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62 Unidade II Sintaxe à vontade Sem horas e sem dores Respeitável público pagão a partir de sempre toda cura pertence a nós toda resposta e dúvida todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser todo verbo é livre para ser direto e indireto nenhum predicado será prejudicado nem tampouco a vírgula, nem a crase nem a frase e ponto final! afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas e estar entre vírgulas pode ser aposto e eu aposto o oposto que vou cativar a todos sendo apenas um sujeito simples um sujeito e sua oração sua pressa e sua verdade, sua fé que a regência da paz sirva a todos nós... cegos ou não que enxerguemos o fato de termos acessórios para nossa oração separados ou adjuntos, nominais ou não façamos parte do contexto da crônica e de todas as capas de edição especial sejamos também o anúncio da contracapa mas ser a capa e ser contracapa é a beleza da contradição é negar a si mesmo e negar a si mesmo pode ser também encontrar‑se com Deus com o teu Deus Sem horas e sem dores Que nesse encontro que acontece agora cada um possa se encontrar no outro até porque... tem horas que a gente se pergunta... por que é que não se junta tudo numa coisa só? Teatro Mágico Composição: Fernando Anitelli Unidade II 63 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA 5 ORAÇÕES E SINTAGMAS Como já dissemos anteriormente, o falante da língua portuguesa, mesmo que não seja escolarizado, reconhece a organização sintática, tanto aceita as frases que são bem formadas quanto rejeita as que não o são. Observação Do grego syntaxis, o termo “sintaxe” tem o significado de “ordem, disposição, relação”. Portanto, o estudo da sintaxe está relacionado à disposição dos termos em uma sequência que se denomina oração. Nesse sentido, os estudos dos linguistas norte‑americanos contribuíram com a noção de constituintes imediatos e, consequentemente, a formulação de regras de estrutura sintagmática. Mas o falante tem total liberdade ao elaborar uma estrutura sintagmática? É claro que todos têm liberdade de expressar suas ideias de modo pessoal, porém existem certos limites impostos pela gramática, os quais impedem, a cada ato de fala, a criação de uma língua nova. Dessa forma, a nossa liberdade de construir frases está condicionada a estruturas gramaticais determinadas, mas isso não quer dizer estar de acordo com a norma culta. Assim, ausência de gramaticalidade ou gramaticalidade muito precária significa ausência de inteligibilidade. Isso pode ser constatado na famosa frase de Chomsky (1995): “Colorless Green ideas sleep furiously.” (Incolores ideias verdes dormem furiosamente). Note que a frase anterior apresenta gramaticalidade; no entanto, constitui um enunciado incompreensível no plano denotativo, em que não apresenta lógica dos seus elementos linguísticos. Ela só poderia ser compreendida em um contexto metafórico, ou seja, conotativo. Todo falante reconhece intuitivamente esses constituintes, ou seja, as regras de estrutura sintagmática, em uma oração. Ao organizar a estrutura de uma frase, o indivíduo agrupa as palavras de modo a formar os constituintes dela, os quais são denominados sintagmas. Portanto, o objeto de estudo da sintaxe são os constituintes de uma oração. Estes se agrupam de modo a formar uma frase ou uma oração. Salientamos que a diferença de classificação entre frase e oração é que a primeira pode ser constituída apenas de sintagmas nominais, ao passo que a segunda está sempre relacionada à existência de um sintagma verbal. Exemplificando: (1) Que calor! (2) Hoje fez muito calor. 64 Unidade II No exemplo (1), temos uma frase (mas não uma oração), ao passo que, no segundo exemplo, temos uma oração (que pode ser também chamada de frase). Portanto, toda oração é uma frase, mas nem toda frase é oração. Segundo alguns autores, porém, nem sempre oração é frase. Em “é necessário que te apresses” há duas orações, mas uma só frase, pois somente o conjunto das duas é que traduz um pensamento completo. Assim, uma frase, para ser analisada sintaticamente, deve apresentar um sintagma verbal, pois os constituintes imediatos de uma oração são, a princípio, sintagma nominal (SN) + sintagma verbal (SV). Hierarquicamente, a partir de um sintagma verbal, podemos dizer que há um período simples e, a partir de dois (ou mais) sintagmas verbais, temos um período composto. Observação Oração = frase que contém um sintagma verbal. As orações na língua portuguesa podem ser classificadas em interrogativas, imperativas, optativas, exclamativas e declarativas. Orações interrogativas Têm a função de expressar perguntas. Exemplos: Você vai fazer o quê? Onde está o cachorro? Por que ele trabalha tanto? Que é isso? Como vai o seu pai? Orações imperativas Caracterizam‑se por apresentarem verbos no modo imperativo. São utilizadas para expressar ordens e pedidos. Exemplos: Traga‑me um martelo. Espere‑me amanhã. Diga o que você quer. 65 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Pense no que você diz. Faça bem o seu trabalho. Orações optativas Caracterizam‑se por terem verbo no subjuntivo na oração principal e expressam desejo. Frequentemente são introduzidas pelo exclamativo “que” e marcadas às vezes por ponto de exclamação. Exemplos: Que Deus acompanhe você! Deus nos ajude! Tomara que não chova hoje! Orações exclamativas Caracterizam‑se por serem seguidas, na escrita, por um ponto de exclamação e, na fala, expressam surpresa e admiração. Exemplos: Como você é bonita! Eles já chegaram! Que bagunça você fez! Orações declarativas Caracterizam‑se por não apresentarem os traços distintivos das imperativas (verbo no imperativo), das exclamativas (ponto de exclamação) e das interrogativas (ponto de interrogação e elemento interrogativo). Exemplos: O homem encontrou o menino. O menino foi encontrado pelo homem. Perini (2005) ressalta que, normalmente, as orações declarativas são usadas para expressar declarações. Mas, dependendo do contexto, podem expressar desejo e/ou pergunta: Você poderia me ajudar aqui. (pedido) Eu ainda não sei o seu nome. (pergunta) Eu gostaria que alguém me ajudasse. (desejo ou pedido) 66 Unidade II Para entendermos melhor a estrutura da oração, vamos dar um exemplo e nele identificar os constituintes da oração: As meninas de vermelho entraram na competição. Ao fazermos um primeiro agrupamento, teremos: / As meninas de vermelho / entraram / na competição. Identificamos três sintagmas nessa oração. Os constituintes imediatos da oração são os sintagmas. Podemos, então, definir o sintagma como uma unidade significativa na oração ou, de acordo com Sautchuk (2004, p. 39), como: toda construção sintática que constitua um “bloco” significativo ou funcional no eixo horizontal, formado a partir de uma ou mais de uma unidade linguística, de nível imediatamente inferior. Observamos que esses sintagmas podem mudar de posição no eixo sintagmático: / Entraram / as meninas de vermelho / na competição. Ou: / Na competição / entraram / as meninas de vermelho. Essas combinações são possíveis e reconhecidas pelos falantes como orações da língua portuguesa. O arranjo mais próximo ou mais distante dos padrões linguísticos resulta em maior ou menor familiaridade para o falante. É o que se denomina “força das leis sintáticas numa língua”. Para cada sintagma, há um elemento central, o qual se denomina núcleo do sintagma. É ele que determinará a classificação dos sintagmas em nominal, adjetival, preposicional (ou preposicionado) e adverbial. Observação Sintagma = unidade significativa na oração. O sintagma nominal (SN) tem por núcleo uma palavra de base morfológica substantiva, como nos seguintes exemplos: (3) O meu estimado / casaco / de pele marrom. (4) O seu lindo / casaco / de lã preta. (5) Aquele / casaco / azul. 67 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Veja que em todos os exemplos o núcleo do sintagma é “casaco”. No exemplo (3), temos o sintagma “de pele marrom”, que se constitui de preposição + sintagmanominal. Trata‑se de um sintagma preposicional, portanto. Da mesma forma, há o sintagma “de lã preta” no exemplo (4). O sintagma nominal se compõe de um único núcleo substantivo. Esse núcleo pode ser modificado por: • Elementos especificadores: artigos, pronomes demonstrativos, pronomes possessivos. Exemplos: O navio ficou cinco dias no porto. (o = artigo) Esse navio ficou cinco dias no porto. (esse = pronome demonstrativo) • Elementos quantificadores: pronomes indefinidos ou numerais. Exemplos: Alguns navios chegaram ao porto. (pronome indefinido = alguns) Cinco navios chegaram ao porto. (numeral = cinco) • Elementos qualificadores: adjetivos ou outros grupos nominais introduzidos por uma preposição. Vejamos alguns exemplos: Nas horas vagas, é preciso descansar. (adjetivo = vagas) Um anel de ouro foi achado. (sintagma nominal introduzido por uma preposição). Já no exemplo (5), há um sintagma adjetival (SA), “azul”, que corresponde a um modificador do substantivo “casaco”. Então, hierarquicamente, vimos que em todos os exemplos há um sintagma nominal (SN) que pode ser subdividido, conforme descrito anteriormente. Portanto, há um sintagma autônomo em todos os exemplos, constituído de sintagmas internos. 