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Administração Pública Juliane Marise Barbosa Teixeira Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoras JULIANE MARISE BARBOSA TEIXEIRA A AUTORA Juliane Marise Barbosa Teixeira Olá. Meu nome é Juliane Marise Barbosa Teixeira. Sou Doutoranda em Engenharia da Produção e Sistemas pela (PUCPR) com foco em Engenharia das Organizações, Mestre em Tecnologia e Desenvolvimento do PPGTE na UTFPR, Especialista em Gestão Estratégica de Pessoas pela PUCPR, Especialização em Psicopedagogia; Especialista em Pedagogia Empresarial e Educação Corporativa, Especialista em Formação Docente e Tutoria em EaD e possuo MBA em Administração Pública e Gerenciamento de Cidades. Graduada em Letras pela PUCPR e Graduanda em Administração. Atuei como Diretora de EaD e Professora na Faculdade Inspirar. Orientadora do Programa Agentes Locais de Inovação (ALI SebraePR). Coordenadora da Agência de Inovação da UNINTER, Coordenadora Adjunta do Curso Tecnológico Superior em Gestão Pública, MBA em Administração Pública e Gerência de Cidades e MBA em Marketing Político e Organização de Campanha Eleitoral, além de Especialização em Sustentabilidade e Políticas Públicas na Escola de Gestão Pública, Política e Jurídica da EGPPJ no Centro Universitário Internacional da UNINTER. Atuei como professora Tutora convidada na Coordenação de Tecnologia na Educação na COTED da UTFPR. Trabalhei quatro anos em Angola como coordenadora de Recursos Humanos em empresa de engenharia com aproximadamente dois mil funcionários e cinco filiais pelo país. Possuo experiência na área de Administração, com ênfase em Gestão Estratégica de Pessoas e Formação Profissional. Sou docente na área de Gestão de Pessoas na administração pública e Gestão da Inovação e Modelos de Gestão. Sou apaixonada pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! ICONOGRÁFICOS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: INTRODUÇÃO: para o início do desenvolvimento de uma nova compe- tência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou dis- cutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últi- mas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; SUMÁRIO Origem dos princípios da administração pública ...........................10 Base nos princípios para construção da eficiência ................................................ 11 Princípio de legalidade ............................................................................................ 12 Princípio da impessoalidade ................................................................................ 12 Princípio da moralidade .......................................................................................... 13 Princípio da publicidade ........................................................................................ 13 Princípio da eficiência .............................................................................................. 14 A reforma do estado e a modernização do setor público ..........16 Diagnosticando o estopim da reforma ............................................................................ 17 Os objetivos da reforma ............................................................................................................ 18 As estratégias para a reforma ............................................................................................... 19 O trabalho na administração pública .................................................... 21 A Perspectiva religiosa ............................................................................................................... 21 Perspectiva econômica .............................................................................................................22 Perspectiva Psicológica .................................................................22 As implicações no laboro público ......................................................................................23 Peculiaridades da administração pública brasileira .....................26 O passado e a construção dos modelos de gestão ............................................26 Três tipos de abordagens que constituíram a administração moderna .28 Abordagem estrutural .............................................................................................28 Abordagem humanística .......................................................................................29 Abordagem interativa ...............................................................................................34 A história e a convergência com os modelos brasileiros .................................37 7 UNIDADE 01 Administração Pública 8 INTRODUÇÃO Os Fundamentos da Administração Pública são parte integrante essencial para o entendimento da complexa gestão dos órgãos e serviços públicos. Seu entendimento é indispensável para que possamos pensar nos conceitos estratégicos e organizacionais da administração pública e sua efetividade. Ao longo desta unidade, transitaremos entre estudos e teorias que o ajudarão a construir a base conceitual e estruturante que validará os princípios da administração pública interagindo com as consequências e influências da reforma do Estado e a modernização do setor público. Ao construirmos essa linha de entendimento sobre a evolução histórica da administração pública no país, seremos capazes de conectar ação, reação e consequência dos serviços públicos que temos conhecimento na contemporaneidade e até mesmo diferenciar esse cenário de cenários internacionais. Resumindo, começaremos pelo entendimento das heranças deixadas por nossos modelos do passado. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar nesse universo! Administração Pública 9 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à nossa Unidade 1. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: 1. Compreender a origem dos princípios da administração pública. 2. Discernir sobre as inferências entre a reforma do estado e modernização do setor público. 3. Entender a evolução histórica do trabalho e suas consequências na administração pública. 4. Distinguir a administração pública brasileira das demais formas de administração. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! Administração Pública 10 Origem dos princípios da administração pública INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você saberá que falar de administração pública é sempre uma missão difícil, principalmente pelo descrédito social conquistado por décadas de sucessões administrativas sem gerência, objetivo e planejamento. Você verá que administração pública nada tem a ver com política ou partidopolítico (ou pelo menos, não deveria). O objetivo deste capítulo não é tratar de política ou debater sobre o que não funciona na gestão pública e sim, entender porque somos como somos quando o assunto é serviços públicos. Como deveria ser e o que faremos para, depois de ter acesso a essas informações, mudar nossos conceitos, parar a roda do “sempre foi assim” e acreditar que qualquer ação começa do primeiro passo de alguém. A ordem que rege os princípios da administração pública são advindos da Constituição Federal, Capítulo VII – da Administração Pública, Seção I – Disposições Gerais, no Art.37: “A administração pública direta e indireta de quaisquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (...)”