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Capoeira (…) A liberdade [dos negros] Não tava escrita em papel Nem foi dada por princesa Cujo nome é Isabel A liberdade Foi feita com sangue e muita dor Guerras, lutas e batalhas Foi o que nos libertou – Cantiga do Mestre de Capoeira Barrão Capoeira é uma representação cultural que mistura esporte, luta, dança, jogo, música e brincadeira. A capoeira vem sendo objeto de estudo em diferentes áreas do conhecimento, e aborda uma complexidade cultural que permite o reconhecimento das estruturas de organização social, inseridas na (re)construção das identidades afro-brasileiras; como concepção corporal unida a uma concepção espiritual e como fonte histórica para a compreensão de fenômenos como a escravidão, a organização social e a sobrevivência das tradições ancestrais africanas. A iniciativa de sua valorização é muito importante diante dos episódios racistas que se desencadeiam na sociedade até os dias atuais. O Atlas da Violência 2017, lançado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. A crescente onda de ataques aos terreiros de Candomblé no Rio de Janeiro demonstra que o Brasil ainda insiste em retroceder ao período escravocrata. De acordo com a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do R.J.(lerj), foram registradas cerca de 40 denúncias de intolerância religiosa no estado, onde o maior número de casos é contra as matrizes africanas. Frente a essa realidade, a capoeira tem um enorme potencial para enfrentar a criminalização das tradições afro-brasileiras, sobretudo quando aplicadas nas escolas. É o que aponta o capoeirista Valdenor dos Santos, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), que considera as rodas de capoeira como ecos ancestrais e contemporâneos. Segundo ele, uma série de marcos do protagonismo negro foi apagada dos registros históricos, “pouco se fala em sala de aula sobre os heróis negros, intelectuais e os estados brasileiros que foram tomados por escravizados nos levantes populares contra a escravidão”. Valdenor sinaliza, que Corre na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei (PL) 17/2014, que torna obrigatório o ensino da modalidade nas escolas públicas e particulares do Brasil. “Apesar de não estar consolidado, o movimento pela implementação da capoeira nas instituições de ensino é grandioso e efervescente em todo o país para reconhecer a importância dela na educação”, conta. Ela é uma prática cultural. Trazer a capoeira para as escolas é um movimento de valorização importante da nossa cultura. Falar sobre o negro na contemporaneidade é desenterrar as raízes profundas da história da escravidão e enxergar os seus reflexos na atualidade, como uma análise profunda nas marcas deixadas por processo de dominação do homem sobre o homem. O vídeo abaixo faz uma síntese desse contexto. https://www.youtube.com/watch?v=Ia3NrSoTSXk O racismo estrutural faz parte do cenário sócio histórico brasileiro, já que por muito tempo o país viveu sobre o regime escravocrata. A luta e a resistência sempre fizeram parte da narrativa do povo negro, sendo uma característica histórica construída pelo cenário de revolta e luta pelos seus direitos proporcionados pela condição de inferioridade. No entanto, com mecanismo de criarem novos contextos e enredos para a história, homens e mulheres negrxs vem construindo novas perspectivas e ocupando seu verdadeiro lugar na sociedade, seja fazendo ciência, arte, educação, política ou justiça. Essa é uma luta de todos nós! Vale ressaltar a conquista da Capoeira como Patrimônio Cultural do Brasil. Abaixo o parecer 31/2008 do Iphan, com as considerações da antropóloga Maria Paula Fernandes Adinalfi: (...) formação de redes de sociabilidade e constituição da identidade e da autoestima de grupos