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AULA 1 
ÉTICA, DIREITOS HUMANOS E 
DIREITOS DA CIDADANIA 
Profª Juliana Bertholdi 
 
 
2 
TEMA 1 – BREVE INTRODUÇÃO AO TEMA 
A presente aula tem por escopo investigar a interação entre a ética, os 
direitos humanos e os direitos da cidadania, relacionando como tais matérias 
podem auxiliar na gestão pública e na construção de políticas públicas assertivas 
e funcionais. 
Conforme assente mais adiante, é preciso pensar não só políticas públicas 
que garantam o acesso de todos aos direitos assegurados pela Constituição 
Federal, como também uma cidadania eticamente comprometida com a 
realidade e a transformação social. Uma Política de Direitos Humanos, com 
base na ética e na participação cidadã, que garanta aos indivíduos a condição de 
ser, no plano econômico, um cidadão sadio, no plano político, um cidadão 
participante, no plano intelectual, um cidadão consciente das relações de poder, 
e, no plano da ética, um cidadão comprometido com a realidade social. 
TEMA 2 – O QUE É ÉTICA? 
2.1 Conceito 
Desde sua origem, o ser humano, ser social que é, aderiu à convivência 
em comunidade para preservar sua vida e minimizar as agruras com a 
manutenção de sua sobrevivência: primitivamente, a vida coletiva significava a 
permanência da espécie. 
Como consequência da vida do ser humano em comunidade, a aquisição 
e a construção de valores acerca do bem e do mal, do justo e do injusto, do certo, 
do incerto e do errado, por força da habitualidade, tornaram-se costumes, regras 
aceitas, obedecidas por toda a comunidade e transmitidas por meio das gerações, 
constituindo o domínio da ética e da moral (Felizardo, 2012, p. 3). 
Nesse sentido, Cortella (2009, p. 102) ensina que a ética é o que marca a 
fronteira da nossa convivência – em suas palavras, “é aquela perspectiva para 
olharmos os nossos princípios e os nossos valores para existirmos juntos [...], é o 
conjunto de seus princípios e valores que orientam a minha conduta”. 
No que concerne a um assunto clássico dos filósofos e pensadores, Chauí 
(1998, p. 25) afirma que a filosofia existe há 25 séculos, e que, nesse período, a 
ética como um dos seus principais ramos esteve sempre presente e continua viva. 
 
 
3 
A ética é compreendida atualmente como parte da filosofia, cuja teoria 
estuda o comportamento moral e relaciona a moral como uma prática, entendida 
por Cortella (2009, p. 103) como o “exercício das condutas”. Além disso, é 
entendida como um tipo ou qualidade de conduta que é esperada das pessoas 
como resultado do uso de regras morais no comportamento social. 
Academicamente, a ética é uma disciplina filosófica que estuda três famílias 
de problemas, dividindo-se por isso em três áreas, conforme ensinamentos de 
Murcho (2009): 
 A metaética estuda problemas relacionados com a natureza da própria 
ética, como a questão de se saber se os valores éticos são relativos ou não 
– tema que abordaremos em seguida. 
 A ética normativa estuda o problema de se saber o que é o bem último, isto 
é, o bem que não é meramente instrumental para outros bens, e o problema 
de se saber o que faz uma ação ser boa – o deontologismo, o 
consequencialismo, a ética das virtudes e o contratualismo são as quatro 
grandes famílias de teorias éticas normativas. 
 Finalmente, a ética aplicada ou prática estuda problemas como a 
permissibilidade do aborto, a relevância moral dos animais inumanos, a 
obrigatoriedade de ajudar as populações mais pobres ou a moralidade da 
guerra. 
Em suma, a ética discute os valores que se traduzem em existências 
humanas mais felizes, mais realizadas, com mais bem-estar e qualidade de vida. 
Além disso, busca os valores que signifiquem dignidade, liberdade, autonomia e 
cidadania. 
