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2 3 Sumário INTRODUÇÃO À CLÍNICA PSICANALÍTICA ____________________ 5 Introdução ____________________________________________________ 6 MÓDULO I ___________________________________________________ 7 O INÍCIO DA PSICANÁLISE E A SUA TÉCNICA _________________ 7 Aula 1 História da Psicanálise ____________________________________ 8 Aula 2 O Poder Mágico _________________________________________ 15 Aula 3 Os Afetos e Seus Adoecimentos ____________________________ 19 Aula 4 Escuta Psicanalítica ______________________________________ 22 Aula 6 A Resistência ____________________________________________ 29 Aula 7 Transferência ___________________________________________ 31 Aula 8 Transferência - O Manejo ________________________________ 33 MÓDULO II __________________________________________________ 38 Aula 9 Três Ensaios Sobre a Sexualidade _________________________ 39 Aula 10 Complexo de Édipo ____________________________________ 44 Aula 11 Édipo e Neurose _______________________________________ 48 Aula 12 O Ics _________________________________________________ 51 Aula 13 Primeira Tópica Freudiana ______________________________ 54 Aula 14 Segunda Tópica Freudiana ______________________________ 56 Aula 15 - Além do Princípio do Prazer – Introdução _______________ 59 Aula 16 Além do Princípio do Prazer _____________________________ 60 Aula 17 Eros e Thanatos ________________________________________ 63 Aula 18 Pulsões e Seus Destinos _________________________________ 65 4 Aula 19 Estruturas Clínicas _____________________________________ 66 Aula 20 Recordar Repetir e Elaborar _____________________________ 68 MÓDULO III _________________________________________________ 72 FREUD É ATUAL _____________________________________________ 72 Aula 21 Recomendações de Freud _______________________________ 73 Aula 22 A Clínica Hoje _________________________________________ 74 Aula 23 Fim de Análise _________________________________________ 79 Aula 24 Escolas Psicanalíticas ____________________________________ 81 Aula 25 Como se Tornar Um Analista ____________________________ 89 Sugestão de Filmes ____________________________________________ 92 Sobre a Autora ________________________________________________ 93 5 INTRODUÇÃO À CLÍNICA PSICANALÍTICA Psi. Tamara Levy O CURSO Este curso tem como objetivo ser uma porta de entrada aos que desejam trabalhar com a clínica psicanalítica e como aperfeiçoamento aos que já caminham por ela. Lembro aqui que a perfeição é inalcançável e que as falhas, se é que assim podemos chamá-las, tem um espaço impor- tante nesse percurso. Este é o caminho. O ponto de partida se dará pela teoria Freudiana, base de toda a construção teórica da Psicanálise que veio a seguir. A compreensão da teoria e a técnica psicanalítica são essenciais para sua prática. Teoria e a prática caminham lado a lado. FORMAÇÃO DO PSICANALISTA A formação de quem deseja fazer uso da técnica psicanalítica acon- tece de forma contínua. Não possui um fim, nem há uma formatura, pois ela acontece durante todo o tempo. O analista se faz no seu fazer analítico. Na prática, as escolas que formam psicanalistas usam um determi- nado momento da formação para denominar alguém como psicanalista. Este tempo varia entre uma escola e outra, mas geralmente é de 3 a 5 anos. A formação é contínua, mas segue alguns critérios. TRIPÉ DA FORMAÇÃO O psicanalista em formação tem como base um tripé, comum em todas as formações: o estudo da teoria; a supervisão, o estudo de casos e da teoria; e a análise pessoal, o analista se faz na sua análise. Este curso não lhe transformará em um psicanalista, mas pode ser uma porta de entrada para sua prática na clínica, um caminho para quem inicia ou um auxílio para quem já o conhece. A psicanálise acontece dentro da relação psicólogo/analista e pa- ciente, em uma clínica que tem como base a teoria psicanalítica, ainda que este não seja um psicanalista. Ao ser posta em prática, a psicanálise ultrapassa as paredes da academia e os dogmas das escolas, se instalando a partir da fala e do compromisso entre analista e analisando. 6 Introdução Olá, aqui iniciamos nossa caminhada nos textos freudianos e esse será seu material de apoio que foi pensado como um suporte para ser consultado durante o curso e que possa ser consultado quando surgir al- guma demanda, não se trata de um material que reescreve integralmente os textos freudianos, mas um suporte que lhe dará orientação sobre os temas abordados nas aulas e informações complementares, juntamente com esse material estaremos disponibilizando alguns dos textos que cons- tam nas referências bibliográficas do curso, a citadas e comentadas e al- guns matérias extras. Iniciaremos com a história da psicanálise, pois compreender seu início nos ajuda a compreender as motivações de Freud para a formula- ção da teoria psicanalítica, diante dos seus relatos sobre as dificuldades e necessidades enfrentadas pelos profissionais de saúde do período nos mostra o objeto de estudo da psicanálise, sendo um caminho introdutório para a clínica psicanalítica. A técnica foi desenvolvida por Freud para atender as demandas emergentes no período. O desenvolvimento acontece em meio a sua prá- tica e vai sendo criada e recriada. São formulações mais ou menos defini- das, que pode frustrar quem busca encontra-la de forma unitária, integra- da e coerente, Freud se questiona e se contradiz, se constrói, desconstrói e se refaz ao longo de sua obra. A leitura, compreensão e interpretação dá espaço para o desenvolvimento da técnica que convidou outros teóricos a desenvolver a teoria para além Freud, mas a partir dele, são múltiplas e diversas e em alguns momentos opostas, chamas escolas psicanalíticas. A amplitude da psicanálise que ecoa em quem a ler, possibilitando a abertura de antigas e novas formas de ouvir e sentir e olhar e interpre- tar o mundo interno e externo. Frustrações, inquietações provavelmente e questionamentos farão parte deste percurso, que apesar de parecer so- litário, talvez as vezes seja mesmo, afinal alguns lugares você vai visitar só, que esse material possa ser sua companhia, são caminhos já percorridos e essa é uma forma de compartilhar e apresentar. 7 MÓDULO I O INÍCIO DA PSICANÁLISE E A SUA TÉCNICA Ementa: Apresentação do início da psicanálise, da origem e história de vida de Freud. Contextualização do cenário social e cultural do surgimento da psicanálise: sua aplicabilidade nesse período, função e as mudanças que acontecem ao longo de sua construção a partir do ambiente e da relação de Freud com esses cenários. Objetivo: - Conhecimento do início da psicanálise - Contextualização da teoria e sua função nesse período - Breve biografia de Freud - Processo de construção da psicanálise - A sexualidade infantil como plano de fundo da psicanálise - Compreender o Complexo de Édipo e seu papel. - A função da Castração 8 Aula 1 História da Psicanálise Apresentação do início da psicanálise, da origem e história de vida de Freud. Contextualização do cenário social e cultural do surgimento da psicanálise. Esta complexa investigação através da psique humana, a qual Freud empregava esforços a desvendar, tinha como objetivo compreen- der o adoecimento psíquico. História da Psicanálise: A Transformação da Psicanálise como a conhecemos Ao olharmos o percurso da psicanálise, podemos vê-la em seu iní- cio como a junção de uma teoria e prática que rompem com a psiquiatria, a neurologia e a psicologia do século XIX. É exatamente neste cenário, onde a ciência médica predominava, é que a psicanálise se inicia, a partir das rígidas concepções médicas patológicas do adoecimento da psique que deram início a caminhada em busca da compreensão da mente hu- mana (Garcia Roza, 1984). Seu surgimento ocorre, portanto com a criação de um lugar para si, diante das dificuldades encontradas na medicina e psiquiatria para sua aceitação e reconhecimento como ciência. A psicanáliseera vista como uma ameaça, pois a ciência até então reconhecida, se regia pela possibili- dade de predizer toda a realidade do mundo, à medida que fossem esta- belecidas leis gerais do funcionamento da natureza. Freud, baseado em novos paradigmas que viriam a se tornar a base da Física Moderna, estruturou suas construções teóricas no relativo, com- plexo e instável, levando questionamentos ao determinismo científico. As- sim foram conduzidas as formulações no campo da psicanálise. Antes do seu advento, o único lugar institucional onde o discurso individual tinha acolhida eram os confessionários religiosos. A psicanálise vem ocupar, no século XX, este lugar de escuta. (Garcia Roza, 1984). Pré-História da Psicanálise Um Lembrete que Zimmermann deixa para nós e deve nos acompanhar. Todo texto psicanalítico, quer seja ele de natureza teórica ou téc- nica, necessita ser lido dentro de um contexto histórico-evolutivo, social, cultural e científico no qual está inserido. Dito isso, a aplicabilidade da técnica e a construção teórica registrada nos escritos freudianos remon- tam um momento histórico, um recorte, e devemos constantemente nos atentar ao momento que estamos para pensar a nossa prática. (ZIMER- MAN,2009) 9 O Sofrimento e o Adoecimento Mental Para falar de sofrimento vamos colocá-lo nesse primeiro momento como algo inerente a vivência humana que temos em registros históricos, literários e na história da humanidade da qual temos registro e que lida- mos durante toda a vida, que está presente nas relações humanas e nos acontecimentos da vida dentre as diversas intemperes possíveis, doenças, desastres, morte, luto, que serão enfrentadas em algum momento da vida e por outro lado temos o sofrimento que passa a caracterizar um processo de adoecimento mental. Para se referir a esses dois pontos, colocaremos aqui que o sofri- mento humano como algo “normal” ou algo inerente a vivência humana, Freud já nos adverte em O mal-Estar na civilização e destaca três fontes de sofrimento que ameaçam o ser humano: destaca três: o poder devas- tador e implacável das forças da natureza, a ameaça de deterioração e decadência que vem de nosso próprio corpo, e o sofrimento advindo das relações entre os humanos a partir do entendimento de que o conceito de normalidade é um processo de construção, que vai sendo reconhecido como características do processo de saúde e doença. (DE LIMA, 2010) As pesquisas sobre o adoecimento humano têm registros na história. O adoecimento mental acompanha a história da humanidade desde que temos registro: No Egito antigo com o exame de crânios em busca de adoecimentos vestígios em escavações; na bíblia temos trans- tornos psiquiátricos, alcoolismo, psicose maníaco-depressiva, são algumas que aparecem. No período da idade média (idade das trevas V ao XV) o adoecimento mental era visto como algo a ser banido, castigado, a exclu- são e expulsão era uma prática. A institucionalização e prisão, hospícios e masmorras era o lugar para pessoas que apresentavam algum desvio de comportamento, criminosos, loucos, culminava na exclusão social. Essa prática não se aplicava somente a adoecimentos mentais, pessoas os lepra (hanseníase), alguma deficiência também eram candidatos a exclusão, ex- postos a todo tipo de violência, torturas, exorcismo, havia a demonização do doente. O começo de um tratamento para a loucura, os primeiros regis- tros de tratamentos para doentes mentais ocorrem através de instituições ligadas a igreja, lembrando o período em que estado e igreja (idade das trevas). Foucault retrata esse período em a história da loucura, e fala da Grande internação, quando a loucura passa a ser entendida como um problema para as cidades. O trabalho de Foucault em seu livro a história da loucura apresenta a construção da loucura como doença e como a lei- 10 tura sobre ela muda no decorrer da história humana, deixo aqui como recomendação a leitura da obra de Michael Foucault. Philippe Pinel (1745-1826), um dos primeiros médicos que come- ça a identificar e registrar adoecimentos mentais e a, promoverem uma inovadora reforma hospitalar que ficou sendo conhecida como tratamen- to moral, consistindo num conjunto de medidas que não as de contenção física vigentes na época, mas, sim, daquelas que mantivessem o respeito pela dignidade do enfermo mental e aumentassem a sua moral e autoes- tima. História ocidental – registros europeus – Contextualização 11 Uma breve retrospectiva histórica para orientação temporal para contextualizar o momento histórico e o cenário científico e filosófico do período. Idade Média V ao XV – A igreja - neste momento a igreja cen- tralizava a organização social, política, econômica e científica. Conhecida como idade das trevas. Séculos XIV-XVI - Renascimento cultural e científico– Reforma protestante – Estado absolutista (Maquiavel, René Descartes, Frances Ba- con, Thomas Hobbes). XVII e XVIII - Iluminismo últimas décadas dos séculos - movi- mento cultural e filosófico ética, política, religião, costumes, direito ou economia. (Voltaire, Montesquieu, David Hume, Jean-Jacques Rousseau, John Locke, Immanuel Kant). Contemporâneo séculos XIX e XX- revolução político-social, a Revolução Francesa, a Revolução Industrial Inglesa, o capitalismo. (Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Arthour Schopenhauer, Jean-Paull Sartre, Si- mone de Beauvoir, Michael Foucault, Zygmount Bauman, Jurgen Haber- mas). Seguindo a cronologia e o início de Freud nos estudos vindo de um momento de apogeu científico, de descobertas e construções nas ci- ências e encontra um ambiente pulsante para seus estudos e descobertas. Encontrando Freud uma breve biografia. Sigmund Freud inicia sua formação em medicina aos 17 anos em Viena,1873. Em 1856, em Freiberg, Morávia (Tchecoslováquia), cresceu em Viena, filho mais velho de uma família de Judeus com a tradição de Rabinos na família, se forma em medicina aos 25 anos, feito um longo aprendizado em neurologia. Descrito como brilhante, um gênio, se dedicou a fisiologia primei- ro em animais, depois do sistema nervoso, dedicou-se aos estudos sobre adoecimento mental, nesse momento visto através da medicina/biologia, e buscava em suas pesquisas científicas explicação e cura para esses adoe- cimentos. Como pesquisador e neurologista publicou Sobre afasias 1891, e o projeto 1895 Obs. A medicina desta época era quase que inteiramente assenta- da em bases biológicas, muito pouco interessada na psicologia (Zimmer- mann,2009). 12 Indicação de leitura sobre a biografia de Freud: A vida e obra de Freud de Ernest Jones ROUDINESCO, Elisabeth. Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2016. Freud tem um extenso trabalho que antecede a psicanálise em ou- tras áreas da medicina, uma de suas primeiras publicações que anuncia- vam o que estava a caminho é “O projeto para uma psicologia científica 1895”. A leitura desse trabalho nos mostra um início com base médica, bio- lógica, um trabalho repleto de siglas e termos que costuram a seu modo algo que buscou tonar palpável, mensurável seu objeto de pesquisa, ainda que não seja uma leitura essencial ou indispensável, ela pode ser interes- sante diante da condição caleidoscópica do texto. Fica aqui a sugestão de leitura, ele está sendo colocado neste momento para demonstrar os cami- nhos que Freud trilhou para chegar à psicanálise, nele temos registrados conceitos que seriam difundidos posteriormente. Vamos destacar alguns pontos que não descartam a leitura integral do texto original. O QUE ENCONTRAMOS NO PROJETO – A busca por uma base orgânica para adoecimentos psíquicos (Bezerra, 2013). • Objetivo geral: Descrever o funcionamento mental em termos mecânicos- fisiológicos, e superar o hiato conceitual entre o funcionamen- to mental normal e o patológico. • Objetivo fundamental: Encontrar uma solução neurofisiológi- ca para o enigma da defesa patológica. • Mudança da abordagem fisiológica-mecânicapara organísmica ou evolucionista (organismo -> ambiente) Indicação de leitura: Introdução à metapsicologia freudiana 1 Luiz Alfredo GARCIA-ROZA; O Projeto 1895 Freud Alguns pontos que encontramos e aqui destacamos por nos pare- cerem conhecidos: o neurônio e a quantidade, quantidade e intensidade, o princípio da inércia neurônica, o investimento, as barreiras de contato, o sistema e a consciência, os signos de qualidade, prazer e desprazer, no- ção de período, memoria, dor e vivencia de dor, afeto e desejo, introdu- ção ao eu, processos secundários, A coisa (das ding precursor do objeto a de Lacan), os sonhos, O pensar e a realidade, o pensar prático, o pensar discernidor, se assemelham uns mais e outros menos ao que vemos ao longo do trabalho desenvolvido posteriormente, 13 O projeto está preso na neurologia, sendo uma tentativa de repre- sentar o cérebro, a tentativa de uma igualdade entre o neural e o psíquico (isomórfico). Com o avanço de sua construção Freud sai do aparelho iso- mórfico para o abstrato do aparelho psíquico. Temos algumas especulações sobre o “abandono do projeto”: Mark Solms O projeto não foi abandonado mas sofreu restrições. Limitação conceitual e tecnológica União do conhecimento neurológico com a prática clínica Integração da psicanálise com as neurociências ou a impossibilidade des- sa integração. Karl Pribam Intensão de Docência na Universidade de Viena; Rumo mais seguro (clínica) X Laboratório Restringir o trabalho para uma construção própria; A leitura do Projeto deixa claro que muitas das ideias psicológicas ali contidas permaneceram no espírito de Freud e continuaram a ser ela- boradas ao longo de sua vasta obra. Ao olharmos o percurso da psicanálise, podemos vê-la em seu iní- cio como a junção de uma teoria e prática que rompem com a psiquiatria, a neurologia e a psicologia do século XIX. É exatamente neste cenário, onde a ciência médica predominava, é que a psicanálise se inicia, a partir das rígidas concepções médicas patológicas do adoecimento da psique que deram início a caminhada em busca da compreensão da mente hu- mana (Garcia Roza, 1984). Seu surgimento ocorre, portanto, com a criação de um lugar para si, diante das dificuldades encontradas na medicina e psiquiatria para sua aceitação e reconhecimento como ciência. A psicanálise era vista como uma ameaça, pois a ciência até então reconhecida, se regia pela possibili- dade de predizer toda a realidade do mundo, à medida que fossem esta- belecidas leis gerais do funcionamento da natureza. Freud, baseado em novos paradigmas que viriam a se tornar a base da Física Moderna, estruturou suas construções teóricas no relativo, com- plexo e instável, levando questionamentos ao determinismo científico. As- sim foram conduzidas as formulações no campo da psicanálise. Antes do seu advento, o único lugar institucional onde o discurso individual tinha acolhida eram os confessionários religiosos. A psicanálise vem ocupar, no século XX, este lugar de escuta. (Garcia Roza, 1984). 14 Pontos importantes: - Período Histórico e contexto social - O período de surgimento da psicanálise - Crescimento da filosofia – Racionalidade - Tem origem na medicina e na biologia - O Projeto é um ponto importante para o início da psicanálise, ele prevê seu desenvolvimento, não pela biologia. Textos base: BEZERRA JR, Benilton. Projeto para uma psicologia científica: Freud e as neurociências. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. FREUD, Sigmund. O Eu e o Id, Autobiografia e outros textos: 1923- 1925. In: O Eu e o Id, Autobiografia e outros textos: 1923-1925. 2011. ______________. Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (PC de Souza, trad. e notas, pp. 13-50). São Paulo: Compa- nhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1914), 2010. ______________. Projeto para uma psicologia científica. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 1, p. 29- 397, 1895. ______________. Três ensaios sobre A teoria da sexualidade, análise frag- mentária de uma histeria (“O caso Dora”) e outros textos: 1901-1905. São Paulo Companhia das Letras, 2016. ______________. Fundamentos da clínica psicanalítica. Autêntica, 2017. FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. (1893-1895) Estudos sobre a histeria. Obras completas, v. 2, São Paulo; Companhia das Letras; 1996. BREUER, J.; FREUD, S. 1893-1895. Estudos sobre a histeria. Obras com- pletas, ESB, v. 2. 1977. GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Zahar, 1987. ______________________. Introdução à Metapsicologia Freudiana 1. Zahar, 2010. ______________________. Introdução à Metapsicologia Freudiana 3. Zahar, 2010. DE LIMA, Brunno Marcondes. O mal-estar na civilização: um diálogo entre Freud e Marcuse. Revista Subjetividades, v. 10, n. 1, p. 61-86, 2010. FOUCAULT, Michel. História da loucura na idade clássica.(1961) 5º edi- ção. 1997. ZIMERMAN, David E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Técnica, Clí- nica–Uma Abordagem Didática: Teoria, Técnica, Clínica–Uma Aborda- gem Didática. Artmed Editora, 2009. 