Prévia do material em texto
AULA 1 ÉTICA, DIREITOS HUMANOS E DIREITOS DA CIDADANIA Profª Juliana Bertholdi 2 TEMA 1 – BREVE INTRODUÇÃO AO TEMA A presente aula tem por escopo investigar a interação entre a ética, os direitos humanos e os direitos da cidadania, relacionando como tais matérias podem auxiliar na gestão pública e na construção de políticas públicas assertivas e funcionais. Conforme assente mais adiante, é preciso pensar não só políticas públicas que garantam o acesso de todos aos direitos assegurados pela Constituição Federal, como também uma cidadania eticamente comprometida com a realidade e a transformação social. Uma Política de Direitos Humanos, com base na ética e na participação cidadã, que garanta aos indivíduos a condição de ser, no plano econômico, um cidadão sadio, no plano político, um cidadão participante, no plano intelectual, um cidadão consciente das relações de poder, e, no plano da ética, um cidadão comprometido com a realidade social. TEMA 2 – O QUE É ÉTICA? 2.1 Conceito Desde sua origem, o ser humano, ser social que é, aderiu à convivência em comunidade para preservar sua vida e minimizar as agruras com a manutenção de sua sobrevivência: primitivamente, a vida coletiva significava a permanência da espécie. Como consequência da vida do ser humano em comunidade, a aquisição e a construção de valores acerca do bem e do mal, do justo e do injusto, do certo, do incerto e do errado, por força da habitualidade, tornaram-se costumes, regras aceitas, obedecidas por toda a comunidade e transmitidas por meio das gerações, constituindo o domínio da ética e da moral (Felizardo, 2012, p. 3). Nesse sentido, Cortella (2009, p. 102) ensina que a ética é o que marca a fronteira da nossa convivência – em suas palavras, “é aquela perspectiva para olharmos os nossos princípios e os nossos valores para existirmos juntos [...], é o conjunto de seus princípios e valores que orientam a minha conduta”. No que concerne a um assunto clássico dos filósofos e pensadores, Chauí (1998, p. 25) afirma que a filosofia existe há 25 séculos, e que, nesse período, a ética como um dos seus principais ramos esteve sempre presente e continua viva. 3 A ética é compreendida atualmente como parte da filosofia, cuja teoria estuda o comportamento moral e relaciona a moral como uma prática, entendida por Cortella (2009, p. 103) como o “exercício das condutas”. Além disso, é entendida como um tipo ou qualidade de conduta que é esperada das pessoas como resultado do uso de regras morais no comportamento social. Academicamente, a ética é uma disciplina filosófica que estuda três famílias de problemas, dividindo-se por isso em três áreas, conforme ensinamentos de Murcho (2009): A metaética estuda problemas relacionados com a natureza da própria ética, como a questão de se saber se os valores éticos são relativos ou não – tema que abordaremos em seguida. A ética normativa estuda o problema de se saber o que é o bem último, isto é, o bem que não é meramente instrumental para outros bens, e o problema de se saber o que faz uma ação ser boa – o deontologismo, o consequencialismo, a ética das virtudes e o contratualismo são as quatro grandes famílias de teorias éticas normativas. Finalmente, a ética aplicada ou prática estuda problemas como a permissibilidade do aborto, a relevância moral dos animais inumanos, a obrigatoriedade de ajudar as populações mais pobres ou a moralidade da guerra. Em suma, a ética discute os valores que se traduzem em existências humanas mais felizes, mais realizadas, com mais bem-estar e qualidade de vida. Além disso, busca os valores que signifiquem dignidade, liberdade, autonomia e cidadania. Conforme pontua Cortina (2003, p. 18), inobstante a palavra ética ter passado a fazer parte do vocabulário cotidiano, demonstrando a vigência de uma preocupação urgente e universal: “ninguém chega realmente a acreditar que ela seja importante, e mesmo essencial para viver”. Há de se questionar, portanto, por que a ética se tornou tema ao mesmo tempo recorrente e banalizado, superficial. À medida que entendemos a importância da ética para a sobrevivência humana com qualidade e integridade, compreendemos também a complexidade envolvida em suas relações com outros campos do saber e da prática, incluindo os Direitos Humanos e os Direitos à Cidadania, fundamentais à vida humana em sociedade. 