68 Unidade II Para entendermos melhor, vejamos uma oração completa: Aquele lindo casaco azul necessita de reparos. Em um primeiro agrupamento, ao identificarmos os sintagmas da oração, teremos: / Aquele lindo casaco azul / necessita / de reparos. SN SV SP Esses são os sintagmas autônomos, isto é, aqueles que podem mudar de posição na organização sintática da oração: / De reparos / necessita / aquele lindo casaco azul. No entanto, temos dois sintagmas adjetivais internos em “aquele lindo casaco azul”, que correspondem a “lindo” e “azul”, os quais não podem mudar de posição na oração, pois estão dentro do sintagma nominal. Essa é a diferença entre sintagma autônomo e sintagma interno. Lembrete Sintaxe, do grego syntaxis: ordem, disposição, relação. Frase: unidade significativa; ela pode ou não ter um sintagma verbal. Oração: tem como base um sintagma verbal. Período: simples quando é formado de apenas uma oração e composto a partir de duas (ou mais) orações. Sintagma: constituinte da oração; um bloco significativo na oração. Sintagma nominal (SN): a base morfológica é um substantivo. Sintagma adjetival (SA): a base morfológica é um adjetivo. Sintagma preposicionado (SP): constituído de preposição + SN. Sintagma adverbial (S Adv.): a base morfológica é um advérbio. Sintagma autônomo: sintagma que pode mudar de posição sem alterar o sentido da oração. Sintagma interno: não pode mudar de posição, pois se encontra dentro de outro sintagma, autônomo. 69 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Vamos exemplificar um sintagma adverbial. Em “Todos saíram bem lentamente”, temos os sintagmas “todos”, “saíram”, “bem lentamente”. Portanto, essa oração é composta de SN + SV + S Adv. O sintagma adverbial tem por núcleo um advérbio, que pode sozinho constituir um sintagma. É o caso de “lentamente”. Os sintagmas preposicionais (ou preposicionados) normalmente exercem funções adverbiais, como se pode verificar nos seguintes exemplos: (6) Nós viajamos à tarde. (7) Nós viajamos ontem. Veja que entre (6) e (7) a diferença é que, no primeiro exemplo, há um sintagma preposicionado, que equivale a um advérbio, enquanto, no segundo, o sintagma é adverbial mesmo. Podemos isolar e decompor os sintagmas, tendo como núcleo o sintagma verbal, que é a base de uma oração: Todas as minhas dúvidas desapareceram com o tempo. Decompondo: Todas + as + minhas + dúvidas = SN [predeterminante + determinante + poss. + núcleo subst.] desapareceram = SV [núcleo verbal] com o tempo = SP autônomo [prep. + SN (det. + núcleo subst.)] Leia atentamente o esquema a seguir e avalie o seu aprendizado até o momento. Há muito o que estudar, não é mesmo? Você pode representar os sintagmas da seguinte forma: O SN SV Determinante N V Os garotos jogavam N SN SPN Preposição bolinha de gude Figura 2 – Esquema de sintagmas 70 Unidade II 5.1 Estudo dos termos da oração Como vimos anteriormente, a cada sintagma verbal temos uma oração. Desse modo, quando o período é constituído de uma oração, denomina‑se período simples; a partir de duas ou mais orações, há um período composto. Neste, existem dois processos de relação sintática, a coordenação e a subordinação, os quais serão estudados posteriormente. Vimos também que, na hierarquia gramatical, os constituintes de uma oração são os sintagmas. Estes assumem funções sintáticas na oração, conforme a relação que se estabelece entre esses sintagmas. Ao analisarmos sintaticamente uma oração, os dois constituintes imediatos que se identificam são o sujeito e o predicado. Assim, temos: O S P A mãe / abriu a porta. Devemos lembrar, ainda, que o padrão sintático em língua portuguesa é: S V C Ou seja: Sujeito + Verbo + Complemento A posição S, quando preenchida, será ocupada por um sintagma que tem a função de sujeito da oração, enquanto a posição V corresponde ao sintagma verbal, imprescindível em toda oração. A posição C diz respeito ao sintagma que representa o complemento da oração. Vejamos: Quadro 8 – Exemplo Todos os presentes aplaudiram o orador S V C Há orações em que as posições S e C podem estar ausentes: Quadro 9 – Exemplo ////////////////////// Chegaram ////////////////////////////// S V C 71 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Então, concluímos que podemos ter oração sem sujeito e sem complemento, mas sempre haverá um sintagma verbal, que é a base de uma oração. Lembremos que será a relação sintática entre os termos que determinará a função de cada um na oração. E como sintaxe é “ordem, disposição, relação”, esta implicará a organização e consequente função dos sintagmas na oração. 5.1.1 Sujeito A gramática tradicional normalmente refere‑se ao sujeito como “um termo essencial na oração”. Essa definição pressupõe valor semântico e, como acabamos de verificar, há orações em que o sujeito pode estar ausente, por isso questionamos como ele pode ser um termo essencial. Há também alguns gramáticos que utilizam o método de perguntar “quem” ou “o que” para descobrir o sujeito da oração. No entanto, podemos obter como resposta o objeto e não o sujeito dessa oração. Partindo do princípio de que o sujeito é uma noção gramatical e, portanto, como sintagma, articula‑se ao verbo da oração, concordando com ele em tempo/modo, número/pessoa, sugerimos a metodologia adotada por Sautchuk (2004) em seu manual didático. Primeiramente, a autora ressalta a natureza substantiva do sujeito, visto que é sempre representado por um sintagma nominal. Em seguida, destaca a posição primeira na estrutura SVC. Essas duas características morfossintáticas são essenciais para um reconhecimento prévio do sujeito na oração. Veja o seguinte exemplo: O pai encontrou o filho. Na posição S, temos “o pai” e na posição C, “o filho”. Se invertêssemos os sintagmas, obteríamos: O filho encontrou o pai. Na posição S, passamos a ter “o filho” e na posição C, “o pai”. Assim, uma primeira caracterização do sujeito é a de “todo termo da oração (não preposicionado) que puder ser substituído por um pronome reto ele(s), ela(s)” (Sautchuk, 2004, p. 59). Retomando o exemplo dado anteriormente, vejamos essas características. No primeiro exemplo, temos S = O pai; V = encontrou; C = o filho. Na estrutura SVC, de acordo com a gramática normativa, apenas a posição S pode ser substituída por um pronome pessoal reto, ao passo que a posição C deve ser substituída por um pronome pessoal oblíquo. Assim, poderíamos obter: Ele encontrou‑o ou Ele o encontrou. 72 Unidade II Pronome pessoal reto = posição S. Pronome pessoal oblíquo = posição C. Veja que, utilizando o mesmo procedimento no segundo exemplo, o pronome pessoal reto “ele” passa a substituir “o filho”, enquantoo pronome pessoal oblíquo substitui “o pai”, devido à inversão dos sintagmas. Para completar sua metodologia de identificação do sujeito, a autora propõe também a transformação do enunciado em uma pergunta hipotética, para a qual a resposta completa indicará o sujeito. No exemplo “O pai encontrou o filho”, transformando a oração em uma pergunta “O pai encontrou o filho?”, obtemos a resposta “Sim, ele encontrou o filho”. Veja que o sintagma substituído pelo pronome pessoal reto “ele” na resposta corresponde a “o pai”, portanto este é o sujeito da oração. Todavia, nem sempre as orações encontram‑se na ordem direta (SVC). Então, vejamos mais alguns exemplos para compreendermos esse método. (1) Chegou uma senhora de blusa vermelha. (?) Sim, ela chegou. (2) Na multidão, meu amigo encontrou o irmão. (?) Sim, ele o encontrou. Veja que, no exemplo (1), o sintagma “uma senhora de blusa vermelha” foi substituído pelo pronome reto “ela”, então esse sintagma corresponde ao sujeito da oração. Já no exemplo (2), substituímos dois sintagmas por pronomes, mas o que foi substituído pelo pronome pessoal reto foi “meu amigo”, portanto este é o sujeito da oração. O sintagma “o irmão” foi substituído pelo pronome pessoal oblíquo “o”, visto que ocupa a posição C na oração. Há casos em que o sujeito não pode ser substituído pelo pronome ele(s)/ela(s). Nesses casos, a sugestão é de que se substitua o sintagma pelo pronome demonstrativo “isso”. Vejamos um exemplo: (3) Ontem, tudo parecia terminado. (?) Sim, ontem “isso” parecia terminado. No exemplo (3), o pronome é indefinido, por isso talvez fique melhor substituí‑lo pelo demonstrativo neutro “isso”. 73 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA É o caso de verbo substantivado, como no exemplo: (4) Comer é bom para a saúde. (?) Sim, “isso” é bom para a saúde. 5.1.1.1 Sujeito simples (SS) Usando o método prático de identificação do sujeito apresentado anteriormente, classificaremos o sujeito como simples quando este for representado por um sintagma nominal que tenha um só núcleo, o qual pode ser substituído por um pronome reto: (5) Sumiu da gaveta uma blusa amarela. (6) Morreram as rosas do jardim. No exemplo (5), substituímos o sintagma “uma blusa amarela”, cujo núcleo é “blusa”, pelo pronome pessoal reto “ela”. Então, podemos classificar o sujeito “uma blusa amarela” como simples (SS). O mesmo ocorre no exemplo (6), em que o sintagma “as rosas do jardim”, cujo núcleo é “rosas”, deve ser substituído pelo pronome “elas”. Embora o pronome esteja no plural, há apenas um núcleo, portanto a classificação do sujeito é simples. Essa classificação está relacionada ao núcleo do sujeito e não à forma singular ou plural do sintagma. Lembrete Sujeito simples = um núcleo no sintagma. 5.1.1.2 Sujeito composto (SC) No caso do sujeito composto, trocam‑se dois ou mais sintagmas nominais (com respectivos núcleos substantivos) por um só pronome pessoal reto: (7) Sumiram da gaveta as blusas vermelhas e a calça azul. (?) Sim, elas sumiram. Veja que, no exemplo (7), o pronome “elas” está substituindo os sintagmas “as blusas vermelhas” e “a calça azul”, cujos núcleos são “blusas” e “calça”. Lembrete Sujeito composto = dois ou mais núcleos no sintagma. 