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UNIDADE Revoltas e Rebeliões Introdução No período entre a abdicação de Dom Pedro I e a assunção ao trono de Dom Pedro II, o Brasil teve um período denominado de regencial. Ele foi marcado por diversas rebeliões, revoltas e guerras que ameaçaram território brasileiro e colocaram em xeque futuro da Coroa no país. Nem todas as revoltas foram ligadas às questões políticas, pois rebeliões de escravos e mesmo de disputas regionais ocorriam no Brasil desde a Colônia. Um exemplo de uma dessas rebeliões no período que não pode ser classificada como regencial foi a Revolta dos Malês. As denominadas revoltas regenciais são entendidas como um período de instabilidades políticas ocorridas por conta da mudança do status do Brasil, tendo como pano de fundo a independência do país e a possibilidade de instalação de um outro tipo de sis- tema de governo. Quer saber mais? Veja: FAZOLI FILHO, A. período regencial. 2. ed. São Paulo: Ática, 1994; FONSECA, S. de B. ideia de República no Império do Brasil: Rio de Janeiro e Pernambuco (1824-1834). Jundiaí: Paco, 2016; GONÇALVES, L. Estratificação social e mobilizações políticas no processo de for- mação do Estado nacional Brasileiro: Minas Gerais, 1831-1835. São Paulo: Aderaldo & Rothschild, 2008; GOUVÊA, de F. S. Império das províncias: Rio de Janeiro, 1822-1889. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. Dessa forma, processo de independência, as ideias liberais e as revoltas regenciais são causas e consequências imbricadas em uma sequência lógica de um grande processo de mudança entendido e analisado pela historiografia desde século XIX. A partir dessa causa maior, as rebeliões foram inicialmente tratadas como decorrên- cia das injustiças e descontentamentos pelas escolhas feitas por parte da elite política do país, contrariando outros grupos dessa mesma elite. A defesa da Pátria, sua integridade territorial e a manutenção do sistema escravista com um governo central foi atribuído pelos autores oitocentistas como uma ação heroica em contraposição ao desejo de desintegração e separação territorial. Ao mesmo tempo, a participação popular nas revoltas foi entendida como ações de selvagens, rebeldes e não civilizados, que desejavam caos social e a anarquia de um Brasil pré-colonial. Realmente, a mudança de regime não ocorreu de forma pacífica, e a integridade terri- torial esteve ameaçada diversas vezes nesse período. Porém, esse entendimento guarda em si diversas possibilidades de explicação. 8Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Vários estudiosos ao longo da história do Brasil apresentaram teorias e teses para a situação sui generis da manutenção do território brasileiro, enquanto a América Latina se desintegrava em diversos grupos a partir da América espanhola. Quer saber mais sobre este tema? Veja: MATTOS, I. de. Tempo Saquarema. São Paulo: Hucitec, 2004; CARVALHO, J. de. A Construção da Ordem: elite política imperial. Brasília: Edi- tora Universidade de Brasília, 1981; CARVALHO, J. de. Teatro de Sombras: política imperial. São Paulo: Vértice, 1988; DOLHNIKOFF, pacto imperial: origens do federalismo no Brasil do século XIX. São Paulo: Globo, 2005. No século XX, outras interpretações foram apresentadas para a explicação desse processo. Uma delas aponta para a ideia de que a complexa reconfiguração do sistema colonial foi um reflexo do movimento revolucionário francês iniciado em 1789. As ideias revolucionárias transbordaram limites da França e tornaram-se um grito de li- berdade e de libertação das amarras da humanidade: Estado, a Religião e obscurantismo. Essa vaga de liberdade teria movido multidões, esperançosas e prontas para alcançar sua liberdade. Essas ideias chegaram à América Latina e ganharam as praças públicas e as ruas e circularam por diversas regiões do Brasil, inflamando corações e mentes. Dessa forma, a Proclamação da Independência e a adoção de uma Constituição, marco dos tempos modernos e que tinha condão de limitar poder dos monarcas e governantes, sinônimo dos direitos individuais dos cidadãos, foram vistas como ápice da superação de uma era e a inauguração de uma nova era. Portugal, a grande metrópole, estava no foco desse entendimento como local da crise do Antigo Regime e a reivindicação do próprio povo português, que clamava por uma nova estrutura política para antigo império. Alguns historiadores, como Sérgio Buarque e Emília Viotti, apontam na direção de que esses valores foram disseminados entre as camadas populares. Quer saber mais sobre isto? Veja: HOLANDA, S.B. História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo, Difel, 1970. V. 2; COSTA, E. V. da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. 9. ed. São Paulo: Editora UNESP, 2010. Dessa forma, a crença nesses valores e nas promessas de liberdade transformaram-se em ódio e inconformação a partir do momento que ações contrárias à manutenção de privilégios e da estrutura de poder levaram a população, em diversas partes do Brasil, a se rebelar contra arbítrio e a opressão. 9UNIDADE Revoltas e Rebeliões Essa tese se contrapõe à tese clássica de ações de rebeliões políticas oportunistas de setores que foram contrariados em seus interesses e utilizaram as massas mais desfavo- recidas em suas ações revolucionárias. Atualmente, destacam-se novas percepções que buscam entender, na imbricação da história política e suas interfaces com a história social, econômica e cultural, diferentes aspectos da organização dos poderes e diversos modos da ação política e formas de sociabilidade entre planos local, provincial e central para construção da nação. O fato é que se de um lado a luta pela integridade das regiões a partir de um governo central ocorreu, de outro, interesses dos diversos grupos envolvidos deveriam ser levados em conta. Em história, a complexidade dos fenômenos leva a teorias que buscam compreender e explicá-los, mas não esgotam as possibilidades de análise. Por isso, processo de re- visitação histórica e proposição de novos olhares é dinâmico e contínuo. Este Unidade pretende apresentar as principais crises, revoltas e revoluções que ocorreram pelo território brasileiro e demonstrar como se chegou à pacificação e a unidade nacional. A Luta pela Independência Quando Dom Pedro I proclamou a Independência do Brasil, ele não estava na capital, Rio de Janeiro, em 1822. Porém, a história por trás dos eventos que culminaram nesse momento ocorreu em grande parte nos bastidores da Corte que se encontrava lá. Conselho Federal De Cultura. 