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Universidade do Estado de Santa Catarina Centro de Educação a Distância Universidade Aberta do Brasil FLORIANÓPOLIS UDESC/CEAD/UAB Educação LÚDICA 1ª edição - Caderno Pedagógico Educação Lúdica Governo Federal Governo do Estado de Santa Catarina UDESC Centro de Educação a Distância (CEAD/UAB) Presidente da República | Dilma Rousseff Ministro de Educação | José Henrique Paim Fernandes Secretário de Regulação e Supervisão da Educação Superior | Jorge Rodrigo Araújo Messias Diretor de Regulação e Supervisão em Educação a Distância | Hélio Chaves Filho Presidente da CAPES | Jorge Almeida Guimarães Diretor de Educação a Distância da CAPES/MEC | Jean Marc Georges Mutzing Governador | João Raimundo Colombo Secretário da Educação | Eduardo Deschamps Reitor | Antonio Heronaldo de Sousa Vice-Reitor | Marcus Tomasi Pró-Reitor de Ensino de Graduação | Luciano Hack Pró-Reitor de Extensão, Cultura e Comunidade | Mayco Morais Nunes Pró-Reitor de Administração | Vinícius A. Perucci Pró-Reitor de Planejamento | Gerson Volney Lagemann Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação | Alexandre Amorim dos Reis Diretor Geral | David Daniel e Silva Diretora de Ensino de Graduação | Fabíola Sucupira Ferreira Sell Diretora de Pesquisa e Pós-Graduação | Lucilene Lisboa de Liz Diretora de Extensão | Vera Márcia Marques Santos Diretor de Administração | Ivair de Lucca Chefe de Departamento de Pedagogia a Distância CEAD/UDESC | Gabriela Maria Dutra de Carvalho Secretária de Ensino de Graduação | Rosane Maria Mota Coordenadora de Estágio CEAD/UDESC | Tania Regina da Rocha Unglaub Coordenadora de Estágio de Curso Pedagogia/UAB | Vanessa de Almeida Maciel Coordenador UDESC Virtual | Luiz Fabiano da Silva Coordenadora Geral UAB | Carmen Maria Cipriani Pandini Coordenadora Adjunta UAB | Lidiane Goedert Coordenadora do Curso de Pedagogia UAB | Roselaine Ripa Coordenadora de Tutoria UAB | Ana Paula Carneiro Secretaria de Curso UAB | Aline de Lauro Bertolini Copyright © UDESC/UAB/CEAD <2014> Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição. Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universitária da UDESC 024e Odinino, Juliane di Paula Queiroz Educação lúdica: caderno pedagógico / Juliane di Paula Queiroz Odinino, Luciane Volken, Mônica Teresinha Marçal – 1. ed. – Florianópolis : UDESC: UAB: CEAD, 2014. 126 p. : il. color ; 28 cm ISBN: 978-85-8331-016-7 1. Educação lúdica. 2. Caderno pedagógico. I. Volken, Luciane. II. Marçal, Mônica Terezinha. III. Título CDD: 370 – 20.ed. Professoras autoras Juliane Di Paula Queiroz Odinino Luciane Volken Mônica Teresinha Marçal Professora parecerista Adriana Alves da Silva Design instrucional Daniela Viviani Diagramação Elisa Conceição da Silva Rosa Sabrina Bleicher Esquemas e figuras Aline Bertolini de Lauro Ilustrações Aline Haag Fotografias Viviani foto&arte Revisão de texto Nilza Goes Coordenação Carmen Maria Cipriani Pandini Projeto Instrucional e Gráfico Aline Bertolini de Lauro Ana Cláudia Taú Carmen Maria Pandini Cipriani Daniela Viviani Elisa Conceição da Silva Rosa Sabrina Bleicher Caderno Pedagógico Material Didático Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .9 Programando os estudos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 CAPÍTULO 1 A polissemia do conceito de brincar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 Seção 1 - Diferentes abordagens que envolvem o brincar . . . . . . . . . . . . . . 16 Seção 2 - A brincadeira na escola: o lúdico, o conhecimento e a cultura . 22 CAPÍTULO 2 O papel da brincadeira no desenvolvimento humano da criança: uma análise das contribuições teóricas na perspectiva histórico-cultural . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 Seção 1 -Os conceitos de criança e infância e a compreensão sobre a atividade humana e a atividade principal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 Seção 2 - A atividade principal presente em cada período do desenvolvimento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42 CAPÍTULO 3 A brincadeira como prática social no contexto brasileiro . . . . . . . . . . . . 57 Seção 1 - A brincadeira como prática social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58 Seção 2 - As brincadeiras no contexto das culturas midiáticas infantis . . 64 Seção 3 - Infância, brincadeira e políticas educacionais . . . . . . . . . . . . . . . . . 74 Seção 4 - Brincadeira e diversidade na escola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78 CAPÍTULO 4 A brincadeira como mediação pedagógica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 Seção 1 - A Educação Lúdica no cotidiano da Educação Infantil e no Ensino Fundamental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90 Seção 2 - Por que o professor deve planejar atividades lúdicas? . . . . . . . . . 95 Considerações finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107 Conhecendo as professoras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109 Comentários das atividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119 Referências das figuras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 Sumário Apresentação Prezado(a) estudante, Você está recebendo o Caderno Pedagógico da disciplina de Educação Lúdica . Ele foi organizado didaticamente, a partir da ementa e objetivos que constam no Projeto Pedagógico do seu Curso de Pedagogia a Distância da UDESC . Esse material foi elaborado com base na característica da modalidade de ensino que você optou para realizar o seu percurso formativo – a Educação a Distância . É um recurso didático fundamental na realização de seus estudos, pois organiza os saberes e conteúdos de modo a que você possa estabelecer relações e construir conceitos e competências necessárias e fundamentais a sua formação . Esse Caderno, ao primar por uma linguagem dialogada, busca problematizar a realidade, aproximando teoria e prática, ciência e conteúdos escolares, por meio do que se chama de elaboração didática, que é o mecanismo de transformar o conhecimento científico em saber escolar a ser ensinado e aprendido . Receba-o como mais um recurso para a sua aprendizagem, realize seus estudos de modo orientado e sistemático, dedicando um tempo diário à leitura . Anote e problematize o conteúdo com sua prática e as demais disciplinas que irá cursar . Faça leituras complementares, conforme as sugestões, e realize as atividades propostas . Lembre-sede que, na Educação a Distância, muitos são os recursos e estratégias de ensino e aprendizagem; por isso use sua autonomia para avançar na construção de conhecimento, dedicando-se a cada disciplina com todo o empenho necessário . Bons estudos! Equipe UDESC\CEAD\UAB Introdução Prezados(as) Acadêmicos(as): Os conteúdos apresentados nesse material visam levar você a discussões sobre as questões e implicações da brincadeira e dos jogos do ponto de vista cultural, social, histórico-cultural e de sua importância para o desenvolvimento humano . Tais problematizações objetivam construir alternativas para uma intervenção educativa voltada à valorização de tempos-saberes centrados no lúdico, que possibilitem ampliar a concepção acerca da educação escolar, a partir das possibilidades do espaço da educação formal e não formal que visem à prática transformadora e inclusiva . Assim, estudar a Educação Lúdica se justifica, pela importância da brincadeira no desenvolvimento humano e social na qual ela aparece como forma de interação social, ocorrendo por meio de gestos, imitação de papéis, representações, imaginações e ressignificações da realidade . Nesse contexto, você, professor(a), precisa conhecer a discussão sobre a importância da brincadeira, bem como dos documentos legais que abordam a questão e o seu papel frente a essa temática, a fim de fazer uso dessas realidades em sua prática pedagógica . Ao se pensar no ensino de nove anos, a brincadeira entra como um importante eixo que pode garantir de, maneira mais fluida, a continuidade da educação infantil e do ensino fundamental . Você deve estar se perguntando: por onde começar? Talvez pela leitura atenta desse material, pois é esse o objetivo dos conteúdos apresentados nesse caderno: disponibilizar ferramentas teóricas, baseadas em conceitos e usos das brincadeiras e dos jogos, assim como práticas e políticas que vêm sendo implementadas, a fim de fornecerem alternativas e possibilidades de intervenção educativa centradas na valorização das diferentes manifestações culturais e na promoção da autonomia dos sujeitos . Mas, para ter sucesso nessa caminhada acadêmica, é importante que você programe seus estudos e leia atentamente todo o texto, prestando atenção aos lembretes de Para Pensar, Aprenda Mais e Para Saber Mais, além das indicações de Leituras Complementares . Ao final de cada capítulo, você encontrará atividades a serem desenvolvidas . Tais atividades visam aprofundar os conteúdos estudados; portanto, realize- as com muita atenção! Já as respostas e/ou comentários das atividades você encontrará no final desse Caderno Pedagógico . Vale lembrar que o propósito dessa disciplina é o de levá-lo(a) a refletir sobre as possibilidades da brincadeira nos espaços educativos e suas implicações na sociedade e na organização escolar, dada sua importância nas vivências infantis, visando buscar alternativas para a análise e intervenção educativa mais atentas, criativas e inventivas . Você vai perceber a importância da Educação Lúdica para o aprimoramento de suas práticas pedagógicas, pela sensibilização em relação ao outro e, consequentemente, para a promoção da autonomia e prática da alteridade . Não perca essa oportunidade e aproveite! As autoras Programando os estudos Estudar a distância requer organização e disciplina, bem como estudos diários e programados para que você possa obter sucesso na sua caminhada acadêmica . Procure então estar atento aos cronogramas do seu curso e disciplina, para não perder nenhum prazo ou atividade dos quais depende seu desempenho . As características mais evidenciadas na EaD são o estudo autônomo, a flexibilidade de horário e a organização pessoal . Faça sua própria organização e agende as atividades de estudo semanais . Para o desenvolvimento desta Disciplina, você possui a sua disposição um conjunto de elementos metodológicos que constituem o sistema de ensino: » Recursos didáticos, entre eles o Caderno Pedagógico . » O Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) . » O Sistema de Avaliação: avaliações a distância, presenciais e de autoavaliação . » O Sistema Tutorial: coordenadores, professores e tutores . Ementa Epistemologia do jogo e do desenvolvimento infantil . Jogos e brinquedos . O papel da imitação . Gestos e mímicas . Os jogos de faz-de-conta . O papel da imitação na construção infantil . A função simbólica e os jogos e brinquedos . A mediação do professor nas atividades lúdicas . 12 Objetivos de aprendizagem Geral » Compreender que a brincadeira é um termo polissêmico que abrange vários conceitos e ideias, merecendo ser estudada como eixo norteador da prática pedagógica junto às crianças . Específicos » Perceber as diferentes concepções e os conceitos de brincadeira, brinquedo e jogos . » Conhecer a contribuição de Vigotski a respeito da brincadeira para o desenvolvimento infantil . » Estudar os principais documentos oficiais que tratam da questão da brincadeira no contexto escolar . » Compreender a brincadeira e o jogo na sua dimensão social e cognitiva . » Destacar o papel do professor na incorporação das atividades lúdicas em seu planejamento . Carga horária 54 horas/aula Anote as datas importantes das atividades na disciplina, conforme sua agenda de estudos: 14 Capítulo 3 – Este capítulo tem o propósito de fornecer subsídios para a compreensão da brincadeira, a partir de seu caráter social e uso cultural nos contextos de educação formal ou não formal, considerando aspectos legais e a possibilidade de pensar a inclusão e a diversidade . Capítulo 4 – O último capítulo desse Caderno Pedagógico apresenta a importância da mediação do(a) professor(a) na elaboração de propostas e atividades que consideram o lúdico um elemento primordial para a formulação e efetivação de uma prática transformadora e atenta às suas realidades sociais . Passemos, agora, ao estudo dos capítulos! 16 CA PÍ TU LO 1 Inicialmente, você estudará as diferentes abordagens que envolvem o brincar na concepção de diferentes autores, também apresentadas no sentido de jogo e de lúdico. O texto demonstrará, ainda, que a brincadeira é um meio de inserção cultural, de apropriação e também de criação da cultura lúdica infantil e que historicamente as brincadeiras já tiveram o objetivo somente de distrair ou de recrear. Entretanto, a história contemporânea apresenta a construção de uma forte relação entre brincadeira e educação. Em um segundo momento, você verá como, na cultura escolar, o brincar é característico das crianças pequenas, mas a superação dessa visão é fundamental para que a escola agregue práticas pedagógicas que contemplem a diversidade cultural representada nas culturas infantis e brincadeiras que não podem ser excluídas desse universo, mas perpetuadas e enriquecidas pela vivência de toda a comunidade escolar. Seção 1 Diferentes abordagens que envolvem o brincar Objetivo de aprendizagem » Ampliar a compreensão sobre o termo brincadeira. Discutindo os termos brincadeira, brinquedo e jogo Ao tratar sobre a Educação Lúdica na Educação Infantil, inicialmente é preciso considerar que, historicamente, o termo brincadeira tem sido relacionado aos termos jogo e brinquedo; podemos considerar então que a relação entre os termos são muito próximas, e no “brincar” das palavras e das definições, seus significados se entrelaçam. O termo brincadeira também pode ser chamado de brincadeira de papéis sociais, jogo protagonizado, jogo de papéis, atividade lúdica ou faz-de-conta. 19 CA PÍTU LO 1sobre formação de professores, propostas pedagógicas, história e políticas públicas, museu e brinquedoteca, letramento e o brincar. Para Kishimoto (2009), não há um conceito universal para conceituar os termos brinquedo e brincadeira, já que brincar é polissêmico e tem várias significações. A autora afirma, no entanto, que brinquedo pode ser conceituado no aspecto material e tambémno aspecto imaterial. Material quando se trata de objetos utilizados pelas crianças para brincarem, como um objeto industrializado ou até mesmo uma sucata. Para o aspecto imaterial, a autora relata que pode ser, por exemplo, uma ideia de brincadeira, algo que se destina ao brincar e se torna um suporte para a ação de brincar. Segundo a pesquisadora, uma criança pode brincar com seu ursinho ou boneca, uma pedra, seus amigos, uma bola ou sozinha com seu amigo imaginário; ela explica, ainda, que a brincadeira é o resultado de ações produzidas por regras, em que se podem ou não usar objetos, mas que tenha as características do lúdico: pode ser regrado, distante no tempo e o espaço, envolver imaginação, dispor de flexibilidade de conduta e de incerteza. Kishimoto (2000, p. 21) defende que “o vocábulo ‘brinquedo’ não pode ser reduzido à pluralidade de sentidos do jogo, pois conota criança e tem uma dimensão material, cultural e técnica. Como objeto, é sempre suporte de brincadeira. É o estimulante material para fazer fluir o imaginário infantil”. Ao pensar na brincadeira, a mesma autora afirma que a brincadeira “é a ação que a criança desempenha ao concretizar as regras do jogo, ao mergulhar na ação lúdica. Pode-se dizer que é o lúdico em ação” (2000, p. 21). Para a autora, brincar não é inato, e que toda criança precisa aprender a brincar para se expressar e se comunicar. Brincar também é diferente de aprender, mas a criança pode aprender brincando, na medida em que recria ou transforma, criando diversas possibilidades a partir da maneira que já brincava e até mesmo quando cria novas regras para a brincadeira. Para Brougère (1998, p. 15), O brinquedo supõe uma relação com a infância e uma abertura, uma indeterminação quanto ao uso, isto é, a ausência de relação direta com um sistema de regras que organize sua utilização. Por conseguinte, o brinquedo não é a materialização de um jogo, mas uma imagem que evoca um aspecto da realidade e que o jogador pode manipular conforme sua vontade. Os jogos enquanto material, ao contrário, implicam de maneira explícita um uso lúdico que assume frequentemente a forma de regra (jogos de sociedade) ou de uma restrição interna ao material (jogo de habilidade, jogo de construção) que constituem uma estrutura preexistente ao material. 