74 Unidade II 5.1.1.3 Sujeito oculto (SO) O sujeito oculto (ou elíptico ou desinencial) não está expresso em um sintagma nominal na oração, mas encontra‑se marcado na própria desinência verbal. Nesse caso, o método não é substituir nenhum sintagma nominal por pronome, e sim acrescentar um pronome reto à oração, pronome este que se articula ao verbo. (8) Chegamos ao final. (?) Sim, nós chegamos ao final. (9) Encontraste o teu livro. (?) Sim, tu encontraste o livro. Veja que no exemplo (8) o pronome que se articula ao verbo da oração é “nós” e a desinência que marca a 1ª pessoa do plural (nós) no verbo é “–mos”. O mesmo ocorre no exemplo (9), cuja desinência “–ste” marca a segunda pessoa do singular, “tu”. Nos dois casos, o sujeito não se encontra expresso na oração, por isso ele recebe essa classificação de oculto (ou elíptico ou desinencial). Quando há terceira pessoa (do singular ou do plural), em português trata‑se de uma forma de indeterminação do sujeito, como veremos adiante. No entanto, se as orações estiverem articuladas entre si e houver expressão anterior do sujeito, este pode ser classificado como oculto. (10) Encontraram meu caderno na sala. Estava todo rasgado. (11) Sumiram minhas anotações do computador, mas não eram importantes. No exemplo (10), podemos considerar sujeito oculto na segunda oração, cuja desinência verbal é marcada pela ausência, isto é, por ø. Já no exemplo (11), a marca de terceira pessoa do plural “–m” não representa um sujeito simples, visto que na segunda, pela elipse (ø) do sujeito, essa marca significa a referência ao sintagma “minhas anotações”, expresso na oração anterior. Lembrete Sujeito oculto = marcado na desinência do verbo. Também denominado sujeito desinencial ou sujeito elíptico. Neves (2006) questiona os procedimentos tradicionais de tratamento do sujeito oculto de acordo com a gramática normativa das escolas. Ela afirma que apenas saber responder que o sujeito oculto da oração “andou de bicicleta” é “ele” ou “ela” é insuficiente. Deve‑se mostrar ao aluno que colocar como sujeito “menino” ou “ele” representa uma escolha e cria efeitos de sentido no texto. 75 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Veja a análise que Neves (2006) faz do emprego do sujeito na fábula “A Rã e o Boi”, cujo autor é Monteiro Lobato. Tomavam sol à beira de um brejo uma rã e uma saracura. Nisto chegou um boi, que vinha para o bebedouro. — Quer ver, disse a rã, como fico do tamanho deste animal? — Impossível rãzinha. Cada qual como Deus o fez. — Pois olhe lá! Retorquiu a rã estufando‑se toda. Não estou “quase” igual a ele? — Capaz! Falta muito, amiga. A rã estufou‑se mais um bocado. — E agora? — Longe ainda!... A rã fez novo esforço. — E agora? — Que esperança!... A rã, concentrando todas as forças, engoliu mais ar e foi‑se estufando, estufando, até que, plaf! O boi, que tinha acabado de beber, lançou um olhar de filósofo sobre a rã moribunda e disse: — Quem nasce para dez réis não chega a vintém. Lobato (1962, p. 8). Segundo Neves (2006), no início da fábula, introduziram‑se as personagens, como ocorre na estrutura tradicional das fábulas. No começo da narrativa, é necessária a identificação das personagens que se alternarão na sequência das falas que compõem o diálogo. A alternância da fala e das ações das personagens é percebida com facilidade pelo leitor, porque Lobato repete o sujeito “a rã” quatro vezes. 76 Unidade II Antes da moral da fábula “Quem nasce para dez reis não chega a vintém”, há ainda dois últimos parágrafos que se iniciam, respectivamente, com os sujeitos a rã e o boi, as duas personagens que dão título à fábula e formam o seu eixo. Por outro lado, em nenhum momento é usado o expediente de “ocultar” o sujeito nem é usado o pronome pessoal como sujeito. Em alguns pontos, a forma “ela” ou a ausência de qualquer forma (sujeito oculto) levaria ao perigo de mais de uma interpretação. Em outros pontos seria mais evidente a referência à rã, mas de algum modo a leitura estaria comprometida, porque a saracura continuaria candidata a preencher o lugar. Saiba mais Pesquise, em outras fábulas adaptadas por Monteiro Lobato, o emprego do sujeito nos diálogos das personagens. LOBATO, M. Fábulas. São Paulo: Brasiliense, 1962. 5.1.1.4 Sujeito indeterminado (SI) Há oração com sujeito indeterminado quando o verbo encontra‑se na terceira pessoa do plural ou na terceira pessoa do singular acompanhado da partícula “–se”, sem referência a nenhum outro sintagma expresso anteriormente. Nesse caso, a intenção é manter desconhecida a identidade do sujeito. Seguindo o método de substituição do sintagma pelo pronome, essas orações admitem o acréscimo de duas ou mais variações de um pronome reto de3ª pessoa. (12) Disseram a verdade. (?) Sim, (eles/elas/vocês) disseram a verdade. (13) Necessita‑se de um esclarecimento. (?) Sim, (ele/ela/você) necessita de um esclarecimento. Tanto no exemplo (12) como no exemplo (13), o sujeito é indeterminado, pois no primeiro caso o verbo “disseram” não faz referência a nenhum sintagma anterior à variação do pronome de terceira pessoa, ocorrendo o mesmo com o verbo do segundo exemplo. A diferença é que no exemplo (14) o verbo encontra‑se na 3ª pessoa do singular acompanhado do pronome “se”. São duas formas de se indeterminar o sujeito. Entretanto, é preciso atentar para essa construção com a partícula “–se” e o verbo na 3ª pessoa do singular, pois há casos em que ela representa o verbo na voz passiva. 77 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA (14) Encontraram‑se os objetos perdidos na casa. (?) Sim, os objetos perdidos foram encontrados na casa. (Sim, eles foram encontrados na casa). Veja que no exemplo (14) a oração que se encontra na voz passiva sintética pode ser transformada em voz passiva analítica, o que não ocorre no exemplo (13). Quando a oração encontra‑se na voz passiva, nesses casos, o verbo da oração é transitivo direto (o que estudaremos posteriormente). Portanto, o sujeito dessa oração (14) é “os objetos perdidos”, sintagma que pôde ser substituído pelo pronome “eles”. Então, o sujeito é simples (SS) e não indeterminado, como no caso da oração do exemplo (13). Lembrete Sujeito indeterminado = aquele que não se pode determinar. 5.1.1.5 Oração sem sujeito ou sujeito inexistente Nas construções em que o sujeito encontra‑se ausente e não há indícios de sua presença, como a marca na desinência verbal, por exemplo, este é considerado inexistente. (15) Fez calor durante todo o dia. (?) Sim, fez calor durante todo o dia. (16) Houve muitas reclamações. (?) Sim, houve muitas reclamações. Veja que, aplicando o método de transformar a oração em pergunta, tanto no exemplo (15) quanto no exemplo (16), como o verbo é impessoal, ou seja, não há conjugação para ele, não podemos substituir nenhum sintagma por um pronome pessoal reto. Isso ocorre com verbos que normalmente indicam fenômenos naturais e com o verbo haver (no sentido de existir), visto que eles não se flexionam, por serem impessoais. Lembrete Sujeito inexistente = no caso dos verbos que não podem ser conjugados. 78 Unidade II 5.1.2 Predicado e complementos verbais Os dois constituintes imediatos da oração são o sujeito e o predicado. Como já falamos sobre o sujeito, vejamos, então, o predicado. Este, na organização sintática de uma oração, diz respeito ao que não faz parte do sujeito. Embora não haja uma posição definida entre muitos gramáticos com relação ao sintagma verbal, entendemos que ele compõe o predicado. Nesse sentido, José Carlos de Azeredo (2001, p. 52) afirma: (...) Pensamos ser mais conveniente falar em subordinação do objeto, não ao verbo que o rege, mas ao conjunto a que verbo e objeto pertencem: o SV predicado. Com efeito, o verbo transitivo (ou intransitivo) não é o predicado – função exercida pelo SV – mas constituinte dele, seu núcleo, e o objeto outro constituinte, porém subordinado. Verificamos, então, que o “SV predicado”, como denomina o autor, pode ser constituído de um verbo sem complemento obrigatório ou de um verbo que exija complemento obrigatório, o que fará parte desse sintagma que, por sua vez, constitui o predicado da oração. (17) O chefe do departamento resolveu o problema. No exemplo (17), ao identificarmos os constituintes da oração, temos “o chefe do departamento” como sujeito e “resolveu o problema” como predicado. Neste último, observemos que o verbo é “resolveu”, e ele exige um complemento, no caso, “o problema”. Assim, ilustramos o conceito de SV predicado proposto por Azeredo, em que o verbo pode se encontrar acrescido de um complemento obrigatório (como no exemplo) ou de um adjunto (que não é um complemento obrigatório). A predicação está ligada ao comportamento dos verbos em seu interior. Por isso, há gramáticas que classificam o predicado conforme o tipo de verbo. Para a caracterização desses verbos, todavia, torna‑se necessário levar em conta sua carga semântica na oração. Nesse sentido, segundo Sautchuk (2004), há verbos que têm 100% de carga semântica, como há também os que apresentam 0% dessa carga. Nessa equivalência, temos os verbos denominados intransitivos (não necessitam de complemento) e os de ligação (sem carga semântica). Ainda há os verbos que exigem um complemento, portanto não têm 100% de carga semântica, mas também não são apenas de ligação. Estes se denominam transitivos. Os verbos transitivos, de acordo com suas regências (com ou sem preposição), podem ser classificados em transitivos indiretos ou transitivos diretos. O primeiro grupo relaciona‑se aos verbos que são regidos de preposição, já o segundo grupo está relacionado aos verbos não regidos de preposição. (18) As pessoas precisam de um esclarecimento. 