15 Aula 2 O Poder Mágico Nesta aula vamos falar sobre pontos norteadores da teoria e como eles foram sendo articulados de forma que se tornaram imprescindíveis para a psicanálise. O primeiro que vamos abordar é o conceito sobre a psique humana: “Psique é uma palavra grega que em alemão significa alma. Portan- to, tratamento psíquico seria tratamento anímico – Tratamento que parte da alma, tratamento de distúrbios anímicos ou físicos - com meios que terão efeitos sobre o anímico da pessoa. Um desses meios é, em primeira linha ferramenta essencial do tratamento a palavra.” (FREUD 1890) Nesse trecho Freud coloca a palavra como uma via de acesso para o tratamento anímico com efeitos no físico, então é através da palavra que o tratamento acontece, afirmação que para a época não teve fácil aceita- ção no meio médico científico. Ao fazer referencia a palavra Freud diz que: “As palavras do cotidiano possuem magia empalidecida e será necessário trilhar um mais um desvio para tornar compreensível como a ciência consegue devolver à palavra pelo menos uma parte de seu antigo poder mágico.” (FREUD 1890) O entendimento sobre a existência da psiquê a partir da divisão do corpo e a mente/alma de René Descartes (séc. XVII) ampliou os entendi- mentos e as pesquisas sobre os processos de saúde e doença nas ciências naturais sendo um divisor, nos anos/séculos que se seguiram temos um salto nas descobertas de tratamentos de doenças do corpo e o desenvolvi- mento da medicina, houve o avanço das ciências naturais. Freud coloca que médicos cientificamente treinados aprenderam a reconhecer o valor do tratamento anímico só em tempos recentes, ele estava falando isso em 1890, ainda que já houvesse a compreensão sobre a existência sobre o anímico, os adoecimentos e a interação entre ele e o físico não tiveram o mesmo espaço de desenvolvimento nas ciências, não ocupando o lugar de ciência. O anímico e o físico nunca deixaram de se relacionar (mente e cor- po), a medicina tem uma direção unilateral voltada ao corpo, esta direção começa a mudar com o surgimento de pacientes e menor e maior gravi- dade que com seus distúrbios e queixas colocam muitos desafios para a 16 arte dos médicos, pois não há sinais visíveis e palpáveis do processo de doença nem em vida e nem em morte, um grupo desses doentes chama atenção pela riqueza e variedade do quadro clínico. (FREUD 1890) pag. 22 Chega-se à conclusão de que esses doentes devem ser tratados como de afecções do sistema nervoso, não haviam sinais visíveis no cé- rebro desses pacientes, coube aos médicos a investigação destes processos de adoecimentos nervosos. A medicina chega a um consenso que esses sinais do sofrimento se originavam de uma influência modificada de sua vida anímica sobre seu corpo (FREUD 1890) pag. 23. E que a busca de um tratamento deveria partir do anímico, sendo encontrada a conexão, ainda faltava voltar as atenções,a relação desprezada entre mente e corpo. Algumas pesquisas começam a se voltar para essa área paulatinamente e entremeada pela medicina, nesse momento Freud inicia suas pesquisas sobre os adoeci- mentos da alma. Freud produz seus trabalhos sobre os adoecimentos anímicos atra- vés da sua prática, sua prática dá base para sua teoria. Alguns dos diversos adoecimentos físicos dos quais Freud faz re- ferência: afecções do sistema nervoso, ideias obsessivas, ideias deliran- tes, loucura, dores, fraqueza, paralisias, dormência, problemas digestivos, arrotos, câimbras estomacais, distúrbios de sono, evacuação. Que são a Ações de processos anímicos sobre o corpo ou das Oscilações de Ânimo, estados anímicos chamados de “afetos”, deles citados como o depressivo como a tristeza, preocupação, luto, que ocasionam doenças em outros órgãos. Ex: maior ocorrência de adoecimento de membros do exército derrotado do que entre aos vencedores Outros processos que podem ter influência sobre o corpo, sendo que essas podem ser produzidas ou intensificadas ou esquecidas: vonta- de, atenção Ex: Não sentir um ferimento durante uma luta/briga, melhoras milagrosas em estados de adoecimento – aqui é pontuado sobre a influ- ência sobre a vontade de viver e a vontade de morrer em processos de adoecimento. Ex: Expectativa, expectativa temerosa, expectativa crédu- la (curas milagrosas) 17 Sobre a personalidade do médico: O que conhecemos hoje como ciência é uma construção, não ter- minada, está em constante movimento, e desse modo as áreas que per- meia como as ciências humanas e naturais. Aqui não vamos apontar um início ou data específica, mas a existência de tratamentos de saúde que antecederam a medicina, pois os adoecimentos sempre estiveram presen- tes, assim como a morte. Tomaremos aqui de referência a maneira que os povos antigos tra- tavam os processos de adoecimento que era principalmente o tratamento anímico, na ausência de meios médicos científicos/biológicos havia o tra- tamento intensivo da alma através de autoridades de cuidado como pajé, sacerdotes, benzedeiras, através de chás, bebidas rezas e outros meios de cura - nesse contexto havia uma junção, há uma referência sobre a per- sonalidade do médico a ter uma herança, fama derivada diretamente do poder divino, tanto naquela época como hoje ( Freud falava de 1890), sendo essa uma das principais circunstâncias para a cura. Esse trecho é do século 19, e convido para uma reflexão como po- demos pensar essa relação em 2021? A forma que essa relação se estabe- lece e o seu papel no processo do tratamento. Temos aqui a afirmação de que o médico possui uma autoridade de cura herdada e que teria controle sobre a magia das palavras que exer- ce influência sobre o doente, palavras que podem afastar manifestações de doença, ainda mais aquelas que se originam em estados anímicos. A psicanálise se origina no meio médico que já possui essa herança que é trazida e se faz presente na figura do analista. Tal afirmação ou informa- ção pode ser recebida com desconfiança, como algo tão anterior pode se fazer presente na relação médico/analista paciente? Quando o sujeito bus- ca um atendimento psicanalítico, acredita que irá encontrar uma pessoa com conhecimento para “curá-lo” livrá-lo de sua angustia, do sofrimento que o move em busca do profissional. A partir dessas conclusões se introduz o tratamento anímico moderno. Freud passa ase dedicar aos estudos sobre a histeria e o tratamento feito com base na hipnose que tem como percursor o Jean-Martin Char- cot em Paris. Freud parte em busca dos trabalhos desenvolvidos, como aluno começa seus trabalhos práticos e de pesquisa com o método de Charcot. A publicação do trabalho Estudos sobre a Histeria (1895) que traz os relatos de casos de Freud e Breuer. Tamos os casos publicados como referência e material de análise e estudo que continuam a serem 18 utilizados na transmissão da psicanálise, neles temos descrições das per- cepções de Freud e suas conclusões que são utilizadas paras construções sobre o funcionamento psíquico, deixo aqui a indicação da leitura do tra- balho e os casos, destaco aqui o caso Dora, certa da contribuição que trará aos seus estudos. Coloco aqui alguns pontos importantes sobre esse momento inicial da psicanálise (que não substituem a leitura do texto original: - A relação entre hipnotizado e hipnotizador e a credulidade, que depois dá lugar a transferência - Reconhece os efeitos, benefícios e limitações da hipnose - não são todas as pessoas possíveis de serem hipnotizada. - A hipnose como resultado da sugestão pela palavra, - Freud responde sobre os questionamentos de o tratamento da palavra tem efeito sobre o corpo e nos diz que é através da eficácia da palavra - Aqui faz referência a causalidade e a magia das palavras, não ha- via se dado conta do fenômeno da transferência, mas podemos perceber sua atenção a relação médico paciente. Texto base: FREUD, Sigmund. Fundamentos da clínica psicanalítica; Tratamento aní- mico (1890). Autêntica, 2017 BREUER, Josef; FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 2: estudos sobre a histeria (1893-1895) tradução Laura. Barreto; revisão da tradu- ção Paulo César de Souza—. 2016. Pontos importantes: - Conceito de Psiquê - A importância da palavra - O papel do médico no tratamento - A relação Médico Paciente - A ligação de mente e corpo 19 Aula 3 Os Afetos e Seus Adoecimentos Os afetos e seus adoecimentos Os médicos encontravam dificuldades em comprovar patologias corporais de ordem anímica (psíquica/alma), ocorrendo a desvalorização e injustiças com os adoecimentos psíquicos. Ainda que seja um trabalho antigo, ainda se faz presente no cenário da saúde mental. Como contextualização, sobre os estudos da histeria acontece atra- vés da pesquisa do adoecimento de mulheres, é necessário identificar o papel da mulher nessa sociedade como plano de fundo e como parte do processo de adoecimento mental. Estudos sobre a Histeria A Psicanálise tem como origem nos trabalhos Estudos sobre a His- teria (1985). Freud e Breuer em seu prefácio, os estudos são apresentados como um novo método de examinar e tratar os fenômenos histéricos, onde a partir do desenvolvimento do método catártico aplicado em pa- cientes histéricos, através do uso da hipnose havia a intensa manifestação dos afetos, lembranças e impulsos que estavam fora da consciência e a partir dessas manifestações tinha como principal função o afastamento de sintomas da doença. Ex: Regressão a primeira vez que o sintoma acontece (momento do trauma). Esses Sintomas seriam processos psíquicos reprimidos e que não chegam à consciência e que o escoamento desses afetos que se encontra- vam comprimidos tinha uma eficácia terapêutica (lembrando que ainda não havia se construído o conceito de inconsciente, mas havia um esbo- ço. ) Os autores começam a encontrar algumas falhas em seus métodos: - As dificuldades ao identificar que não era só um trauma que cau- sava o adoecimento e sim vários acontecimentos. - As sugestões durante a hipnose não fazem mais parte da técnica, e a partir do que surge na cartasse se espera mudança no percurso psíqui- co diferente do que levou a formação de sintoma - Nem todos são hipnotizáveis - Não é uma cura duradoura, ocorre o retorno de sintomas. 20 Freud desiste da hipnose e adota sessões que ocorrem como uma conversa entre duas pessoas igualmente despertas, o paciente é colocado de forma confortável de e com o médico fora do seu campo de visão, ele convida os pacientes a falarem à vontade suas comunicações “tudo o que vem à cabeça, mesmo que não achem importante, ou que não vem ao caso ou o que não faz sentido ainda que lhe pareça vergonhoso ou embara- çoso” (FREUD, 1904). Ao solicitar que o paciente discorra o histórico de sua doença sobre seu adoecimento e sintomas, Freud identifica lacunas nas lembranças, confusões temporais resultando em efeitos incompreen- síveis, quando questionado e busca preenchercom certo esforço, surgem críticas refreadas e o mal-estar quando a lembrança aparece, a conclusão de Freud sobre as amnésias em pacientes sem histórico são ocasionadas por um processo que nomeia de recalque e descreve que sente forças psíquicas contrárias ao para esse recalque vir à tona , uma resistência se ergue contra esse conteúdo. (FREUD, 1904) Aos poucos acontece a passagem da hipnose para a associação li- vre, ocorrendo de forma gradativa de acordo as experiências com as pa- cientes. No decorrer do trabalho nos são apresentados os métodos desen- volvidos e utilizados nos casos apresentados. Com as mudanças adotadas a psicanálise passa a ser um tratamen- to adequado a mais pessoas e adoecimentos, havendo uma ampliação do saber terapêutico através das descobertas nos casos de histeria se mos- trando um tratamento eficaz, ressaltando sobre a aplicação feita em casos graves o que demanda um extenso trabalho e tempo, mas sugere que em casos mais leves isso deve se abreviar. Pontos importantes: - Apresentação de técnicas utilizadas e de conceitos que serão di- fundidos como pilares da psicanálise. - Formações Psíquicas recalcadas - A Interpretação - Resistência - Inconsciente - Associação Livre Obs. Nestes pontos propostos e nos textos citados é possível ras- trear os primeiros passos do desenvolvimento da psicanálise enquanto instrumento para o exame científico da mente humana, não é um sim- ples relato de história da superação de uma série de obstáculos; é o da descoberta de uma série de obstáculos a serem superados, e os caminhos encontrados para desenvolver a psicanálise. 21 Textos base: FREUD, Sigmund. Fundamentos da clínica psicanalítica; O método Psi- canalítico Freudiano 1904/05. Autêntica, 2017. FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas com- pletas de Sigmund Freud; Estudos sobre a Histeria (1895). Imago edito- ra, 2016. 22 Aula 4 Escuta Psicanalítica O desenvolvimento da técnica psicanalítica através da associação livre e a atenção flutuante como principais ferramentas de trabalho. Percurso Psicanalítico: da hipnose à associação livre Em Princípios Básicos da Psicanálise, de 1913, Freud descreve a psicanálise como uma disciplina singular, um novo tipo de pesquisa das neuroses e um método de tratamento, diferente das práticas médicas vi- gentes até então. As primeiras pesquisas psicanalíticas e tentativas de tra- tamento ocorreram com o método hipnótico. Entretanto, para Freud a psicanálise teve seu inicio apenas quando deixou de usar a técnica hipnótica e introduziu as associações livres. Após essa mudança, ele mesmo desenvolveu uma técnica de interpretação para extrair conclusões do material revelado na associação livre (Freud, 1913). A associação livre consiste em exprimir indiscriminadamente todos os pensamentos que acodem ao espírito, quer a partir de um elemento dado, quer de forma espontânea (Laplanche & Pontalis, 1970). A fala do analisando durante o uso da associação livre põe o analis- ta no lugar de escuta, voltando sua atenção ao que está sendo enunciado. Uma das recomendações técnicas de Freud foi quanto à forma da escuta, que deveria ser feita através da atenção flutuante, na qual o analista deve escutar o analisando, não privilegiando a princípio nenhum elemento do seu discurso, o que implica que deixe funcionar o mais livremente possí- vel a sua própria atividade inconsciente e suspenda as motivações em que dirigem habitualmente a atenção (Laplanche & Pontalis, 1970). Durante toda a obra freudiana é constantemente encontrada a for- mulação e retomada de teorias sobre formas de expressões do inconscien- te. Ao se deparar com conteúdos que estavam fora da consciência, e assim fora do acesso do analisando, estas teorias buscavam formas de identifi- cá-los para além do método hipnótico. Para Freud era possível identificar na fala dos pacientes estes conteúdos na forma de atos falhos, equívocos de memória e linguagem, e esquecimentos, ligando-os á atuação de fortes pensamentos inconsciente. O sonho, também como um processo psíquico, foi estudado mais a fundo se tornando uma das principais colunas da obra freudiana, che- gando à fórmula geral: “O sonho é a realização disfarçada de um desejo reprimido” (Freud, 1913). O estudo da interpretação dos sonhos presta 23 uma valiosa ajuda na técnica psicanalítica, construindo um método para penetrar na vida psíquica inconsciente. A investigação iniciada por Freud através da subjetividade huma- na e a busca em compreender seu adoecimento nos leva a deparar com a complexidade que empregou esforços a desvendar. Ao encontrar obs- táculos e mecanismos de defesa, descobre a capacidade dos conteúdos se deslocarem, converteram e se transformarem. Ao tempo em que vai dan- do espaço para a fala, vai abrindo um caminho rumo ao desconhecido. Um acesso ao desconhecido O método psicanalítico de investigação buscava formas de acesso aos indícios de conteúdo que estariam presentes na psique, mas não de forma consciente. A tese da existência destes conteúdos tornou-se mais forte durante os diversos estudos de pacientes em estado hipnótico, para Freud, “uma idéia inconsciente é uma idéia que não notamos, cuja exis- tência estamos dispostos a aceitar, com base em indícios e provas” (Freud, 1912). Em busca da causa dos sintomas que acometiam os pacientes Freud se depara com o desconhecido, uma nova possibilidade a ser explorada: a existência de conteúdos inconscientes que estariam ativos agindo no surgimento destes sintomas. As evidências encontradas deram um novo e amplo sentido ao sofrimento humano. Ao introduzir a noção de inconsciente, Freud coloca o que é dito pelo paciente em um espectro mais amplo, para além da palavra enuncia- da conscientemente. O inconsciente busca ser escutado, ter seus desejos satisfeitos, comunicando-se por meio de complexas formações: sonhos, sintomas, lapsos, chistes, atos-falhos; fenômenos que apontam para esse “desconhecido” que habita o sujeito (Macedo & Falcão, 2005). Na busca de tratá-las, com diversas tentativas desde o uso da hip- nose até chegar a associação livre, o acesso ao inconsciente e a possibilida- de de escutá-lo. O que está em foco não é mais um sujeito sob hipnose, mas a fala consciente com suas lacunas a serem escutadas, dando lugar à narrati- va do sujeito e da sua história, contextualizando e inserindo um cenário para sua dor, solicitando que a sua história seja levada em conta. O trabalho do analista é reconstruir a história a partir de fragmen- tos encontrados no discurso. Reconstruir e dar sentido. Freud compara 24 o trabalho do analista ao arqueólogo que utiliza de fragmentos para cui- dadosamente remontar e a apresentar a história ao analisando e juntos a construção em análise é feita. Segundo Garcia-Roza (1984), a psicanálise não coloca em cheque o sujeito da verdade, mas verdade do sujeito. Pergunta o porquê da recusa dos desejos rejeitados pela sua consciência através dos fenômenos de de- fesa, as formas que o ego encontra de se proteger de uma representação desagradável. Ainda este autor afirma que, ao se fazer uso da psicanálise sem a hipnose o analista encontra resistência ao trabalho de análise que ante- riormente estava oculta. Ao tentar entrar em contato com conteúdos que teriam causado os sintomas, os pacientes esbarravam com uma resistên- cia, idéias de natureza aflitiva, capazes de despertar emoções de vergo- nha, autocensura e de dor psíquica. Compreender que o que cabe ao analista é ouvir o sujeito, sua história e o que nela é dor; e ainda, que quando livres de classificações ou rótulos, os lapsos, sonhos, repetições e sintomas, revelam-se enfim, formas de subjetividade que abrem espaços de singularidade. Conside- rar a psique como um sistema que possui uma organização determinada, mas que pode transformar-se e adquirir novas propriedades, como o faz produzindo e reproduzindo continuamente a história do sujeito, implica colocar a escuta em um campointersubjetivo, ou seja, no campo da trans- ferência. “Desde a primeira sessão a história oficial é confrontada com aque- la que o analista ajuda a construir, analisando as formações de compro- misso. os testemunhos do passado são os sintomas, as transferências, as repetições, as formações de caráter, os sonhos e também as recordações” (HORNSTEIN, 2003 apud MACEDO & FALCÃO, 2005). Cabe ao analista escutar o sujeito em sua totalidade e, a partir do que é apreendido, aplicar as técnicas que cabem no momento, pois a teo- ria psicanalítica não pode ocupar o lugar da história de vida do paciente. Ainda assim, justifica-se a importância dos suportes teóricos que susten- tam a práxis do analista. (Macedo & Falcão, 2005). Embora analista e analisando compartilhem deste processo, não existe uma relação de igualdade entre eles. Essa assimetria necessária ad- vém da capacidade de escuta do analista: A escuta que mantém a transfe- rência, mas não se confunde com ela, e não cede à solicitação do paciente, impedindo uma satisfação substituta do desejo, o que abre possibilidade para sua ressignificação. 25 O analista deve ouvir e ao se colocar é como uma retirada específi- ca, cirúrgica no material apresentado do analisando, a ideia da escultura de Da Vince, onde se retira para criar a imagem da escultura Importante: Formas de atendimento presencial ou remoto, am- bras possibilitam a aplicação da técnica, a maneira de desenvolver o tra- balho acontece de com a disponibilidade de ambos, do paciente em levar conteúdo para a análise e o espaço interno do analista. Pontos Importantes: - A associação Livre como regra primordial a ser seguida pelo analisando -A atenção Flutuante como forma de apreender o material a ser analisado - O analista deve despir-se de rótulos durante a escuta - O analista só sabe o que é dito pelo analisando - A associação livre acontece independente do uso de espaço físico ou vir- tual ou o uso de divã Textos base: FREUD, Sigmund. Princípios básicos da psicanálise. Observações psica- nalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“ O Caso Schreber”), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. FREUD, Sigmund. Algumas observações sobre o conceito de inconscien- te na psicanálise. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“ O Caso Schreber”), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Jorge Zahar Editor Ltda, 1984. LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psica- nálise. Martins Fontes Editora Ltda, 1970. MEDEIROS KOTHER MACEDO, Mônica; NEUMANN DE BARROS FALCÃO, Carolina. A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta. Psy- chê, v. 9, n. 15, 2005. FREUD, Sigmund. O método Psicanalítico Freudiano 1904/05. Funda- mentos da clínica psicanalítica. Autêntica, 2017. FREUD, Sigmund. Estudos sobre a Histeria (1985). Edição standard bra- sileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Imago edito- ra, 2016. 26 Aula 5 Repressão - O protótipo do inconsciente Agora vamos falar sobre o conceito de repressão para nos encami- nhar a construção do conceito de Inconsciente que falaremos mais a fren- te, ela faz parte do percurso de compreensão da construção do conceito de inconsciente e sobre o funcionamento da dinâmica pulsional. A repressão é um conceito que trata de encontrar um destino pos- sível para conteúdos de caráter desagradável que teriam a capacidade de causar incômodo na consciência, desprazer, esses conteúdos seriam convi- dados ou escolhidos a se retirarem da consciência através do mecanismo da repressão. Dentre as considerações de Laplanche sobre a repressão vamos destacar a Repressão como Operação psíquica tende a fazer desaparecer da consciência um conteúdo desagradável ou inoportuno: ideia, afeto, etc. (LAPLANCHE, 1988) Lembrando que as traduções sobre o termo pulsão que é central na obra de Freud têm algumas especificidades sobre a sua tradução, que em alguns momentos aparece como instinto, mas o termo pulsão segue sendo o mais próximo da proposta freudiana e em nota de rodapé na tra- dução da Companhia das Letras de Paulo César de Souza temos: Triebregung: Nas versões estrangeiras consultadas: instinto, moci- ón pulsionale, moto pulsionale, motion pulsionelle. (Freud, 1915) Obs: Dentre os textos disponibilizados para essa aula incluímos um e-book sobre os livros disponíveis no mercado e suas traduções. Aqui faremos algumas pontuações a partir do texto de Repressão de 1915, nossa intenção aqui é trazer a compreensão sobre o conceito e não esgotar as discussões sobre ele. Destacamos alguns pontos do trabalho sobre a repressão. Repressão Primordial: uma primeira fase da repressão que consis- te uma negação, à representação psíquica da pulsão na consciência. Com isso se produz uma fixação; a partir daí a representante em questão per- siste inalterável, e a pulsão permanece ligada a ela. Repressão propriamente dita: um segundo estágio da repressão, afeta os derivados psíquicos da representante reprimida ou as cadeias de pensamentos que, originando-se de outra parte, entraram em vínculo associativo com ela. Graças a essa relação, tais repressões sofrem o mesmo 27 destino que o que já foi reprimido primordialmente. A repressão pro- priamente dita é uma pós-repressão. Freud coloca que a tendência a repressão só acontece porque algo foi reprimido anteriormente e está disposto a acolher, atraindo o que é repelido pelo consciente e a atuação dessas duas forças em conjunto per- mitem que o propósito seja alcançado O que a consciente repulsa, o inconsciente atrai. O que foi reprimido assim permanece quando feito com êxito este não retorna, mas dependendo de mudanças possíveis e no êxito ou não dessa repressão, podem surgir representantes pulsionais do reprimido, ideias, afetos que chegam a consciência, mas não permanecem. O reprimido não está morto, existe uma constante força dele em direção ao consciente exigindo um constante gasto de energia, na qual é compensada com uma contrapressão. O que foi reprimido assim permanece quando feito com êxito este não retorna, mas dependendo de mudanças possíveis e no êxito ou não dessa repressão, podem surgir representantes pulsionais do reprimido, ideias, afetos que que chegam à consciência através de cadeias de pensa- mentos, mas não permanecem. Quando o representante pulsional tem acesso ao consciente como uma ideia, logo este é convidado a se retirar, como um hóspede indeseja- do e tem seu acesso negado, essa ideia some do consciente e não retorna. A pulsão é reprimida de modo que dela nada se encontra. O afeto surge de maneira qualitativamente nuançado, com aparência sutil e me- nor ao seu antigo formato ou se transforma em angústia, as duas condi- ções nos permitem observar novas vicissitudes da pulsão, a conversão das energias psíquicas das pulsões em afetos, muito especialmente em angústia. Lembrete: O propósito da repressão é evitar o desprazer. E o seu fracasso e o seu sucesso diz se consegue ou não evitar o desprazer, o que é o foco do nosso estudo. Freud usa como exemplo um hospede indesejado que é retirado da sala e impedido de retornar, no caso da repressão, permanece um vi- gia na porta que impede o acesso a sala. 28 Podemos entender o papel da repressão na formação dos sintomas através de indícios do retorno do reprimido, os mecanismos de repressão têm uma coisa em comum, a retração do investimento de energia. É observado nos casos de repressão o surgimento de psiconeuroses como, fobias, histeria de angústia, histeria de conversão, todos envolvidos nas formações de sintomas, com mais diferentes manifestações compa- radas por Freud, que mostra também na neurose obsessivas através da formação reativa. formação reativa: mecanismo de defesa que substitui sentimentos e comportamentos opostos a forma ao desejo real, pormedo de punição social. A repressão como posta aqui se apresenta com um papel no objeto de estudo proposto, nas angustias e no processo de adoecimento, os des- dobramentos sobre ela nos adoecimentos identificados por Freud e a sua relação com o inconsciente. Pontos Importantes: - A função da repressão na formação de sintomas - A principal função da repressão é evitar o desprazer, quando essa falha surgem os sintomas. - As vicissitudes das pulsões e formas de escape a cs - As variações e interações nas manifestações como mecanismos de defesa Textos base: CAROPRESO, Fátima; SIMANKE, Richard Theisen. Repressão e incons- ciente no desenvolvimento da metapsicologia freudiana. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 16, p. 201-216, 2013. FREUD, Sigmund. A repressão: 1915. Freud (1914-1916) introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos; Companhia das Letras, 2010. LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psica- nálise. In: Vocabulário da psicanálise. 1988. 29 Aula 6 A Resistência A resistência é identificada nos estudos sobre a histeria é descrita como forças contrárias que se opõem ao tratamento, é um entrave, uma barreira na elucidação dos sintomas e o avanço do tratamento. Podemos observar além da identificação, a superação dessas barreiras A resistência em Laplanche (1988): No decorrer do tratamento psicanalítico, dá-se o nome de resistência a tudo o que, nos atos e palavras do analisando, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente. Por exten- são, Freud falou de resistência à psicanálise para designar uma atitude de oposição às suas descobertas na medida em que elas revelaram os desejos inconscientes e infligiam ao homem um “vexame psicológico” Freud propõe uma apreciação mais correta da resistência e consi- derou a interpretação da resistência, juntamente com a da transferência, como características específicas da sua técnica. Mais, a transferência deve ser considerada parcialmente uma resistência na medida que substitui pela repetição, a resistência utiliza, mas não a substitui. Transferência é uma das maiores resistências A rememoração que faz parte do tratamento, faz com que a resis- tência tenha sua manifestação própria diante de Representações penosas, uma resistência que tem sua origem no recalcado. É uma forma de defesa ao desprazer, onde mantem conteúdos de prazerosos fora da consciência. Com o desenvolvimento da segunda tópica com as instâncias psí- quicas ocorre um acentuamento no aspecto defensivo da resistência que passam a serem identificadas como mecanismos de defesa do ego (falare- mos mais a frente) e esse entendimento é preservado por Freud até seus últimos escritos. Ao longo de sua Obra Freud descreve várias fontes de resistência Os mecanismos de defesa contra perigos antigos retornam no tratamento sob forma de resistências à cura, isso porque a cura é consi- derada pelo ego um novo perigo. Em inibições, sintoma e angústia Freud distingue cinco formas de resistências, três estão ligadas ao ego: O recalcamento, a resistência de transferência e o benefício secundário da doença onde o sintoma é in- tegrado no ego, as outra tem como origem resistência do ics ou do id e com a do ego, (a força da compulsão à repetição) e por último a resistên- cia do superego, culpa ics e o castigo. 30 Pontos importantes: - Resistência como um mecanismo de defesa - Relação entre Resistência e transferência - O recalcamento - A resistência de transferência - O benefício secundário da doença - Resistências do Ics - Resistência do Superego Textos base: LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psica- nálise. In: Vocabulário da psicanálise. 1988. FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas com- pletas de Sigmund Freud; Estudos sobre a Histeria (1895) 31 Aula 7 Transferência Freud nos diz que a transferência na análise é a mais forte resistên- cia contra o tratamento, enquanto fora da análise temos de reconhecê-la como portadora do efeito de cura e condições para o sucesso do trata- mento. Podemos acompanhar no processo de construção de Freud desde as técnicas hipnóticas sua atenção ao papel do médico no tratamento e a relação que se estabelece com o paciente e a função desta nos resultados do tratamento, podemos ver similaridades ao que ele viria construir como a Transferência como técnica central do tratamento através do seu mane- jo. (Freud, 1912) Não é sobre a pessoa do analista e sim da relação estabelecida entre analista e o analisando e os fenômenos que fazem parte dela, a observação desses fenômenos é um ponto primordial do tratamento a partir do ma- nejo dos conteúdos que emergem, o manejo de transferência. A Transferência Laplanche: Designa em psicanálise o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica. Freud coloca que acontece uma junção de predisposições inatas e influências durante os anos de infância, que todas as pessoas adquirem idiossincrasias ao conduzirem sua vida amorosa, ou seja daí vem as con- dições que a pessoa estipula para o amor, as pulsões a satisfazer e as suas metas almejadas. Isso resulta em um clichê, que ao longo da vida é repe- tido e reeditado de acordo com as condições internas e externas. Diante dessa informação, ao nos atermos ao tratamento e os conteúdos que nele emergem na relação entre paciente e analista, essas repetições e reedições dessas vivencias infantis se fazem presentes, como insatisfações e frustra- ções com demandas antigas, Freud coloca que é compreensível que uma pessoa parcialmente insatisfeita, carregado de muita expectativa volte seu investimento libidinal para a figura do médico, seguindo um modelo pré definido e herdado das vivências infantis, mas não há um interesse ge- nuíno da figura do médico. A transferência surge como um obstáculo que precisa ser analisado atentamente. 32 Neurose > Introversão da Libido (está no ics) > Libido Movida para a regressão > reanima complexos infantis > surgimento das resis- tências (a serviço da conservação do estado recolhido de baixa energia) > superar o recalque (suspender essa atração com conteúdo ics no processo analítico) > Transferência. Sempre que nos aproximamos de um complexo patogênico, a por- ção do complexo capaz de transferência é empurrada para a consciência e defendida com a maior insistência. “À transferência na análise é a mais forte resistência contra o tra- tamento, enquanto fora da análise temos de reconhece-la como portado- ra do efeito de cura e condições para o sucesso do tratamento”. (Freud, 1912) A intensidade e a duração da transferência são um efeito e uma e uma expressão da resistência. A ideia aqui é resgatá-la e coloca-la a serviço da consciência. Temos tipos de transferência que se apresentam como herança edípica, ambivalência que se apresenta em vários momentos do traba- lho freudiano. Transferência Positiva: sentimentos ternos, dividindo- se em sen- timentos simpáticos e carinhosos que chegam à consciência, e pela via do Ics que remontam fontes eróticas. Transferência Negativa: sentimentos hostis. As formas de uso da transferência, quando desassociada da pessoa do analista tem a capacidade do conteúdo chegar à consciência e não re- pulsivo, como forma de chegar ao êxito, assim admite-se o uso da suges- tão como base do método, entendendo que o sugestionamento é feito por meio dos fenômenos da transferência. Nós cuidamos da autonomia final do paciente, na medida que utilizamos a sugestão para fazê-lo desempe- nhar um trabalho psíquico. Textos base: FREUD, Sigmund. a dinâmica das transferências (1912) Fundamentos da clínica psicanalítica; autêntica, 2017. 33 Aula 8 Transferência - O Manejo Para Freud muitos acreditam que a maior dificuldade da Psicanáli- se é a interpretação do recalcado, mas logo ele nos esclarece que as únicas dificuldadessérias são encontradas no manejo da transferência. Podemos acompanhar no processo de construção de Freud desde as técnicas hipnóticas sua atenção ao papel do médico no tratamento e a relação que se estabelece com o paciente e a função desta nos resultados do tratamento, podemos ver similaridades ao que ele viria construir como a Transferência como técnica central do tratamento através do seu mane- jo. Não é sobre a pessoa do analista e sim da relação estabelecida entre analista e o analisando e os fenômenos que fazem parte dela, a observação desses fenômenos é um ponto primordial do tratamento a partir do ma- nejo dos conteúdos que emergem, o manejo de transferência. Laplanche nos diz que se trata de uma repetição de protótipos infantis vivida com uma sensação de atualidade acentuada, diante do ex- posto seguimos para compreender sobre o que Freud nos falava. O manejo da transferência Freud coloca que por muitos acreditam que a maior dificuldade da Psicanálise é a interpretação do recalcado, mas logo ele nos esclarece que as únicas dificuldades sérias são encontradas no manejo da transferência. Em seu trabalho Observações sobre o amor transferencial (1915), o autor descreve as dificuldades encontradas no manejo de transferências positivas de cunho erótico, especificamente com pacientes mulheres que se apaixonam pelo analista. Relata aspectos desconcertantes e divertidos da situação, e coloca desfechos possíveis e qual o procedimento necessário para o uso dessa transferência como ferramenta de análise. Paciente apaixonada pelo analista: o que eu fazer? Esta possibilidade é apresentada por Freud em seu trabalho Ob- servações sobre o amor transferencial (1915), nesse trabalho o trabalho do analista é apresentado diante de cenários diversos na relação com o analisando e dos possíveis desdobramentos o apaixonamento do analisan- do pelo analista tem destaque para falar sobre o amor na relação transfe- rencial, 34 São postas algumas saídas possíveis como, ficarem juntos, finalizar os atendimentos ou a continuidade do processo, algumas com um tom irônico dada a ideia uma relação entre a dupla, o autor fala das observa- ções necessárias diante destes casos e a relação transferencial. A interrupção dos atendimentos deveria ser dada como inviável, Freud coloca que isso se repetiria em outros processos iniciados pela pa- ciente, como uma pontuação minha coloco que se por condições do ana- lista a continuidade se mostrar inviável no manejo, finalizar o processo talvez seja um caminho necessário. É preciso que o analista reconheça que o enamoramento é forçado pela situação analítica e não deve ser atribuído às vantagens da sua pes- soa, portanto, então não há motivos para se orgulhar da sua “conquista” (contexto de masculinidade). É importante ter esse alerta sempre em mente. (Feud,1915) Os investimentos da paciente desviam dos objetivos do processo para uma quebra da autoridade do médico, colocando o analista severo à prova. A técnica analítica estabelece uma lei para o médico que lhe im- põe a recusa diante da satisfação exigida pela paciente carente de amor. O tratamento precisa ser executado em abstinência; fazendo referência ao físico ou sentimental ou a tudo que se deseja, talvez nenhum paciente suportasse (um analista frio/rígido). A necessidade e o anseio devem ser mantidos no paciente como força motivadora do trabalho e da mudança e devemos evitar o abrandamento desses sentimentos por substitutos. Se a paciente atinge o objetivo, estaria colocando algo em movi- mento, repetir, reproduzir como material psíquico e manteria no âmbito psíquico, ela atingiria seu objetivo, a análise não. Aqui a transferência está a serviço da resistência se opondo ao trabalho analítico. Mantemos a transferência amorosa, a tratamos como algo irreal, como algo que deva ser enfrentado no tratamento e reconduzida a suas origens ics e que deve ajudar a levar a consciência da paciente os senti- mentos ocultos de sua vida amorosa e, com isso, a dominá-los. Quanto mais dermos a impressão de estarmos nós mesmos (analistas) imunes a toda tentação. (FREUD, 1915) pág. 174 35 Ao analista se exige abstinência. O que Freud convida o analista a abstinência, mantendo uma não satisfação do paciente fora dele, impondo assim uma abstinência de reali- zação ao paciente que só encontra a satisfação libidinal através da expres- são verbal. A abstinência ao lado da transferência e da atenção flutuante se torna uma condição necessária para a associação livre, imprescindíveis para o trabalho. A abstinência mantém o analista numa estranha forma de impessoalidade na presença pessoal (CELES, 2008). A estranheza da forma se dá pela relação estabelecida entre a dupla que a diferencia de qualquer outra na sua forma e proposta, é na escuta que o analista se dife- rencia de uma conversa, é longe de suas expectativas e desejos seus sobre si e sobre o outro, abster-se, nela que se apoia a atenção flutuante, ouvir atentamente sem expectativas de achar algo, julgar ou ter algo para falar. A sugestão em parecer imune aos conteúdos hostis do paciente não o torna imune, dentre os textos dedicados aos que trabalham com o método psicanalítico podemos destacar “recomendações ao médico para o tratamento psicanalítico” que é uma prescrição sobre a técnica. Nela Freud fala sobre condições para a transferência acontecer e dentre elas fala que o analista deve ser opaco ao analisando, e, tal como um espelho, não mostra senão o que lhe é mostrado, e coloca que qualquer coisa fora disso não é psicanálise (exemplifica com a sugestão hipnótica), aqui res- salto que o uso de técnicas (híbridas) de diferentes áreas da psicologia com a psicanálise, não é psicanálise verdadeira, essa é uma afirmação de Freud que ainda podemos usar. Sobre a contratransferência: É um conjunto das reações inconscientes do analista à pessoa do analisando mais particularmente à transferência deste. Uma reação a transferência (Laplanche, 1988 pag 146/7) São raras as passagens dedicadas por Freud à contratransferên- cia, mas veio chamando. Existem variações sobre a contratransferência e Laplanche destaca: Do ponto de vista técnico, podemos esquematicamente distinguir três orientações: 36 a. Reduzir o máximo possível as manifestações contratransferên- cias pela análise pessoal, de modo a que a situação analítica seja estrutu- rada, por assim dizer, como uma superfície projetiva do paciente; b. Utilizar, controlando-as, as manifestações de contratransferên- cia no trabalho analítico, na sequência da indicação de Freud segundo a qual “... todos possuem no seu próprio inconsciente um instrumento com o que podem interpretar as expressões do inconsciente dos outros” c. Guiar-se, mesmo para a interpretação, pelas suas próprias rea- ções contratransferências, muitas vezes assimiladas, nesta perspectiva, às emoções sentidas. Essa atitude postula que a ressonância “de inconsciente a inconsciente” constitui a única comunicação autêntica psicanalítica. O processo terapêutico reaviva afetos diversos, aqui o enamora- mento foi colocado como plano de fundo para pensarmos sobre a relação entre analista e analisando, aqui foi sobre amor romântico, mas indepen- dentemente de quais sejam os afetos despertos e presentes eles precisam da atenção do analista e a forma que os afetos mobilizam a dupla e a sua dinâmica, o analista está em contato com esses afetos e o que lhe for des- pertado precisa de atenção também, dada alguma dificuldade no manejo da transferência, sua análise pessoal e a supervisão são as ferramentas do analista. Pontos importantes: - Transferência positiva - Transferência a serviço da resistência - Manejo da transferência - Abstinência - Contratransferência Leitura recomendada: CELES, L. A. M. Crise terapêutica da psicanálise e presença do analis- ta. Revista Percurso, v. 21, n. 41, p. 47-54, 2008 Textos base: CELES, L. A. M. Crise terapêutica da psicanálise e presença do analis- ta. RevistaPercurso, v. 21, n. 41, p. 47-54, 2008. FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor transferencial (1915) Fun- damentos da clínica psicanalítica. Autêntica, 2017. 