afrobrasileiros, (...) a convivência respeitosa e harmoniosa entre diferentes grupos étnicoraciais, etários e de gênero, no País e fora dele, promovendo, mais que uma ideologia, uma prática de diversidade cultural e de combate ao racismo e outras formas de preconceito (...) a socialização de crianças e jovens e o desenvolvimento de formas de ensino-aprendizagem capazes de envolver múltiplas dimensões de sua formação (física, psíquica, ética, efetiva, lúdica). História da capoeira no Brasil: No século XVI, era costume dos povos pastores do sul da atual Angola, na África, comemorar a iniciação das jovens à vida adulta com uma cerimônia chamada n'golo (que significa “zebra" na língua quimbunda). Dentro da cerimônia, os homens disputavam uma competição de luta animada pelo toque de atabaques em que ganhava quem conseguisse encostar o pé na cabeça do adversário. O vencedor tinha o direito de escolher, sem ter de pagar o dote, uma noiva entre as jovens que estavam sendo iniciadas à vida adulta. Com a chegada dos invasores portugueses e a escravização dos povos africanos, esta modalidade de luta foi trazida, através do porto de Benguela, para a América, especialmente para o Brasil, onde se fixou a maior parte dos escravos africanos trazidos à América. Areias (1983), em sua obra O que é Capoeira, fez constar que os negros eram tirados de seu habitat, colocados nos porões dos navios e levados para os novos horizontes recém-descobertos pelas grandes potências da época. O Filme AMISTAD é sobre um motim de 1839 a bordo de um navio negreiro que viaja em direção à costa nordeste da América. Grande parte da história envolve um drama de tribunal sobre o escravo que liderou a revolta. Link do trecho do filme: https://www.youtube.com/watch?v=XONv0W3TMsA Quando aqui chegavam eram separados para que um senhor não ficasse com negros que falassem o mesmo dialeto, a fim de evitar que se comunicassem e armassem rebeliões. Na história oficial, a prioridade sempre foi dos acontecimentos vistos pelo lado dos dominantes, o que resultou na falta de informações a respeito da cultura dos oprimidos, principalmente índios e negros (como viram no vídeo na primeira parte). Da documentação referente à época da escravatura, o pouco que existia foi queimado por ordem de Ruy Barbosa, ministro da Fazenda do governo de Deodoro da Fonseca, em 1890 (OLIVEIRA, 1989). A capoeira praticada pelos escravos foi transmitida através das gerações, de forma verbal. Atualmente a capoeira está bastante difundida por todo o país, ela se encontra em 160 países, porém há uma enorme dificuldade em encontrar documentos a respeito de suas raízes. No Brasil, assim como no restante da América, os escravos africanos bantos eram submetidos a um regime de trabalho forçado vivendo em condições humilhantes e desumanas, frequentemente sofrendo castigos e punições físicas. Eram também forçados à adoção da língua portuguesa e da religião católica. Mesmo sendo em maior número, a falta de armas, a lei vigente, a discordância entre escravos de etnias rivais e o completo desconhecimento da terra em que se encontravam desencorajavam os escravos a se rebelar. Para Areias (1983), como os escravos africanos não possuíam armas para se defenderem dos inimigos, - os feitores, os senhores de engenho -, movidos pelo instinto natural de preservação da vida, descobriram em si mesmos a sua arma, a arte de bater com o corpo, à semelhança das brigas dos animais, suas marradas, coices, saltos e botes, fazendo uma dança ritualística e uma forma de defesa pessoal. Mais do que uma técnica de combate, surgiu como uma esperança de liberdade e de sobrevivência, uma ferramenta para que o negro foragido, totalmente desequipado, pudesse sobreviver ao ambiente hostil e enfrentar a caça dos capitães-do-mato, sempre armados e montados