0 debate político no processo da independência. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973. Em 1823, contexto do período apresenta um país em crise devido ao impasse político entre imperador e a elite política, que estava dividida entre que desejavam mudanças. O imperador dissolveu a Assembleia Constituinte, que causou revolta na população, fazendo com que medo de um retrocesso levasse ao recrudescimento das hostilidades contra portugueses. Em 1824, parte do terceiro batalhão de linha mataram oficial Felisberto Caldeira, comandante das armas. Em 1831, a pressão acabou fazendo com que imperador de- mitisse oficiais portugueses. Havia clubes em toda a província pregando princípios liberais que iam desde O fede- ralismo até republicanismo mais radical. O Rio de Janeiro era centro nervoso do Império, uma cidade em ebulição. Nessa época, ocorreu a Revolução de Sete de Abril, que levou Dom Pedro I a abdicar do trono em favor de seu filho e instituir uma Regência Trina para governar a nação até a maio- ridade dele. 10Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Nesse período, a política brasileira estava dividida entre alas ideológicas distintas em três ramos: exaltados, regressistas e moderados. No controle do governo e na Câmara dos Deputados estavam os moderados, que detinham controle da Casa e com a maioria dos deputados. Em oposição a estes, estavam exaltados, que estiveram à frente da campanha para a abdicação do imperador, porém, por não contarem com um número expressivo de deputados, foram alijados e perseguidos pelos outros partidos políticos. Em apoio ao governo estavam regressistas. Estes eram fortes no Senado e dese- javam a manutenção do sistema imperial no Brasil, com a figura do imperador e com centralização do poder na capital. Porém, essas não eram as únicas forças atuantes nas decisões da nação. Havia também Exército, que no seu ambiente interno se ressentia com diversas dificuldades, entre elas a transferência de oficiais de unidades, a redução dos efetivos, sistema de punição aplicados à tropa, recrutamento forçado, baixos salários, entre outros problemas. O endividamento da nação por conta dos gastos militares com a contratação de mercenários para conter as rebeliões e manter a integridade do país vinha desde 1808 com o Primeiro Reinado. Tudo isso afetava a economia, que agonizava com a inflação e todos os tipos de corrupção. A piorar a situação, desde a separação entre Brasil e Portugal, a presença de por- tugueses na sociedade estava se deteriorando, e as disputas políticas e comerciais am- pliavam a insatisfação dos brasileiros. As rivalidades acabavam por criar um clima cada vez mais tenso entre brasileiros e portugueses, e em determinadas regiões seria estopim para revoltas e sedições. Esse clima se espraiou para a sociedade, e Rio de Janeiro foi palco de violentas manifestações e revoltas durante Período Regencial. Os historiadores, ao longo da história do Brasil, registraram e analisaram mais de vinte manifestações nesse período. Diversos autores positivistas, como Justiniano José da Rocha, Pereira da Silva, Moreira de Azevedo, Joaquim Nabuco, entre outros, deram ênfase aos radicalismos dos grupos de oposição, apontando excesso de liberdade, a desordem generalizada, a instabilidade das instituições, a fraca e incompleta legislação, a descentralização política, com muito poder aos Estados (províncias), a falta de confiança no Exército e nas tropas, as sucessivas revoltas e a fraqueza do governo como as principais causas para agrava- mento da situação. Em 1830, também tivemos desenvolvimento da imprensa, que cresceu de forma exponencial, atingindo diversas regiões do país, como Santa Catarina, Alagoas, Rio de Janeiro, Maranhão, Bahia, Pará, Minas Gerais, Paraíba, São Paulo, Goiás, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Ceará, Sergipe, Espírito Santo, Santa Catarina, entre outras localidades, fazendo com que as notícias e as crises fossem partilhadas entre a população esclarecida ou fossem de alguma forma traduzidas para resto da população como informes populares. 11UNIDADE Revoltas e Rebeliões As revoltas acabaram por ser classificadas como revoltas regenciais. Esses eventos marcaram definitivamente a História do Brasil e ilustram um período de transição e definição dos caminhos institucionais e políticos que desafiaram a própria integridade territorial do Brasil. Quer saber sobre este ponto? Veja: GRINBERG, K.; SALLES, R. (orgs.). 0 Brasil Imperial (1808-1831). Rio de Janeiro: Civi- lização Brasileira, 2009. V. 2; CARVALHO, J. Cidadania no Brasil: 0 longo do caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011; MOREL, período das Regências (1831-1840). Rio de Janeiro: Jorge Zahar,2003. Dessa forma, apresentaremos aqui as principais revoltas desse período para entendermos um pouco sobre as reinvindicações envolvidas no clima político do País nesse período. A Insatisfação da População Contra Governo Central As analises historiográficas sobre a questão da insatisfação com governo imperial no Brasil se deve a uma gama de múltiplos fatores que demonstram quão complexa era e ainda é a sociedade brasileira. Os primeiros historiadores do período do Império fizeram análises positivistas, calcadas no projeto de nação e defesa da integridade territorial do Brasil e de sua afirmação frente à construção da nação. Somente no século XX é que teremos mudanças e revisões importantes que acabaram por constituir um processo de entendimento mais aprofundado sobre os atores que faziam parte desse complexo processo de ideias, causas, insatisfações e frustrações que compu- seram esse período. Somente há pouco tempo isso vem sendo tentado, como nos aponta historiador Marcello Basile, quando