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FARMACOLOGIA APLICADA À ESTÉTICA E COSMÉTICA FARMACOLOGIA APLICADA À ESTÉTICA E COSMÉTICA ORGANIZADORES SUZANA GONÇALVES CARVALHO ; CRISTIANE MEZAROBA ORGANIZADORES SUZANA GONÇALVES CARVALHO ; CRISTIANE MEZAROBA Farm acologia aplicada à estética e cosm ética GRUPO SER EDUCACIONAL Farmacologia aplicada à estética e cosmética é um livro direcionado para estu- dantes dos cursos das áreas de farmácia, estética, cosmética e correlatos. Além de abordar assuntos gerais, o livro enfatiza as bases da farmacologia, os princípios de neurofarmacologia, os mediadores químicos e anti-in�amatórios, os fármacos que afetam os grandes sistemas, as interações medicamentosas e os conceitos básicos de toxicologia. Após a leitura da obra, o leitor vai compreender as vias de administração e suas diferenças em ação dos fármacos; analisar o mecanismo de ação dos fármacos, englobando excitação, contração e secreção de cálcio, proliferação e regeneração celular e mecanismos de defesa do hospedeiro; identi�car os componentes anatômicos e as funções do sistema nervoso central e periférico; relacionar os aspectos morfofuncionais do sistema central, periférico e autônomo com aspectos clínicos; saber a importância farmacológica da 5- Hidroxitriptamina, histaminas, peptídeos e proteínas; considerar as limitações relacionadas aos efeitos gástricos dos anti-in�amatórios não esteroidais; entender sobre os fármacos que atuam no coração, no sistema vascular e na circulação sanguínea, como os anti-hiperten- sivos, diuréticos, digitálicos, antiarrítmicos, antianêmicos, disli- pidêmicos e anti- coagulantes; dominar as doenças que afetam o sistema nervoso central e quais suas alternativas terapêuticas disponíveis, e muito mais. Aproveite a leitura do livro. Bons estudos! gente criando futuro C M Y CM MY CY CMY K FARMACOLOGIA APLICADA À ESTÉTICA E COSMÉTICA Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. Diretor de EAD: Enzo Moreira Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato Coordenadora de projetos EAD: Manuela Martins Alves Gomes Coordenadora educacional: Pamela Marques Equipe de apoio educacional: Caroline Guglielmi, Danise Grimm, Jaqueline Morais, Laís Pessoa Designers gráficos: Kamilla Moreira, Mário Gomes, Sérgio Ramos,Tiago da Rocha Ilustradores: Anderson Eloy, Luiz Meneghel, Vinícius Manzi Carvalho, Suzana Gonçalves. Farmacologia aplicada à estética e cosmética / Suzana Gonçalves Carvalho; Cristiane Mezaroba. – São Paulo: Cengage – 2020. Bibliografia. ISBN 9786555581683 1. Farmácia 2. Estética 3. Cosmética 4. Mezaroba, Cristiane. Grupo Ser Educacional Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro CEP: 50100-160, Recife - PE PABX: (81) 3413-4611 E-mail: sereducacional@sereducacional.com “É através da educação que a igualdade de oportunidades surge, e, com isso, há um maior desenvolvimento econômico e social para a nação. Há alguns anos, o Brasil vive um período de mudanças, e, assim, a educação também passa por tais transformações. A demanda por mão de obra qualificada, o aumento da competitividade e a produtividade fizeram com que o Ensino Superior ganhasse força e fosse tratado como prioridade para o Brasil. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – Pronatec, tem como objetivo atender a essa demanda e ajudar o País a qualificar seus cidadãos em suas formações, contribuindo para o desenvolvimento da economia, da crescente globalização, além de garantir o exercício da democracia com a ampliação da escolaridade. Dessa forma, as instituições do Grupo Ser Educacional buscam ampliar as competências básicas da educação de seus estudantes, além de oferecer- lhes uma sólida formação técnica, sempre pensando nas ações dos alunos no contexto da sociedade.” Janguiê Diniz PALAVRA DO GRUPO SER EDUCACIONAL Autoria Suzana Gonçalves Carvalho Graduado em farmácia e mestre em Ciências Veterinárias pela Universidade Federal do Espírito Santo, doutoranda em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho". Possui experiência em farmacotécnica, tecnologia farmacêutica, nanotecnologia e desenvolvimento de produtos veterinários. Cristiane Mezaroba Mestre em Ciência e Engenharia de Materiais (2017) pela Universidade Estadual de Santa Catarina - UDESC sendo pesquisadora bolsista Produtividade em Pesquisa pela CAPPES, Pós-graduada em Ciências Farmacêuticas - Microbiologia Aplicada (2009) pela Universidade Federal do Paraná - UFPR e Graduada em Tecnologia em Química Ambiental (2004) pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR. Atualmente cursando segunda graduação em Licenciatura em Química na modalidade EAD pela Universidade Cruzeiro do Sul. Atua em Joinville-SC como Professora de Ensino Superior na instituição CENSUPEG e também com Assessoria Técnica Química nas áreas química, farmacêutica, polímeros/elastômeros e gestão ambiental. Possui experiência industrial nas áreas de P&D, Sistema de Qualidade, Gestão Ambiental, Laboratório de Análises Químicas no segmento Médico-Hospitalar, Alimentício e de Química ambiental. Possui interesse nas áreas microbiológicas de esterilização, termo desinfecção e resistência microbiana. SUMÁRIO Prefácio .................................................................................................................................................8 UNIDADE 1 - Bases da farmacologia ..............................................................................................9 Introdução.............................................................................................................................................10 1 Farmacologia: conceitos básicos ........................................................................................................ 11 2 Farmacocinética ................................................................................................................................. 15 3 Farmacodinâmica ............................................................................................................................... 19 4 Farmacogenômica .............................................................................................................................. 22 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................27 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................28 UNIDADE 2 - Princípios de neurofarmacologia ...............................................................................29 Introdução.............................................................................................................................................30 1 Introdução à anatomia do sistema nervoso ...................................................................................... 31 2 Panorama geral da farmacologia colinérgica e adrenérgica ..............................................................42 3 Agonistas e antagonistas colinérgicos ............................................................................................... 44 4 Bloqueadores neuromusculares ........................................................................................................ 53 5 Agonista e antagonista adrenérgicos ................................................................................................ 58 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................67 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................68UNIDADE 3 - Mediadores químicos e anti-inflamatórios ................................................................69 Introdução.............................................................................................................................................70 1 Mediadores químicos ......................................................................................................................... 71 2 Mediadores: purinas .......................................................................................................................... 75 3 Mediadores: histaminas e lipídeos ativos .......................................................................................... 76 4 Eicosanoides ...................................................................................................................................... 77 5 Leucotrienos ...................................................................................................................................... 78 6 Mediadores: peptídeos e proteínas ................................................................................................... 78 7 Anti-inflamatórios e imunossupressores ........................................................................................... 80 8 AINEs e coxibes importantes .............................................................................................................. 83 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................88 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................89 UNIDADE 4 - Fármacos que afetam os grandes sistemas, interações medicamentosas e conceitos básicos de toxicologia ....................................................................................................................91 Introdução.............................................................................................................................................92 1 Sistema cardiovascular e a circulação sanguínea ............................................................................... 93 2 Sistema respiratório ........................................................................................................................... 101 3 Drogas que afetam o sistema nervoso central ................................................................................... 102 4 Interações medicamentosas .............................................................................................................. 112 5 Noções gerais de toxicologia ............................................................................................................. 113 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................115 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................116 O livro Farmacologia aplicada à estética e cosmética traz ao leitor, além de informações básicas da área, o conteúdo parcialmente descrito a seguir em suas quatro unidades. Para começar, a primeira unidade, Bases da farmacologia, apresenta os conceitos básicos da farmacologia, farmacocinética e farmacodinâmica de fármacos, as vias de administração, fatores envolvidos com a ação dos fármacos e seu mecanismo de ação. A segunda unidade, Princípios de neurofarmacologia, trata do estudo do sistema nervoso e suas funções, as quais exercem grande importância na farmacologia. Os leitores tomarão conhecimento das divisões anatômicas do sistema nervoso, dos mecanismos dos neurotransmissores e receptores, e da interação pelos quais os agonistas e antagonistas atuam neste sistema neurológico. A terceira unidade, Mediadores químicos e anti-inflamatórios, explica a definição de mediadores e anti-inflamatórios, quais são os tipos existentes, como atuam, qual mecanismo de ação, efeitos adversos, farmacocinética, como são classificados e seus usos clínicos. Concluindo a obra, a quarta e última unidade, Fármacos que afetam os grandes sistemas, interações medicamentosas e conceitos básicos de toxicologia, aborda as drogas que afetam o coração, o sistema vascular, a circulação sanguínea, o sistema respiratório e o sistema nervoso central. Esta é apenas uma pequena amostra do que o leitor aprenderá após a leitura do livro. Agora é com você! Sorte em seus estudos! PREFÁCIO UNIDADE 1 Bases da farmacologia Olá, Você está na unidade Bases da farmacologia. Conheça aqui conceitos básicos relacionados com a farmacologia, farmacocinética e farmacodinâmica de fármacos, as vias de administração, fatores envolvidos com a ação dos fármacos e como ocorre o mecanismo de ação dos mesmos. Aprenda como atuam os fármacos e a importância da farmacologia para a estética e cosmética. Bons estudos! Introdução 11 1 FARMACOLOGIA: CONCEITOS BÁSICOS A farmacologia é a ciência que estuda o efeito dos fármacos em organismos vivos, possui como principais ramos a farmacocinética e a farmacodinâmica. A farmacologia atual é subdividida em diversas áreas principais, sendo elas: psicofarmacologia, farmacologia clínica, farmacologia veterinária, ciências farmacêuticas, biofármacos, toxicologia, química médica, farmacogenética, farmacogenômica, farmacoepidemiologia, farmacoeconomia e farmacologia aplicada a estética (RANG e DALE, 2012). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Mas, afinal, o que é um fármaco? Fármaco pode ser definido como uma substância química que contenha propriedades farmacológicas com finalidade benéfica e medicamentosa, produzindo efeito biológico (RANG e DALE, 2012). Um medicamento, por sua vez, se trata de uma preparação elaborada que pode conter um ou mais fármacos (princípio ativo) visando ao uso terapêutico. Os medicamentos, além de conter o fármaco em sua composição, contêm substâncias químicas denominadas excipientes, como conservantes e antioxidantes, por exemplo. FIQUE DE OLHO Farmacoeconomia é um ramo da economia voltado para os custos e benefício dos fármacos. A farmacoeconomia se aplica aos demais ramos da farmacologia como a estética e cosmética. 12 1.1 Alvos para ação de fármacos Os fármacos atuam sobre proteínas/alvo desenvolvendo efeito farmacológico (RANG e DALE, 2012). Os quatro principais tipos de proteínas responsáveis pela regulação são: • enzimas; • receptores; • canais iônicos; • carregadores. As enzimas são alvos de vários fármacos. Os fármacos que possuem as enzimas como alvo podem atuar pelos seguintes mecanismos: inibição competitiva com as enzimas, inibição irreversível e não competitiva, falso substrato e degradação enzimática transformando assim em pró-droga. São exemplos de fármacos que possuem enzimas como alvos biológicos o captopril, a aspirina, fluoruracila e o enalapril (RANG e DALE, 2012). Os receptores são responsáveis por comandar o sistema de comunicações químicas em todas as células. Muitos agonistas e antagonistas farmacêuticos atuam em receptores de mediadores endógenos. Os canais iônicos encontram-se presentes em membranas celulares, responsáveis pela passagem de compostos químicos como íons através de permeabilidade seletiva. Os principais mecanismos envolvidos com ação dos fármacos tendo os canais iônicos como alvos são: ligação do fármaco no canal, podendo ser ortostérica (no local de ligação) ou alostérica (em outros locais), exemplos de fármacos que atuam por esse mecanismo estão os benzodiazepínicos, di- hidropiridinas e sulfoniluréias; por ação intermediária envolvendo intermediários e a proteína G; e por meio de modificação nos níveis de expressão dos canais iônicos, como por exemplo a gabapentina (RANG e DALE, 2012; BRUNTON, 2012). Os carreadores, também denominados transportadores, possuem grande importância farmacológica como transporte deNa+ e Ca2+, captação de neurotransmissores, como por exemplo, as aminas e aminoácidos. FIQUE DE OLHO Farmacoeconomia é um ramo da economia voltado para os custos e benefício dos fármacos. A farmacoeconomia se aplica aos demais ramos da farmacologia como a estética e cosmética. 13 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.2 Dessensibilização e tolerância O termo dessensibilização, ou também denominado taquifilaxia, diz respeito à redução de efeito de determinado fármaco quando sua administração ocorre de forma repetida ou contínua. Esse fenômeno ocorre geralmente minutos após a administração. Tolerância, por sua vez, refere-se quando há uma redução na responsividade de determinado fármaco, ocorre geralmente de horas a semanas. O termo refratabilidade também é usual quando está relacionado à perda da eficácia terapêutica. Além desses termos, o termo resistência também é bastante empregado em farmacologia, principalmente as classes dos antineoplásicos e antimicrobianos, podendo ser ocasionado pelos seguintes mecanismos: • redução de mediadores; • modificação em receptores; • adequação fisiológica; • elevação da degradação metabólica do fármaco; • translocação de receptores; • retirada do fármaco das células (ocorre principalmente em tratamento de neoplasias durante tratamento do câncer) (RANG e DALE, 2012). 1.3 Qual a importância da farmacologia para a aplicação estética e cosmética? Entender farmacologia vai além das grandes áreas de farmácia e medicina, sendo de grande importância também na estética e cosmética. Quando pensamos em estética e cosmética, pensamos em cuidados e recuperação, em que muitas vezes necessitam de tratamento farmacológico para serem alcançados. A aplicação farmacológica na estética e cosmética se 14 encontra principalmente nas seguintes finalidades: • Recuperação estética Nessas situações, são utilizados principalmente agentes cicatrizantes, calmantes e de regeneração celular. Como, por exemplo, a alantoína e o depantenol. • Controle da oleosidade Também denominado seborregulador. Como, por exemplo, a espirolactona. • Hidratação Princípios ativos que atuam no processo de hidratação da pele. Como, por exemplo, o algasan e o ácido hialurônico. • Adstringentes Utilizados para reduzir a secreção nas mucosas. Como, por exemplo, o sulfato de zinco. • Antibióticos Utilizados para tratamento de infecções bacterianas como, por exemplo, acne (causada por Propionium bacterium) e foliculite. O irgasan, eritromicina e clindamicina são exemplos de fármacos utilizados no tratamento de infecções bacterianas. • Anti-inflamatórios Utilizados em processos inflamatórios relacionados a estética e pós procedimentos que desencadeiam processos inflamatórios. Figura 1 - Cremes hidratantes Fonte: New Africa, Shutterstock, 2020 15 #ParaCegoVer: Na imagem, vemos uma mão de mulher segurando um frasco de creme sobre uma mesa, sobre a qual se vê um ramo de folhas, três flores brancas e produtos cosméticos. Além de fármacos utilizados nessas finalidades, existem também fármacos utilizados para tratamento medicinal que possuem uso off-label para finalidades estéticas e cosméticas. Exemplos incluem o uso do minoxidil, anti-hipertensor utilizado como uso off-label para tratar alopecia e a toxina botulínica, que é utilizada medicinalmente para alívio do espasmo muscular e é utilizada amplamente em alterações cosméticas. 2 FARMACOCINÉTICA A farmacocinética pode ser entendida como responsável por analisar o trajeto do fármaco, alterações nas concentrações durante sua absorção, distribuição, metabolismo até sua eliminação. Enquanto a farmacocinética está relacionada aos efeitos que o organismo faz ao fármaco, a farmacodinâmica está relacionada aos efeitos que o organismo faz ao fármaco (KATZUNG, 2010; RANG e DALE, 2012; SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). 2.1 Vias de administração de fármacos As vias de administração são planejadas de forma que o fármaco atravesse pelas barreiras impostas pelo organismo. As principais vias de administração são: oral, sublingual, retal, vaginal, tópica, inalação e pelas vias parenterais (intramuscular, intravenosa, subcutânea, intravítrea e intratecal) (RANG e DALE, 2012; SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). FIQUE DE OLHO O termo celulite é utilizado de forma errônea, uma vez que o sufixo ITE está relacionado a processo inflamatório na patologia. Em celulite, não existe um processo inflamatório. FIQUE DE OLHO O termo de uso off-label se refere ao uso de fármacos que não seguem indicações, estudos, efeitos adversos, contraindicações para o uso no qual está sendo utilizado e, sim, para outra função farmacológica, como por exemplo, utilização de propranolol como ansiolítico. 16 A administração pela via oral é simples, indolor, possui baixo custo, segura e pode ser autoadministrada. Porém, possui como desvantagens o metabolismo de primeira passagem, a biodisponibilidade e pode causar irritação nas mucosas (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). A administração sublingual é ideal para efeito rápido, principalmente quando o fármaco é metabolizado muito rápido pelo fígado ou instável no pH ácido do estômago. Os fármacos absorvidos pela via sublingual não passam pelo metabolismo de primeira passagem. Exemplos de fármacos usualmente utilizados pela via sublingual são a buprenorfina e o trinitrato de glicerila (RANG e DALE, 2012). A via retal pode ser utilizada tanto para ação local quanto para ação sistêmica. Ação local geralmente conta com formas farmacêuticas em supositórios para tratamento de colite ulcerativas (RANG e DALE, 2012). A administração tópica cutânea é utilizada para tratamentos de fármacos com ação local na pele. Podem ser incorporados em diversas formas farmacêuticas, como por exemplo: cremes, loções, géis e adesivos transdérmicos (RANG e DALE, 2012). Na inalação, os pulmões são utilizados tanto quanto via de administração como de eliminação de fármacos. São vias usuais para anestésicos voláteis, glicocorticoides e broncodilatadores. Por realizarem efeitos locais de forma direta no pulmão, reduzem os efeitos adversos causados pela via sistêmica (RANG e DALE, 2012). Entre as vias parenterais de administração de fármacos estão a via intravenosa, intramuscular, subcutânea, intravítrea e intratecal. A via intravenosa apresenta como principais vantagens efeitos imediatos, pois não possui efeito de primeira passagem, alta biodisponibilidade (100%), pode ser utilizada em grandes volumes e muito utilizada em casos de urgência. Como principais desvantagens podem apresentar administração lenta, é irreversível, muitos efeitos adversos e a via não é apropriada para formulações oleosas (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). A administração intramuscular pode ser realizada tanto para formulações aquosas quanto oleosas, porém aquosas apresentam efeitos rápidos, enquanto as oleosas apresentam efeito lento. A via subcutânea também pode ser realizada para formulações aquosas e oleosas, são adequadas para suspensões parenterais, como por exemplo, a insulina, e são passíveis de serem autoadministradas. Possui como principais desvantagens a administração de pequenos volumes, pode causar dor e necrose (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). A injeção intravítrea trata-se da aplicação do fármaco diretamente no olho, necessita de anestesia e procedimento cirúrgico. O ranibizumabe é um exemplo de fármaco administrado por via intravítrea, utilizado no tratamento de degeneração macular, e a injeção intratecal é administrada no espaço subaracnoide na lombar, é utilizada em casos especiais. Um bom 17 exemplo de fármaco administrado por injeção intratecal é o metotrexato, utilizado no tratamento de leucemias (RANG e DALE, 2012). 2.2 Absorção A absorção de fármaco pode ser entendida como a passagem de determinado fármaco da via de administração até a corrente sanguínea, levando em consideração as barreiras biológicas até chegar ao destino. Vários fatores podem influenciar diretamente na absorção de drogas, desde característicasdo próprio fármaco como solubilidade, pKa, natureza química, coeficiente de partição e massa molar, até características do meio biológico como pH, grau de vascularização, transportadores de membrana, integridade e a espessura da barreira mucosa (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). O processo de absorção também envolve o transporte do fármaco através do meio biológico, sendo as formas de transporte através das membranas denominadas: difusão facilitada, difusão passiva e transporte ativo. A difusão facilitada é o transporte de determinado fármaco do meio mais concentrado para o meio menos concentrado em que ocorre reserva energética com o objetivo de manter o sistema. A difusão é facilitada por transportadores de natureza desconhecida e pode haver inibição competitiva (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). Na difusão passiva, o fármaco se desloca do meio mais concentrado para o meio menos concentrado a favor do gradiente de concentração, porém esse transporte não é facilitado por transportadores, não envolve inibição competitiva e não há gasto de energia (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). Ao contrário da difusão passiva, no transporte ativo o fármaco desloca do meio mais concentrado para o meio menos concentrado, contra o gradiente de concentração. Há gasto de energia, presença de transportadores, inibição competitiva e utiliza transportadores específicos. 2.3 Distribuição Após a absorção do fármaco, ocorre a distribuição do fármaco pelo organismo, para isso deve ser levado em conta o percentual do fármaco que após administração chega à corrente sanguínea, esse percentual é denominado biodisponibilidade (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). Para que determinado fármaco seja distribuído por todo organismo através da corrente sanguínea, é importante conhecer o volume de distribuição (Vd) do fármaco (Equação 1): Equação 1 Vd = Dose/ [Fármaco] Plasma Os fatores que podem influenciar na distribuição dos fármacos são: características físico- químicas do fármaco, como por exemplo, a hidrossolubilidade e lipossolubilidade; fixação 18 proteica do fármaco, como por exemplo, fármacos que se ligam fortemente à albumina; afinidade pelos tecidos e irrigação dos órgãos, como por exemplo, órgãos com maior irrigação como fígado, coração e pulmões permitem maior distribuição de perfusão (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). 