37 FREUD, Sigmund. Escritos Sobre a Psicologia do Inconsciente, vol. 3. Imago Editora, 2017. FREUD, Sigmund. O Eu e o Id, Autobiografia e outros textos: 1923- 1925. In: O Eu e o Id, Autobiografia e outros textos: 1923-1925. 2011. ______________. Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (PC de Souza, trad. e notas, pp. 13-50). São Paulo: Compa- nhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1914), 2010. ______________. Projeto para uma psicologia científica. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 1, p. 29- 397, 1895. ______________. Três ensaios sobre A teoria da sexualidade, análise frag- mentária de uma histeria (“O caso Dora”) e outros textos: 1901-1905. São Paulo Companhia das Letras, 2016. ______________. Fundamentos da clínica psicanalítica. Autêntica, 2017. PONTALIS, Jean-Baptiste; LAPLANCHE, Jean. Vocabulário da psicaná- lise. São Paulo: Martins Fontes, 2001. ZIMERMAN, David E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Técnica, Clí- nica–Uma Abordagem Didática: Teoria, Técnica, Clínica–Uma Aborda- gem Didática. Artmed Editora, 2009. 38 MÓDULO II Ementa: Conhecer a construção e funcionamento do aparelho psíquico. Os conceitos de topografia e economia, primordiais para o funcionamento do aparelho psíquico, que auxiliam na compreensão da aplicabilidade das técnicas fundamentais da clínica psicanalítica. Entendimento e do- mínio do conceito de Repressão, pedra angular da clínica psicanalítica, que inaugura o Inconsciente e norteia o fazer do psicanalista a partir da teoria. Objetivo: - Conhecimento do funcionamento do aparelho psíquico - Compreender a fundação, funcionamento e função do Inconsciente - Conhecimento sobre o funcionamento das resistências na clínica, teoria e prática - As estruturas na clínica O aluno terá domínio sobre o surgimento e funcionamento do apa- relho psíquico e como esse conhecimento auxilia na clínica psicanalítica e no manejo das demandas, identificando e exercendo sua função como analista de forma efetiva. 39 Aula 9 Três Ensaios Sobre a Sexualidade Freud (1905/2016) em Três ensaios sobre a teoria da Sexualidade apre- senta à comunidade científica da época que o desenvolvimento psicos- sexual durante a infância seria a base para a compreensão do processo de construção da psique e o caminho para os estudos do adoecimento psíquico. Os Três ensaios sobre a sexualidade (1905) juntamente com a in- terpretação dos sonhos é um dos trabalhos mais significativos e um dos que mais sofreu alterações, durante foram diversas alterações acrescenta- das por Freud sendo a última em 1920. Durante as observações clínicas, Freud destacava conteúdos sexuais nos sintomas histérico e que eles re- montavam a infância. Os temas trazidos por Freud em seus ensaios eram desafiadores para a sociedade tradicional da época, falar da sexualidade na infância e como algo estruturante psiquicamente não foi facilmente aceito. Aqui traremos um breve resumo destacando pontos importantes para nossa jornada na clínica psicanalítica, este texto é estruturante da teoria e sua leitura integral é essencial. Três ensaios sobre a sexualidade O trabalho inicia com o tema As aberrações sexuais, mas já ante- cipo que suas conclusões sobre as aberrações são normalizadas enquanto expressões da sexualidade, e destaca a bissexualidade humana como algo intrínseco. Houve uma perversão sobre o saber existente sobre sexualida- de, principalmente sobre as chamadas aberrações sexuais, e que não há aberrações e que a perversão da sexualidade humana é que ela toma uma dimensão deferente da sexualidade animal que é regida pela reprodução. A sexualidade humana é regida pelo princípio do prazer Sempre importante relembrarmos a necessidade de contextuali- zar historicamente o momento em que o texto foi escrito e as influencias socioculturais e religiosas do período. Ainda que as construções de Freud estivessem destoando dos valores da época, ainda sim é atravessado por elas. Os três ensaios sobre a sexualidade é um trabalho extenso repleto de conceitos importantes que são desenvolvidos ao longo da teoria, den- tre eles destacaremos: 40 Teoria da libido Freud é levado a conceber um aparato psíquico, de contenção, de transformação de algo que lhe chega a partir da exterioridade (exteriori- dade do aparato, bem entendido). Esse aparato pode ser pensado, em seu funcionamento analogamente a uma usina hidrelétrica, isto é, a um gran- de aparato que captura armazena e transforma água de um rio gerando eletricidade. (um esboço de um funcionamento econômico) A libido é concebida por ele como energia psíquica, como expres- são anímica da pulsão sexual, ou ainda como uma força suscetível de va- riações quantitativas que poderia servir de medida para os processos e as transformações no domínio da excitação sexual. Pulsão: Por “pulsão” podemos entender, a princípio, apenas o re- presentante psíquico de uma fonte endossomática de estimulação que flui continuamente, para diferenciá-la do “estímulo”, que é produzido por excitações isoladas vindas de fora. Pulsão, portanto, é um dos conceitos da delimitação entre o anímico e o físico (FREUD, 1905. pág. 104). A pulsão é uma exigência de trabalho feita à vida anímica. O que distingue as pulsões entre si e as dota de propriedades específicas é sua relação com suas fontes somáticas e seus alvos. A fonte da pulsão é um processo excitatório num órgão, e seu alvo imediato consiste na supressão desse estímulo orgânico. Pulsão sexual e libido As duas formas são tidas como sinônimos e encontradas de forma alternada, em latim libido tem aproximação com “vontade” e “desejo”. Freud atribui a libido como quantitativa e qualitativa, referindo-se a um quantum de libido, algo concebido como uma força ou uma energia capaz de aumento ou diminuição e cuja distribuição ou deslocamento tornam possível a explicação da sexualidade humana. Mas também ocupa um li- gar qualitativo responsável pela distinção entre libido e outra energia que possa servir de suporte aos processos psíquicos em geral. O que está mar- cando é o lugar não sexual, que primeiro vai ser ocupado pelas chamadas pulsões de autoconservação e mais tarde pulsão de morte. O movimento da libido é repetir a experiência de satisfação, a bus- ca de um encontro da primeira satisfação é na verdade um reencontro (com o seio materno). Um reencontro impossível. 41 Objeto sexual Objeto ao qual se destina libido, esse objeto difere do objeto deseja- do o da primeira satisfação que é impossível, um objeto perdido Melanie Klein desenvolve a teoria entorno do objeto seio -mãe e Lacan desenvolve o conceito de objeto a um objeto vazio central na trama das representa- ções, tem similaridades aos conceitos de ding que encontramos no projeto 1895. Bissexualidade: a constituição humana estruturalmente como bis- sexual desde o seu início. A Sexualidade infantil É um conceito explicativo designando a natureza da sexualidade humana, sempre parcial, não plena e marcada pela incompletude. O funcionamento infantil não acontece de forma estruturada, o bebê é toda pulsão (desejo, satisfação, sexual). Não é organizado sexual- mente como um adulto, onde tem no ato sexual sua meta de satisfação (que é incompleta), as necessidades infantis de satisfação acontecem de outra forma, não estruturada enquanto funcionamento. São atos e partes do corpo que através de seu desenvolvimento vão se atribuindo satisfa- ções. Não há uma diferenciação entre o bebê e a mãe, e sua compreen- são enquanto dentro e fora, eu e o outro e as suas necessidades biológicas e libidinais acontecem de forma associada. Freud aponta o sugar (chuchar na imago) como uma das primeiras exteriorizações da sexualidade infantil. A sucção com a boca, repetindo ritmicamente, que não tem porfinalidade a nutrição. Nele o que está pre- sente é o prazer do sugar e não a satisfação de uma necessidade, embora ocasionalmente possam estar associadas. Na sexualidade infantil temos como características o Apoio, zona erógena e autoerotismo, na emergência da pulsão, surge quase como per- versão do instinto, perverter o instinto é ter como finalidade a satisfa- ção e não a necessidade orgânica (fome, reprodução, sede). Esta prática acontece associada a uma parte do próprio corpo (dedo), que a tornaria independente de um objeto externo (seio materno) – esses dois conceitos levam Freud a postular aquele que por ser o conceito considerado mais importante dos três ensaios o Autoerotismo. 42 O Autoerotismo é um conceito essencial para a estruturação do aparelho psíquico que segue a partir do autoerotismo, que é uma etapa na constituição psíquica, nela ainda não existe uma organização do Eu enquanto instância, mas a partir dela começa a organização para o surgi- mento do Eu a partir do Narcisismo, no autoerotismo não há organização de unidade, mas sim um amontoado de si. A partir do narcisismo começa a acontecer uma organização da unidade que mais a frente será denomi- nada de eu. Introdução ao Narcisismo O narcisismo é o Surgimento do eu e a organização do funciona- mento psíquico sendo dividido em dois momentos Narcisismo primário coincide com o autoerotismo, no autoero- tismo não há uma unidade organizada, o narcisismo primário acontece através do olhar do outro-mãe, uma imagem unificada sobre o próprio corpo através do olhar do outro, esse é o narcisismo dos pais que atri- buem ao filho todas as perfeições o que incide no próprio corpo, a criança tem seus investimentos voltados para fora, seus cuidadores, pai, mãe. Narcisismo secundário é o retorno dos investimentos sobre o pró- prio corpo, a libido investida nos objetos externos volta como investimen- to no próprio eu, tendo o eu como objeto de investimento Pode haver uma concomitância das formas de investimentos com a predominância de uma delas. Modos de funcionamento de investimento do eu Neurose: Há uma retração da libido em favor do eu, mas sem que o indivíduo elimine totalmente o vínculo erótico com pessoas e coisas, esse vínculo é conservado fantasia, substituindo objetos reais por imaginários. Psicose: A retração de libido não se faz por substituição de objetos reais por objetos imaginários, a retirada acontece das pessoas e coisas sem o recurso da fantasia, ocorre um corte da relação com o objeto e uma acumulação da libido no eu. O vínculo erótico com os objetos do mundo é eliminado sem que no seu lugar surjam objetos imaginários. Freud de- signa esse narcisismo, característico da psicose, como narcisismo secundá- rio, um narcisismo que se edifica sobre as bases do narcisismo primário infantil. 43 Hipocondria: Retira a libido dos objetos do mundo externo e in- veste em uma parte do próprio corpo. A parte afetada passa a funcionar como zona erógena, podendo ser estendida por todo o corpo, assim qual- quer parte ou órgão pode funcionar como zona erógena, no caso da hipo- condria, uma zona erógena particularmente sensível e isso independente da doença ser real ou imaginária. Pontos importantes: - A Sexualidade infantil - Autoerotismo - Conceito de pulsão, Pulsão sexual e libido - Teoria da libido - Narcisismo Sugestão de leitura: SALLES, Ana Cristina Teixeira da Costa; CECCARELLI, Paulo Roberto. A invenção da sexualidade. Reverso, v. 32, n. 60, p. 15-24, 2010. Textos base: FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a sexualidade (1905). Edição Stan- dart Brasileira de Obras Completas de Sigmund Freud, v. 7, 1996. GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Introdução à metapsicologia freudiana (Vol. 3. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1991. 44 Aula 10 Complexo de Édipo Da mitologia grega para o divã, Freud empresta de Sófocles a tra- gédia Édipo Rei para contar sobre a realização de nossos próprios desejos infantis. Inspirado na lenda do rei Édipo, Freud encontra uma confirmação “cujo poder profundo e universal de comover só pode ser compreendido se a hipótese que propus com respeito à psicologia infantil tiver validade igualmente universal” (FREUD, 1900 p. 178). Freud tomou como refe- rência a narrativa do dramaturgo Sófocles, que por volta de 427 A.C, se baseou no mito grego para escrever a famosa tragédia Édipo Rei. Édipo, filho de Laio, Rei de Tebas, e de Jocasta, foi enjeitado quan- do criança porque um oráculo advertira Laio de que a criança ainda por nascer seria o assassino de seu pai. A criança foi salva e cresceu como príncipe numa corte estrangeira, até que, em dúvida quanto a sua origem, também ele interrogou o oráculo e foi alertado para evitar sua cidade, já que estava predestinado a assas- sinar seu pai e receber sua mãe em casamento. Na estrada que o levava para longe do local que ele acreditara ser seu lar, encontrou-se com o Rei Laio e o matou numa súbita rixa. Em seguida dirigiu-se a Tebas e decifrou o enigma apresentado pela Esfinge que lhe barrava o caminho. Por gratidão, os tebanos fizeram-no rei e lhe deram a mão de Jocasta em casamento. Ele reinou por muito tempo com paz e honra, e aquela que, sem que ele o soubesse, era sua mãe, deu-lhe dois filhos e duas filhas. Por fim, então, irrompeu uma peste e os tebanos mais uma vez consultaram o oráculo. É nesse ponto que se inicia a tragédia de Sófocles. Os mensagei- ros trazem de volta a resposta de que a peste cessará quando o assassino de Laio tiver sido expulso do país.(FREUD,1900 p. 178) O decorrer da tragédia é o processo de revelação. Freud compara os criativos adiamentos da peça ao processo psicanalítico, onde Édipo é o assassino de Laio, mas também é filho deste homem assassinado e de Jocasta. Diante da profecia cumprida, Édipo cega a si próprio e abandona o lar. Através da história do Rei Édipo, Freud (1900) nos mostra a rea- lização de nossos próprios desejos infantis e que o destino daquele per- sonagem nos comove porque poderia ter sido o nosso, teríamos nascido sob a mesma maldição que caiu sobre ele. Seria este nosso destino: dirigir nossos primeiros impulsos sexuais a nossa mãe e o nosso primeiro ódio assassino ao nosso pai. 45 A análise de conteúdos de sonhos levou Freud a esta compreensão sobre os desejos primevos da infância, que se manifestam através do que é chamada de nossa alma secreta, a qual podemos compreender como uma referência ao inconsciente através de manifestações oníricas pois, embora esses desejos estejam reprimidos, ainda podem ser encontrados. Da relação proposta entre a psicanálise e o mito descrito por Sófo- cles, emerge o Complexo de Édipo, que nos possibilita observar suas fases e suas repercussões na construção da subjetividade contemporânea. Édipo e psicanálise Ao tentar trazer a tona características do mito edipiano descrito pelos poetas, como a escolha de objeto, em comparação com a vivência sexual infantil, Freud apresenta indícios do que posteriormente viria a ser descrito como o Complexo de Édipo. O centro desta alegoria se apoia no desejo da criança pela mãe e o ódio ao pai como um rival que põe obstáculos ao seu desejo. Considera uma infidelidade o fato da mãe conceder ao pai e não a ele. Freud (1910) relata que a escolha de objeto de amor no homem está sempre relacionada a um terceiro que será prejudicado, seja quan- do a mulher já possui um marido, ou tem má fama, ou uma integridade sexual duvidosa, tal como ocorre com a mãe. Desta forma, busca salvar o objeto amado. No caso da vivência da triangulação, o salvar a mãe apare- ce como lhe dar um filho que é igual a ele, ou seja, vem através de tornar- -se o pai, ou ser seu próprio pai. O Édipo incide em uma crise sexual de desenvolvimento obser- vável no comportamento das crianças e uma fantasia inscrita no incons- ciente-ID. É o pilar do arcabouço teórico que a Psicanálise construiu para refletirmos quem somos, o adulto que nos tornamos hoje. É o mito contemporâneo que nos desponta queo proibido universal do incesto nos aflige com sofrimentos, angústias, desejos que vieram da infância até as vivências de hoje, na fase adulta. Para NASIO (2007), são essas aflições da neurose que o analisando traz como queixa, ou seja, o Édipo é tudo isso ao mesmo tempo: uma re- alidade, uma fantasia, um conceito e um mito. 46 “É a fantasia infantil agindo no inconsciente do paciente, duplicada pela mesma fantasia, reconstruída, dessa vez, pelo profissional. Assim, só consigo compreender o sofrimento que escuto em meus pacientes adul- tos ao supor-lhes desejos, ficções e angústias vividas na idade edipiana” (NASIO, 2007, p. 14). Édipo masculino A princípio Freud compreende que a vivência do Édipo ocorre- ria de maneira similar para ambos os sexos, não haveria diferenciação. O amor ao genitor do sexo oposto e a rivalidade com o do mesmo sexo representaria um paralelismo na vivência edípica masculina e feminina. Na relação entre o menino e a sua mãe, que seria seu primeiro objeto de amor, Freud descreve que haveria uma intensificação dos im- pulsos amorosos do filho em relação a ela. Ele, ao compreender a relação que existe entre os pais, torna o pai seu rival, uma vez que este estaria ameaçando sua relação com a mãe. Neste triângulo o pai representa uma ameaça ao desejo incestuoso pela mãe, o risco da castração vem como um castigo a este desejo, e a ameaça se torna possível ao descobrir que as mulheres que não possuem pênis. A resolução do Édipo no menino ocor- re com o abandono do objeto de amor por medo da castração, havendo dessexualização da mãe e identificação do pai como modelo de masculi- nidade. Esse processo origina a internalizarão da lei como a proibição aos desejos incestuosos, dando início a construção do Super-Eu. Édipo Feminino Antes do complexo de Édipo se iniciar na menina, a mesma vi- vencia um período em que nutre um desejo incestuoso de possuir a mãe, ao qual Freud denomina de pré-édipo. Nesta etapa a menina tem a mãe como objeto amoroso. Quando se vê desprovida do pênis, e descobre que sua mãe se encontra na mesma posição, a menina se decepciona, atribuin- do à mãe ódio por sua incompletude e desprovimento de poder, voltan- do-se para o pai, detentor do falo e que poderá restituí-la, tornando-a completa (FREUD, 1931). É neste momento que o Édipo propriamente dito se inicia, dividin- do-se em três fases. A primeira fase é a fantasia da dor da privação, pois o apêndice visível do menino mostra para ela que sua onipotência vaginal e clitoridiana se torna nula frente ao órgão visível do menino. Agora o falo está no outro. Na segunda fase a menina se volta para o pai, o grande detentor do falo e solicita a ele que lhe dê o falo, mas ele se recusa a dar e a menina constata que nunca o terá. Neste momento a inveja transfor- 47 ma-se em desejo, pois não busca mais possuir o falo e sim ocupar o seu lugar para o pai. A partir deste momento a menina se identifica com a mãe enquanto mulher desejada e modelo de feminilidade. A última fase é caracterizada pela resolução do Édipo. Após a recusa do pai, a menina o dessexualiza. Esta passa a ter na figura do pai seu exemplo e torna-se mulher, parte em busca do seu parceiro. Ela deixa a idealização do falo, e descobre a vagina e o útero e passa a desejar um filho do amado (NASIO, 2007). Textos base: CECCARELLI, P. R. A patologização da normalidade. Estudos de Psica- nálise, n.33, p.125-136, 2010. FREUD, S. Um tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem (1910). In: Obras completas, vol. 9.: Observações sobre um caso de neurose ob- sessiva [“O homem dos ratos”], uma recordação da infância de Leonardo da Vinci e outros textos (1909-1910)/ Freud, S. Tradução de Paulo César de Souza. 1° ed. São Paulo. Companhia das Letras. 2013, p. 334-346. FREUD, S. Sobre o início do tratamento (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). Obras completas, v. XII. Imago. 1913, p. 139- 158, . FREUD, S. Luto e Melancolia (1917[1915]). In: Introdução ao narcisis- mo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916) – Obras com- pletas, vol.12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo. Companhia das Letras. 2010, p. 170-194. FREUD, S. A identificação (1921). In: Psicologia das massas e análise do Eu e outros textos (1920-1923). Obras completas, vol. 15. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo. Companhia das Letras. 