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Capítulo 53 – Guyton O Sentido da Audição Giovanna Gabriele MEMBRANA TIMPÂNICA E O SISTEMA OSSICULAR Condução do som da membrana timpânica para a cóclea A membrana timpânica tem a forma de cone e o cabo do martelo está fixado no seu centro. A cadeia ossicular também inclui a bigorna, que está ligada ao martelo por meio de ligamentos e, por isso, os dois ossos se movem juntos quando a membrana timpânica vibra. Na sua outra extremidade, a bigorna se articula com o estribo, que, por sua vez, está ligado à janela do vestíbulo do labirinto membranáceo. O músculo tensor do tímpano, ligado ao martelo, mantém a membrana timpânica tensa. O casamento de impedâncias entre as ondas sonoras no ar e as ondas sonoras no líquido coclear é mediado pela cadeia ossicular A cadeia ossicular não amplifica as ondas sonoras pelo aumento do movimento do estribo. Como a área da membrana timpânica é tão grande em relação à área de superfície da janela do vestíbulo o sistema de alavanca multiplica a pressão da onda sonora exercida contra a membrana timpânica por um fator de 22. O líquido no labirinto membranáceo tem inércia muito maior do que no ar; a amplificação adicional da pressão pela cadeia ossicular é necessária para provocar a vibração do líquido. Juntos, a membrana timpânica e os ossículos fornecem um casamento de impedância entre as ondas sonoras no ar e as vibrações do som no líquido do labirinto membranáceo. Na ausência de uma cadeia ossicular funcionante, os sons normais são quase imperceptíveis. A contração dos músculos estapédio e tensor do tímpano atenua a condução do som Quando sons extremamente altos são transmitidos através da cadeia ossicular, um reflexo de amortecimento do martelo é acionado pelo músculo estapédio, que atua como antagonista do músculo tensor do tímpano. Desse modo, a rigidez do ossicular cadeia aumenta e a condução do som, particularmente em frequências baixas, diminui bastante. Transmissão do som através do osso Como a cóclea está dentro do osso, a vibração do crânio pode estimular a cóclea. No entanto, até mesmo sons relativamente altos no ar não têm energia suficiente para permitir audição efetiva através da condução óssea. CÓCLEA Transmissão de ondas sonoras na cóclea – “onda viajante” Quando uma onda sonora atinge a membrana timpânica, os ossículos se movimentam e a base do estribo é empurrada para dentro do labirinto membranáceo na janela oval. Essa ação inicia uma onda sonora que viaja ao longo da membrana basilar em direção ao helicotrema. Os padrões de vibração são induzidos por diferentes frequências sonoras O padrão de vibração iniciado na membrana basilar varia de acordo com as diferentes frequências sonoras. Cada onda é relativamente fraca em seu início, porém se torna mais forte na parte da membrana basilar que tem uma frequência de ressonância igual à da onda sonora. A onda “morre” essencialmente fora deste ponto e não afeta o restante da membrana basilar. Além disso, a velocidade de propagação da onda sonora é maior perto da janela oval; em seguida, diminui gradualmente à medida que prossegue em direção ao helicotrema. Os padrões de vibração são induzidos por diferentes amplitudes de som A amplitude máxima de vibração da frequência sonora se propagada de forma organizada sobre a superfície da membrana basilar. Por exemplo, a vibração máxima de um som de 8.000 ciclos/s (Hertz [Hz]) ocorre perto da janela oval, enquanto a vibração máxima deum som de 200 Hz está localizada perto do helicotrema. O principal método para a discriminação do som é o “local” da vibração máxima da membrana basilar para esse som. Função do Órgão de Corti O órgão de Corti possui dois tipos de células receptoras: a células ciliadas internas e as células ciliadas externas. Aproximadamente 95% das fibras sensitivas do oitavo nervo craniano, que inerva a cóclea, constituem contato sináptico com as células ciliadas internas. Os corpos celulares das fibras sensitivas se localizam no gânglio espiral, o qual está localizado no modíolo ósseo (o centro), que serve como suporte para a membrana basilar em uma das suas extremidades. Os processos centrais dessas células ganglionares entram no tronco encefálico, na medula rostral, para estabelecer sinapses nos núcleos cocleares. A vibração da membrana basilar excita as células ciliadas A superfície apical das células ciliadas dá origem a muitos estereocílios e a um único cinocílio que se projetam para cima na membrana tectória sobrejacente. Quando a basilar membrana vibra, os cílios das células ciliadas incorporadas na membrana tectória são inclinados em uma direção e, em seguida, na outra direção. Mecanicamente, esse movimento abre os canais iônicos, levando à despolarização ou à hiperpolarização da célula ciliada, dependendo da direção da inclinação. Legenda: A -> estimulação das células ciliadas pelo movimento de vaivém dos cílios que se projetam no revestimento de gel da membrana tectória. B -> transdução da energia mecânica em sinais neurais pelas células ciliadas. Quando os estereocílios se curvam na direção dos mais longos, os canais de K+ se abrem, provocando a despolarização, que, por sua vez, abre os canais de Ca2+ dependentes de voltagem. O influxo de Ca2+ aumenta a despolarização e induz a liberação do glutamato, que despolariza o nervo sensorial. Os potenciais receptores das células ciliadas ativam as fibras do nervo coclear Em torno de 100 cílios se projetam da superfície apical das células ciliadas e aumentam progressivamente de comprimento desde a região de fixação na membrana basilar em direção ao modíolo. O mais longo desses cílios é referido como um cinocílio. Quando os estereocílios são inclinados em relação ao quinocílio, os canais de potássio na membrana da célula ciliadas são abertos, o potássio situado no líquido da rampa