. Ao longo desta unidade iremos discorrer sobre esses princípios, que devem ser a base de toda e qualquer ação dentro da administração pública. E então? Motivado para desenvolver essa competência? Então, vamos lá. Avante! ”Quando um homem assume uma função pública, deve considerar- se propriedade do público” (Thomas Jefferson). Administração Pública 11 Base nos princípios para construção da eficiência Figura 1 – Satisfação em serviços públicos Fonte: wikimedia commons O conceito de administração é muito simples: Basicamente é planejar, organizar, controlar, coordenar, desenvolver e liderar uma empresa. E quando essa administração é pública, a empresa em si é um município, um estado ou um país. Se estivéssemos falando de um conceito de administração privada, certamente, discorreríamos sobre cultura organizacional, missão, visão e valores da organização e por ai vai. Esses são princípios válidos, assertivos e essenciais para entender como funciona a organização, mas se ela é pública, ela não pode inferir as vontades, desejos ou planejamento de um Chief Executive Officer (CEO) ou pessoa com maior autoridade na hierarquia da organização e sim de uma nação. Esta nação é representada pela Constituição Federal de 1988. Sim, verdade, ela é recente. Mas ela é que diz o que a administração pública deve fazer e como se organizar pelo bem coletivo do estado enquanto empresa. É por isso, que começamos por Thomas Jefferson. Administração Pública 12 Uma vez que se ocupa um cargo público, deve-se entender que não mais agiremos em razão de um bem próprio ou para os seus e sim para o bem de uma sociedade. Essa afirmação faz cair por terra a herança de morosidade dos serviços públicos ou pelo menos deveria. Sabemos então, que os princípios que regem a administração pública, são regidos pela Constituição Federal e devem ser consideradas no planejamento de qualquer ação pública. Basicamente são cinco princípios constitucionais expressos: Legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Vejamos a seguir cada um deles. Princípio de legalidade O primeiro princípio expresso da Constituição Federal, no Art. 37, é a legalidade. No geral, podemos definir o termo como: a lei determina o que pode ou não pode ser feito e como devemos agir. Se falássemos apenas da lei na vida privada, comungaríamos com o art. 5º da Constituição Federal: “Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei” (Brasil, 1988). A interpretação correta para a legalidade na administração pública é: “o administrador público só poderá fazer o que está previsto em lei”. Princípio da impessoalidade Novamente, recorremos ao Art. 37 da Constituição Federal. Os atos e recorrências da administração pública devem estar pautados nas ações impessoais e genéricas, com abrangência indistinta e sem preferência ou prevalência. A administração pública deve ser organizada de forma que todos os grupos sociais sejam acolhidos e beneficiados. O agente político deve ainda, isentar-se de qualquer ação que promova seus interesses pessoais ou de um grupo especifico. Exemplo: Publicidade de obras ou ações da máquina administrativa governamental. Toda e qualquer publicidade deverá ser educativa, informativa e prevalecendo o objetivo de educação social e nunca como um feito ou realização da pessoa que representa o agente político. Administração Pública 13 Princípio da moralidade Certamente, um dos princípios mais importantes e de maior grau de dificuldade em processos de avaliação, o princípio da moralidade, é constantemente mutável. Entretanto, é altamente ético. Todo processo administrativo para contar com a veracidade deverá ser obrigatoriamente moral. Assim, o princípio da moralidade não pode apenas se apoiar no princípio da legalidade (se está na lei pode ser feito) mas sim, deve ser associado aos pressupostos éticos em objetivo comum ao bem público, caso contrário, ele é nulo. EXPLICANDO MELHOR: Vamos relembrar o caso da duplicação da Serra do Cafezal, na Rodovia Régis Bittencourt que liga o Estado do Paraná com o estado de São Paulo. Por mais de meio século, foi considerado um dos trechos mais perigosos das rodovias federais e entre a primeira licença para início aos trabalhos até a finalização da obra conta-se aproximadamente quinze anos. A desapropriação de terras, as licitações para obras, os recursos todos estavam previstos pela Lei. Entretanto, existiu por muitas décadas a discussão sobre os impactos na fauna e flora da região. A lei permitia, mas os processos éticos e morais sobre o impacto na natureza levaram as ações a intermináveis discussões e procedimentos focados na minimização dos impactos ambientais para se concretizar. Princípio da publicidade Se for objeto público, logo, deve ser transparente. Na administração pública todo processo deve ser dado ao conhecimento da sociedade que é quem financia as ações públicas por meio do pagamento de impostos. Nos regimes democráticos de governo é permitido aos cidadãos fiscalizar as ações e atos dos agentes públicos. É também por meio da publicidade que se controla e combate a corrupção. O princípio da publicidade anda “de mãos dadas” com o princípio da impessoalidade. As ações dos agentes públicos devem ser voltadas ao bem comum e geral. Seus atos não devem ser comunicados como Administração Pública 14 heroicos ou pessoais e sim, como a prestação dos serviços aos quais ele foi designado pelo povo por meio das eleições. A publicidade é o ato de transparência dos processos administrativos, é a prestação de contas à sociedade e não uma vitrine pessoal ou coletiva de agentes. Princípio da eficiência O princípio da eficiência apoia-se na Ementa Constitucional nº 19/1998 (art. 37 da Constituição Federal) que tem por premissa a garantia dos serviços públicos ofertados para a comunidade com os mesmos recursos, variedade, qualidade e menor tempo que os serviços privados. Diretamente interligado aos valores e pressupostos econômicos, esse princípio é a base para o agente público planejar e organizar os recursos de sua gestão. Figura 2: Na administração pública tempo também é dinheiro Fonte: pixabay Administração Pública 15 Existem outros princípios reconhecidos e construídos pelos adendos nas leis ao longo da promulgação da Constituição Federal de 1988 e que são aplicados e considerados para a gestão dos processos da máquina pública, que devem ser também considerados como: o princípio da supremacia do interesse público, o princípio da isonomia, o princípio da razoabilidade, o princípio da motivação, o princípio da