse assunto. Vygostky (1896-1934) não só dedicou sua atenção ao desenvolvimento das funções psicológicas superiores, mas também ao problema da linguagem, de sua gênese e de sua condição de instrumento de regulação de outras formas de comportamento. Investigando a relação entre pensamento e palavra, percebe que a união entre pensamento e palavra dá origem à criação verbal. Nas palavras do autor: o significado de uma palavra representa um amálgama tão estreito do pensamento e da linguagem, que fica difícil dizer se se trata de um fenômeno da fala ou de um fenômeno do pensamento. Uma palavra sem significado é um som vazio; o significado portanto, é um critério da ‘palavra’, seu componente indispensável.” (VYGOTSKY, 1931, p. 104) A estrutura semântica da palavra carrega em si o referente e o significado. Correspondente a isso está a capacidade do indivíduo de fazer distinção entre a função nominativa e a função significativa, isto é, aquilo a que se refere possui um nome que, dentro de um contexto, variavelmente, carrega um significado, ou, além disso, uma função social. 4 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Tendo em vista estas considerações, cumpre observar que uma única teoria ou constatação não se encarrega de responder às indagações sobre a construção de significados, pois, à medida que cada uma se constituía, representava não a anulação da proposição anterior, mas sua validação e reafirmação, mesmo que fossem divergentes em seus ideais. É importante considerar cada uma dessas aspirações, pois, para compreender o funcionamento dos significados tal qual se compreende hoje, é preciso analisar historicamente todas as constituições. Nesta aula vimos que o significado dentro da linguística é visto sob duas perspectivas uma internalista que considera o significado como resultado de estruturas linguísticas predeterminadas e definidas pela capacidade cognitivo- mental. A outra perspectiva, a externalista, considera as condições externas, ou seja, a interação social, a cultura e o ambiente. CHOMSKY, Noam. Estruturas Sintácticas / Noam Chomsky; tradução de Madalena Cruz Ferreira; Lisboa: Edições 70, 1957. NEVES, Maria Helena de Moura. A gramática: história, teoria, análise e ensino. São Paulo: Ed. UNESP, 2002. SANTOS, Patrícia de Catro (1995). A Construção do Significado: caminhos possíveis... Dissertação de Mestrado, LAEL/PUCSP, 1995. SAUSSURE, Ferdinand. Curso de lingüística geral. Organização de Charles Bally e Albert Sechehaye com a colaboração de Albert Riedlinger. Trad. de Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. 24ª ed. São Paulo: Pensamento- Cultrix, 2002. SILVA, Augusto Soares. Palavras,significados e conceitos: o significado lexical na mente, na cultura e na sociedade. In.: Caderno de Letras da UFF, nº 41, p. 27-53, 2010. VYGOTSKY, Lev Semyonovich. (1931). Historia del desarrollo de las funciones psíquicas superiores. In Obras Escogidas, tomo I, vol LXXIV de la Colección Aprendizaje, Direção ALVAREZ, A. e DEL RIO, P., Tradução CORAZÖN, J.M., Madrid, Centro de Publicaciones del Ministerio de Educación y Ciencia e Visor Distribuiciones, 1991. 5 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2. A SEMÂNTICA E O ESTUDO DO SIGNIFICADO Objetivo O objetivo desta aula introdutória é delimitar os espaços dos estudos da Semântica e seu objeto de estudo. Introdução Os estudos da linguagem não podem ser realizados afastando a língua de seu uso social, ou seja, a interação é o lugar de observação dos fenômenos da língua, desta forma é na interação. É observando os homens falando no mundo, na escrita e na oralidade, que o linguista deve centrar suas atenções e estudos, pois é socialmente que emergem os sentidos. Observar como, em diferentes contextos de interação, as frases e expressões significam é algo que realizamos todos os dias em nossas interações cotidianas. Muitas vezes nem nos damos conta, de tão comum e corriqueiro. 2.1 A Semântica Os diferentes contextos de usos da língua colocam em movimento os significados que empregamos e codificamos nessas interações, ou seja, a relação entre as palavras e as coisas. Observemos: Nunca tinha visto mangas tão bonitas! https://papodehomem.com.br/camisa- masculina-conhecimentos-definitivos-mais-12- duvidas-tiradas-pra-todo-homem-saber-usar/ https://revistagloborural.globo.com/vida-na- fazenda/como-plantar/noticia/2013/12/como-plantar- manga.html 6 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Nos dois exemplos, através da fonética é impossível determinar qual dos significados atribuir, por este motivo o contexto guia os significados. No exemplo com a palavra manga, apenas o contexto daria conta da compreensão do significado que a palavra assume em cada situação. É neste contexto de estudo dos significados que emerge a Semântica e a Pragmática, que de acordo com Ilari (2000) são duas formas de descrever e explicar os fenômenos da significação. Assim a Semântica e a Pragmática são duas ciências que estudam o significado e por este motivo são duas ciências muito próximas. A Semântica tem relação com o significado das palavras. O significado das palavras pode se alterar em determinadas situações sociais de uso, assim como a ausência de compreensão do significado de algumas palavras pode atrapalhar a interação entre os interlocutores, isso porque as palavras podem assumir diferentes significados de acordo com o contexto em que são empregadas. Veja os usos da palavra Galo: https://pt.dreamstime.com/fotografia-de- stock-royalty-free-galo-bonito-image40765207 https://www.arnigel.pt/traumatismos- ligeiro/um-galo-na-testa-de-uma-crianca-como-reagir/ GALO A palavra GALO assume diferente sentido de acordo com o contexto em que é empregado, observem agora a tirinha: https://pt.dreamstime.com/fotografia-de-stock-royalty-free-galo-bonito-image40765207 https://pt.dreamstime.com/fotografia-de-stock-royalty-free-galo-bonito-image40765207 https://www.arnigel.pt/traumatismos-ligeiro/um-galo-na-testa-de-uma-crianca-como-reagir/ https://www.arnigel.pt/traumatismos-ligeiro/um-galo-na-testa-de-uma-crianca-como-reagir/ 7 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância http://letramento2012aps.blogspot.com/2012/11/cica-pagando-o-pato-porto-alegre-l-2006.html O galo a que a galinha se refere diz respeito ao calombo que se formou na sua cabeça por conta de uma topada. Porém o sentido se altera, pois o galo compreende que ela está pensando em um “belo galo” na cabeça, já que não ouviu o início da conversa. No exemplo abaixo percebemos como a ausência de conhecimento do significado de determinadas palavras atrapalha a compreensão da mensagem, assim como causa estranhamento entre os interlocutores: WHATERSON, Bil. O melhor de Calvin. O Estado de São Paulo, 27 de agosto de 2002. Acompanhe a transcrição: Mãe: ─ Onde vais, jovem desgarrado? Pode ainda restar alguma vilania que não cometestes? Calvin: ─ Tu difamas-me! Juro, não sei para onde erro. Creio que o mais caprichoso zéfiro tem mais intenções do que eu. Mas vede: não me detenhais. Pois estou decidido a deixar este lugar sem demora. Mãe: ─ Sim, mas ouves isto, em breve conhecerei teus assuntos. Vá-te. Mandrião! Calvin: ─ Pelos deuses. Estou a ir. 8 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Calvin: ─ Puxa vida. Não tá passando algum seriado policial, onde eles falem que nem gente de verdade? Mãe: ─ Shhh! Sugestionados pela linguagem formal utilizada no vídeo, Calvin conversa com sua mãe, demonstrando, porém certa dificuldade de compreender o vocabulário utilizado e então questiona “Puxa vida. Não tá passando algum seriado policial, onde eles falem que nem gente de verdade?” Considerando essa fala de Calvin, concluímos que as falas anteriores não representam a comunicação “normal” entre Calvin e sua mãe, o que o faz reclamar, perguntando por um programa em que as pessoas “falem que nem gente de verdade”. A dificuldade de compreensão por parte do menino Calvin tem relação estreita com a semântica que estuda o significado dos signos linguísticos. De acordo com Ilari (2020) “o trabalho da semântica consiste em explicar o significado dessas mensagens”. Para que a compreensão de mensagens, no ato de interação, seja oral ou escrita, é preciso olhar também as palavras que as compõem. Será que, em algum momento, você não se perguntou, o significado de determinadas palavras na tirinha como desgarrado, vilania, zéfiro e mandrião? As variações no sentidos das palavras, à luz da semântica, estão divididos em: SINONÍMIA ANTONÍMIA POLISSEMIA A Sinonímia é a parte da semântica que estuda as palavras sinônimas, ou seja, as palavras que possuem significados ou sentidos muito próximos, semelhantes. Observe o exemplos: O pianista dedicado executou a homenagem com muita emoção. O músico devoto praticou a homenagem com muita comoção. 