2011, p. 60-68. FREUD, S. O Eu e o Id (1923). In: O Eu e o Id, “autobiografia” e outros textos (1923-1925)– Obras completas, vol. 16. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo. Companhia das Letras. 2011, p. 13-74. FREUD, S. A interpretação dos sonhos; Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 4, 5;. Rio de Janei- ro, RJ: Imago, 1996. FREUD, S. Sexualidade feminina. Obras completas, vol.12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo. Companhia das Letras. 2010 48 Aula 11 Édipo e Neurose O sofrimento gerado pela tragédia que denominamos complexo de Édipo anuncia os caminhos que levam à neurose, a primeira neurose saudável na vida de um sujeito. Édipo na contemporaneidade e sua relação com a Neurose Ceccarelli (2010) afirma que só é possível avaliar o Complexo de Édipo dentro do momento sócio-histórico e da organização simbólica dos afetos que é vivenciada pelo sujeito, ainda que se trate de uma vivência universal e atemporal para o ser humano, delimitado pela singularida- de das normas e sanções sociais advindas deste conjunto. Desta forma, o padecimento psíquico apresenta marcas da sociedade e de seu momento sócio-histórico. A neurose é um sofrimento psíquico acirrado pela convivência de emoções conflitantes de amor, ódio, medo e desejos incestuosos para a pessoa que se ama e que também depende. Ou seja, o Édipo é a própria neurose, sendo a primeira neurose saudável na vida de um sujeito, a segunda vivida como crise na adolescência como uma atualização do Édi- po. Tudo habita na discrepância entre um eu infantil em constituição e um efeito, afluência do desejo transbordante. O empenho do Eu para dominar e assimilar o arrebatamento do desejo traduz-se na criança por sentimentos, palavras e comportamentos conflitante em relação aos seus pais (NASIO, 2007). A relação estabelecida com os pais, ainda que ambivalente ser- virá como base para a personalidade do sujeito na fase adulta, atuando como um protótipo das relações amorosas a serem estabelecidas ao lon- go da vida. Assim descrevemos que os conflitos mais habituais e inevitáveis com quem nos cerca são aproximadamente reflexos de nossa neurose infantil conhecida como complexo de Édipo. Conflito esse que vêm daqueles que amamos e desejamos de forma incestuosa. A nossa neurose atual é instiga- da pela incoerência de alcançar ou impedir nossos impulsos incestuosos durante o período edipiano perpetuando como traumas. Nasio (2007) destaca que esses traumas infantis serão a causa de uma neurose mórbida que se abriga na adolescência e prossegue na ida- de adulta. Em resumo, se apresentam em duas grandes possibilidades do retorno neurótico do Édipo na idade adulta: a neurose ordinária e a neurose mórbida. 49 A neurose ordinária incide no conflito que vêm daquelas que ama- mos, e continuamos desejando-os. Essa neurose cotidiana é ajustada com uma vida socialmente aberta e criativa, resulta na dessexualização dos pais edipianos. Outro tipo de distúrbio neurótico é a neurose mórbida e patológi- ca, marcadas por manifestações de sintomas cíclicos que restringe o sujei- to em uma solidão narcísica e doentia. Esse sofrimento seja fóbico, obses- sivo ou histérico, advém de traumas na fase edipiana ou fantasias, como um abandono real ou imaginário, que aborrece e angústia a criança. O Édipo que falamos é uma lenda-mito que esclarece a raiz de nos- sa identidade sexual de homem e mulher e, além disso, a raiz de nossos sofrimentos neuróticos. Essa lenda-mito abarca todas as crianças, convi- vam em uma família clássica, monoparental, refeitaou, ainda, desenvol- vem no seio de um casal homossexual, ou ainda, sejam crianças aban- donadas, órfãos e adotadas pela sociedade. Nenhuma criança escapa ao Édipo! Por quê? Porque nenhuma criança de quatro anos, menina ou menino, escapa à corrente das pulsões eróticas que lhe ocorrem e porque nenhum adulto de seu meio adjacente pode impedir ser o escopo de suas pulsões ou tentar dificultá-las. (Nasio, 2007). A simbolização para o trabalho em psicoterapia não é racional e nem intelectual e sim de uma grande entrega dos sentimentos, dos con- flitos internos do paciente, de simplesmente falar, de dizer, de deixar-se dizer, de colocar para fora suas vivências. Esta demonstração é individual e promove vários significados e abrir caminhos para o sentido. Podemos pensar sobre os conflitos vivenciados na fase edipiana e a sua simbolização que emergem durante a relação psicoterápica e nela o discurso do pacien- te se desenvolve. Contudo, em alguns momentos, devido a diferentes demandas do analisando, o paciente pode resistir, não desenvolvendo seu discurso. Ainda assim, no contexto Setting se apresentam diversas situações que re- querem que o analista deixe o paciente falar independentemente de onde iniciará, como: história de vida, história de sua doença ou lembranças de infâncias (FREUD, 1913). 50 Textos bases: CECCARELLI, P. R. A patologização da normalidade. Estudos de Psica- nálise, n.33, p.125-136, 2010. FREUD, S. Um tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem (1910). In: Obras completas, vol. 9.: Observações sobre um caso de neurose ob- sessiva [“O homem dos ratos”], uma recordação da infância de Leonardo da Vinci e outros textos (1909-1910)/ Freud, S. Tradução de Paulo César de Souza. 1° ed. São Paulo. Companhia das Letras. 2013, p. 334-346. FREUD, S. Sobre o início do tratamento (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). Obras completas, v. XII. Imago. 1913, p. 139- 158, . FREUD, S. Luto e Melancolia (1917[1915]). In: Introdução ao narcisis- mo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916) – Obras com- pletas, vol.12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo. Companhia das Letras. 2010, p. 170-194. FREUD, S. A identificação (1921). In: Psicologia das massas e análise do Eu e outros textos (1920-1923). Obras completas, vol. 15. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo. Companhia das Letras. 2011, p. 60-68. FREUD, S. O Eu e o Id (1923). In: O Eu e o Id, “autobiografia” e outros textos (1923-1925)– Obras completas, vol. 16. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo. Companhia das Letras. 2011, p. 13-74. FREUD, S. A interpretação dos sonhos; Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 4, 5;. Rio de Janei- ro, RJ: Imago, 1996. FREUD, S. Sexualidade feminina. Obras completas, vol.12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo. Companhia das Letras. 2010 51 Aula 12 O Ics O inconsciente é o que está ausente no campo da consciência e que pode ser sentido pela sua falta, falta que Freud identificou durante suas experiências na clínica nos esquecimentos de seus pacientes. O Inconsciente - A Ferida Narcísica da Humanidade Durante toda a obra freudiana é constantemente encontrada a formulação e retomada de teorias acerca das formas de expressões do inconsciente. Ao se deparar com conteúdos que estavam fora da consci- ência, e assim fora do acesso do analisando, estas teorias buscavam formas de identificá-los para além do método hipnótico. Para Freud era possível identificar na fala dos pacientes estes conteúdos na forma de atos falhos, equívocos de memória e linguagem, e esquecimentos, ligando-os a atua- ção de fortes pensamentos inconsciente. O sonho, também como um processo psíquico, foi estudado mais a fundo se tornando uma das principais colunas da obra freudiana, che- gando à fórmula geral: “O sonho é a realização disfarçada de um desejo reprimido” (Freud, 1913). O estudo da interpretação dos sonhos presta uma valiosa ajuda na técnica psicanalítica, construindo um método para penetrar na vida psíquica inconsciente. A investigação iniciada por Freud através da subjetividade huma- na e a busca em compreender seu adoecimento nos leva a deparar com a complexidade que empregou esforços a desvendar. Ao encontrar obs- táculos e mecanismos de defesa, descobre a capacidade dos conteúdos se deslocarem, converteram e se transformarem. Ao tempo em que vai dan- do espaço para a fala, vai abrindo um caminho rumo ao desconhecido. Um acesso ao desconhecido O método psicanalítico de investigação buscava formas de acesso aos indícios de conteúdo que estariam presentes na psique, mas não de forma consciente. A tese da existência destes conteúdos tornou-se mais forte durante os diversos estudos de pacientes em estado hipnótico, para Freud, “uma ideia inconsciente é uma ideia que não notamos, cuja exis- tência estamos dispostos a aceitar, com base em indícios e provas” (Freud, 1912). Em busca da causa dos sintomas que acometem os pacientes Freud se depara com o desconhecido, uma nova possibilidade a ser explorada: a existência de conteúdos inconscientes que estariam ativos agindo no 52 surgimento destes sintomas. As evidências encontradas deram um novo e amplo sentido ao sofrimento humano. Ao introduzir a noção de inconsciente, Freud coloca o que é dito pelo paciente em um espectro mais amplo, para além da palavra enuncia- da conscientemente. O inconsciente busca ser escutado, ter seus desejos satisfeitos, comunicando-se por meio de complexas formações: sonhos, sintomas, lapsos, chistes, atos-falhos; fenômenos que apontam para esse “desconhecido” que habita o sujeito (Macedo & Falcão, 2005). Na busca de tratá-las, com diversas tentativas desde o uso da hip- nose até chegar à associação livre, o acesso ao inconsciente e a possibilida- de de escutá-lo. O que está em foco não é mais um sujeito sob hipnose, mas a fala consciente com suas lacunas a serem escutadas, dando lugar à narrati- va do sujeito e da sua história, contextualizando e inserindo um cenário para sua dor, solicitando que a sua história seja levada em conta. O trabalho do analista (arqueólogo) é reconstruir a história a partir de fragmentos encontrados no discurso. Reconstruir e dar sentido. Freud compara o trabalho do analista ao arqueólogo que utiliza de fragmentos para cuidadosamente remontar e a apresentar a história ao analisando e juntos a construção em análise é feita. Segundo Garcia-Roza (1984), a psicanálise não coloca em cheque o sujeito da verdade, mas verdade do sujeito. Pergunta o porquê da recusa dos desejos rejeitados pela sua consciência através dos fenômenos de de- fesa, as formas que o ego encontra de se proteger de uma representação desagradável. Ainda este autor afirma que, ao se fazer uso da psicanálise sem a hipnose o analista encontra resistência ao trabalho de análise que ante- riormente estava oculta. Ao tentar entrar em contato com conteúdo que teriam causado os sintomas, os pacientes esbarravam com uma resistên- cia, ideias de natureza aflitiva, capazes de despertar emoções de vergo- nha, autocensura e de dor psíquica. Compreender que o que cabe ao analista é ouvir o sujeito, sua história e o que nela é dor; e ainda, que quando livres de classificações ou rótulos, os lapsos, sonhos, repetições e sintomas, revelam-se enfim, formas de subjetividade que abrem espaços de singularidade. Conside- rar a psique como um sistema que possui uma organização determinada, mas que pode transformar-se e adquirir novas propriedades, como o faz 53 produzindo e reproduzindo continuamente a história do sujeito, implica colocar a escuta em um campo intersubjetivo, ou seja, no campo da trans- ferência. “Desde a primeira sessão a história oficial é confrontada com aquela que o analista ajuda a construir, analisando as formações de compromisso. os testemunhos do passado são os sintomas, as transferências, as repetições, as formações de caráter, os sonhos e também as recordações”(HORNS- TEIN, 2003 apud MACEDO & FALCÃO, 2005). Cabe ao analista escutar o sujeito em sua totalidade e, a partir do que é apreendido, aplicar as técnicas que cabem no momento, pois a teo- ria psicanalítica não pode ocupar o lugar da história de vida do paciente. Ainda assim, justifica-se a importância dos suportes teóricos que susten- tam a práxis do analista. (Macedo & Falcão, 2005). Embora analista e analisando compartilhem deste processo, não existe uma relação de igualdade entre eles. Essa assimetria necessária ad- vém da capacidade de escuta do analista: A escuta que mantém a transfe- rência, mas não se confunde com ela, e não cede à solicitação do paciente, impedindo uma satisfação substituta do desejo, o que abre possibilidade para sua ressignificação. Textos base: FREUD, Sigmund. Princípios básicos da psicanálise. Observações psica- nalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“ O Caso Schreber”), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. FREUD, Sigmund. Algumas observações sobre o conceito de inconscien- te na psicanálise. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“ O Caso Schreber”), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Jorge Zahar Editor Ltda, 1984. LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psica- nálise. Martins Fontes Editora Ltda, 1970. MEDEIROS KOTHER MACEDO, Mônica; NEUMANN DE BARROS FALCÃO, Carolina. A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta. Psy- chê, v. 9, n. 15, 2005. 54 Aula 13 Primeira Tópica Freudiana A primeira estrutura do aparelho psíquico elaborada por Freud para explicar seu funcionamento. Primeira tópica A primeira tópica é a topologia do aparelho psíquico, para uma demonstração do funcionamento da psiquê. O autor identificou três ins- tâncias do aparelho psíquico para explicar seu funcionamento: o Pré- -Consciente, Consciente e Inconsciente. A primeira tópica é apresentada no capítulo VII da Interpretação dos sonhos, aqui usaremos os comentários de Garcia-Roza além do traba- lho de Freud. Essa declaração de fé numa explicação “psicológica” dos fenôme- nos psíquicos exclui qualquer possibilidade de vermos os “lugares” a que se refere Freud, como sendo lugares anatômicos, físicos ou neurológicos. Podemos concordar com a suposição de que essa teoria dos luga- res psíquicos foi sugerida pelo contexto científico da época, que tentava, a todo custo, encontrar lugares anatômicos para os distúrbios mentais e para os fenômenos psíquicos normais. A doutrina das localizações cere- brais, assim como os estudos sobre a afasia, são exemplos proeminentes desse tipo de postura teórica. No entanto, a tópica freudiana escapa a esse tipo de empreendimento, já que os lugares de que ela trata não são lu- gares físicos, não podem ser localizados anatomicamente e não possuem nenhuma realidade ontológica. Podemos mesmo dizer que a tópica freu- diana importa menos pelos lugares que ela estabelece do que pela direção do funcionamento do aparelho (GARCIA-ROZA, 1987). A importância maior do caráter orientado do funcionamento do aparelho psíquico pode ser avaliada pela afirmação de Freud de que “não há necessidade de hipótese de que os sistemas psíquicos se- jam realmente dispostos numa ordem espacial. Seria suficiente que fosse estabelecida uma ordem fixa pelo fato de, num determinado processo psíquico, a excitação passar através dos sistemas numa sequência tempo- ral especial. (op. cit., p. 573)” Metapsicologia - descreve um processo psíquico em suas relações - topológica, dinâmica, econômica e a gênese (histórico do desejo). 55 Texto base: FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago; 1987. GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Zahar, 1987. 56 Aula 14 Segunda Tópica Freudiana A segunda estrutura do aparelho psíquico elaborada por Freud como uma complementação da primeira, que abrangeria suas novas des- cobertas sobre o funcionamento psíquico Segunda Tópica Escrito por Freud em 1923, o texto retoma os pensamentos que o autor iniciou anteriormente em seu trabalho Além do Princípio do Pra- zer, de 1920. Retoma concepções acerca da definição de Consciente e In- consciente como premissa básica da psicanálise. A partir da elaboração do conceito de Inconsciente, originado da teoria da repressão, Freud busca compreender a dinâmica psíquica, pois para ele, o reprimido seria o pro- tótipo do Inconsciente. O autor identificou três instancias do aparelho psíquico para ex- plicar seu funcionamento: o Pré-Consciente, Consciente e Inconsciente. No decorrer do trabalho Freud verifica que essas diferenciações são insu- ficientes na prática e passa a formar a idéia de uma organização coerente dos processos psíquicos na pessoa e a denomina de Eu, que estaria ligado à consciência, dominando o acesso ao mundo externo e agindo sobre as percepções e repressões. As repressões partiriam desse Eu, que escolhe o que permanece e o que é excluído da consciência e de outras atividades psíquicas. A consequência destas descobertas para a prática psicanalítica foi a redução de inúmeras dificuldades e obscuridades, facilitando a com- preensão das relações estruturais da vida psíquica e outras ainda mais significativas. Freud afirma que todo reprimido é inconsciente, mas nem todo inconsciente é reprimido, e que haveria uma parte do Eu que seria inconsciente, havendo uma ambiguidade no Eu. O texto prossegue com o capítulo denominado O Eu e o Id, onde o autor enfatiza o Eu e sua ambiguidade, iniciando sua discussão pelo que seria a superfície da psique, a consciência, e como se dá seu funcionamen- to no processo interno de deslocamento dessas energias. Freud faz referência ao trabalho de Georg Groddeck que trouxe a idéia de que o Eu se conduz de modo essencialmente passivo e que somos “vividos” por poderes desconhecidos e incontroláveis e que isso aconte- ceria de forma inconsciente. Freud propõe nomear essa entidade de Id. Podemos observar que Freud aos poucos nos apresenta a elaboração do aparelho psíquico. Até aqui temos o Eu, que representado pela razão; e o Id, que em oposição representa as paixões. 57 O autor dá continuidade a esta apresentação no capítulo nomeado O Eu e o Super-Eu, supondo a existência de uma diferenciação que es- taria no interior do Eu, já havia citado em outros trabalhos (com o nome de Instância Crítica no texto Luto e Melancolia de 1915), à qual é dado o nome de Super-Eu ou Ideal do Eu, que teria sua origem na primeira e mais significativa identificação do indivíduo com o pai da pré-história pessoal, construído a partir da dissolução do Complexo de Édipo. Para o autor o Super-Eu seria herdeiro do Complexo de Édipo. Mais adiante, no capitulo Duas Espécies de Instinto (na tradução utilizada nesta resenha encontramos instinto no que seria pulsão), o autor nos apresenta dois tipos de força que atuam na dinâmica psíquica: as pul- sões sexuais (Eros), que tem como objetivo de conservar a vida e trazendo complexidade; e o instinto de autoconservação do Eu, pulsão de morte, que tem a tarefa de conduzir o organismo ao estado inanimado, a vida seria a luta entre essas duas forças. Freud finaliza o texto com o capítulo As relações de dependências do Eu, retomando assuntos já tratados sob novos aspectos, mostrando o Eu em diferentes relações, trazendo maior nitidez aos conceitos. Entre as relações de dependência do Eu, a mais interessante é talvez aquela com o Super-Eu, destacando a força que este pode desempenhar sobre o Eu, este seria sede da angústia tendo em vista que o Eu estaria ameaçado de perigo por três direções externas e internas (Id e Super-Eu). E o autor expõe problemas difíceis para a psicanálise, que até este ponto não possui um conceito abstrato de teor negativo, como o perigo sentido pelo Eu (angustia), medo de morteou aniquilação. E Freud convida o leitor a imaginar como se daria o processo de dominação das pulsões de vida e morte, onde a pulsão de morte busca calar Eros, mas Eros este estraga o sossego trazendo a incomoda pulsão de vida. Neste texto tivemos o esclarecimento topológico e dinâmico do aparelho psíquico, mas que ainda gerem algumas dúvidas quanto ao seu funcionamento econômico. 58 Ego/Eu (FREUD, 1923-1925. pág. 31) - O eu é aquela instância que supervisiona todos os processos parciais que ocorrem na pessoa. É a instância que a noite vai dormir, mesmo dormindo, ainda detenha o con- trole da censura onírica. É também desse Eu que procedem os recalques, fazendo com que determinadas tendências psíquicas sejam excluídas, não só da consciência, mas também impedindo-as de agir por outro meio. Obs. É exatamente com aquilo que o recalque pôs de lado que o Eu terá que se confrontar durante a análise, durante a análise o doente tem dificuldades de seguir na cadeia associativa, encontrando-se sobre o domínio da resistência, pois ele nada sabe a respeito, ainda que com seus sentimentos de mal estar, com a resistência em curso não saberia nomear, apontar. Assim nos deparamos com uma parte do Eu que é Ics, algo que se comporta como recalcado, sem se tornar Cs pode trazer consequências a psique. Agora o Ics não mais coincide com o recalcado - Todo recalcado é Ics mas nem todo Ics é recalcado. Texto base: FREUD, Sigmund. O Eu e o Id; Autobiografia e outros textos (1923- 1925). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 59 Aula 15 - Além do Princípio do Prazer – Introdução Um marco na psicanálise que explica o início do desenvolvimento da vida psíquica a partir da infância e suas primeiras vivências. O primeiro modo de funcionamento psíquico na infância tem como base o princípio do prazer. Um bebê recém-nascido em seus primeiros meses de vida depende integralmente da mãe/cuidador, suas demandas para serem sanadas de- pendem dessa pessoa e da relação mãe/bebe. Demandas orgânicas Fome, sede, frio. E os impulsos internos, nesse momento o bebê já teve sua pri- meira experiência de satisfação, e segue em busca de revivê-la (chuchar). Não existe uma tolerância ao desprazer, as perturbações internas e externas são sentidas como ameaças a vida da criança, a criança não sabe comunicar o que está sentindo, não sabe falar, dores estranhas e sem nome, ainda não possui o domínio da linguagem (Lacan), o choro é sua forma de comunicação na esperança de ter suas demandas sanadas. Aos poucos a criança caminha rumo para o princípio de realidade, quando a criança consegue esperar, com o adiamento da satisfação e acei- tação temporária do desprazer. O processo de desenvolvimento psíquico e orgânico caminham juntamente, a dependência integral, sua inserção na linguagem, domínio do corpo e a percepção de si, diferente da mãe. Freud nos esclarece: O princípio do prazer é um modo de funcionamento primário do aparelho psíquico. Posteriormente, frente às dificuldades do mundo ex- terno e devido aos instintos de autoconservação do Eu, ocorre a substitui- ção pelo princípio da realidade, possibilitando a aceitação do desprazer temporário, uma espécie de rodeio para chegar ao prazer. Essa substitui- ção, porém, não anula o objetivo do aparelho psíquico na busca do prazer ou na evitação do desprazer. Pode-se dizer que permanece na psique uma forte tendência ao princípio do prazer que se opõe a determinadas forças, de modo que o resultado final nem sempre corresponde à tendência ao prazer (FREUD, 1920). Texto base: FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil: (“O homem dos lo- bos”): além do princípio do prazer e outros textos (1917-1929). São Pau- lo: Companhia das Letras, 2010. 60 Aula 16 Além do Princípio do Prazer A descrição do fator topológico e ao dinâmico do aparelho psíqui- co, levando em conta o fator econômico do princípio do prazer. Neste texto o autor faz uma descrição do fator topológico e ao di- nâmico, levando em conta o fator econômico do princípio do prazer. O princípio do prazer é um modo de funcionamento primário do aparelho psíquico, e por influência dos instintos de autoconservação do Eu, o prin- cípio do prazer é substituído pelo princípio da realidade. Na primeira parte do texto o autor faz especulações na tentativa de descrever e dar conta do que vinha observando em suas pesquisas. Até então a compreensão do funcionamento do aparelho psíquico através da relação entre o prazer e o desprazer relacionando com a quantidade de excitação, onde o desprazer corresponde a um aumento de excitação, e o prazer seria a diminuição dessa quantidade de estímulo, sendo que o aparelho psíquico se empenha em conservar a quantidade de excitação nele existente o mais baixa possível, ou ao menos constante, e tudo que tem a capacidade de aumenta-la é percebido como disfuncional, ou seja, desprazeroso. Após a substituição pelo princípio da realidade é possível aconte- cer o adiamento da satisfação e a aceitação temporária do desprazer, a própria substituição é uma experiência dolorosa. O autor afirma que a maior parte do desprazer que sentimos é desprazer de percepção, seja por instintos insatisfeitos ou percepção ex- terna, que é dolorosa em si ou que provoca desprazer no aparelho psí- quico. Segundo o autor, as formas de desprazer descritas não dão conta de todas as nossas vivências desprazerozas, e segue admitindo uma maior limitação do princípio do prazer e que as reações psíquicas estímulos ex- ternos podem fornecer um novo material e novas colocações sobre o pro- blema. 61 Freud propõe a lançar luz sob o fenômeno das “neuroses traumáti- cas”, pois nesse período ainda não se obtivera uma compreensão nem das neuroses de guerra e nem das neuroses traumáticas, o que o leva a per- correr esse caminho é a ocorrência de sonhos numa neurose traumática têm a característica de que o doente sempre retorna à situação do aciden- te, da qual desperta com renovado terror. Sendo que sua a compreensão sobre o sonho seria a realização do desejo, restando acreditar que nesse estado o sonho estaria desviado da sua função, e sonhos que rememoram constantemente situações traumáticas em que mostra uma repetição do trauma, tendo em vista que o sonho seria o caminho mais seguro para uma investigação dos processos psíquicos profundos. Neste ponto o autor nos convida a olhar para a repetição de situ- ações traumáticas a partir da descrição de uma brincadeira infantil, pois ao observar a brincadeira de uma criança de 18 meses, em que a criança lança fora (fort) um brinquedo e depois o trás de volta (da). Freud iden- tifica uma encenação do momento em que a mãe se afasta da criança e seu retorno, e ao constante repetição da brincadeira e principalmente o da saída da mãe, dentre as possibilidades de teorias a respeito desta brin- cadeira infantil, o que a repetição demostra é a tentativa de uma elabora- ção da vivência dolorosa, onde a criança busca estar ativo e ter controle daquilo que lhe cauda dor e que a há caminhos para tornar o objeto de recordação e elaboração psíquica o que é em si desprazeroso. Como o texto propõe é pensar o que além do princípio do prazer, o que estaria fora do campo de compreensão do que causa o desprazer que o conhecemos, que comprovaria algo que foge do campo do princí- pio do prazer, o que parece mais primitivo e seria independente. O autor nos leva a outra perspectiva acerca de suas investigações e de sua experiência na prática, onde a partir da clínica psicanalítica onde o paciente é levado a repetir o reprimido (trauma) na relação com o mé- dico. Aqui Freud expõe a fim de compreender a “compulsão a repetição” manifesta durante o tratamento analítico pelos neuróticos, e que o incons- ciente ou o reprimido não promove resistências aos esforços terapêuticos, mas que procura abrir caminho rumo a consciência para uma descarga na ação real. A busca em justificar a hipótese da compulsão a repetição, qual sua função eao que corresponde e qual a sua relação com o princípio do prazer. 62 Freud usa do funcionamento econômico para explicar o funcio- namento e topológico e como ocorre o prazer-desprazer, e como estímu- los externos e internos agem no aparelho psíquico, e que nesta instância de processos Inconsciente são atemporais, portanto, não são ordenados temporalmente, que o tempo não modifica a ideia, então conteúdos trau- máticos podem ser vivenciados na mesma intensidade em que foram sem interferência temporal. Pois haveria um sistema de proteção contra esses estímulos potencialmente traumáticos, e que a neurose traumática seria uma ruptura da proteção contra estímulos. E sua investigação segue acer- ca dos eventos traumáticos que se repetem através de sonhos que não seriam a realização de um desejo, mas sim obedecendo compulsão a re- petição, nesse ponto o autor admite pela primeira vez que existe exceções em que o sonho não é a realização do desejo e esses seriam os sonhos dos neuróticos traumáticos. Texto base: FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil: (“O homem dos lobos”): além do princípio do prazer e outros textos (1917-1929). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 63 Aula 17 Eros e Thanatos As forças que movimentam a vida psíquica, principal de propulsão e manutenção de vida. Contextualização: Primeira Guerra mundial - Freud vivencia a primeira guerra (1914- 1918) com sua força mortífera se volta para a ideia de morte, estudos so- bre as neuroses de guerra, havendo uma reorientação para contemplar uma categoria de pensamentos e sentimentos humanos que escapavam ao alcance do entendimento. Temos o Freud Cientista, biologista, darwinista, evolucionista, que passa a faz considerações atuais sobre a guerra, diante da desilusão causa- da pela guerra , da atitude perante a morte temos um outro momento da obra que deixa de lado as ideias evolucionistas e temos um Freud antro- pologista, sociólogo que se ocupa da sociedade, cultura, religião e política que vemos nos trabalhos posteriores como em, Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921/2001), O Futuro de uma Ilusão (1927/2004d), O Mal - Estar na Cultura (1929/2004c) e Porque a Guerra? (1933/2004b). A ideia de uma evolução humana vai se afastando e dando lugar a uma dualidade que vem se apresentando e ocupando espaço nos traba- lhos, amor e ódio, vida e morte. Com conceitos sobre: Pulsão: Fronteira entre o mental e o somático, representante psí- quico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente (pulsões e suas vicissitudes); força motriz que impulsiona. Em além do princípio do prazer o autor nos diz que é uma força impelente/impulsiona internamente o organismo vivo que visa restabele- cer um estado anterior que o ser vivo precisou abandonar devido a influ- ência de forças externas. A partir dessas construções ocorre um embate: a ânsia conservado- ra e o desejo por crescimento em direção aos elementos inéditos apresen- tados pela exterioridade. Freud apresenta duas ideias sobre as pulsões. Duas espécies de pulsões a serem diferenciadas, a mais visível e mais acessível: 64 Pulsão sexual ou Eros: Por pulsão sexual devemos entender não apenas pulsões sexuais propriamente ditas, as quais atuam sem inibição na busca por meta sexual, mas também as pulsões delas derivadas. Fa- zendo referência às moções pulsionais sexuais sublimadas, ou, como de- nominamos, pulsões sexuais inibidas em sua busca pela meta. Além disso devem ser incluídas as pulsões de autoconservação; também elas perten- cem ao Eu. E continua sua construção nos apresentando a pulsão de morte: tem como missão conduzir a vida orgânica de volta ao estado inanima- do, visa a estabilidade da economia psíquica através de uma manutenção conservadora de estado inanimado contrapondo-se à pulsão de morte, a pulsão de vida, Eros, teria como meta amalgamar cada vez mais partículas fragmentadas da substância viva, dando à vida uma forma mais complexa e, assim, preservando-a. Desse modo, podemos dizer que as pulsões se conduzem, no sen- tido de mais estrito do termo, de forma conservadora, pois ambas visam o restabelecimento de um estado que foi perturbado pelo surgimento da vida. Assim, tanto o empenho em prosseguir lutando pela vida, como a nostalgia pela morte, devem-se ao próprio brotar da vida (pág. 49/50). Textos base: DE CARVALHO, Maura Cristina; LAZZARINI, Eliana Rigotto. Pulsão de morte e (re) criação: entre o mal-estar na civilização e a “dádiva do ou- tro”. Revista Crítica Cultural, v. 14, n. 1, p. 71-80, 2019. FREUD, Sigmund. O Eu e o Id; Autobiografia e outros textos (1923- 1925). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 65 Aula 18 Pulsões e Seus Destinos Os possíveis destinos das pulsões de vida e morte que movimen- tam o aparelho psíquico. A Pulsão - tem sempre como objetivo/meta a satisfação e objeto pode ser o próprio corpo ou fora/outro – eliminar o desprazer Para uma caracterização geral dos instintos sexuais podemos dizer o seguinte: eles são numerosos, originam-se de múltiplas fontes orgâni- cas, atuam de início independentemente uns dos outros, e apenas bem depois são reunidos numa síntese mais ou menos completa (pág. 33). A meta que cada um deles procura atingir é o prazer do órgão; somente após efetuada a síntese eles entram a serviço da função reprodu- tiva, tornando-se geralmente reconhecidos como instintos sexuais. Ao aparecer, apoiam-se inicialmente nos instintos de conservação, dos quais se desligam apenas aos poucos, e seguem também na busca de objeto os caminhos que lhes mostram os instintos do Eu. Uma parte deles a vida inteira associada aos instintos do Eu, dotando-os de componentes libidinais, que na função normal são facilmente ignorados, e apenas quan- do há doença surgem claramente. Caracterizam-se pelo fato de poderem, em larga medida, agir vicariamente uns pelos outros, e trocar facilmente seus objetos. Devido a esses atributos, são capazes de realizações que se acham bem afastadas de suas originais ações dotadas de objetivo. Nossa investigação referente às vicissitudes que os instintos podem experimentar no curso da evolução e da vida terá que se limitar os instin- tos sexuais, que conhecemos melhor. Eis o que a observação nos ensina a reconhecer como destinos dos instintos: • A reversão no contrário • Conversão de conteúdo • Atividade-passividade • Sadismo-masoquismo/ voyeur- exibicionista - amor e ódio. • O voltar-se contra a própria pessoa • Masoquismo como um sadismo que se voltou contra o próprio Eu • A repressão (Aula 5) • A sublimação: processo civilizatório , reconhecimento social cultura- arte Texto base: FREUD, Sigmund. As pulsões e seus destinos–Edição bilíngue. Autêntica, 2016. 66 Aula 19 Estruturas Clínicas Neurose, Psicose e Perversão são formas de funcionamento psíquico. A identificação das estruturas são Modos de estar na linguagem - modos de funcionamento e de interpretação do mundo. Não são diag- nósticos, na maioria das vezes não se apresentam de forma “pura”, inte- gral nas suas características. Neurose - dúvida - faz sintoma A neurose seria o resultado de um conflito entre o Eu e o Id Na recusa do Eu em acolher demandas pulsionais vindas do Id e transformá-las em ação motora, a resistência do conteúdo recalcado, toma como um representante para lhe servir como substituto, providencia um sintoma, esse sintoma se impõe como uma formação de compromisso. Ao se sentir ameaçado e tendo danos por conta do conteúdo intruso o Eu passa a lutar contra o sintoma, esse processo resultará em um quadro de neurose Neurose Histérica- corpo Neurose Obsessiva- pensamento - homem dos ratos impossibilidade de satisfação de desejo necessidade de controle, formação reativa, regras internas racionalização excessiva como tentativa de controle em análise Neurose Fóbica - direcionada a um objeto Psicose - certeza - delírio A psicose seria o resultado de uma perturbação entre o Eu e o mundo externo.Situadas sob a égide da foraclusão do Nome-do-Pai, elas apresen- tam diferenças clínicas que demandam a verificação de sua diferença na estrutura. Essa distinção está presente desde sua descrição na psiquiatria clás- sica: enquanto na esquizofrenia preponderam os distúrbios da associação de idéias (Bleuler), na paranóia predominam as interpretações (Sérieux et Capgras). No registro do Imaginário – âmbito do narcisismo, isto é, da ima- gem, do eu e do sentido – há “regressão”, segundo Freud, ao auto-erotis- mo no caso dos esquizofrênicos e ao narcisismo na paranóia. 67 No registro do Real, no que concerne ao gozo,verifica-se na esqui- zofrenia a fragmentação do gozo do corpo, da fala e do pensamento – o gozo está disperso e tende a invadir todas as instâncias sem enquadra- mento algum, de forma anárquica. Na paranóia, em contraposição, há uma concentração do gozo no Outro, na figura do perseguidor, da pessoa amada ou odiada, do traidor etc. Esquizofrenia - corpo fragmentado - auto erotismo - dispersão no sentido Paranoia - fixação na imagem do outro - paranóia prepondera a fixação à imagem do outro (a-a’), o congelamento do sentido e a enfatua- ção do eu que vai até a megalomania. Mania-Melancolia - bipolar Perversão fetiche - negação da castração - substituto Sadismo - satisfação em infligir dor no outro Masoquismo - satisfação em ter dor infligida por outro 68 Aula 20 Recordar Repetir e Elaborar Percursos possíveis do tratamento e seus caminhos junto à transfe- rência e a relação com o analista. Repetir, recordar e elaborar Repetição é um conceito psicanalítico que deve ser levado em con- sideração na experiência da clínica. Ocorre no início do processo analítico e permite sua continuidade através dos desdobramentos na clínica. Tendo como base os trabalhos de Freud Recordar, repetir e elabo- rar (1915) e Além do princípio do Prazer (1920), abordaremos desde o modo como se constitui a sua forma de surgimento no processo analítico até os possíveis usos terapêuticos como a transferência. O processo de transferência funda a relação analítica, e se ela é um caso particular da repetição, o tratamento psicanalítico só tem início quando o paciente produz uma repetição desse tipo com o analista. Neste artigo, pretendemos mostrar como a repetição pode se ma- nifestar como processo elaborativo na clínica psicanalítica, tomando como exemplos fragmentos de casos que possibilitam uma visualização da re- petição. Clínica e repetição A repetição faz parte do cotidiano. Durante toda a vida sempre estamos às voltas com posições semelhantes as que já foram ocupadas em algum outro momento. Na psicanálise a repetição é um conceito funda- mental e surge frequentemente na relação analítica. A partir de estudos de caso e da observação da vida cotidiana, Freud inicia a formulação de sua teoria sobre a repetição. Em 1914, no traba- lho Novas Recomendações sobre a Técnica da Psicanálise II - Recordar, Repetir e Elaborar, Freud lembra o leitor a respeito das alterações que a técnica psicanalítica sofreu ao longo dos anos desde seu início e de outras que viriam ao longo dos anos. Neste texto, Freud afirma que os objetivos da análise permanecem inalterados, descritos como o preenchimento de lacunas da recordação e superação das resistências da repressão. Para Freud (1914) o objeto da repetição foi perdido, logo o sujeito estaria repetindo de forma inconsciente aquilo que não é possível ser lem- brado, ou seja, aquilo que se repete estaria recalcado. 