20 CA PÍ TU LO 1 Kishimoto (2000, p. 17) afirma que “No Brasil, termos como jogo, brinquedo e brincadeira ainda são empregados de forma indistinta, demonstrando um nível baixo de conceituação desse campo.” A variação no emprego dos termos jogo, brinquedo e brincadeira são empregados de forma indevida e, principalmente por causa da originalidade dos termos brincar e jogar. Santa Rosa (1993, p. 23) procura explicar essa relação, ao afirmar: [...] não possui equivalente nas principais línguas européias: os verbos spielen (alemão), to play (inglês), jouer (francês) e jugar (espanhol) significam tanto brincar quanto jogar [...] O termo brincar, do português – oriundo do latim vinculum, que significa laço, união, possui uma especificidade que as palavras de outras línguas que o reconhecem não apresentaram [...] o termo que possui maior abrangência é sem dúvida o ludus do latim. Ele remete às brincadeiras, aos jogos de regras, a competições, recreação, representações teatrais e linguísticas. Dele deriva o nosso termo lúdico, significando aquilo que se refere tanto a brincar como ao jogo. De acordo com Kishimoto (2001), todo jogo acontece em um tempo e espaço, com uma sequência própria da brincadeira, e uma de suas características marcantes é a existência de regras, assim como sua natureza improdutiva, ou seja, Entende-se que o jogo, por ser uma ação voluntária da criança, um fim em si mesmo não pode criar nada, não visa a um resultado final. O que importa é o processo em si de brincar que a criança se impõe. Quando ela brinca, não está preocupada com a aquisição de conhecimento ou desenvolvimento de qualquer habilidade mental ou física. (KISHIMOTO, 2001, p. 24) Segundo Kishimoto (2001, p. 34), “para alguns autores, o jogo é livre, sem constrangimentos, se opõe à norma, a toda regra fixa”. Assim, em acordo com essa visão do jogo livre, Brougère afirma: Mais do que preparar ou antecipar as aprendizagens, trata-se então de prepara as condições necessárias a qualquer futura aprendizagem. Isso subtende que essas se efetuarão ainda mais rapidamente porque essa base será sólida. (BROUGÈRE, 1998, p. 183) Para o referido autor, os jogos tornam realidade uma ideia de fazer de conta, isto é, os jogos criam uma situação imaginária com a qual as crianças brincam, tornando-se assim, uma reinvenção da experiência sobre o que é a brincadeira; essa colocação de Brougère reforça a ideia de que não devemos contrapor jogo e brincadeira, pois o primeiro é o resultado da atividade lúdica, que é o brincar, e que torna essa atividade ainda mais rica. 21 CA PÍTU LO 1Principalmente ao final do século XIX, diferentes autores ressaltam o surgimento de novos discursos pedagógicos sobre o jogo, que se opõem aos jogos livres das crianças. Assim, surge a noção de jogo educativo, visando conciliar a presença do jogo com o objetivo educativo. Nesse contexto, a expressão jogo educativo é relacionada à atividade escolar, a exercícios desenvolvidos num contexto teórico que atribui valor educativo à atividade jogo e que são orientados pelo adulto buscando favorecer uma participação mais ativa por parte da criança no processo educativo. Nesse caso, o jogo livre da criança ocupa lugar de recreação. Sobre isso Ortiz (2002, p. 10) afirma: As características do jogo fazem com que ele mesmo seja um veículo de aprendizagens e comunicação ideal para o desenvolvimento da personalidade e da inteligência da criança. Divertir-se enquanto aprende e envolver-se com a aprendizagem fazem com que a criança cresça, mude e participe ativamente do processo educativo. Assim, para Kishimoto, a utilização de brincadeiras para o aprendizado ganha a conotação de jogo livre, ao ser abordada nas faixas etárias mais elevadas, por não se tratar do brincar livre, passando a ser chamada de “jogo didático”. Nesse caso, utilizam-se brinquedos/objetos como material pedagógico destinados a uma função específica no ensino de algum conteúdo curricular. Portanto, não se trata de brincadeira, mas de uma orientação do adulto para a criança/aluno. Figura 1.2Nesse contexto, a expressão jogo educativo é relacionada à atividade escolar, a exercícios desenvolvidos num contexto teórico que atribui valor educativo à atividade jogo e que são orientados pelo adulto buscando favorecer uma participação mais ativa por parte da criança no processo educativo. Nesse caso, o jogo livre da criança ocupa lugar de recreação. Jogos Educativos 22 CA PÍ TU LO 1 Perceber que não existe uma única conceituação que abarque a gama de discussões sobre a polissemia dos termos jogo, brinquedo e brincadeira e demais classificações, foi um dos objetivos desta seção. Afinal tais termos estão diretamente interligados a diversas questões históricas, sociais e culturais e são objetos de estudo de muitos historiadores, filósofos, linguistas, antropólogos, psicólogos e pedagogos. Seção 2 A brincadeira na escola: o lúdico, o conhecimento e a cultura Objetivo de aprendizagem » Compreender algumas das consequências deixadas pela banalização e pelo uso restrito da brincadeira nos contextos da Educação Infantil e Ensino Fundamental. Na primeira seção, você pôde notar a diversidade do conceito de brincadeira, tendo em vista seus múltiplos aspectos e facetas, apresentados por diferentes autores(as), que ora remetem aos sentidos do jogo, ora do lúdico, bem como da imaginação e fantasia. Todos são válidos na busca pela compreensão desse fenômeno tão característico das formas de organização humana e necessariamente presente nas diferentes culturas. Pois bem, o uso do conceito de lúdico se relaciona e procura dialogardiretamente com a realidade social sobre a qual se debruça. Sendo assim, uma ou outra concepção pode ser mais apropriada a partir da especificidade da situação a ser analisada. Conforme você estudou, a noção corrente de brincadeira, disseminada no senso comum e também bastante difundida nas culturas escolares, encontra-se bastante ligada às interpretações de vivências e subjetividades infantis, de modo que o brincar aparece como característico das crianças pequenas. Mais do que isso, o desenvolvimento dessa percepção e a valorização da prática nas últimas décadas não por acaso emergiram das problematizações acerca do próprio universo infantil, com destaque no campo de conhecimento da Psicologia do Desenvolvimento. Não queremos aqui fazer uma apologia contra essas ciências, tão necessárias e importantes para o saber pedagógico, mas somente chamar a atenção sobre o modo como o seu predomínio sobre outras formas de conhecimento igualmente importantes, como a História, a Sociologia, a Filosofia e a Antropologia, acabou por promover uma visão distorcida, limitada e a-histórica da relação entre conhecimento e cultura. 24 CA PÍ TU LO 1 Um dos fatores que contribuiram para isso é o fato de a Pedagogia ter se constituído não como um campo de conhecimento, mas um território de aplicabilidade, ranço que durante muito tempo delimitou sua prática, cujo principal objetivo era confundido pela função cultural de homogeneização, ao invés de atentar às reais necessidades sociais, culturais e especificidades locais. Como desdobramento, esse aspecto colaborou muito para a disseminação de uma visão padronizadora das brincadeiras e jogos, se levarmos em conta a compreensão de lúdico como elemento da cultura (HUIZINGA, 2000). Sendo assim, a diversidade cultural representada nas culturas infantis e nas brincadeiras (nosso foco de interesse) foi durante muito tempo extirpada do universo da escola. Jogos e brincadeiras das mais diversas localidades, que fazem parte do repertório brasileiro e regional, foram deixados de lado, já que a escola nessa perspectiva tendeu a privilegiar atividades dinâmicas e prazerosas que pudessem de fato favorecer o aprendizado das crianças, indo ao encontro do principal objetivo da escola e da pré-escola, até a década de 1980, que era a transmissão de conteúdos. Nos anos de 1980, começaram a ser bastante difundidos no Brasil os trabalhos de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, cuja influência resultou numa ressignificação da abordagem mecanicista de aquisição de conhecimentos. Tais estudos, conhecidos como psicogênese, constituíram um marco importante para o início da valorização das produções infantis. Para Piaget, expoente dessa corrente, o fenômeno do jogo infantil tinha suas claras implicações no processo de aprendizagem. Assim, o salto qualitativo se deu na direção de uma compreensão do fenômeno da aprendizagem como algo processual, assentada na ideia de acerto e erro. Entretanto, como pontua Corsino (2011) em seus estudos sobre o modo de alfabetização, nesse período incorporado nas práticas pedagógicas para os(as) professores(as) em exercício, sob o rótulo de propostas construtivistas, efetivou-se “a transposição de conhecimentos de pesquisa para o ambiente escolar (o que) acarretou e tem acarretado uma não diferenciação entre metodologia de ensino e processos de aprendizagem” (p. 244/5). Ou seja, apesar de uma maior abertura para as culturas e produções infantis, muitas das ações pedagógicas desenvolvidas nesse contexto, das mais espontaneístas às mais diretivistas, serviram mais como um pretexto diferenciado para atingir o mesmo e conhecido fim: bom resultado da aprendizagem de conteúdos. Sim, aqui notamos, pela primeira vez, o lúdico como elemento importante para o desenvolvimento infantil, porém sendo orientado para a aquisição de conhecimentos. Além disso, esses últimos foram e têm sido apresentados sem os devidos questionamentos sobre sua historicidade e sobre a hierarquia de poder que há por trás da seleção deste ou daquele tipo de saber. As 26 CA PÍ TU LO 1 espécie de euforia, dada a incorporação apressada desse discurso pelos(as) profissionais da Educação Infantil. Assim, por estar distorcida e desconectada dos embasamentos teóricos que a legitimavam e fundamentavam, tal postura provocou uma onda de práticas espontaneístas e desatentas quanto aos seus reais propósitos, reafirmando uma visão bastante rasa da importância do brincar justificada simplesmente pelo brincar. Tais práticas serviram para levantar uma série de críticas ferrenhas em defesa da retomada conteudista, contra-argumentando principalmente que a pré-escola não estava cumprindo seu papel de preparar as crianças para as séries iniciais. Por outro lado, também aumentaram as pesquisas que ressaltavam a importância da mediação do adulto na promoção desses espaços de brincadeira, fundamental para a ampliação da visão de que tal prática tanto poderia estar vinculada mais sistematicamente à proposta pedagógica do(a) professor(a) quanto de fato promover as potencialidades infantis defendidas pelos estudos sobre o desenvolvimento infantil. Com os percalços no caminho, o levante a favor da brincadeira, desencadeado ao longo dessas duas décadas, foi de carona no processo de ressignificação do papel da creche e da pré-escola, partindo do caráter assistencialista para uma visão que toma a criança, sujeito de direito e ator social, como elemento central para pautar suas ações e práticas pedagógicas. A própria concepção de infância foi sendo transformada ao longo do processo de ressignificação da escola. As reformulações do papel da Educação Infantil, principalmente a partir de sua incorporação na educação básica, a partir da LDB/1996, contribuiu para a criação de uma atmosfera favorável à valorização das vivências e experiências cotidianas em todas suas etapas. Nessa direção, a brincadeira passa a desfrutar de uma maior atenção de pesquisadores e outros profissionais da educação, por ser reconhecida e valorizada no âmbito das experiências de socialização e desenvolvimento infantil. Destaque-se o estímulo à criatividade, à socialização e à autonomia, bem como o consagrado papel da brincadeira para o desenvolvimento cognitivo e social infantil, tão disseminado pelas teorias construtivistas e agora pensado tanto na Educação Infantil quanto no ensino fundamental. Entretanto, a relação entre brincadeira e produção de cultura continua sendo, até os dias atuais, negada pela visão modernizante de sociedade, vigorando a lógica do lucro assentada nos valores de produtividade, eficiência, eficácia e desenvolvimento tecnológico. Além disso, a concepção de história única e universal, tão característica dessa visão moderna de sociedade, tem tido repercussões negativas nas relações estabelecidas entre as diferentes culturas em que a brincadeira ganha um tom especial, partindo de uma concepção de brincar como algo genuinamente pertencente à criança. 28 CA PÍ TU LO 1 do brincar, elas negociam, testam e desafiam códigos sociais com os quais convivem. No entanto, esse elemento tem sido pouco explorado, pois muito do trabalho tradicional sobre cultura de pares concentrou- se nos resultados (positivos e negativos) de experiências com pares no desenvolvimento infantil. A maior desse trabalho tem uma visão funcionalista da cultura; isto é, a cultura é vista como consistindo de valores e normas partilhados e internalizados que orientam o comportamento. (CORSARO, p. 128, 2011) Por mais que a discussão sobre o lugar da criança tenha questionado piamente a visão de criança universal, pela condição de tábula rasa na absorção de conhecimento e de aculturação do mundo adulto, os estudos das culturas infantis ainda têm encontrado muita dificuldade na aceitação dessa criança como produtora legítima de cultura e conhecimento. Quando o papel da escola centraliza suas ações na disseminação dos conteúdos escolares, como produtode uma eleição de saberes no contexto de uma sociedade dividida hierarquicamente, a tendência é relegar o lugar da criança e de suas culturas como território mundano e prosaico (portanto menos importante), pois específicos daqueles sujeitos sem maturidade, sendo assim constituído de “bobices” ou “coisas de criança”. Essa atitude não é exclusiva para com as culturas infantis, mas todas as demais culturas que não as dominantes, que são silenciadas, subjugadas e invisibilizadas a partir de um complexo e requintado jogo de poder. As brincadeiras situam- se nesse campo de tensão, pois, por mais que a discussão sobre a criança como sujeito de direitos tenha avançado, ela tem sido pouco convidada a participar e transformar, a fim de questionar sua condição social e ensaiar alternativas e novas experiências no mundo onde vive. Mesmo com tais discussões, a brincadeira ainda hoje continua sendo utilizada como um importante meio facilitador do ensino-aprendizagem, ao invés de ser pensada como contexto privilegiado de produção de culturas infantis. Apesar das dificuldades que os adultos possam encontrar em adentrar nesse universo de culturas de pares (CORSARO, 2011), o mundo das brincadeiras infantis deve ser encarado como uma rica oportunidade de diálogo, troca e aproximação entre adultos e crianças, nos contextos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental. Tal abertura requer também uma sensibilização, um olhar atento às minúcias e aos códigos compartilhados pelos pares, estratégias e metodologias de pesquisa que facilitem a entrada nesse universo infantil. O adulto nesse caso exercita uma condição de aprendiz, numa espécie de inversão de seu lugar social, porém sem jamais perder de vista seu papel de educador(a). Mais do que isso, tal aproximação lhe fornecerá importantes subsídios para reorientar e fundamentar sua atuação, na medida em que 30 CA PÍ TU LO 1 » Os estudos sobre a brincadeira no campo da Educação sofreram algumas transformações ao longo das décadas, partindo de uma visão mais utilitarista, que visava favorecer os processos de aquisição do conhecimento das crianças para outra, mais recente, que enxerga a importância da brincadeira para o desenvolvimento integral da criança. » Os estudos e pesquisas sobre a brincadeira devem se consolidar como um elemento central das relações estabelecidas no contexto escolar, por ser constituinte das culturas infantis e humanas, sendo tomada para além da dicotomização dos universos da EducaçãoInfantil e do Ensino Fundamental. » Jogos e brincadeiras populares e locais precisam encontrar seu espaço de manifestação, aprendizagem e vivência dentro da escola como forma de valorizar, perpetuar e enriquecer o repertório cultural de adultos, profissionais da educação e comunidade e crianças. Prezado aluno, você pode usar as linhas abaixo para produzir sua própria síntese. 