4 TEMA 3 – FUNDAMENTOS DA ÉTICA O vocábulo ética tem sua origem no grego ethos, vernáculo que se refere ao modo de ser do indivíduo ou ao caráter do ser humano. Na Grécia antiga (século IV a.C.), os filósofos foram os primeiros a pensar o conceito de ética, associando a tal palavra a ideia de moral e cidadania. Precisavam de honestidade, fidelidade e harmonia entre cidadãos, uma vez que as cidades-estado estavam em desenvolvimento. Nesse sentido, Sócrates, Platão e Aristóteles são os pensadores gregos mais estudados e citados no campo da ética. Pregavam virtude, firmeza moral e outras atitudes pautadas nos conceitos advindos de ethos. Com o passar dos séculos, diferentes escolas de pensamentos e filósofos construíram e aperfeiçoaram os conceitos, e é fulcral que se faça uma breve incursão histórica. 3.1 Grécia Antiga 3.1.1 Sócrates Nascido em Atenas provavelmente no ano 740 a.C., Sócrates veio a se tornar um dos principais pensadores da Grécia Antiga. Afeiçoado à música e à literatura, dedicou-se à meditação e ao ensino filosófico, debatendo e dialogando longamente com as pessoas de sua região. Assim, não fundou propriamente uma escola de pensamento, mas, realizou trabalhos em locais públicos, principalmente em praças e ginásios. Costumava agir de forma descontraída e descompromissada nesses espaços, fascinando a todos. A ética socrática tem por base o conhecimento e conjeturar a felicidade como o fim de toda ação. O objetivo dessa ética é preparar o homem para o autoconhecimento, a base do agir ético. A filosofia socrática prima pela submissão, pela ética do coletivo sobre a ética individual. Nesse sentido, a obediência à lei era o limite entre a civilização e a barbárie: onde existem as ideias de ordem e coesão, podem-se dizer garantidas a existência e a manutenção do corpo social. Trata-se, assim, da ética do respeito às leis por bondade, conhecimento e felicidade. Sobre o pensamento do filósofo, Vázquez (1997, p. 231) esclarece: “Resumindo, para Sócrates, bondade, conhecimento e felicidade se entrelaçam 5 estreitamente. O homem age retamente quando conhece o bem e, conhecendo- o, não pode deixar de praticá-lo; por outro lado, aspirando ao bem, sente-se dono de si mesmo e, por conseguinte, é feliz”. Para Sócrates, “virtude é sabedoria (sofia) e conhecimento. Já o vício é o resultado da ignorância. Assim, o saber fundamental é o saber a respeito do homem. Sobre essa ideia, o pensador teria dito suas frases mais conhecidas como ‘conhece-te a ti mesmo’ e ‘sei que nada sei’” (Egg, 2012, p. 6). Desse modo, “o homem enquanto integrado ao modo político de vida deve zelar pelo respeito absoluto às leis comuns a todos, mesmo em detrimento da própria vida” (Bittar, 2017, p. 6). Assim, “o ato de descumprimento da sentença imposta pela cidade representava para Sócrates a derrogação de um princípio básico do governo das leis, qual seja, a eficácia”. Segundo Sócrates, com a eficácia das leis comprometida, a desordem social reinaria (Bittar, 2017, p. 6). Devido à sua liberdade de expressão e às fortes críticas que fazia à política da Grécia, foi acusado de corromper os jovens da época e condenado a beber cicuta. Morreu no ano 399 a.C. 3.1.2 Platão Platão viveu entre os anos 428 a.C. e 347 a.C. e foi um destacado filósofo grego, considerado um dos principais pensadores de sua