9 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Inicialmente observamos que os substantivos pianista e músico têm o mesmo significado e nos levam aos mesmos sentidos. O mesmo ocorre com os verbos executar e praticar. https://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2014/02/especialista-orienta-como-escolher-o-melhor- dicionario-para-seu-filho O livro que abriga a maior quantidade de sinônimos que uma língua possui é o dicionário. É nele que encontramos a maior fonte de palavras que se relacionam umas com as outras em relação à sentidos e significados comuns. Do outro lado dos significados semelhantes está a antonímia que é o contrário da palavra, ou seja, apresenta sentido inverso. Observe aos exemplos: O pianista dedicado executou a homenagem com muita emoção. O pianista indiferente executou a homenagem com muita frieza. Neste exemplo os sentidos de dedicado e indiferente são opostos, assim como emoção e frieza se contrapõem. Denominamos antonímia ao estudo semântico das palavras que indicam sentidos opostos. Quando uma mesma palavra assume diferentes significados de acordo com o contexto em que é empregada a chamamos de polissêmica. Observe os exemplos de Polissemia: 10 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Não gostei dessa manga. Está muito curta. A manga é uma fruta muito saborosa além de fazer bem à saúde. Observando os diferentesusos da palavra manga percebemos que ela assume diferentes significados nos mais diversos contextos em que é usada. A manga de uma roupa e a manga fruta. Ainda de acordo com o Ilari (2020) “Mobilizamos nossas capacidades semânticas sempre que lidamos com mensagens verbais, coisa que, na vida moderna, acontece continuamente. Por isso a escola teria interesse em dar às questões do sentido e da interpretação uma atenção maior do que tem dado. Nesta área, mais do que em qualquer outra, vale o princípio de que se pode aprender brincando. É possível ensinar semântica lançando à classe desafios do tipo “Pensem em cinco nomes de pássaros” ou “Excluam o objeto que não combina”, ou mesmo jogando palavras cruzadas. Além disso, muitas anedotas, mais ou menos inocentes, baseiam-se no duplo sentido de uma palavra ou de uma construção sintática: rir um pouco e refletir em seguida sobre a anedota (por exemplo, a do disco voador: “Havia um camarada que era como um disco-voador: baixo, chato e ninguém acreditava nele”) pode ser o começo de uma atitude de atenção para com as ambiguidades e sutilezas do significado, que o aluno levará consigo pela vida toda”. ILARI, Rodolfo. Semântica e pragmática: duas formas de descrever e explicar os fenômenos da significação. In.: Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v.9, n.1, p.109-162, jan./jun. 2000 ILARI, Rodolfo. Semântica. In.: Glossário CEALE. Disponível em <http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/semantica>. Acesso em 24 jun. 2020. 11 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3. AS ORIGENS DA SEMÂNTICA E A PROBLEMÁTICA DO SENTIDO Objetivo Apresentar as origens dos estudos semânticos e, dentro da perspectiva descritiva, estudar o significado das palavras através dos conceitos de denotação e conotação. Introdução Do grego semantiká, a Semântica, ramo da linguística, incumbe-se de analisar o significado dos termos de uma língua. A criação do vocábulo “semântica” se deu em 1883 e é atribuída ao filólogo francês Bréal, também conhecido como pai da semântica moderna. Atento aos aspectos mutáveis de uma língua, Bréal pretendia “marcar algumas divisões, como um plano provisório sobre um domínio ainda não explorado, e que reclama o trabalho de uma legião de linguistas” (BRÉAL, 1992, p.20). Mais de um século depois, permanece atual a preocupação do filólogo porque, desde 1883, não há discussões concluídas sobre muitos estudos da significação. Em seus estudos, Bréal (1992) se debruçou, principalmente, nas alterações de significados de uma palavra. A esse respeito, concluiu, sobretudo, que o sentido é determinado pelos interlocutores. 3.1 A Semântica É tão vão propor à linguística abrir-se à plenitude do sentido (...) quanto esperar da anatomia que ela se espiritualize através do estudo do coração ou do cérebro. (Pavel, 1990, p.64) Uma cronologia para compreender a aplicação da semântica foi elaborada por Junior (2012) a partir de dados brasileiros. Ela começa com a proposta do jornalista Fernando Levisky, em 1955, de retirar sinônimos considerados ofensivos presentes em obras escolares, como judeu (avarento), negro (maldito), brasileira (cachaça) e favela (moradia 12 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância de negros, pobres e malandros). Estes termos, inclusive, foram retirados do Dicionário Contemporâneo (1958). Em 1961, o presidente Jânio Quadros decretou que fossem desconsiderados no Dicionário Prático da Língua Portuguesa “conceitos que não podem ser levados em país cristão e democrático à mocidade”. Já em 1999, o termo aidético, por exemplo, foi substituído por soropositivo, em virtude do combate ao preconceito. Entre 2005 e 2006, a Secretaria Especial de Direitos Humanos lançou uma cartilha com 96 palavras que deveriam ser evitadas entre seus servidores, entre elas barbeiro (motorista inabilidoso) e aidético. No Dicionário de Termos Literários, o conceito de semântica está relacionado “ao processo indutivo” estabelecido pelas palavras e os objetos designados por elas. Interesse não só de linguistas e gramáticos, mas também de filósofos e demais estudiosos de humanidades, é por meio de Aristóteles que se atribui ao referente um significado, traduzindo, desta forma, uma realidade. Saussure (2002) atribui à criação de significado um determinado elemento subjetivo da língua. Isto implica dizer que importam as questões envolvidas na produção de sentido. Para ele, [...] toda espécie de valor, mesmo usando elementos muito diferentes, só se baseia no meio social e na força social. É a coletividade que cria o valor, o que significa que ele não existe antes e fora dela, nem em seus elementos decompostos e nem nos indivíduos. (SAUSSURE, 2002, p.50) Incumbe-se esta ciência de relacionar os significados de uma língua natural e listá- los em um dicionário, a fim de se estabelecer as possibilidades de significados. É, para alguns filósofos, a materialidade, a concretização, de certo modo, da linguagem. 13 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Tendo em vista que iniciar e manter um diálogo são atitudes triviais e tomadas o tempo todo, conceber à Semântica sua devida atenção é imprescindível tanto para a manutenção das relações entre interlocutores já familiarizados quanto para a estrutura social em geral, pois exige de seus agentes posturas lógico-cognitivas. 3.2 Conotação e Denotação Assim como outras disciplinas linguísticas, a semântica pode ser dividida em teórica (responsabiliza-se por conceituar, significar), histórica (analisa o significado de um termo diacronicamente), comparativa (ao relacionar significados) e descritiva, que será desdobrada, a princípio, em conotação e denotação. Em um evento comunicativo, o sujeito comunicante tem por objetivo significar o mundo, a partir de seus propósitos, para um sujeito interpretante. Nessa troca, ou seja, nesse processo dialógico, para proceder a uma análise do texto, o sujeito interpretante precisa não só mobilizar o sentido das palavras e suas regras de combinação (langue) como também construir um sentido que corresponda a sua intencionalidade (parole). Nesse ponto, passa-se do sentido de língua ao sentido de discurso, tendo em vista que o sujeito interpretante não busca o significado das palavras ou sua combinação (sentido de língua), mas seu sentido social (sentido de discurso). Observe a imagem: 14 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Fonte: http://acervo.folha.com.br/leitor.do?numero=47817&anchor=6052320&origem=busca Acompanhando a imagem de Emmanuel Macron o enunciado verbal está construído no sentido denotativo, ou seja, os dizeres “Macron vence eleição na França” estão sendo aplicados em sentido literal, carregando os sentidos reais, dicionarizados. A denotação, de acordo com Platão e Fiorin (apud. Fiorin, 1996), é caracterizada pelo plano de expressão (significante) e o de conteúdo (significado). Já a conotação é “um novo plano de conteúdo, investido no signo como um todo”, isto é, a conotação assume, ao mesmo tempo, um significante e um significado diferentes, a depender de fatores como o contexto social, a cultura, a época e a identidade dos interlocutores. Em suma, um termo, ou vocábulo, em seu sentido denotativo, representa a linguagem mais próxima do real, mais próxima de seu sentido próprio, convencional, aceito amplamente, sem traços de subjetividade. A conotação, por sua vez, funciona como “exteriorização psíquica”. Observe: Fonte: https://jornalzonasul.com.br/edicao-2936-16-de-agosto-de-2019/ed2936-capa/ O enunciado presente na capa do Jornal S. Paulo Zona Sul, “Guerra às carcaças no Jabaquara”está empregado em sentido figurativo. De acordo com Fiorin (1996), a conotação não é uma criação particular de um indivíduo, mas a parte plurissignificativa da palavra, cujo significado se dá num contexto. Ela pode ser subdividida em conotação por analogia e conotação por contiguidade. 