boa-fé, o princípio da tutela, o princípio da continuidade, o princípio da proporcionalidade e o princípio da finalidade, entre outros. RESUMINDO: Nessa unidade você viu que o conceito de administração é planejar, organizar, controlar, coordenar, desenvolver e liderar uma empresa. E quando essa administração é pública, a empresa em si é um município, um estado ou um país. E a Constituição Federal que diz o que a administraçãopública deve fazer e como se organizar pelo bem coletivo do Estado enquanto empresa. Aprendeu também que a administração pública segue o princípio da legalidade, da impessoalidade, o princípio da moralidade, da publicidade e da eficiência. Administração Pública 16 A reforma do estado e a modernização do setor público INTRODUÇÃO: Neste capítulo você compreenderá as ações do governo que desencadearam uma série de reformas no modelo administrativo brasileiro após diversas tentativas de acolhimento tanto nas pautas das agendas, como nos discursos de opinião pública. Você entenderá que o movimento no Brasil aconteceu após as estratégias e ressonâncias vindas do hemisfério norte americano. Você verá que, com as reformas, devidamente identificadas e dadas ao conhecimento público, enfrentaríamos uma reforma de Estado que redesenharia os modelos de gestão na administração pública. Conhecido como o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado elaborado por Luiz Carlos Bresser Pereira, Ministro da Administração e responsável pela reforma do Estado durante a primeira gestão do então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, desencadeou uma série de reformas no modelo administrativo brasileiro após diversas tentativas de acolhimento tanto nas pautas das agendas, como nos discursos de opinião pública. Movimento que no Brasil aconteceu após as estratégias e ressonâncias vindas do hemisfério norte americano. De acordo com a declaração do então presidente: A crise brasileira da última década foi também uma crise de Estado. Em razão do modelo de desenvolvimento que governos anteriores adotaram, o Estado desviou-se de suas funções básicas para ampliar sua presença no setor produtivo, o que acarretou, além de gradual de deterioração dos serviços públicos, a que recorre em particular, a parcela menos favorecida da população, o agravamento da crise fiscal, e por consequência a inflação (...). Administração Pública 17 Esse “Plano Diretor” procura criar condições para a reconstrução da administração pública formal, baseada em princípios racionais- burocráticos, os quais se contrapunham ao patrimonialismo, ao clientelismo, ao nepotismo, vícios esses que ainda persistem e que precisam ser extirpados. Mas o sistema introduzido, ao limitar-se a padrões hierárquicos rígidos e ao concentrar-se no controle dos processos e não dos resultados, revelou-se lento e ineficiente para a magnitude e a complexidade dos desafios que o País passou a enfrentar diante da globalização econômica. (BRASIL, 2010, p.6) Diagnosticando o estopim da reforma O Brasil vinha apresentando um inchaço exponencial no seu gasto com quadro de pessoal e não em razão da melhoria e qualidade dos serviços públicos, mas sim, na tentativa de suprir serviços ineficientes e reflexos da ingerência burocrática instituída e enraizada por administrações anteriores. Observe no quadro abaixo, o montante de acúmulo de gastos em menos de quinze anos: Tabela 1: Participação dos gastos com pessoal na receita disponível ao estado entre os períodos de 1982 a 1995. Período Gastos percentuais MÉDIA 82-84 38,4% MÉDIA 85-87 40,6% MÉDIA 88-89 50,9% 1990 60,1% 1991 57,9% 1992 57,2% 1993 60,4% 1994 56,1% 1995 60,4% Fonte: BRASIL (2010, p. 30) Administração Pública 18 Era certo que estávamos com mais pessoal para girar a roda pública, mas ao mesmo tempo os serviços estavam cada vez mais morosos e ineficientes. Essa conta não estava somente no setor de pessoal, mas, principalmente nas esferas fiscais, resultado de falências e retirada de investimentos no país diante da ausência de geração de recursos para estimular e dar garantias a novos investimentos. A palavra da vez era estagnação. Havia colapso em quase todos os setores da administração do país e a insatisfação do povo era geral. Estávamos às portas de um grande movimento por mudanças, mas o que mudaria? Os objetivos da reforma É certo que a tecnologia “tirou o chão” do tradicionalismo dos modelos burocráticos de administração. A globalização trouxe com o crescimento, altos índices de competitividade, novas ferramentas tecnológicas e abertura dos mercados globais, que não jogavam o jogo da estagnação, da morosidade e da burocracia. A ordem era mudar para sobreviver. Assim, o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado deveria se basear em quatro importantes objetivos: • Ampliação da governança do Estado A efetividade e a eficiência seriam as palavras de ordem para a máquina efetiva do Estado. Os serviços públicos deveriam ser pelo e para os cidadãos. • Limitação da ação do Estado O Estado voltava-se aos serviços que lhes são obrigatórios, deixando a produção de bens e serviços para a iniciativa privada. • Transferência da União para os estados e municípios em caráter local A participação do estado e dos munícipios seriam ampliadas, assim como as responsabilidades dos mesmos frente à obrigatoriedade da prestação dos serviços com o devido cuidado quanto às necessidades regionais e qualidade no cumprimento dos princípios da administração púbica. Caberia à União intervir somente em caso de emergência. Administração Pública 19 • Transferência da União para os estados e municípios em caráter regional Novamente, a participação do estado e dos munícipios seriam ampliadas, estimulando a parceria entre estado e União, em que a prestação dos serviços seriam designadas de forma a atender com o devido cuidado as necessidades regionais e a qualidade no cumprimento dos princípios da administração púbica, cabendo também à União, intervir somente em caso de emergência. As estratégias para a reforma Para que a reforma acontecesse, quatro importantes setores dos estados foram mobilizados: 1. Núcleo estratégico, 2. As atividades executivas, 3. Os serviços não executivos e 4. A produção para o mercado: Tabela 2: Forma de propriedade e forma de administração segundo os setores Forma de Propriedade Forma de Administração Estatal Pública Privada Não Estatal Burocrática Gerencial NÚCLEO ESTRATÉGICO: Legislativo, Judiciário, Presidência, Cúpula dos Ministérios, Ministério Público. x x ATIVIDADES EXCLUSIVAS: Regulamentação, Fiscalização, Fomento, Segurança Pública, Seguridade Social Básica. x x SERVIÇOS NÃO EXCLUSIVOS: Universidades, Hospitais, Centros de Pesquisas, Museus. Publicitação x x PRODUÇÂO PARA O MERCADO: Empresas Estatais Privatização x x Fonte: Brasil, 2010, p. 48. Efetivamente, as mudanças objetivaram estimular a concorrência e a competição como caminho para conquistar e consolidar a eficiência dos serviços públicos e o aumento da produção para o mercado. Administração Pública 20 Três importantes dimensões foram acionadas para dar suporte à reforma e acompanhar a implantação das mudanças: 1. Institucional-legal, que acompanhou as mudanças na legislação que beneficiasse os novos princípios gerenciais não burocráticos e eficientes. 