2.4 Metabolismo O metabolismo ocorre em duas fases conhecidas, a fase I e a fase II. A fase I torna o fármaco mais solúvel através de reações de oxidação, redução e hidrólise. A fase II conta com reações de adição. O metabolismo de determinado fármaco tem início na mucosa intestinal, posteriormente no fígado e finaliza nos pulmões. O efeito de primeira passagem ocorre no fígado e está diretamente ligado à posologia de determinado fármaco. As reações enzimáticas hepáticas ocorrem no retículo endoplasmático nas reações de fase I e no citoplasma nas reações de fase II, no citocromo P450. Cada enzima do citocromo P450 é chamada de CYP, seguida por uma letra e um conjunto de números. Exemplos de fármacos que são substratos de isoenzimas P450 são: CYP1A2 (Cafeína, teofilina e tacrina); CYP2B6 (Metadona e ciclofosfamida); CYP2C8 (Paclitaxel e repaglinida); CYP2C19 (Fenitoína e omeprazol); CYP2C9 (Varfarina e ibuprofeno); CYP2D6 (Codeína e S-metoprolol) e CYP3A4,5, 7 (Sinvastatina, indinavir e ciclosporina) (RANG e DALE, 2012; SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). 2.5 Eliminação A eliminação é a etapa farmacocinética em que o fármaco é eliminado do organismo. A eliminação pode ocorrer através de eliminação biliar ou renal ou transformando o fármaco em metabólitos. Os mecanismos de eliminação são quantificados por uma ferramenta denominada clearance (CL), na qual a eliminação total de todas as vias é descrita pelo clearance total (CLtot). Na eliminação biliar, alguns fármacos ficam armazenados na bile e são enviados para o intestino onde o fármaco é regenerado em um processo denominado circulação êntero-hepática (RANG e DALE, 2012; SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). A eliminação renal de um fármaco envolve três processos fundamentais: • filtração glomerular; • secreção tubular ativa; • reabsorção passiva. Outro importante parâmetro é o tempo de meia-vida de um fármaco, que diz respeito ao tempo ao qual a concentração plasmática de um fármaco é reduzida pela metade (Equação 2): Equação 2 t1/2 = 0,693.Vd / CL 19 Em que t1/2 se refere ao tempo de meia-vida do fármaco, Vd ao volume de distribuição e CL ao clearance total sanguíneo. Tabela 1 - Quadro resumo das etapas envolvidas na farmacocinética de um fármaco Fonte: Elaborada pela autora, 2020. #ParaCegoVer: A imagem apresenta uma tabela de duas colunas e cinco linhas apresentando as etapas da farmacocinética e suas funções. 3 FARMACODINÂMICA A farmacodinâmica é a área da farmacologia que tem como principal objetivo entender os mecanismos e efeitos do fármaco sob determinado organismo. A interação entre um fármaco e um receptor (alvo farmacológico) é o conceito básico para que ocorra resposta farmacológica. Receptores são alvos em que o fármaco se liga estabelecendo uma resposta, existem quatro tipos principais de receptores: canais iônicos controlados por ligantes, receptores acoplados à proteína G, receptores ligados por quinases e receptores nucleares (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016; BRUNTON, 2012). Os receptores acoplados à proteína G são os receptores mais encontrados no organismo. São compostos por proteínas com sete hélices transmembranares na qual a função é a ativação de proteínas G. A proteína G é composta por três subunidades, sendo essas denominadas α, β e γ que possui a função de regular a transdução de sinais (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). Fármacos que interagem com receptores e possuem comportamento próximo aos componentes endógenos são denominados agonistas totais. Porém, existem em alguns casos fármacos que interagem com receptores impedindo os efeitos desses componentes endógenos, e ao contrário dos agonistas totais, não possuem eficácia intrínseca, esses fármacos são denominados antagonistas. Entre esses fármacos, existem fármacos que atuam como os agonistas totais, porém não apresentam efeito máximo, esses fármacos são conhecidos como agonistas parciais (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). 3.1 Fatores que alteram a ação dos fármacos Uma terapia farmacológica seria de mais fácil entendimento se um mesmo fármaco produzisse 20 sempre uma mesma resposta farmacológica em todos os indivíduos, porém isso não ocorre e fontes de variação são fatores que devem ser levados em consideração na terapêutica. Essas variações podem ser de origem farmacocinética ou farmacodinâmica. Variações interindividuais, se não forem levadas em consideração, podem causar desde a falta de eficácia na terapêutica até mesmo efeitos adversos severos. As principais causas de variabilidade são: fatores genéticos, idade, fatores imunológicos, doença e interações entre os fármacos (RANG e DALE, 2012). 3.2 Fatores epidemiológicos e variação na resposta de fármacos Vejamos agora alguns fatores epidemiológicos e variação na resposta de fármacos. Etnia Diversos estudos já apontam a raça como um fator epidemiológico importante a ser levado em consideração na resposta de fármacos. Um bom exemplo disso pode ser comparando chineses e europeus na metabolização de etanol, os chineses produzem mais concentração de acetaldeído causando palpitação e rubor. Além disso, chineses também são mais sensíveis aos efeitos do propranolol que os europeus (RANG e DALE, 2012). Idade A idade é fator que influencia diretamente na ação dos fármacos. A eliminação de fármacos é diferente em recém-nascidos e idosos, dessa forma, fármacos são mais eficientes em adultos. Além disso, a composição corporal é diferente de acordo com a idade, principalmente em gordura e líquidos. A excreção renal de fármacos e, em consonância, a meia-vida de eliminação plasmática também é influenciada com a idade. Um exemplo disso pode ser dado com a gentamicina(antibiótico), em recém-nascidos apresentam tempo de meia-vida > 18 horas, aproximadamente 10 horas para bebês e entre 1 a 4 horas para adultos (RANG e DALE, 2012; ATKINSON et al., 2006). Diversas enzimas envolvidas na metabolização de fármacos possuem baixa atividade em recém-nascidos, entre elas acetiltransferases, esterases e glicuroniltransferases. 21 Figura 2 - Cuidados e tratamento antienvelhecimento das mãos Fonte: FamStudio, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: Na imagem, vemos as mãos de mulher idosa passando um creme de cuidados e tratamento antienvelhecimento sobre a pele. Gravidez Na gravidez, a distribuição de fármacos pode ser comprometida por modificações fisiológicas no feto e na mãe. A ligação de fármacos a proteínas plasmáticas pode ser influenciada devido à redução da concentração de albumina. As enzimas responsáveis pela metabolização de fármacos possuem atividade muito reduzida em fetos, em adicional a isso, o rim do feto não é uma via eficiente para eliminação de fármacos (RANG e DALE, 2012). Doença A ação terapêutica de fármacos pode ser comprometida por doenças, principalmente por doenças que comprometem os órgãos responsáveis pela metabolização e eliminação de fármacos, como por exemplo, o fígado e os rins. A síndrome nefrótica altera a absorção de fármacos, além de causar modificações na albumina plasmática e, consequentemente, na distribuição de fármacos pelo organismo causando insensibilidade em alguns diuréticos, como a furosemida, por exemplo. Algumas doenças que podem afetar a sensibilidade de fármacos são: Miastenia gravis (doença autoimune); diabetes insípido nefrogênico associado ao cromossomo X; hipercolesterolemia familiar (doença hereditária dos receptores de lipoproteínas) e hipertireoidismo (RANG e DALE, 2012; ATKINSON et al., 2006). 3.3 Interações entre fármacos Muitas pessoas, principalmente idosos, fazem tratamento contínuo com mais de um medicamento para o cuidado de doenças crônicas. Em casos de tratamentos agudos ou 22 oportunistas (como por exemplo, infecções), são tratados com medicamentos adicionais, isso faz com que aumente o potencial para interações medicamentosas entre esses fármacos. Essas interações podem desencadear desde perda da eficácia do tratamento (como é o exemplo de alguns antibióticos que reduzem efeito de alguns anticoncepcionais) até reações adversas graves (RANG e DALE, 2012). 4 FARMACOGENÔMICA O termo farmacogenômica é utilizado para descrever o uso de dados genéticos com finalidade de personalizar um tratamento medicamentoso partindo do princípio que diferenças genéticas podem ser previstas e contribuem diretamente na ação dos fármacos. Modificações farmacogenéticas mostram que respostas a ações de fármacos podem ser definidas geneticamente nos indivíduos (RANG e DALE, 2012). Diversos distúrbios hereditários podem influenciar na ação dos fármacos: • A deficiência de colinesterase plasmática, confere sensibilidade aos bloqueadores autos- sômicos; • A falta de glicose-6-fosfato desidrogenase, distúrbio ligado a homens (raramente em mulheres) pode gerar hemólise quando expostos a alguns químicos, como por exemplo, a primaquina (antimalárico). 4.1 Mecanismo de ação dos fármacos A interação entre um fármaco, seu alvo farmacológico e os efeitos que provocam em um organismo são denominados mecanismo de ação. Qual seja a função fisiológica, as células compartilham dos mesmos métodos de sinalização (RANG e DALE, 2012). A regulação da atividade celular é mediada principalmente pelos mecanismos e componentes que regulam a concentração de Ca2+ ou são regulados pela mesma: • acúmulo e liberação de Ca2+ por organelas no interior das células; • canais iônicos e transportadores; • regulação de cálcio. O cálcio é responsável por fazer as atividades celulares funcionarem. Grande parte dos efeitos dos fármacos resulta na interferência desses mecanismos. Grande parte do cálcio encontrado nas células está disponível em organelas, tais como retículo endoplasmático, lisossomo e nas mitocôndrias. O líquido extracelular tem uma concentração de cálcio de cerca de 2,4 nmol/l, favorecendo a entrada de cálcio para o meio intracelular (RANG e DALE, 2012). A regulação de 23 cálcio envolve mecanismos tais como: • monitoramento da entrada de cálcio; • controle da exclusão de cálcio; • mobilidade de cálcio entre o citoplasma e as organelas de armazenamento. Existem quatro vias principais nas quais o cálcio atravessa a membrana plasmática para o meio intracelular (RANG e DALE, 2012): • pelos canais de cálcio direcionados por voltagem; • pelos denominados SOC (do inglês store-operated calcium channels); • pelos canais de cálcio direcionados por ligantes; • troca de Na+/Ca2+ O controle de liberação de cálcio das reservas é mediado por dois canais de cálcio principais que se encontram na membrana, são eles: • receptor de rianodina (RyR), denominado assim pois sua identificação ocorreu através do bloqueio causado por um alcaloide denominado rianodina. • receptor de trifosfato de inositol (IP3R), ativado pelo trifosfato de inositol que é um men- sageiro produzido por ligantes em receptores acoplados à proteína G c. 4.2 Excitação O termo excitação vem da capacidade de determinada célula apresentar uma resposta elétrica ao ato de despolarização de sua membrana, também denominada potencial de ação. É uma característica peculiar de muitas células, como neurônios e células musculares. A propagação de um potencial de ação desencadeia uma comunicação em uma longa distância e alta velocidade, sendo um importante mecanismo do corpo para comandos rápidos (RANG e DALE, 2012). Em condições normais, as células possuem um potencial negativo de aproximadamente -30 mV a -80 mV. A membrana celular quando se encontra no estado de repouso é considerada permeável ao potássio, porém impermeável ao cálcio e sódio. Fármacos que atuam mediando os canais de potássio levam à redução na excitabilidade de membrana. Fármacos inibidores dos canais de cálcio e sódio apresentam o mesmo efeito. Ocorre excitação quando ocorre bloqueio dos canais de potássio ou quando os canais de sódio e cálcio são ativos (RANG e DALE, 2012). 4.3 Contração muscular Muito fármacos apresentam seu mecanismo de ação atuando no músculo liso, por se tratar 24 de um componente primordial nos sistemas biológicos, incluindo o trato gastrointestinal, vasos sanguíneos, sistema respiratório e urinário. São alvos importantes na ação dos fármacos o músculo esquelético, músculo liso e músculo cardíaco (RANG e DALE, 2012). O músculo esquelético apresenta um arranjo de túbulos T que se estendem para o interior da célula. O potencial de ação de células do músculo esquelético é dependente de canais de sódio direcionados por voltagem, da mesma forma que ocorre em células nervosas em sua grande maioria. A liberação de cálcio no músculo esquelético é rápida, assim como a resposta do músculo, sendo um mecanismo rápido quando comparado com o músculo liso e o músculo cardíaco e, consequentemente, menos propenso à ação farmacológica (RANG e DALE, 2012). No músculo liso, as propriedades variam de órgão para órgão. O potencial de ação no músculo liso ocorre de forma lenta e vaga, ao contrário do que acontece nos demais músculos. O potencial de ação é gerado pelos canais de cálcio do tipo L e não pelos canais de sódio mediados por voltagem, além disso, células do músculo liso armazenam cálcio no retículo endoplasmático e são ativadas a partir de IP3R, que são ativados através de receptores acoplados a proteína G, dessa forma, diferentemente do músculo esquelético e cardíaco, o músculo liso pode ter liberação de cálcio sem que ocorra despolarização de membrana, mas também quando os receptores acoplados à proteína G são ativados (RANG e DALE, 2012). O músculo cardíaco se difere do músculo esquelético principalmente devido ao potencial de ação do músculo cardíaco apresentar um comportamento denominado “platô”, que tem duraçãode milissegundos após a despolarização. O músculo cardíaco também contém canais de cálcio do tipo L, que são abertos durante o platô, permitindo a entrada de cálcio para o meio intracelular (RANG e DALE, 2012). 4.4 Secreção Grande parte do mecanismo de ação dos fármacos atua por meio dos mediadores do próprio organismo, como por exemplo, mediadores inflamatórios, hormônios e neurotransmissores. O cálcio está envolvido diretamente com os mecanismos de liberação desses mediadores, tendo um importante papel na ação de diversos fármacos (RANG e DALE, 2012). Os mediadores químicos liberados são pertencentes a dois grupos: • mediadores pré-formados e armazenados em grânulos de armazenamento (vesículas), liberados por exocitose; • mediadores produzidos de acordo com a demanda, liberados por difusão ou transportadores. 4.5 Proliferação e regeneração celular Muitos processos biológicos estão envolvidos com a proliferação celular, entre eles o reparo, 25 crescimento, cura, hiperplasia, hipertrofia e produção de tumores. Geralmente, esses processos, por envolverem o desenvolvimento de novas células que necessitam de oxigênio para se manter, novos vasos sanguíneos são desenvolvidos em um processo denominado angiogênese (RANG e DALE, 2012; KATZUNG, 2010). O processo de proliferação celular é mediado por um conjunto de interações entre células, fatores de crescimento, matriz extracelular e metaloproteinases. A matriz extracelular é secretada por células e fornece sustentação. Uma parte importante desses processos é a atuação dos fatores de crescimento atuando por interferência em receptores de tirosina quinase, como por exemplo, fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), fator de crescimento epidérmico (EGF), fator de crescimento de fibroblastos (FGF) e fator transformador de crescimento (TGF-β) (RANG e DALE, 2012; KATZUNG, 2010). A matriz extracelular é um alvo importante no desenvolvimento de novos fármacos. Também é importante na busca por medicamentos que visem regular a reparação dos tecidos. Receptores transmembrana associados a quinases são denominados integrinas, alguns anticorpos monoclonais são transportados para as integrinas, como por exemplo, o natalizumabe, utilizado para o tratamento da esclerose múltipla e abciximabe, antitrombótico (RANG e DALE, 2012). Sem o processo de angiogênese que acompanha o processo de proliferação celular há o impedimento de que o crescimento celular se desenvolva, incluindo tumores. A angiogênese inclui citocinas e fatores de crescimento nos quais se destaca o VEGF. O bevacizumabe, anticorpo monoclonal, utilizado no tratamento do câncer, atua neutralizando o VEGF, dessa forma, inibindo a angiogênese e impedindo a proliferação de tumor por falta de oxigenação (RANG e DALE, 2012). Outro processo envolvido com mecanismo de ação é o processo de apoptose celular, conhecido como morte celular decorrido de efeitos bioquímicos. Muitas patologias estão envolvidas com processo de apoptose celular, entre elas: • lesões teciduais, como por exemplo, lesão da medula espinhal e infarto do miocárdio; • doenças degenerativas, como doença de Parkinson e doença de Alzheimer; • doenças hematológicas, como anemia megaloblástica; • HIV; • doenças autoimunes/inflamatórias como artrite reumatoide e miastenia grave; • algumas infecções virais (RANG e DALE, 2012). • A proliferação celular ainda está envolvida com um mecanismo muito importante quando pensamos em estética e cosmética, que é o processo de reparo e cura após lesão e/ou inflamação. Em alguns casos, uma lesão pode levar a um mecanismo de regeneração, que é 26 um mecanismo diferente de cicatrização. Esses processos incluem eventos como migração celular, angiogênese, proliferação celular, síntese de matriz e remodelação. O fator de cres- cimento TGF-β é fundamental em muito desses processos (RANG e DALE, 2012). 4.6 Mecanismos de defesa do hospedeiro Além dos processos já listados anteriormente envolvidos com mecanismo de ação dos fármacos, muitos medicamentos atuam ainda nos mecanismos de defesa do hospedeiro. Esse mecanismo envolve principalmente mediadores inflamatórios, gerados por um processo inflamatório resultando em características tais como: dor, rubor, calor, entumescimento e perda da função (RANG e DALE, 2012). Respostas inflamatórias ocorrem principalmente após exposição a algum microrganismo, substância nociva ou após alguma lesão. O sistema imune geralmente atua com uma resposta inata não adaptativa e uma resposta imunológica adaptativa. O resultado é a cura sem o aparecimento de cicatrizes. Grande parte dos tratamentos farmacológicos disponíveis envolvem processo inflamatório (RANG e DALE, 2012). Como o organismo consegue identificar se determinada célula é um patógeno invasor ou elemento idôneo? O organismo conta com uma gama de receptores de reconhecimento padrão PRR (do inglês, pattern recognition receptors). Esses receptores possuem como função reconhecer PAMP (do inglês, pathogen-associated molecular patterns), produtos esses provenientes de vírus, fungos, bactérias, entre outros (RANG e DALE, 2012). O processo inflamatório conta com células presentes normalmente nos tecidos e outras móveis e conseguem acesso através da corrente sanguínea. São células do sistema imunológico: leucócitos polimorfonucleares (neutrófilos), mastócitos, monócitos/macrófagos, células desdríticas, eosinófilos, basófilos, células endoteliais vasculares, plaquetas e células natual killer (RANG e DALE, 2012). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 27 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • entender os conceitos básicos da farmacologia; • conhecer os alvos para ação de fármacos; • aprender sobre farmacocinética (absorção, distribuição, metabolismo e eliminação de fármacos) e farmacodinâmica; • compreender sobre as vias de administração de fármacos e suas diferenças em ação dos fármacos; • analisar os fatores que influenciam na ação dos fármacos; • estudar o mecanismo de ação dos fármacos, englobando excitação, contração e secreção de cálcio, proliferação e regeneração celular e mecanismos de defesa do hospedeiro. PARA RESUMIR ATKINSON, A. J.; DANIELS, C. E.; DEDRICK, R. L. et al. Principles of clinical pharmacology. 2. ed. San Diego: Academic Press, 2006. BRUNTON, L. L. Goodman & Gilman: as bases farmacológicas da terapêutica. 12. ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill, 2012. KATZUNG, B. G. Farmacologia básica e clínica. 10. ed. Rio de Janeiro: Artmed/McGraw- -Hill, 2010. RANG, H. P.; DALE, M. M.; RITTER, J. M.; FLOWER, R. J.; HENDERSON, G. Rang & Dale: farmacologia. 7.ed. Rio de Janeiro, Elsevier, 2012. SILVA, F. S.; MENEZES, P. M. N.; SÁ, M. S. Coleção manuais da farmácia: farmacologia. 1. ed. Salvador: Sanar, 2016. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 2 Princípios de neurofarmacologia Você está na unidade Princípios de neurofarmacologia. Conheça aqui o estudo do sistema nervoso e suas funções que exercem grande importância na farmacologia, pois nele atuam fármacos de uso específico neurológico, além de outros utilizados para tratar uma ampla variedade de condições específicas do organismo. Entenda ainda as divisões anatômicas do sistema nervoso e os mecanismos dos neurotransmissores e receptores, assim como a interação pela qual os agonistas e antagonistas atuam nesse sistema neurológico. Bons estudos! Introdução 31 1 INTRODUÇÃO À ANATOMIA DO SISTEMA NERVOSO Esta unidade denominada Princípios de neurofarmacologia demonstra como a farmacologia atua na função fisiológica do sistema nervoso. Para compreender este mecanismo, é importante primeiramente o conhecimento das estruturas anatômicas e particularidades funcionais de todo o sistema neurológico. A apresentação desses conceitos está de forma didática simplificada para facilitar o entendimento de todo o funcionamento do sistema nervoso e suas funções fisiológicas para posterior contextualização da interação farmacológica. Este estudo também busca identificare explicar as funções neurotransmissoras e receptoras, assim como os principais padrões de conectividade das células neuronais. Para melhor compreensão dos mecanismos pelos quais os fármacos atuam no sistema nervoso, será demonstrada a bioquímica e fisiologia da neurotransmissão colinérgica e da função adrenérgica, bem como também os mecanismos de ação dos bloqueadores dajunção neuromuscular. 1.1 Função e divisão anatômica do sistema nervoso A divisão anatômica funcional do sistema nervoso está dividida em duas seções anatômicas: o sistema nervoso central (SNC), que é constituído pelo encéfalo e medula espinal, e o sistema nervoso periférico (SNP), que inclui todos os nervos que conectam o SNC aos locais somáticos e viscerais, ou seja, compreende os neurônios que ficam fora do cérebro e da medula espinal. Este é subdividido funcionalmente como eferente (divisão motora), onde os neurônios transportam os sinais oriundos do cérebro e da medula espinal para os tecidos periféricos, ou seja, transmitindo informações do SNC para a musculatura esquelética e órgãos viscerais, e aferente (divisão sensorial), onde os neurônios trazem as informações da periferia para o SNC e transmitem impulsos sensoriais que modulam a função da divisão eferente por meio de arcos reflexos ou vias neurais que intermediam a ação reflexa. A divisão motora (eferente) é dividida em duas principais subdivisões funcionais: sistema nervoso somático (SNS), componente voluntário, e o sistema nervoso autônomo (SNA), também denominado sistema nervoso visceral, vegetativo ou involuntário. Por fim, o SNA é composto por três divisões anatômicas: os sistemas nervosos simpático, parassimpático e entérico (WHALEN et al., 2016). Para ilustrar essa divisão anatômica do sistema nervoso, observe a seguir como fica o diagrama “Organização da anatomia funcional do sistema nervoso”. 32 Figura 1 - Organização da anatomia funcional do sistema nervoso Fonte: Elaborado pela autora, 2020. #ParaCegoVer: Na imagem, temos o diagrama com a organização da anatomia funcional do sistema nervoso, que está dividido em duas seções anatômicas: o sistema nervoso central (SNC) e o sistema nervoso periférico (SNP), que é subdividido como divisão motora (eferente) e divisão sensorial (aferente). A divisão motora (eferente) é dividida em duas principais subdivisões: sistema nervoso somático (SNS) e sistema nervoso autônomo (SNA), que é agora composto por três divisões anatômicas: os sistemas nervosos simpático, parassimpático e entérico. 