15 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A conotação por analogia ocorre quando há uma relação de semelhança entre o sentido tido como denotado e o sentido original, como em “Pedro é o cabeça da equipe.” Em cabeça, no sentido figurado, há o sentido de líder, chefe, membro principal de um grupo, tão próximo do sentido de “parte superior do corpo humano”, de grande importância. Por fim, a conotação por contiguidade, também chamada de extensão, não esclarece tão nitidamente o sentido do termo conotado como faz a conotação por analogia. Veja: “Reconheci o gato que me assaltou.” O termo gato, aqui, remete a um animal ágil, veloz, dotado de destreza, traiçoeiro ou assaltante, ou ainda, em “Ele é uma mala sem alça”, o termo conotado exige, para uma interpretação eficiente, compreensão aprofundada, um elo nem tão próximo assim. Desde sua fundação, Bréal (1992), o pai da Semântica, já considerava o sentido das palavras presente no interlocutores de uma língua, ou seja, o significado se constrói na língua em uso, no social. É na linguagem em uso, na interação que compreendemos, por exemplo, quando uma palavra está sendo utilizada em seu sentido real (denotativo) ou em seu sentido figurado (conotativo), ou seja CANÇADO, Márcia. Manual de semântica: noções básicas e exercícios. BH: Ed. UFMG, 2005. FIORIN, José Luiz.; SAVIOLI, Francisco Platão. Lições de texto. Leitura e redação. São Paulo: Ática, 1996. ILARI, Rodolfo & GERALDI, João Wanderlei. Semântica. 4ª Ed., SP: Cultrix, 1990. PAVEL, Thomas. A miragem linguística: ensaio sobre a modernização intelectual. Campinas: Pontes, 1990. SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. Organização de Charles Bally e Albert Sechehaye com a colaboração de Albert Riedlinger. Trad. de Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. 24ª ed. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2002. 16 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4. SEMÂNTICA DESCRITIVA: PARA ALÉM DO LÉXICO Objetivo O objetivo desta aula é revisar alguns conceitos da semântica descritiva como a sinonímia, a homonímia e a polissemia. Introdução Como já vimos, os estudos sobre Semântica, para fins de sua organização, são divididos entre os eixos teórico, histórico, comparativo e descritivo. Este último já fora apresentado a partir das colocações a respeito da denotação e da conotação. Debruçar-se em estudos sobre significados implica dividir também as conclusões em semântica linguística ou semântica pura. A medida que a primeira parte do ponto de vista da linguagem, a segunda descreve e investiga o significado das frases e enunciados de uma língua. 4.1 Alguns Conceitos Semânticos As palavras são classificadas de acordo com as relações que têm entre si. Portanto, a Semântica apresenta alguns conceitos: 4.1.1 Sinonímia e Antonímia Isto é, as relações de disparidade, de aproximação e exclusão, lógica e contradição entre os sentidos de palavras de dada língua natural, a Portuguesa, como em nosso caso. Vejamos alguns exemplos de Sinônimos: CARINHO – AFETO CARRO – AUTOMÓVEL LONGE – DISTANTE Vejamos agora alguns exemplos de Antônimos: CERTO – ERRADO 17 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância ABERTO – FECHADO BENDIZER – MALDIZER 4.1.2 Homonímia e Paronímia Ou seja, à ordem de aproximação entre pronúncia e grafia. Veja os exemplos de homônimos e parônimos: O concerto está marcado para sábado. O conserto está marcado para amanhã. Concerto e conserto são palavras com significados completamente contrários e sem lógica interna entre si, entretanto têm a mesma pronúncia. O que determina o sentido das frases é a aplicação e o contexto. Trata-se, portanto, de homonímia. https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/concerto-de- pianista-prodigio-encanta-estudantes-da-rede- municipal/46737 https://santaritadosapucai.portaldacidade.com/noticia s/regiao/falta-de-agua-pode-atingir-40-dos-pequenos- negocios-mineiros O concerto está marcado para sábado. O conserto está marcado para amanhã Nas palavras de Bechara (1999, p. 81) [...] por homonímia entende a tradição: “propriedade de duas ou mais formas, inteiramente distintas pela significação ou função, terem a mesma estrutura fonológica, os mesmos fonemas, dispostos na mesma ordem e subordinados ao mesmo tipo de acentuação [...]” (BECHARA, 1999, p.81). Os homônimos podem ser classificados levando-se em conta, além da pronúncia idêntica, suas grafias. Nesse sentido, são denominados imperfeitos ou perfeitos, conforme 18 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância o caso. Nos homônimos imperfeitos, embora a pronúncia seja igual, as grafias são diferentes (heterógrafos). Alguns autores, como Rocha Lima, referem-se a casos assim apenas como homófonos. Segundo ele, homófonos são “homônimos que, apesar de terem os mesmos fonemas, se escrevem diferentemente” (2000, p. 487). Alguns exemplos apresentados por ele são cessão/seção; coser/cozer. Homônimos perfeitos são formas com pronúncia e grafia iguais, ou seja, simultaneamente homófonas e homógrafas. Por exemplo: verão (substantivo); verão (verbo). Fonte: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?pagina=espaco%2F visualizar_aula&aula=24070&secao=espaco&request_locale=es A dúvida, no caso de inflação e infração, surge em razão da semelhança entre essas palavras tanto na grafia (escrita) como na pronúncia (som). Desta forma temos um exemplo daquilo que se chama Paronímia. A saber: inflação significa, principalmente: o aumento geral de preços (em geral acompanhado por um aumento na quantidade de meios de pagamento), com consequente perda do poder aquisitivo do dinheiro e infração, por seu turno, significa: ato ou efeito de infringir; violação de uma lei, ordem, tratado etc. Os parônimos, segundo Rocha Lima (2000, p.487): São palavras de forma parecida, que, por isso, se prestam a frequentes confusões de emprego. Exemplos: infligir e infringir; [...]; descrição e discrição, etc. Grande número de parônimos se distinguem pelos prefixos apostos a um radical comum: eminente e iminente; emigrar e imigrar [...] (2000, p. 487). Os parônimos se assemelham na pronúncia e na grafia, mas têm sentidos diferentes, por exemplo: ratificar (confirmar); retificar (corrigir). 19 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4.2 Polissemia – Múltiplos Sentidos e Ambiguidade Para apresentar mais este conceito, pense no esquema a seguir, apresentado por Kempson (1980): REAL¹: pertencente ao rei, à realeza. REAL²: antiga moeda de Portugal; atual do Brasil. REAL³: aquilo que tem existência palpável, concreta. Deste modo, e com base nos estudos feitos até aqui, faz-se necessário distinguir homonímia de polissemia. Ullman (1987), linguista húngaro que dedicou sua vida principalmente à semântica, assinala que há uma linha tênue entre estes dois conceitos. Para tanto, é preciso considerar o modo como surgem e o efeito que trazem para a língua. Observem os usos da palavra circulação na tirinha: WALKER, mort. Recruta Zero. O Estado de São Paulo, 26 jun. 2006 Na tirinha o General reclama a dona Tetê que sua aliança, apertada, não sai mais do dedo. Dona Tetê então pergunta se ele não tem medo que isso prejudique sua circulação e ele responde: “minha circulação foi interrompida desde o dia que eu me casei”Neste caso temos uma polissemia, pois a palavra circulação pode assumir variados significados. Na tirinha, dona Tetê recorre ao sentido de circulação sanguínea, enquanto o general recorre ao sentido de circulação enquanto passeio, paqueras, diversão etc. 20 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Cançado (2012) lembra que ainda é importante distinguir homonímia de polissemia, pois a descrição do léxico e parte da descrição gramatical estão relacionadas a essa diferenciação. Segundo a autora, “palavras polissêmicas serão listadas como tendo uma mesma entrada lexical, com algumas características diferentes; as palavras homônimas terão duas (ou mais) entradas lexicais” (2012, p. 72). Por outro lado, alega que uma mesma palavra pode ser homônima e polissêmica, dependendo do sentido. Nesta aula revisamos alguns conceitos basilares e bastante difundidos desde as primeiras séries da educação básica. Os conceitos de Semântica como sinonímia que estudam as palavras com significado ou sentido semelhante e a antonímia que estudam as palavras com sentidos ou significados opostos. Estudamos também a homonímia e a paronímia. As palavras homonímas possuem a mesma pronúncia e, as vezes a mesma grafia, mas possuem significados diferentes, já as palavras parônimas se assemelham na escrita e na pronuncia, porém possuem significados diferentes. E por fim, revisamos as palavras polissêmicas, aquelas que podem assumir vários significados, guardando relação de sentido entre si. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. Edição revista e ampliada. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999. CANÇADO, Márcia. Manual de semântica. Belo Horizonte: UFMG, 2012. ILARI, Rodolfo. Introdução à semântica. São Paulo: Contexto, 2001. KEMPSON, Ruth M. Teoria Semântica. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000. ULLMANN, Stephen. Semântica: uma introdução à ciência do significado. Tradução de J. A. Osório Mateus. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987. 21 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5. SEMÂNTICA HISTÓRICA OU SEMÂNTICA DIACRÔNICA Objetivo Apresentar algumas características da Semântica Histórica ou Diacrônica. Introdução Na tentativa de compreender a Semântica por meio de um olhar histórico (analisa o significado diacronicamente) ou descritivo (sincronicamente), temos de recordar a noção de diacronia e sincronia. Diacronia (do grego, dia = através, chrónos = tempo), em Semântica, é a descrição de um significado ao longo de sua história, considerando as mudanças que sofreu. Refere- se, portanto, às transformações dos significados. Sincronia (do grego, syn = juntamente, chrónos = tempo) estuda as relações entre os termos coexistentes de um estado da língua. Para Câmara Júnior (1986), são seis as causas que levam as palavras a alterações de sentido ao longo do tempo (diacronia). São elas (1) histórico-cultural, (2) psicológica, (3) lógica, (4) formal, (5) sintagmática e (6) social. 5.1 A Semântica Histórica Estudar a história interna de uma língua é fundamental para o conhecimento das transformações ocorridas e, com isso, assimilar melhor seu estado atual. A mudança de sentido envolve a pesquisa e a comparação de estágios significativos distintos, utilizando modelos ou teorias desenvolvidos nas pesquisas sincrônicas. Por outro lado, esses modelos podem ser testados a partir de dados históricos, e só podem ser considerados completos se permitirem a incorporação da mudança na significação. A combinação de informação sincrônica e diacrônica, no que se caracteriza como uma abordagem pancrônica em Semântica fornece uma descrição mais densa, com 22 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância possibilidade de explicação mais completa do fenômeno sob investigação. Observemos a evolução de algumas palavras: Barbeiro O nome do profissional veio de barba + a terminação designativa de profissão -eiro (como em padeiro, costureiro). No Brasil e em Portugal, até as primeiras décadas do século XIX, os barbeiros também praticavam odontologia e medicina. Chegavam até a fazer pequenas cirurgias. Não é difícil imaginar o resultado desastroso produzido por um barbeiro tirando um dente ou fazendo uma punção. E, assim, também não foi difícil a palavra barbeiro ganhar o sentido de “indivíduo que não é hábil na sua profissão”. Daí se formou barbeiragem como sinônimo de incompetência. Com relação ao barbeiro, o inseto, seu nome popular veio do fato de ele chupar o sangue da sua vítima quase sempre no rosto, enquanto ela dorme. O barbeiro, na verdade, não tem nenhuma predileção por rostos. É que, quando dormirmos, essa parte do corpo se acha sempre descoberta e à mercê do maldito. Brigadeiro A palavra veio da brigada com a terminação – eiró. O docinho apareceu logo depois da segunda Guerra Mundial, quando era grande o racionamento de açúcar, leite e ovos no Brasil. Uma dona de casa, muito prendada na cozinha, resolveu fazer um doce sem esses ingredientes e misturou leite condensado com chocolate. Ela mesma batizou a delícia com o nome de brigadeiro, em homenagem a um homem que admirava: o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato à República nas eleições de 1945 (acabou vencido por um general, Eurico Dutra). Infelizmente, desconhece-se a identidade da extraordinária inventora. Expresso Veio do latim expressu, espremido, comprimido. Já o café expresso veio do italiano caffè espresso. Tem esse nome não por ser feito rapidamente, mas sim porque resulta da compressão de vapor ou água fervente através de minúsculos grãos de café. A palavra expresso aplicada a meios de transporte (trens, ônibus...) se originou do inglês express. ARMÁRIO Você já deve ter questionado se armário não deveria ser um lugar para guardar armas. Pois já foi, faz muito tempo. A palavra veio do Latim armarium, com esse sentido: lugar onde se guardam armas. Mas ainda no Latim a palavra teve seu sentido ampliado para guarda- louça, cofre, biblioteca e caixão. Atualmente, em português, é um móvel para guardar objetos variados. 23 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância http://g1.globo.com/educacao/blog/dicas-de-portugues/post/palavras-que-mudaram-de-sentido.html Admite-se, portanto, que compreender a evolução de um significado exige cooperação entre os campos sincrônico e diacrônico. Há inúmeros motivos pelos quais uma abordagem diacrônica é desejável. Em primeiro lugar, ela aumenta o poder explanatório da teoria semântica. Demonstrar que uma dada forma ou construção desempenha determinada função não justifica a existência dessa forma ou construção. É necessário mostrar como essa forma ou significado veio a ter essa função. Daí a importância do estudo diacrônico. (OLIVEIRA, VOTRE, 1999) Outra contribuição do estudo diacrônico é a relevância dos fatores cognitivos, capazes de revelar para o estudioso, entre vários outros aspectos, a identidade e a mentalidade dos usuários daquela língua nativa. É importante considerar, neste sentido, a dinamicidade das situações comunicativas, levando-se em conta, para a interpretação dos resultados alcançados, a manifestação do inconsciente. Além disso, é importante ressaltar que o vocabulário nunca apresentou, em qualquer língua que seja, indícios de estabilidade em seus elementos significativos. Tal fato corroboraria para a falta de evolução e de desenvolvimento de uma identidade linguística. Veja, a seguir, exemplos de vocábulos cujo significado foi analisado a partir da Semântica Diacrônica. CIRCUNSTÂNCIA TERMO/ VOCÁBULO SIGNIFICADO ANTES E DEPOIS Enobrecimentodo sentido: “marechal” significava “criador de cavalos”, hoje significa “alta patente do exército Degradação de sentido: “vilão” significava “habitante da vila”; hoje significa “bandido”. Ampliação de sentido: “embarcar” significava “entrar na barca”; hoje significa “entrar em qualquer condução”. 24 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Restrição de sentido “fortuna” significava “bom ou mau destino”; hoje apresenta apenas o lado positivo. .(Câmara Júnior, 1986, s/p.) Já o estado sincrônico é resultado de um desenvolvimento passado que continua no presente. Ele implica, necessariamente, variação e não mudança dada como encerrada. A Semântica Sincrônica (Descritiva) busca as relações de sentido literal e de sentido figurado, além dos aspectos lexicais. Este eixo é intimamente ligado à Polissemia. Repare na tira: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/portugues/0018.html Esta perspectiva analisa o conjunto de fatos contemporâneos de uma língua em qualquer época. Neste caso, as personagens da tirinha interpretam, cada uma a sua maneira, o enunciado “Pode escrever isso!”. Enquanto o locutor do primeiro quadrinho a professe em seu sentido figurado, o interlocutor, por sua vez, interpreta-a em seu sentido literal, dicionarizado, sem levar em conta o contexto da enunciação, motivo pelo qual ele, de fato, escreve o que ouvira. 25 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Nesta aula estudamos um pouco sobre a Semântica Histórica, também chamada de Semântica Diacrônica, que estuda o significado das palavras ao longo do tempo, ou seja, estuda como uma palavra pode significar diferentemente ao longo do tempo. CÂMARA JR., J. Mattoso. Dicionário de linguística e gramática. Petrópolis: Vozes, 1986. CUNHA, Maria Angélica Furtado da; OLIVEIRA, Mariangela Rios de; VOTRE, Sebastião. A interação Sincronia/Diacronia no Estudo da Sintaxe. In. DELTA, São Paulo, v. 15, n. 1, 1999. SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. 24. ed. São Paulo: Cultrix, 2002. 