época. Discípulo de Sócrates, procurava transmitir uma profunda fé na razão e na verdade,adotando o lema “o sábio é o virtuoso” do referido filósofo. Escreveu diversos diálogos filosóficos, entre eles “A República”, obra dividida em dez volumes. Ele propõe uma ética transcendente: o fundamento de sua proposta ética não é a realidade empírica do mundo, nem mesmo as condutas humanas ou as relações humanas, mas, sim, o mundo inteligível. O filósofo centra suas indagações na ideia perfeita, boa e justa que organiza a sociedade e dirige a conduta humana. As ideias formam a realidade platônica e são os modelos segundo os quais os homens têm seus valores, leis, moral. Conforme o conhecimento das ideias, das essências, o homem obtém os princípios éticos que governam o mundo social. O uso reto da razão é entendido como o meio de alcançar os valores verdadeiros que devem ser seguidos pelos homens. No mito da caverna, o filósofo expõe a condição de ignorância na qual se encontra o homem ao lidar com o conhecimento das aparências. 6 Somente pelo conhecimento racional o homem pode elevar-se até as ideias, até o ser e conhecer a verdade das coisas. Isso se dá por meio do método dialético, o qual elimina as aparências e encontra as essências, a verdade no conhecimento das coisas. Esse método filosófico tem por finalidade libertar os homens da ignorância e levá-los ao conhecimento de ideia em ideia, até alcançar o conhecimento da ideia suprema: o bem. As outras ideias participam desta e devem sua existência a ela (Vaz, 2017). Nesse sentido, a virtude platônica é entendida como a capacidade de realizar a tarefa que lhe é inerente [...]. No caso do governante da cidade e da alma racional, a virtude inerente aos mesmos é a sabedoria; no caso dos guerreiros e da parte irascível da alma, a virtude que lhes é própria é a coragem; por fim, no caso da parte concupiscente da alma e dos produtores de bens da cidade, a virtude própria é temperança. (Vaz, 2017) Portanto, o sentimento de justiça é “a virtude maior cujo valor ético guia as condutas dos homens, o bem em si mesmo”, uma vez que ele realiza o ideal de justiça, com relação tanto ao bem individual quanto ao bem social (Vaz, 2017). Assim, para a ética platônica, é possível definir a justiça como cada parte fazendo o que lhe compete, conforme suas aptidões próprias, estabelecendo- se, portanto, uma analogia entre a sociedade e o indivíduo que levaria à conceituação da ética. A ética platônica, então, está intimamente ligada ao correto modo de agir dos indivíduos e suas objetivações de alcance da felicidade: nos diálogos de “A República”, Platão afirma ser a ética uma organização funcional dentro da alma humana. Assim que harmoniosamente organizadas as almas humanas, a relação do homem com a polis pode ser ética e coesa. 3.1.3 Aristóteles O filósofo Aristóteles nasceu no ano 384 a.C., na cidade de Estágira, na Macedônia, Grécia. Filho de Nicômaco, médico do rei Amintas III, Aristóteles formou-se em Ciências Naturais. Aos 17 anos mudou-se para Atenas, a fim de estudar na “Academia” de Platão. Com sua extraordinária inteligência, logo se tornou o discípulo bem-amado de seu mestre, que observou: “minha Academia se compõe de duas partes: o corpo dos alunos e o cérebro de Aristóteles” (Frazão, 2018). 