2. A dimensão cultural, que acompanhou a mudança comportamental dos atores da administração pública na nova postura gerencial. 3. A dimensão da gestão que acompanharia a capacidade de “ser” do novo modelo de gestão da administração pública. (BRASIL, 2010, p.38) ACESSE: Para ler na íntegra o material. Clique aqui. RESUMINDO: Nessa unidade você aprendeu que as ações do governo desencadearam uma série de reformas no modelo administrativo brasileiro após diversas tentativas de acolhimento tanto nas pautas das agendas, como nos discursos de opinião pública. Você viu que a Reforma de Estado redesenhou os modelos de gestão na administração pública. Você aprendeu que o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado desencadeou uma série de reformas no modelo administrativo brasileiro. Você estudou também, que o Brasil vinha apresentando um inchaço exponencial no seu gasto com o quadro de pessoal e não em razão da melhoria e qualidade dos serviçospúblicos, mas sim, na tentativa de suprir serviços ineficientes e reflexos da ingerência burocrática instituída e enraizada por administrações anteriores. Na sequência desse capítulo, veremos quais são e como aconteceram essas mudanças e como elas singularizaram a administração pública. Administração Pública http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/publicacoes-oficiais/catalogo/fhc/plano-diretor-da-reforma-do-aparelho-do-estado-1995.pdf 21 O trabalho na administração pública INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você entenderá como o serviço na administração pública foi sendo caracterizado e organizado. É importante que possamos entender como a história do trabalho foi entendida no país. Para tanto, no presente, vamos também retomar um pouco de história e trabalho. Desde a época dos pastores de ovelhas, os filhos aprendiam com seus pais o oficio da família ou com alguém mais experiente. Diariamente, os filhos assistiam seus pais acordarem cedo, se prepararem e partirem para suas funções independentemente da importância ou escala social. Carpinteiros, agricultores, ferreiros, entre muitos outros. Enfim, as profissões iam se perpetuando e se desenvolvendo à medida que a sociedade evoluía e suas necessidades aumentavam. E por que isso acontece? (TEIXEIRA e RIBEIRO, 2017 p. 11). Podemos responder essa pergunta a partir de três perspectivas: Religiosa, Econômica e psicológica. A Perspectiva religiosa Segundo a religião, o trabalho é a forma mais pura e simples de alcançar a remissão dos pecados. Sem trabalho não há como conquistar o Reino dos Céus e quanto mais pesado e sofrido ele fosse, maior seria a compensação celeste. Acreditava-se que o ócio era propício para o mal e o pecado e que as pessoas deveriam viver segundo o exemplo de Cristo: trabalhar e servir. Para a igreja o trabalho é um caminho valioso para a salvação e valorização da vida fazendo-se útil e servil em reconhecimento à obra de Deus. Ao ser útil o homem se sente feliz, próspero e realizado (TEIXEIRA e RIBEIRO, 2017 p. 13). Administração Pública 22 Perspectiva econômica Sob a perspectiva econômica o trabalho é a fonte que gera recursos para a manutenção da vida e da sociedade. Ele nos aproxima da materialidade, da aquisição, da posse e do poder. Visto como uma relação de troca, onde nem sempre as duas partes se sentem satisfeitas, o trabalho caracteriza a venda da força e da capacidade do sujeito. Para Marx (1993) o trabalho pode ser representado pelo know how de transformar a natureza em prol do benefício e suprimento das vontades humanas (TEIXEIRA e RIBEIRO, 2017 p. 13). Figura 3: Capitalismo ligado ao emprego Fonte: freepik Perspectiva Psicológica Sob a perspectiva psicológica, o trabalho é responsável pela sensação de pertencimento. Somos reconhecidos no ambiente profissional a partir de nossas aptidões. É o conjunto de aptidões que controla nossa individualidade, nos destaca e nos faz compor um grupo social. O bem estar e a sensação de realização profissional agem diretamente na manutenção da autoestima e na saúde psicológica do sujeito já que é a partir do valor que se recebe pelo trabalho prestado que torna possível as experiências em sociedade, a aquisição de bens e serviços e a segurança financeira (Teixeira e Ribeiro, 2017 p. 13). Administração Pública 23 Figura 4: Satisfação e depressão no trabalho Fonte: freepik As implicações no laboro público Certamente, diante dessas três perspectivas, muitas pessoas pensam que podem “atingir” duas delas com segurança frente à estabilidade de um concurso público e a sensação de não cobrança e impunidade pela morosidade, ingerência e mau serviço prestado. Esse é um pensamento que vem sendo construído por décadas e mesmo com a Reforma do Estado e seu propósito de desburocratização, ainda se reproduz em grande parte da máquina do Estado. Entretanto, a tecnologia, a Internet e as redes sociais hoje expõem cada vez mais as falhas e ausências dos serviços prestados gerando e mobilizando em pouco tempo uma massa sedenta por punições. Mesmo que muitas vezes, sem base ou veracidade, têm fiscalizado cada vez mais os serviços e sua eficiência. Oliveira (2014, p. 4) explica que as responsabilidades e a forma de gestão da administração pública é complexa e requer conhecimento para que seja possível “saber de quem cobrar”. A estrutura administrativa dessa forma de gestão é dividida em duas partes. A administração direta e a administração indireta. A administração pública indireta conta com quatro sub áreas que juntas apoiam o máquina do Governo e fazem com que os serviços sejam prestados e mantidos. Administração Pública 24 Vejamos a figura abaixo: Figura 5: Estrutura administrativa da Gestão Pública 1. ADMINISTRAÇÃO DIRETA: Presidência da República; Ministérios; Conjunto de instituições e unidades organizacionais de cada um dos Poderes da União, estados e municípios. 