1.2 Anatomia e função do sistema nervoso central O sistema nervoso central (SNC) tem seus órgãos e estruturas localizados dentro do esqueleto axial e são protegidos pela caixa craniana e pelo canal vertebral. O encéfalo e a medula espinal são seus constituintes principais e são responsáveis por transmitir e processar sinais, que são recebidos do sistema nervoso periférico e através de processamento resulta em respostas formuladas e retransmitidas à região periférica. O encéfalo localiza-se no interior da calota craniana e é dividido, anatomicamente, em regiões denominadas cérebro, diencéfalo, cerebelo, tronco encefálico (mesencéfalo, ponte e bulbo) e medula espinal. O cérebro ocupa quase toda a caixa craniana e é dividido em dois hemisférios cerebrais, o direito e o esquerdo, e cada hemisfério controla funções corticais contralaterais do corpo, ou seja, por exemplo, o hemisfério esquerdo controla a função do lado direito do corpo. Sua anatomia está conectada por um feixe de filamento nervoso, o corpo caloso, que permite a comunicação entre os dois hemisférios. Apresenta um córtex, camada externa que abriga a substância cinzenta contendo os corpos neuronais e internamente, a substância branca que é formada basicamente por feixes de axônios mielinizados que transmitem sinais entre de uma área do córtex para outra e também do córtex 33 para outras áreas do SNC. Assim como outras áreas do cérebro, possui rede vascular associada de pequenas artérias, veias e capilares, e é ao redor desses pequenos vasos que as células inflamatórias se acumulam em doenças como esclerose múltipla, e nas pequenas arteríolas são acometidas a hipertensão sistêmica (GOLAN et al., 2018). O córtex é responsável por funções importantes como percepção sensorial, planejamento, memória, ordenação das funções motoras e cognitivas, comunicação, raciocínio e início de movimentos voluntários. Possui áreas corticais de associação motoras e sensitivas. As áreas motoras localizam-se em regiões posteriores do lobo frontal, próximas ao sulco central, e são compostas de córtex motor primário, córtex pré-motor, área de broca e campo ocular frontal, que juntamente controlam os movimentos voluntários. As áreas sensoriais são localizadas nos lobos temporal, parietal, insular e occipital (BEAR et al., 2017) e estão relacionadas a estas funções específicas: • Lobo frontal: está relacionado com o planejamento motor e com o córtex motor, que controla e coordena a função motora voluntária e com córtex pré-frontal na aprendizagem motora. Controla o planejamento dos movimentos e comportamentos complexos como fluência do pensamento abstrato e criativo, tomadas de decisão, julgamentos e personalidade. • Lobo parietal: contém o córtex somatossensorial, cuja função é receber os estímulos sensoriais internos e externos do corpo. Está relacionado com três principais áreas: giro pós-central, lobo parietal superior e lobo parietal inferior. Atua na interpretação das sensações como dor, temperatura, tato, gustação e na consciência corporal. • Lobo temporal: está envolvido com o córtex auditivo e contém em sua superfície o giro temporal superior, o giro temporal médio e o giro temporal inferior. Tem como função o processamento de estímulos auditivos. É uma área de centro da comunicação, das me- mórias de curto prazo e da audição. • Lobo occipital: também conhecido como córtex visual. É responsável pela visão, processa e interpreta os estímulos visuais (como cor, movimentos, profundidade e distância). Atua no reconhecimento de faces e de detalhes de espaços ou locais. • Lobo insular: não visível na superfície, é um lobo profundo e portador de cinco giros curtos e longos. Faz parte do sistema límbico (também é considerado lobo límbico) e está relacionado com o controle de diversas emoções (sons, cheiros, sabores e sentimentos) também é responsável pelo paladar. No aspecto farmacológico, o córtex cerebral constitui um sítio de ação de numerosos fármacos, seja como parte de seu mecanismo de ação ou como efeito adverso. Exemplo disso, os barbitúricos e os benzodiazepínicos, comumente prescritos, são hipnóticos e sedativos que potencializam a ação dos neurotransmissores inibitórios no córtex. Também se acredita que os anestésicos gerais têm efeitos sobre o córtex cerebral (GOLAN et al., 2018). O cerebelo está localizado na fossa posterior do encéfalo, e dorsalmente ao tronco encefálico na região do bulbo e ponte. É conectado ao tronco encefálico pelos pedúnculos cerebelares, que 34 fazem as conexões com as outras regiões como o cérebro (a partir do diencéfalo), e as estruturas do tronco encefálico (mesencéfalo, ponte e bulbo). Possui dois hemisférios cerebelares laterais, e três lobos, denominados anterior, posterior e flóculo-nodular, com uma estrutura central denominada verme (ou vermis). O cerebelo coordena o movimento voluntário, monitora as contrações musculares, é o responsável pelo equilíbrio do corpo e pela orientação espacial, e também, conforme Golan et al. (2018, p. 101), “desempenha um papel em aprendizagem motora (p. ex., na coordenação mão-olho) e certas funções cognitivas, como o controle temporal de eventos repetitivos e a linguagem”. Poucos fármacos são capazes de afetar primariamente o cerebelo, mas alguns fármacos antiepilépticos e outras substâncias, como o álcool, são tóxicos, pois atingem o verme cerebelar que controla o equilíbrio (GOLAN et al., 2018). O diencéfaloestá localizado entre o tronco encefálico e o cérebro e é constituído pelas seguintes regiões: • Tálamo Possui núcleos que ligam as vias sensoriais (todas, exceto as olfativas) da medula espinal e do tronco encefálico para o córtex cerebral. Além disso, filtra, modula e transmite a informação sensorial, determinando, em parte, quais sinais alcançarão a percepção consciente. Também é responsável pela transmissão de impulsos nervosos do cerebelo e núcleos da base para as áreas motoras do córtex cerebral. O tálamo tem papel importante na manutenção da consciência e distribuição de informações nervosas entre áreas do telencéfalo. • Subtálamo Corresponde a uma pequena área que fica na zona de transição entre o diencéfalo e o mesencéfalo, logo abaixo do tálamo. Sua principal estrutura apresenta formações de substância cinzenta e substância branca e é denominada núcleo subtalâmico que se relaciona com funções motoras. • Epitálamo Está localizado superior e posterior ao tálamo e está ligado ao sistema límbico e aos núcleos da base. Atua como conexão do sistema límbico a outras áreas do cérebro. Algumas de suas funções são a secreção do hormônio melatonina pela glândula pineal (envolvida na regulação do ciclo sono-vigília, por induzir o sono), a regulação de vias motoras e a regulação emocional. • Hipotálamo Está localizado abaixo do tálamo e acima da hipófise, também conhecida como pituitária, uma glândula endócrina produtora de hormônios que é responsável pelo funcionamento de 35 outras glândulas do organismo. Controla o sistema nervoso autônomo, a hipófise e produção de hormônios e comportamentos vitais do organismo como, por exemplo: ajudar a regular a frequência cardíaca, o movimento do alimento dentro do trato gastrintestinal e a contração da bexiga urinária; regular os padrões emocionais e comportamentais, como raiva, dor, alegria, tristeza, prazer e excitação sexual; regular a ingestão de alimentos e líquidos (centro da sede); controlar a temperatura corporal, entre outros (TORTORA; DERRICKSON, 2016). De maneira geral, há indicativos de que o efeito anti-hipertensivo da clonidina seja mediado por sua ação sobre os receptores presentes em neurônios do tronco encefálico e controlados pelo hipotálamo (GOLAN et al., 2018). O tronco encefálico é composto, em conjunto, pelo mesencéfalo, ponte e bulbo. Faz parte do tronco encefálico o bulbo, a ponte e o mesencéfalo, e é a partir do bulbo que se inicia a medula espinal e conduz a conexão da medula espinal ao tálamo e ao córtex cerebral. Apresenta também substância branca que possui estruturas que recebem e enviam informações motoras e sensitivas para o cérebro. Além disso, o tronco encefálico dá origem à maioria dos nervos cranianos e alguns desses nervos conduzem as sensações de cabeça e face, incluindo integração dos reflexos auditivos e visuais. Controlam também a resposta motora dos músculos esqueléticos de expressão facial, mastigação, deglutição e movimento ocular. Exerce regulação da pressão arterial, na vasoconstrição dos vasos sanguíneos e nos batimentos cardíacos. A medula espinal é o alongamento do SNC, tem formato cilíndrico e está dentro do canal vertebral, nos canais vertebrais, ao longo do eixo crânio caudal. Tem seu início no forame magno do osso occipital do crânio e segue até aproximadamente a primeira e a segunda vértebra lombar, nas vertebras L1/L2, sendo mais encurtada do que a coluna vertebral. É constituída de tecido nervoso e formada por substância branca e internamente pela cinzenta. Ao cortar a medula espinal transversalmente, a substância cinzenta está em um formato que parece a letra H, encoberta em uma matriz de substância branca. Os neurônios da medula espinal são classificados FIQUE DE OLHO Existem grupos de neurônios que são difundidos através do tronco encefálico, do hipotálamo e da base circundante do cérebro, como o locus ceruleus e o núcleo da rafe, que compreendem o sistema ativador reticular, responsável por consciência e regulação do sono. Cada núcleo utiliza um sistema diferente de neurotransmissores, portanto várias classes de medicamentos podem exercer efeitos nesse sistema. Por exemplo, é por meio desses núcleos que os anti-histamínicos provocam sedação e os estimulantes, como a cafeína, aumentam o estado de vigília (GOLAN et al., 2018). 36 como sensoriais, localizados nos cornos dorsais do “H”, ou motores, que estão situados nos cornos ventrais do “H” e interneurônios espinais. A medula tem como principais funções a inervação sensorial e motora do corpo a partir da cabeça, por intermédio dos nervos espinais; a transmissão de sinais entre o encéfalo e o corpo, e vice-versa, pelos tratos ascendentes e descendentes da substância branca e responsável pelos atos reflexos por meio da integração sensorial e motora da substância cinzenta, como por exemplo, o reflexo medular. Como a medula espinal transmite sinais sensoriais (incluindo sensação de dor) para o sistema nervoso central, é considerada importante alvo para fármacos analgésicos, como os opioides (GOLAN et al., 2018). 1.3 Anatomia e função do sistema nervoso periférico O sistema nervoso periférico (SNP) é representado pelos tecidos nervosos que estão fora do SNC e incluem em sua constituição os nervos (12 pares cranianos e 31 pares espinais), gânglios, plexos entéricos e receptores sensoriais (com formato de terminações nervosas), que têm a função de fazer a ligação do SNC com o corpo por meio da transmissão de impulsos nervosos. Os nervos são estruturas de cordões esbranquiçados formados por feixes de fibras nervosas que possuem em seu interior milhares de axônios de neurônios, reforçados por tecido conjuntivo que, juntamente com os vasos sanguíneos, inervam os receptores sensoriais, as terminações nervosas motoras na musculatura e glândulas. Os nervos espinais são essencialmente sensitivos e motores ao mesmo tempo, já os nervos cranianos são compostos por nervos motores, sensitivos ou mistos, que conduzem informações sensoriais e também propagam os impulsos nervosos de comandos motores. Os nervos mistos possuem uma parte sensorial, com origem nas raízes dorsais da medula espinal ou em gânglios próximos dos nervos cranianos; e uma parte motora, composta dos neurônios motores que inervam os órgãos viscerais (SNA) e músculos esqueléticos (SNS) de controle da musculatura lisa, glândulas e tecido muscular cardíaco (TORTORA; DERRICKSON, 2017; SILVERTHORN, 2017). Há também nervos com funções sensitivas especiais que são relacionados aos sentidos de visão, olfato, audição e gustação. Os nervos cranianos e os nervos espinais transmitem impulsos nervosos sensitivos da periferia do encéfalo e do corpo, incluindo sensações internas e externas, para áreas ou regiões específicas encefálicas (SNC), para então processá-los e gerar uma resposta motora a esses estímulos. Quando as informações transmitidas do corpo são levadas por nervos espinais por meio da medula espinal até o encéfalo, esses mesmos nervos cranianos e espinais também conduzem impulsos nervosos que partem de áreas motoras encefálicas para a contração da musculatura lisa e esquelética da cabeça e do corpo (MARTIN, 2014). Já os gânglios são aglomerados celulares de neurônios (encontrados fora do SNC e medula) que formam uma pequena massa de tecido nervoso, ou simplesmente são pequenas dilatações 37 em certos nervos. Ficam localizados junto aos nervos e possuem a função de estações de interligação entre neurônios e demais estruturas corporais. (SCHUNKE, 2007). Ramificações de extensas redes de neurônios (fora do SNC) e seus axônios formam uma organização de interconexões nervosas, que são ramificações de extensas redes axonais nervosas, unindo-se umas às outras para formar um plexo. Estes plexos podem ser divididos em nervos espinais, que inervam o tronco e se ligam à medula espinhal, e em nervos cranianos (que são 12 pares) que se conectam ao encéfalo. A partir desses plexos, emergem nervos que supremregiões específicas com nomes que são frequentemente relacionados às regiões que eles inervam ou à direção que eles seguem. Por exemplo: nervo radial, referente à região do antebraço; nervo subclávio, referente à região abaixo da clavícula; e nervo axilar, que inerva a região da axila (TORTORA; DERRICKSON, 2016). Os principais plexos nervosos do corpo são: plexo cervical, que realiza o suprimento nervoso da pele e da musculatura da parte posterior da cabeça até o diafragma; plexo braquial, composto por inervação para membros superiores e músculos do pescoço e ombros; plexo lombar, que faz o suprimento nervoso genital, da parede abdominal e membros inferiores; e plexo sacral, perfaz os nervos de membros inferiores, região glútea e perineal. Os plexos e os receptores sensoriais também podem ser chamados de terminações nervosas. As terminações nervosas ficam localizadas na extremidade periférica das radículas nervosas e são classificadas como sensitivas e motoras. Nas terminações nervosas sensitivas, os receptores estão na extremidade distal dos nervos e quando estimulados adequadamente, esses receptores captam os estímulos e os transformam em impulso nervoso que percorre o organismo até o SNC. Quando chega ao SNC, esse estímulo é processado e cria uma percepção de sensibilidade geral ou específica, gerando uma resposta motora a esses estímulos. As terminações nervosas motoras, por sua vez, são responsáveis por conectar o sistema nervoso aos órgãos efetores, que são músculos, glândulas, vísceras, entre outros (SNELL, 2011; MOORE et al., 2014). Do ponto de vista funcional, o SNP, conforme já comentado, é subdivido por divisão sensorial (aferente) e divisão motora (eferente). Esta divisão motora é delimitada em um componente voluntário, denominado de sistema nervoso somático (SNS), que inerva músculos esqueléticos por meio de sinapses, as junções neuromusculares do SNS, e está em grande parte envolvido com as funções de controle consciente, como o movimento e a postura; e outro involuntário, sem a necessidade de um pensamento consciente para tal, nomeado de sistema nervoso autônomo (SNA). Atualmente, há estudos que indicam outra divisão do SNP, o sistema nervoso entérico, que realiza reflexos locais para o controle de estímulos digestórios intestinais, com autonomia do SNC. Entretanto, suas funções são também realizadas ou podem ser substituídas pelo SNA (SILVERTHORN, 2017). 38 1.4 Anatomia e função do sistema nervoso somático O sistema nervoso somático (SNS) ou voluntário constitui-se por nervos aferentes, que transmitem impulsos sensoriais da periferia para o SNC; e nervos motores (eferentes), que transportam sinais do SNC para a musculatura estriada esquelética, ou seja, esses sinais regulam o movimento voluntário. Suas funções, segundo Fuchs e Wannmacher (2017, p. 126), abrangem a percepção do ambiente externo (sensibilidade, sentidos especiais) e respostas ao ambiente (execução e coordenação da motricidade), assim como está diretamente relacionado com as funções cognitivas para interpretação de estímulos e planejamento de ações. As fibras musculares do SNS inervam diretamente seus alvos pelo fato de um único neurônio motor mielinizado, originado no SNC, ir diretamente ao músculo estriado, sem a intermediação de gânglios (WHALEN et al., 2016). Os neurônios motores que contêm seus corpos celulares no corno ventral da medula espinal estendem seus axônios, saem pelas raízes ventrais e conectam-se com as raízes dorsais, que carreiam as fibras nervosas sensoriais para formar os nervos espinais. Estes saem da coluna vertebral através dos forames intervertebrais e, em seguida, separam-se em nervos periféricos e inervam diretamente o músculo estriado esquelético específico (por exemplo, o músculo flexor do antebraço) (GOLAN et al., 2018). Os neurônios motores se ramificam em diversos conjuntos de terminal axonal alargado, dispostos na superfície da fibra muscular esquelética e, assim, essa estrutura ramificada controla várias fibras ao mesmo tempo. Essa comunicação entre o neurônio motor e a fibra muscular é denominada junção neuromuscular e é realizada por sinapse química, e seu mecanismo pode ser visualizado na imagem de comunicação neural abaixo. Inúmeras fibras musculares podem ser inervadas por apenas um único neurônio motor; gerando assim esse conjunto que representa uma unidade motora. A partir da estimulação do neurônio motor na junção neuromuscular, os receptores de membrana da fibra muscular desencadeiam disparos de potenciais de ação pela célula neuronal. Dessa maneira, gera a liberação do neurotransmissor acetilcolina (ACh) na fenda sináptica (pequeno espaço preenchido com líquido intersticial), que tem como resultado o movimento de força entre actina e miosina, caracterizando o processo de contração muscular (BEAR et al.,2017). 39 Figura 2 - Comunicação neural Fonte: Designua, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer:Na imagem, temos uma comunicação neural demonstrando sinapse química. Vemos o neurônio estendido com seu axônio de transmissão neural e demonstrando os locais do receptor neural e da sinapse. Tem uma parte aproximada demonstrando a sinapse química, onde mostra a vesícula sináptica, neurotransmissor, fenda sináptica e receptor. FIQUE DE OLHO A sinapse pode ser elétrica ou química. É responsável pela transmissão unidirecional dos impulsos nervosos de um neurônio para outro ou para uma célula efetora. Na elétrica, impulsos nervosos são conduzidos entre as membranas plasmáticas dos neurônios adjacentes pelas junções comunicantes (músculo liso visceral e cardíaco, e no encéfalo), de modo a permitir condução e coordenação rápida. As sinapses químicas são a maioria no organismo. Nelas, um impulso nervoso provoca liberação de neurotransmissores na fenda sináptica (TORTORA; DERRICKSON, 2016). 40 1.5 Anatomia e função do sistema nervoso autônomo O sistema nervoso autônomo (SNA), também denominado sistema nervoso visceral, vegetativo ou involuntário, é o principal componente do sistema nervoso e responsável pela homeostase, mantendo sob controle funções fisiológicas involuntárias, tais como sistema respiratório, renal, digestório, metabolismo, sudorese, controle da temperatura corporal e secreção de determinadas glândulas endócrinas. Na região periférica, é constituído por nervos, gânglios e plexos que inervam vasos sanguíneos, coração, glândulas e outras vísceras, e músculos lisos em vários tecidos (BRUNTON et al., 2019). O SNA possui duas divisões anatômicas: o sistema nervoso simpático e o sistema nervoso parassimpático, e também possui funções com o sistema nervoso entérico (localizado no interior do trato gastrintestinal). As fibras nervosas do SNA inervam, por impulsos nervosos do SNC, seus órgãos-alvo efetores por meio de dois neurônios eferentes. O primeiro neurônio, originário do tronco encefálico ou da medula espinal, faz sinapse em um gânglio autônomo, então é denominando neurônio pré-ganglionar. Em seguida, este neurônio faz outra sinapse (fora da medula espinal) com um neurônio pós-ganglionar, que contém seus corpos celulares originados no gânglio, e inerva o órgão-alvo, que são efetores como músculos lisos das vísceras, e glândulas exócrinas (GOLAN et al., 2018; WHALEN et al., 2016). A localização anatômica dessas conexões difere para os neurônios das divisões simpática e parassimpática do SNA. De forma geral, esses dois sistemas realizam funções contrárias ou antagônicas, por exemplo, a inervação parassimpática diminui a frequência cardíaca, e a inervação simpática a aumenta. 1.6 Anatomia e funções do sistema nervoso autônomo simpático e parassimpático A maioria dos órgãos do organismo é inervada por ambas as divisões do SNA, simpático e parassimpático, ou seja, uma inervação dupla. No sistema nervoso autônomo simpático, a sua inervação promove ações com maior componente excitatório, estimula ações que possibilita ao organismo responder a situações de exercíciofísico e de situações estressantes como hipoglicemia, frio, trauma e medo, também conhecido como “luta ou fuga”. Dessa forma, nesse sistema, há reações de aumento da frequência e da contratilidade cardíaca, elevação da pressão arterial, elevação do gasto energético corporal, dilatação da pupila e brônquios, aumento do fluxo sanguíneo para os músculos esqueléticos, entre outros. De acordo com Whalen et al. (2016, p. 41), essas reações iniciam-se tanto por ativação simpática direta dos órgãos efetores quanto por estimulação da medula suprarrenal. No sistema nervoso autônomo parassimpático, em contrapartida, a energia corporal se 41 mantém baixa com predomínio de ações em repouso e digestão, promovendo a motilidade gastrointestinal, a diminuição da frequência cardíaca e da pressão arterial. Está envolvido com a manutenção da homeostasia do organismo (SILVERTHORN, 2017). Ao contrário do sistema simpático, as fibras parassimpáticas que inervam órgãos específicos, tais como olhos, intestinos e coração, são ativadas separadamente, e o sistema funciona atingindo cada órgão individualmente (WHALEN et al., 2016). Os sistemas simpático e parassimpático exibem algumas diferenças anatômicas em relação às suas vias que ocorre por inervação dupla dos órgãos. O sistema simpático apresenta neurônios pré-ganglionares originados nas regiões torácica e lombar da medula espinal (T1 a L2), por isso são curtos, e se projetam em neurônios pós-ganglionares que fazem sinapse em gânglios situados próximo à medula espinal, por isso são longos, mais provável em gânglios paravertebrais e pré- vertebrais localizados próximo à aorta. Seus axônios se estendem desses gânglios até os tecidos dos órgãos que eles inervam e regulam. Já nos gânglios parassimpáticos, os neurônios pré-ganglionares são surgem em núcleos do tronco encefálico e os segmentos sacrais da medula espinal são longos, pois podem percorrer longa distância antes de fazer sinapse com seus alvos pós-ganglionares curtos que se situam próximo ou dentro dos órgãos que inervam (GOLAN et al., 2018; WHALEN et al., 2016). E conforme Whalen et al. (2016, p.40), na maioria dos casos, as terminações nervosas do tipo pré- ganglionares do sistema nervoso simpático ramificam-se muito, permitindo que um neurônio destes interaja com vários neurônios pós-ganglionares, ou seja, isso permite a esta divisão do SNA ativar numerosos órgãos efetores ao mesmo tempo. A diferença na organização anatômica dos neurônios resulta em variações nas funções dos sistemas simpáticos e parassimpáticos. O neurotransmissor liberado pelos neurônios pós-ganglionares do sistema nervoso parassimpático e em alguns neurônios simpáticos pós-ganglionares, é a acetilcolina (ACh), razão pela qual esses neurônios são chamados de colinérgicos. Os neurônios pós-ganglionares do sistema nervoso simpático são denominados adrenérgicos. Suas fibras adrenérgicas ligam o SNC à medula suprarrenal, que em resposta à estimulação pelo neurotransmissor ganglionar acetilcolina, secreta epinefrina (adrenalina) e, em menor quantidade, norepinefrina, diretamente no sangue. Apresenta-se, a seguir, uma tabela com as principais diferenças entre os sistemas nervosos autônomos simpático e parassimpático. 42 Tabela 1 - Principais diferenças entre os sistemas nervosos simpático e parassimpático Fonte: WHALEN et al., 2016, p. 44 (Adaptada). #ParaCegoVer: Na imagem, temos uma tabela com três colunas e sete linhas, com as principais diferenças entre os sistemas nervosos simpático e parassimpático. 