7 A ética aristotélica, em oposição à ética de seu mestre, é imanente, tendo suas bases na realidade empírica do mundo, no questionamento acerca das condutas humanas e na organização social. As exigências com relação à vida na polis e a realidade do homem formam o conteúdo das ideias, e são ambas as responsáveis pela escolha dos valores, pela moralidade e pelas leis, pela definição das condutas dos homens. Sua teoria ética era realista e empirista, em contrapartida à visão idealista e racionalista de Platão, devendo ser lida dentro de sua teoria política. A ética aristotélica inicia-se com o estabelecimento da noção de felicidade. Nesse sentido, pode ser considerada eudemonista por buscar o que é o bem agir em escala humana, o agir segundo a virtude – diferentemente de Platão, que buscava a essência das ideias de felicidade e da ideia do bem sem relacioná-las diretamente à prática. A felicidade é definida como uma certa atividade da alma que vai de acordo com uma perfeita virtude: a busca do sumo bem. Partindo dessa definição, faz-se necessário um estudo sobre o que é uma virtude perfeita e, assim, também sobre a natureza da virtude moral. A virtude é definida pelo estagirita como hábito ou disposição racional constante, sendo um hábito que torna o homem bom e o capacita para a boa execução de sua função. Essa definição se mostra oposta à de Platão: a virtude é definida como capacidade de realizar uma função determinada, inerente a alguma parte da alma humana ou da cidade ideal (Vaz, 2017). Por sua vez, a virtude moral seria a disposição de agir de forma deliberada, com a ação de acordo com a reta razão. Assim, a virtude moral é adquirida como resultado do hábito, que determina nosso comportamento como bom ou ruim. Para Aristóteles, diferentemente da lógica platônica, nenhuma das virtudes morais surge nos homens por natureza, pois o que é natural não pode ser alterado pelo hábito. Assim, “virtudes e artes são adquiridas pelo exercício, ou seja, a prática das virtudes é um pré-requisito para que se possa adquiri-las. Sem a prática, não há a possibilidade de o homem ser bom, de ser virtuoso” (Vaz, 2017). A virtude intelectual, por sua vez, seria aquela “adquirida através do ensino, e, assim, necessita de experiência e tempo” (Vaz, 2017). É devido ao hábito que tomamos a justa medida com relação a nós. Logo, a mediania é 8 imposta pela razão com relação às emoções e é relativa às circunstâncias nas quais a ação se produz. Nesse sentido, Medeiros (2016) destaca: Trata-se de um homem ‘essencialmente destinado à vida em comum na polis e somente aí se realiza como ser racional. Ele é um zoon politikón por ser exatamente um zoon logikón, sendo a vida ética e a vida política artes de viver segundo a razão’”. (Lima Vaz, 2004, p. 38-39, citado por Pansarelli, 2009, p. 13) E Hélcio Corrêa afirma que na polis grega o cidadão só é reconhecido como tal a partir de sua inserção na comunidade política e a razão prática que norteia a ação do cidadão grego está intimamente ligada ao ethos “[...] entendido este como um conjunto de tradições, costumes e valores próprios da vida na polis” (2011, p. 77) e, no caso de Aristóteles, “[...] as noções de ética e política se completam reciprocamente na teoria da justiça. (2011, p. 77) Desse modo, a ética aristotélica está intimamente ligada à felicidade, pois todos a buscamos, devendo-se atentar à justa medida, que nada mais é que saber agir sem exageros ou extremos. Uma pessoa ética e feliz é aquela que age com prudência e equilíbrio entre suas virtudes e em relação à polis. TEMA 4 – ÉTICA AO LONGO DA HISTÓRIA 4.1 Ética na Antiguidade – a ética romana Como é consabido, o direito brasileiro e, consequentemente, nossa lógica jurídica, dogmática e hermenêutica têm fortes raízes no direito romano, permeado de matrizes éticas muitas vezes olvidadas por estudiosos. Boa parte dos caracteres romanos está intrinsecamente conectada ao pensamento filosófico grego, sobretudo ao estoicismo – cuja ética é fundamentalmente conectada à teoria do uso prático da razão com o fim de estabelecer o acordo entre ela e a natureza. Reportando-se à definição de Celso, filósofo romano, o também pensador Ulpiano define o direito como a arte do bom e do justo. Trata-se da única definição romana de ius. A partir dela, podemos inferir a estreita correlação entre o direito e a ética constantemente afastada nos tempos atuais (Böttcher, 