2. ADMINISTRAÇÃO INDIRETA: Compreende as instituições com personalidade jurídica própria, criadas para realizar atividades governamentais de forma decentralizada. Fonte: Oliveira (2014, p.4) A administração Indireta funciona a partir da conjunção de quatro sub áreas: a. Autarquias: a prestação de serviço é de caráter autônomo, seguindo leis criadas a partir de personalidade jurídica de direito público, com a finalidade de proporcionar legalidade na descentralização dos serviços. b. Empresas públicas: Corporações de personalidade jurídica de direito privado, com patrimônio próprio e capital exclusivo da União (se Federal) com a finalidade de exploração econômica. c. Sociedade de economia mista: corporação de personalidade jurídica de direito privado, possíveis em razão da autorização legislativa e devidamente registrada em órgão próprio visando exploração econômica, agindo como autônoma, entretanto, com ações em sua maioria a favor dos interesses da União ou administração indireta. d. Fundações públicas: corporações dotadas de personalidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, possível por ter autorização legal, dotada de autonomia administrativa, com patrimônio próprio, mas com o funcionamento custeado por recursos da União. (Oliveira, 2014, p. 4 -5). Administração Pública 25 RESUMINDO: Quando usamos o termo Administração Pública estamos envolvendo agentes como: o próprio servidor público concursado ou um profissional da administração pública, ou ainda, um colaborador da administração pública que presta serviços dentro de uma entidade pública, órgão público, corporação pública ou instituição pública. Administração Pública 26 Peculiaridades da administração pública brasileira INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você entenderá que a origem da administração pública brasileira não foi diferente da de outros países. Você compreenderá que diversas culturas influenciaram nossos modelos e sistemas, sendo que, até nos dias atuais sofremos reflexos, principalmente, da economia mundial frente às tomadas de decisão e movimentos legais dessa administração pública. Você verá também que certamente, não há como um país ser governado sozinho e alheio aos movimentos mundiais. Ainda, nesta unidade, serão compreendidas as influências anteriores, seguindo com os modelos de gestão desenhados e que ao longo das décadas foram sendo adotados pelos governos. Para que possamos resgatar essa construção histórica vejamos a seguir de que forma os principais modelos e filósofos influenciaram a gestão pública e abriram caminhos para o que temos hoje. O passado e a construção dos modelos de gestão No começo do século XX, com a consolidação da Segunda Revolução Industrial nas portas das abordagens da administração, foram registrados os primeiros indícios de modelos de gestão realmente voltados à eficiência produtiva. Todavia, a construção desses modelos de gestão, que ainda hoje refletem admirável importâncianos modelos atuais, contaram com considerável influência de importantes filósofos, que com suas teorias e descobertas, assinalaram respeitosas marcas na evolução e consolidação das abordagens e modelos administrativos do mundo moderno. Sem um maior aprofundamento nas bases teóricas dessas influências, destacam- se quatro importantes contribuintes: Administração Pública 27 Tabela 3: Filósofos que influenciaram os modelos de gestão René Descartes (1596-1650) A sociedade industrial teve em sua construção, inúmeras contribuições de Descartes, principalmente nas linhas da abordagem estrutural, que procurava através da lógica matemática uma explicação racional entre o mundo e a sociedade em geral. Segundo Srtathern (1997), Descartes compreendia intuitivamente “a concepção inequívoca de um espírito claro e formado exclusivamente pela luz da razão” e deduzia” a necessária interferência a partir dos outros fatos tidos como certos.” Isto posto, mais tarde derivou a fórmula do método cartesiano, que se fez ostensivamente presente na abordagem mecanicista de administração. Francis Bacon (1561-1626) Com uma passagem pela sociedade industrial marcada por inúmeros questionamentos a respeito da frivolidade do conhecimento puramente técnico e isolado do contexto social, Bacon condenava o conhecimento dissociado da ação, julgando-o uma manifestação sem lógica. Ele levantou a bandeira da utilização do método intuitivo e da experimentação. Na sua concepção a indução foi marcada por duas vertentes em um mesmo segmento: A negação que se constituía da libertação dos erros e preconceitos arrastados pelos indivíduos em uma determinada sociedade e a construção, que era a descoberta da verdade comprovada pela ciência. Progressivamente, os experimentos de Bacon foram marcando com considerável importância, a abordagem científica da administração. Isaac Newton (1642-1727) Amplamente conhecido pela teoria da lei da gravidade, Newton também deu sua contribuição para a consolidação da ciência da administração moderna. Principalmente porque com suas teorias cientificas, Newton trouxe outras respostas aos acontecimentos sociais e da natureza que não foram respostas puramente religiosas ou obras de divindades celestes. Reverenciado também pelos seus estudos na área da tecnologia, metafísica, filosofia e alquimia, Newton ajudou a introduzir na sociedade uma abordagem estrutural da administração, voltado às teorias de gestão a um carácter humanista, marca da sociedade industrial. Sócrates (399 A.C) Filósofo grego nascido em 470 a.C., Sócrates contribuiu vastamente com suas ideias na composição da chamada “teoria humanista.” Seu objeto de estudo não se baseava nos conflitos particulares dos indivíduos e sim no conceito do processo dialético, que gerava segundo ele, o fenômeno da indução. Fenômeno esse capaz de conduzir a consciência a um todo compreensível, resultando em um padrão de comportamento e previsibilidade. Fonte: Ferreira et. al, 2006. Administração Pública 28 Três tipos de abordagens que constituíram a administração moderna Compreendidas as nossas influências pretéritas, seguiremos com os modelos de gestão desenhados e que ao longo das décadas foram sendo adotados pelos governos. Abordagem estrutural Em meados do século XIX o Modelo Clássico de Administração imperava absoluto nas organizações. Totalmente voltado ao poder produtivo das máquinas, tal segmento deu início à gerenciabilidade baseada na lógica mecanicista. Os trabalhadores ideais eram aqueles que incorporavam as características das máquinas: Estabilidade, padronização, previsibilidade e passividade, que foram alguns dos fatores que contribuíram pesadamente para a desumanização do trabalho. Consequentemente ligado a esses fatores no início do século XX, surge a abordagem mecânica. Os trabalhadores eram vistos como uma peça necessária aos processos de produção. Alguns dos pontos críticos da abordagem mecanicista se fazem presentes nas organizações em pleno século XXI: • Visão limitada do ser humano. • Abordagem limitada das organizações. • Propostas prescritivas e generalizantes são alguns desses fatores. Entretanto, é inegável a importante contribuição da abordagem mecânica para o desenvolvimento social, envolvendo também, o notável desenvolvimento tecnológico e social, assim como, também contribuiu para basear algumas das concepções de modelos de gestão utilizados hoje de forma mais racional e eficaz. Ainda como um modelo de abordagem estrutural destaca-se o Modelo Burocrático Organizacional. Caracterizado pela burocratização e pelo autoritarismo patriarcal e patrimonialista. Esse modelo firmou-se como um modelo básico entre a maioria das organizações no século XX, Administração Pública 29 principalmente por estar se desenvolvendo na era industrial. Marcada pela criação