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Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreender a convivência humana ___________________________________________________________________________ UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO LINHA DE PESQUISA ESTRATÉGIAS DO PENSAMENTO PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO Leonardo Rocha da Gama GINÁSTICA E ÉTICA NA ESCOLA: APONTAMENTOS PARA COMPREENDER A CONVIVÊNCIA HUMANA NATAL, RN 2009 Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreender a convivência humana ___________________________________________________________________________ Leonardo Rocha da Gama GINÁSTICA E ÉTICA NA ESCOLA: APONTAMENTOS PARA COMPREENDER A CONVIVÊNCIA HUMANA Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Educação da UFRN, linha de pesquisa Estratégia do Pensamento e Produção do Conhecimento, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação sob a orientação da Professora Doutora Karenine de Oliveira Porpino. NATAL, RN 2009 Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreender a convivência humana ___________________________________________________________________________ Leonardo Rocha da Gama GINÁSTICA E ÉTICA NA ESCOLA: APONTAMENTOS PARA COMPREENDER A CONVIVÊNCIA HUMANA Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Educação da UFRN, linha de pesquisa Estratégia do Pensamento e Produção do Conhecimento, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação sob a orientação da Professora Doutora Karenine de Oliveira Porpino. Aprovada em: 28 / 09/ 2009 ___________________________________________ Profª. Drª. Karenine de Oliveira Porpino Universidade Federal do Rio Grande do Norte Orientadora ___________________________________________ Prof. Dr. José Pereira de Melo Universidade Federal do Rio Grande do Norte ___________________________________________ Prof. Dr. Ricardo Figueredo de Lucena Universidade Federal da Paraíba ___________________________________________ Profª. Drª. Maria Isabel B. de Souza Mendes Universidade Federal do Rio Grande do Norte Suplente Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreender a convivência humana ___________________________________________________________________________ Dedico este trabalho aos professores e alunos que ao longo da minha formação constituíram comigo interações que me fizeram caminhar até aqui. Por outra razão dedico também esse trabalho a minha família. Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreender a convivência humana ___________________________________________________________________________ Ando valorizando o silêncio e as atitudes, ultimamente. Pouco falar, muito sentir, muito agir. Há muito valor em silenciar diante do espetáculo exuberante da vida, enquanto caminhamos pela estrada da existência. [...] Caminho e penso, interrompendo os meus passos somente para trocar abraços e beijar o rosto dos meus amigos sinceros, para colher as impressões dos transeuntes que, indo ou vindo, percorrem comigo a mesma estrada, em busca de auto-conhecimento, e me dão dicas importantes sobre as saliências do terreno. [...] Assim é. A vida e a caminhada. Emociono-me e sigo, então, dando graças a Deus por tudo isso. [...] Fui acometido de eloqüente estesia que me trouxe até aqui, agradecido. De novo, para caminhar (Ricardo Ferreira, 2007, p.1). Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreender a convivência humana ___________________________________________________________________________ AGRADECIMENTOS O caminhar, assim como qualquer gesto humano, é uma ação que não se reduz a uma leitura mecânica do movimento. Ao caminhar nos movemos no tempo e no espaço, sentindo, pensando, nos emocionando, ora pela própria experiência que o percurso nos proporciona, ora pelo distanciamento do pensamento ao longo da rota escolhida. Nesse meio de tempo, o caminhar nos conduz ora ao ato em si, ora a outros lugares, aqueles que só o pensamento pode vagar. O caminhar nos leva sempre a algum lugar. No caso específico, meu caminhar me conduziu a pensar em outros, como legítimos outros na convivência. Esse pensamento me conduz a outro: o privilegio da vida. E, por isso, sou grato a Deus por esse privilégio. Sou grato ainda a minha família e amigos que ao longo do tempo souberam compreender as minhas opções e a importância delas para o meu existir. Sou grato aos meus pais, pelo zelo de anos, aos meus irmãos pelos gestos amorosos, que para nós são sempre escassos, tamanha a nossa carência. Sou grato aos meus sobrinhos que de forma alegre e risonha sempre nos enche de ternura, confiança e propósitos. Entre os amigos destaco àqueles que estiveram comigo ao longo dessa jornada. Edna, pela presença constante e incondicional, companheira de lutas e emoções. Ruth, pela oportunidade em que pudemos trocar força e motivações. Everaldo, por reunir as qualidades anteriores, tornando-se um companheiro singular. Anderson Leão, Gleydson Dantas e Túlio Fernandes por compartilhar parte do tempo comigo, assim como de alguns sonhos. Agradeço aos professores que ao longo da vivencia acadêmica se tornaram amigos. José Pereira, pelo estímulo constante e a disponibilidade em contribuir. Pádua e Petrucia, por me mostrar que as palavras têm sabor e que além das doces, existem também as amargas, as azedas e as salgadas. Os mesmos me mostraram Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreender a convivência humana ___________________________________________________________________________ que todas as palavras quando ditas verdadeiramente, dada à necessidade, contribuem sempre. Agradeço aos professores colegas da Escola Municipal Terezinha Paulino, pela torcida, apoio e alegria prestados no decorrer do processo. Em especial a Profª Lêda, que soube compreender a dimensão desse momento. Agradeço ao apoio institucional do GEPEC, do PAIDÉIA, bem como aos colegas que os compõem, assim como aos outros colegas do GEPEM e do GRECOM pelo convívio, oportunidade em que podemos trocar e ampliar conhecimentos. Agradeço ainda aos que fazem o Departamento de Educação Física da UFRN e o PPGEd/UFRN pelo apoio institucional. Todos fundamentais. Há aqueles sem os quais esse trabalho seria impossível. Dedico-me nesse instante a render meus mais profundos agradecimentos aos meus alunos que junto comigo, nutrem o mesmo espaço de desejo, o Grupo Ginástico da Escola Municipal Terezinha Paulino. Principalmente aquelas que comigo compartilharam outros espaços de desejo, o livro Ginástica Geral na Escola Pública – anotações e saberes de um conviver pedagógico. São elas: Caroline Bezerra, Caroline Diniz, Fabrícia, Fernanda, Llows, Naya, Pollyana, Stephany e Yaponira. Haverá um tempo em que todos os não abnegados aprenderão por estesia o que nos fazem afins. Eu acredito nisso. Ainda pensando naqueles sem os quais esse trabalho seria impossível, rendo minha gratidão a Professora Karenine Porpino, minha orientadora e de tantos outros. Uma gratidão que se aprofunda na mesma medida da minha admiração. Ao longo de nossa história de interações, três momentos distintos nos fizeram orientando e orientadora. Obrigado pela sua exaustiva paciência, mas principalmente, pela relação profissional, ética e estética (porque não?), em que foi possível compartilhamos saberes e emoções. Destaco que independentemente das formasde caminhar e de pensar, ambas foram feita com muito zelo, para que outros pudessem perceber, se não tudo, pelo menos parte da paisagem que desenhamos ao longo desse processo dissertativo, e isso só foi possível porque todas as pessoas e instituições aqui relacionadas estiveram de alguma forma envolvidas. Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreender a convivência humana ___________________________________________________________________________ Como Platão o disse há muito tempo: para ensinar é necessário o eros. O eros não se resume apenas ao desejo de conhecer e transmitir, ou ao mero prazer de ensinar, comunicar ou dar: é também o amor por aquilo que se diz e do que se pensa ser verdadeiro. É o amor que introduz a profissão pedagógica, a verdadeira missão do educador (MORIN, 2005, p.71.). Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreender a convivência humana ___________________________________________________________________________ RESUMO O cotidiano docente nos invoca a responder questões que cercam a ação educativa, o que constitui exercícios de ética e de política de nós professores, considerando a responsabilidade que nos é apresentada em circunstância da perspectiva que criamos quanto a formação de nossos alunos. Considerando a Escola Municipal Terezinha Paulino como palco do cotidiano docente a qual investimos, e por fim, o Grupo Ginástico dessa escola (GGTP), como prática pedagógica, especificamente tratada no decorrer desse estudo, lançamos mão das seguintes questões: 1. Quais os indicadores éticos presentes na experiência vivida pelos integrantes do GGTP? 2. Qual o sentido destes indicadores para os integrantes do GGTP? 3. Esses sentidos configuram uma dimensão sócio-política da formação dos sujeitos envolvidos? Que dimensão sócio-política é essa e qual a sua contribuição para pensar a Educação Física na escola? A partir destas questões, destacamos nossos objetivos nessa pesquisa: investigar a experiência educacional vivida no GGTP, tendo como enfoque os elementos éticos que as caracterizam, bem como refletir a relação desses elementos na dimensão sócio-política da Educação Física na escola. Visando responder as questões iniciais e alcançar nossos objetivos, recorremos a Análise de Conteúdo (BARDIN, 2004) como aporte metodológico dessa pesquisa. A partir do mesmo foi que chegamos aos dois eixos de discussão aqui relacionados: condutas relacionais da convivência e condutas relacionais indesejáveis e não-sociais. São próprios das condutas da boa convivência: união, cooperação, solidariedade, fraternidade, conversa, diálogo, amor, confiança, responsabilidade, compromisso, dedicação, aplicação, respeito, partilha, compartilhar, gratidão, companheirismo, benevolência. Correspondem as condutas indesejáveis ao bom convívio: intriga, contenda (disputa), vaidade, arrogância, raiva, ira, fúria, nervosismo, ansiedade e medo. Perpassa a discussão das categorias, o conjunto de conhecimentos produzidos por diferentes autores, entre eles predomina Humberto Maturana, ora relacionado à alguns de seus principais parceiros, José Varela, Gerda Verden-Zöller e Sima Nisis de Rezepka. Embora menos freqüente, abordaremos outros autores, entre eles Edgar Morin e Paulo Freire, para ampliar, articular, e assim, contribuir para alicerçar os apontamentos, conteúdos desse estudo. Além do capítulo introdutório, constituí o conteúdo dessa dissertação: ética: compreensões textuais; o caminho metodológico; condutas relacionais da convivência; condutas relacionais indesejáveis e não- sociais; ginástica geral como aposta ética e política na formação humana. Em ética: compreensões textuais, fazemos uma breve introdução para distinguirmos o campo ético a qual estaremos avançando; em o caminho metodológico, descrevemos brevemente a aplicação da análise de conteúdo (BARDIN, 2007); em condutas relacionais da convivência, assim como, nas condutas relacionais indesejáveis e não-sociais, apontamos os sentidos discutindo-os alicerçados pelo aporte teórico dessa pesquisa; por fim, em ginástica geral como aposta ética e política na formação humana, apontamos algumas possibilidades para a prática da ginástica e da Educação Física escolar, assim como, para pensar a educação pelo viés da formação humana. Palavras – chaves: Ginástica geral. Ética. Educação. Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreender a convivência humana ___________________________________________________________________________ ABSTRACT The daily teaching invokes us to answer questions that surround the educational action, they are ethic and political exercises of us teachers, considering the responsibility that is presented to us in circumstance of perspective that we create as for our students´ formation. Considering the public school Terezinha Paulino as stage of the daily teaching which we invested, and finally, the school gymnastic group (GGTP), as pedagogical practice specifically attended during this study, we launch the following questions: 1. What are the ethic indicators present in the experience lived by GGTP members? 2. What’s the meaning of these indicators for the GGTP members? 3. Do these meanings configure a socio-political dimension of the individuals involved formation ? What socio-political dimension is that? And What is its contribution to think of Physical Education in school? From these issues, we highlight our goals in this research: investigate the educational experience lived in GGTP, with a focus on the ethical elements that characterize and reflect the relationship of these elements in the socio-political dimension of Physical Education in school. To answer the initial questions and achieve our goals, we use the Content Analysis (BARDIN, 2004) as a methodological contribution of this research. From this methodological contribution we got two strands of the discussion here related: relational behavior of living and undesirable relational conduct and non-social. typical examples of good living are: union, cooperation, solidarity, fraternity, conversation, dialogue, love, trust, responsibility, commitment, dedication, application, respect, partition, sharing, gratitude, companionship, kindness Correspond to undesirable behaviors conduct: intrigue, strife (dispute), vanity, arrogance, anger, rage, fury, nervousness, anxiety and fear. Permeates the categories discussion, The group of knowledge produced by different authors, Humberto Maturana predominate among them, sometimes related to some of its main partners, , José Varela, Gerda Verden-Zöller and Sima Nisis de Rezepka. Although less frequent, we broach other authors, including Edgar Morin and Paulo Freire, to enlarge, articulate, and thus contribute to support the notes, contents of this study. Besides the introductory chapter, is the content of this dissertation: ethics: textual understanding, the methodological way; relational behaviors of living; undesirable conduct relational and non-social; gymnastics as an ethical and political bet on training human. In ethics: textual understandings, we make a brief introduction to distinguish the ethical field which we are advancing; In the methodology way, we briefly describe the implementation of the analysis content (BARDIN,2007); in relational behaviors of living, as well as, in undesirable relational conduct and non-social, we point out the meanings discussing them supported on theoretical contribution of this research. Finally, in gymnastics as an ethical and political bet on training human, we point out some possibilities for the gymnastic practice and physical education at school, as well as to think about education by training human bias. Word-keys: general gymnastics. Ethics. Education. Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreendera convivência humana ___________________________________________________________________________ RESUMEN El cotidiano docente nos invoca a contestar cuestiones que rodean La acción educativa, lo que constituye ejercicios de ética y de política de nosotros profesores, considerando la responsabilidad que es nos he presentada en circunstancias de perspectiva que creamos cuanto la formación de nuestros alumnos. Considerando la Escuela Municipal Terezinha Paulino como escenario del cotidiano docente la cual invertimos, y por fin, el Grupo Gimnástico de esa escuela (GGTP), como practica pedagógica, específicamente tratada en el trascurrir de ese estudio, lanzamos manos de las siguientes cuestiones: 1. ¿Cuáles los indicadores éticos presentes en la experiencia vivida por los integrantes del GGTP? 2. ¿Cuál el sentido de estos indicadores para los integrantes del GGTP? 3. ¿Esos sentidos configuran una dimensión socio-política de la formación de los sujetos envueltos? ¿Qué dimensión socio-política es esa y cuál es su distribución para pensar la Educación Física en la escuela? A partir de estas cuestiones, destacamos nuestros objetivos en esta pesquisa: investigar la experiencia educacional vivida en el GGTP, teniendo como enfoque los elementos éticos que las caracterizan, bien como reflejar la relación de estos elementos en la dimensión socio-política de la Educación Física en la escuela. Visando contestar a las cuestiones iniciales y alcanzar nuestros objetivos, recorrimos a la Análisis de Contenido (BARDIN, 2004) como aporte metodológico de esa pesquisa. A partir del mismo fue que llegamos a los dos ejes de discusión aquí relacionados: conductas relacionales de convivencia y conductas relacionales indeseables y no sociables. Son propios de las conductas de buena convivencia: unión, cooperación, solidariedad, fraternidad, charla, dialogo, amor, confianza, responsabilidad, compromiso, dedicación, aplicación, respecto, partición, compartimiento, gratitud, compañerismo, benevolencia. Corresponden a las conductas indeseables al buen convivir: intriga, disputa, vanidad, arrogancia, rabia, ira, furia, nerviosismo, ansiedad y miedo. Prepasa la discusión de las categorías, el conjunto de conocimientos producidos por distintos autores, entre ellos predomina Humberto Maturana, ora relacionado a algunos de sus principales compañeros, José Varela, Gerda Verden-Zöller y Sima Nisis de Rezepka. Embora menos frecuente, abordaremos otros autores, entre ellos Edgar Morin y Paulo Freire, para ampliar, articular, y así, contribuir para fundamentar los apuntamientos, contenidos de ese estudio. Más allá del capítulo introductorio, constituye El contenido de esa disertación: ética: el camino metodológico; comprensiones textuales; conductas relacionadas de la convivencia; conductas relacionales indeseables y no sociales; gimnástica general como apuesta ética y política en la formación humana. En el camino metodológico describimos brevemente la aplicación de la análisis de contenido (BARDIN, 2007); en ética: comprensión textuales, hacemos una breve introducción para distinguimos el campo ético lo cual estaremos avanzando; en conductas relacionales de la convivencia, así como, en las conductas relacionales indeseables y no sociales, apuntamos los sentidos discutiéndolos fundamentados por el aporte teórico de esa pesquisa; por fin, en gimnástica general como apuesta ética y política en la formación humana, apuntamos algunas posibilidades para la práctica de la gimnástica y de la Educación Física escolar, así como, para pensar la educación por el bies de la formación humana. Palabras-llaves: gimnasia general. Los éticas. Educación. Ginástica e ética na escola Apontamentos para compreender a convivência humana ___________________________________________________________________________ SUMÁRIO O MITO DE SÍSIFO E O DESAFIO DOCENTE.........................................................13 ÉTICA: COMPREENSÕES TEXTUAIS.....................................................................34 CONDUTAS RELACIONAIS DA CONVIVÊNCIA.....................................................46 CONDUTAS RELACIONAIS INDESEJÁVEIS E NÃO-SOCIAIS..............................85 GINÁSTICA GERAL COMO APOSTA ÉTICA PARA UMA FORMAÇÃO HUMANA..................................................................................................................111 NEM CONDENAÇÃO SÍSIFA, NEM MENINAS LOBO...........................................127 REFERÊNCIAS........................................................................................................135 ANEXOS..................................................................................................................143 ANEXO A: TABELAS DE FREQUÊNCIA.....................................................144 ANEXO B: FICHAS DE CONTEÚDO...........................................................151 O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 14 O MITO DE SÍSIFO E O DESAFIO DOCENTE Nas minhas andanças dia-a-dia, ponderava sobre velhas questões que cercam o educar e certo dia me veio em pensamento à relação dessas questões com um mito que muito me apraz, o mito do rei Sísifo de Corintos. Reza à mitologia grego-romana que Zeus enviou Hermes para conduzir Sísifo, após sua morte, aos infernos. Chegando lá, Hades, deus dos mortos, condenou Sísifo pela sua rebeldia em vida a empurrar uma imensa pedra de mármore montanha acima. Toda vez que o condenado chegava ao cume da montanha, a pedra rolava até a base da mesma, obrigando o antigo rei a retomar sua tarefa (domínio público). Essa história atravessou o tempo, se tornando conhecida não só pela pena de se executar um trabalho rotineiro e cansativo, mas pelo propósito moral pela qual a mesma foi difundida: mostrar que nos cabe a liberdade de escolha e que sobre ela pesa a responsabilidade da decisão tomada, pois uma vez posta em prática nos afazeres da vida cotidiana, somos responsáveis pelas decisões tomadas e suas conseqüências. É preciso com isso pensar nas escolhas como uma atitude ética do viver. Passo pós passo, na condição de andarilho, ponderei: da mesma forma que na condenação sísifa nós nos deparamos no cotidiano docente com um fazer que implica responder as questões que persistem ao tempo. O que é educação? O que é educar? Que mundo nós queremos? Para que e para quem educar? Percebi que essas questões, no mesmo campo semântico, nos conduzem à ética, principalmente quando nos remetemos à responsabilidade que constitui o fazer docente. Percebi ainda que as mesmas questões resistentes ao tempo, surgem no perpétuo processo de deslocamento, acomodação e transformação das coisas, exigindo-nos que nos posicionemos de tempo em tempo. Essa exigência que nos faz tomar posição é um apelo político da prática docente que se faz na própria prática. Há de se entender que essa exigência é um apelo do mundo em movimento por novas respostas. E quando as velhas respostas já não atendem as exigências e demandas da atualidade, partimos em buscamos de outras novas. As possíveis respostas pertencem a diversidade de entendimentos e compreensões que vão se O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 15 modificando ao longo da própria trajetória humana. Essas possibilidades estão associadas a um fenômeno engendrado na relação entre pessoas e que se dá no mundo vivo e em movimento. O fazer docente não é uma tarefa que envolve esforços inúteis, como propõe o “trabalho sísifo” e tomar a tarefa docente como essa condenação, implica afirmar uma condição pouco criativa, mecânica do exercício da profissão quando sabemos que não o é. Ao deslocar o exemplo da mitologia para o exercício docente, estaríamos condenadosa não buscar novas respostas, jamais exerceríamos a liberdade de busca e de criação no decorrer do exercício profissional, uma vez que estaríamos condenados a realizá-lo da mesma forma. As questões relacionadas ao educar exigem do profissional da área, de tempos em tempo, novas reflexões. Pois, o que desafia o professor é a busca constante por respostas para o seu fazer cotidiano. O fazer docente implica no trato com pessoas, ou seja, atores sociais situados numa dimensão histórica da humanidade, o que não convém pensar nossa prática enquanto uma tarefa sísifa, mas numa perspectiva de superação da idéia fatídica de uma atividade rotineira, cansativa e entediante. Nesse sentido, recorro à máxima heracliana1 que diz que, ao fazer fazemos de forma diferente. Portanto, o traço da estética docente que nos faz redefinir as ações a cada nova experiência, nos permite transformar, inventar e criar novas estratégias para o como fazer. Acreditamos que é possível pensar numa intervenção pedagógica que subverta a idéia do “trabalho sísifo”. Assim, propomos um olhar para uma ação pedagógica no espaço escolar que apresente essa característica irreverente aos olhos da tradição pedagógica. No obstante, lançamos o olhar para o Grupo Ginástico Terezinha Paulino (GGTP), no que se refere a experiência pedagógica. Recorremos a referida prática da Escola Municipal Professora Terezinha Paulino de Lima, não só por sua característica irreverente, mas pela 1 Heráclito (séculos VI - V a.C.) é considerado o mais importante filosofo pré-socrático. O filosofo do devir, do movimento. O universo muda e se transforma infinitamente a cada instante. Um dinamismo eterno o anima. Entre as suas representações está a de que o sol é novo a cada dia e de que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio. A substância única do cosmo é um poder espontâneo de mudança e se manifesta pelo movimento. Tudo é movimento, tudo frui, nada permanece o mesmo. As coisas estão numa incessante mobilidade. (JAPIASSÚ; MARCONDES, 1996, p. 125). O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 16 possibilidade que essa experiência apresenta para o campo da Educação Física. A mesma designa uma ação pedagógica no chão da escola pública brasileira que descaracteriza a idéia de que o fazer pedagógico é um trabalho fatídico, uma tarefa de esforços inúteis e entediantes, uma condenação divina do destino do professor, uma ação mecânica, um apelo fatal da ação, engessada e inquestionável. Em busca de esclarecer sobre o GGTP, como surgiu, onde funciona, como funciona, quem são seus componentes e quais os objetivos do grupo apresentaremos a seguir uma breve contextualização do lócus dessa pesquisa: o Grupo Ginástico da Escola Municipal Professora Terezinha Paulino de Lima. A Escola Municipal Professora Terezinha Paulino de Lima está localizada no Conjunto Habitacional Parque dos Coqueiros, localizado no bairro Nossa Senhora da Apresentação, zona norte de Natal. Esse bairro fica no limite da cidade com os Municípios de São Gonçalo do Amarante e Extremoz. O Parque dos Coqueiros possui um hospital infantil público de referência que atende boa parte do estado do Rio Grande do Norte; uma unidade de saúde municipal; uma escola estadual de ensino médio; outra escola municipal que oferece os anos iniciais do ensino fundamental; algumas creches conveniadas com a rede pública municipal de ensino; estabelecimentos comerciais de pequeno porte, a saber: padarias, mercearias, mercadinhos, lan houses, bares, restaurantes, postos de gasolina, farmácia, cigarreiras, lojas de material de construção, entre outras. A escola possui aproximadamente mil e oitocentos alunos matriculados nos três turnos, divididos entre os anos finais do ensino fundamental e a educação de jovens e adultos (EJA). Nela são desenvolvidas diferentes projetos e ações pedagógicas, entre elas o ProGin. O Projeto Ginástico da Escola Municipal Professora Terezinha Paulino de Lima (ProGin), nasceu há cinco anos, especificamente em março de 2004, quando através de concurso público fui integrado a rede de educação de Natal. Chegando à Escola Municipal Professora Terezinha Paulino (EMTP), comuniquei minha intenção: formar um grupo de dança. Fui então comunicado que já havia um projeto dessa natureza sendo desenvolvido há alguns anos (hoje, 14 anos). Redimensionei o projeto para oferecer a ginástica geral (GG), O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 17 por considerar que essa expressão da Cultura de Movimento2, permitiria a realização de um trabalho que envolvesse e articulasse diferentes expressões, entre elas a dança e a ginástica, numa perspectiva educacional. Constitui nossas metas no ProGin ampliar o conjunto de conhecimentos corporais, a partir do domínio das diferentes técnicas da ginástica, do circo e da dança, o exercício da criatividade, do pensamento crítico e da autonomia dos alunos/ginastas, o cultivo de uma convivência baseado nos princípios da cooperação, da benevolência e do altruísmo, e por fim, a criação e apresentação de espetáculos. A construção dessas habilidades e competências se dá nas dimensões procedimentais, atitudinais e conceituais, enquanto proposta metodológica (COLL, 2000; DARIDO, 2003, 2005). O ProGin visa a iniciação em ginástica geral, assim como continuação dessa formação, na perspectiva de apresentação de espetáculos de ginástica sem fim competitivo, articulando-se com uma proposta educacional voltada para uma cidadania calcada em valores altruístas e na autonomia do indivíduo. O ProGin engloba outros projetos e ações, são elas: as turmas de iniciação a ginástica, o grupo intermediário, o Grupo Ginástico da Escola Municipal Terezinha Paulino (GGTP), o projeto Ginástica é Coisa de Menino e a Oficina de Escritores. Destacamos o GGTP, uma vez que estaremos nos voltando especificamente para esse grupo de ginastas, referência do nosso estudo para essa dissertação; e a produção da Oficina de Escritores, material que estaremos analisando, do qual falaremos mais adiante na metodologia. O GGTP corresponde a um grupo de alunos, meninos e meninas, cujo nível técnico de ginástica está entre uma fase intermediária e avançada. Em 2 O termo Cultura de Movimento adentrou o universo da Educação Física brasileira a partir dos estudos de Kunz (1991), compreendida como critério organizador do conteúdo da Educação Física escolar, considerando as culturas tradicionais do movimento em detrimento das matrizes européias e norte-americanas, comumente reproduzidas, principalmente se considerarmos o espaço escolar brasileiro, consideramos por Cultura de Movimento: um termo genérico para objetivações culturais, onde os movimentos dos seres humanos serão os mediadores do conteúdo simbólico e significante, que uma determinada sociedade ou comunidade criou. Pode ser encontrado de forma específica em quase todas as culturas: em dança, jogos de movimento, competições e teatro. A este conteúdo cultural correspondem comportamento de movimento específico da cultura com orientações dos sentidos determinados. Esse comportamento de movimento é geral, quer dizer não é ativado somente na atualização das formas culturais. Mesmo absorvendo movimentos de outras culturas, eles serão efetuados no esquema tradicional daquela cultura. (DIETRICH, Apud MENDES, 2002, p.17). O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 18 outras palavras, os mesmos possuem um repertório corporal ampliado, observado que boa parte dos componentes desse grupo já experimentou e corporificou diferentes experiências da Cultura de Movimento, por exemplo,jogos, esportes, capoeira, danças e brincadeiras, não só nas aulas de Educação Física, mas no cotidiano das ruas, assim como outras linguagem da ginástica, a saber: Ginástica Artística (GA), Ginástica Rítmica (GR) e Ginástica Aeróbica Esportiva (GAE). Além de destacar que os componentes do GGTP dominam parcialmente a linguagem oral e gestual dessas diferentes disciplinas gímnicas, enfatizamos aqui que as diferentes disciplinas da ginástica se dão no âmbito da ginástica geral ou Para Todos. Seguem alguns esclarecimentos quanto à ginástica e a ginástica geral ou Ginástica Para Todos. Compreendemos a ginástica “como uma forma particular de exercitação onde, com ou sem uso de aparelhos, abre-se a possibilidade de atividades que provocam valiosas experiências corporais,...” (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p.77). Estes autores nos mostram que a ginástica é uma prática que oportuniza aos indivíduos o conhecimento, reconhecimento e compreensão da movimentação do seu corpo, como também, os movimentos construídos no contexto sócio-cultural a que pertencem. Como forma particular de exercitação podemos entender a ginástica como “técnicas de trabalho corporal que, de modo geral, assumem um caráter individualizado com finalidades diversas. Por exemplo, pode ser feita como preparação para outras modalidades, como relaxamento, para manutenção ou recuperação da saúde ou ainda de forma recreativa, competitiva e de convívio social. Envolvem ou não a utilização de materiais e aparelhos, podendo ocorrer em espaços fechados, ao ar livre e na água”. (BRASIL/SEF–PCNs/EF, 1997, p.49). Estas definições nos levam a concluir que a compreensão de ginástica se constrói conforme o contexto onde esta prática encontra-se inserida e os objetivos a que se propõe. A Ginástica como esporte se caracteriza atualmente nas seguintes modalidades: Ginástica Artística (GA), Ginástica Rítmica (GR), Aeróbica Esportiva (GAE), Trampolim (TRA) e Esportes Acrobáticos (ACRO). Estas modalidades são práticas institucionalizadas por meio da codificação e regulamentação de movimentos dos ginastas e, neste contexto, encontramos O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 19 uma modalidade esportiva que oferece a oportunidade de agregar vivências e aprendizagens de variadas manifestações gimnicas: a Ginástica Geral (GG) ou, recentemente denominada pela Federação Internacional de Ginástica (FIG), Ginástica para Todos (GPT). A GG ou GPT “é a mais antiga dentre todas as associações esportivas internacionais e foi desenvolvida em uma base democrática”. Em sua origem teve como denominação inicial Federação Européia de Ginástica (1881), após a filiação dos EUA em 1921, passou a ser denominada de Federação Internacional de Ginástica (FIG) (AYOUB, 2004, p.42). Existem estimativas que afirmam que, são entre 30 a 50 milhões de participantes ativos pelo mundo na atualidade e que a GG é a modalidade mais lucrativa da FIG. Esclarecemos que o entendimento da GG ou GPT passa por sua versão oficial e outras não oficiais. Sua conceituação na perspectiva oficial é institucionalizada pela FIG, cuja denominação foi proposta entre 1970 e 1980, em referência a “ginástica em geral”, designando as atividades gímnicas não competitivas. A Ginástica Geral (GG) ou Ginástica para Todos (GPT) é uma prática que busca a participação de todos aqueles que se sentem atraídos pela vivência e demonstração de movimentos de forma criativa e original e que oportunizam o conhecimento e/ou reconhecimento dos limites e possibilidades do corpo. Oferece um extenso número de atividades de expressão ginástica, com e sem aparelhos, que se apóiam nos aspectos da cultura nacional do grupo que a pratica. É uma prática que oportuniza a parceria entre a educação, o lazer e a arte. Devido a estes aspectos, poderá ser ofertada nos diferentes espaços educacionais (escola, clubes, associações, etc) que valorizam a movimentação do corpo, independente dos padrões técnicos, artísticos e esportivos presentes na sociedade (GARANHANI, 2008). O livro História da Ginástica Geral no Brasil (SANTOS; SANTOS 1999, p.1), resume que, a GG nasceu de uma concepção sociocultural, livre de motivos especulativos e/ou econômicos, define que: A Ginástica Geral compreende um vasto leque de atividades físicas orientadas para o lazer, fundamentadas nas atividades gímnicas, assim como em manifestações corporais com O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 20 particular interesse no contexto cultural nacional”; “A ginástica Geral engloba as modalidades competitivas de ginástica reconhecida pela Federação Internacional de Ginástica (Ginástica Olímpica, Ginástica Rítmica, Ginástica Aérobica Esportiva, Esportes Acrobáticos e Trampolim), a Dança, as atividades acrobáticas com e sem aparelhos, além das expressões folclóricas nacionais, destinadas a todas as faixas etárias e para ambos os sexos, sem limitações para a participação e, fundamentalmente, sem fins competitivos”; “A ginástica Geral desenvolve a saúde, a condição física e a integração social. Além disso contribui para o bem-estar físico e psíquico, sendo um fator cultural e social” . Santos e Santos (1999) destacam entre os principais objetivos da GG: 1. Oportunizar a participação do maior número de pessoas em atividades físicas de lazer fundamentadas nas atividades gímnicas; 2. Integrar várias possibilidades de manifestações corporais às atividades gímnicas; 3. Oportunizar a auto- superação individual e coletiva sem parâmetros comparativos com outros; 4. Oportunizar o intercâmbio sócio-cultural entre os participantes ativos ou não; 5. Manter e desenvolver o bem estar físico e psíquico pessoal; 6. Promover uma melhor compreensão entre os indivíduos e os povos em geral; 7. Oportunizar a valorização do trabalho coletivo, sem deixar de valorizar a individualidade neste contexto; 8. Realizar eventos que proporcionem experiências de beleza estética a partir dos movimentos apresentados, tanto aos participantes ativos quanto aos espectadores; 9. Mostrar nos eventos as tendências da ginástica. (SANTOS; SANTOS, 1999, p.1-2). Esses mesmos objetivos foram disponibilizados no site da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), o que nos revela duas possibilidades: a adoção dos objetivos propostos pelos autores por parte da CBG; ou, a citação não identificada dos objetivos oficiais por parte dos autores. Independentemente da autoria, esses objetivos correspondem aos oficiais, que traz ainda em seu site, a definição de Ginástica Para Todos ou Ginástica Geral: Essa é uma modalidade bastante abrangente que, fundamentada nas atividades ginásticas como (Gin. Artística, Gin. Rítmica, Gin. Acrobática, Gin. Aeróbica e Gin. de Trampolim), valendo-se também de vários tipos de manifestações, tais como: danças, expressões folclóricas e jogos, expressos através de atividades livres e criativas, objetiva promover o lazer saudável, proporcionando bem estar físico, psíquico e social aos praticantes, favorecendo a performance coletiva, respeitando as individualidades, em busca da auto-superação pessoal, sem qualquer tipo de limitação para a sua pratica, seja quando às possibilidades de O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 21 execução, sexo ou idade, ou ainda quanto à utilização de elementos materiais, musicais e coreográficos, havendo a preocupação de apresentar neste contexto, aspectos da cultura nacional, sempre sem fins competitivos. (CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE GINÁSTICA)3. Mais de 90 Federações Nacionais foram representadas em um congresso promovido pela da FIG, do qual foi decidido que desde Janeiro de 2007 a modalidade Ginástica Geral denominar-se-ia Ginástica para Todos.Essa mudança sinaliza mais que uma mudança de nomenclatura, indica o uso textual e corrente do termo “Esporte Ginástica”, apontando para uma doutrina do esporte; o entendimento de que a modalidade é ampla, por permitir diferentes atividades; e, por fim, seu acesso para pessoas de todas as idades, habilidades, gêneros e culturas. A Presidente do Comitê de Ginástica Geral da entidade, na ocasião, Sra. Margaret Sikkens Ahlquist justificou que: Esta mudança é uma ação tanto importante como histórica da FIG. Pelo mundo temos muitos idiomas utilizados entre nossas Federações e a tradução de termos muitas vezes é difícil. Muitos dos termos já usados pelas nossas Federações promovem com maior facilidade o verdadeiro significado desta estimulante modalidade. Agora, a Ginástica Para Todos permitirá à FIG também posicionar o esporte da Ginástica em seu lugar de direito como uma das maiores atividades esportivas que proporciona enormes benefícios para a saúde e condicionamento físico aos cidadãos em todos os cantos do mundo, independente de sua idade, habilidades, gênero ou cultura 4. Constituindo a base histórica e cultural das demais atividades da FIG, a GG no contexto internacional ao passar a ser denominada Ginástica Para Todos5, aponta, no que pesa seu programa de desenvolvimento, para a ideologia do movimento internacional “Esporte Para Todos”6. Outras denominações fazem referência a essa atividade, são elas: “esporte 3 Texto retirado da Internet através do site: (www.cbginastica.com.br) e não paginado. 4 Texto retirado da Internet através do site: (www.cbginastica.com.br) e não paginado. Gentilmente enviado pela Professora Dra. Eliana Ayoub em 06/08/2008, por e-mail, as 13:35h. 5 De acordo com a palestra do Prof. Herbert Hartmann, Ayoub, considera: “[...] que tal iniciativa revela, sobretudo, mais uma estratégia de marketing da federação. [...] a FIG está mais preocupada em tirar proveito do impacto social, político e econômico que o movimento Esporte para Todos desfruta no cenário mundial do que em repensar suas estratégias para o desenvolvimento da ginástica geral ou ginástica para todos, uma vez que sua prioridade tem sido as modalidades competitivas” (AYOUB, 2007, p.140). 6 No Brasil esse movimento foi tratado em Esporte Para Todos: um discurso ideológico (CAVALCANTI,1984). O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 22 participação”, “esporte não formal” ou “esporte de inclusão”. Estarei adotando nessa dissertação o termo ginástica geral ou sua abreviação (GG). Contudo, outros entendimentos não oficiais sobre a ginástica geral emergem. Os conceitos dessa natureza surgem às margens da FIG, e, se por um lado, ajudam a enriquecer o entendimento, por outro, somam uma diversidade de compreensões que dificultam a sua localização conceitual. Traremos aqui uma versão não oficial a partir do Grupo Ginástico da Unicamp (GGU). O GGU é ligado ao Grupo de Pesquisa em Ginástica Geral da Faculdade de Educação Física da Unicamp. Escolhemos a compreensão adotada por esse grupo por considerar que o mesmo apresenta em sua trajetória, principalmente ao longo da última década, um conjunto de produções que abrange as apresentações públicas das coreografias, os estudos e pesquisas já publicados no âmbito nacional e internacional no que se refere a ginástica geral, sendo uma referência no Brasil para outros grupos que trilham o caminho da GG. Para o Grupo Ginástico Unicamp a Ginástica Geral “é uma manifestação da Cultura Corporal que reúne as diferentes interpretações da Ginástica (Natural, Construída, Artística, Rítmica Desportiva, Aeróbica, etc.) integrando-as com outras formas de expressão corporal (Dança, Folclore, Jogos, Teatro, Mímica, etc.) de forma livre e criativa, de acordo com as características do grupo social e contribuindo para o aumento da interação social entre as participantes” (GALLARDO; SOUZA apud UGAYA; TRUZZI, 2001, p.1). Observando nas diferentes versões que organizam o entendimento da GG em suas múltiplas possibilidades de pensar, tratar e fazer essa modalidade, percebe-se que a GG permite uma gama de investimentos nos diferentes campos do lazer e da educação. Trataremos especificamente a ginástica geral no campo escolar, principalmente nas questões que cercam esse estudo. No entanto, considero importante outros investimentos acadêmicos na esfera do lazer, assim como possíveis outros campos da ação humana associado à GG. Observamos também, que, as versões postas se aproximam muito mais que se distanciam. As mesmas constituem os principais expoentes da ginástica geral no Brasil e, em comum, compreendem que a ginástica geral se caracteriza por: não apresentar código gestual próprio; O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 23 apresentar aspectos de um movimento sócio-político visto sua trajetória no panorama da ginástica internacional; agregar e articular em seu campo, diferentes expressões da Cultura de Movimento; ter como fim a participação e inclusão de pessoas nas apresentações públicas de ginástica. Compreendemos que cerca a prática da GG, um conjunto de valores éticos que nos fazem pensar essa prática na escola como uma ação formativa que, articulada a escola pública brasileira, pode contribuir de forma significativa para a qualidade da formação dos nossos jovens. Para tanto, lançamos a seguir as questões de estudo, objetivos e a justificativa desse trabalho. Voltados para o Grupo Ginástico da Escola Municipal Professora Terezinha Paulino, elegemos as relações que se dão nesse ambiente escolar e o tipo de convivência que envolve professor e alunos. Lançamos o olhar para o conjunto de práticas que se desenrolam no convívio dos atores sociais desse grupo, entre eles eu, na condição de professor. Para tanto, lanço as questões que orientam essa dissertação: 1. Quais os indicadores éticos presentes na experiência vivida pelos integrantes do Grupo Ginástico Terezinha Paulino? 2. Qual o sentido destes indicadores para os integrantes do Grupo Ginástico Terezinha Paulino? 