2013, p. 157). Böttcher (2013, p. 157) ensina: A natureza é a ordem racional, perfeita e necessária, que é o destino ou o próprio Deus. E a ação, que se projeta conforme a ordem racional,é o dever. Portanto, a ética estoica é, fundamentalmente, uma ética do dever e a noção do dever torna-se pela primeira vez a ideia fundamental da ética. Porém, o dever não é o bem. O bem começa a existir quando a escolha aconselhada pelo dever é repetida e consolidada, mantendo 9 sempre sua conformidade com a natureza até se tornar no homem uma disposição uniforme e constante, ou seja, uma virtude, a qual é verdadeiramente o único bem. Além dos bens (virtudes), existem outras coisas que são dignas de serem escolhidas. Para indicar o conjunto desses bens e coisas, os estoicos adotaram a palavra valor (axia). Entre os filósofos romanos da Antiguidade, destaca-se Marco Túlio Cícero, que nasceu em 106 a.C. e morreu em 43 a.C. Além de filósofo, foi também orador, escritor, advogado e político romano (Egg, 2012, p. 10). Defendia que a vida era pautada segundo as prescrições da natureza, o que significa, em última análise, servir o interesse geral da coletividade em detrimento de seu próprio, como destaca de trecho da obra de Cícero o autor Comparato (2016, p. 117): Cada qual deve, em todas as matérias, ter um só objetivo: conformar o seu próprio interesse com o interesse geral; pois se cada um chamar tudo a si, dissolve-se a comunidade humana. Se a natureza determina que devemos respeitar um homem pelo só fato de as condições humanas, é inegável que, sempre segundo a natureza, há algo que é de interesse comum a todos os homens; se assim é, somos todos sujeitos a uma só mesma lei natural, que proíbe atentar contra direitos alheios. Bem resume Egg (2012, p. 9): os filósofos romanos dessa época, de um modo geral, convergiam para a mesma preocupação com a conduta humana, com o caráter do indivíduo e com seus costumes. Todos esses aspectos em conjunto recebem o nome de moral. Esses filósofos também acreditavam que o principal objetivo das ações humanas está na própria virtude, pela sua retidão ou honestidade. A moral foi para os romanos um conjunto de deveres que a natureza impôs ao homem, seja pelo respeito a si próprio, seja pela relação com outros homens. 4.2 Ética cristã na Idade Média Por volta do século III a.C., o Império Romano passou por uma enorme crise econômica e política que culminou em corrupção sem precedentes instalada no Senado, agravada pelos gastos exorbitantes com artigos de luxo que escassearam os recursos a serem investidos no exército romano. Assim, “com o enfraquecimento da instituição militar romana, somado à crise política avassaladora, no ano de 395 a.C., o império Teodósio resolveu dividir os limites de seu império” (Egg, 2012, p. 10). Dava-se, com isso, o fim da Antiguidade e o início da Idade Média. Na Idade Média, com a ascensão do catolicismo na Europa Ocidental, a ética passa a se vincular à religião e aos dogmas cristãos, dominando a epistemologia entre os séculos XI e XIX, a despeito de mudanças significativas 10 com o renascimento e, depois, a entrada na modernidade e o iluminismo (Egg, 2012, p. 10). Desta feita, como se passará a desenhar, ganham ênfase as revelações dos livros sagrados traduzidos pelo clero e, a partir deles, passam a ser determinadas as regras de condutas sociais. A figura de Jesus de Nazaré ganha espaço central para a construção dessa nova ética: a do amor ao próximo. A igreja católica e seus dogmas se mantiveram por muitos anos (Egg, 2012, p. 10). 