Conforme pontua Cortina (2003, p. 18), inobstante a palavra ética ter 
passado a fazer parte do vocabulário cotidiano, demonstrando a vigência de uma 
preocupação urgente e universal: “ninguém chega realmente a acreditar que ela 
seja importante, e mesmo essencial para viver”. Há de se questionar, portanto, 
por que a ética se tornou tema ao mesmo tempo recorrente e banalizado, 
superficial. 
À medida que entendemos a importância da ética para a sobrevivência 
humana com qualidade e integridade, compreendemos também a complexidade 
envolvida em suas relações com outros campos do saber e da prática, incluindo 
os Direitos Humanos e os Direitos à Cidadania, fundamentais à vida humana em 
sociedade. 
 
 
4 
TEMA 3 – FUNDAMENTOS DA ÉTICA 
O vocábulo ética tem sua origem no grego ethos, vernáculo que se refere 
ao modo de ser do indivíduo ou ao caráter do ser humano. Na Grécia antiga 
(século IV a.C.), os filósofos foram os primeiros a pensar o conceito de ética, 
associando a tal palavra a ideia de moral e cidadania. Precisavam de honestidade, 
fidelidade e harmonia entre cidadãos, uma vez que as cidades-estado estavam 
em desenvolvimento. 
Nesse sentido, Sócrates, Platão e Aristóteles são os pensadores gregos 
mais estudados e citados no campo da ética. Pregavam virtude, firmeza moral e 
outras atitudes pautadas nos conceitos advindos de ethos. Com o passar dos 
séculos, diferentes escolas de pensamentos e filósofos construíram e 
aperfeiçoaram os conceitos, e é fulcral que se faça uma breve incursão histórica. 
3.1 Grécia Antiga 
3.1.1 Sócrates 
Nascido em Atenas provavelmente no ano 740 a.C., Sócrates veio a se 
tornar um dos principais pensadores da Grécia Antiga. Afeiçoado à música e à 
literatura, dedicou-se à meditação e ao ensino filosófico, debatendo e dialogando 
longamente com as pessoas de sua região. 
Assim, não fundou propriamente uma escola de pensamento, mas, realizou 
trabalhos em locais públicos, principalmente em praças e ginásios. Costumava 
agir de forma descontraída e descompromissada nesses espaços, fascinando a 
todos. 
A ética socrática tem por base o conhecimento e conjeturar a felicidade 
como o fim de toda ação. O objetivo dessa ética é preparar o homem para o 
autoconhecimento, a base do agir ético. A filosofia socrática prima pela 
submissão, pela ética do coletivo sobre a ética individual. 
Nesse sentido, a obediência à lei era o limite entre a civilização e a barbárie: 
onde existem as ideias de ordem e coesão, podem-se dizer garantidas a 
existência e a manutenção do corpo social. Trata-se, assim, da ética do respeito 
às leis por bondade, conhecimento e felicidade. 
Sobre o pensamento do filósofo, Vázquez (1997, p. 231) esclarece: 
“Resumindo, para Sócrates, bondade, conhecimento e felicidade se entrelaçam 
 
 
5 
estreitamente. O homem age retamente quando conhece o bem e, conhecendo-
o, não pode deixar de praticá-lo; por outro lado, aspirando ao bem, sente-se dono 
de si mesmo e, por conseguinte, é feliz”. 
Para Sócrates, “virtude é sabedoria (sofia) e conhecimento. Já o vício é o 
resultado da ignorância. Assim, o saber fundamental é o saber a respeito do 
homem. Sobre essa ideia, o pensador teria dito suas frases mais conhecidas como 
‘conhece-te a ti mesmo’ e ‘sei que nada sei’” (Egg, 2012, p. 6). 