3. Esses sentidos configuram uma dimensão sócio-política da formação dos atores sociais envolvidos? Que dimensão sócio-política é essa? 4. Qual a contribuição dessa possível dimensão sócio-política para pensar a relação entre os atores sociais envolvidos num processo formador na escola? É na convivência que se dá a origem do que tomamos por humano, sendo todo ato humano tomado por um sentido ético: “Essa ligação do humano ao humano é, em última instância, o fundamento de toda ética como reflexão sobre a legitimidade da presença do outro” (MATURANA; VARELA, 2002, p.269). Partindo desse axioma lançamos mão dos seguintes objetivos: investigar a experiência educacional vivida no Grupo Ginástico Terezinha Paulino, tendo como enfoque os elementos éticos que as caracterizam, bem O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 24 como refletir a relação desses elementos na dimensão sócio-política da convivência entre os atores sociais envolvidos numa experiência formadora, no contexto escolar. Encontramos na análise de conteúdo (BARDIN, 2004) a possibilidade metodológica para essa pesquisa. Para que se entenda como chegamos ao método e, principalmente, ao corpus de análises dessa pesquisa, é preciso entender o contexto pelo qual o mesmo foi pensado. Para tanto, percorremos um caminho metodológico que passamos a descrever a seguir. Ainda no primeiro semestre de 2007, já na pós-graduação, cursando a disciplina Complexidade e Educação, sob a responsabilidade das professoras Conceição Almeida e Wani Pereira, assisti juntamente com outros colegas um filme brasileiro,de título: Narradores de Javé. Em busca do método adequado, acabei encontrando a inspiração nas artes, especificamente no cinema. Nesse sentido, cabem algumas informações que elucidam a trama inspiradora. Falarei a seguir do filme. Entre o elenco do filme estão José Dumont, Nélson Dantas e Nélson Xavier, cujo roteiro é de Luis Alberto de Abreu e Eliane Caffé, a mesma que assina a direção. Embora seja uma comédia, Narradores de Javé retrata o drama de uma pequena cidade brasileira, num cenário tipicamente nordestino, prestes a ser suprimida do mapa, ao ser encoberta pelas águas de uma represa em construção. A empreitada é justificada pelo discurso do progresso, um discurso que tenta convencer a população que a barragem trará uma vida nova, de prosperidade, de empregos e de conforto. O discurso é entoado por entidades do governo e pessoas ligadas à construtora. E é assim que tem início a trama. Os moradores de Javé foram informados que não teriam direito às indenizações, uma vez que, não havia registros que provassem a existência das propriedades e de seus prováveis donos. Na verdade, em Javé a maioria das pessoas sequer existiam de direito, uma vez que não possuíam registro algum. Os habitantes do lugar, inconformados, reuniram-se em busca de remediar o problema. Os mesmos foram informados que o lugarejo também não tinha memória, não havia registro de sua história em lugar algum. Javé é O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 25 uma licença poética, uma metáfora para resgatar o cotidiano de lugarejos desassistidos ou de pouco investimento público. Ao despertar para o problema e a fim de remediar o que estava para suceder a cidade, a população resolveu escrever sua história. Contudo, encontrou uma dificuldade, só uma pessoa nela sabia ler e escrever, um funcionário dos correios (personagem vivido por José Dumont), desafeto da comunidade. Mesmo assim, o povo o elege para inventariar o patrimônio histórico e cultural da cidade, a partir dos relatos orais de seus habitantes mais antigos e ilustres. O personagem vivido por José Dumont, embora resistente, é submetido a tarefa sobre forte pressão popular e sobre a pena de ser banido de Javé. O mesmo sai com um camalhaço de papel a visitar as casas dos seus moradores mais influentes. Sua tarefa era registrar tudo. O funcionário dos correios, em busca de florear a história contada, acrescentava durante a escrita informações que valorizavam os fatos e que enriquecia a história. Contudo, sua prática controvertida foi duramente combatida pelos próprios partícepes. É nesse contexto que se desenrrola a trama do filme, o engajamento social em defesa da propriedade e da memória de uma comunidade prestes a ser suprimida sob a égide do progresso. Transferi dessa trama a idéia de registrar as memórias das ginastas através da escrita. A primeira idéia ventilada pesava que eu escrevesse sobre a experiência vivida no GGTP, uma forma de registro unilateral e solitário. Abandonei a idéia de que eu mesmo escrevesse essa história e investi em outra: de uma produção coletiva, aonde participassem membros do GGTP. Essa nova idéia não me descartava do processo. Entendi que a nossa experiência, dos componentes do GGTP, ao escreverem nossas impressões, participações e o que mais fosse pertinente no convívio, seria mais rica do que uma entrevista estruturada, semi-estruturada, ou algo que se assemelhe. Para tanto, criamos a Oficina de Escritores, um projeto de produção textual que teve como fim registrar a trajetória recente do GGTP. Constituíram a Oficina de Escritores eu e mais nove jovens escribas, são elas: Caroline Bezerra, Caroline Diniz, Fabrícia, Fernanda, Llows, Naya, Pollyana, Stephany e Yaponira. Na ocasião todas foram alunas/ginastas do O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 26 GGTP, cuja idade variava entre 13 e 16 anos. Hoje, algumas são ex-alunas já que concluíram o ensino fundamental na Escola Municipal Terezinha Paulino. Todas são ou foram praticantes de ginástica há pelo menos quatro anos. As mesmas vivem em um contexto de periferia, no bairro Nossa Senhora da Apresentação predominantemente habitado por famílias de baixa renda. A maioria procede de famílias estruturadas por pai, mãe e outros irmãos. Uma parte é evangélica e a outra é católica, em comum possuem valores cristãos. Diferentes razões nos fizeram investir na Oficina de Escritores. O que me motivou inicialmente a executar esse projeto foi a possibilidade de coletar informações para discutir nessa dissertação, diferentemente da razão que impulsionou as meninas. O que levou as mesmas a participar da Oficina de escritores foi a possibilidade de escrever um livro de memórias do GGTP. A produção em questão resultou no livro, Ginástica Geral na Escola Pública – anotações e saberes do um conviver pedagógico. O projeto desse livro passou a constar entre as prioridades da Escola Municipal Terezinha Paulino no exercício de 2008. Foram destinados recursos para esse empreendimento sócio educacional, portanto, cultural. O mesmo foi publicado em 2009. Embora as razões que nos envolveram no projeto Oficina de escritores tenha tido fins distintos, a experiência nos fez entender outras possibilidades no fazer da ginástica na escola. Nós nos reunimos para falar da Oficina de Escritores pela primeira vez em junho de 2007. Mesmo que informalmente, a reunião versava um novo projeto para o ProGin. Falei do filme, dos objetivos e marquei um novo encontro com as pessoas que se interessaram pelo projeto, doze meninas. Uma semana depois elas compareceram de espontânea vontade para darmos início ao projeto. Na oportunidade assistimos juntos Narradores de Javé. Depois do filme todas se interessaram em escrever. Embora as doze tenham mostrado interesse no processo apenas nove continuaram até a conclusão e publicação do livro. Fato é que, o trabalho ao somar outras participações, de outros componentes, ganhou novos contornos e ajudou a acrescentar novas informações à prática pedagógica do GGTP. A Oficina de Escritores nos fez ganhar novos e diferentes contornos, revelando nuances ainda não percebidas da experiência pedagógica a qual estamos envolvidos. O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 27 Os encontros aconteceram sempre nas segundas-feiras. O nosso primeiro encontro oficial foi em 18 de junho de 2007, na própria escola. Desde então passamos a nos encontrar periodicamente, sem a presença de um cronograma fixo e rígido. Outros encontros sucederam-se até o último dia da etapa de escrita, em 14 de julho de 2008. No processo foram desenvolvidos dez relatos, entre eles, o meu. Passamos mais de um ano amadurecendo esses textos. É através dos textos produzidos durante a Oficina de Escritores que partiremos nessa caminhada rumo ao conhecimento construído coletivamente no GGTP. Os textos foram produzidos seguindo um curso de produção, curso esse que respeitou o tempo de cada integrante. Os encontros seguiram algumas fases, a saber: roda de discussão, produção de texto, leitura e socialização do conteúdo produzido, ajustes finais da escrita e publicação em forma de livro. No primeiro momento, a partir do método brainstorming (tempestade de idéias) e de perguntas operacionalizadas (TAFFAREL,1985), identificamos as qualidades dos componentes do grupo, assim como os possíveis “defeitos”. Após relacionar os adjetivos, iniciamos uma discussão quanto à compreensão dos diferentes termos. A partir das discussões dos temas relacionados, por exemplo, inveja, companheirismo, colaboração, partimos para escrever nossas experiências no grupo associada aos diferentes temas. Além desse momento falamose escrevemos sobre os espetáculos, sobre nós mesmos em relação ao grupo e aos demais componentes; e por fim, narramos e descrevemos alguns episódios que marcaram cada um de nós no decorrer de nossa permanência no GGTP. O produto desse trabalho além do compor o Corpus de análise dessa pesquisa, compõe o livro Ginástica Geral na Escola Pública – anotações e saberes do um conviver pedagógico. A minha participação no processo inclui: mediação das discussões; coordenação do cronograma; escrita da minha memória; digitalização dos textos manuscritos; sistematização de questões e aplicação de perguntas operacionalizadas; organização das idéias e da escrita dos demais membros; motivação do grupo para a escrita; organização do material para publicação e divulgação do trabalho. O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 28 Ainda quando produzíamos os textos, já ventilávamos a análise de conteúdo (BARDIN, 2004) como possibilidade de análise metodológica. Para tanto, compomos o corpus de análises dessa pesquisa com os dez textos produzidos ao longo de pouco mais de um ano e meio, no projeto Oficina de escritores. Ao elencar esses registros, considerávamos que os mesmos revelariam parte da complexidade, da importância e da dimensão da convivência a partir de uma experiência com a ginástica geral na vida de cada componente envolvido. Ao recortar o corpus de análises, elegemos a modalidade análise temática por entender que a mesma se aplica aos textos, reagrupando as diferentes idéias em categorias, estabelecendo um quadro geral e representativo dos juízos, individuais e coletivos, presentes nos diferentes relatos, condição para que pensássemos nas questões iniciais dessa pesquisa. Após a exploração e o longo tratamento do material, obtivemos os seguintes núcleos de sentido, indicadores relacionados a ética, são eles: união, persistência, perseverança, resistência, esforço, disposição, força de vontade, cooperação, colaboração, trabalho coletivo, conversa/diálogo, amor/carinho, tolerância/resignação, partilha, coragem, amizade, vaidade/orgulho, vaidade/arrogância, responsabilidade, compromisso, dedicação, aplicação, disciplina, gratidão, respeito, calma, intriga, contenda, raiva, ira, fúria, nervosismo, medo e ansiedade. Destacamos que consideramos a freqüência desses indicadores em relação ao universo de sujeitos investigados, antes de definir os eixos de discussão. Os mesmos foram organizados em dois eixos de discussão, ou categorias dessa pesquisa, a saber: condutas relacionais da convivência e condutas relacionais indesejáveis e não-sociais. São próprios das condutas da boa convivência: união, cooperação/solidariedade/fraternidade, conversa, diálogo, amor, confiança, responsabilidade, compromisso/dedicação/ aplicação, respeito, partilha/compartilhar, gratidão, companheirismo, benevolência. Correspondem as condutas indesejáveis ao bom convívio: intriga, contenda (disputa), vaidade/arrogância, raiva/ ira/ fúria, nervosismo, ansiedade e medo. A partir dos estilos literários, narrativo e descritivo, realçamos aspectos desse projeto existencial que se desenvolve dentro da escola pública e que O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 29 cerca um contexto de convivência. Destacamos nos escritos aspectos do comportamento social relacionados ao conviver, a distinção entre os diferentes valores éticos, os saberes que alicerçam as ações crítica e reflexiva, por fim, o cultivo da humanidade, através das linguagens oral e escrita. Concordamos com o pressuposto de que “para entender o ser vivo, o que temos que encarar é o que o faz, o que o constrói” (MATURANA, 1997, p. 41). Portanto, essas experiências narradas e descritas por atores sociais, membros do GGTP, no contexto de uma escola pública, trazem elementos de uma ética que anunciam uma prática educativa, perspectiva essa que atende o chamado dessa pesquisa. Nesse sentido, a partir dos eixos supracitados comparamos, associamos, refletimos, constatamos ou não, atitudes e comportamentos valorizados e desvalorizados nas experiências textuais da realidade do GGTP. Compreendemos ser essa uma oportunidade de sistematizar e contribuir para a produção de conhecimento em Educação a partir de uma ação do profissional de Educação Física. As questões e objetivos anteriores nos conduzem a discutir uma experiência pedagógica em ginástica geral no âmbito escolar e elencar possíveis contribuições numa dimensão sócio-política. Entre outros elementos do conjunto de importâncias que enumero ao justificar essa investigação estão: a oportunidade de nos debruçar sobre a experiência docente no grupo investigado, no espaço de uma escola pública e de periferia do município de Natal, sobretudo, revelando aspectos de um fazer educacional e de uma convivência, enquanto projeto de mundo, que se ergue a partir de princípios éticos e da prática da ginástica geral, revelados na experiência dos seus componentes; a oportunidade de apontar aspectos de experiências diversas (no caso dos sujeitos investigados), como parte de realidades, projetos existenciais distintos, e de uma existência coletiva (o GGTP). Justificam ainda esse investimento: a contribuição que os resultados apontam quanto à continuidade da formação de seus integrantes, no qual me incluo; no redimensionamento e no aproveitamento das ações educativas e na produção do conhecimento que pode referenciar outros educadores. Estou me referindo aqui a contribuição dessa pesquisa para a minha própria prática, sem contudo, negar a contribuição dela para outras práticas de mesma natureza. O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 30 Assim, aceitamos que os resultados desse estudo podem contribuir para o fazer de outros docentes, não só na Educação Física. Na busca de constituir o Estado da Arte dessa pesquisa, trilhamos caminhos em busca das produções acadêmicas que cercam o universo da ginástica geral relacionadas ao campo da educação e da ética para possíveis diálogos. Para tanto, recorremos aos Anais do Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte (CONBRACE), nas suas últimas cinco edições (2001, 2003, 2005 e 2007), assim como o Fórum Internacional de Ginástica Geral (FIG) na sua última edição (2007). Elegemos o COMBRACE por entender que esse evento é um dos maiores na área da educação física e do esporte no Brasil. A razão pela qual incluímos o FIG é o fato desse ser um dos maiores eventos acadêmicos, pedagógico e performático na área de ginástica geral em nosso país. O Fórum Internacional de Ginástica Geral se realiza bienalmente, reunindo pesquisadores de vários lugares do Brasil e do mundo em Campinas, São Paulo. Esse evento é uma iniciativa da FEF/Unicamp em parceria com o SESC Campinas e a International Sport and Culture Association (ISCA). Verificamos e elegemos apenas os textos que tratam da ginástica geral, que se coadunam com a educação e que expressam a ética de alguma forma. Os trabalhos sobre GG no universo escolar identificados nos COMBRACE encontram-se distribuídos em dois diferentes grupos de trabalhos temáticos (GTT), a saber: Escola e Movimentos Sociais. A distribuição dos textos em relação ao ano e ao GTT segue a seguinte distribuição: “Composição coreográfica em ginástica geral” (UGAYA; TRUZZI, 2001) e “Ginástica geral: diagramação das formações coreográficas” (ROCHA, 2001), são os pôsteres apresentados em 2001 no GTT Escola; o texto “Análise e interpretação dos significados da ginástica geral na proposta do Grupo Ginástico Unicamp em instituições sócio-educativa” (PAOLIELLO; CHAPARIM, 2003) foi apresentado na forma de comunicação oral em 2003 no GTT Movimentos Sociais; já os textos“Ginástica geral na escola: uma proposta metodológica” (OLIVEIRA; LOURDES, 2005) e “Ginástica Geral: possibilidades de trato com o conhecimento gímnico na educação física escolar” (RINALDI; SOUZA, 2005), foram apresentados em forma de pôster em 2005 no GTT Escola. Em 2007 não foi publicado trabalho em GG no evento em questão. Esse baixo número O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 31 na produção acadêmica evidencia um tímido investimento no conhecimento quanto a GG no tocante a escola. Considerando os Anais do FIG (2007) e o conjunto de trabalhos publicados7 voltados para o nosso interesse, descamos os seguintes textos: “A influência das concepções da Ginástica Geral na construção da Cultura de Paz a partir da perspectiva de valores Humanos” (ABRAHÃO, 2007); “Uma análise acerca da prática pedagógica da ginástica geral com os adolescentes em situação de risco social da FEBEM de Araraquara/SP” (MATOS; EHRENBERG, 2007); e, “Valores da Ginástica Geral no contexto escolar” (REDONDO, 2007). Os três textos relatam pesquisa envolvendo valores postos enquanto humanos ou da GG. O primeiro é fruto da UFPR; o segundo é uma parceria entre professoras da Academia de Ensino Superior de Sorocaba, SP; e, o terceiro é proveniente da Unicamp. Ao relacionar algumas publicações no sentido de estabelecer um conjunto de informações que comunique, referencie, ou mesmo que se articule com os objetivos aqui propostos, constatamos uma baixa produção no que se refere à GG no contexto escolar. Embora o conjunto de trabalhos pesquisados aponte o tratamento de valores éticos em diferentes perspectivas, os mesmos mostram a demanda reprimida no contexto nacional para a discussão e aprofundamento dos termos relacionados, especificamente no campo da Educação Física, nos referimos a uma dimensão ética da prática esportiva na escola. Apesar da baixa produção no que trata a GG no contexto escolar em sua dimensão ética, chamo a atenção para o Grupo de Pesquisa em Ginástica Geral, da Faculdade de Educação Física da Unicamp, que ao longo dos anos vem se consolidando como pólo de pesquisa na área da GG no cenário brasileiro. O Grupo de Pesquisa em Ginástica Geral da FEF/Unicamp vem formando profissionais e ofertando produções acadêmicas que alicerçam 7 Acorsi, Emídio, Silva, Romão e Desidério (2007), Mérida e Nista-Piccolo (2007), Cesário e Pereira (2007), Carbinatto e Pezzotto (2007), Toledo (2007), Abrahão (2007), Firme, Favalessa, Porto e Paiva (2007), Gama (2007a), Tissei, Dermer, Santana, Parra, Oliveira, Rinaldi, Souza e Pereira (2007), Figueiredo, Hunger, Sanioto e Andrade (2007), Sborquia (2007), Bacciotti e Loshida (2007), Delbem e Brasileiro (2007), Pinto (2007), Redondo (2007), Yorges (2007), Utiyama (2007), Saralegui (2007), Gama (2007b). O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 32 outras pesquisas pelo país. Assim como a Professora Dra. Elizabeth Paoliello, a também professora Dra. Eliana Ayoub, entre outros, compõem esse importante grupo de fomento à pesquisa em GG. “Ginástica geral e educação física escolar” (AYOUB, 2004) é uma das referências mais citadas nas diferentes produções em GG no Brasil, fruto do trabalho desenvolvido pelo grupo. Outros grupos vêm trilhando o mesmo caminho, um deles é o Grupo de Estudos e Pesquisas em Ginástica do Departamento de Educação Física da Universidade Estadual de Maringá (UEM) através da Professora Doutora Alda Lúcia Pirolo e, na Universidade Estadual de Londrina, a Professora Doutora Ana Maria Pereira do Laboratório de Pesquisa em Educação Física.- LaPEF/UEL vem se dedicando ao estudo da GG. Ao encaminharmos esse estado da arte, destacamos a existência de outros pesquisadores de diferentes universidades investindo neste campo da Cultura de Movimento. Ao fim do estado da arte e ao iniciarmos uma breve apresentação dos autores que estaremos elegendo para ampliar a discussão, destacamos que apesar de abordarmos ética e política com freqüência em nossas discussões, enfatizamos que nessa pesquisa não estamos considerando sua aplicação a partir da Ética e da Política clássica. Essa opção não exclui a importância de pensadores da tradição filosófica como Platão, Aristóteles, Descartes, Spinoza, Hume, Kant, Kierkegaard, Nietzsche, Weber e, mais contemporaneamente, Foucault. Na busca de constituir o aporte teórico para sustentar nossas reflexões, perspectivando articular saberes que perpassam a ação pedagógica sobre a qual nos debruçamos e a existência de um conjunto de conhecimentos produzidos, recorremos a Humberto Maturana e alguns de seus principais parceiros, José Varela, Gerda Verden-Zöller e Sima Nisis de Rezepka. Abordaremos ainda Paulo Freire, Edgar Morin e outros autores, que embora menos freqüente, são importantes para ampliar, articular, e assim, contribuir para alicerçar os apontamentos, conteúdos desse estudo. Ao longo do texto, acrescentamos ainda outras produções acadêmicas, específicas do universo da Educação Física na lida com o corpo e da ação pedagógica do Professor de Educação Física no âmbito escolar. Destacamos a produção do Grupo de Estudo e Pesquisa Corpo Cultura de Movimento – O mito de Sísifo e o desafio docente ______________________________________________________________________ 33 GEPEC, assim como sua parceira o Paidéia (Núcleo de Formação Continuada de Professores de Artes e Educação Física/UFRN). Organizamos o conteúdo dessa pesquisa em seis partes. Além deste capítulo introdutório, constitui o conteúdo dessa dissertação: ética: compreensões textuais; condutas relacionais da convivência; condutas relacionais indesejáveis e não-sociais; ginástica geral como aposta ética e política na formação humana. Em ética: compreensões textuais, fazemos uma breve introdução para distinguirmos o campo ético o qual estaremos avançando no decorrer do conteúdo dessa pesquisa. Nas condutas relacionais da convivência, assim como, nas condutas relacionais indesejáveis e não- sociais, analisamos os textos e apontamos os sentidos éticos, discutindo-os alicerçados pelo aporte teórico dessa pesquisa; em ginástica geral como aposta ética e política na formação humana, apontamos algumas possibilidades para a prática da ginástica, da educação física, para pensar a educação pelo viés da formação humana, por fim, nem condenação sísifa nem meninas lobo, retomamos as questões iniciais para brevemente situar que a condição humana só é possível quando se vive entre humanos e que é nesse viver entre humanos que aprendemos a ser. Destacamos que as imagens que seguem no texto são meramente ilustrativas. Ética: compreensões textuais ______________________________________________________________________ 35 ÉTICA: COMPREENSÕES TEXTUAIS Somos herdeiros de um legado cultural que se propaga através do tempo. Entre a herança cultural, uma área do conhecimento que trata do pensamento do comportamento moral, estamos nos referindo à Ética. Ao longo da tradição acadêmica, compreendemos a importância de alguns pensadores para a constituição deste campo específico da Filosofia. Em Textos básicos de ética, Marcondes (2007) reporta-se à A República e Górgias de Platão, assim como, à Aristóteles em Ética a Nicômaco, e as idéias clericais de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino quanto ao livre-arbítrio, confissões e a suma teológica, passando por outros nomes, entre eles, Spinoza, Hume, Kant, até chegar a Moral e prática de si de Foucault. Esse legado constitui uma fração do que se tem produzido sobre Ética ao longo da História. Na seqüência, apresentaremos resumidamente alguns paradigmas que cercam esse legado. Para tanto, recorremos a Marchionni8 (2008).Em Ética, a arte do bom (MARCHIONNI, 2008), é possível perceber a ética a partir de três grandes vertentes relacionadas à razão humana, a saber: Deus e religião (teísmo), Deus sem religião (deísmo) e nem Deus nem religião (ateísmo). Na perspectiva teísta, a razão Criadora é mãe da razão humana a partir dos códigos revelados do judaísmo, cristianismo e islamismo. No deísmo, a razão humana é parte da razão cósmica, muito comum nas filosofias cósmico-espiritualistas do Oriente e no Platonismo. Diferente da perspectiva ateísta edificada principalmente no Racionalismo iluminista-materialista. Marchionni (2008) defende a ética como o Bom Sumo, ou seja, o bom supremo. Destacando outros paradigmas, o autor traz o Bom Sumo ora relacionado ao Criador, ora a Natureza habitada pelo Espírito, ora a Liberdade do homem. A essência dos diferentes modos de ver e de se mover no mundo, 8 Antonio Marchionni nasceu na Itália em 1944 e vive no Brasil desde 1974. Completou os estudos de Filosofia e Teologia na Universidade Urbaniana de Roma e de Letras clássicas na Universidade do Sagrado Coração de Milão. É mestre em Teologia pela PUC-SP e doutor em Filosofia pela Unicamp. Foi missionário e agente social na Amazônia. Professor de Teologia e de Ética nos Negócios na PUC-SP e professor de Filosofia Medieval e Teoria do Conhecimento na Unifai de São Paulo. Ética: compreensões textuais ______________________________________________________________________ 36 consiste na afirmação de condutas morais. Na seqüência, apresentaremos brevemente o que diz cada um desses paradigmas. O Bom Sumo é o Criador parte da ética numa perspectiva religiosa, organizada a partir de um Livro Revelado, por exemplo: Torá para os judeus, Bíblia para os cristãos e Alcorão para os islâmicos, ou seja, os livros sagrados das diferentes culturas religiosas. Seus adeptos crêem que o universo teve um Criador (MARCHIONNI, 2008). O Bom Sumo é a Natureza habitada pelo Espírito é conhecida na meditação, no ensinamento do guru (o iluminado). Seus adeptos crêem no Grande Todo e buscam a sintonia espiritual com a “Alma do Mundo”, designada nirvana; cultivam a idéia comum de que a matéria é habitada pelo espírito eterno. Constitui manifestações dessa forma do Bom Sumo no oriente o Hinduísmo, o Budismo, o Taoísmo, o Xintoísmo, o Confuncionismo, o Jainismo e o Sikhismo; e no ocidente, o Platonísmo, Estoicismo, Espinoza e Hegel (MARCHIONNI, 2008). Em O Bom Sumo é a Liberdade do Homem tem na Ética Materialista seu principal paradigma. Seus adeptos crêem que só existe a matéria, suas regras de condutas não são pautadas em Livros sagrados, mas no fluir da razão humana, a partir do exercício das ciências. Compreendem as principais doutrinas desse paradigma o positivismo, o Epicurismo, o Marxismo, o Niilismo nietzschiano, o Freudismo, o Existencialismo e o Utilitarismo (MARCHIONNI, 2008). O que podemos tomar essencialmente na produção de Marchionni (2008) é que o bom está posto como objeto da Ética. Destacamos que essa compreensão do bom como objeto da ética se dá na perspectiva da razão. Compreendemos assim, que, toda forma de expressão ética está diluída de alguma maneira no cotidiano da vida social na qual estamos inseridos. Sem desconsiderar o que está posto na Ética tradicional, compreendemos que a essência dos diferentes modos de ver e de se mover no mundo, numa perspectiva moral, consiste na afirmação de condutas que ocorre no convívio social (MATURANA, 1995, 1997, 1998, 2001), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004), (MATURANA; REZEPKA, 2000). É importante que antes de apontarmos o entendimento ético que povoa os sentidos, a conduta e Ética: compreensões textuais ______________________________________________________________________ 37 a escrita dos atores sociais dessa pesquisa, façamos uma breve elucidação da compreensão da qual estamos partindo. Morin (apud, ALMEIDA, 2005), aponta as unidades indivíduo-sociedade- espécie, natureza-cultura e individual-coletivo, para uma outra perspectiva de se pensar ética. Conforme ainda o autor acima, a articulação da história da vida com a história da cultura e da história individual de cada pessoa, constitui o espaço para se pensar a ética, porque “a ética se manifesta em nós e de forma imperativa, como exigência moral” (MORIN, apud ALMEIDA, 2005, p.1). Assim, a ética, na concepção moriniana, constitui-se como um campo de diálogos possíveis, entre natureza e cultura, e entre, indivíduo e sociedade. Constitui de forma interligada esse imperativo ético, uma fonte interior ao indivíduo, que se manifesta como um dever, uma externa constituída pela cultura, e por fim, uma fonte anterior, cuja origem corresponde a uma ordem biológica (ALMEIDA, 2005). Nesse sentido, iniciamos nossa reflexão sobre ética pensando na nossa condição, o entendimento de quem somos e de que forma estamos no mundo. Nas diferentes vestes do conhecimento, por exemplo, Física, Filosofia, História, Antropologia, Sociologia e Biologia, o corpo é compreendido de diferentes formas, sobre a justificativa de dizer quem somos. Contudo, o que ocorre muitas vezes é a negação do que somos. Como ilustração e como exemplo, recorremos a Gaiarsa (1998, p.13) que nos mostra o homem freudiano: o mesmo não passa de “um terotoma (um tumor embrionário)”, uma vez que é percebido na redução das fases oral, anal e genital. Em “Borboletas, homens e rãs”, Almeida (2002) insere uma reflexão sobre o percurso científico e os diferentes discursos que cindiram o entendimento de quem somos; reflexão esta que vai em busca do elo perdido entre corpo, natureza e cultura. As rupturas destacadas pela autora no texto são evidenciadas nas diferentes áreas do conhecimento e em seus variados recortes. Vejamos o fragmento citado a seguir. Primaram em explicar a cultura, a sociedade e a condição humana de forma cindida e esquizofrênica, quase sempre isolando-as das contingências biológicas. Uma anatomia perversa esquartejou o sujeito: homo economicus, faber, um produto do passado, um singular étnico, um autômato simbólico, uma entidade mítica. Essas fraturas e ‘determinações em ultima instancia’ desenham um homem Ética: compreensões textuais ______________________________________________________________________ 38 esquadrilhado por territórios sem ligação, um sujeito disforme e mal remendado, uma colcha de retalhos com costura grossa (ALMEIDA, 2002, p.44). Preservado entre nós o pensamento de que somos a religação dos diferentes entendimentos, a amalgamação entre os diferentes discursos do corpo. Somos um conjunto de matéria sensível que existe em movimento e com o outro, no tempo e no espaço, convivendo e mediando, produzindo ou descansando, somos parte natureza, parte cultura. Afirmar nossa condição natural não quer dizer negar a nossa condição cultural e vice-versa; principalmente quando entendemos, nessa perspectiva, que ser uma coisa implica imediatamente ser a outra. Somos homo sapiens, enquanto discurso biológico, e somos humanos, enquanto discurso antropológico. Portanto, somos inicialmente discursos de nós mesmos. Estes discursos servem em parte para nos distinguir das demais estruturas vivas, para negar nossa condição animal, mas o curioso é que, quanto mais tentamos, mais ficamos implicados na nossa condição primeira dentro do contexto em que existimos, pois não são apenas nestes discursos que existimos e coexistimos, mas no espaço, no tempo, na vida. É nesse sentido que constituiremos nossa reflexão sobre ética, numa perspectiva de coexistência, possibilidade em que encontramos espaço para a amalgamação das compreensões que cercam as interações, a linguagem, as condutas e os afazeres humanos. Estaremos considerando e utilizando no decorrer desse trabalho, o seguinte axioma: Todo ato humano ocorrena linguagem. Toda ação na linguagem produz o mundo que se cria com os outros, no ato de convivência que dá origem ao humano. Por isso, toda ação humana tem sentido ético. Essa ligação do humano ao humano é, em última instância, o fundamento de toda ética como reflexão sobre a legitimidade da presença do outro (MATURANA; VARELA, 2002, p.269) Assim, partiremos da compreensão de que não existe ato humano fora da linguagem; que todo ato humano se dá com o outro, na relação; que toda ação humana é linguagem, assim como toda linguagem é ação humana; que são a partir das interações que produzimos coletivamente; que esse mundo é Ética: compreensões textuais ______________________________________________________________________ 39 um acerto de condutas coletivas entre nós humanos ao longo da nossa ontogenia e epigenia (MATURANA; VARELA, 1997, 2002), (MATURANA, 1995, 1997, 1998, 2001), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004), (MATURANA; REZEPKA, 2000). Em “A Árvore do Conhecimento, as bases biológicas da compreensão humana”, Varela e Maturana (2002), apresentam a seguinte tese: a vida é um processo de conhecimento. Buscando compreender essa idéia, os autores desenvolvem a biologia da cognição, demonstrando como os seres vivos conhecem o mundo e como juntos compartilhamos o viver. Portanto, o mundo em que vivemos é o mundo a qual fazemos parte; um influencia a existência do outro e nele apreendemos, existimos e nos relacionamos. É nesse caminho que compreenderemos não só a perspectiva ética, mas o sentido que nos tornam humanos. O humano surge na história evolutiva a que pertencemos ao surgir a linguagem, mas se constitui de fato como tal na conservação de um modo de viver particular centrado no compartilhamento de alimentos, na colaboração de machos e fêmeas, na criação da prole, no encontro sensual individualizado recorrente, no conversar. Por isso todo afazer humano se dá na linguagem, e o que na vida dos seres humanos não se dá na linguagem não é afazer humano; ao mesmo tempo, como todo afazer humano se dá a partir de uma emoção, nada do que seja humano ocorre fora do entrelaçamento do linguajear com o emocionar e, portanto, o humano se vive sempre num conversar (MATURANA, 1997) Quando tratamos dos domínios de existência e as dimensões do espaço relacional, é importante compreender como o humano surge. Assim, a partir do entrelaçamento do linguajear9 com o emocionar10 que nós, seres humanos, começamos a desenvolver a nossa humanidade. A linguagem, as emoções e os afazeres pertencem ao domínio da conduta, que junto com a dinâmica fisiológica, constituem os domínios de nossa existência e, consequentemente, as dimensões do espaço relacional (MATURANA, 1997, 2001). 9 Para Maturana (1997, p.168), o linguajear constitui um neologismo que faz referência ao ato de estar na linguagem sem associar tal ato à fala, como aconteceria com a palavra falar. 10 “As emoções são disposições corporais dinâmicas que especificam os domínios de ações nos quais os animais, em geral, e nós seres humanos, em particular, operamos num instante” (MATURANA, 2001, p.129). Ética: compreensões textuais ______________________________________________________________________ 40 No momento em que se pode demonstrar que a linguagem, como fenômeno, existe nas coordenações de ação, tudo o que ocorre no que poderíamos chamar de fisiologia fica implícito e fico oculto. Nós, seres humanos, existimos em dois domínios. Existimos como seres humanos no domínio da linguagem: é na linguagem, nas coordenações de ações que acontece isso da conversação do discurso, da reflexão, da poesia. Mas é na fisiologia que acontece a base absolutamente invisível, a partir da qual surge na linguagem, nas coordenações de ação (MATURANA, 2001, p.99). O que nos constitui humanos, não é só um legado de afazeres/técnicas aprendidos ao longo da vida, mas a forma pela qual captamos essas técnicas em nossa estrutura e como a nossa estrutura responde e produz novas técnicas. As interações, a linguagem e a emoção são essenciais para o que nos constitui humanos, assim como é essencial o aparato que nos constituem sistemas, seres vivos. A linguagem como um fenômeno biológico se explica pelo determinismo estrutural, ou seja, na história de interações dos seres vivos [epigênese], na qual é possível constatar a recursividade. Os sistemas determinados estruturalmente são sistemas nos quais as interações desencadeiam mudanças que estão determinadas neles mesmos (MATURANA, 2001, p.74. Grifo nosso). Interagir é operar na linguagem (MATURANA, 1995, 1997, 1998, 2001), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004), (MATURANA; REZEPKA, 2000). A partir do momento em que interagimos, operamos na linguagem, assim como, ao operarmos na linguagem, estamos interagindo. A linguagem corresponde às coordenações de ação como resultado de interações recorrentes. (MATURANA, 2001). As coordenações de coordenações são recursões, ou seja, o produto de uma interação é objeto de aplicação para novas interações e assim sucessivamente. “Para afirmar uma recursão é preciso fazer uma referência histórica” (MATURANA, 2001,p.73). Portanto, as interações, ou as coordenações consensuais de conduta, pertencem ao campo da história da espécie (epigênese). “A história de interações de um ser vivo no meio dura necessariamente enquanto houver interações e enquanto se conservem duas Ética: compreensões textuais ______________________________________________________________________ 41 condições: a organização do ser vivo e a correspondência com o meio” (MATURANA, 2001, p.76). Maturana (2001) faz uma distinção entre organização e estrutura. O mesmo considera o termo organização exclusivamente para fazer referência às relações entre componentes que definem a identidade de classe de um sistema, enquanto que estrutura designa os componentes mais as relações entre eles, ao realizar uma unidade particular. Tanto os componentes quanto a estrutura precisam satisfazer as relações de organização. Embora a organização não faça referência aos componentes, a estrutura faz. Quando abordamos os assuntos que tratam da organização do ser vivo e a correspondência com o meio, logo pensamos em autopoeise e deriva natural. “Deriva faz referência a um curso que se produz, momento a momento, nas interações do sistema e suas circunstâncias” (MATURANA, 2001, p.81). Para Maturana (1997, 2001) e Maturana e Varela (1997, 2002), o que define autopoiese é a organização própria da vida. Caso a organização de um determinado ser vivo seja violada, esse sistema perde sua identidade de classe e passa a ser outra coisa. A história de um sistema é uma deriva estrutural (MATURANA; VARELA, 1997, 2002; MATURANA, 1995, 1997, 1998, 2001). A vida de cada um de nós é uma deriva de mudanças estrutural contingente com as nossas interações. Para Maturana (1995, 1997, 1998, 2001), não é o meio que nos conduz, mas a nossa congruência com o mesmo. “Organismo e meio vão mudando juntos, uma vez que se desliza na vida em congruência com o meio”. (MATURANA, 2001, p.80). Estar em congruência com o meio é estar em concordância com a vida, e estar em concordância com a vida é estar em coerência com a organização do sistema a qual pertencemos. Sendo a estrutura variável, sua variação pode ou não conduzir a conservação da identidade de classe, numa perspectiva biológica (MATURANA, 1995, 1997, 1998, 2001). Essa variação da estrutura corresponde a ruptura da autopoiese. “A história de um ser vivo é uma história de interações que desencadeiam nele mudanças estruturais: se não há encontro, não há interação, e se há encontro, sempre há um desencadear, uma mudança estrutural no sistema” (MATURANA, 2001, p.75). Ensina-nos Maturana (1995, Ética: compreensões textuais ______________________________________________________________________42 1997, 1998, 2001) que não somos nós que definimos o meio, tampouco não é o meio que nos define, mas a coerência que existe entre nós, explicado pelo principio da deriva natural. A partir de Maturana (1998) compreendemos que as relações sociais são todas as interações que se baseiam na aceitação do outro como legítimo outro na convivência. Portanto, é na relação social que as interações acontecem e são nas interações que, a relação social se efetiva. Para o autor (Op. Cit.), é pela forma de nos mover que nos reconhecemos ou nos estranhamos, principalmente se estivermos imersos na mesma história de interações. Assim, quando o curso corporal de todos nós se parece, acidental/casualmente com a história de interações de nosso agrupamento, nos identificamos, nos reconhecemos, nos aceitamos e convivemos, o que implica compreender a afirmação do autor que diz: “Interação implica num encontro estrutural entre os que interagem” (Maturana, 1998, p.59). O encontro estrutural é o curso corporal que nos identifica, nos reconhece e nos faz afins. As interações, a princípio, só são possíveis no conversar, manifestação da ação do linguajear, concomitante ao fenômeno da linguagem (MATURANA, 1998, 2004). Para Maturana (2004), o linguajear constitui uma seqüência de ações comunicativas entre aqueles que interagem, já a linguagem “se constitui quando se incorpora ao viver, como modo de viver, este fluir em coordenações de conduta de coordenações de conduta que surgem na convivência como resultado dela – quer dizer, quando as coordenações de conduta são consensuais” (Maturana, 1998, p.59), em outras palavras, quando o curso corporal de dois ou mais sujeitos implica num ato comunicativo, de resposta mútua de atitudes corporais de forma sucessiva e rotineira. Para Maturana e Varela (1997, 2001) e para Maturana (1997, 2004) cada indivíduo traz consigo rastros da epigênese particular da espécie. A epigênese particular está associada ao fluir das coordenações de ações e emoções vividas por cada indivíduo na história de interações, sendo mais relevante às interações familiares, principalmente aquelas vividas com a figura materna, que pode ser qualquer sujeito que assuma na prole o papel correspondente a função materna (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004). Ética: compreensões textuais ______________________________________________________________________ 43 Para Maturana (1998, p.76) a “linguagem sempre nos prende no fazer”. A linguagem se manifesta de diferentes formas, é ela, também, componente desse curso corporal que nos aproxima ou distancia, quando aceitamos ou negamos o outro na convivência. A linguagem, por exemplo, que nos prende no fazer do GGTP é a ginástica, mas não qualquer ginástica, mas a ginástica geral e as linguagens que adotamos em nosso projeto para essa prática, nos referimos a ginástica rítmica, a ginástica aeróbica esportiva, a ginástica acrobática, além de outras expressões não gímnicas, como por exemplo, a dança, o teatro e o circo. O fazer segundo Maturana (1997, 2004) é o fluir em coordenações de conduta de coordenações de conduta consensuais que surgem na convivência como resultado dela. A ginástica geral constitui um particular fazer quando surge no fluir em coordenações de conduta de coordenações de conduta consensuais na convivência entre pessoas do GGTP. A Escola Municipal Terezinha Paulino de Lima constitui um dos espaços de interações dessas pessoas, sendo ela o principal lugar de interações dessas pessoas na condição de ginastas, indivíduos implicados nesse fazer específico. Essa perspectiva de compreender a escola como ambiente de interações, nos faz pensar na escola como um campo da interação potencializado, no qual coexistimos e aprendemos. O que está envolvido no aprender é a transformação de nossa corporalidade, que segue um curso ou outro dependendo de nosso modo de viver. Falamos de aprendizagem como da captação de um mundo independente num operar abstrato que quase não atinge nossa corporalidade, mas sabemos que não é assim. Sabemos que o aprender tem a ver com as mudanças estruturais que ocorrem em nós de maneira contingente com a história de nossas interações (MATURANA, 1998, p.60). Lembremos Freire (1979), em Educação e Mudança, que já afirmava que nós, seres humanos, somos seres de relações e não estamos apenas no mundo, mas sim, com o mundo. Assim, somos seres capazes de transcender e objetivar a nós mesmos, e ainda de distinguir. Nessa perspectiva é que compreendemos a nossa realidade, mas só o fazemos com o outro, na convivência, como afirma incansavelmente Maturana, no conjunto da obra. É a Ética: compreensões textuais ______________________________________________________________________ 44 nossa condição de seres linguajeadores, fazedores, possuidores de uma epigenia particular de interações e de convivência que seguimos um curso corporal, ou como prefere o próprio Maturana (1999), corporalidade. Essa corporalidade, que também nos identifica como seres humanos, é a mesma que nos diferencia dos demais seres vivos. Somos essa corporalidade que nos torna capaz de nos relacionar uns com os outros, mas também de nos projetarmos em outros (FREIRE, 1979), principio ético fundamental que compactua com a antropo-ética de Morin (2005). Morin (2005) quando afirma que ainda de acordo com esse autor, “não desejar para os outros, aquilo que não quer para você” expõe a condição da antropo-ética, balizada em três elementos: indivíduo, sociedade e espécie. Morin (2005) defende a interligação destes três elementos desde O paradigma perdido: a natureza humana. Esse princípio ético fundamental nos faz desde já apostar numa coexistência no respeito e no amor. Compreendemos que toda ligação entre humanos é um fundamento da ética em qualquer discurso, em qualquer tempo, legitimando a presença e a importância do outro na condução de si e da vida em grupo. Por que ao nos movermos no domínio de ações, nos emocionamos e emocionamos, o que constitui distintas disposições corporais, que na condição de expressão amorosa nos atrai para o convívio (MATURANA, 1989, 2001). Os valores estabelecidos para a condução da vida na coletividade se referem a um acerto complexo entre os atores sociais implicados nesse desafio. Pois compreendemos que é no convívio que a conduta ética se revela. A partir do seguinte capítulo, em condutas relacionais da boa convivência, nos propomos responder as questões propostas no início desse trabalho. Desde já, adiantamos que encontramos nos sentidos éticos relacionados os valores que regem as interações no GGTP; de outra forma, relacionamos nas condutas relacionais indesejáveis, emoções que refletem a negação do outro no convívio ou que não corrobora para que as interações aconteçam. Compreendemos que os sentidos a seguir relacionados constituem um conjunto que corresponde ao centro da nossa reflexão, designados a partir de uma conjuntura, uma experiência vivida por sujeitos vivos, atores sociais, que derivam no espaço e no tempo e que compartilham emoções no interagir. Ética: compreensões textuais ______________________________________________________________________ 45 Destacamos que, no decorrer desse estudo, estaremos postulando a convivência como um dos componentes essenciais para a compreensão ética a qual nos propomos. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 47 CONDUTAS RELACIONAIS DA CONVIVÊNCIA Estaremos abordando e discutindo nesse capítulo os indicadores éticos e seus sentidos para os integrantes do GGTP, enquanto conteúdos que implicam em condutas relacionais da convivência. Verificaremos ao longo do texto que a associação dos domínios do emocionar com o linguajear constituem o que estamos designando por convivência, entendendoque a mesma se dá, a princípio, na partilha de um desejo comum como propõe Maturana (1995, 1997, 1998, 2001). Enfatizamos que os indicadores aqui tratados são expressões das interações dos atores sociais envolvidos nessa pesquisa, o que não permite qualquer iniciativa em constituírem por si, ou em si, um código ético rígido, visto que os mesmos correspondem ao produto recursivo do operar na linguagem como proposto por Maturana no conjunto da obra. A união, por exemplo, é um dos indicadores éticos. A mesma foi apontada por 80% dos atores sociais analisados. Os mesmos expressaram sentidos para compreender a união no convívio entre os pares e a importância desse aspecto ético para a vida do grupo. O GGTP é um grupo de pessoas unidas que tem como objetivo mostrar nosso trabalho. O nosso objetivo maior é o que nos uni. [...] A união do nosso grupo é muito importante para a realização do nosso trabalho. Por isso, é que amo todos do GGTP e sei que ninguém consegue sair do grupo sem levar consigo um sentimento especial pelas pessoas ou por parte delas (Caroline Diniz). A partir do fragmento, observamos que Caroline Diniz percebe a união como uma característica ética do grupo, assim como, conseqüência de uma amorosidade. Para Maturana (2000, 2001), a convivência é resultado de dois domínios, o emocionar e o linguajear. O que nos faz pensar que as interações são manifestações de partilhas de saberes e emoções que se dão na convivência, e que, as interações só são possíveis na união. Observamos que a união apresenta-se como expressão do que estamos considerando convivência. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 48 Compreender a importância da convivência com outros é reconhecer, em parte, a importância que os outros tem no todo. “Quando digo que a GGTP é uma família, eu não o digo apenas por dizer. Existe uma razão pra isso, e essa razão é a união e a amizade que compartilhamos [...]” (Llows). No sentido inverso, expõe Llows o reconhecimento da importância do todo quando se refere às partes. Expõe, portanto, a importância das partes para o todo e do todo para as partes. Nesse sentido, compreendemos que os domínios que unem os atores sociais, ou seja, o linguajear e amor, também são partes que constitui o todo, aqui tomada como convivência. “Convivência é quando as pessoas se vêem com freqüência, conversam e mantém uma rotina entre elas. Manter uma rotina com o outro é estar sempre ao lado de alguém, agindo em conjunto, unidos” (Stephany). Ao tentar conceituar a convivência, o sujeito afirma a necessidade do outro na manutenção dessa estrutura coletiva e, também, da troca de saberes, ou seja, da aprendizagem. Acena Stephany para uma possibilidade de compreender porque a partilha, assim como a união, entre outros, são apontadas como virtudes pela maioria dos sujeitos analisados nessa pesquisa. Para tanto, tomemos a partilha/compartilhar para pensarmos inicialmente esses sentidos. Partilhar e compartilhar, do mesmo gênero semântico, são sinônimos e indicam a divisão, a repartição de algo. Ambos constituem um dos indicadores éticos, produtos da convivência no GGTP. Estamos considerando aqui a partilha no sentido de troca, de compartilhamento de desejos comuns que se dão na interação entre sujeitos na convivência, como sugerido em geral por Maturana, nas obras aqui citadas, ou de forma mais específica, a partir da biologia do amor (2004). Para Maturana (1998), ao gerarmos na convivência um projeto, nos unimos em torno de um desejo comum e, assim, constituímos um espaço de aceitação mútua. A convivência é produto das interações, sendo as interações frutos de um desejo comum (MATURANA, 1998). O desejo comum que nos une no GGTP é o fazer gímnico. A prática em si não é o que conduz os atores sociais da relação à condição de entes – o outro como objeto de desejo no relacionamento (AQUINO, apud ABBAGNANO, 2007, p. 122) – mas a condição Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 49 dessa prática como objeto de desejo comum. É deste objeto de desejo comum que provém um objetivo comum: mostrar o trabalho produzido no grupo. Compreendemos, contudo, que o desejo comum tanto pode despertar a conduta de partilha como a de disputa. Quando disputamos o objeto de desejo, negamos o outro como legítimo outro na convivência. Já quando compartilhamos o desejo, afirmamos o outro como legítimo outro na convivência. O que diferencia a constituição de um quadro de convivência com o de disputa é a possibilidade de disposição corporal, em aceitar o outro como legítimo outro da convivência, como já identificamos no conjunto das obras de Maturana, aqui citadas. Portanto, compreendemos que a reciprocidade da aceitação dos atores sociais como legítimos outros da convivência nos conduz às interações que nos tornam parceiros, compartilhando o mesmo desejo. De outra forma, quando negamos o outro como parceiro frente ao desejo comum, passamos a uma negação de interações com esse sujeito, disputando o objeto de desejo e o tomando como adversário. Compreendemos assim que, não é o desejo comum que conduz a uma conduta de aceitação ou negação do outro como legítimo outro da convivência, mas a nossa disposição corporal em nos emocionar com o outro, ou não, em torno deste objeto de desejo. É neste sentido que compreendemos que, o desejo comum tanto pode rivalizar pessoas como torná-las companheiras, caso específico dos integrantes do GGTP. As condutas relacionais que se dão no âmbito das aulas do Grupo Ginástico da Escola Municipal Terezinha Paulino, ou seja, no domínio de congruência entre os atores sociais e o meio onde estamos convivendo, constituem os próprios indicadores que na condição de gesto, constitui a aceitação ou negação do outro na convivência. Compreendemos que ao aceitar o outro como legítimo outro na convivência, nós nos conduzimos com o outro numa relação de boa convivência. De outra forma, quando negamos o outro como legítimo outro na convivência, nossa conduta refuta a interação com o outro, conduta essa indesejável, principalmente quando buscamos o caminho da boa convivência. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 50 Apontada nessa pesquisa como um indicador ético, o partilhar/compartilhar quando posto em relação com a disputa, constituem reciprocamente um exemplo de aceitação e de negação do outro na convivência. A aceitação se dá no instante em que dois ou mais integrantes dividem o desejo comum pela disputa, mas a disputa por algo implica na suspensão da aceitação do outro na convivência (MATURANA, 1995, 1997, 1998, 2001), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004), (MATURANA; REZEPKA, 2000). Observado que o que nos envolve no GGTP é aquilo que nos une, uma base emocional que nos unifica em um projeto comum, ou seja, a ginástica geral. Observado ainda que, para Maturana (1998), as relações humanas acontecem sempre a partir de uma base emocional que nos unifica em um projeto, que a priori é de convivência, apresentamos outro fragmento, expressão de linguagem que compartilham e ilustram as considerações: “...acredito que vai ser cada vez melhor, porque somos muito unidas e queremos muito bem umas as outras e a ginástica também” (Caroline Bezerra). Nesse sentido, a GG constitui um afazer, que se revela no linguajear e no emocionar dos atores sociais, constituindo-se um bem comum. Para defender esse bem que todos compartilham o valor, faz-se necessário a união: “...procuramos crescer juntas, ou seja, vencer os obstáculos unidas, isso nos ajuda a ficar mais próximas uma da outra” (Fabrícia); “[...] O que nos faz fortes é a nossa união” (Pollyana). Entendemos assim, que a união é valorizadano grupo, e em si, surge como uma fraternidade não oficializada que se explica a partir do desejo comum, das interações e da aceitação do outro como legítimo outro na convivência. A união pertence ao domínio das interações, portanto, é agregadora. A mesma envolve os sujeitos numa relação em torno de um bem comum, articulando propósitos individuais (MATURANA, 1995, 1997, 1998, 2001), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004), (MATURANA; REZEPKA, 2000). Quando esses propósitos individuais se tocam urdem uma teia de interesses que não perde o seu sentido individual, mas acabam revelando o interesse coletivo que no caso do GGTP é o fazer gímnico. Portanto, compreendemos Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 51 também que, a prática da ginástica geral, objeto de desejo comum, atrai pessoas para o convívio. Vejamos a seguinte fala: “[...] Graças à união de todas nós, ginastas e a dedicação do Professor Leonardo, a coreografia estava pronta” (Fernanda). Ao se expressar, Fernanda expõe que a união, além da dedicação, são fatores que contribuíram para o êxito do trabalho. O fragmento posto se reporta ao episódio da viagem de parte dos integrantes a cidade de Campinas, interior de São Paulo, oportunidade em que participamos do Fórum Internacional de Ginástica Geral, em agosto de 2007. A viagem passou a ser um objeto de desejo comum e, nesse sentido, foi possível verificar a materialização de valores como união, partilha, solidariedade, cooperação, só para citar alguns. Vejamos outro trecho da fala de Fernanda que afirma as avessas, a mesma idéia: “... Não nos saímos bem em relação a nossa primeira apresentação, acho que foi falta de concentração e também por que estivemos separadas o dia inteiro, umas fazendo cursos outras se divertindo. Faltou a energia do grupo na hora da apresentação” (Fernanda). O que implicou na má apresentação do grupo foi o rompimento do desejo comum, ou seja, o interesse pela ginástica. A separação e o distanciamento só confirmam a diluição de interesses naquele momento. “[...] Sinto orgulho de fazer parte de um grupo unido. Aquilo que um dia foi uma experiência nova pra mim, ainda hoje não deixa de ser” (Pollyana). Esse tipo de experiência não caduca, visto que no dia-a-dia a mesma é renovada de forma recursiva, na interação entre os atores sociais e desses com outros sistemas, principalmente se consideramos os princípios da ontogenia e da convivência. É no operar na linguagem, na interação do sujeito com os demais participantes, ou com outros sistemas vivos implicados em algum desejo comum, que o sentido de união se renova. Compreendemos que o fazer gímnico na coletividade depende da união entre sujeitos, sendo essa a condição pela qual um ator social aceita o outro na convivência. Para Maturana e Rezepka (2000, p.14 - 15), o amor “é um domínio de condutas relacionais através das quais o outro surge como legítimo outro em convivência com alguém”, nesse sentido, pensamos a união no GGTP, também como uma manifestação amorosa, por envolver pessoas em Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 52 condutas relacionais em que o outro é tomado como legítimo outro em convivência. Isso implica pensar o exercício do linguajear e o emocionar na convivência como essenciais para a condição humana, sendo o amor a emoção latente que nos eleva a essa condição. Ao mergulharmos nas falas dos atores sociais, buscamos removê-las em busca dessa disposição corporal que constitui a operacionalidade das ações que nos fazem sujeitos amorosos. A ginástica para mim tem grande importância, porque me sinto a vontade, tenho várias amigas – tenho um grande carinho, um grande amor por todos da ginástica – aprendi muitos valores, como confiança. Passei a confiar mais nas minhas colegas e principalmente no professor (Pollyana). Antes de um valor ético, percebemos a partir de Maturana e Verden- Zöller (2004), que o amor pertence ao domínio das emoções. Quando o sujeito interage, ele já manifesta aí uma condição amorosa (MATURANA; VERDEN- ZÖLLER, 2004). É no convívio que o indivíduo vive com outras pessoas diferentes emoções que se manifestam de diferentes formas, por exemplo, os afetos. As manifestações afetuosas constituem emoções que ocorrem na própria convivência e que estamos denominando de amor. Essas condutas amorosas se renovam diariamente, pelo fenômeno recursivo que se produz nas interações. As manifestações de afeto são tão vitais para a manutenção das interações, quanto é as interações para a manifestação do afeto. Talvez essa reciprocidade ajude a compreender melhor o que afirma Cyrulnik (2005, p.12): “O afeto é um compromisso tão vital que, privados dele, tendemos a nos apegar de qualquer acontecimento que faça aparecer um fio de vida em nós, não importa a que preço: estar sozinho é o pior sofrimento...”. Portanto, ser companheiro é existir com o outro, o que nos permite pensar e apostar numa existência amorosa. É no convívio que nós, atores sociais do GGTP, observamos no interagir a reciprocidade das condutas afetuosas que aqui estamos designando por indicadores éticos, entre os quais, a responsabilidade. A responsabilidade é um dos valores mais recorrentes entre nós. Podemos visualizá-la em diferentes momentos. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 53 [...] A ginástica me mostrou que temos escolhas e que temos a responsabilidade sobre aquelas que fazemos. Fazer uma escolha é assumir responsabilidade e isso é um desafio, pois estamos aprendendo a ter maturidade, uma vez que ainda somos pré-adolescentes, e por isso, antes de assumir cada responsabilidade, nós temos que pensar muito. (Pollyana). Pollyana compreende no seu estágio de maturidade que é possível escolher e que o resultado da escolha e suas conseqüências são de responsabilidade daquele que escolhe. Nesse sentido, o ato de escolher é em si um ato de responsabilidade que, na visão dela, é um desafio, parte do seu amadurecimento. Ser responsável é responder pelos próprios atos, é corresponder à própria decisão tomada. Expõe a mesma, da necessidade de ponderar para tomar decisões, necessidade essa que gira em razão das conseqüências que essa possa ter sobre as coisas, sobre os sujeitos envolvidos na convivência e sobre si. Segue o mesmo caminho o seguinte registro: Sei que poder decidir é em si uma vitória, uma conquista, nem todos podem isso. Isso implica responsabilidades, pois toda escolha tem conseqüências. Por isso, sei que dependendo da escolha que eu faça, a estrada pode apresentar mais ou menos barreiras. Fácil não é superar as barreiras, tão pouco escolher o caminho a tomar, o mais fácil é sonhar, mas sem sonhos não há caminhos, não há obstáculos, não há lugar aonde chegar. É preciso dar o primeiro passo, é preciso sonhar. Resta saber para onde a ginástica vai apontar, pois o caminho cabe a eu decidir. (Naya). Mesmo segura e confiante, Naya ao tomar decisão sabe da responsabilidade que é decidir. Optar por algo tem conseqüências e ela sabendo disso, entende o sentido da responsabilidade. Fazer escolhas não é algo fácil, requer além de coragem e confiança, a responsabilidade. Contudo, aponta a tomada de decisão como um ato necessário para quem “sonha”, uma metáfora de metas e objetivos na vida. No Jardim do Éden, foi um Adão imaturo que, ao descobrir que havia provado do fruto proibido, colocou a responsabilidade em Eva. E foi uma Eva imatura que, por sua vez, colocou-a na tentação da serpente. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 54 Sören Kierkegaard, um dos pioneiros do Existencialismo do século XIX, deploravaos efeitos nocivos dos grupos e das multidões em nosso senso de responsabilidade, isso por que o filósofo acreditou, entre outras coisas, que o próprio conceito de multidão enfraquece o senso de responsabilidade do indivíduo, reduzindo-o a uma fração (MARCONDES, 2007). Contudo, observamos que embora a responsabilidade seja algo próprio do indivíduo, sua conduta é para o outro e para si. Nesse sentido, acreditamos que além de ser uma conduta amorosa a responsabilidade é uma virtuosidade que não se enfraquece no grupo, ao contrário se fortalece. Essa força não se dá ao acaso, ela é fruto ainda de um desejo comum. Enquanto o desejo for partilhado, o senso de responsabilidade se manifestará nas interações em forma de condutas. O GGTP para mim não é só um grupo de pessoas reunidas, fazendo algo comum e que gostam, mas, uma grande família. Aprendi no decorrer do tempo, convivendo com as pessoas do grupo, entre outras coisas, que a vida não é só diversão e que existem responsabilidades das quais não podemos fugir. Na ginástica, assim como na vida, a responsabilidade pode ser entendida de diferentes maneiras. A responsabilidade que quero falar está relacionada com compromissos do trabalho desenvolvido no GGTP, a saber: compromisso com o trabalho no GGTP; compromissos relacionados ao combinado entre os integrantes; compromisso relacionado ao cuidado com os equipamentos; o compromisso em cuidar do próprio corpo; compromisso para o cuidado com nossas ações com as outras pessoas. (Yaponira). Observamos nas metas postas por Yaponira, o desejo que une os demais atores sociais do GGTP num projeto comum. Percebemos que o fragmento traz alguns caminhos para ampliar o sentido de responsabilidade no universo do GGTP, a saber: responsabilidade enquanto compromisso com algo; responsabilidade como virtude aprendida; responsabilidade como parte da convivência no grupo; e, responsabilidade como uma necessidade para a prática da ginástica. Pensando em Maturana, ao longo das obras aqui citadas, todas essas pressuposições que cercam o respeito constituem, a priori, a aceitação do outro como legítimo outro na convivência, como essencial na manutenção das interações e da partilha do desejo comum. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 55 A responsabilidade no sentido de compromisso é posto por Yaponira como um acordo coletivo para a realização do trabalho gímnico. Esse trabalho espira uma rotina, parte dela é traduzida na fala da mesma: A disciplina começa quando nós chegamos antes do início da aula, para arrumar e limpar nosso espaço de treino, o pátio multiuso da escola, aonde funciona também o refeitório; e passa pelo cuidado com os colchonetes, com os aparelhos e com os figurinos que utilizamos nas apresentações; respeitando os horários e os dias de treino; respeitando as etapas do treino e o comando do professor (Yaponira). Tanto a disciplina quanto o respeito pertencem ao domínio das condutas que reúnem os atores sociais no trabalho, sendo esse o próprio projeto comum. Razão da existência do grupo e o sentido da reunião de pessoas nesse convívio. É no trabalho realizado no cotidiano que os sujeitos interagem no GGTP. Esse trabalho constitui nosso afazer, expressão não só da prática da ginástica, na condição de aprendizado e repetição dos exercícios físicos, mas da prática que envolve pessoas num espaço de emoções compartilhadas. Compreendemos assim que a ginástica por si só não ensina, mas sim o que cerca essa prática, enquanto uma rotina de trabalho. É possível verificar a partir da Yaponira que a responsabilidade se manifesta na prática da ginástica, como produto da interação de pessoas que se aceitam na convivência, manifesto a partir de um desejo comum. Ainda nesse caminho, tomemos a idéia de que a responsabilidade é aprendida com o outro na convivência. Compreendemos assim que, a responsabilidade é própria do individuo, mas é no coletivo, quando é partilhada com outros atores sociais, que a mesma faz sentido tanto para o indivíduo quanto para o seu grupo. Na cumplicidade, quando se divide, soma e multiplicam-se responsabilidades, todos se tornam responsáveis pelos afazeres que fazem parte do cotidiano do GGTP. Podemos afirmar que a responsabilidade é uma virtude facilitada na rotina da prática (a ginástica), mas cultivada e aprendida no convívio entre os entes praticantes. A postura de responsabilidade quanto à qualidade dos treinos, das apresentações, com o outro e, conseqüentemente, consigo é parte da trama que envolve essa virtude. Exige confiança e cumplicidade entre os integrantes, como ilustram os seguintes fragmentos. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 56 Quando assumimos o compromisso de participar de um grupo como o GGTP, assumimos a responsabilidade com os compromissos do grupo também. Os compromissos do grupo são as apresentações das coreografias em diferentes eventos. Mas, para se apresentar precisamos manter uma disciplina nos treinos [...] (Yaponira). [..]Outra forma de cuidar do outro é quando estamos trabalhando em duplas, no treinamento de flexibilidade, assumimos a responsabilidade sobre o corpo da nossa colega. É nesse momento em que a colega confia o seu corpo agente. ..., é na ginástica aonde eu aprendo a ser mais companheira. (Yaponira). A responsabilidade é uma virtude essencial para esses ginastas em duas principais frentes: quanto ao trabalho em grupo e quanto à sua integridade. Nesse sentido, compreendemos que a partir de uma meta em comum, todos seguem algumas regras de convivência, elementos morais, que em seu conjunto, lançam a luz os princípios e sentidos éticos do grupo, fundamentais para a realização do trabalho pedagógico o qual estamos implicados. Na condição de “entidades biológicas e culturais” (MORIN, 1997; ALMEIDA, 2002; MATURANA; VARELA, 2001; MATURANA; VERDEN- ZÖLLER, 2004; NÓBREGA, 2005), vivemos na responsabilidade o compromisso do bem viver com o outro, seja numa perspectiva de coexistência com seres da própria espécie, seja com os de outras espécies. No campo antropológico, vivemos com o outro na responsabilidade de coexistir no bom convívio. Isso nos coloca numa condição existencial de trocas, de partilha, de conhecimentos e de tomada da responsabilidade pelo coletivo. Portanto, compreendemos que cada um é responsável pelos seus atos, mas também pela vida em coletividade, assim como o coletivo é responsável pelos atos que implicam na condição de cada indivíduo, independentemente de gênero sexual, etário, étnico, socioeconômico. Outros termos foram postos como virtudes, e de forma significativa e recorrente os mesmos aparecem em mais de 75% dos textos analisados, são eles: Compromisso/ dedicação/ aplicação. Perguntamos: que diferença há entre responsabilidade, compromisso, dedicação e aplicação? O Dicionário Houaiss (2008) traz sutis diferenças quanto à semântica dos termos. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 57 Dedicação e aplicação são sinônimas quando designam devotar-se à algo, por exemplo ao trabalho. Já compromisso é um ajuste do trabalho por convenção, um dever. Talvez a diferença esteja posta no sentido que cada ator social pesquisado dê aos termos. O fato é que a maioria deles traz o compromisso como um tênue filamento entre o que se expõe sobre responsabilidade e o que se põe quanto dedicação e aplicação. Está nas falas desses atores sociais a sutileza. Vejamos a fala a seguir: “Muitas vezes abri mão de fazer outras coisas ou mesmo do lazer em família para me dedicar à ginástica e o fiz por prazer [...] (Pollyana)”. Verificamos a partir dessa fala que, o fato de abrir mão do lazer em família é uma atitudede renúncia que implica na escolha por outra atitude, esta aplicada ao projeto comum dos atores sociais, integrantes do GGTP. Compreendemos que é do ator social a conduta que o faz tomar decisões, mas que as decisões só são tomadas a partir de um apelo coletivo do qual o mesmo está implicado, ou seja, no desejo pelo afazer, como ilustra o próximo fragmento: Durante esses anos sempre fui muito dedicada ao GGTP e a ginástica geral, uma modalidade que eu não conhecia e que, hoje sou apaixonada. Quando estou me apresentando, sinto- me bem, realizada, principalmente quando o grupo executa um bom trabalho e corresponde nossas expectativas (Fernanda). A condição de um bom trabalho realizado é uma conduta de compromisso que envolve os demais em questão, dedicação, esforço, responsabilidade, união, entre outros. Nos fragmentos que seguem é possível perceber a força do envolvimento de um dos atores sociais com o tema discutido: “Foi preciso muito treino, dedicação e concentração. Na hora então, muita concentração” (Fabrícia); “..., o grupo treinava firme, com afinco e dedicação” (Fabrícia). Nesse sentido, dedicação e concentração tomam uma força e se avolumam na rotina do grupo; atuam como expressões do conjunto das virtudes que se materializam na forma de afeto com o outro, na prática do GGTP. A dedicação tem em comum com as demais modalidades a realização pessoal em conseguir fazer, mas se difere quanto ao resultado. A dimensão posta da seriedade de dominar os exercícios, embora se assemelhe com a rotina das disciplinas desportivas da ginástica, toma outra forma. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 58 [...] Quando acabo de passar a coreografia, eu vou treinar o que errei; aí, repito várias vezes até conseguir. Não é um errinho que vai me deixar triste. Por isso que, o treino é importante, para que possamos tentar várias vezes para que o erro não aconteça novamente (Fernanda). Na ginástica geral, a otimização dos exercícios não se dá para sobrepujar os adversários ou para prevalecer entre eles; ocorre na necessidade de cumprir seu papel no grupo. Não é a unidade que prevalece e sim a parte do todo. Portanto, a dedicação do Fernanda não é uma vaidade pessoal é um compromisso assumido com o grupo na realização de um ótimo espetáculo, o que nos faz pensar a dedicação como uma manifestação de responsabilidade. A qualidade dos exercícios está vinculada à qualidade da coreografia. Para os ginastas, o principal compromisso é com essa qualidade. Sua dedicação e compromisso são verificados nas falas de quem assiste e nas delas, as agentes principais das ações: “Treinamos muito para que desse tudo certo” (Caroline Diniz); “Aprendi que as apresentações funcionam como um conjunto de elementos que mostram o nosso aperfeiçoamento técnico e artístico. Se conquistamos isso, saibam que o conquistamos por meio de muito esforço” (Fabrícia). A verificação da qualidade das apresentações é posta em diferentes momentos da existência do grupo, inclusive por pessoas que acompanham as produções, como demonstra o texto seguinte: [...] Meninas, alunas-artistas da E. M. Terezinha Paulino, desfilavam no linóleo os frutos dum trabalho-aprendizado do ano, apresentavam-se a seus pares, parentes, docentes, outrem apresentavam-se com uma segurança na execução dos movimentos, creio, maturada na excelência do processo pedagógico do movimento; uma busca continua de sempre corresponder a estesia do belo, que nem mesmo os olhares vacilantes aqui-e-ali submergiram o fulgor do espetáculo em cena (Apud Leonardo Gama). “..., a responsabilidade no GGTP não é só essa na qual nós nos responsabilizamos com o trabalho do GGTP. Cuidar dos outros componentes do grupo é um compromisso de cada integrante” (Yaponira). Diz-nos Yaponira que a responsabilidade não é algo restrito ao fazer do grupo, mas tem início no próprio componente deste. Cabe a cada sujeito cuidar do outro, é esse cuidar Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 59 que dá sentido ao termo que viemos utilizando com freqüência nesse texto: o amor. Os sujeitos só passam à condição de entes quando é possível observar uma relação de desejo, de querer, de interesse comum, na interação entre os mesmos, o que é sugerido na próxima fala: No grupo somos ginastas, porém, em primeiro lugar somos amigas. Quase sempre estamos todas juntas no colégio. Nesses momentos procuramos saber ainda mais sobre cada uma. Considero todas amigas, umas mais do que as outras, mas o importante é o que eu sinto sobre elas em geral, muito carinho. A cada dia ficamos mais próximas umas das outras e, assim, consolidamos grandes amizades. Tenho a felicidade de poder ter novas amigas que posso contar em alguns momentos (Fabrícia). Essa relação de amizade circunscreve o valor dado pelos sujeitos a essa ação com o outro. No mesmo caminho segue o seguinte fragmento: Cuidamos do outro de diferentes maneiras. Quando entra alguma novata na ginástica, as mais antigas, entre elas eu, por sermos mais experientes, nos aproximamos para ajudar à novata, ou o novato, quando percebemos que alguém está fazendo algum exercício errado. (Yaponira). Essa dedicação ao outro é o princípio que rege o que estamos chamando aqui de coleguismo/companheirismo. Esses valores estão postos no cotidiano do grupo de diferentes formas, como demonstra o próximo fragmento. “..., em todas as coreografias eu vejo o companheirismo envolvendo diferentes pessoas, através das colaborações, dos conjuntos e dos contatos e apoios, esse é preciso ainda confiança” (Fabrícia). Percebemos que a prática em si fomenta o companheirismo e a amizade uma vez que o trabalho gímnico se baseia em confiança entre os envolvidos. [...] Algumas vezes precisei de alguém por algum motivo, nessas horas sempre tinha alguém disponível para me ajudar. Essa atenção representa o grande carinho que temos umas com as outras, afinal somos companheiras no mesmo grupo. (Fernanda) O carinho é uma manifestação afetuosa, de amor. Tomemos por afeto um compromisso vital, como sugere Cyrulnik (2005). Esse compromisso é vital na relação entre indivíduos, pois compreendemos que é somente com afeto que é possível tecer os caminhos da boa convivência. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 60 Eu sei da importância do apoio recebido das minhas colegas e do professor, entre tantas outras pessoas e isso só é possível porque passamos muito tempo juntos, e essa convivência nos aproxima ao ponto de apoiarmos um ao outro [...] (Naya). É esse apoio que ajuda a compreender como o amor se manifesta. O apoio é outra manifestação de afeto que agrega, aproxima e estabelece uma cumplicidade, vital para o tipo de trabalho que é desenvolvido no GGTP. A mesma cumplicidade que ora é denominada pelos próprios atores sociais investigados como amizade, companheirismo ou coleguismo11. A seguir, os fragmentos expressam, ao mesmo tempo em que ilustram, o que viemos defendendo até agora: a interação como domínio do espaço relacional da convivência: “Sinto-me muito bem fazendo parte da família GGTP, pois quando estamos treinando os amigos nos ajuda quando precisamos” (Yaponira). O sentir-se bem é efeito da manifestação de apoio que se dá no devir, efeito da aceitação do outro como legítimo outro da convivência (MATURANA, 1995, 1997, 1998, 2001), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004), (MATURANA; REZEPKA, 2000). Entendemos que o que caracteriza o GGTP são as partes que o compõe, as pessoas; e o que caracteriza a prática não é a rotina de exercícios e movimentos que a identifica, é necessariamente a interação que ocorre no domínio do espaço relacional da convivência. Essa convivênciaconstitui uma atmosfera que nega uma rotina e afirma uma constante transformação a partir da recursividade, que inclui não só o código gestual, mais também, os atores sociais e os elementos circulantes dessa prática (família, valores, outros setores da escola, legislação, outras instituições, etc.). Portanto, ninguém ama um grupo ou a prática em si, o que se ama é o conjunto que envolve a constante transformação. A transformação deve ser entendida como a única rotina possível dessa prática. Os indivíduos que nela circulam são constantemente envolvidos nessa prática que renova e se renova, uma prática 11 Considerando que 100% dos atores sociais analisados abordaram a amizade, dos quais 70% falaram de coleguismo/companheirismo, vale uma breve consideração. O sufixo “ismo” nos coloca diante de uma doutrina de algo; quando falamos companheirismo, consideramos a doutrina do companheiro, ao falarmos coleguismo nos referimos a doutrina do colega. Contudo, acreditamos que os sujeitos analisados não se posicionaram nesse sentido. Os termos sufixados com “ismo” estão postos de forma arbitrária para o sentido de valores morais ou na condição de uma entidade engendrada no convívio. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 61 que atende a uma circularidade12, pois só se renova porque é parte dos afazeres de pessoas que ao interagirem na prática a transforma. Portanto, atores sociais e práticas se renovam. Outras formas de interação se dão no domínio do espaço relacional da convivência no GGTP, entre eles o respeito. O respeito está posto como um indicador ético sendo possível visualizá-lo na expressão dos textos dos atores sociais analisados aqui: “O GGTP é o lugar aonde eu aprendo a conviver melhor com as pessoas, respeitando todos, não importando o quanto elas sejam diferentes, tanto nas opiniões quanto nas características” (Caroline Diniz). Respeitar a individualidade do outro é afirmá-lo no convívio, dando-lhe a condição de existir plenamente, isto é respeito pelo outro e pelo bom convívio13, além de constituir uma conduta de aceitação do outro como legítimo outro na convivência, independentemente das diferenças. Ao falar em convivência entre indivíduos, logo pensamos no respeito como uma atitude moral essencial à mesma, contudo, nos mostra Caroline Diniz que o respeito também é uma expressão amorosa. Para Maturana (2004, p.21), “o respeito por si mesmo e pelo outro surgem nas relações de aceitação mútua e no encontro corporal, no âmbito de uma confiança mútua e total”. Cuidamos do outro, respeitando cada um, deixando cada pessoa agir de acordo com sua consciência, desde que esse agir não prejudique ninguém. Para isso, é importante manter o foco no grupo, deixar vaidades e picuinhas de lado e centralizar as energias na união do grupo. (Yaponira). Tomemos o cuidado de perceber aquilo que é permitido pelos atores sociais na convivência, aquilo que é admitido e tomado como um “cuidado com o outro”; reza ainda uma condição: “desde que esse agir não prejudique ninguém”. Yaponira chama nossa atenção para o que lhe é prioridade, o grupo. Ela nos diz que é preciso garantir esse espaço relacional onde é possível interagir de modo bem singular, como garantia da existência não só dá entidade coletiva em si, mas dos anseios que perpassam as expectativas dela para com o grupo e as suas particularidades. 12 A idéia de circularidade foi formulada por Nobert Wiener; seu equivalente em inglês é looping; designa o caráter retroativo do sistema (ALMEIDA, 1997). 13 Ao mesmo tempo em que acreditamos que não é possível um mau convívio, quando expressamos o bom convívio é para dar ênfase ao que já constatamos. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 62 [...] Para se ter um grupo é necessário ainda carinho, respeito, amizade, amor, tolerância, coragem, atitude para chegar e fazer as coisas acontecerem, no Grupo Ginástico tem tudo isso [...] É por tudo isso que somos uma grande família, uma família feliz (Caroline Bezerra). Nesse instante, em que enfatizamos o respeito enquanto valor cultivado no grupo, é importante destacar que o que constitui a ética do grupo não é a união, ou qualquer outro valor especificamente. O que compõe essa unidade é a reunião desses valores postos como sugere Caroline Bezerra logo acima: uma unidade em que as partes interagem na emoção e no linguajear. Essa constatação é possível no pinçar das emoções, das atitudes como afazeres, e por fim, da família, como metáfora para remeter a unidade de interações, todos do domínio da convivência. Destacamos que não é só as particularidades do grupo em si que religam os atores sociais envolvidos na ação pedagógica de forma amorosa, mas sim os próprios indivíduos que envolvidos no convívio produzem essas particularidades. O que opera de fato o amor é o conjunto de interações que se dá no linguajear de sujeitos que se aceitam mutuamente como legítimos entes na convivência, a partir de uma prática, objeto de desejo comum, e que os despertam para situações e uma existência imersa no devir. Uma existência pautada no amor, na potência da superação das dificuldades e no afazer coletivo e solidário. Essa prática solidária também incide no que designamos por companheirismo. Foto 1 - Meninos consolando e apoiando a ginasta. Fonte: João Vital Ser companheiro é aprender com o outro, sendo o outro, fonte de saberes, como sugere a fala a seguir: “[...] Ser companheira é aquilo que Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 63 aprendemos na experiência quando estamos com alguém, não só nas horas boas, mas também, nas horas difíceis em que precisamos cuidar de alguém. (Yaponira)”. Ao existirmos, existimos na condição de sermos com o outro na relação; relação essa que, agrega saberes e que promove o ser a condição humana. Aprendemos chamar essa relação de convivência. Para Maturana (1998), é na convivência que se aprende. O que podemos constatar ao visualizar o fragmento a seguir: “[...] Aprendi que amizade é algo muito sério e que ela é cultivada no dia-a-dia” (Yaponira). Observamos que a importância da amizade para os próprios atores sociais, revela uma preocupação com a qualidade do convívio. A amizade constitui um valor que deve ser cultivado na convivência, a partir das interações, principalmente no exercício do linguajear e das emoções. Portanto, a amizade ou companheirismo é percebido como um domínio moral que pode ser estimulado, cultivado. Os valores postos pelos atores sociais, no que se refere à boa convivência do grupo, refletem a identidade ética da relação em questão. O respeito é um desses valores lembrados nos diferentes discursos: “Com o professor que nós temos, é bem difícil discutir ou brigar, por que conversamos bastante sobre respeito. Temos o respeito como um fator importante para conviver em harmonia, entendendo como é o outro ser humano” (Caroline Bezerra). Caroline Bezerra expressa o reconhecimento da ação do mestre na compreensão de respeito e traz, na seqüência, o sentido desse valor. Foto 2 - Meninas conversando no intervalo. Fonte: João Vital Criar um espaço, uma atmosfera capaz de fazer do ser um indivíduo que interaja com o outro não constitui um desafio. Constitui um desafio para o Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 64 educador, seja ele quem for, compreender e fazer o aprendiz compreender, já na tenra idade, a importância do respeitopara a harmonia da vida em um grupo de pessoas que almejam algo em comum. Acrescentamos que esse deslocar para o outro é antes de qualquer coisa uma atitude ética de respeito com o outro, sobretudo, com o cultivo da boa convivência e da vida social, na qual existimos. Existência condicionada à atitude rotineira da conversa, tema que estaremos adentrando com maior especificidade a seguir. Antes de adentrar a proposição encaminhada inicialmente quanto aos sentidos éticos dos indicadores conversa e diálogo, o investimento primeiro é de compreender o que designa cada termo para que não cometamos desvario. Para tanto, recorreremos a Maturana (2004) e a Freire (2005) para elucidar a aplicação dos termos. Para Maturana (1998, 2000, 2001, 2004) o conversar é viver na linguagem e na emoção, condição para o viver humano: “constituiu-se então de fato o viver na linguagem, a convivência em coordenações de coordenações, de ações e emoções que chamo de conversar” (MATURANA 1988, apud MATURANA, 2004, p.31). Nenhum comportamento isolado, nenhum gesto, nenhum movimento, nenhum som, nenhuma postura corporal, por si só, é parte da linguagem. Mas, se está inserida no fluir de coordenações consensuais de coordenações consensuais de ação, é parte da linguagem (MATURANA, 2001, p.73). O conversar é parte desse fluir de coordenações consensuais de coordenações consensuais de ações, ou seja, da rede de conversações de nós, seres humanos. Para Maturana (1998, 2000, 2001, 2004) o termo linguajear designa a “maneira de conviver em coordenações de condenações comportamentais consensuais” (MATURANA, 2004, p.30). Em outras palavras, o autor atribui ao conversar um fenômeno que confere a nós, homo sapiens, a condição humana. Portanto, é a existência humana um desdobramento do conversar. Freire (2005, p.95) traz no conceito de diálogo uma importante contribuição para a nossa reflexão. Diz o autor: “o diálogo é o encontro dos homens para ser mais”. A condição de ser mais está associada à forma de pensar e agir dos sujeitos: “pensar crítico”. Pensar criticamente é uma atitude Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 65 política do pensamento. É uma manifestação do sujeito, termo dileto pelo autor, que ao perceber a realidade a compreende de forma dinâmica, como um processo constante e ininterrupto. É a capacidade de captar o mundo como parte de si, como uma substância única, inviolável, cujas partes agem em solidariedade. Tomamos duas abordagens distintas que diferenciam o conversar do dialogar. A conversa está para nós, homo sapiens, como condição de nossa humanidade, ou seja, da nossa condição existencial. Quanto ao diálogo, compreendemos que este é um desdobramento do conversar, estar para o sujeito/indivíduo como qualidade da condição política do pensamento desse sujeito/indivíduo. Logo afirmamos que, todo diálogo é essencialmente uma conversa, porém, nem toda conversa é um diálogo. Lembremos que para Maturana (1998, 2000, 2001, 2004) a conversa é o princípio universal da condição humana. Tanto a conversa, na perspectiva de Maturana (2004), quanto o diálogo, proposição freiriana (FREIRE, 2005) estão postos no campo existencial, desdobramento da corrente filosófica do pensamento existencialista. Nesse contexto, apostamos no conversar como a amalgamação de emoções e do linguajear que se dá no fluir de coordenações consensuais de coordenações consensuais de ação (MATURANA, 2001). Adotando as compreensões que cercam o nosso pensamento sobre o que é o conversar e o dialogar, partiremos para o sentido posto pelos ginastas quanto aos termos, indicadores éticos da convivência no GGTP. Para tanto, estaremos considerando os verbos conversar e dialogar, e suas variações, postos nos discursos dos sujeitos/atores sociais para compreender seus significados na trama ética que cerca o convívio no grupo. [...] O diálogo é de uma riqueza tão grande que, se parássemos para pensar ou para imaginar só por um instante entenderíamos que melhor do que tentar resolver as coisas no grito é tentar resolvê-las com o diálogo. Sabemos mais quando dialogamos com outras pessoas. Com isso o nosso intelecto aumenta porque aprendemos mais sobre às várias maneiras de pensamento do ser humano. (Naya). Observamos no fragmento a articulação do pensamento acadêmico que cerca o conversar e o dialogar. Observamos que ao eleger o diálogo como Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 66 melhor caminho, Naya elege uma ferramenta política recorrendo ao pensamento crítico; e ao fazê-lo, não nega o conversar. Propomos assim, o pensamento de que o diálogo é uma ação, expansão política do conversar. Essa condição do dialogar não nega a atribuição primeira do conversar, que é a manutenção das interações e da nossa condição existencial: sermos humanos. O que mais gosto de fazer é conversar com as meninas nos intervalos que o professor Leonardo dá meio aos treinos. Falamos de tantas coisas, sempre damos opiniões e ouvimos cada uma, quanto ao que elas acham e que aconteceu com elas, dá até para desabafar com coisas que aconteceu conosco, o que sentimos e o que fazemos. É engraçado porque sempre temos um assunto, e isso é bom porque previne contra discussões entre nós. (Fernanda). Embora os conceitos que cercam o conversar e o dialogar possuam raízes epistemológicas distintas, o sopro existencialista é um vestígio que os articulam. Conversar aparece para Fernanda como um elo que liga ela aos demais componentes do grupo numa ação de reciprocidade de conhecimento e de emoções. Ainda na perspectiva da Fernanda, a conversa é um elo comunicativo que reúne, assim como funciona como estratégia para dirimir atritos na comunicação/relação entre as partes. Essa perspectiva é compartilhada por Stephany: Depois de termos enfrentado vários problemas entre nós e de ter resolvido todos eles conversando, muitas vezes com muito suor, choro e até boas gargalhadas, é que me convenço que somos sim, uma grande família. Somos uma família e como tal, temos que resolver nossas indiferenças e sermos unidas [...] (Stephany). Além de confirmar a perspectiva de compreensão da conversa como uma manifestação de ligação afetiva entre os atores sociais, Stephany nos propõe pensar também que, a conversa é útil, pois, como ferramenta política, eis que surge como uma possibilidade para solucionar problemas. Embora não tenhamos a intenção de trilharmos esse caminho utilitarista atribuído ao diálogo, não descartamos a possibilidade de breves trajetos nesse sentido. Optamos por retomar a idéia posta pelos atores sociais, quanto ao ato de conversar e de dialogar, enquanto fenômeno que se dá no convívio e na prática pedagógica do GGTP. Nesse ponto, o caminho é pensar a conversa e o Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 67 diálogo como estratégia da convivência cuja função é agregar indivíduos socialmente. O nosso grupo estava muito desunido, quase que acabava, foi também conversando que o professor nos salvou de uma catástrofe. Ele nos chamou, todos, e a partir de uma conversa, nos alertou do perigo e assim salvou o nosso grupo. Não conversar é um erro. Como estávamos nos desentendendo, sem conversar, todas nós estávamos erradas (Naya). Depois de uma longa conversa com o grupo, acertamos que unidos é bem melhor. Em seguida fizemos um circulo e oramos. Conseqüentemente o grupo ficou mais forte e ainda com mais luz. Para mim esse foi um dos momentos mais valiosos que vivi junto ao grupo (Fabrícia). Naya e fabrícia alimentam a idéia que estamos compartilhando, de que a conversa reúne pessoas no convívio e de que o diálogo é um componente político que nosmantém em interação. Nesse sentido, pensamos em Maturana (1998), para atribuir ao diálogo a condição de componente, pertencente ao domínio da convivência e da política, que nos implicam nas relações sociais. A conversa é um componente essencial na constituição dos vínculos emocionais e na tomada do outro e de si no convívio (MATURANA, 1998, 2000, 2001, 2004). Considerando a perspectiva que nos traz Maturana (1998), quando considera a conversa como condição das relações sociais, compartilhamos o pensamento de que não há conversa na opressão. A conversa é tomada como episódio de socialização da qualidade das relações que se dão no convívio. É a partir do conversar que os conflitos são suprimidos, pois a conversa materializa o amor, uma vez que conversando, aceitamos o outro como legítimo outro na convivência (MATURANA, 1998, 2000, 2001, 2004), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004). Verificamos que, além desse sentido articulador dos atores sociais em rede, o ato de conversar, e consequentemente do dialogar, propõe algo mais quando “salva”, quando “fortalece” e quando conduz ao conhecimento. Tanto o conversar como o dialogo insurge para o GGTP como uma condição existencial do próprio grupo, seja na manutenção e integridade, seja na reunião e fortalecimento, seja na construção do saber. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 68 Outra forma de assumir compromisso em um grupo é quando nos reunimos, conversamos e combinamos alguma coisa. Quando combinamos algo assumimos tarefas, essas tarefas passam a ser um compromisso entre nós integrantes e se algo falhar, colocamos o combinado em risco, conseqüentemente, comprometemos o processo de trabalho do grupo. De outra forma, atrapalhamos o trabalho do grupo, quando, por exemplo, não cuidamos da nossa saúde. (Yaponira). Yaponira acrescenta a idéia de que, a conversa articula os combinados, sendo esses postos como um ato de responsabilidade, o que nos leva a pensar que a conversa não é um simples ato em si, mas algo que suscita uma hierarquização da importância do que é tratado no conversar. O que possa parecer um simples combinado na conversa é uma articulação de tratados que cercam a vida do grupo, é uma postura que gera ações no cotidiano e que refletem a trajetória histórica do mesmo. A conversa ergue-se como instrumento da boa convivência, mas assimila um sentido político. Nessa última condição a conversa transforma-se em diálogo, como proposto pelo Pollyana. Entre nós, o diálogo nos ajuda a nos conhecermos mais e nos tornarmos pessoas mais humanas, mais prestativas e que certamente saberão ouvir as pessoas a nossa volta, sejam conselhos ou críticas, de quem quer que seja, escutando e opinando. (Pollyana). Observamos que a conversa é uma aposta no processo pedagógico do GGTP, tomada como fundamental para o próprio trabalho que é desenvolvido. Todos participam da vida no grupo, seja qual for a dificuldade, todos são postos a par. Fazem-se reuniões em quase todas as aulas, umas mais e outras menos demoradas. Fala-se sobre tudo: limpeza e manutenção do espaço de treino e de equipamentos, figurinos e aparelhos; de orçamentos; das apresentações; das coreografias e dos temas; da vida escolar; das notas e rendimentos em sala de aula; de comportamento, no sentido lato e estrito: dos diferentes temas como: família, sexualidade, higiene, amizade, companheirismo, solidariedade, etiqueta social; também, dos desentendimentos e conflitos que o percurso da convivência expõe. Toda e qualquer manifestação de desentendimento que, inicialmente, não é resolvida entre as partes, é socializada no grupo. Nesse sentido verificamos que essa abertura para a participação de todos os componentes do GGTP nas decisões, além de ser algo corriqueiro é algo estimulado pela ação pedagógica. Sublinhemos que as reuniões nem sempre Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 69 são formais e formalizadas, ao contrário, muitas vezes elas se dão naturalmente, na informalidade, quando não são previamente pensadas. Quando Maturana (1998, 2000, 2001, 2004) afirma que a conversa é condição de nossa humanidade, compreendemos que na prática pedagógica do GGTP, a conversa, intensamente estimulada, revela-se como componente pedagógico que problematiza, ensina, transforma e, portanto, humaniza. Foto 3: conversando na roda. Fonte: Andréa Gurgel Observamos que é no conversar que são expostos assuntos relativos à manutenção do espaço, da organização pedagógica, das produções coreográficas, ou mesmo dos valores morais que cercam a convivência. Considerando o exposto, observamos que todo e qualquer fato pode ser discutido ou socializado no grupo, portanto, tudo pode ser chamado à discussão e como pauta, pode ser matéria-prima para os acertos, o que implica numa postura participativa dos seus componentes e de uma postura democrática do professor que, estimula esse tipo de comportamento. Para Maturana (1998) a democracia é uma conspiração social, portanto, um ato político, para uma convivência na qual se busca um desejo comum, esse desejo é um projeto comum aos atores sociais em convivência e que nasce da necessidade, partilhada na linguagem, cujo fazer também coletivo se dá na efetivação desse projeto. Esse fazer pode ser na direção de um desejo de mudança ou manutenção de uma condição comum. Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 70 [...] No dia da competição, que durou o dia inteiro, ele [o professor] nos chamou e nos disse que o maior valor daquele torneio não era a competição em si, mas, a possibilidade de poder divulgar o que criamos e os exercícios que aprendemos ao longo dos anos, com muita dedicação e esforço. Ele nos disse também que estávamos ali para nos divertir e que tudo não passava de uma grande brincadeira. Mas, nós levamos tudo muito a sério. (Fabrícia, grifo nosso). Observamos a partir desse fragmento que, a relação mestre-aprendiz é uma relação de diálogo, na qual são discutidos e negociados os diferentes assuntos que cercam a prática e a convivência entre indivíduos. Enfatizamos que os assuntos são sempre retomados no processo pedagógico, pois não se encerram. Ao reunir e esboçar o sentido da atividade, o professor recupera no aprendiz o estímulo que o faz pensar sua condição na convivência. A conversa é uma componente da experiência pedagógica praticada no cotidiano do grupo, sendo esse componente posto pelos atores sociais como um princípio fundamental da interação entre os mesmos, como ilustram os fragmentos a seguir: “Entre outras pessoas, o professor me deu um grande apoio, conversamos e, compreendemos que eu teria que ficar e lutar por um outro grande sonho meu [...]” (Fabrícia); “[...] Aproveitamos para conversar sobre como executar melhor cada movimento nas coreografias, para nós e para o público que irá nos assistir, fazemos isso até entrarmos num consenso” (Fabrícia). A fala de Fabrícia materializa a rotina desse convívio que não se faz no silêncio, embora muitas vezes no grito, mas sempre na convivência, condição de afirmação do outro como legitimo outro na convivência, ou seja, na materialização do amor (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004). Para Verden- Zöller (2004, p.134): O amor é a emoção, a disposição corporal dinâmica que constitui em nós a operacionalidade das ações de coexistência em aceitação mútua em qualquer domínio particular de relações com outros seres, humanos ou não. Os fragmentos de texto dos atores sociais aqui expostos, demonstram o entendimento de que a conversa é um acontecimento que cerca o cultivo da humanidade, nela o ser conhece a fraternidade, o entendimento do outro, o perdão, entre outros valores éticos. Emergemoutros sentidos: de que a realidade é transformada e é transformadora. Isso se dá no devir, mas entre Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 71 sujeitos que interagem na convivência. Novas exigências se fazem nessa relação tempo-espaço-indivíduos, sendo necessária a ponderação e os acordos através de seus atores em rede de conversações (MATURANA, 2004). É nesse instante que se abre mão das vontades individuais e se lança mão das exigências coletivas, condição para a unidade do grupo. Vejamos então: Conversar é muito importante na convivência fraterna entre as pessoas, porque nos ajuda a nos entender. A conversa nos ajuda a chegar a algum lugar. Com a conversa as pessoas podem mudar seus conceitos, aprender e compreender o outro, é possível, inclusive, alcançar o perdão. E, são esses os elementos necessários à consolidação de um grupo. (Pollyana). Entendemos que a conversa é o primeiro e único passo para o entendimento. O caminho da conversa é livre e, qualquer um, inclusive eu, pode ser ponto de pauta. Isso vem ajudando na qualidade das relações entre nós, professor e alunos. Para Maturana (2004, p.44), a biologia do amor corresponde ao “domínio das ações que tornam o outro um legitimo outro em coexistência conosco”. Nessa perspectiva, nós, componentes ou não do GGTP, só melhoramos a nossa conduta se nos relacionamos, aceitando o outro como legítimo outro na convivência. É através da conversa, como componente da biologia do amor, que nós, componentes do GGTP, nos relacionamos no espaço em que acontece essa experiência pedagógica. O diálogo, como expansão do conversar, surge nesta experiência não só na forma de um instrumento pedagógico, na condição de estratégia para uma boa convivência, mas como possibilidade de saber: “Um pouco de conversa às vezes serve de lição, lição essa que nos ajuda a cultivar nosso dia-a-dia bem melhor, pois aprendemos com o outro [...]” (Pollyana). A biologia do conhecimento (MATURANA; VARELA, 2002), nos ensina que vivemos no conhecimento ao mesmo tempo em que conhecemos no viver, portanto, aprender não é uma ação solitária, fria e calculada, ele também ocorre no calor das relações entre pessoas. O aprender mobiliza o corpo por desejos que, em comum, revela a reciprocidade da interação com o meio, da natural necessidade de produzir componentes que o conduza a própria interação. Aprender é um fenômeno recursivo que alimenta aquele que aprende no interagir, ao interagir adquire e Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 72 produz novos conhecimentos, experiência essa que se sucede (MATURANA; VARELA, 2002). Na seqüência, o registro nos ilustra uma possibilidade de aprendizagem observada na perspectiva da recursividade. [...] Uma pessoa que não é acostumada a ouvir os outros, jamais conseguirá organizar as suas idéias, pois é a partir de opiniões das outras pessoas que tiramos nossas próprias conclusões quanto o que é certo e o que é errado. Portanto, escutar é sempre bom principalmente quando se trata de alguém que só quer o melhor pra nós [...] Assim, aprendemos a ser pessoas melhores, com aqueles que têm outras experiências de vida. (Naya). Naya nos mostra que o conhecimento é algo produzido na interação e que o conhecimento produzido, o foi a partir de uma síntese que se faz na interação entre um conhecimento posto pelo outro, como legítimo outro da convivência, e o conhecimento anterior, parte do repertório particular já constituído. Nessa perspectiva, a produção de conhecimento atende as perspectivas da biologia do conhecimento, que preconiza que aprendemos no viver e vivemos no conhecer (MATURANA; VARELA, 2002). Partindo da máxima de que “vivemos no conhecimento e conhecemos no viver” (MATURANA; VARELA, 2002, p.14), compreendemos que o ato de aprender requer além do outro e da rotina entre as partes, seja na descoberta do espaço, na otimização do tempo, nas disputas, ora calorosa ora fria, a consciência da importância do outro, o que constitui uma manifestação de humildade. A manifestação de humildade é constatada quando reconheço na relação com o outro a minha potência e a do companheiro: sem o outro não conheço [aprendo] (MATURANA, 1998, 2000, 2001, 2004), (MATURANA; VARELA, 2002), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004), (grifo nosso). Reconhecer o outro como legítimo outro na convivência faz-se necessário, constitui componente da aprendizagem. A manifestação do outro na convivência é essencial na construção de um conhecimento. A conduta que nos faz aceitar uns aos outros como legítimo outro na convivência é um ato amoroso, da mesma forma em que eu reconheço isso, expresso numa conduta humilde, disposição corporal do domínio da emoção. Compreendemos, portanto, que a humildade soma-se como expressão do amor, uma vez que essa virtude constitui uma conduta de Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 73 aceitação do outro como legítimo outro da convivência, como viemos observando ao longo do texto, a partir dos autores aqui citados. Ao falarmos de amor, expomos o entendimento de que a confiança constitui um sentido ético do GGTP, sendo a mesma, também, uma expressão da emoção. Vejamos o seguinte fragmento, “O apoio das pessoas é fundamental para se ter segurança. A segurança é essencial em nossas vidas, ela nos dá o suporte que precisamos para vencer os obstáculos” (Stephany). Stephany sugere que o apoio coletivo é essencial na tomada da segurança ─ É importante destacar que a segurança é um valor também essencial para o praticante de ginástica, pois a atividade em si exige medidas preventivas e cuidados para a manutenção da integridade do corpo e sua manutenção. Acreditamos que, o conjunto destes sentidos revela a partitura que contém o significado para confiança/segurança no convívio do grupo. A cumplicidade constitui um elemento importante no que diz respeito à construção da confiança/segurança de um ator social quanto a alguma coisa, isso inclui a execução de elementos gímnicos ou mesmo da série desses elementos nas coreografias do GGTP, por exemplo. A fala seguinte fortalece a idéia exposta: “...tentei passar para outras ginastas, pessoas interessadas em fazer ginástica ou outra atividade esportiva ou artística, ..., que não conseguimos nada sozinhos. Há sempre alguém com quem você pode contar, (...)” (Naya). Seguiremos considerando que a cumplicidade é um fator essencial que acrescenta a confiança e a segurança um componente ético importante nas relações observadas. Compreendemos que a cumplicidade só é possível na convivência, num processo de interação, de experiências e de conhecimentos. As pessoas a minha volta são fundamentais para que eu percebesse que o que antes era medo agora fosse realização, pois com muito apoio agente sente mais confiança pra enfrentar as dificuldades. Agora tenho maior confiança nos meus colegas da ginástica, ..., até mais do que no meu professor, porque elas são as mais antigas (...) (Stephany). A confiança no outro e nas ações a ser realizadas são urdidas na aceitação do outro como legítimo outro no convívio, portanto, confiança é uma expressão amorosa. O tempo e as relações nessa convivência são imprescindíveis na construção da confiança, e da rede de relações que surgem Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 74 ao mesmo tempo em que essa teia amorosa se configura. O amor tece a cumplicidade que por sua vez tece a confiança, manifestação amorosa. O que estamos afirmando, a partir da biologia do conhecimento (MATURANA; VARELA, 2002), é que amor-cumplicidade-confiança constitui uma circularidade produtiva, ou seja, umrelacionamento transacional, em que ao me emocionar com o outro, geramos uma cumplicidade que pode implicar numa confiança mútua, gerando novas interações – em si amorosas e linguajeantes – que implicam em mais confiança. Essa perspectiva atende ao princípio de recursividade que constantemente recorremos nesse texto a partir de Maturana e Varela (2002). Como sugere Stephany, o medo se transforma em segurança no decorrer do processo vivido com outros, sendo o apoio recebido pelos demais membros do GGTP, como manifestação da cumplicidade, decisivos para o enfrentamento do medo. No processo de aula é compreensível que o professor se divida para assistir todos os envolvidos, desse modo, o parceiro de ginástica torna-se o principal cúmplice, àquele que passa o apoio de forma mais intensiva, próxima e constante. Assim, é natural que a mesma exponha sua confiança maior em seus companheiros em relação ao mestre. Contudo, veremos a seguir, a partir de outras falas, a importância do professor nesse processo. Mesmo existindo a figura do outro como referência, no que cerca o apoio e a construção da confiança e segurança como enfrentamento do medo ― tema comum no lidar gímnico e que discutiremos no decorrer desse texto ― é o ator social quem decide sua ação no instante necessário, como demonstra a seguinte fala: “[...] Ainda assim sei que mesmo apontando os caminhos, sou eu quem decide quando e qual o caminho tomar, aprendi isso com o professor Léo, assim como aprendi com ele a importância que é tomar decisões” (Naya). Mesmo exposto pelo mestre que a decisão cabe ao indivíduo da ação, é o mestre nesse instante que está presente como cúmplice, mesmo que não de forma materializada e sim, na condição de saber corporificado. Mesmo corporeamente ausente, o mestre tem um papel fundamental na vida de um ginasta, quando seu ensinamento é incorporado ao aprendiz. O ensinamento se manifesta de diferentes maneiras, a verbal é só uma Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 75 possibilidade. As ações propriamente ditas são manifestações de saberes construídos nas interações, no decorrer do convívio. Se a ação do professor conduz o aluno à confiança, a ação pedagógica também é facilitada. O seguinte registro confirma a nossa idéia: “A primeira vista já achei o professor Leonardo contente e atencioso com todas nós. Ele me mostrou muita confiança e personalidade. Tudo isso contribuiu para eu gostar do que estava fazendo” (Fabrícia). A confiança e a segurança urdidas no processo são postos como valores, expressões da emoção que mobiliza pessoas e acrescenta conhecimentos aos atores sociais em interação. Demonstra a fala seguinte parte dessa transformação: “...hoje eu sou mais flexível, mais técnica, tenho mais confiança e menos medo, e ainda, preservo o prazer em praticar a ginástica” (Caroline Diniz). A confiança e a segurança mobilizam o ator social à constante transformação, sendo que essa não se restringe ao campo morfológico, fisiológico ou mecânico, por exemplo, a transformação resvala no campo cognitivo, como sugere Caroline Diniz, principalmente quando a faz pensar e escrever suas experiências. A minha vida mudou para melhor depois que entrei para a ginástica. Hoje, se quero uma coisa, corro atrás. A ginástica me tornou uma pessoa autoconfiante, isso com a ajuda do professor que, não desiste de nós. Pela persistência dele, sinto maior confiança e esperança de um futuro melhor. Quem melhor do que o professor para te ajudar tecnicamente e te encorajar na vida? Eu descobri que a vida não é feita de derrotas. Pensar assim nos faz pessoas que não desistem fácil; aprendi também que a vida é feita de valores éticos e que as vitórias não são aquelas que nos mostram as conquistas esportivas e sim as lições que ficam. (Pollyana). As últimas falas não constituem panfletagem do professor em questão, mas, exemplos dessa confiança que é construída no linguajear e no emocionar. E é a partir desses dois domínios que estamos apostando na relação entre professor e alunos no GGTP. Nesse sentido, compreendemos que são naturais que as expressões de confiança e de segurança se manifestem entre as partes em interações, em forma de emoções e de conhecimento, principalmente por acreditar que, o educar é uma manifestação da auto-organização de linguagens, na qual os sujeitos envolvidos propiciam e desencadeiam, uns nos outros (ASSMANN, 2007). A nosso ver o processo de auto-organização só é Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 76 possível na convivência, o que implica em pessoas em interações, e que a priori, exige confiança e segurança entre os envolvidos. O que queremos demonstrar aqui é que os valores em questão são produtos dessa auto-organização (MATURANA; VARELA, 1997, 2002), e que, essa auto-organização transforma recursivamente os sujeitos em interação constante, o que deslumbra um significado de corpo que diverge do corpo pensado na tradição da Educação Física, e mesmo, da Educação. Concordamos com Nóbrega (2005, p.18) quando diz que “os conceitos de corporeidade, corpo-sujeito e consciência corporal, bem como seus desdobramentos, contribuem para a compreensão do próprio homem e de suas possibilidades de ação no mundo”; contudo, compreendemos que é no afazer que conhecemos a nossa condição, não mais como homens ou mulheres, mas na condição de seres humanos que agimos no mundo. Esclarecemos que a autora supracitada não nega a última possibilidade, uma vez que a mesma lança mão de um projeto de Educação e de Educação Física que supere qualquer dicotomia, aportada por Merleau-Ponty, no conjunto da obra investigada pela autora, que preconiza, entre outras coisas, a integração do corpo na perspectiva de totalidade do ser humano. Merleau-Ponty (1992, 1999), compreende a linguagem como instrumento de concepção do mundo, que não se esgota em si, mas que se amplia para a análise dos nossos significados. Os entendimentos merleaupontyanos da linguagem como criação do mundo e da idéia de representação desse mundo, na metáfora do espelho (MERLEAU-PONTY, 2004), onde o artista expõe sua ótica, a partir de suas referências, nos sugerem um corpo constantemente revisitado, visto sua condição de sujeito que existe no mundo com outros. É nesse viver com outros que somos capazes de sermos transformados transformando, e de até, mudar ou não a nossa realidade. Conseguimos ser vitoriosas quando tomamos decisões, a decisão de dar o primeiro passo na trilha que nos leva a realização de nossos sonhos. Antes de seguir em frente temos que ter a convicção se é esse o caminho que queremos seguir de verdade, pois temos várias escolhas e, dependendo da nossa escolha, nossa vida pode mudar pra melhor ou pra pior (Pollyana). Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 77 Pollyana é um desses sujeitos em constante modificação, produto de um devir que articulam atores sociais na ação pedagógica no GGTP, uma ação pedagógica pensada a partir da GG, desejo comum, parte dos anseios de seus componentes. Nesse sentido, compreendemos que a própria ação pedagógica, também é produto do devir. Sendo assim, afirmamos que, como os sujeitos, o processo pedagógico se modifica recursivamente. Compreendemos também que essas relações tecidas no convívio, assim como o próprio afazer, geram conhecimentos. Os conhecimentos são produtos das interações dos componentes do GGTP no próprio grupo, assim como, da trama destes com os demais conhecimentos aprendidos nos diferentes ambientes propiciadores de experiência do conhecimento, por exemplo, a família, a igreja, ou mesmo, outros seguimentos dentro da própria escola. Portanto, compreendemos queo GGTP é mais um ambiente em que as relações se efetivam na linguagem, como sugere Maturana (1998, 2000, 2001, 2004), assim como, Assmann (2007). Abrir um espaço de presença do outro junto a si constitui uma disposição corporal na qual Maturana (2000, 2001, 2004) denomina amor. Para o autor, o amor não é próprio do homo sapiens sapiens, mas de todos os seres vivos que em seu comportamento seja identificada essa disposição, ele cita como exemplo os seres sociáveis. O amor é fruto dessa deriva, dessa história particular dos sistemas sociáveis, das interações, principalmente a partir da maternidade (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004). Não caiamos na armadilha maniqueísta de afirmar ou negar a condição do amor pela ótica da biologia ou da antropologia, reduzindo o amor a uma ordem natural ou cultural. O amor é uma disposição corporal em aceitar o outro junto a si (MATURANA, 2000, 2001), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004), desse modo, o amor pertence ao campo das interações que só é possível, quando pensamos articulando o que é próprio da biologia com o que é da antropologia. “Agradeço primeiramente a Deus depois ao professor... e a direção da Escola..., por acreditar em nós e nos apoiar nos momentos em que mais precisamos” (Yaponira). A gratidão é uma manifestação de reconhecimento do outro como legítimo outro na convivência. Compreendemos que toda Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 78 manifestação da gratidão está contida numa forma de pensar o outro como parte de si e do projeto comum que unificam as pessoas na convivência. Uma das coisas importantes do professor Leonardo é que ele sempre está com agente nas lutas, nas apresentações das coreografias, tenham elas sido bem ou má executadas. Mesmo com as dificuldades, adversidades, o professor ainda não desistiu de nós e, ainda assim, está sempre do nosso lado. Sou grata por ele não desistir daquilo que é importante pra ele e para nós, ou seja, o GGTP. (Caroline Diniz). A virtude está no reconhecimento do outro, manifestação da emoção como parte do sucesso, da autorealização do desejo pessoal que é, também, coletivo. Expressa Caroline Diniz desdobramentos dessa convivência, a saber: aprendizagem, esforço, conquista, autoconfiança e superação das dificuldades. São esses desdobramentos que suscitam nela um sentimento de gratidão, o que implica que a mesma enlaça o outro em sua emoção pela realização do desejo que é antes de tudo pessoal, mas que compartilhado, passa a ser um bem comum. Nesse sentido, compreendemos que o desejo compartilhado passa a ser um compromisso de reciprocidade das atenções, dedicações e emoções coletivas, quando e somente, é compartilhado entre os diferentes componentes. A partir de ensaios sobre aculturação e mudança cultural, em “Amar e Brincar: fundamentos esquecidos do humano”, Maturana em parceria com a alemã Verden-Zöller (2004), expõem sobre o desenvolvimento da consciência individual e social da criança, na qual a existência humana é posta como um acontecimento no espaço relacional do conversar. Posto ainda que na condição de animal, homo sapiens, temos um modo de viver que revela nossa condição humana, uma condição imersa no conversar. O conversar é entendido como o entrelaçamento entre o emocionar (vivenciar as emoções) e o linguajear (o que constitui a linguagem). Para Maturana e alguns de seus parceiros (MATURANA, 1998, 2000, 2001, 2004), (MATURANA; REZEPKA, 2000), (MATURANA; VARELA, 2002), ao vivermos, fluímos de um domínio de ação a outro num contínuo conversar: “Existimos como resultado atual de um porvir de transformações anatômicas e fisiológicas, que ocorreram em torno da conservação do viver no conversar” (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004, Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 79 p.10). É conversando que compartilhamos sensibilidades, entendida nesse sentido como emoções. [...] A vida humana, como toda vida animal, é vivida no fluxo emocional que constitui, a cada instante, o cenário básico a partir do qual surgem nossas ações. Além disso, creio que são nossas emoções (desejos, preferências, medos, ambições...) – e não a razão – que determinam, a cada momento, o que fazemos ou deixamos de fazer. Cada vez que afirmamos que nossa conduta é racional, os argumentos que esgrimimos nessa afirmação ocultam os fundamentos emocionais em que ela se apóia,... (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004, p.29). Compreendemos assim, que nossa conduta está posta no domínio das emoções, uma vez que segundo os autores (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004), é no fluxo das mesmas que nós agimos e existimos. A manifestação das emoções vividas pode explicar os rumos das interações entre os atores sociais. O comportamento humano corresponde às condutas ou ações – termos utilizados por Maturana (MATURANA, 1998, 2000, 2001, 2004), (MATURANA; REZEPKA, 2000); (MATURANA; VARELA, 2002), (MATURANA; VERDEN- ZÖLLER, 2004), ora como distintos, ora como correspondentes – que revelam um modo de vida, uma existência que se faz não só na relação com o outro, mas no emocionar-se com outros. Não posso esquecer de quem nos ensinou os exercícios e principalmente os valores da conquista pelo esforço e da autoconfiança, daquele que nos anima e nos organiza, e ainda, que nos faz capazes de superar os desafios e entender as exigências que a ginástica nos impõe como força, inteligência, desempenho, maturidade e disciplina. [...] Por tudo isso, posso afirmar que ele é um dos mais importantes no GGTP, pois é com seu modo de pensar e de agir que observei e conheci essas coisas. Ele também é muito importante na nossa vida, eu em particular devo muito a ele (Pollyana). Percebemos o efeito da gratidão como resultado da aplicação, dedicação do outro. Essa doação de si é uma atitude acima de tudo altruísta, mas que se opera no convívio e na reciprocidade das atenções e afetividades: “[...] Ele [o professor] foi um grande pai e uma grande mãe nessa viagem. Sou grata ao professor Leonardo pelo cuidado dele conosco” (Fernanda, grifo nosso). A confusão que se estabelece quando a figura do professor é tomada como a do pai e/ou da mãe constitui uma normalidade, em conseqüência da postura materna do próprio professor frente aos seus alunos. Vejamos o que Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 80 diz Maturana (2004, p.20): “A maternidade, seja ela feminina ou masculina, é um fenômeno cultural, que pode ou não ser vivido em coerência com seus fundamentos biológicos; e as conseqüências são diferentes em cada caso”. A suposta postura materna do professor é a manifestação de uma predisposição matrística, uma maneira de viver em co-inspiração entre seres humanos, na qual é possível a co-participação numa convivência acolhedora e libertadora para as partes envolvidas, em contraposição ao modo patriarcal que hierarquiza e nega o outro como legítimo outro na convivência (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004). A gratidão não é fruto apenas da relação mestre-aprendiz, mesmo entre os aprendizes é possível verificar a manifestação dessa virtude: “[...] No GGTP eu aprendi a lutar pelo que eu quero, aprendi a pensar antes de tomar decisões, aprendi que a vida não teria sentido se não fossem as amigas que temos” (Llows). Reconhecer o companheiro de ginástica como parte do processo é tomá-lo como parte do que se é, é reconhecer em si o outro. [...] Esses momentos especiais em que estamos reunidos só o são porque estamos entre pessoas que podemos contar. As amizades que eu fiz durante o tempo que estou na ginástica são para mim eternas. Mesmo que por algum motivo eu nunca mais veja estas pessoas eu sempre vou lembrar delas pelos seus gestos e vou considerá-las minhasamigas. (Pollyana). Aquele que é grato reconhece na ação do outro, a atitude benevolente. Em reconhecer o gesto, se reconhece o outro como legítimo ser da convivência. O reconhecimento além de ser uma virtude de caráter, uma atitude moral, é uma manifestação de amor. Àquele que é reconhecido em sua atitude, recebe na gratidão uma manifestação do reconhecimento, a manifestação do amor do outro. Reconhecer, além de ser um exercício do caráter, é um exercício da emoção. A gratidão é um ato amoroso que aproxima pessoas e as tornam amigas ou quistas, cujo tempo é uma variável não determinante nessa condição. Ao amar nós trocamos com outros a esperança, o conhecimento, outros sentimentos e, porque não, fluídos de vida. Ao amar cultivamos no convívio com outros seres, humanos ou não, valores que ajudam a contar a história do nosso viver, como também do viver em coletividade. Outro aspecto do amor, não menos importante é seu aspecto aglutinador de pessoas em torno de uma Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 81 causa, que pode ser a superação de uma dificuldade comum, como vimos; ou até mesmo questões de ordem política. Ao amar nós nos transformamos e transformamos o lugar e as pessoas do nosso convívio, construindo assim a história do nosso viver em coletividade. O que nos faz lembrar a educação autêntica, na perspectiva de Freire (2005) que preconiza uma educação de um com o outro, em detrimento de manifestações da educação que cultivam as seguintes equações: um para o outro; um sobre o outro. No decorrer do texto, ora alicerçados pelos autores, ora pelos fragmentos de textos, expressão dos atores sociais dessa pesquisa, discutimos valores/emoções que nos conduz a pensar numa outra conduta: a benevolência. A benevolência também compõe o pool de indicadores citados pelos atores sociais pesquisados. A compreensão que cerca o termo benevolência traz em si vestígios de uma tradição religiosa cunhada em valores morais, ora pagã ora cristã. A benevolência se distingue de outras atitudes pela prática do bem, como reflexo do que está posto nos diferentes paradigmas do Bom Sumo (MARCHIONNI, 2008). Não é nosso objetivo aqui identificá-los. Consideraremos nesse instante a benevolência como um ato de bondade, parte da experiência dos componentes GGTP. [...] O GGTP é formado por pessoas admiráveis, com que se pode contar, pessoas que sempre terão uma palavra de conforto nas horas difíceis e uma palavra de incentivo a qualquer momento, pois amigo é aquele que lhe apóia em seus fracassos, torce pelo seu sucesso e fica feliz quando esse chega [...] (Llows). O ato benevolente aqui expresso por Llows não é em si uma possibilidade que se efetiva numa aligeirada e pretensiosa definição, é um emaranhado de sentidos que passa por diferentes atitudes que laça os demais atores sociais numa relação de cumplicidade quando um conforta, incentiva, apóia, torce e fica feliz com o outro. Atitudes desse porte revelam a faceta benevolente dos sujeitos e, também, do grupo em si. Essa faceta nos indica que a benevolência apresentada não está no fluir da razão ou na tradição cristã, a partir do culto ao Consolador. Embora outras falas reescrevam um sentido próprio da cultura cristã impregnada, e por vezes, determinante na convivência dos sujeitos, defendemos que a benevolência aqui praticada tem Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 82 origem na manutenção do objeto de desejo compartilhado: o afazer na ginástica geral. Sublinhamos a ação pedagógica como um vetor nesse caminho de materializar o bem. Destacamos o engajamento político de ex-alunos da Escola Municipal Terezinha Paulino, praticantes de ginástica e ainda integrantes do GGTP. Pontuemos o primeiro caso de engajamento nesse sentido: a ginasta retornou pedindo para continuar no GGTP, mesmo fazendo parte da sua nova equipe. Aceitei sem restrições. A mesma argumentou que queria ajudar as meninas mais novas, com menos experiência. Naquele instante, tudo que investi e apostei numa proposta educacional norteada por uma cultura altruísta, emergiu com uma força impressionante. A atitude dessa aluna ginasta me emocionou profundamente, vi meu trabalho enquanto professor germinar. A mesma continua compromissada em passar sua experiência para as neófitas. Esse tipo de atitude é constante, exercida com freqüência num ambiente comum de aprendizagem, e que, nos faz pensar numa educação solidária. “[...] Ela faz de tudo pra me explicar e às vezes para me ensinar algum movimento ou exercício que eu ainda não sei fazer direito” (Fabrícia). A ajuda é outra manifestação de benevolência entre os pares. Atitudes dessa natureza revelam condutas morais que se manifestam no ato voluntário temporário, como no caso dos universitários, e/ou no ato compromissado e engajado de Fabrícia. Estas manifestações de benevolência implicam na troca de saberes entre os envolvidos. Estas manifestações ou ausência delas é o que nos faz benevolentes ou não, circunstância em que nós nos distinguimos e somos distinguidos uns dos outros (MATURANA, 1997). Eu tenho orgulho de saber fazer ginástica, pois é através desse saber que posso ajudar as outras meninas iniciantes e, assim, aumentar nossa família. Isso é importante pra mim porque eu estou ajudando a ginástica e ajudar sempre é bom. Eu gosto de ajudar, e é disso que eu gosto. (Pollyana). Pollyana ao se colocar nessa condição de doadora de si, até como forma de proteção do bem comum, manutenção do grupo, manifesta o sabor pela conduta altruísta. Ela afirma diversas vezes, para dar ênfase, a satisfação que sente em ser útil à alguém. No momento em que a mesma deixar de ser coerente com essa sua circunstância, ela deixará de existir nessas Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 83 circunstâncias (MATURANA, 1997). Compreendemos que a coerência em questão está não na satisfação em ajudar ao próximo, mas na possibilidade de aumentar a rede de pessoas conectadas pelo desejo comum. Mesmo distintos em voluntários esporádicos ou politicamente comprometidos, alunos ginastas, aprendizes ou mestre, todos somos beneficiados no processo, pois aprendemos com o outro a todo instante, numa rotina recursiva que destaca sempre o novo como produto. Ao tomarmos a máxima anunciada por Maturana (1997) “viver é conhecer”, compreendemos que a troca de experiências deixa um legado moral que carregamos, independentemente da distinção, durante a nossa existência. Creio que isto é muito fácil de acontecer, se educarmos a criança desde pequena no respeito por si mesma e no respeito pelo outro, respeitando-a e respeitando-nos a nós mesmos na relação com ela. E a isso incluímos a prática da reflexão sobre o afazer, de modo que possamos corrigi-lo em função de noções que surgem na convivência social (MATURANA, 1997, p.46). Percebemos nessa citação que a atitude da ginasta de retornar para “ajudar” as iniciantes é conseqüência de uma conduta moral apreendida no convívio, mas que implica a manutenção do mesmo. A ação altruísta é uma ação que nasce anteriormente: no desejo e na manutenção do mesmo. A benevolência é uma ação posta na experiência emocional do sujeito com outros e cultivada no linguajear e no emocionar. Nesse sentido, compreendemos que a benevolência é compartilhada da convivência, como uma emoção/valor, portanto, conduta que implica na manutenção da própria convivência. É na partilha que se instala a conduta moral, resposta de um apelo ético do viver com o outro no amor: “O amor é a biologia da aceitação do outro” (MATURANA, 2001, p.105). É nesse sentido que desde já apostamos numa possibilidade formadora à qual estaremos denominandode pedagogia do amor, compreendendo a mesma como uma possibilidade que humaniza, em detrimento do embrutecimento. [...]“A preocupação ética, como preocupação com as conseqüências que nossas ações têm sobre o outro, é um fenômeno que tem a ver com a aceitação do outro e pertence ao domínio do amor. Por isso a preocupação ética nunca ultrapassa o domínio social no qual ela surge” (MATURANA, 1998, 73). Condutas relacionais da convivência ______________________________________________________________________ 84 Portanto, acreditamos numa educação em que educamos com o outro, mediatizados pelo mundo. “Mundo que impressiona e desafia a uns e a outros, originando visões ou pontos de vista sobre ele” (FREIRE, 2005, p.97). Enfatizamos assim que, ao educar nos educamos, pois a educação se dá no espaço em que aprendemos a partir de um desejo comum que nos move e nos faz parceiros, aceitando o outro como legítimo outro na convivência. Acreditamos que “Todos os espaços de ações humanas fundam-se em emoções. Todo sistema racional se funda na aceitação de certas premissas a priori” (MATURANA, 2001, p.109); e que “...o amor é a emoção que funda o social e não se esgotou, ele está aí” (MATURANA, 2001, p.105). Esse conjunto de informações constitui parte do conjunto de idéias que cercam uma possibilidade de intervenção pedagógica na escola a qual estamos desde já denominando de pedagogia do amor. Defendemos que a educação é uma atividade amorosa que se dá entre diferentes atores sociais em convivência e ávidos por um desejo comum, que os aproxima, os move e os fazem criar. É no conviver, nessas circunstâncias que somos coerentes com uma aprendizagem circular, recursiva e engajada politicamente. Apostamos que a educação só se efetiva na solidariedade, e que, essa forma de pensar a educação amplia a possibilidade de uma educação autêntica, baseada não na superação das disputas de classe, mas na defesa do nosso maior objeto de desejo: o viver com outros. Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 86 CONDUTAS RELACIONAIS INDESEJÁVEIS E NÃO-SOCIAIS Vimos no decorrer do capítulo anterior que o amor é um aspecto fundamental do humano, constitui-se uma disposição corporal em aceitar o outro como legítimo outro na convivência. Nesse sentido, compreendemos que a negação do outro como legítimo outro na convivência é uma disposição corporal contrária ao amor. Existem outras emoções além do amor. Algumas o negam, outras não, outras se entrecruzam com ele. O emocionar da convivência no discurso, na linguagem, não pode nem deve ser negado, porque é com ele que se dá o viver humano (MATURANA, 1998, p.77). A ausência da manifestação das emoções pode implicar na condição humana do ser, como no caso clínico dos alexitímicos. Uma pessoa pode ser acometida de alexitimia14, um fenômeno explicado pela psiquiatria para designar pessoas que tenham dificuldade de expressar com palavras seus sentimentos; uma pessoa com um vocabulário emocional seriamente limitado (GOLEMAN, 1995). Porém, nem todo ser que não expressa sentimento é um alexitímico, ou um ser sem sentimentos. E mesmo os alexitímicos podem manifestar com gestos compaixão, ternura e outras emoções, sentimentos e valores. O que torna sua condição humana em parte limitada pela limitação do saber expressar (GOLEMAN, 1995). Portanto, a falta de expressão das emoções não deve ser tomada como ausência delas. Pensaremos a falta de expressão das emoções ou a dificuldade em expressar emoções como condutas relacionais não-sociais ou indesejáveis na convivência. A partir de Maturana (1998, p.69), compreendemos que “as relações humanas que não se baseiam na aceitação do outro como legítimo outro na convivência não são relações sociais”. As condutas que negam o outro no espaço de interações que evidencia a prática da ginástica na EMTP e as condutas que dificultam a convivência constituem o foco desse capítulo. 14 Termo cunhado pelo Dr. Peter Sifneos (psiquiatra de Havard) em 1972. Alexitimia: do grego a (ausência), léxis (palavra) e thymós (emoção). (Goleman, 1995, p.64). Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 87 Aqui estão os indicadores que correspondem às condutas relacionais indesejáveis e as não-sociais. Partimos do pressuposto de que nem tudo que se refere à convivência constitui qualidade moral. O componente competitivo, por exemplo, é um vetor interessante no qual é possível destacar algumas situações conflituosas que geram intrigas. No universo competitivo nem tudo é concílio, como ilustra a fala a seguir: “Competição é a porta para as intrigas, mas também, é a porta para o prazer, o sucesso e a felicidade. O problema é que tem pessoas que acham que a vida só é feita de competições e, que tudo que vão fazer tem que ganhar” (Caroline Diniz). Atitudes virtuosas e não virtuosas circulam o universo competitivo na qual observamos que o conflito é tão vivo quanto o ato de transigir. [...] um sentimento de competição se formou entre nós: quem era melhor do que quem? Pensávamos que respondendo essa questão encontraríamos a campeã. Um erro. Isso só gerou intrigas, fofocas, inveja, contendas, desconforto, desprazer, tristeza e desunião, trouxe ainda, raiva, mentiras, orgulho e a falta de motivação. (Caroline Diniz). As intrigas são portas para outros contra-valores, por exemplo, inveja, contendas, mentira, como anuncia Caroline Diniz ao se referir a competição de ginástica da qual participou, como parte dos Jogos Internos da Escola Municipal Terezinha Paulino em 2008. É um componente negativo que trás tristeza, fofocas, desconforto, falta de prazer e de motivação, além da desunião, desagregando as pessoas e minando as interações, a partir da negação do outro como legítimo outro na convivência. Essas condutas anti- sociais indicam que não somos o tempo todo sociais (MATURANA, 1998, p.71). O próprio Maturana, afirma que a nossa condição de aceitar o outro não é um fenômeno cultural, de outra forma, que a delimitação ou restrição do outro esse sim, tem a ver com o domínio cultual, pois é no modo de convivência que justificamos de forma racional essa restrição, como nos indica Fabrícia a seguir: “Na ginástica também acontecem as intrigas. [...] Ouvia comentários e via outras meninas cochichando nos cantos; ao mesmo tempo olhares intrigantes nos vigiavam” (Fabrícia). Tomando o fragmento de texto do Fabrícia, podemos pensar que o ato operado não foi a conversa, e sim, a intriga. Pois, a conversa é em si um ato edificante, consciencioso e de transigência. Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 88 Compreendemos que muitas vezes as intrigas são geradas na falta desse componente da convivência, o conversar. Vejamos a seguinte fala: “As pessoas que pensam em fazer intrigas e implantam a desunião, só pensam em si, são egoístas. Essas mesmas pessoas, agindo dessa maneira, mostram que tem dificuldade em dialogar” (Caroline Diniz). Esse sentido nos faz pensar na intriga como uma antítese ao ato de conversar e de dialogar. O linguajear, ora tomado como diálogo e mesmo que conceitualmente não se refira ao caráter político que damos ao esse termo, é lentamente negado nesse processo. Compreendemos também que, a conversa e o diálogo são estratégias da interação, estratégias estas que unificam, fortalecem os laços entre os indivíduos, aproximando os atores sociais na convivência. Lembremos Maturana e Verden-Zöller (2004) quando sustentam a tese da linguagem como fenômeno relacional. A partir dessa tese compreendemos que a intriga embora ocorra nolinguajear, não se constitui uma conversa, pois, a conversa é amalgamação entre o linguajear e o emocionar (MATURANA, 1998, 2000, 2001, 2004), (MATURANA; REZEPKA, 2000), (MATURANA; VARELA, 2002), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004). Nesse sentido, a intriga pode evidenciar carência, demanda ou, em última instância, ausência de amor, pois constitui em si apenas um linguajear, desprovido dessa emoção edificante. O que nos resta saber que toda intriga constitui uma antítese da interação, pois ao contrário da interação, a intriga distancia pessoas. Considerando ser possível pensar na intriga como conduta indesejável da boa convivência, ao tomarmos a idéia posta por Maturana e Verden-Zöller (2004) de que a existência humana se dá no espaço relacional do conversar, logo compreendemos que a intriga nega a existência humana, mas ocorre nesse mesmo. Refutar a intriga é um desafio posto, pois o mesmo é inevitável, principalmente quando compreendemos que ele se renova com o tempo, quando está em jogo o objeto de desejo, ou de outra forma, quando insistimos em tornar o outro igual a nós15. O conflito de interesse ou a renovação dos desejos constituem razões da disputa sempre. 15 Freire (2007), ao escrever sobre convivência e aprendizagem, constitui um diálogo entre semelhanças e diferenças, que aborda a idéia do conflito em razão de uma preocupação constante das nossas instituições escolares, em geral, que consiste em alimentar o vício de nos tornar iguais, rejeitando ou excluindo a possibilidade e riqueza da individualidade para o convívio. Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 89 A seguir, apontaremos novamente como referência, um evento que ocorreu no espaço relacional do grupo, um festival competitivo realizado como parte do processo pedagógico. Referimos-nos ao torneio de ginástica dos jogos internos da escola em 2008. Através desse evento os integrantes do GGTP vivenciaram uma experiência competitiva. O aspecto positivo de reproduzir um ambiente da cultura competitiva, reproduzindo inclusive a atmosfera que cerca o fenômeno dentro do espaço escolar, constitui uma estratégia pedagógica, na qual temos a possibilidade de discutir valores e de avaliar o comportamento dos atores sociais na competição. O torneio proporcionou alguns avanços, por exemplo, quanto à melhoria da qualidade técnica e de manifestações de companheirismo, mas também trouxe intrigas. Estas últimas geradas a partir da idéia cultivada pelas próprias competidoras, no decorrer do caminho que a competição apontaria a melhor ginasta, objeto de desejo comum. Apontar qual a melhor nesse ou naquele aparelho ou na condição da ginasta mais completa, além de objeto de desejo, constitui a própria razão da disputa. Muito embora, sabemos que as competições integram o legado cultural, por se tratar de um fenômeno criado e institucionalizado em diferentes civilizações ao longo do tempo, ou seja, historicamente produzido pela humanidade, sabemos que a razão que cerca o fenômeno competitivo é a classificação dos competidores a partir de um princípio pré-estabelecido: quem tem mais força, resistência, velocidade, agilidade, flexibilidade, só para citar alguns vetores. Na busca de classificar, hierarquizar, as ginastas experimentaram a reciprocidade de negação mútua entre si, condição essa que nos faz tomar as competições, nesse sentido, como espaços de relações não-sociais (MATURANA, 1998). Ao apontar a melhor ginasta, conhecemos também a pior, e foi nesse espaço que a intriga foi gerada. Com base nesse mesmo autor, compreendemos que a hierarquização e sua manutenção no âmbito das interações, constituem mecanismos de coordenação de conduta entre pessoas que não constituem sistema social, principalmente se considerarmos que “dentro do sistema social opera-se numa congruência de conduta que se vive como espontânea, porque é o resultado da convivência na aceitação mútua” (MATURANA, 1998, p.71). Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 90 Por outro lado, compreendemos que o fenômeno competitivo só é possível quando duas ou mais pessoas dividem esse desejo comum. Porém, o desejo comum compartilhado pela competição é fronteiriço com o desejo comum pela hierarquização do podium. É nessa fronteira que se confrontam a condição das relações social e não-social, quando aceitamos o outro como legítimo outro na convivência da prática esportiva, ao mesmo tempo em que o negamos no instante da disputa. Para Maturana (1998) é possível observar um discurso de aceitação e uma ação de negação. Para o mesmo, a competição é um exemplo, mas que em si constitui um fenômeno de negação mútua. Percebemos que é possível criar uma situação no ambiente escolar que simule uma situação competitiva, em que as relações não-sociais se dão com as sociais, a partir da própria conduta que se engendra na ação competitiva, mesmo que isso implique num discurso de aceitação e uma ação de negação, quando sua razão constitui aferir o mais rápido, o mais ágil, o mais forte, o mais flexível, o mais expressivo, enfim, classificar, quando as pessoas compartilham a vontade pelo fenômeno competitivo. Destacamos que o desejo de competir partiu das próprias ginastas. As mesmas manifestaram verbalmente o interesse pela competição e se organizaram para que o mesmo acontecesse. Essa organização em torno da realização do desejo comum constitui uma atitude política, traço marcante dos membros do GGTP. A partir do evento realizado, observamos que os conflitos são engendrados quando há disputa ou choque de interesses. Vejamos o seguinte fragmento: “É muito egoísmo pensar que só vamos ganhar, até porque pra um ganhar outros têm que perder. A competição reina na vida, seja nos esportes, nas artes, no trabalho, por isso, é importante saber conviver com ela” (Caroline Diniz). A adequação da competição a situação (desafio) e não ao outro (adversário), foi tratado por Araújo (2005). Na oportunidade, essa mesma autora nos mostra a partir das aulas de Educação Física na escola que é possível vivenciar outras possibilidades de competição deslocando sua compreensão na tradição para uma perspectiva mais humana, quando nos referimos aos paradigmas humanistas da educação. Nesse sentido, compreendemos que o fenômeno competitivo pode ser vivido na escola de Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 91 forma que o fenômeno não incite a negação do outro, mas a superação do desafio posto. Considerando que o ato competitivo entre pessoas não implica tomar o outro como inimigo na relação, mas sim como adversário, compreendemos que uma coisa não implica na outra. Quando aceitamos disputar com o outro, aceitamos o outro como legítimo outro na convivência, ao mesmo tempo em que postergamos a negação um do outro no fim da disputa, quando hierarquizamos entre vencedores e vencidos. Portanto, podemos afirmar que há conduta de aceitação do outro como legítimo outro na disputa esportiva, ao mesmo tempo em que há a negação, quando no instante final da disputa esportiva deslocamos o outro para uma condição inferior. Enfatizamos que é nessa fronteira que se confrontam as condições das relações sociais esportivas. Destacamos ainda que, não podemos tomar toda e qualquer disputa, ou ato competitivo como uma ação de contenda e intriga. Compreendemos assim que, mesmo que a disputa se dê em um nível lúdico e festivo, não deixa de ser uma disputa. E mesmo que prevaleça a idéia de se “vencer a qualquer preço”, a competição não tornam as pessoas inimigas, faz delas oponentes, muito embora, consideramos que essa atitude predispõe conflitosmais acentuados quando compartilhada por dois ou mais sujeitos envolvidos na mesma disputa. É importante sublinhar que a disputa não se dá apenas na cultura competitiva, ela acontece dentro da própria prática da ginástica geral, por outro ângulo. A disputa na GG é pelo espaço, portanto territorial. Os atores sociais buscam espaços: nas coreografias, isso inclui, além da disposição no espaço propriamente dito, os papéis representados nelas; na quantidade de tempo que aparecem nas apresentações; no número de coreografias e de festivais que participam, contadas pelo número de medalhas de participação; na quantidade de exercício que executam e que dominam. Compreendemos que essa conduta no âmbito da ginástica geral é perniciosa, uma vez que potencializa a criação de um espaço de relações não-sociais, na qual os próprios atores sociais envolvidos se negam mutuamente. A partir de Maturana (MATURANA, 1998), (MATURANA; REZEPKA, 2000), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004), compreendemos que é na supressão dos conflitos que se desenha o quadro amoroso, de amizade e Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 92 união, condição para um grupo de pessoas melhores, como demonstram os fragmentos a seguir: “...acredito que vai ser cada vez melhor [o grupo], porque somos muito unidas e queremos muito bem umas as outras e a ginástica também” (Caroline Bezerra, grifo nosso); “[...] E foi com muita união que conseguimos mudar a história do grupo para melhor. A união nos ajudou a persistir e a realizar sonhos. A união nos leva a não desistir” (Caroline Diniz). É nesse sentido que defendemos uma proposta para a educação, a partir de uma compreensão de uma existência amorosa, sem alienar o sujeito sobre o universo da razão que nega essa existência no amor, considerando que: O cerne ético, antropológico e político do conhecimento, ou seja, a radicalidade democrática e a inclinação a soluções pacíficas dos conflitos que surgem no convívio social humano, são dimensões do conhecimento que precisam ser criadas no interior dos processos de aprendizagem. Em termos mais tradicionais, trata-se da formação humana e política dos cidadãos. (ASSMAN, 2007, p.113). Compreendemos que o educar não é uma pintura estanque, sua dinâmica sugere conflitos e concílios. É no viver com outro que se aprende: “[...] E é a amizade que nós construímos que nos ensina muita coisa, uma delas é a própria convivência [...]”; “[...] Sempre que existe um diálogo há uma troca de pensamentos de opiniões de pontos de vista, que somente com uma conversa poderemos chegar a um lugar, a um acordo, a uma decisão” (Pollyana). Nesse sentido, encontramos no conversar e no dialogar não só as condutas, com as quais nós nos municiamos para suprimirmos qualquer peleja, mas os fundamentos que implicam nas dimensões do conhecimento. Portanto, educar predispõe manter a conversa e o diálogo na construção do conhecimento. Verificando a amizade como exemplo da manifestação amorosa, compreendemos que é na consolidação da amizade que se eclode um sentimento capaz de perceber no outro valores que comumente não é observado: Não se podem escolher amigos do jeito que a gente quer; não é preciso mudar as pessoas para que elas sejam suas amigas; não podemos excluir as pessoas só pelo jeito dela ser ou, por algo que você não gostou nela. Essas atitudes podem nos levar a perder ótimas oportunidades de amizade. É necessário que haja respeito entre as pessoas e suas diferenças. (Pollyana) Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 93 Olhar e perceber o outro no convívio é reconhecê-lo como parte desse viver, ou seja, dessa aprendizagem. É o saber aprendido nessa relação amigável que nos faz enxergar o outro e a nós mesmos. Conviver com o outro é cultivar amizade, permitindo-nos conhecer e reconhecer o outro, como parte desse quadro vivo, o que nos leva a pensar a amizade como um componente político dessa aprendizagem que se faz na convivência. Desse modo, compartilhamos com Freire (1995) o pensamento de que educar também é um gesto amoroso e político, envolvendo duas ou mais pessoas. Vejamos o fragmento: “..., o tempo é nosso amigo, é ele que nos faz esquecer e perdoar as brigas, as tristezas e, assim, melhorar a convivência” (Caroline Diniz). Ao julgar o tempo como o senhor das soluções, esquecemos que não é o tempo em si o componente essencial da comunhão, mas, a possibilidade de viver com o outro nesse tempo, o conflito e a busca pelas soluções das animosidades no conversar. Soluções encontradas entre amigos, parceiros no convívio. Desse modo, compreendemos que a convivência abre um campo de aprendizagens que se sucedem no tempo pela interação entre pessoas. No grupo somos ginastas, porém, em primeiro lugar somos amigas. Quase sempre estamos todas juntas no colégio. Nesses momentos procuramos saber ainda mais sobre cada uma. Considero todas amigas, umas mais do que as outras, mas o importante é o que eu sinto sobre elas em geral, muito carinho. A cada dia ficamos mais próximas umas das outras e, assim, consolidamos grandes amizades. Tenho a felicidade de poder ter novas amigas que posso contar em alguns momentos. (Fabrícia). Fabrícia, ao expor a constituição dos componentes do grupo, revela a condição de sujeito/indivíduo que, nessa condição, é capaz de interagir com outros, negando o sentido posto pelo olhar alheio que enxerga nos ginastas uma caricatura de pessoas, como variações de um objeto autômato, sem vontades e extremamente competitivas. Em parte, essas caricaturas são construídas quando os ginastas são postos à avaliação aligeirada e de longe, por pessoas alheias, por exemplo, no relato de uma componente do grupo no que se refere a sua experiência na platéia durante os Jogos Escolares do Rio Grande do Norte em 2007, o texto diz: “durante a apresentação de uma colega ouvi alguém da platéia dizer: Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 94 pobrezinha, tão esforçada, pena que é de escola pública” (Caroline Diniz). O resultado da avaliação é a própria caricatura que se ergue a partir das disposições corporais dos ginastas no tempo e no espaço frente a uma cultura desportiva que preconiza a hierarquização proveniente do deslocamento do outro da convivência pelo desejo competitivo de submeter o adversário. O comentário de pesar, revestido de preconceito, desloca a ginasta por circunstância do apelo social. Essa caricatura pode afastar a mesma do convívio do esporte, caso a mesma considere que é imprópria para o mesmo, ou que não teria chance de sucesso nele, por ser de escola pública. Destacamos que qualquer caricatura constitui um caminho explicativo percorrido pelo sujeito contra outro (MATURANA, 1998), o que implica na negação do mesmo. Fabrícia ilustra que, o convívio traz com o tempo o conhecimento. Conhecimento esse construído ao longo das interações entre pessoas afins e não caricaturadas. A interação se dá no linguajear e no se emocionar, especificamente no âmbito da conversa, como uma comunicação informal, mas rica em experiências e saberes (MATURANA, 1998, 2000, 2001), (MATURANA; REZEPKA, 2000), (MATURANA; VARELA, 2002), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004). As interações são aprofundadas no diálogo, expressão política do linguajear. É nessa relação entre afins que se opera a amizade, que descobre a vida, o outro, o grupo, o respeito por si próprio e pelos outros. É nessa relação entre afins que sonhamos, descobrimos espaços e as coisas. É na relação que nos posicionamos, tomamos decisões e assumimos responsabilidades. Assim, seguimos pela vida nos posicionando como uma peça de um brinquedo de encaixe queestá sempre se renovando. O fragmento a seguir, refere-se à 2007, oportunidade em que o grupo viajou ao estado de São Paulo, trata-se especificamente das picuinhas e especulações por parte de alguns componentes que tinham como objetivo integrar o grupo na viagem, porém, a má conduta acabou selando a não ida dos envolvidos, privilegiando àqueles que não se envolveram nesse tipo de contenda. Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 95 As pessoas que temos como amigas estão sempre prontas pra nos ajudar naquilo que precisamos; já as que não temos como amiga, agem justamente ao contrário, nos leva cada vez mais para a escuridão das intrigas e desunião. As pessoas que pensam em fazer intrigas e implantam a desunião, só pensam em si, são egoístas. Essas mesmas pessoas, agindo dessa maneira, mostram que tem dificuldade em dialogar. (Caroline Diniz) Embora oposta à situação anterior, esse fragmento revela a condição da negação da amizade ou do processo de consolidação dela, uma vez que sabemos que a amizade não é dada, mas é cultivada ao longo da convivência. Para Maturana e Varela (2001, grifo nosso) a atitude egoísta de um componente pode desligá-lo da unidade [do grupo]. Isso significa que a prática constante do egoísmo distancia o ator social da rede de convivência. Para entender o que nos propomos, retomemos a fala quando Caroline Diniz expõe sobre a dificuldade em dialogar como manifestação do problema de convivência: se a dificuldade é superada, o convívio entre os sujeitos prospera e tendencia a se fortificar; já quando essa dificuldade não é sobreposta, o convívio é comprometido e resulta na separação de corpos, ou seja, ruptura com a unidade coletiva. Escondem-se nesses discursos, um outro, o discurso da tolerância. O mesmo pode ser uma aposta para incluir o sujeito negado na convivência, coisa que recusamos e negamos nesse trabalho. Tolerar é adiar a negação do outro como legítimo outro na convivência (MATURANA, 1998). Compreendemos em primeira instância que a tolerância implica na condição forçosa de aceitação do outro no convívio. Para Maturana (2001, p.117): “tolerância não é aceitação. Tolerância não é respeito. Tolerância é negação postergada, ou a negação agora com uma ação postergada”. Nesse sentido, compreendemos, em última instância, que a tolerância é uma manifestação de aceitação provisória do sujeito como legítimo outro na convivência. Portanto, consideramos tolerância como uma pseudoaceitação castrada de amor e serve a hipocrisia, a dissimulação de algum sentimento arbitrário ao bom convívio, uma neutralidade que escamoteia o verdadeiro sentimento pelo outro, uma postura política que no seu estado latente é uma ameaça ao bom convívio. Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 96 A hipocrisia nunca é no presente; a hipocrisia é uma reflexão sobre a sinceridade das condutas do outro no passado, não agora, de modo que enquanto não se puder acusar aquele que fala a mentira, o que fala está aprisionado por suas palavras [...] A convivência na desconfiança de hipocrisia só gera ruptura social e sofrimento, porque sempre implica a contínua geração de ações contraditórias (MATURANA, 1998, p.76-77). Afirmamos que nem sempre a harmonia sobrepõe as tentativas de polarização entre as condutas da boa convivência e as condutas indesejáveis ao bom convívio. A harmonia em que pesa à superação dessa prática só é possível pela ampliação do sentido posto por Maturana e Verden-Zöller (2004), quanto à convivência no entrelaçamento dos sujeitos a partir de uma experiência no linguajear e no amor. É no encadeamento do linguajear com o amor que se convive, se vive. Condição para uma existência desenhada na acepção humana. A dimensão política do existir na convivência corresponde a conduta do ser em se relacionar com o outro no linguajear, um linguajear que tem sua forma inicial no conversar e que se expande, até assumir sua forma ampliada e potencializada, a qual estamos considerando o diálogo. Fazemos referência ao ato do diálogo, como manifestação política e consciente do sujeito, manifestação ampliada do linguajear. Ainda temos muito a fazer, podemos mudar pra melhor ou pior, somos nós que fazemos nossas escolhas, pois são elas que fazem de nós o que somos hoje, e por isso, é sempre bom ouvir, pois é ouvindo que amadurecemos e crescemos como pessoa. (Pollyana). O amadurecimento e crescimento mencionados pelo Pollyana, constituem manifestações do acúmulo de interações e de experiências aprendidas com o outro. Essa troca com o outro constitui uma história de condutas solidárias que nos faz retomar Freire (2005) quando afirma que, é no diálogo que transformamos a realidade. O que nos faz pensar que, qualquer transformação social é uma resposta solidária entre indivíduos que tomam uma decisão, a partir de uma demanda comum, o que constitui uma conduta política em si. Nesse sentido, expomos que a dimensão sócio-política da convivência encontra-se no diálogo, amplitude do linguajear que implica na articulação coletiva de renúncias e também de reivindicações comuns aos indivíduos afins no emocionar. Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 97 A dimensão ética da convivência está no diálogo, elemento fundamental do viver com outros compartilhando experiências e saberes, condição de um existir humano, político, ético e sensível. Nesse sentido, compartilhamos com Maturana (1998, p.73), o pensamento de que “a ética não tem um fundamento racional, mas sim emocional” (MATURANA, 1998, p.73), pensamento esse que destacamos. Portanto, compreendemos que a ética também é uma forma de viver nas emoções coletivamente, um viver na qual aprendemos uns com os outros. Através da maneira de abordar, tratar e falar uns com os outros, aprimoramos os laços de relacionamento. Isso implica em cumplicidade, amizade, companheirismo, fortalecendo o sentimento de grupo, ao mesmo tempo em que facilita o processo e a qualidade de ensino e de aprendizagem do conhecimento da ginástica. Essa resposta solidária é fruto de um engajamento político, ato que se faz no diálogo entre afins. Outrossim, é no diálogo que o indivíduo ouve e se pronuncia, criticando, sugerindo, expondo, agindo e transformando a realidade (Freire, 2005). O diálogo também é visto como uma preciosidade na construção do entendimento, sendo esse um caminho para cultivo da amizade posta como elemento essencial na composição do grupo. Nos fragmentos a seguir observamos a partir de situações vividas no processo de seleção das ginastas que viajaram em 2007 para Campinas que a unidade do grupo e da amizade deve prevalecer: “... todas nós amamos muito o grupo, para deixá-lo por quaisquer intrigas e brigas sem propósitos, isso faz com que ninguém desista do GGTP. Eu não sei como seria minha vida sem o grupo” (Caroline Diniz); “O GGTP é o lugar aonde eu me sinto bem. Quando estou triste, é no GGTP que encontro ombro amigo” (Yaponira). [...] O diálogo é de uma riqueza tão grande que, se parássemos para pensar ou para imaginar só por um instante entenderíamos que melhor do que tentar resolver as coisas no grito é tentar resolvê-las com o diálogo. Sabemos mais quando dialogamos com outras pessoas. Com isso o nosso intelecto aumenta porque aprendemos mais sobre às várias maneiras de pensamento do ser humano. [...] Entre nós, o diálogo nos ajuda a nos conhecermos mais e nos tornarmos pessoas mais humanas, mais prestativas e que certamente saberão ouvir as pessoas a nossa volta, sejam conselhos ou críticas, de quem quer que seja, escutando e opinando. (Pollyana) Condutas relacionais indesejáveise não-sociais ______________________________________________________________________ 98 Indica-nos o Pollyana acima que, o GGTP sendo um lugar comum, de paredes invisíveis e de amigos que se conflitam e que se solidarizam, tem no diálogo um sentido aglutinador, restaurador da convivência e, portanto, transformador. Yaponira, a seguir, reforça o pensamento do grupo quanto à importância e sentido da amizade para a existência do grupo: “[...] Aprendi que amizade é algo muito sério e que ela é cultivada no dia-a-dia” (Yaponira). O mesmo expõe que é no tempo que se cultiva a amizade. Mas, sublinhemos que a amizade não se faz por si só, é necessário dialogar como forma de articulação dos desejos dos atores sociais, vivida na exposição dos mesmos a sorte do que é posto na experiência do viver em grupo. “[...] Um sorriso ou, até mesmo, outro gesto de apoio de alguém basta para tornar nossos dias mais felizes [...]” (Llows). A condição de “dias felizes” está no empenho dos componentes da convivência em cultivá-los, para tanto, exige-se um ímpeto transformador que designamos de conduta política da convivência. Seguindo os caminhos que nos levam às condutas que negam o outro no espaço de interações, a qual estamos designando por condutas indesejáveis, destacamos os seguintes indicadores: raiva, ira e fúria. Esses indicadores constituem os tipos de comportamento que se somam ao conjunto de contra-valores. Essas condutas são postas na negação do outro na convivência, ou se constituem manifestações da reflexão das condutas dos outros no passado (MATURANA, 1998). Expomos que essas ações se dão em conseqüência de outras ações, de outros atores sociais, como sugere o fragmento seguinte: “Nosso professor ... é muito rigoroso. Outro dia ele se estressou comigo e eu me estressei com ele [...] Embora eu não me arrependa, fiquei com raiva de mim mesma por ter respondido da forma que fiz [...]” (Stephany). O que não isenta nenhuma parte da responsabilidade da conduta. A minha convivência com o professor Leonardo é boa. Não digo ótima porque algumas vezes tomo uns “carões” e, isso me deixa furiosa. Embora saiba que foram os “carões” que me ajudaram ao longo desses anos a me tornar a ginasta e a pessoa que sou hoje, uma ginasta e, conseqüentemente, uma pessoa mais forte e com modos [...] (Fernanda). Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 99 Observamos que o ato desencadeador da raiva, ira ou fúria, muitas vezes sobre a luz da ponderação é subvertido na condição de necessário. Esse julgamento não é possível no momento da ação “explosiva” e não desejada. A convivência na desconfiança, manifestação da reflexão das condutas dos outros no passado, gera ruptura social, ou seja, relações não-sociais. (MATURANA, 1998). Nesse sentido, ponderamos se não são possíveis outros caminhos, sendo um deles a conversa, exaustivamente discutido e sugerido no decorrer do texto. O fato nos leva a pensar que muitas vezes é necessário tomar decisões que implique na ação furiosa do outro sujeito, contudo, é preciso ponderar no que cerca a convivência e tomar no exercício pedagógico, o diálogo como a estratégia política do ensinar para superar tais condutas. Ainda no caminho que nos leva aos indicadores que nos revelam as condutas relacionais indesejáveis, expomos aqui a vaidade, no sentido de arrogância, para manter nossa reflexão. Compreendamos inicialmente que, a vaidade não é posta apenas como uma virtude, seu sentido varia de acordo com a ação do sujeito no mundo. Tomemos os exemplos: “No início, achei as meninas, que já praticavam ginástica, chatas, elas aparentavam ser amostradas e orgulhosas; ao contrário das meninas que começaram comigo” (Fabrícia); “Eu achava as meninas que já faziam ginástica muito exibidas. Pensei que fosse ficar como elas [...]” (Fernanda). Ambas tecem um juízo de valor a partir da altivez corporificada pelo sujeito observado e julgado, mais uma vez nos referimos às caricaturas. Compreendemos que, embora o julgamento se consolidasse na observação da disposição corporal dos ginastas no tempo e no espaço, foi na convivência que foi possível reconsiderar a postura dos mesmos. Destacamos que o afazer, ou seja, a prática da ginástica possibilitou Fernanda avaliar a imagem construída arbitrariamente. E que a desconfiança, como geradora de rupturas sociais, só foi suprimida na convivência. [...] Vi que eu não ia ser uma “amostrada”, mas, uma ginasta que mostrasse o que sabia fazer, sem ter que baixar a cabeça por nada. Era isso que as meninas mais antigas faziam, se orgulhavam dos exercícios que executavam. Executando bem ou mal os exercícios, nunca perdiam a pose, nem deixavam de ser graciosas. (Fernanda). Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 100 Demonstra Fernanda, que é na convivência com os demais que é possível de fato tecer algum juízo sobre o outro, sobre a pena de não negarmos o outro como legítimo outro na convivência. Foi convivendo com os outros indivíduos que, Fernanda subverte a idéia de que toda ginasta é arrogante. Nesse sentido, compreendemos que é na convivência, e somente nela, que é possível identificar e diferenciar a vaidade como arrogância ou como altivez, ou seja, valorização de si. Nesse sentido, acreditamos que por mais que se fale da experiência ninguém pode substituí-la, pois é nela que temos a oportunidade de lançar um olhar mais criterioso, nem sempre aproveitado para redimensionar a própria experiência. O comportamento que mais me incomoda é a humilhação. Muitas vezes alguma menina age como se fosse superior, não só dentro como fora do grupo, humilhando alguma outra menina, querendo ser mais que as outras. Isso não dá pra entender, falamos tanto em trabalho coletivo, parece que algumas meninas ainda não aprenderam sobre o que é isso. (Stephany). A vaidade mal dosada deixa de ser uma virtude e passa a ser uma contra-virtude. A arrogância, como demonstra Stephany, é uma desmedida dessa natureza. Se por um lado, “Ter um espírito de ginasta ajuda a ter uma postura altiva, muitas vezes confundida com uma postura amostrada e exibida [...]” (Naya), por outro, essa postura da vaidade pode incomodar não pela imagem arrogante, mas pela ação arrogante, conforme verificado acima, quando Stephany expõe sua experiência, fazendo-a servir à humilhação, negando o sujeito como legítimo outro na convivência. Tomemos a humilhação como uma manifestação da vaidade, conseqüência de ações contraditórias as relações sociais. Usar da humilhação para sobrepor-se, como forma de sobressair-se em relação ao outro é uma forma de negação do outro na existência. Ao negar o outro na existência eu o anulo na convivência, aspecto que nega a existência humana no espaço relacional. (MATURANA, 1998, 2000, 2001, 2004), (MATURANA; REZEPKA, 2000), (MATURANA; VARELA, 2002), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004). Compreendemos que humilhação, vaidade, arrogância, altivez, assim como a raiva, a ira, a fúria são exemplos de referências pessoais, fazem parte Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 101 do estado de conhecimento de cada um dos atores sociais pesquisados. Os conhecimentos deles, ou qualquer indivíduo que seja, carregam consigo sobre as suas circunstâncias e suas ações no momento em que agem com outros, quando sentem os efeitos da humilhação, da vaidade, etc., constitui um caminho explicativo das nossas capacidades cognitivas que Maturana (1998) designa de o caminho da objetividade-sem-parênteses. A objetividade-entre- parênteses é posto pelo autor (Op.Cit) como um domínio da objetividade que ao considerar que não há verdade absoluta, não negao outro como legítimo outro na convivência. Não há verdade absoluta nem verdade relativa, mas muitas verdades diferentes em muitos domínios distintos. Nesse caminho explicativo existem muitos domínios distintos de realidade, como distintos domínios explicativos da experiência fundados em distintas coerências operacionais e, como tais, são todos legítimos em sua origem, ainda que não sejam iguais em seu conteúdo, e que não sejam igualmente desejáveis para serem vividos (MATURANA, 1998, p. 48). Queremos demonstrar com isso que nossas discussões embora no caminho da objetividade-sem-parênteses16, não exclui o outro caminho. A partir do instante em que consideramos as falas dos atores sociais, expressão da consciência, referência da experiência dos mesmos, em que não podemos distinguir ilusão de percepção, caminhamos no domínio da objetividade-entre- parênteses17 (MATURANA, 1998). Ao tratar de nervosismo, ansiedade e medo, os últimos três indicadores discutidos ao fim desse capítulo, compreendemos que a distinção entre ilusão e percepção não é possível. Para manter a coerência com o que viemos desenvolvendo ao longo do texto, ao tratar das condutas que negam o outro no espaço de interações que evidencia a prática da ginástica na EMTP e das condutas indesejáveis nessa, seguiremos ora caminhado pelo domínio da 16 Segundo Maturana (1998), a objetividade-sem-parênteses consiste num caminho explicativo na qual a referência de uma realidade independe do sujeito explicador e que em si se explica e valida o explicar. 17 Ao indicar a consciência de não poder distinguir ilusão e percepção no processo de explicar, Maturana (1998) nos aponta objetividade-entre-parênteses como um caminho explicativo. Nesse caminho, o autor (Op. Cit., p.47) nos expõe que “não podemos desprezar mais nossa condição se seres que na experiência não podem distinguir entre ilusão e percepção [...], o que aceitamos não é uma referência a algo independente de nós, mas uma reformulação da experiência com elementos da experiência”. Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 102 objetividade-sem-parênteses, ora pelo domínio da objetividade-entre- parênteses. O nervosismo é uma constante na rotina de um ginasta e por diferentes razões, como indica Llows: “Lembro da hora em que fiquei mais nervosa: foi na troca de roupas,...”. Não temos a intenção de explicar nesse estudo o porquê desse nervosismo ou, o de explicar o que é esse fenômeno e como ele se manifesta, mas de relacionar como a ansiedade se constitui na expressão dos atores sociais uma contra-virtude, que pelo viés do domínio da objetividade- sem-parênteses implica nas relações humanas. “Sempre quando eu vou apresentar fico um pouco nervosa. Adoro sentir este nervosismo antes das apresentações. Acho isso normal, até porque, quem não fica nervosa antes de se apresentar para um público?” (Pollyana). Tudo pode ser razão para uma conduta nervosa, desde uma troca de roupa com pressão temporal, até mesmo a hora da apresentação. O Pollyana nos sugere que o nervosismo é comum quando afirma sua “normalidade” e quando inquire “quem nunca sentiu?”. Se alguém me perguntar qual a pior parte disso tudo, a que me deixa mais nervosa, com certeza responderei: é aquela partezinha chata depois que somos chamadas: o silêncio entre a nossa entrada e o início da música, a mesma que corresponde a nossa entrada na área de apresentação, a pose inicial e o início da música. Aquele enorme silêncio leva uma eternidade e deixa muita gente impaciente. Mesmo estando parada na pose inicial, não consigo conter a minha impaciência. Logo meu coração bate mais forte. Enquanto eu vou pensando nisso tudo, o público espera. Realmente é a parte mais difícil pra mim. (Naya). O fragmento acima nos leva a compreender que, é uma conjuntura que determina o nervosismo. Foi o contexto, especificamente a parte da entrada para a apresentação, que desencadeou a aceleração cardíaca, mas não é o ritmo do coração em si a nossa preocupação, mas como o nervosismo está posto nas relações humanas, considerando o caso GGTP. Encontramos ainda no fragmento anterior outro indício para compreender como o nervosismo está posto na condição de referência ao estado de conhecimento que Naya tem sobre suas circunstâncias. O nervosismo desencadeia em Naya o aumento da freqüência cardíaca, a priori, uma reação fisiológica ao que estamos designando de nervosismo. Contudo, Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 103 compreendemos que a freqüência cardíaca foi alterada a partir de uma circunstância e não por si ou em si. Nesse sentido, o nervosismo constitui uma disposição corporal circunstancial. Vejamos no seguinte fragmento de texto: “O frio na barriga me acontece por excesso de euforia, nervosismo e ansiedade, o que encadeia uma carga muito grande de agonia, e isso, finda numa má apresentação [...]” (Naya). O sentido que damos ao “frio na barriga” é reflexo da experiência que se dá no indivíduo, em circunstância na qual o ator social está exposto. Sugere Naya que a agonia e demais expressões constitui uma tentativa de expressar o reflexo dessa experiência. Essa dificuldade em expor a sensação percebida se explica por carência de objetividade-sem-parênteses, quando não é possível ao sujeito distinguir fora da circunstância o fenômeno que foi sentido na fronteira entre ilusão e percepção. Nesse sentido, outros fragmentos de textos expressam a mesma dificuldade: “Apesar de já ter apresentado essas coreografias algumas vezes, eu estava muito ansiosa. O meu coração batia forte e minhas mãos não paravam de suar” (Fabrícia) e “[...] Vieram as apresentações e com elas o famoso friozinho na barriga, eu comecei a gostar daquilo que se sente antes de qualquer apresentação” (Llows). Destacamos as mãos suadas como um novo componente desse reflexo da experiência que se dá no corpo, em circunstância na qual o ator social está exposto. Não tomemos esses elementos como sintomas do nervosismo, mas como manifestação dele, sensibilidades que emergem do corpo a partir de uma experiência de um ator social em um determinado contexto. “Quando as ‘pequenas’ se apresentaram pela primeira vez estavam tão nervosas quanto eu em minha primeira apresentação. Algumas até bem mais” (Fabrícia). Embora Fabrícia anuncie o nervosismo como fato da imaturidade, propomos revisar esse pensamento, no seguinte caminho: ninguém é imune ao nervosismo. Enfatizamos que o contexto é o fator desencadeador do nervosismo, e que cada situação vivida é vivida uma única vez, porque não se repete. Por mais experiente que o ginasta seja, por mais situações vividas, ele estará sempre diante do novo. Diante do novo, somos todos susceptíveis a entrar nesse estado de nervosismo. Vejamos outras falas que nos conduz compreender como a ansiedade, manifestação do nervosismo, está posta enquanto referência ao estado de Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 104 conhecimento que o ator social tem sobre suas circunstâncias: “...estávamos ansiosas para nos apresentar” (Caroline Diniz); “Sentia uma ansiedade já no fim dos treinos, pois a cada dia sem treino, a espera pela próxima aula, era minha maior agonia” (Fabrícia); “[...] Eu e as outras meninas nos revemos, nos abraçamos, trocamos sorrisos, contamos histórias; estávamos muito ansiosas para o primeiro dia de aula e de novamente poder treinar e se apresentar com prazer” (Pollyana); e por fim, “Todo fim de ano fico ansiosa pra saber o que vai acontecer no ano seguinte. (Fernanda). Considerando as expressões anteriores é possível perceber a relação da ansiedadecom o as circunstâncias dos atores sociais em relação ao tempo, o que nos leva a pensar que ansiar é aguardar algo por vir, independentemente da quantidade de tempo. Ainda não falei da hora em que nos arrumamos para apresentar, é uma agonia. Ao mesmo tempo em que nós estamos ansiosas, estressadas ainda temos que nos arrumar. As palavras do professor também valem nessa hora: “vamos, calma, mais rápido, se organizem, Naya ajude as outras meninas”, e por aí vai. (Naya). Acreditamos que a experiência da Naya ao sentir ansiedade, reverbera na condição dela na interação com os demais atores sociais na convivência. Buscamos as pistas que nos indique as conseqüências desse reflexo da experiência que se dá no corpo, em circunstância na qual o sujeito está exposto, (MATURANA, 1998), para convivência no GGTP e as relações humanas de um modo geral. Acreditamos que essas pistas nos ajudarão a proceder com maior consciência com esses indicadores no afazer que constitui a nossa prática pedagógica. Há algumas atividades na qual o sujeito é envolvido em situações que desafiam a coragem. Nessas atividades o medo é uma barreira, um desafio constante. Superar o medo em atividades como alpinismo, pára-quedismo, asa-delta, entre outros, é necessário. Na ginástica não é diferente. Destacamos que ao expressar o medo, nessas e em outras situações, muitas vezes o sujeito o camufla na forma de nervosismo e ansiedade. O medo que causa o “frio na barriga”, o aumento da freqüência cardíaca e que faz as mãos suarem em excesso, constitui a emoção que nesse contexto admite também outras expressões da emoção, inclusive nervosismo e ansiedade. Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 105 As modalidades de ginástica esportiva são algumas dessas atividades em que a endorfina, juntamente com a adrenalina são destiladas. Observamos esse fato com maior freqüência quando na execução dos exercícios mais complexos, por exemplo: ao se lançar no ar, na execução dos mortais; no lançamento ou recuperação de um aparelho; ou ainda, quando são realizadas colaborações entre ginastas de forma mais arriscada. Nesses casos o medo e a coragem são componentes presentes, agindo sobre os próprios ginastas. Na ginástica geral não é diferente, o medo existe: “[...] A postura altiva ajuda na hora da apresentação e faz com que agente se esqueça do medo de amarelar, medo esse que quase toda ginasta tem. Amarelar é desistir na hora da apresentação [...]” (Yaponira). O medo não é da execução do exercício em si, mas, justificado inicialmente pela ausência de execução: “o medo em amarelar”. O “medo em amarelar” é uma constante, posta pela maioria dos atores sociais implicados na pesquisa, um indicativo de que o medo pode ser em conseqüência das conseqüências em falhar. Esse reflexo da experiência que se dá no corpo, em circunstância na qual o sujeito está exposto, camufla a conseqüência final, a negação do outro, em reconhecê-lo como legítimo outro na convivência. Essa primeira pista é ilustrada assim: “As pessoas a minha volta são fundamentais para que eu percebesse que o que antes era medo agora fosse realização, pois com muito apoio agente sente mais confiança pra enfrentar as dificuldades” (Stephany). Vejamos ainda: Foi praticando ginástica que fui adquirindo mais confiança e isso me deu maior segurança nos exercícios e nas relações com outras pessoas. Podemos entender essa insegurança como medo. Para vencê-lo é preciso primeiro que se queira vencê-lo, depois é preciso contar com o apoio das pessoas. O apoio das pessoas é fundamental para se ter segurança. A segurança é essencial em nossas vidas, ela nos dá o suporte que precisamos para vencer os obstáculos. (Stephany) Outra pista segue o caminho em que pensamos que o alcance ou importância do medo sentido implica naquele que o sente: “Treinamos muito pra que desse tudo certo. Obstáculos se impuseram na nossa frente, por exemplo, o medo. O medo sempre é um obstáculo, principalmente para mim” (Caroline Diniz). Neste sentido, observamos outra possibilidade de compreender os efeitos do medo no convívio dos atores sociais do GGTP: o medo sentido possui implicações na relação do ator social com as suas Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 106 necessidades e interesses. O medo ameaça as pretensões individuais, ou mesmo coletiva. Senti-me nervosa, embora estivesse segura do que tinha que fazer. Apesar de já ter apresentado essas coreografias algumas vezes, eu estava muito ansiosa. O meu coração batia forte e minhas mãos não paravam de suar. Mas foi só apresentar a minha primeira coreografia, contorcionistas indianas, que o meu nervosismo sumiu. E o que era nervosismo transformou-se em segurança [...] O fato de ficar ansiosa e nervosa deve-se ao fato do medo que senti de errar alguma coisa, contudo eu estava muito segura, pois treinamos bastante para tudo dá certo. (Fabrícia) Percebemos que as expectativas dos ginastas em fazer uma boa apresentação geram ansiedade, nervosismo e medo. A busca por esse fazer belo é tomada enquanto realização pessoal e coletiva. Destacamos a contradição entre prazer e dor, no que se refere ao sentir prazer quando se sente o “frio na barriga”. Expomos como possibilidade que, o prazer na dor pode estar associado à realização do desejo, resumido na forma de realização pessoal. “A cada apresentação eu ia à loucura, algo que despertava emoção, não só em mim, como no público em geral; sentia muita vontade de fazer, embora tivesse certo medo. Foi à realização de mais um sonho” (Fernanda). Realizar sonhos implica em confrontar-se com obstáculos das emoções, entre eles, o medo. Fernanda nos indica que a superação do medo potencializa uma emoção. Essa emoção é conseqüência da superação do obstáculo na realização do desejo. Essa superação de uma emoção por outra, expressão da existência humana, é percebida com freqüência em diferentes textos dos distintos atores sociais, como veremos a seguir: Sei que é difícil superar o medo, mas não é impossível; tenho que lutar e vencer as barreiras e os obstáculos. Mas o que eu gosto mesmo é de sentir o friozinho na barriga, isso me faz até acreditar mais em mim. E é acreditando em mim que conseguirei largar esse medo, embora saiba que o medo faz parte disso tudo. (Caroline Diniz) Compreendemos o medo como parte desse mundo em que existimos e que permeia as razões dessa condição. O caminho pelo qual estamos explicando o medo até o momento pertence ao domínio da objetividade-entre- parênteses. Expomos até aqui fatos que colocam o medo como conhecimento Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 107 dos sujeitos sobre suas circunstâncias e ações (MATURANA, 1998). Um reflexo da experiência que se dá no corpo, em circunstância na qual os atores sociais estão expostos no cotidiano da prática da ginástica. Em busca de validar o nosso explicar, percorreremos a seguir um caminho explicativo pautado na objetividade-sem-parênteses. Uma das análises mais interessantes posta no campo filosófico quanto ao medo, foi legada por Aristóteles no II livro da Retórica (ABBAGNANO, 2007). Ao citar Aristóteles, Abbagnano (Op.Cit.) nos traz a seguinte definição do medo: “O medo é uma dor ou uma agitação produzida pela perspectiva de um mal futuro que seja capaz de produzir morte ou dor” (p.363). Essa perspectiva do medo nos faz pensar no que nos diz Caroline Diniz: “...