79 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA (19) As pessoas exigem um esclarecimento. Entre os exemplos (18) e (19), a diferença está na regência do verbo. No primeiro, o verbo é regido pela preposição “de”, portanto um verbo transitivo indireto, o que não ocorre no segundo exemplo, em que, inversamente, o verbo não é regido por preposição, por isso é um verbo transitivo direto. Os complementos para esses verbos são denominados objeto indireto e objeto direto, respectivamente. Em ambos os exemplos, o verbo não tem 100% de carga semântica, seu sentido termina no complemento, o qual é chamado de objeto (indireto para o primeiro exemplo e direto para o segundo). Ressaltamos que pode ocorrer de o verbo transitivo vir acompanhado dos dois tipos de complemento obrigatório, o objeto direto e o objeto indireto. Nesse caso, ele será classificado como transitivo direto e indireto. Veja no exemplo a seguir. (20) A namorada recebeu flores do namorado. No exemplo (20), o verbo “recebeu” tem como complementos “flores” e “do namorado”, portanto os dois tipos de complemento, um não regido de preposição (objeto direto) e outro regido de preposição (objeto indireto). Daí a classificação do verbo em transitivo direto e indireto. O verbo que tem 100% de carga semântica, como já foi dito, não é acompanhado de complemento obrigatório (objeto), mas pode vir acompanhado de complemento não obrigatório, um adjunto. (21) Todos os presentes saíram logo da reunião. No exemplo (21), o verbo “saíram” não exige complemento, pois o sentido está completo. Entretanto, os sintagmas “logo” e “da reunião” indicam, respectivamente, circunstâncias de tempo e de lugar. Essas circunstâncias são representadas por sintagmas que têm a função de adjunto adverbial, pois modificam o verbo, que representa a ação. Esse verbo é classificado de intransitivo. As gramáticas que dão classificação ao predicado consideram esses casos, em que o verbo é transitivo ou intransitivo, como predicado verbal, uma vez que o verbo tem carga semântica (completa ou incompleta) e, por isso, torna‑se o núcleo desse predicado. Daí a classificação como predicado verbal. Quanto aos verbos que têm 0% de carga semântica, estes são considerados meros relatores, isto é, exercem a função de relacionar/ligar o sujeito a outro sintagma, o qual geralmente tem a função de modificar o sujeito. A esse tipo de predicado, as gramáticas dão a classificação de predicado nominal. (22) Os vencedores estavam felizes. No exemplo (22), o verbo “estavam” não tem carga semântica, ele cumpre a função de relacionar o sujeito “os vencedores” a “felizes”, que tem a função de modificar o sujeito, dando‑lhe uma característica. Portanto, o verbo é vazio de sentido e classifica‑se como verbo de ligação. O complemento desse tipo de verbo, o de ligação, também se torna obrigatório e é classificado como predicativo do sujeito (PS). 80 Unidade II Há gramáticas que oferecem uma lista de verbo de ligação, mas memorizaressa lista pode não ser eficaz, visto que, de acordo com o contexto, um verbo que seria de ligação pode deixar de ser. (23) Os convidados estavam na sala. Observemos que o exemplo (23) gera polêmica em sua classificação. Podemos afirmar que não é um verbo de ligação por não estar relacionando apenas o sujeito a uma característica sua. No entanto, a gramática tradicional classifica esse verbo como intransitivo, o que gera dúvida, porque seu sentido não parece encerrar‑se no verbo. Na construção sintática dessa oração, o sentido do verbo parece terminar em seu adjunto adverbial “na sala”. Para tanto, Sautchuk propõe uma nova classificação. Como o verbo termina seu sentido no adjunto adverbial, a autora sugere que ele seja classificado como “transadverbial”. Essa classificação parece‑nos coerente. Lembrete Verbo intransitivo (VI): verbo com 100% de carga semântica. Verbo transitivo (VT): verbo com sentido incompleto. Verbo transitivo direto (VTD): verbo com sentido incompleto, acompanhado de complemento (OD), sem preposição. Verbo transitivo indireto (VTI): verbo com sentido incompleto, acompanhado de complemento (OI), com preposição. Verbo de ligação (VL): verbo com 0% de carga semântica. SV predicado: sintagma verbal que compõe o sintagma. Pode ter verbo intransitivo ou verbo transitivo. Agora, vamos novamente fazer uma parada para revisitarmos tudo o que foi exposto até agora. Para tal, leia e reflita sobre os conceitos já estudados. 5.1.2.1 Características morfossintáticas dos complementos verbais Acabamos de ver os complementos obrigatórios do verbo, ou seja, os objetos – direto e indireto – bem como o predicativo do sujeito. Os primeiros articulam‑se a um verbo transitivo, cujo sentido é incompleto e exige o complemento, regido ou não de preposição. Já o segundo, o predicativo do sujeito, articula‑se ao verbo de ligação, complementando o predicado, visto que esse tipo de verbo apenas relaciona o sujeito ao seu complemento. Veremos, então, algumas características morfossintáticas desses complementos, a fim de facilitar a identificação desses elementos na oração. Depois veremos outros complementos verbais, ou seja, os complementos não obrigatórios que também podem ocorrer na oração. 81 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Assim como apresentamos o método prático para localizar o sujeito na oração, sugerido por Sautchuk, veremos que o objeto direto (OD) também apresenta peculiaridades que possibilitam sua identificação. A primeira delas é que a natureza morfológica do OD é substantiva, isto é, ele é representado por um sintagma nominal. Este pode ser substituído por um pronome pessoal (assim como o sujeito), mas, por ocupar a posição C (na estrutura SVC), deve ser substituído por um pronome pessoal oblíquo. (24) O povo perdeu a esperança. (?) Sim, o povo perdeu‑a. Veja que, utilizando o método de transformar a oração em pergunta e, ao respondê‑la, substituir o sintagma pelo pronome pessoal, o sintagma “a esperança” foi trocado por “a”, uma vez que ocupa a posição C e, portanto, é o objeto da oração. De acordo com a norma culta, pronome pessoal reto não pode ocupar a posição C, então não poderia ser: “Sim, o povo perdeu ela”. Esse tipo de pronome apenas pode ocupar a posição S (de sujeito). Outra característica importante para identificar o objeto direto é que o sintagma nominal que o representa é autônomo (e não interno). Além disso, o pronome oblíquo que pode substituí‑lo deve concordar em gênero/número com o núcleo do objeto. Outro método sugerido pela autora para confirmar se o termo analisado é objeto direto é o de transformar a oração em voz passiva. Assim, veremos que o objeto é um “sujeito disfarçado”. (25) O povo perdeu a esperança. / A esperança foi perdida pelo povo. No exemplo (25), ao passarmos a oração para a voz passiva, o objeto direto (na voz ativa) torna‑se sujeito da oração (na voz passiva). Por isso, dizemos que o objeto é um “sujeito disfarçado”. Veja outros exemplos de objeto direto: O ódio nos envelhece logo. (objeto direto = nos) Levo comigo tudo. (objeto direto = tudo) Quanto ao objeto indireto (OI), este é representado por um sintagma preposicionado (o que pode confundi‑lo com o adjunto adverbial) e é obrigatório na oração. Pode ser também substituído por um pronome oblíquo – lhe(s) – principalmente quando regido por preposição “a”. As preposições mais comuns como introdutórias desse tipo de sintagma são “em, a, para, de, com, por”. 82 Unidade II Como pode ser confundido como adjunto adverbial, ressaltamos que este, apesar de ser também representado por um sintagma preposicionado, não é obrigatório na oração, mas acessório, ao passo que o OI é obrigatório. (26) Sugeri ao menino um banho. (27) Sairemos ao amanhecer. Em (26), o sintagma preposicionado “ao menino” é complemento obrigatório do verbo e, portanto, objeto indireto. Já no exemplo (27), o sintagma “ao amanhecer”, embora seja preposicionado, não é obrigatório, pois o verbo já tem 100% de carga semântica, por isso tem a função de adjunto adverbial, uma vez que se trata de uma circunstância de tempo que modifica o verbo. Veja outros exemplos de objeto indireto: Pronome: Ele me devolveu a paz. (objeto indireto = me) Não concordamos com isso. (objeto indireto = com isso). Substantivo: Poucos participaram do projeto. (objeto direto = do projeto) Palavra substantivada: Não é certo zombar dos humildes. (objeto direto = dos humildes) O predicativo do sujeito (PS), como complemento obrigatório, articula‑se a um verbo de ligação. Todavia, esse tipo de complemento pode ocorrer com verbos que não sejam de ligação, como um complemento acidental na oração. (28) Os meninos pareciam agitados. (29) Os meninos chegaram agitados. Na oração do exemplo (28), o sintagma que corresponde ao predicativo do sujeito, “agitados” (de natureza adjetiva), é obrigatório, tendo em vista que o verbo “pareciam” é de ligação. Já em (29), o verbo “chegaram” é intransitivo, o que torna o predicativo acidental, circunstancial e não obrigatório. 