a cavalo. Como expressão da revolta contra o tratamento violento a que eram submetidos, os escravos passaram a praticar a luta tradicional do sul de Angola nos terrenos de mata mais rala conhecida como "capoeiras" (termo que vem do tupi kapu'era, que significa "mata que foi", se referindo aos trechos de mata que eram queimados ou cortados para abrir terreno paraas plantações dos índios). Santos (1990, p. 19) comenta que, para assegurar a sobrevivência da capoeira naquela época, os capoeiristas, quando na presença dos senhores de engenho, praticavam-na em forma de brincadeira, quando, na verdade, estavam treinando. O berimbau, que servia para dar ritmo, também servia para anunciar a chegada de um feitor, ou seja, a hora de transformar a luta em dança. A figura 1 é o primeiro registro visual da capoeira. Fig 1 “Jogar Capoeira ou Danse de Guerre” (Johann Moritz Rugendas, 1835) Não tardou para que grupos de escravos fugitivos começassem a estabelecer assentamentos em áreas remotas da colônia, conhecidos como quilombos. Inicialmente assentamentos simples, alguns quilombos evoluíam atraindo mais escravos fugitivos, indígenas ou até mesmo europeus que fugiam da lei ou da repressão religiosa católica, até tornarem-se verdadeiros estados multiétnicos independentes. A vida nos quilombos oferecia liberdade e a oportunidade do resgate das culturas perdidas à causa da opressão colonial. Neste tipo de comunidade formada por diversas etnias, constantemente ameaçada pelas invasões portuguesas, a capoeira passou de uma ferramenta para a sobrevivência individual a uma arte marcial com escopo militar. A arte da capoeira foi utilizada pelo Quilombo dos Palmares contra as tropas da Capitania de Pernambuco. Figura 2: Zumbi de Palmares Figura 3: Aquarela de Augustus Earle. Com o grande aumento do número de escravos urbanos e da própria vida social nas cidades brasileiras deu à capoeira maior facilidade de difusão e maior notoriedade. No Rio de Janeiro, as aventuras dos capoeiristas eram de tal modo, que o governo, através da portaria de outubro de 1821, estabeleceu castigos corporais severos e outras medidas de repressão à prática de capoeira em 1890, a República Brasileira decretou a proibição da capoeira em todo o território nacional, vista a situação caótica da capital brasileira e a notável vantagem que um capoeirista levava no confronto corporal contra um policial. Devido à proibição, qualquer cidadão pego praticando capoeira era preso, torturado e muitas vezes mutilado pela polícia. A capoeira, após um breve período de liberdade, via-se mais uma vez malvista e perseguida. Expressões culturais como a roda de capoeira eram praticadas em locais afastados ou escondidos e, geralmente, os capoeiristas deixavam alguém de sentinela para avisar de uma eventual chegada da polícia. ESTILOS: Existem vários estilos de capoeira, mas os únicos de fundamento são a tradicional angola e a regional de Bimba. Em seu livro Capoeira Angola, Pastinha (1988, p. 27) asseverou: O nome Capoeira Angola é consequência de terem sido os escravos angolanos, na Bahia, os que mais se destacaram na sua prática. Pastinha (1988, p. 28) acrescenta ainda que: A Capoeira Angola se assemelha a uma graciosa dança onde a ‘ginga’ maliciosa mostra a extraordinária flexibilidade dos capoeiristas. Mas, Capoeira Angola é, antes de tudo, luta e luta violenta. Para conhecer mais da história do Mestre Pastinha, assista ao documentário “Mestre Pastinha, Rei da Capoeira” no link abaixo. A produção tem direção de Carolina Canguçu e traz imagens e áudios do mestre e depoimentos de herdeiros da escola de Pastinha, que ajudaram a revitalizar a Capoeira Angola na década de 80. Um exemplo de resistência. https://www.youtube.com/watch?v=Aiufa8mh9fs A capoeira Regional é o estilo contemporâneo de capoeira. Ela