é estranho sentir medo, mas ele existe em mim. Tenho medo de cair e me machucar, das pessoas rirem de mim, de errar, de altura, entre outras coisas, mas também tenho coragem de enfrentar tudo isso [...] Medo e coragem fazem parte da vida”. O quenos chama a atenção é a justaposição do medo e da coragem como parte da mesma experiência. Essa condição ajusta-se a idéia aristotélica de que dado o medo resumido a emoção, é acompanhada pela contradição prazer e dor, percebida pelo sujeito que a sente em relação as suas necessidades e perspectivas. Um dos componentes importantes verificados no decorrer dessa busca pelo sentido que o medo traz para a convivência no GGTP, posto pelos próprios integrantes, é a presença do outro como condição de redução do medo. “O medo também é reduzido ou eliminado por condições que tornam os males menos temíveis ou os fazem parecer inexistentes” (ABBAGNANO, 2007, p.363). Assim, pensamos o outro como aquele que é capaz se não de suprimir o medo, mas aquele que é, em parte, responsável pela redução dessa emoção. Entendemos que, é na interação entre as pessoas que, é possível se aventurar e correr o risco da dor, ou mesmo da morte. Contudo, afirmamos que, nada ou pouco adianta a presença do outro se o mesmo não for capaz de oferecer ao espírito aventureiro a segurança demandada. Portanto, é na interação entre as pessoas que, é possível se aventurar e correr o risco da dor, ou mesmo da morte, desde que os outros estejam presentes em condições de oferecer a segurança exigida pelo sujeito aventureiro. Compreendemos que a presença do outro é importante desde que o mesmo seja aquele capaz de Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 108 manter uma interação de confiança com o indivíduo amedrontado, enfrentando com ele aquilo que amedronta. Partindo do pressuposto de que: “pertencemos a uma história na qual existe uma emoção fundamental chamada amor. Se aceitamos isto e queremos de fato a convivência, então vamos gerar outro domínio de realidade no qual a aceitação mútua esteja presente” (MATURANA, 2001, p.117). No caminho da objetividade-sem-parentêses, pensamos no nervosismo, na ansiedade e no medo como emoções imobilizantes no caminho da convivência. Nesse sentido, compreendemos que essas emoções promovem um contínuo engessamento dos sujeitos, restringindo a mobilidade e as ações dos atores sociais nas interações, consequentemente, nas possibilidades que a convivência traz para o desenvolvimento humano. Destacamos que a compreensão do medo e as conseqüências dessa emoção/contra-valor para a convivência no GGTP, perpassa as três idéias iniciais, aqui relacionadas: a negação do outro, quando o sujeito resiste em reconhecer esse outro como legítimo outro na convivência; o medo sentido possui implicações na relação do sujeito com as suas necessidades e interesses, quando o medo ameaça as pretensões individuais, ou mesmo coletiva; da superação do obstáculo na realização do desejo. Nesse sentido, o medo constitui para os atores sociais pesquisados um contra-valor por não apoiar a manutenção da convivência entre os indivíduos do grupo. Compreendemos que o medo, o nervosismo e a ansiedade, predominantemente tratados no caminho da objetividade-sem-parênteses, pertencem ao domínio do reflexo da experiência que se dá no corpo, em circunstância na qual o ator social está exposto. De outra forma, no caminho da objetividade-entre-parênteses, não podemos tomar o medo como um contra- valor por não corroborar a convivência. Compreendemos que o medo, o nervosismo e a ansiedade pertencem ao domínio das emoções sentidas em circunstâncias, e como tal, temporários. Assim, suscita a compreensão de que é natural sentir tais emoções desde que os mesmos sejam breves. Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 109 É por causa da incorporação do modo de viver que não é fácil mudar, pois as pessoas já ‘viveram de um determinado modo’ quando a questão da mudança se coloca. A dificuldade das mudanças de entendimento, de pensamento, de valores, é grande. Isto se deve à inércia corporal, e não ao fato de o corpo ser um lastro ou constituir uma limitação. Ele é nossa possibilidade e condição de ser. Além disso, o viver transcorre constitutivamente como uma história de mudanças estruturais na qual se conserva a congruência entre o ser vivo e o meio, e na qual, por conseguinte, o meio muda junto com o organismo que nele estar (MATURANA, 1998, p.61). No universo da ginástica, no âmbito do esporte, o ginasta idealizado deve ser um sujeito corajoso, calmo, entre outras virtudes já tão apresentadas. Sentir medo, ansiedade e nervosismo, é tão saudável quanto enfrentá-los e superá-los. A não superação dessa condição é incongruente com a prática da ginástica porque o sujeito não se implica na rotina do fazer gímnico. Observamos no decorrer do processo em que o medo, a ansiedade e o nervosismo predominam no cotidiano do ginasta que, esse ginasta vai se imobilizando e, consequentemente, se distanciando do convívio e do grupo à medida que prolonga a sua experiência pessoal nas tais emoções. Destacamos que a não superação dessa condição ao longo do processo, requer atenção maior de outros profissionais no lidar específico com os excessos do comportamento. A partir de Maturana (1998), destacamos a dificuldade do lidar com essas emoções. A lida do professor de Educação Física, implica nas mudanças quanto ao entendimento que cerca as mesmas, na superação ou no lidar com esses reflexos da experiência que se dá no corpo, em circunstância na qual o aluno encontra-se exposto. Considerando o universo da ginástica geral, expomos que para enfrentar a ansiedade, assim como o medo e o nervosismo, o ator social requer para si estratégias envolvendo a presença do outro como ponto de apoio, segurança, confiança. O viver com o outro na aceitação, no amor, não é educá-lo, não é dizer-lhe: ‘isto não é bom’, mas dizer-lhe que isso não é bom na aceitação, ou seja, assumir a presença do outro junto a si no momento em que se faz a correção (MATURANA, 2001, p.107). Nesse sentido, retomamos a conversa, como estratégia para ponderação e modificação da relação do sujeito com as emoções em questão. O enfrentamento do reflexo da experiência que se dá no corpo, em Condutas relacionais indesejáveis e não-sociais ______________________________________________________________________ 110 circunstância na qual o sujeito está exposto se dá na união dos indivíduos envolvidos na convivência. União que pertence ao domínio dos reflexos das experiências que se dão no corpo, em circunstância na quais os atores sociais estão expostos. O esforço repetido para que os alunos se apropriem desse conhecimento, cumpre agora sua derradeira missão: a capacidade deles expressarem esses valores e de falar por si só sobre cada um deles. Isso não é ensinado, pelo menos não na perspectiva da educação tradicional do professor explicador18, se aprende no linguajear: “maneira de conviver em coordenações de coordenações comportamentais consensuais” (MATURANA, 2004). Entre outras palavras, se aprende na prática cotidiana do convívio. Para tanto, não basta estar vivo, é preciso existir, e só é possível existir convivendo com outros indivíduos. O ser só se torna indivíduo na medida em que é social, assim como o social só o é na medida em que seus componentes são indivíduos (MATURANA, 1997). Compreendemos que o respeito é lançado como uma atitude de deslocamento de si para o outro, condição essa para a compreensão do outro e de si na relação, assim como da aceitação do outro como legitimo outro da convivência, portanto, o respeito constitui uma atitude amorosa. O enfrentamento do reflexo da experiência que se dá no corpo, em circunstância na qual o ator social está exposto, também se dá no respeito entre os indivíduos envolvidos na convivência. O respeito também pertence ao domínio dos reflexos das experiências quese dão no corpo, em circunstância na quais os atores sociais estão expostos. O sujeito respeitador pode aprender qualquer coisa e adquirir a habilidade que desejar por si mesmo (MATURANA; REZEPKA, 2000). No sentido de assegurar essa virtude, defendemos uma educação escolar voltada para a formação humana. 18 Fazemos referência à obra O mestre ignorante, cinco lições sobre a emancipação intelectual, de Rancière (2004). Jacques Rancière é considerado uma das principais referências no aprofundamento do método proposto por Joseph Jacotot. Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 112 GINÁSTICA GERAL COMO APOSTA ÉTICA PARA UMA FORMAÇÃO HUMANA. No campo da especulação, quando perguntamos a um grupo de professores, isoladamente, sobre o propósito da educação, logo teremos algumas respostas que podem caminhar para justificar essa prática quanto a sua utilidade na sociedade. Por outro lado, compreendemos que as respostas podem se distanciar, dado os diferentes entendimentos políticos que cada professor tem sobre o projeto educacional. Ao perguntarmos, seja qual for a resposta, a mesma implicará diretamente na perspectiva política desse professor frente a sua prática. A resposta revelará como esse professor pensa e faz educação, em que perspectiva sócio-política dirige-se sua prática pedagógica. Compreendemos que, ainda na formulação das perguntas, nós nos comprometemos politicamente, por que já nesse instante nos articulamos, pensamos e dialogamos a cerca de um projeto que não se encerra na ação do ensinar, mas nas orientações que regem a prática docente quanto ao projeto de cidadão, cidadania e de sociedade que nós professores nos lançamos junto com os nossos alunos. Esse comprometimento é uma manifestação viva de uma prática ética e política do fazer educativo. Portanto, ao nos perguntarmos sobre a prática educativa ― o que é educação, para quem educar, por que educar? Entre outras questões de mesma ordem semântica ― revelamos a constante preocupação ética e política com as pessoas envolvidas em nossa ação pedagógica. Revelamos ainda, possibilidades que exigem escolhas no campo político. Ao eleger os caminhos somos responsáveis não só pela escolha em si, mas no que ela representa para a vida dos envolvidos na prática pedagógica. A compreensão ética exposta até aqui não se reduz à reflexão crítica sobre determinados valores presentes no comportamento humano em sociedade, mas no conjunto de atitudes que integram seres humanos numa convivência escolar que, implica na coexistência entre pares, na reprodução, transformação e construção de valores/condutas e dos demais saberes que circulam a prática da ginástica e da vida. O conjunto que agrega esses sentidos Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 113 configura uma dimensão sócio-política da formação dos atores sociais envolvidos, assim como, da própria prática que nos confraternizam. Ao nos referimos a uma ética no GGTP, nós nos referimos a um conjunto de condutas altruístas. Para Maturana e Varela (2002), o altruísmo está associado ao que é próprio do social, contrário ao egoísmo; constitui equilíbrio entre o existir individual e o coletivo, à exemplo da deriva natural. Ainda para esses autores, o altruísmo corresponde ao conjunto de condutas dos indivíduos que tem efeito benéfico sobre o coletivo, uma condição de existência do indivíduo e do grupo social a qual pertence. Nesse sentido, caminha a ética que apontamos no decorrer desse estudo e que estamos apostamos para pensar o educar, além do entendimento de escola e de cidadão que queremos formar. A partir da análise da prática pedagógica no GGTP, pautada na convivência entre humanos, destacamos que essa pesquisa constitui um exercício de voltar-se para uma prática educativa, como um fazer essencialmente humano que abarca saberes de ordem política e ética, constituídas no viver de seus participes, considerando os princípios da idiossincrasia e da aceitação do outro. Um exercício que recomendamos e insistimos como uma tarefa constante, exercitada na convivência. Portanto, o conteúdo desse texto dissertativo amplia entendimentos no que cerca a formação humana e seu papel na escola quanto ao educar. O educar se constitui no processo em que a criança ou o adulto convive com o outro e, ao conviver com o outro, se transforma espontaneamente, de maneira que seu modo de viver se faz progressivamente mais congruente com o do outro no espaço de convivência. O educar ocorre, portanto, todo o tempo e de maneira recíproca (MATURANA, 1998, p.29). Compreendemos assim que, a educação humana está centrada nas condutas relacionais da convivência, e que de outra forma, nas condutas relacionais indesejáveis e não-sociais, não humanizam. As condutas relacionais da convivência geram os princípios do educar que se apóia na biologia do amor. Nesse sentido, dividimos a compreensão de que a escola constitui um espaço artificial de convivência (MATURANA; REZEPKA, 2000), e é nesse espaço que, professores e alunos devem compartilhar experiências Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 114 que permitam desde a tenra idade, o indivíduo vivenciar uma cultura de respeito por si e pelo outro. Maturana (1998, p.29) entende que “A educação é um processo contínuo que dura toda a vida, e que faz da comunidade onde vivemos um mundo espontaneamente conservador, ao qual o educar se refere”. O autor coloca a educação como um sistema de efeitos em longo prazo, indício de uma perspectiva ética e sócio-política a partir da ação educativa. É nesse sentido que, nos colocamos com os outros no aprender. Compreendemos que essa forma de pensar educação é fundamental para a manutenção das relações sociais e para a nossa humanização. É nessa perspectiva que constituímos o nosso projeto político pedagógico, redimensionando a compreensão do educar para ampliar a perspectiva das práticas escolares, compreendendo que é no existir humano que nos educamos educando, e que, educamos convivendo. O que, também, constitui um caminho para compreender o sentido da instituição escolar na sociedade. O sentido da instituição escolar é o que a mesma representa para nós, homo sapiens: constitui um espaço de convivência que amplia a nossa percepção de mundo, nos envolvendo em uma convivência que reproduz o modus vivendi e os conhecimentos produzidos e transmitidos historicamente. É a escola, a instituição que nos aproxima em linguagem, em comportamento, em emoções e valores éticos. É ela que ao reproduzir em pequena escala a percepção humana do mundo, nos torna parte dele. A escola constitui um importante espaço de convivência voltado para o ser humano e o saber que nos potencializa para essa condição, sendo as experiências com o outro e do próprio conhecimento (conteúdo a ser verificado) que nos ampliam a percepção do mundo, do outro e de nós mesmos. Essa perspectiva de compreensão da instituição escolar nos aponta um sentido do aprender. Compreendemos que o ser e o fazer do aprender com o outro são inseparáveis: “[...] todo conhecer é ação efetiva que permite a um ser vivo continuar sua existência no mundo que ele mesmo traz à tona ao conhecê-lo” (Maturana, 1997, p.23). Pelo exposto, dividimos com Maturana e Varela (2001), o entendimento de que é durante a trajetória de vida que construímos além do nosso conhecimento do mundo, o mundo e nós mesmos, influenciando e sendo influenciado, nos modificando pelo que experienciamos num processo Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________115 recursivo de aprendizagem que se dá na convivência. Havendo convívio, há experiências. Havendo experiências há troca, elaboração, tomada de conhecimento. Portanto, conhecer é um processo contínuo, ininterrupto desde que haja convivência. Assim investimos na idéia de que a própria apreciação de nossa condição diante do outro, da vida e de nós mesmos é um convite à compreensão da nossa existência junto há outros. Esse investimento revela a dimensão sócio-política e ética da nossa prática pedagógica que se complementa na idéia de educar. Para nos manter coerentes com nossas questões de estudo, na busca de demonstrar como as dimensões sócio-política e ética podem contribuir para pensar a Educação Física na escola, partindo do pressuposto de que “o amor é a biologia da aceitação do outro” (MATURANA, 2001, p.105), e que é o amor um dos princípios fundamentais da convivência. Compartilhamos a compreensão de que é no amor que se educa (MATURANA; VERDEN- ZÖLLER, 2004). A reflexão que fazemos no decorrer desse texto, traz as interações como um fenômeno que se dá no linguajear e nas emoções, sendo o amor à emoção que agrega e que produz conhecimento. Essa compreensão constitui a perspectiva humana que estamos dimensionando para a educação e, consequentemente, para a Educação Física, no tocante a convivência entre os atores sociais do GGTP. Essa perspectiva da educação humana se constitui na experiência pedagógica vivida pelos entes envolvidos, no tocante ao afazer, quando nos referimos especificamente à ginástica geral. Afirmarmos que a ginástica geral, fenômeno da Cultura de Movimento, expressa qualidades humanas cujas características podem remeter ao altruísmo e a formação humana. Quando expressamos ao longo do texto os fragmentos de memórias dos atores sociais investigados, expomos parte das ações formadoras dessa prática que não se restringem ao exercício gímnico. As ações pedagógicas se ampliam à medida que consideramos a convivência e seus componentes como manifestação dessa educação que humaniza e não embrutece o ser. A educação humana preconiza uma formação humana, formação esta que se dá a partir da interação entre humanos no linguajear e no amor. O que nos faz compartilhar que “Essa ligação do humano ao humano é, em última instância, o fundamento de toda ética como reflexão sobre a legitimidade da Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 116 presença do outro” (MATURANA; VARELA, 2002, p.269); e nessas circunstâncias, ligar-se ao outro é aceitar o outro como legítimo outro da convivência, manifestação amorosa. Pelo exposto, acreditamos que a ginástica geral é um afazer que se constitui uma possibilidade de resignificar o contexto das práticas pedagógicas tradicionais da escola. Considerando que a ética se constitui nas relações e nelas repercutem, e que, a ginástica geral é uma atividade coletiva que só é possível na relação entre indivíduos, afirmamos que a GG é uma atividade que parte de valores humanos comuns e que precisam ser preservados para a manutenção da própria identidade da atividade. A ginástica geral ao ser inserida no universo escolar, apresenta-se não só na sua dimensão gestual, mas principalmente, no seu conteúdo ético e político. É esse conteúdo que manifesta a possibilidade de uma ação pedagógica humanizadora, idéia à qual defendemos. Destacamos que a referência da ginástica geral em si não constitui as dimensões ética e sócio- política da prática, mas sim as referências da própria prática pedagógica, que é viva, por envolver além do gestual codificado, pessoas interagindo num espaço comum a partir de um objeto de desejo, também comum. No intuito de ilustrar e exemplificar o que queremos afirmar, apontamos a própria produção de textos que constitui o nosso corpus de análise: a produção dos textos em si são frutos do engajamento político entre os envolvidos no ProGin. Esse engajamento objetivou, entre outras coisas, registrar e documentar a breve trajetória do GGTP. O conteúdo desses textos traz os valores que constitui na prática uma ética que não se dá de forma estanque, mas sim, de forma dinâmica. Não é apenas a partir da ginástica geral que as dimensões ética e sócio-política se constituem, mas a partir da forma pela qual o afazer foi posto para o grupo de alunos, considerando a conversa, o diálogo, a boa convivência e o amor como elementos fundamentais do processo formador perspectivado na humanização. A partir da seguinte afirmação “no processo de humanização, a aprendizagem desempenha um papel primordial: o de assimilação da existência social” (NÓBREGA, 2005, p.15), compreendemos que a convivência constitui o campo das experiências, situação em que reconhecemos e somos reconhecidos como o legítimo outro da relação: condição da nossa existência Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 117 social. Essa convivência constitui lugar em que nós estabelecemos as relações sociais e, assim, existimos. Para Maturana (1998) quando geramos em conjunto um projeto, nós nos unimos no espaço dos desejos e constituímos um espaço de aceitação mútua. Ao voltarmos para o caso específico no qual investimos ao longo da pesquisa, já identificamos que o desejo comum que nos uni é a própria prática da ginástica na Escola Municipal Professora Terezinha Paulino de Lima, compreendemos que tanto a escola quanto a prática da ginástica constituem o espaço de aceitação mútua, onde nós, atores sociais, convivemos e aprendemos. Cercam o GGTP valores/condutas que tecem a identidade ética do grupo, assim como da própria prática pedagógica, e esse fenômeno é recíproco. A conduta dos ginastas desse grupo, por exemplo, veste-se de alguns valores, como respeito, benevolência e solidariedade. Considerando a forma na qual nós nos relacionamos no GGTP, compreendemos que essa forma de relação constitui uma ética amorosa, própria do grupo. Preservando o sentido posto, acreditamos que o perfil amoroso dos valores apresentados constitui a ética compartilhada no cotidiano do referido grupo pelos próprios integrantes. Observamos a concretização dessa ética amorosa nas diferentes falas ao longo do texto, quando são expressas, entre outras coisas, o cuidado com o outro, manifestação do que estamos compreendendo como companheirismo. Posto o exemplo de como essa prática ética amorosa se dá na prática pedagógica, compreendemos que a ginástica geral, nesse contexto, é uma ação pedagógica que humaniza. A aceitação do outro na convivência também constitui um campo em que existimos numa dimensão política. O ator social decide o lugar, o desejo e as pessoas que cercam o seu existir, por outro lado, esse mesmo sujeito se submete a aceitação dos outros na existência. O que nos leva a compreender que ninguém existe sem o outro, logo, precisamos do outro para existir. Assim, quando dois ou mais atores sociais se envolvem num projeto comum, e ainda, que envolve obviamente um objeto de desejo, também comum, os mesmos passam a coexistirem. Essas decisões que circulam o cotidiano do convívio constituem um exercício essencialmente político que não se encerra na atitude de decidir, mas no desenrolar das tomadas de decisões. Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 118 No momento em que nos voltamos para as dimensões ética e sócio- política dessa prática, constatamos que a última dimensão é observada quanto nos voltamos para os discursos que orientam o próprio afazer pedagógico, principalmente os princípios orientadores e a própria estrutura política que compõe o GGTP, mas que são nas ações que, de fato, ela se efetiva. Quando falamos quea ginástica geral é uma atividade sem fim competitivo e que abrange todos os gêneros da ginástica, das expressões artísticas e das demais manifestações da Cultura de Movimento, de sexo, étnico e etário, estamos anunciando alguns princípios do domínio da política que cercam essa prática. Destacamos que é tênue a fronteira que separa as duas dimensões em questão. Percebemos que as escolas se constituem como unidades singulares, cujas formas e características se dão a partir do contexto e conjuntura a qual estão inseridas e associadas. Essa ampla possibilidade de paisagens revela uma profusão de possibilidades que identificam cada escola. Cada escola é ainda mais singularizada quando consideramos sua natureza, fim institucional, características da proposta política pedagógica. Nesse contexto é possível encontrar algumas escolas que compreendam ou optem por práticas pedagógicas pautadas em modelos historicamente construídos que negam a criatividade e a emancipação do aluno, em manutenção de uma padronização de condutas e de estilos de vida. Essas idéias são amplamente criticadas por diferentes autores contemporâneos, alguns dedicados aos estudos que tratam da Educação19, outros, especificamente, na Educação Física escolar20. Na Educação Física escolar, ou mesmo no esporte na escola, é comum esse tipo de verificação, em especial quando a busca é pela primazia do gesto técnico, pela hierarquização do ator social, pela habilidade, pelo seu potencial esportivo e competitivo. Nesse sentido, acrescentamos à compreensão do esporte educacional a idéia de que, o ensinamento do esporte na escola, seja na condição de conteúdo específico nas aulas de Educação Física, seja na 19 Entre eles: Flecha e Tortajada (2000); Sacristán (2000); Giroux (2000); Macedo e Bartolome (2000); McLaren (2000); Popkewitz (2000); Rigal (2000); Subirats (2000). 20 Alguns dos principais nomes da área que expressam essa idéia: Coletivo de Autores (1992); Borges (1998); Gallardo (1998); Fonseca (1999); Hildebrandt-Stramann (2001); Darido (2003); Duckur (2004); Darido e Rangel (2005); Bracht (2003; 2006); Hildebrandt-Stramann e Laging (2005); Kunz (1991, 1994, 1998, 2001); Medina (1990); Bregolato (2002); Melo (2001; 2002); Shigunov (2002); Soares (2002; 2004). Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 119 condição de esporte na escola, não se reduz a tradição que parte de uma compreensão mecânica da aprendizagem, mas numa mobilização que envolve ao mesmo tempo o professor e o aprendiz numa ação cúmplice de atitudes criativas, críticas e transformadoras para a construção do conhecimento que cerca o próprio fenômeno, na realidade em que os indivíduos interagem e convivem. O entendimento da relação mestre-aprendiz, parte da nossa dedicação, está na compreensão que adotamos desde o início desse texto no que se refere à convivência. Ao longo do texto, discutimos e entendemos que a nossa humanidade se no constitui na amalgamação do linguajear com o emocionar, mesmos fatores do conversar; e que é na manifestação do conversar na convivência que existimos na nossa condição humana. Compreendemos também que é no conversar que existimos com o outro e é nessa relação que compartilhamos experiências. Ao compartilhar experiências estamos ampliando nossa percepção do mundo, sentindo, conhecendo e transformando ou conservando a nossa condição e/ou nosso espaço. O conjunto de discussões e entendimentos nos faz pensar a relação mestre-aprendiz como uma unidade posta na convivência, que permite a qualquer ator social implicado no convívio com outros, a condição de mestre-aprendiz. A compreensão do mestre no sentido lato revela a figura do professor, como aquele que profere o conhecimento à alguém. Esse alguém revela a outra face da relação do ensinar-aprender, ou seja, o próprio aprendiz ou o aluno. A compreensão de aprendiz é inversa ao de mestre: mestre é o que ensina, aprendiz é o que aprende. Esse pensamento é o que circula o senso comum e na cultural da escola tradicional. No entanto, compreendemos, em um sentido estrito que a relação mestre-aprendiz avança esse entendimento para uma condição mais ampliada. Rancière (2004), aponta princípios importantes que norteiam as práticas pedagógicas, dos quais elegemos que: todos os homens [seres humanos] partem do princípio da igualdade de inteligência; a educação deve trilhar o caminho da emancipação; e por fim, tudo estar em tudo (grifo nosso). Toda experiência vivida com o outro é reflexo da experiência que se dá no corpo, em circunstância na qual o ator social está exposto, que implicam nas aprendizagens e saberes para os envolvidos. É na experiência que somos, Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 120 ao mesmo tempo, mestres e aprendizes. Somos mestres quando permitimos ao outro compreender, acessar, resignificar condutas, conhecimentos, outrossim, somos aprendizes quando recebemos do outro o benefício de ampliar a nossa perspectiva de mundo. Paulo Freire (1979; 2005), afirma, entre outras coisas que, quem educa se educa, e que, ao ensinar se aprende e vice- versa. Nesse sentido, somos mestres-aprendizes e aprendizes-mestres na partilha das experiências. Enfatizamos que a ética em questão não se reduz a um campo filosófico ou ao campo da razão, mas como parte dessa história de interações, sendo a convivência o campo no qual nós, seres humanos, coexistimos e nos emocionamos uns com os outros, e dessa forma, estabelecemos relações sociais (MATURANA, 1998; 2004), (MATURANA; REZEPKA, 2000). Ser confirmado na convivência implica uma existência que pode ser interpretada numa perspectiva de experiência viva do ser diante da dinâmica social. Condição de um ator social inserido na vida do grupo. Essa inserção também é política quando o ser na condição de indivíduo é engajado com outros, compartilhando idéias e trabalhando para executá-las. A ampliação da condição política do indivíduo na sociedade é uma construção cultural, que pode ser iniciada na formação escolar, na perspectiva de uma pedagogia do amor. Ao longo desse texto, predispomos apostarmos numa possível pedagogia do amor considerando as dimensões sócio-política e ética vividas no GGTP, por compreender que a mesma humaniza. Quando vislumbramos para o ginasta uma formação humana, perspectivamos que ao ganhar o mundo vivido, ele torne-se capaz de compreender o outro como legítimo outro na convivência, compreendendo que a amizade e o respeito são elos sócio-afetivo essenciais; que a conversa e o diálogo não sobrepõem à convivência, como manifestação das relações sociais, mas que implicam na própria; que é ele capaz de refletir criticamente sobre suas ações e as dos outros, sendo ele não superior nem inferior ao outro, por acreditar que todos somos capazes de aprender; e por fim, que aprender e ensinar são princípios comuns no campo do fazer pedagógico, o que nos tornam mestres e aprendizes simultaneamente. Os atos de conversar e de dialogar constituem elementos dessa formação Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 121 humana, pois, compreendemos que é no compartilhar de experiências com o outro que nos educamos. Porpino (2006), ao citar Foucault, em critica às condutas morais historicamente tidas como referências absolutas, em sugestão da distinção entre os preceitos morais e a diversidade de possibilidades, defende que é possível que nós, seres humanos, ao nos conduzirmos, o façamos de acordo com as regras sociais, sem perder de vista a nossa capacidade de nos reconhecermos como sujeitos da nossa própria ação. Para tanto,a autora sugere uma conduta criativa, a partir da imbricação entre o que é próprio do individual e o que é próprio do coletivo, numa perspectiva de partilha de experiências e emoções que, a priori, ocorre no âmbito social, ou como prefere a autora, no “experimentar juntos”. Nesse sentido, acreditamos que a conduta criativa constitui uma forma de agir e pensar a educação de modo a defender que: “o corpo precisa ser despertado para que o desejo, o prazer, a ludicidade permitam um conhecer, ou uma aprendizagem, que não se confunda com o adestramento, mas que tenha um sentido existencial” (PORPINO, 2006, p.93). Nesse sentido, compreendemos que a conduta criativa é congruente com a abordagem pedagógica alicerçada na aceitação do outro como legítimo outro da convivência, porque, além de considerar o potencial individual, a autora nos indica que o mesmo só é possível se posto no coletivo, idéia da qual compartilhamos. Associando a perspectiva sócio-política da educação no amor, investimos na idéia do diálogo como ação essencial na existência do ser na ética. O diálogo pressupõe saber ouvir, escutar, estar aberto a diferenças e pluralidade dos modos de ser e pensar do outro, é suspensão de crenças. Implica confiança, acolhimento, reflexão sobre outros componentes éticos. O diálogo em Freire (1996, 2005) é reflexão sobre si, sobre o mundo, entre sujeitos que se relacionam socialmente. O diálogo pode ser percebido nesse autor como dimensões do modo de estar, ser, viver, sentir e pensar do sujeito no mundo, e ainda, podemos compreendê-lo como um operador de mudanças e transformações das ações humanas, seja nas práticas sociais, educativas, pedagógica, no âmbito da escola, na relação de ensino e da aprendizagem. Portanto, compreendemos o diálogo como o fenômeno que envolve a palavra, a história, o testemunho do outro, todos, fontes de saberes. Outrossim, Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 122 compreendemos o diálogo como um operador político, no engajamento21 dos indivíduos, na manutenção e subsistência de si e do coletivo, a partir de um desejo que congrega. Compreendemos que a conduta humana é uma condição deste compartilhar que envolve atores sociais na convivência, através da conversa e do diálogo. A partir dos nossos atos, formamos um conjunto de experiências que caracterizam as condutas no GGTP, experiências essas vividas, sentidas e acumuladas pelos seus integrantes (história de interações) e que constitui uma ética circunstancial, provisória, pois está sempre se transformando, no curso das interações recursivas, envolvendo pessoas. Também compreendemos ao longo desse texto que, todos nós somos aprendizes-mestres e que nossa forma de existir no mundo se constitui na troca de experiências pelas interações e pelas histórias de interações. E é no coexistir que ampliamos o nosso conhecimento e no conhecimento somos ampliados. E é nessa ampliação, que se dá sempre com o outro, que nos constituímos mestres-aprendizes. Compartilhamos a idéia de que, com a expansão do mundo que nós nos expandimos (MATURANA; VARELA, 1997, 2002), (MATURANA, 2001). Sendo essa manifestação de expansão uma possibilidade de pensar o desenvolvimento humano a partir da convivência. Pois ao nos expandir, expandimos o nosso sentido de mundo e, a expandirmos a nossa perspectiva de mundo, nos desenvolvemos. O que nos ensina a convivência entre os indivíduos do GGTP é uma perspectiva ética pautada na coexistência a partir do respeito e da aceitação do outro, da partilha e soma de conhecimentos, da cooperação no afazer e da benevolência, manifestação do amor. Essa ética altruísta a qual nos referimos não é um projeto unilateral, pensado pelo professor ou outro ator social, mas constitui-se a partir da conivência que reúne pessoas em torno de um desejo comum. Uma ética que se reconstrói a cada dia, no exercício mútuo e democrático em que estabelecemos relações sociais. 21 Ao pensarmos na dimensão política, logo nos vem à memória o uso corrente no texto do termo engajamento. Compreendemos o engajamento como forma de mobilização política do indivíduo: militância. Essa militância se dá em um fazer comum, na convivência e para ela. Uma convivência que se justifica no objeto de desejo, por exemplo, o caso dos componentes do GGTP em que a ginástica geral, tal qual compreendemos e fazemos, corresponde ao objeto de desejo comum. É nesse estado de engajamento que destacamos o senso político no grupo. Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 123 A dimensão ética da experiência pedagógica a partir do GGTP suscita uma orientação política de base democrática, só possível no campo das interações, pois segundo Maturana (1998) o interagir só é possível num sistema político democrático. Para esse mesmo autor, a democracia consiste numa política do cotidiano que nos exige atuar sabendo que a verdade não é absoluta e que a mesma não é propriedade de nenhum sujeito ou grupo de sujeitos, e que o outro é tão legítimo quanto qualquer um na convivência. Sobretudo, “uma oportunidade para colaborar na criação cotidiana de uma convivência fundada no respeito que reconhece a legitimidade do outro num projeto comum” (MATURANA,1998, p.75). Para Maturana (1998), o viver na democracia exige aceitar que o projeto de uma ordem social, de fato, é uma conspiração fundada num desejo de convivência. Se não aceitamos a presença do fluir emocional num discurso não o compreendemos, e se não nos ocupamos do propósito criativo do discurso democrático, se não nos inteiramos de que a democracia pertence ao desejo e não à razão, não seremos capazes de viver em democracia, porque lutaremos para impor a verdade. (MATURANA, 1998, p.77). Logo pensamos na democracia como um sistema político que se efetiva na convivência e em seus componentes: linguajear e amor. Logo, os componentes da convivência constituem princípios essenciais para a efetivação da democracia. Outrossim, podemos pensar que a democracia é um projeto político só possível na convivência, como um exercício mútuo de reconhecimento do outro no debate e não no conflito. Compreendemos que este estudo não é um tratado de comportamento moral, nem de representação social de valores, mas uma análise de uma prática pedagógica pautada na convivência entre humanos, cujo conteúdo aponta duas dimensões: a ética e a sócio-política. Essas dimensões, possíveis de observar na própria convivência do GGTP, foram identificadas e discutidas ao longo do texto considerando os domínios da explicação da objetividade- entre-parentêses e da objetividade-sem-parentêses (MATURANA, 1998). Tudo que foi exposto ao longo desse texto faz sentido quando lembramos Morin (2005), ao se referir à ética como a arte do saber viver. E para sermos fieis à condição humana, para que outros especulem e ampliem, sempre de forma melhor, o que já foi pensado, tanto no campo individual como Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 124 no coletivo. Nesse instante nos vêm a seguinte pergunta: como queremos viver nesse mundo? A partir de Morin (2005), pensamos a democracia como um sistema político que supõe e alimenta a diversidade dos interesses assim como a diversidade das ideias. O respeito da diversidade significa que a democracia não pode ser identificada com a ditadura das maiorias sobre as minorias. A democracia tem ao mesmo tempo necessidade de conflitos de ideias e de opiniões que lhe dão a vitalidade e a produtividade. Assim, exigindo ao mesmo tempo consenso, diversidade e conflitualidade, a democracia é um sistema complexode organização e de civilização políticas que alimenta e se alimenta da autonomia do espírito dos indivíduos, da sua liberdade de opinião e de expressão, do seu civismo, que alimenta e se alimenta do ideal Liberdade – Igualdade – Fraternidade que comporta uma conflitualidade criadora entre os seus três termos inseparáveis22. A tarefa de criar uma democracia começa no espaço da emoção com a sedução mútua para criar um mundo no qual continuamente surja de nossas ações a legitimidade do outro na convivência, sem discriminação nem abuso sistemático (Maturana, 1998, p.77). Sendo as relações humanas aquelas que definem a convivência, sendo a convivência o espaço de aceitação mútua entre seres humanos, façamos da democracia um espaço político para a cooperação na criação de um mundo de convivência pautado na democracia e no altruísmo, sem negar o outro como legítimo outro da convivência. Esse pensamento constitui parte de nossa aposta política e ética enquanto prática educativa na benevolência. A partir de Delors (1999), considerando que a UNESCO elegeu o aprender a conviver como um dos seus quatro pilares, ao estabelecer metas para a política das nações do mundo para a educação, acrescentamos que a convivência é um fenômeno de reconhecimento mútuo, e também, de respeito e benevolência com o outro, essencial para uma cultura de paz e respeito mútuo. Concordamos com a tese de que a convivência constitui-se em uma prática amorosa e política entre humanos, que permite a coexistência e a vida em sociedade (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004). O respeito e a 22 Retirado da Internet através do site: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Edgar_Morin> Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 125 benevolência mútua entre os sujeitos, correspondem a uma existência amorosa que preserva os mesmos numa unidade política democrática. (MATURANA; REZEPKA, 2000). Portanto, a convivência além de essencial para concretizar um projeto político democrático, é em si uma manifestação política, afetiva e existencial da nossa espécie. Para Maturana (1998) as relações humanas acontecem sempre a partir de uma base emocional que nos unifica em um projeto, um projeto que a priori é de convivência. Ao compreendermos que o projeto que nos une no GGTP é a ginástica geral, cuja base emocional que nos unifica corresponde tanto as Condutas relacionais da boa convivência, como as Condutas relacionais indesejáveis e as não-sociais. Compreendemos que, a base emocional é também, a base ética do GGTP. A base ética do GGTP é calcada em condutas não sistematizadas ou impostas, mas que nasce da história de interações de cada sujeito e do compartilhamento dessas histórias particulares entre os membros do grupo. A ética que estamos falando não foi convencionada, imposta ou proposta, ela é contingente, surgiu na coexistência, no exercício do linguajear e do amar, no fazer que surge no fluir em coordenações de conduta de coordenações de conduta consensuais na convivência, de forma engajada e democrática. Considerando o projeto pedagógico do GGTP, na perspectiva das dimensões ética e sócio-política, a educação está para seus integrantes na perspectiva de formar cidadãos capazes de criticar, sugerir, reivindicar e transformar a realidade, respeitando o processo democrático que reuni seus integrantes – eu e meus alunos – na convivência; sendo eles conhecedores dos direitos, assim como dos deveres, engajados em um projeto comum, conscientes do desejo que constitui esse projeto e dos princípios éticos apreendidos e corporificados na prática esportiva/educativa; é uma educação que serve aos próprios atores sociais envolvidos, assim como ao coletivo, na condição de reconhecê-los como aqueles que desejam, possuem vontades e necessidades próprias, mas que são consciente do apelo coletivo para a coexistência e, portanto, do apelo prioritário da necessidade coletiva; é uma educação que nos permite, professor e alunos, exercitar não só os músculos e articulações, mas o amor, a indulgência e a responsabilidade uns com os outros, seja no cotidiano das práticas, referindo-me ao fazer gímnico, seja nos Ginástica geral como aposta ética para uma formação humana ______________________________________________________________________ 126 outros campos da vida. Assim, compreendemos que a democracia é a dimensão política da ginástica geral, essencial para a constituição circunstancial de um campo de interações em que o conjunto ético é instituído e, no qual, os atores sociais envolvidos nessa prática pedagógica aprendem e criam no experimentar juntos. Por fim, alertamos para a seguinte consideração: compreendendo que o espaço de convivência não é só a escola ou a rua, mas, o mundo em que existimos, Maturana (1998) reflete a condição da política educacional do Chile, seu país de origem, pensando a educação numa perspectiva ética alicerçada na vida, implicando na relação existente entre eu e o outro, onde o outro não deve ser entendido como o semelhante, mas tudo aquilo que está no mundo. O mundo deve ser entendido, nesse sentido, como um espaço de convivência e que o coletivo não é privilégio da espécie humana, mas de tudo que há nesse espaço que chamamos Terra. Nem condenação sísifa, nem meninas lobo. ______________________________________________________________________ 128 NEM CONDENAÇÃO SÍSIFA, NEM MENINAS LOBO. Os indicadores éticos presentes na experiência vivida pelos integrantes do Grupo Ginástico Terezinha Paulino correspondem a união, persistência, perseverança, resistência, esforço, disposição, força de vontade, cooperação, colaboração, trabalho coletivo, conversa/diálogo, amor/carinho, partilha, coragem, tolerância/resignação, amizade, vaidade/orgulho, vaidade/arrogância, responsabilidade, compromisso, dedicação, aplicação, disciplina, gratidão, respeito, calma, intriga, contenda, raiva, ira, fúria, nervosismo, medo e ansiedade. Descobrimos que não havia um sentido específico para