2 PANORAMA GERAL DA FARMACOLOGIA COLINÉRGICA E ADRENÉRGICA Os fármacos com efeito sobre o sistema nervoso autônomo parassimpático (SNAP) estão divididos em dois grupos, os colinérgicos e adrenérgicos, de acordo com os neurônios que atuam em seus mecanismos de ação (WHALEN et al., 2016). Os fármacos colinérgicos e adrenérgicos interagem estimulando ou bloqueando receptores do SNAP, atuando como agonistas ou antagonistas. Os fármacos agonistas colinérgicos podem estimular a atividade do SNAP quando se ligam aos receptores que são ativados pela acetilcolina (ACh), sendo denominados agentes colinomiméticos ou fármacos parassimpatomiméticos. É possível também a esses fármacos a execução de seus mecanismos de ação através da ação direta (colinesterásicos), nos receptores muscarínicos e nicotínicos. Também realizam por ação indireta através da inibição da enzima acetilcolinesterase, 43 nesse caso, eles são chamados de fármacos anticolinesterásicos (AChE). A enzima AChE é responsável pela hidrólise da ACh endógena. Assim, com a inibição da inativação enzimática da acetilcolina, promove-se o aumento do tempo de permanência da acetilcolina endógena na sinapse neuroefetora e sua ligação aos receptores. Nos fármacos agonistas adrenérgicos, a atuação é em receptores que são estimulados pela norepinefrina ou pela epinefrina. Esses fármacos podem atuar simulando ou modulando a função do sistema nervoso autônomo simpático (SNAS), sendo denominados fármacos simpaticomiméticos ou adrenomiméticos. Os fármacos simpaticomiméticos podem ativar de forma direta seus receptores adrenérgicos ou atuar de maneira indireta, aumentando a concentração do transmissor catecolamina na sinapse. Os fármacos antagonistas colinérgicos e adrenérgicos se diferem pela ação de atuação, seja estimulando ou bloqueando os respectivos receptores. Quanto aos fármacos antagonistas anticolinérgicos (parassimpaticolíticos), estes interferem na ação da ACh e são classificados de acordo com o mecanismo de ação como fármacos anticolinérgicos antimuscarínicos, bloqueadores neuromusculares e bloqueadores ganglionares. Os fármacos anticolinérgicos antimuscarínicos bloqueiam os receptores muscarínicos nas sinapses neuroefetoras (como atropina e escopolamina) e são importantes na oftalmologia (em razão de seus efeitos cicloplégicos e midriáticos), na cinetose e no tratamento de mal de Parkinson, bexiga urinária hiperativa, asma e intoxicação por organofosforados. Os fármacos anticolinérgicos bloqueadores neuromusculares atuam nos receptores nicotínicos, na junção neuromuscular (como succinilcolina) e também interferem na transmissão dos impulsos eferentes da transmissão colinérgica aos músculos esqueléticos, resultando no relaxamento da musculatura esquelética. São úteis como adjuvantes na anestesia e cirurgia, na intubação e nos vários procedimentos ortopédicos. Por fim, os fármacos anticolinérgicos bloqueadores ganglionares atuam nos receptores nicotínicos dos gânglios autônomos parassimpático e simpático (como trimetafano, hexametônio e mecamilamina) e interferem nos impulsos nervosos do SNA (nos receptores nicotínicos) causando inúmeros efeitos adversos, o que limita a utilização clínica, mas têm utilidade terapêutica em casos de emergência de crise hipertensiva e para produzir hipotensão controlada durante procedimentos cirúrgicos (BRUNTON et al., 2019). Quanto aos fármacos antagonistas adrenérgicos, são chamados também de fármacos simpatolíticos, por “quebrarem” os efeitos do SN simpático. Temos a seguinte divisão: fármacos antagonistas de receptores α, fármacos antagonistas de receptores β e fármacos que afetam a concentração de monoaminas. 44 3 AGONISTAS E ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS Os agonistas colinérgicos, ou colinesterásicos, são classificados conforme o tipo de receptor colinérgico, muscarínico ou nicotínico. Estes receptores são diferenciados com base em suas diferentes afinidades nestes fármacos que mimetizam ação da ACh. A ACh atua como neurotransmissor colinérgico na fibra pré-ganglionar, que termina na suprarrenal, no gânglio autônomo (no parassimpático e simpático) e nas fibras pós-ganglionares da divisão parassimpática (WHALEN et al., 2016). A neurotransmissão da ACh envolve seis etapas que estão simplificadas abaixo: Síntese de acetilcolina: a colina acetiltransferase catalisa a síntese de acetilcolina a partir da colina e Acetil-CoA. Captação nas vesículasde armazenamento: a acetilcolina está protegida da degradação no interior da vesícula. Liberação do neurotransmissor: a liberação da ACh ocorre quando um potencial de ação chega ao terminal nervoso, promovendo a abertura dos canais de cálcio. Ligação da ACh ao receptor: liberada, a ACh vai interagir com os receptores. O receptor pós- sináptico colinérgico (muscarínico ou nicotínico) é ativado pela ligação com a ACh. Degradação da ACh: excessos de ACh na fenda sináptica são rapidamente hidrolisados pela acetilcolinesterase (AChE), formando colina e acetato. Reciclagem de colina e acetato: a colina é captada pelo neurônio. Ali, ela é acetilada em ACh, que é armazenada até a liberação por um potencial de ação subsequente. 3.1 Receptores colinérgicos A transmissão colinérgica ocorre em função da ação da acetilcolina aos receptores muscarínicos ou nicotínicos. Como já visto anteriormente, a ACh é o neurotransmissor em todas as sinapses ganglionares do sistema simpático e parassimpático e nas sinapses neuroefetoras do sistema parassimpático. É nessas sinapses neuroefetoras, que a ACh atua nos receptores muscarínicos. Saiba mais sobre esses receptores muscarínicos assistindo a este vídeo 1. 45 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Os receptores colinérgicos específicos à ação muscarínica são denominados receptores de ACh muscarínicos (mAChR) e os receptores colinérgicos específicos à ação nicotínica são denominados receptores nicotínicos de ACh (nAChR). Esses receptores, mAChR e nAChR, são naturalmente alvos da ACh endógena, ou seja, ACh sintetizada, armazenada e liberada dos neurônios colinérgicos, bem como também de numerosos fármacos administrados para fins de obtenção de efeitos farmacológicos, tanto agonistas quanto antagonistas, incluindo os alcaloides muscarina e nicotina (BRUNTON et al., 2019). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Conforme visto, os receptores muscarínicos são metabotrópicos acoplados às proteínas G, apresentam sete domínios transmembrana e atuam como transdutores de sinal. Esses receptores se apresentam em cinco subtipos, do M1 ao M5. Regulam vias de sinalização intracelular por meio da produção de segundos mensageiros e da indução de canais iônicos, pelas suas proteínas G. Por outro lado, os receptores nicotínicos são formados por canal iônico regulado por ligante 46 e são compostos de cinco subunidades homólogas reunidas ao redor de um poro central. Esses receptores produzem a abertura de um canal seletivo para o sódio e o potássio, o que gera despolarização celular. Confira uma síntese dos subtipos dos receptores muscarínicos e nicotínicos na tabela “Subtipos e características dos receptores colinérgicos”. Tabela 2 - Subtipos e características dos receptores colinérgicos Fonte: PANUS et al., 2011, p. 51 (Adaptada). #ParaCegoVer: Na imagem, temos uma tabela com quatro colunas e 10 linhas, apresentando os subtipos e características dos receptores colinérgicos. Os subtipos muscarínicos são denominados de M1 a M5. Os subtipos nicotínicos são denominados Nm e Nn. Os subtipos M2 e M4 estão ligados às proteínas G inibitórias (Gi) e, quando ativados, sofrem uma mudança conformacional, estimulando a proteína Gi. Essa proteína tem ação inibitória sobre a adenililciclase e aumenta a entrada do íon K+ nas células. Já os subtipos M1, M3 e M5 são 47 acoplados às proteínas G excitatórias (Gq). Quando ativados, esses receptores sofrem mudança conformacional e estimulam a proteína Gq, que ativa a enzima fosfolipase C, ocasionando a produção de segundos mensageiros, como o trifosfato (1,4,5) de inositol (IP3) e o diacilglicerol, e de terceiros mensageiros, como o cálcio e a proteinocinase C. O aumento de Ca2+ intracelular pode causar uma variedade de efeitos, tais como a contração, a hiperpolarização ou a secreção celular (BRUNTON et al., 2019). De maneira geral, a acetilcolina vai interagir com os receptores muscarínicos ou nicotínicos e produzir efeitos excitatórios ou inibitórios, que está diretamente relacionado com o tecido e receptor no qual vai se ligar. A interação com esses receptores está ilustrada na imagem “Receptores acetilcolina”. Figura 3 - Receptores acetilcolina Fonte: Ellepigrafica, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: Na imagem, temos receptores de acetilcolina que são os muscarínicos e nicotínicos. Na parte superior, está ilustrado o mecanismo transmissão de sinal por canal iônico disparado por ligante do receptor nicotínico e, na parte inferior, o receptor muscarínico. 3.2 Agonistas colinérgicos Os agonistas colinérgicos de ação direta são conhecidos por “copiarem” as ações do SN parassimpático. São ligados diretamente a receptores colinérgicos muscarínicos ou nicotínicos 48 e de acordo com sua estrutura química, são divididos em dois grandes grupos: os ésteres de colina (quando inclui a acetilcolina e outros fármacos sintéticos) e os alcaloides naturais. Alguns exemplos do grupo ésteres de colina são: a acetilcolina, a metacolina, o carbacol e o betanecol. Já como exemplos de fármacos alcaloides naturais, podemos citar a pilocarpina e a lobelina. Por outro lado, os agonistas colinérgicos de ação indireta, anticolinesterásicos (AChE), agem inibindo a acetilcolinesterase, e assim amplificam as ações da acetilcolina endógena nas sinapses muscarínicas e nicotínicas, ou seja, acúmulo de ACh na fenda sináptica e a continuação ou o aumento das suas vias de sinalização. Podem, portanto, aumentar as funções simpáticas ou parassimpáticas nos tecidos periféricos e, de acordo com sua estrutura química e duração dos seus efeitos, é dividido em três classes: edrofônio, neostigmina e ecotiofato. Observe esses principais agonistas colinérgicos de ação direta e indireta no quadro “Agonistas colinomiméticos: características clínicas e farmacocinéticas”. Com relação ao uso terapêutico dos fármacos colinérgicos, são usados principalmente no tratamento da xerostomia, de doenças dos olhos (glaucoma e esotropia de acomodação), distúrbios dos órgãos gastrointestinal e urinário (atonia pós-operatória e bexiga neurogênica) e da junção neuromuscular (myasthenia gravis e paralisia neuromuscular induzida por curare) e doença de Alzheimer. As contraindicações são para os pacientes que apresentam asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doença cardiovascular, úlcera péptica, hipotensão, obstrução dos tratos geniturinário ou gastrintestinal e aos pacientes com hipertireoidismo (podem induzir quadro de fibrilação atrial). O uso terapêutico dos fármacos anticolinesterásicos é indicado para tratamento de patologias, como miastenia grave, Alzheimer e glaucoma de ângulo aberto. São usados, às vezes, no tratamento da dosagem excessiva de atropina e, muito raramente, na terapia de certas arritmias atriais. Além disso, como a transmissão colinérgica está presente em todas as espécies animais, alguns agentes anticolinesterásicos são tóxicos, atuando como pesticidas e inseticidas. 49 Tabela 3 - Agonistas colinomiméticos: características clínicas e farmacocinéticas Fonte: PANUS et al., 2011, p. 52 (Adaptada). #ParaCegoVer: Na imagem, temos uma tabela com cinco colunas e 11 linhas com os agonistas colinomiméticos e suas características clínicas e farmacocinéticas. 50 A estimulação dos receptores muscarínicos ou nicotínicos causa efeitos adversos variáveis, nos diferentes tecidos e órgãos. Geralmente, todos os fármacos muscarínicos são similares clinicamente nos diversos efeitos farmacológicos, e entre eles estão: ação direta sobre o SNC, que pode envolver estimulação generalizada, e causar alucinações ou convulsões; nos olhos, pode provocar a contração do músculo esfíncter da pupila, que resulta em miose, e, também, a contração do músculo ciliar, causando a acomodação da visão e, na estimulação desses receptores também causa o aumento das secreções lacrimais. No sistema respiratório, estes fármacos agonistas muscarínicos ocasionam a constrição brônquica e o aumento dassecreções traqueobrônquicas; no sistema cardiovascular, ocasionam alterações do ritmo cardíaco; nos órgãos do trato gastrintestinal, causa o aumento do seu tônus, ampliam a sua motilidade e a sua atividade secretora, e a maioria dos esfíncteres também é relaxada por ação desses fármacos. As doses mais altas geram o risco de respostas periféricas generalizadas à estimulação parassimpaticomimética excessiva, resultando em broncoconstrição e produção excessiva de muco, desconforto gastrintestinal, hiperatividade do músculo detrusor da bexiga (com aumento da frequência de micção) e hipotensão. Bradicardia também pode estar presente, mas a hipotensão costuma produzir taquicardia reflexa. Já com relação aos efeitos adversos dos agonistas nicotínicos de ação direta, os atuantes no SNC causam perigo de convulsões, de coma e da depressão respiratória. Nos tecidos periféricos, a estimulação dos receptores nicotínicos ganglionares autônomos resulta em hipertensão e arritmias cardíacas, e a estimulação prolongada dos receptores neuromusculares na junção neuromuscular causa paralisia muscular. Com relação aos efeitos adversos dos agonistas de ação indireta (anticolinesterásicos), são similares a dos agonistas de ação direta. Os efeitos tóxicos agudos dos inibidores da AChE, assim como nos agonistas de ação direta, são extensões de suas ações farmacológicas, como salivação, rubor, redução da pressão arterial, náusea, dor abdominal, diarreia e broncoespasmo. As manifestações no SNC são comuns após superdosagens, tais reações se manifestam na forma de convulsões e, em seguida, depressão respiratória e cardiovascular. 3.3 Antagonistas colinérgicos (anticolinérgicos) Os fármacos antagonistas colinérgicos atuam sobre diferentes sistemas do organismo e são denominados anticolinérgicos (um termo impróprio, pois antagonizam apenas os receptores muscarínicos) sendo então também denominados como antimuscarínicos ou como parassimpaticolíticos. Os fármacos parassimpatomiméticos mimetizam as ações da acetilcolina, estimulando as ações mediadas pelo sistema parassimpático. Então, com isso, os fármacos parassimpatocolíticos têm ação contrária e as ações de estimulação simpática ficam sem oposição. 51 O mecanismo de ação desses fármacos antimuscarínicos se dá pela sua ação antagonista sobre os receptores colinérgicos muscarínicos, ou seja, evitam que o neurotransmissor ACh se ligue a esses receptores e exerça suas ações. Dessa forma, as ações mediadas pelo sistema parassimpático são inibidas ou reduzidas. Os fármacos antimuscarínicos podem apresentar ações sobre diferentes sistemas e, dessa forma, têm sido utilizados no tratamento de diferentes quadros clínicos. Pela similaridade, são divididos em três classes: • Alcaloides naturais Atropina e escopolamina. • Derivados semissintéticos dos alcaloides naturais Homatropina. • Derivados sintéticos Ipratrópio, tiotrópio, oxitrópio, benztropina, propantelina. Observe a aplicação desses fármacos na tabela “Principais usos terapêuticos de fármacos antimuscarínicos”. As indicações terapêuticas e as aplicações clinicamente úteis dos fármacos antimuscarínicos incluem minimizar os efeitos da inervação parassimpática do trato gastrintestinal, geniturinário, respiratório, coração e olhos. Nas indicações de tratamento da doença de Parkinson, reversão do broncoespasmo e a aplicação ocular direta desses fármacos inibem a acomodação do olho e provocam dilatação das pupilas (PANUS et al., 2011). Eles também são empregados para o tratamento de alguns distúrbios do sistema nervoso central e no envenenamento/intoxicação por agentes colinérgicos. 52 Tabela 4 - Principais usos terapêuticos de fármacos antimuscarínicos Fonte: PANUS et al. 2011, p. 56 (Adaptada). #ParaCegoVer: Na imagem, temos uma tabela com três colunas e 10 linhas com os principais usos terapêuticos de fármacos antimuscarínicos. A maioria dos fármacos antimuscarínicos disponíveis clinicamente não é seletiva em relação aos subtipos de receptores muscarínicos (M1 a M5), ou seja, a eficácia da maioria desses fármacos necessita de um equilíbrio de ações antagônicas sobre dois ou mais subtipos desses receptores. Em função disso, o uso desses fármacos no tratamento direcionado a algum órgão ou tecido do organismo pode acarretar efeitos indesejados em outros sistemas (BRUNTON et al., 2019). É comum aos fármacos antimuscarínicos apresentarem clinicamente os seguintes efeitos farmacológicos: relacionados ao SNC incluem sonolência, tonturas e confusão e são particularmente problemáticos em idosos; no sistema cardiovascular, podem alterar a frequência incluindo 53 taquicardia, e também geralmente causam bradicardia transitória; no sistema respiratório, causam alguma broncodilatação e diminuição nas secreções traqueobrônquicas; no trato urinário, diminuem o tônus normal e a amplitude das contrações dos ureteres e da bexiga; no trato gastrointestinal (TGI), atuam como fármacos antiespasmódicos para distúrbios gastrointestinais e para diminuir a secreção gástrica no tratamento da úlcera péptica. A secreção salivar é particularmente sensível à inibição pelos antagonistas do receptor muscarínico, que podem abolir completamente a secreção aquosa abundante induzida pela estimulação parassimpática. As contraindicações e efeitos adversos dos fármacos antimuscarínicos são para indivíduos que apresentam algum tipo de obstrução do trato geniturinário ou do TGI, assim como glaucoma (ou suscetibilidade), e estes devem evitar o uso desses fármacos. Também devem ser utilizados com cuidado em homens de idade mais avançada e evitado naqueles que apresentarem histórico de hiperplasia prostática, pois o relaxamento da musculatura lisa do trato geniturinário pode ocasionar o aumento da pressão sobre a próstata (BRAGHIROLLI et al., 2018). Outras contraindicações importantes incluem asma crônica, doença pulmonar obstrutiva, obstrução urinária ou do TGI, doença ácido-péptica, doença cardiovascular acompanhada de bradicardia, hipotensão e hipertireoidismo. Essas contraindicações e esses efeitos adversos em geral têm pouca importância na administração tópica para uso oftálmico. 4 BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES Os fármacos bloqueadores neuromusculares (BNMs) atuam na comunicação entre o neurônio motor e as fibras musculares, a chamada junção neuromuscular (JNM). Estes fármacos bloqueiam a transmissão colinérgica entre o terminal nervoso motor e o receptor nicotínico pós-sináptico no músculo esquelético. Os fármacos BNMs agem na junção neuromuscular, prejudicando a transmissão sináptica e, consequentemente, provocando o relaxamento da musculatura. Estes fármacos atuam por meio de dois mecanismos diferentes, como agonistas despolarizantes ou antagonistas não despolarizantes, nos receptores da placa motora da JNM para impedir a contração muscular, promovendo o relaxamento do músculo. Esses fármacos são clinicamente úteis para produzir relaxamento muscular como auxiliares nas cirurgias de grande porte. É importante lembrar, primeiramente, que a junção neuromuscular é um processo no qual ocorre a sinapse entre o neurônio motor e a fibra muscular. E a unidade motora é o conjunto formado pelo neurônio motor e as fibras musculares que esse neurônio inerva, e a placa motora é a porção do sarcolema (membrana da fibra muscular) que participa da sinapse com o neurônio motor (BRAGHIROLLI et al.,2018). Observe a imagem “junção neuromuscular”, que demonstra a representação da unidade motora, formada pelo neurônio motor e as fibras musculares com as quais se comunica, e como ocorre a sinapse neuromuscular ou junção neuromuscular. 54 Figura 4 - Junção neuromuscular Fonte: VectorMine, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: Na imagem, temos a junção neuromuscular, apresenta-se a representação da unidade motora, formada pelo neurônio motor, célula muscular e as fibras musculares com as quais se comunica. Mostra o neurônio e seu axônio e a sinapse neuromuscular. Então, é porsinalização mediada por receptores nicotínicos pós-sinápticos na placa motora que a contração do músculo esquelético é produzida. A ativação do receptor nicotínico determina a abertura dos canais, com influxo subsequente de Na+ e efluxo de K+ (potencial da placa motora). Esse potencial da placa motora resulta em despolarização muscular adjacente e propagação ao longo de toda a fibra muscular (BRUNTON et al.,2019) 55 4.1 Fármacos bloqueadores despolarizantes O fármaco bloqueador despolarizante atua por despolarização da junção neuromuscular na membrana plasmática da fibra muscular, agindo similar à ação da acetilcolina. Age como agonista que bloqueia competitivamente a ACh nos receptores nicotínicos, isto é, eles competem com a ACh pelo receptor e, assim, esses fármacos impedem a despolarização da membrana da célula muscular e inibem a contração muscular. Porém, diferentemente da ACh, que é destruída instantaneamente pela acetilcolinesterase (AChE), o fármaco despolarizante é mais resistentente à degradação e persiste em concentração elevada na fenda sináptica, permanecendo fixado ao receptor por um tempo maior e causando uma estimulação constante do receptor (WHALEN et al.,2016). O mecanismo de ação do fármaco despolarizante é composto por duas fases, sendo que na fase I, após a contração, o agonista despolarizante se liga ao receptor nicotínico, o que resulta na despolarização do receptor e, assim, permanece ligado mantendo o canal iônico para entrada de sódio aberto, o que impede a repolarização da membrana. A despolarização continuada torna o receptor incapaz de transmitir impulsos adicionais, então ocorre uma descarga de potenciais de ação na placa motora, resultando em um período transitório de excitação repetitiva do músculo (fasciculações). Com o tempo, esta despolarização contínua dá origem a uma repolarização gradual da membrana, ou seja, quando o canal de sódio se fecha ou é bloqueado, causando assim uma resistência à despolarização e paralisia flácida do músculo. Esse tipo de bloqueio não pode ser antagonizado e pode ser acentuado pela AChE. Portanto, (fase II) a membrana repolariza, mas o receptor é dessensibilizado aos efeitos da acetilcolina. Atualmente, o único fármaco BNM despolarizante relaxante muscular disponível clinicamente é a succinilcolina (ou suxametônio), que é agonista de ação direta que se liga ao receptor nicotínico pós-sináptico. Quando administrada inicialmente em dose única intravenosa (10 a 30 mg), apresenta efeito adverso de breves fasciculações musculares, causando dor muscular, principalmente sobre o tórax e o abdome. Isso pode ser evitado com administração prévia (antes da administração de succinilcolina) de pequena dose de BNM não despolarizante. A duração da ação da succinilcolina é extremamente curta, em razão da rápida hidrólise pela colinesterase plasmática (pseudocolinesterase), porém, a succinilcolina que atinge a JNM não é biotransformada pela acetilcolinesterase, o que permite ao fármaco se ligue aos receptores nicotínicos. A sua redistribuição ao plasma é necessária para a biotransformação. Quanto aos efeitos farmacocinéticos da succinilcolina, a administração intravenosa tem rápido início (60 segundos). Tem a vantagem de durar poucos minutos, apresentando reversão espontânea do bloqueio após, aproximadamente, 10 minutos. Para produzir bloqueio neuromuscular prolongado, pode ser administrada por infusão contínua, mas não é habitual e 56 requer pré-tratamento com atropina. Quando administrada por via intramuscular, o início da ação é muito mais lento, então, geralmente é utilizada apenas em crianças, ou outros pacientes nas quais o acesso venoso não foi possível. Quanto ao uso terapêutico, o fármaco succinilcolina, por ter início rápido, tem indicação para uso quando for necessária intubação endotraqueal rápida durante a indução da anestesia ou durante tratamento com choque eletroconvulsivo. Os efeitos adversos e contraindicações incluem hiperpotassemia induzida pela succinilcolina, pois pode ser fatal em pacientes que tenham condições clínicas de distrofias musculares, queimaduras, problemas cardíacos e paraplegia, sendo seu uso contraindicado nestes casos (BRAGHIROLLI et al.,2018). Também pode induzir a hipertermia maligna em pacientes suscetíveis e a apneia prolongada ocorre se houver algum problema na reversão do bloqueio. Quando há bloqueio prolongado devido à atividade reduzida da colinesterase plasmática, que pode ser atribuída a causas congênitas ou adquiridas, sendo que as causas hereditárias ocorrem devido à produção de colinesterase plasmática atípica, e nas causas adquiridas que incluem síntese enzimática diminuída, quando houver doença hepática, carcinomatose, gestação ou jejum prolongado (hipoproteinemia), insuficiência cardíaca, insuficiência renal e queimaduras, sendo contraindicado o uso de succinilcolina. Assim como também deve ser usado com cautela quando administrados juntamente com os fármacos etomidato, anestésicos locais, do tipo éster, metotrexate, remifentanil e esmolol, pois pode resultar na redução da atividade da colinesterase plasmática. 4.2 Fármacos bloqueadores não despolarizantes (competitivos) Os fármacos bloqueadores não despolarizantes são antagonistas competitivos dos receptores nicotínicos, ou seja, bloqueiam competitivamente a ACh na ligação com o receptor, competindo pelo receptor sem estimulá-lo. Em doses baixas, impedem a despolarização da membrana da célula muscular (da placa motora) e inibem a contração muscular, assim o músculo permanece relaxado. A diminuição dos efeitos dos BNMs não despolarizantes é alcançada através da administração de inibidores da colinesterase (anticolinesterásicos), que aumentam a concentração de ACh na fenda sináptica na JNM, ou seja, isso ocorre devido à inibição da acetilcolinesterase. Isso é geralmente utilizado como estratégia em aplicações de anestesia, ou seja, a diminuição da duração do bloqueio neuromuscular. Além disso, em doses baixas, com um estimulador periférico, os músculos respondem em graus variados à estimulação elétrica direta, sendo possível monitorar a extensão do bloqueio neuromuscular. Porém, em doses elevadas, podem bloquear os canais iônicos na placa motora, levando a um enfraquecimento adicional na transmissão neuromuscular, ocasionando redução de possibilidade dos anticolinesterásicos reverterem a ação destes agonistas não despolarizantes. Assim, com o bloqueio completo, os músculos não respondem à estimulação elétrica direta (WHALEN et al.,2016). 