do funcionalismo público, onde o poder designado ao funcionário estava diretamente ligado ao cargo ocupado e não à pessoa designada. Nesse modelo, a especialização e o treinamento profissional são fatores dispensáveis, privilegiando a eficiência e a qualidade adotada por padrões universais em todas as ações das organizações sejam elas, internas ou externas. Suas principais características são: Separação entre propriedade e administração, caráter legal das normas e regulamentos das instituições, hierarquia da autoridade, impessoalidade das relações, rotinas e procedimentos padronizados, competência técnica e meritocracia. Finalmente, encerrando a abordagem estrutural, outra forma de administração foi chamada de teoria da decisão. Defendida calorosamente pelo estudioso Herbert Simon, que definia as organizações como um claro resultado de tomada de decisões. Herbert criticou duramente as teorias anteriores por julgá-las erroneamente resumidas nas ações de seus sujeitos, sem perceber que ações são consequências de decisões. Com suas falhas, essa também foi uma teoria ultrapassada pela administração moderna principalmente porque limitava e padronizava o carácter humano das organizações. Abordagem humanística Amplamente divulgada após a experiência de Hawthorne, a Abordagem Humanística desenvolveu novos modelos de gestão, chamados a partir de então, modelos de gestão humanizados. Hawthorne bairro da cidade de Cícero, em Illinois nos Estados Unidos, abrigava a fábrica de relés telefônicos da Western Electric Company, que apesar de oferecer bons salários e boas condições de trabalho andava insatisfeita com a produtividade de seus empregados. Em 1927, liderada pelo professor Elton Mayo, uma equipe de Harward desenvolveu durante cinco anos uma pesquisa e algumas experimentações baseadas em fatores biológicos e físicos no setor de produção da fábrica. Porém, mesmo após algumas mudanças físicas no setor de produção ainda havia um fator até então desconhecido, que refletia efeitos contraditórios. Para desenvolver a pesquisa, a equipe separou um determinado grupo Administração Pública 30 de operárias e aplicou a esse grupo, determinadas ações em caráter de experiência. Uma dessas ações foi a redução da jornada de trabalho. Tão logo a experiência foi tomando forma, os índices de produtividade desse determinado grupo aumentou significativamente e mesmo com o retrocesso do grupo à jornada antiga de trabalho, os índices de produtividade não baixaram. Observou-se então, que as operárias destacadas para os experimentos se sentiam supervalorizadas e prestigiadas pelo interesse dos estudiosos e da direção da empresa, motivando-as a desempenharem um papel mais significativo em seu posto de trabalho. Também se observou que dentro desse grupo, alguns grupos informais iam se formando, liderados pelas operárias que, de certa forma, se destacavam por características pessoais e espírito de liderança que aos poucos iam se desvendando, resultado da ausência da supervisão excessivamente rígida imposta aelas. A partir daí, os fatores psicológicos na produção passaram a ocupar um lugar de destaque no planejamento das organizações. Observou-se que uma organização não se caracteriza somente pelo seu plano formal, suas regras, normas, procedimentos e rotinas, mas também se constitui através de seus aspectos informais como a cultura organizacional e seus grupos de afinidades. Nesse sentido é correto afirmar que não é somente uma remuneração satisfatória que garante o rendimento do trabalhador, mas também que as pessoas são motivadas por fatores psicológicos como, por exemplo, a necessidade de reconhecimento, a aprovação social e a efetiva participação desse sujeito no grupo social em que vive. Apesar da experiência de Hawthorne ter sido mais tarde severamente questionada e criticada por alguns estudiosos sociais, ela definitivamente instituiu o marco das relações humanistas no trabalho. Para entendermos mais amplamente os conceitos que constituíram a abordagem humanista, vamos observar alguns autores que tiveram com suas ideias, significativo destaque nas bases teóricas desse modelo de gestão. Administração Pública 31 Tabela 4: Quadro das influências estrangeiras no modelo de gestão. Mary Parker Follett (1868-1933) Questionou extensivamente os métodos de imposição da autoridade, enfatizando a importância da tarefa a ser exercida e não do poder empregado na delegação e execução dessa tarefa. Dedicou-se a desvendar os conflitos entre as diferentes camadas hierárquicas de uma mesma organização, enfatizando que a melhor forma de resolver os conflitos era através da integração e não da dominação ou da concessão como na abordagem estratégica. Abordou a importância de gerenciar o poder voltando-o para a unificação de um grupo e não pela sobreposição de um indivíduo sobre o outro. Basicamente, ela propunha a união das diversas qualidades que cada indivíduo possuía, formando um todo poderoso. Era o “poder com” e não o “poder sobre”. Despertou um olhar holístico sobre o desempenho dos trabalhadores. Ela entendia a separação do indivíduo como ser espiritual e ser social como um dualismo fatal para as organizações. Defendeu que a busca pelo controle deve ser feito em acordo com o grupo e não sobreposto a ele e que deve-se controlar as situações e não as pessoas. Rensis Likert (1903-1981) Voltado a estudar os modelos de sucesso de liderança, concluiu que o sistema de melhor desempenho é o sistema participativo. Destacou a importância de um eficiente fluxo de comunicação entre subordinados e superiores. Evidenciou a forma participativa como a que obtém os melhores resultados. Assinalou a importância da busca pelo bem estar dos indivíduos e as melhores condições de trabalho. Salientou o sucesso na integração entre planejamento conjunto e coordenação de esforços, intercâmbio de informações e o desejo de atingir objetivos como reforços positivos no contexto organizacional. Reforçou a importância do relacionamento inter e intra pessoal nas organizações assim como a afirmação da cultura organizacional. Administração Pública 32 Douglas McGregor (1906-1964) Desenvolveu uma teoria de interpretação básica da natureza humana até hoje seguida por muitos gerentes. Dividiu essa teoria em dois segmentos: Teoria X baseada em valores conservadoristas típicos da abordagem estrutural e a Teoria Y calcada nos pensadores humanistas. Teoria X: • O operário típico não gosta de trabalhar e evita ao máximo o esforço produtivo. • Os empregados devem ser coagidos, controlados e ameaçados com punições para que trabalhem de acordo com os padrões de produtividade exigidos. • A maior parte das pessoas evita assumir responsabilidades no ambiente de trabalho. • Os trabalhadores colocam a segurança acima de tudo e possuem pouca ambição. Teoria Y: • A maior parte das pessoas encara o trabalho de forma tão natural como a alimentação e o descanso e pode obter satisfação na atividade produtiva. • Os trabalhadores são