Desse modo, “o homem enquanto integrado ao modo político de vida deve 
zelar pelo respeito absoluto às leis comuns a todos, mesmo em detrimento da 
própria vida” (Bittar, 2017, p. 6). Assim, “o ato de descumprimento da sentença 
imposta pela cidade representava para Sócrates a derrogação de um princípio 
básico do governo das leis, qual seja, a eficácia”. Segundo Sócrates, com a 
eficácia das leis comprometida, a desordem social reinaria (Bittar, 2017, p. 6). 
Devido à sua liberdade de expressão e às fortes críticas que fazia à política 
da Grécia, foi acusado de corromper os jovens da época e condenado a beber 
cicuta. Morreu no ano 399 a.C. 
3.1.2 Platão 
Platão viveu entre os anos 428 a.C. e 347 a.C. e foi um destacado filósofo 
grego, considerado um dos principais pensadores de sua época. Discípulo de 
Sócrates, procurava transmitir uma profunda fé na razão e na verdade,adotando 
o lema “o sábio é o virtuoso” do referido filósofo. Escreveu diversos diálogos 
filosóficos, entre eles “A República”, obra dividida em dez volumes. 
Ele propõe uma ética transcendente: o fundamento de sua proposta ética 
não é a realidade empírica do mundo, nem mesmo as condutas humanas ou as 
relações humanas, mas, sim, o mundo inteligível. O filósofo centra suas 
indagações na ideia perfeita, boa e justa que organiza a sociedade e dirige a 
conduta humana. 
As ideias formam a realidade platônica e são os modelos segundo os quais 
os homens têm seus valores, leis, moral. Conforme o conhecimento das ideias, 
das essências, o homem obtém os princípios éticos que governam o mundo social. 
O uso reto da razão é entendido como o meio de alcançar os valores 
verdadeiros que devem ser seguidos pelos homens. No mito da caverna, o filósofo 
expõe a condição de ignorância na qual se encontra o homem ao lidar com o 
conhecimento das aparências. 
 
 
6 
Somente pelo conhecimento racional o homem pode elevar-se até as 
ideias, até o ser e conhecer a verdade das coisas. Isso se dá por meio do método 
dialético, o qual elimina as aparências e encontra as essências, a verdade no 
conhecimento das coisas. 
Esse método filosófico tem por finalidade libertar os homens da ignorância 
e levá-los ao conhecimento de ideia em ideia, até alcançar o conhecimento da 
ideia suprema: o bem. As outras ideias participam desta e devem sua existência 
a ela (Vaz, 2017). 
Nesse sentido, a virtude platônica é entendida como a 
capacidade de realizar a tarefa que lhe é inerente [...]. No caso do 
governante da cidade e da alma racional, a virtude inerente aos mesmos 
é a sabedoria; no caso dos guerreiros e da parte irascível da alma, a 
virtude que lhes é própria é a coragem; por fim, no caso da parte 
concupiscente da alma e dos produtores de bens da cidade, a virtude 
própria é temperança. (Vaz, 2017) 
Portanto, o sentimento de justiça é “a virtude maior cujo valor ético guia 
as condutas dos homens, o bem em si mesmo”, uma vez que ele realiza o ideal 
de justiça, com relação tanto ao bem individual quanto ao bem social (Vaz, 2017). 
Assim, para a ética platônica, é possível definir a justiça como cada parte 
fazendo o que lhe compete, conforme suas aptidões próprias, estabelecendo-
se, portanto, uma analogia entre a sociedade e o indivíduo que levaria à 
conceituação da ética. 
A ética platônica, então, está intimamente ligada ao correto modo de agir 
dos indivíduos e suas objetivações de alcance da felicidade: nos diálogos de “A 
República”, Platão afirma ser a ética uma organização funcional dentro da alma 
humana. Assim que harmoniosamente organizadas as almas humanas, a relação 
do homem com a polis pode ser ética e coesa. 