26 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 6. ABORDAGENS DA LÍNGUA EM USO Objetivo Apresentar a teoria dos Atos de Fala e refletir sobre as análises empreendidas pelos interlocutores nos momentos de interação. Introdução O filosofo inglês John Langshaw Austin em seu livro “Quando dizer é fazer” fala sobre os modos como usamos a linguagem, não apenas para transmitir informações, mas para realizar ações. Como já vimos, Austin (1960, 1962) propõe que o falante e o ouvinte são sujeitos intencionais e o fenômeno da significação se divide entre os enunciados constativos e performativos. Consoante a Rangel (2004), os estudos da língua ganham novas abordagens a partir de Austin, pois, antes de suas contribuições, “as proposições eram analisadas pelos critérios de verdade ou falsidade e com a teoria dos performativo de Austin, houve uma redimensionada nos estudos linguísticos”, em que passaram a ser considerados fatores externos (falantes e ouvintes) e as condições de produção na constituição dos sentidos enunciativos. Depois dessa virada nos aspectos da língua, ao invés da noção de sujeito e objeto, considera-se primordial a concepção de sujeito e sujeito, o que implica pensar numa relação intersubjetiva. Leitor e texto, falante e ouvinte, são, deste modo, sujeitos diferentes passíveis de ressignificação. Ao longo do texto, ou da enunciação, constata-se uma nova maneira de sujeitar-se, quer dizer, o sujeito deixa de ser autossuficiente, auto instituído e passa a ser assujeitado na leitura, ou pelo discurso. 6.1 Teoria dos Atos de Fala Para melhor compreender essa questão, recorre-se, novamente, às contribuições de Austin, especialmente à Teoria dos Atos de fala, que o inglês categorizou em três tipos 27 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância principais. Em seus trabalhos na filosofia linguística, desenvolveu uma investigação pragmática que fomentou compreensões a respeito da aquisição da língua. De acordo com os Atos de Fala, os interlocutores realizam atos ilocucionários ao proferirem sentenças. Isto é, por meio dos enunciados, os falantes transmitem intenções, provocam ações. Um exemplo trivial é a cerimônia de batismo religioso. Quando o clérigo diz “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, esta mensagem cumpre uma função social. O ato de proferir tal enunciado confere o grau de batizado, ou seja, institui, por meio da fala, um significado consagrado socialmente. Os Atos de Fala, para Austin (1962) se classificam em (1) ato locucionário, (2) ato ilocucionário e (3) ato perlocucionário. A saber: • Ato locucionário: a produção de um enunciado pode ser classificada a partir de suas características fonéticas, gramaticais e lexicais. É o ato de dizer, de enunciar linguisticamente até o significado da sentença. Exemplo: “Eu vos declaro marido e mulher.” • O ato ilocucionário é a ação posta em cena por meio do ato locucionário. É a ação realizada quando se enuncia algo. Exemplo: quando se profere “Eu vos declaro marido e mulher”, o locutor não só enuncia um conjunto de sentenças linguísticas carregado de significação, mas também realiza uma ação, a ação de consagrar, de concretizar algo, no caso a união conjugal. • Já o ato perlocucionário implica o efeito do uso da linguagem. Na situação ora descrita, implica convencer, persuadir que aquela união é reconhecida pela suprema entidade religiosa à qual foi submetida. Embora concatenados entre si, o ato ilocucionário – que representa o eixo da teoria dos atos – é a força da qual se originam os outros dois atos. Além disso, de acordo com Silva (2005) os atos de fala podem ser diretos ou indiretos. Um ato de fala é direto, quando realizado por meio de formas linguísticas especializadas, isto é, típicas daquele tipo de ato. Há, por exemplo, uma entonação típica para perguntas. 28 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância As formas imperativas são tipicamente usadas para dar ordens ou fazer pedidos; expressões como por favor, por gentileza, etc. são tipicamente usadas para fazer pedidos ou solicitações, etc. Eis alguns exemplos: Que horas são? (ato de perguntar); Saia daqui (ato de ordenar); Por favor, traga- me um copo d'água (ato de pedir). (SILVA, 2005, p.168) Um ato de fala é indireto (ou derivado), quando realizado indiretamente, isto é, por meio de formas linguísticas típicas de outro tipo de ato. Nesse sentido, "dizer é fazer uma coisa sob a aparência de outra". Eis alguns exemplos: I. Você tem um cigarro? (pedido com aparência de pergunta) Quem enuncia essa frase não está perguntando se o alocutário tem ou não um cigarro, mas sim pedindo-lhe que ceda um cigarro. II. Como está abafada esta sala! (pedido com aparência de constatação) Normalmente, quem enuncia essa frase não está simplesmente fazendo uma constatação sobre a temperatura no interior do recinto, mas sim pedindo que o alocutário faça algo para amenizar o calor, como abrir as janelas, ligar o ventilador, o ar-condicionado,etc. III. Você pode fechar a porta? (pedido com aparência de pergunta) Quem enuncia essa frase não está perguntando sobre a (in)capacidade física do alocutário de fechar a porta, mas sim pedindo-lhe que feche a porta. Seria estranho se o alocutário pensasse que a pergunta é mera curiosidade e respondesse simplesmente sim ou não. (SILVA, 2005, p. 168-9) Tendo em vista tais concepções, falar da língua em uso é falar de uma ciência formal que estabelece as regras de formação das proposiçõesa partir da abstração e da combinação entre os signos. 6.2 Para além de Austin: os desdobramentos de Searle e Grice Conforme Marcondes (2005), a pragmática consiste na experiência “concreta da linguagem, nos fenômenos linguísticos com que efetivamente lidamos”; entretanto, uma análise linguística em um sentido mais sistemático e teórico se dá apenas “para os planos da semântica e da sintaxe.” Antes de encerrar os estudos sobre a Teoria dos Atos de Fala de Austin, é importante destacar as contribuições de seu discípulo, o estadunidense John Roger Searle, que se propôs a estudar pormenorizadamente os tipos de enunciado. Em Searle (1979), a enunciação é consagrada em três atos: 29 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância a. Ato de enunciação > ato locutório: ambos se referem à produção do enunciado concreto. b. Ato proposicional > ato de referir e de predicar. Em termos mais simples, o referente consiste no alvo da predicação. O ato de referir instaura um ‘ser’ no mundo enunciativo, um ponto sobre o qual é possível aplicar ou atribuir alguma propriedade ou sobre o qual é possível associar um evento. c. Ato ilocutório > o que se faz por meio da linguagem. Pode ser identificado por pistas linguísticas ou extra-linguísticas explícitas ou implícitas. Inclinado a compreender a capacidade humana de reconhecer um ato de fala, Searle (1979) chegou à conclusão de que um ato de fala é o resultado de uma proposição de um conteúdo semântico relacionado aos fatos no mundo. Grice (1989) tinha a preocupação de explicar os efeitos de sentido que vão além do que é dito. Em suma, pretendia explicar como é possível um enunciado e sua capacidade semântica tomarem o que Austin chamou de ato de fala corpo e significar além do que estava expresso. A ele, cabia esclarecer que regra condicionava um falante transmitir algo além da frase a um ouvinte. Considere o exemplo a seguir, retirado da obra Studies in the ways of words (1989): A e B conversam sobre um amigo mútuo, C, que agora está trabalhando em um banco. A pergunta a B sobre C e seu emprego; B responde: Oh, muito bem, eu acho; ele gosta de seus colegas e ainda não foi preso. (GRICE, 1989, p. 74) Grice (1989) introduz a noção de implicatura conversacional e apresenta sua Teoria das Implicaturas baseada num Princípio de Cooperação mais um conjunto de quatro máximas: quantidade, qualidade, relação e modo, a saber: a. Máxima de Qualidade: não diga algo que você acredita ser falso e que não possa fornecer evidência adequada; b. Máxima de Quantidade: torne sua contribuição tão informativa quanto é requerida e não dê mais informações do que o necessário; c. Máxima da Relação: seja relevante; d. Máxima de Modo: seja breve e ordenado, evitando obscuridade e ambiguidade. Com os estudos de Costa (2009), Grice constitue os princípios comunicativos por leis implícitas quando os indivíduos dialogam e, com as máximas 30 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância conversacionais, entende-se que numa interação linguística os sujeitos devem ser informativos à medida que lhes convêm. Para o autor, seja informativo como convém, diga a verdade, seja relevante e seja adequado na expressão. Quando o locutor aparentemente viola as máximas, ele pode ter intenção de gerar inferências. Com elas, pode-se transmitir mais do que o que é dito. São as implicaturas, inferências na interface semântico/pragmática. (COSTA, 2009, p. 36) O autor ressalta ainda que esses princípios cooperativos talvez tenham sido aprendidas concomitantemente à aquisição da linguagem, de modo que um falante competente reconhece os efeitos de sentido de uma mensagem em sua língua e adquire conhecimentos desse jogo comunicacional ao qual está submetido. Em “Quando dizer é fazer” Austin (1962) classifica os Atos de Fala em Locucionário, o ato de enunciar, Ilocucionário, a ação que se realiza quando se enuncia algo e Perlocutório que implica o uso da linguagem para convencer, persuadir. É no ato ilocutório, porém que se originam os outros atos. AUSTIN, John Langshaw. How to do Things with words. New York: Oxford University Press, 1962. COSTA, Jorge Campos da. A Teoria Inferencial das Implicaturas: descrição do modelo clássico de Grice. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 44, n. 3, p. 12-17, jul./set. 2009. GRICE, Paul. Meaning. The Philosophical Review, v. 66, 1957. (Reimpresso em: GRICE, P. Studies in the ways of words. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1989. p. 213-223). MARCONDES, Danilo. 2005. Em defesa de uma concepção pragmática de linguagem. Revista Gragoatá, 18:11-30 RANGEL, Eliane de Fátima Manenti. Uma Nova Concepção de Linguagem a partir do Percurso Performativo de Austin. Revista Letra Magna - Revista 31 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Eletrônica de Divulgação Científica em Língua Portuguesa, Linguística e Literatura, Porto Alegre, ano 01, n. 1, seg. sem. 2004. Disponível em: . Acesso em: 28 nov. 2010. SEARLE, John R. Expression and meaning. Cambridge: Cambridge University Press, 1979. SILVA, Gustavo Adolfo Pinheiro da. Pragmática: a ordem dêitica do discurso. Rio de Janeiro: ENELIVROS, 2005. 32 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 7. O QUE É PRAGMÁTICA? Objetivo Apresentar o percurso histórico e a conceituação da Pragmática nos estudos da linguagem. Introdução Desde seu nascimento, a pragmática centrou-se na ideia de enunciação e convenção dos ritos sociais. De certo modo, pode-se dizer que os signos são a potência de uma realização, isto é, o efeito de sentido produzido por uma palavra provoca no interlocutor determinadas ações, previamente imaginadas pelo locutor. A isto dá-se o nome de força ilocucionária. Para Dascal (1982) a pragmática moderna possui duas origens: uma ligada à sociolinguística e outra relacionada aos estudos de Saussure (1916). A concepção moderna de uma disciplina com o nome de “pragmática” está intimamente ligada à ideia de uma outra disciplina, com o nome de “semiótica” ou “semiologia”, que surgiu por volta do início deste século. A “semiótica” ou “semiologia”, tem, como se sabe, uma dupla origem: os escritos de Charles Sanders Peirce e de Ferdinand de Saussure. De um modo geral, ela pode ser caracterizada, segundo ambos, como a teoria geral dos sinais. A ela ficam assim naturalmente subordinadas todas as disciplinas que se ocupam de um tipo particular de sinais, como é o caso da linguística. É a essa dupla origem da semiótica e à influência desigual de seus fundadores sobre o desenvolvimento da linguística contemporânea que [...] remonta, pelo menos em parte, o problema da inclusão de um componente pragmático na teoria linguística. (DASCAL, 1982, p. 8) Originária dos estudos de Peirce (século XIX), a pragmática é concebida como um nível de análise linguística cujo objetivo é o funcionamento de algo como signo, ou seja, aquilo que representa algo a alguém. Estudos apontam para três direções da pragmática, a saber: 1) uma que considera o usuário somente para determinar a relação da linguagem com o mundo, 2) o usuário e sua relação com a linguagem e uma terceira que se configura a partir da linguagem ordinária. Vista, portanto, como a relação mediada pelo signo e o contexto, a pragmática inclina-se a algumas indagações: 33 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. O que se faz quando se usa a linguagem? 2. As interações seguem à risca a alguma regra sistemática? 3. Que outros elementos podem ser usados para interagir? É neste sentido que a pragmática, enquanto ciência / disciplina, se interessapelo significado a partir de situações reais de uso. Assim sendo, em pragmática significado significa uso, ou, enquadrando-se na teoria dos atos de fala, significa ação. Pode-se, deste modo, definir o processo pragmático como determinadas intenções interacionais em relação ao seu alocutário. Este, por seu turno, tenta identificar qual o significado de tal enunciado e leva, para tanto, em conta as condições variáveis: de contexto e de locutor. Em suma, a pragmática é a parte da linguística que trata do uso, da prática da linguagem relacionada ao efeito de sua produção social. Antes de trilhar caminhos linguísticos, a pragmática, como se sabe, buscava responder a indagações por meio da filosofia da linguagem. Para consolidar-se como ciência/disciplina relacionada à linguagem, tornaram-se precisos os estudos do inglês Austin, intitulados de teoria dos atos de fala. 7.1 Os atos de fala Por meio da comunicação realizamos diversos atos da língua, era o que afirmava, desde a década de 1960, John Langshaw Austin. Por meio deles, não apenas se declarava algo, mas poderia também solicitar, orientar, ameaçar, declarar, pedir etc. Marcondes (2005) assinala que considerar as práticas sociolinguísticas equivale ir além do significado das palavras e da estrutura sintática e do valor de verdade das sentenças para incluir os elementos contextuais que fazem com que o significado, em uma acepção pragmática, dê conta de mais do que é explicitamente dito na interação linguística e torne possível a análise dos resultados por meio da linguagem. Influenciado por filósofos devido a sua origem de estudo, considerar o contexto como imprescindível para a construção do sentido contribui para investigar como a linguagem 34 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância pode agir sobre o interlocutor, levando-a concretizar a interpretação e o significado ora construídos. A pragmática se sustenta de estudos linguísticos, considerando, como já fora dito, o contexto, os usuários e o conhecimento, estes três tidos como premissas fundamentais. Para ela, o enunciado está relacionado a uma ação, a um representar, em que falante e ouvinte se constituem como sujeitos intencionais. Austin (1990) estudava o pragmatismo por meio das características da fala e de suas possíveis motivações (motivações psicológicas dos falantes, reações dos interlocutores, tipos socializados de fala, objeto da fala etc.), contrariando os aspectos sintáticos e semânticos. Os enunciados, objetos de estudo de Austin, dividem-se conforme à orientação linguística a que se destinam. Classificam-se em (A) constativos e (B) performativos. Em A os enunciados descrevem estados de mundo, relatam ocorrências e atribuem valores verdadeiros ou falsos (p. exemplo: em “A previsão é de sol” este enunciado pode ser facilmente verificado e julgado como verdade ou mentira). Já em B, os enunciados cumprem a missão de fazer, realizar ações sugeridas pela interpretação do código linguístico – o signo. (Exemplos: “Hoje eu pago a dívida. De hoje não passa” e “Pode confiar em mim!”) Diante disso, em seus trabalhos, Austin tem os atos de fala como um meio de investigação linguística usada para realizar atos ilocucionários (uma função particular da linguagem realizada por um enunciado) durante a produção de sentenças. Isto implica dizer que por meio da linguagem os falantes transmitem intenções comunicativas. 35 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Por meio da linguagem realizamos ações, realizamos atos. Austin dividiu os enunciados em atos constativos e performativos. Os enunciados constativos descrevem estados de mundo, ou seja fatos verificáveis como A TERRA É REDONDA Os enunciados performativos cumprem a missão de realizar algo como EU OS DECLARO MARIDO E MULHER Disse o juiz de paz. AUSTIN, John Lanshaw. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990 [1962]. DASCAL, Marcelo. Fundamentos metodológicos da linguística – v. IV: Pragmática. Campinas, 1982. MARCONDES, Danilo. A Pragmática na filosofia contemporânea. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005. SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. Organização de Charles Bally e Albert Sechehaye com a colaboração de Albert Riedlinger. 1916. Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. 24ª ed. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2002. 