média entra e a célula ciliada é despolarizada. O processo exatamente inverso ocorre quando os cílios se afastam do cinocílio; isto é, a célula ciliada é hiperpolarizada. O líquido que banha os cílios da superfície apical das células ciliadas é a endolinfa. Esse líquido aquoso é diferente da perilinfa, presente nas rampas do vestíbulo e do tímpano e que, sendo um líquido extracelular, é rico em sódio e pobre em potássio. A endolinfa é secretada pela estria vascular (epitélio especializado na parede da rampa média), sendo rico em potássio e pobre em sódio. O potencial elétrico através da endolinfa, o chamado potencial endococlear, é cerca de +80 milivolts. No entanto, o interior da célula ciliada é cerca de −70 milivolts. Portanto, a diferença de potencial através da membrana dos cílios e da superfície apical das células ciliadas é aproximadamente 150 milivolts, o que aumenta muito a sua sensibilidade. Determinação da frequência do som – o princípio do “lugar” O sistema nervoso determina a frequência do som pelo ponto de estimulação máxima ao longo da membrana basilar. Os sons de alta frequência no final do espectro estimulam ao máximo a extremidade basal nas proximidades da janela oval. A estimulação de baixa frequência estimula ao máximo a extremidade apical perto do helicotrema. As frequências sonoras abaixo de 200 Hz, no entanto, são discriminadas de forma diferente. Essas frequências provocam salvas sincronizadas de impulsos da mesma frequência no oitavo nervo craniano e as células nos núcleos cocleares que recebem a entrada dessas fibras podem distinguir as frequências. Determinação da intensidade 1) À medida que o som se torna mais alto, a amplitude de vibração na membrana basilar aumenta e as células ciliadas são ativadas mais rapidamente. 2) Com o aumento da amplitude de vibração, mais células ciliadas são ativadas e o somatório espacial aumenta o sinal. 3) As células ciliadas externas são ativadas por vibraçõesde grande de amplitude que, de alguma forma, informam ao sistema nervoso que o som ultrapassou um determinado nível que delimita a alta intensidade. A escala de intensidade é comprimida pelo cérebro para fornecer uma ampla faixa de discriminação de sons. O limiar da audição nos humanos é diferente em diferentes intensidades. Por exemplo, um tom de 3.000 Hz pode ser ouvido em um nível de intensidade de 70 decibéis, enquanto um tom de 100 Hz só pode ser ouvido se a intensidade for aumentada para um nível 10.000 vezes maior. MECANISMOS AUDITIVOS CENTRAIS Vias Nervosas Auditivas As fibras sensitivas primárias do gânglio espiral entram no tronco encefálico e terminam nos núcleos cocleares dorsal e ventral. A partir daí, os sinais são enviados para o núcleo olivar superior contralateral (e ipsilateral), onde as células dão origem às fibras nervosas que entram no lemnisco lateral e que terminam no colículo inferior. As células do colículo inferior se projetam para o núcleo geniculado medial do tálamo e, a partir daí, os sinais são transmitidos para o córtex auditivo primário, o giro temporal transversal de Heschl. É importante compreender que (1) a partir das saídas dos núcleos cocleares, os sinais são transmitidos bilateralmente através de vias centrais com predomínio contralateral; (2) os colaterais das vias centrais fazem sinapses na formação reticular do tronco encefálico; e (3) as representações espaciais da frequência do som (organização tonotópica) são encontradas em muitos níveis nos vários grupos de células das vias auditivas centrais. Função do Córtex Cerebral na Audição Pelo menos seis representações tonotópicas (mapas) de frequência sonora foram descritas no córtex auditivo primário. Presume-se que cada região selecione alguma característica particular do som ou da percepção sonora e realize uma análise dessa característica. A destruição bilateral do córtex auditivo primário não elimina a capacidade de detectar o som; no entanto, esse tipo de lesão pode causar dificuldade na localização dos sons no ambiente. As lesões no córtex auditivo secundário interferem na capacidade de interpretar o significado de determinados sons, o que é particularmente verdadeiro para a palavra falada e é referido como uma afasia receptiva. Determinação da direção da qual vem o som O núcleo olivar superior é subdividido em núcleos medial e lateral. O núcleo lateral determina a direção do som por meio da detecção da diferença da intensidade do som transmitido a partir dos dois ouvidos. O núcleo medial localiza os sons por meio da detecção da diferença do tempo de chegada do som nas duas orelhas. A entrada para as células individuais neste último núcleo é segregada, de tal modo que os sinais da orelha direita alcançam um sistema dendrítico e a entrada das sinapses da orelha esquerda faz sinapses com um sistema dendrítico separado no mesmo neurônio. Sinais Centrífugos do SNC para os Centros Auditivos Inferiores Cada nível de processamento na via auditiva central dá origem a fibras descendentes ou retrógradas que se projetam de volta para os núcleos cocleares, bem como para a própria cóclea. Essas conexões centrífugas são mais pronunciadas no sistema auditivo do que em qualquer outra via sensitiva. Especula-se que essas ligações permitam atender seletivamente às características de cada som em particular. Anormalidades da Audição Dificuldades de audição podem ser avaliadas com um audiômetro, o que permite que as frequências específicas de som sejam distribuídas individualmente em cada orelha. Quando um paciente é portador de surdez neurossensorial, envolvendo tanto a condução aérea quanto a condução óssea, os danos geralmente envolvem um ou mais componentes neurais do sistema auditivo. Quando apenas a condução aérea é afetada, em geral, os danos à cadeia ossicular são a causa e, muitas vezes, por causa de infecções crônicas na orelha média.