3.1.3 Aristóteles 
O filósofo Aristóteles nasceu no ano 384 a.C., na cidade de Estágira, na 
Macedônia, Grécia. Filho de Nicômaco, médico do rei Amintas III, Aristóteles 
formou-se em Ciências Naturais. Aos 17 anos mudou-se para Atenas, a fim de 
estudar na “Academia” de Platão. Com sua extraordinária inteligência, logo se 
tornou o discípulo bem-amado de seu mestre, que observou: “minha Academia se 
compõe de duas partes: o corpo dos alunos e o cérebro de Aristóteles” (Frazão, 
2018). 
 
 
7 
A ética aristotélica, em oposição à ética de seu mestre, é imanente, tendo 
suas bases na realidade empírica do mundo, no questionamento acerca das 
condutas humanas e na organização social. As exigências com relação à vida na 
polis e a realidade do homem formam o conteúdo das ideias, e são ambas as 
responsáveis pela escolha dos valores, pela moralidade e pelas leis, pela 
definição das condutas dos homens. Sua teoria ética era realista e empirista, em 
contrapartida à visão idealista e racionalista de Platão, devendo ser lida dentro de 
sua teoria política. 
A ética aristotélica inicia-se com o estabelecimento da noção de 
felicidade. Nesse sentido, pode ser considerada eudemonista por buscar o que é 
o bem agir em escala humana, o agir segundo a virtude – diferentemente de 
Platão, que buscava a essência das ideias de felicidade e da ideia do bem sem 
relacioná-las diretamente à prática. 
A felicidade é definida como uma certa atividade da alma que vai de acordo 
com uma perfeita virtude: a busca do sumo bem. Partindo dessa definição, faz-se 
necessário um estudo sobre o que é uma virtude perfeita e, assim, também sobre 
a natureza da virtude moral. 
A virtude é definida pelo estagirita como hábito ou disposição racional 
constante, sendo um hábito que torna o homem bom e o capacita para a boa 
execução de sua função. Essa definição se mostra oposta à de Platão: a virtude 
é definida como capacidade de realizar uma função determinada, inerente a 
alguma parte da alma humana ou da cidade ideal (Vaz, 2017). 
Por sua vez, a virtude moral seria a disposição de agir de forma 
deliberada, com a ação de acordo com a reta razão. Assim, a virtude moral é 
adquirida como resultado do hábito, que determina nosso comportamento como 
bom ou ruim. 
Para Aristóteles, diferentemente da lógica platônica, nenhuma das virtudes 
morais surge nos homens por natureza, pois o que é natural não pode ser alterado 
pelo hábito. Assim, “virtudes e artes são adquiridas pelo exercício, ou seja, a 
prática das virtudes é um pré-requisito para que se possa adquiri-las. Sem a 
prática, não há a possibilidade de o homem ser bom, de ser virtuoso” (Vaz, 2017). 
A virtude intelectual, por sua vez, seria aquela “adquirida através do 
ensino, e, assim, necessita de experiência e tempo” (Vaz, 2017). É devido ao 
hábito que tomamos a justa medida com relação a nós. Logo, a mediania é 
 
 
8 
imposta pela razão com relação às emoções e é relativa às circunstâncias nas 
quais a ação se produz. 
Nesse sentido, Medeiros (2016) destaca: 
Trata-se de um homem ‘essencialmente destinado à vida em comum na 
polis e somente aí se realiza como ser racional. Ele é um zoon politikón 
por ser exatamente um zoon logikón, sendo a vida ética e a vida política 
artes de viver segundo a razão’”. (Lima Vaz, 2004, p. 38-39, citado por 
Pansarelli, 2009, p. 13) 
E Hélcio Corrêa afirma que na polis grega o cidadão só é reconhecido 
como tal a partir de sua inserção na comunidade política e a razão 
prática que norteia a ação do cidadão grego está intimamente ligada ao 
ethos “[...] entendido este como um conjunto de tradições, costumes e 
valores próprios da vida na polis” (2011, p. 77) e, no caso de Aristóteles, 
“[...] as noções de ética e política se completam reciprocamente na teoria 
da justiça. (2011, p. 77) 
Desse modo, a ética aristotélica está intimamente ligada à felicidade, pois 
todos a buscamos, devendo-se atentar à justa medida, que nada mais é que saber 
agir sem exageros ou extremos. Uma pessoa ética e feliz é aquela que age com 
prudência e equilíbrio entre suas virtudes e em relação à polis. 