cada um desses indicadores. Os mesmos revestem-se dos múltiplos significados, respeitando as referencias pessoais de cada componente, tomados a partir de experiências de vida diversas de cada sujeito aqui analisado. Contudo os indicadores apresentam similitudes quanto ao designo de significados. Essas similitudes foram observadas e contribuíram para a organização dos dois eixos de discussão, ou categorias dessa pesquisa: condutas relacionais da convivência e condutas relacionais indesejáveis e não-sociais. Em condutas relacionais da convivência apontamos o conjunto de comportamentos e valores que corroboram com uma unidade social, em que pessoas convivem aprendendo e aprendem convivendo, aceitando uns aos outros como legítimos seres da convivência. Essas condutas nos mostram a importância do outro para sermos o que somos. Em condutas relacionais indesejáveis e não-sociais vimos alguns elementos do comportamento que negam o outro no espaço relacional, e nesse contexto, essas condutas apresentam-se como não desejáveis para os próprios componentes ou mostram-se incongruentes com a própria existência da vida social ou mesmo da humanidade, mesmo que essas condutas surjam na própria dinâmica de convivência entre os indivíduos. São próprios das condutas da boa convivência: união, cooperação/solidariedade/fraternidade, respeito, amor, confiança, conversa, responsabilidade, compromisso/dedicação/aplicação, gratidão, diálogo, companheirismo, partilha/compartilhar, benevolência. Correspondem as condutas indesejáveis ao bom convívio: intriga, contenda (disputa), vaidade/arrogância, raiva/ ira/ fúria, nervosismo, ansiedade e medo. Nem condenação sísifa, nem meninas lobo. ______________________________________________________________________129 O conjunto dos sentidos configura uma dimensão sócio-política da formação dos atores sociais envolvidos, assim como, da própria prática que nos confraternizam. A dimensão sócio-política que nos integra nessa experiência educacional está calcada numa prática pedagógica de transformação e construção desses valores/condutas na convivência entre humanos, associado aos demais saberes que abarcam o afazer da ginástica, assim como os demais elementos que circulam no viver. A partir da análise da prática pedagógica no GGTP, pautada na convivência entre humanos, destacamos que essa pesquisa constitui um exercício de voltar-se para uma prática educativa, como um fazer essencialmente humano que abarca saberes de ordem política e ética, o que constitui a principal contribuição para pensar e fazer a Educação Física na escola. Buscando ampliar o sentido que nos faz pensar esse fazer na escola partiremos da negação da condição sísifa, como metáfora para pensar a educação na sua acepção mais ampliada. O professor condenado à tarefa sísifa se depara em seu cotidiano com um afazer enfadonho, que se repete sempre da mesma forma. A educação nessa perspectiva é rotineira, mecânica e pouco motivadora. Embora a mesma possa ter algum valor, não vamos adentrar no mérito da questão. O que nos interessa aqui apresentar é o fato de negarmos a condição sísifa do fazer docente, considerando a experiência pedagógica vivenciada no GGTP. Negamos veementemente que, a nossa prática pedagógica, a exemplo da condenação, funcione na perspectiva de um trabalho monótono, rotineiro e mecânico. O nosso fazer constitui uma prática que se renova cotidianamente, na ação e na criação do próprio fazer. É no cotidiano que nós (eu e os alunos) acrescentamos e somos acrescidos pelos saberes do cotidiano. Compreendemos que esse redimensionamento só é possível no campo das interações, quando vivemos com o outro o desejo, ou a descoberta dele na convivência de forma recursiva e amorosa. É nesse conviver com o outro que vivemos, existimos, e com isso, descobrimos o mundo que nos cerca. Quando consideramos que “viver é conhecer” (MATURANA, 1997), compreendemos que a troca de experiências deixa um legado de saberes que carregamos, independentemente de qualquer distinção, durante a nossa existência. Nesse sentido, refutamos a condição sísifa quando nos referimos a qualquer prática pedagógica vivida entre pessoas que se reconhecem no Nem condenação sísifa, nem meninas lobo. ______________________________________________________________________ 130 espaço democrático como aprendizes e mestres. E ao reconhecerem seus papéis, todos devem ser cientes, seja qual for o lado do processo educativo exercido, que o ensinar e o aprender constituem faces da mesma moeda. Ao aprender ensinamos e ao ensinarmos aprendemos, já dizia Freire (1979). Assim, somos ora aprediz-mestre, ora mestre-aprendiz. Meio ao percurso formador em que todos nós aprendemos e ensinamos, reside um desejo comum: viver bem. Considerando que vivemos numa deriva natural (MATURANA; VARELA, 1997, 2002), nem sempre é possível alcançarmos a tão sonhada condição, isso por razão muito simples: cerca nossa condição natural, uma outra, a condição cultural. Estamos imersos na cultura e é nela que existimos na coletividade. Mesmo considerando a nossa condição de indivíduo, esses fatores agem geralmente independente da nossa vontade. A cada instante nós aprendemos algo novo vivendo, preservando a compreensão da recursividade (MATURANA; VARELA, 1997, 2002). Como efeito dessa recursividade, nós deixamos de ser o que somos e nos tornamos outro ser a cada instante, ao aprender algo novo. Esse processo é sutil e constante, dura a vida inteira. Defendemos aqui nessa dissertação um caminho para esse viver em que somos a cada instante um novo ser, ao conhecer o novo. Ao longo do texto viemos denominando esse novo caminho de altruísmo. Vimos que o altruísmo está associado ao que é próprio do social, contrário ao egoísmo. Defendemos esse caminho por entender que, o mesmo constituí equilíbrio entre o existir individual e o coletivo, à exemplo do que acontece na explicação sobre deriva natural. O altruísmo corresponde ao conjunto de condutas de nós indivíduos, cujo efeito benéfico age sobre o coletivo. O conjunto de condutas constitui uma condição da nossa existência, enquanto indivíduo, assim como do grupo social ao qual pertencemos. Esse conjunto é o que chamamos de ética. A ética que nós apontamos no decorrer desse estudo é a mesma que estamos apostando para pensar o educar, a escola e os indivíduos que ela compõe. É uma ética para além da condenação sísifa. Constitui um acervo capaz de agregar pessoas numa existência humana. Destacamos que a existência humana só é possível no desdobramento do conversar: linguajear e Nem condenação sísifa, nem meninas lobo. ______________________________________________________________________ 131 emocionar (amar). Lembremos que para Maturana (1998, 2000, 2001, 2004) a conversa é o princípio universal da condição humana. Em 1992 foram achadas e resgatadas na aldeia bengali, norte da Índia, duas meninas, uma supostamente com oito anos e outra com cinco. Até aí parece um caso de resgate comum de crianças desaparecidas com um final feliz, não fosse o fato de que as mesmas dividiam um drama, considerando a nossa compreensão de mundo. As mesmas viveram, até o resgate, um completo isolamento, quanto ao contato com outros seres humanos. Referimos-nos ao caso das meninas lobo. Assim ficaram conhecidas por terem convivido e aprendido a viver com lobos. As mesmas aprenderam os hábitos dos caninos, por exemplo, se deslocavam na forma quadrúpede e se alimentavam de carne crua (MATURANA; VARELA, 2002). Os mesmos autores, ao ilustrar a Árvore do conhecimento com o episódio das meninas lobo, demonstram partes do domínio do comportamento. Para nós, as meninas lobo além de ilustrar o que os autores (idem) expõem sobre a construção de uma representação de mundo que permitiu as meninas sobreviverem longe de outros humanos, ilustram o quanto é frágil a nossa humanidade. Nossa humanidade depende de outros humanos. E é na convivência que aprendemos a ser humanos. Nesse sentido, sem outros iguais a nós e sem a estrutura social que nos congregam, nos despimos do que é cultural, e o que resta é a nossa condição animal. Despidos da nossa humanidade nos resta viver nossa condição estritamente natural, ou seja, a nossa instintiva animal. Por sobrevivência, acabamos nos adaptando da melhor forma que convier, à exemplo das meninas lobo. A partir de ensaios sobre aculturação e mudança cultural, em “Amar e Brincar: fundamentos esquecidos do humano”, Maturana em parceria com a alemã Verden-Zöller (2004), expõem sobre o desenvolvimento da consciência individual e social da criança, na qual a existência humana é posta como um acontecimento no espaço relacional do conversar. Posto ainda que na condição de animal, homo sapiens, temos um modo de viver que revela nossa condição humana, uma condição imersa no conversar. Contudo, sem o outro humano não podemos viver nossa condição humana. É no conversar que trocamos com o outro a história de condutas que nos torna humanos. Ao conversarmos abrimos um espaço para a presença do Nem condenação sísifa, nem meninas lobo. ______________________________________________________________________ 132 outro junto a nós, o que constitui uma disposição corporal na qual Maturana (2000, 2001, 2004), assim como nós, viemos evocando no decorrer do texto, a saber: o amor. É no convívio que o indivíduo vive com outros o amor e é amando que vivemos a nossa humanidade: aceitando o outro como legítimo outro na existência comum. Compreendemos assim, que nossa humanidade está posta no domínio das emoções e da convivência com outros humanos, uma vezque compreendemos que é no fluxo da convivência com outros humanos que nós agimos e existimos. Nesse sentido, afirmamos que: precisamos do outro para viver a nossa humanidade. Compreendemos ao longo do texto que a conduta que nos faz aceitar uns aos outros como legítimo outro na convivência, atende por amor. Vimos que amar é trocar com outros a esperança, o conhecimento, desejos, outros sentimentos e até fluídos. Ao amar dividimos com o outro o que temos de melhor e pior, seja considerando as condutas relacionais da convivência, seja considerando as condutas relacionais indesejáveis e não-sociais. Convivendo, nós trocamos com outros, aquilo que temos por aquilo que não temos, isso preserva a nossa individualidade e a importância desse aspecto para o coletivo. Ao amar cultivamos no convívio com outros seres, humanos ou não, valores que ajudam a contar a história da nossa humanidade, uma humanidade que só é possível no viver em coletividade, aprendendo com o outro aquilo que ainda não sabemos e vice versa. Nesse sentido, compreendemos que a conduta amorosa se renova cotidianamente de forma recursiva, durante as interações entre nós, seres humanos e que foi amplamente demonstrada, considerando a convivência entre pessoas no GGTP. O amor é uma disposição corporal, uma emoção que agrega e que produz conhecimento. A partir do processo formador que vivemos no GGTP, podemos compreender que o amor é uma mobilização que envolve ao mesmo tempo o professor e o aprendiz numa ação cúmplice de atitudes criativas, críticas e transformadoras para a construção de conhecimentos que cercam o próprio fenômeno da educação, assim como, da própria realidade em que nos faz interagir e conviver com outros humanos. Desse modo, compreendemos que a convivência abre um campo de aprendizagens que se sucedem no tempo pela interação entre pessoas. Assim, compreendemos que o amor educa e nos transforma em humanos. Nem condenação sísifa, nem meninas lobo. ______________________________________________________________________ 133 Reiteramos que a educação humana preconiza uma formação humana, formação esta que se dá a partir da interação entre humanos no linguajear e no amor. Pois, ao amar nós nos transformamos e transformamos o lugar e as pessoas do nosso convívio, construindo assim a história do nosso viver em coletividade. O que nos faz lembrar a educação autêntica que na perspectiva de Freire (2005) preconiza uma educação de um com o outro. O que preserva o entendimento de democracia, segundo Maturana (1998), como manifestação política dessa educação. Ao longo do texto, expomos o entendimento de que a democracia é uma conspiração social, portanto, um ato político, para uma convivência na qual se busca um desejo comum, esse desejo é um projeto comum aos sujeitos na convivência e que nasce da necessidade, partilhada na linguagem, cujo fazer também coletivo se dá na efetivação desse projeto. Esse fazer pode ser na direção de um desejo de mudança ou manutenção de uma condição comum. Ao retomarmos Freire (2005) quando afirma que, é no diálogo que transformamos a realidade, compartilhamos da idéia de que, qualquer transformação social é uma resposta solidária entre indivíduos que vivem a democracia como conduta política de convivência, à qual são preservados o respeito e a aceitação mútua entre humanos. Compreendemos que o sujeito respeitador pode aprender qualquer coisa e adquirir a habilidade que desejar por si mesmo (MATURANA; REZEPKA, 2000). Expomos ainda que, a dimensão sócio-política da convivência encontra-se no diálogo, amplitude do linguajear que implica na articulação coletiva de renúncias e também de reivindicações comuns aos indivíduos afins. É nesse viver com outros que somos capazes de sermos transformados transformando, e de, até, mudar ou não a nossa realidade. Viemos demonstrando até aqui que, os valores em questão são produtos de uma auto- organização ou autopoiese (MATURANA; VARELA, 1997, 2002), essa auto- organização transforma recursivamente os sujeitos em interação constante, o que deslumbra um significado existencial que diverge daquele pensado na tradição da Educação Física, e mesmo, da Educação: enquadramento, homogeneização e padronização do comportamento, hierarquização com autoritarismo e negação da individualidade. Nem condenação sísifa, nem meninas lobo. ______________________________________________________________________ 134 Negamos esse paradigma que conduz formadores e formandos ao pensamento de que sua condição é de um apenado, condenado a um trabalho sísifo. Defendemos uma educação escolar voltada para a formação humana. Para tanto, compartilhamos com Freire (1995), o pensamento de que educar também é um gesto amoroso e político, envolvendo duas ou mais pessoas. Assim, defendemos ainda a democracia e o altruísmo numa perspectiva política e ética, respectivamente, para um educar que preconiza o experimentar junto como máxima. Uma educação cuja negação do outro como legítimo outro da convivência deve ser constantemente combatida. Destacamos que esse pensamento constitui parte da nossa aposta educativa. Apostamos numa perspectiva pedagógica calcada nos princípios do amor considerando as dimensões sócio-política e ética, cujo exemplo foi percebido a partir do referencial do Grupo Ginástico Terezinha Paulino, ao longo dessa dissertação, por compreender que a mesma humaniza. Apostamos nessa prática educativa, por considerá-la um afazer essencialmente humano que abarca saberes de ordem política e ética, constituídas no viver de seus participes, considerando os princípios da idiossincrasia, da aceitação do outro e da democracia. Um exercício que recomendamos e insistimos como uma tarefa constante, exercitada na convivência. O conteúdo desse texto dissertativo nos leva a crer que o mesmo amplia os entendimentos no que cerca a formação humana e seu papel na escola quanto ao educar. Sugerimos que outras iniciativas partam desse texto dissertativo considerando a pedagogia do amor. Estamos esperançosos de que outros professores venham investir nessa forma de pensar a educação, para que possamos ampliar a rede de convivência a partir de um desejo comum: mudar a realidade da educação brasileira a partir da transformação na maneira de pensar e de se fazer educação em nossas escolas. Ainda considerando o próprio GGTP outras possibilidades se dão para pensar o fazer educativo. Entre as possibilidades está à discussão de gênero em relação à prática especifica da ginástica considerando a quantidade de meninos envolvidos e a exposição dos mesmos ora a discriminação, ora a aceitação. Referências ___________________________________________________________________________ 136 REFERÊNCIAS ABBAGNANO, Nicola. 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Anexos _________________________________________________________________________________________________________________ 144 ANEXO A: TABELAS DE FREQUÊNCIA Sujeitos Indicadores éticos União Persistência/ Perseverança/ Resistência Esforço Vaidade Força (disposição) /Força de vontade Cooperação/ Colaboração/ Trabalho coletivo Conversa/ Diálogo Amor/ carinho Tolerância / resignação Coragem Amizade 01 6 2 2 1 2 2 3 1 1 1 4 02 16 23 9 1 2 7 - 10 1 4 6 03 10 6 3 1 2 2 3 3 1 2 4 04 6 7 2 1 - 2 - - - 1 05 5 8 8 4 5 6 8 - 1 - 8 06 2 2 10 4 2 3 - 5 - 2 3 07 4 1 10 - 10 2 - 2 1 3 5 08 2 5 1 2 1 3 4 - - - 5 09 1 7 - - - 1 1 1 - 2 10 2 4 6 2 6 8 11 3 1 1 3 Anexos ___________________________________________________________________ 145 Sujeito Indicadores éticos Família Inclusão Trabalho /Treinos Aprender / aperfeiçoamento / Auto-avaliação Confiança/ segurança Responsabilidade Esperança / fé Paixão Compromisso Ambição Dedicação/ Aplicação Aguerrir/ lutar 01 2 - 2 - - - - - - - 3 02 4 2 20 17 3 1 2 4 2 5 5 7 03 1 - 8 9 7 - - - - - 6 3 04 3 - 12 5 2 - 4 - - - 4 - 05 5 - 8 7 - 5 2 - 1 2 8 - 06 - - 17 1 4 3 4 - 1 - 4 - 07 2 - - 2 16 - - - - - 6 - 08 4 - 16 - 3 10 - - 9 - 1 - 09 1 - 5 3 - - - - 3 - - 3 10 8 1 9 4 1 3 4 1 4 1 1 1 Anexos ___________________________________________________________________ 146 Sujeito Indicadores éticos Inveja Intriga Contenda/ disputa/ rivalidade/ competição Egoísmo Raiva/ ira/ fúria Benevolência/ perdão/ compromisso Incentivo/ motivação Menosprezo / subestimar Preconceito Extroversão Companheirismo/ solidariedade/ coleguismo Disciplina 01 - - 1 - - - 2 1 - 1 - - 02 1 12 8 2 2 6 15 5 3 - - 3 03 - 1 4 - - 4 2 - - 1 5 - 04 - - 1 - 1 1 - - - 2 9 - 05 2 2 1 - 1 3 2 - - - 3 2 06 - - 1 - - 2 1 - - - 6 2 07 - 1 1 - 4 2 - 1 1 - 1 1 08 - 1 - - 1 1 - - - - 4 - 09 - - - - - - - - - - 3 - 10 - 1 17 - - 1 8 1 1 - 5 1 Anexos ___________________________________________________________________ 147 Sujeito Indicadores éticos Partilha/ compartilhar Preguiça Ralhação Otimismo Entusiasmo Gratidão Ciúme Fingimento / falsidade Dever Altivez/ arrogância Saciedade Compulsão/ insaciedade 01 - - - 1 - 1 - - - - - - 02 - - - - - - - - - - - - 03 1 1 3 1 1 - - - - - - - 04 2 - - - - 2 1 - - - - - 05 - 1 - - - 2 - 1 1 2 1 2 06 2 - - - - 1 - - - - - - 07 - - - - - 1 - - - 1 - - 08 1 - - - - 2 - - - - - - 09 1 - - - - - - - - - - - 10 3 - - 1 2 1 - - - - 3 - Anexos ___________________________________________________________________ 148 Sujeito Indicadores éticos Ponderação Fraternidade Respeito Aceitação Euforia Simpatia Ignorância Honra Desespero Calma/ PAZ Aflição Humildade 01 - 1 2 3 - - - - - - - - 02 - - 3 - - - - - - - - - 03 - 1 4 - - - - - - - - - 04 - - 1 - - - - - - - - - 05 1 2 5 1 3 1 1 8 1 5 2 1 06 - - 1 - - - - - - 2 - - 07 - - 5 - - - - - - 11 - 1 08 - - 1 - - - - - - 2 - - 09 - 1 - - - - - - - 3 - - 10 3 - 2 6 4 1 - 2 - - 1 1 Anexos ___________________________________________________________________ 149 Sujeito Indicadores éticos Igualdade Distração Inteligência / sabedoria Superação Zelo Dúvida/ insegurança Descontração Harmonia Disciplina/ ordem/ organização/ planejamento Convivência Concentração 01 - - - - - - - 3 - 1 - 02 - - - - - 1 - - - - - 03 - - - - - - - - - - - 04 - - - - - - - - - - - 05 3 - - - - - - - - - - 06 - 1 1 31 2 1 2 10 - 1 07 - - - - - 1 - - 4 9 3 08 - - 1 - - - - - 1 2 - 09 - - - - - - - - 1 2 - 10 - 1 1 6 - - 2 1 2 13 - Anexos ___________________________________________________________________ 150 Sujeito Indicadores éticos Fascinar-se Emocionar- se Prazer Visibilidade/ fama e sucesso Mudar/ transformar / criar Ansiedade / angustia/ impaciênc ia Vergonha/ timidez Desejar/ sentir vontade/ Medo Sentir orgulho Felicidade/ alegria Nervosismo 01 1 3 2 2 1 1 - 3 - - 3 2 02 - 1 29 3 11 1 1 - 14 5 21 1 03 2 4 3 1 3 8 4 3 2 18 6 04 - 12 5 2 3 - - 1 5 1 05 1 1 9 2 1 5 3 3 5 - 12 9 06 - 4 1 3 2 4 - 1 1 - 3 1 07 - 1 17 3 - 6 1 3 8 - 9 10 08 1 1 - 1 - 4 - 1 - - - - 09 4 5 - - 1 - 4 - - 10 4 10 3 3 5 10 9 4 - 6 1 2 9 - Anexos ___________________________________________________________________ 151 ANEXO B: FICHAS DE CONTEÚDO DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 1: Caroline Bezerra TÍTULO: VOU CONTAR DUAS HISTÓRIAS EM UMA: A MINHA E A DO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO. SUBTÍTULO: PRA COMEÇAR... UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Nada como uma boa conversa e bons sentimentos para nos unir. Isso que nos uni, também nos faz esquecer ou deixar de lado as besteiras que nos leva a brigar. Com o professor que nós temos é bem difícil discutir ou brigar, por que conversamos bastante sobre respeito. Temos o respeito como um fator importante para conviver em harmonia, entendendo como é o outro ser humano. Sabemos que cada um é de um jeito. A importância de sermos diferentes é a possibilidade de conviver com alguém com atitudes e modo de pensar diferente da sua. Fascínio pelo imprevisível I.Est/I.Étc.: A conversa e os bons sentimentos como fatores para a união. O respeito suprime a briga e é tomado como fator para o convívio com esse e o volume de experiências que esse tipo de convivência trás. O professor é uma pessoa ótima, sempre nos apóia, independentemente da situação, (...) O professor luta por aquilo que quer e por nós. (...) Suas atitudes são boas, ele conversa e dar risadas com a gente... I.Est/I.Étc.: Imagem do professor: ótimo, apoiador, lutador, conversador, divertido DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 1 TÍTULO: VOU CONTAR DUAS HISTÓRIAS EM UMA: A MINHA E A DO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO. SUBTÍTULO: MEU PRIMEIRO ESPETÁCULO UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ...quando falamos de circo, logo pensamos na alegria, no sorriso, no encanto e em tudo de bom e de legal que há nele. Participar do espetáculo foi importante porque me deu muito prazer e alegria ver todas ali no ginásio juntas, mostrando e vendo o nosso trabalho realizado no ano, foi a melhor coisa que aconteceu no ano. Embora eu não lembre de tudo, a coreografia que mais gostei de ver foi a dos palhaços e, a que mais gostei de apresentar foi a coreografia final. I.Est.: Ao tomar o circo vêm pensamentos bons e desejados. A participação no espetáculo proporcionou prazer. O prazer esta na experiência sinestésica de participar e ver o trabalho ser assistido, acompanhado, reconhecido e valorizado por terceiros. A intensidade no gostar: no ver e no se mover; a coreografia que mais gostei (ver e apresentar). DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 1 TÍTULO: VOU CONTAR DUAS HISTÓRIAS EM UMA: A MINHA E A DO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO. SUBTÍTULO: O DIA EM QUE O GRUPO ACABOU UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ...eu vi o grupo acabar numa tarde e renascer pouco tempo depois, ainda mais forte. (...) Decidimos sair porque ficou muito repetitivo, cansativo, enfim enjoamos. Na ginástica só fica quem resiste e se esforça, como não agüentávamos mais, saímos. Contudo, senti falta da ginástica e retornei no mesmo ano... Era um grupo novo, com meninas novas... O grupo estava melhor. Isso foi muito importante pra mim porque eu gosto da ginástica, e eu sempre estou ou faço o que gosto. I.Est.: Persistir foi possível pelo gosto que se tem a ginásticas (a prática em si ou/ao conjunto de coisas que envolvem essa prática. I.Est.: Resistir, assim como se esforçar, são componentes éticos presentes na experiência. A rotina do novo grupo tava bem diferente. Bem mais puxado, tinha um pouco mais de alongamento e outros exercícios antes de começarmos a trabalhar as coreografias. A rotina e as exigências são cada vez maiores, percebo isso, ao longo dos anos, o que me motiva e a buscar novas metas, novos exercícios. I.Est/I.Étc.: Exigências do trabalho conduziram a uma nova rotina de conduta. Percebi assim, que o dia que marcou o fim do grupo também foi o dia em que o grupo ressurgiu, se renovou com uma força ainda maior. A cada ano o grupo se renova, Isso mostra a capacidade do grupo de se reerguer. I.Est.: Ressurgir reinventar-se são traços da dinâmica da convivência no GGTP, uma vez que os componentes do grupo vão se renovando com o tempo e as relações SAP potencializados e construídas nesse processo. Anexos ___________________________________________________________________ 152 DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 1 TÍTULO: VOU CONTAR DUAS HISTÓRIAS EM UMA: A MINHA E A DO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO. SUBTÍTULO: A CADA APRESENTAÇÃO, RENASCE A EMOÇÃO UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Todas as apresentações são ou foram emocionantes, independentemente de onde for ou foi apresentado, são especiais. Em cada lugar renasce o sentimento, uma vontade de chegar ao lugar aonde outros chegaram. I.Est/I.Étc.: A busca por algo aponta a opção por metas e a perseverança como valor desse sujeito na realização de seus objetivos. DESEJO Foram várias apresentações, em vários lugares e, como conseqüência, também surgiram alguns admiradores. Por onde passamos somos queridos, principalmente na escola, onde somos queridos por todos. Não acho que sou famosa ou que somos famosas, somos conhecidas pelo grupo que formamos; mesmo assim ainda estranho quando chegamos aos lugares e as pessoas falam: “Elas são alunas de Leonardo”. I.Est/I.Étc.: A visibilidade está associada a uma busca de aceitação de si pelo outro. Ser querida é ser aceita, vista, admirada reafirma a existência de si. I.Est.: A fama não se relaciona com o individual e sim com o coletivo. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 1 TÍTULO: VOU CONTAR DUAS HISTÓRIAS EM UMA: A MINHA E A DO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO. SUBTÍTULO: BREJEIRO, O MEU FAVORITO UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO O fato de nos apresentar no colégio já é bastante significativo pra mim, pois me sinto mais a vontade. Passamos o ano inteiro preparando esse espetáculo. Brejeiro, sem dúvida, foi o espetáculo que eu mais gostei de participar, havia mais meninas que o primeiro espetáculo, havia grupos convidados, mais pessoas assistindo, as coreografias eram mais difíceis, houve mais emoção, foi melhor. I.Est.: Participação; vaidade de ser assistida por maior número de pessoas; maior dificuldade, maior a emoção, são condições para apontar o juízo de valor quanto ao retrospecto das apresentações. Não existe pressão em se apresentar na escola Terezinha Paulino. Ser vista = emoção e ser melhor A coreografia que eu mais gostei de apresentar foi o Forró porque era um tema diferente, com uma musica diferente, um ritmo de pouca ou nenhuma tradição na ginástica, e, finalmente por termos apresentado com vestidos que nada lembra o mundo da ginástica. O espetáculo apresentou uma luz especial, um cenário, o linóleo, a participação dos grupos convidados, um tema pouco comum, o figurino, tudo isso junto me fez gostar mais de Brejeiro. I.Est.: O gostar relacionado ao gosto pelo diferente, pela novidade; ou, mesmo, ao conjunto de novidades. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 1 TÍTULO: VOU CONTAR DUAS HISTÓRIAS EM UMA: A MINHA E A DO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO. SUBTÍTULO: FÓRUM INTERNACIONALDE GINÁSTICA GERAL UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ...mais importante evento que participei nesses cinco anos que estou no GGTP foi, sem dúvida, a viagem para o estado de São Paulo... Juízo de valor: melhor evento Essa viagem era muito importante pra mim, pra o grupo e pra escola. Foi importante para o grupo porque nós mostramos o nosso trabalho, e assim, ficamos sendo conhecidos; foi importante para a escola porque divulgou o nome Terezinha Paulino; e foi importante pra mim, primeiro pelo prazer de me apresentar, e depois pela oportunidade de conhecer outros lugares, outras pessoas, sair com as amigas. O professor lutou muito para que agente pudesse ir ao FIG, mostrar o nosso trabalho. Recolhemos assinaturas de várias pessoas, cerca de 1800 assinaturas, o que demonstra o quanto o grupo queria essa viagem, isso nos uniu ainda mais. Necessidade de afirmação da existência e pertencimento de si, do grupo e do próprio grupo dentre os que fazem GG. Isto reduz a expectativa. Força de vontade e cooperação. Unidade e sentimento de pertencimento social. Ampliação da visão e do conhecimento de mundo. Ampliação da rede de relações no mundo. Campo de oportunidades. Estávamos ansiosas e nervosas... Ansiedade e nervosismo. Reações do cotidiano vivido. Anexos ___________________________________________________________________ 153 (...) Foram boas as apresentações, algumas foram chatas, admito. Havia muita coisa diferente, roupas, músicas, coreografias, isso é legal, muito bom. (...) Eu me impressionei foi com a força dos homens e principalmente com a força das mulheres. Era tudo muito diferente: música, figurino e coreografia. Juízo de valor: coreografias chatas, outra diferentes. I.Est: impressionar-se é uma experiência de percepção pelos sentidos. O que impressiona: a força e as novidades. ...chegou o grande momento. Estreamos bem, foi nossa melhor apresentação, houve falhas nas cordas, mas nada que tirasse o brilho da coreografia. Eu adorei a nossa coreografia, principalmente a musica. Foram vários os exercícios e as colaborações com os aparelhos: cordas, arcos e bastões. Os aparelhos cordas e bastões são fáceis de manipular, já o arco é um pouco mais difícil, pois, pelo seu formato em circulo, ao cair, ele rola e dificulta a sua recuperação. Tudo foi satisfatório: entrar na arena, se apresentar e ser aplaudida no começo e no fim do espetáculo. Vaidade em relação ao reconhecimento Juízo de valores: falhas, adorar no sentido de aprovação; colaboração e aprovação do outro; fácil e difícil. I.Est.: embora houvesse falhas essas não suprimiriam o brilho da coreografia. Colaborações Percepção de volume, forma e dinâmica. ... nos emocionamos quando ouvimos o grupo ser anunciado por uma voz feminina um pequeno texto que dizia: “A união faz surgir uma força capaz de mudar, de transformar as coisas em volta, como também o espaço em que estamos... buscamos mostrar que o trabalho coletivo faz a diferença e que a força se encontra no diálogo entre as pessoas”. Só uma pessoa poderia pensar nisso, o professor Leonardo. I.Est.: Juízo de valor como impressões construídas na relação sujeito-objeto no cotidiano da convivência Valor: mudança, união, força, transformação, trabalho coletivo, diálogo, são percebidos enquanto juízos de valor. I.Est.: emoção ao ouvir uma voz feminina (ligação e/ interpretando um texto que fala de valores, maturidade). Associados a existência e a emoção do sujeito. Foi uma boa apresentação, embora tenha me enrolado um instante com a corda. O professor diz que esses tipos de errinhos servem pra dar mais emoção. O mais gratificante da apresentação é saber que as pessoas que estavam ali te assistindo gostaram do que viram, pois depois algumas nos procuraram para elogiar. I.Est.: Minimização do erro, transformando-o em emoção durante a superação dos erros. Aprovação I.Étc.: O elogio perseguido enquanto traço da aceitação, aprovação do público. Foi ótimo conhecer pessoas de diferentes lugares, assim como foi maravilhoso ver de perto diferentes culturas, jamais vou esquecer disso tudo. Percebi pelo carinho com que fomos tratados que éramos queridos, especiais. I.Est.: Ótimo conhecer: maravilhoso ver; como condição da relação estesiológica entre o sujeito e o novo, o diferente, a novidade. Expansão das fronteiras. Juízo de valor: Jamais vou esquecer. I.Est.: A imagem é perpetuada em forma de pensamento pelo sujeito. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 1 TÍTULO: VOU CONTAR DUAS HISTÓRIAS EM UMA: A MINHA E A DO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO. SUBTÍTULO: A ESCOLA, EXTENSÃO DE MINHA CASA UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Quando eu estou fazendo ginástica, esqueço do mundo e dos problemas... I.Est.: A ginástica como elemento da fuga da realidade. Por causa da ginástica, eu passo boa parte do dia na escola, ela me aproxima da vida da escola com meus amigos, conhecendo os diretores e os demais funcionários, pessoas maravilhosas. A escola é a minha segunda casa. .Est.: As pessoas da escola são pessoas maravilhosas. I.Est.: Escola enquanto casa. I.Est.: Ginástica como fator de aproximação entre a escola e a aluna. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 1 TÍTULO: VOU CONTAR DUAS HISTÓRIAS EM UMA: A MINHA E A DO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO. SUBTÍTULO: PARA O GRUPO, COM CARINHO UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ...acredito que vai ser cada vez melhor, porque somos muito unidas e queremos muito bem umas as outras e a ginástica também. I.Étc.: A fala aponta uma condição do sujeito: a fraternidade. Nesses termos o sujeito vislumbra que vai ser melhor; pois querer muito bem umas as outras: uma condição para uma relação amorosa. Traços de convivência. Tanto as meninas avançadas, quanto as iniciantes são muito esforçadas, sempre tentando chegar à perfeição; sempre, motivamos umas as outras, assim como faz o professor Leonardo. Contudo, para se ter um grupo é necessário ainda carinho, respeito, amizade, amor, tolerância, coragem, atitude para chegar e fazer as coisas acontecerem, no Grupo Ginástico tem tudo isso. Além disso, não devemos passar por cima dos outros, não devemos ser prepotentes. É por tudo isso que somos uma grande família, uma família feliz. Valor dessa relação: esforço: motivos; percepção. I.Est.: Carinho, respeito, amizade, amor, tolerância, coragem, atitude são indícios do que o sujeito toma por perfeição. Juízo de valor: são muito esforçadas. I.Étc.: Carinho, respeito, amizade amor, tolerância, coragem, atitude para chegar e fazer as coisas acontecerem , são componentes da existência desse grupo. Anexos ___________________________________________________________________ 154 I.Étc/I.Est.: A condição de esforçada da maioria. Nossa família já viveu muitas emoções, entre elas, o dia em que o grupo acabou, a viagem e os espetáculos. Sem dúvida a melhor emoção que eu tive foi viajar com parte do grupo para o estado de São Paulo. A ginástica nos dá a oportunidade de viajar e isso é bom porque nos dar visibilidade para participar de outros eventos. Contudo a maior oportunidade é o que aprendemos na convivência com colegas e com o professor. I.Est.: O grupo enquanto família. O fim do grupo, a viagem e os espetáculos, são apontados como lembranças de emoções vividas. O GGTP e a Ginástica Geral são maravilhosos, através deles posso dizer que acordada vivo um sonho real. Por isso, é importante acreditar sempre em nossos sonhos, pois é acreditando em nossos sonhos que temos a chance de torná-los reais. Lembro do que o professor uma vez disse: o céu é o limite e que nós juntos, unidos pela amizade somos imbatíveis. Por isso, acredito que isso é só o começo de uma grande, duradoura e maravilhosa história. Uma história verdadeira e feliz, de um grupo guerreiro de ginástica. I.Est.: Viver um sonho real acordada aponta a expectativa do sujeito. I.Est.: O GGTP e GG são maravilhososporque são lugares reais no qual se vive sonhos capazes de emocionar e dar oportunidades. É a partir deles que o sujeito sente-se imbatível, ou seja, sentem-se potente. Ficha de conteúdo DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 2: Caroline Diniz TÍTULO: UMA HISTÓRIA DE CORAGEM NA GINÁSTICA SUBTÍTULO: QUANDO TUDO COMEÇOU UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ...estava adorando a idéia de entrar para a ginástica. Ver aquelas meninas com mais experiência, deu-me vontade de um dia ser igual ou até melhor do que elas. Senti muita alegria e prazer de estar apreendendo coisas novas com elas e com o professor. Foi uma experiência muito boa, mesmo sentindo vergonha das pessoas que estavam lá. Ainda sim me sentia a melhor ginasta do mundo. Finalmente estava praticando um esporte. É muito bom sentir o gostinho de ser atleta. I.Étc.: Aprender/vergonha, são valor e contra-valor destacados no fazer do sujeito no grupo. Juízo de valor: foi uma experiência muito boa sentir-se a melhor ginasta é um pensamento hierarquizador. I.Étc.: A vontade foi alimentada pelo que o sujeito via. Sentir muita alegria e prazer está relacionado com o aprender coisas novas, alimento para essa alegria e para esse prazer. ...fiquei super feliz, pois finalmente eu ia me apresentar e mostrar o que havia aprendido nos últimos seis meses de treino e de convivência com os integrantes do grupo. Treinamos muito pra que desse tudo certo. Obstáculos se impuseram na nossa frente, por exemplo, o medo. O medo sempre é um obstáculo, principalmente para mim. I.Étc.: Seis meses de treino e o entendimento e cultivo da persistência e do esforço; enquanto valores. O medo constitui um obstáculo do fazer gímnico, ele limita a ação do individuo. I.Est.: Mostrar-se publicamente executando uma série de exercício levou o sujeito a uma condição de felicidade. (...) Na minha primeira apresentação e de outras meninas iniciantes, todas estávamos ansiosas para nos apresentar. A apresentação foi na quadra coberta da própria escola. O público esperava o grande momento. Já posicionadas, nós esperamos a musica começar, e quanto mais esperávamos, mais nervosas ficávamos. Após aguardar uns quinze minutos, começamos a apresentar a coreografia. Parecíamos sereias no mar, estávamos alegres e felizes. Quando terminamos, todas ficamos alegres com o resultado. Valeu a pena tanto treino, tanto esforço. O professor comentou como foi a coreografia, ele nos disse que nós tínhamos arrasado, que tinha sido ótimo. Ficamos muito orgulhosas. I.Est.: ansiedade, nervosismo, esperar, alegria e felicidade, esforço, orgulhos são traços da experiência estesiológica entre o sujeito e sua vivencia no grupo. I.Est.: A apresentação como o grande momento. I.Est.: “Parecíamos sereias no mar”. I.Est.:Parecíamos sereias no mar. Falar ou escrever sobre uma experiência quando faltam referencias ou palavras leva a utilização de referencias fantásticas como o caso da sereia. A sereia é uma figura mitológica que foi utilizada para dar vazão a experiência estesiológica entre o sujeito e o movimento vivido. (...) Minha primeira medalha foi algo significativo para mim e para minha família que, sempre me acompanha nos eventos e sente muito orgulho de mim. I.Est.: Sentimento de orgulho próprio e para a família tendo o símbolo da medalha e seu significado efeito desencadeador. (...) Brejeiro foi meu primeiro espetáculo, foi muito especial, não só pra mim, mas para todos que participaram desse espetáculo (...) Estava me sentindo a melhor ginasta do mundo (...) Foi o nosso primeiro espetáculo e foi maravilhoso. I.Est.: A melhor ginasta é rastro do pensamento hierarquizador. Nós ensaiamos muito. Já com mais experiência, os movimentos ficaram ainda mais difíceis, sendo obstáculos a mais para todas. I.Étc.: Aperfeiçoamento, persistência, perseverança são rastros de uma conduta moral do sujeito na relação em grupo. I.E. As dificuldades como obstáculos para o grande momento: A apresentação. Anexos ___________________________________________________________________ 155 DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 2 TÍTULO: UMA HISTÓRIA DE CORAGEM NA GINÁSTICA SUBTÍTULO: A GINASTICA GERAL, O GGTP E EU UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Para mim a ginástica geral (GG) é uma arte, nela não existe competição e nossa preocupação é se apresentar bem e bonito para o público que nos assiste. Através da GG podemos mostrar nosso talento de diferentes formas, apresentando nossas coreografias coletivamente, demonstrando diferentes exercícios e sem excluir ninguém. Temos talento e expressamos isso em nossas coreografias. Na GG não excluímos ninguém por que sabemos que cada um tem algo a acrescentar e isso ajuda e motiva o grupo como um todo. Isso nos faz sentir que somos importantes no grupo, que somos partes do todo e que contribuímos para o trabalho. I.Est.: Redefinição e conceituação do que a GG.” é uma arte, nela não existe competição e nossa preocupação é se apresentar bem e bonito para o público que nos assiste. Através da GG podemos mostrar nosso talento de diferentes formas, apresentando nossas coreografias coletivamente, demonstrando diferentes exercícios e sem excluir ninguém”. I.Étc.: Inclusão, coletividade. Sentimento de participação de parte e do todo (pertencimento), colaboração, trabalho, são traços morais pertencentes ao código de conduta do grupo. I.Est.: A necessidade do grande momento para dar visibilidade ao grande talento. “se apresentar bem e bonito”. O GGTP é um grupo de pessoas unidas que tem como objetivo mostrar nosso trabalho. O nosso objetivo maior é o que nos uni. Cada um, com o seu talento, contribui a sua maneira para o crescimento do grupo. A união do nosso grupo é muito importante para a realização do nosso trabalho. Por isso, é que amo todos do GGTP e sei que ninguém consegue sair do grupo sem levar consigo um sentimento especial pelas pessoas ou por parte delas. I.Est.: A visão que o sujeito tem em relação ao GGTP inclui os seguintes valores: união, trabalho, contribuição/ participação. Essa visão revela parte das relações e das condutas que a elas se referem. Outro dia ouvi do professor Leonardo algo assim: “A união faz surgir uma força capaz de mudar e de transformar as coisas em volta...”, daí penso que todos nós, integrantes do GGTP, temos a responsabilidade de cuidar e cultivar esse grupo, e é ajudando e colaborando que vemos o grupo crescer a cada dia, não só em qualidade técnica mas, também, em número de praticantes. Somos pessoas que acreditamos em nós mesmas e no próprio grupo, acho que é por isso que temos conquistado tantas coisas, nos fazendo sentir campeãs na vida. I.Étc.: Os seguintes valores união, força, mudança, transformação, colaboração, responsabilidade, cuidado, cultivo do sentimento coletivo e auto-confiança são apontados pelo sujeito como elementos da convivência em grupo, referente ao GGTP. I.Est.: O grupo como alicerce para um sentimento de segurança e de potencia. I.Est.: Sentir-se campeãs na vida revela a compreensão de vitória para além do sentido estrito relacionado a cultura esportiva O GGTP nos proporciona visibilidade e, por isso, oportunidade, assim temos a chance de vencer obstáculos que ainda não conseguimos vencer, como por exemplo, preconceitos sociais. A GG nos possibilita outras chances na vida. I.Est.: As outras chances revelam oportunidade e esperança demonstra a vontade de vencer e amplia o sentimento de vitória, quando expõe um quadro de superação da realidade posta. (...) Fiquei muito feliz por ela e torço que eu e outros integrantes tenhamos a mesma sorte. I.Étc.: : Acreditar na conquista do outro revela traço do comportamento do sujeito, aproximando-o de uma existência solidária feliz e esperançosa. O GGTP é o lugar aonde eu aprendo a conviver melhor com as pessoas, respeitando todos, não importando o quanto elas sejam diferentes,tanto nas opiniões quanto nas características. No GGTP treinamos os exercícios; montamos, aprendemos e apresentamos coreografias, mas aprendemos coisas boas como o compromisso, o respeito, a união e o conviver. I.Est.: O grupo como um espaço de boa convivência. E: Valores: respeito, aprendizado, compromisso, união e a própria convivência, são aspectos cultivados no processo existencial do grupo. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 2 TÍTULO: UMA HISTÓRIA DE CORAGEM NA GINÁSTICA SUBTÍTULO: A GINÁSTICA NOS DÁ... UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ...hoje eu sou mais flexível, mais técnica, tenho mais confiança e menos medo, e ainda, preservo o prazer em praticar a ginástica. I.Étc.: Confiança/medo são sentimentos/atitudes que se dão no processo existencial de qualquer individuo em algumas situações. Enquanto a confiança é almejada socialmente o inverso ocorre quanto ao medo. Ver o sujeito relatar que a ginástica lhe proporcionou uma potencial confiança em detrimento do medo, faz-nos afirmar que é possível adquirir confiança e coragem no decorrer do trabalho gímnico. I.Est.: Prazer em praticar ginástica. Foi ainda nas primeiras aulas que entendi a importância de ouvir as instruções do professor, isso é importante tanto para nossa segurança, quanto para o nosso crescimento técnico. As meninas que não obedeciam aos comandos não se desenvolveram na ginástica. É muito importante ficar atenta às dicas e aos comandos do professor. I.Est.: Segurança enquanto conhecimento. I.Étc.: Importância de ouvir na perspectiva de crescimento/desenvolvimento pessoal e auto-realização, apontam para o desenvolvimento do auto-conhecimento e amplia o entendimento de aprendizado e segurança. Anexos ___________________________________________________________________ 156 (...) Se a cada dor que eu sentisse, eu desistisse de fazê-los, nunca teria chegado ao nível que estou hoje. I.