34 CA PÍ TU LO 2 Pensar nas brincadeiras das crianças e proporcionar esses momentos de trocas e interações continua a ser um dos compromissos de todo(a) professor(a), seja de Educação Infantil ou de Séries Iniciais. Estudamos a brincadeira, principalmente devido a sua importância no desenvolvimento humano da criança, pois sabemos que por meio dela muita coisa se aprende e se ensina. A brincadeira não é uma atividade natural, mas historicamente construída conforme a cultura em que nos inserimos; por isso a brincadeira é objeto de estudo de várias áreas do conhecimento, como: Psicologia, Sociologia, Antropologia, História, Pedagogia, Filosofia, Linguística, entre outras. Esse interesse e o “olhar” investigativo de várias áreas do conhecimento sobre a brincadeira têm muitos objetivos, mas um deles é o fato de que a maneira com que as crianças brincam constrói a sua identidade cultural. E isto não é pouca coisa! Lembro-me do dia em que, ainda na graduação (ocorrida na década de 1990), fui visitar o Museu do Brinquedo da UFSC e lá fui recebida por Peninha (apelido carinhoso de Gelci José Coelho, O pintor Pieter Bruegel nasceu por volta de 1525, em uma aldeia dos Países Baixos, hoje compreendida na Holanda, e morreu no ano de 1569 em Bruxelas. Esse artista nos deixou uma obra reveladora dos costumes e hábitos de sua época, como neste quadro intitulado “Jogos Infantis”, de 1560, em que a vida real e a imaginária convivem por meio das brincadeiras. “ “ 35 CA PÍTU LO 2historiador, museólogo, divulgador da obra de Franklin Cascaes e grande conhecedor da cultura açoriana). Além de toda a explicação sobre a obra de Franklin Cascaes (suas bruxas, benzeduras, causos), dos personagens e da história do Boi-de-mamão, ele me mostrou alguns animais esculpidos em madeira e perguntou: Você sabe o que isto quer dizer para os índios guaranis? Eu logo respondi, são os seus brinquedos. Peninha então me disse: “É muito mais que isso, que é forma de mostrar os animais perigosos que podem ser encontrados na floresta, bem como conhecer aqueles animais que podem ser utilizados para a alimentação e para a confecção de enfeites, colares”. Nunca mais de esqueci dessa expressão cultural dos índios guaranis, que por meio dos animais esculpidos em madeira carregam tantos significados. Em 2013, cursei, na UFSC, um Seminário especial do professor Alexandre Fernandez Vaz, intitulado “Infância e história em Walter Benjamin” e novamente fui surpreendida com outros significados sobre as brincadeiras e os brinquedos. Para Walter Benjamin, a brincadeira faz parte de um ritual sagrado, e que usa objetos sagrados como o arco, o chocalho e os bonecos (fazendo referência ao boneco de vodu). Para Benjamin (2002), o pensamento mágico é a estrutura das brincadeiras infantis, mas essa discussão ficará para outro momento. O que quero dizer e salientar, com esses exemplos, é que a brincadeira é assim, expressão carregada de desenvolvimento e significados. Nesse contexto, é hora de conhecer e compreender o papel da brincadeira na perspectiva histórico- cultural. Seção 1 Os conceitos de criança e infância e a compreensão sobre a atividade humana e a atividade principal Objetivo de aprendizagem » Conhecer os conceitos de criança e infância e a importância desempenhada pela atividade humana, bem como a função exercida pela atividade principal presente em cada estágio do desenvolvimento. 38 CA PÍ TU LO 2 É necessário perceber a importância que a atividade humana desempenha, pois é ela que conecta o indivíduo ao meio e pelo qual a criança se torna humana, por meio do desenvolvimento das funções psicológicas superiores (capacidade de planejamento, memória voluntária, imaginação, atenção). Suely Amaral Mello (2007, p. 93), ao tratar sobre as novas estruturas psicológicas, os novos planos de reflexo da realidade que vão se formando na infância, afirma que eles “têm lugar na atividade principal da criança, ou seja, na atividade por meio da qual a criança se relaciona de forma interessada com o mundo que a rodeia”. Assim, a atividade humana é o processo pelo qual cada ser da espécie se transforma em humano, na medida em que ocorre o desenvolvimento da sua psique e da sua consciência. Segundo Leontiev (2010a, p. 68), são nomeados atividade, “os processos psicologicamente caracterizados por aquilo a que o processo, como um todo, se dirige (seu objeto), coincidindo sempre com o objetivo que estimula o sujeito a executar esta atividade, isto é, o motivo”. O motivo é o motor da ação. Facci (2006, p. 13) discorre: Elkonin e Leontiev afirmam que cada estágio de desenvolvimento da criança é caracterizado por uma relação determinada, por uma atividade principal, que desempenha a função central na forma de relacionamento da criança com a realidade. Para esses estudiosos, o homem – a partir do desenvolvimento de suas atividades, tal como elas se formam nas condições concretas dadas de sua vida – adapta- se à natureza, modifica-a, cria objetos e meios de produção desses objetos, para suprir suasnecessidades. Neste caso, por meio dessas atividades principais a criança relaciona-se com o mundo, e, em cada estágio, formam-se nelas necessidades específicas em termos psíquicos. Leontiev (1987) enfatiza que o desenvolvimento dessa atividade condiciona as mudanças mais importantes nos processos Mello (2007, p. 86) discorre sobre o processo humanização, isto é, o processo de formação das qualidades humanas, e assevera que “a Teoria Histórico-Cultural vê o ser humano e a sua humanidade como produtos da história criada pelos próprios seres humanos ao longo da história”. Diz também que “ao criar a cultura humana – os objetos, os instrumentos, a ciência, os valores, os hábitos e costumes, a lógica, as linguagens -, criamos nossa humanidade, ou seja, o conjunto das características e das qualidades humanas expressas pelas habilidades, capacidades e aptidões que foram se formando ao longo da história por meio da própria atividade humana”. Baseada em LEONTIEV (1978), Mello (2007, p. 88) afirma que “Esse processo – denominado processo de humanização – é, portanto, um processo de educação. ” 39 CA PÍTU LO 2 Mello (2007, p. 86) discorre sobre o processo humanização, isto é, o processo de formação das qualidades humanas, e assevera que “a Teoria Histórico-Cultural vê o ser humano e a sua humanidade como produtos da história criada pelos próprios seres humanos ao longo da história”. Diz também que “ao criar a cultura humana – os objetos, os instrumentos, a ciência, os valores, os hábitos e costumes, a lógica, as linguagens -, criamos nossa humanidade, ou seja, o conjunto das características e das qualidades humanas expressas pelas habilidades, capacidades e aptidões que foram se formando ao longo da história por meio da própria atividade humana”. Baseada em LEONTIEV (1978), Mello (2007, p. 88) afirma que “Esse processo – denominado processo de humanização – é, portanto, um processo de educação. ” psíquicos da criança e nas particularidades psicológicas da sua personalidade. Cada estágio (ou etapa de desenvolvimento) será marcado por alguma atividade principal ou dominante, que será da maior importância para o desenvolvimento posterior do indivíduo. Também haverá aquelas subsidiárias, que não serão de menos importância, pois essas atividades estarão geneticamente ligadas à atividade principal. Segundo Leontiev (2010a, p. 64) “Ela não é simplesmente aquela encontrada mais frequentemente em certo estágio do desenvolvimento, a atividade à qual a criança dedica muito tempo”, mas aquela caracterizada pelos três atributos: Três Atributos que caracterizam a atividade principal de cada etapa do desenvolvimento da criança “[...] na qual os processos psíquicos particulares tomam forma ou são reorganizados [...]; “da qual dependem, de forma mais íntima, as principais mudanças psicológicas na personalidade infantil, observadas em certo período de desenvolvimento [...]” “cuja forma surgem outros tipos de atividade e dentro da qual e eles são diferenciados [...]”; Fonte: adaptado de Leontiev (2010, p. 64) Portanto, existem as atividades principais da criança, escrita no plural. Podemos dizer,então, que em cada etapa haverá aquela considerada principal, mas que não anula e nem despreza o papel das demais atividades que, embora existentes, não atuam com tanta força, apesar de também estarem se desenvolvendo. A atividade da criança será determinada pelo lugar ocupado por ela na sociedade. Cada novo espaço que a criança venha a ocupar numa etapa evolutiva específica da sociedade pode criar traços determinados na sua atividade, que irá se comportar de forma particular e diversa de outros períodos da vida. Ao se referir sobre a atividade principal da criança, Mello (2007, p. 93) explica: Em outras palavras, as mudanças mais significativas de sua personalidade, o conhecimento do mundo físico e social, e a organização e reorganização dos processos de pensamento, de 40 CA PÍ TU LO 2 compreensão do mundo e de expressão estão ligados à atividade principal de cada idade – representada pela comunicação emocional no primeiro ano de vida, pela atividade de tateio com objetos na 1ª infância e pelo jogo de papéis na idade pré-escolar. Segundo Leontiev (2010a, p. 65), “A atividade principal é então a atividade cujo desenvolvimento governa as mudanças mais importantes nos processos psíquicos e nos traços psicológicos da personalidade da criança, em certo estágio de seu desenvolvimento”. Assim, a atividade principal agrega em torno de si um conjunto de atividades com outras características, que irão modelar no indivíduo competências e capacidades distintas, porém igualmente significativas e complementares entre si, também necessárias ao desenvolvimento pleno do ser humano. Nem o conteúdo dos estágios, nem sua sequência no tempo são fixos, estanques e definitivos. O conteúdo dos estágios, entretanto, não é, de forma alguma, independente das condições concretas nas quais ocorre o desenvolvimento e possui uma certa sequência no tempo. Segundo Leontiev (2010a, p. 65 e 66), “[...] não é a idade da criança, enquanto tal, que determina o conteúdo de estágio do desenvolvimento, os próprios limites de idade de um estágio, pelo contrário, dependem de seu conteúdo e se alteram pari passu com a mudança das condições histórico-sociais”. Leontiev (2010a, p. 63) registra que “A mudança do lugar ocupado pela criança no sistema das relações sociais é a primeira coisa que precisa ser notada quando se tenta encontrar uma resposta ao problema das forças condutoras do desenvolvimento de sua psique”, e afirma que “Todavia, esse lugar, em si mesmo, não determina o desenvolvimento: ele simplesmente caracteriza o estágio existente já alcançado”. A transição de um estágio do desenvolvimento para outro se dá, segundo o autor, pela mudança do tipo principal de atividade. Nesse processo, pode haver crises que se intercalam entre os diferentes estágios do desenvolvimento, que caracterizam a transição de uma etapa para outra, podendo ter duração variada. Para Leontiev (2010, p. 66), “surge uma contradição explícita entre o modo de vida da criança e suas potencialidades, as quais já superaram este modo de vida. De acordo com isso, sua atividade é reorganizada e ela passa, assim, a um novo estágio no desenvolvimento de sua vida psíquica. ” A dinâmica do processo de rupturas, mudanças e saltos qualitativos pode ser verificada na concepção histórica e dialética em que os estudiosos da escola russa (Vigotski, Leontiev e Elkonin) se aprofundaram. Para 45 CA PÍTU LO 2 A atividade objetival manipulatório, segundo Mello (2007), também pode ser chamada de tateio com objetos na primeira infância. motoras, cognitivas, afetivas e sociais, permitindo-lhe dominar um ciclo muito mais amplo de atividades. Segundo Facci (2004, p. 68), “a comunicação emocional dá lugar a uma colaboração prática”. Segundo Mello (2007, p. 96), Na etapa conhecida como primeira infância, a linguagem representa a linha central do desenvolvimento da criança. O mundo dos objetos e instrumentos tem inicialmente um interesse imediato – não mediatizado pelo uso social que deles fazem os adultos. A exploração e o tateio dos diferentes objetos a que tem acesso e as descobertas que realiza nesse tateio movem seu desenvolvimento até próximo dos três anos de idade, pois, por meio dessa experimentação, a criança observa, se concentra, cria modelos de ação que também servem ao seu pensamento, interage com outras crianças que estão à sua volta, tenta resolver as dúvidas que a manipulação dos objetos gera e, com isso, envia importantes estímulos ao seu cérebro. Nessa atividade com objetos, a criança descobre características e propriedades; ampliando o conhecimento do mundo ao seu redor, exercita sua percepção, sua comunicação, seu desenvolvimento motor, acumula experiências e cria uma memória, exercita e desenvolve a atenção, a fala, o pensamento e faz teorias, ou seja,interpreta e explica o que vai conhecendo. Sobre a manipulação dos objetos, as Diretrizes educacionais pedagógicas para Educação Infantil da rede municipal de ensino de Florianópolis (2010, p. 43), registram que “Esse processo envolvendo a manipulação do objeto e o seu uso a partir da sua função social é fundamental de ser considerado pelas profissionais, tendo em vista a familiaridade que as crianças desenvolvem com os objetos a partir do momento que os têm a sua disposição”. E salientam a necessidade de sua oferta, ao dizer que Sendo assim, devemos disponibilizar objetos diversificados às crianças, desde os bebês, já que mesmo que eles não utilizem em sua função social, o fato de poder explorá-los lhes permite adquirir maior domínio sobre o objeto, o que por sua vez pode tornar mais rica a experiência com o mesmo objeto em uma situação de seu uso contextualizado. (FLORIANÓPOLIS, 2010, p. 43). Facci (206, p. 14) afirma que, “por volta dos dois anos, a criança apresenta grande evolução da linguagem, dando início a uma forma totalmente nova de comportamento, exclusiva humana. Inicia-se a formação da consciência e a diferenciação do ‘eu’ infantil”. As experiências e os conhecimentos oriundos da prática social passam a ser socializados e apropriados por cada um de forma particular e ocorre a mediação entre o sujeito e o 47 CA PÍTU LO 2 Também chamado de jogo de papéis por Elkonin (1987) e Mello (2007). Arce & Duarte (2006, p. 8) dizem que a brincadeira de papéis sociais também pode ser chamada de jogo protagonizado. Ao se colocar no lugar do outro - em geral, adulto que representa o faz-de-conta, a criança objetiva seu comportamento num nível mais elevado de exigência social. Com isso, exercita e aprende, pouco a pouco, a controlar sua vontade e conduta. No faz-de- conta, portanto, amplia seu conhecimento do mundo, organiza e reorganiza seu pensamento, interpreta e compreende os diferentes papéis sociais que percebe na sociedade que conhece. Até os seis anos, pois, as crianças aprendem por sua própria atividade ao imitar os adultos e outras crianças, procurando fazer sozinhas aquilo que vão testemunhando, aquilo que aprendem a fazer com os outros, condicionadas pelo acesso à cultura mediatizado pelos adultos ou parceiros mais experientes. Fotografia de Sofia Brites. Disponível em: <http://sofia-educarcomcarinho.blogspot.com.br/2013/02/brincar- de-faz-de-conta.html.