TEMA 4 – ÉTICA AO LONGO DA HISTÓRIA 
4.1 Ética na Antiguidade – a ética romana 
Como é consabido, o direito brasileiro e, consequentemente, nossa lógica 
jurídica, dogmática e hermenêutica têm fortes raízes no direito romano, permeado 
de matrizes éticas muitas vezes olvidadas por estudiosos. Boa parte dos 
caracteres romanos está intrinsecamente conectada ao pensamento filosófico 
grego, sobretudo ao estoicismo – cuja ética é fundamentalmente conectada à 
teoria do uso prático da razão com o fim de estabelecer o acordo entre ela e a 
natureza. 
Reportando-se à definição de Celso, filósofo romano, o também pensador 
Ulpiano define o direito como a arte do bom e do justo. Trata-se da única definição 
romana de ius. A partir dela, podemos inferir a estreita correlação entre o direito e 
a ética constantemente afastada nos tempos atuais (Böttcher, 2013, p. 157). 
Böttcher (2013, p. 157) ensina: 
A natureza é a ordem racional, perfeita e necessária, que é o destino ou 
o próprio Deus. E a ação, que se projeta conforme a ordem racional,é o 
dever. Portanto, a ética estoica é, fundamentalmente, uma ética do dever 
e a noção do dever torna-se pela primeira vez a ideia fundamental da 
ética. Porém, o dever não é o bem. O bem começa a existir quando a 
escolha aconselhada pelo dever é repetida e consolidada, mantendo 
 
 
9 
sempre sua conformidade com a natureza até se tornar no homem uma 
disposição uniforme e constante, ou seja, uma virtude, a qual é 
verdadeiramente o único bem. Além dos bens (virtudes), existem outras 
coisas que são dignas de serem escolhidas. Para indicar o conjunto 
desses bens e coisas, os estoicos adotaram a palavra valor (axia). 
Entre os filósofos romanos da Antiguidade, destaca-se Marco Túlio Cícero, 
que nasceu em 106 a.C. e morreu em 43 a.C. Além de filósofo, foi também orador, 
escritor, advogado e político romano (Egg, 2012, p. 10). Defendia que a vida era 
pautada segundo as prescrições da natureza, o que significa, em última análise, 
servir o interesse geral da coletividade em detrimento de seu próprio, como 
destaca de trecho da obra de Cícero o autor Comparato (2016, p. 117): 
Cada qual deve, em todas as matérias, ter um só objetivo: conformar o 
seu próprio interesse com o interesse geral; pois se cada um chamar 
tudo a si, dissolve-se a comunidade humana. Se a natureza determina 
que devemos respeitar um homem pelo só fato de as condições 
humanas, é inegável que, sempre segundo a natureza, há algo que é de 
interesse comum a todos os homens; se assim é, somos todos sujeitos 
a uma só mesma lei natural, que proíbe atentar contra direitos alheios. 
Bem resume Egg (2012, p. 9): 
os filósofos romanos dessa época, de um modo geral, convergiam para 
a mesma preocupação com a conduta humana, com o caráter do 
indivíduo e com seus costumes. Todos esses aspectos em conjunto 
recebem o nome de moral. Esses filósofos também acreditavam que o 
principal objetivo das ações humanas está na própria virtude, pela sua 
retidão ou honestidade. A moral foi para os romanos um conjunto de 
deveres que a natureza impôs ao homem, seja pelo respeito a si próprio, 
seja pela relação com outros homens. 