83 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA As gramáticas tradicionais, inclusive, classificam esse tipo de predicado (que apresenta verbo intransitivo/transitivo e predicativo do sujeito) como predicado verbo‑nominal, pelo fato de apresentar um verbo significativo, que é núcleo do predicado verbal, e um outro sintagma que corresponderia ao núcleo do predicado nominal (segundo o ponto de vista da gramática tradicional). Não vamos, entretanto, ater‑nos a essa classificação do predicado. O importante é entendermos a articulação dos verbos que se encontram no interior dele. Retomando o predicativo do sujeito, verificamos que o sintagma que corresponde a ele também é autônomo (e não interno) e, por ser de natureza adjetiva, normalmente é representado por um sintagma adjetival, o que não impede que seja representado por outro tipo de sintagma (nominal, por exemplo), mas que tenha característica adjetiva. (30) A festa foi horrível. (31) A festa foi um fracasso. Em (30), o sintagma que representa o predicativo do sujeito – “horrível” – é adjetival. No entanto, em (31), o sintagma “um fracasso” é nominal, mas equivale a um adjetivo em relação ao sujeito “A festa”. Veja mais alguns exemplos: Adjetivo: A vida sempre é difícil. (predicativo do sujeito = difícil) Pronome: Quem és tu? (predicativo do sujeito = tu) Isso não é nada. (predicativo do sujeito = nada) Infinitivo: Viver é lutar. (predicativo do sujeito = lutar) Numeral: Os problemas são quatro. (predicativo do sujeito = quatro) 84 Unidade II Assim como predicativo do sujeito, pode haver predicativo do objeto (PO) na oração. Este tem as mesmas características do predicativo do sujeito, com a diferença de articular‑se ao objeto e não ao sujeito. Os verbos que apresentam esse tipo de predicação são denominados “transobjetivos” por Sautchuk (2004). São eles: eleger, encontrar, julgar, nomear, considerar, proclamar, achar. (32) Consideroesse garoto um chato. Veja que, no exemplo (32), o sintagma “um chato” é um sintagma autônomo, de natureza adjetiva, mas se refere ao objeto direto “esse garoto” e não ao sujeito da oração, que está oculto (“eu”). Portanto, esse sintagma representa o predicativo do objeto e não o predicativo do sujeito. Veja mais alguns exemplos de predicativo do objeto: Adjetivo: Deixei a mulher nervosa. (predicativo do objeto = nervosa) O júri considerou‑o inocente. (predicativo do objeto = inocente) Numeral: Eu lhe julgava o primeiro. (predicativo do objeto = o primeiro) 5.2 Função sintática dos sintagmas autônomos e internos Retomando a classificação dos sintagmas em autônomos ou internos, passamos a verificar as funções sintáticas (algumas já apresentadas) desses sintagmas na oração. Como já foi visto, os sintagmas autônomos são os que podem ser deslocados no eixo sintagmático da oração, portanto, podemos, grosso modo, dizer que eles “têm vida própria”. É o que acontece com sintagmas que têm a função de sujeito, de objeto (direto ou indireto), de predicativo (do sujeito ou do objeto), de agente da passiva, de adjunto adverbial, de aposto e de vocativo. Quanto aos sintagmas internos, estes se encontram subordinados a outros sintagmas, visto que se encontram dentro deles e, por isso, não podem ser deslocados na oração. É o caso do adjunto adnominal e do complemento nominal. 85 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Entre os autônomos, ainda não tratamos de alguns que serão apresentados a seguir, como o agente da passiva, o aposto e o vocativo. Os demais se encontram já descritos anteriormente. Quando a oração encontra‑se na voz passiva, há um novo constituinte dessa oração, que se denomina agente da passiva. Vejamos o exemplo que segue. (33) O espetáculo foi apresentado pelo locutor. No exemplo, temos como sujeito “o espetáculo”. Todavia, essa oração encontra‑se na voz passiva analítica, em que a estrutura é: sujeito + verbo auxiliar + verbo principal na forma nominal particípio + agente da passiva. Portanto, o sintagma “pelo locutor” tem a função de agente da passiva. As características desse sintagma são: sintagma preposicionado, introduzido pela preposição “por” (pelo = per < por + o), autônomo. Veja mais alguns exemplos de agente da passiva: Palavra substantivada: O documento foi assinado pelo responsável. (agente da passiva: pelo responsável) Pronome: A carta foi assinada por mim. (agente da passiva: por mim) Vejamos, então, as funções de aposto e vocativo dos sintagmas autônomos, as quais ainda não foram tratadas. Segundo a gramática tradicional, esses termos são acessórios na oração. O aposto é representado, geralmente, por um sintagma de natureza substantiva, e ele tem a função de explicar, resumir ou desenvolver outro termo sintático já existente na oração. Muitas vezes ele é confundido com o sujeito ou com o predicativo do sujeito. Vejamos nos exemplos a seguir como ele pode apresentar‑se. (34) Brasília, a capital do Brasil, é uma cidade plana. (35) Crianças, jovens, adultos, todos, pareciam muito irritados. No exemplo (34), o sintagma que representa o aposto é “a capital do Brasil”. Nessa oração, o sujeito é “Brasília”, portanto o aposto está retomando o sujeito, seria dispensável, daí a sua característica de termo acessório. O sintagma tem como núcleo “capital”, portanto é de base morfológica substantiva, e é autônomo, sendo destacado, inclusive, pela pontuação. 86 Unidade II Quanto ao exemplo (35), neste o termo “todos” resume todos os outros que representam o sujeito “crianças, jovens, adultos”. Ele seria também dispensável na oração. Assim como no exemplo anterior, é um sintagma de natureza substantiva, autônomo e um complemento não obrigatório na oração. Veja mais alguns exemplos de aposto: Palavra substantivada: Ele está lendo a biografia de Ivã, o terrível. (aposto: o terrível) Substantivo: Fortaleza, a cidade, é muito bela. (aposto: a cidade) A natureza substantiva do sintagma que representa o aposto é uma das características que o diferencia do predicativo do sujeito, cujo sintagma é de natureza adjetiva. Outro termo representado por sintagma autônomo, porém não necessário em uma oração, é o vocativo. Esse termo tem por função apenas invocar, chamar a atenção do interlocutor. O sintagma que o representa é de natureza substantiva e, assim como o aposto, é destacado pela pontuação, tornando‑o isolado na oração; por isso, muitas vezes os dois termos são confundidos em sua classificação. Vejamos um exemplo. (36) Meu filho, seja forte nessa hora. O sujeito no exemplo (36) encontra‑se oculto e pode ser identificado como “você”. Então, o sintagma “meu filho” representa a forma utilizada para chamar a atenção do interlocutor. Sendo assim, trata‑se do vocativo da oração, que seria desnecessário na sua estrutura. Veja mais alguns exemplos de vocativo: Palavra substantivada: Querida, vamos passear? (vocativo: querida) Substantivo: Pátria, receba bem seus filhos. (vocativo: pátria) 87 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Tendo tratado dos sintagmas autônomos, resta‑nos tratar dos sintagmas internos que ainda não foram descritos, ou seja, do adjunto adnominal e do complemento nominal. Assim como o aposto e o vocativo, o adjunto adnominal é acessório, isto é, embora seja um sintagma interno (está subordinado a outro sintagma), ele não é um complemento obrigatório na oração. Além disso, outra característica desse termo é que, por ser um sintagma interno, está sempre preso a um núcleo substantivo. Portanto, uma oração pode apresentar tantos adjuntos adnominais quantos forem os núcleos substantivos. Do ponto de vista morfológico, os adjuntos adnominais são representados por determinantes ou modificadores do substantivo. Vejamos exemplos. (37) As duas meninas de azul ofereceram uma rosa à mulher de preto. Nesse exemplo (37), vamos, primeiramente, isolar os sintagmas autônomos que tenham como núcleo substantivos. São eles: (a) As duas meninas de azul (b) uma rosa (c) à mulher de preto Em (a), o núcleo é “meninas”, portanto “as”, “duas” e “de azul” são adjuntos adnominais, pois o primeiro termo determina o gênero e o número do substantivo, enquanto o segundo quantifica‑o e o terceiro modifica‑o. No sintagma (b), o núcleo é o substantivo “rosa”, cujo gênero e número são determinados por “uma”, que representa o adjunto adnominal. E, no sintagma (c), para o núcleo “mulher”, temos como adjuntos adnominais “à” (contração da preposição a (= para) + artigo a) – lembrando que a preposição é apenas um relator, não tem função sintática – e o sintagma “de preto”, que tem a função de modificador do substantivo. Veja mais alguns exemplos de adjunto adnominal: Adjetivo: Conseguimos um precioso livro. (adjunto adnominal: precioso) 88 Unidade II Pronome adjetivo: Esse prédio foi construído recentemente. (adjunto adnominal: esse) Numeral: Frequentaremos o curso no segundo semestre. (adjunto adnominal: segundo) O complemento nominal, embora seja também um sintagma interno, diferencia‑se do adjunto adnominal por ser um complemento obrigatório, semelhante aos complementos verbais – objeto direto e objeto indireto. Esse termo é sempre representado por um sintagma preposicionado (interno) exigido para complementar o sentido de algum termo da oração que seja representado por um substantivo, adjetivo ou advérbio, regidos de preposição. Quando ele complementa um substantivo, pode ser confundido como o adjunto adnominal. Por isso, nesse caso, o valor semântico pode ser mais decisivo para a classificação de um ou outro. Entretanto, uma característica acentuada é o complemento nominal ser uma nominalização de um verbo transitivo, o que, todavia, não assegura a sua classificação em casos polêmicos. Vejamos alguns exemplos. (38) O retorno dos amigos é sempre uma alegria. (39) Você foi a salvação de todos. (40) A saída do show foi tumultuada. (41) Vamos ouvir a execução da sentença. Nos exemplos anteriores,podemos transformar os nomes em verbos: em (38), temos “os amigos retornaram”; em (39), “todos se salvaram”; em (40), “saíram do show”; em (41), “a sentença executou‑se (ou foi executada)”. Então, em cada exemplo, respectivamente, os complementos nominais são: “dos amigos”, “de todos”, “do show” e “da sentença”. Observe mais alguns exemplos de complemento nominal: 89 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Palavra substantivada: A incerteza do amanhã nos assusta. (complemento nominal: do amanhã) Pronome: A decisão foi favorável a mim. (complemento nominal: a mim) Infinitivo: Vera está com medo de partir. (complemento nominal: de partir) Quadro 10 – Quadro morfossintático dos sintagmas e suas funções na oração Termo sintático Base ou natureza morfológica Representado por Sujeito Substantiva Sintagma nominal (autônomo) Objeto direto Substantiva Sintagma nominal (autônomo) Objeto indireto Preposicionada Sintagma preposicionado (autônomo) Predicativo do sujeito ou do objeto Adjetiva Sintagma adjetival/ Sintagma nominal/Sintagma preposicionado (autônomo) Agente da passiva Preposicionada Sintagma preposicionado (autônomo) Complemento nominal Preposicionada Sintagma preposicionado (autônomo) Fonte: Sautchuck (2004, p. 90). Você percebeu que, numa oração, os sintagmas se organizam hierarquicamente. Os sintagmas nominais (sujeito, objeto direto, objeto indireto, predicativo, agente da passiva) subordinam‑se ao sintagma verbal, ao passo que os adjuntos adnominais se subordinam aos nominais, e os adjuntos adverbiais ao verbal. É por isso que as orações têm termos essenciais e acessórios. Já as orações se combinam para formar períodos compostos por coordenação ou subordinação. As orações coordenadas são autônomas entre si, enquanto as subordinadas dependem de uma oração principal. 