capazes de exercer auto direção e autocontrole, não precisando, assim, de uma supervisão rígida para cumprir as normas e padrões de produção. • As pessoas, em geral, aceitam as responsabilidades que lhes são confiadas se estiverem comprometidas com os objetivos a perseguir. • A imaginação, a criatividade, a iniciativa e a capacidade para tomar decisões constituem qualidades exclusivas dos gestores. Abraham Harold Maslow (1908-1970) Voltou suas teorias ao estudo da motivação: • “Qualquer comportamento motivado é um canal pelo qual diversas necessidades podem ser expressas ou satisfeitas simultaneamente. Cada ato costuma possuir mais de uma motivação.” • “O estudo da motivação deve concentrar-se nos objetivos finais das pessoas e não em seus objetivos intermediários, que nada mais são do que meios para atingir os objetivos finais.” • “As necessidades humanas estão hierarquizadas segundo o seu valor. Assim, a manifestação de uma necessidade baseia-se, geralmente, na satisfação prévia de outra mais importante ou premente. Nenhuma necessidade deve ser tratada como se fosse isolada, uma vez que todas se relacionam com o estado de satisfação ou insatisfação de outras necessidades.” Administração Pública 33 Frederick Herzberg (1923) Segundo Frederick, motivação e desmotivação não são extremos opostos de uma mesma dimensão, mas sim faces de uma mesma organização determinada. As organizações devem buscar enriquecer as tarefas designadas aos seus trabalhadores, fazendo com que esses se sintam reconhecidos pelo trabalho que exercem. A concessão de alguns benefícios como salário, status ou segurança são fatores importantes numa organização, mas não são fatores motivacionais. É necessário que se dê uma constante atenção a fatores como reconhecimento, responsabilidade e desenvolvimento individual, para que os trabalhadores se sintam motivados. Warren Bennis (1925) Bennis defendia que cada modelo de administração foi importante ao seu tempo e que eles só foram criados porque a necessidade da sua forma era inevitável dentro do contexto em que ela se encontrava. Assinalando que as mudanças foram se fazendo necessárias devido às condições emergentes no hemisfério organizacional, tais como: • Mudanças rápidas e inesperadas às portas do mundo moderno. • Aumento das dimensões das organizações. • Crescente diversidade. • Mudança no comportamento gerencial devido às perspectivas humanistas. Chester Barnard (1886-1961) Destacou o papel da tomada de decisão como centro da administração. Reforçou que o esforço cooperativo era a chave para o sucesso organizacional e eficácia administrativa. Formulou a “teoria da aceitação de autoridade” abordada por Mary Follett. Assinalou dentro dessa teoria que a eficácia da gestão consiste na capacidade do gerente de obter legitimação de sua autoridade com os seus subordinados. Sua posição era de que a verdadeira fonte de poder do executivo não é sua posição hierárquica e sim sua aceitação pelos trabalhadores. Fonte: Ferreira et al, 2006. Nesse sentido, entendemos a abordagem humanística como uma transformação necessárias da forma como as organizações operavam a gestão de pessoas, agora não só limitada aos processos burocráticos de seleção de trabalhadores, treinamentos práticos, controles de pagamento e frequência, como na visão clássica e mecanicista, mas como uma gestão Administração Pública 34 humanizada, destacando valores da dignidade humana, observando o trabalhador como um ser social composto de sentimentos (visão holística) e que precisa ser motivado independente do ambiente em que atua. Mas, essa abordagem também sofreu críticas e teve expostas suas falhas. Sua radical oposição aos procedimentos da escola clássica a cegou para as vertentes construtivas das teorias de racionalização dos processos produtivos. As teorias comportamentais foram acusadas de ter uma visão romântica dos conflitos administrativosimaginando que a adoção de uma gestão mais humana encerraria por si só as necessidades dos trabalhadores. Por fim, a teoria humanista acabou sendo acusada de manipulativa dos trabalhadores. Muitos críticos evidenciaram que a supervalorização do empregado era nada mais do que uma máscara dos verdadeiros interesses capitais. Abordagem interativa Após a II Guerra Mundial, aproximadamente na década de 50, houve uma grande transformação no cenário econômico e o mundo se viu às portas de grandes transformações, sobretudo no âmbito industrial. O grande e crescente desafio de gestão eram os sistemas burocráticos do início do século que se instalavam rapidamente nos sistemas de produção que funcionavam a todo vapor depois das descobertas tecnológicas do período da guerra. A introdução de novos produtos instalou um novo desfio à economia do mercado, como por exemplo, a competição. Explodiu uma vasta transformação em toda sociedade: Arte, cultura, literatura, música, religião e política, todos sofriam transformações alavancados pelo surgimento de novas formas de comunicação que consolidavam o consumo da massa social. O consumo desenfreado foi um forte propulsor das formas clássicas gerenciais. Os limites de ideias, de eficiência dos modelos burocráticos, das autonomias organizacionais e principalmente dos recursos naturais eram um entrave indigesto do mundo capital e as organizações precisavam mudar. Ao observar melhor os sistemas sociais em que estavam inseridas, as organizações começaram a modificar gradativamente suas formas de Administração Pública 35 gerenciar, optando por um trabalho simultâneo entre os diversos tipos de estruturas e suas concepções organizacionais. Então, observamos as organizações como um sistema sociotécnico: os padrões organizacionais não dependiam somente de abstratos critérios técnicos, mas se encontravam fortemente relacionados com realidades dos sistemas sociais em que estão inseridos. (Ferreira et. al, 2006). Em contrapartida, surgem as organizações como sistemas abertos, consistindo em duas abordagens na realização de uma mesma tarefa: o trabalho executado de acordo com a interação própria de cada campo do conhecimento e a construção hierárquica de sistemas relacionados às complexidades dos conjuntos desse conhecimento. Figura 6: Exemplo de sistema aberto: Organização como um sistema incluso em outro sistema que aqui está representada pelo ambiente social (supersistemas) Ambiente social Organização/negócio Presidência Direção/gerência Produção Fonte: Teixeira e Ribeiro (2014, p.44). Outro fator de destaque dentro da teoria sistêmica é a importância da cultura e do clima organizacional. É na cultura que refletem todas as influências tanto do sistema formal com suas normas e mecanismos burocráticos, quanto a reinterpretação dessas influências pelo sistema informal. A teoria da contingência também apareceu dentro desse modelo de abordagem administrativa por volta das décadas de sessenta e setenta juntamente com a expansão dos modelos japoneses de produção, sistema organizacional e suas características mais orgânicas. Abaixo o quadro comparativo resume bem as diferenças de cada modelo de abordagem: Administração Pública 36 Tabela 6: Diferentes modelos de abordagem administrativa Características básicas de cada abordagem Mecânica Orgânica Ambiente Tarefa Controle Autoridade Participação Comunicação Estável Padronizada Regras e regulamentos Centralizada Obediência Vertical Instável Mutante\emergente Maior fluidez Descentralizada Solução de problemas Informal\mais horizontal Fonte: Ferreira, 2006, p.56. Existe um consenso na literatura e nas práticas contemporâneas que se baseiam em três pontos fundamentais a serem destacados no processo de formação da função gerencial estratégica: 1. Organizar a ação gerencial sob todos os níveis e não deixando de observar as oportunidades e ameaças que vagueiam em torno do ambiente externo, refletindo no ambiente interno e que podem ser fatais para o sucesso das organizações. 