4.2 Ética cristã na Idade Média 
Por volta do século III a.C., o Império Romano passou por uma enorme 
crise econômica e política que culminou em corrupção sem precedentes instalada 
no Senado, agravada pelos gastos exorbitantes com artigos de luxo que 
escassearam os recursos a serem investidos no exército romano. 
Assim, “com o enfraquecimento da instituição militar romana, somado à 
crise política avassaladora, no ano de 395 a.C., o império Teodósio resolveu dividir 
os limites de seu império” (Egg, 2012, p. 10). Dava-se, com isso, o fim da 
Antiguidade e o início da Idade Média. 
Na Idade Média, com a ascensão do catolicismo na Europa Ocidental, a 
ética passa a se vincular à religião e aos dogmas cristãos, dominando a 
epistemologia entre os séculos XI e XIX, a despeito de mudanças significativas 
 
 
10 
com o renascimento e, depois, a entrada na modernidade e o iluminismo (Egg, 
2012, p. 10). 
Desta feita, como se passará a desenhar, ganham ênfase as revelações 
dos livros sagrados traduzidos pelo clero e, a partir deles, passam a ser 
determinadas as regras de condutas sociais. A figura de Jesus de Nazaré ganha 
espaço central para a construção dessa nova ética: a do amor ao próximo. A igreja 
católica e seus dogmas se mantiveram por muitos anos (Egg, 2012, p. 10). 
4.2.1 São Tomás de Aquino 
Tomás de Aquino (1.125-1.274) foi um frade dominicano responsável pela 
orientação e proteção religiosa da sociedade. Uma de suas maiores façanhas foi 
aplicar a visão aristotélica na doutrina cristã, sendo sua obra permeada das 
categorias aristotélicas (as quatro causas, atos e potências, substância e 
acidente), fato que colaborou para o surgimento da Escolástica. 
Para o filósofo e teólogo, era a união do corpo com a alma que formava a 
identidade e a dignidade de uma pessoa, sendo apenas por meio do exercício da 
razão humana aliado à revelação divina que o homem poderia atingir a perfeição 
das virtudes. Sua vertente afirma que “Deus era o legislador, e os padres, 
intérpretes da lei” (Egg, 2012, p. 10). 
Para o pensamento tomista, a fé e a razão estavam unidas e não poderia 
haver contradição entre ambas, pois estavam sempre dirigidas rumo a Deus. Esse 
pensador também afirmou que toda criação é boa, tudo o que existe é quando se 
está sob a orientação dos mandamentos de Deus. Ele também pontuou que o mal 
é a ausência de uma perfeição divina (Egg, 2012, p. 10). 
4.3 Idade Moderna 
Durante a transição da Idade Média para a Idade Moderna, a igreja católica 
começou a cair no descrédito da população devido ao protestantismo e a outros 
movimentos que eclodiram com a Reforma Religiosa do século XVII, época em 
que ocorreu a formação e a consolidação dos estados-nação europeus, 
precedendo a Revolução Francesa e Industrial, quando a separação entre Estado 
e igreja se tornou definitiva, com a ascendência do antropocentrismo e a 
aceleração do avanço da ciência (Egg, 2012, p. 10). 
 
 
11 
Nesse contexto, destaca-se Martinho Lutero, religioso que viveu entre os 
séculos XV e XVI e lutou pela reforma da igreja católica, sendo responsável pela 
Reforma Protestante, que acabou por gerar as quebras de paradigma que 
possibilitaram a queda do catolicismo. 
Lutero, no seu movimento reformista, promoveu a educação para todos, 
inclusive para camponeses e mulheres. Traduziu a bíblia do latim para o alemão, 
dando a oportunidade para que todos a conhecessem. O aperfeiçoamento da 
imprensa por Gutenberg também ajudou a divulgar a sagrada escritura dos 
cristãos (Egg, 2012, p. 10). 