57 A ação dos bloqueadores competitivos BNMs apresentam diferentes sensibilidades nos variados músculos. Assim, os músculos pequenos, os quais produzem movimentos rápidos, são relaxados primeiramente como, por exemplo, os músculos dos olhos, da mandíbula e da laringe e, posteriormente, os músculos do tronco e dos membros, sendo por último relaxados os músculos intercostais e o diafragma, ocasionando a parada da respiração. Os músculos são recuperados na ordem inversa, sendo que, normalmente, o primeiro a recuperar sua função é o diafragma (BRAGHIROLLI et al.,2018). Os principais fármacos bloqueadores competitivos (não despolarizantes) entre os BNMs, são: cisatracúrio, pancurônio, rocurônio e o vecurônio. A tubocurarina também, mas atualmente foi substituída por estes outros fármacos com menos efeitos adversos. O atracúrio também é outro fármaco que foi substituído, neste caso pelo seu isômero, cisatracúrio. Quanto aos efeitos farmacocinéticos destes BNMs competitivos, o tempo de início e a duração de ação variam de acordo com cada fármaco. Estes fármacos possuem estrutura que previnem absorção no intestino, ou seja, têm baixa absorção pelo trato gastrintestinal (TGI), penetram pouco nas membranas, não entram nas células e nem atravessam a barreira hematencefálica. Por isso, não são administrados por via oral, e absorção é adequada por via intramuscular (IM), mas tem início de ação mais rápido por viaintravenosa (IV). Quando administrado via intravenoso, a fraqueza motora evolui para paralisia flácida total. Muitos desses fármacos não são biotransformados e suas ações terminam por redistribuição, como no caso do pancúrio, que é excretado inalterado na urina; o cisatracúrio, que não causa liberação de histamina (diferente do seu isômero atracúrio que libera), é metabolizado por degradação (por rearranjo de Hoffmann) e não se acumula na insuficiência renal; já nos aminoesteroides (rocurônio e vecurônio), são metabolizados em um órgão-alvo antes da excreção, como por exemplo, serem desacetilados no fígado, e também podem ser excretados inalterados na bile. Quanto ao uso terapêutico desses BNMs competitivos não polarizantes, são utilizados frequentemente em cirurgias de grande porte, pois induzem relaxamento durante o procedimento. Também são utilizados em unidades de terapia intensiva (UTIs) em pacientes que estão com ventilação mecânica, para evitar complicações ventilatórias. Com relação aos efeitos adversos e contraindicações, no geral, esses BNMs competitivos são seguros, apresentando efeitos adversos mínimos. Mas alguns casos e fármacos específicos podem apresentar efeitos cardiovasculares e podem manifestar bradicardia e taquicardia, sendo contraindicados para pacientes com problemas cardíacos, sendo que o vecurônio, o cisatracúrio e o rocurônio exercem efeitos cardiovasculares mínimos ou nenhum efeito, já o pancurônio provoca aumento moderado da frequência cardíaca e aumento menor do débito cardíaco, com pouca ou nenhuma alteração na resistência vascular sistêmica, e também taquicardia induzida; 58 já com relação à liberação de histamina, o pancurônio tem liberação de histamina reduzida, mas bloqueia receptores muscarínicos, o que é perigoso para pacientes com problemas cardíacos. 5 AGONISTA E ANTAGONISTA ADRENÉRGICOS A subdivisão simpática do sistema nervoso autônomo é um regulador de praticamente quase todos os sistemas fisiológicos no organismo humano, e está relacionada, principalmente, em preparar o organismo para situações de estresse, pânico, fuga, frio e com atividades físicas. Os efeitos decorrentes da estimulação simpática ocorrem por meio da liberação do neurotransmissor norepinefrina (ou noradrenalina), que ativa α-adrenorreceptores ou β-adrenorreceptores. Os fármacos que ativam diretamente os receptores adrenérgicos são denominados fármacos simpatomiméticos (ou adrenérgicos), enquanto que outros fármacos que indiretamente atuam aumentando a liberação ou bloqueando a captação de norepinefrina (antagonistas) são denominados simpaticolíticos (ou antiadrenérgicos) (BRUNTON et al., 2019). Os neurônios adrenérgicos são encontrados no sistema nervoso central (SNC) e também no sistema nervoso simpático, onde servem de ligação entre os gânglios e os órgãos efetores e liberam a norepinefrina como neurotransmissor primário. A neurotransmissão nos neurônios adrenérgicos é muito similar à dos neurônios colinérgicos, mas nesse caso o neurotransmissor é a norepinefrina, em vez da acetilcolina (WHALEN et al., 2016). A neurotransmissão envolve as seguintes seis etapas que estão simplificadas abaixo: • Síntese da norepinefrina (NE): a tirosina é transportada para dentro do neurônio adre- nérgico por um carregador, onde é hidroxilada em di-hidroxifenilalanina (Dopa) pela tirosina hidroxilase. Esta, com a ação da enzima descarboxilase de aminoácidos aromáti- cos, vai tornar a L-DOPA em dopamina, sendo formada uma catecolamina (catecolamina é uma monoamina, um composto orgânico que tem grupo catecol e cadeia lateral de amina. Adrenérgico é um grupo de moléculas chamadas catecolaminas, e a epinefrina e a norepinefrina são representantes importantes). • Armazenamento da norepinefrina em vesículas : a dopamina é internalizada em vesículas sinápticas. Uma vesícula agrupa diversas dopaminas dentro, e ali a enzima dopamina ꞵ-hidroxilase a transforma em norepinefrina (NE). • Liberação de norepinefrina: o influxo de cálcio (Ca+2) causa fusão da vesícula com a membrana celular, induzindo processo de exocitose das vesículas, liberando NE na fenda sináptica. • Ligação ao receptor: liberada, a norepinefrina vai interagir com os receptores adrenérgi- cos (α-adrenorreceptores ou β-adrenorreceptores) na fenda sináptica. O receptor pós-si- náptico é ativado pela ligação do neurotransmissor (norepinefrina). • Remoção da norepinefrina: o excesso de norepinefrina na fenda sináptica pode 1) difun- 59 dir para fora do espaço sináptico e entrar na circulação sistêmica; 2) ser metabolizada a metabólitos inativos pela catecol-O-metil- transferase (COMT) no espaço sináptico; ou 3) sofrer captação de volta para o neurônio. • Metabolismo: logo que a norepinefrina entra no citoplasma do neurônio adrenérgico, pode ser metilada pela COMT (catecol-O-metil- transferase) ou oxidada pela monoami- noxidase (MAO). 5.1 Receptores adrenérgicos (adrenoreceptores) Os adrenoceptores são receptores do tipo metabotrópicos, isto é, estão transmembrana acoplados à proteína G, sendo que esta apresenta três subunidades: α, β e γ. Quando a noradrenalina ou a adrenalina interage com o domínio extracelular dos adrenoceptores, eles sofrem uma mudança de sua conformação, ocasionando a alteração estrutural da proteína G, que ocasiona a dissociação da sua subunidade α das subunidades β e γ. A subunidade α dissociada interage com seu efetor e modula sua atividade, ocasionando uma cascata de eventos de sinalização intracelular. Os seus efetores incluem a adenililciclase (AC), a fosfolipase C, canais iônicos e a GMPc fosfodiesterase. Conforme esta ação/efetor da subunidade α, as proteínas G são classificadas em estimuladoras da adenililciclase (Gs) ou inibidoras da adenililciclase (Gi), ou à fosfolipase C (Gq ) (BRAGHIROLLI et al.,2018). No sistema nervoso simpático há várias classes de adrenoceptores, que são designados por α e β. Essa classificação foi baseada na resposta desses receptores à ligação com norepinefrina (noradrenalina), epinefrina (adrenalina) e com o fármaco agonista isoproterenol. As duas classificações, α e β, de adrenoceptores são também divididas em subtipos. Os α-adrenoceptores são subdivididos em α1 e α2. Enquanto que os β-adrenoceptores são subdivididos em β1 , β2 e β3 (WHALEN et al., 2016). Os receptores simpáticos mais comuns são os α- adrenorreceptores, que respondem de forma intensa à norepinefrina e fracamente à epinefrina. Por outro lado, os subtipos β-adrenorreceptores diferem em suas afinidades pelas catecolaminas. Os receptores β1 respondem de forma igual à norepinefrina e à epinefrina, os receptores β2 são mais sensíveis à epinefrina do que à norepinefrina e os receptores β3, encontrados principalmente no tecido adiposo, são inervados e mais sensíveis à norepinefrina do que à epinefrina. Os α1-adrenorreceptores estão acoplados à proteína Gq estimulatória e está presente em geral no músculo liso e no coração, e os α2-adrenorreceptores, acoplado à proteína Gi inibitória, estão localizados no sistema nervoso central (SNC), nas células das ilhotas pancreáticas e nos terminais nervosos. Já os subtipos β estão todos acoplados à proteína Gs estimulatória, e β1- adrenorreceptores se localizam no coração e nas células renais justaglomerulares, os β2- adrenorreceptores estão localizados no músculo liso dos brônquios e no músculo esquelético, e os β3-adrenorreceptores estão localizados no tecido adiposo (BRAGHIROLLI et al.,2018). 60 Na tabela “Características dos receptores adrenérgicos”, constam outras informações complementares das localizações e ações dos subtipos de adrenoceptores. Tabela 5 - Características dos receptores adrenérgicos Fonte: BRAGHIROLLI et al., 2018, p. 154 (Adaptada) #ParaCegoVer: Na imagem, temos uma tabela com seis colunas e seis linhas com as características dos receptores adrenérgicos. 5.2 Agonista adrenérgicos Diferentes fármacos atuam sobre os receptores adrenérgicos e modulam a atividadedo sistema nervoso autônomo simpático. Os simpatomiméticos são agrupados pelo modo de ação e pelo espectro de receptores que ativam. Estes fármacos mimetizam as ações da noradrenalina e/ ou adrenalina, portanto, podem exercer suas ações de maneira direta ou indireta, que, baseado no mecanismo de ação, são classificados em três grupos: Agonistas de ação direta: se ligam diretamente aos adrenoceptores α ou β, causando sua ativação. Eles podem exibir seletividade a um subtipo específico de adrenoceptor, como também podem não apresentar seletividade, atuando sobre diferentes subtipos de adrenoceptores. Exemplos desses agonistas de ação direta são a epinefrina, norepinefrina, isoproterenol e fenilefrina. 61 Agonistas de ação indireta: estimulam as ações simpáticas por aumentar a disponibilidade de adrenalina ou noradrenalina endógenas. Podem ocasionar esse aumento por meio de diferentes mecanismos: (a) estimulação da liberação da noradrenalina presente nas vesículas neuronais pré-sinápticas (anfetaminas, por exemplo); (b) inibição da recaptação das catecolaminas pelas terminações nervosas pré-sinápticas que as liberam e, portanto, aumentam a atividade sináptica do transmissor liberado (como exemplo a amitriptilina, da classe dos antidepressivos tricíclicos); (c) bloqueio do metabolismo, ou seja, bloqueio da catecol-O-metiltransferase (COMT) e da monoaminoxidase (MAO). Entretanto, a inibição da MAO aumenta as reservas de catecolaminas nas vesículas sinápticas adrenérgicas, podendo potencializar a ação de outros simpaticomiméticos de ação indireta (exemplos de fármacos inibidores da MAO são os antidepressivos IMAO, isto é, fenelzina e tranilcipromina). Agonistas de ação mista: estimulam diretamente os adrenoceptores, e a liberação de noradrenalina endógena. A efedrina e seu estereoisômero, pseudoefedrina, estimulam os adrenoceptores diretamente e liberam norepinefrina (NE) do neurônio adrenérgico. Na tabela “Farmacocinética e aplicações clínicas dos simpaticomiméticos”, observe outras características clínicas desses fármacos agonistas adrenérgicos. 62 Tabela 6 - Farmacocinética e aplicações clínicas dos simpaticomiméticos Fonte: PANUS et al., 2011, p. 67 (Adaptada). #ParaCegoVer: Na imagem, temos uma tabela com cinco colunas e 20 linhas, apresentando a farmacocinética e aplicações clínicas dos simpaticomiméticos. Os agonistas endógenos dos receptores adrenérgicos, as catecolaminas (epinefrina, norepinefrina e dopamina), são rapidamente metabolizados pela COMT e pela MAO. Como consequência, esses agonistas dos receptores adrenérgicos são quase inativos quando administrados por via oral. Apresentam ação de curta duração e, quando ministrados por via parenteral, não penetram no SNC em quantidades significativas. Os fármacos agonistas adrenérgicos apresentam diferentes efeitos sobre os sistemas do nosso organismo. No sistema cardiovascular, os agonistas adrenérgicos apresentam efeitos cardíacos e vasculares. Os receptores α1 estão presentes na musculatura lisa de praticamente todo o leito vascular. Quando os receptores α1 são estimulados pelos agonistas adrenérgicos, levam à contração muscular, o que resulta na vasoconstrição arterial e venosa; no sistema respiratório, a ativação dos receptores β2 ocasiona a dilatação brônquica, facilitando as trocas gasosas; no trato genitourinário, a ação é sobre os receptores α1 presentes na base da bexiga e esfíncter uretral que causam a contração da musculatura, evitando a saída da urina (a continência urinária); nos olhos, podem ativar os receptores adrenérgicos do tipo α, ocasionando dilatação da pupila; no metabolismo, os agonistas adrenérgicos podem exibir ações bastante importantes sobre o metabolismo intermediário e ainda reduzem a atividade das glândulas salivares. A epinefrina e a norepinefrina apresentam riscos de provocarem efeitos adversos no SNC, tais como ansiedade, medo, tensão, cefaleia e tremores. Os outros efeitos adversos observados na periferia são extensões de suas ações nos receptores α ou β-farmacológicos, ou seja, causando vasoconstrição excessiva, arritmias cardíacas, infarto do miocárdio e edema ou hemorragia 63 pulmonares. Doses pequenas de simpaticomiméticos causam nervosismo, anorexia e insônia. Doses mais altas provocam ansiedade, agressividade ou comportamento paranoide. A hipertensão ocorre em função do uso de agonistas α1 enquanto a taquicardia sinusal e as arritmias graves são causadas pelos agonistas β1. Os agonistas β2 provocam tremor do músculo esquelético e, em doses mais altas, arritmias cardíacas. E, por fim, a estimulação dos receptores β1 e β2 pode aumentar os níveis de glicemia. As contraindicações dos fármacos agonistas adrenérgicos é para pacientes que utilizam medicamentos que causam a inibição da enzima monoaminoxidase (por exemplo, alguns antidepressivos) principalmente, adrenalina, noradrenalina e dopamina. E, para pacientes que usam fármacos inibidores dos receptores β, também é contraindicada a adrenalina (BRAGHIROLLI et al., 2018). 5.3 Antagonista adrenérgicos (antiadrenérgicos) Os fármacos simpaticolíticos, também chamados bloqueadores adrenérgicos ou antiadrenérgicos. Esses fármacos têm como mecanismo de ação o antagonismo às ações da epinefrina (ou adrenalina) e da norepinefrina (ou noradrenalina) por meio do bloqueio dos receptores adrenérgicos. São classificados em bloqueadores α-adrenérgicos, bloqueadores β-adrenérgicos e fármacos que afetam a concentração de monoaminas. Os efeitos desse antagonismo estão diretamente relacionados com a ação dos fármacos antiadrenérgicos em relação ao tipo de adrenoceptor em que atuam: α e/ou β e os seus subtipos. Antagonistas com ações mediadas pelos adrenoceptores α são chamados de fármacos α-bloqueadores e, por outro lado, aqueles que antagonizam as ações mediadas pelos adrenoceptores β são chamados de fármacos β-bloqueadores. Os antagonistas adrenérgicos possuem diferentes classes de especificidades ao receptor que são clinicamente relevantes, são elas: duas classes de receptores α: os antagonistas α não seletivos e antagonistas seletivos α1. Com relação aos bloqueadores β-adrenérgicos, são: antagonistas não seletivos dos receptores β e antagonistas seletivos dos receptores β1. Há também os antagonistas dos receptores α e β, e ainda antagonistas com atividade agonista parcial. Veja os fármacos e a aplicação clínica dessas classes na tabela “Uso terapêutico dos principais antagonistas adrenérgicos”. 64 Tabela 7 - Uso terapêutico dos principais antagonistas adrenérgicos Fonte: BRAGHIROLLI et al., 2018, p. 132 (Adaptada). #ParaCegoVer: Na imagem, temos uma tabela com três colunas e 16 linhas, que apresenta os usos terapêuticos dos principais antagonistas adrenérgicos. Além dos fármacos citados na tabela, há também outros importantes fármacos que afetam a concentração de monoaminas: fármacos que afetam a síntese de catecolaminas, fármacos que afetam o armazenamento de norepinefrina (NE) e fármacos que afetam a liberação de NE. Nos fármacos que afetam a síntese de catecolaminas, há inibição em qualquer esfera da produção de catecolaminas endógenas. Ou seja, podendo agir desde a transformação da timina até mesmo na conversão da L-DOPA em dopamina. Neste caso, o fármaco alfa-metiltirosina vai inibir a enzima TH (tirosina hidroxilase), que transforma tirosina em L-DOPA e o fármaco carbidopa vai inibir a enzima que converte L-DOPA em dopamina. Uso terapêutico: tratamento 65 do feocromocitoma. No caso de fármaco que afeta o armazenamento de NE, tem a reserpina. Ela é uma inibidora da TVMA, e isso faz com que tenha uma diminuição na liberação de NE na fenda. Uso terapêutico: anti-hipertensivo. Reações adversas: hipotensão, depressão e nervosismo. Como fármaco que afeta a liberação de NE, tem a guanetidina (G). Ela é um substrato para VMAT. Assim, ao invés da NE ser internalizada na vesícula, a guanetidina será em seu lugar. A NE não interage com os receptoresadrenérgicos. A guanetinina pode ter ação aguda, que aumenta a quantidade de NE na fenda sináptica, aumentando os efeitos adrenérgicos, ou ação crônica com exposição crônica à G, aumento de G na vesícula, cada vez menos NE é liberada na fenda, e baixa sinalização adrenérgica. Uso terapêutico: anti-hipertensivo. Efeitos adversos: náuseas, vômitos e bradicardia. Quanto aos outros efeitos farmacológicos devido ao antagonismo sobre os adrenoceptores α, o sistema cardiovascular é o mais importante, pois o efeito ocasiona aumento da frequência cardíaca; nos olhos, ocasiona a contração da pupila (miose); no trato geniturinário, ocasiona a redução da pressão na bexiga, enquanto na próstata pode aliviar alguns dos sintomas da hiperplasia prostática benigna. Nos efeitos farmacológicos devido ao antagonismo sobre os adrenoceptores β, o sistema cardiovascular tem redução da frequência e da contratilidade cardíaca; no trato respiratório, causam broncoconstrição. Nas células justaglomerulares renais, contribuem para redução da pressão arterial; nos olhos, há redução da produção do humor aquoso; no metabolismo, causam o aumento das proteínas de muito baixa densidade (VLDL) e das proteínas de baixa densidade (LDL), ao mesmo tempo em que reduzem as concentrações séricas das proteínas de alta densidade (HDL). Os efeitos adversos do uso dos fármacos antiadrenérgicos dependem dos adrenoceptores em que eles estão atuando. Com relação aos fármacos bloqueadores dos adrenoceptores α, podem ocasionar a hipotensão postural e vertigens em função da dilatação dos vasos sanguíneos e, com isso, podendo também ocasionar a congestão nasal e, nos dutos ejaculatórios, a inibição da ejaculação. No início, podem provocar taquicardia e arritmias, que são reduzidas ao longo do tempo. A contraindicação é para pacientes que apresentam algum tipo de cardiopatia, que devem utilizar esses medicamentos com cautela. Nos fármacos antagonistas dos adrenoceptores β, os efeitos adversos são a broncoconstrição, bradicardia, hipotensão e bloqueio atrioventricular. Essas ações são graves e podem ocasionar o infarto agudo do miocárdio ou a cardiomegalia. Também há aumento da relação LDL/HDL, sensação de extremidades frias, e ainda ocasionar a hipoglicemia de jejum e, consequentemente, tremores, taquicardia e ansiedade. Há contraindicação para pacientes com bradicardia sinusal ou choque cardiogênico, e devem ser evitados em pacientes com asma brônquica ou com doença pulmonar obstrutiva crônica. Além disso, deve ser usado com cautela por indivíduos diabéticos. 66 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Enfim, você aprendeu nesta unidade informações sobre os conceitos básicos farmacológicos dos principais fármacos colinérgicos e adrenérgicos, e também os bloqueadores neuromusculares que atuam nos diversos órgãos-alvo do organismo. Conheceram e interpretaram de forma geral e específica os mecanismos de ação, os efeitos farmacológicos, os usos terapêuticos, os efeitos adversos e as contraindicações desses fármacos. É sempre recomendável que o profissional farmacêutico tenha como escopo esses conhecimentos e esteja atento às atualizações farmacológicas. 67 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • identificar os componentes anatômicos e as funções do sistema nervoso central e periférico; • relacionar os aspectos morfofuncionais do sistema central, periférico e autônomo com aspectos clínicos; • caracterizar as funções do sistema nervoso simpático e parassimpático; • diferenciar receptores adrenérgicos de receptores colinérgicos; • identificar o mecanismo de ação de fármacos que atuam na junção neuromuscular; • descrever os mecanismos pelos quais os fármacos podem atuar para alterar a fun- ção fisiológica do sistema nervoso autônomo. PARA RESUMIR BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. BRAGHIROLLI, D. I.; ROCKENBACH, L.; OLIVEIRA, L. F.; BRUM, L. F. S. Farmacologia aplicada. Porto Alegre: SAGAH, 2018. BRUNTON, L. L.; CHABNER, B. A.; KNOLLMANN, B. C. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2019. FUCHS, F. D.; WANNMACHER, L. Farmacologia clínica e terapêutica. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. GOLAN, D. E.; TASHJIAN JR, A. H.; ARMSTRONG, E.; ARMSTRONG, A. Princípios de farmacologia: a base fisiopatológica da farmacoterapia. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. MARTIN, J. H. Neuroanatomia: texto e atlas. 4. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. MOORE, K. L.; DALLEY, A. F.; AGUR, A. M. R. Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. PANUS, P. C.; TINSLEY, S. L.; MASTERS, S. B.; TREVOR, A. J.; KATZUNG, B. G. Farmacologia para fisioterapeutas. 1. ed. Porto Alegre: AMGH, 2011. TORTORA, G. J.; DERRICKSON, B. Corpo humano: fundamentos de anatomia e fisiologia. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016. ______. Anatomia e fisiologia. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. SCHUNKE, M. 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Critérios adotados que definem substâncias como mediadores são: • que a mediação com a ação, síntese ou liberação module ou neutralize a resposta bioló- gica desenvolvida pelo organismo; • que possa ser liberada de células em quantia suficiente para que produza efeito biológico nas células-alvo por um período aceitável; • que a inserção de amostra autêntica do mediador exiba efeito idêntico ao efeito biológi- co do organismo (RANG e DALE, 2012). 1.1 Mediadores: 5- Hidroxitriptamina A 5-hidroxitriptamina (5-HT) é um neurotransmissor importante em todo organismo tanto do sistema nervoso central (SNC) como no sistema vascular periférico. Possui um baixo peso molecular, detectado como enteramina no intestino e serotonina no soro sanguíneo. Os termos 5-HT e serotonina são usuais atualmente para descrever essa substância. As maiores concentrações de 5-HT se encontram em três órgãos principais, sendo eles o intestino (cerca de 90% do conteúdo total), no sangue e no sistema nervoso central. Embora seja possível obter 5-HT através de dietas, boa parte da serotonina ingerida é metabolizada antes de cair na corrente sanguínea. Possuem sete famílias (5-HT1-7) e subtipos de 5-HT2 (A-C) e 5-HT1 (A-F) (RANG e DALE, 2012). Figura 1 - Estrutura da pele e anexos Fonte: KenshiDesign, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: imagem mostra a estrutura química da serotonina (5-hidroxitriptamina). Os principais efeitos envolvidos com a 5-HT são: • agregação plaquetária; • evolução da motilidade gastrointestinal; 72 • vasoconstrição e vasodilatação; • excitação de terminações nervosas nociceptivas periféricas; • excitação/inibição de neurônios do SNC (RANG e DALE, 2012). Fármacos que atuam nos receptores 5-HT Muitos agonistas e antagonistas importantes atuam nos receptores 5-HT. São exemplos desses fármacos: • Triptanos (agonistas de receptores 5-HT1) São utilizados no tratamento da enxaqueca. • Dolasetrona, ondansetrona, tropisetrona, entre outros (antagonistas de receptores 5-HT3) Empregados como antieméticos paravômitos e náuseas. Utilizados principalmente para combater os efeitos adversos de quimioterapia. • Metisergida e ketanserina (antagonistas de receptores 5-HT2) São empregados no bloqueio de receptores 5-HT. Além disso, possuem mais antagonistas 5-HT 2, que são utilizados no tratamento de sintomas causados por tumores carcinoides. • Metoclopramida, cisaprida e tegaserode (agonistas de receptor 5-HT) Utilizados para tratamento de distúrbios gastrointestinais (RANG e DALE, 2012). Além disso, o 5-HT é um neurotransmissor importante atuando no sistema nervoso central (SNC), onde atuam fármacos importantes antidepressivos e antipsicóticos. Alucinógenos como o LSD também atuam nos receptores 5-HT em receptores não seletivos (RANG e DALE, 2012). 