diz que: Nas últimas duas décadas, a historiografia sobre Império do Brasil vem sendo notavelmente enriquecida por dezenas de obras que apresentam novas e instigantes perspectivas sobre período. Não obstante a diversi- dade de objetos estudados, inclusive a vasta produção sobre a escravidão negra, observa-se em tais trabalhos privilegiamento de três eixos temá- ticos: Estado, nação e cidadania. Tais tópicos estão estreitamente inter-re- lacionados, situados particularmente nas fronteiras das histórias Política, Social e Cultural, abordados à luz de referenciais de análise como, entre outros, cultura política, espaço público, participação popular, vocabulário político e representações simbólicas. (BASILE, 2013, 249) 12Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Por isso, não há possibilidade de se imputar apenas uma causa geral de insatisfação, como a frustração das ideias liberais ou mesmo protagonismo da política regionalista por mais autonomia e poder das províncias, como as causas da insatisfação contra governo central, seja no período de Dom Pedro I, após a independência do Brasil, seja na sua abdicação em favor de seu filho. O período da transição para a assunção de Dom Pedro II ao trono ampliou os de- sejos por mais liberdade e também frustrou interesses tanto de setores das classes mais abastadas, quanto de populares, pobres, trabalhadores e até mesmo de escravos africanos em busca de sua liberdade. Somente há pouco tempo alguns historiadores e historiadoras apontaram a partici- pação e interesses das mulheres que participaram dos levantes e rebeliões, em parte devido ao apagamento histórico documental, traço típico da época, em parte por uma conformação não explícita da repetição de uma história em sua formação de base. Da mesma forma, ainda necessitamos de olhares e pesquisas históricas que busquem novos formas teórico-metodológicas que compreendam e tragam à lume negro, pobre, indígena, a criança e a mulher para a cena da história do Brasil em sua real dimensão. É que constata historiador Cristiano Luís Christillino, quando afirma que: A população conhecida como de homens livres e pobres era extensa no Século XIX, mas ainda conta com poucos trabalhos na historiografia. Trata-se de um grupo sobre qual há poucas fontes. Muito se sabe sobre escravos e seus senhores, mas ainda pouco sobre a imensa população de homens e mulheres livres espalhados pelas províncias do Império do Brasil. (CHRISTILLINO, 2015, 57) De igual forma, não podemos encarar esse período e as chamadas revoltas regenciais como um fato orgânico, desenvolvido pela população brasileira como um libelo à liberdade. Essa análise historiográfica, típica da influência marxista clássica, trouxe avanços no en- tendimento desse período, mas não conseguiu provar de fato uma "consciência de liberdade", tão em voga em algumas análises projecionistas ligadas a algumas correntes marxistas. Decerto que as análises historiográficas que buscam pelo ideal de libertação são fatores de afirmação de muitos povos, principalmente em regimes onde imperam a opressão e as difíceis formas de sobrevivência diária, como as que têm marcado a história da América Latina. Apesar disso, complexo período que veremos à frente deve ser entendido como a aglutinação de diversos problemas, inflamados pela mídia da época e alimentados pela própria condição de grupos específicos na sociedade, alguns oprimidos, outros alijados de condições mínimas de sobrevivência, além dos interesses de classes mais abastadas que sofreram perdas no processo da mudança do seu status social. Tentar classificar eventos revolucionários ou mesmo as rebeliões do Período Re- gencial, como a Cabanagem, a Balaiada, a Sabinada e a Revolução Farroupilha, como ações unificadas e orgânicas não se sustenta na análise historiográfica. Dessa forma, precisamos focar na questão geral e tentar mapear minimamente as diversas insatisfações que levaram aos eventos de revoltas e rebeliões nesse período. 13UNIDADE Revoltas e Rebeliões As Tentativas de Separação nas Diferentes Regiões Vamos iniciar pela Cabanagem, que infelizmente têm sua produção historiográfica muito localizada e seu movimento entendido como um evento meramente regional, não representativo, a não ser na memória local e não para conjunto da população brasileira. Somente a partir do fim do século XX, a Cabanagem passou a ser vista como um movimento popular expressivo no Pará, resultado de um sentimento anticolonial que acabou por se instalar na região. Os grupos envolvidos trouxeram uma nova perspectiva sobre evento, e a crise política e paraense desvelou uma história de colonização que tinha como sua base a escravidão negra e indígena. A Cabanagem também é um evento que demonstra que Brasil é composto de uma sociedade complexa, e esse movimento reflete as contradições da história política brasileira. A historiografia mais antiga classificou movimento como uma luta étnica entre brancos, índios e negros. De forma depreciativa e crítica, evento foi classificado como desagregador. Um dos historiadores representativos dessa vertente foi Domingos Raiol, que analisou detidamente principais fatos de 1821 a 1835, época do evento. Sua conclusão foi que os cabanos difundiram um sentimento de rivalidade entre os brasileiros e os europeus, e entre ricos e pobres, que ia da não aceitação às ordens do governo central à revolta pelas condições de vida impostas. Assim, para esse historiador, a Cabanagem foi um evento contra o Governo Regencial. A partir de 1980, estudos históricos sofreram um processo de revisitação, e outras interpretações foram apresentadas de forma a classificar movimento como uma ação popular de cunho revolucionário. LIMA, S.; LIMA, J.A. B. de; CARVALHO, R. G. de. Historiografia Brasileira: uma breve história da história no Brasil. Curitiba: Intersaberes, 2018. Essa revisitação destacou a questão regional e geográfica do evento como uma re- volta do Norte brasileiro, Grão-Pará, que abarcava em seu território Amazonas, Pará, Amapá, Roraima e Rondônia. Quer saber mais sobre esta configuração regional? Disponível em: Além disso, diversos historiadores destacaram objetivos da Cabanagem: tirar poder dos governadores da Província, melhorar a condição de vida do povo, ampliar a importância do Pará no cenário brasileiro. 14Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Porém, isso não significa que as análises históricas e historiográficas estavam erradas ou foram manipuladas. Todo fenômeno histórico é complexo, com múltiplas interpreta- ções que dependem da ênfase da análise e seus objetivos. Podemos destacar que papel da imprensa analisado por alguns historiadores, como Luis Balkar Sá Peixoto Pinheiro, Vitor Marcos Gregório, entre outros, demonstrou a importância de uma análise mais complexa, envolvendo papel da mídia no conflito. A discussão sobre temas como a questão do federalismo, da escravidão e da elei- ção para cargos foram amplamente divulgados e debatidos, alcançando parcelas da população letrada e envolvendo discussões sobre tipo de País que deveria ser consti- tuído pela nova Carta Magna. Nos debates parlamentares, chegou-se a aventar reconhecimento do Império como uma federação, Constituições próprias feitas pelas províncias, fim do Senado, do Po- der Moderador e dos títulos nobiliárquicos. A análise desse debate ainda é pouco explorada pela historiografia brasileira, apesar de análises recentes e significativas. Assim, para entender processo de revolta denomi- nado como Cabanagem, precisamos citar a figura do cônego Batista Campos, político paraense, proprietário de terras e escravos e editor de jornais. Através do jornal Publi- cador Paraense", promoveu suas ideias de federalização do Brasil com maior autonomia para as províncias. Quer saber mais sobre este personagem histórico? Disponível em: Em 1833, Batista Campos utilizou outro jornal, Publicador Amazonense", para refutar seus opositores, afirmando que a província do Pará não deveria se submeter a todas as decisões do poder central. Dessa forma, as ideias de federalismo tornaram-se um ideal compartilhado tanto por liberais exaltados, quanto por setores da sociedade que desejavam maior autonomia e menos taxações impostas pelo poder central. A análise das publicações feitas no Publicador Paraense" demonstra a frustração em 1832 da decisão sobre quais artigos constitucionais poderiam ser modificados pela legislatura seguinte. Isso foi entendido como a ação da aristocracia para a manutenção de seus privilégios e que exaltados não aceitavam e pretendiam eliminar. Dessa forma, Batista Campos reproduziu no Publicador Paraense" textos do jornal pernambucano "A Bússola", em que se apregoava que a soberania para tais decisões era do povo e que Parlamento brasileiro não poderia impor limites para as reformas constitucionais. Nesse clima de disputas e ideias, foi criada na cidade de Belém a Sociedade Federal, com a participação do presidente (governador) Joaquim Machado de Oliveira, e, nas eleições para congresso, foram eleitos deputados Visconde de Goiana, José Thomaz Nabuco de Araújo e Antônio Correia Seara, alinhados às ideias de Batista Campos. Quer saber mais sobre estes personagens históricos? Disponível em: https://bit.ly/3CzzdRV 15UNIDADE Revoltas e Rebeliões Porém, ao final, as expectativas foram frustradas, e isso desencadeou enfrenta- mento entre presidente da província, Bernardo Lobo de Souza, e partidários de Batista Campos. Quer saber mais sobre este personagem histórico? Disponível em: https://bit.ly/3CDHDHT O jornal "Sentinella Maranhense" passou a elogiar a Confederação do Equador. Cla- ramente a população passou a sentir o clima de "revolta no ar", principalmente quando jornal "Correio Oficial Paraense" acusou "Sentinella Maranhense" de insuflar a população à revolução. Em 1834, então presidente da Província escreveu ao Ministro do Império sobre a si- tuação no Pará e colocou Cônego Batista Campos como o líder agitador da população. A ação federal se fez sentir, e foram efetuadas diversas prisões. No início de 1835, a revolta se iniciou e presidente da província e governador das armas foram mortos pelos rebeldes, que deflagou a luta armada. Dessa forma, a questão política está registrada de forma indelével nesse evento, que não exclui as outras motivações quando nosso olhar se volta para outros grupos envolvidos e suas reivindicações. É que conclui historiador Júlio José Chiavenato quando diz que: A Cabanagem do Pará é único movimento político do Brasil em que os pobres tomam poder, de fato. É único e isolado episódio de extrema violência social, quando oprimidos, a ralé mais baixa, negros, tapuios, mulatos e cafuzos, além de brancos rebaixados que parecem não ter di- reito à branquitude, [...] assumem poder e reinam absolutos, eliminando quase todas as formas de opressão, arrebentando Sistema político (es- tados, províncias) ou grupos se unem para formar uma organização mais ampla como, por exemplo, um Estado Central. No sistema federalista, estados que integram mantêm a autonomia com a hierarquia social, destruindo as forças militares e substituindo-as por algo que faz tremer poderosos: povo em armas. (CHIAVENATO, 1984, 12-14) Chiavenato ressalta a Cabanagem pela via popular, demonstrando que as ações po- líticas e desejo de liberdade dos diversas grupos que compunham a população mais pobre e desprovida iria protagonizar a luta, tendo esses grupos seus próprios objetivos de libertação. Os grupos que compuseram evento era formados por índios, mestiços e pessoas da classe média. A Cabanagem envolveu toda a região Norte, desde as proximidades da capital Belém, passando por toda a calha do rio Amazonas e seus principais afluentes, chegando às re- dondezas de Manaus. Em todas essas regiões, a participação da população se fez sentir, bem como de aldeias, povoados e vilas. 16Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Nesse episódio, as forças governamentais conseguiram recuperar controle da situação por conta do uso de forças mercenárias e pela desorganização do próprio grupo revoltoso. Outra revolta desse período foi a chamada Revolta dos Malês, que ocorreu entre os dias 24 e 25 de janeiro de 1835. Quer conhecer mais sobre esta revolução? Veja: REIS, J.J. Rebelião escrava no Brasil: história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003; FREITAS, D. Insurreições escravas. Porto Alegre: Movimento, 1976. Ela não é classificada como uma revolta regencial, pois não apresenta reivindicações ligadas ao tema, mas ocorreu no período regencial e é de grande significado histórico por guardar certos elementos que esclarecem em muito questões cruciais sobre período. Nesse evento, escravos de origem africana ocuparam a cidade de Salvador, na Bahia, e enfrentaram soldados e civis armados. Essa revolta em especial, ocorrida em 1835 em Salvador, acabou por ser um marco na historiografia por conta de sua dimensão política e caráter desafiador. Como uma ação demonstrativa da resistência negra contra a escravidão, esse acontecimento que aterrorizou as elites baianas na primeira metade do século XIX foi entendido, também, como uma ação cuja inspiração remetia à rebelião haitiana ocorrida entre 1791 e 1804 e que trouxe temor aos escravagistas nas Américas. A situação causada pelas notícias de rebelião e morte de senhores escravagistas por seus escravos, como ocorreu no Haiti, decerto trouxe desassossego a uma sociedade com alta concentração de africanos e crioulos subjugados, cujo risco de sublevação era uma possibilidade real. O inevitável fim do comércio transatlântico fez com que negociantes e senhores am- pliassem ainda mais seu plantel, elevando número de cativos para mais diferentes serviços no campo e nas cidades. A proibição em vigor a partir da Lei de 7 de novembro de 1831 não arrefeceu a escravidão, pelo contrário, ampliou comércio ilegal e criou uma rede de contrabando ainda mais feroz e dinâmica nas áreas de atividades econômicas mais valorizadas e de- pendentes dessa mão de obra. Isso se deveu, sobretudo, à vigorosa expansão e incremento da produção agrícola experimentada pelo Brasil na maior parte do século XIX, levando à necessidade de manutenção do comércio escravagista que, junto à lavoura de exportação, veio também com crescimento das cidades. No início do século XIX, a economia açucareira se recuperou de um longo período de estagnação por motivos internacionais, como a saída do Haiti, maior fornecedor de açúcar das Américas, que levou preços e a demanda a patamares que atingiram favoravelmente a exportação brasileira. 17UNIDADE Revoltas e Rebeliões Contudo, a análise desse fenômeno é complexa. A Revolta dos Malês traz em seu bojo elementos importantes que muitas vezes são negligenciados por uma historiografia que valoriza a revolta em detrimento de outros fatores. Essa revolta teve como protagonistas um grupo diferenciado de escravos denomina- dos de malês, assim chamados africanos muçulmanos, adeptos do Islã. Esse grupo é pouco compreendido por conta de sua origem religiosa, dada a falta de entendimento sobre a questão religiosa e teológica por grande parte dos pesquisadores na área de História. O historiador, muitas vezes, não consegue compreender e mesmo articular expli- cações que envolvem a formação religiosa de sua personagem ou grupo histórico por diversas questões que não comportam nesse momento. Basta afirmar que ainda faltam análises mais acuradas sobre esse movimento, muitas vezes interpretado somente citando a questão da origem religiosa, mas não aprofundan- do suas consequências para uma análise mais acurada da questão. Exceção feita, como citação honrosa, por Décio de Freitas, que considerou a religião islâ- mica e a formação cultural e religiosa como a base para entendimento do grande levante. FREITAS, D. A Revolução dos Malês. Porto Alegre: Movimento, 1985. O Islamismo é uma religião que carrega em si uma série importante de regras ritua- lísticas e de sociabilidade que extrapolam em muito a influência cultural local. Para aprofundar seus conhecimentos sobre esta importante religião, indicamos: HOURANI, A. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 1994; JOMIER, J. Islamismo, história e doutrina. Petrópolis: Vozes 1993; NABHAN, N. N. Islamismo: de Maomé a nossos dias. São Paulo: Ática, 1996; PIAZZA, W. Religiões da humanidade. São Paulo: Loyola, 1997. Para Islã, nesse período, a escravidão era parte da vida e das formas de negócio que se faziam na África. Porém, a um mulçumano adepto não era permitido escravizar outro adepto. LOVEJOY, P.E. escravidão na África: uma história e suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. Dessa forma, a chegada de um grupo de islâmicos ao Brasil sugere que tal escravização ocorreu por europeus e não na compra de um lote de uma das muitas empresas de apri- sionamento que havia na África nesse período. Outro ponto importante é conceito de jihad (Guerra Santa), que acompanha a formação do entendimento do Alcorão, porém, é algo diferenciado do conceito cristão medieval europeu. 18Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância A jihad é antes entendido como uma obrigação do que uma possibilidade. Ela é a ação de afirmação do Islã frente à conduta dos infiéis e pode ser tanto física, praticada contra que não esposam a religião e nem seguem seus preceitos, quanto uma deter- minação espiritual de rejeição da cultura do infiel, seu comportamento e sua prática de insubordinação a Alá. Dessa forma, ao se defrontar em uma cultura infiel, comportamento do islâmico se torna tanto uma rejeição deliberada da prática e não aceitação da cultura local de forma silenciosa, mas determinada, quanto uma postura de combate físico contra os infiéis. Os malês eram diferenciados, sabiam ler e escrever, demonstrando, assim, uma eru- dição de grau avançado para os seus congêneres escravizados. e que não aceitavam e nem fazia parte da sua cultura tal condição. O termo "malês" foi alvo de uma análise na tentativa de identificação do grupo, citado pelo historiador José Reis. Ele argumentou que historiador Braz do Amaral sugeriu que a origem do termo provinha de uma junção de palavras: "má, lei", resultado de uma interpre- tação dada pelo catolicismo que consideravam Islã em oposição à "boa lei" (Cristianismo). REIS, J. J.; SILVA, Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. Porém, outra interpretação, dada pelo historiador brasilianista Raymond K. Kent, discordou