>. Acesso em 29 ago, 2014. Você pode estar se perguntando sobre o papel exercido pelos adultos ou pelas crianças mais experientes, ou seja, pela participação do outro, nessa relação de desenvolvimento e aprendizagem, e também sobre a brincadeira e o seu papel no desenvolvimento da criança pré-escolar. Nesse contexto, é importante citar Vigotski (2008, quando ele explica que brincadeira não é trabalho, e portanto a criança brinca sem ter consciência dos motivos da atividade da brincadeira. Isso distingue a brincadeira de todos os outros tipos de atividade, inclusive o trabalho. Vigotski (2008, p. 25) descreve o surgimento da brincadeira: Na idade pré-escolar, surgem necessidades específicas, impulsos específicos que são muito importantes para o desenvolvimento da criança e que a conduzem diretamente à brincadeira. Isso ocorre porque, na criança dessa idade, emerge uma série de tendências irrealizáveis, de desejos não realizáveis imediatamente. [...] Parece- me que, se na idade pré-escolar não houvesse o amadurecimento das necessidades não realizáveis imediatamente, então, não existiria a brincadeira. [...] a brincadeira [...] deve ser sempre entendida como uma realização imaginária e ilusória de desejos irrealizáveis. 52 CA PÍ TU LO 2 b) Como é caracterizado esse estágio do desenvolvimento? Explique-o. 2. Em uma sala de berçário, o(a) professor(a) introduz a colher na alimentação dos bebês. Que significado tem essa colher no processo de desenvolvimento da criança com o objeto? 53 CA PÍTU LO 23. Numa sala de berçário, há um bebê de 6 meses que chora compulsivamente, embora o (a) professor (a) tente acalentá-lo dando-lhe colo e atenção. Um bebê que já caminha, observando a situação tira da boca a sua chupeta, vai em direção ao bebê e tenta dar a chupeta para ele. Como você avalia esse processo de desenvolvimento? 4. Na hora do banho em uma sala do berçário, o (a) professor (a) conversa com o bebê explorando as partes do corpo. Em que estágio do desenvolvimento se encontra esse bebê? E que mediações o adulto pode realizar? 55 CA PÍTU LO 2Sobre a importância das brincadeiras e das amizades, leia as histórias infantis: » MACHADO, Ana Maria. Bisa Bia, Bisa Bel. Editora Salamandra. Comentário escrito pela escritora Marisa Lajolo: “Bisa Bia, Bisa Bel, de Ana Maria Machado é uma história bonita, onde uma menina, no convívio com sua bisavó (bisa Bia) e sua bisneta (que a chama de bisa Bel), aprende a conviver consigo mesma. Nessa recuperação do passado e a antecipação do futuro, Bel descobre a riqueza múltipla de seu presente, que é este nosso tempo, numa grande cidade brasileira. » ROCHA, Ruth. Cinderela das bonecas. Editora Salamandra. A sinopse diz: Você costuma desanimar quando as coisas parecem difíceis? Preste atenção nas histórias das fadas. Príncipes, princesas, rainhas e reis sempre precisam de coragem, paciência e de esperteza para resolver seus problemas. Mariana achava que tudo estava perdido...Vovó Neném tinha certeza de que para tudo existe solução... Para aprender mais sobre os momentos de crise no desenvolvimento infantil, leia: » VYGOTSKI, L. S. A crise dos sete anos. Traduzido de: VIGOTSKI, L.S. La crisis de los siete años. Obras escogidas. Torno IV. Madrid: Visor y A. Machado Libros, 2006, p. 377-386. » ______________ El problema de la edad. In: VYGOTSKI, L.S. Obras Escogidas. Volume IV. Madrid: Centro de Publicaciones Del M. E. C./ Visor. 1996. Para aprender mais sobre as atividades humanas, indicamos os seguintes livros de literatura infantil: » ROCHA. Ruth. Nicolau tinha uma ideia. Ilustrações de Mariana Massarani. Quinteto Editorial. O livro conta que, com a chegada de Nicolau, as pessoas deixaram de ter uma única ideia na cabeça, as ideias foram compartilhadas, e ao ler a história você saberá o que pode acontecer quando as ideias são socializadas, compartilhadas. 56 CA PÍ TU LO 2 » FURNARI, Eva. Lolo Barnabé. Ilustrações da autora. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 2010. Série do avesso. A história de Lolo Barnabé começa no tempo das cavernas, mas o tempo passa e as coisas mudam. Ele constrói uma casa, faz móveis, inventa eletrodomésticos. Ele é feliz...mas nem tanto. 58 CA PÍ TU LO 3 Nos últimos tempos, têm emergido com mais vigor as questões voltadas à diversidade e à inclusão, como forma de complexificar e fomentar novos caminhos e desafios na direção de múltiplas e enriquecedoras experiências culturais e lúdicas. Tal abordagem extrapola a simples indagação sobre o lugar da brincadeira no processo de ensino-aprendizagem, inserindo-se no contexto mesmo da dimensão humana inscrita no ato de brincar. Eis a brincadeira como uma importante manifestação cultural e identitária, cujo invólucro nos leva a considerar e valorizar a diversidade e pluralidade cultural nos espaços formais e não formais de Educação. Seção 1 A brincadeira como prática social Objetivo de aprendizagem » Compreender a brincadeira como prática social, acionando a historicidade e a importância da contextualização dessa prática, à luz do conceito de cultura. Nesta seção você estudará a brincadeira, exaltando-a quanto a seu caráter de prática social, a fim de realizar uma reflexão sobre a incidência dos aspectos culturais contidos na experiência do brincar, desde sua fase de formulação até seu uso. Sobre esse horizonte, saltam aos olhos as diferenças socioculturais, daí a importância de realização de uma análise que consiga mostrar o lugar dos jogos e das brincadeiras nos diferentescontextos, além de desenvolver uma reflexão sobre os processos de construção de conhecimento. Como prática social, a brincadeira aqui será evocada tanto para pensar seu lugar nos contextos formais de educação, a saber, a escola e as diferentes etapas da educação básica, quanto nos não formais, para além dos muros da escola, numa tentativa de problematizá-la em sua rede de significados compartilhados pelos diferentes grupos sociais. Tal reflexão visa o exercício do estranhamento dessas práticas, a fim de que os mecanismos de exclusão e as práticas irrefletidas possam ser revistos, e também sejam enaltecidos os aspectos que valorizem e promovam a diversidade cultural a partir de ricas e criativas experiências lúdicas. Além disso, tal discussão objetiva fornecer subsídios à incorporação da brincadeira para 60 CA PÍ TU LO 3 infantil tem suas implicações na análise dos jogos e das brincadeiras, oriundas do simples fato de encontrar seu espaço de problematização principalmente nas instâncias voltadas ao universo infantil, cujo leque vai das preocupações dos estudos na pré-escola até o campo da cultura midiática de lazer e entretenimento. Assim, a determinante cultural da brincadeira tem aparecido intrinsecamente associada ao mundo da criança, sendo tão característico da cultura contemporânea globalizada. De acordo com Brougère (2004), a cultura lúdica infantil é composta por um repertório de brincadeiras, cujos esquemas básicos ou rotinas são partilhados pelas crianças, ou seja, o conjunto de experiências que permite às crianças brincar juntas e negociar regras, jogos e fantasias. Nesse contexto, nos dias de hoje, remeter ao cotidiano infantil evoca quase que automaticamente a importância da brincadeira, devido aos profundos laços historicamente tecidos entre o mundo atribuído às crianças e essa prática cultural. Por esse motivo, é tão importante refletir sobre a que imagem de criança estamos nos referindo. Ariès (1978) afirma que a infância contemporânea, tal qual como a concebemos, é fruto da separação dos universos adulto e infantil, consolidada pelo domínio da escrita na Europa nos séculos XVI e XVII, de modo que a criança passa a ser vista como um sujeito incompleto que somente estaria inserido no universo dos adultos quando adquirisse as habilidades de leitura e escrita. A imagem da criança preservada e protegida em sua inocência nasce a partir dessa separação, e a brincadeira e o universo da imaginação infantil acompanham o delineamento dessa nova concepção de infância. Porém, na esteira das ciências sociais, a criança deve ser vista como sujeito de direitos, cidadã e produtora cultural. Desse modo, os estudos acerca das culturas infantis devem compreendê- la não por qual condição cognitiva ela elabora sentidos e significados, mas, sim, a partir de que sistema simbólico o faz (COHN, 2005). Figura 3.1 - Crianças exaltadas por sua inocência e pureza. Pintura de Sir Thomas Lawrence – 1769/1830 61 CA PÍTU LO 3Muito se questiona a respeito da designação cultura da infância, assim no singular, dada importância e influência do contexto para seu delineamento. Desse modo, não seria possível restringir uma única cultura da infância, com uma história linear e suficientemente abrangente, senão falar em culturas da infância, no plural. O melhor seria reconhecer alguns elementos comuns, mas que não se aplicariam a sua totalidade, pois as vivências mudam conforme o espaço e o tempo. O que de fato se teria em comum remeteria à atribuição de certos elementos culturais a uma dada concepção de infância partilhada. Nesse caso, a brincadeira e o lúdico são aspectos que têm acompanhado de perto essa trajetória relegada ao universo infantil, caracterizando as práticas culturais infantis no sentido globalizado. Tal como sugere Brougère (1995, p. 97), a brincadeira como prática cultural consolida-se como “um processo de relações interindividuais”, em oposição a uma outra visão que a considera como atividade nata e natural da criança. Ela é aqui idealizada pela sua dimensão de aprendizagem social, contextualizada na cultura, portanto. Deflagrada no cotidiano, a brincadeira solicita uma “mutação do sentido, da realidade: as coisas aí se tornam outras. É um espaço à margem da vida comum que obedece a regras criadas pela circunstância” (idem, p. 99-100). Nessa mesma perspectiva da compreensão como prática cultural, Huizinga (1990) pensa o jogo e a brincadeira como um sentido que inspira a diversão e permite uma evasão da vida cotidiana, pelo fato de se realizar dentro de limites de tempo e espaço demarcados, em que há regras e lógicas específicas e acordadas em meio àqueles(as) que se prestam a participar dessa atividade. Esse é o viés que permite conectá-la à noção de performance desenvolvida na Antropologia, inspirada em Victor Turner (1987), cujo foco se encontra na relação entre ritual e cotidiano, tomando o primeiro como um espaço e tempo de reflexão sobre o segundo. Nessa perspectiva, a brincadeira, tal qual um ritual, implica uma suspensão espaço-temporal do fluxo cotidiano, constituindo-se um espaço de performance, devido ao fato de romper com o ordinário e o rotineiro e suscitar reflexivamente os dramas sociais vividos no dia-a-dia. Diante disso, a experiência reconhecida por brincadeira desfruta de uma característica bastante peculiar e instigadora, na medida em que, desenvolvida no âmbito social, supõe uma mesma significação espaço- temporal partilhada por todos(as) envolvidos(as). “A visão de cultura emergente se baseia na ideia de que a vida social é um processo dinâmico e não uma estrutura fixa, e este processo, segundo Turner, é melhor visto como um drama social, ou seja, como composto de sequências de dramas sociais que são resultado de uma contínua tensão entre conflito e harmonia. A vida é um drama, cheio de situações desarmônicas ou de crises cujas resoluções desafiam os atores” (LANGDON, 1996, p.25). 64 CA PÍ TU LO 3 De outro lado, Sarmento (2003, p. 57) nos alerta para a “perda no tempo da memória histórica dos jogos infantis, que são hoje um patrimônio preservado e transmitido pelas crianças, numa comunicação intergeracional que escapa em larga medida à intervenção adulta”. Esse fato é atribuído em grande medida ao novo estilo de vida, globalizado, midiatizado e mediado pelas tecnologias da comunicação, e tem provocado mudanças nas novas experiências e configurações identitárias infantis. Esse é um assunto a ser problematizado na próxima seção. Seção 2 As brincadeiras no contexto das culturas midiáticas infantis Objetivo de aprendizagem » Compreender a influência da cultura midiática, na tentativa de ensaiar formas de problematização e trato no contexto escolar, decorrentes da promoção da reflexividade do fenômeno cultural. Culturas midiáticas infantis: estereotipias de gênero e de classe social Nos dias atuais, ao mencionar culturas infantis, é impossível não destacar o peso das mediações tecnológicas participando ativamente das configurações identitárias das crianças. As mídias exercem fascínio junto aos grupos infantis e insurgem envoltas de ideologias e visões de mundo que povoam o repertório de suas brincadeiras. Os conteúdos midiáticos, sobretudo os disseminados pela televisão e pelo cinema, apresentam um amplo alcance junto aos públicos infantis, movimentando uma cadeia de produtos que aparecem presentes no cotidiano da criança em praticamente todas as esferas de sua vida, dos brinquedos às vestimentas, passando pelos produtos de higiene até os de alimentação. Você já reparou nos produtos comercializados hoje em dia? É muito difícil encontrar produtos que não venham com o tema de personagens de desenho animado ou de séries e filmes famosos entre as crianças. Além disso, tais conteúdos têm exercido um importante papel nas socializações infantis e, consequentemente, em suas criações, imaginações e brincadeiras. As narrativasdos conteúdos produzidos para crianças têm suas raízes nos contos orais populares europeus, dos séculos XVIII e XIX, posteriormente compilados por Hans Christian Andersen e os Irmãos Grimm. A partir dessa época, tiveram suas versões adaptadas, visando atender ao público infantil, inspirado na imagem da criança pura, dependente e desprotegida que ganhava força a partir de então. Esses contos encontram-se bastante presentes no imaginário infantil popular, cujas matrizes culturais participam ativamente na composição dos conteúdos das produções midiáticas contemporâneas remetidas às crianças, com intensiva conotação lúdica e fantástica. 66 CA PÍ TU LO 3 orientados pela lógica do lucro. Tal atitude acaba por produzir efeitos contrários ao esperado, pois na realidade tende a reforçar o fosso que separa os universos adulto e infantil, entre o que é desejado para as crianças pelos adultos, e com o que de fato elas consideram importante e se identificam, já que, nos momentos livres e de descontração, tais referenciais vem à tona com toda sua força. Nos contextos culturais infantis, efetua-se uma demanda por expertises e outros domínios dos conteúdos midiáticos. Tal prática leva a uma diferenciação entre as próprias crianças, a partir de seus conhecimentos sobre o assunto, e da posse de brinquedos dos referidos temas, entre games e outros referenciais da coleção movimentada pela indústria. Esse último aspecto tem se mostrado um importante diferencial, que tende a ser valorizado nas culturas midiáticas infantis, levando mais uma vez a valorização das crianças de maior poder aquisitivo. Outro ponto que merece atenção é que, como se não bastasse a valorização de determinadas características de estética e valores urbano, jovial e consumista, no interior das narrativas e dos discursos dos conteúdos remetido às crianças há um intensivo reforço das diferenciações de gênero entre meninos e meninas. Cada vez mais cedo, toda uma cadeia de produtos é movimentada, a fim de atender aos apontados interesses do público (masculino e feminino) mirim. No entanto, como vimos, o que é fruto de práticas culturais aparece desde a mais tenra idade como característica naturalizada: as diferenças de gênero surgem ditando comportamentos, valores, posturas e expectativas distintas entre os dois grupos, incentivando uma ambiguidade e um fosso cada vez maior entre esses dois universos. Nem os bebês estão salvos dessa ditadura dos gêneros: desde o nascimento, seus utensílios de primeira necessidade como fraldas, babadores, lenços umedecidos até suas vestimentas e brinquedos, perseguem essa mesma lógica. É de extrema importância que educadores(as) encabecem iniciativas e ações buscando relativizar tais imposições, pois as desigualdades de gênero acabam sendo reforçadas por trás de figuras bonitinhas e aparentemente inocentes. Além da segregação, chama a atenção o teor desses conteúdos: para as meninas, vigora ainda um universo cuja maior realização aparece na tônica do matrimônio, por mais que se tenha avançado bastante da imagem associada à restrita passividade, a exemplo das histórias de princesas. Ainda que constatadas algumas pequenas variações, a marca da maior realização feminina aparece nesses enredos relegados à atmosfera da vida privada e doméstica. O maior ícone da resignação feminina da cultura infantil está na imagem da Bela Adormecida, heroína-vítima que não realiza nenhum feito, simplesmente permanece dormindo durante toda sua saga. Ortner (1996) afirma que há nesses casos uma espécie de renúncia da agência feminina. Entretanto, consolida-se como merecedora de um grande e importante prêmio: ser salva pelo príncipe, um jovem valente, bonito e rico, e tornar-se sua esposa. Isso se dá por ser acima de tudo bonita e atraente, o que é defendido nas entrelinhas como principal atributo feminino a ser buscado incansavelmente. Por outro lado, os referentes masculinos em suas sagas lidam com grandes feitos e responsabilidades sociais, isto é, aparecem preocupados com a vida pública, de modo que os super-heróis masculinos, por exemplo, devem salvar o planeta e lutar pela manutenção da ordem. Inclusive as personagens femininas, na maior parte das vezes, são secundárias e coadjuvantes dessas histórias de ação e aventura. 