4.2.1 São Tomás de Aquino Tomás de Aquino (1.125-1.274) foi um frade dominicano responsável pela orientação e proteção religiosa da sociedade. Uma de suas maiores façanhas foi aplicar a visão aristotélica na doutrina cristã, sendo sua obra permeada das categorias aristotélicas (as quatro causas, atos e potências, substância e acidente), fato que colaborou para o surgimento da Escolástica. Para o filósofo e teólogo, era a união do corpo com a alma que formava a identidade e a dignidade de uma pessoa, sendo apenas por meio do exercício da razão humana aliado à revelação divina que o homem poderia atingir a perfeição das virtudes. Sua vertente afirma que “Deus era o legislador, e os padres, intérpretes da lei” (Egg, 2012, p. 10). Para o pensamento tomista, a fé e a razão estavam unidas e não poderia haver contradição entre ambas, pois estavam sempre dirigidas rumo a Deus. Esse pensador também afirmou que toda criação é boa, tudo o que existe é quando se está sob a orientação dos mandamentos de Deus. Ele também pontuou que o mal é a ausência de uma perfeição divina (Egg, 2012, p. 10). 4.3 Idade Moderna Durante a transição da Idade Média para a Idade Moderna, a igreja católica começou a cair no descrédito da população devido ao protestantismo e a outros movimentos que eclodiram com a Reforma Religiosa do século XVII, época em que ocorreu a formação e a consolidação dos estados-nação europeus, precedendo a Revolução Francesa e Industrial, quando a separação entre Estado e igreja se tornou definitiva, com a ascendência do antropocentrismo e a aceleração do avanço da ciência (Egg, 2012, p. 10). 11 Nesse contexto, destaca-se Martinho Lutero, religioso que viveu entre os séculos XV e XVI e lutou pela reforma da igreja católica, sendo responsável pela Reforma Protestante, que acabou por gerar as quebras de paradigma que possibilitaram a queda do catolicismo. Lutero, no seu movimento reformista, promoveu a educação para todos, inclusive para camponeses e mulheres. Traduziu a bíblia do latim para o alemão, dando a oportunidade para que todos a conhecessem. O aperfeiçoamento da imprensa por Gutenberg também ajudou a divulgar a sagrada escritura dos cristãos (Egg, 2012, p. 10). Vale enfatizar que, na Idade Moderna, foram consideráveis as transformações de “ordem social, econômica e política, como as viagens às Índias e às Américas e a Revolução Científica, proporcionada por Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, Newton, dentre outros” (Egg, 2012, p. 10), evolução que gerou novas reflexões e visões das interações humanas, impactando diretamente na leitura da ética até então centrada nas lógicas cristãs. Assim, “os filósofos modernos resgataram aspectos do pensamento filosófico greco-romano no tocante à necessidade de toda a humanidade alcançar a sabedoria e a felicidade, principalmente pautando-se no equilíbrio e na razão” (Egg, 2012, p. 10), afastando, então, a ética cristã até então posta. A exemplo, cita Egg (2012, p. 10): Immanuel Kant (1724-1804) foi um filósofo prussiano, considerado o último grande filósofo dos princípios da Era Moderna. Kant teve um grande impacto no Romantismo alemão e nas filosofias idealistas do século XIX. Para Kant, a ética é autônoma, ou seja, corresponde à lei ditada pela própria consciência moral. Esse filósofo deu prosseguimento à construção da própria ideia moral, afirmando que aquilo que o homem procura está dentro dele mesmo. TEMA 5 – RELAÇÃO ENTRE A ÉTICA E OUTRAS CIÊNCIAS 5.1 Ética e política Uma marca característica da ética na Antiguidade, quando de seu nascimento, é sua indissociabilidade da política. Desde Platão e seu discípulo Aristóteles, a ideia de constituição da polis é perpassada pelo princípio de que a cidade deve ser dirigida por governantes sábios, justos e virtuosos. É de Aristóteles, por exemplo, a afirmação de que o homem é um animal político – zoon politikon. “Trata-se de um homem ‘essencialmente destinado à vida em comum na polis e somente aí se realiza como ser racional. Ele é um zoon 12 politikón por ser exatamente um zoon logikón, sendo a vida ética e a vida política artes de viver segundo a razão’” (Lima Vaz, 