dessa interpretação, argumentando que "malê" não possuía tal carga negativa nesse período e atribuiu termo à palavra "malam", cujo significado em árabe denota a ideia e função do "clérigo" ou "mestre". José Reis ressalta que "malês" não era uma etnia africana, mas a classificação do africano que tivesse adotado Islã. Eram classificados como malês todos nagôs, haussás, jejes, tapas, todos africanos pertencentes às diversas etnias que tinham Islã como religião. Outro ponto importante é que a sociedade baiana demonstrava nesse período uma característica peculiar, com uma mobilidade social e urbana diferenciada, que possibili- tou que escravos malês acabassem por estabelecer contatos e formas de comunicação que lhes permitiu articular movimento de revolta. Um terceiro conceito oriundo da religião e importante de se entender é conceito de sociedade como parte da religião. Não há no Islã a ideia de República ou de laicismo, a separação entre religião e Estado. No Islã, tudo está imbricado, a religião é política e a política é religião. Dessa forma, a rebelião visava a tomada de poder para a implantação de um outro tipo de sociedade, conforme Alcorão e sua leitura. A rebelião foi a maior nas Américas e abafada de forma exemplar, com cerca de setenta mortos e mais de quinhentos escravos punidos com açoites e deportações para servirem de exemplo. Outra revolta importante foi a Revolução Farroupilha, que, como diversas outras revo- luções, ainda carece de uma análise maior na abrangência da historiografia nacional. 19UNIDADE Revoltas e Rebeliões Ela é importante na historiografia regional do Sul do Brasil e é entendida como uma revolução de caráter republicano contra governo da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Desse evento teremos a declaração de independência da Província, dando origem à República Rio-Grandense. Como em outros conflitos históricos, existem diversas interpretações historiográficas sobre a Guerra dos Farrapos (1835-1845). Ela foi maior e mais intenso e duradouro conflito nesse período do Império e foi registrado pela análise regional como um con- flito que colocou um Império usurpador e desprezível contra uma província que buscou defender seus interesses contra que não respeitavam a população sul-rio-grandense. Esse evento não foi uma guerra da população rio-grandense contra o Império brasi- leiro. Antes devemos vê-lo como uma ação de parte dos chefes militares contra outros chefes sul-rio-grandenses que defenderam governo e receberam apoio, a partir de 1842, de grupos vindos de outras regiões do Brasil. A Guerra dos Farrapos (também chamada de Farroupilha) se inspirou na Guerra da Independência do Uruguai, inclusive com contatos com a nova república do Rio da Prata e províncias independentes argentinas, notadamente Corrientes e Santa Fé. Diversos líderes revezaram-se no período da guerra. Citamos os principais: Bento Gonçalves, General Neto, Onofre Pires, Lucas de Oliveira, Vicente da Fontoura, Pedro Boticário, Davi Canabarro, Vicente Ferrer de Almeida, José Mariano de Mattos. Nesse grande evento, tivemos participações internacionais, como cientista Tito Lívio Zambeccari, jornalista Luigi Rossetti e de Giuseppe Garibaldi. Todos esses per- sonagens estiveram envolvidos em movimentos republicanos na Itália. A Guerra dos Farrapos envolveu diversos grupos da sociedade. Um dos grupos foram negros, que aspiravam a liberdade e a eles ela foi prometida. O grande objetivo dos revoltosos era a defesa do modelo federativo, com maior auto- nomia das províncias em contraponto ao modelo imposto pela Constituição de D. Pedro I. Diferentemente de outras províncias, a produção do Rio Grande do Sul era para mercado interno, e seus principais produtos eram charque e couro, consumidos pelas regiões das Minas Gerais e para sustento dos escravos e para as plantações de cana-de-açúcar, além da cafeicultura que se iniciava na região Sudeste. Para esses produtores, a questão da variação dos preços era de suma importância, e aos consumidores interessava menor preço do couro, do charque e do gado, dada a questão do consumo constante. O grande problema é que a manutenção da política governamental estava fundamen- tada na sobrecarga de impostos sobre essa produção e no controle dos preços. Isso era feito através da importação desses produtos das regiões platinas. Dessa forma, governo conseguia controlar preços em relação aos pecuaristas rio-grandenses. Os produtores sulistas reivindicavam O protecionismo de suas atividades pecuaristas em relação aos países platinos e a diminuição dos preços dos produtos necessários para preparo do charque (como sal). 20Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Havia uma dificuldade de produtividade, pois charque era encarecido por causa do trabalho escravo. Além disso, a baixa produtividade aumentava custos dessa produção. Já produtores do Uruguai e da Argentina e dos estancieiros da fronteira Brasil/ Uruguai faziam ações políticas no intuito de conseguir a eliminação ou, ao menos, a redução das taxas sobre o gado, para a livre circulação dos rebanhos. Os uruguaios e argentinos utilizavam mão de obra assalariada e uma divisão de tra- balho capaz de aumentar a produtividade, conseguindo, assim, maiores resultados na produção e oferecendo preços mais baixos. Diante da falta de sensibilidade do governo às reivindicações dos produtores sulistas e da interferência política na nomeação dos governadores da província e dos funcionários, os fazendeiros e produtores deflagaram a Guerra dos Farrapos, em 1835. Em 1836, farrapos fundaram a República Rio-Grandense ou República de Piratini. A revolta durou quase uma década, com várias lutas e batalhas, até que governo Imperial conseguisse impor uma derrota militar significativa e a abertura de negociações de paz. Uma das consequências desse evento foi a incorporação dos soldados farroupilhas, a promessa de não punição dos fazendeiros e a anistia do imperador. Além disso, foi prometido que os escravos fugitivos que lutaram ao lado dos farroupilhas teriam direito à liberdade. Porém, nem todos concordaram com a paz e continuaram as batalhas pontuais em 