90 Unidade II Dessa forma, todos os elementos se organizam em relações estruturais. A sintaxe se constitui de dois processos: a) A parataxe ou ordenação horizontal (coordenação), em que há ausência de hierarquia; b) A hipotaxe ou ordenação vertical (subordinação), que cria uma hierarquia entre os elementos linguísticos. Lembrete A oração é uma sequência de termos subordinantes e subordinados. Veja os exemplos a seguir: Carlos entregava presentes às crianças. Carlos: subordinante com relação a entregava. Entregava: subordinado com relação a Carlos, subordinante com relação a presentes e às crianças. Presentes: subordinado em relação a entregava. Às crianças: subordinado com relação a entregava. 6 A SINTAXE E A ORGANIZAÇÃO TEXTUAL 6.1 Sintaxe de colocação Um dos aspectos a se considerar na organização sintática das frases, e destas no texto, é se não produz ambiguidades. Dependendo do texto, isso pode ser intencional, mas em outros constitui erro no uso dos termos. Imagine uma construção como a seguinte: (1) Todos vão à festa sem noção. No exemplo, o sintagma “sem noção” produz a ambiguidade, pois não podemos entender se a festa é “sem noção” ou se todos estavam “sem noção”. É uma questão referente ao que se denomina sintaxe de colocação. Ambiguidade ou anfibologia designa os equívocos de sentido, provenientes de construção defeituosa da frase ou do uso de termos impróprios. 91 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Veja os exemplos a seguir: Comprei uma calça para meu irmão com uma perna curta. (quem tem a perna curta: o irmão ou a calça?). Ele perdeu um amigo de vinte anos. (o amigo tem vinte anos ou já era conhecido há vinte anos?). É preciso considerar que a ordem direta da língua é S V C, ou seja, sujeito + verbo + complementos. Destes, primeiro os obrigatórios, depois os acessórios. Por exemplo, em: (2) Encontrei minha amiga na rua. O sujeito é oculto (eu), o verbo transitivo tem como complemento “minha amiga” (objeto direto) e o sintagma “na rua” é uma circunstância de lugar, portanto um complemento acessório e não obrigatório como o objeto. Dependendo da intenção no texto, esses elementos podem assumir outras posições. Se a intenção é enfatizar o objeto, por exemplo, temos: (3) Minha amiga, encontrei na rua. Trata‑se da topicalização do objeto. Veja, entretanto, que o deslocamento foi do sintagma todo, o qual representa o complemento do verbo. Poderia haver outra inversão, como: (4) Na rua, encontrei minha amiga. Nesse caso, como o adjunto adverbial foi deslocado do final para o início da oração, deve ser isolado pela vírgula. Falaremos sobre o uso da vírgula mais adiante. A topicalização pode ocorrer em nível de período, como em: (5) A caneta, Maria disse que João perdeu. Veja que há duas orações e que o sintagma que corresponde ao objeto da segunda oração foi deslocado para o início da oração. Essa inversão pode ocorrer no interior do sintagma, por exemplo, como em: (6) A janela ficou um pouco aberta. (7) A janela ficou aberta um pouco. 92 Unidade II Nos exemplos (6) e (7), o sintagma “um pouco aberta”, que tem a função de predicativo do sujeito, teve uma inversão de seus termos; e, nessa mudança, houve alteração tanto de sentido quanto de função sintática. Veja que, na oração (6), a estrutura sintática é sujeito “a janela” + verbo de ligação “ficou” + predicativo do sujeito “um pouco aberta”. Já na oração (7), a estrutura passa a ser de sujeito “a janela” + verbo de ligação “ficou” + predicativo do sujeito “aberta” + adjunto adverbial “um pouco”. Entende‑se, nessa alteração, que na primeira estrutura (6) o advérbio “pouco” modifica o adjetivo “aberta”, produzindo o sentido de que a abertura da janela era de menor quantidade. Já na segunda estrutura (7), o sentido produzido é do quanto ficou aberta, pois o advérbio está articulado ao verbo. Veja as frases a seguir: O gato comeu o rato. O rato, o gato comeu. As frases se diferenciam porque uma delas tem um dos termos colocado no início da oração, frequentemente separado por vírgula. O português permite a topicalização de muitos termos da oração: A) O gato comeu o rato rapidamente. B) Rapidamente, o gato comeu o rato. Estas frases descrevem a mesma situação, mas fazem isso tomando elementos diferentes como ponto de partida. A) Os meninos trouxeram o presente para a mãe. B) Para a mãe, os meninos trouxeram o presente. C) O presente, os meninos trouxeram para a mãe. Observação Note que as frases anteriores não são necessariamente sinônimas. Cada uma delas tem um elemento topicalizado (os meninos em a; para a mãe em b; o presente em c). 93 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Perini (2005) aponta que outro recurso da língua portuguesa para colocar termos em realce é a clivagem. Perceba, a seguir, como as estruturas clivadas se formam com o auxílio do verbo “ser” mais “que” (às vezes quem), além da anteposição do termo clivado. A) O cachorro mordeu o homem. B) Foi o cachorro que mordeu o homem. C) Foi o homem que o cachorro mordeu. 6.1.1 Advérbios transpostos Certos advérbios podem ocorrer em diversas posições na oração. Veja as diversas posições do advérbio “aparentemente” nas orações a seguir: A) Aparentemente, Aldo gostaria de mudar de emprego. B) Aldo, aparentemente, gostaria de mudar de emprego. C) Aldo gostaria, aparentemente, de mudar de emprego. D) Aldo gostaria de mudar de emprego, aparentemente. Portanto, vimos que a organização sintática em uma oração e/ou em um período guia a produção de sentido no texto a ser produzido, por isso é importante que seu produtor pense nas possibilidades oferecidas pela língua e em qual a melhor forma de dizer o que pretende. As estratégias de inversão podem ser utilizadas por várias razões, entre elas está o efeito expressivo no texto. É o que observamos geralmente em textos poéticos – “De tudo ao meu amor serei atento antes” (fragmento do Soneto de fidelidade, de Vinícius de Moraes). Observação É importante que se evitem ambiguidades quando não seja esse o objetivo. Também é essencial que não se façam inversões sem que haja intenção de realçar algum sintagmaou de produzir relevância sobre determinados elementos da oração. 94 Unidade II Saiba mais Pesquise o uso da ambiguidade em anúncios publicitários. Você vai notar que nesse gênero textual esse recurso é utilizado para chamar a atenção do leitor. MATOS, T. Anúncio publicitário. Brasil Escola, [s.d.]. Disponível em: https://bit.ly/3PM8mZ8. Acesso em: 9 dez. 2011. Veja algumas reflexões de Sírio Possenti (2001, p. 30) sobre a importância da colocação das palavras nas frases e as mudanças de significação no texto: Na prática escolar típica, tanto os ensinamentos quanto os exercícios e as avaliações param, frequentemente, na identificação de objetos e funções. É comum que se solicite a alunos ou vestibulandos que respondam se tal palavra é um adjetivo ou um substantivo, se um certo “que” é uma conjunção integrante ou um pronome etc. (...) Eu diria que o mais importante não é identificar, mas tentar explicitar o que é que tal palavra ou locução está fazendo aí. Especialmente, que importância tem para a significação. Com quais outras palavras ou expressões está relacionada? Se mudasse de lugar, provocaria uma mudança de sentido? (...) Outra coisa interessante a fazer com uma frase como essa seria deslocar a palavra “ontem” para todos os lugares da frase que ela pode ocupar e tentar verificar se, mudada sua posição, muda o sentido da frase. Por exemplo, ”ontem o chefe disse que...”, “o chefe ontem disse que...”, “o chefe disse ontem que...”, “o chefe disse que ontem...”. Seria interessante verificar, além disso, que certas construções não funcionam: “o ontem chefe disse que...”, “o chefe que ia disse ontem viajar...” etc. Penso que essas atividades seriam, além de ilustrativas, interessantes, isto é, os estudantes talvez fizessem tal trabalho com prazer (...). 6.2 Sintaxe de concordância Outra questão importante a se destacar em relação à sintaxe é a concordância verbal, isto é, do sintagma verbal com o sujeito da oração, principalmente quando há inversão na sintaxe. (8) Entrou na sala muitas pessoas interessadas no assunto. Nesse caso, o sujeito é “muitas pessoas interessadas no assunto”, cujo núcleo é o substantivo “pessoas”, que se encontra no plural, o que leva o verbo a concordar com ele, passando a “entraram”. Esse tipo de “erro” ocorre bastante, principalmente na língua falada, situação comunicativa em tempo real, na qual, muitas vezes, o falante não elabora bem o pensamento e, portanto, não organiza a sintaxe com rigor. 