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Língua: meio de opressão ou de socialização? 
 
[...] 
 
Instrumento social de comunicação, a língua existe 
intimamente ligada à cultura de um povo. É ao mesmo 
tempo elemento da cultura e instrumento dessa mesma 
cultura. Assim, os povos encontram na língua, nas línguas, 
a forma de expressão mais eficaz, porque mais 
socialmente disseminada e disseminável, de suas idéias. 
Como instrumento social, a língua requer, para o seu 
desempenho o conhecimento por parte da comunidade 
para que o processo de comunicação efetivamente se 
estabeleça e sua eficácia. [...] 
 
 
O sucesso no uso de uma língua deverá estar 
equacionado na relação entre emissão de 
mensgens/informações e captação dessas mesmas 
mensagens/informações. Em outras palavras: como 
instrumento social de comunicação, para que funcione, é 
preciso que à codificação se siga a decodificação pelos 
seus utentes. Um código, como outro qualquer, a língua 
requer que os seus usuários manipulem os sinais de que 
se compõe, de modo a permitir o seu pleno 
funcionamento. Uma língua existe na medida em que uma 
coletividade dela se serve como instrumento de 
comunicação; a comunicação tem êxito na medida em que 
as mensagens são plenamente apreendidas. Com isso, 
cumpre uma língua a sua função social. E aqui nos 
defrontamos com uma primeira conseqüência: se 
intimamente se liga à cultura do povo que dela faz 
uso, a língua, necessariamente, refletirá a diversidade 
e a variabilidade desse mesmo povo. 
 
Refletirá a diversidade no tempo: falamos todos a língua 
portuguesa. Falou-a Camões, falou-a Pero Vaz de 
Caminha, falaram-na os nossos poetas da lírica 
trovadoresca, mas na a usaram exatamente como a 
usamos nós, hoje. Ninguém hoje, cortejará, ou melhor 
paquerará a sua amada como chamando-a a de mia 
fremosa senhor; nós, hoje, não temos mais soidade, mas 
 
 
 
ainda temos saudade; nem tratamos as pessoas com os 
quais temos pouca familiaridade de vossa mercê. Nós, os 
urbanos, não costumamos recomendar às crianças que 
não pisem na terra sarolha, nem costumamos tampar as 
nossas panelas com um testo. Recomendamos, sim, que 
não pisem na terra molhada, umedecida pela chuva e que 
tampemos as panelas com tampas. Esses dois últimos 
exemplos servem para nos mostrar a contemporaneidade 
do, aparentemente, não contemporâneo. A língua, pois, 
muda com o tempo, mas permanece a mesma língua 
portuguesa. [...] 
 
 
 
 
 
A língua reflete também a variabilidade no espaço. E se 
estamos num mesmo tempo, numa mesma época, não 
significa que estejamos garantindo, necessariamente, a 
uniformidade da língua nessa sincronia. Os exemplos a 
demonstrar o fato são numerosos e todos nós, ainda 
que não envolvidos com o estudo sistemático da língua 
vernácula, temos condições de listar muitos deles. 
Quem ainda não comeu macaxeira com carne do sol da 
Paraíba? Ou saboreou o delicioso queijo de manteiga 
do Ceará? Ou parou o carro porque o semáforo mudou 
para o vermelho? São muitos e muitos os exemplos que 
nos mostram como cada terra tem os seus usos e as 
suas formas para expressá-los, coincidentemente ou 
não com os de outras regiões. 
 
 
E quando a língua, aqui ou alhures, não encontra nela 
própria as formas de expressão das idéias, cria novas 
formas ou vai buscá-las em outras línguas, soluções 
que, iniciadas num ponto, pode generalizar-se depois. 
[....]. 
 
Por que, então, diversificada no tempo, diversificada no 
espaço, afetada por estrangeirismos, ampliada com 
neologismos, a língua permanece a mesma, 
continuamos a falar a língua portuguesa? [...] 
 
 
Intrumento social de comunicação, a língua não é nem 
uniforme, nem imutável, nem possuidora de uma 
suposta homogeneidade. Ora, se todas as formas de 
expressão da língua, nas suas diferentes normas, dão 
conta de sua função social, todas essas formas são, por 
conseguinte, meios autênticos e legítimos de expressão 
naquela língua. E vamos tirar uma segunda 
conseqüência: se todas as normas são legítimas, não 
há como considerar-se uma superior a outra. 
 
[....] 
 
A função da escola, e conseqüentemente do professor 
de língua portuguesa, é dar a todo o estudante, ao 
falante, o conhecimento da diversidade da língua, da 
pluralidade de normas com quais convive, a 
conscientização da norma de que faz uso e a 
possibilidade de integração com a norma de maior 
prestígio social, para que a língua não se torne um 
instrumento de opressão, inibição, de castração da 
criatividade individual, mas se converta num mecanismo 
eficaz de socialização do conhecimento e da cultura. 
 
 
CARDOSO, Suzana Alice Marcelino. Língua: meio de 
opressão ou de socialização? In: FERREIRA et al. 
Diversidade do português doBrasil. 2 ed. rev. Salvador: 
Ced/Ufba, 1994.

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