70 CA PÍ TU LO 3 nas narrativas desses conteúdos e programas dirigidos às crianças. Tal atitude implica de fato uma aproximação com as culturas midiáticas infantis, rumo à promoção de diálogo e crítica quanto aos aspectos reconhecidos junto às crianças como nocivos. Assim, consolida-se uma tentativa de exercício de alteridade junto ao grupo de crianças, manifestada pela seriedade com que tais assuntos são tratados, de modo que seja possível que elas também percebam tais aspectos de maneira crítica e transformadora. Aqui, por um lado, muito se tem a aprender com elas, com suas preferências, suas identificações e, enfim, suas brincadeiras. Combater de frente simplesmente sugere lutar contra um inimigo invencível, frente à força que essas mídias exercem sobre nós, adultos e crianças, fazendo uso de uma linguagem altamente persuasiva e sedutora. Desse modo, como educadores(as) que atentam as suas realidades sociais, refletem e buscam transformá-la, ao investigar as brincadeiras infantis como prática social, é necessário conferir uma atenção especial a esses conteúdos, que povoam de maneira intensiva os imaginários populares infantis, a fim de buscar ampliar a visão de mundo dessas crianças, aguçando a criticidade e a reflexividade sobre os mesmos. Dentre eles merecem destaque os desenhos animados (como apontado anteriormente), utilizados a seguir, para ilustrar sumariamente a relação estabelecida entre as temáticas midiáticas e as brincadeiras infantis. Desenho animado e brincadeiras infantis: possibilidades de articulação Quando as crianças vivenciam imaginariamente os desenhos animados, elas estão ritualizando, como descreve Fernandes (2003, p. 74): “Quando a criança brinca com bonecos ou brinquedos ligados ao desenho animado visto na TV, ela está tendo uma relação ativa de manipulação do personagem podendo, eventualmente, (re)criar o desenho”. Na ocasião, elas incorporam, vivem imaginariamente uma nova identidade, mesclada com as características advindas dessas figuras em situações de identificação corporal, ou ainda como possibilidade de “se transpor” para o brinquedo ou para a tela. Além de serem elementos importantes para a socialização, transmutam por referentes de domínio comum entre as crianças. Nesse caso, consolidam um excelente ponto de partida para suas práticas lúdicas e imaginárias, com implicações diretas em seu meio social. Assim, funcionam como suporte para a imaginação infantil, sendo, contudo, mesclados em meio a outros elementos de seus repertórios, como nos lembra Jobim e Souza (2001). Assim, a brincadeira, como performance ritualística, irrompe da situação de rotina por acionar e mobilizar mecanismos da experiência nos quais se Lembre-se de que culturalmente, a brincadeira é tomada como um momento restrito, autonomizado, apresentando-se como uma espécie de expressão simbólica, porém vista como menor e menos importante em relação a outras esferas, como a do trabalho, por exemplo. 72 CA PÍ TU LO 3 Se, nas sociedades pré-industriais as atividades rituais não se desvinculavam da sua vida lúdica, hoje, além do descentramento e da fragmentação da atividade de recriação de universos simbólicos, promovidos pelas novas possibilidades tecnológicas, a prática da brincadeira nos limiares da cultura contemporânea sucumbe à racionalidade, embora seja orientada por uma variedade de imagens cambiantes, fragmentadas e múltiplas, disseminadas nas diferentes telas, de computador, televisão, celulares, entre outras. Assim, é possível apreender a brincadeira baseada nos conteúdos midiáticos, não se restringindo a eles, mas dialogando e se misturando em meio a elementosde sua cultura. É de fundamental importância que, ao tratar das questões referentes aos desenhos animados, não se caia mais uma vez numa visão utilitarista oriunda da visão dominante de escola conteudista, mas que essa problematização endosse a crítica ao papel colonizador e normatizador da escola, a qual tem extirpado o lúdico, a imaginação e a liberdade de expressão. Parte viva da cultura infantil, trazer os conteúdos midiáticos para o contexto escolar implica trazer à tona visões de mundo, ideologias que servem de mote para que a criança represente papéis, negocie com seus pares regras, papéis e enredos. Tal como os estudos críticos e pós-críticos de currículo, esse estudo evidencia a arena na qual conflitos entre as diferenças de papéis, de gênero e hierarquias de todo tipo vêm à tona. A própria negociação nos momentos que antecedem o “está valendo” da performance da brincadeira, constitui-se elemento central em que tais visões apareçam. Como experiência performática, a dimensão lúdica confere ao imaginário infantil uma peculiaridade na relação entre realidade e ficção, esta profundamente mediada pela fantasia, que faz com que, em muitos casos, a brincadeira possa ter um efeito para as crianças de algo muito mais significativo do que sua experiência “real social”. Brougère (1995) alude a uma cultura lúdica, cujo aspecto é culturalmente demarcado e estruturalmente conta com lugar garantido dentro do conjunto da sociedade. Um outro ponto importante é que se consolida como território no qual as crianças usufruem de liberdade e autonomia não experimentada em seus espaços cotidianos. Além do mais, a brincadeira tem sido referenciada intimamente com a própria definição de infância, como exercício da sua vida social. Pois bem, dado o fato de que as crianças reinventam e recriam em cima da brincadeira, o universo que a alimenta e tematiza seu mundo combina elementos do real e do imaginário, numa constante correlação, cuja ordem de importância nesse momento pode ser invertida para elas. Eis a fonte da brincadeira: o domínio do simbólico, pelo qual a criança, ao brincar, rearticula elementos baseados no imaginário, então sob uma nova lógica, recriando situações, personagens e objetos. É como uma ficção, ainda 73 CA PÍTU LO 3que reconhecida e circunscrita aos limites da fantasia. Augè (1998) retoma Freud para pensar a brincadeira inserida nos liames de sua compreensão de imaginário, desmistificando um aspecto que tem sido tomado como tabu pelo senso comum: a ideia de que a criança, em contato extensivo com os conteúdos midiáticos, perderia o sentido da realidade, não sabendo mais diferenciar real e fantasia. A criança que brinca, diz Freud, comporta-se como um poeta, cria para si um mundo próprio, ou melhor, organiza seu mundo de acordo com sua conveniência, mas distingue claramente seu mundo lúdico da realidade ‘e gosta de apoiar seus objetos e suas situações imaginadas em coisas palpáveis e visíveis do mundo real.’ O oposto da brincadeira é a realidade, mas a brincadeira, que se distingue da realidade, não se desliga dela completamente. O criador literário, num certo sentido, faz a mesma coisa que a criança que brinca: leva a sério seu mundo de fantasia, mas separa-o nitidamente da realidade. (p.55-6). Vivenciar, ainda que imaginariamente, as personagens de desenho animado em suas brincadeiras, permite às crianças estabelecer um elo intenso, vívido e íntimo com tais narrativas, que se misturam às culturas infantis. Além de constituir um componente a mais para seus repertórios, como defende Girardello (1998) numa perspectiva crítica, que lança um olhar sobre a imaginação infantil, oportuniza à criança “recriar com reverência ou paródia os enredos assistidos, testando identidades e trajetórias, no que não seria ensaio, mas já a vida em sua plenitude” (p.25). Esse tipo de experiência, que a liga tão intimamente aos símbolos presentes no imaginário infantil, é parte fundamental da própria maneira com que a realidade e a ficção são conjugadas nas mentalidades infantis. Ainda que profanados pela modernidade, o herói e a heroína dos desenhos animados são vivenciados assim por elas, de modo muito marcante, numa relação de identificação que se estende para toda sua vida cotidiana. Aqui, as diferenças de gênero entre meninos e meninas, de classe, de etnia e da própria condição de ser criança vêm à superfície como elementos subjetivamente significativos e consolidadores de suas culturas infantis. Tendo em vista que a atribuição de sentido se dá em contato com o outro, no plano cultural, decorre a importância de trazer à tona, para serem problematizados entre adultos e crianças as estereotipias, as visões de mundo, os preconceitos e os valores disseminados nos conteúdos midiáticos. Desse modo, a brincadeira e o lúdico podem se constituir o meio por excelência para a concretização dessas reflexões. 75 CA PÍTU LO 3O direito à brincadeira aparece como primeiro dos doze critérios para um atendimento em creche e pré-escola, voltando-se à importância da interação lúdica nos espaços internos e externos da instituição. Nessa linha, as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil pontuam que os centros de Educação Infantil devem preservar e incentivar o caráter lúdico próprio da criança em suas ações espontâneas, planejadas e dirigidas. Note que a argumentação caminha no sentido de evitar que a ênfase recaia demais sobre o processo instrucional nessa etapa do ensino, evitando que se sobreponha sobre o processo educativo mais geral das crianças. Destaca- se a necessidade de garantir à criança o acesso a brincadeiras. O documento prescreve que as práticas pedagógicas devem ter como eixo norteador as interações e a brincadeira, uma vez que elas possibilitam situações de aprendizagem mediadas para a elaboração da autonomia das crianças nas ações de cuidado pessoal, auto-organização, saúde e bem-estar (BRASIL, 2010). Nos Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (RCNEI), o brincar é definido como uma forma de linguagem característica do universo infantil, destacando-se seu caráter processual em oposição à busca de um resultado ou produto final, prática que permite a socialização, a interação e a formulação de hipóteses sobre os mais diferentes assuntos (BRASIL, 1998). Tal documento exalta que a brincadeira constitui uma importante mediação das atividades desenvolvidas com as crianças e deve ser praticada em todos os tempos-espaços escolares. Entretanto, as críticas revelam que por mais que seja exaltada a importância do brincar para o desenvolvimento infantil, o documento, segundo Rocha (2007), tem suas limitações decorrentes de uma concepção de criança abstrata no contexto do processo de ensino e aprendizagem, em que há o destaque a aspectos biologizantes e universais ao invés dos histórico-culturais. A elaboração dos RCNEI não considerou os trabalhos encomendados pelo MEC, nos anos de 1994 e 1996, conhecidos como Cadernos, dirigidos pela Coordenadoria Geral de Educação Infantil (Coedi). Esse atropelo foi alvo de inúmeras críticas no campo da Educação Infantil, e ganharam corpo as discussões que valorizavam as experiências infantis em detrimento do peso da cultura escolarizante. Nesse horizonte, destaca-se a disseminação de novos conceitos de infância e de cultura infantil, no sentido de que práticas contaminadas pela visão higienista e assistencialista fossem combatidas, cedendo lugar a uma concepção de criança cidadã, sujeito de direito e produtora cultural. Infelizmente, tanto a concepção higienista quanto a valorização da escolarização encontram- se presentes nas entrelinhas dos RCNEIs, levando muitos educadores(as) a seguir tais orientações como um manual de instrução, em que a criança parece ser um ente a ser modelado. 76 CA PÍ TU LO 3 A Lei nº 11.274, de 2006, que amplia o Ensino Fundamental para nove anos, também reproduz essa mesma concepção naturalizanteda infância, propalando uma visão homogeneizadora e a-histórica do brincar, mais voltada aos resultados de aprendizagem, sobretudo nos contextos dos processos de alfabetização. A despeito da continuidade entre essas duas etapas da Educação Básica, as discussões em torno do ingresso da criança de seis anos no Ensino Fundamental mais enfatizou a antecipação das preocupações com a alfabetização, ao invés de estender e disseminar as conquistas acerca da importância da brincadeira no seio de uma nova compreensão de infância e cultura infantil. A Lei do ensino de nove anos deixa clara a contradição em relação a tais conquistas, na medida em que passa a supervalorizar o Ensino Fundamental como um espaço privilegiado para aprendizagem, conforme consta no documento. A própria lei justifica-se da seguinte forma: A ampliação do ensino fundamental para nove anos representa um avanço importantíssimo na busca de inclusão e êxito das crianças das camadas populares em nossos sistemas escolares. Ao iniciarem o ensino fundamental um ano antes, aqueles estudantes passam a ter mais oportunidades para cedo começar a se apropriar de uma série de conhecimentos, entre os quais tem um lugar especial o domínio da escrita alfabética e das práticas letradas de ler compreender e produzir textos. (Brasil, 2006, p.101) Na prática, essa ênfase vai no sentido de reforçar a dicotomização do brincar/ fazer atividades, já tão disseminada nas práticas escolares, numa alusão à reprodução da associação entre atividades e trabalho produtivo e de outro lado (em oposição) a brincadeira e o ócio. Muitos estudos sobre a infância contemporânea têm voltado suas discussões aos lugares e instituições de atendimento às crianças, no sentido de procurarem embasar alternativas para a reformulação de políticas públicas e à reorientação dos currículos escolares. Tal necessidade evidencia-se a partir dos novos encaminhamentos das políticas educacionais dos últimos anos, como a já citada ampliação do Ensino Fundamental para nove anos (Lei nº 11.274/2006), e a obrigatoriedade do ingresso da criança na escola básica a partir dos quatro anos de idade (Lei nº 12.796/13). Ambas políticas têm demandado uma maior reflexão acerca dessa fase da vida, como aponta o documento Ensino Fundamental de Nove Anos: orientações para a inclusão da criança de seis anos de idade (2007) produzido pelo MEC, voltado à incorporação da criança de seis anos de idade nas 77 CA PÍTU LO 3séries iniciais do Ensino Fundamental, sem perder de vista a abrangência da infância de seis a dez anos de idade nessa etapa de ensino: Ressalte-se que o ingresso dessas crianças no Ensino Fundamental não pode constituir uma medida meramente administrativa. É preciso atenção ao processo de desenvolvimento e aprendizagem delas, o que implica conhecimento e respeito às suas características etárias, sociais, psicológicas e cognitivas. (MEC, 2007, p. 06) O mesmo documento destaca que a compreensão da infância ultrapassa a faixa etária dos ingressantes no Ensino Fundamental, estendendo a discussão para programar a própria estrutura da escola básica, na tentativa de incorporar elementos atentos às especificidades desses grupos que não devem se restringir exclusivamente aos primeiros anos, mas também repensar a passagem da Educação Infantil para esse nível. O texto ainda aponta que não se trata de compilar conteúdos das duas etapas da Educação Básica, a saber, Educação Infantil e Ensino Fundamental, mas antes subsidiar propostas pedagógicas atentas às características da primeira e segunda infância. Em consonância com o documento do MEC sobre o ensino de nove anos: “[...] os espaços educativos, os materiais didáticos, o mobiliário e os equipamentos precisam ser repensados para atender às crianças com essa nova