1840. Somente em 1842 Barão de Caxias conseguiu conter conflito, isolando o Rio Grande e cortando as vias de comunicação com Uruguai. Dessa forma, em 1845, conseguiu encerrar conflito. Quer conhecer mais sobre este personagem histórico? Disponível em: https://bit.ly/2W2C06n A outra revolta que apresentamos é a Sabinada, um evento que tem suas raízes em um período anterior à Independência. Nessa ocasião, a Bahia era cenário de várias re- voltas que demonstravam a decadência das estruturas coloniais. A interpretação de diversos historiadores destaca as dificuldades da vida cotidiana, bem como as incertezas da organização política. A Sabinada foi marcada pelo apoio da classe média e comercial de Salvador em torno das ideias federalistas. Em 1830, contexto social da Bahia estava baseado na produção açucareira em outras localidades e na pressão econômica devido ao aumento da oferta no mercado internacional. Isso levou a Bahia a uma crise econômica. Além disso, a Bahia enfrentou nesse período uma severa seca, com a redução da oferta de alimentos. Além disso, a corrupção e desassossego público intensificaram as reivindicações dos artesãos, em- pregados públicos e militares. As mudanças trazidas pelo Ato Adicional excluíam as camadas médias da sociedade dos cargos da Assembleia Legislativa, reservando essas vagas apenas para OS latifundi- ários da alta sociedade. Assim, a análise historiográfica e as pesquisas dos historiadores apontam para um cenário de crise econômica e social como base para a revolta. 21UNIDADE Revoltas e Rebeliões Dessa forma, envolvimento das camadas médias tornou esse evento diferente de outras revoltas ocorridas no período regencial. Em 6 de novembro de 1837, rebeldes tomaram forte de São Pedro, e, no dia se- guinte, Francisco Sabino e João Carneiro da Silva, liderando uma turba, invadiram a Câmara Municipal de Salvador, proclamando a República Baiana, desligada do governo do Rio de Janeiro enquanto durasse a menoridade de Dom Pedro II. Quer conhecer mais sobre este personagem histórico? Instituto Histórico e Geografico Brasileiro. Disponível em: https://bit.ly/3nZMJdC Biografia. Disponível em: https://bit.ly/3nZMz60 O movimento não era unívoco, demonstrando que no meio da liderança havia separa- tistas, republicanos e antimonarquistas, junto com moderados, unionistas e federalistas. Havia discordâncias profundas entre os participantes do movimento sobre as ideais liberais que seriam defendidas. A maior foi a questão da libertação dos escravos. Os senhores de terras do Recôncavo Baiano não aceitavam renunciar a seus contin- gentes, e cidadãos aceitavam a libertação dos escravos. Tal discordância levou à mudança de posição dos senhores de engenho locais, que se juntaram às tropas aliadas ao governo central, minando a resistência rebelde até a retomada da cidade. A punição aos líderes do movimento foi exemplar, e muitos foram condenados à morte. Em 1840, com a coroação de Dom Pedro II, alguns líderes alcançaram a anistia do imperador, outros tiveram suas penas transformadas em degredo. A última rebelião que apresentamos é a Balaiada, também conhecida como Guerra dos Bem-te-vis, que ocorreu entre 1838 e 1841 e foi interpretada pela historiografia do século XIX como uma rebelião contra a ordem monárquica realizada pelas classes mais baixas, insufladas pela política regional. Foi especificamente uma revolta das classes mais pobres da população pela não aceitação da promulgação da Lei dos Prefeitos, que impunha uma maior intervenção na região. Se podemos classificar a Balaiada como uma revolta regencial, ela também deve ser en- tendida sobretudo como uma "rebelião sertaneja", dado que não é possível entendê-la fora do contexto da análise do diálogo entre a história, a geografia física e a antropologia social. A Balaiada apresenta-se como um exemplo de uma parte significativa do Brasil que, por conta de decisões políticas, dificuldades estratégicas e condições climáticas, criou que será denominado de "sertão". Essa categoria geográfica se apresenta como representativa tanto de um espaço físico como de uma prática cultural e simbólica, social e psicológica, em que está imbricada a formação de uma gente sofrida e guerreira. 22Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Uma das autoras significativas sobre sertão, a professor Iná Elias de Castro, de- monstra a inter-relação entre imaginário e espaço geográfico em uma simbiose do coti- diano da prática social e do simbólico vivido nesse espaço, quando afirma que: No Sertão nordestino, de clima tropical semiárido, a pouca quantidade de chuvas, ou mesmo sua ausência em intervalos menos ou mais longos, é uma realidade cotidiana. Portanto, mesmo que a possibilidade de se obter um calendário das secas seja ainda remota, a probabilidade que elas ocorram é uma evidência, uma contingência da natureza desta parte do país. Desse modo, como balizamento da discussão, a seca é tomada por aquilo que ela é: um fenômeno da natureza. Este parti pris estabelece um contraponto essencial para a tentativa de compreender sentido mais profundo do fenômeno e do vocábulo seca no discurso, dentro e fora da região. (CASTRO, 2001) Já a ideia de Sertão era utilizada pelos colonizadores para representar grandes espaços interiores desconhecidos e como definição para local de acolhimento do fora da lei. Dessa forma, Sertão sempre foi entendido como um local de sentido negativo, local ou espaço dos não civilizados, dos incultos, dos desordeiros, dos selvagens. A própria ocupação do Sertão, que era a terra dos Tibiriçá, foi considerada uma ação comum e justa, por se desconsiderar outro, no caso, índios, como habitantes do Sertão, como possuidores de alguma dignidade ou direito de propriedade por conta da ideia de ser um "sertanejo". Em 1838, Gonçalves de Magalhães afirmava que o Maranhão computava, à época, uma população de 217 mil pessoas, entre brancos, mesclados e negros, sem citar indígenas nessa estimativa. A visão do índio era extremamente negativa, e uma das citações da época demons- tram isso: [...] Todos os índios, assim estes como os de São Luís, e todos quantos há são falsos, covardes, traidores, carniceiros, cruéis, amigos de novidades. Seu deus é a gula e a luxúria. São homicidas, mentirosos, aleivosos, gen- te de pouco crédito e de nenhuma caridade, sem conhecimentos da fé... Tem muito pouca vergonha, e muita malícia e maldade. São inimigos do trabalho. (HERIARTE, 1874 apud LEONARDI, 1996. 