95 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Além da posposição do sujeito ao verbo, há outras situações em que o risco de não haver concordância é grande. É o caso, por exemplo, de sintagmas muito extensos ou da tendência em concordar com o elemento mais próximo. Vejamos os exemplos a seguir: (9) As pesquisas de opinião pública sobre a eleição no Brasil indica que haverá segundo turno. (10) Toda pessoa com boas intenções em relação aos outros agem dessa maneira. Veja, a seguir, como Possenti (2001, p. 33‑34) mostra um ponto de vista conservador em relação à concordância: Em uma das colunas de Josué Machado, cujo tema é a concordância verbal, pergunta, entre outras coisas, se alguém escreveria “a oposição atrasaram as unidades” e “o atraso na entrega atrapalharam”. O leitor imagina que está diante de exemplos de linguagem completamente absurdos, porque, de fato, em nada se assemelham aos feitos típicos de variação do tipo “nós vai pescá”, “eles pesco dois pexe” dos quais podemos não gostar, mas, claramente existem. [...] Indo um pouco adiante na leitura da coluna, o segredo se esclarece: os fatos citados não ocorreram exatamente como citados. Ocorreram no próprio jornal, mas as frases completas eram: “A oposição dos moradores da Lapa e da vila Leopoldina (zona oeste), bairros próximos aos cadeiões, atrasaram as unidades da cidade de S. Paulo” e “O atraso na entrega de produtos importados, como as pias dos banheiros e os telhados especiais também atrapalharam, disse o delegado”. Josué Machado comenta: “Isso ocorre quando o redator passa mal, mistura na cuca os anexos plurais do sujeito singular e o transforma num monstro capaz de remeter o verbo também para o imerecido plural”. [...] Uma abordagem mais científica tentaria mostrar que há uma certa regularidade nas diferenças (ou erros, como diria Josué) ocorridas com a chamada regra de concordância, regularidade que esses dois fatos exemplificam de forma muito interessante. Certamente, ninguém diria “a oposição atrasaram” (ou, pelo menos, isso seria muito raro, um exemplo absolutamente excepcional de hipercorreção). Mas, já que, entre “o atraso” e “a oposição” e os verbos que deveriam concordar com esses sujeitos há uma enorme massa de material linguístico, e já que essa enorme massa termina com formas plurais (“bairros próximos aos cadeiões” e “banheiros e telhados especiais”), que ficam próximas dos verbos, estes dois fatores – a massa e as formas plurais próximas – explicam as concordâncias fora da norma. Isto é: quanto mais o verbo estiver longe do sujeito, menos provavelmente concordará com ele. E se, entre o sujeito e o verbo, houve alguma expressão que pareça um sujeito e estiver mais perto do verbo do que o sujeito, o verbo tenderá a concordar com essa expressão, não com o sujeito. 96 Unidade II 6.3 Sintaxe de regência Outra questão a se considerar é a de regência. Em muitos casos, não se observa a regência do verbo, principalmente quando há o relator “que” e não se utiliza a preposição que deve acompanhar o verbo, como em: (11) O amigo que confio é esse. O correto seria: O amigo em que confio é esse. O verbo “confiar” é transitivo indireto, regido pela preposição, pois quem confia, confia “em”. Nesse caso, o “que”, pronome relativo que introduz a segunda oração, deve ser acompanhado da devida preposição. Vamos recordar a regência de alguns verbos? Assistir: (12) Assistimos o enfermo durante toda a noite. (13) Assistimos ao enfermo durante toda a noite. Em qual das duas orações o verbo está utilizado com a devida regência? Na primeira, pois quando tem o sentido de socorrer, prestar auxílio, esse verbo é transitivo direto e quando tem o sentido de ver, presenciar, torna‑se transitivo indireto. Nos exemplos dados, analisando a regência, não se pode dizer “assistir ao enfermo”, visto que, se isso ocorrer, não haverá humanidade na ação, pois aquele morrerá sem a piedade dos que o cercam, o que seria inadmissível em uma situação como essa. Aspirar: (14) Aspiramos o ar puro do ambiente. (15) Aspirava ao cargo de gerente. No primeiro caso, o verbo é transitivo direto e tem o sentido de sorver, inspirar o ar, enquanto no segundo tem o sentido de desejar, almejar algo. Agradar: (16) A nova diretora agradou a todos. Agradar, no sentido de ser agradável, causar agrado, é transitivo indireto, por isso é regido pela preposição “a”. 97 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Chegar: (17) Chegamos ao nosso destino. (18) Chegou em casa cedo. O verbo chegar é transitivo indireto e a preposição “em” é exclusiva diante da palavra casa. Ir: (19) Irei a Salvador em janeiro. (20) Irei para Salvador em janeiro. O verbo ir é transitivo indireto e, seguido da preposição “a”, tem o sentido de ir e voltar logo, ou seja, sem se fixar no lugar, ao passo que seguido da preposição “para” a ideia é contrária, é de permanência e intenção de se fixar no local. Morar: (21) Moramos em São Paulo desde criança. (22) Moro à rua Pereira da Silva, s/n. O verbo morar é transitivo indireto e, quando seguido do substantivo rua, deve‑se utilizar a preposição “a”. Namorar: (23) Joana namorou Sérgio por muito tempo. O verbo namorar é transitivo direto, por isso não deve ser seguido de preposição. Obedecer: (24) Obedecemos às leis do país. O verbo obedecer é transitivo indireto, regido pela preposição “a” e tem o sentido de submeter‑se. O verbo desobedecer deve ser usado da mesma forma. Pagar: (25) Paguei a conta ao farmacêutico. O verbo pagaré transitivo direto e indireto. O objeto que tem o sentido do que se deve é direto e o que indica a quem se deve é indireto. 98 Unidade II Preferir: (26) Prefiro cinema a televisão. Esse verbo é transitivo direto e indireto e tem o sentido de dar prioridade a um elemento em vez do outro. Querer: (27) Quero uma resposta agora. (28) Quero a minha amiga como a uma irmã. Com o sentido de objetivar, querer algo, é transitivo direto, ao passo que com o valor de estimar, querer bem, é transitivo indireto. Visar: (29) Visamos ao sucesso. (30) O chefe visou todos os documentos. Visar com o sentido de vistar, pôr visto, é transitivo direto, mas com o sentido de ter em vista, objetivar, é transitivo indireto, portanto regido por preposição. Observação A regência – como a pronúncia, a acentuação, ou seja, como tudo na língua – não é imutável. Cada período tem sua regência, conforme o contexto da época. Assim, não podemos seguir hoje a mesma regência que seguiam os clássicos. Veja um exemplo em relação a essas mudanças apresentado por Celso Pedro Luft (2008): Regência do verbo “assistir” (no sentido de “ver”). A regência originária (transitiva indireta) “assistir a algo” está ligada ao traço “estar presente, junto”. O obscurecimento desses traços levou à troca para “presenciar, ver”, que regem a construção transitiva direta “assistir algo, assisti‑lo”. Por isso, um dicionário dedicado à regência da língua culta deve levar em conta essas inovações. Apresentamos alguns verbos, os quais são comumente usados em textos que circulam na sociedade. Entretanto, há muitos outros verbos. Para conhecê‑los, procure um dicionário de regência verbal, como o de Celso Luft, por exemplo. 99 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA 6.4 O uso da vírgula Sobre a vírgula A vírgula pode ser uma pausa... ou não. Não, espere. Não espere. Ela pode sumir com seu dinheiro. 23,4. 2,34. Pode ser autoritária. Aceito, obrigado. Aceito obrigado. Pode criar heróis. Isso só, ele resolve. Isso só ele resolve. E vilões. Esse, juiz, é corrupto. Esse juiz é corrupto. Ela pode ser a solução. Vamos perder, nada foi resolvido. Vamos perder nada, foi resolvido. A vírgula muda uma opinião. Não queremos saber. Não, queremos saber. Uma vírgula muda tudo! Fonte: Associação Brasileira de Imprensa (2008). 100 Unidade II A pessoa que consegue exprimir verbalmente o que quer dizer também sabe escrever e pontuar corretamente. Dessa forma, o sistema de pontuação é a base da organização da língua escrita. Mas como isso acontece? O sistema de pontuação deve auxiliar o sentido de um texto. Portanto, decorre daí que todo sinal de pontuação serve para separar as unidades sintático‑semânticas de um enunciado. Mas a pontuação não poderá romper a indivisibilidade natural das unidades sintático‑semânticas ao separar os elementos linguísticos. Observação A pontuação deve auxiliar a combinação dos componentes sintático‑semânticos das frases da maneira mais precisa possível, visando a atingir o sentido que se pretende transmitir. Caro aluno, como você pode verificar, a pontuação está ligada à estrutura sintático‑semântica da frase. Assim, aquela frase “Vírgula é pausa para respirar”, dita por muitos, não tem fundamento. O uso da vírgula pode prejudicar o entendimento de um texto se não for empregada adequadamente, e isso pode ser observado a partir da estrutura sintática na construção do texto. Veja esses exemplos de diferenças de sentido nos pares de frases apresentados por Luft (1996) em relação ao emprego da vírgula: A) Veio até ele. B) Veio, até ele. A) Falará, brevemente, com o diretor. B) Falará brevemente com o diretor. A) Não é, meu amigo. B) Não é meu amigo. A) O aluno trabalha, segundo o professor. B) O aluno trabalha segundo o professor. A) Não fala, de medo. B) Não fala de medo. 101 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Saiba mais Procure verificar em jornais e revistas o uso da vírgula. Perceba como elas contribuem para a clareza de ideias. Por exemplo, em: Metro. Disponível em: https://www.metroworldnews.com.br/. Acesso em: 24 ago. 2022. Um método que pode auxiliar‑nos é verificar que a vírgula separa normalmente a informação básica das informações secundárias. Assim, podemos observar em: (31) A noite, que estava apenas começando, foi serena e alegre. Veja que a informação principal está na oração “A noite foi serena e alegre”, a outra oração, “que estava apenas começando”, apresenta‑se como informação secundária no período. No entanto, o exemplo anterior é de um período composto, em que há mais de uma oração. Vejamos em um período simples, quer dizer, que tem apenas uma oração, o que ocorre. Primeiramente, não podemos nos esquecer de que a organização sintática de nossa língua é S V C (sujeito + verbo + complementos), e, nessa ordem, o que for complemento obrigatório não pode ser separado, assim como não se pode separar o sujeito do predicado. Então, temos: (32) O povo brasileiro consciente e bem informado deverá votar em um dos candidatos à presidência do país. No exemplo, há três sintagmas: “o povo brasileiro consciente e bem informado” + “deverá votar” + “em um dos candidatos à presidência do país”. O primeiro é o sujeito, o segundo, o verbo transitivo indireto e o último, o objeto indireto. Portanto, não há vírgula na oração, pois nenhum elemento pode ficar isolado. Quando o sintagma corresponder a um complemento não obrigatório, ele poderá ser isolado por vírgula. Então, poderíamos ter: (33) Surpreendidos pela notícia do aumento do combustível, os motoristas correram para os postos de gasolina. Veja que o sintagma isolado é um predicativo do sujeito, um complemento acessório na oração. Se os elementos forem deslocados na oração, isso deve se dar pelo uso da vírgula. Veja o exemplo: 102 Unidade II (34) Sob o sol quente, os maratonistas chegavam ao final do percurso. No exemplo, o sintagma “sob o sol quente” é um adjunto adverbial, que, pela ordem direta, estaria no final da oração. Então, como foi deslocado, deve ser isolado pela vírgula. Se esse raciocínio for sempre utilizado, não haverá mais dúvida quanto ao uso da vírgula ao se construir orações, períodos, textos. 