faixa etária no ensino fundamental, bem como à infância que já estava nessa etapa de ensino com oito anos de duração.” (BRASIL, 2007, p.08). A obrigatoriedade da matrícula na Educação Básica, a partir dos quatro anos de idade, tem gerado algumas polêmicas que remetem à redefinição do papel e do caráter da escola frente a essa nova realidade. A Lei nº 12.796/13 afirma a obrigatoriedade do ingresso na pré-escola, de modo que as redes municipais e estaduais de ensino têm até 2016 para se adequarem ao acolhimento de todos os estudantes de 4 a 17 anos. As alterações dessa Lei também englobam a Educação Especial, entendida como modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino para pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. O texto também garante que o Poder Público adotará como alternativa preferencial a ampliação do atendimento a esses educandos(as) na própria rede pública. Houve ainda a inclusão, na Lei de Diretrizes e Bases, de dispositivo segundo o qual o ensino será ministrado, entre outros itens, em consideração com a diversidade étnico- racial. Nesses termos, a temática da infância aponta para a relevância de tensionar os debates atuais em torno da educação das crianças, propondo outros caminhos e outras sensibilidades para com a experiência da infância que desafiem consensos e enfrentem as ambivalências constituintes da pluralidade na convivência comum. Esses novos encaminhamentos políticos e sociais reafirmam a necessidade de retomar as relações de poder 78 CA PÍ TU LO 3 e reciprocidade vivenciadas no espaço escolar, a fim de constituir novas possibilidades de experiência da infância nesse e em outros lugares, de modo que a brincadeira e a experiência lúdica possam usufruir de uma centralidade, dada a sua compreensão como manifestação e expressões culturais. Seção 4 Brincadeira e diversidade na Escola Objetivo de aprendizagem » Refletir sobre as possibilidades da brincadeira e dos jogos para o tratamento de questões sobre a diversidade e a inclusão social na escola. A brincadeira como prática cultural pressupõe o diálogo entre diferentes estilos de vida. Em seu tempo-espaço de realização, os papéis sociais marcados pela hierarquização de gênero, classe, idade e regionalismo podem ser rompidos, invertidos e ressignificados, possibilitando novas formas de comunicação e interação entre os sujeitos. Devido a esse seu potencial de questionamento da ordem, de estranhamento e de criação de novas lógicas sociais, consolida-se como excelente oportunidade a serviço da transformação social. Baseando-se no ideal da escola democrática e inclusiva, a brincadeira deve ser enfatizada por suas possibilidades de promoção de valores como cooperação, respeito à diferença, valorização da diversidade e crítica social. No contexto de uma sociedade calcada em ideais consumistas, urbano-industriais e capitalistas, as brincadeiras e os jogos poderiam servir como contraponto, oferecendo possibilidades de inculcação de novas formas de se relacionar com o outro e com o meio ambiente. Nessa esteira, vale a pena retomar brevemente os estudos realizados sobre os chamados jogos cooperativos. Segundo Lovisolo, Borges e Muniz (2013), a proposta de transformação por meio de jogos cooperativos talvez tenha sua referência fundada nas pesquisas e experiências de Terry Orlick. Uma referência significativa de sua elaboração é a utilização da história e antropologia para extrair exemplos de utilização dos jogos, na antiguidade e entre os povos primitivos, que 79 CA PÍTU LO 3funcionam como evidências de sua importância para se contrapor à lógica competitiva da sociedade atual. O autores afirmam que hoje há ainda muito a se aprofundar nos estudos dos jogos cooperativos e que colocá- los simplesmente em oposição aos jogos competitivos, reflexo de uma sociedade dita neoliberal, egoísta e excludente não tem gerado uma problematização consistente que justifique a substituição. De todo modo, é válido destacar a importância tanto da reflexão sobre as finalidades dos jogos e brincadeiras propostos no contextoescolar quanto a maneira como valores e visões de mundo estão sendo encarados e mediatizados nessas circunstâncias. Assim, sem condenar totalmente os jogos competitivos, é importante que os jogos calcados em valores de cooperação e espírito de equipe sejam oportunizados nos espaços escolares. Nessas oportunidades, ao invés da máxima “vença o melhor” ou “cada um por si”, outros objetivos podem ser promovidos, como o de responsabilidade social e ambiental. Por esse motivo, tais propostas calcadas nos jogos cooperativos podem servir como prato cheio para a garantia e promoção da inclusão social dentro das escolas. Orlick (1989) justifica o incentivo aos jogos cooperativos, pois, segundo o autor, sentia-se incomodado com a excessiva valorização da competição, com o crescimento da violência, dos atos desumanos, da dificuldade de interação harmoniosa e, em especial, com o reflexo desse contexto na educação, agravada pelo perfil mais agressivo com que os jogos e os esportes vêm sendo desenvolvidos. Ele vê nos jogos cooperativos uma possibilidade de mudança a favor de um aprendizado cooperativo e solidário: “[…] a simples reunião de pessoas socializadas competitivamente, em pequenos grupos, não é suficiente para melhorar a cooperação ou a amizade.” (ORLICK, 1989, p.123 apud LOVISOLO, BORGES, MUNIZ, 2013). “ “ 80 CA PÍ TU LO 3 As relações sociais contemporâneas tendem a ser bastante marcadas pela falta de consistência e superficial cooperatividade, de tal modo que a tão propalada defesa da autonomia aparece como apenas um jeito de proclamar não precisar do outro (FRIDMAN, 2000). Segundo Sennet (1999), isso nos leva a uma corrosão do caráter, tendo em vista que as pessoas não são incentivadas em suas vidas a vivenciarem valores tais como lealdade, comprometimento, confiança, integridade bem como ajuda mútua nas suas relações. O sentido de autonomia, do ponto de vista de uma proposta inclusiva, seria entendido como “a capacidade – de uma sociedade ou indivíduo – de agir deliberada e explicitamente para modificar a sua lei, isto é, a sua forma” (CASTORIADIS, 1999,p. 20) de maneira que ser autônomo “abre uma interrogação sobre a lei que devo (que devemos) adotar” (idem, p. 201). Assim, a relação entre brincadeira e inclusão não pode ser idealizada como simples aplicação de métodos e técnicas para saciar as necessidades impostas pela cultura escolar conteudista. Da mesma maneira, não parece ser possível a criação da inclusão na prática pedagógica “sem pensar a questão da autonomia do indivíduo e da sociedade; sem questionar a ambígua relação entre inclusão e exclusão, bem como refletir coletiva e explicitamente sobre os motivos pelos quais incluímos e/ou excluímos pessoas, sociedades, culturas” (SILVA, 2008, p. 52). No tocante ao debate da brincadeira voltada à inclusão e diversidade, um importante aspecto relaciona-se à compreensão de que conhecimento e aprendizagem, pilares da cultura escolar, não se reduzem à oralidade científica nem à supremacia do mundo letrado, comumente disseminado nas salas de aula, mas que diferentes saberes e aprendizados ocorrem também por meio da corporalidade. Segundo Sayão (2008,p. 94), a corporalidade “expressa a totalidade do corpo de um ponto de vista cujas formas, movimentos, gestos, ritmos, expressões, linguagens são reconhecidos como uma construção social que acontece na relação entre as crianças e/ou adultos com a sociedade e a cultura”. Desse modo, é fato que as crianças falam muito com o corpo: histórias, perguntas, explicações, tudo passa pelos seus corpos. Por isso, a dificuldade de se comunicar com elas, pois desaprendemos essa linguagem ao enfatizar a comunicação verbal. Essas múltiplas expressões remetem ao poema de Malaguzzi, sobre as “cem linguagens da criança”, onde ele afirma: “ a criança é feita de cem.../A criança tem cem linguagens./Mas roubaram-lhe noventa e nove./A escola e a cultura lhe separaram a cabeça e o corpo (...) Dizem-lhe que as cem não existem? A criança diz: ao contrário, as cem existem.” Por esse motivo, a brincadeira permite explorar as inúmeras possibilidades do corpo, e por meio dos sentidos e das sensações, para além das diferenças e das denominadas “limitações”. Na brincadeira, elas podem e devem ser 81 CA PÍTU LO 3rompidas, pois outras ordens são estabelecidas, inclusive questionadas, invertidas, transgredidas. É possível nesse contexto experimentar brincadeiras e jogos de maneira mais igualitária, independentemente de gênero, necessidades educacionais especiais, etnia ou classe social. Necessariamente conceber a brincadeira como possibilidade de experimentar outras formas de estar no mundo também nos leva a rompimento das barreiras da estigmatização, da segregação e da hierarquização. Ela propicia ensaiar inovadoras alternativas que permitem questionar a ordem dominante, os processos de exclusão e discriminação, tão característicos da cultura escolar eurocêntrica. Enfim, a brincadeira deve ser utilizada como forma de possibilitar essas reflexões, tomando o cuidado para que seu uso não fique restrito a uma estratégia de facilitar a reprodução e/ou o acesso à simples informação, mas que possa se constituir como um importante meio para a promoção de reflexões coletivas. Nesse contexto, ela deve fazer uso da criatividade e imaginação, trazendo à tona elementos e práticas da cultura das pessoas envolvidas, promovendo alteridade, tolerância, participação, cooperação e a autonomia dos diferentes sujeitos sociais. E isso não se consolida, como você pôde perceber, como específico das crianças, mas se estende a todos os grupos sociais. Mais do que trazer um manual de receitas de brincadeiras aplicáveis, as questões envolvendo aspectos culturais, como a que você viu nesse capítulo, são de fundamental importância para poder direcionar e fundamentar as práticas pedagógicas que primam pelo exercício da democracia e pela prática da alteridade. A riqueza cultural de nosso País deve encontrar na escola seu espaço de reconhecimento e manifestação, por isso o(a) educador(a) tem um importante papel na mediação e valorização desses diferentes saberes, compreendendo o lugar do lúdico na direção do que Huizinga e outros autores defendem como prática e expressão culturais. Por isso a defesa e valorização de seu lugar nos contextos escolares. Dentro das diversas brincadeiras o(a) professor(a), agindo como mediador, pode ter como parceiros as próprias crianças do grupo onde há uma criança com necessidades educacionais especiais, valorizando os momentos em que as próprias crianças incluem os amigos, muitas vezes facilitando situações para que isto ocorra. 83 CA PÍTU LO 3ordem, de estranhamento e criação de novas lógicas sociais, torna-se uma excelente oportunidade a serviço da transformação social. Baseando-se no ideal da escola democrática e inclusiva, a brincadeira deve ser enfatizada por suas possibilidades de promoção de valores como cooperação, respeito à diferença, valorização da diversidade e inclusão social. Prezado aluno, você pode usar as linhas abaixo para produzir sua própria síntese. 85 CA PÍTU LO 32) Crie e elenque algumas possibilidades de brincadeiras que possam promover a inclusão. Pense em jogos e brincadeiras que possam ser considerados ou adaptados em jogos cooperativos. Qual a importância dessas ações nas brincadeiras apontadas por você? Justifique com base nos conteúdos aprendidos. 86 CA PÍ TU LO 3 3) Problematize o lugar da brincadeira e da infância na Escola, a partir da trajetória de desenvolvimento das políticas educacionais, tendo em vista o debate em torno da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, bem como as políticas públicas que incidem sobre essas duas etapas da Educação Básica, como o ensino de nove anos e a matrícula obrigatória das crianças aos quatro anos de idade. 91 CA PÍTU LO 4Para tanto, é hora de relembrar alguns conceitos que podem orientarteórica e metodologicamente o trabalho com jogos e brincadeiras no processo de escolarização. Sobre a importância da escolarização para o desenvolvimento da criança, veja o que diz o pensador russo Vasili Davidov (1988, p.76): “[...] o ingresso na escola marca o começo de uma nova etapa de vida da criança, nela muito se modifica tanto no aspecto da organização externa quanto interna”. Vigotski comunga da importância do processo de escolarização para transformação de conceitos espontâneos em conceitos científicos, levando a uma evolução considerável na formação das funções psicológicas superiores da criança (1991). De acordo com o autor, as funções psicológicas superiores são aquelas tipicamente humanas, que nos distinguem dos animais, isto é, o controle consciente do pensamento, a atenção, memória voluntária, o pensamento abstrato, raciocínio dedutivo e a capacidade de planejamento. Foi a partir das pesquisas de Vigotski que Davidov valorizou sobremaneira a atividade escolar sistematizada e sua estreita relação com o psiquismo da criança. Sobre isso, ele afirma que “o conteúdo principal da atividade de estudo é a assimilação dos procedimentos generalizados de ação na esfera dos conceitos científicos e mudanças qualitativas no desenvolvimento psíquico da criança, que ocorrem sobre esta base” (DAVIDOV, 1987, p. 324). Assim, considerando a importância da Escola como mediadora cultural privilegiada para consolidação e aprimoramento das funções psicológicas superiores, perceba o quanto a ludicidade pode contribuir com esse processo. Na visão do professor Manoel Oriosvaldo de Moura, o uso de jogos no processo de ensino e aprendizagem deve ter a função de problematizar as situações ou episódios de ensino. Embora fale do ponto de vista da construção de conceitos matemáticos, podemos generalizar essa consideração para as demais áreas do conhecimento. Diz ele, em um artigo com outros autores: [...] o jogo com propósito pedagógico pode ser um importante aliado no ensino, já que preserva o caráter de problema. [...] O que devemos considerar é a possibilidade do jogo colocar a criança diante de uma situação-problema semelhante à vivenciada pelo homem ao lidar com conceitos matemáticos. [...] A problematização de situações emergentes do cotidiano possibilita à prática educativa oportunidade de colocar a criança diante da necessidade de vivenciar solução de problemas significativos para ela. (MOURA; LANNER DE MOURA, 1998, p. 12-14). 94 CA PÍ TU LO 4 O professor como mediador da brincadeira Uma proposta de Educação Lúdica só pode se afirmar quando as atividades regulares de estudo estão impregnadas do componente significativo e desafiador dos jogos e brincadeiras. Nesse caso, cabe ao professor, como mediador do processo ensino- aprendizagem, criar a chamada atividade trabalho-jogo (ALMEIDA, 1998), quando a criança se sente totalmente envolvida no esforço de desempenhar as funções planejadas, tendo-se sempre o cuidado de preservar a dimensão lúdica da brincadeira. Quando o professor consegue fundir jogo e trabalho escolar no dia-a-dia da sala de aula, conservando a brincadeira como situação-problema a ser resolvida, a aprendizagem se torna significativa para a criança, e o seu desenvolvimento ganha importante propulsão. Como diz Volpato, A situação ideal de aprendizagem é aquela em que a atividade é significativa de tal modo que aquele que aprende a considera como um trabalho e como um jogo. Brincando com quantidades, com a língua de seu país, com os elementos da natureza e da cultura, as crianças estarão se relacionando de maneira adequada e prazerosa com os muitos conteúdos da Aritmética, da Língua Portuguesa e da Ciência. (2002, p. 98) Porém, para que a atividade escolar se converta em trabalho-jogo, a mediação do professor tem que levar em conta o seu planejamento didático e sua intervenção pedagógica, pois brincar na escola não é o mesmo que brincar na rua ou em casa. Na instituição, há um direcionamento educativo do jogo, embora isso não deva transparecer à criança, senão a brincadeira não seria mais do que uma tarefa escolar destituída de sua condição lúdica. Então, a difícil equação que o professor precisa resolver é a seguinte: para ele, a brincadeira é algo sério, estruturada e com fundamentos coerentes com as finalidades de aprendizagem e desenvolvimento da criança; entretanto, para a criança, o jogo deve aparecer como algo significativo nas atividades que precisa desempenhar em determinado tempo escolar. Lembre-se de que as atividades envolvendo jogos escolares, de representação de papéis ou de regras, não são menos jogos quando fundidas ao trabalho escolar, desde que mantenham algumas características, como as relacionadas a seguir. » A atividade ensino envolvendo jogos e brincadeiras não devem ser propostas como um “brincar por brincar”. » Para ser brincadeira, tem que haver desafio e sentido para a criança no que está fazendo. » Durante o trabalho-jogo, há problemas que envolvem a coletividade da sala-de-aula na sua resolução. » A atividade trabalho-jogo deve provocar atitudes com tomadas de decisões, negociação de regras e papéis e ressignificação dos conteúdos que estão sendo trabalhados. 