2. Todas as organizações são constituídas a partir de uma razão ou um negócio e elas só conseguirão sobreviver se processarem um modo eficiente em suas estruturas destinado a produzir ações, relevantes a seu ambiente externo assim como suas influências. 3. As organizações não devem deixar de dar atenção à dimensão das necessidades de integração e alinhamento das estruturas organizacionais. Os estudos acerca da abordagem integrativa contribuíram maciçamente para a consolidação da gestão de pessoas nas organizações, assim como possibilitou a ampliação dos setores adquirindo novas funções, como por exemplo, o planejamento e o processo de recrutamento e seleção, avaliação de desempenho e treinamento de pessoal. Agora, as ações têm referências não só psicológicas e sociais mas também são voltadas à relação ambiente interno e externo. Administração Pública 37 Basicamente, as teorias modernas de gestão, buscam previsibilidade, produtividade, expansão das habilidades e competências, harmonia, ajustamento, satisfação pessoal e assim por diante. A dialética socrática, assim como as teorias citadas, influenciaram vastamente os estudiosos e arquitetos da construção de um modelo administrativo mais completo possível e que seja capaz de suprir as necessidades tanto das organizações como das pessoas envolvidas nesse processo. Obviamente não existe um modelo permanente, muito menos soluções universais que constituam o cerne da gestão ideal. É de extrema importância relembrar que, as organizações estão invariavelmente expostas a ramos de negócio, contextos políticos e econômicos distintos, refletindo diretamente no comportamento social. Os fatores humanos são sim, de grande influência no desempenho das organizações e esse desempenho está invariavelmente sujeito a alterações constates. A história e a convergência com os modelos brasileiros Obviamente que ao longo das décadas a forma de gestão e administração pública foi se modificando e adaptando às necessidades que vinham sendo apresentadas pela sociedade e pela economia. A cada nova “adaptação”, irrefutavelmente, a forma de exercer e oferecer os serviços à sociedade precisava se reorganizar e esse processo findava em lentidão na execução e dificuldades na oferta do serviço. Vejamos agora, alguns ciclos vividos pela economia e sociedade brasileira, que impulsionaram a adoção e o abandono de processos administrativos que muito contribuíram para o rótulo de ineficiência e descrédito de alguns discursos. Comecemos pelos períodos de 1890 a 1930. Conhecido como Era do Coronelismo ou Estado Oligárquico. As questões sociais eram tímidas e tratadas apenas pelo seu caráter religioso, o que incentivou os primeiros movimentos sociais no país. Entre 1930 a 1950 o Brasil viveu um importante movimento na administração pública, principalmente pela estatização da economia Administração Pública 38 resultante dos processos de empresas controladas pelo estado. O objetivo era descentralizar os processos criando estruturas paralelas de gestão, o que acabou engessando e instituindo os movimentos burocráticos e lentos da administração pública. Esse período também conta com um marco histórico para história do trabalho no Brasil: A Consolidação dos Direitos Trabalhistas, o aprimoramento do ensino público e a promulgação da Constituição de 1946. Temos aqui a “Era Vargas” populista e clientelista. Entre 1950 e 1980, os modelos de ensino brasileiros marcam a história do trabalho tanto no setor privado como no setor público. O ensino melhorando as exigências pela prestação de serviço também aumentava. Importante lembrar que em meados da década de 60 a 80 houve o controle do Estado pelo regime militar que privilegiou atender a previdência social, a educação e a habitação e também a reforma administrativa de 1967 quevisava minimizar os efeitos burocráticos das gestões anteriores. Já no final da década de 80 com a promulgação da Constituição de 1988 os processos que vinham acelerando a gestão voltam e ficar engessados principalmente pela retirada de poder do executivo. Desde então, até meados de 2010 várias tentativas de realizar uma reforma administrativa vêm sendo operadas sem grandes conquistas e consolidando a imagem de ineficiência, falta de qualidade e descaso dos sistemas de serviços públicos em geral. SAIBA MAIS: Quer se aprofundar nesse tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo “Burocracia, Eficiência e Modelos de Gestão Pública” (ARAGÃO). Clique aqui. Administração Pública https://pt.slideshare.net/vsalasroldan/burocracia-eficincia-e-modelos-de-gestao-publica 39 RESUMINDO: Nessa unidade você viu de que forma os principais modelos e filósofos influenciaram a gestão pública e abriram caminhos para o que temos hoje. Você viu que no começo do século XX, com a consolidação da Segunda Revolução Industrial foram registrados os primeiros indícios de modelos de gestão realmente voltados à eficiência produtiva. Você aprendeu que a abordagem humanística foi uma transformação necessária da forma em que as organizações operavam a gestão de pessoas e as teorias comportamentais foram acusadas de ter uma visão romântica dos conflitos administrativos imaginando que a adoção de uma gestão mais humana encerraria por si só as necessidades dos trabalhadores. Você estudou a abordagem integrativa e ainda, os três pontos fundamentais que formam a função gerencial estratégica, a história e a convergência com os modelos brasileiros. Administração Pública 40 BIBLIOGRAFIA BRASIL. Constitição da República Federativa do Brasil. Brasília. Senado Federal, 2010. FERREIRA, V. C. P.; CARDOSO, A. S. R. C.; CORRÊA, C. J.; FRANÇA, C. F. Modelos de Gestão. Rio de Janeiro: FGV Management, 2006. OLIVEIRA, Djalma de Pinho Rebouças. Administração Pública: Foco na otimização do modelo administrativo. São Paulo: Atlas, 2014. TEIXEIRA, J. M. B., RIBEIRO, M. T. F. Gestão de pessoas na administração pública: teorias e conceitos. Curitiba: Intersaberes, 2017. Administração Pública Administração Pública Juliane Marise Barbosa Teixeira