1.2 Alcaloides do ergot Alcaloides da ergotamina (ergot) são um grupo não classificável na farmacologia. A sua grande maioria atua em receptores 5-HT, porém não são seletivos desses receptores (RANG e DALE, 2012). 73 Os alcaloides do ergot mais conhecidos são: • Ergometrina Utilizada na obstetrícia para evitar hemorragia pós-parto. • Erotamina Empregada no tratamento da enxaqueca. • Bromocriptina Utilizada em distúrbios endócrinos e no tratamento da doença de Parkinson. • Metisergida Empregada em algumas ocasiões para o tratamento da enxaqueca e na síndrome carcinoide (RANG e DALE, 2012). Efeitos adversos desses fármacos englobam vasoconstrição, náuseas e vômitos. 1.3 Enxaqueca A enxaqueca é uma condição que afeta de 10 a 15% da população, suas causas não são de fato muito conhecidas, porém estão envolvidos com fatores ambientais e genéticos. Afeta mais mulheres do que homens e tem início geralmente na puberdade (RANG e DALE, 2012). FIQUE DE OLHO A ergotamina se trata de um extrato obtido do fungo Claviceps purpúrea. Seu estudo desencadeou muitas pesquisas que foram responsáveis pela descoberta de histamina, catecolaminas e acetilcolina. 74 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Quando tratamos de fármacos utilizados no tratamento da enxaqueca, é preciso separar em fármacos utilizados para crises agudas, os quais aliviam a dor momentaneamente e aqueles fármacos utilizados na profilaxia da doença (RANG e DALE, 2012). Os principais fármacos utilizados para crises agudas e profilaxia encontram-se listados na tabela abaixo: Tabela 1 - Fármacos utilizados no tratamento da enxaqueca Fonte: RANG; DALE, 2012 (Adaptado). #ParaCegoVer: Na tabela, temos fármacos utilizados em crises agudas de enxaqueca, sendo eles o paracetamol, aspirina, ergotamina, sumatriptano, eletriptano, almotriptano, frovatriptano, rizitriptano, eletriptano e zolmitriptano. Além disso, apresenta os fármacos utilizados na profilaxia da enxaqueca como propranolol, metoprolol, pizotifeno, ciproeptadina e metisergida. 75 2 MEDIADORES: PURINAS Nucleotídeos (principalmente ATP e ADP) e nucleosídeos (principalmente a adenosina) possuem importância conhecida na produção de energia e na síntese de material genético (ácido ribonucleico e ácido desoxirribonucleico) e, além disso, apresentam papéis farmacológicos fundamentais (RANG e DALE, 2012; BRUNTON, 2012). A farmacologia das purinas ainda é algo muito novo e que não tem muitas bases consolidadas, porém é um estudo em constante expansão e que pode ser promissor para a farmacologia. As principais famílias de purinas são: • Receptores de adenosina (A1 , A 2A, A2B e A3). • Receptores metabotrópicos P2Y (P2Y 1-14). • Receptores ionotrópicos P2X (P2X1-7). 2.1 Adenosina Uma purina simples e encontrada em praticamente todo organismo está presente no citoplasma de todas células. Pode ser também inativada ela enzima adenosina deaminase, obtendo inosina que atua como outro alvo farmacológico. A adenosina é responsável por efeitos farmacológicos tanto no sistema nervoso central como na periferia. Os principais potenciais farmacológicos da adenosina são no sistema cardiovascular, na asma e no sistema nervoso central (RANG e DALE, 2012). No sistema cardiovascular, a adenosina atua inibindo a condução cardíaca. Essa ação favorece a aplicação terapêutica de injeções intravenosas in bolus com finalidade de parar a taquicardia supraventricular. Porém, apresenta como desvantagens a curta duração, sendo assim substituída por agentes terapêuticos considerados mais seguros como o verapamil e β-adrenérgicos (RANG e DALE, 2012). Na asma, a farmacologia da adenosina ainda é considerada complexa. Alguns estudos evidenciam receptores de adenosina como potenciais estratégias terapêuticas para o tratamento FIQUE DE OLHO O termo in bolus na farmacologia se refere em adotar métodos para aumentar a concentração de determinado fármaco na corrente sanguínea. Pode ocorrer por via intramuscular, intravenosa, entre outras. 76 da asma (GUMBER et al., 2020; LAGARIAS et al., 2019). 2.2 Adenosina difosfato (ADP) Armazenado nas células em vesículas, exerce efeitos biológicos principalmente através da família P2Y, porém ectonucleotidases podem converter em adenosina. Atua principalmente na agregação plaquetária. O clopidogrel, ticagrelor e prasugrel atuam como antagonistas de receptores P2Y12 e são importantes agentes terapêuticos para prevenir distúrbios tromboembólicos nas artérias (RANG e DALE, 2012). 2.3 Adenosina trifosfato (ATP) O ATP atua principalmente em receptores P2X. A suramina (utilizada no tratamento de tripanossomas) é um exemplo de fármaco que antagoniza o ATP apresentando efeito inibitório na grande maioria dos receptores P2X. O ATP tem ação como neurotransmissor, na nocicepção e na inflamação (RANG e DALE, 2012). 3 MEDIADORES: HISTAMINAS E LIPÍDEOS ATIVOS A histamina é uma amina básica que, por ação da enzima histidina-decarboxilase, origina a histidina. Está presente na maioria dos tecidos, porém nos tecidos expostos são mais predominantes, tais como pele, pulmões e no trato intestinal. Presente principalmente em basófilos e mastócitos em grânulos intracelulares (RANG e DALE, 2012). Os mastócitos são responsáveis por liberar histamina através de mecanismo de exocitose durante reações inflamatórias ou alérgicas. Alguns fármacos atuam no mecanismo de liberação de histamina, como por exemplo, os ativos que atuam aumentando a formação de AMPc inibem a secreção de histamina, como agonistas β-adrenérgicos (RANG e DALE, 2012). A histamina desenvolve ação atuando nos receptores H1, H2, H3 E H4. Os principais efeitos são: • contração do músculo liso (H1); • vasodilatação (H1); • estímulo de secreção gástrica (H2); • estímulo cardíaco (H2); • permeabilidade vascular aumentada (H1) (RANG e DALE, 2012). A ingestão intradérmica de histamina causa o surgimento de edema, rubor e halo devido à permeabilidade das vénulas aumentadas, vasodilatação e reflexo axonal liberando mediadores 77 peptídicos, respectivamente (RANG e DALE, 2012). 4 EICOSANOIDES São mediadores obtidos a partir de ácidos graxos. Possuem função importante em muitos mecanismos fisiológicos e são considerados os moduladores e mediadores de maior importância em uma reação inflamatória (RANG e DALE, 2012). O ácido araquidônico (ácido 5,8,11,14- cis eicosatetraenoico) é o principal precursor de eicosanoides. As prostaglandinas, tromboxanos e leucotrienos são os eicosanoides mais importantes. O ácido araquidônico ainda pode ser metabolizado por outros sistemas tais como: • Ciclo-oxigenases (COX) São representados principalmente pela COX-1 e COX-2. • Lipo-oxigenases Responsáveis por sintetizar lipoxinas, leucotrienos e outros compostos. • Prostanoides São um grupo que englobam tromboxanos e prostaglandinas. As COXs atuam oxidando o ácido araquidônico e produzindo intermediários como PGG 2 E PGH 2. Os prostanoides mais importantes são: • Tromboxanos (TXA2) Atuam causando vasoconstrição e agregação plaquetária. • Prostaciclina (PGI2) Inibem a agregação plaquetária e causando vasodilatação. • PGE2 Possuem destaque principal em reações inflamatórias atuando como mediador na dor e febre (RANG eDALE, 2012). Entre as áreas com aplicações clínicas dos prostanoides estão a oftalmologia (glaucoma), sistema cardiovascular (estabilizar canal arterial, inibição de agregação plaquetária e hipertensão pulmonar), sistema gastrointestinal (prevenção de úlceras) e na ginecologia e obstetrícia (indução do trabalho de parto, hemorragia pós-parto e interrupção da gravidez (RANG e DALE, 2012). 78 5 LEUCOTRIENOS Leucotrienos são sintetizados a partir do ácido araquidônico. São encontrados principalmente em plaquetas, mastócitos, pulmões e glóbulos brancos. A principal enzima do grupo dos leucotrienos é a 5-lipooxigenase, sendo responsável por formar o ácido 5-hidroperoxitetraenoico. São produzidos principalmente pelos mastócitos, macrófagos, basófilos e eosinófilos. É considerado importante na asma (RANG e DALE, 2012). Possuem importantes efeitos no sistema cardiovascular e respiratório. Antagonistas dos receptores CisLT como o zafirlukast e o montelukast são utilizados para o tratamento da asma. Os leucotrienos cisteínicos podem atuar em modificações cardiovasculares e os inibidores da 5-lipooxigenase atuam como agentes anti-asmáticos (RANG e DALE, 2012). 6 MEDIADORES: PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS Os mediadores de peptídeos e proteínas geralmente variam de 3 a 200 resíduos de aminoácidos. Uma das diferenças entre ambos é que as proteínas necessitam de uma estrutura complexa para que possa realizar efeito e os peptídeos, na maioria dos casos, são mais flexíveis. Ambos sofrem frequentemente modificações de carboxilação, glicosilação, amidação, sulfatação ou fosforilação (RANG e DALE, 2012). Mediadores peptídicos e proteicos atuam em receptores de superfície e são divididos em quatro grupos principais: • hormônios com fontes não neurais, como a angiotensina, bradicinina, endotelina, insuli- na, leptina e peptídeo natriurético atrial; • mediadores envolvidos com o sistema imunológico, como as citocinas, por exemplo; • neurotransmissores e mediadores neuroendócrinos; • fatores de crescimento responsáveis por controlar a diferenciação e crescimento celular. O denominado splicing gênico é responsável pela diversidade dos peptídeos. Os genes possuem, por sua vez, regiões codificadores que são denominadas exons e não codificadoras denominadas introns (RANG e DALE, 2012). 6.1 Bradicinina A bradicinina é um peptídeo obtido a partir de uma α-globulina plasmática denominada cininogênio. Convertida em cininase I em BK1-8 (receptor) e inativada por cininase II no pulmão. Seus principais efeitos farmacológicos são: 79 • aumento da permeabilidade celular; • responsável por estimular o transporte epitelial de íons; • contração na musculatura lisa uterina e intestinal; • vasodilatação; • responsável por estimular terminações nervosas (RANG e DALE, 2012). Os dois principais subtipos de receptores são o B1 e o B2. 6.2 Citocinas Citocinas são polipeptídeos que são liberados durante processos inflamatórios. São responsáveis por regular o efeito do sistema imunológico e das células inflamatórias. Os interferons, quimiocinas, interleucinas e fatores de estimulação de colônias são exemplos de citocinas. Quimiocinas, como por exemplo a IL-8, estão associadas ao controle do tráfego de células. Citocinas inflamatórias como a TNF-α e a IL-8 estão envolvidas na indução de formação de outras citocinas (RANG e DALE, 2012). Alguns exemplos de citocinas com ações importantes são (RANG e DALE, 2012): • IL-1: Responsáveis pela regulação da migração celular para o local de infecção. • IL-2: Responsáveis pela estimulação da maturação, proliferação e ativação de células natural killer, T e B. • IL-4: Atuam estimulando a maturação e proliferação de células B e T e promovem a sínte- se de IgE e IgG. • IL-5: São fundamentais para a ativação de eosinófilos. Estimulam a maturação e prolifera- ção de células B. • IL-6: Possuem ações pró-inflamatórias como a febre. • IL-8: Envolvidos com fagocitose, angiogênese e quimiotaxia dos neutrófilos. • IL-10: Responsáveis por inibir a produção de citocinas e regular o processo inflamatório. • IL-17: Estimulam células Th17 que são células envolvidas na autoimunidade e resposta alérgica. • GM-CSF: Responsáveis pelo aumento no número de leucócitos e por estimularem o cres- cimento de células que originam leucócitos. • MIP-1: Responsáveis por ativar neutrófilos e outras células além de promoverem a libera- ção de citocinas. 80 • TFG-β: Atuam regulando o crescimento celular e induzindo a apoptose. • TNF-α: Responsáveis pela estimulação de expressão de citocinas e por eliminar células tumorais. • TNF-β: Dão início a atividades imuno-estimulantes e pró-inflamatórias no sistema de defesa. • Eotaxina: Atuam na ativação de eosinófilos. • MCP-1: Recrutam células T e monócitos para processos inflamatórios. • RANTES: Responsáveis pela quimiotaxia de leucócitos e células T. • IFN-α: Atua inibindo a replicação viral, possui atividades antitumorais e ativa macrófagos e células natural killer. • IFN-γ: Responsáveis por estimular células Th1 e impedir que células Th2 se proliferem. Ativam macrófagos e células natural killer. 7 ANTI-INFLAMATÓRIOS E IMUNOSSUPRESSORES Uma inflamação pode ser dita como uma condição fisiológica desencadeada em resposta a agentes exógenos. É caracterizada principalmente pelos cinco sintomas característicos: dor, calor, rubor, edema e perda da função. Anti-inflamatórios atuam em mediadores inflamatórios responsáveis por promoverem esses quadros (SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). Os principais grupos de fármacos que atuam como anti-inflamatórios são: - anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs); - fármacos que atuam inibindo a enzima ciclo-oxigenase (COX); - coxibes; - fármacos antirreumáticos; - glicocorticoides (RANG e DALE, 2012). 7.1 Inibidores da ciclo-oxigenase Nesse grupo de fármacos estão englobados os coxibes e os AINEs. Esses fármacos estão entre os fármacos mais usados na população. Existem mais de diferentes inibidores da COX disponíveis hoje no mercado, entre eles estão o aceclofenaco, acemetacina, ácido mefenâmico, ácido tiaprofênico, ácido tolfenâmico, aspirina, celecoxibe, cetoprofeno, cetorolaco, dexcetoprofeno, 81 dexibruprofeno, diclofenaco, etodolaco, etoricoxibe, fenoprofeno, flurbiprofeno, ibuprofeno, indometacina, meloxicam, nabumetona, naproxeno, parecoxibe, piroxicam, sulindaco e tenoxicam (RANG e DALE, 2012; KATZUNG, 2010). Os inibidores da COX proporcionam alívio de edema, dor e febre. Também são eficientes no tratamento de dores odontológicas, pós-operatórias, menstruais e para aliviar enxaquecas e cefaleias. Muitos AINEs encontram-se disponíveis para venda livre. Além disso, podem ser encontrados em várias formas farmacêuticas como soluções, comprimidos, cápsulas, géis, injeções, entre outros (RANG e DALE, 2012). Por mais que o mecanismo de ação dos AINEs varie de forma individual, entre os fármacos, a ação principal está em inibir a COX de ácidos graxos, inibindo tromboxanos e prostaglandinas. Existem duas isoformas da COX, sendo elas COX-1 e COX-2. A COX-1 trata-se de uma enzima constitutiva presente na maioria dos tecidos, realizando funções de “manutenção” em todo organismo, atuando principalmente na homeostase e responsável por produzir prostaglandinas (RANG e DALE, 2012). A COX-2, por outro lado, é induzida em células inflamatórias quando ativadas. A COX-2, no entanto, é responsável por produzir mediadores inflamatórios, existindo pequenas exceções (RANG e DALE, 2012). Os AINEs, em sua grande maioria, inibem tanto a COX-1 quanto a COX-2. A ação anti- inflamatória dos AINEs estão envolvidas a inibição da isoforma COX-2 e os efeitos adversos relacionados ao trato gastrointestinal relacionados à inibição de COX-1 (RANG e DALE, 2012). Fármacos modernos possuem inibição mais seletiva para COX-2, reduzindo assim efeitos adversos gastrointestinais, são exemplos desses fármacos o celecoxibe e etoricoxibe. 7.2 Efeitos Os AINEs apresentam diversos efeitos terapêuticos,entre eles atuam como anti-inflamatórios, antipiréticos e analgésicos. Efeitos anti-inflamatórios: Levando em consideração os efeitos anti-inflamatórios, muitos mediadores inflamatórios comandam reações alérgicas e inflamatórias. Os AINEs atuam então FIQUE DE OLHO Quando comparados, os AINEs apresentam diferenças relacionadas à sua toxicidade, tolerância e grau de aceitação. Porém, no que diz respeito ao efeito, são em sua grande maioria similares, com pequenas exceções. 82 reduzindo prostaglandinas (PGE2 e PGI2) estando envolvidas com menor vasodilatação e, consequentemente, menos edema. Não estabelece uma redução de células inflamatórias, mas atuam impedindo a saída de exsudato. O paracetamol é um exemplo de fármaco que não apresenta ação anti-inflamatória considerável (RANG e DALE, 2012; KATZUNG, 2010). Efeitos antipiréticos: No hipotálamo, são controlados os mecanismos de temperatura corporal. A febre é desencadeada por desequilíbrio nos mecanismos de temperatura corporal, os AINEs atuam ajustando tais mecanismos. Organismos com temperatura normal não são afetados pela ação dos AINEs (RANG e DALE, 2012; SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). Efeitos analgésicos: Os AINEs apresentam também ação satisfatória em tratamentos para dores leves ou moderadas. Atuam reduzindo produção de prostaglandinas responsáveis por causarem sensibilidade nos nociceptores em mediadores inflamatórios como bradicinina. As prostaglandinas diminuem o limiar de excitação de nociceptores de fibras C e Ag, que são responsáveis pela sensação de dor (RANG e DALE, 2012; SILVA, MENEZES, SÁ, 2016). 7.3 Reações adversas Os efeitos adversos, principalmente aqueles provenientes da inibição da COX-1, são comuns. Os principais efeitos adversos são: - náuseas, vômitos, dispepsia, entre outros efeitos gastrointestinais; - insuficiência renal; - reações cutâneas; - reações cardiovasculares; - problemas hepáticos; - broncoespasmos; - nefropatia. FIQUE DE OLHO Mesmo eliminando os sintomas ocasionados pela inflamação, os AINEs não apresentam efeito em enfermidades crônicas, pois atuam diretamente em aspectos inflamatórios, tais como migração de leucócitos, liberação de quimiocinas e citocinas, entre outros. 83 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 8 AINES E COXIBES IMPORTANTES Estudaremos, agora, os AINEs e coxibes importantes. 8.1 Aspirina O ácido acetilsalicílico - AAS (aspirina) é um dos fármacos mais antigos e está entre os mais consumidos do mundo. É insolúvel, o que requer estratégias farmacotécnicas para preparo da formulação, porém contém sais de cálcio e sódio que auxiliam na dispersão em soluções aquosas. É um fármaco de venda livre, o que favorece sua ampla utilização (RANG e DALE, 2012). Atualmente, a utilização da aspirina é principalmente como fármaco cardiovascular, uma vez que pode prolongar a inibição da COX-1 plaquetária e, consequentemente, reduzindo a agregação (RANG e DALE, 2012). A aspirina é um ácido fraco e se encontra protonada no estômago, por ser um ambiente ácido, o que favorece sua passagem. A absorção ocorre em sua grande maioria no íleo, sendo favorecido pelas microvilosidades. Nos tecidos e plasma, principalmente no fígado, a aspirina é hidrolisada e dá origem ao salicilato, sendo este composto um anti-inflamatório. O salicilato por via oral não é utilizado atualmente no tratamento de inflamação devido limitações farmacocinéticas, tais como absorção e eliminação (RANG e DALE, 2012). A aspirina possui muitos efeitos adversos clássicos dos AINEs, porém produz efeitos adversos sistêmicos e locais. Existem sintomas que são clássicos e específicos da aspirina, como a síndrome de Reye, que se trata de um distúrbio raro que acomete crianças causando encefalopatia hepática e causa mortalidade em cerca de 20 a 40%. A retirada de aspirina infantil do mercado reduziu muito a incidência dessa doença, além disso, outro efeito adverso específico pode ser causado 84 pela dosagem em excesso de salicilato, causando o salicilismo (RANG e DALE, 2012). A aspirina pode potencializar o efeito da varfarina, quando realizado tratamento consecutivamente, ocorrendo assim uma interação medicamentosa. Além disso, a aspirina atua antagonizando a ação de alguns agentes hipertensivos (RANG e DALE, 2012). 8.2 Paracetamol O paracetamol é uma preparação patenteada de uso livre, considerado um dos analgésicos- antipiréticos não narcóticos mais utilizados no mundo. Algumas literaturas não consideram o paracetamol como um AINE, pelo fato de a atividade anti-inflamatória desses fármacos serem fracas e não apresentarem os efeitos adversos plaquetários e gástricos clássicos de AINEs (RANG e DALE, 2012). A metabolização do paracetamol ocorre no fígado e ele apresenta uma meia-vida entre duas e quatro horas. Doses em excesso de paracetamol podem ocasionar efeitos adversos tais como vômitos e náuseas, podendo ocorrer também lesão hepática podendo ser fatal (RANG e DALE, 2012). 8.3 Coxibes Os coxibes são escolhas para pacientes nos quais os AINEs seriam prejudiciais devido aos efeitos gastrointestinais. Muitos coxibes já foram retirados do mercado devido aos efeitos adversos cardiovasculares. Dessa forma, efeitos cardiovasculares devem ser levados em consideração antes de tratamento com coxibes. São exemplos de coxibes o celecoxibe, etoricoxibe, parecoxibe e caldecoxibe (RANG e DALE, 2012). 8.4 Fármacos antirreumáticos A artrite reumatoide é caracterizada como uma inflamação crônica que acomete muitas pessoas no mundo todo. Apresenta como sintomas as articulações doloridas e com edemas, podendo levar o paciente à incapacitação. Algumas citocinas como IL-1 e TNF-α desempenham papel importante na artrite reumatoide. Os fármacos mais utilizados no tratamento são os AINEs e antirreumáticos modificadores da doença (ARMD), como por exemplo, o metotrexato. Alguns FIQUE DE OLHO A descoberta da COX-3 no SNC propôs uma alternativa para o paracetamol não partilhar dos efeitos gástricos causados pelos AINEs, sendo um indício de que ele e outros fármacos similares como a dipirona atuassem inibindo seletivamente a COX-3. 85 glococorticoides e imunossupressores também são utilizados, como por exemplo, a ciclosporina (RANG e DALE, 2012). ARMD se trata de uma denominação utilizada para designar um grupo de compostos com estruturas que não possuem uma relação. Fazem parte do grupo dos ARMD o metotrexato, a penicilamina, cloroquina e a sulfassalazina (RANG e DALE, 2012). Os ARMDs são fármacos de segunda linha e são utilizados somente quando terapias de primeira escolha demostram insucesso, como por exemplo os AINEs. Alguns exemplos de fármacos utilizados no tratamento de artrites estão listados na tabela abaixo: Tabela 2 - Fármacos utilizados no tratamento de artrites Fonte: Elaborada pela autora, 2020. #ParaCegoVer: Na tabela, temos fármacos utilizados no tratamento de artrites e seus determinados tipos como por exemplo os complexos do ouro, imunomodeladores, antimaláricos, metabólitos da penicilina e os AINEs. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 86 8.5 Glicocorticoides O precursor dos corticoides é o colesterol. São exemplos de fármacos glicocorticoides a hidrocortisona, cortisona, deflazacorte, prednisolona, prednisona, metilprednisolona, triancinolona, dexametasona, betametasona, fludrocortisona e a aldesterona, sendo os mais comumente utilizados a hidrocortisona, a prednisolona e a dexametasona (RANG e DALE, 2012). Possuem como principais efeitos: • Efeitos sistêmicos e metabólicos Os glicocorticoides apresentam efeitos metabólicos nos carboidratos, proteínas e lipídeos. Nos carboidratos, realizam a redução do uso de glicose e um aumento considerável na gliconeogênese, causando tendência à hiperglicemia. Nas proteínas, ocorre um decréscimo do anabolismo e aumento do catabolismo e nos lipídeos são responsáveis pela desorganização na redistribuição da gordura, como é observado na síndrome de Cushing (RANG e DALE, 2012). • Efeitosde retroalimentação negativa no hipotálamo e na adeno-hipófise Ações anti-inflamatórias e imunossupressoras: Atuam reduzindo o desenvolvimento e ação de muitas citocinas, redução na produção de IgG, redução na produção de eicosanoides, liberação aumentada de fatores anti-inflamatórios, entre outros (RANG e DALE, 2012). • Efeitos adversos O tratamento com os glicocorticoides deve ser extremamente racional e deve ser levado bastante em consideração o tempo de uso e a dose. Doses baixas desse fármaco geralmente não manifestam efeitos adversos graves, ao contrário do que ocorre em administrações prolongadas e doses elevadas (RANG e DALE, 2012). São efeitos adversos dos glicocorticoides: • hiperglicemia; • osteoporose; • efeitos sobre o SNC tais como depressão, euforia e psicose; • inibição do crescimento em crianças; • supressão de resposta em lesões e infecções; • desgaste muscular; • glaucoma; • síndrome de Cushing. 87 Figura 2 - Síndrome de Cushing Fonte: Designua, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: A imagem mostra os efeitos adversos característicos da Síndrome de Cushing, sendo eles: distúrbios emocionais, face de lua cheia com bochechas rosadas, hipertensão, hipertrofia cardíaca, depósito de gordura abdominal, obesidade, tendência a hiperplasias, aparecimento de estrias, osteoporose, úlceras na pele e perda de massa muscular. A indústria farmacêutica vem desenvolvendo pesquisas e traçando estratégias para resolver problemas circunstanciais relacionados aos glicocorticoides, pois os mesmos são bastante eficazes como anti-inflamatórios, porém, por outro lado, apresentam diversos efeitos adversos que limitam seu uso. Mecanismo de ação Os glicocorticoides atuam se ligando em receptores intracelulares que sofrem dimerização, interagem com o DNA no núcleo modificando a transcrição gênica, inibindo a síntese de algumas proteínas e induzindo outras (RANG e DALE, 2012). 