69 Assim, de forma recorrente, as representações retornam à consci- ência e por resistência do ego, permanecem sob forma de ação (NETO E ROCHA, 2014). O autor afirma ainda que a análise é iniciada com certo tipo de re- petição, como quando o analisando diz não se lembrar de ter sido teimo- so e rebelde ante a autoridade dos pais, mas se comporta de tal maneira diante do analista, podemos compreender que esta seria sua forma de re- cordar. A transferência na relação analítica seria uma parcela da repetição do passado, que seria transferida não somente para o analista, mas para todos os âmbitos da situação presente e quanto maior a sua resistência, mais o ato de recordar seria substituído pela repetição. As armas usadas pelo analisando para se defender da terapia têm origem no seu passado, sua fonte seria o reprimido de onde emergem as resistências. Desta maneira, sua doença não deve ser tratada de maneira histórica, mas como um poder atual, e enquanto o doente vivencia de for- ma atual e real, parte do trabalho terapêutico exercido seria sob ela seria uma recondução ao passado. Um dos principais meios de domar a compulsão a repetição é quan- do esta se transforma em um modo de recordação e através do manejo da transferência, desta maneira ela se torna inofensiva e até mesmo útil para o processo terapêutico. A transferência cria uma zona intermediária entre a vida e a doença. No texto Além do Princípio do Prazer, Freud (1920) volta a elabo- rar questões a respeito da repetição, como a repetição de situações trau- máticas e foi a partir da descrição de uma brincadeira infantil, que ao ob- servar a brincadeira de uma criança de 18 meses, em que a criança lança fora (fort) um brinquedo e depois o trás de volta (da). Freud identifica uma encenação do momento em que a mãe se afasta da criança e seu re- torno, e ao constante repetição da brincadeira e principalmente o da saí- da da mãe, dentre as possibilidades de teorias a respeito desta brincadeira infantil, o que a repetição demonstra é a tentativa de uma elaboração da vivência dolorosa, onde a criança busca estar ativo e ter controle daquilo que lhe causa dor e que a há caminhos para tornar o objeto de recordação e elaboração psíquica o que é em si desprazeroso. O autor nos leva a outra perspectiva acerca de suas investigações e de sua experiência na prática, onde a partir da clínica psicanalítica onde o paciente é levado a repetir o reprimido (trauma) na relação com o mé- dico. Freud, a fim de compreender a “compulsão a repetição” manifesta durante o tratamento analítico pelos neuróticos, e que o inconsciente ou 70 o reprimido não promove resistências aos esforços terapêuticos, mas que procura abrir caminho rumo a consciência para uma descarga na ação real. A busca em justificar a hipótese da compulsão a repetição, qual sua função e ao que corresponde e qual a sua relação com o princípio do pra- zer. Freud reforça a ideia de que os processos Inconscientes são atem- porais, portanto, não são ordenados cronologicamente. O tempo não modifica a ideia, assim conteúdos traumáticos podem ser vivenciados na mesma intensidade de quando aconteceram, sem interferência temporal. Podemos presenciar na clínica psicanalítica a repetição ocorrer de forma clara e em diversas intensidades, possibilitando ao analisando re- viver lugares ou papeis que representou durante grande parte de sua história. Através de fragmentos de um caso clinico, ilustra-se uma destas histórias que se repetem. “Vejo uma estrada longa e muito bonita e não tem nada perto, só uma casinha e por mais que eu ande quando paro e olho para o lado é a mesma casa, sempre volto pra lá, paro na frente. Porque eu sempre paro lá?” Rosa, 30 anos. Buscou atendimento a fim de encontrar coragem para tomar uma decisão. Está casada há 11 anos, e há 2 meses descobriu que o marido abusou de sua filha mais velha, fruto de uma relação an- terior. Diz que está se organizando para deixá-lo, pois o abuso da filha e o não arrependimento do marido seriam motivos suficientes para tal decisão. Rosa afirma que o casamento nunca foi bom. Traições, agressões físicas e verbais sempre fizeram parte da convivência. Ela diz ser doença suportar este tipo de relação e que após o acontecimento com a filha se sente responsável e conivente com o crime. Quando criança, Rosa foi abu- sada. Hoje, mãe de duas meninas, diz sempre ter tido cuidado para que isso nunca ocorresse com elas, mas que em um único descuidoo marido abusou da sua filha. O abuso sofrido por Rosa ocorreu quando ela tinha 8 anos. Estava dormindo em uma rede quando foi surpreendida por uma pessoa conhecida que a violentou. Após as agressões, Rosa vai até a mãe para pedir ajuda e contar o ocorrido. A reação da mãe é mandá-la lavar a rede suja de sangue, pois a culpa teria sido dela. Para fugir dos gritos e agressões da mãe, a menina foge e se esconde em um poço seco nos fun- dos da casa e fica lá até amanhecer. O medo de repetir a história da mãe, que culpa a filha pelos abu- sos sofridos, motivou Rosa a tomar todos os cuidados e providencias que julgou necessário. No entanto, ela se encontra no lugar semelhante ao ocupado pela sua mãe. 71 Durante toda a sua vida, Rosa ocupou o lugar de vítima. Após o primeiro abuso, outros ocorreram, em sua maioria por homens da família e conhecidos. Durante a vida adulta se envolve em relacionamentos abu- sivos em que sofre diversas formas de violência, a repetição da violência durante sua história. No decorrer do processo terapêutico Rosa atuou de diversas for- mas, como a mãe que culpa a filha, a criança abusada e culpada, como nos mostra a teoria, uma parcela da repetição do passado acontece na trans- ferência, e que por diversas vezes a fala se repete no espaço da análise, sendo este um recurso para superar a experiência dolorosa. O intenso trabalho psíquico para na tentativa de se reconstruir do trauma. Enquanto o sujeito associa livremente, ele vai tecendo algum tipo de representação para os conteúdos inconscientes, aquilo que até então, para ele, não era possível ser dito (NETO E ROCHA, 2014). Conclusão Nos fragmentos do caso clínico descrito encontramos referências explícitas à repetição. O percurso da análise evidenciou que os constantes retornos de Rosa à suas vivências dolorosas podem indicar uma tentativa de elaboração. Este trabalho possibilitou outra visão ao caso citado, mostrando que de fato a repetição se manifesta na clínica no sentido de restituir al- guma coisa ao plano psiquico. E que de forma singular possibilitando ao sujeito um que repete em busca de algo, dando sentido a destinos e ações até então sem sentido. Textos base: FREUD, Sigmund. Observações Psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”): Artigo sobre técnica e ou- tros textos; Recordar, Repetir e Elaborar e outros textos (1917-1929). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil: (“O homem dos lo- bos”): além do princípio do prazer e outros textos (1917-1929). São Pau- lo: Companhia das Letras, 2010. GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Acaso e repetição em psicanálise. Zahar, 1999. NETO, Esperidião Barbosa; ROCHA, Zeferino. Repetir, repetir, repetir... por quê? Psicologia & Saberes, v. 3, n. 4, 2014. 72 MÓDULO III FREUD É ATUAL Ementa: A clínica psicanalítica em sua prática. Como técnica e teoria psica- nalíticas atuam na clínica e na escuta a partir de textos fundamentais e a expansão da teoria na clínica psicanalítica contemporânea. Objetivo: - A teoria e a técnica psicanalítica na prática clínica - O papel do analista na demanda - A aplicabilidade da teoria - Compreender o Complexo de Édipo e seu papel. - A função da Castração A partir da base teórica apresentas no eixo I e II, será apresentada a técnica e sua prática clínica e como elas norteiam o processo analítico. 73 Aula 21 Recomendações de Freud Um recado de Freud para nós, analistas ou futuros analistas. Nessa aula usaremos como texto de referência o trabalho de 1912, é um texto curto e acessível que está disponível no material e por isso não irei transcrevê-lo aqui e farei poucas pontuações. O texto que usei durante a aula foi da editora autêntica que tem algumas diferenças de tradução do texto disponibilizado, que foi o da editora companhia das letras, apesar das diferenças o conteúdo permanece o mesmo, para mais esclarecimentos sobre traduções temos o E-book disponível, agora segui- mos as pontuações. Temos regras fundamentais ao analista e ao analisando: - A regra fundamental para o analista: a descrição feita no texto é, ouvir tudo que lhe dizem, sem se preocupar em fazer anotações ou sem se preocupar se vai lembrar ou não, mantendo longe todas as influências (preocupações, julgamentos ou qualquer outra coisa que possa interfe- rir), isso é a atenção flutuante. - A regra fundamental para o analisando: Falar tudo que lhe vier à mente, associar livremente. Nosso foco nessa aula é o analista, e assim o texto segue de reco- mendações e outra que chama atenção é a noção neutralidade compa- rando ao trabalho do cirurgião, a abstinência que falamos na aula sobre transferência e volto a recomendar a leitura do artigo sugerido na aula. Seguindo outro ponto importante é a análise do analista, desejo uma boa leitura e se tiver alguma dúvida estamos à disposição para auxiliar. Recomendação de leitura: CELES, L. A. M. Crise terapêutica da psicanálise e presença do analis- ta. Revista Percurso, v. 21, n. 41, p. 47-54, 2008. Textos base: FREUD, Sigmund. Recomendações ao médico para o tratamento psica- nalítico (1912) Fundamentos da clínica psicanalítica. Autêntica, 2017. 74 Aula 22 A Clínica Hoje Os adoecimentos recorrentes que encontramos na clínica hoje e os registros Freudianos que nos guiam diariamente. Nos estudos que buscam a compreensão da subjetividade humana, encontramos condições que fazem parte da constituição do ser humano como o desamparo, uma particularidade da vida que todos nós experien- ciamos. A partir dos estudos freudianos encontramos o desamparo como inevitável. Nestes trabalhos, apesar das constantes mudanças e revisões, o núcleo da ideia do desamparo não sofreu mudanças, ou seja, permaneceu significando a falta de amparo. A primeira citação de Freud a respeito do desamparo é feita no texto Projeto para uma Psicologia Científica (1895), ao explicar a experiência de satisfação; e em Inibições, Sintomas e Ansie- dade (1926), o desamparo é apresentado como uma parte importante da constituição psíquica a partir da constituição da realidade psíquica. Laplanche e Pontalis (1970) explicam o desamparo na teoria freu- diana como o estado em que a criança recém-nascida, que depende intei- ramente do outro para satisfazer suas necessidades, se descobre impoten- te para por fim à tensão interna causada por estas demandas, e do ponto de vista econômico, o aparelho psíquico ainda não domina a necessidade. Para o indivíduo adulto, o estado de desamparo é o protótipo da situação traumática geradora de angústia e que do ponto de vista econômico o desprazer gerado pela angustia que leva ao aumento da tensão. Na visão destes autores a condição física e psíquica do ser humano em seu nascimento o coloca em situação de dependência fisiológica e psí- quica, e a ausência do aparelho psíquico o impede de dar conta das ten- sões vividas. Diante desta questão, partiremos em busca da compreensão e relação do desamparo no processo de desenvolvimento psíquico. O desamparo Ceccarelli (2009) também nos propõe a compreensão do desampa- ro psíquico não somente do ponto de vista fisiológico, mas da perspectiva psíquica. Assim como a imaturidade física de suprir suas necessidades, ha- veria uma imaturidade psíquica, pois a impossibilidade do recém-nascido em lidar com as exigências pulsionais uma vez que não haveria existência do aparelho psíquico. 75 Em Além do Princípio do Prazer (1920) Freud propõe que o apa- relho psíquico é regulado automaticamente pelo Princípio do Prazer que, sempre que incitado por uma pulsão desprazerosa, busca uma direção em que seu resultado seja o rebaixamento da tensão, pela evitação do des- prazer ou pela geração de prazer. Sendo assim o desprazer corresponde a um aumento, e o prazer, a uma diminuição dessa quantidade de pulsão. O princípio do prazer é um modo de funcionamento primário do aparelho psíquico. Posteriormente, frente às dificuldades do mundoex- terno e devido aos instintos de autoconservação do Eu, ocorre a substitui- ção pelo princípio da realidade, possibilitando a aceitação do desprazer temporário, uma espécie de rodeio para chegar ao prazer. Essa substitui- ção, porém, não anula o objetivo do aparelho psíquico na busca do prazer ou na evitação do desprazer. Pode-se dizer que permanece na psique uma forte tendência ao princípio do prazer que se opõe a determinadas forças, de modo que o resultado final nem sempre corresponde à tendência ao prazer (FREUD, 1920). Ainda neste texto Freud empresta noções da biologia e reconhece duas classes de pulsões na vida mental: uma tem origem nos Instintos do Eu, possui caráter conservador e busca a reprodução de um estado primi- tivo da matéria inanimada que levam a morte; a outra seriam os Instintos Sexuais, que visam o prolongamento da vida (Eros). Freud (1923) dá continuidade na elaboração da teoria e nos apre- senta a estruturação topográfica do aparelho psíquico em instâncias no- meadas de Id, Eu e Super-Eu. Neste trabalho ele identifica e apresenta de forma definitiva que há dois tipos de forças que atuam na dinâmica psíquica: as pulsões sexuais (Eros), que tem como objetivo de conservar a vida e trazendo complexidade; e o instinto de autoconservação do Eu, a pulsão de morte, que tem a tarefa de conduzir o organismo ao estado inanimado. A vida seria a luta entre essas duas forças: “... podemos dizer que as pulsões se conduzem, no sentido mais estrito do termo, de forma conservadora, pois ambas visam ao restabelecimento de um estado que foi perturbado pelo surgimento da vida. Assim tanto o empenho em prosseguir lutando pela vida, como a nostalgia pela morte, vem-se ao próprio brotar da vida. Diremos, então, que a vida consiste ao mesmo tempo em uma luta e um acordo de compromisso entre essas duas pulsões opostas” (FREUD, 1923 p.49). Então para lidar com as tensões no aparelho psíquico as pulsões agem de forma que buscam manter um equilíbrio dentro do aparelho, trabalhando de forma simultânea, pois estas estariam misturadas umas com as outras ou amalgamadas (FREUD, 1923). 76 Através da compreensão do que ocorre no campo subjetivo na di- nâmica do aparelho psíquico, podemos dizer que o desamparo leva o in- divíduo à experiência de estar submetido a uma intensidade pulsional ex- cessiva. Haveria então uma duplicidade no desamparo, pois assim como o desamparo é uma ausência de sustentação, o indivíduo estaria à mercê do outro que pode ou não o auxiliar a lidar com esse estado emocional (GARCIA E COUTINHO,2004). Possíveis destinos da dependência vivenciada no desamparo e as formas que encontramos para lidar com ele. Ainda que na vida ocorram inevitáveis vivências de desamparo, não apenas aquela primeira da infância, as reações a elas seguem o mode- lo de enfrentamento desta inicial: diante da angustia partimos em busca de alento no mundo interno, ou nas construções sociais simbólicas, ha- vendo uma variação nos laços sociais que estabelecemos para lidar com o desamparo psíquico. A universalidade do desamparo se singulariza na história pessoal de cada com a dependência que estabelece com quem lhe deu a vida (CECCARELLI, 2009). Ceccarelli (2009) propõe que o Eros, por ser responsável pelas li- gações pulsionais, age de forma a produzir investimentos libidinais que confortam, imaginariamente, o Eu em constituição. Como a primeira re- lação de dependência que estabelecemos é com os pais, acreditando que eles possuem poderes sem limites, esperando sempre ser protegidos e amados por esses seres superiores. Mais tarde os pais são substituídos pelos deuses ou por aqueles que julgamos possuir capacidades mágicas, e sendo capazes de tudo para não perder essa ilusão. Ao reagir a situações de desamparo, a tendência é en- frentar de acordo com o protótipo construído na infância, pois a angustia que faz partir em busca de alento no mundo interno, ou nas construções sociais simbólicas, havendo uma variação nos laços sociais que estabelece- mos para lidar com o desamparo que variam de acordo com a cultura e com o momento histórico. Para Freud (1895, p. 241), “o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais” e desta maneira podemos com- preender a discussão do autor acerca de possíveis destinos do desamparo como as religiões, as ligações inquestionáveis aos mestres, às teorias toma- das como verdades, que teriam como destino laços sociais que são estabe- lecidos para lidar com o desamparo. Outra possibilidade seriam as rela- ções com o outro nas quais “a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecer”. 77 Este destino do desamparo também é discutido por Garcia e Cou- tinho (2004), que encontram expressões aflitivas do desamparo que atra- vés de novas formas de mal-estar subjetivo, que seriam a experiências recorrentes do desamparo que caracterizam a experiência cotidiana con- temporânea, tendo como faces do desampara na atualidade o pânico e a depressão. As discussões utilizadas como base para a elaboração deste traba- lho remontam a outra época, quando Freud escrevia acerca do desampa- ro observado em seus pacientes. Embora identificados a várias décadas o estudo destes conceitos trazem para o presente profundas e importantes contribuições sobre a experiência cotidiana encontrada na clínica. Como exemplo podemos citar que Freud se ocuparia dos destinos do desamparo em Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926) e suas formu- lações acerca da ansiedade frente à ameaça de uma situação traumáti- ca, que seria uma ameaça de desamparo psíquico, são claramente válidas e rotineiramente observadas até hoje na clínica psicanalítica. Os textos freudianos permanecem fundamentais para subsidiar o psicanalista dian- te do sofrimento humano, que por mais atuais que possam aparentar, são apenas novas formas de sofrer. O perigo do desamparo psíquico permanece sendo um perigo de vida e a psicanálise possui conteúdos que nos ajudam a construir uma clínica contemporânea apta para lidar com esta condição humana, sendo sensível à atualização das formas de sofrer do homem moderno ao tempo em que recorre aos já estabelecidos conceitos da ciência psicológica, apri- morados ao longo dos séculos de pesquisa. 78 Textos Base: CECCARELLI, Paulo Roberto. Laço social: uma ilusão frente ao desam- paro. Reverso, v. 31, n. 58, p. 33-41, 2009. FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 14: História de uma neuro- se infantil (“O homem dos lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. ______________ Obras Completas,volume 16: O eu e o id, “autobiografia” e outros textos (1923-1925). Companhia das Letras, 2011. ______________Projeto para uma psicologia científica (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Vol. 1). 1996. ______________ Inibições, sintomas e ansiedade (1926). Obras Psicológi- cas Completas de Sigmund Freud. Edição Standard Brasileira, v. 20, p. 81-171, 1996. GARCIA, Claudia Amorim; COUTINHO, Luciana Gageiro.Os novos ru- mos do individualismo e o desamparo do sujeito contemporâneo. Psychê, v. 8, n. 13, p. 125-140, 2004. LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psica- nálise. Martins Fontes Editora Ltda, 1970 79 Aula 23 Fim de Análise O analista não dá alta, mas toda análise tem fim. O que o paciente busca na análise? Geralmente há um pedido por resgatar uma felicidade e autono- mia no gerenciamento de sua vida, em algum ponto da história perdida • Demanda: A capacidade de extrair prazer nas atividades mais simples do seu cotidiano agora está cercada pelas limitações que seu sin- toma lhe impõe. Mal-estar, sintoma que se impõe, escapa, se repete como ato involuntário, mas que impulsiona a buscar a análise • Função da análise: possibilidade de remanejamento pulsional que o nó do sintoma parece absorver , de forma que a pulsão encontre outras possibilidades de escoamento mais livres. • Associaçãolivre: Fala como tentativa da explicação do impossí- vel, nela encontra um endereço - A transferência, o analista. Obs. O efeito terapêutico de uma análise está atrelado à transfe- rência, que utiliza a linguagem como instrumento. Infinita: pulsão, que se identifica com o fim de análise Finita: castração, relacionamento infinito em Freud - ver o trecho A análise traz questionamentos, que o sintoma/sofrimento inicia colocando em questão, num mundo fragmentado e marcado por certezas (regras sociais e roteiros que levam a felicidade), a psicanálise procura reinstalar a capacidade de questionamento. Mesmo que de início se faça acreditando que o um outro saiba todas as respostas, cabe ao analista en- dereçá-las de volta a ele, para que se abra sua capacidade de se pôr em questão aquela que se pôs em análise. O Destino da cura depende do destino da pulsão que se articula em análise, o eu que tenta dominar, mas sempre fica um resto de sofri- mento que insiste (uma dor que resta), desilusão da cura. Em Pulsão e suas vicissitudes temos como destino, a possibilidade de fazer algo novo, o analisando faz sua criação em seu nome próprio, assume a construção de seu destino. Aceita a condição do seu desamparo fundamental e encontra formas de lidar com sua condição (Capacidade de criação- sublimação). 80 Ao final descobre que ao analista também falta o ser e toma a seu cargo o enigma do desejo. “O amanhã não pertence a ninguém, mas se você quiser, ele pode ser seu.” Texto base: FREUD, Sigmund. Análise Finita e infinita (1937). Fundamentos da clínica psicanalítica. Autêntica, 2017. PIMENTEL, Déborah; ARAÚJO, Maria das Graças; VIEIRA, Ma- ria Jésia. Final de análise: uma revisão sistemática da literatura. Estudos de Psicanálise, n. 32, p. 51-70, 2009. 81 Aula 24 Escolas Psicanalíticas As sete escolas psicanalíticas 1. Escola Freudiana (S. Freud); 2. Escola dos Teóricos das Relações Objetais (M. Klein); 3. Psicologia do Ego (Hartman – M. Mahler); 4. Psicologia do Self (Kohut); 5. Escola Francesa de Psicanálise (Lacan); 6. Winnicott; e 7. Bion. ESCOLA FREUDIANA É quase uma redundância falar em “escola freudiana” porquanto toda a psicanálise, e todos os psicanalistas, de um forma ou de outra, estão ligados aos postulados metapsicológicos, teóricos e técnicos legados por Freud e seus seguidores diretos, tanto os seus contemporâneos como os pósteros a ele. No entanto, o paradigma psicanalítico freudiano, nos seus mais de 100 anos de existência, embora conserve a invariância dos seus princípios básicos, vem sofrendo profundas transformações, quer com acréscimos, reformulações ou refutações. (zimerman) Sigmund Freud Karl Abraham Sandor Ferenczi Wilheml Reich Anna Freud ESCOLA DOS TEÓRICOS DAS RELAÇÕES OBJETAIS Melanie Klein Melanie Klein Incorpora e amplia os pensamentos freudianos. M. Klein conservou as concepções relativas ao “complexo de Édi- po”, e ao “superego”, porém os situou em etapas bastante mais primitivas do desenvolvimento da criança. Pioneira em psicanálise com crianças • ego rudimentar, pulsão de morte inata (seio bom e seio mau, obj idealizado e persecutório, posições depressiva e esquizoparanóide, ante- cipação do tempo edipiano) 82 1) Criou uma técnica própria de psicanálise com crianças e introduziu o entendimento simbólico contido nos brinquedos e jogos. 2) Postulou a existência de um inato ego rudimentar, já no recém-nascido. 3) A pulsão de morte também é inata e presente desde o início da vida, sob a forma de ataques invejosos e sádico-destrutivos contra o seio da mãe. 4) Essas pulsões, agindo desde dentro da mente, promovem uma terrível “angústia de aniquilamento”. 5) Para contra-arrestar tais angústias terríveis, o incipiente ego do bebê lança mão de mecanismos primitivos de defesa, como são: “negação oni- potente”, “dissociação”, “identificação projetiva”, “introjeção” e “idealiza- ção”. 