Vale enfatizar que, na Idade Moderna, foram consideráveis as 
transformações de “ordem social, econômica e política, como as viagens às Índias 
e às Américas e a Revolução Científica, proporcionada por Nicolau Copérnico, 
Galileu Galilei, Newton, dentre outros” (Egg, 2012, p. 10), evolução que gerou 
novas reflexões e visões das interações humanas, impactando diretamente na 
leitura da ética até então centrada nas lógicas cristãs. 
Assim, “os filósofos modernos resgataram aspectos do pensamento 
filosófico greco-romano no tocante à necessidade de toda a humanidade alcançar 
a sabedoria e a felicidade, principalmente pautando-se no equilíbrio e na razão” 
(Egg, 2012, p. 10), afastando, então, a ética cristã até então posta. 
A exemplo, cita Egg (2012, p. 10): 
Immanuel Kant (1724-1804) foi um filósofo prussiano, considerado o 
último grande filósofo dos princípios da Era Moderna. Kant teve um 
grande impacto no Romantismo alemão e nas filosofias idealistas do 
século XIX. Para Kant, a ética é autônoma, ou seja, corresponde à lei 
ditada pela própria consciência moral. Esse filósofo deu prosseguimento 
à construção da própria ideia moral, afirmando que aquilo que o homem 
procura está dentro dele mesmo. 
TEMA 5 – RELAÇÃO ENTRE A ÉTICA E OUTRAS CIÊNCIAS 
5.1 Ética e política 
Uma marca característica da ética na Antiguidade, quando de seu 
nascimento, é sua indissociabilidade da política. Desde Platão e seu discípulo 
Aristóteles, a ideia de constituição da polis é perpassada pelo princípio de que a 
cidade deve ser dirigida por governantes sábios, justos e virtuosos. 
É de Aristóteles, por exemplo, a afirmação de que o homem é um animal 
político – zoon politikon. “Trata-se de um homem ‘essencialmente destinado à vida 
em comum na polis e somente aí se realiza como ser racional. Ele é um zoon 
 
 
12 
politikón por ser exatamente um zoon logikón, sendo a vida ética e a vida política 
artes de viver segundo a razão’” (Lima Vaz, 2004, p. 38-39, citado por Pansarelli, 
2009, p. 13). 
Nesse sentido, Cachichi (2011) afirma que, na polis grega, o cidadão só é 
reconhecido como tal a partir de sua inserção na comunidade política, e a razão 
prática que norteia a ação do cidadão grego está intimamente ligada ao ethos, 
entendido como “[...] umconjunto de tradições, costumes e valores próprios da 
vida na polis” (p. 77). No caso de Aristóteles, “[...] as noções de ética e política se 
completam reciprocamente na teoria da justiça” (Cachichi, 2011, p. 77). 
Assim, tais esferas estão relacionadas pela natureza do poder. Quando 
falamos em democracia, como nos ensina Zajdsznajder (1994, p. 96), a grande 
preocupação das pessoas que elegem o político refere-se ao uso indevido do 
poder, quando o eleito coloca seus interesses particulares acima dos interesses 
do povo, desviando os recursos em benefício próprio ou para pagar promessas 
feitas durante a campanha eleitoral. É uma das questões éticas mais relevantes 
do campo da política. 
5.2 Bioética 
Os estudiosos da bioética empreendem esforços para debater questões 
referentes à vida humana e às melhorias na qualidade de vida do homem. É uma 
área composta de estudos multidisciplinares da biologia, da medicina e da 
filosofia. Egg (2012, p. 12) destaca que: 
com o notável avanço da Medicina, em especial na pesquisa genética, 
surgiram grandes preocupações no campo da ética. A clonagem 
humana e a fecundação artificial são exemplos de práticas genéticas que 
vêm alterar conceitos e realidades da sociedade e hoje. Por exemplo, 
com as descobertas da biociência, passou-se a questionar muitos pilares 
da ética médica, impactando diretamente as diretrizes e políticas 
públicas voltadas à saúde. 