88 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • entender os conceitos básicos de mediadores químicos e os tipos existentes; • compreender a importância farmacológica da 5- Hidroxitriptamina, histaminas, peptídeos e proteínas; • conhecer as teorias existentes para o mecanismo da enxaqueca; • aprender os conceitos básicos dos anti-inflamatórios; • estudar os efeitos, farmacocinética, reações adversas dos anti-inflamatórios; • analisar as limitações relacionadas aos efeitos gástricos dos anti-inflamatórios não esteroidais; • compreender os conceitos básicos dos glicocorticoides; • identificar os efeitos adversos causados pela Síndrome de Cushing. PARA RESUMIR GUMBER, D.; YADAV, D.; YADAV, R.; KACHLER, S.; KLOTZ, K. N. Bronchospasmolytic activity and adenosine receptor binding of some newer 1,3-dipropyl-8-phenyl substituted xanthine derivatives. Chemical Biology & Drug Design, 2020. KATZUNG, B. G. Farmacologia básica e clínica. 10. ed. Rio de Janeiro: Artmed/McGraw- Hill, 2010. LAGARIAS, P.; BARKAN, K.; TZORTZINI, E.; STAMPELOU, M.; VRONTAKI, E.; LADDS, G.; KOLOCOURIS, A. Insights to the binding of a selective adenosine A 3 receptor antagonist using molecular dynamic simulations, MM-PBSA and MM-GBSA free energy calculations, and mutagenesis. Journal of Chemical Information and modeling, 2019. RANG, H. P.; DALE, M. M.; RITTER, J. M.; FLOWER, R. J.; HENDERSON, G. Rang & Dale: Farmacologia. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. SILVA, F. S.; MENEZES, P. M. N.; SÁ, M. S. Coleção manuais da farmácia: Farmacologia. 1. ed. Salvador: Sanar, 2016. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 4 Fármacos que afetam os grandes sis- temas, interações medicamentosas e conceitos básicos de toxicologia Você está na unidade Fármacos que afetam os grandes sistemas, interações medicamentosas e conceitos básicos de toxicologia. Conheça aqui as drogas que afetam o coração, o sistema vascular, a circulação sanguínea, o sistema respiratório e o sistema nervoso central. Possíveis interações medicamentosas e conceitos básicos da toxicologia. Bons estudos! Introdução 93 1 SISTEMA CARDIOVASCULAR E A CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA Doenças cardiovasculares são responsáveis pelo maior índice de mortalidade e morbidade mundial. E entre os fatores de risco estão quadros prevalentes em toda população, como tabagismo, dislipidemia, hipertensão, entre outros (SILVA et al., 2016). A principal função do sistema cardiovascular é manter a circulação sanguínea e garantir que os demais tecidos sejam nutridos. Para que isso ocorra, o coração atua como bomba de sangue e os vasos sanguíneos como transportadores (SILVA et al., 2016). 1.1 Anti-hipertensivos A hipertensão arterial é a doença com maior índice de prevalência no mundo. Possui como principal característica valores de pressão arterial acima de 140 mmHg (sistólica) e/ou 90 mmHg (diastólica). As principais causas de hipertensão arterial incluem a funcionalidade do sistema nervoso autônomo, raça, alimentação, herança genética e estresse (SILVA et al., 2016). Podemos mencionar como importantes classes de anti-hipertensivos os fármacos que alteram a função do sistema nervoso simpático, vasodilatadores, bloqueadores dos canais de cálcio e fármacos que agem no sistema renina-angiotensina. 1.2 Fármacos simpaticolíticos Os fármacos simpaticolíticos são os indicados para pacientes que apresentam hipertensão moderada a grave, classificam-se conforme seu mecanismo de ação. Podem ser inibidores do sistema simpático central, drogas bloqueadoras dos neurônios adrenérgicos, alfa-1-bloqueadores e bloqueadores β-adrenérgicos. Inibidores do sistema simpático central Também denominados agonistas α2-adrenérgicos atuam estimulando esses receptores no sistema nervoso central, diminuindo assim a descarga simpática e, como consequência, diminuem liberação de noradrenalina. Os principais fármacos dessa classificação são a metildopa e a clonidina. São medicamentos utilizados usualmente em associação com diuréticos (SILVA et al., 2016). 94 Drogas bloqueadoras dos neurônios adrenérgicos São medicamentos pouco utilizados para aplicação clínica. Atuam impedindo a liberação de noradrenalina nos neurônios simpáticos pós-ganglionares. Os principais medicamentos que atuam por esse mecanismo de ação são a guanetidina e a reserpina. Possuem diversos efeitos adversos como diarreia, hipotensão postural, ejaculação tardia, sedação, pesadelos, entre outros. Alfa-1-bloqueadores Atuam bloqueando os receptores α1 em vênulas e arteríolas, determinando assim a vasodilatação. Os principais fármacos utilizados nessa classe são a prazosina, doxazosina, terazosina e a tansulosina. Esses fármacos podem apresentar como reações adversas taquicardia reflexa, hipotensão, náuseas e vômitos, congestão nasal, edema, tonturas, cefaleias e inibição da ejaculação (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Bloqueadores β-adrenérgicos São responsáveis por promover efeito inotrópico e cronotrópico positivos, elevando o débito cardíaco e inibindo o estímulo da produção de renina pelas catecolaminas. Os principais fármacos dessa classe são o propranolol e nadolol (não seletivos β1 e β2) e o atenolol e metoprolol (β1 seletivos) (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). São úteis em monoterapia, seus principais efeitos adversos são: bradicardia, broncoconstrição, hipersensibilidade, dislipidemia e hiperglicemia. Vasodilatadores diretos São fármacos que atuam no músculo liso induzindo o relaxamento e, dessa forma, promovendo a vasodilatação. São fármacos pertencentes dessa classe a hidralazina, o minoxidil e o nitroprussiato de sódio. Geralmente, são usados juntamente com outros fármacos para aumentar a resposta de outros agentes anti-hipertensivos. As principais reações adversas são palpitações, náuseas, cefaleias, hipotensão, rubor e sudorese (SILVA et al., 2016). Bloqueadores dos canais de cálcio Atuam bloqueando canais de cálcio que estão envolvidos com várias funções relevantes no sistema cardiovascular, como regulação do potencial de ação e contração/excitação do músculoliso. O verapamil, anlodipino, nifedipino, felodipino, nicardipino e o diltiazem são alguns fármacos que agem bloqueando os canais de cálcio (SILVA et al., 2016). FIQUE DE OLHO Para o período gestacional, em caso de hipertensão, indica-se a utilização do fármaco metildopa. 95 Drogas que atuam no sistema renina-angiotensina Vejamos, agora, as drogas que agem no sistema renina-angiotensina. Inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) A função da ECA no corpo humano é remover o dipetídeo carboxiterminal da angiotensina I, produzindo a angiotensina II, que possui vários efeitos na pressão arterial. Os inibidores da ECA atuam inibindo essa enzima e, dessa maneira, reduzindo a pressão arterial. O captopril, enalapril, lisinopril, ramipril, fosinopril, moexipril e o quinapril são alguns fármacos que agem por esse mecanismo. Possuem como principais efeitos adversos a insuficiência renal aguda, hipotensão, hipercalemia, neutropenia, erupções cutâneas, tonturas, efeitos teratogênicos e febre. Seu uso é contraindicado na gravidez, por causar feto-toxicidade (SILVA et al., 2016). Inibidores de receptores de angiotensina (AT1) Os fármacos pertencentes a essa classe como losartan, valsartan, candesartan, irbesartan, eprosartan e o olmesartan atuam bloqueando a via final do receptor AT1, antagonizando respostas endógenas na angiotensina II. Também não são indicados na gravidez e os efeitos adversos são os mesmos dos inibidores da ECA, porém, ao contrário dos inibidores da ECA, eles não promovem aumento de bradicinina, não causando tosse seca (SILVA et al., 2016). 1.3 Diuréticos São fármacos responsáveis pela indução do aumento no fluxo urinário, reduzindo a reabsorção de sódio no néfron. Os diuréticos são utilizados no tratamento clínico das seguintes condições: insuficiência cardíaca, cirrose hepática, síndrome nefrótica, edema e hipertensão arterial (SILVA et al., 2016). Considerando seu mecanismo de ação, a principal classificação desses fármacos são: inibidores da anidrase carbônica, inibidores do simporte NA+K+-Cl- (diuréticos de alça), inibidores do simporte NA+K+-Cl- (diuréticos tiazídicos), diuréticos poupadores de potássio e os diuréticos osmóticos. Inibidores da anidrase carbônica Usados sobretudo no tratamento de glaucoma, os inibidores da anidrase carbônica são pouco indicados como diuréticos. Diminuem a reabsorção de sódio e bicarbonato. Podemos mencionar como importantes reações adversas desses fármacos a sonolência, perda do apetite e parestesias das extremidades (RANG et al., 2012). 96 Diuréticos de alça Inibem a reabsorção de cloreto de sódio na alça de Henle, ao inibirem o transporte de sódio, potássio e cloro. Atuam bloqueando a reabsorção de potássio, aumentando dessa forma a excreção de magnésio e cálcio, impedindo a hipocalemia. São utilizados clinicamente principalmente na insuficiência cardíaca, edema pulmonar, cirrose e hipertensão. Os principais fármacos dessa classe são a furosemida, bumetanida, torsemida, ácido etacrínico e a piretanida (SILVA et al., 2016). Os principais efeitos adversos relacionados a esses fármacos é hiperglicemia, hipotensão, ototoxicidade, aumento do ácido úrico, aumento de lipoproteínas plasmáticas e depleção de potássio. Diuréticos tiazídicos Possuem efeito no túbulo distal inibindo co-transportador de Na+/Cl- reduzindo assim a reabsorção de sódio. Os principais fármacos desse grupo são: hidroclorotiazida, clortalidona, indapamida, xipamida e a metolazona. Utilizados na insuficiência renal, insuficiência cardíaca, calciúria e principalmente na hipertensão. Observa-se como importantes efeitos adversos desses fármacos a hipotensão, hiperuricemia, hiperglicemia, hiperglicemia e hipopotassemia (SILVA et al., 2016). Diuréticos poupadores de potássio Agem no túbulo coletor inibindo a reabsorção de sódio e a eliminação de potássio ao bloquearem receptores de aldosterona. Os principais fármacos dessa classe de diuréticos são a espirolactona e a eplerenona. Os efeitos adversos incluem diarreia, gastrite, hiperpotassemia, irregularidade menstrual, sangramento gástrico, acidose metabólica e acidose metabólica (SILVA et al., 2016). 1.4 Angina pectoris A angina, também denominada doença coronária, é caracterizada por uma doença com episódios de dor torácica intensa que ocorre principalmente pela insuficiência de sangue para nutrir o miocárdio, provocando isquemia. Entre os fatores que desencadeiam angina estão o frio, esforço físico, anemia e estresse. Para o tratamento da angina, os fármacos utilizados são os nitratos orgânicos, antagonistas dos canais de cálcio e β-adrenérgicos (SILVA et al., 2016). 97 Figura 1 - Angina Fonte: Emily Frost, Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: A imagem mostra uma mulher com as mãos sobre o coração, como se estivesse sentindo uma forte dor. Sobre suas mãos, há um desenho de um coração, o órgão real, com suas partes delimitadas em branco. Nitratos orgânicos Os nitratos atuam como doadores de NO, provocando vasodilatação do músculo liso. Nesse grupo, podemos destacar os seguintes fármacos: a nitroglicerina, o mononitrato de isossorbida e o dinitrato de isossorbida. Os principais efeitos são rubor facial, cefaleia pulsátil e taquicardia reflexa (SILVA et al., 2016). β-bloqueadores Promovem o bloqueio dos receptores de beta no coração, gerando efeito cronotrópico e inotrópico negativos, reduzindo assim o trabalho cardíaco por redução da pressão arterial, diminuindo assim o consumo de oxigênio. Fármacos utilizados: propranolol, atenolol, nadolol, bisoprolol, timolol e carvedilol (SILVA et al., 2016). Bloqueadores dos canais de cálcio Responsáveis por inibir os canais de cálcio do tipo L, na musculatura lisa no miocárdio e nos vasos coronários promovendo assim vasodilatação, diminuição da velocidade de condução do estímulo e efeito inotrópico negativo. Podemos mencionar como fármacos mais importantes o diltiazem, verapamil e a nifedipina (SILVA et al., 2016). 98 Cardiotônicos A insuficiência cardíaca trata-se de uma condição em que o coração é incapaz de bombear sangue para todo corpo, acarretando em nutrição insuficiente. Os principais fatores que acarretam em insuficiência cardíaca são hipertensão, diabetes, doença arterial coronária e tabagismo; e os sintomas incluem taquicardia, cansaço, tosse, anorexia, dispneia, edema, problemas digestivos e cardiomegalia. Os principais fármacos envolvidos no tratamento da insuficiência cardíaca são os digitálicos ou glicosídeos (SILVA et al., 2016). Os digitálicos ou glicosídeos cardíacos são derivados de extratos de plantas, o principal medicamento utilizado é a digoxina, derivada da Digitalis ianata. Atuam inibindo a bomba de K+/Na+ nos miócitos cardíacos, aumentando a força de contração através de efeito inotrópico positivo. Podemos citar como importantes efeitos adversos associados aos digitálicos as náuseas, diarreias, vômitos, confusão, também os efeitos cardíacos que compreendem ainda a diminuição da frequência cardíaca e distúrbios de ritmo. A digoxina apresenta como desvantagem sua curta janela terapêutica, com uma margem estreita entre o efeito e a toxicidade (RANG et al., 2012). Antiarrítmicos Os fármacos antiarrítmicos atuam reduzindo a velocidade da condução pelos canais de sódio, dessa forma são responsáveis por prolongar a repolarização. Os antiarrítmicos, conforme a classificação de Vaughan Williams, dividem-se em quatro grupos: Classe I (subdivididos em Ia, Ib e Ic), Classe II, Classe III e Classe IV (RANG et al., 2012). Classe I Atuam bloqueando canais de sódio. Divididos em Ia, Ib e Ic, diferenciando em dissociação intermediária, dissociação rápida e dissociação lenta, respectivamente. São exemplos de fármacos da classe Ia a disopiramida, b>quinidina e procainamida, fármacos mais antigos. Os fármacos de classe Ib desassociam-se e associam-se rapidamente, um exemplo dessa classe é a lidocaína. Ao contrário das classesIb ou fármacos de classe Ic, dissociam-se lentamente, são exemplo desses fármacos a encainida e a flecainida. Classe II São antagonistas de receptores β-adrenérgicos, são exemplos o propranolol e o metoprolol. Classe III São fármacos que atrasam a capacidade de ação cardíaca através do bloqueio dos canais de potássio. São exemplos de fármacos de classe III a amiodarona e o sotalol. 99 Classe IV Atuam de modo a bloquear os canais de cálcio. Observa-se como um importante exemplo de fármaco dessa classe o verapamil (RANG et al., 2012). 1.5 Antianêmicos A anemia é causada principalmente pelo déficit de vitamina B12, ferro e ácido fólico. Trata-se de uma condição caracterizada pelo déficit de hemoglobina no sangue em que, normalmente, em muitos dos casos, é assintomática. As causas mais frequentes de anemia são tratamento com medicamentos (como a aspirina, por exemplo), patologias e perda sanguínea (como menstruação). As anemias são classificadas em: anemia hipocrômica microcítica, anemia normocrômica normocítica e anemia macrocítica. O tratamento das anemias geralmente se dá com a utilização dos agentes hematínicos, além do déficit, mas também como auxiliares no tratamento de doenças (RANG et al., 2012). Ferro O ferro pode ser administrado, via oral, na forma de sulfato ferroso, gluconato, fumarato e ferrosos succinato. Efeitos adversos da administração de ferro são cólicas, diarreia e náuseas. A administração excessiva de ferro pode causar toxicidade aguda, provocando gastrite, vômitos, hemorragia e diarreia (RANG et al., 2012). Ácido fólico O ácido fólico é indicado no tratamento de anemia megaloblástica, consequência principalmente de uma dieta pobre, fármacos (como a fenitoína) e má absorção. Pode ser administrado via oral e é absorvido pelo íleo. Além disso, não provocam efeitos adversos (RANG et al., 2012). Vitamina B12 Também conhecida como cobalamina, é usada para tratar a anemia perniciosa. Na terapêutica, é realizada a utilização da hidroxocobalamina. As principais fontes estão presentes em fígados, ovos e laticínios (RANG et al., 2012). 100 Figura 2 - Vitamina B12 Fonte: Victor Josan, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: A ilustração em 3D mostra uma cápsula de vitamina B12 se dissolvendo na veia. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 101 2 SISTEMA RESPIRATÓRIO Doenças respiratórias são aquelas que acometem principalmente as vias aéreas e os pulmões. São caracterizadas por gerar sintomas tais como: falta de ar, produção de secreção, dor no peito, tosse e sibilos. O pulmão é alvo de muitas doenças que incluem sintomas similares, entre elas infecções (bacterianas e virais), fibrose pulmonar, doenças ocupacionais, edema pulmonar, asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (RANG et al., 2012). Figura 3 - Sistema respiratório Fonte: Magic Mine, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: A imagem em 3D mostra o sistema respiratório. A asma é uma enfermidade que provoca obstrução reversível das vias aéreas, caracterizada principalmente por crises de falta de ar. A inflamação das vias aéreas provocam hiper- responsividade brônquica que possui como consequência o bloqueio dessas vias. Os principais fármacos antiasmáticos utilizados são os agentes anti-inflamatórios e os broncodilatadores (RANG et al., 2012). Os agonistas β-adrenérgicos são os fármacos mais usados para tratar a asma, o salbut, por exemplo, é administrado por meio de inalação, possui efeito imediato e dura aproximadamente três a cinco horas. Podemos mencionar como efeitos adversos o tremor, arritmia e taquicardia. 102 3 DROGAS QUE AFETAM O SISTEMA NERVOSO CENTRAL As drogas com ação no Sistema Nervoso Central (SNC) são muito importantes para tratar de diversos distúrbios psiquiátricos, como a depressão, a ansiedade, a esquizofrenia, entre outros. O entendimento do funcionamento do SNC está diretamente relacionado à neurotransmissão química, sendo que os distúrbios podem afetar uma ou várias vias e regiões cerebrais. Assim, vários fármacos podem agir em locais distintos no SNC, apresentando efeitos sinérgicos ou antagônicos (RANG et al., 2012). Por definição, os neurotransmissores são moléculas químicas produtoras de sinais, sintetizadas nos neurônios e que são usadas para emitir uma informação fisiológica a outro neurônio, glândula ou músculo. Essas pequenas moléculas podem atuar promovendo ou reduzindo uma transmissão nervosa, depois de ativar um receptor específico em outro neurônio. O efeito dos fármacos que atuam no SNC está associado a alterações nessas neurotransmissões (RANG et al., 2012). Pode acontecer a assimilação e deterioração por uma célula glial adjacente. Qualquer um dos neurotransmissores promovem seus efeitos devido à liberação local, por não atravessarem a barreira hematoencefálica. Vejamos alguns dos neurotransmissores do SNC mais importantes: • Acetilcolina Responsável pela manutenção do alerta e vigília, permite a excitabilidade do córtex cerebral e favorece o processamento sensorial, além de contribuir para os mecanismos de memória e aprendizagem. • Noradrenalina Atua também no sistema de alerta e vigília, colabora nas respostas emocionais aversivas, como a raiva e a agressão; e gratificantes, como o afeto; e no controle de fome e saciedade. • Glutamato Importante neurotransmissor excitatório do SNC, presente no processo de ativação mínima para a manutenção da abertura de uma via de transmissão até a excitação constante que termina em um processo patológico. 103 • Dopamina Primordial para controlar o motor voluntário, colaborando em processos em que a motivação forma parte importante do comportamento, também favorecendo a manutenção da atenção adequada da realidade, além de controlar o pensamento. • Ácido ɣ-aminobutírico Principal neurotransmissor inibitório do SNC, podendo atuar em qualquer nível das sinapses. Participa do controle do movimento, evitando ou reprimindo a hiperatividade focal. • Serotonina Participa da manutenção da tonalidade afetiva interna, tanto que alterações na neurotransmissão serotoninérgica podem ser responsáveis por transtorno depressivos, certas formas de ansiedade, quadros obsessivos-compulsivos e ideação suicida. Também participa da regulação do vômito, transmissão nociceptiva e controle da fome e saciedade (RANG et al., 2012). 3.1 Antipisicóticos As doenças psicopáticas incluem vários distúrbios, mas o termo “fármacos antipsicóticos” – previamente conhecidos como fármacos neurolépticos, fármacos antiesquizofrênicos ou tranquilizantes maiores – refere-se convencionalmente aos usados para tratar esquizofrenia, uma das formas mais comuns e debilitantes de doença mental (SILVA et al., 2016). Podemos destacar como tipos principais de psicose: • a esquizofrenia; • distúrbios afetivos, tais como a depressão e mania; • psicoses orgânicas, muitas causadas por traumatismo, álcool ou outras doenças. Hoje em dia, relaciona-se a patogenia da esquizofrenia a uma combinação de hiperfunção dos neurotransmissores dopamina e dos glutamatos no sistema neuronal, além de uma ligação dos receptores da serotonina (5HT2) e uma oscilação entre esses receptores com os receptores dopamínicos (D2) (SILVA et al., 2016). Em geral, classificam-se os fármacos disponíveis como antipsicóticos típicos e atípicos. Independente do distúrbio, o objetivo primordial do tratamento é a redução dos sintomas agudos responsáveis pela agitação e hostilidade do paciente, o que pode representar risco para o mesmo e para outras pessoas. 104 Os antipsicóticos típicos ou de primeira geração induzem o efeito farmacológico pelo antagonismo dos receptores D2 pós-sinápticos. O tratamento crônico com esses fármacos requer cuidado devido à extensão dos efeitos colaterais observados. Os antipsicóticos típicos mais usados clinicamente são: Clorpromazina: É o fármaco protótipo da classe, selecionado como referência pelo efeito mais sedativo, útil no surto psicótico,sua dose usual é 75 - 400mg/dia e tem sua metabolização pela CYP2D6, ele induz seu próprio metabolismo. Haloperidol: É indicado para o tratamento de manutenção, sua dose usual é 4 – 12mg/ dia e tem sua metabolização pela CYP2D6, CYP3A4, CYP1A2. Seu metabolismo é induzido por carbamazepina e fenitoina (SILVA et al., 2016). Uma importante característica dos antipsicóticos típicos é a possibilidade de induzir sintomas extrapiramidais, ligados ao bloqueio dapaminérgico, e é mais relevante com o haloperidol. Produzem síndrome Parksoniptica, acatisia (inquietação incontrolável) e reações distônicas agudas, que se extinguem com a diminuição da dose (SILVA et al., 2016). Os antipsicóticos típicos são absorvidos por via oral de maneira variada, lentamente, como a clorpromazina ou, rapidamente, como o haloperidol. Os antipsicóticos atípicos ou de segunda geração são os agentes mais eficazes e estão relacionados aos riscos consideravelmente menores de efeitos extrapiramidais, promovem o antagonismo D2 com menor potência e outras monoaminas, como os de 5HT2. São representantes desse grupo: • Clozapina: tem sua dose usual de 300 – 450mg/dia, é metabolizada principalmente pela CYP1A2. Possui metabólito ativo N-desmetilclozapina. Seu metabolismo pode ser induzi- do com tabagismo. • Olanzapina: tem dose usual de 10 – 20 mg/dia, sua metabolização é feita pela CPY1A2 e glicuronidação direta. Seu metabolismo pode ser induzido com tabagismo. • Quetiapina: tem dose usual de 300 – 600mg/dia, é metabolizada pela CYP3A4. Possui metabólito ativo norquetiapina. Tem metabolismo induzido por fenitoína. • Risperidona: tem sua dose usual de 2 – 6mg/dia, é metabolizada pela CYP2D6. Possui metabólito ativo 9-hidroxi-risperidona. E seu metabolismo é inibido pela fluoxetina e induzida por carbamazepina (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). A principal característica farmacológica dos antipsicóticos atípicos é uma menor propensão em desenvolver sintomas extrapiramidais, isso se deve ao fato de possuírem maior potência em antagonizar os receptores 5-HT2 do que os D2. As reações adversas mais frequentes entre os fármacos antipsicóticos atípicos são ganho de peso, hiperlipidemia, hiperglicemia e indução de 105 diabetes mellitus tipo 2 e moderada hiperprolactinemia (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Os antipsicóticos atípicos compartilham características semelhantes farmacocinéticas que os de primeira geração, possuindo alta lipossolubilidade, alta taxa de ligação a proteínas plasmáticas e acumulação em tecidos com intensa irrigação sanguínea como pulmões e cérebro. 