possui atributos de outras artes-marciais em sua prática e difundiu-se rapidamente pelo mundo. Isso contribuiu para melhorar a imagem do capoeirista ao mesmo tempo em que favoreceu o aumento de seus adeptos. Almeida (1994) fez constar que Bimba aproveitou-se de uma antiga luta existente na Bahia, chamada ‘Batuque’ (da qual seu pai era campeão), da capoeira e do seu gênio criativo para criar um novo estilo a que chamou de Capoeira Regional, atraindo a classe média e a burguesia de Salvador. Ele criou a primeira a Academia “Luta Regional Bahiana” (na época a capoeira era proibida), constitui-se o caráter esportivo da prática, com a instituição de exercícios físicos, métodos, regras e campeonatos. GOLPES: (alguns selecionados) Mortais Traumatizantes Desequilibrantes Esquivas Fugas Floreios Meia-lua de compasso Rasteira Aú Negativa Rabo de arraia Martelo Vingativa Macaco Relógio Aú chibata Meia-lua de frente Banda Esquiva Sr.Dobrado Pião de mão Armada Arrastão Cocorinha Aú de cabeça Saca-rolha Queixada Tesoura Rolé Aú sem mão Mortal Ponteira Queda de quatro Parafuso Bênção Queda de rins Folha seca Cotovelada Cabeçada Palma joelhada Ginga Estrela ou AU Queixada Benção Meia-lua Meia-lua de compasso Cabeçada Martelo Negativa Assista ao vídeo de floreios: “Os 10 mais difíceis movimentos da capoeira”: https://www.youtube.com/watch?v=p_bDHKQsJRs RITMOS DA CAPOEIRA: As rodas de capoeira são ritmadas pelo toque de instrumentos e pelas palmas dos capoeiristas. Segundo Rego (1968, p. 70), o acompanhamento musical da capoeira, desde os primórdios até nossos dias, “já foi feito pelo berimbau, pandeiro, adufe, atabaque, ganzá ou reco-reco, caxixi e agogô”. Mestre Pastinha (1988, p. 36) afirma: “os instrumentos que compõem o conjunto são: berimbau, pandeiro, reco-reco, agogô, atabaque e chocalho”. No vídeo abaixo você vai conhecer os instrumentos da capoeira, além de como e quando são tocados: https://www.youtube.com/watch?v=50V5d0Qbt-I RODA DE CAPOEIRA: A Roda de Capoeira é onde o jogo acontece. È o lugar de socialização da prática dos conhecimentos e exercício da convivência. Ela foi registrada como bem cultural pelo IPHAN no ano de 2008, com base em inventário realizado nos estados de Pernambuco, da Bahia e do Rio de Janeiro. E em novembro de 2014, recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Publicação do dossiê da Roda de Capoeira e Ofícios dos Mestres de Capoeira pelo Iphan[footnoteRef:1]. Parecer citado na página 144: [1: Dossiê completo: Iphan:http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/DossieCapoeiraWeb.pdf] A Roda de Capoeira - inscrita no Livro de Registro das Formas de Expressão, em 2008 - é um elemento estruturante de uma manifestação cultural, espaço e tempo, onde se expressam simultaneamente o canto, o toque dos instrumentos, a dança, os golpes, o jogo, a brincadeira, os símbolos e rituais de herança africana - notadamente banto - recriados no Brasil. Profundamente ritualizada, a roda de capoeira congrega cantigas e movimentos que expressam uma visão de mundo, uma hierarquia e um código de ética que são compartilhados pelo grupo. Na roda de capoeira se batizam os iniciantes, se formam e se consagram os grandes mestres, se transmitem e se reiteram práticas e valores afro-brasileiros. A roda é formada por todos os participantes da dinâmica e guiada pelo ritmo do berimbau, geralmente tocado por mestres. Além disso, a prática se dá sob acompanhamento de palmas, cantos e instrumentos. Assim, ao centro da roda, dois capoeiristas realizam os movimentos de combate, que caracterizam-se por movimentações complementares e harmoniosas que simulam um enfrentamento. Ela é fundamentada por códigos de éticas e condutas com hierarquias que devem ser respeitadas. A dinâmica do jogo pode terminar ao comando do capoeirista