2004, p. 38-39, citado por Pansarelli, 2009, p. 13). Nesse sentido, Cachichi (2011) afirma que, na polis grega, o cidadão só é reconhecido como tal a partir de sua inserção na comunidade política, e a razão prática que norteia a ação do cidadão grego está intimamente ligada ao ethos, entendido como “[...] umconjunto de tradições, costumes e valores próprios da vida na polis” (p. 77). No caso de Aristóteles, “[...] as noções de ética e política se completam reciprocamente na teoria da justiça” (Cachichi, 2011, p. 77). Assim, tais esferas estão relacionadas pela natureza do poder. Quando falamos em democracia, como nos ensina Zajdsznajder (1994, p. 96), a grande preocupação das pessoas que elegem o político refere-se ao uso indevido do poder, quando o eleito coloca seus interesses particulares acima dos interesses do povo, desviando os recursos em benefício próprio ou para pagar promessas feitas durante a campanha eleitoral. É uma das questões éticas mais relevantes do campo da política. 5.2 Bioética Os estudiosos da bioética empreendem esforços para debater questões referentes à vida humana e às melhorias na qualidade de vida do homem. É uma área composta de estudos multidisciplinares da biologia, da medicina e da filosofia. Egg (2012, p. 12) destaca que: com o notável avanço da Medicina, em especial na pesquisa genética, surgiram grandes preocupações no campo da ética. A clonagem humana e a fecundação artificial são exemplos de práticas genéticas que vêm alterar conceitos e realidades da sociedade e hoje. Por exemplo, com as descobertas da biociência, passou-se a questionar muitos pilares da ética médica, impactando diretamente as diretrizes e políticas públicas voltadas à saúde. 5.3 Ética e sociologia Tais matérias estão intimamente ligadas, pois a sociologia trata das leis que regem o desenvolvimento e a estrutura das sociedades humanas. Notoriamente, a ética sociológica impacta diretamente na construção das gestões públicas e, igualmente, na idealização e na implementação de políticas públicas. Segundo Egg (2012, p. 12): 13 A sociologia estuda o indivíduo inserido no meio social, de quem se espera um comportamento ético para o bem coletivo. As transformações sofridas nos tempos modernos atingem o homem em sociedade. A evolução das máquinas no campo e na indústria causam o alto índice de desemprego, a evasão rural e a superpopulação das cidades. A sociologia por sua vez está cada vez mais próxima da ética para encontrar soluções para esses problemas presentes na vida do indivíduo contemporâneo. 5.4 Ética e direito Acerca da íntima relação entre direito e ética, bem coloca Egg (2012, p. 13): a relação entre estas áreas refere-se ao próprio fato de que o homem está sujeito às normas que regulamentam as condutas sociais. Os homens necessitam das leis e de sanções para manterem a ordem na sociedade. A sociedade depende de estatutos para determinar regras de convívio, deveres e direitos. 5.4.1 Ética e Direitos Humanos Descobrir formas de nos tornar sujeitos de práticas éticas em nosso dia a dia sem nos reduzirmos aos códigos e às restrições existentes em qualquer sociedade é um dos grandes desafios da atualidade. Mendonça Filho e Nobre (2009, p. 12) questionam: Como discernir entre atitudes passivas de submissão, subserviência e constrangimento das atitudes ativas das práticas de liberdade? Como, em meio às relações de poder que, muitas vezes, nos oprimem e tornam esse mundo insuportável, estabelecer relações de cuidado de si e dos outros (Foucault, [1982-1983] 2008), sem esperar recompensa ou castigo? Um devir ético da imanência não se processa apenas nas lutas contra forças negativas do mundo: o abuso de poder, a menorização e desqualificação do outro, todo tipo de racismo que nos atravessa liquida a vida. Assim, direitos humanos precisam ser constantemente conquistados, e não simplesmente resgatados, sendo as práticas éticas faróis que os iluminam. 