103 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Resumo O estudo da sintaxe está relacionado à disposição dos termos em uma sequência: a oração. Sintagmas: constituintes que se agrupam para organizar a estrutura de uma frase. Frase: pode ser constituída apenas de sintagmas nominais. Oração: está sempre relacionada à existência de um sintagma verbal. Período simples: é o período formado a partir de um sintagma verbal. Período composto: é o período formado a partir de dois ou mais sintagmas verbais. Sintagma nominal: tem por núcleo uma palavra de base morfológica substantiva. Sintagma adjetival: corresponde a um modificador. Tem por base morfológica um adjetivo. Sintagma preposicionado: consiste em preposição e sintagma nominal. Sintagma adverbial: é o sintagma que tem por base morfológica um advérbio. Sintagma autônomo: sintagma que pode mudar de posição sem alterar o sentido da oração. Sintagma interno: não pode mudar de posição, pois se encontra dentro de outro sintagma, autônomo. Sujeito simples: representado por um sintagma nominal que tenha um só núcleo, o qual pode ser substituído por um pronome reto: Sujeito composto: trocam‑se dois ou mais sintagmas nominais (com respectivos núcleos substantivos) por um só pronome pessoal reto: Sujeito oculto, elíptico ou desinencial: não está expresso em um sintagma nominal na oração, mas está marcado na própria desinência verbal. 104 Unidade II Sujeito indeterminado: há oração com sujeito indeterminado quando o verbo encontra‑se na terceira pessoa do plural ou na terceira pessoa do singular acompanhado da partícula “–se”, sem referência a nenhum outro sintagma expresso anteriormente. Nesse caso, a intenção é manter desconhecida a identidade do sujeito. Oração sem sujeito ou sujeito inexistente:nas construções em que o sujeito encontra‑se ausente e não há indícios de sua presença, como a marca na desinência verbal. Sujeito e predicado: os dois constituintes imediatos da oração. Verbo intransitivo: verbo com carga semântica completa. Verbo transitivo: verbo com carga semântica incompleta. Verbo transitivo direto: verbo com carga semântica incompleta, acompanhado de complemento sem preposição. Verbo transitivo indireto: verbo com carga semântica incompleta, acompanhado de complemento, com preposição. Verbo de ligação: verbo com carga semântica nula. Objeto direto: apresenta natureza morfológica substantiva, isto é, ele é representado por um sintagma nominal. Este pode ser substituído por um pronome pessoal oblíquo. Objeto indireto: representado por um sintagma preposicionado e é obrigatório na oração. Pode ser também substituído por um pronome oblíquo – lhe(s) – principalmente quando regido por preposição “a”. As preposições mais comuns como introdutórias desse tipo de sintagma são “em, a, para, de, com, por”. Adjunto adverbial: apesar de ser também representado por um sintagma preposicionado, não é obrigatório na oração, mas acessório. Predicativo do sujeito: corresponde a um sintagma autônomo (e não interno) e de natureza adjetiva. É representado por um sintagma adjetival ou por outro tipo de sintagma (nominal, por exemplo), mas que tenha característica adjetiva. Predicativo do objeto: sintagma autônomo, de natureza adjetiva, que se refere ao objeto direto e não ao sujeito da oração. 105 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Agente da passiva: sintagma preposicionado, introduzido normalmente pela preposição “por” (pelo = per < por + o), autônomo. Aposto: representado, geralmente, por um sintagma de natureza substantiva. Tem a função de explicar, resumir ou desenvolver outro termo sintático já existente na oração. Vocativo: representado por sintagma autônomo. Tem por função apenas invocar, chamar a atenção do interlocutor. O sintagma que o representa é de natureza substantiva e é isolado pela pontuação. Adjunto adnominal: termo acessório, é um sintagma interno preso a um núcleo substantivo. Não é um complemento obrigatório na oração. Os adjuntos adnominais são representados por determinantes ou modificadores do substantivo. Complemento nominal: representado por um sintagma preposicionado (interno) exigido para complementar o sentido de algum termo da oração que seja representado por um substantivo, adjetivo ou advérbio, regidos de preposição. Todos os sintagmas de uma oração organizam‑se hierarquicamente. Sintaxe de colocação: um dos aspectos a se considerar na organização sintática das frases é se não há ambiguidades. Em alguns textos, isso pode ser intencional, mas em outros constitui erro no uso dos termos. Topicalização: a organização sintática em uma oração direciona a produção de sentido no texto. É importante que seu produtor pense nas possibilidades oferecidas pela língua e qual a melhor forma de dizer o que pretende. Não se devem fazer inversões sem que exista intenção de realçar algum sintagma ou de produzir relevância sobre determinados elementos da oração. Sintaxe de concordância: outro aspecto da sintaxe, a concordância verbal, isto é, do sintagma verbal com o sujeito da oração. Deve‑se observar a concordância, principalmente quando há inversão na sintaxe ou os sintagmas são muito extensos. Sintaxe de regência: outra questão a se considerar é a de regência. Em muitos casos, não se observa a regência do verbo, principalmente quando há o relator “que” e não se utiliza a preposição que deve acompanhar o verbo. 106 Unidade II Pontuação: o uso da vírgula pode prejudicar o entendimento de um texto se ela não for empregada adequadamente. Isso pode ser observado a partir da estrutura sintática na construção de um texto. A organização da língua portuguesa é S V C (sujeito + verbo + complementos), e, nessa ordem, o que for complemento obrigatório não poderá ser separado, assim como não se pode separar o sujeito do predicado. Já quando o sintagma corresponder a um complemento não obrigatório, ele poderá ser isolado por vírgula. 107 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA Exercícios Questão 1. Considerando o esquema arbóreo, analise as orações que seguem. O N N Det prep Det SN SV V SP SN Figura 3 I. Aquelas crianças brincam pela rua. II. Os professores ensinam a lição. III. Minhas filhas vão à Itália. IV. Os alunos assistiram à peça. Podem ser aplicadas ao esquema as orações: A) I e II, apenas. B) II e III, apenas. C) I e IV, apenas. D) I, II e IV, apenas. E) I, III e IV, apenas. Resposta correta: alternativa E. 108 Unidade II Análise das afirmativas Justificativa: I – Afirmativa correta. Justificativa: a oração é constituída por um SN (det + N); um SV (v) e um SP (prep + SN= det + N). II – Afirmativa incorreta. Justificativa: a oração é constituída por um SN (det + N); um SV (v) e um SN (det + N). III – Afirmativa correta. Justificativa: a oração é constituída por um SN (det + N); um SV (v) e um SP (prep + SN= det + N). IV – Afirmativa correta. Justificativa: a oração é constituída por um SN (det + N); um SV (v) e um SP (prep + SN= det + N). Questão 2. Uma mesma frase pode ter sentidos diferentes em situações distintas. Por exemplo, uma frase como “Eu estou com fome” é percebida de diferentes maneiras quando dita por uma adolescente de classe alta em um shopping center ou por uma criança subnutrida que não se alimenta há dias no sertão nordestino. Em outras palavras, isso quer dizer que: A) Para entender uma frase, basta decifrar suas palavras. B) A fome é um fenômeno que independe de classe social. C) O texto deve ser entendido em seu contexto. D) O português é uma língua com pouca clareza linguística. E) A mudança na ordem dos sintagmas internos de uma frase não altera o seu sentido. Resposta correta: alternativa C. Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: o próprio enunciado explicita que uma mesma frase pode ter sentidos diferentes em situações distintas. Dessa forma, para entendê‑la não basta apenas decifrar as palavras presentes no eixo sintagmático. 109 MORFOSSINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA B) Alternativa incorreta. Justificativa: a fome está diretamente associada à classe social do sujeito. A alternativa B, portanto, é incorreta. C) Alternativa correta. Justificativa: o próprio enunciado explicita que uma mesma frase pode ter sentidos diferentes em situações distintas. O linguístico está diretamente associado à situação comunicativa, ou seja, ao contexto. D) Alternativa incorreta. Justificativa: o idioma português tem clareza linguística. A exemplo de outros idiomas, a língua está diretamente associada a um contexto, que pode explicar fenômenos naturais como ambiguidade, metáfora, eufemismo etc. E) Alternativa incorreta. Justificativa: a alteração na ordem dos sintagmas numa oração possibilita, também, a alteração de sentido.