3.2 Ansiolíticos e sedativos hipnóticos Os fármacos da classe dos ansiolíticos são usados para tratar os sintomas da ansiedade e os hipnóticos para tratar a insônia. Por definição, a ansiedade é um estado emocional que resulta de experiências vivenciadas e que passa a um grau patológico quando não há proporcionalidade ou não há um objetivo específico direcionado. A sedação é uma diminuição do nível de atividade do paciente, referindo-se a um estado mínimo, quando o paciente ainda atende a um comando verbal e estimulação tátil leve. A utilização da hipnose ou indução do sono pode ser de ajuda em indivíduos que têm dificuldade em iniciar e/ou manter o sono quando este seja insuficiente para garantir uma boa qualidade de vida (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Mesmo apresentando objetivos clínicos distintos, essas drogas são normalmente usadas para ambas as finalidades, tendo variação neste caso apenas a dosagem para cada fim, levando em conta o fato de que as drogas que amenizam a ansiedade normalmente provocam sedação e sonolência, alguns dos inconvenientes dos usos clínicos dos ansiolíticos (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Os ansiolíticos e hipnóticos têm como grupos de fármacos mais importantes os benzodiazepínicos, os agonistas dos receptores de 5-HT, compostos “Z”, os barbitúricos (desusados) e os antagonistas dos receptores beta-adrenérgicos (propranolol – off label). Os benzodiazepínicos têm seu dispositivo de ação por sua associação a um sítio regulador específico sobre o receptor GABAa que potencializa, dessa forma, o efeito inibitório do GABA, intensificando a convergência de Cl- para os neurônios. Todos os representantes dessa classe são lipossolúveis e completamente absorvidos no TGI, com exceção do clorazepato, que é metabolizado, e a nordazepam, por ação do ácido estomacal. O metabolismo dos benzodiazepínicos ocorre principalmente por oxidação via CYP450 (sobretudo CYP3A4 e CYP2C19), gerando formação de metabolito ativo, seguido de conjugação com ácido glicurônico (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Conforme a duração do efeito, os benzodiazepínicos mais importantes podem ser classificados como ultrarrápidos, ação curta (meia-vida menor que 6 horas), ação intermediária (meia-vida menor entre 6 e 24 horas) e longa ação (meia-vida maior que 24 horas). São os principais benzodiazepínicos, segundo sua classificação de ação: 106 Ultrarrápidos (hipnótico): • Midazolan: tem sua dose usual 7,5 – 15mg/dia, com meia- vida de 2 - 4h. Ação curta (ansiolítico, hipnótico). • Lorazepan: tem sua dose usual 2 - 4mg/dia, com meia-vida de 8 - 12h. Ação intermediá- ria (ansiolítico, antidepressivo). • Alprazolan: tem sua dose usual 0,25 - 4mg/dia, com meia-vida 6 - 12h. Ação longa (ansio- lítico, relaxante muscular, anticonvulsivante, sedativo). • Clonazepam: tem sua dose usual 0,25 – 2,5mg/dia, com meia-vida 23 - 28h. • Diazepam: tem sua dose usual 5 - 10mg/dia, com meia-vida de 20 – 40h. Os benzodiazepínicos apresentam como efeitos adversos mais comuns a fraqueza, visão turva, vertigem, desconfortos intestinais, sonolência, danos às habilidades psicomotoras, comprometimento cognitivos e hipotonia (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Os barbitúricos como fármacos sedativos e hipnóticos foram substituídos após a chegada dos benzodiazepínicos ao mercado, passando a ter sua principal indicação como anticonvulsivantes e anestésicos. A substituição se deu principalmente por desenvolverem ligeira tolerância e ao baixo índice terapêutico, sendo possível causar intoxicação grave em casos de overdose, com risco de morte por depressão respiratória (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Os fármacos barbitúricos acentuam a ligação do GABA aos receptores GABAa, ampliando os intervalos de tempo durante os quais esse canal permanece aberto. O resultado é a depressão em todos os graus do SNC, variando desde sedação leve até anestesia, mas sem eficácia sobre a ansiedade. O principal barbitúrico ainda usado na clínica fora do meio hospitalar é o: • Fenobarbital: usado principalmente como anticonvulsivo, com dose usual de 30 – 300mg/dia, com meia-vida de 80 – 120h. Sabendo que a subunidade α do receptor GABAa apresenta especificidade de ação pelos fármacos depressores do SNC, a produção de fármacos hipnóticos seletivos foi possibilitada. Os chamados compostos “Z” são representados pelos zolpidem, zaleplona e zopiclona, que atuam acentuando a corrente de Cl- pelo receptor GABAa, com maior seletividade, sendo o mecanismo de ação diferente dos fármacos benzodiazepínicos. Dessa maneira, esses fármacos agem como hipnóticos de ação curta, tendo efeitos residuais menores, sem atividade sedativa e ansiolítica (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). O zolpidem é o composto “Z” mais utilizado na clínica, possui dose usual de 5 – 10mg/dia para tratamento de insônia crônica. Tem rápida absorção após administrado por via oral, possuindo meia-vida de 2h. Observa-se como efeitos adversos mais frequentes alterações gastrointestinais, 107 dores de cabeça, desinibição e efeitos potenciais sobre grande parte das funções do SNC. 3.3 Antidepressivos e estabilizantes de humor Os distúrbios afetivos são caracterizados por modificações do humor e por distúrbios do pensamento. A depressão maior ou unipolar é uma condição clínica incapacitante consideravelmente comum,de caráter crônico e presente em aproximadamente 80% dos casos. Os dados demonstram uma maior ocorrência da depressão em mulheres do que em homens, no entanto permanece sendo uma enfermidade subdiagnosticada e subtratada. Os sintomas mais comuns da depressão englobam alguns componentes emocionais: aflição, apatia, pessimismo, baixa autoestima, sentimento de culpa, inadequação e feiura, indecisão e perda da motivação. E também sintomas biológicos: atraso do pensamento e da ação, ausência da libido, distúrbios do sono e falta de apetite (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). O uso de fármacos antidepressivos tende a amenizar ou acabar com os sintomas da depressão moderada a grave. Porém, antes de iniciar o tratamento, é necessário desprezar o diagnóstico de transtorno bipolar, visto que os antidepressivos são capazes de propiciar o surgimento da mania. Esta, normalmente, é o oposto, caracterizando-se por entusiasmo, autoconfiança, exuberância excessiva associados a ações impulsivas. Para explicar a depressão, a teoria bioquímica mais relevante é a teoria das monoaminas, segundo a qual a depressão é ocasionada por um déficit funcional dos transmissores das monoaminas (noradrenalina e/ou 5-HT), em algumas partes do cérebro, enquanto que a mania é resultado de um excesso funcional. Apesar de a teoria das monoaminas, em sua definição simples, não ser mais sustentada como explicação da depressão, a modificação farmacológica permanece como abordagem terapêutica mais bem-sucedida (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). As classes de fármacos antidepressivos mais importantes são os inibidores da monoamino- oxidade (IMAO), antidepressivos tricíclicos (ADT) e inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). Independentemente do tipo do fármaco, todos melhoram a neurotransmissão serotoninérgica ou noradrenérgica, sendo que os efeitos a longo prazo induzem mecanismos adaptativos que melhoram o êxito do tratamento. Antidepressivos tricíclicos consistem em obstruir a recaptação de aminas (noradrenalina e/ou 5-HT) pelas terminações nervosas dos neurônios pré-sinapticos, aumentando a concentração nas fendas sinápticas do SNC. Atuam também como antagonistas de receptores pós-sinápticos H1, 5-HT2A, α1-adrenergico e muscarínicos, essas ações podem ser associadas com outros efeitos sejam eles favoráveis ou não. São representantes da classe, mais usados na clínica: • Imipramina: tem dose usual de 50 – 300mg/dia, metabolizada pela CYP1A2 e CYP2C19. 108 • Amitriptilina: tem dose usual de 25 – 300mg/dia, metabolizada pela CYP1A2 e CYP2C19. • Nortriptilina: tem dose usual de 30 – 200mg/dia, metabolizada pela CYP2D6, possui me- tabolito ativo da amitriptilina. • Clomipramina: tem dose usual de 50 – 260mg/dia, metabolizada pela CYP1A2 e CYP2C19. • Doxepina: tem dose usual de 50 – 300mg/dia, metabolizada pela CYP1A2 CYP2C19. E pode ser utilizada como sedativo. Podemos mencionar como efeitos adversos mais relevantes: sedação (bloqueio H1), hipotensão postural (por causa da obstrução dos receptores α-adrenérgicos), boca seca, visão borrada, constipação (bloqueio muscarínico). Não se recomenda a administração juntamente com IMAO. Os fármacos inibidores seletivos da recaptação de serotonina estão entre os mais usados em psiquiatria. Costumam ser a primeira escolha para o tratamento da depressão maior, principalmente pela melhora na margem de segurança quando se compara com os fármacos ATC e IMAO. Os ISRS possuem outras indicações clínicas, incluindo o tratamento da ansiedade generalizada, síndrome do pânico e TOC e desordens alimentares (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Todos os ISRS agem inibindo a recaptação de 5-HT nos neurônios pré-sinápticos, o que resulta no aumento da quantidade desse neurotransmissor na fenda sináptica e resulta na neurotransmissão serotoninérgica potencializada e prolongada. Os fármacos ISRS mais utilizados são: • Fluoxetina: tem dose usual 20 – 80mg/dia, é metabolizada pela CYP2C9 e CYP2D6, e pos- sui metabólito ativo norfluoxetina, que possui meia-vida de cerca de 7 a 15 dias. • Escitalopram: tem dose usual 10 – 20mg/dia, é metabolizado pela CYP2C19 e CYP3A4 e corresponde ao S-enantiômero do citalopram. • Paroxetina: tem dose usual 20 – 50mg/dia, é metabolizada pela CYP2D6, possui efeitos colinérgicos idênticos aos ADT. • Sertralina: tem dose usual 25 – 150mg/dia, é metabolizada pela CYP3A4. • Citalopram: tem dose usual de 10 – 60mg/dia, é metabolizada pela CYP2C19, possui maior seletividade pelo transportador de 5-HT dentre os demais ISRS (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Podemos destacar entre efeitos adversos mais frequentes os distúrbios gastrointestinais, ansiedade, disfunção sexual, prejuízo da cognição. 109 As enzimas monoamina oxidase (MAO) e catecol-O-metil transferase são as enzimas de degradação das catecolaminas mais importantes. A MAO comanda o conteúdo dos neurotransmissores dopamina e noradrenalina no interior dos neurônios, e a reserva de noradrenalina tem um aumento quando a enzima é inibida. Um dos principais efeitos dos IMAOs é o aumento das concentrações citoplasmáticas das monoaminas nas terminações nervosas. São fármacos da classe: fenelzina, trancilcipromina, pragilina, selegilina. O efeito desses fármacos tem longa duração (semanas), devido à inibição irreversível da MAO. Os efeitos colaterais mais importantes são a hipotensão postural, aumento do peso corporal, estimulação do SNC, causando inquietação e insônia (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Vários fármacos são usados para controlar oscilações de humor características da doença maníaco-depressiva (bipolar). Vejamos os fármacos mais importantes: • vários antipsicóticos, como carbamazepina, valproato, lamotrigina; • alguns antipsicóticos, como olanzapina, risperidona, quetiapina. Lítio: é o mais eficaz na profilaxia de crises maníaco-depressivas e redução do risco de suicídio, mas devido ao seu baixo índice terapêutico, o uso desse medicamento deve ser cauteloso. Os efeitos colaterais surgem principalmente no tratamento crônico e são apresentados como tremor, ganho de peso, edema, poliúria e náuseas e intestino solto (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). 3.4 Antiepiléticos A convulsão é o principal evento que caracteriza a epilepsia, a qual está relacionada à descarga episódica de alta frequência de impulsos por um grupo de neurônios no cérebro. A epilepsia possui classificação clínica em duas categorias: as crises convulsivas parciais e as convulsões generalizadas, ainda que tenha alguma superposição e muitas variantes em cada uma (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). O tratamento das epilepsias tem como princípio a diminuição da despolarização neuronal anômala através da ação do GABA ou inibição da função dos canais para Na+ ou Ca+ (MENEZES; SÁ, 2016). FIQUE DE OLHO A ingestão de alimentos ricos em tiramina (queijo, vinhos, laticínios) por indivíduos fazendo uso de IMAO provoca um quadro conhecido como “reação do queijo”. A tiramina é degradada pela MAO no intestino e no fígado, quando a atividade desta enzima encontra-se inibida, os níveis de tiramina aumentam, causando efeitos simpatomiméticos, com elevação acentuada da pressão arterial, cefaleia pulsátil severa e hemorragia intracraniana. 110 Os medicamentos anticonvulsivantes podem provocar diversos efeitos indesejados, assim que é aconselhado o tratamento dos pacientes com um fármaco apenas. Caso não seja possível controlar as convulsões, a troca por outro fármaco é mais indicada que adicionar um novo. Alguns fármacos benzodiazepínicos, como clonazepam e diazepam e o barbitúrico fenoberbital são usados para tratar todos os tipos de epilepsias (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). A carbamazepina e oxicarbamazepina são utilizadas principalmente em convulsões tônico- clônicas e crises parciais. Atuam no bloqueio dos canais para Na+ sensíveis à voltagem e inibindo as descargas de alta frequência. Alguns dosefeitos indesejáveis são sonolência, vertigem, ataxia, visão borrada. A fenitoina apresenta efeito anticonvulsivante sem provocar depressão do SNC, atuando na ampliação do tempo de inativação dos canais para Na+ sensíveis à voltagem e com maior potência em membranas despolarizadas sendo indicadas para crises parciais e convulsões tônico- clônicas, mas não nas crises de ausência. Podemos mencionar como efeitos adversos as arritmias cardíacas e hipotensão em idosos; alterações comportamentais, aumento da frequência das crises convulsivas, hiperplasia gengival, osteomalácia e anemia megaloblástica em pacientes jovens (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). O ácido valproico é o fármaco anticonvulsivante mais indicado por apresentar um amplo espectro de ação em todos os tipos de convulsões. O mecanismo de ação desse fármaco é resultado da acentuada inativação dos canais para Na+ sensíveis à voltagem, redução das correntes de Ca+ tipo T e mudança do metabolismo do GABA, diminuindo a degradação pelo GABA transaminase e semialteído succínico desidrogenase (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016) Os fármacos mais novos foram desenvolvidos no intuito específico de alterar a neurotransmissão do SNC, por acentuação GABAérgica e inibição glutamatérgicas: gabapentina e pregabalina são análogos do GABA; lamotrigina inibe a recaptação do GABA e prolonga sua ação; topiramato reduz correntes de Na+ dos canais regulados por voltagem. 3.5 Fármacos usados em doenças neurodegenerativas Doenças degenerativas do Sistema Nervoso Central podem se caracterizar pela perda irreversível de neurônios localizados em determinadas regiões cerebrais, em que a fisiopatologia está associada à neurotransmissão química (MENEZES; SÁ, 2016). A doença de Parkinson e a doença de Alzheimer são as mais frequentes, as quais o objetivo da farmacoterapia é atenuar os sintomas da doença, já que o processo neurodegenerativo continua a evoluir (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Os principais sintomas do Parkinson surgem quando há uma diminuição da ativação dos receptores pós-sinápticos para dopamina D1 e D2. Perante isso, temos a primeira linha da 111 farmacoterapia do Parkinson, abrangendo a recuperação da atividade dopaminérgica. Um dos precursores metabólicos da dopamina é a levodopa. Seus efeitos adversos mais conhecidos são a anorexia, náuseas, vômitos e arritmias cardíacas (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). O Alzheimer é caracterizado como uma desordem neurodegenerativa multifatorial que promove uma perda progressiva da capacidade mental, comportamental funcional e da capacidade de aprendizado. A neuropatologia está associada com o acúmulo extracelular do peptídeo β-amiloide, formando oligâmeros solúveis que aglutinam em fibras insolúveis, levando à morte celular (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Assim, o aumento da neurotransmissão colinérgica remanescente, com a diminuição das colinesterases nas fendas sinápticas e crescimento da concentração da acetilcolina extracelular, equivale ao tratamento de primeira linha (SILVA et al., 2016). Todos os anticolinesterásicos usados favorecem a cognição, comportamento e funcionalidade. A memantina e donepezila são os mais utilizados em pacientes com Alzheimer leve a moderada. Esse fármaco é um antagonista não competitivo dos receptores para glutamato do tipo NMDA. Observa-se como efeitos colaterais mais comuns o desconforto gastrointestinal, cãibras musculares e bradicardia (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). 3.6 Analgésicos opioides e antagonistas A dor pode ser entendida como uma sensação de resposta protetora (fisiológica) que também aparece como desordem física e emocional desagradável, com origem em receptores de dor (nociceptores) que dão respostas a muitos estímulos e ameaças (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Em relação ao processamento central das informações, ele engloba: a) a propagação do tálamo ao córtex somatossensorial, no qual as informações de dor são percebidas e interpretadas; b) ao sistema límbico, cujos componentes emocionais da dor são experimentados; e c) propagação aos centros do tronco cerebral, em que as respostas do sistema nervoso autônomo são alistadas (SILVA et al., 2016). Os analgésicos centrais, em especial os opioides, são um grupo de substâncias narcóticas que produzem analgesia atuando sobre os receptores (µ, k e δ), em nível de Sistema Nervoso Central (SNC) e medula espinhal. Todos os receptores opioides são fixados à proteína G, que provoca a inativação da adenililciclase e mudanças nas concentrações intracelulares de AMPc e PKA (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Podemos classificar os opioides como agonistas: morfina e seus derivados (diacetilmorfina, heroína, codeína e dihidrocodeína), fenilpiperidinas (fentanila e sufentanila), metadona, dextropopoxifeno e benzomorfanos (fenazocina); antagonistas/agonista: pentazocina, nalbufina e meptazinol; e agonistas 112 parciais: buprenorfina. Os efeitos adversos que podem ocorrer são constipação intestinal, depressão respiratória, náuseas e vômitos (RANG et al., 2012; SILVA et al., 2016). Os fármacos produzem, na maioria das vezes, além da analgesia, sonolência, alterações do humor (euforia) e confusão mental. É importante observar que a tolerância aos opioides, ou seja, o aumento da dose necessária para provocar um efeito farmacológico, ocorre de modo mais rápido quando se tem a administração prolongada. Esse processo gera também uma dependência, por um processo de síndrome de abstinência. 4 INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS Podemos definir a interação medicamentosa (IM) como a combinação de dois ou mais medicamentos de modo que a segurança ou eficácia de um fármaco é modificada pela atuação de outro fármaco, fitoterápico, alimento, bebida ou algum agente químico ambiental (CEDRAZ; SANTOS JUNOR, 2014). Existem interações medicamentosas favoráveis e úteis em tratamentos, como na prescrição concomitante de anti-hipertensivos e diuréticos, na qual temos o aumento dos efeitos anti- hipertensivos por reduzirem a pseudotolerância a esses fármacos com a utilização dos diuréticos (OLIVEIRA, 2009). Vejamos as classificações das interações: • Interações farmacocinéticas: ocorrem quando o fármaco modifica a velocidade ou exten- são de absorção, distribuição, biotransformação ou excreção de outro fármaco. • Interações farmacodinâmicas: acontecem nos sítios de ação, abrangendo os mecanismos pelos quais os efeitos esperados se processam. • Interação de efeito: ocorre quando dois ou mais fármacos em uso concomitante têm ações farmacológicas parecidas ou divergentes. É possível gerar sinergias ou antagonis- mos sem alterar farmacocinética ou mecanismo de ação dos fármacos. • Interações físico-químicas: também conhecidas como incompatibilidades, acontecem in vitro, isto é, antes da administração dos fármacos no organismo, quando se misturam dois ou mais deles numa mesma seringa, equipo de soro ou outro recipiente. Essas interações são classificadas conforme a gravidade em: • Contraindicado: ocorre quando os fármacos não podem ser administrados de maneira concomitante. 113 • Grave: acontece quando a interação coloca em risco a vida do paciente, exigindo ou não intervenção médica para diminuir ou prevenir os efeitos indesejados. • Moderado: ocorre quando a interação pode gerar uma exacerbação da condição do pa- ciente exigindo ou não uma mudança na terapia. • Mínimo: acontece quando a interação pode prejudicar o efeito clínico limitando-o, po- rém, normalmente, não exige muita modificação na terapia (RANG et al., 2012). 5 NOÇÕES GERAIS DE TOXICOLOGIA A toxicologia pode ser definida como a ciência cujo objetivo de estudo é o efeito adverso de substâncias químicas sobre os organismos vivos, com a finalidade de prevenir o surgimento deste efeito, isto é, determinar o uso seguro e adequado dessas substâncias químicas (HERNANDEZ et al., 2017; KLAASSEN; WATKINS III, 2012). Podemosdestacar no campo da toxicologia diversas áreas, conforme a natureza do agente ou a maneira como este atinge o organismo. Destacam-se: • Toxicologia ambiental Estuda os efeitos prejudiciais ocorridos pela interação dos contaminantes químicos ambientais com o organismo humano. • Toxicologia ocupacional Estuda os efeitos prejudiciais produzidos pela interação dos contaminantes do ambiente de trabalho, com o indivíduo desprotegido e o efeito sobre sua saúde. • Toxicologia de alimentos Estuda os impactos adversos produzidos por agentes químicos encontrados nos alimentos, sejam estes contaminantes ou de origem natural. É a área da toxicologia que determina as condições nas quais os alimentos podem ser consumidos sem causar prejuízos à saúde. • Toxicologia de medicamentos Estuda os efeitos adversos resultados da interação dos medicamentos com o organismo, consequência da utilização equivocada ou da predisposição de cada indivíduo (RANG et al., 2012). 114 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 115 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • entender sobre fármacos que atuam no coração, sistema vascular e circulação sanguínea, como por exemplo, os anti-hipertensivos, diuréticos, digitálicos, antiarrítmicos, antianêmicos, dislipidêmicos e anticoagulantes; • conhecer sobre o sistema respiratório; • aprender sobre as doenças que afetam o sistema nervoso central e quais as alternativas terapêuticas disponíveis; • compreender um pouco sobre interações medicamentosas; • estudar a toxicologia. PARA RESUMIR CEDRAZ, K. N.; SANTOS JUNIOR, M. C. Identification and characterization of drug interactions in prescriptions of the intensive care unit of a public hospital in the city of Feira de Santana, BA. Revista Sociedade Brasileira de Clínica Médica , Feira de Santana, v. 12, n. 2, p. 1-7, abr. 2014. HERNANDEZ, E. M. M.; RODRIGUES, R. M. R.; TORRES, T. M. Manual de toxicologia clínica: orientações para assistência e vigilância das intoxicações agudas. São Paulo: Secretaria Municipal da Saúde, 2017. KLAASSEN, C. D.; WATKINS III, J. B. Fundamentos em toxicologia de Casarett e Doull (Lange) . AMGH, 2012. OLIVEIRA, H. C. Guia prático das interações medicamentosas dos principais antibióticos e antifúngicos utilizados no hospital universitário Júlio Muller. Cuiabá: CIM/MT- HUJM/ SES, 2009. RANG, H. P.; DALE, M. M.; RITTER, J. M.; FLOWER, R. J.; HENDERSON, G. Rang & Dale: farmacologia. 7.ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Farmacologia aplicada à estética e cosmética é um livro direcionado para estudantes dos cursos das áreas de farmácia, estética, cosmética e correlatos. Além de abordar assuntos gerais, o livro enfatiza as bases da farmacologia, os princípios de neurofarmacologia, os mediadores químicos e anti-inflamatórios, os fármacos que afetam os grandes sistemas, as interações medicamentosas e os conceitos básicos de toxicologia. Após a leitura da obra, o leitor vai compreender as vias de administração e suas diferenças em ação dos fármacos; analisar o mecanismo de ação dos fármacos, englobando excitação, contração e secreção de cálcio, proliferação e regeneração celular e mecanismos de defesa do hospedeiro; identificar os componentes anatômicos e as funções do sistema nervoso central e periférico; relacionar os aspectos morfofuncionais do sistema central, periférico e autônomo com aspectos clínicos; saber a importância farmacológica da 5- Hidroxitriptamina, histaminas, peptídeos e proteínas; considerar as limitações relacionadas aos efeitos gástricos dos anti-inflamatórios não esteroidais; entender sobre os fármacos que atuam no coração, no sistema vascular e na circulação sanguínea, como os anti- hipertensivos, diuréticos, digitálicos, antiarrítmicos, antianêmicos, dislipidêmicos e anticoagulantes; dominar as doenças que afetam o sistema nervoso central e quais suas alternativas terapêuticas disponíveis, e muito mais. Aproveite a leitura do livro. Bons estudos! Capa E-Book_Farmacologia Aplicada à Estética e Cosmética_CENGAGE_V2 E-Book Completo_Farmacologia Aplicada à Estética e Cosmética_CENGAGE_V2