36 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 8. PERCURSO CONSTITUTIVO DA PRAGMÁTICA Objetivo O objetivo desta aula é apresentar um brevíssimo percurso do pensamento sobre a linguagem que culminou no surgimento da Pragmática. Introdução Muitas ciências como a Filosofia, a Biologia, a Psicologia, a Linguística, a Etnologia e a Antropologia se ocuparam com os estudos da linguagem humana. Desde sempre, todas elas se deslumbraram com este importante patrimônio histórico-cultural. A civilização hindu, uma das mais antigas sociedades do mundo, juntamente da grega, formaram as bases para estudos sobre a lógica, que antecede o estudo da pragmática. Homero (928 a.C.), autor da Ilíada e da Odisseia, constrói com seus atos de fala uma concepção enunciativa da pragmática. De modo geral, os gregos viam a linguagem como uso, prática, efetivação discursiva, distante da ideia de teoria. A esse exemplo tem-se Homero, que deixou a herança mais antiga sobre os usos da língua. Ao se falar de pragmática, deve-se ter por princípio os atos de fala, cujos estudos tiveram como precursor o já mencionado poeta épico da Grécia Antiga. Os hindus tinham a linguística baseada na perspectiva formal, isto é, relacionada à noção de ciência formal. Panini (século V a.C.) se destaca como a principal contribuição hindu para a linguística, da qual é fundador. Panini estudou detalhadamente o Sânscrito, considerada a língua perfeita, envolvendo questões como filologia, morfologia e sintaxe. Sobre o mérito de Panini, Blikstein (1974, p. 286) escreve: “E o mérito extraordinário de Panini reside exatamente em ter descrito com notável minúcia e precisão as várias centenas de combinações possíveis com seus respectivos resultados semânticos”. 8.1 O nascimento da Pragmática A pragmática, enquanto teoria semântica, nasce no interior da filosofia da linguagem e em um panorama mais recente da linguística, os atos de fala tiveram a atenção do inglês John Langshaw Austin (1911-1960). Neste sentido 37 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A perspectiva recai sobre o que se diz e o que se faz e a linguagem está intimamente ligada à naturalidade das coisas. A pragmática linguística assim entendida começou a se firmar no início da década de 1970, embora propusesse, por volta de 1940, a divisão tricotômica nos estudos linguísticos, dividindo-se em sintaxe, semântica e pragmática. A partir do século XIX, nos Estados Unidos, estudos passam a vigorar como método para determinar o significado de termos linguísticos fundamentais. Formada pelo vocábulo grego pragma, estendeu-se à Inglaterra, a Itália e chegou a nós sob variadas formas. O Methaphiucal Club, grupo de pensadores formado em Cambridge, Massachussets, nos anos de 1870, se configura como o primeiro grupo linguístico de estudos pragmáticos. Dele, destaca-se Charles Sanders Peirce (1829-1914), referência nos estudos desta temática. Outro hindu de relevância neste contexto é Yaska, cujas contribuições recaem sobre a Etimologia. Para Yaska, a maioria dos nomes derivava-se de verbos. De acordo com Blikstein (1974 p.92), suas explicações etimológicas são uma verdadeira antecipação do que viria a ser a análise histórico morfológicada gramática comparada do século XIX. Em seus Nirukta (interpretações de palavras), Yaska distingue perfeitamente as raízes verbais de prefixos, provérbios e sufixos, explicando a formação das palavras a partir de derivação e composição; para Yaska e seus seguidores (os Nairuktas), as raízes representam o ponto de partida de qualquer investigação etimológica, sendo mesmo indecomponíveis. (BLIKSTEIN, 1974, p. 192) Yaska estudou sobre o significado, acreditando que ele emerge na palavra ou sentença. A pragmática estuda o significado, mas dedica-se a questões relacionadas ao contexto e ao enunciado. Sobre Yaska e o tratado de Etimologia. 38 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A linguagem era classificada em dois tipos pelos gregos, sobretudo os pré- socráticos: poética e retórica. Fonte de inspirações, a linguagem poética consiste em falas obtidas por meio de musas, enquanto a retórica relaciona-se à persuasão, utilizada principalmente pelos políticos. Para Fonseca (2004) os sofistas - pessoas que tentavam convencer por meio da linguagem, representando a emergência no pensamento grego - exigiam alto pagamento por suas lições e, nas palavras do autor: (...) apresentavam-se como programas de ensino o discurso ordenado, o mito, a explicação dos poetas. A crítica de ideias sobretudo morais, sem dúvida recebeu dos sofistas uma colaboração que imprimiu caráter original ao fim do século V e à primeira metade do século IV. Eles entraram em desafio com os críticos dos velhos atenienses, de Platão com seus diálogos. (FONSECA, 2004, p.104-5) Dada a dupla função, a pragmática, a partir do século XIX, passa a ser vista como disciplina contemporânea, isto é, desprende-se da tradição secular. Surge, portanto, no início do século XX definida como estudo de aspectos dos significados linguísticos que só podem ser explicados se levados em conta o enunciador e o contexto de enunciação. Sua história se apropria das investigações lógicas de Wittgenstein, ao considerar que a linguagem pode ter diversos usos além de informar ou descrever. Para tanto, leva- se em conta os estudos aprofundados de Austin e as posteriores reformulações feitas por Searle. Período clássico x contemporâneo Como é sabido, a pragmática se desenvolveu no interior da filosofia da linguagem, da lógica e da mente e são os estudiosos dessas vertentes que cumpriram a tarefa de dividi- la em duas dimensões: em período clássico e em período contemporâneo. O período clássico compreende os caminhos trilhados no final do século XIX até fins da década de 1950-1960, quando Peirce a definiu como forma não homogênea. Dessa forma, Peirce enxergava os signos a partir de estudos semióticos, de onde surge a tríade sintaxe, semântica e pragmática. 39 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Nas palavras de Costa (2008, p. 23), sintaxe era o estudo mais abstrato dos signos, semântica mais concreto, incluindo tanto sintaxe quanto o estudo da denotação sem o uso, e pragmática seria todo o escopo do estudo da linguagem, incluindo sintaxe e semântica. Isso muda em Morris no seu texto signs, language and behavior (1946), quando a semântica se torna o estudo da significação em todos os modos de significar e pragmática o estudo da origem, uso e efeitos dos signos. (COSTA, 2008, p.23) Ainda para o autor, o que caracteriza essa fase é o fato de determinados teóricos compreenderem a necessidade de investigações que sistematizassem os “fenômenos ligados aos usos da linguagem, antes de estabelecer, com clareza, os limites desse fenômeno e o aparato conceitual dessa investigação” (COSTA, 2008, p.23). Predomina, neste período, a distinção da pragmática descritiva e pura, orientando o homem para o que se chama de pragmática formal. Já o período contemporâneo tem a pragmática como complementar aos estudos semânticos. Isto é, enquanto este preza pelo que foi dito, aquele preza pelo que foi implicado. Tal concepção postula que a comunicação se estabelece a partir da intenção do comunicador, o qual tenta fazer com que seu ouvinte pense ou faça algo. Grice (1989) introduz a noção de implicatura conversacional e apresenta sua Teoria das Implicaturas baseada num princípio de cooperação formulado a partir de quatro máximas: quantidade, qualidade, relação e modo, como se verá adiante. A pragmática tem raízes nos pensamentos hindus e gregos que, posteriormente foram estudados e aprofundados por teóricos contemporâneos, possibilitaram uma relação indireta com a pragmática. Os estudos dos atos de fala foram possíveis graças a lógica de Homero e de seus teóricos. Com seus atos de fala, possibilitou mais tarde o estudo dos enunciados. 40 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância BLIKSTEIN, Izidoro. Hinduísmo, Linguística e Semiologia. ALFA, São Paulo, p. 275-287, mai 1974. COSTA, Jorge Campos da. A Teoria Inferencial das Implicaturas: descrição do modelo clássico de Grice. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 44, n. 3, p. 12-17, jul./set. 2009. FONSECA, Ísis Borges B. A retórica na Grécia antiga. In: MOSCA, L. (Org.). Retóricas de ontem e de hoje. 3. ed. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2004. GRICE, Paul. Meaning. The Philosophical Review, v. 66, 1957. (Reimpresso em: GRICE, P. Studies in the ways of words. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1989. p. 213-223). ILARI, Rodolfo. Semântica e pragmática: duas formas de descrever e explicar os fenômenos da significação. Revista de estudos da linguagem, Belo Horizonte, v. 9, n. 1, p. 109-162, 2000. RAJAGOPALAN, Kanavilli. Os caminhos da pragmática no Brasil. DELTA, São Paulo, v. 15, número especial, p. 323-338, 1999. RUBEN, Maria Vitória. Argumentação e debates linguísticos no Brasil. DELTA, São Paulo, n. 11, v. 1, p. 133-159, 1995. SEARLE, John. Actos de habla. Tradução espanhola de Luis M Valdés Villanueva. Madri: Tecnos, 2001. 