96 CA PÍ TU LO 4 a instituição educativa, a brincadeira, sua atividade principal até então, passa a ter outro sentido, que lhe é atribuído por estar sendo desenvolvido num “tempo” e “espaço” delimitados pelo professor que será o mediador entre ela e os objetos de aprendizagem que irão conhecer, conforme você estudou na seção anterior. A importância da intervenção do educador justifica-se pela necessidade de se potencializar a intenção de aprendizagem que a brincadeira possibilita. O educador poderá também ampliar as situações de aprendizagem reveladas pela atividade lúdica. propondo espaços para o seu desenvolvimento e até mesmo participando desse momento ao apresentar novos desafios. Na Educação Infantil, a criança deverá realizar atividades prazerosas e que contribuam para o seu desenvolvimento e enriquecimento intelectual; assim, a ludicidade deverá estar presente, mas sempre oferecida de modo que possibilite a formação ampla desses pequenos indivíduos e promova- lhes o interesse em aprender e conhecer novos fenômenos do mundo que o rodeia. O tempo e o espaço devidamente estruturados e institucionalizados, requerem desdobramentos mais profundos na prática pedagógica e, consequentemente, na intervenção do educador. Nessa perspectiva, é importante lembrar que o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (BRASIL, 1998) considera a brincadeira como uma linguagem infantil e ressalta a importância do brincar tanto em situações formais quanto em informais. Relembre que Vigotski (1989) enfatiza a diferença da brincadeira para a criança de até 3 anos da brincadeira para a criança em idade escolar. Segundo o autor, para crianças menores, de até 3 anos, a brincadeira é um jogo sério em que ela não separa o real do imaginário; já para as crianças em idade escolar, o brincar será uma atividade que preencherá um papel específico no seu desenvolvimento e permeará suas atitudes em relação à realidade. Nessa perspectiva, considere a colocação de Gisela Wasjkop, (1995, p. 67): Quando brincam, ao mesmo tempo que desenvolvem sua imaginação, as crianças podem construir relações reais entre elas e organizar regras de organização e convivência”; e ainda, “a brincadeira pode transformar-se, assim, em um espaço privilegiado de interações e confronto de diferentes crianças com diferentes pontos de vista. São momentos de atividades, mas devidamente mediadas e planejadas pelo professor, e que também têm a incumbência de proporcionar às crianças o espírito de união, colaboração e responsabilidade; podem criar laços de amizade, promover a socialização, além de desenvolver habilidades e 100 CA PÍ TU LO 4 Um ponto fundamental nessa discussão é que na instituição hádiferentes agrupamentos de crianças, baseados na sua faixa etária; assim, você deve ter em mente que o planejamento precisa ser diferenciado (com base nesses agrupamentos), bem como os brinquedos e materiais a serem dispostos. Sobre essa discussão, vale relembrar que em 1995 o MEC, procurando construir uma Política Nacional de Educação Infantil, elaborou e divulgou o documento intitulado “Critérios para um atendimento em creche que respeite os direitos fundamentais das crianças”. Escrito por Maria Malta Campos e Fúlvia Rosemberg, teve a sua 2ª edição publicada em 2009, e continua sendo de grande relevância a todos os educadores. Este documento apresenta os critérios relacionados ao direito à brincadeira. Observe: NOSSAS CRIANÇAS TÊM DIREITO À BRINCADEIRA • Os brinquedos estão disponíveis às crianças em todos os momentos; • Os brinquedos são guardados em locais de livre acesso às crianças; • Os brinquedos são guardados com carinho, de forma organizada; • As rotinas da creche são flexíveis e reservam períodos longos para as brincadeiras livres das crianças; • As famílias recebem orientação sobre a importância das brincadeiras para o desenvolvimento infantil; • Ajudamos as crianças a aprender a guardar os brinquedos nos lugares apropriados; • As salas onde as crianças ficam estão arrumadas de forma a facilitar brincadeiras espontâneas e interativas; • Ajudamos as crianças a aprender a usar brinquedos novos; • Os adultos também propõem brincadeiras às crianças; • Os espaços externos permitem as brincadeiras das crianças; • As crianças maiores podem organizar os seus jogos de bola, inclusive futebol; • As meninas também participam de jogos que desenvolvem os movimentos amplos: correr, jogar, pular; • Demonstramos o valor que damos às brincadeiras infantis participando delas sempre que as crianças pedem; • Os adultos também acatam as brincadeiras propostas pelas crianças. Fonte: MEC (2014) 101 CA PÍTU LO 4 NOSSAS CRIANÇAS TÊM DIREITO À BRINCADEIRA • Os brinquedos estão disponíveis às crianças em todos os momentos; • Os brinquedos são guardados em locais de livre acesso às crianças; • Os brinquedos são guardados com carinho, de forma organizada; • As rotinas da creche são flexíveis e reservam períodos longos para as brincadeiras livres das crianças; • As famílias recebem orientação sobre a importância das brincadeiras para o desenvolvimento infantil; • Ajudamos as crianças a aprender a guardar os brinquedos nos lugares apropriados; • As salas onde as crianças ficam estão arrumadas de forma a facilitar brincadeiras espontâneas e interativas; • Ajudamos as crianças a aprender a usar brinquedos novos; • Os adultos também propõem brincadeiras às crianças; • Os espaços externos permitem as brincadeiras das crianças; • As crianças maiores podem organizar os seus jogos de bola, inclusive futebol; • As meninas também participam de jogos que desenvolvem os movimentos amplos: correr, jogar, pular; • Demonstramos o valor que damos às brincadeiras infantis participando delas sempre que as crianças pedem; • Os adultos também acatam as brincadeiras propostas pelas crianças. Fonte: MEC (2014) Então, quais questões devem ser priorizadas no planejamento do ensino fundamental? No ensino fundamental, a proposta não deverá ser diferente, pois o professor não poderá ignorar a importância do lúdico na continuidade do desenvolvimento das crianças que estão ingressando. Promover uma prática pedagógica fundamentada a partir da ludicidade vem incorporar uma perspectiva diferenciada ao contexto educacional, significando dar voz aos interesses das crianças, inclusive respeitando suas condições de realização. Para Brougère (2000), quando nos encontramos frente a uma brincadeira sujeita a conteúdos definidos socialmente, não é mais brincadeira, transformou-se em uma atividade controlada pela mestra que se utiliza na Educação para manter os alunos interessados em sua proposta. O professor precisa estar muito atento e presente nos momentos lúdicos, pois é ele que proporciona oportunidades para que a criança veja coisas interessantes e ao mesmo tempo respeite seus momentos e sua concentração. De acordo com Wasjkop, O brincar numa perspectiva sociocultural, define-se por uma maneira que as crianças têm para interpretar e assimilar o mundo, os objetos, a cultura, as relações e os afetos das pessoas. Por causa disso transformou-se num espaço característico da infância para experimentar o mundo do adulto, sem adentrá-lo como partícipe responsável. (WASJKOP, 1995, p. 66) Segundo essa autora, “é importante ressaltar que, devido o seu caráter aleatório, a brincadeira também pode ser espaço de reiteração de valores retrógrados, conservadores, com os quais a maioria das crianças se defronta diariamente” (1995, p. 66). Assim, o planejamento do professor envolvendo a ludicidade precisa ser claro e objetivo em relação ao que se quer alcançar com as crianças. A observação não é apenas um detalhe, mas um ponto muito importante do trabalho docente nessa questão. Por meio e observação e registro, o professor terá condições de favorecer o enriquecimento da atividade lúdica. Vale destacar que o registro se torna mais rico quando acompanhado de fotografias e vídeos, sendo uma excelente forma de voltar ao trabalho e rever as situações e o envolvimento das crianças. Outra questão é: quando é necessário intervir? Quando é necessário participar do jogo? São questões que só podem ser respondidas com observação e percepção, não há uma resposta pronta. Lembre-se de que 102 CA PÍ TU LO 4 “O educador pode desempenhar um importante papel no transcorrer das brincadeiras se consegue discernir os momentos em que deve só observar, em que deve intervir na coordenação da brincadeira, ou em que deve integrar-se como participante das mesmas”. (OLIVEIRA et alii, 1992, p. 102) Assim, é papel do professor propor novas atividades ou alimentar o jogo em andamento, até mesmo propor uma roda depois da atividade para que, junto das crianças, se converse sobre o que aconteceu, o que sentiram e o que poderia ser feito de modo diferente, ou seja, a criança, mesmo mediada pelo professor numa atividade planejada, também deve ser protagonista. Questões importantes a serem consideradas no trabalho com o lúdico pelo professor As diferenças também devem ser consideradas: o professor deve garantir às crianças com necessidades especiais o mesmo acesso aos brinquedos e às brincadeiras; buscar junto à instituição brinquedos adaptados conforme a necessidade e também considerar a questão da acessibilidade das mesmas à todos os espaços da instituição. Garantir acesso às brincadeiras e brinquedos tradicionais e ao folclore local; a criança deve conhecer e valorizar as diferentes contribuições histórico-culturais; é também uma forma de ouvir as crianças, suas brincadeiras preferidas, ouvir suas famílias, chamá-las para a escola dando continuidade e ampliando as brincadeiras que fazem parte da cultura popular. Trabalhar a linguagem e as formas de expressão: gestual e verbal (brincar com gestos, expressões, olhares); expressão dramática (imitar papéis - mãe, pai, professora - recontar histórias; produzir teatro); expressão plástica( utilizar tinta, produzir tintas, utilizá-las para produzir sensações com as crianças menores); expressão musical(apresentar diferentes instrumentos musicais; produzir instrumento musical). As sugestões, participação e organização das crianças em relação às brincadeiras e aos brinquedos devem ser levadas em conta pelo professor. 104 CA PÍ TU LO 4 » O professor deve buscar fundir jogo e trabalho escolar no dia-a-dia da sala de aula, conservando a brincadeira como situação-problema a ser resolvida; assim a aprendizagem se torna significativa para a criança, e o seu desenvolvimento ganha importante propulsão. » Construir um planejamento que englobe atividades lúdicas é uma ação que considera a brincadeira e o jogo atividadesimportantes no desenvolvimento das aprendizagens, com o objetivo de promover a autonomia e o desenvolvimento integral das crianças. » As atividades lúdicas devem ser mediadas e planejadas pelo professor, que também têm a incumbência de pensar no espaço em que as realizará e como irá proporcionar às crianças o espírito de união, colaboração e responsabilidade; as atividades lúdicas também são importantes para criar laços de amizade, promover a socialização, além de desenvolver habilidades e capacidades de ganhar, perder, respeitar as diferenças, a conhecer e a defender os seus direitos e, também, a lidar com as frustrações. » A observação e o registro são pontos importantes do planejamento do professor, pois por meio dele terá condições de favorecer o enriquecimento da atividade lúdica. O registro se torna mais rico quando acompanhado de fotografias e vídeos, sendo uma excelente forma de voltar ao trabalho e rever as situações e o envolvimento das crianças. Você pode anotar a síntese do seu processo de estudos nas linhas a seguir: Considerações finais Nesse Caderno, você teve a oportunidade de conhecer a polissemia dos conceitos de brincadeira e jogos em seus múltiplos aspectos, ampliando a compreensão sobre o termo quanto a seus usos sociais e sua importância para o desenvolvimento humano e a promoção da autonomia e criatividade. Também estudou os conceitos sobre a infância e a criança, enfatizando que a infância é a condição social e cultural de ser criança, em um período da vida, e que a criança é o sujeito real de pouca idade que vive esse período. Observou também o papel da brincadeira no desenvolvimento humano da criança e teve a oportunidade de conhecer algumas discussões de teóricos como Vigotski, Leontiev, Corsaro, Brougère e Elkonin sobre o tema. A construção do texto buscou ainda fornecer subsídios para a compreensão da brincadeira, a partir de seu caráter social e uso cultural nos contextos de educação formal ou não formal, considerando aspectos legais e a possibilidade de pensar a inclusão e a diversidade. Enfim, como você pôde perceber, as atividades lúdicas devem ser mediadas e planejadas pelo(a) professor(a), levando em conta o espaço em que serão realizadas, tendo em vista que a brincadeira e o jogo são ações importantes no desenvolvimento das aprendizagens, pois têm como objetivo promover a autonomia e o desenvolvimento integral das crianças. Esperamos, portanto, ter contribuído para fomentar a discussão de importantes questões sobre a ludicidade, a brincadeira e o jogo, lembrando que a formação do(a) educador(a) é um processo permanente e não se esgota na finalização da disciplina. As autoras Conhecendo as professoras Autoras Juliane di Paula Queiroz Odinino Licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (2001). Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (2004). Doutora em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (2009). Membro do Núcleo de Antropologia Visual (NAVI/CFU/UFSC) e do Núcleo de Infância, Comunicação e Arte (NICA/CED/UFSC), tem experiência em pesquisa e desenvolvimento de projetos nas seguintes áreas: Educação Infantil, Estudos de Gênero, Culturas da Infância, Diversidade, Sociologia da Educação, Sociologia da Infância e Eestudos de Educação e Mídia. Luciane Volken Graduada em Pedagogia pela Universidade do Vale do Itajaí /UNIVALI (2006). Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC (2011). Atualmente é professora efetiva da Educação Infantil da Rede Municipal de Florianópolis e professora colaboradora no Curso de Pedagogia à Distância do CEAD/UDESC na Função Tutorial Correção de Provas, Estágio Curricular Supervisionado I e Estágio Curricular Supervisionado II. Mônica Teresinha Marçal Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado de Santa Catarina (1995), habilitação em Educação Infantil pela Faculdade dos Pinhais (2008). Mestre em Educação e Cultura pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2005). Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina e bolsista CNPQ. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação e Infância, Educação Sexual, Literatura e História da Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: infância, gênero, criança, literatura, lúdico, história, artes e aprendizagem. 