5.3 Ética e sociologia 
Tais matérias estão intimamente ligadas, pois a sociologia trata das leis que 
regem o desenvolvimento e a estrutura das sociedades humanas. Notoriamente, 
a ética sociológica impacta diretamente na construção das gestões públicas e, 
igualmente, na idealização e na implementação de políticas públicas. 
Segundo Egg (2012, p. 12): 
 
 
13 
A sociologia estuda o indivíduo inserido no meio social, de quem se 
espera um comportamento ético para o bem coletivo. As transformações 
sofridas nos tempos modernos atingem o homem em sociedade. A 
evolução das máquinas no campo e na indústria causam o alto índice de 
desemprego, a evasão rural e a superpopulação das cidades. A 
sociologia por sua vez está cada vez mais próxima da ética para 
encontrar soluções para esses problemas presentes na vida do indivíduo 
contemporâneo. 
5.4 Ética e direito 
Acerca da íntima relação entre direito e ética, bem coloca Egg (2012, p. 
13): 
a relação entre estas áreas refere-se ao próprio fato de que o homem 
está sujeito às normas que regulamentam as condutas sociais. Os 
homens necessitam das leis e de sanções para manterem a ordem na 
sociedade. A sociedade depende de estatutos para determinar regras de 
convívio, deveres e direitos. 
5.4.1 Ética e Direitos Humanos 
Descobrir formas de nos tornar sujeitos de práticas éticas em nosso dia a 
dia sem nos reduzirmos aos códigos e às restrições existentes em qualquer 
sociedade é um dos grandes desafios da atualidade. 
Mendonça Filho e Nobre (2009, p. 12) questionam: 
Como discernir entre atitudes passivas de submissão, subserviência e 
constrangimento das atitudes ativas das práticas de liberdade? Como, 
em meio às relações de poder que, muitas vezes, nos oprimem e tornam 
esse mundo insuportável, estabelecer relações de cuidado de si e dos 
outros (Foucault, [1982-1983] 2008), sem esperar recompensa ou 
castigo? 
Um devir ético da imanência não se processa apenas nas lutas contra 
forças negativas do mundo: o abuso de poder, a menorização e 
desqualificação do outro, todo tipo de racismo que nos atravessa liquida 
a vida. Assim, direitos humanos precisam ser constantemente 
conquistados, e não simplesmente resgatados, sendo as práticas éticas 
faróis que os iluminam. 
5.4.2 Ética e Direito da Cidadania 
O termo cidadania vem se tornando paulatinamente mais popular. A 
tendência à universalização dos “Direitos Humanos”, ostentados em declarações 
internacionais, faz com que a noção de cidadania ultrapasse as fronteiras dos 
estados nacionais e consagre a noção do homem como “cidadão do mundo”. 
Esse conjunto de circunstâncias possibilitou à esfera pública um espaço de 
debates com a função política de transformar pessoas privadas em sujeitos da 
esfera pública: nasce, assim, o cidadão, sujeito de Direitos Humanos que interatua 
14 
com a ordem estatal e participa dos debates públicos, espaço em que a ética 
ganha especial relevância. Tais relações serão melhor exploradas futuramente. 
LEITURA COMPLEMENTAR
MURCHO, D. Ética e direitos humanos. Cadernos da Escola do Legislativo, 
Belo Horizonte, v. 12, n. 19, p. 37-56, jul./dez. 2009. Disponível em: 
<https://criticanarede.com/valoresrelativos.html>. Acesso em: 27 nov. 2018. 
 
 
15 
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Faculdade de Direito – Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 108, p. 155-
167, 2013. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/rfdusp/article/view/67981>. 
Acesso em: 27 nov. 2018. 
CACHICHI, R. C. D. As relações entre ética e política na concepção de justiça em 
Aristóteles. Revista CEJ, Brasília, v. 15, n. 55, p. 76-85, out./dez. 2011. Disponível 
em: <http://www.jf.jus.br/ojs2/index.php/revcej/article/viewFile/1483/1524>. 
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