no berimbau ou por intervenção de um terceiro capoeirista, que entra na roda e inicia um novo jogo com um dos praticantes. Nessa dinâmica, no entanto, algumas regras são estabelecidas para a harmonia da prática. São elas: · Respeitar o mestre e agir com disciplina; · Obedecer ao comando do berimbau durante a prática; · Estar sempre vigilante e manter a calma em toda e qualquer situação; · Não perder os movimentos do parceiro de vista; · Zelar pela segurança de todos os colegas participantes;· Jamais utilizar os conhecimentos adquiridos com a prática para integrar brigas de rua. No vídeo abaixo você compreenderá as dimensões de uma roda de capoeira: https://www.youtube.com/watch?v=_HeWO3vmCXY&feature=emb_logo CANTOS E LETRAS: Certamente você tem na memória algum canto da capoeira. Qual você se lembra? A música na capoeira é como uma poesia da vida real, que tecem acontecimentos. Nela identificamos diversos elementos entrecruzados das línguas portuguesas, africanas e indígenas, marcando a sua presença no mundo com seus códigos e significados. Ela foi um dispositivo utilizado para gritar contra as injustiças e para falar dos episódios ocorridos durante as contendas e das próprias festas populares. Criada pelos próprios capoeiristas, sem compromisso de obedecer às regras gramaticais da língua portuguesa, servia para liberar suas angústias enfrentadas na sua labuta diária. Os cantos revelam a riqueza poética e os ricos saberes ancestrais. Segundo Pessoa “aprofundar estudos sobre a musicalidade da capoeira é trazer à tona certa história que era contada e cantada pelos antigos Mestres. Estes a utilizavam como forma de expressar o mais profundo sentimento”. Esta não se refere apenas à luta pela liberdade, mas também por provocações (cantigas de sotaque) que podiam surgir a qualquer momento e quando aparecia um valentão querendo sempre disputar os espaços tentando instituir o seu poder, eles catavam: Quebra gereba, quebra gereba; Quebra tudo hoje amanhã nada quebra, Quebra, quebra gereba; Quebra tudo amanhã quem te quebra, Quebra, quebra gereba... Tá com medo; Toma coragem; Pra que Ter medo; Toma coragem; Dispensa o medo; Toma coragem; Se tá com medo... [footnoteRef:2] [2: Ao ser cantado, a mesma se caracteriza por um jogo rápido, onde os capoeiristas trocam golpes para ver quem vai sair “quebrado”. Ao cantarem “você quebra hoje, amanha quem te quebra?”, eles fazem alusão à paciência que o capoeirista deve ter para disputar o golpe na hora certa. É um aviso de que a “luta” não vai ser esquecida. Rego considera que os “sotaques advertindo, sob várias maneiras às pessoas, que não se envolvam onde não podem, sobretudo mostrando que o tamanho e a força não funcionam muito valendo apenas a inteligência, a habilidade”.] As músicas da capoeira são divididas em ladainha (começo) e o corrido (refrão). A ladainha corresponde ao canto inicial, para o capoeirista, é um momento sagrado no qual são evocadas entidades míticas–religiosas, exigindo dele respeito e atenção Na ladainha abaixo, “o ritmo é lento, sempre acompanhado pelo berimbau, tocando angola ou são-bento-grande (lento): Riachão tava cantando, Na cidade de Açu, Quando apareceu um nêgo, Como a espece de ôrubú, Tinha casaca de sola, Tinha calça de couro cru, Beiços grossos redrobado, da grossura de um chinelo, Tinha o ôlho incravado, Outro ôlho era amarelo, Convidô Riachão, Pra cantá o martelo, Riachão arrespondeu, Não canto cum nêgo desconhecido, Êle pode sê um escravo, Ande por aqui fugido, Eu sô livre como um vento, Tenho minha linguagem nobre, Naci dentro da pobreza, Não naci na raça pobre, Que idade tem você, Que conheceu meu avô, Você tá parecendo, Que é mais môço do que eu, Iê água de bebê... Versos do domino público As músicas podem ser: corrido, quadra, ladainha e chula. Cantado