Étc.: Suportar a dor aponta a persistência enquanto característica do comportamento do sujeito. I.Est.: Auto-realização superar a dor é conseqüência.. Família, paixão e amizade são três coisas que me dão forças para agüentar a dor, as exigências do professor e principalmente o medo. É por isso que eu estou aqui lutando contra a dor, para ser uma grande ginasta. I.Est/I.Étc.: Família, amizade e paixão fonte de força e resistência para superar a dor e as exigências da prática. (...) Sonho em ser a melhor ginasta do estado e depois ser campeã brasileira. Sei que pra conseguir chegar onde eu quero é muito difícil, mas eu estou me dedicando. I.Est.: Metas ambiciosas revelam além da ambição, a esperança e a necessidade de muita dedicação exige um quadro de esforço e trabalho além da média. (...) A ginástica é feita de sacrifícios, mas também de alegrias e satisfações e isso é que me motiva a continuar. Estou na ginástica porque eu a amo. I.Est.: Sacrifício››esforço, alegria (sentir); satisfação (saciedade) são características da experiência com a ginástica nessa perspectiva. E graças as satisfações que é possível continuar. ... a ginástica nos exige concentração e criatividade. Entendo por concentração, a atenção em escutar as orientações do professor, estudar os exercícios e se preocupar com a coreografia. Por criatividade entendo as ações do ser humano para melhorar o mundo e a vida das pessoas, impulsionado pela vida ativa, pelo amor, paixões e alegrias, uma dádiva de Deus. Na ginástica, eu aprendi a ser uma pessoa mais concentrada e criativa. I.Est.: Concentração enquanto atenção, estudo e preocupação. I.Est.: Criatividade: ações do ser humano para melhorar o mundo e a vida das pessoas... dádiva de Deus. I.Étc.: Tanto concentração e criatividade são valores postos pelo sujeito necessários a condição de ginasta. ..., a medalha de participação representa uma vitória, vitória por estarmos ali, naquele momento apresentando nosso trabalho, fruto de muito esforço nos treinos e dedicação ao grupo. Cada medalha representa uma conquista diferente, simboliza a participação em um festival, uma mostra, um evento e, por isso, cada um tem um valor diferente e especial para mim. I.Étc.: Conquista, aguerrida, trabalho, esforço, dedicação, união, participação são valores expostos como condição de conduta do e da ginasta. I.Est.: A vitória está na realização do trabalho. ...a ginástica nos dá ainda prazer, felicidade e união. Outra coisa importante que a ginástica me dá é a coragem para enfrentar os desafios. I.Étc.: Prazer, felicidade, união, coragem, superação são outros valores postos como condição da conduta do e da ginasta. I.Est.: Ginástica enquanto caminho de prazer, unidade social e superação de obstáculos. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 2 TÍTULO: UMA HISTÓRIA DE CORAGEM NA GINÁSTICA SUBTÍTULO: ENTRE O MEDO E O FRIO NA BARRIGA UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ...é estranho sentir medo, mas ele existe em mim. Tenho medo de cair e me machucar, das pessoas rirem de mim, de errar, de altura, entre outras coisas, mas também tenho coragem de enfrentar tudo isso (...) Medo e coragem fazem parte da vida. I.Est.: A ambigüidade entre o medo e a coragem posta como parte da vida. (...) O medo é um sentimento de insegurança, mas também de segurança. Valor: segurança e insegurança. I.Est.: Ambigüidade entre segurança e insegurança, posta enquanto sentimentos que na ambigüidade se revela medo. Portanto, medo é a ambigüidade dos sentimentos de segurança e insegurança. (...) O medo que sinto me desafia, pois sei que é preciso sentir menos medo para que eu possa mostrar o que sei. Pra isso é sempre bom contar com alguém pra te apoiar. Na ginástica encontrei esse apoio. Antes eu não tinha com quem contar... I.Est.: O ombro amigo revela-se como a figura do companheiro, ou a atitude de companheirismo. O medo insurge como um valor necessário. Sei que é difícil superar o medo, mas não é impossível; tenho que lutar e vencer as barreiras e os obstáculos. Mas o que eu gosto mesmo é de sentir o friozinho na barriga, isso me faz até acreditar mais em mim. E é acreditando em mim que conseguirei largar esse medo, embora saiba que o medo faz parte disso tudo. I.Est.: O sabor do frio na barriga revela a experiência estesiológica do sujeito com o medo, esse posto como necessário. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 2 TÍTULO: UMA HISTÓRIA DE CORAGEM NA GINÁSTICA SUBTÍTULO: A GINÁSTICA E AS COISAS QUE ME DÃO PRAZER UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Prazer é uma sensação que sempre está presente em nosso grupo. Mesmo que não possamos ser as melhores ginastas do estado, temos a certeza que a ginástica geral nos dá mais prazer do que se tivéssemos numa modalidade esportiva, pois não sofremos a pressão da competição esportiva. Esse prazer me ajuda a continuar acordando cedo para ir treinar. Sem o prazer, acredito que, se quer o GGTP existiria. I.Est.: Prazer é posto como uma sensação. I.Est.: A ambigüidade entre o sentimento competitivo e o sentimento que envolve uma atividade não competitiva. I.Est.: A mensuração do prazer deve-se a relação sinestésica entre o sujeito e a atividade com ausência da pressão competitiva.. Anexos ___________________________________________________________________ 157 Entendo prazer como tudo aquilo que fazemos e gostamos, como por exemplo: comer, dançar, sorrir; por isso, sentir prazer é fácil. Algumas coisas me dão prazer, na ginástica então, nem se fala, sinto prazer em quase tudo. Muitas são as coisas prazerosas que a ginástica me proporciona como, por exemplo, assistir novas apresentações para ver coisas diferentes. A cada dia, a ginástica nos envolve mais com essa sensação de prazer. I.Est.: Prazer é o que é aprovado nos sentidos. Sinto prazer quando assisto novas apresentações e vejo algo novo, diferente do que vejo ou consigo fazer. Muitas vezes vejo outras ginastas executando alguns exercícios incríveis, lindos e queme impressionam. Sinto-me estimulada e passo a treiná-los até eu aprendê-los. Sinto prazer em conseguir executar esses exercícios que conheci e treinei muito para realizá-los. Sinto prazer em aprender. I.Est.: Desafio, persistência, esforço, auto-realização são elementos da conduta do sujeito. I.Est.: Prazer: aquilo que é percebido pelos sentidos como novo e desafia o sujeito a fazer. Lembro como foi maravilhoso assistir os JERNs de 2007. Fui surpreendida ao ver tantas ginastas juntas, as séries, os exercícios. Senti ali, ...que eu também era uma ginasta e, fiquei muito orgulhosa de mim mesma. Ainda me surpreendi com o nível daquelas meninas, tudo fruto de muito esforço e dedicação. I.Étc.: Esforço, dedicação, condições para um nível técnico avançado. I.Est.: Ser surpreendida por aquilo que identifica e que revela esforço e dedicação, traz orgulho, identidade, esforço e dedicação. Sinto prazer em fazer as aulas. Sinto-me tão motivada no alongamento que, só falto me rasgar toda, apesar da dor. Vencer a dor me deixa mais resistente e me ensina a superar dificuldades, me fazendo uma pessoa campeã e uma ginasta melhor (...)faltar aos treinos é abrir mão do meu prazer... I.Étc.: Superação, resistência, auto-realização são elementos da conduta do sujeito, condição para ser uma ginasta melhor. I.étc.: Superar dificuldades é o que indica o sentido de vitória. I.Est.: Ausência dos treinos é privação do prazer. Prazer: na prática de se exercitar. (...) A luta é quase diária, me dedico muito aos treinos. Os treinos me ensinam e me motivam ser cada vez melhor, enquanto ginasta e, enquanto pessoa também. É nos treinos que desenvolvemos nossa técnica, nossa condição física, nos relacionamos com outras pessoas e, assim, aprendemos com os colegas também. É só com muita dedicação aos treinos que conseguimos chegar a algum lugar. I.Est.: A) Os treinos ensinam que é possível ser melhor. B) A necessidade do outro para a aquisição do saber. C) Para atingir metas são necessárias dedicação e determinação. Atingir metas é obter conquistas. As coreografias também nos proporcionam prazer, muitas são legais e algumas são até engraçadas. As apresentações, tanto na escola como fora dela, além de importantes para o GGTP, nos trazem prazer. São importantes para o GGTP porque o grupo é conhecido através das coreografias apresentadas. São prazerosas porque fazemos amizades, conhecemos outros lugares, nos apresentamos, nos sentimos importantes e sentimos muita alegria nisso tudo. I.Est. A) Coreografias como fontes de prazer. B) Coreografias como fontes de visibilidade. C) Coreografias como fontes de conhecimento. I.Est.: A ginástica como campo para ampliar e solidificar amizades Quando apresentamos, o lugar, as pessoas, os aplausos, a tietagem, os elogios, tudo contribui. Sem dúvida, receber elogios é a melhor parte, adoro isso (...) adoraram tanto as nossas apresentações que até pediram autógrafos. Esse foi um momento especial para nós, nos sentimos como Daiane dos Santos, Jade Barbosa, Daniele Hypólito e Laís Souza, estrelas da nossa ginástica. Senti prazer naquele momento. Naquele instante vi também que todo esforço durante os treinos valeram a pena. I.Est.: A) Prazer no sucesso. B) Projeção no sucesso; prazer na projeção. A realização justifica o esforço. Para mim o GGTP é uma família e a ginástica uma paixão. Nela fiz muitas amizades. Quando fico brava vou treinar, daí eu esqueço o motivo que me deixou assim. Por isso, a ginástica me proporciona um alívio em minha vida. I.Est.: Substituição/compensação da família pelo GGTP. I.Étc.: compreensão da família, união e amizade são virtudes cultivadas no grupo. Essas virtudes compensam a raiva que se sente no cotidiano. A paixão que tenho pela ginástica é alimentada pelo prazer que ela me proporciona. I.Est.: O prazer justifica a paixão pela ginástica. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 2 TÍTULO: UMA HISTÓRIA DE CORAGEM NA GINÁSTICA SUBTÍTULO: OUTRAS COISAS ME INCOMODAM UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Coisas que não dão prazer pra ninguém são brigas e intrigas. As brincadeiras de mau gosto levam o grupo a ter esse comportamento e, isso não é bom porque nos leva a desunião. Temos que ser unidos, pois assim somos mais fortes e resistentes às intrigas. I.Est.: A união posta como valor necessário para fortalecer e resistir aos contra-valores: brigas, intrigas, desunião e conflitos. Anexos ___________________________________________________________________ 158 ...um sentimento de competição se formou entre nos: quem era melhor do que quem? Pensávamos que respondendo essa questão encontraríamos a campeã. Um erro. Isso só gerou intrigas, fofocas, inveja, contendas, desconforto, desprazer, tristeza e desunião, trouxe ainda, raiva, mentiras, orgulho e a falta de motivação. “Espírito de ouro”, isso gerou todos os conflitos. I.Étc.: Competição; intrigas, inveja, contendas, desconforto, desprazer, tristeza, desunião, raiva, mentiras, orgulho, desinteresse e conflitos são indicadores que se opõe aos valores desejados na convivência.. I.E. “Espírito de ouro”: competição Competição é a porta para as intrigas, mas também, é a porta para o prazer, o sucesso e a felicidade. O problema é que tem pessoas que acham que a vida só é feita de competições e, que tudo que vão fazer tem que ganhar. Não sabem elas que vivemos de ganhos e de perdas. É muito egoísmo pensar que só vamos ganhar, até por que pra um ganhar outros têm que perder. A competição reina na vida, seja nos esportes, nas artes, no trabalho, por isso, é importante saber conviver com ela. I.Étc.: Condutas valores que habitam o universo competitivo: intrigas, sucesso, felicidade, egoísmo, competição (vive-se para a competição). I.Est.: A competição enquanto porta para os contra valores. Esses acontecimentos serviram como teste para a nossa união. Entendemos que a busca pelo “ouro”, ou seja, pela competição em ser a melhor, a maior, a mais isso ou aquilo, nos levaria apenas a um possível podium e a ruína do grupo. Por isso, é preciso ouvir os outros, conselhos de pessoas mais velhas e experientes, não agir individualmente, pensar sempre nos outros, isso faz parte de uma receita de vida para uma boa relação em grupo. I.Étc.: ouvir os mais experientes é posto como valor a se cultivar. Outros valores: união, benevolência coleguismo. O egoísmo enquanto contra valor. ...em 2006 eu não tinha amizades na ginástica, tinha uma relação péssima com as meninas, por não nos conhecer, e por isso, nós não nos falávamos; com o tempo fui tentando e, em 2007, eu já falava um pouco mais, mesmo assim, me sentia sozinha... I.Est.: A experiência posta como solitária conduziu o sujeito ao entendimento e valorização da amizade. ..., o tempo é nosso amigo, é ele que nos faz esquecer e perdoar as brigas, as tristezas e, assim, melhorar a convivência. I.Est.. O tempo curador das mágoas. I.Étc.: O perdão como valor e a tristeza como algo indesejável. ... todas nos amamos muito o grupo, para deixá-lo por quaisquer intrigas e brigas sem propósitos, isso faz com que ninguém desista do GGTP. Eu não sei como seria minha vida sem o grupo. Contra valores: intrigas. I.Est.: O grupo como bússola da vida, aquele que aponta os caminhos. I.Étc.: As intrigas como condutas indesejadas. (...) E foi com muita união que conseguimos mudar a história do grupo para melhor. A união nos ajudou a persistir e a realizar sonhos. A união nos leva a não desistir. Valores: persistência, união, esperança. I.Étc.: A união que leva a persistência, conduz o grupo a agir para transformar e a realizar sonhos. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 2 TÍTULO: UMA HISTÓRIA DE CORAGEM NA GINÁSTICA SUBTÍTULO: CAMPINAS: UMA VIAGEM MUITO LEGAL UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Percebi nessa viagem que nóssomos vencedoras. I.Est.: a vitória para além da subjugação do outro, enquanto crescimento pessoal e auto-realização. O nosso professor aceitou o convite e desde então começou mais uma luta. Foi muito difícil, fizemos um mutirão... I.Est.: O mutirão e a luta como componentes do trabalho coletivo planejado, organizado e articulado. ... não sei por que, eu sentia medo, acredito que por ser a primeira vez que eu ficaria sozinha sem minha família, num lugar tão distante deles. I.Étc/I.Est.: A distância da família, um exercício de autonomia e emancipação. O Fórum Internacional de Ginástica Geral me traz boas lembranças, amigas, musicas alegres, apresentações, enfim, mas, também me trás más recordações, mentiras, intrigas, saudade. Percebo assim que não existe lugar perfeito e, que nem sempre as coisas são do jeito que a gente imagina Valores:amizade, alegria. Contra valores: mentiras, intrigas, saudade. I.Est.: Em busca do lugar perfeito se descobre que esse não existe. A viagem proporcionou experiências situações com mentiras, intrigas e alegrias, saudade, conduziu o sujeito a pensar a amizade e a sua importância. Foi na convivência que foi possível o sujeito se apropriar desses saberes. ... temos que ser fortes, persistentes, para seguimos aquilo que nos propomos. Por isso é que acredito no ditado que diz: aquilo que se conquista com dificuldade é dado maior valor. Cada conquista significa ato de coragem, persistência e vitória. I.Est.: Busca do ser vencedor., conduz a sujeito a experiências com os seguintes componentes (conhecimentos e saberes): força, persistência, dificuldade, conquista, coragem. ... cada medalha de participação representa uma conquista naquela etapa do grupo, por isso, não existe maior ou menor conquista, seja ela qual for deverá ser sempre valorizada. É por tudo isso que cada medalha me dá mais forças para persistir treinando. Quem sabe um dia, eu conquiste uma medalha competitiva. I.Est.: Medalha simboliza uma conquista ›› essa enquanto participação, porém o que ela espera é a medalha que aponta a conquista em sub-julgar o adversário. As pessoas que temos como amigas estão sempre prontas pra nos ajudar naquilo que precisamos; já as que não temos como amiga, I.Étc.: Amizade e benevolência são elementos da boa convivência, enquanto que as intrigas, desunião e egoísmo são Anexos ___________________________________________________________________ 159 agem justamente ao contrário, nos leva cada vez mais para a escuridão das intrigas e desunião. As pessoas que pensam em fazer intrigar e implantam a desunião, só pensam em si, são egoístas. Essas mesmas pessoas, agindo dessa maneira, mostram que tem dificuldade em dialogar. características indesejáveis no convívio. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 2 TÍTULO: UMA HISTÓRIA DE CORAGEM NA GINÁSTICA SUBTÍTULO: O PROFESSOR UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ... sempre amamos aqueles que cuidam da gente. I.Étc.: O cuidar gera amor. ... eu mudei, ele também mudou, agora temos uma relação melhor. Apesar dos gritos foi ele que motivou, incentivou e nos ajudou na superação das barreiras, a subir os degraus, a persistir e a conquistar. Isso são demonstrações de afeto, provas de preocupação, de cuidado e de amor. Hoje somos fortes graças a isso tudo. I.Étc.: Mudança positiva, incentivar, ajudar, persistir e conquistar I.Est.: o grito que sublima: o indesejado que motiva, incentiva, ajuda, leva a superação, a persistência e a conquista. Uma das coisas importantes do professor Leonardo é que ele sempre está com agente nas lutas, nas apresentações das coreografias, tenham elas sido bem ou má executadas. Mesmo com as dificuldades, adversidades, o professor ainda não desistiu de nós e, ainda assim, está sempre do nosso lado. Sou grata por ele não desistir daquilo que é importante pra ele e para nós, ou seja, o GGTP. I.Étc. . O trabalho é posto como importante. Valor assim como o companheirismo, a persistência e a gratidão Sou feliz por muitos motivos, entre eles, por existir alguém que nos motiva no dia-a-dia, não para sermos campeãs em ginástica, mas, para sermos lutadoras e vencedoras na vida. (...) Por isso também sou grata. Valores: felicidade, gratidão. I.Est.: A ginástica como, campo de apropriação de saberes, cuja troca de conhecimentos se dá entre os sujeitos no cotidiano e no espaço de convivência. a ginástica enquanto campo de saberes e de aprendizagem articulada a vida do sujeito. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 2 TÍTULO: UMA HISTÓRIA DE CORAGEM NA GINÁSTICA SUBTÍTULO: QUEBRANDO PRECONCEITOS UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Nossas coreografias são trabalhos coletivos e são muito bons por que empolgam o público. Através delas mostramos que somos vencedoras. I.Est..: coreografia: espelho da auto-realização. (...) É muito bom poder participar das coreografias do grupo, elas nos oportunizam conquistar novos exercícios; faz-nos aprender novas estratégias coreográficas; ajuda-nos a ser pessoas melhores no presente e no futuro; por isso, guardo cada uma delas no meu coração. Além do mais, elas nos ensina valores importantes. I.Est..: Coreografia: oportuniza o novo, novas experiências; o crescimento e a melhora pessoal (aprendendo valores importantes). Não é a coreografia que ensina valores, mas a convivência com outras pessoas envolvidas, isso inclui o professor e o processo em si: espaço, tempo, proposto, família, o individuo. Quando me apresento e não vou muito bem, sinto-me mal quando vejo as pessoas me olharem com dó de mim ou, como se estivessem decepcionadas ou, como se eu não tivesse me esforçado o suficiente. Outra coisa que não gosto é quando nós nos esforçamos muito e não agradamos o público. Percebo no semblante das pessoas tristeza. É como se nós não tivéssemos nos esforçado o suficiente. I.Est.: Julgo do outro na quebra da virtude do esforço e no comprometimento da beleza da apresentação, ação do expectador. Quando participamos de eventos, em que dividimos as apresentações com escolas particulares, eu me sinto diminuída, porque algumas ginastas dessas escolas têm o nível técnico melhor do que o nosso; e porque as pessoas aplaudem com mais alegria essas escolas. I.Est.. Ambigüidade entre dois sentimentos: superioridade e inferioridade. ... durante a apresentação de uma colega ouvi alguém na platéia dizer: pobrezinha, tão esforçada, pena que é de escola pública. Eu não sinto vergonha de ser de escola pública, temos talentos e qualidades tão boas quanto às pessoas que estudam nas escolas particulares. I.Étc.: Vergonha, pena e fragilidade, postos como contra valores pratica do olhar de expectador, a injustiça ao esforço. I.Est.: O crime do olhar alheio. Subvalorização do trabalho produzido na escola pública. Nos eventos percebo que na hora do desfile são poucas pessoas no público que nos aplaudem, não gosto disso. Mas, quando chega a nossa hora de se apresentar, mostramos o nosso talento e, finalmente, o público nos reconhece e aplaude com empolgação e alegria. Os aplausos que recebemos pelo nosso trabalho, me deixam muito feliz e orgulhosa de pertencer ao GGTP. I.Étc.: Trabalho, orgulho, felicidade, superação são condutas para o sucesso. I.Est.: Talento e trabalho, atributos para conquistar o público. Anexos ___________________________________________________________________ 160 Essas coisas me ensinaram que nunca devemos menosprezar alguém, seja por classe social, raça, sotaque, cor, beleza, ou por qualquer outro motivo. A vida já não é fácil e, com preconceitos, ela se torna ainda mais difícil. I.Est.. Subestimar ensina a não agir tal qual. I.Étc.: O menosprezo e o preconceito como contra-valores praticados pelo público. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 2 TÍTULO: UMA HISTÓRIA DE CORAGEM NA GINÁSTICA SUBTÍTULO: A GINÁSTICA MUDOU MINHA VIDA UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO A partir da ginásticaminha vida mudou, me proporcionou prazer, vitórias, motivação, alegrias, conquistas, valores, como união e respeito, me fez ser mais amorosa, tudo isso fez de mim uma pessoa mais próspera e mais forte. Hoje sou uma ginasta, mas, também, posso dizer que sou uma pessoa feliz. Apesar de saber que só o fato de existirmos é motivo suficiente para sermos felizes, foi na ginástica que encontrei um dos muitos sentidos pra mim. I.Étc.: União, respeito, alegria, motivação, vitória, prazer, conquista, amor, prosperidade e força são valores apontados em referencia a prática pedagógica. I.Est.: A ginástica possibilita a felicidade e sentidos pessoais A ginástica nos ensina a importância da disciplina, de ouvir e de obedecer. Foi através da ginástica, com a ajuda do professor, que melhorei a minha flexibilidade e a qualidade dos meus exercícios. Isso foi à custa de muito sacrifício. Entre outras coisas, a ginástica nos exige concentração, criatividade e nos proporciona prazer, felicidade e união. A ginástica é feita de sacrifícios, mas também, de alegrias e satisfações, e isso me faz continuar. Além do mais, eu estou na ginástica porque eu a amo. I.Est..: A ginástica exige mas te oferece retorno. Há exigências à cumprir na prática gímnica, contudo as exigências trazem retorno ora como saber, ora como prazer. Disciplina, ouvir, obedecer, sacrifício, felicidade, união, satisfação concentração são ações ou atitudes que revelam saber e permitem o prazer. (...) A força é um prodígio que sempre deve estar presente em nossas vidas, pois sem força não conseguiríamos se quer nos mover, imagine pensar, amar e aprender. Acredito que, a “força” é um elemento importante para a vida da gente e de um grupo. Aprendi muitas coisas na ginástica, entre elas, disciplina, confiança, mas, acima de tudo, aprendi a ser uma pessoa mais forte. I.Est..: Força enquanto forma de resistência as adversidades e como condição para um trabalho coletivo bem sucedido. Disciplina e confiança são apontadas como valores. Cada sonho representa uma nova luta e, sabemos que as conquistas e vitórias dependem de esforços, união e motivação, além de fatores que muitas vezes fogem ao nosso alcance. Mesmo existindo estes outros fatores, corremos o risco e sonhamos, pois sabemos que nem sempre venceremos, mas agora, sabemos também que nem sempre perderemos. V.: esforço →conquistas←união fatores que não__↑ ↑__motivação se controla. I.Est.: Autoconfiança. I.Est.: Esforço, motivação e união conduzem as conquistas e vitórias. Ficha de conteúdo DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 3: Fabrícia Ferreira TÍTULO: ANOTAÇÕES DE UMA GINASTA: A EXPERIÊNCIA VIVIDA NO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO SUBTÍTULO: UM COMEÇO DE DESCORBERTAS UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ...nunca tínhamos ouvido falar nele [a GG como o esporte]. Aí, resolvemos optar pela ginástica, pois, além de acabar com a nossa dúvida sobre do que se tratava, poderíamos até gostar de praticar. I.Est.: Experimentar algo que não conhece para conhecer. (...) Ficamos muito felizes por termos escolhido o mesmo esporte, e eu, em particular, alegre por saber que estávamos juntas nessa. I,Étc.:Felicidade e união como traços da relação. Já no primeiro dia de aula gostei muito da ginástica, talvez porque gosto de conhecer coisas novas. A primeira vista já achei o professor Leonardo contente e atencioso com todas nós. Ele me mostrou muita confiança e personalidade. Tudo isso contribuiu para eu gostar do que estava fazendo. I.Étc.: contente e atencioso são qualidades observadas no docente; , confiança e personalidade são atribuições da relação estesiológica entre o sujeito (a aluna) e o professor (o objeto). I.Est.:O sabor do saber sobre o novo. Anexos ___________________________________________________________________ 161 DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 3 TÍTULO: ANOTAÇÕES DE UMA GINASTA: A EXPERIÊNCIA VIVIDA NO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO SUBTÍTULO: COMPANHEIRAS DE GINÁSTICA UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO No inicio, achei as meninas, que já praticavam ginástica, chatas, elas aparentavam ser amostradas e orgulhosas; ao contrário das meninas que começaram comigo. Essas que iniciaram juntas comigo, aparentavam ser muito divertidas. Depois percebi que eu estava enganada com as meninas mais experientes, elas também eram legais. I.Étc.: A condição de ser divertida é uma condição valorizada. I.Étc/I.Est.: Exibicionismo e orgulho são percebidos como contra-valores, uma vez que não são desejados no processo. I.Étc.: as aparências enganam. No grupo somos ginastas, porém, em primeiro lugar somos amigas. Quase sempre estamos todas juntas no colégio. Nesses momentos procuramos saber ainda mais sobre cada uma. Considero todas amigas, umas mais do que as outras, mas o importante é o que eu sinto sobre elas em geral, muito carinho. A cada dia ficamos mais próximas umas das outras e, assim, consolidamos grandes amizades. Tenho a felicidade de poder ter novas amigas que posso contar em alguns momentos. I.Est.: A felicidade em poder fazer/ter e conquistar novas amizades. I.Étc.: As amizades são cultivadas a cada dia no processo; rastro do produto da convivência. amizade, união, companheirismo e carinho são aspectos da relação entre o sujeito que relata e dos demais integrantes do GGTP. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 3 TÍTULO: ANOTAÇÕES DE UMA GINASTA: A EXPERIÊNCIA VIVIDA NO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO SUBTÍTULO: A ROTINA DE TREINOS E BOAS SURPRESAS UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ... no fim nós passávamos as coreografias, sempre com muita alegria e persistência. Sentia uma ansiedade já no fim dos treinos, pois a cada dia sem treino, a espera pela próxima aula, era minha maior agonia. V: alegria e persistência são valores atribuídos ao trabalho. C.V.: ansiedade e agonia são contra valores apontados para a ausência ou intervalo do trabalho gímnico. O prazer de conseguir executar um exercício que esperava fazer implica em uma nova conquista. Graças a nossa dedicação (do GGTP) ao longo do tempo, íamos melhorando. Pouco a pouco, íamos aprendendo novos exercícios. E assim, o nosso desempenho na ginástica foi crescendo junto. A cada dia uma nova conquista. V: conquista e dedicação. I.Est.: O prazer na realização de algo almejado, apontam caminhos percorridos de conquista e dedicação ao trabalho. O querido professor Leonardo é sempre atencioso com todas nós. Às vezes levamos “carões” e “puxões de orelhas” dele, mas sabemos que precisamos disso, pois sem os mesmos não chegaríamos a lugar algum, por que, algumas vezes ficamos preguiçosas. Mas quem pensa que é só “carões” que levamos do professor está enganado, ele passa pra gente muita confiança e coragem, principalmente quando vamos apresentar. Por isso o mérito de melhorarmos também é dele. I.Étc/I.Est..: atencioso é uma qualidade do docente. Confiança, coragem são valores passados pelo mesmo. V.I.: Ralhação é uma atitude docente posta como necessária.. C.V.: A preguiça é vista como um contra-valor. Para o GGTP chegar a algum lugar as vezes é necessário a ralhação.. Esse tipo de conquista junto com o entusiasmo do professor em vencer obstáculos juntos e felizes, contribuíram para que eu me encantasse pela ginástica. (...) ainda estou nela, muito dedicada e perseverante, pois este esporte já faz parte da minha vida. I.étc.: Entusiasmo é uma característica docente. Conquista, união, solidariedade, felicidade e perseverança somadas a característica do professor são fatores de encantamento pela prática. I.Est.: Isso indica que a prática em si não é suficiente, mas o que a cerca. I.E.: o encantamento pela ginástica esta nas conquistas, na qualidade do professor e em valores como união e solidariedade. Anexos ___________________________________________________________________162 DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 3 TÍTULO: ANOTAÇÕES DE UMA GINASTA: A EXPERIÊNCIA VIVIDA NO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO SUBTÍTULO: O CIRCO: NOSSO PRIMEIRO ESPETÁCULO UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ...me senti nervosa, embora estivesse segura do que tinha que fazer. Apesar de já ter apresentado essas coreografias algumas vezes, eu estava muito ansiosa. O meu coração batia forte e minhas mãos não paravam de suar. Mas foi só apresentar a minha primeira coreografia, contorcionistas indianas, que o meu nervosismo sumiu. E o que era nervosismo transformou-se em segurança. I.Est.: Nervosismo e ansiedade são sentimentos que povoam o sujeito nessas condições. Esse estado se manifesta no corpo biológico e simbólico: “O meu coração batia forte e minhas mãos não paravam de suar”. V.: Segurança é outro sentimento posto como inversos ao nervosismo e a ansiedade. O fato de ficar ansiosa e nervosa deve-se ao fato do medo que senti de errar alguma coisa, contudo eu estava muito segura, pois treinamos bastante para tudo dá certo. O professor nos dá segurança e confiança nas coreografias e isso faz com que fiquemos confortáveis e confiantes durante a execução dos exercícios nas coreografias. I.Est.: O treino enquanto condição para se ter segurança e confiança. Essa última cultivada pelo professor no decorrer do trabalho. ...interpretamos lindas e ingênuas indianas, uma coreografia cheia de contorções... Na coreografia Funâmbulos da Irlanda, eu e outras cinco meninas, mostramos a perfeita condução na execução dos exercícios com as mãos livres,... Em Farofa Carioca eu vejo a alegria estampada nos rostos de todos que se apresentaram. I.Est.: Lindas e ingênuas; a perfeita condução na execução dos exercícios; vejo alegria estampada nos rostos: visão do sujeito quanto as coreografias executadas. ..., em todas as coreografias eu vejo o companheirismo envolvendo diferentes pessoas, através das colaborações, dos conjuntos e dos contatos e apoios, esse é preciso ainda confiança. I.Est.: colaboração na série gíminica, uma representação o companheirismo. Entre as coreografias que apresentei, eu prefiro as contorcionistas indianas, pois, duas grandes amigas, ...dividiam comigo essa apresentação e estivemos juntas desde o início, desde a montagem. Nós adorávamos ensaiar essa coreografia, fazíamos isso sem que o professor precisasse pedir. Procurávamos sempre apresentar melhor. Quando o professor fazia algum elogio ficávamos muito felizes e com mais estímulo de ensaiar. V.: elogio, felicidade, estímulo. I.Est.: O preferir está relacionado ao tipo de convivência. Não é a forma da coreografia que determina a predileção e sim as relações subjetivas entre os sujeitos da convivência. I.Étc.: Dividir e juntas são termos que indicam conduta nas relações entre o sujeito que relata e as suas companheiras. ..., percebi nos olhares do público presente um ar de prazer. Senti muita emoção, principalmente quando nos aplaudiram. (...) Eles realmente, estavam gostando do que estavam assistindo. Mesmo depois do tão esperado espetáculo, ainda sentia meu coração bater forte de tanta emoção. I.Est: A leitura DA EMOÇÃO: “Mesmo depois do tão esperado espetáculo, ainda sentia meu coração bater forte de tanta emoção” e ” Percebo pelo olhar do professor” a aprovação ou não. Percebo pelo olhar do professor Leonardo quando ele não está gostando de algo ou quando está muito alegre quando dá tudo certo. Por isso, tenho certeza que o professor gostou de tudo, assim como nós, ginastas, também gostamos. Acho o professor transparente nas suas emoções. I.Est.: o perceber pela visão, o corpo que comunica, aprova ou reprova. Convidei minhas colegas de sala para nos assistir no espetáculo... Essas que assistiram ficaram impressionadas com a nossa apresentação e mostraram-se muito satisfeitas por terem ido. I.Est.:O olhar alheio, como instrumento do julgo. ...Sempre que eu ia trocar o figurino ouvia as pessoas no público comentarem: como elas fazem isso? Olha, que show! Logo isso me deixava mais contente, principalmente porque as pessoas mostravam estar gostando do nosso espetáculo. I.Est.: o olhar alheio como instrumento de aprovação ou não do resultado final do trabalho. A busca do belo. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 3 TÍTULO: ANOTAÇÕES DE UMA GINASTA: A EXPERIÊNCIA VIVIDA NO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO SUBTÍTULO: CONVIVENDO COM AS PERDAS UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Algumas meninas tiveram que desistir da ginástica. Entre elas, duas grandes amigas... Essas dividiram comigo mais que as apresentações, nós estivemos juntas desde o início, entramos juntas na ginástica geral e também estudamos na mesma sala. Ficávamos o tempo todo no colégio falando da ginástica. Quando elas comunicaram que iriam sair do grupo, eu fiquei triste. No começo senti falta delas, mas depois, fui me acostumando. A perda e o desistir. I.Est.: Amizade, compartilha e companheirismo são estruturas do comportamento na convivência valorizadas, já a desistência,a tristeza e a saudade. São elementos que não repudiados, indesejados. A combinação desses elementos estabelece outros, exemplo: o desistir, associado a amizade conduziu a tristeza. (...) Ela sofreu muito em ter que sair da ginástica. I.Est.: sofrimento associado a desvinculação da prática da ginástica e da vida no grupo. Anexos ___________________________________________________________________ 163 Foi duro saber que elas não continuariam conosco no GGTP. Mesmo assim, eu continuei firme e forte no grupo, pois, o meu amor pela ginástica ainda batia forte em meu coração. I.Étc.: Força, firmeza e perseverança são traços do comportamento do sujeito no grupo. I.Est.: “o meu amor pela ginástica ainda batia forte em meu coração” : revela a grande importância da ginástica em sua vida ao associar o amor pela ginástica ao pulsar do órgão que nutre os tecidos do corpo. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 3 TÍTULO: ANOTAÇÕES DE UMA GINASTA: A EXPERIÊNCIA VIVIDA NO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO SUBTÍTULO: A NOVA GERAÇÃO E A CONSOLIDAÇÃO DE UMA GRANDE FAMÍLIA UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO ... novas meninas no grupo. Todas muito legais. De longe percebíamos que elas eram muito guerreiras e talentosas também. I.Est.: ser guerreira: o que é ser guerreira? Ser aguerrida ou guerreira é uma condição para ser uma boa ginasta. Como nós, que já estávamos no grupo, tínhamos uma estatura maior que as meninas que entraram, todas eram novinhas e pequenininhas, o professor passou a nos chamar carinhosamente de “as grandes” e “as pequenas”. I.Étc.: Carinho enquanto estratégia da convivência entre o docente e os alunos. I.Est.: a dificuldade em classificar os alunos no processo. Quando as “pequenas” se apresentaram pela primeira vez estavam tão nervosas quanto eu em minha primeira apresentação. Algumas até bem mais. Foi em Feira de Mangaio, uma coreografia alegre e agitada que fala do povo nordestino. I.Est.: O nervosismo como característica da primeira apresentação. I.Est.: leitura estética da coreografia: alegre e agitada. ...já tínhamos um pouco mais de experiência, por isso, estávamos muito seguras. Isso contribuiu para fazermos um ótimo espetáculo. A nossa experiência ajudou muito as “pequenas”, fizemos de tudo para que elas se sentissem mais seguras e confortáveis nas coreografias que elas apresentaram. I.Étc.: Experiência e solidariedade revelam traços da convivência no GGTP. I.Est.: A experiência a serviço da solidariedade se transforma em conforto, segurança para a realização de “um ótimo espetáculo”.. Aos poucos, as “pequenas” foram se soltando e assim mostrando nos seus olhares e sorrisos a enorme felicidade por tudo, naquele instante, está dando certo. Duas coisas impressionam nas “pequenas”: o otimismo e a satisfação. I.Est.: Otimismo e satisfação como característica das meninasiniciantes. I.Est.: o corpo anuncia o estado emocional através da soltura, dos olhares e sorrisos. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 3 TÍTULO: ANOTAÇÕES DE UMA GINASTA: A EXPERIÊNCIA VIVIDA NO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO SUBTÍTULO: BREJEIRO UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Gosto de ver outros grupos se apresentando, pois observo outros estilos e o jeito de ser dos seus componentes. Os grupos se apresentam de diferentes formas, é esse fazer que eu gosto de ver. Por isso, acho que foi importante o professor ter lhes convidado. É legal ver a diferença de estilos, algumas semelhanças entre os grupos, como também o amor que cada um tem pela arte que faz. Isso também ajuda a mostrar como cada grupo se forma, como surgem. I.E.: o sabor pelo diferente. A percepção visual de semelhanças, diferenças, a afetividade da ginasta com o que faz. Fazer gímnico enquanto arte. Percepção da origem dos grupos; o interesse pela história. Neste espetáculo, a segurança no que íamos fazer, os recursos de iluminação e os convidados, tudo contribuiu para o que foi a nossa maior apresentação na escola até os dias de hoje. Com isso nosso espetáculo ficou mais bonito e ainda mais interessante de se vê e de se apresentar. Com os acessórios, figurinos, além do cenário, linóleo e iluminação, e senti mais solta e alegre. V.: segurança, alegria. I.Est.: Mensuração “maior apresentação na escola até os dias de hoje”. As experiências conduzem as ações de comparar, qualificar e apontar interesses como o de ver e de se apresentar. Eu me sentia mais feliz quando eu apresentava Saudade e Forró, talvez por elas serem alegres, próximo do que eu gosto que é dançar e me divertir. De todas as coreografias que apresentei, considero Retalhos, Trapos e Farrapos, a mais difícil. Nela, cada menina apresenta com dois bastões, os manipulávamos o tempo todo, fazíamos trocas e lançamentos assim como, algumas colaborações difíceis. Foi preciso muito treino, dedicação e concentração. Na hora então, muita concentração. I.Étc.: Dedicação, trabalho, esforço e concentração antecedem a apresentação. I.Est.: Impressão de mensuração e classificação ou servem como critérios para justificar as escolhas. Optar pelo mais difícil requer um espírito aventureiro e ávido por desafios. Essa última condição é um rastro que caracteriza um ginasta componente do GGTP. Anexos ___________________________________________________________________ 164 Dos dois espetáculos que eu participei, o que mais gostei foi Brejeiro, pois, além das luzes e do cenário perfeitos, das lindas coreografias e dos convidados, estavam lá meus pais, alguns vizinhos e minha outra irmã querida, ... I.Est.: Anterior aos recursos do espetáculo e as partes que a cercam está a família. A presença dos entes aumenta o significado do se apresentar, fato explicado pelos laços de afetividade. O saber do espetáculo é determinado pelo componente afetivo, quanto a PARTICIPAÇÃO da família no processo. Essa participação corresponde a condição de espectador. Esse saber se dá ao partilhar uma ação de interesse com sujeitos da referencia existencial. A família é formada por sujeitos da referencia existencial. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 3 TÍTULO: ANOTAÇÕES DE UMA GINASTA: A EXPERIÊNCIA VIVIDA NO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO SUBTÍTULO: ANOTAÇÕES PARA QUE MINHA IRMÃ NUNCA ESQUEÇA DE MIM UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Meus pais juntos me assistiram pela primeira vez ... Vê-los lá me deixou muito feliz. I.Étc.: A família como componente importante na apreciação dos resultados obtidos no processo. Na primeira sessão, eu estava muito nervosa, mas confiante e me sentindo segura do que ia fazer. Embora me sentisse segura em Retalhos, Trapos e Farrapos, eu deixei o bastão cair várias vezes. Mesmo apresentando bem as outras coreografias, sabia o que tinha errado. Sabia também que ainda havia uma outra chance de acertar na sessão da noite. I.Est.: O nervosismo, erro ou falha são postos como componentes da estréia. I.Étc.: Enquanto o acerto é posto como valor, o erro é posto como contra valor. A segurança também é posta como uma virtude da ginasta. Quando vi meus pais lá, na sessão da noite, aquilo me deu uma força incrível, uma vontade a mais para me apresentar. Queria impressioná-los para que eles sentissem orgulho de mim e soubessem que tinha valido a pena toda a minha dedicação durante este ano. I.Est.: A família fonte de força. A força que vem da família, conduz o sujeito a motivação e a dedicação no fazer gímnico. Agora não tem mais volta, respirei, enxuguei minhas mãos e, entrei firme e concentrada, no linóleo. Só lembro do final, quando a música acabou e ficamos na pose; foi só ali que tive a certeza: deu tudo certo. I.Est.: O desenho do nervosismo e da realização: nervosismo associado ao medo de errar; a realização associada ao acerto. É muito significante pra mim o apoio da minha família na prática da ginástica, pois, com isso eles me ajudam a ser persistente e corajosa para enfrentar meus desafios e os medos que tenho. I.Est.: O medo que desafia e que pode inibir é posto como um contra valor. A persistência e a coragem são postos como virtudes, principalmente por se opor ou combater o medo. I.Est.: A família impulsiona., motiva. ...procuramos crescer juntas, ou seja, vencer os obstáculos unidas, isso nos ajuda a ficar mais próximas uma da outra. I.Est.: A união e a solidariedade como recurso para vencer os obstáculos; a ação compartilhada facilita a superação dos obstáculos. (...) Ela faz de tudo pra me explicar e às vezes para me ensinar algum movimento ou exercício que eu ainda não sei fazer direito. I.Étc.: Solidariedade e fraternidade são postos como valores da convivência no grupo. (...) Aproveitamos para conversar sobre como executar melhor cada movimento nas coreografias, para nós e para o público que irá nos assistir, fazemos isso até entrarmos num consenso. I.Est.: A busca pelo acerto, pela beleza, pela aceitação e o reconhecimento é uma constante naqueles que se dedicam ao fazer gímnico. O diálogo, o trabalho solidário são postos como valores, essenciais para atingir as metas. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO: SUJEITO 3 TÍTULO: ANOTAÇÕES DE UMA GINASTA: A EXPERIÊNCIA VIVIDA NO GRUPO GINÁSTICO TEREZINHA PAULINO SUBTÍTULO: 2007: UM ANO DE EVOLUÇÕES: O TORNEIO UNIDADE DE ANÁLISE NÚCLEOS DE SENTIDO Todo fim de ano fico ansiosa pra saber o que vai acontecer no ano seguinte. I.Est.: a espera da novidade provoca ansiedade. (...) Para participar teríamos que fazer nossa própria série. Achei isso excelente, pois, nos ajudou bastante a crescer, a exercitar nossa imaginação e termos iniciativa própria. V.: Autonomia. I.Est.:a ginástica permite criar o que indicia autonomia. (...) No dia da competição, que durou o dia inteiro, ele [o professor] nos chamou e nos disse que o maior valor daquele torneio não era a competição em si, mas, a possibilidade de poder divulgar o que criamos e os exercícios que aprendemos ao longo dos anos, com muita dedicação e esforço. Ele nos disse também que estávamos ali para nos divertir e que tudo não passava de uma grande brincadeira. Mas, nós levamos tudo muito a sério. I.Est.: Embora se buscasse a superação dos traços estéticos que caracterizam uma competição, a brincadeira insurgiu enquanto matriz estética para as ações competitivas, reafirmando alguns valores éticos da competição, por exemplo: a disputa e a hierarquização. O que difere é a forma na qual se percebe o evento: ao invés da seriedade, uma brincadeira. A leveza do brincar substitui o peso de uma competição. Não existe cobrança. Anexos ___________________________________________________________________ 165 I.Est.: competição enquanto algo sério. Diversão enquanto alternativa para a competição. Muitos alunos acompanharam a competição que aconteceu