110 Parecerista Adriana Alves da Silva Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Educação FE/Unicamp. Mestre em Multimeios (Cinema e Vídeo) do Instituto de Artes IA/Unicamp. Doutora em Educação pela FE/Unicamp. Pesquisou a Estética da Infância no Cinema: poéticas e culturas infantis; é bolsista do CNPq, realizando estágio de doutorado sanduíche (PDSE/CAPES) na Itália, junto à Università degli Studi Milano-Bicocca. É pesquisadora do Grupo GEPEDISC - Culturas Infantis da FE Unicamp. Foi professora de Educação Infantil na rede municipal de Campinas e membro do Fórum Paulista de Educação Infantil FPEI. Atualmente, trabalha na formação continuada de professores de Educação Infantil, nas redes municipais de São José e Florianópolis, e como Professora substituta da disciplina ‘Educação e Infância: estágio nos anos iniciais no Centro de Ciências da Educação CED da Universidade Federal de Santa Catarina. Comentários das atividades Capítulo 1 1. Neste capítulo, você teve a oportunidade de se aproximar das discussões sobre a brincadeira e os jogos no campo da Educação. O lugar ocupado por essas atividades sofreu algumas transformações, embora tenha deixado profundas marcas, cujas consequências afetam os modos de saber-fazer das práticas pedagógicas atuais. Problematize algumas dessas concepções e suas implicações, finalizando sua escrita com sugestões de ações e possibilidades pedagógicas, oriundas de uma compreensão mais ampliada de brincadeira, que esteja atenta às especificidades locais e à valorização das identidades e culturas regionais. Forneça pelo menos um exemplo de cada uma das diferentes concepções que têm pautado as diferentes práticas pedagógicas apresentadas, a fim de elucidar as principais mudanças na concepção de brincadeira. Comentário: Nessa atividade, é importante que você explicite as transformações nas concepções de brincadeira, a partir de uma visão tradicional que menospreza a sua importância, passando por aquelas que a conduzem para a ordem do dia das preocupações pedagógicas com a psicogênese e o construtivismo, até chegar aos dias atuais, em que a brincadeira pode ser compreendida como uma importante manifestação cultural. Do mesmo modo, as preocupações com o papel das culturas infantis acompanharam essas mudanças, de modo que hoje, com a valorização das crianças como produtoras sociais, permitem que tal perspectiva avance nas especificidades de cada etapa da educação básica, sendo considerada, a partir de então, ao lado das preocupações e problematizações sobre cultura e conhecimento. Capítulo 2 1. Leia, atentamente, o relato de uma professora sobre a brincadeira de suas crianças: 112 “Hoje Ana, Paulo e Henrique brincaram de médico. Ana era mãe de Paulo, Paulo estava com muita febre e com tosse, e Ana o levou ao médico. O médico era Henrique. Henrique examinou Paulo inteirinho, sendo que, durante a consulta, Paulo não parou de tossir. Henrique perguntou a Ana há quantos dias a febre tinha surgido, e se Paulo estava dormindo e se alimentando bem, depois fez de conta que estava escrevendo uma receita médica”. Partindo desse relato, responda às seguintes questões: a) Por que Vigotski compreende a brincadeira como uma situação privilegiada de aprendizagem? b) Como é caracterizado esse estágio do desenvolvimento? Explique-o. Comentário: a) Para Vigotski, a brincadeira é uma situação privilegiada de aprendizagem, por possibilitar a interação entre os pares numa situação imaginária, e nesse momento a criança é capaz de exercer papéis além do comportamentohabitual de sua idade. Vigotski considera que a brincadeira cria para as crianças uma “zona de desenvolvimento proximal”, ou seja, a distância existente entre a zona de desenvolvimento real da criança (compreende seu nível de desenvolvimento atual e sua capacidade de resolver independentemente um problema) e o nível de desenvolvimento proximal (corresponde ao momento em que a criança consegue realizar a solução de uma atividade ou problema sob a orientação de um adulto ou parceiro mais experiente) b) É caracterizado como as brincadeiras e jogos protagonizados, e será a atividade principal no período pré-escolar. O principal significado dos jogos protagonizados ou brincadeira de papéis sociais, segundo Elkonin (1987) (apud FACCI, 2006, p. 15, “é permitir que a criança modele as relações entre as pessoas”, possibilitando que realize suas primeiras abstrações, pois ela realiza ações e resolve contradições entre a necessidade de agir e a impossibilidade de executar as operações exigidas pela ação. 2. Em uma sala de berçário, o(a) professor(a) introduz a colher na alimentação dos bebês. Que significado tem essa colher no processo de desenvolvimento da criança com o objeto? 113 Comentário: Primeiramente, é necessário dizer que o bebê está desenvolvendo a sua comunicação emocional, sua principal atividade nesse estágio. Ao se introduzir a colher, ampliam-se o campo experimental da criança, suas percepções e os sentidos. A colher, além de possibilitar a introdução de alimentos com outra textura e sugerir a comida quando o bebê a percebe (pois o bebê se lembrará desse objeto que ajuda a saciar sua fome), representa um instrumento que produz a existência humana, assim como um graveto, que em determinado momento histórico serviu para açoitar o animal que queria atacar o homem. A colher será um instrumento mediador, produzido pela cultura, e que estará presente em seu desenvolvimento, sendo apropriada e ressignificada pelo bebê. 3. Numa sala de berçário, há um bebê de 6 meses que chora compulsivamente, embora o (a) professor (a) tente acalentá-lo dando- lhe colo e atenção. Um bebê que já caminha, observando a situação, tira da boca a sua chupeta, vai em direção ao bebê e tenta dar a chupeta para ele. Como você avalia esse processo de desenvolvimento? Comentário: Os bebês estão em um estágio perceptivo do desenvolvimento, em que o choro se faz presente também como forma de comunicação. O bebê maior percebeu que colocar a chupeta na boca gera uma sensação de conforto. Ele também percebe o choro do outro bebê, e busca, na sua memória incipiente, a ação que alguém já fez para acalmá-lo. Ao lembrar, age pela imitação e produz a mesma ação que foi colocar a chupeta na boca de bebê que chora. Essa já é uma ação generalizada, produzida a partir das vivências do bebê maior. 4. Na hora do banho em uma sala do berçário, o (a) professor (a) conversa com o bebê explorando as partes do corpo. Em que estágio do desenvolvimento se encontra esse bebê? E que mediações o adulto pode realizar? Comentário: O bebê está no estágio de desenvolvimento da comunicação emocional; portanto, a mediação dos adultos deve se dar por gestos. Todos os gestos e expressões devem ser valorizados e enfatizados, pois estão diretamente interligados e relacionados ao campo perceptivo. O toque, o olhar, a voz, o cheiro do xampu, a textura do sabonete, as 114 massagens no corpo do bebê, a temperatura da água, o barulho da água e o diálogo devem ser constantes nesse momento, bem como em outros. 5. Num grupo de crianças de 2 anos, uma criança, ao explorar as caixas que estão disponíveis para brincar, entra em uma delas e não consegue sair sozinha. O (a) professor (a) observa a situação e pensa nas sensações que essa brincadeira pode proporcionar à criança. Que sensações seriam essas? E qual é o estágio de desenvolvimento da criança? Justifique sua resposta. Comentário: Essa atividade é de grande interesse das crianças, e a busca de soluções frente às dificuldades originará soluções criativas, com sensações que podem gerar alívio ou desconforto, como girar/tombar o seu corpo para um lado, de forma que a caixa acompanhe o seu movimento e possibilite a sua saída. Isso pode gerar a sensação e necessidade de pedir socorro/ajuda, e também pode gerar sensações de satisfação ou frustração, por não conseguir sair da caixa sozinha, porém todas essas sensações devem ser proporcionadas às crianças. A criança se encontra no estágio de desenvolvimento em que sua atividade principal é a objetiva, manipulatória ou de tateio com os objetos. Nesse estágio, as crianças entre um e três anos de idade, apoiadas pela linguagem, mantêm contato com o adulto e aprendem a manipular os objetos. Capítulo 3 1. Tomando as diferentes significações, formas e tendências da brincadeira como prática cultural, relacione a primeira coluna (nome do autor) com as ideias contidas na segunda coluna: Comentário: Resposta: 5, 1, 2, 3 e 4 2. Crie e elenque algumas possibilidades de brincadeiras que possam promover a inclusão. Pense em jogos e brincadeiras que possam ser considerados ou adaptados em jogos cooperativos. Qual a importância dessas ações nas brincadeiras apontadas por você? Justifique com base nos conteúdos aprendidos. 115 Comentário: Para desenvolver esta atividade, primeiramente discutam e pesquisem com seus/suas colegas algumas brincadeiras que exaltem a diversidade cutural. As brincadeiras que não tenham caráter avaliativo, na maior parte das vezes são as que permitem e tendem a valorizar múltiplas expressões artísticas e culturais. Uma boa pedida seria a proposição de experiências que incentivem a criatividade e a experimentação, de forma a valorizar as diferentes expressões, atentando-se às propostas inclusivas. Para tanto, procurem pesquisar jogos, pinturas, literaturas e músicas de culturas diversas. Adaptem a partir da faixa etária, do grupo, sem perder de vista os créditos e as origens dessa pesquisa. Incluam a perspectiva cooperativa em detrimento dos objetivos que remetem à competitividade. As relações sociais contemporâneas tendem a ser bastante marcadas pela falta de consistência e superficial cooperatividade de tal modo que a tão propalada defesa da autonomia aparece como apenas um jeito de proclamar não precisar do outro. Lembrem-se que o sentido de autonomia, do ponto de vista de uma proposta inclusiva, seria entendida como “a capacidade – de uma sociedade ou indivíduo – de agir deliberada e explicitamente para modificar a sua lei, isto é, a sua forma” (CASTORIADIS, 1999,p. 20) de maneira que ser autônomo “abre uma interrogação sobre a a lei que devo (que devemos) adotar” (idem, p. 201). Assim, a relação entre brincadeira e inclusão não pode ser pensada como simples aplicação de métodos e técnicas para saciar as necessidades impostas pela cultura escolar conteúdista. Enfim, a brincadeira e o jogo devem mais uma vez serem utilizados e vivenciados como forma de possibilitar essas reflexões e promover a criação, tomando o cuidado para que seu uso não fique restrito à uma estratégia de facilitar a reprodução e/ ou o acesso à simples informação. A ideia é a que possa constituir-se enquanto um importante meio para a promoção de reflexões coletivas que possam, fazendo uso da criatividade e da imaginação, trazer à tona elementos e práticas de nossa cultura que promovam a tolerância, a participação, a cooperação e a autonomia dos diferentes sujeitos sociais. A inclusão conclama à riqueza cultural de modo a encontrar na escola seu espaço de reconhecimento, expressão e manifestação. 3. Problematize o lugar da brincadeira e da infância na Escola, a partir da trajetória de desenvolvimento das políticas educacionais, tendo em vista o debate em torno da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, bem como as políticas públicas que incidem sobre essas duas etapas da 116 Educação Básica, como o ensino de nove anos e a matrícula obrigatóriadas crianças aos quatro anos de idade. Comentário: Na atividade 3, é importante que sejam recuperadas as discussões em torno da dicotomização entre o brincar e o ensino. Por trás dessas, há uma mudança na concepção de infância que vai da compreensão da criança universal e a-histórica para aquela que a vê como cidadã e sujeito produtor de cultura. As leis trazem à baila o debate sobre a ruptura entre as duas etapas da Educação Básica, no sentido de que nem a Educação Infantil seja exclusivamente constituída de assistencialismo, ou, por outro lado, excessivamente uma antecipação conteudista, muito menos o ensino fundamental seja exclusivamente escolarizante e não problematize a criança quanto à importância da fantasia e da brincadeira para seu desenvolvimento e valorização de suas culturas e da diversidade cultural. Capítulo 4 1. Você, professor(a), organizará sua sala, visando proporcionar tempos e espaços para as brincadeiras espontâneas e interativas entre as crianças. Descreva quais serão suas ações nessa organização e que cuidados estarão presentes. Comentário: A primeira observação a ser considerada deverá ser sobre a faixa etária com a qual você irá trabalhar, pois a oferta de brinquedos e brincadeiras devem levar em conta a idade das crianças, no sentido de oportunizar tempos e espaços para brincadeiras desafiantes. Em um grupo de quatro anos, por exemplo, a sala poderá ser organizada em cantos, com diversas propostas de brincadeiras, como: salão de beleza, teatro, consultório médico, casinha, posto de gasolina, supermercado, escolinha, veterinário com pet shop e espaço de jogos. Conforme o documento organizado pelo MEC (que apresenta os direitos das crianças às brincadeiras), muitas questões devem ser observadas e devidamente cuidadas ao organizarmos ações que visem às brincadeiras, entre elas, a disposição dos brinquedos, a possibilidade de acesso aos brinquedos, o estado de uso e conservação dos brinquedos, a reposição dos brinquedos, lugares apropriados para 117 se guardarem os brinquedos, disponibilidade de espaços abertos para as brincadeiras que exijam locomoção, circulação. Além disso, você deve considerar o comprometimento do(a) professor(a), no sentido de respeitar e valorizar as brincadeiras, propondo-as, participando e se envolvendo nelas sempre que for necessário ou quando as crianças solicitarem. 2. O(a) professor(a) deve proporcionar as brincadeiras e jogos às crianças, viabilizando a organização do espaço, a disponibilidade do tempo, a observação e a mediação. Por que é necessário proporcionar as brincadeiras? Quais as funções presentes nas brincadeiras? Descreva e justifique sua resposta. Comentário: Neste capítulo, discutimos a necessidade do professor organizar e planejar as brincadeiras e os jogos, e debatemos a importância da intencionalidade pedagógica por parte do(a) professor(a), não no sentido de “engessar”, “controlar”, “impor” as suas próprias vontades mas no sentido de conhecer, compreender e saber sobre o desenvolvimento cognitivo e social da criança. Há várias funções presentes nas brincadeiras e jogos; algumas estão implícitas, outras não, pois no ato de brincar é a criança quem dá o sentido às brincadeiras. Entre as funções presentes na brincadeira e jogos, podemos citar: a. A construção de regras - exemplo disso pode ser verificado no momento de espera da criança para participar da brincadeira ou jogo, ou mesmo no papel a ser desempenhado, em que a criança pode se tornar um gatinho, um leão, um bebê; b. A decisão de escolha - A escolha em participar ou não da brincadeira ou jogo. A criança escolhe, decide quando irá brincar, quando não irá brincar ou quando a brincadeira acabou; c. A vivência de limites – as brincadeiras possibilitam que a criança vivencie experiências e situações que não podem ser satisfeitas, por exemplo, ganhar sempre os jogos, ser sempre o papai na brincadeira de casinha; d. Controle interno – as brincadeiras ensinam as crianças a respeitar sua vez de participar, além do respeito à opinião e às ações dos demais colegas; e. Construção da autonomia – ao brincar, a criança cria um mundo de possibilidades e de situações, exerce papéis que ultrapassam o mundo real e que a auxiliam na conquista da autonomia; f. Integração entre os pares – ao brincar, as crianças trocam experiências, dialogam e interagem, iniciando o conhecimento sobre si e sobre o outro, suas preferências e gostos; g. Desenvolvimento físico, social, intelectual, emocional e expressivo – a criança se desenvolve integralmente ao brincar, favorecida pela fantasia e imaginação. h. Não-literalidade – os objetos e os brinquedos podem exercer outra função, além daquela aparentemente material; então, um pedaço de madeira pode se tornar um carrinho, e uma tampinha de panela pode se tornar uma nave espacial. Referências ARCE, Alessandra & DUARTE, Newton (orgs.) Brincadeira de papéis sociais na educação infantil: as contribuições de Vigotski, Leontiev e Elkonin. São Paulo: Xamã, 2006. ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978. BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Duas Cidades, Ed.34, 2002. BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei n°. 8.069/90, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. 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