nos toques mais acelerados de São Bento Grande, Cavalaria, Amazonas, São Bento Pequeno, o corrido é uma música que apressa o ritmo, reconhecida pela junção do verso simples curto, que podem ser retirados de uma quadra, de uma ladainha, de uma chula ou ainda de cenas do cotidiano ou da imaginação do contador, e que podem ser cantadas com frases ditas aleatoriamente. A quadra é a música formada por quatro versos simples podendo variar o conteúdo de acordo com a criatividade do compositor que também pode fazer brincadeiras durante a cantiga. Entoada pelo cantador para fazer a abertura de sua composição. A chula é uma música curta feita com improvisos, em sua maioria fazem louvação aos seus mestres, ás suas origens e também podem cantar sobre cultos ou fatos históricos, lendas ou algo sobre a roda de capoeira. A ladainha -cantadas antes do jogo- é uma cantiga com um ritmo lento, sofrido, dolente, parecida com orações longas. A ladainha pode ser considerada um louvor dos feitos e das qualidades de um capoeirista lendário, mas pode ainda conter um elogio ou provocação irônica ao parceiro, uma louvação aos presentes, um agradecimento à hospitalidade dos donos da casa ou, relato e comentário de algum acontecimento, mas ela também pode se configura num certo proselitismo que reforça a discriminação racial e de gênero. Minino quem foi teu mestre, Minino quem foi teu mestre, Que lhe deu essa lição, Fui discípulo que aprende, Qui in mestre eu dei lição, O mestre qui mim insinô, ta no engenho da Conceição, A ele devo dinheiro, saúde e obrigação, O segredo de São Cosme, Mas quem sabe é São Damião. NO CADERNO DE EXERCÍCIO, CRIAMOS PRA VOCÊ UMA PLAYLIST DE MÚSICAS REPRESENTATIVAS, PARA QUE ACOMPANHE OS CONTEÚDOS DO TEXTO. CONFIRA! MACULELÊ O Maculelê é uma dança folclórica originalmente praticada por negros e caboclos do Recôncavo Baiano, que simula uma luta com bastões de madeira, ao som de atabaques e cânticos. Hoje essa manifestação cultural é muito praticada por grupos de Capoeira, mas diferente desta, que se transformou em arte marcial, o Maculelê continuou como folclore. Documentário A Verdadeira Historia de Maculelê, realizado em Santo Amaro da Purificação Bahia, sobre a história do Maculelê. Direção e Rorteiro: Almir Nascimento Diretor de Produção: Pedro Urizzi https://www.youtube.com/watch?v=dmC-YiUbfzo Vídeo de uma apresentação artística de Maculelê: https://www.youtube.com/watch?v=Hvs2Tf_aH1o https://www.youtube.com/watch?v=3D5jDYdgK5E&t=25s VÍDEO PARA ESTUDO (NÃO CONSTA NO MATERIAL DOS ALUNOS: https://www.youtube.com/watch?v=xD0eqcad-3I V´deo ótimo sobre a roda de capoeira!! https://www.youtube.com/watch?v=_HeWO3vmCXY Vídeo sobre o Zumbi de Palmares: https://www.youtube.com/watch?v=33-9334zP3M Outros materiais.... Pesquisa de doutorado da capoeira sobre a interação na roda de capoeira https://jornal.ufg.br/n/123115-capoeira-tambem-e-comunicacao Referências: -CASTRO JÚNIOR, Luís Vitor; LEMOS DA SILVA PESSOA, Maria Eduarda. A musicologia da capoeira: significados e expressões. Disponível em: http://www.cbce.org.br/docs/cd/resumos/067.pdf. Acesso em: 11 de nov. 2107. https://paineira.usp.br/aun/index.php/2017/10/19/como-a-capoeira-pode-ajudar-no-combate-ao-racismo-nas-salas-de-aula/ -AREIAS, Almir das. O que é capoeira. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1983. -OLIVEIRA, José L. (Mestre Bola Sete). A capoeira angola na Bahia. Salvador: EGBA; Fundação das Artes, 1989. -PASTINHA, Mestre. Capoeira angola. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1988. 78p. -REGO, Waldeloir. Capoeira angola: ensaio sócioetnográfico. Salvador: Itapuã, 1968. SANTOS, Luiz Silva. Educação, Educação Física, capoeira. Maringá: Imprensa Universitária, 1990. -MANFRETO, Teresa Maria. 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