20) O Maranhão regencial estava rodeado de aldeias indígenas, e OS seus habitantes da terra, sua cultura e forma de vida não eram sequer levados em conta, nem pela historio- grafia da época ou pelas autoridades da região. Assim, a "civilização" era considerada a partir da cidade de São Luís e estendia-se pelas margens do Rio Itapecurú até a cidade de Caxias, incluindo as margens dos rios Mearim e Pindaré. BOTELHO, J. Conhecendo e Debatendo História do Maranhão. 2. ed. ampl. atual. rev. Maranhão: Impacto, 2018. 23UNIDADE Revoltas e Rebeliões Após isso, entre rios Itapecurú e Tocantins, havia aldeias Tupinambás, dos Gamelas e dos Timbiras, que ocupavam um imenso território entrecortado por fazendas de gado, onde conflitos eram constantes. As tropas estacionadas no Maranhão tinham como uma das finalidades a diminuição das populações indígenas e a manutenção da paz com eles, que era de grande desgas- te por conta das enormes dificuldades de locomoção. Essa terra também tinha como característica a existência de diversos quilombos, que, aproveitando-se das peculiaridades da natureza local, eram numerosos e de difícil combate. Eram matas fechadas e pantanosas que abrigavam negros fugidos e mestiços livres que fugiam do recrutamento militar, do controle do Estado e de sua "sociedade Na época da eclosão da Balaiada, cujo início foi em 1838 e durou até 1841, o Brasil estava passando por mudanças políticas profundas com a implementação do Ato Adi- cional que instituiu a Regência Uma, consagrando o Padre Feijó como o grande líder em 1835. Nesse período, diversas revoltas ocorreram no país: a Guerra dos Cabanos (1835- 1840), a Farroupilha (1835-1845), a Revolta dos Malês (1835) e a Sabinada (1837-1838). Diante dessa crise, Feijó perdeu sustentação política e acabou por nomear Pedro de Araújo Lima para a pasta do Ministério do Império, que assumiu controle do governo com a renúncia de Feijó em 1837. O grupo de Araújo Lima era de liberais moderados, que isolaram os liberais radicais e combateram os caramurus, que buscavam a restauração do governo de Dom Pedro I. A mudança de direção do país afetou a política no Maranhão, com Araújo Lima indicando Vicente Pires de Camargo para a presidência da província, cuja política de condução trouxe muitas consternações. Isso aconteceu em plena crise da economia algodoeira, que atingia principalmente a classe média de São Luiz e colocava colonos trabalhadores em disputa com os grandes fazendeiros portugueses. Quer conhecer mais sobre este personagem histórico? Disponível em: https://bit.ly/3i0vYel A política da Província era marcada por disputas entre os chamados "bem-te-vis", que se opunham aos governistas, denominados de "cabanos". Uma das decisões de Araújo Lima, denominada de Lei dos Prefeitos, foi dar aos governantes locais (prefeitos) autoridade policial, que levou à perseguição aberta aos opositores do governo. O movimento logo escapou do controle das camadas dominantes, transformando-se num levante dos setores mais humildes da Província. O que levou à revolta popular foi caso ocorrido com vaqueiro Raimundo Gomes, um mestiço (conhecido como cara preta), que passava pela Vila da Manga levando uma boiada de seu patrão para vender. Quer conhecer mais sobre este personagem histórico? Disponível em: https://bit.ly/3nYzHwJ 24Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Na ocasião, muitos dos homens que acompanhavam foram recrutados pelo exér- cito, e seu irmão foi aprisionado sob a acusação de assassinato. Esse recrutamento obrigatório era uma das arbitrariedades das quais governo lançava mão para suprir as forças policiais. Raimundo invadiu a cadeia e libertou seu irmão e outros presos com apoio da guarda. A partir desse episódio, a luta se generalizou por toda a Província. Juntaram-se ao movimento rebelde negros quilombolas, mais de três mil escravos. Em 1839, balaios tomaram a Vila de Caxias e organizaram um Conselho Militar e uma Junta Provisória, com a participação de elementos bem-te-vis da cidade. Uma delegação enviada a São Luís exigia anistia para revoltosos, revogação da Lei dos Prefeitos, pagamento das forças rebeldes, expulsão dos portugueses natos, di- minuição de direitos aos naturalizados e instauração de processo regular para presos existentes nas cadeias. Porém, movimento não era unido, com diversas lideranças e grupos, que fez com que entrasse em declínio. Os líderes bem-te-vis acabaram por mudar de lado, em parte temendo a radicalização das camadas pobres da população, que assumiram a liderança da revolta. O Governo provincial solicitou ajuda ao Rio de Janeiro, que, em 1840, enviou o Co- ronel Luís Alves de Lima e Silva para debelar a rebelião. No comando de oito mil homens, conseguiu sufocar o movimento com a morte de milhares de pessoas. Posteriormente, Luís Alves de Lima e Silva recebeu título de duque de Caxias por conta de sua vitória. Para uma visão global dos eventos mencio- nados, apresentamos. Tabela 1 As Revoltas e rebeliões no período regencial Revolta Data Local Definição Revolta dos liberais contra 0 presidente Cabanagem 1835-1840 Pará nomeado pelo governo regencial e a situação de miséria dos Cabanos. Revolta com discriminações financeiras Farroupilha 1835-1845 Rio Grande do Sul e privilégios a outras regiões. Revolta dos Malês 1835 Bahia Revolta por conta da escravidão de um grupo de islâmicos. Insatisfação com as autoridades impostas. Balaiada 1838-1841 Maranhão Revoltas populares e das classes médias. Sabinada 1837-1838 Bahia Insatisfação com as autoridades impostas. Dessa forma, podemos entender que a consolidação da estrutura política e adminis- trativa do Brasil e a manutenção de sua extensão territorial seguiu um violento caminho, em que as escolhas e decisões não incluíam a ideia de democracia participativa ou sen- sibilidade aos anseios da população. 25