5.4.2 Ética e Direito da Cidadania O termo cidadania vem se tornando paulatinamente mais popular. A tendência à universalização dos “Direitos Humanos”, ostentados em declarações internacionais, faz com que a noção de cidadania ultrapasse as fronteiras dos estados nacionais e consagre a noção do homem como “cidadão do mundo”. Esse conjunto de circunstâncias possibilitou à esfera pública um espaço de debates com a função política de transformar pessoas privadas em sujeitos da esfera pública: nasce, assim, o cidadão, sujeito de Direitos Humanos que interatua 14 com a ordem estatal e participa dos debates públicos, espaço em que a ética ganha especial relevância. Tais relações serão melhor exploradas futuramente. LEITURA COMPLEMENTAR MURCHO, D. Ética e direitos humanos. Cadernos da Escola do Legislativo, Belo Horizonte, v. 12, n. 19, p. 37-56, jul./dez. 2009. Disponível em: <https://criticanarede.com/valoresrelativos.html>. Acesso em: 27 nov. 2018. 15 REFERÊNCIAS BITTAR, E. C. B. Curso de Ética Jurídica. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. BÖTTCHER, C. A. O legado ético e universalista do Direito Romano. Revista da Faculdade de Direito – Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 108, p. 155- 167, 2013. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/rfdusp/article/view/67981>. Acesso em: 27 nov. 2018. CACHICHI, R. C. D. As relações entre ética e política na concepção de justiça em Aristóteles. Revista CEJ, Brasília, v. 15, n. 55, p. 76-85, out./dez. 2011. Disponível em: <http://www.jf.jus.br/ojs2/index.php/revcej/article/viewFile/1483/1524>. Acesso em: 27 nov. 2018. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1998. COMPARATO, F. K. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. CORTELLA, M. S. Qual é a tua obra? Inquietações, propositivas sobre gestão, liderança e ética. Petrópolis: Vozes, 2009. CORTINA, A. O fazer ético. São Paulo: Moderna, 2003. EGG, R. F. R. Ética nas Organizações. Curitiba: IESDE Brasil, 2012. FELIZARDO, A. R. Ética e direitos humanos: uma perspectiva profissional. Curitiba: InterSaberes, 2012. FOUCAULT, M. Le gouvernement de soi et des autres: Cours au Collège de France. Paris: Seuil; Gallimard, 2008. FRAZÃO, D. Biografia de Aristóteles. Ebiografia, 24 jul. 2018. Disponível em: <https://www.ebiografia.com/aristoteles/>. Acesso em: 27 nov. 2018. MARTINS, M. F. Uma “catarsis” no conceito de cidadania: do cidadão cliente à cidadania com valor ético-político. Revista de Ética, Campinas, v. 2, n. 2, p. 106- 118, jul./dez. 2000. MEDEIROS, A. M. Ética e política. Sabedoria Política, abr. 2016. Disponível em: <https://www.sabedoriapolitica.com.br/etica-e-politica/>. Acesso em: 27 nov. 2018. MENDONÇA FILHO, M.; NOBRE, M. T. (Org.). Política e afetividade: narrativas e trajetórias de pesquisa. Salvador: EDUFBA; São Cristóvão: EDUFES, 2009. 16 MURCHO, D. Ética e direitos humanos. Cadernos da Escola do Legislativo, Belo Horizonte, v. 12, n. 19, p. 37-56, jul./dez. 2009. Disponível em: <https://criticanarede.com/valoresrelativos.html>. Acesso em: 27 nov. 2018. PANSARELLI, D. Para uma história da relação ética-política. Revista Múltiplas Leituras, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 9-24, jul. /dez. 2009. Disponível em: <file:///c:/users/letic/downloads/1264-2230-1-pb.pdf>. Acesso em: 27 nov. 2018. VAZ, M. Ética de Platão e Aristóteles: diferenças e semelhanças. Psicologia MSN.com, 2017. Disponível em: <http://www.psicologiamsn.com/2014/10/etica- de-platao-e-de-aristoteles-diferencas-e-semelhancas.html>. Acesso em: 27 nov. 2018. VÁZQUEZ, A. S. Filosofia da praxis. Tradução de Luiz Fernando Cardoso. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. ZAJDSZNAJDER, L. Ser ético. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994.