41 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 9. PRODUÇÃO DE SENTIDO NAS LÍNGUAS NATURAIS Objetivo O objetivo desta aula é revisar as visões de Chomsky e as de Saussure sobre a linguagem. Introdução Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já ressoavam à nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis do nosso pensamento através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida quotidiana aos momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dias retira, graças às lembranças encarnadas pela linguagem, força e calor. (HJELMSLEV, 1975, p.1) Duas visões sobre a linguagem se destacam nesta aula. Para Chomsky (1985) a linguagem, “parte de nossa herança biológica” é algo inato ao ser humano. Ao considerar esta ideia do linguista, filósofo, sociólogo e ativista norte-americano, automaticamente considera-se também a premissa de que possuímos uma capacidade de desenvolvimento linguístico preestabelecido. Não obstante, o ser humano é o único entre os seres que tem condições de pensar o mundo e exprimi-lo por meio das diferentes linguagens. Luft (1985, p.37) assinala que o desenvolvimento da linguagem é um processo natural e espontâneo, um saber intuitivo, onde o idioma se desenvolve em nossas mentes quando somos colocados em um meio ambiente apropriado, passamos a desenvolver modelos linguísticos para expressar o que sentimos e pensamos. (LUFT, 1935, p. 37) Diante de tais considerações, a linguagem é vista como processo contínuo de transformação desde que nascemos e é influenciada pelas variadas experiências cognitivas. Para a ciência, o organismo é um corpo em constante interação com o meio ao qual está condicionado. Logo, as relações mantidascom o mundo se consagram por meio da linguagem, que produz informações e exige respostas no mesmo instante. Sob a ótica de Saussure (1969), a língua é um sistema de signos. Usa-se os sons para expressar ideias e, ao escrever, por exemplo, usam-se símbolos gráficos para comunicar esta tal ideia. O signo, como se sabe, é a união entre um significante e um 42 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância significado e, resulta da união entre os dois, uma função semiótica, isto é, uma linguagem possível de múltiplas possibilidades. Todavia, vale ressaltar que os significados são conceitos que mudam em função da sociolinguística e da pragmática, além de variar entre uma língua e outra. Ainda para Saussure (1969), cabe a distinção entre língua e fala. De acordo com o linguista e filósofo suíço, a língua é um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias adotadas pelo corpo social. Deste modo, a língua, enquanto convenção social, se apresenta como patrimônio cultural condicionado às transformações que certamente ocorrem ao longo do tempo. Enquanto isso, a fala é “uma realização concreta não virtual ou psíquica, ou seja, é a maneira pessoal de utilização do código”. Considere o trecho abaixo: [...] a língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos; mas esta é necessária para que a língua se estabeleça; historicamente, o fato da fala vem sempre antes. Como se imaginaria associar uma ideia a uma imagem verbal se não se surpreendesse de início esta associação num ato de fala? Por outro lado, é ouvindo os outros que aprendemos a língua materna; ela se deposita em nosso cérebro somente após inúmeras experiências. Enfim, é a fala que faz evoluir a língua; são as impressões recebidas ao ouvir os outros que modificam nossos hábitos linguísticos. (SAUSSURE, 1969, p. 27) Cabe, portanto, reiterar a posição do autor ao defender a interdependência da língua e da fala. A língua é, neste sentido, ao mesmo tempo, o instrumento que produz a fala e, no entanto, esta interdependência não implica dizer que os dois fenômenos sejam absolutamente distintos. Com vistas para essa consideração entre significante e significado, assim, o signo em si só pode ganhar corpo se pensado dentro de um contexto histórico-social. É dentro de uma sociedade que se constituem os significados. 43 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Nos primeiros anos de vida, o homem tenta identificar, cada um à sua maneira, tudo que está ao seu redor e, não obstante, a linguagem é uma barreira intrapsicológica colocada para a inteligência. Naturalmente, à medida que se desenvolve psicologicamente, os obstáculos são superados. (Vygotsky, 2005) Desde crianças, o ser humano consegue manipular o meio e as pessoas que o cercam, pois existe algo que está inserido em seu inconsciente. É, mais uma vez, a natureza que age. Ainda na infância, as muitas informações recebidas no dia a dia são internalizadas pelo sujeito e relações contextuais são estabelecidas, de modo que, por meio dele, esse sujeito age e se (re)constrói mutuamente. Tal internalização das formas culturais corrobora para a reconstrução psicológica, a qual tem por base as relações com os signos. Para Bloomfield (1972), a significação é feita na observação de uma situação social estabelecida entre falante e ouvinte e, dessa maneira, a criança aprende a falar pelo fato de estabelecer uma relação entre o que ouve e a situação social que está ouvindo. Todos os movimentos sistemáticos – leia-se cérebro, percepção – recebem inúmeras informações e reagem organizadamente a elas. Ao se falar em aquisição e produção de sentidos na língua, deve ficar claro que uma aprendizagem dessa, bem como qualquer outra, não cessa quando o indivíduo, por mais instruído que seja, atinge sua vida adulta. Experiências linguísticas se fazem presente o tempo todo e uma metáfora é possível diante dessa constatação. Essas experiências nutrem, dão forma, encorpam as capacidades cognitivas dos falantes. Quanto mais se alimentar dessas experiências, mais forte e saudável serão o vocabulário, a lógica e as demais capacidades cognitivas dos seres. 9.1 A interação: propósito comunicativo ou Propósito comunicativo: a interação? A comunicação ocorre por meio não só das palavras, mas também por meio dos gestos, dos códigos, das mensagens subliminares, até por meio da piscada de olhos. A forma humana de se relacionar com o mundo é dialógica, isto é, enquanto age sobre ele, sobre ele também é influenciada. 44 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Comunicar é algo natural, espontâneo, fruto das relações sociais. Ao fazer uso de diversos códigos, no princípio não há discriminação (quando criança, por exemplo, omitem- se letras, concordâncias etc.), entretanto, ao passo que as capacidades linguísticas são substanciadas, determinadas regras – impostas pela gramática normativa e pelas condições contexto-sociais – tornam-se imprescindíveis. A linguagem, objeto da comunicação, é o reflexo das situações vivenciadas, aprendidas durante a interlocução. Pensa-se, portanto, no processo comunicativo como um remetente que envia uma mensagem a um interlocutor. (JAKOBSON, 1969, p.23) Conforme Pais (2006), o modelo de percurso gerativo da enunciação de codificação e de decodificação compreende os patamares da percepção, da conceptualização, da semiologização, da lexemização, da atualização, da semiose, quanto ao fazer persuasivo, do sujeito enunciador. Fiorin (2013) afirma que a linguagem é a capacidade específica da espécie humana de se comunicar e interagir. Para ele, Entre as ferramentas culturais do ser humano, a linguagem ocupa um lugar à parte, porque o homem não está programado para aprender física ou matemática, mas está programado para falar, para aprender línguas, quaisquer que elas sejam. Todos os seres humanos, independentemente de sua escolaridade ou de sua condição social, a menos que tenham graves problemas psíquicos ou neurológicos, falam. Uma criança, por volta dos três anos de idade, já domina esse dispositivo extremamente complexo que é a língua. (FIORIN, 2013, p.13) Diante dessas considerações, é possível compreender a língua como capacidade específica da espécie humana de produzir sentidos, de se comunicar, bem como postula Benveniste (2006) a linguagem “é para o homem um meio, na verdade, o único meio de atingir o outro homem, de lhe transmitir e de receber dele uma mensagem”. 45 Semântica e Pragmática Universidade Santa Cecília - Educação a Distância BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral I. Campinas: Pontes, 2006. BLOOMFIELD, Leonard. Fundamentos metodológicos da linguística. São Paulo: Global, 1972. CHOMSKY, Noam. Estruturas sintáticas. Lisboa: Edições, 1985. FIORIN, José Luiz. Linguística? Que é isso? São Paulo: Contexto, 2013. HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. São Paulo: Párabola, 1975. JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 1969. LUFT, Celso Pedro. Língua e liberdade – O gigolô das palavras. Porto Alegre: L&pm, 1985. PAIS, C. T. Ensaios Semiótico-linguísticos. Petrópolis: Vozes, 1977. SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 1969. VYGOTSKY, Lev Semyonovich. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2005.