6) Ela concebeu a mente como um universo de objetos internos que estão relacionados entre si através das fantasias inconscientes, constituindo a realidade psíquica. 7) Além dos objetos totais, ela concebeu os objetos parciais (figuras pa- rentais representadas unicamente por um mamilo, seio, pênis, etc.). 8) Postulou uma constante dissociação entre os objetos (seio bom x mau, idealizados x persecutórios, etc.) e entre as pulsões (construtivas x destru- tivas, etc.). 9) M. Klein concebeu a noção de posição – que é conceitualmente dife- rente de “fase evolutiva” – e descreveu as, agora clássicas, posições esqui- zoparanóide e a depressiva, que representam uma enorme importância para a teoria e prática psicanalítica. 10) Suas concepções sobre os mecanismos arcaicos do desenvolvimento emocional primitivo permitiram uma possibilidade de análise com crian- ças, com psicóticos e com pacientes muito regressivos em geral. 11) Para não ficar descompassada com os princípios de Freud, M. Klein conservou as concepções relativas ao “complexo de Édipo”, e ao “supere- go”, porém os situou em etapas bastante mais primitivas do desenvolvi- mento da criança. 12) Juntamente com os ataques sádico-destrutivos da criança, com as res- pectivas culpas e conseqüentes medos de ataques persecutórios, ela pos- tulou a importância de a criança, ou o paciente na situação analítica, de- senvolver uma imprescindível “capacidade para fazer reparações”. 83 13) Deu ênfase extraordinária à importância da inveja primária, como expressão direta da pulsão de morte. 14) Como decorrência dessas concepções, M. Klein promoveu uma signi- ficativa mudança na prática analítica no sentido de que as interpretações fossem sistematicamente transferenciais, mais dirigidas aos objetos par- ciais, aos sentimentos e defesas arcaicas do paciente, e com uma ênfase na prioridade de o analista trabalhar na transferência negativa. ESCOLA DA PSICOLOGIA DO EGO Como muitos outros psicanalistas europeus perseguidos pelo na- zismo na época da Segunda Guerra Mundial, também o austríaco Heinz Hartman migrou para os Estados Unidos, onde, juntamente com Kris, Loewenstein, Rappaport e Erikson, fundou a corrente psicanalítica deno- minada “Psicologia do Ego”. Esses autores fundamentaram-se nos últimos trabalhos de Freud, particularmente a partir da formulação da estrutura tripartida da mente – id, ego e superego – e também se alicerçaram nos trabalhos de A. Freud referentes às funções do ego Margateth Mahler -Assim, ela descreveu as seguintes fases, com as respectivas subfases: autismo normal, seguida da simbiose normal, pas- sando pela progressiva saída da indiferenciação com a mãe através da etapa de individuação e separação (com as subetapas de “diferenciação”, “treinamento” relativo à exploração do mundo externo e a de “afasta- mento e reaproximação”) até chegar à quarta etapa, que consiste na ob- tenção de uma constância objetal emocional com uma consolidação do self e da individuação. ESCOLA DA PSICOLOGIA DO SELF Heinz Kohut Nasceu em Viena, em 1913, onde se formou em medicina, exer- cendo a especialidade de neurologia. Também ele foi pressionado pelo nazismo imperante no período da Segunda Grande Guerra e, por isso, resolveu migrar para os Estados Unidos, onde se incorporou ao Instituto Psicanalítico de Chicago, tendo ali trabalhado e vivido até a sua morte, em 1981, com 68 anos. Desde menino foi de uma inteligência precoce e, mais tarde, revelou sólidos conhecimentos de grego, latim, teatro e música. 1) Ele situa como o principal instrumento da psicanálise não o lugar da livre associação de idéias do analisando, mas, sim, o da Introspecção e o da recíproca, Empatia. 84 2) Da mesma forma, Kohut retira o lugar hegemônico do “complexo edí- pico”, de Freud, e coloca no seu lugar as falhas dos selfobjetos primiti- vos (em outras palavras, ele substitui o “homem culpado” de Freud e M. Klein pelo que ele considera ser o “homem trágico”). ESCOLA FRANCESA DE PSICANÁLISE Jacques Lacan Retorno a Freud com um distanciamento e partir de sucessivas dissidênciasideológicas – e querelas narcisísticas – entre os seus membros. O conjunto dessas sociedades caracteriza o que se denomina como a, pujan- te, Escola Francesa de Psicanalise Esse genial, polêmico e altamente controvertido autor psicanalíti- co, revoltado com o crescimento da norte-americana escola da “psicologia do ego” e alegando que essa escola estaria deturpando o verdadeiro es- pírito da psicanálise, decidiu dirigir os seus estudos psicanalíticos a partir de um “retorno a Freud”. 1) A inveja e a agressão em geral não seriam inatas e primárias, mas sim elas surgem quando é desafiado e frustrado o registro imaginário do su- jeito (na sua crença onipotente de que ele tem uma fusão e posse da mãe). 2) Para Lacan, a análise “não deve ficar reduzida à mesquinharia exclusi- va do mundo interno”. 3) Pelo contrário, o analista deve dar uma importância muito especial à palavra do paciente (que pode ser “cheia” ou “vazia”, de significados), assim mesmo ele tam- bém deve rastrear a “cadeia de significantes” que está contida no conteú- do, forma e estrutura da “linguagem”. 4) A forclusão (forma extrema de negação) impede a ruptura de fusão narcisista com o outro e, portanto, não se produz a capacidade para for- mar símbolos nem o ingresso no registro simbólico, o que pode ser um dos determinantes da psicose. 7) Em relação à técnica, Lacan modificou muitos dos critérios técnicos clássicos da psicanálise freudiana, sendo que os seguintes merecem ser destacados: 85 a) Modificações no setting: Lacan propôs e aplicou uma modificação revo- lucionária e, no mínimo, altamente discutível até os dias atuais; é a que se refere ao tempo de duração da sessão. Ao invés de durar os habituais 50 ou 45 minutos, para os lacanianos esse tempo “cronológico” foi substituí- do pelo “tempo lógico”, que alude ao fato de que o importante é a sessão terminar quando se processa na mente do analisando o “corte simbólico”, isto é, a passagem do plano “imaginário” – onde a palavra do paciente é “vazia” e está a serviço de obstaculizar o acesso à verdade – para o plano do registro simbólico, onde a palavra deve ser “plena” e realmente a favor da comunicação e das verdades. b) Em relação à transferência, muitas vezes Lacan considera que não se instalará a transferência caso o analista interprete adequadamente. Ele chega a afirmar (1951) que a transferência do paciente resulta de uma resposta deste a uma atitude pré-conceituosa do psicanalista, sendo que Lacan retoma esse aspecto em um trabalho posterior (1970-73) com o nome de “Sujeito Suposto Saber” (SSS) e que, como o nome indica, parte de um pressuposto que o analista sabe tudo aquilo que o paciente ignora. c) Quanto à contratransferência, Lacan não aceita a possibilidade de que a mesma possa constituir-se como um importante instrumento técnico. d) Em relação à interpretação, Lacan adverte que o uso sistemático da in- terpretação reducionista ao “aqui-agora” pode contribuir para uma fixa- ção do paciente no registro imaginário, narcisista, com o risco de que ele se identifique com os desejos do analista. Na verdade, ele valoriza muito mais as interrupções que representem a castração, o corte simbólico, do que propriamente as interpretações clássicas. ESCOLA DE WINNICOTT Donald Woods Winnicott É tão extensa e original a sua obra (são apenas quatro livros, po- rém na totalidade de seus escritos constam mais de 200 títulos) que, aqui, não resta outro recurso a não ser aquele de dar apenas algumas pince- ladas nas suas concepções mais significativas, seguindo uma certa ordem cronológica. Em 1945, ainda fortemente influenciado por M. Klein, Win- nicott publica o seu clássico Desenvolvimento emocional primitivo, no qual propõe que a maturação e o desenvolvimento emocional da criança processam-se em três etapas: 1) Integração e personalização: o bebê nasce num estado de não integração (não é a mesma coisa que “desintegração” e nem “dissociação”), na qual ele está numa condição de “dependência absoluta”, apesar da sua crença mágica em possuir uma “absoluta inde- 86 pendência”. Segundo Winnicott, o desenvolvimento normal desse perío- do levaria à obtenção de um esquema corporal integrado da criança, que ele chama de uma “unidade psique-soma”, sendo que Winnicott define a personalização como “o sentimento de que a pessoa habita o seu próprio corpo”. 2) Adaptação à realidade: a mãe tem o papel fundamental de aju- dar a criança a sair da subjetividade total e provê-la com os elementos da realidade objetiva (tal como é a passagem da “gratificação alucinatória do seio” para a gratificação provinda de um real seio nutridor), de modo que a criança comece a evocar “aquilo que realmente está à sua disposição”. Mãe suficientemente boa O ano de 1960 representa um marco bastante significativo na obra de Winnicott, que então publicou dois de seus mais importantes traba- lhos: um é A teoria da relação paterno-filial, em que mais claramente define o papel da mãe no desenvolvimento emocional do filho, descre- ve o estado psicológico de preocupação (ou devoção) materna primária, desenvolve as noções das funções da mãe como ego auxiliar, até que a criança consiga desenvolver as suas capacidades inatas de pensamento, síntese, integração, etc., ou seja, como uma função holding que sustente a criança tanto física como emocionalmente, de modo a garantir-lhe uma continuidade existencial. • A decisiva influência do ambiente facilitador e da mãe suficien- temente boa. • Um estado de identificação primária com a mãe, no qual ainda não há o reconhecimento de que existe uma mãe externa a ele, ao mesmo tempo em que “não existe um bebê sem a mãe”. • Assim, diz Winnicott, o bebê sente-se num estado de “absoluta independência”, ao mesmo tempo em que, de fato, está em “dependência absoluta”. • Nos primeiros tempos, a corporalidade do bebê consiste num es- tado de não-integração (é diferente de angústia de “desintegração”) entre as diferentes partes de seu corpo, e entre o seu corpo e a sua mente. • Assim, Winnicott introduz os conceitos de integração (dessas partes dispersas) e o de personalização, que refere à aquisição da capaci- dade de a criança poder “habitar o seu próprio corpo”, o que implica em 87 renunciar à ilusão de que seu corpo está fundido com o da mãe. • A angústia que, em situações futuras, acompanha os estados de uma “não-integração”, foi definida por Winnicott como breakdown, ou seja, uma angústia catastrófica, que às vezes denomina de “agonias im- pensáveis”. • Postula a concepção dos fenômenos transicionais – com os obje- tos transicionais e o espaço transicional – que aludem ao fato de que nesse período o bebê está com um pé no mundo do imaginário e com o outro ingressando na realidade exterior, assim criando condições para uma se- paração da mãe. • Ele estabelece uma diferença entre mãe-ambiente (ainda não há no bebê a diferença entre “eu-outro”) e mãe-objeto (onde já há essa dife- rença). • Dentre as condições da “mãe suficientemente boa”, ele incluiu: a preocupação materna primária (um estado inicial de “devoção” ao filho); capacidade de holding (sustentação) e de handling (manejo); a progressi- va desilusão das ilusões de onipotência e a capacidade para sobreviver aos ataques agressivos do filho. • Vale fazer um registro especial para a função especular da mãe: para Winnicott (1967), o primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe, sobretudo o seu olhar. Ao olhar-se no espelho do rosto materno, o bebê vê-se a si mesmo: “Quando olho sou visto, logo existo... posso ago- ra me permitir olhar e ver”. • A capacidade de estar só”, cujo conceito alude ao fato de que nesse período em que a criança está constituindo a sua confiança básica ela consegue ficar sozinha, embora ESCOLA DE BION Wilfred Ruprecht Bion Nasceu em 1897, na Índia (pela circunstância de que seu pai lá executava, então, um serviço de engenharia de irrigação a mando do Go- verno Inglês), onde viveu até os 7 anos e foi sozinhopara Londres, a fim de iniciar a sua formação escolar. Em Londres, ele completou a sua titulação acamica, tendo-se for- mado em medicina e posteriormente fez a sua formação psiquiátrica e psicanalítica. 88 1. Elementos de psicanálise. Bion preconizava a necessidade de substituir o excesso de teorias que impregnam a psicanálise e substituí- las por “modelos” e, da mesma maneira, ele propôs uma simplificação por “elementos da psicanálise”, que, segundo ele, comportam-se de forma análoga às sete notas musicais simples, ou aos algarismos de 0 a 9, ou ainda às letras do alfabeto, que em diversas combinações permitem as mais complexas configurações. Os seis elementos psicanalíticos por ele propostos são: 1) uma permanente interação entre a “posição esquizo- paranóide”(PS) e “depressiva” (D); 2) a identificação projetiva na relação “continente”-“ conteúdo”; 3) os “vínculos” de amor (L), ódio (H) e “co- nhecimento” (K); 4) as “transformações”; 5) a relação entre idéia (I) e ra- zão (R); 6) a “dor psíquica”. Ele enfatizou que toda análise é um processo de natureza vincular entre duas pessoas que vão enfrentar muitas angús- tias diante dessas verdades, e isso impõe que o analista possua o que Bion denomina como condições necessárias mínimas, como a referida condi- ção de ele ser “verdadeiro”, e mais as seguintes: • Um permanente esta- do de “descobrimento”. • Uma capacidade de ser “continente”, aliado a uma “função-alfa”. • Uma “capacidade negativa”(ou seja, uma condição de suportar, dentro de si, sentimentos negativos, como é, por exemplo, o de um “não saber”. • Uma “capacidade de “intuição”. • Um “estado de “paciência” e de “empatia”. • A necessidade de que, na situação analítica, a mente do analista não esteja saturada por memória, desejo e ânsia de compreensão imediata. • O reconhecimento de que o analista também é importante como “pessoa real” e que ele serve como um novo modelo de identificação para o analisando. Teóricos percursores de Freud que deram continuidade na obra freudiana e expandiram seus horizontes ampliando sua aplicabilidade de tratamento de adoecimentos mentais nos mais diversos públicos. Texto base: ZIMERMAN, David E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Téc- nica, Clínica–Uma Abordagem Didática: Teoria, Técnica, Clínica–Uma Abordagem Didática. Artmed Editora, 2009. 89 Aula 25 Como se Tornar Um Analista A formação em psicanálise como uma constante Formação do Psicanalista A formação de quem deseja fazer uso da técnica psicanalítica acon- tece de forma contínua. Não possui um fim, nem há uma formatura, pois ela acontece durante todo o tempo. O analista se faz no seu fazer analítico. Na prática, as escolas que formam psicanalistas usam um determi- nado momento da formação para denominar alguém como psicanalista. Este tempo varia entre uma escola e outra, mas geralmente é de 3 a 5 anos. A formação é contínua, mas segue alguns critérios. Tripé da formação O psicanalista em formação tem como base um tripé, comum em todas as formações: Estudo da Teoria; a supervisão; e a análise pessoal, o analista se faz na sua análise. Este curso não lhe transformará em um psicanalista, mas pode ser uma porta de entrada para sua prática na clínica, um caminho para quem inicia ou um auxílio para quem já o conhece. A psicanálise acontece dentro da relação psicólogo/analista e pa- ciente, em uma clínica que tem como base a teoria psicanalítica, ainda que este não seja um psicanalista. Ao ser posta em prática, a psicanálise ultrapassa as paredes da academia e os dogmas das escolas, se instalando a partir da fala e do compromisso entre analista e analisando. Instituições de formação Os institutos de formação nasceram com o objetivo inicial de ga- rantir um ensino fiel à descoberta psicanalítica e, ao mesmo tempo, disci- plinar uma prática que corria o risco de se tornar selvagem em mãos de charlatões sem uma formação adequada. Análise pessoal Será o processo de análise o lugar de encontro com os efeitos do próprio inconsciente, com o reconhecimento dos seus desejos e paixões, angústias e temores. Nesta condição, a força de um núcleo traumático pulsional de natureza infantil terá lugar na cena transferencial. 90 Desta experiência transformadora, geradora de uma familiarida- de do analista com o seu próprio funcionamento psíquico, poderão surgir as condições de escuta analítica. O desejo e a disponibilidade de ocupar o lugar de analista poderão despontar no analisando. A supervisão Desta experiência transformadora, geradora de uma familiarida- de do analista com o seu próprio funcionamento psíquico, poderão surgir as condições de escuta analítica. O desejo e a disponibilidade de ocupar o lugar de analista poderão despontar no analisando. Estudo da Teoria O estudo das teorias é o terceiro elemento deste tripé. Conhecer o desenvolvimento dos principais modelos teóricos instrumentaliza o ana- lista e favorece o diálogo com seus pares. No entanto, o estudo teórico, a meu ver, não deveria reduzir-se à exegese do texto nem à erudição psi- canalítica. https://www.campolacaniano.com.br/ https://febrapsi.org/ https://www.bion.org.br/ Textos base: FREUD, Sigmund. O caso Schreber. LeBooks Editora, 2020. FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente. LeBooks Editora, 2019. FREUD, Sigmund. A questão da análise leiga (1926). Fundamentos da clínica psicanalítica. Autêntica, 2017. FREUD, S. Recordar, repetir, elaborar (1974) In: _ Edição Standard Bra- sileira das Obras Completas de Sigmund Freud. 1914. ZIMERMAN, David E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Técnica, Clí- nica–Uma Abordagem Didática: Teoria, Técnica, Clínica–Uma Aborda- gem Didática. Artmed Editora, 2009. FREUD, Sigmund. Fundamentos da clínica psicanalítica. Autêntica, 2017. FREUD, Sigmund. Princípios básicos da psicanálise. Observações psica- nalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“ O Caso 91 Schreber”), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. FREUD, Sigmund. Algumas observações sobre o conceito de inconscien- te na psicanálise. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“ O Caso Schreber”), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Jorge Zahar Editor Ltda, 1984. LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psica- nálise. Martins Fontes Editora Ltda, 1970. TANIS, Bernardo. Considerações sobre a formação psicanalítica: Desa- fios atuais. Percurso, XVIII, v. 35, p. 29-36, 2005. 92 Sugestão de Filmes Aqui fiz algumas sugestões de filmes que tem um conteúdo que conversam com a teoria e a concepção de funcionamento psíquico, re- lação mãe e bebê, alguns sobre a história da psicanálise e outros sobre contexto social e o que nele vem atrelado aos sofrimentos que conhece- mos e que interferem diretamente nos sujeitos e encontramos na clínica, as séries são um ponto fora da curva em seus episódios específicos que me chamaram atenção em momentos de lazer e que achei interessante compartilhar aqui. A maioria deles estão em plataformas como Netflix e Amazon Prime. Obrigada por acompanhar até aqui e nos vemos em breve :) Cisne negro Mãe Melancolia Helena Lady BIRD O mínimo para viver O estranho em mim ( fora de circuito e não está em plataforma) Precisamos falar sobre Kevin Olmo e a Gaivota Nise : o coração da loucura Freud além da alma Parasita Roma Que horas ela volta Histórias cruzadas Green Book O som ao redor Casa Grande Bacurau Cidade de Deus Séries Modern Love - episódio Take me as i am, 2019 (Amazon prime) The crown T 1 ep 09 (NetFlix) 93 Sobre a Autora Tamara Levy Valente graduada em Psicologia e pós-graduada em Teoria Psicanalítica e em Gestão e Docência no Ensino Superior. Possui ampla experiência em atendimento clínico de crianças, jovens e adultos e supervisão de atendimento clínico com base psicanalítica.Atuou na Coor- denação do Setor de Psicologia do Instituto de Prevenção ao Câncer ‘Joel Magalhães’ – IJOMA 93 INTRODUÇÃO À CLÍNICA PSICANALÍTICA Introdução MÓDULO I O INÍCIO DA PSICANÁLISE E A SUA TÉCNICA Aula 1 História da Psicanálise Aula 2 O Poder Mágico Aula 3 Os Afetos e Seus Adoecimentos Aula 4 Escuta Psicanalítica Aula 6 A Resistência Aula 7 Transferência Aula 8 Transferência - O Manejo MÓDULO II Aula 9 Três Ensaios Sobre a Sexualidade Aula 10 Complexo de Édipo Aula 11 Édipo e Neurose Aula 12 O Ics Aula 13 Primeira Tópica Freudiana Aula 14 Segunda Tópica Freudiana Aula 15 - Além do Princípio do Prazer – Introdução Aula 16 Além do Princípio do Prazer Aula 17 Eros e Thanatos Aula 18 Pulsões e Seus Destinos Aula 19 Estruturas Clínicas Aula 20 Recordar Repetir e Elaborar MÓDULO III FREUD É ATUAL Aula 21 Recomendações de Freud Aula 22 A Clínica Hoje Aula 23 Fim de Análise Aula 24 Escolas Psicanalíticas Aula 25 Como se Tornar Um Analista Sugestão de Filmes Sobre a Autora